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Revista Dr Plinio 22

Janeiro de 2000

Janeiro de 2000

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Relicário

contendo

fragmentos

da

manjedoura

do Menino

Jesus

(Igreja

de Santa

Maria Maior,

Roma)

“E depois que se completaram os oito dias para ser circuncidado o Menino,

foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo”. (Lc.2, 21)

Há uma misteriosa e insondável relação entre o nome de Jesus e o

Verbo feito carne, de tal maneira que não se concebe outro que lhe

fosse mais apropriado. É o mais suave e santo dos nomes que jamais um

homem tenha usado. Nome que, de modo maravilhoso, é a própria manifestação

da glória d’Ele. Nome que é um símbolo sacratíssimo do Filho de

Deus e, enquanto tal, tem o poder de atrair sobre nós todas as graças e favores

celestiais.

Plinio Corrêa de Oliveira


Sumário

Na capa: neste limiar

do ano 2000, o Sagrado

Coração de Jesus nos

convida para uma nova era

de intenso amor a Ele

e à sua Mãe Santíssima

4

EDITORIAL

Os “Chanteclairs” da Era de Maria

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Jornalista Responsável:

Othon Carlos Werner – DRT/SP 7650

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Marcos Ribeiro Dantas

Edwaldo Marques

Pedro Paulo de Figueiredo

Carlos Alberto S. Corrêa

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Diogo de Brito, 41

02460-110 S. Paulo - SP Tel: (11) 6971-1027

Fotolitos: Diarte – Tel: (11) 571-9793

Impressão e acabamento:

Pavagraf Editora Gráfica Ltda.

Rua Barão do Serro Largo, 296

03335-000 S. Paulo - SP - Tel: (11) 291-2579

Esta revista não é órgão oficial nem oficioso da

SBDTFP.

Preços da assinatura anual

JANEIRO de 2000

Comum . . . . . . . . . . . . . . R$ 60,00

Colaborador . . . . . . . . . . R$ 90,00

Propulsor . . . . . . . . . . . . . R$ 180,00

Grande Propulsor . . . . . . R$ 300,00

Exemplar avulso . . . . . . . R$ 6,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 6971-1027

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DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO

10 de janeiro de 1978: um testamento

GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Longe de casa

DR. PLINIO COMENTA...

Caleidoscópio

do verdadeiro heroísmo

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Tristezas e

descrenças renascentistas

DENÚNCIA PROFÉTICA

Agonia das tradições cristãs

DONA LUCILIA

Perfeita harmonia de carinho

e vigilância

ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

O nosso maior tesouro

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Feerias de sol, belezas de Deus

ÚLTIMA PÁGINA

Como filhos carregados no colo...

3


Editorial

Os “Chanteclairs” da Era de Maria

Ao ultrapassarmos os umbrais do ano

2000, vem-nos à recordação a peça de

Edmond Rostand, famoso dramaturgo

francês, “Le Chanteclair”, cujo enredo é a história

de um galo. Altiva e contente, a garbosa ave dominava

o galinheiro, defendendo-o contra os predadores

e se fazendo respeitar pelos que ali viviam.

Contudo, aquilo de que mais se ufanava era da

prerrogativa a qual, como todos os galos, ela detinha:

pressentir que o dia ia nascer e, antes das

primeiras claridades, cantar a plenos pulmões,

anunciando ao mundo inteiro o iminente despontar

da aurora.

Várias épocas históricas costumam ter precursores

os quais, ainda que modestos, possuem esta

grandeza: pressagiam a aurora que se aproxima.

Em relação aos esplendores que esperam a humanidade

no Terceiro Milênio, a voz precursora

por excelência foi a da própria Mãe de Deus, promentendo

em Fátima: “Por fim, meu Imaculado

Coração triunfará”. Palavras esperançosas, que predizem

o fim do domínio da impiedade e apontam

para uma gloriosa era marial.

Outros “Chanteclairs” os houve — servos fiéis

de Nossa Senhora — a anunciar esse período histórico

em que Maria deverá reinar nos corações.

O mais célebre deles é São Luís Maria Grignion

de Montfort, autor do admirável “Tratado da verdadeira

devoção à Santíssima Virgem” — e um dos

santos preferidos do Papa João Paulo II (que o tem

como um de seus mestres espirituais). Para São

Luís Grignion, próximos estavam os dias em que a

Fé católica voltaria a brilhar em toda a sua magnificência,

sendo Maria, mais do que nunca, aclamada

como Rainha e Senhora do mundo.

Também Dr. Plinio nutria a confiança numa

época futura que ele se comprazia em chamar de

“Reino de Maria”. Estava convencido de que Deus

reserva para o mundo pós-século XX graças extraordinárias,

que levarão grande parte das pessoas a

praticar habitualmente a virtude e produzirão os

santos de invulgar estatura, de que fala São Luís

Grignion.A graça divina: eis a suprema força na

qual devem se estear os séculos vindouros. “Quando

os homens resolvem cooperar com a graça de

Deus — escrevia Dr. Plinio em “Revolução e Contra-revolução”

—, são as maravilhas da história que

assim se operam: é a conversão do Império Romano,

é a formação da Idade Média, é a reconquista da Espanha

a partir de Covadonga, são todos os acontecimentos

que se dão como fruto das grandes ressurreições

de alma de que os povos são também susceptíveis.

Ressurreições invencíveis, porque não há o que

derrote um povo virtuoso e que verdadeiramente ame

a Deus”.

Estas palavras que constituem um autêntico poema

de admiração à força da virtude, sutentada

pela graça, um cântico mais de esperança no porvir

que de nostalgia das grandezas das eras de Fé, revelam

uma profunda persuasão de Dr. Plinio. Podemos

observá-la de outro ângulo na seção “Dr.

Plinio comenta”. Aí o insígne líder mariano deixa

falar seu enlevo pela prática séria e fiel das virtudes

católicas, vista por ele como a mais bela e suprema

forma de heroísmo. E pelas cândidas recordações

da adolescência, nas páginas da “Gesta de um varão

católico”, fica claro como ele não se contentava

com meras loas à virtude, mas desde muito moço

esforçou-se em praticá-la; com os olhos sempre

postos em Maria, canal seguro que leva a Jesus.

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625

e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras

ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista.Em nossa intenção, os títulos elogiosos não

têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO

10 de janeiro de 1978: um testamento

Nesta data, Dr. Plinio decide redigir

seu testamento, do qual apresentamos

estes excertos:

“Declaro que vivi e espero morrer na Santa

Fé Católica Apostólica e Romana, à qual adiro

com todas as veras de minha alma. Não encontro

palavras suficientes para agradecer a Nossa

Senhora o favor de haver vivido desde os meus

primeiros dias, e de morrer, como espero, na

Santa Igreja, à qual votei, voto e espero votar

até o último alento, absolutamente todo meu

amor. De tal sorte que todas as pessoas, instituições

e doutrinas que amei durante minha vida,

e atualmente amo, só as amei ou amo porque

eram ou são segundo a Santa Igreja, e na medida

em que eram ou são segundo a Santa Igreja.

Igualmente, jamais combati instituições, pessoas

ou doutrinas senão porque e na medida em

que eram opostas à Santa Igreja Católica.

“Agradeço da mesma forma a

Nossa Senhora — sem que me seja

possível encontrar palavras suficientes

para fazê-lo — a graça

de haver lido e difundido o ‘Tratado

da Verdadeira Devoção à Santíssima

Virgem’, de São Luís Maria

Grignion de Montfort, e de me

haver consagrado a Ela como escravo

perpétuo. Nossa Senhora

foi sempre a Luz de minha vida, e

de sua clemência espero que seja

Ela minha Luz e meu Auxílio até

o último momento da existência.

Agradeço ainda a Nossa Senhora

— e quão comovidamente

— haver-me feito nascer de Dª

Lucilia. Eu a venerei e amei em

todo o do limite do que me era

possível, e, depois de sua morte,

não houve dia em que não a recordasse

com saudades indizíveis.

Também à alma dela peço que me

assista até o último momento com

sua bondade inefável. Espero encontrá-la

no céu, na coorte luminosa

das almas que amaram mais

especialmente Nossa Senhora.”

Após dar graças à Santíssima

Virgem por ter podido fundar

Dr. Plinio em

sua residência

uma grande obra, Dr. Plinio lembra-se de seus

seguidores: “Peço que nossa Senhora abençoe a

todos e a cada um. Depois da morte, espero

junto a Ela rezar por todos, ajudando-os assim

de modo mais eficaz do que na vida terrena.

Aos que me deram motivos de queixa, perdôo

de toda a alma. Faço votos de que minha morte

seja para todos ocasião da graça que chamamos

do ‘Grand-Retour’. Não tenho diretrizes a dar

para essa eventualidade, pois melhor do que eu

o fará Nossa Senhora. Em qualquer caso, a todos

e a cada um peço entranhadamente e de

joelhos que sejam sumamente devotos de Nossa

Senhora durante toda a vida.”

Anos depois, Dr. Plinio resolveu anular tal

testamento, a fim de invalidar as cláusulas (especificadas

em carta anexa) a respeito da destinação

dos bens materiais que deixava.

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GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

LONGE DE CASA

Aspecto de Ribeirão Preto, na época em que o

jovem Plinio (detalhe) ali prestava exames

Estudante do curso secundário

no Colégio São Luís,

dos jesuítas, onde ingressara

em 1919, o jovem Plinio cedo se

destacara como um dos melhores de

sua série. Tanto assim que era constantemente

premiado nas cerimônias

de “Primeiras Dignidades Escolares”,

quando eram condecorados

com medalhas os alunos mais

bem colocados. Além de receber a

distinção máxima em comportamento

e aplicação — os dois pontos mais

exigidos por sua mãe, Dª Lucilia —

costumava ganhar medalhas de ouro,

prata e bronze também em Religião,

Francês, Inglês, Português, Latim,

História e, com menor freqüência,

em Geografia.

Entretanto, para os exames finais,

Plinio, como todos os seus colegas,

era obrigado a se inscrever num colégio

oficial, porque naquele tempo

as provas em escolas particulares

não tinham valor. Para passar de

ano era preciso fazê-las com professores

do Estado num estabelecimento

estadual. Absurda exigência que,

felizmente, foi depois abolida.

Tendo, portanto, de se submeter

àquela imposição, Plinio resolveu,

em dezembro de 1924, aceitar um

convite de seus primos e viajar com

eles até Ribeirão Preto, para ali

prestar as provas finais. Estas teriam

início no Ginásio Otoniel Mota em 9

de janeiro de 1925. Partindo com

certa antecedência, ele poderia não

apenas descansar no ambiente pacato

do interior, como também se preparar

com mais tranqüilidade para

os exames.

É melhor sacrificar a

existência terrena a perder a

vida eterna

O jovem Plinio foi, então, pedir o

consentimento de sua mãe para viajar.

Não era uma proposta que a

deixasse sossegada. Sabia ser Ribeirão

Preto uma cidade muito rica,

com todas as armadilhas que uma vida

fácil pode trazer. Ademais, tinha

Dª Lucilia clara noção dos perigos

que o convívio entre estudantes po-

6


de acarretar, especialmente estando

longe da vigilância dos pais.

Já quando Plinio entrara para o

Colégio São Luís, ela manifestara

temor quanto ao rumo que o menino

tomaria. Por isso, repetiu-lhe algumas

vezes, em tom ao mesmo

tempo afetuoso e sério:

— Meu filho, os tempos são

muito ruins e você ainda é muito

moço. Ninguém pode ter idéia do

que é capaz uma pessoa quando se

extravia. É bom você saber que eu

preferiria vê-lo morto a vê-lo extraviado.

Em outras palavras, é melhor sacrificar

a existência terrena a perder

a vida eterna.

Verdade é que, auxiliado pela doutrina

ortodoxa pregada pelos bons e

piedosos padres jesuítas, Plinio resistira

até então aos embates no colégio.

Mas a adolescência — ele completara

16 anos — é um período da

vida tão incerto... Tudo bem pesado,

Dª Lucilia acabou autorizando a viagem

a Ribeirão Preto, impondo, todavia,

como condição que seu filho

se hospedasse na casa de contra-parentes

seus.

“Como é bela a inocência!”

O episódio a seguir, mais tarde

narrado pelo próprio Dr. Plinio,

mostra o quanto os temores de Dª

Lucilia não eram de todo infundados:

“Ao chegar a Ribeirão Preto, procuro

a família com a qual mamãe

combinara minha ida. Receberamme

muito amáveis, porém, por questões

domésticas, só poderiam me

dar acolhida no dia seguinte. O dono

da casa indicou-me o melhor hotel

da cidade, para eu passar a noite.

“Dirigi-me ao estabelecimento e

nele também não havia vaga. Contudo,

não tinha outra alternativa

senão permanecer ali. Lembrei-me

então de que muitos rapazes de São

Paulo iam fazer provas em Ribeirão

Preto. Pedi ao recepcionista que me

deixasse ver a lista de hóspedes: caso

encontrasse algum conhecido,

poderiam colocar mais uma cama

no quarto dele. Olho a lista e dou

com o nome de um rapaz que era

amigo de primos meus, e por isso

tinha comigo certa ligação. Achei

que essa proximidade facilitava o

fato de ele aceitar minha companhia.

Eu disse:

“— Olhe, este aqui é meu conhecido.

Peço que coloquem uma cama

para mim no quarto dele. Eu assumo

a responsabilidade, pago minha

diária como se tivesse aposento

próprio, e quando ele chegar não

lhes vai criar a menor dificuldade.

“Aceitaram minha proposta, puseram

ali a cama, e eu me deitei. A

certa altura da noite, porém, acordo

pressentindo passos no corredor.

Percebo aproximar-se a voz potente

do meu conhecido, conversando com

uma pessoa do sexo feminino. Hipótese

com que eu, na minha inexperiência,

não tinha contado.

“Chegaram junto à porta e, pelas

palavras que trocavam, entendi que

ele já fora informado

de minha presença

em seu quarto. E, talvez

para satisfazer a

curiosidade de sua

acompanhante, o rapaz

vinha lhe contando

coisas a meu

respeito, descrevendo

minha personalidade,

etc. Pelo que se

passou depois, acredito

que chegou mesmo

a lhe dizer que eu

praticava a castidade.

“Abriram a porta,

entraram, e ela disse

em voz baixa: ‘Eu

quero vê-lo’.

“Aproximaram-se e

pararam diante de

minha cama. Eu permanecia

de olhos fechados.

Notei que me

observavam, e pensei:

‘Ai! meu Deus, o que vai acontecer

agora?’ Recomendei-me à Santíssima

Virgem e fingi dormir com

toda a calma, respirando fundo,

para dar a impressão de uma pessoa

que dorme a sono solto.

“De súbito, ouço-a dizer num sotaque

português muito pronunciado:

“— Ai! que linda é a inocência!

Que bela, que bela a inocência!

“Ela falava como alguém que

sentia remorso pela inocência perdida.

E, com pasmo para mim, propôs

a ele de irem embora e de me

deixarem sozinho no quarto. Ele

concordou sem hesitação. Saíram, e

eu ouvi os passos dos dois pelo corredor,

e ela que mais uma vez exclamava:

‘Como é bela a inocência!’

Querendo dizer: ‘Como é bela a

inocência que eu perdi! Que perda

medonha eu tive, e que tesouro ele

conserva!’

“Dei graças a Nossa Senhora e

voltei a dormir. Levantei-me na primeira

hora da manhã. Na cama ao

lado, vi o meu conhecido ainda

Ginásio estadual Otoniel Mota, em Ribeirão Preto

7


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

imerso num sono profundo. Aprontei-me

e saí para a casa da família

que me esperava. Não retornei ao

hotel, e, naturalmente, não contei a

ninguém o que acontecera naquela

noite.”

A “batata”

Dr. Plinio narra em seguida um

pitoresco episódio, também sucedido

em Ribeirão Preto:

“Embora em toda a minha vida

tivesse facilidade para estudos, entretanto

não conseguia tomar gosto

para me debruçar seriamente sobre

determinadas matérias. Aprender,

por exemplo, qualidades de ervas,

de plantas, é para mim de uma dificuldade

insuperável.

“Em Ribeirão Preto, a mais alta

autoridade escolar tinha um estreito

vínculo de família comigo, o que me

dava esperança de um apoio nas

provas. Confiante nesse auxílio, fui

fazer o exame oral de Biologia. Colocaram

sobre uma mesa vários tipos

de folhas que deveríamos identificar.

Uma delas parecia a perna

de uma cegonha, e me perguntaram

do que se tratava. Não tinha a menor

idéia, mas, se confessasse a minha

ignorância, não me restariam

chances de ganhar ponto. Pelo contrário,

se dissesse algum nome, talvez

acertasse. Logo, era melhor dizer

qualquer coisa. E respondi:

“ — É batata.

“O dono da casa onde eu me hospedava

havia me acompanhado até

o colégio. Estava sentado a um canto

da sala, fumando e ouvindo as

nossas respostas. Quando eu disse

‘batata’, vi a brasa do seu charuto se

acender e ele fazer uma cara de espanto.

“O professor ainda se voltou para

mim: ‘Batata é o que você acaba de

dizer!’

“Apesar de uma ou outra resposta

assim, graças a Deus acabei passando

no exame.”

Decisão em face de um

perigo mortal

Prossegue Dr. Plinio:

“A família em cuja casa eu me

hospedei era numerosa. Viviam confortavelmente,

tinham fazenda, e o

pai ocupava um cargo público puramente

de aparato, que lhe fora dado

em virtude da influência política

que os seus exerciam na região.

“Fiquei hospedado também na sede

da fazenda, ampla, simples, mas

deixando entender fartura. Lembro-me

de que, certo dia, num dos

intervalos entre as provas, resolvi

pegar o trem noturno que vinha para

São Paulo. Eu me encontrava na

cidade, e precisava voltar à fazenda

para buscar minha bagagem. Contudo,

as circunstâncias se puseram de

tal maneira que, ou esse circuito se

faria com toda a velocidade, ou não

alcançaria o noturno.

“Então tomei um táxi e fui para a

fazenda. Aconteceu que, enquanto

eu arrumava as malas, caiu uma

chuva torrencial, enchendo muito o

rio que corria junto à propriedade.

Confiando em Nossa Senhora, mandei

o táxi seguir para a cidade, e íamos

bem até chegarmos à ponte

que antes atravessáramos sem problemas.

Agora, porém, as águas estavam

a ponto de cobri-la. Não havia

escolha: se eu quisesse alcançar

o noturno, teria de atravessá-la de

qualquer modo. O motorista deteve

o automóvel e me disse:

“— Aqui não vai mais.

“— Vai sim, senhor! — retruquei.

“Eu não entendia por que a água,

passando sobre a ponte, a colocava

em risco, mas o fato é que o meu

motorista pensava assim. Insisti para

que tocasse adiante. Ele se alarmou:

“— O senhor não está vendo a

água que sobe?

“— Pouco importa, seja corajoso!

— respondi com decisão.

“No mesmo instante, ele tocou.

Foi atravessarmos a

ponte, e ela se espatifou...”

Volta a Ribeirão

Preto

Outra vista de Ribeirão Preto, em 1926

No fim de1925, Plinio

resolveu renovar seu pedido

de permissão, a sua

mãe, para voltar a Ribeirão

Preto com seu primo

Procópio (conhecido familiarmente

como Pinho),

para os exames de conclusão

do curso secundário.

Por aqueles dias Dª Lucilia

viajara ao Rio de Ja-

8


neiro, acompanhando sua mãe, Dª

Gabriela, a quem dedicara sempre

um incansável e meigo apoio. Dali

escrevia a seu filho, incentivando-o

nos estudos, ao mesmo tempo que

abordava pequenos fatos da vida

diária.

Dessa correspondência restaram

felizmente algumas cartas, que nos

permitem penetrar na doce atmosfera

familiar de então:

Rio de Janeiro, 22-9-1925

Filho querido

Fiz boa viagem e achei tua avó um

pouco melhor, graças a Deus, mas

acho tanta falta em meu “filhão”, que

nem poderás fazer uma idéia! Como

vamos de estudos... estuda-se muito,

do mesmo modo que o fazias quando

estava aí?... Veremos pelo boletim;

não é exato? Que prazer me dás

quando leio tuas boas notas, meu filho!...

e Deus te abençoará por este

grande esforço.

Tens tomado sempre teus remédios?

E Rosette querida, como vai?

Olha bem por ela e vai vê-la todos os

dias. (...)

Abençoa-te e envia-te milhares de

beijos e abraços, tua mamãe que tanto

te quer,

Lucilia

Mesmo se muito atarefado nos

estudos, Plinio nunca deixava de responder

às cartas de sua mãe, sempre

com demonstrações de afeto e

veneração. Esta, a seguir, foi uma

das conservadas carinhosamente por

Dª Lucilia:

Meu Amorzinho

Como vai a Senhora? Não pergunto

por vovó porque sei que ela está rija

e forte como uma digna bandeirante.

Por que não respondeu à carta que

lhe escrevi?

Vovó recebeu a dela? Imagine que

eu queria pôr as duas cartas em um

só envelope, porém esqueci-me e pus

só uma.

Estou muito alegre por esperar que

a Senhora venha logo com Vovó, pois

seria inútil descrever o aspecto da

casa sem as Senhoras.

Por aqui nenhuma novidade. Rosée,

papai e eu vamos muito bem.

Muitos abraços a Tio Gabriel e aceitem,

Vovó e a Senhora, muitos beijos

do filho e neto que lhes pede a bênção

e muito as quer

Plinio

Para o sucesso nas provas,

confiança no Sagrado

Coração de Jesus

De regresso a São Paulo, Dona

Lucilia se apressa em escrever a seu

querido filho, que já se encontrava

em Ribeirão Preto. Eis uma das cartas

daquela ocasião:

S. Paulo, 4-11-1925

Filho querido!

De coração agradeço-te o “beijo

telegráfico” que me enviaste e quanto

aos exames, tenho a dizer-te que deves

ter fé no Sagrado Coração de Jesus

que certamente não nos abandonará,

tanto mais, que por meio de

duas novenas que estou fazendo, obteremos

perante Ele a intercessão de

Nossa Senhora da Conceição e de

Santo Antônio. Diga ao Pinho que

estas novenas também são feitas por

sua intenção, e que espero em Deus,

que serão ambos felicíssimos. (...)

Peço-te que tomes bem cuidado

com tua saúde. Continuas a estudar

muito?

Com um afetuoso abraço ao caro

Pinho, abençoa-te e beija-te muito e

muito, a tua mamãe extremosa,

Lucilia

O jovem Plinio teve sucesso em

todas as provas, encerrando brilhantemente

o curso secundário. Em 25

de março de 1926, fez ele o vestibular

da Faculdade de Direito do

Largo de São Francisco, em São

Paulo, no qual foi aprovado com nota

8, matriculando-se poucos dias

depois. Era como se ficasse para

trás a adolescência, iniciando-se para

ele um novo período de pugnas

espirituais.

v

9


DR. PLINIO COMENTA...

C

erta ocasião,

ao iniciar uma

conferência para

jovens, Dr. Plinio foi

indagado a respeito

da natureza do

verdadeiro

heroísmo, e

respondeu

com as

seguintes

palavras:

10


Operguntador se referiu ao heroísmo dos cruzados,

ao dos religiosos, ao dos mártires e a uma

série de outras formas de heroísmo. O que há

de comum em todas elas? Por exemplo, entre o heroísmo

dos mártires e o dos cruzados? Quase se poderia dizer

que são opostos, pois o heroísmo do cruzado consiste

em lutar e fazer força; o dos mártires, em se encolher,

esperar a morte e não recuar diante dela, mas não

avançar para ela. Uns avançam e outros não avançam.

Nenhum recua!

E o que há de comum entre esses heroísmos e o do

religioso?

Muitos de nós já teremos visto fotografias representando

cenas do quotidiano num convento ou numa abadia.

Ora é um superior dando ordens ao seu subordinado,

que as recebe de modo reverente, disposto a cumprilas.

Ora são dois monges, um ajoelhado e outro de pé,

dando uma diretriz, consolando a alma daquele, ou fazendo-lhe

uma repreensão. Em qualquer dos casos, o

súdito oscula o hábito do superior, em sinal de aceitação

da ordem, da diretriz, da repreensão: é

o completo sacrifício da alma para

Deus. Sua vida inteira é marcada pela

obediência. Quando se ordena a alguém

fazer algo, em geral é por que a incumbência

não será do agrado de quem

deve desempenhá-la. Do contrário, não

era preciso mandar, pois ninguém opõe

dificuldades a realizar coisas que lhe são

agradáveis. Então, viver de obediência,

como os religiosos, é viver de fazer o

que não se gosta.

Qual é o elemento comum a essas

diferentes formas de heroísmo, de maneira

tal que, se o analisarmos, perceberemos

no que este consiste o próprio

heroísmo?

si mesmo, fazendo, fazendo e fazendo! Eis um dos elementos

do heroísmo.

Considerem, por exemplo, os rapazes da sua idade.

Nem todos vêem com agrado a necessidade de estudar.

Mas, sabendo que é imperioso fazê-lo, um jovem adquire

o hábito de estudar, e de tal maneira que, para ele,

torna-se uma segunda natureza. No fundo, ele continua

a não gostar. Porém, como é seu dever, ele faz, faz e faz,

produzindo-se uma espécie de frescor na sua alma, uma

aragem de consciência tranqüila, de glória do dever

cumprido, uma sensação de sua própria honestidade,

que lhe causam profundo bem-estar. Muito mais: de algum

modo, sente ele uma luz que parte de Deus e o cobre

e lhe dá a recompensa, já nesta terra, por suas boas

ações.

Quanto mais difícil for uma obrigação assim, tanto

mais o heroísmo consiste em tomar o hábito de a fazer,

transformando-se numa segunda natureza. Aí terá havido

renúncia completa, dedicação inteira. Terá havido um

heroísmo que se firmou.

O hábito de cumprir os

deveres árduos

Todo mundo encontra na vida coisas

difíceis de fazer, que devem ser repetidas

com freqüência e grande esforço.

Como são árduas, causam relutância e,

às vezes, um verdadeiro horror. Entretanto,

fazem-se. E muitas vezes, não

apenas pelo mero cumprimento do dever,

mas porque se resolve a fundo

tomar o hábito de efetuá-las sempre, de

modo que se acaba tendo alegria e satisfação

pelo gosto de se vencer e dobrar a

O heroísmo do cruzado consiste

em lutar e fazer força

11


DR. PLINIO COMENTA...

O verdadeiro heroísmo

Mas o heroísmo, ou é realizado de um

só lance, ou não existe! Se uma pessoa

avança aos poucos rumo ao que é difícil,

não chegará ao seu objetivo. Rumo à Cruz

de Cristo, ou se corre ou se voa! Quando

se anda devagar em direção a ela, estamos

a ponto de a abandonar e de trair o nosso

Divino Mestre.

Nas menores coisas é preciso agir desse

modo. Por exemplo, um de nós pode ter

um gênio muito irritadiço, que transforma

sua presença num elemento de desordem

no ambiente em que vive. Para solucionar

esse problema, não basta apenas decidir

não ter mais gênio irritadiço. É preciso

tomar a resolução de ser um gênio angélico.

Porque só vencemos o nosso defeito

capital praticando uma virtude eminente.

São Francisco de Sales, Arcebispo-Príncipe

de Genebra, era famoso por sua doçura.

Quando morreu, resolveram autopsiá-lo.

Ao abrirem o corpo, encontraram

seu fígado endurecido como se fosse de

pedra. A razão dessa anomalia? O Doutor

Suavíssimo possuía um gênio péssimo, e

vivia dominando-se...

Assim vencemos a nós mesmos. Gênio

difícil? Procuremos adquirir um temperamento

angélico. Medo de enfrentar as dificuldades?

Sejamos heróis e leões a serviço

de Nossa Senhora. Preguiçosos na hora

de estudar? Pois vamos ser os primeiros

a fazê-lo, a conversar sobre livros, a se interessar pelas

matérias, etc. E se alguém for vaidoso, nunca pense em

suas qualidades, não se compare com outros, nem dê

atenção aos aplausos que receba. Fuja disso como da

peste.

Procuremos, pois, dominar nossos defeitos mais difíceis

de vencer. Caso tenhamos pouca vontade de reconhecê-los,

examinemos nossos atos com atenção, sem

atenuantes, porque só corrigiremos nossas lacunas se

formos implacáveis e se as pegarmos uma por uma,

analisando-as com lupa, e depois rezarmos: mea culpa,

mea culpa, mea maxima culpa.

Isto é heroísmo.

Outro modelo de humildade heróica

Heróico é também o religioso, no completo sacrifício

de sua alma para Deus

No século passado viveu Santo Antônio Maria Claret,

fundador dos claretianos, Arcebispo, Patriarca das

Índias Orientais. Espanhol, de baixa estatura, mas grande

orador popular, senhor de uma voz possante e de um

ardente fogo de alma. O povo se impressionava muito

com seus sermões. Terminada uma série de dias de pregação

numa cidade, dirigia-se para outra próxima, muitas

vezes a pé. Levado pelo entusiasmo que sua personalidade

causava, o povo ia atrás dele até a meio caminho

da localidade vizinha. A população desta, por sua

vez, já vinha ao encontro dele, atraída pela sua fama,

cantando e entoando louvores àquele homem de Deus.

As pessoas nutriam por ele uma justificada admiração,

e uma tão profunda devoção que — sem ele perceber

— costumavam cortar pedaços da sua batina, arrancavam-lhe

um botão, etc., e muitas vezes não o deixavam

rezar, pois queriam sempre falar com ele. Essas

manifestações populares tomaram tal envergadura que

os auxiliares de Santo Antônio construíram um pequeno

cercado de madeira, no interior do qual ele poderia

caminhar sossegado, sem que a multidão à sua

volta o tocasse.

12


Deus Nosso Senhor, considerando a humildade de

seu servo diante de toda aquela admiração, praticava

maravilhas em favor dele. Por exemplo, numa das cidades

em que pregou, a certa altura ele interrompeu suas

palavras e apostrofou o público ali presente: “Vós estais

ouvindo o meu sermão com negligência, e sereis castigados,

porque a cúpula desta igreja desabará sobre

vós!”

Pouco depois ouviu-se um grande estrépito, e a cúpula

caiu... Não é difícil compreender o assombro e a admiração

causada por semelhante acontecimento. Em

nenhum momento, porém, Santo Antônio cedia ao

deleite com esse entusiasmo popular de que era alvo.

Em determinado momento, a rainha Isabel II da Espanha,

mulher de vida moralmente censurável, o conheceu

e quis tê-lo como confessor. Obteve para ele, da

Santa Sé, o pomposo título de Patriarca das Índias Orientais,

o que lhe dava direito a diversas honrarias. Assim,

mudou-se o cenário: começou a freqüentar a corte,

vestindo trajes episcopais muito nobres, jóias, sobrepelizes

de renda, anel pastoral magnífico, etc., num ambiente

de grande luxo.

Como diretor espiritual, ofereceu à rainha certos

conselhos que ela não seguiu. Então Santo Antônio pediu

a exoneração de suas funções junto à soberana, dizendo

que não queria ser confessor de quem não tomava

a sério o Sacramento da Penitência. E afastou-se da

corte, passando a levar uma vida inteiramente recolhida,

num dos conventos de sua fundação. Em breve a

rainha o chamaria de novo, acabando por aceitar um

pouco do grande bem que ele lhe fazia.

Mas, consideremos o desapego de Santo Antônio!

De pregador popular é elevado à condição de confessor

da rainha e Arcebispo Patriarca das Índias. Atinge o

ápice de sua carreira. A partir do momento em que não

podia cumprir seu dever, aquilo não significava nada

para ele: “Até logo, vou-me embora”. É heróico! Por

quê? Porque a natureza humana gostaria de fazer o

contrário: bajular a rainha, obter dela dinheiro, mais

cargos e posições.

Não. Ele cumpriu o dever heroicamente, até o fim.

O heroísmo de um jovem católico

em nossos dias

Apliquemos agora esses princípios e exemplos ao caso

de um jovem católico praticante. Este vai ao colégio,

freqüenta sua roda de amigos, é convidado para festas,

etc. Ele pode ser herói em todos esses ambientes?

Sim, em qualquer lugar lhe é possível praticar o

heroísmo. De que forma?

Antes de tudo, mostrando por inteiro o que ele pensa.

De maneira que, participando de uma conversa na

qual se levantem opiniões contrárias à doutrina católica,

ele tenha a coragem de dizer: “Eu não penso assim,

porque a Igreja Católica ensina de tal modo, e como eu

sou católico e sigo o magistério da Igreja, penso como

Ela. Olhe aqui: é isto!”

Muitos hão de estranhar e contestar essa atitude.

Porém, cada um de nós deve ter esta convicção: “ Entreguei

a minha vida para estar amarrado ao mesmo

tronco onde foi flagelado Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vão me achar tolo e dizer que sou um cretino? Vou ter

em vista Nosso Senhor coroado de espinhos. Atiraram

um manto de irrisão sobre Ele e, à guisa de complemento

do “traje real”, deram-lhe como cetro uma taquara.

Assim, todo flagelado e escarnecido, Ele aguardou o

momento de O levarem para a Cruz. Mas, Ele fez o que

tinha de fazer! E a mim só me resta imitá-Lo.”

O Divino Modelo de heroísmo

Santo Antônio Maria Claret,

modelo de humildade heróica

Aliás, na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo encontramos

o heroísmo a cada momento, e praticado até o

fim.

13


DR. PLINIO COMENTA...

Ele estava em oposição aos escribas e fariseus, e sabia

perfeitamente que estes O odiavam. Entretanto, continuou

seu caminho ensinando, pregando e fazendo milagres

atrás de milagres. E mesmo sendo um constante alvo

da ira de seus adversários, Nosso Senhor ainda os desafiava,

como na ocasião em que se referiu à Eucaristia,

dizendo: “Se não comerdes a minha Carne e beberdes o

meu Sangue, não tereis parte Comigo na vida eterna”.

As pessoas que se encontravam junto d’Ele não entenderam.

Imagine-se ouvir essas palavras dos lábios de

um homem... Quem poderia entendê-lo? Contudo,

Nosso Senhor havia praticado tais milagres e demonstrado

tais virtudes, que era impossível não perceberem

n’Ele o Homem-Deus. E como tal, haveria um modo

misterioso de se realizar tudo quanto Ele dizia. Portanto,

deveriam aceitar aquilo como verdade. Ele desafiou,

pois, aquela gente. Vários se retiraram. O pequeno grupo

d’Ele diminuiu ainda mais. Qual foi a resposta de Jesus?

Voltou-se para os

que restavam e lhes

perguntou: “E

vós, também

não ides?”

Quer dizer,

desafiou-os

também! E São Pedro disse então essas lindas palavras:

“Para onde iremos, Senhor, se só Vós tendes palavras

de vida eterna?”. Ou seja, aquele grupinho por sua vez

lançou o desafio: transformaram-se depois nos Apóstolos.

Rezar sempre e nunca desanimar

Sentimos falta de coragem para algo assim? Devemos

pedir a Nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de Nossa

Senhora, que nos dê forças. Ninguém, sem uma ajuda

da graça, tem capacidade para realizar semelhantes atos

de heroísmo. Porém, suplicando a Nossa Senhora, Ela

nos obterá de seu Divino Filho o auxílio sobrenatural de

que necessitamos. Com a oração perseverante e com o

socorro vindo do alto, teremos coragem e resistência

para tudo, até mesmo para as coisas que julgamos as

mais impossíveis de praticarmos.

Mais uma vez, o exemplo desse recurso ao Céu nos

foi dado pelo próprio Nosso Senhor. Quando, no Horto

das Oliveiras, Ele considerou a Paixão que se aproximava,

e anteviu todos os pecados e injúrias que se cometeriam

contra Ele até o fim do mundo, e todos os sofrimentos

pelos quais Ele teria de passar para redimir o

gênero humano, Jesus começou a sentir tédio, pavor e

tristeza. O peso de todas essas previsões foi tão aca-

No Horto das

Oliveiras, Jesus se

tornou o divino

exemplo de quem

suplica ao Céu

forças para

praticar

atos heróicos

(“Oração no Horto”,

escultura de Aleijadinho)

14


unhador que Ele chegou a suar sangue. Então

sentiu uma desproporção entre as forças que

tinha e a imensidade do que Ele devia sofrer. E

fez aquela oração sublime: “Meu Pai, se é possível,

afastai de Mim este cálice”, quer dizer, esta

taça de dor para beber. “Porém, se não for

possível, faça-se a vossa vontade e não a minha”.

Dali a pouco desceu um Anjo até ele e deu-

Lhe um cálice com uma bebida misteriosa. Ele

tomou, e o líquido lhe proporcionou novo vigor,

recompôs dentro d’Ele uma posição de alma

pela qual, quando chegaram os algozes, Nosso

Senhor caminhou até eles e se ofereceu para a

prisão. Depois veio todo o resto... até o alto da

Cruz.

Seguindo o Divino Modelo, nas horas de dificuldade

devemos começar por rezar. Se não

rezarmos, não obteremos nada. Roguemos e

imploremos constantemente! E ainda que aconteça

a desgraça de alguém cair em pecado, continue

a rezar, porque Nossa Senhora é o Refúgio,

a Mãe e Protetora dos pecadores. Estes,

por pior que sejam suas faltas, encontram n’Ela

a solução de seus problemas. Nunca duvidem de

que Maria os auxiliará, pois o fará sempre e em

qualquer caso.

Há na Escritura esta expressão: Oportet semper

orare et non deficere. — “É necessário orar

sempre e não desanimar” (Luc18,1). É assim

que devemos proceder. Portanto, não deixemos

de rezar nas nossas dificuldades, nos nossos

apuros e nossas vergonhas. A graça virá e teremos

coragem para vencê-los, para ver de frente

nossos defeitos, combatê-los e praticar, de modo

magnífico, as virtudes opostas. Peçamos o

socorro do Céu e comecemos de um ímpeto só.

Aí seremos heróis.

Especial confiança em

Nossa Senhora

Antes de encerrar, permito-me insistir num

ponto. Pela minha experiência pessoal, posso

dizer que, se não tivesse rezado muito, e especialmente

a Nossa Senhora, com particular confiança

n’Ela, a esta hora não estaria aqui lhes

fazendo esta conferência. Foi pelas forças que Ela me

deu que pude tocar minha vida de modo conforme à

vontade d’Ela.

Se, ao chegarem numa avançada idade como é a minha,

quiserem dizer de si mesmos o que estou dizendo,

creio que devem estar preparados para acrescentar:

“Pelas forças que Nossa Senhora

me concedeu, pude tocar minha vida

segundo a vontade d’Ela”

“Não fui eu que venci, mas Deus que venceu em mim.

Venceu em mim, não por meus méritos, mas porque eu

rezei por meio de Nossa Senhora. E por meio d’Ela se

consegue tudo.”

Com isso, meus caros, está terminada a nossa conferência.

v

15


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Num certo sentido, o renascentista

é um liberal, e

considera as normas rígidas

do passado medieval como superadas.

Seus costumes e suas idéias

são livres. Porém, a par deste lado

liberal e alegre, notamos nele o contrário.

Pois sempre que o homem

busca sofregamente a alegria, nascelhe

a tristeza dentro da alma, dessas

tristezas pesadas e sombrias, que o

devoram e o acabrunham.

Vemos então surgirem, lado a lado,

dois veios de arte que se vão

acentuando, e dois estados de espí-

rito que vão também progredindo

quase indefinidamente, até o nosso

tempo. De uma parte, a alegria sem

idéias, que começa por ser olímpica

na Renascença, vai-se tornando cada

vez mais a alegria de orgias até a

Revolução Francesa, e depois passa

para o tipo da alegria descontrolada

de nossos dias. Mas, junto desse fluxo

de alegria cada vez mais desordenado,

a Renascença vai manifestando

na arte a outra face da humanidade,

que é a da tristeza desesperada,

inseparável do gáudio descomedido.

Essa tristeza, nós a vemos aparecer

em dois homens típicos da Renascença:

Michelangelo e Leonardo

da Vinci. Sobretudo em da Vinci,

um homem sombrio, hipocondríaco,

amigo de viver sozinho, melancólico,

pessimista, triste e imerso no desespero.

Mas também em Michelangelo,

cujos personagens, em geral,

são olímpicos pela estatura, mas não

pela alegria. São figuras tristes.

É uma tristeza mórbida que começa

a aparecer na arte, sob as formas

pagãs das Fúrias, dos Cíclopes

derrotados, dos heróis esmagados,

16


“Morte de

Leonardo

da Vinci”,

tela de

F. Ménageot

C

ontinuamos a série de exposições sobre a Renascença.

Nos artigos anteriores, Dr. Plinio

demonstrava, em suma, como foi ela uma ampla

Revolução feita em nome da cultura. E para os renascentistas,

cultura era apenas o classicismo greco-romano, considerado

por eles um valor supremo, a que tributavam delirante

entusiasmo.

Estigmatizando esse erro, Dr. Plinio lembrava que,

para um católico, cultura é a expressão da alma de um povo,

de suas convicções e das condições em que vive, nascendo,

portanto, de circunstâncias históricas e não podendo ser

fabricada de modo teórico. A Renascença caiu no absurdo

de tomar uma Europa modelada por mil anos de civilização

cristã e obrigá-la a adotar uma cultura morta havia mais de

um milênio. Isto causou profundos conflitos de consciência,

pois envolveu, num ambiente que festejava o classicismo

pagão, povos habituados ainda a viver segundo os princípios

católicos.

De outro lado, Dr. Plinio salientava ter ocorrido, na

mentalidade do homem renascentista, uma espécie de saciedade

da vida medieval, harmoniosa, razoável e ordenada,

tornando-se ele sequioso de gargalhadas, prazeres e divertimentos

contínuos.

Após apontar essa falta de gravidade e esse relaxamento

como a característica mais importante da Renascença,

Dr. Plinio prossegue sua análise acerca dessa quadra

histórica:

dos grandes revoltados que querem

destruir todas as coisas. Eis o sentido

da glorificação de Espártaco, o

chefe dos escravos rebelados. E começam

a aparecer também certas

canções, certas poesias de uma melancolia

que logo descamba para o

lúgubre e para o desesperado.

Como expressão curiosa disto,

não só a arte, mas também os costumes

registram uma modificação.

A época das grandes festas é também

aquela em que vão aparecendo

as grandes pompas fúnebres. Muito

mais do que na Idade Média, a Renascença

estilizou os enterros, o luto,

os pêsames. Essa glorificação dos

funerais complicou-se a tal ponto

que, em certo momento, a humanidade

teve de se libertar um pouco

desses crepes, porque a vida tornava-se

impossível.

A perda de confiança na

razão

Essa atitude perante a dor e a

alegria constitui uma das características

da Renascença. Mas há outro

ponto ainda mais sintomático. Por

motivos que seria longo aqui enunciar,

pode-se chegar à conclusão de

que, provavelmente, o único tipo de

homem que tem uma verdadeira

certeza a respeito dos fins últimos

de sua existência, do sentido da vida

e da razão de ser de todas as coisas,

bem como uma inteira convicção

dos princípios filosóficos que sustenta

— o único tipo de homem inteiramente

assim é o que tem fé. E

fé sobrenatural, católica apostólica

romana. Quem a tem, evita a dúvida

e é capaz de certezas. E torna-se incapaz

disso, quando não a tem.

17


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Leonardo da Vinci, homem típico da Renascença, imerso na tristeza

e na melancolia (Auto-retrato)

Ora, como sabemos, na Renascença

a fé sofreu um enfraquecimento

considerável. E o que o renascentista

perdeu no terreno da

sua fé, acabou perdendo também no

campo da certeza acerca de todas as

questões da vida, do fim último do

homem, etc. Com isso, começou a

nascer nele aquilo que é o corolário

necessário da perda da fé: a falta de

confiança na razão.

A experiência mística

tenebrosa substitui

a razão e a fé

Surgem, pois, na Renascença,

dois veios que se prolongam também

até os nossos dias. De um lado,

o racionalismo; de outro, uma corrente

que, tendo perdido a confiança

na razão, já não é racionalista, e

por isto vai procurar na experiência

mística as certezas de que o espírito

humano precisa.

Para estudarmos como isto se dá,

tomemos um renascentista gozador

da vida. Ele aprendeu em pequeno

que existe um inferno, um Céu, e assim

por diante. Ele conserva essas

convicções no fundo da alma, e elas

o incomodam. O que faz ele? Passa

a acolher com simpatia toda espécie

de filósofos e teólogos que lhe dizem

que essas convicções não são

verídicas. E mesmo quando ele não

se convence inteiramente, o fato de

ver argumentos coruscantes contra

as doutrinas da Igreja, lhe dá um

certo prazer interior e uma esperança

de que a fé não seja verdadeira.

Naturalmente, alguns passam dessa

posição de simpatia em relação

aos argumentos anticatólicos para

uma atitude de dúvida a respeito da

fé. Ouvem os ensinamentos católicos,

assim como as teses contrárias

e, no fundo, dentro do emaranhado

do assunto, não sabem bem como

decidir.

Outros, porém, vão mais longe.

Para afogar o bramido da consciência,

dão sua adesão aos raciocínios

errados, tomam-nos como certos, e

chegam até a descrença mais completa.

O que acontece com uns e outros?

Podemos nos figurar o caso de

uma pessoa gozadora da vida, mas

que começa a saturar-se dos prazeres.

Tudo lhe parece horroroso, monótono,

inexplicável. Passa a achar

necessários outros horizontes e outras

satisfações. Vêm as crises de desespero

e a pessoa não encontra

mais encaixe dentro da existência

terrena. Naturalmente, nessas horas

os espíritos, queiram ou não, começam

a se tornar filosóficos. Se a pessoa

ouve a voz da graça, repete-se a

parábola do filho pródigo. Se não a

ouve, para o que ela está preparada?

Suponham uma dama renascentista

sentada numa cadeira, na varanda

de sua casa. É bonita, está

18


em vestida e se compraz em olhar

para a pequena rua à sua frente.

Um grupo de seresteiros vem tocando

e cantando de longe, até parar

diante da residência dela e honrá-la

com alguma música. Ela agradece.

Os homens se distanciam, o silêncio

se faz novamente na ruela estreita e

a dama continua a pensar. Olha

para o céu, olha para a lua, e sentese

invadida de uma insatisfação.

Qual será o futuro? Ah! tudo é incerto.

E se houver certeza, é a certeza

mesma que irrita.

De repente passa embaixo uma

cigana e se oferece para ler as cartas,

prever o futuro nas linhas da

mão, ou fazer aparecer um demônio

no meio da sala, com o qual a mulher

poderá conversar. É uma aragem,

uma invasão do sonho dentro

da realidade. Quem sabe se isso não

é verdade?

E de fato a cigana diz algo que

talvez aconteça, faz mexer uma cortina

no fundo da sala, ou promove a

manifestação de um espírito qualquer.

Isso traz um alívio. Uma espécie

de solução. E assim surge o gosto

por uma experiência mística que

possa dar aquela certeza de que o

raciocínio não é mais capaz.

Em conseqüência, a magia, a necromancia,

a invocação dos espíritos

começam a florescer na Renascença,

muito mais do que na Idade

Média. Nesta certamente houve feiticeiros.

Mas eram os homens malditos,

com os quais a sociedade das

pessoas direitas não tinha contato.

Pelo contrário, na Renascença o feiticeiro

era o apêndice necessário de

toda corte. Esta tem seu capelão,

mas se compraz em ter seu astrólogo.

E o astrólogo e o capelão não

são tão inimigos assim. O rei, entre

os seus conselheiros, tem seus teólogos

e também seus mágicos.

Eis como a magia, a invocação do

demônio, numa palavra, a experiência

mística tenebrosa, acaba substituindo

a razão e a fé.

Acontece, pois, um deslocamento

completo de princípios. O racionalismo

e o experimentalismo místico

mais cru acabam se justapondo. Temos

toda uma crise criteriológica,

uma crise religiosa e uma crise moral

que repercutem profundamente

no terreno dos costumes.

Também nos monumentos fúnebres imprimiu a

Renascença sua marca de tristeza desordenada

(Gisante de Francisco I)

19


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Cinismo e descrença a

respeito de tudo

Qual é o resultado de tudo isso?

Uma espécie de cinismo do homem

da Renascença a respeito de todos

os assuntos da fé e de todos os que

se relacionam com a verdade e o erro.

Com algumas exceções, o escritor

renascentista é cínico, sem princípios,

não acredita nem no que diz,

Perdendo a fé e a confiança na razão, o homem renascentista tomou gosto

por superstições e certas experiências místicas.

(“A dizedora de boa ventura”, quadro de Georges de La Tour)

nem no que escreve, e abusa da

palavra. Vemos aí uma espécie de

decadência completa da inteligência

humana, debaixo desse ponto de

vista.

Alguns exemplos são característicos.

Há um Sebastião Brandt que

faz a apologia da Imaculada Conceição.

Adão Werner o defende ardentemente.

Depois, Werner briga

com Sebastião Brandt, transformase

num inimigo ardoroso da Imaculada

Conceição e começa a escrever

para provar que não houve esse augusto

privilégio de Maria Santíssima.

Pedro Luder, sacerdote e um dos

mais notáveis precursores do humanismo

no mundo germânico, soube

que os teólogos de Basiléia queriam

denunciá-lo como herege, porque

duvidava da Santíssima Trindade.

Ele anuncia que, para

não ser queimado, acreditaria

até, se lhe pedissem,

em uma divindade

de quatro pessoas. Isto

não é racionalismo. É a

desesperança da razão

em encontrar a verdade.

Mais sutil que esses

rigorosos germânicos era

o italiano Pedro Aretino.

Muitíssimo prudente em

correr riscos de sangue,

era totalmente imprudente

quando tal perigo

não existia. Transformara-se

no murmurador

mais escandaloso, satírico

e mordaz de seu século.

Por isso todos tinham

medo de sua pena e o bajulavam.

Quase não havia, pois,

na época, valor das idéias,

das coisas, das situações,

dos princípios. O racionalismo

conduzia a uma espécie

de dissolução da

razão.

O Papa Adriano VI,

um Pontífice anti-renascentista,

via bem os estragos

que o espírito do

tempo produzia em seu

rebanho. Segundo seus

vigorosos termos, vinham

ocorrendo “coisas abomináveis”,

“abusos no espiritual”,

e um “amolecimento

geral”. “Ninguém

tem feito algo de bom

desde muitíssimo tempo,

20


A antiga ordem medieval, austera e cristã, era desprezada pelos filhos da

Renascença, que a ela se referiam como “o tempo da barbárie goda”...

(Ao fundo, a vila e a igreja gótica de Moret-sur-Loing, França)

e urge, por isso mesmo, que honremos

a Deus, que humilhemos nossas

almas diante d’Ele e que cada

um veja de onde veio o mal” (Instrução

ao Núncio Chieregati).

Oncken comenta que esta reação

não produziu efeito na sociedade

peninsular em geral. Tanto

assim que, quando em 14 de setembro

de 1523 morreu esse Papa

reformador, celebrou-se sua morte

como um sucesso faustoso. Na

casa do médico de cabeceira do

defunto Pontífice, seus inimigos

puseram esta inscrição: “O Senado

e o povo felicitam o libertador

da pátria”. Um literato escreveu:

Se este acérrimo inimigo das musas

, da eloqüência e de tudo quanto é

belo tivesse vivido mais, forçosamente

teríamos voltado ao tempo da

barbárie goda.

Isto bem indica a posição do homem

renascentista diante de um Papa

que representa a austeridade da

era medieval. Tendo ainda o espetáculo

das coisas da Idade Média

diante dos olhos, ele as despreza falando

em barbárie goda, e volta-se,

cheio de benevolência e entusiasmo,

para a civilização que vai nascendo

e que iria nos conduzir ao

neo-paganismo do século XX...

Com essa consideração, que nos

permite aprofundar um pouco mais

o conhecimento dos fenômenos psicológicos

que dominaram a Renascença,

encerramos a análise de hoje,

pretendendo retomá-la numa

próxima ocasião.

v

21


DENÚNCIA PROFÉTICA

Agonia

das

tradições

cristãs

N

este início do

ano 2000, muitos

se perguntam

como o mundo, a par

de alcançar um espetacular

progresso técnico, pôde

resvalar tão fundo na grande

crise geral que o assola.

Ainda muito jovem,

Dr. Plinio notara o inexorável

caminhar da humanidade

para o abismo,

causado pelo paulatino

abandono dos valores cristãos.

Desde então, não cessou de denunciar a

derrocada que se aproximava, como num artigo escrito há 30 anos,

do qual transcrevemos abaixo um significativo trecho:

22


Consideremos só as décadas que se seguiram à Segunda

Guerra Mundial. Incontáveis mudanças se

têm produzido, nesse período, no modo de pensar,

de sentir, de viver e de agir dos homens. Consideradas

essas mudanças em seu todo — e descontadas as

exceções — é inegável que elas rumam para uma situação

violentamente oposta a todas as tradições espirituais

e culturais que recebemos. Essas tradições ainda estão

vivas, mas a todo momento alguma modificação as

debilita. Logicamente, se ninguém se levantar em favor

delas, acabarão por perecer. Ora, o perecimento dessas

tradições importa, a meu ver, no maior naufrágio da história.

Passarei a dar alguns exemplos. Mostrarei com eles

como tradições das melhores vão sendo corroídas pela

torsão sofística de alguns conceitos, aliás de alto valor:

— “Bondade”: segundo o sofisma moderno, quem é

bom jamais faz sofrer os outros. Ora, o esforço faz sofrer.

Logo, só é bom quem não pede esforço a outrem.

A civilização cristã, pelo contrário, modelou os povos do

Ocidente conforme o princípio de que o esforço é condição

essencial para a dignidade, o decoro, a boa ordem

e a produtividade da vida. Se “bondade” é,

em todos os campos, abolir o esforço, não é implicitamente

privar a vida de valores sem os

quais ela não é digna de ser vivida? E então, essa

hipertrofiada “bondade” não constitui o pior malefício?

— “Amor à criança”:

segundo essa “bondade”

adocicada e

desfibrada, o amor

à criança consiste

em dispensá-la

de todo

esforço. Isto se pretende conseguir por mil técnicas,

cujo efeito seria instruir e formar a criança sem nenhum

sacrifício para esta. O aferramento a esta idéia vai a ponto

de se condenarem as punições escolares, porque

fazem sofrer os culpados, e a condenarem os prêmios,

porque podem dar complexos aos vagabundos. Dado

que, segundo a tradição cristã e o simples

bom senso, um dos fins

essenciais da educação é

formar para a luta da vida

através do hábito do

esforço e do sacrifício, o

que é esse “amor à

criança” senão uma

cruel deseducação?

— “Simplicidade”,

“despretensão”: simples

seria quem prefere as

coisas que não exigem muito

gosto, nem muito esforço. Des-

Hoje, o amor às

crianças já não é

entendido como

outrora, quando a

afetividade não excluía

o prepará-las para o

esforço e o sacrifício.

Aqui, um pequeno e

sorridente pescador

espanhol, objeto do

carinho de seus

familiares

23


DENÚNCIA PROFÉTICA

pretensiosa seria a pessoa que sente bem-estar em ser

vulgar. A “simplicidade” e a “despretensão” vão invadindo

mais e mais os costumes de jovens e adultos.

As regras da polidez e do trato, o modo de organizar

uma casa, de receber, de se vestir, de falar, vão ficando

sempre mais “simples” e “despretensiosos”. Decoro,

brilho, qualidade, classe, prestígio, são valores do espírito

dia a dia menos aceitos. Ora, eles encerram muito

do que a tradição nos legou de mais precioso. Com isto,

a vida vai ficando desbotada, os estímulos nobres fenecem,

os horizontes se encurtam, e a vulgaridade invade

tudo. Sob pretexto de “simplicidade” e “despretensão”,

é o mais refinado comodismo que triunfa. Sim, comodismo

refinado: o único “raffinement” que nos resta.

— “Espontaneidade”, “naturalidade”, “sinceridade”:

estas disposições de alma levariam a evitar outra forma

de esforço, o de pensar, de querer, de se coibir. Induziriam

a dar largas à sensação, à fantasia, à extravagância,

a tudo enfim. A televisão, que excita, vai assim

matando o livro, que convida à reflexão, as idéias se

vão empobrecendo, e com elas o vocabulário também.

Falar se reduz, em certas rodas, a narrar em alguns tantos

vocábulos básicos alguns tantos fatos elementares.

Divertir-se é pular e dar gritos sem eira nem beira. E

rir. Rir muito, mas sem muita razão de rir. Claro está

que em matéria sexual, mais ainda do que nas outras,

qualquer contenção é rejeitada. A “moral sexual” de

certa gente consiste em legitimar todos os desmandos

... vão dando lugar à “simplicidade”

e ao desbotamento

O decoro, o brilho e a qualidade...

para evitar complexos. O pudor seria, assim, o grande

inimigo da moral; a libertinagem, o caminho para a

normalidade.

— “Idéias largas”: quem as tem, deve pactuar com

tudo. Bispos ou governantes, professores ou pais que

não sancionem todos os disparates que acabo de alinhar,

são déspotas de idéias estreitas, que querem manter

o jugo de preconceitos já hoje insustentáveis.

Mas, dirá alguém, tal modo de ser não é o de uma

minoria de extravagantes e não o da maioria? Não é

verdade que esta assiste desolada e chocada a tais excessos?

Desolada e chocada, sim, concordo. Mas acrescento

logo: também esmagada e submissa. Pois a

história de todos os “progressos” desta década tem sido

esta: a) uma minoria lança uma extravagância “louca”;

b) a maioria se arrepia e protesta; c) a minoria faz finca-pé;

d) a maioria se vai habituando, adaptando e sujeitando;

e) entrementes a minoria prepara novo escândalo;

f) e este escândalo terá igual sucesso.

Assim, a maioria vai entrando nesse mundo novo,

fascinada, arrepiada, hipnotizada, como o passarinho

entra na boca da cobra.

De tanto diminuir a polidez, ela morrerá. De tanto

encurtar os trajes, eles desaparecerão. De tanto silenciar

sobre valores fundamentais da cultura e do espírito,

eles desertarão a terra. De tanto estimular e desencadear

desordens, estas acabarão por invadir e submergir

tudo.

(Excertos de artigo publicado

na Folha de S. Paulo, de 20/3/69)

24


DONA LUCILIA

Perfeita

harmonia de

carinho e vigilância

Em nosso último artigo pudemos

conhecer algo do

extremo desvelo de Dª

Lucilia na educação de seus filhos.

Seja no tocante à alimentação ou

aos trajes, seja no referente às boas

maneiras ou ao apreço pelos valores

familiares, procurava ela nada negligenciar

para que seus pequenos tivessem

a melhor formação possível.

Ao lado de tamanha solicitude,

Dª Lucilia compreendia também ser

obrigação de uma verdadeira mãe

católica vigiar, aconselhar e corrigir

pessoalmente os filhos.

“Tenho saudades dos

pitos de mamãe”

Sempre que a governanta, a Fräulein

Mathilde, ou outra pessoa dava

conta de alguma travessura praticada

pelas crianças, Dª Lucilia mandava

o copeiro ou uma criada chamar

o infrator. Este, localizado sem demora

pelo empregado, recebia o aviso.

A consciência pesada pela falta

cometida já lhe fazia entrever o motivo

da convocatória, assaltando-o

logo um certo estremecimento de

aflição por não encontrar nenhuma

atenuante para o ato praticado.

Dª Lucilia, intransigente no exigir

o cumprimento do dever, sabia entretanto

temperar essa nobre virtu-

de com uma doçura de alma que levava

seus filhos a aceitar com amor

as obrigações que ela lhes impunha.

Como sofria muito do fígado e

necessitava de bastante repouso, passava

boa parte do tempo em seu

quarto, numa chaise longue, com as

venezianas encostadas, o que dava

ao ambiente um recolhimento muito

afim com a alma dela.

Era ali que a criança a encontrava.

Introduzida nessa corte de justiça

ao mesmo tempo grave e amena,

sentia-se conquistada pela benquerença

de Dª Lucilia, dissipando-selhe

todas as anteriores turbações, ao

contemplar a fisionomia pensativa

de sua mãe. Dª Lucilia a chamava a

si, deixando transparecer na voz um

misto de tristeza, gravidade e afeto.

Quando o filho, por exemplo, se

aproximava receoso do merecido

castigo, era logo tomado pelo encanto

do trato materno. Freqüentemente

ela lhe passava o braço ao redor

da cintura, fitava-o bem no fundo

dos olhos, incentivando de modo

irresistível o pequeno e querido réu

a confessar sua culpa, e perguntava:

— Você fez tal coisa?

— Fiz, sim, senhora — respondia

ele, um pouco contrafeito.

— Eu não lhe disse que não deveria

fazer? — continuava ela, serenamente,

num tom de suave censura.

— Disse, sim, senhora.

A cada pergunta o menino ia ficando

mais tímido, acabrunhado pelo

desgosto de haver contrariado tão

bondosa mãe.

— Então como é que você fez isto?

— insistia ela mais um pouco.

— Eu tinha vontade... — tentava

ele explicar, convicto de que não

atenuaria sua culpa.

25


DONA LUCILIA

Dª Lucilia desfiava em seguida as

agravantes do delito, deixando porém

entrever uma solução jeitosa

para o caso:

— Mas você não tinha o direito

de fazer isto. Não era melhor ter

procurado sua mãe e dizer: “Mamãe,

eu desobedeci, perdão”? Eu

lhe daria uma bênção e, depois de

um beijo, estaria tudo resolvido.

Quando ela percebia terem suas

palavras vencido todas as resistências,

induzindo o filho a um proporcionado

arrependimento, concluía:

— Está bem, agora você me promete

não fazer mais isto?

Ao que ele respondia “sim”, já inteiramente

persuadido.

Chegara a hora da misericórdia.

Dª Lucilia mudava então de atitude

e perguntava:

— Está bem, então você pede

perdão a mamãe?

Formulado o pedido, ela passava

da repreensão severa — nunca irritada

— para um transbordamento

de afeto. Entrava uma tal harmonia

e entendimento recíproco que Plinio

sempre saía inundado de admiração

e de contentamento, de tal

maneira que, passados muitos anos

da morte dela, afirmaria:

“Ainda tenho saudades dos pitos

de mamãe!”

De tal modo transparecia no proceder

de Dª Lucilia o amor materno

que, mesmo em circunstâncias nas

quais fulgurava a inflexibilidade, era

impossível aos filhos não saírem encantados

com ela, quase tendo vontade

de lhe pedir outro castigo...

Nas doenças, tempero de

dor e de alegria

No harmônico conjunto de suas

virtudes, Dª Lucilia passava de um

extremo a outro, sem a menor dificuldade.

Bastava que algum de seus

filhos adoecesse para brilhar de modo

especial sua benignidade, que se

convertia em cuidados e inimagináveis

desvelos.

Nas enfermidades, a preocupação

de Dª Lucilia era serena mas vigilante.

Dava preferência à homeopatia,

cuja suave ação bem se adequava

a seu modo de ser. Quando necessário,

tanto para socorrer-se em

seus achaques, quanto para solucionar

os pequenos incômodos de

seus filhos, consultava um excelente

médico homeopata, no qual tinha

muita confiança, o Dr. Murtinho

Nobre, que atendia também Dª Gabriela

e outros familiares.

Era raro irem a

seu consultório, chamando-o

normalmente

a casa.

Habitualmente, ao

receber os remédios receitados

por Dr. Murtinho

às crianças, Dª Lucilia

escrevia os nomes

em pequenas folhas de

papel; depois, noutra,

anotava as horas em

que o doentezinho devia

tomá-los. Queria

ter a certeza de não se

esquecer de nenhuma

dose. Nas horas devidas,

entrava sorrindo

no quarto, trazendo na

mão os vidrinhos. Rosée

ou Plinio — conforme

o caso — já se sentiam

reconfortados só

por vê-la chegar tão

afável, comunicativa,

carregada de promessas

de que o remédio

curaria, e extremamente

carinhosa no modo

de ministrá-lo.

Nessas horas era tão

bondosa com as crianças,

que muitas vezes

os familiares gracejavam:

— Lucilia trata tão

bem seus filhos quando

estão doentes, que eles

não ficam com vontade

de sarar...

Ela sabia aliar também, a esse tocante

procedimento, um outro auxílio:

a exigência no cumprimento dos

preceitos médicos.

Em determinados momentos do

dia entrava com o termômetro, a

fim de medir a temperatura do juveníssimo

doente. Por mais que este

afirmasse já estar bom, para poder

sair da cama, Dª Lucilia lhe colocava

a pequena haste de vidro sob o

braço e, depois de escassos minutos

O pequeno Plinio. “Ainda tenho

saudades dos pitos de mamãe...”

26


contados no relógio — que pareciam

uma eternidade ao pequeno enfermo

— recolhia o instrumento e

se aproximava da janela a fim de vêlo

melhor. Chegava o instante de o

menino ouvir dos lábios maternos o

veredicto, que não raramente era de

condenação: a terrível colunazinha

de mercúrio subira até 38º ou mais.

Impacientava-se ele, por vezes, e Dª

Lucilia, com todo o afeto, tentava

acalmá-lo, explicando as razões pelas

quais teria de ficar mais tempo

na cama. Quando ela saía do quarto,

o ânimo da criança estava de novo

serenado.

Dª Lucilia notava que sobretudo

Plinio se enfadava muito com essa

rotina. “Se ela não medisse tantas

vezes a febre, esta não subiria assim...”,

pensava o menino. Para evitar-lhe

esse pequeno sofrimento,

sua mãe se restringia, em algumas

ocasiões, a pôr sua refrescante mão

na testa dele. Ao menos não teria a

desagradável sensação de que o termômetro

prolongava a doença. E se

nem por isso baixava a febre, algo

que nele antes fervia se apaziguava.

Esse efeito se acentuava quando,

num tom de voz próprio a inspirar

confiança, sua mãe lhe recomendava

um tanto mais de paciência, pois

o pouquinho de temperatura febril

acabaria por descer.

Ao desaparecerem os sintomas

da doença, Dª Lucilia também não

exagerava a alegria, limitando-se a

dizer:

— Bom, meu filho, então você

pode se levantar.

Ajudava a criança a sair alegremente

da cama, mas sem manifestar

demasiado contentamento, pelo receio

de que os excessos pudessem

levá-la a imprudências. Constituía

esse mais um procedimento no qual

o equilíbrio entre dor e alegria era

dosado com sabedoria e incutido na

alma dos filhos de forma didática.

*

À chegada do inverno, a fim de

prevenir as enfermidades trazidas

pela estação, multiplicava

Dª Lucilia os

cuidados maternos;

ora enriquecia ainda

mais a alimentação

de seus filhos, ora vigiava

para que estivessem

bem agasalhados,

ou evitar que

saíssem de casa sob

a garoa.

Sempre envoltas

em benquerença, essas

providências se

tornavam de fácil

cumprimento, mesmo

quando incômodas

para as crianças.

Tal era o caso do repulsivo

óleo de fígado

de bacalhau, muito

famoso naquele

tempo, tanto por sua

eficácia tonificante

quanto por seu desagradável

sabor. Para

tornar menos penoso

o uso do fortificante,

Dª Lucilia o

fazia acompanhar sempre de um

gole de vinho francês ou português.

E se durante certo tempo Rosée e

Plinio o bebessem com docilidade, a

recompensa nunca faltaria. Dª Lucilia

os levava a uma grande casa de

brinquedos onde podiam escolher o

que quisessem.

Pequenos ferimentos, comuns na

infância, recebiam da parte dela os

necessários ungüentos, acompanhados

de suaves bálsamos para a alma.

Guardava previdentemente numa

caixinha o material para essas circunstâncias.

Sempre que algum filho

acorria aflito em busca de auxílio

e remédio para as diminutas conseqüências

de algum tombo, ela,

utilizando com delicadeza e habilidade

tesourinha, gaze e pomada, fazia

logo o curativo. O simples modo

de prepará-lo já era motivo de encanto

e alívio. Todavia, dessa singela

operação, o que certamente mais

Casa Grumbach, uma das lojas de brinquedos

a que Dª Lucilia levava seus filhos

reconfortava a criança era, no fim,

um carinhoso beijo, acompanhado

das palavras:

— Filhinho, agora vá brincar...

Plinio à beira da morte

Certa manhã, Plinio, tendo despertado

antes mesmo de a Fräulein

entrar em seu quarto, sentiu faltarem-lhe

as forças. Deixou-se então

cair para trás sobre os travesseiros

e chamou Dª Lucilia. Notando

algo de anormal, acorreu ela

imediatamente. Abraçou seu filho

com carinho, beijou-o e indagou

com ternura o que se passava. O

rosto do menino, afogueado, denunciava

febre alta. Plinio também se

queixava de estar sentindo dor na

garganta.

Após o ter acomodado bem na

cama, Dª Lucilia telefonou ao Dr.

Murtinho. Este não tardou em com-

27


DONA LUCILIA

parecer ao palacete Ribeiro dos

Santos. Depois de examinar a criança,

fez um diagnóstico bem mais

grave que das vezes anteriores: crupe.

E após receitar a medicação

conveniente se retirou.

Não havia chegado ainda a era

dos antibióticos. A terrível moléstia

podia levar o paciente à morte por

sufocação, em virtude de uma membrana

que se formava na garganta.

Para evitar isto, não raras vezes se

fazia necessária uma intervenção

cirúrgica, perspectiva que preocupava

enormemente Dª Lucilia. Antes

de ela aplicar o tratamento indicado

por Dr. Murtinho, alguns familiares,

adeptos da medicina alopática,

recomendaram-lhe mandar

logo operar o menino.

Plinio, entrementes, começou a

piorar e Dª Lucilia resolveu telefonar

ao Dr. Murtinho. Este a tranqüilizou,

dizendo-lhe que fizesse

seu filho tomar o remédio receitado.

Advertiu que por volta das três

horas da tarde daquele dia, se tudo

corresse normalmente, o menino

expeliria a membrana formada em

sua garganta. Ela deveria deixar um

pano sobre a cama dele, a fim de a

recolher e enterrar no quintal, ato

contínuo, pois era matéria altamente

contagiosa.

Dª Lucilia começou a

tomar as providências recomendadas.

Mandou

Madalena, uma das criadas,

abrir um pequeno

buraco no fundo do

jardim e deixou um pano

preparado. Uma vez tudo

pronto, sentou-se à

cabeceira da cama de seu

filho e começou a rezar,

pois Plinio, abatido pelos

incômodos da doença,

mal tinha ânimo para

abrir os olhos. Embora

ele não conseguisse conversar

com sua bondosa

mãe, a presença dela lhe

era um suave refrigério

para os ardores da febre e para o

terrível mal-estar. À medida que o

tempo passava, Plinio sentia as

forças o abandonarem, o que lhe

aumentava a aflição. Contudo Dª

Lucilia o ia consolando com palavras

de inefável doçura, e assim se

aproximava a hora indicada pelo

médico.

Tendo aberto cuidadosamente o

pano sobre os lençóis,

esperou pelo momento

previsto, com sua habitual

serenidade. Cerca

das três horas, tudo se

realizou como Dr. Murtinho

dissera. Após certificar-se

ter sido convenientemente

enterrado

o pano com a fatídica

membrana, Dª Lucilia

telefonou para o

médico a fim de lhe dar

a boa notícia e pedir

novas instruções. Este a

interrompeu, antes mesmo

de ela dizer algo sobre

o ocorrido:

— Dª Lucilia, pelo

tom de voz da senhora,

vejo que o Plinio já está

bem. Nem precisa dizer-me

o que aconteceu.

Agora ele só precisa

descansar bastante para se recuperar

do abalo sofrido.

Dª Lucilia agradeceu muito a Dr.

Murtinho, desligou o telefone e voltou

para junto de seu filho, que reclamava

insistentemente sua presença.

Ao entrar no quarto, ela estava

radiante, luminosa de contentamento

por sabê-lo fora de perigo.

Abraçou-o e beijou, explicando-lhe

haver tudo já passado. A grande

alegria que inundava o olhar de Dª

Lucilia foi para ele o melhor argumento.

Sossegado ao ver que sua

mãe não mais estava preocupada,

deixou-se embalar pelas doces palavras

dela, dormindo tranqüilo o

resto da tarde.

Nos dias seguintes, Dª Lucilia

passou boa parte do tempo junto de

seu filho. Procurava entretê-lo, servindo-se,

como de costume, de sua

inigualável arte de contar histórias.

E envolto assim no carinho dela,

correram rapidamente os dias de

convalescença.

(Transcrito, com adaptações,

da obra “Dona Lucilia”, de

João S. Clá Dias)

28


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

O NOSSO MAIOR

TESOURO

Igreja de

Santa Maria

Maior, Roma

C

oncitando seus colegas a abraçar o verdadeiro apostolado católico, que não mede

esforços nem sacrifícios, o jovem congregado Plinio Corrêa de Oliveira inaugurava,

em janeiro de 1931, os trabalhos da Academia Jackson de Figueiredo, da qual era

Presidente. É impressionante como, sete décadas depois, as palavras de Dr. Plinio permanecem

atuais, como o atestam as seguintes passagens do discurso:

Se falasse, senhores, em um círculo de estudos

composto por elementos intelectualmente heterogêneos,

se me dirigisse a um auditório não iluminado

pelo farol da Fé, ver-me-ia na contingência de

vos dirigir as palavras de saudação banais, as promessas

sedutoras e enganadoras das plataformas que não se

cumprem, a miragem de uma tarefa fácil a desempenhar,

a promessa de reduzir ao minimum os esforços, e

elevar ao maximum os frutos.

Não é esta, porém, senhores, minha situação perante

um auditório que sabe o que é sacrifício, que compreende

o que é dever.

Não nos diz o Cristianismo que todos os nossos esforços

são inúteis, mas sim que, do mesmo modo por

que uma pequena chama pode atear um imenso incêndio,

uma pequena dose de amor de Deus pode atear no

mundo um grande, imenso abrasamento de amor pelo

bem.

29


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

E, como se não bastassem estas afirmações, vem o

recurso da graça e da oração, que faz de nós até participantes

da onipotência divina! De párias que éramos no

paganismo, o Cristianismo nos eleva a príncipes e a gigantes!

Que magnífica vida, que estupendo destino!

Vemos, senhores, que importância, que mar de felicidades

representa para um homem o ser cristão. E em

que estupenda época a Divina Providência nos fez

nascer! Por toda a parte ouvimos rufos de tambor e

toques de clarim, a chamar os combatentes para a

grande luta que se vai travar. Por toda a parte já se engajam

as primeiras escaramuças entre as duas imensas

hostes do bem e do mal. E as do bem, pequenas, disciplinadas

e aguerridas, reeditarão a vitória das Termópilas,

em que poucos gregos venceram uma avalanche

persa.

Mas, para isto, é preciso que compreendamos que,

longe de sermos como os pagãos, não devemos fugir ao

sacrifício. O paganismo é a caça ao prazer, no fundo do

qual só há sacrifício. O Cristianismo é a caça do sacrifício,

no fundo do qual há prazer, mas com a admiração

cheia de gratidão e unção religiosa de quem contempla

um firmamento fulgurante, inundado de raios de sol

que cortam o azul do espaço, e despejam sobre o mundo

oceanos de luz e de paz. [...]

Desilusões face aos prazeres pagãos

Efetivamente, senhores, desde os seus primeiros instantes,

vê o homem erguer-se diante de si o espectro da

dor.

Não há escritor, por mais profundo ou por mais banal,

que não tenha descrito, entre atônito e temeroso, o

terrível combate entre o homem e a dor. A existência

humana nada mais é do que uma luta entre o homem e

a dor. Luta trágica, luta terrível, em que a dor sempre

vence o homem.

Lutando com o polvo do sofrimento, mal consegue o

homem desenvencilhar-se de um dos tentáculos que o

oprimiam, logo outro se apodera dele, infligindo-lhe as

mais dolorosas contorções.

Muito conhecido é o vulto mitológico que, condenado

pelos deuses a viver com sede, via subir até seus

beiços as águas de que estava rodeado. Mas mal ia beber

um gole apenas, que lhe refrescasse a boca ressequida

pela sede, o nível das águas descia, e ele ficava

impossibilitado de beber. Era, seguramente, um mito

inventado pelo paganismo desiludido, que mal via

aproximar-se de si o fantasma da felicidade, este se

afastava, deixando apenas a ferida incandescente de

uma dolorosa desilusão.

A banalidade é uma espécie de consagração. As figuras

e as imagens, quando se tornam banais, recebem

a consagração que lhes presta este conjunto anônimo

de inteligências que se chama senso comum.

Por isso, julgo-me no direito de lançar mão de uma

figura tão usada, que já é de domínio comum: os prazeres

pagãos são como as praias de areias movediças. Na

atraente beleza de sua alvura sem nódoas, são como

que um convite mudo para o infeliz que ousa pisar sobre

ela. Mas o solo se abre a seus pés e, sem ponto de

apoio, ele está irremissivelmente perdido.

30

“Os funerais

de César” —

a dor era um

espantalho

para o velho

paganismo

romano,

desiludido

em meio aos

seus

desenfreados

prazeres


Dentro em pouco, o indivíduo está inteiramente

sepultado, e a superfície da areia se

unifica e recompõe, a sorrir alva e maldosamente

para outro incauto.

Os prazeres são para o homem o que a água

do mar é para o náufrago sedento: quanto

mais bebe, mais tem sede. E à força de beber...

morrerá de sede.

Quem no-lo diz não são os austeros heróis

de mortificação cristã, são os desiludidos das

agruras do paganismo.

Se quisermos colher no velho paganismo romano

uma prova disto, teremos Petrônio, o

elegante sibarita, que depois de gozar de todos

os prazeres do corpo e do espírito, suicidou-se

ainda jovem, rico, belo e saudável... porque

não valia a pena viver.

E Anatole France, o grande corifeu do ultrapaganismo

moderno, já no declínio de sua

vida, depois de ter esquadrinhado com o compasso

poderoso de sua inteligência todas as

ciências, dizia em um livro: Rien n’explique la

tragique absurdité de vivre (“nada explica o trágico

absurdo de viver”).

E, afinal, o que é este espectro da dor, de

que tanto fugiam os pagãos, e que tanto os

perseguia?

Levemos ao próximo a Fé,

nosso maior tesouro

Eis-nos chegados aos alicerces do Cristianismo,

eis-nos em face das questões básicas

que a filosofia pagã encarou como um tenebroso antro,

e a filosofia cristã admirou como quem depara grutas

negras de pensamento onde nem os incautos se atrevem

a penetrar.

[O mundo hodierno] se contorce por falta da luz dos

verdadeiros princípios do verdadeiro Deus. O desencadeamento

das paixões precipitou a humanidade sobre

a areia movediça dos prazeres, e milhares e milhares de

homens arrastam hoje, como a uma cadeia pesada, a

grinalda de rosas de suas vidas de festim. [...]

Temos uma Fé. Temos também um coração. Se queremos

ver cessar esse estado de coisas, saibamos sujeitar-nos

ao sofrimento, que exige de nós o apostolado.

Tirarmos ao Cristianismo o sofrimento é tirar a um corpo

a espinha dorsal.

Nosso Deus, coroado de espinhos, não indica que a

realeza de Deus é a realeza da dor? Aceitemos o sofrimento;

o sofrimento por toda a sorte de humilhações; o

sofrimento por toda a sorte de vantagens de que desistimos;

o sofrimento pelo esforço infatigável pelo bem; o

sofrimento pela abnegação que não conhece limites.

A realeza da dor

(Cristo del Gran

Poder, Espanha)

Privar o Cristianismo do sofrimento é injuriar a Cristo,

que quis que fosse de espinhos sua coroa; ser católico e

ter medo de sofrer por Deus é fazer deste um mero banqueiro,

que nos fornece prazer ao sabor de nossos

caprichos, ou lacaio a quem se encomenda felicidade,

como se lhe pede um copo de água. É amizade o ter medo

de sofrer por um amigo? Não. Logo, não é Cristianismo

o ter medo de nos sacrificarmos por Jesus, nosso

maior amigo. Não cometamos a atrocidade de abandonar

Jesus no Calvário. Não demos a bofetada de um

pecado no rosto que Ele nos apresenta chagado por

amor de nós. Não sejamos atrozes, não sejamos hienas,

sejamos mites et humiles corde (mansos e humildes de

coração) como Ele.

Tudo isso evidencia a necessidade do apostolado. Se

amamos a Deus sobre todas as coisas, imolemo-nos por

Ele. Se amamos ao próximo como a nós mesmos, demos-lhe

a Fé, nosso maior tesouro.

(Trechos da matéria publicada em “O Legionário”

de 11/10/31. Título e subtítulos nossos.)

31


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Depois de Zurbaran e do

Beato Fra Angélico, o

pintor cujas obras mais

me impressionaram foi Claude Lorrain.

Artista do século XVII, seu estilo

é diáfano, encantador, que revela

uma habilidade única de reproduzir

em suas telas aquilo sem o que —

no dizer de um poeta francês — as

coisas não seriam senão o que elas

são: a luz do sol.

Lorrain é o pintor do sol. Seus

quadros são fantasias em torno do

astro diurno, que ele se compraz em

representar na sua beleza plena, esplendorosa

e régia, projetando a feeria

dessa luz sobre naturezas e ce-

nários os quais, sob a ação dela, parecem

se transformar em imensas e

suntuosas cortes.

Em geral, os temas de suas pinturas

são frutos de uma privilegiada

imaginação, misturando-se neles elementos

antagônicos e quase se diria

contraditórios. Por exemplo, um porto

em que as águas do mar penetram

por um lado da cidade e formam

uma espécie de enorme laguna, cercada

de magníficos palácios, que ombreiam

com ruínas de construções

romanas. As ondas banham prestigiosas

escadarias de mármores policromados,

ou investem contra uma

torre medieval que está posta naquele

panorama como a proa de um

navio apontada para o amplo oceano.

Nesse porto estão ancoradas várias

embarcações, grandes e pequenas,

a bordo das quais se vêem camponeses

tocando e dançando uma

tarantela. São pessoas do fundo do

país, de regiões onde não há mar, e

que ele coloca ali, em tombadilhos

enfeitados, junto a marinheiros e estivadores

que desembarcam mercadorias.

Tudo isso é irreal, imaginário, e

chega a ser inconciliável: escadas de

mármore banhadas pela água do

mar (que corrói essa pedra facil-

32


mente), ruínas romanas ao lado de

torres medievais, próximas a palácios

clássicos, camponeses fazendo

festas a bordo de navios, personagens

bíblicos ao lado de homens do

século XVII... Ele toma esses elementos

díspares e pinta quadros de

realidades que nunca existiram.

Pergunta-se, então, qual o mérito

dessa concepção artística. A resposta,

a meu ver, é que tudo isto convém

ao pintor para iluminar por um

certo tipo de luz de sol, também ela

mirífica e transcendente da realidade.

Ele cria coisas em ordem a

um sol igualmente criado pelo seu

talento. Ao término de uma fabulosa

tela, Claude Lorrain terá composto

uma situação natural que ele

gostaria muito fosse verdade, e cuja

existência encheria a sua alma. Não

se trata, pois, de uma pura fantasia,

mas de uma criação. Ele gerou tudo

aquilo para formar um mundo dourado

e irreal, que atrai profundamente

o senso artístico de incontáveis

pessoas apreciadoras da arte

pictórica.

Algum espírito

menos afeito a

idealizações poderia

objetar contra

o valor e a admiração

que se tributam

aos quadros

de Lorrain, porque

não se deve

gostar do que é

imaginário. E nas

pinturas dele tudo

— incluindo a

própria luz do sol,

sans lequel les choses

ne seraient que

ce qu’elles sont —

é imaginário e, por

conseguinte, anorgânico.

Esta é uma objeção

perfeitamente

estúpida, porque

faz parte da

organicidade do

homem ter uma certa saudade do

Paraíso, perdido após o pecado de

nossos primeiros pais. E ter, portanto,

uma necessidade equilibrada,

sem descabelamentos, de imaginar

coisas que ele sabe não existirem

nesta terra de exílio, mas que podiam

ter existido no Éden, e que

poderão existir no Paraíso Celeste.

Assim, longe de merecerem nosso

desprezo, os quadros de Claude

Lorrain são quase uma pré-visão do

Céu Empíreo.

* * *

Há, todavia, nas telas de Lorrain

uma simbologia de algo ainda mais

elevado.

Quando consideramos o conjunto

de sua obra, podemos perceber

que sua especialidade é pintar muros

velhos, leprosos, escalavrados,

que perderam pedaços de reboco e

os tijolos se tornaram aparentes, sobre

os quais, porém, bate um sol

magnífico. E o muro, feíssimo, fica

agradável de ver e contemplar.

Aqueles fabulosos raios solares, ao

conferir à parede derruída algo do

esplendor e da vida deles, fazem

com que ela se torne linda, realçamlhe

o valor, o significado e o ideal.

Quer dizer, o muro alquebrado,

que enfrentou tempestades, suportou

vilipêndios, agüentou terremotos

e continua sempre de pé, sob a

ação de um luz feérica, adquire um

ar de velho granadeiro da guarda

que lutou em todas as batalhas, e

agora serve como sentinela do lado

de fora do palácio real, e cuja beleza

consiste em ter sido surrado pelos

acontecimentos e ter resistido. É o

herói de todas as intempéries e de

todos os combates. Tornou-se um

homem feio, enrugado, o bigode

branco manchado de tabaco, a face

e o corpo marcados de cicatrizes. É

rude e pouco educado. Porém, ao

vê-lo... prestamos-lhe continência.

Reverenciamos o sol de seu passado,

de suas dores e de seus sofrimentos,

que incide sobre ele, levanos

a interpretá-lo, e arranca de

nossos lábios a exclamação: Que

maravilha!

33


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Do fundo do muro emerge então,

pelo toque do sol de Lorrain, o que

já não aparecia, mas nele estava, e

que é o “arqui-ele”.

Ora, assim é também a ação da

graça divina. Ela é, digamos, a tinta

celestial que Nosso Senhor utiliza,

como se fosse um infinito Claude

Lorrain da criação. O genial talento

do pintor francês não foi senão pálida

e pequena representação das perfeições

incomensuráveis de Deus no

que diz respeito a esta forma de talento.

Visto à luz da graça concedida

por Deus, tudo o que é árido e difícil

se torna belo. A perda desse modo

de ver as coisas pode ocorrer por

culpa nossa, porque cedemos aos

nossos egoísmos, caprichos e manias.

Ou por decisão de Deus que,

nos seus insondáveis desígnios, deseja

nos provar: depois de nos cumular

com seus dons, de nos favorecer

com maravilhosas situações à la

pintura de Claude Lorrain, permite

que tudo se apague de repente.

Agindo assim, Nosso Senhor como

que nos pergunta: “Meu filho,

considerando a formosura da graça,

tu, por assim dizer, me viste e compreendeste

o que é a maravilha das

coisas. Agora Eu vou te provar. Sabes

me ser fiel nas horas em que Eu

não te visito pela graça sensível?

Nas horas em que anoitece, tu continuas

a crer no sol? Ou és daqueles

que pensam ter-se tornado cegos

porque escureceu? Ou seja, porque

há aridez, tu pensas que as consolações

não voltarão jamais?

“Quero conhecer tuas disposições,

para saber se tu me és grato. Se o

fores, dir-me-ás: Nas sombras da

morte, Senhor, acreditarei em Vós como

se estivesse na plenitude da vida,

porque sei que é verdade tudo o que vi

antes da escuridão.”

Saibamos ter esse reconhecimento

para com o Sol da Justiça, cujos

raios são graças sob cuja ação o que

é feio e velho torna-se belo e admirável.

Compreendamos que, assim como

nos quadros de Claude Lorrain

não é ilusão o aspecto fabuloso que

o muro derruído assume sob a luz

de um sol magnífico que lhe penetra

na superfície e faz reviver a grandeza

dos primeiros dias, assim também

nesta nossa vida mortal não

são ilusões as coisas sobre as quais

incidem as cintilações da graça divina,

que nos faz ver tudo o que elas

têm de ensolarável, de maravilhoso

e de arqui-verdadeiro. v

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35


Como filhos carregados no colo...

Mãe de todos os homens, Nossa

Senhora deseja que cada um de

nós seja, em relação a Ela, como

o filho carregado no colo, que

Lhe pede toda espécie de coisas

e d’Ela recebe muito mais do

que esperava, e até o que não

sabia solicitar a essa tão

dadivosa Mãe.

A condição de tal benevolência,

porém, é rogar-Lhe com essa

intimidade especial e certeza de

sermos atendidos, como se

fôssemos crianças. Tornamo-nos

então objetos de uma multidão

de auxílios da Santíssima

Virgem, os quais, mais do que

aos grandes, compraz-Lhe dar

aos pequenos.

Por isso as almas mais

majestosas, fortes e

extraordinárias da Igreja,

sempre que falaram de Nossa

Senhora e a Ela se dirigiram,

fizeram-no nesse diapasão. Isto

é, tendo em mente ser Ela a

Mãe que está disposta a tratar

a cada um de nós com a

bondade, a solicitude, o sorriso e

a compreensão com que se trata

um menino de colo...

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