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Práticas de Educacao-Fisica-na-Educacao-Infantil

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Práticas de Educação Física

na Educação Infantil


Palavra do

Secretário

Prof. Edison d’Ávila

Secretário Municipal de Educação


A escola de Educação Infantil é entendida pela

Secretaria Municipal de Educação como um lugar

de descobertas e de ampliação das experiências

individuais, culturais, sociais e educativas,

através da inserção da criança em ambientes

distintos dos da família. Um espaço e um tempo

que necessitam contribuir para o desenvolvimento

da criança, seu mundo de vida e sua subjetividade.

É um contexto social e cultural que envolve,

através das inúmeras experiências, a oportunidade

de promover vivências num espaço de formação

integral.

Acreditando nesta concepção é que criamos

uma política que integrou profissionais da área da

Educação Física nas escolas de Educação Infantil

da Rede. Compreendemos que a Educação Física

tem um papel fundamental na Educação Infantil,

pela possibilidade de proporcionar às crianças

uma diversidade de experiências, através de situações

nas quais elas possam criar, inventar, descobrir

movimentos novos, reelaborar conceitos e

ideias sobre o movimento e suas ações.

Além disso, é um espaço para que, através de

situações de experiências – com o corpo, com

materiais e de interação social – as crianças

descubram os próprios limites, enfrentem desafios,

conheçam e valorizem o próprio corpo,

relacionem-se com outras pessoas, percebam a

origem do movimento, expressem sentimentos,

utilizando a linguagem corporal, localizem-se no

espaço, entre outras situações voltadas ao desenvolvimento

de suas capacidades intelectuais

e afetivas, numa atuação consciente e crítica.

As práticas publicadas nesta edição, demonstram

a seriedade e o compromisso destes profissionais

com a concepção de ensino proposta

pela Secretaria. Observamos nos relatos descritos,

como esta área do conhecimento contribui

para a efetivação de um programa de Educação

Infantil, comprometido com os processos de desenvolvimento

da criança e com a formação de

sujeitos emancipados.


Sumário

Prefácio ................................................................................................................................... 6

Educação Física e suas contribuições para Educação Infantil ................................. 8

O encontro da Educação Física com os pequenos .................................................. 10

Luz na passarela que la vem eles!

Camila de Oliveira ............................................................................................................... 12

Relaxamento na educação infantil

Ricardo da Costa Pereira ................................................................................................... 16

Gincana do Movimento

Leandro Aguiar ................................................................................................................... 20

Baldes dançantes

Eliton Clayton Rufino Seára............................................................................................ 26

Corpo, campo e movimento

Solange Maria Nunes........................................................................................................ 32

Movimentos de interações e brincadeiras com bebês

Solange Maria Nunes ....................................................................................................... 40

O eu, o outro e o nós:

jogos cooperativos como possibilidade pedagógica na Educação Infantil

Heitor Luiz Furtado ............................................................................................................ 44


Projeto Shantala Toque de amor

Camila da Silva Gomes das Neves .............................................................................. 50

Me encaixa nessa caixa

Lourdes Helena Bravo Gautério .................................................................................... 54

Meu corpinho vou cuidar chuá, chuá, o banho vai começar

Marcia Eliane Lorenzoni .................................................................................................. 60

Interagindo com a Diversidade

Rodrigo Zapparoli ............................................................................................................. 66

O corpo fala

Morgana Lorenceti Brasil ................................................................................................ 72

Aprendendo as diferenças por meio do esporte

Fayola Daiane Bueno da Silva ....................................................................................... 78

Brincando de Lanchonete!

Jorge Luís da Silva ........................................................................................................... 84

Quem quer pedalar põe o dedo aqui!

Telmo Vieira de Souza ..................................................................................................... 88

A magia das cores sobre o corpo

Leticia Granado .................................................................................................................. 94


6

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Prefácio

Marynelma Camargo Garanhani

Universidade Federal do Paraná


Seja qual for o sonho comece... ousadia tem

genealidade e poder!

Empresto estes dizeres de Goethe para iniciar

o prefácio desta revista a qual mostra o protagonismo

de uma rede municipal de ensino que

ousou oferecer para suas crianças pequenas um

novo projeto de educação. Uma educação em

que o corpo em movimento ganhou destaque

nas orientações pedagógicas e práticas docentes,

como uma linguagem da infância.

Neste cenário, a genealidade de professores fez

com que as crianças pudessem vivenciar, nos

Centros de Educação Infantil de Itajaí, experiências

de movimento fascinantes, divertidas e criativas.

Enfim, experiências brincantes, nas quais o

corpo pula e se movimenta com alegria, o corpo

dança e constrói coreografias, o corpo se desafia

e explora o mundo, o corpo se expressa e no

seu movimentar se comunica.

Para isto, foi necessário a ousadia da gestão municipal

inserir, neste contexto de educação institucional,

professores licenciados em Educação

Física, os quais são especialistas em educação

do corpo em movimento. E, por meio de práticas

corporais infantis, integradas aos saberes da

Educação Infantil e de seus professores, realizam

um trabalho educativo do movimento como

uma linguagem da criança.

A leitura dos primeiros textos da revista possibilita

a compreensão do processo da inserção de

professores da Educação Física na Educação

Infantil de Itajaí. E, a ousadia de integrar saberes

de diferentes profissionais responsáveis pela

educação da criança pequena, mostrou a construção

de parcerias, não hierarquizadas, entre

diferentes profissionais da educação que atuam

na Educação Infantil. Mostrou, também, a genealidade

de poder pensar não mais em professores

generalistas ou especialistas, mas em professores

de Educação Infantil (Ayoub, 2001)

Os relatos das experiências de movimento que

a revista nos oferece à leitura, nos mostram o

quanto este projeto de educação deu certo!!! E

parabenizo a gestão municipal responsável por

este feito!!!

Para finalizar empresto novamente os dizeres de

Goethe para considerar que ousadia é uma palavra

mágica, ouse e o poder lhe será dado... ou

seja, a Secretaria da Educação de Itajaí ousou e

nesta revista apresenta resultados de muito trabalho.

Não poderia deixar de agradecer a oportunidade

de participar da formação continuada

dos professores de Educação Física que passaram

a integrar a Educação Infantil do município

e convido os leitores a conhecer relatos de experiências

desses professores com as crianças.

Vamos à leitura!!!


8

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Educação

Física e suas

contribuições

para Educação

Infantil

Prof.ª Dr.ª Sandra Cristina

Vanzuita da Silva

Coordenadora Técnica

Prof.ª Cristiane de Cássia Heusi

Álvares Silva

Ao ingressar na escola, a criança sofre considerável

impacto físico-emocional, pois até então sua vida

era exclusivamente dedicada aos brinquedos e ao

ambiente familiar. Nesta fase, a Educação Física

detém séria responsabilidade e deve proporcionar à

criança oportunidades de desenvolver a confiança

em si mesma, a compreensão do ambiente e a capacidade

de comunicação.

Cada criança possui inúmeras maneiras de pensar,

jogar, brincar, falar, escutar e se movimentar. Por

meio destas diferentes linguagens é que se comunicam

no seu cotidiano, no convívio familiar e social,

construindo sua cultura e identidade infantil. Através

do movimento, utiliza seu corpo como forma de

interagir com outras crianças e com o meio, produzindo

culturas. Estas culturas estão embasadas em

valores como a ludicidade, a criatividade e também

nas experiências vividas por meio da expressão corporal

(SAYÃO, 1997).

É preciso ter o entendimento de que a linguagem

corporal deve ultrapassar o dualismo cartesiano entre

o corpo e mente. O ser humano é uno, portanto

a expressão corporal também é sentimento e pensamento.

Devemos pensar o ser humano, de forma

integrada, cada qual desenvolvendo o ensino com

ênfase na formação adquirida, contudo sem dicotomizá-lo.

Faz-se necessário, levar em conta também

a importância do movimento, inclusive para o

desenvolvimento do pensamento e a manutenção

da atenção. Assim propõe-se que sejam propiciadas

situações especialmente planejadas para trabalhar

as várias dimensões do movimento com as crianças.

Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação

Nacional - LDB 9.394/1996 art.26 inciso 3, “a educação

física, integrada à proposta pedagógica da escola,

é componente curricular obrigatório da educação

básica.” Sendo assim, o papel da Educação Física no

processo educativo, é auxiliar no desenvolvimento

da personalidade do indivíduo como um ser social,

contribuir para a saúde e fazê-lo reconhecer as suas

potencialidades físicas (BRASIL, 1997).

Além do que define a Lei de Diretrizes e Bases, é preciso

também considerar o que sinalizam as Diretrizes

Curriculares Nacionais Gerais para a Educação

Básica que definem em seu Cap. I Seção I que, “A

Educação Infantil tem por objetivo o desenvolvimento

integral da criança em seus aspectos físico,

afetivo, psicológico, intelectual, social, complementando

a ação da família e da comunidade.” (BRASIL,

2010).

Considerando as prerrogativas legais e as disposições

teóricas que embasam a área, o município de

Itajaí incorpora ao quadro de profissionais dos Centros

de Educação Infantil, o professor (a) de Educação

Física. A proposta tem como objetivo principal o

atendimento das crianças de 0 a 5 anos, entendendo

a infância como um tempo de necessidades específicas,

onde as formas de ver e explicar o mundo

são traduzidas em movimentos, nas diferentes formas

de expressão e na comunicação das crianças.

A contratação dos Profissionais:

o início de uma história

A integração do Professor de Educação Física na

Educação Infantil é uma política pública da Secretaria

Municipal de Educação que atende alunos de 0 a

6 anos. Através do concurso público 004/2011, a administração

pública efetivou no ano de implantação

do trabalho, 38 (trinta e oito) professores, além da

efetivação ocorreu ainda a contratação em caráter

temporário de 26 (vinte e seis) profissionais.

Concluído os processos de contratação e efetivação,

os profissionais apresentaram-se nas unidades para

reconhecimento dos espaços, materiais disponíveis


e rotinas das crianças. Neste momento, a Coordenadoria

Técnica elaborou um instrumento de coleta

para identificar o perfil do Professor de Educação

Física que atuará na Educação Infantil.

Alguns indicadores foram priorizados: gênero, formação

acadêmica, atuação na área. Os dados apontaram

que a composição etária destes professores

é formada na sua maioria entre 25 e 35 anos. Onze

por cento são acima de 50 anos. Quanto ao gênero

a composição do grupo é equilibrada. Em relação

à formação inicial, constatou-se que a maioria tem

sua formação inicial pela Universidade do Vale do

Itajaí (UNIVALI), porém aparecem outras instituições

como UNIFEBE e FURB. Noventa e sete por cento

possuem formação inicial, com curso superior completo,

ou seja, temos um número significativo de

profissionais habilitados. Destes setenta e oito por

cento dos profissionais possuem especialização,

sessenta e sete por cento com uma pós-graduação

e vinte e sete com duas.

Ao serem questionados sobre as leituras a respeito

da infância, na formação especialmente na faixa

etária de 0 a 5 anos, setenta e um por cento afirmam

ter realizado leituras sobre a infância. Em relação

a experiência na área, sessenta e três por cento

já realizou trabalhos com crianças nesta faixa etária.

E trinta e cinco por cento não desenvolveu nenhuma

atividade com crianças de 0 a 5 anos.

Além do perfil os professores responderam sobre

suas expectativas em relação a este trabalho. As respostas

foram: realizar um ótimo trabalho, contribuir

para o desenvolvimento cognitivo e aprendizagem

das crianças, experimentar novas vivências. Apesar

das respostas mostrarem expectativas boas em relação

ao trabalho, grande parte dizia não possuir conhecimento

desta faixa etária e precisar de suporte

de materiais, bem como de formação continuada.

Os professores também foram indagados sobre suas

principais dúvidas em relação a este trabalho. Uma

pequena parcela respondeu como planejar, falta

de experiência, material e espaço físico e, a grande

maioria respondeu, conseguir planejar dentro da rotina

ou não respondeu. Neste item observa-se que

o planejamento ainda é um instrumento de rotina

e não é utilizado como guia para a organização do

trabalho pedagógico. Isto se confirma novamente

ao serem perguntado sobre a concepção de planejamento,

a grande maioria respondeu que serve

para Organização dos conteúdos em cada turma e

50%não responderam.

A partir do conhecimento do perfil traçamos um planejamento

da formação continuada que superasse

o modelo histórico reprodutivista e de atualização

de conteúdos exclusivamente teóricos, mas que tomasse

como eixo formador o desenvolvimento das

competências necessárias ao bom desenvolvimento

do trabalho.

Nessa perspectiva, valorizamos um modelo mais indagativo

e de desenvolvimento de projetos, de modo

a levar ao exercício do protagonismo de quem planeja,

executa e avalia sua própria formação. Ou seja,

superar a visão individualista de que basta fornecer

mais informações; recompor o equilíbrio entre os esquemas

práticos predominantes e os esquemas teóricos

inovadores; refletir sobre situações práticas e

gerar mudanças na cultura escolar tradicional, bem

como incentivar a mudança e a inovação.

Como resultado da formação continuada os professores

e professoras de Educação Física têm desenvolvido

práticas na Educação Infantil que proporcionam

espaços em que a criança aprende, brinca, se

desenvolve, se relaciona com outras crianças, dialoga,

desenvolve seus aspectos cognitivos, sociais,

afetivos. E isso é essencial, já que é a primeira experiência

educacional da criança fora do ambiente familiar,

longe dos pais, que são os meios de proteção.

Entendemos que todo o processo de implantação

da Educação Física na Educação Infantil é um momento

oportuno para os educadores físicos reivindicarem

seu espaço nesta etapa da Educação Básica,

para realização de práticas que instiguem discussões

e uma reflexão mais profunda sobre o papel

deste profissional e sua valiosa contribuição para o

desenvolvimento da criança.

A presença de um professor de Educação Física na

Educação Infantil é a comunicação, a compreensão,

a leitura, a interação e o envolvimento, a promoção

da evolução da criança por intermédio das manifestações

corporais, do movimento, do jogo e das atividades

lúdicas. Essas capacidades são exercitadas

pelos profissionais que, conscientes da importância

das primeiras comunicações não verbais entram em

comunicação corporal com as crianças e promovem

seu desenvolvimento integral. (ROCHA, s/d)


10

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

O encontro da

educação física

com os pequenos:

A inserção do Professor de

Educação Física

na Educação Infantil

Respeitar e ampliar o direito do livre movimento

do corpo infantil é o objetivo principal da inserção

do profissional da Educação Física na

Educação Infantil da Rede Municipal de Ensino

de Itajaí. A presença deste profissional na primeira

etapa da educação básica permite que,

as crianças pequenas e os adultos vivenciem

novas experiências, aprendizagens e ampliem

de forma significativa as linguagens e as diferentes

formas de expressão.

Desde que o trabalho iniciou nos Centros de

Educação Infantil, a linguagem do movimento

é resgatada e aperfeiçoada cotidianamente

pelo profissional de Educação Física em parceria

com os profissionais da Pedagogia. Para

que o trabalho se efetive e atinja seus objetivos,

a Diretoria de Educação Infantil procura

estabelecer um diálogo constante entre estes

profissionais, no sentido de alinhar as práticas

cotidianas às publicações curriculares que estruturam

o currículo.

O eixo do trabalho desenvolvido pelo do profissional

de Educação Física que atua na Educação

Infantil da rede pública municipal de ensino

de Itajaí é compreender a linguagem do

movimento como uma referência para práticas

que permitam a livre expressão, a multiplicidade

de experiências corporais e transmitam

a ideia da dimensão corporal, a partir das rotinas

intencionalmente planejadas pelos profissionais.

Para tanto, o currículo é estruturado a

partir das premissas das Diretrizes Curriculares

Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL,

2009), Diretrizes Curriculares Municipais para

Educação Infantil do Município de Itajaí (ITAJAÍ,

2015), além do acompanhamento de pesquisas

e publicações da área que enriquecem nossas

reflexões cotidianas.

Vários estudos da área da Pedagogia, Filosofia

e Sociologia têm também se debruçado a

(re) afirmar a importância do movimento para

a aprendizagem e o desenvolvimento da primeira

infância. E, a escola da primeira infância

deve ser o espaço intencionalmente planejado

e preparado para que a criança possa manifestar

seus movimentos de forma leve e natural,

vivendo cotidianamente experiências que favoreçam

o brincar e suas relações com seus pares

para a ampliação de seus significados.

É no brincar que a criança aprende e se apropria

do mundo ao seu redor. Por meio do brincar, a

criança manifesta e se apropria de linguagens.

Ela dá significados à sua realidade por meio da

imaginação e da fantasia. Desse modo, estabelece

relações e aprende sobre os papéis sociais

do mundo em que está inserida. Além disso,

desenvolve a capacidade de realizar ações conjuntas

com outras crianças, de expressar ideias

e opiniões, controlar e ajustar o próprio comportamento

com o das demais crianças. Partindo

dessas considerações, percebe-se que no


fazer pedagógico da Educação Infantil, devem

ser contempladas as diferentes linguagens que

a criança utiliza para a apropriação e construção

de conhecimentos, por meio da ação de

brincar. (GARANHANI; NADOLNY, 2015).

O brincar possibilita que as crianças com seus

pares e com o seu próprio corpo descubra seu

limite, valorize sua imagem, compreenda suas

possibilidades e perceba a origem de cada

movimento. Diante disto, é necessário que os

profissionais da primeira infância se comprometam

com esta educação integradora e que

seja efetivamente garantido no cotidiano dos

Centros de Educação Infantil, momentos de interação

e brincadeira.

Para acompanhar, assessorar, observar e orientar

o professor de Educação Física nas instituições

que atendem crianças pequenas, a

Diretoria de Educação Infantil procura articular

os saberes da formação inicial dos professores

de Educação Física com os saberes que

vem se constituindo nas práticas dos Centros

de Educação Infantil. Esta articulação vem se

constituindo por meio do programa de formação

continuada. Os professores participam de

encontros presenciais mensais, com o objetivo

de garantir uma aproximação contínua com os

profissionais e um acompanhamento sistemático

das práticas. Além de encontros presenciais,

há também um Ambiente Virtual de Aprendizagem

onde ocorre o armazenamento e troca

de informações dos profissionais, garantindo

total interação entre eles. As formações são

pautadas numa concepção de que a teoria e a

prática devem caminhar juntas num processo

de reflexão sobre a ação. Além do programa

de formação continuada, as Supervisoras de

Gestão da Diretoria de Educação Infantil, em

suas visitas de assessoramento às unidades de

ensino, acompanham as práticas pedagógicas,

o planejamento e registro, as reflexões da sua

prática e as sugestões de novas experiências.

Após três anos de implantação da Educação

Física nos Centros de Educação Infantil é possível

observar que a cada ano se constrói novas

formas de pensar a atuação deste profissional

na rede, sobretudo no sentido de qualificar o

atendimento das crianças pequenas e ampliar o

campo de atuação do Profissional de Educação

Física. As observações dos momentos de atividades

com as crianças e o Profissional de Educação

Física nos espaços de Educação Infantil

tem representado um momento de descontração,

alegria, mas principalmente de ampliação

de movimentos para a primeira infância.

Referências:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de

Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais

para a Educação Infantil. Brasília: 2009.

GARANHANI, Marynelma Camargo, NA-

DOLNY, Lorena de F. Movimento do corpo

Infantil: uma linguagem da criança. Universidade

Federal do Paraná/Curitiba, 2015. Disponível

em http://www.acervodigital.unesp.br/

handle/123456789/447?locale=pt_BR. Acesso

em: 20 de setembro de 2016.

ITAJAÍ, Secretaria Municipal de Educação. Diretrizes

Municipais para a Educação Infantil.

Itajaí, 2015.


12

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Luz na

passarela

que la

vem eles!

Camila de Oliveira

Ao iniciar o ano letivo, anseios relacionados

ao trabalho da Educação Física com a turma

do Berçário I estiveram presentes em meu

dia a dia, pela nova experiência ao se trabalhar

com bebês e, também, pela preocupação

constante em como atingir positivamente o

desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo

dos bebês.

Por meio de pesquisas e leituras, percebi

que, na Educação Infantil, é de grande valia

disponibilizar o maior número possível de experiências,

propiciando novos conhecimentos

aos envolvidos no processo de ensino e

aprendizagem. Durante essa importante fase,

a criança começa a relacionar-se com o meio

físico e social, e a Educação Física com sua

abrangência de conteúdos e possibilidades

metodológicas consegue propiciar esses momentos

de forma prazerosa e significativa.

De acordo com Gallahue e Ozmun (2005),

as crianças que frequentam a Educação Infantil

expandem seus horizontes com muita


facilidade, enfatizando suas próprias personalidades,

aprimorando e desenvolvendo habilidades,

além de testar seus limites e os do

que fazem parte de seu convívio.

Um dos principais objetivos da Educação

Física na Educação Infantil é enfatizar o

desenvolvimento das habilidades motoras

auxiliando as crianças a tornarem-se conscientes

do seu potencial de movimentos,

conseguindo realizá-los com confiança e

destreza pelos ambientes do Centro de

Educação Infantil. Dessa maneira, meu objetivo

principal foi estimular a aquisição e o

aperfeiçoamento das habilidades motoras

básicas (andar, engatinhar, rolar, manter-se

em pé, dentre outros) dos bebês da turma

do Berçário I do Centro de Educação Infantil

Nilton de Andrade, localizado no bairro

Itaipava. E os objetivos específicos foram os

seguintes: explorar os desafios oferecidos

pela atividade; deslocar-se com autonomia e

destreza pelos espaços; adquirir e aperfeiçoar

gradativamente movimentos de locomoção

(engatinhar, sentar, andar, subir, descer,

etc.); adquirir e aperfeiçoar movimentos corporais

(levantar a cabeça, girar o pescoço,

sustentar o tronco, manter-se em pé, etc.);

adquirir e aperfeiçoar gradativamente movimentos

de estabilização (deitar, rolar, rastejar,

apoiar, girar, etc.).

Passarela de apoio:

locomoção e estabilização

Percebendo que a turma do Berçário I apresentava

uma faixa etária entre quatro (4) meses a

um (1) ano de idade, resolvi criar algo que facilitasse

meu trabalho e auxiliasse de maneira

positiva no aperfeiçoamento e na aquisição de

habilidades motoras básicas necessárias aos

bebês. Como destaca Piaget (1971), as crianças

de zero até dois anos de idade encontram-se

no Estágio sensório-motor, quando se inicia o

desenvolvimento das coordenações motoras.

Nesse período, a criança tende a aprender a

diferenciar os objetos do próprio corpo ligando

seus pensamentos ao concreto.

Ao analisar o repertório já apresentado pelos

bebês, tanto das habilidades quanto das dificuldades,

criei um objeto intitulado “Passarela

de apoio” para que os bebês conseguissem

aperfeiçoar e adquirir com mais facilidade as

habilidades motoras básicas de locomoção e

14 Luz na passarelaque la vem eles!


estabilização. Essa “Passarela de apoio” foi confeccionada

com tábuas de madeiras, cabos de

vassoura (utilizado para que os bebês se apoiassem),

espuma para proteger as laterais, evitando

possíveis acidentes. Para finalizar essa confecção,

foi colocado um tapete parecido com

grama sintética para possibilitar a utilização

sem calçado e o contato com uma textura diferenciada.

Com os cabos de vassoura nas laterais, os bebês

podiam se segurar ficando em pé, como também

tentar alguns passinhos com e sem auxílio

das educadoras envolvidas naquele momento.

Meu trabalho com essa “Passarela de apoio” foi

realizado por alguns meses, buscando em cada

aula atingir meus objetivos específicos. Alguns

já se locomoviam até o objeto. Nosso incentivo,

então, era para que se agarrassem e se levantassem.

Para outros, o incentivo era direcionado

para a locomoção até o objetivo, e, assim, foi

possível observar a firmeza que os bebês apresentavam

- alguns ao se firmarem arriscavam

passos. Assim, nossa observação efetivava-se

em estímulos de superar dificuldades e auxiliar

nas habilidades apresentadas.

A locomoção é um aspecto fundamental no

aprendizado do movimentar-se, envolve a projeção

do corpo no espaço externo, alterando

sua localização, atividades como caminhar, correr,

pular e saltar obstáculos são movimentos

locomotores fundamentais. (GALLAHUE; OZ-

MUN, 2005, p. 252).

O primeiro contato com esse objeto foi enriquecedor

tanto para mim, como educadora, quanto

para os bebês envolvidos naquele momento.

Quando entrei na sala de aula, todos ficaram

atentos olhando para o objeto. Nesse dia, meu

objetivo era permitir a vivência perante o objeto

construído, ou seja, o foco era observar como

os bebês utilizariam a passarela. E assim cada

bebê utilizou da sua interpretação diante do

objeto novo, explorando-o com detalhes, uns

sentaram, deitaram, rolaram, brincaram com o

tapete, morderam o espaço macio, se seguraram

nos cabos de vassoura para ficarem em pé,

e outros nem se aproximaram do objeto.

Nas aulas posteriores que a “Passarela de

apoio” foi utilizada, meus objetivos específicos

começaram a ser colocados em ação. Procurei

realizar as atividades estimulando cada um individualmente,

podendo, assim, potencializar as

habilidades e também auxiliar nas dificuldades

de cada bebê, respeitando sempre os limites

individuais de cada um. Percebi que a aquisição

de novas habilidades motoras por parte dos

bebês aconteceu de maneira mais prazerosa e

significativa. Não relato aqui que começaram a

caminhar, ou a realizar outros movimentos de

locomoção e de estabilização devido ao objeto,

mas afirmo que este teve grande importância

nesse processo, pois auxiliou de maneira positiva

na aquisição e no aperfeiçoamento das

habilidades necessárias ao dia a dia dos bebês.

Foram algumas aulas para que todos os bebês

estabelecessem uma relação de segurança

com a “Passarela de apoio”. No entanto, com o

passar do tempo, conquistas foram sendo feitas

e todos eles a utilizaram sem medo, dando

cada dia uma função diferente ao objeto.

Além das expectativas

Meus objetivos com esse instrumento foram alcançados,

mas não me permito diagnosticar o

êxito totalmente ao meu objeto criado, pois a

criança desenvolve-se naturalmente, mas afirmo

que a estimulação auxilia com muito mais

propriedade o desenvolvimento dos bebês. Assim,

posso categorizar que meu objeto de trabalho

auxiliou e muito no desenvolvimento das

habilidades de autonomia nos desafios, no deslocamento

com destreza e no aperfeiçoamento

de movimentos de locomoção.

Com esse trabalho e objeto de apoio, obtive

satisfação ao ver o desenvolvimento das

crianças, pois se me propus a criar um objeto,

imaginei algo que me facilitasse o trabalho,

mas este foi além das minhas expectativas,

pois ofereceu estímulo aos pequenos. Para

nós educadoras, criar um objeto digno de outra

profissão (marceneiro) como instrumento

para desenvolver habilidades na educação é

como se escrevêssemos um livro de palavras

técnicas para teorizar as práticas pedagógicas.

Referências

GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C. Compreendendo

o desenvolvimento motor: bebês, crianças,

adolescentes e adultos. 3. ed. São Paulo: Phorte,

2005.

PIAGET, J. A epistemologia genética. Tradução

Nathanael C. Caixeira. Petrópolis: Vozes, 1971.

Camila de Oliveira

15


16

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Relaxamento na

educação infantil

Ricardo da Costa Pereira

Desde que nascem, as crianças vivenciam

experiências corporais e, progressivamente,

apropriam-se de movimentos para a integração

com o mundo. Por meio do movimento,

aprendem sobre si mesmas, relacionam-se

com o outro e com os objetos, desenvolvem

suas capacidades e aprendem habilidades. O

movimento, portanto, é um recurso utilizado

pela criança para o seu conhecimento e do

meio em que se insere, para expressar seu

pensamento e também experimentar relações

com pessoas e objetos. O movimento,

para a criança, significa muito mais do que

mexer partes do corpo ou deslocar-se no espaço,

o movimento é linguagem (CURITIBA,

2009).

Conforme o artigo 29 da Lei nº 9.394 - Lei

de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,

a finalidade da Educação Infantil é proporcionar

o desenvolvimento integral da criança

em todos os aspectos, físico, intelectual,

linguístico, afetivo e social, visando complementar

a educação recebida na família e em

toda a comunidade em que a criança vive

(BRASIL, 1996). Dessa forma, um dos compromissos

da Educação Infantil é oferecer

as crianças diferentes formas de manifestar


seu conhecimento, estimulando todas as

possibilidades de elas expressarem sua criatividade

- inclui-se, aqui, os movimentos.

Partindo do pressuposto de que a prática

pedagógica com o movimento deverá proporcionar

à criança o conhecimento de seu

corpo e das suas possibilidades de movimentação,

o domínio de formas de expressão e

comunicação e, como consequência, a apropriação

/ ampliação de saberes das práticas

de movimento da cultura infantil, justifica-se

a realização do presente projeto, por atender

três eixos recomendados por Garanhani:

• Autonomia e identidade corporal: referem-se

às aprendizagens que envolvem

o corpo em movimento para o desenvolvimento

físico-motor, proporcionando

assim o domínio e a consciência do

corpo, condições estas necessárias para

a autonomia e a formação da identidade

corporal infantil.

• Socialização: implica na compreensão

de movimentos do corpo como uma forma

de linguagem, utilizada na e pela interação

com meio social.

• Ampliação do conhecimento das práticas

corporais infantis: envolver aprendizagens

das práticas de movimentos que

constituem e ampliam a cultura infantil,

na qual a criança se encontra inserida.

(GARANHANI, 2002 apud CURITIBA,

2009, p. 11).

Quando as crianças pequenas trabalham em

pequenos grupos com atividades adequadas

ao seu nível de desenvolvimento e a seus interesses

(jogos, experimentações, brincadeiras),

passam a construir sequências de trabalho

em que se mostram capazes de inventar e desenvolver

iniciativas. Estudos também têm demonstrado

que, em ambientes de convivência

coletiva, as crianças desde muito cedo adquirem

a capacidade de relacionar-se com parceiros

diversos. Esses momentos podem ajudar as

crianças a compreender sentimentos e conflitos

e alcançar também sua satisfação emocional.

As interações criança/criança são ricas em

conteúdos e variam nos diferentes contextos,

em consequência de elementos como o tamanho

do grupo, os objetos disponíveis, o tipo de

atividade e podem auxiliar na construção da

ética e do respeito pelo outro (SILVA, 2013).

Entendemos que a Educação Física é uma

disciplina que tem grande relevância na Educação

Infantil, pois pode proporcionar às

crianças momentos de novas experiências,

contatos com outras pessoas que não sejam

as do seu ambiente familiar, descobertas, percepções

sobre seu próprio corpo a partir da

realização de uma diversidade de movimentos.

Dentro desse contexto, a Educação Física

atrelada à Educação Infantil contribui para

o desenvolvimento integral das crianças.

Diante dessa perspectiva, objetivamos com

este trabalho relatar a experiência vivida

com crianças de três a seis anos que frequentavam

o Centro de Educação Infantil

Padre Jacob, localizado no bairro São Vicente,

Itajaí. A atividade a ser apresentada

buscou conduzir uma reflexão sobre a valorização

e o planejamento de práticas pedagógicas

que contemplem o movimento como

uma linguagem da criança.

O objetivo geral deste projeto foi proporcionar

nas aulas de Educação Física técnicas

de relaxamento para crianças da Educação

Infantil, com o intuito de acalmá-las para

as atividades seguintes da rotina escolar,

oportunizar momentos de bem estar e descanso,

além de estimular sua percepção e

conscientização corporal e promover a sua

socialização.

Baseado em Nista-Picocolo e Moreira (2012),

a atividade proposta de relaxamento foi a

massagem com bolinhas. Foi necessário

os materiais de apoio: colchonetes, músicas

calmas e bolinhas (firmes e macias). A

aula de Educação Física teve como objetivo

despertar o sentir, perceber e identificar as

partes do corpo, compreender os efeitos da

massagem. O conteúdo atitudinal visou despertar

a empatia, cuidado com o colega, estímulo,

percepção e a conscientização corporal.

O espaço para sua realização ocorreu

tanto dentro da sala de aula, quanto na área

externa da escola.

Desenvolvimento da atividade

O desenvolvimento da atividade contou inicialmente

com a disposição das crianças

sentadas em roda para dialogar sobre o significado

da massagem. O professor conduziu

a plenária perguntando se já realizaram

18 Relaxamento na educação infantil


em alguém ou já receberam a massagem -

nesse caso, poderiam demonstrar a técnica

em alguém.

Após, com a música de fundo, foi solicitado

aos alunos que fechassem seus olhos e respirassem

tranquilamente, buscando silenciar

os pensamentos. Nessa etapa da aula,

pode-se dedicar mais tempo, para os alunos

conseguirem silenciar por mais tempo. Em

alguns momentos, ainda mais no primeiro

contato com essa experiência, muitos apresentaram

dificuldades em concentrar-se.

Na sequência, foi oferecido para duplas uma

bolinha e solicitado que cada integrante da

dupla massagiasse alguma parte do próprio

corpo e depois experimentasse massagear o

colega. A ideia é que as crianças conseguissem

identificar as partes do corpo que estão

sendo massageadas. Então, o professor foi

dinamizando a proposta para que passassem

pelas partes do corpo e conseguissem

memorizá-las. Caso algumas partes do corpo

não fossem identificadas, o professor sugeriu

que fossem massageadas, complementando

as informações nomeando-as. Assim sendo,

a sequência didática da aula contou com as

seguintes etapas: 1) Conceito de massagem;

2) Técnicas de respiração, 3) Massagem individual

e coletiva, 4) Conhecimento das diferentes

partes do corpo humano.

Benefícios da atividade na fase infantil

Dado o exposto, verificou-se a necessária articulação

entre Educação Física e Educação

Infantil, prevendo projetos pedagógicos que

fomentem o conhecimento corporal e técnicas

de relaxamento. Sua prática no cotidiano

escolar pode auxiliar a amenizar a hiperatividade,

o estresse, a insônia e ansiedade

dos educandos.

No nível bioquímico, ocorreu um aumento

da liberação de endorfinas – os hormônios

do bem-estar – e a criança sentiu-se feliz. A

circulação sanguínea também foi favorecida

e toxinas removidas – o que é ótimo para o

sistema nervoso em pleno desenvolvimento.

O padrão respiratório também melhorou,

pois a respiração deixou de ser mais curta

e as inspirações tornaram-se mais lentas e

profundas.

Foi por meio da coleta de depoimentos das

crianças que participaram do projeto e observação

de suas condutas dentro do espaço

escolar que verificamos os impactos que

o projeto trouxe para a vida diária delas. A

princípio, as crianças ficaram bem tímidas,

apresentaram dificuldades para se concentrar.

Ao longo do processo, essa barreira inicial

foi sendo transposta. As crianças passaram

a demonstrar maior interesse durante

as atividades e mostraram-se bem mais participativas.

No que diz respeito à execução

das atividades pelas crianças, algumas dificuldades

foram diagnosticadas, problemas

relacionados à movimentação, ao equilíbrio

e à socialização.

Em síntese, verificamos uma melhora significativa

na concentração de suas atividades

diárias, bem como maior conhecimento do

seu corpo e a socialização/fortalecimento

de vínculos com os colegas. O relaxamento

oportunizou momentos de descanso e bem

-estar para as crianças.

As práticas de atividades físicas, lúdicas e

recreativas representam não apenas uma

questão de benefício físico na fase infantil,

mas uma necessidade para o adequado desenvolvimento

cognitivo, psicológico e relacional

das crianças.

Referências

BRASIL. Lei Nº 9.394, de 20 de dezembro

de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da

educação nacional. Diário Oficial [da] República

Federativa do Brasil, Poder Legislativo,

Brasília, DF, 23 dez. 1996. Seção 1, n. 248, p.

27833-27841.

CURITIBA. Prefeitura Municipal. Secretaria

Municipal da Educação. Caderno pedagógico:

movimento. Curitiba: SME, 2009.

NISTA-PICOCOLO, V. L.; MOREIRA, W. W. Corpo

em movimento na Educação Infantil. São

Paulo: Telos, 2012. (Coleção educação física

escolar).

SILVA, S. C. V. da. Jogos e Brincadeiras na

infância: curso de pedagogia. Itajaí: Universidade

do Vale do Itajaí: Biguaçu UNIVALI

Virtual, 2013.

Ricardo da Costa Pereira

19


20

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Gincana do

Movimento

Leandro Aguiar

O movimento é uma importante dimensão

do desenvolvimento e da cultura humana. As

crianças movimentam-se desde que nascem

adquirindo cada vez maior controle sobre seu

próprio corpo e se apropriando cada vez mais

das possibilidades de interação com o mundo.

Pensando na continuidade das aulas de Educação

Física, o Centro de Educação Infantil

Professora Diva Vieira Abrantes, a partir de um

planejamento, criou a 1ª Gincana do Movimento

para os alunos, professores, agentes, pais e

funcionários para que eles pudessem socializar

todos os valores de uma forma sistematizada e

pedagógica. A ideia veio a partir de um pedido

da diretora. Pensou-se em todos os segmentos,

para uma execução adequada principalmente

para as crianças.

Foi planejado e buscado durante o evento promover

a integração, a união, a diversão, o entretenimento,

o companheirismo e o espírito esportivo

entre os participantes do evento. Integrando

toda a comunidade escolar de forma pedagógica,

despertando o espírito de competição sadia,

aprendendo a ser, a conviver e a fazer.

A 1ª Gincana do Movimento do Centro de Educação

Infantil Prof.a Diva Vieira Abrantes aconteceu

em cinco dias. A comunidade escolar envolvida

foi dividida em quatro equipes: vermelha,

verde, azul e amarela. Os grupos enfrentaram-


se respeitando suas faixas etárias em atividades

diferenciadas, com propósito de troca de

experiências e socialização de todos os participantes.

Dessa forma, criou-se um ambiente

de respeito e aprendizagem com foco na importância

dos valores no dia a dia do ambiente

escolar e na formação do indivíduo.

Durante o primeiro dia já se observou o envolvimento

e a interação entre todos, que foi muito

grande, desde a participação nas provas e atividades

como no cuidar das crianças, já que professores

estavam diariamente em contato com

os alunos das outras turmas, criando vínculos

e amizades muito fortes. Eles influenciaram diretamente

na confiança e na autonomia dos

pequenos. Os pais e os funcionários também

participaram diretamente e também entraram

no contexto, conhecendo o dia-dia vivido pelos

profissionais, os seus trabalhos, as suas metodologias

e os seus desafios, além das conquistas

das crianças que, durante cada momento,

apareciam de forma muito interessante.

A Gincana do Movimento teve um cronograma

diário pré-estabelecido para que todas as

pessoas envolvidas pudessem se direcionar

para as ações propostas para cada período e

dia, além das brincadeiras envolverem uma faixa

etária igual para a realização da atividade.

No cronograma, estava estabelecido o local de

realização; o horário; qual turmas iriam realizar

as brincadeiras; onde os alunos dos berçários

I e II, maternal I e II, Jardim I e II e Pré-escolar

brincavam entre si dentro da sua faixa etária;

as ações e as brincadeiras propostas, além dos

confrontos das equipes e suas respectivas cores.

Por exemplo, na equipe amarela havia 5

alunos do Pré, do Jardim, do Maternal, do Berçário

para que, no momento das atividades,

eles respeitassem suas individualidades e também

a integração em forma de grande grupo.

Cronograma das provas,

das brincadeiras e das tarefas

DIA 10-11-2014 | segunda-feira

Provas, brincadeiras e tarefas

Local Horário Alunos das Turmas

2 Pontos para os participantes

+ 1 ponto para o vencedor,

Confrontos

2 pontos para tarefa cumprida.

Pré e Pré / Jardim II

Cabo de Guerra

Verde X Amarelo

Azul X Vermelho

Gramado ou

Refeitório

8:45

Jardim e Jardim II

Maternal e Maternal III

Cabo de Guerra

Cabo de Guerra

Vermelho X Amarelo

Azul X Verde

Verde X Amarelo

Azul X Vermelho

Professores, funcionários e pais

Cabo de Guerra

Amarelo X Azul

Verde X Vermelho

Solarium ou

Refeitório

8:45

Berçario I, Berçario II e B III / M I

Torre de Latas

Todas as equipes

22 Gincana do Movimento


Durante a Gincana, as atividades foram sempre

em locais distintos para as crianças de 0

a 3 anos e 4 a 6 anos. No solarium, foi feita a

brincadeira de Guarda brinquedos a qual as

crianças conheciam muito bem, já que era

uma atividade feita no cotidiano. A participação

e o envolvimento era evidente. Algumas

disputas instauravam-se, mas o anseio

pela organização era aparente. Os bebês, já

nesse período, criam uma intenção de organização

muito importante.

Outra proposta foi o Empilhamento de latas.

As latas foram encapadas com várias cores.

Além da visualização do primeiro conceito

de cores, tinham as questões da lateralidade

e visão periférica para ser mais fácil identificar

onde e como estavam as latas durante

a brincadeira. Os bebês tiveram noção de

equilíbrio e coordenação motora fina com o

cuidado para empilhar as latas. Alguns iam

falando com os outros como deveriam colocar

as latas, tomando muito cuidado para

não deixá-las cair, e, ao final do empilhamento,

eles tinham também que retirar uma lata

de cada vez com cuidado para não derrubar

a sua pilha. Os professores e os agentes

sempre estavam juntos orientando e colaborando

para que as crianças desenvolvessem

a ação da forma mais prazerosa possível,

dando confiança a eles. No Pisa balão,

os pequenos puderam bagunçar muito indo

atrás dos balões. Alguns se assustaram, mas

depois já se apresentavam ambientados, falando

“heeeee” e batendo palmas.

No Circuito de forma mais integrada, trabalharam-se

as capacidades físicas usando

vários segmentos corporais. Em se tratando

do escorregador, após ganhar confiança

nas aulas de Educação Física, as crianças

queriam descer até de frente, sendo sempre

orientados a descer de forma segura. No

túnel havia um certo receio, mais logo iam

com o incentivo dos professores e agentes.

Eles se sentiram à vontade e passaram por

ele com velocidade e naturalidade, além de

pedir para ir outras vezes. O final do circuito

foi o trem. Os alunos receberam maior ajuda

para utilizarem mãos e pernas juntos e deixá

-los mais seguros.

No Andar sobre o banco, as crianças puderam

potencializar seu equilíbrio. Ao final,

com ajuda, elas ganhavam confiança para

pular do banco. No caminho de latas, elas

Leandro Aguiar

23


passavam bem devagar para não pisar fora

das latas, comemorando muito quando conseguiam.

Os professores colocaram como uma proposta

interessante encher o galão de água. Com

uma garrafa pet pequena, as crianças iam

até um balde e enchiam a garrafa. Foi muito

interessante ver o cuidado que as crianças

tinham para não derrubar água e a destreza

que colocavam a garrafa no funil para não

desperdiçar nada. Fizeram muitas vezes e

com ajuda de todas as crianças.

Para as crianças foram feitas brincadeiras

no gramado e área coberta. Na abertura da

gincana, elas brincaram com o famoso Cabo

de guerra. A força mostrou-se determinante,

mas a brincadeira é o que realmente fazia

a alegria da criançada. Contudo, não foram

só as crianças que brincavam, ali também

brincaram os pais, funcionários. Todos juntos

promoveram cooperação e companheirismo

durante e ao final da prova. Teve gente

que puxou forte o cabo e teve gente que

caiu dando muita risada de tudo. Brincaram

também da corrida do saco. Eles correram

da forma que conseguiam, mas todos colaboram

em equipe.

A Corrida dede lata foi muito divertida

com destaques para a prova dos adultos.

Eles tiveram muito equilíbrio em conjunto

com a velocidade. O Pega fita foi um grande

sucesso. As crianças além de brincarem individualmente

também criaram estratégias

em grupo. Também participaram da Corrida

da bolinha na colher. Não foi usado um ovo,

mas sim uma bolinha. Houve muito cuidado

e equilíbrio para não deixar a bolinha cair, as

crianças em sua maioria conseguiam levar

a bolinha a seu destino sem deixá-la cair. A

brincadeira de Derruba cones também fez

muito sucesso, todos tentavam derrubar os

cones da forma mais rápida possível. Tanto

as crianças quanto os adultos usavam estratégias

se dividindo em direções diferentes

para alcançar mais rápido todos os cones.

Na Prova dos bambolês, eles tiveram de

correr saltando dentro dos bambolês até o

outro lado e voltar para a fila onde estava o

próximo amigo.

Na Prova do futebol, eles bateram pênaltis em

traves pequenas. Ao final, eles faziam a contagem

para ver quantos cada equipe acertou.

A prova foi no gramado dando um contexto

maior de futebol. Alguns pais se destacaram

acertando, dando dicas e apoio aos que acertavam

e aos que não acertavam. Na brincadeira

da Caneta na garrafa, as crianças tinham que

ter paciência e uma grande noção de tempo e

espaço para colocar a caneta pendurada por

um cordão dentro do galão de cinco litros. Alguns

queriam botar a mão que não era permitido,

principalmente quando não conseguiam;

outros queriam direcionar a garrafa com as

mãos, o que também não era permitido. Ao final

todos conseguiram realizar a brincadeira.

Na brincadeira do Cadê o sapato?, eles tinham

de achar seu calçado dentro de uma pilha e

calçá-lo e amarrá-lo ao final. Alguns ajudavam

os outros mostrando muita solidariedade com

os amigos. A ação que terminou as brincadeiras

foi o Caça ao tesouro. Os grupos procuravam

as pistas pelo CEI para tentar encontrar

um prêmio ao final. A procura foi grande, mas

alguns desistiram porque não achavam algumas

pistas. A equipe verde acabou achando e

comemorando muito ao final.

Além das brincadeiras, os grupos também tinham

que realizar tarefas, trazer uma pessoa

com mais de 90 anos, fazer brinquedos recicláveis

e apresentar uma atividade durante

sessenta segundos (Se vira nos 60).

A GINCANA também teve uma proposta solidária

com a prova da cesta básica. Os grupos

tinham de trazer um quilo de alimento não

perecível para a formação de cestas básicas.

Foram feitas 6 cestas básicas e os alunos as

entregaram para famílias carentes da comunidade.

Os talentos da comunidade também

foram evidenciados, os quais apareceram na

tarefa da canção. Os pais tinham de cantar

uma música - um dos destaques foi a mãe

que contou um hino e a filha acompanhou

no violão.

Na sexta-feira, foi feita a culminância do projeto.

As crianças trouxeram muitas frutas e

foi feito, com ajuda de todos, um suculento

piquenique de frutas. Todos os envolvidos

puderam confraternizar, contar histórias, falar

das brincadeiras e experiências vividas,

momento em que os pais vivenciaram o cotidiano

da unidade escolar.

A entrega de medalhas foi de forma igual

para todos. Cada equipe recebeu a medalha

da sua cor em pódio, mostrando ao final que

24 Gincana do Movimento


todos foram vencedores em participação e

integração. De forma misturada, as turmas

desfilavam alegria em receber suas medalhas.

Eles foram para casa com uma lembrança

pendurada no pescoço, não de vitória ou

derrota, mas de uma competição sadia, com

muita orientação e foco nas brincadeiras.

Ao final, percebeu-se grande participação de

todos. Além de mais de duzentas e vinte seis

crianças, também participaram os quarenta

e dois funcionários, professoras, agentes em

educação, secretárias, supervisora, diretora,

cozinheiras, vigia e pessoal da área da limpeza.

Os pais e os familiares também participaram

significativamente - mais de cem familiares

envolveram-se no evento, brincando e

ajudando de várias formas.

A integração entre família e escola foi a principal

observação. As famílias, participaram,

brincaram, ajudaram a cuidar, deixando as

crianças muito felizes. Os pais, assim, envolveram-se

com o trabalho dos profissionais

no dia-dia da creche.

A organização com cronograma diário dos

locais das atividades e horários ajudou para

que o evento saísse de forma muito organizada,

já que aconteceram mais de sessenta atividades,

tarefas e brincadeiras que proporcionaram

as crianças um ambiente educacional

e familiar, mostrando o que fazem durante o

ano nas aulas de Educação Física, dando visibilidade

e ênfase na importância da disciplina

de forma organizada e com o profissional específico.

As crianças conseguiram, de forma

mais integrada, melhorar suas habilidades

motoras, cognitivas e sociais, oportunizando

a autonomia e a confiança com seu corpo,

conhecendo seus limites e possibilidades por

meio das oportunidades que a Gincana do

movimento pode proporcionar a todos que

estiveram envolvidos.

Leandro Aguiar

25


26

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Baldes

dançantes

A CRIATIVIDADE

COMO PROCESSO

DE ENSINO-

APRENDIZAGEM

NAS AULAS DE

EDUCAÇÃO FÍSICA

DA PRÉ-ESCOLA

1

Eliton Clayton

Rufino Seára

Trilhando o(s) caminho(s)...

É preciso, inicialmente, ao dialogar

com o leitor, observar algumas questões

que entoam pulsantemente na

Educação Física como componente

curricular no ensino escolar: a ênfase

na disciplina, nos modelos engessados,

na mecanização do movimento

e, progressivamente, no tradicionalismo

que nós, professores, ainda mantemos

quanto ao seu ensino.

Nesse contexto, ao pensarmos especificamente

na Educação Infantil,

precisamos (des)construir, ainda

mais, os modelos arraigados em uma

objetividade racional e na comparação

2 objetiva entre os educandos.


1 Professor de Educação Física da Rede Municipal de Educação. Licenciado em Educação

Física, Mestre em Educação e Doutorando em Ciências Humanas (UFSC).

2 Entendo por comparação objetiva uma relação de sempre buscar estar acima,

ganhando do outro e, para isso, usando um movimento, uma técnica em específico que

faz com que se busque o único objetivo de sobrepujar o outro.


Com isso, este relato expõe o desenvolvimento

de uma atividade que buscou essa

desconstrução por meio do ato criativo nas

aulas de Educação Física e, com ela, uma

possibilidade dos educandos agirem com

criticidade e autonomia.

Dessa forma, buscou-se atingir esses

preceitos por meio da atividade intitulada

Baldes Dançantes. Ela foi desenvolvida com

a turma do Pré-vespertino que é composta

por 25 educandos; assim, pelo menos 25 novas

maneiras de manusear ou brincar com o

balde poderiam e, como se esperava, foram

criadas.

Construindo (teoricamente) as ideias

Pensar no objetivo de aprendizagem é relevar

aquilo que o professor busca possibilitar

para que seus educandos alcancem novos

saberes. Por isso, este relato buscou desenvolver

habilidades cognitivo-motoras de forma

a buscar a coparticipação criativa dos

educandos na resolução de desafios com o

objeto balde.

Não é só um balde,

é um mundo de criações

para as aulas de EF. Lá, estavam dispostos,

perto da parede, 26 baldes de lenço umedecido

(do berçário, obviamente) um do lado

do outro. Fiz a primeira pergunta: Para que

serve o balde? Um dos educandos respondeu

que servia para colocar água dentro.

Outro disse que era para guardar uma coisa

para limpar o bumbum dos bebês (risos e risos

nessa hora). Então, diante daquele ocorrido,

indaguei de novo: Dá para fazer mais alguma

coisa com os baldes? Dá para inventar

outras formas de usá-lo? Prontamente a resposta

foi um FORTE simmmmmmmmmmm!!!

A partir disso, em virtude de questões

de segurança, estabeleci, juntamente a eles,

duas regras: que o balde não poderia ser

usado para machucar de nenhuma maneira

os colegas, e que não poderia ser arremessado

muito alto, haja vista a queda brusca

sobre algum colega.

Partindo desse pressuposto, fiz um

primeiro pedido: “Todos devem andar com o

balde nas mãos até a parede e voltar, Ok?”;

“Sim”. E aí, o que tem de criativo nisso? Ora,

nada! Mas a ideia era mostrar justamente

isso, que nós estamos acostumados a fazer o

O processo do desenvolvimento da aprendizagem

torna-se mais eficaz quando o educando

recebe alguns desafios em que ele

necessita refletir antes de dar uma resposta

(CUNHA, 1977). Nesse contexto, o educando

deve ser atuante como propõe o processo

do ato criativo, no qual serão lançados a

ele desafios para que ele busque soluções.

É nesse momento que o processo de aprendizado

acontece de forma criativa, lúdica e

autônoma. Para esse processo, segundo Seára

(2014, p. 1), chamaremos de “diálogo em

movimento”.

Diante disso, a atividade baldes dançantes

foi realizada da seguinte maneira: Inicialmente,

cheguei à sala de aula para começar

a aula de Educação Física (EF). Ao realizar

minha fala (dimensão conceitual), deixei os

educandos curiosos, pois disse que naquela

intervenção baldes dançariam. Posteriormente,

levei os alunos em um grande trem

até o ‘’famoso areião’’, local muito utilizado

28 Baldes Dançantes


que é padrão, o que já é o modelo que nos é

estabelecido. Então, na volta, pedi a eles que

levassem o balde de uma maneira diferente

da que tinha sido feita. Foi então que o processo

de aprendizagem criativo se iniciou.

Era possível ver os baldes sendo levados na

cabeça (um chapéu de pirata), na cabeça

(um chapéu de cozinheiro), na cabeça (um

ninho de passarinho). Também nas costas

(um camelo), nas costas (um cavalo levando

uma pessoa), nas costas (um avião). Ainda,

colocaram nos joelhos, nas nadegas (bunda

como disse um deles), no cotovelo (um braço

espacial), na testa, na barriga (imitando

um caranguejo), nos pés (saci Pererê e perna

de pirata), no meio das pernas (andar de pinguim),

entre a panturrilha (pulo de canguru

ou sapo), com as duas mãos enfiadas juntas

no balde, em cima do ombro e foi o que eu

pude ver no momento - Ufaaaaa!!!!

Andando com os baldes

Depois dessa primeira parte, fiz uma roda e

pedi que eles colocassem os baldes em frente

a suas pernas com a boca (do balde) virada

para si. Diante disso, pedi que eles ‘‘pegassem’’

os baldes, porém sem usar as mãos.

Todos, prontamente, tentaram pegar com

os pés e, ao notar as dificuldades, de imediato,

queriam usar as mãos para ajudar. Só

que, como já lembrado, não poderiam usar

as mãos e, então, falavam: “É muito difícil,

sorr”, “o profi, não dá pra se equilibrar”. Dessa

maneira, perguntei a eles como poderiam se

ajudar a equilibrarem-se e um deles já foi dizendo:

segura no amigo do lado, segura. Com

isso, eles se apoiavam nos amigos e conseguiam

com mais facilidade elevar os baldes

com os pés até que, em um dado momento,

eles viram que podiam tentar sozinhos e que

aquela dificuldade/desafio tornava a brincadeira

mais atrativa, pois não era algo que

estavam acostumados a fazer (desenvolvimento

cognitivo-motor/equilíbrio dinâmico,

tônus muscular, habilidade óculo-pedal).

Por fim, nos últimos 10 minutos de aula, deixei-os

fazer o que quisessem (com exceção

das regras estabelecidas) com os baldes. Um

grupo criou um castelo, outros batucaram o

balde como se fosse um tambor, outros continuavam

a brincar de equilibrar e alguns jogaram

o balde como se estivessem fazendo

malabarismo. Ao observar que eles estavam

respeitando certo limite de segurança, tudo

ocorreu com tranquilidade. Tudo isso, ocorreu

ao som de uma música na qual toquei

no violão:

Sou um baldinho dançante,

um baldinho dançante, sou baldinho

dançante. E esse baldinho dança

agora, agora, agora, agora!!!!!!!!

O que aprendemos hoje?

No processo avaliativo, que neste escrito vou

chamar de formativo, encontrei a relação de

coparticipação nas atividades propostas.

Esse processo deu-se diretamente no diálogo

com os educandos perante a atividade.

Assim, foi possível observar de um pedido

para (re)significar o uso do balde um grande

potencial criativo e, mais que isso, uma

troca por meio da observação já que, quando

os educandos olhavam outros colegas,

eles também queriam fazer parecido com

eles.

Eliton Clayton Rufino Seára

29


30 Baldes Dançantes


Ainda, em um processo dialógico, ao retornarmos

à sala de aula, conversamos

sobre a aula e ressaltamos os pontos

principais dela, tais como: que todos

têm muita inteligência e podem criar

coisas novas, que aprendemos com

nossos colegas ao observá-los, que

precisamos usar os objetos pensando

na segurança do outro e na nossa própria,

e que a linguagem figurativa do

balde dançar era realmente para mostrar

que um balde pode ser muito mais

divertido do que imaginamos.

Concluí, nesse contexto, que a CRI(A-

ÇÃO)/CRI(ATIVIDADE) é a possibilidade

de ser desafiado, de sair da caixa do igual,

de fazer pensar além dos quadrados fechados

e inertes, de dançar de um novo jeito, de

imitar outra voz, de respeitar o outro, porque

se é e se faz diferente e, principalmente, que

ensinar e aprender é um ato de liberdade intelectual.

Referências

CUNHA, R. M. M. da. Criatividade e processos

cognitivos. Petrópolis: Vozes, 1977.

SEÁRA, E. C. R. A capoeira como conteúdo escolar:

uma proposta didática para as aulas de

Educação Física. EF Deportes.com, Revista

Digital, Buenos Aires, ano 19, n. 193, jun. 2014.

Eliton Clayton Rufino Seára

31


32

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Corpo, campo

e movimento:

uMA EXPERIÊNCIA

DE EQUOTERAPIA

EQUITAÇÃO EDUCATIVA

COM JARDIM MISTO

Solange Maria Nunes

Desde 2015, as instituições localizadas na

zona rural, Escola Básica Professor Martinho

Gervási e Rancho La Cautiva (entidade que

atende crianças com deficiência no trabalho

de equoterapia e equitação educativa, pela

proprietária Maria de Lourdes Garcia), desenvolvem

atividades em parceira com o projeto

Educação Integral da Secretaria Municipal

de Educação de Itajaí, sob a responsabilidade

da professora de Educação Física Solange

Nunes, no período vespertino. A perspectiva

de desenvolver uma atividade periódica

com o Jardim Misto Parcial da escola surgiu

a partir de um projeto colaborativo entre essas

instituições.

Nas reuniões pedagógicas e conselhos de

classe, discutia-se que muitas crianças tinham

dificuldade para aprender, devido à


falta de concentração e atenção, bem como

dificuldades motoras. A psicomotricidade

oportuniza desenvolver integrações sociais,

educacionais, ambientais, econômicas e culturais,

para que o educando possa atingir a

maturidade de modo processual, consciente

e integrado. Sendo a escola localizada

na área rural e ter turmas desde o berçário

ao 9º ano, percebeu-se o quanto se poderia

contribuir com a superação de algumas dessas

problemáticas, explorando a localização

geográfica.

A vida no campo oferece possibilidades de

uma infância mais plena na relação com a

natureza e com os espaços, porém, na escola,

os espaços são poucos e têm regras, há

uma sistemática peculiar. Criando interações

com o conhecimento local, o campo,

desde cedo, pude auxiliar no desenvolvimento

dos alunos, tanto na parte motora quanto

na aprendizagem, tendo também a equoterapia

educativa uma participação significativa

nesse processo de interação.

Levitt (1997, p.18) afirma que, “[...] mesmo

quando uma criança apresenta limitações, alguma

habilidade ainda resta”. Essa foi uma das

grandes motivações deste processo de aprendizagem

e/ou estimulação, fortalecer e acreditar

no potencial e receptividade de cada educando,

resgatando o trabalho da equoterapia

educativa, e que essa dinâmica entrasse nas

atividades oferecidas pela escola.

Segundo Freitas, em tempos de educação

inclusiva, estudos sobre o corpo, esquema

corporal e a imagem corporal são particularmente

importantes para quem trabalha com

cognição, ensino e aprendizagem. Espera-se

do professor a compreensão mais abrangente

da criança, da sua diversidade, das diferenças

e dos processos que integram a cognição

humana (FREITAS, 2008).

Na equoterapia, os benefícios são adquiridos

por motivação, o que impulsiona o indivíduo

pelo desejo e prazer, conseguindo atrair

a atenção, a concentração e o autocontrole,

favorecendo a aprendizagem (MARCELINO;

MELO, 2006).

Para os alunos do Jardim Parcial, as experiências

obtidas no Rancho La Cautiva trazem

o contato com os animais, em um espaço diversificado,

buscando uma relação diferente

34 Corpo, campo e movimento


FOTO: ANDRÉ SCHIMIDT

Solange Maria Nunes

35


36 Corpo, campo e movimento


Solange Maria Nunes

37


com o corpo, atenção, concentração e autoestima.

Aprendem também a viver e conviver

de forma harmoniosa com os animais e a

natureza. O objetivo consiste em aproximar

as crianças da natureza, com o intuito de desenvolver

as interações sociais e ambientais

para perceber que o contato com os animais

favorece no seu processo de desenvolvimento

motor e no ensino e na aprendizagem.

O atendimento atualmente ocorre uma vez

ao mês, no período vespertino, no Rancho

La Cautiva. As crianças aprendem atividades

de montaria e cuidados no manejo com os

animais, tais como escová-los e alimentá-los.

Também aprendem sobre a morfologia do

animal.

O Rancho La Cautiva dispõe de um ambiente

espaçoso no qual as crianças, além de se envolverem

com os animais, podem se divertir

no parque, correr na grama e fazer trilhas. O

espaço físico dispõe de:

• cavalos, ovelhas, aves, coelhos e cães;

• piscina com churrasqueira;

• sanitários masculino e feminino com

chuveiros;

• salão multiuso;

• cozinha;

• horta e pastagem.

Os alunos do 6° ano que frequentam o projeto

Educação Integral foram capacitados e

hoje auxiliam na montaria das crianças, com

a supervisão da proprietária do Rancho La

Cautiva, a Senhora Maria de Lourdes Garcia.

Contribuições e construções

Considerando que a psicomotricidade, antes

de tudo, passa pelo desenvolvimento humano e

ambiental e deve ser aproveitada a todo instante

no que diz respeito à construção do conhecimento,

observou-se que aquelas crianças que

tinham dificuldades em se comunicar e eram

introvertidas, após o contato com os animais e

o campo, estão interagindo nas atividades de

sala de aula, demonstrando iniciativa e desenvolvendo

sua capacidade de comunicação. As

aulas que propiciam o contato com os animais,

principalmente com os cavalos, estão contribuindo

para seu desenvolvimento motor, socialização,

harmonia, autonomia e autoconfiança.

38 Corpo, campo e movimento


É visível a evolução no desenvolvimento

de algumas crianças, além de uma postura

adequada e um melhor equilíbrio de sua

coordenação motora. A questão do relacionamento

com o outro e com o meio tiveram

um grande avanço, o que faz com que consideremos

atingidos os objetivos a que nos

propusemos.

O registro das atividades é realizado por

meio de fotos que são anexadas na avaliação

semestral das crianças e do vídeo das

aulas que está no blog da Escola, neste endereço

eletrônico: http://blog.educacao.itajai.sc,gov.br/ebpmg,

para que os pais acompanhem

o desenvolvimento de seus filhos no

projeto.

Referências

FREITAS, N. K. Esquema corporal, imagem

visual e representação do próprio corpo:

questões teórico-conceituais. Ciências &

Cognição, Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 318-

324, 2008.

LEVITT, S. Habilidades básicas: guia para desenvolvimento

de crianças com deficiência.

Campinas, SP: Papirus, 1997.

MARCELINO, J. F. Q.; MELO, Z. M. Equoterapia:

suas repercussões nas relações familiares

da criança com atraso de desenvolvimento

por prematuridade. Estudos de

Psicologia, Campinas, v. 23, n. 3, p. 279-287,

jul./set. 2006.

Solange Maria Nunes

39


40

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Movimentos

de interações

e brincadeiras

com bebês:

UMA EXPERIÊNCIA COM

LUZES

Solange Maria Nunes

A Educação Física é uma disciplina nova no

currículo da Educação Infantil da Rede Municipal

de Itajaí. O que trabalhar, como trabalhar,

quais experiências podem ser significativas

com o corpo? Movimento e criatividade

são temas recorrentes em nossas formações

e debates.

Nosso saber-fazer emerge na articulação

teórico-prática, no desenvolvimento de atividades

significativas, especialmente para

os pequenos de zero a três anos que estão

conhecendo e construindo as diferentes linguagens.

Assim, a Educação Física para os

bebês perpassa o conhecimento sinestésico

com percepção, interação e expressão,

no qual a criança se comunica por meio da

linguagem corporal, bem como acontece o

despertar intencional do “olhar”. As intera-


ções e as brincadeiras na Educação Infantil,

nos processos de desenvolvimento e aprendizagem

dentro do ambiente educacional,

são fundamentais no início da vida escolar.

Considerando a teoria sociointeracionista

de Vygotsky, e com as orientações do Ministério

da Educação para a Educação infantil,

defende-se a ideia da necessidade de as

crianças interagirem com o brincar para se

desenvolver. Assim sendo, a promoção de

atividades que favoreçam o envolvimento

da criança em brincadeiras, principalmente

aquelas que promovem a criação de situações

imaginárias, tem uma clara função pedagógica.

A escola, particularmente a pré

-escola, poderia utilizar-se deliberadamente

desse tipo de situações para atuar no processo

de desenvolvimento das crianças (VY-

GOTSKY, 1998).

As interações e as brincadeiras têm uma função

específica na infância, na qual a criança

recria a realidade usando os sistemas

simbólicos. Nessa fase, a criança começa

a distanciar-se de seu primeiro meio social,

representado pela mãe. Diante disso, cabe à

instituição de ensino o papel de estabelecer

o desenvolvimento da aprendizagem com a

interação social com o professor e com as

outras crianças.

A experiência aqui relatada foi realizada com

o Berçário Misto e teve como objetivo proporcionar

o desenvolvimento integral das crianças

em situações que envolvessem a curiosidade,

a exploração e o manuseio de materiais

como processo de experimentação.

Luz, ação!

O Berçário misto envolve crianças de zero a

dois anos, fase em que o desenvolvimento da

percepção é alimentado pela curiosidade. Assim,

a montagem da experiência faz parte do

processo de aprendizagem.

Para iniciar o projeto, ao entrar na sala do Berçário

Misto, cumprimentei-os com a alegria

habitual e fui fixando malhas brancas e narrando

o que ia fazendo. Com as luzes de uma

luminária móvel (abajur), com uma lâmpada

com gomos tridimensional coloridos, busquei

com que explorassem o espaço físico, o movimento,

o corpo, o imaginário e as sensações.

As crianças aproximaram-se aos poucos,

apontando e balbuciando. Os menores

acompanhavam a movimentação com o

olhar. A atividade foi se desenvolvendo: primeiro

exploramos as luzes, suas cores e formas,

iluminando as diversas partes da sala

(chão, parede, teto). As crianças acompanhavam

olhando ou tocando.

Em seguida, com a luz, fui explorando o corpo

de cada um em frente ao espelho (mãos,

boca, barriga, pés, cabeça). As crianças reagiram,

apontando, acompanhando as luzes,

falando, expondo sua curiosidade e seu saber

e indicando possibilidades de aprendizagem

sinestésica.

A aprendizagem sinestésica, de acordo com

Santos et al. (2009), indica que o trabalho

com as partes do corpo possa permitir o autoconhecimento

pelo sentido, no qual o bebê

toca a parte do corpo solicitada, respeitando

a lei “céfalo – caudal” e “próximo distal”. Após

esse momento inicial, exploramos as luzes

por meio do tecido. As crianças entraram em

contato com o tecido apalpando-o, e, em seguida,

uma nova descoberta: a luz corre.

Elas queriam tocar, brincar de pegar a luz,

descobrir o que tinha atrás do tecido e de

onde vinha a luz. A curiosidade delas, seus

sorrisos, suas ansiedades, indicou um aspecto

interessante que corroborou com o objetivo

proposto para uma experiência que articula

percepções e estética do movimento,

dos aprenderes, da beleza e da exploração

dos gestos, que registra significados também

pelos brilhos nos olhares.

Os bebês desenvolvem-se e aprendem perceptivamente

praticando exercícios motores,

desenvolvendo o pensamento e o conhecimento

com criatividade, na busca de

solução de problemas: as crianças usaram

diferentes estratégias na descoberta de

onde vinha e para onde ia, seguindo as luzes.

Verbalmente, adquiriram comunicação receptiva

e expressiva; aprenderam a conviver

com amigos e incentivá-los a experimentar,

brincando de esconde-esconde, falando ou

indicando para o colega olhar as formas.

O registro dessa experiência foi feito por

meio de fotos e organizado em uma exposição

para que os pais pudessem acompanhar

42 Movimentos de interações e brincadeiras com bebês


o trabalho realizado nas aulas de Educação

Física da professora Solange Maria Nunes.

Para Friedmann (2012), as brincadeiras constituem

linguagens infantis, considerando

a linguagem qualquer meio sistemático de

comunicar ideias ou sentimentos por meio

de signos. Um dos grandes desafios que as

linguagens lúdicas nos propõem é a leitura e

a tradução dessas “falas” infantis.

Essa experiência proporcionou conhecer o

prazer da descoberta na interação com as

crianças, sobre os seus sentires, surpreendendo

com suas iniciativas, envolvimento

e autonomia, na vivência da exploração da

multiplicidade de linguagens.

Referências

FRIEDMANN, A. O brincar na educação infantil:

observação, adequação e inclusão.

São Paulo: Moderna, 2012.

SANTOS, A. S. et al. Psicomotricidade - Educação

do Movimento. 2009. Disponível

em: .

Acesso em: 3 jul. 2016.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente.

6. ed. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998.

Solange Maria Nunes

43


44

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

O eu, o outro

e o nós: jogos

cooperativos

como

possibilidade

pedagógica na

Educação Infantil

Heitor Luiz Furtado

A compreensão da importância da Educação

Física nos Centros de Educação Infantil

perpassa inicialmente pela necessidade de

ser trabalhado o movimento, incorporando

então a expressividade e a mobilidade natural

das crianças pequenas, oportunizando o

desenvolvimento do pensamento e a manutenção

da atenção. Nesse sentido, o objetivo

da Educação Física é disponibilizar o maior

número de experiências possíveis, para apresentar

um novo mundo, relacionar com um

meio social e físico, ajudar no desenvolvimento

motor, cognitivo e sócio afetivo, buscar

a autonomia, a socialização e a ampliação

do conhecimento das práticas corporais.

Nas crianças pequenas, o corpo em movi-


mento, por menor que seja, constitui a matriz

básica em que se desenvolve as significações

do aprender, devido ao fato de que

a criança transforma em símbolo aquilo que

pode experimentar corporalmente. Seu pensamento

se constrói, primeiramente, sob a

forma de ação (GARANHANI, 2002). Além

disso, na pequena infância, os movimentos

do corpo são os primeiros recursos de expressão

e comunicação.

Compreender o conceito de criança é relevante

na medida em que fornecerá maiores

indícios da compreensão de quais crianças

estamos falando. Principalmente, para qual

caminho devemos direcionar nossas práticas

pedagógicas e ações de intervenção. A

criança é um ser histórico e de direitos que,

nas interações, relações e práticas cotidianas

que vivencia, constrói sua identidade

pessoal e coletiva; brinca, imagina, fantasia,

deseja, aprende, observa, experimenta,

narra, questiona e constrói sentidos sobre a

natureza e a sociedade, produzindo cultura

(BRASIL, 2010).

Os momentos de Educação Física nos centros

de Educação Infantil são importantes

para a formação cognitiva, afetiva e motora

das crianças, pois tematiza algo bastante

presente no universo infantil que é o brincar,

propiciando ações pedagógicas que

respeitem as características das crianças e

da pequena infância, entendendo-os como

sujeitos produtores de cultura. Os jogos, as

brincadeiras, os brinquedos, os esportes, as

danças, as manifestações rítmicas são objetos

de intervenção pelo qual os professores

organizam suas práticas diárias. Nesse

sentido, o presente relato de experiência

tem como objetivo apresentar uma vivência

desenvolvida com a turma de Jardim I, na

qual buscou tematizar os jogos cooperativos

como possibilidades pedagógicas nos momentos

de Educação Física.

O presente projeto esteve alicerçado nas

Matrizes de Habilidades da Educação Infantil

do município de Itajaí, bem como

referendado pela Base Nacional Comum

Curricular, possuindo como objetivo desenvolver

nas crianças as seguintes competências,

habilidades e objetivos de aprendizagem:

controlar gradualmente o movimento;

aprender a conviver com pessoas entre si;

brincar de diversas formas e com diferentes

parceiros; explorar materiais, brinquedos,

objetos, ambientes e entorno físico e

social, identificando suas potencialidades,

limites, interesses e desenvolver sua sensibilidade

em relação aos sentimentos, às necessidades

dos outros com quem interage.

Por que jogos cooperativos?

O interesse pelos jogos cooperativos surgiu

devido à necessidade que observei em

desenvolver com as crianças o conceito de

que: preciso do meu amigo para brincar e

que para uma brincadeira dar certo, precisamos

juntos trabalhar para o mesmo objetivo.

Os jogos cooperativos são ferramentas

importantes para o professor, pois cria um

clima de relação social, estabelece um contexto

pelo qual há algo a contribuir, promove

um maior auxílio às pessoas menos hábeis e

propicia trabalhar valores como solidariedade

e apoio.

Os jogos cooperativos são aqueles cujos objetivos

dos indivíduos estão tão unidos que

ele promove uma correlação positiva entre

as conquistas; um indivíduo alcança seus

objetivos se e somente todos os outros participantes

também atingem os seus. O sucesso

de cada um dependerá do sucesso

dos demais. Além disso, proporciona uma

responsabilidade individual dentro do trabalho

coletivo, a interação entre os participantes

buscando resolver os conflitos e os desafios

da atividade proposta, o processamento

em grupo e, principalmente, a habilidade

interpessoal.

Buscou-se desenvolver a diferenciação com

as crianças entre jogar com os amigos e

jogar contra os amigos, isto é, para que as

atividades dessem certo, precisava-se que

todos os integrantes buscassem o mesmo

objetivo, estabelecendo a interdependência

positiva entre os integrantes do grupo, articulando,

assim, o Eu, o Outro e o Nós.

Desenvolvimento das intervenções

O projeto foi desenvolvimento ao longo de

um mês, com um total de 15 intervenções

com as crianças. Os encontros eram sempre

três vezes por semana com duração de uma

hora. Buscou-se utilizar diferentes espaços

46 O eu, o outro e o nós: jogos cooperativos como possibilidade pedagógica na Educação Infantil


da instituição como a própria sala de aula

da turma, como o parque externo e demais

espaços disponíveis da unidade. Foram utilizados,

nos momentos de intervenção, bolas

de diferentes tamanhos, cordas, bambolês,

barbantes, cones e fitas.

Os desafios iniciais foram desenvolver a compreensão

nas crianças que as brincadeiras

não tinham vencedores e perdedores, mas

que se todos contribuíssem e refletissem sobre

o real objetivo da atividade, todos seriam

vencedores. As experiências vivenciadas nos

primeiros momentos foram difíceis, pois havia

crianças que não conseguiam lidar com

as ações dos demais amigos, não contribuindo

com o objetivo geral assumido pelo grupo.

Conflitos, discussões e diálogos fizeram

parte dos momentos e propiciaram aprendizagens

significativas para as crianças, bem

como para o professor.

A Turma do Jardim II, do Grupo Água, adaptou-se

de forma bastante rápida às atividades

propostas e conseguiram compreender

a diferenciação dos tipos de jogos, mais precisamente

os jogos cooperativos, e os objetivos

das brincadeiras. Notou-se o desenvolvimento

de uma afetividade bastante significa

entre a turma e o professor. Os pequenos

conflitos existentes foram logo resolvidos e

esclarecidos por meio do diálogo.

Destaca-se a atividade desenvolvida a qual

consistia em conduzir um amigo de olhos

vendados pelo parque desviando dos obstáculos.

Essa atividade foi bastante significativa,

pois materializava a necessidade de

confiar no amigo, estabelecendo relações

de cooperação, respeito e socialização. Notou-se

a dificuldade de algumas crianças em

serem conduzidas por outras crianças, e, em

alguns colegas, a dificuldade de conduzir

de forma adequada o colega pelo parque.

Várias crianças no início não confiavam na

condução e buscavam abrir os olhos durante

a atividade. Após conversa e diálogo com o

grupo, tais condutas puderam ser transformadas.

Em todas as atividades propostas,

buscou-se ao final dialogar com as crianças

para apontar os principais problemas, desafios

e pontos que eles achavam interessantes

e que necessitavam serem resolvidos.

Outra atividade que se destacou foi a desenvolvida

com o lençol e as bolinhas de tênis,

que tinha como objetivo manter todos as

bolinhas sem deixá-las cair para fora do lençol.

No início, o grupo demonstrou dificuldade,

pois havia crianças que balançavam

muito forte o lençol, o que fazia com que as

bolinhas saíssem. A partir das vivências, as

próprias crianças começaram a conversar e

a chamar a atenção dos amigos para explicar

que se cada um puxasse para um lado ou

balançasse com força não conseguiríamos

atingir o objetivo da proposta.

Relações e vivências

O principal objetivo do projeto era vivenciar

os jogos cooperativos com o intuito de desenvolver

a ideia do jogar com o outro e não contra

o outro. Ao final do processo, foi possível

observar que as crianças demonstraram por

meio das brincadeiras a capacidade de agir

de forma mais coletiva. Em um mundo tão individualista

e egocêntrico, parece ser importante

desenvolver tais habilidades que contribuam

para a construção de crianças mais

participativas, respeitosas e que respeitem as

individualidades de cada um.

O processo avaliativo deu-se por meio da observação

das atividades, em que se buscou

identificar como as crianças agiam dentro

do grande grupo e quais características individuais

eram mais marcantes no desenvolvimento

das atividades. Observar, dialogar e

identificar foram e são ferramentas importantes

para o trabalho diário do professor de

Educação Física.

É possível perceber a necessidade de construir

nos momentos de Educação Física vivências

que oportunizem a relação entre o Eu, de forma

a resgatar as características, os desejos

e as preferências individuais; e o Outro, para

respeitar as individualidades de cada ser, construindo

assim o Nós, o coletivo, o social e o

integrador. A construção da legitimidade do

campo da Educação Física, principalmente

nos centros de Educação Infantil, perpassa

entre práticas intencionais que respeitam os

desejos, as características das crianças, bem

como os da infância. Questionamentos como:

Que crianças queremos formar? Que professor

desejamos ser? Qual papel da Educação Física

na Educação Infantil?, são questões importantes

para refletir continuadamente nos processos

de constituição dos professores.

Heitor Luiz Furtado

47


48 O eu, o outro e o nós: jogos cooperativos como possibilidade pedagógica na Educação Infantil


Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria

da Educação Básica. Orientações Curriculares

Nacionais para a Educação Infantil.

2010. Disponível em: .

Acesso em: 23 jul. 2016.

GARANHANI, M. C. A Educação Física na

escolarização da pequena infância. Pensar

a prática, Goiânia, n. 5, p. 106-122, jul./jun.

2002.

Heitor Luiz Furtado

49


50

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Projeto Shantala

Toque de amor

Camila da Silva

Gomes das Neves

Ao iniciar o ano letivo, nós professores

sabemos que temos muitos desafios, uma

responsabilidade assumida em grande parte

do dia com cada criança confiada a nós.

Em meio a essa realidade, um dos processos

mais evidentes na Educação Infantil é a

adaptação.

No início do ano com o “Grupo Cachorro –

Berçário II”, não poderia ser diferente. Os

bebês inseridos nesta realidade, em que

muitos pela primeira vez iriam frequentar

o CEI, sofreram, choraram pela ausência

de seus familiares. Estando diretamente

envolvida nesse processo, percebi que

minhas aulas se resumiam, muitas vezes, em

promover vínculo de afetividade com os bebês:

colos, abraços, beijos, acalentos, faziam

parte do desenvolver das aulas de Educação

Física.

Como esperado, com o passar das semanas,

a maioria da turma foi apresentando-se mais

adaptada e familiarizada com o ambiente e

as rotinas. Contudo, alguns bebês apresentavam

ainda muita fragilidade e dificuldade


em permanecer no ambiente escolar, pois

cada criança é única e corresponde a situações

semelhantes de forma diferente. Existiam

momentos que eu percebia que a turma

equalizava a calma, momentos em que eu

oferecia mais gestos de acolhimento. Essas

demonstrações de carinho supriam de certa

forma a ausência dos familiares.

Em uma conversa com a agente do período

matutino, Juliana, percebemos a importância

e a diferença que faz o tocar com amor

em nossos bebês, surgindo, assim, a necessidade

de realizar algo que evidenciasse essa

ação. Logo surgiu a sugestão de realizarmos

massagens nos bebês. Escolhemos, dessa

forma, a Shantala. Ao selecionar essa prática,

não tínhamos consciência do respaldo

positivo que as massagens fariam nos bebês

e nas famílias.

Descoberta na Índia em 1970, a Shantala foi

vista pela primeira vez pelo médico obstetra

Frédérick Leboyer, que, andando pelas ruas,

avistou uma mulher sentada na calçada com

seu bebê entre as pernas a massageá-lo.

Frédérick ficou encantado com a expressão

singela do bebê, e a concentração da mãe

no desenvolver da massagem, e, principalmente,

com o intenso vínculo afetivo entre

mãe e filho que aquela prática apresentava.

Ao ler o livro Shantala – Arte tradicional de

massagem para bebês, que o próprio Frédérick

Leboyer escreveu, percebi quantos benefícios

essa prática ofereceria para os bebês,

certificando-me que contribuiria para

os nossos também.

Com a realidade que nos cerca, em que a

maior parte do dia os bebês encontram-se no

CEI, longe de seus familiares, sabendo que

essa ausência diminui diretamente os laços

afetivos e pode interferir diretamente na

construção bio-psico-social deles, tivemos

como objetivo aumentar o vínculo afetivo

com os bebês, proporcionando os benefícios

que a área sinestésica atribui, acompanhando

em casa as reações que eles tinham com

suas famílias após receber a massagem. Segundo

Leboyer:

Ser levados, embalados, acariciados, pegos,

massageados constitui para os bebês, alimentos

tão indispensáveis, senão mais, do

que vitaminas, sais minerais e proteínas. Se

for privada disso tudo, e do cheiro, do calor,

e da voz que ela conhece bem, mesmo cheia

de leite, a criança vai-se deixar morrer de

fome. (LEBOYER, 1995, p. 18).

Nossas práticas: a Shantala

Iniciamos nossas práticas realizando, em

cada intervenção, massagens de 30 minutos

em cada bebê. Em cada intervenção, quatro

bebês - a professora e a agente realizavam

a massagem em dois bebês cada uma. Percebemos

que alguns bebês ficavam com a

musculatura contraída e até dispensavam a

prática, por não terem vivenciado nada parecido,

e por ser algo tão íntimo. Assim, alguns

não tiveram boa aceitação na primeira

tentativa. Seguimos, no entanto, com cada

bebê até que todos (inclusive os bebês que

de imediato não aceitaram) tivessem vivenciado

a Shantala.

Ao perguntar para os familiares sobre a massagem,

tivemos uma explosão de informações.

Alguns pais apresentavam colocações

bastante positivas para o nosso projeto. Separamos

algumas colocações apresentadas

por eles:

“As noites seguintes após a massagem, J. G.

dormiu super bem, antes era comum levantar

às quatro e meia da manhã e não dormir

mais. No dia em que ganhou a massagem,

dormiu bem e parecia mais calmo. Gostaria

de aprender para fazer com frequência nele

em casa” (Mãe do aluno J. G.).

“Ao chegar em casa com P.H., percebi que

ele estava mais relaxado e na hora de dormir,

foi bastante fácil, percebi também que seu

sono estava melhor, pois há tempo não dormia

a noite inteira, e após a massagem ele

dormiu sem intervalos a noite” (Mãe de P.H.).

“Ela dormiu super bem, percebi que não chegou

tão acelerada como sempre chega em

casa, além da facilidade que tive em fazê-la

dormir” (Mãe de A. S.).

Com os relatos, percebemos que a massagem,

além de relaxar os bebês, contribuiu

diretamente em seu comportamento e bem

-estar, facilitando, assim, o contato entre

mãe e filho, que, muitas vezes, os pais, após

um dia inteiro de trabalho, não conseguem

doar a atenção necessária a seus filhos. O

52 Projeto Shantala Toque de amor


stress do cotidiano muitas vezes nos rouba

dos nossos mais próximos.

[...] a rotina das mães é particularmente organizada

em razão deles, principalmente

quando são pequenos: o dia começa muito

cedo, com a arrumação da mochila, vestimenta,

alimentação e banho para que as

crianças possam ser deixadas na creche ou

escolinha. Também envolve, no fim do dia,

tarefas como lavar, passar e cozinhar, especialmente

a tarefa do jantar, uma vez que

muitas mães passam o dia inteiro fora de

casa, sendo o almoço providenciado por terceiros.

Além das tarefas, o cuidado também

inclui educar/orientar, acompanhar o desenvolvimento

escolar (ver cadernos, lição de

casa, participar de reuniões, conversar com

professores), dar atenção, conversar, enfim,

passar algum tempo com os filhos (o que

poderia ser interpretado também como uma

prestação de atenção psicológica). (BRUS-

CHINI; RICOLDI, 2009, p. 99).

Percebemos que a massagem proporcionou,

além de vínculos extremamente importantes,

facilidades para os familiares. As mães

que, muitas vezes, acabavam se desgastando

para realizar o terceiro turno de seu dia,

em que não há mais muita energia em estoque,

puderam observar seus filhos e se fazer

mais próximas, pois percebiam em seus filhos

mais serenidade e tranquilidade, tornando

os cuidados que vão até pegar no sono mais

leves e agradáveis. Evidenciamos que essa

prática vai além do tocar, do sentir ou do relaxar.

Ela esta diretamente ligada em estar

próximo, ser confiável, propor mais de si para

o outro e amar incondicionalmente.

Contribuições: da porta para dentro

Ficamos muito realizadas com a proporção

que tomou nosso projeto e mais felizes por

poder fazer algo que efetivamente e de forma

palpável contribuiu diretamente para

formação integral de nossos bebês. Aprendemos

que o que realizamos da porta para

dentro forma seu caráter, descreve suas vivências,

amplia seus horizontes e os tornam

seres imprescindíveis para a existência do

professor, O SER CRIANÇA. Acredito que

isso é ser Educador.

Referências

BRUSCHINI, M. C.; RICOLDI, A. M. Família e

trabalho: difícil conciliação para mães trabalhadoras

de baixa renda. Cadernos de Pesquisa,

São Paulo, v. 39, n. 136, p. 93-123, jan./

abr. 2009.

LEBOYER, F. Shantala – Arte tradicional de

massagem para bebês. Tradução de Luiz Roberto

Benati e Maria Silvia Cintra Martins.

São Paulo: Ground, 1995

Com todas essas importâncias em nossas

mãos, realizamos a culminância deste projeto

com um convite a ensinar às mães a prática

de massagem Shantala. Tivemos a presença

de sete mães. Passamos um vídeo da

prática, explicamos os benefícios e realizamos

a massagem, cada mãe com seus filhos.

Foi muito gratificante perceber o empenho

das mães em sair do trabalho, pegar uma folga,

ou até repor a hora depois para estarem

ali aprendendo esse método tão benéfico.

Assim, realizamos as massagens, e junto à

prática, entregamos um livro ilustrado com

o passo-a-passo da prática de massagem

Shantala.

Camila da Silva Gomes das Neves

53


54

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Me encaixa

nessa caixa

Lourdes Helena Bravo Gautério

Educação Física na Educação Infantil, a linguagem

do movimento na infância ...brincar

de aprender, aprender a brincar ... aprender

a ser, a fazer, a aprender, a conviver... tratar

a criança exatamente como deve ser... atender

seus interesses e necessidades, usando

as diferentes linguagens (oral, corporal, artística,

estética, plástica), estimular as percepções

(auditiva, visual, tátil...espaço temporal),

por meio das sensações. Palavras que

hoje fazem parte do meu cotidiano: leituras,

pesquisas, trocas de ideias...planejamento,

execução, observação...constatação...Buscar

atender as necessidades e os interesses

das crianças, fazer com que se sintam felizes,

que desenvolvam habilidades, valores...

Quem são essas crianças e como se reconhecem?

Como reconhecem seus amigos?

Venho constantemente pensando e repensando

atividades que possibilitem a descoberta

de si mesmas e do outro... brincadeiras

e interações ...brincadeiras ou interações?

Imitar, repetir, recriar, ter iniciativa, saber fazer

escolhas, interagir.


Se pudesse definir nossa intencionalidade

como educadores, ousaria dizer que temos

obrigação de permitir que a criança seja ela

mesma, que possa fazer o que tem direito,

ser apenas e só uma criança, brincar e brincar.

Estou aprendendo a aprender com eles,

continuo procurando inovar. Algumas palavras

ouvidas durante um curso ressoam nos

meus ouvidos: “Quando você for comprar um

brinquedo para uma criança, deixe o brinquedo,

leve a caixa”. Configuração cerebral...

as ideias unem-se e tudo se encaixa. Sempre

gostei de caixas. Observo que elas carregam

consigo a sensação de aconchego, a oportunidade

de ser descoberto, de descobrir, do

encontro, do desencontro, entusiasmo, alegria.

Constatação: eles realmente adoram

brincar com caixas (sempre que disponibilizo

caixas para brincadeiras há disputa... tem

de ter muitas caixas... carrego bolas, bolinhas,

cordas, potinhos, garrafas em caixas, e,

quando planejo alguma atividade com esses

objetos, brincam um pouco e, normalmente,

acabam... na caixa) ... e mais uma vez....

tudo se encaixa...e a ideia de criar um espaço

mais amplo, produzido com a participação

das crianças, concretiza-se … a construção

do túnel de caixas...

Desenvolver habilidades e competências

como: ampliar o conhecimento do mundo,

manipular diferentes materiais, explorar

suas características, propriedades e possibilidades

de manuseio, entrar em contato

com formas diversas de expressão artística,

corporal, oral, estética, plástica; desenvolver

posturas adequadas para o dia a dia, bem

como expressão e comunicação dos movimentos;

manipular diferentes materiais para

o fazer artístico; desenvolver o gosto, o cuidado

e o respeito pelo processo de produção

e de criação; interessar-se pelas próprias

produções e pela dos colegas; perceber e

explorar formas, cores e texturas, expressarse

por meio da pintura; demonstrar sensibilidade

e criatividade em diversas situações;

respeitar a própria integridade física e a do

colega; desenvolver noção espaço temporal;

desenvolver o senso de cooperação e colaboração,

assim como o cuidado consigo,

com o outro e com o material; expressar-se

com desenvoltura na sessão de fotos e apreciá-las;

brincar e interagir no túnel; desenvolver

noções matemáticas (dentro, fora; em

cima, em baixo; atrás, na frente; deste lado,

do outro lado; grande, pequeno; pesado,

leve) são objetivos a serem conquistados na

exploração do túnel.

Túnel de caixas: trabalho coletivo

Ao retornar das férias, ao entrar em contato

com as crianças, procurei unir o útil ao agradável:

consegui diversas caixas e planejava

usá-las nas aulas, mas sabia que precisava de

tempo para forrá-las ou pintá-las, e aí surgiu

a ideia da participação das crianças na pintura

das caixas, deixando-as à vontade para

vivenciar essa experiência, brincando (onde

naturalmente sujariam o corpo de tinta) e,

em um clima bastante quente, participariam

de um prazeroso banho de mangueira (já

que durante os dias de aula normal não teria

tempo de realizar as atividades, realizei-as

durante duas manhãs, uma com o Maternal

II e outra com o Jardim I, pois queria fazer

a atividade sem pressa). Planejei e organizei

a atividade de maneira que pudessem perceber

como surge um túnel: abri as caixas,

distribui as tintas em potinhos (cada um escolhia

a cor que queria pintar, identificando-a).

Sentados no chão ao redor das caixas

abertas, dei um pincel para cada criança,

organizei os espaços onde cada um pintaria,

mostrei a maneira correta de segurar o

pincel, sem apertar, e a quantidade de tinta

que mais ou menos deveriam pegar do pote,

56 Me encaixa nessa caixa


espalhando-a, preenchendo os espaços vazios.

Deixei-os à vontade, sugerindo que

pedissem ajuda quando necessário; fiquei

observando e repondo as tintas nos potes.

Acabando a pintura, pedi para que olhassem

se tinha algum lugar que não houvesse tinta

para dar os “retoques”, que ficaria mais bonito.

Eles concordaram. Acabado, recolhi os

pincéis e os potes. Pedi para que levantassem

e observassem a beleza da arte produzida,

elogiei-os e agradeci pela ajuda. Ficaram

sorridentes, alegres, e fomos para a sessão

de fotos... amaram ver sua produção e ficaram

orgulhosos com os elogios...bom demais

ser valorizado e reconhecido… se sentir útil.

Em seguida, banho de mangueira (com direito

a chafariz e tudo). Participaram também

do processo de secar o corpo e colocar a

roupa. Repeti todo o processo com o Jardim

I no outro dia. Todos se envolveram com a

atividade, demonstrando bastante atenção e

capricho na pintura. Conversei com o grupo

e falei que montaria as caixas e faria um túnel

com elas; comentei também que os grupos

Maternal I e berçários amariam brincar

com o túnel que eles pintaram. Adoraram a

ideia. Montei o túnel (feriados, greve.... ufa...

consegui), abri porta, fiz furos circulares no

teto e nas laterais, e reforcei com fitas adesivas,

colei as fotos e …finalmente, nas aulas

de cada grupo, apresentei o tão esperado

túnel de caixas. Ficaram eufóricos, impetuosos,

curiosos... adoraram. Estabeleci regras

de convivência a todos: um de cada vez, sem

empurrar... enquanto uns entravam, outros

espiavam por fora, olhavam as fotos....fomos

revezando, um entra e sai ansioso, uns querendo

ficar, mas precisando liberar... e pouco

a pouco, desenvolvendo noção de tempo e

espaço; encolhendo ou estendendo o corpo;

enfiando a cabeça ou braços no buraco; entrando

ou saindo dele, dizendo “Oi”; abanando,

expressando seu contentamento quando

reconhecido, ou, ao reconhecer o amigo,

respeitá-lo (senão ficava fora da brincadeira);

e, também, cuidando para não estragar o

túnel que ajudaram a construir (fazer parte

do processo, ajudar a cuidar).

O túnel é leve e prático de carregar, o que

permite ser usado em diferentes espaços

(na sala, na área externa, em busca de um

sol quando muito frio). Era visível a satisfação

ao ver suas fotos no túnel e eu reforçava

que estava lindo e o quanto foi importante

sua colaboração na pintura. No decorrer

das aulas, disponibilizei o túnel com outros

materiais (outras caixas, bolas, túnel de cadeiras)

e organizei circuito, bola ao túnel,

adivinhe quem está no túnel. Dividi o grupo

em subgrupos, no qual iam se organizando

e criando novas brincadeiras, desde que respeitassem

regras de convivência já estipuladas.

Mostrei também ao Maternal I e Jardim I

os bebês brincando no túnel que ajudaram a

construir...ficavam “bobos”, sorridentes.

A experiência: brincando

de aprender, aprendendo a brincar

Foi uma experiência incrível, e ainda é...parece

incrível, mas o túnel de papelão ainda resiste

(com alguns reparos a cada uso, é claro

- após pegar chuva, ele encolheu – foi, assim,

necessariamente reduzido). Resiste porque foi

construído pelas mesmas mãos de quem está

usufruindo. O túnel está sendo cuidado, valorizado

por esse grupo de crianças que, nesse

processo, desenvolveram, acima de tudo, valores

como cooperação, respeito, colaboração,

responsabilidade. Enquanto brincam de

aprender, aprendem a brincar, exercendo seu

direito de ser apenas uma criança.

Enquanto as crianças brincavam e interagiam,

sentindo-as crianças felizes a sorrir, escrevi:

Lourdes Helena Bravo Gautério

57


58 Me encaixa nessa caixa


Me encaixa nessa caixa

Gosto que me enrosco

da caixa que entra, da caixa que sai

da caixa que acolhe, que encanta, que aquece

Num só instante,

o encontro … eu e você, acontece...

Gosto e me enrosco

no amigo que entra, no amigo que sai

na caixa que encolhe, encanta e aquece

Não fosse o bastante

te encontro... e você não me esquece

Enroscar, aquecer, encantar, num só instante...

não fosse o bastante...adorei me encaixar

As ideias fluem a cada encontro, no qual me

encanto com a vibração das crianças. Em

uma constante procura de inovação, surge

a “Caixa do palhaço”, satisfazendo a simples

necessidade de parar e brincar.

Lourdes Helena Bravo Gautério

59


60

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Meu corpinho

vou cuidar chuá,

chuá, o banho

vai começar

Marcia Eliane Lorenzoni

A rotina na Educação Infantil é a base do cotidiano.

Planejada pelo adulto e pelas crianças

é merecedora de grande importância.

Suas vivências devem contemplar estratégias

diferenciadas: música, dança, expressão

corporal e brincadeiras devem fazer parte

desse contexto para que as crianças envolvidas

nessas diferentes linguagens possam,

de forma prazerosa, se desenvolver.

Promover uma rotina planejada e diferenciada

é de forma tranquila interagir com os pequenos

nesse momento, é preciso dialogar

para ensinar e aprender. As interações da

criança com seus parceiros sociais provocam

confrontos de significações e incentivam os

parceiros a considerar as intenções dos outros

e superar contradições que surjam entre

eles. Com isso, ela constitui formas mais elaboradas

de perceber, memorizar, solucionar

problemas, lembrar-se de algo, emocionar-se

com alguma coisa, formas essas historicamente

construídas. (OLIVEIRA, 2002, p. 138).


Como profissional de Educação Física, uma

das rotinas que vivencio na instituição é o

momento da higiene. Essa rotina me deixa

inquieta na hora de elaborar o planejamento,

de buscar atividades diferenciadas que envolvam

o grupo de crianças. Ao pesquisar as

Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação

Infantil, observei que, quando se refere

ao atendimento de bebês e de crianças

pequenas, o documento enfatiza formas de

trabalhos pedagógicos que “[...] possibilitem

situações de aprendizagem mediadas para a

elaboração da autonomia das crianças nas

ações de cuidado pessoal, auto-organização,

saúde e bem-estar” (BRASIL, 2009, p. 26).

Assim, é preciso organizar momentos individuais

e coletivos, na rotina em que as crianças

possam sentir-se motivadas, construir sua autoimagem

de forma positiva e vivenciar experiências

que possibilitem um aprendizado, “[...]

organizar um cotidiano de situações agradáveis,

estimulantes, que desafiem o que cada

criança e seu grupo de crianças já sabem sem

ameaçar sua autoestima nem promover competitividade

(OLIVEIRA, 2012, p. 34).

Na minha prática de Educação Física, na rotina

de higiene, exploro muito com os pequenos

aspectos corporais, pois os bebês são

extremamente sensitivos ao toque, aprendem

muito com o corpo. Assim, envolvi o

grupo de crianças, a turma do berçário II, em

uma vivência sobre a questão da identidade

corporal e todas as premissas que envolvem

a cultura do corpo, o conhecimento dele, a

capacidade de nomear, identificar e reconhecer

suas partes e explorar semelhanças

e diferenças do próprio corpo e do corpo do

outro. Assim sendo, as crianças participaram

de um momento lúdico que oportunizou

a curiosidade e a valorização dos cuidados

com o corpo, um importante aspecto na

construção da identidade.

Os momentos de higiene foram sempre motivo

de inquietação ao planejar, afinal conseguir

a atenção dos pequenos e sua participação

não é tarefa fácil. Assim, busquei alternativas

que desenvolvessem habilidades referentes à

higiene na rotina da faixa etária de 1 a 2 anos,

para que as crianças se envolvessem e juntos

conquistassem aprendizagens.

Minha observação inicial foi durante uma

aula na qual parei para observar a interação

62 Meu corpinho vou cuidar chuá, chuá, o banho vai começar


das crianças com o espelho. Percebi que alguns

dos bebês brincavam, se apreciavam.

Aproveitei, então, para entrar na brincadeira

e mostrar o rosto deles refletido no espelho,

para que se reconhecessem. Fui naturalmente

nomeando e apontando a boca, o

nariz, a língua, os olhos e, posteriormente, os

dentes, dando ênfase na valorização da autoestima

das crianças, fazendo-as perceber

semelhanças e diferenças destacando as belezas

de cada uma e do grupo.

[...] os educadores podem estimular, motivar

e facilitar o brincar, encorajando as crianças

a funcionarem em um nível mais profundo do

que aquele em que funcionariam se fossem

entregues a si mesmas. O adulto que está

desempenhando um papel não só oferece

as crianças um modelo de comportamento,

como também pode alterar esse papel para

introduzir no brincar uma infinidade de “pessoas”,

problemas, desafios e assim por diante.

(MÓYLES, 2006, p. 120).

Para valorizar momentos de movimentação

dos pequenos, dançamos ao som do grupo

Palavra Cantada (lavar as mãos) e Xuxa (hora

do banho e escovar os dentes). Acompanhando

a letra da música, fui fazendo os gestos

e a maioria os repetia. Foi um momento de

alegria, de descontração e de aprendizagem.

Sabendo que a turma do Berçário II demonstra

grande interesse por literatura, fiz a leitura

do livro Saúde dos dentes (Heloísa Bertane

e Roberto Belli). Recontei a história com

o auxílio de fantoches. Para os pequenos

foram momentos de interação. As crianças

dentro de suas possibilidades dialogavam

por gestos e balbucios com os fantoches.

No brincar, a criança assume a posição de sujeito

falante, o que possibilita ao professor escutar

e conhecer a criança com mais propriedade.

Em razão disto, o brincar não deve ser compreendido

na educação infantil nem tampouco no

ensino fundamental como um conhecimento

pronto e por isso reproduzido em manuais que

apresentam centenas de brincadeiras acompanhadas

de procedimentos a serem executados

pelo professor junto às crianças. (SOM-

MERHALDER; ALVES, 2011, p. 62).

A troca de fraldas deu continuidade aos objetivos

trabalhados. A cada troca foi valorizado

o toque nas diferentes partes do corpo. Foram

Marcia Eliane Lorenzoni

63


momentos de brincadeira para nomeá-las e

tateá-las. Na oportunidade, os bebês manusearam

objetos relacionados à higiene corporal,

elas os exploraram e brincaram com eles.

Ampliar as possibilidades da criança cuidar

e ser cuidada, de se expressar, comunicar e

criar, de organizar pensamentos e ideias, de

conviver, brincar e trabalhar em grupo, de ter

iniciativa e buscar soluções para os problemas

e conflitos que se apresentam nas mais

diferentes idades” (OLIVEIRA, 2012, p. 34).

Pela motivação observada na participação

das crianças em sala, resolvi planejar um

momento na área externa com atividades

concretas, para que os bebês pudessem explorar

vários materiais de higiene. Segundo

Ostetto (2000), é preciso oferecer espaços

com propostas diferenciadas, situações diversificadas,

que ampliem as possibilidades

de exploração e “pesquisa” infantis. As crianças

realmente ampliam suas possibilidades

de exercitar a autonomia, a liberdade, a iniciativa,

a livre escolha, quando o espaço está

adequadamente organizado.

Para a vivência, organizei um espaço com

vários bonecos desnudos, bacias coloridas

com a água, mini sabonetes e xampus, toalhas

e escova corporal. A princípio, eles posaram

para foto e escutaram atentamente as

orientações dadas pela professora. Depois,

gradativamente, o grupo de crianças foi manipulando

os materiais, uns com menos interesses,

outros com mais.

molhassem muito, afinal estamos iniciando

o inverno, foram confeccionados aventais

de napa ilustrativos com desenhos relacionados

à higiene, bem como touca de banho.

“Assegurar às crianças a manifestação de

seus interesses, desejos, e curiosidades ao

participar das práticas educativas; apoiar a

conquista pelas crianças de autonomia na

escolha de brincadeiras e de atividades e

para a realização de cuidados pessoais diários”

(OLIVEIRA, 2012, p. 34).

Dando continuidade à essa vivência, com auxílio

de uma arcada dentária feita com garrafa

pet e isopor em tamanho gigante, com

a escova de dentes, fui fazendo demonstração

sobre os movimentos corretos utilizados

para escovar os dentes. Em seguida, cada

criança recebeu uma escova com creme

dental para escovar os dentes dos bonecos.

Foi um momento de encantamento, pois alguns

escovaram os seus próprios dentes, outros

seguiram as orientações e escovaram os

dentes do boneco. O interessante foi perceber

que, em ambas as situações, as crianças

já souberam relacionar objeto e função. Foi

gratificante observar a interação dos bebês

nas atividades propostas e perceber a riqueza

de estar e pertencer ao universo da Educação

Infantil.

As atividades realizadas foram motivo de

grande satisfação profissional ao perceber o

envolvimento e o aprendizado das crianças.

Todo o tempo participamos, orientando e ensinando

para que servia cada material utilizado

e também nomeando as partes do corpo.

Ramos (apud FORTUNA, 2003) diz que a

brincadeira não deve ser uma atividade tão

“largada” que dispense o educador, nem tão

dirigida que deixe de ser brincadeira. Entendemos

que a ação do educador é fundamental

no processo denominado brincadeira,

pois a sua intermediação poderá ser requisitada

a qualquer momento, seja para incentivar

ou para moderar as atividades. Houve

crianças que superaram nossas expectativas,

pois pareciam já saber que o xampu era

para colocar na cabeça e, antes mesmo da

orientação, passavam o sabonete no corpo

do boneco. Após o banho, elas receberam

a toalha e, com auxílio, o secaram. Pensando

no cuidado para que as crianças não se

64 Meu corpinho vou cuidar chuá, chuá, o banho vai começar


Muitas foram as situações de aprendizagem

observadas durante a realização do presente

trabalho. Entre elas, podemos destacar

que muitas crianças já identificam as partes

do corpo, sabem até apontá-las e alguns até

balbuciam o nome. A participação no momento

da literatura e a compreensão dos

bebês na interação com os fantoches foram

pontos muito positivos, pois eles interagiam

com os fantoches apontando com os dedos

as partes do corpo. O envolvimento no momento

da música fez com que as crianças

a acompanhassem dançando no ritmo dela

e fazendo movimentos harmoniosos relacionados

à letra da canção e ao meu movimento,

visto que, nesse momento, me permiti

dançar com eles. Percebemos o entusiasmo

dos pequenos em participar da atividade

do banho dos bonecos, pois somente uma

criança se dispersou e foi brincar no parque.

Eles adoraram mexer na água e sabiam que

ao balançar a mão espuma se formava. Foi

uma festa só, um borbulhar constante. Aqui

reforçamos o que as diretrizes nacionais e

municipais e outros estudos referentes ao

aprendizado de crianças já vem apontando,

pois atividades diferentes realmente prendem

a atenção e de forma envolvente e lúdica

beneficiam a aprendizagem.

Enfim, a higiene corporal é essencial. Destacamos,

assim, por meio deste trabalho, a necessidade

de as crianças serem beneficiadas

e orientadas desde cedo sobre a importância

do cuidado com o corpo como um todo

para que percebam que seu corpo é feito de

“vida” e que ele merece carinho e cuidados

especiais.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria

de Educação Básica. Diretrizes curriculares

nacionais para a educação infantil. Brasília:

MEC, SEB, 2009.

FORTUNA, T. R. O brincar na educação infantil.

Revista Pátio – Educação Infantil, ano

1, n. 3, dez. 2003.

MÓYLES, J. R. A excelência do brincar. Porto

Alegre: Artmed, 2006.

OLIVEIRA, Z. R. de. Educação Infantil: fundamentos

e métodos. São Paulo: Cortez, 2002.

OLIVEIRA, Z. R. de. O trabalho do professor

na Educação Infantil. São Paulo: Biruta,

2012.

OSTETTO, L. E. Encontros e encantamento

na educação infantil. São Paulo: Papirus,

2000.

SOMMERHALDER, A.; ALVES, F. D. Jogo e

a educação da infância: muito prazer em

aprender. Paraná: CRV, 2011.

Marcia Eliane Lorenzoni

65


66

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Interagindo

com a

Diversidade

O Maracatu dentro

de uma unidade de

educação infantil

Rodrigo Zapparoli

Trabalhar a temática da diversidade na educação

infantil através do profissional de

educação física é uma rica possibilidade de

construir novos saberes.

Existe por parte do profissional a preocupação

com a questão do respeito a diversidade

cultural, haja vista que as crianças estão

se constituindo enquanto cidadãos. BASEI

(2008) enfatiza:

A escola infantil e, portanto, conforme nossa

compreensão, um lugar de descobertas e

de ampliação das experiências individuais,

culturais, sociais e educativas, através da


inserção da criança em ambientes distintos

dos da família. Um espaço e um tempo em

que sejam integrados o desenvolvimento da

criança, seu mundo de vida, sua subjetividade,

com os contextos sociais e culturais que

a envolvem através das inúmeras experiências

que ela deve ter a oportunidade estimulo

de vivências nesse espaço de formação.

Concebi o momento da Kizomba como uma

rica oportunidade para desenvolver um trabalho

que abarcasse tanto o desenvolvimento

infantil, como suas questões sociais e

também legais.

Um dos objetivos fundamentais da República

Federativa do Brasil: “Promover o bem

de todos, sem preconceito de origem, raça,

sexo, cor, idade e quaisquer outras formas

de discriminação” (CRFB/88. Art. 3º inciso

IV). Vê-se que a exploração do tema da

igualdade envolve questões éticas, respeito

ao próximo e atenção aos direitos humanos.

Através da Lei nº 10.639 de 09 de janeiro

de 2003 e da Lei nº 11.654 de 10 de março

de 2008, as Diretrizes e Bases da Educação

Nacional (Lei nº 9.394/96), foi acrescida da

obrigatoriedade da inclusão da temática

“História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena

no currículo oficial das redes de ensino,

como destacado no Plano Municipal de Promoção

da Igualdade Racial de Itajaí. Diante

do exposto acima e também de um grupo

formado por várias crianças, familiares e

também profissionais, ascendentes da cultura

afro-brasileira como é o caso do nosso

CEI, se torna fundamental trabalharmos essa

temática por todos os profissionais.

A preocupação dos educadores no intuito

de promover a igualdade de oportunidades,

bem como a valorização das semelhanças e

diferenças, permite que as crianças se sintam

bem, inseridas no ambiente escolar. A

felicidade e o bem-estar da criança favorecem

o seu desenvolvimento integral de forma

saudável.

Tivemos como objetivos a serem atingidos

nesse projeto, sensibilizar as crianças, bem

como a comunidade escolar sobre a importância

da promoção da igualdade racial, em

conformidade à Lei 12.288/2010, artigo 11 e

seguintes que asseguram o direito a igualdade

racial de condições de vida e cidadania,

assim como, garante igual direito às histórias

e cultura que compõem a nação brasileira,

além do direito de acesso de diferentes

fontes da cultura nacional. De forma a vivenciar

a diversidade cultural através dos grupos

oriundos de uma comunidade quilombola,

estimular o desenvolvimento das crianças

por intermédio de brincadeiras de origem

africana; estimular o desenvolvimento motor

da criança por intermédio da música e da

dança, Sociabilizar as diferentes faixas etárias

durante as atividades culturais.

Ao receber da gestora da unidade em reunião

com os demais professores, as orientações

sobre a Kizomba (Projeto Institucional)

para constituirmos nosso Plano de Ação,

percebi uma oportunidade de planejar algo

diferente e proveitoso para todo o grupo que

fosse além as atividades envolvendo movimentos.

Foram realizadas durante todo mês de agosto,

brincadeiras de origens africanas com a

turma do Jardim I, dentre elas: TERRA-MAR

de Moçambique, esta é uma variação da

brincadeira morto-vivo. Brincadeiras de correr:

PEGUE A CAUDA, da Nigéria, uma variação

da brincadeira pega rabinho, mas esse

feito em equipes e as crianças devem ser

colocadas em fileira segurando pelo ombro

ou cintura e apenas o último da fila que possui

a cauda. Brincadeiras de saltar: SALTAN-

DO O FEIJÃO, da Nigéria, um círculo é realizado

com as crianças e o professor fica no

meio, rodando uma corda rente ao chão e as

crianças devem saltar sobre a corda, quem

for atingido sai da roda; Brincadeiras de lançamentos:

KUDODA, do Zimbábue, nesta é

realizado um círculo com corda, colocamos

diversas bolas pequenas dentro e as crianças

deveriam utilizar uma bola maior com o

objetivo de tirar as menores de dentro do círculo;

GUTERA URIZIGA, da Angola tem como

objetivo jogar lanças dentro de um círculo,

bambolê. Para esta atividade fizemos uma

oficina de lanças feitas de jornal e depois

fomos aumentando a dificuldade ao fazer o

lançamento, rolando o bambolê pelo chão e

as crianças tendo que acertar o bambolê em

movimento. Todas estas brincadeiras foram

realizadas pelas crianças do Jardim I, que de

forma gradativa compreendeu suas regras.

Brincadeiras cantadas também foram realizadas,

dentre elas: SI MAMMA KAA, da Tan-

68 Interagindo com a Diversidade


zânia, que é cantada em roda seguindo as

instruções da música, SI MAMMA que significa

ficar parado em pé e KAA significa abaixar;

RUKA significa pular; TEMBEA significa

andar e KIMBIA significa correr. Essa atividade

em si, a professora da turma do Jardim

I comentou que as crianças continuaram

brincando em sala de aula e também no parque.

Foram momentos de ricos estímulos entre

as crianças.

O professor de Educação Física em parceria

com a professora do Jardim I confeccionaram

juntamente com os familiares pipas,

petecas, chocalhos (caxixis) utilizando materiais

reciclados. Foi uma atividade muito

rica que favoreceu o resgate cultural na Noite

da Família que aconteceu no CEI dia 25

de agosto. As crianças gostaram de ter seus

pais/mães junto a elas realizando atividades.

Em culminância a temática: Interagindo com

a diversidade, foram também convidados os

dois grupos para realizar apresentação cultural

para as crianças. Como eu já conhecia

o grupo Maracatu do Quilombo do Morro do

Boi, busquei contato com os integrantes do

grupo. Em uma breve conversa, expliquei o

motivo do contato e a proposta do trabalho

com a visita do grupo de Maracatu em nosso

CEI. A apresentação destes favorecerá o

resgate folclórico, cultural e étnico, devido

à origem do grupo ser de uma comunidade

ascendente de escravos.

Definimos nós do CEI, professores e gestores,

em parceria com os representantes dos grupos

que a atividade, seria uma apresentação,

primeiramente dos integrantes dos grupos,

para uma familiarização das crianças com

eles, após isso seria feito uma apresentação

dos instrumentos musicais utilizados, falando

seus devidos nomes e demonstrando os

sons reproduzidos por eles, bem como qual

era o som base de cada instrumento especificamente

para o Maracatu e por fim eles

fariam uma apresentação das musicas populares

do maracatu com sua dança típica.

Os integrantes do grupo Encantos do Sul e

Quilombo Morro do Boi chegaram, as crianças

já os aguardavam ansiosas e curiosas.

Foi somente o tempo de organizar os instrumentos

musicais, as vestimentas das dançarinas

para iniciar a apresentação. Eu também

estava ansioso e até certo ponto receoso,

pois o Maracatu é um ritmo contagiante,

mas com uma percussão bastante forte. Fiquei

com medo das crianças se assustarem

com o barulho dos tambores, principalmente

os menores do berçário.

Tudo pronto, iniciou-se conforme o combinado.

Logo de início, ao apresentarem os instrumentos

musicais, as crianças já começaram

a ficar mais agitadas e empolgadas, algumas

ficaram realmente um pouco assustadas,

principalmente com o timbre dos tambores,

chamados por eles de alfaias. Este possui um

timbre grave de volume alto, mas aos poucos

as crianças foram se acostumando.

O integrante foi bastante didático nessa

hora de ensinar as canções, cantou os refrões

das músicas com as crianças e elas

adoraram participar e interagir. A festa realmente

ficou divertida quando se iniciou a

música, que foi tocada e cantada com toda

a sua energia. O ritmo contagiante, a dança

e a alegria envolveram a todos, crianças, professores,

agentes, gestora e supervisora.

As crianças tinham um sorriso fácil no rosto,

a batida da música fazia com que nossos

corpos se mexessem mesmo sem querer, era

impossível ficarmos parados, foi visível a felicidade

de todos durante a apresentação,

nem mesmos os bebes choraram, prestavam

muita atenção. Tudo isso registrado pelas

lentes da RIS Record que ainda entrevistou

a mim, a gestora da Unidade, os integrantes

do grupo Encantos do Sul e da Comunidade

Quilombola Morro do boi. Fomos notícia no

Jornal do Meio-dia da Record no sábado dia

29 de agosto, o que deixou a todos do CEI

muito contentes.

Finalizamos esta experiência com chave de

ouro, já que o mesmo foi um sucesso entre

os profissionais do CEI, com a colaboração

de todos. Deixo aqui minha gratidão a todos

os envolvidos que dispuseram um pouco da

sua dedicação e tempo para que pudéssemos

tornar realidade esta vivência positiva e

enriquecedora para nossas crianças. As exposições

acima, demonstraram que o profissional

de Educação Física pode enriquecer

e muito o aprendizado das crianças no que

tange aos valores morais, éticos e culturais,

bem como seus aspectos motores.

Rodrigo Zapparoli

69


Referências

BASEI, Andreia Paula. A Educação Física na

Educação Infantil: a importância do movimentar-se

e suas contribuições no desenvolvimento

da criança. Revista Iberoamericana

de Educacion n°47/3 outubro de 2008.

BRASIL. Constituição da República Federativa

do Brasil, 1988.

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais

Gerais da Educação Básica, MEC, SEB, DICEI,

2013.

BRASIL. Plano nacional de implementação

das diretrizes curriculares nacionais para

educação das relações étnico-raciais e para

o ensino de história e cultura afro-brasileira

e africana. MEC, SECADI, 2013.

Brasil. Secretaria de Educação Fundamental.

Parâmetros curriculares nacionais: Educação

física / Secretaria de Educação Fundamental

– Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível

em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/

pdf/livro07.pdf> Acessado em: 18/09/2015.

70 Interagindo com a Diversidade


Rodrigo Zapparoli

71


72

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

O corpo fala:

bRINCADEIRAS

COM TECIDOS

Morgana Lorenceti Brasil

A Educação Física tem um papel fundamental

no processo de desenvolvimento e de

aprendizagem da criança. Por meio de jogos,

brincadeiras, atividades lúdicas e interações,

a Educação Física é responsável pelo desenvolvimento

da criança em todos os aspectos:

motor, cognitivo, social-afetivo, proporcionando

um aprendizado integral de forma

lúdica e significativa. Dessa forma, a Educação

Física é importante nessa etapa da Educação

Infantil, pois, por meio da linguagem

corporal, a criança descobre possibilidades,

experimenta e explora o mundo.

Com a formação continuada, eu, professora

de Educação Física da Rede Municipal de

Educação de Itajaí, tive a oportunidade de

conhecer sobre Psicomotricidade Relacional,

método de mediação corporal criado pelos

professores André Lapierre e Anne Lapierre.

Nosso objetivo em psicomotricidade relacional

é o de detectar, na medida do possível,

os sentimentos conflituais reprimidos no


inconsciente que provocam perturbações

na vida afetiva e relacional da criança. Esses

sentimentos se expressam espontaneamente

no jogo, e de maneira mais autêntica se o

adulto o favorece, entrando ele também no

jogo não-verbal. Desse modo, dirige-se diretamente

ao inconsciente da criança. As verbalizações

do adulto constituiriam, neste caso,

uma ruptura nesse nível de comunicação.

(LAPIERRE; LAPIERRE, 2002, p. 107-108).

A Psicomotricidade Relacional tem colaborado

para a minha prática do dia-dia, pois,

mesmo não tendo olhar técnico e não sendo

profissional da Psicomotricidade Relacional,

observei que alguns materiais já eram explorados

pelas crianças nas minhas aulas de

forma lúdica e com outros objetivos. Assim,

fui percebendo que o valor simbólico dessas

vivências é muito importante para o desenvolvimento

global das crianças.

Resolvi, dessa forma, realizar uma atividade

com meus grupos do Maternal Misto e Maternal

I: brincadeiras com tecidos. Essa atividade

eu ainda não havia vivenciado em minhas

aulas. Após muita observação durante

as aulas, o grupo Maternal Misto foi escolhido.

A maioria desse grupo, além de ingressar

pela primeira vez no Centro de Educação Infantil,

apresentava dificuldade no período de

adaptação, pois ele passou, também, por troca

de professoras da sala. Decorrente dessas

situações, eu resolvi fazer essa atividade

com o intuito de conhecer um pouco mais

de cada criança e de como elas estavam se

sentindo naquele momento. Por meio das

brincadeiras, estimulei a criatividade, a afetividade

e as interações. Após realizar a atividade

com o grupo Maternal Misto, percebi o

sucesso da aula e suas múltiplas vivências, e

então apliquei a proposta com o Maternal I.

As brincadeiras livres com algum tipo de material,

no caso aqui os tecidos, possibilitam

expressividades que podem ser observadas

pelo professor, proporcionam a interação e

um brincar que estimula o desenvolvimento

global das crianças.

O objetivo geral desse projeto foi desenvolver

a criança em todos os aspectos: cognitivo,

motor social e afetivo, por meio da linguagem

corporal, possibilitando momentos

de interações e brincadeiras em um mundo

de faz de conta.

74 O corpo fala


Brincadeiras livres com tecidos

Para colocar em ação meu planejamento,

procurei ter mais proximidade com as crianças

e, assim, realizei uma brincadeira “adaptada”:

brincadeiras livres com tecidos. Como

eu não tinha tecidos grandes e nem lençóis,

como sugere os livros, utilizei TNT de diversas

cores e tamanhos. Essa ação foi realizada

com os grupos Maternal Misto e Maternal

I, idade entre dois e três anos.

Tive de conseguir o TNT. Com a parceria do

CEI, consegui alguns que já tínhamos na creche

e outros eu comprei, pois, como se trata

de um material muito acessível e rico para

novas criações, é interessante tê-lo como

material pedagógico. Em seguida, cortei o

TNT em diversos tamanhos e diferentes formas

para estimular a criatividade e a fantasia.

Organizei um espaço que conseguiria

realizar a atividade com segurança e sucesso.

O primeiro momento foi realizado com

o grupo Maternal Misto, composto por 25

crianças. O espaço organizado foi no corredor,

em frente à sala do grupo. Criei um espaço

muito legal para desenvolver a atividade,

colocando tapetes, amarrando as pontas de

um dos TNTs nos pilares, deixando o espaço

organizado e acolhedor. Eu tinha 30 minutos

para realizar essa aula.

Iniciei a aula conversando com o grupo sobre

a atividade que iria acontecer. Expliquei

que a brincadeira era livre, que eles iriam utilizar

a imaginação e que eles poderiam criar

as brincadeiras que quisessem. Mencionei,

ainda, que eu e a Agente de atividade em

educação também brincaríamos com eles,

e, aos poucos, fomos colocando os TNTs em

volta do grupo. Eles ficaram encantados

com aquele material colorido e diferente em

volta deles. Seus olhos brilhavam e foi interessante

observar a reação de cada um que,

aos poucos, foram se levantado e pegando o

material. A princípio fiquei ansiosa, pois não

sabia qual seria a reação deles e nem se a

atividade funcionaria como planejado.

Então, as crianças foram interagindo com o

material com muita calma e paciência, o que

chamou muita a minha atenção. Elas interagiram

umas com as outras, criaram, imaginaram,

cada uma do seu jeito. Umas preferiram

brincar sozinhas, outras interagiram com o

grupo, e outras com a Agente de atividade

Morgana Lorenceti Brasil

75


em educação e comigo também. Ainda assim,

tiveram algumas crianças que preferiram

só observar e não tiveram contato com

o material. Foram poucas, pois a maioria se

envolveu na brincadeira. Durante a ação,

observei e registrei os momentos, depois

troquei com a agente, e fui brincar com as

crianças, e a agente observou e registrou.

Os gestos de uma criança podem refletir seu

estado emocional. Quando os movimentos

são acanhados, transmitem inibição; e quando

seus movimentos se mostram expansivos,

podem ser traduzidos como euforia, conquista

e satisfação. Assim, podemos dizer

que o corpo é a via de acesso ao emocional.

(NISTA-PICCOLO; MOREIRA, 2012, p. 37).

Com o sucesso das ações nesse grupo, resolvi

realizar a mesma atividade com o grupo

do Maternal I composto por 20 crianças, pois

fiquei ansiosa para observar a reação de outro

grupo. Essa aula foi realizada dentro de

sala. Realizei o mesmo processo com esse

grupo. Conversei sobre a atividade e eles ficaram

bem interessados e ansiosos. Entreguei

o material e tudo pareceu mágico. Com

muita calma, as crianças foram pegando os

tecidos coloridos, cada um escolhendo a cor

e os tamanhos diferentes. De início, comecei

a observar a afetividade de alguns que

promoveu um momento muito agradável de

cuidado um com o outro, desde fazer dormir,

estender a coberta sobre o outro, pois estava

frio, fazer vestidos, roupas, deitar-se sobre

a cama, até rolavam sobre os tecidos. Alguns

preferiram observar e não quiseram se

envolver. “Colocar à disposição das crianças

ou dos adultos diferentes tipos de objetos e

observar a forma que eles os utilizam, como

eles investem progressivamente, é, com efeito,

muito rico em ensinamentos”. (LAPIER-

RE; AUCOUTURIER, 1986, p. 16).

Momentos de afetividade e interações

Uma brincadeira simples e de grande valor

simbólico. Os bebês se envolveram e apresentaram

vários comportamentos, expressões

e criaram brincadeiras onde o mundo

do faz de conta parecia ser real diante de

76 O corpo fala


tantas emoções e interações. Uma brincadeira

muito interessante que proporcionou

um momento agradável para os bebês, o qual

o corpo é quem fala e se expressa. A brincadeira

durou cerca de 30 minutos, até mesmo

porque teríamos de dar continuidade às

rotinas de aprendizagens, mas acredito que

poderia ter se estendido, pois as crianças estavam

muitos envolvidas.

O brincar espontâneo abre a possibilidade de

observar e escutar as crianças nas suas linguagens

expressivas mais autênticas. Esse

brincar incentiva a criatividade e constitui

um dos meios essenciais de estimular o desenvolvimento

Infantil e as diversas aprendizagens.

(FRIEDMANN, 2012, p. 47).

Não tenho conhecimento técnico para avaliar

cada comportamento, porém, de acordo

com a minha experiência de professora

de Educação Física, pude observar a grandiosidade

de uma simples brincadeira, as

expressividades do grupo e até mesmo as

individuais. Perceber o quanto os bebês se

envolveram na atividade que abriu espaço

para jogos, fantasias, aniversários, rei, rainha,

entre outros. O valor simbólico nessas

brincadeiras desenvolveu a criança num

todo, pois todos os aspectos estavam envolvidos,

estimulou a criatividade e possibilitou

momentos de afetividade e interações.

Referências

FRIEDMANN, A. O brincar na Educação Infantil:

observação, adequação e inclusão.

São Paulo, Moderna, 2012.

LAPIERRE, A.; LAPIERRE, A. O Adulto diante

da criança de 0 a 3 anos: psicomotricidade

relacional e formação da personalidade. 2.

ed. Curitiba: UFPR, 2002.

LAPIERRE, A.; AUCOUTURIER, B. A simbologia

do movimento: psicomotricidade e educação.

Porto Alegre: Artes médicas, 1986.

NISTA-PICCOLO, V.; MOREIRA, W. W. Corpo

em movimento na Educação Infantil. Rio de

Janeiro: Telos, 2012.

Morgana Lorenceti Brasil

77


78

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Aprendendo

as diferenças

por meio

do esporte

Fayola Daiane Bueno da Silva

Ao educar a criança por meio da prática esportiva,

na Educação Infantil, almeja-se difundir

e reforçar a construção dos valores de

cidadania. Esse valor está intrinsecamente

ligado à construção de um mundo melhor e

mais pacífico, livre de qualquer tipo de discriminação.

O entendimento da diversidade

humana possibilita dentro do espírito de

compreensão mútua: fraternidade, solidariedade,

cultura de paz e fair-play (jogo limpo).

Por intermédio das atividades desportivas,

crianças constroem seus valores, seus conceitos,

socializam-se e, principalmente, vivem

a realidade (BRASIL, 1997).

O esporte como um direito de todos está

comprometido em promover as novas gerações

um caminho estratégico para conciliar

a transformação produtiva e a justiça social

como pré-condição para desenvolvimento

humano pleno. Assim, apropriando-se do esporte

como um importante instrumento de

educação, vindo ao encontro das atividades


da XII Semana da Pessoa com Deficiência do

Município de Itajaí, o Projeto: Aprendendo as

diferenças por meio do esporte, apresentou

para as crianças as modalidades paradesportivas,

acreditando que é, desde pequeno,

que se ensina e se aprende a respeitar as diferenças.

O objetivo do projeto foi oportunizar e apresentar

às crianças pequenas o esporte paralímpico

em sua totalidade, as diferentes modalidades,

as deficiências dos atletas (físicas, visuais, intelectuais,

auditivas e síndromes), e suas especificidades.

Além de contribuir para o desenvolvimento

da criança como ser social, autônomo,

democrático e participante, estimulando o pleno

exercício da cidadania por intermédio do esporte,

despertando o senso crítico de respeito e

igualdade perante as diferenças, desenvolvendo

valores, promovendo o respeito, sentimento

de acesso de igualdade na prática do desporto

e a percepção das diferenças.

Quando a criança brinca, ela descobre e (re)

significa o mundo, experimenta novos papéis

sociais, sensações, coopera, cria, imagina e se

expressa. Baseado nessa premissa, Kishimoto

aponta que:

O brincar é uma atividade principal do dia a dia.

É importante porque dá o poder à criança para

tomar decisões, expressar sentimentos e valores,

conhecer a si, os outros e o mundo, repetir

ações prazerosas partilhar brincadeiras com o

outro, expressar sua individualidade e identidade,

explorar o mundo dos objetos, das pessoas,

da natureza e da cultura para compreendê-lo,

usar o corpo, os sentidos, os movimentos, as

várias linguagens para experimentar situações

que lhe chamam a atenção, solucionar problema

e criar. (KISHIMOTO, 2010, p. 1).

Primeiro passo

A metodologia aplicada para o desenvolvimento

deste projeto foi pensada de maneira

que realmente as crianças pudessem aprender

de forma clara e simples, apropriando-se

em todos os momentos da ludicidade e do

brincar.

No início da primeira semana, organizamos

uma roda de conversa relatando sobre as

deficiências: o que é, por que a pessoa tem

80 Aprendendo as diferenças por meio do esporte


deficiência, quais os tipos, quais as diferenças.

Observei que a grande maioria desconhecia

completamente o tema. Escutaram com atenção

as explicações e as exemplificações dadas.

A surpresa

Logo após, as crianças souberam que, mesmo

com deficiências, algumas dessas pessoas

praticavam esportes em diversas modalidades

que elas já conheciam como: atletismo,

futebol, vôlei, natação, basquete, mas com

adaptações, ou seja, atletismo (corridas com

olhos vendados, saltos com uma perna), futebol

para cegos (com os olhos vendados),

voleibol sentado (pessoas saindo das cadeiras

de rodas e sentando no chão para jogar),

natação (sem os braços), basquetebol em

cadeira de rodas. E também esportes que

elas nunca viram como o bocha paralímpica

(crianças jogando sentadas na cadeira de

rodas com os movimentos comprometidos),

paraciclismo. Após essa conversa, as crianças

puderam visualizar tudo por meio dedeos

e imagens institucionais de paratletas

praticando as diversas modalidades paradesportivas.

Praticando no CEI

Na segunda semana, por meio de jogos e

brincadeiras, os alunos vivenciaram na prática

alguns esportes adaptados como:

Atletismo: Corrida às cegas – nessa atividade,

as crianças experimentaram a corrida

para cegos. Individualmente, as crianças foram

vendadas e em três etapas realizaram

a atividade: 1) ao sinal da Agente de Educação,

elas corriam conduzidas pela professora

um percurso de quinze metros; 2) sozinhos

tinham que correr até o som (palmas) realizado

pela professora; 3) uma criança sem a

venda conduzia o amigo vendado.

Futebol de 5 (para pessoas com deficiência

visual): Futebolzinho – com os olhos vendados,

a criança conduzia a bola até o gol (uma

vez com os pés e outra com as mãos), elas

eram direcionadas pelo som emitido pela

professora ou pela agente, posicionada atrás

do gol.

Fayola Daiane Bueno da Silva

81


Voleibol sentado: Sem Cair – sentadas no

chão, divididas em duas turmas, as crianças

tinham de, sem levantar o bumbum do chão,

passar a bola por cima da rede, para o outro

lado, porém, antes, a bola tinha que passar

na mão de todos os amigos.

Vivenciando com paratletas

A primeira vivência foi realizada com paratletas

da Associação de Deficientes Visuais de

Itajaí e Região (ADVIR). Na modalidade atletismo,

um paratleta juntamente ao seu cão-guia

(este que foi a maior atração para as crianças),

falou das provas em que participava e da ajuda

de seu cão no seu dia-a-dia. As crianças fizeram

muitas perguntas, como, por exemplo:

“Como você toma banho”, “Como o seu cão

te auxilia nos treinamentos?”. Na sequência,

um atleta do paraciclismo foi apresentado,

que levou sua bicicleta de competição. Após

contar sua história, ele deu uma volta com sua

bicicleta, sendo observado atentamente pelas

crianças. Também tiveram a oportunidade de

conhecer o tabuleiro de xadrez adaptado e a

bola com guizo onde jogamos o gooalbol.

A segunda vivência foi com um paratleta do

Bocha Paralímpica, da Associação de Pais e

Amigos das Pessoas com Deficiência (AFADE-

FI) de Balneário Camboriú e com um funcionário

cadeirante da prefeitura municipal de

Itajaí. Em uma quadra de bocha, feita com fitas

adesivas brancas, o paratleta, mesmo com

a fala e os movimentos comprometidos pela

paralisia cerebral, usuário de cadeira de rodas,

interagiu com as crianças, contando sua história

de vida, sua trajetória no esporte e os benefícios

que este trouxe para sua vida. Ele ainda

jogou com as crianças. Mais uma vez foi muito

prazeroso ver as crianças envolverem-se e

sensibilizarem-se com o paratleta, curiosas e

atentas, divertindo-se e aprendendo.

Chegando ao fim

Na última semana, levei alguns filmes e desenhos

infantis que apresentavam crianças com

82 Aprendendo as diferenças por meio do esporte


deficiência na escola. As crianças assistiram e

identificaram os tipos de deficiências e perceberam

que na sua instituição também há crianças

com deficiência.

Ao avaliar cada etapa realizada deste projeto,

constatei, por meio dos olhares curiosos

e interessados, das atitudes, das falas,

as formas como os alunos se portavam e se

expressavam diante desse novo assunto.

Desde o início, compreendi que, por serem

tão pequenos, não iriam entender completamente

o que é ter uma deficiência, mas o

maior objetivo foi disseminar este sentimento

de compreensão e solidariedade pela diferença

dos outros, e que levassem por toda

a vida esse sentimento de amor e respeito

ao próximo.

O término do projeto foi prazeroso, porque

aprendi a não subestimar a inteligência das

crianças, observando o reflexo da aprendizagem

em seu desenvolvimento e nas suas

atitudes. Com o Projeto “Aprendendo as diferenças

por meio do esporte”, conclui que

o professor deve contribuir para a formação

integral das crianças, possibilitando mudanças

e reflexões para que sejam críticos e autônomos,

capazes de viver em sociedade livres

de preconceitos e capazes de respeitar

a todos sem diferença.

Referências

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental.

Parâmetros curriculares nacionais: introdução

aos parâmetros curriculares nacionais.

Brasília: MEC/SEF, 1997.

KISHIMOTO, T. M. Brinquedo e brincadeiras

na educação infantil. SEMINÁRIO NACIO-

NAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO, Perspectivas

Atuais, 1., Belo Horizonte, 2010. Anais

eletrônicos...Belo Horizonte: CENPEC, 2010.

Disponível em: .

Acesso em: 8 jul. 2016.

Fayola Daiane Bueno da Silva

83


84

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Brincando de

Lanchonete!

Jorge Luís da Silva

A Educação Infantil evoluiu muito nos últimos

anos. Assim sendo, é preciso repensar

práticas e ações para garantir experiências

que valorizem a aprendizagem no espaço

coletivo. Momentos importantes da rotina,

que na minha prática de professor de Educação

Física vem me desafiando, são o planejamento

e a prática no momento da alimentação.

“A alimentação é o momento importante

para a nutrição da criança e aprendizagens

relacionadas ao desenvolvimento da motricidade

fina no manuseio dos utensílios nas

refeições” (ITAJAÍ, 2015, p. 48.)

Com um olhar atento e observando as especificidades

da rotina da alimentação, constatei

que as crianças deixavam cair seus

pratos com frequência, muitas vezes por

falta de atenção, pela coordenação motora

precoce ou pela falta de percepção espacial.

Para algumas turmas, era uma novidade; no

entanto, as crianças apresentavam uma certa

insegurança. Objetivando avanços nesse

aspecto, desenvolvi atividades de equilíbrio,

de lateralidade e de noção espacial. Estas

possibilitaram que as crianças percebessem

o espaço a sua volta e começassem a executar

seus trajetos com mais segurança e

destreza.


As atividades: simular para estimular

Tendo como base a percepção espacial, o

equilíbrio e a coordenação motora ampla,

executamos brincadeiras simulando lanchonetes

e restaurantes, em que as crianças se

serviram e levaram os pratos à sua mesa.

Pelo seu trajeto, passaram por alguns obstáculos

como cones ou arcos (bambolês). As

atividades foram dinâmicas e estimuladoras,

instigando os alunos a não deixarem as bolinhas

caírem do seu prato e percorrerem caminhos

que simulavam portas de restaurante

e obstáculos, como mesas apresentando

graus diferentes de complexidade.

Com essa proposta, diversas áreas do conhecimento

foram estimuladas, como o trabalho

com quantidades, texturas, tamanhos, pesos

e cores. Os diferentes modos de manuseio de

uma criança para outra foram observados:

segurar o prato por baixo nas laterais, com

uma das mãos, com o auxílio dos braços...

A aprendizagem depende em grande parte

da motivação: as necessidades e os interesses

das crianças são mais importantes que

qualquer outra razão para que elas se dediquem

a uma atividade. Ser esperta, independente,

curiosa, ter iniciativa e confiança em

sua capacidade de construir uma ideia própria

sobre as coisas, assim como expressar

seu pensamento e sentimentos com convicção,

são características inerentes à personalidade

integral da criança. (FRIEDMANN,

1996, p. 45).

A atividade foi executada de forma lúdica,

sendo repetida algumas vezes em um período

de dois meses. Almejou-se que a criança

conseguisse assimilar as habilidades e os

conteúdos propostos pelo professor e, assim,

conseguir adquiri-las, pois são necessárias

para seu desenvolvimento na rotina da

alimentação.

Com muita alegria e entusiasmo, as crianças

manuseavam seus pratos e equilibravam

dentro deles diversas bolas de variados tamanhos.

As crianças incorporaram as personagens

e se sentiram os garçons mais importantes

do momento. De acordo com as Diretrizes

Curriculares Nacionais, a criança é:

86 Brincando de Lanchonete!


[...] o centro do planejamento curricular, é

sujeito histórico e de direitos que, nas interações,

relações e práticas cotidianas que

vivência, constrói sua identidade pessoal e

coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja,

aprende, observa, experimenta, narra, questiona

e constrói sentidos sobre a natureza

e a sociedade, produzindo cultura. (BRASIL,

2009, p. 97).

As contribuições

Foi notável a evolução das crianças em relação

às habilidades motoras, principalmente

nos aspectos de noção espacial e coordenação

motora ampla. Notável também a aceitação

e a alegria nos momentos da execução

das atividades. Para o momento de alimentação,

a atividade contribuiu na questão da

segurança ao caminhar e manusear o prato.

Esse é o reflexo de um trabalho desenvolvido

tendo sempre como objetivo a aprendizagem

e o bem-estar das crianças nas rotinas

com evolução nos aspectos psicomotor, social

e afetivo.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria

de Educação Básica. Diretrizes Curriculares

Nacionais para a Educação Infantil. Brasília:

MEC, SEB, 2009.

FRIEDMAN, A. Brincar, crescer e aprender: o

resgate do jogo infantil. São Paulo: Moderna,

1996.

ITAJAÍ. Centro de Educação Infantil Augusto

Bento de Oliveira. Projeto Político Pedagógico.

Itajaí, 2015.

Jorge Luís da Silva

87


88

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

Quem quer

pedalar põe o

dedo aqui!

Telmo Vieira de Souza

No Centro de Educação Infantil (CEI) é muito

importante a participação da família nos

processos educativos. Cabe ao CEI também

oportunizar, em seu planejamento, momentos

em que a família possa participar diretamente

em suas ações. A Educação Física, na

Educação Infantil, pode ser uma ferramenta

de grande valia para os planejamentos que

envolvam a comunidade escolar. A área tem

plena capacidade de articular ações e processos

que envolvam o corpo, o movimento

e a socialização.

Enfim, temos uma ferramenta que contribui

para o desenvolvimento integral da criança,

permitindo a ela o contato com novas formas

de interações, sem perder o caráter lúdico e

expressivo (GONÇALVES, 2010 p. 313). É preciso,

assim, recuperar esse “tesouro corporal”,

próprio da criança, e auxiliá-la em suas

aprendizagens, oportunizando a aquisição

de algumas competências necessárias ao

seu aprendizado escolar e da vida.

A criança e a sua família devem ser incentivadas

para ter uma melhor qualidade de


90 Quem quer pedalar põe o dedo aqui!


vida, tendo uma vida ativa, saudável, prazerosa

e harmoniosa. A saúde, prazer e equilíbrio

são fundamentais para que as pessoas

vivam bem. Depende fundamentalmente da

prática de hábitos saudáveis ou práticas básicas

de saúde (GUISSELINI, 2004, p. 70).

A prática da atividade física contribui para

que as pessoas tenham uma melhor qualidade

de vida. O andar de bicicleta pode ser

comparado à caminhada ou até mesmo à

corrida. Em um passeio de cerca de 40 minutos,

três vezes por semana, já é possível

dar adeus a diversos problemas decorrentes

do sedentarismo (TAVARES, 2016).

Oportunizar às famílias a participação de atividades

corporais, estabelecendo relações

equilibradas e construtivas com os outros

é um momento privilegiado em um passeio

ciclístico. Reconhecer-se como elemento

integrante do ambiente, adotando hábitos

saudáveis de higiene, de alimentação e de

atividades corporais, relacionando-os com

os efeitos sobre a própria saúde e de melhoria

da saúde coletiva.

Dessa forma, este trabalho tornou público

o passeio ciclístico, tendo como principal

objetivo promover a prática da atividade física

com o uso da bicicleta, atividade esta

que envolve o corpo em movimento para o

desenvolvimento físico-motor, visando uma

melhor qualidade de vida e socialização das

famílias.

O corpo em movimento:

o passeio ciclístico

O desenvolvimento da ação inicial deu-se

com os alunos e seus familiares em frente à

unidade de ensino, recebendo adesivos que

os identificavam, frutas e água. Em seguida,

foi realizado o alongamento com um fundo

musical e solicitado às famílias e seus filhos

que o fizessem juntos. Nessa atividade foi

possível perceber o envolvimento, o entusiasmo

e a alegria de eles participarem de

uma atividade com um grupo tão grande e

muito acolhedor.

Após o alongamento, foram realizadas duas

dinâmicas com o objetivo de socialização.

Foi formado um círculo em frente ao CEI e

todos os participantes de mãos dadas ob-

Telmo Vieira de Souza

91


servaram quem estava ao seu lado direito e

esquerdo. Foi frisado que eles não poderiam

esquecer e nem trocar. Foi pedido a diretora

que se encaminhasse para o centro da roda;

então, ela “puxou” os demais em um trajeto

de caracol, até que ela ficasse no centro e

os demais em seu entorno. Enquanto estava

enrolada, os componentes da fila tinham

de passar por baixo dos demais até que saíssem

totalmente do centro. Todos tinham

que seguir, pois ela estava de mão dada com

o segundo, e assim por diante até passar o

último integrante da fila. Algo interessante

aconteceu, pois o círculo ficou de costas

para o centro. Então, eles tiveram de encontrar

uma forma de voltar para a posição inicial,

em que todos ficassem de frente para o

centro da roda. As famílias tiveram que resolver

esse desafio, que foi conseguido com

as sugestões e/ou orientações dos próprios

componentes da equipe. Foi enfatizado,

nesse momento, a responsabilidade de cada

um dos componentes para que a atividade

obtivesse êxito.

“Massageando o Amigo” foi a segunda dinâmica

realizada. Ao som de uma música

suave, foi solicitado que o grupo formasse

duplas e, depois, cada amigo tinha de fazer

uma massagem no outro. Na sequência, os

agentes de trânsito posicionaram-se em locais

estratégicos, dando total apoio e segurança

aos participantes do passeio ciclístico

e conduzindo os participantes pelas ruas do

bairro.

Os resultados: incentivo,

socialização, bem-estar

Foi muito expressiva a participação das famílias

que estavam muito felizes no evento.

Proporcionar momentos prazerosos e que

possam servir para a adoção de atitudes que

visam o bem-estar e a saúde é um dos objetivos

da equipe do CEI. A ideia do passeio foi

incentivar a prática da atividade física, pois,

na criança, o movimento é o que impulsiona

as significações do aprender. Isso ocorre

porque a criança se apropria daquilo que

pode experimentar corporalmente e o seu

pensamento é construído, inicialmente, por

meio da ação.

Servir como referência para a mudança de

postura na adoção de hábitos saudáveis e

92 Quem quer pedalar põe o dedo aqui!


usufruir da presença das famílias é um dos

eixos que se baseia a Educação Física, que

na socialização um modo de utilizar a linguagem

do movimento para o desenvolvimento

da autonomia e identidade corporal,

por meio da ampliação do conhecimento das

práticas corporais.

A atividade do passeio ciclístico oportunizou,

também, um estreitamento nas relações

entre os profissionais do CEI e as famílias, visando

sempre o bem-estar das crianças. Participar

com os seus amigos e suas famílias

de um passeio ciclístico, além de ampliar o

círculo social das crianças, oportuniza o seu

desenvolvimento biopsicossocial.

Referências

GONÇALVES, F. Psicomotricidade & Educação

Física. São Paulo: Cultura RBL, 2010.

GUISELINI, M. Aptidão física, saúde e bem

-estar: fundamentos teóricos e exercícios

práticos. São Paulo: Phorte, 2004.

TAVARES, L. Conheça sete benefícios de andar

de bicicleta. Minha Vida. Catraca livre.

2016. Disponível em: .

Acesso em: 2 jun. 2016.

Telmo Vieira de Souza

93


94

Práticas de Educação

Física na Educação Infantil

A magia

das cores

sobre o corpo

Leticia Granado

Como principal instrumento de trabalho das

aulas de Educação Física, o corpo passa a

ser visto de outra forma dentro do Centro de

Educação Infantil Nossa Senhora das Graças.

Com o início das aulas dentro da unidade,

no ano de 2014, iniciou-se um novo movimento,

com novas possibilidades - o corpo

passa a ser visto de outras formas, passa a

executar novos movimentos. Quanto maior o

desafio, maior o interesse e satisfação.

Após familiarizarmo-nos e exercitarmo-nos

durante todo o ano, fez-se necessária uma

atividade especial para o encerramento das

aulas de Educação Física, momento que

crianças de 3 a 5 anos participariam, de uma

forma inesquecível, do sentir e do reconhecer

cada parte de seu corpo e exercitariam

suas capacidades de criação. Por meio da

atividade A magia das cores sobre o corpo,

as crianças puderam deixar a imaginação

fluir, transformando-se em tudo o que desejassem.


A magia

Com tinta guache e um espaço na área externa,

desenvolvemos a atividade. Com quatro

cores dispostas para cada aluno, iniciamos

um processo de novas sensações, deslizando

as mãos com tinta pelo corpo, possibilitando

uma experiência diferenciada. Conforme o

Referencial Curricular Nacional para a Educação

Infantil:

A aquisição da consciência dos limites do

próprio corpo é um aspecto importante do

processo de diferenciação do eu e do outro

e da construção da identidade. Por meio das

explorações que faz, do contato físico com

outras pessoas, da observação daqueles

com quem convive, a criança aprende sobre

o mundo, sobre si mesma e comunica-se pela

linguagem corporal. (BRASIL, 1998, p. 5).

A sensação da tinta em contato com o corpo,

a cada movimento das mãos ou dos dedos

pintando, se pintando, descobria-se uma

nova sensação, uma descoberta sobre seu

próprio corpo. Aos poucos as crianças foram

se apropriando e tomando consciência das

dimensões do seu corpo.

Durante a atividade, os alunos puderam fazer

suas escolhas em relação às cores que

gostariam de usar, como e onde pintar seu

próprio corpo. Elas vivenciaram uma prática

diferenciada, ampliaram suas possibilidades

de movimento e controle motor, estimularam

e aprimoraram, assim, o sistema sensório

motor.

Durante o ano de 2014, o foco das aulas de

Educação Física foi o corpo. Tendo como

objetivo principal conhecer esse corpo, aos

poucos os alunos foram se percebendo e as

possíveis possibilidades e formas de utilizar

o próprio corpo para brincar com prazer. A

práxis humana é essa unidade indissolúvel

entre conhecimento e ações sobre o mundo,

o que nos tornam sujeitos com capacidade

de transformação e criação. Transformar o

mundo, expressá-lo e expressar-se são condições

próprias dos seres humanos (FREIRE,

1983).

Foram desenvolvidos vários trabalhos importantes

para que as crianças compreendessem

o corpo como um todo e suas sensações.

Na primeira etapa, confeccionamos

um cartaz com as medidas de todos os colegas,

para que visualizassem a altura de

cada um. Na segunda etapa, desenvolvemos

atividades com foco em movimentos do corpo

com o corpo. Ginástica, massagem, atividades

corporais em grupo. Carregar um

colega e rolar por cima do corpo dos colegas

foram algumas das atividades preferidas

dos grupos. Na terceira etapa, os desafios

só aumentaram. Pilhas de colchões, mesas,

bancos, redes e cordas penduradas e escada

tornaram-se grandes desafios, e cada um

passou a reconhecer e/ou a vencer seus limites.

No entanto, o sorriso e a euforia sempre

estavam presentes durante as aulas.

Durante o ano, pude perceber que o “material

mais mágico” para as crianças, em atividades

de coordenação motora fina, era a tinta

guache. Sempre que trabalhávamos com

ela, em alguma atividade, parecia hipnotizá

-los - a felicidade tomava conta do momento.

Dessa forma, baseada em experiências da

Psicomotricidade Relacional, resolvi aplicar

a atividade do banho de tinta, voltada ao desenvolvimento

de uma consciência corporal.

No início do mês de dezembro de 2014, utilizando

o maior espaço da creche, desenvolvemos

a atividade com duas turmas por vez.

Com uma lona estendida no chão, os alunos

foram colocados sentados, espalhados pelo

espaço. Todos os alunos estavam apenas de

trajes de banho para que pudessem aproveitar

a atividade ao máximo sem se preocupar

com o fato de sujarem-se. Com todos os alunos

acomodados, cada aluno recebeu quatro

cores diferentes de tinta guache dispostas

em copinhos descartáveis. A professora de

Educação Física participou junto aos alunos,

servindo de referência e fazendo o fechamento

dos vínculos já estabelecidos durante

o ano. A curiosidade e a euforia diante dos

copinhos de tinta tomaram conta de todos.

A atividade teve início com a escolha da cor

preferida de cada um, a qual deveria ser passada

na testa, utilizando os dedos. Durante

toda a atividade, utilizamos apenas o corpo

e as tintas. Inicialmente, as perguntas começaram

a aparecer: “Professora, e agora?

Pode passar na perna? E no braço?”.

Começaram assim as obras de arte por todo

o corpo; vários desenhos; várias cores. Alguns

mais tímidos, outros com medo: “Será

96 A magia das cores sobre o corpo


que posso mesmo me sujar?”. Uma colega

precisou da ajuda da professora para entrar

na brincadeira - aos poucos ela se esqueceu

de seus medos e se envolveu com o grupo.

A sensação da tinta em contato com o corpo,

a cada movimento das mãos deslizando,

era uma nova descoberta sobre seu próprio

eu. Aos poucos as crianças foram se apropriando

e tomando consciência das dimensões

do seu corpo.

Os sentidos sensoriais são a porta de entrada

para aprendizagem no corpo humano.

Explorar técnicas que privilegiam o uso dos

sentidos auxilia a captação dos mais diversos

conteúdos. “Maria Montessori defendia

que o caminho do intelecto passa pelas

mãos, porque é por meio do movimento e do

toque que as crianças exploram e decodificam

o mundo ao seu redor. ‘A criança ama

tocar os objetos para depois poder reconhecê-los’,

disse certa vez”. (GOLDSCHMIDT et

al., 2008, s/p).

A todo momento, eles perguntavam se poderia

pintar esta ou aquela parte do corpo.

Cada um se pintou com as cores preferidas,

alguns coloriram cada parte do corpo com

uma cor, outros misturaram todas as cores

e passaram pelo corpo. Cada um com o seu

jeito e preferência. Após colorirem todo o

corpo onde alcançavam, as crianças começaram

a pedir ajuda aos colegas para colorir

as costas. Surgiram, então, vários desenhos.

A criatividade e a imaginação tomaram conta

de todos.

No primeiro momento, cada um desenhou e

coloriu o seu corpo. No segundo momento,

era a hora de estabelecer as parcerias, reforçar

a confiança. Foi o momento de desenhar

no corpo do amigo e disponibilizar-se para o

outro. De acordo com Lapierre e Aucouturier

(2004), o prazer estabelecido com o outro

e o entendimento envolvem, muitas vezes, a

compreensão, a aceitação e o respeito, resultando

na socialização dos indivíduos. Nessa

relação, o outro pode ser encarado como um

instrumento de ajuda nas demais relações.

Após a maioria estar com quase todo o corpo

pintado, as meninas afirmaram para os meninos:

“Não pode pintar o cabelo!”. Eles olharam

para a professora com carinhas cheias

de dúvidas. “Será que não pode? O corpo

não está todo colorido? Então, o cabelo também

faz parte do corpo!”.

Dessa forma, eu escolhi uma das cores e disse:

“O meu cabelo faz parte do meu corpo,

não é?”. Assim, passei a cor azul por algumas

mechas do meu cabelo. Eles ficaram

surpreendidos e tornaram a entrar na brincadeira

novamente, pintando seus cabelos

com uma ou mais cores. As meninas inventaram

maquiagens, penteados e máscaras

exuberantes.

As cores, a alegria e as parcerias estavam

estabelecidas no grande grupo. Era motivo

de festa. Após todas as cores estarem misturadas,

tornando-se apenas uma, comecei

o processo de volta à calma. Aos poucos, comecei

o banho de mangueira para remover

toda a tinta, proporcionando, assim, vários

momentos de prazer.

Nesse momento, a professora de Educação

Física deu o banho de mangueira e as agentes

de educação auxiliaram no processo de

secar e vestir as crianças para retornarem

aos momentos de rotina da creche. De fato,

conforme o Referencial Curricular Nacional

para a Educação Infantil:

Propiciar a interação quer dizer, portanto,

considerar que as diferentes formas de sentir,

expressar e comunicar a realidade pelas

crianças resultam em respostas diversas

que são trocadas entre elas e que garantem

parte significativa de suas aprendizagens.

Uma das formas de propiciar essa troca é a

socialização de suas descobertas, quando o

professor organiza as situações para que as

crianças compartilhem seus percursos individuais

na elaboração dos diferentes trabalhos

realizados. (BRASIL, 1998, p. 31).

Cuidados e vínculos reforçados

Foi uma experiência inovadora. O recurso

utilizado possibilitou a exploração de movimentos

corporais e a utilização de todos os

sentidos sensoriais. 99% dos alunos participaram

da atividade com prazer. Apenas uma

criança não quis se envolver na atividade, já

de início. Dessa forma, ela ficou a observar

de longe como preferiu.

Durante a atividade, pude perceber que as

Leticia Granado

97


98 A magia das cores sobre o corpo


Leticia Granado

99


noções de esquema corporal já estavam integradas,

as descobertas foram as sensações

causadas pela tinta nas diferentes partes do

corpo, estimulando, assim, os sistemas sensoriais.

A prática, por meio de atividade lúdica,

fornece subsídio para a criança observar,

interagir, experimentar, investigar e formar

vínculos, facilitando os processos de ensino

aprendizagem, auxiliando nos processos de

descoberta de seus próprios limites e do seu

próprio “Eu”.

O cuidado com o corpo e os vínculos afetivos

foram reforçados no grupo. Assim sendo,

os objetivos da atividade foram amplamente

alcançados. Enfatizo, dessa forma, a importância

de inovar e arriscar mais atividades

diferenciadas para proporcionar o prazer a

todos os envolvidos.

Referências

BRASIL. Referencial Curricular Nacional

para a Educação Infantil: Introdução, volume

1. Brasília: MEC/SEF, 1998.

FREIRE, P. Educação como prática de mudanças.

15. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

1983.

GOLDSCHMIDT, A. I. et al. A importância do

lúdico e dos sentidos sensoriais humanos na

aprendizagem do meio ambiente. 2008. Disponível

em: . Acesso em: 15 set.

2015.

LAPIERRE, A.; AUCOUTURIER, B. A simbologia

do movimento: psicomotricidade e educação.

3 ed. Curitiba, PR: Filosofart, 2004.

100 A magia das cores sobre o corpo


Leticia Granado

101


Práticas de Educação Física

na Educação Infantil

Créditos

Secretário de Educação

Edison D’Ávila

Direção Geral

Coordenadora Técnica

Prof.ª Dra. Sandra Cristina Vanzuita da Silva

Diretora da Diretoria de Educação Infantil

Prof.ª Sueli da Costa

Organização:

Prof.ª Ana Paula Rudolf Dagnoni

Prof.ª Débora Adami Domingos

Prof.ª Fernanda Seara Cera

Prof.ª Lidiane de Souza Candido

Prof.ª Meri Margareth Rodrigues

Prof.ª Nazedir de Amorim de Menezes

Prof.ª Uiara Bertholdi Vargas

Apoio:

Prof.ª Daniela Christiane da Silva dos Santos

Diagramação

Bresciani Design | Lucas Bresciani

Revisão

Janete Bridon

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