Views
1 year ago

Campus-UP-0-v2

teste

Casa Museu Abel Salazar

Casa Museu Abel Salazar com trabalho no exterior de André Alves, no âmbito do projeto “Identidades: Variáveis Convergentes”. Momento de partilha com a comunidade escolar de Cabo Verde, no âmbito do projeto “Identidades: Âncoras de Passagem”. Campo do Tarrafal: interior de uma cela. DE ITÁLIA PARA A LUSOFONIA A primeira vez que esteve em Portugal foi em 2000. Veio visitar a irmã que, na altura, e ao abrigo do Programa Erasmus, se encontrava a estudar na Universidade de Aveiro. Em 2005, Marzia Bruno decide candidatar-se ao mesmo programa e tem a possibilidade de frequentar a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Foi na capital, enquanto subia e descia a calçada portuguesa, que descobriu o maravilhoso novo mundo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). “Mas, afinal, o português fala-se noutros sítios. De formas diferentes. Não estou a acreditar! Que giro! Itália não tem esta relação que Portugal tem com África”. E foi abrindo espaço para os novos horizontes que a cultura lusitana ia trazendo. “Fascinava-me esta ideia dos portugueses como descobridores. Revia-me neles. Gosto de descobrir…”. Voltou para Florença e terminou o curso de Escultura em 2007. Consciente de que se queria afastar um pouco da escultura, mas manter-se fiel ao fascínio por arte contemporânea, performance, instalação, exploração do espaço e pela prática da investigação e envolvência conceptual, decide fazer um mestrado. Optou pelo curso de Estudos Artísticos, especialização em Estudos Museológicos e Curadoriais da Faculdade de Belas Artes da U.Porto. Terminou a tese com 20 valores, foi a melhor aluna do ano e teve direito a uma menção honrosa. O projeto de mestrado foi sobre arte pública, em Aveiro. “Fiz uma ficha técnica com o levantamento de ações de arte pública, criei percursos temáticos e uma plataforma em que juntei imagens antigas com imagens atuais”. Também trabalhou voluntariamente no Museu de Aveiro (Santa Joana, agora Museu de Aveiro, – nas atividades educativas), experiência que lhe permitiu perceber o que realmente lhe interessava: explorar as áreas da museologia e da curadoria. Queria entender um pouco melhor o papel do curador, cada vez mais presente no mundo artístico. “É um elemento-chave que comunica entre o público e o artista. Um elo. E tem de conhecer muito bem o percurso e visão dos artistas para saber se ‘encaixam’ no seu conceito”. Era uma espécie de “revolta” que sentia como artista. É O CONCEITO QUE VIAJA Foi em Aveiro que viveu uma daquelas experiências que aponta caminhos: conheceu uma exposição itinerante, de Pedro Lapa, que lhe fez levantar a seguinte questão: e se em vez de fazer mover as obras, fizesse mover o conceito? E assim nasceu o “Conceito Itinerante”, com o qual se aventurou para um projeto de curadoria que iria fazer passar por Aveiro, Cidade Velha e Porto, e que seria matéria-prima para um doutoramento em História da Arte Portuguesa, na Faculdade de Letras da U.Porto. “Não posso fazer uma exposição itinerante, mas posso ter um conceito. E é o conceito que viaja”. Outro pilar do seu trabalho foi encontrar estratégias de internacionalização da arte contemporânea. “Estas exposições também foram pensadas de forma a internacionalizar artistas, obras e lugares”. E mãos à obra. Sendo a lusofonia o fio condutor da empreitada, “e esta paixão pela língua de Camões que não sei de onde vem”, fez uma pesquisa, levantamento e seleção de artistas portugueses e lusófonos que convidou a explorarem a identidade lusófona, inserida no contexto do lugar onde as exposições se iriam realizar. Pretendia fazer a análise de como a obra se integra nos espaços, daí que a identidade do local tenha funcionado de matriz para este ‘conceito itinerante’. “Quis analisar um lugar comercial, um lugar histórico (lugares improváveis) e um lugar museológico”. A primeira exposição foi em Aveiro, local que conhecia melhor. Procurou espaços improváveis, ou alternativos, daí que tenha arrancado no espaço comercial Olá Ria, do Centro Cultural e de Congresso de Aveiro. “Identidades: Circunstâncias Transversais” integrou obras de pintura e escultura de seis artistas nacionais: Alexandra de Pinho, Glória Mendes, Madalena Metelo, Nelson Santos e Patrícia Guerra. A segunda exposição foi realizada em Cabo Verde, no Convento de São Francisco, na Cidade Velha. Intitulou-se “Identidades: Âncoras de Passagem”. Para este projeto de curadoria reuniu obras previamente realizadas e outras criadas especificamente para a exposição, mas todas com leituras identitárias, relacionadas ou à volta da raiz lusófona. Expôs obras de cinco artistas cabo-verdianos: Manuel Figueira, José Maria Barreto, Alex da Silva, Nelson Lobo e Tchalé Figueira. A terceira exposição aconteceu na Casa-Museu Abel Salazar, no Porto. Mal entrou no espaço, pensou: “O Abel Salazar deveria usar a casa dele como um laboratório a céu mundus Texto Anabela Santos Fotos Egídio Santos 40 Campus UP 0.indd 40 06/01/17 16:02

aberto. Este espaço não se usa como laboratório? Vou transformar aquilo tudo! E virei tudo ao contrário”. Literalmente. Fez o levantamento exaustivo da coleção da Casa Museu, percebeu as dimensões da vida e obra de quem lhe deu nome. Trabalhou os conceitos de presença, ausência e esquecimento. “Se eu criar o nulo, será que desperta a atenção? É que, normalmente, sentimos falta quando não temos. Só damos pela coisa quando a perdemos. Será que temos de chegar a este ponto?” De forma mais ou menos implícita, tentou puxar pela identidade do lugar. “O Abel pintava atrás das pinturas”, motivo pelo qual decidiu virar os seus quadros ao contrário. “Expus esta parte inédita da coleção que esteve ocultada pela força de se ter entendido que apenas uma era a parte frontal. Mas é sempre dele. Ele fazia muito isto”. Para esta exposição, que intitulou de “Identidades: Variáveis Convergentes”, selecionou sete artistas: Ana Vieira, André Alves, Isaque Pinheiro, Miguel Leal, Raquel Melgue, Rodrigo Oliveira, Vítor Israel, sendo que cinco deles criaram obras novas, pensadas para o local. O PAPEL DA CURADORIA As três exposições, que passaram por dois países e três cidades, obedeceram a uma estratégia de levantamento e estudo da obra de artistas da lusofonia, nomeadamente dos 17 que apresentaram obras nas suas exposições, incluindo inéditos. Além de potenciar a criação, o projeto de curadoria (“Conceito Itinerante”) serviu de mote para a realização de atividades educativas mas também de conferências, como aconteceu em Cabo Verde, sobre o conceito de preservação e património. O que voltará a acontecer com o projeto que tem para o Campo do Tarrafal. “É preciso trazer aquele espaço para a realidade. Ultrapassar o trauma”. Até porque a ilha carece de espaços expositivos. “Por que não conceber aquelas salas como espaços laboratoriais? De pura criação. Porque dói lembrar o que aquilo era?”. Há, no entanto, um cuidado que preocupa e irá sempre balizar a ação de Marzia Bruno no local: “O cuidado de não deturpar ou banalizar a passagem que se efetuou”. O respeito pela identidade do espaço a ser intervencionado. Da pintura à performance, construindo e desconstruindo a presença humana no local, terá a trabalhar consigo uma equipa pluridisciplinar que irá abordar a história do local em múltiplas perspetivas. Das entrevistas que vai realizar aos sobreviventes será extraída a matéria-prima de trabalho para os artistas. “É uma forma de preservar a memória e dar espaço à criação com artistas locais”. ‘A Glimmer of Freedom’ acontece de 8 de abril a 6 de maio. A escolha das datas não é inocente, já que abrange o 18 de abril, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, e o 5 de maio – Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP. “É o dia da Libertação. Foi o pai do Amílcar que me falou de 1 de maio 1974, porque foi uma das pessoas ligadas à libertação, na Zona de Santa Catarina. E fechamos”. O objetivo no Tarrafal é “preservar a memória vs locus (o lugar)”. Às vezes parece que “ainda se tem medo de falar sobre o assunto”. Que “é melhor não mexer muito porque se mexer dói”. Consciente dos perigos de interferir numa ferida que “ainda está aberta”, quer tornar o espaço “mais vivencial”. Porque, “se não se der este salto, o Campo vai ficar esquecido ou abandonado. Cheio de espinhas e poeira. É um fantasma que lá está. Quando se pode fazer daquele um espaço vivo”. E este também pode ser, defende a artista, o papel da curadoria, ou seja, o de despertar consciências. De sentidos bem despertos, na arte como na vida, Marzia Bruno alerta-nos para os perigos do decapitar da emoção e incentiva o apuramento da ‘Narrativa de Fuga’ de cada obra para que nos possamos sentir envolvidos pelos circuitos que a arte oferece. Deixa-nos um desafio: que cada um se atreva “a descobrir a parte íntima e artística que nos une”. 41 campus 000 Campus UP 0.indd 41 06/01/17 16:02

Campus Belas Artes Passatempos - Mundo Universitário
Realidade Aumen- tada em Flash - Mundo Universitário
Download - Câmara Municipal do Porto
Colaboradores da - Arriva Portugal
ORFEÃO UNIVERSITÁRIO DO PORTO - Universidade do Porto
r e v i s t a t j d f t m a i o - j u n h o - j u l h o - a g o s t o - 2 0 0 8
Edição 413/2017
Download - Câmara Municipal do Porto
çen1tj1h bo homem - Repositório Aberto da Universidade do Porto
[boa vida] [ganha!!!] [campus] - Mundo Universitário
OFICINA PARA FORMATAÇÃO DE PROJETOS
PME Magazine - Edição 8 - Abril 2018
Untitled - Centro de Artes Universidade Federal de Pelotas
Descarregue EI 255 PDF NET - Sindicato dos Professores da ...
ORFEÃO UNIVERSITÁRIO DO PORTO - Universidade do Porto