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Brasileiros em Londres - Queen Mary University of London

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<strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>Relatório para a campanhaDe Estrangeiros a Cidadãos(Strangers into Citizens)Yara EvansJane WillsKavita DattaJoanna HerbertCathy McIlwaineJon MayPadre José Osvaldo de AraújoAna Carla FrançaAna Paula FrançaDepartament <strong>of</strong> Geography<strong>Queen</strong> <strong>Mary</strong>, <strong>University</strong> <strong>of</strong> <strong>London</strong><strong>Londres</strong>, Reino UnidoSet<strong>em</strong>bro de 2007


ÍNDICELista de Figuras 3Introdução 4População Brasileira <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> 4<strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>: um levantamento 6Perfil D<strong>em</strong>ográfico de <strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> 6Grau de Escolaridade de <strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> 7Porque os <strong>Brasileiros</strong> Vêm a <strong>Londres</strong> 8<strong>Brasileiros</strong> no Reino Unido: entrada e permanência 10Atividade Econômica de <strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> 12<strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>: t<strong>em</strong>porariamente ou para ficar? 16Apoiando a Campanha De Estrangeiros a Cidadãos, da <strong>London</strong> Citizens 17Agradecimentos 18Bibliografia 182


FIGURASFigura 1: Idade 6Figura 2: Idade: homens e mulheres 7Figura 3: Cursos de Graduação 8Figure 4: Objetivo no Reino Unido 9Figura 5: Objetivo no Reino Unido: homens e mulheres 10Figura 6: Situação Imigratória 11Figura 7: Tipos de Trabalho 13Figure 8: Tipo de trabalho: homens e mulheres 13Figura 9: Horas S<strong>em</strong>anais Trabalhadas: homens e mulheres 14Figura 10: Sálario 15Figura 11: Sálario: homens e mulheres 15Figura12: Expectativa de permanência no Reino Unido 16Figure 13: Expectativa de permanência no Reino Unido: homens e mulheres 173


IntroduçãoEm julho de 2005, Jean Charles de Menezes, um jov<strong>em</strong> brasileiro que vivia naInglaterra por cerca três anos, foi morto violentamente por policiais numa estação d<strong>em</strong>etrô no sul de <strong>Londres</strong>, ao ser confundido com um terrorista. Este trágico eventotornou-se manchete pelo mundo todo e colocou <strong>em</strong> evidência a comunidade brasileira<strong>em</strong> <strong>Londres</strong> por vários dias. Na época, houve especulação na mídia de que Jean Charlesteria agido de modo suspeito ao se deparar com a polícia, por se tratar de um imigrantenão documentado 1 . Logo após a sua morte, uma investigação pela polícia teria reveladoque seu visto de estudante havia vencido e que, portanto, ele estava no país ilegalmente.Jean Charles estaria, assim, receoso de vir a ser descoberto e deportado pelasautoridades, razão pela qual teria tentado correr da polícia, ocasionando a sua execuçãosumária. Embora a própria polícia tenha desmentido essa versão da tentativa de fuga,ela foi usada por algumas pessoas para insinuar que sua morte talvez se justificase,dado que estava no país com o visto vencido.A morte de Jean Charles deixou entrever uma grande preocupação na sociedadebritânica quanto à presença e atividades de imigrantes irregulares no Reino Unido. Ot<strong>em</strong>a da imigração t<strong>em</strong> sido muito debatido na mídia britânica nos últimos anos, <strong>em</strong>grande parte graças ao fluxo crescente de imigrantes e conseqüente acirramento dacompetição por <strong>em</strong>pregos no país.Mudar essa imag<strong>em</strong> dos imigrantes – e sobretudo os imigrantes irregulares – constituium dos principais objetivos da campanha De Estrangeiros a Cidadãos, que v<strong>em</strong> sendoliderada pela <strong>London</strong> Citizens. Essa organização reúne grupos comunitários, igrejas,sindicatos e estabelecimentos educacionais compromissados com a justiça social. Acampanha reivindica do governo britânico uma anistia para cerca de meio milhão deimigrantes que, por diversas razões, se encontram no país irregularmente e, <strong>em</strong>consequência, alijados dos direitos de cidadãos. Sua regularização lhes restituiria taisprerrogativas, possibilitando-lhes o des<strong>em</strong>penho de um papel mais ativo na sociedade.Permitiria, também, ao governo, maior arrecadação, por meio de impostos que nomomento não são cobrados. Outra conseqüência seria a exposição dos patrõesinescrupulosos, facilitando-se a vigência do salário minímo (para maiores informações,consulte www.londoncitizens.org.uk).O estudo aqui relatado foi produzido no contexto dessa campanha e enfoca osbrasileiros, que constitu<strong>em</strong> um dos novos grupos de imigrantes a chegar<strong>em</strong> ao ReinoUnido ao longo da última década. Pouco se sabe sobre os brasileiros que aqui viv<strong>em</strong> etrabalham (Cwerner 2001 ; Jordan and Duvell 2002; Datta et al 2007a,b), <strong>em</strong>bora hajaindicações de que form<strong>em</strong> uma comunidade de considerável tamanho. O estudo foi,assim, instigado pela necessidade de se conhecer melhor sua situação. Este relatórioapresenta dados que foram levantados para produzir um perfil sócio-econoômico dosbrasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>, ao mesmo t<strong>em</strong>po que contribui para a campanha DeEstrangeiros a Cidadãos.População Brasileira <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>Analistas de assuntos do Brasil no Reino Unido concordam que os dados <strong>of</strong>iciais sobrea população brasileira no país estão s<strong>em</strong>pre totalmente defasados. Segundo o último1 Os termos imigrantes não-documentados e irregulares são usados com referência a pessoas que seencontram no Reino Unido <strong>em</strong> situação imigratória irregular, incluindo-se aí o visto vencido.4


censo britânico de 2001, havia cerca de 8.000 brasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>, ao passo queestimativas não <strong>of</strong>iciais para o mesmo periodo indicavam haver entre 15.000 e 50.000(Cwerner 2001). Organizações brasileiras sediadas no Reino Unido, assim comoanalistas, estimam que o número de brasileiro no país todo seja de cerca de 200.000. Agrande maioria, entre 130.000 e 160.000 indivíduos, encontra-se <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>. Somenteno bairro de Brent, estima-se que haja cerca de 30.000 brasileiros. Existe, também, umagrande comunidade <strong>em</strong> Stockwell, no Sul da capital, enquanto que o distrito deBayswater, no centro londrino, há muito é chamado de ‘Brazilwater’ por brasileiros,indicando a sua grande presença na área. Dados <strong>of</strong>iciais tend<strong>em</strong> assim a subestimar onúmero de brasileiros que viv<strong>em</strong> no Reino Unido.Tal discrepância entre dados <strong>of</strong>iciais e estimativas não <strong>of</strong>iciais já havia sido observada<strong>em</strong> estudos anteriores de brasileiros nos Estados Unidos (Margolis 1998) e no ReinoUnido (Cwerner 2001), e deve-se a vários fatores. Primeiramente, as autoridades deimigração britânica não dispõ<strong>em</strong> de meios eficazes para monitorar o movimento daspessoas no país após sua passag<strong>em</strong> pelas fronteiras; Tampouco registram sua saída,exceto <strong>em</strong> casos de deportações. Em segundo lugar, o t<strong>em</strong>po de permanência damaioria dos brasileiros é condicionado pelo tipo de visto de imigração obtido dasautoridades sendo, na maior parte dos casos, limitado, <strong>em</strong>bora muitos brasileirospermaneçam além do prazo estipulado. Dado que as saídas do país não são registradas,é impossível saber quantos brasileiros terão permanecido além do prazo permitido. Emterceiro lugar, e <strong>em</strong> consequência, muitos brasileiros vê<strong>em</strong> sua estadia apenas comot<strong>em</strong>porária ou não têm interesse algum <strong>em</strong> se fazer conhecer pelas autoridades, sendoextr<strong>em</strong>amente improvável que particip<strong>em</strong> do censo.Que a comunidade brasileira <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> é muito maior do que as estimativas <strong>of</strong>iciaissuger<strong>em</strong> pode ser depreendido do número de serviços formais e informais que surgiramna capital ao longo da última década. Estes são, <strong>em</strong> sua maior parte, <strong>of</strong>erecidos porbrasileiros para uma clientela que é primordialmente brasileira, e sua variedade éimpressionante. Há serviços de estética corporal, aconselhamento e advocacia <strong>em</strong>língua portuguesa, babás, limpeza doméstica e de escritórios, mudança e traslados,animação de festas, b<strong>em</strong> como negócios como agências de viag<strong>em</strong>, serviços der<strong>em</strong>essas de dinheiro e firmas imobiliárias, lojas suprindo roupas, comidas e bebidasbrasileiras, além de cafés e restaurantes. Em sua maioria, tais serviços são anunciadosnos vários jornais e revistas gratuitos produzidos <strong>em</strong> língua portuguesa, que têm grandecirculação na comunidade brasileira e <strong>em</strong> outras comunidades radicadas <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>cujo idioma é o PortuguêsAs igrejas de várias religiões também utilizam essas publicações para anunciar suasatividades, que são geralmente organizadas por brasileiros e realizadas <strong>em</strong> Português.Este é o caso, por ex<strong>em</strong>plo, da Capelania Brasileira, com sede no leste de <strong>Londres</strong>, quefoi estabelecida pela Igreja Católica recent<strong>em</strong>ente. A Capelania está sob cuidados depadres brasileiros, que celebram missa <strong>em</strong> português para centenas de fiéis nos fins des<strong>em</strong>anas. No ano passado, um grupo de voluntários fundou a primeira AssociaçãoBrasileira no Reino Unido, que já conta com centenas de associados. Seu objetivo ésuprir uma série de serviços, desde assessoria sobre questões legais, financeiras e deimigração, até orientação sobre questões pessoais e acompanhamento psicológico.Esses dados indicam que a comunidade brasileira <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> é grande e continua acrescer (Cwerners 2001). A seguir, descrever<strong>em</strong>os a metodologia utilizada nolevantamento de brasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>.5


<strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>: um levantamentoEm 2006, uma equipe de ativistas da campanha De Estrangeiros a Cidadãos, ligados àCapelania brasileira no leste de <strong>Londres</strong>, produziu um breve questionário contendoperguntas abertas e fechadas <strong>em</strong> Português. O questionário foi distribuído <strong>em</strong> igrejascatólicas e pentecostais no centro e no leste da capital londrina, para ser respondidodiretamente por brasileiros interessados, geralmente após missas ou cultos, durante osmeses de set<strong>em</strong>bro e outubro de 2006. O levantamento produziu um total de 423questionários respondidos.Até onde se sabe, este constitui o primeiro levantamento de brasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>/Reino Unido. Embora não se possa afirmar que os resultados represent<strong>em</strong> acomunidade brasileira como um todo, acreditamos que reflet<strong>em</strong> a situação de muitosdos brasileiros que viv<strong>em</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> atualmente.Perfil D<strong>em</strong>ográfico de <strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>Um dos principais resultados obtidos <strong>em</strong> pesquisas recentes sobre o t<strong>em</strong>a da imigraçãoé o aumento da participação de mulheres <strong>em</strong> fluxos migratórios internacionais. No casode brasileiros imigrantes <strong>em</strong> particular, Margolis (1998), por ex<strong>em</strong>plo, mostrou que aproporção de homens era somente um pouco maior do que a de mulheres no seu estudo<strong>em</strong> Nova Iorque. O estudo de brasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> reitera tais resultados, revelandoque os homens compunham um pouco mais da metade (51.5%) da amostrag<strong>em</strong>, e asmulheres compunham um pouco menos da metade (48.5%).Com relação à idade, pesquisas anteriores (Cwerner 2001; Margolis 1998) ressaltaramque imigrantes brasileiros tend<strong>em</strong> a ser jovens, resultado que o estudo de <strong>Londres</strong>corrobora. Conforme mostra a Figura 1, cerca de 82% dos brasileiros pesquisadospertenciam à faixa etária 18 – 40 anos. A idade média registrada foi de 35 anos e meio.Figure 1Idade≥ 513.541 - 501431 - 404318 - 3039.50 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50(% )6


O levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> também revelou algumas diferenças importantes nadistribuição etária entre homens e mulheres. Como pode ser visto na Figura 2, asmulheres predominaram na faixa de 18 a 30 anos (uma diferença de treze pontospercentuais), enquanto os homens predominaram na faixa de 41 a 50 anos (umadiferença de oito pontos percentuais). Em média, os homens eram só um pouco maisvelhos (34.4 anos) do que as mulheres (32.7 anos).Figura 2Idade: homens e mulheres50%45403530252015105018 - 30 31 - 40 41 - 50 ≥ 51homensmulheresEstudos anteriores também revelaram que imigrantes brasileiros tend<strong>em</strong> a dividir amoradia, uma estratégia ditada, segundo Margolis (1998) tanto por hábito (para nã<strong>of</strong>icar só), como pela necessidade (de dividir os gastos). Em Nova Iorque, por ex<strong>em</strong>plo,Margolis revelou que cerca de 40% dos brasileiros <strong>em</strong> sua amostrag<strong>em</strong> residiam <strong>em</strong>lares constituídos por unidades não familiares, compartilhando sua habitação comamigos ou conhecidos, <strong>em</strong> geral compatriotas. Isto significa que tais brasileiros eram<strong>em</strong> sua maioria solteiros, fato que foi também observado por Cwerner (2001) acerca debrasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>. Praticamente todos os brasileiros no levantamento londrinodividiam sua moradia. Mas enquanto 41% desses viviam <strong>em</strong> lares não familiares, cercade 42% moravam com seus cônjuges ou companheiros. Em termos de tipo dehabitação, cerca de 31% dos pesquisados dividiam uma casa, e outros 31% dividiamum apartamento, sugerindo que, <strong>em</strong> ambos os casos, tinham seu próprio quarto. Maisde um terço (36%) declarou estar dividindo um quarto, com uma média de três pessoasno dormitório. A grande maioria dos pesquisados (82%) não tinha filhos no ReinoUnido.Grau de Escolaridade de <strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>Pesquisas anteriores sobre brasileiros fora de seu país revelaram que esses imigrantesadvêm predominant<strong>em</strong>ente da classe média ou classe média baixa no Brasil. Umindicador importante de classe social utilizado é o grau de escolaridade alcançado noBrasil (Margolis 1998; Cwerner 2001; Jordan and Duvell 2002). O estudo de brasileiros<strong>em</strong> Nova Iorque, por ex<strong>em</strong>plo, mostrou que a maioria tinha cursado até o segundo grau,enquanto um terço havia obtido diploma universitário (Margolis 1998).7


Do mesmo modo, o levantamento dos brasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> mostra que ospesquisados tinham obtido um grau avançado de educação formal. Mais da metade daamostra (54%) havia cursado até o segundo grau, e mais de um terço (36%) haviaingressado na universidade, <strong>em</strong>bora metade destes deixara de concluir o curso degraduação. Em termos de gênero, mais homens (56%) haviam cursado até o segundograu do que mulheres (51%), enquanto mais mulheres (37%) haviam ingressado nauniversidade do que homens (35%). As respostas obtidas dos participantes revelamuma ampla gama de disciplinas cursadas na universidade, com mais de 30 cursosmencionados, incluindo Odontologia, Direito, Línguas, Filos<strong>of</strong>ia, Biologia, Jornalismoe Administração Hoteleira. A Figura 3 mostra os cursos mais mencionados.Figura 3Cursos de Graduação2520(No.)151050Administraçãode EmpresasCiênciasContábeisPedagogiaEducaçãoFísicaTurismoEngenhariaPorque os <strong>Brasileiros</strong> Vêm a <strong>Londres</strong>Da mesma maneira que se observa <strong>em</strong> outros países <strong>em</strong> desenvolvimento, uma dasprincipais razões da <strong>em</strong>igração brasileira é a procura por melhores oportunidadesecônomicas. Conforme Margolis (1998) relatou, razões ecônomicas e pr<strong>of</strong>issionaishaviam motivado cerca de dois terços dos pesquisados a deixar<strong>em</strong> o Brasil <strong>em</strong> busca d<strong>em</strong>elhores oportunidades nos Estados Unidos. Os principais fatores a impulsionar a<strong>em</strong>igração foram efeitos negativos de uma economia nacional debilitada por altainflação e marcada pela instabilidade nas décadas de 80 e 90, b<strong>em</strong> como a falta deoportunidades no mercado de trabalho aos pr<strong>of</strong>issionais e aos diplomados. Por sua vez,o principal fator a impulsionar a imigração aos Estados Unidos foi a <strong>of</strong>erta de <strong>em</strong>pregoscom salários mais altos do que os vigentes no Brasil, o que permitia poupar mais.Assim, um futuro ecônomico incerto e a perspectiva de se ganhar e poupar mais noexterior propiciaram a muitos brasileiros vislumbar a alternativa que Margolis (1998:12) denominou O que tenho a perder? Ao contrário, porém, Cwerner (2001) observouque uma proporção significativa de brasileiros atribuiu razões de cunho nãoecônomicos à sua estada <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>, tais como a vontade de ver o mundo. Já Jordan eDuvell (2002) ressaltaram que os brasileiros <strong>em</strong> seu estudo tinham sido motivados a virpara <strong>Londres</strong> tanto por ganho ecônomico quanto por acesso à infra-estrutura pública debenefícios e serviços, assim como o desejo de adquirir conhecimento ou experiência.8


Os brasileiros que participaram do levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> também apontaram váriasrazões para vir ao Reino Unido: para garantir um futuro melhor no Brasil, para daruma vida melhor a meus filhos, para crescer pr<strong>of</strong>issionalmente, para construir minhavida aqui, para comprar uma casa no Brasil, para economizar e voltar para a minhaterra, para poder educar meus filhos, para conseguir aqui o que não pude conseguir nomeu país, para pagar minhas dívidas no Brasil, para praticar minha pr<strong>of</strong>issão, paralevar uma vida digna, e para tentar vida nova. Todas as respostas foram agrupadas <strong>em</strong>categorias, conforme se vê na Figura 4.Figura 4Objetivo no Reino Unidonão respondeu6.1outro7.6estudar/melhorar oinglês16.3para ficar / para umavida melhor20.6trabalhar eeconomizar24.3trabalhar estudar25.10 5 10 15 20 25 30porcentag<strong>em</strong>Comumente, o principal objetivo para a <strong>em</strong>igração é a perspectiva de melhores ganhose a possibilidade de fazer poupança que será gasta ou investida no Brasil, através der<strong>em</strong>essas destinadas a prover a família, liqüidar dívidas, adquirir propriedade ouestabelecer negócio próprio (Margolis 1998). Aproximadamente um quarto dos queparticiparam do levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> afirmou vir ao Reino Unido com o objetivoúnico de trabalhar e, implicitamente, poupar. Um alta proporção desta poupança deveráser r<strong>em</strong>etida ao Brasil (Datta et al 2007). Contudo, houve diferenças importantes entrehomens e mulheres quanto às razões apresentadas para vir<strong>em</strong> ao Reino Unido, comomostra a Figura 5.9


Figura 5(%)35Objetivo no Reino Unido: homens e mulheres302520151050trabalhar estudartrabalhar e economizarestudar/melhorar o ingêsoutrohomensmulheresficar aqui / uma vida melhornão respondeuConforme se vê na Figura 5, mais mulheres do que homens declararam vir ao ReinoUnido para trabalhar e estudar, ao passo que mais homens do que mulheres justificaramsua vinda com o objetivo de trabalhar e economizar. Contudo, quase a mesmaproporção de homens e mulheres declarou ter vindo ao Reino Unido com o objetivo depermanecer definitivamente ou <strong>em</strong> busca de uma vida melhor.<strong>Brasileiros</strong> no Reino Unido: entrada e permanênciaEmbora a legislação de imigração no Reino Unido <strong>of</strong>ereça várias alternativas deadmissão de estrangeiros ao país e de permanência, as alternativas disponíveis aosbrasileiros são limitadas <strong>em</strong> escopo. Conforme d<strong>em</strong>onstraram Jordan and Duvell(2002), a maior parte dos brasileiros é admitida no Reino Unido com o visto de turista,obtido das autoridades de imigração no momento da passag<strong>em</strong> pela fronteira, por umperíodo máximo de seis meses, e que proíbe o turista de obter <strong>em</strong>prego. Aos quepretend<strong>em</strong> prolongar sua estada e que, como ressaltou Cwerner (2001), não vê<strong>em</strong> a sipróprios como simples turistas, restam duas alternativas. Uma é deixar o visto vencer epermanecer no país <strong>em</strong> situação irregular, uma estratégia que Margolis (1998)descobriu <strong>em</strong> uso por metade dos brasileiros pesquisados <strong>em</strong> Nova Iorque. A outraopção é obter um visto de estudante para não permanecer no país ilegalmente, pelomenos por um período inicial.A obtenção do visto de estudante requer que o candidato se matricule <strong>em</strong> um curso depelo menos 15 horas s<strong>em</strong>anais, como um curso de língua inglesa, e que sejareconhecido no Reino Unido. Estudantes nessas condições pod<strong>em</strong> trabalhar até ummáximo de 20 horas s<strong>em</strong>anais durante o período de aulas, sendo que durante as fériasescolares pod<strong>em</strong> trabalhar <strong>em</strong> período integral. O visto é normalmente concedido pelomesmo t<strong>em</strong>po de duração do curso, e é possível obter sua renovação. Segundo Jordanand Duvell (2002), tal estratégia era utilizada amplamente por brasileiros (e mais doque por qualquer outro grupo de imigrantes <strong>em</strong> seu estudo) que admitiram abertamente10


utilizar<strong>em</strong>-na puramente como meio de permanecer no Reino Unido. Porém, a obtençãoou renovação do visto de estudante normalmente implica <strong>em</strong> despesas adicionais, taiscomo a taxas de visto e matrícula, além de impor limites de t<strong>em</strong>po, restringindo assim apossibilidade de ganhar e economizar dinheiro. Em decorrência, os brasileiros <strong>em</strong> geralrenovam seus vistos de estudante uma ou duas vezes apenas, deixando-os expirar,transformando-se, assim, <strong>em</strong> não-documentados. Outra possibilidade aos brasileiros,<strong>em</strong> termos de situação imigratória regular, é a de obter um passaporte europeu <strong>em</strong>virtude da ascendência européia (comumente portugueses, espanhóis e italianos).<strong>Brasileiros</strong> nessa situação estão isentos de restrições à imigração, podendo residir etrabalhar <strong>em</strong> países da Comunidade Européia.O restrito escopo de vistos e situações imigratórias alternativas acessíveis aosbrasileiros no Reino Unido verifica-se nos resultados do levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>,como se pode ver na Figura 6. Conforme ilustra o gráfico, menos de um quinto daamostrag<strong>em</strong> possuía passaporte europeu, enquanto um décimo dos pesquisados detinhaum visto de turista à época da pesquisa. Cerca de 7% declararam ter obtido residênciapermanente no Reino Unido, uma outra situação imigratória possível aos brasileirosque satisfaz<strong>em</strong> certos requisitos (tais como estar no país por um determinado número deanos, ou, ainda, cujo cônjuge seja britânico ou europeu). Uma pequena minoriadeclarou ter recebido uma permissão de trabalho, que possibilita a obtenção dacidadania britânica, <strong>em</strong>bora este visto normalmente só esteja disponível a trabalhadoresaltamente qualificados. Contudo, reiterando os resultados do estudo de Margolis(1998), o levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> revelou que o visto de metade dos brasileiros dapesquisa já havia expirado e que eles permaneciam no Reino Unido na condição denão-documentados.Figura 6Situação ImigratóriaEstudante16%PassaporteEuropeu11%Turista10%Residente7%Visto vencido53%Autorizado atrabalhar(work permit)3%Conforme estes dados indicam, os brasileiros tend<strong>em</strong> a permanecer no Reino Unidoalém do prazo estipulado no visto. Mesmo assim, de acordo com estudos anteriores,brasileiros geralmente não consideram definitiva sua permanência no exterior. Aocontrário, muitos vê<strong>em</strong> sua estada apenas como t<strong>em</strong>porária, tencionando ficar somenteo t<strong>em</strong>po necessário para economizar o montante antecipado e retornar ao Brasil. Naprática, os planos quanto à duração da estada variam com o t<strong>em</strong>po. Assim, brasileirosque planejaram permanecer no exterior apenas por alguns meses pod<strong>em</strong> acabar ficando11


por muitos anos, quando não, residindo permanent<strong>em</strong>ente (Margolis 1998; Cwerner2001).O levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> mostra que a maior parte dos brasileiros chegou ao ReinoUnido recent<strong>em</strong>ente, constituindo, assim, um dos grupos de novos imigrantes no país.Os resultados mostram que a grande maioria (69%) havia chegado nos últimos cincoanos, indicando que os brasileiros tend<strong>em</strong> a permanecer no país a médio prazo. Ospesquisados permaneciam <strong>em</strong> média 2.8 anos, não havendo grande diferença entre amédia de anos para homens (2.7 anos) e para mulheres (2.9 anos). Assim como <strong>em</strong>estudos anteriores, estes dados indicam que a tendência dos brasileiros é de considerarsua estada no Reino Unido como t<strong>em</strong>porária, como um período para atingir seusobjetivos de poupar, aprender a língua e adquirir experiência de trabalho, parafinalmente regressar ao Brasil.Mesmo assim, como se verá mais adiante, muitos brasileiros gostariam de prolongarsua estada. Contudo, dado que as possibilidades de se permanecer legalmente sãolimitadas, e como muitos acabam se tornando não-documentados, a busca dapermanência prolongada torna-se progressivamente probl<strong>em</strong>ática. Conforme observouCwerner (2001), <strong>em</strong>bora o controle imigratório não consiga atingir a todos, muitos dosbrasileiros não-documentados viv<strong>em</strong> sob o constante medo de ser<strong>em</strong> deportados.Atividade Econômica de <strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>Assim como outros grupos de imigrantes, os brasileiros <strong>em</strong> geral obtêm, fora de seupaís de orig<strong>em</strong>, trabalhos que não se relacionam <strong>em</strong> nada com o que realizavam noBrasil, anteriormente. Como já foi visto, muitos que alcançaram educação de nívelsuperior na terra natal, obtêm apenas trabalhos de baixa qualificação ou que não exig<strong>em</strong>qualificação alguma (Margolis 1998; Cwerner 2001; Jordan and Duvell 2002; Datta etal 2007a,b). Isso decorre <strong>em</strong> grande parte das restrições impostas pela situaçãoimigratória e também pela falta de conhecimento da língua do país. Assim, porex<strong>em</strong>plo, segundo Margolis (1998), nos Estados Unidos os brasileiros só obtinham ostrabalhos disponíveis a recém-chegados ao país que não conhecess<strong>em</strong> a língua e quenão estivess<strong>em</strong> autorizados a trabalhar. Geralmente, trabalhos <strong>em</strong> bares ou restaurantes.Do mesmo modo, os resultados do levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> mostram que, <strong>em</strong> suamaior parte, os brasileiros obtêm trabalhos que não exig<strong>em</strong> qualificação, <strong>em</strong>bora doistipos de trabalho predomin<strong>em</strong>, como se observa na Figura 7. O gráfico mostra quecerca de um terço dos pesquisados trabalhava <strong>em</strong> limpeza (de escritórios e deresidências), enquanto aproximadamente um quarto trabalhava <strong>em</strong> hotéis, bares erestaurantes. Outros trabalhos mencionados foram o de motorista e entrega (10%) etrabalhos de construção (9%). Categorias de trabalho menos comumente mencionadasforam agrupadas <strong>em</strong> outros serviços, correspondendo a 13% dos pesquisados. Dentreestas chamam a atenção: estética pessoal, vendas, escritório, costureiras, pr<strong>of</strong>essora denatação, operária de fábrica, e dono de negócio. Contudo, enquanto Margolis (1998)revelou que um quarto dos brasileiros pesquisados <strong>em</strong> Nova Iorque trabalhava <strong>em</strong> doistipos de atividades, a maioria absoluta dos brasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> (98%) declaroutrabalhar <strong>em</strong> apenas uma atividade.12


Figura 7Tipos de Trabalhocourier/motorista10%construção9%au pair/babá3%não trabalha1%não respondeu6%outrosserviços13%hotéis erestaurantes26%limpeza32%Embora o denominador comum de tais atividades seja o baixo nível de qualificaçãoexigido, a divisão sexual do trabalho pode mostrar-se bastante diferenciada. Em NovaIorque, por examplo, Margolis (1998) deparou-se com uma divisão sexual b<strong>em</strong>marcada: quatro de cada cinco mulheres trabalhavam <strong>em</strong> serviços domésticos(<strong>em</strong>pregadas, faxineiras, e babás), enquanto a maior parte dos homens trabalhava <strong>em</strong>restaurantes (30%), e na construção. Conforme se pode ver na Figura 8, o levantamento<strong>em</strong> <strong>Londres</strong> corrobora tais resultados. O gráfico mostra que os homens trabalhavam naconstrução, e como motoristas e entregadores, enquanto as mulheres trabalhavam comobabás. Observa-se, também, que mais homens do que mulheres trabalhavam <strong>em</strong> hotéis,bares e restaurantes, enquanto as mulheres predominavam <strong>em</strong> tarefas de limpeza, maseram também mais suscetíveis de ficar<strong>em</strong> s<strong>em</strong> trabalho do que os homens.Figura 8Tipo de Trabalho: homens e mulheres%100%90%80%70%60%50%40%30%20%10%0%mulhereshomenslimpezahotel/bar/restauranteoutros serviçoscourier/motoristaconstruçãoau pair/babánão trabalha13


Os níveis de salário variam, por sua vez, de acordo com o tipo e a jornada de trabalho,<strong>em</strong>bora o salário-hora nunca deva ficar abaixo do salário mínimo. No levantamento debrasileiros <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>, cerca de três quintos (63%) trabalhavam período integral (35horas ou acima). Destes, cerca de 42% trabalhavam acima de 48 horas s<strong>em</strong>anais. Quaseum quarto (24%) trabalhava entre 16 e 35 horas s<strong>em</strong>anais. Em média, os pesquisadostrabalhavam 41.9 horas por s<strong>em</strong>ana.O levantamento revelou, além disso, diferenças importantes entre homens e mulherescom relação à jornada de trabalho, como mostra a Figura 9. O gráfico aponta apenasuma pequena diferença entre homens e mulheres, no que diz respeito à jornada de 35 e48 horas s<strong>em</strong>anais. No entanto, muito mais homens (42%) do que as mulheres (17%)trabalhavam acima de 48 horas s<strong>em</strong>anais, enquanto muito mais mulheres (41%)trabalhavam entre 16 e 35 horas por s<strong>em</strong>ana do que homens (15%). Somente umapequena proporção tanto de homens quanto mulheres trabalhava menos de 16 horass<strong>em</strong>anais. Porém, no geral, o levantamento mostrou uma diferença estatisticamentesignificativa entre a média de horas trabalhadas por homens (45.9 horas) e a média dashoras trabalhadas por mulheres (37.2 horas).Figura 9Horas S<strong>em</strong>anais Trabalhadas: homens e mulheres4540353025%2015105até 16 horas 16 - 35 horas 35 - 48 horas acima de 48horashomensmulheres0Quanto ao nível salarial, o levantamento londrino revelou uma certa variabilidade entrehomens e mulheres. Conforme se observa na Figura 10, o salário minímo 2 e o saláriodigno 3 foram utilizados para categorizar o salário-hora recebido pelos brasileirospesquisados.2 O salário minímo britânico (National Minimum Wage) é estipulado como salário-hora e é vigente porum ano (de outubro a outubro). À época do levantamento, o salário minímo era de £5.05 por hora.3 O salário digno (Living Wage) é o salário necessário para manter uma família de quatro m<strong>em</strong>bros (umcasal e dois filhos) com um padrão de vida minimamente decente. O salário digno é estipuladoanualmente pelo Gabinete do Prefeito de <strong>Londres</strong> (Office <strong>of</strong> the Mayor <strong>of</strong> <strong>London</strong>). À época dolevantamento, o salário digno era de £7.05 per hour. Para maiores informações, consulte o site:www.livingwage.org.uk/campaign.html.14


Figura 10Saláriosalário digno ou acima19%não respondeu15%abaixo do saláriominímo17%salário minímo11%entre saláriominímo e saláriodigno38%Conforme mostra a Figura 10, mais de um terço dos pesquisados recebia salários acimado salário minímo e abaixo do salário digno, e cerca de 11% recebiam o saláriominímo. Portanto, mais da metade da amostrag<strong>em</strong> recebia acima do salário minímo. Amédia do salário-hora para a amostrag<strong>em</strong> como um todo também situou-se entre osalário minímo e o salário digno (£6.49 por hora). Apenas uma pequena minoria dosbrasileiros (cerca de 17%) recebia salários abaixo do salário minímo, e a grand<strong>em</strong>aioria desses estava não-documentada. Igualmente, puoco mais de um quinto dosnão-documentados recebia salários abaixo do salário minímo. Ou seja, estar nãodocumentadonão implica necessariamente <strong>em</strong> receber um salário abaixo do saláriominímo, resultado que se ass<strong>em</strong>elha ao obtido no estudo de brasileiros nos EstadosUnidos (Margolis 1998). O levantamento também revelou diferenças importantes comrelação ao nível salárial recebido por homens e por mulheres, como se pode observar naFigura 11.Figura 11Salário: homens e mulheres%454035302520151050abaixo do salário minímosalário minímoentre minímo e dignoacima do salário dignonão respondeumulhereshomens15


De acordo com este gráfico, homens, mais do que as mulheres, recebiam salários entreo salário minímo e o salário digno (uma diferença de quase dez pontos percentuais).Em contraste, mulheres, mais do que os homens, recebiam o salário digno ou acimadele (uma diferença de cinco pontos percentuais). Em média, os homens recebiam£6.42 por hora, enquanto as mulheres recebiam, <strong>em</strong> média, £6.58 por hora.<strong>Brasileiros</strong> <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>: t<strong>em</strong>porariamente ou para ficar?Conforme foi d<strong>em</strong>onstrado anteriormente, muitos dos brasileiros que participaram dolevantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> vieram ao Reino Unido por razões econômicas, ou seja, paratrabalhar e poupar (metada da amostrag<strong>em</strong>). A maior parte estava no país entre um ecinco anos (dois terços dos pesquisados), o que indica que sua expectativa é depermanecer a médio prazo, a fim de atingir esses objetivos, <strong>em</strong>bora isso implique <strong>em</strong>infringir as leis de imigração e viver sob a constante ameaça de deportação. De fato,outros estudos já haviam revelado que, pelo menos inicialmente, os brasileiros encaramsua experiência de viver no exterior apenas como uma fase. Mas tal percepção écondicionada sobretudo pelos tipos de vistos aos quais têm acesso.Margolis (1998) ressaltou que muitos brasileiros se deparavam com um dil<strong>em</strong>a: ficarnos Estados Unidos para s<strong>em</strong>pre ou voltar ao Brasil? A grande maioria geralmenteconsiderava sua estada no país como t<strong>em</strong>porária; assim a subseqüente decisão depermanecer representava uma clara mudança de plano. Muitos se apegavam ao mito davolta, ao mesmo t<strong>em</strong>po <strong>em</strong> que deixavam vencer os prazos que impunham a si mesmospara o retorno. Três quartos dos brasileiros ainda se encontravam nos Estados Unidosum ano e meio após ter<strong>em</strong> participado do estudo de Margolis (1998). Cwerner (2001),por sua vez, l<strong>em</strong>brou que um aspecto importante da imigração brasileira a <strong>Londres</strong> erao constante alargamento dos horizontes t<strong>em</strong>porais. Do mesmo modo, Jordan and Duvell(2002) observaram que os brasileiros que haviam declarado ter vindo ao Reino Unidopara desenvolvimento pessoal ou apenas para uma experiência permaneciam além doprazo planejado. Como se observa na Figura 12, os brasileiros pesquisados <strong>em</strong> <strong>Londres</strong>esperavam permanecer aí a médio prazo.Figura 12Expectativa de Permanência no Reino Unido454038.3353028.8(%)25201511.3 11.61053.86.10até mais 1anode 1 a 5 anos mais de 5anospara s<strong>em</strong>pre não sei nãorespondeu16


Como se pode observer na Figura 12, mais de um terço dos pesquisados esperavapermanecer no Reino Unido entre um e cinco anos, o que indica que consideram suaestada como t<strong>em</strong>porária, ao invés de definitiva. Entretanto, cerca de 11% esperavampermanecer a longo prazo (acima de cinco anos), e <strong>em</strong> média, por 4.5 anos. Outros 11%pretendiam ficar para s<strong>em</strong>pre no Reino Unido, enquanto uma importante minoria(29%) sequer havia feito uma previsão quanto à duração de sua permanência. Muitosdestes expressaram suas expectativas com o uso de frases como pelo maior t<strong>em</strong>popossível, por quanto Deus quiser, enquanto der, deixando entrever, assim, o desejo depermanecer <strong>em</strong> definitivo.No que diz respeito à expectativa da duração de sua estada no exterior por homens <strong>em</strong>ulheres, Margolis (1998) observou que praticamente metade dos brasileiros e metadedas brasileiras pesquisados <strong>em</strong> Nova York pretendiam retornar ao Brasil. Esse estudotambém revelou que os homens, mais do que as mulheres, estavam determinados apermanecer <strong>em</strong> definitivo. O levantamento de <strong>Londres</strong> revelou resultados um poucodiferentes, conforme mostra a Figura 13. Pode-se ver, por ex<strong>em</strong>plo, que tanto homensquanto mulheres pretendiam permanecer a longo prazo ou <strong>em</strong> definitivo. Contudo, oshomens, mais do que as mulheres, tinham a intenção de ficar a médio prazo (umadiferença de doze pontos percentuais), enquanto as mulheres, mais do que os homens,mostravam-se indecisas quanto ao t<strong>em</strong>po que esperavam permanecer no Reino Unido.Os homens esperavam estabelecer-se, <strong>em</strong> média, por 4.6 years, ao passo que asmulheres esperavam continuar, <strong>em</strong> média, por 4.3 anos.Figura 13Expectativa de Permanência no Reino Unido: homens e mulheres45403530%252015105homensmulheres0até maisum anode 1 a 5anosmais de 5anosparase m preindefinidonãorespondeuApoiando a Campanha De Estrangeiros a Cidadãos da <strong>London</strong> CitizensConforme oberservado anteriormente, cerca, de metade dos brasileiros que participaramdo levantamento <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> estava não-documentada. Ao mesmo t<strong>em</strong>po, aesmagadora maioria dos pesquisados concordou com a idéia de uma anistia para osimigrantes que se encontram <strong>em</strong> situação irregular no Reino Unido, apoiando, assim, areivindicação de sua regularização pela campanha De Estrangeiros a Cidadãos.Portanto, o respaldo a tal avocação estende-se para muito além dos que têm o potencialde se beneficiar diretamente de uma anistia.17


O levantamento de <strong>Londres</strong> d<strong>em</strong>onstrou que a maior parte dos que haviam deixado oBrasil rumo à capital londrina havia cursado até o segundo grau ou universidade,pertencendo originariamente à classe média ou média baixa. Sua principal motivaçãoera a procura de melhores oportunidades econômicas do que as existentes no seu paísde orig<strong>em</strong>. Após chegar<strong>em</strong> a <strong>Londres</strong>, a maior parte se <strong>em</strong>prega <strong>em</strong> serviços de baixaqualificação e que <strong>em</strong> nada se ass<strong>em</strong>elham aos trabalhos que faziam no Brasil, mas queainda assim lhes propiciam melhores salários e, portanto, a possibilidade de poupar.Muitos inicialmente vislumbram sua estada como t<strong>em</strong>porária, apenas, tencionandopermanecer somente o t<strong>em</strong>po necessário para poupar o suficiente para uma vida melhorno Brasil. Outros gostariam de permanecer a médio prazo ou ainda <strong>em</strong> definitivo. Emambos os casos, os vistos que consegu<strong>em</strong> acessar ao chegar no Reino Unido impõ<strong>em</strong>limites à sua estada, <strong>em</strong>bora muitos, ao tentar<strong>em</strong> atingir seus objetivos, transgridam ascondições estipuladas nos vistos e se torn<strong>em</strong> não-documentados.Tal como Margolis (1998), o argumento apresentado aqui é de que os brasileirospesquisados <strong>em</strong> <strong>Londres</strong> representam a comunidade mais ampla de imigrantes nãodocumentadosno Reino Unido, que vêm buscar aqui melhores oportunidades. Sãotrabalhadores que têm um papel importante na economia britânica, não só portrabalhar<strong>em</strong> <strong>em</strong> serviços que os próprios britânicos evitam e que são essenciais a<strong>of</strong>uncionamento da sociedade, mas também por criar<strong>em</strong> efeitos multiplicadores por meiodo consumo de bens e serviços. Freqüent<strong>em</strong>ente tais trabalhadores são vulneráveis àexploração, <strong>em</strong> virtude de sua situação de não-documentados. E é esta mesmavulnerabilidade que a reivindicação pela campanha De Estrangeiros a Cidadãos daanistia aos não-documentados procura eradicar.AgradecimentosAgradec<strong>em</strong>os a todos os brasileiros que participaram do levantamento aqui relatado, etambém a Esmê Machado, pela revisão do texto <strong>em</strong> português.BibliografiaCwerner, S (2001) “The Times <strong>of</strong> Migration”, Journal <strong>of</strong> Ethnic and Migration Studies,27 (1): 7-36.Datta, K, McIlwaine, C, Evans, Y, Herbert, J, May, J and Wills, J (2007a) ‘FromCoping Strategies to Tactics: <strong>London</strong>’s low-pay economy and migrant labour’, BritishJournal <strong>of</strong> Industrial Relations, 45 (2): 404 – 432.Datta, K, McIlwaine, C, Wills, J, Evans, Y, Herbert, J, and May, J (2007b) ‘The NewDevelopment Finance or Exploiting Migrant Labour? R<strong>em</strong>ittance sending among lowpaidmigrant workers in <strong>London</strong>’, International Development Planning Review, 29 (1):43 – 67.Finella, G (2005) <strong>London</strong> Country <strong>of</strong> Birth Pr<strong>of</strong>iles: an analysis <strong>of</strong> Census data,<strong>London</strong>: GLA.Jordan, B and Duvell, F (2002) Irregular Migration: the dil<strong>em</strong>mas <strong>of</strong> transnationalmobility, Cheltenham: Edward Elgar.Margolis, M (1998) An Invisible Minority: Brazilians in New York City, Ally andBacon: Massachusetts.18


Este relatório foi produzido pelo‘Publications and Web Office’para o ‘Department <strong>of</strong> Geography’Para maiores informações, contate:Department <strong>of</strong> Geography<strong>Queen</strong> <strong>Mary</strong>, <strong>University</strong> <strong>of</strong> <strong>London</strong>Mile End Road<strong>London</strong>E1 4NSTel: 020 7882 8200Fax: 020 8981 6276<strong>em</strong>ail: geog@qmul.ac.ukwww.geog.qmul.ac.uk

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