ZEMARIA 01

revistazemaria

Edição 1/ Fev2017

ZEMARIA

CORPO | SEXUALIDADE | GÊNERO | PLURALIDADE | SUBJETIVIDADE

EDIÇÃO 01/FEV 2017


EDITORIAL

Quando o erótico permanece amortecido,

decadente e quase obsoleto e, o pornô dá

sinais de desgaste e indica cansaço para

seguir carreira, surge o pós-pornô. Com uma

estética particular de guerrilha e um espectro

experimental que propõe a mudança de

paradigmas, de posições e concepções,

essa última vertente influencia a criação de

outras formas possíveis de ser, de sentir e

de desejar. Masculinos e femininos postos

em evidência nos mais diferentes corpos.

Destacam-se subjetividades e histórias

escritas na pele. Apesar da ultra exposição

midiática, o corpo permanece central no

cotidiano, agendando políticas e interesses

e favorecendo o nascimento de relações.

É nesse contexto de tantos referenciais e

noções múltiplas da vida que surge a revista

ZEMARIA, no final dos anos 10 do século

XXI. Uma tentativa incerta de arriscar-se

na ambiguidade, no escuro e naquilo que já

não se sabe se é novo ou velho, se é cópia

ou influência, se é ousado ou comum. O

jogo de mostra-ou-esconde volta à cena e

cabem aos olhos, da fotografia ou de quem

lê, encontrar o atraente, o erótico, o pornô

e o pós. Sugestivo. As imagens encontram

a diversidade e a apresentam. Marcas e

tons da pele. Uma lente sexualizadadora,

provavelmente filha de Freud (ou que assim

gostaria que pensassem sobre ela – parece

mais interessante) enxerga o mundo. É

sob essa lente que cada texto é pensado

e editado. A experiência individual e única

é ressaltada como elemento primordial

para contar uma história. O peso do eu e

de cada corpo em cada contexto. É nas

zonas limites do sexo, entre as orientações,

que se delineia um conteúdo que pode ser

sentido amorfo ou excitante. Depende do

toque. Informação e formação na era das

redes sociais digitais que tenta acompanhar

o ciber ativismo sem esquecer os limites do

indivíduo. E sabendo que o limite não é fim.


SUMÁ RIO


SALADA DE FRUTAS

PAPO DA VEZ

CLIQUE

PRINCIPAL

SALADA DE FRUTAS

DE BUTUCA

SALADA DE FRUTAS

CLIQUE

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SALADA DE FRUTAS

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Nós dois éramos do mesmo período e da

mesma sala na universidade. Já fazia dois

anos que eu tinha passado no vestibular e,

desde então, lidava com a dificuldade de

estar próximo a ela quase todos os dias. Ela era muito

bonita. Mais que isso, ela era muito inteligente – o

que, às vezes, chegava a intimidar alguns dos meus

amigos, eu acho, mas não a mim – e muito gostosa.

Era o meu tipo de mulher. Baixinha, com mais ou

menos 1 metro e 60, magra, com a pele morena bem

clara e bem delicada, cabelo cacheado que tocava

no meio das costas e olhos castanhos que, quando

olhavam diretamente pra os meus, sempre me

deixava sem jeito. E eu era alto demais pra ela, nerd

demais. Achava que jamais teria uma chance. Ela era

amiga de todos e eu sempre muito quieto, na minha.

Não lembro exatamente o que houve na sala de

aula. Mas lembro de sair correndo. Não queria me

entregar àquilo. Achava que todos iriam perceber

meus olhares para ela na sala, para seu decote, suas

pernas... O meu pau ficava visivelmente duro sempre

que observava o corpo dela. Subi as escadas depressa,

em direção ao último andar, para fugir daquela

multidão. Precisava ficar só para contemplar meus

pensamentos e me acalmar, inclusive fisicamente.

Mas, quando finalmente me senti confortável e

sozinho, ela apareceu. Devagar, silenciosa, até se

aproximar e sussurrar no meu pescoço “você acha

que eu não percebi?”. Todo arrepiado, senti a mão

dela sobre minha coxa. “Você olhando cheio de

vontade pra mim... Como eu não ia perceber?”.

Fechei os olhos.

A primeira coisa que pensei foi que nossos

colegas já deviam ter percebido nossa ausência, mas

eu não tinha como fugir daquilo. Eu não queria fugir.

Não agora que sabia que era recíproco. Por muito

tempo imaginei isso acontecendo, enquanto tocava

punheta no meu quarto. Finalmente estávamos

ali, tão próximos. Olhei nos olhos dela. Esqueci

minha timidez. Ela aproximou o rosto e me beijou.

Enquanto os nossos lábios se juntavam, fechei os

olhos de novo. Por debaixo das pálpebras, eles se

reviravam a medida em que ela ia acariciando meu

pau por cima da calça.

Envolvi meus braços na cintura dela e puxei seu

quadril contra mim. Eu sentia meu corpo encaixando

no dela. Quando as mãos dela encontraram meu

peito, começou a desabotoar minha camisa. Parou

de me beijar e foi para o meu pescoço. “Faz muito

tempo que espero por isso!”. Puxei a blusa dela para

cima, escorregando bem suave naquela pele morena.

Com o cabelo balançando, encostou o corpo no

meu, agora barriga com barriga, pele com pele.

Fiquei todo arrepiado. Não sei se pelo contato com

a pele dela, com os peitos dela, se pelas mordidas no

meu pescoço ou pelos leves arranhões nas costas. Se

afastando rapidamente, tirou o sutiã. A curva de seus

seios se mantiveram como antes, eram firmes.

A calça jeans dela foi meu próximo alvo. Fui

abrindo o zíper enquanto beijava a pele dela,

os peitos, a barriga (quando ela se arrepiou um

pouco). Senti cada contorno daquele corpo na

minha boca. Enquanto ela sentava em um degrau

da escada, movimentei meus dedos rapidamente,

revelando suas pernas, lisas e firmes. Ela parou por

um momento. Ficou séria, me deixando um pouco

tenso. Pegou minhas mãos e colocou nos peitos

dela, que fiz questão de apertar de leve para sentilos.

Eram redondos, gostosos. Fiquei acariciandoos

com uma das mãos e, ao ver a cara dela de tesão,

levei a outra mão direto para a boca dela, onde meu

dedo indicador escorregou e ficou entre seus lábios.

Sentindo ela chupar meu dedo com vontade, fiz o

mesmo com o bico do peito dela, que estava duro.

Lentamente, sem deixar de aproveitar cada

momento, levei minha mão para o meio de suas

pernas. Ela a puxou para dentro da calcinha branca e

de renda que usava e, vagarosamente, fui penetrando,

penetrando, penetrando. Podia sentir nos dois dedos

que usei a sua boceta úmida. Mordendo os lábios, me

olhou fixamente e me beijou novamente com muita

vontade. Depois voltei a beijar seus seios e mantive

meus dedos a penetrando. Uns gemidos baixinhos

escaparam. Minha respiração ficou pesada.

Ela soltou o botão de minha calça e segurou meu

pau, duro, babando por ela. Cuspiu na sua mão e

espalhou por todo o meu pau, puxando-o para fora.

“Eu te quero!”. Ela abriu as pernas um pouco mais

e fui deitando por cima dela para ir penetrando

lentamente. Ela sorria e me olhava. Sua expressão

era de alegria e de tesão, uma mistura. BUM! Um

barulho nos assustou. Paramos por três segundos,

ainda dentro dela, mas nos convencemos de que não

era nada demais. Comigo dentro dela, o que mais

poderia me importar?

Aumentando o ritmo dos nossos movimentos,

percebi que ela estava mais agitada, arranhando

minhas costas e contorcendo levemente a boca, numa

tentativa falha de conter os gemidos. Com os olhos,

tentei entender e desvendar se devia ir mais rápido

ou mais devagar. Como ela preferia? Apertei seu seio

com força. Ela puxou meu cabelo devagar. Cada vez

mais intenso, mais rápido e mais forte, em sintonia.

Ela empurrava sua boceta contra meu pau e gemia

segundo a segundo mais alto, tentando abafá-los.

A puxei pela cintura contra mim e senti seus seios

apertados contra meu peito e suas mãos em meu

cabelo. Vi quando ela revirou os olhos e gozamos

juntos. Completamente pelados no último andar

do prédio da universidade, de repente relaxamos.

Éramos dois bobos, mas estávamos felizes.

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PAPO DA VEZ

A RAINHA DAS

LOLONAS

[Lolona / lo-lo-na / sub. fem.: órgão sexual masculino grande. Pênis avantajado. Palavra usada

no estado de Pernambuco, no nordeste brasileiro, para nomear órgãos sexuais masculinos

de grande porte]. Se a pesquisa for feita no Twitter, no dia e horário corretos, é possível que

a curiosidade nos leve ao “Lolonas Day”, um evento online de divulgação e compartilhamento

de nudes masculinas, publicadas anonimamente no perfil da idealizadora, Suilane Oliveira. A

ZEMARIA a entrevistou para contar um pouco dessa história.

Nas palavras de Suilane: [sou] “cover de Ivete Sangalo, amiga de Rupaul e mãe [de Dom e

Sophia]. Tenho 1 evento de bilolas e não faço anal”. A conta dela no Twitter é

@suilaneoliveira.

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Zemaria - O que é o Lolonas Day e como

surgiu a ideia de fazer?

Suilane - Não sei explicar o que é, mas a ideia veio

da galera mesmo. Num dia era barba day, depois

coxa day, mas os caras só queriam mostrar as malas

mesmo. Aí, eu pensei: por que não mostrar logo,

né? E surgiu assim, no dia seguinte. Depois disso, já

tiveram várias edições especiais, porque as pessoas

pedem toda hora para eu fazer. Se eu fosse atender

aos pedidos, teria Lolonas Day toda semana.

Zemaria - Qual era o seu objetivo ao criar

esse projeto?

Suilane - Amiga, tudo se explica mesmo em eu

achar pau uma coisa belíssima. De todo jeito: duro,

mole, peludo, grosso, torto, dentro da minha boca

(risos). Eu queria dividir isso com minhas amigas,

daí surgiu esse babado.

Zemaria - Quem são as pessoas que

participam do Lolonas Day? Como funciona

sua relação com esse público?

Suilane - A grande maioria do público que manda

foto e que acompanha o Lolonas Day é frango,

porque são as pessoas que me seguem [no Twitter],

eu acredito. Também tem héteros e bissexuais como

eu. Tem gente que participa em todas as edições e

também tem gente nova toda vez. Algumas mulheres

mandam fotos de seus namorados ou maridos. Eu

adoro! Já recebi até fotos de casais. Gifs e vídeos

também! Eu mantenho a DM (espaço de troca de

mensagens pelo Twitter) aberta para as pessoas

enviarem as fotos sem rosto (nuas). Eu agradeço

por todas as fotos, elogio e tudo mais. Mas eu nunca

consigo ver todas as imagens que recebo e sempre

fica gente sem aparecer porque é um volume muito

grande de fotos.

Zemaria - Como você se sente sendo uma

mulher que comanda uma exposição de

corpos masculinos e pirocas?

Suilane - Eu nunca parei para pensar como me

sinto, mas acho que sempre foi uma coisa minha

chocar [a sociedade] sem intenção. Porque eu

normalmente faria isso. Quem me conhece sabe. Não

é nada forçado para hitar, fazer sucesso, nem nada. O

Lolonas Day é uma coisa que eu gosto e que eu sei que

muita gente também gosta. Só isso. Apesar do nome

Lolonas vir de bilolona, de pau grande, eu recebo e

posto foto de toda qualidade de rola, o que acaba

quebrando o estereótipo de que somente pau duro

e enorme, e corpos sarados, podem ser exibidos. Eu

acho que o fato de ser mulher faz os caras se sentirem

mais confortáveis, principalmente gays, para enviar

as fotos. Já tem muito julgamento entre eles e eu não

faço nenhum. Eu amo [lolonas] de todo jeito.

Zemaria - Existem críticas em torno do

falocentrismo. Como você vê essa questão

no Lolonas Day?

Suilane - Sou criticada demais, principalmente por

ser uma mulher, mãe, fazendo esse tipo de evento.

Mas eu dou block em todos que me marcam [no

Twitter] para falar merda. Não acho que essas pessoas

estejam abertas para entender, então não perco meu

tempo.

Zemaria - Você já pensou em fazer uma

versão com pepecas?

Suilane - É o meu sonho fazer um evento como o

Lolonas só com meninas, com peito ou boceta, mas a

mulher não se permite. Existe muita vergonha ainda,

muito preconceito da própria mulher para se sentir

à vontade. Espero que, em breve, as gatas se amem

e se libertem mais, para mandarem fotos também,

porque é massa. Eu amo!

Zemaria - Você já viveu alguma situação de

assédio ou já teve algum problema por causa

do Lolonas Day? Como evitar isso?

Suilane - Apenas uma vez, quando um cara disse

não ter enviado nenhuma foto, mas se reconheceu

em uma das que postei. Eu mandei mensagem para

ele, mostrando o perfil de quem tinha enviado a

foto. Ele reconheceu que era um amigo dele e se

resolveram. Agradeceu a ajuda e pronto. Mas, no

geral, nunca tive problema com as imagens. Outra

coisa que minimiza os problemas é que, além de ser

anônimo, eu apago as fotos pouco tempo depois de

postar. Quem viu, viu.

Zemaria - Desde a primeira edição do Lolonas

Day até hoje, o evento cresceu bastante e

já teve até uma festa temática. Como isso

aconteceu?

Suilane - Era meu aniversário e a dona de uma

boate gay de Recife me procurou perguntando se eu

gostaria de fazer minha festa lá. Acabei decidindo

juntar as duas coisas, uma festa temática do Lolonas

com o meu aniversário. Fiz uma edição no Twitter

e, quando acabou, apaguei as fotos online e elas

passaram nos telões da festa a noite toda. Teve

recorde de fotos. [Minha amiga] Isabella teve que me

ajudar. Eu peguei as imagens pelo celular e ela pelo

meu computador. Foi um sucesso, a festa. Até hoje

a dona da boate insiste que eu faça de novo (risos).

Quem sabe a gente repete...

Zemaria - O que mais você pode dizer sobre

o Lolonas Day?

Suilane -Anotem aí que tem gente que compra

cueca nova e que faz luz especial e tudo só pra fazer

foto e me mandar. Eu acho isso incrível (risos).

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CLIQUE

A FLOR DA

PELE

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Poros. Pelos. Sinais.

Tons. Tamanhos. Pesos.

Marcas do tempo. Marcas

de ontem e de hoje.

Carregamos no corpo,

encrustada em nossa pele,

referências e histórias

que assumimos ou

esquecemos. Valorizamos

ou ignoramos. Ressaltamos

ou apagamos. Cheiros.

Texturas. Formas. Envolvida

em capilaridade, assume

outras condições. Fazem

os outros assumirem.

Dura. Molhada. Mole. Seca.

Diferentes formas de ser,

estar no mundo e conviver.

Nossos corpos são capazes

de se transmutar e levar

mensagens.


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2 EM 1:

DIVAGAÇÕES DE U

PRINCIPAL

CINEMA PORNÔ

Cecília Maroja e Pedro Jordão

2 EM 1:

DIVAGAÇÕES DE

A UM CINEMA PO

Cecília Maroja e Pedro Jordão

2 pessoas, 1 mesma atividade e multiplas

experiências. Relatos únicos que

compõem este texto e depõem a favor

das subjetividades na comunicação e no

jornalismo. Acompanhe Cecília e Pedro

nesta experiência e conheça um pouco

sobre um cinema pornô e sobre eles.

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MA IDA AO

UMA IDA

RNÔ

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I

Era meio dia e eu andava apressada. Duas

mulheres caminhavam na minha frente, de braços

entrelaçados, conversando. De repente, elas

pararam, dobraram à esquerda e entraram num

prédio colorido sem fachada. Dentro do edifício,

vi algumas placas de acrílico com informações

que escondiam quem entrava ali. “Cine Majestik.

Privê. Lan House. Funcionamos aos Domingos

e Feriados”. Havia uma bilheteria com vidros

escuros no canto direito. As moças compraram

as entradas e desapareceram. Foi a primeira vez

que me perguntei o que leva uma pessoa a ir

num cinema pornô. Não sabia que, pouco tempo

depois, eu é que estaria no lugar daquelas mulheres.

I

Fui eu quem sugeri ir a um cinema pornô no

centro do Recife e fazer um texto imersivo sobre

essa experiência. Rimos um pouco da ideia, mas

eu sempre levava a sério e repetia: “Se ninguém

for comigo, tudo bem, vou sozinho”. Lembro

também de ouvir várias vezes como resposta:

“não, pô, que isso?! Nós vamos contigo! Não

vou te deixar ir só. Tá doido?!”. O fato é que ter

uma equipe para ir ao Cinema Especial – como

Cecília descobriu que se chamava depois de dar

um Google - me deu bastante segurança. Mas

não porque eu tivesse medo do cinema. Aquilo,

na verdade, me dava segurança de saber que eu

realmente iria ao local apenas para observar,

sem me envolver em nenhuma situação paralela.

II

Nos encontramos na minha casa – Cecília,

Marina e eu - e fomos andando. Como uma das

saunas gay do centro da cidade, aquele cinema pornô

dificilmente seria notado por pessoas desavisadas

que passassem por ali, que fossem comprar

produtos no camelô daquela rua ou ainda que

fossem aumentar a fila da lotérica da esquina. Não

fosse a parede de cerâmica vermelha, poderíamos

dizer que era um ambiente discreto, quase sigiloso.

Não havia informações, nenhum cartaz dos

horários das sessões ou valor da entrada. Somente

a parede vermelha desbotada e uma pequena cabine

para a compra dos bilhetes num buraco lateral.

Passamos direto e fomos ao Cine Majestick, um

cinema pornô mais pomposo - se é que podemos

chamar assim – e organizado, que certamente

chamava mais a atenção dos passantes. O Majestick

Cine Club era perto dali, na Rua Princesa Isabel.

Mas, depois de sermos mal encarados por um

grupo de homens, Cecília e eu concordamos

em voltar para a primeira opção e arriscar no

discretinho da cerâmica vermelha. Marina pareceu

não se importar muito com os homens que nos

encararam. Poderíamos ter ficado lá, mas eu era

uma bicha pintosa demais para aquele lugar e

preferia não arriscar minha integridade física.

Quando voltamos para o Cine Especial, na rua da

Saudade, não houve muita conversa ou demora. Já

tínhamos decido entrar. Foi só pagar pelos bilhetes

e passar pela catraca enferrujada que dividia o

ambiente.

II

Quando chegamos na Rua da Saudade, depois

de sair da casa de Pedro, já havia começado o filme

do primeiro cinema, cujo nome eu só descobriria

ao chegar em casa. A cerâmica vermelha por toda

a parede chamava atenção em meio a lojas de

papelaria e a programação do dia só podia ser vista

quando se chegava mais perto. Havia um homem

de camisa de botões branca, de manga curta e

gravata listrada na porta. Ele nos convidou para

entrar. Perguntamos de que horas passaria o filme.

15h50. Estávamos mais de uma hora atrasados.

Decidimos ir ao Majestick, na Rua Princesa Isabel.

Com sorte, pegaríamos um filme do começo. Nos

aproximamos da bilheteria de vidro fumê e, a única

coisa que consegui ver foi o fandangos que o rapaz

por detrás do vidro comia. Do meu lado esquerdo,

um rapaz de braços cruzados nos encarava, a cerca

de um metro de distância. Ele não era ameaçador,

não era alto ou particularmente forte. Comum

seria um bom adjetivo para descrevê-lo. O rapaz

nos encarou dos pés a cabeça e eu rapidamente

desviei o olhar, me sentindo desconfortável.

“De que horas começa a próxima sessão?”,

perguntou Marina. “A gente abre às 10 da manhã

e fechamos às nove da noite. Passa filme direto”,

explicou o bilheteiro. Outro homem surgiu ao lado

do primeiro, de repente. Parecia ter acabado de sair

do cinema. Ele também ficou nos encarando e eu só

conseguia pensar que não queria entrar ali. “Quanto

custa o ingresso?”, perguntou Marina novamente

na bilheteria. Ao ouvir a resposta, chamei meus

amigos para conversar do lado de fora. Enquanto

isso, outro homem surgiu para nos encarar. Eu não

sabia o que aqueles olhares significavam. Pareciam

uma mensagem de que não éramos bem-vindos ali,

de que não pertencíamos àquele lugar e que aquela

era uma ideia realmente muito idiota. Marina

não tinha percebido nada, mas Pedro também

estava incomodado com a situação e por isso

acabamos decidindo voltar para o primeiro cinema.

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III

III

Na hora de pagar pelos ingressos, uma grata

surpresa: havia uma promoção, duas entradas pelo

preço de uma. A bilheteira era uma senhora de idade.

Ela usava óculos e eu sorri ao pegar meu ingresso,

tentando parecer simpática. Ela não me intimidava

de forma alguma. Comecei a olhar o interior daquele

local. O espaço era pequeno. Da entrada era possível

ver uma catraca pintada de laranja. Parecia antiga,

um pouco desgastada. Mais ao fundo, à direita, uma

espécie de bomboniere com refrigerante, cerveja e

até chocolate. “Me sigam”, disse o homem de camisa

social e gravata com a lanterna do celular ligado.

Do lado esquerdo, havia um homem de bigode

sentado em uma cadeira plástica. Ao seu lado,

dois banheiros pequenos, com privada. Em cada

um deles, havia um homem. Eles nos encararam,

parecendo curiosos. Nós éramos pelo menos vinte

anos mais novos que eles. À nossa frente, uma

cortina grossa separava a entrada da sala do cinema.

O homem de gravata entrou primeiro, nos

guiando pelo local. Marina foi logo em seguida,

depois Pedro e por último eu. Era escuro. Era muito

escuro. Era o lugar mais escuro em que eu já tinha

entrado na vida. Instintivamente, comecei a tatear

o ar, procurando pela mão do meu amigo. Ao

encontrar seu pulso, o segurei com tanta força que

achei que fosse quebra-lo. O som de uma mulher

gemendo ocupava a sala por inteiro. Ao meu lado,

eu nada enxergava. E minha falta de coragem me

impedia de fazer um esforço extra em busca de rostos.

Fomos levados à terceira fileira e logo seguimos

até o final dela. As poltronas eram de madeira, sem

estofamento, lembrando a de um teatro antigo.

“Que merda é essa?”, perguntei ao olhar para a

tela. A mulher que gemia estava de quatro. A

câmera fazia um close no seu bumbum empinado.

Mãos masculinas se moviam por sua vagina e ela

gozava. Pedro começou a rir e eu pedi para que ele

parasse. “Vamos acabar sendo expulsos desse jeito”.

Dois minutos depois, Pedro disse que não

poderia ficar sentado ali. “Desse jeito eu não vou ver

nada do que as pessoas tão fazendo, a gente deveria

se sentar lá atrás”, sugeriu. “Tá muito escuro, não

tem como a gente ir”, opinei. Eu não queria correr

o risco de me sentar perto de um desconhecido

que estivesse verdadeiramente interessado no

filme. “Vamos ficar aqui mesmo”, disse Marina.

“Eu vou indo”, Pedro avisou e rapidamente ligou a

lanterna do celular e seguiu para o fundo da sala.

A sala era pequena demais para qualquer cinema

que eu já havia frequentado e grande demais para

somente um único ar condicionado velho que

consegui ver no teto. Estava muito quente lá dentro.

Foi a primeira coisa que percebi quando passei

pelas cortinas grossas da entrada, que mantinha o

ambiente escuro e separado do hall. Seguimos o

homem da gravata listrada, que ia nos conduzindo

até às primeiras fileiras com a lanterna do celular

acesa nas mãos. Sentamos na terceira ou quarta fila

mais próxima da tela. As cadeiras sem estofado me

fizeram pensar que, dessa forma, a limpeza deveria

ser facilitada e que eu não estava sentando em

restos de secreções corporais de nenhum estranho.

De toda forma, não me espalhei demais, ficando

somente no canto da cadeira. Era mais seguro.

Com a iluminação do filme, pude perceber que

o Cine Especial era mais decadente do que achei

numa primeira impressão. O teto descascando e

com mancha de infiltração, o reboco das paredes

caindo aos pedaços, o chão com lâminas de

emborrachado escuro, a tela muito pequena. O

filme que estava passando era péssimo, muito

violento e nem um pouco excitante. Foi a primeira

vez na vida que vi um pornô, mesmo heterossexual,

sem ficar nem um pouco excitado. Duas mulheres

gritavam escandalosamente, enquanto fingiam

sentir prazer e dois homens botavam pra lascar

nelas. Não percebi nada de prazeroso para elas e,

eles não faziam meu tipo, eram musculosos demais.

Aquilo não era excitante. Pelo menos não para mim.

No lugar em que estávamos sentados, não havia

como ver muito mais do que o filme. Avisei às

meninas que ia mudar de lugar, convencendo-as de

que estava tudo bem, de que eu ficaria bem “sozinho”.

Levantei e fui andando para trás pelo corredor

central que separava as cadeiras. Vi vários homens,

a maioria barrigudo e careca, de pé, atrás de uma

mureta que havia por trás da última fila, no lado

oposto da tela. Um lugar privilegiado para ver o que

acontecia na sala. Sentei na terceira ou quarta fileira

mais próxima a eles. Agora, podia ver quase todas as

cadeiras – vazias, com exceção de Cecília e Marina

lá na frente e um homem magro e muito quieto no

meio da sala. Depois de alguns minutos vendo o

filme que continuava muito violento e sem graça,

comecei a ouvir um barulho diferente. Imaginei ser

a fivela de um cinto batendo em outra superfície.

Aquele barulho não era do filme. Instintos mode on.

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[IRÔNICO (i.rô.ni.co.) adj.:

Sarcástico; zombeteiro;

gozador.]

O modelo Danilo Lira posa

para representar as ideias que

se tem de uma ida ao cinema

pornô.

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IV

Eu e Marina continuamos sentadas na frente

da sala, mas agora um de seus braços estava em

volta dos meus ombros. Eu me sentia muito mais

segura desse jeito. Esperava que, dessa forma, as

pessoas pensassem que éramos um casal e não

sentassem ao nosso lado. Olhei para trás, por

cima do ombro. Outras pessoas assistiam ao filme

atrás da gente, mas era impossível ver os seus

rostos ou o que faziam. Não passavam de sombras.

“Esse filme é péssimo”, disse minha amiga,

enquanto encarava a tela de projeção de maneira

atenciosa. O filme parecia não ter roteiro. O que

eu via era apenas um aglomerado de cenas de sexo.

Não havia nenhum diálogo ou atuação explicando

o contexto daquela situação: dois homens e duas

mulheres transando no que parecia ser um bar.

Ou talvez a gente tivesse chegado tarde demais

e perdido a “historinha”. A monotonia logo deu

espaço para o incomodo quando os homens

começaram a inserir uma bola de sinuca amarela

no ânus da mulher morena. “Eu não quero ver

isso”, disparou Marina. “Por que tão fazendo algo

assim?”, perguntei. “Como vão tirar essa bola daí?”,

ela perguntou de volta. A loira cuspia na bunda da

morena, como se aquela saliva fosse realmente fazer

toda a diferença e fazer com que a experiência fosse

agradável. Um dedo empurrava a bola lentamente.

Foi quando ouvi um barulho. Achei que era o

barulho de alguém fazendo um boquete, mas não

era isso que se via na tela. “Tás ouvindo isso? O

barulho?”, perguntei a Marina. Ela me olhou confusa.

“Que barulho?”. Eu devia estar ficando louca.

“Agora eu tô ouvindo”, disse Marina, dois segundos

depois. Ela parecia estar com vontade de rir. Eu

queria ser como ela e ver graça na situação, mas

não conseguia, só me sentia constrangida mesmo.

O mais próximo que eu já havia chegado de uma

experiência como aquela aconteceu quando eu tinha

apenas 15 anos de idade. Eu voltava do colégio para

casa, já pela tarde, quando, ao caminhar pelo ônibus,

me deparei com um homem se masturbando. Ele

virou-se para mim, mas não tive coragem de olhar para

o rosto dele, voltar para a parte da frente do veículo

ou gritar. Simplesmente paralisei. Se me pedissem

para descrever a cena, o máximo que eu conseguiria

dizer era que ele usava uma camisa do Palmeiras

e que seu pênis era rosado. Segui caminhando,

constrangida. Me sentei em uma cadeira logo atrás

da porta de desembarque, abri a janela e pus o rosto

para fora, deixando que o vento batesse contra meu

rosto e apagasse aquela cena. Não apagou. Olhei para

o corredor mais uma vez. Ninguém se aproximava.

IV

O barulho da fivela do cinto continuava a tinir

perto de mim. No filme, um dos homens tentava

empurrar uma bola de sinuca dentro do ânus de uma

das mulheres – e estava conseguindo. Ela urrava.

Aquilo devia estar doendo muito. Eu já não queria

mais ver, então me concentrei nos sons externos.

Até que não ouvi mais o barulho da fivela. Segundos

depois, um homem sentou na primeira cadeira da

mesma fileira em que eu estava. Olhei para ele, com

o cuidado de não parecer que estava paquerando-o.

Era um senhor magro. Tive a impressão de vêlo

fazendo um gesto para mim, algo convidativo.

Fingi não ter visto nada e voltei a olhar para a tela.

Pouco depois, vi que um outro homem - esse

com uma barriga enorme, aparência mais velha

e um bigode branco – passou andando pelo

corredor central, enquanto segurava as calças,

quase caindo, com uma das mãos. Ele tocou no

primeiro homem, sentado na minha fileira, que

rapidamente se levantou e o seguiu. Ainda de pé,

duas fileiras na minha frente, o homem gordo

abaixou as calças e sentou encostando a bunda na

cadeira de madeira. Ele se acomodou, deslizando

o corpo um pouco para baixo, quase deitando

na cadeira. O homem magro sentou ao lado dele.

Não demorou muito até o homem gordo começar

a se movimentar se masturbando. O homem magro

logo fez o mesmo. Segundos depois, o magro levou

o rosto para o meio da pernas do outro e, agora, eu

podia ouvir outro barulho que também não vinha

do filme. glob glob glob. Por um rápido instante,

enquanto eu assistia a apenas aquela cena e estava

esquecido dos abusos que passavam na tela do cinema,

fiquei um pouco excitado. Eles não demoraram

muito na ação. Uns 10 minutos no máximo. E

também não inverteram as gentilezas. Logo se

levantaram, juntos, e voltaram para trás das fileiras.

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30


V

Perguntei se a gente já poderia ir embora e Marina

sorriu. Estávamos lá há pouco tempo, mas para mim

já era o suficiente. Meu desespero e desconforto fazia

com que eu me sentisse idiota, imatura. Eu deveria

ser a única pessoa ali incomodada com aquela

situação. A bola amarela tinha sido enfiada por

completo no ânus da mulher. Eu me estremeci. O

filme só ficou pior depois disso. Do ânus da mulher

saíam bolhas e ela gemia alto, de maneira exagerada.

Algum tempo depois, um dos homens abriu o

ânus dela, enfiou alguns dedos e começou a puxar

a bola para fora. Devagar, lentamente, sem pressa.

Ele aproveitava o momento e eu só pensava em sair

dali. Ao fundo, o barulho de boquete continuava.

Assim que o filme acabou, os créditos da

produção surgiram na tela. “Cadê Pedro?”,

perguntei a Marina. Ela olhou para trás e acenou.

“Eu espero que seja ele ali no fundo ou eu acabei

de dar tchauzinho pra um estranho”, respondeu.

Algum tempo depois, Pedro sentou ao meu lado.

Na tela, o menu do filme anunciava o que havíamos

acabado de assistir “Fuck Me” ou “Foda-Me 5”, como

anunciava o subtítulo. “Vamos embora?”, perguntei.

Nos levantamos e seguimos em direção a

saída. Pedro foi o primeiro, depois Marina e

depois eu. Eu me escondi atrás da minha amiga e

caminhei encarando o chão coberto por lâminas

de emborrachado, com receio de que alguém visse

o meu rosto ou sei lá o quê. Por um segundo, olhei

para cima e me deparei com cerca de sete homens

por trás de uma mureta. Todos de braços cruzados,

de meia idade, conversando como se aquela fosse

uma situação completamente normal. Baixei o

rosto outra vez. Um homem sentado na última

cadeira cuspiu a meu lado. Me perguntei porquê.

V

Encontrei as meninas ainda na sala escura e

fomos juntos para a saída depois do final do filme.

Tivemos que passar pela barreira de sombras

masculinas que abriram um pequeno espaço para

sairmos. Olhei rapidamente para eles. Qualquer um

tinha a idade para ser meu pai. Podiam ser pais de

família. Público cativo do lugar? Já na rua, Cecília

me contou que um deles cuspiu no chão, perto dela,

antes de sairmos da sala de cinema. Ficou indignada.

Mas talvez ele só tenha tido um reflexo, uma

vontade de jogar fora o sabor do último sexo oral.

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TUBÉRCU

Cecília Maroja

De acordo com o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2015 foram registrados,

em média, 5 estupros a cada hora. Mas o número tende a ser muito maior, já que, de acordo

com a Pesquisa Nacional de Vitimização de 2013, apenas 7,5% das vítimas de violência sexual

costumam registrar ocorrência contra seus agressores.

Ela tinha um namorado. Ele a estuprou.

Seu nome é Jéssica, mas para o mundo,

ela é Stoya, uma atriz pornô. Seu exnamorado,

James Deen, colega de

profissão. A ligação latente entre pornografia e

estupro é muito mais antiga do que o caso de Stoya e

James e movimenta discussões sobre como esse tipo

de entretenimento pode ser nocivo para a sociedade.

Quando Stoya contou no Twitter o abuso sexual que

sofreu, os críticos da indústria pornô usaram aquele

caso para exemplificar tudo o que enxergavam como

errado no cinema pornô, argumentando o seu fim.

“Não é um problema exclusivo da pornografia.

Não é apenas um problema [da indústria] do

entretenimento (...) É algo que acontece em todos os

lugares”, disse Stoya ao jornal britânico The Guardian.

É evidente a influência do pornô na construção

do imaginário sexual masculino abusivo, mas

responsabilizá-lo isoladamente pela cultura do

estupro é impreciso e vago. Ao pesquisar pelos termos

“estupro, cinema, pornô”, o quarto link recomendado

pelo Google tem como título “filme de estupro brutal

com a amiga íntima”. Mas a banalização do sexo

sem consentimento é extremamente enraizada e

preocupa em todas as esferas sociais. O terceiro link

da busca, por exemplo, leva para a famosa - e bastante

discutida - cena de sexo anal de “O Último Tango em

Paris”, na qual Marlon Brando estupra a atriz Maria

Schneider, dando a entender que uma violência

sexual pode ser, para alguns, apenas mais um fetiche.

Muito antes da influência do pornô, desde a

infância, homens e mulheres são ensinados que

lugares e posições devem ocupar – inclusive

durante o sexo. Se a sociedade possui um problema,

a (sétima) arte é capaz de retratá-lo. Em um

mundo em que machismo, misoginia, estupro

e objetificação são cotidianos, o que se vê em

filmes pornô pode ser apenas um sintoma de uma

doença muito maior que precisa ser tratada. Para

Ericka Lust, diretora da Lust Films, “nós temos

que mudar a qualidade da pornografia, os valores

por trás dela, para que os jovens não aprendam

ideias de objetificação, desrespeito e violência”. Está

mais que certa. Mas, quando se está doente, não

adianta tomar um xarope para amenizar a tosse e

não fazer um tratamento sério para tuberculose.

32


LO

33


SALADA DE FRUTAS

34


O

primeiro encontro oficial estava marcado

para às 20h em um bar no centro do Recife.

Ansiosa, eu cheguei pontualmente. O DJ

estava iniciando os trabalhos com música

eletrônica, o local era escuro e tinha luzes vermelhas.

Pedi uma cerveja, duas, três. Com uma hora de

atraso, ela chegou, às 21h. Valentina sorriu, se sentou

ao meu lado e eu lembro que pensei “como ficar com

raiva vendo esse sorriso maravilhoso?”.

Nos conhecíamos há um ano dos corredores

da universidade e entre olhares tímidos e poucas

conversas, decidimos sair após algumas investidas da

minha parte. Eu nem a conhecia direito, mas já sabia

que ela era o meu número. Simpática, complicada

e dona de uma boca maravilhosa. Nos primeiros

momentos do nosso encontro, eu não conseguia

tirar os olhos dela. Sabia que aquele momento nunca

se repetiria e tentei aproveitar o máximo que pude.

A conversa estava fluindo, a cerveja gelada e eu já

sentia que estava ficando molhada. Parecia que a

gente estava dentro de uma bolha. Eu nem reparava

que tinham pessoas ao meu redor. Valentina era

como um punctum.

As nossas conversas já estavam se esgotando e a

gente se aproximava lentamente. Primeiro, juntamos

mais nossas cadeiras e começamos a tocar uma na

mão da outra. Por alguns segundos, a gente parou de

falar e se olhou. Nesse momento, eu não sabia o que

fazer e resolvi não pensar. Coloquei uma mão atrás

do seu cabelo e fui em sua direção. Enquanto nos

beijávamos, passei as mãos naquelas coxas e sugeri

que fossemos para uma parte mais reservada do bar.

Eu não sabia se ela estava sentindo o mesmo tesão

que eu e preferi diminuir a velocidade. Já sentadas em

um outro ambiente com menos pessoas perto de nós,

voltamos a conversar sobre nós e como demoramos

a nos encontrar. O papo não demorou muito. Eu

não resistia aos olhares e aos lábios. Sentadas em

um mesmo banco, começamos a nos tocar com mais

intensidade. Mordi o pescoço dela e ela gemeu no

meu ouvido.

Comecei a sentir uma sintonia entre nós. Duas

mulheres matando o desejo após um ano de atraso.

No meio de mais um beijo, ela interrompe e pergunta

se quero ir pra casa dela terminar a noite. Eu não

sabia o que responder e resolvi bancar a sapatão

difícil. Durou cinco segundos. Ela disse que o nosso

encontro poderia ficar ainda mais excitante. Aceitei

o convite e logo pedimos um Uber.

Chegando em sua casa, a gente sentou na cama

de casal dela e ficamos nos olhando. Ela começou

tirando o vestido e eu dei conta do resto. Eu estava

quase gozando só em chupar aqueles seios grandes

e gostosos. Passei a língua por todo o corpo de

Valentina e ela gemia baixinho. Tirei a minha roupa

e subi em cima dela.

Nossas bocetas estavam molhadas e deslizavam

uma sobre a outra em perfeito encaixe. Ela gostava

do sexo selvagem e eu a mordia inteira enquanto ela

enfiava os dedos dentro de mim. A cama dela estava

ficando pequena para nosso tesão. Era o melhor

primeiro encontro da minha vida.

E tudo melhorou quando ela ficou de quatro e

pediu que eu chupasse seu cu enquanto a penetrava.

Com calma, comecei a lamber a bunda dela e fui a

abrindo a medida que ela relaxava. A boceta dela

estava úmida e quente e eu já estava suada quando

ela gozou pela primeira vez, com minha língua

dentro do seu cu.

Já era madrugada, paramos por um momento, ela

deitou sobre o meu corpo e ficou me beijando e me

acariciando. Meu coração estava acelerado e minha

boceta molhada. Eu estava tendo o melhor sexo da

minha vida. Agressivo e ao mesmo tempo carinhoso.

Ela deitou na cama e pediu que eu sentasse sobre seu

rosto para sentir meu cheiro. Valentina era intensa.

Os seus lábios agora se encontravam com meus

grandes lábios.

A sua língua era suave e sabia exatamente onde

estava o meu clitóris. Eu fazia movimentos que se

encaixavam com o ritmo de se boca e apertava os

seus seios que mal cabiam nas minhas mãos. Gozei

enquanto ainda estava sentada em seu rosto. Ela

mordeu os lábios e deu um sorriso de canto de boca

demonstrando satisfação.

O efeito das cervejas já tinha passado e estávamos

sóbrias nos querendo mais. Eu tentei aproveitar

todos os detalhes da nossa noite porque sabia das

complicações para encontrá-la novamente. E é por

isso que ela era o meu número. Sapatão adora se

envolver com mulher problemática. Deitamos nuas

e nos abraçamos com as pernas entrelaçadas cobertas

pelo seu lençol. Valentina adormeceu em meus

braços enquanto eu fazia carinho em seu cabelo e

passava a mão pelas suas costas.

Quando acordei de manhã, fiquei olhando para

ela dormindo e foi uma das melhores sensações que

já experimentei. Estar ali era transcendental. Fiquei

pensando que depois de uma noite de sexo com uma

sintonia maravilhosa, o tesão acumulado de um ano

diminuiria, mas só aumentou.

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DE BUTUCA

TIC, TAC, TIC, TAC

Ana Carla Santiago

Começa o refão: “hello daddy, hello mom,

I’m your ch ch ch ch ch cherry bomb”.

São as The Runaways e a música Cherry

Bomb. A canção fala sobre uma garota

rebelde que bebe, fuma, perambula pelas ruas, vai

a festas e faz o que bem entende. “Olá, mundo, eu

sou sua garota selvagem”, continuam em outro

verso. Assim como a maioria das canções da

banda, Cherry Bomb é um hino para a libertação

adolescente e feminina. Um incentivo implícito e

simbólico para a liberdade sexual e independência

das mulheres em uma época muito conservadora.

Quando se fala sobre o Punk Rock, movimento

musical surgido em meados da década de 1970, é

fácil lembrar os principais artistas e bandas que se

destacaram e deram visibilidade a essa corrente

cultural. A maioria, homens e grupos masculinos.

Mas mulheres também fizeram parte do movimento

e com uma responsabilidade ainda maior: enfrentar

o machismo. É neste cenário que surge na Califórnia

(EUA), em 1975, a banda The Runaways, composta

por cinco mulheres americanas que não tinham

medo de ousar e de serem sensuais no palco.

The Runaways foi uma estratégia de marketing

que deu certo. Kim Fowley era um famoso produtor

musical de Los Angeles, cidade da Califórnia, quando

conheceu Joan Jett e Sandy West, que tocavam,

respectivamente, guitarra e bateria. Elas já tinham

vontade de formar uma banda de rock apenas com

garotas. Logo se juntaram a elas Jackie Fox (baixista),

Lita Ford (guitarrista solo) e Cherie Currie (vocalista),

que na época tinha apenas 16 anos. O objetivo era

chamar a atenção do público e da mídia para mulheres

que tocavam rock. O plano deu certo, já que os shows

sempre lotavam. A plateia era formada por curiosos

que queriam confirmar com os próprios olhos se as

garotas sabiam tocar seus instrumentos e por fãs, que

amavam o som pesado e a presença de palco da banda.

Além do barulho típico do punk rock, elas

não hesitavam em abusar da sensualidade nas

performances. Danças com as guitarras, microfones

enrolados nas pernas, rebolados sexy, movimentos

de vai-e-vem e um “teatrinho”, no qual as guitarras

eram posicionadas como se fossem armas. Esses eram

alguns dos artifícios que faziam parte dos shows. Ao

mesmo tempo em que mostravam que mulheres

podiam tocar os instrumentos que “pertenciam”

aos homens, elas também reafirmavam suas

identidades femininas e questionavam o estereótipo

masculinizado que se criou das rockeiras. Eram

sensuais, provocantes e ousadas. As roupas variavam:

shorts curtos, jeans apertados, botas de salto, blusas

brilhosas ou de bandas e, até mesmo, espartilhos.

Já para apresentar a música Cherry Bomb, a

vestimenta “oficial” da vocalista Cherie era um lingerie.

Sempre que os primeiros acordes de Cherry Bomb

começavam a soar nos shows das “Runaways”, Cherie

surgia no palco vestindo a roupa apertada e curta.

Era imediatamente ovacionada, com o público indo

à loucura. Um verdadeiro choque para a sociedade

da época, uma grande ousadia de uma menina de 16

anos na geração dos anos 1970. Adoradas e desejadas,

em um contexto masculino e opressor, Cherie e as

The Runaways se impuseram como garotas que

também fazia parte daquela cena musical e que

tinha direito de expressar seus desejos e vontades.

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O DIREITO DE

GOZAR

Aquarius: um filme onde o sexo é metáfora da própria vida

Pedro Jordão

Marcado pelas resistências políticas – o que é de se esperar de

um filme de Kleber Mendonça Filho – Aquarius recebeu do

Ministério da Justiça a classificação indicativa para maiores

de 18 anos, a única que é restritiva e não apenas sugestiva. De

acordo com o ministério, a classificação havia sido aquela porque o filme

apresenta uma “situação sexual complexa”. Resta entender o que isso significa.

Lançado em setembro de 2016, Aquarius conta a história de Clara (Sônia

Braga), uma mulher viúva, aposentada, mãe de três filhos, que enfrentou um

câncer e perdeu um seio. Clara é dona de um apartamento em um prédio antigo

na praia de Boa Viagem, em Recife, que enfrenta as investidas de uma construtora

que quer demolir o edifício para substitui-lo por um grande empreendimento. Ao

longo da narrativa que trata sobre a preservação da memória, Clara se confunde

com o edifício. Ela é Aquarius. Ela é a memória viva que quer permanecer viva.

Mas, solitária, mãe e viúva, Clara não tem relações amorosas e não faz sexo. E

os filhos quase não a enxergam mais como mulher, mas apenas como mãe e avó.

Assim, o rosto daquela que foi, por muitos anos, considerada a mulher mais

bonita e sensual do Brasil, após interpretar Gabriela em uma telenovela baseada

no romance de Jorge Amado, é o mesmo de Clara, anos depois. Mas, diferente de

Gabriela, Clara é velha e, aos poucos, percebe que não pode ser sensual, bonita, ter

desejos, foder. Pelo menos é o que a sociedade – como aparece nas entrelinhas do

filme – tenta lhe impor. Clara percebe que se tornou tia Lucia, uma personagem

que aparece no começo do filme sendo homenageada pelos sobrinhos-netos em

seu aniversário de 70 anos. A homenagem consiste em relatar os méritos que ela

teve no passado. “Tia Lucia foi uma danada”, lê um deles, enquanto a senhora

com o pensamento distante relembra das transas e posições que havia feito com

seu falecido marido naquele mesmo lugar – o apartamento do edifício Aquarius.

Rodeada de metáforas do esquecimento e da troca do antigo pelo novo, como

na cena em que vai ao cemitério, Clara decide tomar as rédeas das situações, o que

se vê na evolução da história pelas três partes do filme. Ela descobre as fraquezas

da empreiteira e também as da sociedade. Diz a todos para a enxergarem de

verdade, não como querem vê-la; sai para dançar; namora; beija e contrata um

garoto de programa, com quem transa na sala de casa. “Eu quero que você me

coma”, diz Clara derramando a última gota d’água na “situação sexual complexa”

que o filme constrói ao contar a história que é, na verdade, de todas as mulheres

que envelheceram, mas que não deixaram de desejar, sentir prazer e gozar.

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SALADA DE FRUTAS

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Quando eu encontrei com Jorge no carnaval,

não acreditei que, depois de tanto tempo,

ainda sentia uma atração tão forte por ele.

Era coincidência demais: no único dia em

eu que não estava trabalhando naquele carnaval, dou

de cara logo com ele pelas ladeiras de Olinda. Não

sabia se também tinha me visto ou se gostaria de

me reencontrar. Evitei pensar sobre isso ou ficar me

questionando. O álcool de cervejas bebidas durante

todo o dia e o sol muito quente sempre adicionam

uma gotinha de coragem na gente nesse período do

ano e levam embora toda a timidez. Fui falar com

ele. Conversamos um pouco sobre a vida, sobre os

amigos em comum e, em um flash de memória que

me sobrou, de repente estávamos nos beijando.

A primeira vez que o vi foi há 3 anos. Nós estávamos

em uma roda de amigos, brincando de Verdade ou

Consequência, dentro de um ônibus de viagem que

ia a caminho de Mossoró (RN) para participarmos

de um encontro de estudantes. Eu não percebi a

presença dele por um bom tempo. Na mesma roda,

havia uma outra pessoa que tinha conquistado toda

a minha atenção. Todos estavam bebendo durante a

viagem e, de um jeito muito sacana, só escolhíamos

“consequência” na brincadeira. Notei a existência

de Jorge em uma dessas “consequências”, quando

disseram para ele e a pessoa para quem eu não

parava de olhar irem ao banheiro do ônibus juntos

e fazerem o que quisessem por lá. Quase morri de

ciúmes. Resolvi que, a partir daquele momento, eu

não gostava de Jorge. E gostava ainda menos a cada

minuto que passava sem que os dois saíssem do

banheiro. A bebida acabou, a brincadeira acabou,

mas eles continuavam lá. Ouvi alguns comentários

que só pioraram meu ciúme e a minha vontade de não

ter conhecido Jorge: “tem gente que tá aproveitando

lá no banheiro, viu? Dizem que a rola de Jorge é

enooorme”. Não imaginava que, com o tempo, essa

informação mudaria completamente de sentido para

mim.

Depois dessa viagem, ironicamente, esqueci a

paixão platônica e passei a encontrar Jorge em vários

lugares e eventos que frequentava. Deixei para trás

minha antiga opinião sobre ele e mantive apenas a

lembrança do boato de que, mesmo não sendo muito

alto, Jorge devia ser bem dotado. Sempre que eu o

encontrava, lembrava disso. Aos poucos, também fui

percebendo que ele era um cara inteligente, delicado,

simpático. Eu o achava muito bonito e fofo com as

pessoas. Eu já estava doido por aquele homem! Mas

ele parecia nem perceber e nunca me dava bola.

Certa vez, encontrei Jorge na Parada da

Diversidade. Entre manifestações, danças e beijos

aleatórios, dei um jeito de me aproximar. Ele disse

que não queria relações sérias. Eu disse que também

não. Foi o suficiente. Nos beijamos. E como ele beijava

bem! Sabia onde e como pegar em mim. Naquele dia,

não passou de um primeiro beijo, embora eu quisesse

mais. E, depois disso, fiquei meses sem vê-lo.

Agora estávamos ali, no único dia em que eu

havia ido para o carnaval, no meio da multidão,

nos beijando de novo. Jorge me puxou para um

canto mais reservado da rua, onde podíamos nos

encostar numa parede. Não era um lugar isolado.

As pessoas passavam por perto. Mas nossas bocas se

encaixavam tão bem que não conseguia pensar em

mais nada. Não sabia onde estávamos exatamente e

nem vi quem passava por ali. Jorge apertava a minha

bunda e minha coxa, dizendo no meu ouvido, nos

poucos instantes em que parávamos de nos beijar,

que me achava muito gostoso. Peguei no pau dele por

cima da bermuda e descobri que não havia nenhum

boato. Era tudo verdade. Um pau enorme, duro, nas

minhas mãos. Fiquei tocando uma para ele, por cima

da roupa, bem devagar. A coisa foi ficando cada vez

mais forte. Ele parecia gostar do jeito que eu o tocava

e pedia para continuar. Meu pau, assim como dele,

estava muito duro. Podia sentir os dois roçando entre

as roupas.

Ele me empurrou na parede, ficando de costas

para as pessoas que passavam e me deixando mais

escondido. Colocou as mãos dentro do meu short

e apertou minha bunda. “Quer brincar com os

dedos?” perguntei, já não podendo mais conter

minhas vontades. “Você quer?”, ele perguntou meio

ofegante e fazendo uma cara de safado. Acenei que

sim. Lentamente, enquanto nos beijávamos, ele

foi enfiando um dos dedos no meu cu. Soltei um

gemido baixinho sem querer e voltei a pegar no pau

dele. “Tá gostando?”, ele perguntou sussurrando,

olhando nos meus olhos, enquanto continuava

a enfiar o dedo. Todo arrepiado, só tive forças pra

acenar dizendo que sim. Quando ele colocou todo o

dedo começou a fazer um movimento de vai-e-vem,

me fazendo gemer baixinho no ouvido dele. Por

um instante o vi revirando os olhos e mordendo os

lábios. Ficamos ali, aproveitando um ao outro, até eu

me sentir um pouco tonto. Devia ter bebido demais.

Nos despedidos e fomos embora.

No dia seguinte, tive de enfrentar uma enorme

ressaca para ir ao trabalho. Tentava lembrar de tudo

o que havia feito naquele dia de carnaval. Sou muito

fraco para bebidas alcóolicas e sempre termino

esquecendo o que fiz. Meu chefe comentou com

todos que havia visto um homem chupando outro

no meio da multidão do carnaval, no dia anterior.

Não sabia porque ele estava falando sobre isso. Mas

quando olhei meu celular, vi uma mensagem de

Jorge: “você me deixou louco. Que boca maravilhosa!

Quero te ouvir gemendo no meu ouvido daquele

jeito de novo”. Fiquei contente. Era recíproco. Mas,

enquanto todos debatiam a polêmica no escritório,

fiquei calado. Só conseguia pensar “será que fui eu?”.

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SOBRESSAIR

Sobre sair. Do molde. Do seguro. Da caixinha. Da

zona de conforto. Do óbvio. Do igual. Do insosso.

Sobre não ter medo de ousar. Sobre não ter medo

de contestar. Sobre abraçar sua feminilidade e

masculinidade. O todo e não uma parte. Sobre se

amar por inteiro. Sobre ser livre.

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AGRADECIMENTOS

Claudia Nascimento. Verônica

Maroja. Arnóbio Maroja. Oscar Maroja.

Tita. Thiago Soares. Débora Kelner.

Marcos Canto. Marina Varela. Arthur

Moura. Katarina Nápoles. Juliana

Monteiro. Lorena Barros. Eduarda

Esteves. Ítalo Barbosa. Suilane

Oliveira. Eduarda Nunes. Guilherme

Bertouline. Danilo Lira. Zé Lucas

Bastos. Ana Carla Santiago. Rodrigo

Cunha. Adriana Santana. Luiza

Nóbrega. Marina Rocha. Matheus

Castelo. Matheus Rocha. Renata de

Oliveira. Marina Lima. João Antônio.

Rodrigo Netto. Maria do Céu. Henrique

Marquez. Carrie Fisher. Madonna.

Cher. Lady Gaga. E a todos os

participantes da pesquisa online.

sobre consumo de pornografia.

EXPEDIENT E

EDIÇÃO - Pedro Jordão;

COLABORAÇÕES - Katarina Nápoles,

Ana Carla Santiago, Cecília Maroja, Pedro

Jordão;

FOTOGRAFIA - Pedro Jordão;

DIAGRAMAÇÃO - Cecília Maroja e Pedro

Jordão;

CONTATO - revistazemaria@gmail.com

ORIENTAÇÃO - Thiago Soares

FEVEREIRO/2017

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