Revista Dr Plinio 172

revistadp

Julho de 2012

Publicação Mensal Ano XV - Nº 172 Julho de 2012

Homens segundo o

coração de Deus


São Francisco Solano,

um apóstolo exímio!

São Francisco

Solano - Catedral

de Lima, Peru.

Para agradar o povo,

São Francisco Solano

costumava andar pela

cidade tocando violino e cantando

canções populares. Vendo-o, as

crianças se interessavam e logo

o seguiam. Ele, então, parava

e ministrava-lhes um curso de

Religião.

Ora, como acorriam inúmeras

crianças para esse gracioso

catecismo, os mais velhos ficavam

curiosos e também passavam a

comparecer.

Quando percebia que também os

pais estavam bastante empenhados

em assistir ao curso ministrado

para os filhos, ele transformava

a aula em sermão e increpava os

maus hábitos renascentistas que

se espalhavam em seu tempo,

incutindo naquelas pessoas o desejo

de praticar a virtude.

Ou seja, pela candura dos

inocentes ele formava uma roda

de pessoas e fazia um apostolado

exímio.

(Extraído de conferência

de 18/8/1974)

T. Ring

2


Sumário

Publicação Mensal Ano XV - Nº 172 Julho de 2012

Ano XV - Nº 172 Julho de 2012

Homens segundo o

coração de Deus

Na capa, Dr.

Plinio em 1984.

Foto: M. Shinoda.

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

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Editorial

4 Homens segundo o coração de Deus

Datas na vida de um cruzado

5 Julho de 1939

Inteira união com a Igreja Católica

Perspectiva pliniana da história

6 Os homens providenciais

Dr. Plinio comenta...

10 Honra, louvor e glória

Calendário dos Santos

16 Santos de Julho

Dona Lucilia

18 A razão de tanta bem-querença…

Hagiografia

20 Bem-aventurado Inácio de Azevedo

As metáforas de Dr. Plinio

26 O cão sem dono…

A sociedade, analisada por Dr. Plinio

28 A Belle Époque

Eco fidelíssimo da Igreja

32 Ai do homem a quem a espera não dói; ai do

homem que não aguenta a dor da espera!

Dr. Plinio, apóstolo do pulchrum

34 O perigo e a glória

Última página

36 Maria fons

3


Editorial

Homens segundo o

coração de Deus

“Abraão, Abraão!” (Gn 22, 11). O celeste mensageiro da justiça divina invocava, ex-abrupto,

o venerável ancião, pois a sua heróica atitude tinha comovido as entranhas do Criador: afinal

encontrara um homem segundo o seu coração. Sua incondicional e amorosa obediência

já fora comprovada e, por isso, poderia depositar nele, como num vaso precioso, a esperada aliança

messiânica: “Faço aliança contigo e com a tua posteridade, uma aliança eterna. [...] Multiplicarei

a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos

teus inimigos, e todas as nações da terra desejarão ser benditas como ela, porque obedeceste à minha

voz” (Gn 17, 7. 22, 17-18).

Providencialmente, uma vítima ovina veio substituir a humana. O angustiado coração paterno ficava

assim aliviado ao ver que Deus poupara a vida do filho da promessa. Por isso, “Abraão chamou

a esse lugar Javé–yiré” (Gn 22, 14), o Senhor providenciou! Mas teria sido unicamente um carneiro

preso entre os espinhos o que, naquele momento, Javé providenciara? Não, muito mais! A mão divina

que pousava sobre Abraão, enquanto concedia-lhe a oferenda a ser imolada no lugar de Isaac,

suscitava uma estirpe de mediadores junto a Deus.

A Divina Providência sempre se serviu de homens para salvar o gênero humano e, chegada a plenitude

dos tempos, não quis outro meio para nos redimir senão assumir uma natureza, também ela,

humana. Eis o modo de agir divino, perpetuado na Santa Igreja. A cada época foi dado conhecer os

seus profetas (no sentido originário do termo hebraico nabî, porta-voz de uma mensagem divina),

pois, com frequência, é através desses instrumentos que a Providência vai delineando os seus desígnios

na História.

Entretanto, esta verdade choca a certo número. Para chegar a Deus preferem evitar um mediador:

“O meu relacionamento é diretamente com Deus!”. E assim, não necessitam de intermediários,

pois de fato, é muito mais cômodo idealizar para o seu próprio uso um “deus” particular e uma moral

ao bel-prazer de seu egoísmo. A que desmandos chegaria uma humanidade fundada nesses conceitos?

Que espantos de loucura e extravagância provocariam? Se muitos foram os motivos de tristeza

neste último milênio, devem-se em parte a essa grande confusão das mentes: navios sem direção, sacudidos

por toda espécie de idéias, tendências e paixões, e não poucas vezes, náufragos do ceticismo

mais alarmante. O mundo tem necessidade — e urgente! — de uma intervenção divina, a fim de perceber

novamenter o verdadeiro bem. Mas de que intervenção? Homens segundo o coração de Deus,

quais novos Davis (Cf. At 13, 22), suscitados providencialmente para enveredar pelos planos da vontade

divina.

No decorrer dos séculos, a pedagogia de nosso Criador deixou entrever certos princípios fáceis de

identificar, para reconhecer o perfil moral desses seus instrumentos humanos. Procuremos identificar

alguns, acompanhando as palavras de Dr. Plinio, dirigidas a um grupo de seguidores, transcritas

na presente edição.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Datas na vida de um cruzado

Julho de 1939

Inteira união

com a Igreja Católica

nhado e enlevado amor à Santa Igre-

D

ja Católica. Amor que não fez senão crescer e se

esde os primeiros lampejos da razão,

nutriu Dr. Plinio um contínuo, entra-

requintar, à medida que mais a ia conhecendo e

admirando.

Ora, para ele, o amor à Igreja deve traduzir-se

em inteira e incondicional união, condição essencial

para amarmos perfeitamente a Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Penso que não deve haver, para o católico,

preocupação mais viva e mais constante do que

o incessante revigoramento dos laços espirituais

que o prendem à Santa Igreja.

Disse Santo Agostinho que ninguém pode ter

a Jesus Cristo como Pai se não tiver a Igreja como

Mãe. A medida de nossa união com Cristo

se calcula pela medida de nossa união com a

Igreja. Se, de acordo com a parábola da vinha, o

fruto que produzirmos na ordem sobrenatural e

espiritual está na proporção de nossa união com

Cristo, está também, implicitamente, na proporção

de nossa união com a Igreja Católica.

Ora, para um católico, não é suficiente que

essa união se traduza na crença em algumas verdades

de Fé e na prática de alguns Mandamentos.

Ou ela é inteira, ou não existe.

No entanto, não é difícil verificar como o mundo,

o demônio e a carne conspiram para destruir

essa união sobrenatural. E quando não a conseguem

destruir, ao menos sua conspiração se volta

para o objetivo de a debilitar de todos os modos

possíveis, com o intuito de desferir contra ela,

mais cedo ou mais tarde, um golpe mortal.

A todos estes perigos, o católico não deve opor

uma atitude simplesmente minimalista. Pelo contrário,

longe de se contentar em se manter dentro

dos limites mais largos da ortodoxia e constantemente

debruçado sobre o muro divisório

que o resguarda do abismo da heresia, deve ele

timbrar em tornar cada vez mais íntima tal união

com Cristo. E, evidentemente, para isto não pode

ser suficientemente recomendada a prática espiritual

consistente em aproveitar todas as ocasiões

para intensificar em nós o amor à Santa Igreja.

(Extraído de “O Legionário” de 16/7/1939)

5


Perspectiva pliniana da história

G. Kralj

Cristo crucificado (de autoria do

Aleijadinho) - Igreja Nossa Senhora

do Carmo, Mariana (Minas Gerais).

6


Os homens providenciais

Incumbidos por Deus de uma missão especial para benefício da

sociedade, os homens providenciais têm uma compreensão de sua

vocação que ultrapassa as capacidades humanas.

Pediram-me que comentasse uma ficha de Léon

Gautier, muito bom historiador da Idade Média,

a respeito do papel dos homens providenciais na

História 1 . Escreve ele:

Alguns espíritos apoucados de nosso tempo se comprazem

em escarnecer dessas almas vastas e elevadas existentes

entre nós, que ainda acreditam nos homens providenciais.

Entretanto, nada é mais natural, quando se crê na ação de

Deus sobre os homens e os povos, do que admitir a missão

de certas pessoas na História e que, a este título, ficam

consagradas.

Deus, que poderia governar o mundo diretamente sem intermediários,

Se digna fazer-nos participar da administração

de seu imenso império. Para conduzir homens feitos de espírito

e de carne, Ele se serve de homens feitos de espírito e de

carne. Ele os envia na hora devida, os modela desde toda a

eternidade e, sem nada lhes tirar do seu livre arbítrio, deles Se

serve utilizando suas virtudes para agir sobre toda uma nação,

toda uma raça e todo o mundo.

Homens incumbidos por Deus de uma

missão especial para benefício da sociedade

Acho que a ficha, embora não contenha tudo, com

uma precisão acadêmica ao gosto do século XIX, diz

muito do essencial a respeito dos homens providenciais.

Em sentido amplo, todos os homens são providenciais,

pois foram suscitados por Deus para alguma coisa. Mas

há um sentido mais especial. Existem homens que Deus

não incumbe apenas de levar uma vida comum, para servirem

a si próprios, mas que são marcados para realizar

uma missão em benefício da sociedade, seja ela temporal

ou espiritual.

A missão providencial sempre

é maior do que o homem

O que caracteriza um homem providencial?

Ele deve, em primeiro lugar, desempenhar uma tarefa

muito maior do que si próprio. Não há homem providencial

cuja estatura esteja à altura daquilo que ele precisa

realizar, pois o que Deus exige do homem providencial,

em geral, é uma coisa tão grande, que não cabe em

termos de capacidade humana.

Em segundo lugar, essa ação providencial tem sempre

um aspecto sobrenatural, que é a operação da graça sobre

as almas para a qual o homem pode ser um canal,

mas não autor. E aquilo que a graça faz, nenhum homem

pode realizar, de maneira tal que a ação é sempre muito

maior do que o homem.

Há grandes homens providenciais. Deus toma pessoas

de grandes capacidades e Se serve delas para realizar

tarefas ainda maiores do que elas. Entretanto, Ele pode

escolher também almas que não sejam grandes, mas até

pequenas, das quais tira o fruto para algo de providencial;

a escola de Santa Teresinha do Menino Jesus, da infância

espiritual, tem algo neste último sentido.

Santa Teresinha não foi propriamente, no sentido humano,

uma grande pessoa. Mas ela foi grande no que teve

de aparentemente pequeno, e daí saiu a doutrina espiritual

da pequena via, que é uma imensa realização na

história da espiritualidade, e, portanto, daquilo que há

de mais central na História do mundo, que é a História

da Igreja.

Compreensão, apetência e sensibilidade do

homem providencial para com sua missão

Outra característica do homem providencial é a seguinte:

ele tem uma compreensão, uma apetência e uma

sensibilidade para a sua missão que os outros não possuem.

Ele tem a percepção da coisa, de seu sentido, de

sua importância, de como ela deve ser, dos fins que é

preciso alcançar, dos meios para coligar as pessoas para

os realizarem; possui as táticas, os golpes, os jeitos para

conseguir aquilo.

Na vida de Carlos Magno, por exemplo, vemos isso de

um modo esplêndido. Ele era o imperador possante, o

patriarca magnífico, que entusiasmava; era o guerreiro

que metia medo em todos os adversários da Igreja.

7


Perspectiva pliniana da história

Ele intervinha nos concílios, discutia com os bispos,

sem ser tido por anticlerical, e muitas vezes era a opinião

dele que prevalecia, embora nunca tivesse estudado Teologia.

Eram concílios regionais de bispos da Gália, onde

ele aparecia para exigir que a coisa andasse bem.

Por outro lado, Carlos Magno era ao mesmo tempo

um guerreiro formidável; não apenas um guerreiro individual,

um general, mas chefe de uma família de almas

dentro de seu exército. Ele coligou em torno de si

os seus famosos pares, que eram outras tantas reproduções

dele; e esses pares, por sua vez, coligavam

em torno deles todo o exército. E seu exército

era para ele quase como uma Ordem religiosa

para o seu superior, que caminhava

rezando e cantando de encontro

ao inimigo, com Carlos Magno

à frente brandindo a espada,

expondo-se a todos os riscos, e

sempre pela Igreja Católica e

pela Civilização Cristã.

Ao contrário do que pensa a mentalidade

moderna, o homem providencial

sempre passa por reveses

Há outra caraterística do homem providencial, que é

muito diferente da mentalidade moderna. Muitos têm

ideia de que o homem providencial é um herói de histórias

em quadrinhos; tudo o que ele faz dá certo, tem um

olho mágico, e é semelhante a um drácula que, não tendo

por onde escapar, fica em apuro, mas com um dedo sobe

num teto e resolve o problema de cima. E, no fim,

tudo dá certo, ele nunca tem revés.

Ora, o homem providencial é o contrário

disso. Ele passa sempre por

apuros horrorosos, onde, de fato,

muitas coisas correm o risco

de não darem certo, se não se

esforçar e, sobretudo, se não

rezar muito, e se não depuser

em Nossa Senhora toda

a sua confiança. E esses apuros,

em que as coisas quase

arrebentam, fazem dele

muitas vezes um homem humilhado,

perseguido, desprezado

e até com todas as aparências

de um derrotado. Ele

não é sempre um homem vitorioso,

que transformou a cabeça dos

outros no solo sobre o qual ele anda,

mas muitas vezes sua cabeça é o solo para

os outros andarem.

O homem providencial

passa sempre por apuros

horrorosos, onde, de fato,

muitas coisas correm o risco

de não darem certo, se não

se esforçar e, sobretudo,

se não rezar muito, e se não

depuser em Nossa Senhora

toda a sua confiança.

À esquerda, Carlos Magno

(Paris, França); acima, Dr. Plinio

na década de 1980.

8


De quantos homens

providenciais estão cheias

as estradas!… Numa dessas

estradas há uma figueira,

na qual está um enforcado.

E esse enforcado era um

homem providencial, que se

chamava Judas Iscariotes...

Judas prepara seu suicídio -

Madrid, Espanha.

Mas ele confia na Providência e Esta o assiste, o ampara,

o reergue, o anima e acaba fazendo com que a obra

dele dê certo. Uma exigência, à qual o homem providencial

está absolutamente sujeito, é que a desproporção entre

a sua tarefa e ele aparece claramente aos olhos dos

outros, e ele se encontra muitas vezes em tais situações

nas quais se torna inteiramente claro que, se não fosse a

graça, ele não conseguiria nada. E que se não fosse sua

fidelidade, ele estava arrasado.

As margens da História estão

cheias de homens providenciais que

não cumpriram sua missão

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, não sei se isso é bem

verdade, porque vejo todos os homens providenciais na

História darem sempre certo.”

Isto porque a História só apresenta os homens providenciais

que deram certo. De quantos homens providenciais

as margens da História estão cheias! Homens que

fraquejaram, se venderam, amoleceram, se deterioraram

de qualquer maneira e por isso se arrebentaram.

A pessoa poderá acrescentar: “Entretanto, há alguns

tão favorecidos pela Providência que eles não podiam

dar errado.”

É verdade! Os Apóstolos, por exemplo. Mas, como isto

é raro! E de quantos homens providenciais, volto a dizer,

estão cheias as estradas!… Numa dessas estradas há

uma figueira, na qual está um enforcado. E esse enforcado

era um homem providencial, que se chamava Judas

Iscariotes...

A missão do homem providencial aparece

aos olhos de todos, às vezes desde o berço

Poder-se-ia dizer que há uma característica imponderável

no homem providencial. Em geral, ele tem uma

certa aura, e as pessoas que tratam com ele, desde os

seus primórdios, percebem nele uma espécie de predestinação,

um fator invulgar, que o coloca meio separado e

diferente dos outros.

Assim, aparece algo de imponderável no homem providencial,

fazendo com que a sua missão se mostre aos olhos

de todos, tocada pela Providência às vezes desde o berço.

Entretanto, devemos tomar cuidado com o orgulho,

porque o orgulhoso pensa que desde o berço foi preparado

para qualquer coisa, e tem a tendência de bancar para

si mesmo o homem providencial, e de fabricar as características

da aura.

O que diferencia o orgulhoso do homem providencial?

É algo que poucos veem, mas é uma coisa segura. O

orgulhoso é todo feito de vontade de aparecer, e a causa

para ele é uma bandeirola que ele agita diante dos outros

para impressionar bem. O homem providencial, por mais

fraco que seja, às vezes até por mais miserável que seja,

vê e entende que tem alguma missão da Providência, a

qual ele ama de fato; são o entender e o ver do amor. v

(Extraído de conferência de 30/12/1965)

1) Não possuímos referência a respeito da ficha utilizada por

Dr. Plinio nesta ocasião.

9


Dr. Plinio comenta

Honra,

louvor e

Fotos: G. Kralj; V. Toniolo.

glória

A noção de honra sublimouse

na Idade Média, tempo em

que o homem amava a vida

cerimoniosa e hierárquica.

Naquele período, as homenagens

prestadas às autoridades civis

e eclesiásticas davam à vida

cotidiana um especial sabor.

Na Idade Média as coisas essenciais estiveram

habitualmente em ordem, eu diria até, na melhor

ordem que jamais se realizou na Terra.

O que caracterizava a vida da Idade Média era uma

ideia fundamental a respeito da honra. Tal ideia, embora

não fosse contrária àquela que tinham os romanos, os

gregos e os povos antigos em geral, era muito mais rica.

A noção de honra e de glória

na época dos romanos

Os romanos, de vez em quando, prestavam grandes

honras às pessoas. Por exemplo, é sabido que em Roma,

quando um general regressava vencedor de uma guerra,

fazia-se um cortejo durante o qual a população o aclamava.

Fumegavam piras odoríferas, enquanto o oficial ia receber

um galardão do imperador; às vezes, mas era raro,

o imperador assistia pessoalmente ao desfile de seu general

vencedor.

Porém, isto os atingia nas grandes situações, nos grandes

feitos, mas impregnava muito menos a vida quotidiana.

O homem medieval amava a vida

cerimoniosa e hierárquica

Na Idade Média, porém, a existência era fundamentalmente

cerimoniosa.

Cada indivíduo que, por algum título, possuía uma virtude

mais eminente, ou uma situação mais influente, tinha

direito a um lugar especial. Não se compreendia, por

exemplo, que não se fizesse uma hierarquia ao dispor as

pessoas em torno da mesa de refeições; tudo se organizava

com base nas precedências.

Enquanto os romanos se tratavam por tu, na Idade

Média floresceram os títulos: Vossa Senhoria, Vossa

Magnificência, Vossa Excelência, Vossa Alteza, Vossa

Majestade etc.; e entre as Altezas e as Majestades: Alte-

10


Cenas da vida medieval (Metropolitan

Museum of Art - Nova York);

abaixo, triunfante general romano

(Museu Capitolini, Roma).

za Imperial, Alteza Real, Majestade Imperial, Majestade

Real, Majestade Apostólica, Majestade Fidelíssima, Majestade

Católica etc.

Mais ou menos como numa árvore cujos galhos se

desdobram e formam uma galharia, o cerimonial medieval

foi deitando uma galharia magnífica de honrarias sucessivas,

que tomavam em consideração a situação ou a

virtude de cada pessoa, concedendo-lhe um título; e a este

título correspondia uma etiqueta, quer dizer, um conjunto

de precedências e de praxes, que marcavam a vida

corrente.

O valor das honrarias no

mundo germânico

Em certos países, sobretudo nos de língua germânica,

se conserva a ideia de que, sendo o Estado

superior aos particulares, a função pública é em si mesma

mais nobre do que a função particular equivalente.

11


Dr. Plinio comenta

Assim, ser servente do Estado é mais do que ser servente

de um particular, desde que esse particular não seja

muitíssimo eminente e, de algum modo, represente o Estado.

Mesmo em nossa época, em alguns países, por exemplo

na Alemanha, usam-se títulos para pessoas que exerciam

as funções públicas mais modestas. Um amigo meu,

que esteve nesse país, viu um envelope endereçado assim:

“Senhora viúva do carteiro aposentado, Fulano de

Tal.” Ser carteiro é uma função do Estado; e o carteiro

aposentado será mantido pelo Estado a vida inteira, em

vista dos anos em que ele trabalhou honestamente; portanto,

é um homem meio premiado pelo Estado.

Quer dizer, a mais miúda distinção, a menor honraria,

é trabalhada como se fosse uma pequena joia, de modo

análogo a quem tomasse um brilhantinho, o burilasse

ou lapidasse, o inserisse num anelzinho de ouro fininho e

o desse a alguém que não tem joia. Esse anelzinho é um

adorno que, na ordem das joias, se assemelha ao miosótis

na ordem das flores, que foi criado por Deus, tem seu

encanto e sua pequena graça.

A diferença entre etiqueta e protocolo

Isso tudo correspondia à ideia das preeminências, do

protocolo e da etiqueta, e tinha no fundo a noção de honra.

Protocolo, etiqueta, preeminência e honra são termos

conexos.

O protocolo é o tratamento que se dá a uma pessoa

eminente, que tem direito a um trato especial. Etiqueta é

uma coisa um pouco mais modesta; abrange o protocolo,

mas se aplica também aos pequenos. Se eu receber em

minha casa, por exemplo, o prefeito de uma cidadezinha

“X”, é de acordo com a etiqueta que se dê precedência a

ele; não protocolo, e sim etiqueta. A etiqueta é o gênero;

o protocolo é a etiqueta dos grandes, embora também se

diga etiqueta para os grandes.

E o que é cerimonial? Cerimonial e protocolo são termos

conexos, equivalentes um ao outro. De alto a baixo

na escala social, todos os tratos são embebidos disso, e na

Idade Média, como afirmei, chegava ao auge.

Prestar honras a cada autoridade de

acordo com a dignidade que lhe é própria

Por exemplo, estavam especificadas, pelas praxes e

etiquetas, quais eram as pessoas a quem o burgomestre

e as principais autoridades municipais deveriam receber

do lado de fora da cidade, quando fossem passar

em viagem pelo lugar. E também a que distâncias deveriam

aguardar. Um rei se espera a tantas léguas da cidade,

um príncipe a uma distância menor; o senhor feudal

da região a uma distância ainda menor, mas do lado

de fora da cidade. Sendo uma autoridade menor, espera-

-se dentro da cidade. E se formava, no interior da cidade,

um cortejo especial para o imperador, para o rei, para o

príncipe etc.; as pessoas que deveriam participar do cortejo

já haviam sido designadas.

Na vida quotidiana, estava estabelecido como cada

um devia ser tratado. Tudo isso formava um conjunto de

honras. Daí vem a expressão “prestar honras”, que é empregada

até hoje. Às vezes se lê nos jornais: “Um batalhão

prestou honras militares a tal autoridade que chegou”,

quer dizer, os militares a homenagearam.

O protocolo é o tratamento

que se dá a uma pessoa

eminente, que tem direito a

um trato especial. Etiqueta

é uma coisa um pouco

mais modesta; abrange o

protocolo, mas se aplica

também aos pequenos.

De acordo com o protocolo da

época, Luís XIV recebe o embaixador

da Pérsia - Galeria dos Espelhos,

Palácio de Versailles (Paris).

12


Quando um bispo fazia

visita pastoral a uma

cidade, ele era objeto de

todas as honras. À sua

chegada, os sinos tocavam,

o vigário o recebia e

todos o acompanhavam

até a catedral.

O Imperador Constantino conduz o

cavalo do Papa São Silvestre -

Museu Vaticano, Roma.

Esse trato tinha algo de curioso, do qual cheguei a observar

reminiscências: quando se encontravam duas pessoas

desiguais, uma muito superior à outra, cada uma

tratava a outra conservando-se na sua respectiva posição,

mas respeitando-a como o faria alguém da estaca zero.

Por exemplo, Fleming, um médico provecto, foi grandíssimo

no gênero dele. Suponhamos que ele encontrasse um

cientista, também médico, que tivesse feito uma pequena

descoberta sobre o modo de aplicar a penicilina num gênero

especifico de doença. Fleming é muito superior, porque

descobriu a penicilina. O médico menor deveria tratar Fleming

com toda a reverência: é o grande Fleming! Mas Fleming,

em vez de tratá-lo com pouco caso porque era inferior

a ele, deveria dizer: “Quanto gosto eu tenho em conhecer

uma notabilidade como o senhor!”, como alguém que

não fosse médico trataria esse pequeno médico.

Quer dizer, Fleming colocar-se-ia quase na estaca zero

para homenagear esse menor. Daí surge um trato delicioso,

porque era agradável ver o menor homenagear

Fleming, mas era delicioso ver Fleming prestar esta

homenagem a quem era menor do que ele. Formava-se

propriamente um sorriso de parte a parte e uma douceur

de vivre [doçura de viver], que dava à vida sua significação,

seu atrativo, seu encanto.

Homenagens prestadas às

autoridades civis e eclesiásticas

Quando o rei ia a uma cidade, ele era servido à mesa,

sendo copeiros o burgomestre e os principais funcionários

da municipalidade.

Alguém dirá: “Mas diretamente como copeiros? Não

é demais isso? Um prefeito de cidade pode ser equiparado

a um copeiro?” A resposta é: Não é desonroso ser copeiro.

Nada é desonroso a não ser o pecado. Trata-se de

quantidades maiores ou menores de honra, e para homenagear

um grande rei não é demais que o prefeito seja

copeiro. E, depois, o copeiro do prefeito se sente honrado

em servir aquele que é o copeiro do rei. Há essas reversibilidades

e regras de três, que exprimem como são

os molejos do convívio social.

Isso que se dava na sociedade civil, ocorria também

na sociedade eclesiástica. Por exemplo, quando um bispo

fazia uma visita pastoral a uma cidade, ele era objeto de

todas as honras. À sua chegada, os sinos tocavam, o vigário

o recebia com o pálio em presença de todo o clero; as

associações religiosas, cantando, acompanhavam o bispo

até a catedral, ou a paróquia, aonde ele se dirigia à capela

do Santíssimo para rezar e, se fosse um homem bem

devoto de Nossa Senhora, visitava a capela ou o altar da

Santíssima Virgem; depois de tudo, ia para a residência a

fim de descansar.

A beleza de uma sociedade com honra

Em nossos dias, os últimos restos de desigualdade e

de honra que existiam vão desaparecendo; e nós caímos

num trato que torna a vida insípida, desinteressante e

dura.

Então, para entendermos bem que falta isto faz, devemos

começar por afastar a ideia de que essas honras não

têm fundamento racional; que elas não são senão pompa

13


Dr. Plinio comenta

e fumaça, vaidade e aflição de espírito; e que o bonito é

uma sociedade sem honras.

É o contrário: o bonito é uma sociedade com honras.

São Tomás de Aquino chega a dizer que o inferior atinge

sua perfeição obedecendo e prestando honra a seu superior.

E, portanto, o sistema de um homem crescer é obedecer

e respeitar; o contrário do revolucionário, em que

a maneira de o indivíduo se engrandecer é enfunar-se e

olhar os outros de cima para baixo.

Defender a doutrina através de

um raciocínio bem feito

Penetremos agora no campo do raciocínio.

Com o que explicarei a seguir, pode-se

justificar aos olhos de qualquer pessoa

aquilo que ninguém justifica. De fato,

praticamente ninguém defende o

protocolo, a reverência ou a cortesia,

porque não os ama; e os poucos

que os amam não sabem como

se pode defendê-los racionalmente.

Em primeiro lugar, precisamos

saber justificar de tal modo

que tenhamos uma convicção

profunda, porque, assim como

para suportar coisas pesadas

é preciso usar pregos fortes, somente

a convicção profunda dá base às dedicações profundas.

A honra se fundamenta na excelência

O conceito de honra se fundamenta, no fundo, no

conceito de excelência. Mas, como hoje em dia o conceito

de excelência não é claro, comecemos por explicá-lo.

Dou um exemplo prático: roupa lavada. Há certas

roupas lavadas que, ao olhá-las, se diz: “estão limpas”.

Mas existem outras tão bem lavadas, que se afirma: “estão

esplêndidas”. Essas últimas foram lavadas de um

modo excelente, enquanto as primeiras foram bem lavadas.

Qual a diferença entre o excelente e o bom?

A roupa excelentemente lavada é aquela da

qual tudo quanto é extrínseco, o resíduo, ainda

o mais insignificante, de pó e de sujeira

do ambiente foi tirado, de tal maneira

que desse resíduo não resta nada ou como

que nada. E só se consegue da roupa

essa limpeza excelente, por meio de

um grande esforço. A lavadeira toma

ainda o cuidado de acentuar o aspecto

da limpeza, para que não só a roupa

esteja limpíssima, mas possua o deleitável

do limpo, tornando-o muito evidente.

Então, lava com uma pequena

dose de anil, de maneira que a roupa

bem limpa fica vagamente azulada. E

O conceito de honra se

fundamenta no conceito

de excelência: tributamos

honra à pessoa excelente.

Logo, honra é o sentimento,

a atitude merecida pela

pessoa excelente.

Acima, Luís XV, por Carle van Loo

(Museu de Dijon, França); ao lado,

nobres do Ancien Régime (Museu

Hermitage, São Petersburgo).

14


põe um pouquinho de goma, para dar a impressão de que

o tecido está novo, ainda na sua consistência primeira. Assim,

o tecido limpíssimo, até um pouquinho anilado e engomado,

dá a evidência da limpeza. Está, portanto, limpo

de um modo excelente.

Ora, e a roupa lavada apenas normalmente, contém

sujeira, ou não? Porque, se contém sujeira, como chamá-

-la de limpa? Se não contém, como não é excelente? No

que consiste esse estado entre o sujo e o excelente, que

se designa de normal?

Há um resíduo qualquer de poeira, de impureza, que

pode ficar numa roupa apesar de normalmente lavada;

é algo tão pequeno que não atinge o corpo em nada. De

outro lado, esse resíduo é tão minúsculo que a pessoa

não percebe; é, portanto, como que não existente. E para

o comum das pessoas, o normal dessa limpeza é o comum

da vida. Neste vale de lágrimas, limpo é isto. Não é

sujo. O outro conceito excelente de limpeza é raro, pouco

comum. A regra normal das coisas não é de ser excelente,

mas de ser boa.

Então, o insuficiente merece censura, o normal aprovação,

o excelente honra. Aqui nasce o conceito de honra.

Diferença entre uma coisa boa

e uma excelente

Após exemplificar e, como que, pegar o conceito com

a mão para explicar bem aquilo sobre o que falo, vou dar

o conceito teórico de excelência.

O bom é aquilo que tem todas as qualidades próprias

à sua natureza. O excelente é o que tem as qualidades

próprias à sua natureza bifurcadas: as indispensáveis e as

que lhe são próprias, embora não sejam indispensáveis; e

em grau alto, não num grau comum.

Por exemplo, o microfone diante do qual estou falando.

O próprio a este objeto é que se baseie numa haste,

porque se estiver no chão ele não pega o som tão bem

quanto colocado diante de minha boca. Ele é niquelado,

limpo; é um objeto que, dentro das coisas mecânicas, está

bem e merece uma aprovação.

Mas seria possível fazer esta coluna em forma de uma

coluneta românica, dórica, jônica, flamboyante; ou em

forma de longa e esguia serpente dourada, contendo na

boca alguma coisa que servisse de microfone; ou então

um peixe no alto da coluna. Poder-se-ia transformar isso

numa obra de arte, que seria um microfone excelente.

Este que está aqui é um microfone decente.

O que distingue uma coisa da outra? Este possui as qualidades

necessárias ao microfone. O outro teria inúmeras

qualidades que não são necessárias, mas está na natureza

de um microfone poder possuí-las. Não está na natureza

de um pneumático ter a forma de uma serpente, porque

não funcionaria. Mas está na natureza de um microfone

poder ter a forma de uma serpente, esguia, uma serpente

do Nilo, que se ergue, elegante. Então, o microfone

excelente é o que possui, além do que lhe é normal e essencial,

uma porção de qualidades que sua natureza comporte,

embora não sejam indispensáveis; e tem essas qualidades

de um modo elevado, incomum, insigne, invulgar.

Como surgiu o tratamento de

“Vossa Excelência”

Daí surge o tratamento de “Vossa Excelência”, engendrado

pela Civilização Cristã para quem, seja pela situação

que ocupam ou por uma respeitabilidade pessoal especial,

merecem ser tratados com deferência. Por quê?

Porque são excelentes.

Então, uma pessoa que ocupa determinada situação

na Igreja ou no Estado deve ser chamada de Vossa Excelência.

É uma situação altíssima? Não, porque a Excelência

não é a Majestade. Majes vem de maius, e quer dizer

mais: aquele que é mais. Não é a Alteza, porque não

é tanto que mereça esse tratamento. É a excelência dentro

do vasto mundo dos excelentes.

A um bispo, por exemplo, se chama Vossa Excelência.

Porque a condição de bispo é uma condição excelente.

Como autoridade espiritual, ele representa a Deus. Por

sua pessoa, da qual se deve presumir que é excelente em

razão do cargo, ele também merece ser chamado de Excelência.

Resultado, não se deve dizer a um bispo “o senhor”

e menos ainda “você”. Ele é Excelência.

Também para uma autoridade do Estado, porque esta

representa a Deus; ainda quando é laico, o Estado representa

a Deus. O poder público é exercido em nome de

Deus, qualquer que seja a forma de governo. E por respeito

a Deus, a Quem se obedece obedecendo ao Estado,

deve-se dizer a um governador, a um deputado, a um

senador: Vossa Excelência.

No meu tempo da Faculdade de Direito — quer como

aluno, quer depois como professor —, todos os professores

eram tratados de Vossa Excelência. Porque a posição

de professor é digna; e a daquele que forma professores

é excelente. Se uma coisa é boa, formar quem faz a coisa

boa é excelente. Então, é justo que o professor universitário

seja tratado de Excelência.

Chegamos, então, ao fato concreto de que tributamos

honra à pessoa excelente. O que é honra? É o sentimento,

a atitude merecida pela pessoa excelente.

Continua no próximo número…

(Extraído de conferência

de 15/2/1980)

15


C

alendário

dos Santos – ––––––

1. Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos

(transferida do dia 29 de junho).

Beato João Nepomuceno Chrzan, Mártir. Sacerdote da

Arquidiocese de Gniezno, Polônia. Morto por ódio à Fé,

no campo de concentração nazista de Dachau, em 1º de julho

de 1942.

2. São Bernardino Realino, Presbítero (†1616). Entrou

para a Companhia de Jesus aos 34 anos, em Lecce (Itália).

Foi pregador, diretor espiritual e confessor. Cuidou

dos pobres e enfermos.

9. Santo Agostinho Zhao Rong, Presbítero, e companheiros,

Mártires (†1815). Por pregarem o Evangelho e

confessarem a Fé Católica, foram perseguidos e martirizados

em distintos lugares da China.

10. São Canuto IV, Mártir (†1086). Rei da Dinamarca,

promoveu o estado clerical e assentou solidamente as igrejas

de Lund e Odense, sendo finalmente assassinado por

revoltosos.

11. São Bento, Abade (†547).

3. São Tomé, Apóstolo. De acordo com a tradição, o

Apóstolo Tomé pregou a Boa Nova do Evangelho em várias

partes do Oriente, e foi receber na Índia a coroa do

martírio.

4. Beato Bonifácio de Saboia, Bispo e Monge (†1270).

De família nobre francesa, foi monge cartuxo e Bispo de

Belley, na França, e depois Arcebispo de Cantuária, Inglaterra.

5. Santa Ciprila (ou Cirila), Mártir (†séc.

IV). Libanesa de Cirene, martirizada no

tempo da perseguição de Diocleciano.

12. Beata Marta do Bom Anjo (Marie Cluse) e 31 companheiras,

Mártires em Orange, durante a Revolução

Francesa (†1794).

São Clemente Inácio Delgado Cebrián, Bispo e Mártir

(†1838). Após pregar o Evangelho por 50 anos em

Nam Dinh, Vietnã, convertendo pagãos, ordenando sacerdotes

e construindo várias casas religiosas, foi preso

e morreu após muitos sofrimentos.

13. Beato Tomás Tunstal, Presbítero e Mártir

(†1616). Beneditino condenado à morte pelo

Rei Jaime I, em Norwich, Inglaterra, simplesmente

por ser sacerdote.

Fotos: J. Gonzales

6. Beata Nazária de Santa Teresa

March Mesa, Virgem (†1943). Nascida

em Madri (Espanha), foi com sua família

para o México. Tornou-se religiosa e seguiu

para a Bolívia, onde fundou o Instituto

das Missionárias Cruzadas da Igreja.

Depois foi para a Argentina, onde revitalizou

muitas instituições, falecendo

em Buenos Aires.

7. São Marco Ji Tianxiang, Mártir

(†1900). Sofreu o martírio em Hebei Jixiam

(China) por defender a Fé Católica.

8. XIV Domingo do Tempo Comum.

Beato Eugênio III, Papa (†1153).

Após conhecer São Bernardo de Claraval,

fez-se cisterciense. Eleito Papa,

defendeu a Igreja contra o ataque

dos infiéis e a governou por oito anos

e cinco meses. Presidiu quatro Concílios.

São Pedro - Catedral de

Notre Dame, Paris.

14. São Francisco Solano, Presbítero

(†1610). Espanhol franciscano, foi designado

para missões na América Latina. Percorreu

desde o Peru até a Argentina, fazendo milagres

e pregando a índios e colonizadores.

São Camilo de Lélis, Presbítero

(†1614).

15. XV Domingo do Tempo Comum.

São Boaventura, Religioso franciscano,

Bispo, Cardeal e Doutor da Igreja.

Chamado “Doutor Seráfico” (†1274).

São José de Tessalônica, Bispo

(†832). Durante sua vida de monge,

compôs hinos e promoveu o episcopado.

Por defender a disciplina eclesiástica

e as sagradas imagens, sofreu muito.

Morreu em Tesália, na Grécia.

16. Nossa Senhora do Carmo. No

Monte Carmelo, teve o Profeta Elias a

visão da nuvenzinha que simbolizava

a futura Mãe de Deus. Em 16 de julho

16


–––––––––––––––––– * Julho * ––––

de 1251, São Simão Stock, Geral dos Carmelitas, recebeu

o Escapulário das mãos da Santíssima Virgem.

17. Bem-aventurado Inácio de Azevedo, Presbítero, e

companheiros, Mártires (†1570). (Ver página 20)

18. Beato João Batista de Bruxelas, Presbítero e Mártir

(†1794). Exercia seu ministério em Limoges. Durante

a Revolução Francesa foi colocado em um navio destinado

ao transporte de escravos, onde morreu na miséria, atacado

pela peste.

19. São João Plessington, Presbítero e Mártir (†1679).

Santa Macrina, a Jovem. Primogênita de uma família

que deu insignes santos para a Igreja. Foram seus irmãos

São Basílio Magno, São Gregório de Nissa — Padres da

Igreja — e São Pedro de Sebaste. Seu lar foi um pequeno

mosteiro de contemplação. Morreu assistida por São Gregório

(séc. IV).

20. Santo Elias, Profeta do Antigo Testamento. Padroeiro

da Ordem do Carmo (séc. IX a.C).

São Paulo de Córdoba, Diácono e Mártir

(†851). Instruído pelas palavras e exemplos de

São Sisenando, não temeu mostrar aos mouros

a falsidade de seu culto e por isso foi martirizado.

21. Beato Gabriel Pergaud, Presbítero e Mártir

(†1794). Durante a Revolução Francesa foi

tirado de sua abadia e preso num navio em

condições desumanas, nas costas de Rochefort

(França), onde morreu em consequência

de uma doença contagiosa.

25. São Tiago Maior, Apóstolo.

Beato Antônio Lucci, Bispo (†1752). Membro da Ordem

dos Frades Menores Conventuais, foi Bispo de Bovino

em Apúlia (Itália). O estudo, a oração, a pregação e a

formação dos alunos foram os pilares de sua vida.

26. São Joaquim e Sant’Ana, pais de Maria Santíssima.

Beato Tito Brandsma, Presbítero (†1942). Holandês de

nascimento, carmelita, martirizado no campo de concentração

de Dachau (Alemanha) por não permitir propagandas

nazistas nos jornais católicos de seu país.

27. São Pantaleão, Mártir. Médico da Nicomédia, morreu

na perseguição do Imperador Maximiniano. Todos os

anos, às vésperas da sua festa, o seu sangue se liquefaz, no

Mosteiro da Encarnação, de Madri (†séc. IV).

28. São Jaime Hilário Barbal Cosán, Religioso e Mártir

(†1937). Membro dos Irmãos das Escolas Cristãs (Lassalistas),

foi martirizado em Tarragona, Espanha, por ser religioso.

Suas últimas palavras: “Rapazes, morrer por

Cristo é viver.”

29. XVII Domingo do Tempo Comum.

Santa Marta. Irmã de Lázaro, acolheu

Nosso Senhor mais de uma vez em sua

casa, em Betânia (séc. I).

Beato Urbano II, Papa (†1099). Defendeu

a liberdade da Igreja, combateu os clérigos

simoníacos e indignos, e no Concílio

de Clermont convocou os soldados

a uma Cruzada para libertar seus irmãos

cristãos da opressão dos infiéis

e recuperar o Santo Sepulcro.

22. XVI Domingo do Tempo Comum.

Santa Maria Madalena.

São Felipe Evans e São João Lloyd,

Sacerdotes jesuítas e Mártires, em

Cardiff, no País de Gales, sob a perseguição

religiosa em 1679.

23. Santa Brígida de Suécia,

Fundadora da Ordem do Santíssimo

Salvador (séc. XIV).

24. São Charbel Makhlouf, Presbítero

(†1898).

São Paulo - Catedral de

Notre Dame, Paris.

30. São Pedro Crisólogo, Bispo

de Ravenna (Itália) e Doutor da

Igreja (380-450).

31. Santo Inácio de Loyola, Sacerdote.

Fundador da Companhia

de Jesus (1491-1556).

São Fábio de Cesareia, Mártir

(†303/304). Por recusar carregar

a bandeira do governador em

um desfile pagão, na Mauritânia

(Argélia), foi preso e condenado à

morte, permanecendo fiel à Fé Católica.

17


Dona Lucilia

A razão de tanta

G. Kralj

bem-querença…

Sagrado Coração de Jesus -

Rio de Janeiro, Brasil.

Permanentemente meditativa e com o

espírito posto na contemplação do Sagrado

Coração de Jesus, Dona Lucilia irradiava

em torno de si uma discreta doçura,

característica à sua personalidade.

N

o contato contínuo, de um filho com sua

mãe, eu sentia em Dona Lucilia algo da doçura

de espírito própria a uma alma elevada

em altas cogitações.

Não era apenas a doçura de uma pessoa com bom

gênio, bom humor, que trata as pessoas bem. Era também

isso, mas penetrado por um raio de luz que tornava

a bondade dela à maneira da bondade de Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Eu percebia perfeitamente que isso era dado por

Ele a ela. Era como se tirasse um raio do Sol e com ele

dardejasse uma alma; a alma não ficaria com todos os

raios do Sol, mas ela ficava cheia daquele raio que ela

recebeu.

Assim, mamãe não tinha, nem de longe, todas as virtudes

de Nosso Senhor Jesus Cristo — a não ser no grau

que um bom católico praticante possa ter —, mas em torno

dela havia uma presença de elevação, de tristeza, de

bondade, de perdão sem limite, de soledade que a assemelhava

a Ele.

Uma soledade cheia de presença

Existia em torno dela uma soledade que não era o vazio;

ela não produzia em torno de si o vácuo. A soledade

de Dona Lucilia era saturada, impregnada pela irradiação

de sua bondade.

Por exemplo, ao vê-la sozinha na cadeira de rodas,

na sala de jantar, sentia-se que, embora estivesse fisicamente

só, ela enchia a sala de jantar e a casa inteira.

Aliás, até hoje a casa de Dona Lucilia tem algo da presença

dela.

Confirmação tangível de como era

Nosso Senhor Jesus Cristo

Conhecendo-a, eu tinha uma espécie de confirmação

tangível de como era Nosso Senhor Jesus Cristo. Vendo

que Ele era infinitamente maior, porém semelhante, eu tinha

uma espécie de confirmação na Fé. Quer dizer, se à

força de rezar ao Sagrado Coração de Jesus mamãe ficou

com algo disso, Ele é ainda muito mais. Olhando para as

imagens d’Ele, mais de uma vez eu me lembrava dela; e

olhando para ela, mais de uma vez eu me lembrava d’Ele.

A razão principal de minha benquerença por ela — eu

a queria imensissimamente bem — era por ver nela uma

discípula de Nosso Senhor Jesus Cristo. No fundo, era

um querer bem a Ele, nela.

É preciso compreender o seguinte: eu nunca notei nela

o menor desejo de imitá-Lo fisicamente, o que, aliás,

seria inteiramente insuportável, intolerável! Minha amizade,

meu afeto por ela se partiriam em estilhaços se eu

notasse uma coisa assim. Não era isso.

Era propriamente o que a Doutrina Católica nos ensina

de uma alma boa, reta e muito sobrenatural, que recebia

esse embebimento d’Ele.

Grande sentimento de apoio

Isso me animou a vida inteira, deu-me alegria nos

maiores reveses e aborrecimentos. Era um lado de minha

vida, por assim dizer, um jardim de minha vida, em

que nunca penetrou o oposto, dando-me um sentimento

de apoio muito grande.

v

(Extraído de conferência de 15/4/1989)

18


Dona Lucilia poucos

meses antes de

sua morte.

19


Hagiografia

Bem-aventurado

Inácio de Azevedo

Com as aventuras além-mar empreendidas pelos portugueses e

espanhóis, a Fé Católica expandia-se dia a dia. Entusiasmado pela

conquista de novas almas, Inácio de Azevedo empenhou-se na

conversão dos indígenas brasileiros. Porém, mais do que seu labor

de evangelização, Deus queria dele um sacrifício total:

o derramamento de seu sangue em favor da nação que viria a ter

a maior população católica da Terra.

Baseando-me no livro “Inácio de Azevedo, o homem

e sua época”, de Gonçalves Costa 1 , farei

comentários sobre alguns aspectos puramente

sociológicos, e outros hagiográficos, que dizem respeito

ao Bem-aventurado Inácio de Azevedo.

Nome tão belo quanto a prataria portuguesa

Ele era membro de uma família muito distinta. E, em

todos os lugares onde há certa estratificação social, os

nomes das famílias mais tradicionais acabam tomando

uma certa sonoridade, em que se tem a impressão de ver

a pessoa portadora de um desses nomes, com o estilo da

nação a que pertence.

Este é o caso do Bem-aventurado Inácio. Ele se chamava

Inácio de Azevedo de Atayde de Abreu e Malafaia.

É um nome tradicional, bonito e muito português; sua sonoridade

é linda, e dá a impressão da prataria portuguesa,

cujos objetos são tendentes ao nobremente bojudo e seguro

de si. De fato, esse nome é um pouco de prataria.

Sociedade impregnada pela Igreja

Ingressou na Companhia de Jesus em 1548, sendo anotado

a seu respeito no livro da Ordem os seguintes dizeres:

“Tem pais vivos. O pai possui benefícios eclesiásticos e suficiência

de bens. A mãe é freira num convento do Porto.”

Estamos no século XVI; a Renascença já arrebentou,

a Revolução está em curso. Mas como a Igreja ainda estava

entranhada na sociedade! É uma família nobre, não

de grande nobreza: o pai vivia de rendas eclesiásticas e tinha

dado licença à sua esposa para ser freira, e o filho fez-

-se membro da Companhia de Jesus, a qual, naquele tempo,

era a ponta de lança da Contra-Revolução; e tornou-se

Bem-aventurado, hoje um dos padroeiros do Brasil.

Como é bonito ver a impregnação da vida eclesiástica

na sociedade dessa época.

Desejo de ser herói

O Bem-aventurado Inácio de Azevedo havia sido pajem

do Rei D. João III; e, pelo lado materno, descendia de Santa

Isabel, Rainha de Portugal.

É bonito haver nele a descendência de Santa Isabel,

Rainha de Portugal. Sendo pajem do Rei, ele frequentou

o que a corte tinha de melhor.

Em carta ao Padre Geral, Inácio pediu para ser enviado

a pontos remotos, pois não queria ficar no mesmo ambiente

onde viviam seus pais.

Esse homem foi mandado da corte do Rei de Portugal –

naquele tempo marcadamente um potentado, pelo tamanho

do império colonial português – para o Brasil, onde havia índios

com argolas atravessadas no nariz, canibais, com hálito

cheirando a álcool mascado de cana fermentada, uma coisa

horrorosa. Podemos imaginar a diferença! Era o que ele queria.

Vemos o heroísmo que está presente em seu pedido.

Zelo da Companhia de Jesus

pelos novos missionários

Do Brasil chegavam cartas dos Padres Nóbrega e Anchieta,

relatando as esperanças e as dificuldades das mis-

20


É evidente que esse

sangue foi derramado

para que o Brasil fosse

católico; era a razão

pela qual eles estavam

dando as suas vidas.

Inácio de Azevedo e seus

companheiros são martirizados.

de Jesus, portanto, o homem que tem

nas mãos o leme da Contra-Revolução

– escolhe um futuro mártir para vir ao

Brasil, o qual, por sua vez, descende

da Rainha Santa Isabel. Que beleza!

Ao percorrer o litoral

do País, acompanhou a

expulsão dos calvinistas

do Rio de Janeiro

sões. Dois noviços jesuítas haviam sido repatriados para

Portugal, por não se adaptarem às novas terras.

Vê-se como era duro aguentar...

São Francisco de Borja, recém-eleito Geral da Companhia,

conhecia as especiais virtudes do Padre Inácio e o indicou

para visitador apostólico nas terras do Brasil.

Quão cuidadosa era a Companhia de Jesus. Mesmo

sendo poucos os jesuítas no Brasil, mandava-se um visitador

apostólico incumbido de visitar a nascente Igreja

daquelas terras. Percebemos o rigor da ortodoxia, da disciplina

e do método.

Por outro lado, vemos como os santos se encontram nessa

história: São Francisco de Borja – Geral da Companhia

Em julho de 1566, o colégio jesuíta

de Salvador na Bahia, tendo à frente o

Padre José de Anchieta e o Padre Manoel

da Nóbrega, recebeu festivamente

o emissário de São Francisco de Borja,

numa visita que se estenderia por

dois anos, e ao longo da qual o Bem-aventurado Inácio de

Azevedo percorreria as principais vilas nascentes do litoral

brasileiro.

Dois anos visitando o Brasil! É preciso dizer que as

distâncias enormes se percorriam devagar.

Em 1567, acompanhou no Rio de Janeiro a expulsão

dos calvinistas.

Que bonita nota deveria ser acrescentada nas narrações

dessas nossas Histórias do Brasil, nesses manuaizinhos,

quando tratam da expulsão dos franceses: Nesta

verdadeira vitória de Cruzada, esteve presente, com seu

ardor, um futuro mártir, o Bem-aventurado Inácio de

Azevedo. Daria outro conteúdo à narração.

21


Hagiografia

De volta a Portugal,

Padre Inácio dirigiu-se

para Almeirim, a fim de se

encontrar com o Rei Dom

Sebastião. Este ouviu

com interesse as notícias

que o missionário trazia

do Brasil, dando todo

o apoio à campanha.

Dom Sebastião, Rei de Portugal.

Pelas mãos dos jesuítas o Brasil

vai sendo modelado

Em carta que dirigiu de Salvador ao Geral da Companhia,

ele pondera: “Também servirão, além dos padres solicitados,

os irmãos oficiais, como pedreiros e todos os demais,

porque há na terra muita falta deles, e custa muito fazer

as coisas. Por esse motivo, em todas as partes onde residem

os homens, ouço dizer que há falta de edifícios e abundância

de materiais com que se pode construí-los.”

É dessas frases do Português antigo que tem um especial

sabor: “há falta de edifícios, mas abundância de

material”. Quase dá para ver as pequeninas cidades implorando

que as florestas e as pedras sejam utilizadas

para serem transformadas em edifícios. É uma coisa

épica.

“Muito me consolo nestas partes, e consolar-me-ia nelas

toda a minha vida, ainda que importasse ir a Portugal para

ajudá-la mais, trazendo gente e oficiais.”

Ir a Portugal buscar gente e oficiais, eis o plano do Padre

Inácio de Azevedo.

Quer dizer, ele esteve no Brasil e viu que era preciso

trazer para cá padres, irmãos coadjutores, pedreiros, carpinteiros,

etc.

É muito bonito ver a Igreja Católica, por mãos dos jesuítas,

tomando a primeira argamassa da sociedade temporal

e modelando-a. Quase como Deus que fez primeiro

o boneco de barro, para depois criar o homem.

Assim, para poder fundar aqui uma realidade eclesiástica

grande, a Igreja ia modelando a realidade civil

na qual ela deveria ser insuflada. Ou seja, cuidando das

construções e do progresso temporal, a Igreja empreenderia

também o progresso espiritual.

O Bem-aventurado Inácio de Azevedo não sabia disso,

mas trabalhava com ânimo.

A fim de recrutar novos missionários,

o Bem-aventurado Inácio de

Azevedo volta a Portugal

Ele então viajou para Portugal a fim de pedir, pessoalmente,

que fossem mandados jesuítas para o Brasil.

Compreende-se bem sua atitude. Certamente todos

tinham medo de vir ao Brasil, tão distante, remoto,

vago e ameaçador. Afinal, deixar o aconchegado,

bonito e saboroso Portugal, a duras penas conquistado

aos árabes, e vir para o Brasil misterioso... Que diferença!

Ademais, sabe-se como o temperamento português é

cauto. Ele é capaz de dar passos arriscados, mas depois

de saber bem como são as coisas. Por isso eles queriam

conversar com a pessoa que vinha do lugar, para depois

resolver se viajariam ou não.

Então se entende o passo do Padre Inácio de Azevedo,

chegando a Portugal e procurando pessoas a fim de

convidá-las para vir ao Brasil.

22


São Francisco de Borja

quis enviar à Rainha de

Portugal uma reprodução

da célebre imagem de

Nossa Senhora, conhecida

como pintada por São

Lucas, e incumbiu o

Padre Inácio de ser o

portador do quadro.

São Francisco de Borja -

Santander, Espanha.

O encontro com o Rei

De volta a Portugal, em 1568, Padre Inácio dirigiu-se para

Almeirim, a fim de encontrar-se com o Rei D. Sebastião. Este

ouviu com interesse as notícias que o missionário trazia do Brasil,

dando todo o apoio à campanha de recrutamento proposta.

Vemos que ele ia direto ao ponto fundamental. Foi falar

com o Rei porque de um impulso do monarca dependia

o andamento das coisas.

Por sua vez, os reis eram muito desejosos de receberem

notícias diretas das pessoas que tinham estado nas

terras recém-descobertas, porque não havia os meios de

comunicação que existem hoje.

O Padre Inácio deu logo início à empresa, através de sermões

e visitas, exímio como era na arte de conversar.

Aqui fica consignado um traço curioso. Eu o imagino

procurando as pessoas e dizendo:

– Homem, fui eu que estive lá, é assim...

– Mas deveras, estivestes lá? Contai-me...

Padre Inácio fazia a narração e pegava a ganchos os

que deveriam vir. Parece-me que tudo isso faz sentir a

respiração da antiga História do Brasil, de um modo pitoresco

e muito honroso para a Igreja.

Dois personagens tecem a

grandeza de Portugal

Seu contemporâneo, Padre Maurício Cerpe, contou a

esse respeito: “Tanto que chegou a este reino, foi coisa

para dar graças a Deus ver quanta gente se mover para ir

ao Brasil. Não falo já de nós da Companhia, porque esses

todos queriam ir com ele, mas os de fora. Onde quer

que chegasse, logo se moviam de maneira que se alvoroçava

a terra e uns se moviam a ir com ele, outros falavam

isso como grande novidade muito para ser desejada.”

Quer dizer, ele produzia um alvoroço geral. Vejamos

o que custa a grandeza de um povo. Dom Sebastião e o

Bem-aventurado Inácio de Azevedo conversam; o futuro

de um era morrer no mistério e na tragédia da África,

e do outro, morrer na tragédia e no martírio em pleno

mar. Conversando, os dois estão tecendo a grandeza

de Portugal.

Mas com que homens essa grandeza se tece! Eles tinham

conhecimento dos riscos que a vida quotidiana

traz. Eram membros de uma nação que estava no seu

apogeu.

São Pio V abençoa o apostolado no Brasil

De Portugal seguiu para Roma, a fim de pedir ao Papa

São Pio V sua bênção para a empresa do Brasil. O Pontífice

quis ouvir uma descrição minuciosa desse novo mundo,

onde a Fé cristã começava a iluminar a noite indefinida

do paganismo. E, além dos privilégios pontifícios para o

Brasil, e mão livre para arregimentar pessoal seleto, o santo

Pontífice concedeu indulgência plenária a todos os que

23


Hagiografia

acompanhassem, e muitas relíquias, terços, Agnus Dei, e

outros objetos devotos.

Não consta que ele tenha ido visitar banqueiros; visitou

o Pontífice e o Rei. Não consta que tenha trazido dinheiro;

trouxe Agnus Dei, bênçãos, relíquias, e com isso

esperava fazer o seu caminho.

Trajetória de preparativos para a viagem

São Francisco de Borja, entrementes, desejava agradecer

a Dona Catarina, Rainha de Portugal, a valiosa ajuda que

ela concedera ao Colégio Romano, e quis enviar-lhe uma

reprodução da célebre imagem de Nossa Senhora, conhecida

como pintada por São Lucas, venerada na Basílica de

Santa Maria Maior, em Roma, e incumbiu o Padre Inácio

de ser o portador do quadro.

Como Geral da Companhia, São Francisco de Borja

morava em Roma. Sabendo que o Bem-aventurado Inácio

ia para Portugal, quis que este fosse portador do quadro.

A partir de então, a devoção ao quadro de Nossa Senhora,

de São Lucas, ficaria intimamente associada ao missionário.

Em julho de 1569, o Padre Inácio partiu para Portugal,

passando por Madri. Em Madri, João de Mayorca foi um

dos primeiros espanhóis a aderir. E, como era pintor, esse

novo missionário aproveitou para fazer várias reproduções

do quadro da Virgem, destinando um deles ao Colégio

da Bahia.

Quer dizer, esse pintor tirou várias cópias do quadro

que era para a Rainha. E uma dessas cópias vai ter importante

papel na vida do Bem-aventurado Inácio de

Azevedo.

Afonso Fernandes Cançado associou-se à empresa em

Portugal, e fez questão de substituir o sobrenome, pois, segundo

explicava, para tal tarefa o nome Cançado não lhe

caía bem.

Francisco Perez de Godói, canonista formado em Salamanca,

também se juntou ao Padre Inácio. Perez de Godói

era primo de Santa Teresa de Jesus que, ao tomar conhecimento

de sua adesão, ficou muito alegre.

Santa Teresa, a Grande, soube, portanto, que havia

um Brasil! E que um primo dela vinha para esse país,

tendo ficado muito alegre com isso. Veremos daqui a

pouco o papel de Santa Teresa nessa história.

Ferreiros, marceneiros, pedreiros e tecelões também

acertavam detalhes para sua viagem ao Brasil. No total, entre

religiosos e artesãos, haviam sido reunidos noventa elementos,

que foram conduzidos para uma chácara da Companhia

no Vale do Rosal a fim de aguardar a partida dos

navios para a América. Porém, foram cinco meses de espera.

É preciso recordar que não havia ainda companhia de

navegação regular para o Brasil. Isso apareceu apenas no

século XIX. De vez em quando havia um navio que vinha

para o Brasil: o Rei, a Companhia das Índias mandavam

levar alguma coisa; mas era raro. Por isso transcorreram

cinco meses de espera.

Durante esse período, é claro que foi feito um vasto

simpósio, à la Companhia de Jesus, preparando a ida

para o Brasil: direção espiritual, trabalhos, enfim, uma

adaptação completa, muito bem feita!

Tendo sido o navio assaltado por calvinistas,

o Bem-aventurado Inácio cai no mar

agarrado ao quadro de Nossa Senhora

Em maio de 1570, partiram os religiosos na esquadra do

Governador Geral, D. Luiz de Vasconcelos. O Bem-aventurado

Inácio de Azevedo, com mais 39 companheiros, viajava

na nau Santiago. Fizeram escala na Ilha da Madeira,

onde o Governador, muito vagaroso, quis prolongar a estadia,

enquanto o Comandante da nau Santiago trazia a bordo

mercadorias, cuja entrega nas ilhas de Las Palmas era

urgente.

Esse homem tem responsabilidade no martírio que se

seguiu, porque foi por causa desse atraso que eles cruzaram

no caminho com a nau calvinista francesa, que agrediu

o navio português e causou as mortes.

Sujeitando-se ao risco de ficar à mercê dos ataques dos

piratas, esta nau poderia partir sozinha até Las Palmas,

aguardando ali o restante da esquadra. A proposta foi levada

a D. Luiz, tendo a ela dado seu assentimento o Padre

Inácio de Azevedo.

A nau Santiago seguia avante. Em 15 de julho, já próxima

da ilha de Las Palmas, defrontou-se com navio dos terríveis

calvinistas franceses.

Efetivamente, esses abalroaram a nau Santiago com forte

impacto. Os atacantes atingem a corveia, há tinir de espadas,

brados de fidelidade a Cristo e à Igreja, mesclados

aos berros e blasfêmias dos hereges; as primeiras gotas de

sangue começam a tingir o chão.

O Bem-aventurado Inácio de Azevedo, que se encontrava

junto ao mastro central, segurando nas mãos o quadro

da Virgem de São Lucas, recebeu na cabeça o primeiro golpe,

sendo jogado no mar, agonizante e segurando o quadro

que ninguém lhe conseguira tirar das mãos.

Por isso ele é representado, habitualmente, flutuando

já meio agonizante nas águas, mas segurando o

quadro. É muito digno de nota que, estando agonizante

e com a gesticulação de quem naufraga e procura

mover os braços para não afundar, já não tendo provavelmente

consciência de si, apesar disso ele segurasse

o quadro.

24


O Bem-aventurado

Inácio de Azevedo, que

se encontrava junto ao

mastro central segurando

nas mãos o quadro

da Virgem, foi jogado

no mar agarrado ao

quadro que ninguem lhe

conseguira arrancar.

Inácio de Azevedo é ferido

antes de ser lançado ao mar -

Paróquia dos Jesuítas, Paris.

É claro que a quem de tal maneira segura uma imagem

de Maria Santíssima, Nossa Senhora, do Céu, está

segurando a alma dele.

O sangue dos mártires foi derramado para

que o Brasil viesse a ser católico

O olhar marcado dos tripulantes portugueses continuava

a fixar-se nos vultos, e eles foram em seguida jogados também

ao mar, entre os quais, sobressaía a figura imóvel de

Azevedo.

Na Espanha, Santa Teresa de Jesus teve revelação do fato,

e afirmou que vira os quarenta mártires, de coroas na

cabeça, subindo triunfantes ao Céu.

Vemos que lindo fato da História do Brasil. É evidente

que esse sangue foi derramado para que o Brasil fosse

católico; era a razão pela qual eles estavam dando as

suas vidas.

Somente o irmão João Sanchez não foi morto pelos piratas.

Era cozinheiro, e esses resolveram tirar proveito de seus

serviços. Foi ele que, retornando depois à Espanha, contou

com pormenores todo o ocorrido. Infelizmente, abandonou

a Companhia de Jesus.

Essa é a criatura humana! Esse homem tinha obrigação

de ser bem-aventurado também. Depois se desligou

da Companhia de Jesus e voltou ao estado original.

O culto dos quarenta mártires foi autorizado em 1854,

pelo Papa Pio IX.

Na atual Catedral de Salvador, na Bahia, conserva-se

um quadro pintado, que se diz ter sido do Beato Inácio.

Não há nenhuma prova de que o quadro tenha escapado

das mãos do Bem-aventurado Inácio de Azevedo

e chegado à Bahia. Se houvesse, eu piamente

creria, e teria um gosto enorme de que isto tivesse

ocorrido.

Mas o não ter sido assim, não tolda em nada o verdadeiramente

essencial. Na previsão do muito batalhar

a favor da ortodoxia, que haveria numa nação a qual, em

certo momento da História da Igreja, seria a de maior

população católica do mundo, logo no início, para irrigar

isso, a Providência dispôs que houvesse quarenta mártires

que nem conseguiram chegar até o Brasil – Inácio de

Azevedo esteve durante dois anos aqui. O sangue deles

não foi vertido no Brasil, o mar dispersou; mas foi derramado

com a intenção de servir à causa católica no Brasil.

Esse sangue subiu ao Céu como suave odor, e eles rezam

continuamente por nós. No Brasil ficava o Bem-

-aventurado Anchieta, esperando, rezando e realizando

seus feitos para que algum dia o Brasil fosse uma grande

nação católica.

v

(Extraído de conferência

de 3/4/1981)

1) Costa, Manuel Gonçalvez da. Inácio de Azevedo, o homem e

sua época. Braga: Livraria Cruz, 1957.

25


As metáforas de Dr. Plinio

Hanna Zelenko / EugeneZelenko

O cão sem dono…

Há um dito francês, muito positivo, que afirma

o seguinte: “Quem não sabe o que procura,

não sabe o que encontra.” Esse dito, tão verdadeiro,

tem a sua limitação: às vezes, os grandes encontros

de nossa vida são com as coisas que não sabíamos estar

procurando, porque são inefáveis. Quer dizer, não há

palavras capazes de exprimi-las adequadamente. O melhor

de nossa alma está no que nós procuramos sem ter

palavras para saber exprimi-lo. E quando o encontramos,

não temos palavras para suficientemente louvá-lo.

Nesse encontro do inexprimível com o que está acima

de qualquer louvor se forma um arco, que dá alegria para

nossa alma. Aí está o sentido de nossa vida.

Um homem que ao longo de sua existência encontrou

o que ele deveria procurar, pode afirmar: “Eu vivi!”

Se não encontrou, ele pode dizer: “Eu andei pela vida

como um cão sem dono. Comi nas latas de lixo, bebi

nas sarjetas, descansei na garoa, na lama, na chuva ou no

sol, mas eu não vivi. Por quê? Porque eu não encontrei a

mão amiga que me agradasse, o dono bom que me afagasse.

Eu, cachorro, fui feito para a fidelidade, para servir,

e não encontrei a quem servir. Passei uma vida vazia

e morro de qualquer jeito.” Assim poderia dizer cada um

de nós que não encontrasse aquilo que deveria procurar.

Quando o menino vai se fazendo moço, depois varão

e daí para frente, essa procura vai sendo satisfeita pelas

circunstâncias da vida; porque ele encontra logo nos primeiros

vislumbres a sabedoria, a qual, diz a Escritura, é

como uma mendiga à porta de nossas almas, desde a madrugada,

à espera que acordemos e a abramos. Com o

seu esplendor de rainha, as suas carícias de mãe, as suas

iluminações incomparáveis, a sabedoria vai convidando a

inocência para segui-la. E a inocência que segue o caminho

da sabedoria já é o pedúnculo, a raiz da santidade.

Então, esta inocência, que encontra a sabedoria e se

deixa guiar por ela, faz com que o homem encontre bem

cedo a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, e diga:

“É preciso parar! Aqui há mistério! Esta é a maravilha

das maravilhas, à qual eu me dou, e já de uma vez! Quanta

coisa existe na Igreja! E na Civilização Cristã! Quanta

coisa no passado!”

v

(Extraído de conferência de 13/10/1979)

26


J. Ribeiro

27


A sociedade analisada por Dr. Plinio

M. Shinoda.

28


A Belle Époque

À semelhança de um teatro onde todos os expectadores fazem parte

da peça, a vida era “representada” com profundidade pelas pessoas

durante o período da Belle Époque. Com efeito, naquele tempo as

atitudes tomadas eram proporcionadas à essência dos fatos.

ABela Época, ou Belle Époque na linguagem

francesa, é o período que vai, mais ou menos,

de 1870 a 1914. Foi uma época festiva, alegre e

brilhante da vida europeia, que terminou com a Primeira

Guerra Mundial. Esta marcou uma diferença nas ati-

O que caracterizava a

mentalidade anterior à

Guerra era a persuasão

de que a vida não existe

só para o seu sentido

prático, nem apenas para

o prazer, mas sim que o

homem está posto no

universo mais ou menos

como se ele estivesse

num teatro para ver

uma grande peça.

Dr. Plinio na década de 1980.

tudes, nos trajes, na decoração, nos estilos de vida e, portanto,

na mentalidade dos personagens; tais coisas valem

em si mesmas, mas sobretudo enquanto expressões

de uma mentalidade; quando tudo isto muda é porque a

mentalidade mudou.

O que caracterizava a mentalidade anterior à Guerra

era a persuasão de que a vida não existe só para o

seu sentido prático, para que a pessoa se cuide e prolongue

a própria existência, evite as doenças incômodas

e ganhe dinheiro para divertir-se. A vida não existe

apenas para o prazer, mas é um universo; e o existir

do homem dentro desse universo coloca-o mais ou

menos como se ele estivesse num teatro para ver uma

grande peça.

Um teatro onde todos os expectadores

fazem parte da peça

Imaginemos um teatro enorme, onde os que estão

presentes, de vez em quando, entram na cena, representam

um papel mais apagado ou menos, depois saem e

continuam a assistir à peça. Quer dizer, todos são artistas

da grande peça, ainda que façam parte, como atores

anônimos, de uma multidão que aplaude, ou vaia, ou boceja;

qualquer que seja a situação, todos em algo condicionam

a cena.

Então, o indivíduo posto nessa situação hipotética é

levado a ter a preocupação com o papel passageiro que

deve exercer, e só poderá desempenhá-lo bem se entender

a peça de teatro que está sendo representada; ele é

obrigado a fazer da peça o seu principal foco de atenção.

29


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Na grande peça teatral da vida, ou

somos atores ou espectadores

A vida foi entendida desse modo até o fim da Belle

Époque — é claro que o foi muito mais na Idade Média;

foi assim desde que houve no mundo almas verdadeiramente

cristãs; foi assim para os que receberam a Revelação

do Antigo Testamento e eram os justos de acordo

com a Lei de Deus.

Na realidade, essa concepção da vida existiu desde o

momento em que o homem começou a viver sobre a Terra,

e existirá até o fim do mundo. Por sua própria natureza,

a vida é um cenário imenso, colocado num panorama

imenso, onde a pessoa contempla uma imensa peça. Esta

— que se vai desenvolvendo sob as mais diversas formas

— é de uma grande clareza quando se presta atenção e

se quer entendê-la; confusa e com aspectos até de caos,

quando não se deseja entendê-la. E nessa peça a pessoa é

espectador ou ator, mas tudo gira em torno da peça.

Terminada a Belle Époque, começa outra concepção

da vida. O indivíduo, que está no teatro, de vez em quando

entra na cena para representar um papel; entretanto,

já não se preocupa com a peça, mas consigo: “Minha cadeira

está bem cômoda? Estou com fome? Eu não posso

mandar vir um menino que está vendendo bala, bombom,

chocolate, para comer alguma coisa? Esse vizinho

não está pondo o cotovelo no lado do braço da poltrona

que é o meu? Não estarei querendo dormir? Quem sabe

se eu me espicho agora e tiro uma soneca? Ou, então,

me levanto e dou um passeio? Será que vou viver muito

nessa cadeira ou morrerei logo? Ai, ai! Não quero morrer,

estou sentindo uma dor e vou mandar vir um remédio

para mim.”

O indivíduo passa a ser o centro do teatro, e a peça para

ele é uma coisa secundária. Os próprios momentos em

que entra para participar da representação, são para ele

fugazes e sem importância.

Daí apareceu o Homo economicus, o Homo medicalis,

o homem financeiro, o homem preocupado com assuntos

médicos. Ou seja, a era de Bios, na qual o homem se

preocupa em viver gostosamente, longamente, e a serviço

de Mamon, julgando que, se tiver dinheiro, ele faz o

que quer. Esse foi outro aspecto da vida que se inaugurou,

de modo estrepitoso, espalhafatoso, depois da Segunda

Guerra Mundial; e estendeu-se pelo mundo inteiro.

As grandezas de Deus são refletidas nessa

enorme peça de teatro que é a Criação

Essa peça tem uma grandeza que nos faz pensar no

seu Autor.

30


Até a Belle Époque,

tomava-se diante dos

fatos da História uma

atitude proporcionada

à essência de cada

um deles. Tudo era

sumamente grave

e pedia esplendor,

nobreza, pompa, luxo.

Em ambas as páginas,

cenas no convívio social

durante a Belle Époque.

O próprio enredo, o próprio cenário nos fala de seu

Autor; os atores — imagens e semelhanças do Autor —

têm seu papel e até todo o seu ser planejado, intencionado,

pelo Autor. A peça nos fala de Deus; e cada coisa que

se vê no cenário, nos homens e no desenvolvimento do

enredo — ou seja, no desenrolar da História —, bem interpretada,

nos fala de Deus.

Deus enquanto vitorioso, resplandecente; enquanto

punido e perseguido: o Filho de Deus bradando do alto

da Cruz Eli, Eli, lamma sabactani; enquanto puniente: as

catástrofes estrepitosas; enquanto reconstituinte: as auroras

das grandes épocas históricas em que Ele foi servido;

Deus vingando toda a História em torno de seu eixo:

a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Essa é a visão que a metáfora nos dá. E é evidente que

fazer abstração da peça, no fundo, significa abstrair de

Deus; é um modo de ser do ateísmo prático. O indivíduo

vive e sente à maneira de ateu, ainda quando reze todas

as noites. É um ateísmo efetivo, concreto, mais ou menos

subconsciente, mas que vai corroendo o senso sobrenatural,

a Fé, até o momento em que o indivíduo fica de

fato ateu.

Os ateus não têm vontade de intervir na peça, não são

anti nada, são pró eles. Enquanto nós transbordamos do

desejo de intervir, para realizar os desígnios do Divino

Autor, eles, pelo contrário, procuram tirar o corpo.

As atitudes tomadas eram

proporcionadas à essência dos fatos

Até a Belle Époque se tomava diante dos fatos da

História uma atitude que era proporcionada à essência

de cada um deles. Quando se passavam fatos muito

graves, as pessoas tomavam atitudes graves diante

da respeitabilidade dos fatos: da investidura e da coroação

de um papa, a sagração de um bispo, a ordenação

de um sacerdote, ou mesma a Primeira Comunhão

de uma criança!

Tudo isto era sumamente grave e pedia esplendor, nobreza,

pompa, luxo; pedia, sobretudo, compenetração da

gravidade do que estava acontecendo. Terminada a Primeira

Guerra Mundial, veio a onda da americanização.

Na aparência, a França e a Inglaterra venceram a Alemanha;

no fundo, a América do Norte “psy-esmagou” a Europa.

O resultado é que tudo isso decai; a pessoa está na cena

pensando em si. Por exemplo, uma Missa de sétimo

dia: o indivíduo é levado a pensar não no Santo Sacrifício,

nem na alma do morto, nem no augusto e trágico

da morte, mas quanto tempo durará, se o padre não vai

atrasar, se não vai perder o metrô, o ônibus, o avião, a

hora marcada em tal banco onde ele tem que tratar tal

negócio; ele não conseguiu uma cadeira para se sentar,

está com os pés doendo, inclina o corpo de um lado e do

outro, porque a Missa está demorando muito; depois fura

a fileira dos pêsames para conseguir sair mais depressa.

Ele, ele, ele…

Por que essa atitude? Porque os fatos perderam seu

significado.

v

(Extraído de conferência

de 21/11/1980)

31


Eco fidelíssimo da Igreja

Fotos: G. Kralj; S. Miyazaki.

Ai do homem a quem a espera não

homem que não aguenta a dor da

Comentemos um trecho da Sagrada Escritura, tirado

do Eclesiástico (Eclo 2, 1-6. 11s).

Meu filho…

Há uma coisa qualquer na Bíblia por onde, quando ela

diz “meu filho”, percebe-se ser filho mesmo! Não sei o

que é, mas entra com um timbre de voz próprio da Escritura,

de maneira a quase dar remorso de ler, acrescentando

a própria voz a uma voz inouvida, mas real, que a

Sagrada Escritura tem. Aquela frase de São Bento, por

exemplo, que é da Bíblia, a qual ele coloca na introdução

da sua regra: “Vem, meu filho, e ouve-me: ensinar-te-ei o

temor de Deus.”

Seria preciso aprender a dizer isto, não com a seguinte

pergunta: Qual é o melhor efeito que eu posso tirar de

minha voz para ler? Mas, como é a voz com que a Escritura

diz isto? E como posso obrigar a minha laringe a ter

a voz da Escritura? É outra coisa!

Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, persevera

firme na justiça e no temor…

Justiça é a virtude! Temor é o temor de Deus.

Dr. Plinio durante uma conferência, no final da década de 1980.

…e prepara a tua alma para a provação.

Que belo conselho! Começaste a amar a Deus? Atenção!

Prepara a tua alma para a provação! Inaciano a conta

inteira. Eu acho muito bonito.

Humilha o teu coração, espera com paciência…

Vemos a ligação da humildade com a paciência: o homem

humilde espera com paciência; o impaciente não é

humilde. Há aqui um ponto para ser analisado, estudado…

…dá ouvidos e acolhe as palavras da Sabedoria; não te

perturbes no tempo da infelicidade.

Quer dizer: no tempo difícil não tenha pressa de sair

dele, ensina a Sabedoria cochichando no nosso espírito.

Eu considero isso admirável!

Sofre as demoras de Deus.

Sofre, quer dizer, atura, suporta as demoras de Deus.

Dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no

derradeiro momento tua vida se enriqueça.

A vitória é dada a quem sofreu com paciência. Paciência

aqui não é a indolência, mas aquela virtude forte por

onde se aguenta a dor da espera. Ai

do homem a quem a espera não dói!

Ai do homem que não aguenta a dor

da espera! Isso é a paciência. Estou,

portanto, longe de censurar, mas a

léguas, o homem a quem dói a espera

do Reino de Maria. Eu o admiro,

porque ele quer quanto antes

esse Reino. Mas a dor da espera ele

aguenta como um herói.

E pôr um nexo disso com a humildade,

eu acho magnífico! Quer

dizer: minha paciência me daria direito

a que aquilo que espero viesse

logo. Mas minha humildade me

faz compreender que Deus pode fazer

de mim o que Ele quiser. E que

eu posso ficar de lado, nos planos de

Deus… Resultado: quem pensa assim

será aproveitado.

Aceita tudo o que te acontecer. Na

dor, permanece firme.

32


dói; ai do

espera!

Não diz: não sintas a dor, mas sofre, porque é terrível

o que te acontece. Não sejas um inerte e imbecil que à

força de apanhar já não sente dor. Aguenta o teu sofrimento,

por amor de Deus. Não é simples… mas é bom.

Tem paciência, pois é pelo fogo que se experimentam o

ouro e a prata; e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho

da humilhação.

Quer dizer: o homem a quem Deus ama, Ele faz passar

pela humilhação. Depois este homem poderá chegar

aos píncaros. Mas de torrente in via bibit — beberá

da água da torrente (Sl 109,7); na vida ele

é um humilhado; nesta ou naquela ocasião

ou durante a vida inteira, conforme

os desígnios de Deus. Caminha

e sê paciente! Para a frente!

Põe tua confiança em Deus e

Ele te salvará; orienta bem o teu

caminho e espera nele. Conserva

o temor dele até na velhice.

Fica velho no temor de

Deus… Quer dizer: passa a

vida inteira nesse temor filial

e reverencial de Deus.

Considerai, meus filhos,

as gerações humanas; sabei

que nenhum daqueles

que confiavam no

Senhor foi confundido.

Pois quem foi

abandonado após ter

perseverado em seus

mandamentos? Quem

é aquele cuja oração

foi desprezada?

Isso pode emendar-

-se no Memorare: “Memorare,

o piissima Virgo

Maria, non esse auditum a

saeculo...”

v

Nosso Senhor Jesus

Cristo, verdadeiro

modelo de paciência -

Sevilha, Espanha.

(Extraído de conferência

de 28/4/1984)

33


Dr. Plinio, apóstolo do pulchrum

O perigo e a glória

Como é bonito ver um navio navegar pelo mar

tranquilo e refulgente que espelha o Sol, com

belas ondas que apenas o fazem balouçar e

brincam com ele sem ter vontade de tragá-lo.

Entretanto, quão mais gloriosa é a condição do

navio após atravessar os perigos da tempestade e

continuar sua trajetória.

Abeleza de um navio transparece inteiramente

quando ele demarra do cais e navega longe

do porto, afastado de qualquer golfo, em circunstâncias

onde não se vê a terra firme. Pois é nesta

circunstância que ele se apresenta em seu isolamento

grandioso.

Imaginemo-lo num mar onde, de todos os lados, os

confins do horizonte se fecham em torno dele. Aí sim, se

percebe como o navio é pequeno diante do mar que ele

singra, e, ao mesmo tempo, como é grande porque ousa

singrá-lo. Que vitória singrar o mar!

O homem não cessa de se encantar e de se surpreender

com a navegação. A arte procura exprimi-lo reproduzindo

navios em toda espécie de mares.

Muitos pintores se têm esmerado em representar navios

na tempestade, quando o infortúnio se abate sobre

34


Embarcações singram o mar agitado,

por Johannes Christiaan Schotel, 1827 -

Rijksmuseum Amsterdam, Amsterdam (Holanda).

ele; ele resiste, ameaça soçobrar, mas continua até lhe

sobrevir a tragédia... Até o soçobro do navio é belo, a

agonia e a morte dele são bonitas, de tal maneira é bela

a navegação.

Na realidade, todo o infortúnio da navegação faz ver

aspectos da vida náutica que dão a glória do navio até

nos dias de bonança. Porque se não houvesse o perigo do

soçobro, ninguém acharia tão bonito o navio atravessando

o mar. E a beleza da travessia que o navio faz está no

perigo do soçobro e na vitória sobre o risco.

Realmente, o perigo é a condição da glória do navio.

Por assim dizer, o perigo espreme o navio e ele deita o

melhor de sua beleza neste suco da dor. v

(Extraído de conferência

de 20/3/1982)

35


A Virgem e o Menino

- Metropolitan

Museum of Art,

Nova York.

Maria fons

No hino Flos virginum, Nossa Senhora é chamada

“Maria fons”. Ora, como se deve entender

esta invocação? Em que sentido Ela é fonte?

Nossa Senhora é simbolizada por uma fonte encontrada

por alguém que está vagueando pelo deserto, com sede. Quer

dizer, Ela é a fonte na qual podemos nos dessedentar.

Mas fonte de quê? Ela é a fonte de todas as graças, pois

estas nos vêm de Nosso Senhor Jesus Cristo através d’Ela.

(Extraído de conferência de 18/8/1965)

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