Interesse de saber: um estudo com adolescentes do ensino médio

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Interesse de saber: um estudo com adolescentes do ensino médio

As disciplinas que poderiam chamar os adolescentes para a sua própria história,apresentando a cultura da qual fazem parte, não são compreendidas dessa forma; osadolescentes preferem que o conhecimento seja transmitido da forma mais objetivapossível. O próprio material didático é organizado favorecendo essa relação com oconteúdo, separando cada assunto a ser estudado como se fosse relacionado com o todo.A falta de identificação que eles apresentam com a cultura prejudica sua relação com osaber e favorece a pseudoformação.Essa dificuldade de fazer com que o aluno perceba que faz parte da cultura queestuda pode ser pensada a partir da discussão que Benjamim (1939) faz a respeito dadiferença entre experiência e vivência. A vivência, para Benjamin (1939), é a marca domundo moderno; é uma experiência restringida, que só permite o contato superficialcom os objetos. Ela se relaciona com o consciente e diz respeito à nossa defesa ante agrande estimulação do meio. De acordo com o autor, como precisamos nos protegerdessa oferta excessiva de estímulos, os eventos que causariam marcas nos sujeitosdeixam de ser traumáticos por causa de nossa “proteção”, e o que deveria ser umaexperiência passa a ter o seu sentido restringido, transformando-se numa vivência. Aexperiência, por sua vez, ocorre quando as impressões que temos do mundo conseguemdriblar esses “escudos”, ficando marcadas em nós e podendo ser apenas resgatadas pelamemória involuntária.Se pensarmos que a vivência não tem como despertar no sujeito algo que lhefaça de fato sentido, já que representa defesas daquilo que deveria ter impactado osujeito, podemos supor que a falta de interesse se relacione com esse dado. Aoobservarmos a forma de transmissão dos conteúdos escolares aos adolescentes,verificamos que essa é propícia à vivência, da mesma forma que o material didáticousado pelas escolas.Os objetos que poderiam ser de fato interessantes – os que têm aura - seriamaqueles que não se esgotam e devolvem o olhar neles depositado de outra forma.Benjamin (1939) utiliza como exemplo a diferenciação entre uma pintura e umafotografia: a primeira despertaria em quem a olha um desejo, já que “reproduziria emuma imagem o que os olhos não se fartam de ver” (BENJAMIN, 1939, p.138), enquantoa fotografia se reportaria a algo que deve fazer parte da memória, mas não desperta aimaginação, tendo um fim nela mesma. Essa questão de o objeto despertar o desejo em


quem se relaciona com ele remete ao que Benjamin discute a respeito do olhar, já que,de acordo com o autor, ao citar Baudelaire e Proust, os objetos nos quais investimos onosso olhar poderiam retribuí-lo, guardariam uma parte das lembranças de quem olhapara eles, sendo assim investidos de uma aura.Essa questão pode ser entendida ao retomarmos a relação do homem com acultura, já que a possibilidade de o sujeito olhar para um objeto e ter esse olharretribuído se dá pelo reconhecimento de si no objeto, na impressão de que aquele objetofaz parte da cultura que o sujeito construiu e à qual também pertence. A distância e ahostilidade observadas entre os homens e a civilização impedem esse contato,fundamental para que o homem possa se interessar por aquilo que o mundo lheapresenta.Pensando em como a cultura é transmitida aos adolescentes, entender de que modo seuspais se relacionam com o saber parece importante para essa discussão. Na pesquisa, foipossível constatar que a influência dos pais na escolha de atividades dos filhos é maisdeterminante quando se trata de atividades extraescolares e menos decisiva quando oadolescente escolhe interesses ligados aos conteúdos ministrados pela escola; forampoucos os alunos que demonstraram ter interesse em determinado conteúdo porperceber esse interesse em seus pais.. Pode-se supor que os próprios pais não semostram envolvidos com os conteúdos escolares da mesma forma como mostraminteresse em envolver-se em outras atividades.A influência dos pais nos interesses extraescolares dos alunos pode ser entendidase pensarmos a respeito da lógica desejante, ou seja, o adolescente pode perceber que osinteresses de seus pais parecem preencher a falta para eles, aqui entendida na acepçãopsicanalítica do termo. Essa relação com os objetos que os adolescentes “captam” emseus pais seria semelhante à discutida por Kupfer (2001), e indicada no início destetexto, a respeito de estilo: assim como o professor faz aparecer para seus alunos o seumodo de distraí-lo de sua falta, também os pais podem estar indicando essa função nosobjetos que elegem como interessantes. Já a colocação de conteúdos escolares comocoerentes com a lógica desejante dos pais dos alunos não aparece com tanta frequênciaquanto em relação às atividades extraescolares. Talvez por causa da importância dadapela educação em geral às avaliações e ao que elas implicam em relação à apropriaçãodos conteúdos, certos interesses que poderiam ter espaço dentro das escolas não são por


MELMAN, C. Os Adolescentes estão sempre confrontados com o Minotauro. In:Melman, C. (org). Adolescência entre o Passado e o Futuro. 2. Ed. Porto Alegre: Artese Ofícios , 1997. p. 29-44.

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