Revista Dr Plinio 52

revistadp

Julho de 2002

Fé e

sabedoria


O

s dias dos

homens estão

nas mãos de Deus,

mas as mãos de

Deus dependem do

Coração de Maria,

porto seguro para

todos os homens...

Notre-Dame de la

Garde (Nossa

Senhora da Guarda),

que recebe os

navegantes no porto

de Marselha, França


Sumário

Fé e

sabedoria

Na capa,

Dr. Plinio no

fim da

década

de 1980

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Jornalista Responsável:

Othon Carlos Werner – DRT/SP 7650

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Marcos Ribeiro Dantas

Edwaldo Marques

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Santo Egídio, 418

02461-011 S. Paulo - SP - Tel: (11) 6236-1027

Fotolitos: Diarte – Tel: (11) 5571-9793

Impressão e acabamento:

Pavagraf Editora Gráfica Ltda.

Rua Barão do Serro Largo, 296

03335-000 S. Paulo - SP - Tel: (11) 291-2579

4

5

6

12

15

20

25

EDITORIAL

Princípio e fundamento

DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO

No dia de Nossa Senhora do Carmo

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Ensino imparcial da História: triunfo da Igreja

DENÚNCIA PROFÉTICA

“Questão social” ou crise religiosa?

DR. PLINIO COMENTA...

O Paraíso do novo Adão

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

Princípios da unidade

ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

O maior bem possível

Preços da assinatura anual

Julho de 2002

Comum. . . . . . . . . . . . . . . . R$ 75,00

Colaborador . . . . . . . . . . . . R$ 110,00

Propulsor . . . . . . . . . . . . . . R$ 220,00

Grande Propulsor. . . . . . . . R$ 370,00

Exemplar avulso. . . . . . . . . R$ 10,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 6236-1027

27

31

36

DONA LUCILIA

Como um cristal de Baccarat...

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Belezas exemplares

ÚLTIMA PÁGINA

Para alcançarmos a eternidade

3


Editorial

Princípio e fundamento

Adesorientação e a confusão crescem de modo

assustador. Não apenas nas ruas, no

noticiário, na vida particular, nos negócios

públicos e privados, mas mesmo nos cenáculos

intelectuais, para onde muitos olhavam até poucos

anos atrás, à espera de palavras criteriosas.

Nos centros universitários, nas academias, nas

instituições voltadas para estudos e pesquisas históricas,

antropológicas e sociológicas, multiplicam-se

as tentativas de explicar a balbúrdia atual: teoria do

acaso, teoria do caos, determinismo, universo linear;

tecnologismo, mundialismo, estruturalismo, funcionalismo,

modelo histórico dialético, mecanicismo, fenomenologia,

teoria da complexidade...

Derivando às vezes para hipóteses bem pouco científicas,

mas antes fantasiosas e absurdas, ou mesmo

para delírios panteístas, tais doutrinas se chocam e se

confundem, se ridicularizam e se acusam pelo fracasso,

sem conseguir apontar uma saída satisfatória

para a situação do mundo. Suas falhas são insanáveis,

porque se assentam em bases superficiais e arbitrárias.

Falta-lhes aquilo sem o qual o universo, o homem,

a sociedade humana e, portanto, o rumo dos acontecimentos

são incompreensíveis: o alicerce sólido da

Fé católica.

“O homem é criado para louvar, reverenciar e servir

a Deus nosso Senhor, e mediante isto salvar a sua alma”

— diz Santo Inácio de Loyola nos seus célebres

“Exercícios Espirituais”. “E as outras coisas sobre a

face da terra são criadas para o homem, para o ajudarem

a conseguir o fim para que é criado”. São as

palavras iniciais da meditação chamada “Princípio e

fundamento”, que dá o único critério verdadeiro para

medir as coisas deste mundo.

Era por esse padrão que Dr. Plinio guiava seu pensamento.

Daí aquela sua certeza tranqüila, o olhar

límpido, a orientação clara, os acertos contínuos que

tanto causavam admiração. Fitando o caos atual de

cima desse patamar, ele discernia seu desembocar e

sua solução, e escrevia: “A Igreja é, nos planos de Deus,

o centro da História. É a Esposa Mística de Cristo,

que Ele ama com amor único e perfeito, e à qual quis

sujeitar todas as criaturas. Claro está que o Esposo

nunca abandona a Esposa, e que é sumamente cioso

da glória d’Ela. Assim, na medida em que seu elemento

humano se conserva fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo,

a Igreja nada deve temer. Até as maiores perseguições

servirão à sua glória”*.

Ao longo do presente número de nossa revista,

quer Dr. Plinio fale sobre a “questão social”(p. 12),

quer sobre a estética do universo (p. 20) ou os documentos

de Leão XIII sobre a História (p. 6), ele insiste

nesta visão cristocêntrica e eclesiocêntrica da

existência humana, como a chave para a resolução

dos problemas de hoje.

Era o que ele afirmava também, ao concluir as palavras

acima: “No plano temporal, se os homens abrirem

sua alma à influência da Igreja, estará franqueado

a eles o caminho de todas as prosperidades e grandezas.

Pelo contrário, se a abandonarem, estarão na

trilha de todas as catástrofes e abominações”.

* Catolicismo, nº 86, 2/1958

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625

e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras

ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista.Em nossa intenção, os títulos elogiosos não

têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO

No dia de Nossa Senhora do Carmo

Pelos meados da década de 40, Dr. Plinio

fizera estreita amizade com os frades

carmelitas calçados de São Paulo, tendo-se

tornado advogado da Ordem dos Irmãos

da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte

Carmelo.

Logo que pôde, ingressou na Ordem Terceira

do Carmo, e dentro em pouco tornou-se seu prior

e mestre de noviços. Em certas ocasiões, a Ordem

Terceira promovia, na Basílica do Carmo,

na Bela Vista, belas celebrações, como, por exemplo,

a adoração noturna mensal. A principal cerimônia

anual era realizada no dia 16 de julho.

Antes disso, tinha lugar a novena preparatória,

que se iniciava no dia 7 desse mês.

Dr. Plinio, sempre adepto e admirador das

grandes solenidades, participava nessas ocasiões

com muita compenetração.

Durante todos os dias da novena, o evento se

iniciava com um cortejo dos irmãos da Ordem

Terceira, revestidos de seu conhecido hábito, pelo

corredor central da igreja, enquanto no coro

um grupo de cerca de quarenta frades, acom-

panhado pelo órgão e por uma pequena mas

muito melodiosa orquestra, executava grandioso

cântico.

Com seu físico avantajado, porte ereto e caminhar

firme, Dr. Plinio sobressaía entre todos.

Mais ainda pelo olhar contemplativo, decidido e

analisador, espelho fiel de um coração ardente

de amor a Deus.

Num dos primeiros cortejos de que participou,

ia ele andado por uma nave lateral, quando observou

uma pintura mural na qual Deus perguntava

a um profeta: “O que fazes?” E o profeta respondia:

“Zelo zelatus sum, pro Domino Deo exercituum”

— “Estou devorado de zelo pelo Senhor,

Deus dos Exércitos” (1Reis 19,10).

“Não percebi logo que se tratava de Elias” —

comentou Dr. Plinio certa vez —, “nem conhecia

esse episódio da vida dele. Olhei e pensei:

Quando terminar a cerimônia, vou perguntar de

que santo se trata, porque esse é o meu padroeiro!”

Dr. Plinio quando prior da

Ordem Terceira do Carmo; ao

fundo, fachada da Basílica

dos frades carmelitas, em

São Paulo


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Ensino imparcial

da História:

TRIUNFO DA

IGREJA


Leão XIII

A

Carta Apostólica “Annum Ingressi”, diz Dr. Plinio, é a chave de cúpula

de uma brilhante série de documentos redigidos pelo Papa Leão XIII,

para mostrar o papel benéfico e insubstituível da Igreja Católica no

desenvolvimento da civilização e na promoção do verdadeiro progresso. Dentro

da série estamos publicando, ele continua a comentar o pensamento do

Pontífice.

Conforme vimos, os documentos publicados por Leão

XIII sobre os mais diversos temas constituíam um

conjunto que visava ao mesmo fim: esclarecer e

alertar, na tormenta, o povo fiel.

As Encíclicas sobre doutrinas sociais, sobre a família,

sobre o poder político não são senão episódios de uma só

e grande reação em face das “opiniões perversas”. E de tal

maneira esses documentos se entrelaçam uns com os outros,

que os maiores condensam muitas vezes, e genialmente

desenvolvem, ensinamentos para os quais as Encíclicas

anteriores já haviam preparado os espíritos, tocando

ex professo ou incidentemente o mesmo assunto. Ele nolo

diz, aliás, expressamente quanto a mais de uma delas.

Numa série tão concatenada, o último documento, feito

por um autor que, como vimos, não ignorava estar prestes

a transpor as “portas da eternidade”, tem evidentemente

o caráter de remate, o papel de chave de cúpula, a importância

de um complemento final e supremo, de uma

7


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

mensagem extrema na qual se resume, e chega à sua

mais nítida e sintética expressão, tudo quanto de mais

essencial fora anteriormente ensinado.

A história de Leão XIII, a análise de seus documentos,

a própria história do século em que ele viveu e no

qual sua figura alcançou projeção mundial, não podem

abstrair do estudo da “Annum ingressi”.

O estudo da História não pode ser

“desinteressado”

Essa Carta Apostólica, que constitui importante trabalho

histórico — pois é como que a síntese de uma fase

crucial da História da Igreja, escrita por ela mesma —,

apresenta para a historiografia católica e, a este título,

também para a historiografia em geral, um interesse inegável.

Pois ela nos faz conhecer o pensamento do grande

Papa sobre a missão da História, bem como sobre o “tratamento”

do fato histórico com os recursos de uma sã

filosofia e de uma teologia ortodoxa.

O pensamento de Leão XIII se nos apresenta bem

definido nesse documento: a História não pode ser “desinteressada”,

isto é, o historiador deve ser imparcial na

pesquisa da verdade histórica, mas uma vez tendo-a encontrado,

pode e deve tomar partido por ela. No caso concreto,

o historiador imparcial, bem informado e capaz,

verá na História uma justificação da Igreja. Cabe-lhe dar

testemunho deste fato.

E mais: como a Igreja é uma sociedade viva, que age e

luta no presente; como o testemunho da História é elemento

essencial para o êxito ou o insucesso desta luta; o

historiador está no seu direito quando se empenha especialmente

em desfazer o falso testemunho de uma História

mentirosa. A História apologética, assim entendida, não

é um subproduto da História, e muito menos uma caricatura.

É, pelo contrário, História genuína e excelente,

voltada para a realização de uma de suas mais altas missões.

Se o Papa coloca, no ápice da grandiosa construção

doutrinária, um documento histórico-apologético, um de

seus objetivos expressos é exatamente “reabastecer de

Fé e coragem” as almas que, opressas pelas “graves provações

da Igreja”, poderão “recobrar alento”.

A História tem também outro fim, que é dos principais

para Leão XIII: buscar nos fatos do passado uma explicação

do presente, que sirva para a solução dos problemas

atuais (veremos depois que Leão XIII aponta outra

utilidade para a História: proporcionar elementos para

fundadas conjecturas do futuro). Com efeito, se Leão

XIII se propõe demonstrar na “Annum ingressi”, com argumentos

históricos, a grande lei que nela enuncia, fá-lo

para “assinalar os remédios” aos males de seu tempo:

História “Magistra Vitae” — a História é a mestra da vida,

diziam os antigos.

Muitas vezes o ensino da História é

preconceituoso

Aliás, nessa Carta Apostólica, Leão XIII outra coisa

não faz senão pôr em prática os conselhos que, em outros

documentos famosos sobre a História, ele deu aos historiadores

católicos.

Referimo-nos em especial ao Breve Saepenumero Considerantes

(“Consideramos freqüentemente”), de 18 de

agosto de 1883, documento famoso, pelo qual Leão XIII

franqueou os arquivos do Vaticano ao estudo dos historiadores.

É interessante ver como a “Annum ingressi” constitui

um modelo de trabalho histórico feito segundo o espírito

desse Breve.

Começa o Breve por lamentar “a força e perfídia” com

que os adversários da Religião procuram tirar proveito da

História para “tornar suspeitos e odiosos a Igreja e o Papado”.

Dá ele um apanhado da historiografia anticatólica,

desde os “Centuriadores de Magdeburgo” (Alemanha)

até nossos dias¹.

Ora, esta historiografia “invadiu até as escolas”, onde

“freqüentemente se dão às crianças, para as instruir, livros

cheios de erros”. No ensino superior, o estudo da História

é aproveitado para “construir teorias baseadas em

preconceitos temerários, o mais das vezes em desacordo

flagrante com a Revelação divina”, o que enche a “chamada

Filosofia da História” de “densas trevas”.

Em suma, “sem descer a pormenores, o plano geral do

ensino histórico tem por fim tornar suspeita a Igreja e

odiosos os Papas, bem como persuadir, sobretudo a multidão,

de que o governo pontifício é um obstáculo à prosperidade

e grandeza da Itália”. Leão XIII manifesta aqui

uma preocupação muito acentuada com a História da

Itália, país no qual a investida anticlerical estava em seu

clímax. Não obstante, o panorama descrito se aplicava,

mutatis mutandis, ao mundo inteiro.

Nesse Breve fica, assim, caracterizada em termos impressionantes

a ofensiva desenvolvida contra a Igreja no

campo histórico: “Hoje mais do que nunca”, assevera

Leão XIII, “a arte do historiador parece ser uma conspiração

contra a verdade”. O Pontífice emprega, a este propósito,

expressões que insistem muito sobre a má-fé da

historiografia anticatólica.

História anticatólica, eivada de erros e

de injustiças

O Papa fala de “injustos ataques contra a honra e dignidade

da Sé Apostólica”, “mutilações e hábeis omissões

8


sobre o que constitui os maiores lances da História, a fim

de dissimular, pelo silêncio, os fatos mais gloriosos e gestos

memoráveis, enquanto se redobravam esforços para

de pôr em evidência e exagerar” o que, no passado da Igreja,

poderia ter sido “menos prudente ou menos irrepreensível”;

“malevolência e calúnias” contra o poder temporal

dos Papas; “mentiras que audaciosamente se esgueiram

nas volumosas compilações e nos delgados panfletos”,

na imprensa e no teatro; quando a própria evidência

dos fatos não permitia que se voltassem contra a Igreja

“todos os negrumes da calúnia”, narravam-se os fatos

de maneira a subestimar tanto quanto possível a glória

dos Papas, “à força de atenuações e dissimulação”.

Para Leão XIII,

um ensino preconceituoso da

História é uma conspiração

contra a verdade,

e tem por fim tornar suspeita a

Igreja e odiosos os Papas


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Pouco depois, Leão XIII denuncia os livros escolares

“cheios de mentiras”, a “perversidade e leviandade” de

certos professores; mostra que nas escolas superiores as

teorias contrárias à Revelação eram elaboradas “com o

único intuito de dissimular e ocultar o que as instituições

cristãs tinham de mais salutar”.

Com isto chegavam a “inconseqüências e absurdos”.

Quanto ao “plano de ensino da História tendente a tornar

a Igreja suspeita, os Papas odiosos, e persuadir a multidão

de que o governo pontifício era um obstáculo à gradeza

da Itália”, “nada se pode afirmar que mais revolte a

verdade”, diz Leão XIII; isto é “mentir violentamente

sobre fatos evidentes e notórios. Enganar conscientemente

a outrem, com intuito criminoso, é por maldade envenenar

a História”.

Quanto aos efeitos deletérios dessa ação anticristã,

que dissemina uma História “escravizada ao espírito de

partido”, o Breve os enumera com precisão e força².

No intuito de assegurar a

manutenção integral da

verdade cristã e fomentar

estudos históricos de orientação

católica, Leão XIII franqueou

parte dos preciosos documentos e

manuscritos conservados na

Biblioteca Vaticana

(abaixo e na página ao lado)

10


O dever dos historiadores católicos

Tudo isto convida, a um nobre esforço de História apologética,

“homens probos e versados neste gênero de estudos,

que se consagrem a escrever a História de maneira

que esta seja o espelho da sinceridade e da verdade”.³

A História apologética não é, pois, uma História feita

com retoques fraudulentos, para servir às conveniências

de uma causa. É proba, honesta, veraz, científica, inflexivelmente

subordinada ao tríplice ditame de toda História

digna desse nome: “não mentir, não temer dizer a verdade,

não ceder ao desejo de lisonjear, ou de hostilizar”. 4

Se se pode falar de uma História apologética segundo

a mente de Leão XIII, é simplesmente no sentido de uma

História tão autêntica e científica como outra qualquer,

mas que escolhe por temas os assuntos em que a História

falsa procura guerrear a Igreja.

Quando falamos de História científica aludimos tão-somente

a uma História feita segundo os bons métodos, e

com o auxílio dos recursos científicos hodiernos. Os historiadores

católicos devem ter em conta que “nada do

que o engenho dos modernos inventou é alheio ao objeto

de seus trabalhos” — escreveu Leão XIII noutro de seus

documentos. 5

Além de ser obra rigorosamente imparcial, uma obra

dessa categoria presta alto serviço à causa da religião e

da sociedade, bem se vê. Tarefa digna de particulares

“eruditos e adestrados na arte de escrever a História” –

“historia scribendi arte” 6 . Tão nobre que constitui para a

própria Igreja um direito e um dever: “já que o inimigo

busca na História suas armas principais, cumpre que a

Igreja combata em paridade de condições, e redobre

seus esforços para repelir o assalto com valentia maior

onde ele é mais violento” 7 . E foi essencialmente com este

intuito que Leão XIII franqueou “os depósitos literários”

do Vaticano aos estudiosos. Tanto é legítima e gloriosa a

tarefa de uma História apologética bem entendida.

E, com efeito, não teria sentido o papel dos estudos bíblicos

indispensáveis à Igreja para que ela exerça seu ministério

num ambiente cultural cada vez mais trabalhado

pela crítica científica, se não se reconhecesse francamente

a liceidade de uma História apologética.

Na mente de Leão XIII, não só tais estudos bíblicoapologéticos

eram cientificamente lícitos, mas da maior

importância. Consagrou-lhes uma Encíclica que ficou famosa

(Providentissimus Deus, de 18 de novembro de 1893),

mas instituiu ainda a Comissão dos Estudos Bíblicos, para

“assegurar a manutenção integral da verdade cristã e

promover os estudos da Sagrada Escritura” 8 e lhe pôs à

disposição “uma parte de nossa Biblioteca Vaticana”, na

qual prometia instalar, para uso da Comissão, abundante

coleção de manuscritos e de volumes de todas as épocas,

tratando de questões bíblicas. 9

O apelo de Leão XIII deu origem a toda uma série de

trabalhos históricos de orientação católica, que figuram

com honra na bibliografia de nossos dias.

1 Saepenumero Considerantes II,2,a,b,c,d. Os chamados“centuriadores

de Magdeburgo”, teólogos protestantes, escreveram

no século XVI uma história da Igreja, de caráter

fortemente anticatólico, com argumentos inconsistentes,

distorções da verdade e muitos documentos falsos. Sua tese

era de que a Igreja Católica havia sido infiel à primitiva

Igreja cristã, tinha destruído a brilhante antiguidade grecoromana

e jogado o mundo no obscurantismo, fanatismo e

miséria da Idade Média. Felizmente, o Renascimento havia

recuperado os valores do mundo antigo.

2 Saepenumero Considerantes IV,a,b.

3 Saepenumero Considerantes IV,b.

4 Saepenumero Considerantes IV,d.

5 Carta Apostólica Vigilantiae Studéique Memores, 30/10/1902.

6 Saepenumero Considerantes V.

7 Saepenumero Considerantes IV,i.

8 Vigilantia Studéique Memores, op. cit.

9 Ibid. Leão XIII apela nesta Carta Apostólica aos “católicos

mais favorecidos com bens de fortuna” para enriquecer

ainda mais este depósito. Na biblioteca do Vaticano, que o

próprio Pontífice expandiu pela aquisição da biblioteca

Borghese, bem como no arquivo do Vaticano, hauriram os

documentos para seus trabalhos, historiadores do valor do

Cardeal Hergenröther, do dominicano Deniffle, do

Cardeal Ehrle, do Barão Luís de Pastor e do Padre

Duchesne.

11


DENÚNCIA PROFÉTICA

O manifestante mais exaltado procura inflamar os ânimos de seus ouvintes: a

imagem clássica da efervescência social...

“Questão social” ou

crise religiosa?

12


Q

uantas discussões, quantos estudos e quantas pesquisas

não se fizeram nos últimos cem anos, para procurar as

causas da decadência da sociedade? Mas nunca se chega a

uma resposta satisfatória. Entretanto, as raízes do problema são

facilmente identificáveis, como mostra Dr. Plinio.

Oque é a “questão social” de nossos dias? Genericamente

falando, “questão social” é todo

o problema suscitado por alguma anomalia na

vida da sociedade. Distingue-se de “questão política”,

enquanto esta diz respeito à organização do Estado.

Ninguém ignora que o mundo já conheceu muitas questões

sociais que culminaram em conflitos: lutas entre

plebeus e nobres, entre escravos e homens livres, entre

nobres e burgueses na Idade Média e no século XVI,

etc. Mas é um erro supor que a única forma de “questão

social” é a luta entre classes. A corrupção dos costumes

públicos e privados, a dissolução de todos os organismos

que constituem a contextura social, a decadência

da família, dos órgãos profissionais, das classes

sociais, da probidade comercial, das artes, tudo isto pode

constituir uma “questão social” monstro, que leve a

sociedade à ruína. E uma questão social deste tipo pode

existir, medrar, levar aos mais trágicos desfechos,

sem que entre as classes componentes do organismo

social haja a luta ou rivalidade.

Assim, pois, a luta de classes é uma forma de “questão

social”, porém não é a única, e nem sequer é necessariamente

a mais perigosa delas. O Império Romano do Ocidente,

por exemplo, pereceu em virtude de uma imensa

“questão social”: toda a sociedade romana, na Itália, como

na Gália ou na Ibéria, estava radical e absolutamente

podre; por isto e só por isto, conseguiram os bárbaros

dominar os romanos; a questão social levou, pois, a sociedade

e o Estado romano à ruína; nem por isto havia

no Império uma luta de classes. (...)

Imenso fenômeno de destruição

(Nos dias que correm) sofremos de um fenômeno social

de decomposição dos caracteres e das instituições,

absolutamente tão vasto, tão profundo, tão virulento

quanto o Império em seus últimos dias. Apenas, a agravar

Ruínas do Império romano: símbolo eloqüente da imensa destruição a que se entrega a sociedade contemporânea

13


DENÚNCIA PROFÉTICA

a situação, temos além de tudo uma luta de classes que o

Império não tinha.

Temos também os bárbaros? Sim, e dentro das fronteiras.

Em nossos dias, não há, como no tempo dos romanos,

uma divisão entre o mundo bárbaro e o mundo

civilizado. No mapa contemporâneo não existem, delimitadas

com nitidez, as duas zonas anteriores à invasão: de

um lado o território imperial onde a civilização decadente

arrastava uma existência crepuscular; e do outro lado

o mundo bárbaro que planejava a invasão, o saque, a universal

destruição.

Hoje, os bárbaros vivem dentro de nossa civilização, e,

mais ainda, são engendrados pelas próprias entranhas

dela. Se nem todos são bárbaros, quase ninguém está inteiramente

escoimado de um quê de barbárie. Todos os dias,

quebra-se mais um pouco do que nos resta de nossa civilização

cristã. Aqui, é um princípio que se nega; ali, uma

tradição que se restringe; acolá, um costume sadio que se

revoga. Hoje somos menos cristãos do que ontem, amanhã

seremos menos cristãos do que hoje. Se tudo quanto

se corrói, se arranha, se quebra, do velho edifício da civilização

cristã, deixasse vestígios materiais, e se esses restos

pudessem ser recolhidos e reunidos em um só lugar,

poderíamos medir melhor com os olhos do corpo o que

nem todo o mundo vê com

os olhos do espírito.

Notaríamos, então, com horror, a que proporções fantásticas

chega este fenômeno de destruição. (...)

Na Igreja de Cristo, os caracteres de divindade refulgem

como um sol. Se alguém há que, depois de ter recebido

o santo Batismo e de ter professado conscientemente

a Fé, ignora esses caracteres, tem culpa nisto. Se alguém

há que, tendo pertencido à Igreja, dela se separou odiando

sua doutrina, suas instituições, a civilização que engendrou,

é réu do Sangue de Cristo. (...)

É doutrina católica que ninguém é tentado acima de

suas forças. Deus dá a todos a graça necessária. Se, pois,

um católico peca, peca livremente. A ocasião do pecado

pode ser a fome, a luxúria, ou qualquer outra. Mas a culpa

é dele. Assim, a razão de tantas apostasias está muito

mais na debilidade das convicções e do fervor religioso

de quem pecou, na sua falta de generosidade para com

Deus. E consiste apenas secundariamente na ocasião que

o levou ao pecado.

De tudo isto se conclui que (a “questão social”) e a luta

de classes não resultam em nossos dias de causas apenas

econômicas. Estas se incluem certamente no problema,

não porém a título capital. E tantas apostasias não

são senão um aspecto da enorme crise de caracteres contemporânea,

que, em última análise, é uma crise religiosa.

À vista de tudo isto, como qualificar a ingenuidade dos

que imaginam que, resolvida a questão econômica,

estaria resolvida a questão social?

(Excertos de artigo do “Legionário”, nº

754, de 19/1/1947.

Título e subtítulo nossos.)

Católicos em procissão

no norte da França:

se alguém há que,

tendo pertencido à

Igreja, dela se separou

odiando sua doutrina

e suas instituições, esse

é réu do Sangue de Cristo...

14


DR. PLINIO COMENTA...

O PARAÍSO DO NOVO ADÃO

C

onforme disse certa vez um autor sagrado, os verdadeiros devotos de Maria se sentem

irresistivelmente atraídos uns pelos outros. É o caso de Dr. Plinio em relação a

São Luís Maria Grignion de Montfort, cujos escritos foram, para ele, contínua fonte

de inspiração. Nestas páginas ele volta a comentar as riquezas aí encontradas.


DR. PLINIO COMENTA...

Uma das obras mais ricas

e empolgantes sobre

Nossa Senhora é, sem

dúvida, o Tratado da Verdadeira Devoção

à Santíssima Virgem, de São Luís

Maria Grignion de Montfort. Nele

encontramos sempre ensinamentos

que nos convidam a crescer no amor

e na devoção a Ela, além de se prestarem

a valiosos desdobramentos acerca

das insondáveis e maravilhosas perfeições

da Mãe de Deus.

Tomemos, por exemplo, um pequeno

trecho desse magnífico Tratado, para

comentá- lo passo a passo. Discorrendo

sobre como devemos fazer todas

as ações com Maria, em Maria e

por Maria, explica o santo autor:

“Para compreender cabalmente essa

prática, é preciso saber que a Santíssima

Virgem é o verdadeiro paraíso terrestre

do novo Adão, de que o antigo paraíso

terrestre é apenas a figura. Há, portanto,

nesse paraíso terrestre riqueza, belezas,

raridades e doçuras inexplicáveis

que o novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou.”

Excelência interior de

Nossa Senhora

Como se sabe, Adão foi criado no

Paraíso Terrestre. Era o lugar de maravilhas,

de esplendores, de felicidade,

do qual ele e Eva foram expulsos,

depois de caírem na tentação do demônio

e prevaricarem contra os preceitos

divinos. Contudo, aquele era o

paraíso do primeiro homem.

Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo é

considerado, a justo título, o segundo

Adão. Quer dizer, aquele que veio resgatar

a humanidade, tirá-la das sombras

da morte e restabelecê-la no estado

de graça, através da imolação que

Ele fez de si mesmo no alto da Cruz.

E assim como o primeiro Adão foi

criado num paraíso, o novo Adão deveria

ser criado igualmente num lugar

de delícias imaculadas. Esse segundo

paraíso é Nossa Senhora. Ou seja, tudo

o que Éden terrestre tinha de belo

e de esplêndido na sua realidade

material, Maria possuía ainda mais

belo e esplêndido na sua realidade

espiritual.

E Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo

em Nossa Senhora, teve maior

felicidade e contentamento do que

Adão no seu paraíso, pois assim como

o Filho de Deus era infinitamente

superior a Adão, o paraíso d’Ele

era insondavelmente mais precioso e

excelente que o do primeiro homem.

Por isso São Luís Grignion fala de

“riquezas, belezas, raridades e doçuras”

que existiam nele.

Tratam-se de aspectos distintos. Riqueza

é a abundância das coisas úteis,

e nem sempre envolve a beleza. Por

outro lado, algo pode ser muito belo

sem ser necessariamente rico, e pode

ser raro, sem representar riqueza ou

beleza especiais. Nesse novo Paraíso

havia, portanto, extraordinárias raridades,

belezas e riquezas espirituais,

além de incomparáveis doçuras.

A doçura é uma qualidade que torna

alguma coisa amena, agradável de

trato, suave de contato. Por exemplo,

o bem-estar que uma pessoa sente

quando se encontra à sombra de determinadas

árvores frondosas, a faz

experimentar uma satisfação e uma

harmonia que são diferentes da realidade

da riqueza e da beleza. É o

mesmo aconchego que se sente, aliás,

à beira de um bonito lago, de um riacho

ou, conforme o momento, à beira

do mar. Enfim, há uma doçura que

não se esgota nos termos de beleza,

nem de riqueza, nem de raridade.

Nossa Senhora e a Igreja,

perfeições recíprocas

E São Luís Grignion faz então um

inventário desses quatro valores, para

nos dizer que tudo isso existe em

Nossa Senhora, e nos levar a compreender

o que n’Ela há de riqueza, beleza,

raridade e doçura. Desse modo,

embora a Santíssima Virgem seja inesgotável,

vamos adquirindo um conhecimento

classificado das perfeições e

magnificências contidas na sua alma.

Por via de comparação, deveríamos

proceder da mesma maneira em re-

16


lação à Santa Igreja Católica Apostólica

Romana. Porque quase tudo

que se diz de Nossa Senhora, se diz

da Igreja; e, reciprocamente, quase

tudo o que se diz da Igreja, se diz de

Nossa Senhora. Maria é Mãe de Cris-

“O Jardim do Paraíso”, tendo ao centro

Nossa Senhora e o Menino Jesus:

o segundo Adão foi criado num lugar de delícias

imaculadas, ainda mais belo

e esplêndido que o paraíso do primeiro homem

17


DR. PLINIO COMENTA...

to, a Igreja é a Esposa Mística d’Ele,

e entre a Mãe e a esposa existem essas

correlações que facilmente podemos

compreender.

Podendo conhecer a Igreja Católica,

no que ela tem de essencial, no

seu esplendor copioso que atravessou

os séculos, também nos é dado

distinguir suas riquezas, suas belezas,

suas raridades e doçuras...

Dotada de graças indizíveis

Concluindo seu pensamento, São

Luís afirma que tais maravilhas foram

deixadas nesse segundo paraíso

pelo próprio novo Adão. É a idéia de

que Nosso Senhor Jesus Cristo, durante

o tempo sacratíssimo em que

Ele se formou no ventre materno,

cumulou-o de excelências de toda

ordem. Depois, pelo convívio entre

Filho e Mãe, desde o nascimento

d’Ele até a Ascensão, enriqueceu-A

ainda mais. Adão, no primeiro paraíso,

parece ter sido apenas um consumidor;

não consta que fosse um

embelezador, embora, permanecendo

fiel, provavelmente lhe coubesse

a tarefa de construir ali uma civilização

que aprimorasse tudo quanto recebera

de Deus. Ao contrário dele,

Nosso Senhor requintou e elevou o

paraíso onde esteve, isto é, aprimorou

e dotou Nossa Senhora de

graças indizíveis, fazendo-o, segundo

a expressão de São Luís Grignion,

“com a magnificência de um Deus”.

Analisemos. A magnificência de

um Deus é a magnificência total. O

autor lembra, de passagem, que ninguém

pode realizar coisas tão magníficas

quanto Deus. E se é verdade

que o paraíso do novo Adão foi mais

esplêndido do que o do primeiro, devemos

deduzir que Nossa Senhora é

incomparavelmente mais bela que

todo o universo. Quer dizer, estrelas,

sol, lua, água, lírios do campo, nada

tem qualquer paralelo com a beleza

espiritual e física da Santíssima Virgem.

Terra imaculada para o

corpo do novo Adão

“Esse lugar santíssimo é formado de

uma terra virgem e imaculada da qual

se formou e nutriu o novo Adão, sem

a menor mancha ou nódoa, por operação

do Espírito Santo que aí habita. É

nesse paraíso terrestre que está, em verdade,

a árvore da Vida que produziu

Jesus Cristo. Há, nesse lugar divino,

árvores plantadas pela mão de Deus e

orvalhadas por sua unção divina, arvores

que produziram e produzem todos

os dias frutos maravilhosos, de um

sabor divino; há canteiros esmaltados

de belas e variegadas flores de virtudes,

cujo perfume delicia os próprios anjos.”

São outras lindas comparações.

Assim como Adão foi formado a

partir do barro, e em seguida Deus

lhe insuflou uma alma, assim também

o novo Adão foi constituído da

carne virginal de Nossa Senhora, por

obra do Espírito Santo. Depois, havia

uma árvore da vida no paraíso

antigo, porém no paraíso novo existia

outra, que produziu o mais precioso

dos frutos, Jesus Cristo. É uma

referência à fecundidade imaculada

de Nossa Senhora.

Os belos canteiros, flores e frutos

variegados simbolizam os dons e virtudes

de Maria Santíssima, que deixam

os próprios Anjos — tão santos

e puros — extasiados.

Fortaleza invencível,

caridade abrasadora

“Há torres inexpugnáveis e fortes, habitações

cheias de encanto e segurança.”

Como em todo o texto de São Luís,

temos aqui mais uma imagem muito

bonita. Ela nos faz pensar num castelo

com torres inexpugnáveis, cheias

de encanto e segurança, com maravilhas

dentro e robustíssimas por fora.

Essa é a virtude da fortaleza que

em Nossa Senhora protege todas as

demais virtudes.

“Ninguém, exceto o Espírito Santo,

pode dar a conhecer a verdade oculta

sob essas figuras de coisas materiais. Reina

nesse lugar um ar puro, sem infecção,

um ar de pureza; um belo dia sem noite,

da humanidade santa; um belo sol

sem sombras, da Divindade; uma fornalha

ardente e contínua de caridade,

na qual todo o ferro que aí se lança fica

abrasado e se transforma em ouro.”

São Luís Grignion, referindo-se

aos elementos materiais que relacionou

nesse paraíso, afirma que só com

o auxílio da graça alguém pode fazer

idéia do que eles significam enquanto

aspectos físicos, espirituais e sobrenaturais

de Nossa Senhora. Quer

dizer, Ela é bela como o dia por sua

natureza, mas Cristo, que habitou

n’Ela, não é apenas o dia, mas é o

sol, a fonte de todo o esplendor diurno.

Então, Jesus é o astro soberano

da divindade presente em Maria.

Depois, a igualmente magnífica

simbologia da fornalha ardente e

abrasadora de caridade, de amor a

Deus, que é a Santíssima Virgem.

Uma pessoa pode ser dura e fria como

o ferro, porém, lançada nessa

fornalha, isto é, sendo muito devota

de Nossa Senhora e n’Ela confiando,

transforma-se não apenas em ferro

incandescente, mas em ouro. O contato

com Maria muda a alma por

completo, a nobilita e santifica.

Abundância de humildade

e virtudes cardeais

“Há um rio de humildade que surge

da terra e que, dividindo-se em quatro

braços, rega todo esse lugar encantado:

são as quatro virtudes cardeais.”

Por fim, um outro conceito muito

bonito. As quatro virtudes cardeais

são aquelas que regulam todas as

ações do homem: a justiça, a temperança,

a fortaleza e a prudência. Todas

as outras virtudes decorrem dessas.

Então, São Luís Grignion diz que

em Nossa Senhora há como que um

18


io de humildade, que se abre em quatro

braços e dá origem às mencionadas

principais virtudes.

Mas a imagem significa também

que uma pessoa verdadeiramente humilde

possui de modo torrencial as

virtudes cardeais. E o que é ser verdadeiramente

humilde?

Antes e acima de tudo é ser humilde

para com Deus, reconhecendo

tudo o que devemos a Ele e retribuílo.

Sermos, portanto, em relação a

Deus, amorosos, fiéis, filiais, paladinos

da causa d’Ele até o último ponto,

vivendo num holocausto contínuo

a serviço d’Ele. A autêntica humildade

coloca uma alma nessa posição,

e é dessa maneira que esta última

adquire, abundantemente, as quatro

virtudes cardeais.

E assim era Nossa Senhora.

Aqui temos, portanto, um pouco

daquele bem-estar de que falamos

atrás, proporcionado pelas doçuras da

Santíssima Virgem. É impossível comentar-se

algo a respeito d’Ela, sem se

ter a impressão de que estamos junto

a um rio ou a uma árvore sobrenatural,

sentindo, num plano diferente,

aquela satisfação particular que

experimentamos à beira dos rios ou

à sombra das árvores naturais.

Acredito que, após um dia passado

no corre-corre de uma cidade supermoderna,

supertrepidante, superdinâmica,

deter-se um pouco na consideração

desse panorama maravilhoso

que é a alma de Nossa Senhora é

algo que sempre nos fará bem... v

No paraíso do novo

Adão há torres

inexpugnáveis e fortes,

habitações cheias de

encanto e segurança...


O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

Princípios da unidade

N

a segunda parte da conferência, cujo início transcrevemos no último número, Dr.

Plinio continua a tratar de um princípio da escolástica, segundo o qual a beleza

consiste na unidade posta na variedade. É fundamental para se compreender por

que Deus imprimiu no universo um caráter hierárquico, com graus diversos de perfeição.

Após haver estudado as leis da variedade, Dr. Plinio examina as da unidade.

20


Le Camp du Drap d’or: o célebre encontro entre dois reis, Francisco I de França e Henrique VIII de Inglaterra,

é uma linda expressão do princípio da simetria e da unidade

Aunidade supõe uma ausência

de interrupção que se

pode verificar de duas maneiras:

pela continuidade ou pela coesão.

A continuidade é a simples ausência

de vazios, para que, no ser uno,

não haja hiatos.

Muito mais profunda é a unidade

que se verifica pela coesão: neste ca-

so há uma articulação interna entre

os elementos, de modo que eles ficam

presos uns aos outros por vínculos

íntimos e poderosos.

Entre as classes sociais, numa civilização

cristã, deve haver continuidade

e coesão. Embora numerosas, e

profundamente diferentes entre si, o

todo que elas constituem é contínuo

e coeso. É contínuo porque umas se

explicam pelas outras, auxiliam-se mutuamente

e formam um conjunto sem

os hiatos que caracterizam a sociedade

revolucionária. E é coeso

porque as classes, embora distintas,

estimam-se, defendem-se umas às

outras, não se consideram estranhas

ou inimigas entre si, mas se amam

com o verdadeiro espírito de Nosso

Senhor, que foi Príncipe e, ao mes-

21


O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

mo tempo, artesão. Como tudo isso

é diferente da luta de classes do

mundo moderno!

Transição harmônica, como

as cores de um arco-íris

Ao tratarmos das leis da variedade

e ao examinarmos a lei da gradação,

vimos que deve haver hierarquia

na Criação.

Estudando agora as leis da unidade,

veremos que essa hierarquia, para

ser autêntica, deve compor-se de

graus que se sobreponham uns aos outros

harmonicamente, e não de qualquer

modo.

Na hierarquia, a variedade se assegura

pela multiplicidade dos graus

intermediários, ao passo que a unidade

se assegura pela suavidade da transição

entre esses graus.

É o que acontece com o arco-íris:

as cores que o compõem se ordenam

em uma transição suave. Vemos nisto

a sabedoria de Deus, que criou o

Universo com uma magnífica unidade,

expressão de uma grande força, e

ao mesmo tempo com uma magnifica

variedade, expressão de um grande

poder.

Pensemos na coroação de um Imperador

do Sacro Império Romano

Alemão. No momento em que o Imperador

recebia a coroa, bimbalhavam

os sinos da capital do Império.

Logo repicavam os sinos das cidades

mais próximas; a seguir, os das cidades

mais longínquas; e por fim, os de

todas as Igrejas da Alemanha. Durante

dias e dias os sinos repicavam,

anunciando, de campanário em campanário,

que o Imperador havia sido

coroado.

Consideremos esse tocar de sinos

que se estendia por todas as Alemanhas:

a Alemanha da Baviera, a da

Saxônia, a de Dresden, a de todos os

tipos de alemães, desde o tipicamente

militar, até o burguês bonachão.

Essa amplitude de repercussões da

notícia da coroação do Imperador

por vários mundos dá a impressão de

algo forte e suave ao mesmo tempo.

Que poder imenso é o do Imperador!

Mas, ao mesmo tempo, quanta

doçura há nesse Império! Como a

força e a suavidade nele coexistem

harmonicamente!

São bem esses os valores que devemos

amar do fundo de nossa alma,

pois se relacionam com uma perfeição

— a perfeição da hierarquia

— em que a variedade e a unidade se

encontram num grau excelente.

Proporção: tudo feito com

número, peso e medida

A Sagrada Escritura nos diz que

todas as coisas foram criadas por

Deus com número, peso e medida.

Vemos, com efeito, que em todos os

corpos, a natureza, o movimento e a

massa são proporcionais.

Temos um expressivo exemplo dessa

proporção na Igreja Católica. Sendo

uma organização imensa, riquís-

22


Organização riquíssima

e belíssima, a Igreja é

também exímia na

proporção de sua

hierarquia: ao mesmo

tempo que cerca

de pompa seus altos

dignitários, personifica-se

de modo tocante

num pároco de aldeia

(na página anterior, “O passeio

do Cardeal”; abaixo,

uma procissão no campo)

sima e belíssima, Ela se personifica,

por excelência, na pessoa do Papa. A

pompa e a dignidade papais, a beleza

de sua corte, enchem a todos de

admiração. Mas, ao mesmo tempo,

achamos tocante que a Igreja Católica

também se personifique num pequeno

cura de aldeia. Essa personificação

é a mais proporcionada aos

camponeses, está bem ao nível das

suas almas, não os intimida nem os

constrange. A representação do Sacerdócio

de Nosso Senhor tem, nesses

curas de aldeia, como que uma

condição pequena, proporcionada

àquela gente também pequena.

Imaginemos agora um estadista coberto

de glórias, que chega à velhice,

e suponhamos que a Igreja, para cuidar

de sua alma, delegue um monsenhor.

É um fato que, aliás, tem se

dado na História. Contemplemos o

velho estadista e o monsenhor conversando

de forma amena e respeitosa.

Não agiu bem a Igreja Católica,

reconhecendo e honrando a dignidade

desse homem? É que a Igreja procura

proporcionar a sua hierarquia à

hierarquia civil. Seu amor é semelhante

ao materno, pois uma mãe sabe

dosar como ninguém a energia e a

suavidade. Assim faz a Igreja.

A proporção existia em grau excelente

na hierarquia feudal. A nação,

que se personificava no rei, também

se personificava no pequeno senhor

feudal, colocado junto ao povinho

miúdo. Ele, o menor grau da aristocracia,

iluminava com a transcendentalidade

da nobreza o último grau da

escala social.

Até com relação às bebidas podemos

contemplar a proporção. Ao lado

de vinhos do mais alto requinte,

existem boas bebidas populares, feitas

exatamente para o pequeno povo.

Essa é a proporcionalidade das coisas

boas. Na casa do rei, há móveis

dourados; na do camponês, os há de

carvalho trabalhado, como em algumas

regiões da Europa. Na casa do

rei, há ouro e prata; na do camponês,

objetos toscos, mas que, por serem

dignos e artísticos, às vezes valem

o ouro e a prata.

23


O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

Esta é a proporção bela, leve, suave,

razoável, que devemos, amar com

todas as nossas forças.

Simetria: não pode haver o

risco de se perder a unidade

Imaginemos um edifício com uma

fachada tão extensa que corra o risco

de perder a unidade. Se, entretanto,

ele tiver nos dois extremos duas torres

iguais, sua unidade estará, pela

simetria, reconstituída.

Na História do século XVI vamos

encontrar uma cena que ilustra bem

isso. Francisco I, rei da França, e Henrique

VIII — que ainda não se tinha

feito protestante — decidiram encontrar-se

em Cambrai, no lugar que depois

foi chamado camp du drap d’or,

tal o luxo, tal a magnificência de que

se revestiu o fato. Basta dizer que, no

campo de Francisco I, as tendas eram

douradas. O encontro entre os reis realizou-se

em uma ponte. Imaginemos a

beleza do encontro dos dois soberanos,

e das duas cortes que chegavam. Na

ponte inteiramente coberta de tapetes,

um rei se inclina diante do outro

rei, cumprimentando-se assim mutuamente,

enquanto as trombetas soam.

Quando os franceses querem descrever

a atitude dominadora de um

homem, dizem que ele tem o ar de

um rei que recebe outro rei — l’air

d’un roi recevant un roi. Em que consiste

a beleza de um soberano que recebe

outro rei? É exatamente a beleza

da simetria, em que dois princípios

iguais se contemplam um ao

outro e, de certo modo, se multiplicam

um pelo outro.

Na cristandade, a existência de

muitos reis iguais em força, glória e

poder, era exatamente uma expressão

do princípio da simetria.

Tudo se ordena em torno

de um elemento supremo

A quinta lei da unidade é a da

monarquia. Ela é indispensável para

a beleza da vida humana. Todas as

coisas, para serem reduzidas à sua

unidade, devem tender a se ordenar

em torno de um elemento supremo,

que será um símbolo, uma como que

personificação do conjunto. E é esta

personificação que dá perfeição à

unidade

A monarquia não é, como poderia

talvez parecer, o oposto da hierarquia,

mas, pelo contrário, é a sua consumação.

Nela, a beleza de todas as diversas

perspectivas como que se concentra.

Ao lado da lei da monarquia, há a

lei da sociedade. Ela consiste em que

as coisas, postas juntas, se completam

e se embelezam mutuamente.

Analisamos embora de forma muito

sucinta as leis da estética do Universo.

Trataremos de mais um ponto,

muito relacionado com este assunto.

Atração pelo que melhor

espelha a perfeição de Deus

Tomemos as palavras: decente, excelente,

nobre, majestoso, sagrado.

Elas constituem uma gradação

ascendente.

De um determinado objeto, podese

dizer primeiro, que ele é decente,

o que significa que não tem nenhuma

nódoa de vergonha. Além de decente,

podemos dizer que ele é ótimo,

excelente. Excelente já é mais

que decente.

Poder-se-ia, prosseguindo, apôr o

adjetivo nobre, que é especificamente

mais do que excelente e decente.

Mais do que nobre, poderemos dizer

que o objeto é majestoso, adjetivo

que, não é, entretanto, especificamente

diferente de nobre, pois dele difere

somente em grau. Por fim, poderemos

acrescentar que o objeto é sagrado,

quando contém valores que

superam a majestade humana.

Nessa gradação de valores, um espírito

muito religioso será atraído

por aquilo que melhor espelha a perfeição

de Deus: o majestoso e o sagrado.

Ele procurará, em tudo, esses

supremos valores, e terá sede deles.

Tendo esse espírito, o homem desejará

uma sociedade em que, ao lado

de muitas coisas decentes, haja várias

excelentes, nobres, majestosas, e

sagradas.

E então esse homem criará naturalmente

uma sociedade que realiza,

dentro dessa ordem quase fluida de

coisas, uma admirável variedade e

uma perfeita unidade

Compreendemos, pois, que quando

uma pessoa conhece e ama os princípios

da variedade e da unidade do

Universo, e quando essa pessoa é católica

— pois só o católico já tem os

pressupostos para compreender inteiramente

esses princípios —, ela é

de fato profundamente religiosa, no

sentido mais verdadeiro da palavra.

Este quadro que descrevemos da

estética do Universo, com suas leis,

os reflexos divinos colocados pelo

Criador em todas as coisas, em última

análise, tudo o que os católicos

fervorosos amam, tudo aquilo de que

têm sede, tudo isto a Revolução quer

destruir, eliminar, apagar.

E é nisso que consiste a questão

religiosa, que não se restringe ao

problema do laicismo. É uma questão

que não se resolve fazendo uma

concordata e declarando que a Igreja

Católica é a oficial no país. Está

em cena toda uma concepção da vida,

todo um modo de ser do pensamento

humano.

Como católicos, pois, devemos

amar profundamente a face de Deus

refletida na ordem verdadeira das

coisas. Mas, para que nosso amor chegue

até onde deve ir, aprendamos a

aplicar essas leis da variedade e da

unidade.

Assim, sempre que algo nos causar

admiração e nos deleitar, saibamos

perceber qual das leis da estética

do Universo está aí aplicada.

Agindo desse modo, faremos algo

imensamente agradável a Nossa Senhora.

v

24


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

O MAIOR

BEM POSSÍVEL

Cerimônia

pontifícia

na Basílica

de São Pedro,

em Roma

A

Igreja precisa dispor dos grandes meios de comunicação

para, no mundo de hoje, cumprir sua missão. Num artigo

de 1942, Dr. Plinio insistia neste ponto, do qual poucos

católicos estavam compenetrados naquela época.

25


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

Há um verdadeiro mistério na dificuldade que

certos católicos sentem em compreender a importância

do problema dos meios de difusão

do pensamento em tudo o que diz respeito ao apostolado.

A questão, em seus termos fundamentais, se apresenta

de maneira tão simples que nem o mais obscuro e nebuloso

dos espíritos poderia conceber, a respeito dele, a menor

vacilação.

Com efeito, a Igreja recebeu de seu divino Fundador a

incumbência de ensinar a Boa Nova a todos os povos, procurando

atingir, evidentemente, em cada povo o maior número

possível de pessoas. Assim, todos os meios que proporcionem

à Igreja ocasião de ampliar seu raio de ação,

devem ser postos à sua disposição, sofregamente, pelos

fiéis. Esta verdade adquire uma evidência meridiana se

tomarmos em consideração que as massas a serem hoje

em dia atingidas são tão numerosas, que nelas não pode

fazer uma penetração suficiente a simples ação de presença

pessoal dos sacerdotes e do laicato católico.

Assim, a alternativa se põe diante de nós, límpida e inexorável:

ou milhões de almas deixarão de conhecer a Igre-

ja, ou somos obrigados a lançar mão (dos meios de comunicação

social) para chegar até elas.

É certo que não é só com dinheiro que o problema se

resolve. Mas creio que sem dinheiro ele jamais se resolverá.

Quantas e quantas vezes, iniciativas as mais generosas

fracassam inteiramente porque no momento oportuno

se fechou para elas a bolsa dos católicos!

Penso que o grande mal aí está: enquanto uma ação

suasória, metódica, lenta e dirigida aos pontos estratégicos,

não fizer compreender às pessoas ricas a gravíssima

obrigação que lhes incumbe, de concorrer de preferência

para as obras de puro apostolado do que para as de pura

caridade material, muito pouco se realizará.

A Igreja jamais deixará de abençoar, de proteger e de

estimular aqueles que se dediquem ao alívio das numerosas

dores que assediam o homem em sua peregrinação

por esta vida. Mas suas melhores bênçãos, sua mais efusiva

dileção, as mais copiosas graças do Céu se destinarão

sempre às obras que, acima do corpo, visem as almas e façam

de seu objetivo, não a cura de males que passam com

a vida, nem o prolongamento de vidas que cedo ou tarde

a morte há de tragar, mas a salvação de almas imortais

cujo preço infinito foi o precioso Sangue de Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Na parábola dos talentos, o Redentor nos

mostra que não (...) se trata apenas de fazer o

bem, mas ainda de fazer o maior bem possível.

E este bem máximo só o teremos realizado

trabalhando para a salvação das almas

e empregando nosso dinheiro de preferência

nas obras em que maior número

de almas possa encontrar a Verdade,

o Caminho e a Vida, isto é, Jesus,

Nosso Deus.

(Excertos de artigo do “Legionário”,

de 18/1/1942. Título nosso.)

Obedeceremos ao

ensinamento

do Divino Redentor,

empenhando o melhor

de nossos recursos

espirituais e materiais

sobretudo nas obras

em que muitas

almas possam encontrá-Lo

(“Cristo da moeda”, pintura de Van Eick)

26


DONA LUCILIA

Como um cristal

de Baccarat...


DONA LUCILIA

Ao iniciar-se o ano de 1943,

encontrava-se o mundo envolto

em turbilhões de fogo

e sangue. Da Europa às mais ignotas

ilhas do Pacífico, os contendores

da Segunda Guerra Mundial se

debatiam numa luta sem quartel, de

resultado incerto.

Em fevereiro desse ano, Dª Lucilia

havia descido a Guarujá com sua

filha Rosée e a família desta. Dr. Plinio

esteve com sua mãe apenas de passagem,

vendo-se obrigado a retornar

em seguida a São Paulo, a fim de dar

andamento a importantes assuntos de

seu apostolado como líder católico.

Do litoral, escreveu-lhe Dª Lucilia lamentando

que ele estivesse ausente.

Guarujá, 24-2-943

Filho querido!

Ainda não recebi as notícias de tia

Cotinha, que me havias prometido,

mas imagino que, uma vez entrado no

emaranhado de tuas ocupações, te esqueceste

de tudo, até de... oh, não! de

mim, nem “por hipótese”, estás ciente?

Senti muito te ver partir, mas espero

em Deus que possas voltar no próximo

sábado. A estadia aqui está realmente

muito agradável. Rosée tem me cumulado

de agrados e cuidados, e Antônio,

sempre muito amável, e mostramse

ambos muito desejosos de que voltes,

e eu... não penso noutra coisa! Essa

conferência em Campinas, não pode

ser antecipada ou adiada?

Yelita e o filhinho chegaram há dois

dias, e o menino está tão contente, que

disse ontem à mãe que lhe parece estar

num sonho tão bom, que até tem medo

de acordar! Feliz tempo, não?

Em que ficou a compra da nossa

casa? Têm aparecido outros pretendentes?

Como te têm tratado a Olga e a Sebastiana?

Recomendei-lhes tanto para

que o fizessem com todo capricho!

Já fiz dois escaldapés com água do

mar, e tenho muita fé no seu bom resultado.

Já fui ontem e hoje à praia, e

é pena que a chuva nos impeça de sair

agora à tarde.

Com minhas bênçãos, envio-te muitas

saudades, beijos e abraços. De tua

mamãe muito extremosa e amiga,

Lucilia.

“O que terá acontecido a

mamãe?”

Estando Dr. Plinio em São Paulo,

recebeu de Guarujá um telefonema

insólito e inexplicado, causando-lhe

aflição durante toda uma madrugada.

Enquanto presidente da Junta

Arquidiocesana da Ação Católica,

deveria voltar ao litoral para a inauguração

de uma casa de retiros da

JUC¹ em Itanhaém.

Na noite anterior a essa viagem,

recebeu a estranha chamada. Do outro

lado da linha, alguém disse estar

ligando de Santos e comunicou que

de Guarujá queriam lhe falar. Porém,

a linha caiu logo a seguir. Pen-

28


sou ele imediatamente: “O que terá

acontecido a mamãe? Estará passando

mal e foram ao posto telefônico

de Guarujá para me avisar?”.

Dª Rosée, com quem Dª Lucilia

estava, tinha por costume instalar-se

no Grande Hotel de La Plage, mas

naquele ano alugara uma casa particular

que não possuía telefone. Portanto,

para se ter mais notícias não

havia outra solução a não ser esperar

que chamassem de novo. Preocupadíssimo,

Dr. Plinio passou o resto da

noite ajoelhado junto à cama, para

combater o sono e assim estar desperto

caso o telefone mais uma vez

tocasse. Contudo, o aparelho permaneceu

mudo o tempo inteiro.

Por circunstâncias que não vem

ao caso narrar aqui, o ato de inauguração

do estabelecimento da JUC se

revestia de aspectos delicados que

exigiriam bastante atenção e tato da

parte de Dr. Plinio. Ora, o resultado

concreto daquele telefonema foi que

— extenuado pela noite em claro e

preocupado pelo que teria acontecido

a sua mãe — encontrava-se ele

em condições físicas e psicológicas

bastante desfavoráveis para enfrentar

com êxito as situações difíceis com

as quais se defrontasse nesse dia.

Depois de acompanhar a

brilhante ascensão de seu

filho na liderança do

movimento católico no

Brasil, Dª Lucilia

assistiu, penalizada, a

uma maré-montante de

dificuldades que lhe

pertubaram tanto a

vida apostólica quanto

a profissional

(na página anterior, Dr. Plinio

pronuncia uma conferência em

Santos)

Mesmo assim, tomou resoluto o trem

para o litoral.

O ato em Itanhaém, presidido pelo

Arcebispo de São Paulo, D. José

Gaspar, felizmente transcorreu como

Dr. Plinio desejava. Imediatamente

após seu término, dirigiu-se ele

para Guarujá, onde teve a boa surpresa

de encontrar Dª Lucilia inteiramente

bem. Nunca se soube quem

fora o responsável pelo estranho aviso

daquela noite...

Dª Lucilia nota

mudança de situação

do filho

Desde a infância de Dr. Plinio, Dª

Lucilia desejava o desenvolvimento

e a irradiação da personalidade dele

e entrevia que, de algum modo, esta

atingiria grandes proporções. Suas

esperanças quanto ao invulgar futuro

do filho, alimentadas por sua intuição

de mãe, em parte haviam-se realizado

quando ele, ainda moço, tornara-se

líder das Congregações Marianas

e do próprio Movimento Católico.

Entretanto, insondáveis são os superiores

desígnios da Providência

Divina, que sói permitir pesadas provações

para aqueles aos quais ama e

que tanto Lhe devotam o melhor de

suas vidas. Não foi diferente com Dr.

Plinio e sua querida mãe. Esta, havendo

seguido passo a passo a brilhante

ascensão de seu filho, começou a assistir

penalizada a uma maré-montante

de dificuldades que lhe pertubaram

tanto a vida apostólica quanto a

profissional.

À lista de dissabores acrescentavam-se

ainda danos econômicos de

monta, devidos não só à perda de

seus melhores clientes, como também

a uma lei de inquilinato que

prejudicava a fundo os direitos dos

proprietários de imóveis de aluguel,

como era o caso de Dr. Plinio. Ao

longo de várias conversas com sua

mãe, ele ia-lhe narrando o que sucedia,

descrevia suas vicissitudes, bem

como as conseqüências daí decorrentes

para a existência de ambos.

Tudo isso ela ouvia com a sua habitual

serenidade, sabendo que um

consolo lhe restava, e isso era o mais

importante: fosse no apogeu do prestígio

ou em meio ao isolamento, seu

querido “filhão” continuava sempre

o mesmo.

Cristal de Baccarat

Alguém se poderá perguntar: naquela

época de tão grandes transformações,

no seu âmbito pessoal como

no de toda a humanidade, qual foi o

papel desempenhado por Dª Lucilia?

Foi, antes de tudo, o da heróica fidelidade

aos valores perenes aos

princípios católicos.

A conferência de Yalta — onde os

líderes das nações que venceriam a

Guerra decidiram os novos rumos

para a humanidade — levantara um

marco nas mentes, e a partir de então

todo princípio era sacrificado em

aras da convivência pacífica. Por todo

lado de há muito se vinha acentuando

a tendência para abandonar

veneráveis tradições, com vistas a

uma adaptação à modernidade.

Contra esse modo de ser, o grande

ato de heroísmo de Dª Lucilia foi

o de se manter sempre fiel e dócil

aos ensinamentos da Igreja Católica.

Ou, por outra, cada vez mais semelhante

a seu Divino Modelo, o Sagrado

Coração de Jesus. Isto implicava

um martírio cotidiano, instante a instante,

pois tudo convidava a uma atitude

de concessão e de transigência

perante o mal, e foi-lhe necessária

uma retidão de alma a toda a prova,

uma luta constante e total para permanecer

inabalável em sua posição

de fidelidade.

Ao mesmo tempo, a doçura dela

fazia compreender quanto havia de

humano nessa retidão. Do contrário,

ter-se-ia a impressão de inclemência.

29


DONA LUCILIA

O cristal de Baccarat, forte mas

capaz de uma certa flexão, bem poderia

ser um símbolo dessa dama, cuja

alma era assim. Suas delicadezas, as

suavidades de seu trato, o acerto de

seus juízos, a firmeza de suas decisões,

todos os imponderáveis de sua pessoa,

eram predicados que refletiam

as singulares qualidades desse cristal,

algumas até aparentemente antitéticas:

brilho, distinção, rijeza ao

lado da flexibilidade e da subtileza.

Semelhante riqueza, capaz de

abranger qualidades tão opostas, só

se explica pelo fato de haver em Dª

Lucilia um ponto de equilíbrio fundamental,

que dava a fisionomia da

alma dela.

Serenidade a toda prova

Em razão desse modo de ser, nenhuma

circunstância, por pior que

fosse, conseguia abalar a paz de alma

de Dª Lucilia.

Certo dia, na pacata São Paulo de

então, uma tragédia comoveu a cidade

inteira. Tendo-se incendiado um

ônibus, na avenida Angélica, muitos

passageiros pereceram entre as chamas.

O veículo era da linha “Avenida”,

a mesma que Dr. Plinio costumava

utilizar para ir ao escritório de

advocacia.

Quando soube do pavoroso acidente,

o primeiro pensamento de Dª

Lucilia foi de que seu filho podia ter

sido uma das vítimas. Se, para um coração

materno, nada há de mais confrangedor

do que a perspectiva da

morte de um filho, incalculável foi a

angústia que tomou conta do espírito

de Dª Lucilia. Mas acolheu-se confiante

à proteção do Sagrado Coração

de Jesus, diante de cuja imagem

ficou rezando, à espera de alguma

informação segura.

Dª Rosée, sempre muito expedita,

começou logo a tentar localizar o irmão.

Telefonou aos amigos dele a fim

de averiguar se tinham notícias mais

exatas, e lhes pediu que verificassem

a identidade das vítimas. Ora, justamente

nesse dia, um dos amigos de

Dr. Plinio do “Grupo do Legionário”,

José Gustavo de Souza Queirós,

estava hospitalizado com uma

grave doença, que acabaria por leválo

desta vida, pouco tempo depois.

Dr. Plinio abreviara suas ocupações

no centro da cidade para lhe fazer

uma longa visita, esquecendo-se, porém,

de deixar aviso em casa.

Afinal, por volta das oito e meia

da noite, chegou ele sem ter a menor

idéia da situação reinante no lar. Ao

dobrar a esquina da rua Sergipe, avistou

a sobrinha, Maria Alice, junto ao

portão da casa, andando inquieta de

um lado para outro. Ela e Dª Rosée

foram a seu encontro e, ainda sobressaltadas,

contaram-lhe o ocorrido.

Avaliando a angústia de Dª Lucilia,

Dr. Plinio entrou apressadamente

em casa. Encontrou-a aflita, mas

tranqüila, sentada na cadeira de balanço.

Ele a abraçou e osculou como

de costume, e lhe perguntou como se

sentia depois dessa atroz tribulação.

Com a suavidade de sempre, Dª

Lucilia respondeu:

— Meu filho, que bom vê-lo novamente!

Estava apreensiva, mas acreditava

que nada lhe tivesse acontecido...

Agora vou me recolher, porque

a preocupação afetou-me o fígado e

não estou passando bem.

Após um dia de tanto sofrimento,

dos lábios de Dª Lucilia não partiu

uma queixa sequer. Com a alma em

paz, foi para seu quarto, dando graças

a Deus por ter seu filho junto a si.

(Transcrito, com adaptações, da obra

“Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)

O amigo José Gustavo de Souza Queirós (a cavalo),

a quem Dr. Plinio visitava no hospital quando se deu o acidente de

ônibus que tanta angústia causou a Dª Lucilia

1 Juventude Universitária Católica, uma

das ramificações da Ação Católica.

30


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Chantilly

Belezas exemplares

Place Vêndome

31


32

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ


Duas maravilhas produzidas

pelo gosto tipicamente

francês.

Uma, revestida de aspecto encantador,

de conto de fadas, é o Castelo

de Chantilly. Sua construção iniciouse

no século IX, sobre os alicerces de

uma fortaleza romana, e recebeu ao

longo da Idade Média modificações

segundo o estilo de cada tempo.

Teve por senhores e convivas as mais

ilustres famílias de França, cujos

nomes soam como envolventes

melodias: Condé, Noilles, Montmorency...

Percebe-se a beleza singular de um

palácio edificado sem muita simetria,

como eram as arquiteturas próxima

ou remotamente ligadas à antiga arte

da Idade Média. A precisão na

harmonia de linhas aparecerá a par-

tir dos séculos XV, XVI e XVII, trazendo

requintes ao Chantilly nascido

nos distantes albores da Cristandade

européia. Então se nos aparece com

seu conjunto de corpos que se sobrepõem

como podem, mas que, na soma

dos imprevistos e dos esplendores

de cada parte, adquire essa feição

arrebatadora, transportando nossos

espíritos ao mundo povoado de

princesas e cavaleiros lendários.

Chamam especialmente a atenção

suas torres redondas, fortes, porém

elegantes, refletindo-se nas plácidas

águas do lago que serve de espelho a

todo o castelo. E esse pendant de silhuetas

movediças, imersas naquela

paisagem líquida, redundam num efeito

de beleza extraordinária. Comparável

à formosura dos jardins, dos

canteiros, dos desenhos formados pelos

gramados e flores, e do próprio traçado

da floresta em que estes se prolongam

e como que se escondem, perdendo-se

mais ou menos no infinito...

Chantilly é, indiscutivelmente, um

dos mais lindos palácios da Europa.

*

Assim como a Praça Vendôme, no

centro de Paris, é uma das mais belas

do mundo, ao lado da Praça de São

Marcos, em Veneza, e da de São Pedro,

em Roma. Obedece a uma concepção

técnica diversa, e eu diria mesmo

que é de uma beleza exemplar!

Nela, apenas se tomaria por deslocada

a alta coluna que se ergue no

centro, e em cujo topo já triunfaram

diferentes estátuas de ilustres personagens

históricos. Mais atraente

ficaria se houvesse ali um bonito jogo

de águas, ou algumas pequenas fontes

dispostas com charme e simetria.

As ruas que saem ou chegam cortam

as fachadas dos edifícios em três

pontos, sem prejudicar a fascinante

harmonia do conjunto das construções.

As paredes, de um certo róseo

tirante ao carregado, conferem uma

nota característica a esse que parece

um único e longo edifício. Na verdade,

aí se encontram vários estabelecimentos,

entre os quais o célebre

Hotel Ritz de Paris, e a série de arcos

em que se desdobra o andar térreo

corresponde a várias lojas de grandíssimo

luxo, que constituem um dos

elementos da nata do comércio parisiense.

Tudo iluminado, durante o dia, pela

luz dourada do sol que oscula as fa-

Castelo de feição

arrebatadora, que transporta

nossos espíritos para um

mundo povoado de princesas e

cavaleiros lendários...

33


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

chadas de grandes janelas e os

tetos aligeirados por encantadoras

mansardas; e à noite, pelas

verberações acolhedoras,

amigáveis, dos lindos lampadários

de metal espalhados nos

largos espaços internos. Elegantes

nas suas esguias colunas de

metal, abertas no alto em três

braços que sustentam as lanternas

graciosamente lavoradas.

Creio que seria preciso

ver os quatro lados da praça

num só olhar, para se compreender

a nobreza, a dignidade e

a perfeita regularidade da beleza

dessa praça.

Ela, como o castelo de

Chantilly, é uma expressão

toda peculiar do incomparável

senso artístico da antiga

França...

v

Regularidade, nobreza,

dignidade, esplendor de conto

de fadas; duas maravilhas

nascidas do gênio e do bom

gosto franceses...

34


35


Para

alcançarmos

a

eternidade...

Maria, porque é Mãe, deseja

sobretudo a eterna

salvação de seus filhos,

pelos quais intercede. A vida

presente passa. Marcada com

felicidades, com infelicidades

e com tropeços, um dia acaba.

É a eternidade que principalmente

importa. Para nós,

a única atitude sensata é procurar

salvar nossas almas, para

o que são essenciais as graças

e virtudes que a Santíssima

Virgem obtém de Deus.

Dirijamos a Ela, portanto,

sem cessar, essa súplica humilde

e filial: “Ó Rainha dos

Corações, por cujas mãos

Deus governa a História e o

mundo, movei nossas almas

segundo os vossos desígnios

e alcançai-nos a eterna beatitude.

Assim seja!”

Virgem e o Menino

More magazines by this user