Revista - ABAS

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Ano 3 - nº 14 - Fevereiro/Março 2010 - www.abas.orgEVENTOS EXTREMOSUrbanização, ocupaçãoinadequada do solo e falta deprevenção resultam emdesastres ambientaisáGUA E MINERAÇÃO:uma relação desafiadoraRebaixamento do nível exigecuidados para não comprometerqualidade da águaA caminho de São LuísEventos da ABAS movimentamcapital maranhenseNova fase paragestão dossolos contaminadosResolução CONAMA n° 420 é novo instrumento paraprevenção, punição e referência sobre qualidade de solos noPaís e é vanguarda na América LatinaÁGUAS SUBTERRÂNEAS1fevereiro/março de 2010


Envie seutrabalho técnicoaté 04/04/2010ÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 20102


editorialÁguas de MarçoO mundo reverencia as águas no dia 22 de março, quandocomemora-se o Dia Mundial da Água, este ano com o finalizam os preparativos para o XVI Congresso Brasileiro dena área. Enquanto isto, o Núcleo ABAS-CE e a ABAS Sedelema: “Água Limpa para um Mundo Saudável”. No Brasil, as Águas Subterrâneas, o XVII Encontro Nacional de Perfuradoresde Poços e a Feira Nacional da Água (FENÁGUA), em Sãoáguas de março “fecham o verão”, na famosa composição deTom Jobim. Um país maravilhosamente banhado pelas águas, Luís do Maranhão. No mês das águas, a ABAS também lançaa campanha “Poço irregular é crime ambiental”, mais umasejam superficiais, sejam subterrâneas. Mas a generosidadeda natureza acaba levando o homem a gerar de desperdicios ação que objetiva proteger, além do recurso natural, a empresaperfuradora e o cliente final. Perfurar um poço sempre foidomésticos a gigantescas contaminações no solo e... naságuas. Para regulamentar e organizar a situação, uma resoluçãoinédita foi aprovada no País, no final de 2009, a CONAMA aos potenciais problemas ambientais decorrentes da poluiçãoe é, cada vez mais, uma atividade de especialistas, devido420 que “dispõe sobre os critérios e valores orientadores da advindas das atividades humanas Por falar em problemasqualidade do solo quanto à presença de substâncias químicase estabelece diretrizes para o gerenciamento ambiental lizamentos de terra – têm assombrado o Brasil. Até há poucoambientais, catástrofes de toda ordem – de enchentes a des-de áreas contaminadas por essas substâncias em decorrênciade atividades antrópicas”. Em outras palavras, estabele-a matéria de meio ambiente mostra que desastres naturais,tempo considerado um país à parte destes acontecimentos,ce o gerenciamento do solo para uso e remediação em todo como os de Santa Catarina e Angra dos Reis, têm no uso e nao território nacional. Você acompanha a repercussão desta ocupação inadequada do solo uma de suas principais causas.resolução na matéria de capa, Nova fase para gestão de solos Mas as águas, acima ou abaixo da superfície, precisam seguircontaminados. As águas também mantêm estreita relação na seu rumo. E seguem, rompendo caminhos traçados retosmineração, onde os desafios são constantes, pois o rebaixamentodo nível d’água nas minas pode comprometer o meio para o bem do próprio homem, que sem água não vive. Umacomo régua em primeiro dia de aula, para o mal, mas tambémambiente subterrâneo. Em Minas Gerais, onde esta atividade boa leitura. Até a próxima edição.econômica é bastante relevante, o II Simpósio de Mineração eRecursos Hídricos, promovido pelo Núcleo ABAS-MG, reuniráEverton Luiz da Costa Souzaespecialistas para fomentar a discussão de importantes temasPresidente da ABASÍNDICE18Nova fase para gestão dossolos contaminados4AgendaApós sete anos, País ganha instrumento paraprevenção, punição e referência sobre qualidadedos solos: a Resolução CONAMA n° 42056Pergunte ao hidrogeólogoAbas Informa1422Meio Ambiente:Eventos ExtremosProdução de Água:Água e Mineração:uma relação desafiadora9102630Núcleos regionaisHidronotíciasConexão internacionalRemediaçãofevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS3


AgendaeXPEDIENTEEVENTOS PROMOVIDOS PELA ABASII SIMPÓSIO DE MINERAÇÃO ERECURSOS HÍDRICOS SUBTERRÂNEOSPromoção: ABAS - MGData: 30 de maio a 02 de junho de 2010Local: Auditório da Reitoria da UFMGBelo Horizonte – MGInformações: (31) 3444.4794 / abas@eticaeventos.com.brXVI CONGRESSO BRASILEIRO DE ÁGUASSUBTERRÂNEAS / XVII ENCONTRO NACIONAL DEPERFURADORES DE POÇOS E FENÁGUA - FEIRANACIONAL DA ÁGUAPromoção: ABASData: 31 de agosto a 03 de setembro de 2010Local: Centro de Convenções Governador Pedro Neiva deSantana - São Luís - MAInformações: (11) 3871-3626 / xvicongressoabas@acquacon.com.brSite: www.abas.org/xvicongressoabasII CONGRESSO INTERNACIONALDE MEIO AMBIENTE SUBTERRÂNEOPromoção: ABASData: 04 a 06 de outubro de 2011Local: Centro FECOMERCIO de EventosSão Paulo - SPInformações: (11) 3871-3626 / cimas@abas.orgSite: www.abas.org/cimasEVENTOS APOIADOs PELA ABASAMBIENTAL EXPOFEIRA INTERNACIONAL DE EQUIPAMENTOS ESOLUÇÕES PARA O MEIO AMBIENTEPromoção: Reed Exhibitions Alcantara Machado e ABDIB -Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de BaseData: 27 a 29 de abril de 2010Local: Pavilhão de Exposições do AnhembiSão Paulo – SPInformações: (11) 3060-4943Site: www.ambientalexpo.com.br45º CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIAPromoção: SBGData: 26 de setembro a 01 de outubro de 2010Local: HANGAR Centro de Convenções e Feiras daAmazônia - Belém – PAInformações: (11) 3871-3626 / 45cbg@acquacon.com.brSite: www.45cbg.com.brDIRETORIAPresidente: Everton Luiz da Costa Souza1º Vice-Presidente: Dorothy Carmen Pinatti Casarini2º Presidente: Luiz Rogério Bastos LealSecretária Geral: Suzana Maria Gico Lima MontenegroSecretário Executivo: Everton de OliveiraTesoureiro: Claudio Pereira OliveiraCONSELHO DELIBERATIVOChang Hung Kiang, Celia Regina Taques Barros, Maria Luiza Silva Ramos,Amin Katbeh, Francis Priscilla Vargas Hager, Aderson Marques Martins, Carlos Augusto de AzevedoCONSELHEIROS VITALÍCIOS/EX-PRESIDENTESAldo da Cunha Rebouças, Antonio Tarcisio de Las Casas, Arnaldo Correa Ribeiro,Carlos Eduardo Q. Giampá, Ernani Francisco da Rosa Filho, Euclydes Cavallari (in memorian)Everton de Oliveira, Itabaraci Nazareno Cavalcante, João Carlos Simanke de Souza,Joel Felipe Soares, Marcílio Tavares Nicolau, Uriel Duarte, Waldir Duarte CostaCONSELHO FISCALTitulares: Mario Kondo, Renato Blat Migliorini, Eduardo Chemas HindiSuplentes: Jurandir Boz Filho, Adriano Razera Filho, Fernando Pons da SilvaNÚCLEOS ABAS – DIRETORESAmazonas: Carlos Augusto de Azevedo - carlosaugusto@sopocos.com.br - (92) 2123-0848Bahia: Iara Brandão de Oliveira- abas.nucleobase@gmail.com - (71) 3283-9795Ceará: Mário Fracalossi Junior - fracalossi@seplag.ce.gov.br - (85) 3101- 4526Centro-Oeste: Antonio Brandt Vecchiato - brandt@ufmt.br - (65) 3615-8764Minas Gerais: Décio Antonio Chaves Beato - decio@bh.cprm.gov.br / abasmg@click21.com.br - (31) 3309-8000Pará: Manfredo Ximenes Ponte - mxp@be.cprm.gov.br - (91) 3277-0245Paraná: Jurandir Boz Filho - jurandirfilho@suderhsa.pr.gov.br - (41) 3213-4744Pernambuco: Alarico Antonio F. Mont´Alverne - afmontalverne@yahoo.com.br- (81) 3442-1072Rio de Janeiro: Humberto José Tavares Rabelo de Albuquerque - humberto@rj.cprm.gov.br - (21) 2295-8248Santa Catarina: Heloisa Helena Leal Gonçalves - abasscgestao20092010@abas.org - (47) 3341-7821/2103-5000Rio Grande do Sul: Mario Wrege – wrege.m@terra.com.br - (51) 3259-7642CONSELHO EDITORIALEverton de Oliveira e Rodrigo CordeiroEDITORA E JORNALISTA RESPONSÁVELMarlene Simarelli (Mtb 13.593)DIREÇÃO E PRODUÇÃO EDITORIALArtCom Assessoria de Comunicação - Campinas – SP(19) 3237-2099 - artcom@artcomassessoria.com.brwww.artcomassessoria.com.brREDAÇÃODaniela Mattiaso e Isabella MonteiroCOLABORADORESCarlos Eduardo Q. Giampá, Everton de Oliveira, Juliana Freitas, Marcelo Sousa eMarco Aurélio Z. PedeSECRETARIA E PUBLICIDADEinfo@abas.org - (11) 3871-3626COMERCIALIZAÇÃO DE ANÚNCIOS:Sandra Neves e Bruno Amadeu - comercial.abas@acquacon.com.brDIREÇÃO DE ARTE E PRODUÇÃO GRÁFICACG Propaganda e Design - Indaiatuba – SP(19) 3894-6007 - atendimento@cgpropaganda.com.brIMPRESSÃO E ACABAMENTOGráfica Editora ModeloCIRCULAÇÃOA Revista Águas Subterrâneas é distribuída gratuitamente pela Associação Brasileira de ÁguasSubterrâneas (ABAS) aos profissionais ligados ao setor.Distribuição: Nacional e Internacional.Tiragem: 5 mil exemplaresOs artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, aopinião da ABAS.Para a reprodução total ou parcial de artigos técnicos e de opinião é necessário solicitar autorizaçãoprévia dos autores. É permitida a reprodução das demais matérias publicadas neste veículo, desdeque citados os autores, a fonte e a data da edição.errataNa edição 13 – dezembro 2009/janeiro 2010 – nacoluna de Remediação, página 30, houve um erro depublicação. No artigo “Flutuação do Nível de Água emAquíferos Rasos” foi publicada uma foto, no lugar deum gráfico, cujo texto faz referência como Figura 01,conforme segue abaixo.Variaçõessazonaisdo aqüíferoRio Claro(CARNIERNETO, 2006)ÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 20104


pergunte ao hidrogeólogo“Meu poço está coma água amarelada eum sabor estranho, quelembra ferro.Como saber o que estáacontecendo? Quaismedidas devo tomar?Esta água pode fazermal à saúde?”Caro Leitor, realmente a qualidade da água de umpoço pode apresentar variações ao longo do tempo.Muitos dos problemas estão relacionados com a faltade manutenção nos poços, para remoção das incrustaçõesnaturais geradas pela exploração, que podemainda trazer forte queda de vazão. Quanto aos problemasfísicoquímicos naturais, em primeiro lugar está oferro, seguido do manganês e do fluoreto. Estes trêselementos concentram 90% dos problemas. Há aindaos nitratos, com importantes ocorrências no Oeste doEstado de São Paulo, com registros de praticamente80% dos problemas da região.Em relação ao ferro, os dados indicam que80% a 85% dos poços que apresentam problemasde alteração de qualidade de água estão relacionadoscom o excesso deste mineral. O ferro é umelemento abundante na natureza, fazendo parte dacomposição de muitos minerais, o que explica suaocorrência na água.O limite de ferro para potabilidade, segundo aMS 518, é de 0,30 mg/l. Acima deste limite já podemser percebidas as alterações de cor e sabor. O ferroé essencial para os processos metabólicos do nossoorganismo e está presente em muitos alimentos,porém não deve ser consumido em excesso.Um diagnóstico preciso pode ser efetuado peloseu geólogo e empresa de perfuração de confiança,que considerarão não somente uma análise deágua, mas também o tempo de operação, hidrogeologialocal, condições de uso e vazões, para proporuma solução.Minha recomendação para estes problemas é aaplicação de um processo de desincrustação químicano poço, com produtos à base de ortofosfatosácidos, que tem demonstrado excelentes resultadosem todo Brasil. Mesmo poços que já iniciaramsua operação com excesso de ferro podem receberprocessos de desincrustação química e apresentarbons resultados. Estes processos resolvem aproximadamente90% dos problemas. Caso persista, oferro pode ser controlado com ortopolifosfatos ouser removido por processos mais simples e baratosdo que no passado.José Paulo G. M. NettoGeólogo e Diretor Executivo / Maxiagua Soluções em Águafevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS5


ABAS INFORMAABAS lança campanha:Poço irregular é crime ambientalDurante a última reunião de Conselho da AssociaçãoBrasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), ocorridaem fevereiro, ficou definida a criação de uma campanhade conscientização para combater a clandestinidade nomercado e capacitar os clientes para que saibam o queexigir da empresa que está sendo contratada. Com omote, Poço Irregular é Crime Ambiental, a campanhaabordará as principais vantagens da abertura de poçosdentro dos parâmetros legais. Em breve, através do siteda ABAS (www.abas.org) os potenciais clientes dos perfuradoresde poços encontrarão critérios recomendadospela Associação para a contratação deste serviçoassim como outros detalhes da campanha.REVISTA CIENTÍFICA ÁGUASSUBTERRÂNEAS entra em nova faseCampanha abordará principais vantagens da abertura de poçosdentro dos parâmetros legaisCarlos Eduardo Q. Giampá – DH Perfuração de PoçosA Revista Águas Subterrâneas, publicaçãocientífica editada e publicada pela AssociaçãoBrasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), e um deseus pontos de prestígio, foi totalmente reformulada.“Desde 22 de dezembro de 2009, uma novaequipe editorial assumiu a revista das mãos dosprofessores Ernani da Rosa Filho e Eduardo Hindi,a quem somos gratos”, informa Everton Luiz daCosta Souza, presidente da Associação.Toda a documentação existente foi revisada,reorganizada e incluída no Sistema Eletrônicode Revistas (SER) – www.ser.ufpr.br/asubterraneas.O grupo de avaliadores de artigos técnicosfoi ampliado de aproximadamente 30 paramais de 100 colaboradores, todos já cadastradose participando do processo de revisão dosartigos. De acordo com Souza, “todos os artigossubmetidos que ainda necessitam de avaliaçãojá foram distribuídos para os avaliadores.Estamos fazendo um esforço concentrado paraacelerar sua avaliação”.Desde fevereiro, todo o processo editorial (submissões,avaliação pelos pares, incorporação decomentários e sugestões, edição de texto, ediçãode layout, revisão de provas e publicação, trocade emails), será feito exclusivamente pelo SER.“Nenhum documento será enviado por correio normalou diretamente para o email pessoal dos editores.Todo o procedimento ficará gravado e docu-mentado, garantindo a legitimidade do processo”,ressalta Souza. Ele acrescenta que “a resposta detodos os colegas em apoio e dedicação à revitalizaçãoda Revista Águas Subterrâneas foi impressionante.Essa pronta resposta nos torna otimistasem relação ao futuro da revista. Todos os envolvidosnas mudanças estão de parabéns”.Dentro do panorama atual para publicação darevista, há dez artigos recebidos dos editores anterioresem fase de diagramação para publicação.Estes 10 artigos comporão o Vol. 21 nº 2, de 2007.Há ainda 25 artigos em processo de avaliação,que poderão compor os dois volumes de 2008(Vol. 22 nº 1 e nº 2). Faltarão ainda ao menos 20artigos para serem avaliados e aceitos para publicaçãocom a data de 2009 (Vol. 23 nº 1 e nº 2) eao menos mais 20 para 2010 (Vol. 24 nº 1 e nº 2).“Há um grande desafio para completar estes volumes,mas estamos otimistas para a conquista dosresultados”, afirma o atual editor-gerente, Evertonde Oliveira.Souza ressalta que “é importante que todosparticipem da revista, submetendo artigos. Comisto, teremos a regularidade da revista assegurada.E a sua qualidade só dependerá de nós mesmos.Convidamos a todos para que participem darevista, seja como autores, seja, como leitores”.Submissão de artigos diretamente no Sistema Eletrônicode Revistas (SER): www.ser.ufpr.br/asubterraneasÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 20106


ABAS INFORMAA CAMINHO DE SÃO LUÍSAs chuvas mais intensas do inverno e as poucasque acontecem no verão seco do Estado do Maranhãoatingem 1600 mm/ano de água. A quantidade é insuficientepara atender os diversos usos da população.Como “todos precisam viver”, no verso do poeta maranhense,João do Vale, cidade e campo se valem daságuas subterrâneas para suprir suas necessidades.Para esclarecer e discutir as questões mais importantesreferentes a este recurso natural, São Luís sedia oXVI Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas, oXII Encontro Nacional de Perfuradores de Poços e aFeira Nacional da Água (FENÁGUA).Com promoção da ABAS e realização do NúcleoABAS Ceará, o evento será de 31 de agosto a 03 desetembro, no Centro de Convenções de São Luís,no Maranhão, tendo como tema central “ÁguasSubterrâneas: Patrimônio Natural da Humanidade”.Itabaraci Cavalcante, Presidente da ComissãoTécnico-Científica do Congresso, salienta que osprincipais objetivos do encontro são “avançar nosestudos que norteiam a conservação e utilizaçãodas águas subterrâneas, além de promover umaforma de aproximar a comunidade do assunto, trazendoa discussão social da captação e do uso dorecurso para o centro do debate”.Aproximadamente 80% das cidades maranhenses,que são abastecidas pela Companhia de Águae Esgotos do Maranhão (CAEMA), são servidas poráguas subterrâneas. Para o presidente da ABAS,Everton Luiz da Costa Souza, o evento é um divisorde águas para o Maranhão; momento em queo estado reflete sobre importantes avanços, fundamentaisà melhor gestão de seus recursos hídricos,investindo fortemente na capacitação de quadrotécnico tanto do órgão gestor quanto ambiental.“É certo que teremos um grande número de participanteslocais, devido às articulações já efetuadaspela comissão organizadora.” Na avaliação deItabaraci, participar de um congresso como este,é um grande investimento para os profissionais daárea, “não só devido à importância do tema ‘ÁguasSubterrâneas’, mas também pelo retorno rápidoque se pode obter por meio do conhecimento e datroca de informações com palestrantes e expositoresda área”.A expectativa é contar com mais de mil congressistase mais 2 mil visitantes da FENÁGUA, seguindoa tradição dos eventos anteriores. Visite nossosite - www.abas.org/xvicongresso - para conhecer aprogramação completa do evento.FENÁGUADiversas empresas já confirmaram presença na FENÁGUA 2010. Veja quem já reservou seu espaço.DATAS IMPORTANTES04/04/2010 - PRAZO FINAL PARAENVIO DE TRABALHOS TÉCNICOS15/06/2010 – PRAZO FINAL PARAINSCRIÇÕES COM DESCONTORestam poucos estandes na FENÁGUA. Para participar, ligue (11) 3871-3626 ou envie um email para info@abas.orgfevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS7


hidronotíciasPesquisa explica excessode cromo em águassubterrâneas de SÃo PauloCarlos Eduardo Quaglia GiampáDiretor da DH Perfuração de PoçosA água subterrânea de algumas cidades localizadasno aquífero Bauru, na região noroeste de SãoPaulo, intriga cientistas por que apresenta naturalmenteuma alta concentração de cromo hexavalente,um metal cancerígeno. Uma pesquisa da USP, publicadarecentemente na revista Geologia USP: SérieCientífica, do Instituto de Geociências (IGc), revela acausa do fenômeno: uma combinação de águas profundasmuito alcalinas e um mineral de origem vulcânicainesperado no tipo de rocha da região.A concentração de cromo na água subterrâneade Urânia, a cidade mais afetada pelo problema, é0,14 miligramas por litro (mg/l) — mais que o dobrodo limite estabelecido pela Organização Mundialda Saúde (OMS) para o consumo humano, de 0,05mg/l. Foram relatados casos parecidos somente emregiões de clima mais áridos e com rochas muitoespecíficas, incluindo algumas regiões dos EstadosUnidos, Itália e Austrália.Os pesquisadores do IGc resolveram investigar acausa da ocorrência, já que no noroeste de São Pauloo clima é tropical e as rochas são bem comuns — arenitosque se originam da degradação de outras rochas.Eles perfuraram poços de diversas profundidades eexaminaram a composição do terreno e a água.Na rocha, perceberam uma porcentagem grandedo mineral diopsídio com cromo em seu interior.“Geralmente os diopsídeos com cromo estão emrochas muito alcalinas”, explica Reginaldo Bertolo,professor do IGc e cooperador da pesquisa. “Láem Urânia existe o único caso que eu conheço emque eles estão presentes em arenitos.”O diopsídio da região é originado das rochas vulcânicasmuito alcalinas que existiam há milhões deanos no Triângulo Mineiro. Elas foram erodidas lentamentee transportadas para a região, que era desérticana época. Por essa razão, o mineral preservousuas características. “O mineral existe por que nãohavia água na região”, explica Bertolo. “Ele não tevetempo de ser transformado em outros minerais. Estáse transformando agora”.No entanto, apenas a presença do mineral não explicacomo o cromo foi parar na água subterrânea. O fenômenopode ser explicado pelo fato de as regiões maisprofundas do aquífero terem grande alcalinidade, outracaracterística rara. O pH da água em profundidadescomo 80 metros e 90 metros varia entre 8,5 e 10,7. OpH é alto por conta de reações químicas que acontecemdevido à presença de carbonato de cálcio, oxigênio eóxido de manganês em suas águas. O pH da água subterrâneana natureza normalmente está entre 5,5 e 8,5.ÁGUA PERIGOSAEm Urânia, a Sabesp, distribuidora estatal de água,abandonou a exploração dos poços e importa a água dacidade vizinha, Jales, que usa água do Aquifero Guarani.No entanto, há poços particulares sem regularização.“Existem milhares de poços de propriedades particulares”,afirma Bertolo. “Muita gente pode estar bebendoágua incolor e sem gosto, talvez contaminada”. Ele lembraque a cada cinco poços no Estado de São Paulo,quatro são construídos sem autorização de funcionamento(outorgas) pelo governo, segundo levantamentofeito pelo Laboratório de Modelos Físicos (LAMA) doIGc. Esse poços não são fiscalizados.Outro problema da região são os curtumes, queusam cromo no tratamento de couro e descartam osresíduos sem cuidados ambientais, o que pode agravara contaminação natural. “Entretanto, esses problemassão pontuais e têm sido mais facilmente identificadospelos órgãos ambientais”, explica RicardoHirata, professor do IGc e cooperador da pesquisa.A pesquisa aponta estratégias possíveis paraexplorar a água da região. Uma sugestão é construirpoços em regiões do aquífero com menos sódio, jáque os pesquisadores perceberam que concentraçõesaltas de cromo hexavalente são acompanhadasÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201010


HIDRONOTÍCIASpor concentrações altas de sódio. Outra possibilidadea ser testada seria bombear a água dos poços existentesem diferentes vazões ou regimes de bombeamento,já que o ritmo de bombeamento parece influenciarna concentração do contaminante na água.Fonte: Nibberth Silva, da Agência USPMinas Gerais sediará centrointernacional de pesquisa em águasBrasil será sede do Centro Internacional de Educação, Capacitação e Pesquisa Aplicada em Águas (Hidroex)Criado a partir de uma parceria entre o governo deMinas Gerais, o Governo Federal e a Organização dasNações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura(Unesco), o Hidroex será um centro de estudos ereferência para conservação do patrimônio hidrológicoda América Latina.A previsão é de que até o final do ano seja concluídaa instalação física do instituto, em Frutal, noTriângulo Mineiro. Em fevereiro, no Ministério da Ciênciae Tecnologia (MCT), em Brasília, o ministro SergioRezende; o deputado federal Nárcio Rodrigues (PSDB/MG), idealizador do projeto, e o diretor do Centro Internacionalde Ecohidrologia Costeira, Luís Chícharo, sereuniram para discutir a implantação do centro. Participaramtambém os representantes do Instituto Unescode Educação para as Águas de Delft, Holanda: reitorAndrás Szologgy Naggi; além dos professores MichaelMcClain, Richard Meganck e Frank Jaspers.O MCT investirá R$ 60 milhões no Hidroex, queterá como linha de pesquisa a sustentabilidade eo uso racional dos recursos hídricos. A equipe docentro e o deputado Nárcio Rodrigues tambémseguiram viagem para a Escócia e Holanda. Nosdois países, serão firmadas parcerias com institutoshídricos para ação conjunta entre Brasil, demaispaíses da América Latina e nações de língua portuguesada África.Fonte: Assessoria de Comunicação do MCTfevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS11


hidronotíciasCasagrande avisa que dará parecer contrárioà mudança de domínio das águas subterrâneasO senador Renato Casagrande (PSB/ES) anunciounesta terça-feira (23), durante audiência públicada Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidore Fiscalização e Controle (CMA), que apresentaráparecer contrário à Proposta de Emenda à Constituição(PEC) 43/2000, que muda a titularidade da maiorparte das águas subterrâneas em favor da União.Segundo essa proposta, se constituem em bens daUnião as águas superficiais ou subterrâneas, inclusiveos aqüíferos (depósitos subterrâneos de água) ,quando banharem mais de um Estado, servirem delimites com outros países ou se estenderem a territórioestrangeiro ou dele provenham, bem como osterrenos marginais e as praias pluviais.Casagrande, que relata a matéria na Comissão deConstituição e Justiça (CCJ), disse que ao ouvir asexplicações dos técnicos concluiu que a PEC não ajudariano gerenciamento das águas subterrâneas. “Osestados precisam organizar a gestão dos recursoshídricos. Eles devem ter planos e prazos para cumprirmetas. Cabe às Assembleias Legislativas fazer esseacompanhamento”, destacou.O socialista afirmou, ainda, que em vez da emendaconstitucional a legislação que trata do assunto podeser complementada no âmbito da Lei da Política Nacionalde Recursos Hídricos (Lei 9.433/1997), ou através deresoluções do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.Durante a audiência da CMA, o diretor da AgênciaNacional de Águas (ANA) Paulo Varella; o presidenteda Associação Brasileira das Águas Subterrâneas(ABAS), Everton Luiz da Costa Souza e o representantedo Instituto de Gestão das Águas e Clima (INGÁ),Breno Lasmar, foram unânimes em relação à rejeiçãoda PEC. Alegaram que o mais importante seria fazercom que estados e municípios se envolvessem nagestão dos recursos hídricos, em especial no casodas águas subterrâneas, que não deve receber, porparte do governo federal, o mesmo tratamento que aságuas superficiais.Fonte: Informativo CMARECORDAR É VIVERII ENCONTRO NACIONAL DEFERFURADORES DA ABAS – Belo Horizonte,MG - de 29/11 a 02/12 de 1981ABAS informa nº 2entrevista com Lars W. Janer,Presidente da Cia. T. Janer,Maio de 1981ÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201012


fevereiro/março DEZEMBRO DE 2009/JANEIRO de 2010 de 2010 ÁGUAS SUBTERRÂNEAS1313


meio ambienteEventos ExtremosO adensamento urbano nas grandes metrópoles, associado àineficiência dos órgãos públicos na acomodação territorialda população e adoção de medidas preventivas, tem resultadoem graves desastres ambientaisPor Isabella MonteiroNotícias de desastres climáticos provocados pelanatureza repetem-se na mídia e suscitam a preocupaçãoconstante de pedestres e motoristas que circulampelas regiões afetadas e, principalmente, de moradoresde encostas e áreas de topografia acidentada.Os eventos extremos, que têm assolado o Brasil nosúltimos tempos, além dos danos ambientais, econômicose socias, trouxeram também alguns questionamentos.Entre eles: as mudanças climáticas, o uso ea ocupação inadequada do solo e o papel dos órgãospúblicos na prevenção e na reação a esses desastres.De acordo com o geólogo do Instituto de PesquisasTecnológicas (IPT), Agostinho Ogura, há dois pontosprincipais que devem ser avaliados em relação aosacidentes associados aos processos geológicos ehidrológicos. “O primeiro refere-se às condições naturaisdos terrenos, que propiciam a ocorrência dessesprocessos: as áreas de encostas, naturalmente suscetíveisaos deslizamentos; e as áreas de várzeas eplanícies, suscetíveis às enchentes e inundações. Ooutro se refere às diversas intervenções humanas nosterrenos de encosta e nas bacias hidrográficas, principalmenteas de caráter urbano”, pondera.O engenheiro civil e doutor em mecânica dasrochas, Euripedes do Amaral Vargas Junior, apontaque “a questão no momento não é uma mudançanas características dos eventos climáticos, mas sim,um aumento significativo das consequências negativasdo uso inadequado do solo”. É o que tambémacredita o especialista em geologia de engenharia,geotecnia e meio ambiente, Álvaro Rodriguesdos Santos. “Situações climáticas como a atualjá ocorreram muitas vezes, antes das polêmicassobre o aquecimento global. De tempos em tempos,há a probabilidade de históricos mais chuvosos.Estamos atravessando um desses momentos”.Ele acrescenta ainda que as causas elementaresdessas tragédias estão nos erros cometidos pelohomem em suas intervenções no meio físico natural,citando como exemplo a Região Metropolitana deSão Paulo, cuja expansão urbana avança progressivamentepara regiões de topografia cada vez maisacidentada, utilizando a terraplanagem intensivapara a produção de áreas planas. “Em um exercícioburocrático de adequar a natureza aos projetosao invés de adequá-los à natureza, áreas de riscosão criadas, solos são expostos à erosão, infraestruturaurbanaé destruída,os sedimentosoriginadosvão assorear arede hidrográfica,fenômenohoje que sedestaca comouma das principaiscausasdas enchentesna metrópole”,explicaSantos.Álvaro Rodrigues dos Santos, especialistaem geologia de engenharia, geotecnia emeio ambienteÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201014


meio ambienteUM OLHAR SOCIOLÓGICOO Brasil viveu, nos últimos 70 anos, um processosocioeconômico e político de urbanização aceleradae marcada por desigualdades, conforme apontaa socióloga e pesquisadora do Núcleo de Estudose Pesquisas Sociais em Desastres (NEPED), doDepartamento de Sociologia da Universidade Federalde São Carlos (UFSCar), Mariana Siena. Segundo ela,há ausência de compromisso do Estado na regularizaçãofundiária, no apoio à construção segura, naimplantação de equipamentos e bases para enfrentaras diversas ameaças ambientais. “A segregaçãoespacial das populações de menor renda, se expressaem seus padrões de ocupação precários, caracterizadospela autoconstrução das moradias; fixaçãoem loteamentos irregulares e pela precariedade nosaneamento”, argumenta.M a r i a n aadmite que osdesastres tambématingem aparte mais ricada população,Mariana Siena, sociólogae pesquisadora do NEPEDhaja vista o deslizamentode terraque assolourecentementeos condomíniosde luxo construídosem áreade encostas, emAngra do Reis(RJ), por exemplo.No entanto,ela salienta queas pessoas com alto poder aquisitivo têm maior possibilidadede recuperararem o que foi destruído e seprevenirem, do que as de baixa renda, que vivem emsituação de vulnerabilidade social.“Temos constatado que o problema se generalizoue nos questionado se existem áreas que nãosejam de risco. Pois, a própria dinâmica de crescimentodas cidades tem causado enchentes ondegeralmente não se tinha”, explica Mariana. Segundoela, é preciso uma reavaliação do planejamento doEstado, inserindo a temática de desastres como umelemento que pode afetar as estratégias de desenvolvimentodo país, uma vez que gastos com reconstruçãode infraestrutura poderiam ser destinados a financiarinvestimentos sociais e preventivos.CONSEQUÊNCIAS E O MEIOAMBIENTE SUBTERRÂNEOAs inúmeras consequências negativas desseseventos revelam grande número de mortos, feridos edesabrigados, além de prejuízos financeiros advindosda destruição de edifícios e casas, degradação deáreas, interrupção de vias de transporte e caos social.Ambientalmente, os deslizamentos -- resultado dodeslocamento de massas de solo, rochas e vegetação-- refletem a degradação do meio ambiente subterrâneo,modificam o regime de infiltração de águas nosmeios geológicos e, consequentemente, o regime dosaquíferos existentes.A enorme inundação ocorrida recentemente nacidade de São Luís do Paraitinga (SP), resultandoem destruição patrimonial e cultural, constitui-se umexemplo. “Resultado de uma exploração agrícolapredatória desde os tempos coloniais, as cabeceirasdos rios Paraitinga e Paraibuna, formadores do RioParaíba do Sul, apresentam progressivo empobrecimentodos solos por erosão e lixiviação, gerandogrande aumento do escoamento superficial, reduçãoda infiltração e assoreamento das calhas hidrográficas,causando redução da capacidade de vazão”,exemplifica Álvaro Santos.“Do ponto de vista das enchentes, a baixa qualidadedas águas superficiais em regiões constantementealagadas, como se vê na cidade de São Paulo(SP) ou na Baixada Fluminense, no Estado do Riode Janeiro, contribui para a contaminação de aquí-Brasil possui tecnologia, não usada pela administração pública,na prevenção de desastres ambientaisfevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS15


meio ambienteferos eventualmente explorados na região”, alertaEuripedes Vargas.Enchentes, inundações e escorregamentosgeneralizados, ocorridos em novembro de 2008, naregião Leste do Estado de Santa Catarina, podemser considerados um novo marco na história dedesastres naturais no Brasil. “Importante destacarque os processos lá ocorridos foram deflagrados portotais de chuvas muito elevados, superiores a 500mm, após meses seguidos de eventos chuvosos,mostrando que eventos pluviométricos extremos,ocorrem de forma recorrente em toda costa leste doBrasil, principalmente nos locais que apresentamrelevo montanhoso”, ressalta Ogura.De acordo com Vargas, embora apresentem períodode recorrência previsível, que na região Sudestepode ser estimado entre 10 anos e 15 anos; o PoderPúblico não adota medidas de precaução adequadas,aguardando que a população se esqueça doepisódio, que se repetirá, futuramente.TECNOLOGIAS DE PREVENÇÃOE O PODER PÚBLICOO Brasil dispõe de capacitação técnica e acessoàs tecnologias para criar sistemas de monitoramentoe planos de prevenção de riscos. Para AgostinhoOgura, dados obtidos por tais sistemas podem subsidiaro planejamento e a execução de ações de prevençãode desastres a curto, médio e longo prazo,tanto para o setor público quanto para o privado.“Possuímos capacidade técnica para saber onde ecom qual grau de severidade esses processos ocorrem,baseados nas características climáticas e domeio físico. Também pelas intervenções humanas,que tendem a aumentar a frequência e a intensidadedos fenômenos naturais, e sua própria condição devulnerabilidade e risco”, explica.Além de tecnologia, o país dispõe ainda de profissionaise instituições qualificadas para monitorar,propor medidas preventivas ou remediar áreas afetadaspor tais eventos. No entanto, para Vargas, o Brasilainda é bastante deficitário em relação aos registroshistóricos e contínuos de chuva, já que poucos locaisno país têm uma rede de pluviômetros automáticosde registro contínuo. “O município do Rio de Janeiro éuma exceção, pois tem uma rede de 32 pluviômetrosautomáticos, instalada na Fundação Geo-Rio, funcionandoininterruptamente desde 1998. Por meio dela,se obtêm dados para subsidiar estudos de ocorrênciade deslizamentos e, ao mesmo tempo, prover umsistema de alerta, que permite maior agilidade aosórgãos públicos”. Para ele, é preciso ainda intensificarestudos sistemáticos de previsão da influência destasmudanças de clima nos regimes hídricos de águassuperficiais e, principalmente, das águas subterrâneasem nosso país, objetivando antever os seus efeitossociais e econômicos, que certamente ocorrerão.Santos acredita que, embora o Brasil esteja numpatamar tecnológico de vanguarda mundial, tantopara o meio urbano como para o rural, um grandeproblema persiste: “a falta de interesse das administraçõespúblicas, em seus mais diversos níveis, emaplicar esse ferramental, em trabalhar com uma lógicapreventiva e de planejamento”.Sobre isso, Mariana Siena destaca que as fragilidadesdo Sistema Brasileiro de Defesa Civil ao lidarcom tais desastres e, principalmente, para prevenílos,são visíveis. “Assim como o acesso ao solo maisseguro, o acesso às tecnologias que reduzem a vulnerabilidadetambém são mal distribuídas. As companhiashabitacionais, em parceria com as agênciasde fomento – de incentivo às universidades e institutosde pesquisa – poderiam desenvolver tecnologiasde drenagem, de construção de moradias de baixocusto, por exemplo, para permitir uma territorialidademais segura aos mais carentes”, pondera.Sobre as projeções futuras para essa situação,Álvaro Santos acredita que “vivemos ainda a culturado progresso pelo progresso, a sensação da inesgotabilidadede recursos e território. O governo deveriaser o exemplo, o paradigma a ser seguido pela açãoprivada, mas, infelizmente, isso não acontece emnosso país. Há um claro desafio civilizatório propostopela realidade”, adverte ele.Enchentes nas grandes cidades: impermeabilização excessivaimpede a absorção de água pelo soloÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201016


meio ambienteÀS MARGENS PLÁCIDAS“Até que, um dia, vem morar cá fora.Se muda o curso é que ausente o apoio.”Alckmar dos Santos, poetaMario Wrege, HidrogeólogoSão Paulo, Angra, Ollantaytambo. A placidezvirou turbilhão. Os caminhos estão sendo mostrados.Porto Alegre será o day after?Estamos perdendo as batalhas para os fluxosdas águas. Há o volume de precipitação acima damédia, é certo, mas há o componente humano desimplificar e linearizar a solução, facilitando-a. Sóque a Natureza é mais complexa que retificar ocanal do rio ou drenar banhados.Estamos perdendo as batalhas e tenderemos aperder a guerra, muito provavelmente por termosperdido o convívio simbiótico com as calhas dosrios e as planícies de inundação. Antes tinha-seacesso direto ao rio e o rio acesso direto a seuentorno. Os rios podiam meandrar e fazer longoum caminho curto e podiam inundar áreas que seconfundiam com seu leito, aumentando temporariamenteo banhado. Um dia alguém achou queestes terrenos estavam sendo desperdiçados;portanto, que se adaptem os mesmos aos desígnioshumanos. Hoje, suas margens viraram bermascom pistas de rolamento; suas calhas, canaisretificados; suas áreas de acumulação e amortecimento(banhados, charcos), loteamentos.As áreas de infiltração foram impermeabilizadaspor construções e capeamentos. A carga sólidanatural (areias e argilas) foi também incrementadapelas erosões e cortes expostos, além do queé jogado, tudo o que não interessa, no fluxo dorio; de esgoto a animais mortos, de sacos de lixosa sofás. Quando não é a inundação é o fedor; esempre e constantemente o aspecto desagradável.O arroio Dilúvio e a avenida Ipiranga associadaé um belo exemplo.As margens plácidas não existem mais. Detudo, restou a possibilidade crescente de inundaçõese de extravasamento. Isto causa enormesprejuízos financeiros e enormes tensões emocionais;também desorganiza a atividade urbanae necessita de trabalhos de restauro para que avida volte ao normal. É uma enorme sobrecargaao Poder Público.Dá para amenizar. A batalha é difícil e de longoprazo. Ou seja, há que começar logo, antesque o problema se torne crítico; agora as possibilidadesde escolha são maiores e pode-seescolher pensando em custos e eficiência. Claro,inclui algum dinheiro, que poderá ser muito,e muita educação. As soluções mais baratas sãoas da lógica da Natureza. Tem-se, como exemplos:aumentar a intercepção (árvores e vegetação;telhados porosos), aumentar as áreas deinfiltração (praças, árvores, coberturas porosasetc.), aumentar o percurso do fluxo de água – e,consequentemente, o tempo de circulação e apossibilidade de infiltração e, até, de evaporação–, permitir espraiamentos rasos e outras. As soluçõesde longo prazo estão na linha da educação.Tem-se: informar as pessoas onde estão os riose canais da cidade, informar as funções do rio, oque fazer em caso de inundação e de emergência,as medidas sanitárias e de higiene, como trataro lixo doméstico (envase e dispensa) etc. Assoluções menos baratas são as da engenharia.Tem-se: criar bacias de acumulação, criar canaisalternativos (mesmo subterrâneos), criar estaçõesde bombeamento etc. As soluções de custointermediário são as de arquitetura: construir prédiosadaptados às cheias: andar térreo livre oucom objetos não perecíveis ou facilmente removíveisou intercambiáveis, captar águas de chuvaem cisternas, usar pisos externos permeáveis etc.Não haverá solução única e definitiva. Todasas possíveis soluções serão necessárias de serconsideradas; cada um contribuindo um poucopara o alívio; cada um contribuindo de forma diferentee com custos e prazos diferentes. Será umcompromisso com todas as áreas sociais. Há quese chegar a uma solução que seja efetiva e eficaz,além de eficiente.fevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS17


NOVA FASEPARA GESTÃO DESOLOS CONTAMINADOSResolução CONAMA n° 420 é novo instrumento para prevenção,punição e referência sobre qualidade de solos no país. Gestão das áreascontaminadas no Estado de São Paulo foi fundamental na elaboração, quedemandou sete anos de estudos e discussõesPor Daniela MattiasoUma resolução inédita foi aprovada no País.Publicada no dia 28 de dezembro de 2009, a resoluçãodo Conselho Nacional de Meio Ambiente(CONAMA) de número 420 “dispõe sobre os critériose valores orientadores da qualidade dosolo quanto à presença de substâncias químicase estabelece diretrizes para o gerenciamentoambiental de áreas contaminadas por essas substânciasem decorrência de atividades antrópicas”.Em outras palavras, estabelece o gerenciamentodo solo para uso e remediação em todo o territórionacional.Até o momento, o cenário brasileiro havia sidomarcado pela ausência de políticas públicas nasquestões como planejamento, conservação e atémesmo preservação deste recurso, tão importantepara cultivos, obras e empreendimentos, assimcomo para todos os ciclos hidrológico, químico ede manutenção da qualidade da vida e da própriaexistência do planeta.A resolução, segundo especialistas da área, éum grande avanço, tanto para o reconhecimentodas ciências do solo, como também para a gestãoambiental dos recursos naturais do Brasil. Aproposta, que demandou sete anos de trabalhopara atingir o formato final até sua aprovação,ajudará no cadastro, prevenção e tratamento dadegradação química e consequências dos impactosambientais no solo.O INÍCIOPara elaborar a resolução, representantes devários segmentos do governo, da sociedade civile do setor privado debateram exaustivamente, porsete anos, qual seria a melhor abordagem para estaquestão dentro do cenário nacional. Andre GustavoAssumpção Cardoso, técnico químico da Secretariade Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental,com enfoque em Gestão das Atividades IndustriaisPotencialmente Poluidoras do Ministério do MeioAmbiente (MMA), membro da equipe de Zilda MariaFaria Veloso, Gerente de Resíduos Perigosos doórgão, conta que a discussão sobre o tema iniciou-senum Grupo de Trabalho (GT) formado em 2002. “OGT trabalhou assiduamente por um longo período,em torno de 15 reuniões com duração de dois dias,e contou com a participação de muitos outros órgãosambientais. As reuniões foram interrompidas ao finaldo ano.Em 2006, o assunto foi retomado pelo CONAMAe um novo GT foi formado. Após dezesseis reuniões,o GT definiu que a metodologia mais adequada era aque se encontra em desenvolvimento pela CompanhiaAmbiental do Estado de São Paulo (CETESB), ligada àSecretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo,em atuação nesta área há muitos anos. Uma metodologiabaseada em modelo holandês, apoiada pela GTZ- Agência de Cooperação Alemã -, fundamentada naÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201018


CAPAdefinição de valores basais, de prevenção e de intervençãopara as substâncias químicas presentes nosolo, além de outros países industrializados, como osEstados Unidos, que possui outras normas. “As experiênciasdestes países foram utilizadas como principaisfontes de referências para a construção da Resolução.Após a definição sobre a metodologia a ser adotada,os debates foram focados na busca pela melhor formade estabelecer valores orientadores de qualidade desolo para a identificação e o gerenciamento de áreascontaminadas,” explica ele.EM VIGORA resolução CONAMA n° 420/09 entrou em vigor nadata de sua publicação e vale para todos os municípios,estados e para o Distrito Federal. A resolução concedeum prazo de até quatro anos para que os ÓrgãosEstaduais de Meio Ambiente (OEMAs) estabeleçam osValores de Referência de Qualidade (VRQs) do solopara substâncias químicas naturalmente presentes.Mas, para isso, Cardoso comenta que “o Ministério doMeio Ambiente (MMA) já planeja a realização de oficinasde capacitação para os órgãos ambientais estaduais eestuda o apoio para a implementação da Resolução eos estados terão independência para iniciá-la”. Aindasegundo Cardoso, “a fiscalização e a punição, conformeestabelece a legislação, serão de competência dosórgãos ambientais municipais e estaduais, considerandoas especificidades de cada caso”. A resolução estabeleceainda que os órgãos ambientais deverão criarprocedimentos de investigação de áreas suspeitas decontaminação, que serão submetidas a uma avaliaçãopreliminar para aferir a qualidade do solo. “Caso sejaconstatado o impacto ambiental e avaliado o risco paraa saúde, as áreas serão declaradas contaminadas e exigidasprovidências para a sua remediação. Estas informaçõesdeverão integrar o banco de dados do estado eser encaminhadas periodicamente ao Instituto Brasileirodo Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis(IBAMA), que implementará um módulo em seu sistemade informação institucional, tornando-as públicas. Elasconstituirão o Banco de Dados Nacional sobre ÁreasContaminadas”, explica Cardoso.INEDITISMOA aprovação da resolução CONAMA n° 420/09 concluium ciclo estruturante no CONAMA, segundo o especialista,já que o órgão possuía resoluções para tratar daqualidade do ar e da água desde a década de 80, mascom uma lacuna quanto aos parâmetros e valores indicadorespara a qualidade do solo, agora resolvida. Exemplodisto é que, de acordo com o artigo 34 da referida resolução,os responsáveis pela contaminação dessas áreasdeverão submeter ao órgão ambiental competente umaproposta para a ação de intervenção, a ser executadasob sua responsabilidade.Por esta razão, de acordo com Cardoso, “o gerenciamentodas áreas contaminadas terá procedimentos eações voltadas para eliminar o perigo ou reduzir o riscoà saúde humana e ao meio ambiente; evitar danos aosdemais bens a proteger e também ao bem-estar público,durante a execução de ações para reabilitação, alémde possibilitar o uso declarado ou futuro da área, observandoo planejamento de uso e ocupação do solo”.A norma ainda prevê a instituição de um cadastronacional no qual o órgão ambiental competente deverádefinir, em conjunto com outros órgãos, ações emergenciaisem casos de identificação de condições de perigo;determinar os procedimentos de identificação e diagnóstico;e avaliar o diagnóstico ambiental - decisões fundamentaispara o gerenciamento e monitoramento dessas áreas.Segundo a Vice-Presidente da Associação Brasileirade Águas Subterrâneas (ABAS), Dorothy Carmen PinattiCasarini, responsável pelo tema Valores Orientadores,correspondente aos capítulos II e III, a resolução significaum grande avanço para o País, já que à exceção dosEstados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahiae Paraná, os demais ainda não tinham critérios nem políticaspara atuação no controle da contaminação de solo eda água subterrânea. “A partir da Resolução n° 420, todosos estados e municípios da Federação terão que atuarcom base nas diretrizes e nos critérios estabelecidos porela. Considerandoque em áreas urbanasocorrem osmesmos tipos deatividades, desde oRio Grande do Sulaté o Rio Grandedo Norte, a ocorrênciada contaminaçãodo solo e daágua subterrâneanão é peculiaridadedos Estados doSul e do Sudestedo Brasil. Porém,apenas os estadosmencionados jáconhecem a pontade seu iceberg”,diz Dorothy.Dorothy Casarini,vice-presidente da ABASfevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS19


CAPACONAMA N° 420 e ALEI ESTADUAL N° 15.577A resolução do CONAMA n° 420 teve como umade suas referências a Lei Estadual n° 15.577, que estabelecea gestão de áreas contaminadas no Estado deSão Paulo. Dorothy Casarini, vice-presidente da ABAS,comenta que “o Estado de São Paulo, em função desua própria história de ocupação urbana industrial, seencontra em um estágio muito mais avançado que osdemais estados brasileiros, por já praticar sistematicamente,e há muito mais tempo, a prevenção e o controleda contaminação do solo e das águas subterrâneas porsubstâncias químicas antropogênicas e o gerenciamentode áreas contaminadas”. Alfredo Rocca, gerente daDivisão de Resíduos Sólidos e Áreas Contaminadas daCETESB, responsável pelo capítulo IV Diretrizes para oGerenciamento de Áreas Contaminadas da resoluçãoCONAMA n° 420, explica que “a Lei n° 15.577, inclusive,fornece algumas ferramentas mais específicas deatuação, que uma resolução CONAMA não tem competênciapara dar. Como, por exemplo, a obrigatoriedadedo registro das áreas contaminadas na matrículado imóvel”. Ele explica que “ao entrarem em vigor, osprocedimentos, em termos de fiscalização e puniçãonos estados, terão de atender todos os critérios estabelecidospela resolução, mas serão os responsáveis peladefinição das punições a serem aplicadas”. Haverá tambémuma lista nacional de áreas contaminadas, sistematicamentealimentada de maneira padronizada, cominformações vindas dos órgãos ambientais nas diversasesferas de poder. “Lembrando que a Resolução CONA-MA 420 tem jurisdição em todo o território nacional e aAlfredo Rocca, Gerente da Divisão de Resíduos Sólidos e ÁreasContaminadas da CetesbLei 15.577 tem jurisdição apenas no Estado de São Paulo”,salienta Rocca.Por conta disto, cada estado continua com sua responsabilidadede efetuar o controle da poluição e a contaminaçãodo solo e da água subterrânea. “Com a ResoluçãoCONAMA n° 420, ficou definido em seu Capítulo IV,que são os órgãos ambientais competentes, nas diversasesferas de poderes estadual e municipal, responsáveispela implementação das diretrizes para o gerenciamentode áreas contaminadas. Assim, o estado ou o municípiodeverá executar o disposto nessa resolução e divulgaruma lista de áreas contaminadas, que deverá ser enviadaao IBAMA, para compor o portal nacional de informações.PADRONIZAÇÃOO objetivo da Resolução CONAMA é a definição dediretrizes e critérios orientadores a serem executadosde forma padronizada pelos estados da Federação. Afiscalização da prevenção da poluição e o controle dacontaminação do solo e da água subterrânea já estãoestabelecidos na Lei Federal nº 6.938, que define a PolíticaNacional de Meio Ambiente. Portanto, os estadosterão de estabelecer procedimentos e critérios para fiscalizaçãoe controle, definindo suas punições a seremaplicadas para os recursos ambientais solo e água subterrânea”,afirmam Dorothy e Rocca.É importante destacar ainda, segundo Dorothy, que“este assunto tem uma característica dinâmica de atualizações,em função dos novos conhecimentos adquiridosmundialmente, sendo que no Estado de São Paulo,os valores orientadores são revistos a cada quatro anose a Resolução CONAMA está prevista para ter sua revisãoem cinco anos, ou seja, em 2014”.Dorothy e Rocca salientam que a participação daCETESB foi fundamental no processo. “Atualmente, é ainstituição brasileira com maior experiência no assunto,já que há vários anos vem desenvolvendo e aprimorandoum projeto específico para capacitação no gerenciamentode áreas contaminadas, com o apoio da GTZda Alemanha, e do Instituto de Saúde Pública e MeioAmbiente da Holanda (RIVM), para o estabelecimentodos valores orientadores de solo e água subterrâneas, oque possibilitou ilustrar e nortear os debates”.ÁGUAS20 SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 2010


CAPASEMELHANÇAS E DIFERENÇASDorothy Casarini e Alfredo Rocca explicam que aresolução CONAMA 420 e a Lei 15.577 são produtos dasdiscussões de grupos distintos de especialistas, nas esferasfederal e estadual, respectivamente, mas que partiramde uma minuta inicial comum, elaborada pela CETESB.“Ela refletia a prática de prevenção e controle da contaminaçãodo solo por substâncias químicas antropogênicase o gerenciamento de áreas contaminadas praticadospela CETESB. Teve como base as práticas adotadas emoutros países, notadamente na Alemanha.”Como semelhanças, em termos conceituais,ambas estabelecem a mesma sistemática de prevençãoe controle da contaminação do solo e da águasubterrânea por substâncias químicas antropogênicase gerenciamento de áreas contaminadas, baseada nosseguintes preceitos:- Estabelecimento de três valores orientadores paraa prevenção e o controle da contaminação de solos eáguas subterrâneas: referência de qualidade natural;prevenção da perda das funções do solo e intervençãopara reabilitação de áreas contaminadas;- Licenciamento, monitoramento e fiscalização defontes com potencial de contaminação do solo e daságuas subterrâneas;- Avaliação de qualidade, com base em amostrageme análise química do solo e das águas subterrâneas pormétodos padronizados e comparação dos resultadoscom os valores orientadores;- Estabelecimento de metodologia de identificação,diagnóstico e reabilitação das áreas contaminadas;- Definição de critérios para gerenciamento dos casos;- Definição de responsabilidades da iniciativa privadae do Poder Público em suas diversas esferas e competências;- Criação de uma lista oficial de áreas contaminadase divulgação de informações, que deverão ser enviadaspelos órgãos estaduais de Meio Ambiente para um portalinstitucional operacionalizado pelo IBAMA.“Como diferenças, temos a maneira como a matériadeve ser tratada no âmbito nacional, sendo uma ResoluçãoCONAMA mais genérica a fim de poder ser aplicávelao conjunto dos estados brasileiros, enquanto que a LeiEstadual nº 15.577 considera os aspectos e peculiaridadesespecíficas cabíveis, relacionados à natureza e condiçõesem que já se encontram o solo e as águas subterrâneasdo Estado de São Paulo”, finaliza Dorothy.A PREOCUPAÇÃO COM O SOLOE AS ÁGUAS SUBTERRÂNEASHistoricamente, em todo o mundo, as preocupaçõescom a qualidade da água superficiale do ar vieram primeiro, face à maiorpercepção da abrangência dos impactos quealterações nocivas de qualidade destes meiospodem causar, segundo os especialistas. “Já,o solo sempre foi considerado o grande ‘depósito’de tudo o que a sociedade quer descartar;e a água subterrânea fica ‘escondida’ davisão humana e da opinião pública, apesarde sua grande importância”, explica Dorothy.“Mesmo assim, estamos na vanguarda naAmérica Latina, em relação a este assunto. Adiscussão demorou o tempo requerido paraque houvesse o conhecimento, o amadurecimentoe o consenso necessários de todas aspartes envolvidas”, observa ela.Vale lembrar que, ao poluir o solo, todo orestante do meio ambiente é afetado: lençóisfreáticos, rochas, rios, lagos, e, consequentemente,vegetação e fauna. A interação dohomem com o solo se dá de diversas maneiras.Seja no uso de tubulações e outras utilidadesenterradas para fins industriais e domésticos;na construção e utilização de garagenssubterrâneas, túneis e metrôs; para a produçãode minérios em geral; na agricultura, entremuitas outras formas. Uma lista imensa, quetraz consigo os problemas decorrentes destesusos também.fevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS21


PRODUÇÃO DE ÁGUAÁgua e Mineração:uma relação desafiadoraMDGeo Serviços de HidrogeologiaImportante para a mineração, o rebaixamento do nível d’águanas minas pode comprometer o meio ambiente subterrâneo eexige procedimentos e regulamentações específicasPor Isabella MonteiroA estreita interação entre mineração e água subterrânearemonta os primórdios da civilização, quandoo homem começa a explorar os recursos minerais.Há cerca de 700 anos A.C. tem-se registrosda utilização de técnicas de mineração para captarágua subterrânea e viabilizar a exploração de lavrasde minério na Pérsia Antiga, em regiões áridas daArmênia. No Brasil, a partir dos anos 80, do século20, grandes minas de ferro na região do QuadriláteroFerrífero, formado pelas cidades de Belo Horizonte,Santa Bárbara, Mariana e Congonhas do Campo, noEstado de Minas Gerais, avançaram abaixo do níveld’água ao realizar esta atividade, acarretando impactose conflitos na disponibilidade dos recursos hídricos,motivando discussões sobre o assunto.O I Simpósio de Mineração e Recursos Hídricos,promovido pelo núcleo Minas Gerais da AssociaçãoBrasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), em 2002,cuja segunda edição será realizada em 2010 (vejapágina 25), foi um dos eventos que fomentou tal discussãono país. Segundo o presidente do núcleo,Décio Antônio Chaves Beato, “os resultados do encontrocontribuíram de forma significativa na elaboraçãoda legislação, que disciplina as atividades de mineraçãoe o uso dos recursos hídricos subterrâneos noEstado de Minas Gerais”. No entanto, com o recentecrescimento da indústria nacional de mineração, osimpactos sobre o meio ambiente cresceram paralelamentee casos de contaminação das águas superficiaise subterrâneas se tornaram conhecidos, demandandomaior fiscalização e regulamentação por partedos órgãos gestores, das atividades de pesquisa e derebaixamento de nível d’água na mineração.Com tradição nesta atividade econômica, MinasGerais possui 11 portarias de outorga para pesquisahidrogeológica e 39 portarias de outorga para rebaixamentode nível d’água (NA), conforme revela a diretorade Monitoramento e Fiscalização do Instituto deGestão das Águas de Minas Gerais (IGAM), MaríliaMelo. “A mineração é uma atividade que interfere deforma dinâmica nos recursos hídricos, novos usos eintervenções ocorrem ao longo de toda vida útil damina, diferentemente deoutros tipos de empreendimento.A rigidezlocacional da atividadedificulta a busca de alternativas”,pondera.No que se refereàs águas de domínioda União, a concessãoprecisa ser solicitadaà Agência Nacional deMarilia Melo, Diretora deMonitoramento e Fiscalização do IGAMÁguas (ANA) e para osdemais estados, aosrespectivos órgãos ges-ÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201022


PRODUÇÃO DE ÁGUAtores estaduais. De acordo com o IGAM, os principais usos de recursos hídricosna mineração sujeitos à outorga são: a derivação ou captação direta em curso deágua; captação em barramento com regularização de vazão (vazão captada > 30%Q 7 10); poços tubulares e demais estruturas de captação de água subterrânea;captação de água subterrânea com a finalidade de rebaixamento de nível de água;desvio, retificação e canalização de cursos de água necessários às atividades depesquisa e lavra. Para obtenção das mesmas deve-se preencher o Formulário deCaracterização do Empreendimento (FCE) e protocolá-lo nas SuperintendênciasRegionais de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. A partir disso, serágerado e entregue ao requerente o Formulário de Orientação Básica (FOB), quecontém a lista de documentos jurídicos e técnicos necessários à formalização doprocesso de outorga.TubulaçãoFlexívelpara PoçosBOMBEAMENTO EREBAIXAMENTO DE NIVEL D’ÁGUAO bombeamento de água tem por objetivo manter o nível d’água em uma determinadacota que permita a continuidade das atividades de lavra. Segundo Marília Melo,a operação do sistema de rebaixamento de nível d’água requer conhecimento plenodo sistema aquífero afetado, parâmetros hidrodinâmicos, linhas de fluxo, conexõeshidráulicas entre aquíferos vizinhos, áreas de recarga e descarga (mapeamento detalhadode nascentes); rede de monitoramento piezométrico, fluviométrico e pluviométrico,avaliada e atualizada constantemente; agilidade no controle operacional da produçãodo sistema de rebaixamento em harmonia com o projeto de lavra.O geólogo e sócio-diretor da Hidrovia - Hidrogeologia e Meio Ambiente,Paulo Fernando Pereira Pessoa, aponta que os principais métodos utilizadosno rebaixamento são a instalação de poços tubulares profundos equipadoscom bombas submersas e/ou sumps acompanhados de bombas de superfícieflutuantes para esgotamento de fundo de cavas, além de galerias e drenoshorizontais e verticais.De acordo com Antônio Bertachini, geólogo e diretor da MDGeo - Serviços deHidrogeologia, o rebaixamento do nível d’água em mineração difere do que é praticadona construção civil, o chamado “rebaixamento do lençol freático”, principalmente,na temporalidade. “Enquanto nas obras civis se busca um rebaixamentomomentâneo e rápido para construção das estruturas, geralmente estanques; namineração, o rebaixamento ocorre ao longo de todo o tempo em que a lavra sedesenvolve, abaixo do nível d’água. Em geral, pratica-se o pré-rebaixamento a fim deatender o avanço da lavra. Dessa forma, o rebaixamento se inicia um ou dois anosantes da lavra atingir o nível d’água e prossegue até o final da vida útil da mina”.Paulo Pessoa alerta que o conhecimento apropriado das práticas envolvidas,em cada uma das fases de desenvolvimento da mina (Planejamento, Implantação,Operação e Descomissionamento), auxilia na indicação dos principais cuidados aserem mantidos visando evitar acidentes que ponham em risco os aquíferos, taiscomo: vazamentos de combustíveis ou de redes de esgotamento sanitário, depósitode materiais perigosos, disposição de resíduos, etc.USO SUSTENTÁVEL X IMPACTOSPara Bertachini, entre os estados brasileiros afetados pelo rebaixamento do lençolfreático devido à atividade mineradora, estão “Minas Gerais e Pará, por seremnossos principais estados mineradores; Bahia e Goiás, que estão começando afevereiro/março de 2010Fácil manuseio,Pequeno espaço dearmazenagem,Lances únicos de até 200m,Sem corrosão eGarantia de 5 anos.Mangueira PlanaMultipropósitoOroflex ®SAMPLA DO BRASILInd. e Com. de Correias Ltda.Fone: (11) 2144-4500 • Fax: (11) 2144-4550sampla@sampla.com.br • www.sampla.com.brÁGUAS SUBTERRÂNEASAplicações:Bombas Flutuantes até 12”,Transporte de Esgoto,Água Bruta, Ar Comprimido,Derivados de Petróleo, etc23


PRODUÇÃO DE ÁGUAAntônio Carlos Bertachini, geólogoe diretor da MDGeo Serviços deHidrogeologiaMDGeo Serviços de Hidrogeologiaatividade; e São Paulo,que deve praticar muito,principalmente no setorde agregados para aconstrução civil, entreoutros”.Ele aponta aindaque os impactosambientais ocorremquando o rebaixamentoaltera a qualidade daságuas subterrâneasou a estrutura do terreno,por exemplo, nageração de drenagem ácida, pois, ao colocar emcontato com o oxigênio sulfetos que estavam imersosem água, estes oxidam e solubilizam metaispesados; no bombeamento de águas salgadas ounaturalmente fora dos padrões ambientais, que nãopodem ser disponibilizadas ao ambiente; ou quandoprovocam recalques no terreno, que danificamedificações ou submergem a fauna e a flora.O excesso de bombeamento pode causar zonas dedepressão e afundamento no solo, como ocorreu nadécada de 90, na cidade de Vazante (MG), onde o rebaixamentodo nível d’água, não só promoveu o desaparecimentode lagoas, a extinção de nascentes e o comprometimentodo abastecimento de água potável da cidade,como também causou milhares de depressões, semelhantesa crateras, fenômenos conhecidos por dolinas.As dolinas, depressões fechadas encontradas nasuperfície de relevos cársticos constituídos por rochascalcárias ou, em menor abundância, por rochas quartzíticas,em geral, são formadas devido a colapsosque envolvem a dissolução do material cárstico pelapresença de água. “As zonas urbanas não escapamde serem afetadas por processos de dolinamentos.Existem vários casos, tais como Cajamar (SP),Sete Lagoas (MG), o estado da Flórida, nos EstadosUnidos, dentre outros. No entanto, vale lembrar quetais ocorrências podem ser tanto de origem naturalcomo induzidas por interferências antrópicas diversas”,afirma Pessoa.De outro modo, Pessoa aponta que somente emáreas climatologicamente vulneráveis, com déficithídrico ou elevado índice de aridez, os excessos debombeamento – se somados a outros fatores deuso e de ocupação inadequada dos solos - podempromover a desertificação do local.“Para controle e acompanhamentodo processo de rebaixamento,além do Programa deMonitoramento Hidrogeológico (PMH) e do ModeloHidrogeológico Conceitual (MHC), são aplicadasmodernas técnicas de simulação matemática dos fluxossubterrâneos, as quais se destinam a traçar previsõessobre os cenários atuais e futuros dos domíniosde interesse e seus possíveis impactos no espaço eno tempo”, elucida. Paulo Pessoa ainda ressalta quedepois de cessadas as atividades de rebaixamento, onível d’água do aquífero se recupera naturalmente àforma original, mas pode levar alguns anos ou décadas,dependendo do caso.Quanto aos impactos sobre a disponibilidade dosrecursos hídricos, Bertachini acredita que são maisfáceis de administrar. “A forma empregada é bombearo mínimo possível, somente o necessário, monitorare repor as áreas impactadas. O monitoramento indicaonde a água deve ser reposta, ainda assim, sobraágua para ser aproveitada, como ocorre hoje em inúmerasminas de ferro”, explica.De acordo com ele, atualmente, as principaislavras de ferro, fosfato e manganês ocorrem abaixodo nível d’água, permitindo o aproveitamento da águado desaguamento inclusive para abastecer comunidades.“Belo Horizonte (MG) recebe, como medidapreventiva aos potenciais impactos do rebaixamentodo NA da mina do Capão Xavier, um terço da vazãodo desaguamento. Tudo devidamente fiscalizado peloIGAM, Ministério Público, ONGs e a Companhia deSaneamento de Minas Gerais (COPASA). Essa experiênciademonstra a viabilidade de conciliar as operaçõesde rebaixamento com o uso sustentável dosrecursos hídricos”, afirma Bertachini.MDGeo Serviços de HidrogeologiaÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201024


PRODUÇÃO DE ÁGUAII Simpósio de Mineraçãoe Recursos HídricosSubterrâneosRealizado pelo Núcleo ABAS-MG, o II Simpósio deMineração e Recursos Hídricos Subterrâneos, acontecerá entreos dias 30 de maio a 2 de junho de 2010, na cidade de BeloHorizonte (MG). Além de diversos técnicos reconhecidos nacionale internacionalmente na área, o Simpósio também contarácom a participação de profissionais e empresas, que possuemexperiência internacional em drenagem ácida, da InternationalNetwork for Acid Prevention (INAP) e do seu grupo afiliado naAmérica do Sul, o South America Network for Acid Prevention(SANAP). Durante o evento, será realizado ainda o curso deapresentação do Guia de Drenagem Ácida (GARD), ministradopelo Prof. Dr. Terrence Chatwin, diretor técnico da INAP.Paralelamente ao evento, acontecerá uma feira de produtose serviços. Os estandes estão sendo comercializados junto àSecretaria Executiva. Mais informações podem ser obtidas pelotelefone (31) 3444-4794 ou e-mail: abas@eticaeventos.com.brfevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS25


Conexão internacionalBotas nochão e Dólaresno bancoÁgua potável para todomundo, em todo lugarPor Juliana Freitas e Marcelo Sousa, do CanadáO entrevistado dessa edição é o hidrogeólogo JimGehrels, que trabalha no Ministério de Meio Ambientede Ontario, no Canadá. Em 1995, junto com GlennStronks, Jim fundou uma organização sem fins lucrativoschamada Lifewater. O objetivo da organização éajudar comunidades pobres a terem acesso à águapotável e ao saneamento. Jim trabalhou com comunidadesna Nigéria, Libéria, Gâmbia, Quênia e Haiti.Recentemente, Jim esteve no Haiti ajudando nos trabalhosde reconstrução após o terremoto. Jim é umexemplo de como hidrogeólogos podem ter um impactopositivo na vida das pessoas. Para ele, os profissionaispodem ter um papel fundamental na educação econscientização das pessoas, ajudando a desenvolverum plano apropriado que fará realmente as coisasmelhorarem no futuro. Esperamos que essa entrevistasirva como inspiração para todos os hidrogeólogos!ABAS - Fale um pouco sobre a Lifewater, o que é equais são as atividades.Jim - A Lifewater é uma organização sem fins lucrativossediada no Canadá, que recebe suporte financeirode pessoas físicas e empresas, principalmentedo Canadá e Estados Unidos. A entidade funcionasomente com voluntários, que trabalham em casa. Porisso, os custos de administração são menores que5%. O nosso foco é treinar e equipar pessoas locaispara fornecer água potável para seus vizinhos. Nãotemos pessoal da Lifewater locado permanentementeem outros países. Os voluntários usam suas fériase pagam por suas próprias viagens para ir a outrospaíses e oferecer o treinamento que a população precisa.A partir daí, a própria comunidade faz o trabalho,dá treinamentos, instala poços, constrói banheiros. Opasso final é encontrar parceiros locais que ajudema subsidiar o custo do programa, de forma que sejasustentável. As comunidades ainda têm que contribuircom recursos, trabalho e materiais. Nós sentimos queos esforços e contribuições locais são chave para quea comunidade se sinta responsável pelo trabalho. Seas pessoas não contribuem de início para um projetoque suprirá água potável, elas também não se envolvemcom a operação e manutenção do sistema a longoprazo.ABAS - Na sua opinião, quais são os maiores obstáculospara garantir acesso a água potável paratodos?Jim - O primeiro obstáculo é a distribuição desigualde riqueza no mundo. A América do Norte tem menosde 10% da população e usa quase 50% dos recursos.Temos que descobrir o que pode ser feito com osrecursos que nos foram confiados para ter um impactosignificativo na vida das pessoas em outros países.Uma das principais crenças para nós na Lifewater éque todas as pessoas foram criadas iguais na visãode Deus e onde você nasceu não deve determinarse você deve viver ou morrer. Outro problema é quea assistência é normalmente oferecida somente naforma de entrega, sem criar o senso de posse pelascomunidades locais. E, quando isso ocorre, desenvolve-seuma mentalidade de esperar que o governoou ONGs façam tudo por você. E assim não é possívelter um desenvolvimento sustentável numa comunidadeou país. O último problema é a falta do nível apropriadode tecnologia: precisamos de equipamentos ebombas de baixo custo e fácil manutenção.ABAS - Como a água subterrânea pode ajudar aresolver esse problema?Jim - Um simples poço bem construído com umabomba manual pode gerar água com qualidade paraaté 500 pessoas. E a vantagem é que se as condiçõeshidrogeológicas são adequadas, você podelevar o abastecimento até onde as pessoas estão, aoinvés delas terem que migrar até as fontes tradicionaisde água (lagos e rios). Isso pode reduzir significativamenteo impacto, principalmente para mulhe-ÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201026


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Conexão internacionalres e crianças, que culturalmente tem o papel debuscar a água em muitas nações. O desgaste físicoe o tempo de caminhada para buscar água podemser reduzidos significativamente tendo um poço localizadopróximo à comunidade. Além disso, à medidaque a comunidade cresce você pode adicionar maispoços e bombas, sendo uma alternativa mais flexível.ABAS - Você esteve no Haiti recentemente ajudandonos trabalhos de reconstrução. Como aágua subterrânea pode ajudar na resposta àsemergências?Jim - Em Porto Príncipe, grande parte da água vinhade aquedutos conectados às nascentes; logo, águasubterrânea. Após o terremoto, muita dessa águaainda estava fluindo com o gradiente natural, o queajudou muito para prover água para as áreas destruídas.Muitas das comunidades ao redor de PortoPríncipe são abastecidas por poços, a maioria combombas manuais. Grande parte da demanda deágua de todo o país é provida por água subterrânea.Dessalinização precisa de muita energia e tem customuito elevado, por isso pode ser feita somente porcurto período de tempo em áreas costeiras. Mas parater uma solução viável a longo prazo, é preciso instalarpoços, principalmente se não há grandes lagosou rios para abastecer os sistemas de tratamento.Além disso, quando pessoas são deslocadas internamentee acampamentos de refugiados são estabelecidos,eles também precisam de água potávele, de novo, instalar poços gera a fonte mais segurade água. Aqui no Canadá, em 2000, na comunidadede Walkerton, a bactéria Escherichia coli entrou nosistema de água matando sete pessoas e deixandometade da população doente. A partir daí, desenvolvemose aprendemos a abordagem com múltiplasbarreiras, onde você tenta garantir um nível desegurança em todo o percurso, da fonte à torneira.Quanto mais seguro for seu manancial e seu sistemade tratamento; quanto melhor você puder provertreinamento de higiene para os usuários, menor é achance deles serem impactados por doenças transmissíveispela água. Um dos fatores importantes aconsiderar é como garantir que os poços sejaminstalados adequadamente e como impedir que osaquíferos sejam contaminados. Isso é uma grandepreocupação principalmente em regiões urbanasdensas, que ainda dependem de bombas manuaise água subterrânea, mas não possuem sistema centralizadode coleta e afastamento de esgoto sanitário.Nesse caso, os aquíferos rasos não confinados estãomuito vulneráveis à contaminação e a água pode nãoser segura. Então, temos que instalar poços em aquíferosmais profundos.ABAS - O que foi feito para ajudar as vítimas doterremoto no Haiti?Jim - Em Porto Príncipe, estações de tratamentoforam instaladas para tratar a água dos aquedutosque não estava mais segura devido a danosnas tubulações ou até mesmo para tratar a águade piscinas para torná-la potável e foram distribuídosbiofiltros para tratar água. Nós focamos maisna Planície Norte, onde sobreviventes foram instalados.Nessa região, nossa preocupação era comas comunidades com um grande número de pessoaspor bomba, mesmo antes do terremoto. Essascomunidades receberam um grande número derefugiados e, de repente, uma bomba passou aservir 1 mil a 2 mil pessoas ao invés de 500. Nessascondições, ou a fila fica tão longa que as pessoascomeçam a minimizar o uso de água, aumentandoo risco de doenças, ou a bomba começa a falhar epára de funcionar. Isso pode resultar em um distritointeiro sem água. Estamos focando nas comunidadesonde as pessoas têm que andar mais queum quilômetro para buscar água ou comunidadesonde há mais de 750 pessoas por bomba. Enquantoestávamos lá, depois do terremoto, instalamos econsertamos 11 bombas e perfuramos três novospoços. Agora estamos nos mobilizando e estaremoslá novamente no dia 25 de março. Levaremosuma perfuratriz a percussão e uma rotativa portátil eestamos à procura de filtros e tubos de revestimentospara poços. Estamos planejando um programade um ano no Haiti para transferir o conhecimentosobre quais aquíferos estão disponíveis e técnicasbásicas para instalar poços de forma a garantir suaqualidade a longo prazo. Também substituiremosbombas velhas por novas, cuja manutenção possaser feita pelas comunidades, com poucas ferramentase pouco treinamento.ABAS - O que você recomenda para um profissionalque trabalha com água subterrânea e querajudar?Jim - Uma das metas da nossa próxima viagem aoHaiti é preparar a infraestrutura necessária para queprofissionais da água voluntariem seu tempo para iràquele país por períodos de duas a quatro semanaspara ajudarem no levantamento de poços, qualidadeda água, tipos de bombas, número de pessoas porbomba, para que possamos trabalhar com o governolocal para desenvolver uma estratégia de gerencia-ÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201028


Conexão internacionalmento de longo prazo. Para isso, precisaremos demuitos voluntários nos próximos meses. Outra ajudaque recebemos de profissionais da água e suascompanhias é por meio de suporte financeiro. Porexemplo, para que 250 bombas sejam feitas e enviadaspara o Haiti, precisamos de C$ 50 mil (aproximadamente90 mil reais). Precisamos de botas no chãoe dólares no banco.ABAS - Alguma sugestão para alguém que queirainiciar algo na sua própria comunidade?Jim- Uma boa forma para começar é com educaçãoe conscientização. Ajude a comunidade a entenderas doenças, as suas causas e as vias de transmissão.Coisas simples, como lavar as mãos, beberágua mais segura possível, como conseguí-la e oque fazer, se ficar doente. Algumas dessas coisasnão necessitam de muito dinheiro e esforço inicial.Além disso, incentivar a comunidade para desenvolverum plano para diminuir o risco de contaminaçãodos seus mananciais e depois mobilizar acomunidade para fazer esses planos acontecerem.Também encorajar as pessoas a não se jogarem noque pode ser percebido como a melhor solução. Eunão posso te dizer qual carro você deve dirigir, masse eu aparecer e bater na sua porta e disser: “Estoudando Cadillacs, você precisa de um?”. A respostada maioria das pessoas será “Claro! Eu preciso!”e eu vou te dar um Cadillac e vou me sentir bem,pois atendi sua necessidade. Mas você talvez nãotenha o dinheiro para manter o Cadillac. Quando euvoltar dois anos depois, com um sorriso no rostoesperando ouvir a história de como esse carro foi amelhor coisa na sua vida, posso ficar profundamentedesapontado ao ver o carro sem uso num cantoda sua garagem. A comunidade tem que assumira responsabilidade e o controle sobre o plano deação de como eles querem proceder. Os profissionaispodem ter um papel fundamental na educaçãoe conscientização, ajudando a desenvolver um planoapropriado que fará realmente as coisas melhoraremno futuro.Os interessados em ajudar com trabalho ou suportefinanceiro ou ainda obter mais informações podemacessar o site: http://www.lifewater.ca/fevereiro/março de 2010ÁGUAS SUBTERRÂNEAS29


emediaçãoSISTEMAS DEREMEDIAÇÃO NACARACTERIZAÇÃO DEAQUÍFEROS RASOSGeólogo Marco Aurélio Z. Pedemarcopede@isrrental.com.brNa investigação hidrogeológica de áreas potencialmentecontaminadas, poços de monitoramento sãoinstalados com o propósito de se obter amostras quimicamenterepresentativas da água dos aquíferos estudados,observar a possível presença de fase livre de óleo,permitir a caracterização das propriedades hidrogeólogicase monitorar a variação sazonal do nível d`água.Atualmente, principalmente na investigação deáreas industriais, parte dos poços de monitoramentoe a maioria dos poços de bombeamento para remediaçãosão perfurados e instalados com equipamentotipo hollow stem auger. Este equipamento é basicamenteconstituído por uma sonda rotativa montadaem caminhão, que utiliza trados ocos do tipo helicoidalcom piloto interno. Esse tipo de equipamento possuiinúmeras vantagens, tais como: rapidez na perfuração,manutenção do furo sem desmoronamentos, amostrarde forma contínua o solo e facilitar a descida da colunade revestimento e a injeção do pré-filtro no poço.O uso do equipamento de trado oco permitefuros sem o uso do fluido de perfuração, com diâmetrovariando de 7 ½ polegadas a 15 polegadas.Os maiores diâmetros permitem a instalação depoços de bombeamento com tubulação de até seispolegadas com espaço anular adequado para preenchimentodo envoltório do poço com pré-filtro. Aprofundidade máxima de perfuração em sedimentosfriáveis é de até 40 metros.Ao longo dos anos, através do acompanhamentodo bombeamento dos poços para remediação,foi possível observar a presença de aquíferos rasosde natureza livre, extremamente produtivos, emboraextremamente vulneráveis. Como exemplo, podesecitar na região de Campinas a presença de paleocanaispreenchidos por areia média a grossa (fotoabaixo) em profundidades a partir de 10 metros dasuperfície, muitas vezes em cotas dezenas de metrosacima das atuais planícies de inundação dos rios.Tais pacotes possuem espessuras de apenas algunsmetros e quando saturados apresentam valores detransmissividade de até 45 m²/dia.Atualmente, a Alemanha é o país que explorade maneira bastante significativa os aquiferos rasosem sedimentos pleistocênicos, com milhares de áreasde proteção delimitadas nas ultimas décadas. NaAlemanha, praticamente 75% de todo abastecimentoé por meio do uso da água subterrânea.No Brasil, o conhecimento dos aquiferosrasos, principalmente relacionados aos aluviões dosdiversos rios, é bastante incipiente. A integração dosdados hidrogeológicos gerados nos últimos anos apartir dos trabalhos de investigação de áreas potencialmentecontaminadas, bem como os parâmetroshidráulicos obtidos a partir da operação de sistemasde remediação, é de grande importância no entendimentodestes aquíferos.Paleocanais preenchidos por areia média a grossaÁGUAS SUBTERRÂNEASfevereiro/março de 201030


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