Views
6 months ago

Revista Fúcsia - Edição 18

Paloma Bernardi a Atriz brilha em tudo o que faz; Cachos Assumidos: Historias de transcição capilar; Looks para fios encaracolados Tendências: Cortes e cores que vão bombar! Direto do salão: Penteados de noiva e Festas.

Enroladas Muitas

Enroladas Muitas mulheres se libertaram da ditadura dos fios lisos e hoje são mais felizes. Ganhe coragem com histórias de autoafirmação da beleza natural Nanda Cury, criadora do Blog das Cabeludas e da Marcha do Orgulho Crespo mpoderadas raiz desde a Durante quase 30 anos fiz chapinha e tratamentos até finalmente aceitar meu cabe- como eu tinha o potencial de influenciar outras mu- Na época, me pediam muitas dicas. Entendi que assim lo natural. Minha irmã, primas e amigas lheres, aquelas que se assumissem também poderiam tinham fios lisos e minha mãe sempre fazer o mesmo. Em 2015, junto com a estudante de fez escova. Como ninguém sabia lidar com o crespo, moda Thaiane Almeida e a jornalista Neomisia Silvestre, a única solução era o alisamento. Lembro de ter as organizei a 1ª Marcha do Orgulho Crespo do Brasil. É orelhas e o couro cabeludo queimados com frequência. Foram anos sem entrar no mar e na piscina, cor- identidade afrobrasileira; a livre expressão de todos um movimento que tem por objetivo a valorização da ria de chuva e torrava boa parte do meu salário no os tipos de cabelos; e o empoderamento da mulher na salão. Hoje sei que aquilo não era vida, mas escravidão. Quando assumi meu cabelo em um corte Black da imprensa, com matérias na TV aberta e em sites sociedade. Tivemos uma grande cobertura por parte Power em 2008, percebi pela primeira vez a rea- estrangeiros. Com o cabelo crespo e cacheado, vem o ção das pessoas. Recebia elogios, mas também havia fortalecimento individual e coletivo. um grande estranhamento. Criei o Blog das Cabeludas para compartilhar minha visão do que é ser cacheada. Nanda Cury – 34 anos, especialista em marketing digital POR: PAULA ANDRADE | FOtOs: ChARLEs MOttA (NANDA CURy), ARqUivO PEssOAL (As DEMAis) 36

Legião de cacheadas Estas garotas aprenderam a amar seus caracóis e a si mesmas: “Quando era criança, só usava o cabelo preso por ter pavor do volume. Aos 12 anos, comecei a relaxar e, depois, a alisar os fios. Elogiavam minhas madeixas alisadas e eu sentia que aquele elogio não era para mim. Sempre achei cabelo crespo lindo, mas só nas outras pessoas. Com 22 anos, tomei a decisão radical de cortar no estilo ‘joãozinho’. Quando os fios naturais começaram a crescer, foi como uma jornada de redescobrimento. As crespas e cacheadas sofrem com o padrão de beleza europeu. O debate sobre nossos fios é importante para desconstruir esse preconceito. Somos lindas do jeito que somos.” Mari Morena – 25 anos, gestora ambiental, blogueira e youtuber “Na adolescência, tinha medo de o cabelo sair do lugar. Havia todo um procedimento à base de muitos cremes e gel. Lembro que a primeira vez que ‘soltei’ os fios foi quando um amigo me desafiou a não passar creme para ir a um samba. As pessoas notaram a diferença e elogiaram. Eu me senti segura e, desde então, comecei a usar meu cabelo natural, como símbolo de resistência. E não há resposta melhor que esta: a reafirmação da identidade, a autoestima. Agora as meninas já estão valorizando mais o crespo, e a internet tem grande contribuição nisso. Mas vale alertar que sair da ditatura da chapinha para entrar na dos supostos ‘cachos perfeitos’ é, de novo, uma forma de nos colocar em padrões preestabelecidos.” Neomisia Silvestre – 31 anos, jornalista, escritora e produtora cultural “Lembro que minha mãe sempre deu um jeito de prender, trançar e esconder meus cachos. Comecei a fazer a transição capilar aos 20 anos, para economizar dinheiro e tempo. Eu não aguentava mais gastar a maior grana no salão e programar o horário de lavar, secar e depois fazer chapinha. Só tive noção da importância de assumir meu cabelo natural quando fiz o Big Chop (corte radical para retirar a parte alisada). É uma mudança que acontece de dentro para fora, quando você aprende a se aceitar e a entender sua ancestralidade. Hoje, é importante que as mulheres saibam que existem produtos, tratamentos e cuidados específicos para que seus fios possam ser valorizados e usados do jeito que são.” Karoline Gomes – 23 anos, jornalista 37