Revista Dr Plinio 120

revistadp

Março de 2008

Publicação Mensal Ano XI - Nº 120 Março de 2008

Paixão de Cristo,

confortai-nos!


S. Hollmann

As palavras da

saudação angélica

nos revelam

Nossa Senhora

como o Vaso de Eleição,

o receptáculo sagrado no

qual Deus depositara todas

as perfeições e excelências de

que uma simples criatura

era capaz de conter. Imensa

na ordem da virtude e

da santidade, cheia de

graça, bendita entre todas

as mulheres, com quem

o Senhor estabelecera

maravilhosa união: em seu

imaculado seio fez-se carne o

Verbo de Deus.

(Extraído de conferência

em 25/9/1990)

Anunciação – Museu

Unterlinden, Alsácia (França)

2


Sumário

Publicação Mensal Ano XI - Nº 120 Março de 2008

Ano XI - Nº 120 Março de 2008

Paixão de Cristo,

confortai-nos!

Na capa, Crucifixo –

Coleção particular,

São Paulo

Foto: V. Toniolo

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Editorial

4 De cruzes em luzes até o triunfo final

Da ta s n a v i d a d e u m c r u z a d o

5 Março de 1939

Louvor ao “Rei Pacífico”

Do n a Lucilia

6 Longas orações ao

Divino Mestre

Dr. Plinio c o m e n ta ...

10 “Carregou nossos pecados

e suportou nossas dores”

Redação e Administração:

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02461-010 S. Paulo - SP

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Pavagraf Editora Gráfica Ltda.

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03335-000 S. Paulo - SP

Tel: (11) 6606-2409

16 Calendário dos Santos

Ec o fidelíssimo d a Ig r e j a

18 Preciosos ensinamentos da

Ressurreição

“R-CR” e m p e r g u n ta s e r e s p o s ta s

22 Refutando os “slogans” da Revolução

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 85,00

Colaborador . . . . . . . . . . R$ 120,00

Propulsor ............. R$ 240,00

Grande Propulsor ...... R$ 400,00

Exemplar avulso ....... R$ 11,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 2236-1027

O Sa n t o d o m ê s

24 São José, bem-aventurado

entre os homens

Lu z e s d a Civilização Cr i s t ã

30 Feérico supérfluo

Últ i m a p á g i n a

36 Olhar de insondável desvelo

3


Editorial

De cruzes em

luzes até o triunfo final

N

este ano o Calendário Litúrgico, regido pelo solstício da primavera, antecipou-nos o período da Quaresma,

preparatório para os solenes dias da Semana Santa. Ainda ressoavam os hinos jubilosos com que celebramos

o último Natal, e já os paramentos roxos dos sacerdotes nos convidavam à reflexão e ao dispor

nossas almas para acompanhar a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amoroso filho da Igreja, Dr. Plinio sempre honrava as datas litúrgicas, repassado de sentimentos de alma peculiares

a cada uma delas. Assim, se o podíamos ver externando inocente alegria por ocasião do Nascimento do Filho

de Deus, ou não menos expressiva felicidade pela gloriosa Ressurreição do Senhor, o víamos também particularmente

sério e meditativo durante os dias em que recordamos os atrozes sofrimentos de Jesus. Padecimentos que

lhe inspiravam graves e belas considerações, algumas das quais temos reproduzido nestas páginas.

Tocava-lhe, de modo especial, o contemplar a figura da Co-redentora, Maria Santíssima, sofrendo junto com

seu divino Filho, transpassada de dor, mas igualmente inabalável em sua confiança no triunfo d’Ele sobre a morte

e o pecado. Numa dessas reflexões, comentava Dr. Plinio:

“Na hora mais trágica que houve e haverá na história da humanidade, temos o exemplo augusto de alguém que

permaneceu fiel, não se entregou, não fraquejou, não traiu, não recuou, e se manteve de pé como uma tocha de

oração e de esperança — Nossa Senhora.

“Pelas narrações do Evangelho sabemos que, num momento, o sol se toldou em pleno dia, a terra estremeceu, abriram-se

as sepulturas de alguns justos que tinham morrido na Antiga Lei e seus cadáveres se levantaram. Provavelmente,

começaram a percorrer a Cidade Santa no meio das trevas, dos estertores do chão que vacilava, sob o silêncio da natureza

animal aterrorizada e o gemido das pessoas que choravam. Era, no dizer de Bossuet, o Padre Eterno fazendo as

pompas fúnebres de seu Divino Filho.

“Enquanto isso, no alto do Calvário, o horror e o abandono se instalavam junto à Cruz do Redentor. Num dilúvio

de dores, Jesus havia exclamado o seu Consummatum est!. Tudo estava consumado. O Cordeiro já imolado,

exangue. Nada mais havia a oferecer do seu sacrifício. Estava morto. Diante dos homens restava apenas — para

me servir novamente da expressão de Bossuet — um Deus quebrado, roto, aniquilado”. Nesta hora o bom ladrão se

preparava para deixar a Terra. O centurião que ferira o lado de Nosso Senhor, golpeava-se no peito. Algumas pessoas

recolhidas a um canto do Gólgota choravam.

“Porém, a alegria não desertara de uma alma! A alma mais inconforme com todo aquele horrível espetáculo de

dor, a alma que a tanta injustiça mais repudiava, que ao mal mais odiava, a alma que mais amava o Salvador morto,

mais esperava, mais certeza possuía: a certeza de todas as certezas! Imbuída de uma fé superior a toda fé que haveria

no mundo até o fim dos tempos. Era a alma celestialmente inconformada de Nossa Senhora: Stabat Mater dolorosa,

juxta crucem lacrimosa.

“Junto à Cruz, dolorosa, stabat! — que em latim não significava apenas ‘estar ali’, mas quer dizer que estava de

pé. Mantinha-se erguida, em toda a força de seu corpo e de sua alma, com os olhos inundados de lágrimas, mas o

coração inundado de luz.

“Naquele instante, Nossa Senhora tinha a certeza de que, após a grande tragédia, depois do abandono geral,

raiaria a aurora da Ressurreição. Surgiria a aurora da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, nimbada de glória

a partir de Pentecostes. E de cruzes em luzes, de luzes em cruzes, o mundo chegaria até o momento bendito que

em Fátima Ela prenunciou: Por fim o meu Imaculado Coração triunfará!”

(Extraído de conferência em 16/7/1971)

Dec l a r a ç ã o: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Data s n a v i d a d e u m c r u z a d o

Março de 1939

Louvor ao “Rei Pacífico”

Sua Santidade o Papa Pio XII foi coroado em

12 de março de 1939, num contexto mundial

marcado por trágicas circunstâncias. O espectro

da Segunda Grande Guerra assombrava os

horizontes europeus; tropas se movimentavam, e o

exército de Hitler invadira a Tchecoslováquia. Poucos

meses depois, em setembro, seria a vez da Polônia,

desencadeando o universal confronto.

Em meio a essa grave conjuntura, pois, Dr.

Plinio assim comentava, nas páginas do “Legionário”,

o jubiloso coroamento do Papa Paccelli:

No dia em que se desenrolam em Roma as cerimônias

faustosas da coroação do novo Pontífice,

deve ser grato aos corações católicos meditar

atentamente as circunstâncias dentro das quais essa

solenidade se realiza. (...)

Os novos césares, como o exige a natureza das

doutrinas que pregam, sentem a necessidade de

confirmar sua autoridade com os sinais exteriores

do poder, desenvolvidos através de imponentes cerimônias

cívicas. E, com isso, todo um cerimonial

político renasce em nossos dias, que bem poderia

ser chamado a liturgia faustosa dos novos ídolos

que as massas levantam acima de si mesmas, para

lhes prestar adoração.

Interessante é notar, a esse propósito, o ambiente

que cerca essa nova e estranha liturgia política. Duas

notas a caracterizam: força e domínio. Atente-se para

uma cerimônia nazista. Em algum imenso estádio

da Alemanha, comprime-se uma multidão incontável,

que se torna cada vez mais densa porque os ônibus

e os trens despejam ondas humanas sempre mais

numerosas. Para encher o tempo, inúmeros alto-falantes

transmitem a voz de um locutor. Do que fala

ele? Da luta do partido nazista, de suas vitórias passadas,

dos inimigos que esmagou, esmaga e esmagará.

Quando, ao cabo de uma longa série de injúrias

e de ameaças, o locutor se cala para tomar fôlego,

a multidão entoa cânticos guerreiros. Refletores

deslumbrantes erguem para o céu colunas verticais.

Uma tribuna imensa, composta de blocos graníticos

pesados e brutais, se ergue no centro de tudo isso. De

repente, estrugem gritos e urros de entusiasmo. É o

“führer” que chega. As canções guerreiras redobram.

Os canhões estrugem. A multidão ulula como um

mar enfurecido. O “führer” começa a falar.(...)

Enquanto isso, morre para o mundo e nasce placidamente

para o Céu o Papa Pio XI. Sua morte não

é anunciada pelo troar dos canhões, mas pelo som

paternal e suave dos sinos de São Pedro, que repercutem

de campanário em campanário, até os extremos

da China ou da Groenlândia. Nenhum Departamento

de Propaganda engaiola as multidões para

levá-las à força para Roma. Mas Roma se enche de

uma multidão que faria babar de inveja o Ministério

da Propaganda da Alemanha, e muitas repartições

congêneres de outros países. Não há desfiles marciais

de soldados, nem desenrolar de tropas agressivas.

Apenas a “gendarmerie” pontifícia, que contém e policia

paternalmente a multidão pacífica e enlutada.

Anuncia-se, depois, o novo Papa. Uma multidão

aguarda seu nome. Outras multidões afluem

de todas as ruas e de todos os becos de Roma, para

saber quem foi o eleito. Todo o mundo aplaude.

Mas, ainda aí, não há outro eco senão o das

sonoras e musicais trombetas de prata dos arautos,

as harmonias graves dos sinos da Cidade Eterna,

e os “ vivas” da multidão. Não, o Vaticano não

é a caserna em que o gado humano é arregimentado

para a carnificina, mas a casa suntuosa, porém

acolhedora, do Pai comum, que é o lar espiritual

de todos os povos da Terra, que ali ombreiam uns

com os outros, numa alegria despreocupada e pacífica,

de que só o Vaticano, hoje em dia, é teatro.

Finalmente, anuncia-se a coroação do Papa. Nenhuma

cerimônia, no mundo inteiro, é mais majestosa.

Nenhuma, porém, é ao mesmo tempo mais pacífica,

mais serena, mais familiar. O povo não treme

diante de um ídolo, mas delira de contentamento

diante de um Pai. O povo não se ajoelha diante de um

algoz, mas beija reverente os pés daquele que é uma

branca e suave figura. E na majestade de seu porte, a

Santidade e a Majestade suprema do Criador.

E, no menor Estado do mundo, que é o Vaticano,

uma das maiores multidões que a Itália — mesmo

a fascista — tenha jamais contemplado, celebra,

à sombra do Vigário de Cristo, ao mesmo tempo

a mais pacífica e a mais jubilosa das cerimônias

deste sinistro século de lutas e de guerras. v

(Extraído do “Legionário”,

nº 339, de 12/3/1939)

5


Do n a Lucilia

Longas orações

ao Divino Mestre

Das preces recitadas

na Sexta-Feira Santa,

em sua mocidade, até

as demoradas orações

junto à imagem do

Coração de Jesus,

quando já respeitável

anciã, Dona Lucília

dedicou-se cada vez

mais à vida interior,

cultivando-a com

maior intensidade

nos últimos anos

de sua existência.

Dr. Plinio nunca se

esqueceria daqueles

momentos em que,

hora avançada da

noite, ele retornava

a casa e encontrava

sua extremosa mãe

de pé, o terço na mão,

“conversando” com

Nosso Senhor...

6


Sem descurar das suas práticas

de piedade diárias, mamãe

sempre cuidou dos afazeres

domésticos com todo o zelo característico

de uma esmerada dona de casa.

Até os seus 75 anos, mais ou menos,

ela procurava estar ao par das

diversas necessidades e providências

que o quotidiano no lar exigiam.

Assim, podia-se vê-la percorrendo

os cômodos, indo e vindo, supervisionando

o trabalho de limpeza feito

pela faxineira, ou o da lavadeira, o

da cozinheira, etc.

Mais tempo dedicado

à oração

Com o passar dos anos, porém,

percebi que ela diminuía o ritmo

nos cuidados da casa — sem que

isso significasse relaxamentos — e

dedicava mais tempo às suas orações.

Antes, ela reservava as horas

noturnas para rezar, e por volta da

meia-noite já estava deitada, com o

terço na mão, entremeando as últimas

ave-marias com o sono. Diversas

vezes a encontrei nessa

atitude, quando eu retornava

a casa depois do

meu dia de trabalho e

apostolado.

E ela mudou esse hábito.

Lembro-me que

por essa época morávamos

no 4º andar de um

prédio da Rua Vieira de

Carvalho, onde também funcionava,

no 6º andar, a sede

principal do nosso movimento.

Em frente ao edifício havia o

bom restaurante Fasano, e acabou

se estabelecendo o costume

de, após nossas reuniões

diárias, tomarmos ali um lanche,

um sorvete, etc. Ocupávamos

sempre alguma mesa próxima à

calçada, da qual me era dado ver

a janela do apartamento de mamãe,

e ela, por sua vez, podia nos

observar lá do alto.

Imagem do Coração

de Jesus diante da

qual Dona Lucilia

costumava rezar;

na página 6, ela

aos 90 anos

Fotos: Arquivo revista / M. Shinoda

7


Do n a Lucilia

Invariavelmente Dª Lucilia se

postava na janela, e acompanhava

nossos movimentos no outro lado da

rua. Como sói acontecer entre brasileiros,

com freqüência as despedidas

se prolongavam em palavrinhas

e comentários na calçada, numa forma

de aproveitar o máximo possível

o convívio. De modo instintivo, vez

ou outra eu corria o olhar pelo prédio

em frente e via que mamãe ainda

estava lá, com seus cabelos inteiramente

brancos iluminados pelas

luzes da rua, a silhueta emoldurada

pelo caixilho da janela. Observando,

analisando, rezando...

Afinal encerrávamos a prosa. Eu

subia para me despedir dela, antes

de ir dormir no 6º andar. Depois de

nos separarmos, acredito que Dª Lucilia

ainda rezava, talvez

já deitada, um rosário ou

mais.

“Conversas” com

Nosso Senhor

Quando o tempo foi

correndo, as orações se intensificaram

madrugada adentro. De maneira

que, já no apartamento da Rua

Alagoas, voltando eu cada vez mais

tarde dos compromissos apostólicos,

achava-a de pé, com o porte ereto

que ela sempre conservou, bem junto

à imagem do Sagrado Coração de

Jesus que havia no salão da casa.

Não a encontrava rezando propriamente

o rosário, embora ela

trouxesse o terço à mão. Tinha-se a

impressão de que ela “conversava”

com a imagem: os lábios dela próximos

ao peito de Nosso Senhor, e os

dedos pousados sobre o sagrado coração.

Em determinado momento,

deslocava-os para os pés da imagem,

imprimindo maior ou menor fervor

nesses movimentos, conforme intenções

mais ou menos prementes que

ela tivesse. Não era difícil de compreender

que as orações de máximo

empenho eram aquelas ditas com os

dedos postos no Coração de Jesus.

Outro detalhe curioso: ela não rezava

de lábios cerrados. Articulava-os,

sem pronunciar som algum, do mesmo

modo que o faria quem falasse

com Nosso Senhor.

Assim que eu chegava, cumprimentava-a,

conversávamos um pouco

e tentava levá-la a dormir. Às vezes

conseguia, porque Dª Lucilia se

deixava conduzir no agrado da prosa

e quando dava acordo de si já estava

no quarto. Noutras ocasiões, entretanto,

ela me dizia:

— Filhão, espere um instante. Vá

adiantando suas coisas, e eu irei daqui

a alguns minutos.

Deixava-a no salão, preparava-me

para deitar, e voltava:

— Mãezinha, agora chegou a hora

de dormir.

E ainda acontecia de, vez ou outra,

quando eu retornava para essa

“segunda chamada”, trocarmos

um dedo de prosa junto à imagem

do Coração de Jesus. Então meu pai

aparecia, vestido de robe de chambre,

abria os braços e dizia: “Senhora,

são quatro horas da manhã!”.

Mamãe lhe dava uma resposta amável,

mas sem se importar muito com

o aviso...

Preces na Sextafeira

Santa

Qual era o teor dessas

longas “conversas” com o

Sagrado Coração de Jesus?

Nunca perguntei a ela, e Dª Lucilia

nunca me deu a entender. Creio

bem que eram orações pelos familiares

dela, assim como a manifestação

de outras cogitações, anelos, preocupações,

tudo devidamente pensado e

maturado. Pois nela todas as coisas

eram muito refletidas e ponderadas.

Essa meticulosidade se notava,

por exemplo, nas preces que ela

recitava às três horas da tarde na

Sexta-Feira Santa. Tornaram-se

mesmo um costume célebre na família,

e todos os parentes que podiam,

reuniam-se junto com mamãe,

em casa dela, para rezar nessa

ocasião.

Ela herdou do pai um pequeno

Crucifixo, provavelmente originário

de uma estação da Via Sacra,

porque trazia inscrito sobre ele o

número XII romano. Quando meu

avô morreu, Dª Lucilia levou esse

crucifixo para sua casa, e já na pri-

8


Nas demoradas

“conversas” com o

Coração de Jesus,

orações pelos familiares

e a expressão de anelos

e outras cogitações,

tudo muito bem

pensado e maturado

J. S. Dias

Dona Lucilia aos 92 anos; na

página 8, Crucifixo aos pés

do qual ela recitava as preces

da Sexta-Feira Santa

meira Sexta-Feira Santa após o falecimento

do pai, os familiares ali

se encontraram para honrarem a

Paixão de Nosso Senhor, diante

daquele Crucifixo.

Chamava a atenção o cuidado com

que mamãe preparava tudo para esse

momento. Sobre uma mesa, ao lado

da simbólica imagem do Crucificado,

ela dispunha um castiçal que lhe

fora presenteado por ocasião do seu

casamento: mandava comprar papel

de seda com o qual preenchia o vácuo

entre a vela e a base do candelabro,

recortava-o de maneira a darlhe

um contorno bonito em forma de

pétala de flor, etc. Preparativos estes

que ela fazia bem antes das três horas

da tarde.

Quando faltavam alguns minutos,

ela se dirigia ao lugar das orações,

seguida por todos os parentes que

a acompanhariam naquele dever de

piedade. Às três horas em ponto Dª

Lucilia puxava as orações, iniciando

pela Ladainha do Sagrado Coração

de Jesus, a Ladainha de Nossa Senhora,

uma prece pelas almas dos familiares

mortos, e na seqüência diversas

outras orações, entremeadas

por algumas que ela recitava em silêncio,

sob o olhar respeitoso dos demais.

Se alguma pessoa, sobretudo mais

velha, dava indícios de cansaço ou incômodo

por estar muito tempo ajoelhada,

mamãe pedia a um mais moço

que apanhasse almofadas e oferecesse

a quem desejasse. Ninguém, contudo,

ousava se retirar antes do término

daquela íntima cerimônia de

Sexta-Feira Santa.

Uma vez encerradas as orações,

os salões da casa já estavam abertos

à espera dos visitantes para alguns

minutos de convívio, rodas de

conversa, etc. Não muito tempo depois

todos se retiravam, e o ambiente

da casa imergia no recolhimento

próprio à data celebrada. A vela permanecia

acesa até se extinguir completamente,

e o Crucifixo continuava

exposto ao longo de todo o dia.

No Sábado Santo, mamãe tomava

o resto do papel de seda que não

fora usado, embrulhava o Crucifixo

e o depositava numa gaveta, onde

ele ficaria guardado até o ano seguinte.

v

(Transcrito de conferência

em 19/6/1982)

9


Dr. Plinio c o m e n ta ...

“Carregou nossos

pecados e suportou

nossas dores”

Os comovedores acentos

de um cântico que recorda

as dores de Nosso Senhor

Jesus Cristo durante sua

Paixão, oferece a Dr. Plinio

a oportunidade de meditar

na infinita misericórdia do

Divino Redentor ao

abraçar a cruz e se entregar

à morte para redimir os

homens e lhes abrir

as portas do Céu.

Entre os belos e tocantes cânticos que a piedade

católica engendrou para honrar a Paixão e Morte

de Nosso Senhor Jesus Cristo está o Ecce vidimus,

que evoca os atrozes desfiguramentos que as injúrias

físicas provocaram na pessoa do Divino Redentor.

“Eis que O vimos sem formosura”

O texto dessa música, retirado do Profeta Isaías (53,

4-5), nos sugere a idéia desses padecimentos, e assim diz:

10


Eis que O vimos disforme e sem formosura. Ele está irreconhecível.

Carregou nossos pecados e sofreu por nós. Está

ferido por causa de nossas iniqüidades. Somos curados

em virtude de suas chagas. Na verdade, Ele carregou

nossas fraquezas e suportou nossas dores.

Trecho em extremo significativo, pois

é uma apóstrofe ao ilogismo e à contradição

do que se abateu sobre

Nosso Senhor.

De fato, não

podemos sequer

imaginar

a extraordinária

formosura

do Filho de

Deus, toda

a beleza do seu corpo e de sua face sagrada. Sem dúvida,

o conjunto dos princípios da estética do universo estavam

condensados no semblante de Jesus. E quem fala da

face, deve pensar no olhar. O olhar divino d’Ele, espelho

da alma, certamente ainda mais esplendorosa que o corpo.

Só esse olhar seria suficiente para encantar os anjos

por toda a eternidade.

Além disso, devemos pensar em Nosso Senhor caminhando,

com movimentos repassados de graciosidade,

nobreza no andar, distinção no porte, sobriedade de maneiras,

e sua infinita bondade se irradiando a todo momento

de modo incomparável.

Que dizer então da voz do Divino Mestre dirigindose

ao povo que O seguia? Quem pode conceber a variação

dos timbres, a capacidade de expressão e de santa sedução

que Ele imprimia em suas frases? Terá sido o som

mais cativante que foi dado ao homem ouvir, desde o começo

até o fim do mundo.

Ora, diz o cântico, este que reunia em si toda a beleza

do universo foi visto passar carregando a cruz, palmilhando

a via dos tormentos, disforme e sem formosura.

Todo aquele esplendor fenecera; seus traços maravilhosos

perderam a forma. Tudo desaparecera por força dos

maus tratos, dos flagelos, dos açoites que Lhe arrancaram

pedaços da carne e espalharam seu sangue por todos

os lados. Na aparência externa de Nosso Senhor,

tudo deixara de ser atraente. Ele não era senão uma

imensa chaga sanguinolenta que passava, levando a

cruz às costas.

O mais formoso dos homens com uma aparência de

feiúra: que insondável paradoxo!

Fotos: F. Boulay \ G. Kralj

Aquele que reunia em si

toda a beleza do universo foi

visto passar carregando a

cruz, palmilhando a via dos

tormentos, coberto de chagas,

sua formosura deformada

pelos maus tratos

Jesus cai sob a cruz – Via

Sacra da Igreja de Montmartre,

Montréal (Canadá)

11


Dr. Plinio c o m e n ta ...

Irreconhecível porque

carregou nossos pecados

À vista desse fato inaudito, a letra acrescenta, com

acentos de profunda ternura: Ele está irreconhecível. Carregou

nossos pecados e sofreu por nós.

Ou seja, nada mais lembra a figura do suave Jesus, Filho

de Maria. Ele todo é sangue, ferida, irreconhecível

porque pagou pelos nossos pecados.

Não carregava os pecados d’Ele,

nem sofria por suas faltas. Verbo

gar ao alto do Calvário e ali, crucificado, pronunciar o

consummatum est.

Cumpre a cada um de nós, redimidos por este holocausto,

lembrar-se de que foi o pecado a causa de todo

esse horror padecido por Jesus. Foram minhas fraquezas

e minha maldade que Ele carregou vinte séculos

antes de eu nascer. Naqueles dolorosos momentos

de sua Paixão, Nosso Senhor pensou em mim, conheceu

minha iniqüidade, os lados miseráveis

de meu caráter, e quis sofrer para me

resgatar, pagar o preço de minhas

Encarnado, Jesus era a própria virtude,

não tinha pecados a expiar. Essa

grande vítima, acabrunhada sob o peso de

tantos castigos, era a inocência infinita. E Ele padeceu

nessa proporção desmesurada por causa da enormidade

dos nossos pecados. Pecamos tanto e de tal maneira, que

o Filho de Deus aceitou de oferecer ao Pai Eterno essa

incalculável reparação: transformar-se nessa chaga trágica

e pavorosa, acumulando outros sofrimentos até checulpas

e abrir para mim as portas

do Céu.

Essa verdade deve me tanger de gratidão.

Deve, sobretudo, varar-me de lado a lado de compunção

e de tristeza o pensar que Quem carregou os meus pecados

era a pureza, a santidade, o sacrossanto por excelência,

o Filho de Deus e de Maria Santíssima.

Não há, na capacidade humana, compunção nem intensidade

de adoração, de reconhecimento e de repa-

12


O Divino Redentor pensou

em cada um de nós, conheceu

nossas misérias e quis sofrer

para nos resgatar

Via Sacra – Igreja de Montmartre,

Montréal (Canadá)

ração suficientes para agradecer o

infinito benefício que recebemos do

nosso Salvador.

O remédio das misérias humanas

Com efeito, prossegue o cântico: somos curados em virtude

de suas chagas. Ou seja, todo esse sacrifício não foi

em vão. Em cada chaga, em cada gota de sangue vertida

por Nosso Senhor, estava a cura de nossos males e de

nossas misérias morais. Contemplemos o corpo desfigurado

e machucado do Divino Mestre: esta ferida, aquela

outra, curaram minha alma. Se nesta existe algo de bom,

é por causa daqueles ferimentos sagrados que vejo passar

diante de mim.

Na verdade, Ele carregou nossas fraquezas e suportou

nossas dores.

Quer dizer, o peso daquela cruz é o fardo

das minhas fraquezas. Jesus as carregou.

As dores que eu, por justiça,

deveria sofrer, Ele, o inocente, padeceu-as

por mim.

Mais uma vez, deve resultar dessa consideração um

sentimento de gratidão indizível a Nosso Senhor, de reconhecimento

a Nossa Senhora porque Ela consentiu

no holocausto de seu Divino Filho por nós. Além disso,

uma atitude de completa confiança em relação a Eles:

pois quem foi resgatado por preço tão imenso, por pouco

13


Dr. Plinio c o m e n ta ...

que confie no valor desse preço, por menos que peça seja

aquele sangue derramado sobre nós para nos regenerar,

este pode esperar sua salvação. Pode ter a certeza de que,

mais dia menos dia, uma moção da graça, um movimento

interior o reconduzirá ao caminho da virtude e do Céu.

Súplicas em nome das

santas chagas de Jesus

Há, nesse sentido, duas lindas súplicas que exprimem as

verdades acima consideradas. Uma: “Perdão e misericórdia

meu Jesus, pelos méritos de vossas santas chagas”.

Quer dizer, “não mereço perdão nem misericórdia, mas

vossas chagas, Redentor Divino, têm mérito infinito e foram

oferecidas ao Altíssimo em meu favor. Constituem meu tesouro

infinitamente grande. Peço-vos, pelos méritos de vossas

santas chagas, perdão e misericórdia para mim”.

É uma súplica que dificilmente não tocará a bondade

infinita de Nosso Senhor, pois invoca as próprias chagas

com as quais Ele curou nossas almas, alcançou-nos graças

para corrigirmos nossos defeitos e crescer no amor

que devemos ter a Ele.

Outra jaculatória muito substanciosa

e bela, despertada pela

consideração das chagas

de Nosso Senhor, é

esta: “Padre Eterno, eu vos ofereço as santas chagas de

Nosso Senhor Jesus Cristo para curar a minha alma”.

Ou seja, eu, diante do Padre Eterno, posso ter defeitos

e pecados, mas apresento a Ele as santas feridas de Nosso

Senhor Jesus Cristo a fim de obter de sua infinita misericórdia

o remédio para as minhas doenças de alma.

Pedir por meio de Nossa Senhora,

“dona” das chagas de seu Filho

A essas considerações devemos acrescentar um ponto

muito importante: não convém e nem será próprio do

devoto de Maria Santíssima, meditar nos lances da Paixão

de Nosso Senhor Jesus Cristo, abstraindo da figura

co-redentora de sua Mãe.

E ao invocarmos as chagas do Salvador como a cura de

nossos pecados, é preciso lembrar que tal impetração passa

pelos rogos da Medianeira de todas as graças. Dispensadora,

por vontade divina, de todos os dons celestiais, os

méritos dessas chagas como que foram todos entregues a

Ela, para deles dispor em benefício dos homens. Em certo

sentido, Ela é, pois, a dona dessas chagas. Aliás, as imagens

de Nossa Senhora da Piedade — inclusive a famosa

Pietà de Michelangelo —, que representam Jesus

morto no colo de Maria, exprimem muito bem

a idéia desse augusto senhorio: a Mãe é a

T. Ring

14


Senhora das chagas de seu Filho,

Maria Santíssima é a misericordiosa

intercessora que nos propicia o tesouro

dos méritos infinitos da

Paixão de Jesus

Nossa Senhora da Piedade – Sé de Braga, Portugal

dona daquele cadáver e, portanto, de todos os méritos infinitos

que aquele Homem inanimado em seus braços conquistou

para nós. Tudo nos vem através d’Ela, e por mais

extraordinário que seja o valor dessas chagas, sem a intercessão

de Maria nada obteremos.

Peçamos, então, o patrocínio de Nossa Senhora

das Dores, a invocação propícia para essas súplicas.

É a figura da Santíssima Virgem que traz

seu próprio coração chagado e ferido pela consideração

dos padecimentos do Filho. Nunca

a alma de uma mãe carregou chaga semelhante

à que feriu o coração de Maria, tomado

por imensurável tristeza durante a Paixão

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esse Imaculado Coração transpassado

pela espada da dor é a porta por onde

atingimos as chagas de Jesus. Rezemos

a Nossa Senhora, do fundo de nossa

alma, confiantes e humildes, na certeza

de que Ela alcançará em nosso favor

a aplicação dos méritos

infinitos dos sofrimentos

redentores de seu Divino

Filho.

v

(Extraído de conferência

em 22/3/1967)

15


Ca l e n d á r i o d o s Sa n t o s

1. São Suitberto de Kaiserswerth,

647-713. Bispo, evangelizador

da Frísia, Flandres e Luxemburgo.

2. Santa Inês da Boêmia, Abadessa,

+ 1282. Filha do Rei Ottokar

I.. Depois de recusar casarse

com o filho do Imperador Frederico

Barbaroxa, fundou o convento

das “Irmãs pobres” ou Damianitas,

junto com Santa Clara

de Assis.

10. São Simplício, Papa de 468 a

483. No tempo em que os bárbaros

devastavam a cidade de Roma, confortou

os aflitos, encorajou a unidade

da Igreja e protegeu a Fé.

11. Santo Oengus, Monge do

Mosteiro de Tallaght (Irlanda),

+ 824. Compôs um martirológio

próprio daquele país.

12. Santo Inocêncio I, Papa de

401 a 417. Condenou Pelágio no

Concílio de Milevi e apoiou firmemente

São João Crisóstomo.

tivo do Menino Jesus. (Antecipada

para esta data em virtude da Semana

Santa. Ver artigo na página 24.)

16. Domingo de Ramos. Cumprindo

a profecia de Zacarias,

Nosso Senhor entra em Jerusalém,

montando um jumentinho.

Os habitantes o receberam com

o cântico de “Hosana ao Filho de

David”, saudando-O com ramos

de palma.

3. Santa Catarina Drexel, Fundadora.

4. São Basino de Tréveris, Bispo.

5. São João José da Cruz (Carlo

Gaetano Calosirto), Franciscano,

1654-1734.

São Lúcio, Papa, entre junho de

253 e março de 254. Sucessor de

São Cornélio, logo após ser eleito

foi aprisionado e enviado para o

exílio.

6. Santo Olegário, Bispo de Tarragona,

Espanha.

7. Santos Simeão Berneux, Bispo,

Justo Ranfer de Bretenières,

Luís Beaulieu e Pedro Enrico Dorie,

Presbíteros, missionários mártires.

Decapitados por ódio à Fé,

em Sai-Nam-Tho, Coréia do Sul,

no dia 7 de março de 1866.

8. Santo Unfrido, Bispo de Thérouanne,

na França, + 871.

9. São Domingos Sávio,

1842-1857. Aluno exemplar de Dom

Bosco, atingiu a santidade ainda jovem,

vindo a morrer aos 15 anos.

13. São Leandro de Sevilha,

Bispo, + 600. Pregou contra o

arianismo e converteu muitos à

Fé católica.

S. Hollmann

São Leandro de Sevilha

14. Santa Paulina, religiosa em

Fulda (Alemanha), + 1117.

15. Solenidade de São José, Esposo

de Maria Santíssima e Pai ado-

17. São João Sarkander, Mártir.

Sacerdote jesuíta da Silésia, foi

encarcerado em Olomuc, na Morávia,

torturado até a morte por ódio

à Fé. Canonizado em 1995.

18. Santo Eduardo, Mártir, Rei

da Inglaterra, + 979.

19. Quarta-feira Santa.

Beato Andrea Gallerani, + 1251.

Nascido em Siena, Itália, dedicouse

aos pobres e doentes. Fundou o

Hospital da Misericórdia.

20. Quinta-Feira Santa. Instituição

da Santa Eucaristia, na Última

Ceia.

21. Sexta-Feira Santa. Paixão e

Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São Lupicino, Abade, + 480.

Junto com seu irmão São Romano,

impulsionou a vida monástica

na região montanhosa do Jura,

França.

22. Sábado Santo. Solene Vigília

Pascal. Nosso Senhor jaz no Sepulcro.

Beato Clemente Augusto von

Galen, Bispo, + 1946. Chamado o

“Leão de Münster” (cidade onde

era Bispo). Manifestou tenaz oposição

ao regime nazista.

16


* Ma r ç o *

S. Hollmann

Última Ceia e a instituição da Sagrada Eucaristia – Museu Unterlinden, Alsácia (França)

23. Domingo de Páscoa da Ressurreição.

Hoc est dies quam fecit

Dominus, exultemus et laetemur

in ea, canta neste dia a Igreja, lembrando

um Salmo. Nosso Senhor

ressuscita segundo a carne e abre

para os homens as portas do Céu.

24. Santos Timolao, Dionísio,

Pauside, Alexandre, Rômulo e Alexandre,

Mártires em Cesaréia da

Palestina, + 303.

25. Santa Lúcia Filippini, Virgem,

+ 1732. Italiana, fundadora do

Instituto de Mestras Pias, chamadas

Filipinas, dedicadas ao ensino.

26. Santos Montano e Máxima,

esposos, Mártires na Panônia (atual

Húngria), + 304.

27. São Ruperto Bispo, + 718. Irlandês

de nascimento, foi durante

certo tempo Bispo itinerante, percorrendo

regiões de missão na Baviera

e na Áustria, especialmente

em Salzburg, cidade austríaca que se

tornou a sede do seu episcopado.

28. Santo Estevão Harding, Abade,

+ 1134. Um dos fundadores, em

1098, dos cistercienses, junto com

São Roberto de Molesmes e Santo

Alberico.

29. São Guilherme Tempier, Bispo

de Poitiers, na França, + 1197.

30. Segundo Domingo de Páscoa,

também chamado de Domingo

da Divina Misericordia. Festa

instituída pelo Papa João Paulo

II, atendendo às revelações de

Nosso Senhor a Santa Faustina

Kowalska.

31. Solenidade da Anunciação do

Senhor. O arcanjo Gabriel anunciou

a Maria sua excelsa missão de

se tornar a Mãe de Deus. (Celebração

transferida para esta data, por

cair o dia 25 na oitava da Páscoa.)

17


Ec o f i d e l í s s i m o d a Ig r e j a

Preciosos ensinamentos

da Ressurreição

Da gloriosa Ressurreição de Cristo, pondera

Dr. Plinio, não só refulgem consoladoras

alegrias, como também dela se depreendem

importantes lições para o homem fiel, à luz

das quais deve este pautar sua trajetória

rumo à eterna bem-aventurança.

Durante os três dias em que

Nosso Senhor esteve morto,

aos olhos dos que O

conheceram, com exceção de Maria

Santíssima, tudo parecia irremediavelmente

perdido. “Morreu!”, pensavam

eles. “Correram a pedra sobre

a entrada do sepulcro, e a escuridão

envolveu o corpo d’Ele. Acabou, não

resta mais nada!”

Indizível alegria das

almas dos justos

Ora, restava tudo. A história da

salvação dos homens apenas começara.

Assim que a alma santíssima de

Nosso Senhor se separou do corpo

sagrado, apareceu às almas dos justos

que aguardavam — algumas há

milênios — a Redenção e a abertura

das portas do Céu.

Imaginemos, se pudermos, a emoção

da alma de São José em contato

com a de seu Filho, ou a felicidade

indizível da alma de Adão e a de

Eva, constatando que, afinal, o pecado

por eles cometido, o pecado que

provocara a decadência do gênero

humano, estava perdoado e sua culpa

redimida! E do mesmo modo, o

júbilo ímpar da alma de tantos outros

justos, patriarcas e profetas do

Antigo Testamento ali reunidos,

que aclamaram o aparecimento de

Quem os libertava daquela longa espera.

Esse encontro foi, sem dúvida,

um espetáculo extraordinário.

Na pior das horas,

refúgio junto a Maria

Contudo, para os apóstolos e discípulos

que haviam fugido durante a

Paixão, essa realidade espiritual e gloriosa

era inteiramente desconhecida.

Pelo contrário, achavam-se abatidos,

prostrados, horrorizados, sem vislum-

18


ar saída alguma para a dramática

situação em que estavam. Cada qual

se escondeu como pôde, esperando

que a efervescência dos acontecimentos

se extinguisse e a normalidade da

vida de todos os dias fizesse com que

deles se esquecessem.

Outros eram, porém, os desígnios

da Providência. Podemos conjeturar

que houve um trabalho misterioso

da graça no sentido de sugerir ao

espírito de cada um deles o desejo

de procurar Nossa Senhora e de se

abrigar sob seu manto materno. Junto

a Ela — sempre nos é dado supor

— encontraram-se, chorosos e contritos,

ainda incertos quanto ao futuro.

Apenas a Mãe de Deus confiava

e rezava, segura do triunfo de seu

Divino Filho sobre a morte.

De alguma maneira, também própria

ao sobrenatural, a fidelidade de

Maria Santíssima começou a contagiar

a tibieza dos apóstolos, e a despertar

na alma de cada um deles sensações,

esperanças, percepções da

maravilhosa graça que lhes estava

Ressurreição – Jesus aparece a

Nossa Senhora e às santas mulheres

Coro da Catedral de Notre

Dame de Paris, França

S. Hollmann

19


Ec o f i d e l í s s i m o d a Ig r e j a

reservada. No interior daqueles homens,

em meio à tormenta da provação,

foram se alicerçando uma convicção

nova e um novo ânimo.

Quer dizer, na pior das horas, porque

se refugiaram aos pés de Nossa

Senhora, receberam graças inestimáveis

que os prepararam para tudo

o que logo lhes aconteceria. Unidos

em torno da Virgem Fiel, estavam

em condições de acreditar na

Ressurreição e de se predisporem à

grandiosa missão para a qual haviam

sido chamados.

Confirmaram-se as mais

audaciosas esperanças

Na manhã do terceiro dia, ressurge

glorioso o Redentor Divino e —

como sugere a crença de piedosos

autores, embora os Evangelhos não

o narrem — aparece em primeiro lugar

a Nossa Senhora, inundando-A

de consolação e felicidade. Todo Ele

era um só esplendor, espargindo luminosidade

celeste a seu redor como

o brilho de mil sóis!

Aparece depois a Maria Madalena

e a outros discípulos. A Ressurreição

era já um fato incontestável. Os apóstolos

crêem e exultam. Tudo quanto

era caminho sem saída, tornou-se

viável e todas as esperanças, as mais

audaciosas, confirmaram-se no triunfo

de Cristo Ressurrecto. Vitória que

representava, ao mesmo tempo, a

afirmação de toda a vida d’Ele e um

imenso perdão para seus discípulos. A

partir daí estes passaram por uma autêntica

conversão. Mais alguns dias, e

receberiam a infusão do Espírito Santo,

tornando-se cada qual uma coluna

de amor e fidelidade sobre a qual

se ergueria o edifício da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana.

O homem fiel não se

deixa abater pelos reveses

Da ressurreição de Nosso Senhor

Jesus Cristo e dos aspectos a ela vinculados

— sejam os precedentes, sejam

os que se lhe seguiram — depreendem-se

para nós alguns ensinamentos.

O homem modelado segundo o espírito

do Divino Mestre, o homem

que corresponde às graças obtidas

pelos rogos de Maria, o homem fiel

que obedece inteiramente a vontade

de Deus e tem sua alma talhada pela

doutrina da Igreja, esse homem possui

uma têmpera tal que não há desastre,

ruína ou tristeza, não há perseguição

nem miséria que o abatam e o

desviem de sua trajetória apostólica.

Pelo contrário, quanto maiores

os reveses, maior sua coragem;

quanto mais inesperadas e inopinadas

as derrotas, maior a sua vontade

de reagir; quanto mais terríveis

os golpes que ele recebe, maior a

sua determinação de continuar a lutar.

E se acontecer de ele cair prostrado

durante a lide, Deus, que vela

por ele e por sua descendência espiritual,

fará com que de seus exemplos

e de sua lição nasçam discípulos

que continuem sua obra.

E assim por diante, de glória em

glória, de passo em passo, mas de

dor em dor, de sofrimento em sofrimento,

é possível levantar obras de

uma grandeza e de uma beleza inimagináveis.

Mas, essas obras nascidas

da dor, da fidelidade, da constância

e da entrega completa de si mesmo

para que Deus execute sua vontade

sobre os homens, nascem também

da devoção e da união a Nossa

Senhora, a qual nos alcança graças

indizivelmente fortes, profundas

e tonificantes.

Júbilo que nos prepara

para novas provações

Outra lição que nos é dada pelo

triunfo de Nosso Senhor sobre a

morte vem das jubilosas celebrações

que no-lo recordam.

As pompas da esplêndida e brilhante

liturgia da Vigília Pascal e do

Domingo da Ressurreição nos falam

de todas as alegrias legítimas e

até gloriosas que o homem fiel pode

desfrutar em sua vida.

Entretanto, a missão e os trabalhos

dos apóstolos convertidos nos

ensinam não haver alegria que desvie

o homem fiel do caminho da dor;

não há felicidade que o amoleça, que

o subtraia da austeridade com a qual

trilha o caminho do Céu. Pelo contrário,

como essa alegria é fruto do

20


S. Hollmann

Espírito Santo, o homem sai desse

dia de festa e de glória mais disposto

a suportar todas as humilhações,

todas as dores e todos os sacrifícios

necessários para a grande batalha da

salvação que ele terá diante de si.

Por essas razões, ao celebrarmos a

Páscoa da Ressurreição, devemos

pedir a Jesus Ressurrecto, por intermédio

de Nossa Senhora, a força de

espírito pela qual não haja nenhuma

provação que nos leve ao desespero,

Peçamos a Jesus

Ressurrecto, por meio

de Maria, a graça de

não nos desesperarmos

com a provação,

nem amolecermos

com a glória

Ressurreição – Nosso Senhor aparece

aos Apóstolos; coro da Catedral de

Notre Dame de Paris, França

nem glória que nos leve à moleza.

Assim, através desse caminho de sofrimentos

sem desânimos, e de triunfos

sem relaxamentos chegaremos

afinal à imperecível glória do Céu,

pela graça de Nosso Senhor Jesus

Cristo, nosso Redentor, e pelos rogos

de Maria Santíssima, nossa Mãe,

a cujas preces tanto devemos. v

(Extraído de conferências

em 8 e 14/4/1990)

21


“R-CR” e m p e r g u n ta s e r e s p o s ta s

Refutando

os “slogans” da

Revolução

No seu árduo esforço de explicitar e combater os erros

da Revolução, a Contra-Revolução — afirma Dr. Plinio

desenvolve um trabalho sadiamente negativista e polêmico.

Nessa tarefa lhe é de extrema valia o tesouro do magistério

eclesiástico, do qual ela tira “coisas novas e velhas” (Mt 13, 52)

para fazer frente aos seus adversários.

Como refutar a objeção: “O próprio nome ‘Contra-Revolução’

exprime algo de negativo e, portanto, de estéril”?

[Trata-se de] “simples jogo de palavras. Pois o espírito

humano, partindo do fato de que a negação da negação importa

numa afirmação, exprime de modo negativo muitos

de seus conceitos mais positivos: in-falibilidade, in-dependência,

in-nocência, etc. Lutar por qualquer desses três objetivos

seria negativismo só por causa da formulação negativa

em que eles se apresentam? O Concílio Vaticano [I],

quando definiu a infalibilidade papal, fez obra negativista?

A Imaculada Conceição é prerrogativa negativista da Mãe de

Deus?” (p. 116)

Necessária atitude de polêmica

A Contra-Revolução tem, em sua essência, algo de sadiamente

negativista?

“Se se entende por negativista, de acordo com a linguagem

corrente, algo que insiste em negar, em atacar, e em ter

os olhos continuamente voltados para o adversário, deve-se

dizer que a Contra-Revolução, sem ser apenas negação, tem

em sua essência alguma coisa de fundamental e sadiamente

negativista. Constitui ela, como dissemos, um movimento

dirigido contra outro movimento, e não se compreende que,

numa luta, um adversário não tenha os olhos postos sobre o

outro e não esteja com ele numa atitude de polêmica, de ataque

e contra-ataque” (pp. 116-117).

Além de afirmarem que a Contra-Revolução é anacrônica

e negativista, qual o terceiro “slogan” divulgado pelos

revolucionários?

“O terceiro ‘slogan’ consiste em censurar as obras intelectuais

dos contra-revolucionários, por seu caráter negativista

e polêmico, que as levaria a insistir demais na refutação de

erro, em lugar de fazer a explanação límpida e despreocupada

da verdade. Elas seriam, assim, contraproducentes, pois

irritariam e afastariam o adversário. Exceção feita de possíveis

demasias, esse cunho aparentemente negativista tem

uma profunda razão de ser” (p. 117).

Pensar e agir em função

dos erros da Revolução

Basta refutar as doutrinas revolucionárias?

“Segundo o que foi dito neste trabalho 1 , a doutrina da Revolução

esteve contida nas negações de Lutero e dos primeiros

revolucionários, mas apenas muito lentamente se foi ex-

22


Amparado no Magistério da

Igreja, o contra-revolucionário

se opõe à Revolução com um

trabalho intelectual profundo,

eficiente e inteiramente objetivo

plicitando no decorrer dos séculos. De maneira que os autores

contra-revolucionários sentiram, desde o início, e legitimamente,

dentro de todas as formulações revolucionárias,

algo que excedia à própria formulação. Há muito mais

a mentalidade da Revolução a considerar em cada etapa do

processo revolucionário, do que simplesmente a ideologia

enunciada nessa etapa (pp. 117-118).

Para se realizar trabalho eficaz contra a Revolução, o

que é preciso?

“Para fazer trabalho profundo, eficiente, e inteiramente

objetivo, é, pois, necessário acompanhar passo a passo o desenrolar

da marcha da Revolução, num penoso esforço de

explicitação das coisas implícitas no processo revolucionário.

Só assim é possível atacar a Revolução como de fato deve

ela ser atacada. Tudo isto tem obrigado os contra-revolucionários

a ter constantemente os olhos postos na Revolução,

pensando, e afirmando as suas teses, em função dos erros

dela” (p. 118).

O tesouro de argumentos

da Contra-Revolução

Para o contra-revolucionário, qual a importância do Magistério

da Igreja?

“Neste duro trabalho intelectual, as doutrinas de verdade

e de ordem existentes no depósito sagrado do Magistério

da Igreja são, para o contra-revolucionário, o tesouro do qual

ele vai tirando coisas novas e velhas (Mt 13, 52) para refutar

a Revolução, à medida que vai vendo mais fundo nos tenebrosos

abismos desta.

“Assim, pois, em vários de seus mais importante aspectos

é sadiamente negativista e polêmico o trabalho contrarevolucionário.

É, aliás, por razões não muito diversas que

o Magistério Eclesiástico vai definindo as verdades, o mais

das vezes, em função das diversas heresias que vão surgindo

ao longo da História. E formulando-as como condenação do

erro que lhes é oposto. Assim agindo, a Igreja nunca receou

fazer mal às almas” (p. 118) 2 .

Documento do Papa Beato Pio IX – Museu

de São João de Latrão, Roma

1

) Cf. “Dr. Plinio” nº 117, dezembro de 2007.

2

) Para todas as citações: Revolução e Contra-Revolução, Editora

Retornarei, São Paulo, 2002, 5ª edição em português.

D. Domingues

23


O Sa n t o d o m ê s

São José,

bem-aventurado

entre os homens

Patriarca e Padroeiro da Igreja, São José era objeto de veneração e

admiração profundas da parte de Dr. Plinio, quer por suas insignes

virtudes, quer por ter sido escolhido para Esposo da Mãe de Deus e

pai nutrício de Jesus. Admiração e veneração que Dr. Plinio procurava

despertar também em seus discípulos, tecendo-lhes comentários como

os transcritos a seguir, onde sobressaem os luminosos

predicados da alma de São José.

Ao celebrarmos as excelsas virtudes de São José,

talvez conviesse salientarmos, primeiramente,

um aspecto da vida do glorioso patriarca pouco

ressaltado nos comentários que sobre ele temos lido.

A glória de ter sido recusado

Refiro-me ao fato de ele, ao procurar um abrigo para

Nossa Senhora prestes a dar à luz o seu divino Filho, ver

que lhes recusavam lugar nas hospedarias de Belém. São

José, Príncipe da Casa de David, nobre da família real ao

mesmo tempo deposta e no seu apogeu, pois dela ia nascer

o esperado das nações, bate às portas e é rechaçado.

Despedem a quem representava algo que a mediocridade

de alguns homens sempre rejeitou, ou seja, a distinção,

a majestade, enfim porque simbolizava a grandeza

e a sublimidade do próprio Verbo Encarnado que Maria

Santíssima trazia consigo.

Foi esta a primeira glória de São José, sua especial

bem-aventurança de ter sido recusado no momento mais

augusto da História. Nesse sentido, prenunciava em sua

pessoa a renúncia tão mais acerba que Nosso Senhor Jesus

Cristo sofreria mais tarde, culminando na crucifixão

e morte no Calvário.

24


São José – Confraria do

Silêncio, Sevilha (Espanha)

S. Hollmann

25


O Sa n t o d o m ê s

Sucessivas glórias e bem-aventuranças

Logo depois, teve São José a glória de conduzir Nossa

Senhora aos arredores de Belém, e de com Ela se refugiar

num lugar ermo, numa gruta que servia de habitação

aos animais. Ali A acomodou e ali esteve, por amor

à virtude, sozinho e abandonado dos outros homens. Ali

também foi-lhe dada a suprema dita de presenciar o nascimento

do Salvador.

A partir de então podemos dizer que as glórias se acumulam

sobre São José, mas — oh! paradoxo! — quase

todas negativas. Por exemplo, a de ser um homem apagado,

do qual não se fala, ou a ele se referem com menosprezo.

“Este (diziam os que motejavam de Nosso Senhor)

não é filho daquele carpinteiro? Um filho de mero

carpinteiro não pode ser Deus”. O que significa tomar

São José como um fator de descrédito para o próprio

Messias.

Os evangelistas são lacônicos ao mencionarem a figura

do pai do Menino Jesus. Sobre ele pouco se sabe.

Transparece nesse quase anonimato a glória daquele que

padeceu, previamente, as humilhações e todo o peso da

renúncia que devia cair sobre Nosso Senhor.

Bem-aventurado São José, que sofreu por amor à justiça,

assim como bem-aventurado porque nele se cumpriam

todas as bem-aventuranças que o Divino Mestre

enumerou no sermão da montanha. Varão bem-aventurado

entre os homens, abaixo do próprio Jesus e de Maria

Santíssima, limpo de coração como nenhum outro,

porque esposo virginal da Virgem por excelência.

Único homem à altura de Maria

Esposo de Nossa Senhora! Todos os louvores e exaltações,

todas as enaltecedoras palavras sobre São José não

podem dizer tanto quanto a simples afirmação de que ele

foi o esposo de Maria e o pai adotivo do Menino Jesus.

Compreende-se que a Divina Providência, ao eleger

a mãe do Verbo Encarnado, adornou-a de qualidades e

atributos insondáveis inerentes a tão excelsa prerrogativa.

Donde excederem a toda capacidade de intelecção

humana o conceber os limites desses atributos e qualidades

existentes na pessoa de Maria Santíssima. Ela é, inconteste,

a mais perfeita dentre as simples criaturas. Se

tomarmos a soma das excelências de todos os anjos e de

todos os homens que já existiram, existem e existirão na

face da Terra, não teríamos sequer pálida idéia da perfeição

da Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ora, então pergunta-se: se Deus foi tão magnificente

no predestinar e modelar a mulher que daria ao mundo o

Salvador, e em cumulá-la das mais preciosas graças, seria

Ele menos pródigo no escolher o homem que deveria ser

o esposo dessa Virgem e dessa Mãe?

26


L. Werner

Todos os louvores e exaltações

a São José não podem dizer

tanto quanto a simples

afirmação de que foi o esposo

de Nossa Senhora e o pai

adotivo do Menino Jesus

Sagrada Família - Vitral da Sainte Chapelle, Paris

Evidentemente não. Um homem tinha de ser considerado

proporcionado a essa esposa: por seu amor a Deus,

pela sua justiça, pureza, sabedoria e todas as demais qualidades.

Esse homem, escolhido por tal adequação à pessoa

de Nossa Senhora, foi São José.

Proporcionado ao Filho

Em segundo lugar, o pai deve ser proporcionado ao

filho. E só nesse aspecto a grandeza de São José se nos

apresenta indizível. Cumpria que o homem escolhido para

tal missão a desempenhasse com incomparável dignidade,

e assumisse a posição de verdadeiro pai do Redentor,

mostrando-se à altura d’Ele. São José foi este homem.

Estava na proporção de Jesus Cristo, assim como

estava na proporção de Nossa Senhora.

Para formarmos alguma idéia do que representa essa

maravilhosa condição de pai e protetor do Verbo Encarnado,

pensemos, por exemplo, nas imagens de Santo

Antônio que se veneram em certos altares: o santo traz

em seu braço o Menino Jesus, e para este dirige um olhar

embevecido, repassado de uma felicidade imensa porque,

em razão de um milagre, teve o Filho de Deus em seus

braços durante alguns instantes. E nós, do nosso lado, fitamos

a imagem igualmente embevecidos, exclamando

em nosso interior: “Feliz Santo Antônio, ao qual foi dada

essa honra inefável de carregar o Menino-Deus”.

Ora, quantas vezes São José terá conduzido o Divino

Infante em seus braços? Dias, meses, anos ele O viu

crescer, rezar, praticar todos os atos de sua vida comum.

Ouvi-O, e teve, ele mesmo, os lábios suficientemente puros

e a humildade suficientemente grande para fazer essa

coisa formidável: responder a Deus, dar ao Menino os

conselhos que Este lhe pedia, sabendo que era a criatura

aconselhando o Criador...

27


O Sa n t o d o m ê s

Vemos, então, essa glória única de São José, a de ser

o homem capaz de governar a Sagrada Família, de cuidar

das necessidades terrenas de Nossa Senhora e de Jesus

Cristo, inteiramente adequado e proporcionado à altura

dessa dignidade.

Modelo de devoção mariana

Devemos acrescentar a tais excelências essa outra: São

José é o modelo do devoto mariano. Com efeito, ninguém

representa melhor a devoção a Nossa Senhora do que o

homem escolhido para ser seu esposo, aquele que — podemos

imaginar — A contemplava continuamente, admirando-A

nos seus gestos e nas suas palavras, haurindo dessa

contemplação ricas lições de sabedoria, recebendo a

propósito dela graças extraordinárias, e a todo momento

conformando sua alma à d’Ela.

Por isso mesmo, além de perfeito devoto de Nossa Senhora,

São José é também o modelo do espírito contemplativo,

do espírito afeito ao cultivo da vida interior, para o

qual elevar-se às altas cogitações e considerar todas as coisas

em função de Deus constitui a genuína felicidade de sua

existência. Glorioso São José, modelo de sabedoria, de força,

de pureza.

Fotos: G. Kralj / S. Hollmann

28


Modelo de fisionomia

sapiencial porque consorte

da Sede da Sabedoria,

do Espelho da Justiça,

Maria Santíssima;

modelo de fortaleza, porque

pai do Leão de Judá,

Nosso Senhor Jesus Cristo

São José e o Cristo da Sainte Chapelle (Paris)

A verdadeira face de São José

Concluo esses comentários com uma ponderação colateral,

porém a meu ver oportuna.

Não raro nos deparamos com gravuras e imagens que

representam São José com um perfil moral muito aquém

de todas essas excelsas qualidades e virtudes que acima

salientamos. Donde me parecer não devermos aceitá-las

como legítimas manifestações da verdadeira personalidade

do pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Creio que, para se ter alguma idéia do semblante espiritual

de São José, seria preciso deduzir, à maneira de suposição,

o caráter de um homem que esteve à altura de

ser o pai d’Aquele cuja Sagrada Face está estampada no

Santo Sudário de Turim. Quer dizer, o homem que foi o

educador, o guia, o protetor do senhor daquele rosto impresso

no sudário; um homem que foi da mesma linhagem,

parente e esposo da Mãe d’Ele.

Conceber algo menor que isso é não ter idéia da extraordinária

figura de São José, modelo de fisionomia sapiencial

porque consorte da Sede da Sabedoria, do Espelho

da Justiça, Maria Santíssima. Modelo de fortaleza,

porque pai do Leão de Judá, Nosso Senhor Jesus Cristo.

A este verdadeiro São José devemos elevar nossas preces,

rogando-lhe interceda por nós junto à Virgem Santíssima

e a seu Divino Filho, e nos alcance a graça de o

imitarmos nas suas magníficas virtudes. v

(Extraído de conferências em

19/3/1966 e 18/3/1967)

29


Lu z e s d a Civilização Cr i s t ã

Feérico supérfluo

30


Ao se discorrer sobre a ordem

de coisas ideal para

a existência de um povo

e de uma civilização, acredito dever-se-ia

fazer uma distinção entre

duas espécies de benemerência

dos que contribuem para essa

boa ordenação: a dos que asseguram

e tornam abundante o indispensável,

e a dos que asseguram e

requintam o supérfluo. Serão, talvez,

duas formas de dar glória a

Deus, cada qual no seu âmbito —

o “necessarista” e o “superfluista”

ou “requintista”.

Para se calçar esse pensamento

é preciso tomar como base a tese

Para se sobressair,

o supérfluo se

requinta, tornase

mais enfeitado

ou se reveste de

simplicidade mais

impressionante

Miniatura de ovo e bibelô Fabergé –

Fortaleza São Pedro e São Paulo,

São Petersburgo, Rússia

de que o supérfluo na verdade é indispensável,

ou seja, tem de se fazer

presente no quotidiano do homem,

e este deve notá-lo pelo menos nos

seus semelhantes, pois do contrário

a vida terrena lhe parecerá por demais

estreita, asfixiante.

Como, porém, via de regra o supérfluo

é preterido em favor do necessário,

procura se tornar exímio

em qualidade, a fim de se valorizar

e, vez ou outra, levar a palma. Ele

se requinta, torna-se mais enfeitado,

mais ornado, ou se reveste de simplicidade

mais impressionante, enfim,

engendra mil maneiras de o requinte

se mostrar tal.

Fotos: G. Kralj

31


Lu z e s d a Civilização Cr i s t ã

A cada elaboração,

uma nova maravilha,

mais aprimorada,

feérica, reluzindo

nos seus

metais preciosos

Bibelô (coroa imperial russa) e

miniaturas de ovos Fabergé –

Fortaleza São Pedro e São Paulo,

São Petersburgo, Rússia

Esse conceito me parece superiormente

ilustrado pelo exemplo do Fabergé,

célebre joalheiro da corte imperial

russa no final do século XIX

e início do XX. Era o ourives do supérfluo,

e o encanto deslumbrante

de suas peças consistia no esmero da

superfluidade.

De sangue francês, levou consigo

para o mundo russo o charme característico

de suas origens e com ele

fecundou seu talento de gênio para

confeccionar jóias que são verdadeiros

bibelôs de sonhos. Os mais conhecidos

são os famosos Ovos de

Páscoa que o Czar encomendava para

presentear a Czarina e outros familiares.

Com a repetição do gesto

em anos sucessivos, a “moda” de

oferecer os ovos Fabergé se espalhou

pela Europa da Belle Époque

(portanto, até 1914, quando eclodiu

a Primeira Grande Guerra), constituindo

um requinte da civilização

daquele tempo.

A capacidade inventiva do artífice

era inesgotável, e a cada elaboração

surgia uma nova maravilha, uma

jóia mais aprimorada, algumas feéricas,

reluzindo nas suas cores sedutoras,

nos seus materiais preciosos, diferentes,

lavorados com extrema ca-

32


33


Lu z e s d a Civilização Cr i s t ã

tegoria. Ovos que se abrem e deixam

ver no seu interior outro bibelô

ainda mais rico e belo; ovos que

são relógios, este com um pequeno

galo que assinala as horas, aquele

com um único ponteiro em forma

de esguia serpente; outros esmaltados,

com pinturas que retratam paisagens

da Rússia imperial; e ainda os

que trazem fotografias dos membros

da família do Czar, e os que simplesmente

se revestem de ouro.

Todos de pequenas proporções,

como devem ser para comportar

a dose de raffiné e de rico que possuem.

Maiores, perderiam em beleza

e distinção.

E todos procuram e logram despertar

o maravilhamento. O maravilhamento

do supérfluo. v

(Extraído de conferência

em 23/3/1990)

34


Miniaturas de ovos

Fabergé – Fortaleza São

Pedro e São Paulo,

São Petersburgo, Rússia

35


Olhar de insondável desvelo

Nossa Senhora

de Fátima –

São Paulo

T. Ring

Se, em meio às nossas

aflições, acaso nos assalte

a dúvida de que

Maria Santíssima nos socorrerá,

lembremos com que imensidade

de ternura Ela olhava para o

seu Filho perseguido durante a Paixão,

e pensemos: “Com que maternal

e insondável desvelo não estará também

fitando a mim, nessa hora de provação?”

Não duvidemos. Nossa Senhora nos

alcançará graças, e incutirá na alma de cada

um a força necessária para transformarmos

o momento de angústia em fator de crescimento

espiritual, em período de preparação para realizarmos,

em nome d’Ele, grandes feitos.

(Extraído de conferência em 22/3/1967)

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