A cartografia digital como instrumento de análise ambiental
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em qualquer região que o homem chegue, <strong>como</strong> espécie animal que é, eleintroduz mudanças e variações no habitat (...). O homem já <strong>de</strong>ixou <strong>de</strong> ser ummero aspecto da biogeografia (simples unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um ecossistema), para setornar cada vez mais um elemento afastado do meio físico e biológico em quevive (Drew, 1986:04).Ambientalmente, o Estuário do Rio Paraíba encontra-se em estado regular <strong>de</strong>conservação. Contudo, não se sabe ainda por quanto tempo. A franca expansão urbana<strong>de</strong>nota um caráter <strong>de</strong> <strong>de</strong>struição <strong>de</strong> um habitat que mantém e preserva muitosorganismos necessários à sobrevivência da população local. O <strong>de</strong>smatamento associadoà poluição dos rios põe em risco a existência <strong>de</strong> inúmeras espécies da fauna e da flora naárea estuarina. A <strong>de</strong>gradação da vegetação e o uso indiscriminado do solo estãoalterando a dinâmica ecossistêmica e colocando em risco todo o equilíbrio ecológico<strong>de</strong>sse ambiente.Os estuários são um dos principais ecossistemas da biosfera, apresentandouma gran<strong>de</strong> diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida, sendo responsáveis pelo recebimento <strong>de</strong> nutrientespara o ambiente fluvio-marinho. Contudo, constituem ambientes frágeis que estãosendo agredidos e <strong>de</strong>struídos pela ação antrópica.Os estuários se caracterizam principalmente por apresentar alto grau <strong>de</strong>fertilida<strong>de</strong>, sendo consi<strong>de</strong>rados <strong>como</strong> berçário <strong>de</strong> peixes e outros animais que procuramrefúgio para o seu <strong>de</strong>senvolvimento inicial. Odum <strong>de</strong>staca a importância dos estuários<strong>como</strong>locais <strong>de</strong> criação para espécies que permanecem nesses ambientes durantetodo o seu ciclo vital e espécies que iniciam a sua vida nos estuários, on<strong>de</strong> oalimento é abundante e a proteção contra os predadores aumenta acapacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> sobrevivência e o seu rápido crescimento (Odum, 1983:380).Os fragmentos <strong>de</strong> Mata Atlântica na região estuarina apresentam três gruposfaunísticos, compreen<strong>de</strong>ndo aves, insetos e pequenos mamíferos. As aves são oconjunto mais representativo com cerca <strong>de</strong> 66 espécies.Entre os impactos ambientais mais evi<strong>de</strong>ntes são apontados o <strong>de</strong>pósito <strong>de</strong>resíduos sólidos à margem dos rios, sendo transportados pela maré e acumulados nascroas 1[1] ou nos manguezais; <strong>de</strong>spejo <strong>de</strong> esgoto no rio Paraíba e afluentes; e a erosão namargem do canal <strong>de</strong> Forte Velho, ocasionada pela ocupação in<strong>de</strong>vida e pela retirada davegetação ciliar e do mangue. Este processo associado ao crescente <strong>de</strong>smatamento nas1[1] As croas consituem superfícies fluvio-marinhas <strong>de</strong>posicionais que ficam à <strong>de</strong>scoberta durante as marésbaixas.
margens dos rios e córregos estuarinos fornece gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> sedimentos,causando assoreamento e alargamento da lâmina <strong>de</strong> água no canal <strong>de</strong> Forte Velho e noleito do rio Sanhoá.Os vários elementos geográficos que caracterizam a área em estudo foramenfocados nos seus respectivos compartimentos, integralizando todas as singularida<strong>de</strong>spara melhor compreensão das relações e conexões entre eles, permitindo o norteamentodas ações <strong>de</strong> planejamento futuras.Dessa forma, são inegáveis a necessida<strong>de</strong> e importância do uso da <strong>cartografia</strong><strong>digital</strong> <strong>como</strong> <strong>instrumento</strong> <strong>de</strong> planejamento e representação do espaço geográfico. Orápido avanço do meio informacional na <strong>cartografia</strong> ocasionou uma gran<strong>de</strong> mudança esubstituição da <strong>cartografia</strong> tradicional por uma <strong>cartografia</strong> <strong>digital</strong>. Diversos programasviabilizam a elaboração e análise <strong>de</strong> mapas e imagens que permitem um maior estudo <strong>de</strong>seus fenômenos e características representados em meio <strong>digital</strong>. No início da décadapassada, as reflexões <strong>de</strong> Joly, confirmam a nova realida<strong>de</strong>:A introdução da <strong>cartografia</strong> automática é, sem dúvida nenhuma, oacontecimento mais importante e <strong>de</strong> maiores consequências ocorrido nahistória da <strong>cartografia</strong> nas últimas décadas. Digamos que ela inaugurou umcaminho novo, que não cessa <strong>de</strong> se <strong>de</strong>senvolver com rapi<strong>de</strong>z, a ponto <strong>de</strong> tornarobsoleto um bom número <strong>de</strong> técnicas tradicionais e <strong>de</strong> perturbar, ao extremo,tanto a concepção quanto a realização <strong>de</strong> mapas (Joly, 1990:26).Assim, este trabalho consiste na aplicação <strong>de</strong> técnicas da <strong>cartografia</strong> <strong>digital</strong>,servindo <strong>de</strong> suporte para uma análise <strong>ambiental</strong> mais aprofundada e espacialmente mais<strong>de</strong>finida da região estuarina do Rio Paraíba.Consi<strong>de</strong>rações finaisA análise <strong>de</strong> componentes do sistema estuarino evi<strong>de</strong>ncia uma compreensãomais integrada <strong>de</strong> todos os seus elementos que formam esta unida<strong>de</strong> da paisagem.Assim, são <strong>de</strong>stacados os elementos que compõem o sistema Estuário do Rio Paraíba esuas relações com o ambiente.A partir da abordagem geossistêmica foi <strong>de</strong>finida a compartimentação doambiente estuarino. Como primeira unida<strong>de</strong> geo<strong>ambiental</strong>, <strong>de</strong>limitou-se a PlanícieFlúvio-marinha, que compreen<strong>de</strong> uma superfície plana, com altitu<strong>de</strong> inferior a 10metros. O clima atua <strong>como</strong> fator prepon<strong>de</strong>rante nos tipos <strong>de</strong> solo da região, com
presença <strong>de</strong> areias quartzosas <strong>de</strong> granulometria fina a média e solos indiscriminados <strong>de</strong>mangue, cuja cobertura vegetal é caracterizada por manguezais e vegetação típica <strong>de</strong>praia. A re<strong>de</strong> <strong>de</strong> drenagem é bastante <strong>de</strong>nsa e significativa. Nessa unida<strong>de</strong> da paisagemo Rio Paraíba recebe o maior número <strong>de</strong> tributários da área em estudo, com <strong>de</strong>staquepara os rios Paroeira, Guia, Sanhauá, Mandacaru e Jaguaribe.Os Tabuleiros Costeiros formam a segunda unida<strong>de</strong>. Apresentam coberturasedimentar do Grupo Barreiras <strong>de</strong> origem do período Terciário. As altitu<strong>de</strong>s nestaunida<strong>de</strong> apresentam-se em dois níveis topográficos. Ao sul do estuário, on<strong>de</strong> se localizaa malha urbana <strong>de</strong> João Pessoa, as altitu<strong>de</strong>s médias variam entre 40 e 60 metros,configurando vales encaixados em forma <strong>de</strong> V, com uma área relativamente dissecadaem virtu<strong>de</strong> da erosão fluvial.A parte norte do estuário apresenta altitu<strong>de</strong>s próximas a 100 m. Neste setorocorre a maior expansão <strong>de</strong> áreas cultivadas, com predomínio da monocultura <strong>de</strong> cana<strong>de</strong>-açúcar.O tipo <strong>de</strong> solo predominante é o Podzólico Vermelho-Amarelo.A formaçãovegetal <strong>de</strong> Mata Atlântica apresenta-se em alguns setores isolados da área em estudo,<strong>como</strong> a Mata do Gargaú e a Mata do Buraquinho. A primeira localiza-se a sudoeste doestuário, no topo do tabuleiro em Santa Rita; já a segunda está inserida na área urbana<strong>de</strong> João Pessoa, a qual passou recentemente a ser <strong>de</strong>nominada Jardim BotânicoBenjamin Maranhão.A terceira unida<strong>de</strong> <strong>de</strong>limitada constitui a Planície <strong>de</strong> Restinga, que é formadapor uma faixa litorânea entre o Rio Paraíba e o oceano, <strong>de</strong> aproximadamente 15quilômetros, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o município <strong>de</strong> Cabe<strong>de</strong>lo até o bairro <strong>de</strong> Manaíra, em João Pessoa.Sua configuração morfológica é extremamente plana com altitu<strong>de</strong>s médias <strong>de</strong> 6 metrosque indicam um lençol freático bastante <strong>de</strong>nso. A presença <strong>de</strong> sedimentos arenosospredomina nesta unida<strong>de</strong>, as suas praias são protegidas por recifes <strong>de</strong> arenitos que seapresentam <strong>de</strong> forma retilínea.A vegetação <strong>de</strong> Restinga é compreendida em três áreas <strong>de</strong>ssa unida<strong>de</strong>: Mata daAMEM, Reserva Florestal do Estado e um pequeno trecho próximo à faixa litorânea,<strong>de</strong>nominada Ponta <strong>de</strong> Campina.Verificamos assim, que a área estudada é composta <strong>de</strong> diversida<strong>de</strong> morfológicae fitogeográfica. A região estuarina apresenta forte <strong>de</strong>scontinuida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vegetação <strong>como</strong>resultado <strong>de</strong> intensa intervenção antrópica.A parte leste da região é a mais problemática, em virtu<strong>de</strong> do rápido processo <strong>de</strong>expansão urbana nas últimas décadas. Assim, o estudo <strong>de</strong>sses sistemas possibilita uma
ampla reflexão sobre uma política <strong>ambiental</strong> que vise à conscientização e à necessida<strong>de</strong>urgente <strong>de</strong> sua conservação.Referências BibliográficasBERTRAND, G. Paisagem e Geografia Física Global – Esboço Metodológico.Trad. O. Cruz. Ca<strong>de</strong>rnos <strong>de</strong> Ciências da Terra, 13. São Paulo: IGUSP, 1972.DREW, David. Processos Interativos Homem Meio Ambiente. Trad. João A. dosSantos. São Paulo: Difel, 1986.JOLY, Fernand. A <strong>cartografia</strong>. Trad. Tânia Pellegrini. Campinas: Papirus, 1990.MELO, Dirce Ribeiro. Geossistemas: Sistemas Territoriais Naturais. BeloHorizonte. Notas <strong>de</strong> aulas, 1995.MONTEIRO, C. A. <strong>de</strong> Figueiredo. Geossistemas: A História <strong>de</strong> uma Procura. SãoPaulo: Contexto, 2000.ODUM, Eugene P. Ecologia. Trad .Ricardo I. Rios. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Guanabara,1988.SEABRA, Giovanni <strong>de</strong> F. Estudo Geomorfológico da Região Cárstica <strong>de</strong>Andaraí: Uma Contribuição à Conservação <strong>de</strong> Cavernas (Dissertação <strong>de</strong>Mestrado). Recife: Departamento <strong>de</strong> Geografia/UFPE, 1991.SOTCHAVA, V. B. O Estudo <strong>de</strong> Geossistemas. Trad. Carlos A. F. Monteiro e DoraRomariz. Métodos em Questão, 16. São Paulo: IGUSP, 1977.