Caracterização do consumo de meios de comunicação portugueses ...

www2.ufp.pt

Caracterização do consumo de meios de comunicação portugueses ...

Caracterização do consumo de meios decomunicação portugueses no início doséculo XXI. Análise das alteraçõesocorridas com o aparecimento da Internet.Álvaro Miguel da Costa CairrãoGalvão dos Santos MeirinhosInvestigadores da Fundação para a Ciência e a Tecnologia


ÂMBITO DA INVESTIGAÇÃOO consumo de meios é um dos temas que mais preocupa os planificadores eprogramadores de meios de comunicação ao alcance do sujeito. Esta investigaçãopretende averiguar a importância dos meios e suportes na vida diária dosestudantes universitários portugueses, e reflectir sobre os processos sociais etécnicos envolvidos na mudança de comportamentos de consumo. Neste sentido,este trabalho está submetido à regra da actualização constante da metodologia eao estudo periódico do consumo de meios desta população.HISTORIALA linha de investigação dos “Usos e Gratificações” tem as suas origens nadécada de 40 quando o interesse dos científicos se orientou no reconhecimento eclassificação dos comportamentos dos sujeitos consumidores de Meios deComunicação. Ao longo das décadas de 50 e 60 esta corrente centrou as suaspreocupações na estabilização teórica no plano sociológico e psicológico. Estaabordagem dos meios de comunicação tem como base o (...) concepto debúsqueda de satisfacciones por parte de la audiencia, sobre el queactúan, sim embargo, toda una serie de variables antecendentes,como la estrutura de los medios y la tecnología que emplean, elentorno social, características psicológicas de los usuarios, susnecesidades, valores y creencias (Wimmer e Dominick, 1996:370).Verificamos portanto que, o campo dos “Usos e Gratificações” é um cenáriomultivariado em que cada uma das variáveis tem uma complexidade intrínseca euma dinâmica de influência extrínseca.


H. Herzog (1944) e B. Berelson (1949) estimularam a comunidade académicacom os seus estudos baseados nesta perspectiva, a qual se revelou uma forma suigeneris de abordagem dos Meios de Comunicação. Os estudos de Herzogreconheceram a descarga emocional; fuga da rotina e procura de conselhos comogratificações básicas relacionadas com as radionovelas da época. Por seu lado,Berelson reconheceu a procura da informação, o prestígio social e o carácterutilitário do suporte como causas principais da leitura dos jornais no final dadécada de 40.Esta linha de investigação teve um importante apoio da indústria mediática cujosinteresses estavam directamente relacionados com o aumento da satisfação daaudiência. Neste sentido, W. Schramm, J. Lyle e E. Parker (1961) estudaram ospúblicos mais jovens no intuito de saberem quais são as variáveis psicológicas esociológicas mais relevantes na descodificação das mensagens. Segundo estesautores, o processo de descodificação das crianças está directamente relacionadocom as suas capacidades intelectuais e com a relação mediática experimentadacom os pais e familiares mais próximos. Por outro lado, B. Greenberg (1974)reconheceu e relacionou a agressividade das crianças com os estímulos violentos edesumanos veiculados pelos meios de comunicação de massas.Mais recentemente e dentro do campo televisivo, Van Evra (1990) apresentouum modelo teórico sobre o impacto da televisão que relaciona o uso do meio, otempo de consumo, meios de informação alternativos e a realidade percebida. Nanossa opinião, este trabalho é a prova da complexidade do processo de consumotelevisivo por envolver variáveis de génese distinta. Pela análise dos estudosconsiderados na elaboração desta investigação, verificamos por um lado que oprofissionais da programação de meios anseiam conhecer as necessidades daaudiência, enquanto que os académicos incidem as suas preocupações nasistematização e modelização teórica.


METODOLOGIAOs investigadores que operam segundo a teoria dos usos e gratificaçõesutilizam sobretudo o método do questionário (Wimmer e Dominick, 1996). O estudofoi desenvolvido junto a alunos da Universidade Fernando Pessoa (Porto-Portugal)mediante um questionário escrito com uma organização estruturada e perguntasfechadas com escalas de tipo Likert. Com este instrumento pretendeu-seconhecer simultaneamente o consumo de meios (imprensa, televisão, radio, cinemae internet) e a utilização de suportes de informação portugueses. O públicoanalisado nesta investigação foi escolhido por razões de conveniência, e poracreditarmos tratar-se de uma audiência formada e consciente das suas escolhasde consumo de meios.O questionário foi distribuído entre os dias 2 e 30 de Maio de 2001 nasecretaria de alunos da Universidade Fernando Pessoa tendo-se obtido um total de102 questionários respondidos. A informação recolhida foi submetida a umtratamento estatístico (descritivo e inferencial - estudo dos efeitos de associaçãoentre variáveis) com o pacote de software Statical Package Social Science (SPSSversão 7.5). Com este trabalho de investigação pretendiamos testar quatrohipóteses operativas:Hipótese nº1As pessoas inquiridas que apresentam um consumo mais elevado de televisãodemonstram simpatia pelos serviços telemáticos;Hipótese nº2As pessoas inquiridas que costumam ler jornais demonstram simpatia pelosserviços telemáticos;Hipótese nº3As pessoas inquiridas que ouvem as emissoras de rádio Antena 3 ou a TSFdemonstram simpatia pela World Wide Web;


Hipótese nº4As pessoas inquiridas que demonstram simpatia pela World Wide Webfrequentam o cinema.Antes de passarmos à discussão concreta dos resultados do teste de hipótesesefectuado mediante o Qui-Quadrado (χ 2 ), apresentamos de seguida uma análisegeral descritiva das principais frequências para cada uma das variáveis submetidasa resposta nesta investigação.De um total de 102 alunos inquiridos com uma média de idades de 24 anos, 43sujeitos costumam ler os jornais “várias vezes por semana” e 20 sujeitos lêem aimprensa “todos os dias”. Dito de outra forma, verificamos um hábito de leitura daimprensa em 61.8% dos sujeitos inquiridos nesta investigação.20Bar Chart10Frequency01920212223242526272829303137IdadeRelativamente aos produtos que mais despertam a simpatia dos sujeitos temos oJornal de Notícias com 67.6%, o jornal “O Público” com 57% e o jornal “Expresso”com 44% dos sujeitos a reconhecerem a sua simpatia por estes suportes deinformação escrita.


Bar Chart50403020Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaImprensa-Simpatia-Jornal de Notícias30Bar Chart2010Frequency0NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaImprensa-Simpatia-Expresso40Bar Chart3020Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaImprensa-Simpatia-Público


Relativamente ao meio televisivo, verificamos que 84 dos 102 sujeitos inquiridos(49 do sexo masculino e 53 do sexo feminino) vêem entre uma e quatro horasdiárias de televisão. E, as medidas de tendência central dizem-nos que os sujeitosvêem em média 3 horas de televisão (mean=2.99; mode=3 e median=3), ondetemos valores mínimos e máximos de visualização compreendidos entre 0 e 7horas de consumo diário.40Bar Chart3020Frequency10001234567Televisão-Frequência-VerEm termos de cadeias de televisão, os sujeitos expressam a sua simpatia naseguinte ordem: a Televisão Independente com 51%; a RTP2 com 43.1%; a RTP1 e aSIC com 32.4% da simpatia dos inquiridos.60Bar Chart40Bar Chart503040302020Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaFrequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaTelevisão-Simpatia-RTP1Televisão-Simpatia-RTP2


40Bar Chart50Bar Chart3040302020Frequency100Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaNenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaTelevisão-Simpatia-SICTelevisão-Simpatia-TVIRelativamente ao meio radiofónico, verificamos que 81 (79.4%) dos 102 sujeitosouvem entre uma e três horas diárias de Rádio (mean=2.48). A partir das respostasdadas, verificamos que 64.7% dos inquiridos responderam entre uma e duas horasdiárias (mode=1 e median=2), e uma ampla variabilidade de respostas entre 0 e 12horas diárias de consumo de Rádio (std.Deviation=2.17).40Bar Chart302010Frequency0012345681012Rádio-Frequência-OuvirEm relação à simpatia pelas oito estações de Rádio consideradas nainvestigação, a Rádio Comercial (mean=3.86 e mode=4); a RFM (mean=3.82 emode=4); a TSF (mean=2.94 e mode=3) e a Antena 3 (mean=2.94 e mode=3)


assumem os valores mais expressivos no campo da simpatia dos sujeitosinquiridos.40Bar Chart40Bar Chart30302020Frequency100Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaNenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaRádio-Simpatia-Antena 3Rádio-Simpatia-Rádio Comercial50Bar Chart50Bar Chart404030302020Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaFrequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaRádio-Simpatia-RFMRádio-Simpatia-TSFRelativamente à Internet, verificamos que 60.8% da frequência de navegaçãodos sujeitos está entre “uma vez por semana” e “todos os dias” (mode=4). O quequer dizer que mais de metade dos sujeitos envolvidos neste estudo utilizam comcerta frequência as ferramentas telemáticas como meios de acesso e consumo deinformação electrónica.No que se refere ao número de horas diárias de navegação, verificamos que43.75% dos sujeitos navegam uma hora por dia (mode=1) e 62.5% dos sujeitosnavegam entre uma e duas horas diárias (median=2).


8Bar Chart642Frequency012345Internet-Navegação por diaNo plano dos serviços telemáticos mais considerados, temos a World Wide Web(mean=3.58; median=4 e mode=4) e o E-mail (mean=3.72; median=3.58 emode=4) como os serviços mais valorizados pelos sujeitos inquiridos. Os serviçostelemáticos que menos simpatia despertam nos sujeitos são o Internet Relay Chat(mean=2.45 e mode=2) e o File Transfer Protocol (mean=2.58).40Bar Chart302010Frequency0NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaInternet-Simpatia-WWW


Bar Chart40302010Frequency0NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaInternet-Simpatia-IRC50Bar Chart403020Frequency100NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaInternet-Simpatia-E-mail


Bar Chart302010Frequency0NenhumaPoucaAlgumaBastanteMuitaInternet-Simpatia-FTPRelativamente ao Cinema, a frequência de ida ao cinema está entre “várias vezes aoano” e “uma vez por semana” – (mean=2.89 e median=3). Os géneroscinematográficos que mais despertam a simpatia são: a comédia (mean=3.99); osuspense/intriga (mean=3.94); a acção (mean=3.75); as aventuras (mean=3.55); aficção (mean=3.34) e o histórico (mean=3.25). Do lado dos géneros cinematográficosmenos considerados pelos sujeitos inquiridos temos o pornográfico (mean=1.78); omusical (mean=2.33) e o erótico (mean=2.41).50Bar Chart403020Frequency100NuncaUma Vez por Semana Todos os DiasVárias Vezes por Mês Várias Vezes por SemCinema-Frequência


De seguida discutiremos os resultados do teste das hipóteses operativas eestruturantes deste trabalho de investigação.Em relação à hipótese 1: “As pessoas inquiridas que apresentam um consumo maiselevado de televisão demonstram simpatia pelos serviços telemáticos”, verificamos ainexistência de associação entre a frequência de consumo de televisão e a simpatia pelosserviços telemáticos. Os cruzamentos do consumo de televisão com cada um dos serviçostelemáticos apresentam confirmação da hipótese nula, onde no caso da World Wide Webo χ 2 (28)=26.2, p=.561; no caso do IRC o χ 2 (28)=23.6, p=.699; no caso do E-mail oχ 2 (28)=27, p=.518 e no caso do FTP o χ 2 (28)=27.3, p=.501 .Case Processing SummaryTelevisão-Frequência-Ver *Internet-Simpatia-WWWTelevisão-Frequência-Ver *Internet-Simpatia-IRCTelevisão-Frequência-Ver *Internet-Simpatia-E-mailTelevisão-Frequência-Ver *Internet-Simpatia-FTPCasesValid Missing TotalN Percent N Percent N Percent85 83,3% 17 16,7% 102 100,0%84 82,4% 18 17,6% 102 100,0%86 84,3% 16 15,7% 102 100,0%81 79,4% 21 20,6% 102 100,0%Em relação à hipótese 2: “As pessoas inquiridas que costumam ler jornaisdemonstram simpatia pelos serviços telemáticos”, identificamos uma associação parcialentre a frequência de leitura de jornais e a simpatia dos inquiridos pelos serviçostelemáticos. Existe uma associação relativamente forte entre a frequência de leitura dejornais e a World Wide Web (χ 2 (16)=29.1, p=.023). Em relação aos demais serviços


telemáticos, verificamos a inexistência de associação onde o IRC apresenta umχ 2 (12)=10.3, p=.586; o E-mail um χ 2 (12)=13.8, p=.308 e o FTP um χ 2 (12)=14.1, p=.291.Case Processing SummaryImprensa-Frequência *Internet-Simpatia-WWWCasesValid Missing TotalN Percent N Percent N Percent85 83,3% 17 16,7% 102 100,0%Imprensa-Frequência *Internet-Simpatia-IRCImprensa-Frequência *Internet-Simpatia-E-mail84 82,4% 18 17,6% 102 100,0%86 84,3% 16 15,7% 102 100,0%Imprensa-Frequência *Internet-Simpatia-FTP81 79,4% 21 20,6% 102 100,0%Em relação à hipótese 3: “As pessoas inquiridas que ouvem as emissoras de rádioAntena 3 ou a TSF demonstram simpatia pela World Wide Web”, identificamos uma forteassociação entre a escuta destas emissoras e a simpatia pela World Wide Web. Ossujeitos que escutam a Antena 3 (χ 2 (16)=31.7, p=.011) e a TSF (χ 2 (16)=34.7, p=.004)apresentam uma forte simpatia pela navegação na World Wide Web.Case Processing SummaryRádio-Simpatia-Antena 3 *Internet-Simpatia-WWWRádio-Simpatia-TSF *Internet-Simpatia-WWWCasesValid Missing TotalN Percent N Percent N Percent83 81,4% 19 18,6% 102 100,0%84 82,4% 18 17,6% 102 100,0%


Em relação à hipótese 4: “As pessoas inquiridas que demonstram simpatia pela WorldWide Web frequentam o cinema”, verificamos a inexistência de associação entre asimpatia pela World Wide Web e a frequência ao cinema (χ 2 (16)=20.29, p=.207).Case Processing SummaryInternet-Simpatia-WWW *Cinema-FrequênciaCasesValid Missing TotalN Percent N Percent N Percent85 83,3% 17 16,7% 102 100,0%


BIBLIOGRAFIABERELSON, B. (1949). What missing the newspaper means. in P. Lazarsfeld e F.Stanton (eds.), Communication research, 1948-49. New York: Harper e Row.GREENBERG, B. S. (1974). Gratifications of television viewing and theircorrelates for British children in J.G.Blumler y E. Katz (eds), The uses ofmass communication. Beverely Hills, CA: Sage Publications.HERZOG, H. (1944). What do we really know about dautime seriallisteners? in P. Lazarsfeld e F. Stanton (eds.), Radio research, 1942-43. NewYork: Duell, Sloan e Pearce.SCHRAMM, W.; LYLE, J. e PARKER, E. (1961). Television in the lives of ourchildren. Standford, CA: Stanford University Press.VAN EVRA, J. (1990). Television and child development. Hillsdale, NJ:Lawrence Erlbaum.WIMMER, R. e Dominick, J. (1996). La investigación científica de los mediosde comunicación. Barcelona: Bosch.WINDAHL, S. (1981). Uses and gratifications at the crossroads. in G. Wilhoite deBock (eds.), Mass Communication review yearbook. Beverly Hills, CA:Sage Publications.

More magazines by this user
Similar magazines