papel dos biofilmes nas feridas crónicas - AAGI-ID Associação ...

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Menoita, E., Santos, V., Gomes, C., Santos, A. (2012) Role of Biofilms in ChronicWounds. Journal of Aging & Inovation, 1 (2): 33-42REVISÃO NARRATIVA / NARRATIVE REVIEW ABRIL, 2012PAPEL DOS BIOFILMES NAS FERIDAS CRÓNICASROLE OF BIOFILMS IN CHRONIC WOUNDSPAPEL DE LOS BIOFILMS EN LAS HERIDAS CRÓNICASAutoresElsa Menoita 1 , Vítor Santos 2 , Cláudia Gomes 3 , Ana Sofia Santos 41Enfermeira Especialista, MsC, Hospital Curry Cabral (HCC), 2 Enfermeiro Especialista, MsC, CentroHospitalar Oeste Norte (CHON), 3 Enfermeira, HCC, 4 Enfermeira, CHON.Corresponding Author: elsacarvela@hotmail.comResumoComeça a amplamente aceite, que as feridas crónicas na sua maioria apresentam biofilme e que este representaum importante potencial infeccioso. O que importa considerar também é o importante papel que estedesempenha ao perpetuar o estímulo inflamatório que caracteriza a ferida crónica. A sua complexidade conferelheessa capacidade para induzir a libertação de proteinases e outros factores inflamatórios, enfraquecendo oorganismo, danificando o leito da ferida e no fundo comprometendo todo o processo de cicatrização. Caracterizaseainda por apresentar multiplos mecanismos de resistência às abordagens terapêuticas tradicionais, o queacentua o seu cariz de factor de cronicidade. A necessidade estratégias terapêuticas especificas para estaentidade, é urgente.Palavras chave: Biofilmes, Cicatrização, Ferida CrónicaAbstractIt is becoming widely accepted that biofilm is present in most of chronic wounds and that it represents animportant potential for infection. It is also important to consider the important role it plays in perpetuating theinflammatory stimulus that characterizes the chronic wound. Its complexity gives it the ability to induce the releaseof proteinases and other inflammatory factors, weakening the organism, damaging the wound bed andcompromising the entire healing process. It is still characterized by presenting multiple mechanisms of resistanceto traditional therapeutic approaches, which enhances its factor of chronicity nature. The need for specifictherapeutic strategies for this entity, is urgent.Key words: Biofilms, Wound Healing, Chronic Wound1. IntroduçãoOs biofilmes desempenham um papelimportante na natureza e em processostecnológicos. Do ponto de vista do interesse doHomem podem ser benéficos ou prejudiciais.Como exemplo de biofilmes benéficos existemaqueles que se acumulam em ambientesnaturais nos depósitos dos rios, lagos ouambientes marinhos, e que se desenvolvem emassociação com as raízes de algumas plantas,fornecendo-lhes alguns nutrientes. São tambémbiofilmes benéficos aqueles que são utilizadosem biotecnologia ambiental com grandesucesso no tratamento de efluentes, removendopoluentes orgânicos e inorgânicos de águascontaminadas. Na indústria alimentar, osbiofilmes apresentam inúmeras vantagens,podendo ser utilizados na produção dealimentos fermentados, como por exemplo, naprodução de vinagre. Contudo, na maioria dassituações, a adesão de microrganismos asuperfícies sólidas é indesejável, pois, de umamaneira geral, está associada à deterioraçãodas superfícies e/ou ambiente circundante.JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 341.1. Biofilmes e a cronicidadeAos biofilmes estão associados a um grandenúmero de problemas de saúde, tais comoinfecções em tecidos, infecções do tratourinário, infecções desencadeadas pordispositivos médicos, como cateteresvasculares, infecção e consequente rejeição depróteses e implantes e infecções da placadentária, entre outras (Costerton et al., 1999).No entanto, a ecologia e a gestão dos biofilmesainda não são bem conhecidos na medicina(Costerton, et al., 1999 citados por Wolcott &Rhoads, 2008). Pelo menos a sua valorizaçãona prática clinica, ainda não atinge a relevânciadevida e isso é comum a todas as áreas daprestação de cuidados de saúde.Nos últimos anos, constatou-se que os biofilmestêm um papel preponderante na patogenese denumerosas infecções que não envolvem biomateriais.De facto, cerca de 65% das infecçõeshumanas de etiologia bacteriana poderãoenvolver biofilmes (Costerton, et al. 1999;Potera, 1999). The National Institutes of Health(NIH) sugere, mesmo, que 80% das doençasinfecciosas é causada por biofilmes podendocausar infecções crónicas (Association for theAdvancement of Wound Care, 2008; Wolcott &Rhoads, 2008; Rhoads et al., 2008; Widgerow,2008). De acordo com Wolcott (2010), há maisde 14 milhões de infecções por biofilme nosEUA cada ano, resultando em mais de 350.000mortes - uma taxa de mortalidade semelhante àdo cancro. Os consórcios de biofilmes podem,mesmo, serem agentes causais de infecçõesgraves em indivíduos imunocomprometidos(Costerton et a.l, 1999). Assim, todos estesdados epidemiológicos, devem servir de alertapara um problema grave, que deve serencarado como real, as estratégias para o seucontrolo devem ser mobilizadas e até maisdesenvolvidas.Rhoads et al. (2008) referem que, as bactériasisoladas em feridas crónicas são geralmentecultivadas e estudadas através de métodostradicionais aplicáveis somente às bactérias emestado planctónico. No entanto, as bactériasplanctónicas cultivadas em laboratóriocomportam-se de forma diferente das bactériasem biofilme localizadas no leito das feridascrónicas. É já sobejamente conhecido que maisde 99% das bactérias encontradas na naturezaexistem em estado séssil, formando biofilmes(Widgerow, 2008), e crê-se que o mesmo seaplica às feridas crónicas (Rhoads et al., 2008).Os biofilmes são de um modo geralheterogéneos, contendo mais do que ummicroambiente distinto, por exemplo, no mesmobiofilme podem ser encontrados estratosaeróbios e estratos anaeróbios (Characklis &Marshall, 1989; Van Der Wende & Characklis,1990), apesar de que, de acordo com Flemming(1993) cerca de 70 a 95% da matéria orgânicada massa seca do biofilme seja constituido porsubstância polimérica extracelular (“ExtracellularPolymeric Substances” - EPS).A presença de biofilme no leito da ferida crónicatem vindo a ser mencionado em estudos hávários anos (Mertz, 2003; Welsh, et al., 2003,Serralta et al., 2001, Bello et al., 2001, citadospor Wolcott & Rhoads, 2008), mas actualmentehá evidências concretas da sua presença(James et al., 2008).Num estudo realizado num modelo suíno, pormicroscopia eletrónica e microscopia confocal alaser, verificaram, em queimaduras infectadaspor Pseudomonas aeruginosa, que as bactériasse encontravam envolvidas numa matrizJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 35Observação Clínica Forma Planctónica Forma BiofilmeIn vitroIn vivoFeridas agudas cicatrizam em 2-4semanas e as feridas complexas namesma área cicatrizam em 4-6 mesesEficácia dos Antibióticos nas feridasagudas vs ineficácia nas feridascomplexasAutoenxerto e Aloenxerto inviáveis emferidasCulturas negativas em feridasFeridas estagnadas numa faseinflamatória prolongadaContém proteínas e estruturas (flagelose fímbria) que permitem a suamobilidade e fixação.Sensíveis aos antibióticos, biocidas esistema imunitário.Nas feridas agudas, as formasplanctónicas são eliminadas, impedindoa formação de biofilme.Rápido crescimento bacterianoComplexa colónia de bactérias constituída pordiferentes proteínas (diferentes fenotipos) comdiferentes papéis na sobrevivência.Fixam-se a um substrato, protegendo-se de múltiplasformas.Resistentes aos antibióticos, biocidas e sistemaimunitário.Algumas bactérias podem invadir o sistemaimunitário do hospedeiro e forma-se o biofilme;Interferem na cicatrização.Crescimento lento dos biofilmes é um factorfacilitador à resistênciaAs células planctónicas facilmente sãoA sua aplicação sobre o biofilme vai traduzir-se numaeliminadas pelos neutrófilos, anticorposfonte de alimento, resultando na inviabilidade doe preparação do leito da ferida.enxerto e promoção de exsudado, inflamação e odor.Culturas negativas podem ocorrer (viáveis mas nãoA maioria é fácil de cultivarcultiváveis)São facilmente eliminadas pelaresposta inflamatóriaResistentes à resposta inflamatória.Alimentam-se do exsudado produzido.Promovem a inflamação prolongada.Quadro 1: Forma planctónica versus biofilme: explicação para as observações clínicasAdaptado: Wolcott (2008) – A study of biofilm-based wound management in subjects with critical limb ischaemia.polimérica (Serralta et al., 2001, citados porCooper, 2010).Noutra ocasião foi efectuado um estudo dereferência por James et al. (2008), citados porPhillips et al., (2010) e Wolcott e Rhoads (2008),através de microscopia de imagem electrónica a50 feridas crónicas e 16 agudas. Os autoresverificaram que, 60% das feridas crónicaspossuíam biofilme e apenas 6% das feridasagudas apresentavam biofilme(Steinberg, 2011; James et al., 2008; Widgerow,2008). Estes resultados sugerem para osautores que, não só as feridas crónicasapresentavam biofilme, como, também, a suapresença pode prejudicar a cicatrização,contribuindo para a cronicidade das feridas.Wolcott e Rhoads (2008) corroboram esse facto,sublinhando que, os biofilmes podem ser umadas causas da cronicidade das feridas. Phillipset al., (2010) consideram, mesmo, que éprovável que quase todas as feridas crónicastenham biofilme, em pelo menos uma parte doleito da ferida.Curiosamente, a libertação "deliberada" debactérias planctónicas do biofilme tem sidoproposto para manter uma resposta inflamatóriaem feridas (Wolcott et al., 2008 citados porCooper, 2010).De um microrganismo plantónico a umacomunidade complexa com impressionantesdefesas, incluindo um aumento da resistênciaaos antibióticos, biocidas, e imunidade humana,pode levar somente 10 horas (Fux, et al., 2005,citados por Wolcott & Rhoads, 2008; Widgerow,2008).Já de acordo com Costerton (1984) e Bester etal. (2010) citados por Phillips et al. (2010),estudos experimentais têm mostrado que asbactérias planctónicas (como por exemplo,estafilococos, estreptococos, Pseudomonas eEscherichia coli), geralmente:- Fixam-se em poucos minutos;- As microcolónias formam-se dentro de 2-4horas;- A EPS forma-se em 6- 12 horas, tornando obiofilme cada vez mais resistente a biocidas e aantibióticos;JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 36- O biofilme maduro pode começar a desprenderbactérias planctónicas dentro 2-4 dias.-Um biofilme maduro depois de libertar célulasbacterianas pode recuperar num espaçotemporal de 24 horas.Stoodley et al. (2001), citados por Associationfor the Advancement of Wound Care (2008),também, referem que o biofilme leva cerca de24 horas para restabelecer a sua biomassa.Estes achados experimentais são fundamentaispara a gestão dos biofilmes, pois significa quedepois de desencadear a ruptura de célulasbacterianas planctónicas com desbridamento etratamento tópico, como por exemplo comsurfactantes, há uma janela de oportunidadede 24 horas, utilizando antimicrobianos, deforma a não se recuperarem.Um biofilme pode se reconstituir numa ferida por(Phillips et al., 2010):- Crescimento a partir de bactérias planctónicasdeixadas pelo desbridamento / limpeza;-Crescimento por microorganismos recémintroduzidos.Segundo Gibson et al. (2009), parece provávelque, em muitos casos, as feridas agudas sejamcolonizadas por bactérias que em dias setransformam em bactérias de biofilmepersistente, estabelecendo uma fonteinflamatória a longo prazo. Numa faseinflamatória prolongada existe um estímulo próinflamatórioconstante, com aumento delibertação de neutrofilios e leucócitos para o leitoda ferida. Estes libertam espécies reactivas deoxigénio (ERO) e enzimas (Philipps et al., 2010).As espécies reactivas de oxigénio sãomoléculas capazes de modificarem outrasmoléculas, como proteínas, hidratos de carbono,lipídos e o ácido desoxirribonucléico (DNA).Estas desenvolvem-se a partir do metabolismoaeróbio do oxigénio, causando stress oxidativo.As ERO podem romper a membranalipoproteica, destruir as funções enzimáticascelulares, alterar o DNA e conduzir à mortecelular.As enzimas produzidas pelas célulasinflamatórias são proteínas que facilitamreacções biológicas e que geralmente actuamsobre um número limitado de moléculas(conhecidas como substratos das enzimas),transformando-as fisicamente noutrassubstâncias. As proteinases (tambémconhecidas como proteases) são enzimas queactuam sobre as proteínas, geralmentefragmentando a molécula da proteína (Gibson etal., 2009; Schultz et al., 2009). Uma famíliaespecifica de proteinases, as metaloproteinasesda matriz - MMP’s, são prticularmente nocivaspara o leito da ferida. Os substratos naturaisp a r a a s d i f e r e n t e s M M P s v a r i a msubstancialmente, mas incluem importantesproteínas da matriz extracelular (MEC), como ocolagénio, a gelatina e os proteoglicanos. AsMMPs degradam estas proteínas fragmentandoasem pequenas partes.Segundo Gibson et al. (2009), a designação“matriz metaloproteinase” (ou “matrizmetaloprotease”) indica as propriedades-chavepartilhadas pelas MMPs. Todas elas,preferencialmente, degradam as proteínas quecompõem a matriz extracelular dos tecidos erequerem um ião metálico (zinco) no centroactivo da enzima. Rhoads et al. (2008)defendem que, provavelmente, o biofilme podedesencadear uma resposta imunitária comaumento de MMP, como a MMP -2, MM-8, MMP-9 e a elastase, para além de desencadearsenescência com incapacidade funcional dosJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 37fibroblastos, queratinócitos, e das célulasendoteliais para iniciar a angiogénese.Quando sintetizadas inicialmente, as MMPspermanecem em forma latente (inactivas ou pro-MMP). Elas são activadas por outras proteasesque recortam uma pequena parte da molécula,abrindo o centro activo da molécula MMP,permitindo ligar-se ao(s) substrato(s) da suaproteína. Outras moléculas designadas comoinibidores de tecido de metaloproteinases(TIMPs) podem inibir as MMPs activadas ebloquear a activação de pro-MMPs (Gibson etal., 2009).Enquanto a maioria das MMPs é segregadapara a MEC (matriz extracelular) circundante,algumas MPPs mantêm-se associadas amembranas celulares, sendo conhecidas comoMMPs “tipo membrana” (MMP-TPs). Pensa-seque este grupo de MMPs desempenha um papelimportante na activação de pro-MMPs, bemcomo na activação de pro-TNF (factor denecrose tumoral - um mediador importanteenvolvido na inflamação e morte celular)(Gibson et al., 2009).As MMPs, que essenciais para a cicatrizaçãoem feridas agudas, tornam-se prejudiciais nascrónicas, destruindo ou corrompendocontinuamente as proteínas essenciais da MEC(Gibson et al., 2009; Schultz et al., 2009).Adicionalmente, as proteinases captam osfactores de crescimento, tornando-osindisponíveis para o processo de cicatrização.1.2. Mecanismos de resistência de bactériasA capacidade de sobrevivência do biofilme é umresultado de estratégias de adaptaçãodesenvolvidas ao longo de milhões de anos(Association for the Advancement of WoundCare, 2008).Um dos grandes avanços da medicina tem sidoo controlo de infecções através do uso deantibióticos, contudo estes têm uma eficácialimitada nos biofilmes, podendo estes ser milvezes mais resistentes a antibióticos do que omesmo organismo em forma plantónica, sendoainda parcialmente protegidos da acçãodestruidora dos fagócitos (Davey & O’toole,2000). Para Wolcott et al. (2009), os biofilmespodem 50 a 1500 vezes mais ser resistentesaos antibióticos. Os biofilmes bacterianos sãomuito resistentes à eliminação efectuada pelosanticorpos do hospedeiro, pelas célulasinflamatórias, pelos antibióticos e pelosantissépticos (Gibson et al., 2009; James et al.,2008; Costerton J, Stewart, 2001). Wolcott eRhoads (2008) corroboram, defendendo que osistema imunitário e os antibióticos são maisbem-sucedidos em destruir bactérias individuaisdo que em biofilmes.Para além das já mencionadas resistências, osbiofilmes demonstram, também, resistênciaacrescida à radiação UV (Elasri & Miller, 1999) eà desidratação, pois a matriz de EPS éaltamente hidratada. Flemming (1991) eMittelman (1998) acrescentam, defendendo queos biofilmes têm processos de protecção contrafactores ambientais agressivos, como porexemplo as flutuações de pH, concentração desais, desidratação, substâncias químicasagressivas, agentes bactericidas (biocidas),predadores, antibióticos.Existem algumas explicações que defendem assuas multi-resistências, tais como as que iremosexplanar.1. O desenvolvimento preferencial emsuperfícies inertes, tecidos mortos einstrumentos médicos (Costerton et a.l,1999, Yasuda et al., 1994).JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 382. A capacidade para estabelecer e colonizarnichos ecológicos (Flemming, 1991;Mittelman, 1998).3. A facilidade de desenvolvimento demicroconsórcios que permitem oestabelecimento de relações de simbiose,bem como a utilização de substratos dedifícil degradação (Flemming, 1991;Mittelman, 1998). Os biofilmes sãoambientes ideais para o desenvolvimento derelações sintróficas, que é um tipo desimbiose onde dois tipos de organismosmetabolicamente distintos dependem um dooutro para utilizarem certos substratos, naprodução de energia.4. A matriz polimérica parece funcionar comouma barreira protectora contra factoresagressivos externos - efeito Blocking(Phillips et al., 2010). De acordo com algunsautores, esta matriz EPS tem o potencial deprevenir o acesso físico de certos agentesantimicrobianos (Allison, 2003; Elvers &Lappin-Scott, 2000;).5. O quorum sensing regula actividadescelulares, como a produção de metabolitos,como enzimas citotóxicas, conforme járeferido. Loryman e Mansbridge (2007),citados por Steinberg (2011), observaramque o efeito do quorum sensing inibia amigração de queratinócitos.6. O aumento da concentração de nutrientesnas interfaces líquido-biofilme uma vez quea matriz polimérica favorece a adsorção demoléculas de nutrientes (Flemming, 1991;Mittelman, 1998).7. Os componentes da membrana externa dasbactérias envolvidos na aderência, tais comopili, e a actividade flagelar por parte dascélulas fixas inicialmente, designada portwitching motility, são necessárias para odesenvolvimento de biofilmes, como a de P.aeruginosa (O’Toole & Kolter, 1998).8. O crescimento lento dos biofilmes é umfactor facilitador à resistência (Costerton eta.l, 1999; Yasuda et al., 1994). Estasmicrocolónias têm ecologia diferente dasformas planctónicas, pois elas proliferammais devagar, prejudicando, portanto, a suaresposta a muitos antibióticos que agemessencialmente quando as células seencontram na fase mitótica. De acordo comPhillips et al. (2010), as bactérias embiofilme podem se encontrar, mesmo, emestado de hibernação, conforme járeferido, em que as células estãometabolicamente quiescentes. As bactériasprecisam de ser metabolicamente activaspara poderem ser eliminadas pelosantibióticos.9. A libertação de antigénios que levam àprodução de anticorpos específicos eformação de imunocomplexos que podemprovocar lesões nos tecidos adjacentes(Phillips et al., 2010; Costerton et a.l., 1999).10. A possibilidade de troca de material genéticodevido aos longos tempos de retenção dosmicrorganismos (Flemming, 1991;Mittelman, 1998). Assim, esta comunidadebacteriana adquire novas informaçõesgenéticas. O designado processo deconjugação, ou seja, o mecanismo detransferência de plasmídios (porções deDNA), ocorre a uma taxa superior entrecélulas em biofilmes do que entre célulaslivres (Roberts et al. 1999; Steinberg, 2011),e estirpes de relevância médica contendocertos plasmídios demonstram maiortendência para a formação de biofilmesJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 39(Ghingo, 2001). Assim, com essemecanismo, uma mesma bactéria podeadquirir resistência simultânea contradiversos antibióticos diferentes dasbactérias vizinhas (Steinberg, 2011; Phillipset al., 2010).11. Apresentam processos de transferênciadiferentes (Stewart, 2003), ou seja, asimplicações físicas do crescimento emsistemas geometricamente tão diferentes,como o caso dos biofilmes em comparaçãocom as células livres. Em culturas de célulaslivres ou planctónicas, o transporte desolutos do meio líquido (normalmente bemhomogeneizado) para uma célula, ou viceversa,é um processo relativamente rápido,não constituindo um passo limitante natotalidade dos bioprocessos que ocorrem nacélula. Agregados microbianos, no entanto,são ambientes densamente empacotadosonde o fluxo de líquido é limitado. Apesardo facto de se observar fluxo de líquidoocorrendo nos canais de água dos biofilmes(De Beer et al. 1994; Stoodley et al., 1994),nos agregados em si, toda a transferênciade massa se dá através de difusão (De Beeret al., 1994), um processo muito mais lento.Este facto é ainda agravado por limitaçõesdifusionais acrescidas, causadas pela matrizdo biofilme (Stewart, 2003). Em agregadosmicrobianos suficientemente espessos,usuais em biofilmes, as distânciasdifusionais são suficientemente grandespara que o transporte de solutos de e paraas células bacterianas interiores se tornelento em comparação com as cinéticas debioprocessos dos microrganismos. Nestassituações formam-se gradientes de solutosno biofilme, e a transferência de massatorna-se num processo limitante para osbioprocessos (Characklis et al., 1990).Limitações de transferência de massa queimpedem penetração eficiente deantibióticos no biofilme são também,frequentemente, apontadas como possíveiscausas para a resistência a antibióticos.De acordo com Donlan e Costerton (2002) eGilbert et al. (2003), as limitações difusionais àpassagem do agente pela matriz extracelular,são muitas vezes acompanhados poralterações/mutações fenotípicas das célulasno biofilme e ainda com o desenvolvimento demecanismos de resistência por alteração dogenótipo das células.Nestes ambientes em limitação de transporte desolutos, os gradientes de concentraçãoformados constituem condições favoráveis paraa c r i a ç ã o d e m i c r o - n i c h o s . B a i x a sconcentrações de oxigénio podem originarmicro-ambientes propícios à proliferação deorganismos anaeróbios, apesar da presença deoxigénio em solução no meio líquido.Em suma, a resistência ocorre em função deinúmeros factores inter-relacionados, incluindoactividade metabólica diferencial, barreiras dedifusão e ultra-estrutura da parede celular.É fundamental, ainda, fazer a diferenciação dos3 tipos de resistência: 1) resistência natural ouinerente ou intrínseca; 2) resistência adquiridadevido à mutação e, 3) resistência poradaptação (Cloete, 2003; Heinzel, 1998).Dos diferentes tipos de resistência bacteriana, aresistência intrínseca é considerado omecanismo mais utilizado pelas bactérias parase adaptarem às condições físico-químicasJOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


Página 40agressivas a que são submetidas (McDonnell &Russell, 1999).Bactérias intrinsecamente resistentes sãoaquelas cujas propriedades naturais podemreduzir ou prevenir acções bacterianas. Ummicrorganismo, que apresente uma maiorcapacidade de produção de polímerosextracelulares, adere com maior facilidade asubstratos sólidos por ligação entre as cadeiasde polímeros situadas na parede do organismoe no substrato. Geralmente é verificado que asbactérias Gram – são menos susceptíveis abiocidas e antibióticos do que as bactérias Gram+ (McDonnell & Russell, 1999).No caso da resistência adquirida, osmecanismos de resistência surgem, geralmente,como resultado da aquisição de materialgenético ou de mutação. Também podemocorrer trocas genéticas resultantes daconjugação, transformação ou mutações nogenoma da célula (Cloete, 2003; Lambert et al.,2001). Numa colónia de biofilme, onde ascélulas microbianas estão mais próximas umasdas outras, acredita-se que esta proximidadepode aumentar a troca de material genético.A resistência adaptativa é um tipo de resistênciaque as bactérias rapidamente perdem assimque se alteram as condições fisiológicas(Heinzel, 1998).1.3. Considerações FinaisO biofilme cada vez mais revela ser umaentidade de extrema relevância clínica, pois nãosomente constitui um entrave à cicatrização,pelo componente infeccioso, mas tambémconsequentemente, pelo estímulo inflamatórioque promove a cronicidade da ferida crónica.Mais uma vez a evidência científica disponívelvem a salientar a complexidade desta entidade,que lhe confere ainda uma série de mecanismosde resistência face às modalidades terapêuticastradicionais. Mais do que salientar o papel dobiofilme na cronicidade da ferida, pretendeu-secom esta revisão, alertar para a necessidade dedesenvolver estratégias cada vez maisdiversificadas de abordagem deste problema,bem como para o abandono de algumas, ditastradicionais, que podem trazer mais maleficioque beneficio, ao potenciar o desenvolvimentode microorganismos multi-resistentes, sendoque ficou bem patente a capacidade destacomunidade microbiológica, em desenvolvervariados mecanismos de resistência.A ideia central que fica, assenta na necessidadede desenvolver estratégias dirigidas ao biofilme,sempre que haja probabilidade da suapresença, para podermos ter um verdadeiro“biofilm based wound care”, pois se nãoencararmos esta entidade como associada àferida, mas diferente desta, as consequênciaspodem vir a ser desastrosas para o prognósticoda ferida.É fundamental portanto saber reconhecer sinaise sintomas, que sugiram grande probabilidadede presença de biofilme e dispor de alternativascapazes para o seu tratamento, algumas jáexistentes, outras em desenvolvimento, masque sejam verdadeiramente efectivas pois obiofilme já mostrou ser verdadeiramentecomplexo e eficaz, no que respeita à suasobrevivência em relação a agressõesexteriores.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS1.Allison, D. G. (2003) The Biofilm Matrix.Biofouling. The Journal of Bioadhesion andBiofilm Research. 19. p. 139-150JOURNAL OF AGING AND INOVATION(EM LINHA) ISSN: 2182-696X / (IMPRESSO) ISSN: 2182-6951 Volume 1. Edição 3


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