Temperatura média da superfície Crescimento da área urbana de ...

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Temperatura média da superfície Crescimento da área urbana de ...

Por que ocorre o efeito ilha urbana de calorZONA RURALcidadeinfográfico alexandre affonso3º a 10ºCAbsorçãoe retençãode calorMAIORmais quenteMENORTranspiraçãodas plantas eevaporação daágua do soloPenetraçãode águasa, quando a cidade chegou a ser 3,5%mais seca do que a floresta. “Esses dadosmostram claramente o efeito ilhade calor em Manaus”, afirma Regina,engenheira cartográfica especializadano mapeamento de usos e cobertura daterra para modelagem meteorológica.Em Belém, os estudos da dupla do Cemadennão conseguiram caracterizar adimensão do efeito ilha urbana de calordevido à ausência de longas séries históricascom dados diários, obtidos dehora em hora, em diferentes pontos dacidade e de seu entorno não desmatado.No entanto há indícios de que esse fenômenona capital paraense – a décimaprimeira mais populosa cidade brasileira,com pouco mais de 1,4 milhão de pessoas– apresenta seus valores máximosdurante a madrugada.Embora possam parecer pequenaspara os milhões de moradores das duasmegacidades brasileiras (São Paulo eRio de Janeiro), as capitais do Amazonase do Pará se tornaram grandesaglomerados urbanos para os padrõesmundiais. Se fossem, por exemplo, cidadesfrancesas ou italianas, ficariamatrás, em termos populacionais, apenasde Paris e Roma.Dois picosUm aspecto singular, e polêmico, apontadopelo estudo foi a identificação dedois picos diários em que o efeito ilhade calor se exacerba na capital amazonense:o primeiro por volta das 8 horasda manhã e o segundo entre as 15 e as 17horas. “Na maioria das cidades há apenasum pico diário do efeito ilha de calore ele em geral ocorre durante a noiteou madrugada”, diz o meteorologistaSouza. Os pesquisadores não sabem aocerto por que os picos ocorrem nessesdois momentos do dia, mas especulamque eles podem estar associados ao horáriode rush do trânsito manauara. Ocalor gerado pela combustão é um dosfatores que contribuem para aquecerlocalmente a atmosfera.Um estudo realizado por Francis Wagnere Rodrigo Augusto de Souza, físicosda Universidade do Estado do Amazonas(UEA), também avaliou o efeito ilhade calor em Manaus. Nem todas as característicasdo fenômeno bateram comas informações divulgadas no artigo doCemaden. Mas, além de diferenças metodológicas,o trabalho dos pesquisadoresda UEA abrangeu outro período detempo. Entre maio de 2010 e abril deEntre 1961e 2010, atemperaturamédia de Belémaumentou1,51ºC ealcançou26,3ºC2011 foram analisados dados de temperaturado ar de quatro estações, duas naárea urbana e duas na rural. Wagner eRodrigo Souza encontraram dois picosdo efeito ilha de calor, um às 7 e outroàs 20 horas. A maior diferença de temperaturaentre a área urbana e a rural foida ordem de 3,5ºC.A partir de dados do satélite ambientalAqua, que esquadrinha o território comuma resolução espacial de 1 x 1 quilômetro,os cientistas da UEA estimaram asvariações de temperatura na superfícieda capital amazonense entre agosto e80 z outubro DE 2012


Mapa Diego Souza e Regina Alvalá / Cemadensetembro de 2009, meses normalmentemais secos. As zonas mais quentes foramjustamente as mais urbanizadas e as maisfrias, as com maior vegetação preservada.No solo, as diferenças de temperaturaentre áreas cobertas por concretoe asfalto, como o centro e os bairros deCidade Nova e Petrópolis, e os setoresde floresta chegaram a 10ºC. “Estamosfazendo um estudo do microclima naárea urbana de Manaus para fornecersubsídios à formatação de um plano diretorde arborização e zoneamento ecológico”,diz Wagner, cujo projeto contacom financiamento do Fundo Municipaldo Desenvolvimento e Meio Ambienteda capital amazonense.Um possível reflexo do efeito ilha decalor é alterar o regime de chuvas sobreo território das duas cidades amazônicas.Em São Paulo, por exemplo, a quantidadede chuva média anual que cai na maiorcidade brasileira aumentou 30% nos últimos80 anos – e parte dessa elevaçãopluviométrica, particularmente na primaverae verão, é creditada por algunsestudos à crescente urbanização de seuterritório, (ver Pesquisa FAPESP nº 195,de maio de 2012). Resultados de estudosde modelagem atmosférica de alta resoluçãofeitos por Diego Souza e Reginaindicam que, caso a área urbana dasduas capitais continue crescendo, haveráuma tendência de queda na quantidadede chuvas em Manaus, enquanto Belémdeverá apresentar um leve aumento napluviosidade. “Mas as mudanças no regimede chuvas não parecem ser muitosignificativas”, comenta Regina.calor londrino no século XIXEmbora não fosse conhecido por esse nome,o fenômeno das ilhas urbanas de caloré estudado desde o início do século XIX,quando o inglês Luke Howard mediu ànoite diferenças de quase 2ºC entre Londres,então a maior metrópole do mundo,com mais de 1 milhão de habitantes, e trêslocalidades rurais próximas. Desde então,a análise do clima das cidades é um temade pesquisa cada vez mais relevante,ainda mais no século XXI, quando, pelaprimeira vez na história, o mundo passoua ter mais pessoas morando em centrosurbanos do que no meio rural.A edificação de cidades altera de formaradical o padrão de ocupação do solo ecria um ambiente local onde a ocorrênciade ilhas de calor se torna quase umaO avançode BelémEm 35 anos, a área urbana daregião metropolitana triplicouAno área(em km 2 )n 1973 76n 1984 155n 1989 187n 1998 242n 2008 270n Hidrografialei natural. No lugar da terra exposta, dagrama e das árvores, elementos rurais queamenizam as altas temperaturas tanto anível do solo como do ar, uma série demateriais impermeáveis e que retêm ocalor de forma diferente da vegetaçãopassa a dominar a paisagem urbana. Nocampo, a presença de vegetação arbórea erasteira cria zonas de sombra capazes dereduzir a temperatura do solo, alteraçãoque, por sua vez, leva à diminuição datemperatura atmosférica. As áreas verdestambém contribuem para refrescar o climade um lugar por meio da evapotranspiração.Esse mecanismo faz as plantase o solo liberarem água para o ar comoforma de dissipar o calor do ambiente.Nas partes mais urbanizadas do município,tudo que torna o clima do campomais ameno é escasso ou está ausente.A água das chuvas quase não penetra nosolo, há menos umidade localmente e oprocesso de evapotranspiração é menosintenso. De uma forma geral, a cidade deconcreto, asfalto, vidro e metais tende aabsorver e armazenar o dobro de calordo que uma área rural vizinha. A arquiteturaurbana, com seus prédios altos econstruções com texturas diferentes dasuperfície do meio rural, pode alterartambém o regime de ventos e intensificara sensação de calor. Em megalópoles comoSão Paulo ou Nova York o efeito ilhade calor pode representar uma diferençade até 12ºC na temperatura do ar entreuma área densamente urbanizada e umazona rural ou de mata. Se a temperaturacomparada for a do solo, as discrepânciastendem a ser ainda maiores.No Brasil, o efeito das ilhas urbanasde calor está sendo estudado em muitascapitais do país já há um bom tempo. Noestado de São Paulo, cidades médias epequenas também passaram a ser alvode pesquisas sobre o fenômeno. A equipedos geógrafos João Lima Sant'AnnaNeto e Margarete Amorim, da UniversidadeEstadual Paulista (Unesp), campusde Presidente Prudente, mediu oefeito em seis municípios do interiorpaulista: Teodoro Sampaio, Euclides daCunha, Jales, Rosana e Birigui, além dePresidente Prudente. Eles usaram dadosdo canal termal do satélite Landsat e deestações meteorológicas fixas e móveispara registrar o fenômeno.Em Presidente Prudente, cidade com207 mil habitantes, foram registradasdiferenças de até 8ºC entre as áreasmais urbanizadas e o meio rural, sobretudoà noite. Os bairros popularesonde se encontram os conjuntos habitacionaisCohab e Cecap foram osmais quentes da cidade. “Nesses lugareso uso de materiais inadequados nasedificações, como telhas de fibras decimento, a elevada densidade da áreaconstruída e a escassez de áreas verdesintensificam as ilhas de calor, pois nãohá grande emissão de poluentes de origemindustrial e de veículos”, comentaSant'Anna Neto. Mesmo localidadesdiminutas, como Alfredo Marcondes,município vizinho a Presidente Prudentecom 3,8 mil moradores, apresentama alteração climática. Diferençasde 2,5°C foram medidas entre sua áreaurbana e as porções rurais. “As ilhas decalor também são um problema de saúdepública e predispõem a ocorrênciade doenças respiratórias e circulatóriasem idosos e crianças”, diz o geógrafo. nArtigo científicoOLIVEIRA, D.O. e ALVALÁ, R.C.S.Observational evidence of the urbanheat island of Manaus City, Brazil.Meteorologial Applications.Publicado on-line. 3 ago. 2012.pESQUISA FAPESP 200 z 81

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