Como nunca os ouvimos - Fonoteca Municipal de Lisboa

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Como nunca os ouvimos - Fonoteca Municipal de Lisboa

FlashSumárioThe Beatles 6Agora que a discografia estáreeditada, vamos redescobrilospara além do preto ebrancoThe Vaselines 13Tiveram uma vida antes dosNirvanaResidências artísticas 14De Aveiro a Faro, fomosver o que se andou a fazerenquanto o país esteve defériasDaniel Mendelsohn 18A odisseia de um judeunorte-americano em buscados seus “desaparecidos”Judd Apatow 22O menino bonito da comédiaamericana tornou-se adultoFicha TécnicaDirector José ManuelFernandesEditor Vasco Câmara, InêsNadais (adjunta)Conselho editorial IsabelCoutinho, Óscar Faria, CristinaFernandes, Vítor BelancianoDesign Mark Porter, SimonEsterson, Kuchar SwaraDirectora de arte Sónia MatosDesigners Ana Carvalho,Carla Noronha, MarianaSoaresEditor de fotografiaMiguel MadeiraE-mail: ipsilon@publico.ptStone Rosesnunca maisNão teremos de passar por cima docadáver de Ian Brown para ver osStone Roses novamente juntos, masé como se tivéssemos: o ex-vocalistada banda, que comemora agora os20 anos de mais uma obra-primaeditada num ano terminado emnove (“The Stone Roses”, o álbumde estreia de 1989 que os inglesesconsideraram o melhor primeirodisco de sempre), disse ao “NewMusical Express” que isso é o tipode mal que só poderá vir ao mundose um dia ele for obrigado “a pediresmola nas ruas”. Podemos sempreroubá-lo, sugere a “Pitchfork”, ouentão voltar a ouvir o álbum,prestes a ser reeditado em trêsversões expansionistas: aCollector’s Edition (caixa “superdeluxe” com três CD incluindo umaedição remasterizada do original,mais lados B e “demos” perdidas),Legacy Edition (com um DVD dosStone Roses ao vivo em Blackpool) ea Special Edition (com a versãolonga do não menos seminal “Fool’sgold”).Fellini terásempre ParisÉ todo um programa para a“rentrée” em Paris (e vai ser umafesta): a partir de 20 de Outubro, asgalerias do Jeu de Paumetransfiguram-se para receber“Fellini, la Grande Parade”, grandeexposição sobre o mais popular doscineastas italianos do pós-guerracom ramificações na CinematecaFrancesa (retrospectiva integral) eno Istituto Italiano di Cultura(conferências). A exposiçãomergulha fundo nas fontes dacriação felliniana e convoca asdiversas camadas quecompõem osExposição,retrospectiva,encontros:Fellini é todoum programaCharles Saatchi, o mogul dapublicidade tornado umdos mais conhecidoscoleccionadores de artecontemporânea do mundo,responsável maior pelorenascimento internacionalda cena artística britânicanos anos 1990, não éhomem de falinhas mansase vive bem com a polémica.É assim que quando umentrevistador do “TheGuardian” lhe pergunta se aGrã-Bretanha deve investirna salvaguarda e naaquisição de velhos mestresou na compra de obras anovas gerações, eleresponde: “Correndo orisco de ser linchado - outravez - pelo mundo da arte,não me parece que aindahaja grande necessidade desalvar pinturas para a naçãoàs custas do apoio aosnovos criadores. Quediferença é que faz que umTiciano esteja penduradona National Gallery, noLouvre ou nos Uffizi? Nãoestamos no século XVIII: aspessoas viajam, portantonão há qualquernecessidade de sermosnacionalistas com ostesouros artísticosmundiais.”As declarações de Saatchisurgem depois de emFevereiro, e após umabatalha de seis meses, asNational Galleries daEscócia e a National Galleryde Londres teremconseguido reunir 50milhões de libras (56,7milhões de euros) paracomprar precisamente umTiciano. A tela, terminadapor volta de 1556-1559 - umacena mitológica intitulada“Diana e Acteon” e tidacomo uma das obrasmaiores deste pintorrenascentista -, entrou paraas colecções públicasJuntos, só nasfotografias de há 20 anos,garante Ian Brown“Diana e Acteon”, de TicianoSaatchi polémico,como sempreescocesas em 1945 aempréstimo do Duque deSutherland que no anopassado anunciou,contudo, a intenção de avender. Para além dosmuseus nacionais, tanto ogoverno escocês como oinglês contribuíram para aaquisição, a par com outrosfundos públicos e privados,conseguindo-se aindagarantias de que o Duquede Sutherland manteráacessível ao público na Grã-Bretanha as restantesobras-primas da suaconhecida BridgewaterCollection, uma das maisimportantes colecçõesprivadas do mundo. Seismeses volvidos, Saatchi ao“Guardian”: “Muito maisimportante é apoiar artistasvivos.” Ele, o mesmohomem que à perguntaseguinteexplicou que oseu museupreferido nomundo nãoé, contudo,de artecontemporânea,e ficaem Espanha:“O Prado, emMadrid. Tenhoum fraco porGoya,Ganhar dinheiro com a arte, diz Saatchi,é uma questão de “muita, muita sorte”mas opróprio museu étão descomplicado eclaramente adora mostraras suas muitas obrasprimastão despojadamentequanto possível, que cadanova visita reforça a minhacrença na persistência daimportância da arte.” E omesmo homem, também,que logo a seguirdesmistifica a ideia da artecomo um bom investimentomesmo para leigos. “Seimuito pouco de artecontemporânea mas tenhomil libras para investir.Algum conselho?”, lança oentrevistador. Resposta:“Obrigações financeiras. Aarte não é um investimentoa não ser que tenha muita,muita sorte, e consiga bateros profissionais no seupróprio jogo. Comprequalquer coisa deque realmentegoste e que lhe dêmil libras deprazer ao longodos anos. E leveo seu tempo àprocura de algorealmenteespecial, porqueprocurar é metadedo gozo.” VanessaRatoÍpsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 3


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19691964197019651963196419641988s Beatles, ag6 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon1967


19631967Capa19651968Estávamos em 4 de Julho de 1966 eos Beatles acordavam num hotel deManila. Haviam chegado à capital filipinano dia anterior, vindos de umadigressão japonesa que, para eles,marcaria o início de um ponto de viragem.Em Tóquio, no Budokan, enfrentarama contestação da populaçãoque considerava sacrílega a cedênciade um espaço religioso aoprofano rock’n’roll – as primeiras brechasna imaculada “Beatlemania”. Oconcerto ele mesmo, por sua vez,mostrou-lhes algo que terá sido perturbador.Há anos que as actuações dos Beatlesseguiam um ritual muito próprio:subiam ao palco, o público explodianum berreiro ensurdecedore, lá em cima, a banda nada ouvia doque tocava, lá em baixo, o públicojulgava ouvir sem ouvir as cançõesque conhecia tão bem. No Budokan,o temperamento japonês e a fortepresença policial, destacada paramanter o bom comportamento daaudiência, fez cair a máscara. Os gritossó chegavam no final das músicase os Beatles perceberam que a bandaque, anos antes, num bairro de Hamburgoou no Cavern em Liverpool, setransformara em máquina rock’n’rollera então, em concerto (em estúdio,o processo ia exactamente em sentidocontrário), uma sombra do quetinha sido.Três dias depois da chegada às Filipinas,seria editado em Inglaterra“Revolver”, disco fundamental dadiscografia dos Fab Four e um dos 14que, no próximo dia 9 de Setembro,será alvo de reedição remasterizada– são contemplados os 12 álbuns deestúdio britânicos, acrescidos da ediçãoamericana de “Magical MisteryTour” e da colecção de singles “PastMasters”. Para os coleccionadoresperfeccionistas, haverá uma outra1969Com o passar das décadas,os Beatles tornaram-se menosrelevantes como banda do quecomo símbolo. Continuamos avê-los a preto e branco mas estaé uma obra com todas as coresimagináveis. Corrigir esse errode perspectiva - nosso, claro- é o melhor que podemosesperar da reedição da suadiscografia, a partir degora a coresquarta-feira. Mário Lopes1966Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 7


APPLE CORPS LTD.PAULMcCARTNEYLado b de“Abbey Road”A partirde 1966, osBeatles deixamde ser a pretoe brancocaixa, que reunirá todo aquele materialnas misturas em mono originais.Regressemos a Manila.É manhã e John, Paul, George e Ringosão acordados por fortes pancadasna porta do quarto. Alguns funcionáriosdo hotel dizem-lhes que se despachem,que se vistam: Imelda Marcos,primeira-dama na ditadura de FerdinandoMarcos, espera-os para umarecepção no Palácio Presidencial. Ohisterismo da solicitação não os impressiona.“Estamos no nosso dia defolga e não vamos a nenhuma recepção”,responde McCartney.Pouco depois, ao ligar a televisão,os Beatles assistem em directo à suaausência. Crianças a chorar, Imeldaqueixando-se da afronta. Nesse mesmodia, dão dois concertos no estádiode futebol local para mais de oitentamil. Na manhã seguinte, todos os traçosda Beatlemania desapareciam. Atéconseguirem abandonar as Filipinas,seriam tratados como inimigos públicos,não como estrelas pop idolatradas.Geoffrey Giuliano, em “Beatles – aHistória Secreta” (Ulisseia, 2008), descrevea convulsão das últimas horasem Manila: “A comitiva seguiu para asala de embarque [...]. Os soldadoscomeçaram a maltratar a banda, batendo-lhescom as espingardas, empurrando-oscontra as paredes [...].Os passageiros que esperavam outrosvoos assobiaram-nos e cuspiram-lhesem cima. De um momento para o outro,começaram a ser desferidos murros,lançando a confusão total. Nomeio de toda a violência, um brutalgolpe atirou Ringo ao chão, que tevede rastejar para a alfândega enquantoera espancado uma e outra vez.”Alguns meses e nova polémica depois,atiçada pela famosa tirada deJohn Lennon, “Os Beatles são maispopulares do que Jesus”, a banda davao seu último concerto, no CandlestickPark de São Francisco. Depoisdele, no avião, George Harrison, esfuziante,exclamava: “Está tudoacabado. Posso parar de fingirque sou um Beatle”. OsFab Four estavam a meioda sua carreira discográfica,mas George estava certo.A partir dali, os Beatlespodiam parar defingir queeram os Beatles,os “fineboys”,Nenhumaoutra bandafoi, como eles,porta-voz deuma geraçãoAs cançõessobreviveriamisoladas, masMcCartneyreuniu-asnuma suiteépica. Aarrebatadora“Sun king”,o baixodistorcidode “Mean MrMustard”,“The end”.Nem todassão deMcCartney,mas foidele a ideia– incluindo“Hermajesty”,a primeirafaixaescondida dahistória.JOHNLENNON“Happinessis a warm gun”Duas cançõesreunidascomo se fosseimpossívelsepará-las.A voz deLennon, maissarcástica doque catártica,a guitarra eaquele finaldesarmante.“Happiness isa warm gun”,canta Lennon.“Bang bang,shoot shoot”,respondemos Beatlesem coro. Tevedireito aversão dasBreeders.como lhes chamou Ed Sullivan, que omundo seguira com entusiasmo nosanos anteriores.Preto e branco enganadorO fenómeno social e cultural que osBeatles representavam, admirado portodos pela sua graça e simpatia, daRainha de Inglaterra aos miúdos queos perseguiam, iria tornar-se uma outracoisa – uma inaudita revoluçãomusical que abraçou as mais estimulantesmanifestações criativas do seutempo e que, longe de se esgotar nele,se manifesta ainda no presente.Quando aterraram em Manila, jáviviam a cores, já estavam muito distantesda imagem de meninosbonitos, diplomatas e politicamentecorrectos,que suscitavam uma revoluçãode costumespor, muito simplesmente,trans-for-marem a pop na banda sonora de umageração. Curiosamente, são os Beatlesde antes que perduram na memóriacolectiva. Visualmente, televisivamente,qualquer notícia relativa à bandaé acompanhada das mesmas imagens:eles de fato e franja, desembarcandoa preto e branco nos Estados Unidos,APPLE CORPS LTD.actuando no Ed Sullivan Show, cantando“Love me do” ou gritando os“yeahs” de “She loves you”. Fora doambiente melómano e/ou beatlemaníaco,a banda de Liverpool é significativaenquanto valor cultural, nãomusical. Os cabelos compridos que,vistos hoje, são ridiculamente curtos.8 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


APPLE CORPS LTD.“Sem ‘Abbey Road’, ‘Sgt. Pepper’s’ou ‘White Album’a música pop-rockcontemporâneanão seria a mesma”Hélder Gonçalvesmuitas coisas diferentes parapessoas das mais variadas árease gerações, em todo o mundo.Quisemos fazer-lhes um retratoa partir da experiência dealguns músicos portugueses.A primeira conclusão aretirar da amostra ouvidapelo Ípsilon é que “o álbumbranco” bate todos os outrosdiscos em termos de referência.“Para mim, é a Bíblia. Reflectesemuito nos meus álbuns,porque tem músicas muitodiferentes umas das outras”,explica Alexandre Monteiro,cujos dois discos assinadoscomo The Weatherman nãoescondem influências marcadasdos Beatles. Rui Reininho,vocalista dos GNR, nunca tevemuita paciência para canções“melosas” como “Michelle” ou“Ob-la-di, ob-la-da” e tambémelege o experimentalismo dodisco de 1968 como o augecriativo da banda. O crescenteenvolvimento dos músicoscom drogas, especula, tambémterá contribuído para umaabertura da paleta de sons:“Se não fosse isso, acho que searriscavam a ser uns totós”. JáHélder Gonçalves, dos Clã, elege“Revolver” (cujo alinhamentoinclui “Eleanor Rigby”) como “oálbum onde os quatro melhor sefundem como artistas e melhorfuncionam como banda”. “Apartir daí, os discos continuam aser fabulosos, se não melhores,mas já me parece que o Paul[McCartney] e o John [Lennon]se distinguem criativamente eressalta mais a personalidadeindividual do que o conjunto”,acrescenta.José Cid encara mesmo osdois últimos anos da bandacomo um período de declínio:“Quando aprenderam as regrasde composição e a escrita empauta, perderam uma certaloucura”. A primeira metade dadécada dos Beatles parece algodesvalorizada, mas tem grandeimportância para Carlos Mendes,que considera temas como “Loveme do” ou Please please me” uma“lufada de ar fresco”. “Depois,quando ouvi a ‘She loves you’(1963) pensei: ‘isto é o fim’. Estavacansado do rockabilly, do rock &roll mais convencional, do RickyNelson ou dos Everly Brothers”,conta. Em 1963, com Paulo deCarvalho, Fernando Chaby eJorge Barreto, fundou os Sheiks,os “Beatles portugueses”. CarlosMendes tinha como modeloJohn Lennon: “Foi o meu ídolo demiúdo. Tentava copiar o modo decompor, estar e de andar dele”.O fim?Ao contrário de Furtado,Carlos Mendes considera queos Beatles “não eram grandeinstrumentistas”, o que acaboupor ser uma das maioresrevoluções operaradas pelabanda: a criatividade podiaser mais importante do que atécnica. “Eles eram o contráriodaqueles músicos de estúdioque surgiam pela via dos bluesem Inglaterra, como o JimmyPage ou o Eric Clapton”, destacaReininho. Alexandre Monteiroé um assumido beatlemaníaco,mas nunca procurou a facetavirtuosa do quarteto. Aliás,dá-lhe mais prazer ouviralgumas gravações piratasdo que os trabalhos finais. Osingleses tratavam o estúdiocomo mais um instrumento, compotencialidades infinitas.Olhando em retrospectivapara os anos 60, é quaseinevitável dividir o mundo entreos Beatles e os Rolling Stones.José Cid subverte esta dicotomiae elege os Deep Purple comoa maior influência da década.Porém, não é por acaso que oseu próximo álbum se intitula“Clube dos Corações Solitáriosdo Capitão Cid” (a capa é umaparódia a “Sgt. Peppers”) e quea faixa bónus é uma versão de“Strawberry fields forever”. Noperíodo em que tocava versõespara “sobreviver”, não eramos Beatles que lhe davam mais“pica”, mas o músico reconheceuma admiração especial porGeorge Harrison: “Era maisdiscreto e tem menos obra, masa qualidade é pelo menos igual àdo McCartney e do Lennon. Eraum esteta, com um bom gostosublime”. Reininho concorda:“Ele tinha um toque especial.Por isso escolhi a ‘Within youwithout you’ para fazer uma‘cover’ num espectáculo na Casada Música. Tem as citaras, osgongos, aquela influência doRavi Shankar”.A importância de revera obra da banda traz esteimprovisado painel de volta aoconsenso. “Hoje em dia os putosmais novos têm muito menosmemória, porque há tantaoferta. É importante perceberque as bandas inglesas vêmde algum lado e que se façaalgum barulho à volta disso”,observa Paulo Furtado.José Cid julga que “as novasgerações perderam a noçãoda grande musicalidade”, atéporque, no presente, “há muitaprodução e pouca alma”. MasRui Reininho lança a dúvidasobre o impacto desta reedição:“Para as gerações mais novas,os Beatles não significamabsolutamente nada, e nãosei se terão paciência paraabsorver o conceito de álbum”.O quarteto deu um contributodecisivo para a transformaçãoda imagem dos LP, que erammuitas das vezes um conjuntode “singles” com outrasmúsicas “a encher”. Estaconcepção perdurou até aosnossos dias, mas o vocalistados GNR considera a hipótesede esta reedição ser “o canto docisne” - do álbum como formatoe dos Beatles como nossosdesconhecidos.Road” que é suite de dez canções concentrandotoda a criatividade de artesãospop inigualáveis. Resumindo:em curtos oito anos, os Beatles apropriaram-sedas regras existentes, quebraram-nase reconfiguraram-nas.Nesse arrojo, lançaram as fundaçõesdaquilo que é o cânone pop contemporâneo.Pode ser que com as reedições aeditar em 9 do 9 de 2009 – referênciadirecta à peça de música concreta,intitulada “Revolution 9”, incluída no“White Album” -, haja menos gente aouvir a fundadora “Tomorrow neverknows” – os mil sons de um tranceantes do trance - e a questionar-se deque álbum dos anos 1990 dos ChemicalBrothers seráaquela cançãode 1966 dosBeatles. Podeser que “Helterskelter” sejamenos a mensagem do tresloucadoCharles Manson e mais a canção incrivelmenteapocalíptica, montanharussa em electrocussão para todos os“headbangers” por vir, que McCartneygravou para o magnífico “WhiteAlbum”. Pode ser até que se descubracomo os Beatles dos primeiros tempos,os da franja a preto e branco,eram também rock’n’rollers enérgicose devidamente mal comportados – tudoexplicado em “I’m down”.Se isso acontecer, os Beatles continuarãoa ser os Beatles, mas ficarãomelhor na fotografia de “banda maisimportante da história da pop”.A fase “Sgt.Pepper’s”confirma aalvoradapsicadélicaAPPLE CORPS LTD. Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 11


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The VaselinesUm casal, uma banda,um sonho indieAtravés dos Nirvana, os Vaselines garantiram um rodapé na história da pop, mas tornou-sedifícil ouvi-los sem que esse fantasma assomasse. A vantagem de “Enter The Vaselines” é dara ouvi-los por aquilo são, um sonho indie que gravou todas as canções certas. Mário LopesOs Vaselines foram a banda de um casal,Eugene Kelly e Frances McKee; quandodeixaram de ser um casal, desapareceramSe tudo tivesse decorrido normalmente,os Vaselines passariam pelo mundosem que o mundo reparasse neles.Nasceram em Glasgow, em 1986, o anoem que a famosa compilação C-86,editada com o “New Musical Express”,revelou e legitimou em larga escalaaquilo que se convencionara definircomo “indie” - versão “twee”, corruptelade “sweet” aplicada à música delico-doce,no eixo imaginário em queBurt Bacharach encontra os VelvetUnderground, que a Inglaterra da cenaindependente criou na altura.Os Vaselines, “indies” no sentidooriginal do termo (música fiel à ética“do-it-yourself”, lançada em editorasindependentes), eram um casal, EugeneKelly e Frances McKee, poucointeressado nas ternuras do “twee”.Se o nome que escolheram como baptismonão for suficientemente explícitopara o leitor, canções como “Roryrides me raw”, supostamente sobreuma bicicleta, ou “Monsterpussy”,alegadamente sobre um gato, demonstrarãoà evidência que a inocênciados Vaselines tinha, digamos, umdiferente grau de pureza.Tal como muitos companheiros degeração, Eugene e Frances não começarama fazer música por serem músicosmas porque a música era aquiloque moldava todos os seus gestos quotidianos.Quase conseguimos imaginálosa discutir pormenores sórdidos daMúsicavida de Lou Reed na Factory, a desenharplantas da casa londrina de SydBarrett – só pelas capas dos seus álbunsa solo -, a comprar “aquele” casacoporque o Nick Drake vestia umparecido no “Five Leaves Left” ou aplanear um admirável mundo novoem que a indústria discográfica, talcomo a conheciam então, implodiriaperante a emergência de pequenasestruturas independentes.Não é por acaso que, antes de selembrarem que podiam cantar e comporjuntos, antes de se imaginaremcomo versão escocesa, filha da geraçãopunk, de Lee Hazelwood e NancySinatra, Eugene e Frances planearamfundar uma fanzine. Acontece quedepois ele gravou uma canção, intitulada“Son of a gun”, para lhe mostrara ela, e ela, sem temperamentopara se ver reduzida a menina bonitaque decora o palco e faz segundas vozes,aprendeu a tocar guitarra. Estávamosem 1986 e os Vaselines iniciavamaquilo que seria uma curta carreirade quatro anos – tudo resumidoem “Enter The Vaselines”, colectâneaagora editada onde à totalidade domaterial de estúdio gravado pela bandase junta um segundo CD com demose actuações ao vivo.O fantasma de Kurt CobainSe tudo tivesse decorrido normalmente,dizíamos então, ninguém além dosmelómanos mais atentos às pequenashistórias da pop repararia nesta bandade vozes delicadas cantando letrasrepletas de duplos sentidos (quasecândidas perversidades de adolescentes),esta banda que fazia pop luminosamas que gostava de dançar synth-pop(no primeiro EP, gravaramuma versão da “You think you’re aman” de Divine, actor, cantor e “dragqueen” que foi presença habitual nafilmografia de John Waters) e que, noseu único álbum, “Dum-Dum”, já aquatro elementos, cruzou o legadovelvetiano com a corrosão de uns Mu-“Não estão fartosde serem associadosa nós?”, ter-lhes-áperguntado KurtCobain. E não,não estavam fartos –quando se reuniramno ano passado,Eugene agradeceulheos elogiosconstantesdhoney e o apreço por Syd Barrett, epelo humor de Syd Barrett, dos seuscontemporâneos Soft Boys. Nesteponto, dado que escrevemos acima otítulo da canção que serviu de rastilhopara o nascimento da banda, “Son ofa gun”, não é preciso explicar o queaconteceu aos Vaselines em que erasuposto ninguém reparar.Encontramos uma versão de “Sonof a gun” em “Incesticide”, colectâneade lados B e raridades que os Nirvanaeditaram em 1992. Kurt Cobain adorava-ose aproveitava cada entrevistapara relembrar a sua admiração. Nãoque tal fosse necessário: “Molly’slips”, também de “Incesticide”, é obrados Vaselines, “Jesus don’t want mefor a sunbeam”, momento alto do retrospectivamentefúnebre “Unplugged”,é uma das melhores canções deEugene Kelly – e Frances, filha de Cobain,foi assim baptizada em homenagema Frances McKee.Por interposta pessoa, os Vaselinesgarantiram um simpático rodapé nahistória da música popular. Faca dedois gumes. “Não estão fartos de seremassociados a nós?”, ter-lhes-áperguntado Kurt Cobain. E não, nãoestavam fartos – quando se reuniramno ano passado, Eugene agradeceu aKurt Cobain pelos elogios constantese a Calvin Johnson, membro dos BeatHappening e fundador da histórica KRecords, por ter difundido consistentementeos Vaselines nos Estados Unidos.A pergunta de Cobain, contudo,fazia sentido. Porque a sombra dosNirvana se tornou difícil de dissipar,porque durante anos foi difícil ouviros Vaselines sem que esse fantasmaassomasse no preciso momento emque a viola de arco se faz ouvir em“Jesus don’t want me for a sunbeam”.Eis, então, a grande vantagem da retrospectivaagora editada: ao passarpor ela, voltamos a ouvir estes docesprovocadores chamados Vaselinespor aquilo que são. E não são bemuma banda, são um glorioso e efémerosonho indie que gravou todas ascanções certas. Foram a banda de umcasal, Eugene e Frances. Quando deixaramde ser um casal, nada mais tinhama dizer. Desapareceram. Separaram-sepouco depois de ser editadoo seu álbum de estreia, “Dum-Dum”.Regressaram no ano seguinte, em1990, a pedido de Kurt Cobain, paraabrir um concerto dos Nirvana emEdimburgo.Quase duas décadas depois, andamem digressão e fala-se da possibilidadede gravarem um novo álbum. Nestemomento, contudo, não é o presenteque nos interessa. Interessa-nosrecuperar, intocado, esse inspiradorpassado que “Enter The Vaselines”revela.Ver crítica de discos na pág. 38 e segs.Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 13


VASCO CELIOBrevemennum palco perNão se pensa nisso quando estamos sentados no nosso conforto de espectadores, mas se existe essa candou a trabalhar em Agosto. Fomos espreitar o “work in progress” de criadores em residên c14 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


O actor português está a trabalharem Itália graças a uma bolsa do Ministérioda Cultura – o programa Inov-Art,inaugurado este ano, que financia estágiosinternacionais na área das artese da cultura –, e os Teatrofficina Zerogrammivieram parar a Faro graças aum subsídio do Ministério da Culturaitaliano (“Movin’ Up”) para promovera mobilidade internacional dos seusjovens artistas.“Mappugghje” foi iniciado em Fevereiro.Antes de vir para Faro, o grupotinha um solo de 15 minutos numacadeira. Estamos a vê-lo agora: dança,teatro e mímica ligados como argamassa.A música é dolente, mas Penéloperevela uma fisicalidade de desenhoanimado. Tiques nervosos, actoshistéricos, uma mão que escorrega nojoelho e leva o corpo atrás.Nota de intenções desta companhiade Turim: “restituir à dança a sua leveza”.Na base das suas coreografiasestá uma espécie de teatralidade daspequenas acções, banais e quotidianas:uma gota de água, uma folha quecai, a maneira de pegar numa chávenade café. O próprio título do espectáculo,“Mappugghje” (não experimentempronunciar isto em casa) signite,Marlene Freitas / CAPATeatro/Dança“ASeriedadedos Animais” temensaio aberto noEstúdio Bomba Suicida,dia 12, e estreia a 26 naBox Nova do CCB1. Um solo(Italians do it better)“Mappugghje”tem antestreia emNápoles, no mês deAbrilTeatrofficina Zerogrammi /CAPA15 de Agosto, e tinha logo de ser sábado.Uma hora depois de Lisboa, as trêsfaixas da A2 deslizam em primeira parasul. Carros com a casa às costas,pára-arranca, um sol de Satanás. Atéquando parte de férias, o país faz fila.O plano é (era) chegar a Faro pelomeio-dia, mas quem é que estamos atentar enganar.Descontando as esplanadas dentroda cidade velha e dois casamentos,Faro é uma mansidão – está tudo napraia, ou está tudo à espera que o calorrecue. À porta do xadrez multicolorque é o Centro de Artes Performativasdo Algarve (CAPA) está um rostode Lisboa, o actor Martim Pedroso, epouco depois aparecem os outros,para fumar ou simplesmente ver a luzdo dia: os italianos Stefano Mazzottae Emanuele Sciannamea, e uma trança,Chiara Michelini, sorriso generoso,tímida no trato. O actor português e acompanhia italiana Teatrofficina Zerogrammiestão em residência artísticano CAPA – o Ípsilon apanhou-ossensivelmente a meio das suas duassemanas de estadia em Faro. Se existeessa coisa a que chamamos “rentrée”é porque alguém andou a trabalharem Agosto. Agosto porque a criação,ao contrário das outras actividades,não tem 40 horas semanais e subsídiode férias; Agosto porque é quando aspessoas estão mais disponíveis parase juntarem; Agosto porque toda agente foi de férias e a cidade está vazia;Agosto porque dependem da boa-vontadedos outros – estruturas como oCAPA, que fazem das residências artísticasa sua razão de ser.É um trabalho quase invisível, masalguém achou que tinha de o fazer:acolher artistas em fase de criação –acolhimento a sério, com todas as letras,no caso do CAPA: casa, cama ealimentação. Sem exigir grandes contrapartidas,e assumindo os custos doprocesso criativo de um espectáculoque se estreia quase sempre noutrosítio qualquer. Têm as portas abertasa artistas ou colectivos sem local própriode produção, ou com local deprodução mas outras exigências deespaço. E, salvo algumas excepções– o Centro de Residências Artísticas deNodar, junto a S. Pedro do Sul, ou oNúcleo de Experimentação Coreográfica(NEC), no Porto –, estas estruturascom um calendário regular de criadoresresidentes não estão fechadas emAgosto. É porque há quem trabalheque estamos a caminho do Algarvequando os outros vão de férias.“Se tivesse de pedir uma residênciaao CAPA, não pedia nesta altura doano sabendo que podia dar um mergulhoali ao lado”, ri-se JoséLaginha, ideólogo e directordaquele espaço.Acrescentando deimediato que o regimede trabalhode quem ali chegaé intenso.“Ninguém faz fins-de-semana. Os últimosque cá estiveram não tiraramum único dia para descanso.” O CAPAtem a praia aqui tão perto, mas não éuma colónia de férias. “A questão deestarmos no Algarve… eu próprio nãoexploro isso, não há qualquer referênciano ‘site’, diz José Laginha.Mas os italianos e Martim Pedrosotêm andado pela praia, e exibem asprovas: fotografias tiradas na Ilha Deserta,ao largo de Faro, que são umaespécie de “storyboard” do vídeo quevai integrar o terceiro espectáculo dacompanhia Teatrofficina Zerogrammi,intitulado “Mappugghje”. Quatro rapazes(faltava o dramaturgo FabioChiriatti, que entretanto desceu à “blackbox” do CAPA, onde nos encontramos)estão a trabalhar para que umarapariga dance: “Mappugghje” é umsolo de Chiara Michelini. O projectoinspira-se na “Odisseia”, mas do pontode vista de Penélope e da sua “esperade um homem que nunca maischega”, explica Martim, que colaborana construção da personagem.“Sobes as escadas eestá ali a tua cama,está ali a tua t-shirtlimpa. Aqui misturasetudo. Há umaintensidade que nãoexiste num espaçode trabalho normal”António Pedro Lopesto de sicoisa a que chamamos “rentrée” é porque alguémcias artísticas, de Aveiro a Faro. Kathleen GomesVASCO CELIOÍpsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 15


fica, no dialecto salentino (faladona região de Apúlia, de onde Stefanoe Emanuele provêm, no salto da botaque é Itália), coisas de pouco valor,sem importância.O espectáculo entra agora na segundafase de criação, no CAPA. A companhiaprocura expandir o solo, desenvolvera acção num espaço maior,além-cadeira. A vinda para Faro jácontaminou o projecto. Tinham imaginadoum “huis-clos”, uma pequenacasa de dois metros quadrados, comocenário do vídeo, mas não resistirama dez quilómetros de praia deserta eàs marés na Ria Formosa – metáforasem potência para a história de Penélope.“Mappugghje” tem ante-estreiamarcada para Nápoles em Abril.2. Um duo(são precisos doispara um solo)A funcionar regularmente desde Novembrodo ano passado, o PerFormasestá situado no antigo Teatro Avenida,em Aveiro, um edifício dos anos 50que foi uma sala de cinema até meadosda década de 80. Um lugar histórico,palco da oposição anti-salazarista,como assinala a placa que não vimosà entrada e só vemos à saída.Hoje é ocupado por vários estabelecimentoscomerciais – a porta do Per-Formas surge entre um banco e umaloja de roupa. Entra-se num elevadorque só pára no piso do PerFormas –parece deliberadamente idealizadopara evitar qualquer ligação com oresto do edifício. Café-concerto e zonalounge refeitos da noite passada, éaqui que esperamos que Ludger Lumerse Jorge Gonçalves façam um intervalo.Ana Rocha, produtora, vem à frente,explicar o essencial: Ludger e Jorgenunca tinham trabalhado juntos antes,e os dois coreógrafos e intérpretesestiveram três meses, entre Fevereiroe Maio, a preparar o projecto na Fábricada Rua da Alegria, no Porto. EmJulho houve uma apresentação informalem Berlim, na Tanzfabrik. Já nãoé o espectáculo que estamos a ver porqueem Berlim havia um violoncelistaem palco. Agora são só os dois intérpretesdentro de uma oval, aparelhosanalógicos (giradiscos com um restoda “Carmina Burana”, aparelhagempara gravar e fazer “rewind”, um mini-leitorde cassetes) e uma câmara afilmar em tempo real – em Aveiro começarama experimentar com o vídeo.Ludger, alemão, integrou a companhiade Olga Roriz nos anos 90,Jorge Gonçalves tem uma história comumcom o Balleteatro. Chamaram àsua colaboração “Antoine”: se é supostoser um dueto, eles dançam muitosozinhos (e vão muito ao chão), umsem o outro. Se é suposto ser um dueto,quem é “Antoine”? “Uma figuraque não está lá. Mas pode ser um denós”, diz Jorge Gonçalves. “Conhecemo-nose tivemos vontade de fazerqualquer coisa juntos. Nunca houvea intenção de fazer um dueto – queríamoscriar qualquer coisa a par umdo outro, não necessariamente umcom o outro”, explica Ludger Lumers.“No espectáculo, podemos ser umapessoa como podemos não ser nenhuma.Se calhar, isto é um solo com duaspessoas.”Depois de Aveiro, a dupla vai estarem residência no CAPA. Ao contráriodeste, o PerFormas não oferece alojamentoaos artistas (Ludger e Jorge ficamem casa de amigos), mas apenaso espaço de trabalho – uma sala-estúdioequipada e com 120 lugares, ondetambém apresenta a sua programação.Como contrapartida, o espectáculoé depois ali apresentado. “Antoi-RAQUEL ESPERANÇAO encenadordiz que assuas melhorescriações têmsaído deMontemor-o-NovoJoão Garcia MiguelUma residênciasempre no VerãoDesde 2003 que passa parte de Agosto no Espaço doTempo: viver nessa “clausura”, diz, “aprofunda muito osespectáculos”João Garcia Miguel preferesempre o Verão: desde 2003 quefaz sempre a sua residência noEspaço do Tempo em Agosto.Em tempos, isso significavater a casa só para ele. “Era umperíodo mais desocupado.Como o convento não tinhamuitas condições na altura,tudo o que havia ficavadisponível para a minhaequipa.” Calções e sandálias,cabelos desgrenhados e umpouco grisalhos como um AminMaalouf mais novo, o encenadorjá criou o seu cantinho nosclaustros, privilégios de“habitué”: mesa de trabalhocom um MacBook e váriasedições, portugueses e inglesas,“Da primeira vezque aqui fizresidência, constateique passava diassem ir à cidade.Essa clausurapermite umadedicação aotrabalho. Não querdizer que não vejamosum jogo do Benficade vez em quando”de “O Banqueiro Anarquista”de Fernando Pessoa, e ao ladouma espécie de “atelier”, ondevai fazendo as suas colagens epinturas (é formado em BelasArtes).O Verão continua a ser a alturapossível, reservada com muitaantecedência – já marcou ade Agosto de 2010 – porque équando está mais disponível. Éprofessor do curso de teatro nasCaldas da Rainha, director doTeatro-Cine de Torres Vedras,e ainda tem uma companhiaem nome próprio e uma sala deespectáculos, prestes a abrir noIntendente, em Lisboa, que sechamará Espaço do Urso e dosAnjos. Rui Horta diz, a rir, queJGM “tem de ser protegido delepróprio”, porque “não pára”.Os dois dizem que o encenadortem feito as suas melhorescriações em Montemor. “Algunsespectáculos que eu levo daquitêm tido a sorte de circular mais,ou mais prémios.” Prepara “OBanqueiro Anarquista” quetem estreia marcada no TeatroMaria Matos, em Lisboa, a 10 deDezembro.JGM acredita que umaresidência “aprofunda muitoos espectáculos”. “Reverte-seclaramente numa qualidadeartística. Na raiz do próprioespectáculo cria uma plantamuito mais forte, mais viçosa”,diz.“Da primeira vez que aquifiz residência, constatei quepassava quatro ou cinco diassem sair do convento parair à cidade. A dedicação econcentração eram tão grandesque me esqueci ou não sentinecessidade de ir beber um cafélá abaixo. Essa clausura sobrenós permite uma dedicaçãoao trabalho. Basicamenteninguém pensa em mais nada.”Pausa. “Não quer dizer que nãovejamos um jogo do Benfica devez em quando.”Acha que existe “umadimensão ética na residência,que talvez seja a maisfundamental de todas: osartistas acabam por ser umaespécie de grupo humanoonde se experimentamcoisas – relaçõesinterpessoais,formas de“Desculpa não terabordagem dadito nada antes e nãorealidade, emoções.dizer nada agora” sóVive-se emficará pronto em 2010comunidade, comtodas as tensõese problemáticas eisso provoca grandesquestões – somosobrigados a conviver unscom os outros, para o melhor epara o pior.” K.G.“Menina Júlia”estreia já na próximasegunda-feira, dia 7 de ne” terá aqui a suaSetembro, no Negócio estreia, a 6 e 7 deNovembro. FilipePereira, director artístico,tem planosmais ambiciosos paraas residências – interacçãomaior com a comunidade local,acções de formação, encontrosinformais com o público – mas “aindaé cedo”. O PerFormas está só a começar.Primeiros Sintomas / NegóciodAntónio Pedro Lopes / Espaçoo Tempo3. Três trios(e um triângulo)- Ora aqui está um rico trio.Podíamos ser nós a dizê-lo, mas sãoeles, o trio. Uma actriz de teatro, umaactriz de cinema e um bailarino avançampara nós de olhar fixo, com movimentosde tai-chi e uma espécie de“plié”. É intimidante, sobretudo porquesomos a única assistência, e nãonecessariamente porque Elsa Aleluiafoi buscar inspiração ao cinema deterror. Hoje ela tem uma t-shirt comuma teia de aranha. “Che Cosa” chama-seo espectáculo em desenvolvimento,que vive de “situações no limitedo acontecimento”, de expectativas.O terror tinha de estar nisto– Elsa e os seus intérpretes, Ana Moreira(“Os Mutantes”, “A Corte do Norte”)e Miguel Ramos, viram “Repulsa”,“Evil Dead”, “The Grudge” – porqueo terror alimenta-se de uma suspeita.“E de repente passa o gato e já não énada”, diz Elsa Aleluia. “Che Cosa”,que irá integrar o Festival Tempsd’Images, será inteiramente criado emresidências: Buenos Aires primeiro (sóElsa), Re.al e Eira, ambos em Lisboa,e PerFormas, onde irá estrear em Outubro.Mas uma residência em Lisboa– por exemplo no estúdio da Re.al, queo Ípsilon foi espreitar a 14 de Agosto– não é o mesmo que uma residênciafora de Lisboa. “Há sempre o voltar ocasa, não desligas totalmente do teuquotidiano”, nota Elsa Aleluia. “E é16 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


RUI GAUDÊNCIORAQUEL ESPERANÇA“[Fora de umaresidência] há sempreo voltar a casa, nãodesligas totalmentedo teu trabalho”Elsa Aleluia“Antoine”temestreia marcada para6 de Novembro noPerFormasMontemor-o-Novo, num“Nerves mariara-Lisboa. Deve ser dos es-Alentejo a uma hora deLike Nylon”terá uma mos0 paços mais bonitos emapresentaçãoPortugal para residênciasartísticas. Um con-informal nopróximovento meio abandonado,dia 12, na Eira meio restaurado, com vistadesalmada sobre a cidade,laranjeiras no pátio, umacapela forrada a azulejo quejá esteve entregue à passarada.No estúdio do celeiro,com janelas para um olival àmíngua de água e trovoada ao fundo,António Pedro Lopes, que já dançoucom Jérôme Bel em “The Show MustGo On”, está a voltar a um momentoque tinha ficado, como ele diz, “fechadonuma gaveta”. Uma peça dopassado, “Desculpa não ter dito nadaantes e não dizer nada agora”, apresentadaem 2006 no Porto e em Guimarães,mas que estava por concluir.Na base do projecto está a experiênciade perda num espaço familiar,e António diz que, originalmente,criou uma peça “com falta de ar”.“Passaram quatro anos e eu não soua mesma pessoa”, explica. Diz quehoje existem nele “uma ironia crónica”e “uma esperança enorme” e issofaz toda a diferença neste “exercíciode reescrita”. Continua a ser uma peçade corpos na redoma da suasolidão, mas as quatro figurasiniciais vão ser perturbadaspela chegada de um novoes / PerFormasvLudger Lumers e Jorge Gonçalelemento, “uma espéciede Godot ou D. Sebastião”,“quase como secaísse um raio”.O tempo começa amudar: a trovoada estáimportante criar pequenos distanciamentos.”A mudança de cenário, onomadismo das residências tem algumefeito sobre o acto criativo? “Aquiajuda. Porque é um espectáculo quevive de um quase instalar-se ede fuga.”“Há momentos emElsa Aleluia / Re.alque é importante tiraras pessoas do seu habitatnormal para poderemestar completamentededicadasao trabalho”, diz MariaRamos, bailarina ecoreógrafa. “Para algunsintérpretes podeser claustrofóbico. No meucaso é óptimo. Há mais disponibilidademental para o trabalho”.Desde os anos 80 que o primeiroandar do edifício dos vetustos BombeirosLisbonenses, junto ao Marquêsde Pombal, em Lisboa, está entregueà dança contemporânea. Foi o estúdioda Companhia de Dança de Lisboa,fundada por Rui Horta, e desde 1997é ocupado pela Eira, que tem um programade residências. É onde estáMaria Ramos, e o seu trio de intérpretesfemininas.Uma caixa branca, com um espelhobarroco e portadas abertas para o ruídoda rua. As três bailarinas estão dispostascomo um triângulo – uma àfrente, duas atrás, de cada lado – e executammovimentos mecanizados, aoritmo das palavras que proferem. Trêstroncos estáticos, como se tivessemcriado raízes. Maria Ramos explica quetentou concentrar todo o movimentona região do tronco, o que é uma ideia“quase anti-coreográfica”: como é queelas dançam se estão paradas? A inspiraçãopara “Nerves Like Nylon” veiodo escultor Antony Gormley e do seuprincípio paradoxal deque o estatismo“Uma vez alugámosuma quinta no Norte.Passámos umasemana a dormire a comer lá. Quandovoltámos, já tínhamosdescoberto o tom doespectáculo, foi sóensaiá-lo. Não tensnada que te disperse”Bruno Bravo“Che Cosa” temestreia em Outubro noPerFormas, em Aveiro, eintegra o Festival Tempsd’Imagespode expressarmovimento. Mariaestá a tentartraduzir isso numcontexto coreográfico,o que também jáesteve na base do seumestrado no ArtEZ Institute ofArts, na Holanda. Em “Nerves LikeNylon” há ainda Beckett, autor do textoverbalizado pelas intérpretes (“NotI”), e os Bauhaus de “Nerves”, de 1980(uma espécie de “vampire rock” industrial),que serve de banda sonorae de título à coreografia. No próximodia 12, haverá uma apresentação informalna Eira, para que programadorese directores artísticos possam ver oespectáculo ao vivo. “Um DVD nãochega”, diz Maria Ramos. “Nerves LikeNylon” não tem ainda data ou local deestreia. A coreógrafa gostava de apresentá-lonuma “black box” mas tambémnuma galeria. No final deste mês,a residência prossegue na Holanda, sócom Maria Ramos, o sonoplasta e odesigner de luz do espectáculo, e nofinal de Outubro a equipa inteira reúne-sepela primeira vez no CAPA, emFaro, durante duas semanas.É aí que se encontra outro trio, doispisos acima dos italianos do TeatrofficinaZerogrammi. Era para ser umtrio, mas não este trio: Marlene Freitastinha pensado em três intérpretesmasculinos, mas um deles não chegoua aparecer. Criar é resolver problemas.Entrou ela. Um livro de Brecht no chãode madeira luzidia, cadernos de apontamentos,uma garrafa de água e ostrês à volta. Marlene decidiu coreografar“Baal”, obra de juventude deBrecht, mas, diz ela, não é assim tãoimportante saber que peça é. No entanto,os três puseram-se a memorizaro texto, como actores, porqueisso irá definir “o ritmo” do espectáculo.O trio começa a mover-se em círculodentro de um espaço delimitado –uma baliza feita com fita adesiva pretada parede ao chão do estúdio. É umdesfile algo trôpego, como se fossembrinquedos avariados: Luís Guerrarobótico, Alex Jenkins esguio, Marlenetribal. Ela quer que a dança seja feita“dentro de uma caixa, à boca de cena,muito perto do público”, daí a fita preta.O espectáculo vai chamar-se “ASeriedade dos Animais”, expressãoretirada de um texto de Brecht sobre“Baal”, e vai ser mostrado num ensaioaberto no Estúdio Bomba Suicida, emLisboa, no próximo dia 12. Ainda nãoé a estreia: essa é dia 26, na Box Novado CCB. Em Março, irá a Vanves, nosarredores de Paris. Hoje é o último diade uma residência de duas semanasno CAPA. “Também gosto de trabalharem Lisboa, mas qui o tempo passamais devagar”, diz Marlene. “E temosum tempo de convívio, para além dotrabalho. Estávamos a falar disso: passámos15 dias sempre juntos...”Quarta-feira, 19 de Agosto – mas vamosfingir que é noite de S. João, porqueé nessa noite que tudo aconteceem “Menina Júlia”, a versão de Strindbergda luta de classes e da guerrados sexos. O interior do Negócio, salaque pertence à Zé dos Bois, no BairroAlto, em Lisboa, é completamente preto,com duas entradas de luz do ladodireito, tão branca que quase cega,mas ainda é preciso acender luzes.Menina Júlia (Ana Brandão) põe o telemóvela carregar antes que tudo comece.O som do eléctrico entra pelasjanelas, rivalizando coma voz dos actores.MIGUEL MADEIRAMaria Ramos / EiraA estreia de “Menina Júlia” estámarcada para segunda-feira, o que“pressupunha ensaios em Agosto”,explica o encenador, Bruno Bravo, dogrupo de teatro Primeiros Sintomas.Há quem goste de ir para fora em residênciae ele reconhece vantagensnisso: “Uma vez alugámos uma quintano Norte. Passámos uma semana adormir e a comer lá. Permitiu-nos estarmuito focados. Quando voltámos,já tínhamos descoberto o tom do espectáculo,foi só ensaiá-lo. Não tensnada que te disperse.” Mas Bruno Bravoprefere ensaiar no lugar onde oespectáculo vai ser apresentado, comoé o caso agora. “Desde o início,ajustas-te ao espaço. Isso facilita muito.”E ainda estamos a falar de umaresidência? “É uma espécie de residência.A ZdB cede-nos o espaço, oequipamento, trata da divulgação. Nofundo, é uma coprodução que não setraduz em dinheiro.”4. 4+1“Smoking is only allowed in the cloisters”,diz o aviso à porta de um dosestúdios do Espaço do Tempo, o centrode criação que o coreógrafo RuiHorta fundou num convento demonjas do século XVI emmais perto, as janelas batem, o ventoentra e muda as coisas de lugar. Umanota de cinco dólares solta-se da agendade António Pedro Lopes, esvoaçacomo uma borboleta. António PedroLopes está no Espaço do Tempo pelaterceira vez, a primeira como criador.Faz das residências artísticas um modode vida: só este ano, já passou porParis, pela Re.al, pelo Balleteatro e oPrimeiro Andar, no Porto, pelo TeatroMicaelense, em Ponta Delgada, LosAngeles, e Oaxaca, no México. Diz queas residências são “casas emprestadas”.“Não é a tua casa, mas é a tuacasa durante duas semanas.” Há uma“mistura” de tempos, o do trabalho eo pessoal. “Sobes as escadas e está alia tua cama, está ali a tua t-shirt limpa.Aqui mistura-se tudo. Há uma intensidade,um condensar de uma experiênciaque não existe num espaço detrabalho normal.”Se não fossem as residências, talveznão houvesse uma montadora de “OsSopranos” no estúdio. António conheceuMonica Gillette – CV dividido entrea dança e Hollywood, o que pode impressionar,mas para esta americanao paraíso é o sistema europeu de residênciasartísticas, inexistente nosEUA – há dois anos em França e desdeentão têm colaborado juntos em projectosalheios ou próprios. “Desculpanão ter dito nada antes (...)” só deveráestar terminado no próximo ano, mas,num dos últimos sábados de Agosto,António Pedro Lopes decidiu fazeruma apresentação informal do trabalhoem progresso no Espaço do Tempo.É uma forma de obter “feedback”,ou de ter potenciais programadoresa assistir. “Há criadores muito privados,ficam frágeis, não conseguemmostrar o trabalho antes” de estarconcluído, diz Rui Horta. “Mas há outrosque necessitam do confronto,precisam de ouvir.” O coreógrafo chama-lhes“espectáculos no fio da navalha”.Podem ter imperfeições, mas “éuma coisa mágica”, garante. Em Aveiro,a produtora Ana Rocha dizia-nos:“Tudo o que está dentro do começare acabar [um espectáculo] é o maisinteressante”.Nós, espectadores, andamos a perderalguma coisa.Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 17


LivrosHistória de facom o Holocausto aoDaniel Mendelsohn quis saber o que acontecera a seis parente“Os Desaparecidos” diz-nos o que descobriu, mas o livro é, sobretudo, o relatQuando era criança, Daniel Mendelsohngostava de ouvir o avô contarlhehistórias de família. Estas incluíamum tio-avô de Daniel, SchmielJäger, morto no Holocausto, juntamentecom a mulher e quatro filhas.A curiosidade em descobrir o queexactamente acontecera a essesseus parentes lançou-o numa buscaépica, por vários continentes, parafalar com os poucos sobreviventesque ainda tinham conhecido os Jägerem Bolechow (Bolekhiv, na actualUcrânia). Crítico literário e professorde Clássicas, Mendelsohn(n.1960) publicou em 2006 “Os Desaparecidos.À procura de Seis emSeis Milhões”. O livro foi um sucessonos EUA e na Europa e Godardquer agora adaptá-lo ao cinema.“Os Desaparecidos” abre coma ilustração de uma árvoregenealógica, cuja legenda é:“A Família de Schmiel Jäger”.Tendo em conta o que se vailer a seguir, não teria sido maisapropriado escrever “A famíliade Daniel Mendelsohn”?É a minha família, claro. O livro tratade mim, da minha busca. Masincluí essa árvore, terminando-a naminha geração, para lembrar queSchmiel tem uma família que nuncaconheceu.No fim do livro, ficamos a saberalguns detalhes concretossobre os seus parentes mortospelos nazis, mas as informaçõesque reuniu não nos dão umverdadeiro retrato dessaspessoas. Se tivesse conseguidosaber bastante mais, não lheparece possível que, em vezde um volume de quase 600páginas, pudesse ter escrito,paradoxalmente, um livrobastante mais curto?Se eu tivesse sabido, na minha primeiraviagem à Ucrânia, o que soubena última, ter-me-ia ficado por aíe teria escrito um pequeno volume,ou mesmo um artigo. O livro temuma espécie de falso final, antesdessa última visita a Bolechow –quando soube ao certo o que tinhaacontecido a Schmiel –, porque penseimesmo que estava terminado. Ese o tivesse acabado aí, acho queseria na mesma um livro interessante.O que me interessa é a ideia dabusca, agrada-me escrever sobreprocurar, e não tanto sobre o que seencontrou.No seu livro descreveminuciosamente a sua busca,que é uma espécie de processoem cadeia. Uma pessoa fala-lhenoutra pessoa, uma informaçãocolhida num continente levaoa outro. Imagine que tinhacomeçado noutro ponto.Mesmo que tivesse vindo avisitar os mesmos sítios e afalar com as mesmas pessoas,não teria escrito um livrosubstancialmente diferente?Já respondeu. Escrevi o livro assimporque a História é isso mesmo: coisasque acontecem de determinada maneirae numa determinada sequência.Claro que teria escrito um livro totalmentediferente, o que é fascinante.Uma das singularidades de“Os Desaparecidos” é o modocomo interrompe a narraçãocom referências à culturaclássica greco-latina e excertoscomentados da Bíblia hebraica.Parece fazê-lo para justificar omodo como se propõe contar asua história, mas também paramostrar que os acontecimentosque narra têm precedentesantigos, seguem um padrão.Como se precisasse de recuarmilhares de anos para coser opequeno rasgão temporal entrea sua geração e a dos seus avós.É verdade, mas há outras razões. Umdos temas do livro é o modo comousamos as ferramentas que temospara perceber o passado. Pode-se ira todo o mundo e entrevistar muitagente, mas também se pode usar essaoutra ferramenta que é a literatura.Ao recorrer aos fragmentos bíblicos,tentei mostrar que as histórias queocorrem na vida real, comigo, com aminha família, são histórias reencenadas,cujas sementes já estão brilhantementedescritas no Génesis.Por outro lado, o livro tenta perceberum acontecimento vasto e complexo,mas foca-se num grupo de seis pessoas.É um livro íntimo. Um dos motivospara a presença das reflexões em tornodo Génesis é que elas expandemo foco, afastam o leitor da história íntimapara o obrigar a ver que ela temimplicações muito vastas. Creio queé aí, nessa relação entre ambos os planos,que o verdadeiro sentido do livrose gera.A voz do avôExplica que não teve formaçãoreligiosa, mas fica-se com aimpressão de que reconhece queo seu “bar mitzvah” foi, para si,um momento crucial.Sempre tinha visto a religião como umpró-forma, mas a ironia é que esse“bar mitzvah” marca o início da minhacarreira como historiador da família.Foi o acontecimento mais importanteda minha vida. Foi lá queconheci todos esses parentes maisvelhos e tive o desejo de saber quemeram. Pode dizer-se que muito destelivro é sobre os meus erros. Teria ficadoa saber muito sobre Schmiel se,no meu “bar mitzvah”, tivesse faladocom Herman, o barbeiro [um velhoque Mendelsohn, em criança, evitavao mais possível, porque tinha o hábitode o agarrar e de lhe sussurrar, aoouvido, frases em iídiche]. Estava tragicamenteenganado a respeito dele.Dada a sua falta de formaçãoreligiosa, também é curiosonotar que parece ter ficadoafectado ao saber que um seutio, visto na família como ummilitante sionista, tinha tidoum talho, em Bolechow, noqual vendia carne que não era“kosher”.Não se trata de religião, mas de ética.Ele era um vigarista. Vendia carne quenão era “kosher” como se o fosse. Asmulheres da terra tiveram de partiros pratos, porque quem tivesse carne“não-kosher” na cozinha era obrigado,por imperativo religioso, a quebrartoda a sua louça. Foi um escândaloenorme. Correram com ele daaldeia, e por isso é que esse meu tiofoi para Israel, o que ironicamente osalvou, e não por que fosse sionista,como me tinham dito.Uma personagem central de“Os Desaparecidos” é o seu avômaterno. Tudo começou comas histórias de família que lheouviu em criança. Reparei quehá um momento no livro emque usa o imperativo “escuta”a anteceder o que vai narrar,como se quisesse sugerir que eleé a continuação de uma históriaque começou a ser contada peloseu avô.O livro também é sobre como se con-“Tentei mostrarque as histórias queocorrem na vida real,comigo, com a minhafamília, são históriasreencenadas, cujassementes já estãobrilhantementedescritas no Génesis”ta uma história. E propõe diferentesmodelos. Falo da Bíblia, que é umamaneira de contar a história, e da poesiagrega e da “Ilíada”, que é outramaneira. Para mim, a narrativa é muitoimportante, quer como neto de umgrande contador de histórias, quercomo especialista da literatura grega.Quis capturar esse modo de o meuavô contar histórias. Daí as repetiçõese outras marcas de um estilo oral. Olivro é, sem dúvida, uma homenagemao meu avô. Enquanto o escrevia, ouviaa sua voz na minha cabeça.E como era a si que o seuavô contava as histórias, aapropriação desse “escuta”com que ele as iniciava tambémpode sugerir que este livroé uma história que o DanielMendelsohn está a contar a sipróprio?Fico satisfeito por isso lhe ter ocorrido.No início de “Os Desaparecidos”,quando descreve as reuniõesfamiliares com os velhos judeusde Miami, podemos pensar emalgumas páginas dos romancesA ruaprincipal deBolechow,cidade ondeparte dafamília deDanielMendelsohn“desapareceu”,e ocemitério,fotografadopelo irmão doescritor, Mattde Philip Roth. Ocorreu-lhe usareste material para uma obra deficção?Não. É verdade que os temas do livrosão os grandes temas da ficção, masnão me vejo como romancista.Uma história da EuropaA propósito de Bolechow, ondeos seus antepassados viveram, edas volúveis fronteiras políticasdessa região, conta a piada dohomem que nasceu na Áustria,estudou na Polónia, casou na“Todos os críticosdo livro falaramde Proust ou Sebald,mas ninguém falou deSaramago, que é umadas minhas grandesinfluências”18 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


míliao fundontes seus mortos no Holocausto.lato minucioso dessa busca. Luís Miguel QueirósAlemanha, teve filhos na URSSe morreu na Ucrânia, tendofeito tudo isso sem sair da suaaldeia. Este livro, desde asincursões na Antiguidadeaté à descrição dosgrandes conflitos doséculo XX, não é,também, um livrosobre a Europa?Absolutamente. Eu souamericano, mas todos osmeus avós eram europeus,as vozes que ouviana infância eram europeias.Fui sempre atraídopela cultura europeia, edaí ter-me tornado umclassicista. “Os Desaparecidos”teve muito sucessonos EUA, mas apenas enquantolivro sobre o Holocausto.É isso que lhes interessa.Creio que os europeuso leram melhor,percebendo que é uma reflexãosobre a cultura europeia,no que ela produziude pior, o Holocausto, e noque produziu de melhor,que é a sua cultura. NosEUA, conhecem-me comocrítico literário, mas raramenteescrevo sobre autoresamericanos. A minha formaçãoé europeia. Todos os meus modelossão europeus, de Virgílioa Proust.E Saramago. A abrir uma dassecções do livro, inclui umalonga citação de “A História doCerco de Lisboa”.Gosto especialmente desse livro.Saramago interessa-se pela Históriae pelo modo como ela funciona.Como é que as coisas aconteceram?E por que aconteceu istoem vez daquilo? Isso é muitoSaramago. Todos os críticosdo livro falaram de Proustou Sebald, mas ninguémfalou de Saramago, que éuma das minhas grandesinfluências. Reli-o muitoenquanto escrevia “OsDesaparecidos”.Sentiu, em algummomento, quegostaria deter vivido emBolechow antesda guerra?Não devemos(Le Monde de la Musique)ULF ANDERSEN/ GETTY IMAGESÍpsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 19


ser tentados pela ilusão de quepodemos visitar o passado. Podemossaber 500 mil coisas sobre ele, masserão sempre mais as que não sabemos.Bolechow era um lugar simpático,como muitas outras aldeiassemelhantes. E é preciso pensar nestaspessoas, que tiveram vidas felizes,sem a sombra do que lhes veioa acontecer. Elas não sabiam que iammorrer no Holocausto.Um dos temas recorrentes de“Os Desaparecidos” pareceser o dos irmãos: Abel e Caim,Schmiel e o seu avô, o seu pai eo irmão com quem ele deixoude falar, as possíveis tensõesentre as duas filhas mais velhasde Schmiel, e, finalmente,a sua própria relação comMatt, o irmão fotógrafo queo acompanhou nas muitasviagens que fez para escrevereste livro. Fica-se com a ideiade que esta busca comum osaproximou.Fui procurar parentes desaparecidose achei um, que foi o Matt. Essaé uma grande parte da história. Masos irmãos também são uma metáforapara o que podem fazer umaspessoas a outras que lhes estão muitopróximas. O que se passou naguerra da Bósnia, com os vizinhosa matar-se uns aos outros, aconteceudo mesmo modo em Bolechowdurante a Segunda Guerra.“Toda a famíliatem uma história”Que reacções teve ao livrona esfera familiar? O retratoque traça de alguns dos seusparentes não é exactamenteenaltecedor.Vejo que é um diplomata (risos). Masa verdade é que não tive más reacções.A pessoa a quem dei a ler o manuscritofoi o Matt, porque queria tera certeza de que não havia nele nadaque o perturbasse. Não o mostrei amais ninguém, nem aos meus pais,porque já sabia que toda a gente mediria: “Não foi bem isso que eu disse,ou que quis dizer”. Tenho as gravaçõese as notas e é tudo verdade. MasSchmiel,Estere Bronia(ao lado)numa dasantigas fotosde família doavô doescritor; emcima, a sra.Begley,fonte epersonagemfundamentalem “OsDesaparecidos”é claro que é a minha versão. A únicamá reacção que tive foi da sra. Grossbard,que nunca mais falou comigo.Não deve ter ficado muito felizpor ter contado que o irmãopertenceu à polícia judaicaarregimentada pelos nazis.Ela escondeu isso. As pessoas falaramcomigo sem saber quem mais eu iaentrevistar. E não se lembram, ao contara sua história, que também sãopersonagens das histórias de outraspessoas. Mas a ironia trágica é quequalquer pessoa que consulte arquivosem Jerusalém pode descobrir osegredo da sra. Grossbard. É do conhecimentopúblico.Seria de esperar que mesmoa comunidade judia maisconservadora não tivessegostado muito de algumas coisasno livro. Por exemplo, o modocomo sublinha que a Bíblia“Entre 5 e 7 milhõesde ucranianos foramdeliberadamenteassassinados peloregime de Estaline.Isso é um holocaustoe tem de fazer parteda História”recomenda a segregação racial.Ou o pormenor de afirmar queos ucranianos também tiveram oseu holocausto, usando a palavrahabitualmente reservadaao destino dos judeus sob onazismo.É verdade que alguns reagiram mal.Mas a Bíblia está cheia de histórias deaniquilação, de holocaustos, e estimaseque entre 5 e 7 milhões de ucranianostenham sido deliberadamenteassassinados pelo regime de Estaline.Isso é um holocausto e tem de fazerparte da História. O meu livro é sobreo que os humanos fazem: judeus,ucranianos, polacos, russos. Ninguémé um anjo e ninguém é o diabo.Não me parece, aliás, que sepossa considerar que este é umlivro sobre o Holocausto.Pois não. É sobre o presente, sobreuma busca que estou a fazer, e daí osubtítulo: “À procura de seis em seismilhões”. Acho que é por isso que aspessoas aderem ao livro. Toda a gentetem uma família e toda a famíliatem uma história. Todos poderiamfazer um livro como este. Não é umlivro judeu, como “Anna Karenina”não é um livro russo ainda que, claro,também o seja.Por associação de ideias, “AnnaKarenina” lembrou-me a AnnaKarinna. É verdade que Godardvai fazer um filme a partir dolivro?Bem, ele mostrou-se interessado, jáhá cerca de um ano e meio, e temosconversado. Mas ainda está tudo a serdiscutido.Gostaria que fosse ele?Seria muito interessante. A ideia deGodard seria que o filme fizesse omesmo que o livro. Interromper-se atodo o momento para examinar a suaprópria possibilidade de contar a história.Em todo o caso, os direitos parao cinema foram comprados e alguémirá fazer o filme.Uma das coisas que me comoveumais no seu livro foi pensarque as filhas de Schmiel viramfilmes com Gary Cooper numasala da terra, o Dom Katolicki,que depois serviu de cenário aoshorrores dos nazis – como o decegarem um rabi e porem-no adançar com uma rapariga judianua – e que, finalmente, é hojede novo um sítio onde se exibecinema.É muito chocante. De um modo grotesco,nunca deixou de ser um lugarde entretenimento, já que os nazis sedivertiram a torturar aquelas pessoas.De tudo o que soube ao longodestes cinco anos, o que é que ochocou mais?Vai achar estranho, mas foi a históriadaquela senhora que, para não ouviros tiros das metralhadoras que matavamos judeus, se pôs a trabalhar namáquina de costura, para tentar abafaro ruído. Perturbou-me muito ajustaposição de um objecto tão quotidianocom esse horror tão inconcebível.Judeus acaminhoda América,no início doséculo XX:“Eu souamericano,mas todosos meus avóserameuropeus,as vozesque ouviana infânciaerameuropeias”20 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


silva!designers


A novacomédiaamericanac’estlui(mas atéquando?)Depois de “Virgem aos 40 Anos” e de“Um Azar do Caraças”, Judd Apatowarriscou um filme mais adulto. Mas“Funny People” está longe de serum sucesso – e o problema, dizemosnós, nem é do filme. Jorge MourinhaJudd Apatow tornou-se, digamos, adulto no seu novo filmeCinemaA julgar pelas reacções a “Funny People”,o reinado de Judd Apatow comonovo mestre da comédia americanapode muito bem estar a chegarao fim.Como realizador de “Virgem aos 40Anos” e “Um Azar do Caraças”, e produtorde quase todas as comédias americanasrecentes que interessam (masque têm passado ao lado do espectadoresportugueses, como “As CorridasLoucas de Ricky Bobby”, de AdamMcKay, ou “Superbaldas”, de GregMottola), Apatow mostrou que era possívelinjectar inteligência e emoçãonum género que muitos identificamcom a boçalidade adolescente. E, àterceira realização, arriscou o salto emfrente, em direcção a um projecto maisadulto, mais maduro, mais sério e maisambicioso, com um elenco de luxo:Adam Sandler, os “protegidos” SethRogen e Jonah Hill, Leslie Mann, JasonDe “Virgemaos 40 Anos”(2005) para“FunnyPeople”(2009): aúltimacomédia deJudd Apatowjá está para láde umacomédiaSchwartzman e Eric Bana.E estampou-se.Ao fim de cinco semanas em cartaznos EUA, “Funny People” já terminoupraticamente a sua carreira comuma bilheteira modesta (50 milhõesde dólares de receita para um orçamentode 70 milhões — um terço dosnúmeros de “Um Azar do Caraças”com o dobro do orçamento...) e a críticamostrou-se pouco entusiasmadacom esta ambiciosa comédia dramáticaambientada no mundo da comédia“stand-up”.Mas o verdadeiro problema de“Funny People” — que deverá chegara Portugal no fim de Outubro, na pontafinal de uma distribuição europeiaque começa nos últimos dias do mêsem Inglaterra — não está em o filmeser bom ou mau (para que conste: ébom, embora não seja extraordinário).O verdadeiro problema de “FunnyPeople” é que este é um filme a contra-correnteda formatação que dominaHollywood, uma comédia deduas horas e meia que quer falar decoisas muito (mais) sérias de maneiramuito (mais) séria sem deixar deser uma comédia, que não se dirigeaos adolescentes da pipoca e do refrigeranteque vão em massa à primeirasessão do “G. I. Joe”. Judd Apatowquis fazer um filme para adultosnuma Hollywood que só sabe venderbrinquedos a miúdos — e que “FunnyPeople” tenha ficado aquém das expectativas,afinal, é culpa de quem?Mais do que a comédiado costumeO nome que mais se leu nas críticasamericanas como inspiração de“Funny People” dá uma ideia e umamedida das ambições de Apatow: Ja-Ao fim de cincosemanas em cartaznos EUA, “FunnyPeople” já terminoupraticamente a suacarreira com umabilheteira modestae uma crítica poucoentusiasmada comesta ambiciosacomédia dramática22 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


BRIAN VANDER BRUGJudd Apatowquis fazer um filmepara adultos numaHollywood quesó sabe venderbrinquedos a miúdosJames L. Brooks é o nomeque se lê nas entrelinhas de“Funny People”LEROY HAMILTONmes L. Brooks, o realizador e argumentistade “Laços de Ternura”,“Edição Especial” e “Melhor É Impossível”.Tal como Apatow, Brooks vemda televisão (onde criou as séries “AsSolteironas”, “Lou Grant” e “Táxi” efoi um dos impulsionadores dos“Simpsons”), e criou uma reputaçãocomo autor literato, herdeiro da eraclássica da Hollywood dos anos 1950-1970, capaz de conjugar num mesmofilme riso e lágrima de modo inteligente.Ora, é precisamente aí que Apatowquer estar — ou não fosse “Funny People”um filme sobre as vidas muitosérias daqueles que fazem rir comoprofissão. É a história de George Simmons,antigo homem da “stand-up”transformado em super-estrela deHollywood, em comédias que recordamquase sempre os filmes que fizeramde Adam Sandler um dos actorescómicos americanos mais popularesjunto do público e maisdesprezados pela crítica. Que seja opróprio Sandler, amigo de longa datade Apatow (com quem começou nospalcos dos clubes de comédia), a interpretarSimmons é prova de que oactor sabe bem o que está a fazer eque Paul Thomas Anderson não foiparvo nenhum em ir buscá-lo para“Embriagado de Amor”.Mas o jogo meta-narrativo entreSimmons e Sandler é secundário aoque realmente interessa a Apatow:contrapor à “bananeira” a que Simmonsse encostou o “Bildungsroman”de Ira Wright (Rogen), aspirante acomediante que ainda não conseguiusair da cepa torta, vive com dois amigosque já conseguiram meter o péna porta e agarra a oportunidadeda sua vida quando Simmons o convidapara ser seu assistente e escritorde piadas.No que podia ser um “buddy movie”de comédia tensa entre dois opostos,Apatow lança uma bomba de fragmentaçãodramática — o diagnósticode uma doença rara e potencialmentefatal a Simmons, que começa aquestionar a sua vida e as suas opções,lamentando as oportunidades perdidas,e se decide a regressar aos palcosde “stand-up” e a reatar o romance dejuventude com a mulher (Leslie Mann)que deixou escapar por ser um palermaarrogante (mulhe que, entretanto,casou e constituiu família).Tudo isto, no entanto, sem deixarde ser um palerma arrogante, numasurpreendentemente conseguida modulaçãoconstante de tom entre a comédiae o drama que Apatow conseguesustentar ao longo da maior partedo filme e que confirma que esta nãovai ser a “comédia do costume”.Precisamente por isso, vender“Funny People” (apenas) como umacomédia é cortejar a fraude: porquea comédia é só uma das facetas do filme,e porque quem for à espera deritmo, velocidade, farsa e “sitcom”esbarra num filme muito mais sério ecujas piadas escondem melancolia,dúvida, existencialismo. Demasiadosério e longo para os adolescentes quecompõem hoje a grande maioria dosespectadores dos multiplexes, masdemasiado identificado com um realizadorde comédias jovens para convencero público mais adulto, “FunnyPeople” foi vendido como “blockbuster”por uma Universal que atravessaum mau momento (de todo o seu mapade lançamentos do Verão, apenas“Velozes e Furiosos” e “Inimigos Públicos”cumpriram minimamente asexpectativas de bilheteira), e foi baterde frente contra uma indústria de cinemaque, sobretudo num momentode recessão, perdeu o toque que emtempos teve para saber vender filmesque saiam fora da gaveta. Não há, defacto, gavetas que acolham por inteiro“Funny People”, filme muito maistransversal, subtil e inteligente do queparece à primeira vista.Falta perceber o que “Funny People”pode valer internacionalmente— já que os mercados internacionaise o DVD correspondem hoje à grandemaioria das receitas de um filme, enão faltam casos de projectos quecompensam no internacional o insucessoamericano, como “Austrália”,de Baz Luhrmann, ou “A Bússola Dourada”,de Chris Weitz, que, à chegada,triplicaram no estrangeiro os númerosamericanos. Mas a verdade é que,mesmo sabendo que o público internacionalé mais aberto a filmes adultosdo que os EUA, “Funny People”, pelasua própria natureza híbrida (umacomédia que não o é, ancorada numactor fora do seu habitat natural), éuma enorme incógnita. O seu insucesso,mais que uma derrota do marketing,seria uma derrota doscineastas que ainda acreditamser possível fugiràs regras dentrodo sistema e queacham que há públicopara filmes quenão são “a comédia docostume”. Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 23


CinemaEstreiamTudo emfamília“35 Shots de Rum” não estátodo ao nível de uma cenaextraordinária que é um dosmais belos momentos decinema que vimos todo esteano - mas é um filme atentoaos tempos que mudam.Jorge Mourinha35 Shots de Rum35 RhumsDe Claire Denis,com Alex Descas, Mati Diop, NicoleDogue, Grégoire Colin.MMMnnLisboa: Medeia King: Sala 1: 5ª Domingo 3ª 4ª 14h,16h, 18h, 20h, 22h 6ª Sábado 2ª 14h, 16h, 18h, 20h,22h, 00h30;É, salvo erro, a primeira vez que umfilme de Claire Denis tem estreiacomercial em Portugal - o que é, nomínimo, surpreendente face a umacarreira que já leva 20 anos e aoestatuto de culto de filmes como“Nénette et Boni” (1996) e “TroubleEvery Day” (2001), que chegaram ater exibições pontuais em sessõesespeciais. Mas ainda bem que é “35Shots de Rum” a revelar a cineastafrancesa, antiga assistente deWenders e Jarmusch, ao públicomais “desatento”. Este é, na suamelhor acepção, um filme “deQuandobastam a umfilme apenasbreves minutosdo seu início paraprovocar a sensação desatisfação e rendiçãona cabeça de quem ovê, é porque todo o seuambiente nos devolvealgo demasiadamentemágico para serignorado. Animaçãoem todos os sentidosfamília” - feito “em família”, commuita da equipa e do elencoregulares do cinema de Claire Denis(desde os Tindersticks na bandasonoraà presença granítica e sólidado grande Alex Descas no elenco),mas também sobre “a família”, àvolta de um pai e de uma filha(Descas e Mati Diop) cuja vidarotineira e quotidiana um belo diarebenta pelas costuras, em surdina esem razão aparente.Filme sobre os tempos quemudam quase sem darmos por isso,marcados pelos pormenores maisbanais (um carro que avaria, umcolega que se reforma, um vizinhoque parte), usando os túneis dometro e o vaivém dos comboioscomo metáforas de tudo o que nospercorre por dentro sem dar sinal àsuperfície, “35 Shots de Rum”constrói-se pela acumulação depequenos pormenores apenasaparentemente banais mas que,tomados em conjunto, revelam ummosaico singularmente atento. E,até, pontualmente tocante - veja-se acena absolutamente de estarrecerdo nocturno no café ao som de“Nightshift” dos Commodores,exemplo perfeito da elegância deque Denis é capaz no seu melhor.Mas lamenta-se que o resto do filme,apesar de tudo, não esteja à alturadessa cena, um dos momentos maisnotáveis de cinema que vimos em2009, e se retraia mais do que seriadesejável ou se perca em desvioslaterais ao que realmente interessa(o interlúdio alemão com IngridCaven parece-nos razoavelmentesupérfluo). Ainda assim, é muitoprovavelmente o melhor filme deClaire Denis, e ainda bem que é esteo seu primeiro filme a estrear cá.EspaçoPúblico“35 Shots de Rum” é o primeiro filme de Claire Denis a ter estreia comercial em PortugalAssalto ao Metro 1 2 3The Taking of Pelham 1 2 3De Tony Scott,com John Travolta, Luis Guzmán,John Turturro, Denzel Washington.Mnnnnda palavra, “Up- Altamente” évida do princípioao fim e é aemoção no seuestado maispuro: directa aocoração.José BaptistaCoelho,23 anos,licenciadoem EngenhariaInformáticaLisboa: Castello Lopes - Cascais Villa: Sala 5: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h, 18h50, 21h45 6ªSábado 13h10, 16h, 18h50, 21h45, 00h15; CastelloLopes - Londres: Sala 1: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 14h,16h30, 19h, 21h30 6ª Sábado 14h, 16h30, 19h,21h30, 24h; Castello Lopes - Loures Shopping: Sala6: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50, 15h40,18h40, 21h40, 00h10; CinemaCity AlegroAlfragide: Sala 7: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 13h50, 15h50,17h50, 19h50, 21h50, 23h50 Sábado Domingo 11h50,13h50, 15h50, 17h50, 19h50, 21h50,23h50; CinemaCity Beloura Shopping: Cinemax: 5ª6ª 2ª 3ª 4ª 13h50, 15h50, 17h50, 19h50, 21h55, 24hSábado Domingo 11h45, 13h50, 15h50, 17h50,19h50, 21h55, 24h; CinemaCity Campo PequenoPraça de Touros: Sala 4: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 13h45,15h45, 17h45, 19h45, 21h45, 24h Sábado Domingo11h45, 13h45, 15h45, 17h45, 19h45, 21h45,24h; Medeia Saldanha Residence: Sala 6: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 17h, 19h20, 22h,00h30; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 12: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 14h, 16h, 18h, 20h, 22h, 24hDomingo 11h30, 14h, 16h, 18h, 20h, 22h, 24h; UCIDolce Vita Tejo: Sala 10: 5ª 6ª Sábado Domingo2ª 3ª 4ª 14h10, 16h35, 19h30, 21h55, 00h20; ZONLusomundo Alvaláxia: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 13h40, 16h20, 19h, 21h40, 00h20; ZONLusomundo Amoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 13h, 16h, 18h50, 21h40, 00h20; ZONLusomundo CascaiShopping: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h30, 18h20, 21h20,00h10; ZON Lusomundo Colombo: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h30, 18h15, 21h05,23h50; ZON Lusomundo Odivelas Parque: 5ª 2ª 3ª4ª 15h40, 18h30, 21h20 6ª 15h40, 18h30, 21h20,00h15 Sábado 13h, 15h40, 18h30, 21h20, 00h15Domingo 13h, 15h40, 18h30, 21h20; ZON LusomundoOeiras Parque: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª12h55, 15h40, 18h30, 21h30, 00h25; ZONLusomundo Torres Vedras: 5ª 6ª Sábado Domingo2ª 3ª 4ª 13h, 15h45,18h30, 21h15, 24h; ZONLusomundo Vasco da Gama: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 15h45, 18h25, 21h15,00h05; Castello Lopes - Fórum Barreiro: Sala 4: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 15h40, 18h40, 21h40 6ªSábado 13h10, 15h40, 18h40, 21h40, 00h15; CastelloLopes - Rio Sul Shopping: Sala 1: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h40, 18h20, 21h40,00h10; UCI Freeport: Sala 5: 5ª 2ª 3ª 4ª 15h25,18h20, 21h10 6ª 15h25, 18h20, 21h10, 23h20 Sábado13h20, 15h25, 18h20, 21h10, 23h20 Domingo 13h20,15h25, 18h20, 21h10; ZON Lusomundo AlmadaFórum: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50,15h40, 18h25, 21h15, 00h10; ZON LusomundoFórum Montijo: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h20, 16h, 18h50, 21h30, 00h10;Porto: Arrábida 20: Sala 16: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 14h, 16h35, 19h10, 21h45, 00h20 3ª 4ª16h35, 19h10, 21h45, 00h20; ZON Lusomundo DolceVita Porto: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h20, 16h15, 19h, 21h45, 00h30; ZON LusomundoGaiaShopping: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30, 16h10,18h50, 21h40 6ª Sábado 13h30, 16h10, 18h50,21h40, 00h25; ZON Lusomundo Marshopping: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h40, 18h30,21h30, 00h30; ZON Lusomundo NorteShopping: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h30, 15h30, 18h30,21h30, 00h25; ZON Lusomundo Glicínias: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h50, 16h30, 19h10,21h50, 00h30;Antes de ter sido estraçalhado destamaneira infeliz por Tony Scott, oromance de John Godey sobre umgrupo de criminosos que faz umacarruagem do metro nova-iorquinorefém deu origem a uma bela série Bde 1974, “Alta Tensão em NovaIorque”, dirigida por Joseph Sargentcom Walter Matthau e Robert Shaw.O dispositivo essencial não mudaneste “remake” actualizado para osnossos dias – o essencial do filmejoga-se nas conversas entre o lídercriminoso e o responsável do centrode controlo do metro - e o guião deBrian Helgeland introduz uma sériede pistas interessantes e actuaissobre integridade, corrupção,responsabilidade, dever. O problemaé que “Assalto ao Metro 123” é noessencial uma boa história onde osuspense nasce do “factor humano”,das relações entre as personagens,entregue a um realizador conhecidoJohn Travolta no “remake” de “Assalto ao Metro 1 2 3”24 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


pela sua hiperactividade visual. E seem filmes como “Inimigo Público”ou “Déjà Vu” esse frenesi davelocidade empresta uma urgência euma tensão que servem bem o filme,aqui ele funciona completamentecontra a história, destruindocompletamente a entrega do sempreimpecável Denzel Washington e deum excelente lote de secundários( John Turturro, Michael Rispoli,James Gandolfini) numa aceleraçãodespropositada em direcção a umfinal histérico metido a martelo efilmado às três pancadas. Por umavez, o erro de “casting” não está noelenco (embora John Travoltacabotine em excesso) mas sim atrásda câmara... J.M.ContinuamSacanas Sem LeiInglourious BasterdsDe Quentin Tarantino,com Brad Pitt, Diane Kruger, DanielBruhl, Mike Meyers, MichaelFassbender, Mélanie Laurent, EliRoth, Christoph Waltz. M/16MMMMnLisboa: Atlântida-Cine: Sala 1: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª15h30, 21h30 Sábado Domingo 15h30, 18h15,21h30; Castello Lopes - Cascais Villa: Sala 1: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 12h30, 15h30, 18h30, 21h30 6ªSábado 12h30, 15h30, 18h30, 21h30, 00h30; CastelloLopes - Londres: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 13h15, 16h, 18h45, 21h45; Castello Lopes -Loures Shopping: Sala 1: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h30,18h30, 21h30, 00h30; CinemaCityAlegro Alfragide: Cinemax: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h30, 16h35, 21h30,00h30; CinemaCity BelouraShopping: Sala 1: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª4ª 13h30, 16h35, 21h30,00h30; CinemaCity CampoPequeno Praça deTouros: Sala 2: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h30, 16h30, 21h25,00h30; CinemaCity ClassicAlvalade: Sala 3: 5ª Domingo2ª 3ª 4ª 13h35, 16h35, 21h30 6ªSábado 13h35, 16h35, 21h30,00h30; Medeia Fonte Nova: Sala 1: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 18h,21h30; Medeia Monumental: Sala 4 - Cine Teatro: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 16h, 19h,22h; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 9: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 15h15, 18h20, 21h30, 00h25Domingo 11h30, 15h15, 18h20, 21h30, 00h25; UCIDolce Vita Tejo: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 15h15, 18h15, 21h15, 00h15; ZON LusomundoAlvaláxia: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h30, 16h50, 21h10, 00h25; ZON LusomundoAmoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h,17h30, 20h50, 24h; ZON LusomundoCascaiShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª13h10, 17h, 21h, 00h20; ZON Lusomundo Colombo:5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h30,21h, 00h20; ZON Lusomundo Dolce Vita Miraflores:5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 15h, 18h10, 21h20 6ª Sábado15h, 18h10, 21h20, 00h30; ZON Lusomundo OdivelasParque: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 15h, 18h30, 22h 6ª13h05, 16h30, 21h, 00h10 Sábado 16h30, 21h,00h10; ZON Lusomundo Oeiras Parque: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h30, 21h,00h20; ZON Lusomundo Torres Vedras: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h45, 17h30, 21h,00h20; ZON Lusomundo Vasco da Gama: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h15, 16h30, 21h,00h15; Castello Lopes - C. C. Jumbo: Sala 1: 5ª 2ª3ª 4ª 15h30, 18h30, 21h30 6ª 15h30, 18h30, 21h30,00h30 Sábado 12h30, 15h30, 18h30, 21h30, 00h30Domingo 12h30, 15h30, 18h30, 21h30; Castello Lopes- Fórum Barreiro: Sala 2: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª12h30, 15h30, 18h30, 21h30 6ª Sábado 12h30,15h30, 18h30, 21h30, 00h30; Castello Lopes - Rio SulShopping: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª4ª 12h30, 15h30, 18h30, 21h30, 00h30; UCIFreeport: Sala 1: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 15h15,18h15, 21h20 6ª Sábado 15h15, 18h15, 21h20,00h25; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 17h30, 21h,00h20; ZON Lusomundo Fórum Montijo: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h50, 21h,00h15;Porto: Arrábida 20: Sala 15: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 15h05, 18h15, 21h30,00h40; Cinemax - Penafiel: Sala 2: 5ª 2ª 3ª 4ª15h30, 21h35 6ª 15h30, 21h35, 00h25 Sábado 14h55,17h50, 21h35, 00h25 Domingo 14h55, 17h50,21h35; Medeia Cidade do Porto: Sala 1: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 18h, 21h30; ZONLusomundo Dolce Vita Porto: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h30, 21h, 00h25; ZONLusomundo GaiaShopping: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª14h20, 17h50, 21h10 6ª Sábado 14h20, 17h50, 21h10,00h20; ZON Lusomundo MaiaShopping: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 14h, 17h30, 21h 6ª Sábado 14h,17h30, 21h, 00h20; ZON Lusomundo Marshopping:5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h10, 17h40,21h10, 00h25; ZON Lusomundo NorteShopping: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h20, 17h, 21h10,00h35; ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30, 17h10, 21h10,00h40; Castello Lopes - 8ª Avenida: Sala 1: 5ª 6ª2ª 3ª 4ª 15h20, 18h10, 21h10, 24h Sábado Domingo12h30, 15h20, 18h10, 21h10, 24h; ZON LusomundoFórum Aveiro: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 13h50, 17h25,21h 6ª Sábado 13h50, 17h25, 21h, 00h35; ZONLusomundo Glicínias: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 14h15, 17h45, 21h10, 00h40;É um filme de guerra onde não háuma única cena de batalha, rodadocomo se fosse um remix westernspaghettide “Doze IndomáveisPatifes” e “Heróis por Conta Própria”por um cinéfilo amamentado a sériesZ de cinema de bairro. É a revelaçãode um actor – o austríaco ChristophWaltz no papel de um coronel das SScom tanto de desconcertantementeelegante como de sadicamentecalculista. É o regresso deTarantino à sua grandeforma, depois daligeira “quebra derendimento” de“À Prova deMorte”,conjugando oseu virtuosismoimbatível nacriação depersonagens ediálogos e a suafiliaçãodesavergonhada nogrande cinema popular degénero com uma elaboradíssimacarta de amor à sétima arte, cheia depiscadelas de olho cinéfilas e demomentos de bravura que oespectador mais atento não vaideixar passar em branco. É um dosgrandes filmes do ano. J.M.“Sacanas Sem Lei”,um dos grandesfilmes do anoSinédoque, Nova IorqueSynecdoche, New YorkDe Charlie Kaufman,com Philip Seymour Hoffman,Catherine Keener, Sadie Goldstein.M/12MnnnnLisboa: Medeia Monumental: Sala 2: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h30, 19h10, 21h30,24h; UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 8: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 14h05, 16h40, 21h45, 00h20Domingo 11h30, 14h05, 16h40, 21h45, 00h20;Houve uma altura, depois dosAlmodovares de juventude,Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 25


CinemaaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente“Sinédoque, Nova Iorque” é um “melodrama a sério” para o qual Charlie Kaufman não tem unhasirreverentes e descabelados, emque se ouvia dizer: “Se ele ao menosfizesse um melodrama ‘a sério’…”.Depois fê-los, e provou que os podiafazer bem mesmo se eles não faziampropriamente o mundo estremecer.Que tem isto a ver com CharlieKaufman? Nada, a não ser que esteespectador deu por si a dizer amesma coisa a certa altura dovisionamento de “Sinédoque”: e seele se deixasse disto, dos espelhos,dos duplos, dos paradoxos, daspescadinhas de rabo na boca, daescatologia infantil, e seconcentrasse num “melodrama asério”? Claro, bastam minutos paraque a dúvida se resolva por simesma: ele não pode deixar-se“disto”, que são os seusinstrumentos, e, sobretudo, isto,“Sinédoque”, é o seu “melodramasério”. Mais próximo da moleza de“Benjamin Button” (a maquilhagemestimula a comparação, perdão) doque da austeridade das angústias deBergman perante o amor, a morte, acriação artistíca e o silêncio de Deus(que estão lá ao fundo, disfarçadas emediadas, mas estão). Impressão deinconsequência mesmo que a“inconsequência” seja empreguecomo figura estilística (vide as cenasmuito breves), crueldade um poucopostiça, narcisismo autodepreciativoem expressãocontrolada e confortável. Uma belaideia: o palco gigantesco, a peçainterminável, tradução física epalpável de uma “coisa mental”. MasKaufman não tem unhas para aquilo.Luís Miguel Oliveira4 CopasDe Manuel Mozos,com Margarida Marinho,João Lagarto, RitaMartins, Filipe Duarte.M/12MMMMnLisboa: CinemaCityClassic Alvalade: Sala4: 5ª 2ª 3ª 4ª 14h10,16h15, 18h55, 21h256ª 14h10, 16h15,“4 Copas”18h55, 21h25, 23h50 Sábado 11h40, 14h10, 16h15,18h55, 21h25, 23h50 Domingo 11h40, 14h10, 16h15,18h55, 21h25; ZON Lusomundo Colombo: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 00h15; ZON LusomundoAlmada Fórum: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª00h05;Porto: ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 22h20; ZONLusomundo Glicínias: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 22h0, 00h35;Sem atingir as alturas de “Xavier”,um dos melhores filmes portuguesesde sempre, a última longa-metragemde ficção de Manuel Mozos, “4Copas”, possui dois trunfos demonta: um belíssimo olhar sobreuma Lisboa estranha, suburbana econtraditória, e uma excelentedirecção de actores. Outras vozesdirão que o argumento tem“buracos” e fraquezas, mas ocinema de Mozos privilegia sempreoutras coisas: grandes momentos decinema como o plano ao cimo dasescadas, quando o par “amoroso” sereencontra, pequenos olhares,pormenores de encenação que vãomuito para além de qualquervontade de construir uma sagafamiliar. A chave do filmeexiste no modo como aquelesalão de cabeleireiroextravasa da lógicarealista, na primorosaforma de filmar apaisagem ede nelainscrever vultos fortuitos, quasefantasmáticos, no desespero surdo econtido da personagem de JoãoLagarto, na capacidade que umapersonagem secundária (a fabulosaflorista) tem para simplesmenteouvir. Pequenas coisas, grandesmovimentos de sentido. MárioJorge TorresInimigos PúblicosPublic EnemiesDe Michael Mann,com Johnny Depp, Billy Crudup,Marion Cotillard, Christian Bale.M/16MMMMnLisboa: Castello Lopes - Cascais Villa: Sala 2: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 12h50, 15h45, 18h40, 21h30 6ªSábado 12h50, 15h45, 18h40, 21h30,00h20; CinemaCity Alegro Alfragide: Sala 3: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 18h45,21h35; CinemaCity Beloura Shopping: Sala 6: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 21h20,00h20; CinemaCity Campo Pequeno Praça deTouros: Sala 1: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª16h, 21h35, 00h25; CinemaCity ClassicAlvalade: Sala 1: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 21h35 6ªSábado 21h35, 00h25; Medeia Fonte Nova: Sala 2:5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 18h20,21h40; Medeia SaldanhaResidence: Sala 8: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 13h50, 16h30,19h10, 21h50, 00h20; UCI Cinemas- El Corte Inglés: Sala 4: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 15h, 18h10,21h30, 00h20 Domingo 11h30,15h, 18h10, 21h30, 00h20; UCIDolce Vita Tejo: Sala 4: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 21h, 23h55; ZONLusomundo Alvaláxia: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h35,17h10, 21h15, 00h15; ZON LusomundoAmoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª3ª 4ª 21h, 00h05; ZON LusomundoCascaiShopping: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 21h05,00h05; ZON LusomundoColombo: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 13h,17h, 21h10; ZONLusomundo Dolce VitaO Johnny Depp superlativo Miraflores: 5ªde “Inimigos Públicos”Domingo 2ª 3ª 4ª14h50, 18h, 21h10 6ªSábado 14h50, 18h,21h10, 00h20; ZONLusomundo OeirasParque: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 12h35,15h30, 18h25, 21h20,00h15; ZON Lusomundo TorresVedras: 5ª 6ª Sábado Domingo2ª 3ª 4ª 21h10, 00h10; UCIFreeport: Sala 4: 5ª 6ª Sábado26 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


As estrelas do públicoJorgeMourinhaLuís M.OliveiraMárioJ. TorresVascoCâmara4 Copas mmnnn mmmnn mmmmn mmmnn35 Shots de Rum mmmnn mmnnn nnnnn nnnnnAssalto ao Metro 123 mnnnn nnnnn nnnnn nnnnnDuplo Amor mmmnn mmmmn mmmmn mmnnnInimigos Públicos mmmnn mmmmn mmmmn mmmmnOs Limites do Controlo mmmmn mmmmn mmnnn mnnnnPonyo à Beira-Mar mmmnn nnnnn mmmmn mmnnnSacanas sem Lei mmmmn mmmmn mmmmn mmmmnSinédoque, Nova Iorque mmmnn mnnnn nnnnn mnnnnUp-Altamente mmmmn mmmnn mmmnn mmmnnDomingo 2ª 3ª 4ª 15h15, 18h10; ZON LusomundoAlmada Fórum: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª15h, 18h05, 21h05, 00h05; ZON Lusomundo FórumMontijo: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30,17h, 21h05, 00h05;Porto: Arrábida 20: Sala 11: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 13h40, 16h35, 21h35, 00h30 3ª 4ª16h35, 21h35, 00h30; Cinemax - Penafiel: Sala 1: 5ª2ª 3ª 4ª 15h30, 21h40 6ª 15h30, 21h40, 00h20Sábado 15h, 17h40, 21h40, 00h20 Domingo 15h,17h40, 21h40; Medeia Cidade do Porto: Sala 3: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h40, 19h20,22h; ZON Lusomundo Dolce Vita Porto: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 17h, 21h10,00h15; ZON Lusomundo Ferrara Plaza: 5ªDomingo 2ª 3ª 4ª 15h20, 18h20, 21h20 6ª Sábado15h20, 18h20, 21h20, 00h20; ZON LusomundoMarshopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª14h20, 17h20, 21h, 00h10; ZON LusomundoNorteShopping: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª20h50, 24h; ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 23h; Castello Lopes -8ª Avenida: Sala 5: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 15h40, 18h20,21h20, 00h10 Sábado Domingo 12h50, 15h40,18h20, 21h20, 00h10; ZON Lusomundo FórumAveiro: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 21h30 6ª Sábado21h30, 00h40; ZON Lusomundo Glicínias: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 17h40, 21h,00h10;Depois do brilhante “Miami Vice”, areinventar tudo, desde os limites daacção até à assunção de umavisualidade transbordante ejubilatória, Michael Mann reincideneste “Inimigos Públicos”: tudofunciona com a violência de umdínamo em carburação e com asubtileza de um jogo. Manipulandogenialmente o digital, o realizadorconsegue o quase impensável: fazerreviver o cinema clássico norteamericano,com uma críptica domítico “Manhattan Melodrama”,durante a exibição do qual Dillingerfoi preso, e renovar as formasfílmicas, numa experimentação quenunca se esgota em simplistasexercícios de estilo. Para além detudo, temos direito a superlativasinterpretações, tanto de JohnnyDepp, como de Christian Bale. Umprazer para os olhos e para ainteligência. M.J.T.Ponyo à Beira-MarGake no ue no PonyoDe Hayao Miyazaki,com Yuria Nara (Voz), Jôji Tokoro(Voz), Hiroki Doi (Voz). M/4MMMnnLisboa: Castello Lopes - Loures Shopping: Sala 3: 5ª“Ponyo à Beira-Mar” é o olhar arregaladodo “miúdo” Hayao Miyazaki6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h10, 18h10 (V.Port.); CinemaCity Alegro Alfragide: Sala 6: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 11h30, 15h35 (V.Port.); CinemaCity Beloura Shopping: Sala 5: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h15, 16h15; MedeiaKing: Sala 3: 5ª Domingo 3ª 4ª 13h20, 15h20,17h20, 19h25, 21h30 6ª Sábado 2ª 13h20, 15h20,17h20, 19h25, 21h30, 24h; Medeia Monumental: Sala3: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h15, 15h20,17h30, 19h40, 21h45, 00h15; UCI Cinemas - El CorteInglés: Sala 10: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h10,16h25 (V.Port.) Domingo 11h30, 14h10, 16h25 (V.Port.); UCI Dolce Vita Tejo: Sala 4: 5ª 6ª Sábado2ª 3ª 4ª 13h40, 16h, 18h10 (V.Port.) Domingo 11h30,13h40, 16h, 18h10 (V.Port.); ZON LusomundoAlvaláxia: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 13h45, 16h15,18h40 (V.Port.) Domingo 11h10, 13h45, 16h15, 18h40(V.Port.); ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 13h30, 16h10, 18h40 (V.Port.)Domingo 11h30, 13h30, 16h10, 18h40 (V.Port.); ZONLusomundo CascaiShopping: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª4ª 13h30, 16h10, 18h40 (V.Port.) Domingo 11h,13h30, 16h10, 18h40 (V.Port.); ZON LusomundoOeiras Parque: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 13h20,15h45, 18h10 Domingo 11h, 13h20, 15h45,18h10; Castello Lopes - Rio Sul Shopping: Sala 6: 5ª6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h (V.Port.); ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª 6ªSábado 2ª 3ª 4ª 13h35, 16h05, 18h30 Domingo11h10, 13h35, 16h05, 18h30;Porto: Arrábida 20: Sala 14: 5ª 6ª SábadoDomingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h25, 18h55 (V.Port.); ZONLusomundo GaiaShopping: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 13h05,15h10, 17h30, 19h45 Sábado Domingo 10h50, 13h05,15h10, 17h30, 19h45;Há uma razão para o japonês HayaoMiyazaki ser considerado um mestredo cinema de animaçãocontemporâneo: a sua imaginaçãotransbordante, a capacidadesingular de saber comunicar demodo simples e elegante omaravilhoso e o mágico, dereacordar a criança dentro de nós.“Ponyo à Beira-Mar”, fábulaecológica contada num estilo mistode ilustração a aguarela e deliriopsicadélico, foi alegadamenteinspirado pela “Pequena Sereia” deHans Christian Andersen e vê a filhamais velha de uma deusa do mar ede um feiticeiro aventurar-se porterra firme e, ao fazê-lo, libertarpoderes mágicos que colocam emrisco a harmonia do homem com aNatureza.Convirá não confundir inocênciacom ingenuidade, e o modo comoMiyazaki recria sem esforço e comuma justeza tocante o olhararregalado de uma criança quedescobre o mundo explica que omestre japonês se limita a tratar osmiúdos como gente grande e a gentegrande como miúdos. Não é umaobra-prima - a segunda metade émenos inspirada narrativamente, ofinal é um pouco apressado - mas hámomentos tão extraordinários deanimação tradicional, sobretudo naprimeira parte (a abertura éabsolutamente assombrosa) que éimpossível não recomendar “Ponyoà Beira-Mar”. J.M.Os Limites do ControloThe Limits Of ControlDe Jim Jarmusch,com Isaach De Bankolé, TildaSwinton, Bill Murray, John Hurt, GaelGarcía Bernal, Paz de la Huerta. M/12MMnnnPorto: Medeia Cidade do Porto: Sala 4: 5ª 6ªSábado Domingo 2ª 3ª 4ª 16h30, 19h10, 22h;Jim Jarmusch tem os seusadmiradores incondicionais,fascinados pela sua vertenteexperimental, a fazer“independente” sempre do mesmomodo frio (frígido é a palavra exacta)e calculista. Nunca nos deixámosseduzir pelo congelamento dosgéneros e este “thriller” minimalrepetitivo vem confirmar atendência. Ninguém lhe nega acapacidade de filmar com intensorigor, uma “mise-en-scène”(demasiado) depurada, umaartificiosa direcção de actores. Noentanto, “Os Limites do Controlo”(título a merecer especialconsideração) soa a oco exercício deestilo, sem nada para acrescentar,nem ao género que glosa, nem aosseus filmes anteriores, todoshipercontrolados, despidos dequalquer vestígio de emoção. E,depois, instala-se um desconfortávelbocejo, um cansaço provocado pelaconstante interrogação: Para queserve tudo isto, sobretudo depois deGodard? M.J.T.“Os Limitesdo Controlo”,um “thriller”congeladoCinemateca Portuguesa R. Barata Salgueiro, 39 Lisboa. Tel. 213596200John Wayne e Angie Dickinson em “Rio Bravo”Sexta, 04A EscravaDe Raoul Walsh15h30 - Sala Félix RibeiroMoulin RougeDe Baz Luhrmann19h - Sala Félix RibeiroA Marquesa de ODe Eric Rohmer19h30 - Sala Luís de PinaQuando a Cidade DormeDe John Huston22h - Sala Luís de Pina007 - Ordem para MatarDe Terence Young22h30 - EsplanadaSábado, 05Viagem a TóquioDe Yasujiro Ozu15h30 - Sala Félix RibeiroDo Lodo Nasceu uma FlorDe Robert Montgomery19h - Sala Félix RibeiroO Couraçado PotemkinDe Grigori Aleksandrov19h30 - Sala Luís de PinaApplauseDe Robert Mamoulian22h - Sala Luís de Pina007 Contra GoldfingerDe Guy Hamilton22h30 - EsplanadaSegunda, 07Um CasamentoDe Robert Altman21h30 - Sala Félix RibeiroLua sem MelDe Leo McCarey15h30 - Sala Félix RibeiroO Tesouro de ÁfricaDe John Huston19h - Sala Félix RibeiroNós Por CáTodos BemDe Fernando Lopes19h30 - Sala Luís de PinaSob a Bandeirada CoragemDe John Huston22h - Sala Luís de PinaTerça, 08Moby DickDe John Huston19h - Sala Félix RibeiroA Cortina RasgadaDe Alfred Hitchcock15h30 - Sala Félix RibeiroA Rapariga do Baloiço VermelhoDe Richard Fleischer21h30 - Sala Félix RibeiroA Rainha AfricanaDe John Huston22h - Sala Luís de PinaPartitura Inacabadapara Piano MecânicoDe Nikita Mikhalkov19h30 - Sala Luís de PinaQuarta, 09Rio BravoDe Howard Hawks15h30 - Sala Félix RibeiroSentimentoDe Luchino Visconti19h - Sala Félix RibeiroO Espírito e a CarneDe John Huston21h30 - Sala Félix RibeiroMoulin RougeDe Baz Luhrmann19h30 - Sala Luís de PinaUm CasamentoDe Robert Altman22h - Sala Luís de PinaQuinta, 10O Lírio QuebradoDe D.W. Griffith15h30 - Sala Félix RibeiroO Bárbaro e aGueixaDe John Huston19h - Sala Félix RibeiroSentimentoDe Luchino Visconti19h30 - Sala Luís de PinaO Tesouro de ÁfricaDe John Huston22h - Sala Luís de Pina007 - OperaçãoRelâmpagoDe Terence Young22h30 - Esplanada“Sentimento”Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 27


DVDGiovanna Mezzogiornoé a mulher que fantasiacom a “janela em frente”CinemaCidadesemi-abertaO carisma de MassimoGirotti, que morreu antesda estreia do filme, domina“A Janela em Frente”, únicofilme de Ferzan Ozpetek.Luís Miguel OliveiraA Janela em FrenteLa Finestra di FronteDe Ferzan OzpetekEdição AtalantammmnnSem extrasÚnico filme doturco-italianoFerzan Ozpetek(nasceu emIstambul, foi viverpara Roma nosanos 70) aconhecer estreiaem Portugal, “AJanela em Frente” (2003) tem umcrédito a que se deve dar toda aimportância: foi o último trabalhode Massimo Girotti (1918-2003),actor que cruzou seis décadas docinema italiano, filmou com Blasetti,Rossellini, Antonioni e (sobretudo)Visconti, nesse extraordinário eemblemático “Ossessione”,adaptação de James M. Cain para amiséria italiana de 1942. Girottimorreu entre a rodagem e a estreiado filme de Ozpetek, já não o chegoua ver. O filme homenageia-o comuma dedicatória (“a Massimo”) masde qualquer modo já era umaespécie de homenagem. Porque asua personagem – um velhoteamnésico “adoptado” por um casalem crise conjugal – é o eixo em tornodo qual gira “A Janela em Frente”, eporque o seu majestoso carismaensopa todas as cenas em que entra.E ainda porque, de certa maneira, oseu carisma é o tema do filme:recebido a princípio com estranhezae desconforto em casa do casal(Giovanna Mezzogiorno e FilippoNigro), à medida que a amnésia sevai destapando aumenta a suainfluência libertadora sobre ohomem e a mulher – incluindo acoragem “transgressiva” com queMezzogiorno se atira às fantasiascom o homem da “janela em frente”(Raoul Bova) que lhe servem deconsolo às insatisfações (conjugais enão só).Na caracterização daspersonagens e do seu quotidiano,uma pequena classe média semgrandes horizontes práticos, “AJanela em Frente” pareceinteressado em actualizar algunspreceitos e compromissos do neorealismo(mesmo se Ozpetek filmade maneira demasiado limpa,demasiado “certa”, para queformalmente a “actualização” façasentido). Não há grandes surpresassempre que o filme se limita aavançar por aí. O peso, o pesosuficiente para escavar um pequenoabismo (histórico, em primeirolugar), vem sempre de Girotti. O seuprocesso de recuperação damemória confunde-se com arevelação de alguns fantasmasitalianos – as perseguições feitas emRoma pelas tropas alemãs a seguir àdeposição de Mussolini em 1943 –também no que eles trazem de umadimensão doridamente pessoal e“proibida” (a mágoa do velhote deGirotti radica na relação com umamante que, na purga nazi de 43, foienviado para os campos). Nemsempre é muita clara a razão daarticulação da história de 43 com ahistória contemporânea, e aindamenos o é a razão do paralelismoentre as duas; mas a maneira como ofilme vai sendo “perfurado” por estarelação com a História, dominadopelos modos cansados e pelos olhostristes de Girotti, garante-lhe uminteresse acima das fragilidades edos desequilíbrios.aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelenteEm 1974, Philippe Petit esticouum arame entre as Torres GémeasJogo deespelhosJames Marsh demonstrauma inteligência subversivaneste filme que reconstrói osfeitos do funâmbulo francêsPhilippe Petit, Oscar deMelhor Documentário em2009. Jorge MourinhaHomem no ArameMan on WireDe James MarshEdição Castello Lopes MultimediammmnnSem extras“Homem noArame” venceu oOscar 2009 deMelhorDocumentário efoi aclamado pelaimprensaamericana comoum dos melhoresfilmes estreados nos EUA em 2008(não somos nós que o dizemos; vembem visível na capa do DVD), mastudo isso são meras notas de rodapéface à inteligência ambígua esubversiva que o documentaristabritânico James Marsh demonstranesta história verídica do tipo“contado ninguém acredita”. EmAgosto de 1974, o funâmbulo francêsPhilippe Petit esticou um arameentre as duas torres gémeas doWorld Trade Center de Nova Iorquee esteve 45 minutos na corda bambaa 104 andares de distância do chão,no vazio absoluto. Um “fait-divers”hoje perdido no tempo, dos quaispoucos se lembrarão apesar darepercussão que obteve na altura - eMarsh instala o seu filme direitinhonesse limbo, resgatando este feitoquixotesco do esquecimento, aomesmo tempo que nos questionanão apenas sobre a transiência damemória mas também sobre a suaveracidade. As poucas imagens dofeito que existem são fotografiastiradas pelos cúmplices de Petit ealgumas imagens televisivas domomento em que o funâmbuloregressou a terra firme e foi preso;mas Marsh reconstitui a preto ebranco, de modo expressionista ecomo se estivesse a rodar um filmede suspense, todos os passos que aequipa tomou para conseguirrealizar este golpe.Intercalando essa reconstituiçãocom o proverbial documentário de“cabeças falantes”, onde todos osintervenientes narram a sua históriamas sem se preocupar com aspequenas discrepâncias entre asmemórias de cada um, Marshconstrói um fascinante jogo deespelhos em constante vaivém entrepontos de vista diferentes de umarealidade, entre o pragmatismo e osonho, entre a lógica das grandesaventuras e dos grandes desafios e anecessidade de manter os pés bemassentes no chão. E o maior méritode “Homem no Arame” é o de saberele próprio oscilar entre a seriedadee o jogo, ora perguntando como épossível que algo de tão louco eimprovável, perfeitamente integradona Nova Iorque mítica queaprendemos a conhecer do cinema,tenha tido lugar, ora entrando afundo no aspecto lúdico destagrande aventura fantasista que nãoserviu para nada excepto para daraos nova-iorquinos uma lufada de arfresco no meio das suas vidas. Tudoisto sem se preocupar grandementeem estabelecer qual destas verdadesé a correcta, porque as coisas nuncasão assim tão lineares. Cópia boa,infelizmente sem extras e compontuais gralhas de tradução.28 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


DançaAgendaTeatroEstreiamO CamareiroDe Ronald Harwood. Encenação deJoão Mota. Com José Neves, PaulaMora, Ruy de Carvalho, VirgílioCastelo, entre outros.Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II - Sala Garrett.Pç. D. Pedro IV. De 10/09 a 25/10. 4 a Sáb. às21h30. Dom. às 16h. Tel.: 213250835. 7,5€ a 16€.Menina JúliaDe August Strindberg. Encenaçãode Bruno Bravo. Com Ana Brandão,Pedro Giestas, Inês Pereira.Lisboa. O Negócio. R. d’O Século, 9 - Páteo deSanta Clara Ptª 5. De 07/09 a 12/09. 2ª a Sáb. às21h30. Tel.: 213430205.ContinuamDe Homem Para HomemDe Manfred Karge. Encenação deCarlos Alardo. Com Beatriz Batarda.Oeiras. Auditório Municipal Eunice Muñoz. R.Mestre de Aviz. Dia 06/09. Dom. às 21h30. Tel.:214408411. Entrada gratuita.MITO - Mostra Internacionalde Teatro de Oeiras.EgoDe Mick Gordon e PaulBroks. Encenação de JoãoPedro Vaz. Com CatarinaLacerda, GonçaloWaddington, AntónioFonseca.Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II -Sala Estúdio. Pç. D. Pedro IV. Até 11/10.4ª a Sáb. às 21h45. Dom. às 16h15. Tel.:213250835. 6€ a 12€.DançaContinuamO “one-man show”de Beatriz BatardaMovimentos DiferentesPara Pessoas DiferentesDe Tânia Carvalho. Com RicardoVidal, Ramiro Guerreiro, BrunaCarvalho.Lisboa. Instituto Franco-Português. Av. Luís Bívar,91. Dia 05/09. Sáb. às 21h30. Tel.: 213111400.5€.PEDRO CUNHAUma mornaportuguesa“Void” é o regressode Clara Andermatt aCabo Verde, dez anosdepois. O retrato da viagemautobiográfica de doisafricanos que, através dela,vivem em Portugal há dezanos. Vanessa RatoVoidDe Clara Andermatt. Com AvelinoChantre e Sócrates Napoleão.Carnaxide. Auditório Municipal Ruy de Carvalho(Centro Cívico de Carnaxide). Rua 25 de Abril, lote 5.Hoje, às 21h30. Tel.: 214170109. Entrada livre (alevantar no local do espectáculo a partir das 16h)MITO - Mostra Internacional deTeatro de Oeiras.Foram muitos anos a trabalhar CaboVerde, mas, entretanto, passaram-setambém já muitos anos, muitos maisdo que à partida parece, desde aúltima vez que a bailarina ecoreógrafa Clara Andermatt tocouno tema. Na verdade, passou-se todauma década.Quando em 1994 entrou demergulho no projecto Dançar CaboVerde, com o também bailarino ecoreógrafo PauloRibeiro, Andermatttinha criado a suaprópria companhia dedança havia apenastrês anos. Umaaventura a que seseguiram projectos decontinuação edesenvolvimento deprojecto como“AnomaliasMagnéticas” (1995),“Uma História da Dúvida” (1997) e oconcerto encenado “Dan Dau”(1999), com a sua inesperadadigressão norte-americana.Entretanto houve trabalhos de outrotipo: “neatnet” (2000) e “O Canto doCisne” (2004) para o agora extintoRuy de Carvalhoe Virgílio Casteloem “O Camareiro”“Void” vai para Cabo VerdedentroBallet Gulbenkian, “Natural” (2005),criado com intérpretes de mais de60 anos para a Sadler’s WellsCompany of Elders, e “Levanta osBraços como Antes mas para o Céu”(2005), um projecto de dançainclusiva para o Grupo Dançandocom a Diferença, “O Grito do Peixe”(2005), com crianças, e “Meu Céu”(2008), um espectáculo de rua.“Void”, a peça com que Andermattparticipa agora na MostraInternacional de Teatro de Oeiras,surge, assim, como uma espécie deregresso ao futuro.É uma peça mais intimista do queas anteriores, em grande partebaseada nas experiênciasautobiográficas dos seus doisintérpretes e co-autores.De repente, poderão fazerlembrar Didi e Gogo, a dupla de “ÀEspera de Godot”, com as suasdivagações e sentido de humorquebrado, o seu mundo nuncacompletamente em pé. Mas não. Noinício eles apresentam-se com osseus próprios nomes: AvelinoChantre e Sócrates Napoleão. Ambosfazem parte do grupo decolaboradores das primeiras peçasafricanas de Andermatt queacabaram por ficar a viver emPortugal. Aquilo de que tratam em“Void” é, precisamente, aexperiência de uma década passadacá, com os encontros, desencontrose embates entre duas culturas. Apalavra saudade, naturalmente, apairar por perto.Porventura mais marcada ouassumidamente teatral do quequalquer das anteriores produçõesde Andermatt do mesmo tipo,“Void” cruza, contudo, como éhábito, texto, música e movimento.Tem a ver também com uma culturaque a coreógrafa acabou porintegrar parcelarmente como sua.“Foram muitos anos de trabalho.Metade dos intérpretes com quemtrabalhei em 1994 acabaram porficar cá. Acabámos por criar umarelação de amizade. Há coisas queadquiri, que ficaram minhas”, dizAndermatt.“Void” é também constatar “quetodos estamos mais crescidos”.Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 29


ExposA Casa das Mudas permiteum confronto das obras coma arquitectura e a paisagemcircundante“Sua Boca, Aberta Para Gritar, Estava Cheia de Terra”, de Mauro CerqueiraUm programaparaa MadeiraO museu de artecontemporânea do Funchalapresenta-se na Casa dasMudas. Luísa Soaresde OliveiraA Experiência da FormaDe Joaquim Rodrigo, Artur Rosa,Helena Almeida, António Areal,Lourdes Castro, Jorge Martins,Pedro Calapez, Pedro Proença, RuiSanches, Joana Vasconcelos, SofiaAreal, entre outros.Calheta, Vale dos Amores. Estrela à Baixo, Centrodas Artes - Casa das Mudas. Tel.: 291822808. Até15/11. 3ª a Dom. das 10h às 13h e das 14h às 18h.Pintura, Outros.mmmmmColeccionar arte contemporânea emPortugal é sempre uma aventura degenealogia imprevisível. Podemexistir, ou não, os meios financeirose os conhecimentos necessários parao fazer. Mas o que é raro é a vontade.E esta não depende nem do lugar,nem da facilidade de acesso a artistase obras. Ou nasce, ou não nasce.No Funchal, cidade à partidapouco vocacionada para o efeito,existe um museu que se construiucom o gosto, a capacidade decongregar artistas e exposições, eporque não dizê-lo, a teimosia demuito poucos. Fica desde o iníciodos anos 90 na Fortaleza de SãoTiago, um edifício construído parafins muito diferentes dosmuseológicos, mas que temalbergado com dignidade a colecçãopertencente à Região Autónoma daMadeira. Periodicamente, produzexposições monográficas queatraem a atenção da imprensaespecializada. E agora expõe a suacolecção, com maiores ambições doque as que pode ter nas salas jáexíguas da Fortaleza, no Centro deArtes – Casa das Mudas.A montagem e o comissariadodesta exposição são daresponsabilidade de Francisco Clodede Sousa, o fundador e primeirodirector do museu, que aqui fez umtrabalho exemplar. A Casa dasMudas, como é conhecido esteespaço, usufrui de todas asmodernas condições dos edifíciosdedicados à apresentação deexposições de arte contemporânea.Fica também no topo de umafalésia, numa vila orientadaunicamente para o turismo de classemédia, e proporciona aos visitantesa possibilidade de confrontarpermanentemente as obrasapresentadas, a amplitude daarquitectura e a paisagemcircundante. Ao contrário do que sepassa no Continente, onde todos osmuseus de arte contemporâneaestão incluídos em áreas urbanas, aCasa das Mudas exige a viagem, umaviagem que é também,simbolicamente, uma interrogaçãosobre as origens e o porquê destacolecção.A montagem segue um percurso aque poderíamos chamar clássico,dividindo as obras entre Abstracção,Figuração, Não-Figuração, Retrato ePaisagem. Este tipo de classificação,aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente“Encompassing The Globe”,a exposição que veio do Smithsonian,fica em Lisboa até Outubroherdado do modernismo e, maisalém, dos géneros académicos, deveser encarado aqui apenas comocritério didáctico: a partirjustamente dos anos 60, estasetiquetas, que anteriormentesignificavam uma norma de trabalhointransigente, tornam-se obsoletas,e os artistas oscilam entre qualqueruma delas consoante a exigênciaorgânica da sua própria obra.Contudo, a dinâmica do espaço domuseu e a recordação que aindatrazemos das exposições originaisonde vimos pela primeira vezmuitos destes trabalhos anulam estereparo: de cada artista, escolheramseuma ou mais obras em particularsegundo critérios de qualidade emvez da representatividade, o quefacilita a sua inclusão neste ounaquele núcleo.E destes artistas, quase umacentena no seu total, salientaremosRui Chafes, por exemplo,representado com esculturas quedenotam uma ausência; Rui Sanches,com um trabalho intitulado “A ilha”;Lourdes Castro, que tem umexcelente conjunto de peçascobrindo praticamente todas as fasesda sua obra; Helena Almeida até,com um “Desenho Habitado” de1977; Joaquim Rodrigo com uma obrado ano fulcral de 1961 (“GN GuardaNocturno”), ou Pedro Proença, comfrisos desenhados com ‘grotescos’que recordam uma exposição noteatro Baltazar Dias há quase 20anos; Rigo, que é madeirense comoLourdes Castro, com grandesserigrafias que recordam os “flyers”baratos e característicos daexperiência urbana; ou Ana Vidigal,de quem se apresenta uma grandepintura de 98. Algumas das melhoressurpresas da exposição estão nasecção do retrato onde a montagemescolheu o vermelho vivo para cobriruma sala onde se apresenta umasérie de Albuquerque Mendes (asreligiosas de “Relicário”), enquantono espaço principal uma grandemesa ostenta uma imagem de Cristotruncada e um montículo de cinza.Trata-se de “Beginning”, uma obrade Graça Pereira Coutinho, queconvive com um auto-retrato deJorge Molder, as “vanitas” de MiguelBranco e as cabeças de Gaëtan.Numa última sala apresenta-se umconjunto de obras inéditas: umenorme painel de Calapez, figurandoa lenda de Santo Amaro e intitulado“Uma breve visão”, e uma mesa dealtar de Rui Sanches. Ambas sedestinam a uma igreja da invocaçãodeste santo localizada no núcleohistórico da Torre do Capitão, noFunchal, o que é mais uma prova, senecessário fosse, do dinamismo quea região demonstra possuir no que àarte contemporânea se refere. E nãosó: também prova a sua capacidadede saber congregar a tradição e aactualidade, a arte antiga e acontemporânea, em sínteses plenasde significado.AgendaInauguramO Correspondente de GuerraDe Maria Lusitano.Lisboa. Museu Nacional de História Natural. R. daEscola Politécnica, 58. Tel.: 213921800. Até 27/09.3ª a 6ª das 10h às 17h. Sáb. e Dom. das 11h às 18h.Na Sala do Veado. Inaugura 4/9 às 21h.Instalação.Mundos DiferentesDe Eva Navarro.Lisboa. Galeria Arte Periférica. Pç. do Império -CCB, Loja 3. Tel.: 213617100. Até 01/10. 2ª a Dom.das 10h às 20h. Inaugura 5/9 às 15h30.Pintura.Sua Boca, Aberta Para Gritar,Estava Cheia de TerraDe Mauro Cerqueira.Lisboa. Kunsthalle Lissabon - R. Rosa Araújo, 7-9.De 10/09 a 18/10. 2ª a 6ª das 10h30 às 13h. Sáb. eDom. das 15h às 19h. Inaugura 10/9 às 22h.Performance, Instalação.Quick, Quick,SlowLisboa. Museu ColecçãoBerardo. Pç. do Império- CCB. Tel.: 213612878.De 10/09 a 29/11. 6ª das10h00 às 22h (últimaadmissão às 21h30). 2ªa 5ª, Sáb. e Dom. das10h às 19h (últimaadmissão às 18h30).Inaugura 10/9 às 22h.Design. Experimenta Design 2009.TimelessLisboa. Museu do Oriente. Av. Brasília - EdifícioPedro Álvares Cabral - Doca de Alcântara Norte.Tel.: 213585200. De 11/09 a 09/09. 6ª das 10h às22h. 2ª, 4ª, 5ª, Sáb. e Dom. das 10h às 18h.Inaugura 11/9 às 22h.Design. Experimenta Design 2009.Álbum FamiliarDe Paco Chuquiure.Lisboa. K Galeria. R. da Vinha, 43A. Tel.: 213431676.De 10/09 a 30/09. 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. das 15h às 20h.Fotografia.ContinuamMikael Levin - Cristina’sHistoryLisboa. Museu Colecção Berardo. Pç. do Império -CCB. Tel.: 213612878. Até 08/11. 6ª das 10h às 22h(última admissão às 21h30). 2ª a 5ª, Sáb. e Dom.das 10h às 19h (última admissão às 18h30).Inaugura 30/8 às 19h30.Fotografia, Instalação, Outros.Henri Fantin-Latour (1836-1904)Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.Av. de Berna, 45A. Tel.: 217823700. Até 06/09.3ª a. e Dom. das 10h às 18h.Pintura, Desenho.Teoria da FalaDe Pedro Barateiro.Porto. Museu de Serralves - Casa de Serralves.R. Dom João de Castro, 210. Tel.: 226156500.Até 29/09. 3ª a 6ª das 10h às 17h. Sáb., Dom.e Feriados das 10h às 19h.Vídeo, Outros.Jacques-Émile RuhlmannPorto. Museu de Serralves - Casa de Serralves.R. Dom João de Castro, 210. Tel.: 226156500.Até 27/09. 3ª a 6ª das 10h às 17h. Sáb., Dom.e Feriados das 10h às 19h.Objectos.Encompassing The Globe.Portugal e o Mundo nos SéculosXVI e XVIILisboa. Museu Nacional de Arte Antiga. R. das JanelasVerdes - Palácio do Alvor. Tel.: 213912800. Até11/10. 3ª das 14h às 18h. 4ª a Dom. das 10h às 18h.Pintura, Escultura, Ourivesaria,Desenho, Outros.30 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


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LivrosBiografiaO conhecimentoda árvoreUm livro belíssimo feitodas memórias resgatadasde alguns daqueles quepresenciaram o Holocaustofora dos campos deconcentração. Mas não só.José Riço DireitinhoOs DesaparecidosDaniel MendelsohnTrad. Margarida SantiagoDom QuixotemmmmmQuando, duranteos anos dainfância, DanielMendelsohn (n.1960) visitava oavô na sua casaem Miami Beach,na Florida, parapassaralgumassemanasdaPrimavera ou do Inverno, aconteciamuitas vezes que, ao entrar em salasonde havia várias pessoas, algumasdelas começavam a chorar. Aquelesem quem ele provocava aquele“estranho efeito” eram semprejudeus idosos, seus parentes, queinterrompiam os jogos de canasta, oupousavam o copo do “whiskey”, paralevar as mãos à cara e, depois de um“suspiro algo teatral”, dizer emiídiche: “Oh, ele parece-se tanto como Shmiel!” Samuel (Shmiel, emiídiche) era o seu tio-avô que, com amulher e “as suas quatro lindasfilhas”, tinha sido “morto pelosnazis”. Este facto, e mais umasquantas fotografias amarelecidas doarquivo familiar da mãe, era quasetudo o que sabia da história da vidadestes antepassados. Pouco mais lhecontavam sobre Shmiel Jäger, amulher e as filhas. Ou porque nãosabiam ou porque não queriam. E nocomeço da adolescência, emconversas com o avô, começou ainteressar-se sobre a sua própriahistória genealógica.Mas mais de 20 anos passados,Daniel Mendelsohn – depois de cincolivros, um doutoramento emLiteratura Clássica, e umareconhecida carreira de crítico empublicações como a “New YorkReview of Books”, a “Esquire” ou a“New Yorker” – continuavaatormentado com a vacuidade daexpressão “mortos pelos nazis”.(Talvez também com os traçosfisionómicos herdados do tio-avô.) E,numa tentativa de saber mais, decideentão visitar a pequena cidadeucraniana de Bolekhiv (Mendelsohnusa a antiga grafia alemã, Bolechow),onde o ramo materno da sua famíliavivia desde há pelo menos trêsséculos e meio. Um “regresso à TerraAntiga”. Como se procurasse a suaprópria identidade, a sua fisionomiaentre as daqueles que foram “mortospelos nazis”, entre os desaparecidos.Era a primeira etapa de uma“odisseia”“Os Sobreviventes” é o projecto da vidade Daniel MendelsohnaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelentepessoal, íntima, que posteriormente –no rasto dos últimos velhos judeus deBolechow e das suas memóriasremotas – o levaria à Austrália, aPraga, a Viena, a Israel, a Estocolmo,a Vilnius e a Riga, de volta a Israel, àDinamarca, e por fim de novo àUcrânia. Mendelsohn quis que estesseus familiares se tornassemsingulares, quis devolver-lhes ahumanidade, resgatá-los dos milhõesdo Holocausto que são hoje,infelizmente, quase já só um símboloda máquina de extermínio nazi.Como ele próprio escreveu: “Tinhasido para salvar os meus parentes dasgeneralidades, símbolos,abreviaturas, para lhes restaurar assuas particularidades ecaracterísticas próprias que eu fizeraesta viagem bizarra e árdua.” Foi uma“odisseia” que durou alguns anos,atravessada por decepções, pistasfalsas, entusiasmos, pontas soltas queiam ficando para juntar mais tarde, edurante a qual o passado se foierguendo aos poucos das suas cinzas.“Os Desaparecidos” (vencedor do“National Book Critics Circle Award”)é a sua narração. Um livro de muitasmemórias. Mas não só.De maneira um poucoprovocadora, o livro está estruturadocomo a história narrada no Génesis,das trevas ao conhecimento. Àmedida que a sua busca vaidecorrendo, Mendelsohn introduznum plano paralelo, comoriginalidade e inteligência, curtasdissertações sobre as interpretaçõesbíblicas de vários comentadoresjudaicos, de medievais acontemporâneos. Um pouco ao jeitodos “thrillers”, a acção (que é a suadeambulação na procura dememórias ainda vivas) desenrola-secom ritmo, numa linguagem porvezes bastante poética, mas semprepontuada pelo paralelismo com olivro de abertura da Tanakh, a Bíbliajudaica; após a primeira notícia vindade quem parecia saber alguma coisa,a esperança acende-se, pois “dastrevas indiferenciadas se foramtornando claras, gradualmente, asformas das coisas”. Aos poucos, ahistória vai sendo tambémcompletada com várias cartas antigas(algumas que o avô guardara numacarteira que trazia sempre consigo),fotografias do arquivo da mãe (eoutras recentes, da autoria do irmãoMatt, fotógrafo, que o acompanhounas viagens), anotações antigas,excertos de diários e de conversas,como se fossem curtas analepses.No que quase se pode chamar “umfinal inesperado”, uma das cenasmais pungentes do livro, o autorencontra-se num jardim, diante deuma árvore, evocando o “pecadooriginal” de Eva, de toda aHumanidade, e a sua remissão: “(…)e no fim da minha procura, eu estavaali, finalmente, no sítio onde tudocomeça: a árvore no jardim, a árvoredo conhecimento que, como aprendihá tanto tempo, é algo dividido, algoque, porque o crescimento só seefectua com o tempo, traz tantoprazer como, afinal, desgosto.”Mendelsohn coloca o livro sob aepígrafe “sunt lacrimae rerum” (“astristezas do mundo”, na tradução deAgostinho da Silva), o famoso versode Virgílio dito por Eneias diante dotemplo. Poucas frases poderiam estarmais a propósito.Uma nota final para o trabalho detradução, que foi cuidado aopormenor.Desobediênciae rebeliãoMais de um século passado,a carta de Wilde a Bosiecontinua o epítome da lutaanti-filistina. Eduardo PittaCarta a BosieOscar WildeTrad. Maria Célia CoutinhoVegammmmmEm Novembro de2000, MerlinHolland, neto deOscar Wilde (1854-1900), e RupertHart-Davis, coeditaram“TheComplete Lettersof Oscar Wilde”.Uma delas éjustamente a que passou àposteridade como “De Profundis”,publicada em 1905, sucessivamentereeditada em todo o mundo com essetítulo.Depois de sair da prisão deReading, Wilde encontrou-se emDieppe com o seu amigo Robert Ross,a quem entregou o texto queconhecemos como “De Profundis”, oqual corresponde a menos de metadedo que Wilde havia escrito a Bosie, ouseja, Lord Alfred Douglas, seuamante. Ross entregou a carta aoMuseu Britânico em 1908, com aindicação de que ficaria sob reservadurante 50 anos, mas logo nessaaltura surgiu uma versão alargada doprimitivo “De Profundis”, tudo indicaque por iniciativa de Bosie, queprecisava de dinheiro para a vida dedissipação a que se habituara.Entre 1905 e 2000 o texto sofreutratos de polé. As versões de 1905 e1908 estão truncadas. A de 1949,divulgada por iniciativa de VyvyanHolland, o filho mais novo de Wilde(depois da prisão do marido,Constance Lloyd foi com os filhospara a Suíça, trocando o nome defamília por Holland), também saiurasurada. Holland acusou Ross demelhoramentos abusivos, mas não32 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


HULTON ARCHIVE/ GETTY IMAGESRichard YatesCom “Carta a Bosie”, Wilde fundou a literatura gayteve pejo em fazer parecido. Um errocomum é confundir-se o texto dacarta com “The Ballad of ReadingGaol”, o poema coetâneo que Yeatsincluiu (truncado...) na antologia“The Oxford Book of Modern Verse”,em 1936.Em Portugal, o texto tem sidopublicado desde 1962, ano em que opoeta Cabral do Nascimento traduziua versão Holland (1949). SegundoHart-Davis, essa versão contém“centenas de erros”. Ao cabo devárias versões e títulos — ora “DeProfundis”, ora “Carta a LordDouglas escrita na prisão de Reading”—, a carta de Wilde chegou de novo àslivrarias portuguesas, desta vez como“Carta a Bosie”, na irrepreensíveltradução que Maria Célia Coutinhofez em 1972. As notas de Hart-Davistêm acompanhado todas as edições,ou como texto introdutório, ou,como acontece na edição actual, emnotas de rodapé.“De Profundis” / “Carta a Bosie”tornou-se, provavelmente contravontade de Wilde, o texto fundadorda literatura gay, conceito posterior a1969, da responsabilidade dosescritores reunidos no grupo doViolet Quill: Andrew Holleran,Edmund White, Felice Picano eoutros. O à-vontade com que Wildese refere à vida em comum com ofilho do marquês de Queensberryera, de facto, uma novidade absolutano início do século XX:“Evidentemente que me deveria terdesembaraçado de ti. Deveria ter-tesacudido da minha vida como umhomem sacode do vestuárioqualquer coisa que se lhe pegou.”Wilde não usa de parcimónia: vícios,perversões, dívidas, visitas a bordéismasculinos, amargura e violênciadoméstica, tudo é recordado comminúcia: “Entre o Outono de 1892 e adata da minha prisão despendicontigo para cima de 5000 libras emdinheiro actual, sem levar emconsideração as contas que assinei”.O julgamento transformou-senuma “cause célèbre”. Wilde nãomediu as consequências de processaro marquês de Queensberry por estelhe ter chamado sodomita. E atiçou aopinião pública ao comparar ahumilhação de que era alvo à luta deCristo contra os filisteus: “[...] ospecados dos outros estavam a ser-meimputados. Quisera eu, teria podidoem qualquer dos julgamentos salvarmeà sua custa, não da vergonha, maspelo menos do cárcere. [...] Terassegurado a minha absolvição portais meios significaria para mim todauma vida de tortura.” A ousadia saiulhecara: depois da prisão, arruinado,esquecido, abandonado pela mulhere pelos filhos, morreu em Paris, aos46 anos, praticamente na miséria.(Quem pagava a conta do hotel eraCecil Rhodes, o herói boer que lutoupela independência da província doCabo, na África do Sul.) Hoje temuma estátua no centro de Londres,porque o governo de Sua Majestade oreabilitou no centenário donascimento.Foi a desobediência “que permitiuo progresso, a desobediência e arebelião”, disse ele um dia. O órgãooficial do Vaticano, “L’OsservatoreRomano”, também o absolveu emeditorial recente. Ratzinger achoupor bem encerrar o dossiê Wilde.FicçãoA vidaincompletaO último romancede Richard Yates, tãodesesperançado como oprimeiro. Pedro MexiaPerto da FelicidadeRichard YatesTrad. Nuno Guerreiro JosuéQuetzalmmmnnRichard Yates(1926-1992)chegoutardiamente àediçãoportuguesa, nasequência daadaptaçãocinematográficade “RevolutionaryRoad”.Começámos bem, com o primeiro (emelhor) romance de Yates, datadode 1961. Agora, aparece o seu último(e mediano), de 1986, e já seanunciam outras traduções.“Cold Spring Harbor” / ”Perto daFelicidade” é um romance menormas prova que Yates manteve umainquebrantável fidelidade aouniverso burguês e ao registorealista. Passado nas décadas de1930/40, num subúrbio chamadoprecisamente Cold Spring Harbor,em Long Island, é a história de duasfamílias, os Shepard e os Drake.Gente da classe média remediada,vivem todos numa tensãopermanente com as suasfragilidades. Yates constrói oromance em cenas banais, muitasdelas conversas em família, eacumula indícios de frustraçãosocial, vergonha, solidão,ressentimento, inveja e ternura.Algumas personagens sãoclaramente desequilibradas, e umadelas, Gloria Drake, é um caso quasepatológico (os biógrafos dizem quese trata de um retrato impiedoso damãe de Yates). Há longos monólogosembaraçosos, galanteiosdespropositados, tiradas alegres forade contexto. Gloria, verbal eemocionalmente destravada, põe anu aquilo que as outras personagensescondem. Quando um jovem casaltirafotografias para o álbum de família,estão sorridentes em quase todas,mas há uma em que aparecem“assustados e desesperados”, comose fosse a única em que não estavama fazer pose.As duas personagens masculinasprincipais, o jovem Evan Shepard eo adolescente Phil Drake, mantêmuma fachada de contenção. Evancasou demasiado novo, divorciou-se,casou de novo, queria ter estudadoengenharia mas trabalha numafábrica. Phil tem pouco dinheiro evive atormentado com a sua libido.Os dois homens (e isso vem desde“Revolutionary Road”) são imaturos,inconstantes, andam à deriva. Hámundos que os tentam ou osafugentam (a escola, o exército), masenquanto isso andam ali aos tombos,tentando pequenos rituais deconvivência, quase semprecanhestros. Há uma aula decondução especialmente notável,porque sem explicar nada nos dá umdiagnóstico daquelas duas criaturasfrouxas.Richard Yates vai saltando entre assuas personagens, completando oquadro de um “lar artificial” feito depequenos prazeres e grandesenfados. Os Shepard e os Drake nãocontrolam os seus destinos. Têm assuas responsabilidades familiares esociais, que vão cumprindo comopodem, mas chegam ao fim de cadadia decepcionados e vencidos. Éarriscado escrever 200 páginas commeios-tons, mas se Yates sabia fazeralguma coisa era exactamente isso.A crítica, que sempre foi algo tépida,dizia que o romancista erademasiado extremado no desenhodas personagens, alternando deforma incongruente entre e empatiae a repulsa. Mas esse é na verdadeum dos méritos deste escritor, quepassa sem esforço das amabilidadese banalidades burguesas paradescargas de agressão irracional.O dinheiro é pouco, os casamentossão maus, há uma guerra lá longe, eos Shepard e os Drake vivem deexpedientes e fantasias. Nada lhes dátanto prazer como os hábitoscomezinhos. Dar uma volta de carropelas redondezas. Sentarem-se emcubículos com sofá de napa e umabebida fresca. Ou comprar umcanivete ou uma bicicleta. Dar umaresposta bem esgalhada. Ourecomeçar aquilo que acabou,desejando um dia acabar com aquiloque recomeça.A única experiência realmentesignificativa que coloca alguns deles“perto da felicidade” (o títuloportuguês é bastante feliz) é asexualidade. Mas o ambiente lascivoe sufocante deste romance, já comum vislumbre da mudança noscostumes, é mais uma promessa defelicidade do que a felicidadeIsabelCoutinhoCiberescritasSe eu vos contar que a organizadora da novíssimaantologia digital “ENTER”, Heloísa Buarque deHollanda, já soprou 70 velas, se calhar vocês nãovão acreditar. É a verdade. Mas não se importemcom isso, para a coordenadora do ProgramaAvançado de Cultura Contemporânea e curadora doPortal Literal, uma compensação da idade é o privilégiode não ter que perder tempo com o que a “entedia”. Foiisto que disse ao jornal brasileiro “O Globo” no mêspassado a propósito do lançamento do “site” ENTER -Antologia Digital, que reúne textos, som, fotos e vídeos de37 autores como Nega Gizza, Marcelino Freire, João PauloCuenca, Andre Dahmer, Cecilia Giannetti, Lirinha e BrunaBeber. A crítica literária Heloísa Buarque está “de sacocheio”, ou melhor, está farta de discutir o que é literaturaou não é e por isso resolveu definir esta antologia como“uma amostra das ‘práticas literárias’ contemporâneas”.Esta não é a primeira antologia de jovens escritores aque Heloísa se dedica. Como lembra no blogue Autores eLivros o editor da Língua Geral e professor da Faculdadede Letras da Universidade Federal do Rio de JaneiroEduardo Coelho, Heloísa Buarque já organizou para aeditora Aeroplano as antologias “26 Poetas hoje” e “Essespoetas”. Através delas revelou “os futuros ícones desuas gerações”, escreve Eduardo Coelho. Na primeira,dedicada à geração de 1970, surgiram nomes hojeincontestáveis como Ana Cristina Cesar, Antônio Carlosde Brito (Cacaso) e FranciscoÀ pergunta “existeliteratura de internet?”responde HeloísaBuarque com umredondo “Não!”.ENTERhttp://www.oinstituto.org.br/enter/Heloísa Buarquede Hollandahttp://www.heloisabuarquedehollanda.com.br/Autores e Livroshttp://autoreselivros.wordpress.com/Prosa Onlinehttp://oglobo.globo.com/blogs/prosa/default.aspOs novíssimosda ENTERAlvim. Na segunda, dedicadaà geração de 1990, encontramse,entre outros, CarlitoAzevedo, Claudia Roquette-Pinto e Eucanaã Ferraz.Neste rol de autoresencontra-se João PauloCuenca, que está publicadopor cá pela Caminho. Estálá o seu texto “Última Madrugada” (em versão texto)e também em áudio, dito maravilhosamente porSelfon Mello. E depois excertos dos seus romances jápublicados.Está lá Índigo, uma escritora que também começoua escrever na Internet, e dela está disponível o conto“Maçã Argentina” e a sua adaptação ao teatro pode servista num vídeo. Está lá Cecilia Giannetti, autora doromance “Lugares que não conheço, pessoas que nuncavi”, e que tem lá o texto “Salve-me” e ao lado um “link”para um vídeo com a leitura do conto. Estão lá MarcelinoFreire e, entre outros, o belíssimo e provocante texto“Meu Negro de Estimação” que tem também uma versãoáudio. Está lá também o trabalho de Ramon Mello,poeta, escritor e jornalista.Mello recolheu um depoimento de Heloísa Buarquede Hollanda que irá servir para a biografia sobre estacrítica literária a publicar pela Língua Geral e que poragora pode ser lido no blogue Prosa Online. À pergunta“existe literatura de internet?” responde Heloísa com umredondo “Não!”. E depois diz: “Antes o poeta colocavao poema na gaveta e agora o texto vai ao público, sendotestado a todo instante. Esse imediatismo da produçãomodifica o saber, sem dúvida. Quem está conectadoà web tem um processo de atenção diferente, dizemque leva à superficialidade. Acredito que passamos dametáfora para a metonímia. Há uma compreensão maishorizontal, uma articulação que aparece directamentenos textos”isabel.coutinho@publico.pt(Ciberescritas já é um blogue http://blogs.publico.pt/ciberescritas)Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 33


LivrosEspaçoPúblicoEste espaço vai serseu. Que filme, peça deteatro, livro, exposição,disco, álbum, canção,concerto, DVD viu egostou tanto que lheapeteceu escreversobre ele, concordandoou não concordandocom o que escrevemos?Envie-nos uma nota até500 caracteres paraipsilon@publico.pt. Enós depois publicamos.ebookbooks on demandpropriamente dita. Se a vida é má,o sexo não a faz boa. E a vida,escreve Yates, “era confusa eperigosamente incompleta”. Eacrescenta: “O terror nunca estarialonge de possuir o coração”.ViagensO italianoesvoaçanteGiuliano da Empoli seguea pista de um antepassadomercador que acompanhouAfonso de Albuquerque nocaminho das Índias e produzum dos melhores livros deviagens desta década.Luís MaioO Expresso de CantãoGiuliano da EmpoliTrad. Jéssica FalconiBertrand Editorammmmn“O Expresso deCantão” tem umacapa turísticaexótica,típica doslivro de viagens. Euma contracapaonde anuncia umenredo não menosprevisível, em queum autor actualdecide reconstituir os principaispassos da rota de um navegador deoutros tempos. Desde que se começaa ler, no entanto, torna-se evidenteque esta não é só mais uma narrativade viagens, dessas que vendemnostalgia de aventura nas prateleirasda literatura light.O aventureiro de outros tempos,para começar, não é nenhum MarcoPólo ou Ibn Battuta. O florentinoGiovanni da Empoli foi um dosmercadores que em 1503embarcaram na frota comandada porAfonso de Albuquerque rumo àÍndia. Durante década e meiadesempenhou um papel efectivo,mas menor, na estratégia portuguesade aproximação aos mercadosasiáticos, até morrer às portas daChina, aos 34 anos. Mas depressa foiesquecido e nem sequer o seudescendente Giuliano, intelectual,jornalista e escritor italiano, selembrava dele. Isto pelo menos até2005, quando o autor que tambémhabitava Florença recebeu umconvite para a inauguração de umarua periférica da cidade com o nomedesse seu antepassado.Na altura com pouco mais de 30anos, Giuliano era já uma eminêncianos meios culturais italianos.Licenciado em Direito, pós-graduadoA colonização de Goa pelas tribos do tranceé um dos efeitos perversos da globalização queGiuliano da Empoli exorciza em “O Expresso de Cantão”em Estudos Políticos, fez carreira nascolunas de opinião dos principaisjornais italianos, foi chamado àdirecção de eventos institucionaiscomo a Bienal de Veneza e até paraexercer funções de consultadoriajunto de governantes do seu país.Apesar de todo esse reconhecimento,no entanto, Giuliano aborrecia-se demorte em Florença e, às tantas,decidiu saltar de avião à última hora,trocando a rotina de um congressoem Verona pelo desafio dodesconhecido que representavaseguir na pista oriental de Giovanni.É a segunda premissa fora dobaralho. Da mesma forma que afigura que inspirou a viagem não éum aventureiro consagrado,também o autor não é um dessesviajantes profissionais que publicampara financiar as passagens. Giulianoé, ou pelo menos era em 2005, umintelectual decidido a romper com arotina e a reinventar-se,convertendo-se naquilo que elepoeticamente designa de “ave sempés”. Daí uma viagem física, quecomeça por levá-lo a Cochim eprossegue durante três anos pelasprincipais metrópoles asiáticas. Umaviagem que é também e em grandeparte uma odisseia pelos livros, numespectro alargadíssimo de matériasque vai do Renascimento Florentinoe das Descobertas Portuguesas até àChina actual e ao fenómeno daGlobalização, passando por históriasde viagens e piratas, tratados sobre aespiritualidade na Índia ou sobre asíndroma do terror pós-11 deSetembro. Não é comum, de facto,um livro de viagem com centenas detítulos citados em sete páginas dereferências bibliograficas.Os capítulos de reconstituição davida do mercador florentino vãosendo intercalados com outros, quedissecam o presente e resumem aexperiência oriental do seudescendente. Este vaivém élegitimado pela tese, que afinalsustenta todo o romance, segundo aqual a abertura protagonizada pelo“Milagre Português” e mais em geralpela geração de Giovanni é oprincípio de uma globalização quesó agora se cumpre plenamente coma deslocação do baricentro domundo para Oriente. O autor resistea conferir ao seu antepassado maisdo que uma modesta quota deprotagonismo, mas enquanto lherebobina os passos vaidesenvolvendo toda uma históriaalternativa da presença portuguesano Oriente. Um registo penetrante,por vezes mesmo ousado, que o levainclusive a classificar as nossasprimeiras incursões no Índico comoinvasões de piratas, comparáveis aosfluxos de contrafacção que hojerumam em sentido inverso, da Ásiapara o Oriente. À medida que o livroavança, ou que o passado vai ficandomais documentado, Giuliano vira-separa o presente, desdobrando-se emanálises hiper opinativas defenómenos que vão da colonizaçãode Goa pelas aberrantes tribos dotrance até ao vertiginoso “boom”industrial da China.Pelo meio há reportagens de fazersonhar qualquer jornalista, como adescrição da sua passagem porNansha, uma cidade nova, construídade raiz no delta do Rio das Pérolas,com tudo desde torres de escritóriosaté supermercados, masingloriamente convertida numainstalação artística, quando seapurou que ninguém queria para láemigrar. O forte de “O Expresso deCantão” é, no entanto, a extremaargúcia e erudição com que Giulianoretrata o presente apogeu oriental apartir de 500 anos de história deintercâmbio com o Ocidente. Abagagem cultural é o trunfo, masacaba por ser também o dilema dointelectual italiano, que não resiste abrindar o seu romance com váriosfinais. Primeiro o narrativo, querecorda a morte do seu antepassadomercador, depois o ideológico com aexposição da antítese nómadas/sedentários como chave do choquede civilizações, finalmente umepílogo mais filosófico sobre o livrearbítrio como invenção doRenascimento e principal desafio dahumanidade no início do terceiromilénio. Dá que pensar e põe muitacoisa em questão, o que é certamenteo melhor elogio que hoje se podefazer a um livro de viagens.34 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


ConcertosEspaçoPúblicoPopTodas asmulheres dosClãA temporada oficial doTeatro Nacional São João,no Porto, abre com umespectáculo de música pop.Os Clã sobem ao palco para“Barbie Suzie Dolly PollyPocket”, um concerto único.João BonifácioClãPorto. Teatro Nacional São João. Pç. Batalha. 2ª, 7,às 22h. Tel.: 223401910. 10€ a 20€.Talvez não saibam disto, mas oTeatro Nacional São João (TNSJ), noPorto, tem um corpo diplomático.Não, não é uma guarda, uma matilhade capangas que se espraie àboca decena paraevitarOs Clã, versão conceptual,num concerto com M grandeDepois de ler o artigoque saiu no Ípsilon sobreo concerto dos Low, foicom alívio que suspireipor não ter feito umasbelas centenas deque fãs empedernidos de Ibseninvadam o palco a meio de umarepresentação mais emotiva. Ocorpo diplomático, na realidade, éum conjunto de padrinhos - e nãonos referimos a gente de negóciosobscuros com bolas de algodão naboca. Ser membro do corpodiplomático é ser padrinho do TNSJ,o que implica, como a palavraindica, apadrinhar a temporada doteatro: comparecer às estreias,promover a programação.Não é obrigatório ser-se gente doteatro para fazer parte do corpodiplomático: no ano passadoAbrunhosa era um dos padrinhos,este ano calhou a Manuela Azevedo,a intensa vocalista dos Clã, ser“madrinha”. E se o ano transacto sefinou com pop de padrinho, porquenão apadrinhar a nova temporadacom pop de madrinha?Factualmente, é assim: a aberturaoficial da temporada do São Joãoestá marcada para segunda-feira, 7de Setembro, e em palco, quando acortina se abrir, vão estar os Clã.Mas não os Clã que andaram a tocar“Cintura”, o seu último disco pelopaís fora. Isto é outra coisa: umconcerto único, pop conceptualsobre a fêmea. “Não temos apretensão de ter criado uma peça deteatro”, diz Manuela Azevedo emtelefonema ao Ípsilon, “mas tivemosa preocupação de criar algumadramaturgia subtil que façaprogredir o espectáculo”.Cada uma das canções que se vaiouvir segunda-feira diz respeito aum e um só assunto: a mulher, ou,se preferirem, a Mulher. Daí o títulodo espectáculo, “BarbieSuzie Dolly Polly Pocket”.Este conjunto de nomesfemininos, que nada tem dealeatório, é parte da letrade “Eu ninguém”, de“Rosa Carne”, disco de2004 dos Clã, e versaassim: “Eu ninguém/eu ninguém comigosó/posso ser/travesti de quemquiser/manequimde bazar/ourainha do lar/madamebutterfly/barbie,suzie, dolly, pollypocket”.Quando os Clãforam convidadospara abrir a temporada,confessa Manuela,decidiram “não fazer umespectáculo habitual”, atéporque, “nunca tendopisado aquele palco”,aquela é uma sala de quetêm “memórias fantásticas”como espectadores. “Para aceitar oconvite tínhamos de fazer algoespecial e para isso tínhamos de terum mote”, explica. Olharam para aletra de “Eu ninguém e estavaencontrado o mote: “Essa letra équilómetros para ir a essefestival com nome deoperadora de telemóvel.Não pelo facto de oconcerto ter sido fraco,mas pelo desespero quea banda sentiu ao ter delutar contra a devastaçãosonora dos Faith No Moree, sobretudo, a batidamecânica e pica-miolos datenda de dança plantadaali tão perto - diga-se quesobre uma mulher que está a olharseao espelho e a decidir quemulher vai ser hoje, se gueixa, seBarbie, se deusa do lar”.Resumindo: é uma canção sobre acomplexidade da mulher, pelo queo espectáculo é um conjunto decanções cujo fio condutor éexactamente esse.À partida, ouvir-se-ão temas de“Rosa Carne” e de “Cintura”, os doisúltimos discos dos Clã, que,acrescenta a vocalista, “já de si seconcentravam muito no universofeminino”. Mas haverá surpresas.Temas de Arnaldo Antunes e umarevisitação aos Três Tristes Tigres.Um tema de Tom Zé, que Manuelanão quer dizer qual é. “Make up”,de Lou Reed. E “Lonely girl”, dagrande Lucinda Williams, de quemManuela é “grande, grande fã”.A vocalista dos Clã deixa apromessa de haver “momentosfemininos muito variados”, poroposição a uma ideia única demulher: “Se há algo de interessanteem ser mulher é podermos sermuito diferentes. É um universomenos inteligível, menosprevisível”. Depois, a rir,acrescenta: “Agora, se estas facetastodas da mulher podem encontrarsenuma só mulher, isso não sei. Masé uma questão interessante”.ClássicaHomenagemao “pai damúsicaclássica”Integrando ascomemorações dobicentenário de Haydn,a Orquestra Nacionaldo Porto inicia hojeum ciclo dedicado àprodução dograndemestre doclassicismovienense.CristinaFernandesOrquestraNacional doPortoPaulo Barros(flauta)Abel Pereira e HugoCarneiro (trompas)Zofia Woycicka(violino)Porto. Casa da Música - SalaLegendary Tiger Man,essa irreverente e caricatapersonagem, se recusoua tocar neste cenário. Emvez de festivais, esteseventos deveriam adoptarum nome mais pomposo:Feiras de Música. Ou, sequiserem, Arraiais doTelemóvel.Pedro Miguel Silva,35 anos, técnico decomunicaçãoSuggia. Hoje, 4, às 21h (às 20h15, na Cybermusica,palestra pré-concerto por Paulo Estudante). Tel.:220120220. 16€.Obras de Haydn e MozartJoseph Haydn (1732-1809) éhabitualmente apelidado como “opai da sinfonia” e como “o pai doquarteto de cordas”, para além de“pai da música clássica”, adesignação escolhida pela Casa daMúsica para a série de concertos quea Orquestra Nacional do Porto (ONP)inicia hoje como forma de assinalaros 200 anos da morte docompositor. Em rigor, a paternidadedo estilo clássico na música foipartilhada com vários outrosautores, alguns deles hojerelativamente obscuros, mas amestria de Haydn e a estaturaexcepcional da sua produção fazemdele um líder no processo. Emcomparação com o conjunto dasSinfonias e dos Quartetos, os seusConcertos para instrumentossolistas e orquestra são actualmentemenos contemplados pelasprogramações musicais, talvez coma excepção dos Concertos paraVioloncelo. Deste modo, a propostada ONP para esta primeiraapresentação constitui umaexcelente oportunidade para entrarem contacto com esta vertente docompositor. Como era habitual naépoca, Haydn escreveu a maiorparte dos seus concertos tendo emmente as qualidades deinstrumentistas que conhecia deperto ou que faziam parte dasorquestras que dirigia. Nestaperspectiva, as obras seleccionadasserão interpretadas por solistas daprópria ONP (o flautista PauloBarros, os trompistas Abel Pereira eHugo Carneiro e a violinista ZofiaWoycicka), que se encarregamtambém da direcçãomusical, retomandoassim a prática deexecução emvoga no períodosetecentista. Oalinhamentodo concertoinclui trêsobras deHaydnHaydn é o protagonista do concerto da ONPÍpsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 35


Concertos(o Divertimento para flauta ecordas; o Concerto para duastrompas e orquestra em Mi bemol(Hob VIId:5) e o Concerto paraviolino e orquestra em Dó menor) eduas composições de Mozart (outromestre do classicismo vienense), dequem será possível ouvir a Marchaem Ré, K44/320c e a Sinfonia nº 29,K. 201.A Metropolitana noinício da maioridadeOrquestra Metropolitanade LisboaTeresa Valente Pereira (violoncelo)Josep Caballé-Domenech (direcção)Lisboa. Auditório da Reitoria da Universidade Novade Lisboa. Campus de Campolide. Hoje, 4, às 21h.Tel.: 213715600. 10€ a 20€.Carcavelos, Auditório do Colégio Marista. Av. dosMaristas, 175. Amanhã, 5, às 17h. Tel.: 214585400.10€ a 20€.Obras de Tiago Derriça, Miaskovskye BeethovenCom o primeiro de uma série de 12concertos no Auditório daUniversidade Nova de Lisboa, aOrquestra Metropolitana (OML)assinala simbolicamente a ideia baseda sua nova temporada: “18 anos:Idade Maior”. Nesta caminhada paraa maioridade, as várias escolasassociadas ao projecto formaramvários jovens músicos que foramdistinguidos com diversos prémios epossuem actualmente sólidascarreiras a nível nacional einternacional. Os principais irão terum destaque especial ao longo doano, patente logo desde o concertode abertura. Dirigido pelo maestroespanhol Jordi Caballé-Domenech, oprograma inclui a estreia absoluta da“Abertura Rompante”, de TiagoDerriça (n. 1986), compositor quefrequentou Conservatório daMetropolitana e fez depois estudossuperiores de composição na EscolaSuperior de Música de Lisboa, e ainterpretação do Concerto paraVioloncelo e Orquestra op. 66, deNikolai Miaskovsky (1881-1950), porTeresa Valente Pereira, que seformou na Academia NacionalSuperior de Orquestra e na EscolaSuperior Reina Sofia de Madrid.Teresa Valente Pereira saiudas escolas da MetropolitanaVencedora do Prémio JovensMúsicos e do Concurso deInterpretação do Estoril, esta jovemvioloncelista realizou em 2002 aprimeira gravação mundial daSonata para Violoncelo de ArmandoJosé Fernandes, com o pianistaBruno Belthoise. Com esteintérprete francês e com o violinistaAdolfo Carbajal mantémactualmente um agrupamento demúsica de câmara, o Trio Pangea. Nasegunda parte do concerto, a OMLinterpreta a Sinfonia nº 1, deBeethoven. C.F.JazzBig bang!Regresso da celebradaOrquestra Jazz deMatosinhos, com um dosseus convidados maisilustres: Kurt Rosenwinkel.Rodrigo AmadoOrquestra Jazz de Matosinhoscom Kurt RosenwinkelLeça da Palmeira. B Flat Jazz Club. Estação deKurt Rosenwinkelde regresso a MatosinhosPassageiros do Porto de Leixões. Av. Dr. AntunesGuimarães, Doca 1 Norte. Hoje, 4, e amanhã, 5, às22h30. Tel.: 911968834.De regresso, hoje e amanhã, aoclube da sua própria cidade, aOrquestra Jazz de Matosinhos dácontinuidade a uma bem sucedidacolaboração, já iniciada há algumtempo, com o guitarrista norteamericanoKurt Rosenwinkel. Comuma sucessão de participações dealto nível, que inclui já nomes comoLee Konitz, Maria Schneider, MarkTurner, Chris Cheek, Dee DeeBridgewater ou Joshua Redman, aorquestra tem vindo a afirmar-secomo o pólo mais visível dahiperactiva cena jazz nortenha,desdobrando-se em inúmerosprojectos que estimulam acriatividade e o empenho dosmúsicos que nela participam.Oportunidade valiosa paratestemunhar a música da orquestra,no ambiente íntimo de um clube,com um solista extraordinário comoRosenwinkel, estes dois dias deconcertos permitirão ainda atestar aevolução dos muitos talentosos“jazzmen” que integram o projecto,nomeadamente os saxofonistasMário Santos, José Luis Rego, JoséPedro Coelho, o baterista MarcosCavaleiro ou o contrabaixistaDemian Cabaud, entre outros.Agendasexta 4Nite JewelPorto. Plano B. Rua Cândido dos Reis, 30, às 23h.OgreCom Maria João (voz), Júlio Resende(piano), João Farinha (piano), JoelSilva (bateria), André Nascimento(electrónica).Lisboa. Fábrica do Braço de Prata. R. da Fábrica doMaterial de Guerra, 1, às 22h30. Tel.: 21886105.CarminhoLamego. Parque Isidoro Guedes. Av. Padre AlfredoPinto Teixeira, às 22h. Tel.: 254609600. Entradagratuita.Inês Mendes e FranciscoSassettiLisboa. Jardim do Torel. R. Júlio de Andrade, às 19h.Tel.: 213236200. Entrada gratuita.Clássicos na Rua. Obras de Mozart,Clementi, Schumann, Dvorák, Ravel,Poulenc e Rey-Colaço.Hernâni Faustino + D’Ancise +Pedro SousaLisboa. Galeria Arthobler. R. Rodrigues Faria, 13 -Lx Factory (Edifício G. 03), às 22h. 5€.Concertos Granular.Mor KarbasiBarcarena. Fábrica da Pólvora de Barcarena.Estrada das Fontaínhas, às 22h. Tel.: 214387460.Entrada gratuita.Festival Sete Sóis Sete Luas 2009.Pedro MoutinhoLisboa. Parque Mayer. Travessa do Salitre, às21h30. Tel.: 966917499. 5€.Lisboa ao Parque.Manel CruzÍlhavo. Centro Cultural de Ílhavo - Auditório.Avenida 25 de Abril, às 21h30. Tel.: 234397260. 10€.ZoetropeCom Rui Horta, Micro Audio Waves.Braga. Theatro Circo - Sala Principal. Av.Liberdade, 697, às 22h. Tel.: 253203800. 10€.Orquestra Sementes do FuturoDirecção Musical de António Saiote.Guimarães. Centro Cultural Vila Flor. Avenida D.Afonso Henriques, 701, às 22h. Tel.: 253424700.Entrada gratuita.Encontros Internacionais de Músicade Guimarães.Irmãos CatitaLisboa. Maxime. Pç. Alegria, 58, às23h30. Tel.: 213467090. 10€.Mundo Cão + Easyway +Kiling ElectronicaFigueira. Polidesportivo da Figueira.Mexilhoeira Grande - EstradaNacional 125, às 22h. Tel.: 282470832.Entrada gratuita.Semana da Juventude.Camané + Banda dosMalandrosMontemor-o-Novo. Parque deExposições Municipal, às 21h30. Tel.:266898100. Entradagratuita.Festas da Luz09.Os Pontos Negros + Angry OddKids + Soapbox + DJ FernandoAlvimAbrantes. Quinta Santa Catarina - Abrançalha deBaixo, às 22h. Tel.: 966651374. Entrada gratuita.LANfestival 2009.Gala de ÓperaCom Ana Paula Russo (soprano),Giovanni Manfrin (tenor), LaryssaSavchenko (meio-soprano), PedroCorreia (barítono), Luíza Dedisin(soprano), Luís Gomes (tenor), CoroLisboa Cantat e Orquestra SinfónicaGinásio Ópera. Direcção musical deKodo Yamagishi e Jorge Alves.Amora. Quinta da Atalaia, às 21h30. Tel.:212224000. 20€ (dia) a 28€ (passe).Festa do Avante 2009. Obras deRossinni, Bellini, Verdi, Bizet,Puccini, Gershwin, Leoncavallo eMozart.Bernardo Sassetti TrioCom Bernardo Sassetti (piano),Carlos Barreto (contrabaixo),Alexandre Frazão (bateria).Silves. Castelo de Silves, às 22h. Tel.: 282445624.Cristina BrancoAlmeirim. Praça de Touros Monumental. Largo daPraça de Touros, às 21h30. Tel.: 243594020.Birgit Wegeman e João RosaLagos. Centro Cultural de Lagos. R. Lançarote deFreitas, 7, às 21h30. Tel.: 282770450. 6€.sábado 5A israelita Mor Karbasi, continuadorada tradição da música ladina, em BarcarenaNite Jewel + O UivoLisboa. ZDB. Rua da Barroca, 59, às 23h. Tel.:213430205. 8€.José Filipe SaglimbeniLisboa. Jardim do Torel. R. Júlio de Andrade, às 19h.Tel.: 213236200. Entrada gratuita.Clássicos na Rua. Obras de Pizzigon,Pietro Deiro, Marianito Mores,Carlos Gardel, Matos Rodríguez,Antonio Carrillo, Henry Martínez,Luís Laguna, Aldemaro Romero,Pablo Camacaro e Luís Fragachá.Amélia MugeOlival Basto. Centro Cultural da Malaposta. RuaAngola, às 21h30. Tel.: 219383100. 10€.Carlos Barretto TrioCom Carlos Barretto(contrabaixo), Mário Delgado(guitarra), José Salgueiro(bateria).Torres Vedras. Praça do Município, às22h. Tel.: 261310400. Entradagratuita.Coro e OrquestraSinfónica JovenSanlucár LaMayor deSevillaCom AnaBlanco(soprano),Bruna Paluzzi(soprano).Direcçãomusical dePedro Vázquez.36 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


Mundo Cão na Semana da Juventudeda Mexilhoeira GrandeFaro. Teatro Municipal de Faro. Horta das Figuras -EN125, às 21h30. Tel.: 289888100. 5€.Orquestra Sementes do FuturoCom António Saiote, Steve Cohen,Gerardo Ribeiro, Xavier Gagnepain.Guimarães. Centro Cultural Vila Flor - GrandeAuditório. Avenida D. Afonso Henriques, 701, às 22h.Tel.: 253424700. 5€.Encontros Internacionais de Músicade Guimarães.Smix Smox Smux + Homens daLuta + Amigos da FigueiraFigueira. Polidesportivo da Figueira. MexilhoeiraGrande - Estrada Naciona 125, às 22h. Tel.:282470832. Entrada gratuita.Semana da Juventude.O’queStrada + Rancho Folclóricodo CiborroMontemor-o-Novo. Parque de Exposições Municipal,às 21h30. Tel.: 266898100. Entrada gratuita.Festas da Luz 09.X-Wife + U-Clic + Peltzer + DJ RuiEstevãoAbrantes. Quinta Santa Catarina - Abrançalha deBaixo, às 22h. Tel.: 966651374. Entrada gratuita.LANfestival 2009.BailebúrdiaSetúbal. Museu de Setúbal - Convento de Jesus(Clautros). R. Balneário Dr. Paula Borba, às 23h. Tel.:265537890. Entrada gratuita.Sam Alone + D3Ö + The GiantRobots + The Jim Jones RevueQuarteira. Calçadão de Quarteira, às 21h. 7€ (dia) a10€ (passe).Quarteira Rock Fest 09.Maria João e Mário Laginha + Clã+ Willie Nile + Vitorino e osCantores do Redondo + Ciganosd’Ouro + The Men They Couldn’tHang + Tabanka Djaz + Blind Zero+ Krissy Mathews Blues BandAmora. Quinta da Atalaia, a partir das 10h. Tel.:212224000. 24€ (dia) a 28€ (passe).Festa do Avante 2009.The GiftMiranda do Corvo. Quinta da Paiva, às 23h. Tel.:239531106. 3,5€.Rock na Quinta 09.Montemor-o-Novo. Parque de Exposições Municipal,às 21h30. Tel.: 266898100. Entrada gratuita.Festas da Luz 09.David Fonseca + Teresa Salgueiro+ Aldina Duarte + Ska P + Peste &Sida + Bandarra + SkalibansAmora. Quinta da Atalaia, a partir das 10h. Tel.:212224000. 16€ (dia) a 28€ (passe).Festa do Avante 2009.ClãVendas Novas. Centro Sócio-Cultural de VendasNovas, às 22h. Tel.: 265807700. Entrada gratuita.segunda 7CamanéPalmela. Largo de São João, às 22h30. Tel.:212336664. Entrada gratuita.Festas das Vindimas 09.Joana Amendoeira + AfonsoDias + AssociaçãoFilarmónica de FaroFaro. Teatro Municipal de Faro. Horta dasFiguras - EN125, às 18h. Tel.: 289888100.Entrada gratuita.Festas da Cidade.quarta 9Louis Sclavis + Craig Taborn +Tom RaineyPortimão. Teatro Municipal de Portimão - GrandeAuditório. Largo 1.º de Dezembro, às 21h30. Tel.:282402475. 5€.Cats on FirePorto. O Meu Mercedes. Rua do Lada, 30, às 23h. Tel.:222082151. 10€.Platinum ABBA + Amália HojeÁgueda. Recinto da Feira, às 22h. Tel.: 234610080.2,5€.Festa do Leitão 09.quinta 10Cats on FireLisboa. Maxime. Pç. Alegria, 58, às 23h. Tel.:213467090.Riccardo Luppi’s MurmureCom Riccardo Luppi (saxofone tenore flauta), Lynn Cassiers (voz eelectrónica), Manolo Cabras(contrabaixo), João Lobo (bateria).Lisboa. Centro Cultural de Belém - CafetariaQuadrante. Praça do Império, às 22h. Tel.:213612400. Entrada gratuita.Jazz às 5.ªs.Grupo EkvâtLisboa. Museu Nacionalde Arte Antiga. Rua dasJanelas Verdes -Palácio do Alvor, às20h. Tel.: 213912800.2,5€.Louis Sclavisem PortimãoOs Cats on Fire a caminho do Porto e de LisboaReamonnÁgueda. Recinto da Feira, às 22h. Tel.: 234610080. 2,5€.Festa do Leitão 09.Kirk Lightsey Trio + Maria VianaCom Kirk Lightsey (piano), HugoAlves (trompete), Peter King(saxofone), Maria Viana (voz).Albufeira. Auditório Municipal. Paços do Concelho,Cerro da Lagoa, às 22h. Tel.: 289599500. Entradagratuita.VII Festival de Jazz de Albufeira.Incrível Tasca MóvelLisboa. R. da Mouraria, às 21h30. Entrada gratuita.Todos - Caminhada de Culturas.domingo 6Groove 4Tet + DJ LuckyLisboa. Jardim da Estrela, às 17h. Tel.: 213236239.Entrada gratuita.Lisboa Out Jazz.Set Lisbon Film OrchestraLisboa. Parque Mayer. Travessa doSalitre, às 21h30. Tel.: 966917499. 5€.Lisboa ao Parque.Farra Fanfarra +BrigadaVictor JaraO trio deBernardoSassettivai aoCastelode SilvesCamané emMontemor-o-Novoe em PalmelaÍpsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 37


DiscosA químicaentre FrancesMcKee e EugeneKelly dá àmúsica dosVaselinesumapersonalidadeúnicaPopOs Vaselinespara alémdos Nirvana“Enter the Vaselines”vale a pena por aquiloque já conhecíamos, masisso é tremendamenterecompensador.Mário LopesThe VaselinesEnter The VaselinesSub Pop; distri. PopstockmmmmnTudo muito curto,muitocompactado.Canções de dois,três minutos. DoisEPs e um álbumcomo obra. Istosão os Vaselines e o pouco quefizeram serviria para encher váriascarreiras. Primeiro, porque aquímica entre Eugene Kelly eFrances McKee confere à músicauma personalidade única: ele,“barretteano” no despojamento e“reediano” pelo escárnio; ela, de voza meio passo de desafinar, frágil maslímpida, cantando em tom deinocência que as letras desmentem.Depois, porque em curtos quatroanos, coube neles rock’n’roll sónicode guitarras descontroladas epercussão marcial, folk de câmarade uma luminosidade tocante oucítaras, fora de época, que caíammaravilhosamente bem entreaquelas guitarras acústicas e vozesharmonizadas com desdém.“Enter The Vaselines” não deixanada de fora. Recupera “The Way ofThe Vaselines”, compilação de 1992que agrupava todo o materialgravado pela banda, e acrescenta-lheum CD bónus com três demos e doisconcertos – um em Bristol, comEugene e Frances (mal)acompanhados por ritmo prégravado,outro em Londres,quando os Vaselines já tinhamsecção rítmica e eram bandade quatro elementos.O CD bónus poucotem de significativo.O primeiro concertoé uma caricatura“d.i.y” de vozesdesafinadas,dinâmica inexistente e gritos deexcitação acriançados quandoEugene apresenta “Son of a gun”como “Up your ass”. O segundo,sendo competente – é nítida aevolução da banda em palco, comacompanhamento real -, nunca seergue acima de curiosidadehistórica. Ou seja, “Enter TheVaselines” vale a pena por aquiloque já conhecíamos. Mas isso,asseguramos, é tremendamenterecompensador.Porque “Son of a gun” é a fusãoByrds-Velvet Underground quenunca imagináramos, porque adelirante versão de “You thinkyou’re a man” é um épico cómico deguitarras estrepitosas e provocará,citando Nel Monteiro, inimagináveis“broncas na discoteca”, e porque,resumindo, os Vaselines, querpeguem em sujidade “reediana”para cantar felicidade adolescente,quer se dediquem à electrocussãodo garage-rock com bateriatonitruante ou visões distorcidas,narcóticas do blues, transportamalgo de vital para sua música: umaideia de descomprometimento, asensação de que esta música osrepresentava a eles e à música queos formara de uma forma irrepetível.Isso pressente-se tanto na belíssima“Jesus don’t want me for asunbeam”, folk-rock pungentedominado pela voz de Eugene, deuma justiça quase cinematográfica,quanto numa “Lovecraft” que é, àuma, a “Tomorrow never knows” e a“Sister Ray” dos Vaselines – guitarraacústica atacada com ferocidade,efeitos perturbadores em loop, asvozes prolongando o final das frasesde modo encantatório e, algures,uma cítara a levitar sobre tudo isto.Decididamente, não era precisonada de novo. Regressar à músicadeste breve cometa de inspiradacultura pop é mais do que suficiente.Descobri-los, imaginamos, seráainda mais revelador.aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelenteElvis Costello “goes” americanaBooker T., 40anos depoisO “comeback” de BookerT. não é um passo degigante, mas deu um discocompetente.João BonifácioBooker T.Potato HoleAnti: distri. EdelmmmnnNos idos de 60 osBooker T. & TheMG’s eram o paupara todo oserviço da Stax,maior editora soulda época lado alado com a Motown. Note-se que aexpressão “pau para todo o serviço”peca por escassez: eles eram abaqueta, o baixo, a guitarra e o órgãoHammond para todo o serviço. Dedia funcionavam como músicos desessão da editora, gravando discos deOtis Redding, Wilson Picket e dadeusa Carla Thomas (entre outros),desdobrando-se entre r’n’b suado,funk devasso, soul acetinada, gospelcrente. Tinham tudo: cadainstrumentista era de um talentoímpar, porém punham a técnica aoserviço da canção, ou, maispropriamente, do vocalista emquestão. Eram coesos, sabiam darespaço à voz, e tinham em SteveCrooper (o guitarrista preferido dosBeatles) um virtuoso capaz de aquidar balanço, ali lançar riffs de fazerinveja a Jimmy Page e acolá brincaraos psicadelismos. A secção rítmicanão provocava apenas suor: sabiaquando desaparecer e quando semultiplicar em breaks e linhas debaixo omnipresentes. E depois haviaBooker T., mestre do Hammond, reidos ganchos imbatíveis.À noite, depois de tocarem nosdiscos das estrelas, os quatrogravavam os seus próprios discos:prodígios de imaginação, de linhasmelódicas impagáveis, como a de“Chicken pox”, em que o órgão imitao “boc-boc-boc” de uma galinha,criando um ritmo irresistível.(“Melting Pot”, de 71 e “GreenOnions” de 62 são as obras-primas deBooker T. & The MG’s.) Quarentaanos depois de a Stax ter tido o seumomento alto, a Anti temtentado, de um ponto devista revivalista, imitar osistema de linha demontagem da antigaeditora soul de OtisRedding, pegandoem antigas estrelasda soul e pondo-asnas mãos da bandacaseira, os Drive By-Truckers. Com eles está, em nove dasdez canções, a guitarra de NeilYoung. As linhas de órgão continuambelíssimas, pese embora menosinesperadas. Isto é r’n’b (nas suasmais variadas derivações) semprebem esgalhado, sempre capaz de nospôr a bater o pé: há bons riffs, boasmalhas de órgão, blues bembalançados. Mas falta aqui uma boadose da loucura que emanava dosdiscos dos MG’s, porque antes demais os Drive By-Truckers são umabanda country-rock. Por exemplo: aúltima coisa de que um disco deBooker T. precisa é uma linha de slideguitar melancólica como a de“Reunion time”. Mas há grandesmomentos: em “She breaks”, umaeficaz malha de guitarra permite queo Hammond desenvolva linhas elinhas melódicas viciantes, sempreem mutação; a versão de “Get behindthe mule” (original de Tom Waits) éextraordinária, começando comoexercício de blues disfuncional enocturno, acabando quase como umexercício de música exótica; e“Potato hole” faz lembrar os velhosdiscos de Booker, tudo ritmo, cabeça,pescoço, ombros, tronco a gingar aosabor daquele órgão que nunca sesabe para onde vai. Já foi um gigante,agora faz discos competentes. Háfortunas mais injustas.Menos cérebro,mais tripaElvis CostelloSecret, Profane & SugarcaneUniversal; distri. UniversalmmmnnBooker T., mestre do Hammond,agora mais competentedo que imprevisívelHá dados que,não fazendo partede uma biografiaoficial, nem porisso são maisimprováveis. Porexemplo: é quasecerto que Elvis Costello, quando erapequenino, não tenha bebidoleitinho nem brincado com rocas.Não, Elvis tomava anfetaminas etocava os discos da avó, umacolecção que (podemos avançar)incluía velhas canções de dançairlandesas, ragtime, muito hillbilly, osom de New Orleans,operetas alemãs,marchas militares, orhythm’n’bluesswingado de quandoos pretos eram pretose, muito possivelmente,vários singles quetiveram a honra deservir de “jingle” aanúncios desabonete nadécada de 50.Costello começoua editar em 77,quando a newwave era rainha,38 • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • Ípsilon


EspaçoPúblicoJohn Darnielle abraçoua fé. Depois de discoscom títulos poucodados à religiosidadecomo “Heretic Pride”ou “Satanic Messiah”, omentor dos The MountainGoats leu a Bíblia de umaponta à outra e decidiulançar um disco compostopor versos retirados domaior livro de aventurasjamais editado. “The LifeOf The World To Come”tem edição marcada para6 de Outubro. E não é queas cabras se decidiramtornar pastoras?Pedro Miguel Silva,35 anos, técnico decomunicaçãoA cravista Céline Frischmostra o génio de Rameauna sua justa medidao punk descobria África e tocar malera uma arte. Mas Elvis,enciclopédia viva do rock e seusancestrais, sempre foi um satélitecom órbita muito própria. Erademasiado Abba para os punks,demasiado agreste para a popmaricas dos sintetizadores,demasiado melodioso para osexperimentalistas, demasiado cínicopara os niilistas. E tinha,definitivamente, demasiada músicana cabeça. Enquanto conseguiusintetizar as ideias e pô-las aoserviço de melodias que, no fundo,eram clássicas, foi extraordinário.Quase tudo no mundo é complicado,por isso aqui fica uma verdadesimples: tudo que Costello escreveuentre “My Aim Is True” (1977) e“This Is Year’s Model” (1982) émagnífico. Mas depois Elvis perdeuo pé. Ok, dou de barato que em 1986assinou um belo disco, “Love andChocolate” (talvez inspirado pelasaprazíveis inutilidades mencionadasno título). Mas quase tudo o resto énegligenciável. Costello pareceu terperdido a capacidade de sintetizaras suas influências num rebuçadomelódico de três minutos e, comoum médio centro demasiado gulosoe que não levanta a cabeça, tornousebarroco, demasiado adornado,complicado e chato, chato, chato.“Spike”, “Mighty Like A Rose”(apesar da magnífica abertura com“The other side of the summer”) e“The Juliet Letters” são belosexemplos dessa fase de dejectos.Entretanto, no meio da profusãode estilos a que Costello se atirou,sempre houve ali uma paixoneta pela“americana” - aliás, em 1981 Costelloassinou, em “Almost Blue”, um belodisco de versões country, em querecuperava cantigas de HankWilliams e Gram Parsons (entreoutros). É mais ou menos esse oterritório de “Secret, Profane &Sugarcane”, o seu mais novo disco,com a diferença de se tratarem deoriginais. “Secret...” foi gravado emNashville e exala por cada poro aherança de Parsons a que se deu onome de country-rock: uma espéciede blues electrificado, que vive dorame-rame das guitarras (queevocam grandes prados e pores-desolsem fim), do queixume da slideguitare do ranger de dentes do dobro(uma guitarra com um som muitoespecífico). Nessa coisa vasta a que sechama “o som de Nashville” cabetudo, portanto: o cajun, o blues, amúsica de New Orleans, a músicaapalache, as cantigas de rodairlandesas, desde que cada géneroseja submetido a um processo deesbranquiçamento e ainstrumentação inclua sempre, massempre, uma slide-guitar. E, depreferência, um(a) vocalista de tomparolo. “Secret, Profane &Sugarcane” é quase, quase o discosíntesede todo esse imaginário. Aslide guitar, o violino e o dobrodominam o disco, as idas ao blues(“Complicated shadows” e Sulphur tosugarcane”) são devidamentealbinas, há um punhado de cançõespara bater o pezinho em que oviolino, como é de bom tom, brilha e,como manda a regra, três em cadacinco canções são de dor-de-corno – eum par delas (“I felt the chill” e Howdeep is the red?”) teria sido perfeitona voz do grande Webb Pierce. O quefalta, então a este exercício de estilopara ser um disco demolidor? Faltaaquilo que Pierce, Merle Travis, RayPrice e Hank Thompson tinham, pormais parolos que fossem (e eram):intestino, pura crença na lamechiceque cantavam. De onde se concluique a Costello só lhe fazia bem sermenos esperto. J.B.ClássicaRameau najusta medidaCéline Frisch revelaas mútiplas facetas docompositor francês atravésde uma interpretaçãofluente e equlibrada, isentade maneirismos.Cristina FernandesJean-Philippe RameauPièces de ClavecinCéline Frisch (cravo)Alpha 134mmmmnA produção paracravo de Rameauantecede o seuimponente legadono domínio daópera – um géneroque apenas começou a abordar aos50 anos! — mas revela muitos traçosda sua personalidade musical cujoamadurecimento podemosacompanhar passo a passo através daselecção de obras que Céline Frischnos propõe neste CD. Esta inclui oPrimeiro Livro de Peças para Cravo(1706), gravado na totalidade, e duasSuites extraídas das colecçõespublicadas em 1724 (com reediçãoem 1731) e em 1728. Se no primeirocaso nos encontramos aindapróximos da antiga tradição da suitefrancesa, patente no “Prélude nonmesuré” inicial (peça que deixa partedos valores rítmicos ao critério dointérprete) e na série de danças quelhe sucedem, nas colectâneasseguintes o compositor explora novascores, ritmos e texturas e apresenta asua primeira peça de carácter: “LeRappel des Oiseaux”. É porém nas“Novas Suites” de 1728 queencontramos as páginas maisimaginativas, na sua maioria comtítulos extra-musicais. À exploraçãoda maior parte do recursos do cravo(incluindo os contrastes de registo, ouso de toda a extensão do teclado, ocruzamento das mãos ou a evocaçãode efeitos descritivos), Rameau une oseu saber como teórico pondo emprática ousadias harmónicas quechegam a atingir a dimensão de ummanifesto em “L’ Enharmonique”.Frisch oferece-nos uma excelenteinterpretação desta peça pela formaprimorosa como gere o tempo e asindicações expressivas do compositor(“gracieusement”, “hardiment”) aomesmo tempo que nos comunicauma introspectiva melancolia. Mas acravista revela também humor teatralno ágil cacarejar da galinha em “LaPoule”, pujança e vigor em trechostão famosos como “Tambourin” e“Les Sauvages”, brilhantismo elimpidez técnica em “L’Egyptienne”.Com uma bela “toucher” e sem oexagero de efeitos bizarros queencontramos noutras interpretações,Céline Frisch faz fluir a música comnaturalidade e equilíbrio, mostrandonoso génio de Rameau na sua justamedida.JazzO êxtasedos metaisO trompetista Dave Douglasreúne uma “brass band” deexcepção para homenageara música de Lester Bowie.Rodrigo AmadoDave DouglasSpirit MovesGreenleaf, distri. UniversalmmmmnNas notas queacompanham odisco, DaveDouglas refere: “Ocoração destamúsica são osmúsicos para os quais foi escrita. Énecessária uma dedicação louca paratocar estes instrumentos antigos,quase medievais, e há algo de arcaicono facto de, ainda hoje, soprarmosem tubos de metal, ajustando o som eafinação com os lábios.” Osintrumentos a que Douglas se referesão o seu próprio trompete, atrompa, tocada aqui por VincentChancey, o trombone, por LuísBonilla, e a tuba, a cargo de MarcusRojas. Juntamente com oextraordinário baterista NasheetWaits, formam a Brass Ecstasy, onovo projecto de Douglas dedicadoao espírito das “brass bands” einspirado na música do grande LesterBowie, uma das suas principaisinfluências. A música, focadaessencialmente nas subtilezas deinteracção entre os vários músicos,procura alcançar o tipo desimbiose que ocorria nasbandas de sopros das ruasde New Orleans,integrandoO novo projectode Dave Douglas inspira-seno grande Lester Bowieelementos oriundos das maisdiversas origens musicais numnotável trabalho derecontextualização sonora. Paracomplementar as suas própriascomposições, Douglas integraversões de “This love affair” (RufusWainwright), “Mr Pitiful” (OtisRedding / Steve Cropper) e “I’m solonesome I could cry” (HankWilliams), em arranjos que fundemos universos do jazz, rhythm & blues,funk e soul, evocando ainda ostrompetistas Enrico Rava e FatsNavarro, directamentehomenageados em dois dos temas.Destaque para o arranjo de “TheBrass Ring”, com uma belíssimaharmonia de entrada quegradualmente se transforma paraenvolver a mais vibranteimprovisação do disco pelo próprioDouglas. Apesar de este ser,indiscutivelmente, um excelenteregisto, não podemos deixar de nosinterrogar onde Douglas poderia terchegado com um pouco mais do fogoe da espiritualidade presentes emgrande parte do trabalho de Bowie.Ípsilon • Sexta-feira 4 Setembro 2009 • 39

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