abusos, trabalho precoce, distância da escola: o lado ... - CNM/CUT

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abusos, trabalho precoce, distância da escola: o lado ... - CNM/CUT

há 90 anos Revolução Russa mudou o mapa e abalou a história do mundonº 17 outubro/2007 www.revistadobrasil.netSandra, 12anos, hojeestuda e querser professoraalegriaferidaAbusos, trabalho precoce,distância da escola: o lado sombrioda infância brasileiraCaco Barcellos Profissão dramaturgoAmor aos 60 Paixão faz bem à saúde


ConteúdoCarta ao LeitorCapa 8Felicidade por um triz: o desafiode combater o trabalho infantilPolítica 14O valerioduto do PSDB chega aoSTF e vira “mineiro”, e não tucanoEntrevista 18Caco Barcellos leva ao teatro apeleja entre o morro e o asfaltoMídia 22Em tempo de renovar concessões,quem avalia se emissoras merecem?Saúde 26Atletas em busca de alto rendimentoextrapolam limites da vida saudávelHistória0Os dias que abalaram a Rússia, há90 anos, e seu legado para o mundoEmanuel e Célia: vivendo um grande amorComportamento6Histórias de amor que, na melhoridade, dão novo sentido à vidaPerfil 40Michel Joelsas, de garoto curioso a atorprincipal de filme que pode ir ao OscarViagem 42Os barcos de Manaus Moderna e ovaivém dos destinos via Rio NegroseçõesCartas 4Ponto de Vista 5Resumo 6Curta essa dica 46Crônica 50augusto CoelhoTelevisão brasileira: concessão de espaço público sem controle nem contrapartida socialOlhar para a mudançaOmodo de pensar televisão ganhou novas leituras depois da decisão do presidentevenezuelano, Hugo Chávez, de não renovar a concessão da RadioCaracas Televisión, a RCTV, a segunda maior emissora do país. Qual foi averdadeira motivação para o fechamento? Para a mídia, foi mero “atentadocontra a democracia e a liberdade de imprensa”. Mas pela internet houve umtropel de apoio à decisão chavista, que seria uma resposta à tentativa de golpe contra seugoverno urdida na casa do dono da emissora.O documentário Digan la Verdad, produzido pelo governo venezuelano, alinha entrevistas,depoimentos e argumentos jurídicos a favor da não renovação. No filme, chamam aatenção trechos da programação da RCTV, dos programas de auditório, de danças de banheiras,de novelas e de noticiários. Deslocados do tubo, revelam baixarias que vão de encontroà dignidade humana.Paixões à parte, o debate no Brasil produziu lições. Brasileiros passaram a constatar queas televisões não podem – ou não deveriam poder – tudo. Descobriram que tevês são concessõespúblicas que podem ou não ser renovadas. Alguns movimentos chegaram a pedir anão renovação da concessão da Rede Globo, com validade expirada no dia 5 de outubro.Sobrou também para as rádios, igualmente concessões do espaço público. Descobriu-seque milhares de emissoras famosas e de boa audiência operam com outorgas vencidas háanos mediante inúmeros artifícios para transmitir a partir de locais e potências tão irregularesquanto as rádios comunitárias, as únicas perseguidas, lacradas e com prisão de operadores.Sobrou ainda para os jornais e revistas com excessiva partidarização, nunca assumida,enrustida, travestida de imparcialidade em que as versões sobrepõem-se aos fatos.Se o Brasil mudou, é possível esperar que a mídia brasileira mude também. Seja por entenderque seu papel democrático e republicano tem como matéria-prima primeiro a informação,depois a opinião. Seja pela pressão social, que passe a condicionar renovações deconcessões à avaliação da qualidade do conteúdo. Ou pela ocupação dos espaços da comunicaçãopor novos veículos, com olhar para uma nação em que a cidadania e a dignidadehumana prevaleçam sobre as ideologias e os mercados. Nossa parte está sendo feita.2007 outubro REVISTA DO BRASIL


Conselho editorialAntônio de Lisboa Amancio Vale(Simpro-DF); Artur Henrique da SilvaSantos (CUT-Nacional); Carlos AlbertoGrana (CNM-CUT); Carlos Ramiro deCastro (Apeoesp); Djalma de Oliveira(Sinergia CUT/SP); Eduardo Alencar(Sindicato dos Bancários do MatoGrosso); Edílson de Paula Oliveira(CUT-SP); Edson Cardoso de Sá(Sindicato dos Metalúrgicos deJaguariúna); Ivan Gomes Caetano(Sindicato dos Bancários de Patosde Minas e Região); Izidio de BritoCorreia (Sindicato dos Metalúrgicosde Sorocaba); José Carlos Bortolato(Sindicato dos Trabalhadores emEmpresas Editoras de Livros);José Lopez Feijóo (Sindicato dosMetalúrgicos do ABC); Laercio Alencar(Sindicato dos Bancários do Ceará);Luiz Cláudio Marcolino (Sindicatodos Bancários de São Paulo, Osascoe Região); Marcos Benedito da Silva(Afubesp); Paulo Lage (Sindicato dosQuímicos e Plásticos do ABC); RenatoZulato (Sindicato dos Químicos ePlásticos de São Paulo); Rita Serrano(Sindicato dos Bancários do ABC);Rodrigo Lopes Britto (Sindicato dosBancários de Brasília); Rui Batista Alves(Sindicato das Bebidas de São Paulo);Sebastião Cardozo (Fetec/CUT/SP);Silvia M. de Lima (SindSaúde/SP);Vagner Freitas de Moraes (Contraf-CUT);Valmir Marques (FEM/SP e Sindicatodos Metalúrgicos de Taubaté); Viníciusde Assumpção Silva (Sindicato dosBancários do Rio de Janeiro);Wilson Marques (Sindicato dosEletricitários de Campinas)Diretores responsáveisJosé Lopez FeijóoLuiz Cláudio MarcolinoDiretores financeirosIvone Maria da SilvaTarcísio SecoliInformação que transformaNúcleo de planejamento editorialCláudia Motta, José Eduardo Souza,Krishma Carreira e Paulo SalvadorEditoresPaulo Donizetti de SouzaVander FornazieriAssistente editorialXandra StefanelRevisãoMárcia MeloRedaçãoRua São Bento, 365, 19º andar,Centro, São Paulo, CEP 01011-100Tel. (11) 3241-0008CapaFoto de Paulo PepeDepartamento comercial(11) 3106-9178Adesão ao projeto(11) 3241-0008Atendimento: Claudia ArandaImpressãoBangraf (11) 6940-6400Simetal (11) 4341-5810DistribuiçãoGratuita aos associadosdas entidades participantesTiragem360 mil exemplaresCartasPode pararSomos alunos da8ª série do ensinofundamental. Arevista tem estiloousado, estimulaa sociedade e ogoverno a respeitarnossos direitos.A reportagem“Pode parar” (edição16) é muito interessante, pois o trânsitonas grandes cidades é um dos problemasmais sérios que enfrentamos. Sugerimostambém assuntos que contemplem nossafaixa etária, como música, dança, esporte,drogas, exploração de trabalho infantil.Andréa, Darlane, Nathalia, Ingrid, Greicy,Uriel, Bruno, Fábio, Richerd, Michel e professoraImaculadaEscola Estd. Fidelino Figueiredo, S. Paulo (SP)Onze de setembroMuito confortante foi ler a crônica de MouzarBenedito (“Triste 11 de setembro”, edição16). Na sua maneira peculiar de escrever,disse tudo que eu precisava ler nessedia. Sou sua fã. E parabéns a toda a equipeda Revista do Brasil. O dinamismo de vocêsnos impulsiona a crer no exercício dademocracia e da participação.Ana Cecília Canonico de Souza, S. Paulo (SP)canonicosouza@yahoo.com.brContempladoNa edição nº 16 da Revista do Brasil fuicontemplado com duas reportagens. “Umdia em Brasília” menciona a ratificação daConvenção 158 da OIT, que já vigorou noBrasil entre janeiro de 1996 e setembro doano seguinte. Em 15 de março de 1996 conquistamosa primeira decisão na Justiça doTrabalho do país determinando a reintegraçãode trabalhadores com base naquelanorma. A segunda matéria, “A turma dodeixa disso”, relata o avanço das soluçõesextrajudiciais de conflitos, idealizadas pormim em 1991 e regulamentadas através deConvenção Coletiva de Trabalho celebradadesde 1993. Hoje a idéia é implantada emtodos os segmentos da Justiça brasileira.Euso José da Silva, presidente do Sindicatodos Comerciários de Patos de Minas (MG)eusosilva@uai.com.brMetralhadoraÉ o cúmulo do absurdo a quantidade dealunos na sala de aula. É brincadeira? Oumontagem para impressionar? Como épossível uma professora dar aula para tantacriança assim? Como podem prestar atençãoao que a professora ensina? Enquantoisso a imprensa ignora esse fato. Divulgamaravilhas do governo, CPMF para cobrirrombos futuros... Escrevi demais? Ah, achoque nem vão publicar mesmo!José Guimarães e Silva, Pouso Alegre (MG)mokoloton@gmail.comHonestidadeVocês são uma raridade. Parabéns pelasmagníficas reportagens, a honestidade e orespeito ao povo brasileiro.Ademir Augusto Giorni, São Roque (SP)augustogiorni@uol.com.brDireito de saberO povo brasileiro esperava do CongressoNacional ser mais aberto com o voto, paradecidir a cassação do atual presidente dacasa, Renan Calheiros. A decisão do voto secretocontraria a democracia. Temos o direitode ser informados sobre quem se omite.Manoel José de Santana, Recife (PE)manoellimoeiro@uol.com.brMais estudantes leitoresA redação recebeu três cartinhas postadas emuma mesma agência paulistana dos Correios,comentando a edição 15, mês de agosto. OLuís e o Hélio, da Rua Paulo Bender, afirmamter gostado das novidades trazidas pelareportagem “Novos Caminhos do Emprego”.A Amanda, da Avenida Vila Ema, escreveu sobrea reportagem de capa: “Fiquei surpresa aosaber que muitos homens não usam camisinha,apesar de tanta informação. A camisinha émuito importante para evitar abortos e doenças.Todos deveriam usar com prazer”.E a Renata, da Rua Sargento Mor AntonioTeixeira, gostou da reportagem “Roda Viva”porque o projeto “estimula o desenvolvimentoe o potencial de aprendizagem e integraprofessores, estudantes e comunidades,incentivando as pessoas a ler”.revista@revistadobrasil.netAs mensagens para a Revista do Brasilpodem ser enviadas para o e-mail acima oupara Rua São Bento, 365, 19º andar, Centro,São Paulo, CEP 01011-100. Pede-se que asmensagens venham acompanhadas denome completo, telefone, endereço e e-mailpara contato. REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Ponto de Vista PorMauro SantayanaO Senado e a RepúblicaArecente crise no Senado provocouvárias reações na im-dos estados mais ricos. A extinção do Senadonores e menos desenvolvidos, em benefícioprensa e na opinião pública,deixaria a União sob o comando direto dasalgumas procedentes e outrasdesprovidas de lucidez.A outra insensatez é a proposta de quebancadas mais numerosas da Câmara.Tudo começou com a informação de queo senador Renan Calheiros tinha uma filhafora do casamento e a sustentava com aajuda de um lobista. Ter filhos fora do casamentonão é fato incomum, tanto entre políticosquanto entre quaisquer outros grupossociais. É um acidente do amor, ou doshormônios. Pode ser também – quando odeixe de existir o voto secreto. O voto secretoé uma conquista da democracia moderna,seja nas eleições, seja no Parlamento.Até 1930, no Brasil, o eleitor comum votavaa descoberto, quase sempre na presença deseu patrão, e sempre diante das autoridadespoliciais. Um trabalhador jamais chegariaao Parlamento e menos ainda ao PoderExecutivo com o voto aberto. Além depai é homem rico ou conhecido – fruto deuma cilada. Tenha sido uma coisa ou outra,Renan errou ao nãoconstituir uma violência, e de só eleger patrões,o sistema permitia a fraude. As listas,o assunto é de interesse restrito. A conduta licenciar-se de início, o queprivada de um homem público não interferepermitiria investigações com os nomes dos eleitores e de seus votos,em seu desempenho político.sem constrangimento.eram substituídas por outras, falsas, elegendosempre os candidatos das oligarquias go-O fato de usar um lobista para o pagamentoda mesada destinada à filha não chegaa ser, em si mesmo, ilícito – desde que para a oposição fechar foi instituído o voto secreto e, com ele, a elei-Acabou dando pretextovernamentais. Só com a Revolução de 1930o dinheiro tenha sido do próprio senador. o cerco contra Lulação dos primeiros candidatos populares.A ação de lobistas entre poderes públicosé conhecida, desde que o sistema se iniciou(como tantas outras coisas) em Washington,no saguão de um hotel, no século 19.Seria melhor que não houvesse tal intermediação,mas sempre existiu, desde quehá governo no mundo.Houve, sem embargo, acusações maisgraves, que devem ser investigadas. Mas,por mais graves tenham sido, não eram suficientespara tentar, como tentou a oposição,transformar a questão em crise institucional.Houve, de parte a parte, erros emá-fé. Renan Calheiros errou ao não licenciar-sedo cargo no início da crise, o quepermitiria a investigação dos fatos sem oconstrangimento de sua presença na chefiada Casa. Isso deu pretexto à oposição parafechar o cerco contra Lula.Entre as reações insensatas, a mais grave éa sugestão de extinguir o Senado da República.Lembra a anedota famosa, do sujeito queflagra a mulher em ato de adultério no sofáe manda retirar o móvel da sala. O Senadoé absolutamente necessário a uma união deestados em república federativa como a doBrasil. Os senadores representam os estadospelos quais foram eleitos. Como as bancadassão iguais (três senadores por unidade federativa),nele não há estados maiores nem menores.A Câmara dos Deputados, eleita pelavotação proporcional, pode ser controladapelas bancadas dos estados mais populosose de maior poder econômico e comandar, assim,o governo federal. Dessa forma, o governocentral passaria a dominar os estados me-O voto secreto é a única garantia paraque, nas casas legislativas, o parlamentarvote de acordo com a sua consciência,sem sofrer a pressão do Executivo, da mídiaou de grandes corporações. Podemosaceitar a votação aberta, quando estejamem causa os próprios parlamentares. Nessassituações, a pressão da opinião públicapara conhecer o voto de cada deputado ousenador pode ser legítima. Como foi legítimaa pressão da sociedade civil organizadapara que a mídia se libertasse da coação dogoverno militar e desse voz à opinião públicapara exigir o voto aberto, no ColégioEleitoral, a fim de eleger Tancredo e acabarcom as eleições indiretas no Brasil.Enfim, é preciso ver as coisas sem o calorda paixão, se queremos continuar sobo regime democrático.Wilson Dias/ABrMauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo Nevese adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e articulista de diversas publicações2007 outubro REVISTA DO BRASIL


Resumo PorPaulo Donizetti de Souza e Vitor NuzziTrabalho escravoA Pagrisa, usina de açúcar e álcool do Pará, comemorou recorde deprodução em agosto, apesar da “crise” causada pelo Ministério do Trabalhoe Emprego. Qual crise? Em mais de 12 anos de atuação, o grupomóvel de fiscalização ao trabalho escravo retirou 25 mil trabalhadoresde situação análoga à escravidão; a maior operação, em junho, alcançou1.064 empregados. Onde? Na Pagrisa. Um grupo de senadores ligados aoagronegócio contestou os resultados e foi visitar a usina, mais para fiscalizara fiscalização do que as condições dos trabalhadores. Kátia Abreu(DEM-TO) quer rediscutir o conceito de trabalho escravo e “compatibilizarlegislação para garantir emprego”.Compatibilizar a lei para que não haja inconveniente em alojamentossuperlotados? Jornadas de até 14 horas? Falta de água potável? Humilhaçõese ameaças? A secretária de Inspeção do Trabalho do MTE, RuthVilela, suspendeu as ações do grupo móvel, temendo que essa tentativade desqualificar a fiscalização agrave a situação de risco em que vivem osintegrantes do grupo móvel (agentes da PF, do MTE, Ministérios Públicosdo Trabalho e Federal), freqüentemente ameaçados por fazendeiros.O MTE aguarda posição da Advocacia-Geral da União sobre as reaçõesdo Senado para retomar as operações, que fazem do Brasil referênciainternacional no combate ao trabalho escravo.Que é isso, companheiro?O governo teve de se desdobrar entre opositores e aliadospara prorrogar a CPMF até 2011. Lula, opositor doimposto, quando criado, verificou que o governo nãose preparou para conseguir viver sem ele. Falta um planoque aponte a redução gradual de seu peso no orçamentoda União e no bolso dos brasileiros, até se tornaralgo irrisório, que preserve apenas a função de patrulharmovimentações financeiras e combater a sonegação. Ascentrais sindicais também dão seu puxão de orelha pelalição de casa não feita. Na reunião do Conselho Nacionalde Desenvolvimento Econômico e Social, no último dia20, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC,José Lopez Feijóo, defendeu o fim dos 0,38% da CPMFsobre os salários.Questão de honraAções do grupo móvel de fiscalizaçãoAno Operações Empresas Pessoas Indenizaçõesfiscalizadas libertadas (em R$)1995 11 77 84 —1996 26 219 425 —1997 20 95 394 —1998 18 47 159 —1999 19 56 725 —2000 25 88 516 472,8 mil2001 29 149 1.305 958,0 mil2002 30 85 2.285 2,1 milhões2003 67 188 5.223 6,1 milhões2004 72 275 2.887 4,9 milhões2005 85 189 4.348 7,8 milhões2006 109 209 3.417 6,4 milhões2007* 76 141 3.544 5,1 milhõestotal 87 1.818 25.312 33,8 milhões* Até 27/9. Fonte: SIT/MTEAvanços no FórumO Fórum Nacional da Previdência ainda não terminou. Mas previsões epressões por reforma que volte a atacar direitos não se confirmaram. Até aquia CUT, que tem levado o Fórum a sério, conseguiu emplacar alguns consensosentre os representantes das centrais, dos empresários e do governo federal:o piso dos benefícios permanece vinculado ao salário mínimo; as regrascontinuam diferenciadas para homens e mulheres; tempo de recebimentode seguro-desemprego será contado como tempo de contribuição; é precisocriar mecanismos que facilitem a adesão e inclusão de mais trabalhadores nosistema e agilizar a cobrança dos devedores; empreendimento privado quereceber crédito público deve gerar empregos formais; a gestão da Previdênciadeve ter participação da sociedade.Ivalda: “Queromeus direitos”Ivalda Silva nasceu em Alagoinha (PE), tem 42 anose chegou com a família a São Paulo quando tinha 3.Enquanto parentes e amigos logo tiraram proveito daemergente indústria automobilística, o emprego comque sonhava só viria em 1993, na fábrica de autopeçasFris Moldu Car, em São Bernardo. Começou uma era demuitas realizações. Até que uma amiga de fábrica precisousacar o FGTS, em 2000, e descobriu que a empresanão o recolhia. Com o tempo, a cesta básica foi cortadae Ivalda passou a pagar pelo plano de saúde. Há um ano,com 260 funcionários, a empresa parou de pagar saláriose direitos trabalhistas. Os administradores são acusadosde saquear a fábrica. Um grupo de empregadosacampa em frente ao portão há sete meses, para que osdonos não tirem nenhum patrimônio. O grupo não desiste.“É questão de honra. Quero meus direitos. Só isso”,desabafa Ivalda. Ela espera que a fábrica ainda retome aprodução, mas em forma de cooperativa, sob controledos trabalhadores.Raquel Camargo REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Kerlon:dribleda focaFusão e ebuliçãoProtesto: 19mil empregosameaçadosvalter camapnato/abrMundoanimalAtlético x Cruzeiroé uma das rarasoportunidades de vermineiro nervoso. Nomês passado, finalzinhodo jogo, 4 a 3 para oCruzeiro, o jovem atacanteKerlon faz a sua jogadacaracterística: avançacontra a área adversária“petecando” a bola com acabeça, o drible da foca. Porcausa da foca, o atacante daraposa levou um safanãodo zagueiro Coelho, doGalo, que acabou suspensopor 120 dias pelo tribunalesportivo. O agressor atérecebeu manifestações desolidariedade de um zagueirocarioca, que afirmou quechutaria a cabeça da foca.Assim caminha o futebol-arte.cruzeiro esporte clubeBancários de todo o Brasil estiveram entre os dias 25 e 27 de setembroem Brasília para cobrar do Executivo e do Congresso regras contrademissões em massa caso se concretize a compra do banco ABN Amropelo espanhol Santander. A direção do Santander já previu 19 mil degolasem todo o mundo. Como na Europa há acordos e leis mais rígidosna proteção ao emprego, os brasileiros temem que as demissões se concentrempor aqui, onde o ABN controla o Real e não há leis que regremprocessos de fusão entre empresas. Os sindicalistas cobram reconhecimentoà Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho, queobstrui demissões imotivadas. Conseguiram apoio de parlamentares edo Ministério do Trabalho. O assunto assunto será aprofundado na Comissãode Trabalho da Câmara.Irado pero no muchoA reação às declarações do presidente da Philips – deque o Piauí não faria falta se sumisse do mapa – aindarende frutos. Para o megaempresário João Claudino, aira popular foi oportuna. Dono da principal rede de lojasde departamentos de Teresina, o barão tirou os produtosPhilips de suas prateleiras. Mas Claudino os mandoupara lojas que mantém em outras cidades do Nordeste,segundo gente bem informada da capital. E, enquantoespera a raiva passar, negocia preços e melhores margensde lucro com o fabricante.2007 outubro REVISTA DO BRASIL


capaPor Xandra StefanelQuando nasceu, João eracolocado num travesseirodentro do carrinho de madeira,junto com as frutasque sua mãe iria vender.Sem ter com quem deixar os dois filhos,a ambulante Ana Maria Sobrinho os levavapara o trabalho. Hoje João, 12 anos,e seu irmão Carlos, 14, seguem o ofícioda mãe: vender frutas pelo centro de SãoPaulo. Os dois estudam à tarde e trabalhamde manhã. Carlos, que já foi reprovadona escola uma vez, prefere trabalhara “aprontar coisa errada por aí”. Como sehouvesse apenas duas alternativas: trabalhoou criminalidade.Nos centros urbanos, a face mais expostado trabalho infantil está nas ruas e semáforos.Na região do chamado Centro Administrativode Teresina, as amigas Elaine, de13 anos, e Sandra, 12, viviam entre as pedintes.“É costume nas famílias as criançasirem pra rua pedir”, conta Elaine. “A genteprimeiro aprende a pedir, depois começa a‘pegar’”, revela Sandra, amenizando a expressãofurtar. Hoje ambas mantêm distânciado ofício precoce. Elaine está na 5ª sériee sonha ser bailaria. Sandra, na 6ª, adoraPortuguês e é freqüentadora da biblioteca.“Quero ser professora.”O estímulo aos estudos e o direito de sonharelas conquistaram nas atividades naCasa de Zabelê – uma referência na capitalpiauiense no trabalho com meninas em situaçãode risco. A iniciativa surgiu do conselhocomunitário da cidade, tendo à frentea Ação Social Arquidiocesana (ASA), comapoio do Banco Interamericano de Desenvolvimentoe da prefeitura.Com o tempo, agregou parceiros comoUnicef/Criança Esperança e o projeto PetrobrasFome Zero. A Casa de Zabelê atende124 jovens e desenvolve atividades deacompanhamento e reforço escolar, oficinasde dança, serigrafia e moda. As famíliasdos jovens recebem bolsa de 50 reais. Cadadia de falta nas atividades gera um descontode 2,50 na mesada; se a falta for na escola,o desconto é de 5 reais.De acordo com a coordenadora CarlaSimon Borges, as parcerias proporcionamuma receita de 55 mil reais, o bastante parabancar uma equipe de pedagogos, psicólogos,assistentes sociais, pessoal de apoioe manter as atividades. “As meninas nãoO Brasil vem obtendoavanços contra otrabalho infantil. Maso número de jovensque têm a infânciaameaçada por algumaforma de ocupaçãoainda é alto para umpaís que quer ser felizquando crescerFelicidadepor umtriz REVISTA DO BRASIL outubro 2007


sem brincadeira são tratadas como coitadinhas,mas preparadasEm Recife, Cleópatra cata elimpa sururu desde os 9 anos para lidar com sua realidadee enfrentá-la. Paraque nosso atendimento sejaapenas uma passagem, nada de dependência”,afirma. Trata-se de um exemplo concretode como tem de ser o combate à violaçãodos direitos das crianças: uma somade atitudes entre poder público, organizaçõesda sociedade civil, organismos internacionais,empresas e comunidade.Integração de açõesUma das tarefas do poder público é a fiscalização.O Ministério do Trabalho informater visitado, de janeiro a agosto desteano, 227 mil locais, nos quais regularizouo vínculo de 34 mil aprendizes e determinouregistro em carteira de outros 1.800adolescentes entre 16 e 18 anos.A fiscalização alcançou no período outros4.200 menores de 16 anos em situaçãoirregular, casos em que se procura encaminharas famílias dos jovens para ações deprevenção – como programas educacionaise de transferência de renda.Apesar dos avanços na fiscalização, muitasentidades atuantes na causa consideramque o empenho dos poderes públicos diantedos problemas da infância deixa a desejar.Programas como o Peti e o Bolsa Famíliasão reconhecidos como importantesarmas no combate à pobreza, mas insuficientesdiante de tantas dimensões que precisamser atacadas.Instituições lideradas pela FundaçãoAbrinq compuseram a Rede de MonitoramentoAmiga da Criança. São dezenas quese debruçam sobre as contas públicas paraverificar se metas e programas vêm sendocumpridos. O Plano Plurianual 2003-2007previa investimentos de 56 bilhões de reaisem áreas voltadas para melhorar a situaçãoda infância (educação, saúde, saneamento,profissionalização etc.). Uma das queixasda Rede é a falta de sistematização das informações.Outra é o grau de priorizaçãoorçamentária.De acordo com um dos relatórios daRede, os gastos anuais com a dívida pública,por exemplo, representaram o equivalentea 21 vezes o gasto anual com as açõesdo Plano Presidente Amigo da Criança.“Quando consideramos as despesas executadascom o Plano e a população decrianças e adolescentes, constatamos que,de cada 1.000 reais gastos pelo governo federal(em média), apenas 35 foram destinadosàs crianças e aos adolescentes”, observao mesmo relatório.A subsecretária dos Direitos da Criançae do Adolescente da Secretaria Especial deDireitos Humanos da Presidência da República(SEDH), Carmen Silveira de Oliveira,admite que o Plano de Ação PresidenteAmigo da Criança deve ser revisado.“Estamos estudando formas de superar asLeo Caldas/AEna calçada, vendendo frutas com a mãeCarlos, 14 anos, e João, 12, acompanham a mãe durante toda a manhã no carrinhode frutas pelas ruas do centro de São Paulo. À tarde vão para a escolaxandra stefanel2007 outubro REVISTA DO BRASIL


Da intimidade com a rua para a oportunidadeA infância pobre, a desestruturação familiare a intimidade com os acontecimentos “da rua”levaram Maria de Fátima Vieira da Silva, 18 anos,para muito perto da prostituição, em companhiade amigas. Fátima já passou por um aborto aos15 anos e há três freqüenta a Casa de Zabelê, emTeresina. Fez curso de moda e, após um árduoprocesso de seleção, passou a trabalhar na lojinhados produtos da Casa, como aprendiz. Promovidapara a unidade que funciona num espaço cedidopor um shopping, hoje trabalha das 12h às 18h eganha 400 reais por mês. “Tenho as manhãs livrese à noite termino o colégio. Depois quero estudarAdministração”, planeja. Mas antes de galgar suasconquistas esteve por um triz.É assim que vive toda criança e adolescenteque tem seus direitos violados. O trabalho ampliasua vulnerabilidade ao aliciamento para atividadescomo tráfico de drogas e exploração sexual. “Aexploração sexual comercial não se dá só nosroteiros turísticos. Ela se interiorizou, está emtodos os lugares. São 932 municípios de todosos estados brasileiros com casos denunciados”,lamenta a coordenadora do Programa de Combateao Abuso e Exploração Sexual de Crianças eAdolescentes da Secretaria Especial de DireitosHumanos da Presidência da República (SEDH),Socorro Tabosa.Esses números serviram de base paraimplantação de algumas medidas de combate. OMinistério da Saúde promoveu a capacitação deagentes, o da Educação implantou a campanhaEscola Que Protege. A SEDH atua também comparcerias em âmbitos regionais. “O ataque aoproblema tem de envolver vários atores. Já temosganhos principalmente na área da prevenção”, dizSocorro, coordenadora do Disque 100, serviço dediscagem direta gratuita que recebe denúnciasdas vítimas e encaminha aos órgãos de defesa ede responsabilização dos agressores. A discagemé direta e gratuita e funciona todos os dias, das 8hàs 22h, em todos os estados.Um mapeamento feito pela Polícia RodoviáriaFederal, SEDH e OIT identificou, até julhodeste ano, 1.918 pontos – bares, restaurantes,postos de gasolina e prostíbulos –,suscetíveis àexploração sexual de crianças e adolescentesàs margens dos 61 mil quilômetros da malharodoviária do país.A coordenadora do programa Afeto de Combateà Exploração Sexual, Glória Maria Motta Lara,destaca que a rede de exploração sexual age e seorganiza nos moldes do narcotráfico. Para ela, asociedade é tolerante com a violação dos direitos,a começar pela erotização precoce estimuladapela mídia. “A criança que trabalha está fragilizadae desprotegida e essa é a principal porta deentrada para a exploração. Ser conivente, nãodenunciar, é fazer parte dessa violenta retirada dedireitos”, alerta Glória.dificuldades de identificação dos dados locais,dos municípios, que muitas vezes podemser ocultados pelos dados nacionais.Precisamos chegar às áreas mais críticas.”Ela atribui a dificuldade na sistematizaçãode informações ao ineditismo do esforço deintegração das mais diversas áreas de atuaçãodo governo. “Superados esses desafios,a política global vai deixar marcas duradourasna área da infância e adolescência”,acredita Carmen.Entidades reclamam também que a absorçãodo Programa de Erradicação do TrabalhoInfantil (Peti) pelo Bolsa Família, noano passado, em vez de representar soma deesforços, dividiu-os. Segundo a diretora deProteção Social da Secretaria de Assistênciado Ministério do Desenvolvimento Social(MDS), Valéria Gonelli, a medida visou“racionalizar a gestão dos programas, eliminara duplicidade de benefícios e a concorrênciaentre programas”.A secretária-executiva do Fórum Nacionalde Erradicação do Trabalho Infantil, IsaMaria de Oliveira, desaprova a integraçãodos programas. “O Bolsa Família tem muitomérito no combate à pobreza, mas hoje háfamílias que negam a situação de trabalhoinfantil para receber a renda do BF; e mantêmas crianças na escola num turno e, nooutro, no trabalho”, alerta. O MDS está testandoo Sistema de Controle de Condicionalidadesdo Peti para acompanhar a freqüênciaescolar e as ofertas de atividadesdo contraturno.O Relatório Global de 2006 da OrganizaçãoInternacional do Trabalho (OIT) consideraque o Brasil se destaca mundialmentepela busca do esforço integrado – entre asvárias esferas de governo e entre agentesda sociedade civil – visando à implantaçãode políticas públicas com controle social.E vê como adversidades, além do quadrode pobreza, núcleos no meio agrícola e noserviço doméstico que resistem à mudançade mentalidade. A OIT ressalta ainda aimportância do envolvimento dos municípiosna identificação de crianças passíveisde inclusão no Peti. Até agosto, constavamdo cadastro único dos programas sociaismais de 875 mil beneficiários do Peti.Valéria, do MDS, admite que esses mecanismosde identificação têm de ser aprimorados:“A Pnad de 2005 apontou quase3 milhões de crianças e adolescentes trabalhandoe o nosso orçamento previa bolsapara todos, mas uma parcela significativanão foi identificada”.Longa caminhadaO Programa de Erradicação do TrabalhoInfantil foi criado ainda durante o governoFernando Henrique, no final dos anos 90.O programa hoje é acompanhado por 33organismos públicos e privados – a ComissãoNacional de Erradicação do TrabalhoInfantil (Conaeti, criada em 2003) – coma missão de dar continuidade ao esforçoque começou na década de 90. Resultadosjá aparecem. Em 1995, a participação decrianças e adolescentes no trabalho atingia18,7% da população de 5 a 17 anos. Em 2006esse contingente caiu para 11,1%. Porém, éainda uma população muito numerosa debrasileiros com o futuro comprometido.Em sua mais recente Pesquisa Nacionalpor Amostra de Domicílios (Pnad), o IBGEidentificou 2,7 milhões de pessoas com menosde 16 anos trabalhando ou procurandoemprego, formando, indevidamente, 2,6%10 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Fátima, 18,na loja daCasa deZabelê, emTeresina (PI)paulo pepe“crianças deveriam estudar e brincar”Kelly vendia balas nos semáforos de São Paulo. Acolhida pelo Projeto Travessia,hoje, aos 15 anos, faz diversas oficinas, entre elas a de costurajailton Garciada população economicamente ativa (PEA)– há dez anos, eram 3,7 milhões de precoces(4,6% da PEA). O Estatuto da Criança e doAdolescente proíbe toda forma de trabalhonessa fase da vida; dos 14 aos 16 anos, sãoaceitas atividades de aprendizagem.Cleópatra John Martins do Nascimento,de 14 anos, é uma desses milhares decrianças com a formação arranhada peloofício fora de hora. Moradora da Ilha deDeus, região de manguezais na zona sul doRecife, ela cata e limpa sururu desde os 9anos. Divide o tempo do trabalho com osestudos da 8ª série e aos fins de semana vaià feira de Jaboatão dos Guararapes vendero marisco. “Fico cansada, com sono e meubraço dói. Gosto de brincar de corda, jogarbola e vôlei, mas fiquei sem tempo.”Dona Edilene Maria Martins, tia que elaconsidera mãe, diz que sem a menina ficadifícil, pois toda a renda da família vem2007 outubro REVISTA DO BRASIL 11


PolíticaPor BernardoKucinskiO valerioduto do PSDBO julgamento do STF no caso do “mensalão” pode não ter sido político,mas o da mídia é. Agora que a origem do valerioduto está chegando aoSupremo, a mãe de todos os escândalos é tratada como mensalão“mineiro”, e não tucanoDepois de acolher a maioria das denúncias do procurador-geralda República no caso do “mensalão”,é inevitável que o Supremo Tribunal Federal (STF)também aceite as denúncias contra os envolvidosno “escândalo do valerioduto”, incluindo altas figurasdo PSDB, como o senador Eduardo Azeredo, ex-presidente dopartido, e o governador de Minas, Aécio Neves.Foi na campanha de Azeredo ao governo de Minas em 1998 queMarcos Valério criou o engenhoso esquema de camuflar com empréstimosbancários as doações de caixa dois de empreiteiras, assimcomo dinheiro desviado de contratos de publicidade de órgãospúblicos. Canalizados para sua empresa, a SMP&B, esses recursospagaram a caríssima campanha do PSDB e seus aliados. Quatroanos depois, Marcos Valério proporia o mesmo esquema à coalizãoPT-PL para financiar a campanha de 2002.O mensalão foi um filhote do valerioduto, esse sim a mãede todos os escândalos, tanto pela ordem dos acontecimentosquanto pela sua dimensão. Por um dos documentos apreendidospela Polícia Federal, 150 políticos podem ter sido beneficiadospelo valerioduto, entre os quais 82 deputados federaisou estaduais. É certo que o indiciamento atingirá a casa das dezenas.O inquérito estima que a campanha de Azeredo tenhachegado a 100 milhões de reais. Os empréstimos de fachada dosbancos somaram 28,5 milhões. Mas seu comitê só registrou oficialmente8,55 milhões.Alguns juristas dizem que a independência demonstrada pelosjuízes no caso do mensalão foi um marco na evolução da democracia.Por isso, fica difícil agora para o STF recuar aos velhos temposem que se submetia docilmente à ditadura militar e à violênciados pacotes econômicos. Por exemplo, nunca julgou o seqüestroda poupança pelo governo Collor. O STF sinalizou que a “Repúblicae suas instituições já não toleram costumes frouxos”, avaliouo jornalista Luiz Martins.A imprensa admite que o Supremo nunca foi tão independente,embora não queira dar esse mérito ao presidente Lula, que nomeoua maioria dos atuais ministros. Também a Polícia Federal e o MinistérioPúblico nunca foram tão independentes, na opinião dojurista Fábio Konder Comparato. O voto do relator Joaquim Barbosa,contundente, foi elogiado pela mídia e seu autor, o primeiroministro negro do Supremo, nomeado por Lula por esse motivoemblemático, exaltado em todas as capas de revistas.Houve deslizes, alguns deles sérios, mas eles não alteram o caráterhistórico do julgamento. O principal foi a devassa dos diálogosprivados entre dois juízes, Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski,pelo fotógrafo de O Globo. Cármen Lúcia decidiu renunciar e sóvoltou atrás ao ser advertida de que a repercussão seria ainda maisdanosa para todos. Juristas e advogados também acham que juízesnão devem dar entrevistas à imprensa. E quase todos os ministrosdo Supremo deram entrevistas e continuam dando, assim comoo procurador-geral.Governador deMinas Gerais,Aécio Neves(PSDB): passívelde indiciamentoFabio Pozzebom/ABr14 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


EduardoAzeredo,senadorpor MinasGerais (PSDB):empréstimosde fachadasomaram28,5 milhõesde reaisJosé Cruz/ABrFaca no pescoçoO ministro Marco Aurélio de Mello, por exemplo, disse aos jornalistasque o banqueiro Salvatore Cacciola tinha o “direito natural”de fugir à Justiça. Com apoio da cúpula do Banco Central dogoverno Fernando Henrique, o banqueiro deu um prejuízo diretode 1,6 bilhão de reais ao povo brasileiro, ou mais de 3 bilhões dereais no câmbio da época, algo como 30 vezes os valores do valeriodutode Minas ou do mensalão. Fugiu graças a um habeas corpusconcedido pelo próprio Marco Aurélio. Por isso, já há propostaspara incluir novas tipificações de crimes de imprensa na Lei deImprensa, assim como para proibir juízes de dar entrevistas, nonovo código de ética que está sendo discutido pelo Conselho Superiorda Magistratura.Algumas críticas ao julgamento – por exemplo, a da fragilidadedas provas – fazem parte do jogo natural de defesa, o chamado“direito de espernear”. É tradição na Justiça, na fase de inquérito,o benefício da dúvida ficar com a promotoria: “in dubio pro societatis”,diz o latim dos advogados. Já no julgamento, propriamente,o beneficio da dúvida é do réu. “In dubio pro reo.” Por isso, umdos juízes, ao votar pela aceitação da denúncia contra Gushiken,admitiu que se fosse o julgamento final do caso ele não teria dúvidasem inocentá-lo.Sentindo-se “furada” por O Globo, a Folha de S.Paulo deu primeirapágina a meros fragmentos de uma fala de Lewandowskiao telefone ouvida clandestinamente por uma repórter do jornal,entre eles a frase que ficaria famosa: “O Supremo votou com afaca no pescoço”. A expressão impressionou tanto que entrou novocabulário da política. Até que ponto essa pressão da mídia influinos votos? Certamente, no caso-limite de Gushiken, em quea denúncia foi aceita por apenas um voto de diferença, o clima depressão foi decisivo.O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, amigo de vários juízesdo Supremo, revelou em entrevista à Folha que muitos juízes lhedisseram ter sido “difícil suportar” a pressão. O cientista políticoFábio Wanderley Reis considerou a pressão “indesejável”, já que ainstituição deveria julgar de modo imparcial.Moralismo de classeEm muitos julgamentos promotores usam o argumento do “clamorpopular” para pedir rigor nas sentenças. Mas estaríamos mesmofrente a um “clamor popular”? Fábio Konder Comparato dizque não. Que houve, isso sim, uma “grande vocalização da classemédia, que é retrógrada”. Diz que juízes são muito sensíveis a essavocalização porque eles próprios se originam das classes médias.E por que a classe média? Trata-se de uma classe muito sensívelao discurso moralista, como já apontou nossa sociologia. Tantoassim que um discurso puramente moralista mobilizou a classemédia para a Marcha da Família com Deus e pela Propriedade,que abriu caminho ao golpe de 1964. O cientista político Amauryde Souza apontou outro fator para a grita da classe média, em entrevistaao Estadão: “O Brasil melhorou nos últimos 15 anos, masnão há percepção disso pela classe média”, que se sente explorada,pagando mais impostos.Se há convergência na avaliação do julgamento pelo Supremo,predominam as críticas ao desempenho da mídia, apesar da contribuiçãodos jornalistas nas investigações e ao mostrarem que, portrás da falsa solenidade do Tribunal, os juízes são pessoas comunsque brigam entre si e têm medo da opinião pública.Belluzzo diz que a “mídia simplificou demais: “Ficou uma coisade bandidos contra mocinhos”. A mídia não contextualizou de formaadequada o episódio do mensalão, deixando-se pautar e usardescaradamente pela oposição. Por exemplo, endossou o truquede chamar o caixa dois da coalizão PT-PL de “mensalão”, para diferenciá-lodo valerioduto, quando é óbvio que deputados do PTnão precisavam de mesada para votar pelo governo.Como reconhece Maria Inês Nassif, no jornal Valor Econômico,por quase dois anos a oposição tratou o caso do mensalão comouma anomalia introduzida pelo PT no sistema político, quandona verdade Marcos Valério era simplesmente um profissional doramo da lavagem de dinheiro em montagem de caixa dois paracampanhas eleitorais, um profissional que não tem partido. Emvez de se debruçar sobre as razões pelas quais esses esquemas passarama existir, e apoiar uma reforma política ampla, a mídia, areboque da oposição, limitou-se a demonizar o PT.2007 outubro REVISTA DO BRASIL 15


Juiz Marco Auréliode Mello: “direitonatural” de fugirWilson Dias/ABrLuiz Gonzaga Belluzzo também adverte que a mídia deveria evitarse colocar na posição de juiz. “Existe uma instituição encarregadade julgar”, diz o professor da Unicamp, elogiando o desempenhodo Supremo. No Observatório da Imprensa, nosso principalórgão de acompanhamento crítico da imprensa, o jornalista LuizMartins diz que cada vez mais os jornalistas investigativos dãopreferência ao “prato pronto” que lhes é oferecido ora pela polícia,ora pelo Ministério Público: “A imprensa funcionaria então comouma espécie de tribunal ad hoc, capaz de acusar e julgar com extremarapidez, sendo a execração pública uma forma de julgamento,ainda que, por vezes, à custa de inocentes”.Luiz Martins analisou longamente a tese da faca no pescoço edisse que, embora publicidade opressiva seja um conceito aindanão incorporado pela mídia, já freqüenta o jargão do mundo jurídico:“Significa exatamente a falta de condições de deliberação ejulgamentos tranqüilos, sem qualquer coação, sem qualquer facano pescoço. Significa também o linchamento midiático, vexaminosoe precipitado, tão odioso quanto provas obtidas sob torturae que depois de restabelecidas as condições normais até anulamum processo”.O fato é que a mídia já condenara os líderes petistas e se sentiriaderrotada se o STF não aceitasse os pedidos de indiciamento.Foi como se tivesse se tornado uma das partes do processo. Umadimensão dramática do episódio, que tem a ver apenas indiretamentecom a mídia, foi a profundidade do mal-estar provocadopelas denúncias do mensalão em petistas e simpatizantes.O partido tinha de fato construído uma imagem de instituiçãodotada de uma ética superior. Mesmo eleitores que não simpatizavamcom o PT admiravam suas figuras emblemáticas, comoGenoino, Mercadante, Suplicy, Marina Silva, Olívio Dutra. Tudoisso acabou a partir das denúncias de Roberto Jefferson, deixandoum sentimento de grande vazio nas pessoas. Um sentimentode perda coletiva.É consenso entre analistas políticos que calou fundo a hipocrisiados dirigentes petistas ao proclamarem que “O PT não roubanem deixa roubar”, enquanto por baixo do pano adotavam métodosilegais de financiamento de campanha dos tucanos. Enganaro eleitor foi mais danoso que o próprio fato de usar caixa dois, oqual o brasileiro enfim parece tolerar. É essa dimensão que talvezescape aos dirigentes do PT quando alegam que ainda é o partidomais ético. Tecnicamente pode ser verdade. Mas não responde aosentimento de decepção.Curiosamente, a mídia foi ainda mais hipócrita, as descer a lenhano PT, sem mencionar, durante esses dois anos, o valeriodutode Azeredo. Também é indiscutível que a mídia investiu pesadona ampliação das denúncias, na criminalização do PT e na criaçãode um clima de suspeição generalizada contra todos os petistas.Durante a cobertura das CPIs, era comum as manchetes dos jornaisreproduzirem ao pé da letra as falas acusatórias da oposição,esta ainda mais hipócrita.O dano à imagem do partido não será revertido. Essa é a tragédiada condenação pela mídia. É uma condenação que grudana imagem das pessoas como uma mancha de caqui em roupabranca. Não há alvejante que tire. Se daqui a dois anos o processochegar a seu final e maioria dos réus for absolvida, a mídia dirá:“Acabou em pizza”.O julgamento do Supremo pode não ter sido político, no sentidoestrito. Mas o da mídia só é político. Agora que o valeriodutodos tucanos está chegando ao STF, qual o comportamento damídia? Foram perguntar ao Fernando Henrique se ele sabia. Não.Falam de valerioduto tucano? Não. Falam em valerioduto de Minas.E foram pinçar no relatório da Promotoria a única referênciaa um ministro de Lula, Mares Guia, jogando isso nas manchetes,para de novo implicar o PT. Omitem, inclusive, que esse políticoera do PTB na época em que Marcos Valério e o PSDB criaramo valerioduto.Bernardo Kucinski é professor titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA/USP. Foi produtor e locutor noserviço brasileiro da BBC de Londres e assistente de direção na televisão BBC. É autor de vários livros sobre jornalismo16 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Pasquale PorPasquale Cipro NetoSoneto de fidelidadeDia desses, depois de alguns “pulos” com o controleremoto, parei no Multishow, canalde TV por assinatura. Estava no ar umprograma que homenageava Tom Jobim− mestre Tom Jobim! Antes dechamar cada um dos convidados, Lorena Calábriafazia comentários acerca da músicaque seria apresentada e de quem a interpretaria.Lorena começou a falar deEu Sei Que Vou Te Amar, uma dasobras-primas de Tom Jobim e Viniciusde Moraes. O intérprete? PaulinhoMoska, um dos ótimos representantesda nova (já não tão nova) geração da MPB,da qual fazem parte Chico César, Zeca Baleiroe Lenine, entre outros.Repetindo o que fazia o próprio Viniciusquando interpretava a canção ao lado deToquinho e de alguma das muitas cantorasque acompanharam a dupla, Paulinhorecitou o poema “Soneto de fidelidade”,que Vinicius escreveu em Estoril(Portugal), em 1939: “De tudo, ao meuamor serei atento/ Antes, e com tal zelo,e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele seencante mais meu pensamento./ Quero vivê-lo em cada vão momento/E em seu louvor hei de espalhar meu canto/ E rir meu risoe derramar meu pranto/ Ao seu pesar ou seu contentamento./ Eassim, quando mais tarde me procure/ Quem sabe a morte, angústiade quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eupossa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, postoque é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”.É bom lembrar que essa composição poética de Vinicius é exemplode soneto italiano, já que é formada por catorze versos, distribuídosem dois quartetos e dois tercetos. A rima merece observaçãoacurada. O primeiro verso do primeiro quarteto terminaem “atento”, que rima com “pensamento”, palavra final do últimoverso do quarteto. O segundo verso termina em “tanto”, que rimacom “encanto”, que encerra o terceiro verso. Temos aí a rima abba.No segundo quarteto, o processo se repete (“momento/contentamento”;“canto/pranto”). E nos dois tercetos? A rima se dá como seMuita gente sai da escola semsaber que em poesia são normaisas inversões e que é precisopercebê-las para poder de fatocompreender o texto poéticoeles formassem um sexteto (“procure/dure”;“vive/tive”; “ama/chama”).Como leu Paulinho Moska essa bela obra deVinicius? Leu bem, muito bem. Sem se deixarlevar pela rigidez formal do soneto,o que significaria ler cada verso comofrase completa, Paulinho privilegiouo fio sintático do texto. Tradução:em vez de parar no fim doprimeiro verso (“atento”), como jávi muita gente graúda fazer, Paulinhofoi até o fim da primeira oração e leu assim:“De tudo, ao meu amor serei atentoantes”.Temos aí um exemplo de hipérbato,que nada mais é do que a inversão da ordemnatural das palavras. Em vez de “Serei atentoao meu amor antes de tudo” (ordem direta),o poeta escreveu “De tudo, ao meuamor serei atento antes” (ordem indiretaou inversa), justamente para que “atento”rimasse com “pensamento” e para quea métrica (número de sílabas poéticas)fosse a desejada.Na hora de ler o primeiro terceto, nova demonstração de competênciade Paulinho, que não parou em “procure”, mas em “morte”,e leu deste modo: “E assim, quando mais tarde me procure quemsabe a morte, angústia de quem vive...”.Agora, por favor, releia o poema. Tente “colar” direito suas partes.Releu? Percebeu, por exemplo, que o poeta define a mortecomo “angústia de quem vive” e a solidão como “fim de quemama”? Percebeu que uma das duas (talvez a morte, talvez a solidão)o procurará? Percebeu que nesse momento ele poderá dizera si mesmo (a respeito do amor que teve) o que está nos dois versosfinais do poema?Lamento dizer, mas muita gente sai da escola sem saber que ofim de um verso não é necessariamente o fim de uma estruturafrasal. E sem saber que em poesia são normais as inversões e que,por isso, é preciso percebê-las para poder de fato compreender otexto poético. O famoso poema de Vinicius é apenas um dos tantosexemplos de como se pode ler sem compreender.Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizadore apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura2007 outubro REVISTA DO BRASIL 17


entrevistaMinha cria é umhomem-bombaJovens dos morros cariocas planejam operaçãocamicase para resgatar suas mães, seqüestradas pelo asfalto.E Caco Barcellos leva ao palco a sociedade dramática edesigual que contaminou sua vida de repórterA mãe domenino dafavela sai decasa segundae volta nosábado. Criaos filhos daclasse médiadurante asemana eos seus nodomingo. Éum seqüestroque ocorretodos os diasnum paísde gravesdiferençassociaisPor Tom CardosoPor esta a polícia do Rio de Janeiro não esperava:os traficantes preparam um grandeataque camicase contra a burguesia dazona sul. Calma, Cabral. É apenas fantasiada cabeça do escritor e repórter CacoBarcellos, transformada em peça de teatro. Osama, oHomem-Bomba do Rio, assinada pelo jornalista, estréiaem novembro e será encenada por jovens de escolasparticulares e públicas. É parte do Projeto Conexões,parceria entre Cultura Inglesa São Paulo, British CouncilBrasil, Colégio São Luís, National Theatre (da Inglaterra)e Teatro-Escola Célia Helena.Barcellos vê semelhanças entre o jovem traficante doRio e os meninos do Oriente Médio. Viveu pessoalmentea realidade dos morros cariocas, num grandeesforço de reportagem que resultou no livro Abusado,o Dono do Morro Dona Marta, a trajetória do traficanteMarcinho VP. E também conhece a rotina dos jovenspalestinos, resultado de reportagens na Faixa de Gaza,feitas nos tempos de correspondente da TV Globo emParis. Nada escapa ao olho clínico de Caco Barcellos.Em 1992, ele lançou Rota 66 – A História da Polícia QueMata, livro-denúncia que ajudou a decifrar o grupo deextermínio comandado pela tropa de elite da PolíciaMilitar de São Paulo. Até hoje Barcellos continua sendoprocessado por soldados e recebendo homenagensda comunidade carente da cidade. A última foi um rapbatizado Rota 66, composto por Afro X.Editor do programa “Profissão Repórter”, sopro deresistência jornalística em meio à programação do Fantástico,Barcellos continua acompanhando de perto aspolíticas de repressão à violência e não poupa críticasàs invasões aos morros cariocas terminadas em execuções.“Se o uso da violência policial fosse bom, eficiente,São Paulo seria hoje um paraíso”, compara.Barcellos recebeu reportagem da Revista do Brasilno seu laboratório de jornalismo, a redação do “ProfissãoRepórter”. Havia acabado de sair de uma exaustivacobertura de 12 horas da tragédia com o Airbusda TAM, em Congonhas. E, como bom repórter, nãobaixou as antenas.É possível escrever uma peça de teatro, trabalharcomo repórter e ainda pensar em escrever um novolivro?Já estou acostumado a esse ritmo. Ontem (17 de julho)cheguei às 19 horas em Congonhas, após o acidentecom o Airbus da TAM, com a equipe do “ProfissãoRepórter”. Fiquei lá por quase 12 horas. Chegamos aquina redação e corremos para a ilha de edição.Em 1975 você também escreveu uma peça baseadaem temas sociais, como pobreza e violência...Eu ainda trabalhava como repórter em Porto Alegre,para o jornal Folha da Manhã, cobrindo assuntos relacionadosà violência. Escrevia crônicas sobre a minha vidacotidiana de repórter. Um diretor de teatro achou queeu levava jeito e me chamou para ajudá-lo a desenvolveruma peça. Já havia pré-roteiro. Era sobre uma mulhercom problemas mentais perseguida pela polícia. Agora,não. É também uma encomenda, mas com liberdade totalna escolha do tema. Tentei escrever como ficcionista,mas toda hora me sentia preso a uma espécie de camisa-de-forçarepresentada pelas histórias verdadeiras douniverso em que me envolvo no trabalho de repórter.Sempre que eu tentava criar uma história ficava preso auma necessidade de coerência, de verossimilhança.Você vai usar personagens do seu livro Abusado?Sim, indiretamente. Eu tenho um farto material depesquisa desse livro. Fiz centenas de entrevistas, todasgravadas, e isso me ajudou a entender a rotina dos adolescentese jovens que habitam os morros do Rio. É claroque o processo de gírias é muito dinâmico. Se hoje eusubir o morro do Rio já não vou entender muita coisa.Mas o universo continua o mesmo. E o personagemprincipal da peça, o Osama, é muito parecido com osmeninos retratados no Abusado. Ele é uma mistura detraficantes do Rio com delinqüentes de São Paulo.Por que Osama?Você lembra de um jovem (Carlos Eduardo de MeloMenezes) que invadiu (em novembro do ano passado) oprédio da Bolsa de Valores, em São Paulo, com um cintode explosivos? Não havia dinamite, era apenas uma18 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Há semelhançasentre o jovemtraficante do Rio eo que vive na Faixade Gaza: a revolta,a indignação,a inquietude, oabandono social, arelação entre ricos epobres. São fatoresem comumJailton Garcia


Não épossívelempresárioganhar umafortuna enão colocara mão nobolso e pagarmelhoressalários.Se nãomudar essamentalidadegananciosa,não há comodiminuir aviolênciaJailton Garciacena para chamar a atenção. Ficou lá horas, de braçoscruzados. Mas essa história me ajudou a pensar numpersonagem, meio fantasioso, meio real. E o nome Osamasurgiu da minha necessidade de traçar um paraleloentre o jovem traficante dos morros do Rio e os jovensdo Oriente Médio.Há semelhança entre esses dois universos?Sim. Eu estive – nos quatro anos em que fui correspondenteda TV Globo na Europa – algumas vezes naregião de conflito entre israelenses e palestinos. Há,sim, semelhanças entre o jovem traficante do Rio e omenino que vive na Faixa de Gaza: a revolta, a indignação,a inquietude, o abandono social, a relação entrericos e pobres. São fatores em comum. É claro que hágrandes diferenças, provavelmente mais diferenças. Aquestão da religiosidade, por exemplo. Um jovem palestinoé capaz de dar a vida por sua causa, pela sua religião;já o jovem brasileiro, dificilmente. Essa é umapequena vantagem brasileira. Pequena vantagem, poiso jovem brasileiro acompanha a sociedade brasileira emata por qualquer bobagem.O Osama é um camicase...Sim! Ele quer fazer uma revolução camicase no Riode Janeiro. Está disposto a morrer pela libertação de suamãe e de outras mães que estão presas trabalhando emcasas da burguesia carioca. A peça é centrada em doispersonagens principais: o Osama e o Diboa. O Diboa éde uma família de classe média carioca. É filho de umexecutivo de uma indústria de metais conhecido como“Lacerdinha” e neto de Carlos Lacerda (1914-1977, governadordo antigo Estado da Guanabara). Seu pai éuma espécie de Carlos Lacerda contemporâneo.Por que a referência a Carlos Lacerda?O Carlos Lacerda ainda está muito presente na sociedadecarioca, nas redações de jornais e televisão, inclusive.O lado conservador, a intolerância, principalmentecom as classes mais pobres. O Lacerda era umconservador radical – expulsou os pobres da cidade doRio de Janeiro. Vários condomínios da periferia do Rio,semelhantes à Cidade de Deus, foram obras de seu governo.Ele só não conseguiu expulsar todos os pobresda zona sul por causa da ação forte de Leonel Brizola,que foi o primeiro a dar legalidade ao povo da favela.E o Lacerdinha também é uma figura intolerante, umpai severo, reacionário, que acaba sendo decisivo nocomportamento do filho, o Diboa, um delinqüente queconhece o Osama, líder do tráfico, que aos 20 anos resolvese aposentar. Osama tem uma idéia diferente dotráfico, quer fazer algo mais radical, um ataque camicasecontra a elite carioca.Nesse sentido ele se parece com o Marcinho VP(traficante, principal personagem do livro Abusado,morto em 2003)?Tem um pouco, sim. Aquele lado marginal, meio romântico,idealista. O Osama, que já conseguiu ter umpé-de-meia com o dinheiro do tráfico, quer formar umgrupo camicase para recuperar as mães que eles perderam.Que é algo real, rotineiro na vida dos jovens ecrianças do morro. A mãe do menino da favela sai decasa na segunda-feira de manhã e só volta no sábado,no fim da tarde. Os filhos só convivem com as mães nodomingo. É um seqüestro que ocorre todos os dias numpaís de graves diferenças sociais como o Brasil.O Osama resolve, então, libertar sua mãe.Sim. E o Diboa também. Seu pai, o Lacerdinha, éalcoólatra e bate na mulher todos os dias. E o Diboa,com pena da mãe, quer uma arma para expulsar opai de casa. Ele é consumidor de drogas e acaba conhecendoo Osama numa academia de ginástica. Osdois se unem para ajudar as mães e decretam guerraao Lacerdinha e à burguesia carioca. Tudo isso aconteceno atual cenário de violência do Rio. Só não possote contar o final (risos). Mas a peça se desenrola apartir desse conflito, que é muito comum na vida dosmeninos de morro. É difícil o pai, que trabalha comoporteiro ou operário, e a mãe, que passa a semanalimpando a casa da patroa, convencerem o filho, queganha dinheiro com o tráfico, que compra aparelhodoméstico, o aparelho novo de televisão, o som importado,o DVD, a sair dessa vida.Mas você não acha que esse glamour em torno dotraficante de drogas se perdeu um pouco nos últimosanos?É, de fato o “trabalho” para o tráfico é um tédio só.Aliás, no mundo da malandragem o traficante é vistopelos assaltantes como uma figura menor. O assaltanteplaneja o assalto, convoca um grupo de assaltantes nomorro e parte para o ataque. Terceiriza o crime, só vaina boa. E depois gasta o dinheiro do assalto com mulherese festas. Ou distribui a renda entre os parentes.Não precisa se esconder. Vai para o morro vizinho, eacabou. Já o traficante tem de ficar no morro, ficar noseu território, manter o estoque de cocaína, de armas.Tem de comprar a polícia para não morrer, tem de terrelações com políticos; tem de agradar à comunidade.Tem um monte de “responsabilidades” que torna a vidamuito chata. O bandido mais experiente, que quer granafácil, vida boa, não quer saber do tráfico.Do livro Rota 66 ao Abusado você construiu todauma antropologia da polícia. Como foi esse processo?E como você vê a polícia nos dias de hoje?No Rota eu fiz algo bem específico, que era provarque aquela facção da polícia era um grupo de extermínioorganizado. Nunca fiz nenhuma pesquisa paraavaliar o desenvolvimento da polícia, a evolução, mas,como estou o tempo todo na rua, acabo conhecendobem o modo de agir de cada grupo policial. Vejo, por20 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


exemplo, que o Rio adotou, com as milícias, a mesmatécnica dos antigos pés-de-pato (grupos de extermíniode São Paulo, formados em sua maioria por policiais),de pegar dinheiro da comunidade, de cobrar pedágio,para garantir a segurança.Os pés-de-pato ainda existem em São Paulo?O ex-PM em folga que pegava o dinheiro do comerciantepara garantir a segurança? Sim, ainda existe, masnão com a mesma força. No Rio está mais organizado.Como você vê a nova conduta adotada pelo governadorSérgio Cabral? Laudos do Instituto MédicoLegal mostram que oito das 19 mortes ocorridasdurante a invasão policial ao Complexo doAlemão, em junho, foram causadas por tiros àqueima-roupa.A atitude da polícia carioca é indefensável. Acho quese a intenção fosse desarmar as pessoas, sem mortes,seria muito bom. Há situações, claro, ainda mais numainvasão ao Complexo do Alemão, em que a morte é inevitável,sobretudo em legítima defesa. Agora, o que meparece, como apontaram todas as entidades de direitoshumanos, é que houve execuções. Acho que a violênciagera mais violência. Como cidadão brasileiro, eu nãoquero ainda mais violência do que a gente já tem. E seuso da violência policial fosse bom, fosse eficaz, SãoPaulo seria hoje um paraíso.Mas a violência também parte dos traficantes. Aterceira geração do Comando Vermelho é consideradaa mais violenta de todas as gerações.O brasileiro é muito matador. É o terceiro povo maisviolento do mundo. E a violência não está só na polícia,mas em todos segmentos. E no crime organizadotambém. A terceira geração do Comando Vermelho éviolentíssima, controlada hoje por matadores. O chefedo morro do Rio é igualzinho ao coronel da PM. Amentalidade é a mesma: ninguém tem direito à vida,direito a nada.E a sociedade brasileira também ajuda a legitimara violência, quando aplaude as execuçõesda PM, quando pede a Rota nas ruas, quandotenta linchamentos...Sem dúvida. Quando era correspondente em Paris,fui à periferia da cidade para entender como se davaa relação da comunidade mais pobre com a polícia.Não havia um só caso de execução nos últimos anos.E, quando houve, o policial foi punido com rigor. Aqui,não. Tudo é motivo para matar. A sociedade brasileira,por exemplo, não tolera o crime quando envolve patrimônio,mas tolera um assassinato que envolve a honrade alguém. Há uma legitimidade silenciosa.O que você acha do programa de segurança adotadopelo prefeito de Nova York (de 1994 a 2002),Rudolph Giuliani, o Tolerância Zero? Ele poderia serimplantado aqui, ou no Brasil repressão não combinacom eficiência?É preciso dizer que, ao contrário do que as pessoaspensam, o Tolerância Zero não deu certo porque reprimiuseveramente o crime, e sim porque implantouum plano de valorização dos policiais, sobretudo umaumento salarial. Eu tenho certeza de que se pagassemmelhor o soldado da PM do Rio, por exemplo, haveriamenos corrupção e menos violência.Mas o orçamento do governo do Rio não se comparaao orçamento de Nova York...Não, não se compara. Mas é preciso que a sociedadetoda se mobilize. Não é possível que os empresáriosque estão ganhando fortuna com especulação não coloquema mão no bolso para ajudar a diminuir o problemada violência. Eu não entendo de economia, massei que os banqueiros, por exemplo, acumularam umafortuna nos últimos 15 anos. E continuam, mesmo comlucros exorbitantes, pagando salários baixos aos empregados.O mesmo vale para os outros empresários.Enquanto não mudar essa mentalidade gananciosa, enquantonão houver distribuição de renda, não há comodiminuir a violência.Você chegou a receber várias ameaças de mortena época do lançamento do livro Rota 66, principalmentepor parte dos policiais. As ameaçascontinuam?As ameaças acabaram, já a perseguição na Justiça,não. Mas fui inocentado em todos os processos. Ocurioso é que raramente sou processado por coronéis,apenas por soldados. Pedem sempre a mesma quantia:1 milhão de reais (risos). O pior é que eles alegam pobrezae, mesmo eu ganhando a ação, acabo tendo dearcar com as custas do processo. A receita com o Rota66, um dos campeões de vendas da editora, não superaas despesas geradas pelos processos.É verdade que tem soldado descontente que lhemanda cartas anônimas denunciando o superior?Você virou uma espécie de corregedor não oficialda PM?É, recebi durante muito tempo cartas de policiais, denunciandoabusos de seus oficiais. Mas isso parou umpouco. Eu recebo muitas cartas anônimas com fotos dejovens executados, sem causa aparente. A matança naperiferia, por parte dos policiais, continua forte.O Rota 66 acabou virando livro de referência parajovens da periferia. Chegou até a virar título deum rap.É, fiquei muito feliz com a homenagem. As históriasque esses meninos contam nas letras são fascinantes.Valem mais do que qualquer livro. Eles são os verdadeirosrepórteres da periferia.Comocidadãobrasileiro, eunão queroainda maisviolência doque a gentejá tem. Ese uso daviolênciapolicial fossebom, fosseeficaz, SãoPaulo seriahoje umparaísoJailton Garcia2007 outubro REVISTA DO BRASIL 21


mídiaDeolhoemvocêA televisão influenciahábitos, valores e é aprincipal responsávelpela informação eformação da opiniãopública no Brasil.Sua programação, noentanto, não reflete adiversidade brasileira.O que você tem a vercom isso?Por Bia BarbosaDurante a ditadura, no finaldos anos 60 um dos interessesdeclarados do governoera controlar e padronizaras informações, evitandoque “bolsões de subversão” se formassem.Nesse cenário a Rede Globo se consolidoucomo emissora de alcance nacional e diversasoutras TVs cresceram. Quase quatro décadasdepois, a influência da imprensa escritacontinua pequena diante do gigantismodos canais de televisão. “A maioria absolutados brasileiros só se informa e se entretémpela televisão. Ela dita hábitos, valores, formaconsensos e organiza, segundo seus interesses,grande parte da sociedade”, acredita oprofessor de Comunicação da Universidadede São Paulo Laurindo Lalo Leal Filho.A psicanalista Maria Rita Kehl acrescenta,ainda, que a televisão funciona comoformadora não só de opinião, mas de atitudesde consumo: “As novelas, os programasde auditório, os seriados, tudo funcionade modo a ‘educar’ o telespectador aviver de acordo com os parâmetros da sociedadeem que o consumo dita as regrasda cidadania”. A identificação dessa influênciajá é antiga.Em 1998, por exemplo, o levantamento realizadopelo Instituto Jaime Troiano “Estratégiasde Consumidor”, sobre a imagem queas mulheres entre 20 e 45 anos de São Paulo,das classes A e B, tinham de si mesmas,revelou que de cada dez entrevistadas noveestavam profundamente insatisfeitas com opróprio corpo. Na avaliação de psicólogos,os números mostram o poder da mídia emformar padrões sociais. Grande parte dessespadrões é construída pela teledramaturgia.Resultado de uma luta importante de artistas,diretores e produtores na década de 70contra os chamados “enlatados” que vinhamde fora do país, a novela é hoje dona do horárionobre. “No entanto, muitas vezes a novelaidealiza a realidade brasileira e a maquiade acordo com conveniências de mercado”,analisa o ator Sérgio Mamberti, hoje à frenteda Secretaria da Identidade e da DiversidadeCultural do Ministério da Cultura.A diversidade cultural e regional do Brasilparece mesmo longe da programação daTV aberta. O gaúcho Odacir MendonçaMoura, de 62 anos, conta que fora do RioGrande Sul nunca viu programas que falassemda sua região. Aposentado, ele gosta deassistir a telejornais. “Quem está nos grandescentros nunca fica sabendo o que estáacontecendo no restante do país.”22 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Hannibal Hanschke/REUTERSOs canais não são de propriedade dos grupos de comunicação. São concessões públicas. Por serfisicamente limitado, o espaço por onde circulam os sinais de Rádio e TV deve ser regulado pelo EstadoDo outro extremo do Brasil, a advogadaparaense Ingrid Leão, de 26 anos, relata quedesde que se mudou para São Paulo, há doisanos, nunca viu nada do seu estado na televisão.“A diversidade cultural que temos nãoaparece. A programação segue o mesmo formato:esporte, humor, auditório, novelas.”A diversidade cultural e regional, no entanto,deveria ser um dos princípios queregem a radiodifusão, conforme a Constituição– que estabelece também (artigo221) que a produção e a programaçãodas emissoras de rádio e TV devem atenderpreferencialmente a finalidades educativas,artísticas, culturais e informativas erespeitar valores éticos e sociais das pessoase da família. Mas, ainda sem regulamentação,os artigos da Comunicação na Carta Magnaseguem ignorados. “A ordem dessas prioridadesfoi submetida à função de servir de veículopublicitário. A publicidade, que sustenta asemissoras, tornou-se a razão de ser da programação,o que representa uma grave inversãode valores”, afirma Maria Rita Kehl.ConcessõesOs canais de rádio e TV não são de propriedadedos grupos de comunicação. São concessõespúblicas, dadas pelo Poder Executivo epelo Legislativo a organizações que pretendemexplorar o serviço da radiodifusão. Por ser fisicamentelimitado, o espectro eletromagnético– as ondas por onde circulam os sinais de rádioe TV – deve ser regulado pelo Estado.Essas concessões têm tempo limitado– dez anos para rádio e 15 para TV –, duranteo qual as emissoras têm obrigações acumprir. Além da prioridade à programaçãocom finalidades educativas, artísticas, culturaise informativas, prevista na lei, o tempode publicidade a ser veiculado deveria serlimitado e o controle de empresas que possuemconcessões por parte de parlamentares,proibido, justamente para que não legislemem causa própria. Outras, ainda,limitam o número de concessões que umaempresa pode ter em cada localidade.Essas obrigações estão longe de ser cumpridas.Não bastasse a inexistência de fiscalizaçãopor parte do poder público, há umacaracterística peculiar no Brasil que faz2007 outubro REVISTA DO BRASIL 23


com que os concessionários não se preocupemcom elas. A renovação das concessõesé automática, sem critérios nem avaliaçõesdo serviço prestado. Para que uma concessãonão seja renovada automaticamente épreciso o voto nominal de dois quintos doCongresso. “Mas os deputados não se atrevema desafiar os donos das concessões”, dizMaria Rita Kehl. Para ela, bastaria verificarse as emissoras cumpriram o papel previstona Constituição: “Se cumpriram, renove-sea concessão; se não, não”.Para o professor Lalo, da USP, o problemacomeça no momento de escolher quempoderá receber uma concessão de TV. Asempresas passam por um processo de licitaçãoe vence a que paga mais pelas outorgas.Para o especialista, as concessõesdeveriam ser dadas a partir da comparaçãoentre os projetos de programação a seroferecidos ao público. “Seria a forma idealpara acabarmos com a mesmice que encontramosatualmente”, afirma. “O projetoseria acompanhado ao longo dos 15 anos.Caso não o cumprissem, as emissoras poderiamser punidas. Isso é comum em diversospaíses, mas inexiste no Brasil. A faltade acompanhamento dá às emissoras liberdadepara pôr seus interesses empresariais,políticos e religiosos acima do interesse público”,analisa.O paranaense David Domingues da Silva,de 25 anos, já foi viciado em TV, antes de trabalharcomo auxiliar de câmbio em São Paulo.Hoje, assiste a programas de entrevistas,visão críticaMamberti: “Épreciso ‘confiardesconfiando’em tudo quepassa na TV”jornais, novela, desenhos. “Se pudesse mudar,colocaria mais documentários.” Em teoria,Davi – e todos os telespectadores – deveriapoder participar da definição do quepassa na TV, já que é para atender ao interessepúblico que as emissoras recebem concessão.“Nos últimos dez anos aumentou onúmero de organizações preocupadas comIvone perez


estranhezaA paraense Ingrid Leãonão se indentifica coma TV que assisteJailton garciaessa questão. Mas está longe de ser um movimentogeneralizado. A assimetria existenteentre o poder dos meios de comunicaçãotradicionais e o das vozes que os criticamainda é grande”, afirma Lalo.“As pessoas já dizem que é preciso ‘confiardesconfiando’ em tudo que passa naTV. Há, portanto, uma perspectiva crítica”,aponta Sérgio Mamberti. Ele apostana chegada da TV digital para ampliar aparticipação da sociedade na programação.“Num futuro próximo, a interatividadeque o formato digital trará vai permitirmais diálogo e debate com os meios de comunicação”,acredita.Diversas entidades e movimentos sociais,no entanto, não esperaram a TV digital paramudar esse cenário. Neste mês, iniciaramcampanha nacional por controle social nasconcessões. Fazem parte da campanha entidadescomo a CUT, a UNE, o MST, o ColetivoIntervozes e o Fórum Nacional pela Democratizaçãodos Meios de Comunicação.Reivindicam a implantação de mecanismosde participação de integrantes da sociedade– independentes dos poderes, do governo edas emissoras –, desde a fiscalização da diversidadena programação das emissoras atéo processo de renovação das concessões.A idéia, longe de configurar uma tentativade censura, como alegam grandes empresáriosda mídia, é proporcionar à sociedademecanismos para acompanhar a programaçãoe identificar eventuais abusos, irregularidadespor parte de emissoras.Para saber mais sobre a campanhapelo controle social nas concessões:www.intervozes.org.brA concessão não renovada da RCTV, da VenezuelaEm maio, quando venceuo prazo da concessão davenezuelana Radio CaracasTelevisión (RCTV), segundamaior emissora de TV emaudiência no país, o governodo presidente Hugo Chávezdecidiu não renová-la. A razãofoi o envolvimento da rede natentativa de golpe de Estadoocorrida no país em 2002. Aação foi planejada na casa deMarcel Granier, seu proprietário.Em todo o mundo, grandesempresas de comunicação eassociações do setor acusaramo governo venezuelano de “violara liberdade de expressão”. Masnão noticiaram, por exemplo,que nos últimos 20 anos a RCTV,além de incitar o golpe de 2002,foi suspensa diversas vezes peloPoder Judiciário por veicularinformações falsas, pornografiaem horário inadequado,violação dos direitos humanos etrabalhistas.A não-renovação deconcessões públicas é umprocedimento comum em diversospaíses, considerado assunto desoberania nacional. Ao longo dahistória, várias emissoras nosEstados Unidos não tiveramconcessões renovadas. O mesmoaconteceu na Inglaterra, durantea gestão da primeira-ministraMargaret Thatcher. O jornalespanhol Diagonal contabilizou236 fechamentos, revogaçõese não-renovações de canais derádio e televisão em 21 paísesdo mundo. Nenhum deles foiconsiderado autoritário.Nathalie Vera/REUTERSTV sem povo Venezuelanos ironizam programação da RCTV2007 outubro REVISTA DO BRASIL 25


saúdeQuandoo esporteé rudeRotina de atletas não é exemplo para quemdeseja aproveitar os benefícios da atividadefísica. Esporte com moderação pode ser bom,mas passou disso é filosofia de vida cercadade riscos por todos os ladosCompetiu na Olimpíada de 2004com o joelho recém-operadoAbandonou o Pando Rio com o pé inchadoPor Giedre MouraQuando entra em um avião, oex-jogador de basquete OscarSchmidt precisa sentaronde possa esticar a pernaesquerda. A culpa não é dosseus 2,05 metros de altura, e sim do joelho.Castigado por mais de 30 anos de saltos,corridas e quedas nas quadras, não dobradireito. São três lesões sérias, constantesindicações para cirurgias. A dor é o preçopor ter sido o mais importante jogadorde basquete do Brasil. Ele não se arrependede nada, mas não usa meias palavras aodizer que esporte de alto rendimento nadatem a ver com vida saudável. Ganhou medalhas,dores e limitações. Assim é o esportecompetitivo.Médicos, profissionais de educação físicae esportistas são unânimes em afirmar queatletas de alta performance não são exemplo aser seguido por quem deseja melhorar a qualidadede vida e pôr fim ao sedentarismo. Lesões,patologias do coração, disfunção hormonalsão mais comuns em gente que treinade quatro a cinco horas por dia com grandeesforço do que em uma pessoa que caminhauma hora quatro vezes por semana.A alta profissionalização, a busca pelaquebra de recordes, a necessidade de performancecada vez mais elevada exigem emdemasia dos atletas de ponta e decretaramo fim do slogan “esporte é saúde”, que pormuito tempo foi exibido na TV. “Levamos ocorpo ao limite da exigência física e, é claro,isso não é saúde, é uma opção de vida. Minhaopção sempre foi o basquete e assumitoda a sua exaustão. Se o time ficava quatro26 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


A primeira lesão daginasta Daiane dosSantos foi aos 17 anos,no tendão de AquilesEduardo Knapp/Folha Imagemtendão da pata de ganso. Eu nem gosto defazer ressonância magnética, sempre aparecealgo novo”, brinca.O esporte brasileiro está repleto dessesdesastres. Ana Moser, Gustavo Kuerten, ogoleiro Marcos, do Palmeiras, que já se afastou13 vezes para ser submetido a cirurgiase fisioterapias. O meia Pedrinho, do Santos,também é um deles. Aos 30 anos, comemorouem setembro 50 jogos sem se machucar.Mas nos últimos dez anos de atividadeesteve pelo menos dois em tratamento. Nofutebol, além dos impactos do esforço convive-secom a imprudência – ou deslealdade– dos muy amigos de profissão.Aos 20 anos, no início de uma carreira altamentepromissora e dois dias antes de seapresentar para a seleção brasileira, aindano Vasco da Gama, Pedrinho recebeu umaentrada forte de um jogador do Cruzeiro erompeu o ligamento do joelho direito. “Fiqueiseis meses parado e me machuquei denovo. Depois foi a vez do joelho esquerdo.Era muito jovem e não imaginava que issopudesse acontecer. O lado psicológico é omais complicado. Mas o futebol é assim, umesporte de muito contato, e sei que possome machucar a qualquer hora novamente”,afirma o meia. Quando passou pelo Palmeiras,entre 2002 e 2005, Pedrinho chegoua pedir ao clube a suspensão dos saláriosenquanto estivesse fora de jogo.Conviver com a dorNão são apenas os atletas profissionaisque correm o risco de transformar o esporteem algo prejudicial à saúde. Se no caso dosesportistas de alto rendimento essa é umaopção clara em busca da vitória, para pessoascomuns que se encantam com a atividadefísica e começam a levar o corpo àexaustão, sem o devido acompanhamento,o risco pode ser ainda maior.Ao mesmo tempo em que o sedentarismoé alto na população brasileira, cresceentre os que já fazem atividade física a tendênciade partir para a sobrecarga. “Parafazer uma caminhada leve a pessoa nãoprecisa se submeter a uma diversidade deexames médicos, mas o que tem acontecidoé que ela passa a correr e logo quer participarde uma maratona, sem saber se temcondições. E começam os riscos cardiovascularese também de lesões. Se a pessoa temuma artrose no joelho, não adianta escolhera corrida para se exercitar”, avisa o médicodo esporte André Pedrinelli.A receita é antiga, mas pouca gente a respeita:fazer uma grande avaliação física antesde se submeter aos exercícios prolongados ede alto impacto. Não basta o exame médicode academia. O que também difereos esportistas profissionaisdas pessoas comuns é a equipeque dá suporte às ativi-Chegou a jogar uma partidacom a mão direita quebradaOscar: “Se o timeficava quatro horastreinando, eu treinavaoutras quatro”horas treinando, eu treinava outras quatro.Era maluco mesmo”, conta Oscar.O cestinha da seleção brasileira perdeuas contas de quantas vezes entrou nas quadrascom dores e chegou a ponto de jogarcom a mão direita quebrada, justamente a“mão santa”. A primeira contusão séria foiaos 17 anos, quando fraturou um dos tornozelose passou três meses sem botar o péno chão. “Senti muita dor, cansaço, e essaé a rotina de qualquer atleta. Mesmo depoisde parar de jogar ainda descubro coisas.Fiquei sabendo que tenho bursite noAndré Durão/Ag.IstoÉTem três lesõesgraves no joelhoFraturou o tornozelo eteve de ficar 3 meses semcolocar o pé no chão


Rompeu os ligamentosdos dois joelhosPedrinho, hoje no Santos: “O ladopsicológico é o mais complicado,mas sei que posso me machucarnovamente a qualquer hora”assecom/santos f.c.dades. A ginasta Daiane dos Santos contacom um time de dez pessoas que cuidamde sua rotina de treinamento, alimentação,rendimento e trato psicológico. E mesmocom a mais qualificada equipe a atleta nãoestá livre dos perigos da modalidade.“Uma das coisas que aprendi foi a convivercom a dor. E não é uma dor leve,muitas vezes é absurda, mas você precisase preparar, enfrentar e descobrir seulimite. Agora que passou o Mundial (deGinástica Artística), vou cuidar do meu pépara conseguir chegar bem nas Olimpíadasde Pequim”, revela Daiane, que chegoua competir com o pé direito inchado noPan, mas teve de desistir da final no solo.Sua primeira lesão foi aos 17 anos, no tendãode Aquiles.Daiane mantém rotina de treinamentosde até seis horas diárias. Passou porduas cirurgias nos joelhos. Após a primeira,conseguiu o título de campeã mundialna ginástica artística. Mas a segunda comprometeuo desempenho na Olimpíada de2004. “Tive um período de recuperaçãomuito curto e hoje meu joelho não dobradireito, provavelmente vou conviver coma dor por toda a vida. Mas eu escolhi”, refletea ginasta.Aos 45 anos de idade, o ex-arremessadorde dardo e hoje professor de educaçãofísica Pedro Caetano sabe exatamente doque Daiane dos Santos está falando. Campeãopaulista e brasileiro universitário nosanos 80, Caetano ainda sente as dores nocotovelo que lesionou em virtude do treinamentointenso. Na época, o contato comas técnicas mais avançadas era pequenoe o treinamento do atletismo significava,basicamente, a exaustão. Eram sete horasdiárias de esforços repetitivos, força, resistência.“Você começa a treinar criança,quando vê está competindo e quando percebese machucou. Hoje questiono até queponto o esporte de alto rendimento não éuma loucura”, indaga o professor.A rotina de Caetano hoje é tranqüila,três ou quatro vezes por semana de exercíciosmoderados, o bastante para garantirbenefícios cardiovasculares, controlara pressão, o colesterol e outras enfermidadesassociadas ao sedentarismo. Mas nãoesquece a época do dardo. Sente o braçoao dirigir e precisa se poupar quandodemonstra aos alunos um arremesso dehandball. “O esporte tem vários lados, eleé importante não só para o físico comotambém para a parte psicológica, ensina adisciplina, a perseverança. Porém, quandovai além disso, mostra uma opção devida que realmente não é a mais saudável”,avalia Caetano.Exceção: o triatletaCarlos Galvão nuncateve lesões sériasPaulo pepe28 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


EstudosÀ medida que a medicina e a biologiaavançam para pôr em atividade atletascom massa muscular cada vez mais potente,surge a necessidade de estudos capazesde diagnosticar até que ponto a evoluçãonão é prejudicial. Para o professor de educaçãofísica Reury Frank Bacurau, as pesquisasainda são pequenas, pois o alto nívelesportivo é algo novo e os efeitosreais ainda não podem ser totalmentemedidos.Bacurau preparou uma tese dedoutorado para a qual submeteuratos a esforços intensos e moderadospara verificar a reaçãodo sistema imunológico. O animaltreinado de forma moderadateve aumento e melhoria daimunidade, enquanto o que foi submetidoa treinamento intenso apresentou reduçãonesse índice. É preciso, porém, ver a pesquisacom cautela, pois trata de uma questão específica– os tumores. “Ainda temos muitopara pesquisar. Sabemos que o esporte dealto nível não é saudável, mas falta apurar oquanto ele realmente prejudica.”O pesquisador lembra que além das tradicionaislesões e dos problemas cardíacosque têm levado alguns atletas à morte súbita,geralmente por apresentarem algumacardiopatia, existem as questõeshormonais. É fato que para umamulher menstruar ela precisa deO alto nívelesportivoé algonovo e osefeitos reaisainda nãopodem sertotalmentemedidosum determinado estoque de gordura no organismo.O nível baixo de gordura de umamaratonista, por exemplo, impede a menstruação,com risco de causar um desequilíbrio,item que pode ter relação com casos decâncer e também com a maior fragilidadedos ossos. “Volto a afirmar que ainda nãotemos dados precisos, temos de pesquisar.Ao reduzir o treinamento as mulheres voltama menstruar, mas quais serãoos efeitos no longo prazo?”,questiona Reury.No caso dos esportistas amadoresque não possuem devidoacompanhamento especializado,uma das síndromes maiscomuns é a de overtraining,o excesso de treinamento. Équando o corpo sinaliza haveruma falta de equilíbrio entre a quantidadede atividade física, o descanso e a alimentação.E efeitos como depressão, cansaço, irritabilidade,perda de massa muscular, insônia,falta de apetite invadem o cotidiano dospraticantes. Embora a saída para resolver oproblema seja simples, reduzir a atividadefísica e melhorar a alimentação, o esportistadepara com outra faceta pouco discutida −o dano psicológico, pois a atividade físicapode virar vício.“E nem falamos ainda do doping. Quemtrabalha com educação física vê muitosatletas e sabe que é impossível chegara uma massa muscular tãoampla sem anabolizantes. Oassunto é tabu, quem é pegono doping representauma parcela muitopequena dosLesão no cotovelo devidoao excesso de treinamentoque os utilizam. A Volta da França de ciclismo,por exemplo, já está sendo chamadade Volta da Farsa, devido ao grande usode anabolizantes pelos atletas”, completa opesquisador.Homens de ferroA rotina do consultor de marketing esportivoe triatleta Carlos Galvão tem sidointensa. Corre, nada, pedala e faz musculaçãotodos os dias, alternando as modalidades,em alta carga, de domingo a domingo.Sua vida está assim desde junho, quando intensificouos treinamentos para participaragora em outubro de uma das provas quemais exigem do corpo: o torneio mundialde Ironman (Homem de Ferro), no Havaí.A modalidade criada há 20 anos inclui3.800 metros de natação no mar, 180 quilômetrosde bicicleta e, para terminar, umamaratona: 42 quilômetros de corrida. Paraa maioria, mais de dez horas de exercício físicosem parar. “Em 1999 eram 12 mil pessoasfazendo o Ironman, agora são maisde 50 mil. O número não pára de crescer.É uma modalidade para quem quer a surpresa,a motivação, a força de vontade. Oimportante não é vencer, e sim terminar aprova”, conta Galvão.Triatleta desde 1998, o esportista diz quenunca sentiu nenhum problema associadoao esporte de altíssima performance. A únicavez em que se machucou e ficou mesesparado foi no futebol. O Ironman, em suaopinião, tem uma particularidade que otorna mais seguro que as corridas de rua:quem se arrisca a participar da prova sabeque precisa de um acompanhamento médicoe profissional especializado. Galvãonunca foi vítima do overtraining, sabe quevai reduzir a rotina de treinamentos após aprova. “O esporte muitas vezes é uma filosofiade vida e tem seus riscos associados.Até hoje não tive nenhum problema sériocom o triatlo, o mais difícil mesmo temsido conciliar a vida de treinamentoscom a social. Sair para jantarfora, só com quem topa voltarpara casa antes das 10da noite.”roberto ParizottiPedro Caetano foicampeão paulista ebrasileiro de arremessode dardo nos anos 802007 outubro REVISTA DO BRASIL 29


históriaTodo opoder aossovietesEntre a tirania stalinista e o legado do bem-estar social decorrente dasombra revolucionária, aqueles dez dias que abalaram a Rússia, em1917, são essenciais à compreensão do mundo contemporâneoPor Igor FuserAexpressão “os dez dias queabalaram o mundo” ficou famosaa partir do título do livroem que o jornalista norteamericanoJohn Reed relata,como testemunha ocular, o momento emque os trabalhadores assumiram o poderna primeira revolução socialista vitoriosa,em 25 de outubro de 1917. O Estado queemergiu daquele movimento – a União Soviética– já desapareceu, mas o mundo aindasente os tremores da tomada de poder peloscomunistas liderados por Lenin. “Todavez que os trabalhadores desafiarem a dominaçãoe a exploração sob o capitalismo,a Revolução Russa será referência”, afirmao cientista político Lúcio Flávio de Almeida,da PUC-SP.Noventa anos depois, turistas fazem filapara visitar o corpo embalsamado de Lenin,na Praça Vermelha, em Moscou. Na saídado mausoléu de mármore negro, o visitantepercorre os túmulos dos “heróis da UniãoSoviética”, enterrados ao pé das muralhas doKremlin, fortaleza medieval que é o própriosímbolo do poder no país. Conquistas, contradiçõese fracassos da revolução estão representadosnaquela galeria mortuária. Láestá também Josef Stalin, um dos tiranosmais brutais do século passado. Lenin reprovavaa maneira truculenta de Stalin trataras divergências. O ditador bigodudo, que osucedeu em 1924, repousa numa cova igualà de outros dirigentes, como Leonid Brejnev,que ordenou a invasão da Tchecoslováquia(1968) e do Afeganistão (1979).A Praça Vermelha abriga, por outro lado,personagens admiráveis como o marechalGeorgi Jukov, comandante do Exército Vermelhoem 1945. Jukov esteve à frente dastropas que derrotaram os nazistas nas batalhasdecisivas da 2ª Guerra Mundial e comandoua vitória final em Berlim, quandoum soldado soviético balançou a bandeirada foice e martelo no topo do prédio semidestruídodo Parlamento alemão. Sem oesforço titânico dos soviéticos, que amargaram20 milhões de mortes na luta contrao nazismo, o conflito provavelmente teriatido outro desenlace. Lá está, também, opróprio John Reed, militante de esquerdados Estados Unidos que chegou a combaterao lado dos revolucionários durante a guerracivil que se seguiu a 1917 e morreu de tifoem 1920, num hospital de Moscou.Mas o que mais me impressionou nobreve trajeto pelo túnel do tempo da ex-URSS foi a homenagem a um famoso poroutro motivo. Todos os túmulos ao lado doKremlin estavam, quando estive lá, em julho,enfeitados por um par de cravos vermelhos.Apenas um, entre dezenas de mortosilustres, recebera de mãos anônimasflores comuns: o do cosmonauta Yuri Ga-Popular até hoje “Paz, pão e terra”: lema dos bolcheviques, liderados por Leninhulton archive30 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


hoje oposiçãoDesafiando a polícia e suasbombas de gás, jovenscomunistas desfilam por SãoPetersburgo na chamada“Marcha dos Descontentes”,dia 3 de março deste anoAlexander Demianchuk/REUTERS


garin, primeiro ser humano a viajar ao espaço,em 1961, a bordo da nave Vostok. Suapresença ali sublinha o avanço econômico,tecnológico e a admiração alcançados pelaURSS antes de esbarrar nos limites que afizeram naufragar.Na Rússia capitalista de hoje, o aniversárioda revolução será desdenhado pela agendaoficial. O presidente Vladimir Putin, exagenteda KGB, a polícia secreta do regimesoviético, governa com apoio dos antigos“oligarcas” do Partido Comunista que privatizaram,em benefício próprio, as fatias maisgordas do patrimônio estatal. A herança soviéticadivide opiniões. “Há polarização entreos que encaram a revolução com simpatiaou como catástrofe”, observa o economistaAlexander Kolganov, da Universidade deMoscou. “Entre os apoiadores há outra divisão:os nacionalistas, para quem a revoluçãofez da Rússia segunda maior potência domundo; e os socialistas, que vêem nos bolcheviquesos seus ideais de justiça social.”Na avaliação de Kolganov, um legado maisconcreto é o conjunto de conquistas sociaisque ainda vigoram no país, como o largo alcanceda educação e saúde. “Nem Yeltsin (opresidente que liderou a transição para o capitalismo)nem Putin conseguiram dissolvera segurança social no país”, diz. O economistaKolganov explica que, para a maioria dosrussos, Lenin e o socialismo são assuntos dopassado. A população estaria hoje voltadapara a sobrevivência numa sociedade competitivae, ao contrário do que sonhavam osbolcheviques, cada vez mais desigual.Dados organizados pela economista brasileiraLenina Pomeranz, do Instituto deEstudos Avançados da USP, mostram a espantosaconcentração de renda ocorrida noperíodo pós-soviético. O contingente da populaçãonas faixas de renda mais baixas reúne77%, enquanto 22,6% dos russos estãonum nível médio e apenas 0,4% pode serconsiderado rico. Em 1989 as camadas médiascompunham dois terços do total.Passado nãotão distantePraça Vermelha, em Moscou,onde fica o Kremlin e a Catedralde São Basílio, ainda é cenáriopara desfiles militares como aparada que comemora o dia emque os soviéticos tomaram oParlamento alemão, no fim da2ª Grande GuerraEmpobrecimentoLenin ainda é a figura histórica mais popularda Rússia e sua lembrança permanecevisível nas estátuas que escaparam da ondade demolição dos ícones do regime soviético.Não há como apagar a memória daqueleque foi, segundo o historiador EricHobsbawm, o personagem mais importantedo século 20. No mundo inteiro estãosendo organizados eventos em que se discutiráo legado de 1917. No Departamentode História da USP, um seminário aberto aopúblico – Revolução Russa: uma Jovem de90 Anos – é organizado pelo professor OsvaldoCoggiola para ocorrer entre 12 e 14de novembro (informações pelo telefone 113091-3760). “A luta vitoriosa dos bolcheviquescontinua sendo a principal experiênciarevolucionária da era contemporânea”,enfatiza Coggiola.Para ele, os “descaminhos” que ocorreramdepois de 1917 podem ser analisados a partirde dois pontos de vista: como álibi paradesqualificar o socialismo ou como ponto departida para a superação dos erros cometidos.Afinal, o que foi a Revolução de Outubroe o que ela significa na atualidade? Comose explica o chocante contraste entre a esperançana vitória dos socialistas e os fracassosque levaram ao fim da União Soviética?Essa experiência pode ser entendida apartir das circunstâncias que envolveram atomada do poder pelos bolcheviques, comoeram conhecidos os comunistas russos em1917. Quando Karl Marx e Friedrich Engelsescreveram o Manifesto Comunista,em 1848, nem de longe imaginavam que oprimeiro país a abolir o capitalismo fossea retrógrada Rússia, onde, para se ter umaidéia, somente em 1861 os camponeses ficaramlivres da servidão, regime de trabalhoda Idade Média. O socialismo, de acordocom Marx, só poderia ser implantadonas nações de maior desenvolvimento capitalista,como Inglaterra, França ou Alemanha,onde a classe trabalhadora já estariaem condições de exercer o poder.O que precipitou o levante revolucionáriona Rússia foi a incapacidade da burguesiade oferecer uma alternativa à monarquiaabsolutista, que desmoronou dianteda crise provocada pelas derrotas do exér-32 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


orgulho nacional Putin participa decerimônia em homenagem a Yuri GagarinReutersRevolução permanente Leon Trotski acreditava que o sucesso da revolução só seriapossível se ela atingisse outros países. Morto em 1940, o bolchevique não viu que suarevolução, embora à força, acabou entrando em quase todo o Leste EuropeuViktor Korotayev /REUTERShulton archivecito imperial russo na 1ª Guerra Mundial.Em fevereiro de 1917, os trabalhadores deMoscou, exasperados com a guerra e coma fome, deflagraram uma greve geral. Astropas despachadas pelo czar Nicolau II, aoinvés de reprimir o movimento, confraternizaramcom os grevistas. Depois de quatrodias de caos, a monarquia ruiu e formouseum governo provisório, liderado pelospartidos liberais.O povo reivindicava o fim da participaçãorussa numa guerra que só interessava àselites, envolvidas nas disputas geopolíticaseuropéias. Os jovens das classes pobres, enviadosaos milhões para o matadouro doscampos de batalha, desertavam e voltavampara casa. A população urbana exigia umfim à escassez de alimentos causada pelaguerra. E os camponeses – 85% da população– queriam a redistribuição das terras,em mãos da nobreza.Paz, pão e terraDurante os oito meses de governo provisórioos políticos burgueses falharam ematender às demandas populares. Trabalhadoresdo campo e das cidades se organizaramem conselhos, os sovietes, nos quais asdecisões eram tomadas com a participaçãode todos. No início os bolcheviques eramminoria entre os partidos de esquerda queatuavam nos sovietes. Mas eram os únicosque defendiam, com coerência, o lema “paz,pão e terra”. A única vantagem real com que2007 outubro REVISTA DO BRASIL 33


Lenin e os bolcheviques contavam era a capacidadede reconhecer o que as massas queriam;“de conduzir, por assim dizer, por saberseguir”, explica Hobsbawm.Em outubro de 1917, quando o governoprovisório resolveu reprimir os conselhosde trabalhadores, os bolcheviques já erammaioria. Lenin, ao ver neles uma alternativade poder, lançou a palavra de ordemda insurreição: “Todo o poder aos sovietes”.Com a adesão dos soldados que voltavamdas frentes de batalha, os revolucionáriosassumiram rapidamente o controledas principais cidades, Moscou e São Petersburgo.Os bolcheviques emitiram, semperda de tempo, os decretos que atendiamaos anseios do povo, como o da reformaagrária. As fábricas, abandonadas por seusproprietários, não foram estatizadas deimediato, mas colocadas sob a gestão dosoperários. Um acordo de paz foi assinado,mas durou pouco. Durante quatro anos,a guerra civil entre as forças revolucionárias(os “vermelhos”) e conservadoras (os“brancos”) espalhou morte e devastaçãopor toda a Rússia.Nem Lenin nem os demais líderes bolcheviques,como Leon Trotski, que organizouo Exército Vermelho, acreditavamque seria possível construir o socialismoisoladamente, num único país. O movimentoseria o estopim de uma revoluçãointernacional que mobilizaria trabalhadoresem nações capitalistas mais adiantadas.A febre revolucionária se espalhoupela Europa Central. No entanto, somentena Rússia, gigante e subdesenvolvida,os revolucionários mantiveram o poder.A eles só restava a opção de levar adianteo projeto socialista, em condições maisdesfavoráveis que a imaginada em 1917.IdealistaJohn Reed, oamericano quemorreu por umarevolução quese perdeuNesse processo, muitos erros foramcometidos.“Lenin, Trotski e seus companheirosreduziram drasticamenteas liberdades democráticas apartir de 1918, o que facilitou oprocesso de burocratização posterior”,afirma o cientista políticoMichel Löwy, da Universidadede Paris. Ele recorda que RosaLuxemburgo, uma das líderes dafracassada revolução na Alemanha,apoiava com entusiasmo osbolcheviques, mas criticava a inclinaçãopara práticas autoritárias. Ela apontava oesvaziamento dos conselhos operários, quese tornavam mero instrumento do PartidoComunista.Ainda assim, a transformação do jovemregime soviético na monstruosa máquinaestatal do stalinismo não foi automática.“Não se deve estabelecer um sinal de identidadeentre o Estado revolucionário de 1917a 1924 e o Estado contra-revolucionário daburocracia”, alerta Löwy, lembrando quequase todos os líderes do movimento de1917 foram eliminados, incluindo Trotski,assassinado em 1940 por um agente stalinistadurante seu exílio, no México.Até hoje se discute se o regime que sobreviveuaté 1991 pode ser chamado de socialismo,uma vez que o poder, exercido emnome dos trabalhadores, sucumbiu à burocraciae ao totalitarismo. Por outro lado,as sete décadas de existência da URSS mostraramque é possível conduzir um país modernosem a propriedade privada dos meiosde produção – ou seja, sem patrões. O regimesoviético transformou um país atrasadonuma poderosa economia mundial, capazde vencer a Alemanha nazista, de enviar navesao espaço, de proporcionar àpopulação condições de alimentação,saúde, moradia e educação.“Para milhões de habitantesdas aldeias, o desenvolvimentosoviético significou a aberturade novos horizontes, a fuga dastrevas e da ignorância para a cidade,a luz e o progresso”, constataHobsbawm em seu livro A Erados Extremos.Grande ironia é que a experiênciasoviética trouxe mais benefíciospara os trabalhadores em outraspartes do mundo do que para os própriosrussos. Muitos estudiosos estão convencidosde que o medo do socialismo foi umdos principais motivos que levaram os paísescapitalistas mais desenvolvidos, sobretudona Europa Ocidental e na América doNorte, a empreender importantes reformassociais. Nesses países, o “perigo bolchevique”teria removido a resistência das classesdominantes às reivindicações históricasdos sindicatos de trabalhadores, como saláriose jornadas dignos e proteção social– conquistas que agora, sem o fantasma docomunismo, se vêem ameaçadas pela ofensivaneoliberal. Em outras partes do mundo,o exemplo da Revolução Russa inspiroulutas de libertação contra o colonialismoeuropeu.Talvez ainda seja cedo para uma avaliaçãodo legado de 1917. A única certeza éque, sem levar em conta esse acontecimentograndioso, o mundo em que vivemos setorna incompreensível. Para aqueles quenão aceitam o triunfo do capitalismo apósa dissolução da URSS como “o lance final daHistória”, a proeza dos bolcheviques seguecomo uma referência permanente.


Retratopaulo pepeDoce vida essa minhaAroçade Odair até que dá para o consumo interno,só que dinheiro não faz. A criação de caprinosajuda, mas a renda é pouca. O jeito foi pedir o reforçodas abelhas para adoçar a vida. Conformese aprimoram a técnica de captura e a lida com aapicultura, as esperanças vão-se alimentando. Na casa de Odaire nas dezenas de outras que formam a Cooperativa Apícola daGrande Picos (Cooapi), em Picos (PI). Por sua desenvoltura,Odair José da Costa foi escolhido agente de desenvolvimentorural do Assentamento União. Ele é quem faz o meio de campoentre a comunidade e os parceiros, como Sebrae e FundaçãoBanco do Brasil, que apóiam o empreendimento com conhecimentode gestão, planejamento, tecnologia e recursos. Acooperativa existe desde 1996 e está perto de alcançar o melhordesempenho da história. Tirando de 25 a 30 quilos de mel, decolméia em colméia, a produção vai ultrapassar as 10 toneladas/ano.Para alegria de Odair, sua pequena Mirele, de 2 anos,Hélio, 4, e Homero, 6. E também das cabras. Com a renda vindopredominantemente do mel, até elas, praticamente parte dafamília, poderão ficar mais tranqüilas. (Paulo Donizetti)2007 outubro REVISTA DO BRASIL 35


comportamentoElixir da juventudeEnquanto as mulheres têmmaior capacidade de seadaptar aos percalços daidade, os homens acimade 60 encontram no amor,mais que um grande aliadoda saúde, uma causaque rejuvenesceo espíritoAmor maduroEmanuel e Céliaresolveram viverjuntos em Brasília17 anos depois dese conhecerem36 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


augusto coelhoPor Miriam SangerEmbora a Organização Mundialde Saúde considere idosasas pessoas a partir dos 60anos, essa classificação já parecebeirar o equívoco. Livresedos estereótipos e olhe à sua volta. Ossessentões estão por todo lado, produzindocomo nunca, iniciando novos negóciose carreiras, curtindo a vida em todosos seus aspectos. E mais: estão amando.Amam a mulher que conheceram há 40,50 anos; amam pela segunda vez, depoisde um casamento desfeito ou da viuvez;amam pela terceira vez, na esperança convictade que desta vez acertarão no alvo;ou amam mais uma vez como se fosse a últimae infinitamente enquanto dure. Longeda improvisação, os homens brasileirosbuscam o amor com maturidade e romantismo,e não por convenção, vontade derachar as despesas nem de viver antes malacompanhadosdo que sós.Trata-se, com o perdão do trocadilho, deum senhor romântico, que dá aulas sobreas maravilhas do amor. Uma atitude, aliás,que faz bem ao corpo e à alma. “Emboranão haja estudos consolidados, não háLonge daimprovisação,os homensbrasileirosbuscam oamor commaturidade eromantismodúvidas de que a manutençãoda vida amorosa ao longo dosanos protege a saúde e está diretamenterelacionada com adiminuição da mortalidade”,afirma José Antonio Curiati,geriatra do Hospital Sírio-Libanêse médico supervisor doserviço de geriatria do Hospitaldas Clínicas, em São Paulo. Nos EstadosUnidos, foram realizadas pesquisasque ofereceram um dado concreto: quandohá um relacionamento fixo, a quantidadede relações sexuais é muito maior doque entre os solitários – e já está documentadoque o grau de atividade sexualestá diretamente ligado à boa saúde cardiovascular.“O bom dessa fase é justamente a capacidadede internalização da relação, do erotismoe até dos prazeres materiais. Acreditoque estou vivendo agora meu melhor momento,um momento de encantamento. Éo sagrado entrando no meu coração”, descreve,quase recitando, Emanuel Tadeu MedeirosVieira, jornalista que, aos 62 anos,declara-se apaixonado pela médica Céliade Souza, com quem vive desde maio desteano. O casal se conheceu em 1990, naBahia, onde Célia morava antes de se mudarpara Brasília, para unir-se ao namorado– e lá se foram quase 17 anos de idas evindas. “As pessoas estão mais preocupadascom seus carros e casas, perderam o sentidodoméstico e do encontro. Célia foi umabênção na minha vida”, descreve, destacandoa segurança afetiva e a maturidade do romance.“Não temos rotina, reinventamos oencanto a cada momento.”O dia-a-dia do casal é de causar invejaa qualquer dupla adolescente: passeios demãos dadas, conversas transparentes e semartifícios, o prazer assumido de dividir ascoisas da vida. “Minha impressão é de quedá mais vontade de ser autêntico. O amordá uma espécie de fortalecimento interiorpara lidar com os pedregulhos da vida. Rejuvenesceo espírito.”Estímulo do tempoO bem proporcionado à saúde física,emocional e mental pelo amor ajuda tambémna prevenção a muitas doenças comunsaos que avançam nas fases dos “enta”.O homem que tem uma companheira vivemais e é menos suscetível à depressão e aoestresse. “O amor sempre traz repercussõespositivas, em qualqueridade. Mas para os homensdepois dos 60 anos representauma nova perspectiva, umnovo direcionamento. É umelemento revitalizador, poislança novos objetivos e comprometimentos”,afirma o professore doutor Ailton Amélioda Silva, psicólogo formado pela Universidadede São Paulo e autor dos livrosMapa do Amor e Para Viver um GrandeAmor, assinalando o que chama de vantagenspredominantemente masculinas.“As mulheres raramente se casam quandochegam a essa idade solteiras. E quandosozinhas, por viuvez ou separação, têmcapacidade de adaptação maior que a doshomens. Por isso acredito que seja o homemo mais beneficiado pelo amor nessaépoca da vida.”Que o diga Flávio Aguiar. Românticoconvicto, ele vive, aos 60 anos, um relacionamentoque revoluciona sua vida: para estarperto da amada, que reencontrou nesteano, Flávio mudou-se para a Alemanha. Vaiviver ao lado de Zinka Ziebell, uma brasileirahá 20 anos radicada naquele país. Flávio é2007 outubro REVISTA DO BRASIL 37


prazer intenso pelas coisas boas da vida Paulo e a namorada, Fátima, conquistada há oito meses, vão a todos os bailes que aparecemgerardo lazzaripai e avô, tem uma vida familiar ativa e nãolhe faltam amigos e atividades – é professorrecém-aposentado de Literatura Brasileirada Universidade de São Paulo (USP), editor-chefeda agência Carta Maior e colaboradorda RdB. Mas não pensou duas vezesao ter certeza do que sente por Zinka, queconhece há mais de dez anos. É uma paixãode primeira qualidade – e está abraçando acausa com toda a força de seus braços.“Reencontramo-nos depois de muitosanos distanciados, mas desta vez tivemoscerteza de que queremos, e merecemos,viver esse amor com toda a intensidade”,descreve o professor. Amigos o encontrame elogiam sua jovialidade. “Alguns estranhame consideram minha atitude um gestoadolescente, ainda têm a antiga perspectivade que o amor não foi feito para quemtem 60.” É o terceiro casamento de Flávio,que promete para breve uma festa com boloe tudo o mais. “Acho que a idade é um fatorpositivo para a paixão, pois me faz querervivê-la ainda mais intensamente. Na verdade,o tempo nos impulsiona para o amor,pois a gente já sabe, a essa altura, que ele écurto e temos pressa”, brinca.Novos sentimentosO médico Curiati não aceita que umapessoa de 60 anos possa hoje ser enquadradana terceira idade – a menos que aOMS admita que exista uma quarta, quintaou sexta idade. “Do ponto de vista funcional,o homem nessa fase está absolutamenteinteiro. E, quando se vê apaixonado, a jovialidadee a saúde ficam ainda mais evidentes,embora não existam estudos que atestemesse fato”, ressalva Curiati. A energiatambém se expressa nos dias agitados dessesapaixonados. Normalmente com filhoscriados, netos apenas nos fins de semana,aposentados ou com a carreira estabelecida,a palavra de ordem é se divertir.Paulo Luiz Melloni, separado há trêsanos, não aparenta seus 71 enquanto dançacolado à namorada, a viúva Fátima TeodoroPereira, em todos os bailes que encontrapela frente. Ainda que às vezes umpouco perturbada pelo ciúme das filhasdela – evento comum entre os novos relacionamentos“maduros”, segundo os especialistas–, a sintonia entre os dois não deixadúvida de que o sentimento que os une é oamor, recheado por um prazer intenso pelascoisas boas da vida. “Não acho que somosfeitos para ficar sozinhos. Não importaa idade: o gostoso é ter com quem curtirnovos sentimentos”, diz Paulo, abraçado ànamorada conquistada há oito meses.Vanda de Moura e Armando Santos saemdiariamente para dançar e têm muita coisaem comum – são sorridentes, ótimosdançarinos e aposentados, o que garantetempo para o namoro, iniciado há quatroanos. Eles se conheceram em um baile noSesc Pompéia, em São Paulo. “Sempre nosvíamos e, quando percebemos, estávamosacertando nossos passos”, brinca Armando.“Nosso amor, talvez pela maturidade quejá conquistamos, é muito espontâneo, pontuadopela sinceridade, pela lealdade e peloQuando há um relacionamento fixo, a quantidade de relações sexuais é maior do que entre os38 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Cumplicidade João e Luiza: “A opinião de ambos é sempre decisiva para qualquer ação”Além-Mar Flávio foi para a Alemanha casar com Zinka: paixão de primeira qualidadeJailton Garciamarilene vargas/arquivo pessoalrespeito. A Vanda é leal, grande confidentee, puxa!, como gosto da personalidade dela”,enumera o namorado.De primeiraE nem sempre é necessária mais de umatentativa para encontrar a “cara-metade”. Aocontrário do que se imagina, não só existemcasamentos duradouros como tambémos que são duradouros e apaixonados. JoãoVicente Júnior, de 70 anos, celebrará suasbodas de ouro com Luiza no ano que vem.Todas as tardes os dois saem para passear.Sentam-se quietos, abraçados, observam oque acontece. Trocam cochichos, as mãossempre dadas. Na hora de falar sobre o queos mantém cúmplices há tanto tempo, ambossorriem encabulados. “Talvez seja o fatode sempre termos feito tudo juntos. Muitoscasais da nossa idade já não toleram ficarsozinhos um com o outro. Nós não: adoramosviajar a dois. Não sei se há uma fórmulado amor, mas, se existir, podemos dizerque a nossa foi manter sempre a serenidadee a compreensão um com o outro”, descreveJoão. “Continuamos nos amando, mas depoisde tantos anos o que sentimos deve serdiferente do que os que se conhecem há menostempo. Em primeiro lugar, a opinião deambos é sempre decisiva para qualquer ação.Nem saberíamos viver separados.”Essa é exatamente uma das frases preferidasdo administrador de empresas ReynaldoDanilo Vernice, de 77 anos, há 52anos casado com Ruth. “Sempre brincocom ela: ‘Espero que eu morra primeiro,pois sem você não vou conseguir nem encontrarminhas camisas!’” Se a frase não parecenada romântica, Reynaldo tem muitosargumentos para consertá-la. “Quando tomamosa decisão de noivar, decidimos quecada um faria aquilo que achava que deviafazer. Ela, por exemplo, resolveu ir estudar,numa época em que as amigas dela viravamdonas-de-casa. Em segundo lugar, prometemoscumplicidade eterna. E, terceiro, respeito.Tenho uma foto dela em minha mesade trabalho, ela aos 25 anos. Vejo Ruth atéhoje assim”, descreve o administrador. Eambos concordam: o amor é fundamental.“Gosto de tudo o que ela é e só vejo um defeito:casou-se comigo.”Colaborou: Maurício Thuswohlsolitários e o grau de atividade sexual está diretamente ligado à boa saúde cardiovascular2007 outubro REVISTA DO BRASIL 39


perfilO anoemqueMichelsaiu darotinaAtor principal do filmeO Ano em Que MeusPais Saíram de Férias,Michel Joelsas dáautógrafos, tira fotoscom fãs e freqüentaeventos, mas nãose deslumbra. Aindabrinca, estuda e fazplanos para o futurogerardo lazzari40 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Por Guilherme BryanMichel nunca havia sequerestrelado campanhaspublicitárias e foiparar direto na tela docinema. A vida começoua virar a partir de um teste do qual participaramoutras 2 mil crianças de várias escolasjudaicas em todo o país, incluindo ocolégio I. L. Peretz, onde estuda desde o maternal.“Comecei a fazer o teste por curiosidade,fazíamos um pequeno texto e umaencenação”, conta. Como nos movimentosdo videogame, foi passando de fase, avançandoe, de repente, foi parar no cinema.Michel Joelsas virou Mauro, personagem –principal! – de um dos melhores filmes dasafra brasileira dos últimos tempos, produçãoescolhida para concorrer a uma indicaçãoao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro,O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias(2005), dirigido por Cao Hamburger.Sua mãe, Marisa Dias, também foi surpreendida.Num primeiro momento nemse preocupou em saber direito que teste eraaquele: “Como o pedido veio do colégio,que é absolutamente confiável, nem atenteimuito para o que era e autorizei. Durantetrês meses outros pedidos de autorizaçãovieram. Só fui saber o que era de fato quandoo Michel, então com 10 anos, me disseque estava entre 12 crianças que participariamdo filme. Foi então que vi que era oCao Hamburger. Lembrei do Castelo Rá-Tim-Bum e percebi que se tratava de umtrabalho realmente sério”.Na história, os pais de Mauro, envolvidosna luta contra a ditadura militar na viradada década de 60 para a de 70, o deixam nacasa do avô, no bairro paulistano do BomRetiro. Para interpretá-lo, seria necessáriosaber a respeito desse período da históriado Brasil e também dos hábitos e tradiçõesda cultura judaica. Enquanto os pais sofriamas agruras da repressão no momentomais cruel da ditadura, Mauro estavatotalmente entregue à euforia da Copa doMundo do México. A poesia do filme misturacom equilíbrio a obscuridade do terrorà memória do melhor futebol do mundo,em meio a uma crônica que reconstróicom leveza o dia-a-dia naquele reduto dacomunidade judaica.Michel lembra-se do clima das filmagenscomo de altíssimo astral e de grande integraçãona equipe. “A cena em que chorei,por exemplo, exigiu grande concentração.Já na cena da dança maluca (ao som do hitda Jovem Guarda Eu Sou Terrível), comvários colegas meus, eu me diverti muito”,conta. Outro momento marcante foi quandoconheceu um dos maiores atores do Brasil,Paulo Autran, que faz uma participaçãoespecial no início do filme.Nas cenas externas, filmadas em Campinas(interior de São Paulo), Michel eraacompanhado por seus avós. “Eu e minhamulher tivemos de mudar umpouco o ritmo de vida. Foi tudouma grande surpresa. Primeiro,por ele ter sido escolhido.Depois, pelo fato de Cao Hamburgerter me dito, no pré-lançamentodo filme, que o Michelfoi um presente de Deus paratodos da equipe”, lembra o avôAdolfo Dias, de 73 anos.Para conciliar o trabalhonas filmagens e as tarefas daescola, Michel não tinha moleza.“Uma professora de inglêse outra de hebraico, que ématéria regular da escola, foram contratadaspara dar aulas no set de gravação. Umapessoa autorizada pela escola levava as provas.Ele não teve facilidades. Ao contrário,o combinado era continuar muito bem naescola para poder fazer o filme.”O Ano em Que Meus Pais Saíram de Fériasfoi lançado em outubro de 2006. Rapidamentese tornou um dos filmes brasileirosmais elogiados por público e crítica nosMichelem cenacom CaioBlatPara conciliaro trabalhonas filmagense as tarefasda escola,Michel nãotinha moleza.Ao contrário,o combinadoera continuarmuito bem naescola parapoder fazer ofilmeúltimos anos. Nos festivais de Berlim e Israel,Michel aproveitou para passear. Apelidadode “Férias” e “Mauro” por colegasda escola, ele parece ter realmente gostadoda experiência. Acaba de participar docurta-metragem A Ópera do Malandro, deAndré Moraes, baseado no musical de ChicoBuarque.O ego também está sob controle. Desdea produção de O Ano até os primeiros sinaisdo sucesso, a preocupação dos pais deMichel e de sua colega de filme,a atriz mirim Daniela Piepszyk,era que não ficassemdeslumbrados. E contaramcom o apoio da produção, observaMarisa: “O próprio Caome falou que, de Pixote para cá,existe no meio um cuidado especialcom todas as crianças.Chegaram até a me perguntarse eu achava que era precisouma psicóloga ou algum cuidadoespecial com o Michel. Eudisse: ‘Olha, talvez a mãe precise,mas ele não’”.Houve até situações em que os papéis seinverteram: era ele que levava a mãe a manteros pés no chão em momentos de excessode euforia. “Olha, o mais importante é otrabalho, senão, quando passar esse boomda mídia, você ficará com um vazio”, ensinavao jovem ator, que, hoje aos 12 anos, jáfaz novos planos para a carreira cinematográfica:“Pelo que vi nas filmagens, gosteimuito da direção de fotografia...”divulgação2007 outubro REVISTA DO BRASIL 41


viagemEntreo caose o caisO destino pode estar a dias dali,via Rio Negro. Alguns trazem a vidatoda para dentro dos barcos daManaus ModernaPor João Correia Filho, texto e fotosUma moto embarca por 60reais. Sabão e água sanitáriaa 1,50 cada garrafa de 2 litros.Bananas viajam por 60centavos o cacho e 2 reais éo preço para levar um saco com 60 quilosde farinha. Perfumaria é mais caro, entre5 e 10 reais, dependendo da fragilidadedo frasco. Um carneiro pode ir por 4 reais.Cachorro com dono vai de graça. No maismovimentado porto da capital amazonense,conhecido como Manaus Moderna, nãoé fácil decifrar a lógica dos valores cobradosno embarque de produtos. As tarifasseguem uma ordem pouco compreensívelpara quem está à margem desse universoque tem o Rio Negro como via de acesso acentenas de cidades do norte do país.Rarison Silva, tripulante do barco ElyonFernandes I, conta que em geral o frete écobrado por volume, “mas pode variar”, deacordo com as posses de quem despacha,com o dia do embarque, o tempo e, principalmente,com a forma como a embalagemse encaixa nos porões de cada barco. Próximade importantes entrepostos de mercadorias,incluindo o Mercado Municipal AdolphoLisboa, inaugurado em 1882, a região é42 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


o moderno popularTodos os dias, milhares de pessoas dizem nãoàs instalações do porto privado e espremem-senum ambiente caótico, sujo, com grande riscode acidentes dentro e fora dos barcosponto de convergência de milhares de comerciantese viajantes que lotam os barcosde mercadorias e histórias. Tanto a localidadecomo o porto receberam o nome de ManausModerna durante um projeto de urbanizaçãorealizado em 1994, que transformoua área em zona portuária e de comércio. Hojesua modernidade está justamente na resistênciaao moderno. Rivaliza com as novasinstalações do antigo Porto de Manaus, local2007 outubro REVISTA DO BRASIL 43


oficial de embarque para destinos nacionais,internacionais e contêineres. Construído em1902, para escoar os negócios milionáriosda borracha, foi restaurado e modernizadocom guichês informatizados, monitoresque indicam horário de partida e de chegada,como em aeroportos. A idéia não prosperou,embora o prédio chame a atenção demuitos, principalmente dos turistas.Em Manaus Moderna tudo é mais simples.Os guichês são guarda-sóis, a lanchoneteé um trailer adaptado e o anúncio das partidasé no grito. Três grandes balsas unem-seà terra firme por pontes improvisadas, quesubstituem as escadas deterioradas pela presençaconstante da água. Mesmo assim, todosos dias, milhares de pessoas dizem não àsinstalações assépticas do porto privado e espremem-senum ambiente caótico, com riscode acidentes dentro e fora dos barcos.Em Manaus Moderna as passagens custamde 20% a 50% menos do que no embarcadourooficial. Uma passagem para Tabatinga,de 268 reais no guichê, pode sairpor 200 nas ruas. “Negociamos direto como dono do barco, sem aquele monte de impostoscobrados lá dentro”, explica JailsonSilva, um entre centenas de vendedores debilhetes que circulam na calçada estreita.Para a maioria das pessoas, as expectativas estão voltadas para a chegada. Alguns trazem a vidatoda para dentro dos barcos da Manaus Moderna, com o intuito de reiniciá-la em outro porto seguroPara ele, outra razão é o embarque commais agilidade, sem passagem por raio X,Polícia Federal, taxas ou limites de carga.O ritmo frenético dos carregadores dá velocidadeao porto. Entre passageiros que seacumulam na proa, passam caixas de frutas,colchões, material de construção, passacerveja, passa fogão, passa mamão, passagente, passa açúcar, passam bananas-passas.Tudo muito rápido. Todo mundo tempressa de entregar e de receber. Uma passagema bordo do Comandante Santana, comdestino a Nhamundá, em território amazonense,ou Faro e Terra Santa, no Pará, custa30 reais, com direito a dois dias sobre aságuas e uma refeição. Um camarote na viagempara Santarém (PA), no Maresia I, saipor 180 reais. Três dias de viagem. Na rede,sai por 50 a 60.“Lei de oferta e procura, meu irmão”, explicaRaimundo Souza de Almeida, 42 anos,metade deles vividos ali, às margens do RioNegro, primeiro como carregador e atualmentecomo vendedor de bilhetes. “Quandotem mais barcos, cai o preço; quando44 REVISTA DO BRASIL outubro 2007tem mais gente, o preço sobe. Se é época defestividades o preço sobe”, completa, sentadoem frente a um cartaz com dezenasde fotos de barcos: Princesa Letícia, AlmirGuimarães, Leão IV e Manuel Silva II.É nessa época que outros vendedores doporto fazem seu extra. José Mendes vendeóculos de sol. Tira cerca de 50 por “dia bom”,e chega a faturar 180 em vésperas de festivaiscomo o de Parintins, em junho, um dosmais famosos do país. Paulo César Nascimentovende pedaços de corda por 2 reaiso par. É produto de primeira necessidade,pois a maioria dos barcos não possui númerosuficiente de ganchos para que todosacomodem suas redes. Com a cordinha, seamarram a qualquer pedaço de madeira dobarco. Paulo César vende 18 pares em diasnormais e mais de 70 nos dias de festa. Concorrecom milhares de ambulantes, que trazemtodo tipo de conveniência: suco gelado,salgadinhos, pão de queijo, laranja descascada,biscoito de polvilho, pano de prato, rádio,fones de ouvido, DVD, canudinho de docede leite, picolés de açaí com tapioca.Disputam espaço com os carregadores novaivém contra o relógio: o Maresia vai sairmeio-dia, o Gênesis III às 15h. Como formigasobreiras, levam bem mais que seu própriopeso. Salvanei de Oliveira carrega quatrosacos de laranja de uma vez, 120 quilos, oque lhe rende 1,50 real. Em dia bom, chega atirar 150 reais, ou seja, repete cem vezes o esforçoque executado uma única vez já parecehercúleo. Nilton Pereira Júnior faz malabarismoscom latas de cerveja, às vezes 20 caixasde uma só vez. Nas mãos de José Menezese de Salustião, mamões se equilibram, batatasvoam. Marcinho engana com uma pilhade papel higiênico sobre os ombros.Enquanto traz o mundo para dentro, atripulação tenta manter a ordem. Algunsconferem os bilhetes, outros identificam eetiquetam o que entra e o que sai, na maioriadas vezes com as iniciais dos destinatários.AOS é o senhor Antonio Oliveira daSilva, dono de uma próspera venda na cidadede Alenquer (PA), a um dia e meiode viagem. PD é Pedro Domênico, de Óbidos(PA). No Codajás, é Jorge o responsável


RitaFranciscapelo controle de mercadorias. No MaresiaI, a tarefa é de Rita, uma bela morena quedestoa do cenário cheio de músculos. Nobarco atracado, manda ela. Com o descolarda balsa, comandante e piloto passam a seras autoridades, responsáveis pelas centenasde pessoas que ocupam o convés. Cheio dedespedidas, o Elyon Fernandes parte com615 passageiros.Histórias das águasEnquanto lança as caixas ao ar, SaulFerreira conta que muitos amores nascemnos locais recônditos de uma embarcação:“Com seis dias de viagem tem genteque consegue uma esposa, ou um filho. Eumesmo arrumei uma noiva”, revela o homemde 29 anos, natural de Coari (AM),destino da embarcação. “Tem gente quetransa no banheiro, no camarote. Em alguns,a música rola solta. Quando é épocade festivais, então, tudo rola solto”, completa,com ar de quem assiste freqüentementeaos tais rituais. Trabalha há quatroanos no Maresia II.Alguns trazem a vida toda para dentrodos barcos, com o intuito de reiniciá-la emoutro porto seguro. Dona Maria Vilma Lopes,de 63 anos, tem em sua bagagem umfogão Dako de quatro bocas, um colchão decasal, uma cama de ferro vermelha desmontada,duas gavetas de roupa e o bambolê daneta, Lidiane, criada por ela. Vão tentar avida em Santarém, depois de quatro anosna capital do Amazonas. Patrícia Vieira morouum ano ali. Com o filho Lucas Miguelno colo, volta com tudo para a cidade natal,Parintins (AM): dois colchões, geladeira,sofá de tom laranja forte, no qual descansaenquanto o irmão mais novo traz a mudança,criado-mudo, arara (de roupas), berço;aproveita para despir o filho e deixá-lo defraldas. Dia quente. “As coisas não derammuito certo”, diz a moça de 19 anos, grávidade alguém que a abandonou.Para muitos o destino é também o ganha-pão.Francisca Costa da Silva venderoupas em Coari. “Lá é tudo mais caro, menoso peixe. Se aqui é 10 o quilo, lá é 3.” Aos36 anos, viaja três vezes por mês para Manaus;a bagagem leva 700 reais em roupas.“Com um pouco de sorte, faço 2 mil reais.Uma toalha que aqui é 15 eu vendo por 35.Uma calça de 40 eu vendo por 70.”“Tem gente que transa no banheiro, no camarote. Em alguns, amúsica rola solta. Quando é época de festivais, então, tudo rola solto”Para outros o porto tem gosto de descoberta.Talita teve um amor de três diascom Fábio, que veio a Manaus visitar umprimo. Conheceram-se na saída da escoladela, a Francisco Albuquerque, no Centro.Olharam-se e se apaixonaram. Ele, naturalde Juruti, extremo oeste do Pará, tem18 anos. Ela tem 16, apesar da maquiagemna bochecha e dos olhos pintados derosa, que destacam a madureza no rostode menina. Ele sorri para segurar o choro.Ela chora. Combinaram de não trocare-mails, nem endereço, nem telefonee, como numa fábula de príncipes e princesas,às margens do Rio Negro, nuncamais se verão.Dentro do barco da Manaus Moderna,o som ora é de uma criança que chora, orade um trompetista que se exibe antes dapartida. Uma garota lê revistas de celebridades,um casal dorme abraçado, conversasse misturam. Soa o apito, hora da saída.Acelera os passageiros. O que era caos, enquantoo barco se distancia, dá lugar a umsilencioso vazio. Vida no cais.2007 outubro REVISTA DO BRASIL 45


Curta essa dica PorXandra Stefanel (xandra@revistadobrasil.net)CumplicidadeA exposição Olhar Cúmplice– Fotografias do Parapan, emcartaz na Caixa Cultural Rio,reúne flagrantes da competiçãocapturados pelas lentes de novefotógrafos da agência Imagens doPovo. A mostra é um depoimentopoético-visual e sugere, em 30fotos ampliadas e 120 projetadas,um novo olhar sobre o diferente,a emoção, a alegria, ingredientespara a construção de um mundomais solidário. De terça a domingo,das 10h às 22h, na Sala Margot.Tels.: (21) 2544-7666/2544-4080.Grátis. Até 21 de outubro.Mais do que raçaO projetoOs Mestres Mulatos,idealizado pelo maestroMarcelo Antunes Martins,difunde a história damúsica brasileira e a obra decompositores filhos ou netosde escravos, de Luís ÁlvaresPinto (1719-1789)a Pixinguinha (1898-1973).O projeto inclui os concertosda Sinfonieta dos Devotos deNossa Senhora dos Prazeres,composta por 24 músicos:em 21 de outubro, às 12h,na Igreja Irmandade deNossa Senhora do Rosáriodos Homens Pretos (Largodo Paissandu, centro de SãoPaulo); 8 e 29 de novembro,na Assembléia Legislativa deSP, às 19h; e 20 de novembro,na Unipalmares, às 18h(Rua Padre Luís Alves deSiqueira, Barra Funda).Partituras adaptadaspara orquestras modernase música de câmaraestarão no sitewww.mestresmulatos.com.brAbalou o mundoO livro-reportagem Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo (Ediouro, 536páginas, R$ 60), do jornalista americano John Reed, relata de maneirahumana e apaixonada – talvez um dos melhores textos políticos do século 20– os acontecimentos dos primeiros dias da Revolução Russa de 1917. Reedtransporta o leitor para o olho do furacão que fez ruir o império russo. O livroinspirou o filme Reds (1981), Oscar de melhor diretor para Warren Beatty, comele próprio no papel de Reed, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hackman, MaureenStapleton (melhor atriz coadjuvante). Disponível somente em VHS (CIC Video).Olhe pra isso, olheAo levar para o cinema o teatro vital do Bando de Teatro Olodum, a soteropolitanaMonique Gardenberg faz uma poesia realista em torno da vida dos moradores de umcortiço do Pelourinho. Com elenco (Lázaro Ramos, Stênio Garcia, Dira Paes, Wagner Moura),música, sensualidade, energia e roteiro superlativos, Ó, Pai, Ó mostra o que o Carnaval da Bahiatem dentro e fora dos cartões-postais e trios elétricos. Quem não teve tempo de alcançar nassalas exibidoras, tão apressadas com os bons filmes nacionais, pode agora ver em DVD.46 REVISTA DO BRASIL outubro 2007


Muy amigos...O valor da lealdade e da amizade é tema do livroO Amigo Fiel (Ed. Berlendis, 2006), adaptação deGonzalo Cárcamo para o conto “The Devoted Friend”,de Oscar Wilde. A história é narrada por bichos dafauna brasileira. A amizade entre a ingênuacapivara Valentim e a esperta queixadaXicoqueixo mostra umarelação que expõediferenças de princípiosnum texto provocativo.Afinal, o que é ser leal?Quais os valores quenorteiam a amizade? R$ 31.Pequenos heróisCuidar do meio ambiente é o que querem os personagens infantis do projetoEcokids. A página desperta a atenção das crianças por meio de entretenimento,noções de cidadania e do interesse pela natureza. Crianças de 8 a 10 anos deidade vivem nas proximidades de uma floresta e de uma reserva indígenae estudam na Escola Vila Verde. A galerinha consciente planeja, mobiliza ediscute ações para proteger o planeta. www.ecokids.com.brQuanta diferençaEm 2002, mais de 1,8 milhão de franceses assistirama Ser e Ter. O documentário retrata o ano letivo emuma pequena escola e mostra como é a educaçãoinfantil no interior da França. Doze crianças, entre4 e 10 anos, compartilham a sala e aprendem juntasvárias matérias com um professor dedicado e paciente, que as conduzà adolescência, respondendo às suas argumentações e ouvindo seusproblemas. Bom programa para pais, professores e alunos, semrestrição de idade, pela referência pedagógica e pela qualidade comque é tratada (VideoFilmes).Porque sim, oras!Música para criança é levada a sério pela engenheiraRita Rameh. Em parceria com o violonista,guitarrista e arranjador Luiz Waack, ela lançou oCD Por quê? (Tratore, 2006) que parece uma peçamusical. Bichos do Brasil, Carro, Cidade, Claro eEscuro e Poluição são algumas faixas que mostramque é possível – e saudável – tratar a criança comoigual, sem inferiorizá-la.MaluquicesO Menino Maluquinho é umpersonagem do cartunistaZiraldo que representa muitobem o sabor da infância.Suas histórias e invenções jáviraram quadrinhos, livros,peças teatrais, filmes e até umasérie de TV. A página na internet ajuda criançasna atividade escolar e traz brincadeiras, piadinhas,histórias e o significado de datas importantes. Tematé uma versão online do livro original adaptadapara a internet. As imagens entram rápido na tela epodem ser impressas e coloridas.http://omeninomaluquinho.educacional.com.brPasseio cariocaO Sítio Burle Marx pode ser um divertido passeiopara quem está no Rio de Janeiro. Diversidade deplantas, construções, pinturas, esculturas, desenhos,tapeçarias, vitrais, painéis de azulejos, entre outraspeças, pode ser conferida no espaço comprado pelofamoso paisagista na década de 40 e doado para ogoverno em 1985. R$ 5. Estrada Roberto Burle Marx,2019, (21) 2410-1412. www.burlemarx.com.br2007 outubro REVISTA DO BRASIL 47


Crônica PorFlávio AguiarAs grandespaixõesAh, essa grande dama que tantofreqüenta o aristocrático salãoquanto visita a pobre favela paranos despertar para a vida e aliberdadeMinha primeira grande paixão foi Narizinho, amenina cor de jambo do Sítio do Picapau Amarelo.Eu não queria tomar o lugar de Pedrinho,seu companheiro de viagens, brincadeiras ecorrerias. Eu queria entrar na história, ser partedela, conquistar a menina com minhas artes e feitos. Então eureescrevia os livros. Dava uma mãozinha para o Monteiro Lobato,por assim dizer. Na minha imaginação, é claro.É verdade que havia a Eliana, atriz das chanchadas da Atlântida.Nossa! Quanto ciúme eu tive do Anselmo Duarte, quanta invejative do Oscarito e do Grande Otelo, que contracenavam comela... Mas a Eliana foi uma mera (mera?) aventura cinematográfica.Coisa de fim de semana. Paixão mesmo, foi a Narizinho. Paixãocriança, que eu nunca esqueci, e a que sou fiel até hoje.Agora, paixão com P maiúsculo, a primeira foi Constance Bonacieux,a hospedeira de D’Artagnan, em Os Três Mosqueteiros, deAlexandre Dumas. Casada com o insípido monsieur Bonacieux,Constance se deixa tomar por uma paixão ao mesmo tempo tórridae pura pelo seu hóspede. Ali, entre golpes de espada e de política, sobo olhar simultaneamente altivo e satânico do Cardeal de Richelieu,foi que aprendi que o verdadeiro amor apaixonado não reconhecelimites nem barreiras, sendo força de entrega e de recebimento. Poressa época também li Iracema e O Guarani, de José de Alencar. E meapaixonei. Menos pelas personagens do que por aquele jeito apaixonadoe apaixonante de escrever do escritor cearense.A Dumas devo minha próxima paixão: Anita, a brava mulherque combateu ao lado de Garibaldi na Guerra dos Farrapos e pelalibertação da Itália, onde morreu. É que li as Memórias de Garibaldi,escritas pelo genial francês. Fiquei maravilhado com aquelasaventuras de Farrapos e gaúchos meus conterrâneos de antanho,lutando pela república e pela liberdade, na pena daquele que erameu herói literário preferido, o incrível Dumas. E em meio àqueleredemoinho da história, lá estava a apaixonante Anita, comseus olhos e cabelos negros, seu busto arfante de desejo, e de desejode justiça.Minha paixão seguinte foi manhosa: Capitu, a que era mais mulherdo que eu era homem, como disse o Bentinho, seu marido enarrador. Capitu me apaixonou pela dúvida: afinal, foi ou não foiadúltera? Por isso nunca concordei com a crítica tradicional queconsiderava seu “pecado” coisa líquida e certa. Tampouco concordocom uma certa visão hoje corrente, que a vê apenas como umapobre vítima da desconfiança do marido. Bonito mesmo é sentira dúvida oblíqua e dissimulada.Por aí eu já estava fazendo vestibular e entrando na faculdadede Letras, coisa meio inusitada para homem naqueles tempos deantigamente. E as paixões foram se sucedendo: Emma Bovary, aNega Fulô, Diadorim, Madalena, a professora de São Bernardo...Caso curioso foi o do Erico Verissimo: admirei todas as mulheresde Erico, Clarissa, Fernanda, Ana Terra, Bibiana, Luzia Cambará,Ismália Caré... Mas não me apaixonei por nenhuma delas; eramtodas muito sérias e sisudas, até a satânica Luzia, que escrevia poemas,tocava cítara e gostava de espiar cadáveres. O que me deixouapaixonado mesmo foi o olhar de Erico por sua terra, o RioGrande do Sul e o Brasil, um jeito quieto, sério, de olhar apaixonado,sem perder a capacidade de crítica. Erico completou meu“apaixonamento” pela literatura, essa grande dama que tanto freqüentao aristocrático salão quanto visita a pobre favela para nosdespertar a paixão pela vida e pela liberdade da imaginação, coisatão em falta hoje em dia.Flávio Aguiar é professor do programa de pós-graduação de Literatura Brasileira da Universidadede São Paulo e editor-chefe da Carta Maior (www.cartamaior.com.br)50 REVISTA DO BRASIL outubro 2007

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