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Revista Dr Plinio 45

Dezembro de 2001

Dezembro de 2001

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Com <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>,<br />

aos pés do<br />

Menino Jesus


Era uma alma eminentemente<br />

virgem, chegada de modo<br />

extremo a Nosso Senhor,<br />

devotíssima do seu Coração Sagrado.<br />

São João Evangelista,<br />

mais que Apóstolo, foi verdadeiro<br />

amigo do Homem-<br />

Deus. Por isso, Nosso Senhor,<br />

antes de expirar no madeiro,<br />

deixou ao seu discípulo predileto<br />

um tesouro inapreciável:<br />

Maria Santíssima.<br />

Receber Nossa Senhora, é receber<br />

tudo o que Deus — depois<br />

de dar-se a Si mesmo — pode<br />

conceder ao homem. Maria,<br />

Virgem, foi dada pelo virginal<br />

Filho ao virginal amigo que era<br />

São João. Nessa entrega vemos<br />

uma manifestação extraordinária<br />

do amor de Deus às almas<br />

virgens. E vemos, também, um<br />

dos rutilantes traços da grandeza<br />

do Apóstolo Evangelista.<br />

São João<br />

Evangelista<br />

(Blaubeuren,<br />

Alemanha)


Sumário<br />

Na capa, presépio<br />

siciliano esculpido<br />

em pedra coral,<br />

conservado no<br />

Museu San Martino,<br />

de Nápoles<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />

propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />

Diretor:<br />

Antonio Augusto Lisbôa Miranda<br />

Jornalista Responsável:<br />

Othon Carlos Werner – DRT/SP 7650<br />

Conselho Consultivo:<br />

Antonio Rodrigues Ferreira<br />

Marcos Ribeiro Dantas<br />

Edwaldo Marques<br />

Carlos Augusto G. Picanço<br />

Jorge Eduardo G. Koury<br />

Redação e Administração:<br />

Rua Santo Egídio, 418<br />

02461-011 S. Paulo - SP - Tel: (11) 6236-1027<br />

Fotolitos: Diarte – Tel: (11) 5571-9793<br />

Impressão e acabamento:<br />

Pavagraf Editora Gráfica Ltda.<br />

Rua Barão do Serro Largo, 296<br />

03335-000 S. Paulo - SP - Tel: (11) 291-2579<br />

4<br />

5<br />

6<br />

11<br />

15<br />

18<br />

22<br />

EDITORIAL<br />

“Paz na terra aos homens de boa vontade”<br />

DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO<br />

Um pedido a Nossa Senhora<br />

DR. PLINIO COMENTA...<br />

O Sacerdote perfeito<br />

DENÚNCIA PROFÉTICA<br />

A tríplice lição do Natal<br />

ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA<br />

Prece junto ao presépio<br />

GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO<br />

Um menino em busca do absoluto<br />

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

“A chave de prata”<br />

Preços da assinatura anual<br />

Dezembro de 2001<br />

Comum . . . . . . . . . . . . . . R$ 60,00<br />

Colaborador . . . . . . . . . . R$ 90,00<br />

Propulsor . . . . . . . . . . . . . R$ 180,00<br />

Grande Propulsor . . . . . . R$ 300,00<br />

Exemplar avulso . . . . . . . R$ 6,00<br />

Serviço de Atendimento<br />

ao Assinante<br />

Tel./Fax: (11) 6236-1027<br />

27<br />

31<br />

36<br />

DONA LUCILIA<br />

Singular discernimento das almas<br />

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

Noite santa, noite silenciosa...<br />

ÚLTIMA PÁGINA<br />

Virgem e Mãe<br />

3


Editorial<br />

“Paz na terra aos homens<br />

de boa vontade”<br />

Conta-se que, durante a Primeira Grande Guerra,<br />

numa noite de Natal, o ensurdecedor estrondo<br />

das armas de repente se calou. Ao longo<br />

das extensas trincheiras que opunham frente a frente<br />

as tropas inimigas, estabeleceu-se um impressionante<br />

silêncio. Em certo momento ergueram-se algumas<br />

vozes tímidas e tateantes, que aos poucos foram sendo<br />

incorporadas por centenas, milhares, centenas de milhares<br />

de outras, cantando em vários idiomas, procurando<br />

encaixá-los no ritmo e na melodia, de modo a não<br />

quebrar a harmonia: “Noite feliz, noite feliz! ó Senhor<br />

Deus de Amor! Pobrezinho nasceu em Belém; eis na<br />

lapa Jesus, nosso bem! Dorme em paz, ó Jesus!”<br />

E essa paz reinou algumas horas sobre aquele quadro<br />

tétrico de aço, suor e sangue, suavizando as almas<br />

enrijecidas nos duros combates, superando as inimizades<br />

e ódios surgidos dos interesses humanos.<br />

Esta é a força das graças que aquele Menino veio<br />

trazer ao mundo quando, dois milênios antes, nascera<br />

numa gruta em Belém.<br />

*<br />

Ao se aproximar o primeiro Natal do terceiro milênio,<br />

verificamos a realização das previsões sombrias<br />

feitas por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> ao longo de sua vida: agravou-se<br />

a crise na qual a civilização de há muito vem mergulhando.<br />

Não há onde o olhar pouse e não encontre<br />

uma ruína, um abalo, um iminente desastre. O senso<br />

do bem e do mal está amortecido, quando não completamente<br />

obnubilado em grande parte das almas. O<br />

senso do pudor foi exilado. O crime não mais conhece<br />

limites, e o terrorismo ousou abater, na cidade-símbolo<br />

de hoje, o monumento do poder e da riqueza.<br />

No entanto, o mesmo <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> que advertia o mundo<br />

para a difícil situação da qual se aproximava, incutianos<br />

a esperança de uma grande recuperação. E o Natal<br />

era uma ocasião das mais propícias para destacar as graças<br />

que, do mais alto do Céu, continuavam a se derramar<br />

misericordiosamente sobre os corações, como que<br />

obrigando os homens a serem melhores.<br />

“Numa noite estrelada, naquela cidade de Judá”,<br />

escreveu <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, “todos viram os céus rasgados e<br />

os Anjos que entoavam: ‘Glória a Deus no mais alto<br />

dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade’<br />

(Lc 2,14). Esta era a promessa feita aos homens na<br />

noite de Natal! Devemos esperar que tal promessa se<br />

aplique, de modo especial, aos pobres homens de<br />

nosso século”.<br />

Com o olhar de perdão para nossas infidelidades e<br />

pecados, vem Jesus oferecer-nos a sua paz. Para nós<br />

se voltam “a misericórdia do Menino recém-nascido,<br />

as preces que em nosso favor partem de Nossa Senhora,<br />

Medianeira de todas as graças, e de São José, patrono<br />

da Santa Igreja Católica Apostólica Romana”.<br />

No fundo de cada matéria sobre o Natal, estampada<br />

na presente edição, sigamos o conselho de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>:<br />

aproximemo-nos do presépio, com o coração contrito e<br />

humilhado, mas transbordante de confiança, e imploremos<br />

ao Menino Jesus, por meio da Santíssima Virgem,<br />

que, desde já e para sempre, faça sua paz reinar dentro<br />

de nós, e em torno de nós. Amém.<br />

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625<br />

e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras<br />

ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista.Em nossa intenção, os títulos elogiosos não<br />

têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />

4


DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO<br />

Um pedido a Nossa Senhora<br />

Faz vinte anos. Era dezembro de 1981. O dia<br />

é incerto. O que ocorreu então merece<br />

constar nesta seção, não por marcar uma<br />

data especial, mas por sua exemplaridade. Uma<br />

cena de rua, que normalmente passaria despercebida,<br />

chamou a atenção de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>. Como<br />

ele praticamente vivia em espírito de oração<br />

e recolhimento, onde quer que pousasse o<br />

olhar encontrava um motivo de voltar-se<br />

para Deus e para a Santíssima Virgem, e<br />

para que de seu coração brotasse uma<br />

prece.<br />

Num círculo restrito de amigos, ele narrou<br />

o acontecido com as seguintes palavras:<br />

Outro dia, era domingo à tarde, quando<br />

eu ia de automóvel pela Rua Sergipe,<br />

rumando para a Rua Mato Grosso, vi um<br />

carrinho desses de tração animal.<br />

Não sei distinguir cavalo de burro... Acho<br />

que aquele era um ente híbrido. A pobre carrocinha<br />

me deu pena: sujinha, um pouco desconjuntada,<br />

muito usada. Se madeira cansasse,<br />

o carrinho estaria exausto. É para usos completamente<br />

anacrônicos. Não sei como ainda há um uso<br />

prático para ele, nesta época de enormes caminhões.<br />

No varal, ia trotando o quadrúpede. Comoveume<br />

vê-lo, porque era um bicho cansado até o último<br />

ponto! E também sujinho, mal alimentado, feinho!<br />

Animal não raciocina, mas aquele como que sabia<br />

que seu dever era puxar a carrocinha. E restava-lhe<br />

um pouco de “vivacidadezinha” com que ia<br />

trotando, com umas gotas de uma pobre alegriazinha:<br />

pan-pan, pan-pan... Com tanta resignação,<br />

com tanta animação, com tanta decisão de ir trotando<br />

alegre até o momento em que caísse morto, que<br />

era uma imagem da perfeita conformidade com a<br />

vontade de Deus.<br />

Fiquei comovido até no fundo de minha<br />

alma. E pedi a Nossa Senhora que eu fosse<br />

como aquele animal, que levasse a minha<br />

carroça até o fim, nesse trotar...<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> na década<br />

de 1980; abaixo, uma<br />

“carrocinha” na São<br />

Paulo de outrora


DR. PLINIO COMENTA...<br />

O Sacerdote perfeito<br />

“A ceia de Emaús”<br />

(Escola espanhola<br />

do séc. XVIII)


Do amor indescritível pela Igreja Católica, derivava naturalmente, na alma<br />

de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, um entusiasmo respeitoso e admirativo pela mais alta<br />

das missões que um homem possa ter neste mundo: ser ministro<br />

dessa Igreja, representante de Deus na terra. Numa conferência pronunciada em<br />

maio de 1973, ele analisa sob diversos prismas a excelsitude dessa vocação,<br />

para chegar ao arquétipo do sacerdote: Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />

Após os cânticos de amor e de<br />

entusiasmo que acabo de<br />

ouvir nesta sessão jubilar,<br />

toca-me a mim fazer uma conferência,<br />

cabe-me apenas falar. Dura tarefa, malcompensada<br />

pelo que tem de realmente<br />

formoso o assunto, uma vez que devo<br />

entreter os vossos espíritos — durante<br />

um tempo que terá o mérito de<br />

ser breve — a respeito de um tema que,<br />

a ser bem analisado, contém em si todas<br />

as belezas da terra. Eu devo falar a<br />

respeito da plenitude do sacerdócio.<br />

Adão no Paraíso, príncipe<br />

do mais belo dos reinos<br />

E esta consideração me leva à<br />

noite dos tempos, a uma digressão<br />

histórica que pega o homem<br />

no período, talvez, mais<br />

crucial e mais duro de sua<br />

história. Nós imaginamos hoje<br />

que estamos aos bordos,<br />

talvez, de uma catástrofe<br />

sem precedente. Não nos<br />

lembramos de que uma catástrofe<br />

houve maior do que<br />

todas as catástrofes, uma catástrofe<br />

houve que marcou<br />

logo, desde o início, a história<br />

do gênero humano. Aquela<br />

catástrofe narrada pelo Gênesis,<br />

da desobediência do homem<br />

que, tentado pela mulher,<br />

tentada pela serpente, duvidou de<br />

Deus, revoltou-se contra Ele, não<br />

quis seguir os destinos que Deus lhe<br />

assinalara e por isso foi expulso do<br />

paraíso.<br />

Príncipe do mais belo e mais encantador<br />

dos reinos, colocado como<br />

senhor de toda a natureza visível cujos<br />

segredos ele conhecia perfeitamen-<br />

Adão e Eva que se sabiam, então,<br />

destinados à morte, antes de morrerem<br />

passaram por esta tragédia terrível<br />

de ver o filho da bênção, o filho da<br />

predileção, Abel, o doce Abel, o<br />

justo, o magnífico, prostrado no<br />

chão, morto! Eles nunca tinham<br />

visto um morto! Não tinham<br />

a idéia plena, talvez, do<br />

que fosse a morte, porque<br />

aquilo que não se vê, não se<br />

conhece inteiramente. E<br />

morto por quem? Morto por<br />

um outro filho. O fratricídio<br />

ignóbil derramando no<br />

solo o sangue do justo que,<br />

segundo diz a Bíblia, subia<br />

até o céu bradando a Deus<br />

por vingança.<br />

E nós podemos imaginar o<br />

trágico do primeiro funeral na<br />

terra: Eva soluçando, Adão batendo<br />

no peito, Caim desvairado<br />

sumindo ao longo dos caminhos, os<br />

outros filhos abrindo em qualquer lugar<br />

a esmo, na terra, uma cova. Fechase<br />

a sepultura, encerra-se a história de<br />

Abel...<br />

Faz-se o vazio na terra imensa, e a<br />

humanidade começa a sua enorme peregrinação,<br />

com este sentimento dute<br />

e sobre a qual exercia um misterioso<br />

império; confortado pelos dons<br />

preternaturais que lhe asseguravam,<br />

entre outros (benefícios), a imortalidade,<br />

Adão pecou, Eva pecou, saíram do<br />

paraíso, deixaram aquela terra de bênção<br />

e de eleição onde, segundo diz o<br />

Gênesis, Deus passeava com Adão, comentando<br />

todas as belezas que Ele havia<br />

criado.<br />

Saíram daquela terra de eleição e<br />

entraram para a terra do exílio. Os dons<br />

preternaturais deles se retiraram. A na-<br />

Depois de pecar, Adão perdeu<br />

seu principado no mais belo e<br />

encantador dos reinos, o Paraíso<br />

(imagem da Catedral de<br />

Notre-Dame de Paris)<br />

tureza humana, desamparada diante<br />

de um ambiente sobre o qual não tinha<br />

mais governo, que não mais dominava,<br />

sentiu-se apoucada, diminuída, ameaçada<br />

pela justa cólera de um Deus que<br />

tinha sido ofendido. E com o homem,<br />

na terra do exílio penetraram a apreensão,<br />

a dor, o sofrimento, a incerteza,<br />

seguida, não tanto tempo depois, da<br />

imagem terrífica da morte.<br />

O fratricídio de Caim<br />

7


DR. PLINIO COMENTA...<br />

plo: de um lado, o da própria finitude,<br />

o homem vai morrer, morrerá como<br />

morreu Abel, será um cadáver<br />

como foi Abel, a terra o devorará como<br />

está sendo devorado o cadáver de<br />

Abel; de outro, o sentimento de precariedade,<br />

de incerteza, a natureza<br />

revoltada, os animais que agridem,<br />

as trovoadas que caem, o alimento difícil<br />

de extrair do chão. Tudo somado,<br />

dá ao homem uma dificuldade de<br />

se orientar na vida, que marca a fundo<br />

a existência da humanidade dos<br />

filhos de Adão ao longo dessa trajetória<br />

que nos conduziu de tragédia em<br />

esplendor, de esplendor em tragédia,<br />

de esperança em frustração, de frustração<br />

em vitória que se arrebenta<br />

em novas frustrações; conduziu-nos<br />

até este século XX, ápice, ele mesmo<br />

— pelo menos a seu modo — de esplendores,<br />

de frustrações e de tragédias.<br />

Diante da infinitude e do<br />

mistério, a noção de<br />

sacerdócio<br />

Essa posição de finitude e de incerteza<br />

do homem diante da sua vida terrena<br />

acendeu duas concepções distintas<br />

de sacerdócio. Concepções estas<br />

que nós encontramos em duas famílias<br />

diversas de religiões pagãs.<br />

Em primeiro lugar, as religiões ditas<br />

religiões sem mistérios, que correspondem,<br />

quiçá, a uma família de almas<br />

do gênero humano: as almas mais<br />

voltadas para esta terra, que não negam<br />

diretamente a existência de uma<br />

outra vida, e nem dela se desinteressam,<br />

mas que de tal maneira se deixam<br />

impressionar pelo dia de amanhã,<br />

que o centro de suas preocupações se<br />

volta para os afazeres terrenos.<br />

Alto-relevo babilônico que representa um oferente e a vítima<br />

sacrifical,a ser imolada para aplacar a cólera dos deuses<br />

Então os senhores têm, talvez correspondendo<br />

a essa família de almas,<br />

o aparecimento das religiões ditas sem<br />

mistérios. Religiões em que o sacerdote<br />

aparece como um mediador entre<br />

os deuses e o homem — é esta, sempre,<br />

a nota característica da noção de<br />

sacerdote: é um intermediário entre<br />

Deus e os homens —, mas de um mediador<br />

que, embora com os olhos voltados<br />

para o céu, tem missões caracteristicamente<br />

terrenas.<br />

Quais são as missões do sacerdote<br />

nas religiões pagãs sem mistérios?<br />

O sacerdote é revestido de poderes<br />

mágicos por onde faz crer que ele tem<br />

o poder de curar, de matar; tem o poder<br />

de, por meio de encantamentos e<br />

de sortilégios, governar os trovões,<br />

aplacar as feras, etc.<br />

O sacerdote resolve, portanto, problemas<br />

humanos: ele executa curas,<br />

ele pratica mortes, sendo instrumento<br />

de vingança, ele governa os elementos.<br />

Vemos aí uma vaga saudade que o<br />

gênero humano tem, nesta decadência,<br />

daquele domínio que ele exercia<br />

sobre a natureza, quando Adão ainda<br />

não havia caído. A nossa natureza pede<br />

esse domínio. E os sacerdotes do<br />

paganismo, da gentilidade, para satisfazer<br />

a esta necessidade de domínio,<br />

assim se apresentavam aos homens.<br />

E daí o tipo de sacerdotes exorcistas<br />

que enxotam os espíritos malignos<br />

capazes de atrapalhar o homem na sua<br />

faina diária, de arruinar as colheitas,<br />

de espalhar doenças, de fazer fugir o<br />

gado, etc.<br />

É também o sacerdote sacrificador,<br />

o sacerdote que imola, o sacerdote que<br />

diante da vista do homem pecador<br />

toma uma vítima — um animal, uma<br />

fruta, que sei eu? infelizmente, muitas<br />

vezes uma vítima humana — e a<br />

imola para assim aplacar a cólera de<br />

um deus que o homem sente irado,<br />

brigado com ele, do qual ele tem medo,<br />

e por isso deseja de algum modo<br />

tornar-lhe propício.<br />

Aqui aparece, então, a figura do sacerdote<br />

antigo, segundo o tipo dessa<br />

mentalidade mais voltada para os bens<br />

terrenos.<br />

8


Numa humilde casa em Nazaré, realizou-se a esperança alimentada por diversas religiões antigas:<br />

fez-se a paz entre o Céu e a terra (“Anunciação”, por Hubert e Jan van Eyck)<br />

O sacerdócio comunicador<br />

da vida divina<br />

Mas há uma outra família de almas,<br />

talvez mais rara, certamente mais<br />

elevada. É a dos homens que vivem<br />

compreendendo que, por mais importantes<br />

que sejam os problemas terrenos,<br />

eles não passam de logística; por<br />

mais importantes que eles sejam, não é<br />

para resolvê-los que o homem está na<br />

terra. São os homens que compreendem<br />

não ser a fome o problema central<br />

da vida; são os homens que sabem<br />

pensar, que param para refletir, e que,<br />

abrindo um intervalo nas justas atividades<br />

da faina diária, de vez em quando<br />

se perguntam:<br />

— Que sentido tem isto? Que sentido<br />

tem esta vida? Por que nasci?<br />

Para onde vou? Depois que eu morrer,<br />

o que será feito de mim? Não sei!<br />

Preciso indagar.<br />

Essas questões supereminentes dominam<br />

a vida humana a qual, sem elas,<br />

é inexpressiva.<br />

Para atender às perguntas desse<br />

gênero de espírito, a própria gentilidade,<br />

embora nos seus desvarios e nos<br />

seus erros, levada por um misto de<br />

bom senso e de tradição que ela nunca<br />

chegou a perder completamente,<br />

elabora o tipo de sacerdote de religiões<br />

de mistérios. São religiões que<br />

praticam — em geral às ocultas e em<br />

geral para um número relativamente<br />

pequeno de crentes — ritos que devem<br />

operar este efeito extraordinário:<br />

algo da vida da divindade passa para<br />

o sacerdote, e algo do sacerdote deflui<br />

para o público, de maneira que uma<br />

certa vida divina circula entre os que<br />

praticam e os que presenciam o rito.<br />

Vida divina esta que lhes dá mais força<br />

nas agruras desta existência, lhes dá<br />

mais luz à mente, lhes dá mais energia<br />

à vontade. Vida divina esta que se manifesta<br />

também pela magnífica promessa<br />

de que ela não terá fim. Ela veio do<br />

além, ela se insere no homem, ela —<br />

criam eles — não cessa com a morte<br />

do homem.<br />

A promessa de uma outra vida, existente<br />

de modo menos categórico também<br />

nas outras religiões, afirma-se mais<br />

definidamente nessas religiões de mistérios.<br />

E as almas sequiosas de uma natureza<br />

melhor que esta, sequiosas de<br />

uma explicação mais alta para seus problemas,<br />

de uma orientação para a vida<br />

mais profunda do que simplesmente<br />

a preocupação de obter o ganho<br />

necessário para não morrer de fome,<br />

ou para satisfazer ambições e vaidades,<br />

esse tipo de almas se encaixa nessa<br />

série de religiões.<br />

E assim, vagamente, confusamente,<br />

no meio de ritos idolátricos, por<br />

vezes abomináveis, e até satânicos, po-<br />

9


DR. PLINIO COMENTA...<br />

demos discernir o filão de uma tradição<br />

preciosa, o filão do bom senso humano,<br />

como também o filão de uma<br />

esperança.<br />

Numa noite em Nazaré, fazse<br />

a paz entre o Céu e a<br />

terra<br />

Com efeito, todas, ou pelo menos<br />

muitas dessas religiões, eram animadas<br />

pela esperança de que um dia a<br />

paz se faria entre o Céu e a terra, um<br />

momento chegaria em que os tempos<br />

teriam a sua plenitude, e um eleito de<br />

Deus, perfeito, amado, haveria de vir<br />

ao mundo para restaurar a ordem que<br />

o pecado de nossos primeiros pais —<br />

lembrado em tantas religiões antigas<br />

— nos tinha tirado.<br />

Em determinado momento, numa<br />

meia-noite, no silêncio absoluto de uma<br />

cidade hebraica, uma Virgem tênue,<br />

delicada, cândida, trazendo nos olhos<br />

uma infinitude (de reflexos celestiais),<br />

rezava. Os tempos tinham maturado,<br />

o grau de sofrimento e de degradação<br />

da humanidade tinha chegado a um<br />

ponto tal, que a misericórdia de Deus<br />

criara esta Virgem para que Ela, imaculada,<br />

conseguisse o que nenhum homem<br />

pecador conseguiria: pedir e alcançar<br />

a vinda do Messias. E Ela pedia<br />

precisamente que viesse o Salvador<br />

e que regenerasse todos os povos.<br />

O Messias previsto pela raça judaica,<br />

que deveria nascer de alguém da estirpe<br />

de David, da estirpe de que Ela<br />

mesmo nascera, e a que pertencia o<br />

seu casto esposo José. Ela rezava na<br />

calada da noite, pedindo que esse<br />

Messias viesse, e pedia — segundo<br />

piedosas tradições — que<br />

fosse Ela a escrava, a servidora<br />

da mulher bem-aventurada<br />

de que esse Messias<br />

haveria de nascer.<br />

De súbito, se produz<br />

pelos ares um movimento<br />

misterioso; algo como<br />

um bater de asas, como<br />

uma movimentação, como<br />

uma vibração diáfana, como uma<br />

cintilação da lua marca o ambiente. Ela<br />

olha e ouve as palavras tão conhecidas:<br />

“Ave, cheia de graça”...<br />

Nasce o Sacerdote perfeito:<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo<br />

Apenas nós sabemos que depois de<br />

Ela ter dito: “Faça-se em mim segundo<br />

a palavra do Senhor, sou a servidora<br />

d’Ele”, o Verbo se encarnou e habitou<br />

entre nós. E veio à terra Aquele<br />

que, por excelência, no sentido mais<br />

pleno da palavra, no sentido arquetípico<br />

da palavra, seria o sacerdote: Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo.<br />

Sacerdote no sentido pleno da palavra,<br />

porque se é verdade que é inerente<br />

ao sacerdócio ser um vínculo, ser uma<br />

ligação entre os homens e Deus, ninguém<br />

o poderia ser de modo mais perfeito,<br />

mais magnífico, do que Aquele<br />

que era ao mesmo tempo homem e<br />

Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima<br />

Trindade encarnada, que ligava a<br />

natureza humana à natureza divina.<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo é sacerdotal<br />

por sua própria natureza, porque Ele<br />

é o elo, Ele é o vínculo, Ele fundou o<br />

sacerdócio verdadeiro, o sacerdócio<br />

pleno, o sacerdócio cristão, o sacerdócio<br />

católico!<br />

v<br />

Nascido de Maria Virgem,<br />

Nosso Senhor é o Sacerdote<br />

na sua plenitude, Fundador<br />

do sacerdócio verdadeiro,<br />

o sacerdócio católico<br />

(Acima, detalhe do quadro da pg. 6;<br />

ao lado, “santinho” recebido<br />

como prêmio por<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>,quando aluno<br />

no Colégio São Luís)<br />

10


DENÚNCIA PROFÉTICA<br />

“A natividade”,<br />

imagens da<br />

Catedral de<br />

Chartres, França<br />

Emmanuel:<br />

“Deus conosco”.<br />

A<br />

cada Natal, a<br />

graça vem bater<br />

no coração dos homens<br />

com particular<br />

intensidade,<br />

convidando-os a<br />

meditar sobre<br />

este acontecimento<br />

grandioso.<br />

Algumas considerações<br />

de<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> muito<br />

auxiliam a penetrar<br />

nesse<br />

espírito natalino.<br />

A tríplice<br />

lição do Natal<br />

11


DENÚNCIA PROFÉTICA<br />

Segundo o acertado ensinamento de Santo Inácio de<br />

Loyola, o conjunto dos homens egoístas que vivem,<br />

não para Deus, mas para eles mesmos — triste<br />

maioria, sobretudo nas épocas de decadência como a nossa<br />

— pendem para um destes três objetivos: as delícias, as<br />

riquezas ou as honras.<br />

Por delícias, Santo Inácio entende os prazeres que os<br />

sentidos podem dar. São, antes de tudo, os deleites sensuais;<br />

depois, os da degustação, da vista, do olfato, do ouvido,<br />

enfim, tudo quanto uma vida de luxo pode oferecer<br />

de agradável, de gostoso.<br />

Por riquezas ele entende a<br />

simples posse do dinheiro. É a<br />

avareza daqueles que procuram<br />

o dinheiro não por causa dos<br />

prazeres que este possa proporcionar<br />

(pois neste caso a moeda<br />

seria apenas um meio para<br />

satisfazer a primeira propensão),<br />

mas pela mania do dinheiro enquanto<br />

dinheiro, da riqueza enquanto<br />

riqueza. São pessoas que<br />

não tiram proveito nenhum de<br />

sua própria fortuna. Vivem às vezes<br />

de modo obscuro, apagado,<br />

banal, quiçá miserável, tendo<br />

apenas a alegria de se sentirem<br />

continuamente de posse de um<br />

grande patrimônio financeiro.<br />

Há, por fim, os prazeres da<br />

honra. A estes, procuram não<br />

tanto pessoas que aspiram ao<br />

dinheiro nem à vida agradável,<br />

mas à consideração dos outros.<br />

Querem ser objeto de maiores<br />

homenagens, de elevadas atenções<br />

e reverências. Procuram o<br />

prestígio.<br />

Assim, de acordo com a sábia<br />

classificação feita por Santo Inácio,<br />

o homem egoísta sempre<br />

opta por um desses três pólos.<br />

Alguém poderia objetar: “<strong>Dr</strong>.<br />

<strong>Plinio</strong>, tal classificação está muito<br />

esquemática. Uma pessoa é<br />

capaz de ir atrás das três coisas<br />

ao mesmo tempo: gosta muito<br />

do dinheiro, muito das delícias<br />

e muito do prestígio.”<br />

É verdade, respondo eu, mas<br />

é próprio necessariamente do<br />

espírito humano satisfazer-se<br />

mais com uma dessas coisas do<br />

que com as outras. De maneira<br />

que, depois de ter experimentado<br />

a todas, o indivíduo acaba se fixando em uma determinada,<br />

e fazendo desta a finalidade de sua vida.<br />

Ora, pelo ensinamento inaciano, na festa do Natal quis<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo dar aos homens uma tríplice<br />

lição, provando-lhes que tais prazeres não valem nada diante<br />

do único e autêntico fim para o qual devem tender, isto<br />

é, amar a Deus sobre todas as coisas neste mundo, e depois<br />

adorá-Lo face a face na bem-aventurança eterna.<br />

Vinda do próprio Homem-Deus, esta lição é infinitamente<br />

sábia e verdadeira, e nenhum de nós tem o direito<br />

Para ensinar aos homens o verdadeiro sentido de nossa existência, quis o Divino Infante<br />

12


de não aceitá-la. Sensíveis ou não aos princípios religiosos,<br />

temos de ouvi-la e aprendê-la.<br />

Nulidade das riquezas<br />

Primeiro, quanto às riquezas mundanas. Sobre estas, o<br />

que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina no presépio?<br />

Como Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, foi Ele<br />

quem criou o Céu e a terra, com tudo o que nesta existe de<br />

rico, de maravilhoso, de belo, tudo quanto aqui seja capaz<br />

de fundamentar a prosperidade de um homem. Mais. Ele<br />

é rico em sua essência, e não apenas criou todas as riquezas<br />

existentes, mas tem ainda o poder inesgotável de criar<br />

quantas outras queira. E sem o menor esforço, sem o menor<br />

empenho, sem a menor aplicação especial. Ele é onipotente<br />

e exerce sua onipotência com perfeitíssima facilidade,<br />

criando estrelas e universos como criou um grão de areia.<br />

Ora, esse Deus infinitamente rico quis vir à terra como<br />

pobre. Quis nascer de um pai carpinteiro, de uma Mãe que<br />

executava em casa serviços domésticos; quis vir ao mundo<br />

numa manjedoura, lugar o mais modesto e rústico que se<br />

possa imaginar. Como aquecimento,<br />

quis ter apenas o bafo de<br />

alguns animais e as roupinhas<br />

que Nossa Senhora Lhe fez. Como<br />

asilo, preferiu não uma residência<br />

de homens, mas o local<br />

onde os bichos iam se abrigar e<br />

se alimentar. Foi aí que nasceu<br />

o Verbo de Deus!<br />

Quis Ele mostrar, assim, quanto<br />

o homem deve ser indiferente<br />

às riquezas quando postas em<br />

comparação com o serviço do<br />

Altíssimo. E como, portanto, deve<br />

viver, antes de tudo, não para<br />

ser rico, não para ter grandes<br />

cabedais, mas para glorificar o<br />

Criador, amando-O, louvando-<br />

O e servindo-O nesta terra, e<br />

depois adorando-O no Céu por<br />

toda a eternidade.<br />

Infelizmente, vemos em torno<br />

de nós homens que correm debandadamente<br />

atrás do dinheiro,<br />

que fazem da posse deste a<br />

única preocupação de sua vida,<br />

que colocam toda sua felicidade<br />

na sensação de que possuem<br />

grandes finanças, na ilusão de<br />

que nunca ficarão pobres e sim<br />

cada vez mais ricos. Tais homens<br />

são uns perfeitos insensatos. Porque<br />

esses bens, por mais que valham,<br />

são uma parcela minúscula<br />

dos existentes no universo. E,<br />

para Deus, o que são senão um<br />

pouquinho de poeira e de lama?<br />

Imaginemos o homem mais rico<br />

do mundo, um magnata. Imaginemos<br />

ainda que a relação de<br />

seus bens ocupem um catálogo<br />

do tamanho de uma lista telefônica:<br />

imóveis, dinheiro, títulos,<br />

créditos, objetos de valor, etc.,<br />

etc. O que é tudo isto em comnascer<br />

pobre, despojado de conforto e de honras, acalentado pelo bafo dos animais...<br />

13


DENÚNCIA PROFÉTICA<br />

paração com Deus Nosso Senhor? Nada, absolutamente<br />

nada.<br />

Amar as riquezas mais que a Deus é uma completa inversão<br />

de valores, é calcar aos pés a lição que Jesus nos<br />

deu no presépio. É não compreender que Nosso Senhor,<br />

ali, ensinou-nos que ao homem é permitido desejar, adquirir<br />

e conservar riquezas, desde que não faça disto o objetivo<br />

supremo de sua vida. A preocupação financeira deve<br />

ser necessariamente colateral, sob pena de se agir como<br />

um verdadeiro demente, por inverter a ordem dos valores,<br />

amando mais o que devia amar menos, e amando menos o<br />

que devia amar com mais intensidade.<br />

Loucura de fazer das delícias a principal<br />

finalidade da vida<br />

As delícias terrenas. Nosso Senhor Jesus Cristo, caso desejasse,<br />

teria ordenado aos anjos reunir no presépio as melhores<br />

e as mais deliciosas sedas, os mais agradáveis perfumes,<br />

teria mandado os Anjos tocarem e cantarem músicas<br />

as mais deleitáveis, pois se o fizeram para os pastores,<br />

com quanto maior gáudio não o fariam para o Menino Jesus?!<br />

O Divino Infante poderia ainda dispor de agasalhos super-eficazes,<br />

ser nutrido desde o começo com as melhores<br />

... numa gruta de pastores (Imagens da Catedral de Chartres)<br />

comidas. Numa palavra, poderia ter-se enchido de delícias<br />

logo no primeiro momento de sua vida terrena.<br />

O que fez Ele? O contrário. Quis nascer deitado na palha,<br />

material cujo contato nenhum regalo dá ao corpo;<br />

quis estar numa manjedoura cujo odor não devia ser dos<br />

mais agradáveis; quis tiritar de frio, escolhendo para surgir<br />

no mundo à meia-noite de um mês de inverno. Como música,<br />

quis ter apenas o mugido dos animais. Em última análise,<br />

quis o oposto de uma situação de delícias. E quis assim<br />

mostrar aos homens o quanto é loucura fazer delas a principal<br />

finalidade da vida. A lição que Ele veio trazer é, pois,<br />

esta: desde que seja para o bem das almas, desde que seja<br />

para a glória de Deus, devemos desfazer-nos de todas as<br />

delícias, procurando apenas o bem da causa católica e a<br />

salvação de nossa alma, embora nos custe muito sacrifício<br />

e muita renúncia.<br />

Insensatez de procurar as honras<br />

como meta da vida<br />

No que diz respeito às honras, devemos entendê-las como<br />

sendo a aspiração do indivíduo de ver-se objeto de reverências<br />

por achar-se, a qualquer título, superior aos outros:<br />

mais inteligente ou mais jeitoso; mais engraçado ou<br />

mais diplomático; mais interessante ou mais simpático;<br />

mais qualquer coisa que tenha ou imagine<br />

ter, pela qual se julga no direito de uma atenção<br />

especial.<br />

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo quis nascer despido<br />

de tudo aquilo que pode trazer vaidade. Não<br />

obstante fosse Ele um príncipe da Casa Real de<br />

David, apareceu para o mundo como filho de pais<br />

modestos, numa época em que a sua linhagem régia<br />

havia perdido seu poder político, seu prestígio<br />

social e seu dinheiro. Ele, portanto, não era absolutamente<br />

nada na ordem terrena das coisas.<br />

Além disso, quis nascer como um pária, fora da<br />

cidade, porque nela ninguém deu acolhida a seus<br />

pais. Nasceu na gruta dos pastores, para provar<br />

aos homens como são loucos aqueles que fazem<br />

do aparecer uma idéia fixa, em vez de procurarem<br />

servir a Deus e à Igreja, a insensatez daqueles que<br />

procuram ser mais, ser mais, e que fazem desta<br />

vaidade a meta de sua vida.<br />

*<br />

Se fizermos desses valores terrenos a finalidade<br />

de nossa existência, estaremos roubando aquilo<br />

que devemos unicamente a Deus. Cumpre, portanto,<br />

preocupar-nos antes de tudo com a dedicação<br />

inteira de nossas almas a Nosso Senhor, a<br />

Nossa Senhora e à Santa Igreja Católica.<br />

Tenhamos, dia e noite, diante dos olhos esta lição<br />

do Natal, e procuremos eliminar de nossos corações,<br />

com a energia de quem arranca uma erva daninha,<br />

as falsas idéias mundanas que nos levam a<br />

adorar o dinheiro, os prazeres e as honras. v<br />

14


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA<br />

Presépio napolitano<br />

do séc. XVIII<br />

P<br />

rece<br />

junto ao presépio<br />

Nosso Salvador, Rei do Universo, quis vir até nós, colocando-Se na nossa<br />

proporção. Reclinado na pobre manjedoura, Ele nos olha cheio de<br />

bondade, à espera do que tenhamos a Lhe dizer. Vamos, pois. Conduzidos<br />

pelas mãos de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, aproximemo-nos do presépio.<br />

15


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA<br />

Avizinha-se mais uma vez, Senhor, a festa de vosso<br />

santo Natal. Mais uma vez, a Cristandade se<br />

apresta a Vos venerar na manjedoura de Belém,<br />

sob a cintilação da estrela, ou sob a luz ainda mais clara e<br />

fulgente, dos olhos maternais e doces de Maria. A vosso lado<br />

está São José, tão absorto em Vos contemplar, que parece<br />

nem sequer perceber os animais que Vos rodeiam, e<br />

os coros de Anjos que rasgaram as nuvens, e cantam, bem<br />

visíveis, no mais alto dos Céus. Daqui a pouco, se ouvirá o<br />

tropel dos Magos que chegam, trazendo presentes de ouro,<br />

incenso e mirra no dorso de extensas caravanas guardadas<br />

por uma famulagem sem conta.<br />

Todos os povos da terra em torno do<br />

presépio<br />

No decurso dos séculos, outros virão venerar vosso presépio:<br />

da Índia, da Núbia, da Macedônia, de Roma, de Cartago,<br />

da Espanha, gauleses, francos, germanos, anglos, saxões,<br />

normandos. Aí estão os peregrinos e os Cruzados<br />

que vieram do Ocidente para beijar o solo da gruta em que<br />

nascestes. Vosso presépio encontra-se agora em toda a face<br />

da terra. Nas grandes catedrais góticas ou românicas, nas<br />

mesquitas conquistadas ao mouro e consagradas ao culto<br />

verdadeiro, multidões imensas se acumulam em torno de<br />

Vós, e Vos trazem presentes: ouro, prata, incenso, e sobretudo<br />

a piedade e a sinceridade de seus corações.<br />

Abre-se o ciclo da expansão ocidental. Os benefícios de<br />

vossa Redenção jorram abundantes sobre terras novas. Incas,<br />

astecas, tupis, guaranis, negros de Angola, do Cabo ou<br />

da Mina, hindus bronzeados, chins esguios e pensativos,<br />

ágeis e pequenos nipões, todos estão em torno de vosso<br />

presépio e Vos adoram. A estrela brilha agora sobre o<br />

mundo inteiro. A promessa angélica já se fez ouvir a todos<br />

os povos, e sobre toda a terra os corações de boa vontade<br />

encontraram o tesouro inapreciável de vossa paz. Superan-<br />

do todos os obstáculos, a palavra evangélica se fez ouvir<br />

por fim aos povos do mundo inteiro. No meio da desolação<br />

contemporânea, esta grande afluência de homens,<br />

raças e nações em torno de Vós é, Senhor, a única consolação,<br />

a esperança que resta.<br />

Quem somos nós?<br />

E no meio de tantos, eis-nos aqui também. Estamos de<br />

joelhos, e Vos olhamos. Vede-nos, Senhor, e considerainos<br />

com compaixão. Aqui estamos, e Vos queremos falar.<br />

Nós? Quem somos nós?<br />

Os que não dobram os dois joelhos, e nem sequer um<br />

joelho só, diante de Baal. Os que temos a vossa Lei escrita<br />

no bronze de nossa alma, e não permitimos que as doutrinas<br />

deste século gravem seus erros sobre este bronze que<br />

sagrado vossa Redenção tornou.<br />

Os que amamos como o mais precioso dos tesouros a<br />

pureza imaculada da ortodoxia, e que recusamos qualquer<br />

pacto com a heresia, suas obras e infiltrações.<br />

Os que temos misericórdia para com o pecador arrependido,<br />

e que para nós mesmos, tantas vezes indignos e<br />

infiéis, imploramos vossa misericórdia — mas que não<br />

poupamos a impiedade insolente e orgulhosa de si mesma,<br />

o vício que se estadeia com ufania e escarnece a virtude.<br />

Os que temos pena de todos os homens, mas particularmente<br />

dos bem-aventurados que sofrem perseguição por<br />

amor à vossa Igreja, que são oprimidos em toda a terra<br />

por sua fome e sede de virtude, que são abandonados, escarnecidos,<br />

traídos e vilipendiados porque se conservam<br />

fiéis à vossa Lei.<br />

Aqueles que sofrem sem que a literatura contemporânea<br />

se lembre de exaltar a beleza de seus sofrimentos: a<br />

mãe cristã que reza hoje sozinha diante de seu presépio,<br />

no lar abandonado pelos filhos que profanam em orgias o<br />

dia de vosso Natal; o esposo austero e forte que pela fide-<br />

Alto-relevo com cenas do<br />

nascimento e da infância de Jesus<br />

(Catedral de Notre-Dame de Paris)<br />

16


lidade a vosso Espírito se tornou incompreendido e antipático<br />

aos seus; a esposa fiel que suporta as agruras da solidão<br />

da alma e do coração, enquanto a leviandade dos costumes<br />

arrastou ao adultério aquele que deveria ser para<br />

ela a coluna do lar, a metade de sua alma, “um outro eu<br />

mesmo”; o filho ou a filha piedosa, que durante o Natal,<br />

enquanto os lares cristãos estão em festa, sente mais do<br />

que nunca o gelo com que o egoísmo, a sede dos prazeres,<br />

o mundanismo paralisou e matou em seu próprio lar a vida<br />

de família. O aluno abandonado e vilipendiado pelos seus<br />

colegas, porque permanece fiel a Vós. O mestre detestado<br />

por seus discípulos, porque não pactua com seus erros. O<br />

Pároco, o Bispo, que sente erguer-se em torno de si a muralha<br />

sombria da incompreensão ou da indiferença, porque<br />

se recusa a consentir na deterioração do depósito de<br />

doutrina que lhe foi confiado. O homem honesto que ficou<br />

reduzido à penúria porque não roubou.<br />

O dom mais excelente que se pode oferecer<br />

ao Senhor<br />

Estes são, Senhor, os que no momento presente, dispersos,<br />

isolados, ignorando-se uns aos outros, entretanto, agora,<br />

se acercam de Vós para oferecer o seu dom, e apresentar<br />

a sua prece.<br />

Dom tão esplêndido na verdade que se eles Vos pudessem<br />

dar o sol e todas as estrelas, o mar e todas as suas riquezas,<br />

a terra e todo o seu esplendor, não Vos dariam<br />

dom igual.<br />

É o dom de si, íntegro e feito com fidelidade. Quando<br />

eles preferem a ortodoxia completa às palmas dos fariseus;<br />

quando escolhem a honestidade de preferência ao ouro;<br />

quando preferem a pureza à popularidade entre os ímpios;<br />

quando permanecem na vossa Lei ainda que por isto percam<br />

cargos e glória, praticam o amor de Deus sobre todas<br />

as coisas, e atingem a perfeição espiritual, rija e verdadeira<br />

dileção. Não, por certo, do amor como o entende o século,<br />

amor todo feito de sensibilidade esparramada e ilógica, de<br />

afetos nebulosos e sem base na razão, de obscuras condescendências<br />

consigo mesmo, e escusas acomodações de consciência.<br />

Mas o amor verdadeiro, iluminado pela Fé, justificado<br />

pela razão, sério, casto, reto, perseverante; em uma<br />

palavra, o amor de Deus.<br />

Prece pela Igreja e pelo Papa<br />

E eles Vos formulam uma prece. Prece, antes de tudo,<br />

por aquilo que mais amam no mundo, que é a vossa Igreja<br />

santa e imaculada. Pelos pastores e pelo rebanho. Sobretudo<br />

pelo Pastor dos Pastores e do rebanho, isto é, por Pedro<br />

que hoje se chama Pio. Que vossa Igreja, que geme cativa<br />

nas masmorras desta civilização anticristã, triunfe por fim<br />

deste século de pecado, e plasme para vossa maior glória<br />

uma nova civilização. Pelos santos, para que sejam cada<br />

vez mais santos. Pelos bons, para que se santifiquem. Pelos<br />

pecadores, para que se tornem bons, pelo ímpios, para que<br />

se convertam. Que os impenitentes, refratários à graça e<br />

nocivos às almas, sejam dispersados por vossa punição. Que<br />

as almas do Purgatório quanto antes subam ao Céu.<br />

Prece, depois, por si mesmos. Que os façais mais exigentes<br />

na ortodoxia, mais severos na pureza, mais fiéis na adversidade,<br />

mais altivos nas humilhações, mais enérgicos nos combates,<br />

mais terríveis para com os ímpios, mais compassivos<br />

para com os que, envergonhando-se de seus pecados, louvam<br />

de público a virtude e se esforçam seriamente por a<br />

conquistar.<br />

Prece, por fim, para que vossa Graça, sem a qual nenhuma<br />

vontade persevera duravelmente no bem e nenhuma<br />

alma se salva, seja para eles tanto mais abundante quanto<br />

mais numerosas forem suas misérias e infidelidades.<br />

(Transcrito de “O Legionário”, nº 750, de 22/12/1946.<br />

Título e subtítulos nossos.)<br />

17


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO<br />

Um menino<br />

em busca do absoluto


Vitrais, som de órgão,<br />

pores-de-sol,<br />

gravuras de cavaleiros,<br />

e até — por<br />

que não? — requintadas<br />

guloseimas<br />

atraíam o espírito<br />

de uma criança extremamente<br />

contemplativa<br />

e sedenta de<br />

maravilhoso. No fundo<br />

desses movimentos<br />

inocentes, ela estava<br />

à procura do absoluto.<br />

Neste sentido, o Natal<br />

constituía uma ocasião especial<br />

para o pequeno <strong>Plinio</strong>.<br />

Oque havia de mais maravilhoso na minha infância<br />

ficou representado pelas festas de Natal, de maneira<br />

que elas constituem um exemplo que volta<br />

facilmente ao espírito.<br />

Tomem uma criança na primeira infância, entrando numa<br />

sala onde está preparada uma árvore de Natal, com velas<br />

acesas, diversos enfeites natalinos, além dos objetos<br />

próprios a uma sala de casa: mesa, livros, quadros, cadeiras,<br />

etc. Apesar da variedade de aspectos a serem observados,<br />

a atenção da criança é atraída imediatamente pelos<br />

objetos maravilhosos que estão ali dentro, deixando de lado<br />

os da vida cotidiana. Dir-se-ia ser esta uma atitude natural,<br />

porque as coisas maravilhosas não são cotidianas, e o<br />

que é novo sempre chama a atenção.<br />

Não é, porém, a simples novidade que atrai. Imagine-se<br />

outra criança que visite pela primeira vez a mesma casa,<br />

para ir ver a árvore de Natal. Esta será, para ela, tão nova<br />

quanto os demais objetos que se encontram na sala.<br />

Ora, é a árvore natalina que lhe cativará a atenção.<br />

Mais do que tudo, ela se sente atraída pelas luzes da árvore,<br />

pelas bolinhas prateadas, douradas, vermelhas, verdes,<br />

azuis, que pendem dos galhos, e depois pelas guloseimas<br />

também penduradas ali, que logo despertam seu<br />

apetite...<br />

Por que razão a atenção da criança fica mais atraída<br />

pelas bolas, pelos enfeites, pelas luzes do que pela própria<br />

árvore de onde tudo isso pende? E mais atraída pela árvore<br />

no conjunto do que pelos outros objetos na sala?<br />

No fundo, porque a criança inocente tem, junto com o<br />

senso do maravilhoso, o senso do absoluto, quer dizer,<br />

uma idéia de que se algo fosse absolutamente como deve<br />

ser, seria muito mais maravilhoso do que é na realidade.<br />

19


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO<br />

Dentro de cada criança dorme um desejo<br />

do Paraíso<br />

Noutras palavras, esse senso do absoluto seria um desejo<br />

do Paraíso. Sem que a criança jamais tenha ouvido falar<br />

de Paraíso, nem ter ainda a inteligência para se representar<br />

o que ele seja, dorme dentro dela um anseio de Paraíso.<br />

E este anseio desperta quando ela vê aqueles objetos maravilhosos.<br />

Os esmagadores, os incendiários de paraísos, os que passam<br />

um trem de poeira e de sujeira sobre os paraísos, dizem<br />

que esse movimento de alma de uma criança é tolo, é<br />

o da primeira infância, e quando ela for mais velha se incomodará<br />

muito mais com a agência bancária do que com a<br />

árvore de Natal.<br />

Eles não se dão conta de que esse paraíso que dorme na<br />

criança é o melhor do talento dela, é o melhor de sua inteligência,<br />

por onde ela revela uma compreensão possante,<br />

se bem que confusa, das coisas como estas deveriam ser, perfeitas,<br />

maravilhosas. Por isso ela se alegra diante de algo<br />

que satisfaz essa sua tendência para o esplendoroso, e até<br />

certo ponto contempla com indiferença os objetos comuns.<br />

Procura do maravilhoso, procura de<br />

Deus<br />

O cachorrinho branco e bege<br />

Em concreto, tanto quanto me lembro, como se movia<br />

em mim esse senso do maravilhoso, do absoluto?<br />

Refiro-me à minha primeiríssima infância, aos 4 ou 5<br />

anos, nesse período em que as impressões iniciais se formam,<br />

e durante o qual eu observei incontáveis coisas, as<br />

mais diversas, aqui, lá e acolá. Desde uma luz acesa na vitrina<br />

de uma casa comercial pela qual eu passava, até, pouco<br />

mais adiante, uma música que ouvia na rua, saída de<br />

dentro de uma casa onde alguém cantava ou tocava piano.<br />

Ora era um tapete que havia em minha própria residência<br />

Ao admirar as rutilâncias<br />

de uma jóia, ou os<br />

encantos do marfim, não<br />

procurava a fruição dos<br />

meus sentidos; eu<br />

queria chegar<br />

até o absoluto...<br />

E toda criança, enquanto conserva a inocência<br />

que lhe vem das graças do Batismo,<br />

é insaciável de maravilhas. Ela vê uma,<br />

quer outra, e depois outra e mais outra.<br />

Não pára. No fim dessa tendência, ela quer<br />

uma espécie de maravilha total, de maravilha<br />

absoluta.<br />

Em última análise, se lhe fosse dado conhecer a<br />

mais perfeita das criaturas, Nosso Senhor Jesus Cristo na<br />

sua humanidade santíssima, ou abaixo d’Ele, Nossa Senhora,<br />

a criança ficaria encantada. Ao cabo de algum tempo<br />

de convívio, ela diria o seguinte: “É bem verdade, Ele tem<br />

tudo isto, mas Ele foi feito por outro. Se houvesse um ser<br />

não feito por ninguém, nunca criado e autor de tudo; um<br />

ser do qual não pudéssemos dizer que é inteligente, nem<br />

bom, nem poderoso, mas do qual nós disséssemos que é a<br />

Inteligência, a Bondade e o Poder, este seria o ser perfeito”.<br />

É evidente, porque este ser teria fechado o píncaro,<br />

seria a cúpula da ordem do ser, autor da Criação,<br />

perfeitíssimo, infinito, eterno. Este é o Absoluto, este<br />

é Deus.<br />

De maneira que, na medida em que o inocente vai<br />

procurando, procurando, de maravilha em maravilha,<br />

vai afinando as exigências de sua alma até chegar<br />

a Deus. Só Ele o contenta. O resto é lorota.<br />

Então, o senso do absoluto é o senso de algo que<br />

desejamos e que só em Deus se saciará. É o absoluto!<br />

20


ou na de um conhecido, e cujo desenho me agradava; ora<br />

uma árvore que julgava especialmente bonita.<br />

Ou ainda um cachorrinho gracioso, um “lulu”, não de<br />

grande raça, antes um resultado de toda espécie de mestiçagem...<br />

Branco, com uma mancha bege bonita a certa altura<br />

do corpo e, se não me engano, com orelhas igualmente<br />

beges, e todo ele muito vivo.<br />

Eu olhava aquele cachorrinho e o achava bonitinho.<br />

Gostava da combinação branco-bege. E me perguntava a<br />

mim mesmo: “Por que eu gosto deste cachorro? Por que<br />

me agrada esta mistura de cores? É bonito, mas é bonito<br />

por quê? Não haverá algo, nesta linha, ainda mais belo?<br />

Onde?”<br />

A “jóia” da francesa pobre<br />

Noutra ocasião eu ia visitar uma modesta senhora, amiga<br />

pobre da minha governanta, a Fräulein Mathilde. Era<br />

francesa, casada com um minúsculo austríaco que arranjara<br />

um jeito de perder tudo o que possuía — não perdeu<br />

muito — e que morava próximo ao nosso bairro dos Campos<br />

Elíseos.<br />

Esta senhora tinha uma jóia (na verdade, uns vidrilhos),<br />

com um fundo de pano vermelho ou algo parecido, mas eu<br />

não distinguia bem aquilo de rubi, e achava a jóia linda.<br />

Sendo vidro com pano, põe-se o que quiser em cima. Era<br />

uma jóia vistosa. Eu ficava encantado: “Olha que jóia bonita<br />

tem a Frau fulana”, etc.<br />

Todas essas coisas me chamavam a atenção, e eu sempre<br />

procurando: “Mais bonito, mais bonito; pode haver mais,<br />

pode haver mais...”<br />

Uma tendência para o amor de Deus<br />

Lembro-me, ainda, de quando “descobri” o estilo francês,<br />

os encantos e o prestigioso do marfim.<br />

Como em toda casa de um pouco de conforto e de tratamento,<br />

aquela onde eu morava tinha uma boa sala de visitas<br />

com móveis dourados à la Luís XV. Esta sala ficava<br />

sempre fechada, abrindo-se apenas para as visitas. Mas, de<br />

vez em quando, furtivamente eu me metia na sala onde a<br />

penumbra deixava coar uma claridade suficiente para me<br />

permitir analisar de maneira satisfatória todos os objetos<br />

que ali se encontravam.<br />

E eu começava a olhá-los, um por um. A exemplo de todas<br />

as salas desse gênero, havia uma vitrine bonita, enfeitada,<br />

com aplicações de bronze e marfim sobre madeiras<br />

preciosas, etc., um móvel bonito, com seu interior forrado<br />

de sedas, contendo curiosidades e coisas de mais valor. No<br />

primeiro momento me chamavam a atenção esses objetos<br />

que estavam dentro da vitrine. Porém, não a abria, sabendo<br />

que essa atitude não agradaria a mamãe, a quem eu obedecia<br />

e respeitava acima de tudo. Embora a chave estivesse<br />

bem à mão, e eu fosse por natureza muito curioso. Chamavam-me<br />

até de monsieur touche-à-tout (Senhor toca-emtudo),<br />

porque as coisas que eu olhava, tendia a pegar, examinar,<br />

para ver bem, etc. Tendência muito pronunciada, mas<br />

mamãe não queria que eu mexesse naquela vitrine, então<br />

não se mexia...<br />

Em certo momento comecei a prestar atenção no móvel.<br />

O cristal era aplicado de certa altura para cima; embaixo<br />

era bombeado como nos móveis Luís XV. Percebi que,<br />

nessa parte inferior, havia pinturas de figuras humanas movendo-se<br />

num fundo de natureza meio “rousseauniana”,<br />

auroras e coisas do gênero.<br />

E descobri os prestígios e encantos do marfim. Fiquei<br />

encantado com esse material. E, logo, a mesma pergunta,<br />

a mesma procura do mais maravilhoso: “Que beleza!<br />

Como seria um mundo se ele fosse como parece ser<br />

quando é revestido de madeira em marfim? Como<br />

seria o mundo do marfim? Que beleza!”<br />

Cumpre salientar que esse desejo de maravilhas<br />

maiores não era em ordem à mera fruição<br />

dos meus sentidos. Era querer algo que fosse<br />

mais perfeito, na linha do Paraíso que dormia<br />

dentro de minha alma. Eu pensaria em outra<br />

coisa, depois em outra, depois em outra... A<br />

tendência era de não me contentar com nada,<br />

de ir de mais elevado em mais elevado,<br />

de chegar até o absoluto.<br />

Era, portanto, uma tendência para o amor<br />

de Deus.<br />

v<br />

21


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

“A entrega das chaves a São Pedro” (iluminura medieval)<br />

22


“A chave de prata”<br />

E u<br />

te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos<br />

céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus (Mt. 16, 19). Instituindo<br />

São Pedro chefe da Igreja, Nosso Senhor lhe conferia este poder que está simbolizado<br />

no brasão papal pela chave de ouro e pela de prata. A primeira significa o governo exercido<br />

sobre a Igreja; a chave de prata, a autoridade indireta sobre a ordem temporal: sem governar os<br />

povos, o Papa os ensina, orienta, previne, repreende.<br />

“Cristandade: a chave de prata” era o título de um livro cuja redação <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> iniciara<br />

por volta de 1950, mas que, por determinadas razões, deixou inacabado. Entretanto, a parte<br />

concluída lança uma luz tão esclarecedora sobre a História universal, que, a partir de hoje,<br />

publicaremos diversos trechos dela nesta seção.<br />

Q uando,<br />

em 1942, preparávamos<br />

o livro “Em Defesa da<br />

Ação Católica”, fizemos a leitura<br />

dos principais documentos dos últimos<br />

pontífices, isto é, Leão XIII, São<br />

Pio X, Bento XV, Pio XI e, por fim,<br />

Pio XII, atualmente reinante.<br />

A História nos<br />

documentos de Leão XIII<br />

Tivemos então oportunidade de verificar<br />

que, nos atos do magistério supremo<br />

da Igreja, a História é objeto de<br />

numerosas e importantes referências.<br />

Mais do que outros, dela se ocupou<br />

a fundo Leão XIII. Com efeito, o imortal<br />

Pontífice não só expôs em seus<br />

documentos numerosas e interessan-<br />

tes apreciações sobre diversos episódios<br />

históricos e vistas de conjunto<br />

clarividentes sobre quase todas as fases<br />

do passado da Igreja e da humanidade,<br />

como foi além, pois escreveu<br />

uma encíclica (“Parvenu à la 25e. année”,<br />

de 19 de março de 1902), inteiramente<br />

consagrada à narração da história<br />

da Cristandade, e outra (“Saepenumero<br />

considerienter”, de 18 de agosto de<br />

1883), dedicada aos estudos históricos.<br />

A par disso, os documentos de<br />

Leão XIII contêm muitos ensinamentos<br />

de valor sobre a Filosofia da História<br />

e a Teologia da História. Quase<br />

não há campo do estudo histórico de<br />

que o grande Pontífice não tenha tratado,<br />

marcando-o sempre com o traço<br />

do talento, e não raras vezes do gênio.<br />

Caráter sistemático dos<br />

documentos de Leão XIII<br />

sobre a História<br />

Confrontamos uns com os outros<br />

esses numerosos textos sobre a História.<br />

Causa impressão sua extraordinária<br />

interdependência. Percebe-se que<br />

Leão XIII não se contentou em considerar<br />

aspectos esparsos da História,<br />

mas que a estudou e analisou em todo<br />

o seu conjunto, elaborando a respeito<br />

dela o que se pode chamar um verdadeiro<br />

sistema.<br />

Em outros termos, partindo dos dados<br />

fornecidos pela Filosofia e pela<br />

Revelação, Leão XIII mostra quais são<br />

os assuntos essenciais em torno dos<br />

quais se move toda a História; e, anali-<br />

23


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

sando in concreto os acontecimentos,<br />

suas causas e seus efeitos, põe em evidência<br />

que seu sentido último e mais<br />

profundo se encontra nas suas relações<br />

com esses assuntos essenciais.<br />

Outras vezes ele se compraz em<br />

partir dos fatos históricos in concreto,<br />

para os analisar a fundo, chegando assim<br />

ao terreno da pura doutrina, e mostrando<br />

como esses fatos confirmam os<br />

ensinamentos da Filosofia e as verdades<br />

da Fé. Por uma ou por outra via,<br />

Leão XIII procura demonstrar sempre<br />

algumas verdades essenciais que<br />

dão sentido, ordem, clareza, ao dédalo<br />

aparentemente inextricável do desenvolvimento<br />

histórico, ao tumultuar<br />

caótico das ações humanas ao longo<br />

dos séculos.<br />

Pareceu-nos que seria interessante<br />

fazer um estudo conjunto dos textos de<br />

Leão XIII sobre a história, a fim de pôr<br />

em evidência o sistema a que se prendem.<br />

Para isso, o método mais prático<br />

consistiria, a nosso ver, em selecionar<br />

os textos essenciais, agrupando-os por<br />

assuntos, analisando-os, confrontando-os<br />

entre si, e pondo em realce os<br />

princípios que afirmam explicitamente,<br />

que logicamente se lhes deve pressupor,<br />

ou que deles se devem legitimamente<br />

deduzir. Postos assim em evidência<br />

estes princípios, em sua nudez,<br />

em sua clareza, em sua simplicidade,<br />

estaria conhecido todo o sistema.<br />

Parece-nos de real interesse, por<br />

muitos títulos, conhecer o pensamento<br />

de Leão XIII sobre História.<br />

Interesse do presente<br />

estudo: a) do ponto de<br />

vista biográfico<br />

Antes de tudo, do ponto de vista estritamente<br />

biográfico. Pelo seu valor<br />

excepcional, Leão XIII tem suscitado<br />

inúmeros biógrafos, que procuram esquadrinhar<br />

todos os aspectos de sua<br />

personalidade. Ora, nunca se terá um<br />

conhecimento exato da mentalidade<br />

desse grande pensador e homem de<br />

Estado — “homem da Igreja”, melhor<br />

diriam os antigos — se não se estudar<br />

seu pensamento sobre a História. Com<br />

efeito, poucas coisas definem melhor<br />

a mentalidade de um homem do que<br />

o juízo que ele faz sobre seus semelhantes,<br />

sobre as idéias, as paixões, os<br />

interesses que os agitam, sobre a legitimidade<br />

e a eficácia dos meios de que<br />

se servem, sobre a autenticidade de<br />

seus êxitos ou a extensão de seus insucessos.<br />

Seus semelhantes, dizíamos,<br />

em toda a extensão da palavra, isto é,<br />

seus contemporâneos, como seus antecessores<br />

no que Calderón de la Barca<br />

chamou o “palco do mundo”. E tudo<br />

isso está amplamente contido no<br />

sistema histórico de Leão XIII.<br />

O Papa Leão XIII, Pontífice<br />

de valor excepcional,deixou<br />

preciosos ensinamentos<br />

sobre a História<br />

b) para a História da<br />

Igreja<br />

Leão XIII governou a Igreja de<br />

1878 a 1903. Isto é, por 25 anos. Pontificado<br />

mais extenso do que o seu, só<br />

o de Pio IX, que reinou de 1846 a<br />

1878, e talvez o de São Pedro.<br />

Esta simples consideração bastaria<br />

para dar ao pontificado de Leão XIII<br />

uma importância particular, acentuada<br />

pelo fato de que seu governo eclesiástico<br />

transcorreu em uma época especialmente<br />

delicada para a vida da<br />

Igreja. Esta, com efeito, se encontrava<br />

em presença de um mundo novo, que<br />

se construía sobre a base dos princí-<br />

24


pios racionalistas, liberais e igualitários<br />

da Revolução Francesa.<br />

Competia ao Papa fixar a atitude<br />

de uma instituição quase vinte vezes<br />

secular, como a Igreja, perante esse<br />

mundo novo, e traçar normas de pensamento<br />

e de ação para milhões de<br />

fiéis que, por toda a terra, aguardavam<br />

a sua palavra para se definirem em favor<br />

ou contra a nova ordem de coisas.<br />

Na verdade, Pio VI, e seus sucessores<br />

até Leão XIII, já se tinham defrontado<br />

com esse problema, e em face de<br />

um tufão revolucionário quase sempre<br />

aberto e desbragadamente hostil,<br />

haviam combatido com denodo. Pio IX,<br />

particularmente, lutara com êxito contra<br />

o espírito da Revolução, mas esse<br />

êxito criara um problema novo. Ao longo<br />

dos anos, alguma coisa — essencial<br />

ou não — na corrente revolucionária<br />

foi se transformando. Seus líderes, cada<br />

vez mais, recrutavam-se nas fileiras<br />

da burguesia rica, cultivada, poderosa,<br />

que dirigia os destinos da Europa. As<br />

idéias sustentadas em 1793 pelos sans<br />

culotte e pelas tricoteuses eram agora<br />

defendidas por gente de casaca e cartola.<br />

O mundo que essa gente organizava<br />

não era o do Terror; era, pelo<br />

contrário, um mundo burguês, e nesse<br />

mundo oferecia-se à Igreja uma situação<br />

de calma e liberdade.<br />

Que fazer? Aceitar o pacto? Rejeitá-lo?<br />

Poucas vezes alternativa mais<br />

pesada em conseqüências se apresentou<br />

a um Papa. Tocou a Leão XIII fazer<br />

a opção.<br />

Enquanto esse grave assunto ia tendo<br />

seu curso, no subsolo da sociedade<br />

humana outra revolta rugia. Era a<br />

grande insurreição operária, provocada<br />

pela paganização, pelas idéias de<br />

1789, pela máquina que fazia ouvir de<br />

vez em quando suas cacofonias, a perturbar<br />

a placidez burguesa da Europa<br />

vitoriana, e a prenunciar as crises, as<br />

angústias, as tragédias do século XX.<br />

No conflito entre capital e trabalho,<br />

como agir, que partido tomar? Outra<br />

grave alternativa que tocou a Leão<br />

XIII enfrentar.<br />

De outro lado, a descrença se assenhoreava<br />

da alma e do coração das<br />

classes cultas. A ciência parecia abalar<br />

os fundamentos da Fé. Diante da<br />

Coube a Leão XIII a grave missão de fixar a atitude da Igreja<br />

perante o mundo novo, edificado sobre os princípios da Revolução<br />

Francesa (“A tomada da Bastilha”, em 1789)<br />

maré montante do ceticismo, do indiferentismo,<br />

do positivismo, do criticismo,<br />

como agir, que métodos de luta<br />

ideológica empregar? Outro grave<br />

problema que tocou a Leão XIII resolver.<br />

Enquanto essas difíceis questões desafiavam<br />

a argúcia do Papa, um vento<br />

de simpatia pela Igreja soprava sobre<br />

as nações cismáticas e protestantes, e<br />

negociações muito importantes se estabeleciam<br />

para a volta ao redil das<br />

ovelhas e venerandas comunidades cristãs<br />

do Oriente, bem como da poderosa<br />

e influente Igreja Anglicana. A facilidade<br />

das comunicações com a África<br />

e o Oriente abria para a Igreja a era<br />

das missões. E um renouveau católico<br />

intenso nas nações fiéis lançava os<br />

gérmens do apostolado leigo organizado,<br />

que São Pio X haveria de estruturar<br />

na Itália com o nome de Ação<br />

Católica.<br />

Em face de tudo isto, a História<br />

nos conta como agiu o Pontífice. Mas<br />

por que fez? Por que não seguiu outras<br />

diretrizes concretas, neste ou naquele<br />

caso? O historiador não pode<br />

permanecer indiferente a este problema,<br />

que não se resolverá satisfatoriamente,<br />

se não se tomarem em consideração<br />

as concepções de Leão XIII sobre<br />

a História.<br />

De fato, diante de uma situação<br />

concreta qualquer, um homem esclarecido<br />

não agirá sem lhe conhecer os<br />

antecedentes, os fatores que a fizeram<br />

como é, e que assim a conservam; o<br />

rumo para onde caminhavam as forças<br />

que lhe deram origem, e segundo as<br />

quais ela mesma provavelmente se moverá;<br />

os princípios, os interesses, as<br />

paixões de cuja pujança ela resultou;<br />

em uma palavra, as causas próximas e<br />

remotas dessa situação, a sua História,<br />

enfim.<br />

25


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

Leão XIII terá, pois, tomado na<br />

maior consideração a História do mundo<br />

em que se encontrava, para fixar<br />

diante dele a sua própria conduta. E<br />

suas idéias sobre essa História devem<br />

ser tidas logicamente como elementos<br />

de primeira grandeza na explicação<br />

de todo o seu modo de agir.<br />

c) na História do século<br />

XIX<br />

Em nossos dias, os estudos de História<br />

religiosa são extraordinariamente<br />

apreciados, mesmo por historiadores<br />

pessoalmente indiferentes a qualquer<br />

religião. Compreende-se melhor<br />

do que há trinta anos a importância<br />

intrínseca do assunto. Não nos deteremos,<br />

pois, neste ponto. Cremos, contudo,<br />

que uma História do século XIX<br />

que não tomasse em consideração o papel<br />

muito considerável que nele exerceu<br />

a Igreja seria falha. Ora, para a<br />

determinação deste papel, Leão XIII<br />

é figura de importância evidente. O<br />

prestígio pessoal do Papa, mesmo fora<br />

dos meios católicos, concorreu para<br />

tornar ainda mais profunda a influência<br />

de suas atitudes. E daí decorre<br />

o interesse de conhecer as considerações<br />

históricas em que essas atitudes<br />

se inspiraram.<br />

d) para os políticos<br />

contemporâneos<br />

A História tem sua face voltada para<br />

o passado. Esse passado, porém,<br />

Leão XIII o considerou também com<br />

olhos de pastor e de guia, procurando<br />

desvendar nele os prognósticos<br />

dos dias vindouros. Sua<br />

obra histórica termina com um<br />

conjunto de previsões que cuidadosamente<br />

anotamos. Ora,<br />

essas previsões se confirmaram<br />

geralmente, e dão aos<br />

políticos e estadistas de<br />

nossos dias uma noção<br />

impressionante sobre<br />

as verdadeiras origens<br />

de nossas atuais crises.<br />

e) para os intelectuais<br />

acatólicos<br />

Não se pode pedir, é claro, a um intelectual<br />

acatólico que aceite como<br />

suas, concepções que se firmam em<br />

doutrinas filosóficas e religiosas que<br />

ele não aceita. Mas nenhum homem<br />

de pensamento contestará ser da maior<br />

importância conhecer uma concepção<br />

histórica como a de Leão XIII, deduzida<br />

dos princípios filosóficos e religiosos<br />

que constituem a própria alma<br />

da civilização cristã.<br />

f) para os intelectuais<br />

católicos<br />

Para o católico, a fidelidade a esses<br />

princípios é um imperativo de honestidade<br />

intelectual. Pois, ou tem a Fé<br />

que professa, e a lógica o força a aceitá-la<br />

em todas as conseqüências; ou<br />

não lhe aceita as conseqüências e a<br />

lógica o obriga a repudiar os próprios<br />

princípios de que tais conseqüências<br />

fluem. Assim, um historiador católico<br />

que não leve em conta a doutrina da<br />

Igreja, ou muda sua concepção da História,<br />

ou não é verdadeiro católico.<br />

Dizemo-lo especialmente com vistas<br />

aos professores, máxime os professores<br />

secundários, condenados tantas<br />

vezes a lecionar anos inteiros a História<br />

com base em compêndios inteiramente<br />

leigos e agnósticos. Sabem eles<br />

que seus alunos católicos não terão verdadeira<br />

formação histórica nesses compêndios,<br />

e muitos desejariam ardentemente<br />

um livro que lhes permitisse<br />

retificar nas aulas as lacunas dos manuais<br />

escolares. É que sua honestidade<br />

intelectual sofre pelo fato de se verem<br />

quase forçados a dar um curso que não<br />

toma em nenhuma consideração suas<br />

convicções nem as de seus alunos.<br />

(Continua no próximo número)<br />

Para os intelectuais, estadistas e<br />

políticos contemporâneos, católicos<br />

ou não, revestem-se do maior<br />

interesse as considerações de Leão<br />

XIII acerca da História, analisada por<br />

ele com olhos de pastor e de guia.<br />

26


DONA LUCILIA<br />

Dª Lucilia<br />

na década<br />

de 1950<br />

Singular<br />

discernimento das almas


DONA LUCILIA<br />

J á<br />

vimos como, dos dons concedidos a Dª Lucilia pela Divina<br />

Providência, um dos mais insignes era o discernimento das<br />

psicologias, que a auxiliou decisivamente a educar e formar<br />

seus filhos, como também a perceber quem, entre os amigos de <strong>Dr</strong>.<br />

<strong>Plinio</strong>, o estimava de verdade.<br />

D<br />

Dois episódios demonstram a singularidade desse<br />

dom. Certa vez, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> convidou para<br />

jantar em sua casa um jovem colega dos meios<br />

católicos. Durante a refeição, Dª Lucilia observou discretamente<br />

o convidado, entrevendo algo de peculiar nele.<br />

Assim que o rapaz se retirou, ela disse a seu filho:<br />

— Tome cuidado com aquela mão... O modo de ele pegar<br />

no garfo é muito esquisito...<br />

Dª Lucilia relacionava, talvez de forma intuitiva, aquele<br />

modo “esquisito” com algum defeito moral não inteiramente<br />

explicitado. Uma certeza se firmara em seu espírito:<br />

aquele “amigo” não deveria ser merecedor de confiança.<br />

E, mãe zelosa, para isso alertara <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>. O pressentimento<br />

dela foi em breve confirmado pelos fatos: algum<br />

tempo depois esse rapaz abandonou seus correligionários,<br />

causando grandes dissabores ao filho dela.<br />

Noutra ocasião, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> convidou para almoçar em<br />

sua casa um de seus amigos mais chegados, pertencente às<br />

Congregações Marianas. Durante a refeição ouviu-se tocar<br />

o telefone. Poucos instantes depois, veio a empregada<br />

avisar que o Sr. X estava na linha, e tinha um assunto urgente<br />

a tratar com <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>. Este interrompeu o almoço<br />

para atendê-lo. Como o aparelho ficava numa sala ao lado,<br />

Dª Lucilia e o visitante para lá também se dirigiram.<br />

Já nesse tempo, a posição de intransigência em relação<br />

aos adversários da Igreja granjeara a <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> não poucas<br />

inimizades, mesmo dentro das fileiras católicas, pois era grande<br />

o número daqueles que, para não lutarem, preferiam<br />

Mais de uma vez Da. Lucilia alertou seu filho para as inimizades que se opunham a ele dentro do próprio Movimento<br />

Católico (Acima, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> recebe a visita do Almirante Yamamoto na sede do “Legionário”)<br />

28


uma composição qualquer com<br />

o mundo. E nos assuntos que<br />

seriam tratados nesse telefonema<br />

jogavam-se altos interesses<br />

da Causa Católica.<br />

Dª Lucilia tudo observava<br />

em silêncio, com seu calmo e<br />

luminoso olhar. Em seu íntimo,<br />

certamente rezava por seu<br />

filho, para que o Sagrado Coração<br />

de Jesus o amparasse nessa<br />

dificuldade.<br />

Terminado o telefonema, voltaram<br />

à mesa e a conversa retomou<br />

seu rumo. Quando o visitante<br />

se retirou, Dª Lucilia<br />

perguntou a <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>:<br />

— Você viu a reação dele<br />

enquanto você falava ao telefone?<br />

— Não, mamãe, estava tão<br />

absorto na conversa que não<br />

prestei atenção.<br />

Num tom de voz grave,<br />

porém repassado de solicitude,<br />

ela o advertiu:<br />

— Meu filho, cuidado com este<br />

seu “amigo”... Sempre que você estava<br />

com a fisionomia preocupada,<br />

ele manifestava contentamento; quando<br />

você dava uma boa resposta a seu interlocutor<br />

e punha os pingos nos “is”, ele<br />

ficava indiferente ou demonstrava tristeza...<br />

Este não é seu amigo!<br />

Não muito tempo depois, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> recebia<br />

desse “amigo” verdadeira “punhalada” nas costas...<br />

Pode-se perguntar como Dª Lucilia, pessoa tão reconhecidamente<br />

bondosa, tinha uma desconfiança que<br />

a levava a discernir o mal através de detalhes na aparência<br />

insignificantes. De fato, o conceito de bondade que se espalhou<br />

em numerosos meios católicos brasileiros, em especial<br />

a partir do fim da década de 30, era bem diferente<br />

da verdadeira concepção dessa virtude, ensinada pela Igreja.<br />

Desde essa época há a tendência de confundir bondade<br />

com uma complacência em relação a certas formas de mal,<br />

o que redunda quase sempre em fechar os olhos obstinadamente<br />

ante ele, como se não existisse.<br />

Bem diferente era a alma de Dª Lucilia, na qual se reuniam,<br />

numa admirável síntese, a bondade e uma inquebrantável<br />

firmeza de princípios; a misericórdia e um aguçado<br />

senso de justiça; a afabilidade e uma inteira seriedade<br />

de espírito. Este conjunto harmônico de virtudes lhe propiciava,<br />

com certa freqüência, perceber o que as situações<br />

e as pessoas tinham de bom ou de mau.<br />

Novamente em Águas da Prata<br />

O Hotel São<br />

Paulo, em<br />

Águas da Prata,<br />

e fac-símile da<br />

segunda carta<br />

transcrita abaixo<br />

Até o fim de sua longa vida, Dª Lucilia suportou com<br />

suave resignação a incômoda doença de fígado, que freqüentemente<br />

a obrigava a guardar o leito por alguns dias.<br />

A par dos contínuos socorros médicos prestados por <strong>Dr</strong>.<br />

Murtinho, este continuava a recomendar à sua paciente<br />

assíduas temporadas na estância termal de Águas da Prata,<br />

que começava a criar fama. No fundo, talvez julgasse<br />

surtirem mais efeito os meios de cura dados por Deus do<br />

que os medicamentos criados pela imperfeição do engenho<br />

humano, princípio este adotado também por Dª Lucilia.<br />

É certo que nos períodos passados por ela naquela<br />

cidade, escrevia com freqüência a seus filhos. Porém, a voragem<br />

do tempo e as vicissitudes da vida apenas nos legaram<br />

escassas linhas de um epistolário sem dúvida abundante.<br />

29


De 1935, são estas duas cartas que até nós chegaram. Uma<br />

para <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, outra, poucos dias depois, para a filha, Dª<br />

Rosée.<br />

Prata, 29-5-935<br />

Filhão querido!<br />

Graças a Deus e a Maria Santíssima, fizemos excelente viagem<br />

e aqui estou um pouco cansada, e tremendo de frio. O<br />

dia esteve lindo mas nunca pensei que fizesse tanto frio aqui!<br />

O jantar esteve bem bonzinho. A comida é simples, mas boa,<br />

pelo menos a de hoje. Eu disse ao gerente, logo que cheguei,<br />

que a força de hábito era o que me trazia ao Hotel São Paulo,<br />

porque tinha ouvido dizer que a comida estava muito ruim e<br />

que receava, se fosse assim, não poder agüentá-la.<br />

Ele mostrou-se incomodadíssimo e me garantiu que seria<br />

tão bem servida quanto o permitissem as<br />

condições do lugar. Vou começar amanhã<br />

com o regime das águas do Paiol e<br />

peço a Deus ardentemente para que<br />

eu melhore bastante. (...)<br />

[Com] minhas bênçãos e<br />

muitos beijos e abraços de<br />

tua mãe extremosa,<br />

Lucilia.<br />

Na carta a sua filha,<br />

entre os assuntos<br />

caseiros — consultas<br />

ao <strong>Dr</strong>. Murtinho<br />

e outros —<br />

é curioso notar a<br />

despretensiosa referência<br />

de Dª Lucilia<br />

à estima a ela<br />

devotada por uma<br />

senhora belga, hospedada<br />

no mesmo<br />

hotel.<br />

Prata, 4-6-1935<br />

Filha querida<br />

Tive o prazer de receber<br />

anteontem tua carta e estranhei<br />

que não tivesses aludido a<br />

um cartão que te escrevi no dia<br />

imediato ao em que te mandei a carta,<br />

te pedindo referências quanto á minha passagem<br />

de volta, pois o chefe recolheu a que levava,<br />

dizendo ser aquela somente de ida, e que para a volta, deveria<br />

me munir de outra aqui, isto é, comprar outra.<br />

Será possível que a [agência] esteja nos explorando por esta<br />

forma, ou terei-me enganado, e seja realmente preciso comprar<br />

outras? — Peço-te que me mandes dizer qualquer cousa<br />

a respeito.<br />

Peço-te também que digas ao Murtinho que tenho tido estes<br />

dois últimos dias freqüentes vezes adormecimento nas mãos,<br />

30<br />

DONA LUCILIA<br />

Da. Lucilia (ao fundo) e o<br />

pequeno <strong>Plinio</strong> (à direita), numa<br />

de suas antigas estadas em<br />

Águas da Prata<br />

e se ele crê que possa isso ser devido aos banhos, que acho<br />

tão agradáveis e que dizem ser indicados para fazer boa a circulação.<br />

Sentiria muito se tivesse de deixá-los. Estou começando<br />

agora (...) a sentir os bons efeitos da água do Paiol.<br />

Teu pai ainda não me escreveu depois que aí está. Estou<br />

todos os dias à sua espera. Como vai a minha queridinha?¹<br />

Tenho tantas saudades dela!<br />

Tem aqui no hotel uma belga inteligentíssima, mas que não<br />

deixa de ser um pouco “toquée”², que tem uma prosa muito<br />

interessante, que me distrai muito, mas também me cansa um<br />

pouco, porque não quer me deixar, e até no meu quarto ela se<br />

intromete e não me deixa. Sua prosa é ótima, e sei que gostarias<br />

muito de ouvi-la sobre suas inúmeras e interessantes<br />

viagens. Quando a ouço, me lembro sempre de ti, principalmente<br />

quando fala sobre a Rússia. Ela mora na Argentina,<br />

e veio só fazer estação em Caldas, e depois em<br />

Prata. Regula em idade comigo, ou um<br />

pouco mais velha, mas é exuberante<br />

de vida! O marido e os filhos ficaram,<br />

mas parece que mesmo assim,<br />

adora os filhos que são<br />

cinco, três moços, e dois pequenos.<br />

Metade do pessoal já<br />

foi. Somos apenas nove<br />

agora, e daqui a<br />

poucos dias vai nova<br />

turma. Quando chegar<br />

a vez da minha<br />

belga, vou achar<br />

bem falta!<br />

E você, querida,<br />

como vai de saúde?<br />

E o Antonio, anda<br />

com algum novo<br />

bom negócio em vista?<br />

Dá-lhe por mim<br />

um abraço.<br />

E a minha casa e<br />

criadagem, como vai? Já<br />

estou com muitas saudades<br />

de vocês e da minha<br />

casinha.<br />

Com minha bênção para todos<br />

três, envio-te muitos beijos e<br />

abraços. De tua mãe extremosa,<br />

Lucilia<br />

(Transcrito, com adaptações,<br />

da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)<br />

1) Referência à neta, Maria Alice.<br />

2) “Desequilibrada”, em francês.


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

N oite santa,<br />

noite<br />

S ilenciosa...


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

Ao longo dos séculos da história<br />

cristã, as noites de Natal<br />

têm recordado aos homens<br />

e lhes feito compartilhar as bênçãos<br />

inefáveis do augusto momento<br />

em que o Redentor nasceu para o mundo.<br />

Sobretudo antes das festas laicas e<br />

comercializadas de hoje, as celebrações<br />

natalinas possuíam um néctar,<br />

uma poesia, um encanto, um discernimento<br />

de espírito por onde todos como<br />

que sentiam e conheciam a graça<br />

de Deus e de Cristo que desce como<br />

um orvalho do mais alto do céu, ou<br />

seja, do claustro sacratíssimo de Nossa<br />

Senhora, e sem transgredir a virgindade<br />

intacta da mãe, entra nesta terra.<br />

A Virgem teve um filho e a humanidade<br />

se extasia!<br />

Dir-se-ia revestido de completa beleza<br />

o cenário dessa noite na Terra Santa,<br />

iluminada por estrelas reluzentes como<br />

nunca, povoada de Anjos que anunciam<br />

o nascimento do Salvador. Entretanto,<br />

como lucra em formosura o Natal,<br />

quando considerado nas manifestações<br />

de piedade e de inocência com<br />

que o festejam os povos germânicos!<br />

Imagine-se a igrejinha, a<br />

paroquiazinha toda coberta<br />

de neve, com o relógio iluminado<br />

por dentro, indicando<br />

10 para a meianoite;<br />

os aldeiões que<br />

se aproximam com os<br />

tamancões grandes,<br />

porque a neve enche<br />

o caminho,<br />

e ainda cai aos<br />

flocos. A igreja,<br />

bem aquecida,<br />

acolhe generosamente<br />

os seus<br />

fiéis que entram<br />

depressa e logo se<br />

acomodam naquele<br />

pequeno palácio do<br />

Menino-Deus.<br />

Ao longe, as casinhas<br />

da aldeia espargem<br />

cintilações<br />

douradas através<br />

de suas janelas,<br />

pontilhando de<br />

luz o imenso man-<br />

to de neve com que se veste a natureza.<br />

Das chaminés escapam tufos de<br />

fumaça: é a festa de Natal que já está<br />

preparada, a lareira acesa, as suculentas,<br />

atraentes e substanciosas delícias<br />

da culinária alemã postas no forno, os<br />

presentes junto à esplendorosa árvore<br />

montada na sala principal, enfim, tudo<br />

pronto para as santas alegrias que se<br />

seguem à jubilosa celebração litúrgica.<br />

Esses vários aspectos constituem,<br />

dentro da inocência da neve, um quadro<br />

só, completado pelos sentimentos<br />

da canção natalina por excelência, o<br />

Stille Nacht.<br />

Stille Nacht! Heilige Nacht!<br />

Alles schläft, einsam wacht<br />

Nur das traute hoch heilige Paar.<br />

Holder Knabe im lockigen Haar,<br />

Schlaf in himmlischer Ruh!<br />

Noite silenciosa, noite Santa!<br />

Tudo dorme. Solitário, está velando<br />

O nobre e altamente santo Casal.<br />

E o Menino de cabelos cacheados,<br />

Dorme em celestial tranqüilidade!<br />

Composta no século XIX por um<br />

modesto professor austríaco, o mundo<br />

inteiro a adotou como a música do<br />

Natal. E desde então não se compreende<br />

um 25 de dezembro em que não<br />

se entoe, nos mais diversos países e nos<br />

mais diferentes idiomas, o Stille Nacht<br />

— o nosso “Noite Feliz”...<br />

Por movimentos aos quais não é<br />

alheia a mão da Providência, o consenso<br />

popular soube compreender o<br />

significado mais profundo desta canção,<br />

e daí a indiscutível primazia dela<br />

sobre as demais melodias natalinas.<br />

Que significado?<br />

No Stille Nacht existe em alto grau<br />

a idéia de que os Céus se abriram, e o<br />

32


Apoesia e o encanto<br />

natalinos, expressos<br />

nessas imagens de<br />

presépio, sempre<br />

recordaram aos<br />

homens o augusto<br />

momento em que<br />

o Verbo de Deus<br />

desceu até nós,<br />

como um orvalho<br />

caído do mais<br />

alto dos céus<br />

33


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

Menino Jesus fez um percurso gigantesco para<br />

chegar até nós. Portanto, por trás da idéia da<br />

Encarnação, e como elemento necessário para<br />

se situar inteiramente a posição do homem em<br />

face do nascimento do Verbo, está a noção de<br />

um acontecimento fabuloso, desmedido, imenso,<br />

que se deu e se converteu em intimidade e<br />

amor. E, por causa disso, em ternura, o tempo<br />

inteiro maravilhada.<br />

É a ternura diante das fragilidades de um<br />

Deus feito homem, diante das quais nós não temos<br />

nem sabemos o que dizer. De outro lado,<br />

porém, esse mesmo Deus é o Senhor do Universo,<br />

onipotente, eterno Juiz de toda a Criação.<br />

Portanto, num sublime paradoxo, é a ternura e<br />

a compaixão para quem é infinitamente mais do<br />

que nós, extremamente delicadas, envoltas num<br />

alto critério de sentimento para serem dignas de<br />

se apresentarem Àquele que de fato merece essa<br />

compaixão, mas que é Deus. Então é a piedade<br />

humana ao mesmo tempo admirativa e súplice,<br />

é o homem que tem pena fazendo um pedido ao<br />

Deus de quem tem pena... Outro paradoxo, outra<br />

grandiosa beleza!<br />

Paradoxos e contrastes que despertam em nossas<br />

almas toda sorte de delicadeza de emoções.<br />

Ao lado da ternura e da compaixão, a reverência,<br />

a veneração, a submissão de todo o nosso ser<br />

ao Divino recém-nascido, e um deixar-se levar<br />

a subidas cogitações às quais esse acontecimento<br />

entre todos bendito nos convida. Além disso,<br />

a noção recolhida, humilde e enlevada do sublime,<br />

e um imenso agradecimento de quem recebe<br />

uma misericórdia sem limites, por nos sentirmos<br />

visitados e impregnados por todas<br />

as graças que Ele trouxe ao mundo, para<br />

a nossa salvação.<br />

A todas essas boas disposições nos<br />

inclina a melodia do Stille Nacht, cujas<br />

notas e inflexões têm isso de próprio,<br />

que fazem um comentário do<br />

sentido da palavra cantada. Então,<br />

nos tons mais baixos, é a ternura vigilante<br />

que se debruça sobre a manjedoura,<br />

velando para que nada toque<br />

no Menino, que nada O moleste.<br />

Ele está chorando, mas a<br />

Mãe o consola... E com que incomparável<br />

desvelo!<br />

Em outros momentos, porém,<br />

nas notas mais agudas, novamente<br />

ressalta a idéia de que<br />

este Menino de cabelos cacheados,<br />

é Deus. O Menino dorme. E a sua<br />

tranqüilidade, assim como Ele,<br />

não é da terra. É do Céu... v


A inocência da neve, a<br />

ternura e a compaixão diante<br />

das fragilidades de um Deus; a<br />

imensa gratidão de quem<br />

recebe uma misericórdia sem<br />

limites, trazida pelo Menino de<br />

cabelos cacheados.<br />

O Menino que dorme em<br />

celestial tranqüilidade...


Virgem e Mãe<br />

Não há título maior que o de<br />

Mãe de Deus, nem foi dado<br />

a uma criatura ser elevada a<br />

uma honra superior à conferida pela<br />

maternidade divina. Contudo, Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo preza tanto<br />

a virgindade que desejou fosse<br />

sua Mãe, além de imaculada e<br />

adornada de todos os dons do Céu,<br />

igualmente virgem. Para isso,<br />

operou em favor d’Ela um estupendo<br />

milagre que excede à<br />

nossa imaginação: Maria permaneceu<br />

virgem antes, durante<br />

e depois do parto.<br />

Segundo a bela comparação<br />

que fazem os teólogos, assim como<br />

Nosso Senhor saiu do sepulcro<br />

sem esforço, assim deixou<br />

Ele o claustro materno, sem detrimento<br />

da inviolada virgindade<br />

de Maria Santíssima.<br />

A Virgem d’Autun, França

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