Revista UnicaPhoto - Edição 06 - Maio/2016

unicaphoto

Revista que reúne a produção de alunos, professores, funcionários e colaboradores do curso de Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap)

Revista do Curso Superior de Tecnologia em Fotografia da Unicap - #6, mai 2016

www.unicap.br/unicaphoto


Na web

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/fotografiaunicap

Expediente

Coordenação: Renata Victor

Edição: Carolina Monteiro

Diagramação: Arline Lins

Textos: Carolina Monteiro, Dario Brito,

Germana Soares, Juliana Nascimento

Torezani, Maria Sofia de Queiroga Vieira,

Renata Victor e Suann Medeiros.

Ensaios: Grupo (Ammanda Falcão, Paulo

Vasconcelos, Priscila Silva, Nitali Angélica,

Rautemberg Nóbrega, Amanda Bezerra,

Daniel Guimarães, Alzio Dias, Alexandre

Torres, Allan Oliveira, José Maurício, Ana

Nery, Jéssyca Artico, Humberto Pereira,

Suann Medeiros e Jundy Leal) Luara Olívia,

Kesya Souza e Renata Victor.

A UnicaPhoto é uma publicação semestral do

Curso Superior de Tecnologia em Fotografia

da Universidade Católica de Pernambuco

(ISSN 2357-8793).

Fotos da capa: Keila Castro

Foto da contra-capa: Eva Feitosa

[2]


EDITORIAL

Foto: Daniel Guimarães

Renata Victor

Coordenadora do Curso Superior de

Tecnologia em Fotografia da Unicap

Na última década, a fotografia vivenciou grandes transformações, não só nas linguagens, mas na sua

produção. As experimentações nas redes sociais, no audiovisual, na arte contemporânea e o avanço

tecnológico dos artefatos fotográficos levaram a fotografia a patamares jamais imaginados. Dessa forma,

necessitamos compreender os novos conceitos e os prováveis caminhos da fotografia.

O curso Superior de Tecnologia em Fotografia da Unicap, com apenas cinco anos, obteve nota

máxima na avaliação do MEC, em novembro de 2015, e também passou a ser considerado pelo site

ENEM VIRTUAL o curso líder no Ranking das Melhores Faculdades de Fotografia do Brasil. Apresentando

dessa forma, até parece que a trajetória foi rápida e simples. Não foi o caso. Trabalhamos muito,

acertamos e erramos em vários momentos, mas nunca esquecemos que o nosso maior bem é o aluno

e a fotografia. Assim, buscamos sempre manter o curso jovem e atuante. O projeto pedagógico passou

por duas atualizações, o corpo docente é formado por professores com experiências profissional e

acadêmica. O curso promove diversas atividades interdisciplinares e transdisciplinares e tem como

missão a excelência acadêmica e humanista. Sabemos que nada é perfeito e eterno, pois trabalhamos

com gente, e cada turma se torna um novo desafio.

Desafio. É assim que vemos o curso de especialização “As Narrativas Contemporânea da Fotografia e

do Audiovisual”, que tem como princípio a reflexão sobre as novas perspectivas de uso da fotografia. O

curso começou no dia 25 de maio e contará com um corpo docente de excelência. A Professora Doutora

Simonetta Persichetti abriu o ciclo dos módulos, com a disciplina “Fotografia: Crítica e Curadoria”, e é

com ela a entrevista dessa 6ª edição. Trazemos também quatro ensaios, matérias sobre audiodescrição e

sobre a exposição de formatura da última turma, com o tema Manguebeat, uma homenagem ao falecido

artista Chico Science, além de uma retrospectiva do momento da divulgação da nota de avaliação do

MEC e muito mais.

Boa leitura!

[3]


ACONTECEU

ENTREVISTA

ACERVO UNICAP

FOTOGRAFIA DA UNICAP É NOTA

MÁXIMA NO MEC

SOBRE FOTOGRAFAR O SUBLIME

AUDIODESCRIÇÃO: UMA ARTE

QUE INCLUI!

FILMES FEITOS COM O CELULAR

CHEGAM AOS CINEMAS

[4]


100 ANOS DO VALE DE YOSEMITE

PELAS LENTES DE ANSEL ADAMS

RECIFE: RECORTES CONCRETOS

ANÁLISE DE IMAGEM

DIR. AUTORAL E DIR. DE IMAGEM

O MAR VISTO DE CIMA

DA LAMA PARA O MUNDO: CHICO

SCIENCE E O MOVIMENTO MANGUEBEAT

A MORTE AMOROSA

DICAS

[5]


[6]A CO NTE C EU


[7]


Entrevista

S i m o n e t t a P e r s i c h e t t i

A Professora Doutora, jornalista, pesquisadora e crítica de Fotografia, Simonetta Persichetti

é dona de um currículo vasto e bem-conceituado no universo da fotografia brasileira. Ela

vai ministrar o módulo Fotografia: Crítica e Curadoria da especialização As Narrativas

Contemporâneas da Fotografia e do Audiovisual oferecida pela primeira vez este ano na

Unicap. Nesta entrevista ela fala sobre a sua relação com a fotografia pernambucana e faz um

balanço do mercado da fotografia artística no Brasil e no mundo.

Foto: Paulo Villar

[8]


UnicaPhoto: Os cursos de graduação em

fotografia são bem jovens no Brasil. No entanto,

hoje percebemos um número considerável

de instituições ofertando graduações e pósgraduações

na área da imagem. Como você

analisa esse atual cenário? Tem alguma previsão

para o futuro?

Simonetta: Sou bastante otimista e acho que a

partir do momento em que a fotografia entrou

para a academia e passou a ser discutida

e reconhecida de forma mais ampla como

uma linguagem a ser estudada, decodificada

e entendida passamos a ter um olhar mais

crítico não só dos acadêmicos, mas também

do público em geral. Com certeza, a fotografia

crescerá ainda mais.

UnicaPhoto: É sabido que você tem uma

ligação com a fotografia pernambucana. Como

você avalia a produção fotográfica artística em

Pernambuco?

Simonetta: Graças ao Fernando Neves e

Luciana Carvalho que me convidaram para

ser curadora da Arte Plural em 2009, tive a

oportunidade de ver a consistência e a seriedade

da produção pernambucana. Fotógrafos como

Helia Scheppa, Ricardo Labastier, Yeda Bezerra

Mello, Roberta Guimarães, Teresa Maia, e o

saudoso Alexandre Severo, Gustavo Bettini, Lia

Lubambo, Gilvan Barreto, enfim uma infinidade

de nomes (fica até chato deixar de citar alguns)

que desenvolvem trabalhos preciosos em

conexão com uma linguagem contemporânea

de micro-histórias, micro universos que tem sido

aplaudidos no Brasil e no exterior e que, ainda

bem, nos tiram dos já conhecidos eixos Rio-São

Paulo. A fotografia pernambucana é tão rica

quanto a própria cultura do estado.

UnicaPhoto: O que define uma fotografia

artística?

Simonetta: Essa é uma pergunta que vale um

milhão de dólares, ou euros, vocês decidem!

É muito difícil responder o que é arte e o que

não é. A própria filosofia ainda não discutiu o

que é arte. Acho que se o século XIX registrou

o mundo e o século XX o interpretou, agora

no século XXI somos livres para contar nossas

histórias e aí alargamos o conceito de poiésis, de

criação e de articidade de uma fotografia.

UnicaPhoto: Como você vê o mercado da

fotografia artística no Brasil e no mundo?

Simonetta: Ainda acho que muito se fala, mas

pouco se realiza. No sentido de que ainda não

vejo um mercado institucionalizado, criado.

Isto ainda está para acontecer. Precisamos

ainda entender quem compra fotografia, quem

são os colecionadores, e como estabelecer

preços. Esta é uma questão de mercado que

eu não gosto e nem quero entrar. Eu quero ver

boas e consistentes fotografias e não trabalhos

que somente atendem a um mercado e criam

receitas vendáveis.

UnicaPhoto: Quais os fotógrafos que você

destaca no mercado da fotografia artística no

Brasil e no mundo?

Simonetta: Esta é uma escolha de Sofia, prefiro

não responder!

UnicaPhoto: Algum fotógrafo da nova geração

lhe impressiona?

Simonetta: Vale a mesma resposta acima. Sim,

alguns me impressionam, mas prefiro ainda

esperar...

UnicaPhoto: A tecnologia apresentada pelos

equipamentos fotográficos digitais aproximou os

fotógrafos para a produção audiovisual. Qual é

sua avaliação sobre tal situação?

Simonetta: Eu acredito, mas não tenho

nenhuma certeza, de que a fotografia foi a

expressão do século XX e que entrou no século

XXI cheia de poderes, mas acho que o tempo vai

nos aproximar cada vez mais do vídeo. Talvez

as fotografias se tornem frames de vídeos, mas

acho que essa vai ser a tendência: o vídeo, sem

acabar com a foto, mas será preponderante.

UnicaPhoto: Qual o conselho que você daria

para quem está começando na fotografia?

Simonetta: Com dizia o meu querido e saudoso

amigo Thomaz Farkas: “para você que está

começando agora, fotografe, fotografe muito”.

[9]


ACERVO

UNICAP

O sincretismo religioso é uma das

características mais marcantes do Brasil

de hoje, cuja identidade e cultura são

fortemente influenciadas pelas tradições

de índios (sua população nativa); brancos

colonizadores e negros trazidos da África

a partir do século 16 para trabalharem

como escravos nas plantações de café e

cana-de-açúcar até pelo menos o ano de

1888, quando toda forma de escravidão

foi abolida no país. No início da colonização,

no entanto, junto com as obrigações

do trabalho forçado, índios e negros também

eram convertidos às tradições católicas

portuguesas em rituais e cultos que

permanecem intactos até os dias atuais.

É o caso da devoção a Santa Quitéria,

jovem portuguesa venerada como

mártir desde o século VIII em Portugal e

cujo culto foi trazido pelos portugueses

para o Nordeste do Brasil. Um vilarejo

nordestino chamado Santa Quitéria das

Frexeiras, localizado a 15km da cidade de

São João, no Agreste de Pernambuco, foi

nomeado em homenagem à santa desde

o século 17 e até hoje recebe milhares

de romeiros durante o mês de setembro

para agradecer pedidos alcançados e

renovar a fé na santa a quem se atribuem

milagres e graças. Os primeiros fiéis eram

índios e escravos convertidos, mas a

crença se espalhou pela região de forma

indiscriminada, atingindo várias etnias e

classes sociais.

[10]


fotógrafa: inês campelo

câmera: nikon 6006 (analógica)

filme: preto e branco

(t-max 3.200, kodak)

ano: 2000

O vilarejo, que vive da agricultura

de subsistência e da movimentação do

comércio em torno das romarias, tem

pouco mais de duas ruas e o culto à santa

é realizado em uma casa pertencente

a uma família do local há cerca de 300

anos, sem a participação oficial da Igreja

Católica. O culto acontece em torno

de uma imagem da Santa de 44 cm de

altura, trazida pela família portuguesa

“Corrêa da Rocha” para o local em 1695.

A casa foi transformada em santuário no

século 18, segundo os registros familiares.

Para agradecer as graças alcançadas,

os fiéis trazem ex-votos (esculturas de

madeira, gesso ou bronze) que representam

os pedidos atendidos na forma de

cabeças, pés, braços e pernas (locais das

enfermidades curadas) ou casas, carro e

animais (pedidos alcançados).

Conheci a festa de Santa Quitéria de

Frexeiras em 2000, quando fiz um ensaio

fotográfico documental orientado pela

professora Renata Victor, como projeto

de conclusão de curso de jornalismo na

Universidade Católica de Pernambuco.

Estive no lugarejo na semana entre 31 de

agosto a sete de setembro. O local me

impressionou não apenas pela riqueza

imagética, mas pela força da fé e da devoção

das famílias e das pessoas que iam

até o santuário para rezar e agradecer.

[11]


Fotografia da

Unicap é nota

máxima no MEC

O Curso de Fotografia da Universidade

Católica de Pernambuco recebeu nota 5

na avaliação do MEC. Um reconhecimento

de excelência e qualidade

Texto de Suann Medeiros

Fotos: Selftime e Luara Olívia

O Curso Superior Tecnológico em Fotografia

da Universidade Católica de Pernambuco

(Unicap), no Recife, conquistou nota máxima

na avaliação do Ministério da Educação (MEC),

principal indicador de qualidade do ensino

superior no país. A nota 5 é a maior pontuação

que um curso de ensino superior pode receber

no conceito do Governo Federal. O resultado

comprova que o curso atende aos critérios de

formação de profissionais, tanto no que se refere

à dimensão institucional quanto ao corpo docente

e projeto pedagógico. “Penso que 2015

foi um ano feliz para o curso de Fotografia porque

em apenas cinco anos de existência, teve

dois prêmios no Intercom Regional e também

[12]


a avaliação máxima do MEC. Ou seja, o curso

mostrou a que veio, fortaleceu-se e adquiriu

reconhecimento dentro e fora da instituição”,

comenta a coordenadora Renata Victor.

O curso, que teve início em fevereiro de

2010, busca aliar formação teórica à vivência

prática das atividades fotográficas, preservando

as identidades nordestina e nacional, sem

esquecer do contexto atual do mundo globalizado.

Segundo a Pró-reitora Acadêmica e Professora

da Unicap, Aline Grego, “é extremamente

positiva a nota máxima do MEC, pois mostra

que as opções por cursos superiores de caráter

tecnológicos, que têm uma duração menor do

que as demais graduações, são viáveis e que

existe demanda na cidade para eles, sobretudo

como um upgrade para as demais áreas, como

podemos constatar que existem alunos que já

trabalham com fotografia, mas também outros

que vêm de graduações totalmente distintas da

área da comunicação”.

O entusiasmo é compartilhado pelos alunos.

“Me sinto extremamente feliz e orgulhoso

de fazer parte de um curso mantido com tanto

zelo e dedicação. O reconhecimento do MEC é

apenas uma consequência de uma construção

sólida, que mescla professores super qualificados,

competentes e dedicados, uma estrutura

acadêmica adequada ao mercado, e claro, o

incansável carinho e comprometimento da co-

[13]


ordenadora Renata Victor. É uma alegria fazer

parte disso tudo, sabendo que o curso não nos

impõe limites, pelo contrário, nos oferece um

ambiente que abre portas e nos permite alçar

voos, seja no mundo acadêmico, seja na formação

profissional”, contou o ex-aluno Paulo

Souza.

Para a professora e coordenadora Geral

de Graduação da Unicap, Verônica Brayner, o

conceito 5 obtido pelo curso de Fotografia veio

coroar uma breve trajetória. “Não foi uma surpresa.

Devido ao zelo que o curso veio sendo

construído desde a sua origem e concepção.

Essa nota representa a capacidade da universidade

de ter um curso tradicional como Direito,

que tem 55 anos de existência, que tira 5 na

nota máxima do MEC e a graduação de Fotografia,

com apenas 5 anos. Para um curso

superior em tecnologia, insisto, é um ganho

enorme porque eles são avaliados da mesma

forma que um bacharelado ou uma licenciatura

de cinco anos”, comenta Verônica.

Atualmente, o curso é noturno e tem duração

de dois anos. São oferecidas 40 vagas por ano.

A Graduação em Fotografia da Unicap é considerada

a melhor universidade privada de fotografia

no Brasil - segundo o site Enem Virtual.

Seu corpo docente é formado por nove professores,

entre especialistas, mestres e doutores.

Além das atividades em sala de aula, o curso

ainda oferece ao graduando importantes atividades

de extensão como o Prêmio Alcir Lacerda,

o Concurso Fotográfico de Carnaval, a Revista

UnicaPhoto, Exposições Interdisciplinares

a cada finalização dos semestres, o FotoVídeo,

caminhadas fotográficas e aulas de campo visitando

algumas áreas do litoral pernambucano

e do agreste. Entre os parceiros estão Canon,

IPHAN, Museu da Cidade do Recife, a gráfica

FacForm, Sebrae, Livraria Cultura, Hotel Dorisol,

Galeria Arte Plural e o Ateliê de impressão

ADI, Liceu, os festivais Stop Motion e Ver/Ouvindo

e o Projeto Criança Esperança, patrocinado

pela Universidade Católica de Pernambuco.

[14]


Professoras Veronica Brayner, Aline Grego, Renata Victor, Conceição Bizerra, e o reitor da Unicap,

padre Pedro Rubens Ferreira, comemoram o resultado.

[15]


Ensaios

SOBRE FOTOGRAFAR

O SUBLIME

Texto e fotos de Kezya Souza

Presenciar o sublime é uma verdadeira dádiva.

Vejo a mulher parindo como uma deusa. E o

que mais seria um ser capaz de gerar um novo

ser em seu ventre, capaz de gestá-lo por meses,

pari-lo e ainda saciar a sua fome com o alimento

que ela mesma produz? O parto é um evento

sagrado e transformador para todos os que o

presencia.

Ser escolhida para estar no seio das famílias,

neste momento tão importante em suas vidas, me

deixa infinitamente feliz. Gratidão plena! É preciso

estar sempre atenta para não deixar escapar

cenas importantes e, ao mesmo tempo, fazer-se

invisível. O aconchego do lar e seus detalhes, a

expectativa amorosa dos familiares presentes, a

participação do pai do bebê no processo, o envolvimento

e forte profissionalismo das parteiras, o

carinho e apoio psicológico das doulas, a expectativa

do irmão que aguarda o caçula, o cãozinho

que, mesmo sem entender o que está acontecendo

em seu lar, de longe tudo observa com candura

e apreensão, o momento do expulsivo.

Ah, o momento do expulsivo! O que dizer

dele? Ver a natureza, ali, agindo para perpetuar

uma espécie é fantástico. Nesse momento é preciso

respirar fundo, brigar com as lágrimas para

que elas não embacem o visor da câmera, firmar

as mãos e pernas trêmulas e dedo atento no botão

do obturador para não perder uma linda cena:

o bebê nascendo, a emoção dos pais ao pegá-lo

nos braços pela primeira vez, o pequenino buscando

o olhar da mãe poucos minutos após seu

nascimento, todos aos prantos de tanta emoção,

o primeiro choro, a primeira mamada.

[16]


[17]


Ensaios

[18]


[19]


Ensaios

Tecnicamente falando, o cenário é bastante

hostil para fotografar, pois geralmente,

o ambiente está com baixa luminosidade e

a temperatura ambiente oscilando entre de

36 e 38ºC, pois a água da banheira deve

estar sempre quentinha. Algumas vezes,

a falta de espaço para a movimentação

em busca de pontos de vista diferentes,

também é um fator que dificulta um pouco

o trabalho. Então, ficar embaixo de uma

mesa, subir numa cama, cadeira, um sofá

(tudo com permissão, claro!) são algumas

das alternativas que utilizo para me posicionar.

Mas ressalto que nenhuma dessas

dificuldades diminui minha alegria por estar

ali, muito pelo contrário, só alimentam o

desejo de vencer os desafios. Captar todas

as emoções envolvidas durante o processo

de nascimento de um bebê, que nasce de

forma instintiva, está sendo uma oportunidade

para compreender, aceitar, agradecer

pela vida e crer em um mundo melhor para

a humanidade. É doce a minha missão!

[20]


[21]


Audiodescrição:

uma arte que inclui!

Texto de Suann Medeiros

A audiodescrição permite que pessoas com

deficiência visual tenham as mesmas sensações

e entendimento de todos. Seja na arte, na

educação, na saúde, ou em quaisquer outras

áreas e situações.

“Para mim é uma forma de expressão artística

no sentido de mediação, a audiodescrição

media uma obra, um evento, uma imagem para

uma pessoa com deficiência visual. Na arte e

na cultura, ela [a audiodescrição] também é

uma forma de arte, de fazer arte e de proporcionar

essa tradução”, assim Liliana Tavares,

audiodescritora apaixonada, trata o seu ofício.

Formada em Psicologia, ela conta que a partir

da sua primeira experiência com audiodescrição,

por volta de 2010, passou a dedicar-se

totalmente à técnica, fazendo dela a sua profissão.

Hoje, Liliana é doutoranda em Comunicação,

pela UFPE, estudando a audiodescrição

na fotografia e no cinema. Ela também é audiodescritora

e produtora cultural.

A audiodescrição é a técnica de traduzir para

as pessoas cegas ou com baixa visão, a imagem

observada, de forma clara, direta e precisa.

Nas artes, por exemplo, o audiodescritor

deve traduzir aquilo que está além dos diálogos

(quando se trata de teatro ou cinema), descrever

o figurino, o cenário e as reações, para que

o deficiente visual possa também ser envolvido

pelas sensações da manifestação artística em

questão. Mas Liliana lembra que não é apenas

nas artes que a técnica se faz presente. Na

educação, na saúde e até em algumas questões

jurídicas, faz-se de suma importância a

presença do audiodescritor. Vale frisar que

audiodescrição é uma atividade profissional, repleta

de técnicas e exige estudo e capacitação.

Liliana explica que “existem várias modalidades

da audiodescrição, ela pode ser ao vivo ou

gravada e, pode ser exibida de várias formas:

aberta para todos ouvirem, fechadas com fones

de ouvidos, e também pode ser escrita em

braile”. E emenda: “o Brasil tem muitos bons

profissionais na audiodescrição hoje em dia em

São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro

e aqui em Pernambuco. Esses são os Estados

que mais sobressaem e os cursos são restritos”.

O professor Francisco Lima, da UFPE, é

um grande formador, bem como Lívia Motta

(SP) coordenadora do primeiro curso de pós-

-graduação em audiodescrição na UFJF. Ela

conta que Pernambuco é um dos estados que

mais produz audiodescrição no Brasil e que a

maioria das pessoas com alguma deficiência visual

– que pode ser total ou parcial – já conhece

e entende o que é audiodescrição. Um dos

motivos apontados pela audiodescritora, como

razão deste pioneirismo, surgiu da exigência da

audiodescrição em editais de cultura no Estado,

principalmente os editais do Funcultura, que

pontuam os projetos que oferecem acessibilidade

comunicacional.

Dentre as modalidades em que a audiodescrição

se encontra presente, Liliana destaca a

[22]


Informações sobre a imagem

Fotógrafo: Graciliano Paes

Audiodescrição: com acessibilidade Comunicacional

UM MENINO É FOTOGRAFADO EM SALTO SOBRE UM GRAMADO. Ele está de perfil braços abertos e

joelhos flexionados. Tem cabelos escuros e lisos e a pele morena. Usa camiseta verde de malha e bermuda

jeans. A imagem está um pouco borrada devido ao movimento.

fotografia, área estudada por ela, que considera

um desafio, por precisar descrever e passar a

emoção e profundidade de tudo o que a fotografia

fala, mas tomando cuidados para não tornar

cansativo. Ela explica que a narração deve

ser feita “inicialmente pela hiperonímia, que

significa a gente dar, em uma ou duas frases, a

noção do todo”. Isso levando em consideração

as técnicas de leitura de imagens que é feita da

esquerda para direita, de cima para baixo, e do

primeiro plano para o fundo, etc., e completa,

“dependendo da fotografia a gente fala o que

vê. Leva-se em consideração o ‘punctum’ e a

‘aura’ - citando Walter Benjamin, primeiro, a

gente estuda o que a imagem toca, fala e diz,

depois disso vai detalhar a imagem, transmitindo

a sensação, o sentimento, o questionamento

que a imagem está mostrando”.

O lado de quem sente

A deficiente visual Michele Alheiros, 39, que

é pedagoga e professora de braile, lembra do

seu primeiro contato com a audiodescrição, que

foi aos 36 anos, em uma exposição fotográfica,

na Torre Malakof, no Bairro do Recife. “Gostei

do empoderamento, de ter acesso à fotografia

daquela maneira não amadora. Porque,

se fosse uma exposição sem audiodescrição,

não faria efeito em mim como faz em um uma

pessoa que enxerga. Eu me senti útil, me senti

igual a todos”.

Michele fala que cada vez mais, os eventos

culturais em Recife, estão trazendo a audiodescrição

ou as informações em braile, destacando

a Fenearte, exposições nos museus e galerias

e festivais de cinema, entre outros. E admite

que gosta bem mais quando tem audiodescrição,

“a gente sente mais a exposição”.

[23]


Filmes feitos

com o celular

chegam aos

cinemas

Texto de Carolina Monteiro

“O longa-metragem norte-americano

e independente “Tangerine” [...] foi

filmado unicamente com a câmera traseira

de iPhones, foi exibido no Festival de

Sundance e chegou a salas comerciais do

mundo todo, inclusive do Brasil.”

[24]


Fotografar com o smartphone é tão comum

quanto usar o aparelho para falar com os amigos,

interagir no Whatsapp e resolver problemas.

Percebendo o uso cada vez mais frequente do

telefone como câmera fotográfica os fabricantes

têm se esforçado a cada novo lançamento para incrementar

os recursos e a qualidade das câmeras

e programadores se desdobram em novos aplicativos

que suprem eventuais limitações do aparelho

permitindo editar as imagens com qualidade

“quase” profissional. Na verdade, a qualidade dos

equipamentos de captação dos telefones celulares

atingiu um nível técnico tão razoável que a onda

agora parece ser fazer filmes com ele. Mas não

aqueles filmes caseiros de momentos em família,

filmes mesmo, curtas e longas metragens de ficção,

alguns deles já reconhecidos e premiados em

festivais internacionais.

O longa-metragem norte-americano e independente

“Tangerine”, por exemplo, foi filmado

unicamente com a câmera traseira de iPhones, foi

exibido no Festival de Sundance e chegou a salas

comerciais do mundo todo, inclusive do Brasil.

A história de duas prostitutas transsexuais que

procuram por um rapaz que traiu uma delas numa

véspera de Natal em Hollywood foi filmada por

Sean Baker, que usou modelos 5s com alguns

assessórios como steadycam e um protótipo de

adaptador que se conecta à lente para permitir

filmar em widescreem e dar às imagens um estilo

mais “cinematográfico”, além de recursos do aplicativo

Filmic Pro e retoques de pós-produção para

aprimorar as cores e dar ao longa um visual mais

saturado e cheios de grãos que simulam as películas

hollywoodianas. Técnica e criatividade de

sobra com um orçamento de 120 mil dólares, nada

que se compare aos custos dos demais filmes que

dividiram as salas de cinema com ele.

Tangerine fez barulho depois de sua exibição

em Sundance no ano passado, mas ele certamente

não foi o primeiro. O pioneirismo é atribuído aos

coreanos Chan-kyong Park e Chan-wook Park que

lançaram, ainda em 2011, o curta Paranmanjang,

filmado com um iPhone 4. Também vem da Coreia

o primeiro longa neste formato, uma comédia

romântica chamada Cachorros e Gatos, sobre o

romance entre uma artista depressiva que adota

um cachorro e um desenhista que encontra um

gato amarrado a um banco. O filme lançado em

2013 não chegou a fazer a carreira internacional

de Tangerine mas é apontado como pioneiro em

longas-metragens feitos com celular.

Também em 2014, o cineasta espanhol Pablo

Lacurén usou o iPhone para contar o pesadelo de

amigos presos em uma casa durante uma festa

em Barcelona. O terror recebeu elogios da critica

internacional e se vale do clichê de filmagens

encontradas, estilo A Bruxa de Blair, para assustar

garota que adota um , apesar não filmou tudo

apenas apontando o celular na direção dos atores.

Além de lentes especiais e o aplicativo Filmic Pro

para controles técnicos especiais, ele adquiriu o

protótipo de um adaptador que se conecta à lente

do celular e dá ao conteúdo filmado um estilo

mais cinematográfico. Na pós-produção, as cores

foram aprimoradas e o visual fica bastante saturado

e cheio de grãos, quase uma caricatura de

Hollywood. Ainda assim, o equipamento “base” é o

smartphone da Apple.

Do Brasil, o principal representante até agora é

Charlotte SP, dirigido pelo paulistano Frank Mora e

capturado e editado com iPhones modelos 4 e 5.

O longa de ficção conta a história de uma modelo

brasileira que retorna ao país após carreira internacional

e tenta reencontrar os amigos. O filme,

produzido no ano passado, tenta agora emplacar

participações em festivais de cinema e não tem

previsão de estreia nos circuitos nacionais.

Filme Tangerine

Filme Charlotte

[25]


100 Anos

do Vale de

Yosemite pelas

lentes de Ansel

Adams

Texto de Julianna Nascimento Torezani

Professora do Curso de Fotografia da Unicap.

Doutorando em Comunicação pela UFPE.

Mestre em Cultura e Turismo e Bacharel em

Comunicação Social pela UESC.

Email: juliannatorezani@yahoo.com.br

No início do século XX um grupo de fotógrafos

americanos defendeu fotografias em preto

e branco, com texturas e detalhes diferenciados.

Os temas escolhidos eram o cotidiano e o

ambiente onde viviam e as câmeras de grande

formato davam clareza e as gradações de tom

de forma espetacular. Esta nova tendência era

considerada puramente fotográfica, pois deixava

de lado a estética pictorialista, buscava

a partir deste momento maior nitidez, exame

rigoroso dos objetos e da natureza, tendo como

marco histórico o movimento Photo-Secession

criado por Alfred Stieglitz nos Estados Unidos.

Na Costa Oeste, o defensor da fotografia

direta era Ansel Easton Adams, que nasceu

no inverno de 1902, em 20 de fevereiro em

San Francisco, Estados Unidos. Inicialmente

dedicou-se a música como pianista, aprendeu

a tocar sozinho e praticava seis horas por dia,

mas voltou-se à fotografia quando publicou um

álbum onde procurava imitar a pintura impressionista,

com efeitos suaves, obtidos no laboratório.

Começou a fotografar o Vale de Yosemite em

1916, além de colecionar fotografias alheias.

Conheceu o vale numa viagem com os pais em

1o de junho de 1916 durante dois dias de trem

e de ônibus, o que o fez escrever mais tarde:

“O esplendor de Yosemite explodiu sobre nós.

[...] Havia luz em todo lugar. Uma nova era se

iniciava para mim”. Quando chegou ao vale seu

pai lhe presenteou com uma Kodak no 1 Box

Brownie, depois que aprendeu como a câmera

funcionava, correu pelo vale fotografando

tudo o que via. Depois dessa viagem em todo

verão voltava à Yosemite. Ao explorar a beleza

extraordinária do lugar, cada vez que alcançava

um ponto mais alto, melhor ficavam suas

fotos. Aprendeu sozinho a revelar seus negativos

e, assim, começou a experimentar novas

abordagens de exposição. Ao observar que as

imagens não representavam exatamente o que

estava visualizando resolveu utilizar um filtro

vermelho Wratten A, que tinha como resultado

escurecer o céu para fazer contraste com as

rochas e as nuvens.

Em 1919, entrou para o Sierra Club, onde

teve suas imagens publicadas em boletim e sua

primeira exposição, em 1934 foi eleito diretor

do clube. Adams trabalhava sem parar, sem

férias, sete dias por semana, todos os dias do

ano, mesmo aos 80 anos.

Em 1930, abandonou a música pela fotografia

e, dois anos mais tarde, participou na criação

do grupo f/64, com Edward Weston, Willard

Van Dyke e Imogen Cunningham. O grupo

tinha por propósito executar imagens de grande

nitidez mediante o diafragma mais reduzido

[26]


Yosemite National Park

(1916)

da objetiva, máxima profundidade de campo

e uso de papéis fotográficos com baixo brilho.

Foi influenciado pelo fotógrafo americano Paul

Strand, pelo impacto que as imagens dele causaram.

Ao tratar da obra de Adams a historiadora

Marie-Loup Sougez (2001, p. 248) comenta

que “sobretudo as suas paisagens californianas

são composições muito depuradas, em que

dominam as linhas horizontais e verticais, cujo

rigor e harmonia parecem diretamente herdados

da sua formação musical”.

Em janeiro de 1936, foi à Washington para

solicitar que o Kings Canyon, a sudeste de Yosemite,

se transformasse em parque nacional,

feito que ocorreu quando o presidente Franklin

Roosevelt criou a lei em 1940. Neste mesmo

período foi em Nova York mostrar a Alfred Stiglitz

seu trabalho que lhe convidou a fazer uma

exposição individual em sua galeria, American

Place, a mais importante para os fotógrafos da

época.

Criou o método para controle de exposição

e revelação chamado Sistema de Zonas. Consiste

na forma para determinar com precisão o

tom e a forma de cada parte da cena fotografada

na cópia final, ou seja, o resultado final

da ampliação fotográfica. Estudando todas as

etapas do processamento fotográfico com rigor,

sobretudo o uso dos químicos.

A imagem Nascer da lua, Henandez, Novo

México foi feita em 1941 quando Adams vinha

dirigindo na estrada rumo a Santa Fé sob

a lua nascente quando a aldeia e as cruzes

do cemitério chamaram sua atenção, agindo

rápido, parou freneticamente e instalou sua

câmera e mediu a exposição pelo brilho da lua,

fez apenas uma foto e é considerada uma das

imagens mais marcantes de sua carreira e uma

das mais famosas imagens do século XX.

Em 1940, ajudou a fundar o primeiro acervo

museológico de fotografias no mundo, o do

Museum of Modern Art de Nova York (MOMA).

Começou a produzir murais para o governo dos

Estados Unidos em 1941 para o Ministério do

Interior, eram imagens épicas, imensas e de

grande dificuldade técnica. Em 1945, Adams

Monolith, a Face of Half Dome

(1926)

[27]


North Palisade from Windy Point

(1936)

Nascer da lua, Henandez, Novo México

(1941)

Clouds above Golden Canyon, Death

Valley, California (1946)

El Capitan, Sunrise

(1956)

cria um departamento de fotografia artística na

California School of Fine Arts. Na Escola de

Belas Artes de San Francisco criou o primeiro

curso universitário de fotografia. Abriu uma

galeria em San Francisco para promoção da

fotografia artística. Dedicou assim toda sua vida

a fotografia, produzindo imagens, organizando

exposições e ministrando aulas.

O livro Making a Photograph (1935) foi o

primeiro guia de fotografia que trata tanto da

técnica quanto da estética. Dedicado à conservação

da natureza desde jovem, muitos de

seus livros são apelos em favor da proteção

ambiental, como My Camera in the National

Parks (1950), This is the American Earth (1960)

e Photographs of the Southwest (1976). Adams

apresentou os elementos de sua técnica fotográfica

nos livros A Câmera, O Negativo, A

Cópia, utilizados em cursos de fotografia em

vários lugares do mundo.

[28]


“Moon and Half Dome”. Yosemite

National Park, California (1960)

Em 1979, foi homenageado com uma retrospectiva

de seu trabalho no MOMA. Em 1980,

em uma cerimônia de gala na Casa Branca ele

ganhou a Medalha Presidencial da Liberdade, a

mais alta condecoração civil.

Ninguém melhor do que Adams demonstrou

através de suas fotografias a beleza da Serra

Nevada, em Yosemite, exaltando a natureza

a cada fotograma, fazendo daquele lugar seu

lar. Nas palavras de Adams a descrição de seu

trabalho: “Eu realmente não consigo verbalizar

o significado das fotografias. Alguns amigos

meus conseguem de uma forma mística, mas

eu... Eu prefiro dizer que, quando sinto uma

grande emoção, eu faço uma fotografia equivalente

ao que vi e senti”. Adams morreu em

Carmel, na Califórnia, em 22 de abril de 1984.

Seis meses após sua morte o congresso americano

batizou a área a sudeste de Yosemite de

Ansel Adams Wilderness. Em 1985, um pico

no coração de Serra Nevada foi oficialmente

chamado de Monte Ansel Adams.

El Capitan, Winter Sunrise, Yosemite

(1968/1976)

Filme: Ansel Adams: um documentário.

Direção de Ric Burnd, 2002.

Referências:

HACKING, Juliet (editora geral). Tudo sobre fotografia. Tradução

de Fabiano Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski.

Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

SOUGEZ, Marie-Loup. História da fotografia. Tradução de

Lourenço Pereira. Lisboa: Dinalivro, 2001.

[29]


Ensaios

Recife

recortes concretos

Texto e fotos de

Luara Olívia

Da janela do ônibus ou andando pelas ruas,

percebo os prédios da cidade. Janelas me

chamam atenção, como um elemento que se

repete e cria um padrão visual, são de certa

forma únicas. Por trás delas existem histórias

singulares. Alguns daqueles prédios são residências,

outros escritórios, empresas, existem

os que são os dois ou os que já não servem de

habitação, são apenas espaços esquecidos.

[30]


Recife tem dessas coisas. De espaços esquecidos,

prédios, praças, espaços históricos

abandonados. A capital cresce desordenada e

está à beira de transformações na arquitetura

“velha” para a construção de um suposto Novo

Recife.

Se para alguém, esses prédios passam despercebidos,

em ‘’Recife: Recortes Concretos”

eles são registrados de uma forma diferente.

O ensaio busca cortes de prédios do centro

da cidade do Recife, na Avenida Guararapes,

na Conde da Boa Vista e redondezas. As fotografias

valorizam a geometria dos prédios,

buscam as linhas que os tornam ligados entre

si. Sua textura única, suas cores, suas particularidades.

Seja sua pintura degastada, seja seu

revestimento metálico moderno. São

todos concretos.

[31]


Ensaios

[32]


[33]


Analise de

Imagem

Francesca Woodman e

seu fluxo temporal

Análise feita pela aluna Maria Sofia de Queiroga

Vieira do curso de Fotografia da Universidade

Católica de Pernambuco (Unicap)

dentro das atividades da disciplina Linguagem

Fotográfica I, ministrada no semestre letivo de

2016.1 pelo professor Leonardo Ariel.

[34]


Introdução

Francesca Woodman foi uma fotógrafa estadunidense,

nascida em 1958. Quando recebeu

uma câmera fotográfica do seu pai, aos 13

anos de idade, começou o seu acervo, o qual

veio a ser parado nove anos depois, já que aos

seus 22 anos, infelizmente, cometeu suicídio.

Suas fotografias são compostas por elementos

opostos, como cenários envelhecidos,

deteriorados; e modelos jovens, de pele lisa e

limpa. Ela costumava fazer autorretratos, o que

gera uma discussão sobre o narcisismo e auto-

-representação, tanto que muitos procuram em

seus últimos trabalhos índices do seu suicídio.

Contudo, percebe-se que Woodman queria não

necessariamente representar a si própria, mas

sim materializar seu corpo nas fotografias.

A imagem fotográfica é um recorte espaço-

-temporal de fragmentos do mundo, ela recorta

lugares, tirando-os do seu fluxo temporal contínuo

para o perpétuo e congelado. As obras

de Woodman, por vezes, explorava as baixas

velocidades do obturador, o que, muitas vezes,

não congelava completamente o movimento,

ficando algumas partes borradas. Além disso,

usava cenários com paredes, chão e objetos

envelhecidos, esmaecidos e abandonados,

o que causa estranhamento e admiração no

observador. Dessa forma, o artigo é dividido

em duas partes, na primeira são discutidas as

questões dos autorretratos e performance para

depois abrir para o tema da temporalidade, em

que serão abrangidos o uso dos cenários em

ruínas e do não congelamento total do movimento.

Autorretrato e Performance

Francesca Woodman costumava ser a sua

própria modelo. Muitos procuram, a partir disso,

representações da personalidade da fotógrafa

em seus autorretratos, principalmente, índices

de seu suicídio. É fato que a artista, incluída

em um contexto social, histórico e geográfico,

expressa os seus sentimentos nas suas obras,

porém Woodman não estava em suas imagens

como ela própria, na verdade, apropriava-se

de seu corpo para a representação de algo, ou

seja, fazia uma performance.

Como já foi citado, a câmera se apodera do

fotografado, se o outro souber da presença do

aparelho, não há como permanecer inocente,

tanto que Barthes afirmava que “não para de

se imitar” (1980) quando para ele é apontada

uma objetiva. “A fotografia, em si, é da ordem

do performativo” (DUBOIS, 1993), o acervo de

Woodman é consciente dessa performance,

tanto que pode até ser chamada de fotografia

Encenada, visto que é toda planejada e composta

previamente a pose e o cenário já como

um enquadramento.

Essa fotografia é um dos poucos autorretratos

em que o rosto de Woodman aparece de

forma mais nítida; seu studium pode parecer

simples inicialmente: uma jovem moça nua está

com o rosto virado para o espelho em uma clara

característica narcisista, um duplo do duplo.

Entretanto, percebe-se que ela se encara no

espelho nem para a objetiva, como se negasse

a sua imagem para si própria e para a câmera.

Há um elemento fora de campo que só nos é

permitido ver devido ao seu reflexo no espelho:

uma espécie de búzio posicionado acima de

sua cabeça. Normalmente, a fotografia remete

ao extracampo quando o fotografado encara

diretamente a lente ou quando o dispositivo

aparece no enquadramento, aqui ela remeteu

ao colocar esse objeto que não está enquadrado,

apenas o seu reflexo.

Sua pele lisa e seu cabelo bem arrumado

contrasta com a parede rude e degrada, apenas

a sua mão está focada no quadro, enquanto

o resto do seu corpo compõe o ambiente. A

decomposição da parede traz a da retratada,

como se essas duas estivessem se esvaindo.

Recorte temporal

O filósofo Zenão afirmava que o movimento

é uma ilusão, ao argumentar que ao lançar uma

flecha de um lugar a outro, há o deslocamento

de espaço, porém em cada aqui-agora a flecha

se encontra parada (DUBOIS, 1993). É fato que

são tempos distintos o da realidade e o da fotografia,

visto que o daquela é efêmero e o dessa

é perpétuo (KOSSOY, 2007), dessa forma, a

maneira que o olho humano enxerga o mundo

é diferente do modo da lente, o que causa percepções

do movimento distintas.

Se vemos a flecha ir de um canto a outro de

forma contínua, a câmera consegue capturar

o aqui-agora de Zenão, imobilizando o objeto,

isso quando a velocidade do obturador consegue

alcançar números maiores. Nos primeiros

anos da fotografia, a emulsão não conseguia

capturar o elemento de forma rápida o suficiente,

assim, o movimento desaparecia, restando

apenas o que ficara imóvel, um exemplo é a

[35]


[36]

Figura 1 - Woodman. “Autoengodo nº1”, Roma. 1978. Disponível em: . Acesso em: 13 de

dezembro de 2015.

Figura 2 - Woodman, House#3, Providence, Rhode Island, 1976. Disponível

em: .

Acesso no dia 14 de dezembro de 2015.


fotografia de Daguerre, tirada em 1858, da rua

Boulevard du Temple, em que apenas o homem

cujos sapatos estavam sendo engraxados foi

capturado pelo daguerreotipo, enquanto que as

outras pessoas que andaram na rua não foram

eternizadas ali.

Muitas fotografias de Francesca Woodman

abordam o movimento de forma ainda distinta

dessas duas. Ao usar velocidade do obturador

baixa, a película não conseguia congelar o objeto,

porém era rápida o suficiente para deixá-lo

borrado, capturando o índice de movimentação.

Se “ao cortar, o ato fotográfico faz passar para

o outro lado (da fatia); de um tempo evolutivo a

um tempo petrificado” (DUBOIS, 1993, p. 168),

então essas imagens da fotógrafa ficam entre

esses dois tempos, já que detém a fluidez da

passagem do tempo.

Na fotografia House#3, percebe-se que há

uma dicotomia entre o rastro do corpo do jovem

moça e a arquitetura rígida, antiga e esmaecida

do quarto. Woodman parece saber que a câmera

se apodera do fotografado (SONTAG, 1977),

tanto que não permite que a película capture

seu rosto e corpo, esses que parecem fugidios,

mutáveis e fragilizados perto do cenário rígido,

caindo aos pedaços. Por outro lado, a modelo

se cobre com uma espécie de papelão ou lenço

parecido com a textura da parede, o que dá a

interpretação de que faz parte da construção

daquele espaço, materializando o seu corpo.

A presença humana, tão importante desde

o início da fotografia comercial, em que muitas

pessoas ficavam quinze minutos expostas ao

obturador a fim de que eternizassem sua imagem,

aparece como um vulto nas fotografias de

Woodman. “A imagem que é pesada, imóvel,

obstinada (por isso que a sociedade se apoia

nela), e sou eu que sou leve, dividido, disperso”

(BARTHES, 1980, p.20), é fato que o autor, ao

afirmar essa frase, estava comparando a sua

representação fotográfica e a sua pessoa real,

porém aqui, quando Woodman nos esconde

sua imagem focada, ela nos mostra a fragilidade

do objeto retratado e nega as propriedades

comuns da fotografia que tem a presença

humana.

A casa parece abandonada, assim como a

moça. Aquela pode representar o interior dessa,

enquanto que a essa tem memória, aquela

já fez parte da de outrem. O quarto apresenta

objetos quebrados, como se estivesse caindo

aos pedaços, já a modelo, ao aparecer borrada

devido à movimentação, parece desaparecer

aos poucos, assim como a estrutura arquitetônica.

Referências Bibliográficas

MONTENEGRO, Tércia. Woodman. Blog “Livros e Bichos”, 2013. Disponível em: . Acesso em: 13 de dezembro de 2015.

CLARO, Alexandre. A Dimensão fotográfica: uma observação ao trabalho de Francesca Woodman. Faculdade de

Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2014/2015. Disponível em: .

Acesso em: 15 de dezembro de 2015.

Gorjon, Melina; Pereira, Bruno. O olho da águia- a fotografia de Francesca Woodman para além do visível. Universidade

Estadual de Londrina, III Simpósio Gênero e Políticas Públicas, 2014. Disponível em: . Acesso em: 15 de dezembro de 2015.

DUBOIS, Philippe. O Ato fotográfico e outros ensaios. Tradução

Marina Appenzeller. Campinas, SP : Papirus, 1993 (Coleção Oficio de Arte e forma).

BARTHES, Roland. A câmera clara: notas sobre fotografia. Tradução Júlio Castañon Guimarães. 1980. Ed. Especial,

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Sarava de bolso, 2012.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Tradução Rubens Figueiredo. 1977. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

KOSSOY, Boris. Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo. Editora Ateliê, São Paulo: 2007.

[37]


DIREITO AUTORAL E

DIREITO DE IMAGEM

DIREITO À IMAGEM: MENORES E DETENTOS

Julianna Nascimento Torezani,

professora do Curso de Fotografia da Unicap.

Email: juliannatorezani@yahoo.com.br.

Para tratar do direito à imagem de menores,

além da Constituição Federal de 1988, que garante

o direito à vida, à liberdade, à intimidade, à

vida privada e à honra, também existe o Estatuto

da Criança e do Adolescente, Lei no 8.069 de

13 de julho de 1990, que trata sobre a inviolabilidade

da integridade física, psíquica e moral do

menor, além da preservação de sua imagem.

Artigo 143: É vedada a divulgação de atos

judiciais, policiais e administrativos que digam

respeito a crianças e adolescentes a que se atribua

autoria de ato infracional.

Parágrafo único: Qualquer notícia a respeito do

fato não poderá identificar a criança ou adolescente,

vedando-se fotografia, referência a nome,

apelido, filiação, parentesco, residência e, inclusive,

iniciais do nome e sobrenome.

Em função da personalidade em formação,

o menor recebe proteção integral, por conta do

direito de personalidade peculiar. Para a advogada

Maria Cecília Naréssi Munhoz Affornalli,

no livro Direito à própria imagem (Editora Juruá,

2012, p. 31): “A autorização para a utilização da

imagem de crianças e adolescentes pode ser

exercida pelos seus representantes legais, mesmo

que para fins publicitários. Contudo, como os

direitos destas pessoas em condição peculiar de

desenvolvimento residem em seara do Direito

Público, o Ministério Público pode vir a se insurgir

contra o uso que, embora autorizado pelos

pais ou responsáveis dos menores, não respeite

parâmetros de dignidade e de preservação da

integridade física, psíquica e moral”. Desta forma,

todos são responsáveis pelo zelo da imagem de

crianças e adolescentes, mesmo que pais e responsáveis

autorizem, as pessoas podem dialogar

em situações que coloquem tal imagem em risco.

Para as produções fotográficas e videográficas,

o Termo de Autorização de Imagem deve

ter os dados do menor e dos pais ou responsáveis

legais, com a assinatura destes. É importante

deixar claro qual o projeto, em que ambientes

será publicado (televisão, cinema, exposição em

museu por exemplo) e por quanto tempo.

O fotógrafo Marcelo Pretto conta no livro

Direito Autoral para Fotógrafos (Editora iPhoto,

2013) que uma fotografa parisiense chamada

Irina Ionesco fez vários ensaios fotográficos com

sua filha seminua quando era menor de idade.

Eva Ionesco, a filha, processou a mãe que, em

2012, foi condenada a pagar uma indenização de

10 mil euros. O caso chegou ao cinema através

do filme My Little Princess (Minha Pequena Princesa)

realizado pela própria Eva. Se esse caso

ocorresse no Brasil e as imagens fossem publicadas

pela mãe, o Ministério Público deveria intervir

no sentido de proteger os interesses da menor.

Outro cuidado que deve ser tomado em produção

fotojornalística é o referente a detentos,

pois estes estão sob responsabilidade do Estado,

quando estão em estabelecimentos penitenciários,

que deve velar pela integridade física e

moral dos detentos. Os fotógrafos Erivam Oliveira

e Ari Vicentini, na obra Fotojornalismo:

uma viagem entre o analógico e o digital (Editora

Cengage Learning, 2009, p. 152), afirma que “os

atos praticados por pessoas detidas pela polícia,

quase sempre, de interesse jornalístico. [...] Os

detentos podem negar autorização para divulgação

de suas fotos, baseados no direito de imagem.

E é dever do Estado respeitar tal decisão.

Apoiado no direito de informação, porém, é possível

fotografá-los, sem que isso fira seu direito de

imagem, desde que estejam na rua. Portanto, em

local público ou se concordar em tirar as fotos e,

obviamente, se o caso for de importância social”.

Affornalli (2012, p. 62) alerta ainda que “quanto

à divulgação de imagens em informativos de

cunho policial, deve-se ter cuidado quando as

pessoas retratadas são suspeitos de autoria de

ilícitos penais pois, com a publicação de seus

traços pessoais acabam sendo lançadas a julgamento

público e submetidas a agressões diversas.

Não raro descobre-se, posteriormente a essa

execração, serem inocentes, mas então suas

vidas pessoas já se encontram em total e irremediavelmente

desestruturadas”.

Assim, o cuidado com a imagem das pessoas

é fundamental para o bom trabalho do profissional

de fotografia, trata-se de zelo, ética e respeito

a todos, quanto a menores e detentos a atenção

deve ser ainda maior.

[38]


Sua fotografia merece esta ampliação

Atelier de Impressão, agora em instalações novas, amplas e ainda mais modernas.

Fotografias: Gustavo Bettini

Atelier de Impressão em novas

instalações que continuam

atendendo aos rigorosos requisitos

da verdadeira impressão fine-art.

Infraestrutura ampla e moderna,

equiparada aos maiores centros de

impressões artísticas do mundo.

Mais uma ação que vem para

reafirmar o rigor técnico que faz

do ADI referência em qualidade e

tratamento de imagem no mercado

nacional. Atelier de Impressão,

aqui sua fotografia é tratada como

obra de arte. Venha conhecer!

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Recife

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[39]


Ensaios

O MAR

vistO de cima

Fotos de Renata Victor

[40]


[41]


Ensaios

[42]


[43]


Ensaios

[44]


[45]


Da lama para

o mundo:

Chico Science

e o movimento

Manguebeat

Texto de

Germana Soares

Foto: Paulo Souza

[46]


[47]


Foto: Alexandre Magalhães

Foto: Francisco Souza

Movimento musical e cultural surgido

na década de 90, na cidade do Recife,

o Manguebeat teve como essência a

mistura de ritmos mundialmente difundidos

- rock, hip hop e música eletrônica

- com ritmos regionais como

maracatu, coco de roda e ciranda. Os

principais responsáveis pela proposta

estética foram os músicos Chico Science

e Fred 04, que projetaram nacionalmente

o movimento com seu ritmo

inconfundível e letras com reflexões e

críticas sociais.

A batida mangue, que leva em sua

raiz a essência do povo pernambuca-

Foto: Hilário Martins

Foto: Ricardo Deiga

[48]


Foto: Amanda Melo

Foto: Carolina Figueiredo

no, tomou forma e difundiu

para o resto do mundo

a diversidade da cultura

local através de compassos

e cadência, acompanhados

de poesia e contestação.

Chico Science, o protagonista,

faleceu em 1997

em um acidente automobilístico.

Sua maior herança

ficou enraizada e

cresceu, assim como os

manguezais que cercam

nossos rios e pontes. A

bandeira defendida pelo movimento,

a diversidade, ainda hoje encontra-se

presente e responsável pela variada

produção cultural local com relevância

nacional.

Em 2016 Chico Science estaria completando

50 anos e, buscando valorizar

esse importante movimento cultural e

seu idealizador, o Curso Superior de

Tecnologia em Fotografia, em parceria

com o Museu da Cidade do Recife,

montaram uma exposição fotográfica

onde os alunos retrataram conceitos e

propostas da “filosofia” Mangue, do seu

surgimento aos dias atuais.

[49]


Foto: Eva Feitosa Foto: Williams Fernandes Foto: Marcio Fonseca

Foto: Nathália Nóbrega

Foto: Josy Barbosa

[50]


O tema foi escolhido com a participação

dos alunos concluintes na

disciplina de Montagem de portfólio e

curadoria. Com a temática definida, foi

feita uma pesquisa para apresentação

e entendimento do tema para que as

imagens fossem desenvolvidas. O processo

criativo teve duração de 60 dias,

onde cada fotógrafo teve a liberdade

de escolha na abordagem do tema.

Eles também desenvolveram um texto

para acompanhar a imagem produzida.

Dessa forma os visitantes puderam

entender a obra de forma individualizada

e, ao mesmo tempo no contexto do

coletivo.

A exposição contou com a participação

de 22 alunos e 28 obras. Além das

imagens, foi elaborado um documentário

produzido por alunos e a projeção

do filme “Manguebeat: 10 anos de efervescência

cultural” (2003) dirigido por

Foto: Luara Oliveira

Alessandro Guedes e Juliano Domingues.

Em cartaz de 16 de janeiro a 13

de março de 2016, a mostra fotográfica

contou na sua estreia com a apresentação

do maracatu Brincante Popular

e no encerramento com palestra do

fotógrafo Gil Vicente, um dos fotógrafos

que acompanhou de perto a trajetória

de Science e outros integrantes do movimento.

Foto: Paloma Barros

[51]


Foto: Marcílio Melo

Foto: Thaís Carvalho

Foto: Quintino Robson

Foto: Jadna Lima

MANGUE BEAT no Museu da Cidade

Nos últimos anos o Museu da Cidade do

Recife tem realizado investimentos na criação

de parcerias como forma de revitalizar e dinamizar

o museu. Entre muitos parceiros, o

curso de fotografia da Universidade Católica de

Pernambuco tem sido uma das experiências

exitosas. Nos últimos três anos realizamos com

os alunos da Católica e com a curadoria das

professoras Renata Victor e Germana Soares

em parceria com Betânia Corrêa de Araujo do

museu três mostras, sendo a última sobre o

MANGUE BEAT.

MANGUE BEAT realizada entre os dias 17

de janeiro e 13 de março de 2016, apresentou

além de fotografias e textos, um documentário

sobre o movimento Mangue da Coleção Alberto

Cavalcanti e uma seleção de vídeos clipes

selecionados pelos fotógrafos participantes.

No encerramento, a exposição apresentou

uma palestra com o fotógrafo Gil Vicente, autor

de vários retratos de Chico Science e do seu

grupo.

No período em que ocupou a Sala de Exposições

temporárias do Museu, a mostra MAN-

GUE BEAT recebeu 3624 visitantes (assinantes)

entre brasileiros e estrangeiros e impactou

o público com as imagens dos fotógrafos e a

expressiva música do movimento mangue. A

mostra fez parte das comemorações do aniversário

de 50 anos de Chico Science.

Betânia Corrêa de Araújo

Diretora Geral do Museu da Cidade do Recife

[52]


Foto: Isabele Marinho

Foto: Mariana Aguiar

[53]


Ensaios

a morte

amorosa

Como atividade da disciplina de Poética

da Imagem os alunos da disciplina de

Poética da Imagem, ministrada no terceiro

módulo do curso de Fotografia da Unicap,

receberam a missão de transformar contos

do século XIX em imagens. A seleção deveria

ser feita entre as obras do livro Contos

Fantásticos do Século 19 escolhidos por

Italo Calvino. Entre os contos, histórias de

Edgar Allan Poe, Honoré de Balzac, Hans

Christian Andersen e Guy de Montpassant.

O grupo formado pelos alunos Ammanda

Falcão, Paulo Vasconcelos, Priscila Silva,

Nitali Angélica, Rautemberg Nóbrega,

Amanda Bezerra, Daniel Guimarães, Alzio

Dias, Alexandre Torres, Allan Oliveira, José

Maurício, Ana Nery, Jéssyca Artico, Humberto

Pereira, Suann Medeiros e Jundy

Leal escolheu o conto A Morte Amorosa, de

Théophile Gautier, para contar em imagens

a história do amor entre o padre recém-ordenado

Romuald e a vampira Clarimonde

em um ensaio produzido a partir do uso de

figuras de linguagem e das características

da Função Poética da Imagem, no esquema

elaborado por Roman Jakobson. O resultado,

quase uma fotonovela, virou ensaio

nesta edição da UnicaPhoto pela qualidade

do trabalho da equipe.

[54]


[55]


Ensaios

[56]


[57]


Ensaios

[58]


[59]


Dicas

A onipresença das câmeras

Julianna Nascimento Torenzani

Professora do Curso de Fotografia da UNICAP.

Doutorando em Comunicação pela UFPE.

Mestre em Cultura e Turismo e Bacharel em

Comunicação Social pela UESC.

Email: juliannatorezani@yahoo.com.br

O livro Sobre Fotografia escrito pela

filósofa norte-americana Susan Sontag,

em 1977, é extremamente atual,

visto que discute questões técnicas da

fotografia amparadas na linguagem e na

intencionalidade de cada fotógrafo ao

fazer uma cena. Sontag nasceu em Nova

Iorque em 1933 e morreu em 2004, aos

71 anos, cursou Filosofia na Universidade

de Chicago e pós-graduação em Harvard.

Seus livros foram traduzidos para mais

de trinta línguas. Escreveu ensaios e

romances, além de dirigir filmes e peças.

A obra Sobre Fotografia ganhou o

National Book Critics Circle Award.

Dividida em sete capítulos o livro traz

uma profunda reflexão da fotografia do

século XIX em diante, dando destaques

a alguns fotógrafos documentais e

fotojornalistas. O primeiro capítulo é

intitulado Na caverna de Platão onde

a autora trata do início da produção

fotográfica a partir de 1839. O segundo

capítulo, Estados Unidos, visto em fotos,

de um ângulo sombrio, a filósofa trata de

obras documentais de fotógrafos norteamericanos,

que no século XX tiveram

tendências diversas, inclusive de estilo,

uma vez que movimentos artísticos como

o surrealismo interferem diretamente

nas possibilidades criativas de captura

de luz, além das imagens vinculadas ao

projeto Photo-Secession criado por Alfred

Stieglitz.No terceiro capítulo chamado

[60]

Capa do livro

Objetos de melancolia, Sontag revela os

vários lados que a imagem fotográfica

suscita, entre eles como elementos de

tristeza analisando várias produções

com temas que envolvem a miséria e a

guerra.

Como quarto capítulo será discutido

o tema O heroísmo da visão já que a

fotografia transbordou a potencialidade

do olhar com equipamentos, trouxe

novas visualidades, aproximou e ampliou

os temas. Em Evangelhos Fotográficos,

Sontag traça a interminável discussão

entre a fotografia e a arte, ou ainda se a

fotografia é arte ou produz arte, trazendo

produções e frases de vários fotógrafos

e artistas.O capítulo que fecha o livro,

O mundo-imagem, discute a questão da

fotografia e da realidade, pelos critérios

de escolhas do fotógrafo há, segundo a

autora, uma perturbação de quem olha

para imagens de determinados temas.

Esta obra abre muitas reflexões e

também muitos campos de pesquisa.

Pensar a fotografia de maneira

múltipla, desvendar o que por trás das

produções dos fotógrafos e entender as

intencionalidades da cena a cada contexto

histórico são algumas das contribuições

que Sontag traz para a fotografia. Difícil

ler este livro sem trazer exemplos de toda

a história da fotografia, do século XIX em

diante, mas, sobretudo refletir sobre a

produção fotográfica contemporânea.


Confira outras dicas de livros, filmes

e sites dos professores do curso de

Fotografia da Unicap

A

Destrua

essa câmera

Diretor: Leon Gast,

2010.

Um diário russo

John Steinbeck e Robert

Capa, 2010.

David Loftus

Photography

Masterclass

B

Swimmer

Diretor: Lynne Ramsay,

2012.

Fotografia

contemporânea: entre

o cinem, o vídeo e as

novas mídias.

Antonio Fatoreli, 2013.

DIY Photography

C

Mil vezes boa noite

Diretor: Erik Poppe,

2013.

Filosofia da Caixa Preta

Vilém Flusser, 1983.

Revista Mira

Fotográfica

D

Iluminados

Diretores: Cristina Leal,

2007.

50 anos de luz: câmera e

ação

Edgar Moura, 2002.

Humanæ

E

Meia noite em Paris

Diretores: Woody Allen,

2011.

Quando a fotografia é

genial

Val Williams, 2014.

ZUM

Dicas de:

A - João Guilherme

B - Leonardo Castro Gomes

C - Marina Feldhues (Ex-aluna do curso)

D - Ricardo Marcelino

E - Renata Victor

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