Revista Dr Plinio 014

revistadp

Maio de 1999

Sagrada Família:

três auges de perfeição

N

a humilde casa de Nazaré verificava-se

uma ascensão em graça e santidade, perante

Deus e os homens, das três pessoas

excelsas que ali moravam. Três perfeições que alcançaram

o auge ao qual cada uma devia chegar. Eram

três auges desiguais, que se amavam e se intercompreendiam

de modo intenso, e que constituíam uma

hierarquia — disposta pela Divina Providência —

admiravelmente inversa: o chefe da casa no plano humano

era o menor na ordem sobrenatural; e o menino,

que devia obediência aos pais, era Deus.

A Sagrada Família, modelo de todas as famílias,

compunha-se portanto de três perfeições altíssimas,

magníficas, mas distintas, realizando uma extraordinária

harmonia de desigualdades, como nunca houve

nem haverá semelhante na terra.


Sumário

Na capa,

Dr. Plinio num

dos salões

de sua residência

4

EDITORIAL

O tédio: uma das razões da derrocada da família

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

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Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Jornalista Responsável:

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Esta revista não é órgão oficial nem oficioso da

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MAIO de 1999

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Colaborador . . . . . . . . . . . R$ 90,00

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Exemplar avulso. . . . . . . . R$ 6,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (011) 6971-1027

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DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO

4 de maio de 1926:

na face, a marca da renúncia permanente

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

O início da decadência medieval

DENÚNCIA PROFÉTICA

No clímax da crise religiosa,

moral e ideológica do mundo hodierno

ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

Família

DR. PLINIO COMENTA...

Complemento do esposo e

modelo para os filhos

GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Na política, em defesa da Igreja

DONA LUCILIA

Deveres de esposa

A EXPANSÃO DA OBRA DE DR. PLINIO

Bolívia, Honduras, Brasil, Uruguai

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Quando virgindade e grandeza régia se osculam

ÚLTIMA PÁGINA

A melhor de todas as mães

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O tédio: uma das razões da

derrocada da família

Editorial

Ditoso o homem que, em vez de deixarse

guiar pelo romantismo amoroso à

espera de um happy end, procura com

sensatez, para esposa, uma mulher casta, recatada,

diligente, caridosa e prudente, como a descrita pela

Sagrada Escritura: “O seu valor excede tudo o que

vem de longe, e dos últimos confins da terra. (...) A

fortaleza e o decoro são os seus atavios, e ela rirá

no último dia. Abriu a sua boca com sabedoria, e

a lei da clemência está na sua língua” (Pro. 31, 10-

31).

Segundo dizia Dr. Plinio, na raiz da desagregação

da família em nossos dias está a monotonia.

Por sua vez, essa monotonia é conseqüência do romantismo

e do horror à Cruz.

A realidade do convívio conjugal contrasta com

as ilusões românticas que conduzem grande número

de pessoas ao altar. Na trilha dessas ilusões,

sai-se à procura de uma “alma irmã” perfeita, almejando

estabelecer com ela um relacionamento

só possível entre pessoas concebidas sem pecado

original. É inevitável que, num espaço de tempo

maior ou menor, os esposos descubram um no outro

uma série de aspectos objetáveis, sofrendo um

desencanto mútuo. A partir daí, as relações domésticas

podem tornar-se insuportavelmente monótonas

e, se ambos não reagirem com generosidade,

o tédio dominará a vida de família. Num lar onde

marido e mulher se acham maçantes, eles acabarão

por considerar enfadonhos os filhos. Como estranhar

que estes últimos, mais cedo ou mais tarde,

passem a julgar os pais intoleráveis? A família

corre, então, o risco de naufragar.

Tanto mais que a sociedade moderna (ou pósmoderna)

acalenta a idéia de que importa, antes de

tudo, gozar a vida. Neste sentido, muitos consideram

a castidade — quer a conjugal, quer a pré-nupcial

— insuportável, porque tediosa. Ela supõe esforço,

disciplina e sacrifícios, que causam repulsa

ao homem lânguido e hedonista de hoje.

Rejeita-se, assim, a Cruz de Nosso Senhor Jesus

Cristo, que é, contudo, condição indispensável para

tornar um convívio duradouro, edificado sobre

uma verdadeira benquerença. E também para se

viver na paz de alma, sem as angústias, as tensões,

as insatisfações que rondam nossos contemporâneos.

Neste mês de maio, mês de Maria — modelo das

esposas e das mães —, oferecemos a nossos leitores

comentários de Dr. Plinio sobre família e matrimônio

(e temas correlatos como virgindade, castidade,

romantismo, etc.), rogando à Santíssima

Virgem que faça reinar a paz e a benquerença nos

lares fiéis, retonifique os que correm perigo e reconstrua

os que tiverem desmoronado.

* * *

No momento em que os ecos da escalada bélica

na Iugoslávia ocupam em abundância os noticiários

da mídia, revivendo imagens de dramas e tragédias

que se consideravam abolidas para sempre,

não podemos deixar de voltar nossos olhos para as

conjecturas feitas por Dr. Plinio em 1993, em um

de seus mais importantes livros. Se o conflito nos

Bálcãs se mantiver no rumo atual, o Ocidente ficará

ameaçado por catastróficos acontecimentos,

que talvez assumam os contornos delineados há

seis anos por Dr. Plinio. É o que mostra a matéria

estampada na seção “Denúncia profética”.

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625

e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras

ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista.Em nossa intenção, os títulos elogiosos não

têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

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DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO

4 maio de 1926: na face,

a marca da renúncia permanente

Nomeado pelo tio, o Dr. Gabriel Ribeiro

dos Santos, então Secretário

da Agricultura, o jovem Plinio

Corrêa de Oliveira começa a trabalhar na

Diretoria de Viação.

Com apenas 17 anos, ele já havia renunciado

à fruição de muitos prazeres

legítimos e castos, como meio de manter

as vistas elevadas e conservar-se íntegro,

em meio à degringolada da sociedade

e do mundo, analisada por

ele em profundidade. Carregado de

preocupações e apreensões, travava tão

grande batalha interior que o esforço se

lhe estampou na face, conferindo-lhe aspecto

de muito mais idade.

Mas Plinio mesmo não se dava conta de

sua aparência, até o dia em que foi inscreverse

na Secretaria da Agricultura. Assim ele próprio

o recordava:

Tratando-me com respeito, por eu ser sobrinho

do Secretário, o funcionário encarregado

perguntou minha idade. Respondi: 17 anos.

— O senhor tem carteira de identidade? —

espantou-se ele. — Traga-me por favor amanhã,

pois preciso dela para uma verificação.

No dia seguinte levei o documento. Após

examiná-lo, ele disse:

— Perdoe-me, mas julguei que o senhor, por

qualquer razão, estivesse mentindo, pois parece

tão mais velho do que seus 17 anos... Não consegui

acreditar.

Eu pensei: “Aí está. Vê o que você está lucrando

com suas preocupações e sua seriedade.

Aos 30 anos já estará cheio de rugas! Você

é um velho ambulante no meio dos moços! É

isso! Traz na face a marca da renúncia permanente”.

Todavia, graças a um auxílio

especial de Nossa Senhora,

mantive-me firme.

Antigo prédio da

Secretaria da

Agricultura, onde

Dr. Plinio trabalhou

pouco depois de

ser admitido na

Diretoria da Viação.

Acima, ele aos 17 anos

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PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

“N

o século XIV começa a observar-se, na Europa cristã, uma transformação de mentalidade

que ao longo do século XV cresce cada vez mais em nitidez.”

Assim se inicia na obra “Revolução e Contra-Revolução” um trecho no qual, Dr. Plinio

descreve de forma suscinta e genial as causas primeiras da colossal crise que, há mais de cinco

séculos, vem abalando os fundamentos da Cristandade. Continua ele:

“O apetite dos prazeres terrenos se vai transformando em ânsia. As diversões se vão tornando

mais freqüentes e mais suntuosas. (...) Nos trajes, nas maneiras, na linguagem, na literatura

e na arte o anelo crescente por uma vida cheia de deleites da fantasia e dos sentidos vai

produzindo progressivas manifestações de sensualidade e moleza. (...) A Cavalaria, outrora

uma das mais altas expressões da austeridade cristã, se torna amorosa e sentimental, a literatura

de amor invade todos os países, os excessos do luxo e a conseqüente avidez de lucros se

estendem por todas as classes sociais.”

Na conferência abaixo transcrita, Dr. Plinio aborda mais em profundidade o papel do romantismo

e do sentimentalismo nesse processo destrutor.

Quando, por volta dos séculos XIV e XV, a

cristandade medieval começou a se desvirtuar,

passou a aceitar determinados elementos

amolecedores e extrínsecos à idéia de civilização,

definidamente deformantes. Entre estes sobressai o

aparecimento do sentimentalismo amoroso.

Até então, o homem tinha para com o elemento feminino

uma consideração como nunca se havia visto na

História: a mulher a quem ele se unia era a esposa do

casamento indissolúvel, instituído pela Igreja; era a fiel

conselheira e sua melhor ajuda.

Característico dessa condição é o exemplo das antigas

rainhas francesas. Enquanto o monarca dirigia o

reino, a sua mulher supervisionava as finanças do Palácio

real, que se confundiam com a economia do Estado.

E assim como faz a dona de casa com o orçamento doméstico,

era a rainha quem detinha as chaves dos cofres

e determinava quanto dinheiro o rei podia gastar ou

não. Isto significava uma participação viva na própria

direção do reino, redundando num profundo respeito à

rainha por parte do soberano e dos súditos.

Com poucas exceções, durante o período áureo da

Idade Média o homem e a mulher, o marido e a esposa,

procuravam viver na harmonia ditada pelos ensinamentos

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Exagerada idealização da mulher

Ora, um dos primeiros sintomas da decadência medieval

foi precisamente a deturpação desse equilíbrio de

sentimentos entre os dois sexos, com o surgimento do

chamado “amor de corte”. Tal “amor” idealizava a mulher

como um tipo sublime, a personificação do que há

de mais delicado, elegante e distinto no gênero humano,

daquilo para o que o homem tende quando foge da barbárie.

Ou seja, subjacente estava a idéia de que ele deixava

de ser um rústico quando apreciava esses atributos

e qualidades femininas.

O guerreiro, nos intervalos das batalhas, participava

de torneios para satisfazer sua nostalgia da guerra, uma

vez que não sabia viver sem lutar. Eram competições

que antes valiam como exercício para futuros combates,

mas se tornaram também espetáculo, presenciado pelas

mulheres numa arquibancada. O cavaleiro vencedor recebia

o prêmio das mãos da dama que era o alvo de suas

afeições.

Surgem os trovadores

Quando não se preparava para a batalha, nem realizava

torneios para brilhar como combatente aos olhos

das donzelas, o guerreiro procurava espreitar a sua

dama em lugar e ocasião propícios. Por exemplo, sob o

terraço para o qual abria a janela do quarto dela. Ali,

durante a noite, à luz do luar, reunia ele dois ou três

menestréis para cantarem melodias em que se louvavam

as extraordinárias qualidades de sua amada...

Em certo momento, quando ela o percebia cansado

de cantar, abria a janela do quarto e aparecia no terraço,

afetando indiferença. Mas ela surgia belamente

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PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

“O prêmio era entregue pela dama...”

O deus

do amor,

baixo-relevo

em marfim

(fins da Idade

Média)

vestida, com ricos adornos, etc., e não com os trajes de

quem estivesse deitada na cama àquela hora da noite.

Então a dama olhava para baixo, as cintilações do luar

se refletiam em sua face e em seus longos cabelos... Depois

de alguns minutos, ela apontava para a lua, numa

espécie de sinal que era dirigido ao guerreiro. Entrava,

fechava a janela, e ele se afastava lentamente, a cavalo,

seguido dos trovadores. Dentro do seu quarto, ela ainda

ouvia à distância o trote do valente animal em que ia

seu cavaleiro, e as melodiosas vozes dos menestréis cantando

para ela.

Daí nasceram os romances de amor. Romeu e Julieta,

de Shakespeare, é caracteristicamente uma obra dessas.

Resultado: os aspectos da alma do homem que caminhavam

para o requinte de elegância e gentileza, se

transviaram por essa intoxicação do sensual e do sentimental

dentro do delicado. Estavam escancaradas as

portas para a decadência da Cristandade.

Tanto mais quanto a Europa se inundou de trovadores.

Naquelas eras em que não existia rádio nem televisão,

ouvir música constituía um verdadeiro regalo. Imagine-se

um castelo perdido no campo onde, há dois ou

três anos, mulheres e homens não ouvem senão cânticos

religiosos entoados na capela e em procissões. Ora,

o “amor de corte” já havia posto a efervescer neles tendências

que não se exprimiam através do canto da Igreja.

E que ficavam retidas, aprisionadas, borbulhando de

vontade de se manifestar, de se expandir, até que aparecesse

um trovador. De repente, este surge, dedilhando

seu alaúde, entoando encantadoras melodias...

Não é difícil compreender como os trovadores se

tornaram muitíssimo apreciados. Compositores talentosos,

sempre faziam rimas a contento dos cavaleiros

que desejavam homenagear suas damas:

— Menestrel! Uma composição para minha Yolanda.

— Ah, pois não! Para Dona Yolanda? Quem é Yolanda?

— É aquela.

O músico tirava seu pontiagudo chapéu de feltro,

ornado com uma pena de faisão, e se inclinava numa

grande reverência para a Yolanda. E começava a cantarolar

a mesma lengalenga que ele já tinha entoado

para outras Yolandas! Claro que ele fingia estar compondo

na hora, pois então a recompensa seria mais

alta...

A Europa inundou-se de trovadores. Vindos em geral

da Itália, país da música, e da Provença, ensinavam

sua arte por contágio aos alemães e franceses que encontravam

no começo do caminho. Depois entravam

pelos reinos da Espanha, iam a Portugal e chegavam até

a Escócia. Tinham livre curso onde quisessem, fazendo

com que o centro da vida social deixasse de ser o que

era antes do aparecimento deles.

A deturpação de um sadio

entretenimento

É concebível que, na sociedade temporal, os homens

queiram alternar o trabalho com a recreação. Por isso, a

vida social é, fundamentalmente, uma legítima ocasião

para entretenimento.

Ora, nos bons tempos da Idade Média, o modo por

excelência de se distrair era a conversa em torno de

uma mesa bem guarnecida, onde os vinhos vão surgindo

e vão sendo sorvidos. O banquete passava, então, a ser a

forma mais própria à distração. E as grandes comedorias

nos castelos foram se requintando: as salas de jantar

ganharam maiores dimensões, suas paredes se revestiram

de estupendas boiseries e não menos belas tapeçarias.

As mesas costumavam ser de carvalho, abati-

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do inteiro e cortado ao meio, dando origem a enormes

pranchas. Os pratos, igualmente colossais: bois assados

em espetos, caças variadas e todo tipo de aves enfeitadas

com as respectivas penas. A cada entrada, tocavase

a corneta, a mesma que na guerra dava o toque de

avançar! Quando o rei ou o senhor feudal bebia, todos

se levantavam e bebiam com ele, à sua saúde. E assim se

divertiam.

É claro que as mulheres também se associavam aos

honestos prazeres dos homens nesses banquetes. Aconteceu

porém que, com a atmosfera criada pelos trovadores,

o principal divertimento da festa passou a ser

não mais a conversa, nem a comida nem a bebida, mas o

captar as boas graças da dama. O curso das tendências

estava traçado: primeiro, o homem trincha um faisão,

retira o melhor pedaço para uma determinada senhora,

e ele próprio se dirige até ela, para servi-la. Num segundo

passo, ela o convida a sentar-se a seu lado e comerem

juntos. Às vezes no mesmo prato. Os dois comem

com as mãos, pois ainda não existiam talheres. E ele, a

fim de não melindrá-la com movimentos bruscos, deixa

de ser o herói dos campos de batalha, para fazer o papel

do homem gentil. Repete-se a operação algumas vezes,

e a mentalidade do antigo cruzado está completamente

mudada, desvirtuada.

Impedir as más influências

dos trovadores

Grave equívoco seria pensar que a entrada em cena

da mulher foi o começo de todo o mal. Não. O que subverteu

as boas tendências do medieval foi o surgimento

do trovador, que, açulando o sentimentalismo, levou o

homem a considerar a presença da mulher com um olho

novo.

Por isso, seria errado dizer: “A solução, então, é manter

de fora as mulheres”.

A solução verdadeira é impedir as más influências

dos trovadores. E, junto com isto, abolir a idéia do casamento

com a mulher ideal, que é, por excelência, a idéia

trovadoresca.

É enganosa a noção sentimental de que se pode,

ignorando os efeitos do Pecado Original que atinge todas

as pessoas, encontrar alguém que seja de uma constituição

psicológica e moral abismaticamente perfeita.

E, como conseqüência, alguém que quererá bem a outrem

com um entusiasmo fantástico, e se deixará querer

bem na mesma intensidade. Em suma, que o homem

encontrará uma princesa de contos de fada, e a mulher,

um príncipe legendário.

Tanto o homem como a mulher não podem se deixar

arrastar por romantismos nem por outras loucuras. Devem

ser sérios. E ter seriedade não é ser carrancudo,

Cavaleiros e suas damas,

ao som das canções dos trovadores

hostil, mas sim tomar, diante de cada pessoa, situação e

acontecimento, a atitude razoável que se deve tomar. O

homem e a dama sérios são, portanto, objetivos.

Assim, o casamento deve ser visto como o caminho

de um nobre sacrifício e de uma nobre situação. Cada

um tem dentro de si a mancha original, e ainda que seja

muito virtuoso, nunca terá a perfeição que o sentimental

imagina. Aturar diariamente a mesma pessoa, com

seus possíveis mau gênio, costumes triviais, manias, etc.,

e sentir que é aturado por ela, “até que a morte os separe”,

é algo muito difícil e supõe não viver de ilusões. Essa

é uma beleza do vínculo conjugal indissolúvel, e sua

respeitabilidade.

Na língua espanhola, as algemas são chamadas de

“esposos”. É o mérito da indissolubilidade do matrimônio,

que Nosso Senhor Jesus Cristo elevou a sacramento,

tornando-o também suportável.

Na França, séculos depois de acabada a Idade Média,

ainda circulava um pitoresco e inteligente provérbio:

“O homem estouvado casa com a mulher de quem gosta;

o homem criterioso gosta da mulher com quem

casa”. Esta sentença exprime bem a verdadeira concepção

do casamento.

9


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Quer dizer, ao considerar a possibilidade de se unir

em matrimônio, um homem deve ponderar: “É razoável

que eu me case com aquela, porque ela possui tais e tais

virtudes, e traz consigo tais e tais circunstâncias. Pode

ser que eu não me inflame trovadorescamente com ela.

Mas eu não sou trovador! Sou um conde, ou um burguês,

um comerciante, um professor ou um operário. Se

algo há que não sou, é trovador. Deixe o trovador de lado!

Eu preciso de uma mulher que me acompanhe na

vida e na faina diária. Se ela for bonita, tanto melhor. A

beleza física, porém, é o de menos. Preciso ver o seu

bom senso, o seu critério, e em que medida ela corresponde

à descrição que a Sagrada Escritura faz da mulher

ideal, da mulher forte, diligente, modelo da esposa

avisada e prudente. Não o modelo da dengosa e ‘xodozenta’.

É com a mulher sensata que devo me casar.”

Esta é a noção correta do casamento, escoimada do

sentimentalismo trovadoresco.

Na raiz da crise,

a intemperança afetiva

Infelizmente, o medieval se deixou intoxicar pelo

sentimentalismo. E a partir do momento em que esta

peste vingou, transformada a mulher no principal bibelô

do homem (o que ela não é de maneira alguma),

este tipo de influência foi impregnando cada vez mais a

sociedade, atingindo o auge na França de Luís XV e de

Luís XVI, ou seja, no Ancien Régime que antecedeu de

perto a sangrenta Revolução Francesa.

Chegou-se a um ápice de elegância, de distinção, de

frufru, de espuma, de encanto, de graça, mas também

de superficialidade, de sensualidade, de leveza inconsiderada

e de irreflexão.

Os salões franceses, arquétipos de todos os salões da

Europa daquele tempo, não queriam mais saber de

coisas grandes e sérias.

Esse auge de frivolidade desembocou na Revolução

Francesa e nas demais convulsões sociais e igualitárias

que se lhe seguiram, sepultando em ruínas a Cristandade

Medieval.

Se formos analisar a fundo a gênese dessa decadência,

veremos que uma intemperança afetiva conduziu a

outras formas de intemperança, desvirtuando o que seria

um legítimo movimento rumo ao requinte da Civilização

Cristã. Para que esta se tornasse excelente em

matéria de costumes, de elegância e de riqueza de espírito,

não era necessário que a força nativa do medieval

morresse. Ela poderia deixar de ser bruta sem

deixar de ser forte.

Tanto o homem como a mulher se tornaram cada vez

mais moles em virtude do sentimentalismo, cada vez

menos heróis, e mais debilitados para vencer o apelo

da impureza. O vigor primevo cedeu ao desequilíbrio

dos sentimentos e das paixões, nascido desse regato

originário que foram os trovadores e as novas tendências

que eles trouxeram consigo. O regato se transformou

numa caudal que levou tudo atrás de si, resultando

na terrível crise moral e social que abala o mundo

moderno.


A frivolidade trovadoresca desembocou na Revolução Francesa

e nas demais convulsões sociais que se lhe seguiram,

sepultando em ruínas a Cristandade Medieval

Cenas da Revolução Francesa, em 1789; e da Sorbonne, maio de 1968

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DENÚNCIA PROFÉTICA

NO CLÍMAX DA CRISE RELIGIOSA,

MORAL E IDEOLÓGICA

DO MUNDO HODIERNO

Aguerra de Kosovo nos faz recordar as considerações

feitas por Dr. Plinio em 1993,

na conclusão de seu livro “Nobreza e elites tradicionais

análogas nas alocuções de Pio XII à Nobreza

e ao Patriciado romano”. Mencionando

“graves incógnitas” que “rodeiam de todos os lados

a humanidade”, salientava ele um dos grandes problemas

de nosso tempo: “a crise interna no que foi

outrora o império de além Cortina de Ferro”. E previa

que poderiam ocorrer amplos acontecimentos sóciopolíticos,

próprios a abalar o Ocidente, e em especial

a Europa. Seus prognósticos a esse respeito

estão transcritos logo abaixo.

N

No momento em que escrevemos,

estão desagregadas

as nações que

outrora constituíram a URSS. As

fricções entre elas vão-se acentuando,

agravadas notavelmente pelo fato

de que algumas dessas nações possuem

meios de deflagrar uma guerra

atômica.

Não é improvável que, uma vez

desencadeada uma situação bélica

no interior da ex-URSS, ela venha a

envolver nações do Ocidente, das

mais importantes, o que por sua vez

poderia acarretar conseqüências de

porte apocalíptico.

Uma dessas conseqüências

poderia facilmente

ser a migração, para a

Europa Central e Ocidental,

de populações

inteiras acossadas

pelo medo dos riscos

de guerra e pela fome já tão premente

na atualidade. Esta migração

poderia revestir-se, então, de um

caráter crítico imprevisivelmente

grave.

Quais seriam os efeitos desse êxodo

nas nações até há pouco sob o jugo

comunista, como as do Mar Báltico?

E sobre outras como a Polônia,

a Checoslováquia, a Hungria, a

Romênia e a Bulgária, das quais,

entretanto, seria pelo menos muito

ousado afirmar que já escaparam,

de todo, do jugo comunista?

Para completar este quadro, seria

preciso ter em conta a possível reação

do Magreb ante uma Europa

Ocidental posta em face de problemas

de tal magnitude; e tomar também

em consideração as circunstâncias

específicas da África Setentrional

e a profunda influência exercida

sobre esta pela imensa onda fundamentalista

que percorre os povos do

Islão, dos quais o Magreb é parte

integrante. Assim, quem pode predizer

com segurança a que extremos

todo este conjunto de tramas arrastará

o mundo, e notadamente o mundo

cristão?

Até ao momento, este último ainda

não está envolvido no tríplice drama

das invasões do Leste, que se

anunciam pacíficas, das invasões provavelmente

menos pacíficas de além

Mediterrâneo, nem de uma eventual

conflagração mundial.

Já se vislumbra, entretanto, o funesto

desfecho do longo processo

11


DENÚNCIA PROFÉTICA

revolucionário cuja linha geral se

procurou resumir no último capítulo

deste trabalho.

Apesar de incontáveis obstáculos,

tal é o caráter inflexível da sua

caminhada vitoriosa — a partir da

confluência histórica na qual a Idade

Média declina e morre; a Renascença

surge em seus alegres triunfos

iniciais; a revolução religiosa do

Protestantismo começa a fomentar

e preparar de longe a Revolução

Francesa, e de muito longe a Revolução

Russa de 1917... — que se

diria invencível a força que moveu

tal processo, e definitivos os resultados

a que ele chegou.

“Definitivos” parecerão ser efetivamente

esses resultados, se não se

fizer uma análise atenta da índole

desse processo. À primeira vista,

parece eminentemente construtivo,

pois levanta sucessivamente três edifícios:

a Pseudo-Reforma protestante,

a república liberal-democrática e

a república socialista soviética.

Porém, a verdadeira índole do dito

processo é essencialmente destrutiva.

Ele é a Destruição. Ele atirou

por terra a Idade Média cambaleante,

o Antigo Regime evanescente,

o mundo burguês apoplético,

frenético e conturbado; sob a pressão

dele está em ruínas a ex-URSS,

Do fundo deste

horizonte sujamente

confuso e torvo,

uma voz, capaz

de despertar a

mais alentadora

confiança, faz-se

ouvir: “Por fim,

o meu Imaculado

Coração triunfará!”

sinistra, misteriosa, apodrecida como

uma fruta que há tempo caiu do

ramo.

Hic et nunc, não é bem verdade

que os marcos efetivos desse processo

são ruínas? E, da mais recente

delas, o que está a resultar para o

mundo senão a exalação de uma

confusão geral que promete a todo

o momento catástrofes iminentes,

contraditórias entre si, que se desfazem

no ar antes de se precipitarem

sobre os mortais, e ao fazê-lo

geram a perspectiva de novas catástrofes,

ainda mais iminentes, ainda

mais contraditórias? As quais

quiçá se evanesçam, por sua vez,

para dar origem a novos monstros,

ou quiçá se convertam em realidades

atrozes, como a migração de

hordas eslavas inteiras do Leste

para o Oeste, ou então de hordas

maometanas progredindo do Sul

para o Norte.

Quem o sabe? Quem sabe se será

isso? Se será só (!) isso? Se será ainda

mais e pior do que isso?

Tal quadro seria desalentador para

todos os homens que não têm Fé.

Pelo contrário, para os que têm Fé,

do fundo deste horizonte sujamente

confuso e torvo, uma voz, capaz de

despertar a mais alentadora confiança,

faz-se ouvir:

“Por fim, o meu Imaculado Coração

triunfará!” [palavras de Nossa

Senhora em Fátima]

Que confiança depositar nesta

voz? A resposta, que ela mesma nos

dá, cabe numa só frase:

“Sou do Céu”.

Há, portanto, razões para esperar.

Esperar o quê? A ajuda da Providência

a qualquer trabalho executado

com clarividência, rigor e

método, para afastar do mundo as

ameaças que, como outras tantas espadas

de Dâmocles, estão suspensas

sobre os homens.

Importa, pois, orar, confiar na

Providência e agir.


12


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

Família

E

m meu último artigo, falei do que é a tradição.

Afirmei, sobretudo, que são demolidores

da Pátria todos os que se esforçam

por promover um progresso alheio e até hostil à tradição.

Hoje, quero mostrar que a tradição é fruto necessário

da família, de sorte que, por toda parte em que

floresça a família, ficarão impregnados de tradições os

costumes públicos e privados, a cultura e a civilização.

Ainda desta vez, sirvo-me de alguns luminosos textos

de Pio XII. Lembra ele, antes de tudo, alguns motivos

de ordem natural pelos quais a família é uma riquíssima

fonte de continuidade entre as gerações, ao longo dos

séculos: “Desta grande e misteriosa coisa que é a hereditariedade

— quer dizer, o passar através de uma estirpe,

perpetuando-se de geração em geração, de um rico

acervo de bens materiais e espirituais, a continuidade

de um mesmo tipo físico e moral que se conserva de pai

para filho, a tradição que une através dos séculos os

membros de uma mesma família — desta hereditariedade,

dizemos, pode-se sem dúvida distorcer a verdadeira

natureza com teorias materialistas. (...) Não se negará

certamente o fato de um substrato material à transmissão

dos caracteres hereditários; para estranhar isto,

precisaríamos esquecer a união íntima de nossa alma

com nosso corpo, e em quão larga medida as nossas

próprias atividades mais espirituais dependem de nosso

temperamento físico”.

Em seguida, o Pontífice trata dos fatores morais e sobrenaturais

da tradição familiar: “Mas o que mais vale é

a hereditariedade espiritual, transmitida não tanto por

esses misteriosos liames da geração material, quanto

pela ação permanente daquele ambiente privilegiado

que constitui a família, com a lenta e profunda formação

das almas, na atmosfera de um lar rico de altas

tradições intelectuais, morais e sobretudo cristãs, com a

mútua influência entre aqueles que moram em uma

mesma casa, influência essa cujos benéficos efeitos se

prolongam muito além dos anos da infância e da juventude,

até o fim de uma longa vida, naquelas almas

eleitas que sabem fundir em si mesmas os tesouros de

uma preciosa hereditariedade com o contributo de suas

próprias qualidades e experiências. Tal é o patrimônio,

mais do que todos precioso que, iluminado por firme

Plinio Corrêa de Oliveira

Fé, vivificado por forte e fiel prática da vida cristã em

todas as suas exigências, elevará, aprimorará, enriquecerá

as almas de vossos filhos” (Discurso à Nobreza e

ao Patriciado Romano, “L’Osservatore Romano” de

7/8-1-1941).

Mas, dirá alguém, essa concepção, que parece supor

um longo passado aristocrático, é imprópria para continentes

novos como o nosso. Pio XII parece ter previsto

a objeção. Diz ele: “Também nas democracias de recente

data (...) foi se formando, pela própria força das

coisas, uma espécie de nova nobreza ou aristocracia. É

a comunidade das famílias que, por tradição, põem todas

as suas energias ao serviço do Estado, de seu governo,

da administração, e sobre cuja fidelidade ele pode

contar a qualquer momento” (idem, “L’Osservatore

Romano” de 9-1-1947).

Pio XII

13


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

A tradição não é, então, o contrário da verdadeira

democracia, vigente — pelo menos em tese — em toda

a América? Ouçamos Pio XII: “Segundo o testemunho

da História, onde reina uma verdadeira democracia a

vida do povo está como que impregnada de sãs

tradições, que é ilícito abater. Representantes destas

tradições são, antes de tudo, as classes dirigentes, ou seja,

os grupos de homens e de mulheres ou as associações

que dão, como se costuma dizer, o tom na aldeia e

na cidade, na região e no país inteiro.

“Daí a existência e o influxo, em todos os povos civilizados,

de instituições eminentemente aristocráticas,

no sentido mais alto da palavra, como são algumas

academias de larga e bem merecida fama” (idem,

“L’Osservatore Romano” de 17-1-1946).

Mas, poder-se-á ainda objetar, tal concepção da família

conduz a uma sociedade escalonada em classes diversas?

Perfeitamente. É ainda Pio XII que no-lo afirma:

“As desigualdades sociais, inclusive as ligadas ao

nascimento, são inevitáveis; a natureza benigna e a

bênção de Deus à humanidade iluminam e protegem os

berços, beijam-nos, porém não os nivelam. Atentai

mesmo para as sociedades mais inexoravelmente niveladas.

Nenhum artifício jamais logrou ser bastante eficaz

a ponto de fazer com que o filho de um grande

chefe, de um grande condutor de multidões, permanecesse

em tudo no mesmo estado de um

obscuro cidadão perdido no povo. Mas se

tais disparidades inelutáveis podem, quando

vistas de maneira pagã, parecer uma inflexível

conseqüência do conflito entre

forças sociais e da supremacia conseguida

por uns sobre outros segundo as leis cegas

que se supõe regerem a atividade humana,

de maneira a consumar o triunfo de alguns

com o sacrifício de outros; pelo contrário,

tais desigualdades não podem ser consideradas

por uma mente cristãmente instruída

e educada, senão como disposição desejada

por Deus pelas mesmas razões que

explicam as desigualdades no interior da

família, e portanto com o fim de unir mais

os homens entre si, na viagem da vida presente

para a pátria do Céu, ajudando-os

da mesma forma que um pai ajuda a mãe e

os filhos” (idem, “L’Osservatore Romano”

de 5/6-1-1942).

Vimos que para Pio XII a desigualdade

cristã é fonte de concórdia entre as classes.

Ouçamo-lo ainda: “Para o cristão, as

desigualdades sociais se fundem em uma

grande família humana; e (...) portanto as

relações entre classes e categorias desiguais

devem permanecer governadas por uma honesta

e igual justiça, e ao mesmo tempo animadas por respeito

e afeição mútua, que ainda sem suprimir a disparidade,

lhes diminuam as distâncias e temperem os contrastes.

(...) Nas famílias verdadeiramente cristãs, por

acaso não vemos nós os maiores dentre os patrícios e as

patrícias, vigilantes e solícitos em conservar para com

seus empregados, e todos os que os cercam, um comportamento

consentâneo por certo com sua posição,

mas escoimado de presunção, propenso à cortesia e

benevolência nas palavras e modos que demonstram a

nobreza dos corações; patrícios e patrícias que vêem

neles homens, irmãos, cristãos como eles, e a eles

unidos em Cristo, com os vínculos da caridade, daquela

caridade que mesmo nos palácios ancestrais conforta,

sustém, ameniza e dulcifica a vida entre os grandes e os

humildes, máxime nas horas de dor e tristeza, que nunca

faltam?” (idem “L’Osservatore Romano” de 5/6-1-

1942). Noto de passagem que o termo “patrício”, usado

pelo Pontífice, se refere a membros da alta aristocracia

romana.

Assim, a família gera de per si a tradição e a hierarquia

social. Para abolir a tradição e a hierarquia, é mister

depauperar, estiolar, reduzir e frangalhar a família.

É o que muitos não sabem ou não querem ver...

(Publicado na “Folha de S. Paulo”, em 24/4/1969)

Nas famílias cristãs, a caridade

dulcifica a vida entre

os grandes e os humildes

(“A senhora e a criada”, tela de Vermeer)

14


DR. PLINIO COMENTA...

Complemento do esposo e

modelo para os filhos

Após décadas de intensa propaganda “liberacionista”, que dirigiu seus rancorosos ataques

contra a instituição da família, contra a santidade do sacramento do matrimônio

monogâmico e indissolúvel, contra a dignificação da mulher na função de rainha do lar e contra

as legítimas desigualdades entre os sexos, estabeleceu-se a respeito de tais assuntos uma

confusão de conceitos, que só pode favorecer o retrocesso da humanidade à barbárie e ao caos.

Mas, qual deve ser mesmo o papel da mulher no seio da família?

Eis o tema proposto a Dr. Plinio por uma ouvinte, em uma conferência para senhoras e

moças colaboradoras de sua Obra.

Para bem compreendermos

os desígnios de Deus

em relação à mulher é

preciso, antes de tudo, lembrarmonos

de como ela era tratada nas antigas

civilizações pagãs, e como depois

a civilização nascida do Cristianismo

a elevou e enobreceu.

Condição análoga

à de escrava

Entre os pagãos, a mulher se encontrava

numa situação muito deprimente.

Era em geral escrava do

seu marido, que dispunha da infeliz

a seu bel-prazer, chegando a ter o

direito de vida ou de morte sobre

ela. Mesmo entre os romanos, povo

cuja legislação era das mais desenvolvidas

no mundo antigo, isto se

verificava.

É célebre o caso de uma romana

da alta nobreza, que foi denunciada

como adepta do Catolicismo, e, por

15


DR. PLINIO COMENTA...

isso, designada pelo Imperador para

ser morta. Porém, em virtude de

sua aristocracia, gozava do privilégio,

determinado pelo costume, de

ser submetida a um júri doméstico,

presidido pelo chefe da família —

no caso, seu próprio marido. Foi

neste tribunal, constituído por seus

parentes mais importantes, que a

nobre senhora foi chamada a apresentar

sua defesa. No final, ao ser

colocado seu destino em votação, a

maioria dos jurados votou pela sua

condenação à pena capital, mas o

A verdadeira mãe cristã deve ser para seu

filho um espelho da Igreja Católica

marido interveio, solicitando que a

absolvessem e lhe permitissem praticar

sua religião livremente.

Como consideravam que o esposo

estava numa situação equivalente

ao de dono da esposa, todos acataram

seu pedido.

Além de estar relegada a uma

condição semelhante à de escrava, a

mulher sentia-se também desprezada,

dado que seu marido, seguindo

os costumes pagãos, podia ter várias

concubinas. Era o regime da poligamia,

em que a esposa ficava diminuída

em seu papel pela rivalidade

com outras mulheres, numa situação

muito aviltante.

A mulher dignificada pela

Civilização Cristã

Quando, pela pregação do Evangelho,

constituiu-se a Civilização

Cristã, tudo mudou. A mulher deixou

de estar sujeita como escrava ao

marido, e passou a ser alvo de honra

e de consideração especiais. Tornouse

a sócia do esposo, aquela que deve

compartilhar uma vida com ele.

A comparação típica era: o marido

devia amar sua esposa e respeitála

como Nosso Senhor Jesus Cristo

ama e respeita a sua Esposa mística,

a Santa Igreja Católica Apostólica

Romana.

Nasceu, então, uma deferência toda

particular dos esposos para com

as esposas, dos filhos para com as

mães, e o papel da mulher transformou-se

radicalmente.

Entretanto, essa feliz modificação

não eliminou a disposição imposta

por Deus em virtude do pecado

original. Disse Ele a Eva: “Estarás

sujeita ao teu esposo”. Ou seja,

no lar a mulher deve ser submissa

ao marido, dentro dos limites e

condições definidos pela própria

Moral católica.

Mas essa submissão não apaga o

fato de que, pela primeira vez na

História, a mulher saiu de uma situação

humilhante para ser elevada à

alta condição de esposa e mãe cristã,

por efeito das graças e méritos

de Jesus Cristo e da pregação de sua

doutrina.

Lamentavelmente, certas correntes

de hoje não aceitam esse ideal

da figura feminina, porque desejam

a completa igualdade entre os sexos.

E, como tal, chegam ao ponto

de pregar que mulheres e homens

têm iguais direitos, iguais deveres,

e, portanto, que a cabeça do lar é dividida:

a mulher e o homem têm de

concordar. Se não se ajustarem, é

16


preciso que se separem. Daí, o divórcio

ser uma espécie de conseqüência

natural desta dupla autoridade

que não suporta convívio. Se

não há um chefe, entra a cisão e a

desordem.

Homem e mulher se

completam na obra de Deus

As diferenças entre mulher e marido

existem para que eles se completem

mutuamente.

Tomemos o mais trivial dos exemplos:

um copo de água sobre uma

bandeja. São dois objetos com funções

inteiramente diversas, mas que,

em razão mesma de suas diferenças,

completam-se. O copo deve ser servido

numa bandeja, e esta deve servir

aquele. E, porque se completam,

devem andar sempre juntos.

Consideremos, também, os dedos

da mão. Devem ser sempre cinco e

estar juntos. Mas a razão de serem

cinco é a diferença; e, sendo diferentes,

completarem-se. Que pesadelo

se alguém tivesse todos os dedos da

mão iguais! Cinco polegares ou cinco

mínimos! Haveria uma série de

coisas que a mão não conseguiria

executar bem.

É na diversidade harmônica, e

não na igualdade, que se encontra o

fundamento da união.

Delicadeza da mãe e força

do pai: diferença que faz a

harmonia

Ainda a título de exemplo, permitam-me

evocar certas reminiscências

de meu convívio doméstico.

Quando meus pais ainda eram

vivos, sempre que eu saía após o almoço

e o jantar, mamãe me acompanhava

até a porta do elevador

de nosso prédio, para uma última e

afetuosa despedida. O elevador era

um tanto vagaroso, e às vezes acontecia

de eu, estando atrasado, não

esperá-lo. Voltava-me então para

A força paterna e o carinho materno

complementam-se na formação do filho

Dª Lucilia, osculava-lhe a fronte e

dizia:

— Mãezinha, vou descer pela escada,

pois estou com muita pressa!

Ela me via pular rapidamente os

degraus, e eu podia ouvir a voz dela

que me advertia:

— Filhão, não corra, senão você

cai!

O “filhão”, um homem de cinqüenta

anos já passados... Mas, não

importa a idade: são as delicadezas,

as intuições finas, o desejo de proteger

e de agradar, do coração de uma

boa mãe que assim tomou conta do

filho, desde a sua mais tenra infância.

Por outro lado, meu pai, como todos

os chefes de família, era feito

para o trabalho árduo. Era advogado,

e durante muitos anos exerceu

sua profissão em São José do Rio

Preto, no interior de São Paulo.

Certa vez um amigo dele me contou

que, embora já estivesse velho, papai

desempenhava suas funções como

os mais jovens: viajava constantemente;

advogava aqui, lá e acolá,

sempre bem-humorado, embora suportando

uma dura labuta. Não

eram os afazeres domésticos de

uma dona de casa como mamãe.

Cada um fazia a sua parte, cumpria

o seu respectivo dever. Completavam-se.

É a harmoniosa diferença entre a

obrigação do pai de dar uma sustentação

forte ao filho menor, e do dever

daquele carinho, incomparável

e único, que a mãe tem para com o

17


DR. PLINIO COMENTA...

seu filho, quando ele é menor,

maior, ou mesmo sexagenário. Afeto

que o acompanha até um dos

dois morrer.

Conta-se que, nos campos de batalha,

os soldados moribundos, tomados

pelas dores e pela febre, ficam

delirando. Gritam em geral pedindo

o auxílio divino, mas muitas

outras vezes clamam pela mãe, mesmo

em se tratando de homens

maduros, casados, já com filhos e

filhas, etc. Clamam pela mãe e por

mais ninguém. Não clamam pelo

pai. Eles sabem que há uma forma

de afeto e de carinho de que o homem

doente precisa, e que a mãe

sabe ter. O pai tê-los-á sumariamente.

É, mais uma vez, a diferença

que faz a harmonia e, por causa disso,

cria um papel próprio a cada um.

Em relação aos filhos

Uma palavra agora sobre a educação

dos filhos.

A civilização contemporânea está

imersa numa tremenda apostasia.

Outrora católica, ela vive hoje de

uma mentalidade não-católica. E a

maior parte dos ambientes procura

levar as pessoas a se afastarem da

verdadeira prática da

religião. Por causa disso,

torna-se extremamente

custosa a perseverança

na verdadeira

Fé e na doutrina da

Igreja.

Em conseqüência, a

questão da formação

dos filhos acaba girando

em torno de um

problema central: é

muito difícil uma pessoa

resistir ao ambiente

em que vive. Qualquer

homem ou mulher,

moço ou moça,

menino ou menina, tende

a concordar com as

opiniões e adotar os

modos do meio em que

se encontra. É agradável ser bem

aceito pelos semelhantes, enquanto

causa pavor seguir uma norma que

atraia caçoada e pouco caso.

Então, o que pode fazer um pai

ou uma mãe, cujo filho, por força

das circunstâncias atuais, será posto

nesse ambiente?

Não há remédio: o pai e a mãe

devem rezar muito — mas muito!

—, suplicar com todo o empenho,

oferecer sacrifícios e pedir que se

digam missas pelo seu filho e pela

sua filha, porque a batalha que eles

hão de travar é tremenda, exigindo

um esforço impressionante, que poucos

estão propensos a fazer.

Os pais devem ser, para

seus filhos, imagens vivas

de Nosso Senhor

Além disso, é preciso que o pai

e a mãe — principalmente a mãe —

sejam tais que se tornem como que

um espelho da Igreja Católica para

os filhos. Quer dizer, sejam tão

piedosos, tão sérios, tão meigos, tão

pacientes, e, ao mesmo tempo,

tão fortes que, em última análise,

representem de algum modo Nosso

Senhor Jesus Cristo perante a

criança.

Lembro-me de que, quando menino,

eu ia às missas de domingo

com mamãe, na Igreja do Sagrado

Coração de Jesus. Embora ainda

não entendesse bem o significado

do Santo Sacrifício, agradava-me estar

ali, ouvir o órgão, admirar os vitrais,

etc. E prestava atenção na

maneira como mamãe rezava. E me

vinha este pensamento: “Como ela

é harmônica com todo este ambiente!

Ela está, até, mais feliz aqui, do

que em casa! Este é o ambiente

dela!”

Em certo momento, vendo-a olhar

para a imagem do Sagrado Coração

de Jesus foi que eu compreendi: “É

por causa d’Ele que ela é boa assim.

Ela aprende com Ele a ter essa bondade.

Portanto, para mim, ela é um

modelo indireto. O verdadeiro modelo

é Nosso Senhor, porque foi

com Ele que ela aprendeu a ser

dessa maneira.”

Assim, Dª Lucilia, enquanto exemplo

de todas as coisas que me falavam

à alma de menino, fez-me entender

que eu devia adorar a Jesus

Cristo, infinitamente maior que ela,

e ter para com a Igreja Católica,

Toda mãe deve formar

seus filhos no amor

à Igreja e na adoração a N. S. Jesus Cristo

(“A Primeira Comunhão”)

18


Esposa mística d’Ele, um amor indizível.

Poderei dar a impressão de que

estou exagerando. É algo que não

discuto.

O fato concreto é que toda criança

tem a tendência a exagerar as

qualidades de sua mãe, está predisposta

a encantar-se com ela, e isto é

providencial, constituindo uma vantagem

que lhes favorece a educação.

As mães, portanto, procurem maravilhar

seus filhos, pela paciência,

pela bondade, pela continuidade do

afeto. Procurar maravilhá-los é a

primeira coisa que devem fazer.

E maravilhar, importa às vezes

em punir. Volto às recordações de

minha infância. Dª Lucilia conservava

sobre a penteadeira de seu

quarto uma escova de prata cujos

fios eram muito duros. Quando eu

fazia algo que não devia, ela me

chamava e dizia:

Plinio! (Eu já entendia do que

se tratava; minha consciência não

estava direita...) Estenda a mão!

Você vai levar tantos “bolos”, por

causa do que fez!

Então ela pegava a escova e...

pam! pam! pam! Terminado o castigo,

dizia-me:

— Meu filho, você andou mal por

causa disso, daquilo e daquilo outro.

E me explicava no que eu havia

errado. Porém, fazia-o com tanta

seriedade e tanta doçura, que me

deixava encantado. Quando terminava

a explicação, perguntavame:

— Você entendeu?

— Sim, senhora, entendi.

— Então, peça perdão a sua mãe.

— A senhora me perdoa, mamãe?

— Perdôo!

Em seguida, abraçava-me e me

beijava com imenso carinho. Quando

eu ia embora, estava tão maravilhado

com ela, que tinha vontade de

voltar e pedir outro pito...

Abaixo, a escova

de prata com que

Dª Lucilia aplicava os

“bolos” na mão do filho

É assim que uma mãe segura o

filho. E foi assim que Dª Lucilia me

segurou. Instruindo-me, depois, na

religião católica, fazendo-me compreender

que, acima de minha mãe

terrena, estava a Santa Igreja, da

qual ela não era senão um elemento.

Abrindo minha alma para o Sol

da Justiça, que é Nosso Senhor Jesus

Cristo, e para o modelo de todas

as mães, que é Nossa Senhora.

Além disso, contava-me fatos passados

da vida dela, dos seus pais e parentes,

narrações das quais ela procurava

extrair princípios e normas

de conduta. Mais do que isso, a vida

de Nosso Senhor, os exemplos do

Evangelho, etc. Tudo contado e ensinado

de um modo agradável de

ser ouvido por uma criança.

Não conheço outra educação senão

esta. Às mães que me solicitam

um conselho, dou-lhes o que recebi,

e muito lhes recomendo esta maneira

de formar os filhos.

19


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Dr. Plinio aos 24 anos,

o deputado mais jovem

e mais votado

nas eleições de 1932

Na política, em defesa da Igreja


C

onforme vimos no último número, foi no intuito de bem servir a causa

da Santa Igreja que Dr. Plinio, jovem congregado mariano, aceitara sua

indicação para candidato da Liga Eleitoral Católica (LEC) à Assembléia Nacional

Constituinte, em 1932. Continuamos aqui a transcrição de seu relato,

no qual ele conta episódios da preparação para o pleito.

Dois acontecimentos pareciam-me

propícios para

modificar a política laicista

imperante no Brasil nas primeiras

décadas de nosso século.

Até aquela época, quase só as mulheres

freqüentavam os sacramentos.

Contudo, a partir mais ou menos

de 1928, o afastamento dos homens

da religião começou a sofrer

profunda mudança, em virtude do

enorme desenvolvimento do Movimento

Católico no País inteiro, marcado

sobretudo pela expansão das

Congregações Marianas.

De outro lado, o governo revolucionário

baixara um decreto estendendo

o direito de voto às mulheres.

Como até então apenas os homens

votavam, a mentalidade a-religiosa

reinante entre eles fazia com que o

laicismo saísse sempre vitorioso em

todos os graus da hierarquia política.

Quando sugeri a criação da Liga,

eu notava que, dessas transformações,

podíamos tirar imensa vantagem

em favor da Igreja.

“Agora ponha a LEC em

movimento”

Tive grande regozijo no dia em

que o Arcebispo D. Duarte mandou

me chamar e disse: “Bem, agora ponha

a LEC em movimento”.

Entreguei-me com entusiasmo à

instalação e organização da Liga,

trabalhando de manhã à noite nisto.

Dei início a uma série de conferências

pelo Interior, o que representava

um sacrifício para mim, pois detesto

viajar, ainda mais em trens no-

turnos, como era na maior parte dos

casos. E foram muitíssimas viagens

em todas as direções.

No meio dessa propaganda eleitoral

é que se deram os episódios de

minha indicação para candidato a

deputado, conforme já contei.

Primeira reunião com os

candidatos da Chapa Única

Pouco após tornar-se público ser

eu um dos candidatos, recebi, em

meu escritório, um telefonema. Uma

voz pomposa perguntou:

— De onde fala?

— Escritório do Dr. Plinio Corrêa

de Oliveira.

— Ele está?

— Sim, senhor, é ele quem está

falando.

— Fala aqui Alcântara Machado.

Político famoso e experiente, havia

ele sido indicado para líder da

Chapa Única por São Paulo Unido,

da qual faziam parte os candidatos

da LEC. Certamente julgava que

saía das nuvens para falar com este

pobre rapazola de 23 anos. Não devia

se lembrar de que eu fora seu

aluno na Faculdade de Direito, tanto

mais que ele lecionava Medicina

Legal, matéria na qual eu não sobressaía,

pois nunca havia me interessado

por ela.

— Oh! Dr. Alcântara, como vai o

senhor? Está passando bem? O senhor

foi meu professor há alguns

anos na Faculdade de Direito.

— Eu queria lhe avisar que vai

haver uma reunião da Chapa Única,

na sala da Ordem dos Advogados,

na Rua São Bento, para discutirmos

o programa. O senhor, como nosso

mais jovem colega, está convidado.

Não me perguntou se eu podia ir.

Era a hora marcada para o benjamin,

que tinha de acertar o passo

com os outros.

— Pois não. O senhor esteja certo

de que estarei lá.

Compareci à reunião, no prédio

da Ordem dos Advogados, onde nunca

tinha ido. Era uma construção

antiga, onde residira outrora o Conselheiro

Antônio Prado. A reunião

se realizava na antiga sala de jantar,

com papel de parede bonito, móveis

de duvidosa beleza, uma mesa enorme,

e todos conversando em um ambiente

de politicagem, antes de começar

a reunião.

Entrei, e alguns já me conheciam;

outros fingiam que me conheciam.

Mas, sendo eu de longe o mais moço,

não era difícil distinguir o Plinio

entre eles:

— Ô, Plinio, como vai você?!

— O senhor me conhece?...

— Ora! Você mora lá perto de

casa; eu vejo você desde pequeno!

— Ah, está muito bem!

Eu, de fato, nunca tinha visto

aquele homem.

Veio conversar comigo o Prof.

Cardoso de Melo, grande amigo do

Alcântara Machado, e que fora meu

professor de Economia Política. Sua

família se dava muito com a minha,

de maneira que ele me tratou como

quem fala com um sobrinho.

Plinio, vem cá, eu quero te

apresentar para este, para aquele,

para aquele outro, etc.

Era hora de se iniciar a reunião, e

nos sentamos.

21


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Intervenção inopinada

do benjamin

Tio Américo, o “financiador” da

candidatura de Dr. Plinio

Coloquei-me no último lugar da

mesa, bem em frente ao líder. Assim,

estando vis-à-vis do chefe, se

houvesse qualquer problema, eu me

destacava muito, podendo impor o

ponto de vista da LEC com maior

facilidade. Ele disse:

— Bem, convoquei os

senhores porque temos de

apresentar um programa

para os nossos eleitores. E

o programa é o que eu vou

ler aqui, para ver se os senhores

aprovam ou não.

Primeiro ponto: Separação

da Igreja e do Estado. Segundo

ponto: isto, aquilo...

Eram coisas de política,

que não vêm ao caso.

Constavam as reivindicações

da LEC, que quebravam

o laicismo do Brasil,

entre as quais: proibição

do divórcio, ensino religioso

nas escolas, capelanias

nos hospitais e nas

prisões do Estado e nas

Forças Armadas.

Terminada a leitura, diz

o Alcântara Machado:

— Os senhores querem

fazer alguma objeção?

— Eu quero, Dr. Alcântara.

Quase todos os olhares se volveram

para mim.

— Eu tenho um ponto em desacordo

quanto ao primeiro tópico:

separação da Igreja e do Estado.

Não é desejo do Episcopado restaurar

a união da Igreja com o Estado,

mas nós não podemos afirmar que

seja um regime bom. É um mal menor.

Um homem de barba grisalha era

dos poucos que não se haviam voltado

quando eu pedira a palavra.

Mas ao ouvir-me agora, afastou com

estardalhaço a cadeira e fechou a

carranca, como a querer dizer: “Eu

estava vendo que admitir esses carolas

aqui ia dar em encrenca no

primeiro momento!” Eu sabia perfeitamente

quem era ele, pois o encontrara

diversas vezes na casa de

meu tio, o antigo Secretário da

Agricultura.

— Não é que eu pretenda que a

Chapa Única por São Paulo Unido

deva restaurar a Idade Média... (Hipótese

cujo simples enunciado já os

deixou espantados!) Mas declarar

que a separação da Igreja do Estado

é um bem, isto eu, enquanto representante

da LEC, não posso subscrever.

Prefiro renunciar ao meu lugar

na Chapa Única... — concluí.

Enquanto eu falava, o Alcântara

Machado, com um lápis e um papel

na mão, me olhava reflexivo. Logo

interveio em tom conciliador:

— Bom, vamos dar um jeito nisso.

Havia um suspense na sala, pois

parecia que ia estalar a Chapa Única,

perdendo os políticos o apoio

tão cobiçado do eleitorado católico.

— Façamos uma redação que

contente todo mundo — continuou

ele. — Em vez de simplesmente

“separação da Igreja do Estado”, fica

escrito assim: “Mantida a separação

da Igreja do Estado...”. Isso

quererá dizer que a separação vai

ser mantida, mas pode também querer

dizer: “Uma vez que seja mantida...”

Poderá ser interpretada como

tendo um caráter condicional. Dr.

Plinio então fica satisfeito, e Dr. Fulano

também.

— Aí está bem, eu concordo.

Foi o suficiente para se refazer o

ambiente de distensão, que durou

até o término da reunião.

Um velho tio vem

em socorro do sobrinho

idealista

Daí a dias, novo telefonema convocando

para outra reunião da Chapa

Única. Compareci. O Prof. Alcântara

Machado diz: “Nós devemos

cuidar agora das despesas da

eleição. Precisamos ter um secretariado

central, e será necessário que

os candidatos paguem cada qual um

tanto, para fazer face às despesas”.

Saí da reunião sem saber de onde

tirar o dinheiro. Meu bolso estava

ultra-avariado e meu pai tivera um

prejuízo nos negócios enorme, ficando

muito endividado. Na hora

do jantar, em casa, com a mesa presidida

por minha avó, Dª Gabriela,

e estando presentes alguns tios e

primos, eu contei:

— Há tal dificuldade assim, e eu

não sei verdadeiramente como conseguir

esse dinheiro.

Silêncio geral. Eu tivera a esperança

de que alguém propusesse um

rateio. Encontrava-se ali também

um irmão de minha avó, já bem velho,

solteiro e ateu declarado. Ao

notar que ninguém se adiantava, ele

disse:

— Está bom, Plinio, se ninguém

quer contribuir, eu pago tudo! Você

me procura depois do jantar para

acertarmos.

22


O problema estava resolvido e retomou-se

a conversa. (Dois anos depois,

em seu leito de agonia, esse tio

se reconciliaria com a Igreja e receberia

os Sacramentos, graças à intervenção

de Dª Lucilia.)

No dia marcado, procurei o Alcântara

Machado e entreguei minha

contribuição. Estava vencida mais

uma dificuldade.

Candidatura impugnada,

em virtude da idade

Um dia, a “Folha de S. Paulo”

trouxe na primeira página: “Inelegível

o Sr. Plinio Corrêa de Oliveira...”

Dentro vinha uma notícia explicando

que especialistas em Direito

Constitucional haviam chegado à

conclusão de que, pelo Código Eleitoral,

para ser deputado era preciso

ter 24 anos. Ora, quando fosse feita

a eleição, eu teria 23 anos. A meu

ver, aquele assunto que punha em

perigo minha candidatura não estava

claro. Preparei uma defesa e pedi

a um amigo que a levasse ao Rio de

Janeiro, para o Alceu Amoroso Lima

— o Tristão de Ataíde, que naquele

tempo era muito amigo meu

—, e com ele procurasse o Cardeal

Leme para expor a questão.

O caso deveria ser julgado pelo

Superior Tribunal Eleitoral, então

situado no Rio de Janeiro, a capital

federal. Eu me achava mais ou menos

perdido. Estava nesta situação,

quando recebi um aviso de outro

candidato, dizendo que, se eu quisesse,

ele obtinha para mim um parecer

a meu favor do Dr. Sampaio

Dória, professor de Direito Constitucional

e uma notabilidade em São

Paulo nessa matéria.

Aceitei o oferecimento, e foi

acertado um encontro com o Sampaio

Dória, que, aliás, havia sido

meu professor. Fui ao local combinado

e lhe expus a situação. Ele me

disse:

— Eu acho que você tem o direito

de concorrer.

Dr. Dória, o senhor poderia

preparar um parecer?

— Posso. Você me procura no

café tal, às tantas horas; nós conversamos

um pouquinho e daí lhe entrego

o parecer.

Na hora acertada, estávamos os

dois no ponto de encontro. À certa

altura da conversa, depois de ele me

expor algumas idéias gerais a respeito

do Brasil, disse-me:

— Vamos à Secretaria tal. Eu lá

lhe dou o meu parecer.

Era feriado, mas numa amostra

de sua influência naquele lugar, fezlhe

abrirem todas as portas, até chegarmos

a um escritório, onde entregou-me

o documento. Agradeci muito

e saí. Enviei logo os papéis ao

Rio de Janeiro, pedindo ao Tristão

que acompanhasse o caso junto ao

Superior Tribunal Eleitoral. Graças

a Deus, o parecer do Prof. Dória

venceu.

O Arcebispo de São Paulo, D. Duarte

Leopoldo e Silva

As eleições

Apesar de saber que o eleitorado

católico era enorme, não tinha eu

idéia de qual parte dele que os outros

três candidatos da LEC levariam

consigo. Nenhum deles me procurou,

nenhum me pediu um voto.

Julguei que estavam seguros com

sua votação. Mas eu, considerandome

o mais fraco de todos, lancei-me

de corpo e alma à campanha.

No dia das eleições, já me encontrava

bem cedo na Liga, porque tinha

a responsabilidade de mandar

cédulas dos nossos quatro candidatos

para todas as urnas de São Paulo.

Esse serviço de distribuição havia

sido muito bem organizado. O

único episódio a registrar durante

esse dia foi um telefonema. Ao atendê-lo,

alguém me disse:

— Aqui fala o Arcebispo.

Julguei reconhecer a voz de um

congregado mariano com quem eu

tinha uma certa intimidade, e respondi:

— Deixe de brincadeira

e diga logo o que

você quer!

A voz insistiu:

— Fala o Arcebispo!

— Deixe de bobagem,

Fulano, e diga o que você

quer!

— Fala o Arcebispo!

Será que é o Arcebispo?

Ele não tem o costume

de telefonar. Se eu

tratar essa pessoa como

Arcebispo, ele me passará

um trote. Mas... Pode

ser que seja o Arcebispo...

Prefiro passar por

um bobo para esse sujeito

do que fazer um papel

pífio perante o Arcebispo.

— Ohhh! Sr. Arcebispo,

perdão, não tinha reconhecido

sua voz! —

Era ele mesmo.

— Estou recebendo

notícias de que toda a

23


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Dr. Plinio, quando deputado

eleição católica em Campinas está

emperrada porque faltam cédulas.

— Sr. Arcebispo, parece-me que

esta informação está equivocada,

porque nós enviamos tudo direito,

etc. Mas vou telefonar para Campinas

e daqui a pouco dou uma informação

a Vossa Excelência.

Telefonei para a LEC campineira

e me responderam:

— Não nos chegou nenhuma reclamação;

a notícia é falsa. Todos os

candidatos estão largamente atendidos.

Percebi que, pretendendo me prejudicar,

alguém fizera intriga com

D. Duarte. Liguei para ele, expliquei

a realidade da situação e consegui

tranqüilizá-lo.

“Todas as Marias

votaram no Plinio

Um de meus primos trabalhava

como mesário numa seção eleitoral,

e na hora do almoço, em sua casa,

contou ao pai:

— O Plinio está fazendo uma

devastação! Eu estou trabalhando

na seção da letra “M”. Tudo quanto

é Maria está inscrita lá, e

elas só querem votar nele.

Quando acabam as cédulas

dele, ficam na cabine

até eu mandar pegar mais

no depósito. Todas as Marias

votaram no Plinio.

Era 31 de maio. Terminado

o trabalho eleitoral,

fui calmamente jantar em

casa, e depois me entreguei

aos exercícios de devoção

em louvor a Nossa

Senhora, cujo mês chegava

ao fim.

Começa a contagem dos

votos, e por todo lado meu

nome vai aparecendo em

boa quantidade. Ao longo

dos dias os jornais vão publicando

os resultados, com

pasmo para minha família,

que esperava eleitores para

mim apenas no Hotel Parque Balneário...

Para santificar minha alma e estar

completamente desapegado do

meu cargo, caso fosse eleito, decidi

não acompanhar as apurações. Mas

minha irmã as conferia dia a dia.

Quando, de manhã, eu entrava para

tomar café, ela habitualmente estava

ali, e me contava as últimas. Eu a

ouvia com certa frieza.

Numa manhã, cumprimentei-a:

“Como vai você?” Ela não me respondeu.

Fez uma reverência diante

de mim, como se faria assim na corte,

e disse:

— Senhor Deputado, meus parabéns!

Levando na brincadeira, senteime

e quis começar a falar de outro

assunto. Ela insistiu:

— Senhor Deputado, meus parabéns!

Você não prestou atenção?

— Mas, o que há?

— Hoje você foi proclamado eleito!

Era uma vitória estrondosa que

se confirmava, pois eu havia obtido

o dobro de votos do afamado Alcântara

Machado, candidato que ficou

em segundo lugar.

Começava para mim o problema

da Constituinte.


A jovem Rosée,

irmã de Dr. Plinio

24


DONA LUCILIA

Dª Lucilia e

Dr. João Paulo,

às vésperas do

casamento

Deveres de esposa

Corria o ano de 1905. O Dr. Antônio Ribeiro dos

Santos, conceituado advogado em São Paulo e

homem que havia feito boa fortuna, preocupava-se

com o futuro de suas três filhas solteiras. Resolveu

ter uma conversa séria com a mais velha delas, Lucilia,

então com 29 anos.

— Minha filha — disse ele —, se eu morrer sem você

se casar, tocar-lhe-á como herança uma boa quantidade

de dinheiro. Você, porém, irá ficando madura, e o casamento

se tornará cada vez mais difícil. Ora, aqui há esse

moço que está trabalhando comigo, o Dr. João Paulo

Corrêa de Oliveira, que manifesta o desejo de se casar

com você. Não dou ordem, mas aconselho que você se

case. Ele tem várias qualidades, entre as quais a de pertencer

a uma ilustre família de Pernambuco. É sobrinho

do Conselheiro João Alfredo (homem famoso naquele

tempo, pois fora presidente do Conselho de Ministros

do Império, e assinara a Lei Áurea, de 13 de maio de

1888). Terceiro, é de uma inteligência invulgar e, portanto,

talvez faça fortuna. Insisto, pois, na recomendação

de que você aceite a proposta dele.

— Acho que ele é uma pessoa distinta, não tem dúvida,

mas eu preciso pensar melhor — respondeu Lucilia.

Dr. Antônio ponderou que o dote a ser levado por ela

seria suficiente para o casal encaminhar a vida. O pretendente

era advogado, podia sair-se bem na carreira, e,

para ela, casar seria mesmo menos inconveniente do

que permanecer solteira.

— Mas penso que talvez fosse melhor eu me tornar

freira — volveu Lucilia.

25


DONA LUCILIA

mãos, e com os olhos postos no Sagrado Coração de Jesus,

implorava, por meio de sua querida Madrinha, Nossa

Senhora da Penha, amparo e solução.

Profundo senso do dever doméstico

— Bom, talvez... Mas pense bem no que irá fazer. É

verdade que o casamento traz desilusões, contudo você

verá que a vida religiosa as traz igualmente. Reflita com

mais vagar sobre o que você deseja, antes de decidir.

Lucilia, que nutria um extraordinário encanto e enlevo

pelo pai, na mesma hora lhe respondeu:

— Papai, eu sigo cegamente o rumo que o senhor me

indicar. O que mesmo o senhor me aconselha?

— Dado você como é, e como me parece ser o Dr.

João Paulo, acho mais acertado que se case com ele.

— Está bem, farei conforme os desejos do senhor.

Matrimônio encarado com

limpidez de olhar

Dª Lucilia, alguns anos

antes de sua morte

E a jovem cumpriu a palavra. Tornou-se noiva de Dr.

João Paulo, realizando-se o casamento pouco tempo

depois.

Desde o início, Dª Lucilia encarou o estado matrimonial

com saliente candura, limpidez de olhar e elevação

de espírito, ao mesmo tempo que se colocava sob o amparo

e proteção da Santíssima Virgem para o perfeito

cumprimento de seus deveres de esposa e mãe.

A vida de dona de casa dará maior profundidade ao

seu espírito sobrenatural, que tomará contornos mais

definidos à medida que problemas, aflições e achaques

se multiplicarem. Fiel a seu antigo costume, juntava as

No âmbito da vida de família, Dª Lucilia considerava

seu dever proporcionar bem-estar, alegria e elevação de

alma ao ambiente para seu marido, e formar os filhos

de maneira a serem perfeitos católicos e cumprirem sua

missão nesta terra. Para isto, devia marcar o lar com

uma afabilidade e um afeto que o tornasse atraente, e

fosse um meio de disputar a influência aos antros de

perdição. E, habituando os filhos nessa escola, levá-los

a dar depois a mesma educação à respectivas proles, de

modo a perpetuar tais costumes ao longo das gerações.

Assim é que se devia viver.

Era recolhida, tranqüila, forte e meiga em todas as

circunstâncias da vida. Ainda que estas mudassem,

Dª Lucilia mantinha sempre idêntico estado de espírito,

por trás do qual palpitava seu entranhado senso do

dever.

Profundamente católica, ela não julgava que a finalidade

do homem neste mundo fosse conquistar honras,

prazeres, glórias e dinheiro, para se deleitar o mais possível

e depois morrer extenuado de tanto gozo. Havia,

sem dúvida, satisfações e tristezas no existir humano.

Devia-se, até, tirar partido dos prazeres lícitos para suportar

as tristezas. Para ela, porém, a vida era antes de

tudo um dever a cumprir, em ordem a formar a própria

alma segundo os desígnios de Deus. Ou seja, com vistas

à santificação e à salvação eterna.

Dever que ela procurou realizar, de forma exímia,

em sua condição de esposa modelar e de extremosa

mãe.

Harmoniosa vida conjugal

Tendo acompanhado por mais de 50 anos o convívio

de seus pais, Dr. Plinio podia dar o testemunho de nunca

haver presenciado uma desavença entre eles. Nunca

uma palavra áspera ou um levantar de voz, nem tampouco

uma bravata ou um gesto de mal-humor. Contava

ele:

Dr. João Paulo era o mais pacífico e cordato dos homens,

e Dª Lucilia, uma senhora boníssima. Ele morreu

com 84 anos e ela, com 92. Portanto, longa vida conjugal.

“Claro, às vezes eles entravam em desacordo e discutiam.

Ambos eram pessoas inteligentes e apresentavam

argumentos apertados de parte a parte. Porém, o máximo

que acontecia, quando meu pai ficava com os nervos

um pouco mais tomados, era ele dizer para mamãe: ‘Se-

26


nhora, mas esta opinião?!’ Parece que é comum no

Nordeste o marido zangado chamar a esposa de ‘senhora’.

Não era uma atitude de desaforo, mas quase uma

cortesia.

“Por sua vez, mamãe tinha um modo característico

de levantar a cabeça e contestar. Usava um penteado

em forma de coque, e um certo jeito de movê-lo era

sinal de desacordo. Manifestando-se às vezes dessa

maneira, ela dizia: ‘Não, João Paulo, eu não acho

isso...’

“Acima dessas minúsculas e inevitáveis desavenças,

mamãe devotava a seu marido o respeito e a obediência

que se deve esperar de uma esposa verdadeiramente

católica, de maneira que ela nunca teria feito nada que

fosse do desagrado dele.

“A única circunstância em que ele se impacientava —

para o bem de mamãe — era quando ela, à medida que

foi avançando em idade, em vez de se deitar, ficava

rezando até altas horas da madrugada. Como pernambucano,

habituado a se recolher cedo, papai assustavase

com aqueles horários tardios, julgando-os prejudiciais

à saúde da esposa. Então, quando o relógio batia

uma hora, uma e meia da manhã, ele às vezes se levantava

da cama e se dirigia até a sala onde ela se encontrava

imersa nas suas orações.

“Cena por mim presenciada em diversas ocasiões:

papai se detinha um pouco atrás dela; mamãe percebia

a presença dele mas não se voltava, continuando a

rezar. Ele dizia:

“— O que é isto, senhora?! Já são quase duas horas!

“Ela não se importava, fazia-lhe um pequeno sinal,

amável, como quem diz: ‘Já estou indo’, mas acabava

por rezar tudo o que ela queria.

“Às vezes ele retornava, insistia, e mamãe então encerrava

suas orações, acompanhando-o para o quarto.”

O vaso de cristal

Quando presenciava alguma atitude mais enérgica de

Dª Lucilia, Dr. João Paulo costumava dizer ao filho, a

meia-voz, numa jocosa alusão a certo sangue herdado

por ela de remotos antepassados:

— Ih!... Esta senhora espanhola!...

Ele tinha uma voz sonora, de timbre agradável, e seu

riso saudável era ouvido à distância. O ambiente afrancesado

à paulista que Dª Lucilia criava em torno de si,

formava um conjunto harmônico com a nota pernambucana

e portuguesa, contributo de seu esposo.

Evidentemente, nos momentos de aflição de Dr.

João Paulo, a bondade sem par de Dª Lucilia se voltava

de modo especial para ele, com o desvelo de quem sabia

penetrar no mais interno do sofrimento de uma pessoa

e ali colocar uma gota de suavizante bálsamo.

Uma tarde, ao voltar do trabalho, Dr. Plinio encontrou

seu pai sozinho no salão, com ar muito triste.

Cumprimentou-o como sempre:

— Boa tarde, papai, como vai o senhor?

— Bem, obrigado — respondeu Dr. João Paulo melancolicamente.

Seu filho, sem poder atinar com a razão

de tal atitude, dirigiu-se ao quarto de Dª Lucilia, onde a

encontrou recostada e rezando.

Ao vê-lo entrar, ela lhe fez um sinal com o dedo para

falar baixo e pediu que se sentasse perto dela. Em seguida

lhe disse num tom compassivo:

— Filhão... Você viu como o pobre de seu pai está

aborrecido? Esbarrou, sem querer, no seu magnífico vaso

de cristal da Boêmia, que caiu no chão e se despedaçou.

— Meu bem, papai quebrou o vaso de cristal?! —

perguntou Dr. Plinio entre surpreso e penalizado, pois

apreciava muito aquele objeto.

Igreja de São Cristóvão, onde foi celebrado o casamento de Dª Lucilia

27


DONA LUCILIA

— Sim, mas ele está sofrendo muito... Bastaria uma

palavrinha sua para fazer cessar a aflição dele. Você

faria isso por sua mãe?

Dr. Plinio, em qualquer circunstância, perdoaria de

bom grado a seu pai, e um mero vaso de cristal, por melhor

que fosse, era muito pouco para ser causa de tanto

pesar. Diante da afetuosa súplica de Dª Lucilia, dirigiuse

imediatamente ao lugar onde estava

Dr. João Paulo a fim de tranqüilizá-lo

e, sorrindo, disse-lhe que

não se preocupasse, pois o acidente,

aliás todo involuntário, não tinha

importância. Suas palavras distenderam

de imediato seu abatido

pai, que recuperou o habitual bom

humor.

Manifestações de afeto de Dª Lucilia,

como esta, excediam de muito

os limites do lar. Se até em relação

a desconhecidos sua compaixão se

fazia sentir tão viva, quanto mais

com os seus familiares, próximos

ou até longínquos!

Um trato para a

eternidade

Certo dia estavam Dª Lucilia e seu esposo na sala de

jantar, contemplando as belezas do entardecer, que na

cidade de São Paulo se reveste com freqüência de esplêndidos

coloridos. Mas ela não se limitava a apreciar

do ponto de vista natural a vivacidade cambiante das

cores ígneas com as quais o sol, em seu declínio lento e

majestoso, ia pintando os tufos de nuvens, na aparência

espalhados no céu por mãos invisíveis. Seu espírito logo

se elevava a considerações de ordem sobrenatural. E essa

cena lhe trouxe à mente quão próximos estavam, ela

e seu esposo, do ocaso da vida terrena e da aurora da

eternidade. Fez-lhe então a seguinte proposta:

— João Paulo, vamos fazer um trato?... Já estamos

idosos e não sabemos quem de nós vai ficar só. Aquele

que restar reza pelo outro uma Ave-Maria, todas as

tardes, diante do pôr-do-sol.

Dr. João Paulo aquiesceu. Seria ele o grande beneficiado

desse acordo, pois em breve terminariam seus

dias, e ela cumpriria fielmente a promessa até o fim de

sua vida.

Os nobres deveres da viuvez

Dr. João Paulo

No dia de 27 de janeiro de 1961, o trato feito por

Dª Lucilia com o esposo, de rezar uma Ave-Maria

diante do pôr-do-sol, entraria em vigor. Alguns dias

após um derrame cerebral, Dr. João Paulo, então com

87 anos de idade, entregou sua alma a Deus.

Embora Dª Lucilia estivesse de há muito com seu espírito

preparado para a eventualidade da morte do esposo,

a rapidez do desfecho a abalou. Mas era tal a sua

paz de espírito, e tão grande sua confiança na Providência

que, sem deixar de demonstrar

natural tristeza e dor, não perdeu a

serenidade em nenhum momento,

guardando um aplomb admirável.

Aplomb, isto é, o estar de pé com

aprumo, seguindo o excelso exemplo

de Nossa Senhora aos pés da

Cruz, era sua constante atitude

diante da dor.

Uma vez falecido seu esposo,

Dª Lucilia mudou alguns hábitos

de acordo com sua nova situação.

Guardou luto até o fim de seus

dias, inclusive deixando de usar

jóias pelo espaço de um ano, tempo

acostumado.

De início, Dr. Plinio achou tudo

isso natural, mas, passado certo

tempo, perguntou-lhe:

— Mãezinha, a senhora deixou de usar seu colar de

pérolas? (Tratava-se de uma jóia que ela usava diariamente.)

— Meu filho, eu não o usarei mais. Uma senhora só

se adorna para seu esposo.

De fato, nunca mais usou o colar, tão de seu gosto,

por onde se vê também com que despretensão e desapego,

ao longo de toda sua vida, utilizara suas belas jóias.

Poucos meses depois, Dr. Plinio convidou sua mãe a

sair com ele para uma visita, certo de que ela ficaria

agradada e se distrairia um pouco. A resposta dela não

deixou de surpreendê-lo, pela seriedade demonstrada

no cumprimento dos deveres para com o falecido esposo.

— Eu vou — respondeu com sua firme mansidão —

mas depois de ter visitado, uma vez pelo menos, a sepultura

de seu pai. Antes disso, não farei visita alguma.

De fato, ela nunca mais saiu para visitas, pois não lhe

foi possível ir ao jazigo de seu esposo. Naquela época

não se permitia a entrada de automóveis no Cemitério

da Consolação. Já tendo muita dificuldade de locomoção,

não podia Dª Lucilia percorrer considerável distância

a pé, o que tornou impraticável a realização de seu

desejo.

(Extraído, com adaptações e acréscimos,

da obra Dona Lucilia, de João S. Clá Dias)

28


Oração de uma

esposa e mãe à

Santíssima Virgem

Com particular elevação de espírito, colocava-se

Dª Lucilia sob o amparo e proteção da Santíssima Virgem

para o perfeito cumprimento de seus deveres de esposa e mãe.

Pequeno testemunho de suas sublimes disposições nos dá esta

oração, por ela copiada de próprio punho, numa época não muito posterior

ao casamento. Habituou-se a rezá-la de memória, mantendo o manuscrito

guardado em uma gaveta:

Oh! Maria, Virgem Puríssima e sem mácula, Casta Esposa de

S. José, Mãe terníssima de Jesus, perfeito modelo das esposas

e das mães, cheia de respeito e de confiança, a Vós recorro e

com os sentimentos da veneração, a mais profunda, me prostro a vossos

pés, e imploro o vosso socorro. Vede, oh Puríssima Maria, vede as minhas

necessidades, e as da minha família, atendei aos desejos do meu coração,

pois é ao vosso tão terno e tão bom, que os entrego.

Espero que, pela vossa intercessão, alcançarei de Jesus a

graça de cumprir, como devo, as obrigações de esposa e de

mãe. Alcançai-me o santo temor de Deus, o amor do trabalho e

das boas obras, das coisas santas e da oração, a doçura, a paciência,

a sabedoria, enfim todas as virtudes que o Apóstolo recomenda

às mulheres cristãs, e que fazem a felicidade e ornamento das

famílias.

Ensinai-me a honrar meu marido, como Vós honrastes a São José,

e como a Igreja honra a Jesus Cristo; que ele ache em mim a esposa

segundo o seu coração; que a união santa, que contraímos sobre a terra,

subsista eternamente no Céu. Protegei meu marido, dirigi-o no

caminho do bem e da justiça; pois tão cara como a minha me é

a sua felicidade. Encomendo também ao vosso materno

coração os meus pobres filhos. Sede a sua Mãe, inclinai o seu

coração à piedade; não permitais que se afastem do caminho

da virtude, tornai-os felizes, e fazei com que depois da nossa

morte se lembrem de seu pai e de sua mãe e roguem a Deus por

eles; honrando a sua memória com as suas virtudes. Terna Mãe,

tornai-os piedosos, caritativos e sempre bons cristãos; para que

a sua vida, cheia de boas obras, seja coroada por uma santa

morte. Fazei, oh Maria! com que um dia nos achemos reunidos

no Céu, e ali possamos contemplar a vossa glória, celebrar os

vossos benefícios, gozar de vosso amor e louvar eternamente o

vosso amado Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso. Amém.

29


A expansão da obra de Dr. Plinio

1

2

Uma vez mais recebeu a Bolívia a visita de

uma cópia da milagrosa Imagem Peregrina de Nossa Senhora

de Fátima, numa manifestação da maternal solicitude

da Santíssima Virgem para com essa nação, sobre a qual espargiu

copiosos e celestiais favores.

Conduzida pelos membros do Coro e Banda Sinfônica Internacional

Nossa Senhora de Fátima, foi a Imagem recepcionada

com profunda devoção e imenso entusiasmo pela

população das cidades que visitou. A par desse fervor filial,

recebeu as homenagens do Presidente da República, Gen.

Hugo Banzer, e da Força Naval Boliviana, sendo acolhida no

IV Distrito Naval, situado no lendário Lago Titicaca.

Nas fotos destas páginas, algumas expressivas cenas dessa

abençoada peregrinação.

3

4

1) Sob o misericordioso olhar da Virgem, o Gen. Hugo Banzer,

sua esposa, e o diretor da Banda, Sr. João Clá Dias.

2) Autoridades eclesiásticas e civis, além de diversos representantes

do Corpo Diplomático, estiveram presentes à solene homenagem à

Virgem Peregrina, que teve lugar no Palácio Presidencial, em La Paz.

3) Apresentação no Hotel Los Tajibos, em Santa Cruz.

4) Outro aspecto do ato na sede da Presidência da República.

5) Apresentação na Catedral de Cochabamba, com a presença do

Arcebispo e autoridades civis e militares.

6) Nossa Senhora é revestida com o manto de Almirante, pelas mãos

do comandante do IV Distrito Naval, no Lago Titicaca.

7) Chegada da Imagem ao quartel do IV Distrito Naval.

8) A imagem da Virgem no mesmo local.

9) Cortejo triunfal pelas ruas de Cochabamba em direção à Catedral

Metropolitana.

10) Apresentação no Colégio Franco-Boliviano, em Santa Cruz.

30


5

6

7

8

10

9

31


A expansão da obra de Dr. Plinio

1

Também a seus filhos hondurenhos levou Nossa Senhora

a inesgotável abundância de suas misericórdias. Numa inesquecível

visita ao país, percorreu Ela diversas cidades e

regiões, sempre acolhida com extraordinário fervor, do qual

se tem idéia pelas cenas aqui retratadas. Em Villanueva,

após a solene coroação, foi-Lhe entregue pelo prefeito a chave

da cidade (foto 1). Em São Pedro Suca, a maternal bondade

de Maria se fez derramar sobre os jovens alunos do

Colégio La Salle (foto 2). Enquanto uma entusiasmada multidão

se aglomera à entrada de Lepaera para recepcioná-La

(foto 3), em Esperanza, na zona indígena, não menos concorrida

procissão A cerca de festivas honras e caloroso amor filial

(foto 4).

2

3

4

32


Já no Brasil, vai Nossa

Senhora percorrendo

incontáveis lares, difundindo

especiais graças

às famílias que, com

muita piedade e regozijo,

a têm acolhido nos

mais variados recantos

do País. Por exemplo,

na cidade de São Paulo

(foto superior), e na capital

de Santa Catarina

(foto ao lado).

Merecem igualmente destaque as abençoadas peregrinações da Virgem

de Fátima pelas diversas regiões do Uruguai. Na foto abaixo, a visita ao

Colégio São Francisco, da cidade de Piriápolis. Nessa ocasião foram distribuídos

150 rosários aos alunos do estabalecimento, atendido pelas Irmãs

de Nossa Senhora do Horto.

33


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

QUANDO VIRGINDADE E

GRANDEZA RÉGIA SE OSCULAM

Não há louvores que não se possam fazer à virgindade.

Ela é o auge da dedicação em relação

a Deus, porque o homem inteiramente

casto renuncia às comodidades e aos legítimos atrativos e aspirações

da vida de família para servir um ideal superior. Um

ideal que não lhe dá prêmios na terra, mas oferece

recompensas no Céu. Trata-se, é claro, de um ideal católico,

pois nenhum outro pode ser considerado autêntico e

verdadeiro, quando desprovido do sentimento católico.

A virgindade é, então, o ápice da dedicação. É, outrossim, uma

forma de grandeza. Mais ainda, é a grandeza por excelência.

Consideremos um rei santo. São Luís IX era um soberano

puríssimo que tinha, entre outras missões, a de perpetuar a

dinastia da França. Casou-se, teve filhos, e guardou plenamente

a fidelidade conjugal. É maravilhoso.

Contudo, quando ouvimos falar do Infante Dom Sebastião

de Portugal — o rei casto, puro, virginal, imolado numa batalha

contra os mouros nos vastos campos de Alcácer-Quibir

— sentimos exalar-se um conjunto de idéias e grandezas, que

adquire seu maior fulgor no fato de Dom Sebastião

ser virginalmente casto.

Resplandece nele aquela auréola da castidade perfeita,

não a respeitável castidade do matrimônio, mas a da inteira

abstenção de qualquer contato carnal. Um varão régio e virginal,

numa couraça lisa e rutilante, brilhando sob o sol da África,

com uma lança na mão e uma coroa de Rei Fidelíssimo na fronte.

O trono da França era mais elevado que o

de Portugal. São Luís foi um santo autêntico, canonizado pela

Igreja. Esta não canonizou o Rei Dom Sebastião, e talvez

houvesse certa temeridade em suas ousadias guerreiras, razão

para não inscrevê-lo no rol dos Santos.

Não obstante, sua figura é cercada

de uma auréola, de uma poesia,

de um perfume típico de grandeza

que nem o grande São

Luís, nem o grande São Fernando

de Castela tiveram.

Nem o próprio Carlos Magno

possuiu. É a aliança entre

a majestade régia e a

castidade perfeita, entre a

virgindade e a coroa.

São Luís IX

Moeda de São Luís IX

34


D. Sebastião


A melhor de todas as mães

Plinio Corrêa de Oliveira

Mãe de Deus, Nossa Senhora é também, e a título especial, Mãe de todos os homens. Mãe dos

que pugnam sob o estandarte da Fé, Mãe dos que se debatem contra as tentações, Mãe dos

miseráveis, Mãe dos pecadores, Mãe dos desamparados, Mãe daqueles que quase perderam

a esperança da salvação eterna — e para todos, sem exceção, obtém Ela o poderoso auxílio da graça divina.

Por isso, o mais precioso dom sobrenatural que podemos receber, em matéria de devoção a Maria Santíssima,

é a condescendência d’Ela em estabelecer com cada um de nós, por laços inefáveis, uma relação verdadeiramente

materna. Se é verdade que esse vínculo pode se manifestar de incontáveis maneiras, há alguns

casos em que Nossa Senhora se revela nossa Mãe de modo muito particular: quando nos livra de algum

apuro extremo, ou quando nos obtém o perdão de determinada falta imperdoável, por uma dessas bondades

que só às mães é dado possuir.

Não raras vezes, Nossa Senhora dispensa essas solicitudes maternas de uma forma tal que na alma por

elas favorecida permanece para a vida inteira, marcada com fogo do Céu, a convicção de que podemos recorrer

a Maria mil vezes, em circunstâncias mil vezes mais inescusáveis, e Ela sempre nos perdoará de novo,

porque abriu para nós uma porta de misericórdia que ninguém fechará.

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