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se^Ájei ^o'h ASSUMEBOLETIM NACIONAL DA ACO ASSUMIR N9 30 - SUPLEMENTOA IGREJA MILITANTE DEJOÃO PAOLOIIE 0 CAPITALISMO TRIUNFANTEAÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA - ACO COMISSÃO DE PUBLICAÇÕES ERua Van Erven, 26 - Catumbi" - RJ COMISSÃO COORDENADORACEP 20211 -Fone (021) 242-7732 NACIONAL DA ACO


APRESENTAÇÃOOferecemos este estudo de Frei Clodovis Boff sobre a encrdica"Centésimus Annus" aos militantes de ACO e outros para um aprofundamentoconsciente de nosso compromisso pela libertação e fortalecimentoda classe operária numa linha de fé e testemunho coerente devida.Este estudo nos ajudará a descobrir critérios críticos a partir daprópria Doutrina Social da Igreja para construção de um mundo maissolidário e justo do ponto de vista dos trabalhadores e do TerceiroMundo e não do Império Norte.Além de adquirir este Suplemento de estudo, faça sua assinaturado ASSUMIR, boletim da Ação Católica Operária - ACO, que trazsempre informes e assuntos de interesse dos trabalhadores e dos queatuam no meio popular.


do contrário, constituiria um abusodiante de Deus e dos homens" (43c).Mas a grande questão permanece: apropriedade ou controle privado dosmeios de produção pode garantir aprioridade das necessidades sociais sobreos interesses particulares? Semdúvida não existe mais, inclusive noTerceiro Mundo, o que Paulo VI descreveuno célebre 26 da PopulorumProgressio: uma "propriedade privadados bens de produção como direitoabsoluto, sem limite nem obrigaçõessociais correspondentes". Mas que eladetenha ainda, nas economias ocidentaisem geral, o poder e o direito dominante(não exclusivo, por certo) sobreo Trabalho e o Bem comum édifrcil negá-lo.Quanto ao lucro, afirma que "aIgreja reconhece a justa função dolucro, como indicador" e como "reguladorda vida da empresa" (35c).A única reserva que o Papa faz ao lucroé que não seja o "único" indicadorregulador. "A ele se deve associar aconsideração de outros fatores humanose morais". Mas a questão todaaqui é se o lucro não continua sendoo "motor essencial do progresso econômico",como dizia, de modo condenatório,Paulo VI (PP 26) e como pareceser o caso do sistema capitalista,moderno ou não. Ora, a encfclicaatual não relembra nada disso. £ issoé sintomático de todo um novo espíritocom o qual o Magistério põe suarelação com a economia moderna.Com efeito, a dinâmica do desenvolvimentodas atuais economias "modernas"(para não dizer capitalistas)continua dominada (não certamentede modo exclusivo) pela lei do lucro.Quando essa lei férrea é contraditada,inclusive por considerações ético-sociais,dando-lhes a prioridade, a empresavai a falência. Tal parece ser a"lógica sistêmica" de uma economiadeterminada pelo mercado, como éa capitalista.E quanto ào mercado, o discurso doMagistério assume um inédito tom deelogio. Diz que ele"parece ser o instrumentomais eficaz para dinamizaros recursos e corresponder eficazmenteàs necessidades" (34a). E maisadiante. "Certamente os mecanismosde mercado oferecem seguras vantagens:ajudam... a utilizar melhor osrecursos, favorecem o intercâmbiodos produtos e, sobretudo, põem nocentro a vontade e as preferênciasda pessoa..." (40b). Em suma, o mercadopossui um "valor positivo"(43). E um discurso que certamentenão vai desagradar aos incensadoresatuais do mercado.É assim que o mercado acaba efetivamenteabençoado pela Igreja. Nuncao Magistério tinha falado nesses termos.E verdade que também ao mercadosão feitas severas reservas: eledeve ser "controlado pelas forças sociaise estatais" (35b) para que sejadevidamente "orientado para o Bemcomum" (43a). O "só-mercado" (a


famosa "mão invisível) não resolvetodos os problemas econômicos (42c).E nem pode haver o "mercado total",em que tudo é feito "mercadoria"(34a e 40b). Sua "lógica", portanto,seria relativa.Entretanto, aqui também se levantaa questão: no Capitalismo, mesmonovo, a relação de mercado não continuasendo a relação econômica dominante(não por certo única)? Oupara falar como Paulo VI, a concorrêncianão permanece a "lei supremada economia" (PP 36), ainda que nãoexclusiva? Nas economias capitalistas,mesmo as modernas, quem determinaquem? é o Bem comum que determinao jogo do mercado (como gostariao Papa) ou é o mercado que determinao conteúdo do Bem comum, comoparece acontecer na verdade?Mais: o próprio mercado não é tododeterminado pelo sistema de produção,que está antes e por detrásdele? Por exemplo, em nosso mercadode trabalho, quem da' as cartas: o empresárioou o trabalhador? "Economiade mercado" ainda não diz tudo. Aquestão é: que mercado? Definiruma economia apenas por esse mecanismonão seria cair numa visão abstratae instrumentalista da economia,sem situar os diferentes mecanismosdentro do sistema no qual eles jogam?Podemos dizer que o mercado sempreexistiu, mas só o Capitalismo ele setornou dominante, tanto assim queCapitalismo e Economia de mercadosão hoje termos intercambiáveis.A Centesimus Annus atribui aos sindicatos(35a, 43b) e particularmenteao Estado democrático (40, 48) opapel de controlar a "lógica do mercado"para que não se torne uma"idolatria" do mercado (40b). Masisso parece supor não apenas corrigiro mercado mas transformar o sistemaeconômico, para que o mercado estejaético-estruturalmente (e não sóético-voluntaristicamente) subordinadoàs necessidades sociais, ou seja aoBem comum. Nesse caso não se deveriafalar num mercado social (ou socialista),diferente do mercado capitalista?Aliás, a idéia que emerge da CentesimusAnnus sobre o Estado tem algode abstrato: o Estado parece aí pairaracima da sociedade e as forçasmuitas vezes contraditórias que aconstituem. Não é o Estado nutridopor essas forças e por elas disputado?O primado do Capital não se estendetambém sobre o Estado? Como entãopedir e esperar que ele defenda osdireitos do Trabalho sobre os doCapital?Em suma: para que o mercado sejamoral não basta que não seja único eexclusivo com relação aos direitos doTrabalho; é preciso também que nãoseja dominante. Por outras, não basta8


que reconheça alguns direitos do Trabalho,mas que esteja subordinado aele — como o Papa propõe em prin-cípio. Mas neste caso, o Capitalismo,mesmo renovado, e ainda moral e mesmomoralizável em seu cerne?1.2. AS CRITICAS AO NEO-CAPITALISMODa Centesimus Annus emerge, pois,esta posição' o neo-capitalismo, nãoimportando o nome com que se queiranomeá-lo — "economia de mercado"ou outro — recebeu a bênção pontificai(com o detalhe de ser perdoado atédo feio nome de "capitalismo"). OPrimeiro Mundo, que temia uma enci'-clica mais "sócializante", respira aliviado.E é com uma impressionanteunanimidade de aplauso que o mundodesenvolvido, especialmente a Europa,recebeu a encfclica. M. Novak, teólogonorte-americano do "capitalismodemocrático", proclamou extasiado:"Hoje, depois dos milagres de 89,somos todos capitalistas", acrescentandosem pudor: "Até o Papa" {Adisía,6-8/6/91,p. 11).Mas também não é qualquer neocapitalismoque o Papa aprova. Pareceque recebe o aval modelos como o dasócial-democracia. Não é seguro queum modelo como o norte-americanoreceba o mesmo aval. E nesse sentidoque o Papa diz que "a Igreja não temmodelo a propor" (43a). Tratar-se-iade modelos do sistema de "economiade mercado" e não da própria. Mas aessa altura, dizer que a Igreja não oferecemodelos soa um pouco ritual.A aprovação, contudo, não é total enem podia ser. É sim substancial. Emque pese o nome, o neo-capitalismoé árvore boa; só que precisa de poda.De fato, o Papa tem suas críticas a fazeraos modelos existentes da economiade mercado. Ele elenca os "perigos"que essa economia apresenta hoje:o consumismo (36b), a droga e apornografia (36c), o hedonismo (36d),a questão ecológica (37), os problemasde urbanização (38), as campanhascontra a natalidade (39), etc. Comose vê, são problemas reconhecidamentegraves.Mais à frente, o Papa faz uma críticaainda mais profunda das doençasdos países capitalistas. Diz que, se o"capitalismo selvagem" produz "fenômenosde marginalização e de exploração,especialmente no Terceiro Mundo",o neo-capitalismo produz "fenômenosde alienação humana, especialmentenos Países mais avançados"(42c). Ele toma como que de assaltoa teoria da alienação de Marx, que eledeclara peremptoriamente "errada"(41a), e lhe dá um conteúdo cristão;"a inversão dos meios pelos fins"(41c). E conclui: "Na sociedade ocidental{leia-se: neo-capitalista) foi


superada a exploração, pelo menos nasformas analisadas e descritas por KarlMarx {nota: é o único autor que oPapa cita). Pelo contrário, não foi superadaa alienação", especialmenteporque o "homem... se preocupa sóou prevalentemente do ter e do prazer..."(41d).Mas o que têm a ver essa situaçãode alienação e os problemas elencadosacima com o modelo capitalista? Seriamnegatividades geradas por ele?Que nexo existiria entre capitalismoe alienação, com toda a sua esteira deproblemas, como o consumismo eoutros mencionados? O Papa parecever af um laço apenas circunstancial{per accidens) e não intrínseco ousubstancial. São "disfunções" de ummodelo em si bom (cf. 36c).De fato, seja no caso da alienaçãocomo no dos problemas elencados,ele diz que por trás de tudo aquiloexiste uma questão de "cultura"(36b, 39b), uma "concepção errada"das coisas (41a), uma "visão humana"mesquinha (37b), "valores puramenteutilitários" (29b) e por af vai. Um dosgrandes responsáveis dessa falsa culturaseriam os meios de comunicação demassa (41 d). Chega a dizer que essapseudo-cultura pode criar "estruturasespecíficas de pecado" (38b). Eis umacategoria fecundíssima da modernateologia social, mas que aqui é apenasmencionada, sem receber um desenvolvimentoe, mais ainda, uma aplicaçãomaior. Para enfrentar essa pseu-do-cultura, o Papa propõe, na lógicaque é a sua, uma espécie de revoluçãocultural — nas suas palavras, uma"grande obra educativa e cultural"(36b).Portanto, não se trata fundamentalmentede mexer no mercado, masna cultura. Referindo-se à série decríticas que fez às economias modernas(36-39), o Papa conclui textualmente:"Essas críticas são dirigidasnão tanto contra um sistema econômico,quanto contra um sistema ético-cultural".Por isso, insiste o Papalogo adiante, "a causa terá de ser procuradanão tanto no próprio sistemaeconômico, quanto no fato de que todoo sistema sócio-cultural ... ficoudebilitado" (39d; nós sublinhamos).E é aí que ele vê a importância dopapel da Igreja: "É a esse nível que secoloca o contributo específico e decisivoda Igreja a favor da verdadeiracultura" (51a). Ele vê na vinculaçãoestrutural do cultural ao econômicoum erro tanto do "socialismo real"(13 e passim) como de uma "ideologiaradical de tipo capitalista" (queconfiaria tudo ao mercado) (42c).Para o Papa tudo isso não pertenceriaà "lógica" da economia de mercado,isto é, ao Capitalismo em simesmo (34a e 40b), mas à lógica deuma cultura determinada, como vistaacima. O Papa concebe muito bemuma economia de mercado suplemen-10


tada por valores cristãos. O que, deresto, seria para ele o ideal. 0 Capitalismonão secretaria ideologia alguma.Ele apenas pode sim se acoplar,de certo modo, com esta ou comaquela cultura, que teria sua independênciaestrutural. Nada, pois, de uma"lógica sistêmica" do Capital, comoacreditava Marx e ainda hoje muitoseconomistas. O Papa não: ele vê umalógica econômica e uma lógica culturalautônomas uma da outra. Se por acasose encontram unidas, isso é por umnexo puramente circunstancial (dependentedas decisões humanas) e nãonecessário (por exigências sistêmicas).Mas é possível casar ética cristã comeconomia de mercado (capitalista)?Ora, o Evangelho não se presta a serapenas o "suplemento de alma" deuma economia sem alma, ou melhor,de uma economia cuja alma é a acumulação.Se assim é, o Capitalismo, sejaqual for, não é estruturalmente contraditóriocom os princípios éticose religiosos que o Papa propõe?Quanto ao "liberalismo", que seriaa ideologia própria da economia capitalista,o Papa o condena naturalmente,seguindo a tradição da DoutrinaSocial da Igreja. Sem usar muito aquelapalavra (60b, etc), ele sublinha aidéia de que existe um vínculo profundoentre liberdade e verdade, incluindoaí a caridade, como sua dimensãosocial (4e, 17a, 41d, 46d, 47a). Nestecaso, o cristianismo viria substituir oliberalismo para redemir um sistemaeconômico moralmente deficitário.Como se observa, num sistema socialo Papa vê um nível técnico e outroético, podendo se combinarem de diferentesmaneiras.Quando o Papa fala explicitamenteno "capitalismo", entende-o normalmentein malam partem. A não serque o advirta explicitamente, trata-sesempre do capitalismo liberal, manchesteriano,"selvagem". Ora, comovimos, esse é condenado terminantemente.é nesse sentido que deve-seenteder a afirmação enérgica: "Éinaceitável a afirmação de que a derrocadado denominado 'socialismo real'deixe o capitalismo como único modelode organização econômica. Tornasenecessário quebrar as barreiras e osmonopólios que deixam tantos povosà margem do progresso ..." (35d).No importante 42 ele se perguntase, "após a falência do comunismo, osistema social vencedor é o capitalismoe se para ele se devem encaminharos esforços dos Países" da Europa doLeste e do Terceiro Mundo. Pois bem,sua resposta é: não, se se trata do capitalismoliberal ("onde a liberdade nosetor da economia não está enquadradanum sólido contexto jurídico...");e sim, se de um capitalismo moderno,ou seja, corrigido. Mas neste caso, adesignação não seria mais tão "apropriada".11


Como se vê, o Papa acredita num Capitalismoreformado, humanizado,corrigido, domesticado, aperfeiçoado,enfim, moralizado. Mas neste caso, teriaele mudado de essência com respeitoà sua natureza original "selvagem",exploradora e excludente? Sim,admite o Papa. Entre o paleo-capitalismoe neo-capitalismo, para ele, a diferençanão é de grau (este não seriaapenas menos explorador que aquele),mas de natureza. O Capitalismo terseia transformado em outra coisa aolongo da história. Talvez seja por issoque o Papa hesite em chamar essenovo sistema de "capitalismo". Seriajá outra coisa, completamente diferenteda anterior, da qual se originou.Todavia pode-se perguntar se o Capitalismorealmente se converteu ou seapenas se maquilou.Igualmente, o Papa não vê hoje umarelação intrínseca entre o "capitalismo selvagem" do Terceiro Mundo e o"capitalismo civilizado" do PrimeiroMundo. Um não seria condição do outro,mas cada um possuiria sua dinâmicaprópria. Mas sobre isso voltaremosmais adiante.Eis, pois, aí tantas interrogações,que a encíclica permite levantar e queé preciso aprofundar a partir mesmodos princípios éticos e religiosos queela oferece e para além das aplicaçõesconcretas que ela propõe. Pois essesdois níveis do Ensino Social da Igrejaprecisam sempre serem bem distinguidos,para permitir a crítica legítima eo avanço necessário. Mas disso nosocuparemos no fim deste estudo.2. TERCEIRO MUNDOO Papa lê a realidade presente domundo a partir de onde? Da Europa,de uma Europa neo-liberal e vencedorado "socialismo real". Não é certamentedesde o Terceiro Mundo quefala o Papa, do lugar onde se encontraa imensa maioria da humanidade sofredora,do lugar do "capitalismoinfeliz".É, pois, do lado dos grandes que oPapa se coloca. Entre os potentes falaum mais potente. Conclama inclusiveos "grandes Países" a um "entendimento"crescente a fim de objetivaremo "controle e a orientação" daeconomia mundial em vista (natural-12


mente!) do "bem comum" (58).Convida as "Nações mais fortes" a"oferecer às mais débeis ocasiões deinserção na vida internacional" (35c).0 grupo dos "Sete" mais ricos domundo pode-se sentir confortado comtal discurso. Frente a tais generososdesejos, os pobres não podem deixarde sorrir. Mas, risum teneatis, amici\É por isso também que na encíclicao Terceiro Mundo aparece por lances,de modo saltuário e praticamente marginal.As massas pobres da Periferianão são o interlocutor privilegiado doPapa. Ele fala com os modernos, osgrandes, os que venceram. E isso éperigoso. Os pobres estão lá, à parte,como "terceiros" nesse diálogo a dois.Fala-se deles, não se fala com eles.Mas onde fica a "opção pelos pobres"?Ela é referida em alguns passos(10, 11b e 57b). O Papa afirma que aRerum Novarum tomou aquela ótica,na medida em que assumiu como eixode sua encíclica a "condição operária"(11a). O Estado também deveria adotaressa perspectiva (10 e 11b). Enfim,para a Igreja, ela é "decisiva e pertenceà sua constante tradição" (57b).Mas, apesar de uma ou outra formulaçãocontrária (por ex. 49a), o pobre aíé visto sobretudo como objeto. Ele épaternalizado pela Igreja, pelo Estadoe pelas organizações de ajuda.Existe só um número, o 33, dedicadointegralmente aos Países pobres.(Para dizer a verdade, não integral-mente, pois que foi-lhe tomada a últimaparte, para dizer aí que tambémno Primeiro Mundo existe um TerceiroMundo.) E como é colocada aí suasituação?Aí, a relação Primeiro e TerceiroMundo aparece como uma relação orgânicasim, mas não dialética. O nexocausai entre esses dois mundos não seevidencia. O subdesenvolvimento é interpretadosobretudo, como atraso técnico,é que os Países pobres acabamperdendo a "concorrência" com os ricos,ou seja, não possuem uma economiacompetitiva a nível internacional(33a). Mas não são as mesmas "modernas"transnacionais que praticam noTerceiro Mundo o capitalismo "selvagem"?O Papa reconhece que os trabalhadoresdo Terceiro Mundo sãoexplorados. Atribui isso curiosamenteàs "carências humanas do capitalismo"(33b). Não se trataria, pois,de "carências sistêmicas" segundo a"lógica do Capital". E depois, nuncase fala de que essa exploração se situano nível internacional, de país a país.Não; são relações internas a essespaíses pobres e não relações a nívelmundial.Ademais, o Papa reconhece que,além da exploração, existe o fenômenoda marginalização das populaçõespobres. Na verdade, o capitalismo modernoabsorve cada vez menos mãode-obra,desempregando cada vez mais13


gente. E seu caráter hoje em dia prevalentementemarginalizador ou excludente.Mas aqui o Papa também nâonota que esse fenômeno pertence à"lógica do Capital", pouco valendonesse nível recomendações morais decima. E esta lógica possui uma moralembutida nela, cuja principal "virtude"é a ganância (trata-se, na verdade,de uma "imoral" — um verdadeiro"sistema de pecado"). A moral daIgreja aqui só pode atenuar a voracidadedo Capital, mas não eliminá-la.E o que podem fazer os Países ricospara os Países pobres? Ajuda — é oque o Papa recomenda em primeirolugar (28c). Nada de denúncia da exploraçãoem nível mundial. Nada daproposta de relações da mais rigorosajustiça e estrita reparação. Frente aospobres é a velha oferta da "caridade"que se repropõe. Ora, sabemos que afamosa "ajuda" de 0,7% do PNB assumidana ONU pelos Países ricos nãosuperou em geral os miseráveis 0,3%,com honrosas excessões (Holanda epaíses escandinavos). "Mas o que éisso para tanta gente? (Jo 6, 9).Além disso — e é o mais importante— o Papa propõe a solidariedade, nosentido da "escolha moral" de investiraqui e não lá (36d). Mas a lógica doCapital deixa? Considerações moraispodem se antepor à lei do lucro?É de se duvidar muito.E a dívida externa? A primeirareação do Papa é: tem que ser paga!Ele arranca sempre de uma posiçãomoral. Claro, em seguida se retoma efaz suas reservas, aliás, bastante vigorosas:"Não é lícito pedir... um pagamento...que condenaria à fome e aodesespero populações inteiras" (35e).Mas isso é comentário, por mais enérgicoque seja. A tese de fundo é aquela:o pagamento. Mas de que lado estáo Papa nesse ponto: dos credores oudos devedores?O que o Papa recomenda tambémpara sair do subdesenvolvimento é nãoo isolamento com respeito à economiamundial, mas antes a integração nela(33d). De novo aqui aparece a linguagemda "ajuda": trata-se de "ajudarpovos inteiros... a entrarem no círculodo desenvolvimento econômico e humano"(58). Ou seja, os lázaros modernosnão sãoposfos para fora e nemmantidos fora do palácio de Epulão;eles estão apenas fora dele, esperandoque Epulão, enfim convertido, saiapara convidá-los a entrar. E não seriaesse o papel do Papa dentro do Pa lácio?De acordo com nossa encíclica ficaclaro: nossos pobres são apenas nossos,e não do Primeiro Mundo. Se essedeve acorrer é puramente por favorou por mera obrigação ética e nãopor uma questão de estrita reparação.Esses enjeitados não são deles, sãobem nossos. São filhos que a empregadatrouxe de fora; o patrão não temnada a ver com isso. O Primeiro Mundopode dormir tranqüilo: os povospobres não são culpa passada sua, são14


apenas eventual culpa futura. Não sãoseu pecado de ação, mas talvez apenasde omissão; portanto, nada de muitograve. E o "drama" da pobreza acabaé sobrando para os pobres mesmos(56b e 57b).Mas aonde foi parar o certeiro "ácusta" que o Papa soltou em Puebla,indicador do laço dialético que unePrimeiro e Terceiro Mundo? Com efeito,referindo-se a Paulo VI (cf. PP57),lá o Papa atual lembrava os "mecanismos...impregnados não de autênticohumanismo, mas de materialismo,(que) produzem em nível internacionalricos cada vez mais ricos á custa depobres cada vez mais pobres" (DiscursoInaugural, 28/01/79, 3.4). Note-seque aí se percebe a moral (ou "imoral")encarnada em estruturas materiaise não apenas como visão culturalpairando por cima do econômico.Inclusive na Solicitudo Rei Socialis,o Papa tem uma rica linguagem dialética.Diz. "É necessário denunciar aexistência de mecanismos econômicos...que, embora conduzidos pelavontade dos homens, funcionam muitasvezes de maneira quase automática,tornando mais rígidas as situaçõesde riqueza de uns e de pobreza dos outros."E continua denunciante: "Essesmecanismos, manobrados... pelos paísesdesenvolvidos, com o seu própriofuncionamento favorecem os interessesde quem os manobra, mas acabampor sufocar ou condicionar as economiasdos países menos desenvolvidos"(16c). Como explicar essa diferençade linguagem? Além das assessoriasd iferentes, temos no entremeio o annusmirabilis de 1989. Ele representa umalinha divisória que parece atravessaro próprio magistério do Papa Wojtyla.João Paulo II vê as diferentes economiasregionais interdependentes (éo grande tema da Solicitudo Rei Socialis).Mas não vê a unidade complexae contraditória de um único processomundial, como mostra a teoria quefala em Centro e Periferia. Concretamente,ele vê o paleo-capitalismo e oneo-capitalismo lado a lado, cada umcom sua dinâmica própria. Certo, elessão interdependentes, mas isso atravésde uma relação meramente prática,não dialético-estrutural. Não seriamaspectos de um mesmo processo. Masexiste a rigor um capitalismo desenvolvidoe um outro subdesenvolvido?Não se trata antes de duas faces -a central e a periférica — do mesmoCapitalismo mundial?Contudo, para a Centesimus Annus,o capitalismo "selvagem" parece mesmoconstituir a etapa prévia de umprocesso econômico, que, na melhordas hipóteses, vai dar no neo-capitalismo.Não se trataria aí propriamentede uma situação de subordinação, comocoloca Puebla (30). Ou seja, para aencíclica, a relação entre o Primeiro eo Terceiro Mundo não é de dominação,mas de atraso apenas. Certo, elepercebe o fenômeno da "mundializa-15


ção da economia" (58a), mas não ofereceda mesma uma interpretação dialéticocontraditória.Mas essa "economia de mercado",que o documento admite no PrimeiroMundo, como é que ela historicamentese constituiu? Disso nada se diz. Oque ela custou para o Terceiro Mundo— o saque das riquezas dos países coloniais,o tráfego dos escravos da África,a exploração comercial do Oriente— sobre isso pesa no documento umsilêncio total. Ora, é sabido que foisobre a gigantesca destruição das economiascoloniais que se ergueu a opulênciado Primeiro Mundo, especialmenteda Europa. Os 500 anos da presençada Igreja na América Latina e aomesmo tempo de colonialismo proíbemde esquecê-lo. E em parte é sobrea continuação desse processo de exploraçãoque o bem-estar do PrimeiroMundo se mantém ainda hoje, aindaque em grau descrescente. Mas não aponto de se passar agora sem mais da"teoria da dependência" para a "teoriada prescindência".E qual é a alternativa social que odocumento nos propõe? É o neocapitalismo,que ele prefere chamarde "economia de mercado". Portanto,a luta do Terceiro Mundo seria de do-mar seu "capitalismo selvagem", trabalharpara transformar o modeloeconômico, mas dentro do marco dosistema capitalista. Textualmente:"Nesta luta contra um tal sistema (capitalismo"rígido"), não se veja, comomodelo alternativo, o sistema socialista(35b. Nós sublinhamos). Veremosmais adiante que por "socialismo"o Papa sempre entende o "socialismoreal", portanto, burocrático eautoritário — um "capitalismo de estado",como ele explica na seqüência dacitação acima. Mas parece que de fatonosso caminho seria a Polônia et consortes,assim com o caminho desta seriaa Alemanha et caterva. E assimentraríamos no afortunado "círculodo desenvolvimento econômico e humano"dos povos ricos (58a) e criaríamosum "mundo mais justo e prósperopara todos" (28c). É de dar arrepiosde prazer ao prazer ao Presidentemais modernizador.Quanto aos Estados que montaramo sistema de "segurança nacional" parase oporem ao comunismo, o Papaacha que eles apenas "correm o graverisco de destruir... a liberdade" (19c),enquanto o comunismo positivamentea impede e destrói. Nesse sentido émelhor um Gal. Pinochet do que umGal. Jaruzelski.3. SOCIALISMOO referente desse termo na CentesimusAnnus ê sempre o "socialismoreal". Tratar-se-ia, a rigor, de "um tipode socialismo" (12d). Contudo, tam-16


'CAMINHANDO JUNTO*'^ VIWWW PE NOSSO VALO»'NA COHMíJW DEHOSJA UBEW^flo |bém quando não adjetivado, socialismoindica sempre "socialismo real".Na encíclica, socialismo nunca é tomadoim bonam partem. Com o capitalismoreal, a coisa é diferente. Se existeum capitalismo salvável, apesar do nome,não parece existir um socialismosalvável. Nesse sentido, a posição daencíclica já não é a equidistância,que sempre tinha caracterizado o discursoteórico do Magistério até hoje.Fica evidente neste documento quepara o Papa Wojtyla a Igreja é muitomais próxima do Capitalismo que doSocialismo.Quanto ao "socialismo real", oPapa dedica-lhe todo um capítulo,o III, chamado "O ano 1989", paralhe descrever a crise e a derrocada. O89 assinalaria um ponto de fraturana história do mundo e inclusive daIgreja: daí para frente, o Socialismoe o Capitalismo não seriam mais osmesmos, inclusive para o Magistérioromano.Uma euforia contida, mas inegável,atravessa todo o capítulo. O Papa che-t17ga a elevar hinos de ação de graças aDeus pelo fracasso desse tipo de socialismo(22b e 23c). Como grandevencedora emerge aí a figura da Igreja.O verdadeiro embate ter-se-ia dado entrea Igreja e o comunismo, entre aDoutrina Social da Igreja e o marxismo.Nele a Igreja reencontra enfim omovimento operário, hegemonizadoaté então pelo marxismo (26c). E nissotudo a Polônia joga um papel deprimeira grandeza: "a crise fundamental"dos regimes comunistas "inicia...na Polônia" — declara o Papa categórico(23a).Para ele, a luta contra os regimescomunistas, protagonizada pelos cristãos,foi uma espécie de revoluçãocristã "exemplar" .(25a), pois foi uma"luta pacífica" (23b), fundada no "direitoe na moral", inclusive na "oração"(25a), bem diferente da "revoluçãomarxista", inspirada no "embateviolento" (23b).O fato é que, para o Papa, o socialismose acabou. Sua linguagem nessesentido é peremptória. Fala em termosde "derrocada" (35d), de "falência"e "queda" do "sistema comunista"(42c). E nessa queda teria caídotambém o "marxismo" (23b e 27c).Usa também o termo "crise" para omarxismo (26c e 26d), mas praticamenteno mesmo sentido.Para o Papa, a queda dos socialismoé total. Ele não distingue um"socialismo de revolução" (URSS,


China, Cuba, Iugoslávia) e um "socialismode invasão" (Europa do Leste).Por isso, não percebe que os processosatuais de mudança num e no outrosão diversos: respectivamente reformado socialismo e liquidação do mesmo.Mas o juizo definitivo da enciclicanão parece um pouco apressado? Seráem apenas dois anos tem-se condiçõesde fazer o balanço histórico de umprocesso tão complexo e contraditório?Será que o futuro desse processonão reserva ainda muitas surpresas?Num passo, contudo, reconhece oPapa que "as antigas formas de totalitarismo...não foram ainda completamentedebeladas, existindo mesmo orisco de ganharem de novo vigor"(29, letra a). A pressa de João Paulo 11em acompanhar a marcha da históriaparece fazer contraponto com o conhecidoatraso de Leão XIII.O mesmo se pode dizer da posiçãoda encTclica frente ao marxismo. Seráque é possível declarar liquidada todauma tradição teórica, que em partejá fecundou de modo indiscernivela globalidade das ciências sociais?Por outro lado, sem o marxismo éainda possível fazer uma crítica radicalao Capitalismo? Uma prova seriao próprio discurso da enciclica atual.Ou é o inverso que ocorre: do jeitocomo vê o capitalismo, o Papa só poderejeitar todo e qualquer marxismo.Realmente, sem esse referencial teóricosó resta admitir a legitimidade substancialdo Capitalismo.Segundo a Centesimus Annus, omarxismo estaria todo errado. Mesmoa teoria marxiana da alienação nãoescapa de um juizo terminante: é"falsa" (41b), como vimos. Contudo,contraditoriamente, o Papa mandaque, "no diálogo com os outros homens",o cristão deve ficar "atento atoda parcela de verdade" que se encontrarneles. Ora, isso não vale tambémpara o marxismo? Ou seria eleuma malha só pode erros?Logicamente, ele só pode falar no"compromisso impossível entre marxismoe cristianismo" {26e). É no passo(o único, de 15 linhas) em que serefere à Teologia da Libertação, atribuindo-lheprecisamente esse intento.O Papa acha que um dos resultados da"queda" do socialismo marxista foimostrar que é impossível compatibilizarcristianismo e marxismo. Aomesmo tempo em que reconhece a"positividade" da Teologia da Libertação,deseja-a longe de qualquermarxismo. Ele a pensa talvez comouma espécie de Doutrina Social paraos pobres do Terceiro Mundo.Do "socialismo real" nada se salvano documento. Foi uma experiênciahistórica completamente negativa, umfracasso total. E o texto passa a fazero inventário de seus erros desastrosos:totalitarismo expansionista (19a),"violação dos direitos do trabalho"(s/c! - 23a), "ineficácia do sistemaeconômico" (24a), "vazio espiritualprovocado pelo ateismo" (24b), etc.18


O Papa nada concede ao socialismoreal. Nem mesmo o privilégio dasboas intenções: ele "presume falar emnome dos trabalhadores" (23a); ele"tirava alimento" da "injustiça eopressão", "instrumentalizando-as"(26d). Contudo, a idéia do Socialismonão surgiu historicamente e nãosurgirá sempre em função das injustiçase desigualdades sociais? Igualmente,nenhuma conquista social éreconhecida ao mérito do Socialismo:nem pleno emprego, nem garantiados serviços sociais básicos e nem umnível mínimo de consumo para todaa população. Nem mesmo é valorizadoo fato de o Socialismo ter criadocerto ethos de igualdade social, deausteridade e da tão recomendada"pureza de costumes".Do Socialismo, sobra ainda algumacoisa? Nada no documento. Nem mesmoa idéia ou proposta de uma sociedadediferente da capitalista. Entretanto,alguns dos antecessores de JoãoPaulo II já tinham registrado a simpatiaque suscita em grupos cristões aproposta socialista. Assim escreve PauloVI; "Os cristãos, hoje em dia, sentem-seatraídos pelas correntes socialistas... Eles procuram descobrir aíum certo número de aspirações, queacalentam em si mesmos, em nome dasua fé" (OA 31). Frente a isso, aquelePapa nada proibiu, como fizera aindaPio XI (QA119): "Ninguém pode serao mesmo tempo bom católico e verdadeirosocialista"); pede antes um"discernimento atento" (Ibid.). O pró-prio atual Pontífice, na LaboremExercens, admitiu que uma "socialização"dos "meios de produção" poderiaser eticamente "satisfatória"(14f, g). Mas isso também não foi escritoantes do decisivo 1989?A encíclica atual passa totalmenteao largo da longa tradição "socializante"da Igreja, centrada em torno daidéia da "comunhão de bens" — tradiçãoque vem desde os inícios daIgreja (como no "comunismo apostólico"dos Atos), passando por todaa Patrística (que em massa se declarapela "comunicação dos bens" destemundo entre todos), sem excluir aEscolástica, até o presente, pelo menosa nível de alguns movimentos deIgreja, como evidentemente os Religiosos(que sempre adotaram a economiada partilha dos bens). Mascuriosamente, quando o Papa fala doque a Igreja fez ao longo da históriapara a transformação da sociedade,ele esquece toda essa imensa tradiçãoda partilha (leve alusão à "convivênciasolidária" dos primeiros cristãos),para só falar do que a Igreja deu ouentão produziu economicamente(57a).E nem falemos ainda dos movimentossociais caracterizadamente socialistasque não cessaram de nascer e sedesenvolver no seio da Igreja ao longode toda a sua história. Particularmenteficou provado que o moderno socialismonascente, na primeira parte doséculo passado, tinha raízes clarissi-19


ma mente cristãs. (Veja uma rápidavisão da história da relação entre Cristianismoe Socialismo na Rev. de CulturaVozes, maio/junho 1990, p. 283-288).Quanto à "revolução de 1989",a enciclica tem-na por totalmentepositiva. Não parece ter havido nelaperdas. E sobre a "reorganização radicaldas economias" ex-socialistas, declarao Papa que ela "comporta problemase sacrifícios" (28a), numa linguagemmuito próxima da que usamdesde sempre os governantes elitistasdo Terceiro Mundo. E a propósito dasmedidas econômicas anti-popularesdos novos regimes do Leste, produtorasde desemprego, perda das garantiassociais e aviltamento dos salários? Sobreisso, o documento reconhece apenasque os países ex-comunistas vivemhoje uma "grave desorientaçãona obra da reconstrução". Porémnão diz em que consiste. Contenta-seem oferecer os préstimos do MagistérioSocial da Igreja para se sairemdo impasse em que se encontram(56b).Numa palavra, fica claro que noround que a DSI abriu com a CA noembate Capitalismo versus Socialismo,o Capitalismo saiu vencedor. Quantoao finado Socialismo real, ele não merecesequer o respeito do parcesepulto.Por certo, esta encíclica se mostraprivada de pulsão utópica, muito diferenteda mera exigência moral. Seudiscurso é mais chão. O grande idealde uma sociedade nova cede em proveitode uma tarefa mais pragmática:lidar com a sociedade real. Mas o Socialismonão nasce e renasce, em suaraiz, do protesto contra as desigualdadese do sonho de uma igualdade socialpossível? Mais: onde fica na encíclicao sonho mais alto de Jesus — oReino de Deus —, que teve na históriauma fecundidade tão extraordinária?E não seria este o discurso próprioda Igreja? E não é disso que a sociedadeatual mais precisa?4. A IGREJAO lugar social da Centesimus Annusé não só a Europa capitalista e vitoriosa,mas também a Igreja oficial. Tratasede fato de um ponto de vista fortementeeclesiocéntrico.Nota-se um difuso triunfalismoquanto ao papel da Igreja na sociedade.Afirma, por exemplo, que a fíerumNovarum fez um "imenso bem",produziu "tanta luz" (2a) e teve uma"múltipla influência" (15f). Mas historiadoresde nome (como R. Aubert)20


cristãos face à questão social. O VaticanoII teve a coragem de mostrar aresponsabilidade dos cristãos no surgimentodo ateismo moderno (GS 19c).O mesmo não valeria com respeito ao"socialismo real"?seriam capazes de lançar dúvidas fundadassobre essa afirmação.Continua com plena convicção:"Nesses cem anos, a Igreja permaneceufiel ao empenho" de defender ohomem (61a; cf. 3d, 49a, 55c, 56c).Aqui não se percebe autocrítica alguma.Pois, como negar as conivênciashistóricas, mesmo recentes, da Igrejaoficial com os poderosos do mundo?Mesmo a "opção preferencial pelospobres" é vista em linha de "continuidade"com o passado (11a e 57b).Mas como explicar a mudança de vocabulárioe, mais ainda, das práticas doscristãos no campo social, especialmentena América Latina pós-Medelin?É, porém, no campo da derrota doSocialismo que João Paulo II vê a"contribuição importante, mesmo decisiva"da Igreja (22a). É verdade. Masnão se levanta a pergunta se o socialismofoi o que foi por omissão dosOutra expressão de ausência do sensode autocrítica está no fato de quea encíclica defende a democracia,mas a partir de um púlpito reconhecidamenteautoritário. Nada mais contrastanteque as exigências que o Papareconhece à democracia (44a, 46a)com a estrutura de poder concentradoque existe na Instituição eclesiásticae de cuja legitimidade histórica elenão mostra a menor suspeita.João Paulo II dá a entender quecom o fracasso do marxismo, chegoua vez de a Igreja liderar o movimentosocial. As outras forças em presença,religiosas ou não, só entram como colaboradoras(60). Nesse campo, eleconfere aos sindicatos (conduzidospresumivelmente por cristãos) um papelprotagônico, seja no sentido de domaro mercado (34b), seja no de participarna vida da empresa (43b).Se João Paulo II fala do diálogocom as religiões a bem da sociedade,com respeito ao Islã aparece um certotemor. Não o menciona explicitamente,mas se refere a ele em termos de"fundamentalismo religioso" (29, letrac) e de "fanatismo" impositivo religiosodo Catolicismo na ocupação do21


vácuo ideológico atual, criado sobretudopela crise do socialismo.No que tange à linguagem, passandopor alto a extensão, ideossincrásica doPontífice atual, impacta o fraquTssimoconteúdo bíblico, particularmenteevangélico. Conta-se apenas uma vintenade referências bíblicas (3, 5, 25,45b, 51b, 62). Já se observou a diferençaque tem a linguagem fortementejusnaturalista da Doutrina Social romanaem confronto com a linguagemdecididamente bíblica do Magistériosocial das Igrejas do Terceiro Mundoe mais ainda da Teologia da Libertação.O Vaticano II é citado apenas 15vezes, quando todas as outras referênciassão do próprio Magistério socialda Igreja romana, sem falar ainda nafreqüência de auto-referências.O tom geral do texto é o da análisesocial argumentada e da sabedoriamoral. Importa observar que o conteúdopropriamente teológico é extremamenteescasso, salvo o 25, onde seencontra uma interessante digressão,meio errática, sobre a relevância socialdo dogma do pecado original(25c). A verve profética emerge a lancesmuito raros, por exemplo, quandoele ataca a remanescência do "capitalismoselvagem" no Terceiro Mundo(8c), ou quando levanta a reserva deque a dívida não pode ser paga coma "fome e o desespero de populaçõesinteiras" (35e). Mas mesmo assim, aenergia profética vem sempre muitocontida.Nenhuma denúncia do perigo dariqueza acumulada, lugar-comum noNovo Testamento e mais que oportunanum mundo que exalta o mercadocomo o de hoje. A Centesimus Annussó assume algumas palavras ameaçadorasdo Evangelho aos ricos de modoindireto — através de uma citação deLeão XIII (30b).E o ideal da "pobreza evangélica",com toda a sua relevância históricosocial,sequer é objeto de alusão. Nãose concede aqui demais à modernaonda moderna do "enriquecei-vos"!Mesmo a crítica ao neo-liberalismo(raramente citado), centrada — comodissemos - na vinculação da liberdadeà busca da verdade (4e, etc.) não consegueser radical e eficaz, pois deixaintocado o fulcro do mesmo, que éa prevalência da liberdade individualsobre a solidariedade social, do amorde si sobre o amor do outro (este últimoera, para Agostinho, o fundamentoda "Cidade de Deus", ou seja, dasociedade segundo o ideal cristão).Não se estaria aqui também oferecendoseu grão de incenso a um dos váriosdeuses do dia, sendo o mercado oprincipal? Estaria disposto o Papa aaceitar um liberalismo mitigado?Em suma, tudo indica que a DoutrinaSocial da Igreja entrou num novociclo. Ela acabou se alinhando praticamentecom o neo-capitalismo.22


Assim, o caminho da igreja oficial,pelo menos até o próximo milênio,fica hipotecado por esse pesado compromisso— pesado especialmente paraas Igrejas do Terceiro Mundo. A AméricaLatina vai sem dúvida sentir issocom muita força dentro e a partir daAssembléia da CELAM em Santo Domingoem 1992.Que a novidade representada poresta encfclica seja realmente uma boanova,é preciso perguntá-lo aos pobres,como fez Jesus (Lc 7, 22). Quanto aospoderosos desse mundo, eles não esconderamsua satisfação com esse documento.Os maiores jornais do Ocidente,como o International HeraldTribune (edição européia do WashingtonPost e do New York Times), oLe Monde e o Times de Londres aplaudirama proposta wojtyliana de um"capitalismo humanizado" (cf.Adista,18/5/91, p. 6).Contudo, há nessa surpreendentereconciliação de fato duas atenuantes:a grande tradição passada da Igreja nalinha da "comunhão dos bens" e opoder moral relativo que tem o Magistérioromano hoje no seio da grandeIgreja (ao contrário do que acontececom ele frente à sociedade). De fato,fica cada vez evidente para a consciênciaeclesial hoje que o Papa exerceum Magistério muito específico. Mostra-ojá o simples fato de ter elaboradoesse documento a partir do chamadocírculo interno e não partindo deuma ampla consulta às forças vivasda Igreja. E isso já deixa ver até ondevai seu alcance moral e sua efetividadehistórica.Mais: frente à posição de fato aludida,existe sobretudo os grandes princípiosda fé e da moral cristãs. E écom eles que se deve medir sempre aIgreja e seu Magistério na história. Éa tentativa que esboçaremos a seguir.5. RECOLOCANDO A QUESTÃOO exame acima constitui um análisecrítica da Centesimus Annus emseus vetores teóricos mais fortes, épreciso completar esse trabalho comuma colocação mais positiva e maispropositiva. De resto, o próprio documentoconvida a "estudar e aprofundar"a Doutrina Social da Igreja(56a). E qual é a função da teologiasenão essa mesma? Ela vai atrás doMagistério, recolhendo seu ensino melhor;ela vai ao lado dele, assessorandoo; mas vai também à frente dele,abrindo-lhe o caminho. É nesses termosque se exprimiu o Papa atual aoentregar o prêmio Paulo VI ao teólogoH. Urs von Balthasar.Pois bem, para aprofundar a doutrinada encíclica atual devemos, como23


nos ensina Puebla (472), distinguircuidadosamente na Doutrina Social daIgreja duas camadas: a camada dosprincípios permanentes, que são detipo religioso e ético; e a camada dasaplicações concretas, que são as análises,apreciações e propostas relativasa situações históricas cambiáveis. Essadistinção não é simples, mas é hermeneuticamentenecessária e até decisivano tratamento da questão sobre osgrandes sistemas sociais.Até agora nos ativemos à segundacamada, a mais superficial, onde osjuízos do Magistério são mais sujeitosaos condicionamentos do tempo, podendoser por isso alteráveis (não sendoinfalíveis). Precisamos agora passarpara a primeira camada, a mais profunda,para arrancar novamente delaem direção da realidade de hoje.Talvez se pudesse falar aqui da necessidadede passar do Papa-analista(Wojtyla) para o Papa-anunciador(João Paulo II), embora as duas funçõessejam indispensáveis para todoPastor. E é evidente que se deve haverum acordo fundamental com respeitoao nível dos princípios éticos ereligiosos, já é possível certo desacordo no nível das aplicações dos mesmos,salvo o devido respeito à autoridade.Ora, o próprio Magistério sempre admitiuessa possibilidade. Assim a últimaencíclica: 0 "exame" dos "acontecimentosda história recente" "nãopretende dar juizos definitivos, não fa-zendo parte, por si, do âmbito específicodo Magistério" (3e).Quais são esses princípios de fundoque põe o Papa em sua encíclica e apartir dos quais faz suas aplicações?São vários, não sendo aqui o caso deexaminá-los todos. Contentemo-noscom dois princípios centrais:1. O primado do trabalho sobre ocapital (6a, 35b), que foi, de resto,o leitmotif da Laborem Exercens.Portanto, a "dignidade do trabalho edo trabalhador" (6a) e a centralidadeda pessoa humana em relação a todaa economia (54a);2. A propriedade privada fundada elimitada pela lei maior do "destinouniversal dos bens" (30c e todo o cap.IV). Portanto, o interesse privado sub-24


metido ao interesse coletivo, que lhedá como o seu "enquadramento" jurídicoe moral (40a; cf. 15a, 42b).Tomemos agora a questão do mercado,que é o grande lugar-comum dodebate econômico hoje, o qual repercutetambém com força dentro da encCcilca.Ora, aplicando esses princípios,diz o Papa que o mercado devefundamentalmente ser "orientado parao Bem comum" (43a). Outras formulações:ele deve "fazer valer o destinocomum dos bens" (19b); "garantira satisfação das exigências fundamentaisde toda a sociedade" (35b),etc. Além disso, ele não pode submeterà sua "lógica" as "necessidades humanasfundamentais" (34a) e transformaro trabalho em "simples mercadoria"(34b)..A questão agora é esta: Como é possívelno Capitalismo (mesmo novo)realizar esses princípios? Impossível,a nosso ver. A lógica do Capitalismo,como vimos, é dar o primado ao Capital.Daí, aliás, o seu nome. Ou seja:o Capitalismo é incapaz de operar comaquelas exigências éticas, independentementeda boa vontade do capitalistaindividual. Não só é incapaz, comoelese funda exatamente em seu contrário.Ele representa uma moral antagônicaà moral que o Magistério Socialda Igreja coloca.Como, por exemplo, o trabalho podedeixar de ser reduzido a "mercadoria"na "lógica sistêmica" do mercadocapitalista? E onde se encontra o capitalistaque pode privilegiar a satisfaçãodas necessidades sociais e não olucro? Poderá combinar as duas coisas,mas de uma não poderá renunciar:um grau mínimo de lucro. Por outrolado, como conseguir, como exige oPapa, o "controle público" do mercado(19b; cf 35b), quando é o Capitalque determina (não totalmente, semdúvida) a vida de toda uma sociedade?Não é ele "o mais forte" que dominaqualquer "forte" (cf. Lc 11,21-22),seja esse "forte" o Estado ou as outras"organizações intermédias", especialmenteo Sindicato, como quer o Papa(49c)?Consequentemente, entre a "ética"(ou "lógica") do Capital, que se resumena busca de um lucro razoável,e a ética cristã, que privilegia o interesseda comunidade, pode-se verdadeiramentefalar num "impossível compromisso"(cf. 26e). Para que haja aquicompatibilidade, ou é o Capitalismoque deve deixar de ser o que é, ou éentão a ética cristã. E não basta queo Capitalismo, como em sua novafase, incorpore marginalmente os valoresaistãos do Bem Comum. Para serético, não basta que o lucro não sejao único objetivo (como parece dar aentender por vezes a Centesimus Annus:35c, etc), mas que não seja oobjetivo dominante, e sim os valoreséticos. Ora entre uma coisa e outra adiferença é de qualidade. E poucofalar aqui em "diferenças específicas"(32d).25


^z j.Nesse sentido, o regime de salariadocapitalista tem um estatuto moralanálogo ao da escravidão antiga e aoda servidão medieval. Como conjuntosestruturados de relações econômicas,esses sistemas todos são objetivamenteimorais, embora os cristãos sejamchamados a viver as relações pessoaisdentro deles de modo humano(como ensinava Pedro e Paulo com relaçãoaos escravos) e, sobretudo hoje,a lutar pela sua superação como sistemasde pecado (cf. 35b, 38b).Ora, é a essa altura que se reapresentaa solução do Socialismo, como pelomenos uma das alternativas possíveis.Este, em sua carga ideal, exprimeexatamente a proposta (ainda em boa«^swj^ parte utópica) de realizar nas estruturaseconômicas o primado do Bemicomum, do Trabalho, enfim da Pessoaf humana. Trata-se de um ideal gêneroso,que possui um conteúdo ético/ |7 substancial, enquanto o Capitalismo« só incorpora de ética o tanto que lhepermite sua lei constitutiva suprema— o lucro. Por isso mesmo, o Socialismorequer virtude, tanto para sua criaçãocomo para a sua reprodução. Nãopor nada o espírito cristão, em seus seguidoresmais conseqüentes — os Religiosos—, sempre se sentiu atraídopelo ideai de uma economia socializada.Não por nada também se deramsempre na história da Igreja sucessivasondas de "socialismo cristão", Masfa-.T_, lar de "Capitalismo cristão", mesmodepois da atual encíclica, soa como26algo de estranho e de perturbador(mesmo para a encíclica).O que significa tudo isso? Significa,antes de tudo, que, partindo dos mesmosprincípios de fundo, é possívelchegar a outras aplicações no terrenosocial. Se, no nível destas, o Socialismoparece ter sido descartado peloPapa Wojtyla, a nível dos princípiosJoão Paulo II parece deixá-lo em aberto,podendo até ser logicamente exigido.Se a formulação não fosse por demaissumária, seria possível dizer: aCentesimus Annus é socialista nosprincípios e capitalista nas aplicações.Haveria naturalmente aí certa contradição,mas não de fundo, pois que


não se situa a nível dos princípios. Arigor, na sua encíclica, o Papa nãocondena o Socialismo em principio,ou seja, de modo absoluto; o que elecondena de fato é o "socialismo real",o qual não passa de uma aplicação doideal socialista. Daí a necessidade demais estudo e debate, para que seaprofunde e esclareça a questão deuma possível e mesmo necessária alternativaao Capitalismo, sobretudo emfunção das massas oprimidas do TerceiroMundo.A igreja de Cristo, como seu fundadore mestre, pode e, muitas vezes,deve escandalizar os Potentes destemundo; o que não pode é escandalizaros Pobres de Cristo e defraudar-lhesa Esperança.Rio de Janeiro, festa da Visitaçãode Maria, 31 de maio de 1991.


PUBLICAÇÕES DA AÇÃO CATÓLICA OPERARIA - ACOAs publicações da Ação Católica Operária — ACO, são todas de linguagem simplese do ponto de vista dos trabalhadores. Tem como objetivo a formação de militantescomprometidos com a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna.Dividiremos nossas publicações em 3 coleções para os interessados perceberemmelhor o conteúdo das mesmas:Colação Ver, Julgar, Agir pelos 4 lados è luz da Bíblia.Fazem parte desta coleção:1. Conhecer as Sociedades (31 pg.) - Explica o método pelos 4 lados.2. História do Povo de Deus. IP volume (180 pg.) — Tem como subtítulo: Introduçãopara uma leitura da Bíblia.Mostra a participação dos trabalhadores na organização do povo de Deus notempo da Bíblia, desde Abraão até o exílio pelo ano 500 aC.3/A. História do Povo de Deus. 29 volume. Abrange o período do exílio até o finaldo Macabeus.4. Jesus, Sua Terra, Seu Povo, Sua Proposta (112 pg.).5. Revisão de Vida: Conhecer para Transformar (132 pg.).UM MOVIMENTO DE CRIANÇAS - Incluímos nesta coleção este livro publicadoem conjunto com o MAC (Movimento de Adolescentes e Crianças), porquesegue o mesmo método Ver, Julgar e Agir adaptado para a autoformação de criançase adolescentes.2. Coleção Cadernos da História da Classe Operária.A idéia de se escrever a História da Classe Operária, surgiu no Congresso daACO de 1971 em plena ditadura, quando a grande imprensa declarava nuncater existido a Classe Operária.• Caderno 1 — Gestação e Nascimento:de 1 500 a 1888 (50 pg. - 4? Edição)• Caderno 2 — Infância Durade 1889 a 1919 (104 pg - 4. a Edição)• Caderno 3 - Idade Difícilde 1920 a 1945 (120pg. - 4. a Edição)• Caderno 4 — Amadurecimentode 1945 a 1964 (100 pg. - 2. a Edição)• Caderno 5 - Resistindo á Ditadura (108 pg - 1. a Edição)• Caderno 6 — Na redação final.3. Coleção Documentos da ACO1. História da ACO (169 pg.) - Conta a História da Ação Católica Operária,sua resistência frente à ditadura, sua expansão, método e conteúdo.2. Declaração de Princípios.3. Regimento Interno.4. Estatutos Sociais.Estes livrinhos ajudam a conhecer a ACO.5. Folhetos para grupos novos, sob o título Missão e Pedagogia da ACO.6. ASSUMIR — Boletim de formação para militantes da ACO e outros. Sai de4 em 4 meses. Traz experiências de Base e artigos de orientação operária,política e de lutas no meio popular. A encomenda pode ser por assinaturaou número avulso.7. Cantando Nossa Libertação — Cancioneiro da ACO, com 175 cânticos, divididoem 3 partes: I. Vida e luta do povo; II. Cânticos religiosos; III. Cânticospopulares e folclóricos. Mais dois suplementos novos, I e II.Há 5 fitas gravadas para ensaio dos mesmos.Para pedidos:AÇÃO CATÓLICA OPERARIA - ACORua Van Erven, 26 - Catumbi20211 - Rio de Janeiro - RJ Fone: (021)242-7732Comissão Nacional de Publicações da ACO

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