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Revista Dr Plinio 58

Janeiro de 2003

Janeiro de 2003

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A<br />

graça e<br />

as grandes conversões


S<br />

obre diversos monumentos da Cristandade,<br />

o dedo de Deus como que pousou e os<br />

revestiu de charme. Diversas vezes, o charme<br />

que neles notamos não é senão a própria manifestação<br />

da graça divina. Isso transparece de<br />

modo mais admirável, a meu ver, no obelisco da<br />

Praça de São Pedro. Posto na areia do deserto ou<br />

perto de uma pirâmide, na entrada de um templo<br />

ou ao lado da esfinge de Gizeh, ele não causaria a<br />

impressão que nos causa junto à Basílica do<br />

Vaticano. Perto daquele obelisco, minha alma<br />

sente uma reverência à pessoa do Papa,<br />

ao trono do Príncipe dos Apóstolos.<br />

O Vigário de Cristo é o obelisco da Igreja Católica.<br />

O lema dos cartuxos “stat Crux dum volvitur orbis”<br />

(“a Cruz permanece firme enquanto o mundo<br />

gira”) bem poderia estar inscrito na base do<br />

obelisco, porque é a sensação que ele transmite: a<br />

de um centro em torno do qual a Terra gira, mas<br />

que fica imóvel. É a Igreja infalível, eterna, representada<br />

pelo Sumo Pontífice. Está tudo dito.


Sumário<br />

Na capa, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

no início da<br />

década de 1990<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />

propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />

CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />

INSC. - 115.227.674.110<br />

Diretor:<br />

Antonio Augusto Lisbôa Miranda<br />

Jornalista Responsável:<br />

Othon Carlos Werner – DRT/SP 7650<br />

Conselho Consultivo:<br />

Antonio Rodrigues Ferreira<br />

Marcos Ribeiro Dantas<br />

Edwaldo Marques<br />

Carlos Augusto G. Picanço<br />

Jorge Eduardo G. Koury<br />

Redação e Administração:<br />

Rua Santo Egídio, 418<br />

02461-011 S. Paulo - SP - Tel: (11) 6236-1027<br />

Fotolitos: Diarte – Tel: (11) 5571-9793<br />

Impressão e acabamento:<br />

Pavagraf Editora Gráfica Ltda.<br />

Rua Barão do Serro Largo, 296<br />

03335-000 S. Paulo - SP - Tel: (11) 291-2579<br />

Preços da assinatura anual<br />

Janeiro de 2003<br />

Comum. . . . . . . . . . . . . . . . R$ 75,00<br />

Colaborador . . . . . . . . . . . . R$ 110,00<br />

Propulsor . . . . . . . . . . . . . . R$ 220,00<br />

Grande Propulsor. . . . . . . . R$ 370,00<br />

Exemplar avulso. . . . . . . . . R$ 10,00<br />

Serviço de Atendimento<br />

ao Assinante<br />

Tel./Fax: (11) 6236-1027<br />

4<br />

5<br />

6<br />

8<br />

11<br />

14<br />

20<br />

26<br />

31<br />

36<br />

EDITORIAL<br />

Na iminência da grande conversão?<br />

DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO<br />

Focos de incentivo à prática da virtude<br />

DENÚNCIA PROFÉTICA<br />

As horas das grandes conversões<br />

ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA<br />

Jansenismo e consagração a Nossa Senhora<br />

DONA LUCILIA<br />

Saudades e cristã resignação<br />

A SOCIEDADE, ANALISADA POR DR. PLINIO<br />

Verdadeira cultura e tipo humano<br />

DR. PLINIO COMENTA...<br />

São Lourenço de Bríndisi<br />

e o luxo do século XVI<br />

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

Corpo Místico de Cristo<br />

e comunhão dos santos<br />

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

Cintilações das excelências divinas<br />

ÚLTIMA PÁGINA<br />

Vaso de Eleição<br />

3


Editorial<br />

Na iminência da grande conversão?<br />

homem tinha dois filhos. O mais moço<br />

“Um<br />

disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte da<br />

herança que me toca. O pai então repartiu<br />

entre eles os haveres. Poucos dias depois, ajuntando tudo<br />

o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um<br />

país muito distante, e lá dissipou a sua fortuna, vivendo<br />

dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio<br />

àquela região uma grande fome e ele começou a passar<br />

penúria. Foi pôr-se ao serviço de um dos habitantes daquela<br />

região, que o mandou para os seus campos guardar<br />

os porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os<br />

porcos comiam, mas ninguém lhas dava” (Lc 15,11-16).<br />

Bem conhecida de todos é a parábola do filho<br />

pródigo. <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> a tinha em alta consideração, não<br />

apenas porque ela reflete a condição daqueles que,<br />

extraviados, voltam à prática da fé, mas sobretudo<br />

por sua aplicação a países, a conjuntos de nações e à<br />

própria Cristandade. Correlacionando-a com a dramática<br />

situação na qual derrapou o Ocidente, ele<br />

prognosticava em 19<strong>58</strong>:<br />

“Um profundo, um imenso, um indescritível malestar<br />

se vai apoderando do mundo. É um mal-estar<br />

muitas vezes inconsciente, que se apresenta vago e<br />

indefinido até mesmo quando é consciente, mas que<br />

ninguém ousaria contestar. Dir-se-ia que a humanidade<br />

inteira sofre violência, que está sendo posta em<br />

uma fôrma que não convém à sua natureza, e que todas<br />

as suas fibras sadias se contorcem e resistem. Há<br />

um anseio imenso por outra coisa, que ainda não se<br />

sabe qual é. [...] O mundo inteiro geme nas trevas e<br />

na dor, precisamente como o filho pródigo, quando<br />

chegou ao último da vergonha e da miséria, longe<br />

do lar paterno. [...] A experiência nos mostra que é<br />

de descontentamentos assim que nascem as grandes<br />

surpresas da História. À medida que a contorção se<br />

acentuar, acentuar-se-á o mal-estar. Quem poderá dizer<br />

que magníficos sobressaltos daí podem provir?”*<br />

Um ano mais tarde, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> se expressava com<br />

clareza ainda maior:<br />

“Segundo a História, afigura-se que as grandes conversões<br />

se dão o mais das vezes por um lance de alma<br />

fulminante, provocado pela graça ao ensejo de qualquer<br />

fato interno ou externo. [...] Deus, embora não<br />

as prive [as almas] jamais da graça suficiente, espera,<br />

não raramente, que cheguem ao mais fundo<br />

da miséria, para lhes fazer ver de uma só vez, como<br />

num fulgurante ‘flash’, a enormidade de seus erros e<br />

de seus pecados. Foi quando desceu a ponto de querer<br />

se alimentar das bolotas dos porcos que o filho<br />

pródigo caiu em si e voltou à casa paterna.”<br />

Ao adentrarmos 2003, cabe-nos perguntar se as<br />

circunstâncias não estão maduras para que o “filho<br />

pródigo” se ponha a refletir sobre seus desvios e se<br />

lembre da mansão paterna, despertando no fundo<br />

da alma saudades indizíveis. Quiçá desde esse momento<br />

até a hora da conversão haja apenas um curto<br />

espaço de tempo, durante o qual ainda deva enfrentar<br />

grandes provações. “De qualquer maneira,<br />

com mais ou com menos sofrimentos para os homens,<br />

o Coração de Maria triunfará” — concluía<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> suas conjecturas de 19<strong>58</strong>, apontando para<br />

a promessa de Nossa Senhora em Fátima.<br />

Enquanto o horizonte vai se carregando de negras<br />

nuvens, perpassadas no entanto por grandes clarões<br />

de esperança, apresenta-se cada vez mais premente<br />

a questão: estará próxima uma conversão das nações?<br />

Terá chegado a hora, tanto ansiada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>,<br />

da volta do “filho pródigo” à casa paterna?<br />

Rezemos e aguardemos.<br />

* As citações são respectivamente de “Catolicismo”, fev./19<strong>58</strong><br />

e Revolução e Contra-Revolução, parte II, cap. 8, 3.<br />

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625<br />

e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras<br />

ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista.Em nossa intenção, os títulos elogiosos não<br />

têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />

4


DATAS NA VIDA DE UM CRUZADO<br />

Focos de incentivo<br />

à prática da virtude<br />

sustento — com a doutrina mantida e<br />

“Eu<br />

ensinada pelo Santo Padre Leão XIII,<br />

na Parvenu à la vingt cinquième-année¹<br />

e na encíclica Immortale Dei — que o mundo ocidental<br />

se encontra numa grande Revolução, com<br />

‘R’ maiúsculo, a qual começou no século XVI e<br />

vem se prolongando até os nossos dias. Uma Revolução<br />

crescente, que atinge esferas da vida cada<br />

vez maiores, e que visa chegar até a Revolução<br />

total. Eu lhes recomendaria que não saíssem de<br />

São Paulo, sem adquirir a encíclica...”<br />

Era <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> quem assim falava numa “Semana<br />

de Estudos de Catolicismo”. A primeira delas<br />

realizou-se em janeiro de 1953. Lamentavelmente<br />

não chegou até nós a transcrição das gravações<br />

feitas nessa ocasião. O trecho acima é de 20 de<br />

janeiro de 1954.<br />

Essas semanas de estudos, desde a primeira vez,<br />

consistiram em conferências, palestras e círculos<br />

de estudo. A sessão inaugural e a de encerramento<br />

ficavam a cargo de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>. Como em 1954,<br />

em 1953 ele iniciava chamando a atenção para a<br />

grave crise do mundo ocidental e para a grande<br />

Revolução — com o “R” maiúsculo, como ele<br />

gostava de dizer — responsável por tal crise.<br />

Com a realização desses congressos, visava ele<br />

expandir seu apostolado para além dos limites de<br />

São Paulo, onde até então se concentrara. Era<br />

um líder católico célebre em todo o Brasil, conhecido<br />

por sua inabalável posição “pró-romana”,<br />

especialmente entre as Congregações Marianas.<br />

Assim, poderia estabelecer núcleos de congregados<br />

fervorosos, bem-formados em matéria doutrinária,<br />

conscientes das dificuldades enfrentadas<br />

pela Igreja Católica, com os olhos postos no Papa,<br />

e prontos a contribuir abnegada e desinteressadamente<br />

para a defesa dos interesses dela.<br />

Mais do que isso, desejava ele constituir focos<br />

abrasados de difusão das práticas de piedade marial<br />

propostas por São Luís Maria Grignion de<br />

Montfort, certo de que nisso estava a chave para o<br />

reflorescimento da fé no Brasil e depois no mundo.<br />

1 “Chegado ao 25º ano”. Trata-se da Carta Apostólica<br />

Annum ingressi.<br />

A fim de expandir seu apostolado para fora de<br />

São Paulo, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> realizou diversos<br />

congressos com participantes de todo o Brasil.<br />

À esquerda, sessão de encerramento da VII<br />

Semana de Estudos; abaixo, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> no final<br />

do terceiro congresso, em 1955<br />

5


DENÚNCIA PROFÉTICA<br />

"A volta do<br />

filho pródigo",<br />

por Rembrant<br />

As horas<br />

das grandes<br />

conversões


D<br />

r. <strong>Plinio</strong> prognosticava a multiplicação das conversões, à medida que o mundo<br />

caminhasse para a degringolada, permitindo que um número crescente de pessoas<br />

abrissem os olhos para essa situação. Transcrevemos aqui um de seus trechos<br />

mais notáveis a esse respeito, extraído do livro “Revolução e Contra-Revolução”.<br />

N<br />

inguém pode fixar limites à inexaurível variedade<br />

das vias de Deus nas almas. Seria absurdo<br />

reduzir a esquemas assunto tão complexo. Não<br />

se pode pois, nesta matéria, ir além da indicação de alguns<br />

erros a evitar e de algumas atitudes prudentes a propor.<br />

Toda conversão é fruto da ação do Espírito Santo, que,<br />

falando a cada qual segundo suas necessidades, ora com<br />

majestosa severidade, ora com suavidade materna, entretanto<br />

nunca mente.<br />

Nada esconder<br />

[...] A Contra-Revolução não deve, pois, dissimular seu<br />

vulto total. Ela deve fazer suas as sapientíssimas normas<br />

estabelecidas por São Pio X para o proceder habitual do<br />

verdadeiro apóstolo: “Não é leal nem digno ocultar,<br />

cobrindo-a com uma bandeira equívoca, a qualidade de<br />

católico, como se esta fosse mercadoria avariada e de<br />

contrabando” (Carta ao Conde Medolago Albani, Presidente<br />

da União Econômico-Social, da Itália, datada de<br />

22/11/1909). Os católicos não devem “ocultar como que<br />

sob um véu os preceitos mais importantes do Evangelho,<br />

temerosos de serem talvez menos ouvidos, ou até completamente<br />

abandonados” (Encíclica Jucunda Sane, de<br />

12/3/1904). Ao que judiciosamente acrescentava o santo<br />

Pontífice: “Sem dúvida, não será alheio à prudência, também<br />

ao propor a verdade, usar de certa contemporização,<br />

quando se tratar de esclarecer homens hostis às nossas<br />

instituições e inteiramente afastados de Deus. As feridas<br />

que é preciso cortar — diz São Gregório — devem antes<br />

ser apalpadas com mão delicada. Mas essa mesma habilidade<br />

assumiria o aspecto de prudência carnal se erigida<br />

em norma de conduta constante e comum; e tanto mais<br />

que desse modo pareceria ter-se em pouca conta a graça<br />

divina, que não é concedida somente ao Sacerdócio e aos<br />

seus ministros, mas a todos os fiéis de Cristo, a fim de<br />

que nossas palavras e atos comovam as almas desses homens”<br />

(doc. cit. ibid.).<br />

O “choque” das grandes conversões<br />

[...] Ora, segundo a História, afigura-se que as grandes<br />

conversões se dão, o mais das vezes, por um lance de alma<br />

fulminante, provocado pela graça ao ensejo de qualquer<br />

fato interno ou externo. Esse lance difere em cada caso, mas<br />

apresenta com freqüência certos traços comuns. Concretamente,<br />

na conversão do revolucionário para a Contra-<br />

Revolução, ele, não raras vezes e em linhas gerais, se opera<br />

assim:<br />

* Na alma empedernida do pecador que, por um processo<br />

de grande velocidade, foi logo ao extremo da Revolução,<br />

restam sempre recursos de inteligência e bom senso,<br />

tendências mais ou menos definidas para o bem. Deus,<br />

embora não as prive jamais da graça suficiente, espera,<br />

não raramente, que essas almas cheguem ao mais fundo<br />

da miséria, para lhes fazer ver de uma só vez, como num<br />

fulgurante “flash”, a enormidade de seus erros e de seus<br />

pecados. Foi quando desceu a ponto de querer se alimentar<br />

das bolotas dos porcos que o filho pródigo caiu<br />

em si e voltou à casa paterna (cfr. Lc 15,16 a 19).<br />

* Na alma tíbia e míope que vai resvalando lentamente<br />

na rampa da Revolução, atuam ainda, não inteiramente<br />

recusados, certos fermentos sobrenaturais; há valores<br />

de tradição, de ordem, de Religião, que ainda crepitam como<br />

brasas sob a cinza. Também essas almas podem, por<br />

um sadio sobressalto, num momento de desgraça extrema,<br />

abrir os olhos e reavivar em um instante tudo quanto<br />

nelas definhava e ameaçava morrer: é o reacender-se da<br />

mecha que ainda fumega (cfr. Mt 12,20).<br />

A plausibilidade desse “choque” em nossos dias<br />

Ora, toda a humanidade se encontra na iminência de<br />

uma catástrofe, e nisto parece estar precisamente a grande<br />

ocasião preparada pela misericórdia de Deus. Uns e<br />

outros — os da velocidade rápida ou lenta — neste terrível<br />

crepúsculo em que vivemos, podem abrir os olhos e<br />

converter-se a Deus.<br />

O contra-revolucionário deve, pois, aproveitar zelosamente<br />

o tremendo espetáculo de nossas trevas para —<br />

sem demagogia, sem exagero, mas também sem fraqueza<br />

— fazer compreender aos filhos da Revolução a linguagem<br />

dos fatos, e assim produzir neles o “flash” salvador.<br />

Apontar varonilmente os perigos de nossa situação é traço<br />

essencial de uma ação autenticamente contra-revolucionária.<br />

(Excertos de “Revolução e Contra-Revolução”, parte II,<br />

cap. 8. No capítulo 1 dessa obra, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> explica<br />

o sentido especial no qual emprega as palavras<br />

“Revolução”, “Contra-Revolução” e termos derivados.)<br />

7


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA<br />

Jansenismo e consagração<br />

a Nossa Senhora<br />

D<br />

irigindo-se a um grupo de jovens que acabavam de fazer a consagração<br />

solene a Nossa Senhora, segundo o método de São Luís Grignion<br />

de Montfort, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> lhes explicou o contexto no qual esse santo<br />

explicitou e desenvolveu suas doutrinas.<br />

Na França do tempo de São<br />

Luís Maria Grignion de<br />

Montfort, disseminava-se<br />

nos meios católicos uma doutrina denominada<br />

de galicanismo. Opunha-se<br />

à influência de Roma sobre a França,<br />

daí o nome de galicanismo, alusão<br />

ao antigo nome do país: Gália. Queria,<br />

por exemplo, a independência do clero<br />

francês em relação à Santa Sé.<br />

A esse erro somava-se outro, cujo<br />

fautor viveu no começo do século<br />

XVII: era um bispo holandês chamado<br />

Jansênio. Ele fez uma apresentação<br />

da doutrina católica que continha,<br />

disfarçadamente, muitos erros. Esses<br />

erros começaram a circular, até constituir<br />

todo um movimento religioso<br />

que atingiu a França: o jansenismo, que<br />

era uma espécie de calvinismo mitigado.<br />

Os jansenistas queriam, por exemplo,<br />

a diminuição do culto a Nossa<br />

Senhora e ao Santíssimo Sacramento.<br />

Se tomarmos todos os pontos defendidos<br />

pelos protestantes contra<br />

os católicos ao longo do século XVI,<br />

veremos que Jansênio retomou as teses<br />

de Calvino.<br />

Mas Jansênio apresentava essas teses<br />

de modo disfarçado. Ele não negava<br />

o culto ao Santíssimo Sacramento,<br />

mas o subestimava. Ele não negava<br />

o culto a Nossa Senhora, mas o<br />

subestimava. E subestimar significa<br />

dar a esses cultos uma importância<br />

8


muito inferior ao lugar que devem ter<br />

na fidelidade católica.<br />

São Luís Grignion de Montfort, um<br />

devoto muito especial da Santíssima<br />

Virgem, iniciou discussões com os<br />

jansenistas e tomou a resolução de desenvolver<br />

e explicitar — com especial<br />

insistência — a doutrina católica<br />

sobre Nossa Senhora, nos pontos mais<br />

característicos, que os calvinistas mais<br />

negavam.<br />

Doutrinas e profecias de<br />

São Luís Grignion de<br />

Montfort<br />

Ardoroso devoto da<br />

Santíssima Virgem, São<br />

Luís Grignion de Montfort<br />

(acima) iniciou discussões<br />

com os jansenistas,<br />

defendendo a doutrina<br />

católica sobre a Mãe de<br />

Deus, que estes negavam.<br />

Na página anterior, alguns dos<br />

principais fautores da heresia<br />

(da esquerda para a direita):<br />

Madre Angélique Arnauld,<br />

Jansênio e o Pe. Jean Duvergier<br />

À sua obra de teologia marial, que<br />

é também uma obra de apologética<br />

— quer dizer, de discussão para converter<br />

os hereges —, São Luís Grignion<br />

acrescentou mais um caráter,<br />

que é a bem dizer profético: tomou a<br />

doutrina católica tal como era em seu<br />

tempo e acrescentou conclusões, tiradas<br />

logicamente dos princípios mariais<br />

então professados.<br />

Nessa época a Imaculada Conceição<br />

ainda não era um dogma. Foi definida<br />

como tal pelo Papa Pio IX no<br />

século XIX. A infalibilidade papal, que<br />

tem ligações com o dogma da Imaculada<br />

Conceição, foi igualmente definida<br />

por Pio IX. Mas São Luís Grignion<br />

desenvolveu, já no seu tempo,<br />

quase todos esses pontos, como conseqüências<br />

deduzidas da doutrina católica.<br />

A partir dessas concepções doutrinárias,<br />

fez uma previsão. Descreveu as<br />

condições morais de sua época, mergulhada<br />

numa grande crise, comparada<br />

por ele com a que antecedeu o dilúvio.<br />

E descreveu as conseqüências<br />

dessa crise. Por fim, ele profetizou o<br />

“Reino de Maria” na terra.<br />

Em resumo, sua obra é, primeiramente,<br />

de luta contra a heresia — o<br />

protestantismo disfarçado, chamado<br />

jansenismo —, e, em segundo lugar,<br />

de glorificação da Santíssima Virgem,<br />

o que constituía um aspecto dessa luta.<br />

Essa glorificação de Nossa Senhora<br />

levou-o a tirar conseqüências de<br />

Mariologia que foram confirmadas<br />

depois pela Igreja. Em terceiro lugar,<br />

fez profecias sobre o futuro da França<br />

e da Europa, em conseqüência dos<br />

erros morais que existiam no tempo<br />

dele, prevendo catástrofes que seriam<br />

um pouco a Revolução Francesa, um<br />

pouco também a Revolução Comunista<br />

e a situação na qual nos encontramos.<br />

Além disso, previu o “Reino<br />

de Maria”: uma época em que a devoção<br />

à Santíssima Virgem seria levada<br />

a seu apogeu. Época também em<br />

que a santidade entre os católicos seria<br />

levada muito longe, deveria crescer<br />

muito. Dizia, por exemplo, que os<br />

santos das épocas anteriores seriam,<br />

9


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA<br />

em relação aos do “Reino de Maria”,<br />

como gramas comparadas a carvalhos.<br />

O “Tratado”<br />

Esse conjunto de doutrinas e profecias<br />

é o “Tratado da Verdadeira Devoção<br />

à Santíssima Virgem”. São Luís<br />

acrescenta a tudo isso uma forma de<br />

devoção especial: a escravidão de<br />

amor à Santíssima Virgem.<br />

Do ponto de vista marial, ele faz a<br />

defesa dos privilégios da Santíssima<br />

Virgem, citando autores antigos, etc.<br />

Do ponto de vista apologético, não<br />

ataca diretamente Calvino. Mas quem<br />

lê as obras de Calvino e as de São<br />

Luís Grignion, vê que o “Tratado” é<br />

a contraposição de Calvino e, portanto,<br />

de Jansênio, um calvinista disfarçado.<br />

Como Jansênio não se declarava<br />

inimigo da Igreja a não ser nas entrelinhas,<br />

São Luís Maria Grignion<br />

de Montfort deu a resposta nas entrelinhas<br />

também, algo inteiramente<br />

explicável do ponto de vista tático.<br />

Garantia de ortodoxia<br />

Uma pergunta cabe aqui: qual é a<br />

ortodoxia de tudo isso? Qual a garantia<br />

de que essas doutrinas e profecias<br />

estão de acordo com a doutrina católica?<br />

A resposta é esta: São Luís Grignion<br />

de Montfort foi canonizado. E<br />

antes disso, todos os seus escritos foram<br />

analisados por teólogos especialistas<br />

e depois passaram por um exame<br />

do Papa. Na qualidade de Chefe<br />

da Igreja, de sucessor dos Apóstolos,<br />

de pessoa que possui o carisma da infalibilidade,<br />

o Papa declarou que ele<br />

foi santo. Assim são feitas as canonizações.<br />

Logo, todas as obras de São<br />

Luís Grignion são em princípio ortodoxas.<br />

Quer dizer que nelas não deve<br />

ter sido encontrado nenhum erro<br />

teológico ou moral; são inteiramente<br />

conformes à doutrina da Igreja.<br />

Isto não significa que tudo o que<br />

se encontra nas obras dele seja dogmático,<br />

mas simplesmente que nada<br />

foi encontrado aí que seja contrário<br />

à doutrina católica, tal qual ela é definida<br />

nesse momento. Mas é possível<br />

que algumas definições posteriores a<br />

ele não contenham algo que ele disse.<br />

Sobretudo suas profecias sobre o<br />

futuro não têm a garantia da Igreja,<br />

porque esta nunca autentica revelações<br />

particulares. E São Luís Grignion<br />

não apresenta suas profecias como<br />

uma revelação, mas como conseqüências<br />

lógicas da doutrina por ele sustentada,<br />

e como conseqüências históricas<br />

previsíveis do quadro geral da<br />

França do seu tempo.<br />

E a Igreja apenas certifica que os<br />

escritos e as palavras dele são inteiramente<br />

conformes ao que Ela já ensinou.<br />

Mas isso é totalmente tranqüilizador.<br />

Devemos, pois, usar nosso raciocínio<br />

para verificar a probabilidade<br />

de suas previsões.<br />

Eis o que se pode dizer a respeito<br />

da ortodoxia.<br />

(Continua no próximo número.)<br />

Em seu tratado sobre a escravidão de amor a<br />

Nossa Senhora, São Luís Grignion não só defendeu<br />

os privilégios da Santíssima Virgem, como<br />

combateu nas entrelinhas os erros do jansenismo


DONA LUCILIA<br />

Saudades e cristã resignação<br />

N<br />

a<br />

viagem à Europa em 1950, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> teve oportunidade<br />

de visitar a maravilhosa Sevilha, tema de uma expressiva<br />

carta para sua saudosa mãe. De lá foi a Portugal.<br />

De Barcelona <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> seguiu para Sevilha.<br />

Não imaginava que, ao descer do avião, algo<br />

lhe faria recordar sua mãe, tão distante. Com<br />

efeito, no jardim do aeroporto floresciam gerânios de um<br />

rubro arrebatador, estuantes de vitalidade. Pareciam feitos<br />

para Dona Lucilia pousar sobre eles seu admirativo olhar<br />

e com encanto comentá-los. Seria este apenas o primeiro<br />

dos incontáveis aspectos a atrair a atenção de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

na pitoresca cidade.<br />

Impressões de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> a respeito de<br />

Sevilha<br />

Em geral com grandes olhos escuros e grossas sobrancelhas,<br />

o sevilhano, inteligente e ágil, possui espírito rico<br />

e variado, e é muito capaz de sínteses à maneira do brasileiro.<br />

Dona Lucilia e uma vista de Sevilha,<br />

visitada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1950<br />

11


DONA LUCILIA<br />

As ruas estreitas ziguezagueiam de modo inesperado<br />

e cheio de charme, desembocando onde menos se imagina,<br />

o que lhes confere um certo ar de reserva e mistério.<br />

Quem por elas caminha quase não ouve ruídos, mas percebe<br />

olhares... Em razão do calor, as venezianas das residências<br />

ficam semicerradas. Porém deixam sentir por trás,<br />

a acompanhar o transeunte estrangeiro, olhos que observam,<br />

muito ágeis, meio desconfiados. Tem-se a impressão<br />

de que um olhar avisa o outro: “Lá vai o estrangeiro! Quem<br />

é? O que quer? Como pensa ele?”<br />

Depois de ter conhecido a magnífica catedral, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

visitou a famosa torre da Giralda, construção mourisca<br />

de 80 metros de altura. Os arquitetos adornaram ali as<br />

paredes com janelinhas, entremeando-as com desenhos em<br />

Outros<br />

aspectos<br />

de Sevilha<br />

relevo, verdadeiro rendilhado que causa impressão de tapete.<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> gostou tanto que formou o projeto — sobre<br />

o qual terá trocado idéias depois com Dona Lucilia<br />

— de um dia mandar executar, numa fazenda, enorme<br />

jardim, copiando com flores e jatos d’água tais desenhos.<br />

Por fim, realizou ele um antigo desejo: visitar a Torre del<br />

Oro. Também mourisca, de forma octogonal, ela se reflete<br />

de modo lindo no legendário rio Guadalquivir.<br />

Ao cair da tarde, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> notou as ruas de Sevilha<br />

começarem a se encher de caleches dos antigos tempos,<br />

puxadas a cavalo. Os cocheiros, em belos trajes, transportavam<br />

distintos cavalheiros e elegantes damas que, por onde<br />

passavam, saudavam afavelmente o povo que os observava<br />

das calçadas. Como num conto de fadas, a cidade<br />

parecia acordar de um sono de 200, 300 anos. <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

perguntou a um natural do lugar se haveria alguma festa,<br />

obtendo como resposta:<br />

— Não, não! Às tardes, exceto no inverno, a nobreza<br />

sevilhana sai de casa a fim de tomar ar fresco.<br />

À noite, ao escrever a Dona Lucilia, todas essas impressões<br />

lhe voltaram à memória. Resolveu então comunicar<br />

a sua mãe algumas delas:<br />

Sevilha, 26-IV-1950<br />

Mãezinha querida do coração<br />

Querido Papai<br />

Escrevo-lhes de um dos lugares mais bonitos do mundo.<br />

(...) Tive de acordar às 6! O avião Madri-Sevilha deveria<br />

levantar vôo às 8 no aeroporto de Barajas. Mas esta gente<br />

(...) exige a presença dos passageiros muito antes do embarque.<br />

Afinal embarcamos mal-humorados, e aqui chegamos;<br />

eu cochilei durante quase toda a viagem.<br />

Mal pousamos em terra, chamou-me a atenção o jardinzinho<br />

do aeroporto: flores como nunca as vi em tamanho,<br />

cor e perfume. São lindíssimas. Pensei logo em Mamãe, e no<br />

prazer que eu teria em lhe oferecer rosas daqui. Depois verificamos,<br />

pelos campos que medeiam entre o aeroporto e a<br />

cidade, que aqui os prados são largamente floridos. É primavera.<br />

É preciso ter visto uma primavera sevilhana quem queira<br />

falar sobre assuntos da natureza.<br />

Chegamos ao hotel Affonso XIII. É uma imensa construção<br />

de 1910 mais ou menos, em estilo regional: estrutura mourisca<br />

e decoração em estilo Renascença. O luxo é grande.<br />

Visitei o apartamento destinado aos Reis e encimado por<br />

uma coroa real. Um de seus hóspedes mais recentes foi o<br />

Rei Carol [soberano da Romênia de 1930 a 1940]. Mas<br />

maior que o luxo é o bom gosto. Estou escrevendo junto ao<br />

pátio interno, que é indescritível. (...)<br />

Comungamos aqui, na Catedral gótica: parece um conto<br />

de fadas. Tem de alto uns 30m, de longo uns 100, e de largo<br />

uns 60. A floresta de colunas é admirável. Corresponde a<br />

tudo quanto se poderia desejar. É de encher a alma.<br />

12


Gostaria eu de ir a Granada, que não é muito<br />

distante, mas não o poderemos fazer por falta de<br />

tempo.<br />

Devemos estar em Madri quarta, indo ato<br />

continuo a Lisboa... onde espero encontrar correspondência<br />

em quantidade! (...)<br />

Já escrevi a Rosée, Antônio, M. Alice, às Tias,<br />

ao pessoal todo do 6º andar. Espero que tenham<br />

recebido minha correspondência.<br />

Para a Senhora, meu amor querido, milhões<br />

e milhões de beijos. Para Papai, muitos e saudosos<br />

abraços. A ambos peço a bênção.<br />

<strong>Plinio</strong><br />

P. S.: Recebeu a Sra. meu telegrama de Barcelona pelo<br />

dia 22?<br />

“Gemidinhos” de saudade<br />

Que sentimentos terão perpassado a alma de Da. Lucília<br />

durante a leitura dessas notícias e comentários? Um<br />

pouco ela deixa transparecer ao redigir, agradecida, uma<br />

pronta resposta a seu tão amado filho. Vemos aí, uma vez<br />

mais, a resignação com que generosamente oferece o sacrifício<br />

pedido a ela pela Providência, em favor dos interesses<br />

da Causa Católica e do próprio <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>.<br />

São Paulo, 6-V-950<br />

Filho querido de meu coração!<br />

Com imenso gosto, recebi tua carta de Sevilha, e estou<br />

ansiosa por receber outras de Fatima, Lourdes e Paris, e mais<br />

tarde, de Roma, do Vaticano, do Santo Padre, e enfim, a de<br />

tua volta! Meu filho, tenho imenso gosto de te ver fazer esta<br />

viagem, tão necessária sob todos os aspectos, e em tão boas<br />

condições, e excelente companhia de tão bons e dedicados<br />

amigos, e por tudo isso, dou infinitas graças a Deus, e a Maria<br />

Santíssima, que os acompanhará todo o tempo. E por<br />

isso, querido, não prestes atenção a uns gemidinhos que partem<br />

apenas das saudades, em que não devemos prestar atenção.<br />

(...)<br />

Rosée tem escrito freqüentemente, e, graças a Deus, vão<br />

bem. Penso que estarão de volta nos primeiros dias de junho.<br />

Antônio ainda não veio da fazenda.<br />

Não fui ainda ao mês de Maria, porque tem chovido, e<br />

esfriou muito, mas tenho no quarto, como sabes, a imagem<br />

florida, diante da qual rezo o terço, e mais a ladainha e outras<br />

orações, pelas bênçãos e felicidades do filho querido,<br />

de seus amigos, da filha, neta, do Antônio... etc.<br />

Vê se escreves a tuas tias; sim? Me farias com isso muito<br />

prazer.<br />

Yayá almoçou hoje aqui; está bem, e vai fazer um jogo de<br />

bridge em sua casa hoje à noite.<br />

Frente e verso do postal<br />

enviado de Lisboa<br />

por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> à sua mãe<br />

Chega de prosa? Termino enviando-te com minhas bênçãos<br />

muitos e muitos beijos e abraços. O sofá de jacarandá<br />

também tem umas saudades...!!!<br />

Mais um abraço, e mais um beijo, de tua mãe extremosa,<br />

Lucilia<br />

A menção ao sofá de jacarandá diz respeito às prosinhas<br />

famosas entre Da. Lucília e <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, das quais já<br />

falamos anteriormente.<br />

Postal vindo de Lisboa<br />

O desejo expresso por Dona Lucilia na carta que acabamos<br />

de ver, de receber notícias a respeito de Fátima,<br />

foi atendido antes do que ela imaginava. Sim, porque<br />

talvez no mesmo dia 6 de maio tenha lhe chegado às<br />

mãos um belo postal com a imagem de Nossa Senhora de<br />

Fátima, endereçado a ela e a <strong>Dr</strong>. João Paulo.<br />

Lisboa, 30/4/1950<br />

De Fatima, onde rezei por ambos, envio muitos abraços,<br />

beijos, saudades, e peço a benção.<br />

<strong>Plinio</strong>.<br />

PS. É preciso dizer a Tia Zili que rezei por aquilo que ela<br />

pediu.<br />

Na rápida passagem pela terra de Camões, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

teve oportunidade de observar traços bem característicos<br />

da alma portuguesa, presentes por certo na remota origem<br />

do modo de ser de Dona Lucilia. Era o caso da riqueza<br />

de afetividade e doçura lusas.<br />

Essa nação de tal maneira havia requintado um sentimento,<br />

quiçá não tão desenvolvido antes, que chegaria a<br />

criar uma nova palavra, enriquecendo a alma e o vocabulário<br />

humanos: saudade. Era uma das razões pelas quais<br />

Dona Lucilia, embora nunca tivesse ido à terra de seus<br />

ancestrais, devotava-lhe grande amor.<br />

(Transcrito, com adaptações, da obra<br />

“Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias.)<br />

13


A SOCIEDADE, ANALISADA POR DR. PLINIO<br />

Q ual<br />

Verdadeira cultura e<br />

tipo humano<br />

o verdadeiro conceito de cultura? Por que os “produtos” culturais<br />

destilados pela Civilização Cristã são tão superiores aos engendrados<br />

pelo paganismo? Durante uma reunião de trabalho, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> fez algumas<br />

explicitações a respeito dessas questões. Oferecemo-las a nossos leitores<br />

tais quais ele as expôs.<br />

O Taj-Mahal e o Castelo de<br />

Chambord (página seguinte),<br />

belezas diversas, contrapondo os<br />

frutos da verdadeira cultura<br />

inspirada pela fé católica e os<br />

daquela engendrada pelo paganismo


Deus, organizando o universo,<br />

teve a intenção de<br />

Se fazer conhecer pelos<br />

homens enquanto causa de toda a<br />

criação, e conhecer-Se nos seus predicados<br />

divinos.<br />

Portanto, fazendo conhecer as criaturas<br />

pelos homens, Ele faz conhecer<br />

não só cada uma em particular, mas<br />

faz conhecer a excelência do conjunto<br />

da criação, enquanto conjunto. Como<br />

diz o Gênesis, Deus, após ter criado<br />

tudo, repousou na consideração<br />

daquilo que Ele tinha feito e alegrouse<br />

— é um modo de dizer — porque<br />

viu que o conjunto era ótimo.<br />

Do conhecimento de todas as criaturas,<br />

para cada homem ficam as impressões<br />

e os conceitos. Mas fica uma<br />

impressão global do conjunto, que por<br />

sua vez dá um certo conhecimento,<br />

uma certa noção, leva a um certo conceito,<br />

que é mais alto do que o conceito<br />

dos seres tomados individualmente.<br />

Cultura de uma região ou<br />

de um povo<br />

Uma palavra cujo sentido é muito<br />

discutido hoje em dia é “cultura”. Na<br />

verdade, para quem tenha elevação<br />

de pensamento religioso, cultura é precisamente<br />

o conhecimento global que<br />

os homens têm do universo, acompanhado<br />

de um conceito e de uma sensação<br />

a respeito do universo que não é<br />

igual para todos, mas que tem uma certa<br />

acomodação dentro da objetividade,<br />

conforme cada pessoa, família, região,<br />

nação. Segundo cada qual, isso<br />

vai se matizando e tendo uma espécie<br />

de visão própria — sempre objetiva,<br />

embora diversa — do que é o universo,<br />

do que é Deus, do que são os elementos<br />

componentes do universo e<br />

de que maneira refletem a Deus.<br />

15


A SOCIEDADE, ANALISADA POR DR. PLINIO<br />

Isso caracteriza o espírito de um<br />

indivíduo, de uma família, de uma região,<br />

de um país ou de uma área de civilização.<br />

E quando caracteriza o espírito<br />

de uma área grande, pode-se<br />

dizer que tal visão é a cultura daquela<br />

zona.<br />

A cultura vem a ser esse conjunto<br />

de conhecimentos e, portanto, também<br />

esse conjunto de mentalidades,<br />

fundamentalmente religioso, embora<br />

— e este ponto nos diversifica<br />

muito de certos modos de religiosidade<br />

— não exclusivamente eclesiástico<br />

ou não exclusivamente dado à<br />

oração, mas dado a um conhecimento<br />

religioso da coisa temporal.<br />

Há, pois, um sentir das coisas afim<br />

com o pensamento, que enriquece a<br />

conceituação e é por ela enriquecido.<br />

Não se trata de algo meramente<br />

conceptual e doutrinário, como está<br />

no livro “Revolução e Contra-Revolução”,<br />

mas também de algo de sensível,<br />

que completa. A exposição que<br />

faço nesse livro não compreende o<br />

meu pensamento global.<br />

Esse é meu pensamento sobre a<br />

matéria, o qual, como sempre, sujeito<br />

amorosamente, com alegria, à correção<br />

que o Magistério da Igreja julgue<br />

conveniente introduzir.<br />

Deus opera dentro da<br />

chamada religião natural<br />

Há um pensador francês que chama<br />

essa visão de lumière [luz]. É mesmo<br />

uma lumière?<br />

À primeira vista seríamos levados<br />

a negar, porque pensamos em lumen<br />

A admiração pela<br />

beleza de uma<br />

Sainte Chapelle<br />

(ao lado), exprime<br />

a percepção de um<br />

“pulchrum” sacral<br />

e sobrenatural,<br />

diferente da<br />

consideração<br />

meramente<br />

estética que se tem<br />

diante do<br />

Parthenon de<br />

Atenas (acima)<br />

16


[luz] da graça, e a graça é sobrenatural.<br />

Ora, o que acabo de expor se desenvolve<br />

na linha natural. Deus, quando<br />

faz ver o universo ao homem e,<br />

através do universo, faz ver que Ele<br />

existe e como Ele é, opera dentro da<br />

temática chamada religião natural. É<br />

a religião que não vem da Revelação,<br />

mas da razão humana. Tudo quanto<br />

expus até aqui vem da razão humana.<br />

Qual é o papel da fé e, portanto,<br />

também, qual é o papel da graça nesse<br />

conjunto? Qual é o papel da Igreja?<br />

O que é lumière aí?<br />

Tratemos de esclarecer essas questões.<br />

Penso que a palavra luz poderia se<br />

aplicar aqui em dois sentidos. Um é<br />

o sentido da luz natural, a lumen rationis,<br />

pela qual o homem crê em Deus,<br />

crê na unidade de Deus, crê numa<br />

porção de dados da religião que lhe<br />

vêm da razão. Para dar adesão a esses<br />

dados naturais o homem não precisa<br />

da graça, embora esta possa ajudá-lo<br />

e esclarecê-lo.<br />

Para crer naquilo que é revelado é<br />

preciso a fé. Aí se faz necessário o<br />

dom específico da graça, um recurso<br />

sobrenatural pelo qual o homem se<br />

torna capaz de entender e de dar adesão<br />

ao que é revelado.<br />

Devemos ainda levar em consideração<br />

que, quando Deus nos concede<br />

graças, estas se fazem conhecer<br />

por uma espécie de contato. Por uma<br />

sensibilidade proveniente da ação do<br />

sobrenatural em nós, sentimos algo<br />

que nos toca e nos eleva rumo às<br />

coisas divinas.<br />

A experiência mística é<br />

uma das razões mais<br />

profundas da fé<br />

“Cada vez que elogio a Torre de Belém,<br />

faço-o com uma emoção religiosa, por ser um<br />

monumento no qual se reflete a graça que<br />

impulsionou os primeiros navegadores e<br />

missionários na sua grandiosa epopéia cristã.”<br />

Por exemplo, temos uma série de<br />

percepções do divino em nós, em várias<br />

ocasiões de nossa vida. Quando,<br />

às vezes, comungamos, temos uma<br />

certa percepção; às vezes quando entramos<br />

numa igreja onde está o Santíssimo,<br />

percebemos que Ele está lá.<br />

Ou quando visitamos, por exemplo,<br />

a Sainte Chapelle.<br />

Não sou um homem emocional, até<br />

tendo ao contrário. Contudo, quando<br />

pela primeira vez entrei na Sainte<br />

Chapelle, já no pavimento térreo,<br />

achei-o, desse ponto de vista, tão sensibilizante<br />

de coisas sobrenaturais que<br />

tive uma verdadeira exclamação: “Ah!”<br />

Quer dizer: “Que beleza!” Por essa<br />

minha reação pode-se imaginar o que<br />

senti quando cheguei ao andar de cima,<br />

muito mais esplendoroso.<br />

A expressão “que beleza!” exprime<br />

a percepção de um pulchrum [belo]<br />

17


A SOCIEDADE, ANALISADA POR DR. PLINIO<br />

sacral e sobrenatural. Não é uma consideração<br />

puramente estética como<br />

se pode ter, por exemplo, diante do<br />

Parthenon de Atenas, mas é algo que<br />

me toca favoravelmente, admiravelmente,<br />

ao ver, por exemplo, os vitrais<br />

da Sainte Chapelle.<br />

Claro que a sensação do belo que<br />

está mesclada com isso pode ser estudada<br />

do ponto de vista natural e se<br />

podem encontrar aí as regras da estética.<br />

Mas por cima há outra coisa<br />

que toca, e que a meu ver é uma das<br />

razões mais profundas da fé que tem<br />

o católico: é uma experiência mística,<br />

que é essa sensação do sobrenatural,<br />

e que completa — na linha de<br />

conhecer a criação feita por Deus —<br />

a visão dessa criação, porque o ápice<br />

da criação é a graça.<br />

Isso faz com que o católico, nessa<br />

matéria, tenha um “acabamento”<br />

cultural — no sentido da palavra cultural<br />

que expus atrás, de conhecimento<br />

do universo — em que ele percebe<br />

a presença da graça em coisas<br />

que às vezes nem são diretamente<br />

religiosas, mas nas quais ele percebe<br />

a raiz religiosa. E sentindo a raiz religiosa,<br />

ele com a fé do carvoeiro brada:<br />

“Eu creio!”<br />

Elogio à Torre de Belém é<br />

feito com emoção religiosa<br />

Tantas vezes tenho elogiado a Torre<br />

de Belém, em Portugal. De cada<br />

vez faço-o com uma emoção religiosa.<br />

Não é como quem elogiasse,<br />

por exemplo, o Taj-Mahal, que é uma<br />

construção pagã. Olhando a Torre de<br />

Belém, a graça me toca a respeito de<br />

um monumento no qual se refletiu e<br />

se reflete a graça que levou os primeiros<br />

navegadores, primeiros missionários<br />

e primeiros conquistadores<br />

a empreenderem as epopéias deles,<br />

continuação da graça da reconquista<br />

do território português contra os mouros.<br />

Tudo isso forma um sulco histórico<br />

só.<br />

Quando fui à França da última vez,<br />

fiquei longamente olhando o castelo<br />

de Chambord. Eu seria capaz de ficar<br />

ali indefinidamente fitando esse<br />

castelo, mesmo durante a noite. Não,<br />

porém, por causa de sua relação com<br />

Francisco I, mas por algo da França<br />

de Clóvis, da França de São Remígio,<br />

da França de Santa Clotilde, enfim,<br />

de todas as Franças, da França<br />

da irmã de Luís XVI, que foi beatificada<br />

— é isso que me toca vendo<br />

coisas assim e que formam, portanto,<br />

o ápice da cultura.<br />

Bem entendido, posso ver isso nas<br />

coisas temporais, mas sobretudo na<br />

Santa Igreja Católica Apostólica Romana<br />

tomada ela como um todo.<br />

O tipo humano, o mais<br />

magnífico produto da<br />

cultura<br />

E aqui se segue outra lumière, uma<br />

luz sobrenatural que se soma à luz<br />

natural na mesma linha e da qual nasce<br />

um dos mais magníficos produtos<br />

da cultura: o tipo humano.<br />

Cada civilização, cada cultura, cada<br />

graça para o estilo de civilização e<br />

de cultura que Deus quer para um<br />

país, ajuda a formar um tipo humano,<br />

e esse tipo humano é a obra-prima<br />

da Igreja e da sociedade temporal<br />

numa área de civilização.<br />

A destilação de um tipo humano é<br />

a obra-prima de todo esse conjunto<br />

de causas e efeitos. Quando um povo,<br />

no seu conjunto, anda bem na vida<br />

espiritual, gera o tipo humano perfeito<br />

que Deus, quando criou o homem,<br />

queria que em certo momento<br />

da História fosse gerado.<br />

Esse tipo humano não é só uma<br />

raça, não é só uma nação. É uma forma<br />

de perfeição espiritual que é o<br />

homem, a vida tomando o seu corpo<br />

como símbolo de sua alma e fazendo<br />

de seu olhar, de sua voz, de seus gestos,<br />

de todo o seu andar símbolos de<br />

sua alma. Manifestando uma alma que<br />

A destilação dos tipos humanos é a obr<br />

diferentes da ação da graça e d<br />

melhor requinte na figura do nobr<br />

Acima, o Príncipe Maurice de Sax<br />

18


a-prima da cultura, com densidades<br />

a natureza, que atingem seu<br />

e — fruto da Civilização Cristã.<br />

e, senhor do Castelo de Chambord.<br />

não é a de um santo que morreu e<br />

não ressuscitou, mas a alma de um<br />

santo que vive dentro da sua carne e<br />

dentro de seus ossos. Mas é um santo.<br />

O tipo humano perfeito se exprime<br />

com aquilo que há de mais alto no<br />

homem, somado à graça e à cultura<br />

que atuam nele.<br />

Esse tipo humano não deve ser<br />

considerado somente enquanto nacional,<br />

diferente em cada nação, como<br />

o chileno, o português e o francês. É<br />

mais do que isso.<br />

É que, dentro de um mesmo país,<br />

ou de uma mesma área de cultura,<br />

apresentam-se homens destinados por<br />

Deus a exercer funções diversas, e<br />

que, sendo portadores e retransmissores<br />

desse lumen, devem fazê-lo à<br />

maneira do seu país e à maneira do<br />

trabalho ou da função que exercem<br />

no seu país. De tal maneira que um<br />

homem que é pai de família, bom,<br />

santo, acaba tendo um certo modo de<br />

retransmitir esse lumen de modo próprio.<br />

Por exemplo, próprio ao pai de<br />

família de tal século, de tal região da<br />

França, ou até de tal encosta de montanha.<br />

São tipos humanos que vão se destilando,<br />

aprimorando-se de acordo<br />

com as circunstâncias e a função na<br />

sociedade temporal, mas pela luz vivificante<br />

da natureza e da graça.<br />

Exemplos de tipos<br />

humanos<br />

Por exemplo, um professor. Ele<br />

seria um homem católico em tudo. É<br />

professor porque deve haver professores<br />

no mundo, deve haver pessoas<br />

que assumam a função de professor<br />

e, portanto, ele a assumiu. Não se<br />

trata, portanto, de uma vocação divina,<br />

para a qual Deus o tenha chamado;<br />

mas Deus quis que houvesse professores,<br />

e que, por uma distribuição<br />

natural, alguns homens fossem professores.<br />

Os que são, são-no por desígnio<br />

de Deus. Não é, pois, como a<br />

vocação sacerdotal, que é individualíssima.<br />

Mas é um chamado de Deus<br />

para uma certa categoria de pessoas<br />

que se distribuem naturalmente por<br />

aquela categoria.<br />

Ainda que ensinem apenas mineralogia<br />

ou cibernética, os professores<br />

têm a missão de ser um tipo humano<br />

diante dos alunos, e com certa riqueza<br />

de comunicação e de modelagem<br />

especial, quando são fiéis à sua própria<br />

vida espiritual e ao desígnio de<br />

Deus a respeito deles. Há uma função<br />

docente global da classe dos professores<br />

que é o lumen do professor,<br />

de maneira tal que a mente do aluno<br />

é particularmente tocada por isso.<br />

Isso se dá em toda espécie de profissões.<br />

Por exemplo, nos vitrais e nas<br />

iluminuras da Idade Média vemos sapateiros,<br />

navegantes, calígrafos, com<br />

características que vão se superpondo<br />

[ao longo da História] e elaborando<br />

tipos humanos.<br />

Esses tipos têm densidades diferentes<br />

da ação da graça e da natureza,<br />

e deve haver um tipo que tem um requinte<br />

pelo qual a natureza e a graça<br />

nele fazem algo de mais exquis [requintado]:<br />

esse é o nobre. É propriamente<br />

um fruto da Civilização Cristã.<br />

Comparemo-lo, por exemplo, com<br />

o marajá indiano. Fazemos deste uma<br />

imagem cristianizada, mas que não<br />

corresponde à realidade. Ele se traja<br />

com uma roupagem linda, mas não é<br />

capaz de usá-la com nobreza. Sentase<br />

de modo deseducado. Porta um<br />

turbante lindo, no qual terá uma safira,<br />

um rubi, uma aigrette [penacho]<br />

magnífica, mas tem aquele olhar no<br />

qual não se notam as doçuras e as<br />

graças da civilização.<br />

Tome-se, em contrapartida, um barãozinho<br />

das Ardennes, na Bélgica,<br />

ou um pequeno squire* inglês — são<br />

algo inteiramente superior. Foram<br />

destilados pela Civilização Cristã.<br />

* Pequeno fidalgo que mora no campo.<br />

19


DR. PLINIO COMENTA...<br />

Interior do<br />

castelo de<br />

Valençay, no<br />

Vale do<br />

Loire, França


O contraste<br />

harmônico dá-se<br />

sempre entre duas perfeições,<br />

as quais, por serem muito<br />

diversas entre si, como que se equilibram.<br />

Na conferência transcrita a<br />

seguir, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> aplica essa tese à<br />

presença de um austero capuchinho<br />

em meio ao luxo e requinte da vida<br />

de corte.<br />

P ara<br />

ser comentado hoje, foram-me<br />

fornecidos trechos<br />

da obra de um jesuíta, a<br />

“Vida de São Lourenço de Bríndisi”,<br />

cuja festa se celebra em 22 de junho.<br />

Antes de passar à leitura e comentários,<br />

vale a pena termos uma noção<br />

do que era um capuchinho no século<br />

XVI, para melhor avaliarmos a projeção<br />

da figura desse santo no mundo<br />

daquele tempo.<br />

Conhecemos o traje clássico dos<br />

capuchinhos. É aquele hábito marrom-claro,<br />

na cintura um rosário, sendo<br />

que as fileiras de contas são unidas<br />

pela figura de uma caveira. Calçam<br />

sandálias sem meias, usam a barba<br />

grande e cabelo aparado quase rente.<br />

O capuchinho entrava, desse modo,<br />

num contraste violento com o modo<br />

de se trajar e de se apresentar dos<br />

homens da época. A Renascença estava<br />

no fim, e se ia passando para o<br />

Barroco e o Rococó, as modas masculinas<br />

iam atingindo um auge de rebuscamento,<br />

de elegância, de finura<br />

e, às vezes, de efeminamento, como<br />

poucas vezes aconteceu na História.<br />

Os homens se trajavam de seda, de<br />

damasco, trazendo na roupa botões<br />

e outros ornamentos de pedras preciosas.<br />

Usavam anéis, meias de seda,<br />

sapatos de verniz (com salto vermelho,<br />

quando eram nobres) com fivelas<br />

de ouro ou de prata e pedras preciosas.<br />

Perfumavam-se. Quando usavam<br />

barba, era aparada no formato<br />

chamado de “pêra”, muito bem cuidada,<br />

e os bigodes finos e sedosos —<br />

não era o bigode à “kaiser”, com a<br />

ponta voltada para cima. Por cima do<br />

cabelo natural, ou da cabeça rapada,<br />

punham cabeleiras, superpreparadas<br />

em estabelecimentos especiais. Não<br />

falemos da apresentação da dama,<br />

porque, se assim era a do homem,<br />

mais requintada era a feminina.<br />

Dentro dos sábios equilíbrios da<br />

Civilização Cristã, o capuchinho representava<br />

a tônica oposta de tanto luxo<br />

e tanto bom gosto.<br />

Harmonia baseada nos<br />

contrastes<br />

Não seria eu quem haveria de censurar<br />

que a Civilização Cristã engendrasse<br />

os mais magníficos trajes. Eu<br />

teria, certamente, alguma restrição a<br />

São Lourenço de Bríndisi<br />

alguns aspectos desses trajes no século<br />

XVI. Mas, na linha geral, a idéia<br />

de acentuar a dignidade do homem<br />

por meio de trajes magníficos me parece<br />

muito boa e própria a realçar a<br />

sabedoria do plano de Deus, o qual,<br />

a serviço do rei da Criação, que é o<br />

homem, dispôs de materiais capazes<br />

de afirmar adequadamente essa realeza.<br />

Sobretudo quanto esse rei é, ao<br />

mesmo tempo, membro do Corpo<br />

Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo,<br />

e tem, portanto, uma dignidade<br />

maior do que a própria dignidade<br />

humana.<br />

Mas é próprio do gênio, do talento<br />

da Igreja Católica estabelecer a harmonia<br />

baseada nos contrastes. Uma<br />

coisa é a contradição; outra coisa são<br />

os contrastes harmônicos. Estes últimos<br />

são sempre contrastes entre duas<br />

perfeições — não entre um defeito e<br />

uma perfeição e, menos ainda, entre<br />

dois defeitos — as quais, sendo muito<br />

diversas entre si e por serem muito<br />

diversas entre si, como que se equilibram.<br />

Um tal esplendor nos trajes, uma<br />

tal magnificência na vida de Corte,<br />

exigia que se lembrasse ao homem,<br />

21


DR. PLINIO COMENTA...<br />

ao mesmo tempo, os valores opostos<br />

da austeridade, da sobriedade, da sobranceria<br />

em relação às coisas terrenas,<br />

do único valor profundo das coisas<br />

sobrenaturais, etc. Só por essa forma<br />

a humanidade poderia chegar impunemente<br />

a tais requintes de luxo.<br />

Como, em sentido contrário, a afirmação<br />

magnífica — eu quase diria<br />

brutal — da morte, da pobreza, de tudo<br />

aquilo que leva o homem a sofrer<br />

na vida, a renunciar, a lutar, só poderia<br />

ser um valor geral para a sociedade,<br />

freqüente, presente em todos os<br />

aspectos da vida social, se, em sentido<br />

contrário, o esplendor da vida terrena<br />

aparecesse também.<br />

Um exemplo de contrários<br />

harmônicos<br />

São esses contrários harmônicos<br />

que são os fatores de equilíbrio da<br />

alma humana. É muito belo ver, em<br />

quadros do tempo, cenas de vida de<br />

Corte. Lembro-me de um quadro que<br />

eu via muito quando era pequeno.<br />

Era uma sala com um rei e uma rainha,<br />

algo me sugere que eram soberanos<br />

espanhóis, ambos com coroas na<br />

cabeça. A Corte inteira de pé, como<br />

se recebesse alguém: dignitários, cardeais<br />

vestidos de púrpura, guerreiros,<br />

ministros, etc., formando um grande<br />

semicírculo.<br />

Era a cena da Corte na sua magnificência,<br />

parada, à espera de um ato<br />

que se devia realizar. A pequena distância<br />

do rei ou da rainha, a figura<br />

de um capuchinho. Espadaúdo, enorme,<br />

forte, com uma barba colossal, e<br />

com sua roupa terrível. Natural no<br />

meio daquilo, na sua pobreza entre<br />

os mais importantes e mais ricos, e<br />

cercado de respeito e de delicadeza,<br />

constituindo no quadro um equilíbrio<br />

moral que eu não sabia explicitar, mas<br />

que me deixava maravilhado. Era esse<br />

o papel simbólico dos capuchinhos<br />

na civilização daquele tempo. Representavam<br />

tudo quanto há de austero<br />

As modas masculinas no séc. XVI iam atingindo<br />

um auge de rebuscamento, de finura e, às vezes,<br />

de efeminamento como raramente se viu na História...<br />

22


na vida, e constituíam a contrapartida<br />

harmônica de tudo quanto havia de<br />

magnífico na vida, que a civilização<br />

daquele tempo estava elaborando.<br />

Um protesto vivo<br />

Temos, pois, um santo, São Lourenço<br />

de Bríndisi, que é chamado a desempenhar<br />

essa missão, simbolizar esse<br />

valor na sociedade daquele tempo.<br />

O mundo era então marcado pela<br />

presença de dois adversários terríveis,<br />

que quase liquidaram a Europa.<br />

Um deles era a Primeira Revolução,<br />

o protestantismo, contra o qual<br />

São Lourenço de Bríndisi lutou com<br />

êxito.<br />

A Primeira Revolução, como mostro<br />

no livro “Revolução e Contra-Revolução”,<br />

foi marcada por uma explosão<br />

de orgulho e de sensualidade.<br />

De orgulho, afirmado pela negação<br />

da hierarquia eclesiástica e pela inconformidade,<br />

na esfera eclesiástica,<br />

de todos os súditos com a autoridade.<br />

O Bispo não querendo tolerar Papas,<br />

os sacerdotes não querendo tolerar<br />

Bispos, os leigos não querendo tolerar<br />

sacerdotes. Uma verdadeira revolução<br />

comunista dentro da estrutura<br />

eclesiástica daquele tempo.<br />

De outro lado, a sensualidade, afirmada<br />

pela ruptura com o princípio da<br />

indissolubilidade do vínculo conjugal,<br />

quer dizer, pelo estabelecimento<br />

do divórcio em todas as seitas protestantes<br />

e, de outro lado, pela abolição<br />

do celibato eclesiástico e do estado religioso<br />

com celibato.<br />

Nesse mundo marcado pela perpétua<br />

insatisfação de todos, o capuchinho<br />

representava um protesto vivo.<br />

Ele era pobre o mais das vezes voluntário,<br />

um homem que possuíra bens<br />

na terra, maiores ou menores, e optara<br />

por ser pobre; que renunciara a toda<br />

carreira terrena, não ocupava altos<br />

cargos nem altas situações, vivia na<br />

humildade do voto de obediência pelo<br />

qual renunciara à própria vontade<br />

para viver sob o império da vontade<br />

de um outro; e mantinha a castidade<br />

perfeita.<br />

Ele representava, então, um contraste<br />

vivo com todo o desregramento<br />

do tempo, e passeava naquela sociedade<br />

revolucionária como um tanque<br />

evolui no meio de batalhões adversos<br />

de infantaria. Com serenidade,<br />

sobranceria e ação de presença, ia aniquilando.<br />

Desde a infância<br />

preparando a alma para<br />

grandes batalhas<br />

Vamos agora estudar a vida desse<br />

Santo sob esse aspecto. Passo, portanto,<br />

à leitura de trechos da biografia<br />

dele.<br />

Nasceu em Bríndisi, em 1559. Foram<br />

seus pais das mais nobres famílias daquela<br />

cidade. Tinha apenas quatro anos<br />

quando pediu aos pais para entrar no<br />

convento dos Frades Menores. Os pais<br />

acederam. Lourenço era aplicado. Gostava<br />

muito de ouvir sermões, retinhaos<br />

facilmente e os repetia com exatidão.<br />

Às vezes faziam-no pregar no Capítulo,<br />

para que todos ouvissem.<br />

Que encanto um capuchinhozinho<br />

com voz de criança, mas já com catadura<br />

de atleta de Cristo, fazendo<br />

sermões que ele ouvia e repetia! Isso<br />

ia formando o menino para as grandes<br />

batalhas que ele ia travar, para o<br />

desembaraço que constitui uma das<br />

formas da grandeza capuchinha.<br />

O Arcebispo, a quem a notícia chegou,<br />

quis também ouvi-lo, e o obrigou<br />

a ir pregar na catedral diante de numeroso<br />

público, que muito proveito tirou.<br />

Levemos em consideração que, naqueles<br />

lugares pequenos da Itália —<br />

sem rádio, televisão, cinema — qualquer<br />

singularidade despertava curiosidade.<br />

Assim a Catedral se enchia<br />

para ouvir o sermão de um meninozinho<br />

extraordinário. O povo, como<br />

era naquele tempo, falante, exuberante,<br />

fazendo comentários antes de chegar<br />

o menino. De repente, este sobe,<br />

começa a fazer ouvir sua voz, o silêncio<br />

se estabelece aos poucos. Terminado,<br />

o órgão toca, alguém canta uma<br />

Ave-Maria, e o público vai lentamente<br />

se escoando depois de ter recebido<br />

a bênção do Bispo.<br />

O menino entra no convento e não<br />

ouve nenhuma das repercussões. Vai<br />

dormir e, na manhã seguinte, está limpando<br />

o chão.<br />

Ao receber pressões da<br />

mãe, São Lourenço foge<br />

Tendo morrido seu pai, quis a mãe<br />

que o filho voltasse para casa, a fim de<br />

lhe fazer companhia. Mas o jovem procurou<br />

esquivar-se às solicitações dela<br />

e fugiu para Veneza, onde estava um<br />

tio seu, sacerdote, reitor do Colégio de<br />

São Marcos.<br />

Veneza de manhãzinha, com seus<br />

palácios, seu panorama aquático magnífico,<br />

mil jogos de luz maravilhosos.<br />

O fradinho que fugiu e viajou a noite<br />

inteira entra tranqüilamente na cidade,<br />

toma uma gôndola e, de pé, olhando<br />

os palácios e pensando em como<br />

o Reino dos Céus é maior do que o<br />

da Terra, chega à casa do tio para estudar.<br />

O tio era aliado de Deus e o<br />

acolhe, e a mãe desiste de exercer seu<br />

poder.<br />

Concluindo ele os estudos de filosofia,<br />

seu tio o destinou à Faculdade<br />

de Direito Canônico. Chegado aos 17<br />

anos, pediu o hábito capuchinho, e o<br />

Provincial lhe concedeu com gosto.<br />

Em 24 de março de 1576, ele fez a solene<br />

profissão.<br />

Maravilhosas conversões<br />

Aos 36 anos, foi nomeado Ministro<br />

Geral para toda a Ordem. Quando<br />

Clemente VIII mandou os capuchinhos<br />

para a Alemanha, o Santo foi um dos<br />

encarregados. O Imperador [do Sacro<br />

Império] teve grande satisfação nessa<br />

escolha e concedeu-lhe ampla autoriza-<br />

23


DR. PLINIO COMENTA...<br />

Um grupo de<br />

capuchinhos<br />

passeia pelas<br />

ruas de Veneza,<br />

outrora<br />

palmilhadas por<br />

São Lourenço de<br />

Bríndisi,<br />

símbolo da<br />

pobreza<br />

evangélica em<br />

meio ao luxo e<br />

às glórias<br />

mundanas do<br />

seu século<br />

ção para fundar mosteiros. Fundou-os<br />

na Boêmia, Áustria, Morávia e Silésia.<br />

Fundar mosteiros é encontrar vocações<br />

para eles, encontrar dinheiro<br />

para construí- los e superiores para<br />

dirigi-los. É difícil encontrar quem<br />

queira levar a vida austera de um capuchinho.<br />

Mas ele formou mosteiros<br />

em todas essas regiões.<br />

Os Sumos Pontífices confiaram-lhe<br />

as mais delicadas missões. Várias vezes<br />

foi enviado como embaixador a cortes<br />

de diversos príncipes. Estes o honravam<br />

também com o caráter de seu embaixador.<br />

Assim compareceu às cortes dos<br />

príncipes da Alemanha e até à Dieta do<br />

Império. Seu zelo reteve naquele país e<br />

heresia luterana.<br />

Podemos imaginar cenas de Cortes:<br />

o arauto anuncia que vai entrar no<br />

salão o Embaixador do Santo Padre,<br />

tido como o decano dos diplomatas<br />

em todos os países católicos, e entra<br />

o frade capuchinho na singeleza de<br />

seus trajes. Grande reverência ao rei,<br />

e prossegue, no meio dos tapetes de<br />

luxo, do esplendor, sereno e indiferente,<br />

sem revolta e sem admiração,<br />

com os olhos postos no Céu e pregando<br />

a verdade, às vezes terrível.<br />

Imprudente no nível<br />

humano, prudente no<br />

sobrenatural<br />

O Imperador desejou que alguns capuchinhos<br />

fossem como capelães do<br />

exército à Hungria. São Lourenço foi<br />

à frente da missão. Era general o Arquiduque<br />

Matias, irmão do Imperador,<br />

o qual, estimulado pelas promessas que<br />

lhe fazia Lourenço da parte de Deus,<br />

de alcançar vitória sobre os inimigos,<br />

determinou atacá-los perto de Alba Real.<br />

O Arquiduque, excelente general,<br />

considerava imprudente atacar os<br />

maometanos, que estavam chegando<br />

pelos Bálcãs para atacar a Hungria e<br />

depois a Áustria, por assim dizer, pelas<br />

costas, enquanto os Habsburgos<br />

tinham de enfrentar o ataque dos protestantes<br />

da Alemanha e a oposição<br />

política francesa.<br />

Situação crítica para a Casa d’Áustria.<br />

O Arquiduque Matias, parente<br />

do Imperador, generalíssimo das tropas<br />

do Império Romano-Alemão,<br />

diante dos turcos duvida se ataca ou<br />

não. Podemos imaginá-lo numa tenda<br />

magnífica, reunido com seus homens<br />

de guerra, olhando mapas sobre<br />

uma mesa de emergência, discutindo<br />

se avança ou não, com dados obtidos<br />

pelos espiões. Segundo as regras da<br />

técnica militar, a batalha é imprudente.<br />

Entra então a sentinela e diz: “Frei<br />

Lourenço quer falar”. O Arquiduque<br />

Matias aquiesce e o capuchinho entra,<br />

avisando a revelação de Deus: “Podem<br />

dar o ataque, porque vencerão”.<br />

Há um momento de sensação,<br />

quando, ouvido o religioso, que não<br />

dá razões técnicas, mas só as ouvidas<br />

do Céu, os generais vêem o Arquiduque<br />

hesitar. Alguém um tanto incrédulo<br />

diz: “Alteza, não permita essa<br />

luta. Será o fim dos exércitos e o<br />

fim da Arquifamília” (chamavam desse<br />

modo pitoresco a família dos Arquiduques).<br />

— Não — repete Frei Lourenço.<br />

— A glória da Arquifamília está na<br />

batalha. Seus caminhos passam pe-<br />

24


los caminhos de Deus. Para a frente!<br />

Ordena o ataque.<br />

Naquele tempo ainda havia Fé.<br />

Os homens criam. O Arquiduque decide<br />

dar a batalha, porque Frei Lourenço<br />

lhe prometeu vitória. Batalha<br />

imprudente no terreno humano, mas<br />

prudente no terreno sobrenatural, que<br />

ia ser abençoada por Deus.<br />

Os cristãos, embora inferiores em<br />

número, acometeram com tal ímpeto<br />

que galgaram de espada em punho as<br />

trincheiras, conseguindo uma vitória<br />

completa e a conquista de Alba Real.<br />

Os turcos recuaram. Esse sucesso, que<br />

custou apenas 30 homens aos cristãos,<br />

julgaram todos que foi devido às orações<br />

de Lourenço, o qual, durante todo<br />

o combate, montado em um cavalo,<br />

animava os soldados a combaterem<br />

pela fé.<br />

Que cena magnífica! O capuchinho<br />

montado a cavalo, segurando as<br />

rédeas com uma mão e a cruz com<br />

outra. E o tempo inteiro percorrendo<br />

as fileiras e estimulando à luta,<br />

prometendo o Céu para quem morresse.<br />

E aqueles homenzarrões, com<br />

parte do armamento ainda de metal,<br />

tendo de enfrentar tiros de canhão<br />

ainda incipiente, projéteis com pedras,<br />

e a carga contrária dos maometanos,<br />

o ouvem tão inflamados que<br />

vão com ímpeto, fazendo os maometanos<br />

flectirem e fugirem. Podemos<br />

imaginar como foi o declínio da tarde<br />

sobre Alba Real conquistada pelos<br />

católicos. A alegria das tropas<br />

católicas diante do milagre evidente.<br />

O Arquiduque talvez na casa do governador<br />

maometano de Alba Real;<br />

todos descansando nos vários lugares<br />

da batalha. Repicam os sinos. Frei<br />

Lourenço está chamando para a prece.<br />

A igreja está cheia. Entram, ele<br />

está junto ao altar e canta um magnífico<br />

Te Deum.<br />

Isso é viver!<br />

❖<br />

A laguna de Veneza<br />

25


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

Corpo Místico de Cristo e<br />

comunhão dos santos<br />

A<br />

História é profundamente marcada por dois acontecimentos supremos: o pecado<br />

original e a Redenção. Esta última abriu para os homens um tesouro de graças cujo<br />

aproveitamento influencia o desenrolar dos acontecimentos na Terra. Eis a<br />

matéria desenvolvida por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, continuando seus comentários à Carta Apostólica Annum<br />

Ingressi, de Leão XIII.<br />

Q uando,<br />

do alto da cruz, Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo proferiu o “consummatum est” (Jo 19,30)<br />

e entregou sua alma, foi resgatado o gênero humano.<br />

O homem, colocado pelo pecado na postura sem<br />

remédio de um devedor absolutamente insolvente, se reabilitou.<br />

Franqueado estava para ele o caminho da virtude,<br />

aberta a porta do Céu. Esse imenso triunfo foi uma vitória<br />

pessoal de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />

Estava, pois, anulada a vitória obtida pelo demônio no<br />

Paraíso terrestre.<br />

Miríades de lutas individuais<br />

Restava a cada homem fazer uso da graça de Deus,<br />

trilhar o caminho franqueado, transpor os umbrais da porta<br />

aberta; uma série de lutas pessoais, pelas quais cada<br />

qual se salva a si mesmo.<br />

Na verdade, essas lutas se iniciaram antes de Cristo.<br />

Na previsão dos méritos do Redentor, a graça foi dispensada<br />

aos homens desde o primeiro momento depois da<br />

queda. Graça sempre suficiente, pouco abundante para<br />

os povos gentios, mais profusa para o povo eleito, que<br />

vivia à sombra da Sinagoga, prefigura da Igreja. Aqueles<br />

que venceram essa luta pessoal aguardaram no Limbo a<br />

salvação, entrando no Céu quando se efetuou a Redenção.<br />

Mas essa graça se tornou incomparavelmente mais torrencial,<br />

especialmente para os fiéis, depois da Redenção.<br />

As miríades de lutas individuais que tornam aproveitável<br />

para cada qual a vitória alcançada por Nosso Senhor<br />

Jesus Cristo, se efetuam com o recurso a três armas: a oração,<br />

pela qual o homem pede a graça de Deus; a resistência<br />

às tentações, pela qual corresponde à graça e cumpre<br />

a Lei; e a penitência, pela qual expia seus pecados.<br />

A Redenção, a graça e o Corpo Místico<br />

de Cristo<br />

Como Nosso Senhor Jesus Cristo, com os sofrimentos<br />

crudelíssimos e infinitamente meritórios de sua Paixão e<br />

morte, pagou pelos homens o preço do resgate, Deus abriulhes<br />

a porta do Céu, e franqueou-lhes os meios de lá chegar.<br />

A graça é, pois, um dom comprado à Justiça Divina<br />

por nosso Redentor. Em rigor, todos os méritos de Jesus<br />

Cristo só a Ele pertencem, pois são fruto das dores que<br />

sofreu. Contudo, numa efusão de sua misericórdia, quis Ele<br />

oferecer esse tesouro infinito por nós.<br />

Tornamo-nos, assim, coproprietários desse capital inestimável<br />

que são os méritos de Cristo.<br />

Formou-se, desse modo, uma sociedade, composta por<br />

Jesus Cristo e por todos os homens que Ele salvou. Sociedade<br />

mística, pois seu capital é sobrenatural, e sobrenatural<br />

é o plano em que ela vive e produz seus efeitos.<br />

Tal sociedade existe à maneira de um corpo, em que<br />

Jesus Cristo seria a cabeça. Com efeito, na medida em<br />

que cada membro da sociedade está unido a Jesus Cristo,<br />

d’Ele recebe a vida da graça, que é fruto de seus méritos.<br />

Se recusar a graça, rompe sua participação na sociedade<br />

e perde a vida sobrenatural.<br />

26


Nosso Senhor ofereceu por nós<br />

os méritos infinitos de sua<br />

Paixão e morte, tornando-nos<br />

membros do Corpo Místico de<br />

Cristo, do qual Ele é a cabeça<br />

27


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

Numa bela metáfora, São Paulo chama essa sociedade<br />

Corpo, e a Jesus Cristo chama de cabeça desse corpo. A<br />

Igreja tornou corrente a expressão “Corpus Christi Mysticum”.<br />

Comunhão dos santos<br />

Se bem que os méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo<br />

sejam infinitos e, pois, suficientes para expiar inteiramente<br />

pelo gênero humano, quis Ele que uma parte do preço<br />

do resgate ficasse por pagar. E pagar pelos próprios homens.<br />

Em outros termos, estamos todos reunidos. Mas a maior<br />

parte das graças que recebemos está na proporção de nossos<br />

méritos. A méritos abundantes correspondem graças<br />

copiosas, a méritos menores, uma menor afluência.<br />

Note-se, entretanto, que esse princípio não tem uma<br />

aplicação meramente individual, de maneira a entenderse<br />

que a maior ou menor abundância de méritos de uma<br />

pessoa acarreta só para ela um acréscimo ou diminuição<br />

de graças.<br />

De um lado, porque a humanidade constitui um só todo<br />

aos olhos da Justiça Divina. De outro, porque nossos<br />

méritos não são senão a frutificação da graça em nós. Ora,<br />

a graça é, por sua vez, fruto dos méritos de Nosso Senhor<br />

Jesus Cristo que a todos pertencem. Por isso, todo mérito<br />

que adquirimos representa não só um enriquecimento<br />

para nós, mas para a Igreja inteira. A contrario sensu, toda<br />

graça que míngua ou se extingue num homem empobrece<br />

toda a Igreja.<br />

No fato de os méritos e deméritos de alguém projetarem<br />

efeitos sobre outros homens consiste o dogma da comunhão<br />

dos santos. O termo “santos” emprega-se aqui<br />

num sentido especial, referindo-se aos fiéis, e não aos santos<br />

canonizados.<br />

O tesouro da Igreja<br />

Os méritos infinitamente preciosos de Jesus Cristo, e<br />

nossos méritos, constituem pela comunhão dos santos o<br />

capital da sociedade sobrenatural que é o Corpo Místico.<br />

Esse capital é designado pelo nome de “tesouro da Igreja”.<br />

Acrescer esse capital por ações meritórias constitui<br />

um meio de acrescer a efusão da graça em todo o mundo<br />

— enriquecendo esse tesouro —, razão pela qual, na luta<br />

da Igreja contra seus adversários, é de primordial importância<br />

praticar de todos os modos tais ações.<br />

Cada vez que alguém resiste a uma tentação, toma<br />

uma resolução virtuosa, faz uma oração, pratica um ato<br />

de penitência ou uma obra de misericórdia espiritual ou<br />

temporal, acresce o tesouro da Igreja.<br />

Explicam-se por esta forma as Ordens contemplativas.<br />

Sem qualquer ação externa, elas vivem para acrescer<br />

com o contributo humano o tesouro da Igreja.<br />

Aspecto sobrenatural e aspecto<br />

jurídico da Igreja<br />

Posto isso, vemos que há na Igreja Católica, considerada<br />

enquanto sociedade de fiéis, dois aspectos indissociáveis.<br />

Um sobrenatural e invisível — a sociedade<br />

das almas na comunhão dos santos<br />

e no Corpo Místico. E outro visível e<br />

jurídico. Neste último, a Igreja é uma<br />

imensa monarquia com aspectos aristocráticos<br />

e democráticos.<br />

Enquanto governada em todo o universo<br />

pelo Pontífice Romano, que tem jurisdição<br />

direta e plena sobre todos os Bispos<br />

e sobre cada fiel, é uma monarquia. Enquanto<br />

desse governo participam os Bispos<br />

sob a autoridade do Sumo Pontífice,<br />

mas com jurisdição própria e não delegada<br />

por este, a Igreja é aristocrática.<br />

A situação da Diocese na Igreja Universal<br />

assemelha-se por muitos lados à do<br />

feudo na monarquia medieval. E as relações<br />

do Bispo com o Sumo Pontífice oferecem<br />

mais de um ponto de analogia com<br />

as que existiam entre o senhor feudal e<br />

seu suserano.<br />

O traço democrático existe na Igreja<br />

na escolha dos Pontífices, Bispos e Sacerdotes,<br />

que não obedece, como no Antigo<br />

Testamento, a restrições de caráter familiar.<br />

Entre os hebreus, determinou Deus<br />

que os sacerdotes só pertencessem à tribo<br />

de Levi. Contudo, na Igreja o sacerdócio<br />

em todos os graus, inclusive o Papado,<br />

pode ser exercido por plebeus.<br />

Reflexo na ação da Igreja<br />

Em ambos os aspectos, sobrenatural e<br />

jurídico, a Igreja pode ser vista como um<br />

organismo de luta.<br />

Por seus órgãos visíveis — o Romano<br />

Pontífice, seus Cardeais, as Congregações<br />

Romanas e outros órgãos que constituem<br />

a Santa Sé, os Patriarcas, Arquimandritas,<br />

Arcebispos, Bispos e Clero secular, Clero<br />

regular, religiosos não-sacerdotes e religiosas<br />

distribuídos em Ordens e Congre-<br />

28


gações, as Ordens Terceiras, as associações de<br />

fiéis — é ela um imenso organismo que luta proclamando<br />

a verdade, dirigindo as almas para<br />

a virtude e distribuindo os sacramentos.<br />

A força desses guerreiros, a eficácia de<br />

suas armas está toda na graça a qual, pela<br />

comunhão dos santos, se distribui por toda<br />

a terra.<br />

Enquanto sociedade de fiéis, a Santa<br />

Igreja apresenta dois aspectos<br />

indissociáveis: um, sobrenatural e<br />

invisível, formado pela Comunhão dos<br />

Santos; outro, visível e jurídico,<br />

estabelecido na sua magnífica<br />

hierarquia eclesiástica<br />

(Ao lado, cartuxo do Mosteiro de Pleterje,<br />

Eslovênia; acima, o Papa reunido com Bispos,<br />

na Basílica de São Pedro)<br />

Acima dessa imensa sociedade, e assistindo com suas<br />

preces a nossa luta, estão a Igreja padecente, a Igreja gloriosa<br />

e toda a Corte celeste, tendo no ápice, junto ao trono<br />

de Deus, a Rainha do Céu e da Terra, Maria Santíssima<br />

que é o “General dos Exércitos de Deus” (São Luís<br />

Grignion de Montfort, “Tratado”, cap. 1, nº 28).<br />

Como já vimos antes, essa assistência celeste se realiza<br />

também com intervenções, visíveis ou não, nos acontecimentos<br />

da terra.<br />

Assim, a Cidade de Deus é e será até a consumação<br />

dos séculos “ut castrorum acies ordinata” — “como um<br />

exército em ordem de batalha”.<br />

Isto segundo uma visão estática. Pois, segundo uma<br />

visão dinâmica, a realidade se apresenta muito mais rica.<br />

Consideremo-la em um quadro histórico determinado: a<br />

29


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />

grande crise religiosa triunfalmente superada pela Igreja<br />

no século XIII.<br />

Atuação de homens providenciais<br />

A sensualidade, sob todos os seus aspectos (depravação<br />

de costumes, gosto imoderado de prazeres), penetra<br />

a fundo na Cristandade e ameaça dominá-la. A Providência<br />

suscita, então, dois varões, São Francisco de Assis<br />

e São Domingos de Gusmão, e faz o Papa ver em sonho a<br />

Basílica de Latrão em risco de ruir, e sustentada pelos<br />

dois fundadores (a Basílica de São João de Latrão, e não<br />

a de São Pedro, é a catedral de Roma e do mundo, simbolizando<br />

a Igreja universal).<br />

Cada qual age num meio diferente para a regeneração<br />

da Cristandade.<br />

São Francisco ensina o desapego dos bens da terra;<br />

São Domingos combate as heresias. Em torno deles formam-se<br />

falanges de homens e mulheres, dispostos à imitar-lhes<br />

os exemplos e auxiliar-lhes os esforços. Surgem<br />

sucessivamente as Ordens primeiras, dos frades; as segundas,<br />

das freiras; e as terceiras, dos leigos. À voz dos<br />

fundadores e de outros apóstolos, as multidões se comovem,<br />

as heresias fenecem, o vício decai, a Fé e todas as<br />

virtudes voltam a seu primitivo esplendor.<br />

No plano natural, o movimento franciscano se nos apresenta<br />

com os seguintes elementos: 1º) um homem de personalidade<br />

impressionante, que põe todos os seus recursos<br />

a serviço de um altíssimo ideal; 2º) devoções e virtudes<br />

que ele prega, as quais, se não são novas, ao menos<br />

são por ele apresentadas sob nova luz: a Paixão de Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo, a pobreza evangélica, etc., nascendo<br />

assim a espiritualidade franciscana; 3º) auxiliares que ele<br />

forma e organiza solidamente nas três Ordens; 4º) ele se<br />

dirige ao povo, e o conquista.<br />

Com pequenas adaptações, o esquema é o mesmo no<br />

plano sobrenatural: é Deus que suscita seus homens de<br />

eleição, que convida por sua graça outros homens a lhes<br />

servir de discípulos, que lhes dá vocação para a vida religiosa,<br />

que atrai para eles as multidões, que toca a alma das<br />

multidões quando eles falam, que enfim lhes dá o êxito.<br />

Claro está que nada disto se realizou sem a cooperação<br />

do livre arbítrio de cada homem. Mas, enfim, os planos<br />

natural e sobrenatural se tocam e, mais do que isso,<br />

se interpenetram, do mesmo modo como a vida embebe<br />

todos os elementos materiais que formam uma planta.<br />

Em termos filosóficos, no reino vegetal só pode haver<br />

vida se houver planta (não há vida vegetal em abstrato);<br />

de outro lado, a planta só existe na ordem da vida (uma<br />

planta desenhada num papel, por exemplo, não é verdadeiramente<br />

planta).<br />

Assim também, na ordem sobrenatural a graça só eleva<br />

as criaturas que são puro espírito (anjos) ou dotadas<br />

de alma espiritual (homens); por sua vez, as criaturas só<br />

podem ser elevadas à vida sobrenatural pela graça.<br />

E assim fatos tão pequenos na aparência — frades que<br />

pregam, conventos que se fundam, povo que reza — são<br />

ricos em profundo significado, e sua fecundidade resulta<br />

de uma ação na qual estão empenhados os mais altos desígnios<br />

de Deus, os tesouros mais ricos de sua sabedoria<br />

e de sua bondade.<br />

Dessas ações tão modestas na aparência resultaram<br />

também os acontecimentos mais profundos<br />

da História da humanidade. ❖<br />

Encontro de São<br />

Francisco<br />

(esquerda) e São<br />

Domingos de<br />

Gusmão, dois<br />

varões suscitados<br />

pela Providência<br />

para a regeneração<br />

da Cristandade


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

Campanário<br />

medieval da<br />

Colegiata de<br />

Sant’Orso, Itália<br />

CINTILAÇÕES DAS<br />

EXCELÊNCIAS DIVINAS


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

Apartir dos mais remotos<br />

flashes que tive desde minha<br />

infância, através dessas<br />

graças especiais que foram se explicitando<br />

e maturando ao longo da<br />

vida, a Providência me colocou diante<br />

desta idéia: Deus emitiu para o<br />

mundo um lumen [uma luz], que é<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo; mas este<br />

lumen que nos aparece em seu auge<br />

na pessoa divina d’Ele, e numa perfeição<br />

indizível na pessoa criada de<br />

Nossa Senhora, também pode ser percebido<br />

nos demais aspectos da criação,<br />

essencialmente considerados à luz da<br />

Civilização Cristã.<br />

Portanto, a atração que sempre<br />

senti — menino, jovem ou homem<br />

maduro — pelas mais diversas maravilhas<br />

da Cristandade, devia-se não só<br />

à beleza delas, mas, sobretudo, ao fato<br />

de que me remetiam para algo diáfano,<br />

superior, lindíssimo, que desde<br />

logo conquistava minha alma. Eram<br />

reflexos de uma perfeição absoluta<br />

que reluziam aos meus olhos e a tornavam<br />

mais próxima de mim.<br />

Lembro-me, por exemplo, dos<br />

primeiros flashes que tive a respeito<br />

da Idade Média quando, num corso<br />

de Carnaval, reparei numa moça<br />

portando um chapéu cônico característico<br />

daquela época, com um grande<br />

tule pendurado e que o vento fazia<br />

tremular de modo elegante e airoso.<br />

Quando ela passou perto do local<br />

em que me encontrava e meu olhar<br />

recaiu sobre o chapéu, abandonei o<br />

jogo das serpentinas e exclamei:<br />

“Ahhh! O que é aquilo?” E me disseram:<br />

“Um chapéu da Idade Média”.<br />

Eu pensei comigo: “Idade Média!<br />

Preciso reter esse nome. É da<br />

Idade Média. Aqui existe algo para<br />

mim!”<br />

A graça me tocara, fazendo-me<br />

sentir uma espécie de avidez de segurar<br />

aquele objeto tão bonito. E se<br />

eu pudesse, faria parar o automóvel<br />

dela e diria à moça:<br />

— Não se mexa! Eu quero ver como<br />

é o seu chapéu!<br />

Era como se uma nuvem de ouro<br />

passasse sobre mim a propósito de<br />

um fruto da cristandade medieval, e<br />

que representava um tréssaillement<br />

[sobressalto] das graças da Idade Média<br />

ainda presente nas almas. A idéia<br />

que ficou no meu espírito de menino<br />

foi: “Esta beleza religiosa é tudo, é a<br />

fórmula de tudo, é a solução de tudo!”<br />

Era um flash, eco e reminiscência<br />

do luminoso flash em função do qual,<br />

penso eu, vivia toda a Civilização Cristã<br />

nos seus mais esplendorosos dias.<br />

E assim como aquele chapéu cônico<br />

me transportou de entusiasmo,<br />

do mesmo modo, quando considero<br />

qualquer obra nascida da alma medieval<br />

— por exemplo, uma catedral,<br />

um vitral, uma fila de santos nos seus<br />

pedestais, uma torre ou um castelo<br />

— tenho a impressão de que por detrás<br />

dela como que se manifesta e se


Quando considero<br />

qualquer obra nascida da<br />

alma medieval — um<br />

chapéu cônico, uma<br />

catedral, um castelo —<br />

parece-me que por detrás<br />

dela se manifesta um<br />

Espírito altíssimo, sublime,<br />

diante do qual não sou<br />

senão uma poeirazinha<br />

perdida...<br />

À esquerda, muralhas de Carcassone (França); no alto, Notre-<br />

Dame de Paris; à direita, Castelo de Butron (Espanha)


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />

faz sentir um Espírito altíssimo, diante<br />

do qual eu não sou senão uma poeirazinha<br />

perdida, de tal maneira Ele é<br />

alto e sublime.<br />

Um Espírito que nos envolve com<br />

sua inextinguível bondade, desejoso<br />

de comunicar à criação todas as suas<br />

sublimidades e riquezas, de forma<br />

que, para com a menor criaturazinha<br />

existente, Ele tem um amor pelo qual<br />

a atrai, vivifica e inunda, como se só<br />

existisse para ela. Ele a penetra com<br />

uma ternura absoluta, quase lírica, perto<br />

da qual a ternura materna não é<br />

senão pálida imagem.<br />

Um Espírito que pensa profundamente<br />

sobre si próprio e sobre o que<br />

faz, tendo a respeito de tudo idéias<br />

prodigiosas, que eu não alcanço a não<br />

ser de longe e pelas fímbrias. Mas, a<br />

fímbria que eu alcanço me deixa maravilhado<br />

com o que há naquele interior<br />

imenso. Ele é um mar meio<br />

fechado para mim, do qual degusto<br />

algo que me encanta e arrebata, de<br />

modo pleno, cheio.<br />

Um Espírito ao mesmo tempo infinitamente<br />

justo e eqüitativo, e que<br />

na sua eqüidade e justiça é rígido, intransigente<br />

e terrível, contrário a tudo<br />

quanto seja negação, caos, pecado,<br />

desordem, sujeira, erro, que n’Ele<br />

não podem encontrar senão a recusa<br />

inflexível como uma espada. Ele é a<br />

fonte de todas as bênçãos e de todas<br />

as misericórdias, assim como o é de<br />

todas as necessárias punições.<br />

E essa diferença de aspectos, entretanto<br />

harmoniosos e complementares,<br />

também nos devem encher de<br />

enlevo e adoração. São perfeições divinas,<br />

cujos reflexos aparecem nas<br />

magnificências engendradas pela Igreja<br />

Católica, e que os flashes fazem reluzir<br />

aos nossos olhos, dando-nos como<br />

que visões de Deus. Num vitral<br />

de um azul fabuloso, por exemplo,<br />

com todas as tonalidades de delicadeza<br />

que no azul cabem, veremos a<br />

suavidade deste Ser. Num vitral vermelho<br />

no qual a luz do sol acende incandescências,<br />

discerniremos a fornalha<br />

de caridade com que Ele inflama<br />

seu próprio Coração Divino.<br />

E assim, a propósito das extraordinárias<br />

policromias dos vitrais, dos<br />

sons graves ou festivos dos bronzes<br />

tangidos nos altos dos campanários,<br />

da imponência religiosa das torres que<br />

se erguem aos céus, da força vigilante<br />

e destemida das muralhas e ameias,<br />

da riqueza dos altares recamados de<br />

ouro e de prata, da singeleza austera<br />

e contemplativa dos claustros — a<br />

propósito de todas as maravilhas da<br />

Civilização Cristã, enfim, nossas almas<br />

podem conhecer algo das rutilantes<br />

excelências de Deus.<br />

E o que me encanta de modo todo<br />

particular é saber que esse Ser, o próprio<br />

Deus, está realmente presente<br />

em todos os tabernáculos da Terra, na<br />

hóstia consagrada, numa pequena rodela<br />

de trigo com água transubstanciada<br />

no corpo, sangue, alma e divindade<br />

de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aí,<br />

então, sinto-me completamente satisfeito.<br />

Não há mais nada a dizer... ❖<br />

34


A propósito de todas as maravilhas<br />

da Civilização Cristã, como as<br />

extraordinárias policromias<br />

dos vitrais, nossas almas podem<br />

conhecer algo das rutilantes<br />

excelências de Deus<br />

(Vitrais da Catedral de León, Espanha)<br />

35


Vaso<br />

de<br />

Eleição<br />

Destinada desde toda a eternidade<br />

para gerar o Filho do Altíssimo,<br />

Nossa Senhora é o Vaso de Eleição cuja<br />

alma foi adornada de uma coerência<br />

extraordinária, uma unidade admirável,<br />

sem hesitações nem dilacerações, repleta<br />

de fé sobrenatural, de certeza e convicção<br />

na existência de Deus, de firmeza nos<br />

mais altos como nos menores princípios.<br />

Alma soberanamente límpida e lúcida,<br />

soberanamente elevada e grande,<br />

soberanamente séria e profunda, na qual<br />

se comprouve de modo perfeito o Senhor<br />

do Céu e da Terra.

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