Discurso de Homenagem Póstuma ao Acad. Gerson Cotta - Pereira ...

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Discurso de Homenagem Póstuma ao Acad. Gerson Cotta - Pereira ...

Sessão Solene de Homenagem Póstuma aoAcadêmico Gérson Cotta PereiraTitular da Cadeira 87 (Patrono João Baptista de Lacerda)Academia Nacional de Medicina18 de Março de 2010Excelentíssimo Acadêmico Prof. Pietro Novelino, D.D. Presidente da AcademiaNacional de Medicina;Excelentíssimas Autoridades que compõem a Mesa Diretora desta Sessão;Acadêmicas e Acadêmicos aqui presentes;Ilustríssimos Familiares e Amigos do Acadêmico Titular Gérson Cotta Pereira;Ilustres Senhoras e Senhores que vieram partilhar conosco este momento:Hoje a Academia Nacional de Medicina se reúne solenemente paracelebrar a vida do Acadêmico Gérson Cotta Pereira, cuja ausência setransforma em perene presença, pois a amizade é mais viva que oesquecimento. A razão para esta celebração é a certeza de que “a memóriaalimenta a cultura de um povo, nutre a esperança e torna humano o serhumano”, como tão bem disse o grande pensador Eliezer Wiesel, Prêmio Nobelda Paz de 1986.O Acadêmico Cotta Pereira nasceu em Niterói aos 18 de agosto de1942. Seus pais, o desenhista Domingos dos Santos Pereira e a professoraDionysia Cotta Pereira, lhe deram esmerada educação, sendo que de seu paiherdou o dom artístico que utilizou com mestria e beleza em suas memoráveisaulas de embriologia.Fez o curso Ginasial e Científico no Colégio Estadual do Liceu NiloPeçanha, em Niterói, onde desenvolveu várias atividades paralelas, tais comoa de organizar a biblioteca e de preparar peças taxidérmicas para o museu deHistória Natural. Seu envolvimento extracurricular era tão grande que mereceudo Diretor da Instituição a autorização para ter acesso às suas dependências aqualquer hora do dia. Foi nesse Colégio que seu deu o encontro que marcousua vida, pois aí conheceu Eliana, futura esposa e mãe de seus filhos.1


Em 1962 ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, tendo desde oinício do curso se aproximado do Prof. Francisco Bruno Lobo, que foi seuprimeiro e grande mestre de histologia e embriologia. Ainda estudante, oProfessor Bruno reconheceu seus excepcionais dotes didáticos, razão pelaqual o encarregou de ministrar aulas não só para os alunos de graduação daFaculdade Nacional de Medicina, como em outras Universidades do País,como a de Brasília, em fase de instalação. Suas habilidades, amplamentereconhecidas por seus professores, fizeram com que, ao concluir o cursomédico, fosse imediatamente contratado como assistente do Departamento deEmbriologia e Histologia da Faculdade de Medicina da UFRJ, onderapidamente obteve o Doutorado em Medicina em 1970, mesmo ano em quetambém obteve o título de Professor Livre Docente pelo Instituto de CiênciasBiomédicas da mesma Universidade.O Acadêmico Gerson Cotta Pereira foi ao longo de toda sua vidaprofessor de grande talento e apaixonado pelo ensino. Com giz e quadro negroera capaz de apresentar com tal vivacidade, clareza e naturalidade odesenvolvimento embriológico, que os ouvintes como que eram testemunhasoculares desses fenômenos biológicos. Por essa razão, creio que entre todosos seus muitos títulos, o que melhor o descreva seja o de Professor.Incentivado pelo Professor Carlos Chagas Filho, que percebeu suacapacidade científica, realizou inicialmente o pós-doutorado em BiologiaCelular e Microscopia Eletrônica no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras,Portugal, entre 1972 e 1973. Após esse período, permaneceu ligado a essaInstituição como Investigador Visitante entre 1975 e 1992, e como ProfessorCatedrático Visitante do Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade deMedicina da Universidade do Porto entre 1987 e 1992. Esses convites, querepresentam o quanto era estimado e respeitado nessas importantesInstituições Científicas, permitiram que estabelecesse uma colaboraçãocontinuada e duradoura com seus colegas portugueses.Posteriormente realizou mais três estágios de longa duração no exterior,como Visiting Scientist, primeiro no Departamento de Patologia e Bioquímicada Escola de Medicina da Universidade de Washington, em Seattle, USA, entre2


1978 e 1979, depois no Departamento de Bioquímica da Faculdade deMedicina de Creteil, da Universidade de Paris, em 1983, e finalmente, em1988, no Departamento de Microbiologia da Universidade de Maryland, USA.Permaneceu como Sua excepcional trajetória profissional o levou a conquistaratravés de concursos públicos os cargos de Professor Titular de Histologia eEmbriologia da UERJ e da UFRJ. Na UERJ foi Sub-Reitor de Pós-Graduação ePesquisa e na UFRJ foi Diretor Adjunto de Ensino de Pós-Graduação.Ponto importante de sua carreira foi a eleição para esta AcademiaNacional de Medicina, ocorrida aos três de outubro de 1991, tendo tomadoposse da Cadeira no. 87, cujo Patrono é João Batista de Lacerda, aos 7 deabril de 1992. Foi Primeiro Secretário desta Casa na Diretoria presidida peloAcadêmico Pietro Novellino, que serviu no biênio de 2003 a 2005.Como expressão do reconhecimento de seus pares, Gerson foi membrotitular não só desta Academia Nacional de Medicina, como também daAcademia Fluminense de Medicina, da Academia de Medicina do Rio deJaneiro, da Academia Brasileira de Medicina Militar e da Academia Latino-Americana de Nutrologia. Também foi Membro Honorário da AcademiaAmazonense de Medicina.Já aposentado, sua inesgotável energia o levou a assumir a chefia da 3ª.Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, onde estabeleceuem 1995 o Serviço de Imunoquímica e Histoquímica.Em muitos outros importantes cargos e funções o Professor CottaPereira deu sua contribuição, sempre com uma quase que obstinada dedicaçãoao ensino e à pesquisa, espelhada tanto no grande número de publicaçõescientíficas como na pletora de mestres e doutores por ele formados.Como cidadão, sua contribuição social foi reconhecida através dasmuitas honrarias e prêmios que recebeu, dentre os quais salientaria asInsígnias da Ordem de Santiago da Espada, oferecida pelo governo português;a Medalha Tiradentes, oferecida pela Assembléia Legislativa do Estado do Riode Janeiro; a Medalha José Clemente Pereira, oferecida pela CâmaraMunicipal de Niterói; e as Insígnias de Cavaleiro da Ordem Soberana Militar e3


Hospitalar de São João de Jerusalém, Rodes e Malta, concedida pelo GrãoMestre sob a autorização de Sua Santidade o Papa João Paulo II.Não posso deixar de lembrar que seu amor às tradições o fez grandesimpatizante e participante do movimento monárquico brasileiro, razão pelaqual em seus locais de trabalho sempre teve expostos os retratos de nossosImperadores e da Princesa Regente. Talvez essa seja uma das razões de seugrande carinho por esta Academia, que tão foi apreciada por D. Pedro II e seconstitui em um dos repositórios dessas tradições, particularmente através dadocumentação cuidadosamente preservada em nossos Arquivos.Tendo traçado as linhas básicas de sua carreira, ainda que de longe nãotenha esgotado seus feitos, pude evidenciar a grandeza científica euniversitária do Acadêmico Gerson Cotta Pereira.Agora, ouso adentrar nas veredas que muitos de nós com ele trilhamos,em graus variados. Veredas que percorremos despojados de títulos ehonrarias, unicamente sob a égide da amizade que pudemos privar com ocompanheiro e amigo Gerson.Por trás de uma timidez que o fazia, muitas vezes, aparentar umaseriedade que impunha distância, havia um homem simples, sensível eamoroso. A perfeita compreensão desses seus sentimentos exigia como queuma análise hermenêutica de suas formas de expressão.Quem o conheceu mais de perto sabe que Gerson exibia o típico perfildo colecionador minucioso, atento aos detalhes, sempre pronto para observar,registrar e classificar seus achados. Assim, lhe foi possível organizar como queum verdadeiro museu ao seu redor, constituído por suas coleções de blocos elâminas de material histológico, diapositivos e fotos de material científico,instrumentos de laboratório utilizados no passado, documentos dos maisvariados tipos, livros e objetos antigos, e por fim, mas não menos importante,objetos que lhe recordavam momentos de alta densidade afetiva.Por isso, penso que seus sentimentos melhor poderiam ser conhecidosse tivéssemos a possibilidade de esquadrinhar suas gavetas, arquivos epequenas caixas, repletos de recordações – marcas de seus bem quereres e4


afetos. De fato, só agora, pelas mãos de sua esposa, saem pela primeira vezdo castelo interior de sua timidez, alguns desses vestígios. Lá está, porexemplo, a revista que permitiu declarar seu amor e interesse por Eliana,guardada como que secretamente ao longo desses muitos anos.Por outro lado, quem privou de sua amizade sabe que Gerson detinhaprincípios rígidos que o levavam a buscar a observância rigorosa da verdade eo faziam um apaixonado da exatidão. Esses mesmos princípios o levavam, porvezes, a ser inflexível. Por outro lado, lhe conferiam a firmeza nas decisões e aconstância nas afeições e sentimentos. Assim compreendido, se manifestacom clareza a razão maior pela qual foi fiel e leal aos seus amigos. Mais queisso, o fato de ter sido cristalino e verdadeiro, revelando-se sempre aquilo quede fato era.Só o amor e a amizade dão a coragem necessária para despojar aimagem gerada e mantida pelas forças da auto-estima, da vaidade e doorgulho. Só quando revelado na essência daquilo que de fato se é, vencida avergonha das limitações, defeitos e feiúras – desnudado à luz da verdade – épossível atingir esse patamar mais alto onde imperam a confiança e afidelidade, pilares da segurança, da serenidade e da paz. O amor e a amizadenão só permitem que um se revele ao outro, mas levam ao autoconhecimento.O aforismo “cogito, ergo sum” (penso, logo existo) de Descartes perde seusentido quando se pode proclamar “diligo, ergo sum” (amo, logo existo).Quem privou com Gérson não necessita de muitas palavras parahomenageá-lo ou louvá-lo. Basta chamá-lo pelo substantivo maior: Amigo.Eliana, sua esposa por um tempo que o amor fez contraditoriamente sereterno e tão curto, deve compreender bem o que acabo de dizer, pois Gérsonnão foi só seu esposo, mas foi seu amigo. Em outros graus e dimensões, nósque aqui hoje viemos, temos em comum a amizade que nos une a Gérson.Se por um lado, todos nós vivemos sua amizade, poucos tiveram apossibilidade de privar seu processo de morrer e sua morte. Como amigo esacerdote tive essa verdadeira graça e sou testemunha de que poucas vezes vialguém reconhecer sem temor a insinuação da morte e acolhê-la com tal5


serenidade como Gerson o fez. Certamente sua fé religiosa lhe permitiucolocar-se nas mãos de Deus com confiança, na certeza de que Seu amor ésempre maior do que o nosso amor e, mais do que isso, é maior que o nossodesamor, pois a dimensão maior do amor é o perdão. Essa é a via privilegiadaque conduz para a paz interior que estabelece a plenitude da vida. Gerson apercorreu toda inteira. Por esta razão, acrescido do fato de em momento algumter experimentado a dor física, para os que de fato amavam Gerson, sua mortefoi causa de alegria interior, ainda que sua ausência possa trazer a dor dasaudade.Durante alguns anos, na década de 80, dediquei-me ao cuidado depacientes terminais do HIV, tendo com eles morado em uma casa deacolhimento que tive a oportunidade de estabelecer em São Paulo. Nessaépoca, quando não se sabia sequer o agente causador da doença, a sobrevidadesses enfermos era muito curta e pouco havia a ser feito além de oferecercuidados básicos e acolhimento afetuoso. Para muitos daqueles pacientes,vindos de situações de total abandono e desamor através das vielas escurasdos usuários de drogas e da prostituição, esse encontro humano lhes dava apossibilidade de se descobrirem amados e respeitados. Assim, presenciei amorte serena de muitos deles, pois haviam se encontrado a si próprios eresgatado seus sentimentos mais suaves e nobres pelo toque misterioso etransformador do amor e da amizade. Tive então a oportunidade decompreender um pouco melhor o sentido da vida e o processo da morte e domorrer, não só através da convivência, mas também pelo estudo e reflexão.Assim, os contatos que tive com Gerson nos últimos quinze dias de suavida me reavivaram reflexões suscitadas por vários autores, dentre os quaisGabriel Marcel que, contrariando outros filósofos, afirma que nãocompreendemos a morte a partir de sua antecipação ou de sua experiênciadireta, mas, através da morte do outro que amamos. Certamente a morte deGerson fez com que os que estiveram ao seu lado pudessem compreendermelhor a morte e, a partir dela, a vida.Peço licença para referir um dos escritos de um amigo comum, meu e deGerson – o Professor Daniel Serrão – Acadêmico Honorário Estrangeiro desta6


Casa e Catedrático Jubilado de Anatomia Patológica da mesma Universidadedo Porto, onde Gerson por muitos anos foi Professor Catedrático Visitante.Escreveu o Professor Serrão: “A morte não existe, existo, sim, eu, quemorrerei”. De fato existiu, sim, Gerson, que morreu. Morreu porque viveu, evivendo construiu os conhecimentos novos advindos de suas pesquisas eformou novos profissionais, capazes de levar adiante seus estudos eensinamentos, tornando perene sua memória. Vivendo, amou, e amandoestabeleceu sua família e gerou seus filhos. Amando e sendo amadoestabeleceu laços de amizade que se projetam na eternidade através degestos de ternura. Charles Chaplin poeticamente dizia que "o homem nãomorre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar". E Gerson amouintensamente sua família e seus amigos. Morrendo, tudo o que possuía deulugar para o que ele era. Gerson é agora sua essência, que se irá revelandopouco a pouco aos que amou e aos que o amaram. Indo além de Chaplin,tenho a certeza de que aquele que se ama não morre, pois se tornaplenamente e permanentemente presente pelo amor. Por essa razão, Marcelsublinha que “os verdadeiros mortos são aqueles a quem não amamos”. Ou,aqueles que nos são indiferentes, com bem colocou Elie Wiesel ao afirmar que“o oposto da vida não é a morte, é a indiferença."A cada uma destas cerimônias de adeus aos pares que partem antes denós, a Academia se engrandece e fortalece a continuidade e perenidade desua presença na sociedade brasileira, pois elas marcam a entrada para ahistória daqueles que por tão altos méritos se tornaram titulares, para sempre,de uma de suas cadeiras. Assim, cada Acadêmico agrega definitivamente àsua cadeira os seus próprios méritos e valores, razão pela qual a cadeira 87hoje é mais valiosa. Cada um de seus futuros ocupantes relembrará em todasas solenes celebrações a figura ímpar do ilustre predecessor, Acadêmico Prof.Dr. Gerson da Cotta Pereira, e nisto se dará sua imortalidade acadêmica.Agora quero dirigir-me em particular a Eliana, esposa e companheira fiel,que em tantos momentos soube abrir mão de sua própria carreira paraacompanhar Gerson a Portugal, França e Estados Unidos da América doNorte. Mais que isso, que lhe deu o apoio tantas vezes necessário paraenfrentar os embates da vida. Seu marido, Eliana, não teria realizado tudo que7


ealizou sem seu apoio, carinho e companhia. Sem sua amizade. Receba,portanto, esta homenagem como alguém que também a fez merecida. Por estarazão, esta Casa é sua, e sua presença aqui será sempre causa de alegriapara todos. Não nos esqueça.Aos três filhos, Guilherme, Ricardo e Leonardo, só posso desejar que,tendo recebido do ilustre pai tão claros exemplos de dignidade e dedicação aotrabalho, não sejam tão somente herdeiros dos valores do Acadêmico GersonCotta Pereira, mas que os engrandeçam com os próprios dons e qualidades.Certamente a inteligência e esmerada educação que receberam lhes permitirásuperarem, cada um ao seu modo e diante de suas próprias escolhas, opróprio pai. Ser superado pelos filhos seria causa de orgulho e alegria para ele.Aos discípulos e alunos do Professor Cota Pereira, desejo também quecontinuem a obra por ele iniciada e que a levem a novos e mais altospatamares científicos. Assim ele se fará presente nas gerações futuras.Prezados pares desta Casa, saiamos daqui, hoje, com a certeza de que"Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada”, como escreveu oPoeta Maior, Fernando Pessoa. Assim, tenhamos Gerson como nossocompanheiro perene, para quem estamos por chegar, logo mais, em umadessas curvas da estrada da vida.Enfim, agradeço a atenção de todos e solicito que saudemos oAcadêmico Titular Gerson Cotta Pereira com as nossas palmas, que, porserem acadêmicas, representam nosso elogio e gratidão.8

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