Percepção do estado de saúde da pessoa idosa institucionalizada

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Percepção do estado de saúde da pessoa idosa institucionalizada

Ferreira, Z. (2011) Perceived Health Status of Institutionalized Elderly. Journal ofAging & Inovation, 1 (1): 23-29ARTIGO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE DEZEMBRO, 2011PERCEPÇÃO DO ESTADO DE SAÚDE DA PESSOA IDOSA INSTITUCIONALIZADAAutoresZelia Ferreira 1PERCEIVED HEALTH STATUS OF INSTITUTIONALIZED ELDERLY1Enfermeira, MsC, corresponding author: zeliapatricia@portugalmail.ptRESUMOAo refletir sobre os fenómenos demográficos da população, emerge subtilmente a noção que a população tendea envelhecer, este fenómeno estende-se para além das fronteiras de um país (Portugal), e adquire umadimensão europeia e mundial. É perante esta realidade que todos os profissionais de saúde devem estarsensibilizados para prestar cuidados a pessoas neste estadio da vida, de tal modo que a sua intervenção sejaglobal, humana e digna de resposta às necessidades destes indivíduos.Neste artigo, é feita uma breve exposição de um estudo realizado com um grupo de idosos institucionalizados.Este estudo teve como principal objectivo: avaliar a percepção do estado de saúde da pessoa idosainstitucionalizada. Foram recolhidos dados através de uma caracterização sócio-demográfica, através do MiniMental State e através do Questionário de auto - avaliação da saúde e do bem-estar físico (de Fonseca e Paúl,1999). Os dados obtidos foram trabalhados numa perspectiva de estatística descritiva e estatística inferencial Aexpetativa dos resultados alcançados num estudo, é o motor de motivação para quem o elabora, e nestetrabalho foi uma constante. Os resultados obtidos permitem afirmar que: a maioria dos indivíduos queparticiparam no estudo designa a sua saúde em geral como “aceitável” ou “fraca” e relacionam a percepção doseu estado de saúde com a saúde dos seus pares, nomeadamente quando se reportam aos itens relacionadoscom aspectos físicos.Palavras-chave: percepção, saúde, idoso, institucionalizaçãoABSTRACTReflecting on the demographic phenomena of the population, subtly emerges the notion that population tend toage, this phenomenon extends beyond the borders of one country (Portugal), and acquires a European andglobal dimension. It is against this reality that all health professionals should be aware of caring for people in thisstage of life, so that its intervention is global, humane and dignified response to the needs of these individuals.This article is a brief exposition of a study with a group of institutionalized elderly. This study had as its mainobjective: to evaluate the perception of health status of institutionalized elderly. Data were collected through asocio-demographic, with the Mini Mental State Questionnaire and through the self - assessment of health andphysical well-being (Fonseca and Paul, 1999). The data obtained was from the perspective of descriptivestatistics and inferential statistics The expectation of the outcome of a study, is the driving motivation for thosewho prepare it, and this work was a constant. The results obtained allow to conclude that: the majority ofindividuals who participated in the study refers to your overall health as "acceptable" or "weak" and relate theperception of their health and the health of their peers, especially when they relate to items related to physicalaspects.Keywords: perception, health, elderly, institutionalizedJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1


Página 24INTRODUÇÃOO investimento no estudo da “Saúde eEnvelhecimento” faz todo o sentido quando, noinício do século XXI, a sociedade se depara comuma população envelhecida.O facto de um ser vivo envelhecer faz comque ocorram mudanças, ao longo do ciclo devida e o ser humano não é excepção. Daí queocorram alterações nas diversas dimensões queo compõem: biopsicossocioculturais.Dada a caracterização actual dapopulação mundial e nacional (portuguesa) euma projecção, não muito longínqua, que indicaum aumento considerável da população idosa,importa perceber a dinâmica e a concepção dapessoa idosa numa visão holística, onde asaúde ganha um lugar de destaque.A saúde, não é só uma inquietude dosprofissionais de saúde que trabalham compessoas envelhecidas, mas é também um dosprincipais objectos de preocupação dos própriosidosos, uma vez que o aumento da suafragilidade está marcado, existe uma diminuiçãoda sua capacidade funcional e, por conseguinte,o aumento da sua dependência.O cuidar ao ser humano fundamenta-senos conhecimentos científicos sobre o processode viver/envelhecer. Os conhecimentos que dãobase ao cuidar das pessoas que envelhecemincluem o entendimento das necessidades, dasadaptações e das mudanças que ocorrem aolongo do ciclo de vida. É importante e prioritáriosaber quais as necessidades sentidas emcuidados face à doença e às perdas defuncionalidade e autonomia, daí ser tãorelevante escutar a palavra das própriaspessoas que possuem a vivência de estarinstitucionalizadas.Na mesma linha de pensamento, é dee x t r e m a p e r t i n ê n c i a a p r o f u n d a r o sconhecimentos nesta área, uma vez que osprofissionais de saúde têm um papel bastanteimportante para que as pessoas vivam a suavelhice de forma feliz, equilibrada e consistente.Isto não só nos momentos onde a doença estápresente, mas também quando a prevenção éfundamental, independentemente do seucontexto ambiental.A percepção que a própria pessoa tem doseu estado de saúde, é um aspecto elementar ater em conta na tomada de decisão no âmbitoda intervenção em saúde. Isto quando sepretende ter uma melhoria da intervenção tendoem conta as características das pessoas,grupos, ou comunidade, não obstante oscontextos onde estão inseridas e as suasnecessidades.Com a realização deste estudo espera-secontribuir para desmistificar o estereótipo de larde idosos enquanto “gueto social” para pessoasidosas. Pretende-se também que os resultadosdeste estudo venham a contribuir para umaintervenção mais adequada dos profissionais desaúde que trabalham com as pessoas nestecontexto, promovendo uma intervenção maisassertiva e congruente, no sentido de tornar aprestação de cuidados a pessoas idosas nasinstituições mais individualizada e promotora daqualidade de vida.É pertinente estudar os fenómenosrelacionados com a saúde dentro deste tipo deinstituições porque dada a expansão destescontextos sociais, em função das alteraçõesdemográficas e consequentes alteraçõessociais, é crucial reflectir e pensar nestarealidade como uma resposta aceitável esatisfatória para todos os intervenientes, querJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1


Página 25para os próprios idosos, quer para a respectivafamília e para a instituição.METODOLOGIAFoi realizado um estudo descritivo de nívelI, correlacional, analítico, transversal e com umaabordagem metodológica quantitativa.F o r a m e n u n c i a d a s a s s e g u i n t e shipóteses:1. Existe relação entre a percepção doestado de saúde das pessoas idosasinstitucionalizadas e os dados sócio –demográficos?2. Existe relação entre a percepção doestado de saúde das pessoas idosasinstitucionalizadas e a saúde dos seuspares (outras pessoas do mesmo géneroe da mesma idade)?3. Existe relação entre a percepção doestado de saúde das pessoas idosasinstitucionalizadas e os hábitos de vida,nomeadamente, hábitos alcoólicos ehábitos tabágicos?4. Existe relação entre a percepção doestado de saúde das pessoas idosasinstitucionalizadas e a presença dedeterminados colaboradores numainstituição, nomeadamente, DirectorTécnico, Assistentes Operacionais,Enfermeiro, Médico, Fisioterapeuta,Terapeuta Ocupacional, Técnico deNutrição e Animador Sócio – Cultural?Tendo em conta o referencial teórico, euma vez que estudou um fenómeno numadeterminada população, com as suascaracterísticas específicas, foram definidas asseguintes variáveis:• Sócio - demográficas eprofissionais: género; idade; estadocivil; tempo de residência na instituição;habilitações literárias; actividadeprofissional (antes de situação dereforma) e motivo deinstitucionalização.• Deterioração cognitiva – esteparâmetro poderia ser utilizado comouma variável, no entanto foi unicamenteutilizado para selecção mais precisados intervenientes do estudo.• Percepção do estado de saúde daspessoas idosas institucionalizadas:saúde física; actividade física e mental;condição física; sono; audição; visão;consumo de tabaco e consumo deálcool.Foram recolhidos dados, utilizando osseguintes instrumentos:• Caracterização da população – alvoCom este instrumento, criado para oefeito, pretende-se conhecer as característicassócio - demográficas de toda a população - alvodo estudo. Daqui obtêm-se informaçõesrelacionadas com a capacidade de lotação dasinstituições, a idade máxima e mínima dosresidentes, divisão por género e por estado civil.• Caracterização dos colaboradores dasInstituiçõesAtravés deste instrumento pretende-seconhecer como são constituídas as equipasmultidisciplinares de cada instituição, tendo emconta a função, formação e tipo de horário decada colaborador. Este tipo de informação é útilpara perceber em que sentido a presença deelementos (profissionais de saúde ou não) no larafectam ou não a percepção da saúde dosidosos que residem em lares.JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1


Página 26• Caracterização sócio demográfica eprofissionalA aquisição de informação para acaracterização sócio – demográfica de cadaindivíduo da amostra é feita com base numinstrumento também criado para o efeito. Aquiobtêm-se dados relacionados, com a idade,género, estado civil, habilitações literárias,actividade profissional (exercida em idadeactiva), tempo que reside na instituição, motivopelo qual foi institucionalizado e iniciativa dointernamento. Estes dados permitem oconhecimento das características de cadasujeito interveniente no estudo.• Mini Mental StateAplica-se o Mini Mental State, versãotraduzida e adaptada por Guerreiro (2003), como intuito de triar as pessoas sem deterioraçãomental a nível das funções cognitivas.• Questionário de auto-avaliação dasaúde e do bem-estar físicoA aplicação do Questionário de Auto-Avaliação da Saúde e do Bem-Estar Físico deFonseca e Paul (1999) tem como objectivoavaliar os índices de saúde percebida emgrupos de indivíduos com idade avançada, comcompetência associada ao processo deenvelhecimento. Estudo piloto sobreenvelhecimento, versando os seguintesindicadores relativos à saúde e ao estilo de vida:(i) Saúde física, (ii) Actividade física e mental,(iii) Condição física, (iv) Sono, (v) Audição, (vi)Visão, (vii) Consumo de tabaco, (viii) Consumode álcool. (Fonseca e Paul, 2004).O meio onde se desenvolverá este estudoserá em instituições denominadas por “lares deidosos”, enquanto resposta social, em que osindivíduos idosos permanecem na instituiçãonuma lógica de alojamento colectivo definitivo.As instituições que deram alçadas a esteestudo são aquelas que se enquadram nosseguintes requisitos:• Conferir alojamento colectivo aos seusresidentes, de cariz definitivo;• Estar localizado no concelho deSantarém, independentemente do tipode natureza jurídica. No concelho deSantarém existe uma instituição decarácter público, sete de carácter privadoe t r ê s I n s t i t u t o s P r i v a d o s d eSolidariedade Social;• Possuir alvará de funcionamentoactualizado, segundo o Instituto daSegurança Social – Centro Distrital deSantarém.A técnica de amostragem é inteiramentenão probabílistica por conveniência.A população passível de ser estudadapertence a 9 instituições distintas, desteconjunto 62 indivíduos fazem parte da instituiçãode cariz público, 155 indivíduos das instituiçõesde cariz privado e 120 indivíduos de InstituiçõesPrivadas de Solidariedade Social.No seu total esta população é constituídapor 337 indivíduos, 234 são do sexo feminino e103 são do sexo masculino.A constituição da amostra passou porincluir as pessoas que residam em lares deidosos (anteriormente descritos) e que:• Tenham mais de 65 anos;• Aceitem participar no estudodeliberadamente (consentimentoassinado);• Residam na instituição há mais de 6meses;• Sem defeito cognitivo.JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1


Página 27RESULTADOSA amostra foi constituída por 75indivíduos, com média de idades a rondar os83,2 anos, em que 36% são do géneromasculino, 57,3% são viúvos e 25,3% sãocasados. Deste conjunto, 60% tem instruçãoprimária. Da amostra 12,6% das pessoas estãoinstitucionalizadas há 6 meses e a “dificuldadeem auto-cuidar-se” é o principal motivo pelo qualforam para a instituição, e na sua maioria, forampara a instituição por iniciativa própria.O tratamento dos dados foi feito atravésda análise dos dados obtidos pela estatísticadescritiva utilizando como suporte informático oSPSS (Statistical Package for the SocialSciences), versão 17.0 para o Windows.Uma vez que seria demasiado extensatoda a informação obtida, aqui apenas se fazalusão aos dados obtidos no Questionário deauto-avaliação da saúde e do bem-estar físico(Fonseca e Paúl, 1999), referente ao item“saúde física”, embora este tratamento tenhasido feito para todos os itens que a compõem.(Tabela nº 1)Neste estudo, as hipóteses foram testadaspor correlação bivariada (com o recurso aocoeficiente de correlação de Spearman).A tabela nº 2 expõe as variáveis que secorrelacionam entre si.DISCUSSÃOEm investigação nem sempre osresultados que são esperados são os que seobtêm efectivamente, porém há que perceber arealidade com base nos valores estatísticosobtidos, sustentada pelo referencial teórico.O objectivo deste estudo foi avaliar apercepção do estado de saúde das pessoasidosas institucionalizadas, tendo em conta osobjectivos específicos é possível apresentar asseguintes conclusões:• A grande maioria da amostradesigna como “aceitável” ou “fraca” asua percepção da saúde, em geral;• Neste caso, os dados sócio –demográficos não têm relação com apercepção do estado de saúde destaspessoas, ao contrário do que nos é ditopelos autores, possivelmente este factoTabela nº 1 – Resultados da auto-avaliação da saúde físicaAuto-avaliação da saúde (geral) N %Muito Boa 3 4,0Boa 8 10,7Aceitável 21 28,0Fraca 29 38,7Muito Fraca 14 18,7Comparação com o ano passadoMais ou menos na mesma 32 42,7Um pouco pior do que há um ano 27 36,0Comparação com as pessoas da mesma idade e mesmo sexoUm pouco melhor 28 37,0Mais ou menos na mesma 28 37,0Não sabe 3 4,0JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1


Página 28Tabela nº 2 - Correlações entre a “saúde dos seus pares” e a percepção do estado desaúde dos idosos institucionalizadosVariável Teste Percepção do estado de saúdeSaúde Físicaρ 0,413**Sig. (2-tailed) 0,000Actividade física e mental ρ 0,354**Sig. (2-tailed) 0,002Condição físicaρ 0,598**Sig. (2-tailed) 0,000Visãoρ 0,255*Sig. (2-tailed) 0,027* Correlação significativa a um nível de 0,05 (2 – tailed)** Correlação significativa a um nível de 0,01 (2 – tailed)dever-se à homogeneidade quecaracteriza a amostra, devido àinstitucionalização destas pessoas;• Existe relação significativa entre apercepção do estado de saúde daspessoas idosas institucionalizadas e asaúde dos seus pares, essencialmentequando se abordam itens relacionadoscom aspectos físicos. Há que referirque os intervenientes do estudoquando se pronunciam sobre a própriasaúde os resultados tendem para umadimensão mais negativa, mas quandose compraram com outros (da mesmai d a d e e d o m e s m o s e x o )percepcionam-se numa medida maispositiva;• No que concerne aos hábitos devida, não existe relação entre apercepção do estado de saúde daspessoas idosas e os hábitos alcoólicose os hábitos tabágicos;• Não existe relação entre asinstituições que participaram no estudoe a percepção da saúde das pessoasidosas institucionalizadas.A realização deste trabalho foiconsiderada um desafio. Quando nos propomosa um determinado objectivo é preciso rigor,esforço e disciplina intelectual para o conseguiralcançar.O ponto de partida deste estudo teveorigem numa problemática, à qual a autora sedepara no dia-a-dia, in loco, e termina com umaleitura breve e reflexiva, espelho da experiênciada deslocação a várias instituições que auferiu aoportunidade de contactar com pessoas queresidem nesses contextos.Esta experiência em investigação revelou,com base no conhecimento científico, a ideiaque gostaria de salvaguardar: o facto de aspessoas idosas residirem numa instituição nãosignifica que tenham de percepcionar a suasaúde de forma negativa, há uma panóplia deJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1


Página 29informação que, ao ser conhecida, pode ajudara melhorar a intervenção em vários sentidos e,por conseguinte, ir ao encontro do que o próprioindivíduo percepciona da sua saúde.CONSIDERAÇÃO FINALÉ importante ter em conta que os idososde hoje são diferentes dos idosos das geraçõesanteriores e os futuros idosos terão outrasespecificidades em comparação com os idososactuais, e é com base neste raciocínio que fazsentido investigar e investir no conhecimentodirectamente relacionado com a Gerontologia.REFERÊNCIAS• GUERREIRO et al - Avaliação breve doestado mental in Guerreiro, Garcia &Mendonça, Escalas e testes nademência. Grupo de Estudos deEnvelhecimento Cerebral e Demência(2003);• FONSECA e PAUL - “Saúde percebida epassagem à reforma” in Psicologia,Saúde & Doenças, Vol. 5, Nº 1 (2004);• PAUL et al - “EXCELSA – Estudo pilotosobre o envelhecimento humano emPortugal” in Psicologia: Teoria,Investigação e Prática, Vol. 2, Centro deEstudos em Educação e Psicologia,Universidade do Minho (2001).JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 1

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