Revista Dr Plinio 129

revistadp

Dezembro de 2008

Ano XI - Nº 129 Dezembro de 2008

Ontem, há um século...


Plinio, recém-nascido,

nos braços de sua

mãe, Dona Lucilia

Arquivo revista


Dr. Plinio

em 1993

Sumário

Plinio, recém-nascido,

nos braços de sua

mãe, Dona Lucilia

S. Miyazaki

Ano XI - Nº 129 Dezembro de 2008

Arquivo revista

Ano XI - Nº 129 Dezembro de 2008

orte, espero junto a [Maria Santíssima] rezar por

ssim de modo mais eficaz do que na vida terrena. Em

s e a cada um peço entranhadamente e de joelhos que

e devotos de Nossa Senhora durante toda a vida.”

Plinio Corrêa de Oliveira

(Do seu Testamento, escrito em janeiro de 1978)

Ontem, há um século...

Na capa, Dr. Plinio

aos 85 anos

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Foto: S. Miyazaki

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Editorial

4

Centenário de um varão

católico apostólico romano

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Pa r t e I

6

Primórdios de uma epopéia

Redação e Administração:

Rua Santo Egídio, 418

02461-010 S. Paulo - SP

Tel: (11) 2236-1027

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Pavagraf Editora Gráfica Ltda.

Rua Barão do Serro Largo, 296

03335-000 S. Paulo - SP

Tel: (11) 6606-2409

Pa r t e II

18

Ao serviço de Deus e da

Santa Igreja

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 90,00

Colaborador . . . . . . . . . . R$ 130,00

Propulsor ............. R$ 260,00

Grande Propulsor ...... R$ 430,00

Exemplar avulso ....... R$ 12,00

Pa r t e III

26

“Combati o bom combate”

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 2236-1027

3


Arquivo revista / G. Kralj


Plinio aos 4 anos; ao

fundo, a Basílica de

São Pedro, Roma

Desde cedo Nossa Senhora me concedeu a graça de perceber que a

fé católica era o maior valor da Terra, mais precioso que a luz dos

meus olhos, mais inestimável que os meus dias, mais rico do que

tudo. E que, portanto, viver era viver dessa fé; era consagrar-me completamente

à Santa Igreja, lutando pelo triunfo d’Ela sobre o mal que procurava

erradicar do mundo a fé católica apostólica romana.

(Extraído de conferência em 8/9/1982)

2


Editorial

Ce n t e n á r i o

d e u m va r ã o c at ó l i c o

a p o s t ó l i c o r o m a n o

Era uma radiosa manhã primaveril de domingo, 13 de dezembro de 1908. Os sinos

da igreja paroquial de Santa Cecília repicavam, chamando os fiéis para a Missa das

10 horas. Próximo dali, num certo palacete da Rua Barão de Limeira, os ecos daquele

tanger festivo se fizeram ouvir no exato momento em que uma jovem dama

dava à luz, o seu segundo filho. O recém-nascido receberá de sua mãe, Dona Lucilia, o nome

de Plinio.

Plinio Corrêa de Oliveira. Nome que, por si só, evoca uma vida inteira consagrada ao serviço

de Deus, de Maria Santíssima e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. De seus

próprios lábios recolhemos as palavras que melhor poderiam figurar, à guisa de editorial,

nestas páginas dedicadas a celebrar seu centésimo aniversário natalício:

“Vós me ouvistes falar várias vezes, e nunca ouvistes de mim — quer vós, meus amigos de

sempre que há trinta e quarenta anos comigo trabalhais, quer vós meus amigos de hoje que

neste momento a bem dizer começais a me conhecer — a seguinte frase: eu elaborei uma doutrina,

eu construí um pensamento, eu fundei uma escola, eu fiz isto, eu fiz aquilo.

“Tudo quanto tenho feito em minha vida, por um dever de justiça, na alegria e no entusiasmo

de minha alma, no reconhecimento e na gratidão, tenho apresentado como sendo

doutrina da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

“Porque se alguma coisa em mim há de bom, não é senão resultado do fato de que Nossa

Senhora me alcançou a graça — a qual não tenho palavras para agradecer e espero poder passar

junto a Ela a eternidade inteira agradecendo — de ter sido batizado, ser filho da Santa

Igreja Católica Apostólica Romana.

“A doutrina que dou é uma exposição da doutrina da Igreja. Lede meus livros, ouvi as minhas

conferências que estão gravadas, vós nunca ouvireis outra coisa de mim.

“Vós direis que há muita observação da realidade, que há muita sagacidade no modo pelo

qual vemos as coisas, que há originalidade no modo pelo qual solucionamos os problemas, e

eu vos direi que é verdade.

“Mas vós ouvireis cem vezes repetido por mim que isto nós devemos ao fato de sermos

imbuídos da Doutrina Católica a respeito de uma série de pontos da vida humana que, cristalizados

em fórmula, cristalizados em estilos de viver, corporificados em tradições, redundou

no que podemos chamar de nosso estilo próprio.

“Eu não sou, eu não pretendo ser senão um sino. Menos do que um sino: um eco do grande

sino que é a Igreja Católica Apostólica Romana. Eu pretendo prolongar — não como ministro,

não como mestre, mas como discípulo fiel e transido de alegria pela glória de ser dis-

4


S. Miyazaki

Dr. Plinio em 1991

cípulo — esse ensinamento. Somos o eco que no meio da batalha prolonga e leva ao longe a

voz do sino, fazendo-a ouvir por toda a parte.

“Meu desejo na vida não é senão repetir. Repetir aquilo que eu ouvi da Santa Igreja. Esta

fidelidade que até o dia de hoje eu mantive e que Nossa Senhora — espero — me outorgará

até o fim de meus dias, ao que a devo?

“Permiti‐me um instante de confidência. Havia por volta de 1920, em São Paulo, um menino

nascido de família católica, que em determinado momento passou por uma provação

muito dura. Neste instante, ele foi rezar junto a uma imagem de Nossa Senhora Auxiliadora

e, levantando os olhos para Ela — sem ter uma visão, sem ter uma revelação nem nada

que passe das vias comuns da graça — este menino entendeu que Maria era a Mãe de Misericórdia,

que com Ela ele se arranjaria. E a partir de então, adquiriu n’Ela uma confiança que

nunca o abandonou pelo resto de seus dias. Nossa Senhora lhe sorriu continuamente, e este

menino tomou como dever falar d’Ela e servi‐La enquanto ele vivesse.

“Este menino, que tudo deve a Maria Santíssima e que nesse momento faz a Ela um preito

agradecido de veneração, mostrando que nele não há nada, mas que Ela é a Medianeira de

todas as graças e que Lhe devemos atribuir tudo — este menino vós o vedes neste momento,

ele acaba de vós dirigir a palavra.” (Conferência em 15/1/1970)

Revestido dessa entranhada confiança na misericórdia de Maria, Dr. Plinio, no anoitecer

do dia 3 de outubro de 1995, entregou serenamente sua alma ao Criador. Na lápide de seu

túmulo haveria de luzir o único título que ele prezou em ostentar durante a sua existência,

e que resume toda a riqueza de seu espírito:

Plinio Corrêa de Oliveira, vir totus catholicus et apostolicus, plene romanus — varão todo católico

e apostólico, plenamente romano.

Dec l a r a ç ã o: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

5


I – Primórdios de

uma epopéia

Quando o menino Plinio, saído de um ambiente familiar

marcado por sólidos valores e costumes cristãos, viu-se de

súbito diante de um mundo cada vez mais influenciado pelos

hábitos fáceis da mentalidade dita “moderna”, esse choque

determinou nele a decisão perene e irrevogável: “Aconteça comigo

o que acontecer, eu serei a favor do bem contra o mal. Serei, portanto,

a favor da Igreja Católica Apostólica Romana, da pureza,

da compostura, da hierarquia. Esses valores se confundem comigo,

a eles devotarei minha existência.”

A seguir, nas próprias palavras de Dr. Plinio, a descrição de

suas primeiras lutas, dos fundamentos de sua piedade e de seu

encontro com o ideal católico que ele abraçaria de toda a alma.

Sou brasileiro por todos os

lados. Não tenho em minhas

veias outro sangue além

do português, umas três ou quatro

longínquas gotas de sangue espanhol

e um pouquinho de índio,

pois eu descendo muito remotamente,

pelo lado paterno, de uma

índia chamada “Salta-riacho” e,

pela parte materna, de duas índias

apelidadas respectivamente Méciaaçu

e Mécia-mirim 1 .

Minha família

Minha família paterna é procedente

do Estado de Pernambuco.

Dela, a única pessoa que

teve alguma influência sobre a

formação de minha mentalidade

foi meu pai, Dr. João Paulo

Corrêa de Oliveira, sobrinho do

Conselheiro João Alfredo Corrêa

de Oliveira, que foi governador

de Pernambuco e depois

ministro da justiça no gabinete

do Visconde do Rio Branco,

no tempo do Império. Posteriormente,

João Alfredo se tornou

presidente do Conselho de

Ministros e, por sua iniciativa,

a Princesa Isabel promulgou a

“Lei Áurea”, que extinguiu a escravidão

no Brasil.

Quando comecei a dar acordo

de mim, meus primeiros contatos

temperamentais e emotivos

foram com a família materna.

Considerada a grande união que

eu tinha com minha mãe, Dª Lucilia,

evidentemente o ambiente

no qual ela vivia teve muito mais

nexo com a formação de minha

mentalidade.

Os Ribeiro dos Santos vieram

de Portugal para São Paulo

no tempo de Dom João VI.

Era uma família em lenta e constante

ascensão social e econômica.

Na época do Império, ocupou

boas posições e produziu alguns

6


Fotos: Arquivo revista

“ S ou brasileiro

por todos s lados,

descendent e, nas

minhas famílias

paterna e materna,

de homens que se

destacaram na

história do País ”

Acima: Dona Lucilia e Dr. João Paulo,

pais de Dr. Plinio; à direita: o Conselheiro

João Alfredo Corrêa de Oliveira

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I – Primórdios de uma epopéia

homens de destaque. Depois, no

tempo da República, foi fecunda

em produzir figuras eminentes

para o círculo doméstico — advogados

e fazendeiros — e também

alguns políticos.

Formado num ambiente

de tradições católicas

Outro fundo de quadro de minha

educação foi o resto de tradição

católica recebido de minha

família, a qual não era nem mais

nem menos religiosa que o conjunto

das famílias tradicionais de

São Paulo. Essa tradição brasileira

— ainda com muito do calor

e do sabor do Ancien Régime e

da Idade Média — habituou-me

a ver na Igreja Católica a própria

base e alma desta ordem de coisas,

e preparou-me para considerá-la

com Fé incondicional, submissa,

alegre e total, e com a admiração

sem limites que, por graça

obtida através de Nossa Senhora,

até hoje possuo.

Declaro com enorme contentamento:

tudo quanto possa haver de

bom em mim provém da Fé católica,

que recebi como tradição, pois o

catolicismo vivia nas almas das pessoas

que constituíam o ambiente

no qual me formei. A fonte verdadeira

e viva de todo o bem é a Igreja

Católica Apostólica Romana, com

a submissão ao Santo Padre, Vigário

de Jesus Cristo na Terra.

Essa influência católica recebeu

um apoio especialíssimo em minha

primeira infância, através do

convívio com minha mãe. Afirmo

isto de todo o coração, pois eu a

queria tanto quanto um filho pode

querer sua mãe.

Em mamãe, paz de

alma e cumprimento

do dever

As primeiras impressões que

se tem a respeito das coisas são

as mais vivas. Quando me lembro

dos momentos em que comecei

a prestar atenção em mamãe,

tomei consciência da sua

relação especial comigo e senti-me

envolvido por seu trato e

sua personalidade. Percebo que

a sensação que ela me causava,

embalando-me em seu colo, foi

a mesma ao longo da sua vida,

até ela exalar o último suspiro.

Era uma impressão luminosa,

forte, dulcíssima e estável.

8


“ Beneficiei-me

da influência

católica recebida

no meu ambiente,

de modo especial

por parte de

minha mãe ”

Fotos: Arquivo revista

Dona Lucilia aos 30 anos

Havia no fundo de sua alma

uma paz decorrente da convicção

de estar seguindo o caminho

que devia trilhar, e isso lhe dava

Ao lado, da

esquerda para

a direita: tioavô,

avós e

uma tia-avó

de Dr. Plinio

uma tranqüilidade de consciência

admirável. Eu nunca a vi agitada

com coisa nenhuma. Por outro

lado, era de uma intransigência

completa, exigindo que tudo

estivesse inteiramente bem. Não

tolerava qualquer mal e analisava

as coisas com seriedade, não pelo

seu eventual aspecto divertido ou

engraçado. Por fim, ela possuía

tal retidão que nunca a vi mentir,

procurar fazer um sofisma ou enganar

alguém; ela dizia para todos

a verdade como era. Também

desempenhava seu dever até o último

ponto que fosse preciso, como,

por exemplo, o de ser afetuosa

para comigo.

Um menino com idéias

de justiça e elevação

Repassando as mais remotas

lembranças que conservo de mim

mesmo, ou seja, como menino de

dois ou três anos, recordo-me de

ter então certas idéias de justiça,

de direito, de elevação, de sublimidade,

as quais a graça pode

sugerir muito prematuramente

a uma criança. E Nossa Senhora

me favoreceu, desde pequeno,

concedendo-me um bem definido

senso de justiça. Por essa razão,

embora fosse eu de gênio bastante

afetivo, percebendo que a justiça

havia sido violada, logo entrava

em campo para reivindicá-la

e fazê-la prevalecer.

O choque de

mentalidades no

Colégio São Luís

A primeira grande luta de minha

vida e o grande encontro meu

com a Igreja se deram com a minha

entrada na Colégio São

Luís. Com efeito, pouco depois

de ter ingressado nesse estabelecimento,

notei que se criou um

isolamento em torno de mim.

E não me foi difícil perceber que

9


Fotos: Arquivo revista

Acima: A Berlim

imperial; à

esquerda:

Igreja de

Saint-

Germainl’Auxerrois,

Paris

Plinio e Rosée, em Paris (1912)

N

a primeira viagem à Europa, antes

de eu completar 4 anos, deramse

comigo alguns fatos dos quais mamãe,

até na sua extrema ancianidade, guardava

comprazida recordação.

Por exemplo, naquela época havia em Paris o

Rond-Point, uma praça ajardinada em forma

circular, cortada por várias avenidas, ente elas a

famosa Champs-Élysées. Tratava-se de um lugar

muito pitoresco, sobretudo porque ainda era pouco

freqüente o uso de automóveis, e a maior parte das

pessoas se deslocava a cavalo. Então passavam por

ali em belas montarias, ajaezadas com muito bom

gosto, ou em elegantes charretes. E pitoresco, também,

pelos teatrinhos de marionetes que se erguiam

entre os arvoredos, apresentando os mais variados

espetáculos para quem ia passear e se espairecer por

lá. Um deles era especialmente voltado para o público

infantil, que sempre lotava as sessões.

Eu era um desses assíduos espectadores e, na

minha juveníssima idade, não tinha clara noção

das coisas, atribuindo uma certa realidade

à cena que se desenrolava no palco. O resultado

é que, quando o enredo não me parecia

Teatrinho do Rond-Point

10


correto, eu intervinha. Fazia-o de modo particular

durante uma peça que eles apresentavam,

na qual um boneco com forma de crocodilo discutia

com outro que representava um sacerdote,

dizendo ter o direito de devorá-lo. Estávamos

numa época de anticlericalismo muito forte, e

os injustos argumentos do crocodilo eram todos

nessa linha. Indignado, eu me levantava e dizia,

em francês:

— Le méchant crocodile, je proteste! Ce n’est

pas vrai! Il faut défendre le curé! (Crocodilo

malvado, eu protesto! Não é verdade o que você

diz! É preciso defender o padre!)

E acabava me pondo em pé sobre a cadeira, invectivava

o bonequinho “criminoso”, dialogava

com ele, tomando a situação muito a sério. Longe

estava eu de perceber que aquela minha atitude

chamava a atenção não só da platéia como de

outras pessoas que passeavam pelo parque. Naturalmente,

o dono do teatrinho, vendo que seu público

aumentava graças às minhas intervenções,

mudava o roteiro da peça a fim de provocar

protestos ou aplausos meus. Numa palavra,

ele me explorava ao máximo...

Wiesbaden

(acima)

e Berlim

(direita) no

início do

século XX

Dona

Lucilia

em Paris

(1912)

As Tulherias, Paris

11


I – Primórdios de uma epopéia

essa atitude para comigo se devia

ao fato de eu ter tido uma educação

conservadora e, por muitos

aspectos, conforme aos bons ditames

da moral católica. Em suma,

eu havia tido uma formação

contra-revolucionária, tratava as

pessoas com cortesia e muita distinção,

o que desagradava às maneiras

revolucionárias que foram sendo

introduzidas no convívio humano

após a Primeira Guerra Mundial.

Donde uma espécie de repulsa

a mim, por causa de minha amabilidade.

Acrescente-se a isso a antipatia

que alguns me manifestavam

por eu ser um aluno que desejava

viver na lei da inocência, da

pureza e dos preceitos cristãos.

Arquivo revista \ T. Ring

Porém, a ofensiva mais acerba

que recebi dos que representavam

a Revolução naquele pequeno

mundo veio na forma de

uma pedrada que me atingiu numa

das têmporas. Em se tratando

de uma região delicada da cabeça,

a péssima intenção de quem

a atirou era evidente. E eu percebi

que a mão culposa imediatamente

se escondeu. Era, ao mesmo tempo,

o ódio e o medo, a audácia e

a covardia dos que queriam abafar

o bem.

Por outro lado, nesse choque

me ficou igualmente claro o papel

da Igreja, como sendo a alma e a

inspiradora da Contra-Revolu-

“ Com s

embates que se

levantaram à

minha frente,

meus olhos se

voltaram para

Nossa Senhora ”

Nossa Senhora Auxiliadora,

São Paulo; Plinio aos 9 anos;

na página 13, ele aos 8 anos

12


N

uma interpretação talvez forçada do

português falado no Brasil, o “muito

jovem” aplica-se também ao menino.

Portanto, essas minhas palavras se referem à época

em que eu entrei no Colégio São Luís e se me tornou

claro o confronto Revolução e Contra-Revolução.

Foi um choque tremendo e um antagonismo

que logo se manifestou inteiro. Donde essa espécie

de verso definir a minha deliberação de me manter

fiel, por toda a vida, às tradições cristãs que eu

herdara de um passado glorioso.

Decidi-me a lutar pelos restos da Cristandade,

até que Nossa Senhora nos enviasse

um socorro do Céu. Era o ideal, o

meu porvir — que não é somente o futuro,

mas um futuro visto na sua abnegação em

favor de algo mais elevado que os interesses

terrenos — que eu abraçava. Eu teria, por

isso, uma existência de luta, de agruras, de

privações. Eu o quis, depois de considerar

enlevado aqueles restos pelos quais valia

a pena lutar. O que, nas minhas sucessivas

idades, foi possível ir conhecendo e admirando

do passado católico, eu o fiz gradualmente,

ponto por ponto. E o fiz com a

intenção, pervadida de veneração e ternura,

de dedicar-me para evitar que tais restos

fossem destruídos e, pelo contrário, que

vencessem.

“ Quando ainda muito jovem,

considerei enlevado

as ruínas da Cristandade.

A elas entreguei o

meu coração.

Voltei as costas ao meu futuro,

e fiz daquele passado,

carregado de bênçãos,

o meu porvir. ”

Arquivo revista

13


I – Primórdios de uma epopéia

ção, pois era em virtude dos ensinamentos

e da moral que ela pregava

que eu estava disposto a resistir.

E então firmei o propósito:

“Avance! Reze a Nossa Senhora,

peça-Lhe forças e não tenha medo.

Discuta, seja um polemista de

primeira ordem, saiba ter os argumentos

decisivos, saiba ter a palavra

fácil, corrente, que se ouve

com agrado. E saiba falar bastante

alto, para que os outros compreendam

que você exige para si

um lugar à luz do sol, e que fala

alto porque tem certeza de sua

razão. E adiante!”

Nasce a devoção a

Nossa Senhora

Nascia, desse modo, na minha

alma, o dom mais precioso que

tive na vida, depois do amor ao

próprio Sagrado Coração de Jesus:

a devoção a Nossa Senhora.

Com os embates que se levantavam

à minha frente, meus olhos

se voltaram para Ela e, conhecendo

de perto a sua maternal bondade

para comigo, tendo me ajudado

em penosas circunstâncias,

eu disse para mim mesmo: “Essa

misericórdia de Maria me faz

desejar unir-me a Ela espiritualmente

até o fim de minha vida, e,

se para o Céu Ela me levar, passar

a eternidade junto ao seu trono

de Mãe e Rainha.”

Amadurecimento precoce

Os anos se passaram, e no período

em que eu vivi minha adolescência

— um adolescente cada

vez mais isolado porque desejoso

de se manter casto e fiel à Lei

de Deus —, o mundo se reerguia

dos escombros da Primeira Guerra

Mundial.

Então, mais do que em outras

épocas, o conceito de progresso

continha a idéia de um turbilhão

forte, sadio, cheio de esperança,

perpetuamente jovem e com impulso

magnífico. Não a impetuosidade

de uma águia a alçar vôo,

mas, literalmente, a de um espiral,

de um vento possante que sobe

e arrasta todas as coisas consigo

para as ebriedades das novas

conquistas, dos novos enriquecimentos,

dos novos gáudios, de

uma via láctea de descobrimentos

que estão para ser feitos e que

tornam a vida cada vez mais agradável.

Infelizmente, um turbilhão

na sua maior parte absorvente e

ateu. Confia-se nele, turbilhão,

nas suas promessas de que nos

dará tudo quanto outrora esperávamos

de uma bondade divina, da

qual nos esquecemos em favor da

pura natureza.

Ora, Maria Santíssima me obteve

a graça de desprezar esse turbilhão

e confiar na infinita bondade

de Deus. Por causa dessa

minha oposição ao otimismo generalizado

e terreno, tomei um

ar de maturidade que excedia de

muito a minha condição de adolescente.

Lembro-me de que, aos

16 anos, tornei-me funcionário

público na Secretaria de Agricultura

de São Paulo. De posse de

minha nomeação, apresentei-me

no local de trabalho. O atendente

me recebeu com cortesia:

— Por favor, o senhor preencha

esse formulário com seus dados.

Preenchi e lhe devolvi o papel.

Quando ele verificou a idade que

eu declarara ter, o homem se assustou:

— Não, o senhor está brincando.

Não pode ser 16. O senhor

tem pelo menos 21 anos! Desculpe-me,

mas não posso aceitar esse

regristro, se o senhor não me

comprovar com sua carteira de

identidade. O senhor a trouxe?

— Não, mas eu trago amanhã.

14


“ Na l uta,

no isolamento

e na esperança

do meu futuro,

transcorreu

minha

mocidade. ”

Fotos: Arquivo revista

Na página 14: Plinio aos 16

anos; à direita, ele aos 20

— Então ficamos combinados

assim.

No dia seguinte, eu levei a

identidade e ele pôde comprovar:

“É verdade, o senhor tem 16

anos. Desculpe-me, está tudo certo”.

Fez o registro e eu comecei a

trabalhar.

Encontro com o

ideal católico

Entre os meus 15 e 20 anos,

embora eu freqüentasse a sociedade,

era muito retraído em virtude

de minhas convicções religiosas.

Por isso também, havia uma dúvida

a respeito do que fazer de minha

vida. E assim, no quase isolamento,

na resolução de lutar e na

alegria — cumpre notar — da esperança

do meu futuro, transcorreu

minha mocidade. Esperança

do futuro, sim, pois era nele que

eu me refugiava para enfrentar as

oposições do ambiente.

Qual não foi o meu espanto

quando, certo dia de 1928, passando

de bonde pela Praça do Patriarca,

no centro de São Paulo,

reparei numa larga faixa estendida

à frente da Igreja de Santo Antônio,

cujos dizeres eram: “Congresso

da Mocidade Católica, de 9

a 16 de setembro. Inscrições nesta

praça, prédio tal, número tal”.

Pela natureza do anúncio, percebi

tratar-se de um congresso de juventude

masculina. Fiquei encantadíssimo!

“Quem sabe — pensei

— existe aí um lugar onde eu me

encaixe e escape dessa pressão em

que vivo?”

A notícia daquele congresso

abria para mim um tão imenso

horizonte, que meu primeiro

movimento foi de descer e já fazer

minha inscrição. Porém, era

início de noite e todos os escritórios

estavam fechados. Restavame

apenas esperar o dia seguinte,

quando então me apresentei no

local indicado, inscrevi-me e recebi

uma medalha para ser usada

durante o evento.

Tal era meu entusiasmo que, na

manhã do primeiro dia de reuniões,

ao tomar o bonde em direção

à Igreja de São Bento, local

do congresso, logo que me sentei

coloquei a medalha, ostentando-a

com ufania por todo o trajeto. Ao

entrar na igreja dos beneditinos,

fiquei verdadeiramente espantado

com o número de moços católicos

ali reunidos, muito superior

ao que eu tinha imaginado.

De fato, acabei descobrindo que

num setor de São Paulo, estranho

aos meus círculos sociais, havia

em formação um grande movimento

de jovens católicos apostólicos

romanos, praticantes, castos,

direitos, sinceros devotos de

Nossa Senhora. E eram algumas

centenas.

Imediatamente após o congresso,

eu me inscrevi na Congrega-

15


16


“ A coragem

deu resultado:

no fim do curso,

estava mudado

o ambient e da

Faculdade de

Direito ”

Fotos: Arquivo revista

Dr. Plinio com a beca de Bacharel

em Direito (pg. 16) e no dia de sua

formatura (no meio da foto, ao

fundo, sozinho, junto à coluna)

ção Mariana de Santa Cecília,

uma das mais dinâmicas da época.

Tinha início minha dedicação

mais efetiva e completa ao serviço

da Santa Igreja. Não demorou

muito que eu me tornasse conhecido

nos meios religiosos, e passasse

a ser visto e tomado como

um líder católico.

Ação na Faculdade

de Direito

Um dos primeiros lances de

minha militância católica deu-se

no interior da Faculdade de Direito,

onde eu estudava. A princípio

receoso do ambiente laico

e semeado de antipatias contra

a Igreja, quando ali me matriculei

sentia o coração me bater na

garganta. Porém, já congregado

mariano, vi que aquela antipatia

não era tão agressiva. Fundei,

junto com outros congregados

também alunos da Faculdade,

a Ação Universitária Católica,

com seu jornal próprio, o

qual distribuíamos na entrada

do prédio, no Largo São Francisco.

Os colegas aceitavam,

agradeciam e passavam. Nenhuma

vaia, nenhuma animosidade.

Eu pensei: “A coragem está dando

resultado”.

Para abreviar, quando se aproximou

o final do curso, propus, em

nome da AUC: “Queremos que a

Missa de formatura seja dentro

da Faculdade de Direito. Encarrego-me

de trazer o maior orador

sacro do Brasil para discursar e

presidir a celebração. Mas, tem de

ser no interior da Faculdade”.

O reitor e os organizadores da

cerimônia concordaram. No dia

da formatura, encontrei um altar

armado dentro da Faculdade,

e uma bancada com cadeiras para

os professores. A maior parte

destes se apresentou de beca e alguns

de rosário na mão, acompanhando

a Missa. Com surpresa

para mim, na hora da Comunhão,

vários de meus companheiros de

turma se aproximaram para receber

a Eucaristia. O ambiente estava

mudado. Eu tinha 22 anos. v

(Extraído de conferências

em 12/8/1988,

28/1/1990, 5/3/94 e 26/2/1995)

1) Açu e mirim: “grande” e “pequena” em língua

tupi-guarani.

17


30 anos

40 anos

20 anos

8 anos


Fotos: Arquivo revista / S. Miyazaki

60 anos

50 anos

70 anos

80 anos

“ Foi uma vida int eira de

trabalhos para e por Maria

Santíssima, sob o amparo de

sua maternal misericórdia ”


Arquivo revista

Dr. Plinio aos 24 anos, quando deputado na Assembléia Constituinte Federal


II – Ao serviço de Deus

“Uma epopéia de fidelidade”. Assim definiu Dr. Plinio os

longos e fecundos anos de apostolado empreendido por ele

e seus discípulos, nos quais sua alma de fundador, a cada

minuto, pulsava de devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo e à

sua Mãe Santíssima, à Santa Igreja e ao Papado.

Ao recordar outras significativas circunstâncias dessa

heróica trajetória, Dr. Plinio não deixava de salientar sua

profunda gratidão pelo maternal e incansável auxílio

recebido de Maria em todas as horas.

Nos [idos da década de 20] havia uma grande

e luminosa realidade que se chamava o “movimento

católico”. Nessa designação genérica

se compreendia o conjunto formado, de norte

a sul do País, pelas associações religiosas. É claro

que neste, como em todos os vastos conjuntos, havia

certa heterogeneidade. Assim, a par de entidades

inertes, esclerosadas pelo tempo ou abortadas por

fatores vários, havia outras de uma vitalidade incontestável,

e algumas até de uma pujança extraordinária.

Entre estas últimas refulgiam as Congregações

Marianas.

Candidato mais jovem e mais votado

O movimento mariano, que começara a se expandir

no período de 1925 a 1930, chegava então

ao seu apogeu. Prestara ele à Igreja o incomparável

serviço de — num país como o nosso, em

que a religião [quase] só era praticada pelo sexo

feminino e por uma minoria de homens de idade

madura — atrair para a vida de piedade e para o

apostolado legiões inteiras de jovens de todas as

classes sociais.

Todo este mundo de associações novas e antigas

— pois pela quantidade se tratava de um mundo —

caminhava para a frente unido filialmente a um clero

no qual eram numerosas as personalidades de valor

e prestígio, e a um episcopado coeso e profundamente

venerado.

A força do movimento católico se provara em mil

conjunturas. Assim, em 1933, [eu era] o mais jovem

dos candidatos à Constituinte Federal [e fui]

ao mesmo tempo o mais votado do País. Tinha 24

anos, e obtive 24 mil votos (o necessário para se

eleger era 12 mil). Tal votação, deveu-se exclusivamente

ao apoio das entidades católicas de São Paulo.

O teste surpreendeu e impressionou tanto, que a

partir desse momento a Liga Eleitoral Católica passou

a ser reputada uma das maiores potências do

Brasil. (...)

Diretor do “Legionário”

Encerrada minha atuação no cenário legislativo,

continuei a militar, como o fazia desde 1928,

nas fileiras marianas. Foi-me então confiada a direção

do Legionário, órgão da Congregação Mariana de

18


e da Santa Igreja

Santa Cecília. No quadro redatorial desse semanário

formou-se gradualmente um grupo de amigos,

todos congregados como eu, que nos dedicamos de

corpo e alma ao jornalismo católico.

O Legionário não se destinava ao grande público,

mas tão somente a esse imenso meio, algum tanto

fechado, que era o movimento católico. Dentro desse

meio, se estendia de norte a sul do país sua influência

de representante do pensamento das forças

mais jovens e dinâmicas. Realçava ainda essa influência

a situação pessoal de meus colaboradores

e a minha no movimento católico, [pois] fazíamos

parte da direção das entidades mais marcantes

da juventude católica de São Paulo, isto é, da cidadela

mariana por excelência. (...)

Nuvens, dissensões: sim, o Legionário as encontrou,

mas pequenas. Provinham de leitores fascistizantes,

irritados com a campanha sem tréguas que o

Legionário movia contra o nazismo e o fascismo.

Tudo prometia pois um porvir de trabalhos fecundos

e pacíficos.

Sobreveio a noite de um

pesado ostracismo

Foi precisamente aí que a tragédia provocada pelos

germes “progressistas” estourou. Desde os primórdios

da crise, o Legionário foi sutilmente atacado,

pois era o porta-voz de uma mentalidade que a urdidura

“progressista” queria extirpar (...) Desde os

primórdios, também, em nossas reuniões de redação,

notamos que o mal vinha espalhado com suma

arte, lábia e cópia de prosélitos. Era preciso dar, em

meio à desprevenção geral, um brado de alarma, que

acordasse a atenção de todos. Assim, (...) publiquei

o livro-bomba Em Defesa da Ação Católica. Era um gesto

de kamikaze. Ou estouraria o “progressismo”, ou

estouraríamos nós.

Estouramos nós. (...)

A noite densa de um ostracismo pesado, completo,

intérmino, baixou sobre aqueles meus amigos

que continuaram fiéis [aos princípios da doutrina

católica que eu defendia no] livro. O esquecimento

e olvido nos envolveram, quando ainda estávamos

na flor da idade: era este o sacrifício previsto e consentido.

A aurora, como veremos, só voltou a raiar

em 1947.

“Escondida na terra, a

semente germinava”

Nosso período catacumbal durou quatro anos.

Mas quatro que traziam constantemente consigo os

tristes sintomas de um estado definitivo e sem remédio.

Imagine-se um pugilo de líderes já sem liderados,

um grupo que já cumpriu sua missão, sobreviveu

a ela, e fica sobrando. Esta a nossa situação

quando o mais velho de nós tinha 40 anos e o mais

jovem 25!

Resolvemos continuar unidos, em uma vigília

de oração e análise dos acontecimentos até quando

Deus quisesse.

Alugamos uma pequena sede na Rua Martim Francisco

[no bairro Santa Cecília, da capital paulista],

e ali nos reunimos todas as noites sem exceção. Recordação,

sem amargura nem orgulho, das glórias da

imolação dos dias idos. Análise solícita e entristecida,

da deterioração discreta e implacável da situação

religiosa. Estudos doutrinários em comum. Convívio

fraterno e cordial. Assim, a Providência colocava

as condições ideais para nos unir. Veio daí um tal

enrijamento de nossa coesão no pensar, no sentir e

no agir, como mais seria difícil imaginar. Escondida

em terra, a semente germinava.

A nosso lado, organizava-se a solidariedade preciosa

e discreta de um pugilo de moças que conosco lutara

na Ação Católica contra o progressismo nascente, e

também se retirara conosco para o ostracismo. (...)

19


Fotos: Arquivo revista

Acima: Dr. Plinio (3º da direita para a

esquerda), jovem diretor do “Legionário”,

com o Arcebispo de São Paulo, D. Duarte

Leopoldo e Silva; à esquerda: como deputado

(o 6º de pé, da direita para a esquerda)

na bancada paulista; abaixo: ele aos 33

anos, presidente da Ação Católica


II – Ao serviço de Deus e da Santa Igreja

Carta da Santa Sé elogia

o livro do “kamikaze”

[Dois anos depois, no início de 1949], um religioso

muito amigo me entregou uma correspondência

vinda do Vaticano para mim. Era uma carta

oficial em latim, assinada por Mons. João Batista

Montini, [o futuro Papa Paulo VI], que dirigia então

a Secretaria de Estado da Santa Sé. Eis seu texto

em português:

Palácio do Vaticano, 26 de fevereiro de 1949.

Preclaro Senhor: Levado por tua dedicação e piedade filial

ofereceste ao Santo Padre o livro “Em Defesa da Ação Católica”,

em cujo trabalho revelaste aprimorado cuidado e acurada

diligência. Sua Santidade regozija-se contigo porque explanaste

e defendeste com penetração e clareza a Ação Católica, da

qual possuis um conhecimento completo, e a qual tens em grande

apreço, de tal modo que se tornou claro para todos quão importante

é estudar e promover tal forma auxiliar do apostolado

hierárquico.

O Augusto Pontífice de todo o coração faz votos que deste

teu trabalho resultem ricos e sazonados frutos, e colhas não

pequenas nem poucas consolações. E como penhor de que assim

seja, te concede a Benção Apostólica.

Desta vez, tudo se tornava cristalino. Pio XII louvava

e recomendava o livro do kamikaze.

Dir-se-ia que (...) a situação voltava a ser para nós

o que era antes de 1943. Engano. No que diz respeito

aos ex-redatores do Legionário, ela ficou inalterada.

Surpreendente contradição dos fatos, sobre a

qual é cedo para falar. Mas um acontecimento sobreveio,

mais ou menos paralelamente a essas vitórias,

que marcaria a fundo nosso futuro.

O Pe. W. Mariaux, S.J., fundara, no Colégio São

Luís, uma Congregação Mariana brilhante. Destinado

o notável jesuíta para a Europa, por seus superiores,

parte dos congregados nos procurou solicitando

ingresso em nosso grupo. Eram cerca de 15 elementos

jovens, de inteligência e capacidade de ação invulgares,

[que engrossaram nossas fileiras]. (...)

“Revolução e Contra-Revolução”

Como as circunstâncias do País iam mudando,

nosso interesse se ia ampliando cada vez mais para

o campo social. Escrevi então, em 1959, um ensaio

expondo nossas teses essenciais na matéria. Intitulou-se

Revolução e Contra-Revolução. O trabalho teve

oito edições: duas em português, uma em francês,

uma em italiano e quatro em espanhol.

Estava criado o campo para se desprender de

todos estes antecedentes uma ação de uma natureza

diversa, isto é, tipicamente cívica e temporal

(...), [em torno da qual se uniriam] todos os

amigos que o idealismo, a desventura, a fidelidade,

e as recentes alegrias tão intimamente haviam

fundido em uma só alma. (Artigos na Folha de São

Paulo, de 15 e 22/2/1969)

Dr. Plinio em 1943; fac-símile da carta de

aprovação da Santa Sé ao livro “Em Defesa

da Ação Católica”; capa da primeira edição

de “Revolução e Contra-Revolução”

Fotos: Arquivo revista / M. Shinoda

20


Fotos: Arquivo revista / G. Kralj

Dr. Plinio com a beca de

professor universitário

“Sala João Mendes”

(estado atual)

Certa ocasião houve greve em toda a Faculdade de Direito,

do Largo São Francisco, onde eu lecionava. Quando

cheguei, um piquete de grevistas estava percorrendo

as classes, a fim de obrigar os estudantes a aderirem à manifestação.

Ignorei-os, e comecei a trabalhar, dando aulas na “Sala

João Mendes”, um recinto especial, solene, com uma cátedra alta

e uma imensa porta de entrada. Em determinado momento, o

bedel veio me dizer, aflito:

— Professor, queria avisar ao senhor que está havendo essa

greve... Seria mais prudente o senhor desistir de dar a aula hoje.

Minha resposta:

— Desistir de dar aula por causa de greve, não.

— Mas, professor, não sei... Se os alunos baterem aí na porta...

— Arranje-se, porque eu dou conta do caso.

Dali a pouco os grevistas se aproximaram da minha porta,

repetindo seu brado de protesto: “Greve! Greve!”. Os alunos começaram

a cochichar. Eu continuei como se nada estivesse acontecendo.

Ocorreu então o inevitável. Um dos grevistas desferiu

um pontapé na porta, e o bedel me pergunta:

— O que faço, professor? Agora estão eles aqui.

— Vá lá e abra a porta. E abra de par em par. Depressa!

Ele foi e fez o que eu pedi. Na sala toda, expectativa: o que irá

acontecer? Assim que o bedel abriu a porta, dei-me de frente com os

grevistas. Olhando-os de modo fixo, perguntei-lhes num vigoroso timbre

de voz:

— Que é?!!

— Professor... nós... estamos fazendo greve...

— Greve?! Fora!!!

Minha recusa era declarada com tal força e decisão que eles compreenderam

não havia remédio. Dissolveram-se. Eu disse ao bedel:

— Feche a porta.

Ele a fechou, e eu prossegui a aula. Terminei-a tranqüilamente, e

saí pelos corredores, nos quais alguns manifestantes ainda transitavam,

insistindo no seu grito de “greve! greve!”. Pensei: “Eles agora

vão se vingar de mim e tentarão me vaiar. Posso sair por uma porta

do fundo, mas, se perceberem, hão de achar que estou com medo. Isso

será pior. Devo enfrentá-los e me distanciar com serenidade”.

E foi o que fiz. Com toda a calma, atravessei no meio deles e nada

disseram. Voltei para casa. Tinha chegado ao fim mais um dia de aula

na Faculdade de Direito.

21


II – Ao serviço de Deus e da Santa Igreja

Razões que justificam

nosso apostolado

Não seria despropositado que algum dos membros

mais jovens do nosso movimento se perguntasse

que motivos tem para se dedicar aos nossos

ideais. Julgo que seria uma interrogação compreensível.

E creio devesse ele, antes de tudo, olhar

ao seu redor e considerar como muito outros,

mais velhos, abraçaram a mesma causa quando ele

ainda estava nos desígnios de Deus. Ou seja, é

oferecido a ele ter contato com pessoas que me

conhecem desde o começo de nossa trajetória,

iniciada bem antes de ele nascer, e que podem lhe

dar testemunho de nossa história, de nossos lances,

de nossas ações, de nossa idoneidade naquilo

que empreendemos.

Primeiro título de confiança: amor

à Santa Igreja e ao Papado

Dos títulos que poderiam ser alegados para que

alguém adquirisse essa confiança em mim, tenho

a impressão de que dois sobressaem e valem mais

do que quaisquer outros. Não faço aqui, pois, o

meu próprio elogio, mas o desses títulos — que

na realidade são duas graças — misericordiosamente

alcançados por Nossa Senhora a meu favor.

O primeiro, na ordem cronológica, é de ter amado

com toda a minha alma a Igreja Católica Apostólica

Romana. Na medida em que a minha alma foi se

abrindo para conhecer e compreender a Igreja, dentro

da qual tive a honra e a ventura de nascer, por

disposição da Providência, a ela fui aderindo, por

ela fui me encantando e enlevando, com aceitação e

entusiasmo completos. E, dentro da Igreja, venerando

o Papado com todo o amor com que amo a ela.

No primeiro símbolo que idealizamos para nosso

movimento figuravam as chaves pontifícias,

imagens do poder do Vigário de Cristo nas ordens

sobrenatural e temporal, para manifestar nossa inteira

submissão ao Papado. Razões pertinentes nos

levaram a tirá-las do nosso símbolo, mas, no meu

espírito, nunca o vejo sem as chaves do Papado. E

as derradeiras palavras que desejo pronunciar antes

de morrer serão o meu consumatum est pela Sede

de São Pedro.

O Papado é o centro da Igreja. A Igreja é o centro

de nossa vida. Logo, o Papado é o centro de

nossa existência. Pelo Papa, somos capazes de fazer

tudo, todas as imolações, todos os sacrifícios.

Segundo título: a devoção

a Nossa Senhora

Outro título é: entre os meus seguidores, creio

que nenhum conheceu o Tratado da Verdadeira Devoção

à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion

de Montfort, sem que fosse direta ou indiretamente

por minha causa.

Quando o encontrei, achei o livro de que eu precisava.

Foi, pode-se dizer, o livro de minha vida. A tal ponto

que, por exemplo, quando eu morrer, se alguém quiser

fazer um epitáfio na minha lápide funerária com

esta inscrição: “Leu o livro de São Luís Grignion de

Montfort e procurou com toda a alma praticá-lo e difundi-lo”

— eu considero que a espinha dorsal da minha

existência estará perfeitamente descrita.

É um título muito especial para se justificar a

confiança em nossa missão, pois pela devoção a Maria

Santíssima alcançamos tudo o que nos é necessário

para fazer bem às almas e para a nossa própria

santificação. Trata-se de praticar essa devoção seriamente,

conhecendo seus fundamentos e verdades,

observando-os do modo mais fiel possível.

A prova de que tal devoção redunda em frutos de

inestimável valor, tenho-a diante de mim. Cada vez

que me apresento para uma conferência no nosso

plenário, impressiona-me a multidão de filhos e discípulos

espirituais que Nossa Senhora congrega em

torno de mim, e eu Lhe fico imensamente agradecido.

Quantos dos meus seguidores conheceram o

nosso movimento ainda pequeno, cujos membros

se sentavam em seis ou oito cadeiras numa sala de

exíguas proporções! Tempos heróicos aqueles, que

preludiavam esses dias — e, creio bem, com inteira

confiança na misericórdia de Nossa Senhora, dias

futuros ainda melhores — em que nossa obra vai alcançando

projeção mundial.

Face a essa expansão tão promissora, pergunto:

podia isso ter sido feito por alguém que não a Santíssima

Virgem?

O livro que eu difundi, pode-se afirmar, é o livro

d’Ela, aquele que A exalta como antes nunca se

fez. Jamais me ouvirão explanar a respeito de alguma

obra escrita por mim ou por outro, com a veneração,

o entusiasmo, o respeito e o interesse com

que comento o Tratado da Verdadeira Devoção. Numa

palavra, a obra que eu fiz, foi Ela que realizou, é Ela

que continua a empreendê-la, é Ela que a conduzirá

adiante.

Então, convenhamos: quem de tal maneira trabalha

para e por Maria, e Ela, na sua insondável solicitude,

assim atua em favor dele — esse merece nossa

22


Fotos: G. Kralj / T. Ring

“O Papado é o centro

de nossa vida; a devoção

a Maria é um

título especial para se

ter confiança

em nossa issão”

Imagem de São Pedro, Vaticano (Roma), e imagem

de Nossa Senhora Auxiliadora que esteve com

Dr. Plinio desde o início de seu apostolado

confiança e ao seu lado devemos caminhar. Essa caminhada

é uma epopéia de fidelidade. Não nos esqueçamos

nunca disso. v

(Extraído de conferências em

26/5/1973 e 23/10/1991)

23


Fotos: Arquivo revista / S. Hollmann / T. Ring

Acima: Dr. Plinio em 1934, ao lado

do Arcebispo de São Paulo, D. José

Gaspar; abaixo: Dr. Plinio em 1965

Q

uatro livros marcaram de maneira decisiva minha

vida espiritual, e me foram de inestimável auxílio na

conduta de nosso apostolado.

Por volta dos meus 21 anos era eu, e ainda sou, muito devoto

de Santa Teresinha do Menino Jesus. Em condições particularmente

delicadas, li A história de uma alma, sua autobiografia,

e fiquei profundamente impressionado com a

idéia que a norteia, segundo a qual não se pode fazer para a

Igreja Católica uma coisa mais útil do que ser uma vítima

expiatória do amor misericordioso de Deus.

Minha vontade foi de me oferecer a Nosso Senhor, como Santa

Teresinha, e morrer como ela: terminando meus dias ainda moço,

consumido por uma doença qualquer. Contudo, percebi que

não era o momento para isso.

Mais tarde, com a leitura da Alma de todo apostolado,

de Dom Chautard, compreendi que eu só poderia realizar a

obra para qual era chamado se me empenhasse em me tornar

santo: “Levar uma vida despreocupada, sem sofrimento, julgando

que conseguirei operar no mundo as transformações

que desejo, é mero devaneio. Se espero concretizar meus anelos,

cumpre que aspire à santidade!”

Pouco depois, deparava-me com a espiritualidade de São

Luís Maria Grignion de Montfort, expressa no seu Tratado

da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Essa leitura

incutiu-me o desejo de nutrir uma devoção a Nossa Senhora

absolutamente hors série, no intuito de avantajar com ela

a Contra-Revolução e, sobretudo, pela vontade de amar a Mãe

de Deus com todas as veras de minha alma. Terminado o li-

24

Dr. Plinio (1º à esquerda) em

1938, com o núncio D. Bento

Aloisi Masella, que prefaciou o

“Em defesa da Ação Católica”


vro, não tive um minuto de vacilação: consagrei-me como escravo

de amor a Nossa Senhora, conforme nos ensina São

Luís Grignion.

Já noutra difícil conjuntura de minha vida, oprimido por

problemas de diversas índoles, encontrei o Livro da Confiança,

do Pe. Thomas de Saint-Laurent. Sem saber por onde andavam

as vias de Nossa Senhora a meu respeito, li essa frase inicial do

livro, da qual nunca me esqueci: “Voz de Cristo, voz misteriosa

da graça, vós murmurais no fundo de nossas consciências palavras

de doçura e de paz”.

Ao ler essas palavras, senti como se uma atmosfera dulcíssima

e cheia de afeto penetrasse em mim, afastando todos aqueles

espantalhos e medos, e me dizendo: “Repita meu filho: voz de

Cristo, voz misteriosa da graça, vós murmurais em minha alma

palavras de doçura e de paz”.

Eu tinha a impressão de que algo fazia desaparecer todas as

minhas angústias, e me dava uma certeza de que, realmente,

aqueles fantasmas de perspectivas e de preocupações futuras sumiriam,

que Nosso Senhor e Nossa Senhora resolveriam bem os

problemas que tanto me amarguravam. De fato, pouco depois,

sucessivos acontecimentos mudariam o rumo de minha vida e me

tranqüilizariam quanto ao futuro, fosse o profissional, fosse, sobretudo,

o de meu apostolado. Alguns fardos haviam sido tirados

de cima de mim, e eu fiquei entendendo a verdade desta afirmação:

“voz de Cristo, voz misteriosa da graça...”

Acima: Dr. Plinio em 1973; abaixo: ele em

1978. No centro, da esquerda

para a direita: Santa Teresinha do

Menino Jesus, São Luís Grignion

de Montfort, o “Livro da Confiança”

e o Abade trapista D. Chautard

(Extraído de conferências em 10-11/2/1990,

23/6/1990 e 16/7/94)

25


III – “Combati o

J. S. Dias

bom combate”

Dr. Plinio junto ao

altar da Mãe do Bom

Conselho de Genazzano

(Itália), em 1988

26


Às vésperas de sua última viagem à Europa, em setembro

de 1988, Dr. Plinio formulou a súplica que elevaria à Mãe do

Bom Conselho de Genazzano, em cujo santuário iniciaria sua

peregrinação através dos esplendores da Civilização Cristã, pela

qual devotara o melhor de seu apostolado.

Lá chegando, aos pés da Virgem depositou sua prece, assim

como sua reafirmação de uma inteira e filial confiança no

maternal amparo de Nossa Senhora. Nesta confiança viveu, nela

sempre esperou, e com ela morreu na paz do Senhor.

Esta viagem à Europa tem

como finalidade única,

num certo sentido, venerar

a imagem da Mãe do Bom Conselho

de Genazzano, no seu santuário

perto de Roma.

Súplica filial a

Nossa Senhora

Qual o sentido dessa visita?

Atingindo o processo revolucionário

o grau que hoje conhecemos,

posta a crise moral e religiosa

do mundo contemporâneo, de

um lado; e de outro, posto o desenvolvimento

da nossa obra ao

ponto que chegou, muito maior

do que poderíamos conjecturar,

nasce no meu espírito uma súplica

a Nossa Senhora:

“Minha Mãe, em face dessas

circunstâncias, se Vós quereis dizer

uma palavra de alento e de coragem

intrépida — não, portanto,

de qualquer coragem, mas de

uma coragem multiplicada pela

coragem — aos que são vossos,

diretamente ao coração de cada

um, fazei-o. Se quereis dizêla

por meu intermédio, fazei-o.

Eu aqui vim para me pôr aos vossos

pés. Como vosso escravo, minha

Mãe, como vosso filho, para

fazer a vossa vontade!”

Esse o sentido primordial de

minha visita à Mãe do Bom Conselho

de Genazzano.

Não posso, por outro lado ainda,

ser estranho à circunstância

de que o meu octagésimo aniversário

se aproxima, e representa

uma data memorável na vida

de um homem. Não posso ser indiferente

ao fato de que, nessas

condições, uma pessoa tem atrás

de si um longo passado do qual

deve prestar contas e, à sua frente,

um futuro de duração incerta

em favor do qual deve rogar graças

e auxílios.

“Dai-me o que sabeis

que deveria vos pedir”

Assim, pedirei a Nossa Senhora

perdão de toda minha alma por

todas as imperfeições e negligências,

por todos os meus atos que

não foram do agrado d’Ela. Nesse

pedido de perdão, incluirei todas

as eventuais lacunas e faltas

daqueles que Ela me deu. Além

disso, essa súplica: conceda-me

Nossa Senhora aquilo que eu rogaria

se fosse perfeito, no maior

arrojo do meu espírito. Não sei o

que é, mas Vós, ó Mãe, sabeis o

que eu deveria vos pedir. Concedei-me!”

Essa será a minha prece aos pés

de Nossa Senhora de Genazzano.

Não se alarmar com a

espera em ser atendido

Gostaria, entretanto, de frisar

um aspecto importante que envolve

essa visita e esse pedido. Ao

longo de minha vida, Maria Santíssima

me tem alcançado inúmeras

graças. Porém, raras vezes me

viram dizer que pedi algo a Ela e

que me foi imediatamente outorgado.

Em geral, entre o meu pedido

e a concessão medeia um ziguezague

e um “rio chinês” 1 , semeado

de curvas.

Não se pense, pois, que retornarei

dessa viagem, dizendo:

“Ajoelhei-me aos pés de Maria,

olhei para a imagem e esta logo

manifestou uma fisionomia

embevecedora para mim, pela

qual entendi que minhas súplicas

seriam atendidas em tal da-

27


ta...”. Não. Se isso se der, ficarei

imensamente grato e feliz.

Mas, se não se der, não devemos

nos espantar, porque esse

é o modo como Ela tem agido

comigo desde o princípio.

Nesse sentido, recentemente

reli o meu primeiro manifesto

como jovem congregado mariano,

escrito no jornal da Ação

Universitária Católica, no meu

tempo da Faculdade de Direito.

Há exatos 60 anos! Ao ler de

novo aquele documento, pensei:

“De lá para cá, que incontável

sucessão de fatos, de lutas,

de batalhas. Como o que eu

esperava de triunfo para a causa

católica ainda demora! E como

tenho navegado no mar das

improbabilidades, longamente,

longamente, rumo a um porto

ao qual ainda não cheguei!”

Assim se põem as coisas, e não

devemos nos alarmar. Nossa Senhora

saberá quando nos atender.

Visita a tesouros da

Civilização Cristã

Após minha estada em Genazzano,

tenho o projeto de visitar,

entre outras coisas, o Castelo de

Chambord, na França. Um castelo

que sempre admirei e que desejo

muito conhecer. Não só pelo

agrado de alma que esse conhecimento

me proporcionará, mas,

sobretudo, por amor à Civilização

Cristã, da qual esse monumento é

uma expressão — embora não de

uma pureza perfeita — com ricos

traços de espírito católico.

De modo especial, pretendo ir

a Saint-Laurent sur-Sèvre, onde

está enterrado o corpo de São

Luís Maria Grignion de Montfort,

por tudo quanto este santo

e sua doutrina da verdadeira

devoção à Santíssima Virgem

representam para nosso movimento.

Dr. Plinio diante de

Chambord, em 1988

Chambord

E

m Chambord pude perceber restos da

graça que soprou sobre a Europa dando

origem à Idade Média, e que foi se

pondo lentamente como um sol esplendoroso. E

o castelo é uma das irradiações desse ocaso da

Cristandade medieval, um ocaso magnífico, como

magnífica é também a Cristandade.

No fundo, eu contemplava em Chambord

cintilações da Santa Igreja Católica, à qual

amamos com um amor tão imenso que este se

torna a razão e o fundamento de todas as nossas

demais benquerenças. E é porque a alma católica

me encanta, porque nela discirno o reluzimento

do Divino Espírito Santo, que me

apraz admirar Chambord.

28


Saint-Laurent-sur-Sèvre

Esse foi o encontro por mim há anos desejado!

Desde o dia em que li o Tratado

da Verdadeira Devoção à Santíssima

Virgem, formei o propósito de ir a Saint-Laurentsur-Sèvre

para venerar os lugares onde viveu

São Luís Maria Grignion de Montfort.

Tudo ali nos falava mais densamente do

Céu, da ordem espiritual, além de tonificar em

nós a idéia de que nossa vocação está ligada à

desse mestre, profeta e homem de fogo que foi

São Luís Grignion.

Em Saint-Laurent-sur-Sèvre, sentindo-se a

presença de São Luís Grignion, conhecemos e

desfrutamos algo que vale não sabemos quantos

mil Chambords e outros esplendorosos monumentos

engendrados pelo genial talento francês!

Fotos: J. S. Dias / S. Hollmann

Igreja de Saint-Laurentsur-Sèvre,

onde Dr. Plinio

visitou o túmulo de São

Luís Grignion (destaque)

29


III – “Combati o bom combate”

Deus pode dispor

de nossa entrega

como quiser

Nunca se ouviu dos lábios de Dr.

Plinio, mesmo — e sobretudo — nos

momentos de maior apreensão pelo futuro

de sua obra, qualquer palavra de desânimo

ou desencorajamento. Pelo contrário,

seus apelos à confiança sem limites

em Maria Santíssima só se multiplicaram

e se intensificaram, à medida que

se aproximava o tempo em que a Providência

o chamaria a Si.

Alguém poderia me perguntar:

por que razão devemos confiar

contra toda a confiança,

com serenidade e tranqüilidade

numa situação que parece perdida?

Esta é uma questão fundamental

em nossa vocação, pois circunstância

análoga pode suceder

a qualquer um de nós.

A resposta se cifra no fato de

que a Providência não pode nos

pedir nem alimentar em nossa alma

algo de ilógico. Se, ao longo

de nossa vida espiritual, dos anos

dedicados ao serviço de Nossa

Senhora e da Igreja, mantivemos

acesos aqueles desejos primeiros,

o primeiro impulso, a primeira

verdade, aquele primeiro ato

de vontade e aquelas deliberações

daí decorrentes, jamais desmentidas,

jamais diminuídas, jamais

derrotadas, tal atitude só pode

ter sido por uma ação da graça

sobre nós. Se a graça agiu, Deus

nos chamou. Se Ele nos chamou,

pode dispor de nossa entrega como

for da sua maior glória.

Ele não quis de mim o combate

direto e final contra os seus adversários,

mas eu obterei um jeito

de lutar melhor do que se o fizesse

em campo aberto. Eu ofereço a

Deus o martírio da minha inutilidade.

Tornei-me inútil: ó bemaventurada

inutilidade!

Deus permitiu essa minha condição

ineficaz, porque o quis. Se

é vontade d’Ele, eu me submeto,

pois é meu Pai e meu Deus.

Alguém ainda dirá: “Mas, então,

por que Ele me concedeu esses

desejos extraordinários e me

fez progredir na vida espiritual?

Para, no fim, não me proporcionar

a realização de tudo o que esperei?”

É precisamente isso. Em sua

insondável sabedoria, Deus determinou

que tudo aquilo para

o qual me chamava, eu como

que queimasse sobre uma pira em

louvor a Ele. Dessa forma, o desejo

de fazer um bem que eu não

pude concretizar haveria de valer

S. Miyazaki

“ Nunca nos

desanimemos,

nem abandonemos

o verdadeiro

caminho, que é o

da confiança em

Maria”

Dr. Plinio aos 78 anos

30


Dr. Plinio autografa um

exemplar do seu último

livro, “Nobreza e elites

tradicionais análogas...”

M. Shinoda

N

o momento em que este trabalho chega

a termo, graves incógnitas rodeiam de

todos os lados a Humanidade. (...) Tal

quadro seria desalentador para todos os homens

que não têm Fé. Pelo contrário, para os que têm

Fé, do fundo deste horizonte sujamente confuso e

torvo, uma voz, capaz de despertar a mais alentadora

confiança, faz-se ouvir: “Por fim, o meu

Imaculado Coração triunfará!”*

Que confiança depositar nesta voz? A resposta,

que ela mesma nos dá, cabe numa só frase:

“Sou do Céu”*.

Há, portanto, razões para esperar. Esperar o quê?

A ajuda da Providência a qualquer trabalho executado

com clarividência, rigor e método, para afastar

do mundo as ameaças que, como outras tantas espadas

de Dâmocles, estão suspensas sobre os homens.

Importa, pois, orar, confiar na Providência, e agir.

Para desenvolver esta ação, é de toda a conveniência

relembrar à nobreza e às elites análogas a

missão especial — e primacial — que lhes cabe

nas atuais circunstâncias.

Queira Nossa Senhora de Fátima, padroeira

singular deste agitado mundo contemporâneo,

ajudar a nobreza e as elites congêneres a

tomarem na devida conta os sábios ensinamentos

que lhes deixou Pio XII. Tais ensinamentos

apontam-lhes uma tarefa que o Papa Bento

XV qualificara expressivamente de “sacerdócio”

da nobreza.

E se elas se entregarem por inteiro a essa extraordinária

tarefa, por certo os que hoje as compõem,

e subseqüentemente os seus descendentes,

algum dia ficarão surpreendidos com a amplitude

dos resultados que terão obtido para os respectivos

países e para todo o gênero humano. Sobretudo

para a Santa Igreja Católica.

(Do último livro escrito por Dr. Plinio, Nobreza

e elites tradicionais análogas nas alocuções de

Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, Livraria

Civilização-Editora, Porto, 1993, pp. 153-155)

* Palavras de Nossa Senhora em Fátima, na aparição

de 13 de julho de 1917.

31


III – “Combati o bom combate”

mais aos olhos de Deus do que

esse mesmo bem que eu poderia

ter feito.

Portanto, a alma deve ter isso

em vista e se conformar com os

desígnios divinos.

Nela, a virtude da confiança consiste

em ter a certeza de que ascenderá

por esse caminho,

amparada pela

misericórdia de Maria

Santíssima. E todos

nós temos de estar

dispostos a

aceitar essa condição.

Se assim

procedermos,

despertaremos

em nosso coração

sentimentos virtuosos, pois

essa é a maneira de considerar a

situação em função dos dados da

fé católica.

Caminho de confiança

e de vitória

Então, nunca nos deixemos

abater pelo desânimo, pela revolta,

jamais abandonemos o verdadeiro

caminho, que é o da confiança.

A trajetória de nossa própria

vocação é um dos grandes exemplos

dessa forma de confiança inteira.

Com efeito, nossa vida foi uma

longa espera com quase nada que

J. S. Dias

Dr. Plinio diante da

Catedral de Notre-Dame

de Paris, em 1988

32


a confirmasse e com quase tudo

que a desmentisse. Tratava-se de

esperar contra toda a esperança,

crer apesar de quase todas as razões

que levavam a não crer; andar

pelos rochedos, pelos abismos,

pelos precipícios, pelas grutas,

até que raiasse o dia no qual

Nossa Senhora nos diria: “Filhos

meus diletos, filhos meus caríssimos.

Vós esperastes muito, vós

recebereis muito. O vosso ‘bilhete

de loteria’ é o de acreditar e de

confiar. Por vossa confiança, esperastes

tudo e agora ganhareis a

vitória. Saindo de uma gruta, de

repente percebeis o mar magnífico

a se desdobrar à vossa frente,

formando um panorama esplêndido,

o oceano azulado onde as

gotas douradas do sol deitam reflexos

magníficos. Ide até lá, tomai

as embarcações nas quais podeis

navegar em direção ao triunfo.

As grutas, os morcegos, as cobras,

toda a vegetação da derrota,

da umidade, da pantanosidade,

das trevas, ficaram para trás.

“Para vós, agora, o destino é

outro: vencei!”

“Dai-nos, Senhor, o

prêmio de vossa glória!”

Assim, naquele anoitecer de 3 de outubro

de 1995, quando sua alma católica

atravessou os umbrais da eternidade,

Dr. Plinio levava consigo, sob o misericordioso

amparo de Maria Santíssima, a

certeza de ter cumprido sua missão neste

mundo. Como ele mesmo já o havia

afirmado, algum tempo antes, com essas

comovedoras palavras:

Qual o significado da minha

condição de fundador da nossa

obra?

É uma fundação destinada a

ajudar a restaurar [o que deve ser

restaurado na Civilização Cristã].

Mas, restaurar nunca é fazer algo

com a mesma intensidade que ele

Dr. Plinio na sua conferência em 19 de agosto de 1995

H

á uma decisão de Nossa Senhora de, em determinado

momento, fazer pesar [no prato da balança que

pende para nosso lado] um peso, que será o peso do

Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração d’Ela. Será

só isso? É o peso do Céu, é o peso de todas as almas que amam

a Deus na Terra. É o peso de tudo aquilo que nós, num sentido

inadequado da palavra partido, poderíamos chamar o partido

do bem.

Depois dessa reunião, no que darão as coisas? Não sei. De

uma coisa estou seguro e tenho certeza de que todos os senhores

também estão: daqui a “x” anos, sejam eles cinco, cinqüenta

ou cem, alguém dirá: “Não sei no que deu, mas uma coisa eu

sei: Nossa Senhora venceu!”

(Palavras de Dr. Plinio na última conferência

que fez para o plenário do seu movimento,

na noite de 19/8/1995)

S. Miyazaki

33


III – “Combati o bom combate”

S. Miyazaki

“ S erei como Abel, cujos frutos

se queimaram oferecendo a Deus

um agradável aroma. Mas, serei

eu mesmo o fruto! ”

Dr. Plinio na noite de 3 de outubro de 1995: o ápice

de um holocausto vitorioso

teve no seu apogeu. É realizá-lo

com uma intensidade maior.

Assim, se, como eu espero, a

[Cristandade] voltar a reluzir,

dar-se-á com uma beleza e um esplendor

extraordinários. Então,

nossa missão é desejar que ela de

fato brilhe no maior de seus esplendores.

Esse desejo cria o ânimo

de trabalhar e de se imolar

por esse revigoramento:

“Seja como for, dê no que der,

sofra o que sofrer, eu derramarei

todo o meu sangue, padecerei todo

o meu sacrifício, oferecerei todo

o meu holocausto. Serei como Abel

cujos frutos se queimaram oferecendo

a Deus um agradável aroma.

Porém, eu não oferecerei a Deus

frutos: serei eu mesmo o fruto!

“Mas quando do meu corpo

sair a última gota de sangue,

quando os meus olhos verterem a

última lágrima, eu poderei dizer

com São Paulo: Bonum certamen

certavi, cursum consumavi! — Combati

o bom combate, percorri todo

o caminho que deveria percorrer...!

(2Tim 4, 7)

“E com a segurança de quem

passa um cheque para o Céu, eu

farei a minha cobrança de joelhos

e com a alma transbordante

de amor: na saraivada das calúnias,

dos insultos, das incompreensões,

dos esquecimentos,

de tudo, Senhor, nós ficamos

de pé! Assim como Vós,

Senhor, na vossa cruz, também

estáveis de pé! Dai‐nos agora

o prêmio de vossa glória!” v

(Extraído de conferências em

20/9/1988 e 17/3/1993)

1) Imagem usada por Dr. Plinio para significar

as idas e vindas numa determinada trajetória,

até se atingir o objetivo desejado,

assim como certos rios chineses que dão

muitas voltas antes de alcançar o oceano.

34


Plinio com

2 anos

Arquivo revista


M. Shinoda / T. Ring / S. Miyazaki

Imagem do Sagrado

Coração de Jesus,

do oratório de

Dona Lucilia

Mamãe tinha no seu oratório uma imagem do Sagrado Coração

de Jesus, e eu, ainda menino, habituei-me a vê-la com freqüência.

E me lembro de mim mesmo, pela primeira vez, analisando

essa imagem e, maravilhado, perceber como Nosso Senhor — representado

naquela embora modesta peça artesanal — correspondia às aspirações

do meu senso do ser e a tudo quanto eu achava que era bom e direito.

35


Donde minha adesão inteira ao Sagrado Coração de Jesus.

Eu pensava: “Quero ser conforme a Ele, meu ideal, minha escola, meu

Deus. Entrego-Lhe minha alma para todo o sempre, se a tanto sua misericórdia

me ajudar!”

(Extraído de conferência em 18/3/1988)

Dr. Plinio aos 84 anos;

no fundo: Igreja do

Sagrado Coração de

Jesus, São Paulo


Dr. Plinio

em 1993

S. Miyazaki

“Depois da minha morte, espero junto a [Maria Santíssima] rezar por

todos, ajudando-os assim de modo mais eficaz do que na vida terrena. Em

qualquer caso, a todos e a cada um peço entranhadamente e de joelhos que

sejam sumamente devotos de Nossa Senhora durante toda a vida.”

Plinio Corrêa de Oliveira

(Do seu Testamento, escrito em janeiro de 1978)

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