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A IMPORTÂNCIA DAS BELAS

A IMPORTÂNCIA DAS BELAS ARTES Por esta altura, o que era um deslumbramento juvenil pela arte tornou-se vocação consciente. Mas instalou-se a dúvida quanto à disciplina artística. “Não sabia se queria Pintura, Escultura, Design… Queria Belas-Artes. Um bocadinho de cada”. E havia ainda a atração pela fotografia, “uma coisa que me dava muito prazer”, e, claro, o fascínio pelo teatro. Vivia então um dilema pessoano: “quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser”. A solução encontrada foi frequentar, em simultâneo, o curso de Teatro do Balleteatro Escola Profissional e o curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes da U.Porto (FBAUP), o que o obrigou a mudar-se para a Invicta. “Achei que era o melhor dos dois mundos. Fui fazer os dois cursos, adiando por mais algum tempo a decisão [sobre o futuro profissional]”. A escolha da FBAUP fez-se por acreditar que “a escola tinha os melhores professores” e “era mais reconhecida do que a [homóloga] de Lisboa”. Mas, já depois de um período de mobilidade Erasmus na Norwich School of Art and Design, em Inglaterra, durante o 4.º ano, Victor Hugo Pontes percebeu que a Pintura não era a sua expressão artística de eleição. “Dei-me conta de que pintar é um ato extremamente solitário, eu e a tela”. Ora, “eu gosto imenso de falar e estar envolvido com outras pessoas, e de envolver o meu próprio corpo”. Considerando o percurso posterior de Victor Hugo Pontes na dança e no teatro, sobretudo, poderia pensar-se que o curso de Pintura teve pouco impacto na sua carreira artística. Nada de mais errado: “A formação que tive nas Belas Artes foi extremamente importante. Às vezes estou a começar um trabalho e tenho imagens que me lembram coisas que me diziam os meus professores de Pintura. Faço muitas analogias com as artes plásticas. Mesmo a explicar aos bailarinos, o meu léxico é muitas vezes do universo das artes plásticas”. Aliás, nos espetáculos procura “trabalhar a luz como um diretor de fotografia”, devido justamente ao que diz ser a sua “consciência plástica”. Ainda antes de concluir o curso de Pintura da FBAUP, Victor Hugo Pontes começa a lecionar no Balleteatro e a trabalhar com os alunos nos seus projetos performativos, ficando responsável pela cenografia e pela realização de vídeos. “Dar aulas permitiu-me experimentar com os alunos. A partir do que eles me davam, alterava os exercícios à minha maneira. E assim acabei por construir a minha linguagem”. Apesar de ensinar, Victor Hugo Pontes manteve a sua “sede de aprender”, colecionando formações na área do teatro e da dança. Ao curso do Teatro Universitário do Porto, ainda no tempo de estudante, somam-se os cursos de Pesquisa e Criação Coreográfica do Fórum Dança (2002), de Encenação de Teatro pela companhia inglesa Third Angel, na Fundação Calouste Gulbenkian (2004), e do Projet Thierry Salmon – La Nouvelle École des Maîtres, na Bélgica e em Itália (2006). Este último curso, dirigido pelo iconoclasta encenador Pippo Delbono, “foi muito importante pela confiança que ele tinha em mim. Para ele [Delbono], eu era o líder do grupo. Os outros tinham de fazer como eu fazia”. O MENINO DANÇA? Outro momento providencial na carreira de Victor Hugo Pontes foi o convite da encenadora Isabel Barros para integrar um espetáculo de dança, em 2012, no Teatro Rivoli. Ora, Victor Hugo Pontes não tinha nem formação nem experiência em dança. Mas tinha, garante, “uma fisicalidade própria”. E já depois do espetáculo, com o curso de Pesquisa e Criação Coreográfica, ganhou autoconfiança. “Durante o curso do Fórum Dança, a professora Margarida Bettencourt fez-me acreditar que eu conseguia fazer a técnica Cunningham com o meu corpo, com as minhas limitações, fazendo à minha maneira. Isto mudou tudo, porque a partir daí comecei a acreditar que era possível”. E foi. Logo a seguir, em 2003, Victor Hugo Pontes seria convidado a criar um espetáculo de dança para o Festival da Fábrica, no Porto. Chamou-lhe Puzzle e deu imediatamente azo a outro convite para outro espetáculo, Voz Off (2003), desta vez no Planetário do Porto, com o qual ganhou o Concurso Jovens Criadores na categoria de Dança. A partir de então, a dança passou a ocupar um lugar central no seu trabalho e é na coreografia que a sua linguagem artística melhor se concretiza. “Digo sempre que nunca decidi aquilo que queria ser. A vida é que foi decidindo por mim e as situações fizeram com que tomasse decisões. Se há 15 anos me dissessem que ia ser coreógrafo, eu não acreditava”. E, além de coreógrafo, é ator, bailarino (ou “interprete”, como prefere dizer), encenador, realizador (vídeo), cenógrafo e assistente de encenação. Pelo menos. O trabalho como assistente de encenação não se revelou nada despiciendo neste percurso artístico. Victor Hugo Pontes foi, durante dois anos, o braço direito de Nuno Cardoso, um dos mais importantes encenadores portugueses da nova geração. E, como habitualmente, fez de tudo um pouco, indo para lá do que a função exige. “A alumni Texto Ricardo Miguel Gomes Fotos Egídio Santos 10 Campus UP 0.indd 10 06/01/17 16:01

certa altura, já não era apenas assistente. Tinha de gerir a luz, o som, a contrarregra, a produção… Era uma pessoa extremamente criativa, em que o Nuno tinha grande confiança. Eu dava-lhe ideias, apesar da linguagem dele ser muito diferente da minha. Foi uma escola brutal: trabalhei com grandes textos clássicos e tive as minhas primeiras experiências em teatros nacionais e no estrangeiro”. Aqui chegados, há que perceber a razão por que Victor Hugo Pontes se desmultiplica em funções dentro das artes de palco. “O que me dá mesmo prazer é ir mudando de pele, de personagem, de ofício… Gosto de fazer coisas diferentes e sinto que tudo aquilo que faço não é tão disperso assim: as coisas têm ligações e umas só acrescentam às outras”. Por outro lado, “aborrece-me fazer sempre a mesma coisa, apesar de gostar imenso de ter rotinas. As pessoas que me conhecem sabem que eu gosto de ir sempre ao mesmo restaurante. Preciso dessas rotinas porque tudo o resto não é rotineiro”. Para além da fuga à estagnação criativa, Victor Hugo Pontes é um verdadeiro workaholic e parece gerir a sua atividade artística de forma intuitiva. “Vivo muito para o trabalho. Tenho mesmo esta necessidade. Quando paro, começo a pensar muito. E quando começo a pensar muito, não é boa ideia… Então, prefiro fazer. Depois de fazer, gosto de pensar no que fiz e tirar as minhas conclusões”. São estas características idiossincráticas que fazem Victor Hugo Pontes rever-se em Cristiano Ronaldo, que coreografou para um anúncio publicitário. “Admiro-o porque é persistente nos objetivos, trabalha para os conseguir e é desta forma que os consegue – não é por sorte nem por acaso”. Como coreógrafo/ encenador, Victor Hugo Pontes é autor de mais de 20 espetáculos, dos quais se destacam Ícones (2006), Rendez-vous (2010), Fuga Sem Fim (2011), A Ballet Story (2012), A Strange Land (2012), ZOO (2013), Ocidente (2013), Fall (2014), COPPIA (2014) em cocriação com Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves (dos Clã), Orlando (2015), em cocriação com Sara Carinhas, Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a (2016) e Carnaval (2016). No final de setembro, estreou o espetáculo Uníssono – composição para cinco bailarinos. COMO TREINAR A SELEÇÃO A Ballet Story, uma encomenda da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, foi um ponto de viragem na carreira de Victor Hugo Pontes, que curiosamente recusou por três vezes a criação do espetáculo. “A Ballet Story teve um sucesso gigantesco e, a partir daí, tenho consciência de que há cada vez mais gente a ver-me, a saber quem eu sou, a seguir o meu trabalho…”. Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a será, provavelmente, o mais ousado dos seus espetáculos, por ser baseado no clássico A Gaivota, de Anton Tchékhov. Já Carnaval afigura-se como o reconhecimento institucional do trabalho de Victor Hugo Pontes, uma vez que partiu de um convite da Companhia Nacional de Bailado. O espetáculo foi inspirado na obra musical O Carnaval dos Animais (1886), de Camille Saint- Saëns, contou com música original de 12 compositores portugueses contemporâneos e envolveu 36 bailarinos. “Coreografar a Companhia Nacional de Bailado é como treinar a Seleção Nacional”, graceja Victor Hugo Pontes. Nestes 13 anos de criações, Victor Hugo Pontes acredita ter desenvolvido uma linguagem própria. “As pessoas conseguem identificar que aquilo é meu ou se parece comigo. Mas não é nada que eu faça de forma consciente. Faço-o porque sinto que deve ser dessa forma”. Aponta como característica distintiva do seu trabalho de coreógrafo “a forte carga dramatúrgica, que vem do facto de gostar muito de teatro. Há sempre um conflito que gera a ação”. Além disso, “a parte cenográfica é muito importante, tal como acontece no teatro mas raramente na dança”. Diz também que as criações são a sua “forma de ver o mundo” e de “questionar esse mundo”, mas ressalva: “Os espetáculos não são sobre mim, embora naquilo que faço esteja inevitavelmente aquilo que sou”. Animado pelo sucesso em Portugal, Victor Hugo Pontes gostaria agora de apresentar os seus espetáculos lá fora com maior regularidade. Mas, para isso, tem consciência de que necessita de “reduzir a escala” dos espetáculos e de “simplificar” as respetivas estruturas. De resto, Victor Hugo Pontes já apresentou espetáculos seus em três cidades do Brasil e participou, com A Ballet Story, no Festival de Dança de Cannes, em França, e no Pays de Danses, em Liège, na Bélgica. Em 2010 já havia sido selecionado pelo projeto Intradance para dirigir a companhia russa Liquid Theatre, para a qual criou o espetáculo Far Away From Here, apresentado em maio desse ano, em Moscovo, na Rússia. Dois anos antes, em março de 2007, conquistou o 1º prémio do International Choreography Competition Ludwigshafen 07 – No ballet, em Ludwigshafen, Alemanha, com o espetáculo Ícones. 11 campus 000 Campus UP 0.indd 11 06/01/17 16:01

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