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Revista Dr Plinio 92

Novembro de 2005

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175 anos de<br />

contínuas graças


S. Hollmann<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei, a quem devemos obedecer, conhecendo a sua vontade e executando<br />

o que Ele nos manda com amorosa e pormenorizada exatidão. Para isto, devemos pedir<br />

a graça de Deus pela oração, pela prática dos Sacramentos, por nossas boas obras, pela<br />

vida interior. Em outros termos, sejamos bons católicos; sendo-o, seremos necessariamente apóstolos;<br />

e sendo apóstolos, seremos necessariamente soldados de Cristo Rei.<br />

<br />

“Cristo Rei” - Catedral de Chartres, França


Sumário<br />

175 anos de<br />

contínuas graças<br />

Na capa, altar de São Vicente<br />

de Paulo, na Capela da Rue<br />

du Bac (Paris), com a cadeira<br />

na qual sentou-se Nossa<br />

Senhora quando apareceu<br />

a Santa Catarina Labouré,<br />

em novembro de 1830. No<br />

destaque, a Medalha Milagrosa<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />

propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />

CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />

INSC. - 115.227.674.110<br />

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Jornalista Responsável:<br />

Othon Carlos Werner – DRT/SP 7650<br />

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02461-010 S. Paulo - SP - Tel: (11) 6236-1027<br />

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03335-000 S. Paulo - SP - Tel: (11) 6606-2409<br />

Preços da assinatura anual<br />

Novembro de 2005<br />

Comum. . . . . . . . . . . . . . R$ 75,00<br />

Colaborador.. . . . . . . . . . R$ 110,00<br />

Propulsor. . . . . . . . . . . . . R$ 220,00<br />

Grande Propulsor. . . . . . R$ 370,00<br />

Exemplar avulso.. . . . . . . R$ 10,00<br />

Serviço de Atendimento<br />

ao Assinante<br />

Tel./Fax: (11) 6236-1027<br />

Editorial<br />

4 Lição de coragem e<br />

de grandeza<br />

Datas na vida de um cruzado<br />

5 18 de novembro de 1984:<br />

Apaixonado pela glória de Deus<br />

Dona Lucilia<br />

6 Marcantes episódios<br />

de uma infância<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />

10 A arte de subir e<br />

descer escadas<br />

“R-CR” em perguntas e respostas<br />

14 A restauração da ordem<br />

16 Calendário litúrgico<br />

O Santo do mês<br />

18 27 de novembro de 1830: Uma<br />

porta do céu se abriu para o mundo<br />

A sociedade, analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

26 Duas “escolas” de conversa<br />

Luzes da Civilização Cristã<br />

30 Luzes e ecos...<br />

Última página<br />

36 “Não vos abandonarei”


Editorial<br />

Lição de coragem e de grandeza<br />

Acomemoração dos fiéis defuntos, ensina <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, “encerra para nós um alto significado, pois<br />

além de ser o dia no qual rezamos de modo especial pelos que faleceram e porventura se encontram<br />

no Purgatório, é também a data em que a Igreja, com seu tato peculiar e inconfundível, nos<br />

torna presente a realidade da morte.<br />

“Dir-se-ia que a Santa Igreja, a cada 2 de novembro, faz abrir um precipício sob nossos pés e nos revela<br />

uma multidão de almas em estado de pena, de sofrimento, de miséria, não tendo ido diretamente para o<br />

Céu. É-nos dado medir, assim, algo da destruição provocada pela morte.<br />

“Certo, essas almas se salvaram. O Paraíso as aguarda. Porém, devem cumprir uma penitência pelas imperfeições<br />

consentidas, necessitam purificar-se de defeitos, de faltas cometidas nesta vida. Purificações mais ou menos<br />

dolorosas, mais ou menos longas, conforme o grau de culpa. E essas almas não podem pedir a própria libertação.<br />

Por um superior e misterioso desígnio de Deus, dependem das orações que se fazem por elas na Terra.<br />

“E a Providência dispõe maravilhas para que tais almas sejam sufragadas. Quantas visões e revelações,<br />

quantos fatos admiráveis, quanta doutrina proposta pela Igreja sobre as almas do Purgatório incentivam<br />

os fiéis a entender o sentido dessa devoção e a se empenhar nas súplicas pelo fim daquele padecimento!<br />

Quantas obras pias realizadas nesse intuito, e quantas indulgências concedidas pela Santa Sé premiando e<br />

abonando semelhantes atos de caridade cristã!<br />

“Bela ao extremo é essa solicitude materna da Igreja para com as almas de seus filhos que morreram e<br />

ainda padecem. Belos e profundos os pensamentos contidos na liturgia a respeito desse estado transitório<br />

entre a Terra e o Céu.<br />

“De quando em quando devemos meditar sobre essas verdades, sobre o Purgatório, sobre a morte, para<br />

compreendermos o que há de intensamente real na advertência dita pelo sacerdote na Quarta-feira de Cinzas:<br />

Lembra-te homem de que és pó e ao pó hás de tornar. Não somos senão pó e ao pó voltaremos. Essa idéia<br />

nos leva a atinar para a exata dimensão de todas as coisas desta vida. Que são os inúmeros desejos e volições<br />

que nos movem, quando calculamos o nosso valor autêntico? Quando pensamos que daqui a um dia<br />

ou uma hora podemos já não pertencer a este mundo, comparecermos diante de Deus, ser julgados e destinados<br />

à expiação das chamas do Purgatório?<br />

“Ora, sem essas incertezas, não apreciaríamos a grandiosidade da vida humana. Nada é atraente, nada é<br />

bonito nesta existência, a não ser com um pano mortuário de fundo. Pois é pelo contraste que o homem conhece<br />

as realidades desta Terra. E é só pela oposição à essa miséria fundamental da morte que entendemos<br />

como é pouco tudo quanto aqui desejamos, e como é grandioso esse outro destino que nos espera.<br />

“Por isso mesmo, devemos também considerar a morte com serenidade, com magnitude, inclusive no<br />

que ela tem de aflitivo e de tremendo, pois é igualmente a expressão de nossa imensa importância. Se somos<br />

entes racionais capazes de passar por tamanha tragédia, somos capazes de grandeza tal que, sem dúvida,<br />

uma existência mais magnífica nos está reservada.<br />

“Essas e outras considerações nos vêm a propósito do dia dos mortos. É a lição que nos oferecem a morte<br />

e os fiéis defuntos. Incomparável lição de profundidade, de força de alma, de coragem, de grandeza.<br />

Quem não a aproveita e não a ama, não sabe contemplar a Deus na sua afabilidade, sua meiguice, na sua<br />

majestade e sua justiça sem fim.<br />

“Peçamos, portanto, pelas almas do Purgatório. E roguemos a elas, nos obtenham a compreensão, o<br />

amor e o entusiasmo por todas as sombras com as quais a morte enriquece a estética do Universo e os verdadeiros<br />

panoramas da vida humana.”<br />

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.


Datas na vida de um cruzado<br />

18 de novembro de 1984<br />

Apaixonado pela glória de Deus<br />

Como já frisamos em anteriores oportunidades,<br />

não menos significativas que seus<br />

grandes lances públicos e conferências,<br />

foram determinadas exposições de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

para alguns pequenos grupos de jovens em cuja<br />

formação deitava particular empenho.<br />

Assim, marcaram época os comentários feitos<br />

por ele à biografia do fundador dos Sacramentinos,<br />

São Pedro Julião Eymard, dirigidos a filhos<br />

espirituais oriundos da nação francesa, tão<br />

amada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>. Naquela data, teve este o<br />

ensejo de afirmar como devemos amar a Deus<br />

apaixonadamente, ao contrário de certo espírito<br />

contemporâneo, assaz propenso à “medida” e<br />

ao “equilíbrio”.<br />

Diziam a São Pedro Julião Eymard que sua devoção<br />

ao Santíssimo Sacramento era exagerada.<br />

Ele escreveu, então: “Mas o que é o amor se não<br />

o exagero? Exagerar é ultrapassar além. Pois<br />

bem, o amor deve exagerar. Quem se limita ao<br />

que é absolutamente de seu dever não ama.<br />

Só se ama quando se sente interiormente a paixão<br />

do amor. Nosso amor para ser uma paixão,<br />

deve sofrer a lei das paixões humanas. Falo<br />

das paixões honestas, naturalmente boas. Sem<br />

uma paixão nada se alcança. A vida carece de<br />

objetivo, arrasta-se numa vida inútil.”<br />

Cumpre considerarmos que esse pensamento<br />

do Santo se opõe à errônea idéia de que a verdade<br />

é uma posição “responsável” e “adulta” diante<br />

dos fatos, e pede a não-paixão. Segundo essa concepção,<br />

somente depois de se desapaixonar é que o<br />

homem se torna capaz de ver, julgar e agir.<br />

Ora, a afirmação de São Pedro Julião Eymard<br />

contunde essa noção, ensinando que existe uma<br />

paixão boa, movida pelo bem. E o homem deve<br />

utilizá-la para atingir o extremo do amor a Deus.<br />

Se ele aplica, portanto, a tal ascese clínica do não<br />

apaixonar-se, peca contra a doutrina católica sobre<br />

a moral humana, que supõe a paixão boa.<br />

E ao perguntar “o que é o amor se não o exagero?”,<br />

São Pedro não sustenta ser a paixão necessariamente<br />

um exagero, mas quer assinalar outra<br />

coisa: o amor, continuamente, vai além do que o<br />

ambiente no tempo dele já classificava de exagero.<br />

Noutras palavras, ele assevera: “Que é amar, se<br />

não fazer o que vocês entendem como exagero?”<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em meados da década de 80<br />

Trata-se de uma espécie de choque do Santo contra<br />

essa lei do desapaixonamento, uma lei moral<br />

normal para o espírito francês. E acrescenta:<br />

“Pois bem, na ordem da salvação é preciso<br />

também ter uma paixão que nos domina a vida,<br />

e a faça produzir para a glória de Deus todos os<br />

frutos que o Senhor espera. Amai tal virtude, tal<br />

verdade, tal mistério apaixonadamente! Devotai<br />

vossas vidas, consagrai vossos pensamentos e<br />

trabalhos. Sem isso nada alcançareis jamais. Sereis<br />

apenas uns assalariados e jamais uns heróis!<br />

Todo pensamento que não termina em uma<br />

paixão, que não acaba por tornar-se uma paixão,<br />

nada de grande produzirá jamais.”<br />

Então, segundo o ensinamento dele, para servir<br />

à glória de Deus, a total produtividade da ação humana<br />

é esperada da paixão, e da colaboração desta<br />

com as outras faculdades da alma. Isto é, aliás,<br />

ser realmente humano.<br />

Sempre nos causou horror o costume dos chineses<br />

do fim da monarquia, pelo qual cortavam<br />

as pontas dos pés para andarem com seus sapatos<br />

minúsculos. É um hábito medonho. Porém, não<br />

menos pavoroso é cortar uma faculdade da alma e<br />

viver sem ela. É ainda mais assustador. O homem<br />

desapaixonado é um mutilado.” v


Dona Lucilia<br />

Marcantes episódios de<br />

uma infância<br />

O contraste entre o quotidiano do<br />

comum dos habitantes de uma cidade<br />

na beleza e na vivacidade de suas<br />

expansões iniciais, como era Pirassu-<br />

Ainfância de Dª Lucilia foi<br />

especialmente iluminada<br />

pela figura de seu pai, <strong>Dr</strong>.<br />

Antônio. Este era objeto de seu particular<br />

enlevo e veneração. Os desígnios<br />

e preferências dele eram lei!<br />

Admiração pelas<br />

virtudes paternas<br />

No entusiasmo que nutria pelo<br />

pai, a menina não procurava tanto<br />

as qualidades naturais, mas sobretudo<br />

as virtudes. Bem sabia ela que <strong>Dr</strong>.<br />

Antônio era um excelente advogado,<br />

hábil e inteligente conhecedor da<br />

teoria e prática jurídicas, porém pouco<br />

a atraíam suas façanhas profissionais,<br />

em comparação com o prestígio<br />

moral de que ele gozava.<br />

Com efeito, quando anos depois<br />

lhe faziam alguma pergunta sobre a<br />

vida de seu pai, não ressaltava os êxitos<br />

nos negócios, mas sim os excepcionais<br />

predicados de esposo e chefe<br />

de família; especialmente seu amor<br />

ao trabalho, a ausência de ambição,<br />

a proteção dispensada aos pobres e<br />

sua profunda honestidade moral.<br />

Esses valores que a pequena Lucilia<br />

tanto admirava passaram a compor<br />

sua própria concepção da existência:<br />

a trama da vida deveria ser<br />

tecida com os fios de uma superior<br />

dedicação.<br />

Por outro lado, começava ela a discernir<br />

o rumo que a humanidade em<br />

geral ia tomando, e que se opunha<br />

frontalmente a esta visão do mundo.<br />

Colocada ante essa nova perspectiva,<br />

sua alma juvenil foi-se enriquecendo<br />

paulatinamente com as tonalidades<br />

lilases do sofrimento.<br />

Exemplo de homem<br />

batalhador<br />

Dona Lucilia cresceu admirando as virtudes paternas de <strong>Dr</strong>. Antônio, seus<br />

predicados de chefe de família modelar e profunda honestidade moral


nunga, e a elevação de espírito em <strong>Dr</strong>.<br />

Antônio e Dª Gabriela, sua mãe, era<br />

discernido por Lucilia naquela idade.<br />

Em uma fotografia de família, seu<br />

pai aparece aprumado, externando<br />

o sucesso alcançado em sua carreira,<br />

mas em seu olhar se entrevê algo<br />

de tristeza; uma espécie de decepção<br />

por perceber os rumos pouco alvissareiros<br />

que o Brasil de então ia tomando.<br />

Homem que enfrentava galhardamente<br />

a batalha do existir, representava<br />

ele um modelo que a opinião<br />

pública reconhecia como ideal,<br />

mas do qual muitos já se haviam despedido,<br />

embora com saudades.<br />

É sob esse prisma que deveremos<br />

considerar vários dos episódios que<br />

serviram de marco à infância e adolescência<br />

de Dª Lucilia.<br />

A última moeda<br />

a um mendigo<br />

Ouçamo-la contar um dos fatos<br />

que lhe marcaram a existência, iluminando-lhe<br />

os passos ao longo de<br />

seus <strong>92</strong> anos, como um dos parâmetros<br />

da virtude da caridade:<br />

Papai era advogado e, no início, teve<br />

de lutar muito para manter a família.<br />

No entardecer de certo dia, perguntou<br />

a mamãe:<br />

— Sinhara 1 , a<br />

despensa está cheia para<br />

nos manter e às crianças, durante<br />

os próximos dias?<br />

Mamãe respondeu:<br />

— Sim, está.<br />

— Ainda bem — disse<br />

papai — porque só<br />

nos resta esta moeda<br />

(uma moeda de ouro)<br />

e nada mais. Vivamos<br />

até acabar a<br />

provisão...<br />

Depois do jantar, segundo o antigo<br />

costume interiorano, foram à janela<br />

para olhar os transeuntes. Viram,<br />

então, de longe se aproximar, apoiado<br />

numa bengala, um pobre homem.<br />

Ao chegar diante da janela, tirou ele o<br />

chapéu e pediu uma esmola.<br />

Papai lhe perguntou de que mal sofria.<br />

— Sou tuberculoso — respondeu.<br />

Nem sequer ouso chegar perto das<br />

pessoas. Preciso comprar um remédio<br />

muito caro, sem o qual não vivo. O senhor<br />

não me poderia dar alguma coisa?<br />

De pouquinho em pouquinho junto<br />

o necessário, a tempo de ainda encontrar<br />

uma farmácia aberta.<br />

Enquanto falava, o homem estendeu<br />

o chapéu à espera de algum auxílio.<br />

Papai, voltando-se para mamãe,<br />

disse: “Vamos fazer um ato<br />

de confiança na Providência?”<br />

Abriu uma bolsinha, pegou a última<br />

moeda de ouro e, com pontaria certeira,<br />

atirou-a no chapéu do mendigo,<br />

acrescentando: “Deus te acompanhe e<br />

sejas feliz!”<br />

Radiante de contentamento, o homem<br />

se afastou, abençoando papai, o<br />

qual, por sua vez, calmo e confiante,<br />

comentou com mamãe: “Agora acabou...<br />

Não temos mais dinheiro algum,<br />

só contamos com Deus”.<br />

Tendo dito isto, entrou em seu escritório<br />

para trabalhar, enquanto mamãe<br />

veio cuidar de nós, crianças.<br />

Bem mais tarde, papai entrou na<br />

sala onde estávamos, dizendo a mamãe:<br />

— Deus já teve pena de nós!<br />

— Como? — perguntou ela.<br />

— Acabo de receber um cliente novo,<br />

que me trouxe uma causa muito<br />

grande e boa. Pedi que adiantasse<br />

metade dos honorários.<br />

Olhe, pois, aqui está<br />

uma sacola cheia de dinheiro.<br />

Não poderia haver<br />

algo de mais apropriado<br />

do que essa<br />

atraente narrativa, para<br />

nos introduzir naquele<br />

ambiente familiar<br />

que ajudou a<br />

formar a mentalidade<br />

meiga e acolhedora,<br />

mas também firme<br />

de Dª Lucilia. Penetremos<br />

um pouco mais nessa<br />

atmosfera, a fim de melhor<br />

conhecermos os paradigmas<br />

de tão bondosa alma.<br />

Uma de suas narrativas<br />

preferidas era a<br />

triste história de sua<br />

tia Heroína.


Dona Lucilia<br />

Aspectos da antiga estação ferroviária de Pirassununga<br />

O rapto de Heroína e o<br />

lacrimejante romantismo<br />

Irmã de <strong>Dr</strong>. Antônio, Heroína era<br />

infeliz na casa de seu pai, como não<br />

raro ocorre quando os filhos do primeiro<br />

casamento convivem com a<br />

madrasta. <strong>Dr</strong>. Antônio, após ter organizado<br />

a vida e feito alguma economia,<br />

pensou ter chegado o momento<br />

de atender às queixas de sua<br />

irmã e proporcionar-lhe condições<br />

de uma inteira felicidade.<br />

Em combinação com as escravas<br />

da casa de seu pai, em São<br />

Paulo, planejou secretamente uma<br />

ardilosa e aventureira ação. Ele se<br />

aproximou da residência paterna,<br />

à noite, e após um discreto assobio<br />

— sinal convencionado — uma<br />

escrava ajudou a mocinha a descer<br />

por uma janela. Tendo-a colocado<br />

na garupa do cavalo, <strong>Dr</strong>. Antônio<br />

partiu a toda brida rumo a Pirassununga.<br />

Heroína deu-se bastante bem em<br />

casa do irmão. Costumava referirse<br />

ao convívio com <strong>Dr</strong>. Antônio e Dª<br />

Gabriela num tom afetuoso e cheio<br />

de ternura: “A alma de minha mãe,<br />

lá do Céu, me protegeu e me trouxe<br />

até aqui...”<br />

Um certo pitoresco romântico,<br />

entre inocente e ingênuo, não esteve<br />

ausente daquela nova vida em Pirassununga.<br />

Assim, por exemplo, na<br />

sala de visitas da residência havia<br />

um belo papel de parede com flores<br />

estampadas, que constituía especial<br />

atrativo para os colibris. Estes,<br />

entrando pela janela, imaginavamse<br />

num jardim paradisíaco. Heroína<br />

tomou-se de carinho por um pobre<br />

e velho beija-flor que — decerto<br />

por suas vistas cansadas — se chocou<br />

contra o rígido revestimento da parede<br />

e caiu desmaiado ao solo. Apanhou-o<br />

e pôs-se a tratar dele, dando-lhe<br />

água com açúcar. Em determinado<br />

momento, a avezinha retomou<br />

alento e saiu voando. Heroína<br />

não conteve um comentário: “Oh!<br />

como é cruel esta vida! A gente protege,<br />

ajuda, e depois ele vai embora!<br />

Assim também se passará comigo!”<br />

Esse dito foi mais uma previsão<br />

do que um desabafo, pois ela parecia<br />

ter herdado da mãe o signo da infelicidade.<br />

Nunca quis se casar, vivia<br />

numa profunda tristeza e morreu<br />

jovem. A pobre moça encarnava os<br />

sentimentos — lacrimejantes e tendentes<br />

ao fúnebre — da atmosfera<br />

romântica do século XIX.<br />

Entremeando comentários à narração<br />

desses episódios, Dª Lucilia tinha<br />

alegria em ressaltar o alto valor<br />

moral demonstrado por <strong>Dr</strong>. Antônio<br />

no relacionamento com sua madras-


Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina<br />

ta. Após o falecimento de <strong>Dr</strong>. Cândido,<br />

embora não se sentisse muito<br />

benquisto por ela, acolheu-a com<br />

bondade, sustentou-a e inclusive tratou-a<br />

com desvelo durante uma doença<br />

contagiosa.<br />

A par desses aspectos tristes da vida<br />

dos Ribeiro dos Santos em Pirassununga,<br />

não faltaram outros, alegres<br />

e festivos, como aconteceu por<br />

ocasião da visita do Imperador à cidade.<br />

Dom Pedro II em<br />

Pirassununga<br />

Em 1878, viajando pela Província<br />

de São Paulo, <strong>Dr</strong>. Pedro II visitou a família<br />

Ribeiro dos Santos em Pirassununga.<br />

Conduzido por luxuoso trem<br />

da Companhia Paulista, na viagem de<br />

inauguração do ramal ferroviário, o<br />

Imperador desceu na estação provisória,<br />

ainda de madeira, onde o esperavam<br />

as notabilidades locais.<br />

Dona Teresa Cristina, entretanto,<br />

não acompanhou seu imperial esposo,<br />

permanecendo no vagão, onde<br />

recebeu Dª Gabriela, que levava<br />

consigo a pequena Lucilia. Procurando<br />

ser amável com a mãe, a Imperatriz<br />

disse à menina:<br />

— Minha filha, eu conheci seu avô,<br />

foi ele quem me ensinou a dançar.<br />

Com efeito, por ocasião de um<br />

baile na Corte, o <strong>Dr</strong>. Gabriel José<br />

Rodrigues dos Santos teve a gentil<br />

ousadia de convidá-la para dançar,<br />

o que esta nunca fizera. Instantes<br />

antes, com jeito e distinção, conseguira<br />

que a Imperatriz, defeituosa<br />

de um dos pés, aprendesse a dar passos<br />

de dança sem que se lhe notasse<br />

a incorreção no andar. Dona Teresa<br />

Cristina se houve bem e o fato teve o<br />

maior sucesso na Corte.<br />

Durante o encontro na casa de<br />

<strong>Dr</strong>. Antônio, Dom Pedro II — figura<br />

de aspecto patriarcal — trouxe<br />

a pequena Lucilia para junto<br />

de si e, distraidamente, enquanto<br />

conversava, passava a mão entre<br />

seus cabelos, desfazendo-lhe<br />

um a um os frisados cachos. Percebendo<br />

desmanchar-se aos poucos<br />

o esmerado penteado, Lucilia<br />

deu mostras de querer protestar,<br />

mas encontrou — severo e fixo<br />

— o olhar de seu pai, a lhe insinuar<br />

que nada deveria dizer...<br />

(Transcrito, com adaptações,<br />

da obra “Dona Lucilia”,<br />

de João S. Clá Dias)<br />

1) Tratamento dado pelos escravos à sua<br />

senhora. <strong>Dr</strong>. Antônio o utilizava também<br />

para, de modo afetuoso, se dirigir<br />

a Dona Gabriela.


<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />

A arte de<br />

subir e descer escadas<br />

Sem exagero poder-se-ia dizer que em <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> a observação do mais<br />

profundo, expresso na realidade dos edifícios, ambientes e atitudes<br />

humanas, enquanto reflexo de qualidades ou carências da alma, era<br />

uma segunda natureza. Assim, numa exposição verbal, discorreu ele<br />

sobre o papel das escadas e das formas pelas quais, ao subir e descêlas,<br />

o homem manifesta sua dignidade de filho de Deus.<br />

Em ocasião anterior consideramos como o subir e<br />

também o descer escadas constitui, no seu gênero,<br />

uma arte. De fato, tanto quanto as circunstâncias<br />

permitirem, o homem deve ter o pudor de suas<br />

próprias misérias, velá-las, por respeito a si mesmo e aos<br />

outros.<br />

Demonstração de apreço pela virtude<br />

Emprego a palavra “pudor”, não no sentido da castidade<br />

preceituada pelos sexto e nono Mandamentos, e<br />

sim no de frisar que tais misérias são castigo de um pecado<br />

cometido por nossos ancestrais no Paraíso terrestre e<br />

todos nós carregamos o ferrete daquela queda. As debilidades<br />

são, portanto, reflexos da mancha original à qual o<br />

homem acrescentou suas próprias faltas.<br />

Assim, o homem procura disfarçar suas lacunas como<br />

homenagem prestada à virtude. E o maintien 1 , exigindo<br />

um esforço dele sobre si, é um preito de seus lados fracos<br />

àquilo que ele teria sido se não fosse o pecado. De sua<br />

parte, essa é uma atitude bela e nobre.<br />

Cenário para o exercício de uma arte<br />

Então, a escada precisa ser construída de maneira a<br />

servir de cenário digno, distinto, mesmo numa habitação<br />

10


Fotos: S. Hollmann<br />

A escada, sobretudo num<br />

palácio, deve constituir digno<br />

cenário para o homem exercer<br />

a arte de subir ou descer<br />

Escadaria do Palácio Real<br />

de Madrid, Espanha<br />

11


<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />

M. Shinoda<br />

modesta, para que o homem possa exercer a arte de subir<br />

ou descer. Se falarmos não de uma casa comum, mas de<br />

um palácio, neste deve haver uma glorificação dessa arte,<br />

pois muito mais do que a moradia do conforto, ele é a<br />

residência do esplendor, cuja definição adequada é esta:<br />

habitação proporcionada com a glória. Assim, com sua<br />

escadaria, o palácio deve dar às pessoas a possibilidade<br />

de descê-la e subi-la brilhantemente.<br />

E aqui caberia perguntar o que é mais glorioso: subir<br />

ou descer?<br />

Em tese, é o subir. Por exemplo, à medida que se eleva<br />

até o zênite, o sol patenteia de modo crescente a sua glória.<br />

Pelo contrário, passa a velá-la, conforme se põe e se<br />

deixa envolver paulatinamente nos crepes da noite.<br />

Porém, nossas operações são feitas na presença de<br />

Deus e dos homens. Diante do Criador, o mais glorioso,<br />

de si, é subir uma escada. Entretanto, aos olhos dos homens,<br />

é o descer.<br />

Explico. A pessoa que sobe é vista de cima para baixo<br />

por quem está no andar superior; e aquele que desce<br />

é observado de baixo para cima por quem se encontra<br />

no plano inferior. E, portanto, mostra-se melhor a própria<br />

glória a quem está embaixo do que àquele situado<br />

no alto.<br />

Diversos modos de se<br />

descer uma escada<br />

Como se deve descer com honra uma escada?<br />

Antes de tudo, não se pode ser “mega” 2 . Quer dizer, a<br />

pessoa precisa descê-la com glória, quando a esta tem direito;<br />

com distinção, quando se encontra numa situação<br />

ou é pessoa distinta; com correção, pelo simples fato de<br />

ser uma criatura humana, porque todo homem tem obrigação<br />

de ser correto.<br />

Sumamente incorreto é dar a impressão de que perdeu<br />

o auto-controle e cairá. Portanto, se alguém tiver agilidade<br />

de descer uma escada depressa, saltando de dois em<br />

dois degraus, não deve fazê-lo, pois dará impressão de<br />

uma avalanche desmoronando.<br />

Como a lei da gravidade nos atrai para baixo, o homem<br />

precipitando-se desenfreadamente nessa direção<br />

transmite a idéia de alguém vencido por aquela lei, entregue,<br />

derrotado, como um destroço que rola. Por isso,<br />

se houver necessidade de ele descer uma escada com rapidez,<br />

deve procurar manter a correção, portando-se de<br />

maneira a demonstrar claramente que, apesar da pressa,<br />

conserva inteiro domínio de si. Portanto, sua cabeça<br />

e seu tronco têm de estar tesos e eretos. Se não observar<br />

essa postura, descerá de modo vil.<br />

Ora, nenhum homem tem o direito de fazer uma coisa<br />

de forma desprezível. Pelo fato de ser criatura racional,<br />

está obrigado a agir com correção, é uma exigência<br />

da dignidade humana.<br />

Quando uma pessoa se acha numa situação de distinção,<br />

pela sua idade, pelo seu cargo ou outras circunstâncias,<br />

deve descer a escada, não muito devagar, mas compassadamente,<br />

a fim de permitir aos que estão embaixo<br />

perceberem todas as fases da operação: o avançar dos<br />

pés, a posição do tronco, da cabeça, etc. Além disso, precisa<br />

fazê-lo de modo desembaraçado, dando a idéia de<br />

Ao subir, fitar quem se acha<br />

em cima, de um modo afável e<br />

atencioso; ao descer, fazê-lo de<br />

sorte a que sintam a presença, não<br />

apenas de um corpo, mas também<br />

de uma alma<br />

À esquerda, escadaria da Catedral de Burgos<br />

(Espanha); na página seguinte, Dona Lucilia<br />

em 1912 (fotografia tirada em Paris)<br />

12


estar posto em cogitações elevadas, sem prestar atenção<br />

nos degraus como se receasse cair.<br />

Um acontecimento...<br />

Assumindo essa postura, à medida que vai descendo, a<br />

pessoa faz sentir cada vez mais sua ação de presença. Esta<br />

se torna plena quando ela atinge os últimos degraus,<br />

e se percebe que não chegou apenas um corpo — como<br />

um pacote de carne e ossos — mas também uma alma.<br />

Os antigos, tendo melhor noção desses aspectos da vida,<br />

faziam com que os grandes personagens, conforme a<br />

indumentária própria ao homem ou à mulher, usassem<br />

cauda. Por exemplo, os bispos e altos dignitários de Estado<br />

(como reis e príncipes) tinham capa magna, a qual era<br />

levada por pessoas distintas ou simples pajens, de acordo<br />

com a situação.<br />

Ao descer uma escada, a cauda formava-lhe um fundo<br />

de quadro, e à medida que baixava, o tecido ia se desdobrando;<br />

ao tocar o solo, estava todo estendido. Aquela<br />

descida de escada tinha sido um acontecimento...<br />

No subir, afabilidade e deferência<br />

Por seu lado, o subir uma escada de maneira correta<br />

requer igualmente determinadas disposições de corpo<br />

e espírito.<br />

Assim, o que sobe precisa fitar quem se acha em cima,<br />

de um modo afável, atencioso, conforme o caso respeitoso,<br />

como se já estivesse perto dele. De certa forma, sua<br />

alma tem de anteceder seu corpo, impressão esta que ele<br />

transmitirá se, ao pisar o primeiro degrau, depositar desde<br />

logo o olhar naquele que o aguarda no alto.<br />

Em seguida, empreender a ascensão sem precipitações,<br />

evitando qualquer manifestação de cansaço, de peso,<br />

às vezes esboçando um sorriso. Ao atingir os últimos<br />

degraus e se aproximar de quem o espera, deve dirigirlhe<br />

a palavra, de tal maneira que o outro não perceba a<br />

distância entre os dois, e em todo momento se sinta igualado<br />

ou até mesmo superado.<br />

São estas algumas atitudes e posturas pelas quais o homem,<br />

observando-as no ato de subir e descer escadas, é<br />

capaz de conservar sua dignidade de ente racional, criado<br />

à imagem e semelhança de Deus.<br />

v<br />

1) Postura correta<br />

2) A partir do termo “megalomania” <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> criou a palavra<br />

“megalice”, a fim de designar o vício de quem atribui a<br />

si mesmo qualidades que não possui ou então as exagera. E<br />

empregava o vocábulo “mega” para significar o indivíduo<br />

que se deixa arrastar por esse defeito.<br />

13


“R-CR” em perguntas e respostas<br />

A restauração da ordem<br />

Continuamos a exposição do livro Revolução e Contra-Revolução, na forma<br />

de perguntas e respostas, a que demos início no número anterior.<br />

Conforme escreve em sua obra, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> concebia a restauração cristã<br />

não como o retorno a um passado imobilista e morto, feito apenas por<br />

um apostolado doutrinário, mas pela difusão de um tonus, um tipo<br />

humano, tanto mais saliente se divulgado por uma associação religiosa<br />

aprovada pela Hierarquia da Igreja.<br />

O que a Revolução tem destruído?<br />

O que tem sido destruído, do século XV para cá, aquilo<br />

cuja destruição já está quase inteiramente consumada em<br />

nossos dias, é a disposição dos homens e das coisas segundo<br />

a doutrina da Igreja, Mestra da Revelação e da Lei Natural.<br />

Esta disposição é a ordem por excelência. O que se quer implantar<br />

é, per diametrum, o contrário disto (pp. 59-60).<br />

Brilho superior ao<br />

da cristandade medieval<br />

O que a Contra-Revolução visa restaurar?<br />

Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é<br />

a restauração da ordem. E por ordem entendemos a paz<br />

de Cristo no reino de Cristo. Ou seja, a civilização cristã,<br />

austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, antiigualitária<br />

e antiliberal (p. 97).<br />

Em que consiste o espírito da Revolução?<br />

Duas noções concebidas como valores metafísicos exprimem<br />

bem o espírito da Revolução: igualdade absoluta,<br />

liberdade completa. E duas são as paixões que mais a<br />

servem: o orgulho e a sensualidade. (...)<br />

Sempre que falamos das paixões como fautoras da Revolução,<br />

referimo-nos às paixões desordenadas. E, de<br />

acordo com a linguagem corrente, incluímos nas paixões<br />

desordenadas todos os impulsos ao pecado existentes no<br />

homem em conseqüência da tríplice concupiscência: a da<br />

carne, a dos olhos e a soberba da vida (pp. 65-66).<br />

Quais os pontos capitais em que a ordem nascida da<br />

Contra-Revolução deverá brilhar?<br />

Por força da lei histórica segundo a qual o imobilismo<br />

não existe nas coisas terrenas, a ordem nascida da Contra-Revolução<br />

deverá ter características próprias que a<br />

diversifiquem da ordem existente antes da Revolução.<br />

Claro está que esta afirmação não se refere aos princípios,<br />

mas aos acidentes. (...)<br />

A ordem nascida da Contra-Revolução deverá refulgir,<br />

mais ainda do que a da Idade Média, nos três pontos<br />

capitais em que esta foi vulnerada pela Revolução:<br />

* Um profundo respeito dos direitos da Igreja e do<br />

Papado e uma sacralização, em toda a extensão do<br />

possível, dos valores da vida temporal, tudo por oposição<br />

ao laicismo, ao interconfessionalismo, ao ateísmo<br />

e ao panteísmo, bem como a suas respectivas seqüelas.<br />

* Um espírito de hierarquia marcando todos os aspectos<br />

da sociedade e do Estado, da cultura e da vida, por<br />

oposição à metafísica igualitária da Revolução.<br />

* Uma diligência no detectar e no combater o mal em<br />

suas formas embrionárias ou veladas, em fulminá-lo com<br />

execração e nota de infâmia, e em puni-lo com inquebrantável<br />

firmeza em todas as suas manifestações, e particularmente<br />

nas que atentarem contra a ortodoxia e a<br />

pureza dos costumes, tudo por oposição à metafísica liberal<br />

da Revolução e à tendência desta a dar livre curso e<br />

proteção ao mal (pp. 97-99).<br />

14


T. Ring<br />

Antes de tudo, a ordem nascida da Contra-Revolução deverá<br />

refulgir especialmente pelo profundo respeito dos direitos<br />

da Igreja e do Papado<br />

Cúpula da Basílica do Vaticano e a ponte do Castelo de Sant’Angelo - Roma<br />

Apostolado moderno e o<br />

fenômeno “R-CR”<br />

Todo católico deve ser contra-revolucionário?<br />

Na medida em que é apóstolo, o católico é contra-revolucionário.<br />

Mas ele o pode ser de modos diversos.<br />

Pode sê-lo implícita e como que inconscientemente. É<br />

o caso de uma Irmã de Caridade num hospital. Sua ação<br />

direta visa a cura dos corpos, e sobretudo o bem das almas.<br />

Ela pode exercer esta ação sem falar de Revolução<br />

e Contra-Revolução. Pode até viver em condições tão especiais<br />

que ignore o fenômeno Revolução e Contra-Revolução.<br />

Porém, na medida em que realmente fizer bem<br />

às almas, estará obrigando a retroceder nelas a influência<br />

da Revolução, o que é implicitamente fazer Contra-Revolução<br />

(p. 149).<br />

Como o apóstolo moderno poderá aumentar sua eficácia?<br />

Numa época como a nossa, toda imersa no fenômeno<br />

Revolução e Contra-Revolução, parece-nos condição<br />

de sadia modernidade conhecê-lo a fundo e tomar diante<br />

dele a atitude perspicaz e enérgica que as circunstâncias<br />

pedem.<br />

Assim, cremos sumamente desejável que todo apostolado<br />

atual, sempre que for o caso, tenha uma intenção e<br />

um tonus explicitamente contra-revolucionário.<br />

Em outros termos, julgamos que o apóstolo realmente<br />

moderno, qualquer que seja o campo a que se dedique,<br />

acrescerá muito a eficácia de seu trabalho se souber<br />

discernir a Revolução nesse campo, e marcar correspondentemente<br />

de um cunho contra-revolucionário tudo<br />

quanto fizer (p. 150).<br />

Poderá haver uma associação religiosa para combater a<br />

Revolução?<br />

A ação contra-revolucionária pode ser feita, naturalmente,<br />

por uma só pessoa, ou pela conjugação, a título<br />

privado, de várias. E, com a devida aprovação eclesiástica,<br />

pode até culminar na formação de uma associação religiosa<br />

especialmente destinada à luta contra a Revolução<br />

(p. 152).<br />

v<br />

15


Calendário litúrgico<br />

1. São Benigno, Presbítero e<br />

Mártir, séc III.<br />

(A solenidade de Todos os Santos,<br />

própria a esta data, celebra-se este<br />

ano, no Brasil, no primeiro domingo,<br />

dia 6.)<br />

São Benigno<br />

2. Comemoração dos Fiéis Defuntos.<br />

A Igreja lembra neste dia<br />

todos aqueles que, chamados desta<br />

vida pelo Senhor, “morrem na<br />

graça e na amizade de Deus, mas<br />

não estão completamente purificados,<br />

e embora tenham garantida a<br />

sua salvação eterna, passam, após<br />

sua morte, por uma purificação (no<br />

Purgatório) a fim de obterem a santidade<br />

necessária para entrar na<br />

alegria do Céu (Catecismo da Igreja<br />

Católica, n. 1030). Instituída em 998<br />

por Santo Odilon, abade de Cluny,<br />

nesta Festa a Igreja reza por aquelas<br />

almas, desta forma “ajudadas<br />

pela intercessão dos fiéis e, sobretudo,<br />

pelo sacrifício proporcionado<br />

no altar”, e “pela caridade e outras<br />

obras de piedade” (João Paulo II).<br />

Ver também o Editorial, página 4.<br />

3. São Martinho de Porres, 1579-<br />

1639.<br />

4. São Carlos Borromeu, 1538-<br />

1584. Cardeal e Arcebispo de Milão.<br />

5. Beato Guido Maria Conforti,<br />

Bispo, 1865-1931. Bispo de Parma<br />

(Itália) e Fundador dos Missionários<br />

Xaverianos.<br />

6. 32º Domingo do Tempo Comum.<br />

Solenidade de Todos os Santos.<br />

Celebrada neste domingo, no Brasil.<br />

7. São Atenodoro, Bispo de Neocesarea,<br />

irmão de São Gregório<br />

Taumaturgo.<br />

São Engelberto, Bispo e Mártir,<br />

1185-1225. Arcebispo de Colônia.<br />

8. Os “Quatro Santos Coroados”.<br />

Intimados a sacrificar ao<br />

deus-sol, recusaram e foram martitizados<br />

sob Diocleciano no ano de<br />

304, e sepultados na Via Laviciana.<br />

Chamados inicialmente de “os quatro<br />

coroados”, seus nomes — Severo,<br />

Severiano, Carpóforo e Vitorino<br />

— foram conhecidos mais tarde por<br />

revelação divina. Porém, continuaram<br />

a ser venerados sob esse título.<br />

9. Dedicação da Basílica de Latrão.<br />

10. São Leão Magno, Papa e<br />

Doutor da Igreja. Governou a nau<br />

de Pedro entre 440 e 461.<br />

11. São Martinho de Tours, séc.<br />

IV. (Ver “<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>” número 80.)<br />

12. São Josafá Kuncewicz, Bispo<br />

e Mártir, 1580-1623. Ucraniano,<br />

foi Arcebispo de Polotsk, artífice da<br />

união dos cismáticos eslavos orientais<br />

com Roma, em Brest-Litovosk,<br />

no ano de 1595. Foi martirizado pelos<br />

inimigos dessa união, em 12 de<br />

novembro de 1623, aos gritos de<br />

“morra o papista!”. Seu corpo jaz à<br />

vista, em bela urna na nave direita<br />

da Basílica de São Pedro no Vaticano.<br />

O Papa Pio XI o declarou padroeiro<br />

da união entre ortodoxos e<br />

católicos.<br />

13. 33º Domingo do Tempo Comum.<br />

São Nicolau I, Papa, entre 858 e<br />

867. Chamado “o Grande”. Após a<br />

divisão do império de Carlos Magno,<br />

defendeu o Papado, a unidade<br />

da Fé e da Igreja.<br />

14. São Lawrence O’ Toole, Bispo,<br />

1180-1225. Arcebispo de Armagh,<br />

Primaz da Irlanda, e depois de<br />

Dublin.<br />

15. Santo Alberto Magno, Bispo<br />

e Doutor da Igreja, 1206-1280.<br />

Dominicano alemão, um dos teólogos<br />

e sábios mais eminentes de<br />

seu tempo. Mestre de Santo Tomás<br />

de Aquino, e Bispo de Regensburg<br />

(Ratisbona), Alemanha.<br />

16. Santa Margarida da Escócia,<br />

Rainha e Viúva, 1045-1093. Filha<br />

do Rei Santo Eduardo da Inglaterra,<br />

país que teve de abandonar<br />

quando o Rei Canuto da Dinamarca<br />

o invadiu. Mais tarde, casou-se<br />

com o Rei Malcom III da Escócia.<br />

Dedicou-se ardorosamente à ajuda<br />

dos pobres e à construção de templos.<br />

17. Santa Isabel da Hungria,<br />

1207-1231.<br />

18. Dedicação das Basílicas de<br />

São Pedro e São Paulo, em Roma.<br />

A atual basílica, renascentista,<br />

consagrada pelo Papa Urbano<br />

VIII neste dia em 1626, substituiu<br />

a original construída por Constantino<br />

sobre o túmulo de São Pedro,<br />

primeiro Papa, e também dedicada<br />

num 18 de novembro. Por sua vez,<br />

a hodierna basílica de São Paulo,<br />

16


na via Ostiense, erguida sobre o túmulo<br />

do Apóstolo dos Gentios, foi<br />

em grande parte reconstruída depois<br />

de um pavoroso incêndio, em<br />

1823, ter atingido o templo original,<br />

datado do Papa São Leão Magno<br />

(séc V).<br />

19. Santa Matilde de Saxônia,<br />

+968.<br />

20. 34º Domingo do Tempo Comum.<br />

Festa de Cristo Rei do Universo.<br />

Esta solenidade instituída por Pio<br />

XI em 1<strong>92</strong>5, marca todos os anos o<br />

encerramento do Ciclo Litúrgico,<br />

uma vez que o domingo seguinte<br />

será o Primeiro Domingo do Tempo<br />

do Advento, que abre esse período<br />

de penitência preparatório do<br />

Natal, e inaugura o Ano Litúrgico<br />

de 2006.<br />

Santa Cecília<br />

* Novembro *<br />

21. Apresentação de Nossa Senhora<br />

no Templo. A antiga tradição<br />

de que Maria foi apresentada aos<br />

três anos no Templo e aí viveu, narrada<br />

em escritos apócrifos, é corroborada<br />

pela Igreja na liturgia, pelo<br />

menos desde o séc. VI em algumas<br />

dioceses, e no Oriente, desde 1143.<br />

22. Santa Cecília, Virgem e Mártir,<br />

+ 232. Padroeira dos músicos,<br />

seu corpo está enterrado na igreja<br />

a ela dedicada no bairro romano de<br />

Trastevere.<br />

23. São Clemente I, Papa e Mártir,<br />

séc. I. Terceiro sucessor de São<br />

Pedro, governou a Igreja entre 93 e<br />

101. É autor do mais antigo dos documentos<br />

papais conhecido: a Carta<br />

aos Coríntios. Seu nome é recordado<br />

no Cânon Romano, junto com<br />

seus dois antecessores imediatos,<br />

São Lino e São Cleto.<br />

24. Santo André Dung-Lac, Sacerdote,<br />

e 116 companheiros, Mártires,<br />

no Vietnã.<br />

25. Santa Catarina de Alexandria,<br />

Virgem e Mártir, séc. IV.<br />

26. São Leonardo de Porto-Maurício,<br />

Presbítero, 1676-1751. Franciscano,<br />

asceta e grande pregador,<br />

Pio XI o declarou padroeiro dos<br />

pregadores de missões populares.<br />

Escritor profundíssimo, alternava a<br />

solidão do convento e a penitência<br />

com o que ele chamava “o combate<br />

ao inferno” (as missões populares).<br />

Para avaliar seu ardor e zelo, citamos<br />

uma frase sua: “Quando morrer,<br />

revolucionarei o Paraíso e obrigarei<br />

aos anjos, aos apóstolos, a todos<br />

os santos, que façam uma santa<br />

violência à Santíssima Trindade para<br />

que suscite homens apostólicos e<br />

derrame um dilúvio de graças eficacíssimas<br />

que convertam a Terra em<br />

Céu”.<br />

27. 1º Domingo do Advento.<br />

Nossa Senhora da Medalha Milagrosa<br />

(também chamada Nossa<br />

Senhora das Graças). Nesta data,<br />

há 175 anos, a Santíssima Virgem<br />

apareceu a Santa Catarina Labouré,<br />

mandando cunhar a Medalha<br />

Milagrosa. Ver artigo na página 18.<br />

28. São Jacobo Piceno (Giacomo<br />

della Marca), 1394-1476. Franciscano<br />

italiano. Pregador fogoso e<br />

piedosíssimo, o Papa Eugênio IV o<br />

encarregou de difundir a fé contra<br />

as heresias da Europa centro-oriental<br />

(Dalmácia, Eslavônia, Croácia,<br />

Bósnia, Áustria e Hungria, etc.).<br />

29. São Saturnino, Bispo e Mártir,<br />

séc. III.<br />

Santo André<br />

30. Santo André, Apóstolo, séc. I.<br />

Natural de Betsaida, filho do pescador<br />

Jonas e irmão do Apóstolo São<br />

Pedro. Foi o primeiro apóstolo a encontrar<br />

Jesus, junto com São João<br />

Evangelista. O Senhor lhes perguntou<br />

“Que buscais?”, e eles, por sua<br />

vez, indagaram: “Senhor, onde moras?”.<br />

A resposta do Divino Mestre<br />

é todo um programa de vida: “Vinde<br />

e vereis”. Segundo o “Manuscrito<br />

de Muratori” (séc. III), Santo<br />

André recomendou a São João que<br />

escrevesse o Quarto Evangelho. Teria<br />

morrido em Patras, Grécia, em<br />

30 de novembro de 63.<br />

17


O Santo do mês<br />

175 anos de um prodigioso acontecimento<br />

27 de novembro de 1830<br />

Uma porta do céu<br />

se abriu para o mundo<br />

Neste ano a Capela da Rue du Bac<br />

celebra o jubileu das aparições de Nossa<br />

Senhora a Santa Catarina Labouré.<br />

Como melhor modo de associar esta<br />

revista e seus leitores a data tão<br />

significativa, estampamos a seguir um<br />

eloqüente comentário de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> sobre<br />

aquelas visões de alcance inapreciável<br />

para todos os homens.<br />

Quem visita a Capela da Rue<br />

du Bac, em Paris, onde Nossa<br />

Senhora apareceu a Santa<br />

Catarina Labouré e lhe pediu a<br />

cunhagem da Medalha Milagrosa,<br />

sente-se envolvido por uma intensa<br />

impressão de paz, de calma, de céus<br />

abertos, como se não existissem obstáculos<br />

entre a Terra e a feliz eternidade.<br />

No íntimo de sua alma, o fiel<br />

ouve a voz de Nossa Senhora, exorável,<br />

disposta a atender todos os nos-<br />

18


S. Hollmann<br />

“Venham ao pé desse altar; graças<br />

serão derramadas aqui sobre todas as<br />

pessoas, especialmente aquelas que as<br />

pedirem com confiança e fervor”<br />

(Palavras de Nossa Senhora a<br />

Santa Catarina Labouré)<br />

Altar principal da Capela da Rue du<br />

Bac, em Paris; no destaque, uma das<br />

visões de Santa Catarina Labouré<br />

19


O Santo do mês<br />

sos pedidos, com sua maternal benignidade<br />

transpondo distâncias incontáveis<br />

para se tornar acessível a<br />

nós. Tudo isso faz daquela capela um<br />

lugar de serenidade realmente privilegiado.<br />

Serenidade, calma e paz autênticas,<br />

ou seja, toques de sobrenatural<br />

que afagam nossa alma com verdadeira<br />

unção, verdadeira consolação<br />

e verdadeira confiança, e nos infunde<br />

a plena certeza de que, em última<br />

análise, Nossa Senhora nos alcançará<br />

as graças tão desejadas por nós.<br />

A época das aparições<br />

da Rue du Bac<br />

As aparições da Santíssima Virgem<br />

se deram em 1830, sendo a mais<br />

importante delas no dia 27 de novembro,<br />

quando revelou a Santa Catarina<br />

os tesouros de dádivas celestiais<br />

destinados ao mundo com a difusão<br />

da Medalha Milagrosa.<br />

Cumpre recordarmos que, naquela<br />

época, a par de um grande reflorescimento<br />

da prática da religião Católica,<br />

havia também fortes manifestações<br />

de laicismo e ateísmo hostis<br />

à Igreja, de maneira que um fosso<br />

abismal separava o catolicismo do<br />

anticlericalismo. Ecos dessa animosidade<br />

eu mesmo conheci, no Brasil<br />

dos anos 20. Portanto, quase um século<br />

depois das aparições da Rue du<br />

Bac.<br />

Serenidade, calma e paz autênticas: na<br />

Capela da Rue du Bac, junto ao convento<br />

das Filhas da Caridade, o sobrenatural<br />

manifestará suas maravilhas...<br />

Entrada do convento e vista do interior da capela (como eram<br />

nos primórdios do século XX), com as freiras em oração<br />

20


Tão profundo era esse valo divisório<br />

entre as coisas da Igreja e as da<br />

sociedade civil que, ao se transpor os<br />

umbrais do ambiente profano e ingressar<br />

no religioso, era como se deixássemos<br />

um país para entrar em outro.<br />

Lembro-me de quando comparecia<br />

à bênção do Santíssimo Sacramento<br />

na Igreja do Coração de Jesus, após<br />

a qual, saindo do templo, observava o<br />

edifício daquilo que então era o internato<br />

do Liceu, desdobrado em duas<br />

alas em torno de todo o quarteirão.<br />

As janelas dos andares inferiores<br />

permaneciam fechadas e protegidas<br />

por grades. Ao contrário daquelas<br />

dos andares superiores através das<br />

quais, no lado onde eu sabia situado<br />

o dormitório dos meninos, podia-se<br />

ver algumas luzes azuis acesas: sinal<br />

de que as crianças já dormiam. E o<br />

relógio da torre ainda não marcava<br />

nove horas da noite...<br />

Recordo-me da impressão que<br />

causava em mim o entrar na sociedade<br />

profana — insisto, dos anos 20 —<br />

e perceber o contraste entre o coruscante,<br />

o assanhado, o divertido daquele<br />

mundo, e o dormitório extenso,<br />

onde um grande número de meninos<br />

repousava sob a supervisão de<br />

um padre pronto a acordar ao menor<br />

sinal de perturbação, para restabelecer<br />

a ordem e a tranqüilidade!<br />

Encantava-me saber que aqueles<br />

meninos dormiam placidamente, aos<br />

cuidados de um sacerdote que representava<br />

ali a eterna tradição da Igreja<br />

ordenativa, moralizante, disciplinadora.<br />

Alegrava-me ver que, enquanto<br />

todos se achavam imersos no<br />

sono noturno, as luzinhas azuis simbolizavam<br />

a maternalidade da Igreja<br />

a envolver seus filhos em brumas<br />

amigas; a vigilância de quem sabe<br />

sorrir sem fechar os olhos, sempre<br />

ciente do que se passa. Tudo isso me<br />

dava a impressão de haver naquele<br />

ambiente uma austeridade, uma<br />

sacralidade, uma ordenação que o<br />

mundo fora não conhecia. Era outro<br />

universo.<br />

“Todos os que usarem [a Medalha Milagrosa],<br />

trazendo-a ao pescoço, receberão grandes<br />

graças, que serão abundantes para quem a<br />

portar com confiança”<br />

(Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré)<br />

Pois bem, numa atmosfera análoga<br />

a essa tiveram lugar, na Paris de<br />

1830, as revelações de Nossa Senhora<br />

a Santa Catarina Labouré.<br />

O sobrenatural<br />

se desenrola numa<br />

modesta capela<br />

Imagens do convento da Rue du Bac, Paris<br />

S. Hollmann<br />

Era esta uma freira da congregação<br />

das Filhas da Caridade, fundada<br />

por Santa Luísa de Marillac e São<br />

Vicente de Paulo. Essas religiosas se<br />

distinguiram sempre por sua extrema<br />

e abnegada solicitude cristã, dedicando-se<br />

ao cuidado dos pobres,<br />

órfãos, e enfermos nos hospitais e<br />

Casas de Misericórdia. Até há pouco<br />

eram conhecidas pelo seu hábito<br />

característico: túnica escura com gola<br />

branca engomada, a cabeça adornada<br />

por uma touca bretã, estilizada<br />

pela inspiração e pelas mãos da<br />

Igreja. Essa cobertura se desdobrava<br />

em duas abas largas, lembrando vagamente<br />

as asas de uma gaivota em<br />

vôo. Na cintura, como é natural nos<br />

hábitos religiosos, pendia um grande<br />

rosário.<br />

Não tive contato assíduo com essas<br />

freiras, mas encontrei-me com<br />

muitas delas. Em geral pessoas robustas,<br />

fortes e prontas para o trabalho.<br />

Olhar límpido, reto, atitude despretensiosa<br />

de quem preferia passar<br />

desapercebida. Realizavam obras de<br />

misericórdia temporal como ocasião<br />

para obras de misericórdia espiritual.<br />

Ou seja, elas aproveitavam a ocasião<br />

de cuidar de um paciente termi-<br />

21


O Santo do mês<br />

S. Hollmann<br />

nal para trazer um padre junto a ele,<br />

para convidar uma criança a ir ao catecismo<br />

da paróquia, ou se encontravam<br />

uma pessoa desventurada na<br />

rua, procuravam ajudá-la em todo o<br />

necessário, etc. Enfim, faziam tudo<br />

quanto pudessem para atender aos<br />

infortúnios, as carências materiais<br />

e, sobretudo, as espirituais, nos mais<br />

variados ambientes por onde costumavam<br />

se infiltrar.<br />

A elevação desse apostolado das<br />

Irmãs de Caridade de São Vicente<br />

de Paulo era tão grande, e as admiravam<br />

tanto por isso, que costumavam<br />

ser tidas como o próprio símbolo<br />

da religião numa de suas expressões<br />

mais belas e comovedoras.<br />

O seu principal convento situa-se<br />

num antigo e aristocrático bairro da<br />

capital francesa, o Faubourg Saint-<br />

Germain, e se tornou conhecido pelo<br />

nome da rua em que foi edificado:<br />

Rue du Bac.<br />

Devemos imaginar a cidade de<br />

Paris nos idos de 1830, bem menor e<br />

menos populosa do que é hoje, silenciosa,<br />

tranqüila, ainda sem ruídos de<br />

motores e luzes de néon. Podemos<br />

pensar na rua calçada com pedras,<br />

sobre as quais, vez por outra, o eco<br />

das patas de um cavalo ou das rodas<br />

de uma carruagem interrompia a<br />

longa calada da noite. No dormitório<br />

das freiras de São Vicente, não havia<br />

luzinhas azuis, mas talvez alguns<br />

candeeiros acesos. Todas as religiosas<br />

repousam, entre elas Santa Catarina<br />

Labouré.<br />

Nesse ambiente modesto, puro e<br />

elevado, completamente diverso do<br />

mundo exterior, o maravilhoso sobrenatural<br />

começa a se desenrolar.<br />

Colóquios com a<br />

Rainha do Céu<br />

A primeira aparição ocorreu na<br />

véspera da festa de São Vicente de<br />

Paulo, em 18 de julho de 1830, como<br />

que preparada por uma atitude da<br />

vidente repassada de ingenuidade,<br />

inocência e caráter filial muito bonitos.<br />

Ela ouvira no dia anterior uma<br />

Santa Catarina viu Nossa Senhora sentada na cadeira do Vigário; saltou<br />

para junto d’Ela e, genuflexa, apoiou suas mãos nos joelhos de Maria...<br />

exposição sobre a devoção a Nossa<br />

Senhora, e sentiu um ardente desejo<br />

de vê-La. E foi se deitar com o<br />

pensamento de que, naquela mesma<br />

noite, encontrar-se-ia com a Santíssima<br />

Virgem.<br />

E foi o que aconteceu. Como nos<br />

relata a própria Santa Cataria Labouré,<br />

por volta das onze e meia da<br />

noite, ela ouve alguém lhe chamar.<br />

Corre a cortina de seu leito e vê um<br />

menino de 4 ou 5 anos que lhe diz:<br />

“Vinde à capela, a Santíssima Virgem<br />

vos espera”.<br />

A santa demonstra um pouco de<br />

receio, temendo que as outras religiosas<br />

a surpreendessem fora da<br />

cama, mas o menino a tranqüiliza,<br />

ela se veste e começa a segui-lo pelos<br />

corredores do convento. Detalhe<br />

curioso, registrado pela vidente que<br />

muito se admirou do fato: por todos<br />

os lugares onde passaram as candeias<br />

estavam acesas.<br />

Ela entra na capela e sua surpresa<br />

é ainda maior ao notar todas as velas<br />

acendidas nos candelabros, como<br />

se estivessem preparados para uma<br />

Missa do Galo. O menino a conduz<br />

até o presbitério, ao lado da cadeira<br />

em que se sentava o vigário. Santa<br />

Catarina se ajoelhou, enquanto a<br />

criança permaneceu de pé. Ela, sempre<br />

com o receio de que alguma freira<br />

passasse por ali e os encontrasse,<br />

pedindo-lhe explicações que não saberia<br />

dar...<br />

Afinal, o menino lhe advertiu:<br />

“Eis a Santíssima Virgem”. A vidente<br />

ouviu um frou-frou, um roçagar de<br />

vestido de seda, mas ainda não distinguia<br />

Nossa Senhora. Então o menino<br />

insistiu — já não com voz de<br />

criança, mas em tom vigoroso — que<br />

a Rainha do Céu estava presente.<br />

Nesse momento Santa Catarina viu<br />

a Mãe de Deus sentada na cadeira<br />

do vigário, deu um salto para junto<br />

d’Ela e, genuflexa, apoiou suas mãos<br />

nos joelhos de Maria.<br />

Quer dizer, uma cena fabulosa,<br />

uma aparição cercada de afabilida-<br />

22


de extraordinária. Compreende-se,<br />

pois, que Santa Catarina tenha registrado<br />

esse instante como o mais doce<br />

de sua vida, impossível de ser descrito<br />

em palavras. Recebeu ali diversos<br />

conselhos e orientações de Nossa<br />

Senhora, os quais preferiu manter<br />

em sigilo.<br />

A Medalha Milagrosa<br />

S. Hollmann<br />

Podemos bem conceber como<br />

Santa Catarina se sentiu após esse<br />

encontro com Nossa Senhora, e como<br />

seu coração latejava de um intenso<br />

desejo de revê-La. Alguns meses<br />

depois, ela seria largamente atendida.<br />

O segundo e mais importante encontro<br />

se deu na tarde do sábado 27<br />

de novembro de 1830. Assim o relata<br />

um cronista das diversas aparições<br />

de Maria:<br />

“Na sua capela da Rue du Bac, as<br />

Filhas da Caridade — Irmãs e noviças<br />

— se reúnem para a meditação vespertina.<br />

Recolhimento e religioso silêncio.<br />

De repente, em meio à sua piedosa<br />

contemplação, Catarina Labouré<br />

julga ouvir o roçar de um vestido de<br />

seda... A Santíssima Virgem, ali!<br />

“Qualquer pensamento é impossível<br />

diante da inconcebível beleza de<br />

Maria. Ela usa um vestido de seda al-<br />

A chuva de raios redobra em magnificência:<br />

“Eis o símbolo das graças que Eu derramo<br />

àqueles que mas pedem. As pedras que<br />

permanecem na sombra simbolizam as<br />

graças que se esquecem de me pedir”<br />

(Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré)<br />

Imagem do altar principal da Capela da<br />

Rue du Bac; à esquerda, um dos primeiros<br />

exemplares da Medalha Milagrosa<br />

23


O Santo do mês<br />

víssima como a aurora. Da mesma<br />

cor é o véu que Lhe desce da cabeça<br />

até os pés. Estes repousam sobre volumoso<br />

globo, que parece fixo num ponto<br />

do espaço. As mãos, elevadas à altura<br />

do peito, sustentam graciosamente<br />

um outro globo, menor que o pedestal<br />

e encimado por uma cruz. A Virgem<br />

tem o olhar voltado para o céu.<br />

Seus lábios oram. Ela oferece o globo<br />

ao Mestre, seu Filho.<br />

“De súbito o globo desaparece e as<br />

mãos permanecem estendidas. Os dedos<br />

se cobrem de anéis guarnecidos<br />

de cintilantes pedrarias, que emitem<br />

raios deslumbrantes para todos os lados.<br />

Mil fulgores preciosos se fundem<br />

num só brilho transcendente. Mil irradiações<br />

circundam a santa figura.<br />

“A Virgem pousa os olhos sobre Catarina<br />

em contemplação, abismada<br />

num mundo de sensações, de sentimentos,<br />

de descobertas, de revelações inexprimíveis.<br />

No fundo de seu coração, a<br />

noviça ouve uma voz que lhe diz:<br />

“— Este globo representa o mundo<br />

inteiro, e especialmente a França, e<br />

cada homem em particular.<br />

“A chuva de raios redobra em força,<br />

em magnificência.<br />

“— Eis o símbolo das graças que<br />

Eu derramo sobre aqueles que mas<br />

pedem. As pedras que permanecem<br />

na sombra (dirá ainda, uma outra<br />

vez, a Santíssima Virgem) simbolizam<br />

as graças que se esquecem de me pedir...”<br />

1<br />

Segundo narração de Santa Catarina,<br />

formou‐se em torno de Nossa<br />

Senhora um quadro de forma ovalada,<br />

no alto do qual estavam escritas<br />

em letras de ouro as seguintes palavras:<br />

“Ó Maria concebida sem pecado,<br />

rogai por nós que recorremos a<br />

Vós” 2 . E novamente ela ouviu uma<br />

voz que lhe mandava cunhar uma<br />

medalha conforme aquele modelo.<br />

E a promessa: “Todos os que a usarem,<br />

trazendo-a ao pescoço, receberão<br />

grandes graças, que serão abundantes<br />

para quem a portar com confiança”.<br />

Em seguida, diz a vidente, o quadro<br />

pareceu girar e ela viu o reverso<br />

da medalha: no centro, o monograma<br />

da Santíssima Virgem, composto<br />

pela letra “M” encimada por uma<br />

cruz, a qual tinha uma barra em sua<br />

base. Embaixo, os Corações de Jesus<br />

e de Maria, o primeiro coroado<br />

de espinhos, e o outro, transpassado<br />

por um gládio.<br />

Era o desenho da Medalha Milagrosa,<br />

como esta seria amplamente<br />

conhecida e difundida pelo mundo<br />

inteiro, alcançando graças e favores<br />

celestiais para incontável número<br />

de pessoas, milagres de ordem física,<br />

como a cura de doenças, e também<br />

de ordem espiritual, reformas<br />

de vida e conversões das mais inesperadas.<br />

Desígnios de alta<br />

misericórdia para<br />

o mundo<br />

Por exemplo, célebre se tornou a<br />

conversão de um prelado apóstata,<br />

o arcebispo francês Mons. Duprat.<br />

Ele abandonou a Igreja Católica e<br />

se tornou secretário de finanças de<br />

outro famoso bispo renegado, Talleyrand.<br />

Conta-se que Mons. Duprat, sabendo<br />

chegado aos seus últimos dias,<br />

relutava em se confessar e emendar.<br />

Algum zeloso parente ou conhecido,<br />

preocupado com a salvação eterna<br />

dele, prendeu a Medalha Milagrosa<br />

no travesseiro do arcebispo. Foi o<br />

bastante para que a graça o tocasse.<br />

Dias depois ele pedia que lhe trouxessem<br />

um padre: “Mudei de idéia,<br />

desejo me confessar”. O sacerdote<br />

se apresentou, e o filho pródigo<br />

fez as pazes com Deus, com a Igreja<br />

e com a sua consciência. Não se<br />

passou muito tempo, e morreu readmitido<br />

no seio da Esposa mística de<br />

Cristo.<br />

Casos como esse se multiplicaram<br />

ao longo dos anos e ainda hoje se verificam<br />

pelo mundo afora. Assim como<br />

“Basta considerarmos uma<br />

imagem de Nossa Senhora das<br />

Graças para compreendermos<br />

Imagem de Nossa Senhora das Graças<br />

24


T. Ring<br />

quanto este título exprime o<br />

carinho materno de Maria<br />

em relação a nós...”<br />

diante da qual <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> costumava rezar<br />

tantas outras formas de amparo e benefício<br />

oriundos do uso da Medalha.<br />

Lembro-me, aliás, deste outro<br />

fato. Uma senhora da aristocracia<br />

francesa mantinha no salão nobre de<br />

sua residência, magnificamente decorado,<br />

um quadro com a Medalha<br />

Milagrosa, manchada e amassada no<br />

centro. Os visitantes que ela recebia<br />

em casa, estranhavam aquilo exposto<br />

com tanta evidência num recinto<br />

esplêndido, em meio a objetos de alta<br />

categoria, e perguntavam a razão<br />

disso. A senhora respondia:<br />

“— Guardo esta medalha porque<br />

meu filho era um estróina, e estando<br />

num mau lugar, levou um tiro. A<br />

bala acertou diretamente na medalha,<br />

e em vez de perfurá-la, de modo<br />

inexplicável apenas a danificou, como<br />

para autenticar o fato extraordinário,<br />

e caiu no chão. Diante do prodígio,<br />

meu filho se converteu e hoje<br />

é um católico modelar. Eu desejo,<br />

então, que minhas visitas conheçam<br />

este favor recebido de Nossa Senhora<br />

e saibam agradecer. Por isso esta<br />

medalha está aqui.”<br />

É simplesmente incontável o número<br />

de episódios semelhantes, onde<br />

foram obtidas graças preciosas<br />

através da Medalha Milagrosa. Motivo<br />

pelo qual ela é objeto de tanta devoção,<br />

tendo sido destinada por Maria<br />

Santíssima a ser um maravilhoso<br />

meio de se realizarem desígnios de<br />

sua alta misericórdia para o mundo.<br />

Expressão do carinho<br />

materno de Maria<br />

É interessante frisar, ainda, que<br />

essa particular proteção da Virgem<br />

Santíssima em relação a nós transparece<br />

muito na sua prerrogativa de<br />

Mãe da Divina Graça.<br />

Quantos já não nos sentimos, ao<br />

aproximarmos de uma imagem sob<br />

essa invocação, recebidos por um<br />

sorriso d’Ela, envolvidos por uma espécie<br />

de doçura que nos prometia<br />

compaixão, pena, a convicção de sermos<br />

atendidos e favorecidos por um<br />

ato de inesgotável bondade?<br />

É a certeza de que Nossa Senhora<br />

sempre se acha disposta a nos socorrer<br />

e amparar com sua clemência, seja<br />

em nossas carências materiais e físicas,<br />

seja marcadamente em nossas lacunas<br />

espirituais, ajudando-nos a vencer<br />

nossos defeitos, as tentações e o<br />

pecado. Portanto, Nossa Senhora das<br />

Graças podia se dizer Nossa Senhora<br />

da Misericórdia, que nunca, nunca,<br />

nunca nos deixará desamparados.<br />

E creio jamais ser suficiente insistir<br />

nesta verdade: Mãe da Divina<br />

Graça significa a tesoureira de todas<br />

as graças de Deus. As dádivas celestiais<br />

constituem um tesouro inexaurível,<br />

posto nas mãos de Nossa Senhora<br />

e por Ela difundido àqueles<br />

que recorrem à sua intercessão.<br />

Maria é a dispensadora de todas<br />

as graças e também a Mãe dos que<br />

Lhe suplicam favores. Mãe dos miseráveis,<br />

dos aflitos, daqueles que quase<br />

perderam a esperança, aos quais<br />

Ela reanima, e faz reacender em seus<br />

corações a chama da Fé.<br />

Basta considerarmos uma imagem<br />

de Nossa Senhora das Graças<br />

para compreendermos o quanto esse<br />

título exprime o carinho materno de<br />

Maria em relação a nós. Acolhe-nos<br />

de braços abertos, o sorriso nos lábios,<br />

repassada de um convite amorável<br />

para nos aproximarmos e convivermos<br />

um pouco com Ela. Envolve-nos<br />

com uma afabilidade e uma<br />

promessa de perdão sem limites, insondável.<br />

E nos faz ouvir no fundo<br />

da alma a sua voz carinhosa: “Tendes<br />

a Mim, sou inteiramente sua. E por<br />

causa disso, todos os caminhos para<br />

o Céu lhe são franqueados...” v<br />

1) Cf. Pierre Molaine, L’Itinéraire de la<br />

Vierge Marie.<br />

2) No belo original francês: Oh Marie<br />

conçue sans peché, priez pour nous qui<br />

avons recours a vous.<br />

25


A sociedade, analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

Duas “escolas” de conversa<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> prossegue em suas reflexões sobre a interessante arte<br />

da conversa. Desta feita, salienta ele como as novas gerações se<br />

esqueceram da prática da causerie como meio de apostolado, tendo em<br />

vista as diferentes psicologias dos eventuais interlocutores. Trata-se,<br />

pois, de resgatá-la, por amor ao próximo.<br />

Como dissemos em exposição anterior, a conversa<br />

se verifica tanto mais autêntica quanto mais nela<br />

transparece as características individuais dos interlocutores,<br />

o intercâmbio de personalidades, antes de<br />

ser uma simples troca de informações e comentários.<br />

Trata-se de uma alma vibrando em contato com outra.<br />

Por exemplo, no momento em que converso com meus<br />

ouvintes, percebo neles o interesse em me conhecer mais<br />

profundamente, e o modo como meu espírito se mostra<br />

ao longo dessa exposição. Por sua vez, notam de minha<br />

parte análogo interesse, o desejo de conhecê-los, de nos<br />

aproximarmos pela comunicação de olhares, de expressões<br />

fisionômicas, etc.<br />

Uma forma de oração<br />

Quer dizer, ou cada um presta atenção no mesmo tema,<br />

por amor ao assunto tratado, e na alma do outro, pelo<br />

amor que deve nutrir por todas as almas, ou não se faz<br />

uma verdadeira causerie. Observando essa atitude cumpriremos<br />

na conversa a síntese de todos os Mandamentos:<br />

amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como<br />

a si mesmo, por amor a Deus.<br />

Com efeito, interessar-se por um tema enquanto tal, é<br />

amar a Deus, autor de tudo quanto existe e, portanto, dos<br />

elementos que proporcionam uma interlocução. De outro<br />

lado, demonstramos nosso amor ao próximo ao nos preocuparmos<br />

com sua alma, ao considerarmos suas qualidades<br />

e aquilo por onde ela é um reflexo da perfeição divina.<br />

Quando procuro discernir a alma do meu ouvinte, no<br />

fundo procuro ver algo de Deus. Assim, poder-se-ia dizer<br />

que, fitando-nos uns aos outros, estamos fazendo oração.<br />

Se houver esse estado de espírito, insisto, teremos uma<br />

genuína conversa. Do contrário, não.<br />

Decadência da arte da conversa<br />

A esse propósito é oportuno ponderar que, embora a<br />

Idade Média tenha sido uma época marcada por luminosos<br />

exemplos de caridade fraterna e de intenso amor a<br />

Deus, não se percebe nela a manifestação da arte da conversa.<br />

Os medievais não sabiam conversar bem, mas acumularam<br />

os tesouros que dariam origem a essa excelência<br />

do convívio humano, surgida depois deles, como certos<br />

botões de rosa que desabrocham após terem sido cortados<br />

da roseira e postos num jarro. O vaso foi a Europa,<br />

a rosa, o amor de Deus herdado da virtude medieval, em<br />

estado de tradição.<br />

Porém, com o avanço da Revolução, esse amor ao<br />

Criador foi se tornando cada vez menos presente na sociedade,<br />

e o egoísmo humano, mais atuante. Por esse motivo,<br />

a conversa foi decaindo aos poucos, até se encontrar<br />

no estado moribundo em que a notamos hoje, reduzida a<br />

raros ambientes nos quais ainda é cultivada, à espera de<br />

que a exacerbação egoísta a suprima de vez.<br />

A “escola dos assuntos práticos”<br />

Lembro-me de em certa ocasião, estando em Roma,<br />

ter me encontrado com outro brasileiro e, por razões de<br />

cortesia, convidei-o para um almoço. O restaurante escolhido<br />

situava-se num local muito aprazível e pitoresco,<br />

chamado gallopatoio, pois era utilizado para fazer galopar<br />

os cavalos.<br />

26


“Quando procuro<br />

discernir a alma do<br />

meu ouvinte, desejo<br />

ver algo de Deus;<br />

fitando-nos uns aos<br />

outros, estamos<br />

fazendo oração...”<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

durante uma<br />

conversa no<br />

“Salão Azul”<br />

de sua casa<br />

27


A sociedade, analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

Estando à mesa, tomei a iniciativa de levantar um tema,<br />

outro, outro, mas os assuntos morriam. Pensei: “Que almoço<br />

fracassado! Não consigo interessar meu conviva.”<br />

Em determinado momento, ele me pergunta:<br />

— <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, o senhor não gostaria de entrar logo na<br />

matéria a ser tratada nessa refeição?<br />

Caí de algumas nuvens, mas, habituado a semelhantes<br />

situações, “desci de pára-quedas”, já percebendo que dali<br />

sairia a “mãe da natureza”, ou seja, algo sesquipedal. E<br />

lhe indaguei:<br />

— Qual é o tema do almoço?<br />

— Não, eu suponho que o senhor me trouxe aqui para<br />

tratarmos de um assunto específico.<br />

Sem deixar de ser amável, respondi:<br />

— Não há nada de concreto a tratar.<br />

Convidei-o para esse almoço a fim de saborearmos<br />

juntos uma boa comida...<br />

Pela surpresa estampada na fisionomia<br />

de meu interlocutor não era<br />

difícil compreender o que ia no fundo<br />

de seu espírito. Ele, como a maioria<br />

dos homens modernos, fora formado<br />

na idéia de que, quando se convida alguém<br />

para almoçar ou jantar, tem-se<br />

em vista tratar de um negócio, de um<br />

interesse prático. Dessa sorte, de<br />

início ao fim da refeição não se fala<br />

de outra coisa, e o êxito do encontro<br />

será completo se<br />

ao término dele tal<br />

28


S. Hollmann<br />

“A decadência da arte da conversa<br />

deve nos incentivar a resgatá-la e a<br />

cultivá-la, a exemplo do que ocorria<br />

na Europa cristã, herdeira das<br />

virtudes medievais”<br />

Acima, pintura do século XVII (Museu do Prado,<br />

Madrid); à esquerda, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1993<br />

contrato estiver assinado, tal compra acertada, tal campanha<br />

eleitoral programada, etc., etc.<br />

Ora, as gerações antigas, como a minha, educaram-se<br />

em outra escola. No almoço ou jantar não se cuida de nada<br />

que tenha ares de negócio ou política. O espírito flana<br />

como uma borboleta pelo ar. Quando se quer falar sobre<br />

transações comerciais, vai-se a uma sala própria chamada<br />

escritório, cujo mobiliário é adequado para isso. Se<br />

o assunto é cultura, há o living ou a sala de visita. Por essa<br />

razão as residências têm vários cômodos.<br />

Infelizmente, hoje já não se procura essas distinções,<br />

e grande parte dos jovens cresce sob a influência da primeira<br />

“escola” e da televisão: todos ficam olhando para a<br />

tela do aparelho sem fazer comentários...<br />

Resgatemos a arte da conversa<br />

Essa decadência da arte da conversa não faz senão nos<br />

incentivar a cultivá-la, a resgatá-la, revivê-la, torná-la o<br />

quanto possível atual. Nesse sentido, poderíamos ainda<br />

apontar outros de seus importantes aspectos.<br />

Um deles é o fato de que o espírito católico nos leva<br />

a considerar com desvelo o tema de uma conversa, e a<br />

conhecer não apenas a alma de nosso interlocutor, mas<br />

também as características da sua região, do seu país, da<br />

cidade onde nasceu e da família de onde ele procede.<br />

Por exemplo, ao tratarmos com um cearense, devemos<br />

perceber e admirar suas peculiaridades, os lados pelos<br />

quais é diferente dos habitantes de outras regiões e<br />

mesmo dos outros povos nordestinos. Enquanto o pernambucano<br />

é raras vezes otimista — meu pai o era imensamente...<br />

— o cearense alimenta um otimismo curioso.<br />

Este não espera um fácil desenrolar das coisas, e até se<br />

mostra desapontado com tal idéia. Porém, sempre acha<br />

que no fim das contas tudo dará certo. E assim enfrenta<br />

o quotidiano e conduz sua vida com aquela alegria proverbial.<br />

Ora, na arte da conversa autêntica, praticada segundo<br />

o espírito cristão do amor ao próximo, devemos aplicar<br />

esses conhecimentos, seguir essas balizas, e assim tornála<br />

interessante e agradável.<br />

v<br />

29


Luzes da Civilização Cristã<br />

Luzes e ecos...<br />

30


Fotos: S. Hollmann<br />

Abadia de Saint-Denis, Paris<br />

Certas palavras, por vezes insuficientes,<br />

adquirem superior<br />

significado quando lhes acrescentamos<br />

alguns prefixos, quando as<br />

transformamos em neologismos. É o<br />

caso, por exemplo, do que poderíamos<br />

chamar de “transesfera”. Ou seja,<br />

algo que vai além da esfera comum,<br />

terrena, palpável, voltada para<br />

o inefável, indizível, intraduzível pelos<br />

vocábulos conhecidos.<br />

Vem-me ao espírito esse recurso<br />

lingüístico, quando admiro alguns<br />

interiores de grandiosas igrejas, de<br />

algum imponente edifício, e procuro<br />

“ouvir” os ecos dos sons que ali um<br />

dia reboaram. Pois, no meu modesto<br />

entender, determinados ecos são as<br />

“transesferas” de qualquer som. Nos<br />

recintos sagrados, o prolongamento<br />

das sonoridades do órgão, do cântico<br />

litúrgico, são esse cântico e esse órgão<br />

multiplicados por eles mesmos.<br />

31


Luzes da Civilização Cristã<br />

Basílica de São Dionísio, Reims (França)<br />

Lugares há nos quais o homem<br />

pisa e o ressoar dos seus passos é a<br />

glória do que ele realizou; nos quais<br />

sua voz se desdobra, esvoaça, se distancia,<br />

assumindo ares de fantasia...<br />

Na verdade, toda voz foi feita para<br />

ecoar: sem o eco, dir-se-ia não ter vivido<br />

inteiramente.<br />

Nos majestosos conjuntos de altas<br />

abóbadas e colunatas góticas, imagino<br />

ecos augustos de liturgias estupendas.<br />

Imagino luzes magníficas,<br />

cujo genuíno valor se prende ao fato<br />

de virem acompanhadas de alguma<br />

penumbra. A sombra sugestiva é<br />

o eco adequado da luz.<br />

32


Lugares há nos<br />

quais o homem pisa<br />

e o ressoar dos seus<br />

passos é a glória<br />

do que ele realizou,<br />

nos quais sua voz se<br />

desdobra, tomando<br />

ares de fantasia...<br />

Catedral de<br />

Sevilha, Espanha<br />

33


Luzes da Civilização Cristã<br />

Colegiata de Roncesvalles, Espanha<br />

Pensando nesses lugares onde se<br />

nos apresentam esses ecos, essas luzes,<br />

essas penumbras, penso em algo<br />

ideal que é a síntese de todas as catedrais<br />

e de todos os castelos que me<br />

foi dado considerar. Portanto, permanece<br />

no fundo do espírito, uma<br />

imagem ideal — talvez não realizável<br />

neste mundo — a qual excede as<br />

maiores produções artísticas ou intelectuais<br />

do homem.<br />

Tenho para mim, então, não ser<br />

necessário grande inteligência nem<br />

eminentes qualidades naturais para<br />

nos distinguirmos no concerto da<br />

humanidade. Basta conservarmos<br />

em nosso espírito um recanto culminante<br />

qualquer, onde essa imagem<br />

ideal esteja presente, produza sentimentos<br />

e disposições que não sabemos<br />

sequer exprimir, e que são o segredo<br />

de nossa alma, o que ela possui<br />

de tão alto, de tão magnífico.<br />

Isso se aplica a todos, ao menor<br />

dos homens, se corresponder aos toques<br />

da graça no seu coração. Elevase<br />

até o mais alto, e essa elevação, por<br />

sua vez, produz em sua alma reflexos<br />

que o tornam a multiplicação e o eco<br />

terreno dessas maravilhas inefáveis.<br />

Este é o tesouro de cada um de nós,<br />

encerrado em nossos imponderáveis,<br />

em nosso “trans-pensamento”. Não<br />

encontraremos palavras para revelá-lo<br />

a ninguém. É o nosso eco, nossa<br />

própria luz no seu maior fulgor, que<br />

apenas contaremos a Deus, a Nossa<br />

Senhora e aos santos, quando os encontrarmos<br />

na eternidade... v<br />

34


“Permanece no fundo<br />

do espírito uma imagem<br />

ideal, que excede as<br />

maiores produções<br />

artísticas ou intelectuais<br />

do homem...”<br />

Igreja de Saint-Ouen,<br />

Rouen - França<br />

35


“Não vos abandonarei”<br />

Eu mesma estarei convosco.<br />

Tenho sempre velado<br />

por vós e vos concederei<br />

muitas graças. Momento virá<br />

em que pensarão estar tudo<br />

perdido. Tende confiança,<br />

Eu não vos abandonarei.<br />

Conhecereis minha visita e<br />

a proteção de Deus.<br />

(Palavras de Nossa Senhora a Santa<br />

Catarina Labouré)<br />

Imagens na fachada<br />

do Convento da<br />

Rue du Bac, Paris<br />

S. Hollmann

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