Revista Dr Plinio 189
Dezembro de 2013
Dezembro de 2013
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Publicação Mensal Ano XVI - Nº <strong>189</strong> Dezembro de 2013<br />
Há 105 anos<br />
marcando a História
Precursor na<br />
luta contra<br />
a heresia<br />
S<br />
ão João Evangelista foi um<br />
dos primeiros lutadores contra<br />
a heresia, que nascia em seu<br />
tempo, a respeito das relações entre<br />
as naturezas humana e divina<br />
de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
Então, o Apóstolo virgem, o<br />
Apóstolo do Coração de Jesus, o<br />
Apóstolo que recebeu Nossa Senhora<br />
como Mãe, foi também o<br />
precursor de todos os lutadores<br />
da Fé até o fim do mundo.<br />
(Extraído de conferência de 27/12/1964)<br />
Richard Avery<br />
São João Evangelista -<br />
Catedral de Salisbury, Inglaterra<br />
2
Sumário<br />
Publicação Mensal Ano XVI - Nº <strong>189</strong> Dezembro de 2013<br />
Ano XVI - Nº <strong>189</strong> Dezembro de 2013<br />
Há 105 anos<br />
marcando a História<br />
Na capa, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
durante uma<br />
conferência na<br />
década de 1990.<br />
Foto: Sérgio Miyazaki<br />
As matérias extraídas<br />
de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
— designadas por “conferências” —<br />
são adaptadas para a linguagem<br />
escrita, sem revisão do autor<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />
propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />
CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />
INSC. - 115.227.674.110<br />
Diretor:<br />
Antonio Augusto Lisbôa Miranda<br />
Editorial<br />
4 Há 105 anos marcando a História<br />
Datas na vida de um cruzado<br />
5 Últimos Natais com Dona Lucilia<br />
Dona Lucilia<br />
6 Amando a Deus acima do filho querido<br />
Conselho Consultivo:<br />
Antonio Rodrigues Ferreira<br />
Carlos Augusto G. Picanço<br />
Jorge Eduardo G. Koury<br />
Redação e Administração:<br />
Rua Santo Egídio, 418<br />
02461-010 S. Paulo - SP<br />
Tel: (11) 2236-1027<br />
E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br<br />
Impressão e acabamento:<br />
Pavagraf Editora Gráfica Ltda.<br />
Rua Barão do Serro Largo, 296<br />
03335-000 S. Paulo - SP<br />
Tel: (11) 2606-2409<br />
De Maria Nunquam Satis<br />
10 Imaculada Conceição,<br />
intransigência e combatividade<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
14 A admiração pelos conjuntos na Criação<br />
Reflexões teológicas<br />
20 Meditação sobre o Natal - I<br />
Calendário dos Santos<br />
26 Santos de Dezembro<br />
Preços da<br />
assinatura anual<br />
Comum .............. R$ 114,00<br />
Colaborador .......... R$ 160,00<br />
Propulsor ............. R$ 370,00<br />
Grande Propulsor ...... R$ 590,00<br />
Exemplar avulso ....... R$ 15,00<br />
Serviço de Atendimento<br />
ao Assinante<br />
Tel./Fax: (11) 2236-1027<br />
Hagiografia<br />
28 Santa Adelaide: pecadora por natureza,<br />
imperatriz pela graça<br />
Luzes da Civilização Cristã<br />
32 O “vitral” do Menino Jesus<br />
Última página<br />
36 Na menina dos olhos...<br />
3
Editorial<br />
Há 105 anos<br />
marcando a História<br />
Oacerto e a autenticidade de uma obra podem ser medidos pela sua perenidade. Possui o tempo<br />
o condão de ressaltar os aspectos centrais de algo, diluindo o que pode haver de secundário,<br />
acidental ou equivocadamente avaliado. As pessoas e os acontecimentos adquirem, assim,<br />
sua verdadeira dimensão.<br />
Algo análogo se passa com o Sol que, à medida que se põe, faz com que cresçam as sombras dos<br />
objetos de maneira insuspeitada horas antes.<br />
Por essa razão, neste 105º aniversário do nascimento de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> Corrêa de Oliveira, mais nítida<br />
e objetivamente se pode avaliar a envergadura de sua pessoa, pensamento e obra.<br />
Obrigado, por fidelidade à Fé católica, que ele prezava mais do que tudo nesta terra, a remar tantas vezes<br />
contra a maré, até mesmo dentro das fileiras católicas, sofreu ele muitas e dolorosas incompreensões.<br />
A História do século XX, como deste em que vivemos, tem confirmado o acerto profético de suas<br />
denúncias contra os desvios doutrinários que observara em seu nascedouro no seio da Ação Católica,<br />
da qual foi presidente na Junta Arquidiocesana de São Paulo, nos idos de 1940.<br />
Por suas posições de fidelidade inteira à Tradição e ao Magistério da Igreja, foi vítima de inexplicável<br />
intolerância que o conduziu a um completo, meticuloso e injusto ostracismo.<br />
Incompreendido por muitos nas fileiras dos movimentos católicos, não se intimidou e, até o fim<br />
de seus dias, batalhou incansavelmente pelas causas que interessavam à Santa Igreja. Seu nome tornou-se,<br />
assim, uma bandeira, e basta ser ele pronunciado em um ambiente mais culto para despertar<br />
entusiasmos e rejeições muitas vezes acaloradas. Até mesmo gerações que não o conheceram se dividem<br />
a seu respeito. Ou seja, foi um varão que, passados um século e um lustro de seu nascimento,<br />
continua a marcar a História. Nesse sentido, ele é, à imitação de Jesus Cristo, uma pedra de escândalo<br />
em relação à qual não há neutros.<br />
Há 15 anos a <strong>Revista</strong> “<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>” vem publicando luminosos textos de sua autoria. Por sua profundidade<br />
de análise, vastidão de horizontes e originalidade verdadeiramente profética, indicam rumos<br />
à humanidade tão desorientada de nossos dias. O passar dos anos foi confirmando inúmeras de<br />
suas previsões, projetando a sua pessoa de maneira ímpar.<br />
A respeito de “Revolução e Contra-Revolução”, obra mestra em que <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> apresenta a sua visão<br />
do processo histórico que desembocou na crise contemporânea, o ilustre teólogo Pe. Anastácio<br />
Gutierrez, CMF, na introdução da edição de 1993, assim se expressa: “é uma obra magistral, cujos<br />
ensinamentos deveriam ser difundidos até fazê-los penetrar na consciência de todos os que se sintam<br />
verdadeiramente católicos [...]. Em suma, atrever-me-ia a dizer que é uma Obra profética no melhor<br />
sentido da palavra; mais ainda, que seu conteúdo deveria ensinar-se nos centros superiores da Igreja.”<br />
E tal abalizado juízo pode, com toda a propriedade, estender-se a todo o conjunto do pensamento<br />
de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>.<br />
Por certo, se os inúmeros alertas de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> tivessem sido ouvidos, a situação dos movimentos<br />
católicos seria outra. E, em consequência, os destinos de nosso País e do mundo ocidental também<br />
teriam sido bem diversos.<br />
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />
4
Datas na vida de um cruzado<br />
Últimos Natais<br />
com Dona Lucilia<br />
Amor a Deus, carinho materno, afeto<br />
filial, simplicidade e intimidade cheia<br />
de respeito compunham a abençoada<br />
atmosfera do apartamento de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
nas últimas noites de Natal ali vividas<br />
com sua extremosa mãe. Com<br />
saudades, ele recordava uma<br />
dessas marcantes datas de sua<br />
existência.<br />
Por sua avançada idade,<br />
minha mãe não tinha<br />
mais condições de sair<br />
para a Missa do Galo.<br />
Eu assistia à Missa com<br />
meus companheiros e,<br />
depois, voltava para casa<br />
para cear com ela.<br />
Meu pai já havia falecido;<br />
estávamos, portanto,<br />
só nós dois. Ela organizava<br />
a ceia, dispondo à mesa,<br />
com imenso cuidado, iguarias<br />
feitas todas em casa. Isso<br />
correspondia a uma ideia antiga segundo<br />
a qual os pratos domésticos são<br />
melhores do que os comprados em confeitaria,<br />
pois trazem a marca do carinho que o produto<br />
comercial não tem. Eram, então, duas ou três<br />
qualidades de doces, com alguns salgadinhos.<br />
Enquanto me esperava, ela ficava rezando junto<br />
à imagem do Coração de Jesus.<br />
Quando eu chegava, abraçava-a, beijava-a<br />
muito, e ela me fazia uma sucessão de cruzes na<br />
testa. Eu percebia que cada cruz continha uma<br />
bênção e uma súplica, mas eu não sabia o que<br />
ela pedia, porque falava tão baixinho que eu não<br />
conseguia entender, e percebia que ela gostaria<br />
que eu não ouvisse. E para mim, a lei era o fato<br />
de ela gostar: o que ela gostasse, assim deveria<br />
ser; o que ela não gostasse, eu queria que<br />
não fosse assim. Então, eu a deixava me persignar<br />
longamente a fronte.<br />
Eu osculava a mão dela e íamos para a sala<br />
de jantar. Sua delicada saúde não permitia<br />
que se alimentasse muito à noite;<br />
ela comia apenas alguma coisinha<br />
para me fazer companhia.<br />
Meu apetite, entretanto,<br />
era robusto. E eu jantava<br />
pouco para estar com<br />
fome àquela hora, pois<br />
sabia que ela ficaria muito<br />
contente se eu comesse<br />
bastante do que ela<br />
havia preparado. Por isso,<br />
eu comia vigorosamente.<br />
Em seguida, nos dirigíamos<br />
para o quarto dela<br />
onde havia uma cestinha<br />
de pão feita de uma espécie<br />
de porcelana esmaltada,<br />
um material muito bonito,<br />
cor de marfim, e cercado por uma<br />
moldura dourada. Ali, mamãe deitava<br />
a pequena imagem do Menino Jesus que se encontra<br />
no oratório dela, preparava alguns enfeites,<br />
colocava flores e acendia uma vela, cuja base<br />
era também toda ornada com papel de seda<br />
trabalhado por ela com muita agilidade e bom<br />
gosto.<br />
Entrávamos, então, no quarto de mamãe para<br />
adorar o Menino Jesus. Como ela já não podia<br />
se ajoelhar, apenas eu o fazia. Rezávamos ao<br />
Menino-Deus, a Nossa Senhora também, e depois<br />
nos despedíamos.<br />
Estava terminado um Natal na Rua Alagoas,<br />
350, 1° andar. v<br />
(Extraído de conferência de 22/12/1984)<br />
5
Dona Lucilia<br />
Amando a Deus acima<br />
do filho querido<br />
Como o ouro, que manifesta sua pureza ao passar pelo<br />
fogo, também o entranhado amor materno de Dona<br />
Lucilia por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, tantas vezes descrito nestas páginas,<br />
demonstrou sua candura e retidão, ao ser provado no<br />
“cadinho” do filho afetuoso.<br />
As primeiras recordações que eu tenho de minha<br />
mãe, em pequeno, são das carícias que<br />
ela me fazia. É próprio a uma criança gostar<br />
de ser acariciada, sobretudo pela mãe.<br />
Dona Lucilia possuía, como ninguém, o conhecimento<br />
do por onde eu me sentiria melhor acariciado<br />
e, portanto, como fazer para agradar-me plenamente,<br />
incutindo em mim um gosto muito grande pelas carícias<br />
dela.<br />
Um ordenadíssimo rio de águas douradas<br />
Mas havia qualquer coisa no afago de mamãe que, por<br />
mais que fosse envolvente, doce, tranquilizante e representasse<br />
um carinho no sentido mais meigo da palavra,<br />
eu sentia que aquilo era como um rio de águas prateadas<br />
ou douradas que corria canalizado. Não como esses<br />
rios que, de vez em quando, se extravasam para a direita<br />
ou para a esquerda. Era completamente retilíneo, ordenadíssimo.<br />
E vendo em mim uma criança inocente, ela se encantava<br />
com a minha inocência. Mas se ela notasse<br />
em mim um defeito, imediatamente no espírito dela<br />
nascia uma restrição entristecida, não irritada no sentido<br />
de ter ficado com os nervos abalados.<br />
Aliás, jamais a vi assim na minha vida, e nunca me<br />
passou pela cabeça que ela tivesse semelhante irritação;<br />
nunca, em nenhuma situação!<br />
Mas era uma censura entristecida, como quem dissesse:<br />
“Isto está mal feito, ele é meu filho e eu vou corrigi-<br />
-lo, pois se não o fizer, tê-lo-ei menos virtuoso. E isso eu<br />
não quero, porque nele eu amo, principalmente, a virtude.”<br />
Esse era o elemento ordenativo do afeto dela.<br />
Querer bem por amor a Deus<br />
Eu sentia, com profunda comoção, esse mundo de<br />
comprazimento por parte de mamãe. Ora, quando nos<br />
encontramos diante do afeto, a forma do entusiasmo que<br />
se tem chama-se emoção. Portanto, ficava profundamente<br />
emocionado.<br />
Mas, de outro lado, encantava-me com aquela ordenação<br />
que correspondia ao que eu tanto apreciava, ou<br />
seja, que ela me quisesse bem, não apenas com um amor<br />
quase meramente instintivo, por ser seu filho, e ainda<br />
que fosse um facínora, me amaria tanto quanto se eu fosse<br />
um homem bom. Isso não!<br />
O instinto materno chega até esse ponto: “Ele é um<br />
facínora, mas apesar disso, eu o quero bem porque é<br />
meu filho.” Em certo sentido, com as devidas ressalvas,<br />
está bem. “Mas, querê-lo tanto quanto o quereria se ele<br />
fosse bom, não. Porque devo amá-lo, antes de tudo, porque<br />
ele ama a Deus. E se ele não ama a Deus, eu o quero<br />
porque ele pode vir a querer a Deus se eu rezar muito<br />
por ele. Porém, se ele tivesse rompido com Deus como<br />
uma alma condenada, então não o quereria bem.”<br />
6
Dona Lucilia com<br />
<strong>Plinio</strong> nos braços<br />
Rosée, Dona Zili, Dona Lucilia e<br />
<strong>Plinio</strong>, em Águas da Prata (SP)<br />
7
Dona Lucilia<br />
É o que explica que as mães, estando no Céu e tendo<br />
conhecimento de que seus filhos estão no Inferno, não se<br />
entristeçam. No Céu não pode entrar a tristeza, é impossível.<br />
Mas como, logicamente, uma mãe não se entristece?<br />
Ela viu que aquele filho rompeu irremediavelmente<br />
com Deus, e que vai passar a eternidade blasfemando<br />
contra Ele; então, ela rompe com o filho, porque ela ama<br />
mais a Deus do que ao filho.<br />
Ora, essa ordem eu sentia no fundo da personalidade dela,<br />
na franqueza e no espírito analítico de seu olhar. Eu me<br />
sentia examinado, analisado por ela, com afeto — não tinha<br />
nada de policialesco — mas com solicitude maternal.<br />
”Você é sempre o mesmo!”<br />
Já tive ocasião de contar que, voltando de minha primeira<br />
viagem à Europa, ela me recebeu no hall de casa,<br />
com um demorado abraço. Depois, afastou-se um pouco<br />
de mim e me olhou bem no fundo dos olhos. Em seguida,<br />
abraçou-me e beijou-me novamente, dizendo: “Você<br />
é sempre o mesmo!”<br />
Eu era homem feito, porém uma viagem longa para<br />
um lugar brilhante como a Europa acarreta muitas possiblidades<br />
de elevação da alma, mas também de perdição.<br />
E ela conhecia o caso concreto de muita gente que fora à<br />
Europa e lá se perdera.<br />
Era natural que ela, como minha mãe, tivesse uma<br />
preocupação: “Meu filho não vai ser tentado lá? Ele é<br />
feito de carne e osso, não está confirmado em graça, portanto,<br />
pode acontecer.” Posso imaginar quanto ela rezou!<br />
Juntamente com a alegria do encontro, quanto havia<br />
nela o desejo de saber que homem ela encontraria!<br />
Havia nisso uma retidão que estava de acordo com a lógica,<br />
e isso me encantava.<br />
8
Passando pela prova...<br />
Concluo lembrando um fato passado entre nós<br />
dois. Estávamos almoçando juntos, e ela servindo-se<br />
de um prato de que não gosto, mas ela apreciava muito:<br />
sopa de mandioca, na qual ela ainda mandava pôr<br />
agrião.<br />
Evidentemente, embora eu considere horrível, seria capaz<br />
de ir comprar a mandioca e mandar a cozinheira fazer<br />
a sopa para ela, se fosse necessário. O que mamãe quisesse<br />
e não ofendesse a Deus, eu faria tanto quanto ela desejasse.<br />
E se há um prazer inocente, é tomar um caldo de mandioca<br />
com agrião.<br />
Ela estava tomando a sopa com aquela calma característica,<br />
e os olhos postos nas árvores da Praça Buenos Aires,<br />
que ela gostava enormemente de ver e para as quais<br />
dá a janela da sala de jantar. Eu era já homem feito, e<br />
ela, uma senhora bem idosa.<br />
Eu queria ver até que ponto mamãe, de fato, amava mais<br />
a Deus do que a mim. A certa altura da conversa, soltei a seguinte<br />
frase: “Mamãe, estive pensando o que eu faria se, de<br />
repente, a senhora ficasse protestante. Eu romperia as relações<br />
com a senhora. Daria dinheiro para mantê-la aqui nesta<br />
casa, para a senhora viver bem, mas não comigo, porque<br />
eu sairia da casa e viria ver a senhora umas duas ou três vezes<br />
por ano; fora disso não, porque para mim o relacionamento<br />
com a senhora estava encerrado.”<br />
Olhei para ela para ver como receberia uma declaração<br />
como essa da parte de um filho muito respeitoso,<br />
muito afetuoso. Ela continuou a tomar sua sopa de<br />
mandioca com uma naturalidade como quem julgasse<br />
que eu estava dizendo uma coisa evidente.<br />
A lógica confirmou o meu afeto e o meu entusiasmo.v<br />
(Extraído de conferência de 24/10/1987)<br />
9
De Maria Nunquam Satis<br />
Sérgio Hollmann<br />
Imaculada Conceição<br />
Museu da Catedral,<br />
Sevilha (Espanha)<br />
10
Imaculada Conceição,<br />
intransigência e<br />
combatividade<br />
Entre outros predicados, o privilégio da Imaculada Conceição<br />
dota a Santíssima Virgem de tal pureza e elevação que confere<br />
a Ela uma incomparável noção do bem e do mal. Nascidas<br />
desta altíssima noção, a intransigência e a combatividade de<br />
Maria servem de modelo para toda a humanidade.<br />
Um comentário que poderíamos fazer a respeito<br />
da Imaculada Conceição de Maria seria considerá-La<br />
enquanto modelo de insuperável combatividade<br />
e intransigência. No que consiste a combatividade<br />
e a intransigência, e por que podemos dizer que Nossa<br />
Senhora é, enquanto concebida sem pecado original, o<br />
modelo dessas virtudes?<br />
Da compreensão e do amor a<br />
um nobre ideal nasce a intransigência<br />
Mattes<br />
A intransigência consiste no seguinte: quando temos<br />
inteiramente claro no espírito o que é o bem e como algo<br />
deve ser para podermos considerá-lo bom; e quando temos<br />
essa noção levada até o ponto de sublimidade, compreendendo<br />
a mais alta expressão do bem a respeito daquilo,<br />
nasce, então, na defesa desta ideia, a intransigência.<br />
Tomemos, por exemplo, a figura de um bom sacerdote.<br />
Uma pessoa que compreenda, em toda a sua sublimidade,<br />
a vocação sacerdotal, a virtude de que deve estar<br />
imbuído o sacerdote, e forme uma ideia profunda —<br />
não uma mera impressão colhida superficialmente — da<br />
alta realidade contida nesse estado de vida, ela se torna<br />
Santo Agostinho - Museu de Artes<br />
de Los Angeles, EUA<br />
11
De Maria Nunquam Satis<br />
Francisco Lecaros<br />
verdadeiramente<br />
intransigente<br />
em relação a<br />
tudo quanto toca<br />
no sacerdócio.<br />
Porque, como a<br />
pessoa compreendeu<br />
e amou<br />
um ideal altíssimo,<br />
necessariamente<br />
ela lançará<br />
uma condenação<br />
severíssima<br />
sobre aquilo que<br />
contradiga esse<br />
ideal. Por ter<br />
compreendido e<br />
amado esse bem<br />
até o fim, a pessoa<br />
pode perceber<br />
e sondar toda<br />
a malícia que<br />
Pregação de São Félix de Girona<br />
Museu de Artes, Girona (Espanha) há no contrário,<br />
rejeitando este<br />
completamente, de modo intransigente, ou seja, não o<br />
tolerando.<br />
No contraste com o mal se percebe<br />
melhor a excelência do bem<br />
Esta é a intransigência que procede, precisamente,<br />
dessa elevada concepção e nobre aceitação da coisa verdadeira<br />
e boa, e que gera, então, a rejeição daquilo que<br />
é ruim.<br />
Por causa da estrutura do espírito humano, pode-se<br />
dizer que de algum modo, formada a intransigência, a visão<br />
e a consideração do mal reforçam o amor ao bem.<br />
Porque, no contraste com o mal, a pessoa percebe melhor<br />
a excelência do bem, encontrando assim um meio de<br />
amá-lo ainda mais.<br />
O contrarrevolucionário, entendendo bem, nos seus<br />
mais altos aspectos, toda a grandeza da causa à qual se<br />
dedica, pode também perceber perfeitamente a dignidade<br />
e a excelência dessa vocação, e o que ela exige de<br />
quem a recebe. Por isso, ele forma dessa vocação uma<br />
ideia altíssima e muito amada por ele, o que o torna intransigente<br />
em relação a todas as fraquezas, todas as deficiências<br />
na vocação, e para com todos aqueles que, de<br />
fora, procuram atrapalhá-la.<br />
Portanto, dessa alta ideia nasce uma recusa ao oposto,<br />
mas, na consideração do mal, essa mesma ideia ainda recebe<br />
um reforço.<br />
Combatividade, filha da intransigência<br />
A combatividade é uma consequência da intransigência.<br />
Quem é inteiramente intransigente deve querer o extermínio<br />
completo do mal que ele tem em vista. Do contrário,<br />
ele não seria intransigente. Por isso, o desejo de<br />
extinguir aquele mal deve encher sua vida como um verdadeiro<br />
ideal, não sossegando enquanto não tiver liquidado<br />
aquele erro que, de fato, ele queria liquidar.<br />
Surge, então, a combatividade, isto é, aquele desejo<br />
de eliminar o mal efetivamente, sem deixar vestígios<br />
nem raízes, de maneira que nunca mais possa renascer.<br />
Derrotar o mal a ponto de envergonhá-lo, causando em<br />
quem considere essa derrota, um horror ao mal e um<br />
amor ao bem ainda maiores. Esta posição é, propriamente,<br />
a combatividade, filha da intransigência.<br />
”Reduzir a pó pelo fogo”<br />
No Direito português antigo havia uma expressão que<br />
indicava de um modo muito sintomático essa execração<br />
ao mal: “reduzir a pó pelo fogo”. Na época em que se<br />
aplicava a pena de morte, quando um réu era condenado<br />
por um crime horroroso, matavam-no — às vezes de um<br />
modo cruel, aos poucos, com pauladas ou por meio do<br />
tormento da roda —, queimavam seu corpo até reduzi-lo<br />
a cinzas, as quais eram, depois, jogadas no mar. Quer dizer,<br />
não sobrava nada.<br />
Eis uma imagem<br />
da combatividade verdadeira<br />
que não quer<br />
que reste nem as cinzas,<br />
mas apenas uma<br />
recordação de horror<br />
daquele mal praticado.<br />
Não me refiro à eliminação<br />
da pessoa,<br />
mas tenho em vista algo<br />
muito mais importante<br />
e difícil: é a extinção<br />
de um mau costume,<br />
de uma lei iníqua,<br />
de uma ideia má,<br />
de uma doutrina falsa.<br />
Matar um homem,<br />
numa hora de cólera,<br />
qualquer um é capaz<br />
de matar; há muitos<br />
criminosos que assassinam<br />
pessoas por aí.<br />
Mas querer acabar com<br />
uma instituição perversa,<br />
uma ideia errada,<br />
Sérgio Hollmann<br />
São Domingos queimando livros heréticos<br />
Museu do Prado, Madri (Espanha)<br />
12
enfim, com o mal, este é o ponto característico da combatividade<br />
nascida da intransigência. Por vezes, essa combatividade<br />
poderá ser fria, porém será sempre inexorável.<br />
Modelo de intransigência e combatividade<br />
santidade, correspondente à forma especial de pureza<br />
daqueles que verdadeiramente são filhos e procuram ter<br />
o espírito de Nossa Senhora.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de 8/12/1966)<br />
Qual a relação entre o que até aqui foi exposto e a<br />
Imaculada Conceição?<br />
Nossa Senhora, sendo concebida sem pecado original,<br />
não tinha em Si absolutamente nada que fosse ruim. E<br />
possuía, nesta Terra, todas as facilidades para dar à graça<br />
de Deus uma correspondência perfeita a todo<br />
momento. De maneira que n’Ela a grandeza<br />
natural e a grandeza sobrenatural entravam<br />
em uma fusão, em uma harmonia profunda e estupenda.<br />
Em consequência, a Santíssima Virgem estava<br />
dotada, como ninguém, de uma elevadíssima<br />
noção da glória e da santidade de Deus,<br />
da obrigação que têm todas as criaturas<br />
de darem glória a Deus; e, por causa<br />
disso, um altíssimo horror àquilo<br />
que o pecado representa. Donde uma<br />
combatividade acendrada, no sentido<br />
de execrar toda forma de mal.<br />
Compreendemos, assim, por que<br />
Nossa Senhora é comparada a um<br />
exército em ordem de batalha: castrorum<br />
acies ordinata 1 . E também a razão<br />
pela qual d’Ela se diz que, sozinha,<br />
esmagou todas as heresias em toda<br />
a Terra: é exatamente porque Maria<br />
Santíssima é o modelo da intransigência<br />
e da combatividade, virtudes estas que podemos<br />
compreender melhor através do privilégio<br />
de sua Conceição Imaculada.<br />
Ao comemorarmos, pois, a Imaculada Conceição<br />
de Maria, devemos pedir um altíssimo grau de<br />
amor que nos leve a querermos ser intransigentes de<br />
um modo insondável, a um ponto inconcebível.<br />
Lembro-me de Santa Teresinha do Menino<br />
Jesus manifestar, na “História de uma<br />
alma”, o pesar que ela sentia por não poder<br />
ser um guerreiro que, até nos confins<br />
da Terra, estivesse manejando a<br />
lança contra os inimigos de Deus. É<br />
assim a alma de um santo! Em todo<br />
lugar, quer verdadeiramente combater<br />
nas formas mais adequadas e legítimas<br />
do combate.<br />
Portanto, nós devemos pedir hoje esse<br />
lampejo de combatividade ligado à<br />
1) Cf. Ct 6, 10.<br />
Tito Alarcón<br />
Virgem do<br />
Apocalipse<br />
São Paulo,<br />
Brasil<br />
13
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
A admiração pelos<br />
conjuntos na Criação<br />
Chamado por Deus a contemplar, com particular acuidade,<br />
a ordem do universo, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> sempre cultivou grande<br />
entusiasmo pelos conjuntos das criaturas. Como transparece<br />
na presente conferência, esta sua admiração deu-lhe a<br />
capacidade de considerar, com profundidade e elevação, o papel<br />
que os diversos seres, mesmo os aparentemente defectivos,<br />
desempenham nos planos divinos.<br />
Ao discorrermos sobre a admiração, podemos começar<br />
por nos perguntar que relação existe entre<br />
ela e os mandamentos da Lei divina, o primeiro<br />
dos quais nos impõe a maravilhosa obrigação de<br />
amar a Deus sobre todas as coisas, ou seja, de adorá-Lo.<br />
Admiração: pressuposto do verdadeiro amor<br />
Amar a Deus sobre todas as coisas não significa apenas<br />
amá-Lo acima de tudo, mas em toda a proporção<br />
existente entre Ele e nós. Há em nós uma aptidão natural<br />
de amar que ainda é ampliada largamente pela graça,<br />
cuja ação aumenta muito essa capacidade de amar. E é,<br />
portanto, com toda esta dupla capacidade, natural e sobrenatural,<br />
de amar, com esse amor tornado assim dilatado<br />
e imenso, que devemos adorar a Deus.<br />
Agora, qual a relação entre amar e admirar? Evidentemente,<br />
para amar algo precisamos conhecê-lo e ter admiração<br />
por aquilo. A admiração é uma condição e um<br />
elemento do amor. Por exemplo, um filho tem um pai e<br />
uma mãe extremamente bons, e os ama muito. Mas por<br />
que os ama? Por serem seus pais, mas e também porque<br />
eles são extremamente bons. Primeiro os conheceu; depois,<br />
no conhecimento viu que eles são extremamente<br />
14
Ninguém é objeto de tanta<br />
admiração quanto esse<br />
Personagem nascido de<br />
Maria Virgem, sentado à direita<br />
de Deus Pai todo-poderoso,<br />
de onde presencia o<br />
desenrolar da História.<br />
Dario Iallorenzi<br />
Cristo Rei - Catedral de<br />
Ottawa, Canadá<br />
bons; em terceiro lugar, por isso os admirou: “Que coisa<br />
extraordinária!” E porque admirou, daí saiu o jato de<br />
ouro do amor.<br />
De maneira que amar a Deus sobre todas as coisas<br />
pressupõe admirá-Lo sobre todas as coisas. Donde se tira<br />
a consequência: não admirou, não amou.<br />
O Personagem mais admirado da História<br />
Há, portanto, uma obrigação das almas de serem largamente<br />
receptivas à admiração porque devem estar totalmente<br />
abertas para o amor de Deus.<br />
A História teve grandes personagens, alguns dos quais<br />
foram grandes facínoras; mas, de qualquer maneira, são<br />
personalidades que ocupam um papel importante no<br />
acontecer humano. Esses personagens foram tão eminentes<br />
porque possuíam esta ou aquela qualidade. Por<br />
isso, erguem-se monumentos em honra deles, fundam-se<br />
cidades com seus nomes e dão-se todas as provas de admiração<br />
que conhecemos.<br />
Ora, não há personagem histórico que tenha granjeado<br />
as provas de admiração que tem recebido Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo. Porque Ele está de tal maneira no centro<br />
da História, que não há uma personalidade que, tendo<br />
vivido há dois mil anos atrás, ainda tenha uma organização<br />
poderosa, forte, magnífica, como Ele tem para<br />
defendê-Lo e adorá-Lo, como é a Santa Igreja Católica.<br />
Ninguém é objeto de tanta admiração quanto esse<br />
Personagem nascido de Maria Virgem, e que está agora<br />
sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde<br />
presencia o desenrolar da História até a hora em que esta<br />
terminar e Ele descer, com pompa e majestade, para<br />
julgar os vivos e os mortos.<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo a perfeição extrema,<br />
as almas capazes de admirar O admiram com uma<br />
admiração que se deve chamar de adoração. E este amor<br />
é o fruto imediato e inseparável da admiração. De outro<br />
lado, também é impossível ao mal odiar uma pessoa tanto<br />
quanto O odeia, precisamente por ser Ele tão perfeito.<br />
A exemplo do Criador, admirar<br />
principalmente os conjuntos<br />
Deus criou todas as criaturas à sua imagem e semelhança,<br />
e por isso, todas elas, de algum modo, refletem a<br />
Deus. Assim, quem tem a alma feita para adorar a Deus,<br />
está apto também para admirar tanto as coisas maiores<br />
15
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
aussiegall<br />
Vicente Villamón<br />
Dan Kamminga<br />
Dario Sanches<br />
como as menores criadas por Ele, encantando-se ao contemplar<br />
o Sol, mas também ao olhar para a terra e ver<br />
um bichinho, por exemplo, uma “joaninha” com aquelas<br />
asas de cores diferentes.<br />
Uma pessoa precisa ter a alma feita de tal maneira<br />
que seja capaz, ao mesmo tempo, de meditar sobre Carlos<br />
Magno e entusiasmar-se; mas se está fazendo essa<br />
meditação num parque e vê, de repente, uma “joaninha”<br />
no chão, sabe parar e se embevecer com ela.<br />
Aliás, foi o exemplo que o próprio Criador nos deu. O<br />
Livro do Gênesis 1 conta que Ele, depois de ter criado todas<br />
as coisas, descansou vendo-as e considerando que cada<br />
qual era boa, mas — vem agora a palavra chave — o<br />
conjunto era melhor. Por conseguinte, a Criação foi feita<br />
não tanto para nós admirarmos um elemento ou outro,<br />
mas para termos essa forma de olhar que sabe captar os<br />
conjuntos, e no encantamento de contemplá-los, ver melhor<br />
o próprio Deus.<br />
Já tive a oportunidade de dizer que eu gosto muito<br />
de admirar, e o quanto admiro, por exemplo, o pavão.<br />
Por várias razões: o estilo, o jeito do pavão, seu ar régio,<br />
aquela verdadeira “joalheria” que ele tem em suas<br />
plumas; não há joalheiro que tenha elaborado uma joia<br />
comparável às penas do pavão. Mas eu devo ser tal que,<br />
se perto do pavão passar um tico-tico, eu saiba olhá-lo e<br />
ver nele o que há de encantador.<br />
Por que Deus criou seres<br />
feios e nocivos?<br />
Brian Ralphs<br />
Poder-se-ia perguntar: E as criaturas<br />
feias ou nocivas ao homem?<br />
Talvez alguns julguem exagerado o que<br />
vou dizer, pois isso depende muito do mo-<br />
Eva Rinaldi<br />
16
do de sentir de cada pessoa; mas um animal que considero<br />
feíssimo é o elefante. Aquela gordura, orelhas imensas<br />
e ridículas, aquelas pernonas cilíndricas com aquelas<br />
patas e, sobretudo, aquela pele medonha que parece um<br />
couro apodrecido, quase tudo no elefante causa repugnância.<br />
Só os dentes valem, e quanto valem! O marfim é<br />
uma coisa linda!<br />
Agora, como posso admirar o elefante,<br />
uma vez que — na minha ótica, pelo menos<br />
— este animal apresenta tantos aspectos rejeitáveis?<br />
É preciso reconhecer que quando Deus<br />
viu que o conjunto de suas criaturas era muito<br />
bom, considerava como fazendo parte desse<br />
conjunto o paraíso terrestre, mas também a<br />
Terra que Ele havia criado, na qual o paraíso<br />
estava encastoado. E Deus criou a Terra muito<br />
menos bonita, com os animais muito menos<br />
obedientes e com uns tantos ou quantos elefantes,<br />
minhocas ou porcos rolando de lá para cá,<br />
exatamente porque a Terra poderia vir a ser um lugar de<br />
exílio e de castigo para o homem.<br />
Portanto, a feiúra e a hostilidade de muitos dos bichos,<br />
e tudo quanto há de contrário aos seres humanos,<br />
merecem, por um lado, certa admiração — como no caso<br />
das presas do elefante —, contudo, por outro lado,<br />
devem ser objeto de uma repulsa. Mas, por causa disso,<br />
sempre têm alguma razão de beleza e de bondade, pois<br />
Deus não separa, em suas criaturas, o verum do bonum e<br />
do pulchrum 2 .<br />
Os animais feios e daninhos nos trazem à lembrança o<br />
pecado de nossos primeiros pais e o castigo por eles merecido.<br />
Não é verdade que a consideração do porco, refocilando-se<br />
na lama, pode ter dado a muita gente o horror<br />
à impureza?<br />
Monstros pré-históricos, rios de<br />
esmeralda, safira, rubi e diamante<br />
Uma pergunta que já me fiz foi sobre o papel dos animais<br />
pré-históricos na Criação.<br />
A meu ver, as ossadas desses seres são conhecidas<br />
para que o homem possa reconstituir, por meio de estudos<br />
científicos, como eram esses bichos, e compreender<br />
que muitas coisas do universo, o qual — por assim<br />
dizer — estava saindo das mãos de Deus, em determinado<br />
período de transição eram lindíssimas, de uma<br />
beleza que não se encontra mais. Outras, entretanto,<br />
eram feíssimas, de uma feiúra que também já não se<br />
encontra mais. E, portanto, o mundo tem uma proporção,<br />
uma estatura muito maior do que a do pobre homem<br />
que nele vive.<br />
Chip Clark<br />
Acima, da esquerda para a direita: safira, rubi e<br />
esmeralda. Abaixo, “Ruby Falls” - Tennessee, EUA<br />
Algumas vezes, indo à Itália — terra dos mármores<br />
soberbos! — fiz essas reflexões. Digamos que esses mármores<br />
tenham sido líquidos que se solidificaram com o<br />
passar do tempo. Imaginem um rio composto daquele<br />
material! É extraordinário! A esmeralda, o rubi, a safira,<br />
o brilhante, por exemplo, não serão o resultado de algo<br />
que outrora fora líquido? Que maravilha seria um rio feito<br />
dessas matérias preciosas!<br />
Fazendo essas considerações, o ser humano encontra<br />
melhores elementos para avaliar o poder, a sabedoria e a<br />
santidade de Deus.<br />
Jtesla16<br />
Robert Reisman<br />
17
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
Uma ideia errada sobre a plebe<br />
Temos, assim, a noção de como deve ser a admiração:<br />
ela pode e deve abranger tudo, e estar à altura de<br />
compreender e de voltar-se para todas as criaturas. Vemos,<br />
por exemplo, como um homem que escreva uma<br />
obra sobre a nobreza pode ficar encantado ao considerar<br />
a plebe, e desejar escrever também um livro a respeito<br />
dela.<br />
Alguém com mentalidade revolucionária poderia objetar:<br />
“A plebe, em geral, é pobre, e ainda que não seja<br />
indigente, miserável, é a última classe da sociedade. Portanto,<br />
é aquela na qual a beleza reluz menos, pois tem<br />
menos condições para se cercar de coisas bonitas. Daí<br />
decorre que a plebe parece ser o recanto da feiúra dentro<br />
do universo, devido às mesmas razões pelas quais a<br />
nobreza seria o recanto do belo. Os próprios seres humanos,<br />
postos num ambiente nobre, deixam ver mais a sua<br />
beleza do que inseridos num ambiente plebeu. Então, o<br />
que <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> vai admirar na pobreza?”<br />
Valores que são realçados na<br />
pobreza e simplicidade<br />
A resposta salta-me aos lábios: o Presépio de Belém.<br />
Imaginem o Menino Jesus — que foi com certeza de<br />
uma beleza incomparável, além de nobre, descendente<br />
do Rei Davi —, posto não no Presépio de Belém com o<br />
burrinho e o boizinho aquecendo-O com seu bafo, mas<br />
no mais belo palácio da Terra. Não é verdade que isso seria<br />
menos bonito do que no Presépio? E, portanto, não<br />
será que muitas coisas na plebe apresentam-se pobres e<br />
menos belas para que se realcem valores que ali aparecem<br />
e florescem? É preciso saber compreender isto.<br />
Por exemplo, a figura histórica de Santa Joana d’Arc.<br />
Heroína virginal que, quando a França feudal, a França<br />
do heroísmo e da virtude cavalheiresca jazia debaixo<br />
do pé conquistador da Inglaterra, foi suscitada num lugarejo<br />
muito humilde, cujo nome soa como um toque de<br />
sininho de aldeia: “Domremy”. Aquela virgem encantadora,<br />
em determinado momento, partiu e foi apresentar-<br />
-se ao Rei, dizendo ser enviada por Deus. Afinal de contas,<br />
o Rei a aceitou e a pôs à frente de um exército que,<br />
na sua debilidade virginal e encantadora, ela comandou,<br />
empurrando os ingleses quase completamente para fora<br />
da França.<br />
Era uma pastora chamada a brilhar na corte de um rei,<br />
uma virgem convocada a viver num campo militar onde,<br />
infelizmente, tantas e tantas vezes a linguagem e os costumes<br />
não são puros. Entretanto, ela ali reluzia como um<br />
círio de cera puríssima em plena noite. Não é mais bonito<br />
que ela tenha sido uma pastorinha ao invés de filha de<br />
um príncipe?<br />
Victor Toniolo<br />
Gustavo Kralj<br />
Santa Joana d’Arc comanda uma batalha - Museu<br />
Hermitage, São Petersburg (Rússia); Em destaque,<br />
estátua equestre da mesma Santa - Paris, França<br />
18
Imaginem o Menino Jesus –<br />
de uma beleza incomparável,<br />
além de nobre, descendente<br />
do Rei Davi – posto no<br />
mais belo palácio da Terra.<br />
Isso não seria menos bonito<br />
do que no Presépio?<br />
Victor Toniolo<br />
Tomer T.<br />
Uma tulipa negra...<br />
Lembro-me de uma coisa que me causou<br />
grande impressão no espírito: eu tinha<br />
visto fotografias de campos cobertos<br />
por tulipas com diversas cores,<br />
e, como todo mundo, achava muito<br />
bonito, mas não sabia que existissem<br />
tulipas pretas.<br />
Certa vez, viajando por Paris,<br />
quando eu já estava saindo da ci-<br />
dade, o automóvel em que me encontrava passou por<br />
uma lojinha na qual havia, em uma das vitrines, um pequeno<br />
vaso com tulipas. Olhei e percebi um jogo de cores<br />
que me chamou a atenção. Fixei a vista e notei tratar-<br />
-se de tulipas de várias cores, entre as quais uma negra.<br />
Embora não tivesse a alegria das outras flores, dava um<br />
contraste e uma nota de elegância a tudo, que realçava a<br />
beleza do conjunto.<br />
Se tivesse tempo, eu teria descido para comprar o vasinho<br />
com as tulipas para mandar tirar fotografias, segundo<br />
as diretrizes que eu desse,<br />
porque constituiria uma bela ilustração<br />
de certas teses minhas. Ou<br />
seja, aquilo que no universo criado<br />
por Deus parece ser feio, muitas<br />
vezes é bonito, considerado em<br />
função do conjunto da Criação.<br />
Assim se forma o entusiasmo<br />
pelo universo criado, e explica-se<br />
melhor a capacidade que o espírito<br />
humano tem de admirá-lo. v<br />
(Extraído de conferência<br />
de 3/2/1993)<br />
1) Cf. Gn 1, 31.<br />
2) Do latim: verdadeiro, bom, belo.<br />
Referência a três transcendentais do<br />
ser, estudados em Filosofia.<br />
19
Reflexões teológicas<br />
François Boulay<br />
A Sagrada Família e os pastores<br />
na Gruta de Belém - Oratório<br />
São José, Montreal (Canadá)<br />
20
Meditação sobre<br />
o Natal - I<br />
Em épocas de decadência, a ânsia pelos prazeres lança<br />
no desvario as pessoas que buscam neles a finalidade de<br />
suas vidas. No Presépio de Belém, o Menino-Deus nos dá<br />
três lições fundamentais para alcançarmos a santidade.<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> as medita, na primeira parte desta sua<br />
conferência, seguindo a escola de Santo Inácio de Loyola.<br />
Estamos nas festividades que lembram a infância<br />
de Nosso Senhor Jesus Cristo, das quais a principal<br />
é o Natal, e dentro de cuja atmosfera se<br />
passam todas as outras. Assim, parece-me muito apropriado<br />
meditarmos hoje sobre o Natal.<br />
Vou apresentar duas meditações distintas para depois<br />
perguntar que modo de considerar o Santo Natal lhes fala<br />
mais, porque eu gostaria de analisar como se comportam<br />
os espíritos nas gerações que sucederam a minha.<br />
A primeira meditação tem uma altíssima autoridade,<br />
pois é tirada de Santo Inácio de Loyola.<br />
A sede de delícias, riquezas e honras<br />
Nos períodos de decadência, como era a época em<br />
que Nosso Senhor nasceu, os homens, em sua grande<br />
maioria, vivem para si e não para Deus, e o egoísmo deles<br />
propende para um destes três objetivos: delícias, riquezas<br />
e honras.<br />
Como delícias, Santo Inácio entende todos os prazeres<br />
que os sentidos podem dar. Primeiramente, os prazeres<br />
sensuais, mas também os da degustação, da vista, do<br />
olfato, do ouvido, enfim, tudo quanto a vida de luxo possa<br />
proporcionar de agradável, de gostoso.<br />
Por riquezas ele entende a simples posse do dinheiro.<br />
É a avareza daqueles que procuram o dinheiro, não por<br />
causa dos prazeres que este pode trazer, pois neste caso<br />
o que os move é a sede dos prazeres para cuja obtenção<br />
o dinheiro é apenas um meio. Mas são aqueles que têm<br />
a mania do dinheiro, querem ser ricos por serem ricos,<br />
mesmo sem tirar muito proveito de suas fortunas, e vivem,<br />
às vezes, de um modo muito obscuro, apagado, banal,<br />
e até miserável, para terem a alegria de se sentirem<br />
continuamente de posse de uma grande quantia.<br />
Depois há os prazeres da honra: pessoas que não procuram<br />
tanto o dinheiro nem a vida agradável quanto a<br />
consideração dos outros. Querem ser objeto de grandes<br />
homenagens, de grandes atenções, de grandes reverências,<br />
procuram o prestígio.<br />
Esta classificação é perfeitamente bem feita. Em última<br />
análise, o egoísmo dos homens tem um desses três<br />
objetos, e todos poderão notar em torno de si — e talvez<br />
em si mesmos, fazendo um exame da consciência — que<br />
se cada um se deixasse levar pelas próprias inclinações,<br />
correria atrás de uma dessas três coisas.<br />
Alguém me dirá: “Mas <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, esta classificação está<br />
muito esquemática, porque uma pessoa pode ir atrás das<br />
três coisas ao mesmo tempo: gostar muito do dinheiro, das<br />
delícias e do prestígio.” É verdade, mas é próprio ao espírito<br />
humano, necessariamente, que a pessoa goste de uma<br />
dessas coisas muito mais do que das outras, a ponto de, tendo<br />
experimentado todas, acabar se fixando numa delas e fa-<br />
21
Reflexões teológicas<br />
zendo desta a finalidade<br />
de sua vida. Como<br />
ensina São Tomás<br />
de Aquino, há uma coesão<br />
no ser humano<br />
pela qual este é levado<br />
também a possuir<br />
uma unidade de objetivo;<br />
e quando um<br />
homem não procura<br />
a Deus como<br />
seu fim último,<br />
acaba buscando<br />
sua finalidade<br />
em um desses<br />
três prazeres.<br />
Uma<br />
meditação para um<br />
católico coerente<br />
Santo Inácio considera como<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo veio<br />
ao mundo para provar aos homens<br />
que esses prazeres não<br />
valem nada. Evidentemente,<br />
esta prova só vale para os católicos,<br />
pois tem como ponto<br />
de partida a convicção de<br />
que Nosso Senhor Jesus Cristo<br />
é Homem-Deus e que, portanto,<br />
toda lição dada por Ele é<br />
infinitamente sábia e verdadeira.<br />
Um ateu não aceitaria essa prova.<br />
Mas como fazer uma meditação<br />
de Natal para um ateu, uma<br />
vez que ele nega os pressupostos<br />
do Natal?<br />
Esta é, portanto, uma meditação<br />
para um católico. Não<br />
para um católico qualquer, mas<br />
para um católico com algum<br />
fervor, capaz de se impressionar,<br />
pelo menos em alguma<br />
medida, com as coisas da Religião.<br />
Os exercícios espirituais<br />
inacianos supõem um<br />
católico que tenha a possibilidade<br />
de se sensibilizar pelos temas da Religião,<br />
algum desejo de ser coerente com sua<br />
Fé, de maneira a tirar dos princípios religiosos<br />
consequências para seu procedimento,<br />
e que considera insuportável<br />
haver incoerência entre sua própria<br />
conduta e sua Fé.<br />
O Criador de todas<br />
as riquezas quis<br />
nascer pobre<br />
Santo Inácio começa<br />
por perguntar<br />
de que valem as riquezas<br />
deste mundo.<br />
Afinal de contas,<br />
Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo, a Segunda Pessoa<br />
da Santíssima Trindade,<br />
sendo Deus, criou o Céu<br />
e a Terra, porque as operações divinas<br />
são conjuntas da Santíssima<br />
Trindade, e por isso foram as três<br />
Pessoas da Santíssima Trindade<br />
conjuntamente que criaram o<br />
universo com todas as riquezas<br />
que ele contém.<br />
Portanto, tudo quanto há<br />
na Terra de maravilhoso e capaz<br />
de fundamentar a prosperidade<br />
de um homem, foi<br />
Deus que criou. Ninguém<br />
pode ter uma riqueza comparável<br />
à d’Ele que, além<br />
de ter criado todas as riquezas<br />
existentes, possui o<br />
poder inesgotável de criar<br />
quantas queira, e sem o<br />
menor esforço, porque é<br />
onipotente e exerce sua<br />
onipotência com uma<br />
Presépio de Belém<br />
Valladolid, Espanha<br />
22
perfeitíssima facilidade. Basta olharmos as estrelas do<br />
céu para compreendermos que riqueza representa cada<br />
uma delas, e entendermos com que facilidade Deus cria<br />
tudo. Ademais, Ele é rico na sua essência, muito mais do<br />
que simplesmente por aquilo que criou.<br />
Ora, esse Deus infinitamente rico quis vir à Terra como<br />
pobre. Ele quis ter como pai jurídico um carpinteiro;<br />
quis nascer de uma mãe que, como qualquer outra, executava<br />
serviços domésticos; quis ser deitado numa manjedoura,<br />
ou seja, no lugar mais pobre que se possa imaginar,<br />
tendo como aquecimento apenas o bafo de alguns<br />
animais e as roupinhas feitas por Nossa Senhora para<br />
Ele; e por asilo, não uma residência de homens, mas de<br />
bichos, porque a gruta onde Ele nasceu era o lugar aonde<br />
os animais iam para comer. Aí que nasceu o Verbo de<br />
Deus! Ele quis mostrar, desse modo, o quanto o homem<br />
deve ser indiferente às riquezas quando se trata de compará-las<br />
com o serviço de Deus, e, portanto, deve viver<br />
antes de tudo não para ser rico ou ter grandes cabedais,<br />
mas para servir, amar e louvar a Deus nesta Terra, para<br />
depois adorá-lo no Céu por toda a eternidade.<br />
Suponhamos o homem mais rico do mundo cuja<br />
relação dos bens ocupasse um catálogo do<br />
tamanho de uma lista telefônica. O<br />
que seria isso em comparação com<br />
Deus Nosso Senhor? Absolutamente<br />
nada!<br />
Então, todos esses homens<br />
que correm desenfreadamente<br />
atrás do dinheiro,<br />
fazendo da obtenção da<br />
fortuna a única preocupação<br />
de suas vidas, e das conversas<br />
sobre finanças<br />
seu tema predileto;<br />
que colocam toda a felicidade na ideia de possuírem<br />
dinheiro e nunca ficarem pobres; esses homens procedem<br />
como verdadeiros insensatos, pois calcam aos pés<br />
e não compreendem a lição que Nosso Senhor Jesus Cristo<br />
nos deu no presépio: que o homem pode desejar adquirir<br />
e conservar as riquezas, desde<br />
que não faça disso o objetivo<br />
supremo de sua vida, mas sim<br />
a glória de Deus e, portanto,<br />
a glória da Igreja Católica.<br />
Lourdes Cardenal<br />
23
Reflexões teológicas<br />
Michael Rieser<br />
Renunciar às delícias pela glória<br />
de Deus e por amor às almas<br />
Quanto às delícias, se Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse,<br />
teria mandado reunir no Presépio as sedas mais deliciosas<br />
do universo, ordenado aos Anjos introduzirem no<br />
lugar onde Ele nasceu os perfumes mais agradáveis, poderia<br />
ter para ouvir uma música mais agradável do que todas<br />
as melodias existentes na Terra, porque se os Anjos cantaram<br />
para os pastores ouvirem, quanto mais cantariam para<br />
o Menino Jesus! E não há música terrena que, de longe,<br />
se possa comparar à música angélica. O Menino Jesus<br />
poderia ter tido agasalhos supereficazes, ter sido nutrido<br />
desde o começo pelas melhores comidas que há no mundo,<br />
em uma palavra, Ele poderia ter-Se enchido de delícias<br />
logo no primeiro momento de sua vida terrena.<br />
O que Ele fez foi o contrário: quis nascer deitado sobre<br />
palha, material cujo contato não dá nenhum regalo para o<br />
corpo. Ele quis estar num estábulo, onde o cheiro normalmente<br />
não é bom, por mais que Nossa Senhora e São José<br />
tenham limpado o local antes. Ele quis estar tiritando de<br />
frio, nascendo à meia-noite de um mês em que, na região<br />
onde Ele nasceu, é inverno. E quis ter como música apenas<br />
o mugido dos animais que estavam junto a Ele.<br />
Portanto, o oposto de todas as delícias que se possam<br />
imaginar. Ele quis assim para mostrar aos homens o quanto<br />
é uma loucura fazer das delícias a principal finalidade<br />
da vida. Desde que seja para o bem das almas e para a<br />
glória de Deus, devemos nos desfazer de todas as delícias,<br />
procurando apenas aquilo que possa favorecer a causa católica,<br />
embora com muito sacrifício e com muita renúncia.<br />
A loucura da vaidade<br />
O que vem a ser o desejo de honras? Segundo esta concepção<br />
de Santo Inácio, é o fato de alguém procurar ser<br />
objeto de reverências por possuir qualidades superiores<br />
aos outros, como por exemplo, ser mais inteligente, mais<br />
jeitoso, mais engraçado, mais diplomático, mais interessante,<br />
mais simpático, ou por qualquer outro predicado<br />
que a pessoa tenha ou imagina ter. Por causa disso julga-<br />
-se no direito de receber dos demais uma atenção especial.<br />
Por vezes, tal é a miséria humana que o homem se<br />
envaidece até das coisas próprias a não causar vaidade.<br />
Conta-se que o famoso São Paulo Eremita, tendo ficado<br />
muito velho e vivendo sozinho no deserto, em certo<br />
momento considerou que ele seria, provavelmente, o homem<br />
mais velho da Terra. Ora, o homem mais velho da<br />
Terra é o que está mais perto da sepultura, num estado<br />
físico — e às vezes mental, também — em maior desagregação.<br />
Realmente, não dava para ficar vaidoso!<br />
Entretanto, ele teve que lutar contra a tentação de pensar:<br />
“Ah, eu sou hoje o homem mais velho, o maior ancião<br />
de toda a Terra!” Se ao menos se julgasse a pessoa<br />
mais madura, que atingiu, embora efemeramente, o ponto<br />
de maior conciliação entre o que a idade pode dar e a<br />
juventude conservar, já seria errado, mas haveria um fragmento<br />
de lógica dentro disso. Mas envaidecer-se por ser<br />
o mais velho da Terra, é simplesmente um disparate! Mas<br />
até com isso um homem pode ser tentado a ter vaidade.<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo quis nascer despido de tudo<br />
o que pode envaidecer. É fato que Ele era príncipe<br />
da Casa de Davi, mas é fato também que veio ao mundo<br />
tendo por Pai jurídico um carpinteiro; nasceu, como<br />
eu dizia, de uma Mãe que fazia serviços domésticos, numa<br />
época em que a Casa de Davi tinha perdido seu poder<br />
político, seu prestígio social, seu dinheiro, e em que<br />
Ele não era absolutamente nada na ordem terrena das<br />
coisas. E nasceu como um pária, fora da cidade, porque<br />
nesta ninguém quis dar abrigo a seus pais. Eles iam de<br />
casa em casa pedindo lugar, mas não havia hotéis, hospedarias,<br />
e não os acolheram. Ele quis nascer numa manjedoura<br />
para provar até que ponto são loucos aqueles que<br />
conservam uma ideia fixa de parecer mais do que os outros;<br />
e que ao invés de procurarem servir a causa católica,<br />
fazem dessa vaidade o fim de suas vidas.<br />
Aplicações à vida espiritual<br />
Maria e José chegam à Gruta de Belém<br />
Palácio Doroteu, Viena (Áustria)<br />
O modo pelo qual um católico deve aproveitar esses raciocínios<br />
é fazer uma aplicação aos outros. Quando ele vê<br />
24
Franzfoto<br />
Adoração dos pastores ao Menino Jesus - Museu dos Presépios, Oberstadion (Alemanha)<br />
que alguém, que não vive segundo a Lei e para a glória de<br />
Deus, mas exclusivamente para sua própria vantagem —<br />
tal amigo da família, tal vizinho, tal colega de profissão —,<br />
que tem prestígio ou que leva uma vida deliciosa, ou que<br />
possui muito dinheiro, se ele tiver a tendência de admirar<br />
aquele homem só por isso, ele deve dizer:<br />
“Não, este procedimento é censurado por Nosso Senhor<br />
no Evangelho. Nosso Senhor, que é Rei e a Sabedoria<br />
eterna, ensinou o contrário. Essas coisas são secundárias<br />
e esses indivíduos, pondo nelas todo o empenho de<br />
suas vidas, agem de um modo irracional e serão condenados<br />
por causa disto no último dia. Pelo contrário, bem-<br />
-aventurados serão aqueles que renunciarem à riqueza,<br />
aos prazeres, às honras; ou tiverem riquezas, prazeres e<br />
honras, mas sempre na disposição de renunciar a qualquer<br />
minuto se a causa católica assim o pedisse. A esses,<br />
do partido da renúncia, eu vou admirar; aos outros vou<br />
desprezar, não vou me permitir ter admiração por uma<br />
pessoa que não vive como deveria viver.”<br />
Depois aplicar a si mesmo também. Nas relações com<br />
os outros, o que eu procuro? Ser considerado pela minha<br />
riqueza, pela vida regalada que levo, por algum título<br />
de superioridade que eu tenha? Então, não valho nada,<br />
porque eu devo almejar não que os outros me considerem,<br />
mas que amem a Deus; encaminhá-los para o amor<br />
de Deus, e não fixar a atenção sobre mim, pois senão estarei<br />
roubando aquilo que é devido a Deus. Devo apenas me<br />
preocupar com a dedicação inteira de minha alma a Nosso<br />
Senhor, a Nossa Senhora e à Santa Igreja Católica.<br />
Necessidade da oração<br />
Então, segundo a escola de Santo Inácio, que é uma<br />
escola verdadeira, nós devemos ter, dia e noite, essas considerações<br />
diante dos olhos, e eliminar de nossas almas,<br />
com energia como quem arranca a erva daninha, as considerações<br />
mundanas que levam a adorar o dinheiro, os prazeres<br />
e as honras.<br />
Isto supõe, naturalmente, muita oração, porque o homem<br />
não cumpre este propósito de pensar sempre nisso<br />
apenas com um ato de força de vontade. Este é um pensamento<br />
tantas vezes penoso para o homem, que ele tem<br />
dificuldade de tê-lo sempre em vista. E mesmo que o tenha,<br />
sentirá muita dificuldade de renunciar a esses prazeres.<br />
Ele necessita de oração, da graça, ele precisa mortificar-se<br />
para conseguir fazer isto. Mas se agir por esta forma,<br />
ele conseguirá e assim poderá agradar a Deus.<br />
Então, o programa é ter esta meditação diante dos<br />
olhos e orientar as suas orações, o seu Rosário, a sua Comunhão,<br />
sobretudo as Missas a que assista, os atos de piedade<br />
ou de apostolado que faça; deve orientar tudo segundo<br />
esta ideia: desapegado do dinheiro, dos prazeres e das<br />
honras.<br />
Aqui está uma meditação feita segundo a escola de<br />
Santo Inácio de Loyola.<br />
v<br />
(Continua no próximo número)<br />
(Extraído de conferência<br />
de 29/12/1973)<br />
25
Gustavo Kralj<br />
C<br />
alendário<br />
dos Santos – ––––––<br />
1. I Domingo do Advento.<br />
Beato Casimiro Sykulski, <br />
presbítero e mártir (†1941).<br />
Sacerdote polonês fuzilado<br />
no campo de extermínio<br />
de Auschwitz por proclamar<br />
com firmeza sua fé.<br />
2. Beata Mariângela Astorch,<br />
abadessa (†1665). Religiosa<br />
Clarissa de Múrcia,<br />
Espanha. Foi conselheira<br />
tanto de religiosos quanto de<br />
leigos.<br />
3. São Francisco Xavier, <br />
presbítero (†1552). Jesuíta,<br />
companheiro de Santo Inácio<br />
e evangelizador da Índia e<br />
de diversas ilhas da Ásia, incluindo<br />
o Japão. Morreu na<br />
ilha de San Xon, China, consumido<br />
pela enfermidade e<br />
trabalhos.<br />
4. São João Damasceno, <br />
presbítero e Doutor da Igreja<br />
(†c. 749).<br />
Santo Ambrósio<br />
São João Calábria,presbítero<br />
(†1954). Fundador das<br />
Congregações dos Pobres Servos e das Pobres Servas da<br />
Divina Providência, em Verona, Itália.<br />
5. Beato Bartolomeu Fanti,presbítero (†1495). Religioso<br />
carmelita de Mântua, Itália, que infundiu nos corações<br />
dos fiéis o amor a Deus e a devoção a Maria.<br />
6. São Nicolau, bispo (†séc. IV).<br />
Santo Obício,penitente (†1204). Após ter uma visão<br />
do inferno que o convenceu da vaidade do mundo, abandonou<br />
a carreira militar e tornou-se oblato beneditino no<br />
mosteiro de Santa Júlia, em Bréscia, Itália.<br />
7. Santo Ambrósio,bispo e Doutor da Igreja (†397).<br />
Santo Atenodoro,mártir (†c. 304). Torturado com fogo<br />
e outros suplícios, no tempo de Diocleciano, na Síria.<br />
8. II Domingo do Advento. Imaculada Conceição da<br />
Bem-Aventurada Virgem Maria. Ver página 10.<br />
Santa Narcisa de Jesus Martillo Morán,virgem<br />
(†1869). Jovem costureira equatoriana que, após uma vida<br />
de intensa oração e penitência, foi admitida na vida comunitária<br />
no convento dominicano do Patrocínio, em Lima,<br />
Peru.<br />
9. São João Diego Cuauhtlatoatzin(†1548).<br />
Beato Bernardo Maria de Jesus Silvestrelli,presbítero<br />
(†1911). Superior geral dos passionistas falecido em Moricone,<br />
Itália. Empenhou-se no crescimento e expansão da<br />
Congregação.<br />
10. São Lucas de Isola,bispo (†1114). Dedicou-se infatigavelmente<br />
aos pobres da sua diocese de Isola di Capo<br />
Rizzuto, Itália, e à formação dos monges. Morreu no mosteiro<br />
de São Nicolau de Viotorito, na Calábria.<br />
11. São Dâmaso I, Papa (†384).<br />
Santa Maria Maravilhas de Jesus,virgem (†1974). Religiosa<br />
carmelita, filha do marquês de Pidal, embaixador<br />
da Espanha junto à Santa Sé. Fundou vários mosteiros na<br />
Espanha e na Índia.<br />
12. Nossa Senhora de Guadalupe,padroeira da América<br />
Latina.<br />
Beato Pio Bartosik,presbítero e mártir<br />
(†1941). Sacerdote franciscano falecido<br />
no campo de concentração de Auschwitz,<br />
Polônia, após passar por vários tormentos.<br />
13. Santa Luzia,virgem e mártir<br />
(†c. 304/305).<br />
São Giudoco,presbítero<br />
(†c. 669). Filho do rei de<br />
Armórica (atual Bretanha,<br />
França), abandonou<br />
sua pátria e seus bens para<br />
ser ordenado sacerdote. Mais tarde<br />
tornou-se eremita.<br />
14. São João da Cruz,presbítero<br />
e Doutor da Igreja (†1591). Sacerdote<br />
carmelita que, aconselhado<br />
por Santa Teresa, empreendeu a<br />
reforma na obra. Faleceu em Úbeda,<br />
Espanha.<br />
15. III Domingo do Advento.<br />
Santo Estêvão<br />
26
–––––––––––––– * Dezembro * ––––<br />
Beato Carlos Steeb,presbítero (†1856). Nascido em Tubinga,<br />
Alemanha, tornou-se sacerdote em Verona, Itália,<br />
onde fundou o Instituto das Irmãs da Misericórdia.<br />
16. Santa Adelaide, imperatriz (†999). Ver página 28.<br />
17. Santa Vivina,abadessa (†1170). Primeira<br />
abadessa do mosteiro de Grand-Bigard,<br />
na Bélgica, sob a direção do abade de<br />
Affligem.<br />
24. Santa Paula Elizabeth Cerioli,viúva (†1865). Depois<br />
da morte de seu marido e filhos, fundou os Institutos<br />
das Irmãs e dos Irmãos da Sagrada Família, em Virgílio,<br />
Itália.<br />
25. Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
Beato Bentivoglio de Bonis,presbítero (†1232).<br />
Religioso franciscano, que na juventude conheceu<br />
São Francisco de Assis. Foi exímio pregador e<br />
muito procurado como confessor.<br />
18. Beata Nemésia Valle,virgem (†1916).<br />
Religiosa da Congregação das Irmãs da Caridade,<br />
nomeada mestra de noviças da Casa Provincial,<br />
em Borgaro, Itália.<br />
19. São Francisco Xavier Hà Trong<br />
Mâu e companheiros,mártires<br />
(†1838). Terciário dominicano e catequista<br />
estrangulado junto com seus<br />
companheiros em Bac-Ninh, Vietnã, por<br />
negar-se a pisar numa cruz.<br />
20. São Zeferino,Papa (†217/218).<br />
Governou a Igreja por 18 anos, tendo<br />
por auxiliar o diácono São Calisto. Seu<br />
pontificado foi marcado pela luta contra<br />
as heresias a respeito da Santíssima<br />
Trindade.<br />
21. São Pedro Canísio,presbítero e<br />
Doutor da Igreja (†1597). Sacerdote jesuíta<br />
enviado à Alemanha, dedicou-se<br />
em defender a Fé Católica e a confirmá-la<br />
com a pregação e escritos até sua<br />
morte em Friburgo, Suíça.<br />
Santa Luzia<br />
22. IV Domingo do Advento.<br />
Santa Francisca Xavier Cabrini,virgem (†1917). Fundadora<br />
do Instituto das Irmãs Missionárias do Sagrado<br />
Coração de Jesus, em Codogno, Itália. Viajou para Nova<br />
York, USA, onde se dedicou especialmente a socorrer os<br />
imigrantes necessitados.<br />
santiebeati.it<br />
26. Santo Estêvão,diácono e protomártir.<br />
Beatas Inês Phila, Lúcia Khambang e<br />
companheiras, mártires (†1940). Por se recusarem<br />
a negar a Fé Católica, foram fuziladas<br />
no cemitério de Song-Khon, Tailândia.<br />
27. São João,Apóstolo e Evangelista.<br />
Ver página 2.<br />
Santa Fabíola, viúva (†400). De família<br />
nobre romana, aplicou suas riquezas<br />
em favor dos pobres, fundou um hospital<br />
e dedicou-se a uma vida de orações e penitência.<br />
28. Santos Inocentes, mártires.<br />
São Gaspar del Búfalo,presbítero<br />
(†1837). Foi exilado de Roma por recusar<br />
o juramento de fidelidade ao regime<br />
de Napoleão. Fundou as Congregações de<br />
Missionários e de Irmãs do Preciosíssimo<br />
Sangue.<br />
29. Domingo. Festa da Sagrada Família,<br />
Jesus, Maria e José.<br />
São Tomás Becket, bispo e mártir (†1170).<br />
30. São Perpétuo de Tours,bispo (†491). Edificou a Basílica<br />
de São Martinho, em Tours, França, repartiu seus<br />
bens com os pobres e restabeleceu em sua Igreja a prática<br />
de jejuns e vigílias.<br />
23. São João Câncio,presbítero (†1473).<br />
São Torlaco de Skálholt,bispo (†1193). Recebeu a ordenação<br />
sacerdotal aos 19 anos. Nomeado Bispo de Skálholt,<br />
Islândia, dedicou-se à renovação moral do Clero e<br />
do povo.<br />
31. São Silvestre I, Papa (†335).<br />
São Mário,bispo (†594). Sendo Bispo de Aventicum<br />
(atual Avenches, Suíça), transferiu sua Sé para Lausanne,<br />
onde edificou muitas igrejas e foi defensor dos pobres.<br />
27
Hagiografia<br />
Santa Adelaide:<br />
pecadora<br />
Ralph Hammann Botaurus<br />
Santa Adelaide - Igreja Santo Estêvão,<br />
Alsácia (França). Ao fundo, ruínas do<br />
Castelo de Canossa, por Friedrich Preller<br />
(pintura a óleo) - <strong>Dr</strong>esden, Alemanha<br />
28
por natureza,<br />
imperatriz pela graça<br />
Geralmente tem-se a ideia de que uma santa sempre se<br />
conforma com a situação na qual se encontra, por pior que seja,<br />
e nunca ousa enfrentar as dificuldades com heroísmo. Bem<br />
o contrário disso, Santa Adelaide empregou todos os meios<br />
legítimos para libertar-se do jugo em que se achava.<br />
N<br />
o dia 16 de dezembro celebra-se a memória de<br />
Santa Adelaide, Imperatriz, a respeito da qual<br />
Omer Engerbert, na “Vida dos Santos”, diz o<br />
seguinte 1 :<br />
Esposa do Imperador Oto I<br />
Santa Adelaide foi uma maravilha de graça e de beleza,<br />
segundo escreveu Santo Odilon de Cluny, que foi seu diretor<br />
espiritual e biógrafo.<br />
Filha de Rodolfo II, Rei da Borgonha, nasceu em 931,<br />
casando-se aos 15 anos com Lotário II, Rei da Itália. A<br />
filha deste casamento foi, mais tarde, Rainha da França.<br />
Adelaide tinha 18 anos quando seu marido morreu, segundo<br />
se crê envenenado por seu rival Berengário. Este, em breve,<br />
proclamou-se Rei da Itália e ofereceu a mão de seu filho<br />
à viúva de sua vítima. Recusando-se Adelaide a fazerlhe<br />
a vontade, Berengário apoderou-se de seus Estados<br />
e conservou-a presa no castelo de Garda. Aí ela sofreu os<br />
maiores ultrajes, mas ninguém conseguiu demovê-la.<br />
Conseguindo fugir, dirigiu-se ao castelo de Canossa,<br />
propriedade da Igreja. Dessa fortaleza inexpugnável enviou<br />
um apelo a Oto I, Rei da Germânia, que correu em seu<br />
auxílio com um poderoso exército. Cingiu ele a coroa da<br />
Itália em Pavia, e foi mais tarde sagrado Imperador em<br />
Roma. E casou-se com Adelaide. O filho desse segundo<br />
casamento, Oto II, sucedeu seu pai e, a princípio, revoltouse<br />
contra sua mãe. Temendo pela vida, ela refugiouse<br />
na Borgonha. Foi então que conheceu Santo Odilon,<br />
e espalhou benefícios pelos mosteiros franceses. Mais<br />
tarde, voltando à Alemanha, mandou ao túmulo de São<br />
Martinho o mais rico dos mantos usado por seu filho, já<br />
então arrependido.<br />
“Quando chegardes ao túmulo do glorioso São Martinho<br />
— escreveu ela àquele a quem encarregara dessa missão —<br />
dizei: ‘Bispo de Deus, recebei esses humildes presentes de<br />
Adelaide, serva dos servos de Deus, pecadora por natureza,<br />
imperatriz pela graça. Recebei também esse manto de Oto,<br />
seu filho único, e vós, que tivestes a glória de cobrir com<br />
vosso próprio manto Nosso Senhor na pessoa de um pobre,<br />
orai por ele.”<br />
Logo que pressentiu chegar o seu fim, Adelaide se fez<br />
transportar a um mosteiro para morrer e repousar junto ao<br />
túmulo de Oto, o Grande, seu segundo marido.<br />
29
Hagiografia<br />
Stebunik<br />
Encarcerada, consegue<br />
fugir da prisão<br />
Vemos aqui um outro<br />
tipo de iluminura<br />
medieval. Não é<br />
mais a da santa que<br />
vive no convento,<br />
portanto, no recolhimento<br />
e na paz<br />
do claustro, mas a<br />
da heroína. A Idade<br />
Média é fecunda<br />
em heróis e heroínas<br />
que passam<br />
pelas maiores aventuras,<br />
pelos maiores ris-<br />
Santo Odilon<br />
cos, e não têm nenhum<br />
ideal de segurança social,<br />
de aposentadoria, mas querem e<br />
veem no risco, na luta, na incerteza — quando a serviço<br />
de uma causa elevada, em defesa de direitos efetivos e<br />
legítimos —, algo que dá à vida o seu sentido.<br />
A existência de Santa Adelaide foi uma sucessão de<br />
altos e baixos. Era filha de Rodolfo II, Rei da Borgonha,<br />
e casou-se com Lotário II, Rei da Itália; teve uma filha<br />
que foi Rainha da França. Quando a santa tinha 18 anos,<br />
seu marido morreu, e Berengário, ao que parece, havia<br />
mandado envenená-lo.<br />
Este se proclamou Rei da Itália e quis que ela se casasse<br />
com um filho dele. Ela deveria,<br />
portanto, contrair matrimônio<br />
com o filho do assassino do seu próprio<br />
esposo; teria uma vida fácil,<br />
agradável, e certamente não sofreria<br />
o que sofreu. Tendo ela recusado,<br />
foi encarcerada e durante muito<br />
tempo ficou exposta aos piores ultrajes.<br />
Mas, de repente, fugiu.<br />
Como me agrada a fuga dessa<br />
santa! Como isso é diferente da<br />
ideia que habitualmente se faz de<br />
uma bem-aventurada! Segundo essa<br />
concepção, a santa presa fica sentada<br />
de lado, chorando, pensando<br />
em tudo, menos em fugir, e incapaz<br />
de fazê-lo; ela tem dificuldade<br />
em se mover, e não tem esperteza<br />
nenhuma, não sabe iludir os carcereiros,<br />
nem ter um gesto hábil para<br />
pular um obstáculo qualquer e sair<br />
correndo.<br />
Axel Mauruszat<br />
Imperador Otto I<br />
Inocência da pomba e astúcia da serpente<br />
Mas essa é uma santa diferente. Infelizmente, o autor<br />
não nos conta como foi sua fuga. É uma santa que corresponde<br />
à imagem verdadeira dos santos, e não a essa<br />
figura caricaturada que eu fiz. O santo tem a virtude da<br />
fortaleza e a da prudência. E com fortaleza e prudência<br />
a pessoa foge de todos os lugares de onde deve e possa<br />
fugir. Santa Adelaide, portanto, precisava fugir do lugar<br />
onde estava presa, desde que materialmente fosse possível.<br />
Ela foge, e assim liberta-se do tremendo jugo em que<br />
se encontrava.<br />
Entretanto, ela soube para onde fugir, porque em vez<br />
de ir para um lugar qualquer, dirigiu-se para Canossa, a<br />
terrível fortaleza da Idade Média, a qual se tornou ilustre<br />
pelo fato de que São Gregório VII ali recebeu Henrique<br />
IV, que lhe foi beijar os pés, pedindo-lhe perdão. Canossa<br />
era um feudo da Igreja e, por isso, não podia ser invadido<br />
por um soberano temporal. Santa Adelaide ali estava,<br />
portanto, inteiramente tranquila; ela não só sabia fugir,<br />
mas também onde refugiar-se. Era boa política; tinha<br />
a inocência da pomba e a astúcia da serpente.<br />
Força de alma, denodo, intrepidez<br />
E nesse lugar ela fez uma coisa que também não se esperava<br />
de uma santa: arranjou um marido e bem escolhido.<br />
Escreveu para o Rei da Germânia, que era o herdeiro<br />
presuntivo do Imperador do Sacro Império Romano<br />
Alemão, rogando-lhe para ir defendê-la. Ele foi e depois<br />
a pediu em casamento. Então começa para ela uma<br />
nova vida.<br />
Notem quantas mudanças nessa<br />
existência, quanta força de alma,<br />
quanto denodo, quanta intrepidez<br />
essas alterações supunham e quanta<br />
verdadeira virtude nessa magnífica<br />
santidade!<br />
Ele foi sagrado Imperador em<br />
Roma e casou-se com a santa. O filho<br />
desse casamento, entretanto, foi<br />
um homem mau e começa aí mais<br />
outra tragédia; revoltou-se contra<br />
sua própria mãe, e por isso ela teve<br />
novamente que fugir e dirigiu-<br />
-se para a Borgonha. Foi nessa região<br />
da França que ela conheceu<br />
Santo Odilon, e se tornou célebre;<br />
com certeza Santa Adelaide possuía<br />
bens, pelas liberalidades que fez aos<br />
conventos da Borgonha.<br />
Mas seu filho se arrependeu, e<br />
creio que foi devido às orações de<br />
30
Ruínas do Castelo de Canossa, Itália<br />
Franz Xaver<br />
Tipoune<br />
Santa Adelaide. Porque o fato de ela<br />
mandar um manto para São Martinho<br />
tem todo o aspecto de um pagamento de<br />
uma promessa, como quem dissesse a esse<br />
santo: “Se vós converterdes o meu filho, eu vos<br />
enviarei o manto dele.”<br />
Tomar a iniciativa da luta<br />
Então ela escreveu uma magnífica mensagem, da qual<br />
o fato mais bonito é o título que ela arranjou para si:<br />
“Adelaide, pecadora por natureza, imperatriz pela graça.”<br />
É um tal contraste de títulos, há uma tal grandeza na<br />
simplicidade desse contraste, que mereceria ser o epitáfio<br />
dela: “pecadora por natureza”, porque todos os homens<br />
por natureza são pecadores; ainda quando santos<br />
e não pecam, na sua natureza são pecadores; “imperatriz<br />
pela graça”. É uma coisa que ficaria bem num vitral, debaixo<br />
da figura nobre, serena e forte dela: “Santa Adelaide,<br />
pecadora por natureza, imperatriz pela graça.”<br />
Peçamos a Santa Adelaide que nos dê uma graça que<br />
tenha relação com isso: é o espírito de luta, de intrepidez<br />
e — não hesito diante da expressão — o espírito de<br />
aventura.<br />
Túmulo de São Martinho<br />
Tours, França<br />
São Tomás de Aquino diz<br />
que o suprassumo da virtude<br />
da fortaleza ocorre quando,<br />
sendo necessário, oportuno e criterioso,<br />
o homem não espera o inimigo<br />
vir a ele, mas toma a iniciativa da luta,<br />
cria a situação e investe contra o adversário.<br />
Devemos pedir esse espírito de fortaleza, mas ao mesmo<br />
tempo, esse espírito de prudência, essa sagacidade,<br />
essa capacidade de discernir, de perceber, de escolher as<br />
situações, de dispor dos meios adequados para chegar<br />
aos fins que temos em vista.<br />
E então, no nosso epitáfio, poderá ser escrito: “Nós<br />
fomos lutadores e amamos inclusive o risco, levado<br />
não até a temeridade, mas a um extremo que os tontos<br />
diriam ser temeridade. Teremos sido pecadores por natureza;<br />
mas, pela graça soldados intrépidos de Nossa<br />
Senhora.”<br />
v<br />
(Extraído de conferência de 16/12/1968)<br />
1) Não dispomos dos dados bibliográficos da obra citada por<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>.<br />
31
Luzes da Civilização Cristã<br />
Francisco Lecaros<br />
32
Astro del Ciel, pargol divin,<br />
Mite agnello, Redentor,<br />
Tu che i Vati da lungi sognâr,<br />
Tu che angeliche voci nunziâr,<br />
Luce dona alle menti,<br />
Pace infondi nei cuor.<br />
Astro del Ciel, pargol divin,<br />
Mite agnello, Redentor,<br />
Tu di stirpe regale decor,<br />
Tu virgineo, mistico fior,<br />
Adeste fideles læti triumphantes,<br />
Venite, venite in Bethlehem.<br />
Natum videte<br />
Regem angelorum:<br />
Venite adoremus<br />
Dominum.<br />
Deum de Deo, lumen de lumine<br />
Gestant puellæ viscera.<br />
Deum verum, genitum non factum.<br />
Venite adoremus<br />
Dominum.<br />
A la nanita, nana, nanita<br />
nana, nanita ea<br />
mi Jesús tiene sueño<br />
bendito sea, bendito sea (Bis)<br />
Fuentecilla que corre<br />
Clara y sonora<br />
Ruiseñor que en la selva<br />
cantando llora<br />
Calla mientras la cuna<br />
se balancea<br />
a la nanita, nana<br />
nanita ea (Bis)<br />
Stille Nacht! Heilige Nacht!<br />
Alles schläft; einsam wacht<br />
Nur das traute heilige Paar.<br />
Holder Knab im lockigten Haar,<br />
Schlafe in himmlischer Ruh!<br />
Schlafe in himmlischer Ruh!<br />
Stille Nacht! Heilige Nacht!<br />
Gottes Sohn! O wie lacht<br />
Lieb´ aus deinem göttlichen Mund,<br />
Da schlägt uns die rettende Stund,<br />
Minuit, chrétiens,<br />
c’est l’heure solennelle,<br />
Où l’Homme Dieu descendit<br />
jusqu’à nous<br />
Pour effacer la tache originelle<br />
Et de Son Père arrêter le courroux.<br />
Le monde entier tressaille<br />
d’espérance<br />
En cette nuit qui lui<br />
donne un Sauveur.<br />
Peuple à genoux,<br />
attends ta délivrance.<br />
Noël, Noël, voici le Rédempteur,<br />
Noël, Noël, voici le Rédempteur !<br />
O<br />
“vitral”<br />
do<br />
Menino Jesus<br />
Olhei para o céu, estava estrelado<br />
Vi o Deus Menino empalhas deitado.<br />
Em palhas deitado, em palhas estendido,<br />
Filho duma rosa, dum cravo nascido!<br />
Estas palavras disse a Virgem<br />
Ai quando nasceu o Menino<br />
Ai vinde cá meu anjo loiro<br />
Meu sacramento divino<br />
What child is this, who, laid to rest,<br />
On Mary’s lap is sleeping,<br />
Whom angels greet with anthems<br />
sweet<br />
While shepherds watch are keeping?<br />
This, this is Christ the King,<br />
Whom shepherds guard and angels<br />
sing; 1<br />
Haste, haste to bring Him laud, 2<br />
The babe, the son of Mary!<br />
Olhei para o céu, estava estrelado<br />
Vi o Deus Menino empalhas deitado.<br />
Em palhas deitado, em palhas estendido,<br />
Filho duma rosa, dum cravo nascido!<br />
Why lies He in such mean estate<br />
Where ox and ass are feeding?<br />
Good Christian, fear: for sinners here<br />
The silent Word is pleading. 3<br />
Nails, spear shall pierce him through, 4<br />
The Cross be borne for me, for you; 5<br />
Hail, hail the Word Made Flesh, 6<br />
Zairon<br />
Sem dúvida, uma das luzes da Civilização Cristã é o belo e<br />
imenso repertório de cânticos natalinos por ela engendrado.<br />
Cantado por diferentes nações, o mistério do Natal adquire,<br />
segundo a índole de cada povo, diversos coloridos e matizes,<br />
como os raios do Sol ao atravessarem um vitral.<br />
Enquanto ouvia esses belos cânticos natalinos ingleses,<br />
eu estava pensando: Como é bonita a Civilização<br />
Cristã! Vemos como, nos vários povos,<br />
as canções de Natal variam de acordo com a índole nacional.<br />
Mas, de outro lado, como estão sempre presentes<br />
as mesmas características.<br />
Hinos de entusiasmo pela inocência<br />
Por exemplo, as músicas de Natal norte-americanas,<br />
brasileiras, italianas, alemãs, francesas, espanho-<br />
las, são bem diferentes. Entretanto, por toda parte os<br />
mesmos sentimentos despertados pelo Menino Jesus,<br />
por Nossa Senhora, por São José, pelo presépio, etc.,<br />
aparecem cantados de acordo com a índole de cada<br />
país.<br />
Quais são essas notas características?<br />
A primeira é a inocência. Os diversos povos souberam<br />
transmitir verdadeiramente um hino de entusiasmo pela<br />
inocência de Nosso Senhor, mas que repercute sob a forma<br />
de acordes da inocência com os quais cada um glorifica<br />
o Menino Jesus. Quer dizer, cada um dá o que tem de ino-<br />
33
De herdertjes lagen bij nachte<br />
Zij lagen bij nacht in het veld<br />
Zij hielden vol trouwe de wachte<br />
Zij hadden hun schaapjes geteld<br />
Daar hoorden zij ‘d engelen zingen<br />
Hun liederen vloeiend en klaar<br />
De herders naar Bethlehem gingen<br />
‘t liep tegen het nieuwe jaar<br />
Toen zij er te Bethlehem kwamen<br />
Daar schoten drie stralen dooreen<br />
Een straal van omhoog zij vernamen<br />
Een straal op het kribje benee<br />
Daar vlamd’ er een straal uit hun ogen<br />
En viel op het Kindeke teer<br />
平 安 夜 , 圣 善 夜<br />
万 暗 中 , 光 华 射 ,<br />
照 着 圣 母 也 照 着 圣 婴 ,<br />
多 少 慈 祥 也 多 少 天 真 ,<br />
静 享 天 赐 安 眠 , 静 享 天 赐 安 眠 。<br />
平 安 夜 , 圣 善 夜 !<br />
牧 羊 人 , 在 旷 野 ,<br />
忽 然 看 见 了 天 上 光 华 ,<br />
Ночь тиха, ночь свята,<br />
听 见 天 军 唱 哈 利 路 亚 ,<br />
Люди спят, даль чиста;<br />
救 主 今 夜 降 生 , 救 主 今 夜 降 生 !<br />
Лишь в пещере свеча горит;<br />
Там святая чета не спит,<br />
В яслях дремлет Дитя,<br />
в яслях дремлет Дитя.<br />
Busuku obuhle<br />
kunthulile konke nya,<br />
Emuzini ebethlehema,<br />
umsindisi azelwe kuwo,<br />
akadunyiswe ujesu,<br />
akadunyiswe ujesu.<br />
Busuku obuhle,<br />
bethandaza ebethlehema,<br />
nenleosi zihuba zithi,<br />
gloria gloria<br />
gloria in excelsis deo.<br />
At ang bawat isa ay nagsipaghandog<br />
Ng tanging alay.<br />
Bagong Taon ay magbagong-buhay<br />
Nang lumigaya ang ating Bayan<br />
Tayo’y magsikap upang makamtán<br />
Natin ang kasaganaan!<br />
Tayo’y mangagsiawit<br />
Habang ang mundo’y tahimik.<br />
Ang araw ay sumapit<br />
Ночь тиха, ночь свята,<br />
Озарилась высота,<br />
Светлый Ангел летит с небес,<br />
Пастухам он приносит весть:<br />
Вам родился Христос,<br />
вам родился Христос!<br />
खामोश है रात, बखत है रात,<br />
हर चीज़ है चुप हर चीज़ है शान्त<br />
मां और बेटे के तौर पर<br />
धन्य शिशु को प्रनाम कर<br />
येसु तेरे जनम पर, येसु तेरे जनम पर.<br />
खामोश है रात, बखत है रात,<br />
भेदवान देखें वोह पहला निशान<br />
परियां गांएं गीत आलैलुया<br />
बुलाएं किनारे और दूर से<br />
देखो, देखो येह शिशु को.<br />
W nędznej szopie urodzony,<br />
Żłób Mu za kolebkę dano !<br />
Cóż jest, czym był otoczony,<br />
Bydło, pasterze i siano.<br />
Ubodzy, was to spotkało,<br />
Witać Go przed bogaczami !<br />
Podnieś rękę, Boże<br />
Dziecię,<br />
Błogosław Ojczyznę miła.<br />
W dobrych radach, w dobrym bycie,<br />
Wspieraj jej siłę swą siłą.<br />
Dom nasz i majętność całą<br />
I wszystkie wioski z miastami.<br />
Καλήν ημέραν άρχοντες,<br />
αν είναι ορισμός σας,<br />
Χριστού την θείαν Γέννησιν<br />
να πω στ’ αρχοντικό σας.<br />
Χριστός γεννάται σήμερον<br />
εν Βηθλεέμ τη πόλει.<br />
Οι ουρανοί αγάλλονται<br />
χαίρει η κτήσις όλη.<br />
Εν τω σπηλαίω τίκτεται<br />
εν φάτνη των αλόγων<br />
ο Βασιλεύς των ουρανών<br />
και Ποιητής των όλων.<br />
cência para glorificar o Divino Infante.<br />
Isso vale muito mais do que o tambor 1 .<br />
O entusiasmo que cada um tem pela<br />
inocência d’Ele é um elemento de<br />
inocência em nós, porque se não tivéssemos<br />
nenhuma inocência, não<br />
nos interessaríamos por<br />
Ele. Quantas pessoas há<br />
por aí afora que não se interessam<br />
por Ele! E isso<br />
porque não têm verdadeira<br />
inocência. Se nos interessamos<br />
e cantamos bem a inocência<br />
do Menino-Deus, é<br />
porque há uma inocência<br />
em nós. Então, vê-se a inocência<br />
presente nesses cânticos.<br />
A ternura por Deus-Menino<br />
Está presente também a ternura. Dado o fato de o Menino<br />
Jesus ser tão fraco, tão pequeno, mas ao mesmo<br />
tempo Deus, há uma espécie de ternura, eu quase diria<br />
de compaixão, porque sendo Deus tão grande, entretanto está,<br />
por assim dizer, contido naquela criancinha. Surge, então,<br />
uma vontade de proteger o Menino Jesus contra qualquer<br />
perigo. Por isso, certas canções de Natal tomam, em certo<br />
momento, um ar de defesa e de proclamação de um hino.<br />
Um ”vitral” de músicas natalinas<br />
Eu gostei muito de encontrar essas várias notas nas<br />
canções inglesas que vocês cantaram tão bem. É a permanência<br />
do mesmo efeito salvífico, divino, salutar, do<br />
Menino Jesus sobre as almas das várias nações. É mais<br />
ou menos como o Sol que tem sempre a mesma cor, mas<br />
quando seus raios incidem sobre um vitral, ao atravessarem<br />
os vidros, tomam coloridos diferentes e muito harmoniosos.<br />
E se a luz se projeta no chão, fica uma beleza,<br />
como se alguém tivesse jogado ali pedras preciosas.<br />
Assim também, Jesus é um só, mas cantado pela alma<br />
anglo-saxônica — inglesa ou americana —, vê-se n’Ele<br />
uma beleza; cantado pela alma germânica, outra beleza;<br />
pela alma latina, outra beleza. Já ouvi canções eslavas<br />
em louvor do Menino Jesus, inclusive russas, muito bonitas,<br />
mas com uma outra nota. Também brasileiras, hispano-americanas,<br />
etc. Tudo isso forma o “vitral” do Menino<br />
Jesus. E foi a beleza que eu notei muito aqui, nas canções<br />
há pouco entoadas.<br />
Um verdadeiro presente<br />
Agradou-me muito também constatar a força, energia,<br />
ênfase e resolução com que cantaram. Agradeço este verdadeiro<br />
presente, em primeiro lugar, porque me deu uma<br />
recreação agradável após um dia inteiro de trabalho. Mas<br />
também porque são sentimentos internos que vocês revelam<br />
e que para mim valem muito mais do que qualquer canção.<br />
Ainda que fosse um concerto na Ópera de Nova York,<br />
com um coro fantástico, valia menos para mim do que essas<br />
canções entoadas pelos meus “bem-te-vis” 2 passados, presentes<br />
e futuros. Fico muito agradecido pela iniciativa que<br />
tomaram e peço a Nossa Senhora que os abençoe. v<br />
(Extraído de conferência de 30/12/1988)<br />
1) <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> se refere à história de um pobre menino que, não<br />
tendo com que presentear a Jesus recém-nascido, toca diante<br />
d’Ele seu velho tambor.<br />
2) Título afetuoso dado por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> a seus jovens discípulos<br />
norte-americanos.<br />
34
Juloml<br />
Gustavo Kralj<br />
Grosty<br />
Carlos Moya<br />
Cancre<br />
VÌctor Toniolo<br />
Carlos Moya<br />
Carlos Moya<br />
35
Na menina dos olhos...<br />
Ampliada uma fotografia da imagem<br />
de Guadalupe, verificou-se<br />
estampada na pupila dos olhos de Maria<br />
Santíssima a figura dos que presenciaram<br />
o milagre.<br />
Há na Escritura a expressão<br />
“guardou-o como a menina<br />
dos olhos” (Dt 32, 10). Tendo<br />
Nossa Senhora de Guadalupe<br />
sido proclamada Patrona<br />
da América Latina, de<br />
algum modo todos nós estávamos<br />
representados naquela<br />
cena e colocados na<br />
menina dos olhos da Santíssima<br />
Virgem.<br />
Entra nisso uma promessa<br />
de uma proteção, de um auxílio,<br />
de uma graça extraordinária,<br />
o que deve ser uma razão de<br />
grande confiança de nossa parte ao<br />
nos dirigirmos a Nossa Senhora.<br />
(Extraído de conferências de 29/1/1971 e 18/1/1975)