É agora ou nunca - Fonoteca Municipal de Lisboa

fonoteca.cm.lisboa.pt
  • No tags were found...

É agora ou nunca - Fonoteca Municipal de Lisboa

Sexta-feira2 Julho 2010www.ipsilon.ptTIM MOSENFELDER/CORBIS ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 7393 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTEÉ agora ou nuncaLCD Soundsystem no OptimusAlive!:a última vez que os vamos ver ao vivo?Marlene Dumas Alberto Manguel David Leavitt Joaquim Benite Lula Pena Ken Jacobs


FlashSumárioJames Murphy 6E a crise dos 40Vila do Conde 18Há cinema de acção nofestivalClaudia Llosa 22Filma o surrealismo daadolescência em “A TetaAssustada”Joaquim Benite 24Um projecto conduzido porum perfil marxista: o Festivalde AlmadaMarlene Dumas 28Pinta “Contra o Muro”Alberto Manguel 30Ensaísta, escritor de ficção,acima de tudo leitor...David Leavitt 34A Matemática é a liberdade,diz eleAna Teresa Pereira 36Os brinquedos favoritos deuma escritoraFicha TécnicaDirectora Bárbara ReisEditor Vasco Câmara, Inês Nadais(adjunta)Conselho editorial IsabelCoutinho, Óscar Faria, CristinaFernandes, Vítor BelancianoDesign Mark Porter, SimonEsterson, Kuchar SwaraDirectora de arte Sónia MatosDesigners Ana Carvalho, CarlaNoronha, Mariana SoaresEditor de fotografia MiguelMadeiraE-mail: ipsilon@publico.pt“Ruins of the Second Gilded Age” está a ter uma segunda vida. A Photographers’ Gallery,em Londres, mostra até 1 de Agosto uma selecção de imagens dessa sériePedro Costa eLeonor Antunessobre papelA “Afterall” pode não ser tãopopular como a “Artforum” ou a“Frieze”, mas ao contrário destasnão aumenta de volume com 30páginas de publicidade. Limita-se,quase exclusivamente, a artigos defundo e ensaios. E o leitor agradece.Desde que nasceu em 1999, criadapor Charles Esche e Mark Lewis, jáolhou, com a escrita, para as obrasde muitos nomes respeitáveis daarte contemporânea e não só.Fiquem aqui com sete: Tacita Dean,Gus Van Sant, Mary Heilmann,James Benning, Rachel Harrison,Chantal Ackerman e Jim Shaw.Sim, a “Afterall” gosta de certocinema ou de certas imagens emmovimento (o que não é deestranhar, se pensarmos que MarkLewis, enquanto artista, tem umapreço especial pelas tecnologiasfílmicas e os géneroscinematográficos), mas agoraficamos a saber que também gostade Pedro Costa. É que a ediçãodeste Verão conta com dois textosdedicados à obra do cineastaportuguês, uma das quais daautoria de Jean-Louis Comolli queentre 1966 e 1978 foi editor darevista “Cahiers du Cinema”.E Pedro Costa não é a únicapresença portuguesa neste número.Faz-lhe companhia Leonor Antunes(Lisboa, 1972), que reside em Berlimdesde 2005. A obra da vencedoraem 2001 do prémio Novos Artistas– EDP, é objecto de um ensaioassinado pela historiadora de arteDoris von Drathen e de um portfolioacompanhado de textos.Assim também se faz ainternacionalização da arte e docinema portugueses. Sobre papel.O génio e o monstroem Phil Spectorrevela-se emdocumentárioPhil Spector foi o génio queinventou o Wall Of Sound e queofereceu à Humanidade “Be mybaby”, “River deep mountain high”ou “You’ve lost that loving feeling”.Phil Spector é o excêntrico que,fascinado pela cultura afroamericana,usavaas mais delirantes perucas afro nasIgrejas Baptistas onde seEdgar Martins e“New York Times”:depois da polémica,as galeriasUm ano depois dacontrovérsia gerada pelasérie de fotografias que fezpara a revista de domingo do“New York Times”, oportfolio de Edgar Martins“Ruins of the Second GildedAge” está a ter uma segundavida. A Photographers’Gallery, em Londres, mostraaté 1 de Agosto uma selecçãode imagens dessa série, quegerou intenso debate nablogosfera e na imprensa emJulho de 2009, quando umparticipante do fórum dediscussão Metafilter mostrouque as fotografias – sobrecasas e projectos deconstrução suspendidos porcausa do colapso domercado imobiliário nosEUA – tinham sidomanipuladas digitalmenteatravés do recurso aoPhotoshop. O “New YorkTimes” (“NYT”) retirou asfotos do seu “site”,justificando, em notaeditorial, que “se os editoressoubessem de antemão queas fotografias tinham sidomanipuladas digitalmente,não teriam publicado oensaio fotográfico”. O casonão poupou nenhuma daspartes ao embaraço: o“NYT” foi criticado pelo seuerro de “casting”, aoencomendar o trabalho a umartista, e não a umfotojornalista, e EdgarMartins por sempre terdefendido a nãomanipulaçãocomo um valorda sua obra. Mas também sedisse que se o portfoliotivesse sido apresentadonum contexto artístico, acontrovérsia nunca teria tidolugar, porque a questão daverdade factual das imagensnão seria relevante.“A polémica foi interessanteenquanto debatepedagógico, e penso que éuma discussão que deveacontecer em termos de umpúblico alargado”, diz aoÍpsilon Gemma Barnett,gerente de vendas daPhotographers’ Gallery,onde uma selecção de“Ruins of the Second GildedAge” está em exibição paravenda. “Mas enquantoinstituição artística, essasquestões [da manipulaçãodigital] não têm relevânciapara o trabalho em si. Elasapenas fazem sentido nocontexto editorial de umjornal.”Para além de Londres, umaselecção dessa série vaitambém ser mostrada emOutubro, no Centro CulturalGulbenkian, em Paris, numaexposição de Edgar Martinscomissariada por SérgioMah. Que defende: “Numcontexto de galeria nãoexistem estes pruridos, estespreconceitos, estas noçõesdicotómicas entre realismo eficção, de que o ‘New YorkTimes’ tem uma concepçãocompletamente geométrica.”Uma série de 15 fotografiasde “Ruins of the SecondGilded Age” foi compradapara acolecção daFundação EDP. JoãoPinharanda, curador dacolecção EDP diz que “oscontornos do caso e osargumentos de EdgarMartins” foram discutidosinternamente. “Osproblemas colocados pelo‘NYT’ não se colocam nonosso caso. As questõeséticas e profissionaispareceram-nos explicadas. Amais-valia estética dotrabalho garantia asuperação de outraspolémicas.” A EDPencomendou ainda aofotógrafo portuguêsradicado em Londres umlevantamento fotográficodos centros deaproveitamentohidroeléctrico no norte ecentro de Portugal, que seráeditado em livro eapresentado numaexposição em 2011.Está também prevista aedição de “Ruins of theSecond Gilded Age” em livropela britânica Dewi Lewisem Dezembro deste ano, eem Fevereiro de 2011 nosEUA.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 3


FlashLana Clarkson: assassinada por Phil Spectordeslocava para ouvir gospel.Spector é o homem pérfido e cruelque, ciumento, trancou a mulherRonnie Spector, a vocalista dasRonettes, durante anos, que tinha ohábito de fazer valer osseus pontos de vista sob a ameaçade arma – encostou uma à cabeçade Leonard Cohen durante agravação de um disco – e queacabou julgado e condenado em2009 pelo assassinato da actriz deséries B Lana Clarkson.“The Agony And Ecstasy Of PhilSpector”, documentário realizadoem 2007 e que estreou na quartafeiranos Estados Unidos, mostraSpector de todos os ângulos edificilmente teria realizador maisadequado que Vakram Jayanti, cujaobra inclui biografias de Ken Kesey,James Ellroy ou Julian Schnabel – éatraído por personagens maioresque a vida, homens cujagrandiosidade da obra nãoconsegue ofuscar aquilo que têm desombrio.“The Agony And Ecstasy Of PhilSpector” concilia três linhasnarrativas. O percurso artístico,ilustrado em imagens de arquivo erepresentado na música que criou;a autobiografia, extraída de umarara entrevista conduzida em 2007,entre os dois julgamentos a queSpector foi submetido após mortede Clarkson; e as imagens dopróprio julgamento, em que “Be mybaby” ou “To know him is to lovehim”, acompanhadas de excertosde textos elogiosos do génio, sãosobrepostas ao correr dostrabalhos em tribunal.Segundo a“Variety”, oresultado cria um “efeitoesquizofrénico intrigante.”Bem-humorado e articulado,Spector fala de John Lennon, deWoody Allen, de Brian Wilson e dasgirl-groups, da infância marcadapelo suicídio do pai, da invenção do“wall of sound” e de como se vê umartista da dimensão de Leonardo DaVinci ouBach - ou de como esteve quase aretirar “Os Cavaleiros do Asfalto”das salas em 1973 (Scorsese nãopediu autorização para a utilizaçãode “Be my baby” e um Spectorfurioso só não tomou medidaslegais por influência deLennon).Muito foi dito eescrito sobre oreclusivo PhilSpector, uma dasmais enigmáticasfiguras da músicapop. Contudo,raramente pelopróprio. “TheAgony And EcstasyOf Phil Spector” será,nesse sentido, umdocumento único. “Fascinam-me oschamadosgénios perturbados”, confessouVakram Jayanti ao site RottenTomatoes, aquando da exibição dodocumentário no Sidney FilmFestival de 2009. A sua surpresa foiesta: “O que não esperava era que[Spector] pudesse ser tãoengraçado e encantador.”Ouvimos Spector, “in his ownwords”, mas aparentemente não sedesvanece o mistério que rodeia asua figura, à uma genial,trágica, fascinante erepugnante.Um produtor “in his own words” no documentário “The Agony AndEcstasy Of Phil Spector”Marilyn Monroe e Ralph Greenson: alguns pormenores...MarilynMonroee o seupsiquiatra:segredos e umleilãoQue segredos guarda o divã em queMarilyn Monroe (1926-1962) sedeitou, durante dois anos, noconsultório do psicanalista RalphGreenson? Este podia ser o motepublicitário para o leilão que osfilhos do terapeuta americanodecidiram fazer com alguns dosobjectos, artigos e peças devestuário que a actriz de “OsInadaptados” utilizou no ambiente“familiar” que lhe foi “receitado”por Ralph Greenson, na sua própriamoradia.Não foram ainda divulgados o locale a data em que será realizado oleilão, cujos lotes incluem umablusa cor-de-rosa Pucci, uma taçade champanhe com o nome deMarilyn gravado, um copo demartini, um guião com anotações,um espelho, uma camisola e o...“programa” do funeral da actriz.Mas a notícia avançada pelobritânico “The Daily Telegraph”,que cita os dois filhos dopsicanalista, Joan e Daniel, permiteacrescentar mais detalhes (ou maisdúvidas?) ao nunca resolvidomistério da morte de Marilyn, com36 anos e no pico da fama, em 5 deAgosto de 1962.Já se sabia que nos últimos tempos devida, principalmente a partir doinício de 1960, altura em que sedivorciou do dramaturgo ArthurMiller, Marilyn se dirigia, quasediariamente, a meio da tarde,“escondida” por trás de óculosescuros e uma roupa discreta, à casade Ralph Greenson em Santa Mónica,Califórnia. Já na altura este tinha nasua carteira de “clientes” outrasestrelas de Hollywood, como FrankSinatra, Tony Curtis, Peter Lorre,Vincente Minnelli ou Vivien Leigh.Após alguns anos de vida em NovaIorque, onde frequentara o ActorsStudio de Lee Strasberg, Marilyntinha regressado a Los Angeles parafilmar “Let’s Make Love”. E porque,durante a sua estada na Costa Leste,se habituara a recorrer aopsicanalista por indicação deStrasberg, que incluía essa práticano programa do “Método”, Marilynlevou para a Califórnia umarecomendação da sua analista novaiorquinaMarianne Kris paraprocurar o Dr. Ralph Greenson. Estedepressa constatou: “Umapersonalidade bipolar, paranóica eviciada em medicamentos”, mastambém “uma órfã eterna”, emconsequência de uma infânciatraumatizada pela ausência do pai ea perda da mãe, declaradaesquizofrénica paranóica quando apequena Norma Jean tinha oitoanos – eis o cru diagnóstico deRalph Greenson. Mas, para evitar ointernamento, o psiquiatra decidiuprescrever-lhe um “tratamento”inédito: acolheu-a no seu ambientefamiliar e tentou que ela aí sesentisse em família. No final dasessão, Marilyn ficava a beberchampanhe e, às vezes, mesmopara jantar...É disso que os dois filhos dopsiquiatra, na altura na casa dosvinte anos, aceitaram agora falar, apretexto da organização do leilão.“O meu pai sentia que a sua terapianão funcionava, mão não podiahospitalizá-la”, lembra o filho, quese tornou também psicanalista.Joan acrescenta que Marilyn erapara ela uma irmã mais velha: “Deumeconfiança em mim mesma, eajudou-me a dançar”.O “tratamento” prolongou-se atéAgosto de 1962, mas o desenlace éconhecido. Ralph Greenson foi dasúltimas pessoas a ver Marilyn,quando a meio da tarde do dia 4passou por casa dela e a viu emestado de depressão e sob a acçãode medicamentos. A morte – “semdúvida, suicídio”, reafirma agoraDaniel Greenson – aconteceu namadrugada seguinte. O psiquiatraviria, depois, a ser acusado de tererrado na prescrição do tratamentoda maior diva da história docinema. Sérgio C. AndradeFilme sobre oFacebook já tem“teaser trailer”“The Social Network”, que conta ahistória de como o Facebook setornou na rede social mais populardo mundo, já tem o seu primeirotrailer oficial. Realizado por DavidFincher (“O Estranho Caso deBenjamin Button”, “Clube deCombate”, “Se7en”), conta comJesse Eisenberg no papel de MarkZuckerberg, o co-fundador doFacebook, e ainda com osdesempenhos de Brenda Song eJustin Timberlake. Naquele que é oprimeiro trailer oficial podem ouvirseexcertos do filme, sobre um ecrãnegro que se vai compondo compequenos pixels. A imagem vaialargando, pixel a pixel, até setransformar no rosto do actor queinterpreta o papel do jovemmultimilionário Mark Zuckerberg.O filme baseia-se no livro “TheAccidental Billionaires”, da autoriade Ben Mezrich. Os créditos deescrita de “The Social Network”são, porém, na sua maioria, daresponsabilidade de Aaron Sorkin -que escreveu “Uma Questão deHonra”, as séries televisivas “WestWing - Os Homens do Presidente” e“Studio 60” ou “Charlie Wilson’sWar”.A história de como Zuckerberg setransformou, em pouco anos, numdos homens mais ricos daAmérica não está livre depolémica. O próprio nãoteve qualquerenvolvimento naprodução do filme -produzido pelo actorKevin Spacey - e está porapurar se o Facebookirá endossar o seuapoio ao filme. Ajulgar pelo mauacolhimento o quea empresa deu aolivro de BenMezrich - queapelidou de“boatariacaprichosa” -, éprovável que oFacebook nãoqueira ter nadaa ver com ofilme.Estreiainternacional alem Outubrodeste ano.David Fincher, realizadorde “The Social Network”4 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


AGENDA CULTURAL FNACentrada livreentrada livreAPRESENTAÇÃO AO VIVO LANÇAMENTO EXPOSIÇÃOAPRESENTAÇÃOCONVERSAS SUSTENTÁVEISÁgua - Milhões para 1 Litro Vs. 1 Litro para MilhõesA Fnac, em parceria com a Lipor, promove o debate e o esclarecimento de um público interessado einterventivo acerca de várias temáticas ligadas aos Resíduos, Ambiente e Sustentabilidade. Esta sessãoconta com a presença de Nuno Formigo, da FCUP, e José Martins Soares, das Águas do Douro e Paiva.08.07. 21H30 FNAC NORTESHOPPINGAPRESENTAÇÃOPROVAS DE CONTACTOCiclo de ProjecçõesUma colecção de filmes que revela a busca artística dos maiores fotógrafos contemporâneos a partir deuma perspectiva original, através de uma sucessão de imagens comentadas pelos seus próprios autores.02 - 11.07. FNAC CHIADOAO VIVOJÚLIO PEREIRAGraffitiJúlio compôs as músicas, já a pensar nas vozes que queria para interpretá-las, Tiago Torres da Silvaescreveu as letras e Tiago Táron fez os desenhos que ilustram, sob o lema Graffiti, cada uma das canções.04.07. 18H30 FNAC CHIADOAO VIVOMISTER LIZARDNovos Talentos Fnac 2010Mister Lizard é um projecto criado em 2005 por Anthony John, guitarrista inglês. As suas influênciasmusicais vão do funk ao rock e psicadelismo e ao jazz e blues.05.07. 21H30 FNAC COLOMBOEXPOSIÇÃOLOS AGARRADORESFotografias de Miguel ProençaNovo Talento Fnac Fotografia 2009, Menção HonrosaReportagem fotográfica sobre uma tradição ancestral que documenta a vida dos homens que, em cadaVerão, se exibem nos montes da Galiza, para obrigarem os cavalos a descerem das montanhas aos vales.19.06. - 03.09.2010 FNAC MADEIRAConsulte todos os eventos da Agenda,assim como outros conteúdos culturais Fnac emApoio:


“Ser maisconhecido?Ganhar maisdinheiro?Reinventar-me?Quero ser eu,apenas isso”James Murphy, ar anafado, 40 anos, é responsável poralguma da música mais vital da última década com osLCD Soundsystem. Diz que não quer ser um profissionaldo rock. No dia 10 os LCD Soundsystem encerramo OptimusAlive!. Pode ser a última oportunidadede os vermos ao vivo. Vítor BelancianoCapaAo longo da conversa, James Murphydirá várias vezes “não sei.” E, no entanto,se existe músico com consciênciade si, e do lugar que ocupa nacultura pop, é ele. Ele sabe o que quer,por isso se permite dizer de formadescontraída “não sei.” Para já, vaiandar em digressão por um ano, como álbum “This Is Happening” dos seusLCD Soundsystem. Depois, diz – eacreditamos – vai remeter-se à sombra.Não se trata de desistir da música.Mas de a viver de outra forma.É provável, por isso, que o concertodo OptimusAlive! de 10 de Julhoseja mesmo uma das últimas oportunidadesde ver ao vivo um dos gruposmais importantes da última década.Na noite anterior, a 9, James Murphyestará no Lux, para uma sessão DJ nacompanhia da dupla Horse Meat Disco.Não deixa de ser irónico que, noauge do reconhecimento, se queiraretirar. Ele que, no final dos anos 90,parecia condenado ao esquecimentodepois de ter integrado várias bandasmenores, como baterista e cantor.Em 2001 fundou a editora DFA Recordings,em Nova Iorque, que se viriaa transformar na senha de identidadeda combinação entre rock alternativoe música de dança. No anoseguinte, saiu “Losing my edge”, longomonólogo sobre como sobrevivernum contexto pop deslumbrado coma juventude e com a novidade, e tudomudou. Ele, o homem da sombra,transformou-se no ícone mais improváveldo nosso tempo. Alguém capazde transformar fragilidades, ao nívelda voz, da técnica ou da personalidade– “para alguma coisa fiz terapia”,“Não gostodaquelasbandas quevão fazercarinhas parapalco. Nunca oconseguiriafazer. Nisso,continuo aacreditar naética punk”6 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 7PAULO PIMENTA


diz – em mais-valias. O resto é história.Os LCD Soundsystem lançaramdois álbuns reconhecidos um poucopor todo o lado (“LCD Soundsystemem 2005 e “Sound Of Silver” em 2007)e há um mês regressaram com “ThisIs Happening”, mais uma obra magnífica,canções em forma de máquinade ritmo, num tempo de excesso demúsica.A música, hoje, está em todoo lado. Nos espaços públicose nos privados. Ontem, numrestaurante, ouvi uma cançãodos LCD Soundsystem. Aexperiência da música está emrisco por causa deste excesso?De certa maneira, sim. Mas dependede cada um. Há formas de nos defendermos.Enquanto músico é-me impossívelcontrolar esse processo. Nãoposso proibir que a música passe nesseslocais. Em Nova Iorque aconteceo mesmo, mas não a oiço, parece-metoda igual. É barulho de fundo. Masé verdade que existe um excesso demúsica e de bandas. As pessoas carregama música consigo, nos seus iPodse esse tipo de coisas. Não sei, nãosou assim. Não carrego quilos de música...[risos].Não é como aqueles melómanosviciados em música que passamhoras sempre à procura denovidades na internet?De forma nenhuma, não tenho tempo.Sou até o oposto. As pessoas queme são próximas costumam brincarcomigo precisamente porque há umasérie de fenómenos desse género queme escapam. Já é um mito entre elesa vez em que estava a ouvir uma bandae me virei para as pessoas que estavamcomigo: “Uau! O que é isto?”Olharam todos para mim como se fosseum anormal e explicaram-me queeram os Arcade Fire, um ano ou maisdepois de terem explodido. Isso acontece-memuitas vezes.Mas tem de ouvir música novapor razões profissionais. Temuma editora, a DFA, e actuacomo DJ regularmente.Sim, mas isso é diferente. Pode nãoacreditar mas a música que oiço é, emgrande parte, a mesma que sempreouvi, Can, Fall, Talking Heads, Clash,Joy Division, enfim, esse tipo de coisas.No festival onde vão actuar osLCD Soundsystem dividem oprotagonismo da noite com osPearl Jam, conotados nos anosAs pessoas carregam a música consigo, nos seus iPodscoisas. Não sei, não sou assim. Não carrego quilos de m8 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


Na dia 9, umdia antes doconcerto noOptimus-Alive!, JamesMurphyestará no Luxpara umasessão DJ nacompanhia dadupla HorseMeat DiscoRUI GAUDÊNCIORUI GAUDÊNCIO90 com a vaga grunge. Quemouviu, nos anos 80, grupos comoos Sonic Youth, tendeu a renegaro grunge. Argumentava-se queera uma vaga rock reaccionária.Revia-se nessa imagem?Nem por isso. Percebo o argumento,mas como em todas essas vagas hágrupos que valem a pena e outros quenão. O grunge foi qualquer coisa quenão vivi, talvez porque já era um poucomais velho, mas os Nirvana eramdiferentes. Gostava dos Nirvana, apesarde não terem sido uma referênciapara mim.Kurt Cobain reflectia algunsdos conflitos dos músicos rockna relação com a indústria doentretenimento, que é algoque também acontece consigo.Principalmente no início, os LCDfaziam música reflectindo sobreo que era fazer música. “Losingmy edge” tinha um pouco disso.“You wanted a hit”, do últimoálbum, também.Nunca tinha pensado no assunto dessamaneira, mas é verdade. Não acompanheimuito a história da morte deKurt Cobain, mas sim, parece-me queera alguém que vivia desconfortávelcom o papel que desempenhava. Nãosei.Quando diz que este será oúltimo disco dos LCD porquenão se quer repetir e estásaturado da vida do rock – apressão dos discos, os concertos,as entrevistas, os videoclips –,não está a expôr o mesmo tipode conflitos?Parece-me que Cobain lidava mal como seu próprio sucesso. Eu quero apenasdescansar de um formato e fazeroutras coisas. Não quero ser profissionaldo rock e desaparecer de casadurante não sei quantos meses. Nãosignifica que não possamos voltar agravar. Não sei, a sério. Mas neste formato– andar em digressão duranteum ano, fazer vídeos e esse tipo decoisas – não me interessa. É cansativo.Quer dizer, fiz 40 anos.Mas aquela ideia do rock sercoisa de jovens para jovens estádesenquadrada da realidade. Éapenas um cliché. O que é queacha que Barack Obama ouve naCasa Branca?É verdade, mas é um pouco estranho.Sei que existem cada vez mais bandasnos 40, 50 ou 60 anos. Sei que as editorascada vez mais apontam paraesse público porque é o que tem poderde compra. Mas, não sei. Talvezseja natural. Talvez venha mudar deideias no futuro. Mas neste momentonão vejo nenhum propósito em continuarassim. Ser mais conhecido?Ganhar mais dinheiro? Não me parece.Ser como os U2, que têm de sereinventar de disco para disco? Respeito,mas não me quero reinventar.Quero ser eu, apenas isso. Quero dedicar-memais à produção, a sessõesde DJ, à jardinagem, sei lá.Sente que demorou muito tempoa ser reconhecido?Não. Perdi algum tempo a complicar,com uma ideia romântica do que erafazer música, ensaiare ensaiar e esse se tipode coisas. Às tantaspercebi que zer música, ououtrafa-coisaqualquer, é ter uma ideia e concretizála.Apenas isso. Parece fácil. Mas nãoé. É investir tudo nisso. Não é ser omelhor guitarrista do mundo. É se aideia precisar do melhor guitarristado mundo, telefonar-lhe, e perguntarse está disponível. Durante muitosanos achava que era tudo difícil. Nãoé verdade. Talvez tenha começado afazer aquilo em que realmente acreditavatarde, mas sei lá o que é issode ter começado tarde. Não sei.O facto de ser um músico tardiotambém traz vantagens.Sim, porque estou mais conscientedo meu papel. Não, porque me cansomais depressa. Sim, porque tenhomais prazer hoje do que há dez anos.Não, porque às vezes sinto que façoparte de qualquer coisa onde já nãofaz sentido estar.Quando partiu para a produçãodeste novo álbum havia aintenção de fazer diferente?Sente essa pressão ou é algo quenão o preocupa?Inevitavelmente pensa-se nisso, mastento não pensar muito de forma aficar preocupado ou até paralisado.Penso em fazer diferente, claro, masnão radicalmente diferente. É umacombinação. Desta vez tivemos maistempo, fomos para L.A., foi mais confortável,mas o processo foi em tudosemelhante.As letras parecem diferentes.Antes havia mais ironia,distanciamento, leituras duplas.Analisava a pop em geral e oseu trabalho em particular.Agora, em algumas canções, “Ican change”, “Pow wow”, “Alli want”, “Home”, parece haveruma perspectiva muito maispessoal, a partir de si.No princípio tinha algum receio, sentiaque me estava a expor, ou aosmeus amigos. Depois superei isso.SEG 12 JUL21:00 PRAÇA | € 101ª PARTETERRAKOTA2ª PARTETIKEN JAH FAKOLYReferência maior da músicamestiça portuguesa, os Terrakotaapresentam o novo disco, resultadode um crescente caldo de culturasque fervilha em Lisboa a queacrescentam a influência dos griotsdo Burkina Faso e as sonoridades daJamaica, Brasil, Índia e Arábias.Pela primeira vez um palco donorte do país, é precisamentede uma família de griots que vemTiken Jah Fakoly, da Costa doMarfim. Desde cedo influenciado peloreggae, é um artista atento àsinjustiças sociais e aos problemaspolíticos, lutando pelo despertarde consciências.Hoje já não me preocupo tanto. Querdizer, tentei superar isso e consegui.Neste disco forcei-me a fazer algumascoisas com as quais não me sentiacompletamente à vontade. Uma delasfoi utilizar mais o registo de falsete ea outra escrever letras mais pessoais.Mas não creio que as letras algumavez tenham sido irónicas. Tentamapenas expor vários ângulos da mesmasituação. Sou eu a pôr-me em váriospapéis, talvez.Numa entrevista disse que umadas suas canções preferidas era“Transmission” dos Joy Division,pela forma como a letra seajustava ao som, no sentidode ambas criarem dinâmicarítmica. Não é tanto o significadoque lhe interessa.Sim, é uma excelente canção, pelolado obsessivo, físico. É como se acanção fosse um objecto. “Transmission”é sobre o quê? É um tipo a gritar“dance to the radio!” a toda a hora e,na verdade, aquilo resulta. Tem umpoder emocional incrível e não pensamos:“Oh! Este tipo é muito profundo!”Sempre gostei mais da música apartir da sua dimensão física, apesarde durante muitos anos não gostar demúsica de dança, por exemplo. Masé verdade que a melodia, as letras, asharmonias, as vozes, sempre me interessarammenos do que esse poder,essa dimensão física.E o que diz a quem é capaz deadorar uma canção de BobDylan ou Elvis Costello apenaspor causa da letra?Não acredito nelas... [risos]. Não fazgrande sentido para mim. Gosto demúsica. É ela o centro. Também gostomuito de livros. Talvez essas pessoasgostem mais de livros, não sei.A música dos LCD tem tambémqualquer coisa de neuróticoe obsessivo. Isso sente-separticularmente nos concertos,quando levam até ao limitemotivos repetitivos.Sou neurótico, deve ser por isso...[risos]. Não gosto daquelas bandasque vão fazer carinhas para palco.Nunca o conseguiria fazer. Nisso, continuoa acreditar na ética punk – sófaz sentido ir para palco quando setem alguma coisa para dizer.Os concertos dos LCD tendem aser uma experiência, até porqueo som normalmente tem grandepotência. Há essa dimensãofísica que querem fazer passarao público.Sim, levamos muito a sério a preparaçãode um concerto. Num grandefestival é sempre mais complicado,porque não dependemos apenas denós, mas em todas as situações tentamosque exista um som envolvente,potente, para nós e para as pessoas.É importante sentir isso. Quando nãoacontece é meio caminho andado parafalhar. Aceito os nossos falhanços.Uma noite má. Mas ter um mau somé qualquer coisa de intolerável. Prefironão entrar em palco. É mentir àspessoas. Isso não.Há anos dizia que não vivia comconforto a experiência de estarem palco. Ainda sente da mesmaforma?Depende. Às vezes pode ser muitogratificante, no sentido do prazer,noutras ocasiões terrível. Nunca mesenti confortável. Inicialmente, pelaminha voz. Nunca me senti grandecantor. Depois, sosseguei. Mas continuaa ser um desafio. Nas primeirasdigressões bebia álcool para me tranquilizar.Hoje já não faço isso. É muitoduro estar em palco, pelo menos daúnica maneira em que acredito – sendoautêntico, não mentindo às pessoas,dando tudo. Sim, é duro, mas todosnós apreciamos estar em palco.ds e esse tipo demúsica... [risos]JANTAR+CONCERTO € 25APOIOPATROCINADORVERÃO NA CASAMECENAS CASA DA MÚSICAAPOIO INSTITUCIONALMECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICAPATROCINADOR VERÃO NA CASASEJA UM DOS PRIMEIROS A APRESENTAR HOJE ESTE JORNAL NA CASA DA MÚSICA E GANHE UM CONVITE DUPLOPARA O CONCERTO DE TIKEN JAH FAKOLY | TERRAKOTA. OFERTA LIMITADA AOS PRIMEIROS 10 LEITORES.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 9


desa conheceu um mundo sem MySpacedo século XXI. Há tudo para todos,Para sempre no campo de fériasApontados como a provável “next big thing”, os nova-iorquinos mostramas canções pop clássicas do álbum de estreia, quinta-feira, no Optimus Alive!Tradicionalistas num cenário indie. Pedro Rios, em Barcelonacuriosidade para descobrir ao vivoos Local Natives, habitantes deBrooklin que sugerem uma ponteentre o bucolismo dos Fleet Foxese a estética sonora dos AnimalCollective (são os primeiros noPalco Super Bock, às 17h).Se houver vontade de assistira história em construção,recomenda-se uma passagempelo Palco Optimus Clubbing, cujaprogramação é dia 9 asseguradapela editora Enchufada, paraassistir ao concerto d’Os Paus,a banda do ex-Vicious FiveJoaquim Albergaria cujo álbumde estreia, por aquilo que seouve no MySpace – rockalhadafeita urgência e descarga depercussão, familiar de uns Heatlh- é aguardado com justificadaansiedade.Num festival que conjuga a popsolar dos óptimos Girls (dia 10,17h, Palco Super Bock Super Rock)com a presença das Gossip deBeth Ditto e dos New Young PonyClub de “Ice Cream” (ambos dia 9,Palco Super Bock, às 21h55 e 21h35respectivamente), num festivalonde a Florence (& The Machine)que esgotou recentemente a AulaMagna regressa para revermos asua versão lollipop de Kate Bush(dia 8, 20h50, Palco Super BockSuper Rock) e onde será criminosoperder a electrónica luxuriante,tropicalista, da Matias AguayoBand (a 8, 23h, no Palco OptimusClubbing, programado nesse diapela Planet Turbo), assistiremos aum momento inédito. LegendaryTigerman apresenta “Femina” e oone-man-band não estará sozinho.Com ele, Asia Argento, Maria deMedeiros, Cibelle ou Lisa Kekaula.Com ele, todas as participantes nocelebrado álbum de 2009. Mais.Antes e depois de Tigerman subira palco, às 21h45 de 10 de Julho,no Palco Clubbing Optimus, assenhoras de “Femina” apresentarse-ãoem curtos concertos comas bandas respectivas. A saber:Becky Lee & Drunk Foot (19h30),Cibelle (20h30), Micro AudioWaves (23h40), Phoebee Kildeer& The Short Straws (00h45) eBellrays (01h50).Há tudo para todos nasalgalhada que é a música popularurbana do século XXI. Há tudopara todos, consequentemente,no Optimus Alive 2010.La RouxO penteado eo seu electropop chegamfinalmentedepois dedois concertocanceladosJonathan Pierce, o vocalista,t-shirt branca por dentrodas calças, move-se comtrejeitos dignos de estrela popveterana. Os dois guitarristasdançam com a guitarra, numbonito excesso de alegria. Opovo entrega-se à cantoria. Abanda debita uma sequênciade eficazes comprimidospop: guitarras saltitantes, alembrar um Johnny Marr, dosSmiths, desleixado, bateriamilimetricamente básica, a vozalgures entre o “glamour” e otédio.Quem viu os Drums nofestival Primavera Sound, noúltimo fim-de-semana de Maio,em Barcelona, poderia nãoadivinhar que aqueles quatrorapazes tinham formado abanda há apenas um ano. Como carimbo de muito provável“next big thing”, chegamagora ao primeiro álbum, “TheDrums”. Actuam na quinta-feira,no primeiro dia do OptimusAlive!.Ainda se lembram de 2009? Apaisagem indie está num sonhoveraneante contínuo. Palmeiras,ondas, pranchas de surf e óculosde sol invadem o que aindaresta de “memorabilia” rock,reduzida a fotografias dispersaspor blogues, arranjos gráficosde páginas do MySpace etelediscos a pensar no YouTube.No meio desta vaga, uns taisThe Drums, com um EP deestreia descaradamente estival(basta ver os títulos do disco,“Summertime!”, e do primeiro“single”, “Let’s Go Surfing”),aparecem como o lado mais popda tendência.Chegados ao primeiro álbum,o quarteto de Brooklyn já nãoé apenas uma promessa. NoPrimavera Sound, Meca daindústria musical independente,reservaram um dia só paraentrevistas e uma marca deautomóveis decidiu pôr “Let’sGo Surfing” num anúncio. “Temsido muito bom. Demos o nossoprimeiro concerto há um ano.Parece que enfiámos cinco anosde coisas dentro deste ano”, dizJonathan Pierce, junto a umamini-piscina num terceiroandar de um luxuoso o hotel deBarcelona.No disco anterior,escreveram “cançõesinspiradas pelosverões da Américados anos 50 e 60”.“Temos uma grandefixação nessa era.Apaixonamo-nospelas Shangri-Las,pelas Ronettes.Decidimos chamarlhe‘Summertime!’,fomos muitoóbvios”, explica.Em “The Drums”, acandura das “girlgroups” mantém-se(“Down by the water”), mas oálbum revela um grupo fixadonas bandas de Manchester(sobretudo Smiths) e na arte dascanções de três minutos.“O nosso objectivo foi ser omais simples possível. Há umpoder na simplicidade, sabes?Quando começas a adicionarelementos parece que a cançãoperde força. Às vezes, dá maistrabalho ter isso em mente, mastemos uma regra: cada cançãotem que ficar pronta num dia.Nunca recuperamos canções,têm que surgir imediatamente.Tenho que sentir que ou escrevoa canção ou morro. Não acreditoque alguém tenha trabalhado ascanções que mudam a tua vidadurante dois meses.”Estado de graça“A pop foi a minha obsessãodesde que comecei a gostarde música. Todas as bandasem que estive dedicavam-se aescrever canções pop simples,mas a sinceridade só surgiu nosDrums. Era como se andassea tentar fazer algo, mas mefaltasse a visão de como fazer.”Depois de aventuras com finaisinfelizes com outras bandas,Jonathan decide ir à Flórida,a convite do guitarrista JacobGraham, amigo que conheceuem miúdo num campo de férias.Escreveram “Best Friend”,a primeira canção do novoálbum, e decidiram fazer mais.“Percebemos logo que tínhamosali algo especial, era algoque nunca tinha sentido emnenhuma banda em que tinhaestado”, recorda.Em estado de graça, o primeiroano de vida dos Drums foiprodutivo. Escreveram o EPe metade do primeiro álbumao mesmo tempo, na Flórida.Jonathan voltou para Brooklyncom Jacob e recrutaram outrosdois membros. Durante oitomeses, os Drums instalaram-se num apartamento, ondecontinuaram a compor. Ascanções mais estivaisforam parar a“Summertime!”, enquanto “TheDrums” ficou com a melancolia,“a tristeza bela”, e alguns ecosdos Drums amigos da areia.“As minhas canções preferidassão tristes, os filmes favoritosacabam de forma trágica”,sublinha.É curioso ver uma bandatão clássica, orgulhosa econvictamente sem ponta dedesafio, a sair de Brooklyn,terra de vários grupos quepõem a vontade de abrirnovos territórios no centrodas suas operações. “Nuncasegui a música moderna muitoatentamente. Se me cair no coloposso ouvir, mas estou maisinteressado em fazer as minhascanções, em não ser afectadopelo que os outros estão a fazer.É muito fácil ser-se influenciado.Foi por isso que fomos paraFlórida. Não tínhamos carro,nem amigos, estávamos sósnum apartamento. Desligámos omundo e fizemos canções.”“Adoramos Brooklyn, masnão nos inserimos”, prossegue.“Acho que as pessoas estão aser estranhas por ser estranhas.É como se tivessem ficadosem ideias e lançado numacompetição para ver quem émais estranho. Nós queremosser o contrário: chatos, clássicose nada experimentais”.Eis a perspectiva de umtradicionalista sobre o actualcenário indie: “Há muita músicaa sair, muitas faixas, muito som.Mas faltam canções”.“Adoramos Brooklyn,mas não nosinserimos.Acho que as pessoasestão a ser estranhaspor ser estranhas”Como carimbode muitoprovável“next bigthing”,The DrumsÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 11


O silêncio não assusta LuFoi há onze anos. “Phados”, aqueleque era até agora o seu único álbum,foi lançado numa editora belga, tendoum ano depois chegado ao mercadoportuguês. Era uma desconhecida.Mas rapidamente se percebeu que eraum disco de alguém singular. Disse-seque era um disco de fado. Talvez. Nãointeressa. Eram canções que procuravama sua expressão essencial, povoadaspor uma voz grave e uma linhade melancolia – do fado, sim, mastambém da bossa nova brasileira ouda morna de Cabo Verde.Seguiu-se um percurso errante.Aparecia em palco, de vez em quando.Toda a gente lhe perguntava: paraquando um disco novo? Agora chega“Troubadour”, o tal disco, muito esperado.É apresentado, hoje, ao vivono Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian,e amanhã, no centro CulturalVila Flor de Guimarães. Ao longode todos estes anos Lula Pena foi compondocanções. Mas o disco agoralançado não é uma repescagem dessematerial. É outra coisa.“Durante todos estes anos houvevárias tentativas de gravar outro tipode disco”, conta Lula Pena, “mas estaé uma obra totalmente actual.” Algumamatéria sonora já existia mas foitransformada “em qualquer coisa demais poético”, acrescenta.CLAUDIAVAREJÃOMúsicaForam precisos mais de onze anospara Lula Pena gravar um novoálbum. Não interessa. A sua vozinquietante e a forma delicadacomo toca a guitarra acústica estãointactas em “Troubadour”.Vítor BelancianoQue vem de dentroPara Lula Pena, a música funcionacomo procura. Talvez por isso tenhaestado tantos anos sem gravar.“Ao longo do tempo foram surgindoincompatibilidades com pessoas comquem fui trabalhando, cada uma delastinha ideias muito diferentes emrelação ao que eu punha cá para foracom a voz e a guitarra. Essa intençãoartística não era respeitada ou não eravalorizada, talvez por ser tão simples.”Ou seja, nesse longo período detempo, várias foram as tentações deadornar a sua música. Ela resistiu.Parece ter feito bem. “Deturpar o esqueletoda minha música não faziasentido, pelo contrário, com os anosfui construindo qualquer coisa quereforça a minha postura, a respiração,com mais músculo, voz e guitarra.”“Troubador”, nesse sentido, é umálbum solitário feito por alguém quefoi procurando entender qual o seulugar e chegou à conclusão que criarnão poderia ser um acto exterior. “Essaprocura, esse jogo, na voz e guitarra,foi muito solitária”, explica. “Sempreme remeteu para contextos intimistas.E isso sempre me agradou.Tem que ser uma coisa orgânica. Quevem de dentro.”No princípio existia uma ligaçãoumbilical com o fado. Era uma linguagemvivida de forma visceral. HojeLula Pena diz que se sente perto dofado, mas também mais livre. E háelementos de muitas outras linguagens(tango, “chanson”, flamenco oubossa nova) diluídas num cosmos particular,ondulando na superfície dasua guitarra. A maior parte das cançõesignora fronteiras, caminhamdescalças pelo Mediterrâneo, atravessamcom leveza o Oceano para oAtlântico Sul, numa mistura de emoções,memórias e tradições.Ouve-se o seu novo registo e é inevitávelpensar-se no silêncio. Na música,como em tudo o resto, há quemo aceite. E quem o receie. Nela, a quietudeé estruturante, é aquilo que atribuiinteligibilidade ao resto. Quandoas palavras saem, parecem ressoar.Não são gritos, mas é como se fossem,assombradas pela quietude. Ao contráriodo que parece ser a tentaçãode tanta gente no fado, e linguagensadjacentes, encher o espaço não éopção. É a depuração que lhe interessa.A suspensão. O que acontece entreas notas.“Às vezes, ao vivo, estar com as pessoasnaquele quase silêncio, é atéquase religioso. É uma opção. Talvezseja por isso que gosto mais do ‘somda noite.’ Ouve-se melhor. Há um ladoabismal, talvez. Ouve-se outra coisano som da guitarra, à noite. Em palco,assisto às pessoas, vejo-as ali, e as pessoasassistem ao que faço. É um pensamentovivo que se cria.”12 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


ula PenaErrânciaA música nem sempre foi uma opçãopara Lula Pena. Antes estudou desenho.No dia em que conseguiu galeriaem Barcelona para expor foi assaltada.Levaram-lhe os desenhos. Restavaa guitarra. E começou a tocar em váriospaíses da Europa. Bélgica, Holanda,Alemanha, França, Itália. Tocarguitarra, nessa altura, era um prazerpessoal. Não surpreende que subir aum palco, a um nível profissional, nãotenha sido fácil. Já depois de ter lançado“Phados” em Portugal, foi o ReiMohammed V de Marrocos que tevea satisfação de a ouvir, numa alturaem que se apresentava com dois músicosem instrumentos de cordas epercussão.As suas canções estão cheias dememórias. Há alusões. Citações. “Lunatucumana” de Atahualpa Yupanqui,“A noite de meu bem” de DoloresDuran ou “Partido alto” de Chico Buarque.Micro-apontamentos, no meiodas canções, facilmente reconhecíveispor todos, incorporadas organicamente.Se fosse hip-hop, poder-se-iaimaginar alguém munido de “sampler”repescando microrganismossonoros. No seu caso é outra coisa,indefinível.“São memórias estilhaçadas, reconhecíveis,mas fragmentadas. O jogoé isso. Interessa-me perceber o que amemória faz com isso. Que sinopsevamos fazer para reconstruir essasmemórias, no sentido em que toda areconstrução é uma ficção, uma narrativapessoal. Mas é também umaforma de comunicação viva, porquehá reconhecimento e alusões partilháveispor quase todos.”O disco está dividido em sete actos.Em vez de títulos para as canções, háchaves de leitura, frases, apontamentos.“Não queria fechar as canções”,justifica-se, “um título não deve fecharas possibilidades de interpretação,muito pelo contrário, deve abrilas.Foi isso que acabei por ensaiar.”Olhando para trás, em especial para“Phados”, vislumbra-se um enormecrescimento, traduzido numa técnicaà guitarra tão pessoal como a suavoz.Até agora Lula Pena tem tido umpercurso errante, não se preocupandoem seguir os procedimentos habituaisdo universo da música. Agoraque lança o segundo álbum será quetal vai suceder? “Sempre quis fazerconcertos. A certa altura percebi quesem um disco era difícil fazê-los. Agoraespero que seja possível. Isso paramim é o fundamental, porque é aovivo que o pensamento que está registadoneste disco ganha outras dimensões.Há novas cores. Há todauma nova liberdade.”Hoje, em Lisboa, e amanhã, em Guimarães,vai tentar transpor, “do princípioao fim”, o pensamento que estáno disco para o palco. Mas haverá sempreespaço para a improvisação.“Às vezes, ao vivo,estar com as pessoasnaquele quasesilêncio, é até quasereligioso. É umaopção. Talvez seja porisso que gosto maisdo ‘som da noite.’Ouve-se melhor.Há um lado abismal,talvez. Ouve-se outracoisa no som daguitarra, à noite.Em palco, assistoàs pessoas, vejo-as ali,e as pessoas assistemao que faço. É umpensamento vivoque se cria”“Gosto de deixar em aberto as interferênciasdo contexto em que estoua actuar. Em Lisboa, por exemplo, vaiser ao ar livre. Haverá pássaros, aviões,telemóveis.” Talvez até estejaalgum músico na plateia que com elaqueira tocar. “Estou muito interessadaem colaborações”, afirma. Tudoisso é possível. Quem já a viu ao vivosabe que é verdade. Mas são hipóteses.Contingências de um momentoque podem ser revertidas para o seucorpo sonoro no momento seguinte.O que haverá de certeza é uma voz euma guitarra desenhando o silêncio,sem medo dele.Ver crítica de discos págs. 50 e segs.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 13


Do Alentejo vê-se o AAUGUSTO BRAZIOContada às crianças esta história podiaser assim: era uma vez dois Joões,amigos há muito, muito tempo, queum dia ao telefone decidiram fazermais um disco. E fizeram. Mas contadaaos adultos não há-de ser muitodiferente. Ouçamos João Monge, 52anos, autor das letras: “De vez emquando vamos fazendo umas cançõese tínhamos uma moda ou duas lá nonosso arquivo do computador. E acoisa foi tão simples quanto isto: euestava em Belém, à espera de um amigopara jantar, e ele estava atrasado.Então peguei no telemóvel e disse:‘Gil, olha lá, queres fazer um disco demúsica popular comigo?’ ‘Eh pá, quero!’Pronto, foi isto.” E agora João Gil,54 anos, autor das músicas: “Sim, essahistória é engraçada. E foi verdade.Mas há uma matriz. Por sermos amigosde infância, e crescermos juntos,há um lado cúmplice que é fundamentale que nos ajuda rapidamente achegar àquilo que se quer e até àquiloque não se quer.”“Baile Popular”, o novo projectode João Gil e João Monge nasceu assim.Mas, para lá da infância, há umpassado comum: Trovante, Ala dosNamorados, Rio Grande. “Até ao RioGrande”, diz Gil, “eu não sabia queera capaz de dominar essa matriz damúsica do Sul. Eu sou beirão, nascidona Covilhã, e sempre que pensava emmúsica tradicional (também por tertocado com o Zeca Afonso e com oAdriano, fomos lançados ao mundopela mão deles) era sobretudo na daBeira Baixa, intensa, telúrica, algodramática. Era essa a única que meenchia as medidas. Havia uma triangulaçãoentre essa música, o fado quevinha de Coimbra e Moçambique,com o Zeca. E eu partilhava dessedogma.”Portugal, para Gil, começava a Nortea acabava no Tejo. Mas quando oJoão Monge o pôs perante o livro dasletras do Rio Grande, teve de atravessara margem e gostou da descoberta.Tanto, que repetiu. E fizeram BailePopular “de uma maneira simples”.Mas não tão simples assim. Põe-se odisco a tocar e ouve-se uma espéciede “bluegrass” alentejano. Mais adiante,pontes com a pop americana,umas saias de toque africano, coresHá um “Baile Popular” a emergir noVerão: oito músicos juntos, Alentejoe América misturados com os olhospostos numa eternidade que é “coisapara lá do Sol posto” e um somirresistível. João Gil e João Monge, osculpados, explicam. Nuno PachecoJoão Monge: “Gil, olha lá, queresfazer um disco de músicapopular comigo?”João Gil: “‘Eh pá, quero!”Pronto, foi istoMúsicamúltiplas ao sol da planície. Como sedo Alentejo se visse e sentisse o Arizona.Mas a simplicidade de que falaGil refere-se ao modo de criação.“Chegámos a fazer músicas à mesa”,diz. E na guitarra de Monge fez doistemas, à noite: “O mal-passado” e “Amoda da mine”. Claro que, depois,isso requeria os músicos adequados.E vozes. E essa foi outra busca, frutífera.Do campo do jazz (cruzado comoutras músicas) vieram Mário Delgado(guitarra eléctrica), Alexandre Frazão(bateria) e Miguel Amado (baixoeléctrico e contrabaixo). Já as vozes,para lá da de Gil, foram todas alentejanas:Paulo Ribeiro, um cantor deBeja hoje com carreira a solo (pertenceuao grupo Anonimato) e três membrosdos Adiafa: Zé Emídio, Luis Espinhoe João Paulo. E vão oito, aotodo, com Gil. Nove, se contarmos (etemos que contar, é obrigatório) comJoão Monge.Uma sonoridade imediata“Eu queria que isto fosse assim”, dizGil. “Como quando três brasileiros seencontram em Tóquio ou cinco argentinosem Moscovo. Se encontramosquatro alentejanos em Nova Iorque,de certeza que farão uma moda.”Ele já tinha as músicas feitas e precisavade uma sonoridade “que fosseimediata, que fosse tocada pela sabedoriade quem toca já muito bem etem uma visão universal do seu instrumento”.Com os músicos, Gil disselhesapenas: “Pessoal, embora tocarmúsica popular. Eu toco assim. Comeceia cantar e eles começaram atocar. Isto é maravilhoso quandoacontece. E só acontece porque estesmúsicos têm um vocabulário muitogrande. E depressa perceberam queeste universo podia ter paisagens diferentes.Por isso é que há no discoum texto onde sugiro que se pode verum céu estrelado no Arizona ou umgalo não sei onde. A paisagem alentejanapermite-nos grandes veleidadesformais, mas tem um código genéticofortíssimo.”As vozes vieram primeiro e ao escolher,ao lado de Paulo Ribeiro (“temuma voz muito bonita”), os três Adiafa,Gil sabia que também “tinha alisolistas”. “Este projecto acaba porser surpreendente por isso mesmo.Há um encontro entre músicos cosmopolitasmas depois o pessoal doAlentejo também sabe fazer conjuntosde vozes que não são típicos. Seique o Luis Espinho andou num grupode baile vários anos. Quando começarama meter as vozes, diziam: ‘Istoparece aquelas cenas tipo Crosby,Stills, Nash & Young’.”14 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


ArizonaUm “data de gente” à roda de umamesma fogueira, a tocar e cantar “ashistórias que o João Monge conta”. Ereconta: “No Rio Grande tínhamos ahistória de uma pessoa, era a formade construir à minha maneira a históriado subúrbio, do que circunda agrande cidade. Aqui, as histórias doBaile Popular, podem parecer históriastípicas, do interior, de um Portugalperdido. Mas este disco já é integralmenteescrito do ponto de vistado gajo que está em Lisboa. No ‘Rosaà janela’, ele está a cantar à mulherem Lisboa, nitidamente [‘não há rosacomo ela na cidade/ nem nos camposdonde vim’]. E se andarmos por aí,quantas ‘Vendas do Isaías’ encontramos?É mato! ‘O mal-passado’ é omesmo: quantos ‘mal-passados’ vemosse formos ao centro da cidade,ao Rossio?”“Eu queria que istofosse assim”, diz Gil.“Como quando trêsbrasileiros seencontram em Tóquioou cinco argentinosem Moscovo. Seencontramos quatroalentejanos em NovaIorque, de certeza quefarão uma moda”Um monstro sem LegoObservador atento, Monge é tambémcoleccionador. “Há quem coleccioneselos ou moedas, eu colecciono pessoas.E de vez em quando há umacaracterística, um traço de personalidadee de comportamento que conheçoou observo, às vezes até daminha infância, que guardo cá dentroe há-de surgir numa letra, num momentooportuno.” No “Mestre Bento”,por exemplo, há entre aspas afrase “Antes de se acabar ainda havia”.Foi um amigo que lhe contouque, num restaurante algures no interior,ao pedir o prato do dia (borregoassado), lhe responderam: “Antesde se acabar ainda havia”. Guardoua frase e usou-a agora. “O mestreBento existe, também. Terá outronome, mas existe. É um sábio queanda na minha memória, há anos. Oproblema ecológico do ponto de vistado lugar onde o que desaparecefaz falta. O que é feito do gato bravo,da águia? E o próprio sábio, sem explicação,diz que antes de se acabarainda havia…”Monge diz que não gosta de “brincarao Lego” com palavras. “Sintoisso numa letra, quando vejo tudo nosítio, os acentos muito certinhos. Oque procurei, não sei se consegui senão, é transmitir a sensação de queaquilo com o tempo da respiração.Se a música dura três minutos, eudemorei três minutos a escrever aletra. É mentira, mas a ideia é essa,sem recurso a grandes metáforas, agrandes parábolas.” Normalmente,escreve as letras “à guitarra e ao computador”,elas nascem já com umamelodia básica associada, nem queseja pela própria métrica das palavras.“Eu crio um monstro musical ecanto em cima daquilo. O Gil nuncaouve esse monstro. Mas quando seentrega ao compositor a letra paracolocar na ‘melodia certa’, a transposiçãoé matemática.”João Gil diz que as peças se foramjuntamente naturalmente. O nomedo projecto já estava na cabeça delee de João Monge. “Nós sabíamos queisto se ir chamar Baile Popular. Derepente, chegámos ao fim e fizemosum conjunto de baile popular: umaviola ritmo, uma viola solo, contrabaixoe bateria. E não dava para metermais nada: nem uma flauta nem umclarinete. Só o grupo de vozes. E essasimplicidade formal coincide com asimplicidade de quem fez as coisas.Essa é a coerência do processo.”O que leva a concluir: “Como produtor,sabia que isto tinha que serassim. Se não fosse, seria sempre umprocesso forçado, rebuscado, calculado,mais cerebral do que físico. Mastinha que ser claro como água, nascercomo nasceu. Nasceu bem, bem acabará.”Ver crítica de discos págs. 50 e segs.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 15


A cara dos proQue ideias movem os programadores dos festivais de músicaEntre a tradição e a inovação, os jovens e os consagrados, os programas temáticos eEnsembleFretwork“Vejo-mecomo umcontinuador”João Pedro SantosQualidadee diversidadeHá mais de duas décadas queJoão Pedro Mendes dos Santostem forte ligação com Espinhona qualidade de professor daEscola Profissional de Música, daqual foi um dos fundadores em1989, mas só em 2007 assumiua direcção artística do FestivalInternacional de Música deEspinho, cuja 36ª edição se iniciaamanhã com um concerto peloviolinista italiano Uto Ughi e pelaorquestra I Filarmonici di Roma.“Havia um vínculo de longadata com a actividade musicale pedagógica da cidade peloque o convite para suceder aoAlexandre Santos [anteriordirector artístico] foi natural”,conta. O facto de viver emLisboa, onde lecciona noConservatório Nacional, nuncaimpediu um acompanhamentoda vida musical do Norte.“Conheço de perto o passado dofestival, que é muito rico, peloque não vi a necessidade defazer rupturas, vejo-me comoum continuador.”As principais preocupaçõestêm sido “a qualidade e aMIGUEL MANSOdiversidade”, desprovidas doespartilho das programaçõestemáticas. Apesar dessaliberdade há linhas de fundoabrangentes que se mantêm.É o caso da “abertura de novoshorizontes dentro da músicaerudita através da inclusão degrupos ecléticos”, como o duode violino e piano Igudesman &Joo que apresenta o programahumorístico “A little NightmareMusic” no dia 10, ou da inclusãode concertos de jazz, com aparticipação do trompetistaArturo Sandoval (dia 23).“A vertente da percussão, quedominou o festival nos anos90, na sequência da criação doprimeiro curso de percussão emPortugal na Escola Profissionalde Espinho, também nuncafoi abandonada e está patenteno regresso do AmadindaPercussion Group. Fiz aindaquestão de ter um ‘remake’ deum concerto marcante dessaépoca, dedicado à Sonata paradois Pianos e Percussão, deBartók, juntamente com obrasde George Crumb e Luís Costa,com os mesmos músicos, PedroBurmester, Fausto Neves, MiquelBernat e Manuel Campos.”Na edição deste ano destacao virtuoso do violino Uto Ughi,que tocará Bach, Mendelsshon,Kreisler e Sarasate e depositaexpectativa no ensembleFretwork (dia 12) com “TheWorld Encompassed”, deOrlando Gough, selecção depeças que descrevem a viagemde circum-navegação de FrancisDrake entre 1577–80. Salientaainda o Quarteto Kopelman e ovioloncelista húngaro MiklósPeréniy (dia 9), “um músico comuma carreira muito discretaque gravou magistralmente aSonata para Violoncelo do Luísde Freitas Branco nos anos80.” Em relação ao concertofinal (dia 30), com a OrquestraClássica de Espinho, fez questãode que terminasse com as“Quatro Últimas Canções”, deRichard Strauss, interpretadaspela soprano inglesa JanineWatson: “um encerramentosimbólico com uma das obrasque me emocionam maisprofundamente.”MúsicaNUNO FERREIRA SANTOS“O destaqueàsinterpretaçõeshistoricamenteinformadas(...) étambémpelo seucontributonumanovavisão damúsica”Cristina OrtizJoão MarquesDa Idade Médiaao século XXIPela quantidade de intérpretesinternacionais de relevo,alguns deles em estreiaem Portugal, o FestivalInternacional de Música daPóvoa de Varzim (FIMPV)é uma das manifestaçõesmarcantes do panoramaportuguês. Distingue-setambém por ser um espaçoprivilegiado para a músicapré-romântica, uma das paixõesdo seu director artístico, JoãoMarques, nascida na época emque frequentava os Encontrosde Música Antiga da Casa deMateus, em Vila Real. “Foramanos de descoberta, guardomemórias dos cursos com aviolinista Marie Leonhardtou com o barítono Max vanEgmond. Mas o destaqueque dou às interpretaçõeshistoricamente informadasnão é apenas por uma questãode gosto, é tambémpelo seu contributoinestimável numanova visão damúsica.”Este é um doseixos do festival,mas há outros,nomeadamentea participação de“grandes solistasinternacionais,o apoio à músicae aos intérpretesportugueses, aestreia de novasobras criadas noâmbito de umconcursointernacional de composiçãopromovido pelo FIMPV e aabertura a outras tradiçõesculturais”. Nesta últimavertente, recorda que noano passado o grupo DoulceMémoire se apresentou commúsicos iranianos e queeste ano Jordi Savall trará oprograma “Oriente-Ocidente”(dia 10), onde se cruzamrepertórios antigos e músicasdo mundo da tradição araboandaluza,safardita, afegã,turca, grega e marroquina.O festival começa dia 9 com aconferência de Rui Vieira Nery“As Músicas da República”e prolonga-se até dia 31, commúsica que se estende desde aIdade Média até ao século XXI.“Trazemos pela primeira veza Portugal o grupo britânicoStile Antigo com música dePalestrina e Monteverdi [dia14] e o concerto da CapillaFlamenca com um programa emtorno do Cântico dos Cânticos[dia 16] promete ser fabuloso.”Ainda no campo da músicaantiga estarão presentes LesBasses Réunis do violoncelistaBruno Cocset e regressamo cravista Pierre Hantaï e aviolinista Amandine Beyer, bemcomo Il Gardelino com o grandeoboísta Marcel Ponseele. Asefemérides de Schumann eChopin são assinaladas pordois pianistas de alto nível,Éric Le Sage (dia 13) e CristinaOrtiz (dia 17), e a música doséculo XXI estará em foco noconcerto do Sond’Ar-te ElectricEnsemble, dirigido por PedroAmaral.PAULO PIMENTA16 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


ogramadoresclássica no momento de desenhar cada nova edição?a vocação pedagógica, os pratos da balança oscilam. Cristina FernandesPiñero NagyIntercâmbioe acção socialNUNO OLIVEIRANUNO FERREIRA SANTOSO guitarrista e pedagogo PiñeroNagy encontra-se ligado aoFestival do Estoril desde a suafundação em 1974 como complementodos Cursos Internacionaisde Música existentes desde 1962.Viveu períodos áureos do festival,trazendo intérpretes lendárioscomo os violoncelistas MstislavRostropovich e Paul Tortelierou a soprano Gundula Janowitz,mas também fases mais discretasmotivadas por irregularidades definanciamento.“Nos últimos anos temos desenvolvidoiniciativas que envolvemintérpretes consagrados e jovensmúsicos em torno dos conceitostransversais de tradição einovação e apostámos no projectoMare Nostrum, criado há 9 anose dedicado aos compositores doMediterrâneo”, explica. “Nessaperspectiva, nesta edição temosforte aposta na música de câmaranum período vai do século XVIao século XXI. Começamos nodia 17 com um recital de músicarenascentista italiana e espanhola,intitulado ‘Milan Milano’, pelogrande alaudista HopkinsonSmith, e terminamos no dia 31com a Orchestrutópica e obras decompositores que nos visitam pelaprimeira vez, como o holandês FalkHübner”.O Festival do Estoril é o únicoevento português a pertencer àAssociação Europeia de Festivais(AEF), o que tem resultado emimportantes parcerias. “Fomosfundadores do projecto MUSMA(Music Masters on Air) emcolaboração com os festivais deGranada, Flandres, Ljubljana,Brno, Wroclaw e Ankara e a UniãoEuropeia de Radiodufusão. Aideia surgiu a partir do projectoMare Nostrum e tem comoobjectivo a divulgação e circulaçãointernacional de jovens criadores eintérpretes de países envolvidos”,explica Nagy.Por outro lado, o vínculo com aAEF determina uma ligação comos temas delineados pela UniãoEuropeia. “A temática de 2010era complicada pois trata-se doAno Europeu contra a Pobreza e aExclusão Social, mas resolvemos aquestão por duas vias. Uma delasfoi a participação no festival depaíses esquecidos da tradiçãocultural europeia, como a Albâniae a Macedónia, respectivamenteatravés da violoncelista SuelaMullaj e da oboísta GordanaNedelkovska. A outra foi areafirmação da função social esolidária. Em colaboração coma Santa Casa de Misericórdia deCascais e com centros comunitáriosvamos proporcionar entradas porum euro a pessoas carenciadas.”Nagy diz ter procurado “umcruzamento de ideias” com osintérpretes, o que deu origem aprogramas temáticos como o dopianista António Rosado a 20 deJulho sob o título “O charme damúsica francesa”, com músicade Ravel, Fauré, Poulenc eDebussy. Destaca ainda comoponto alto a estreia em Portugaldo programa “Celeste Harmonia”com obras para duas violas dagamba de Couperin, Hume, St.Colombe e Schaffrat, at, por doisdos maiores especialistasneste instrumento: PaoloPandolfo e GuidoBalestracci (dia 30).Nestaediçãotemosforteapostanamúsicadecâmaranumperíodovai doséculoXVI aoséculoXXIHopkinson SmithNuno Antas de Campose Luís AlvesO Festival das Artes, iniciativada Fundação Inês de Castro comoforma de dinamizar o anfiteatroao ar livre das Quinta dasLágrimas em Coimbra, é o maisjovem dos festivais portugueses– segunda edição entre 16 deJulho e 1 de Agosto. É um eventopluridisciplinar (música, cinema,artes plásticas, literatura,gastronomia, etc.) em torno de umatemática comum. No entanto, a artedos sons é relevante para justificaratenção no âmbito dos festivais demúsica de Verão.Também não é obra de umsó programador, mas de umaequipa: Margarida MendesSilva, Ilda Rodrigues, Luís Alvese Nuno Antas de Campos. Peloseu percurso e formação, os doisúltimos têm maior intervenção,mas as decisões são tomadas emconjunto.Luís Alves, engenheiro deprofissão, fez crítica musical aolongo de 30 anos no “Expresso” eno PÚBLICO. “Quando era críticoinsistia no interesse dos festivaiscruzarem a música com outrasartes pelo que o convite para esteprojecto veio concretizar umaambição antiga.”Nuno Antas de Campos, que foijornalista e director do Gabinete doParlamento Europeu em Portugal,é um melómano desde a infânciae nunca tinha tido experiência noâmbito da programação. “Herdei ogosto do meu pai que, ainda hoje,com 94 anos, vai todas as semanasà Gulbenkian. Esta oportunidadede passar de consumidor para ooutro lado é aliciante.”“O desafio é olhar paraum mesmo tema sob váriasperspectivas ao longo de duassemanas, mas dentro de cada áreahá a preocupação do ecletismoe de captar públicos diversos”,refere Luís Alves. “Assim temosconcertos com música barroca,clássica, dos séculos XIX e XX egrande diversidade de efectivosinstrumentais. Os programas sãoconstruídos em diálogo. Se fossesó para contratar intérpretes nãoestávamos nisto.”Mesmo nos casos em que foidada carta branca, como sucedeucom António Pinho Vargas, oprograma tinha de se centrarna temática da água. Surgiramprojectos como “MovimentosFugidios” com obras do próprioPinho Vargas, Debussy, Berio,Ligeti e Stockhausen (dia 28), ealinhamentos construídos passoa passo como o que inclui obrascorais e orquestrais a cargo daMetropolitana e do Coro LisboaCantat, sob a direcção de CesárioCosta (18). A maestrina JoanaCarneiro dirige o “Poème del’amour et de la mer”, de Chaussoncom a Orquestra Gulbenkian (23).A orquestra barroca Concerto Kölnfará a “Water Music” de Handel ea pianista japosesa Etsuko Hirosétoca obras audaciosas inspiradaspela temáticas da água da autoriade Chopin, Liszt, Ravel e Debussy.O Quinteto de Schubert “A Truta” eo Quarteto “A Rã”, de Haydn, peloQuarteto de Matoisinhos, PedroBurmester e António AugustoAguiar preenchem o recitaldo dia 17 e Bernardo Sassettiacompanhará ao piano o contode Sophia de Mello Breyner “Amenina do Mar” na leitura deBeatriz Batarda (dia 31).Pinho VargasAntónioÁgua como inspiração“O desafioé olharpara umtema sobváriasperspectivasao longode duassemanasÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 17


Cinema“StarSpangled toDeath”: “épicopolítico devanguarda”,começado nosanos 1950 eterminada em2004, com aajuda dodigitalKen Jacobs (Nova Iorque, 1933) começoupor estudar pintura com HansHofmann, um dos pioneiros do ExpressionismoAbstracto. Nessa época,os anos 1950, começou as filmagensdaquela que é considerada a sua obraprima,“Star Spangled to Death”, cinecolagemcom sete horas de duração,apenas terminada em 2004, quandoo cineasta decidiu recorrer às possibilidadesoferecidas pelo vídeo digital.“Found footage” e cenas nas quaisintervêm os seus amigos, entre osquais Jack Smith, o autor de “FlamingCreatures”, dão corpo a este “épicopolítico de vanguarda” que vai serpossível ver no Curtas de Vila do Condenos dias 8 e 10.O cineasta, um dos nomes fulcraisdo cinema experimental norte-americano,ajudou a criar, em 1967, o MillenniumFilm Workshop, estrutura quetinha como objectivo promover umcinema acessível a todos. Os seus trabalhosapontam para um passado, paraas origens quer da fotografia, querdas imagens em movimento: ao passarempelas suas mãos esses fragmentosde história adquirem uma vida nova,como é o caso de “What Happened on23rd Street in 1901”, no qual é possívelencontrar um paralelo com um dosmomentos icónicos do século XX, assaias esvoaçantes de Marilyn Monroequando esta se colocou sobre uma grelhade ventilação (em “O Pecado Moraao Lado”, de Billy Wilder). Esta e outrasobras relacionadas com as recentesexperiências digitais do realizador fazemparte da exposição “Action Cinema”,que é inaugurada amanhã nagaleria Solar, em Vila do Conde, na presençade Jacobs e da mulher, Flo. Ocineasta será ainda o protagonista daperformance “Nervous Magic Lantern”(dia 5) e dará um workshop (dia 6), iniciativasintegradas na secção “In Focus”do festival.A aspiração a um cinemademocrático foi um dosseus territórios de eleição,nomeadamente através daexperiência do Millennium FilmWorkshop. Ainda é possívelatingir esse objectivo?Alguns de nós queriam um cinemademocrático, outros queriam ser “génios”,seres excepcionais, e o restoque se danasse. Hollywood representavao cinema demagógico. O MillenniumFilm Workshop talvez tenha sido,nos EUA, a primeira escola de ruaonde se ensinava a pensar e a realizarfilmes. Rapidamente algumas universidadesseguiram o exemplo, e mesmoalgumas escolas secundárias viram aimportância de darem aos jovens oconhecimento com o qual pudessemresistir aos filmes, mostrando o modocomo eles nos afectam. Para os produtoressem dinheiro, primeiro foi o16mm, depois, no fim dos anos 1960,a produção desenvolveu-se com 8 mme super 8mm. Houve maiores avançoscom o vídeo analógico e as “toy cameras”,e agora – triunfantemente – há odigital, câmaras de bolso baratas, telefonescom câmaras e a World WideWeb. Certamente que o objectivo deum cinema democrático foi alcançado;agora estamos a ver o que vai sairdaqui. É bom sermos selectivos, penso,mas hoje sou um velho com poucotempo para olhar para outras coisasque não para aquilo em que estou atrabalhar.Quais são as suas memórias dotempo passado com Jack Smith?Jack partiu há 21 anos. Não éramosamigos durante o tempo da sua fama.Houve apenas esse intenso tempo, de1955 a 1961, quando saíamos quasetodos os dias, até que nos fartávamose nos separávamos. Interessante queretomávamos a nossa amizade laboralsem reflectir na última separação. Oseu grande “Flaming Creatures” foifilmado em 1962, e a fama seguiu-odesde então.Filmei e fiz a primeira montagemde “Star Spangled to Death” antes disso,mas não tendo dinheiro para pagarao laboratório tive de o armazenaraté ao aparecimento do vídeo digital.Inesperadamente iniciei uma carreirade professor, preferível à fome,enquanto continuava como cineasta,mas com a minha produção a ficarcada vez mais esotérica. O Jack nãotinha interesse no cinema, para alémda realização de filmes ou simulaçõesde filmes, preferentemente sendo eleo protagonista. Falhou em montar umnovo filme depois daquele primeirotriunfo mas manteve-se activo enquanto“performer”, delirante fazedorde posters, dramaturgo, realizadorde cenas isoladas, algumas delasmagníficas, e ocasionalmente fotógrafoefectivo (na sua fotografia préfamafoi consistentemente o melhor).Afirmava ser socialista, após ter-lheemprestado a minha cópia do “ManifestoComunista”, uma das poucas“Sou marxista, se issosignifica vive e deixaviver, pelo menosentre humanos.Há duas espéciesde humanos: aquelesque se preocupamcom os outrose aqueles que não”vezes que ele me agradeceu algumacoisa. Os seus trabalhos tardios erammuitas vezes precisos na crítica aocapitalismo tal como ele se manifestaaqui no Planeta Alugado - expressãocunhada por Jack (“Rented Planet”).Muitas vezes penso nos seus modosúnicos, super-conscientes e cómicos,quando o perfeito desrespeito pelosoutros lhe permitia usar a realidadeenquanto dispositivo teatral. Revezávamo-nosno fazer de coisas excêntricas,naquilo que mais tarde se tornouconhecido como teatro de rua.Esses dolorosos anos 1950 podemfazer-me rir quando recordo as nossasloucas acções contra o sonambulismovigente.Os seus trabalhos tentamrelacionar-se com a memóriaapontando para as origens,não só do cinema, tambémda fotografia. Têm uma fortedimensão política. Considera-seum realizador marxista?O reconhecimento do canibalismo,oops, quero dizer, do capitalismo,aconteceu quando era adolescente.Suponho que sou marxista, se issosignifica vive e deixa viver, pelo menosentre humanos. O meu entendimentoé que há duas espécies de humanos:aqueles que se preocupamO cineastaprotagonizaráumaperformance“NervousMagicLantern” (dia5) e dará umworkshop(dia 6)Cinema de acçãoem Vila do CondeÉ um dos nomes fundamentais do cinema experimental americano. Ken Jacobs vai estar no Festivalpossível assistir à sua obra-prima: “Star Spangled to death”. Uma conversa por e-mail, acerca deporteiro elegante infinitamente educado e modesto”) –, na qual também não faltam asm18 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


O tio Boonmee regressa(e traz amigos)A Palma de Ouro de Cannes é o filme-surpresa de uma programação que traz muitos velhosconhecidos nacionais. Jorge MourinhaAs Curtas de Vila do Conde jánão é um festival só de curtas hámuito: prova disso é o facto decontinuar a seguir nas longasa carreira daqueles que foirevelando em formato pequeno.Este ano, por exemplo, o “filmesurpresa” que encerra o festivalno sábado, 10, é a Palma deOuro de Cannes, “Uncle BoonmeeWho Can Recall His Past Lives”do tailandês ApichatpongWeerasethakul, “habitué”do certame homenageado naedição de 2006 (a sua curta“A Letter to Uncle Boonmee”,espécie de prólogo à longa,esteve a concurso em 2009). Oprograma mostra, que começasábado, ainda as estreiasem grande formato de duasvencedoras de anos anteriores:a inglesa Sam Taylor-Wood, queganhou melhor curta europeiaem 2008 (“Nowhere Boy”, sobrea adolescência de John Lennon,em ante-estreia nacional sábadoàs 23h45), e a francesa KatellQuilléveré, prémio do público2006 (“Un Poison violent”,domingo às 21h30).No entanto, é na competiçãode curtas que está o “coração”do festival. A atenção vai estarcentrada na selecção nacional,com a “oferta 2010” a propor18 estreias em quatro sessõescompetitivas (de terça a sexta,sempre às 23h, repetindodesfasadas de quarta a sábadona sala 2). José Miguel Ribeiro, oautor de “A Suspeita” e “Passeiode Domingo”, apresenta a suanova animação, “Viagem a CaboVerde”, e Jeanne Waltz, depois deuma passagem pela longa com“Nada Meiga”, rodada na suaSuíça natal, volta ao formatocurto com “Todos Iguais a Dormir”.Depois de ter mostrado “Voodoo”há três meses no Indie (e de ovoltar a mostrar aqui, integradono programa PanoramaNacional), Sandro Aguilar estreiaa sua oitava curta, “Mercúrio”,e Jorge Cramez (autor de “OCapacete Dourado”) traz “NaEscola”, sobre o imagináriofervilhante de quatro alunosmaçados. Rodrigo Areias,vencedor do Prémio do Públicoem 2008 com “Corrente”,“Un Transport en Comun”, deDyana Gaye, “A Suspeita”, deJosé Miguel Ribeiro, e “NaEscola”, de Jorge Cramezexibe “Golias”, nascido de umprojecto apresentado com oactor David Almeida à II Mostrade Teatro de Peças de CurtaDuração, enquanto Miguel ClaraVasconcelos, cujo “DocumentoBoxe” venceu melhor curtaportuguesa em 2005, invadea ficção científica com osmúltiplos avatares de “Universode Mya”.Do lado internacional, paraalém de “habitués” como FrankBeauvais, Susanne Helke, UmeshKulkarni ou Victor Astiuk, e deespecial atenção à produção daRoménia e da Áustria, a edição2010 traz duas pequenas jóiasa seguir com atenção. Umaé “Un Transport en commun”,contagiante comédia musicalde 50 minutos da francosenegalesaDyana Gaye quese passa a bordo de um táxicolectivo no percurso entreDakar e Saint-Louis e que, coisarara nunca vista, teve honrasde estreia em sala em Françahá duas semanas (integrada noprograma CI4, segunda às 18h30e quarta às 21h30). A outra é “I’mHere”, onde Spike Jonze consegue,em 30 minutos de emoção pura, otoque de magia que lhe escapoupor pouco em “O Sítio das CoisasSelvagens” através da históriade dois robôs apaixonados numaAmérica retro-alternativa. Paraquem não puder estar em Vila doConde, onde passa no programaCI8, domingo às 18h30 e sexta10 às 21h30, o filme pode servisto online no site www.imheremovie.com.A programação podem serconsultados no site oficial emwww.curtasmetragens.pt.“Uncle Boonmee...”, a Palma deOuro de Cannes, encerra ofestivalTEXTOS E MÚSICA DOS SÉCULOS XV E XVIDramaturgia e direcção: Ana Zamora; Arranjos e direcção musical: AliciaLázaro; Figurinos: Deborah Macías; Cenário: David Faraco e AlmudenaBautista; Desenho de luz: Miguel Ángel Camacho e Pedro Yagüe; Coreografia:Javier García Ávila; Assessor de Verso: Vicente FuentesInterpretação: Luis Miguel Cintra, Sofia Marques e Elena RayosInterpretação musical: Eva Jornet, Juan Ramón Lara e Isabel ZamoraDe 6 a 13 de JULHO TEATRO DO BAIRRO ALTO De 2ª a Sábado às 21.30h. Domingo às 17.00hR.Tenente Raul Cascais, 1A. 1250 Lisboa Tel: 213961515http://www.teatro-cornucopia.pt M/12Co-produçãoEstrutura financiada porPatrocinadoresColaboradoreslde Curtas de Vila do Conde, que começa sábado. Vai sercinema e política — e de Obama (“ele parece-se a ummemórias do amigo Jack Smith. Óscar FariaÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 19


com os outros e aqueles que não.Estes são muitas vezes talentosos avaliadoresda empatia e especialistas emfingir esses sinais – enquanto se preparampara comer os idiotas vivos.Pensem em Bill Clinton. Essencialmentepsicopático o poder sobre osoutros chega-lhes naturalmente, juntocom a eminência na sociedade quedevem escolher para serem vistos. AAmérica Psicopática premeia bem osjovens psicopáticos, treinando-os paraposições nos corredores - quer interiores,quer exteriores - dos poderescentrais próximos do público. O nossogoverno... obedece. As corporaçõesgovernam, enquanto respondema uma superior realeza de uma riquezainconcebível.Na sua arqueologia das imagensserve-se das novas tecnologiasfazendo com que a colisãoexpanda a forma como vemos asimagens antigas, designadas por“found footage”...As palavras “found footage” indicamnos,desde logo, que estamos a falarde documentação fílmica. A aparênciade actualidade agarrada em filme. Esteinstante da existência pode agorareconhecer o momento pretérito – agoraambos são igualmente passado. Afantasia não tem outro interesse paramim senão o clínico, o que quer dizerquase interesse nenhum. Jack Smithpreferia a fantasia, e alguns filmes popularesrepresentavam uma alternativaàquela que era para ele a realidadeopressiva. Tornou-os uma religião, oque eu respeito tão pouco quanto ofaço relativamente a outras religiões.Ele percebeu o meu desprezo e, emboranão negasse o evidente absurdodas imagens, agarrou-se à religião. Éesta dupla percepção que eleva à grandezaquer “Flaming Creatures” quera sua fotografia inicial. As suas criaturasestão atoladas em pobreza e, muitasvezes, num abandono pessoal, massonham grande. Derrotadas pela realidade,projectam, no entanto, amorpróprio,auto-adoração, enquanto acâmara do Jack as filma. Nenhum ganhamais do que o salário mínimo “láfora, fora do set”, mas o Jack vê-os –duplamente – nas suas terríveis dificuldadese enquanto “superstars” – eleinventou a palavra.Agora é possível relacionar aimagem de Marilyn com a saiaa esvoaçar com aquela de umamulher filmada por Edisonno início do século passado,recuperada por si em “WhatHappened on 23rd Street in1901”. Qual é a importância daHistória para o seu trabalho?É uma associação surpreendente: ajovem mulher a passar por cima doventilador de ar, em 1901, e Marilyn,na foto icónica, com o vestido a esvoaçar.Uma selecção de numerosastentativas para agarrar o momentocerto. A minha jovem senhora foi pensadapara ser um embaraço mortal;Marilyn, supostamente, para ser aatenção erótica do mundo. Aquilo quese obtém ao estudar a imagem de Marilyné plástico barato, um vazio retocado,a vacuidade do “showbiz” dosanos 1950, promovendo uma vítimae uma tonta. A cena de Edison, porsua vez, revive 1901: a rua, o casal, asua angústia, são reais. Mas falsos. Sófilme. Essa essência de loucura noacto de fazer foi aquilo que me levoua criar a minha própria adaptação.Acima de tudo, o divertimento destapessoa, após a tensão, é espontâneoe real; ela está “ali” nesse magníficoriso. Enquanto a dourada Marilyn deprime,ela eleva-se.Abordo as imagens da realidade –História – com respeito pelo que elasrevelam daquilo que foi, mas tambémcom a vontade de ver aquilo que elassão, “enquanto filme e agora enquantoelectrões”, com uma prontidãopara as mudar de modo a criar umanova pauta cinematográfica. Nenhumpropósito particular é habitualmentecontemplado, à excepção de “Perfectfilm” e “Star Spangled to death”, ondeesse propósito vai no sentido doalerta moral à estrutura social e àquelesque ela serve.“Star Spangled to Death” écaracterizado como um “épicopolitico de vanguarda”. Qualé sua posição política hoje, notempo da administração Obama?Obama o “centrista”, o homem quetraiu a esperança pela mudança. Ogrande momento foi a sua eleição,mostrando o racismo latente entre osAmericanos. Ele é um mistério, como único entendimento ser que a CIAexplicou-lhe que ele ficará como Kennedyse desafiar o governo oculto.Agora, ele parece-se a um porteiroelegante infinitamente educado e modesto.As torturas continuam, tal comoas incursões para o petróleo; nenhumdos criminosos é punido. Tememosque os saqueadores voltemao poder.As pechinchas estão a chegar. Se ocapitalismo está hoje debilitado, peloscrimes dos capitalistas, será que a revoluçãochegará? Não nos EstadosUnidos, onde triunfou o mais notávelprograma de pacificação de todos ostempos. Mesmo que os cidadãos vejamempregos, casas, “futures go”,novos desejos electrónicos chegamao mercado, pechinchas, e ajustamonos.Notáveis filmes populares, “Wall-E”, “Avatar”, “Tropic Thunder”, contama história daquilo que está a acontecer,apenas para terem o seu valorde entretenimento chupado de formalimpa, antes que outros filmes agarrema atenção. E nada muda.Trabalho “fatalisticamente” na minhaarte modesta, esperando pormais mudanças inesperadas para obem, muito para além de Obama.Em Vila do Conde irá realizar aperformance “Nervous MagicLantern”, qual é o propósitodesta experiência?Será um belo e impossível lamento3D para aquilo que está a aconteceragora. Dois olhos são melhores, umolho também serve.“Agora –triunfantemente – háo digital, câmaras debolso baratas,telefones comcâmaras e aWorld Wide Web.O objectivo deum cinemademocrático foialcançado; agoraestamos a ver o quevai sair daqui”“WhatHappened on23rd Street in1901”: oconfrontoentre umamulher,filmada porEdison, noinício doséculopassado, eMarilyn com asaia aesvoaçar em“O PecadoMora do Lado”Obama:“Agora, eleparece-se aum porteiroeleganteinfinitamenteeducado emodesto”Com o écrã a negro, umafanfarra triunfal antecede umavoz desencarnada que acolheos espectadores. “Senhoras esenhores, sejam bem vindosà primeira longa-metragemapresentada em Space-Vision.Coloque os seus ‘space viewers’,por cima dos seus próprios óculosse os está a usar, recoste-se, evamos todos desfrutar da Space-Vision!”Podia ser o discurso de umfeirante que tenta convenceros transeuntes a entrar numaatracção carnavalesca – é entrar,é entrar, venham ver a mulherbarbuda, o homem-serpente, omenino com quatro braços, sãosó cinco mil reis! Mas são osprimeiros segundos de projecçãode um obscuro filme de 1966,“The Bubble”, apresentado novelho formato “3D analógico”,necessitando de um par de óculosespeciais (os “space viewers”) paracriar o efeito de relevo.Quando “The Bubble” estreou, o3D já se tornara nisso: um truquesensacionalista que titilava osespectadores com ilusões baratas,objectos lançados contra a câmaraou flutuando no ar à frente dosheróis. Mesmo que, já então,houvesse gente para quem o 3Dnão era “banha da cobra” paralevar o público a pagar bilhetemas sim mais uma técnica usadapara realçar a estética ou a arte dofilme.Quatro filmes não chegam paradesenhar um retrato detalhadodesse pioneirismo do 3D, já entãoesquizofrenicamente divididoentre as ambições artísticas ea atracção do lucro fácil (aliás,um tema que o mais antigo dosquatro, “House of Wax”, introduzsubrepticiamente). Mas a escolhade Vila do Conde para o seuprograma “Analog 3D”, uma dassecções paralelas da edição 2010,é um elogio dessa esquizofreniae um olhar estimulante para a“época de ouro” e para a “travessiado deserto” de um formato que vêagora, nos dias do digital, o seusegundo fôlego.Ferramenta“House of Wax”/“Máscarasde Cera”, de Andre de Toth, e“Dial M for Murder”/“Chamadapara a Morte”, de Hitchcock,respectivamente de 1953 e 1954,balizam o envolvimento dosgrandes estúdios na tecnologia.“The Bubble”, de Arch Oboler, e“Flesh for Frankenstein”/“Carnepara Frankenstein”, de PaulMorrissey, de 1966 e 1973,reportam-se ao período em que oformato estava “ligado à máquina”.“House of Wax” foi o primeirofilme a cores em 3-D produzidopor uma das “majors” deHollywood – a Warner, queentregou esta “remake” de umaprodução de 1933 a uma dassuas equipas B, comandadapelo veterano húngaro Andrede Toth. Monumental êxitocomercial ao qual devemos aImpressõesVila do Conde propõe-nos uma viagem no tempo até à era pré-digital do cinema 3limitações de uma técnica analógica que Hollywood dlonga carreira de Vincent Priceno cinema fantástico, sobrevivecomo eficientíssima série B comum forte sentido de atmosfera eespecial atenção à fotografia ecenografia, lançando uma sériede efeitos de demonstração datecnologia que fizeram escola.Ano e meio depois, a Warner jánão estreou “Dial M for Murder”em 3D. O próprio Hitchcockconsiderava este policial obramenor na sua carreira; e nassuas entrevistas com FrançoisTruffaut, admitia que a sua únicapreocupação com a técnica foracolocar a câmara à altura dosoalho, porque fora isso os truquesvisuais contavam-se pelos dedos.E, de facto, “Dial M for Murder” é oexemplo de um filme que usa o 3Dpara criar profundidade de campoem vez de emoções baratas.Joe Dante dizia aos “Cahiers duCinéma” em 2009 que era aí quese explicava a diferença entre o3D “orgânico” e “artificial”: “Emversão plana, [“Dial M for Murder”]é uma peça filmada, muito bemfeita. Mas na versão 3D, por idiotaPrograma Analog 3D:Teatro Municipal de Vila do Conde,Sala 2, às 23h30.Terça, 6: The Bubble (1966), ArchObolerQuarta, 7: Flesh for Frankenstein(Carne para Frankenstein),1973,Paul MorrisseyQuinta, 8: Dial M for Murder(Chamada para a Morte), 1954,Alfred HitchcockSexta, 9: House of Wax (Máscarasde Cera), 1953, Andre de Toth“Chamada para a Morte” usa o3D para criar profundidade decampo em vez de emoçõesbaratasque pareça, há uma profundidadeque não tem apenas a ver com atécnica: é como ver uma peça deteatro apenas pela marcação daspersonagens no écrã e a utilizaçãodramatúrgica do espaço.”Ou seja, muitos anos antesde James Cameron concebera 3D como uma “janela” deprofundidade colocada ao serviçodo filme, já Hitchcock a pensaracomo uma simples ferramenta.Mas a versão 3D de “Chamadapara a Morte” apenas teria asua primeira projecção públicaem 1980, visto que por alturas20 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


CinemaNinguém diga que uma vitória numfestival de cinema já não tem o mesmosignificado de outros tempos: aotelefone de Madrid, Claudia Llosa dizao Ípsilon que o Urso de Ouro em Berlim2009 pelo seu segundo filme, “ATeta Assustada”, teve um impactodesmedido no seu Peru natal. “Não épossível separar a recepção que o filmeteve da vitória em Berlim – foi recebidode um modo fabuloso, e trouxemuitas alegrias aos quechuas, quese sentiram representados no mundo.Sentiram-se gente.”Nada mau para um filme que, porum lado, parte do conflito que opôs,nos anos 80, a guerrilha maoista doSendero Luminoso às forças governamentaisperuanas, e, por outro, exploraa cultura do povo quechua, etnianativa dos Andes. Mas “A TetaAssustada”, que vai buscar o título auma superstição quechua segundo aqual as meninas nascidas durante aguerra cicil herdaram das mães o medoda violação através do leito materno,recusa qualquer abordagem turística,política ou exótica. A história,o passado e a tradição são o pano defundo para a entrada na idade adultade Fausta, adolescente confrontadacom a morte da mãe e a descobertado mundo que a rodeia, do qual seprotege através da música e da batataque introduziu no corpo para impedirque seja violada. Interpretada assombrosamentepor Magaly Solier, jovemquechua sem experiência de actriz,Fausta é o centro de um filme onde oolhar observacional, quase documental,sobre o quotidiano dos remediadosse cruza com um surrealismoonírico que invoca o realismo mágicoda literatura latina sem nunca o citarabertamente.Foi por aí que começou a conversacom Claudia Llosa, revelando umacineasta que se diz inspirada maispelo cinema oriental do que pelosseus conterrâneos e interessada maisem envolver o espectador no filmedo que em explicar-lhe tudo tintimpor tintim.“A Teta Assustada” tenta criarum equilíbrio entre um semnúmerode contradições – opessoal e o político, o urbano e orural, o real e o surreal...Efectivamente, o filme maneja muitíssimasdualidades – a vida e a morte,o modo como a vida está imersa namorte, o casamento que acontece enquantoa mãe está morta debaixo dacama. E contrapõe também a modernidadeaos Andes, o quechua ao castelhano.E fala da possibilidade derenascer através de algo que nos fazmal – a batata tem essa dualidade deser algo que perece e algo que nasce,que vive como um feto, que vem daterra, das raízes, da memória, da identidade,mas com a ideia do tumor quetraz efectivamente muitos problemasà miúda. O filme está sempre a aproximar-seda vida em grande plano,assumindo que não se pode entendera vida sem a morte e vice-versa. Asdualidades são parte do processo.É um filme centrado na cultura andina,que tem um universo muito interior,muito voltado para dentro,muito mágico. É a sua principal diferençade uma cultura mais urbana,mais citadina, onde a oralidade temuma importância completamente diferente.Mas a introdução desse ladomágico é feita com absolutanaturalidade, como se fosse maisum elemento.O filme já se instala numa premissamuito forte e perturbante para o espectador— uma miúda que introduzuma batata nas suas partes íntimas...“A pergunta com quecomecei o filme era:é possível sarar-nos?É possível curar umaferida profundae dolorosa, quemarcou e continua amarcar a nossa vida?”É algo de extremo, de inacreditável,a roçar o surrealista. Mais do que terou não acontecido, é algo que podeacontecer, que vai para lá do realismomágico embora nos remeta para ele.Quis retratar a doença, ou a síndroma,se preferir, do ponto de vista dealguém que acredita que é real. Nuncaa questionei, como nunca questioneia magia do canto quechua feitomantra ou o leite impregnado de terror.Não me interessava o lado histórico;o que me interessava era transmitiresse imaginário de quem sedeixa levar através do mito e do seuQuem canta seus malesUma das revelações deste Verão, a segunda longa de Claudia Llosa filma a entrada na idade adultapassado que não viveu e a cultura que reside dentro de si. A peruana explicou ao Ipsilon o que éinconsciente, que aprende a curar-seatravés dos mecanismos do mito, dessescantos, dessas pulsões internas.E o que o filme pergunta é se é possívelestarmos conscientes do processocurativo do mito. Há um poder misteriosonisso tudo.Foi também por isso quedecidiu fazer de Fausta umaadolescente?Isso tem a ver com o facto de me interessarque ela não tivesse vivido oterrorismo na carne. Interessava-mea ideia do medo se transmitir comouma doença através das gerações.Magaly Solier não é actrizprofissional. Como é que adirigiu?Houve um trabalho árduo de muitosmeses. E ambas nasceram nos anosdo terror; embora, tal como Fausta,a Magaly não os tenha vivido, temmuitas memórias das histórias queassustaram a sua família. Procurámossempre trabalhar de um modo positivo;não me interessa que o actorsofra. Onde conseguimos finalmentefazer a ligação foi através do amorpela mãe e do amor ao canto. A Magalysempre cantou e foi através docanto que começou a descobrir Fausta,porque ao princípio não a enten-Claudia Llosadiz ao Ípsilonque o Urso deOuro emBerlim 2009teve umimpactodesmedido noseu Peru natal22 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


sinergias não se estabelecem pordecreto”, assume.Contas feitas, e fornecidas pelo festival,são 575 mil euros que se dividemassim: 34 por cento do Ministérioda Cultura, através da Direcção-Geral das Artes, o mesmo valor daCâmara Municipal de Almada, 24 porcento de patrocinadores e parcerias,e 8 por cento de receitas próprias.Benite diz ainda que 65 por centodas verbas são gastas nos espectáculos– na sua compra e produção – e orestante na organização e promoção.“Essas receitas próprias só o são assim[com este valor, 8 por cento] porlimitações das próprias salas”, diz odirector. “Vendemos 600 assinaturas,mas podíamos vender o dobrose as salas tivessem mais capacidade.”Porque, pelos vistos, públiconunca foi um problema.O público, diz Benite, “cria pressões”.“Ao longo dos anos fomos trabalhandopara um público que se foiformando no festival, tal como eu mefui formando. Muitas vezes penso queo meu gosto evoluiu como evoluiu opróprio festival”. E chegou, já, a acontecerespectadores virem dizer-lheque um ou outro espectáculo não deveriater sido apresentado.“Todas as pressões que existemencaro-as da mesma forma e tiro delaso melhor partido. Não acho queo festival deva criar situações de desconfortopara o espectador, mas devetrabalhar para alargar a dicussão”.O gosto do programador é, aqui, deixadopara segundo plano. “Se programassesó o que gosto, o festivalseria mais pequeno”. Mas já a ética,essa, diz Benite, “cola-se não à estética,mas ao papel ético que o teatrodeve ter”.Devir poético“A transposição do real não é coisaque me interesse muito, o que meinteressa é a transmissão poética. Naminha realidade interessa-me fazere apresentar espectáculos interventivos,e que tenham preocupações decarácter geral sobre o comportamentohumano, não apenas no plano político,mas em todas as suas dimensõese, em particular, nas que determinama vida das pessoas. Não temosessa tendência moderna de fazer dainovação e da pesquisa formal o centroda pesquisa teatral”, diz. “O meuproblema é o da inclusão, não é o daexclusão”.É aqui que esta filosofia de vida –neste que é um projecto conduzidopor um perfil pessoal “marxista” queage sobre os outros a partir do confrontoideológico –, que, este ano, “odevir poético” toma forma.Aos 27 anos Almada procura umalinha que tem na poesia, e não tantona palavra, uma das linhas-mestrasenquanto condição “sine qua non doteatro”: “O importante é que no teatroexista uma leitura ua poética dascoisas”. Este ano, e para além de“Ode Marítima”, estará presente apoesia de Constatinos Kavafy (“YourcenarKavafy”, de Jean-Claude Feugnet,com Charlotte Rampling – a 16 no S.João, Porto, a 17 e 18 no D. Maria, Lisboa),mais Pessoa (“Um jantar muitooriginal”, de Alexandre Riener, dia11, D. Maria), Camões (“As 10 cançõesde Luís de Camões”, por Luís MiguelCintra, dia 11, Fórum Romeu Correia),e a homenagem a Maria Barroso, antigaactriz e “diseuse” – “porque oFestival orgulha-se de homenagearas pessoas que são importantes paraa história do teatro em Portugal e,muitas vezes injustamente, são esquecidas”–, que participa num recital,encenado pelo próprio Benite, eque inclui ainda Eunice Muñoz e CarmenDolores (dia 10, Teatro Municipalde Almada).“Se não houver acto poético nãohá teatro”, insiste. “O teatro não épublicidade. É a palavra a ser dita porum actor.” E cita Claude Régy, o encenadorde “Ode Marítima”, que dizque para o teatro poder continuardeve afastar-se o mais possível do espectáculo.“O importante é o que se constróicom o universo com que se trabalha.A mesma matéria com que trabalhao Régy, nas mãos de outro encenador,pode ser uma grande porcaria”. Essapesquisa que, eventualmente, estarárelacionada com essa dúvida do queapresentar já não aos trabalhadoresda Lisnave “mas a um público que vêmais coisas” e, por isso, “exige mais”,está na base de um festival que, 26anos depois, regressa com a mesmadúvida: “como continuar a dar à palavrao lugar central do teatro”.“Não temos essatendência modernade fazer da inovaçãoe da pesquisa formalo centro da pesquisateatral”, diz. “O meuproblema é o dainclusão, nãoé o da exclusão”CharlotteRampling,EmmanuelDemarcy-Mota eMatthiasLanghoff (leiana próximaedição doÍpsilon)François Bégaudeau,o jogador enamoradoO amor através do futebol: uma metáfora sobre a sociedade.François Bégaudeau, nascido em1971, fala de futebol como quem falade amor... como quem fala de teatro.Vimo-lo a tentar normalizar umaescola no subúrbio parisiense, em“A Turma”, filme que adaptou umlivro em que ele contava as suasexperiências, mas antes de serprofessor, e crítico de cinema, foi, eé, comentador de futebol. E tambémromancista que faz do futebol, damúsica, do amor e dos que o rodeiama matéria dos seus textos. “JogoLimpo”/“Jouer Juste” foi escrito em2003 sob a forma de romance, masfoi enquanto peça de teatro queencontrou o sucesso. Chega agora aPortugal, depois da equipa francesater sido expulsa do Mundial e emdia de semi-final por definir, pelamão de Américo Silva (encenação einterpretação) e Francisco Oliveira(tradução), numa produção com oTeatro da Terra, de Ponte de Sor.Quando falámos com ele, viatelefone, estava a França à beira docolapso e Portugal em vésperas dehumilhar a Coreia. “É inevitável falarde futebol, mas não porque o meutexto é sobre futebol. É inevitávelporque, como se está a ver com o quese passa na selecção francesa, falarde futebol é falar da sociedade comoela é: racista, ignorante, xenófoba,egoísta.”“O futebol é uma metáfora, masé a metáfora ideal para falarmosde uma sociedade justa, onde háum colectivo que trabalha emprol de um objectivo e, nos diasbons, o importante é mesmo jogar.Há um espaço onde decorre umjogo, com regras próprias quecompreendemos e respeitamos.Regras que sustentam umamitologia que sobrevive aopragmatismo da realidade. Aspessoas estão sentadas em frenteao televisor, sentem-se parte dequalquer coisa abstracta, massentem-se integradas. E o colectivo éisso: o sentimento de integração.”Que tem isto a ver com o amor? “Oamor é um lugar onde a metáfora éimportante. Tentamos convencero outro de que não somos seuadversário, somos seu parceiro. Háum jogo de poder, de cedências, quelevam ao objectivo de ganhar. Mas,ao contrário do futebol, mais doque um empate, deviam ganhar osdois”, teoriza um fascinado pelo jogo,qualquer que ele seja.“Jogo Limpo”: há um homem quetenta compreender uma mulher,PEDRO SOUSAo que ela quer e o que ele faz paralhe dizer o que ele quer. É um jogode futebol mas sem intervalo, umesquema de organização “comoqualquer outro, mas com o objectivode trazer o outro para o nosso lado”.Bégaudeau utiliza uma linguagemartificial, hiper-realista – “paramostrar o realismo que sobreviveàs regras” –, onde a exacerbação,não dos sentimentos mas do queele gostaria que os sentimentosproduzissem, caricatura um homemem busca da relação ideal. Emúltima instância, “de um futuro”. “Ofuturo começa a partir do momentoem que um começa a jogar. O outroreage a isso.”A linguagem procura libertarseda metáfora para proceder auma descrição, como um relato,do esqueleto de uma relação. “Onarrador, enamorado, faz umaapologia do natural, que convidaà reflexão e ao abandono daexpectativa. Quer que nos deixemossurpreender pela euforia e façamosdesaparecer a estratégia de jogo”,diz. “Jogar limpo significa jogarsem medo de perder.” “Conhecealguma equipa que o queira fazer?”,pergunta-nos.Mónica Calle, a voz resistenteJogo Limpode François BégaudeauTeatro da Terra, de 6 a 17 Julho,no Instituto Franco-portuguêsàs 21h30Tchékov visto por Mónica Calle foi sempre um autor contemporâneo.DA MAIA NOGUEIRAA última vez que Mónica Calle, 42anos, esteve num palco que não oseu, o da Casa Conveniente, no Caisdo Sodré em Lisboa, foi em 2005,na Culturgest, para apresentar“Julieta: cartas fragmentárias a umamor perdido”, variação a partir de“Romeu e Julieta”. A encenadora– a que resistiu de uma geraçãoque ia mudar o teatro que se faziaem Portugal nos anos 90 – foia primeira a reconhecer que oresultado ficara aquém. Demorouestes anos todos, e outras tantaspeças “microscópicas”, como lhechama, para encontrar as basesque lhe permitissem enfrentar umamáquina teatralque lhe fugisse aocontrolo. O alibié um dos seusautores de eleição,Tchékov, de quemjá tinha feito “AsTrês Irmãs” (2003).Agora mostra “OGinjal”, ao qualacrescentouou o sonho das cerejas”como a “As Três Irmãs”já perguntara “queimportância é que istotem?”. Mas é a primeira vez,“dezassete anos depois” de terBRUNO SIMÃOO Ginjal ou osonho das cerejasde TchékovMaria Matos, de 1 a 11 de Julhoàs 21h30 e dia 30 de Julhono Fórum Romeu Correia,em Almada26 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


Daniel Veronese, o anti-dramáticoEsta Hedda Gabler já não é vilã ou vítima. É só uma mulhercomo as outras, vilã e vítima.Claude Régy, o MensageiroPoema maior de Fernando Pessoa é hipótese de chegar aum teatro essencial.Num festival que apresenta umadiversidade de textos clássicosem novas roupagens (“Casimiroe Carolina”, de Odon von Horvat,por Emmanuel Demarcy-Mota,“Hamlet”, de Shakespeare”, porMatthias Langhoff, “O Ginjal”, deTchékov, por Mónica Calle, outextos que não sendo de teatro sãobasilares para a literatura mundial,como “Ode Marítima”, de Pessoa,por Claude Régy, e “As Formigas”,de Boris Vian, por Rogério deCarvalho), Daniel Veronese é umafigura de destaque pela clareza comque expõe uma resistência a umamodernidade pós-dramática. Emconversa com o Ípsilon, o argentinodiz que procura, com os clássicos,“pesquisar e apresentar a essênciadas obras. Os clássicos foramconcebidos para uma época e umdeterminado tipo de encenadores,actores e público. Apesar do seuformato ter perdurado, procuroencontrar um ponto de equilíbrioque os aproxime o mais possível dopúblico contemporâneo”.A sua versão de “Hedda Gabler”,de Ibsen, libelo (feminista?) sobremulher-problema que a históriatem dificuldade em classificarcomo vítima ou vilã, tem comotítulo-programa: “Todos los grandesgobiernos han evitado el teatroíntimo”. Para Veronese parece serrelevante pensar numa exposiçãodessa essência num processo dereafirmação de valores e princípiosque existem enguanto matériateatral, mesmo que emanem dasociedade (e, em ambos os casos,uma sociedade do Norte da Europa,em viragem de século, do dezanovepara o vinte, e já em decadência). “Oque as pessoas vão ver é uma peçade teatro. Não trabalho a partir deideias mas de projectos concretos,claros e teatrais, esperando queproduzam sentidos com os quaisas pessoas se identifiquem. Arelatividade da vida e das relaçõeshumanas é o que me leva a elegeros elementos com os quais trabalho.Se daí resultar uma peça de teatrocom alguma organicidade – algo tãodifícil de prever a partir dos textos –dar-me-ei por satisfeito”, diz.O dispositivo cénico concentranuma língua de cenário umespaço familiar claustrofóbico,descaracterizado e pálido. Veronese,55 anos, trabalha a partir de ummodelo de anulação da hierarquiacénica e dramatúrgica, mesmo queesta comece por ser intuitiva: “Façoo que o texto me pede. Nunca seipara onde me leva uma peça nemqual será o resultado”, confessa.Acrescenta: “Um drama social nãose torna mais fácil de compreendersó porque aparenta ser um encontrocom ‘o real’. No caso de um dramapsicológico como ‘Hedda Gabler’optei por dividir o protagonismode modo a criar uma harmoniaque pudesse dialogar com a nossarealidade quotidiana. Isso surge dosmateriais”.Mas este registo natural – quenão deixa de manter uma certaartificialidade por aparentar lidartão bem com a banalidade com queinteragem –, é um artifício. O objectode Veronese é “que os actoressejam as personagem, e não queas interpretem”. “Acredito que umactor despido de efeitos, sustentadoapenas nos seus recursos ‘naturais’,e com a obrigação de nos convencersem que para isso se socorra deum artefacto, produz uma energiadesperada face ao vazio, umencanto que tem por objectivoúltimo impedir que surja qualquerdramaturgia dos sentimentos”.OdeMarítimade Fernando PessoaTeatro Municipal de Almada, 14a 16 Julho, 21h30Hedda Gabler,de Ibsen,apresenta-se dia 6 às 21h30no Palco da Escola D. Antónioda Costa, em AlmadaClaude Régy, 87 anos, acredita queo futuro do teatro está para lá doteatro, “para lá do que se faz, hoje”.Aprendeu com MargueriteDuras – de quem encenou “AAmante Inglesa”, em 1968– a procurar “um teatroque esteja o mais próximopossível da essência”. Eque o mais importante“não é colocar a questão‘Quem fala?’ mas ‘O queé que fala?’”, escreveu elenum texto sobre a autora narevista “Alternatives Thèâtrales”publicado em 1983.Tem sido assim ao longo da suavida, mas foi sobretudo assimdepois deste encontro com Duras.As vozes, e um teatro como hipótesede materialização da palavra, emvez de ilustração da palavra, foramde Harold Pinter a Botho Strauss, dePeter Handke a Jon Fosse, de TomStoppard a Sarah Kane – de quemtrouxe, em 2004, “4.48 Psicose”,apresentado na Culturgest, comuma Isabelle Huppert magnânime eimóvel. Autores que desconstruírama soberba humana e reduzirama emoção à quase parilisia pelaimpossibilidade de a suster.A entrega, ou antes, o sacrifício,está também em “Ode Marítima”,estreado o ano passado no Festivalde Avignon, em França. É oencontro de um pesquisador comum “sacrificado”. Fernando Pessoa“sacrificou a vida à sua criação”, dizRégy no dossier de imprensa. E, porisso, “isto não é um espectáculo. Oúnico espectáculo que existe é a forçada escrita na criação de imagens. Oque se pode fazer é dar espaço paraque a voz do autor, a voz do tempoem que ele escreveu, passe, atravésdo veículo que é o corpo do actor,e chegue ao público. O dispositivocénico é só uma passagem e oencenador o mensageiro”, disse-nosRégy quando a peça estreou.“As sonoridades, os ritmos e oconjunto do tecido sonoro de umtexto fornecem sentido, um outrosentido para além do sentido quepensamos compreender, um outrosentido para além do sentidogramatical. E que nos fazem atingirzonas tão sensíveis como as queatingimos com a música”, explicanas suas notas de trabalho.Será esta musicalidade que “ressoaa uma construção da linguagem”que sustenta uma peça para um sóactor, um corpo que se transformaem palavra ditae “nos liberta daresponsabilidadede entender aspalavras, de asfazer existir”,continua.“Libertamo-nosdas regras e, creio,ainda que cepticamente, tocamoso mistério através das palavras. Oessencial da escrita não é senão aincapacidade da qual tentamos sair.Fica exposta uma voz secreta, umavoz muda”, contou-nos. Voz essa quetrabalha recusando a declamação,como sempre recusou um teatro quenão fosse poético ou literário.O texto surge – traduzido pelopróprio Régy com ParcídioGonçalves – pela voz de Jean-Quentin Chatelâin, actor que – comorefere nas notas de imprensa –ajudou o encenador a “ter menosmedo de tentar esta experiênciaperigosa de fazer um poema quetem cerca de dois mil versos comum só actor que, naturalmente, ficaimóvel nas duas horas que dura oespectáculo”. O “naturalmente” queRégy usa sem parcimónia, quasecomo uma evidência, é a ideia-basede um teatro que busca a sua génesena impossibilidade de sustentaro artifício: “As impossibilidadestambém fazem parte do texto, ese não as apresentarmos, então omelhor é ficar em casa. Não vale apena ter esta profissão”, acabou porassumir em conversa com o Ípsilon.Leia online a reportagem sobre aapresentação em Avignon em http:/ipsilon.publico.pt/teatro/texto.aspx?id=238019PASCAL BASTIENMARIO DEL CURTOcomeçado, que tem condições “parapegar numa peça do princípio aofim, com um elenco maior”.As dificuldades com que temtrabalhado são a força deresistência que lhe permitemdialogar, de igual para igual, comuma máquina pesada como é a deum teatro que não tem problemasde inundação, nem prostitutascomo vizinhas, e menos ainda aconcorrência dos bares. “Foi umdesafio, mas tem dificuldades.Trabalhando numa escala tãomicroscópica, há coisas que,com este volume, dificilmenteconsegues fazer e vais para outrosítio”.“O Ginjal” já tinha sido alvo deatenção de Calle, numa versãointimista – e poética – apresentadano Teatro da Politécnica em2007, onde os espectadores eramconvidados a sentar-se à mesacom os actores para, com eles,lerem o texto, ououvi-lo mas,e sobretudo, estarem na suapresença. Essa característica – apresença – é fundamental nopercurso e discurso de Calle. Ostextos que chama a si têm poucascertezas sobre a vida: “Esta é umapeça com momentos raros deafirmação, as personagens dizempouco, e é uma peça onde aquiloque se diz é menos importante doque aquilo que acontece”.O que espera, “durante as própriasapresentações”, é encontrar umespaço de diálogo. “Não é pararesponder que faço estas peças,é para continuar a perguntar.”Nunca nada estará resolvido. “Cadaencenação é uma leitura, nunca éuma afirmação determinista”.O regresso de Calle ao Festivalde Almada tem outra geneologia,também ela poética: Calle foi, em2001, com uma primeira versão de“A Loucura da Normalidade”, deLars Noren, a primeira a pisar oterreno que, anos mais tarde, iriaser ocupado pelo Teatro Municipalde Almada. Hoje, no Maria Matos,a terra e a água, as lâmpadasenvoltas em papel crepe negro,as roupas desfiadas e as vozes aimporem-se por cima dos barulhosda rua só parecerão memóriadistantes se não se quiser ver oteatro desta mulher para lá daaparência. “As peças nunca estãofechadas e, quando as fazemos,fazemos para que as pessoasdialoguem connosco e partilhemalgo”.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 27


ExposiçõesDe cócoras, rodeada de sepulturasabertas, uma mulher vestida de negroolha para fotografia de filho. Umacriança caminha ao logo de uma paredeque parece crescer sobre ela.Outra acena aparentemente de formaamistosa. Um homem parece ajoelhar-sereceoso ou reza apenas. Sãofiguras reduzidas a manchas, distorçõescromáticas, à beira da tactilidade.Por vezes, insinuam narrativasambíguas, mesmo quando o espectadorcrê distinguir o opressor da vítima.Uma coisa é certa: todas identificamclaramente um contexto político– neste caso, o conflito no MédioOriente entre israelitas e palestinianos– e esse é o primeiro novo dado que“Contra o Muro”, no Museu de Serralves,com a curadoria de UlrichLook, traz à pintura de Marlene Dumas(Cidade do Cabo, 1953). Em vezde se limitar a “transformar” em pinturasfotografias de corpos e de rostos– de crianças, jovens, actrizes, homensde raças diferentes –, como temfeito ao longo de trinta anos, a artistatrabalha sobre imagens de um cenáriofamiliar à opinião pública.Numa terra de ninguémO processo permanece o mesmo – pinturafeita a partir de imagens preexistentes,a grande maioria origináriasda imprensa e do jornalista, mas, avisao comissário, “o seu trabalho nãose centra na realidade das imagensveiculadas pelos media, e sim na – emborasuspeita – capacidade da pinturaem tornar uma imagem real”.O lugar da fotografia na obra deDumas ajuda a explicar tal motivação:“Apesar de nunca pintar senão a partirde uma fotografia e de respeitar otrabalho dos fotógrafos (as verdadeirastestemunhas), enquanto pintoraadopta uma posição diferida. Criauma segunda vida, uma vida imagináriapara os acontecimentos. Naimaginação, encontramos as coisascomo se fosse pela primeira vez”.É neste sentido que deve ser entendidaa abordagem da artista à figuração.Ainda Ulrich Loock: “Nasce dodesejo de tocar no corpo. Se o corpoestá morto (seja através da simplesdescrição de um cadáver ou da suarepresentação fotográfica) a pinturafigurativa implica o desejo de voltara dar uma certa vida a esse corpo”.A exposição em Serralves não representaa estreia em Portugal da pintorasul-africana, que vive em Amesterdãodesde 1976. A sua obra já tinhasido apresentada antes ao públicoportuguês na exposição “Os anos 80:Uma topologia”, no museu do Porto,e numa individual de desenhos em1998 no Centro de Arte Moderna daFundação Gulbenkian, em Lisboa.Mas “Contra o Muro”, que em Abrilteve a sua primeira versão na GaleriaDavid Zwirner, em Nova Iorque, assinalaum momento singular na produçãopictórica de Dumas. Escrevia aartista no respectivo catálogo: “Destavez o palco principal não pertence afiguras nuas e a cabeças em posiçãovertical, todas ampliadas, mas a estruturasarquitectónicas colocadasnum espaço narrativo...que nos transportamnão a uma terra sagrada, masuma árida terra de ninguém”.Eis o segundo novo dado que “Contrao Muro” revela: a presença deconstruções humanas. Muros, comoDisse Marlene Dumasdurantea apresentaçãoem Nova Iorque, naGaleria DavidZwirner: “Sou contrao muro. Não soucontra o Estadode Israel ou o Estadoda Palestina, mas soucontra o muro”o da Cisjordânia construído por Israelpara se separar fisicamente da Palestinaou blocos de cimentos usadosnos posto de controlo militar. Os murossão uma presença evidente naspinturas de grande formato. Porém,aquilo que descrevem é com frequênciauma decepção dirigida ao olhar eao conhecimento. Em “O Muro”(2009) os judeus ortodoxos não seprepararam para rezar no Muro dasLamentações, fazem um pausa dianteda terrível parede cuja construçãofoi iniciada em 1990; em “Choro doMuro” e “Lamentações do Muro”(2009), vemos homens sem rosto,encostados ao que parece ser de factoo sítio de culto religioso; numa pinturatêm os braços levantados comose a meio de uma qualquer oração;na outra, são revistados contra o muro.Não é difícil evocar “El Tres deMayo” (1808), de Francisco José deGoya, ou “L’Exécution de Maximilien”(1868) de Édouard Manet.Outras pinturas dispensam figuras,para mostrarem apenas construçõese estruturas. “Em Construção”(2009), uma longa parede que se estendeimpassível ao longo da tela tapaa paisagem. Em “Barreira mentais”,blocos de pedra, de uma transparênciaazul, só deixam entrever ao fundoa linha de uma estrada. Pinturas queapagam a figuração, para deixarementrar sinais da abstracção ou, comoescreve o comissário no catálogo destaexposição, “obras que desafiam asolidez da parede que define o lugaronde a imagem é apresentada, a parededo espaço expositivo ou de umahabitação”. É a própria artista quenum dos seus escritos enuncia queMarleneDumas viveude perto oApartheid naÁfrica do Sul,experiênciaque inspirou“Contra oMuro” e oprotesto mudoque sob umasérie depinturas édirigido àspolíticas desegregação deIsraelMarlene Dumaspinta contra todos osNo Museu de Serralves, Marlene Dumas expõe pinturas de coisas que separam os homens, pambicionam tornar-se imagens reais. E que, por isso, confrontam a indiferença e a imaginação do eIsrael e a Palestina e a exposição chama-se “Contra o Muro”. José M28 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


“uma pintura necessita de uma paredecom que se confrontar”, mesmoque, como acontece nesta exposição,de outro lado possa estar um lugardominado pelo abandono e a dor.A realidade depois da pinturaConvém lembrar que Marlene Dumasviveu de perto o Apartheid na Áfricado Sul, experiência que inspirou“Contra o Muro” e o protesto mudoque sob uma série de pinturas é dirigidoàs políticas de segregação de Israel.Será então oportuno evocar aquia incómoda classificação de arte políticae fazer a inevitável pergunta:não pode esta pintura tornar-se ilustraçãode uma realidade?“Não, não existe esse risco. A realidadeencontra-se já ilustrada nasfotografias preexistentes”, respondeo comissário. “E a pintura transformaa realidade ilustrada numa realidadeda imaginação. Podemos chamar [estaspinturas] de arte política não apenasporque descrevem estruturas quecondicionam a vida em comum depovos em conflito, mas também porque,e sobretudo, Marlene Dumas,enquanto pintora, se envolve nesseconflito: constrói na sua pintura ummuro, contra o discurso politicamentecorrecto, e tornando-o inevitáveltorna inevitável a necessidade da suadestruição”.Disse Marlene Dumas durante aapresentação em Nova Iorque, na GaleriaDavid Zwirner: “Sou contra omuro. Não sou contra o Estado de Israelou o Estado da Palestina, mas soucontra o muro”. A clareza e a afirmaçãoda posição revêem-se em “O Sonoda Razão”, auto-retrato da artista, incapazde mudar politicamente o mundo,por isso seu involuntário cúmplice,mas capaz de enriquecer a suamemória colectiva através da imaginação(cite-se o Goya de “Desastresde La Guerra”, de 1810-20 ou, numalatitude distinta, o Matisse que viveusob o Regime de Vichy).No Museu de Serralves, reúnem-seà volta de 40 pinturas datadas da décadaanterior (mais 20 das que as expostasem Nova Iorque) e a maiorparte dá conta do modo como Dumaslidou na sua pintura com o conflitono Médio Oriente. Para além da arquitecturae do betão, a artista pintourostos e corpos de pessoas que viveramde perto a guerra (“Criança aacenar”) ou que nela perderam familiares(a mulher que olha a foto dofilho em “A mãe”, 2009) ou a vida(mártires e terroristas em “Homemmorto”, 1988, “Rapariga morta”,2002). Outras pinturas revelam incursõespor temas aparentemente maisprosaicos, pacíficos ou clássicos. É ocaso do retrato de uma oliveira ou dasnaturezas-mortas “Caridade” (2010),com as suas rosas escurecidas, e “Asvinhas da Ira” (2009).Finalmente, restam imagens ambíguasde corpos. Em “Ressurreição”(2003/09), o torso de um homem caídopara trás, a boca aberta. Um mortoque ressuscita com o “milagre” dapintura? Um ferido? Uma estátua? Comoas outras imagens resulta de umatensão entre a documentação fotográficae o espaço imaginário da pintura;tensão que se propõe atravessar todaa exposição contra os limites ontológicosda pintura e os muros e as divisõesconstruídas pelos homens.s muros, pinturas que a partir da fotografiaespectador. O motivo é o conflito entreé Marmeleira/// EXPOSIÇÃO #07ARQUITE(X)TURASOBRAS DA COLECÇÃO BESart/// DE 24 DE JUNHO A 9 DE SETEMBROLEE FRIEDLANDER // PAULO NOZOLINO // JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO //DOUG AITKEN // ABELARDO MORELL // DANIEL BLAUFUKS // NUNO CERA //JOÃO PAULO FELICIANO // THOMAS RUFF // RICARDA ROGGAN // ANA VIEIRA //BILL HENSON // CANDIDA HÖFER // VITO ACCONCI // HIROSHI SUGIMOTO //THOMAS STRUTH // PAULO CATRICA // PEDRO TUDELA // LESLIE HEWITT //SABINE HORNIG // ROLAND FISCHER // STAN DOUGLAS // DAN GRAHAM //FRANÇOISE SCHEIN //// MORADAPraça Marquês de Pombalnº3, 1250-161 Lisboa// TELEFONE21 359 73 58// HORÁRIOSegunda a Sextadas 9h às 21h// EMAILbesarte.financa@bes.ptÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 29


LivrosRUI GAUDÊNCIOHoje, uma pessoapode perfeitamenteadmitir que éestúpida, que passao seu tempo a jogarjogos dedeo ouque só se interessapela moda. Não vaichocar ninguém.Antes, tínhamosvergonha de dizercoisas dessasO eclectismode Manguelnão se limita àgeografia e àlinguística.Eterno leitorde Homero ouDante, adoranovelaspoliciais eficçãocientífica enão alinha nasmodas nemnos cânonesestabelecidos30 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


“Estamos a destruir o valordo acto intelectual”Ensaísta, escritor de ficção – mas talvez, acima de tudo, leitor. Instalou a sua magníficabiblioteca pessoal num presbitério medieval francês, onde reside. De passagem por Lisboa,Alberto Manguel falou com o Ípsilon. Ana GerschenfeldOs livros e a leitura sempre nortearam– e ainda norteiam – a vida de AlbertoManguel. Aprendeu a ler por volta dostrês anos e nunca mais parou. Quandoera adolescente, leu em voz alta,durante vários anos, para Jorge LuisBorges, que tinha ficado cego. Maistarde, começou a escrever sobre livros,leituras e leitores – e o seu “UmaHistória da Leitura” (publicado emPortugal em 1999 pela Presença) tornou-seum best-seller mundial.Nasceu em Buenos Aires em 1948,criou-se em Israel, fez o liceu na Argentina,viveu em sítios longínquoscomo Taiti. Nos anos 1980 mudou-separa Toronto, no Canadá, e tornou-secidadão canadiano. De há 10 anos paracá, vive no Sul de França.As suas primeiras línguas foram oinglês e o alemão e só mais tarde viriao espanhol, explicou Manguel em Lisboa,durante uma conversa públicana semana passada com FranciscoJosé Viegas, no âmbito do Festival Silêncio.“Os meus pais quiseram queeu tivesse uma aia checa de língua alemãque me falasse inglês. Eles, por seulado, falavam espanhol e francês – oque significa que eu não falei com osmeus pais até aos oito anos...” Sentidode humor e simpatia irresistíveis.O eclectismo de Manguel não se limitaà geografia e à linguística. Eternoleitor de Homero ou Dante, adora novelaspoliciais e ficção científica e nãoalinha nas modas nem nos cânonesestabelecidos. “Há grandes obras, quereconheço que são grandes obras, masque a mim não me interessam.”Gosta muito de ler na cama e está“sempre a ler”. Todos os dias, antesde tomar o pequeno almoço, lê umcanto de “A Divina Comédia” (“é omeu yoga”). Fala dos 40 mil livros quecompõem a sua imponente biblioteca,instalada numa ruína medievalrestaurada, como se de 40 mil filhosse tratasse (ele próprio tem três, jácrescidos).O ebook, explicou ainda, não é maisdo que “uma tábua de argila com maismemória”, acrescentando que – cúmuloda ironia –, depois de termosabandonado os rolos de pergaminhopara adoptar o codex com as suas páginasencadernadas, muito mais práticode ler, voltamos... a fazer scroll àspáginas nos ecrãs de computador...Não usa telemóvel, nem Internet,não tem email. Não os acha úteis. Osamigos ofereceram-lhe um site pessoalnos seus 60 anos (alberto.manguel.com),que “ao que parece, funcionamuito bem”. No fundo, a Interneté como uma grande biblioteca – eele já tem a dele.A sua obra está toda eladedicada ao lado maravilhosoda leitura, do acto de ler. A suapaixão pela leitura vem de onde?Nasce-se leitor ou uma pessoatorna-se leitora?Penso que somos animais leitores. Vimosao mundo com uma certa consciênciade nós próprios e do que nosrodeia e temos a impressão de quetudo nos conta histórias: a paisagem,o rosto dos outros, o céu, em tudo encontramoslinguagem. Tentamos desentranhá-la,tentamos lê-la. Nessesentido, não podemos existir enquantoseres humanos sem a leitura. Inventámosa linguagem escrita, a linguagemoral, para tentarmos comunicaressa experiência do mundo, para noscontarmos histórias e através delas,falar dessa experiência.No meu caso, o conhecimento domundo passou sempre pelos livros.Tive uma infância um pouco particular:o facto de o meu pai pertencer aocorpo diplomático fez com que viajássemosmuito e que eu não tivesse nenhumsítio onde me sentisse em casa.A minha casa estava nos livros. Regressarà noite aos livros que conhecia,abri-los e constatar com imenso alívioque o mesmo conto continuava namesma página, com a mesma ilustração,dava-me uma certa segurança eum certo sentido do lar.Mas nem toda a gente é leitora...Nem toda a gente é leitora, mas achoque, no fundo, é porque as circunstânciasfazem que não sejamos todosleitores. A possibilidade está em todosnós. O que quero dizer é que suponhoque há pessoas que nunca se apaixonam,suponho que há pessoas quenunca viajam, suponho que há pessoasque não têm uma certa experiênciado mundo. E da mesma maneira,existem muitas pessoas que nãosão leitoras. Mas a possibilidade estádentro de nós.A proporção de leitores numa dadasociedade nunca foi muito grande –seja na Idade Média, seja no Renascimentoou no século XX. Os leitoresnunca foram a maioria. Se, por exemplo,todos os espectadores de um únicojogo de futebol comprassem umlivro, uma tarde, esse livro passaria aser o best-seller mais espectacular daHistória da literatura.Pensa que, para além de nãohaver muitos leitores, a leituraestá a perder terreno nestemomento?O que está a perder terreno é a inteligência.Estamos a tornar-nos maisestúpidos porque vivemos numa sociedadena qual temos de ser consumidorespara que essa sociedade sobreviva.E para ser consumidor, épreciso ser estúpido, porque umapessoa inteligente nunca gastaria 300euros num par de calças de ganga rasgadas.É preciso ser mesmo estúpidopara isso.Essa educação da estupidez faz-sedesde muito cedo, desde o jardim deinfância. É preciso um esforço muitogrande para diluir a inteligência dascrianças, mas estamos a fazê-lo muitobem. Estamos a conseguir destruir aospoucos os sistemas educativos, éticose morais, o valor do acto intelectual.É reversível?Espero bem que sim. Mas receio quepiore antes de melhorar. Falando apenasem livros e literatura, as grandesempresas internacionais tomaramposse da indústria editorial e transformaramo acto literário num modelode supermercado. Mas continua a haverescritores, pequenos editores, háuma espécie de movimento de resistência– que também passa, por exemplo,pela tecnologia electrónica. Issofaz-me pensar que vamos sobreviver...mas não sei se o meu optimismo sejustifica.Estamos a ler de formadiferente?Penso que o que está a acontecer, comoacontece em tempos de crise, nãoé o facto de termos passado a ler deforma diferente, mas de estarmos atornar-nos mais conscientes do quesignifica ler, ser leitor, do que é a literatura.Estamos a interrogar-nos sobreessa actividade simplesmente porqueela está ameaçada. Antes de o ursopolar entrar na lista das espécies emperigo, ninguém falava dos ursos polares– não era um tema de conversacorrente [ri-se]. Surgiu porque os ursospolares estão em perigo. É porqueos leitores sentem um perigo que começarama reflectir sobre o que significao acto de ler.Alguém disse que quandoganhámos o elevador, perdemosas escadas. O que perdemosquando passamos do livro empapel para o ebook?Eu não prescindiria do elevador nemdas escadas. Se tivesse de passar seismeses no Pólo Norte, dava-me muitojeito levar um livro electrónico – sehouvesse baterias que durassem seismeses. O problema não está na invençãode novos suportes para a leitura.Surge quando esses suportes são promovidospor razões puramente económicase nos tentam convencer asubstituirmos tudo por esse únicosuporte.A indústria faz constantemente issoe é o que está a acontecer com os livros.Existe actualmente nos EstadosUnidos um movimento para acabarcom os livros em papel nas bibliotecasdas universidades. São tontices: o problemanão tem a ver com a electrónicanem com o livro impresso, tem aver com um comerciante gananciosoque quer vender computadores.Mas os editores não queremvender computadores, têmmedo deste fenómeno.Têm medo, mas cada vez mais os contratosde edição incluem os direitospara o ebook. Não acho que isso sejaum problema. Paulo Coelho, que nãoé uma pessoa conhecida pelas suasideias filantrópicas, colocou todos osseus livros na Internet porque percebeuque as pessoas que liam os livrosem formato electrónico iam a seguircomprar o verdadeiro livro.O livro electrónico é mais uma formade ler e tudo depende de comoqueremos ler. Se quiser apenas ler umtexto, conhecer um texto, tanto mefaz que seja num ecrã ou num livroelectrónico. Mas se quiser ler comocostumo ler – eu, Alberto Manguel –,fazendo anotações nas margens, passandoda página 74 para a página 32para depois ir espreitar a página 3,não posso fazer isso com um livroelectrónico – ou talvez possa, mas émais complicado. A mim o ebook nãome é útil – mas percebo perfeitamenteque o seja para outros.Gostemos ou não, o futuro nãoserá electrónico na mesma?O futuro não – o presente. O futuro,esse, não sei como vai ser. O meu filhoutiliza hoje a electrónica para tudo,para ouvir música, para falar ao telefone,para ler, para comprar bilhetesde avião – tudo passa pela electrónica.Mas também lê livros, também ouveCD de música e discos de vinil. Estamosnum presente cuja tecnologia éelectrónica – é absurdo negá-lo. Masdaqui a 10 ou 20 anos, vamos dizer:“Ainda usas um computador? Nãotens um pffttt?” (não sei que nomeiremos dar a tecnologia que virá a seguir).Estamos a mudar de objectos quotidianosa um ritmo impressionante.Mas nada disso me assusta, faz parteda nossa realidade. O que me assustaé a nossa utilização desses instrumentose a falta de liberdade com a queos utilizamos. Estamos a transformarnoscada vez mais em meros consumidores.É essencial reflectirmos sobreisso, porque estamos a perderuma liberdade que define a nossacondição humana.É muito importante sabermos porque usamos uma coisa. Eu não usotelemóvel, não uso a Internet, nãotenho email, mas é uma escolha, nãoé uma resistência contra algo que mepoderia servir. A mim, essas coisasnão me servem. Percebo perfeitamenteque um cirurgião, que pode serchamado de urgência, precise do telemóvel,mas a ideia dessa presençaconstante, dessa comunicação constante,dessa urgência constante, étotalmente falsa. E nós aceitámo-la– mas espero que consigamos reagir.Já chega, já brincámos com todos essesbrinquedos e agora vamos pensarum pouco para saber se realmenteprecisamos deles.A Internet permite associarideias, inclusive literárias, quasecomo se fosse por acaso. Nãopensa que isso pode expandir aimaginação?Essa é precisamente a forma comousamos uma biblioteca. Há mesmouma biblioteca – que para mim é oarquétipo das bibliotecas –, que é a deAby Warburg [historiador, 1866-1929].Foi instalada em Hamburgo em iníciosdo século XX e é uma biblioteca “associativa”no sentido em que Warburgcolocava os livros na ordem em queele os associava. Ele desenvolveu, porexemplo, uma “lei do leitor”, e emparticular uma “lei do bom vizinho”,segundo a qual a informação de queestamos à procura se encontra sempreno livro ao lado daquele que tirámospara consulta [ri-se]. A leitura é umaactividade associativa, sempre foi.Procuramos uma informação, lemosum livro e ao lado desse livro há outroe é assim que construímos as nossasbibliotecas e as nossas cronologias.O problema com a Internet é quenos dá a ilusão de possuirmos toda ainformação que contém. Mas o factode essa informação existir não significaque seja nossa. Temos de saberprocurá-la, saber se é fiável ou não,saber utilizar as associações que fazemos.Podemos brincar com a Internetdias a fio, à procura de anedotas, debocados de informação recôndita, etc.É óptimo, mas tem de haver uma actividademental capaz de incorporar,destilar, recriar essa informação. Ora,um dos grandes problemas actuaisdos bibliotecários é que os jovens quechegam às bibliotecas, e que estãohabituados a utilizar a Internet parafazer uma espécie de colagem de informação,não sabem ler. Não sabempercorrer um texto para extrair aquiloque precisam, repensá-lo, dizê-locom as suas próprias palavras, comentá-lo,associá-lo ou resumi-lo – e sobretudo,memorizá-lo –, actividades quefazem parte da leitura enquanto actocriativo. Estão habituados à ideia deque, como isso está lá e está acessível,já é deles. Não é assim.Isso não é mais a culpa da escolado que da Internet?A escola não tem culpa, é a nossa sociedadeque é culpada. A escola, auniversidade, deveriam ser o lugaronde a imaginação tem campo livre,onde se aprende a pensar, a reflectir,sem qualquer meta. Mas isso é algoque estamos a eliminar em todo omundo. Estamos a transformar oscentros de ensino em centros de treino.Estamos a criar escravos. Somosa primeira sociedade que entrega osseus filhos à escravidão, sem qualquersentimento de culpa.Nesses centros de aprendizagem,estamos a criar seres humanos quenão confiam nas suas próprias capacidadese que começam a acreditarque o seu único objectivo na vida éarranjar trabalho para conseguir sobreviveraté chegar à reforma – quetambém já lhes estão a tirar. O queestamos a fazer é horrível.Não tem nada a ver com os valoresda Internet, com a competência doprofessor, faz tudo parte de um conjunto.Somos culpados enquanto sociedade.Você é um leitor que escrevelivros? É mais leitor do queescritor? Não devia, pelocontrário, ser mais escritor doque leitor, depois tantos livrosescritos?Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 31


RUI GAUDÊNCIOQuando eraadolescente,leu em vozalta, durantevários anos,para JorgeLuis Borges,que tinhaficado cegoEu comecei por ser leitor. No queriaescrever. Depois, tornei-me umleitor que escrevia livros. Mas quandocomecei a escrever ficção – um romanceintitulado “Notícias del Extranjero”[vai em breve ser editado emPortugal pela Teorema sob o título“Novas chegaram de outro país”] –, asituação mudou. É que, para escreverficção – embora continuemos a escrevercom esse fundo que acumulámoscomo leitor, com a visão do mundoque nos dão as nossas leituras – e criarum mundo fictício, temos de nos retirarda nossa biblioteca e passar atrabalhar sozinhos.Não podemos escrever romancesa partir de outros romances, porqueacabaríamos por parodiar os romancesque nos inspiraram. Enquanto oescritor de ensaios trabalha a partirde informação recebida e de uma reflexãoacerca dessa informação, oescritor de ficção tem de estar só,num espaço em que se torne possívelinventar o mundo praticamente deraiz – as personagens, o espaço, a história.No início, essa ideia metia-memuito medo; agora, é o que mais gostode fazer.Acho que a ficção é um instrumentoexcelente para dar forma a certasperguntas. O ensaio é útil, claro, masé por vezes demasiado preciso. A ficçãopermite uma ambiguidade quepode ser mais útil para determinadasperguntas muito complexas. Porexemplo, o tema que me perseguedesde o início é a relação entre verdadee ficção, mentira e ficção, mentirae verdade.Um dia percebi que, desde as minhasprimeiras leituras, o que me interessavaera saber como distinguimosuma experiência que nos traduz omundo de uma experiência que atraiçoao mundo. Como distinguimos aficção da mentira, a ficção da verdade?Não penso que nos seja possível termosuma visão verdadeira, total, domundo. Acho que podemos ter acessoa um certo ponto de vista – e é esseponto de vista que vai sendo definidoatravés das histórias que contamos.E isso tem a ver com a escritaficcional?Sim. Quando temos uma experiênciado mundo, o nosso impulso é transpôlaem palavras para a perceber. Porvezes, encontramos nos escritos quelemos as palavras que nos parecemjustas. Mas, doutras vezes, queremosser nós próprios a nomear essa experiência.O problema é que, ao mesmotempo, sabemos que a linguagem éimprecisa, que nunca chega para definirsequer as coisas mais simples.Então recorremos não apenas à linguagem,mas também à história quecontamos através da linguagem. Eassim, através dessa experiência queinventamos, criamos uma espécie deespelho da experiência que queremoscontar.Por exemplo, todos temos medo dodesconhecido. Temos medo do quepode ser falso, da aparência das coisas.Mas como explicar esse medo?Inventando o conto do CapuchinhoVermelho. Dessa forma, sem necessariamentenomear esse medo, o contotransmite-no-lo através de uma experiênciaque sabemos ser fictícia, masque no entanto conseguimos viveratravés da linguagem.O seu amor pelas bibliotecasvem de onde? Da sua juventude,quando lia para Borges (queera uma espécie de bibliotecaambulante e anotada), dabiblioteca da casa do seu pai emBuenos Aires, onde se escondiapara ler?Não. A minha relação começou quandotinha três, quatro anos. Por umlado, é uma relação fetichista – o objecto-livro apaixona-me – e por outro,é uma relação de conhecimento. Oconhecimento do mundo vem-me, emprimeiro lugar, dos livros.Para Borges, o conhecimento domundo também passava pelos livros,mas ele não tinha qualquer relaçãofetichista com os livros. Não estavainteressado em guardar livros – oferecia-os,tinha poucos livros. Eu ofereçomuitos livros, mas compro livros paraos oferecer. Por vezes, ofereço livrosda minha biblioteca – mas o que nuncafaço é emprestar livros, porqueisso é um apelo ao roubo.Disse que quando de leitorpassou a escritor, teve de sair dasua biblioteca.Não é bem isso, uma vez que escrevona minha biblioteca. Há uma secção,com dois andares, onde também hálivros, mas onde tenho o meu escritório,com os meus objectos dispostosde uma certa maneira. Sou muito picuinhasnesse sentido. O que quis dizeré que, quando escrevo, precisode esquecer-me daquilo que li. Possoler certos livros; há autores que nãome contagiam. Mas há outros que nãoposso ler de forma alguma – Borges,Calvino, Chesterton – porque são comoaquelas melodias que nos ficamna cabeça e que passamos o dia a cantarolar.Tento ler textos mais neutros.Mais distantes dos temas sobreos quais está a escrever?Não necessariamente, apenas os quetêm uma voz menos imponente. Hágrandes escritores cuja voz é muitomais suave. Autores como Conrad,por exemplo, de quem gosto muito,ou Bioy Casares, cuja voz não é contagiosa.A sua biblioteca parece elaprópria como uma personagemde romance: imponente, secreta,maravilhosa. Contém 40 millivros e está instalada numpresbitério.Sim. O presbitério, que era a casa dopadre, está colado à igreja [da aldeia].E tem um enorme jardim, onde haviaum estábulo de pedra que tinha sidodemolido há três séculos. Nós reconstruímo-loe foi aí que instalei a biblioteca.É caótica ou organizada?É muito organizada. Sei onde está cadalivro. A ordem principal é a da línguaem que o livro foi escrito. Há umasecção de inglês, de castelhano, deitaliano... E dentro dessa ordem, a ordemalfabética. Mas depois há muitasexcepções, com secções sobre a Bíblia,sobre mitologia, lendas do Judeu Errante,cozinha, romances policiais...Não sente frustração quandopensa que há jóias literárias quelhe passam ao lado?Não. Quando era adolescente, angustiava-mepensar que nunca iria poderter nem ler todos os livros que queria.Mas essa angústia passa-nos e transforma-senuma espécie de alívio [rise].É óbvio que não vou ler tudo oque é publicado, é óbvio que nem vouter conhecimento de tudo aquilo queé publicado. Aliás, prefiro concentrarmeem certos livros.O tipo de leitura que pratico agora,nesta idade – embora continue a leralgumas coisas novas – é a releitura.Por exemplo, há já mais de dois anosque leio um canto de Dante todas asmanhãs, antes de tomar o pequenoalmoço [ri-se] – com um comentáriodiferente, tomando notas.Já completei esse percurso umasdez vezes. É um tipo de leitura quefaço por prazer – e que me parece infinito.Nunca vou conseguir saber osuficiente acerca da “Divina Comédia”,mas felizmente, já não tenhoaquela angústia. É como pensar emsítios que nunca visitarei, pessoas quenunca conhecerei. Que alívio! [ri-se]Lê sobretudo ficção, ou tambémnão ficção?Leio principalmente ensaios – porqueescrevo ensaios e portanto certos temasme interessam em particular.Também leio ficção, mas acho que, aí,preciso de uma certa distância cronológica,de sentir-me numa geraçãomuito posterior ao texto. É-me difíciller os meus contemporâneos. Há algunsautores actuais de quem gostomuito – entre os argentinos, EduardoBerti, Edgardo Cozarinsky; em França,Pascal Quignard, Jean Echenoz; naAlemanha, Daniel Kehlmann; entreos americanos Cynthia Ozick (gostomesmo muito dela), Richard Ford.Mas não gosto de nenhum escritordaquela geração [norte-americana]de [Jonathan] Franzen, [Dave] Eggers.Parecem-me todos saídos da mesmamáquina, com romancezitos bemmontados que soam modernos e quetoda a gente terá esquecido daqui a10 ou 20 anos.E os romances policiais, a ficçãocientífica?Gosto imenso. A ficção científica – eeu diria que o romance policial também– já não são os romances de géneroque foram no passado. Os escritoresque acabei de nomear escrevemSe quiser ler comocostumo ler, fazendoanotações nasmargens, passandoda página 74 paraa página 32 paradepois ir espreitara página 3, nãoposso fazer isso comum livro electrónico32 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


omances policiais; [Margaret] Atwoodescreve ficção científica, Doris Lessingtambém. Há umas gerações uma pessoanão erudita, mas culta, tinha aobrigação de ter lido certos livros. Hoje,essa ideia parece ter sido esquecida.A questão é que deixámos cair a noçãode “ser culto”. Agora, não passapela cabeça de ninguém dizer que umapessoa é culta ou não é culta. Como jádisse, há uma perda de prestígio doacto intelectual. Hoje, uma pessoa podeadmitir que é estúpida, que passao seu tempo a jogar jogos dedeo ouque só se interessa pela moda. Não vaichocar ninguém. Antes, tínhamos vergonhade dizer coisas dessas, mas hojeé espantoso ver o número de pessoasadultas que jogam jogos totalmenteimbecis.Há leitores que só querem lercoisas novas.Mas essa é a tal política do supermercado.Não vamos ao supermercadocomprar um produto do ano passado,mas coisas que ainda não passaram doprazo. É o mesmo com os livros: agora,têm um prazo de caducidade. Passadastrês semanas, o que não foi vendidodesaparece. É uma política muito perigosa.Mas ler os clássicos na escolacontinua a fazer sentido. “OsLusíadas” de Camões, porexemplo.Claro que continua. Os grandes clássicosnão foram escolhidos por ninguém;não há um comité que decide que Homeroé importante. O que houve foramcem gerações de leitores que disseramque esse livro é importante. É isso quedefine o clássico, é a obra que não seesgota junto dos seus leitores. E issocontinua a ser importante, emboramuitos leitores – e muita gente – não oreconheçam.As crianças têm uma imaginaçãoactiva, uma inteligência activa. Queremaprender a pensar. Na Idade Média,amarrava-se as crianças ao berçopara as imobilizar. Hoje, amarramosa mente das crianças exactamente damesma forma.Se me confiarem uma turma decrianças, comprometo-me a fazer comque elas leiam Camões com muitíssimoentusiasmo. É preciso dizer-lhesque são inteligentes e que vão conseguirler essa obra. As crianças adorampalavras complicadas, termos difíceis,histórias onde não se percebe tudo.Mas a indústria não quer isso, quertornar as coisas mais simples – e entãofazem resumos, simplificam, publicamcoisas idiotas para crianças e acabampor não publicar nada. Apenas jogosdedeo.A nova geração continua a ter gostopela leitura. Para o ser humano, o instintode sobrevivência não se resumeà necessidade de comer e beber; tambéminclui a necessidade de pensar. Eisso é verdade seja onde for – aconteceunos campos de concentração,acontece nas favelas mais pobres,acontece nas situações mais extremas.Continuamos a pensar, a criar, a interrogarmo-nos.E temos de lutar porisso. Não somos cegos; podemos dizerque não.Diz que se sente mais canadianodo que outra coisa. Porquê?Ser canadiano foi uma escolha. Chegueiao Canadá sem saber o que era oCanadá. Fui lá porque um dos meulivros foi publicado lá e teve muito êxito.Podia ter sido na China. Ora, nofundo, eu nunca tinha realmente vividonuma democracia. E de repentecheguei a um país onde votar tinhasignificado, onde a voz de um indivíduona sociedade tinha significado,onde existia uma responsabilidade cívica.Queria pertencer a esse país!Para mais, cheguei lá em finais dosanos 1970, inícios dos anos 1980, nomeio de um verdadeiro boom cultural.Queriam criar uma cultura canadiana,que até lá tinha sido inglesa, britânicaou americana. Por isso, se uma pessoaquisesse montar uma peça de teatro,fazer um filme, escrever um livro, nãohavia qualquer problema. Foi assimque, eu, um estrangeiro, comecei afazer rádio, televisão, todo o tipo decoisas. Isso nunca me tinha acontecidonem nunca me aconteceu depois emmais sítio algum.Não acredito nas nacionalidades impostas.O facto de nascer num sítio éum puro acaso, não define nada. Enfim,se nos criarmos lá, se estudarmoslá, então sim. No meu caso, a Argentinafoi importante por causa de minhaeducação secundária. Fui aluno doColégio Nacional de Buenos Aires [liceuque depende da Universidade deBuenos Aires] e isso definiu-me. É umaparte de mim próprio que aceito. Maso Canadá foi uma escolha. Por isso,continuo a declarar-me canadiano –apesar de haver lá agora um governode direita imundo.A leitura e a escrita vãodesaparecer? Há quem pense quevamos regressar a uma espéciede tradição oral high-tech graçasa computadores capazes decomunicar através da fala.A tradição oral não tem nada de mau.O problema é quando a tradição não éoral, mas feita apenas de conversas quenunca chegam a ter lugar. Já eliminámosaté os locais onde conversar. Aindahá alguns cafés, mas todos têm televisão,música. E mesmo esses estãoa desaparecer.Nós também iremos provavelmentedesaparecer. Mas se sobrevivermoscomo seres humanos – o que não é seguro– fá-lo-emos com a linguagemescrita, com a linguagem falada e coma linguagem lida. Vamos sobrevivercom os nossos livros. Se desaparecermos,os livros também desaparecerão.E no fundo, isso talvez seja uma coisaóptima para o planeta – para as árvores,para as formigas, para os ursospolares...Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 33


É oriundo de Pittsburgh, Pennsylvania,licenciado pela Universidade deYale, professor na Universidade daFlorida, especialista em contos (a suaprimeira colectânea, “A Dança emFamília”, 1984, fez dele referência incontornável)e autor de ensaios, delivros de viagens e de romances – osmais famosos: “A Linguagem Perdidados Guindastes” (1986), “SentimentosParalelos” (1989), “Martin Bauman.Ou, Uma Presa Segura”, (2000). Em“O Escriturário Indiano” (2007) descrevea peculiar relação entre o grandematemático inglês G.H. Hardy e ogénio indiano Srinivasa Ramanujan.A história começa em Janeiro de 1913em Cambridge, quando Hardy recebeuma estranha carta, de Madras, naÍndia, cheia de equações matemáticasoriginais, na qual Ramanujan lhe pedeconselho. Hardy com a ajuda deJ.E. Littlewood, outra das “mentesbrilhantes” da Universidade, traz oindiano para Cambridge onde, poressa altura, estudavam e/ou leccionavamalguns dos maiores pensadoresda Grã-Bretanha, como o aristocráticofilósofo e matemático BertrandRussell, o historiador Lytton Strachey,o crítico de arte Clive Bell, o escritore politólogo Leonard Woolf e o (também)aristocrático economista JohnMaynard Keynes.Ramanujan tem dificuldades deadaptação a Cambridge, onde tudo,do clima à alimentação, dos usos ecostumes aos rituais, lhe é estranho.O deflagrar da Iª Guerra piora a situaçãoe Ramanujan é obrigado a permanecerem Inglaterra. A difícil, extravagantee terna relação entre estesestranhos espíritos numa época degrandes confrontos e grandes esperançasa nível ideológico e científicoé ficcionalizada por Leavitt, que aproveitapara construir um romance históricoexcepcional.Escolheu Hardy, Littlewood eRamanujan como personagensprincipais porque eram pessoasinteressantes ou porque viveramnum tempo interessante?Não fui eu que escolhi a história, ahistória escolheu-me. Escrevi o romancepara compreender o porquêdo meu interesse por estas pessoas.Creio que foi porque todas elas se sentiamestranhas e inadaptadas. Nenhumadelas pertencia ao mundo em queviveram.Porque é que as suaspersonagens se sentemdiferentes?Hardy tinha consciência de que nãoera oriundo de uma família tão conceituadacomo a dos companheiros,em Cambridge. Littlewood manteveuma relação amorosa com uma mulhercasada, o que o colocou fora daesfera convencional; e Ramanujanpertencia a um mundo e a uma culturadiferentes.A forma como Hardy encaraa Matemática é oposta à de“O meu trabalhoé olhar os sereshumanoscom compaixãoe as sociedades comum olhar crítico”Ramanujan. O primeiro éateu e racionalista; o segundoacredita que as fórmulas lheforam ditadas por uma deusa.Como escritor, este choque foiapelativo?Sim, deu-me a possibilidade de abriruma frincha na questão mais abrangentedo choque entre a civilizaçãooriental e ocidental.Apesar de serem ambos“marginais”, Hardy não ésolidário com Ramanujan.Porquê?Hardy reconhece as semelhanças queexistem entre eles mas é um devotoateísta (perdoem-me o oximoro) peloque não pode aceitar a profunda religiosidadede Ramanujan.Ramanujan é-nos revelado comouma espécie de Caliban com asua “magia” e, também, comouma vítima nas mãos de quempretende “civilizá-lo”. Comouma espécie exótica que excitaa imaginação – é o caso de AliceNeville, a mulher de E.H. Nevilleque acolheu Ramanujan em suacasa, com as suas preocupaçõeserótico-maternais. E até é-nosrevelado como um génioteimoso, infantil e caprichoso.Sim, representa tudo isso para as diversaspessoas que encontra, em Inglaterra.A Universidade de Cambridgefunciona como “personagemextra” com característicasparticulares, uma comunidadecom as suas “leis” e rituais. Éum microcosmos que reflecte aprópria Inglaterra?Cambridge era uma sociedade fechada.Mesmo durante a Guerra, quandoos soldados eram acantonados emCambridge e o Trinity College funcionoucomo hospital militar, os rituaise as praxes continuaram como sempretinham sido, ao longo dos tempos.Para o melhor e para o pior, Cambridgepermaneceu (e permanece) umailha de estabilidade num mundo instável.É claro que a estabilidade tambémpoderá ser comparada a um certoenquistamento.Descreve com vivacidade e faz referências– algumas irónicas – aosmembros do Grupo Bloomsbury(Virginia e Leonard Woolf, LyttonStrachey, John Maynard Keynes,Vanessa e Clive Bell) que, continuaram,em Londres, os encontrosda sociedade secreta “Os Apóstolos”,em Cambridge. O que achamais interessante nas pessoas quepertenciam a estas “irmandades”?A liberdade sexual e de pensamento?A obra? O snobismo?Interessam-me todas essas facetas naspessoas que compunham o GrupoBloomsbury e o de “Os Apóstolos”.Para além de discutirem oque se estava a passar emInglaterra e no mundo, maisdo que trocarem ideias noâmbito da Ciência e da Filosofia,estas pessoas submetiam-se arituais bizarros, tinham quecomer as célebres sardinhasem tostas (a que chamavam“baleias”). Interessou-lhe estemisto de “alta cultura” comcomportamentos “de rapazes”?É extraordinário constatar que, nassuas vidas privadas, estas mulheres ehomens que tiveram um tão grandeimpacto na literatura, nas artes, napolítica e no pensamento, podiam sertão infantis e tontos como qualquerum de nós. Impressionou-me tambémo facto de personificarem impulsostão contrários: uma ética feroz no trabalho,voracidade sexual, snobismo,determinação em mudar o mundo eum certo sentido de divertimento ede jogo.Na sua obra é frequente abordara família. Ao descrever a formacomo Hardy se relaciona coma mãe e com a irmã, pretendeumostrar que esta instituição sealterou profundamente na épocaem que decorre o romance?Não. Recorde-se que, por exemplo,Lytton Strachey fazia parte de umagrande família que era fonte de inspiraçãoe de opressão.Mas para Strachey a família eramos seus amigos do Bloomsbury.Não acha que há uma mudançaem relação ao modelo vitoriano?Sim, é verdade. O que quis dizer foique nenhum deles conseguiu escaparinteiramente à influência de um modelofamiliar, apesar de este ser pernicioso.À chegada a Inglaterra,Ramanujan é mal compreendidoe maltratado mesmo por aquelesque “apenas desejam o seubem”. Poderemos interpretaresta atitude como reflexo dapraxis colonialista?O romance oferece, sem dúvida, umacrítica ao colonialismo. No entanto,convém notar que o próprio Ramanujanse sentia um inadaptado e que,na realidade, investia muita energianessa imagem de si próprio. O seusucesso adveio da sua posição rebelde,do facto de ter sido alguém queconseguiu ver reconhecida a sua tenacidadeapesar da indiferença dasinstituições. Quando ele é finalmenteaclamado pelo poder instituído nãoconsegue conciliar essa aceitação coma identidade que cultivou durantemuito tempo.“O Escriturário Indiano”contém uma descrição cuidadada sociedade britânica nasvésperas e durante a Iª Guerra,mostrando a forma como seencontra dividida entre amodernidade e a tradição.LivrosMatemática em tempA extravagante e terna relação entre estranhos espíritos numa época de confrontos é o tema de “metáfora da liberdade. “O pensamento matemático puro não pode ser controlado por instituições o34 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


ALBERTO PIZZOLI/CORBISteatroHouve quem caracterizasse o romancecomo anti-inglês. Respondo que,como romancista, o meu trabalho éolhar os seres humanos com compaixãoe as sociedades com um olharcrítico.Os sentimentos amorososparecem estar arredados dassuas personagens. No entanto,inventou Thayne, o amante deHardy? Fê-lo para o tornar mais“humano”?Há amor entre Littlewood e a suaamante. E creio que Alice (Neville)amou Ramanujan. Mas em Inglaterra,nessa época, o amor, a sexualidade eo casamento representavam três canaisdistintos nas relações humanas.Só raramente uma pessoa satisfazia aoutra como marido ou mulher, comoamante e como um objecto de fascíniosexual, ao mesmo tempo. BertrandRussell, nos seus últimos anos,tentou resolver esse dilema (sem muitosucesso) com o seu casamentoaberto com Dora Black.Em toda a sua obra o sexo ocupaum lugar importante. Masem “O Escriturário Indiano”está submergido pelos factoshistóricos. Porquê?À medida que envelheço sinto-me cadavez mais atraído pela escrita deromances situados no passado porqueé impossível acompanhar o ritmoacelerado das mudanças que parecemestar a definir o futuro do século XXI.Por exemplo, o derrame de combustívelno Golfo do México é uma catástrofeincomensurável. Mas até queseja possível medir essas consequências,não tenho a pretensão de “compreender”o seu significado. Ao escreversobre o passado, em “O EscriturárioIndiano”, enfrentei o desafiode tentar transmitir a sensação do queera viver num tempo catastrófico,providenciando para que o leitor pudesseter alguma distância, mesmosabendo como a “história” acaba.Quais os escritores que lê commais prazer?Os meus preferidos são Forster, FordMadox Ford, Muriel Spark, Proust,Georges Simenon, Nabokov e GrahamGreene. E Oscar Wilde, naturalmente.Henry James é um escritor que admiromas que não consigo amar. Gostavade Isherwood quando era maisnovo, mas não o releio, ultimamente.Quanto a escritores que têm tratadotemas da História os que mais admirosão Pat Barker, Bruce Duffy, WilliamBoyd, Joanna Scott, Penelope Fitzgeralde José Saramago, especialmente“O Ano da Morte de Ricardo Reis”.Neste romance, a Matemática,como disciplina, surge comometáfora de liberdade de acçãoe de pensamento em tempossombrios. Concorda?Não há dúvida que o pensamento matemáticopuro não pode ser contro-David Leavitt, um admiradordo Saramago de “O Ano da lado ou limitado por instituições ouMorte de Ricardo Reis”regimes.os sombriose “O Escriturário Indiano”. Romance em que a Matemática és ou regimes”, diz-nos David Leavitt. Helena VasconcelosMónica CalleO ginjal de Anton Tchekovou O sonho das cerejas1 a 10 Julho 21h30 (excepto dia 5)11 Julho 16h30 M/12Inserido no Festival Internacional de Teatro de Almadaapresentações no âmbito da redeco-financiado por14 Julho 22h00 M/6www.teatromariamatos.pt© Bruno SimãomúsicaHanne HukkelbergBlood from a stone© Carina Musk-AndersenÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 35


“Sou capaz de qpelos meuAna Teresa Pereira sabe brincar ao toca e foge e tem poderes hipnotizadores. De ondeou é uma forma de enlouquecer? Eis alguns dosOs seus livrossão os seusfilmes, dizAna TeresaPereira: comoescolheractores pararepresentaremos papéis,escolher oguarda-roupa,criar oscenáriosLivrosO objectivo principal desta entrevistaera descobrir as diferenças entreas ilhas do norte da Escócia e a Madeira.As primeiras pertencem aomistério de “Inverness”, o 27º livrode Ana Teresa Pereira. A segunda é ailha onde nasceu e trabalha. Enviámos-lheuma lista de perguntas e recebemosum texto meio hipnótico,meio fascinante. A entrevista que sesegue é um exercício de montagem.“Inverness” é um objecto de seduçãoque leva o leitor à perdição (isto é, aapaixonar-se sem razão aparente):uma actriz (Kate) interpreta o papelda mulher desaparecida de um escritor(Clive), para que este termine oseu livro. No processo, a actriz desaparecee entramos na bruma (ou nonevoeiro), atmosfera de policiais,contos de fada e também de loucura:“todas as frases se tornam misteriosas.Todas as palavras se tornam estranhas.De certa forma, é uma línguadesconhecida”, explica, sem explicar,a autora. Expliquemos nós: o mistérioé a própria construção do livro. O escritordentro do livro, a mulher destee a actriz que faz de conta ser ela,confundem-se, e todos buscam algo,de que são dependentes. E enquantoas personagens se dissolvem no corpodo texto, a leitura materializa aexperiência do fascínio. Ana TeresaPereira diz que para escrever um livroé capaz de usar uma pessoa. O leitorarrisca desgraçar-se nesta escritafatal.Há uma loucura partilhada - ouque transita - entre as quatropersonagens de “Inverness”, aoponto das suas identidades seconfundirem (nomeadamenteentre Clive, Jenny e Kate). Qualé a relação de Ana Teresa como outro lado, ou seja, com aloucura?Interessa-me a alucinação. Todos nóscriamos a nossa realidade. Algumasdas minhas personagens levam issoao extremo. Talvez estejam a enlouquecer,mas essa é a sua realidade. Etorna-se interessante ter duas personagenscom versões da realidade (histórias)que se excluem mutuamente.Uma delas está a alucinar, mas nãosabemos qual.E quanto às personagens? Podeestabelecer a sua genealogia?Há uns dois ou três anos, escrevi osprimeiros capítulos de um livro quese chamava “Inverness”. Começavanum teatro. E a ideia central estavalogo nas primeiras linhas: não há diferençaentre escrever e representar.Algum tempo depois, numa entrevistade Orson Welles, encontrei a mesmaideia: o escritor, como o actor,JOÃO MIGUEL RODRIGUES/ARQUIVOdeve entrar na pele da personagem ecriar a suspensão da incredulidade.A certa altura interessei-me muitopela personagem de Sherlock Holmese os actores que o interpretaram. JeremyBrett era um “becomer”. Umactor que se transforma na sua personagem.Só há alguns meses a nova versãode “Inverness” começou a tomar forma.A história de uma actriz que tomao lugar de outra mulher e se transformanela.As personagens. Nunca sabemosde onde elas vêem. Kate e Clive surgirampela primeira vez em “O Marde Gelo” [2005]. Kate voltou em“Quando Atravessares o Rio” [2007].De certa forma não são personagensmas actores que representam diferentespapéis.E com o teatro?O teatro para mim é o teatro de Londres.Os teatros de Londres. As minhaspersonagens vão ao teatro comovão à igreja de St Martin-in-the-Fieldsassistir a um concerto à luz das velas.São lugares onde se entra religiosamente,lugares onde pode aconteceruma epifania.A Ana Teresa consegue traçaruma linha de demarcação entrea sua identidade, e aspectos delaque possam passar para as suaspersonagens?Acho que não faz sentido separar oslivros da vida, e também não faz sentidoseparar as minhas personagensde mim própria.Quando Kate diz “A primeiracasa de que me lembro ficava noextremo de uma povoação. Nãotinha jardim, nem sequer ummuro. E o vento era constante”,trata-se de uma recordação deum lugar por si conhecido?A primeira casa de que Kate se recorda.Um quadro que vi em Amesterdão.Não me lembro do pintor, Redon,talvez, mas eu já conhecia aquela rua,aquelas casas.“Hoje, amanhã ou dentro deuma semana, é igual para umhabitante das ilhas.” O tempotambém é assim, cerradamentecircular, no Funchal?A observação sobre o tempo, vem deum filme de Michael Powell e EmericPressburger: “I Know Where I’mGoing”.“A menina que acompanhavao pai de uma ilha para aoutra, essa sabia quem era.A adolescente que estudavaem Inverness e tinha grandesplanos, essa também sabia quemera.”. É capaz de reformularestas duas frases, trocando“Inverness” pelo Funchal, e Katepor Ana Teresa?O meu pai era médico, não professor.Mas foi ele que me ensinou a ler. Foiele que me comprou os primeiros livros.Ainda me lembro da altura emque comecei a explorar a sua estantede policiais.Até que ponto é que transpôsrecordações da sua infância paraa sua obra?Nasci numa ilha, cresci numa ilha. Háimagens que fazem parte de mim: aneve a cair no Pico do Areeiro, a estradavelha do Seixal num dia de tempestade,o Paul da Serra coberto por“The Edge ofthe World”, deMichaelPowell36 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


qualquer coisaus livros”vem o fascínio, da Madeira ou do nevoeiro escocês? E o mistério deve ser investigadobrinquedos favoritos de uma escritora. Rui Catalãoum lençol de água; o Paul do Mar queaté há alguns anos era um lugar solitário,“the edge of the world”. O jardimda Quinta do Palheiro, onde sepassam tantas das minhas histórias.Mas também cresci numa casa ondehavia gatos e livros, sobretudo livrosingleses. Há imagens de livrosque são tão fortes como as outras: arapariga que se perde de noite nas“Pursued”, deRaoul Walshruas cheias de nevoeiro e encontrauma loja aberta; a casa junto à charnecae as quatro crianças que brincamno jardim e cantam “Mulberry Bush”.Eu podia passar o resto da vida a escrevera partir dessas duas imagens.“Era como se sempre tivessevivido no meio da chuva, dovento forte que empurrava oscorpos, dos gritos dos pássaros,das ondas que batiam contraas rochas. Uma pequena ilhaque ficava isolada quando omar estava muito agitado”.Se tivesse que fazer uma cenafilmada deste parágrafo que ilhaescolheria como cenário?As ilhas de “Inverness” vêem dos filmesde Michael Powell, em particular“The Edge of the World”. De fotos. De“A Aventura no Mar” de Enid Blyton.As campainhas brancas eazuis, as flores do viburno, asfolhas de gunera, as ervilhasde-cheiro,as plantas de nigela,os fetos aquáticos, os coraçõesflutuantes, a merugem da água;elodea canadensis, utriculariavulgaris, myriophyllumverticalatum, são algumas dasplantas citadas em “Inverness”.Podem encontrar-se na Madeira?As plantas são as dos campos ingleses.Quando escrevi o romance anterior,“O Verão Selvagem dos Teus Olhos”,fiz inúmeras perguntas a um amigomeu, um botânico, porque queriacriar um jardim possível. Queria saberse uma planta podia crescer ao ladode outra, ou se precisavam de terrenosmuito diferentes, se uma plantapodia crescer perto do mar. Aquelejardim é o de Manderley mas é tambémum pouco meu. Tal como Rebecca,sendo a personagem de Daphnedu Maurier, tem as minhas marcas. Ocentro da história, o confronto entreo anjo caído e o anjo bom, estava em“Rebecca”, eu só o trouxe mais paraa superfície.As ilhas de ‘Inverness’ vêemdos filmes de Michael Powell,em particular ‘The Edge ofthe World’. De fotos. De “AAventura no Mar” de EnidBlytonO medo de Jenny {personagemdo livro] vem de uma recordaçãoou daquilo que ela imagina…Robert Mitchum a dizer aTeresa Wright: ‘Imagining?Remembering…’Quando já tinha escrito a primeiraversão de “Inverness”, senti que a segundaparte do livro precisava dedetalhes”.Afinal, Deus (e o diabo) estános detalhes. Tinha de conhecer acasa, tinha de “ver” a casa, tinha dever o jardim, para compreenderJenny. E foi depois de encontrar a casae o jardim que Jenny ganhou vida,na verdade ganhou tanta força quequase fez desaparecer as outras personagens.No capítulo 20 escreve queJenny “era suficientemente fortepara manter aquela situação [terdois amantes] mesmo que elesnão o quisessem. Ela continuavaa controlar o mundo que criara.”Clive, o escritor, diz por seulado: “já não consigo controlaro mundo que criei”. Qual é a suaopção?Não acredito que as personagens sepossam tornar autónomas. O escritortem de controlar o mundo quecriou.Escrever, como ler, deve ser umaexperiência muito forte. Viver com olivro durante meses ou anos, tomarapontamentos. E um dia sentar-se àsecretária e começar a escrevê-lo apartir de um bloco de notas. Quatroou cinco dias a escrever, sem relernada. E o livro está todo naquela primeiraversão. Depois é preciso continuara trabalhá-lo, mas ele já existe.Eu acredito que há um inconscientedo livro. A partir de certa alturacomeço a senti-lo. Uma frase que surgeinesperadamente. Um gesto queganha um novo sentido. Existe algolá no fundo que por vezes vem até àsuperfície.E então todas as frases se tornammisteriosas. Todas as palavras se tornamestranhas.De certa forma, é uma língua desconhecida.E apaixono-me profundamente pelolivro.E depois, na altura de rever, o desencanto,as frases transformam-seem frases, e as palavras em palavras,e as imperfeições tornam-se bem visíveis.Mas depois, quando o livro está terminado,o que fica é o vazio, e sintoa falta das personagens, e da casa, edo colar, e compreendo que não gostomuito de mim mesma. Kate a sairdo teatro vazio. Kate que venderia aalma ao diabo para trabalhar de novo.Pode partilhar um pouco doseu dia-a-dia, na Madeira, a suaforma de trabalhar?A minha forma de trabalhar é cadavez mais cinematográfica. Não só escolheractores para representarem ospapéis, mas escolher o guarda-roupa.Criar os cenários. Estes livros são osmeus filmes, as minhas peças de teatro.E posso trabalhar com JeremyIrons e Gabriel Byrne e Keira Knightley...À minha volta tenho os meus livros,os meus quadros, os meus ícones, euma primeira edição de bolso de umanovela de Truman Capote, e um policialde uma biblioteca itinerante daEscócia, e a caixinha de música... e aminha cadela dorme aos meus pés.Às vezes leio os manuscritos numjardim.Primeiro escolher os actores, reuniralgumas fotografias deles. As fotos deKeira Knightley, o chapéu azul, o vestidode noite verde. As capas dos livrosde Clive, a primeira edição deuma novela de Truman Capote, umavelha edição de um policial de WilliamIrish.Escolher a música: a banda sonorade “La Double Vie de Véronique”.Escolher o perfume da personagem.Das duas personagens.E o colar celta de Kate, o meu colar.E, como Clive, ser o escritor e a personagem,ser aquele que move as marionetase uma marioneta, e às vezesquase ver os fios.O pacto do escritor Clive coma actriz Kate é tremendo. Eladeve representar o papel deJenny (a mulher desaparecida deClive) para o livro ser acabado.Conseguiria trabalhar numasituação semelhante?Tal como Clive, eu sou capaz de qualquercoisa pelos meus livros.Se um escritor está em total sintoniacom o livro, esse é quase um estadode consciência alterada. E o queé mais estranho é que o escritor podeforçar a realidade. Pode invocar assuas personagens (e foi num teatro deLondres que uma das minhas personagensse veio sentar ao meu lado).Pode entrar numa livraria numa cidadedesconhecida e encontrar o livroou a gravura de que precisava. Entrarnuma galeria e encontrar o quadrocerto. Entrar numa loja de ícones,atravessar uma ponte, ver um gatonum barco e sentir que aquilo faz partedo livro.Sou capaz de usar uma pessoa. Oescritor de “Intimações de Morte” éinspirado num escritor real, e lembromede que usei frases dele e fragmentosdas suas cartas.E sou capaz de tudo para defendero livro que estou a escrever do mundoexterior.Mas depois Clive fica perplexopor Kate encarnar Jenny.Como se Jenny já não existisse.A charada entre recordar eimaginar gera então o medoem Kate “como nunca sentiraantes na vida”. De onde vem essemedo? Que vida está em perigo?O medo de Jenny vem de uma recordaçãoou daquilo que ela imagina…não posso responder a isso. RobertMitchum a dizer a Teresa Wright:“Imagining? Remembering…” O filmechama-se “Pursued” [Raoul Walsh,1947]. Os dois actores fizeramoutro filme juntos, “Track of the Cat”[William A. Wellman, 1954]. Lembromede uma frase igualmente enigmática:“A pantera negra é o mundo”.Que lugar é o de Owl Cottage, acasa onde Kate encarna Jenny?Owl Cottage é uma casa de camponum vídeo de jardinagem... Se o romanceanterior me fez mergulhar noslivros de botânica, para “Inverness”tive de aprender algumas coisas dejardinagem, e plantar ervilhas de cheiroe narcisos... E para o livro que estoua escrever tenho de voltar à Irlandae aprender gaélico…Ver crítica de livros págs. 40 e segs.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 37


Lula PenaValeu a pena esperarpor “Troubadour” Pág. 50DeltaTejoQuantice o seuComboBárbarofazemdançar atécair para olado Pág. 47IsmailKadaré“Um Jantar aMais” é um frescohistórico, absurdoe terrífico, sobreos mecanismosdementes daditadura de EnverHoxha.Págs. 42 e segs.


LivrosFicçãoJogos demáscarasUm dos mais importantesescritores europeus esboça,em jeito de parábolagrotesca, uma releitura daHistória contemporânea deuma parte da Europa.José Riço DireitinhoUm Jantar a MaisIsmail Kadaré(trad. Ana Cristina Leonardo)QuetzalmmmmnEm jeito de parábola sobre a tirania,impregnada da sua habitual monotonia trágica,Kadaré faz uma releitura da História da AlbâniaA obra do albanêsIsmail Kadaré (n.1936) – que duranteuma visita a Parisem 1990 pediu asilopolítico àsautoridadesfrancesas – foi jádistinguida comdiversos prémios – entre outros, oMan Booker International Prize(2005) e o Prémio Príncipe dasAstúrias (2009); o seu nome é, desdehá muito, repetidamente referidocomo um candidato ao Nobel.No seu último romance, “UmJantar a Mais”, elege a sua cidadenatal, Gjirokastër – que curiosamenteé também a do “Guia”, o ditadorEnver Hoxha, que reinou durantequatro décadas – como cenário parauma espécie de fresco histórico sobreos mecanismos implacáveis edementes da terrífica ditaduraalbanesa, interrogando dessa forma a“realidade” grotesca dos regimestotalitários.Após a capitulação da Itáliafascista, que dominava a Albâniadesde 1939, o exército alemão invadeo país a 16 de Setembro de 1943. Aconfusão é geral na cidade. Um dosnotáveis de Gjirokastër, o médicoGurameto, a quem chamavam “oGrande” (por oposição a um outromédico com o mesmo nome), pensareconhecer no comandante dasforças nazis – com os blindadosestacionados na praça da Câmara – ocoronel Fritz von Schwabe, um seuantigo colega de estudos em Muniquee à época grande amigo. O militarabraça o médico e este convida-oSOPHIE BASSOULS/SYGMA/ CORBISaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelentepara jantar em sua casa, obedecendoassim às regras tradicionais dahospitalidade albanesa. Entretanto,como represália a um ataque, porparte de um grupo da Resistência,sofrido pelos alemães ao entrarem nacidade, estão a ser presas pessoas demaneira aleatória (uma em cada dezcasas), a fim de serem fuziladas. Ojantar decorre durante toda a noite. Amúsica que sai pelas janelas abertas éouvida na cidade.Durante o repasto, o médicocomeça a pedir ao oficial alemão (quetinha a cara coberta por umamáscara) que liberte os prisioneiros.Os rumores começam a espalhar-sepelas ruas. É o médico um traidor ouum patriota? Qual foi a verdadeirarazão de o dr. Gurameto ter oferecidoum jantar ao comandante invasor?Alguns prisioneiros são libertadosquando já se pensava que estavamalinhados para o fuzilamento (haviaos que diziam que seria na cave dacasa do médico, outros na praçadiante da Câmara). Entre os reféns háum que é especial, Jakoel, umfarmacêutico judeu. Depois dealguma conversa, e da recusa dooficial alemão em o libertar, tambémo judeu (e todos os outros) é postofora das masmorras.Passam-se dez anos, o país estáagora sob os soviéticos e a ditadurade Hoxha. “(...) o famoso jantar comos alemães. Quase já ninguém falavanisso, como se nunca tivesseacontecido.” Mas o regime estalinistalembrava-se. Gjirokastër tinha que seadaptar aos novos tempos dos“amanhãs que cantam”, serdepurada. “Na cidade ainda residiamonze antigos vizires e paxás do ex-Império Otomano, quatro ex-guardasdo harém imperial, três vicedirectoresde bancos ítalo-albaneses,quinze presidentes de câmarareformados dos vários regimes, doisantigos estranguladores profissionaisde príncipes herdeiros (...) eseiscentos pobres de espírito. Erademais para uma cidade medievalque queria tornar-se comunista.”Entretanto, chegam juízes deMoscovo e um investigador da Stasi.O tal jantar tinha estado a serinvestigado, e descobertas ligações auma seita de judeus e de médicosassassinos. Conspiravam para o maisignóbil de todos os crimes, “oassassínio de todos os dirigentescomunistas do mundo, a começarpor Estaline.” Mas há mais: o homemda Stasi tem documentos que provamque à data do jantar o coronel alemãotinha morrido havia quatro mesesnum hospital na Ucrânia; alguém sefizera passar por ele. O dr. Gurametoé acusado de conspirador eencerrado numa masmorra “fechadadesde a época de Ali Paxá deTepelene, e devia o nome à irmãdeste, Shanisha. Nela haviam sidotorturados durante dias e noites osraptores e violadores da jovem.”Ismail Kadaré, que não raramentetoma a antiguidade clássica comomodelo narrativo e social, escreveudesta vez uma récita mordaz e irónicaem que o destino é um jogo demáscaras e de rumores. Em jeito deparábola sobre a tirania, impregnadada sua habitual monotonia trágica,Kadaré faz uma espécie de releiturada História contemporânea daAlbânia (e dos restantes países sob ojugo soviético) à luz das fantásticaslendas balcânicas, tentandoencontrar – se é que tal é possível –algum resquício de sentido para ademência de um Estad totalitário.Urticáriae literaturaHistórias do cinturão bíblico,em clave maior. O’Connorescreve contra o lugarcomumda respeitabilidade.Eduardo PittaO GerânioFlannery O’Connor(Trad. Luís Coimbra)Cavalo de FerrommmmnToda a violênciadispensacoreografia: “omenino Grisby [...]tinha poliomielitee todas as manhãsera levado decadeira de rodaspara a rua onde odeixavam a piscaros olhos contra o sol.” É desta formaaustuciosa que Flannery O’Connor(1925-1964) desmonta as regras danormatividade.Autora de obra breve (doisromances e 31 contos), porémdecisiva, tornou-se o símbolo dogótico sulista. O género inclui autorescomo, entre outros, WilliamFaulkner, Carson McCullers, TrumanCapote e Nathanael West. Para essesescritores, o trauma da derrota não éfigura de retórica. Afinal, menos de50 anos os separam da queda daConfederação (grupo de seis Estadosamericanos que não aceitou aabolição da escravatura: Alabama,Carolina do Sul, Flórida, Geórgia,Louisiana e Mississipi), em 1865.Nenhum teve tempo nem vontadepara esquecer a nódoa que ficou.40 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


Edição“Pina Bausch - SentirMais”, de Claudia Galhós,está desde esta semananas livrarias. É umensaio biográfico dacrítica do “Expresso” queacompanhou o percursode Pina e as suas visitasa Portugal. O livro contamais ainda: a infância dacoreógrafa, as lembrançasda II Guerra Mundial,as influências que NovaIorque teve na futurabailarina, mas tambémas férias em Portugalcom Maria João Seixase Fernando Lopes, ospasseios pelo BairroAlto, a tourada que viuno Campo Pequeno. Semesquecer quando Amáliainsistiu em conhecê-la...LUÍS RAMOSTodos dão voz à herança daquilo aque o jornalista H. L. Menckenchamou de “cinturão bíblico”.Educada no seio de uma famíliatradicional, em ambiente decatolicismo férreo, O’Connor temsido acusada de ilustrar a traçogrosso o grotesco do quotidiano.Seria mais correcto dizer que usou asconvenções sociais fazendo delas oobjecto desse “grotesco”. Porexemplo, quando relaciona o horáriofixo dos pequenos-almoços com aregularização dos transtornosdigestivos.Numa carta enviada à sua amigaBetty Hester, escreveu: “Faço partede uma família em que a irritação é aúnica emoção respeitável que sepode manifestar. Em alguns, istoproduz urticária; noutros, literatura;em mim produziu ambas as coisas.”(cf. Brad Gooch, “Flannery. A Life ofFlannery O’Connor”, 2009)Acrescentar, para quem não saiba,que O’Connor foi, durante os anos dauniversidade, uma cartunista desucesso. Mais tarde, em paralelo coma sua obra de criação, escreveu paracima de uma centena de recensõescríticas a livros de teologia.Este volume reúne dez contosdispersos, dos quais seis constituema tese que apresentou à Universidadedo Iowa, em Junho de 1947, paraobtenção do Master of Fine Arts.Publicados em revistas tão diferentescomo “Accent”, “Esquire” ou “TheCritic”, alguns depois da sua morte,só em 1971 seriam coligidos. No seuconjunto, dão a medida de umaescrita sem complacências com amoral dominante. O racismo é apedra de toque.No tempo literário que foi o seu(anos 1940-60), o racismo era umvalor em si mesmo. O’Connor teve acoragem de o expor como feridaaberta. Não por acaso, os doisprimeiros contos da colectânea têmenfoque no tema.No primeiro, “O Gerânio”, oprotagonista reage com violênciaquando descobre que a filha temcomo vizinhos um casal de negros:“Não foi assim que te criei! [...] Não tecriei para viveres paredes-meias compretos que se acham tão bons comotu, e ainda tens a lata de julgar quealguma vez seria capaz de me metercom gente daquela raça!” O desfechoda intriga tem ressonância operática.“O Gerânio” (1946) é o seu conto maisantigo. Pouco antes de morrer, vítimade lupus, O’Connor reescreveu ahistória, dando-lhe o título de “JuízoFinal” (1964). A reescrita era umaconstante: depois de refeito, o conto“O Coração do Parque” (1949) foiintegrado como trecho de “SangueSábio” (1952), o romance de estreia.No segundo, “O Barbeiro”, umcidadão de índole liberal comete aimprudência de revelar o sentido doseu voto. Vai votar “democrata”.Tanto basta para a interpelaçãoadmonitória: “Você gosta de pretos?”É obrigado a mudar de barbearia.O’Connor não faz rodriguinhos. Odiscurso é seco, isento deexcrescências. A exactidão dos factossobrepõe-se a qualquer juízo devalor. Os contos mais perversos (“AGood Man Is Hard to Find”, 1953, ou“A View of the Woods”, 1964) nãoestão nesta colectânea. Grande partedeles faz parte do volume póstumo“Everything That Rises MustConverge”, publicado em 1965.EstainquietanteestranhezaA experiência de ler“Inverness” não é muitodistante da do idiota que sedeixa arrastar atrás dumadesconhecida na rua.Rui CatalãoInvernessAna Teresa PereiraRelógio d’ Água, 14€mmmmnNa página 103somospresenteados comuma sinopse de“Inverness”: “Ahistória de umaactriz querepresentava opapel de outramulher e se transformava nela.”Juntamente com o tema do livrodentro do livro, o “doppelgänger” éum dos motivos mais banais nahistória da literatura. Está para aarte como o vidro duplo para asjanelas. Ao 27º título de Ana TeresaPereira volta então o duplo, e comele os seus espelhos e reflexos nolago, a história da mulher, do maridoe do amante, a mulher desaparecidado escritor e a actriz que a substitui,o livro dentro do livro, aspersonagens vindas de livrosanteriores e a roupa que é sempre amesma, o tema do nevoeiro, enfim,o estojo completo.Ana Teresa Pereira (n. 1958,Em “Inverness”, por via de atmosferasdevedoras do policial e do fantástico, chegamosao centro nervoso do fascíniopelo conto defadasFunchal) faz piruetas sobre a suaobra como quem se passeia junto àcosta até concluir que ainda seencontra na mesma ilha. Mesmo nointerior do livro, repete-se, repetese.Os capítulos sucedem-se comoondas que teimam em subir osmesmos rochedos. “Às vezes achoque é disso que estou à procuraquando escrevo. As velhasmemórias”, diz o escritor Clive.“Não imaginar, mas recordar...”,responde a actriz Kate. “E aspalavras são só uma forma de chegarlá. Têm de ser simples, e claras, eobedecer a um ritmo próprio, queinclui a repetição.”A autora, ou a personagem doescritor do livro dentro do livro, ouas personagens narcísicas por elerecriadas (a sua mulher; a actriz quea encarna), entidades que o avançodo livro confunde, procuramobsessivamente reviver, ou retomar,qualquer coisa mais ou menostangível que ficou para trás, e que ostornou dependentes.Não há novidade. “Inverness” éum romance de aparências banal eencantador. Seduz como umamulher muito bonita, cujo principaltalento é o modo de insinuarsegredos e mistérios. A técnica dediferença e repetição usada por AnaTeresa Pereira resulta num filtromágico depurador. Ela convocagéneros populares (em particular ashistórias de fantasmas) e procede àdestilação do fascínio por essaliteratura, discorrendo por frases oupalavras (“velha casa inglesa”,“chapéu de feltro azul”, “rosasvermelhas, frescas”, “rosto quaseescondido por um chapéu”, “asmãos geladas nos bolsos dagabardina”, “candeeiros a gaz” oumesmo “Inverness” — a cidadeescocesa junto ao rio Ness, famosopelo seu mítico monstro) que sãosignos, marcos luminosos quehipnotizam.A escrita de Ana Teresa Pereirarevela-se no domínio da sedução, defazer o leitor aguardar pelapromessa de um nada e que a nadavai dar. Ou melhor, vai dar aonevoeiro: “Um dia, eu e um amigoavançámos pelo mar [gelado]dentro... Não havia ninguém porperto para nos impedir... lembro-mede que estava um pouco denevoeiro... e o desafio era dar maisum passo...”Em “Inverness”, por via deatmosferas devedoras do policial edo fantástico, chegamos ao centronervoso do fascínio pelo conto defadas. É o território mental darealidade alada: “Uma manhã, aoacordar, sentira que o mundo estavadiferente. O som do mundo eradiferente. Quando abriu as vidraças,o vento trouxe flocos de neve quederreteram no chão do quarto.”Estes eventos “banais”, do“quotidiano”, são a matéria-primaque Ana Teresa Pereira elege eselecciona para a sua versão gasosa,e abstrata, do conto de fadas.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 41


LivrosaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelenteIsabelCoutinhoNa agenda os dias dasemana foramemendados pelo autorColecçãoJosé Saramagona BNPhttp://purl.pt/13867/1/http://www.bnportugal.pt/CiberescritasPertencem a todosNuma carta de 22 de Março de 1994, JoséSaramago escrevia: “Um dia destes, comvagar, vou dar uma volta aos meusdesordenados arquivos. Há cartas, papéis,manuscritos que não tenho o direito deconservar como coisa minha, pois na verdade pertencema todos.” E pouco depois, entregou à Biblioteca Nacionalde Portugal (BNP) a primeira parte da documentação quefaz agora parte do fundo da BNP e que foi aumentada emanos posteriores. Quem conta esta história é FátimaLopes, do Arquivo de Cultura PortuguesaContemporânea, na nota explicativa que se pode ler nasecção Colecção José Saramago da Biblioteca NacionalDigital, no “site” da BNP. Foi por causa da exposição“José Saramago: a consistência dos sonhos”, que esteveno Palácio Nacional da Ajuda, em 2008, que foi criado oespaço dedicado ao escritor.A BNP considerou que contribuiria,complementarmente, para a divulgação dos métodosde trabalho de José Saramago através da digitalizaçãodos manuscritos de sua autoria existentes no Arquivode Cultura Portuguesa Contemporânea”, escreve, porsua vez, o director da Biblioteca Nacional, Jorge Couto.“Neste conjunto destaca-se ‘O ano da morte de RicardoReis’ (editado em 1984) quer pela importância do livrono contexto da produção literária saramaguiana, querporque os materiais preparatórios, incluindo umaagenda de 1983 adaptada ao ano de 1936, permitemanalisar a metodologia adoptada na elaboração dos seusromances, bem como as correcções e aperfeiçoamentosque introduzia nosdactiloscritos, ao tempo emque ainda utilizava máquinade escrever”, acrescenta. Estaagenda tem uma capa azule foi escrita por Saramagoa tinta azul, com riscados esublinhados a marcador verde. É de 1983 mas os diasda semana foram emendados pelo autor para a fazercorresponder a uma agenda de 1936.Mas avisa a Biblioteca Nacional: “Contém anotaçõesdiárias retiradas da leitura da imprensa da época, sobrea vida quotidiana e política: boletins meteorológicos,vencimentos de escriturários ou contínuos, a falta decarne em Lisboa, nomes de sabonetes e de produtosde cosmética, falecimentos de figuras da culturaportuguesa ou estrangeira, espectáculos de teatro oumusicais, com locais e preços, numerosas referênciasaos principais acontecimentos históricos ocorridosem Portugal, Espanha e também na restante Europadurante o ano de 1936, período em que decorre a acçãodo romance.” No “site” os leitores podem percorrera agenda página a página (em PDF ou JPG). Estão látambém os apontamentos de Saramago para a escrita doromance (onde se percebe como o livro era arquitectadopelo autor), uma “Biografia de Ricardo Reis” (onde se lê:“Não casou. Se teve amantes no Brasil, não as chega a terdepois de regressar a Portugal”); uma “Síntese (absurda,idiota, necessária) das odes de RR” e apontamentoshistóricos de 1936. Está também disponível para consulta“O Embargo I e II” (dactiloscrito com emendas) e “Asopiniões que o D.L. teve / José Saramago”, compilação dealguns dos textos que ao longo de quase dois anos, 1972-73, foram publicados por Saramago, anonimamente, no“Diário de Lisboa”. E ainda o autógrafo assinado “Depoisde Einstein já não há por aí quem ouse”, que terminacom a frase: “Na verdade, ninguém sabe para o quenasce. Nem as pessoas, nem os livros”. Pois é.isabel.coutinho@publico.pt(Ciberescritas já é um blogue http://blogs.publico.pt/ciberescritas)O encanto é a possívelmanifestação, em actos ou gestos, doque entendemos por beleza. O leitornão é cúmplice, ou testemunha, dasmanobras de sedução de Ana TeresaPereira. A escritora usa o leitor comoalvo do seu charme. A experiência deler “Inverness” não é muito distantedo idiota que se deixa arrastar atrásduma desconhecida na rua.O capítulo 15 inicia-se assim:“Naquela manhã, [Kate] acordoucom o pressentimento de que Jennyia voltar.” À noite, numa festa emque deve fazer-se passar por Jennyem frente aos amigos dela, Kate usao vestido verde de Jenny. Antes, nocapítulo 7, Clive conta a Kate aprimeira vez em que viu Jenny:“Jenny tinha o cabelo preso na nucae um vestido verde. Ela gosta muitode verde. Ali, debaixo dos lilases,parecia saída de um poema de umescritor russo, parecia umarecordação de infância.” O capítulo15 termina com uma frase de Clive:“Não tenhas medo, Jenny nunca vaivoltar”; mas no capítulo 16, depoisde duas páginas de transição, emque é apenas uma “rapariga”, Kate,a actriz, desaparece para dar lugar aJenny, mulher de Clive. O mistérioda transformação da actriz na suapersonagem tem o seu quê decharada ao estilo de Robbe-Grillet.Perseguimos, seduzidos, o enredo eas personagens como uma criança acontar as pintas de uma girafa numaglomerado de nuvens altas.O livro devolve-nos a suaconstrução, ou melhor, os seustruques e jogos de fascínio. A“inquietante estranheza dashistórias” é também a forma comoAna Teresa Pereira traduz o seuolhar, estampado numa trama defalsos enredos. Esse olhar é de umacandura desarmante quandoenumera as plantas do lago, as floresque se encontram num canteiro,quando nos fala do “estalar de umramo debaixo de um pé” ou de como“é possível transformar um relvadonum campo florido. Irá atrairmilhares de insectos, pássaros eborboletas. Mas só o podemos apararduas vezes por ano, para que as florestenham tempo de dar sementes”.A fascinante “banalidadedestahistória está em ser uma colecção,maravilhosamente disposta, deréplicas esquecidas dos originais.Como se o passado da literatura, ouda própria obra da autora, nãotivessem outra materialidade paraalém de figuras deambulando nonevoeiro. Ana Teresa Pereira escrevecomo Jenny faz amor (“tinha aexperiência de uma mulher quecomeçou a fazer amor aos catorzeou quinze anos. O sexo nela era tãonatural… como comer, ou andar, oudizer uma oração à noite”). E numlivro cujo instrumento sensorial é avisão, é divertido notar que oamante de Jenny descobre o disfarcede Kate pelo cheiro. Apesar deusarem o mesmo perfume.Não é assim tão frequentetermos cronistas cultíssimose praticantes do bom portuguêsCrónicasinactuaisTextos em bom português,contra a amnésia cultural.Pedro MexiaO Eixo da BússolaMário CláudioVerbommmnn“Estava Junot, porentão, em Lisboa,mas a verdade éque, antes disso,muita coisa sepassara. Andarapulando aquelamenina intensa, deuma raça que seestabelecera entre a fidalga e aciganita, pelo meio de sebes e sebesde murta, declarando seu nome, atorto e a direito, Julianna deOyenhausen e Almeida, como setanto lhe conferisse desculpa paramaiores tropelias. Permitem-lhe quecavalgue um pónei branco, quandomuito bem lhe apetece, que seempanturre de coscorões e desorvetes, enchendo de migalhas enódoas o peito pregueado do vestidode cetim. Encontrara-lhe muitagraça, certa vez, a rainha Dona MariaI, ao vê-la, tão ladina, nas salas doPalácio de Queluz, desejando sabertudo, com esperteza que denunciavaum génio preciosíssimo, posto quemedianamente irritadiço. Consentiraseo incómodo a soberana, até, deordenar que trouxessem umbandolim, incitando a pequerrucha aque dançasse, ao som de uma certamodinha, o que ela executou, dandomostras de extraordinária apuro,NELSON GARRIDOlevantando a saia rendada, com opolegar e o indicador” (págs. 51-52)Esta longa citação serve, melhordo qualquer resumo ou paráfrase,para caracterizar “O Eixo daBússola”. Sendo um livro decrónicas, publicadas em jornais erevistas (sobretudo o “Expresso” e a“Ler”), esta colectânea de textos deMário Cláudio ignora quase porcompleto a chamada “actualidade” ea linguagem imediatista, e preferehomenagens, evocações biográficasou voos ficcionais, numa prosainvariavelmente clássica, luxuosa,impecável. É verdade que uma ououtra vez ele se detém a observar asmisérias do quotidiano, dosaudosismo piegas mascompreensível das “reuniões decurso” às sexagenárias em férias,anafadas, de balandraus,pretensiosas, oscilando entreModignani e Yourcenar.Porém, os melhores textos são detema cultural, e investem contra aamnésia e o analfabetismo. Além deelogios a amigos, Cláudio preocupaseem resgatar escritores que estãono cânone mas que já poucos lêem(como Aquilino) ou outros que nemno cânone estão (como CarlosQueirós). Dando provas de aberturade espírito, até Augusto de Castromerece palavras amáveis. Ascrónicas mais memoráveis são noentanto sobre figuras de quemninguém se lembra de todo, como oirmão das irmãs Brontë, Branwell ouCharles Augustus Howell, oportuguês companheiro dos prérafaelitas,que Hélia Correiarecentemente também recuperou.E depois há Proust, e a confrariados “proustofílicos” a que Cláudiopertence: “O adepto rumaráprimeiro a Illiers, buscando afabulosa Combray da “madeleine”imaterial. Aí, nos corredores deChartres, visitará aquela moradia(...) situada na Rue du Saint-Esprit, ea que corresponde o número 4. Delapromanam os dois caminhos daalma, o de Guermantes e o deMéseglise, já não na materialidadegeográfica do lugar, mas naarquitectura mental do devoto doescritor. Subirá à alcova, admirará acama de cortinados, reparará noaçucareiro e no jarro da água,relanceará o fogão e o relógio deredoma, investigará as gravuras deJesus Cristo e do Príncipe EugénioNapoleão “págs.116-117). Não admiraeste fascínio pelo autor da“Recherche”, tal é o entusiasmo doescritor português por estatuetas,móveis, tecidos, adereços, indícios ememórias.É verdade que várias crónicas sãoum pouco tépidas, ou estão emcódigo, mas não é assim tãofrequente termos cronistascultíssimos e praticantes do bomportuguês. Além de que, nestestempos de indigência, a“inactualidade” é talvez o melhorremédio.42 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


QUA 07 JUL21:00 PRAÇA | € 101ª PARTEEL GRAN SILENCIO2ª PARTECYRO BAPTISTAHá uma aura de diversão sempre que CyroBaptista sobe ao palco e o projecto BeatThe Donkey não é excepção. Este ensemblede tórridos ritmos world reúne no mesmopalco percussão, sapateado, artes marciais,samba, jazz, rock e funk num espectáculo anão perder.Do México, os El Gran Silencio aliam otradicional ao rock/rap crossover cominfluências dub, construindo um espectáculoenérgico e contagiante.JANTAR+CONCERTO € 25APOIOPATROCINADORMECENAS CASA DA MÚSICAAPOIO INSTITUCIONALMECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICAVERÃO NA CASAPATROCINADOR VERÃO NA CASASEJA UM DOS PRIMEIROS A APRESENTAR HOJE ESTE JORNAL NA CASA DA MÚSICA E GANHE UM CONVITE DUPLOPARA O CONCERTO DE CYRO BAPTISTA | EL GRAN SILENCIO. OFERTA LIMITADA AOS PRIMEIROS 10 LEITORES.DA CURTA À LONGA:LONGAS METRAGENSSam Taylor-WoodNowhere BoyKattel QuillevéreUn Poison ViolentLuc MoulletLa Terre de la FolieSharunas BartasEastern DriftApichatpong WeerasethakulUncle Boonme, Who can recall this past lives(Palma de Ouro, Cannes 2010).WWW.NOTYPE.PT ©2010INSTALAÇÕESMarco Martins, Filipa César, André Principe,Ho Tzu Nyen, Salla Tykkä, Ken Jacobs,Ariane Michel.WWW.CURTAS.PTCompetições de Curtas/ Programas Especiais deFilmes/ Concertos/ Exposições/ Festas/ Workshopse Debates/ Curtinhas (filmes e actividades paracrianças) +info: www.curtas.pt/festival


DançaDançaA forçado colectivoEmmanuelle Huynh chegaà Gulbenkian e a Serralvescom uma peça onde ocolectivo se define pelas suaslimitações e, através delas,encontra um espaço para apartilha.Tiago Bartolomeu CostaCriblesDe Iannis Xenakis (música).Coreografia: Emmanuelle Huynh.Bailarino:Jérôme Andrieu, YaïrBarelli, Nuno Bizarro, YoannDemichelis, Marlène MonteiroFreitas, Madeleine Fournier, KeremGelebek, Lénio Kaklea, AlineLandreau, Ayse Orhon, BettyTchomanga.Porto. Museu de Serralves. Rua Dom João de Castro,210. Dia 07/07. 4ª às 22h. Tel.: 226156500. 10€(sujeito a descontos).No Auditório. Duração: 60m.Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.Avenida de Berna, 45A. Dia 03/07. Sáb. às 21h30.Tel.: 217823700. 10€.No Grande Auditório. Duração:60m. Lenda Coreográfica para 1000bailarinos.Há, pelo menos, duas linhasconvergentes que atravessam a peçade Emmanuelle Huynh e quejustificarão a sua presença numprograma como o “Próximo Futuro”,TIAGO BARTOLOMEU COSTAcoordenado por António PintoRibeiro na Gulbenkian, onde seapresenta amanhã (sendo tambémmostrada dia 7 no Auditório deSerralves). Uma, que é intrínseca aoseu trabalho, atento a uma pesquisaaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelentesobre a composição e combinando aambiguidade inerente a um corpocontemporâneo que procura umasegunda camada na reinterpretaçãodos cânones clássicos. Huynh,nascida em 1963, é das primeirasHuyhn fala mesmo de uma “rememoraçãoda dança”, onde o colectivo (e o círculo)possibilitam a “criação de arquivos de memória”herdeiras de uma desconstruçãomaterial do movimento surgido como investimento em força na dançafrancesa nos anos 80 (e não haveriadança francesa, nem os seus émuloseuropeus, se não fosse a escolhaAgendaDançaContinuamAntonio & MiguelCoreografia: Antonio Tagliarini,Miguel Pereira. Bailarino:MiguelPereira, Antonio Tagliarini.Lisboa. Culturgest. Rua Arco do Cego - Edifício daCGD. Até 02/07. 5ª e 6ª às 21h30. Tel.: 217905155.15€ (c/ descontos). M/12.Escravo Doutros.IICoreografia: Luís Castro.Lisboa. Galeria Monumental. Campo Mártires daPátria, 101. Até 31/07. 6ª, Sáb. e Dom. às 22h00.Tel.: 213533848. 10€ e 15€. Reservas: 914150935/reservas@karnart.org.Teatro27º Festival de AlmadaLoveDe Laura Munson. Encenação:Tatiana Frolova. Com DmitriBotcharov, Elena Bessonova,Vladimir Dmitriev.Almada. Fórum Municipal Romeu Correia. Pç.Liberdade. Dia 08/07. 5ª às 19h. Tel.: 212724928.O AvarentoDe Molière. Companhia: Ensemble -Sociedade de Actores. Encenação:Rogério de Carvalho. Com JorgePinto, Emília Silvestre, Miguel Eloy,Pedro Galiza, Vânia Mendes, ClaraNogueira, entre outros.Almada. Palco Grande - Escola D. António da Costa.Av. Professor Egas Moniz. Dia 08/07. 5ª às 22h. Tel.:212745294.Um Dia Dancei só Dancei um DiaDe Katrin Kaasa, Teresa Tavares,Daniel Gorjão. Encenação: DanielGorjão. Com Katrin Kaasa, TeresaTavares.Almada. Teatro Municipal de Almada. Av. ProfessorEgas Moniz. De 07/07 a 18/07. 4ª, 5ª e 6ª às 19h. Sáb.às 16h. Dom. às 15h. 4ª, 5ª, 6ª, Sáb. e Dom. às 21h30(de 14 a 18/07). Tel.: 212739360. 10€ e 6€ (comdesconto).Era Uma Vez um Crocodilo VerdeEncenação: Coralia Rodríguez. ComCoralia Rodríguez.Almada. Palco Grande - Escola D. António da Costa.Av. Professor Egas Moniz. Dia 07/07. 4ª às 22h. Tel.:212745294. 8€ e 5€ (com desconto).Todos os Grandes GovernosEvitaram o Teatro ÍntimoDe Daniel Veronese. Companhia:Teatro Metropolitan. Encenação:Daniel Veronese. Com Claudio daPassano, Elvira (Pipi), entre outros.Almada. Palco Grande - Escola D. António da Costa.Av. Professor Egas Moniz. Dia 06/07. 3ª às 22h. Tel.:212745294. 15€ e 8€ (com desconto).Dança da MorteDe Ana Zamora. Encenação: AnaZamora. Com Luis Miguel Cintra,Sofia Marques, Elena Rayos.Lisboa. Teatro da Cornucópia - Bairro Alto. R.Tenente Raúl Cascais 1A. De 06/07 a 13/07. 2ª, 3ª,4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às 21h30. Dom. às 17h. Tel.:213961515. 15€ e 7,5€ (com desconto).Jogo LimpoDe François Bégaudeau (a partir de).Encenação: Américo Silva. ComAmérico Silva.Lisboa. Instituto Franco-Português. Av. Luís Bívar,91. De 06/07 a 17/07. 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às21h30 (excepto no dia 14/07). Tel.: 213111400.10€ e 7€ (com desconto).A MúsicaDe Solveig Nordlund. Encenação:Solveig Nordlund. Com Carla Maciel,Manuel Wiborg.Almada. Fórum Municipal Romeu Correia. Pç.Liberdade. De 05/07 a 06/07. 2ª e 3ª às 19h. Tel.:212724928. 13€ e 7€ (com desconto).Diálogo de um Cão com o SeuDono Sobre a Necessidade deMorder os Seus AmigosDe Jean-Marie Piemme. Companhia:Théâtre Nacional de la CommunautéFrançaise. Encenação: PhilippeSireuil. Com Philippe Jeusette,44 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


“Todos os que Falam”: Beckett por Nuno CarinhasTER 27 JUL22:00 PRAÇA | € 20política sustentada numa tríade tãoinevitável quanto evidente:formação, programação,internacionalização - Huynh temuma escola e um centro coreográficoem Angers). Para mais, aliando umapesquisa intensa no Oriente,também ele em profundaregeneração, insistiu sempre numadança, e num discurso, que fazinversão de marcha em relação auma evolução feita em nomesimplificado da apresentação, esegue em direcção a uma releituradas pesquisas coreográficas denomes das décadas de 60 e 70, comoTrisha Brown, Steve Paxton,Deborah Hay ou Simone Forti.Não será, por isso, estranho quedeste emaranhado referencial surjaoutra linha, partilhada por outrosseus contemporâneos como MegStuart, Mathilde Monnier, AnneCollod, Alain Buffard ou Loic Touzé,onde aquilo que é a matéria-base dacoreografia, o movimento queproduz uma imagem e, porconsequência, um sentido quereenvia para um outro movimento,surja como ponto de partida parauma peça como “Cribles”, onde é aideia de grupo, e de ritual, que estápresente.Tal como Mathilde Monnier fezcom o uníssono, em “Tempo 76”(Culturgest, 2008), Meg Stuart como corpo perante o ridículo em “It’snot funny” (CCB, 2007), Loic Touzécom o colectivo enquanto massa nasua relação de dependência em “9”(Gulbenkian, 2007) ou Anne Collodcom a resolução de problemas emcena em “Parades & Changes,replay” (Culturgest e Serralves,2009), também agora Huynhtransporta a ideia canónica decolectivo, ampliando essa mutaçãoque vai da tribo ao corpo de baile edeste para uma desierarquizaçãoque reflicta sobre a errânciacaracterística das sociedadescontemporâneas.E é aqui, neste ponto queintensifica a ponte entre a criaçãocontemporânea e o contexto onde seinsere, que percebemos melhorporque é que os corpos em palcorepresentam, ou apresentam, umideal de comunidade (agora já semheróis, como tinha sido em“Heroes”, mostrado em Serralves2005 e Culturgest 2006), mas ondebuscam uma identidade não apenaspara o indivíduo mas, e sobretudo,para o corpo que transporta esseindivíduo. E, por consequência, sejustificará a sua presença no“Próximo Futuro”, plataforma dereflexão sobre as possibilidades dediálogo numa realidade que de tantoquerer ser multicultural se tornouacultural (ou mesmo em Serralvesque aposta numa reflexão menosimediatista do movimento).Huyhn fala mesmo de uma“rememoração da dança”, onde ocolectivo (e o círculo) possibilitam a“criação de arquivos de memória”.Ou seja, explorando a ideia de que ocolectivo, e a comunidade, surgenão da circunstância de encontro deindivíduos, e energias, num mesmoespaço, mas do modo como essesindivíduos, através dos seus corpos,reagem, activam ou propõemmodelos de relacionamento maisexclusivos no que essa exclusãoadmite de mais clara identificaçãodos seus limites e, logicamente, dassuas possibilidades reais de diálogo.APOIOPATROCINADORVERÃO NA CASAA electrónica toma conta daPraça com o concerto de Tricky.Músico de referência do trip––hop inglês, esteve ligado aoperíodo inicial da carreira dosMassive Attack. A sua carreiraexplodiu em 1995 com o premiadoMaxinquaye, primeiro álbum asolo recentemente reeditado.JANTAR+CONCERTO € 35MECENAS CASA DA MÚSICAAPOIO INSTITUCIONALMECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICAPATROCINADOR VERÃO NA CASASEJA UM DOS PRIMEIROS A APRESENTAR HOJE ESTE JORNAL NA CASA DA MÚSICA E GANHE UM CONVITE DUPLOPARA O CONCERTO DE TRICKY. OFERTA LIMITADA AOS PRIMEIROS 10 LEITORES.SEX 09 JUL21:00 PRAÇA | €10ONP FORA DE SÉRIEORQUESTRA NACIONAL DO PORTOFabrice Schillaci.Almada. Teatro Municipal de Almada. Av. ProfessorEgas Moniz. Dia 05/07. 2ª às 21h30. Tel.: 212739360.15€ e 10€ (com desconto).Um Quarto de Meias-IrmãsDe Nuno Milagre. Encenação:Gonçalo Amorim. Com Carla Galvão,Cristina Alfaiate.Lisboa. Primeiros Sintomas. Rua da Ribeira Nova,44. Dia 04/07. Dom. às 21h e 22h30.Uma Lição dos AloésEncenação: José Peixoto. Com DanielMartinho, Elsa Valentim, Jorge Silva.Almada. Palco Grande - Escola D. António da Costa.Av. Professor Egas Moniz. Dia 04/07. Dom. às 22h.Tel.: 212745294. 15€ e 8€ (com desconto).O Ginjal ou os Sonhos das CerejasDe Mónica Calle. Com Ana Ribeiro,David Pereira Bastos, HugoBettencourt, José Miguel Vitorino,Luís Fonseca, Miguel Moreira, MónicaCalle, Mónica Garnel, Rita Só, RuteCardoso, Tiago Barbosa, Tiago Vieira.Lisboa. Teatro Municipal Maria Matos. Av. FreiMiguel Contreiras, 52. Até 11/07. 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e Sáb.às 21h30. Dom. às 16h30. Tel.: 218438801.12€ (sujeitos a descontos).Sonho de Uma Noite de VerãoDe William Shakespeare (a partir de),Henry Purcell (a partir de). ComAndré E. Teodósio, Cláudia Jardim,Diogo Bento, Joana Barros, JoanaManuel, Miguel Vieira, Patrícia daSilva, Rodolfo Teixeira, entre outros.Lisboa. Centro Cultural de Belém. Praça doImpério. De 03/07 a 04/07. Sáb. e Dom. às 22h.Tel.: 213612400. 13€.O Quê?!Encenação: João Lagarto. ComAfonso Lagarto, João Lagarto, JoanaBarros, Tiago Graça.Caldas da Rainha. Centro Cultural e Congressosdas Caldas da Rainha. Rua Doutor Leonel SottoMayor. Dia 03/07. Sáb. às 21h30. Tel.: 262889650.10€ (sujeitos a descontos).ContinuamTodos os que FalamDe Samuel Beckett. Encenação:Nuno Carinhas. Com AlexandraGabriel, Emília Silvestre, JoãoCardoso, Rosa Quiroga.Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II. Pç. D. PedroIV. Até 04/07. 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às 21h30. Dom. às16h00. Tel.: 213250835.EncontroDe Ricardo Aibéo. Encenação:Ricardo Aibéo. Com Dinis Gomes,Duarte Guimarães.Lisboa. Primeiros Sintomas. R. Ribeira Nova, 44.Até 04/07. 4ª, 5ª, 6ª, Sáb. e Dom. às 21h00 e 22h30.Curtas 2010 - II Mostra de Teatro dePeças de Curta Duração.Bernardo Sassetti Quatro Movimentos Soltospara vibrafone, marimba, piano e orquestraMaurice Jarre Suite de Lawrence of ArábiaFrederico de Freitas Suite AfricanaJules Massenet Meditation (da ópera Thaïs)John Barry tema principal de Out of AfricaManuel de Falla Suite nº 2 de El Sombrero deTres PicosBernardo Sassetti tornou-se conhecido nouniverso do jazz, mas não encontra limites paraaa expressão da sua arte. Prova disso é a obra emprograma que também conta com o percussionistaJean-François Lezé, intérprete de eleiçãodesta obra de Sassetti.APOIOPATROCINADORVERÃO NA CASAMECENAS ORQUESTRANACIONAL DO PORTOMECENAS CASA DA MÚSICAAPOIO INSTITUCIONALMECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICAPATROCINADOR VERÃO NA CASASEJA UM DOS PRIMEIROS A APRESENTAR HOJE ESTE JORNAL NA CASA DA MÚSICA E GANHE UM CONVITE DUPLOPARA O CONCERTO ORQUESTRA AO LUAR. OFERTA LIMITADA AOS PRIMEIROS 10 LEITORES.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 45


ExposiçõesDAVID LUCIANORigo: uma instalação dominadapor um submarino nuclear feitoem taipa por uma comunidadeíndia brasileiraA colecçãoBerardo ea condiçãosocialOs artistas e o mundo emmudança. Luísa Soares deOliveiraTudo O Que é Sólido Dissolve-Seno Ar: O Social na ColecçãoBerardoLisboa. Museu Colecção Berardo. Praça do Império- Centro Cultural de Belém. Tel.: 213612878. Até12/09. Sáb. das 10h às 22h (última admissão às21h30). 2ª a 6ª e Dom. das 10h às 19h (últimaadmissão às 18h30).Pintura, Outros.mmmmmPartindo de uma frase do ManifestoComunista – “Tudo o que era sólidoe estável dissolve-se no ar”-, MiguelAmado concretiza nesta exposiçãouma montagem de obrasseleccionadas da colecção Berardo,a que se juntam outras vindas deinstituições e galerias portuguesas eestrangeiras, sob o tema daconsciência social. A frase, quealude à evolução dialéctica daprópria sociedade, permite agruparum conjunto diversificado deartistas e obras que enchem quasepor completo o piso inferior domuseu. Da Pop ao Minimalismo, doNeorrealismo aos muralistasmexicanos ou à arte dos temposmais recentes, da fotografia alemãda década de 80 à “Lisboa CidadeTriste e Alegre” de Costa Martins eVictor Palla, trata-se aqui, emprimeiro lugar, de um reencontrocom peças que nos habituámos aencontrar em todas as apresentaçõesdesta colecção, mesmo quando oconceito da exposição nos leva aconsiderá-las sob nova perspectiva;e, em segundo lugar, da descobertade autores e obras que ascompletam, enriquecem,DAVID LUCIANOquestionam – quer setrate de nomes consagrados(Cavalcanti, Portinari), quer deartistas mais jovens que o talento docomissário conseguiu descobrir eagregar ao núcleo inicial.E é obviamente pela via dasgerações mais recentes, que juntama qualidade à surpresa dadescoberta, que encontramos asobras mais marcantes da exposição.Cite-se o painel de ilustrações darevista Combate, por exemplo, ou apeça de Carla Cruz, mas sobretudo aextraordinária sala dedicada à peçade Rigo: uma instalação dominadapor um submarino nuclear feito emtaipa por uma comunidade índiabrasileira, que convive com umarsenal de mísseis em cestaria e umatripulação sumariamente talhada emmadeira. Poderíamos tambémmencionar o colectivo portuguêsSparring Partners, que se apropriade técnicas e formas historicamenteanteriores para as actualizar comconceitos actuais – por exemplo, naequiparação feita entre a imagemmediática de Baader e a de EvaHesse -, correctamente dispostoquase ao lado do célebre “Pioneiro”de Rodchenko. E também, éimportante acentuá-lo, a presençasistemática de nomes e obras dasperiferias dos centros artísticos:Colômbia, Bolívia, Polónia, entreoutros. Dos portugueses, destacamseos trabalhos de João Louro, deÂngela Ferreira e de Gonçalo Pena.À primeira vista, a exposiçãoparece contestar a premissa pósmodernade que as vanguardas seevaporaram definitivamente. Aocolocar uma frase de Marx e Engelsem exerga, ao destacar o primado dadinâmica como condição da própriaexistência social, as obras que aquiencontramos tendem a cumprir umapromessa que parecia adormecidadesde os tempos da modernidade: ade traduzir, sob formas semprerenovadas, a inquietação do artistaperante as condições da sociedadeem que vive. Ora, mesmo se essasformas pelo menos não seevaporaram ainda, o que todos estesartistas demonstram é que aconsciência do tempo presente e dascondições em que nele vivemoscontinua a ser um facto na arte dosdias de hoje. Há, sobretudo nosartistas mais novos, uma inquietaçãomuito nítida sobre o papel do artistana sociedade. Como o comissáriobem o diz, se este tipo de práticasnunca desapareceu por completo,arriscou-se a cair no esquecimentopor culpa de leituras mais sectáriasda historiografia da arte maisrecente. Esperemos que estaexposição seja o começo de umolhar sobre a produção artística quese deseja cada vez mais e maisatento e objectivo.aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelentePeça de Ângela Ferreira em “Tudo o que é Sólido...”AgendaInauguramMarlene Dumas: Contra o MuroDe Marlene Dumas.Porto. Museu de Serralves. Rua Dom João de Castro,210. Tel.: 226156500. Até 10/10. 2ª a 6ª das 10h às17h. Sáb., Dom. e Feriados das 10h às 20h. Inaugura2/7 às 22h.Pintura.O Jardim das MaravilhasDe Joan Miró.Oeiras. Centro Cultural Palácio do Egipto. R. ÁlvaroAntónio dos Santos - Vila de Oeiras. Tel.:915439065. Até 26/09. 3ª a Dom. das 11h30 às 18h.Inaugura 2/7 às 18h.Pintura.Fragmentos do Meu MarDe João Gaspar.Lisboa. Galeria Arte Periférica. Praça do Império -Centro Cultural de Belém, Loja 3. Tel.: 213617100.De 03/07 a 29/07. 2ª a Dom. das 10h às 20h.Inaugura 3/7 às 15h30.Pintura.A Voz do MarDe Pancho Guedes.Sagres. Fortaleza de Sagres. Tel.: 282620140. De03/07 a 30/11. 2ª a Dom. das 09h30 às 20h.Allgarve’10.Instalação.Reina o CaosDe Joana Paraíso.Lisboa. Espaço Round The Corner - Porta 9F/9G. R.Nova da Trindade - Teatro da Trindade. Tel.:213420000. De 08/07 a 17/07. 2ª a Dom. das 16h às20h.Escultura.ArenaDe Carla Filipe, João Tengarrinha,Paulo Brighenti.Lisboa. Fundação Carmona e Costa. Ed de Espanha- R. Soeiro Pereira Gomes L1 - 6º A/C/D. Tel.:217803003. De 06/07 a 16/10. 4ª a Sáb. das 15h às20h. Ciclo de Conversas: Filipa Oliveira 26/9 às 17h;José Carlos Pereira 2/10 às 17h; George Stolz 16/10 às17h. Inaugura 6/7 às 18h30.Desenho, Outros.ContinuamPOVOpeoplepPaula RegoDe Almada Negreiros, Paula Rego,Fernando Lemos, Vieira da Silva,Rafael Bordalo Pinheiro, NikiasSkapinakis, Júlio Pomar, AmadeoSouza-Cardozo, José Malhoa, PauloCatrica, Nuno Cera, JoanaVasconcelos, Noé Sendas, EduardoNery, entre outros.Lisboa. Museu da Electricidade. Avenida Brasília -Ed. Central Tejo. Tel.: 210028120. Até 19/09. Sáb.das 10h às 20h. 2ª a 6ª e Dom. das 10h às 18h.Documental, Pintura, Fotografia,Vídeo, Outros.Mais Que a VidaDe Vasco Araújo, Javier Téllez.Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.Avenida de Berna, 45A. Tel.: 217823700. Até 06/09.3ª a Dom. das 10h às 18h.Vídeo, Fotografia, Instalação,Outros.Liberdade Guiando o PovoLiberty Leading The People(Próximo Futuro/Next Future)De Barthélemy Toguo.Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.Avenida de Berna, 45A. Tel.: 217823700. Até 11/07.Programa Gulbenkian Próximo Futuro/NextFuture.Instalação.Sem Limites - Nadir AfonsoDe Nadir Afonso.Lisboa. MNAC - Museu do Chiado. R. Serpa Pinto, 4.Tel.: 213432148. Até 03/10. 3ª a Dom. das 10h às 18h.Pintura.O Brilhante Futuro da Cana-de-Açúcar (Próximo FuturoNext Future)De Kilian Glasner.Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.Avenida de Berna, 45A. Tel.: 217823700. Até 11/07.No Parque de estacionamento da Fundação.Programa Gulbenkian Próximo Futuro/NextFuture.Desenho, Outros.Der Geist Unserer ZeitDe Fernando Brito.Guimarães. Centro Cultural Vila Flor. Avenida D.Afonso Henriques, 701. T. 253424700. Até 27/6. 3ª asáb das 10h às 12h30 e das 14h às 19h. Domingo eferiados das 14h às 19h.Escultura, Pintura, Outros.Uma Casa e Outros Sítios MaisDe Pedro Cabrita Reis.Lisboa. Caroline Pagès Gallery. Rua TenenteFerreira Durão, 12 - 1º Dto. T. 213873376. Até 31/7. 2ªa sáb. 15h às 20h.Desenho, Fotografia.Uma Casa e Outros Sítios MaisDe Pedro Cabrita Reis.Lisboa. Galeria Miguel Nabinho - Lisboa 20. RuaTenente Ferreira Durão, 18B. T. 213830834. Até 31/7.3ª a 6ª das 11h às 20h. Sáb. das 12h às 20h.Desenho, Fotografia.Pra Quem Mora Lá, O Céu é Lá -OSGEMEOSDe Gustavo Pandolfo, OtávioPandolfo (OSGEMEOS).Lisboa. Museu Colecção Berardo. Praça do Império- Centro Cultural de Belém. Tel.: 213612878. Até19/09. Sáb. das 10h às 22h (última admissão às21h30). 2ª a 6ª, Dom. e Feriados das 10h às 19h(última admissão às 18h30).Pintura, Outros.46 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


ConcertosDee Dee Bridgewatere Charles LloydO Combo Barbaro é um conjunto que Quantic organizou a partir das suas viagens à América LatinaJazzDu Arte JazzHomenagem a Billie Holiday,o fabuloso quarteto deCharles Lloyd e três grandesnomes do jazz moderno,marcam esta edição doEstoril Jazz. RodrigoAmadoXXIX Estoril Jazz - Jazz Num Diade Verão 2010Estoril. Casino. Pç. José Teodoro dos Santos. Tel.:214667700. 30€ (dia). Assinatura: 90€.No D.Lounge. Informações: 214827862. Todos os concertosàs 22h00, excepto o de dia 4, às 19h00. Bilhetes: 30€Arranca hoja a 29ª edição do EstorilJazz, este ano a decorrer no AuditórioDu Arte Lounge do Casino do Estoril,com o quarteto da pianista canadianaRenee Rosnes, presença que não énova em Portugal. Vencedora devários Juno Awards, tocou ao lado denomes como Joe Henderson, WayneShorter ou Bobby Hutcherson. A seulado estará uma secção rítmica deluxo: Steve Nelson (vibrafone), PeterWashington (contrabaixo) e LewisNash (bateria). No dia seguinte, oúnico com dois concertosconsecutivos, toca o quinteto deGrace Kelly, uma menina prodígio dosaxofone – tem 18 anos mas aos 14 játocava ao lado de Phill Woods – e oquinteto de Wallace Roney,trompetista controverso por utilizarum estilo practicamente idêntico aode Miles Davis. Para domingo, dia 4,aquele que se afigura como um dospontos altos do festival, o CharlesLloyd New Quartet – fabulosoquarteto que integra Jason Moran nopiano, Reuben Rogersnocontrabaixo e Eric Harland nabateria. Jazz poderoso, criativo efortementeespiritual.No fim desemanaseguinte é avez de umagrande vozdo jazz, DeeDeeBridgewater, apresentar o seu últimodisco, “Eleanora Fagan”,extraordinária homenagem a BillieHoliday. Acompanhada por EdselGomez (piano), Kenny Davis(contrabaixo), Lewis Nash (bateria) eCraig Handy (sax tenor), Bridgewaterrealiza uma abordagem moderna ecriativa ao universo musical deHoliday.No dia seguinte, alargando ohabitual expectro “mainstream” dofestival, apresenta-se o Trio 3,formação que integra três das maisimportantes figuras do jazz devanguarda norte-americano: osaxofonista Oliver Lake, ocontrabaixista Reggie Workman e olendário baterista Andrew Cyrille.Finalmente, no encerramento dofestival, toca o quarteto da celebradacontrabaixista e cantora EsperanzaSpalding. Uma noite que se esperaser de festa e grande comunicaçãomusical. E com os horários dosconcertos a sofrer ligeiras alteraçõesdevido à coincidência com jogos doMundial de Futebol.PopTodos por Quantic4.º Festival Delta TejoLisboa. Alto da Ajuda. 6ª, Sáb. e Dom. às 19h00. 25€(dia). Passe Festival: 40€. No Pólo Universitário.Informações: 210105700.É uma grande confusão, o cartaz doFestival Tejo, que hoje se inicia noAlto da Ajuda em Lisboa. Umaconfusão com coisas boas, algumasmuito boas, outras nem por isso ealgumas intragáveis, mas sem dúvidaque uma confusão.Unidos sob um vago conceito deritmo só hoje há propostas tãodíspares como Shaggy, os BurakaSom Sistema, o sempre louvávelbrasileiro Carlinhos Brown, osExpensive Soul, ou a Roda de Chorode Lisboa. OK, conceda-se que é umanoite dedicada ao ritmo emportuguês e siga para bingo, isto é,sábado. Temos Nneka, uma nigerianacuja música assume contornospróximos do afro-beat, a brasileiraAna Carolina, os ex-magníficosMutantes, a fadista Ana Moura,Nancy Vieira, Danae, cabo-verdianaradicada em Portugal mas maispróxima da pop que da tradição, edepois temos Susana Félix. Alguémpercebe que critério presidiu a estaselecção? Ou, refazendo a pergunta,alguém que não estava sob o efeito deforte medicação percebe o critérioque presidiu a esta selecção?O melhor dia será por certo o deDomingo: não metemos as mãos nofogo por coisas como Asa de Águia ouo Grupo Revelação, idem porMartinho da Vila, Paulo Flores ouPuto Prata, mas há os Cacique 97 eQuantic na sua melhor encarnação,Quantic and His Combo Barbaro.Se os Cacique são a facçãoaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelenteportuguesa do Afro-beat e merecematenção e ancas disponíveis, Quantice o seu Combo Barbaro estão numcampeonato só seu. O ComboBarbaro é um conjunto que Quanticorganizou a partir das suas viagens àAmérica Latina, que reúne umconjunto de músicos e cantorasabsolutamente excepcionais. Asemana passada, no Barbican, emLondres, cometeram a proeza deporem os ingleses a dançar logo àsegunda canção – é certo que verbifas gordas a tentar dançar à mulatanão é o desejo de nenhum homemsão mas tenha-se em conta que destavez o concerto se vai desenrolar emterras nacionais. O alinhamento éconstituído por muitas das faixas queQuantic desenterrou na América doSul, e entre piano, metais, acordeão eum percussionista louco a cumbia érainha sem par. Vale o dinheiro e valeas dores nas pernas no final. JoãoBonifácioA América segundoAlcorn e HurleySusan AlcornPorto, Culturgest. Av. dos Aliados, 104. Hoje, às22h00. Bilhetes a 5 €. Tel.: 222098116Michael Hurley e Susan Alcorn comManuel MotaCasa de Teatro de Sintra. R. Veiga da Cunha, 20.Amanhã, às 21h30. Bilhetes a 10 euros, 7,5 (menoresde 25 e maiores de 65 anos) e 5€ (preço para gruposde cinco ou mais pessoas). Tel.: 219 233 719A guitarra “pedal steel” não costumaandar nestas lides. Na country e nosblues, não é invulgar ouvir estaguitarra tocada com recurso a umacessório metálico. É provável queSusan Alcorn seja a única figura deFestival de Arte na Paisagem 2010 - Quinta do PisãoSusan Alcornrelevo a usá-la em contextosexperimentais.Fixada em Baltimore, EUA, Alcorn,nascida em 1953, começou aconhecer o instrumento a partir dos21 anos em bandas de country e“western swing” no Texas, mas cedoestudou a música clássica moderna, ojazz mais livre e outras músicas, daÍndia à América do Sul.Depois de alguns anos na cenajazz, no fim dos anos 1980, éaconselhada por Paul Bley, lumináriado free, a pegar em tudo isto e adesenvolver uma linguagem própriana “pedal steel”. Os discos chegaramsó nesta década, com destaque parao mais recente “And I Await... TheResurrection of the Pedal SteelGuitar” (2007). O título é todo umprograma: ouvir o álbum é percebercomo se leva um instrumentoconotado com a tradição a territóriosde puro encantamento com o som.Tanto lembra a música nocturna deLoren Connors, como a dissonânciade Messiaen, mas, quase sempre, nãosoa a nada que tenhamos ouvidoantes.Susan actua hoje a solo naCulturgest do Porto. Amanhã, naCasa de Teatro de Sintra, toca comDe 22 de Maio a 11 de Julho 2010Passeios guiadosCristina ATAÍDEJoão CASTRO SILVAManuela PACHECOMarisa ALVESe Joaquim POMBALMeireles de PINHOPaulo NEVESSusana ANÁGUAÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 47


ConcertosaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelenteVirgem Suta em “tournée”Adriana Calcanhoto na Casa da MúsicaMazgani no Rockspot 2010Manuel Mota, guitarrista cujosblues elípticos, como Alcorn,perscrutam o quase silêncio e areverberação.Em Sintra, a noite reserva tambémMichael Hurley, figura de culto damúsica de raiz americana. Gravou oprimeiro disco em 1965 pela míticaFolkways e faz mais dois até colaborarcom os Unholy Modal Rounders e comJeffrey Frederick & The Clamtones em“Have Moicy!” (1976), que RobertChristgau qualificou nas páginas do“Village Voice” como o “melhorálbum folk da era rock”.Hurley tornou-se uma referênciapara gente como Cat Power eDevendra Banhart e para a restantegeração da New Weird America. Foie é ainda, aos 69 anos, umsaltimbanco que viveu em dezenasde pequenas cidades perdidas pelaAmérica, alguém que até há poucotempo fazia mais dinheiro com osseus quadros do que com os discos eos concertos. Tê-lo por cá em 2010faz tanto sentido como vê-lo há 30anos: a sua música não tem tempo.Pedro RiosAgendaSexta 2Ana CarolinaPorto. Coliseu do Porto. R. Passos Manuel, 137, às22h00. Tel.: 223394947. 22€ a 50€.Cristina Branco + João Paulo +Carlos BicaLisboa. CCB. Praça do Império, às 21h00. Tel.:213612400. 10,5€ (sujeito a desconto). No PequenoAuditório. M/3.Widmung - A Canção de Schumann eoutras músicas. Concerto Antena 2.Mão Morta + Les Dirty TwoGuimarães. São Mamede - Centro de Artes eEspectáculos. R. Dr. José Sampaio, 17-25, às 22h00.Tel.: 253547028.15€ a 20€. Pré-venda: 12,5€ a 17,5€.Argentina SantosCom Ricardo Parreira (guitarraportuguesa), Diogo Clemente (violade fado), José Maria de Carvalho (violade fado), Yami (baixo acústico), Carlosdo Carmo, Celeste Rodrigues, JorgeFernando, Maria Armanda, RaquelTavares, Ricardo Ribeiro, Rodrigo.Lisboa. Teatro Municipal de S. Luiz. R. Antº MariaCardoso, 38-58, às 21h00. Tel.: 213257650. 10€ a 20€(sujeito a desconto). Na Sala Principal. M/3.Concerto de homenagem.Mercedes PéonBarcarena. Fábrica da Pólvora. Estrada dasFontaínhas, às 22h00. Tel.: 214387460. Entradalivre. Informações: 214408565.Lula PenaLisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian. Av.de Berna, 45A, às 21h30. Tel.: 217823700. 10€.Entrada livre.B FachadaPorto. Passos Manuel. R. Passos Manuel, 137, às22h30. Tel.: 222058351. 10€.TáxiCoimbra. Pq. Verde Mondego, às 23h30. Entradalivre. Informações: 239857583.Ana MouraAlmodôvar. Campo das Eiras, às 23h00. 2€. PasseFeira: 6€. No Palco 1. Informações: 286660600.XV FACAL 2010. Apresentação de“Leva-me aos Fados”.Jeffery Davis QuartetoBraga. Espaço Cultural Pedro Remy. R. DomGualdim Pais, 36, às 22h00. Tel.: 253610300.Mazgani + D3ö + MurderingTripping Blues + Black LeatherBajouca. Bajouca (Leiria), às 22h00. 4€. Infoline:918024738, 967662858.Rockspot 2010.Rickie Lee JonesVila Nova de Famalicão. Casa das Artes. Pq. deSinçães, às 21h30. Tel.: 252371297. 15€. No GrandeAuditório. M/3.Virgem SutaFaro. Teatro Municipal. Horta das Figuras - EN125,às 22h00. Tel.: 289888100. Entrada livre.No Palco da Rampa. M/4Orquestra de Jazz de MatosinhosMatosinhos. Cine-Teatro Constantino Nery. Av.Serpa Pinto, às 22h00. Tel.: 229392320. 10€. Na SalaPrincipal.Concerto comentado: Do ballroom àsala de concerto.Lula PenaGuimarães. CC Vila Flor. Av. D. Afonso Henriques,701, às 22h00. Tel.: 253424700. 10€ (sujeito adesconto). No Pequeno Auditório. M/12Apresentação de “Troubadour”.Uto Ughi e I Filarmonici di RomaEspinho. Auditório. R. 34, 884. Sáb. às 22h00. Tel.:227340469. 7€ (sujeito a desconto).FIME 2010 - 36.º FestivalInternacional de Música de Espinho.Edu Miranda TrioViseu. Teatro Viriato. Lg. Mouzinho Albuquerque, às21h30. Tel.: 232480110. 5€ a 10€. M/3.Soundway Records DJLisboa. Centro de Arte Moderna - José de AzeredoPerdigão. Rua Dr. Nicolau Bettencourt, às 17h00.Tel.: 217823474. Entrada livre.Na esplanada do CAM. ProgramaGulbenkian Próximo Futuro.Martinho da VilaPorto. Palácio de Cristal. R. D. Manuel II, às 22h00(portas abrem às 21h). Tel.: 226057080. 10€. Nosjardins.Claudio MarcotulliAlcobaça. Mosteiro. Abadia de Santa Maria, às21h30. Tel.: 262505120. 5€. Na sacristia.Cistermúsica - XVIII Festival de Músicade Alcobaça. Obras de Villa-Lobos,Tarrega, Barrios e Domeniconi.Guitarras de Coimbra e Lisboa +CamanéCoimbra. Universidade. Paço das Escolas, às 22h00.Tel.: 239859800. Entrada livre.Festas de Coimbra e da Rainha SantaIsabel. Jeffery Davis Quarteto.Vila das Aves. Centro Cultural. R. Santo Honorato,às 21h30. Tel.: 252870020. Entrada livre.Informações: 239857583domingo 4segunda 5Chris IsaakCascais. Parque Marechal Carmona, às 22h00. 30€.Informações: geral@cooljazzfest.com.Cool Jazz Fest 2010.Cais do Sodré Funk Connection +Tiago SantosTorres Novas. Jardim das Rosas. Av. Principal, às22h00. Entrada livre.NoiservLisboa. A Barraca - Teatro Cinearte. Lg Santos, 2, às21h30. Tel.: 213965360. 6€.terça 6Melody GardotPorto. Casa da Música. Pç. Mouzinho deAlbuquerque, às 21h30. Tel.: 220120220. 28€. NaSala Suggia.Apresentação de “My One and OnlyThrill”.Diabo Na Cruz + Gonçalo CastroTorres Novas. Jardim das Rosas. Av. Principal, às22h00. Entrada livre.Orquestra Metropolitana deLisboaDirecção Musical: Pedro Neves. ComAna Quintans (soprano), LuísRodrigues (barítono).Lisboa. Lg. S. Carlos, às 22h00. Entrada livre.Gala Egoísta 10 Anos: Al GreenEstoril. Casino. Pç. José Teodoro dos Santos, às20h00. Tel.: 214667700. 120€ (jantar-espectáculo).No Salão Preto e Prata. Traje escuro. M/18.quarta 7Cyro Baptista + El Gran SilencioPorto. Casa da Música. Pç. Mouzinho deAlbuquerque, às 21h00. Tel.: 220120220. 10€.London BrassEspinho. Auditório. R. 34, 884, às 22h00. Tel.:227340469. 10€.Rita RedshoesVila do Conde. Teatro Municipal. Av. Dr. João Canavarro,às 00h30. Tel.: 252290050. 10€. Na Sala 1.Remixed. Curtas - 18.º Festivalquinta 8Optimus Alive! 10Algés. Passeio Marítimo de Algés. Passeio Marítimode Algés. 50€ (dia). Passe Festival: 90€.Ver textospágs. 6 e segsAdriana CalcanhottoPorto. Casa da Música. Pç. Mouzinho deAlbuquerque, às 22h00. Tel.: 220120220.20€. Na Praça.Verão na Casa 2010. 0.Lucas SanttanaLisboa. Fundação e Museu uCalouste Gulbenkian. Av.de Berna, 45A, às 19h00.Tel.: 217823700. 10€.Entrada livre. Noanfiteatro ao ar livre.Virgem SutaAlmodôvar. Campodas Eiras, às 23h00.2€. Passe Feira: 6€.No Palco 1.Informações:286660600.XV FACAL2010.TheLegendaryTigermanEstremoz. Parque de Feirase Exposições às 22h30. Tel.:268339448. 2€. Passe Juvemoz: 5€.Um grande senhorno Casino do Estoril:Al Green11.º Funchal JazzFestivalFunchal. Pq. de Santa Catarina. Av. doInfante. Tel.: 291200930. 15€ (dia).Passe Festival: 30€.Informações: 225193100.Kenny Barron, Al DiMeola e EsperanzaSpalding estãoentre os convidadosda 11ª edição doFunchal Jazz, quese instala noParque de SantaCatarina entre osdias 8 e 10 de Julho.Orelha NegraVila do Conde. TeatroMunicipal. Av. Dr. JoãoCana-varro, às 00h30.Tel.: 252290050. 10€. NaSala 1.Remixed. Curtas- 18.º FestivalInternacional deCinema.48 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


ALGO EXCEPCIONAL AGUARDA POR SI EM ABSOLUT.COM


DiscosClássicaA óperano devidopedestal“L’Amico Fritz” de Mascagniencontra no duo AlagnaGheorghiu o par perfeitopara colocar a ópera nodevido pedestal. RuiPereiraPietro MascagniL’Amico FritzRoberto Alagna, Angela GheorghiuAlberto Veronesi, direcção musicalCoro e Orquestra da DeutschenOper Berlin2CD DG 4778358mmmmmAo ver esta novaedição da comédialírica em três actos“L’Amico Fritz”,obra estreada em1891 e que sucedeuà mais célebre criação de PietroMascagni, “Cavalleria rusticana”, aminha memória recuou velozmenteno tempo para uma edição dadécada de 60 cantada por um duoinsuperável neste tipo de repertório,Pavarotti e Mirella Freni. Asgravações têm destas coisas, de nosditarem versões interpretativas quenos levam a acreditar quedeterminadas obras são, afinal, umagravação que conhecemos.Nada mais errado. “L’Amico LAmico Fritz”,para quem gosta deste romantismo ebel canto “vintage” e quaserequentado, é uma óperamaravilhosa com um belolibreto de amor e commelodiasextraordinariamenteinspiradas. Nesta versãoconta com as vozes deRoberto Alagna e AngelaGheorghiu em grandeforma e a gravação aovivo, vo, de uma produçãode 2008, retratana perfeiçãooPietro Mascagniespaço cénico do drama com umafluência do discurso musical muitoapreciável.A ópera resulta muito bem em CD,sendo fácil seguir a história de amorpassada numa comunidade dejudeus na Alsácia.Com direcção musical de AlbertoVeronesi e o prestigiado elencomusical da Ópera de Berlim, estaversão surge mais equilibrada edramaticamente eficiente do que aque tinha guardado na memóriacomo sendo “L’Amico Fritz” deMascagni. A grande estrela do disco,pela maturidade vocal einterpretativa, é Alagna. AngelaGheorghiu poderá ser consideradademasiado dramática no papel dajovem, mas a sua voz adapta-se àslinhas melódicas de Mascagni naperfeição.JazzWerememberCliffordBrilhante homenagem aouniverso musical de CliffordBrown por um dos segredosmais bem guardados do jazz:Bill Carrothers. RodrigoAmadoBill Carrothers TrioJoy SpringPirouet, Dist. MbarimmmmnCada novoprojecto de BillCarrothers é umtratado desensibilidade einteligênciamusical. O pianista norte-americano,conhecido por projectos temáticosde grande fôlego como “Armistice1918”, em que explora o ambientemusical em torno da I Guerra, ou“I Love Paris”, registo ondeinterpreta temas populares dosanos 20 e 30, está cada vez maisforte, não possuindo ainda,no entanto, oreconhecimentoequivalente ao seu enormetalento. Em “Joy Spring”,Carrothers prestahomenagem ao universomusical de Clifford Brown,extraordinário trompetistaque morreuprematuramente, aos 25 anos,num acidente de automóvel,deixando ainda assim umlegado impressionante queperdura até hoje como umadas mais fortesaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelenteCada novo projecto de Bill Carrothers é um tratado de sensibilidade einteligência musical.representações do hard-bop dosanos 50 – nomeadamente através docelebrado Clifford Brown / MaxRoach Quintet. Neste registo,associando-se a uma secção rítmicade topo – Drew Gress no contrabaixoe Bill Stewart na bateria – Carrothersaborda temas da autoria de Brown(muitos tornaram-se standardstocados por centenas de músicos) oua ele associados (como “Jordu” deDuke Jordan ou “I rememberClifford” de Benny Golson),construindo um álbum intenso,numa sequência brilhante deinterpretações altamente pessoaisque nos agarra do início ao fim.Alternando subtilmente entre temaslentos e poderosos veículos bop emque o trio se transfigura, o álbumpossui um crescendo de energia quetem o auge no swing rápido e hard de“Powell’s Prances” e “Tiny Capers”,sequência arrebatadora que nos guiaao tema final, fabulosa interpretação,magnética e arrastada, de “Iremember Clifford”. Gress e Stewartapresentam-se em topo de forma,com solos vibrantes e umainteracção “à flor da pele” que elevaa música de Carrothers à categoriade essencial. São eles responsáveispor alguns dos melhores momentosde “Joy Spring”.PopUma rave de rockHoly FuckLatinYoung Turks; distri. PopstockmmmnnÀ primeira faixa,toda ela ruído quecresce até absorvero drone desintetizador emfundo, pensamosque os Holy Fuck são banda comdiscografia noise em casa e desejo dea reproduzir em novas paisagens. Àsegunda, percebemos queaquilo que a antecedeu erameraA música dos Holy Fuck exige de nósreacção imediata: não há cá subtilezasintrodução (era só para enganar) eque os canadianos são, afinal, gentedevota do electro-funk comodefinido em passagens seleccionadasda obra dos LCD Soundsystem. Tudoa favor: secção rítmica abanando aanca furiosamente e o cérebro aplanar uns bons quilómetros acimado solo, culpa da teia desintetizadores que envolve oesqueleto rítmico.Mas os Holy Fuck, que deram aoseu terceiro álbum o título “Latin”sem que nada de latino se ouça nele,também não são exactamente isso.Partem de uma base simples, utilizaruma secção rítmica convencional ereuni-la a sintetizadores e efeitoselectrónicos, para criar um ambientede rave. Definida essa baseidentitária, trabalham depois na suaexpansão a diversas linguagens.“Latin” investe pelo estilhaçar pósrockdos Tortoise com órgão Rhodese gargarejos electrónicos (“Stay lit”),sugere a motorika dos Neu!, compeso rock no lugar da subtilezahipnótica original (“Silva & Grimes”),oferece-nos em “Sht Mtn” a visão deuns Harmonia em esteróides –bombo a marcar o ritmofuriosamente e os sintetizadorescaindo em cascata para revelar novascamadas de sons. E, claro, tambémhá cowbell a marcar o ritmo de“Stilettos”, provavelmente a melhorcanção do álbum, que transforma apista de dança em preparação deuma armada invasora de Marte (ossons de jogo de computador, abateria que ribomba acima de tudo oresto e os sintetizadores zunindocomo estática ajudam à alucinação).A música dos Holy Fuck exige denós reacção imediata: não há cásubtilezas, é largar som e ritmo eagarrar o ouvinte no primeirominuto. Entregamo-nos a ela semquaisquer remorsos, primeiro.Percebemos depois que este híbridoelectrónico-digital, este belomonstrengo rave-rock, não sendomemorável, cumpre a sua funçãocom distinção. É realmente umaexperiência lúdica muito bemmontada. Mário LopesAlguém lhesarranje uma casade stripGNRRetropolitanaFarolmmnnnDe há uns anos para cácada disco dos GNR érecebido pela crítica50 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


PrémiosEstão abertas até 31 deJulho as candidaturas aosPrémios MegafoneJoão Aguardela. Sãouma homenagem aofundador d’A Naifa edos Sitiados e mentordo projecto Megafone,falecido em Janeirode 2009, e pretendemdestacar o trabalho demúsicos (MegafoneMúsica) ou entidades(Megafone Missão)que contribuem para apreservação e evoluçãodas tradições musicaisportuguesas. Os trêsfinalistas do MegafoneMúsica actuarão a 17 deOutubro no CCB, dataem que será anunciado ovencedor. Valor do prémioe constituição do júriserão anunciadosbrevemente.Mais informações emwww.aguardela.com.Eminemcom um vago desconforto,semelhante à reacção dos burguesesquando um proletário se sentaingenuamente à sua mesa: osburgueses dão-se ao trabalho deserem bem educados, mas apenaspara deixar claro que são burgueses& superiores, permitindo que nasentrelinhas da sua recatada polidezpasse o recado: “Da próxima vezsenta-te lá com os teus”.Isto tem as suas razões: primeiro acrítica, por cá, só gosta de popmainstream se for estrangeira, noque é uma espécie de paroquialismopop da sociologia de bolso dasFilomenas Mónicas da nação;segundo, Reininho é desconfortável,pelo menos para a gente séria: osseus estribilhos provocatóriosparecem lembrar à elite que convémnão se pôr em bicos de pés face a umtipo que, para o mal ou para o bem,criou uma obra de tomo; terceiro,eles próprios fartaram-se de dar tirosnos pés, embora não tantos como osXutos.Parecendo que não, apenas há trêsdiscos originais atrás, com“Mosquito”, os GNR assinaram umbelo disco de pop mainstream.Apenas há dois discos de originaisatrás fizeram “Popless”, ondebrilhavam três ou quatro cançõesmerecedoras de fazerem parte docânone. Mas “Mosquito” e “Popless”não eram new-wave, não faziamparte de nenhuma vanguarda, eramsó conjuntos de cançõesdesequilibrados mas pontuados porpérolas. O problema é que“Mosquito” data de 1998 e “Popless”tem uma década. Ou seja, há dezanos que os GNR não fazem umagrande canção pop. E, se quisermosser pouco burgueses e optarmos pelatotal clareza, ainda não é em“Retropolitana” queisso acontece:Há dez anos que os GNR não fazemuma grande canção popquando são pop eles aproximam-sede uma versão deslavada de “Valsados Detectives”, assentando empiano, baixo e a ocasional guitarrapicadinha para chegarem a umaversão insossa do passado, música deesplanada que os donos de iatesouvem antes de irem hastear a velacom as suas bitches.Uma parte da culpa desteinsucesso pop reside na voz deReininho, cada vez mais gravilha –defeito que em um terço do disco serevela tremenda qualidade. Esseterço é o mais estranho corpo decanções da obra dos GNR: a quasecanção de dor de corno, alguresentre Tony Bennett e Scott Walker,algures entre Randy Newman e Tonyde Matos.Exemplifique-se com “Únika”:começa com piano, vêm as cordas,há uma ascensão, e Reininho, todocontenção, canta “Fiquei a pensar noteu cabelo”, como se isto fosse umasensacional descoberta, e de novouma subida antes de cantar “Ésúnica”, com mais intestino, maisfebre, mais crença do que algumavez lhe conhecemos. É umatremenda, magnífica, canção, emque Reininho, livre da habitual pose,se dá à luxúria dos arranjos com umaentrega comovente. O mesmoacontece em “aiTunes”, temarecheado de guitarras estilosas,hammond e outras velharias, ou em“Burro em Pé” (nacionalcançonetismo revisto para o séculoXXI) ou em “Baixa/Chicago”. Nestafase da garganta de Reininho, este éo caminho que mais gostaria de veros GNR seguir: sem a muleta dostrocadilhos espertos e com apanache dos homens batidos, quecaminham naquela linha entre adecadência e a beleza. Alguém lhesarranje uma casa de strip,comcortinas vermelhas e luzesbaixas.Estava lá batido todos osdias. João BonifácioO ex-viciadofoi gulosoEminemRecoveryInterscopemmnnnBem vistas ascoisas Eminemnão é bem ummúsico, antes umnarrador – não nosentido deescritor, antes deguionista de umadaquelas “soapoperas”intermináveis, à “Dallas” ou “Lost”,um daqueles tipos peritos em“twists” tão inesperados que a dadaaltura se tornam enfadonhos porquejá esperamos o inesperado.Vejamos: ao início a fúria deEminem era tal que se tornavacaricatural. Depois esticou mais acorda, elidindo ao máximo a barreiraque separa criador de pessoa,deixando os fãs a pensar “Este tipoque diz coisas horrorosas da mãe eda ex-mulher é uma criação ou omoço é mesmo assim?”. Cada discotornou-se um conceito: agoraEminem está zangado com a exmulher,agora está viciado emcomprimidos, agora está emrecuperação.Não é brincadeira: o mais recentedisco chama-se “Recovery” e nele,liricamente, Eminem oscila entrereconhecer que andava de cabeçaperdida (chegando a pedir desculpaaos fãs) e manter a sua fé no seupoder de criar rimas (dizendo quevolta para se vingar). Resumindo:Eminem tornou-se mais importanteque a sua música. Ora, ao início amúsica era bastas vezesentusiasmante, muito por culpa deDr Dre, que fornecia ao rapaz o queele precisava: um loop mínimo depercussão, sintetizadores psicóticose uma melodia de três notas emascensão, que assentava como tangaem bunda de mulata no jeito furiososempre-a-escalar-de-agressãodeEminem. O curioso é que quando em“Recovery” ele tenta ser melódico aomáximo a coisa não funciona: écomo se o excesso de instrumentosanalógicos, como se o excesso dedefinição ou alguma complexidademelódica o afastassem da sua maisvalia, a simplicidade bruta, primitiva,e apenas o suficientemente melódicapara toda aquela violência sertragável.O que é igualmente curioso é quenas quatro primeiras canções de“Recovery” Eminem está emtremenda forma: violentíssimo, comuma dicção de uma precisão que oaproxima de um psicopata à solta.Em “Won’t back down”, com Pink,entre um riff básico, um órgão àantiga, e o bombo colado à frente,Eminem estraçalha as regras damétrica com uma agressividadedigna de um Bruno Alves em diaexplosivo. Na entrada, “Cold windblows”, faz maravilhas: basta-lheaquele ritmo básico e roliço, aquelepiano demente a repicar, aquelalinha de baixo doentia, mais nada,para ser um caso sério depsicopatologia musical. Quatrotemas depois vêm as “canções”desenhadas a régua e esquadro, vema enésima variação de “Eu fiz merdamas sou tão bom”, de “Desculpem omeu comportamento, masconvenhamos que sou genial” e jánão há pachorra.Havia aqui um EP mas Eminem, oex-viciado, foi guloso. Bem vistas ascoisas tornou-se num publicitário. Oque com tanto talento em causa épena. J. B.Lula PenaTroubadourEdi. e distri. MbarimmmmnLula Pena faz domundo a sua casaDepois de “Phados”(1998), o álbum quea revelou, e atéagora o seu único,pensou em desistirvárias vezes. Aindabem que não o fez. Lula Pena édaquelas raras autoras capazes deaproximar a música do silêncio,traduzindo a complexidade dasemoções de forma simples. Não sãonecessários grandes artifícios. Bastauma voz grave, distinta, de grandeentrega emocional, mas enxuta, semser histriónica. Uma guitarra acústicaondulando, que tal como a voz éconcisa, respirando de forma subtil. Eem redor silêncio. E em redor dosilêncio, uma linha de imprecisamelancolia, repescada ao fadoportuguês, à bossa brasileira, à mornade Cabo Verde, ao flamencoespanhol, ao tango argentino ou à“chanson” francesa. Pelo meioexistem citações, alusões, pontos devista partilhados (Chico Buarque,Dolores Duran, António Cícero, Otto),forma de Lula Pena ocupar umespaço seu, onde não se sente por umsó momento uma necessidade deinterrogar o que quer que seja.Simplesmente, é. Por isso,“Troubadour”, transpira liberdade. Éo disco de alguém que não estápreocupada em fintar ascendências.Faz do mundo a sua casa. Incorporatudo para transmitir o prazer que lhevai na alma em ser ela própria,mesmo quando todas as cançõesevoquem uma vontade detransmutação, como ela canta àstantas. Na última canção, ou noúltimo acto, em “Rosa” há sugestões a“Nature boy” de Éden Ahbez ou“Pollen” de Mirah. Acaba assim: “meuamor?” “Sim, diz” “Já disse.” V.B.Baile PopularBaile PopularCapitol, EMImmmmnDe uma parceria jáantiga e experiente,João Gil e JoãoMonge, nasce nesteVerão um disco querapidamente seentranha, com canções trauteáveisquase à primeira mas que, noentanto, soa com uma frescura que oiliba de qualquer acusação deartificialismo. A base instrumental é,na verdade, a dos grupos de baile(viola ritmo, viola solo, baixo ebateria), mas entregue a músicos degostos universais e as vozesalentejanas, com a excepção da dopróprio Gil, que nos levam para umSul geograficamente irmanado comAméricas e Áfricas. “Rosa à janela”(parceria musical de João Gil com RuiVeloso é um “bluegrass” alentejano,“A venda do Isaías” (a voz do“vendedor de feira”, no início, é deLuís Represas, que se divertiu a fazerna perfeição o papel) são saiasalentejanas com embalo africano, “Omal-passado” tem uma entrada alembrar “O-bla-di, o-bla-da” dosBeatles e “Língua nos dentes” levanosaté ao nordeste brasileiro, masem todos os temas o Alentejo é umapresença indelével (atenção à únicavoz feminina convidada, a de AnaSofia Varela, fadista lisboeta crescidaem Serpa, na moda “Ó meu lindoamor”). Há sugestões de country,rock, pop, blues, Alentejo e Arizonanum único plano sonoro e, ao fundo,uma festa interminável. A começarpela contagiante “Rosa à janela” oupela impagável “A moda da mine”,serão surdas as rádios que não lhepegarem por inteiro. Nuno PachecoBaile Popular: um disco que rapidamente se entranhaCLAUDIAVAREJÃOAUGUSTO BRAZIOÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 51


série ípsilon IISexta-feira,dia 9 de Julho,o DVD “Feliz Natal”,de Christian Carion+8 DVDTodas as sextas,por €1,95. 20anosBommmmmmExcelentemExcelenteA entrada na idade adulta de uma adolescentefilmada com minuciosa precisãoEstreiamnuma cena poderosíssima queexplica desde logo o métodoobservacional da realizadora –A voz demostrando vez de explicar,deixando a sua câmara a correr otempo suficiente para nosFaustahabituarmos a estes ritmosdiferentes, prisioneiros de um limboUma jovem aprende aentre a tradição e a modernidade, orural e o urbano.viver no mundo real. JorgeÉ preciso que tudo aconteçaMourinhaassim, porque Fausta é um “bicho doCinemaaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuitomato”: não sai à rua sozinha, não falaA Teta Assustadacom ninguém que não conheça, temLa Teta Asustadaum medo quase irracional do outro.De Claudia Llosa“A teta assustada”, assim chamam ascom Magaly Solier, Susi Sánchez,superstições da província aos filhosEfraín Solís. M/12de mães traumatizadas queherdaram o medo através do leite –MMMMnsuficiente para levar Fausta,aterrorizada com a possibilidade deLisboa: UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 12: 5ª 6ª ser violada, a enfiar uma batata naSábado 2ª 3ª 4ª 14h15, 16h30, 19h, 21h35, 24hvagina. Metáfora do medo e daDomingo 11h30, 14h15, 16h30, 19h, 21h35, 24hrecusa de entrar na idade adulta queA propósito de “A Teta Assustada”, Llosa integra como um elementopodia-se invocar o “realismonaturalíssimo numa história demágico” que se tornou no metropadrãoda literatura latino-mundo que a rodeia, num confrontoaprendizagem que é também doamericana pós-Gabriel García simultaneamente emocional, social,Márquez, ou a vitalidadepolítico, cultural, e sublimadoaparentemente imparável do cinema através da música que é a válvula deque nos chega da América do Sul escape de Fausta.hispânica. E tudo isso está naÉ a música – as canções que Faustasegunda longa-metragem da peruana inventa na língua Quechua e queClaudia Llosa, mas é limitativo para canta para si própria como talismãsdefinir um filme camaleónico e para afastar o medo e a tristeza – quemultifacetado, profundamente lhe vai desenhar a saída do labirintopessoal e atmosfericamente político, em que ela própria se fechou,de um realismo quase documental sublinhando o poder mágico,cruzado com um onirismo surreal, místico, do canto como fonte deonde as dificuldades da adolescência força ao mesmo tempo que acelera ae as heranças ancestrais sesaída do seu casulo. Claudia Llosamiscigenam numa espécie de limbo conta tudo isto com minuciosasocial. Tudo isto descrito com uma precisão que, contudo, evita a quedasegurança extraordinária e uma quer no formalismo gratuito quer naconfiança infinita nasfrieza clínica: a atenção enorme aospotencialidades do cinema para pormenores, à gestão dos silêncios, àfazer passar emoções e sentimentos justeza do seu elenco (e seria– tanto mais importante quanto seria profundamente injusto não destacarmuito fácil a “A Teta Assustada” a assombrosa presença, telúrica etombar na bizarria regional,frágil, de Magaly Solier) reafirma asobretudo com o ponto de partida segurança de uma encenação quedesta história.consegue manter abertos ao mesmoSimplificando, esta é a entrada na tempo múltiplos níveis de leituraidade adulta de Fausta, adolescente sem nunca perder de vista a emoçãoperuana nascida na província central que transporta a narrativa.durante os tempos do terrorismo, “A Teta Assustada” é um filmeque mora com os tios nos subúrbios enganador: parece muito menos doimprovisados de Lima. Esse ritual de que é, não se revela por inteiro numapassagem é complicado pela morte primeira visão, ganha em ser digeridoda sua mãe no arranque do filme, com tempo e atenção (o que explica“Whisky”: benevolente e subterrâneo humorpara falar de oportunidades perdidasporque é que, mesmo quando ovimos primeiro no Festival de Berlimonde ganhou o prémio máximo, asua tranquilidade não revelou todosos seus segredos). Mas dentro da suahistória de uma jovem forçada acrescer cabem mundos inteiros – eraros são os filmes que nos dãovontade de os explorar todos.Menos é maisWhisky + A Dama da LapaWhiskyDe Juan Pablo Rebella, Pablo Stollcom Andrés Pazos, Mirella Pascual,Jorge Bolani. M/12MMMnnLisboa: Medeia King: Sala 2: 5ª Domingo 3ª 4ª13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45 6ª Sábado 2ª13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45, 00h15Temos tendência a olhar para aArgentina como centro do cinemanovo da América Latina, mas hátambém coisas a mexer noutroslados – ainda há pouco nos chegoudo Chile o poderosíssimo “TonyManero”, de Pablo Larraín, estasemana estreia-se a soberba “TetaAssustada” da peruana ClaudiaLlosa, é a vez de descobrirmos oUruguai (enquanto não estreia odelicioso “Gigante”, de AdriánBiniez) com este “Whisky” que falacom benevolente e subterrâneohumor de fachadas e oportunidadesperdidas. Jacobo dirige o pequenonegócio da família que já viumelhores dias e ficou solteiro paratomar conta da mãe enferma;quando o irmão, casado e bemsucedido,regressa do Brasil parauma cerimónia em memória dafalecida, decide esconder dele otriste estado do negócio e recruta aencarregada da fábrica (solteironaempedernida que só ele não topaque está apaixonada por ele) parafingir que é sua esposa. Mas apequena representação a que Jacoboe Marta se entregam acabará por terrepercussões inesperadas quando oirmão decide retribuir ahospitalidade com uma viagem àcidade costeira onde passavam fériasem miúdos.A dupla Pablo Stall e Juan PabloRebella sublinha o pesoclaustrofóbico da rotina diária nasvidas solitárias de Jacobo e Marta,filmando-os sempre encaixados nasprecisas geometrias dos elevadores,das portas, dos meios de transporte,encerrados numa vida que parece terparado no tempo algures nos anos1970 – e depois expulsa-os dessavidinha ordenada para melhor osconfrontar com o tempo que passouà sua volta, para definir o peso dosilêncio nesta relação decircunstância, um silêncio queacorda coisas até então abafadas.Formalmente minimal masmeticulosamente planificado(embora entregue a um trio deactores sem experiênciaprofissional), “Whisky” é ummomento discreto e subtil deartesanato que prova como, nasmãos certas, menos pode ser mais.Fica só por perceber porque é queeste filme inteligente onde tudo édito nas entrelinhas levou seis anosaté chegar às nossas salas.Em complemento, estreia-se a curtaanimada de Joana Toste “A Dama daLapa”, paródia bem-intencionada docinema popular que não passa dogague “vai ser tão bom não foi” e quepouco ou nada tem a ver com o filmeque complementa. J.M.Para um surrealismomilitanteLouise-MichelDe Gustave de Kervern, BenoîtDelépinecom Mathieu Kassovitz, YolandeMoreau, Bouli Lanners. M/16MMnnnLisboa: Medeia Saldanha Residence: Sala 7: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h45, 15h45, 17h45,19h45,21h45, 24h;Porto: Arrábida 20: Sala 19: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 14h15, 16h40, 19h, 21h20, 00h10 3ª 4ª16h40, 19h, 21h20, 00h10“Louise-Michel”, dos francesesGustave de Kervern e BenoîtDélépine, compraz-se na sua própriabizarria: jogando de forma artificiosacom o nome de um dos ícones daComuna de Paris, Louise Michel,cuja foto e citação aparece no final, àlaia de epígrafe invertida, o filmeparte dos resquícios visíveis dosurrealismo franco-belga,construindo duas estranhaspersonagens, Louise (na realidade,um travesti, Jean-Pierre) e Michel (ouseja Cathy), que se nos apresentamcomo dois “palhaços pobres”,empenhados numa comédia devingança e de subversão. O ladoirrisório do par, a que não serãoalheio ecos do absurdismo doBeckett de “À Espera de Godot”,coloca o espectador perante as maisinesperadas situações, tendentes aexercer um exercício de constante“nonsense”, radicado numaconjunção perversa entre a parábolapolítica e um “road movie”saborosamente parodiado. Se a trocade papéis sexuais parece explicar-sepela dificuldade de arranjar empregoDesarmante, pode tornar-seum pequeno filme de culto:“Louise-Michel”52 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


As estrelas do públicoJorgeMourinhaLuís M.OliveiraMárioJ. TorresVascoCâmaraAtraídos pelo Crime mnnnn nnnnn mmnnn nnnnnDuas Mulheres mmnnn nnnnn mmmnn nnnnnEu Sou o Amor mmmmm mnnnn mmmmn mnnnnLouise-Michel mmmnn nnnnn mmnnn nnnnnPartir mmnnn nnnnn nnnnn nnnnnShirin mmmmn mmmmn mmmmn mmmmmVencer mmmmn mmmnn mmnnn mmnnn24 City mmmnn mmmnn mmmnn mmmnnA Teta Assustada mmmmn mmnnn mmnnn nnnnnWhisky mmmnn nnnnn nnnnn nnnnn“Eu sou o amor”: irremediavelmente escolarcom a sua própria identidade, oencontro que justifica o título e otresvario das aventuras centra-senuma ideia de argumento que sópode entender-se no contexto,também ele absurdamente glosado,dos meandros complexos docapitalismo internacional eglobalizado.Se não vejamos, Louise, analfabetae desajustada, sobrevive apanhandopombos em ratoeiras e nunca bebeálcool, é operária numa fábrica,fechada inesperadamente pordecisão de invisíveis patrões. Com aridícula soma conseguida com ascláusulas de rescisão, Louise e assuas companheiras de infortúniodecidem contratar um “assassinoprofissional” (Michel), a fim de fazerjustiça. Entre as peripéciasdesvairadas em que o filme é fértil,Michel mata os “falsos culpados”(meros intermediários de uma cadeiacomplexa), usando a ajuda de umaprima cancerosa em estado terminale de um condenado a morte lenta,acabando os dois cúmplices porchegar ao elo final da cadeia, nafigura de um milionário semescrúpulos, refugiado “off-shore” noparaíso fiscal da ilha de Jersey eexecutado com requintes desanguinária malvadez, à beira deidílica piscina. Presos durante osfestejos da sua tarefa concluída,acabam por conceber em cativeirouma criança que parece perpetuar asua própria marginalidade. Pelomeio, muitas outras deliciosastransgressões, desde um tresloucadoengenheiro que concebe armasmortíferas até à chegada a Jerseynum barco que transportaemigrantes ilegais.Ou seja, no seu delírio sem limitesaparentes, “Louise-Michel”instrumentaliza todos os absurdossignificativos para contestar a ordemestabelecida do capitalismointernacional e sem rosto e, pelocaminho, brinca com o desconchavosurrealizante de uma narrativa empiloto automático, que se socorre dedescontextualizados “flash-backs” (oassassínio do agente imobiliário quelevou Louise/Jean Pierre, nopassado, uma longa pena porhomicídio) ou de inesperadasinversões das expectativas, nummundo de pequenas cidadesadormecidas e tristes bares deproletários desesperados, semignorar um prólogo a jogar com omedo da morte numa irrisória cenade cremação, em que o forno avaria.Esta anárquica intervenção políticaintroduz no tecido da desvairadacomédia um amargo sabor a fracassoimpenitente, que transforma o filmeem incómoda viagem, para oespectador desprevenido, a últimacoisa que se pretenda que aconteça.Com efeito, “Louise-Michel”,apesar de todas as suasincongruências e bizarrias, mereceum olhar sem preconceitos (difícil deatingir dada a soma de “disparates”acumulados) e terá, com certeza, umpúblico disposto a jogar o jogo dascontingências surrealistas, umsurrealismo “trash”, mas dereconhecíveis relações automáticas.Não será um grande filme, desarma,tira o tapete de debaixo dos nossoshesitantes pés, mas pode bemtornar-se num pequeno filme deculto. Mário Jorge TorresContinuamShirinDe Abbas Kiarostamicom Rana Azadivar, Vishka Asayesh,Darya Ashouri, Pegah Ahangarani,Shiva Ebrahimi, Niloofar Adibpour,Khatareh Asadi , Juliette Binoche.M/12MMMMnLisboa: UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 6: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 14h, 16h30, 19h, 21h45, 24hDomingo 11h30, 14h, 16h30, 19h, 21h45, 24hTodos os elogios não serão nunca demenos para a maravilhosaexperiência formal do iranianoKiarostami, onde as convenções docinema narrativo são viradas doavesso ao desviar a atenção do filmeda acção para os espectadores. Defacto, o romance condenado deShirin, princesa da Arménia, eKhosrow, príncipe da Pérsia, estápermanentemente em “off” – apenaso ouvimos projectado num écrã quenunca vemos porque Kiarostami seconcentra, exclusivamente, nosrostos daquelas que assistem à suaprojecção numa sala de cinema. 114mulheres anónimas que são, narealidade, 114 actrizes iranianas (euma francesa, Juliette Binoche),reagindo com risos, lágrimas,emoção, à história que vamosouvindo. É uma arrojada experiênciaformal ganha em toda a linha,infinito jogo de espelhos que dilui eabsorve o próprio espectador comoparte integrante do filme que seconstrói, e também é um filmeeminentemente político que nãoapenas devolve à mulher o seu papelcentral numa sociedade patriarcalcomo também sublinha a suainteligência emocional e intuitiva.Certamente, não é filme para todosos gostos – é inevitável sentir aquialgo de “instalação multimedia”, eKiarostami tem vindoprogressivamente a dirigir-se paraum cinema cada vez mais indistintoda arte multimedia – mas é um dosgrandes filmes que vamos ver emsalas em 2010. J.M.Duas MulheresDe João Mário Grilocom Beatriz Batarda, NicolauBreyner, Virgílio Castelo, DéboraMonteiro. M/12MMnnnLisboa: CinemaCity Alegro Alfragide: Sala 9: 5ª 6ª“Shirin”: um dos grandes filmes que vamos ver este ano2ª 3ª 4ª 13h45, 17h50, 19h50, 23h40 SábadoDomingo 11h45, 13h45, 17h50, 19h50,23h40; CinemaCity Classic Alvalade: Sala 2: 5ª 2ª3ª 4ª 13h35, 15h35, 17h35, 19h35, 21h45 6ª 13h35,15h35, 17h35, 19h35, 21h45, 24h Sábado 11h35,13h35, 15h35, 17h35, 19h35, 21h45, 24h Domingo11h35, 13h35, 15h35, 17h35, 19h35, 21h45; ZONLusomundo Alvaláxia: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 13h20, 15h45, 19h, 21h55, 00h25; ZONLusomundo Vasco da Gama: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 18h45, 21h45, 00h25; Porto:Arrábida 20: Sala 7: 5ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª21h15, 00h10 6ª 00h10; ZON LusomundoMarshopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h40,18h40, 22h, 00h10; ZON Lusomundo ParqueNascente: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10,15h20, 18h, 20h30, 23h;Ponto prévio: era tão bom que tantoscineastas (e não só portugueses)fossem capazes de filmar como JoãoMário Grilo, colocando a câmara e a“mise-en-scène” ao serviço dahistória que se quer contar, com umasobriedade tanto mais admirávelquanto rara. Não estamos a falar demero funcionalismo anónimo, e noentanto, “Duas Mulheres”, primeiraficção de longa-metragem docineasta, professor e crítico em dezanos, é um filme estranhamente frioe distante, exercício aplicado ecerebral mais do que o dramavibrante que se esconde por entre oguião. Na verdade, a chave é apersonagem central, Joana,psiquiatra com dificuldades emextravasar as suas emoções, casadacom um financeiro poderoso masperturbada por uma jovem “call girl”que surge nas urgências e com a qualdesenvolve uma relação lésbica.Beatriz Batarda é impecável nagestão das emoções complicadas queo papel lhe pede, mas a câmara deGrilo não é capaz de a acompanharna transição da frieza para asensualidade, e fica sempre asensação de que está maisinteressado nisso do que nocomplexo xadrez político-económicoque o guião de Tereza Coelho e RuiCardoso Martins desenha semesforço. Isso faz de “Duas Mulheres”um filme que não cumpre por inteiroas suas promessas e deixa um travomeio amargo através de alguns“saltos” narrativos um poucoabruptos e, sobretudo, dadispensável coda final. J.M.Eu Sou o AmorIo Sono l’AmoreDe Luca Guadagninocom Tilda Swinton, Flavio Parenti,Edoardo Gabbriellini. M/12MnnnnLisboa: Castello Lopes - Cascais Villa: Sala 2: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 21h10 6ª Sábado 21h10,24h; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 13: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 14h10, 16h40, 19h10, 21h45,00h15 3ª 4ª 16h40, 19h10, 21h45, 00h15Porto: Arrábida 20: Sala 5: 5ª 6ª Sábado Domingo2ª 13h55, 16h40, 19h25, 22h05, 00h40 3ª 4ª 16h40,19h25, 22h05, 00h40Vejamos: o decadentismo deBertolucci ou Visconti, o DeSicca deSeja responsável. Beba com moderação.“Il giardino dei Finzi Contini” – eDominique Sanda ressuscitada com“design” por Tilda Swinton... —,Gabriele Ferzetti (o patriarca dafamília) como um “fantasma” deoutros tempos do cinema italiano (eleque foi actor para Antonioni, em “LeAmiche”, “A Aventura”, porexemplo)... e podíamos continuar ainventariar, em direcção a umaconstrução pós-moderna... Mas falta aLuca Guadagnino a firmeza ensaísticade um Todd Haynes, quando leu Sirkatravés de Fassbinder (“Longe doParaíso”) e tornou o passado numobjecto político cortante do presente.Falta muito a Luca Guadagnino, aliás:firmeza, como se disse, coisa que seabstém de “Eu sou o amor” logo apóso genérico – sim, este filmezinho éapenas um genérico. “Eu sou o amor”não vai lá pela determinação dainteligência, portanto. Mas tambémnão se afirma pela generosidade dodesvario que o título promete. Erapreciso haver cineasta. Nem ensaionem melodrama, nem 2º nem 1º grau,é irremediavelmente escolar. VascoCâmara.Para quem leva o riso bem a sério e se aplicana boa disposição, a Jameson preparou umconjunto de festas verdadeiramente divertidas.Entre num caso sério de gosto pela vida.Há poucas oportunidades assim.www.jameson.ptEasygoing Irish.Ípsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 53


CinemaCinemateca Portuguesa R. Barata Salgueiro, 39 Lisboa. Tel. 213596200Sexta, 02CasablancaDe Michael Curtiz15h30 - Sala Félix RibeiroMarcado Pelo ÓdioSomebody Up There Likes MeDe Robert Wise19h - Sala Félix RibeiroCotton ClubDe Francis Ford Coppola19h30 - Sala Luís de PinaNeveNeigeDe Jean-Henri Roger22h - Sala Luís de PinaO SicilianoThe SicilianDe Michael Cimino22h30 – EsplanadaSábado, 03Os Chapéus-de-Chuva deCherburgoLes Parapluies de CherbourgDe Jacques Demy15h30 - Sala Félix RibeiroA Via LácteaLa Voie lactéeDe Luis Buñuel19h - Sala Félix RibeiroAs RendasKruzhevaDe Sergei Yutkevich19h30 - Sala Luís de PinaO Imenso AdeusThe Long GoodbyeDe Robert Altman22h - Sala Luís de PinaWall StreetDe Oliver Stone22h30 - EsplanadaSegunda, 05Semente ente de ÓdioThe SouthernerDe Jean Renoir15h30- SalaFélixRibeiroGloriaDeSidneyLumet.19h - Sala FélixRibeiroRocky Balboa na CinematecaOs Funerais de D. Manuel deBragança19h30 - Sala Luís de PinaA Última Tentação De CristoThe Last Temptation Of ChristDe Martin Scorsese21h30 - Sala Félix RibeiroSabe-se Lá!Va savoirDe Jacques Rivette22h - Sala Luís de PinaTerça, 06O Inimigo Público Número UmManhattan MelodramaDe W.S. Van Dyke15h30 - Sala Félix RibeiroRocky IDe John G. Avildsen19h - Sala Félix RibeiroTempos DifíceisDe João Botelho19h30 - Sala Luís de PinaCaça às BorboletasLa Chasse aux papillonsDe Otar Iosseliani21h30 - Sala Félix RibeiroGlóriaGloriaDe John Cassavetes22h - Sala Luís de PinaQuarta, 07A Grande EsperançaYoung Mr. LincolnDe John Ford15h30 - Sala Félix RibeiroRocky BalboaDe Sylvester Stallone19h - Sala Félix RibeiroOs CanibaisDe Manoel de Oliveira19h30 - Sala Luís de Pina6 Easy PiecesDe Jon Jost. 68 min.21h30 - Sala Félix RibeiroPerder e GanharL’air de ParisDe Marcel Carné22h - Sala Luís de PinaQuinta, 08O AnjoAngelDe Ernst Lubitsch15h30 - Sala Félix RibeiroTom, Tom, the Piper’s Son +Soft Rain + WindowDe Ken Jacobs19h - Sala Félix RibeiroRocky IDe John G. Avildsen19h30 - Sala Luís de PinaPeggy Sue Casou-sePeggy Sue Got MarriedDe Francis Ford Coppola22h30 - EsplanadaOui NonDe Jon Jost22h - Sala Luís de Pina54 • Sexta-feira 2 Julho 2010 • Ípsilon


NAMING SPONSOR PRESENTING SPONSOR OFFICIAL SPONSOR OFFICIAL CAR INSTITUTIONAL SPONSORMEDIA PARTNERS PARTNERSDVDWen Anderson wesandersonizou oque havia para wesandesonizarna história de Roald DahlARND WIEGMANN/ REUTERSAnimação “realista”,no tratamento do espaço,dos movimentos de câmara...CinemaFantástico,Sr. AndersonEstas raposas são parecidascom as famílias dosTannenbaums, com a equipade Steve Zissou, com osirmãos do “Darjeeling”.Luís Miguel OliveiraO FantásticoSr. RaposoFantastic Mr. FoxEdição Castello LopesmmmmnExtrasmmmnnCusta a perceberas razões, mas “OFantástico Sr.Raposo”(“Fantastic Mr.Fox”) não passou,em Portugal, poruma carreira nassalas comerciais eseguiudirectamente para DVD. WesAnderson não é um cineasta“esotérico”, antes um nomeimportante do cinema americanocontemporâneo. Nem se trata de umfilme que traga da estreia americanao estigma de um “flop” e entre as“estrelas” que tem para oferecer(mesmo que delas se ouça apenas avoz) contam-se George Clooney eMeryl Streep, a quem ninguémchamaria “veneno de bilheteira”. Emresumo, nada em “Fantastic Mr Fox”parece fazer dele um filme“invendável”, mas bom, um DVD é oque há.E o DVD que há é bom. “FantasticMr. Fox” é um excelente filme, quenem por ser um filme de animação sedesvia um milímetro do estilo e douniverso de Wes Anderson, antes osacolhendo, reiterando e ecoando demaneira quase genial. Semelhantecoisa não se via desde “A NoivaCadáver” de Tim Burton, mas Burtontem uma longa “história” com aanimação e Wes não. Se Burton éDisney e a fantasia pura, WesAnderson é mais Jiri Trnka: animação“realista”, no tratamento do espaço,dos movimentos de câmara, dosenquadramentos. O arcaísmo docartão pintado e da iluminaçãonatural – num extra do DVD fala-se decomo Wes trabalhou a iluminaçãodas cenas, e particularmente de uma,passada num armazém de cidra, queé quase o “Barry Lyndon”...apresentaPQ.MARECHALCARMONACHRIS ISAAK5JULANTÓNIO PINHO VARGASPQ.MARECHALCARMONALAURENT FILIPENOITE DE JAZZEM PORTUGUÊS17JULaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito mmR elmmmmmBoBommmmmmExcelenteE se Burton é Disney, WesAnderson é mais Roald Dahl. OuRoald Dahl “meets” os Beach Boys,quando vemos o jovem Sr. Fox e afutura Sra. Fox (que fazem jus aonome, ou seja, são raposas) apilharem galinheiros com oentusiasmo de uma parada nupcial,ao som de “Heroes and Villains” (abanda musical é tão heteróclita comode costume; também se ouve BurlIves...). Wes adaptou a história doescritor britânico, tarefa em quecontou com a ajuda de NoahBaumbach, com preocupaçõesobsessivas: instalou-se na casa deDahl, e reproduziu o seu escritório eos seus objectos, transformando-osno escritório e nos objectos do Sr.Fox. Com uma âncora firme na letrada história de Dahl, wesandersonizouo que havia para wesandesonizar:estas raposas e demais animais sãoparecidas com as famílias dosTannenbaums, com a equipa deSteve Zissou ou com os irmãos do“Darjeeling”, têm a obsessão habitualcom a organização e com os “planos”(fazer parte de um grupo queGROOVE4TETCASCAIS PQ.PALMELA 1JUL REGINA SPEKTORHIPÓDROMO 13JUL NORAH JONES 25JUL DIANA KRALLPQ.MARECHAL CARMONA 24JUL CORINNE BAILEY RAE27JUL CLUB DES BELUGAS Orchestra 28JUL ELVIS COSTELLO& THE SUGARCANES 29JUL SOLOMON BURKE Special GuestJOSS STONE MAFRA JARDIM DO CERCO 23JUL ORQUESTRABUENA VISTA SOCIAL CLUB® Feat. OMARA PORTUONDOBilhetes à venda na Ticketline (www.ticketline.pt) e locais habituaisJARDIM CERCO MAFRADEOLINDA20JULfuncione como grupo – não há desejomais caloroso par as personagens deWes), os mesmos acessos deirresponsabilidade infantil, a mesmaânsia por se sentirem aceites ereconhecidos (e merecerem, no caso,envergar um “chapéu de bandido”).A antropomorfia é,psicologicamente, total, como se oaspecto animal exterior fosse umalembrança do confronto entrenatureza e sociedade: “porque eu souum animal selvagem”, justifica-se oSr. Fox (Clooney) à Sra. Fox (Streep),assim resumindo o paradoxo da suacondição – uma raposa, que pensacomo um homem, e que por isso sejustifica com o facto de ser umaraposa. Complicado? Não: fantástico,Sr. Anderson. (E o adeus ao lobo, aolobo que é o verdadeiro “animalselvagem” desta história, tambémnão está nada mal como moral dahistória).Os extras não são muitos nemextensos, mas são interessantes. Dois“making of”, que mostram algumacoisa de como o filme foi feito, e umacurta baseada numa cena do filme.HIPÓDROMOMARIA BETHÂNIACELSO FONSECA22JULwww.cooljazzfest.comÍpsilon • Sexta-feira 2 Julho 2010 • 55

More magazines by this user
Similar magazines