À Comunidade Israelita de Curitiba - Visão Judaica On Line

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VISÃO JUDAICA setembro de 2005 Elul/Tishrê 5765

Le Monde, a Shoá e a judeufobia da moda

Andrés Spokoiny *

falha passou, para a maioria,

completamente despercebida.

Para muitos, não

obstante, foi como um balde

de água fria.

Na semana passada, o diário

Le Monde foi condenado por

“anti-semitismo e incitação ao ódio

racial” por uma corte de apelações

francesa. Este jornal de referência,

envolto na bandeira “progressista”

e no “bem pensar” da esquerda, acedeu

ao Olimpo dos intolerantes nos

quais Le Pen e outros representantes

do fascismo francês têm seus

cômodos assentos.

Como se produziu esta bizarra metamorfose?

Como um jornal comprometido

com a liberdade, com a democracia

e a igualdade se converte

em porta-voz da intolerância?

Aqueles que seguem a cobertura

na mídia da última guerra de terror

lançada contra Israel por Arafat e o

Hamas assistiram impávidos à transformação

da chamada “esquerda progressista”.

A demonização de Israel é

moeda corrente e os meios intelectuais

democráticos, ao invés de exercer

o pensamento crítico e analisar

friamente o conflito repetem slogans

antiisraelenses. Da crítica a Israel se

passa a deslegitimar até mesmo a

existência do Estado, da deslegitimação

de Israel, se desliza facilmente

até o discurso judeófobo mais recalcitrante.

A cegueira ideológica e o preconceito

anti-semita estabeleceram um

paralelismo ridículo entre Israel e

conceitos odiados pelos “progressistas”,

tais como o imperialismo, o racismo

e o “apartheid”. Comparações

que não resistem a mínima análise são

repetidas ad nauseam pelo “jornalismo

inteligente”.

A esquerda progressista inventou

uma pirueta ideológica irracional, segundo

a qual se pode ser anti-semita

em nome do anti-racismo. (Os judeus

são racistas com os palestinos,

eu sou anti-racista, logo, ser antijudeu

é minha obrigação moral).

Em décadas passadas, a expressão

anti-semita era território cativo

da direita radical. Nazistas, fascistas,

neonazistas e xenófobos tinham

o monopólio do ódio. Se bem

que os preconceitos anti-semitas

existissem na população em seu conjunto,

eram eles que lhe davam expressão

política.

Enquanto Le Pen, Haider e outros

personagens fascistóides, fran-

camente antipáticos, eram os antisemitas

oficiais, o preconceito era

fácil de combater. Os judeófobos

eram ignorantes, brutos e primitivos

embriões do passado. Agora,

como disse Alain Finkielkraut, é o

“tempo dos anti-semitas simpáticos”.

Intelectuais, jornalistas e artistas

progressistas se somam ao embate

judeófobo. Ao fazê-lo, legitimam

intelectual e politicamente a intolerância

da direita fascista. Dão-lhe

uma tintura de respeitabilidade e

aceitação. Os judeófobos já não são

os que se aferram a uma ideologia

do passado, mas os que estão na

vanguarda do pensamento e da intelectualidade.

Os intolerantes não

são mais os marginais, mas os formadores

de opinião. A direita radical

era anti-semita por estar contra

o progressista. O “progressista” vê a

judeufobia como uma conseqüência

lógica de suas idéias de avanço.

(Como sempre, ‘o judeu’ é de esquerda

para o direitista e de direita para

o esquerdista). O fenômeno é ainda

mais preocupante, já que historicamente,

as idéias defendidas pelo progressista

de esquerda formam o fermento

intelectual no qual se forma a

opinião pública.

O progressismo mostra toda sua

hipocrisia. Indigna-se pelo sofrimento

palestino, mas não abre a boca a

respeito do massacre de centenas de

milhares de sudaneses em Darfur, nas

mãos dos fundamentalistas árabes.

Diz defender os direitos dos árabes,

mas é absolutamente indiferente ao

sofrimento de milhões de muçulmanos

sob os regimes de opressão e

terror dos países árabes. O indizível

sofrimento de milhões de africanos

está visivelmente ausente de nossos

meios progressistas. É lógico, já que

os jornalistas simplesmente não estão

na África. Há em Jerusalém 800

(sim, oitocentos) correspondentes

estrangeiros. Várias vezes mais que

em toda África. Aparentemente, para

os jornalistas “comprometidos” é

mais fácil viver nos hotéis 5 estrelas

de Jerusalém, usufruindo da liberdade

de imprensa existente em Israel

que desafiar a malária e as ditaduras

africanas. É que não faz falta. Podem

dar rédea solta ao seu progressismo

e à sua solidariedade aos oprimidos

comendo Baklawas no American

Colony Hotel em Jerusalém. Ao

fim e ao cabo o sofrimento palestino

é a condensação emblemática de

toda a opressão do mundo...

A condenação ao Le Monde mostra

este fenômeno em toda sua crueza.

Roger Cukierman, presidente do

organismo representativo da comunidade

judaica francesa, declara sua

bronca, mas também sua surpresa.

“Esta gente – a esquerda, os meios

progressistas – eram nossos aliados

no combate à intolerância; agora

são os que a fomentam”. Quando o

martelo do juiz marcou a condenação,

os editores do Le Monde se encontraram

no mesmo panteão do

ódio que grupos neonazistas e Le

Pen – que fora condenado por incitação

ao ódio racial por uma denuncia

feita pelo... Le Monde!!!

A nova legitimidade do discurso

anti-semita se vê em toda parte.

Numa caricatura do diário inglês The

Guardian um Sharon pantagruélico

com uma grande estrela de David

devora um menino palestino. Há dez

anos, se essa caricatura fosse publicada

num pasquim neonazista, The

Guardian – porta-voz do “progressismo”

na Inglaterra – teria convocado

uma manifestação de repúdio. Não

só a caricatura foi publicada pelo

diário “progressista”, mas a associação

de jornalistas gráficos ingleses

a premiou como a melhor caricatura

do ano.

Numa adaptação bizarra e venenosa,

os antigos preconceitos se

juntam á nova judeufobia. Um diário

italiano de esquerda publica uma

charge que tenta mostrar a cidade

de Belém. Lá, um soldado israelense

aponta seu fuzil para uma criança

palestina, que, na ocasião esta caracterizada

como Jesus. “Vão me

matar de novo?” diz o menino. O

velho mito do judeu deicida se mescla

com o novo mito, igualmente

falso e igualmente nocivo do judeu

militarista e cruel. Antes os judeus

matavam meninos cristãos, agora

matam meninos palestinos. A associação

é grosseira e óbvia, mas os

meios progressistas fingem não vêla.

O conceito de “novo anti-semitismo”

é, na realidade, fonte de confusão.

Não há novo anti-semitismo,

na era do reciclado, os velhos preconceitos

adquirem uma nova cara e

uma nova legitimidade.

A autocrítica e o inconformismo

com as próprias idéias, que devia ser

um componente básico de toda pessoa

que se considere “de esquerda”,

dão margem a um dogmatismo aberrante

e obtuso. O pensamento crítico

se aplica só a Israel e ao “ocidente”.

Nunca aos verdadeiros tiranos.

A Sharon o demonizam, a Saddam o

absolvem. O espírito crítico deixa

passar um pensamento único cheio

de falsas verdades, aceitas com um

automatismo descerebrado.

O sofrimento obriga... a outros

Mas além de mostrar em toda sua

amplitude o “novo/velho anti-semitismo”,

a condenação ao Le Monde

desmascara um dos argumentos mais

usados pela “judeufobia da moda”.

“Os judeus, - escreve Le Monde

descendentes de um ‘apartheid’ chamado

“ghetto”, ghettoizam os palestinos.

Os judeus, que foram humilhados

e perseguidos, humilham e

perseguem os palestinos; os judeus,

vítimas de um regime sem piedade,

impõem um regime sem piedade aos

palestinos; os judeus, antigos bodes

expiatórios de todo mal, convertem

Arafat e a Autoridade Palestina

em bodes expiatórios”.

O argumento que os judeus fazem

aos palestinos, o que se lhes fez

durante a Shoá, é talvez o mais malicioso

dos ataques que se pode fazer

a Israel. Naturalmente, a comparação

entre as duas situações históricas

não resiste à menor análise. Por

mais que sofram os palestinos, não

se aproxima nem a uma ínfima fração

do que foi a Shoá. Mas não vamos

fazer o jogo dos judeófobos de

comparar ponto a ponto a Shoá com

a situação dos palestinos. O sr. Colombani

– o editor do Le Monde

sabe muito bem que ambas situações

não são comparáveis. Também o sabe

Saramago, que reconheceu publicamente:

“eu sei que não é o mesmo

— disse cinicamente —, mas o digo

para despertar as consciências das

pessoas”. As centenas de milhares de

sobreviventes dos campos de concentração

têm que escutar que os europeus

– recordemos, aqueles que os

vitimaram – os acusam de nazistas.

Assim, às vítimas da Shoá se dá

um último e estranho insulto: o de

compará-las com seus verdugos. Hannah

Rogen, uma mulher de 92 anos,

sobrevivente de Auschwitz celebrava

Pêssach com sua família no hotel

Park de Natania. Um terrorista palestino

se fez explodir no salão onde

se celebrava o seder matando 29

pessoas, incluindo a sobrevivente e

sua família. O ódio antijudeu, do qual

escapou na Shoá, a alcançou 60 anos

depois quando acreditava que viveria

seus últimos anos em paz e quietude.

Enquanto Hannah era enterrada,

Saramago chamava os israelenses

de nazistas. Colombani, Saramago

e os outros profetas do “ódio

inteligente” são demasiado sofisticados

para negar a Shoá ou dizer que

“não foi tanto”. Em vez disso, optam

por uma contorsão intelectual que

banaliza a Shoá e o sofrimento do

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