Revista Brasileira de Engenharia de Pesca
Revista Brasileira de Engenharia de Pesca
Revista Brasileira de Engenharia de Pesca
Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!
Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.
H<br />
ISSN –<br />
ISSN 1980-587X<br />
Subiendo re<strong>de</strong>s (Quadro <strong>de</strong> Héctor Becerini)*<br />
VEJA TAMBÉM NESTE NÚMERO<br />
<strong>Revista</strong><br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
<strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong><br />
<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />
Volume 2, Número 1 - Janeiro <strong>de</strong> 2007<br />
<strong>Pesca</strong>, Aqüicultura, Tecnologia do <strong>Pesca</strong>do, Ecologia Aquática<br />
Aqüicultura: áreas na<br />
Bacia do Itapecuru, MA<br />
Alemanha e Áustria:<br />
Atlas da Ictiofauna<br />
Carotenói<strong>de</strong>s:<br />
Fontes naturais para a<br />
aqüicultura<br />
História: Associação<br />
dos Eng os <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> PE<br />
REVIZEE:<br />
Missão cumprida?<br />
Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto, Mar <strong>de</strong>l Plata, Argentina � Macrófitas aquáticas na produção <strong>de</strong> tijolos<br />
Análise <strong>de</strong> variáveis na carcinicultura � Biofertilizantes e sobrevivência <strong>de</strong> tilápias<br />
Beneficiamento <strong>de</strong> pescado em Itapissuma, PE � Anelí<strong>de</strong>o enquitréia na alimentação do niquim<br />
A pesca oceânica no Brasil no século 21 � Transporte ina<strong>de</strong>quado <strong>de</strong> caranguejo-ucá<br />
1<br />
ATENÇÃO: PARA NAVEGAR USE “BOOKMARKS” À ESQUERDA
DIRETOR<br />
2<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />
VOLUME 2, NÚMERO 1, 2007<br />
Eds.: José Milton Barbosa e Haroldo Gomes Barroso<br />
Haroldo Gomes Barroso - UEMA<br />
EDITORES<br />
José Milton Barbosa - UFRPE<br />
Haroldo Gomes Barroso - UEMA<br />
DIRETOR DE MARKETING<br />
Rogério Bellini - Netuno<br />
ASSISTENTES DE EDIÇÃO<br />
Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira Mendonça<br />
Fábia Gabriela Pflugraph Carraro<br />
Pollyanna <strong>de</strong> Moraes França Ferreira<br />
Elton Lima Santos<br />
Hel<strong>de</strong>r Correia Lima (UFRPE)<br />
WEBMASTER<br />
Junior Bal<strong>de</strong>z - UEMA<br />
Paula <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s - UFRPE<br />
COMISSÃO EDITORIAL<br />
Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE<br />
Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales - FAEP-BR<br />
Luiz <strong>de</strong> Souza Viana – Emater/PR<br />
Maria do Carmo Gominho Rosa - Unioeste<br />
Maria Nasaré Bona <strong>de</strong> Alencar Araripe - UFPI<br />
Paula Maria Gênova <strong>de</strong> Castro - Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>/SP<br />
Paulo <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s - UFRPE<br />
Rogério Souza <strong>de</strong> Jesus - INPA<br />
Raimundo Nonato <strong>de</strong> Lima Conceição - UFC<br />
Neiva Maria <strong>de</strong> Almeida - UFPB<br />
Vanildo Souza <strong>de</strong> Oliveira - UFRPE<br />
Walter Moreira Maia Junior - UFPB<br />
CONSULTORES AD HOC<br />
Alex Augusto Gonçalves - UNISINOS<br />
Antônio Diogo Lustosa Neto – Consultor Autônomo<br />
Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE<br />
Fábia Gabriela Pflugraph Carraro - UFRPE<br />
Fábio Vieira Hissa Hazin - UFRPE<br />
Fernando Porto - UFRPE<br />
Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira Mendonça - UFRPE<br />
José Milton Barbosa - UFRPE<br />
Maria do Carmo Figueredo Soares - UFRPE<br />
Neiva Maria <strong>de</strong> Almeida - UFPB<br />
Paula Maria Gênova <strong>de</strong> Castro – Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>/SP<br />
Paulo <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s - UFRPE<br />
Raimundo Nonato <strong>de</strong> Lima Conceição - UFC<br />
Walter Moreira Maia Junior - UFPB
© Publicada em janeiro <strong>de</strong> 2007<br />
Todos os direitos reservados aos Editores<br />
Proibida a reprodução, por qualquer meio,<br />
Sem autorização dos editores.<br />
Impresso no Brasil<br />
Printed in Brazil<br />
Ficha catalográfica<br />
Setor <strong>de</strong> Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE<br />
R454 <strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />
Nacional / editores José Milton Barbosa, Haroldo Gomes<br />
Barroso -- São Luís, Ed. UEMA, 2007.<br />
V.2, n.1 : 166p : il.<br />
Quadrimestral<br />
3<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
______________________________________________________________________________<br />
Apoio<br />
Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />
Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />
1. <strong>Pesca</strong> 2. Aqüicultura 3. Ecossistemas Aquáticos,<br />
4. <strong>Pesca</strong>dos – Tecnologia I 5. Extensão Pesqueira. Barbosa,<br />
José Milton II. Barroso, Haroldo Gomes III. Universida<strong>de</strong><br />
Estadual do Maranhão<br />
CDD 639<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco
4<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />
ISSN 1980-587X<br />
Volume 2 Janeiro, 2007 Número 1<br />
Editorial<br />
P<br />
rezados amigos que estão acompanhando nossa <strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong><br />
<strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>), estamos apresentando o segundo número (V.2, N.1) da<br />
<strong>Revista</strong>, esperando correspon<strong>de</strong>r a expectativa <strong>de</strong> todos ou pelo menos da maioria.<br />
Muitas coisas ocorreram neste período, eleições, <strong>de</strong>bates e como não po<strong>de</strong>ria <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> ser<br />
calorosas discussões entre os honoráveis participantes <strong>de</strong> nosso “GI <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e<br />
Aqüicultura”. Por outro lado, alguns sectários da <strong>de</strong>sinformação lançaram suas re<strong>de</strong>s, com<br />
velhos refrões. Ultimamente, tem estado na moda criticar a ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> aqüicultura<br />
imputando-lhes culpa pelos <strong>de</strong>smazelos ambientais: seculares práticas <strong>de</strong> poluidores<br />
tradicionais. Não se levando em consi<strong>de</strong>ração os benefícios <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong>, geradora <strong>de</strong><br />
emprego e renda em regiões <strong>de</strong> tão baixo nível <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento humano e <strong>de</strong> tão<br />
escassas possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> implemento <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s capazes <strong>de</strong> gerar suporte financeiro e<br />
valorização social do homem. Outro fato notório foi a crítica infundada aos colegas que<br />
trabalham no controle dos ataques <strong>de</strong> tubarões na costa do gran<strong>de</strong> Recife que esqueceram<br />
os reclamos da socieda<strong>de</strong> acerca os aci<strong>de</strong>ntes com tubarões que, além <strong>de</strong> ceifar vidas, tem<br />
causado prejuízos a ativida<strong>de</strong> turística e cerceado a população do seu direito <strong>de</strong> lazer,<br />
prazeroso e barato.<br />
*CAPA: “SUBIENDO REDES” QUADRO DO PINTOR MARINISTA E DIRETOR DO Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l<br />
Puerto (MAR DEL PLATA, ARGENTINA) HÉCTOR BECERINI (FOTO), QUE GENTILMENTE NOS CEDEU AS<br />
FOTOS DE SEUS QUADROS PARA EMBELEZAR NOSSA REVISTA, COM INTERVINIÊNCIA DE PASQUALINO<br />
Marchese. A AMBOS OS NOSSOS MAIS SINCEROS AGRADECIMENTOS.<br />
José Milton Barbosa<br />
Editor Chefe
Sumário<br />
5<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Normas para Publicação 6<br />
I - ARTIGOS TÉCNICOS/INFORMATIVOS<br />
Atlas da biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes da Alemanha e Áustria – um contributivo para comunicação e 9<br />
informação na ictiologia<br />
- Heiko BRUNKEN, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen, Alemanha.<br />
A Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco: histórico e atuação<br />
19<br />
- Maria do Carmo Figueredo SOARES; Leonardo Teixeira <strong>de</strong> SALES; José Milton BARBOSA; Augusto<br />
José NOGUEIRA; Vanildo <strong>de</strong> Souza OLIVEIRA; Claudia Fernanda da F. OLIVEIRA<br />
REVIZEE – Missão cumprida?<br />
27<br />
- Carlos Fre<strong>de</strong>rico Simões SERAFIM - SECIRM<br />
Beneficiamento e comercialização do pescado na Região <strong>de</strong> Itapissuma, Pernambuco<br />
44<br />
- José Milton BARBOSA; Hel<strong>de</strong>r Correia LIMA; Erivaldo José da SILVA JÚNIOR; Artur Delmiro<br />
Sodré da MOTA; Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira MENDONÇA; Edson José da SILVA FILHO<br />
Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto (Mar <strong>de</strong>l Plata, Argentina)<br />
56<br />
- Héctor BECERINI<br />
A pesca oceânica no Brasil no século 21<br />
60<br />
- Fábio Hissa Vieira HAZIN; Paulo Eurico TRAVASSOS<br />
Método primitivo <strong>de</strong> transporte do caranguejo-uçá compromete sustentabilida<strong>de</strong> do estoque<br />
76<br />
- Raimundo Ivan MOTA<br />
I I- ARTIGOS CIENTÍFICOS<br />
Áreas potenciais para a aqüicultura sustentável na bacia do rio itapecuru: bases para o<br />
80<br />
planejamento utilizando o Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica<br />
- Haroldo Gomes BARROSO; Antônio <strong>de</strong> Pádua SOUSA<br />
Fontes naturais <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s <strong>de</strong> interesse para a aqüicultura: eficiência <strong>de</strong> métodos <strong>de</strong> extração 103<br />
- Renata PASSOS; Danilo G. MORIEL; Francisco LAGREZE; Luisa GOUVEIA; Marcelo<br />
MARASCHIN; Luis H. BEIRÃO<br />
Utilização da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa Planchon, 1849 (Hydrocharitacea) na produção <strong>de</strong> tijolos 114<br />
para construção civil<br />
- Thales Pacífico BEZERRA; Cristiano Pereira da SILVA; José Patrocínio LOPES<br />
Análise estatística das variáveis <strong>de</strong> cultivo do camarão Litopenaeus vannamei (Boone, 1931)<br />
128<br />
- Bruno Leonardo da Silva SANTOS; Paulo <strong>de</strong> Paula MENDES<br />
Sobrevivência <strong>de</strong> tilápia-do-nilo Oreochromis niloticus (Linnaeus, 1758), em diferentes concentrações <strong>de</strong> 143<br />
biofertilizante.<br />
- É<strong>de</strong>r André GUBIANI; Nyamien Yahault SEBASTIEN<br />
Utilização do aneli<strong>de</strong>o enquitréia, Enchytraeus albidus Henle, 1837 na alimentação do niquim,<br />
156<br />
Lophiosilurus alexandri Steindachner, 1876 durante a alevinagem inicial<br />
- José Patrocínio LOPES; Tâmara A. e SILVA; Darciene S. GOMES; Ana Cristina M. RANGEL<br />
Pag.
6<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA (RE<strong>Pesca</strong>)<br />
NORMAS PARA PUBLICAÇÃO<br />
OBJETIVO - A <strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>) tem por objetivo publicar artigos<br />
científicos e técnicos/informativos, abordando temas <strong>de</strong> interesse na área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e<br />
<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />
INFORMAÇÕES GERAIS - Os originais – redigidos <strong>de</strong> forma concisa, com a exatidão e a clareza<br />
necessárias à sua fiel compreensão – <strong>de</strong>vem ser enviados à Comissão Editorial pelo e-mail:<br />
repesca@gmail.com ou entregues em CD, rigorosamente <strong>de</strong> acordo com estas normas, don<strong>de</strong> serão<br />
enviados aos consultores “ad hoc”, membros da Comissão Editorial ou indicados pelo Editor. Os<br />
pareceres serão transmitidos anonimamente aos autores. Em caso <strong>de</strong> recomendação <strong>de</strong>sfavorável,<br />
po<strong>de</strong>rá ser pedida a opinião <strong>de</strong> um outro assessor. Os trabalhos serão publicados na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> aceitação,<br />
ou pela sua importância.<br />
Nunca use negrito no texto, em parte ou para <strong>de</strong>stacar títulos sub-títulos ou expressões.<br />
PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS<br />
DIGITAÇÃO - Os artigos com no máximo 15 páginas, incluindo tabelas e figuras, <strong>de</strong>vem ser digitado<br />
em letra Times New Roman, tamanho 12, papel A4 e em espaço 1,5 (entre linhas) com margens <strong>de</strong> 2<br />
cm em todos os lados, justificado e sem divisão <strong>de</strong> palavras no final da linha. Nomes científicos e<br />
palavras estrangeiras <strong>de</strong>vem ser grafados em “itálico”.<br />
TÍTULO - O título <strong>de</strong>ve dar uma idéia precisa do conteúdo e ser o mais curto possível escrito em letras<br />
maiúsculas tamanho12, centralizado.<br />
NOMES DOS AUTORES - Os nomes dos autores <strong>de</strong>vem constar sempre na sua or<strong>de</strong>m direta, sem<br />
inversões, com o sobrenome maiúsculo. Segue-se aos autores os en<strong>de</strong>reços institucionais e após o email<br />
do autor correspon<strong>de</strong>nte.<br />
Ciro Men<strong>de</strong>s CASTOR 1* José Mário BRAGA 2 ; Maria da Penha PIRILO 1<br />
1 Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Carolina<br />
2 Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Carolina<br />
*Email: ciromc@ymail.com<br />
O RESUMO E O ABSTRACT (que é iniciado com o título em inglês) - <strong>de</strong>vem conter as mesmas<br />
informações e sempre sumariar resultados e conclusões. Não <strong>de</strong>vem ultrapassar 300 palavras e serem<br />
seguidos <strong>de</strong>, no máximo, cinco palavras-chaves e key-words.<br />
Os artigos <strong>de</strong>vem ter os seguintes itens:
7<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
ARTIGOS CIENTÍFICOS - Resumo (+ Palavras-chave), Abstract (+ Keywords), Introdução, Material e<br />
Métodos, Resultados e Discussão (estes dois juntos ou separados), Conclusões (opcional),<br />
Agra<strong>de</strong>cimentos (opcional) e Referências.<br />
ARTIGOS TÉCNICOS/INFORMATIVOS - Resumo (+ Palavras-chave), Abstract (+ Key words),<br />
Introdução, Corpo (<strong>de</strong>senvolvimento do assunto) Conclusões (<strong>de</strong>nominados <strong>de</strong> Comentários<br />
Conclusivos ou Finais, Consi<strong>de</strong>rações Finais), Agra<strong>de</strong>cimentos (opcional) e Referências (quando<br />
houver citações no texto).<br />
Os nomes dos itens <strong>de</strong>vem ser maiúsculos e centralizados, com um espaço acima e abaixo.<br />
REFERÊNCIAS - Baseada no APA Citation Gui<strong>de</strong> (Publication Manual of the American Psychological<br />
Association, 5th ed.).<br />
Livro (um autor)<br />
Bellini, C. T. (2005). Tratado <strong>de</strong> Zoogeografia do Brasil: aspectos econômicos. Ubá: Editora Nova.<br />
No texto: A espécie ocorre... (Bellini, 2005) ou Segundo Bellini (2005) a espécie...<br />
(Dois autores)<br />
Rocha, R. & J.P. Lara (Eds.) (2004). Marine fishes. Victoria: University Press.<br />
No texto: (Rocha & Lara, 2004)<br />
Capítulo <strong>de</strong> livro<br />
Brito, N. & Datena, C. R. (2005). Crescimento <strong>de</strong> miracéu Astrocopus y-grecum em laboratório. In: H.<br />
G. Barroso (Ed.). The Sea Fishes (pp.23-27). São Luís (MA): Ed. Amazônia.<br />
No texto: (Brito & Datena, 2005)<br />
Artigo <strong>de</strong> <strong>Revista</strong><br />
Costa, J.B. (1957). A seca no agreste pernambucano. Rev. Bras. Secas. 7(27): 21-7.<br />
No texto: (Costa, 1957)<br />
Galvão, G.G.& Café , J.M. (2002). Peixes do Rio Farinha, MA. Rev. Mar. Biol. 27(7): 733-49.<br />
No texto (dois autores): (Galvão & Café, 2002)<br />
Pantaleão, N. T., Omino, P., Gil, C. & Falcão, E. (1987). Raias do Brasil. Bol. Zool. 7(8): 3-13.<br />
No texto (três a cinco autores) (Pantaleão, Omimo, Gil & Falcão, 1947)<br />
Koike, J., Itu, B., Marinho, A., Bitu, R. Brito, A.A. & Victor, J. (2007). A importância do bem-estar.<br />
Rev. Bras. Bem-estar. 7(1):7-27.<br />
No texto (mais <strong>de</strong> cinco autores): (Koike et al., 2007)<br />
Anais<br />
Marinho, M. A. & Abe, B. (2001). A violência contra as tartarugas. In: Congresso Latinoamericano <strong>de</strong><br />
Zoociências (pp. 33-47). Buenos Aires: Anais do CLZ, 6.
No texto: (Marinho & Abe, 2001)<br />
8<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Tese e Dissertação<br />
Maris, M. (2001). Contribuição estudo da pesca na Lagoa dos Patos [Tese <strong>de</strong> Doutorado]. Pelotas<br />
(RS): Universida<strong>de</strong> do Arroio.<br />
No texto: (Maris, 2001)<br />
Artigo on-line<br />
FAO (2007). The world's fisheries. Acessado em 27 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2007 em<br />
http://www.fao.org\fi\statist\htm.<br />
No texto: (FAO, 2007)<br />
Correções - Os trabalhos que necessitarem <strong>de</strong> correções serão <strong>de</strong>volvidos aos autores e <strong>de</strong>verão<br />
retornar ao Editor no prazo <strong>de</strong> 7 dias, caso contrário po<strong>de</strong>rão ter a publicação postergada.<br />
MATERIAL ILUSTRATIVO - As Tabelas e Figuras <strong>de</strong>vem se restringir ao necessário para o<br />
entendimento do texto e numeradas em algarismos arábicos. As Figuras <strong>de</strong>vem ser “inseridas” no texto<br />
e nunca “recortadas” e “coladas”, <strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong> tamanho compatível, para não per<strong>de</strong>r a niti<strong>de</strong>z quando<br />
reduzidas e agrupadas, sempre que possível. As Tabelas <strong>de</strong>vem ser feitas com utilização da ferramenta<br />
Tabela do “Word”. As legendas <strong>de</strong>vem ser auto-explicativas colocadas acima nas Tabelas e abaixo nas<br />
Figuras. Símbolos e abreviaturas <strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong>finidos nas legendas.<br />
OBSERVAÇÃO - Antes <strong>de</strong> remeter o trabalho, verifique se o mesmo está <strong>de</strong> acordo com as normas,<br />
atentando ainda para os seguintes itens: correção gramatical, correção da digitação, correspondência<br />
entre os trabalhos citados no texto e os referidos nas referências, correspondência entre os números <strong>de</strong><br />
tabelas e figuras, e as citações no texto.<br />
ATENÇÃO:<br />
a) a revista não concorda necessariamente com os conceitos emitidos pelos articulistas; b) os recursos<br />
advindos <strong>de</strong> possíveis doações, financiamentos, assinaturas, venda <strong>de</strong> publicações da RE<strong>Pesca</strong><br />
(disquetes, CDS, cópias impressas etc.) serão utilizado na manutenção da revista, não cabendo<br />
participação dos autores no usufruto <strong>de</strong>sses recursos; c) os autores ao enviar seus trabalhos concordam<br />
com os termos <strong>de</strong>stas normas; d) o autor principal (ou correspon<strong>de</strong>nte) é responsável pela aceitação,<br />
para publicação nesta RE<strong>Pesca</strong>, dos <strong>de</strong>mais autores do trabalho.<br />
DÚVIDAS E ENVIO DE TRABALHOS: contactar o Editor-Chefe no seguinte e-mail: repesca@gmail.com<br />
A RE<strong>Pesca</strong> está disponível em pdf (Adobe rea<strong>de</strong>r ou adobe acrobat) no site da Universida<strong>de</strong> Estadual<br />
do Maranhão/<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>: www.engenharia<strong>de</strong>pesca.uema.br
I - ARTIGOS TÉCNICOS/INFORMATIVOS<br />
9<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
ATLAS DA BIODIVERSIDADE DE PEIXES DA ALEMANHA E ÁUSTRIA – UM<br />
CONTRIBUTIVO PARA COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO NA ICTIOLOGIA<br />
Heiko BRUNKEN (brunken@fbsm.hs-bremen.<strong>de</strong>)<br />
Instituto <strong>de</strong> Meio Ambiente e Biotecnologia, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen, Alemanha<br />
RESUMO<br />
Pela primeira vez são apresentados mapas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong> peixes <strong>de</strong> água doce e peixes marinhos,<br />
para toda a Alemanha e Áustria. O projeto “Atlas da Biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Peixes da Alemanha e Áustria”<br />
tem um sistema <strong>de</strong> informações ictiológico feito com base nos programas BioOffice 2.0© (BIOGIS<br />
GmbH, Salzburg) e ArcGis 9© (ESRI) (banco <strong>de</strong> dados e geographical information system). O acesso<br />
a mapas e informações biológicas está aberto para o público via internet (www.fischartenatlas.<strong>de</strong>). Os<br />
mapas se baseiam em grid <strong>de</strong> sistema <strong>de</strong> mapas na escala 1:25.000 para Alemanha (sistema <strong>de</strong> grid<br />
1:50.000 para Áustria e sistema <strong>de</strong> grid 5x5 milhas marítimas para o Mar do Norte e Mar Báltico<br />
respectivamente). O layout dos mapas po<strong>de</strong> ser modificado online, a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r <strong>de</strong> informações<br />
escolhidas no background, como topografia, bacias hidrográficas, sistema <strong>de</strong> grid <strong>de</strong>ntre outras. Além<br />
disso, os mapas da distribuição oferecem informações ictiológicas, por exemplo, sobre biologia e<br />
taxonomia das espécies com uma galeria <strong>de</strong> fotos. Fora essas informações a cerca <strong>de</strong> espécies, o atlas<br />
contém informações sobre literatura, lei européia nas áreas <strong>de</strong> proteção ambiental, projetos <strong>de</strong><br />
recuperação dos rios e chaves <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação das espécies. O atlas é um projeto in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte non<br />
profit e preenche uma lacuna entre as ofertas <strong>de</strong> informações globais, como fishbase, e regionais (por<br />
exemplo, com relação a cada Estado). A redação do projeto encontra-se na Hochschule Bremen<br />
(Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen) sob os auspícios <strong>de</strong> Gesellschaft für Ichthyologie<br />
(Socieda<strong>de</strong> Ictiologia da Alemanha). O input das informações específicas ou informações sobre as<br />
bacias hidrográficas é provido por uma equipe <strong>de</strong> aproximadamente 50 especialistas externos, que vão<br />
completando e atualizando o banco <strong>de</strong> dados continuamente.<br />
PALAVRAS-CHAVES: Sistema <strong>de</strong> informação ictiológica, Alemanha, Áustria, Mar do Norte, Mar Báltico
INTRODUÇÃO<br />
10<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Até hoje não há mapas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong> peixes, nem da Alemanha (incluindo o Mar do Norte e<br />
o Mar Báltico), nem da Áustria. Uma das causas <strong>de</strong>sta ausência é o fato do órgão responsável pela<br />
pesca na Alemanha ser estadual, e não fe<strong>de</strong>ral. Com a introdução da Lei Européia referente às áreas <strong>de</strong><br />
proteção ambiental, on<strong>de</strong> os peixes servem como bioindicatores para a qualida<strong>de</strong> das águas (Diretiva<br />
2000/60/CE), ou seja, estão protegidos pela re<strong>de</strong> européia das reservas da natureza “NATURA 2000”<br />
(Diretiva 92/43/CEE).<br />
Apesar <strong>de</strong> o interesse pelos dados <strong>de</strong> biologia e distribuição <strong>de</strong> peixes ter aumentado muito,<br />
tanto em águas doces, como em águas marinhas, ainda não existem informações a<strong>de</strong>quadas. Os dados<br />
existentes estão espalhados (por exemplo, nas instituições estaduais <strong>de</strong> pesca, nas universida<strong>de</strong>s ou<br />
museus naturais) e o sistema global fishbase (FROESE; PAULY, 2006) não tem uma escala apropriada<br />
e ainda não foi plenamente aceito por estar em inglês e ter uma estrutura complexa. No entanto, fazer<br />
uma monografia sobre todas as espécies da Alemanha e Áustria por meio <strong>de</strong> uma abordagem científica,<br />
a fim <strong>de</strong> preencher essa lacuna, parece quase impossível para uma só pessoa, <strong>de</strong>vido à gama <strong>de</strong><br />
informações existentes atualmente.<br />
Desta necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma exata catalogação das espécies <strong>de</strong> peixes resultou a idéia <strong>de</strong> distribuir<br />
o trabalho entre diversos colegas. Partindo da idéia <strong>de</strong> “um peixe (espécie) por pessoa” tentaremos criar<br />
uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> especialistas, para a qual um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> “encarregados <strong>de</strong> espécies” contribuirão,<br />
cada um em seu lugar <strong>de</strong> origem, o que resultará em uma plataforma <strong>de</strong> informações sobre biologia e<br />
distribuição dos peixes. Essa plataforma, que tem o nome <strong>de</strong> “Atlas da Biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Peixes da<br />
Alemanha e Áustria”, terá uma redação central na Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas <strong>de</strong> Bremen,<br />
on<strong>de</strong> também será administrada e posta à disposição <strong>de</strong> um público <strong>de</strong> cientistas e pessoas interessados.<br />
Uma vez que na realida<strong>de</strong> não haverá especialistas suficientes para todas as espécies e, por outro<br />
lado, muitos especialistas trabalham com várias espécies, tentar-se-á construir um grupo <strong>de</strong><br />
especialistas <strong>de</strong> aproximadamente 50 pessoas para peixes <strong>de</strong> água doce e, caso se leve em consi<strong>de</strong>ração<br />
os peixes marinhos, o número será bem maior.<br />
Objetivo e intenção do projeto são a criação, a longo prazo, <strong>de</strong> uma plataforma <strong>de</strong> comunicação<br />
e informação na área <strong>de</strong> ictiologia, tendo em vista primordialmente a conservação e a proteção das<br />
espécies e dos ecossistemas aquáticos. Com este projeto, queremos reunir pessoas e informações para<br />
apoiar a pesquisa ictiológica. É importante frisar que não temos a intenção <strong>de</strong> construir um centro <strong>de</strong><br />
dados, paralelo ao das instituições oficiais já existentes. Em várias instituições já existem excelentes<br />
bancos <strong>de</strong> dados (por exemplo, nas superintendências <strong>de</strong> pesca estaduais ou nas instituições ligadas à
11<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
pesquisa <strong>de</strong> ictiologia) e possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> análises, mas não há uma plataforma <strong>de</strong> informação<br />
nacional. O objetivo do projeto é prioritariamente divulgar informações já existentes e, com isso,<br />
melhorar o conhecimento <strong>de</strong>stas informações.<br />
O atlas é um projeto in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte non profit sob os auspícios <strong>de</strong> ONG Gesellschaft für<br />
Ichthyologie (Socieda<strong>de</strong> Ictiologia da Alemanha e Áustria). O projeto encontra-se na Hochschule<br />
Bremen (Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen) e o autor é responsável pela sua concepção e<br />
redação.<br />
MAPAS DE DISTRIBUIÇÃO<br />
O atlas é um sistema <strong>de</strong> informações ictiológico sobre os peixes da Alemanha e Áustria na área<br />
<strong>de</strong> especialização em biodiversida<strong>de</strong> e proteção do meio ambiente (em parte ainda na fase <strong>de</strong><br />
estruturação; novembro 2006). Pela primeira vez estamos apresentando os mapas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong><br />
peixes <strong>de</strong> água doce e <strong>de</strong> peixes marinhos para toda a Alemanha (Figuras 1, 2) e Áustria. O acesso a<br />
mapas e informações biológicos está aberto para o público via internet (www.fischartenatlas.<strong>de</strong>).<br />
Base <strong>de</strong> dados são os mapas <strong>de</strong> distribuição dos peixes existentes em cada estado e dados <strong>de</strong><br />
distribuição em parte ainda não publicados por várias instituições e especialistas <strong>de</strong> ictiologia da<br />
Alemanha e Áustria; em pormenor: BARLAS et al., 1987; DIERCKING; WEHRMANN, 1991;<br />
SCHIRMER, 1991; GAUMERT; KÄMMEREIT, 1993; VILCINSKAS; WOLTER, 1993; BOCK et<br />
al., 1996; FÜLLNER et al., 1996; KAMMERAD et al., 1997; SPRATTE; HARTMANN, 1998;<br />
BRÄMICK et al., 1999; BOHL et al., 2000; PELZ; BRENNER, 2000; DUßLING; BERG, 2001;<br />
FISCHEREIVERBAND SAAR, 2001; KLINGER, 2001; SCHAARSCHMIDT; LEMCKE, 2004;<br />
assim como dados <strong>de</strong> Centro <strong>de</strong> Pesquisa Nacional <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Hamburgo Bun<strong>de</strong>sforschungsanstalt für<br />
Fischerei Hamburg, a Secretaria <strong>de</strong> Meio Ambiente do Estado <strong>de</strong> Mecklenburg-Vorpommern,<br />
Protecção a Natureza e Geologia do Estado <strong>de</strong> Mecklenburg-Vorpommern Naturschutz und Geologie<br />
Mecklenburg-Vorpommern, Instituto Alfred-Wegener para Pesquisa Polar, Instituto <strong>de</strong> Ecologia das<br />
Águas Institut für Gewässerökologie Scharfling e mais.<br />
As distribuições <strong>de</strong> peixes são apresentadas numa visão geral nos mapas e apresentados por<br />
espécies em representações <strong>de</strong> presença-ausência. Os mapas baseiam-se em grid <strong>de</strong> sistema <strong>de</strong> mapas<br />
na escala 1:25.000 para Alemanha, em grid <strong>de</strong> sistema <strong>de</strong> mapas na escala 1:50.000 para Áustria e em<br />
grid 5x5 milhas marítimas para o Mar do Norte e para Mar Báltico. Atualmente o atlas tem mais ou<br />
menos 100.000 séries <strong>de</strong> dados (pontos <strong>de</strong> distribuição).
12<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 1 – Mapa <strong>de</strong> distribuição exemplar do banco <strong>de</strong> dados, parte „Peixes <strong>de</strong> água doce da<br />
Alemanha”. Nas barras <strong>de</strong> navegação à direita se po<strong>de</strong> modificar o layout dos mapas online<br />
escolhendo-se várias informações no background como, topografia (Topographie), bacias<br />
hidrográficas (Flussgebiete) ou sistema dos rios (Gewässernetz). Clicando „Artinformationen<br />
(PDF)“ se po<strong>de</strong> acessar aos dados biológicos da espécie. O “cartão-<strong>de</strong>-visita” tem informações<br />
sobre o especialista da espécie.
13<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 2 – Mapa exemplar da distribuição do banco <strong>de</strong> dados, setor <strong>de</strong> “Peixes <strong>de</strong> marinhos da<br />
Alemanha”, referente apenas ao Mar do Norte. AWZ Ausschließliche Wirtschaftszone Zona<br />
Econômica Exclusiva da Alemanha. Os polígonos ver<strong>de</strong>s mostram áreas protegidas (FFH-Gebiete<br />
preservação dos habitats naturais e da fauna como também da flora selvagem).<br />
ESTRUTURA DE DADOS<br />
No centro do sistema das informações há o programa BioOffice 2.0© (<strong>de</strong> empresa BIOGIS,<br />
Salzburg, Áustria), feito especialmente para o projeto (BRUNKEN; BRUNSCHÖN, 2006) (Figuras 3 e<br />
4). Importação e exportação <strong>de</strong> dados são feitas com um módulo do programa MS-Access© com várias<br />
funções especiais para filtrar e controlar os dados. Os mapas são configurados com ArcGis© (<strong>de</strong><br />
empresa ESRI), com o programa BioMapper© (<strong>de</strong> empresa BIOGIS). A exportação <strong>de</strong> dados para<br />
internet é feita através <strong>de</strong> um banco <strong>de</strong> dados MySQL.<br />
Os mapas <strong>de</strong> distribuição são criados online, quando o usuário acessa o site na internet. Com<br />
isso, po<strong>de</strong> ter várias opções <strong>de</strong> background, como topografia, bacias hidrográficas, sistema dos rios ou
14<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
áreas protegidas. Os mapas têm informações biológicas, fotografias e vários outros dados sobre cada<br />
espécie (atualmente ainda em fase <strong>de</strong> construção).<br />
MS Access ©<br />
Dados <strong>de</strong> distribuição<br />
Importação<br />
BioOffice 2.0 ©<br />
Banco <strong>de</strong> dados<br />
principal do Atlas<br />
SQL-Exportação<br />
Shapefiles<br />
Exportação<br />
MySQL - Banco <strong>de</strong> dados<br />
para apresentar os dados na<br />
internet<br />
(online information system)<br />
ArcGIS 9 ©<br />
para fazer mapas <strong>de</strong><br />
distribuição<br />
Figura 3 – Estrutura do sistema das Figura 4 – Banco <strong>de</strong> dados principal<br />
informações ictiológicas. (BioOffice 2.0©).<br />
PLATAFORMA DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO<br />
A base <strong>de</strong> projeto é uma re<strong>de</strong> centralizada <strong>de</strong> especialistas da área <strong>de</strong> Ictiologia na Alemanha e<br />
Áustria (Figuras 5 e 6).<br />
Figura 5 – Colaboradores do projeto e estrutura Figura 6 – Equipe <strong>de</strong> redação<br />
da re<strong>de</strong> dos especialistas ictiológicos.<br />
Locais <strong>de</strong><br />
distribuição<br />
a. grid dos mapas<br />
b. Coor<strong>de</strong>nadas<br />
exatas<br />
Contatos<br />
Especialistas e redação<br />
Coleção<br />
Por exemplo: Dados do<br />
„Atlas <strong>de</strong> Peixes da Alemanha“<br />
A estrutura do atlas é aberta para colaboradores. Há várias formas <strong>de</strong> apoiar o projeto, por<br />
exemplo, redigindo uma monografia sobre uma espécie, contribuindo com literatura ou colaborando<br />
Objetos<br />
Pontos da distribuição<br />
(agora mais ou menos<br />
100.000 dados)<br />
Literatura<br />
Espécies<br />
Tabelas das<br />
espécies<br />
Alemanha água doce<br />
Austria água doce<br />
Alemanha marinhos
15<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
com projetos nas áreas <strong>de</strong> recuperação dos rios ou proteção das espécies ameaçadas. Os colaboradores<br />
po<strong>de</strong>m corrigir e completar as informações sobre a distribuição das espécies. O atlas tem muitas<br />
informações para download sobre normas para publicação, transferência <strong>de</strong> dados, etc. na página<br />
“contato e redação” (Kontakt & Redaktion). O input das informações específicas ou informações com<br />
relação às bacias hidrográficas é provido por um grupo <strong>de</strong> aproximadamente 50 especialistas externos,<br />
que vão completando e atualizando o banco <strong>de</strong> dados continuamente. Os especialistas contribuem com<br />
monografias e outras colaborações com direitos autorais, havendo regras claras <strong>de</strong> como se fazer<br />
citações. A redação do projeto encontra-se na Hochschule Bremen (Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências<br />
Aplicadas Bremen), no grupo <strong>de</strong> pesquisa ecologia <strong>de</strong> peixes.<br />
O projeto ainda está na fase da construção. Além <strong>de</strong> informações específicas, o atlas <strong>de</strong>ve conter<br />
colaborações sobre temas como: lei européia nas áreas <strong>de</strong> proteção das águas (quadro <strong>de</strong> ação<br />
comunitária no domínio da política da água; Diretiva 2000/60/CE) e da natureza (preservação dos<br />
habitats naturais e da fauna e da flora selvagens; Diretiva 92/43/CEE), literatura, especialmente artigos<br />
sobre distribuição <strong>de</strong> peixes, relatórios, monografias e várias dissertações, chaves <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação com<br />
fotografias, gráficos, tabelas, informações sobre espécies ameaçadas e possibilida<strong>de</strong>s para a sua<br />
proteção, informações sobre projetos <strong>de</strong> recuperação dos habitats aquáticos e informações sobre<br />
coleções ictiológicas (museus, universida<strong>de</strong>s),<br />
CONCLUSÕES<br />
Com o projeto “Atlas <strong>de</strong> biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Peixes da Alemanha e Áustria” po<strong>de</strong>mos preencher<br />
uma lacuna no conhecimento ictiológico. As primeiras reações mostram que existe uma gran<strong>de</strong><br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> informações sobre a biologia e a distribuição <strong>de</strong> peixes. O atlas, mesmo se tratando <strong>de</strong><br />
um trabalho científico, tem uma linguagem simples. Além disso, alguns aspectos são muito importantes<br />
para o projeto ser aceito pelo gran<strong>de</strong> público <strong>de</strong> interessados. A viabilida<strong>de</strong> científica dos dados e<br />
informações é essencial e po<strong>de</strong> ser garantido, não só <strong>de</strong>vido à participação <strong>de</strong> muitos especialistas,<br />
como pelo fato <strong>de</strong> a redação ser efetuada <strong>de</strong> forma centralizada. A varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> opiniões entre os<br />
pesquisadores é normal como, por exemplo, sobre a taxonomia das espécies, e por isso o atlas <strong>de</strong>ve ser<br />
uma plataforma apropriada para apresentar e discutir esses casos. Um outro aspecto é a garantia <strong>de</strong> os<br />
colaboradores terem todos os direitos autorais preservados, seja nas monografias, fotografias etc. O<br />
atlas tem citações <strong>de</strong> diversas instituições utilizadas <strong>de</strong> formas distintas e só apresenta informações<br />
sobre presença/ausência, espécie, ano e origem <strong>de</strong> dados. Os dados completos, com mais informações,<br />
como por exemplo sobre parâmetros dos habitats, permanecem nas instituições originais. O atlas não
16<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
<strong>de</strong>ve se utilizado para um projeto paralelo <strong>de</strong> museus ou universida<strong>de</strong>s, muito pelo contrário, ele <strong>de</strong>ve<br />
ser uma plataforma <strong>de</strong> comunicação e ajuda para todos os colaboradores.<br />
Em princípio, as idéias apresentadas nesse artigo – tanto o banco <strong>de</strong> dados como a estrutura <strong>de</strong><br />
uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> ictiologistas – po<strong>de</strong>m ser empregadas a outras áreas e outros grupos <strong>de</strong> animais e plantas.<br />
Sua estrutura permite, com seu sistema facilmente inteligível, que essas idéias possam ser empregadas<br />
aplicando uma mistura <strong>de</strong> programas universais e específicos (BioOffice©) sem gran<strong>de</strong> esforço.<br />
AGRADECIMENTOS<br />
Gostaríamos <strong>de</strong> agra<strong>de</strong>cer a:<br />
- Corinna Brunschön, Henning Har<strong>de</strong>r, Martin Sperling e Martin Winkler pelo apoio técnico e pela<br />
realização do projeto.<br />
- Silke Eilers, Jörg Freyhof e Matthias Hein pela colaboração redacional.<br />
- Glícia Calazans pela ajuda nos contatos e comunicação no Recife.<br />
- Vania Kahrsch pela tradução.<br />
BIBLIOGRAFIA<br />
BARLAS, M.; BRUNKEN, H.; LELEK, A.; MEINEL, W.; PELZ, G.R., 1987, Natur in Hessen. Das<br />
Vorkommen <strong>de</strong>r Fische in Fließgewässern <strong>de</strong>s Lan<strong>de</strong>s Hessen. Hessisches Ministerium für<br />
Landwirtschaft, Forsten und Naturschutz (ed.), Wiesba<strong>de</strong>n, 72p.<br />
BOCK, K.-H.; BÖßNECK, U.; BRETTFELD, R.; MÜLLER, R.; MÜLLER, U.; ZIMMERMANN, W.,<br />
1996, Fische in Thüringen. Die Verbreitung <strong>de</strong>r Fische, Rundmäuler, Krebse und Muscheln in<br />
Thüringen (2. Aufl.). Ministerium für Landwirtschaft, Naturschutz und Umwelt (ed.), Erfurt 120p.<br />
BOHL, E.; GERBER, J.; GROH, K.; JUNGBLUTH, J.H.; LEUNER, E.; KLEIN, E., 2000, Ergebnisse<br />
<strong>de</strong>r Artenkartierungen in <strong>de</strong>n Fließgewässern Bayerns. Fische, Krebse, Muscheln. Bayerisches<br />
Staatsministerium für Ernährung, Landwirtschaft und Forsten (ed.), München, 212p.<br />
BRÄMICK, U.; ROTHE, U.; SCHUHR, H.; TAUTENHAHN, M.; THIEL, U.; WOLTER, C.; ZAHN,<br />
S., 1999, Fische in Bran<strong>de</strong>nburg. Verbreitung und Beschreibung <strong>de</strong>r märkischen Fischfauna.<br />
Ministerium für Ernährung, Landwirtschaft und Forsten <strong>de</strong>s Lan<strong>de</strong>s Bran<strong>de</strong>nburg, Institut für<br />
Binnenfischerei e.V. Potsdam-Sacrow (ed.), Potsdam, 151p.<br />
BRUNKEN, H.; BRUNSCHÖN, C., 2006, Digitaler Fischartenatlas von Deutschland – eine<br />
Projektbeschreibung. Verhandlungen <strong>de</strong>r Gesellschaft für Ichthyologie 5, 2006: 27-34.
17<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
DIERCKING, R.; WEHRMANN, L., 1991, Artenschutzprogramm Fische und Rundmäuler in<br />
Hamburg. Naturschutz und Landschaftspflege 38: 1-126.<br />
Directiva 2000/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, <strong>de</strong> 23 <strong>de</strong> Outubro <strong>de</strong> 2000, que<br />
estabelece um quadro <strong>de</strong> acção comunitária no domínio da política da água.<br />
Jornal Oficial nº L 327 <strong>de</strong> 22/12/2000: 1-73.<br />
Directiva 92/43/CEE do Conselho, <strong>de</strong> 21 <strong>de</strong> Maio <strong>de</strong> 1992, relativa à preservação dos habitats naturais<br />
e da fauna e da flora selvagens. Jornal Oficial nº L 206 <strong>de</strong> 22/07/1992: 7-50.<br />
DUßLING, U.; BERG, R., 2001, Fische in Ba<strong>de</strong>n-Württemberg. Hinweise zur Verbreitung und<br />
Gefährdung <strong>de</strong>r freileben<strong>de</strong>n Neunaugen und Fische. 2. Aufl. Ministerium für Ernährung und<br />
ländlichen Raum Ba<strong>de</strong>n-Württemberg (ed.), Stuttgart, 176p.<br />
FISCHEREIVERBAND SAAR (ed.)., 2001, Fische und Flusskrebse <strong>de</strong>s Saarlan<strong>de</strong>s. 1. Aufl.<br />
Atlantenreihe 1., Dillingen, 111p.<br />
FROESE, R.; PAULY, D. (eds.), 2006, FishBase. World Wi<strong>de</strong> Web electronic publication.<br />
www.fishbase.org, version (03/2006).<br />
FÜLLNER, G.; PFEIFER, M.; SIEG, S.; ZARSKE, A., 1996, Die Fischfauna von Sachsen,<br />
Rundmäuler, Fische, Krebse, Geschichte, Verbreitung, Gefährdung, Schutz. Sächsische Lan<strong>de</strong>sanstalt<br />
für Landwirtschaft (ed.), Dres<strong>de</strong>n, 166p.<br />
GAUMERT, D.; KÄMMEREIT, M., 1993, Süßwasserfische in Nie<strong>de</strong>rsachsen. Nie<strong>de</strong>rsächsisches<br />
Lan<strong>de</strong>samt für Ökologie, Dezernat Binnenfischerei (ed.), Hil<strong>de</strong>sheim, 161p.<br />
KAMMERAD, B.; ELLERMANN, S.; MENKE, J.; WÜSTEMANN, O.; ZUPPKE, U., 1997, Die<br />
Fischfauna von Sachsen-Anhalt. Verbreitungsatlas. Ministerium für Raumordnung, Landwirtschaft und<br />
Umwelt <strong>de</strong>s Lan<strong>de</strong>s Sachsen-Anhalt (ed.), Mag<strong>de</strong>burg, 180p.<br />
KLINGER, H., 2001, Fische unserer Bäche und Flüsse. Aktuelle Verbreitung, Entwicklungsten<strong>de</strong>nzen,<br />
Schutzkonzepte für Fischlebensräume in Nordrhein-Westfalen. Ministerium für Umwelt und<br />
Naturschutz, Landwirtschaft und Verbraucherschutz <strong>de</strong>s Lan<strong>de</strong>s Nordrhein-Westfalen (ed.),<br />
Düsseldorf, 200p.<br />
PELZ, R.; BRENNER, T., 2000, Fische und Fischerei in Rheinland-Pfalz. Bestandsaufnahme,<br />
fischereiliche Nutzung, Fischartenschutz. Ministerium für Umwelt und Forsten Rheinland-Pfalz (ed.),<br />
Mainz, 258p.
18<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
SCHAARSCHMIDT, T.; LEMCKE, R., 2004, Quellendarstellungen zur historischen Verbreitung von<br />
Fischen und Rundmäulern in Binnengewässern <strong>de</strong>s heutigen Mecklenburg-Vorpommerns. Mitt.<br />
Lan<strong>de</strong>sforschungsanstalt Landwirtschaft Fischerei Mecklenburg-Vorpommern, Gülzow 32: 1-261.<br />
SCHIRMER, M., 1991, Die Verbreitung <strong>de</strong>r Fische im Land Bremen. Abh. Naturwiss. Verein Bremen<br />
41: 405-465.<br />
SPRATTE, S.; HARTMANN, U., 1998, Fischartenkataster. Süßwasserfische und Neunaugen in<br />
Schleswig-Holstein. Ministerium für ländliche Räume, Landwirtschaft, Ernährung und Tourismus <strong>de</strong>s<br />
Lan<strong>de</strong>s Schleswig-Holstein (ed.), Kiel, 183p.<br />
VILCINSKAS, A.; WOLTER, C., 1993, Fische in Berlin. Verbreitung, Gefährdung, Rote Liste.<br />
Senatsverwaltung für Stadtentwicklung und Umweltschutz, Referat Öffentlichkeitsarbeit (ed.), Berlin,<br />
109p.�
19<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
ASSOCIAÇÃO DOS ENGENHEIROS DE PESCA DE PERNAMBUCO:<br />
HISTÓRICO E ATUAÇÃO<br />
Maria do Carmo Figueredo SOARES (mcfs@ufrpe.br);<br />
Leonardo Teixeira <strong>de</strong> SALES (leopesca@ufpi.br);<br />
José Milton BARBOSA (jmilton@gmail.com)<br />
Augusto José NOGUEIRA (augustopesca@ig.com.br)<br />
Fe<strong>de</strong>ração das Associações <strong>de</strong> Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil, FAEP-BR<br />
Vanildo <strong>de</strong> Souza OLIVEIRA (vanildo@ufrpe.br);<br />
Claudia Fernanda da F. OLIVEIRA (cffoliveira@hotmail.com)<br />
Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco, AEP-PE<br />
RESUMO<br />
São apresentados alguns dados sobre a Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco<br />
(AEP-PE), ao longo <strong>de</strong> sua trajetória <strong>de</strong> 28 anos <strong>de</strong> existência, na qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma associação <strong>de</strong><br />
classe pioneira no país. Destacou-se um pequeno histórico <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a sua fundação, com a composição da<br />
primeira diretoria até as principais ações <strong>de</strong>senvolvidas pelo grupo.<br />
PALAVRAS-CHAVE: engenharia <strong>de</strong> pesca; presi<strong>de</strong>ntes da AEP-PE; congressos.<br />
INTRODUÇÃO<br />
A importância do convívio em nível das associações <strong>de</strong> classe po<strong>de</strong> ser mais bem entendida,<br />
refletindo-se sobre as três instâncias indivíduo-socieda<strong>de</strong>-espécie, formando uma tría<strong>de</strong> inseparável. O<br />
indivíduo humano, mesmo na sua autonomia, é 100% biológico e 100% cultural (MORIN, 2005).<br />
Partindo <strong>de</strong>ssa premissa apresenta-se a Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco, (AEP-<br />
PE) uma das primeiras associações da classe dos engenheiros <strong>de</strong> pesca, que vem conseguindo reunir-se<br />
ao longo dos anos, <strong>de</strong> forma contínua, com uma boa participação <strong>de</strong> seus associados.<br />
A AEP-PE foi fundada em 20/01/1978 no Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral<br />
Rural <strong>de</strong> Pernambuco. É nesta universida<strong>de</strong>, que também foi criado o primeiro curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong><br />
<strong>Pesca</strong> do país, cuja implantação se <strong>de</strong>u em 1971, por iniciativa do então reitor, Adierson Erasmo <strong>de</strong><br />
Azevedo. Nesses vinte e oito anos <strong>de</strong> existência vem implementando ações, no sentido <strong>de</strong> fortalecer as<br />
ativida<strong>de</strong>s do profissional da <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. Com o <strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional<br />
a responsabilida<strong>de</strong> da categoria aumentou, principalmente, no que se refere à extração sustentável <strong>de</strong><br />
produtos pesqueiros através da pesca e da aqüicultura.
20<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> é uma habilitação que integra a área das Ciências Agrárias, na subárea<br />
<strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e qualifica, em nível superior o profissional para a<br />
intervenção técnico-científica em aqüicultura, pesca e tecnologia do pescado, além <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
pesquisa, ensino e extensão em biotecnologia e <strong>de</strong>mais serviços voltados à aqüicultura e pesca.<br />
Portanto, as associações dos engenheiros <strong>de</strong> pesca no Brasil, buscam discutir e <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r, além <strong>de</strong><br />
valorizar as ações da categoria inseridas no <strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional.<br />
CRIAÇÃO DA AEP-PE<br />
A Comissão <strong>de</strong> Fundação da Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco teve como<br />
presi<strong>de</strong>nte Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales e, na data <strong>de</strong> sua fundação, foi aprovado o estatuto da associação<br />
e eleita a primeira diretoria, assim composta: Presi<strong>de</strong>nte: Raimundo Evangelista Neto; Vice-presi<strong>de</strong>nte:<br />
Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales; Secretário geral: Fábio José Castelo Branco Costa; Primeiro secretário:<br />
Erivaldo Barbosa da Silva; Segundo secretário: Elizeu Augusto <strong>de</strong> Brito; Primeiro tesoureiro: Eu<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
Souza Correia e Segundo tesoureiro: Jorge Almeida <strong>de</strong> Albuquerque.<br />
Foram sócios fundadores: Raimundo Evangelista Neto; Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales; Fábio José<br />
Castelo Branco Costa; Erivaldo Barbosa da Silva; Elizeu Augusto <strong>de</strong> Brito; Eu<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Souza Correia;<br />
Jorge Almeida <strong>de</strong> Albuquerque; Itamar <strong>de</strong> Paiva Rocha; Paulo Guilherme <strong>de</strong> Alencar Albuquerque;<br />
Antônio Lisboa Nogueira da Silva; Elias Alves Cor<strong>de</strong>iro; João Alves da Silva Filho; João Batista<br />
Cabral; Enox <strong>de</strong> Paiva Maia; José Roberto Fonseca e Silva; Isabel Cristina <strong>de</strong> Sá Marinho; Maria <strong>de</strong><br />
Fátima Pereira <strong>de</strong> Sá; Tarcizo Cirilo; Antônio Carlos <strong>de</strong> Arruda Pires <strong>de</strong> Freitas; Aradi Alves <strong>de</strong> Melo;<br />
Athiê Jorge Guerra Santos; Ricardo Múcio <strong>de</strong> Oliveira; Manlio Ponzi Júnior; Rômulo Alves Ebrahim;<br />
Joel Xavier <strong>de</strong> Barros; Paulo da Silva Oliveira; José Geraldo dos Santos; Josélio Lucas Ribeiro; José<br />
Benigno Viana Portela; Odilon Juvino <strong>de</strong> Araújo; Flávio Marcelo Correia <strong>de</strong> Melo; Marluce Rocha<br />
Melo; Maurílio Gonçalves da Silva; Carlos Roberto da Silva; Francisco <strong>de</strong> Assis Câmara Dantas e<br />
Val<strong>de</strong>mir Batista.<br />
No ano <strong>de</strong> 1979, a AEP-DF realizou em Brasília o I Congresso Brasileiro <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong><br />
<strong>Pesca</strong> (I CONBEP). Em 1981 foi a vez da AEP-PE realizar, no Recife, o II CONBEP e, a partir daí,<br />
outros congressos foram realizados, sempre contanto com o apoio <strong>de</strong>sta Associação.<br />
Acatando <strong>de</strong>cisão da Fe<strong>de</strong>ração das Associações dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil (FAEP-<br />
BR) a AEP-PE passou a comemorar, na data <strong>de</strong> 14 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro, o dia do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, pois<br />
nesta data ocorreu no Recife a Colação <strong>de</strong> Grau da primeira turma <strong>de</strong> Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil.<br />
Des<strong>de</strong> sua fundação até meados <strong>de</strong> 1980 as assembléias e reuniões da AEP-PE foram realizadas<br />
em se<strong>de</strong> provisória do antigo Laboratório <strong>de</strong> Ciências do Mar (LACIMAR), hoje Departamento <strong>de</strong>
21<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Oceanografia da UFPE, na época, funcionando na Av. Bernardo Vieira <strong>de</strong> Melo, 986, Pieda<strong>de</strong>,<br />
Jaboatão dos Guararapes. A partir do segundo semestre <strong>de</strong> 1980, a se<strong>de</strong> provisória passou a ser o<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da UFRPE, no Bairro <strong>de</strong> Dois Irmãos. Seguiu-se como se<strong>de</strong> para reuniões em<br />
1982, o Clube <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> localizado na Rua Real da Torre 501, bairro da Madalena. Durante o<br />
biênio 1986/1987 funcionou no Edifício CIBRAZEN no Bairro <strong>de</strong> São José, sendo que, a partir <strong>de</strong><br />
1988, retornou para o Clube <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> Pernambuco. Na reunião <strong>de</strong> 02/06/1988 estabeleceu-se<br />
em ata, que as reuniões da AEP-PE, seriam realizadas semanalmente, toda às quintas-feiras, no horário<br />
das 18:00h, no Clube <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong>. Posteriormente, em junho <strong>de</strong> 2005, as reuniões passaram a ocorrer<br />
no Círculo Militar <strong>de</strong> Pernambuco, com freqüência semanal, até a atualida<strong>de</strong>.<br />
PRINCIPAIS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA AEP-PE<br />
Dentre as principais ativida<strong>de</strong>s da AEP-PE <strong>de</strong>stacam-se suas reuniões periódicas presididas pelo<br />
presi<strong>de</strong>nte e, na sua ausência, pelo vive-presi<strong>de</strong>nte. É interessante caracterizar, uma certa informalida<strong>de</strong><br />
nestas reuniões e o clima <strong>de</strong> amiza<strong>de</strong> que se construiu ao longo do tempo. A Tabela 1 apresenta a<br />
relação dos presi<strong>de</strong>ntes da AEP-PE com as respectivas datas <strong>de</strong> seus mandatos.<br />
Tabela 1 – Presi<strong>de</strong>ntes da AEP/PE com as datas <strong>de</strong> seus respectivos mandatos<br />
Nome Mandato<br />
Raimundo Evangelista Neto 20.01.78 a 19.01.80<br />
Itamar <strong>de</strong> Paiva Rocha 19.01.80 a 14.02.81<br />
Eu<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Sousa Correia 14.02.81 a 12.12.81<br />
Jaime Teles <strong>de</strong> Andra<strong>de</strong> Lima l2.l2.81 a 27.04.84<br />
Clau<strong>de</strong>milson Farias Barreto 27.04.84 a 25.04.86<br />
Jorge Pereira <strong>de</strong> Castro Filho 25.04.86 a 27.05.88<br />
Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales 27.05.88 a 12.12.89<br />
José Rodolfo Rangel Moreira Cavalcante 12.12.89 a 19.12.91<br />
Ricardo Múcio <strong>de</strong> Oliveira 19.12.91 a 14.12.93<br />
Augusto José Nogueira l4.12.93 a 14.12.95<br />
José Telino <strong>de</strong> Lima Neto l4.12.95 a 14.12.99<br />
Augusto José Nogueira l4.12.99 a l4.12. 0l<br />
Ronaldo Almeida Lins l4.12.01 a 14.12.03<br />
Dalgoberto Coelho <strong>de</strong> Araújo 14.12.03 a 14.12.04*<br />
Vanildo Souza <strong>de</strong> OLiveira 14.12.04<br />
* Dalgoberto Coelho <strong>de</strong> Araújo foi substituído pelo Vice-Presi<strong>de</strong>nte, Vanildo Souza <strong>de</strong> Oliveira, em<br />
virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> sua redistribuição para o Departamento Nacional <strong>de</strong> Obras Contra a Seca, no Estado do<br />
Ceará.<br />
Os presi<strong>de</strong>ntes são eleitos para gestão que compreen<strong>de</strong> um biênio, po<strong>de</strong>ndo ser re-eleito. O<br />
regimento interno estabelece um prazo mínimo <strong>de</strong> 30 dias para a posse da diretoria eleita. A pose <strong>de</strong>
22<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
cada diretoria eleita é feita em assembléia da categoria. Neste momento é comum ocorrer homenagens<br />
com distribuição <strong>de</strong> placas e títulos a sócios benemérito e honorário. Acontece também um jantar <strong>de</strong><br />
confraternização natalina e <strong>de</strong> comemoração ao dia nacional do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, aproximando a<br />
categoria profissional do Estado.<br />
A partir da VIII Semana do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (2002), evento anual, realizado pelo grupo do<br />
Programa <strong>de</strong> Educação Tutorial do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (PET/<strong>Pesca</strong>) da UFRPE, o dia 14 <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>zembro, passou a ser anunciado em fol<strong>de</strong>r e faixas <strong>de</strong>ste evento, abrindo-se inclusive a participação<br />
<strong>de</strong> representantes discentes no jantar <strong>de</strong> a<strong>de</strong>são do dia do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, organizado anualmente<br />
pela AEP-PE. A associação também tem participado, a convite do grupo PET/<strong>Pesca</strong> das semanas,<br />
apoiando-as e marcado sua presença através <strong>de</strong> mesas-redondas e na sessão <strong>de</strong> abertura, ressaltando os<br />
aspectos da valorização profissional.<br />
A Tabela 2 apresenta um <strong>de</strong>monstrativo dos Congressos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (CONBEP),<br />
evento máximo da categoria, que acontece com periodicida<strong>de</strong> <strong>de</strong> dois anos, congregando os<br />
profissionais da área e associações responsáveis pela sua organização, juntamente com a Fe<strong>de</strong>ração das<br />
Associações dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil (FAEP-BR).<br />
Outras ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>senvolvidas pela AEP-PE são eventos e celebração <strong>de</strong> convênios/projetos na área<br />
das Ciências Pesqueiras, a exemplo do convênio celebrado entre a AEP-PE e a SUDENE, intitulado:<br />
“Estudo para o Desenvolvimento da Maricultura do Nor<strong>de</strong>ste” durante a gestão 2000/2001, envolvendo<br />
engenheiros <strong>de</strong> pesca, pesquisadores da SUDENE e professores do Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e<br />
Aqüicultura da UFRPE. Palestra e cursos <strong>de</strong> extensão estão ocorrendo na atual gestão com apoio do<br />
DEPAq, a exemplo do curso, intitulado: Piscicultura Ornamental, Concepção, Implantação e<br />
Empreendimento, ocorrido nos período <strong>de</strong> 30/10 a 1/11/2006 na se<strong>de</strong> do DEPAq, tendo sido ministrado<br />
pelo Prof. Dr. George Nilson (UFPE) que também é engenheiro <strong>de</strong> pesca associado da AEP-PE. Outro<br />
momento bem prestigiado pelo público acadêmico da UFRPE foi a palestra: O <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
tilapicultura no São Francisco a partir do papel comercial da Netuno e as oportunida<strong>de</strong>s para o<br />
Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, ministrada em 28/08/2006 pelo Eng o <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> Rogério Bellini .<br />
Uma ativida<strong>de</strong> acadêmica que vem acontecendo junto a AEP-PE, através do Programa <strong>de</strong><br />
Educação Tutorial do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>Pesca</strong> da UFRPE, é a participação <strong>de</strong> discentes/bolsistas<br />
<strong>de</strong>ste programa nas reuniões da associação <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o ano <strong>de</strong> 2003, numa ação <strong>de</strong>nominada: O PET/<strong>Pesca</strong><br />
vai a AEP/PE. A ativida<strong>de</strong> foi inserida no planejamento anual do grupo e visa aproximar os alunos <strong>de</strong><br />
graduação do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, mais precisamente os bolsistas e voluntários do PET com<br />
a categoria profissional.
23<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Tabela 2 - Demonstrativo dos Congressos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (CONBEP),<br />
com respectivos locais e períodos.<br />
CONGRESSO LOCAL AEP RESPONSÁVEL MÊS ANO<br />
I CONBEP Brasília – DF AEP-DF Julho 1979<br />
II CONBEP Recife – PE AEP-PE Julho 1981<br />
III CONBEP Manaus – AM AEPA Julho 1983<br />
IV CONBEP Curitiba – PR AEP-SUL Julho 1985<br />
V CONBEP Fortaleza – CE AEP-CE Julho 1987<br />
VI CONBEP Teresina – PI AEP-PI Junho 1989<br />
VII CONBEP Santos – SP AEP-PE Junho 1991<br />
VIII CONBEP Aracaju – SE AEP-SE Setembro 1993<br />
IX CONBEP São Luís – MA AEP-MA Setembro 1995<br />
X CONBEP Guarapari – ES AEP-ES Novembro 1997<br />
XI CONBEP Recife – PE AEP-PE Outubro 1999<br />
XII CONBEP Foz do Iguaçu – PR AEP-SUL Setembro 2001<br />
XIII CONPEB Porto Seguro – BA AEP-BA e AEP-SE Setembro 2003<br />
XIV CONBEP Fortaleza - CE AEP-CE Outubro 2005<br />
Os petianos vêem participando <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong>, numa forma <strong>de</strong> interação entre a aca<strong>de</strong>mia e os<br />
profissionais. Nas reuniões semanais do grupo na Sala do PET/<strong>Pesca</strong> na UFRPE são colocados os<br />
principais temas que foram tratados na AEP-PE, sendo sempre retirado o representante do grupo que<br />
participará da próxima reunião. Todos os bolsistas, voluntários e a própria tutora do grupo já<br />
participaram <strong>de</strong> várias reuniões realizadas na AEP-PE, <strong>de</strong> tal forma que está se mantendo uma<br />
freqüência quinzenal do grupo na Associação. Foi realizado pela tutora e integrantes do grupo um<br />
breve resgate histórico da AEP-PE e das principais ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>senvolvidas, sob a forma <strong>de</strong> pequena<br />
publicação (SOARES et al, 2003), apresentada durante a III Jornada <strong>de</strong> Ensino, Pesquisa e Extensão<br />
(JEPEX) da UFRPE, ressaltando a atuação <strong>de</strong>sta associação e o espaço por ela aberto para a aca<strong>de</strong>mia.
24<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Outro aspecto a ser <strong>de</strong>stacado foi à criação da comunicação eletrônica entre os membros da<br />
AEP-PE, incluindo a convocação das reuniões entre seus associados, na gestão do presi<strong>de</strong>nte Ronaldo<br />
Almeida Lins e a criação do GI <strong>Pesca</strong> & Aqüicultura - pesca_aquicultura@grupos.com.br (Grupo <strong>de</strong><br />
Interesse em <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura) pelo então vice-presi<strong>de</strong>nte Leonardo Sales. De fato, com o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento das tecnologias eletrônicas e informatizadas, o cotidiano na socieda<strong>de</strong> atual tem<br />
encurtado as distâncias e permitido maior interação. A partir <strong>de</strong>sta ação, aumentou inclusive, a<br />
freqüência <strong>de</strong> participação dos associados nas reuniões.<br />
A CATEGORIA PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO DE PESCA<br />
O Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> é um profissional <strong>de</strong> nível superior capaz <strong>de</strong> supervisionar, planejar e<br />
coor<strong>de</strong>nar ativida<strong>de</strong>s integradas visando ao aproveitamento dos recursos naturais aqüícolas, à criação e<br />
à exploração sustentável <strong>de</strong> recursos pesqueiros marítimos, fluviais e lacustres e sua industrialização.<br />
De acordo com o Art. 1 o da Resolução n o 279/83 - Compete ao Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> o<br />
<strong>de</strong>sempenho das ativida<strong>de</strong>s 01 a 18 do Art. 1 o da Resolução nº 218, do CONFEA, <strong>de</strong> 29 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong><br />
1973, no referente ao aproveitamento dos recursos naturais aqüícolas, a cultura e utilização da<br />
riqueza biológica dos mares, ambientes estuarinos, lagos e cursos d' àgua; a pesca e o beneficiamento<br />
do pescado, seus serviços afins e correlatos.<br />
O profissional da <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> é congregado através da Fe<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> Associações dos<br />
Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil (FAEP-BR), existindo atualmente no país doze (12) associações da<br />
categoria. (SOARES, 2004).<br />
Com o aumento do número <strong>de</strong> cursos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> no país (na década <strong>de</strong> 1970,<br />
haviam apenas 2 cursos e atualmente temos 14 cursos) há que se pensar na profissão e no profissional<br />
pautados pela ética, inclusive numa ética planetária como discorreu Moran (2005), on<strong>de</strong> o autor<br />
<strong>de</strong>stacou que: pela primeira vez, na história humana, o universal tornou-se realida<strong>de</strong> concreta: é a<br />
intersolidarieda<strong>de</strong> objetiva da humanida<strong>de</strong>, na qual o <strong>de</strong>stino global do planeta sobre<strong>de</strong>termina os<br />
<strong>de</strong>stinos singulares das nações e na qual os <strong>de</strong>stinos singulares das nações perturbam ou modificam o<br />
<strong>de</strong>stino global.<br />
É preciso ainda consi<strong>de</strong>rar na formação <strong>de</strong>sses profissionais que atuam com os recursos<br />
pesqueiros os princípios da sustentabilida<strong>de</strong> que têm como paradigma à noção da verda<strong>de</strong> científica<br />
fundamentada na ética civilizatória, princípios esses que <strong>de</strong>rivam das bases conceituais do<br />
eco<strong>de</strong>senvolvimento, que, segundo Sachs (1993) é um projeto <strong>de</strong> Estados e socieda<strong>de</strong>s, cujo centro do<br />
<strong>de</strong>senvolvimento econômico é a sustentabilida<strong>de</strong> social e humana capaz <strong>de</strong> ser solidária com a biosfera.
25<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Ainda, segundo o mesmo autor op.cit. para que o <strong>de</strong>senvolvimento seja sustentável, precisa contemplar<br />
as dimensões: econômica, social, ambiental (ecológica), espacial e cultural.<br />
Iniciativas como a Reunião sobre o Ensino da <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> no Brasil, ocorrida em<br />
Fortaleza no ano <strong>de</strong> 1995, numa promoção da FAEP-BR, tendo a frente o presi<strong>de</strong>nte Leonardo Teixeira<br />
<strong>de</strong> Sales e contando na época com o patrocínio do Conselho Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong>, Arquitetura e<br />
Agronomia (CONFEA) além do apoio da AEP-CE, DEPESCA-UFC e do CREA-PE precisam ser mais<br />
estimulados na atual conjuntura on<strong>de</strong> a Resolução n o 5, <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2006, instituiu as diretrizes<br />
Curriculares para o curso <strong>de</strong> graduação em <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />
CRIAÇÃO DA REPESCA<br />
Outro importante marco para a classe, com participação da AEP-PE, foi a recente criação da<br />
<strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>). Lançada no dia 4 <strong>de</strong> agosto, <strong>de</strong>ste ano, durante a<br />
aula inaugural do curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão, no Palácio dos<br />
Leões em São Luis do Maranhão. A RE<strong>Pesca</strong> é uma revista semestral e tem por objetivo divulgar<br />
trabalhos técnicos/informativos e científicos <strong>de</strong> profissionais da área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e<br />
<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />
CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />
Consi<strong>de</strong>rando que os Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, presentes em quase todos os estados do Brasil, se<br />
congregam através <strong>de</strong> suas associações <strong>de</strong> classe <strong>de</strong>nominadas Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />
(AEP) torna-se interessante, que cada associação, faça um pequeno resgate <strong>de</strong> sua atuação e o divulgue<br />
nesta RE<strong>Pesca</strong>, que tem como objetivo publicar artigos resultantes <strong>de</strong> pesquisas científicas e artigos<br />
técnicos/informativos da área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. O volume 1 trouxe a<br />
publicação do histórico da Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Estado do Amazonas e agora,<br />
neste volume, constam algumas informações sobre a AEP-PE, o que vem contribuir para a valorização<br />
do profissional.<br />
É importante que os movimentos sociais, as associações e as organizações não governamentais<br />
que lhes dão apoio re<strong>de</strong>finam suas estratégias <strong>de</strong> atuação, a princípio limitadas à esfera reivindicatória,<br />
para o domínio econômico e do conhecimento, estabelecendo parcerias e discutindo à luz das<br />
transformações que o Brasil e o mundo vem passando na contemporaneida<strong>de</strong>.<br />
A participação do grupo PET-PESCA nas reuniões da AEP-PE tem sido <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância,<br />
aproximando estudantes e profissionais, enriquecendo <strong>de</strong>sta maneira o aprendizado e servindo para dar<br />
uma visão holística, sobre a profissão, através da atuação dos seus profissionais nas diversas áreas.
26<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Depoimentos e a práxis do cotidiano <strong>de</strong>stes profissionais tornam-se focos <strong>de</strong> discussão das reuniões<br />
permitindo que conceitos e vivências possam ser formados e internalizados pelo estudante <strong>de</strong><br />
engenharia <strong>de</strong> pesca da UFRPE.<br />
A discussão das diretrizes curriculares nacionais para os cursos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong>ve<br />
necessariamente envolver os atores interessados, passando pelos profissionais egressos <strong>de</strong>stes cursos<br />
através <strong>de</strong> suas associações, da aca<strong>de</strong>mia e do público em geral com atuação no setor pesqueiro<br />
nacional.<br />
REFERÊNCIAS<br />
MORAN, E. O Método 6: ética. (Tradução Juremir Machado da Silva), 2 a ed, Sulina: Porto Alegre,<br />
2005, 222p.<br />
SACHS, I. et al. Estratégicas <strong>de</strong> transição para o Século XXI. In: Para pensar o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
sustentável. São Paulo: Brasiliense, 1993.<br />
SOARES, M. C. F. <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>: A profissão, os cursos e o Programa Especial <strong>de</strong><br />
Treinamento (PET). Imprensa Universitária, UFRPE, Recife, 2004, 53 p.<br />
SOARES, M. C. F. S. A Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco e o Programa Especial<br />
<strong>de</strong> Treinamento do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. Anais do III JEPEX- UFRPE, 2003. CD-ROM .�
REVIZEE – MISSÃO CUMPRIDA?<br />
27<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Carlos Fre<strong>de</strong>rico Simões SERAFIM (serafim@secirm.mar.mil.br)<br />
Capitão-<strong>de</strong>-Mar-e-Guerra, Subsecretário para o Plano Setorial para os Recursos do Mar,<br />
Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar<br />
RESUMO<br />
O presente trabalho apresenta uma breve avaliação do programa REVIZEE, <strong>de</strong>senvolvido durante <strong>de</strong>z<br />
anos por diversas instituições <strong>de</strong> pesquisa do país, constituindo-se no mais importante programa <strong>de</strong><br />
pesquisa na área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> no âmbito nacional. Os resultados<br />
possibilitaram uma mudança <strong>de</strong> mentalida<strong>de</strong> com respeito aos mares brasileiros: mitos foram <strong>de</strong>sfeitos<br />
e realida<strong>de</strong>s foram mostradas, com a <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong> novos recursos, dantes <strong>de</strong>sconhecidos.<br />
MITO E REALIDADE<br />
No dia quatro <strong>de</strong> setembro passado, em cerimônia realizada no Espaço Cultural da Marinha, com<br />
a presença da Ministra <strong>de</strong> Estado Marina Silva, do Secretário da <strong>Pesca</strong> Altemir Gregolin, e do<br />
Comandante da Marinha e Coor<strong>de</strong>nador da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar<br />
(CIRM), Almirante <strong>de</strong> Esquadra Roberto <strong>de</strong> Guimarães Carvalho, foi encerrado o mais bem sucedido<br />
Programa, <strong>de</strong> âmbito nacional, sobre os recursos vivos do mar no Brasil, o REVIZEE, programa que<br />
propiciou o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas no mar brasileiro pelo período <strong>de</strong> <strong>de</strong>z anos.<br />
Em pesquisas que duraram <strong>de</strong>z anos, o REVIZEE quebrou o mito <strong>de</strong> que em função <strong>de</strong> sua<br />
gran<strong>de</strong> extensão costeira – cerca <strong>de</strong> 8.500 km, e uma Zona Econômica Exclusiva (ZEE), <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong><br />
3,5 milhões <strong>de</strong> km 2 e volume <strong>de</strong> massa líquida d’ água da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 10,0 bilhões <strong>de</strong> m 3 , <strong>de</strong>limitada por<br />
uma área que se esten<strong>de</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> limite do Mar Territorial, <strong>de</strong> 12 milhas marítimas <strong>de</strong> largura, até 200<br />
milhas marítimas - o mar brasileiro reuniria todas as condições para transformar o país num dos<br />
maiores produtores mundiais <strong>de</strong> pescado por captura. Mas pelos levantamentos realizados, <strong>de</strong>vido às<br />
condições oceanográficas, que tornam a zona eufótica <strong>de</strong> nossas águas jurisdicionais, on<strong>de</strong> vive a<br />
maioria dos peixes, <strong>de</strong>ficitária em nutrientes, observa-se a ocorrência <strong>de</strong> baixos estoques pesqueiros, ou<br />
seja, biomassas relativamente pequenas <strong>de</strong> cada espécie.<br />
Por outro lado, o REVIZEE possibilitou a <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong> novas espécies, diversas <strong>de</strong>las<br />
endêmicas, a apuração do potencial <strong>de</strong> captura <strong>de</strong> outras já conhecidas, algumas <strong>de</strong> alto valor comercial<br />
e ainda subexplotadas, revelou hábitos <strong>de</strong>sconhecidos <strong>de</strong> espécies pelágicas e <strong>de</strong>mersais e apresentou<br />
uma exuberante fauna marinha, constituída <strong>de</strong> um invejável número <strong>de</strong> espécies. Mas, como dito<br />
anteriormente, com pouco volume <strong>de</strong> exemplares em cada uma, todas sensíveis à <strong>de</strong>gradação ambiental
28<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
e <strong>de</strong> equilíbrio ecológico <strong>de</strong>licado. Também é <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong>sse Programa, o estabelecimento do macro<br />
vetor que <strong>de</strong>ve ser perseguido para <strong>de</strong>senvolver o setor pesqueiro nacional, a fim <strong>de</strong> alcançar as<br />
sonhadas inserção social e a geração <strong>de</strong> emprego e renda, além <strong>de</strong> promover a segurança alimentar dos<br />
mais necessitados, tornando o setor pesqueiro forte elemento para o <strong>de</strong>senvolvimento do país.<br />
MOTIVAÇÃO<br />
Os ambientes marinhos, costeiros e oceânicos abarcam a maior parte da biodiversida<strong>de</strong> do<br />
planeta. Com o crescimento da população mundial, principalmente nas proximida<strong>de</strong>s do litoral, a<br />
pressão antrópica sobre o mar se elevou em níveis exponenciais, levando muitas populações <strong>de</strong><br />
importantes recursos pesqueiros, antes numerosos, à reduzida abundância, por vezes ameaçando<br />
algumas espécies <strong>de</strong> extinção. Hoje, os <strong>de</strong>sequilíbrios <strong>de</strong> ecossistemas causados, na maioria das vezes,<br />
pela poluição e pela sobrepesca, ameaçam o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável do planeta, e o Brasil não é<br />
exceção.<br />
Na segunda meta<strong>de</strong> do século passado a comunida<strong>de</strong> internacional, preocupada com o<br />
<strong>de</strong>sequilíbrio ecológico da Terra, pactuou normas para a exploração racional das regiões costeiras,<br />
mares e oceanos, plataformas continentais e gran<strong>de</strong>s fundos marinhos. Destacam-se a Convenção das<br />
Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), também conhecida como Lei do Mar ou,<br />
simplesmente, Convenção; o Capítulo 17 da Agenda 21, que trata da proteção dos oceanos, <strong>de</strong> todos os<br />
tipos <strong>de</strong> mares e <strong>de</strong> zonas costeiras, além da proteção, uso racional e <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> seus recursos<br />
vivos; e a Convenção da Diversida<strong>de</strong> Biológica. O Brasil participou da construção e assinou todos<br />
esses documentos, o que <strong>de</strong>monstra nosso interesse e preocupação com o tema.<br />
A Convenção, ratificada por 145 países, dispõe sobre os usos <strong>de</strong> todos os espaços marítimos e<br />
oceanos, estabelecendo direitos e <strong>de</strong>veres dos Estados costeiros. O Brasil incorporou seus conceitos<br />
sobre espaços marítimos à Constituição Fe<strong>de</strong>ral (art. 20, incisos V e VI) em 1988; e os internalizou na<br />
legislação ordinária, em 1993.<br />
Em 1994, com a entrada em vigor da Lei do Mar, um ano após o <strong>de</strong>pósito do 60 o instrumento <strong>de</strong><br />
ratificação por parte da Guiana, foi concedido ao Brasil o uso <strong>de</strong> seus espaços marítimos, <strong>de</strong>ntre eles o<br />
da ZEE, on<strong>de</strong> o país tem direitos exclusivos <strong>de</strong> soberania para fins <strong>de</strong> exploração e aproveitamento,<br />
conservação e gestão dos recursos naturais, vivos e não-vivos, das águas sobrejacentes ao leito do mar,<br />
do leito e seu subsolo, assim como para a produção <strong>de</strong> energia a partir da água, marés, correntes e<br />
ventos.<br />
Por outro lado, em seus artigos 61 e 62, a CNUDM estabelece que os Estados-parte, no caso<br />
específico dos recursos vivos, incluindo os biotecnológicos, <strong>de</strong>vem avaliar o seu potencial sustentável,
29<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
tendo em conta os melhores dados científicos disponíveis, <strong>de</strong> modo que fique assegurado, por meio <strong>de</strong><br />
medidas apropriadas <strong>de</strong> conservação e gestão, que tais recursos não sejam ameaçados por um excesso<br />
<strong>de</strong> captura ou coleta. Essas medidas <strong>de</strong>vem ter, também, a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> restabelecer os estoques da<br />
captura, <strong>de</strong> modo que se produza o rendimento máximo sustentável dos recursos vivos marinhos, sob<br />
os pontos <strong>de</strong> vista econômico, social e ecológico.<br />
CRIAÇÃO DO REVIZEE<br />
Para aten<strong>de</strong>r a esses dispositivos da CNUDM, a<br />
CIRM aprovou, em 1994, o Programa REVIZEE -<br />
Avaliação do Potencial Sustentável dos Recursos Vivos<br />
da Zona Econômica Exclusiva, <strong>de</strong>stinado a fornecer<br />
dados técnico-científicos consistentes e atualizados,<br />
essenciais para subsidiar o or<strong>de</strong>namento do setor<br />
pesqueiro nacional. A logomarca do programa po<strong>de</strong> ser<br />
visualizada na Figura 1.<br />
ESTRATÉGIA E ESTRUTURA<br />
Figura 1 - Logomarca do REVIZEE<br />
Iniciado em 1996, o Programa adotou como estratégia básica o envolvimento da comunida<strong>de</strong><br />
científica nacional, especializada em pesquisa oceanográfica e pesqueira, atuando <strong>de</strong> forma<br />
multidisciplinar e integrada, por meio <strong>de</strong> Subcomitês Regionais (SCOREs). Em razão <strong>de</strong>ssas<br />
características, o REVIZEE foi consi<strong>de</strong>rado o Programa mais amplo e com objetivos mais complexos<br />
já <strong>de</strong>senvolvido no país, entre aqueles voltados para as ciências do mar, <strong>de</strong>terminando um esforço sem<br />
prece<strong>de</strong>ntes em termos <strong>de</strong> logística <strong>de</strong> pessoal especializado, material no estado da arte e provisão <strong>de</strong><br />
recursos financeiros.<br />
Essa estratégia foi alicerçada na divisão da ZEE em quatro gran<strong>de</strong>s regiões, <strong>de</strong> acordo com as<br />
características oceanográficas, biológicas e tipo <strong>de</strong> substrato dominante (Figura 2), a saber:<br />
a) Região Norte – da foz do Rio Oiapoque à foz do Rio Parnaíba; b) Região Nor<strong>de</strong>ste – da foz do Rio<br />
Parnaíba até Salvador, incluindo os Arquipélagos <strong>de</strong> Fernando <strong>de</strong> Noronha e <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo,<br />
além do Atol das Rocas; c) Região Central – <strong>de</strong> Salvador ao Cabo <strong>de</strong> São Tomé, incluindo a Ilha da<br />
Trinda<strong>de</strong> e o Arquipélago Martin Vaz e d) Região Sul – do Cabo <strong>de</strong> São Tomé à foz do Arroio Chuí.
30<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Em cada uma <strong>de</strong>ssas regiões, a coor<strong>de</strong>nação e<br />
execução do Programa ficaram a cargo <strong>de</strong> um SCORE,<br />
formado por representantes das instituições <strong>de</strong><br />
pesquisa locais e contando, ainda, com a participação<br />
<strong>de</strong> membros do setor pesqueiro regional.<br />
O processo <strong>de</strong> supervisão do REVIZEE foi<br />
orientado para a garantia, em âmbito nacional, da<br />
unida<strong>de</strong> e coerência do Programa e para a<br />
alavancagem <strong>de</strong> meios e recursos, em conformida<strong>de</strong><br />
aos princípios cooperativos (formação <strong>de</strong> parcerias) da<br />
Figura 2 - Subcomitês Regionais do REVIZEE<br />
CIRM, por meio da Subcomissão para o Plano Setorial<br />
para os Recursos do Mar – PSRM e do Comitê Executivo para o Programa. Coor<strong>de</strong>nado pelo<br />
Ministério do Meio Ambiente, esse fórum foi composto pelos seguintes representantes: Ministério das<br />
Relações Exteriores (MRE); Ministério da Educação (MEC); Ministério da Ciência e Tecnologia<br />
(MCT); Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong> da Presidência da República (SEAP/PR); Marinha<br />
do Brasil (MB); Conselho Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Instituto<br />
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), coor<strong>de</strong>nador operacional<br />
do REVIZEE; Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM); e Bahia<br />
<strong>Pesca</strong> S.A. (Empresa vinculada à Secretaria <strong>de</strong> Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária da Bahia).<br />
INVESTIMENTOS<br />
Foram compartilhados recursos dos diversos órgãos e instituições envolvidas. O Programa<br />
recebeu recursos diretos, entre 1994 e 2004, <strong>de</strong> pouco mais <strong>de</strong> R$ 32 milhões, não computados aqui os<br />
custos relativos à operação dos navios da Marinha e os custos da PETROBRAS, que financiou todo o<br />
combustível utilizado pelos navios do REVIZEE.<br />
RESULTADOS: AMPLIAÇÃO DO CONHECIMENTO, POSSIBILIDADES DE EXPANSÃO<br />
E ESPÉCIES EM COLAPSO<br />
Os dados coletados mostram que a tomada <strong>de</strong> ações mais efetivas no controle do esforço<br />
pesqueiro são essenciais. Todos os trabalhos científicos e análises, reunidos em diversos relatórios e<br />
concentrados no sumário executivo, recentemente publicado e disponibilizado pelo MMA, são<br />
categóricos: salvo poucas exceções, a pesca na ZEE do Brasil está sendo feita <strong>de</strong> forma insustentável.<br />
O REVIZEE mostrou com clareza a inexistência <strong>de</strong> estoques <strong>de</strong> pescado capazes <strong>de</strong> gerar ou sustentar
31<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
um aumento significativo da produção, pelo fato <strong>de</strong> os recursos tradicionais apresentarem biomassas<br />
muito reduzidas.<br />
A importância do estudo não se resume, entretanto, às advertências sobre a oferta e a sobrepesca<br />
no país. Pelo contrário, o Programa ampliou o conhecimento da biodiversida<strong>de</strong> marinha,<br />
principalmente a existente em águas profundas. Os pesquisadores não sabiam o que encontrariam em<br />
profundida<strong>de</strong>s maiores do que 100 metros, pois não havia estudos suficientes para isso. A pesquisa<br />
sobre as populações que habitam a quebra da plataforma, on<strong>de</strong> a profundida<strong>de</strong> aumenta dos 100 ou 200<br />
metros para 1.000 metros ou mais, gerou informações absolutamente inéditas e muito interessantes do<br />
ponto <strong>de</strong> vista científico.<br />
Além <strong>de</strong> ocorrências <strong>de</strong> peixes conhecidos em novos locais, os pesquisadores i<strong>de</strong>ntificaram várias<br />
espécies até então <strong>de</strong>sconhecidas. Só na região Su<strong>de</strong>ste-Sul foram onze. Entre elas estão a Hydrolagys<br />
matallanasi e a Eptatretus menezesi. Descobertas durante os vários cruzeiros oceanográficos dos quais<br />
participaram os cientistas, a maioria das <strong>de</strong>scobertas ainda carece <strong>de</strong> <strong>de</strong>scrição completa e até <strong>de</strong> nomes<br />
populares, como as citadas acima.<br />
Um dos achados relativos a hábitos diz respeito ao<br />
peixe-lanterna (Maurolicus stehmanni) (Figura 3).<br />
Descobriu-se que essa espécie migra, em alta velocida<strong>de</strong>,<br />
das zonas mais profundas para as mais rasas, em busca <strong>de</strong><br />
alimento. O <strong>de</strong>slocamento ao longo <strong>de</strong> um curto período Figura 3 - Peixe-lanterna<br />
Maurolicus stehmanni<br />
tem implicação ecológica gran<strong>de</strong>, pois se trata <strong>de</strong> espécie<br />
forrageira, impactando o ecossistema <strong>de</strong> vários animais. O<br />
mesmo ocorre com o calamar argentino (Illex argentinus)<br />
(Figura 4), já explorado no Sul do país, no Uruguai e na<br />
Argentina, que po<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rado um recurso pesqueiro<br />
potencial propriamente dito. Essa espécie foi <strong>de</strong>tectada na<br />
Figura 4 - Calamar argentino<br />
região oceânica localizada na quebra da nossa plataforma<br />
Illex argentinus<br />
continental.<br />
Dentro <strong>de</strong>sse grupo <strong>de</strong> estoque potencial, o REVIZEE fez outras <strong>de</strong>scobertas. A anchoíta<br />
(Opisthonema oginum) ocupa a plataforma continental em abundância consi<strong>de</strong>rável, no extremo Sul, e<br />
mo<strong>de</strong>rada, no Su<strong>de</strong>ste. Sua ampla distribuição e facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> captura tornam essa espécie um recurso<br />
importante, mas ainda sem aproveitamento no Brasil, apesar <strong>de</strong> apresentar potencial para a obtenção <strong>de</strong><br />
concentrados protéicos. Dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> conservação e falta <strong>de</strong> mercado têm sido apontados como<br />
fatores impeditivos à sua explotação.
32<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A merluza (Merluccius hubbsi) e a abrótea-<strong>de</strong>-profundida<strong>de</strong> (Urophycis mystacea) (Figura 5)<br />
também po<strong>de</strong>rão ser explotadas em maior quantida<strong>de</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que estabelecidas as quotas <strong>de</strong> captura.<br />
Essas espécies vêm sendo explotadas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2001.<br />
A merluza ocorre <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a Patagônia, Argentina, no Sul do<br />
continente, até o Sul do estado do Espírito Santo. Ela é mais<br />
abundante no talu<strong>de</strong> superior, a partir dos 300 metros <strong>de</strong><br />
profundida<strong>de</strong>. Na região Nor<strong>de</strong>ste, os grupos <strong>de</strong> atum também<br />
fazem parte da lista das consi<strong>de</strong>radas surpresas positivas. O<br />
Figura 5 - Abrótea-<strong>de</strong>-profundida<strong>de</strong><br />
estoque <strong>de</strong>sses peixes e <strong>de</strong> seus <strong>de</strong>rivados (afins), <strong>de</strong> alto valor<br />
Urophycis mystacea<br />
comercial, apresenta gran<strong>de</strong> potencial para exploração.<br />
Por outro lado, possuímos espécies cujo colapso é evi<strong>de</strong>nte. É o caso do cherne-poveiro<br />
(Polyprion americanus), <strong>de</strong> alto consumo, mas que se esgotou. Apenas a proibição total <strong>de</strong> pesca <strong>de</strong>ssa<br />
espécie po<strong>de</strong>, neste momento, permitir algum nível <strong>de</strong> explotação sustentável no futuro. A produção,<br />
que era <strong>de</strong> duas mil toneladas anuais, entre 1989 e 2001, caiu para 460 toneladas nos últimos anos.<br />
Por outro lado, essa espécie <strong>de</strong>sapareceu das águas do Sul, junto com várias outras também <strong>de</strong><br />
alto valor comercial, como a cioba, pargo e peixe-batata.<br />
Sobre a plataforma continental, a lista <strong>de</strong> espécies próximas do colapso é mais longa. Os<br />
camarões, entre os invertebrados, a sardinha-verda<strong>de</strong>ira (Sardinella brasiliensis), cações, tubarões,<br />
arraias e a corvina (Micropogonias furnieri), estão todos sendo explotados acima dos limites possíveis.<br />
O caso específico dos tubarões merece ser <strong>de</strong>stacado. Sua situação po<strong>de</strong> ser classificada como<br />
dramática. Apenas no oceano Atlântico, cerca <strong>de</strong> dois milhões <strong>de</strong> tubarões-azuis são capturados por<br />
ano. O gran<strong>de</strong> atrativo para sua captura continua sendo as barbatanas, comercializadas a preço <strong>de</strong> ouro<br />
no mercado internacional, on<strong>de</strong> são tidas como iguaria.<br />
DINÂMICA DA FROTA PESQUEIRA E TÉCNICAS DE CAPTURA<br />
Para reunir toda a informação necessária, os pesquisadores do REVIZEE foram consultar<br />
diferentes fontes. O Programa, com recursos disponibilizados pelo Governo e pela iniciativa privada,<br />
fez várias campanhas oceanográficas durante os últimos anos pela ZEE brasileira. Essas missões <strong>de</strong><br />
campo, além <strong>de</strong> reunir dados importantes da oceanografia física, química e geológica, também<br />
ajudaram os pesquisadores a escolher as espécies-alvo que <strong>de</strong>veriam ser estudadas mais<br />
profundamente.<br />
Depois disso, foram coletados dados sobre produção, ou seja, a quantida<strong>de</strong> pescada por dia, nos<br />
principais portos <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque das frotas, e nos arquivos <strong>de</strong> várias instituições <strong>de</strong> pesquisa que já
33<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
estudavam o tema, localizadas no Rio Gran<strong>de</strong> do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio <strong>de</strong> Janeiro. Para<br />
cada população foi montado um diagnóstico sobre o conhecimento e o estado <strong>de</strong> explotação das<br />
espécies. Isso equivale a dizer que os pesquisadores estudaram, além da dinâmica da frota <strong>de</strong><br />
pesqueiros, o ciclo <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> cada conjunto <strong>de</strong> indivíduos. Para que a análise ficasse completa, o foco<br />
dos cientistas se voltou tanto para o coletivo quanto para o individual, com o estudo <strong>de</strong> cardumes e <strong>de</strong><br />
seus indivíduos.<br />
No caso específico da região Sul-Su<strong>de</strong>ste, on<strong>de</strong> a exploração industrial dos recursos pesqueiros é<br />
maior, foi necessário analisar cinco tipos <strong>de</strong> frota. A <strong>de</strong> arrasto, a <strong>de</strong> cerco ou traineiras, a <strong>de</strong> covos ou<br />
armadilhas, a <strong>de</strong> espinhel ou linha e a <strong>de</strong> emalhar. Em todos os casos, o que os empresários e<br />
pescadores fazem é <strong>de</strong>senvolver um método e aliá-lo à tecnologia disponível, para melhorar cada vez<br />
mais o rendimento final. E para que tudo isso dê certo, é preciso que se saiba, <strong>de</strong> antemão, qual o<br />
objetivo daquela pescaria.<br />
As técnicas <strong>de</strong> arrasto, que praticamente varrem o fundo do mar, normalmente na altura da<br />
plataforma continental, com profundida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 150 metros, são usadas para a pesca dos chamados<br />
peixes <strong>de</strong>mersais. São peixes como o linguado, que gosta <strong>de</strong> areia. Eles têm os dois olhos <strong>de</strong> um lado só<br />
do corpo. As camaroneiras também utilizam esse mesmo sistema, que po<strong>de</strong> ter algumas variações,<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da situação. A frota <strong>de</strong> cerco é composta necessariamente por traineiras. No litoral Sul e<br />
Su<strong>de</strong>ste do Brasil, esses barcos suspen<strong>de</strong>m dos portos com a missão <strong>de</strong> voltar atestados,<br />
principalmente, <strong>de</strong> sardinha (Sardinella brasiliensis). Apenas durante o inverno, na entressafra, é que<br />
eles buscam os cardumes <strong>de</strong> corvina (Micropogonias furnieri). A sardinha <strong>de</strong>saparece no inverno (por<br />
causa do ciclo reprodutivo) e então, a única alternativa encontrada foi sobreviver com a pesca da<br />
corvina.<br />
As armadilhas servem para a captura<br />
<strong>de</strong> peixes e <strong>de</strong> crustáceos. E essas operações<br />
po<strong>de</strong>m ser feitas a mil metros <strong>de</strong><br />
profundida<strong>de</strong>, no caso dos caranguejos real<br />
(Chaceon ramosae) e vermelho (C. notialis)<br />
(Figura 6), cuja biomassa abundante foi<br />
<strong>de</strong>scoberta pelo REVIZEE.<br />
As técnicas mo<strong>de</strong>rnas <strong>de</strong> linha e anzol estão sendo usadas na pesca comercial para <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong><br />
espécies, tanto oceânicas como costeiras, pelágicas ou <strong>de</strong>mersais. Nessa lista estão os famosos<br />
espadartes (Xiphias gladius), cação-azul (Prionace glauca) e o anequim (Isurus oxyrinchus), que vêm<br />
para a costa por causa da técnica <strong>de</strong> espinhel-<strong>de</strong>-superfície. Os chernes (Epinephelus niveatus e<br />
Figura 6 - Caranguejo-real Chaceon ramosae (Esquerda)<br />
e caranguejo-vermelho C. notialis (Direita)
34<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Polyprion americanus), o peixe-sapo (Lophius gastrophysus)<br />
(Figura 7) e o namorado (Pseudopersis numida) (Figura 8), por<br />
exemplo, são capturados pelo mesmo sistema, mas bem mais<br />
fundo, a 600 metros <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong>, em média.<br />
Usada apenas em<br />
Figura 7 - peixe-sapo Lophius<br />
zonas estuarinas, a passiva gastrophysus<br />
técnica do emalhar está<br />
ganhando cada vez mais a<strong>de</strong>ptos em regiões costeiras. Nesse<br />
caso, o peixe é apreendido quando a porção anterior <strong>de</strong>le se<br />
Figura 8 – Namorado Pseudopersis<br />
numida<br />
enrosca com a malha lançada ao mar.<br />
Com a finalização dos estudos do REVIZEE, foi possível elaborar diretivas sobre qual<br />
modalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pesca se adapta melhor a <strong>de</strong>terminadas populações. Conhecer a fundo o comportamento<br />
dos animais é essencial para a escolha da técnica <strong>de</strong> captura.<br />
RODÍZIO ECOLÓGICO<br />
Na comunida<strong>de</strong> científica, após as revelações inquestionáveis dos números e das centenas <strong>de</strong><br />
estudos gerados na última década, poucos pareceram ter uma leitura diferente <strong>de</strong>ssa mensagem final,<br />
dada com clareza pelo Programa REVIZEE. "Os dados nos colocaram diante <strong>de</strong> um paradigma",<br />
avaliou Silvio Jablonski, pesquisador da Universida<strong>de</strong> do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro, e consultor “ad<br />
hoc” da Coor<strong>de</strong>nação Geral do Programa. "Não há dúvida <strong>de</strong> que a maior parte dos estoques, objeto <strong>de</strong><br />
pescaria comercial, encontra-se plenamente explotada ou no limite <strong>de</strong> explotação".<br />
Com tudo mapeado, e com a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> esforços e percursos cada vez maiores para ser<br />
mantida a produção atual no mar (extrativa + maricultura) <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 600 mil toneladas por<br />
ano, foi possível indicar os pilares <strong>de</strong> sustentação para uma nova gestão da pesca no Brasil.<br />
A política <strong>de</strong> gerir os recursos pesqueiros nacionais, principalmente na região Sul-Su<strong>de</strong>ste, on<strong>de</strong><br />
a presença das frotas comerciais é maior, foi iniciada, por meio <strong>de</strong> Instruções Normativas emanadas<br />
pela Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong> da Presidência da República (SEAP/PR), com base em<br />
cinco linhas <strong>de</strong> ação emergenciais: suspensão da possibilida<strong>de</strong> indiscriminada <strong>de</strong> acesso aos recursos<br />
marinhos e aos subsídios concedidos; <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> pesca e <strong>de</strong> preservação; foco maior no<br />
aproveitamento dos recursos que são <strong>de</strong>scartados a bordo (fauna acompanhante) e no processamento<br />
do pescado, que muitas vezes são plenamente aproveitáveis; <strong>de</strong>senvolvimento da maricultura, a<br />
criação <strong>de</strong> organizamos marinhos na beira do mar, como caranguejos e invertebrados em geral; e<br />
investimentos na pesca <strong>de</strong> atuns e afins.
35<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
O extenso litoral brasileiro, recortado por enseadas e baías, po<strong>de</strong> muito bem comportar, <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />
que bem regulamentadas ativida<strong>de</strong>s que tragam <strong>de</strong>senvolvimento econômico e social, em<br />
complementação à ativida<strong>de</strong> pesqueira tradicional. Isso, claro, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que se leve em conta o uso <strong>de</strong><br />
águas públicas e o interesse <strong>de</strong> seus múltiplos usuários, o <strong>de</strong>stino dos efluentes, o controle sanitário e<br />
assim por diante. É importante, em termos <strong>de</strong> áreas geográficas, que ocorra uma espécie <strong>de</strong> rodízio <strong>de</strong><br />
espécies cultivadas nas mariculturas. Com os dados do REVIZEE é muito fácil i<strong>de</strong>ntificar on<strong>de</strong> é<br />
possível pescar.<br />
O pescador artesanal sabe agora on<strong>de</strong> encontrar <strong>de</strong>terminada espécie. Os experimentos<br />
realizados no âmbito do Programa também permitem saber se uma técnica é mais ou menos nociva a<br />
certas espécies. A expectativa é <strong>de</strong> que, além <strong>de</strong> se transformar em paradigma da pesquisa<br />
oceanográfica brasileira, o REVIZE continue dando frutos. Temos material para mais <strong>de</strong>z anos <strong>de</strong><br />
trabalho, que po<strong>de</strong>rão produzir um número significativo <strong>de</strong> relatórios, trabalhos científicos, teses,<br />
apresentações em conclaves e contribuições em reuniões técnicas. Ele também está sendo publicado<br />
em linguagem não científica para que possa ser divulgado à socieda<strong>de</strong> como um todo, incluindo os<br />
nossos pescadores artesanais.<br />
Como efeito colateral, além do conhecimento das espécies que habitam nosso oceano, o<br />
Programa acabou ampliando a formação <strong>de</strong> recursos humanos em todo o país, seja na área <strong>de</strong><br />
oceanografia propriamente dita, da hidroacústica ou da pesca. O <strong>de</strong>senvolvimento científico foi mais<br />
acentuado no Norte e Nor<strong>de</strong>ste do Brasil. Além dos dados biológicos, os cientistas conhecem melhor<br />
agora as condicionantes oceanográficas que regem os recursos pesqueiros e o efeito <strong>de</strong> novas<br />
tecnologias <strong>de</strong> pesca. O <strong>de</strong>talhamento do fundo marinho, realizado por mo<strong>de</strong>rnas técnicas <strong>de</strong> análise,<br />
também foi possível a partir dos esforços do REVIZEE.<br />
Os mapas do leito do oceano foram gerados pelo Departamento <strong>de</strong> Oceanografia da Fundação<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Rio Gran<strong>de</strong> (FURG), situado na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Rio Gran<strong>de</strong>. Todo o estudo esteve<br />
sob coor<strong>de</strong>nação do oceanógrafo Lauro Saint Pastous Madureira, do Laboratório <strong>de</strong> Tecnologia<br />
Pesqueira e Hidroacústica. Para chegar ao exuberante resultado, os pesquisadores trabalharam sobre<br />
dados fornecidos por satélite e medições feitas com a técnica <strong>de</strong> batimetria, que registra a<br />
profundida<strong>de</strong> do oceano com o auxílio <strong>de</strong> ecossondas instaladas em navios. As inéditas figuras foram<br />
geradas com base em sete milhões <strong>de</strong> pontos georreferenciados, com latitu<strong>de</strong>, longitu<strong>de</strong> e<br />
profundida<strong>de</strong> <strong>de</strong>terminadas com rigor. No caso da Prainha <strong>de</strong> Canto Ver<strong>de</strong>, no litoral leste do Ceará,<br />
ativida<strong>de</strong>s paralelas também surgiram com o estudo do mar, como o turismo sustentável. Mas a pesca<br />
ainda é a principal fonte <strong>de</strong> renda daquele local.
ESFORÇO DE PESQUISA E FRÁGIL DIVERSIDADE<br />
36<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Em pesquisa que durou <strong>de</strong>z anos, mais <strong>de</strong> 300 pesquisadores fizeram um levantamento completo<br />
sobre a ZEE do Brasil, representando cerca <strong>de</strong> 60 universida<strong>de</strong>s e instituições <strong>de</strong> pesquisa, distribuídas<br />
ao longo <strong>de</strong> 17 estados costeiros. Foram empregadas mais <strong>de</strong> 10 embarcações oceanográficas e <strong>de</strong><br />
prospecção pesqueira, incluindo aquelas alugadas da frota comercial. Como já citado, apesar da gran<strong>de</strong><br />
diversida<strong>de</strong> da fauna marinha, o estoque <strong>de</strong> peixes é pouco e <strong>de</strong>ve ser manejado com cuidado para não<br />
haver um <strong>de</strong>sequilíbrio ecológico.<br />
ULTRAPASSAGEM TECNOLÓGICA<br />
No Brasil, frotas comerciais estão um passo à frente das científicas. As caravelas portuguesas,<br />
que há 500 anos atravessaram o oceano Atlântico rumo ao Novo Mundo, são consi<strong>de</strong>radas um gran<strong>de</strong><br />
símbolo tecnológico da história da navegação. Nos tempos “cabralinos”, <strong>de</strong>scoberta e negócios eram<br />
protagonizados por uma mesma nau. Agora, separados os objetivos, a ciência ficou para trás. As frotas<br />
comerciais que operam nos mares brasileiros continuam com tecnologia embarcada avançada, mais<br />
mo<strong>de</strong>rna do que a dos navios oceanográficos.<br />
Assim, para fazer frente às suas necessida<strong>de</strong>s, o REVIZEE arrendou alguns <strong>de</strong>sses navios, pois as<br />
embarcações disponíveis para a prospecção eram, em sua maioria, ina<strong>de</strong>quadas para o trabalho em<br />
águas profundas.<br />
Os avanços tecnológicos cada vez mais presentes nos barcos comerciais vencem a ciência. Com<br />
mais ferramentas em mãos, os pescadores das frotas comerciais conseguem ir atrás dos cardumes que<br />
lhes interessam com muito mais facilida<strong>de</strong>. Os recursos, portanto, são mais facilmente explorados. No<br />
mundo inteiro, a tecnologia empregada na pesca vem tendo um papel mais <strong>de</strong>strutivo do que<br />
construtivo, ampliando <strong>de</strong> forma <strong>de</strong>smedida a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> navegação, localização do pescado e<br />
captura por parte dos barcos comerciais.<br />
Com todos os avanços técnicos, singrar os sete mares também tem sido uma tarefa muito fácil,<br />
por isso, são comuns embarcações <strong>de</strong> ban<strong>de</strong>ira espanhola, japonesa e coreana chegarem ao largo da<br />
costa brasileira.<br />
Para evitar sérios conflitos internacionais, por causa da disputa por espaços oceânicos, a<br />
Organização das Nações Unidas (ONU) criou a Lei do Mar. A gran<strong>de</strong> contribuição do texto da ONU é<br />
<strong>de</strong>finir os conceitos <strong>de</strong> mar territorial, zona econômica exclusiva e plataforma continental. Esse último<br />
difere um pouco do mesmo termo usados pelos oceanógrafos, que se baseiam apenas em características<br />
topográficas. O mar territorial brasileiro, a partir da convenção, passou a ter largura <strong>de</strong> 12 milhas, ou<br />
21,6 km. A ZEE, por sua vez, é mais ampla: esten<strong>de</strong>-se até 200 milhas, ou 350 km. Nessa região, a
37<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Nação é soberana no direito <strong>de</strong> navegação e <strong>de</strong> ocupação do espaço aéreo. A soberania se esten<strong>de</strong> para<br />
fins exploratórios e <strong>de</strong> aproveitamento dos recursos, sejam eles <strong>de</strong> origem mineral, como o petróleo, ou<br />
biológica, caso dos pescados.<br />
Antes <strong>de</strong>ssas <strong>de</strong>finições, muitos conflitos ocorreram. Na década <strong>de</strong> 1960, o mar territorial<br />
brasileiro tinha largura <strong>de</strong> apenas três milhas. Mas, a plataforma continental que já era associada ao<br />
sentido <strong>de</strong> soberania, era muito maior. Barcos franceses vieram para o litoral nor<strong>de</strong>stino pescar lagosta<br />
sem autorização. Afirmavam estar em águas internacionais, porque nunca ultrapassavam as três milhas<br />
da costa. O Brasil conseguiu fazer valer a idéia <strong>de</strong> que o crustáceo vivia exclusivamente em sua<br />
plataforma continental e, portanto, era direito brasileiro a exclusivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> explorar a lagosta. A<br />
questão agora é ocupar cada vez mais esta imensa área, pois os pequenos conflitos estão longe <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>saparecer.<br />
Tendo como limite Norte a foz do rio Oiapoque e ao Sul o Chuí, as águas oceânicas do Brasil se<br />
projetam bastante para Leste, incluindo as regiões do Atol das Rocas e dos Arquipélagos <strong>de</strong> Fernando<br />
<strong>de</strong> Noronha e <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo, além <strong>de</strong> abrigar as lhas Trinda<strong>de</strong> e o Arquipélago Martin Vaz.<br />
A plataforma continental brasileira chega a ter 160 milhas náuticas na direção da <strong>de</strong>scarga das águas do<br />
colossal Rio Amazonas.<br />
Nos trechos on<strong>de</strong> ela é mais estreita, na baía do rio Tubarão, no Sul, tem apenas 40 milhas<br />
náuticas. A profundida<strong>de</strong> também oscila bastante, entre o mínimo <strong>de</strong> onze metros e o máximo <strong>de</strong> quatro<br />
mil. A gran<strong>de</strong> distância entre a superfície e o assoalho oceânico é registrada nas planícies abissais do<br />
Ceará e <strong>de</strong> Pernambuco. Nesse trecho, a plataforma continental não existe mais, pois é interrompida<br />
por um gran<strong>de</strong> escorregador submarino antes do mundo abissal.<br />
Normalmente, na altura do litoral norte do Rio Gran<strong>de</strong> do Sul, a corrente das Malvinas encontrase<br />
com a corrente do Brasil, que veio da zona equatorial. Nesse local é que se forma a Água Central do<br />
Atlântico Sul (Acas), rica em nutrientes e bastante fria. Em alguns meses do ano, no verão, as águas<br />
mais <strong>de</strong>nsas e <strong>de</strong> menor temperatura afloram até a plataforma continental. Esse é o fenômeno da<br />
ressurgência. Em gran<strong>de</strong> parte das vezes ele é registrado na área <strong>de</strong> Cabo Frio.<br />
Todas essas correntes - e no norte do Rio Amazonas elas também têm importância toda especial -<br />
são diretamente responsáveis pelo fluxo, ou não, dos seres vivos. No caso específico do REVIZEE, as<br />
informações geológicas, físicas e químicas foram direcionadas para o enriquecimento do conhecimento<br />
biológico, necessário para um melhor gerenciamento da pesca no Brasil. Isso não significa, entretanto,<br />
que qualquer uma <strong>de</strong>ssas quatro gran<strong>de</strong>s áreas tenha peso maior que as <strong>de</strong>mais.
LACUNAS<br />
38<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Os estoques apontados como promissores <strong>de</strong>mandam a <strong>de</strong>terminação mais precisa <strong>de</strong> seus<br />
potenciais. Para diversos recursos, há a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> levantamentos mais focados, com a<br />
i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> agregações reprodutivas, que possam subsidiar a gestão pesqueira e a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong><br />
áreas <strong>de</strong> restrição ao esforço <strong>de</strong> pesca.<br />
RECOMENDAÇÕES PARA A PESCA MARINHA<br />
Quais as alternativas para o crescimento da produção brasileira <strong>de</strong> pescado?<br />
1) PESCA COSTEIRA E CONTINENTAL (PLATAFORMA E TALUDE)/ARTESANAL<br />
No segmento da pesca costeira e continental, consi<strong>de</strong>rando-se a atual condição <strong>de</strong> esgotamento da<br />
maioria dos estoques, já não há praticamente qualquer possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> expansão das capturas. A<br />
recuperação do setor <strong>de</strong>ve ser buscada a partir do aprimoramento dos instrumentos <strong>de</strong> gestão,<br />
or<strong>de</strong>namento e fiscalização, no sentido <strong>de</strong> assegurar a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, além <strong>de</strong> iniciativas<br />
que permitam agregação <strong>de</strong> valor ao produto capturado, sem que haja necessariamente uma ampliação<br />
da produção.<br />
Entre as alternativas disponíveis para se estimular a recuperação do setor estão: a)<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da aqüicultura, particularmente em escala familiar; b) organização da base produtiva<br />
(associativismo, cooperativismo e gestão); c) <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> técnicas <strong>de</strong> beneficiamento e<br />
conservação do pescado que permitam a agregação <strong>de</strong> valor ao produto capturado; d) <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong> novas tecnologias <strong>de</strong> captura, que permitam a explotação <strong>de</strong> novos estoques; e) política <strong>de</strong> crédito<br />
a<strong>de</strong>quada à ativida<strong>de</strong> e voltada para a melhoria <strong>de</strong> infra-estrutura, aparelhos <strong>de</strong> pesca e embarcações; f)<br />
capacitação e treinamento nas várias fases da ca<strong>de</strong>ia produtiva, incluindo a alfabetização dos<br />
pescadores e dos seus filhos e g) aprimoramento dos processos <strong>de</strong> comercialização.<br />
2) PESCA OCEÂNICA<br />
Em relação à pesca oceânica, a situação é bastante diversa. No Oceano Atlântico, atualmente, são<br />
capturadas cerca <strong>de</strong> 600.000 t <strong>de</strong> atuns e espécies afins, por ano, correspon<strong>de</strong>ndo a um valor da or<strong>de</strong>m<br />
<strong>de</strong> US$ 4 bilhões. A participação brasileira neste total, contudo, é ainda bastante tímida, com uma<br />
produção próxima a 50.000 t, o que representa cerca <strong>de</strong> apenas 8% do total capturado.<br />
Consi<strong>de</strong>rando-se, porém, que praticamente a meta<strong>de</strong> da produção brasileira é <strong>de</strong> bonito listrado,<br />
uma das espécies <strong>de</strong> atum <strong>de</strong> menor valor comercial, capturada quase que inteiramente <strong>de</strong>ntro da ZEE,<br />
a participação nacional, em termos <strong>de</strong> valor, é ainda muito mais reduzida.<br />
Os recursos pesqueiros oceânicos apresentam uma série <strong>de</strong> vantagens em relação aos recursos<br />
costeiros, <strong>de</strong>ntre as quais po<strong>de</strong>-se <strong>de</strong>stacar: a) gran<strong>de</strong> proximida<strong>de</strong> das principais áreas <strong>de</strong> pesca, no
39<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
caso do Brasil; b) algumas espécies capturadas, como as albacoras, apresentam um alto valor comercial<br />
para exportação, constituindo-se em uma importante fonte <strong>de</strong> divisas para o país; c) outras espécies,<br />
também presentes nas capturas, como os tubarões, apresentam preço relativamente baixo, apesar do seu<br />
excelente valor nutritivo, representando uma importante fonte <strong>de</strong> proteínas para a população <strong>de</strong> baixa<br />
renda; d) ciclo <strong>de</strong> vida in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte dos ecossistemas costeiros, já intensamente <strong>de</strong>gradados; e) ampla<br />
distribuição e f) biomassa elevada.<br />
Uma vantagem adicional é que, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que a<strong>de</strong>quadamente planejado, o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
pesca oceânica nacional po<strong>de</strong>ria resultar em uma redução do esforço <strong>de</strong> pesca sobre os estoques<br />
costeiros, já sobreexplotados. Como os estoques pesqueiros oceânicos também já estão sendo<br />
explotados em níveis próximos do limite sustentável, a ampliação da produção brasileira <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá<br />
diretamente da sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> negociação com os países pesqueiros tradicionais, no âmbito da<br />
ICCAT - Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico.<br />
Neste sentido, a posição do governo brasileiro tem sido sempre a <strong>de</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r intransigentemente<br />
o respeito aos limites sustentáveis, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>ndo, porém, com a mesma intransigência, o direito <strong>de</strong> o país<br />
participar, <strong>de</strong> forma eqüitativa, da pesca oceânica. Por meio <strong>de</strong> um gran<strong>de</strong> esforço <strong>de</strong> negociação, em<br />
gran<strong>de</strong> medida fundamentado nos instrumentos jurídicos internacionais, particularmente na Convenção<br />
das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o Brasil tem conseguido ampliar suas cotas <strong>de</strong> captura <strong>de</strong><br />
algumas espécies, como o espadarte, cuja cota passou <strong>de</strong> 2.340 t para 4.086 t em 2003, crescendo até<br />
4.365 t em 2006. Infelizmente, a maior parcela da produção nacional <strong>de</strong> atuns e afins, excetuando-se o<br />
bonito listrado, é ainda proveniente <strong>de</strong> embarcações arrendadas.<br />
Apesar <strong>de</strong> extremamente útil como forma <strong>de</strong> assegurar a assimilação da tecnologia <strong>de</strong> pesca<br />
estrangeira e gerar um histórico <strong>de</strong> capturas essencial ao processo <strong>de</strong> negociação para ampliação das<br />
quotas <strong>de</strong> captura, o instrumento do arrendamento <strong>de</strong>ve ser compreendido sempre como um dispositivo<br />
provisório e emergencial.<br />
O gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>safio que se impõe ao país neste momento é <strong>de</strong>senvolver uma frota oceânica<br />
genuinamente nacional, que permita superar a elevada <strong>de</strong>pendência, e conseqüente vulnerabilida<strong>de</strong>, da<br />
frota estrangeira arrendada. Desta forma, é preciso compreen<strong>de</strong>r que o <strong>de</strong>senvolvimento da pesca<br />
oceânica brasileira não diz respeito apenas à produção <strong>de</strong> pescado, nem à geração das divisas,<br />
empregos e renda <strong>de</strong>la resultantes; ele implica também na efetiva ocupação das águas internacionais do<br />
Atlântico Sul, essencial à plena realização da estatura geopolítica <strong>de</strong> nosso país.<br />
Por fim, cabe <strong>de</strong>stacar que a realização das aspirações nacionais quanto ao crescimento <strong>de</strong> sua<br />
participação na pesca oceânica <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá, diretamente, <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fazer cumprir<br />
internamente as medidas <strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento e conservação impostas pela ICCAT, uma vez que a <strong>de</strong>fesa
40<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
<strong>de</strong> qualquer direito só se sustenta se <strong>de</strong>vidamente amparada pelo fiel cumprimento dos <strong>de</strong>veres<br />
correlatos.<br />
3) MARICULTURA<br />
O macro vetor para a expansão dos recursos pesqueiros no país é a maricultura, pois o Brasil<br />
possui cerca <strong>de</strong> 8.500 km <strong>de</strong> costa, 2.500.000 ha <strong>de</strong> manguezais, clima tropical e subtropical, o que<br />
permite o ciclo <strong>de</strong> produção durante todo o ano,<br />
temperatura da água entre 24 e 30º C, luminosida<strong>de</strong><br />
entre 130 e 310 lux, boa infra-estrutura, rodovias,<br />
eletricida<strong>de</strong>, comunicações, portos e aeroportos.<br />
No final <strong>de</strong> 2004, apenas cerca <strong>de</strong> 17.000 ha<br />
eram utilizados em maricultura, sendo que mais <strong>de</strong><br />
82% para a produção <strong>de</strong> camarão (carcinicultura)<br />
(Figura 9), que teve uma produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> apenas<br />
75.000 t, ficando a produção <strong>de</strong> ostras, mariscos,<br />
Figura 9 – Carcinicultura do Nor<strong>de</strong>ste<br />
vieiras, peixes e caranguejos, com produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> brasileiro<br />
apenas 13.000 t.<br />
Com o a<strong>de</strong>quado or<strong>de</strong>namento costeiro, minimizando os impactos ambientais causados pelas<br />
fazendas <strong>de</strong> maricultura, as quais não <strong>de</strong>verão lançar produtos químicos nos estuários e rios e,<br />
tampouco, o excesso <strong>de</strong> nutrientes, será possível elevar em níveis exponenciais a produção aqüícola do<br />
país, po<strong>de</strong>ndo atingir a produção da China, que é <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 400.000 ton/ano, correspon<strong>de</strong>ndo a quase<br />
1/3 da produção nacional <strong>de</strong> pescado e gerando divisas, emprego e renda, principalmente, na região<br />
Nor<strong>de</strong>ste do país.<br />
RECOMENDAÇÕES GERAIS<br />
Além da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> superação das lacunas apontadas, alguns direcionamentos para o futuro<br />
da gestão pesqueira foram evi<strong>de</strong>nciados pelo Programa:<br />
- investimento em qualida<strong>de</strong> do pescado, condições <strong>de</strong> armazenamento, manuseio, <strong>de</strong>sembarque<br />
e comercialização, a fim <strong>de</strong> agregar valor e renda ao produto das pescarias;<br />
- medidas <strong>de</strong> preservação – implantação <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> preservação para todas as pescarias, em<br />
especial para aquelas <strong>de</strong> baixa seletivida<strong>de</strong> e operantes nos ecossistemas recifais e <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong>.<br />
Além disso, é preciso tomar ações que evitem a captura aci<strong>de</strong>ntal <strong>de</strong> espécies não comercializáveis e <strong>de</strong><br />
indivíduos juvenis;
41<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
- aperfeiçoamento da gestão das pescarias – dar continuida<strong>de</strong> aos programas <strong>de</strong> amostragem e<br />
monitoramento <strong>de</strong> espécies comerciais, ao controle <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarques artesanais e industriais, assim<br />
como à fiscalização da ativida<strong>de</strong> pesqueira por meio <strong>de</strong> observadores <strong>de</strong> bordo, ao rastreamento das<br />
embarcações por satélite, ao cadastro <strong>de</strong> embarcações e ao licenciamento à pesca; e<br />
- medidas <strong>de</strong> controle – compatibilizar o esforço <strong>de</strong> pesca com o efetivo potencial dos estoques<br />
disponíveis.<br />
CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />
Além <strong>de</strong> nos proporcionar um nível <strong>de</strong> conhecimento inédito sobre os recursos vivos existentes<br />
em uma parte da nossa Amazônia Azul, não po<strong>de</strong>mos nos esquecer que o REVIZEE foi apenas uma<br />
fotografia instantânea <strong>de</strong> nossa ZEE, a qual caracterizou o ambiente marinho, no que tange à<br />
climatologia, circulação e massas d`água, produtivida<strong>de</strong>, geologia e biodiversida<strong>de</strong>; retratou os<br />
estoques pesqueiros no que concerne a abundância, sazonalida<strong>de</strong>, biologia e dinâmica; e analisou as<br />
pescarias comerciais. Por isso, embora tenha cumprido a sua missão, o Programa REVIZEE também<br />
nos alerta para a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> continuarmos a trabalhar para a conservação e uso sustentável dos<br />
recursos vivos da nossa ZEE.<br />
Para tal, surge com igual vigor, o Programa <strong>de</strong> Avaliação do Potencial Sustentável e<br />
Monitoramento dos Recursos Vivos Marinhos, o REVIMAR, já em fase inicial <strong>de</strong> execução.<br />
O REVIZEE foi concluído, po<strong>de</strong>ndo ser consi<strong>de</strong>rado como o maior esforço integrado<br />
<strong>de</strong>senvolvido no país para a avaliação <strong>de</strong> estoques pesqueiros. Como resultado <strong>de</strong>sta avaliação, foi<br />
possível a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> alguns estoques até então <strong>de</strong>sconhecidos, com a abertura <strong>de</strong> novas fronteiras<br />
para a pesca no país, em áreas mais afastadas na ZEE, o que po<strong>de</strong> contribuir para a diversificação da<br />
ativida<strong>de</strong> pesqueira nacional, com a conseqüente geração <strong>de</strong> emprego e renda e o alívio da pressão<br />
sobre as espécies tradicionais, em geral sobrexplotadas.<br />
Em continuida<strong>de</strong> àquele Programa, será imprescindível uma ação permanente <strong>de</strong> monitoramento<br />
dos principais estoques pesqueiros, a fim <strong>de</strong> permitir a geração contínua <strong>de</strong> informações essenciais para<br />
a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> política <strong>de</strong> pesca que possa garantir a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, incluindo medidas<br />
<strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento.<br />
O REVIMAR tem a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> avaliar continuamente o potencial sustentável e monitorar <strong>de</strong><br />
forma sistemática os estoques presentes nas áreas marítimas sob jurisdição nacional, com vistas a<br />
subsidiar políticas pesqueiras que garantam a sustentabilida<strong>de</strong> e a rentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>.<br />
A avaliação e o monitoramento dos principais estoques pesqueiros marinhos permitirão o<br />
or<strong>de</strong>namento da ativida<strong>de</strong>, assegurando o aproveitamento sustentável dos estoques pesqueiros, e
42<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
beneficiarão o setor pesqueiro nacional, neste incluídos os segmentos industrial e artesanal, e<br />
contribuirão, também, para a produção <strong>de</strong> alimentos e a geração <strong>de</strong> emprego e renda, além da<br />
necessária conservação dos ecossistemas marinhos, beneficiando, assim, a socieda<strong>de</strong> brasileira como<br />
um todo.<br />
Serão i<strong>de</strong>ntificados os recursos vivos marinhos, oceânicos e costeiros, que <strong>de</strong>verão ser avaliados<br />
ou monitorados, assim como os dados oceanográficos, biológicos e pesqueiros a serem coletados e<br />
acompanhados <strong>de</strong> forma sistemática. No sentido <strong>de</strong> possibilitar o gerenciamento a<strong>de</strong>quado da sua<br />
explotação, os recursos pesqueiros selecionados <strong>de</strong>verão ter os seus estoques avaliados periodicamente,<br />
por meio da realização <strong>de</strong> prospecção pesqueira, pesca exploratória e do uso <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> dinâmica<br />
populacional que permitam a obtenção subsídios necessários ao or<strong>de</strong>namento pesqueiro, o que requer o<br />
utilização <strong>de</strong> barcos <strong>de</strong> pesquisa, como o Antares (Figura10).<br />
O acompanhamento do esforço <strong>de</strong> pesca ao<br />
longo do litoral brasileiro <strong>de</strong>verá ser mensurado a<br />
partir dos seguintes dados: quantificação dos<br />
<strong>de</strong>sembarques totais, localização das áreas <strong>de</strong><br />
captura e registro das condições <strong>de</strong> comercialização<br />
do pescado, conforme <strong>de</strong>screve a Proposta Nacional<br />
<strong>de</strong> Trabalho do Programa REVIMAR, baseada nas<br />
recomendações do REVIZEE.<br />
Para tal, <strong>de</strong>verão ser <strong>de</strong>finidos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> coleta <strong>de</strong> dados padronizados para pescarias <strong>de</strong><br />
pequena escala e industriais. Em paralelo, <strong>de</strong>verá ser <strong>de</strong>senvolvido um sistema <strong>de</strong> gerenciamento <strong>de</strong><br />
dados sobre a ativida<strong>de</strong> pesqueira, envolvendo a coleta, o armazenamento, a análise e a disseminação<br />
<strong>de</strong> dados <strong>de</strong> captura, o esforço <strong>de</strong> pesca, a comercialização e as informações biológicas e<br />
socioeconômicas que se mostrarem pertinentes, assim como <strong>de</strong>finidas as estratégias <strong>de</strong><br />
disponibilização da informação, buscando-se reduzir, ao mínimo, o tempo <strong>de</strong>corrido entre a coleta dos<br />
dados, os procedimentos <strong>de</strong> crítica e seu efetivo acesso pelas instituições interessadas e por aquelas<br />
com responsabilida<strong>de</strong>s na gestão <strong>de</strong>sses recursos. Várias <strong>de</strong>ssas ações já se encontram em curso.<br />
A imensa extensão da Amazônia Azul, gigante pela própria natureza, por si só já nos enche <strong>de</strong><br />
orgulho. Afinal, estamos falando <strong>de</strong> uma área com cerca <strong>de</strong> 4,5 milhões <strong>de</strong> km 2 Figura 10 - Navio Oceanográfico Antares<br />
– participou ativamente do REVIZEE<br />
.<br />
Conhecê-la, protegê-la e integrá-la ao espaço econômico do país, assegurando a justa apropriação<br />
pela socieda<strong>de</strong> brasileira dos recursos vivos nela presentes, <strong>de</strong> forma sustentável, é uma tarefa<br />
grandiosa, ao mesmo tempo em que é árdua e espinhosa.
43<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Fazer-se ao mar para explorar os seus recursos exige coragem, <strong>de</strong>dicação, <strong>de</strong>nodo e patriotismo,<br />
sentimentos esses alentados pela satisfação <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r contribuir para assegurar ao povo brasileiro o<br />
pleno usufruto dos recursos vivos que as nossas águas jurisdicionais po<strong>de</strong>m nos oferecer, e que se<br />
constituem em um patrimônio que é nosso.<br />
O Programa REVIZEE, mais do que representar o necessário cumprimento das obrigações<br />
assumidas pelo país frente à CNUDM, se constituiu num divisor <strong>de</strong> águas acerca do conhecimento das<br />
espécies e dos ecossistemas da ZEE brasileira.<br />
O passo inicial foi dado, e foi um gran<strong>de</strong> passo. Conhecemos uma parcela dos recursos existentes<br />
na nossa Amazônia Azul. Cabe agora gerenciarmos e monitorarmos seus recursos vivos, preservarmos<br />
seus ecossistemas e exercermos a nossa soberania nessa importante porção do nosso Brasil.<br />
AGRADECIMENTOS<br />
O autor apresenta seus agra<strong>de</strong>cimentos às pessoas e instituições cujos textos serviram <strong>de</strong> base<br />
para elaboração <strong>de</strong>ste trabalho: Eduardo Augusto Geraque, Biólogo e Jornalista; Silvio Jablonski,<br />
Oceanógrafo, Pesquisador da Universida<strong>de</strong> do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro; Fábio Hissa Vieira Hazin,<br />
Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Professor da UFRPE; Rudolf <strong>de</strong> Noronha, Diretor do Programa e Gerenciamento<br />
Ambiental da Secretaria <strong>de</strong> Qualida<strong>de</strong> Ambiental do MMA; Roberto <strong>de</strong> Guimarães Carvalho,<br />
Almirante-<strong>de</strong>-Esquadra, Comandante da Marinha e Coor<strong>de</strong>nador da CIRM; e ao Ministério do Meio<br />
Ambiente, pela consulta ao Relatório Executivo do Programa REVIZEE.�
44<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
BENEFICIAMENTO E COMERCIALIZAÇÃO DO PESCADO NA REGIÃO DE<br />
ITAPISSUMA, PERNAMBUCO<br />
José Milton BARBOSA (jmiltonb@gmail.com);<br />
Hel<strong>de</strong>r Correia LIMA (hel<strong>de</strong>rcl@gmail.com);<br />
Erivaldo José da SILVA JÚNIOR (erivaldojrufrpe@hotmail.com);<br />
Artur Delmiro Sodré da MOTA (arturdsm@hotmail.com);<br />
Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira MENDONÇA (ivo_tha<strong>de</strong>u@yahoo.com.br);<br />
Edson José da SILVA FILHO (titomarques_7@hotmail.com)<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco.<br />
RESUMO<br />
O município <strong>de</strong> Itapissuma, situado à margem Norte do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz é o principal ponto <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sembarque, beneficiamento e comercialização <strong>de</strong> boa parte da produção pesqueira artesanal advinda<br />
<strong>de</strong>sse complexo. A pesca inci<strong>de</strong>, principalmente, sobre peixes <strong>de</strong> pequeno porte, <strong>de</strong> espécies como:<br />
sapuruna Pomadasys corvinaeformis, <strong>de</strong>ntão Lutjanus jocu, carabeba Eugerres brasilianus, carapicu<br />
Diapterus olisthostomus, boca-torta Cetengraulius e<strong>de</strong>ntulus, saúna Mugil sp. que são <strong>de</strong>stinados a<br />
salga como peixe salgado-seco, conhecido por “caíco”, sendo este processo realizado <strong>de</strong> forma precária<br />
e sem controle <strong>de</strong> sanida<strong>de</strong>. A pesca representa uma das principais ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> subsistência praticada<br />
pelos moradores da região, muitas vezes, constituindo-se como a única fonte <strong>de</strong> renda <strong>de</strong> famílias<br />
inteiras. Além disso, esta ativida<strong>de</strong> é prejudicada, tanto pela falta <strong>de</strong> políticas públicas <strong>de</strong> incentivo,<br />
quanto à visível <strong>de</strong>gradação ambiental e por conflitos, gerados pela crescente exploração turística no<br />
Canal <strong>de</strong> Santa Cruz. A comercialização do pescado produzido nesta região, geralmente é intermediada<br />
por “empreseiros” (intermediários), proprietários dos barcos e re<strong>de</strong>s, além dos girais on<strong>de</strong> os peixes são<br />
submetidos à secagem, iniciando, nesse caso, uma ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> intermediação para revenda em Recife<br />
(mercado público <strong>de</strong> São José, bairros próximos da Avenida Caxangá) ou nas feiras livres da Região<br />
Metropolitana do Recife e no interior do Estado (Limoeiro, Orobó, Carpina, Caruaru e outros).<br />
PALAVRAS-CHAVE: Itapissuma, peixes, salga.
ABSTRACT<br />
45<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
The city of Itapissuma, situated to the edge North of the Canal of Santa Cruz is the main point of<br />
landing, improvement and commercialization of good part of the happened artisan fishing production<br />
of this complex. It fishes it happens, mainly, on fish of small transport of species as: “sapuruna”<br />
Pomadasys corvinaeformis, “<strong>de</strong>ntão” Lutjanus jocu, “carabeba” Eugerres brasilianus, “carapicu”<br />
Diapterus olisthostomus, “boca-torta” Cetengraulius e<strong>de</strong>ntulus, ‘saúna” Mugil sp., <strong>de</strong>stined salts it, the<br />
salty-dry fish is known as “caíco”, being this, carried through of precarious form and without control of<br />
health during the process. It fishes it represents one of the main activities of subsistence practised for<br />
the inhabitants of the region, many times, consisting as the only source of income of entire families.<br />
Moreover, this activity is harmed, as much for the lack of public politics of incentive, how much to the<br />
visible ambient <strong>de</strong>gradation and for conflicts, generated for the increasing tourist exploration in the<br />
Canal of Santa Cruz. The commercialization of the produced fished one in this region, generally are<br />
intermediated by “empreseiros”, proprietors of the boats and nets, beyond turn them where the fish are<br />
submitted to the drying, initiating, in this in case that, a chain of intermediação for resale in Recife<br />
(public market of São José, quarters next to the Caxangá Avenue) or in the free fairs of the Region<br />
Metropolitan of Recife and in the interior of the State (Limoeiro, Orobó, Carpina, Caruaru and others).<br />
KEY-WORDS: Itapissuma city, fishes, salty fish<br />
INTRODUÇÃO<br />
A região <strong>de</strong> Itapissuma apresenta intensa ativida<strong>de</strong> pesqueira sendo consi<strong>de</strong>rada uma nas mais<br />
produtivas do Brasil. A pesca inci<strong>de</strong>, principalmente, sobre espécies <strong>de</strong> pequeno porte, <strong>de</strong>stinadas a<br />
salga.<br />
O processo <strong>de</strong> salga é extremamente rústico, realizado em condições precárias, sem controle <strong>de</strong><br />
higiene e sanida<strong>de</strong>, sendo os peixes lavados com águas impróprias, expostos às moscas e à ação<br />
bacteriana durante o processo <strong>de</strong> secagem. Ações para melhoria <strong>de</strong>sta realida<strong>de</strong> seriam <strong>de</strong> gran<strong>de</strong><br />
importância para o melhoramento das condições <strong>de</strong> higiene e da qualida<strong>de</strong> final do produto, no entanto<br />
esbarram no aumento do custo <strong>de</strong> produção, o que não é interessante para os produtores e<br />
consumidores. Após a salga o produto passa por uma ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> comercialização ainda pouco estudada.<br />
O município <strong>de</strong> Itapissuma, <strong>de</strong>smembrado do município <strong>de</strong> Igarassu, foi criado pela Lei<br />
Estadual Nº 8.952 <strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 1982 e instalado a 1º <strong>de</strong> janeiro <strong>de</strong> 1983. Situado na região metropolitana<br />
do Recife a 36 Km <strong>de</strong> distância da capital pernambucana. Possui uma área <strong>de</strong> 74,3 Km 2 e sua<br />
população é <strong>de</strong> aproximadamente 20.405 habitantes (MORAES, 1998).
46<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Devido a sua localização, muito próxima ao gran<strong>de</strong> Recife, sua beleza natural e a sua alta<br />
produtivida<strong>de</strong> pesqueira, essa região é agredida por diversas ações antrópicas, como a urbanização,<br />
aterros imobiliários, turismo, <strong>de</strong>spejo <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos e a pesca predatória que ameaçam a sua<br />
sustentabilida<strong>de</strong> (BARROS e ESKENAZI-LEÇA, 2000). Segundo Macedo et al. (2000), as áreas<br />
estuarinas sofrem forte agressão ambiental, <strong>de</strong>vido a explorações pesqueiras, <strong>de</strong>rrubadas <strong>de</strong> mangues,<br />
turismo ou simples especulação imobiliária.<br />
Estima-se na região <strong>de</strong> Itapissuma, que o<br />
número <strong>de</strong> pescadores (homens e mulheres)<br />
totaliza cerca <strong>de</strong> 4,2 mil pessoas, no entanto,<br />
apenas 35% dos pescadores e 33% das<br />
pesca<strong>de</strong>iras foram cadastrados no IBAMA,<br />
em 1996. Estima-se, que 70% da população<br />
do município está envolvida direta ou<br />
indiretamente com a produção,<br />
beneficiamento e o comércio do pescado.<br />
Itapissuma é o único município da região que<br />
apresenta todos os pontos <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque no<br />
canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Figura 1) e com frota<br />
pesqueira formada exclusivamente por Figura 1 – Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, às margens do<br />
canoas, que correspon<strong>de</strong> à cerca <strong>de</strong> 20% da município <strong>de</strong> Itapissuma/PE.<br />
produção pesqueira marítima do Estado (LIMA e QUINAMO, 2000).<br />
Neste contexto, o objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi estudar as condições <strong>de</strong> beneficiamento e<br />
comercialização do pescado (relações comerciais entre os trabalhadores do mar), <strong>de</strong>terminar ca<strong>de</strong>ias <strong>de</strong><br />
comercialização das espécies utilizadas na salga e propor melhorias na técnica <strong>de</strong> salga empregada<br />
pelos pescadores da região e outras que possam promover maior qualida<strong>de</strong> do produto.<br />
METODOLOGIA<br />
O projeto foi realizado durante o período compreendido entre os meses <strong>de</strong> junho e <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong><br />
2003, pelos estagiários do Laboratório <strong>de</strong> Avaliação Pon<strong>de</strong>ral em Animais Aquáticos (LaAqua) do<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura (DEPAq) da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco –<br />
UFRPE, junto a Colônia <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>dores do Município <strong>de</strong> Itapissuma (Z-10).
47<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Antes da observação do processo <strong>de</strong> salga em campo, foram realizadas pesquisas bibliográficas<br />
sobre as ativida<strong>de</strong>s relacionadas com a pesca e salga realizada naquela região, visando maior<br />
compreensão e familiarização com o processo.<br />
Após o levantamento bibliográfico foram realizadas visitas periódicas (quinzenais) a Colônia <strong>de</strong><br />
<strong>Pesca</strong>dores <strong>de</strong> Itapissuma Z-10, localizada às margens do Canal <strong>de</strong> Santa-Cruz, com o intuito <strong>de</strong><br />
observar não somente o processo <strong>de</strong> salga, e sua organização, como as reais condições <strong>de</strong> realização do<br />
mesmo e as relações comerciais existentes entre os pescadores da região.<br />
ÁREA DE ESTUDO<br />
O município <strong>de</strong> Itapissuma, situado à margem Norte do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz é o principal ponto<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque, beneficiamento e comercialização <strong>de</strong> boa parte da produção pesqueira artesanal<br />
advinda <strong>de</strong>sse complexo.<br />
A fauna potencialmente econômica do canal po<strong>de</strong> sustentar cerca <strong>de</strong> cinco mil pescadores que<br />
<strong>de</strong>senvolvem a pesca <strong>de</strong> sobrevivência, obtendo alimento e gerando empregos e renda para as famílias<br />
envolvidas no processo (LIMA e QUINAMO, 2000) <strong>de</strong> forma que se presta como excelente mo<strong>de</strong>lo<br />
para estudos ictiofaunísticos e do contexto social da ativida<strong>de</strong> pesqueira.<br />
PROCESSO DE SALGA<br />
Segundo Ogawa (1999), o processo <strong>de</strong> salga baseia-se no princípio da <strong>de</strong>sidratação osmótica.<br />
Os tecidos do peixe vivo atuam como membranas semipermeáveis e após a morte do animal, estas se<br />
tornam permeáveis, permitindo, assim, a entrada <strong>de</strong> sal por difusão, à medida que ocorre <strong>de</strong>sidratação<br />
dos tecidos.<br />
Em circunstâncias <strong>de</strong> alta pressão osmótica, o protoplasma das células dos microorganismos se<br />
<strong>de</strong>sidrata, havendo contração da membrana plasmática, fenômeno este conhecido por plasmólise. Em<br />
virtu<strong>de</strong> disso, o crescimento <strong>de</strong> microorganismos é inibido.<br />
O processo <strong>de</strong> salga aumenta o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> conservação do pescado, havendo inibição da ativida<strong>de</strong><br />
enzimática, tanto <strong>de</strong> enzimas próprias do pescado como <strong>de</strong> bactérias. Há ainda uma redução no<br />
<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> microorganismos aeróbicos, em face da diminuição da solubilida<strong>de</strong> do oxigênio na<br />
salmoura, ou pela <strong>de</strong>sinfecção direta do produto com íons Cl - . Porém, o princípio <strong>de</strong> conservação<br />
consiste na retirada <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> tissular, paralelamente à entrada <strong>de</strong> sal.<br />
Em concentrações <strong>de</strong> 1 a 3% <strong>de</strong> sal, verifica-se uma aceleração no <strong>de</strong>senvolvimento da maioria<br />
das bactérias patogênicas e envolvidas no processo <strong>de</strong> putrefação. Em geral, é necessária uma<br />
concentração acima <strong>de</strong> 15% para inibir este <strong>de</strong>senvolvimento, quando a ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água torna-se<br />
reduzida.
PESCA E APETRECHOS<br />
48<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A pesca constitui uma das principais ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> subsistência praticada pelos moradores da<br />
região próxima ao Canal <strong>de</strong> Santa Cruz no município <strong>de</strong> Itapissuma. Muitas vezes, constituindo-se<br />
como a única fonte <strong>de</strong> renda das famílias. Em sua maioria, a pesca ainda é praticada <strong>de</strong> forma<br />
incipiente, com embarcações rústicas e sem a utilização <strong>de</strong> qualquer método <strong>de</strong> sensoriamento remoto.<br />
A captura dos peixes é promovida em<br />
embarcações <strong>de</strong> pequeno porte conhecidas como<br />
“baiteiras” (Figura 2). São embarcações movidas à<br />
vela ou mais comumente a remo, confeccionadas<br />
em ma<strong>de</strong>ira, com dimensões que variam <strong>de</strong> 5 a 8<br />
metros <strong>de</strong> comprimento e largura po<strong>de</strong>ndo variar<br />
<strong>de</strong> 1 a 1,5 metros. São utilizadas re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cerco, <strong>de</strong><br />
espera, mangote e tarrafas, cujo diâmetro da malha<br />
po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> 15 a 30 mm (entre nós opostos).<br />
Figura 2 – Enbarcações, tipo “baiteiras”<br />
O comprimento das armadilhas (re<strong>de</strong>s) utilizadas na pesca artesanal no canal <strong>de</strong><br />
varia bastante, <strong>de</strong> acordo com o tipo <strong>de</strong> pesca a que Santa Cruz em Itapissuma, PE.<br />
se <strong>de</strong>stina. Algumas chegam a medir mais <strong>de</strong> 150m <strong>de</strong> comprimento. A pesca é realizada durante toda a<br />
semana, nos mais variados horários do dia ou mesmo durante a noite. As embarcações po<strong>de</strong>m voltar ao<br />
mar mais <strong>de</strong> uma vez por dia, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das condições <strong>de</strong> pesca, po<strong>de</strong>ndo até mesmo, algumas<br />
permanecerem no mar, por mais <strong>de</strong> um dia. O número <strong>de</strong> pessoas para realização da captura dos peixes<br />
também po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> dois a seis pescadores por embarcação.<br />
A ativida<strong>de</strong> pesqueira se inicia com a escolha <strong>de</strong> um <strong>de</strong>terminado local <strong>de</strong> pesca (escolhido com<br />
base nas experiências acumuladas pelos pescadores), on<strong>de</strong> a re<strong>de</strong> é jogada na água. A partir <strong>de</strong>ste<br />
ponto, o barco segue se afastando e a re<strong>de</strong> é gradativamente lançada ao mar até ser totalmente<br />
distendida. Após um período <strong>de</strong> espera, que po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> 30 minutos a 1 hora, a re<strong>de</strong> é puxada com o<br />
auxílio <strong>de</strong> uma corda presa em uma <strong>de</strong> suas extremida<strong>de</strong>s, e é fechada perfazendo uma trajetória em<br />
forma <strong>de</strong> ferradura, <strong>de</strong>pois puxada para <strong>de</strong>ntro da embarcação on<strong>de</strong> os peixes são recolhidos e<br />
separados <strong>de</strong> acordo com o tamanho (pequenos e gran<strong>de</strong>s) e colocados em cestos.<br />
O <strong>de</strong>sembarque é realizado em pequenos ancoradouros ou em pontos localizados próximo às<br />
comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pescadores. Após retornarem da pesca, os trabalhadores do mar lavam os peixes com<br />
água do próprio canal (Figura 3A e B). Para facilitar o transporte dos peixes para os locais <strong>de</strong> secagem,
49<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
“girais”, ou <strong>de</strong> venda, muitas vezes os pecadores utilizam carros-<strong>de</strong>-mão ou levam os peixes nos<br />
próprios cestos <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da distância <strong>de</strong>stes locais (Figura 4).<br />
Figuras 4 – Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma: transporte dos peixes para local <strong>de</strong><br />
salga e secagem.<br />
Durante o processo <strong>de</strong> pesca, vários peixes <strong>de</strong><br />
diferentes tamanhos e espécies são capturados. Os<br />
peixes maiores (Figura 5) são vendidos, muitas<br />
vezes, sem beneficiamento para comerciantes. Os<br />
peixes <strong>de</strong> pequeno porte (Figura 6) geralmente são<br />
<strong>de</strong>stinados a salga ou mesmo vendidos sem este<br />
processamento, após secarem ao sol nos “girais” ou<br />
sobre re<strong>de</strong>s dispostas no chão, mais comumente na<br />
rampa que dá acesso aos locais <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque,<br />
durante algumas horas.<br />
Figura 5 – Peixes capturados no canal <strong>de</strong> Santa<br />
Cruz, Itapissuma, PE. De cima para baixo: salema,<br />
bicuda, agulha, agulhinha, sauna e carapeba.<br />
A B<br />
Figura 3 – Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma/PE - A) Desembarque do pescado;<br />
B) Lavagem dos peixes após o <strong>de</strong>sembarque.
50<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
As principais espécies capturadas são as seguintes: a manjuba Opisthonema oglinum<br />
(exemplares juvenis <strong>de</strong> sardinha-laje), tainha Mugil spp., boca-torta Anchovia clupeoi<strong>de</strong>s (manjuba),<br />
sardinha Cetengraulis e<strong>de</strong>ntulus, sauna Mugil spp., carapeba Eugerres brasilianus, camurim<br />
Centropomus un<strong>de</strong>cimalis, Xaréu Caranx spp.<br />
A quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes capturados varia muito, <strong>de</strong> embarcação para embarcação e no <strong>de</strong>correr<br />
da semana, po<strong>de</strong>ndo uma embarcação capturar 400kg <strong>de</strong> peixes, num dia <strong>de</strong> boa pescaria.<br />
Os pescadores <strong>de</strong>sta região ainda contam com uma casa, localizada na rua José Gonçalves, nº<br />
83 – Centro, que dá acesso ao Canal, e abriga a se<strong>de</strong> da Colônia <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>dores Z-10 <strong>de</strong> Itapissuma,<br />
responsável por assegurar os direitos <strong>de</strong>stes pescadores. Porém, segundo o relato dos próprios<br />
pescadores, esta po<strong>de</strong>ria atuar mais na <strong>de</strong>fesa dos interesses dos pescadores.<br />
CONDIÇÕES PREJUDICIAIS À ATIVIDADE DE PESCA<br />
A B C<br />
D E F<br />
Figura 6 – Itapissuma – Peixes utilizados na salga: A) sapuruna Pomadasys corvinaeformis,<br />
B) <strong>de</strong>ntão Lutjanus jocu, C) carabeba Eugerres brasilianus, D) carapicu Diapterus olisthostomus,<br />
E) boca-torta Cetengraulius e<strong>de</strong>ntulus, F) saúna Mugil sp.<br />
A pesca em Itapissuma também enfrenta problemas que refletem diretamente sobre as<br />
condições <strong>de</strong> vida dos pescadores, influenciando o comércio local e indiretamente as ativida<strong>de</strong>s<br />
comerciais <strong>de</strong> outros municípios, da Região Metropolitana do Recife e do interior do Estado, que<br />
também <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m da produção pesqueira do município.
ALGUNS DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS RELACIONADOS À PESCA<br />
51<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Os problemas mais graves na Região são: a) pesca predatória, <strong>de</strong>vido ao gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> pessoas<br />
pescando com re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> malha fina e re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> arrasto (pesca não seletiva); b) poluição dos rios e<br />
estuários por esgoto doméstico e resíduos industriais (calda <strong>de</strong> usina açucareira, cloro e outros<br />
produtos); c) circulação intensa <strong>de</strong> embarcações motorizadas (lanchas e jet skis) nas bocas Norte e Sul<br />
do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, afugentando os peixes, <strong>de</strong>struindo as re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pesca, pondo em risco a vida<br />
dos pescadores e ameaçando a reprodução das espécies que realizam parte <strong>de</strong> seu ciclo <strong>de</strong> vida nos<br />
estuários (LIMA e QUINAMO, 2000).<br />
Além <strong>de</strong> outros, como a dragagem <strong>de</strong> certas áreas do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, para passagem <strong>de</strong><br />
embarcações maiores, refletindo a influência da exploração turística sem o <strong>de</strong>vido planejamento e sem<br />
levar a cabo o impacto ambiental que essas ativida<strong>de</strong>s po<strong>de</strong>rão causar ao ecossistema.<br />
BENEFICIAMENTO POR SALGA<br />
Durante a coleta <strong>de</strong> dados foram evi<strong>de</strong>nciadas<br />
as condições precárias on<strong>de</strong> é realizado o processo <strong>de</strong><br />
salga, este normalmente realizado por dois homens.<br />
Os peixes ao serem <strong>de</strong>sembarcados, são<br />
lavados com água do próprio estuário, <strong>de</strong>pois<br />
transportados até as “salga<strong>de</strong>iras” (tanques <strong>de</strong> cimento<br />
<strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 1m 3 , revestido com azulejos ou cimento)<br />
(Figura 7), on<strong>de</strong> são <strong>de</strong>positados inteiros e com Figura 7 – Salga<strong>de</strong>iras usadas no<br />
vísceras, <strong>de</strong>pois é adicionado o sal, que posteriormente<br />
beneficiamento por salga do pescado<br />
formará a salmoura, on<strong>de</strong> permanecerão por cerca <strong>de</strong><br />
24 horas.<br />
no canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma/PE.<br />
Passado este período na salmoura, os<br />
peixes são colocados nos “girais” (Figura 8),<br />
espécie <strong>de</strong> mesa, construída com varas <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira,<br />
possuindo pequenos espaços entre elas e forrada<br />
com re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pesca, facilitando o escoamento da<br />
água dos peixes e evitando que estes caiam no<br />
chão. Os girais apresentam medidas que variam <strong>de</strong><br />
10 a 15 metros <strong>de</strong> comprimento por 2 metros <strong>de</strong><br />
Figura 8 – “Quarais” utilizados na secagem<br />
<strong>de</strong> peixes na Região <strong>de</strong> Itapissuma.
52<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
largura e cerca <strong>de</strong> 1 metro <strong>de</strong> altura, os peixes são dispostos sobre a re<strong>de</strong> e permanecem lá para secarem<br />
ao sol por períodos que po<strong>de</strong>m variar <strong>de</strong> 2 a 6 horas <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das condições climáticas.<br />
Os “girais” estão localizados próximos à margem do canal <strong>de</strong> Santa Cruz, on<strong>de</strong> o acúmulo <strong>de</strong> lixo<br />
<strong>de</strong> várias origens (Figura 9) e a presença <strong>de</strong><br />
pragas urbanas tornam-se bastante evi<strong>de</strong>ntes,<br />
contribuindo <strong>de</strong> forma negativa na qualida<strong>de</strong><br />
do produto final, o peixe salgado-seco<br />
conhecido como “caíco”. A produção muitas<br />
vezes é comercializada nos próprios girais,<br />
para comerciantes que compram em gran<strong>de</strong><br />
quantida<strong>de</strong> para reven<strong>de</strong>rem nas feiras locais<br />
ou <strong>de</strong> outras cida<strong>de</strong>s. O peixe <strong>de</strong>pois <strong>de</strong><br />
salgado e seco po<strong>de</strong> ainda ficar estocado por<br />
até três dias <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da procura.<br />
Figura 9 – Proximida<strong>de</strong> dos “girais” com lixo<br />
doméstico propiciando a presença <strong>de</strong> pragas<br />
RELAÇÕES COMERCIAIS<br />
As relações comerciais envolvendo a produção da salga, muitas vezes são conduzidas pelos<br />
“empreseiros”, proprietários dos barcos e re<strong>de</strong>s, além dos girais on<strong>de</strong> os peixes são submetidos à<br />
secagem.<br />
As relações <strong>de</strong> trabalho observadas durante este estudo apresentam pequenas diferenças em<br />
relação às <strong>de</strong>scritas por Lino (2003), porém, ainda estão baseadas em ativida<strong>de</strong>s informais sem vínculo<br />
empregatício.<br />
Mediante entrevistas realizadas na Região, registrou-se que muitos pescadores possuem<br />
embarcações e apetrechos <strong>de</strong> pesca, porém, preferem negociar o pescado com os “empreseiros”, muitas<br />
vezes, pela natureza da ativida<strong>de</strong> que se torna muito <strong>de</strong>sgastante, <strong>de</strong>sestimulando o pescador a<br />
comercializar o pescado diretamente com o consumir. Às vezes, nos finais <strong>de</strong> semana, as esposas <strong>de</strong><br />
alguns pescadores esperam seus maridos retornarem da pesca e levam uma certa quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixe<br />
para ven<strong>de</strong>rem nas feiras livres, conseguindo assim um lucro maior com a venda direta ao consumidor.<br />
Os pescadores que não possuem embarcações <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m unicamente dos meios fornecidos<br />
pelos “empreseiros” para a realização da ativida<strong>de</strong>, comprometendo-se assim, a ven<strong>de</strong>r a produção<br />
comercializável para estes.<br />
Após o processamento: salga e secagem, os peixes são comercializados pelo “empreseiro” em<br />
transações feitas diretamente por telefone, sendo negociadas pequenas quantida<strong>de</strong>s ou em grosso,
53<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
iniciando, nesse caso, uma ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> intermediação (Figura 10) para revenda em Recife (mercado<br />
público <strong>de</strong> São José, bairros próximos da Avenida Caxangá) ou nas feiras livres da Região<br />
Metropolitana do Recife e no interior do Estado (Limoeiro, Orobó, Carpina, Caruaru e outros).<br />
Consumo<br />
Próprio<br />
Meio<br />
Ambiente<br />
<strong>Pesca</strong>dor<br />
Empreseiro<br />
Processamento<br />
Salga / Secagem<br />
Armazenamento<br />
Intermediário<br />
Atacadista<br />
Varejista<br />
(comerciante e feirante)<br />
Consumidor<br />
Figura 10 – Fluxo do processamento e comercialização do peixe salgado-seco (caíco)<br />
na região <strong>de</strong> Itapissuma, Pernambuco.<br />
O “empreseiro” adquire o pescado ao preço <strong>de</strong> R$ 0,50 o quilo. O produto final após o<br />
processamento e a intermediação chega ao consumidor pelo preço <strong>de</strong> R$ 2,00 o quilo. No local da<br />
salga o preço ao consumidor é R$ 1,50 o quilo.
COMENTÁRIOS CONCLUSIVOS<br />
54<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A pesca artesanal no município <strong>de</strong> Itapissuma representa uma importante fonte <strong>de</strong> subsistência,<br />
senão a única, para uma gran<strong>de</strong> parcela da população marginal do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz. Esta ativida<strong>de</strong>,<br />
bem como outras advindas <strong>de</strong> sua efetivação (comércio <strong>de</strong> frutos do mar em feiras livres, bares,<br />
restaurantes etc.) são responsáveis, quase que inteiramente, pelo volume comercial e base econômica<br />
do município, sendo esta retransmitida por várias gerações, constituindo-se numa herança cultural e<br />
profundamente enraizada no costume local.<br />
Porém esta ativida<strong>de</strong> se <strong>de</strong>senvolve sem planejamento, sugerindo que, sem o <strong>de</strong>vido<br />
direcionamento, a pesca no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz po<strong>de</strong>rá sofrer futuramente com a falta do produto<br />
pesqueiro <strong>de</strong>vido à redução dos organismos aquáticos explorados, que já sofrem com a influência do<br />
turismo e da poluição.<br />
Os trabalhadores diretamente envolvidos na pesca são pessoas simples e <strong>de</strong> poucas posses,<br />
quando muito, donos apenas <strong>de</strong> poucos utensílios <strong>de</strong>stinados à pesca ou a ela ligados.<br />
O beneficiamento do pescado se <strong>de</strong>senvolve <strong>de</strong> acordo com as condições econômicas da<br />
população diretamente favorecida e está intimamente influenciado pelo <strong>de</strong>senvolvimento da região.<br />
A salga, embora se constitua num dos métodos mais antigos <strong>de</strong> conservação <strong>de</strong> alimentos,<br />
aten<strong>de</strong> as necessida<strong>de</strong>s e condições <strong>de</strong> vida <strong>de</strong>stes pescadores.<br />
Ações para melhoria no beneficiamento do pescado, e conseqüentemente, das ativida<strong>de</strong>s<br />
econômicas e condições <strong>de</strong> vida dos pescadores e consumidores, po<strong>de</strong>m ser efetivadas, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que<br />
sejam incorporadas na realida<strong>de</strong> da região, levando em consi<strong>de</strong>ração os custos advindos <strong>de</strong> sua<br />
implantação e os benefícios que po<strong>de</strong>m ser alcançados, e levando paralelamente a conscientização da<br />
responsabilida<strong>de</strong> social com a preservação e uso racional dos recursos naturais.<br />
SUGESTÕES OU RECOMENDAÇÕES<br />
No <strong>de</strong>correr <strong>de</strong>ste projeto tomou-se ciência da realida<strong>de</strong> enfrentada pelos pescadores que<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m do produto da labuta diária no mar e no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, e as principais rotas <strong>de</strong>stinadas<br />
ao pescado daquela região além <strong>de</strong> alguns dos problemas ocasionados pela falta <strong>de</strong> conhecimento das<br />
possíveis vias <strong>de</strong> contaminação do pescado e dos possíveis causadores <strong>de</strong> doenças.<br />
Como sugestões para a melhoria das condições <strong>de</strong> pesca, processo <strong>de</strong> comercialização e<br />
conseqüentemente da qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida das pessoas influenciadas por essa ativida<strong>de</strong>, po<strong>de</strong>mos citar:<br />
a) Encaminhar solicitação aos órgãos competentes, através <strong>de</strong> suas representações, para que as águas<br />
<strong>de</strong>correntes da drenagem pública e canalizada para os estuários da região sejam tratadas, <strong>de</strong> forma a<br />
minimizar o impacto ambiental provocado nos organismos aquáticos e que é repassado para a
55<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
população; b) recolhimento periódico do lixo doméstico acumulado próximo ao Canal; c) engendrar<br />
formas <strong>de</strong> esclarecer e conscientizar a população resi<strong>de</strong>nte na região e visitantes, da importância que o<br />
Canal <strong>de</strong> Santa Cruz representa para a subsistência dos pescadores e tentar promover melhor interação<br />
entre a exploração turística da região e a ativida<strong>de</strong> pesqueira realizada; d) efetuar campanhas que<br />
busquem a conscientização, envolvendo a população local na solução dos problemas existentes e, em<br />
parceria com a Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco, a Prefeitura <strong>de</strong> Itapissuma e <strong>de</strong>mais órgãos<br />
e entida<strong>de</strong>s interessadas na proposta, da importância da preservação da flora e fauna da região e do<br />
planejamento a<strong>de</strong>quado como forma <strong>de</strong> promover o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável da localida<strong>de</strong>.<br />
REFERÊNCIAS<br />
BARROS, H.M. e ESKENAZI-LEÇA, E. Introdução. In: LEÇA, E.; MACÊDO, J.; LIMA, T.; (Ed)<br />
Gerenciamento Participativo <strong>de</strong> Estuários e Manguezais. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2000. p.<br />
7-25<br />
LEÇA, E.; MACÊDO, J.; LIMA, T.; (Ed) Gerenciamento Participativo <strong>de</strong> Estuários e Manguezais.<br />
Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2000. p. 7-25.<br />
LIMA, T. e QUINAMO, T. Características sócio-econômicas. In: BARRO, H. M.; ESKENAZI-LEÇA,<br />
E.; MACÊDO, J.; LIMA, T.; (Ed) Gerenciamento Participativo <strong>de</strong> Estuários e Manguezais. Recife.<br />
Ed. Universitária da UFPE, 2000. p. 181-224.<br />
LINO, M.A.S. Estudo Biológico-Pesqueiro da Manjuba Opisthonema oglinum (Lesueur, 1818) da<br />
Região <strong>de</strong> Itapissuma, Pernambuco. Dissertação (Mestrado em Recursos Pesqueiros e Aqüicultura) –<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco, [2003]. f. 24-26.<br />
MORAES, A.L. <strong>Pesca</strong> predatória na área estuarina do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma-PE.<br />
Monografia (Pós-Graduação em Geografia) Fundação <strong>de</strong> Ensino Superior <strong>de</strong> Olinda/ UNESF, [1998].<br />
OGAWA, M. e MAIA, E. L. Manual <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> Ciência e Tecnologia do <strong>Pesca</strong>do. São Paulo. v. 1,<br />
1999. p. 293-294.�
56<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
MUSEO DEL HOMBRE DEL PUERTO (MAR DEL PLATA, ARGENTINA)<br />
Héctor BECERINI, Director <strong>de</strong>l Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto, Mar <strong>de</strong>l Plata, Argentina<br />
INTRODUCCIÓN<br />
El Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto, inaugurado en noviembre <strong>de</strong> 1990. Posee una importante<br />
colección <strong>de</strong> fotos, documentos, bibliografía y objetos que hacen a la vida y costumbres <strong>de</strong> los primeros<br />
pobladores <strong>de</strong> la zona. En una sala <strong>de</strong>dicada al célebre pintor Cleto Ciocchini se exponen sus más<br />
renombradas obras, en las que supo plasmar los paisajes, activida<strong>de</strong>s e idiosincrasia <strong>de</strong> los pescadores.<br />
El proyecto <strong>de</strong> crear un museo en el barrio portuario <strong>de</strong> la ciudad <strong>de</strong> Mar <strong>de</strong>l Plata, fue concebido<br />
tiempo atrás con los integrantes <strong>de</strong> la Asociación <strong>de</strong> Fomento <strong>de</strong>l Puerto, siendo uno <strong>de</strong> sus principales<br />
precursores Don Aldo Marcone Benvenuto.<br />
Con este objetivo se fueron convocando a integrantes <strong>de</strong> viejas familias radicadas en la zona, así<br />
se consiguió rescatar antiguas fotografías y material que hace a la historia primigenia <strong>de</strong>l lugar.<br />
Finalmente tras muchos esfuerzos, la obra <strong>de</strong> la Asociación <strong>de</strong> Fomento <strong>de</strong>l Puerto, se concreta en<br />
el Museo que es inaugurado el 22 <strong>de</strong> noviembre <strong>de</strong> 1990 en el edificio <strong>de</strong> calle Padre Dutto 383. Hacia<br />
el año 2002 el Museo se traslada a su actual se<strong>de</strong> en el Centro Comercial Puerto local 8.<br />
EL MUSEO<br />
Cuenta con un amplio frente <strong>de</strong> acceso, allí encontraremos sobre su fachada elementos que<br />
pertenecieron a la lancha pesquera, “Fratelli Uniti”, y una placa <strong>de</strong> bronce sobre mármol con la efigie<br />
<strong>de</strong>l pintor Cleto Ciocchini, donada por su hijo Fe<strong>de</strong>rico Ciocchini Solá.<br />
En su interior, el Museo ofrece una serie <strong>de</strong> salas en don<strong>de</strong> se tratara <strong>de</strong> introducir al visitante en<br />
una dimensión diferente, la cual le permite vivir sensaciones que solo el Puerto pue<strong>de</strong> ofrecer.<br />
La primer sala funciona como centro <strong>de</strong> interpretación <strong>de</strong> la temática general <strong>de</strong>l museo, allí nos<br />
encontraremos con la temática <strong>de</strong> la Inmigración, pasaportes, <strong>de</strong>cretos y leyes, objetos y un baúl <strong>de</strong> la<br />
familia Penisssi en el que trajeron sus pertenencias. Tambien nos encontraremos con el origen <strong>de</strong> Mar<br />
<strong>de</strong>l Plata, el sala<strong>de</strong>ro, los proyectos <strong>de</strong> puertos, el origen <strong>de</strong> la pesca y la aparición <strong>de</strong>l turismo.<br />
La segunda sala esta <strong>de</strong>dicada a la construcción <strong>de</strong>l puerto a cargo <strong>de</strong> la “Societe Nationale <strong>de</strong><br />
Travaux Publics”, con documentos y fotografías y en otro sector <strong>de</strong> la misma se exhibe mobiliario<br />
original <strong>de</strong> la empresa.<br />
En otra sala encontraremos a las familias <strong>de</strong> los primeros pobladores <strong>de</strong>l Puerto, la llegada <strong>de</strong> los<br />
pescadores, sus activida<strong>de</strong>s y sus tradiciones, objetos típicos, la historia <strong>de</strong>l barrio <strong>de</strong>l Puerto.
57<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Existe otra sala <strong>de</strong>dicada al pintor Cleto Ciocchini, con obras como el óleo “Quico” que recuerda<br />
a un típico y conocido pescador marplatense, mientras otro muestra a la Parroquia Sagrada Familia,<br />
primera iglesia <strong>de</strong>l Puerto y punto <strong>de</strong> partida <strong>de</strong> las procesiones. Junto a ésta, el caballete, porta<br />
estudios <strong>de</strong> Ciocchini y otras obras.<br />
Dentro <strong>de</strong> la misma sala, se pue<strong>de</strong> observar la historia <strong>de</strong> los astilleros, los hombres que se<br />
<strong>de</strong>dicaron a la construcción y reparación <strong>de</strong> embarcaciones, junto a las artes <strong>de</strong> pesca y construcción <strong>de</strong><br />
re<strong>de</strong>s.<br />
En otra parte se exhiben paneles en don<strong>de</strong> están representadas todas las colectivida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>l Puerto<br />
<strong>de</strong> Mar <strong>de</strong>l Plata, con sus Santos patronos, estando el Museo bajo la protección <strong>de</strong>l “Divino san<br />
Salvador”.<br />
Finalmente las salas <strong>de</strong> exposición <strong>de</strong> pintura y escultura, con exposiciones temporarias y <strong>de</strong><br />
colección <strong>de</strong>l museo y la sala <strong>de</strong> proyecciones audiovisuales y conferencias en don<strong>de</strong> se exhiben vi<strong>de</strong>os<br />
con la temática <strong>de</strong>l museo.<br />
ACTIVIDADES<br />
La principal motivación <strong>de</strong>l Museo es rescatar el acervo cultural e histórico <strong>de</strong>l puerto, ya que<br />
constituye un nucleamiento humano con valores artísticos, pautas <strong>de</strong> vida, artesanías y tradiciones que<br />
se han mantenido como testimonio histórico, con su carácter singular, propio y autentico. Su función es<br />
preservar para las futuras generaciones, los nombres y hechos históricos y anécdotas que se vinculan al<br />
origen <strong>de</strong>l primer asentamiento en el lugar, y como su crecimiento y <strong>de</strong>sarrollo constituyo la actual<br />
comunidad portuense.<br />
El Museo ha establecido vínculos con los viejos pobladores a fin <strong>de</strong> obtener material y reconstruir<br />
la historia <strong>de</strong>l Puerto.<br />
EL ECO-MUSEO<br />
Se trata <strong>de</strong> revalorizar los sitios <strong>de</strong> interés <strong>de</strong> la zona, sus edificios históricos y patrimoniales, sus<br />
monumentos y viviendas típicas mediante placas <strong>de</strong> referencia, así como <strong>de</strong> la realización itineraria <strong>de</strong><br />
circuitos turísticos culturales guiados por profesionales especializados a través <strong>de</strong>l área <strong>de</strong> su<br />
influencia, con la distribución <strong>de</strong> folletos explicativos.<br />
SERVICIO EDUCATIVO<br />
Compren<strong>de</strong> la atención <strong>de</strong>l público en general, como a establecimientos educativos <strong>de</strong> distintos<br />
niveles y universitarios, mediante visitas guiadas, proyección <strong>de</strong> vi<strong>de</strong>os, cursos y conferencias referidas<br />
a temas artísticos culturales.
58<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
El Museo cuenta con un servicio <strong>de</strong> extensión a la comunidad e institución que lo solicite.<br />
ARCHIVO DEL INMIGRANTE<br />
Se creo con el fin <strong>de</strong> almacenar datos obtenidos a través <strong>de</strong> entrevistas personales, con voces <strong>de</strong><br />
los protagonistas relatando anécdotas familiares, narrando las peripecias y angustias <strong>de</strong> la inmigración,<br />
los comienzos en el arraigo y el <strong>de</strong>stino que les <strong>de</strong>paro nuestra tierra, todo ilustrado y documentado con<br />
fotografías aportadas por la misma comunidad.<br />
Se constituye así no solo en la herramienta para hilar esta historia, sino fundamentalmente como<br />
banco <strong>de</strong> datos computarizado, a disposición <strong>de</strong>l público, para ubicar a sus orígenes y conocer a sus<br />
antecesores.<br />
En este momento el Museo se ha hermanado con el <strong>de</strong> “San Bene<strong>de</strong>to <strong>de</strong>l Tronto”, Italia,<br />
ampliando así nuestros datos e intercambiando información y exposiciones artísticas.<br />
El museo tiene el seguinte cuerpo técnico:<br />
Director - Hector Becerini; Servicio Técnico y Educativo - Arq. Osvaldo Destandau;<br />
Investigación Histórica - Prof. Jose Mateo; Secretaria: Patricia Macchia<br />
Sigue abajo algunas fotos <strong>de</strong>l Museo<br />
AGRADECIMIENTOS*<br />
Queremos hacer expreso nuestro inmenso agra<strong>de</strong>cimiento a Pasqualino Marchese cuya<br />
colaboración tornó posible la publicación <strong>de</strong> este artículo.<br />
* Agra<strong>de</strong>cimientos <strong>de</strong>l editor.�
FOTOS DEL MUSEO DEL HOMBRE DEL PUERTO<br />
�<br />
59<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]
A PESCA OCEÂNICA NO BRASIL NO SÉCULO 21<br />
60<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Fábio Hissa Vieira HAZIN (fhvhazin@ufrpe.br); Paulo Eurico TRAVASSOS (paulotr@ufrpe.br)<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />
RESUMO<br />
As capturas <strong>de</strong> atuns e espécies afins no Oceano Atlântico, incluindo as albacoras (laje, branca e<br />
bandolim), o bonito listrado, o espadarte (meka), os agulhões (branco, negro, vela e ver<strong>de</strong>), diversas<br />
espécies <strong>de</strong> tubarão (principalmente o tubarão-azul), além <strong>de</strong> outros peixes como a cavala, o dourado e<br />
o peixe-prego, têm, nos últimos anos, oscilado em torno das 500.000 t. Em 2004, a frota atuneira<br />
nacional, composta por embarcações brasileiras e estrangeiras arrendadas, capturou 44.640 t, ou o<br />
equivalente a cerca <strong>de</strong> 9% do total capturado no Atlântico. Em 2005, este montante subiu para 48.900t,<br />
representando um incremento próximo a 10%. Do ponto <strong>de</strong> vista do resultado econômico, entretanto,<br />
uma vez que aproximadamente a meta<strong>de</strong> da produção nacional é constituída por bonito-listrado, uma<br />
das espécies <strong>de</strong> atum mais costeiras e <strong>de</strong> menor valor comercial, a participação brasileira no rendimento<br />
proporcionado por esta pesca, em torno <strong>de</strong> US$ 4 bilhões/ano, certamente se situou bem abaixo dos<br />
5%. Consi<strong>de</strong>rando-se a proximida<strong>de</strong> estratégica do País em relação às rotas migratórias dos principais<br />
estoques <strong>de</strong> atuns e afins no Atlântico Sul, além da gran<strong>de</strong> extensão <strong>de</strong> sua costa, com cerca <strong>de</strong> 8.500<br />
km, fica claro que a posição atualmente ocupada pelo país no cenário da pesca oceânica no Atlântico<br />
não se justifica. Neste contexto, o presente trabalho apresenta uma breve <strong>de</strong>scrição da evolução e atual<br />
situação da pesca <strong>de</strong> atuns e afins no país, abordando os principais aspectos estratégicos que <strong>de</strong>vem ser<br />
consi<strong>de</strong>rados para promover o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong> no Brasil.<br />
PALAVRAS-CHAVES: <strong>Pesca</strong> oceânica, atuns e afins, captura, <strong>de</strong>senvolvimento sustentável.<br />
STATUS DA PESCA NO BRASIL<br />
No ano <strong>de</strong> 2004, no Oceano Atlântico, excluindo-se o Mar mediterrâneo, foram capturadas<br />
cerca <strong>de</strong> 500.000 t <strong>de</strong> atuns e espécies afins, incluindo as albacoras (azul laje, branca e bandolim), o<br />
bonito-listrado, o espadarte (meka), os agulhões (branco, negro, vela e ver<strong>de</strong>), e diversas espécies <strong>de</strong><br />
tubarão (principalmente o tubarão azul), além <strong>de</strong> outros peixes como a cavala, o dourado, o<br />
peixe-prego, entre muitos outros. No mesmo ano, as embarcações sob jurisdição nacional, brasileiras e<br />
arrendadas, capturaram 44.640 t, ou o equivalente a cerca <strong>de</strong> 9% do total capturado no Atlântico. Em<br />
2005, este montante subiu para 48.900 t, representando um incremento próximo a 10%. Do ponto <strong>de</strong><br />
vista do resultado econômico, entretanto, uma vez que aproximadamente a meta<strong>de</strong> da produção
61<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
nacional é constituída por bonito-listrado, uma das espécies <strong>de</strong> atum mais costeiras e <strong>de</strong> menor valor<br />
comercial, a participação brasileira no rendimento proporcionado por esta pesca, em torno <strong>de</strong> US$ 4<br />
bilhões/ ano, certamente se situou bem abaixo dos 5%. Consi<strong>de</strong>rando-se a proximida<strong>de</strong> estratégica do<br />
País em relação às rotas migratórias dos principais estoques <strong>de</strong> atuns e afins no Atlântico Sul, além da<br />
gran<strong>de</strong> extensão <strong>de</strong> sua costa, com cerca <strong>de</strong> 8.500 km, fica claro que a posição atualmente ocupada pelo<br />
país no cenário da pesca oceânica no Atlântico não se justifica. Enquanto embarcações operando a<br />
partir <strong>de</strong> portos brasileiros alcançam as áreas <strong>de</strong> ocorrência dos cardumes com poucas horas <strong>de</strong><br />
navegação, as frotas <strong>de</strong> países com gran<strong>de</strong> tradição pesqueira, como o Japão, Taiwan, Coréia, Espanha,<br />
Portugal, entre outros, são obrigados, em alguns casos, a viajar mais <strong>de</strong> 20.000 km para atingir as<br />
mesmas áreas <strong>de</strong> pesca. Entretanto, apesar <strong>de</strong> tal condição conferir ao país uma gran<strong>de</strong> vantagem<br />
comparativa, a pesca oceânica nacional apresentou uma tendência <strong>de</strong>clinante, nos quatro primeiros<br />
anos do presente século (2000-2004), com uma leve recuperação somente no ano passado (Figura 1).<br />
Produção em peso vivo (t)<br />
60000<br />
50000<br />
40000<br />
30000<br />
20000<br />
10000<br />
0<br />
2000 2001 2002 2003 2004 2005<br />
Total Bonito Listrado<br />
Outros Atuns e Afins % Bonito Listrado<br />
Figura 1- Evolução das capturas nacionais <strong>de</strong> atuns e afins e do bonito listrado,<br />
incluindo a sua participação relativa no total capturado.<br />
É importante <strong>de</strong>stacar que as quatro principais espécies capturadas pelas embarcações nacionais,<br />
<strong>de</strong>pois do bonito listrado, as albacoras laje, branca e bandolim, além do espadarte, vêm sendo<br />
capturadas em níveis próximos, porém abaixo do rendimento máximo sustentável (Figura 2), indicando<br />
60<br />
50<br />
40<br />
30<br />
20<br />
10<br />
0
Produção em peso vivo (t)<br />
160000<br />
140000<br />
120000<br />
100000<br />
80000<br />
60000<br />
40000<br />
20000<br />
0<br />
Albacora Laje Albacora<br />
Branca<br />
62<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 2 - Rendimento Máximo Sustentável (RMS), captura total no Oceano Atlântico e<br />
captura nacional <strong>de</strong> albacoras e do espadarte.<br />
Albacora<br />
Bandolim<br />
RMS Captura Total Captura Nacional<br />
que os seus estoques estão sendo a<strong>de</strong>quadamente manejados pela ICCAT- Comissão Internacional para<br />
a Conservação do Atum Atlântico (International Commission for the Conservation of Atlantic Tunas).<br />
Na mesma figura, contudo, po<strong>de</strong>-se observar claramente a ainda reduzida participação brasileira.<br />
PERSPECTIVAS PARA O SÉCULO 21<br />
Espadarte<br />
Com o esgotamento dos recursos pesqueiros costeiros, a principal alternativa para o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional, excetuando-se a aqüicultura, resi<strong>de</strong> na pesca oceânica,<br />
voltada para a captura <strong>de</strong> atuns e peixes afins (espadarte, agulhões e tubarões), os quais apresentam<br />
uma série <strong>de</strong> vantagens comparativas, em relação aos recursos costeiros, entre as quais po<strong>de</strong>-se<br />
<strong>de</strong>stacar: a) gran<strong>de</strong> proximida<strong>de</strong> das principais áreas <strong>de</strong> pesca, no caso do Brasil; b) algumas espécies<br />
capturadas, como as albacoras, apresentam um alto valor comercial para exportação, constituindo-se<br />
em uma importante fonte <strong>de</strong> divisas para o País; c) outras espécies, também presentes nas capturas,<br />
como os tubarões, apresentam preço relativamente baixo, apesar do seu alto valor nutritivo,<br />
representando uma importante fonte <strong>de</strong> proteínas para a população <strong>de</strong> baixa renda; d) ciclo <strong>de</strong> vida<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte dos ecossistemas costeiros, já intensamente <strong>de</strong>gradados; e) ampla distribuição; e f)<br />
biomassa elevada. Uma vantagem adicional é que, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que a<strong>de</strong>quadamente planejado, o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da pesca oceânica nacional po<strong>de</strong>ria resultar em uma redução do esforço <strong>de</strong> pesca<br />
sobre os estoques costeiros, já sobre-explotados.
63<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Vários são os entraves, porém, para o <strong>de</strong>senvolvimento da pesca oceânica nacional, com <strong>de</strong>staque<br />
para a falta <strong>de</strong> mão-<strong>de</strong>-obra especializada, <strong>de</strong> tecnologia e <strong>de</strong> embarcações a<strong>de</strong>quadas, as quais, <strong>de</strong>vido<br />
ao seu elevado custo, encontram-se comumente muito além da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> investimento das<br />
empresas <strong>de</strong> pesca brasileiras. Para que o País consiga, portanto, ampliar a sua participação na pesca<br />
oceânica, precisará ampliar quotas <strong>de</strong> captura, consolidar uma frota pesqueira oceânica nacional,<br />
formar mão-<strong>de</strong>-obra especializada e gerar conhecimento científico e tecnológico sobre as espécies<br />
explotadas.<br />
Como os estoques pesqueiros oceânicos já estão sendo pescados em níveis próximos do limite<br />
sustentável, a ampliação da produção brasileira <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá diretamente da sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
negociação com os países pesqueiros tradicionais, no âmbito da ICCAT- Comissão Internacional para a<br />
Conservação do Atum Atlântico, assim como na FAO, no seu Comitê <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, na OMC e na própria<br />
ONU. Ocorre que os atuns e afins são espécies altamente migratórias com suas populações<br />
distribuindo-se por todo o Oceano Atlântico ou hemisfério oceânico. A albacora-bandolim capturada<br />
por barcos nacionais, por exemplo, pertence à mesma população explorada pelos barcos norteamericanos<br />
na costa do Maine, ou pelos barcos espanhóis na Baía <strong>de</strong> Biscay, uma vez que há uma<br />
única população em todo o Atlântico. Já a albacora-branca que o Brasil captura no nor<strong>de</strong>ste brasileiro<br />
faz parte do mesmo estoque explorado pelos sul-africanos, na costa africana. Ou seja, são todos<br />
estoques internacionais, explotados simultaneamente por vários países.<br />
Não existe, assim, atum brasileiro. O atum brasileiro é somente aquele pescado por barcos<br />
nacionais ou estrangeiros arrendados a empresas brasileiras e <strong>de</strong>sembarcado nos portos do País. É<br />
exatamente em função disto, por serem recursos internacionais e altamente migratórios, que o seu<br />
or<strong>de</strong>namento tem que ser realizado por um organismo internacional, no caso a Comissão Internacional<br />
para a Conservação do Atum Atlântico-ICCAT, da qual o país é membro <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a sua fundação, no Rio<br />
<strong>de</strong> Janeiro, em 1966.<br />
PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NO ICCAT<br />
A ICCAT possui um corpo científico, <strong>de</strong>nominado <strong>de</strong> Comitê Permanente <strong>de</strong> Pesquisa e<br />
Estatística (SCRS- Standing Committee on Research and Statistics), integrado por pesquisadores dos<br />
vários países membros, e uma Comissão política. De uma maneira simplificada, a ICCAT funciona da<br />
seguinte forma: todos os anos o SCRS se reúne e <strong>de</strong>fine os limites sustentáveis <strong>de</strong> captura das diversas<br />
espécies explotadas. Subseqüentemente, a Comissão <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> como a captura máxima permitida (TAC-<br />
Total Allowable Catch) será repartida entre os vários países membros. Um ponto fundamental, neste<br />
contexto, é que a gran<strong>de</strong> maioria, se não a totalida<strong>de</strong>, das espécies <strong>de</strong> atuns e afins já estão sendo
64<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
capturadas em níveis próximos <strong>de</strong> suas capacida<strong>de</strong>s máximas sustentáveis, ou seja, não há,<br />
concretamente, como se ampliar a captura <strong>de</strong> atuns no Oceano Atlântico sem comprometer a<br />
sustentabilida<strong>de</strong> dos estoques. Neste sentido, a posição do governo brasileiro tem sido sempre a <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r o respeito estrito aos limites máximos sustentáveis <strong>de</strong> captura, com a mesma ênfase com que<br />
tem <strong>de</strong>fendido o direito do País <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver a sua pesca oceânica. Ou seja, o tamanho da torta <strong>de</strong><br />
atum do Atlântico <strong>de</strong>ve ser respeitado, mas o tamanho da fatia brasileira tem que aumentar.<br />
Assim sendo, é evi<strong>de</strong>nte que o crescimento da produção nacional <strong>de</strong> atuns e afins implicará<br />
necessariamente a redução das capturas por parte dos países pesqueiros tradicionais, como Espanha,<br />
Japão, Taiwan, etc. Consi<strong>de</strong>rando-se que esta ativida<strong>de</strong> no Oceano Atlântico envolve valores da<br />
magnitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> US$ 4 bilhões, conforme dito acima, é fácil compreen<strong>de</strong>r a forma agressiva com que os<br />
países pesqueiros tradicionais têm <strong>de</strong>fendido a sua hegemonia histórica nesta ativida<strong>de</strong>. É óbvio,<br />
também, que o atum que o Brasil não pescar, será pescado por outras nações.<br />
É preciso, também, contextualizar o momento político atravessado pela ICCAT hoje. Pois com a<br />
entrada em vigor da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em novembro <strong>de</strong> 1994, e<br />
do Acordo das Nações Unidas sobre as Espécies <strong>de</strong> Peixes Transzonais e Altamente Migratórias, em<br />
Dezembro <strong>de</strong> 2001, se estabeleceu um arcabouço jurídico com base no qual os países pesqueiros em<br />
<strong>de</strong>senvolvimento conquistaram condições favoráveis para ampliar as suas quotas <strong>de</strong> captura, a partir do<br />
pleno reconhecimento do seu direito <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver a sua pesca oceânica.<br />
Foi com base nesses e em outros instrumentos jurídicos internacionais, como o Código <strong>de</strong><br />
Conduta para uma <strong>Pesca</strong> Responsável, da FAO (Organização para Alimentação e Agricultura das<br />
Nações Unidas), com os seus Planos Internacionais <strong>de</strong> Ação correlatos, que o Brasil conseguiu aprovar<br />
na ICCAT, em novembro <strong>de</strong> 1998, um Grupo <strong>de</strong> Trabalho para a Definição <strong>de</strong> Novos Critérios para<br />
Alocação <strong>de</strong> Quotas <strong>de</strong> Captura. Finalmente, em 2001, após quatro reuniões, marcadas por negociações<br />
duríssimas, a ICCAT terminou por aprovar uma lista <strong>de</strong> 27 novos critérios, em substituição ao critério<br />
<strong>de</strong> capturas históricas, até então utilizado <strong>de</strong> forma quase que exclusiva pela Comissão, na distribuição<br />
<strong>de</strong> quotas <strong>de</strong> captura. Entre os novos critérios aprovados, incluem-se, por exemplo, a ocorrência do<br />
estoque na Zona Econômica Exclusiva do país, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se privilegiar a pesca artesanal e <strong>de</strong><br />
pequena escala, a importância do estoque para as comunida<strong>de</strong>s costeiras, entre outros.<br />
A vitória dos países em <strong>de</strong>senvolvimento foi resultado <strong>de</strong> sua sólida argumentação jurídica,<br />
fundamentada nos instrumentos citados. Segundo o critério <strong>de</strong> capturas históricas, as quotas eram<br />
tradicionalmente divididas em função dos montantes capturados pelo País nos últimos anos, ou seja, os<br />
países <strong>de</strong>senvolvidos com pescarias tradicionais perpetuavam a sua hegemonia, enquanto os países em<br />
<strong>de</strong>senvolvimento eram tolhidos nos seus direitos legítimos <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolverem a pesca oceânica. Assim
65<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
foi que, em uma reunião realizada na Paraíba, em Julho <strong>de</strong> 1997, ao Brasil coube apenas 16% (2.340 t)<br />
da quota do espadarte do Atlântico Sul, para o período <strong>de</strong> 1998 a 2000, cabendo à Espanha e ao Japão<br />
(países sem costa no Atlântico Sul), respectivamente, 40% e 26%.<br />
Nas reuniões da ICCAT em 2000 e 2001, gran<strong>de</strong> parte em função <strong>de</strong> um endurecimento da<br />
posição brasileira, não foi possível se alcançar um consenso para distribuição das quotas <strong>de</strong> espadarte<br />
no Atlântico Sul. Finalmente, na reunião da ICCAT realizada em Bilbao, em 2002, com base nos novos<br />
critérios <strong>de</strong> captura, a <strong>de</strong>legação brasileira conseguiu aumentar a quota para o País no Atlântico Sul, <strong>de</strong><br />
2.340 t, para 4.086 t, em 2003, crescendo <strong>de</strong>ste ano em diante até atingir 4.365 t (ou 27,2% do total),<br />
em 2006. Além disto, conquistou, também, pela primeira vez, o direito <strong>de</strong> pescar até 200 t no Atlântico<br />
Norte, além <strong>de</strong> haver sido perdoado da penalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 1.500 t que <strong>de</strong>veria <strong>de</strong>scontar em função do seu<br />
excesso <strong>de</strong> captura em 1998.<br />
Em função <strong>de</strong>ssas conquistas, imediatamente após a reunião da ICCAT, o Governo da Espanha,<br />
em retaliação, proibiu a continuida<strong>de</strong> das operações dos barcos espanhóis arrendados a empresas<br />
brasileiras. O <strong>de</strong>spacho do Secretário Geral <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> Marítima do Ministério <strong>de</strong> Agricultura, <strong>Pesca</strong> e<br />
Alimentação da Espanha, datado <strong>de</strong> 05/12/01, no qual baixa a referida or<strong>de</strong>m, é bastante esclarecedor<br />
acerca <strong>de</strong> como as autorida<strong>de</strong>s daquele país compreen<strong>de</strong>m a gestão dos recursos atuneiros do Atlântico:<br />
“As razões para impedi-lo (o arrendamento) são sólidas e se fundamentam na melhor <strong>de</strong>fesa do<br />
patrimônio espanhol gerado pelos direitos históricos na pesca <strong>de</strong> espadarte e outras espécies reguladas<br />
pela ICCAT”.<br />
Vale ressaltar que até o ano <strong>de</strong> 1987 a Espanha não possuía qualquer captura no Atlântico Sul.<br />
Naquele ano, em <strong>de</strong>corrência da aplicação <strong>de</strong> medidas <strong>de</strong> limitação das capturas no Atlântico Norte, a<br />
Espanha <strong>de</strong>slocou boa parte da sua frota para o Atlântico Sul com o objetivo óbvio <strong>de</strong> construir um<br />
histórico <strong>de</strong> captura, que assegurasse a sua hegemonia quando <strong>de</strong> uma futura alocação <strong>de</strong> quotas, como<br />
<strong>de</strong> fato aconteceu.<br />
A captura espanhola <strong>de</strong> espadarte no Atlântico Sul, inexistente em 1987, alcançou já no ano<br />
seguinte, 1988, 4.400 t, saltando para 9.622 t, em 1996, ano anterior ao da reunião da Paraíba, 1997,<br />
quando as quotas <strong>de</strong> captura para os anos <strong>de</strong> 1998 a 2000 foram estabelecidas.<br />
A produção nacional <strong>de</strong> atuns e afins cresceu <strong>de</strong> pouco mais <strong>de</strong> 20.000 t, em 1995, para mais <strong>de</strong><br />
50.000 t, em 2000, em <strong>de</strong>corrência, principalmente, da ampliação dos arrendamentos promovidos pelo<br />
DPA/ MAPA (Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura do Ministério da Agricultura, Pecuária e<br />
Abastecimento). Excetuando-se o bonito listrado, atingiu um máximo em 2002, igual a 32.200 t,<br />
<strong>de</strong>clinando, contudo, em 2004, para 21.600 t, uma retração da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 30% (Figura 1). Esse <strong>de</strong>clínio<br />
resultou, principalmente, <strong>de</strong> uma redução da frota espanhola, em retaliação à ampliação da quota
Produção em peso vivo (t)<br />
8000<br />
7000<br />
6000<br />
5000<br />
4000<br />
3000<br />
2000<br />
1000<br />
0<br />
2000 2001 2002 2003 2004 2005<br />
Albacora Laje Albacora Bandolim Albacora Branca<br />
Espadarte Tubarões<br />
66<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
brasileira, em 2002, e da frota chinesa, em função <strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong>s para o a<strong>de</strong>quado cumprimento da<br />
legislação nacional. Cabe <strong>de</strong>stacar, em relação a este aspecto, o importante avanço no controle das<br />
ativida<strong>de</strong>s dos barcos arrendados, advindo da obrigatorieda<strong>de</strong> da presença <strong>de</strong> observadores <strong>de</strong> bordo em<br />
100% da frota arrendada, instituída pela SEAP/ PR, a partir <strong>de</strong> 2004.<br />
Como conseqüência da saída dos barcos espanhóis, em 2002, a produção brasileira <strong>de</strong> espadarte<br />
<strong>de</strong>cresceu <strong>de</strong> um patamar acima <strong>de</strong> 4.000 t, em que vinha se mantendo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1997, para 2.900 t, em<br />
2002. A captura da albacora-branca, principal alvo da frota chinesa, <strong>de</strong>clinou, com a saída da mesma,<br />
<strong>de</strong> quase 7.000 t, em 2001, para 3.200 t, em 2002, atingindo um mínimo <strong>de</strong> 522 t, em 2004 (Figura 3).<br />
Figura 3 - Evolução da produção nacional das albacoras-laje, branca e bandolim,<br />
espadarte, e tubarões, entre 2000 e 2005.<br />
Tal situação, obviamente, expõe a gran<strong>de</strong> vulnerabilida<strong>de</strong> do País, em função <strong>de</strong> sua alta<br />
<strong>de</strong>pendência da frota estrangeira. Apesar disso, ocorre relativa estabilida<strong>de</strong> na produção oriunda <strong>de</strong><br />
barcos nacionais, em torno <strong>de</strong> 2.000 t (Figura 4).<br />
Uma gran<strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong> enfrentada pelo País no processo <strong>de</strong> negociação foi, e continua sendo, o<br />
fato dos principais adversários brasileiros serem também os nossos principais mercados (Espanha,<br />
EUA, Japão). Assim, o Brasil tem disputado com estes países o direito <strong>de</strong> pescar mais, em gran<strong>de</strong> parte<br />
como o País po<strong>de</strong> ser atingido por medidas <strong>de</strong>ssa natureza, po<strong>de</strong> ser encontrado nas recentes<br />
exigências da Comunida<strong>de</strong> Européia (CE), relativas à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> equivalência das normas<br />
sanitárias, em função da qual o Brasil foi obrigado a preparar e implementar um Plano Nacional <strong>de</strong>
67<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 4 - Evolução da produção brasileira <strong>de</strong> espadarte, entre 1999 e 2004, oriunda <strong>de</strong><br />
embarcações nacionais e arrendadas (números, em azul, no interior da figura, indicam os<br />
limites correspon<strong>de</strong>ntes às quotas conquistadas pelo País, em 2002). Fonte: SEAP/ PR.<br />
Controle <strong>de</strong> Resíduos, o qual, inclui, no caso dos atuns e afins, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se realizar exames <strong>de</strong><br />
histamina, entre outros, através <strong>de</strong> Cromatografia Líquida <strong>de</strong> Alta Performance. Mesmo<br />
<strong>de</strong>sconsi<strong>de</strong>rando-se os empecilhos <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m logística <strong>de</strong>correntes <strong>de</strong> tal medida, a mesma,<br />
evi<strong>de</strong>ntemente, implicará um importante aumento dos custos <strong>de</strong> produção, diminuindo, por conseguinte,<br />
a competitivida<strong>de</strong> da indústria nacional. Quando não são barreiras tarifárias, são barreiras técnicas, ou<br />
mesmo artifícios legais, como a ação alegadamente “anti-dumping” impetrada pelo governo<br />
estaduni<strong>de</strong>nse contra o camarão brasileiro, sem qualquer fundamento, se não o <strong>de</strong> preservar os interesses<br />
dos pescadores <strong>de</strong> camarão da Lousiana e <strong>de</strong>mais estados do Golfo do México, infligindo pesados<br />
prejuízos à carcinicultura nacional.<br />
Uma outra disputa recorrente com a CE tem sido a utilização do documento estatístico <strong>de</strong><br />
acompanhamento da exportação <strong>de</strong> atuns e afins, como forma <strong>de</strong> criar dificulda<strong>de</strong>s burocráticas à<br />
entrada do pescado brasileiro, incluindo exigências, como a i<strong>de</strong>ntificação pessoal, com nome e<br />
assinatura, dos responsáveis técnicos no Brasil pela validação do referido documento, quando a<br />
recomendação aprovada pela ICCAT não estabelece tal necessida<strong>de</strong>. Nesse contexto, o Brasil tem se<br />
contraposto, também, veementemente, à pretensão comunitária <strong>de</strong> utilizar o documento estatístico<br />
como forma <strong>de</strong> unilateralmente controlar as quotas dos países exportadores.<br />
Um outro argumento recorrente tem sido o <strong>de</strong> que um país não <strong>de</strong>ve receber quotas <strong>de</strong> captura<br />
se não tem a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> utilizá-las <strong>de</strong> forma plena. Neste contexto, uma outra batalha dificílima,
68<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
finalmente vencida também na reunião da ICCAT, em Bilbao, em 2002, foi o reconhecimento formal<br />
por parte da Comissão, refletido na Recomendação 02/21 (Art. 5), <strong>de</strong> que as capturas realizadas pelos<br />
barcos arrendados pertencem ao país arrendatário (Brasil). Note-se que esta batalha vem sendo travada<br />
também em outros fóruns internacionais, particularmente no Comitê <strong>de</strong> Regras <strong>de</strong> Origem, da<br />
Organização Mundial do Comércio (OMC), on<strong>de</strong> a CE tem tentado, insistentemente, reverter a vitória<br />
alcançada pelo Brasil na ICCAT, sobre a questão. Neste contexto, igualmente, o crescimento <strong>de</strong> quase<br />
800 t, ou cerca <strong>de</strong> 30%, na produção nacional <strong>de</strong> espadarte em 2004, foi crucial no sentido <strong>de</strong> assegurar<br />
a manutenção das quotas <strong>de</strong> captura conquistadas na rodada <strong>de</strong> Bilbao, em 2002.<br />
Pulverizar a agenda internacional da pesca em diversos fóruns tem sido uma das estratégias dos<br />
países pesqueiros tradicionais para preservar a sua hegemonia, apostando na tradicional dificulda<strong>de</strong> dos<br />
países em <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> acompanhar os <strong>de</strong>sdobramentos internacionais, em <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong> suas<br />
tradicionais <strong>de</strong>ficiências <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação interna. Assim sendo, um outro tema <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> relevância<br />
para o setor pesqueiro nacional, também tratado no âmbito da OMC, é a questão da utilização <strong>de</strong><br />
subsídios à pesca.<br />
Neste sentido, o Brasil apresentou uma proposta, fundamentada na necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um tratamento<br />
especial e diferenciado para os países em <strong>de</strong>senvolvimento (TN/RL/GEN/79) 1 , na qual busca assegurar<br />
o direito <strong>de</strong>sses países <strong>de</strong> utilizarem subsídios para o legítimo <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> sua pesca oceânica,<br />
a exemplo do que pesadamente o fizeram os países pesqueiros tradicionais, impedindo, ao mesmo<br />
tempo, o uso abusivo <strong>de</strong> subsídios por parte das nações <strong>de</strong>senvolvidas, que continuam a subsidiar as<br />
suas frotas pesqueiras.<br />
Apenas para citar um exemplo, em meados <strong>de</strong> junho último, a União Européia <strong>de</strong>cidiu criar um<br />
novo fundo <strong>de</strong> apoio ao setor pesqueiro, no valor <strong>de</strong> 4,8 bilhões <strong>de</strong> dólares, com o objetivo exclusivo <strong>de</strong><br />
subsidiar os pescadores europeus <strong>de</strong> 2007 a 2013. Além <strong>de</strong> ser travado em várias frentes, o embate<br />
pelos recursos atuneiros do Oceano Atlântico reverbera entre os diversos fóruns, <strong>de</strong> forma que<br />
conquistas diplomáticas e políticas em uma <strong>de</strong>terminada área, muitas vezes motiva iniciativas e<br />
retaliações em outras áreas, aparentemente totalmente <strong>de</strong>svinculadas da questão.<br />
Recentemente, a Espanha, assim como o Japão em outros momentos, <strong>de</strong> forma recorrente, tem<br />
<strong>de</strong>senvolvido gestões bastante incisivas, não apenas junto ao governo fe<strong>de</strong>ral, mas diretamente também<br />
aos governos estaduais, no sentido <strong>de</strong> viabilizar a criação <strong>de</strong> “portos internacionais”, na costa brasileira,<br />
a partir <strong>de</strong> financiamentos evi<strong>de</strong>ntemente assegurados pelos mesmos. Tais portos, se criados, claro,<br />
reduziriam significativamente os custos operacionais <strong>de</strong> suas frotas no Atlântico Sul, particularmente<br />
1 http://www.tra<strong>de</strong>-environment.org/page/theme/tewto/para28.htm
69<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
quando da explotação dos estoques que apresentam uma maior proximida<strong>de</strong> da costa brasileira. Uma<br />
das poucas, se não a única, vantagem comparativa que o Brasil ainda possui ao competir com as frotas<br />
oceânicas <strong>de</strong> longa distância no Atlântico Sul é exatamente a proximida<strong>de</strong> dos seus portos das áreas <strong>de</strong><br />
pesca.<br />
Neste contexto, registre-se que as embarcações nacionais são obrigadas a competir pelos recursos<br />
pelágicos <strong>de</strong>ste oceano, com as frotas estrangeiras, particularmente a espanhola e japonesa,<br />
pesadamente subsidiadas e que operam com um custo financeiro que representa uma pequena fração da<br />
realida<strong>de</strong> brasileira, com tecnologia mais sofisticada e mão-<strong>de</strong>-obra infinitamente melhor qualificada.<br />
Não é um <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> pouca monta. Se diante <strong>de</strong> tal contexto o Brasil <strong>de</strong>cidir franquear a utilização dos<br />
seus portos pela frota internacional estará, evi<strong>de</strong>ntemente, anulando a principal vantagem comparativa<br />
que possui o que invariavelmente resultará no aniquilamento <strong>de</strong> qualquer pretensão brasileira <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>senvolver a sua pesca oceânica. O que claramente se coloca, portanto, é qual futuro o Brasil prefere.<br />
Conce<strong>de</strong>r às frotas internacionais o livre acesso aos portos brasileiros, e ficar literalmente a ver os<br />
navios estrangeiros pescando em seu quintal, ou enfrentar o <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver a sua pesca<br />
oceânica. Cabe <strong>de</strong>stacar, ainda, que tal <strong>de</strong>senvolvimento não diz respeito apenas à produção <strong>de</strong><br />
pescado, nem à geração das divisas, empregos e renda <strong>de</strong>la resultantes, ele implica também a efetiva<br />
ocupação, não apenas da Zona Econômica Exclusiva, mas das águas internacionais do Atlântico Sul,<br />
essencial à efetiva realização geopolítica do País. A <strong>de</strong>cisão do Estado brasileiro foi, e não po<strong>de</strong>ria ser<br />
outra, pelo <strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional. Diante <strong>de</strong> tal estratégia, a cessão dos portos<br />
nacionais às frotas estrangeiras é claramente incompatível e <strong>de</strong> todo in<strong>de</strong>sejável.<br />
QUESTÕES COMERCIAIS<br />
Além dos <strong>de</strong>safios apresentados pelas negociações internacionais, há, ainda, outras gran<strong>de</strong>s<br />
dificulda<strong>de</strong>s conjunturais que vêm diminuindo sobremaneira a capacida<strong>de</strong> competitiva da pesca<br />
oceânica nacional, entre as quais <strong>de</strong>stacam-se: a <strong>de</strong>fasagem cambial, o preço do petróleo e o preço <strong>de</strong><br />
comercialização dos atuns e afins, no mercado internacional. O valor do real frente ao dólar atingiu em<br />
2006 níveis próximos à meta<strong>de</strong> do que se verificou no início da década reduzindo, portanto,<br />
substancialmente a margem <strong>de</strong> lucro do pescado exportado (Figura 5).
Taxa <strong>de</strong> Câmbio (R$ x US$)<br />
4,50<br />
4,00<br />
3,50<br />
3,00<br />
2,50<br />
2,00<br />
1,50<br />
1,00<br />
0,50<br />
0,00<br />
03/01/00<br />
03/05/00<br />
03/09/00<br />
03/01/01<br />
03/05/01<br />
03/09/01<br />
03/01/02<br />
03/05/02<br />
03/09/02<br />
70<br />
03/01/03<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 5- Variação da taxa <strong>de</strong> câmbio R$ x US$, entre janeiro <strong>de</strong> 2000 e junho <strong>de</strong> 2006.<br />
Por outro lado, em função <strong>de</strong> um aumento <strong>de</strong> quase sete vezes no preço do petróleo no mesmo período<br />
(Figura 6), o custo do diesel, um dos principais insumos da ativida<strong>de</strong> pesqueira, particularmente no<br />
caso da pesca oceânica, em função das gran<strong>de</strong>s distâncias que as embarcações são obrigadas a<br />
percorrer, e do frete, especialmente o aéreo, do qual <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> toda a exportação do pescado fresco,<br />
subiram fortemente, aumentando simultaneamente o custo <strong>de</strong> operação e <strong>de</strong> exportação do produto<br />
capturado.<br />
Figura 6- Variação do preço do petróleo e da gasolina, entre 1997 e 2006.<br />
03/05/03<br />
03/09/03<br />
03/01/04<br />
01/01/2000 a 30/06/2006<br />
03/05/04<br />
03/09/04<br />
03/01/05<br />
03/05/05<br />
03/09/05<br />
03/01/06<br />
03/05/06
71<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Os preços <strong>de</strong> venda, por outro lado, tomando-se como exemplo o espadarte fresco no mercado norte<br />
americano, caíram cerca <strong>de</strong> 40%, em relação aos valores vigentes na década <strong>de</strong> 90, particularmente<br />
após o 11 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2001, atingindo em 2002 o seu menor valor (US$ 3,50/lb, contra US$ 6,5/lb,<br />
em 1996) (Figura 7). Tais dificulda<strong>de</strong>s têm erodido a lucrativida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, obstando, na mesma<br />
proporção, a consolidação <strong>de</strong> uma frota genuinamente nacional, particularmente em função da atual<br />
condição <strong>de</strong> <strong>de</strong>scapitalização do setor pesqueiro nacional.<br />
US$/ lb<br />
7<br />
6<br />
5<br />
4<br />
3<br />
2<br />
1<br />
0<br />
1991<br />
1992<br />
1993<br />
1994<br />
1995<br />
1996<br />
1997<br />
1998<br />
1999<br />
2000<br />
2001<br />
2002<br />
2003<br />
2004<br />
Figura 7- Variação do preço do espadarte fresco (meka) no mercado norte-americano (New<br />
York’s Fulton Market), entre 1991 e 2004 (Fonte: U.S Department of Commerce).<br />
A FROTA PESQUEIRA<br />
Para formar e consolidar uma frota pesqueira, o Brasil dispõe basicamente <strong>de</strong> três diferentes<br />
instrumentos: o arrendamento, a importação, e a construção <strong>de</strong> barcos em estaleiros nacionais. São<br />
instrumentos complementares, com diferentes alcances, finalida<strong>de</strong>s e tempos <strong>de</strong> resposta. Se por um<br />
lado, o arrendamento po<strong>de</strong> ser extremamente útil na construção <strong>de</strong> um histórico <strong>de</strong> captura, <strong>de</strong> forma a<br />
assegurar o cumprimento <strong>de</strong> quotas politicamente conquistadas, por outro, torna o País extremamente<br />
vulnerável a eventuais retaliações dos países <strong>de</strong> ban<strong>de</strong>ira das embarcações arrendadas, particularmente<br />
quando os mesmos são também importantes mercados para o pescado brasileiro, como o da Espanha.<br />
Diante <strong>de</strong> tal circunstância, a suspensão dos arrendamentos pela SEAP foi uma medida acertada,<br />
principalmente no intuito <strong>de</strong> gerar um fator motivador para a importação e construção <strong>de</strong> novos<br />
atuneiros pelas empresas arrendatárias, através do PROFROTA Pesqueira 2 . Entretanto, o instrumento<br />
do arrendamento não <strong>de</strong>ve ser <strong>de</strong>finitivamente abandonado, tendo em vista a sua gran<strong>de</strong> importância<br />
2 Programa Nacional <strong>de</strong> Financiamento da Ampliação e Mo<strong>de</strong>rnização da Frota Pesqueira Nacional.
72<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
para assimilação <strong>de</strong> novas tecnologias, treinamento da mão <strong>de</strong> obra nacional e formação <strong>de</strong> um<br />
histórico <strong>de</strong> captura. A presente suspensão, portanto, <strong>de</strong>ve ser flexibilizada, caso o monitoramento das<br />
capturas nacionais, particularmente no caso do espadarte, aponte dificulda<strong>de</strong>s para a consecução das<br />
quotas atribuídas ao País, ou no caso da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> assimilação <strong>de</strong> novas tecnologias <strong>de</strong> captura,<br />
voltadas para espécies pouco explotadas pelo País.<br />
Em relação ao arrendamento <strong>de</strong> embarcações pesqueiras, uma outra medida urgente, e já bastante<br />
atrasada, é a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se viabilizar legalmente o arrendamento <strong>de</strong> embarcações a casco nu, com<br />
suspensão <strong>de</strong> ban<strong>de</strong>ira, uma vez que sob tal enquadramento jurídico, a mesma passa a ser, para todos os<br />
efeitos da legislação nacional e internacional, uma embarcação brasileira. De qualquer modo, o<br />
arrendamento <strong>de</strong> barcos pesqueiros <strong>de</strong>ve ser entendido sempre como um instrumento provisório, a ser<br />
utilizado estrategicamente, em circunstâncias emergenciais.<br />
Em relação à importação <strong>de</strong> embarcações pesqueiras, por outro lado, tem prevalecido no País a<br />
lógica perversa <strong>de</strong> que tal instrumento <strong>de</strong>ve ser evitado, ou pelo menos limitado, em função <strong>de</strong> que a<br />
construção <strong>de</strong> barcos em estaleiros nacionais seria muito mais vantajosa para o Brasil. O argumento<br />
seria verda<strong>de</strong>iro se não houvesse uma gran<strong>de</strong> oferta <strong>de</strong> barcos usados no mercado internacional, a um<br />
custo que representa uma fração do custo <strong>de</strong> construção, com a gran<strong>de</strong> vantagem <strong>de</strong> já estarem prontos<br />
e equipados, sendo, portanto, capazes <strong>de</strong> dar uma resposta em termos <strong>de</strong> ampliação da capacida<strong>de</strong><br />
pesqueira nacional muito mais rápida do que o moroso processo <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> um barco <strong>de</strong> pesca,<br />
com todos os <strong>de</strong>safios tecnológicos implicados. Assim, com a intenção <strong>de</strong> se favorecer a indústria<br />
naval, perversamente sacrifica-se o setor pesqueiro nacional, retardando ou mesmo, em certa medida,<br />
impedindo o <strong>de</strong>senvolvimento da pesca oceânica no País. Além das embarcações pesqueiras<br />
representarem uma parcela diminuta do mercado naval, em relação a outros setores como o <strong>de</strong><br />
transporte marítimo e <strong>de</strong> exploração <strong>de</strong> petróleo, esquece-se, também, que, uma vez nacionalizadas, tais<br />
embarcações continuariam a <strong>de</strong>mandar manutenções periódicas, gerando emprego e renda para os<br />
estaleiros sediados no País.<br />
A flexibilização da importação <strong>de</strong> embarcações atuneiras seria particularmente conveniente, no<br />
caso das embarcações que já se encontram em operação no Brasil, através do arrendamento, uma vez<br />
que a empresa arrendatária, além <strong>de</strong> já estar plenamente inserida na ca<strong>de</strong>ia produtiva da pesca <strong>de</strong> atum,<br />
estaria importando uma embarcação cujos aspectos técnicos e operacionais já seriam completamente<br />
conhecidos e dominados. A importação po<strong>de</strong>ria, inclusive, ser apresentada como uma alternativa à<br />
continuação das ativida<strong>de</strong>s da embarcação no País, uma vez finalizado o período autorizado <strong>de</strong><br />
arrendamento.
73<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Por fim, cabe <strong>de</strong>stacar a gran<strong>de</strong> importância do PROFROTA como instrumento <strong>de</strong> consolidação<br />
da pesca oceânica nacional, embora o seu alcance seja limitado pela morosida<strong>de</strong> na resposta no<br />
aumento da produção, tendo em vista o longo tempo <strong>de</strong>mandado para construção <strong>de</strong> um barco<br />
pesqueiro, assim como pelos altos custos financeiros envolvidos, <strong>de</strong>correntes da realida<strong>de</strong> nacional.<br />
Infelizmente, mesmo subsidiados, os juros no Brasil implicam um custo financeiro muito maior que o<br />
<strong>de</strong> outras frotas internacionais, gran<strong>de</strong> parte das quais continuam a ser pesadamente subsidiadas.<br />
Não adianta, porém, se dispor <strong>de</strong> embarcações <strong>de</strong> pesca bem equipadas se, ao mesmo tempo, não<br />
houver disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mão <strong>de</strong> obra qualificada para tripulá-las. Neste sentido, cabe <strong>de</strong>stacar o<br />
gran<strong>de</strong> esforço <strong>de</strong> treinamento <strong>de</strong> mão-<strong>de</strong>-obra nacional <strong>de</strong>senvolvido pela SEAP/ PR, que, por meio do<br />
Subcomitê Científico do Comitê Consultivo Permanente <strong>de</strong> Gestão <strong>de</strong> Atuns e Afins (SC-CPGAA), e<br />
pela UFRPE, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 2005, já viabilizou a realização <strong>de</strong> 8 cursos <strong>de</strong> formação <strong>de</strong> pescadores<br />
para a pesca oceânica, tendo sido 2 em Natal- RN, 2 em Cabe<strong>de</strong>lo- PB, 2 em Recife- PE, e 2 em<br />
Santos- SP, com 250 pescadores treinados. Além dos pescadores, também com o apoio da SEAP-PR, a<br />
UFRPE já treinou 85 observadores <strong>de</strong> bordo, em 3 cursos realizados <strong>de</strong>s<strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2004,<br />
capacitando os mesmos não apenas em relação aos diversos aspectos diretamente ligados a sua função<br />
a bordo, mas a habilida<strong>de</strong>s complementares necessárias ao bom <strong>de</strong>sempenho do trabalho, incluindo o<br />
conhecimento acerca da legislação nacional e internacional pertinente, a biologia das principais<br />
espécies capturadas, o acompanhamento e <strong>de</strong>scrição da metodologia <strong>de</strong> pesca empregada, assim como<br />
o monitoramento dos <strong>de</strong>scartes e capturas inci<strong>de</strong>ntais <strong>de</strong> espécies que não constituem o alvo da pesca,<br />
como aves e tartarugas marinhas.<br />
A consolidação do Brasil como um País importante na pesca oceânica do Atlântico Sul, porém,<br />
só po<strong>de</strong>rá se concretizar se todo o esforço <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento pesqueiro for a<strong>de</strong>quadamente calçado<br />
pela condução <strong>de</strong> pesquisas que permitam, não apenas gerar as informações biológicas essenciais para<br />
uma correta avaliação dos estoques explotados, aspecto crucial para a construção <strong>de</strong> medidas <strong>de</strong><br />
or<strong>de</strong>namento que possam assegurar a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, mas também informações técnicas<br />
que possam contribuir para aumentar a competitivida<strong>de</strong> e a eficiência da frota nacional. Consi<strong>de</strong>randose<br />
que a <strong>de</strong>fesa <strong>de</strong> qualquer direito só se sustenta quando <strong>de</strong>vidamente amparada pelo a<strong>de</strong>quado<br />
cumprimento dos <strong>de</strong>veres correlatos, po<strong>de</strong>-se igualmente afirmar que o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas<br />
científicas sobre os atuns e afins do Atlântico se configuram como um importante ativo no processo <strong>de</strong><br />
negociação necessário à sustentação das aspirações brasileiras <strong>de</strong> crescimento <strong>de</strong> sua participação na<br />
pesca <strong>de</strong>sses importantes recursos pesqueiros.<br />
Novamente, o SC-CPGAA, com o apoio da SEAP- PR, tem envidado um gran<strong>de</strong> esforço <strong>de</strong><br />
pesquisa, o qual, além <strong>de</strong> incluir a coleta sistemática e rotineira <strong>de</strong> dados <strong>de</strong> esforço <strong>de</strong> pesca, captura e
74<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
<strong>de</strong>sembarques, tem envolvido o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas pioneiras no País, entre as quais se<br />
<strong>de</strong>stacam os projetos: Agulhões do Atlântico - Estudo sobre a Biologia <strong>de</strong> Agulhões da Família<br />
Istiophoridae capturados no Oceano Atlântico Sul; Tubarões Oceânicos do Brasil; ESCALAR- Estudo<br />
do Comportamento da Albacora Laje no Arquipélago <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo; e ECOBAN- Ecologia<br />
da Albacora Bandolim no Atlântico Tropical.<br />
O primeiro, já iniciado <strong>de</strong>s<strong>de</strong> meados <strong>de</strong> 2005, a respeito dos agulhões, envolve, além do estudo<br />
da biologia reprodutiva e do crescimento dos agulhões negro e branco, a utilização <strong>de</strong> marcas PSAT-<br />
Pop-up Satellite Archival Tags 3 , para i<strong>de</strong>ntificação do comportamento e uso do habitat pelos mesmos,<br />
sendo esta a primeira vez no Brasil que este tipo <strong>de</strong> marcas é utilizada em peixes. O projeto, que é<br />
<strong>de</strong>senvolvido em cooperação com pesquisadores norte-americanos da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Miami, do<br />
Instituto <strong>de</strong> Ciências Marinhas da Virginia e do Centro <strong>de</strong> Ciência Pesqueira do Su<strong>de</strong>ste (NMFS/<br />
NOAA 4 ), envolve também uma pesquisa com anzóis circulares, cujos resultados preliminares apontam<br />
para um significativo aumento do rendimento pesqueiro e do tempo <strong>de</strong> vida pós-captura das espécies<br />
alvo da pesca, reduzindo, ao mesmo tempo, as capturas inci<strong>de</strong>ntais.<br />
O projeto Tubarões Oceânicos do Brasil, cujo início <strong>de</strong>verá ocorrer já no próximo mês <strong>de</strong><br />
setembro, assemelha-se ao projeto dos agulhões, focando, contudo nas principais espécies <strong>de</strong> tubarão<br />
capturadas na pesca atuneira (tubarão-azul, estrangeiro, mako, raposa, e cachorro, além da raia roxa<br />
pelágica). Da mesma forma, também será conduzido em cooperação com pesquisadores norteamericanos<br />
da Universida<strong>de</strong> da Flórida, do Instituto <strong>de</strong> Ciências Marinhas da Virginia e do Centro <strong>de</strong><br />
Ciência Pesqueira do Su<strong>de</strong>ste (NMFS/ NOAA).<br />
O Projeto ESCALAR, por sua vez, objetiva estudar o comportamento da albacora-laje, face à<br />
variabilida<strong>de</strong> do ambiente oceanográfico, no entorno do Arquipélago <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo,<br />
principalmente em relação à distribuição vertical da temperatura da água, prevendo-se, para a<br />
realização do mesmo, a utilização <strong>de</strong> telemetria acústica e marcas PSAT.<br />
Já o ECOBAN preten<strong>de</strong> aprofundar os conhecimentos técnicos e científicos sobre a pesca e<br />
biologia da albacora-bandolim, contribuindo para a exploração sustentável <strong>de</strong>ste importante recurso<br />
3 São marcas que, uma vez fixadas no peixe, passam a coletar dados a respeito da temperatura da água,<br />
profundida<strong>de</strong>, e posição geográfica. Após um período <strong>de</strong> tempo pré-programado, normalmente entre 1 e 6<br />
meses, as mesmas se liberam automaticamente, vindo até a superfície, a partir <strong>de</strong> on<strong>de</strong> passam a transmitir<br />
todos os dados coletados durante o período em que permaneceu presa ao peixe, através do sistema <strong>de</strong> satélite<br />
ARGOS, para uma base em terra.<br />
4 NMFS- National Marine Fisheries Service/ NOAA- National Oceanic and Atmospheric Administration.
75<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
pesqueiro oceânico pela frota atuneira nacional, prevendo-se a realização <strong>de</strong> pesca experimental com<br />
espinhel profundo, com a utilização <strong>de</strong> hook timers 5 e minilogs 6 , além <strong>de</strong> marcas PSAT.<br />
Cabe <strong>de</strong>stacar, que uma gran<strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong> enfrentada no <strong>de</strong>senvolvimento das pesquisas aqui<br />
<strong>de</strong>scritas tem sido a falta <strong>de</strong> uma embarcação <strong>de</strong> pesquisa pesqueira no País, capaz <strong>de</strong> realizar a pesca<br />
oceânica, <strong>de</strong> forma experimental, sendo urgente a superação <strong>de</strong> tal <strong>de</strong>ficiência.<br />
A aquisição <strong>de</strong> um barco <strong>de</strong> pesquisa, com este fim po<strong>de</strong>ria, aten<strong>de</strong>r igualmente, outras iniciativas<br />
<strong>de</strong> pesquisa marinha no Brasil, além do treinamento <strong>de</strong> alunos vocacionados para a pesca e pescadores<br />
profissionais. É importante ressaltar, neste tocante, o fato <strong>de</strong> existirem hoje no País 15 Cursos <strong>de</strong><br />
<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, sem que nenhum <strong>de</strong>les possua uma embarcação capacitada a operar na área<br />
oceânica, a quase totalida<strong>de</strong> dos quais, aliás, não possuem é embarcação nenhuma.<br />
A embarcação aqui proposta po<strong>de</strong>ria ser administrada por uma fundação, dotada da necessária<br />
flexibilida<strong>de</strong> administrativa, a qual aten<strong>de</strong>ria às diversas <strong>de</strong>mandas <strong>de</strong> pesquisa e treinamento<br />
apresentadas pelas Escolas Técnicas, Universida<strong>de</strong>s e Institutos <strong>de</strong> Pesquisa no País.<br />
CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />
Por fim, cabe <strong>de</strong>stacar, também, que as aspirações brasileiras para o crescimento <strong>de</strong> sua pesca<br />
oceânica não se sustentarão se o país não <strong>de</strong>monstrar a sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> implementar e fazer cumprir<br />
as medidas <strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento e conservação adotadas pela ICCAT. Aspecto em relação ao qual ainda se<br />
faz necessário um consi<strong>de</strong>rável progresso, particularmente em relação à fiscalização da ativida<strong>de</strong>. Por<br />
exemplo, nas capturas <strong>de</strong> agulhão-branco e negro, embora o <strong>de</strong>scarte em alto mar seja obrigatório -<br />
caso os exemplares capturados se encontrem ainda vivos no momento do embarque, além <strong>de</strong> sua<br />
comercialização se encontrar proibida, por meio da Instrução Normativa n o 12, <strong>de</strong> 14 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 2005,<br />
da SEAP- PR, não há praticamente qualquer controle do po<strong>de</strong>r público sobre a efetiva implementação<br />
<strong>de</strong> tais medidas. Em parte, como conseqüência <strong>de</strong>ste fato, as capturas <strong>de</strong> ambas espécies em 2005<br />
voltaram a crescer significativamente. Tal situação precisa ser revista e retificada com a máxima<br />
urgência, para que o País possa, <strong>de</strong>finitivamente, se cre<strong>de</strong>nciar a ser um dos mais importantes<br />
pescadores do Oceano Atlântico.<br />
Por outro lado o interesse <strong>de</strong> instituições científicas e empresas privadas, além das excepcionais<br />
condições climáticas e extensão <strong>de</strong> nossas costas, têm alavancado sobremaneira o interesse pelas<br />
pesquisas referentes à implementação da maricultura no Brasil. De forma que po<strong>de</strong>mos prever, num<br />
futuro próximo, o substancial incremento da produção pesqueira brasileira por esta via.�<br />
5 Dispositivos que permitem i<strong>de</strong>ntificar a hora em que o peixe foi fisgado.<br />
6 Equipamento que, unido à linha secundária, registra continuamente a temperatura da água da mar.
76<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
MÉTODO PRIMITIVO DE TRANSPORTE DO CARANGUEJO-UÇÁ<br />
COMPROMETE SUSTENTABILIDADE DO ESTOQUE<br />
Raimundo Ivan MOTA (Raimundo-ivan.mota@ibama.gov.br)<br />
Gerência Regional do IBAMA no Ceará<br />
RESUMO<br />
O mais importantes recursos pesqueiros do <strong>de</strong>lta do Rio Parnaíba, localizada ao norte dos Estados do<br />
Piauí e do Maranhão, é o caranguejo-uçá, (Uci<strong>de</strong>s cordatus) que é o maior crustáceo encontrado nos<br />
manguezais brasileiros. Apresenta carne muito apreciada e é comercializado em gran<strong>de</strong>s quantida<strong>de</strong>s.<br />
Sua captura, realizada <strong>de</strong> forma artesanal, representa postos <strong>de</strong> trabalho para mais <strong>de</strong> 4.500 coletores da<br />
região, que, em sua maioria, têm nessa ativida<strong>de</strong> a única fonte <strong>de</strong> renda. Embora esses trabalhadores do<br />
mar tenham renda média inferior a um salário mínimo, a ativida<strong>de</strong> é <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> interesse sócioeconômico.<br />
Os caranguejos <strong>de</strong>sta região são transportados e comercializados em quase todos os estados<br />
do Nor<strong>de</strong>ste, especialmente nas capitais, on<strong>de</strong> há um gran<strong>de</strong> fluxo turístico. As condições ina<strong>de</strong>quadas<br />
<strong>de</strong> transporte <strong>de</strong>sses animais tem trazido muitos <strong>de</strong>sperdícios e ameaçado a sustentabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu<br />
estoque.<br />
PRODUÇÃO E TRANSPORTE<br />
Segundo dados do IBAMA, em 2005 a produção <strong>de</strong>sembarcada alcançou 980 toneladas <strong>de</strong><br />
caranguejos, o equivalente a cerca <strong>de</strong> 6.000.000 <strong>de</strong> indivíduos que foram comercializados para diversas<br />
cida<strong>de</strong>s do Nor<strong>de</strong>ste, com <strong>de</strong>staque para Fortaleza, no<br />
Estado do Ceará, como maior centro consumidor<br />
adquirindo 95% <strong>de</strong>sta produção. Ocorre que <strong>de</strong>stes seis<br />
milhões <strong>de</strong> caranguejos, cerca <strong>de</strong> três milhões foram<br />
<strong>de</strong>scartados, jogados ao lixo, ou seja, 50% dos<br />
caranguejos coletados são <strong>de</strong>scartados <strong>de</strong>vido à<br />
mortalida<strong>de</strong> precoce no processo <strong>de</strong> transporte e<br />
comercialização (Figura 1). A causa <strong>de</strong>sta mortalida<strong>de</strong><br />
está relacionada a diversos fatores, tais como: manuseio<br />
incorreto dos animais durante a coleta, realizada dias<br />
antes da entrega para distribuição, quando se utiliza o Figura 1 – Caranguejos-uçá Uci<strong>de</strong>s cordatus<br />
<strong>de</strong>scartados por morte durante o transporte<br />
“cambito”, instrumento que fere o animal; o manuseio<br />
<strong>de</strong>scuidado dos distribuidores, durante a acomodação no meio <strong>de</strong> transporte – os animais são
77<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
amarrados, empilhados e enlonados aos montes em caminhões e posteriormente transportados durante a<br />
noite aos centros consumidores. Com isso muitos animais perecem antes do abate para o consumo, não<br />
sendo aproveitados, e com isso leva os pescadores a extrair mais caranguejos do que o necessário para<br />
aten<strong>de</strong>r a <strong>de</strong>manda do mercado consumidor. A coleta dos caranguejos é feita manualmente por<br />
pescadores nos manguezais e transportados vivos, diariamente, através <strong>de</strong> embarcações motorizadas, à<br />
vela e a remo, até as vilas <strong>de</strong> pescadores (Figura 2).<br />
Figura 2 – Transporte <strong>de</strong> caranguejo-ucá no Delta do Parnaíba: amontoados para embarque em<br />
caminhões (à esquerda) e transportados em embarcações (a direita).<br />
O intermediário é que faz o transporte e a distribuição e a comercialização da mercadoria por sua<br />
conta e risco, sendo os caranguejos transportados para os gran<strong>de</strong>s centros consumidores través <strong>de</strong><br />
caminhões e caminhonetas. Os pontos <strong>de</strong> revenda nos gran<strong>de</strong>s centros urbanos são localizados em<br />
feiras livres, <strong>de</strong>ntro e fora dos mercados públicos, logradouros públicos, bares, restaurantes e em pontos<br />
isolados <strong>de</strong> comercialização <strong>de</strong> pescado. Toda a produção do caranguejo do Brasil é comercializada no<br />
mercado interno, sendo o estado do Ceará um dos principais compradores. O produto é vendido “vivo”,<br />
carne ou massa e a “patola” (quela).<br />
A pesca indiscriminada é outro problema na cata <strong>de</strong> caranguejo-uçá em vários locais do<br />
nor<strong>de</strong>ste do Brasil, observando-se o uso <strong>de</strong> artes predatórias como a “redinha” no Rio Gran<strong>de</strong> do Norte<br />
e a “ratoeira” no Ceará, Rio Gran<strong>de</strong> do Norte e Alagoas. Outro aspecto preocupante é a captura<br />
realizada na época da migração reprodutiva (andada) quando, aumentam o número <strong>de</strong> pescadores na<br />
ativida<strong>de</strong>, principalmente os pescadores “eventuais” que se <strong>de</strong>dicam a esta prática neste período,<br />
<strong>de</strong>vido à facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> captura dos indivíduos.
REGULAMENTAÇÃO<br />
78<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A regulamentação da pesca do caranguejo-uçá no Brasil foi estabelecida pelo IBAMA, a partir <strong>de</strong><br />
1989, visando proteger o estoque juvenil, proibindo a captura <strong>de</strong> indivíduos machos menores <strong>de</strong> 45 mm<br />
<strong>de</strong> comprimento da carapaça e o estoque <strong>de</strong>sovante, não permitindo a pesca <strong>de</strong> fêmeas <strong>de</strong> qualquer<br />
tamanho. No ano <strong>de</strong> 1998 foi estabelecido o primeiro <strong>de</strong>feso da espécie nos estados <strong>de</strong> Espírito Santo,<br />
Rio <strong>de</strong> Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Em 1999 este órgão estabeleceu que na captura do<br />
caranguejo-uçá, somente seria permitida pelo método do “braceamento” (coleta manual), proibindo,<br />
assim o uso <strong>de</strong> aparelhos e arte <strong>de</strong> pesca na fase <strong>de</strong> captura. A partir do ano <strong>de</strong> 2003 o IBAMA proíbe a<br />
captura da fêmea, anualmente, somente no período <strong>de</strong> 1º <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro a 31 <strong>de</strong> maio no estado do Pará e<br />
região Nor<strong>de</strong>ste e <strong>de</strong>lega competência aos gerentes nestes estados para suspen<strong>de</strong>r a captura do<br />
caranguejo-uçá durante o fenômeno da migração reprodutiva (andada, carnaval).<br />
A situação dos estoques do caranguejo-uçá se apresenta com uma elevada taxa <strong>de</strong> explotação, em<br />
algumas regiões do nor<strong>de</strong>ste, principalmente na região do Delta do Rio Parnaíba, nos estados do<br />
Maranhão e Piauí. Observamos também um aumento do esforço <strong>de</strong> pesca, mesmo assim,<br />
provavelmente a captura ainda não entrou no estágio <strong>de</strong> sobrepesca <strong>de</strong>vido ao processo <strong>de</strong> coleta, com<br />
baixo índice <strong>de</strong> participação <strong>de</strong> fêmeas, em <strong>de</strong>corrência da proibição <strong>de</strong> sua pesca e do seu pequeno<br />
valor comercial, e da pequena proporção <strong>de</strong> indivíduos capturados com comprimento abaixo daquele<br />
correspon<strong>de</strong>nte à primeira maturida<strong>de</strong> sexual.<br />
PESQUISAS<br />
A Embrapa Meio-Norte, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o início <strong>de</strong> 2002, vem priorizando a pesquisa aplicada à pesca e<br />
aqüicultura na região Nor<strong>de</strong>ste, através <strong>de</strong> sua Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Execução <strong>de</strong> Pesquisa, em Parnaíba. O<br />
Núcleo Integrado <strong>de</strong> Pesquisa em Aqüicultura e Meio Ambiente da UEP-Parnaíba vem promovendo<br />
ações articuladas com diversos parceiros, incluindo Instituições <strong>de</strong> Pesquisas e Desenvolvimento,<br />
Ensino e Extensão, IBAMA, SEBRAE, Banco do Nor<strong>de</strong>ste, Prefeituras Municipais e Instituições <strong>de</strong><br />
Fomento. Dentre <strong>de</strong>ssas ações, em 2004 <strong>de</strong>u início ao Projeto <strong>de</strong> Sustentabilida<strong>de</strong> do Extrativismo do<br />
caranguejo-uçá no Estado do Piauí, <strong>de</strong>stinado a encontrar formas <strong>de</strong> reduzir a mortalida<strong>de</strong> do animal<br />
durante o processo <strong>de</strong> transporte. Apesar do Projeto já ter conseguido i<strong>de</strong>ntificar as causas das mortes<br />
dos caranguejos, e <strong>de</strong> ter <strong>de</strong>senvolvido alternativas que po<strong>de</strong>m fazer cair as perdas para taxas <strong>de</strong> 0% a<br />
5% durante todo o processo, a EMBRAPA, ainda, não apontou soluções factíveis para solução <strong>de</strong>sse<br />
problema.
CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />
79<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Portanto, a principal preocupação com a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong> está relacionada com o<br />
ritmo <strong>de</strong> exploração, estrutura ina<strong>de</strong>quada <strong>de</strong> transporte, aliado a <strong>de</strong>gradação ambiental do ecossistema<br />
manguezal, constantemente agredido <strong>de</strong> várias formas, <strong>de</strong>ntre as quais se <strong>de</strong>stacam as seguintes: aterros<br />
motivados pela especulação imobiliária, <strong>de</strong>smatamento para o uso da ma<strong>de</strong>ira, com finalida<strong>de</strong>s<br />
diversas, bem como para implantação <strong>de</strong> culturas <strong>de</strong> arroz, campos para pastagens; poluição <strong>de</strong> origem<br />
doméstica e industrial; ocupação por salinas e projetos <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> camarão. É necessário um trabalho<br />
conjunto e articulados entre as instituições <strong>de</strong> pesquisa, legislação ambiental e <strong>de</strong> fomento visando a<br />
salvaguarda <strong>de</strong> tão importante recurso econômico e principalmente social do litoral do Delta do<br />
Parnaíba.�
II - ARTIGOS CIENTÍFICOS<br />
80<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
ÁREAS POTENCIAIS PARA A AQÜICULTURA SUSTENTÁVEL NA BACIA DO<br />
RIO ITAPECURU: BASES PARA O PLANEJAMENTO COM USO DO SISTEMA<br />
DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA<br />
Haroldo Gomes BARROSO (hgbarroso@uol.com.br)<br />
Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />
Antônio <strong>de</strong> Pádua SOUSA<br />
Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Estadual <strong>de</strong> São Paulo<br />
RESUMO<br />
As áreas mais a<strong>de</strong>quadas para o implemento <strong>de</strong> projetos aqüícolas sustentáveis, na bacia do rio<br />
Itapecuru, foram selecionadas a partir da sinergia <strong>de</strong> parâmetros que tornam a aqüicultura uma<br />
ativida<strong>de</strong> capaz <strong>de</strong> gerar benefícios econômicos como: elevar o nível <strong>de</strong> inclusão social <strong>de</strong> gran<strong>de</strong><br />
parcela <strong>de</strong> seus habitantes; melhorar o grau <strong>de</strong> conforto a seus usuários; propiciar maior usufruto <strong>de</strong><br />
mananciais <strong>de</strong> água integrantes da bacia; alertar para a importância dos estudos das bacias nacionais,<br />
visando o planejamento da aqüicultura responsável. O planejamento e execução <strong>de</strong>ste trabalho foram<br />
motivados pela necessida<strong>de</strong> mundial <strong>de</strong> preservar o meio ambiente, em particular, os sistemas<br />
aquáticos. A bacia é composta por uma contingência <strong>de</strong> problemas que tiveram início em sua<br />
colonização, marcada pelo latifúndio e exploração ina<strong>de</strong>quada <strong>de</strong> seus recursos naturais, apesar <strong>de</strong> sua<br />
gran<strong>de</strong> importância ao Estado do Maranhão. Exibe um quadro <strong>de</strong> difícil diagnóstico em função da<br />
escassez <strong>de</strong> dados seguros para seu planejamento sustentável, principalmente das ativida<strong>de</strong>s produtivas<br />
que <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m do binômio água/uso da terra. A viabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sse trabalho ocorreu com a utilização da<br />
metodologia do Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica (SIG) que selecionou um total <strong>de</strong> 16.768,64 km² <strong>de</strong><br />
áreas com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s entre 0% e 3%, das quais 9.122 km² foram enquadradas segundo os atributos<br />
admitidos para escolha <strong>de</strong> áreas propícias para a instalação <strong>de</strong> projetos e programas <strong>de</strong> aqüicultura.<br />
10% <strong>de</strong>ssa área foram <strong>de</strong>stinadas a aten<strong>de</strong>r mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> gestão cujos efluentes produzidos na<br />
aqüicultura sejam utilizados pela agricultura perene ou temporária nos 90% das áreas eleitas por classes<br />
<strong>de</strong> pon<strong>de</strong>ração da seguinte forma: 8,68 km² excelente; 351.82 km² muito boa; 48.62 km² boa; 122.83<br />
km² regular; 237.59 km² ruim e 142.66 km² com restrições técnicas. Os estudos apontaram o baixo<br />
curso da bacia do rio Itapecuru como a área que reúne maiores chances para o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
aqüicultura sustentável.<br />
PALAVRAS-CHAVE: Bacia do rio Itapecuru, Aqüicultura sustentável, Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica
ABSTRACT<br />
81<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
The adjusted areas more for implement it of sustainable aquatic programs, in the basin of the river<br />
Itapecuru, had been selected from the synergya of parameters that become the aquaculture an activity<br />
capable to generate economic benefits as: to raise the level of social inclusion of great parcel of its<br />
inhabitants; to improve the comfort <strong>de</strong>gree its users, to propitiate greater fruition of water integrant<br />
sources of the basin; to alert for the importance of the studies of the national basins, aiming at the<br />
planning of the responsible aquaculture.The planning and execution of this work had been motivated<br />
by the world-wi<strong>de</strong> necessity to preserve the environment, in particular, the aquatic systems. The basin<br />
is composed for a contingency of problems that had had beginning in settling, marked for the large<br />
state and ina<strong>de</strong>quate exploration of natural resources, although its great importance to the State of the<br />
Maranhão. It shows a picture of difficult diagnosis in function of the scarcity of safe data for<br />
sustainable planning, mainly of the productive activities that <strong>de</strong>pend on the use of the water and<br />
land.The viability of this work counted of the use of the methodology of the Geografic Information<br />
System (SIG) that km² of areas with <strong>de</strong>clivities in the interval between 0% and 3% selected a total of<br />
16.768,64, of which 9,122 km² had been fit according to attributes admitted for choice of propitious<br />
areas for the installation of projects and programs of aquaculture. 10% of this area had been <strong>de</strong>stined to<br />
take care of management mo<strong>de</strong>ls whose effluent produced in the aquaculture they are used by perennial<br />
or temporary agriculture in 90% of the elect areas for classrooms of balance following the form: 8,68<br />
km² excellent; 351.82 km² very good; 48.62 km² good; 122.83 km² to regulate; 237.59 km² bad and<br />
142,66 km² with restrictions techniques. The studies had pointed the low course of the basin of the river<br />
Itapecuru as the area that congregates greaters possibilities for the <strong>de</strong>velopment of the sustainable<br />
aquaculture.<br />
WORDS KEY: Basin of the river Itapecuru, sustainable aqüicultura, Geografic Information System.<br />
INTRODUÇÃO<br />
A produção <strong>de</strong> pescado mundial, em 2002, foi da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 142 milhões <strong>de</strong> toneladas, sendo 96 milhões<br />
oriundos da captura e 45 milhões da aqüicultura. A produção da pesca extrativa encontra-se estagnada, tendo<br />
atingido seu limite sustentável <strong>de</strong> produção. Em contrapartida, a produção proveniente da aqüicultura vem<br />
ganhando importância na oferta total <strong>de</strong> pescados, com crescimento mundial médio <strong>de</strong> 7% ao ano, nos últimos<br />
cinco anos. Mesmo com essa expansão da produção aqüícola, projeta-se para o ano <strong>de</strong> 2010 um déficit <strong>de</strong> 25<br />
milhões <strong>de</strong> t/ano <strong>de</strong> pescados, consi<strong>de</strong>rando-se uma expansão da <strong>de</strong>manda mundial compatível com o atual<br />
consumo per capita <strong>de</strong> 14 kg/ano(FAO, 2003).
82<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
O Brasil, apesar <strong>de</strong> <strong>de</strong>ter um dos maiores aportes <strong>de</strong> variadas classes <strong>de</strong> água do mundo, produziu, em<br />
2002, 985 mil toneladas <strong>de</strong> pescado e apresentou um consumo per capita <strong>de</strong> apenas 5,7 kg/ano, média muito<br />
inferior à mundial, (IBAMA, 2002).<br />
Aqüicultura é o processo <strong>de</strong> produção em cativeiro <strong>de</strong> organismos com habitat predominantemente<br />
aquático, em qualquer estágio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento, ou seja: ovos, larvas, pós-larvas, juvenis ou adultos. De<br />
acordo com a FAO, três fatores caracterizam essa ativida<strong>de</strong>: o organismo produzido é aqüícola, existe um<br />
manejo visando a produção, e a criação tem um proprietário, isto é, não é um bem coletivo como são as<br />
populações exploradas pela pesca (RANA, 1997).<br />
A aqüicultura mo<strong>de</strong>rna está embasada em três pilares: a produção lucrativa, a preservação do meio<br />
ambiente e o <strong>de</strong>senvolvimento social. Os três componentes são essenciais e indispensáveis para que se possa ter<br />
uma ativida<strong>de</strong> perene. A produção <strong>de</strong>ve ser entendida como um processo amplo, que envolve toda a ca<strong>de</strong>ia<br />
produtiva. A simples criação dos organismos não é suficiente para o estabelecimento da ativida<strong>de</strong>, <strong>de</strong> forma<br />
lucrativa e permanente, como <strong>de</strong>ve ser qualquer empresa. Todos os elementos da ca<strong>de</strong>ia têm seu papel e<br />
qualquer elo fraco limitará o <strong>de</strong>senvolvimento da ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> forma geral (VALENTI et al., 2000).<br />
O Estado do Maranhão, integrante da Amazônia Legal, ocupa no Nor<strong>de</strong>ste uma posição privilegiada<br />
com relação ao seu potencial hídrico. Possui nove bacias hidrográficas formadas por rios perenes, complexos<br />
lacustres em planícies <strong>de</strong> inundação, inúmeras pequenas bacias em sua costa oci<strong>de</strong>ntal repleta <strong>de</strong> exuberantes<br />
manguezais; na costa oriental, lagoas temporárias e nas regiões <strong>de</strong> dunas formando os lençóis maranhenses<br />
(IBGE, 1998).<br />
O rio Itapecuru, escolhido para esse trabalho, por sua importância vital ao Estado do Maranhão, o mais<br />
extenso, e sua bacia <strong>de</strong> contribuição ocupa o segundo lugar em extensão no Estado. Divi<strong>de</strong>-se fisiograficamente<br />
em três níveis (alto, médio e baixo curso), atravessa várias unida<strong>de</strong>s litoestratificadas e diversas divisões<br />
geomorfológicas se caracterizando como um rio <strong>de</strong> planície.<br />
A bacia hidrográfica do rio Itapecuru encontra-se geologicamente localizada na porção oriental da<br />
plataforma Sul-Americana, na Província Estrutural do rio Parnaíba. Constitui-se <strong>de</strong> uma faixa <strong>de</strong> direção<br />
dominante Norte-Sul, formada por rochas, na maioria sedimentar, <strong>de</strong> bacia Introcratônica do rio Parnaíba e da<br />
bacia marginal <strong>de</strong> São Luís (ALMEIDA et al., 1997).<br />
O rio Itapecuru nasce nos contrafortes das serras da Crueira, do Itapecuru e do rio Alpercatas, a 500m <strong>de</strong><br />
altitu<strong>de</strong>, percorrendo 1.090 km, até sua <strong>de</strong>sembocadura na baía do Arraial, ao sul da ilha <strong>de</strong> São Luís (IBGE,<br />
1998). Limita-se a sul e ao leste pela bacia hidrográfica do rio Parnaíba, pela serra do Itapecuru, chapada do<br />
Azeitão entre outras pequenas elevações, a oeste e a su<strong>de</strong>ste com a bacia do rio Mearim e a nor<strong>de</strong>ste com a bacia<br />
do rio Munim.<br />
A aqüicultura praticada na bacia do rio Itapecuru, apesar <strong>de</strong> empírica, é responsável por 40% do pescado<br />
consumido na região, on<strong>de</strong> se registrou 22 criadores, cultivando principalmente o tambaqui (Colossoma<br />
macropomum), tilápia (Oreochromis spp), carpa (Cyprinus carpio), curimatá (Prochilodus spp), bagre-africano
83<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
(Clarias gariepinus), camarão-gigante-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), camarão-marinho (Litopenaeus<br />
vannamei) e rã (Rana catesbeiana) (PEREIRA et al., 2000).<br />
O estado do Maranhão criou a Agência Estadual <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura em 2002, para se<br />
a<strong>de</strong>quar ao mo<strong>de</strong>lo fe<strong>de</strong>ral que criou a Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong> da Presidência da<br />
República-SEAP/PR, objetivando o planejamento e or<strong>de</strong>namento <strong>de</strong>sse setor produtivo com<br />
representação regional e estadual, em fase <strong>de</strong> estruturação.<br />
A crescente expansão das ativida<strong>de</strong>s antrópicas sobre o meio ambiente tem gerado aumento expressivo<br />
da <strong>de</strong>manda por tecnologias <strong>de</strong> manejo ambiental (TROTTER, 1991). A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mapeamento, manejo e<br />
monitoramento dos recursos naturais renováveis e não renováveis tem resultado na evolução tecnológica dos<br />
Sistemas <strong>de</strong> Informação Geográfica (SIG). Tais sistemas, utilizados inicialmente apenas no auxílio à elaboração<br />
<strong>de</strong> mapas, vêm sendo cada vez mais utilizados no auxílio <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> informações e tomadas <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões.<br />
Em um SIG a apresentação <strong>de</strong> dados tem papel relevante na extração <strong>de</strong> informações. Ela é usada para<br />
visualizar o problema, possibilitando observar, manipular e estudar os relacionamentos geográficos envolvidos, e<br />
também po<strong>de</strong> apresentar alternativas à solução do problema consi<strong>de</strong>rado (EGENHOFER, 1990). Tais técnicas<br />
têm avançado significativamente nesta última década e sua importância tem estabelecido papel relevante para o<br />
gerenciamento <strong>de</strong> recursos.<br />
A tecnologia do SIG emprega, na maioria <strong>de</strong> suas aplicações, um banco <strong>de</strong> dados para armazenagem e<br />
recuperação <strong>de</strong> informações, o qual po<strong>de</strong> também ser aproveitado para gerar outras formas <strong>de</strong> análises <strong>de</strong> dados e<br />
facilitar a tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões. As informações capazes <strong>de</strong> serem extraídas <strong>de</strong> um banco <strong>de</strong> dados dificilmente<br />
po<strong>de</strong>m ser obtidas examinando-se apenas a parte gráfica dos dados, ou seja, mapas contidos no SIG.<br />
Informações complementares po<strong>de</strong>m ser utilizadas por um SIG <strong>de</strong> modo a possibilitar novas formas <strong>de</strong><br />
apresentação e análise <strong>de</strong> dados.<br />
Com a <strong>de</strong>ficiência <strong>de</strong> informações citadas em Pereira et al. (2000) levantou-se a hipótese <strong>de</strong> que somente<br />
se disponibilizando <strong>de</strong> ferramentas científicas para o planejamento da aqüicultura sustentável, a bacia do Rio<br />
Itapecuru certamente experimentará o equilíbrio ecológico e sócio-econômico.<br />
Caso haja o incremento da aqüicultura sustentável na área em estudo, serão eliminados os<br />
<strong>de</strong>smatamentos ciliares; haverá um aumento na oferta <strong>de</strong> alimentos protéicos, da lâmina d’água, da evaporação e<br />
da umida<strong>de</strong> relativa do ar, da recarga dos mananciais; minimização dos riscos <strong>de</strong> queimadas; um crescente grau<br />
<strong>de</strong> conforto aos usuários e conseqüentemente um maior nível <strong>de</strong> inclusão social.<br />
Este trabalho objetivou <strong>de</strong>terminar macro áreas propícias à prática da aqüicultura sustentável, sem<br />
egessar a produção <strong>de</strong> pescado na bacia do Rio Itapecuru, apontando mo<strong>de</strong>los capazes <strong>de</strong> alavancar a ativida<strong>de</strong><br />
como a melhor alternativa na promoção do emprego e renda à maioria da população rural ribeirinha,<br />
promovendo uma socioeconômica equilibrada da área em estudo.
GEOMORFOLOGIA<br />
84<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Os fatores como característicos da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> drenagem, a compartimentação, as formas <strong>de</strong> relevo e a<br />
navegabilida<strong>de</strong> formaram um conjunto <strong>de</strong> critérios adotados pela SUDENE para dividir a bacia do rio Itapecuru<br />
em três níveis fisiográficos: alto curso, médio curso e baixo curso (BIZERRA, 1984).<br />
Os limites e características <strong>de</strong> cada trecho da bacia são:<br />
• Alto Itapecuru: Compreen<strong>de</strong> toda a bacia <strong>de</strong> contribuição a montante da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Colinas, on<strong>de</strong><br />
recebe as águas <strong>de</strong> seu maior tributário, o rio Alpercatas, com predominância dos chapadões, chapadas e<br />
cuestas, relevo forte ondulado compondo as partes mais elevadas da bacia com as serras do Itapecuru, do<br />
Alpercatas, da Crueira e da Boa Vista.<br />
• Médio Itapecuru: Compreen<strong>de</strong> o trecho entre os municípios <strong>de</strong> Colinas a Caxias, apresentando uma<br />
situação morfológica <strong>de</strong>nominada testemunhos, on<strong>de</strong> predomina o relevo <strong>de</strong> chapadas baixas e uma<br />
superfície variando <strong>de</strong> suave ondulado a forte ondulada, com uma diferença <strong>de</strong> altitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> 60m.<br />
• Baixo Itapecuru: Compreen<strong>de</strong> o trecho entre os municípios <strong>de</strong> Caxias até a foz, na baia do Arraial.<br />
Essa área possui uma geomorfologia caracterizada pela presença da superfície maranhense com testemunho<br />
e na sua foz pelo Golfão Maranhense, com um relevo <strong>de</strong> superfície suave ondulado, originário<br />
principalmente da Formação Itapecuru do Cretáceo.<br />
HIDROLOGIA<br />
Os rios da bacia do Itapecuru drenam os terrenos sedimentares da bacia do rio Parnaíba, composto<br />
principalmente pelas seqüências <strong>de</strong> arenitos, siltitos, folhelos e argilitos, on<strong>de</strong> a ocorrência <strong>de</strong> falhas e fraturas<br />
direcionam o curso dos mesmos. Devido a isto, as perspectivas no que dizem respeito às suas reservas em águas<br />
subterrâneas são relativamente promissoras. Os principais sistemas aqüíferos são as formações: Mutuca,<br />
Sambaíba, Corda e Itapecuru. Em conjunto, essas formações po<strong>de</strong>m ser consi<strong>de</strong>radas como um único sistema<br />
aqüífero livre, localmente com potências em carga nas áreas on<strong>de</strong> são sobrepostas por formações impermeáveis<br />
que são: Pedra <strong>de</strong> Fogo, Pastos Bons e Codó (IBGE, 1998; PETRI; FULFARO, 1988; TUCCI, 2001).<br />
A bacia hidrográfica do rio Itapecuru é falciforme, cuja concavida<strong>de</strong> está voltada em direção Oeste, para<br />
o vale do Mearim. É uma bacia irregular, estreita nas nascentes e na <strong>de</strong>sembocadura, alargando-se na parte<br />
central, on<strong>de</strong> atinge aproximadamente 120 km. A re<strong>de</strong> <strong>de</strong> drenagem distribui-se em padrão geral<br />
aproximadamente paralelo no alto curso, embora uma tendência <strong>de</strong>ntrítica se revele cada vez mais à medida que<br />
vai atingindo o baixo curso (IBGE, 1998).<br />
Corre no sentido Oeste-Leste das nascentes até o povoado <strong>de</strong> Várzea do Cerco, 25 km à<br />
montante da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mirador, tomando rumo norte ao <strong>de</strong>slocar-se sobre os chapadões do alto curso<br />
até receber seu maior <strong>de</strong>positário o Rio Alpercatas, que contribui com 2/3 <strong>de</strong> seu volume em sua<br />
<strong>de</strong>sembocadura. Muda <strong>de</strong> direção para nor<strong>de</strong>ste até receber o rio Corrente, mudando bruscamente sua<br />
direção para o sentido nor<strong>de</strong>ste, tracejando um longo contorno, no município <strong>de</strong> Caxias. Apesar <strong>de</strong>
85<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
apresentar algumas inflexões, se mantém na mesma direção até sua <strong>de</strong>sembocadura na baia do Arraial<br />
por dois braços, o Tucha como principal e o Mojó como secundário.<br />
Um problema que acomete a bacia do rio Itapecuru são os esgotos. O esgotamento, da maioria das<br />
cida<strong>de</strong>s brasileiras, é feito a céu aberto e os resíduos normalmente são conduzidos a um corpo d’água que recebe<br />
o esgoto in natura. Uma gran<strong>de</strong> metrópole tem um efeito poluidor das águas que po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>tectado a centenas<br />
<strong>de</strong> quilômetros rio abaixo, comprometendo seu uso em outros povoamentos nas ativida<strong>de</strong>s humanas que<br />
<strong>de</strong>pendam da água bruta. A poluição industrial também contribui com diversos tipos <strong>de</strong> poluentes orgânicos e<br />
inorgânicos que <strong>de</strong>gradam a qualida<strong>de</strong> da água. Alguns possuem alta toxida<strong>de</strong> e periculosida<strong>de</strong> para os<br />
organismos aquáticos e para o consumo humano.<br />
Além <strong>de</strong>ste, a agropecuária se constitui em mais um responsável pela <strong>de</strong>gradação da bacia do rio<br />
Itapecuru, com gran<strong>de</strong>s queimadas como conseqüência da pecuária e, principalmente, do extrativismo vegetal<br />
para a produção <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira e, <strong>de</strong> significativa produção <strong>de</strong> carvão vegetal.<br />
ASPECTOS QUANTITATIVOS DA ÁGUA<br />
A disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água no alto curso do rio Itapecuru até o <strong>de</strong>flúvio do rio Alpercatas é <strong>de</strong> 17,6m.s -1 ,<br />
em média, dado que limita o uso da água em gran<strong>de</strong>s projetos hidroagrícolas, não significando sua vasta<br />
utilização em projetos sustentáveis, embora o acompanhamento técnico responsável se torna um requisito básico.<br />
A partir do município <strong>de</strong> Colinas, on<strong>de</strong> o aporte fluvial triplica a oferta <strong>de</strong> água já qualifica essa área<br />
para maiores <strong>de</strong>mandas por parte <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> maiores proporções no uso <strong>de</strong> água.<br />
A oferta <strong>de</strong> água na bacia do rio Itapecuru para múltiplos usos apontou uma bacia <strong>de</strong> médio porte, que<br />
apesar da inexistência <strong>de</strong> um completo cadastramento do uso <strong>de</strong> suas águas não há indícios do comprometimento<br />
da oferta <strong>de</strong> água bruta para seus usuários, mesmo assim, faz-se necessário seu controle na perspectiva <strong>de</strong> sua<br />
preservação como bem público e <strong>de</strong> duração finita (IBGE, 1998).<br />
CLASSIFICAÇÃO CLIMÁTICA<br />
As combinações diversas dos processos atmosféricos produzem um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> tipos climáticos, o<br />
que se aplica à bacia do rio Itapecuru como área <strong>de</strong> transição <strong>de</strong> macroclimas da região Amazônica com alta<br />
umida<strong>de</strong> e da região Nor<strong>de</strong>stina com baixa umida<strong>de</strong>.<br />
A classificação climática distribui em diferentes tipos climáticos a bacia do Itapecuru. O Clima<br />
predominante na bacia é o sub-úmido seco, seguido do sub-úmido e Úmido na interface com áreas marinhas <strong>de</strong><br />
altas pluviosida<strong>de</strong>s. Os maiores excessos pluviométricos ocorrem entre janeiro e maio (período chuvoso) e com<br />
maiores <strong>de</strong>ficiências <strong>de</strong> julho a setembro (período seco).<br />
TEMPERATURA E UMIDADE RELATIVA DO AR<br />
A variação da temperatura na bacia do rio Itapecuru tem uma amplitu<strong>de</strong> média muito pequena, não<br />
ultrapassando a 4°C, variando <strong>de</strong> 25°C a 28°C na maioria da referida bacia, sendo registradas médias <strong>de</strong> 27°C no
86<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
baixo Itapecuru e nos município <strong>de</strong> Caxias e Codó, registrando-se menores médias no alto curso do rio<br />
Itapecuru, com 25°C. Essa baixa temperatura está relacionada com a latitu<strong>de</strong> e a altitu<strong>de</strong> do local.<br />
A umida<strong>de</strong> relativa do ar na bacia do rio Itapecuru varia em média entre 70 a 82%, registrando-se<br />
maiores índices no litoral. O período <strong>de</strong> maior umida<strong>de</strong> é <strong>de</strong> janeiro a maio com médias <strong>de</strong> 85%, as áreas com<br />
menores índices são as mais próximas da bacia do rio Parnaíba.<br />
PRECIPITAÇÃO PLUVIOMÉTRICA<br />
É a variável climática que apresenta maior variabilida<strong>de</strong>, tanto espacial como temporal. Através do<br />
conhecimento da distribuição da precipitação pluviométrica, anual e mensal, po<strong>de</strong>-se ter noção do potencial<br />
hídrico disponível ao longo do ano na referida bacia. Essas informações são imprescindíveis para todos os<br />
setores da economia, principalmente para projetos hidroagrícolas. Os valores médios <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong>monstram<br />
uma diferença <strong>de</strong> amplitu<strong>de</strong> média <strong>de</strong> precipitações na bacia do rio Itapecuru entre a mínima e máxima <strong>de</strong> 1600<br />
mm (INSTITUTO DO HOMEM, 1992).<br />
USO E OCUPAÇÃO DA TERRA<br />
Segundo o Instituto do Homem (1992), um fato que tem agravado este problema é a má distribuição<br />
fundiária, ficando as terras mais férteis à disposição <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s latifúndios, com explorações <strong>de</strong> monoculturas<br />
principalmente do arroz, como primeira cultura para em seguida serem transformados em pastos;<br />
conseqüentemente, os pequenos e médios produtores acabam sendo <strong>de</strong>slocados para áreas ina<strong>de</strong>quadas, mais<br />
pobres, on<strong>de</strong> se dá um outro processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>vastação, seja pela exploração da ma<strong>de</strong>ira ou implantação <strong>de</strong><br />
agricultura nôma<strong>de</strong>.<br />
UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E ÁREAS AFINS<br />
A maior reserva da bacia é o Parque Estadual do Mirador, com 500.000 ha nas nascentes e a formação<br />
dos primeiros córregos que constituem o curso principal, visa a proteção do ecossistema do alto curso do rio.<br />
As outras Áreas <strong>de</strong> Preservação Ambiental instituída na bacia são a do Upaon-Açu/Miritiba/Alto<br />
Preguiça (<strong>de</strong> acordo com o Código Florestal, CONAMA, Código <strong>de</strong> Águas, Código <strong>de</strong> Proteção do Meio<br />
Ambiente do Maranhão, Lei do Babaçu), que na verda<strong>de</strong> está contida na bacia do rio Itapecuru apenas nas<br />
proximida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> sua <strong>de</strong>sembocadura, fronteiriça à bacia do rio Munim.<br />
Foram constatadas pelo Instituto do Homem (1992) agressões às matas ciliares, às bordas <strong>de</strong> chapadas e<br />
<strong>de</strong>smatamentos indiscriminados, inclusive em nascentes e babaçuais. Fatos do cotidiano na bacia do rio<br />
Itapecuru acentuam ainda mais com o uso indiscriminado <strong>de</strong> <strong>de</strong>fensivos agrícolas, <strong>de</strong>spejos urbanos e industriais<br />
em todo o seu curso (INSTITUTO DO HOMEM, 1992; IBGE, 1998).<br />
ORGANIZAÇÃO SOCIAL DA POPULAÇÃO NA BACIA<br />
A população da bacia do rio Itapecuru é resultante da ocupação pelos primitivos indígenas, portugueses,<br />
africanos e franceses, passando por variados regimes como em todo Brasil, registrado em sua história como
87<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
palco <strong>de</strong> conflitos, a exemplo da guerra da Balaiada que teve seu maior foco <strong>de</strong> resistência no município <strong>de</strong><br />
Caxias, no limite do alto e médio curso da Bacia em estudo. Outro marcante episódio foi marcado pela passagem<br />
da Coluna Prestes em <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1925 nos municípios <strong>de</strong> Colinas e Mirador, no alto curso do Itapecuru<br />
(IBGE, 1998). A consolidação da atual estrutura político-administrativa da bacia do rio Itapecuru se <strong>de</strong>u no<br />
século passado, nas décadas <strong>de</strong> 40 e 50, pela emancipação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> municípios.<br />
A política implementada a partir <strong>de</strong> 1970, incentivando a instalação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s projetos agropecuários,<br />
aumentou a concentração <strong>de</strong> terra. Esse processo causou a <strong>de</strong>sestruturação social e econômica <strong>de</strong> milhares <strong>de</strong><br />
famílias, obrigadas a migrarem para as zonas urbanas ou outras regiões (IBGE, 1998).<br />
As práticas políticas na bacia do Itapecuru ainda são consi<strong>de</strong>radas colonialistas pelos estudos do IBGE<br />
(1998), com imensos latifúndios improdutivos. Os agricultores, em sua maioria, são parceiros ou arrendatários<br />
refletindo no menor Índice <strong>de</strong> Desenvolvimento Humano-IDH da fe<strong>de</strong>ração, segundo relatório da ONU/2003,<br />
(JORNAL NACIONAL, 2003).<br />
CONCEITOS SOBRE SUSTENTABILIDADE<br />
Segundo Sachs (1993), para que o <strong>de</strong>senvolvimento seja sustentável, é preciso que ele contemple pelo<br />
menos os pontos a seguir:<br />
• Ativida<strong>de</strong> seja economicamente viável;<br />
• Socialmente justa, contribuindo para a redução das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s e para a eliminação das injustiças;<br />
• Consi<strong>de</strong>ração ecológica, a perda da qualida<strong>de</strong> ambiental e a <strong>de</strong>gradação dos ecossistemas, não sejam<br />
o preço a ser pago, comprometendo a perenida<strong>de</strong> da vida;<br />
• Imperativo da eqüida<strong>de</strong> espacial, ou a importância <strong>de</strong> se evitarem as concentrações ou aglomerações<br />
que, pela lógica das economias <strong>de</strong> escala, acabam resultando em <strong>de</strong>seconomias <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida e em<br />
distribuição <strong>de</strong>sigual das oportunida<strong>de</strong>s;<br />
• Cultura: as características <strong>de</strong> cada grupo social <strong>de</strong>vem ser preservadas frente à avassaladora<br />
tendência homogeneizadora dos padrões <strong>de</strong> produção e consumo, que viola e <strong>de</strong>scaracteriza i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s;<br />
• Político-institucional, que na atual crise do Estado, em todo o mundo, cujas raízes têm características<br />
diferenciadas em cada país, mas que tem se manifestado na esfera das finanças públicas, tem fragilizado e<br />
<strong>de</strong>slegitimado o papel regulador do po<strong>de</strong>r público, abrindo espaço para que a conjuntura <strong>de</strong> mercado<br />
prevaleça como regulador.<br />
CONCEITOS SOBRE SIG<br />
Um SIG é baseado em computador que permite capturar, mo<strong>de</strong>lar, manipular, recuperar, consultar,<br />
analisar, e apresentar dados geograficamente referenciados (CÂMARA NETO, 1995). A tecnologia do SIG po<strong>de</strong><br />
trazer enormes benefícios <strong>de</strong>vido à sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manipular a informação georeferenciada <strong>de</strong> forma precisa,<br />
rápida e sofisticada (GOODCHILD et al., 1993).
88<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Na década <strong>de</strong> 80 do Século XX, o uso do SIG, tornou-se comum nas empresas, universida<strong>de</strong>s e agências<br />
governamentais, e atualmente diversos profissionais o utilizam para as mais variadas aplicações. Essa<br />
diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> usos e aplicações fez surgir várias <strong>de</strong>finições do SIG, tais como:<br />
• conjunto po<strong>de</strong>roso <strong>de</strong> ferramentas para coletar, armazenar, recuperar, transformar e visualizar dados<br />
sobre o mundo real (BURROUGH, 1987);<br />
• banco <strong>de</strong> dados in<strong>de</strong>xados espacialmente, sobre o qual opera um conjunto <strong>de</strong> procedimentos para<br />
respon<strong>de</strong>r as consultas sobre entida<strong>de</strong>s espaciais (SMITH et al., 1987);<br />
• sistema <strong>de</strong> suporte à <strong>de</strong>cisão que integra dados referenciados espacialmente num ambiente <strong>de</strong><br />
respostas a problemas (COWEN, 1988);<br />
• conjunto manual ou computacional <strong>de</strong> procedimentos utilizados para armazenar e manipular dados<br />
georeferenciados (ARONFF, 1989).<br />
Essas <strong>de</strong>finições <strong>de</strong> SIG refletem, cada uma à sua maneira, a multiplicida<strong>de</strong> <strong>de</strong> usos e visões possíveis<br />
<strong>de</strong>sta tecnologia e apontam para uma perspectiva interdisciplinar <strong>de</strong> sua utilização. Atualmente algumas <strong>de</strong> suas<br />
aplicações incluem temas como aqüicultura, agricultura, florestas, cartografia, geologia, cadastro urbano, re<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
concessionárias (água, energia e telefone), <strong>de</strong>ntre outras (STAR; ESTES, 1990).<br />
MATERIAL E MÉTODOS<br />
A bacia hidrográfica do rio Itapecuru situa-se na parte centro-leste do Estado do Maranhão, entre as<br />
coor<strong>de</strong>nadas <strong>de</strong> 21°51’ a 06°56’ <strong>de</strong> Latitu<strong>de</strong> S e 43°02’ a 45°58’ <strong>de</strong> Longitu<strong>de</strong> W, Abrange uma área 54.300<br />
km², que correspon<strong>de</strong> a 16,7% da área do Estado (IBGE, 1998).<br />
A pesquisa teve duas etapas distintas: (1) avaliação do potencial para o <strong>de</strong>senvolvimento do projeto; (2)<br />
coleta dos dados <strong>de</strong> campo.<br />
ORDENAMENTO METODOLÓGICO<br />
A abordagem metodológica para realização <strong>de</strong> estudos em bacias hidrográficas, propostas por Pires e<br />
Santos (1995), <strong>de</strong>finem o planejamento ambiental como um processo <strong>de</strong> planificação que busca soluções para os<br />
problemas e as necessida<strong>de</strong>s humanas, visando metas e objetivos: maximização da qualida<strong>de</strong> ambiental,<br />
produção sustentada com o <strong>de</strong>senvolvimento e aproveitamento dos recursos naturais <strong>de</strong>ntro dos limites da<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> suporte ambiental e da minimização dos riscos a impactos ambientais.<br />
As bases para elaboração <strong>de</strong> um projeto integrado <strong>de</strong> manejo <strong>de</strong> bacias hidrográficas (ARÉVALOS,<br />
1998), são as seguintes:<br />
• Unificação <strong>de</strong> métodos e <strong>de</strong> planejamento <strong>de</strong> propostas <strong>de</strong> ação e <strong>de</strong> investigação, originadas a partir<br />
dos problemas e limitações da região;<br />
• Confecção <strong>de</strong> mapas geoecológicos e;<br />
• Planejamento e zoneamento ambientais.
89<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Segundo Ballester et al., (1995), para o manejo <strong>de</strong> um complexo ambiental é necessário um<br />
conhecimento <strong>de</strong>talhado das variações espaços-temporais dos fatores naturais e antrópicos que atuam sobre o<br />
mesmo. A união <strong>de</strong> tais dimensões, permitindo o processamento simultâneo <strong>de</strong> dados, <strong>de</strong>ssa forma, tem sido<br />
possibilitada pelos SIG, <strong>de</strong>finidos como tecnologias para investigação dos fenômenos ambientais que combinam<br />
os avanços tecnológicos da cartografia e banco <strong>de</strong> dados automatizados, o sensoriamento remoto e a mo<strong>de</strong>lagem.<br />
As informações <strong>de</strong> caráter sinergético resultantes do emprego <strong>de</strong>ssas ferramentas têm auxiliado na formulação <strong>de</strong><br />
propostas <strong>de</strong> manejo.<br />
O SIG foi a principal ferramenta utilizada para análise espacial das informações geradas para esse<br />
trabalho, por ser um sistema <strong>de</strong> coleta, armazenamento, checagem, manipulação, análise e disponibilização <strong>de</strong><br />
informações espaciais in<strong>de</strong>xadas, sobre as quais várias perguntas po<strong>de</strong>m ser interpretadas, respondidas e<br />
visualizadas, através <strong>de</strong> cruzamentos <strong>de</strong> informações criando uma imagem final.<br />
Dessa forma, foram utilizadas imagens geradas pelo IBGE (1998), na Escala <strong>de</strong> 1:250.000 e 1:180.000,<br />
geoprocessadas posteriormente com agregação <strong>de</strong> novos dados bibliográficos, 360 entrevistas utilizando<br />
formulários semi-estruturados, nas cida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>: Sucupira do Norte, Mirador, Colinas, Caxias, Codó, Timbiras,<br />
Coroatá, Cantanhê<strong>de</strong>, Itapecuru Mirim, Santa Rita, Bacabeira e Rosário; doze expedições para avaliação <strong>de</strong><br />
impactos ambientais, quatro para investigação dos parâmetros físicos e químicos da água do rio Itapecuru e três<br />
seminários sobre o aproveitamento <strong>de</strong> ecossistemas fluviais sustentáveis.<br />
Os parâmetros físicos medidos <strong>de</strong> maior importância para a aqüicultura foram a transparência e a<br />
temperatura, medidos com disco <strong>de</strong> Sechi e termômetro digital YSI do kit F1003.<br />
Utilizando-se o kit F1003, foram feitas medições diretas dos principais parâmetros exigidos para o bom<br />
<strong>de</strong>sempenho da aqüicultura (O2, CO2, pH, Condutivida<strong>de</strong> elétrica, Nitrato, Nitrito, Amônia, Alcalinida<strong>de</strong>,<br />
Fósforo e Silicato), na superfície, meio e fundo, a montante e jusante <strong>de</strong> oito municípios ribeirinhos (Mirador,<br />
Colinas, Caxias, Codó, Coroatá, Itapecuru Mirim, Cantanhê<strong>de</strong> e Rosário). A Alcalinida<strong>de</strong> foi obtida por titulação<br />
<strong>de</strong> acordo com o método <strong>de</strong>scrito por (MACHERETH et al., 1978).<br />
Para <strong>de</strong>terminação dos nutrientes, amostras brutas e filtradas foram congeladas a -20ºC e, posteriormente<br />
analisadas para fósforo total (VALDERRAMA, 1981), nitrato, nitrato e amônia (KOROLEFF, 1976), fósforo<br />
inorgânico dissolvido, silicatos e cloretos (GOLDERMAN et al., 1978).<br />
O fator solo ao ser relacionado a aqüicultura se subenten<strong>de</strong> como um conjunto <strong>de</strong> fatores que interfiram<br />
nos sistemas <strong>de</strong> cultivo, proporções <strong>de</strong> áreas a serem utilizadas continuamente e economia do empreendimento,<br />
para em seguida a<strong>de</strong>quar-se às questões legais, técnicas globais e localizadas. No advento da mo<strong>de</strong>rnida<strong>de</strong> hoje,<br />
a tipologia <strong>de</strong> solo está mais intimamente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do sistema <strong>de</strong> cultivo, economia do projeto e espécie a ser<br />
cultivada, não <strong>de</strong>ixando <strong>de</strong> prevalecer os fatores ecológicos que são limitantes e <strong>de</strong>terminantes para a seleção <strong>de</strong><br />
espécies a serem cultivadas (ONO; KUBITZA, 2002).<br />
As áreas foram selecionadas a partir <strong>de</strong> cruzamentos e manipulação <strong>de</strong> dados (Figura 1), seguindo a<br />
metodologia do SIG, com pon<strong>de</strong>ração dos diversos parâmetros correlacionados à ativida<strong>de</strong> da aqüicultura, com
90<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
<strong>de</strong>limitação <strong>de</strong> áreas propícias com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> variando <strong>de</strong> 0 a 3% e que ofereça menor risco para<br />
empreen<strong>de</strong>dores e meio ambiente.<br />
As áreas selecionadas em toda a bacia são prestáveis para a piscicultura, ranicultura e carcinicultura <strong>de</strong><br />
água doce até o município <strong>de</strong> Rosário no baixo curso do rio Itapecuru. Po<strong>de</strong>rão também ser realizadas ativida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> malacocultura e carcinicultura <strong>de</strong> águas salinas no baixo curso do referido rio, segundo o somatório das<br />
pontuações enquadradas nas diversas categorias (ASSADA; SANO, 1998; HARA, 1997; NISHIYAMA, 1998;<br />
SAITO et al., 1998).<br />
Figura 1 - Ilustração da metodologia <strong>de</strong> montagem do mapa final utilizando o SIG<br />
RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />
CARATERIZAÇÃO DA AQÜICULTURA NA BACIA DO RIO ITAPECURU<br />
Mapa <strong>de</strong> Declivida<strong>de</strong><br />
Mapa <strong>de</strong> Drenagem<br />
Mapa <strong>de</strong> Geologia<br />
Mapa <strong>de</strong> Geomorfologia<br />
Mapa <strong>de</strong> Infra-estrutura<br />
Mapa <strong>de</strong> Solo<br />
Mapa <strong>de</strong> Climático<br />
Mapa Final<br />
Apesar <strong>de</strong> constituir um ambiente <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância para a aqüicultura, a bacia do rio Itapecuru não<br />
dispõe <strong>de</strong> assistência técnica sistêmica a exemplo do Estado, o que compromete seu <strong>de</strong>senvolvimento. Constitui<br />
como ação concreta apenas a programação propiciada pelo Fundo <strong>de</strong> Amparo ao Trabalhador (FAT), com minicursos<br />
para produtores, que na verda<strong>de</strong> não satisfazem as necessida<strong>de</strong>s do público com verda<strong>de</strong>iro potencial,<br />
pelos processos seletivo e metodológico efetuados.
91<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A área em estudo não dispõe <strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> dados capazes <strong>de</strong> propiciar elementos para um<br />
planejamento a<strong>de</strong>quado, constituindo-se esse trabalho no primeiro material com tal finalida<strong>de</strong>.<br />
O Estado do Maranhão dispõe <strong>de</strong> menos <strong>de</strong> <strong>de</strong>z especialistas na área <strong>de</strong> aqüicultura com nível superior,<br />
seis com pós-graduação Lato Sensu, dois Mestres e um Doutorando, aspecto que <strong>de</strong>monstra a distância entre<br />
potencialida<strong>de</strong>, produção e assistência técnica. Na Bacia do rio Itapecuru só existem três <strong>de</strong>sses profissionais,<br />
todos os produtores na área da piscicultura, ativida<strong>de</strong> mantida com recursos próprios com total ausência do<br />
Estado, que não esboça nenhuma vonta<strong>de</strong> política em mantê-los atualizados, ao contrário, mantém políticas que<br />
pulverizam o setor com generalida<strong>de</strong>s sem nenhuma projeção a curto, médio e longo prazo, ofuscando toda a teia<br />
produtiva potencial, do profissional ao consumidor.<br />
REGULARIDADE E QUALIDADE NA OFERTA DE ALEVINOS<br />
Na bacia do rio Itapecuru a oferta <strong>de</strong> alevinos é muito escassa e irregular, contabilizando-se apenas um<br />
produtor com oferta mais regular durante oito meses por ano, mesmo assim não aten<strong>de</strong> à <strong>de</strong>manda do mercado<br />
que não se constitui apenas <strong>de</strong> produtores da Bacia em estudo e sim a todas as áreas vizinhas.<br />
Não é privilégio do Estado do Maranhão a oferta <strong>de</strong> alevinos <strong>de</strong> baixa qualida<strong>de</strong> genética,<br />
principalmente do tambaqui (Colossoma macropomum) que ainda permanecem como reprodutores os<br />
remanescentes <strong>de</strong> cruzamentos dos espécimes selvagens introduzidos no Nor<strong>de</strong>ste em 1976 pelo DNOCS, que<br />
concretizou sua primeira propagação artificial e distribuição dos alevinos para <strong>de</strong>mais entida<strong>de</strong>s e estações <strong>de</strong><br />
piscicultura no ano seguinte, perdurando até nossos dias como banco genético, promovendo gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>gradação<br />
consangüínea. No que se refere à bacia do rio Itapecuru, os alevinos cultivados nessa área, são na maioria,<br />
importados <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s distâncias, <strong>de</strong> outros estados, causando um gran<strong>de</strong> estresse e alta taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong>,<br />
baixo índice <strong>de</strong> rendimento final, fatos que <strong>de</strong>sestimulam o produtor.<br />
A oferta <strong>de</strong> alevinos além <strong>de</strong> precária é <strong>de</strong> alto custo e não aten<strong>de</strong> a nenhum preceito <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong>,<br />
controle sanitário e profilático, <strong>de</strong>ixando toda a bacia susceptível a contaminação por parasitos e bactérias<br />
exóticas que po<strong>de</strong>m causar gran<strong>de</strong>s danos ao meio ambiente da área em estudo.<br />
Os projetos <strong>de</strong> aqüicultura existentes na bacia do rio Itapecuru, não têm nenhum preceito <strong>de</strong><br />
sustentabilida<strong>de</strong>, com exceção do Centro <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Mirador, hoje <strong>de</strong>sativado, on<strong>de</strong> a inobservância da<br />
legislação pertinente é nítida em cada direção, predominando uma conceituação neoliberal, mesmo inconsciente,<br />
<strong>de</strong>ixando-se <strong>de</strong> lado a sustentabilida<strong>de</strong> social pela visão do maior lucro mesmo que os danos ao próximo e ao<br />
meio ambiente sejam imensuráveis (ARANA, 1999).<br />
Na atual conjuntura com ares <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>rnização da aqüicultura mundial, aqui no Brasil já se dispõe <strong>de</strong><br />
tecnologias capazes <strong>de</strong> relegar certos preceitos que visem à escolha <strong>de</strong> áreas para instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong><br />
aqüicultura a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r <strong>de</strong> seu sistema como: Tanque-re<strong>de</strong>, raceway e gaiolas. Mesmo para um sistema<br />
convencional <strong>de</strong> cultivo já se dispõem <strong>de</strong> tecnologias <strong>de</strong> impermeabilização <strong>de</strong> viveiros com mantas plásticas,<br />
controles <strong>de</strong> temperaturas, estufas, entre outros mo<strong>de</strong>rnos sistemas <strong>de</strong> aproveitamento <strong>de</strong> qualquer área, <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />
que haja uma prévia relação <strong>de</strong> custo/ benefício (ONO; KUBITZA, 2002).
92<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
É com esse contexto que a visualização da real potencialida<strong>de</strong> da bacia do rio Itapecuru para a<br />
aqüicultura, on<strong>de</strong> os avanços tecnológicos quebram barreiras no dia a dia, e transformam áreas imprestáveis a<br />
verda<strong>de</strong>iros celeiros produtivos. Isso significa que se utilizando o princípio da imaginação e do bom senso;<br />
haverá um gran<strong>de</strong> avanço nas ações tomadas em direção ao <strong>de</strong>senvolvimento sócio-econômico da bacia do rio<br />
Itapecuru. É com essa notorieda<strong>de</strong> que discutimos um total <strong>de</strong> áreas com maiores chances <strong>de</strong> sucesso sem que o<br />
meio ambiente seja exatamente o coletor <strong>de</strong> todas as formas impactantes, causando malefícios a curto, médio e<br />
longo prazo.<br />
OFERTA DE RAÇÃO E DE MATÉRIA-PRIMA<br />
Com o eventual aquecimento do setor aqüícola mundial, essa prática tem crescido bastante, chegando<br />
figurar como a principal responsável pela oferta <strong>de</strong> pescado na bacia do rio Itapecuru. Constatado um gran<strong>de</strong><br />
número <strong>de</strong> pequenos piscicultores, que lastreia a Bacia <strong>de</strong> forma empírica, socialmente <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nada,<br />
impossibilitando seu levantamento estatístico, principalmente com relação à oferta e consumo <strong>de</strong> ração, porém a<br />
oferta <strong>de</strong> matéria prima para fabricação é muito competitiva e abundante, por conter em sua Bacia e entorno,<br />
gran<strong>de</strong>s produtores <strong>de</strong> grãos (comodities) utilizáveis na fabricação <strong>de</strong> ração, proporcionando menores custos ao<br />
produto final na região, fato que tem <strong>de</strong>spertado interesse <strong>de</strong>sses produtores, já operando uma pequena fábrica <strong>de</strong><br />
ração extrusada (250 kg. h -1 ) no município <strong>de</strong> Balsas, hoje em ampliação, e uma peletizadora (200 kg.h -1 ) no<br />
município <strong>de</strong> Colinas.<br />
A maioria da ração consumida na bacia é proveniente <strong>de</strong> estados vizinhos, principalmente a extrusada,<br />
porém a fabricação artesanal sem balanceamento a<strong>de</strong>quado e acompanhamento sistêmico é quase totalida<strong>de</strong>, fato<br />
que concorre para baixas produtivida<strong>de</strong>s.<br />
DEMANDA DE PESCADO<br />
O consumo <strong>de</strong> pescado no Maranhão tem <strong>de</strong>staque no litoral, na baixada oci<strong>de</strong>ntal maranhense e nas<br />
áreas ribeirinhas aos gran<strong>de</strong>s lagos. Na bacia do rio Itapecuru <strong>de</strong> modo geral, não há hábito <strong>de</strong> consumo <strong>de</strong><br />
produtos pesqueiros no cotidiano, lentamente este hábito vem mudando, em função da freqüência <strong>de</strong> oferta <strong>de</strong><br />
produtos advindos da piscicultura regional, uma vez que os rios da bacia não disponibilizam estoques naturais <strong>de</strong><br />
pescado em quantida<strong>de</strong> para aten<strong>de</strong>r a atual <strong>de</strong>manda, até pelos problemas ecológicos que se agravam a cada<br />
ano, diminuindo a vida nos ambientes naturais.<br />
QUALIDADE DOS PRODUTOS<br />
Na década <strong>de</strong> 80 do Século XX, o Governo Fe<strong>de</strong>ral construiu um gran<strong>de</strong> entreposto <strong>de</strong> pesca no Estado,<br />
no complexo do Itaqui, chegando a funcionar por seis meses e fechou, <strong>de</strong>ixando para trás toda uma perspectiva<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento do setor naquele momento.<br />
As investidas do Estado, no sentido <strong>de</strong> alavancar o setor pesqueiro ainda não aconteceram. Conta-se com<br />
pequenas instalações da iniciativa privada ao longo do litoral e nas áreas <strong>de</strong> maiores concentrações <strong>de</strong>
93<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
pescadores, porém os aqüicultures não dispõem <strong>de</strong> estruturas <strong>de</strong> refrigeração para agregar benefícios ao pescado<br />
produzido, obrigando-os a comercializá-los inteiro “in natura”, fresco, resfriado ou eviscerado resfriado. O<br />
pescado congelado, conduzido, <strong>de</strong> outras áreas, para as feiras dos centros urbanos, não oferece nenhuma<br />
segurança <strong>de</strong> sua sanida<strong>de</strong> ao consumidor, normalmente são submetidos ao congelamento por processos<br />
ina<strong>de</strong>quados e após o rigor mortis, promovendo a condução <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> carga bacteriana ocasionando uma<br />
baixa qualida<strong>de</strong> no pescado.<br />
ESPÉCIES CULTIVADAS<br />
As principais espécies cultivadas na bacia do rio Itapecuru são: o tambaqui (Colossoma macropomum),<br />
tilápia (Oreochromis sp.), curimatá (Prochilodus sp.) e carpa-comum (Cyprinus carpio), com gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>staque ao<br />
primeiro, que além <strong>de</strong> reunir maiores vantagens em sua oferta <strong>de</strong> alevinos já faz parte da culinária da região.<br />
O diagnóstico da aqüicultura na bacia do rio Itapecuru revela sua insipiência na produção dos diversos<br />
organismos aquáticos, seja pela pequena extensão utilizada ou pelo pequeno grau tecnológico empregado, <strong>de</strong><br />
certo é que na mesma proporção se mantém com relação ao meio ambiente, não sendo ainda apontada como uma<br />
ativida<strong>de</strong> que venha a comprometer a vitalida<strong>de</strong> equilibrada na referida bacia. Contudo propõe-se a indicação <strong>de</strong><br />
mo<strong>de</strong>los a serem investigados e aplicados como padrão <strong>de</strong> uso nas bacias hidrográficas brasileiras como forma<br />
<strong>de</strong> antece<strong>de</strong>r a ações poluidoras provenientes da aqüicultura. De modo que para a bacia em estudada, precisa<br />
adotar mo<strong>de</strong>los capazes <strong>de</strong> manter a sustentabilida<strong>de</strong> das áreas potencialmente selecionadas, tais como:<br />
“Sistemas <strong>de</strong> cultivo em viveiros escavados”, são viveiros instalados através <strong>de</strong> operações <strong>de</strong> escavação corte e<br />
aterro. Essa operação é uma sincronização <strong>de</strong> máquinas e instrumentos, são facilitados e a<strong>de</strong>quados<br />
economicamente, segundo a <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>, tipo <strong>de</strong> solo e cobertura vegetal.<br />
Proponho para esse mo<strong>de</strong>lo, a inclusão da agricultura irrigada, como reciclador <strong>de</strong> efluentes, composto<br />
por micro e macro nutrientes e cobertura ver<strong>de</strong> proveniente <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> microalgas potencializadas<br />
no cultivo <strong>de</strong> organismos aquáticos não filtradores, o que os tornam indispensáveis ao aproveitamento na<br />
agricultura, <strong>de</strong>volvendo o corpo líquido à natureza por infiltração ou evaporação sem nenhum dado aos sistemas<br />
aquáticos, ao contrário, passa pela produção, seja fruticultura ou para outras cultivares, como arroz, feijão,<br />
milho, cebola, minimizando seus custos com insumos e <strong>de</strong>volvendo a água com qualida<strong>de</strong> ao meio ambiente.<br />
Com a concepção <strong>de</strong>ssa proposta <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> gestão integrada da aqüicultura com a agricultura<br />
irrigada, se <strong>de</strong>monstra uma gama <strong>de</strong> vantagens para o caso da bacia do rio Itapecuru como:<br />
a) Propiciar maior permanência da água na bacia promovendo sua movimentação em maior volume, em todo seu<br />
ciclo, seja aumentando sua superfície <strong>de</strong> contato com a atmosfera e solo, obviamente a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vapor<br />
d’água aumentará consubstancialmente bem como as recargas dos mananciais superficiais e freáticos;<br />
b)Aumentar a Umida<strong>de</strong> Relativa do Ar da região melhorando o grau <strong>de</strong> conforto das populações, bem como<br />
contribuir para minimizar as chances <strong>de</strong> incêndios na região, sobretudo nas margens ciliares e áreas adjacentes a<br />
projetos, on<strong>de</strong> a vegetação permanecer ver<strong>de</strong> pelo ciclo vivo <strong>de</strong> água e nutrientes dispensados;
94<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
c) Retorno constante da água a seu curso d’água anterior, filtrada naturalmente pelo sistema planta, solo,<br />
evaporação e evapotranspiração;<br />
d)Favorecer o crescimento da fauna ciliar, animais que <strong>de</strong>pendam da margem ciliar para sua sobrevivência e<br />
interação naquele nicho ecológico, habitat misto entre vegetação água, abrigo e oferta <strong>de</strong> alimento natural.<br />
e) Minimizar o processo <strong>de</strong> assoreamento através da interposição <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura consorciados a<br />
agricultura irrigada, utilizando os efluentes como base para a adubação agrícola e forma <strong>de</strong> filtragem e<br />
<strong>de</strong>volução <strong>de</strong> água pura aos mananciais superficiais e freáticos.<br />
A proposta que utiliza a agricultura irrigada, em substituição à lagoa <strong>de</strong> <strong>de</strong>puração, canais, viveiro <strong>de</strong><br />
fundo rebaixado, on<strong>de</strong> os efluentes ficam <strong>de</strong>positados po<strong>de</strong> acumular problemas ao aquicultor, ao invés <strong>de</strong> lucros<br />
com sua utilização econômica sustentável.<br />
REFLEXOS DAS ATIVIDADES ANTRÓPICAS<br />
Durante expedições, constatou-se que o rastro <strong>de</strong> <strong>de</strong>vastação tem se agravado, principalmente com a<br />
<strong>de</strong>masiada quantia <strong>de</strong> carvoarias clan<strong>de</strong>stinas e criminosas que têm atingido gran<strong>de</strong>s proporções, capazes <strong>de</strong><br />
manter as guseiras em pleno funcionamento, sem nenhum programa <strong>de</strong> reflorestamento promovendo um<br />
crescente número <strong>de</strong> aluviões. Nas terras do alto curso encontram-se as maiores carvoarias do Estado, nas<br />
adjacências do Parque Estadual do Mirador, acentuando-se no município <strong>de</strong> Colinas até o município <strong>de</strong> Caxias,<br />
on<strong>de</strong> o misto <strong>de</strong> chapadões e cerrado está ce<strong>de</strong>ndo lugar às voçorocas e <strong>de</strong>sertos <strong>de</strong> areias quartzosas, que<br />
facilmente são conduzidas aos córregos e ao curso principal do rio Itapecuru, promovendo assoreamentos <strong>de</strong><br />
gran<strong>de</strong>s proporções, transformando seu curso navegável em armadilhas para a prática da navegação (IBGE,<br />
1998). Todo o curso do rio Itapecuru e seus afluentes, alguns como o Balseiro e o Itapecuruzinho, já agonizam<br />
com seus regimes modificados, só se mantendo com <strong>de</strong>flúvio no período chuvoso.<br />
Observou-se também que muitas áreas que outrora serviram como criadouros naturais (lagos naturais),<br />
encontram-se assoreadas e invadidas pela cultura <strong>de</strong> forrageiras para bovinos ou agricultura, penalizando todo<br />
um ecossistema aquático conjuntamente à sócio-economia da área em discussão.<br />
Baseados nos conceitos <strong>de</strong> sustentabilida<strong>de</strong> chamam a atenção em especial para o processo <strong>de</strong>vastador e<br />
inconseqüente que o <strong>de</strong>smatamento vem submetendo a bacia do rio Itapecuru, tanto para fins <strong>de</strong> expansão <strong>de</strong><br />
suas fronteiras agropecuárias como na produção <strong>de</strong> carvão vegetal, e <strong>de</strong>ixando sua marca <strong>de</strong>soladora,<br />
principalmente por se tratar <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> fragilida<strong>de</strong> como o cerrado on<strong>de</strong> nasce o rio Itapecuru e alguns<br />
afluentes outrora perenes (IBGE, 1998).<br />
Todo esse rol <strong>de</strong> evidências é preocupante, com relação ao comprometimento da qualida<strong>de</strong> e/ou escassez<br />
completa da água na bacia do rio Itapecuru que pelos aspectos geológicos e antrópicos.<br />
No último século, on<strong>de</strong> no início <strong>de</strong>finia-se que os oceanos e outros recursos naturais eram inesgotáveis,<br />
em suas últimas décadas as autorida<strong>de</strong>s científicas, técnicos, organizações governamentais e não<br />
governamentais, visualizaram um outro cenário on<strong>de</strong> se constatou o contrário, daí a gran<strong>de</strong> preocupação com o<br />
futuro do planeta. As preocupações com os dias futuros tomaram direção rumo à preservação, <strong>de</strong>ixando o
95<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
homem <strong>de</strong> ser apenas um extrativista poluidor e transformando-se em extrativista conservacionista e produtor<br />
conservador, muito menos poluidor (AGENDA 21, 2000).<br />
No <strong>de</strong>correr dos anos a legislação tem avançado no sentido <strong>de</strong> conscientizar e cobrar a aplicabilida<strong>de</strong> da<br />
mesma, coibindo abusos contra agressões à natureza. Segundo documento elaborado em 1987, Nosso Futuro<br />
Comum, pela Comissão Mundial <strong>de</strong> Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, a pesca e a aqüicultura são<br />
ativida<strong>de</strong>s consi<strong>de</strong>radas estratégicas para a segurança alimentar sustentável do planeta, pois estas são capazes <strong>de</strong><br />
fornecer proteínas e gerar empregos, (AGENDA 21, 2000).<br />
Constitui-se em fato inusitado a apropriação <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> hidroelétricas, cercados pelos antigos<br />
proprietários, já in<strong>de</strong>nizados, proibindo o acesso a usuários da água dos cursos públicos e o <strong>de</strong>sse<strong>de</strong>ntamento <strong>de</strong><br />
animais, fato público sem que as autorida<strong>de</strong>s tomem providências.<br />
O planejamento <strong>de</strong> ações econômicas tem âncora nos adventos ecológicos para que possam ter<br />
sustentabilida<strong>de</strong>. A aqüicultura é uma prática produtiva <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do meio ambiente, portanto é uma ativida<strong>de</strong><br />
que requer sustentabilida<strong>de</strong> em todas as etapas e fases <strong>de</strong> sua gestão, <strong>de</strong>ixando <strong>de</strong> lado a retórica compartilhada,<br />
tanto pelos setores envolvidos na dilapidação dos recursos naturais para a produção quanto por aqueles<br />
envolvidos nos atuais sistemas <strong>de</strong> conservação e gestão ambiental (AGENDA 21, 2000; ESTEVES, 1998;<br />
CUNHA e GUERRA, 1996; TUCCI, 2001).<br />
SOLOS DAS ÁREAS SELECIONADAS COM DECLIVIDADE DE 0 A 3%<br />
O processo metodológico utilizando-se o SIG, como ferramenta para seleção <strong>de</strong> áreas com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s<br />
nos intervalos 0 a 3%, classes <strong>de</strong> solos predominantes, suas características físicas e químicas, já promove uma<br />
<strong>de</strong>finição segura das áreas como se verifica nas <strong>de</strong>scrições <strong>de</strong> Prado (2003), IBGE (1992); e o novo Sistema<br />
Brasileiro <strong>de</strong> Classificação <strong>de</strong> Solos serviu <strong>de</strong> base para a seleção <strong>de</strong> áreas com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 0 a 3%.<br />
PONDERAÇÃO DE CRITÉRIOS PARA SELEÇÃO DE ÁREAS PROPÍCIAS À AQÜICULTURA<br />
O diagnóstico avaliou por meio do SIG, as áreas potenciais para o aproveitamento no cultivo <strong>de</strong><br />
organismos aquáticos, apontadas as vocações e os principais entraves para o <strong>de</strong>senvolvimento das ativida<strong>de</strong>s<br />
aquícolas na bacia do rio Itapecuru.<br />
A disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> áreas propícias para instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura inseridas na bacia do rio<br />
Itapecuru é muito gran<strong>de</strong>, extraídas do cruzamento <strong>de</strong> mapas geoprocessados que contemplou os seguintes itens:<br />
a) Uso e ocupação da terra, visualizado pela pon<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> classe <strong>de</strong> uso como agropecuária explorada ou não.<br />
Nesse item foi visualizada toda a extensão com variações <strong>de</strong> <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 0-3%, cujo critério para seleção <strong>de</strong><br />
áreas para instalação <strong>de</strong> projetos é recomendado o intervalo <strong>de</strong> <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> que varia <strong>de</strong> 0 até 5%, pressupondose<br />
que quanto maior a amplitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> variação <strong>de</strong> <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> maior o custo e mais limitação quanto à extensão<br />
dos viveiros e a<strong>de</strong>quação do layout <strong>de</strong> instalação, (BITTENCOURT; TORRES, 1983; PROENÇA;<br />
BITTENCOURT, 1994; ONO; KUBITZA, 2002; WOYNAROVICH; HÓRVAT, 1983).<br />
Nas classes selecionadas nessa área topográfica estão inseridas as áreas com restrições legais que são:
96<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
a) APP - Áreas <strong>de</strong> Preservação Permanente, constituídas por margens ciliares até 100m, nascentes e áreas<br />
inundáveis anualmente (lagos marginais); APA-Áreas <strong>de</strong> Preservação Ambiental, constituídas pelo Parque<br />
Estadual do Mirador no alto curso do Rio Itapecuru e do Upaon-Açu/ Miritiba/ Alto Preguiças; Reserva Indígena<br />
Kanela na área mais alta da margem direita do rio Alpercatas; Ferrovias, Rodovias, Linhas <strong>de</strong> Transmissão e<br />
Áreas restritas (urbanas, entorno dos centros urbanos até 10 Km, praias, restingas e manguezais).<br />
b) Pon<strong>de</strong>ração da disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água enquadrada pela resolução CONAMA nº 20/86 (II-1, III-2, VI-5 e<br />
VIII-7) quanto à oferta e distância da fonte abastecedora à área do projeto. Nesse estudo foram consi<strong>de</strong>rados os<br />
intervalos com valores úteis a partir <strong>de</strong> 100m, isso <strong>de</strong>vido à restrição <strong>de</strong> uso da APP como área <strong>de</strong> produção só<br />
permitindo sua avaliação para investimentos na aqüicultura as áreas após os 100m da margem <strong>de</strong> áreas<br />
amparadas pela legislação.<br />
Nas referências bibliográficas realizadas não se constatou a <strong>de</strong>manda e uso real da água na aqüicultura,<br />
no Brasil, ferramenta indispensável para o planejamento da ativida<strong>de</strong>, principalmente no tocante ao cultivo<br />
sustentável, on<strong>de</strong> a fonte explorada possa ser utilizada sem que a quantida<strong>de</strong> e qualida<strong>de</strong> sejam comprometidas,<br />
principalmente por sua utilização pelas civilizações futuras. A utilização da água doce no Brasil, on<strong>de</strong> a<br />
aqüicultura fica subentendida como uso agrícola, que para qualquer ativida<strong>de</strong> com chances <strong>de</strong> visualização <strong>de</strong><br />
ascensão não <strong>de</strong>ve passar <strong>de</strong>spercebida ou a ativida<strong>de</strong> é insignificante para constar na estatística ou é tão<br />
<strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nada que não consta como ativida<strong>de</strong> econômica <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte dos recursos hídricos.<br />
A composição econômica <strong>de</strong> projetos passa pelo abastecimento e drenagem, ou seja, pela circulação<br />
diária <strong>de</strong> volumes <strong>de</strong>terminados pelo sistema <strong>de</strong> cultivo, portanto as categorias <strong>de</strong> distância do recurso hídrico ou<br />
fonte <strong>de</strong> abastecimento é <strong>de</strong> fundamental importância no seu custo final no transporte <strong>de</strong> água ao <strong>de</strong>stino (ONO;<br />
e KUBITZA, 2002; PROENÇA; BITTENCOURT, 1994).<br />
• A infra-estrutura constitui um conjunto <strong>de</strong> classes que envolvem bens físicos como: acesso, oferta <strong>de</strong><br />
energia elétrica, existência <strong>de</strong> apoio e centros consumidores com suas respectivas <strong>de</strong>mandas. Esse item é<br />
superlativo para a instalação <strong>de</strong> projetos econômicos, principalmente <strong>de</strong> aqüicultura que exigem essas condições<br />
para seu funcionamento sustentável, assim <strong>de</strong>terminando o local e seu dimensionamento pautado segundo o<br />
mercado. Ao analisar-se esse item <strong>de</strong>talhadamente, fica implícito que ao se tratar do conjunto <strong>de</strong> itens que<br />
compõem a infra-estrutura <strong>de</strong> uma localida<strong>de</strong>, precisa-se lançar mão <strong>de</strong> outros dados, que para esse diagnóstico<br />
não foram consi<strong>de</strong>rados essenciais como: linhas <strong>de</strong> crédito, instituições financiadoras, bens sociais, infraestrutura<br />
<strong>de</strong> comercialização nos centros comerciais e segurança para operacionalizar o empreendimento.<br />
A assistência técnica é uma ferramenta a qual o produtor não <strong>de</strong>ve consi<strong>de</strong>rar apenas nos momentos <strong>de</strong><br />
instalação do projeto, porque a aplicabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> tecnologias no andamento do projeto são tão indispensáveis<br />
quanto o layout <strong>de</strong> instalação, constituindo-se <strong>de</strong> etapas distintas, mas inter<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (HUET, 1983).<br />
• Aspecto climático, composto por um conjunto <strong>de</strong> eventos ecológicos que permitem uma visualização <strong>de</strong><br />
oferta <strong>de</strong> água num <strong>de</strong>terminado ciclo, assim prever sua oferta máxima e escassez. Desses aspectos o <strong>de</strong> maior<br />
significado para a aqüicultura é a temperatura, que além <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar o metabolismo da gran<strong>de</strong> maioria dos
97<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
organismos utilizados no cultivo, seleciona espécies por região e estabelece formas <strong>de</strong> manejo diferenciado para<br />
cada faixa <strong>de</strong> oscilação (HUET, 1983; KUBITZA, 2000; ONO; KUBITZA, 2002).<br />
SELEÇÃO DE ÁREAS COM DECLIVIDADE DE 0 A 3% ATÉ 10 KM DOS MANANCIAIS<br />
Nessa pon<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> classe <strong>de</strong> solo quanto à tipologia e a<strong>de</strong>quação para sua utilização na aqüicultura<br />
foram classificadas 9.121,93 km², no mapa final (Figura 2), com os seguintes conceitos:<br />
Excelente, classe <strong>de</strong> solo com um índice <strong>de</strong> argila elevado, o Gleissolo cotem teores <strong>de</strong> argila <strong>de</strong> alta a<br />
muito alta, somou 86,8 Km² <strong>de</strong> área, requer mo<strong>de</strong>ração pela assistência técnica na seleção do local inserido nessa<br />
classe <strong>de</strong> solo para evitar instalação <strong>de</strong> projetos em áreas com teores <strong>de</strong> argila muito elevados;<br />
• Muito bom, constituídos por solos <strong>de</strong> boa capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> compactação e retenção <strong>de</strong> água. É uma<br />
área composta por <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> suave aparecendo elevações fora da <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> em estudo, não figurando no<br />
mapa por serem pequenas em relação à escala usada, exigindo estudos <strong>de</strong>talhados para seleção final <strong>de</strong> áreas<br />
para instalação <strong>de</strong> projetos, essa classe totaliza 3.518,20 Km²;<br />
• Bom, constituída por solos <strong>de</strong> classe média a argilosa, apresentando longos trechos com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong><br />
suave e suporta ótima compactação, totaliza 486,13 Km²;<br />
• Regular, área com restrição <strong>de</strong> solo quanto textura grossa e alta porosida<strong>de</strong>, exigindo uma acurada<br />
análise técnica localizada para <strong>de</strong>terminação <strong>de</strong> áreas propícias a instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura,<br />
totaliza 1.228,30 Km²;<br />
• Ruim, constituem as áreas com muitas restrições técnicas, apesar <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r ser utilizada na<br />
aqüicultura, sob análise criteriosa encontram-se áreas <strong>de</strong> <strong>de</strong>posição, planas e argilosas, com elevados níveis<br />
<strong>de</strong> saturação <strong>de</strong> água, me<strong>de</strong> 2.375,90 Km²;<br />
• Com limitações técnicas, são áreas contínuas constituídas por variadas <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s, on<strong>de</strong> se<br />
encontram gran<strong>de</strong>s áreas com solos impermeáveis e <strong>de</strong> topografia favorável e suportam compactação, muito<br />
bom para instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura, me<strong>de</strong> 1.426,6 Km²;<br />
• Inapta, Constituídas por areias quartzosas, muito permeáveis e não permitem compactação, me<strong>de</strong>m<br />
333,21 Km².<br />
Apesar da conceituação mais clássica da aqüicultura convencional, há <strong>de</strong> se convir que nos dias atuais a<br />
tipologia <strong>de</strong> solos não é fator limitante para a instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura, o que limita nesse caso é sua<br />
economicida<strong>de</strong>. No entanto, da área selecionada, prognosticou-se que a ativida<strong>de</strong> aqüícola atingirá um ótimo<br />
grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento sustentável com a utilização <strong>de</strong> 10% <strong>de</strong>sse total.
98<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 2 – Mapa da bacia do Rio Itapecuru, com <strong>de</strong>marcação das áreas para a aqüicultura.
PERSPECTIVAS DA ATIVIDADE<br />
99<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Com o incremento da aqüicultura sustentada na bacia do rio Itapecuru, serão eliminados os<br />
<strong>de</strong>smatamentos ciliares, haverá um aumento na oferta <strong>de</strong> alimentos protéicos, aumento da lâmina d’água e maior<br />
exposição para evaporação acrescendo a umida<strong>de</strong> relativa do ar, mantendo recargas constantes dos mananciais,<br />
minimização dos riscos <strong>de</strong> queimadas, e um maior nível <strong>de</strong> inclusão social.<br />
Muito há <strong>de</strong> ser conquistado para que a socieda<strong>de</strong> da bacia do rio Itapecuru possa ter dignida<strong>de</strong> e<br />
respeito na distribuição <strong>de</strong> bens e direitos, na ocupação humanitária e uso da terra, à exploração racional e<br />
<strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong> seus recursos naturais, imputados pelo autoritarismo <strong>de</strong> sua colonização até hoje.<br />
O cruzamento dos mapas temáticos da área, mostrados no mapa final, <strong>de</strong>monstraram uma complexida<strong>de</strong><br />
exacerbada <strong>de</strong> ações em toda a bacia hidrográfica, composta por itens satisfatórios aos requisitos básicos para o<br />
implemento da aqüicultura, mas com dispersões relevantes, <strong>de</strong>ssa forma as áreas do alto curso são pequenas não<br />
figurando na escala gráfica admitida nesse trabalho. No médio curso do rio Itapecuru, existem muitas restrições<br />
técnicas principalmente na convergência <strong>de</strong> várias outras ações promotoras da elevação do custo <strong>de</strong> produção<br />
como (infra-estrutura, assistência técnica e insumos básicos para a aqüicultura), tornando proibitiva a<br />
implementação <strong>de</strong> uma aqüicultura que não seja a extensiva ou semi-intensiva. No baixo curso, as áreas<br />
oferecem melhores chances para o sucesso econômico <strong>de</strong> empreendimentos com menor custo <strong>de</strong> produção pela<br />
sinergia <strong>de</strong> ações que promovem o <strong>de</strong>senvolvimento da ativida<strong>de</strong> com sustentabilida<strong>de</strong>.<br />
A bacia do rio Itapecuru oferece em toda sua extensão uma imensa área com especial vocação para o<br />
aproveitamento hidroagrícola, on<strong>de</strong> a aqüicultura é uma ativida<strong>de</strong> que comporta oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> emprego e<br />
renda, aliada à gran<strong>de</strong> necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> oferta <strong>de</strong> proteína para o combate da <strong>de</strong>snutrição e oportunizar essa<br />
socieda<strong>de</strong> ao convívio igualitário aos que sobrevivem com dignida<strong>de</strong>.<br />
A aqüicultura familiar e a associativa são as formas a serem implementada com maiores chances <strong>de</strong><br />
sustentabilida<strong>de</strong> na bacia do rio Itapecuru, pelo fato <strong>de</strong> reunirem excluídos em torno <strong>de</strong> uma ativida<strong>de</strong> capaz <strong>de</strong><br />
reparar parcela dos danos causados a eles, com o norteamento <strong>de</strong> políticas capazes <strong>de</strong> sintonizar ações<br />
sinergéticas da atual realida<strong>de</strong> da socieda<strong>de</strong> que nela habita, respeitando a legislação pertinente; aglutinando<br />
chances <strong>de</strong> atenção pelos programas sociais nos diversos níveis, por fim favorecer a eqüida<strong>de</strong> espacial, cultural<br />
e, sobretudo acessar essa categoria ao patamar mínimo <strong>de</strong> justiça social.<br />
Com a instalação <strong>de</strong> projetos em 10% da área selecionada para aqüicultura, haverá uma produção e<br />
oferta <strong>de</strong> pescado na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 273.660 t/ano projetando-se uma produção <strong>de</strong> 3 t.ha/ano.<br />
É <strong>de</strong> fundamental importância para a vitalida<strong>de</strong> da bacia do rio Itapecuru a criação <strong>de</strong> uma reserva<br />
ecológica em toda a bacia do rio Alpercatas pela sua representação do seu aporte fluvial, fragilida<strong>de</strong> dos solos e<br />
facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> implementação <strong>de</strong> um plano <strong>de</strong> manejo a<strong>de</strong>quado para sua preservação total ou parcial.<br />
Se constitui em priorida<strong>de</strong> para a preservação da água na bacia do rio Itapecuru, a efetivação <strong>de</strong> um<br />
programa <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> barragens pelo governo do Estado do Maranhão, em toda a bacia, respeitado a<br />
legislação vigente e as peculiarida<strong>de</strong>s locais, aproveitando todas as rodovias como forma <strong>de</strong> contenção, rios e
100<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
riachos <strong>de</strong> forma a facilitar o acesso da água à aqüicultura, irrigação, fornecimento <strong>de</strong> energia elétrica e<br />
<strong>de</strong>sse<strong>de</strong>ntamento <strong>de</strong> animais <strong>de</strong> forma sustentável.<br />
REFERÊNCIAS<br />
AGENDA 21. Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Brasília, 2000, 598p.<br />
ALMEIDA, F. G. A estrutura fundiária como mais uma variável a ser consi<strong>de</strong>rado no processo <strong>de</strong> erosão dos<br />
solos, Tese (Doutorado), UFRJ, 1997, 218 p.<br />
ARANA, L. A. V. Aqüicultura e <strong>de</strong>senvolvimento sustentável: subsídios para a formulação <strong>de</strong> políticas <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>senvolvimento da aqüicultura brasileira, Florianópolis: Ed. da UFSC, 1999. 310p.<br />
BALLESTER, M.R.V. et al. Desenvolvimento Planejado (utilização do solo) da Estação Ecológica <strong>de</strong> Jataí.<br />
ESTEVES, F.A. (ed), Oecologia Brasiliensis: Estrutura Funcionamento e Manejo <strong>de</strong> Ecossistemas Brasileiros,<br />
v.1, p.511-522, 1995.<br />
BITTENCOURT, P. R.L.; TORRES, R. Aspectos <strong>de</strong> engenharia na implantação <strong>de</strong> estações <strong>de</strong> piscicultura,<br />
SUDEPE, Brasília, 1983, 196p.<br />
BIZERRA, A. S. Contribuição a geomorfologia da bacia do rio Itapecur. Dissertação <strong>de</strong> Mestrado/UNESP, Rio<br />
Claro, SP. 1984.<br />
BURROUGH, P. A. Principles of geographical information systems for land resources assessment. Oxford:<br />
Claredonn Press, 1987.<br />
COWEN, D. J. GIS versus CAD versus DBMS: what are the differences, Photogrammetric Engineering and<br />
Remote Sensing, v. 54, n. 11, p. 1551-1554, 1988.<br />
CUNHA, S. B.; GUERRA, A. J. T. Geomorfologia: exercícios, técnicas e aplicações, Rio <strong>de</strong> Janeiro: Ed.<br />
Bertrand Brasil, 1996. 245p.<br />
EGENHOFER, M. Interaction with Geographic Information Systems via Spatial Queries. Journal of Visual<br />
Languages and Computing, v.1, n.4, p. 389-413, 1990.<br />
ESTEVES, F. A. Fundamentos <strong>de</strong> Limnologia (2ª ed.) Rio <strong>de</strong> Janeiro: Interciência, 1998. 602p.<br />
FAO. The State of World’s Fisheres and Aquaculture 2002. FAO Information Divison. Rome, Italy, 2003.<br />
Disponível em: http://www.fao.org/sof/sofia/in<strong>de</strong>x_en.htm. Acesso em 13 março 2003.<br />
GOODCHILD, M.; PARKS, B.; STEYART, L. Environmental Mo<strong>de</strong>lling with GIS, Oxford: Oxford University<br />
Press, 1993.<br />
HUET, M. Tratado <strong>de</strong> Piscicultura, Madrid: Mundi-Prensa, 1983, 753p.<br />
IBAMA. Estatística <strong>de</strong> pesca. Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Meio Ambiente. Brasil: gran<strong>de</strong>s regiões e unida<strong>de</strong>s da<br />
fe<strong>de</strong>ração. Brasília: IBAMA, 2002. 17p.
101<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
IBGE, Subsídios ao Zoneamento Ecológico-econômico da Bacia do Rio Itapecuru-MA., Diretrizes Gerais para<br />
Or<strong>de</strong>namento Territorial, Primeira Divisão <strong>de</strong> Geociências do Nor<strong>de</strong>ste, Rio <strong>de</strong> Janeiro: IBGE, 1998, 186p.<br />
INSTITUTO DO HOMEM, S.O.S. Itapecuru, São Luís: Instituto do Homem, 1992, 92p.<br />
JORNAL NACIONAL, IDH-Brasil,http://jornalnacional.globo.com, 2003, 02/10/2003.<br />
KOROLEFF, F. Determination of nutrients. In: GRASSHOFF, G. (ed.). Methods of seawater analysis, New<br />
York: Varlag Chemie Weinhein, 1976. p. 117-181.<br />
KUBITZA, F. Tilápia: Tecnologia e planejamento na produção comercial. Jundiaí, 2000. 285p.<br />
NISHIYAMA, L. Procedimentos <strong>de</strong> mapeamento geotécnico como base para avaliações ambientais e do meio<br />
físico, em escala 1:100.000: aplicação no município <strong>de</strong> Uberlândia-MG, Tese (Doutorado), UFSC, São Carlos,<br />
1998.<br />
ONO, E. A.; KUBITZA, F. Construção <strong>de</strong> viveiros e <strong>de</strong> estruturas hidráulicas para o cultivo <strong>de</strong> peixes,<br />
Panorama da Aqüicultura, v. 12, n. 74, 2002.<br />
PIRES, J. S. R.; SANTOS, J. E. Bacias Hidrográficas, Integração entre o meio ambiente e <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Ciência Hoje, v.19, n. 110, p. 40-45, 1995.<br />
PRADO, H. Solos do Brasil: gênese, morfologia, classificação, levantamento e manejo, 3ª ed. Revisada e<br />
ampliada, Piracicaba, 2003. 275p.<br />
PEREIRA, J.A.; SILVA, A.L.; CORREIA, E.S. Situação atual da aqüicultura na região Nor<strong>de</strong>ste. In: VALENTI,<br />
W.C. et al. (Eds.) Aqüicultura no Brasil: Bases para um <strong>de</strong>senvolvimento sustentável. Brasília: CNPq/MCT,<br />
2000. p. 267-288,<br />
PETRI, S.; FÚLFARO, V. J. Geologia do Brasil. São Paulo: Editora da USP, 1988. 631p.<br />
PROENÇA, C. E. M.; BITTENCOURT, P. R. L. Manual <strong>de</strong> Piscicultura Tropical, Brasília: IBAMA, 1994.<br />
195p.<br />
RANA, K. J. Gui<strong>de</strong>lines on the collection of structural aquaculture statistics. Supplement to the Programme for<br />
the world census of agriculture 2000. FAO Statistical Development Series, 5b. Roma: FAO, 1997. 56p.<br />
SACHS, I. Estratégias <strong>de</strong> transição para o século XXI. In: BURSTYN, M. (Ed.), Para pensar o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
sustentável, Brasília: Brasiliense, 1993. p 29-56.<br />
SAITO, C. H. et al. Dados Ambientais em Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica: da aglutinação à <strong>de</strong>snaturação, 4º<br />
CONGRESSO DE ECOLOGIA DO BRASIL, Anias... Belém, PA, p. 23p.1998.<br />
SMITH, T. R. et al. Reueriments and Principles for the Implementation and Constrution of Large Scale<br />
Geographical Information Systems. International Journal of Geographical Information Systems, 1987. 1 (1): 13-<br />
31.
102<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
STAR, J; ESTES, J., Geographic Information systems: an introduction. Prentice-Hall: Englewoord Cliffs, 1990.<br />
303p.<br />
TROTTER, C. M. Remotelly sensed dada as na information source for GIS in natural resource management: a<br />
review. International Journal of Geographical Information Systems, v. 5, n.2, p: 225-239. 1991<br />
TUCCI, C. E. M., Hidrologia, Porto Alegre: Ed. UFRGS, ABRH, 2001. 943p.<br />
VALDERRAMA, J. C., The simultaneous analysis of total nitrogen and total phosphorus in natural waters.<br />
Marine Chemistry, n. 10, p. 109-122. 1981.<br />
VALENTI, W. C., Aqüicultura no Brasil: bases para um <strong>de</strong>senvolvimento Sustentável, Brasília: CNPq/MCT,<br />
2000. 399p.<br />
WOYNAROVICH, E.; HÓRVATH, L., A propagação Artificial <strong>de</strong> Peixes <strong>de</strong> águas tropicais: manual <strong>de</strong><br />
extensão, Brasília: FAO/CODEVASF/CNPq, 1983. 220p.�
103<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
FONTES NATURAIS DE CAROTENÓIDES DE INTERESSE PARA A<br />
AQÜICULTURA: ANÁLISE COMPARATIVA DA EFICIÊNCIA DE<br />
MÉTODOS DE EXTRAÇÃO<br />
Renata PASSOS (renatapassos1978@yahoo.com.br)<br />
Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Santa Catarina.<br />
Danilo G. MORIEL (danilomoriel@gmail.com)<br />
Laboratório <strong>de</strong> Enzimologia e Tecnologia <strong>de</strong> Fermentações, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Paraná.<br />
Francisco LAGREZE (flagreze@hotmail.com)<br />
Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Santa Catarina.<br />
Luisa GOUVEIA (luisa.gouveia@ineti.pt)<br />
DER-Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Biomassa, INETI, Lisboa, Portugal.<br />
Marcelo MARASCHIN (m2@cca.ufsc.br); Luis H. BEIRÃO (beirao@cca.ufsc.br)<br />
Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Santa Catarina.<br />
RESUMO<br />
Na Indústria Alimentar, em particular na Indústria Aqüícola, a utilização <strong>de</strong> corantes tornou-se uma<br />
ferramenta indispensável na conquista <strong>de</strong> mercado, garantindo uma melhoria no aspecto e no aumento<br />
da aceitação e valor econômico <strong>de</strong> seus produtos. A associação dos corantes naturais às vantagens<br />
nutricionais e sua obtenção por processos <strong>de</strong> baixo custo têm reduzido a utilização <strong>de</strong> pigmentos <strong>de</strong><br />
origem sintética na Indústria Alimentar em escala mundial. Desta forma, estudou-se a eficiência <strong>de</strong> três<br />
métodos <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> pigmentos carotenoídicos totais e astaxantina das microalgas Chlorella<br />
vulgaris e Haematococcus pluvialis e da levedura Phaffia rhodozyma, potencialmente utilizadas no<br />
arraçoamento <strong>de</strong> peixes e crustráceos em cativeiro. Dentro das biomassas estudadas, a microalga<br />
Haematococcus pluvialis revelou o maior conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais (20,79 mg <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s<br />
totais/g célula seca), enquanto a levedura Phaffia rhodozyma, apesar <strong>de</strong> um menor conteúdo <strong>de</strong><br />
pigmentos totais (0,22 mg/g célula seca), apresentou a maior relação entre a concentração <strong>de</strong><br />
astaxantina livre e o conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais (cerca <strong>de</strong> 87,5% dos carotenói<strong>de</strong>s presentes como<br />
astaxantina livre), quando comparada aos outros microorganismos (Chlorella vulgaris, 13,4%;<br />
Haematococcus pluvialis, 4,7%). A utilização <strong>de</strong> dimetilsulfóxido DMSO como solvente revelou ser a<br />
melhor estratégia para a extração dos carotenói<strong>de</strong>s <strong>de</strong>ntro dos métodos estudados.<br />
PALAVRAS-CHAVE: aqüicultura, carotenói<strong>de</strong>s, astaxantina.
ABSTRACT<br />
104<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
NATURAL SOURCES OF CAROTENOIDS OF INTEREST FOR AQUACULTURE:<br />
COMPARATIVE ANALYSIS OF THE EFFICIENCY OF EXTRATION METHODS<br />
In Food Industry, particularly Aquaculture Industry, the utilization of pigments has been an<br />
indispensable tool to market achievement, assuring an improvement on visual aspects, increase on<br />
acceptability and economic value of its products. The association of natural pigments to nutritional<br />
advantages and its acquisition by low cost processes have <strong>de</strong>creased the utilization of synthetic<br />
pigments in Food Industry, followed by a worldwi<strong>de</strong> ten<strong>de</strong>ncy for the reduction in the utilization of<br />
synthetic products on foods. Thus the pigmentation activity and pigment extraction efficiency of<br />
microalgae Chlorella vulgaris and Haematococcus pluvialis and the yeast Phaffia rhodozyma,<br />
potentially used on fish farming, were studied. The microalga Haematococcus pluvialis showed the<br />
highest total pigment content (20.79 mg of total carotenoids per gram of dried cells) while the yeast<br />
Phaffia rhodozyma, although showing the lowest total pigment content (0.22 mg/g dried yeast), showed<br />
the highest free astaxanthin content (87.5%) when compared to the other microorganisms studied<br />
(Chlorella vulgaris, 13.4%; Haematococcus pluvialis, 4.7%). The utilization of DMSO as solvent<br />
showed the highest efficiency on carotenoid extraction.<br />
KEYWORDS: aquaculture, carotenoids, astaxanthin.<br />
INTRODUÇÃO<br />
A aqüicultura é uma ativida<strong>de</strong> em crescente expansão <strong>de</strong>vido ao aumento da população mundial e<br />
ao <strong>de</strong>clínio <strong>de</strong> fontes pesqueiras naturais, associado ao consumo crescente <strong>de</strong> pescados em uma dieta<br />
equilibrada e saudável.<br />
Astaxantina é o principal pigmento utilizado na aqüicultura, especialmente na criação <strong>de</strong> salmões,<br />
trutas e crustáceos. Estes organismos não são capazes <strong>de</strong> sintetizar carotenói<strong>de</strong>s e, <strong>de</strong>sta forma, estes<br />
pigmentos <strong>de</strong>vem ser adicionados à sua alimentação para viabilizar sua incorporação e <strong>de</strong>posição na<br />
carne, conferindo a coloração característica da espécie e aumentando sua aceitação e valor <strong>de</strong> mercado.<br />
A <strong>de</strong>posição <strong>de</strong> astaxantina em trutas e salmões é muito mais eficiente, comparativamente a<br />
outros carotenói<strong>de</strong>s, sendo que a maioria dos criadores utiliza astaxantina sintética. Contudo, o custo<br />
<strong>de</strong>ste insumo é elevado, aliado ao fato <strong>de</strong> que suas formulações po<strong>de</strong>m conter configurações<br />
in<strong>de</strong>sejadas <strong>de</strong> astaxantina e seus <strong>de</strong>rivados, diminuindo sua eficiência na pigmentação (LATSCHA,<br />
1990 e TORRISEN, 1995). Adicionalmente, observa-se uma tendência mundial à utilização <strong>de</strong> fontes<br />
naturais <strong>de</strong> nutrientes e à exclusão <strong>de</strong> componentes sintéticos da ca<strong>de</strong>ia alimentar. Tais fatores têm<br />
aumentado o interesse em fontes naturais <strong>de</strong> astaxantina, sendo que diversas empresas têm investindo
105<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
na obtenção <strong>de</strong>ste pigmento, a partir <strong>de</strong> fontes naturais (MCCOY, 1999). Atualmente, as fontes naturais<br />
mais promissoras <strong>de</strong> astaxantina são a microalga Haematococcus pluvialis (GOUVEIA et al., 1996) e a<br />
levedura Phaffia rhodozyma (MORIEL, 2005).<br />
Neste contexto, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong> astaxantina a partir <strong>de</strong> fontes naturais com<br />
elevada produtivida<strong>de</strong>, sustentabilida<strong>de</strong> e baixo custo, aliado ao uso <strong>de</strong> processos eficientes <strong>de</strong> extração<br />
e quantificação daquele carotenói<strong>de</strong>, vem direcionando pesquisas nesta área, buscando incrementos <strong>de</strong><br />
qualida<strong>de</strong> e redução do custo do pescado produzido em cativeiro. Este trabalho avaliou a eficiência <strong>de</strong><br />
três métodos <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais e astaxantina, a partir <strong>de</strong> fontes naturais, a saber, as<br />
microalgas Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris e a levedura Phaffia rhodozyma.<br />
MICROORGANISMOS<br />
MATERIAL E MÉTODOS<br />
Amostras <strong>de</strong> biomassas das microalgas Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris foram<br />
gentilmente cedidas pelo Instituto Nacional <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong>, Tecnologia e Inovação (INETI – Portugal).<br />
Para o cultivo dos microrganismos e produção das biomassas <strong>de</strong> interesse, utilizou-se o protocolo e as<br />
condições experimentais <strong>de</strong>scritas por Gouveia et al. (2006).<br />
A levedura Phaffia rhodozyma (cepa ATCC 24202) utilizada nesse estudo foi cultivada<br />
conforme <strong>de</strong>scrito por (BONFIM, 1999) e cedida pela Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Paraná.<br />
Com o intuito <strong>de</strong> romper a pare<strong>de</strong> celular e otimizar a extração dos pigmentos <strong>de</strong> interesse,<br />
amostras (10g – peso seco) das biomassas em estudo foram trituradas em moinho <strong>de</strong> bolas (NV-TEMA,<br />
Labor-Scheibenschwingmuhle, T100), por 60 segundos. Alíquotas <strong>de</strong> 100 mg <strong>de</strong> amostra triturada <strong>de</strong><br />
cada microorganismo foram utilizadas, em três experimentos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, segundo o protocolo <strong>de</strong><br />
extração dos pigmentos carotenoídicos.<br />
EXTRAÇÃO<br />
Três diferentes métodos <strong>de</strong> extração foram testados:<br />
Método A: a extração e a <strong>de</strong>terminação do conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais nas amostras em estudo foi<br />
realizada conforme método <strong>de</strong>scrito por Lim et al. (2002), utilizando-se acetona (Merck, p.a.) como<br />
solvente. Sucintamente, a 100 mg <strong>de</strong> cada amostra foram adicionados 5 mL <strong>de</strong> acetona. A suspensão<br />
foi homogeneizada em agitador vortex e levada à centrifugação (10 krpm/5min). Os sobrenadantes<br />
foram coletados, seguido da repetição do procedimento <strong>de</strong>scrito até a exaustão da extração dos<br />
pigmentos carotenoídicos, condição esta confirmada através da espectrofotometria <strong>de</strong> varredura UV-
106<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Vis (λ = 474 ηm) dos sobrenadantes retirados. Ao final do processo <strong>de</strong> extração, os sobrenadantes<br />
coletados foram reunidos para efeitos <strong>de</strong> dosagem do teor <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais.<br />
Método AB: A cada 100 mg <strong>de</strong> amostra, adicionou-se concomitantemente 6 mL <strong>de</strong> acetona (Merck,<br />
p.a.) e 2 mL <strong>de</strong> bolas <strong>de</strong> vidro (Sigma, 425-600 microns), conforme <strong>de</strong>scrito previamente por Goveia et<br />
al. (1996), seguido <strong>de</strong> agitação (Vortex) por 1 min, com intervalos <strong>de</strong> repouso em banhos <strong>de</strong> gelo por<br />
20 minutos. Os sobrenadantes foram coletados, repetindo-se o procedimento <strong>de</strong> forma a extrair<br />
exaustivamente os pigmentos das biomassas. A confirmação da ausência <strong>de</strong>stes compostos nas<br />
amostras foi realizada através <strong>de</strong> especfotometria <strong>de</strong> varredura UV-Vis (λ = 474 nm), consi<strong>de</strong>rando-se<br />
finalizado o procedimento quando valores <strong>de</strong> absorbância inferiores a 0.05 foram obtidos.<br />
Método DMSO: A cada amostra (100mg) foram adicionados 2ml <strong>de</strong> dimetilsulfóxido (DMSO) (Merck,<br />
p.a.), incubando-se o material em condição <strong>de</strong> repouso por 30 minutos, a temperatura ambiente, sob<br />
atmosfera <strong>de</strong> N2, na ausência <strong>de</strong> luz. Subsequentemente, o material foi centrifugado (3,5 krpm/5 min),<br />
recuperando-se o sobrenadante e repetindo-se o processo <strong>de</strong> extração com o material precipitado. Aos<br />
sobrenadantes coletados foram adicionados 10 ml <strong>de</strong> solução <strong>de</strong> NaCl 20% e éter <strong>de</strong> petróleo (1:1). A<br />
fase etérea foi coletada e, sob a fase aquosa, 5 mL <strong>de</strong> éter <strong>de</strong> petróleo foram adicionados por mais duas<br />
vezes. A fase etérea foi filtrada em suporte contendo Na2SO4 anidro e completada ao volume final <strong>de</strong><br />
25ml (adaptado segundo Moriel, 2005). Todas as extrações foram repetidas até que cor da biomassa se<br />
esgotasse nos solventes extratores, conforme <strong>de</strong>scrito acima (Método AB – extração exaustiva). Todos<br />
os experimentos foram realizados em triplicata.<br />
QUANTIFICAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO<br />
Para a quantificação dos carotenói<strong>de</strong>s totais, os valores <strong>de</strong> absorbância a 477 ηm (métodos A e<br />
AB) e 474 ηm (método DMSO) foram obtidos em espectrofotômetro Shimadzu LC10. Para efeito <strong>de</strong><br />
cálculo da concentração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, utilizou-se a lei <strong>de</strong> Lambert-Beer para os métodos <strong>de</strong><br />
extração A e AB, on<strong>de</strong> o valor da absortivida<strong>de</strong> aplicado para a acetona foi <strong>de</strong> 219,8 L/g.cm, sendo o<br />
valor <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais expresso em equivalentes <strong>de</strong> astaxantina. Para o método DMSO, calculouse<br />
a concentração <strong>de</strong> astaxantina a partir <strong>de</strong> dados da literatura (ANDREWES e STARR, 1976, LIM et<br />
al., 2002) , utilizando-se a absortivida<strong>de</strong> específica para as xantofilas a 474 nm, i.e., A % 1<br />
1cm = 1.600.<br />
Para a i<strong>de</strong>ntificação dos pigmentos, os extratos foram filtrados (0.22 µm) e injetados (10µL) em<br />
sistema <strong>de</strong> cromatografia líquida <strong>de</strong> alta eficiência HP-1100, equipado com coluna C18 <strong>de</strong> fase reversa<br />
(Vydac 201TP54, 250mm, 4,6 mm ∅), e <strong>de</strong>tector UV-VIS (477 ηm). Metanol:acetonitrila (90:10 v:v)<br />
foi utilizado como fase móvel, em fluxo <strong>de</strong> 1ml/min. A i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> <strong>de</strong> astaxantina livre no perfil
107<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
cromatográfico foi confirmada através do tempo <strong>de</strong> retenção (min) <strong>de</strong> padrão cromatográfico (1 mg/ml,<br />
SIGMA, St. Louis – USA, 98% <strong>de</strong> pureza) e para efeitos <strong>de</strong> cálculo da concentração daquele pigmento,<br />
utilizou-se uma curva-padrão externa (r 2 = 0,99), construída a partir da área do pico <strong>de</strong> interesse (Rt<br />
4,59min), nas condições experimentais acima <strong>de</strong>scritas.<br />
Os dados obtidos foram sumarizados e analisados através do teste t-stu<strong>de</strong>nt (p < 0,05), com o auxílio do<br />
programa Statistica (v. 5.0). Tendo em vista o uso mais freqüente <strong>de</strong> Haematococcus pluvialis como<br />
suplemento carotenoídico da dieta <strong>de</strong> peixes e crustáceos cultivados em cativeiro, aquela microalga foi<br />
consi<strong>de</strong>rada como testemunha relativa, para efeito <strong>de</strong> análise estatística referente às biomassas fontes<br />
<strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s, enquanto o método A foi utilizado como referência comparativa para os tratamentos <strong>de</strong><br />
extração em estudo.<br />
RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />
As amostras das microalgas Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris apresentaram<br />
valores <strong>de</strong> conteúdos <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais superiores, comparativamente ao observado para a levedura<br />
Phaffia rhodozyma, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do protocolo <strong>de</strong> extração utilizado. Teores <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais<br />
superiores em 16 e 82 or<strong>de</strong>ns <strong>de</strong> magnitu<strong>de</strong> foram <strong>de</strong>tectados nas amostras <strong>de</strong> Chlorella vulgaris e<br />
Haematococcus pluvialis, em relação à amostra <strong>de</strong> P. rhodozyma, para os métodos <strong>de</strong> extração A e AB<br />
(Figura 1), respectivamente. Tal fato é <strong>de</strong> interesse, porque indica que o uso <strong>de</strong> bolas <strong>de</strong> vidro (Método<br />
AB) e a incubação das amostras em banho <strong>de</strong> gelo (20 min) não se mostraram vantajosos em relação à<br />
utilização do organosolvente isoladamente (Método A).<br />
O método DMSO, por sua vez, revelou o efeito positivo do pré-tratamento das amostras com<br />
aquele solvente aprótico nas condições experimentais utilizadas.A interação do DMSO com os<br />
componentes <strong>de</strong> pare<strong>de</strong> celular, corroborando para um relaxamento das estruturas macromoleculares<br />
associadas, é um fator que, em alguma extensão, parece favorecer a extração dos pigmentos<br />
carotenoídicos por organosolventes, i.e., éter <strong>de</strong> petróleo, conforme observado. De fato, o método<br />
DMSO mostrou-se como o <strong>de</strong> maior eficiência, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da espécie fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s.<br />
Adicionalmente, ressalta-se que a associação <strong>de</strong> DMSO e éter <strong>de</strong> petróleo: NaCl (1:1) revelou a<br />
existência <strong>de</strong> concentrações <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais altamente significativas (p < 0,01) em H. pluvialis<br />
(28785ug carotenói<strong>de</strong>s totais/g biomassa seca), comparativamente à C. vulgaris (4413ug carotenói<strong>de</strong>s<br />
totais/g biomassa seca) e P. rhodozyma (254ug carotenói<strong>de</strong>s totais/g biomassa seca). Estes resultados<br />
dão suporte à preferência <strong>de</strong> uso <strong>de</strong> H. pluvialis como fonte <strong>de</strong> compostos carotenoídicos em sistemas<br />
intensivos <strong>de</strong> cultivos <strong>de</strong> peixes e crustáceos, por exemplo.
Protocolo <strong>de</strong> extração<br />
Solvente A Solvente AB DMSO<br />
H. pluvialis<br />
P. rhodozyma<br />
C. vulgaris<br />
H. pluvialis<br />
P. rhodozyma<br />
C. vulgaris<br />
H. pluvialis<br />
P. rhodozyma<br />
C. vulgaris<br />
b A<br />
b A<br />
b A<br />
c B<br />
c A<br />
c B<br />
108<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000<br />
Figura 1 - Conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais (equivalentes <strong>de</strong> astaxantina) das microalgas Chlorella<br />
vulgaris e Haematococcus pluvialis e da levedura Phaffia rhodozyma, segundo o método <strong>de</strong><br />
extração utilizado (A, AB e DMSO). Valores médios <strong>de</strong> três experimentos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (*t-<br />
stu<strong>de</strong>nt, p< 0,05), segundo a espécie fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em estudo. Médias seguidas pela<br />
mesma letra minúscula não diferem entre si (p< 0,05), segundo a fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s. Valores<br />
médios não diferem entre si (p < 0,05) para os métodos <strong>de</strong> extração, quando acompanhados pela<br />
mesma letra maiúscula.<br />
A Figura 2 ilustra as distintas colorações das biomassas em estudo, previamente à extração dos<br />
pigmentos carotenoídicos.<br />
(a) (b) (c)<br />
Figura 2 - Amostras <strong>de</strong> biomassas liofilizadas dos microorganismos em estudo (a) Chlorella<br />
vulgaris, (b) Phaffia rhodozyma e (c) Haematococcus pluvialis, previamente à extração dos<br />
pigmentos carotenoídicos.<br />
a A<br />
a A<br />
microgramas carotenói<strong>de</strong>s totais/g biomassa seca<br />
a B*
109<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
As análises por cromatografia líquida revelaram a eficiência na extração <strong>de</strong> astaxantina livre (Rt =<br />
4.59min) em relação aos outros carotenói<strong>de</strong>s, nomeadamente sobre o β-caroteno, equinenona. As<br />
amostras <strong>de</strong> Haematococcus pluvialis apresentaram concentrações <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> 2,6%, 1,7% e<br />
4,7%, em relação ao conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, com a utilização dos métodos A, AB e DMSO,<br />
respectivamente. De forma similar ao observado para a extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, o método<br />
DMSO evi<strong>de</strong>nciou um rendimento superior (p < 0,05) à obtenção <strong>de</strong> astaxantina livre em relação aos<br />
<strong>de</strong>mais tratamentos em estudo.<br />
Para a microalga Chlorella vulgaris, valores <strong>de</strong> concentração <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> 13,1%<br />
(método A), 13,16% (método AB) e 13,4% (método DMSO) foram observados em relação ao conteúdo<br />
<strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, indicando que os três métodos apresentaram a mesma eficiência na extração<br />
daquele carotenói<strong>de</strong> em sua forma livre. No entanto, conteúdos <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> 87,5%, 52,7% e<br />
16,2% foram observados para os solventes A, AB e DMSO, respectivamente, para Phaffia rhodozyma.<br />
Este resultado é <strong>de</strong> interesse, uma vez que revela claramente a necessida<strong>de</strong> da escolha correta do(s)<br />
solvente(s) na <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> métodos extratores <strong>de</strong> alta eficiência. Dadas as características estruturais da<br />
pare<strong>de</strong> celular <strong>de</strong> Phaffia rhodozyma (BONFIM, 1999), é instigante especular que o efeito da acetona<br />
foi mais efetivo em relação aos <strong>de</strong>mais agentes extratores utilizados, no que concerne a uma maior<br />
permeabilização daquele componente celular, viabilizando um maior rendimento <strong>de</strong> extração <strong>de</strong><br />
astaxantina livre, portanto.<br />
Em resumo, os resultados <strong>de</strong>monstraram que para Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris o<br />
método DMSO foi o mais eficiente à extração <strong>de</strong> astaxantina livre (p < 0,05). De forma contrária, para<br />
as amostras da levedura Phaffia rhodozyma, o método A mostrou-se mais seletivo à extração <strong>de</strong><br />
astaxantina livre. Em função disto, recomenda-se a <strong>de</strong>terminação prévia da eficiência <strong>de</strong> sistemas<br />
extratores, quando se objetiva alcançar altos rendimentos e seletivida<strong>de</strong> na obtenção dos pigmentos <strong>de</strong><br />
interesse, haja vista a aparente especifica<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação <strong>de</strong>stes, segundo a fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em estudo.<br />
Tal abordagem é <strong>de</strong> interesse tecnológico dado ao alto valor agregado dos pigmentos carotenoídicos à<br />
ativida<strong>de</strong> aquícola e à saú<strong>de</strong> humana, bem como em processos <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação e avaliação do potencial<br />
<strong>de</strong> novas fontes daqueles metabólitos secundários.<br />
As microalgas em estudo apresentaram conteúdos altamente significativos (p < 0,01) <strong>de</strong><br />
astaxantina livre em relação à levedura Phaffia rhodozyma, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do solvente extrator<br />
utilizado (Figura 3). De forma interessante, <strong>de</strong>staca-se a similarida<strong>de</strong> <strong>de</strong> valores <strong>de</strong> conteúdo daquele<br />
pigmento nas amostras <strong>de</strong> microalgas observada para o método <strong>de</strong> extração AB, indicando claramente o<br />
efeito do sistema extrator sobre os resultados <strong>de</strong> rendimento do pigmento <strong>de</strong> interesse, a <strong>de</strong>speito das<br />
diferenças genéticas e bioquímicas (i.e., potencial produtivo intrínseco <strong>de</strong> cada genótipo) e <strong>de</strong>
110<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
tecnologia <strong>de</strong> produção das biomassas (i.e., sistemas <strong>de</strong> cultivo e manejo) entre aquelas amostras. Este<br />
resultado reforça a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> sistemas extratores a<strong>de</strong>quados, <strong>de</strong> baixo custo e <strong>de</strong> alto<br />
rendimento, em processos produtivos <strong>de</strong> compostos <strong>de</strong> alto valor agregado e <strong>de</strong> reconhecida<br />
importância tecnológica nas áreas da aqüicultura e da nutrição e saú<strong>de</strong> humana.<br />
Protocolo <strong>de</strong> extração<br />
Solvente A Solvente AB DMSO<br />
H. pluvialis<br />
P. rhodozyma<br />
C. vulgaris<br />
H. pluvialis<br />
P. rhodozyma<br />
C. vulgaris<br />
H. pluvialis<br />
P. rhodozyma<br />
C. vulgaris<br />
b B<br />
b A<br />
b A<br />
a B<br />
a B<br />
Figura 3 - Conteúdo <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> amostras <strong>de</strong> biomassas <strong>de</strong> microalgas Chlorella<br />
vulgaris e Haematococcus pluvialis e <strong>de</strong> levedura Phaffia rhodozyma, segundo o método <strong>de</strong><br />
extração DMSO, AB e A. Valores médios <strong>de</strong> três experimentos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (*t-stu<strong>de</strong>nt, p<<br />
0,05), segundo a espécie fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em estudo. Médias seguidas pela mesma letra<br />
minúscula não diferem entre si (p< 0,05), segundo a fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s. Valores médios não<br />
diferem entre si (p < 0,05) para os métodos <strong>de</strong> extração, quando acompanhados pela mesma<br />
letra maiúscula.<br />
Na análise dos resultados obtidos, é <strong>de</strong> interesse consi<strong>de</strong>rar que as discrepâncias observadas nos<br />
valores <strong>de</strong> concentração dos pigmentos carotenoídicos para os tratamentos em estudo po<strong>de</strong>m estar<br />
relacionadas, em alguma extensão, à ligação <strong>de</strong>stes compostos a macromoléculas tais como proteínas<br />
protoplasmáticas e polissacarí<strong>de</strong>os (CREMADES et al., 2003; VELU, 2003) nas amostras, dificultando<br />
sua extração. Além disto, a <strong>de</strong>gradação enzimática dos compostos carotenoídicos po<strong>de</strong> ser observada<br />
c A<br />
c C<br />
0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000<br />
micrograma astaxantina livre⁄g biomassa seca<br />
a A<br />
a A*
111<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
no <strong>de</strong>correr da etapa <strong>de</strong> moagem das amostras, ainda que o efeito <strong>de</strong>ste processo possa ser inibido com<br />
a utilização <strong>de</strong> agentes antioxidantes e/ou inibidores enzimáticos.<br />
O protocolo que consi<strong>de</strong>ra o pré-tratamento das amostras via adição <strong>de</strong> DMSO mostrou-se o mais<br />
eficiente para as amostras <strong>de</strong> microalgas, explicado pelo fato <strong>de</strong> que aquele solvente aprótico promove<br />
o inchamento das células dos microorganismos em estudo, favorecendo a extração dos carotenói<strong>de</strong>s<br />
com solventes orgânicos subseqüentemente (ANDREWES; STARR,. 1976) (Figura 1). No que<br />
concerne aos resultados obtidos para Phaffia rodozyma, entretanto, tal fato não foi observado,<br />
ressaltando-se que esta levedura apresenta uma pare<strong>de</strong> celular <strong>de</strong> espessura bastante proeminente, o que<br />
dificulta sobremaneira a extração dos pigmentos em análise (BONFIM, 1999).<br />
Outros métodos <strong>de</strong> extração vêm sendo estudados, com o intuito <strong>de</strong> maximizar a extração dos<br />
carotenói<strong>de</strong>s para posterior emprego alimentos, como é o caso do uso extração supercrítica associada<br />
ou não ao óleo <strong>de</strong> soja usado para a extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s das microalgas Chlorella vulgaris e<br />
Haematococcus pluvialis (GOUVEIA et al., 2007; NOBRE et al., 2006)<br />
Em estudo recente Nobre, et al., (2006), verificou que a extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
Haematococcus pluvialis com o uso do método AB mostrou resultados similares ao observado no<br />
presente trabalho para o conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais. No entanto, o método DMSO realizado neste<br />
estudo proporcionou ainda maiores percentagens <strong>de</strong> extração, cerca <strong>de</strong> 59,2% <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais<br />
extraídos da microalga Haematococcus pluvialis.<br />
Em outro estudo, Gouveia et al. (2006) apresenta concentrações na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 4mg/g <strong>de</strong><br />
carotenói<strong>de</strong>s totais na microalga Chlorella vulgaris, um valor bastante próximo aos resultados<br />
encontrados <strong>de</strong>ntro dos três métodos estudados: 4,4mg/g para o método DMSO, 3,4 mg/g para o<br />
método AB, e 3,8mg/g para o método A.<br />
PASSOS et al. (2006) recentemente publicaram um estudo on<strong>de</strong> se verificou a extração <strong>de</strong><br />
astaxantina por extração supercrítica e organosolventes na levedura Phaffia rhodozyma. Os autores<br />
concluíram que a biomassa moída em moinhos <strong>de</strong> bola e extraída com acetona apresentava o maior<br />
rendimento <strong>de</strong>ntro das técnicas estudadas.<br />
Adicionalmente, a extração supercrítica mostrou ter um rendimento em torno <strong>de</strong> 75% comparada<br />
com a extração com acetona. A extração supercrítica mostra-se ser uma alternativa eficaz, e <strong>de</strong> alta<br />
qualida<strong>de</strong>, uma vez que esta proporciona seus extratos <strong>de</strong> forma limpa, sem resíduos <strong>de</strong> solventes<br />
orgânicos.
CONCLUSÕES<br />
112<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do método <strong>de</strong> extração escolhido, a microalga Haematococcus pluvialis<br />
parece ser a biomassa <strong>de</strong> escolha no que concerne à quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, assim como <strong>de</strong><br />
astaxantina livre.<br />
Entre os métodos <strong>de</strong> extração estudados, o método DMSO mostra ser <strong>de</strong> maior eficiência para a<br />
obtenção <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais e astaxantina livre. Contudo, <strong>de</strong>vido à alta toxicida<strong>de</strong> inerente aquele<br />
composto, este método <strong>de</strong>ve ser reservado apenas para a quantificação em laboratório.<br />
Sugere-se para estudos futuros uma análise <strong>de</strong>talhada sobre a facilida<strong>de</strong> em obtenção das três<br />
biomassas em análise e a sua produção <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em larga escala, com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se obter a<br />
melhor relação custo-benefício entre os métodos e fontes <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s estudadas.<br />
AGRADECIMENTOS<br />
A Professora Dra. Tânia Bonfim por ter cedido a levedura Phaffia rhodozyma para este estudo.<br />
A CAPES pela Bolsa <strong>de</strong> Estudos <strong>de</strong> Renata dos Passos e <strong>de</strong> Danilo G. Moriel<br />
REFERÊNCIAS<br />
ANDREWES, A. G.; STARR, M. P. (3R, 3'R)-astaxanthin from yeast Phaffia rhodozyma.<br />
Phytochemistry, v. 15, p. 1009-1011, 1976.<br />
BONFIM, T. M. B. Produção <strong>de</strong> astaxantina pela levedura Phaffia rhodozyma (Phaffia rhodozyma) a<br />
partir <strong>de</strong> meios <strong>de</strong> cultura <strong>de</strong> baixo custo. Tese (Doutorado em Bioquímica) - Setor <strong>de</strong> Ciências<br />
Biológicas, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Paraná (UFPR). Curitiba, 1999. 159p.<br />
CREMADES, O. et al. Isolation and characterization of carotenoproteins from craysh (Procambarus<br />
clarkii). Food Chemistry, v. 82, p. 559 –566, 2003.<br />
GOUVEIA, L.; GOMES, E.; EMPIS, J. Potential use of microalgae (Chlorella vulgaris) in the<br />
pigmentation of rainbow trout (Oncorhynchus mykiss) muscle. Lebensmittel-Untersuchung und-<br />
Forschung, v. 202, p. 75-79, 1996.<br />
GOUVEIA, L. et al. Chlorella vulgaris and Haematococcus pluvialis biomass as colouring and<br />
antioxidant in food emulsions. European Food Research Technology, v. 222, p. 362–367, 2006.<br />
GOUVEIA, L. et al. Functional food oil coloured by pigments extracted from microalgae with<br />
supercritical CO2. Food Chemistry, v. 101, p 717-723, 2007.<br />
LATSCHA, T. Carotenoids - their nature and significance in animal feeds. Basel: Hoffman-La Roche<br />
Ltd, 110p. 1990.
113<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
LIM, G-B. et al. Separation of astaxanthin from red yeast Phaffia rhodozyma by supercritical carbon<br />
dioxi<strong>de</strong> extraction. Biochemical Engineering Journal, n. 11, p. 181-187, 2002.<br />
MCCOY, M. Astaxanthin market a hard one to crack. Chemical and Engineering News, v. 77, n. 14, p.<br />
15-17, 1999.<br />
MORIEL, D. G. et al. Effect of Feeding Methods on the Astaxanthin Production by Phaffia rhodozyma<br />
in Fed-Batchb Process. Brazilian Archives Of Biology And Technology, v. 48, n. 3, pp. 397-401, 2005.<br />
NOBRE, N. et al. Supercritical carbon dioxi<strong>de</strong> extraction of astaxanthin and other carotenoids from the<br />
microalga Haematococcus pluvialis. European Food Research Technology v. 223, p. 787-790, 2006.<br />
PASSOS, R. et al. Astaxanthin from the yeast Phaffia rodozyma. Supercritical carbon dioxi<strong>de</strong> and<br />
organic solvents extraction. Journal of Food technology, v. 4, n. 1, p. 59-63, 2006.<br />
TORRISEN, O. J. Strategies for Salmonid pigmentation. J. Appl. Technol., n. 11, p. 276-278, 2005.<br />
VELU, C. S., CZECZUGA, B., NUNUSWAMY, N. Carotenoprotein complexes in entomostracan<br />
crustaceans (Streptocephalus dichotomus and Moina micrura. Comparative Biochemistry and<br />
Physiology, Part B. v. 135, p. 35-42, 2003.�
114<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
UTILIZAÇÃO DA MACRÓFITA AQUÁTICA Egeria <strong>de</strong>nsa PLANCHON, 1849<br />
(HYDROCHARITACEA) NA PRODUÇÃO DE TIJOLOS PARA CONSTRUÇÃO<br />
CIVIL<br />
Thales Pacífico BEZERRA (thalespb@ig.com.br); Cristiano Pereira da SILVA<br />
(cristianopsilva@yahoo.com.br); José Patrocínio LOPES ( jpatrobr@yahoo.com.br).<br />
Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> do Estado da Bahia.<br />
RESUMO<br />
Nos reservatórios do rio São Francisco, um fato novo vem ocorrendo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1998 com o<br />
aproveitamento das águas <strong>de</strong>sses reservatórios, gerando também uma nova fonte <strong>de</strong> renda para a região,<br />
através <strong>de</strong> cultivos <strong>de</strong> tilápias em tanques-re<strong>de</strong>. Esta nova ativida<strong>de</strong> econômica praticada nos<br />
reservatórios da Companhia Hidroelétrica do São Francisco é <strong>de</strong> fundamental importância para o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento regional, porém precisa-se ter o cuidado necessário para que não venha contribuir<br />
com maior intensida<strong>de</strong> no processo <strong>de</strong> eutrofização das águas e conseqüente proliferação <strong>de</strong> macrófitas<br />
aquáticas, administrando-se rações com baixo potencial poluente e com altos índices <strong>de</strong> conversão<br />
alimentar. Este trabalho busca otimizar a utilização <strong>de</strong> biomassa <strong>de</strong> macrófitas aquáticas na produção<br />
<strong>de</strong> tijolos ecológicos tipo adobe (tijolos <strong>de</strong> barro cru, secos ao sol). Desta forma, a macrófita po<strong>de</strong> se<br />
utilizada para construções <strong>de</strong> habitações <strong>de</strong> baixo custo, já que o tijolo <strong>de</strong> adobe é usado <strong>de</strong>s<strong>de</strong> os<br />
tempos mais remotos com esta finalida<strong>de</strong>. Por outro lado, busca-se uma solução para o bloom da<br />
macrófita Egeria <strong>de</strong>nsa nos reservatórios das usinas hidroelétricas que vem ocasionando problemas<br />
para CHESF, através da eutrofização dos reservatórios. O trabalho foi realizado na Estação Piscicultura<br />
<strong>de</strong> Paulo Afonso, com objetivo <strong>de</strong> testar a utilização da E. <strong>de</strong>nsa para confecção <strong>de</strong> tijolos artesanais.<br />
As porcentagens <strong>de</strong> biomassa adicionada à argila para elaboração dos tijolos foram: 1%, 2% e 5%<br />
visando verificar o melhor percentual da macrófita, para utilização aglutinante na confecção dos tijolos.<br />
Com o acréscimo da fibra da macrófita em quantida<strong>de</strong> certa (5%) e contrastando-se com a estrutura <strong>de</strong><br />
um tijolo normal <strong>de</strong> adobe sem macrófitas verifica-se neste último, mais fissuras do que um tijolo <strong>de</strong><br />
adobe inoculado por esta biomassa vegetal e que nos testes <strong>de</strong> resistência apresentou melhores<br />
resultados.<br />
Palavras-chaves: Tijolo <strong>de</strong> adobe, macrófitas aquáticas, manejo <strong>de</strong> lagos
ABSTRACT<br />
115<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
USE OF MACROPHYTE Egeria <strong>de</strong>nse PLANCHON, 1849 (HYDROCHARITACEA) IN THE<br />
PRODUCTION OF BRICKS AS ALTERNATIVE FOR CIVIL BUILDING<br />
In the reservoirs of river San Francisco, a new fact is happening since 1998 with the use of the waters<br />
of those reservoirs, also generating a new source of income for the area, through tilapias cultivations in<br />
tank-net. This new economical activity practiced in the reservoirs of the Hydro Electric Company of<br />
San Francisco, it is of fundamental importance for the regional <strong>de</strong>velopment, however needs to be the<br />
necessary careful so that it doesn't come to contribute with larger intensity in the process of<br />
eutrofization of the waters and consequent proliferation of aquatic macrophytes, being administered<br />
rations with pollutant potential bass and with high in<strong>de</strong>xes of alimentary conversion. This work search<br />
to optimize the use of biomass of aquatic macrophytes in the production of bricks ecological type it<br />
marinates (bricks of raw mud, dry in the sun), like this looking for a solution to the bloom of the<br />
macrophytes Egeria <strong>de</strong>nsa in the reservoirs of the hydroelectric plants that it is causing problems for<br />
CHESF, through the eutrofization of the reservoirs. The work was accomplished handma<strong>de</strong> in Paulo<br />
Afonso's fish culture, belonging CHESF. The experiment consisted of the use of E. <strong>de</strong>nsa for making<br />
of craft bricks. The biomass percentages ad<strong>de</strong>d to the clay for elaboration of the bricks were: 1%, 2%<br />
and 5% seeking to prove the percentile necessary of these macrophytes as agglutinant in the making of<br />
the bricks. And its has as goal also of suggesting the use of this material for constructions of low cost<br />
houses, since the adobe brick is used since the most remote times with this purpose. With the increment<br />
of the fiber of the macrophytes in right amount (5%) and being contrasted with the structure of a<br />
normal brick of adobe without macrophytes is verified in this last, more fissures than an adobe brick<br />
inoculated by this vegetable biomass and that in the resistance tests presented better results.<br />
KEYWORDS: adobe brick, aquatic macrophytes, handling of lakes<br />
INTRODUÇÃO<br />
Com os represamentos dos trechos encachoeirados do submédio São Francisco, visando a<br />
produção energia hidrelétrica, possibilitou a formação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s lagos artificiais, com amplas<br />
possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> também serem explorados economicamente por meio <strong>de</strong> uma piscicultura racional em<br />
gaiolas flutuantes (TENÓRIO et al., 1999).<br />
Com a formação dos reservatórios, a colonização das áreas adjacentes vem crescendo a um<br />
ritmo acelerado, provocando muitas vezes a <strong>de</strong>rrubada da vegetação ciliar das margens do rio São<br />
Francisco, que pouco ou nada sobrou. A vegetação existente hoje em suas bordas e ilhas é
116<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
inexpressiva e não possui significado fitofisionômico, já que a influência antrópica foi marcante e<br />
arrasadora (HIDROSERVICE, 1987).<br />
O nitrogênio e o fósforo são os nutrientes mais limitantes à produtivida<strong>de</strong> primária (produção <strong>de</strong><br />
fitoplâncton e plantas aquáticas) em ambientes aquáticos naturais (KUBITZA, 1999). Os resíduos e<br />
excrementos lançados na água ten<strong>de</strong>m a acumular-se em algum ponto do reservatório levados pelas<br />
águas, po<strong>de</strong>ndo causar impactos ambientais in<strong>de</strong>sejáveis, como por exemplo, a proliferação excessiva<br />
da Egeria <strong>de</strong>nsa, uma macrófita aquática submersa que po<strong>de</strong> se proliferar a profundida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> até 9 m e<br />
que hoje já é problema nos reservatórios Moxotó/PA IV e Delmiro Gouveia. Segundo Canfield et al.<br />
(1984), quando em excesso as macrófitas aquáticas interferem na produtivida<strong>de</strong> planctônica, na<br />
qualida<strong>de</strong> da água e na ativida<strong>de</strong> da pesca. O controle po<strong>de</strong> ser efetivado através <strong>de</strong> métodos<br />
mecânicos, químicos e biológicos (NAGLE, 1980; SUMMERFELT, 1993; BETOLLI et al., 1993,<br />
apud AGOSTINHO e GOMES, 1997).<br />
Normalmente, constroem-se diques que represam o curso da água, acumulando-a num<br />
reservatório a que se chama barragem. Esse tipo <strong>de</strong> usina hidráulica é <strong>de</strong>nominado Usina com<br />
Reservatório <strong>de</strong> Acumulação. Em outros casos, existem diques que não param o curso natural da água,<br />
mas obrigam a passar pela turbina <strong>de</strong> forma a produzir eletricida<strong>de</strong>, <strong>de</strong>nominando-se usinas a fio <strong>de</strong><br />
água (MÜLLER, 1995). A construção <strong>de</strong> barragens, transformando rios em gran<strong>de</strong>s bacias e<br />
reservatórios, traz gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento às regiões, tornando uma tendência natural o gran<strong>de</strong><br />
crescimento <strong>de</strong>mográfico <strong>de</strong>stas regiões, que quase sempre se encontram <strong>de</strong>sprovidas <strong>de</strong> infraestruturas<br />
específicas no que se refere à saú<strong>de</strong> dos ecossistemas. Consi<strong>de</strong>rando esta nova condição <strong>de</strong><br />
maior consumo <strong>de</strong> água e também em maiores proporções a produção e <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> esgotos que nada<br />
mais é que o <strong>de</strong>spejo <strong>de</strong> águas servidas associadas ao carregamento <strong>de</strong> nutrientes, diretamente para o<br />
leito dos rios, através do aporte dos <strong>de</strong>jetos domésticos e industriais, gran<strong>de</strong> parte sem tratamento, tem<br />
levado a uma condição <strong>de</strong> <strong>de</strong>sequilíbrio no sistema hídrico, caracterizado pela gran<strong>de</strong> disponibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> nutrientes acumulada diariamente.<br />
Atualmente esse processo é consi<strong>de</strong>rado por especialistas <strong>de</strong> todo o país como uma das patologias<br />
<strong>de</strong> mais influência em toda a bacia hidrográfica brasileira. Sendo <strong>de</strong>nominado e conhecido como<br />
eutrofização, que se estabelece <strong>de</strong>vido à gran<strong>de</strong> concentração <strong>de</strong> algas e vegetação aquática,<br />
alimentando-se <strong>de</strong>stes nutrientes, acarretando o aumento da produtivida<strong>de</strong> biológica <strong>de</strong>stas espécies,<br />
baixando as taxas <strong>de</strong> oxigenação e ocasionando problemas que vão <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a estética até o<br />
comprometimento da possível utilização da água. Gran<strong>de</strong> parte dos reservatórios da região é colonizada<br />
por macrófitas aquáticas, e entre elas a eló<strong>de</strong>a Egeria <strong>de</strong>nsa uma espécie exótica que vem
117<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
caracterizando-se como uma espécie daninha no ecossistema aquático, causando problemas<br />
operacionais e <strong>de</strong> usos múltiplos em <strong>de</strong>corrência do <strong>de</strong>senvolvimento excessivo, formando verda<strong>de</strong>iros<br />
prados <strong>de</strong> macrófitas nas margens e em profundida<strong>de</strong>s superiores a oito metros.<br />
As plantas aquáticas submersas estão entre os mais sérios problemas dos ecossistemas aquáticos,<br />
tendo em vista que elas não po<strong>de</strong>m ser controladas com uso <strong>de</strong> herbicidas e dificilmente eliminadas via<br />
extração mecânica. Elas inva<strong>de</strong>m rapidamente novos locais <strong>de</strong>vido a sua reprodução vegetativa por<br />
sementes, dispersando-se cada vez mais catastroficamente em vários tipos <strong>de</strong> ecossistemas (LANGE,<br />
1996). Desta forma, este trabalho objetiva <strong>de</strong>screver uma forma <strong>de</strong> utilização <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa<br />
(Hydrocharitacea), que hoje se encontra em gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> nas bacias do Complexo Hidrelétrico <strong>de</strong><br />
Paulo Afonso (CHPA), causando gran<strong>de</strong>s prejuízos a este Complexo, inclusive no inverno com<br />
aumento e superpopulação <strong>de</strong>stas plantas, que atingem principalmente as zonas periféricas à montantes<br />
das barragens, comportas e turbinas em <strong>de</strong>trimento da a produção <strong>de</strong> energia elétrica (Figura 1).<br />
Volume em M3<br />
150<br />
140<br />
130<br />
120<br />
110<br />
100<br />
90<br />
80<br />
70<br />
60<br />
50<br />
40<br />
30<br />
20<br />
10<br />
0<br />
JAN FEV MAR ABR MAIO JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ<br />
Mês<br />
Figura 1 - Volume <strong>de</strong> macrófitas <strong>de</strong> retiradas no reservatório Delmiro Gouveia,<br />
apresentando pico no período <strong>de</strong> inverno (março a junho) <strong>de</strong> 1996 (Fonte: Lopes, 2002).<br />
A distribuição das espécies no ambiente aquático é variável, e <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo do grau da adaptação<br />
da espécie, ela habita regiões mais rasas ou mais profundas. Elas estão presentes em todos os<br />
ecossistemas aquáticos, variando somente a composição entre si. Normalmente, as plantas aquáticas<br />
têm uma distribuição mais ampla do que a maioria das plantas terrestres; isto é <strong>de</strong>corrente da pequena<br />
variação sofrida pelos fatores do ambiente aquático, o que confere às macrófitas aquáticas uma ampla<br />
distribuição fitogeográfica, possibilitando o aparecimento <strong>de</strong> muitas espécies cosmopolitas (IRGANG;<br />
GASTAL Jr, 1996).<br />
O controle mecânico utilizando embarcações apropriadas, visando a retirada da biomassa do<br />
corpo hídrico, é uma das alternativas a serem consi<strong>de</strong>radas. Embora este método apresente algumas
118<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
vantagens, como ação <strong>de</strong> modo pontual nas áreas infestadas e não-contaminação do ambiente com<br />
compostos químicos e tóxicos, existe a preocupação em relação ao material coletado a ser <strong>de</strong>scartado,<br />
haja vista a gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> biomassa envolvida nesse processo e enfim tentar <strong>de</strong>stinar e<br />
<strong>de</strong>senvolver um valor agregado a este material. A expansão das populações <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa nos<br />
reservatórios do CHPA vem acarretando inúmeros transtornos operacionais, aumentando a<br />
preocupação do setor <strong>de</strong> geração <strong>de</strong> energia elétrica.<br />
A capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> produção <strong>de</strong> biomassa e regeneração dos prados <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa já é avaliada nos<br />
reservatórios <strong>de</strong> Paulo Afonso. Isto indica o gran<strong>de</strong> potencial <strong>de</strong> produção <strong>de</strong> biomassa <strong>de</strong>stes prados e<br />
a rapi<strong>de</strong>z com que estes se recompõem, mostrando a dificulda<strong>de</strong> permanente do seu controle nos<br />
reservatórios, por isso a gran<strong>de</strong> preocupação para uma objetivação nos processos <strong>de</strong> manejos <strong>de</strong>sta<br />
macrófita (FADURPE, 2002). O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi avaliar o potencial <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa,<br />
principal planta aquática que gera gran<strong>de</strong> problema nos reservatórios hidrelétricos e com precisão nos<br />
do CHPA no que se refere à geração <strong>de</strong> energia, visando o estabelecimento <strong>de</strong> programas <strong>de</strong> controle<br />
mecânico e usual, com finalida<strong>de</strong> da utilização <strong>de</strong>ste material coletado como alternativa <strong>de</strong> fabricação<br />
<strong>de</strong> tijolos ecológicos e <strong>de</strong> baixo custo na região.<br />
Este tema envolve diversos profissionais em áreas da engenharia e outros profissionais que<br />
trabalham com manejo <strong>de</strong> reservatórios. O produto final (tijolos) também <strong>de</strong>ve auxiliar principalmente<br />
no estabelecimento <strong>de</strong> novos programas biológicos <strong>de</strong> controle po<strong>de</strong>ndo ser utilizado na construção<br />
civil aten<strong>de</strong>ndo a programas <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> casas populares ou outras obras como da engenharia para<br />
aqüicultura quando <strong>de</strong> sua utilização na construção <strong>de</strong> caixas <strong>de</strong> coletas <strong>de</strong> tanques e viveiros ou<br />
mesmo como forro <strong>de</strong> talu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>stes ambientes, sendo necessária a impermeabilização a base <strong>de</strong> terracimento<br />
conforme utilizado tradicionalmente na construção civil.<br />
MATERIAL E MÉTODOS<br />
O trabalho foi realizado na Estação Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), pertencente à<br />
Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF). A matéria-prima (eló<strong>de</strong>a) foi colhida no lago o<br />
Boi e a Sucuri que faz parte dos lagos do CHPA. A argila foi doada pela Cerâmica São Francisco <strong>de</strong><br />
Paulo Afonso. O experimento consistiu na utilização da Eló<strong>de</strong>a, Egeria <strong>de</strong>nsa, misturada a argila, para<br />
confecção <strong>de</strong> tijolos artesanais. Na fabricação, serão acrescentadas porcentagens diferentes <strong>de</strong>sta<br />
macrófita junto com a argila para se ter o conhecimento com qual porcentagem se chegará a um tijolo<br />
ecológico <strong>de</strong> melhor resistência e <strong>de</strong> uma boa qualida<strong>de</strong>. As porcentagens <strong>de</strong> biomassa seca<br />
adicionadas a argila para a elaboração dos tijolos foram 1%, 2% e 5% para se ter uma melhor
119<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
comprovação das proprieda<strong>de</strong>s compactantes da eló<strong>de</strong>a e <strong>de</strong>sta forma saber que quantida<strong>de</strong> será<br />
adotada para a confecção dos tijolos.<br />
O primeiro passo foi coletar o material no lago o Boi e a Sucuri, colonizado por esta macrófita e<br />
em seguida colocar para secagem adquirindo a fibra seca e em ponto <strong>de</strong> ser agregada ao produto (tijolo<br />
<strong>de</strong> adobe). As características dos ensaios mecânicos dos tijolos foram realizadas com adaptações<br />
relativas à produção dos tijolos maciços. Desta forma, por se tratar da pouca existência <strong>de</strong> material que<br />
<strong>de</strong>screva os métodos <strong>de</strong> ensaios, normas e especificações e características <strong>de</strong> procedimentos nacionais,<br />
foi optado pelo processo artesanal para po<strong>de</strong>r melhor especificar o <strong>de</strong>talhamento dos testes, mostrando<br />
todas as etapas <strong>de</strong> realização do processo diante das dificulda<strong>de</strong>s encontradas nesta fase <strong>de</strong> experiência<br />
da produção.<br />
A MACRÓFITA<br />
MATERIAL E MÉTODOS<br />
Egeria <strong>de</strong>nsa é classificada em função <strong>de</strong> sua instalação ao ecossistema aquático e seu grau <strong>de</strong><br />
povoamento em relação ao nível <strong>de</strong> água, como uma macrófita submersa (Figura 2), é conhecida<br />
vulgarmente como eló<strong>de</strong>a e está incluída na relação das monocotiledôneas aquáticas.<br />
Taxonomicamente está enquadrada da seguinte maneira: Classe Monocotiledônea; Or<strong>de</strong>m Heloliae;<br />
Família Hydrocharitacea; Gênero Egeria e Espécie Egeria <strong>de</strong>nsa Planchon, 1849<br />
A coleta realizou-se no período da manhã para aproveitar<br />
a boa visibilida<strong>de</strong> da água em dia <strong>de</strong> sol forte na região do lago o<br />
Boi e a Sucuri, na zona central <strong>de</strong> Paulo Afonso. Colheu-se um<br />
volume aproximado <strong>de</strong> 20 kg, sendo quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> macrófitas<br />
suficiente para as <strong>de</strong>vidas etapas do experimento. Após a coleta,<br />
as plantas foram <strong>de</strong>vidamente acondicionadas em sacos<br />
plásticos, e levadas para a EPPA e espalhadas ao sol por 48<br />
horas para perda do excesso <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> (87%), tornando a Figura 2 - Eló<strong>de</strong>a Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
planta seca sem se tornar quebradiça. Após a secagem da (Fonte: Lopes, 2002)<br />
macrófita e adquirida a fibra propriamente dita, foi iniciado o processo <strong>de</strong> pesagem que ocorreu no<br />
sentido <strong>de</strong> separar em embalagens plásticas com os respectivos volumes do percentual estipulado para<br />
cada amostra dos tratamentos. Assim, foram selecionados 10 volumes com 20 g equivalentes as<br />
amostras <strong>de</strong> 1%; 10 volumes com 40 g equivalentes as amostras <strong>de</strong> 2% e 10 volumes com 100 g<br />
equivalentes as amostras <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa. O percentual foi baseado no peso total <strong>de</strong> tijolos utilizados<br />
na região (2 kg).
A ARGILA<br />
120<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Encontrada abundantemente na natureza a argila é <strong>de</strong> fácil manipulação, tem uma enorme<br />
elasticida<strong>de</strong> permitindo trabalhos com diversida<strong>de</strong> e é totalmente reciclável. A argila tem em comum<br />
componentes <strong>de</strong> lamas e solos sendo constituída, principalmente <strong>de</strong> minerais do grupo das argilas aos<br />
quais agregam-se hidróxidos coloidais floculados e diversos outros componentes, cristalinos ou<br />
amorfos. Trata-se <strong>de</strong> material natural, <strong>de</strong> textura terrosa, <strong>de</strong> granulações finas, constituídas<br />
essencialmente <strong>de</strong> argilominerais, po<strong>de</strong>ndo conter outros minerais que não são argilominerais (quartzo,<br />
mica, pirita, hematita, etc), matéria orgânica e outras impurezas. Os argilominerais são os minerais<br />
característicos das argilas; quimicamente são silicatos <strong>de</strong> alumínio ou magnésio hidratados, contendo<br />
em certos tipos outros elementos como ferro, potássio, lítio, etc.<br />
Graças aos argilominerais, as argilas na presença <strong>de</strong> água <strong>de</strong>senvolvem uma série <strong>de</strong> proprieda<strong>de</strong>s<br />
tais como: plasticida<strong>de</strong>, resistência mecânica a úmido, retração linear <strong>de</strong> secagem, compactação,<br />
tixotropia e viscosida<strong>de</strong> <strong>de</strong> suspensões aquosas que explicam sua gran<strong>de</strong> varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> aplicações<br />
tecnológicas. Os principais grupos <strong>de</strong> argilominerais são caulinita, ilita e esmectitas ou montmorilonita.<br />
Em função principalmente das possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> emprego tecnológico, que são influenciadas pela<br />
gênese e pela composição mineralógica do material, em muitos casos as argilas recebem <strong>de</strong>signações<br />
como: caulins, bentonitas, argilas refratárias, flint-clays e ball clays.<br />
SELEÇÃO E COLETA DA ARGILA<br />
O solo escolhido partiu <strong>de</strong> uma amostra selecionada pela Empresa Cerâmica São Francisco,<br />
mediante processo <strong>de</strong> produção adotado por essa Empresa, localizada na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Paulo Afonso que<br />
ce<strong>de</strong>u este material para realização <strong>de</strong>sta pesquisa. O material foi previamente colhido na jazida da<br />
localida<strong>de</strong> do povoado Rio <strong>de</strong> Sal, que apresenta uma argila com um excelente fator ligante.<br />
PRODUÇÃO DE TIJOLOS<br />
Os tijolos foram produzidos manualmente na área externa da EPPA, on<strong>de</strong> as etapas <strong>de</strong> produção<br />
dos tijolos maciços exigiram bastante mão-<strong>de</strong>-obra. Esta pesquisa <strong>de</strong> utilização <strong>de</strong> macrófitas aquáticas<br />
na fabricação <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe consistiu em três tratamentos (T1, T2 e T3) com 10 repetições cada.<br />
Foi utilizado um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> “forma” ou gabarito <strong>de</strong> tijolo maciço, comum, utilizado e produzido nesta<br />
região, aon<strong>de</strong> as dimensões adotadas para confecção dos tijolos são: 8cm x 12cm x 25cm. Assim, cada<br />
amostra do tijolo necessariamente estará pesando 2 kg, que é o peso referente a esse tamanho <strong>de</strong> tijolo<br />
adotado na construção civil local. Para se início da construção dos tijolos é necessário o amassamento e<br />
<strong>de</strong>scanso da argila. Segundo Minke (2000), é necessário o amassamento do barro (mistura <strong>de</strong> solo,<br />
biomassa e água), para melhor homogeneização da umida<strong>de</strong> e absorção, sendo necessário o <strong>de</strong>scanso
121<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
do barro por média <strong>de</strong> 48 horas, antes da moldagem dos tijolos. Trata-se <strong>de</strong> um processo vigoroso e<br />
repetitivo para a boa qualida<strong>de</strong> da mistura do aglomerante ao aglomerado. Com isso adquirir o melhor<br />
ponto <strong>de</strong> liga do material composto. O i<strong>de</strong>al seria que o solo passasse por uma peneira grossa para o seu<br />
melhor “<strong>de</strong>storroamento” e mistura para homogeneização do mesmo, logo esse procedimento foi<br />
<strong>de</strong>sprezado <strong>de</strong>vido o material já tinha sido adquirido com um gran<strong>de</strong> teor <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> e seu composto<br />
apresentava-se muito argiloso.<br />
Esse processo <strong>de</strong> amassamento teve toda execução manual por meio artesanal e rústico. Logo<br />
com o tempo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scanso do material concluído, observou-se o ponto <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> do material. Assim,<br />
foi dado início a distribuição das partículas e medição dos volumes disponíveis <strong>de</strong> cada amostra. On<strong>de</strong><br />
foram separados os volumes respectivos <strong>de</strong> cada amostra <strong>de</strong> percentual <strong>de</strong>terminado por tratamento.<br />
Para o tratamento 1 (T1) 1% <strong>de</strong> Egeria adicionado a argila. Para o tratamento 2 (T2) 2% Egeria<br />
adicionado a argila e para o tratamento 3 (T3) 5% da macrófita fenada para inoculação na argila e<br />
confecção dos tijolos <strong>de</strong> adobe. Todos os três tratamentos tiveram 10 repetições.<br />
A moldagem consistiu em produzir uma amostragem com 10 peças <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe com<br />
peso <strong>de</strong> 2 kg <strong>de</strong> cada série. Logo foi feito o processo <strong>de</strong> pesagem volumétrica das amostras usando<br />
uma balança mecânica. Com o material já em ponto <strong>de</strong> boa mistura, on<strong>de</strong> a biomassa foi <strong>de</strong>vidamente<br />
incorporada à argila para imediatamente colocá-la nas formas para tijolos. O ponto <strong>de</strong> boa mistura foi<br />
i<strong>de</strong>ntificado visualmente. Antes da utilização das formas, estas se mantiveram <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> tanques com<br />
água para manter-se úmida e facilitar a rápida <strong>de</strong>smoldagem das peças. Esse processo é bastante<br />
rápido, pois a partir do ponto <strong>de</strong> homogeneização <strong>de</strong> mistura o material é rapidamente lançado nas<br />
formas e em seguida <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> 10 minutos já é feita a <strong>de</strong>smoldagem, com isso torna-se um processo<br />
repetitivo <strong>de</strong> operação <strong>de</strong>: mistura, homogeneização, moldagem e <strong>de</strong>smoldagem.<br />
CARACTERIZAÇÃO DO ENSAIO<br />
Depois <strong>de</strong> confeccionados os tijolos com o intuito testar capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resistência dos mesmos,<br />
foram enviadas três amostras <strong>de</strong> cada ensaio e uma amostra <strong>de</strong> tijolos confeccionados somente com<br />
argila, sem acréscimo da macrófita a sua constituição.<br />
Estas amostras foram encaminhadas ao Laboratório <strong>de</strong> Pesquisas <strong>de</strong> Estruturas e Materiais<br />
(LEMA) do NPT do Núcleo <strong>de</strong> Pesquisas Tecnológicas (NPT) da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Alagoas<br />
(UFAL), Maceió-AL, para os ensaios <strong>de</strong> resistência à compressão <strong>de</strong> corpos-<strong>de</strong>-prova cilíndricos <strong>de</strong><br />
concreto, blocos (cerâmicos e <strong>de</strong> concreto) e prismas (<strong>de</strong> blocos cerâmicos <strong>de</strong> concreto). As amostras<br />
encaminhadas ao laboratório caracterizam-se por quatro amostragens <strong>de</strong> tijolos maciços. Os ensaios<br />
foram realizados com base nos métodos <strong>de</strong> ensaios recomendados pelas normas da Associação
122<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
<strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> Normas Técnicas (ABNT): NBR 8492/81 – tijolo maciço <strong>de</strong> solo – cimento –<br />
Determinação da resistência à compressão da absorção d’água – Método <strong>de</strong> Ensaio e NBR 7170 Tijolo<br />
maciço para alvenaria.<br />
RESULTADOS<br />
Em exame visual verificou-se que os tijolos (T1), que foi adicionado 1% <strong>de</strong> biomassa à argila,<br />
foram encontrados nas <strong>de</strong>z amostras confeccionadas oito blocos que apresentaram fissuras. No<br />
experimento (T2), com 2% <strong>de</strong> biomassa adicionada à argila, dos <strong>de</strong>z blocos, cinco (50%)<br />
apresentaram fissuras. Nos blocos com 5% <strong>de</strong> biomassa misturada à argila somente em dois blocos<br />
(20%) foram encontradas fissuras, o que já <strong>de</strong>monstra que os tijolos com cinco por cento <strong>de</strong><br />
macrófitas misturada à argila apresentam melhor resistência (Figura.3).<br />
Figura 3 - Tijolos com 1, 2 e 5% <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa em sua composição.<br />
A tabela 1 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência da amostra testemunha (tijolos <strong>de</strong> barro sem<br />
macrófitas).<br />
Tabela 1. Resistência em tijolos <strong>de</strong> barro sem inóculo da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
LOTE BLOCO Nº<br />
ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />
14/03/06 COMP. LARG.<br />
CARGA (N) TENSÃO (MPA)<br />
0 01 14/03/06 111 108 22072 1,8<br />
0 02 14/03/06 111 108 17413 1,5<br />
0 03 14/03/06 111 108 22072 1,8<br />
MÉDIA 1,7
123<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A tabela 2 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos <strong>de</strong> barro com inóculo <strong>de</strong> 1% <strong>de</strong> E.<br />
<strong>de</strong>nsa.<br />
Tabela 2. Resistência em tijolos <strong>de</strong> adobe com inóculo <strong>de</strong> 1% da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />
LOTE BLOCO Nº 14/03/06 COMP. LARG. CARGA (N) TENSÃO (MPA)<br />
1 01 14/03/06 111 103 24525 2,1<br />
1 02 14/03/06 111 101 24525 2,2<br />
MÉDIA 2,2<br />
A tabela 3 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos com inóculo <strong>de</strong> 2% <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa.<br />
Tabela 3. Resistência em tijolos <strong>de</strong> adobe com inóculo <strong>de</strong> 2% da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />
LOTE BLOCO Nº 14/03/06 COMP. LARG. CARGA (N) TENSÃO (MPA)<br />
2 01 14/03/06 109 104 27959 2,5<br />
2 02 14/03/06 108 100 26978 2,5<br />
2 03 14/03/06 107 100 24525 2,3<br />
MÉDIA 2,4<br />
A tabela 4 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos com inóculo, 5% <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa.<br />
Tabela 4 - Resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos <strong>de</strong> adobe com inóculo <strong>de</strong> 5% da<br />
macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />
LOTE BLOCO Nº 14/03/06 COMP. LARG.<br />
CARGA<br />
(N)<br />
TENSÃO (MPA)<br />
5 01 14/03/06 107 105 22073 2,0<br />
5 02 14/03/06 108 102 27713 2,5<br />
5 03 14/03/06 107 105 25751 2,9<br />
MÉDIA 2,5<br />
Diante os resultados, observa-se que a inoculação <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong> fibra <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa à argila, para<br />
confecção <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe, apresentou menos fissuras e maior resistência que os <strong>de</strong>mais (Figura<br />
4).
Figura 4 - Tijolos com inóculos <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
DISCUSSÃO<br />
124<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Segundo Margalef (1986) apud Vega (1997), “Comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> macrófitas que formam gran<strong>de</strong>s<br />
ilhas impossibilitando a passagem total da luz po<strong>de</strong> acarretar a diminuição <strong>de</strong> 3 a 6 o C na temperatura<br />
em camadas inferiores da água, que por sua vez po<strong>de</strong> modificar totalmente o ecossistema subaquático”.<br />
Macrófitas aquáticas em excesso nos lagos e reservatórios, e principalmente próximos a capitação <strong>de</strong><br />
água para abastecimento em piscicultura, po<strong>de</strong>m proporcionar sérios problemas no cultivo <strong>de</strong> peixes,<br />
pelo acúmulo <strong>de</strong> matéria orgânica, <strong>de</strong>ixando a água imprópria para esta finalida<strong>de</strong>. Como exemplo real,<br />
po<strong>de</strong>mos citar o lago do Cemitério em Paulo Afonso, que face ao excesso <strong>de</strong> macrófitas aquáticas,<br />
ficou impróprio para o abastecimento <strong>de</strong> água na Estação <strong>de</strong> Piscicultura da CHESF, sendo necessário a<br />
transferência da captação d’água para o reservatório <strong>de</strong> Moxotó. Existem plantas aquáticas que<br />
constituem um substrato i<strong>de</strong>al para proliferação <strong>de</strong> insetos (culici<strong>de</strong>os), moluscos e outras comunida<strong>de</strong>s<br />
transmissoras <strong>de</strong> enfermida<strong>de</strong>s relacionadas com as represas (VEGA, 1997).<br />
A gran<strong>de</strong> discussão <strong>de</strong>ste trabalho está ao redor <strong>de</strong> um questionamento a respeito dos tijolos<br />
<strong>de</strong> adobe confeccionados da forma que este trabalho se propõe com a introdução <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa<br />
uma macrófita, recolhida nos reservatórios da CHESF, na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Paulo Afonso - Bahia. Estes<br />
tipos <strong>de</strong> tijolos não são levados ao forno para queimar e sim <strong>de</strong>ixados para secar normalmente o que<br />
permite uma discussão em relação a sua resistência.<br />
Ressalta-se que, ao longo do tempo, vários países, inclusive o Brasil e precisamente na<br />
região Nor<strong>de</strong>ste, esta prática ainda é comum. No Estado do Piauí comunida<strong>de</strong>s carentes fabricam<br />
seus tijolos <strong>de</strong> adobe geralmente as margens <strong>de</strong> reservatórios hidrelétricos. Estes secam ao sol e<br />
após, são utilizados diretamente na construção <strong>de</strong> suas casas sem necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> serem assados ao<br />
forno (Figs. 5 e 6). Através <strong>de</strong> várias culturas e hábitos sociais diferentes ainda se utiliza a
125<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
construção <strong>de</strong> casas a base <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> argila crua, estando em acordo com autores como Barrios e<br />
Arcos (1986), que afirma que um terço da população vive em habitações <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe.<br />
Figura 5 - Fabricação <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe as margens do reservatório <strong>de</strong><br />
Boa Esperança, Rio Parnaíba, MA/PI<br />
Figura 6 - Casa construída com tijolos <strong>de</strong> adobe em Porto Alegre do Piauí, PI.<br />
Segundo Meunier (1998), os egípcios, utilizavam tijolos <strong>de</strong> adobe para construir residências<br />
tanto dos ricos como pobres. Na bíblia são encontradas referências aos tijolos <strong>de</strong> adobe com<br />
utilização <strong>de</strong> fibras vegetais adicionadas aos blocos, tais como os seguintes trechos bíblicos: “tira<br />
água para o tempo do cerco; reforça as tuas fortalezas; entra no lodo, pisa o barro, pega na forma<br />
para os tijolos (livro <strong>de</strong> Naum, capítulo 3, versículo 14)” e “não tornareis a dar, como dantes, palha<br />
ao povo para fazer tijolos; vão eles mesmos, e colham palha para si (livro <strong>de</strong> Êxodo, capítulo 5,<br />
versículo 8)”.<br />
No experimento realizado dá para constatar que o tijolo <strong>de</strong> adobe possui uma boa<br />
resistência, mas quando misturada à argila junto com as macrófitas aquáticas na confecção do bloco<br />
principalmente na quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 5% percebe-se nos resultados obtidos uma maior resistência <strong>de</strong>stes<br />
tijolos. Em relação à manutenção <strong>de</strong> construções a base <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe, lembra-se que a
126<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manutenção não é somente dos tijolos <strong>de</strong> adobe, mas também que qualquer material<br />
utilizado em uma construção exigirá cuidados com sua manutenção seja ela corretiva ou preventiva<br />
para o seu bom <strong>de</strong>sempenho e durabilida<strong>de</strong>.<br />
Os tijolos confeccionados, aparentemente, mostram asperezas no acabamento. No entanto,<br />
esta superfície menos lisa favorece a a<strong>de</strong>rência <strong>de</strong> revestimento das pare<strong>de</strong>s e a proteção mecânica<br />
dos tijolos, contra a ação do intemperismo e favorecem a sua utilização em outras obras <strong>de</strong><br />
engenharia como construção <strong>de</strong> tanques e caixas <strong>de</strong> coletas para viveiros. A produção dos tijolos <strong>de</strong><br />
adobe também favorece a diminuição progressiva do <strong>de</strong>smatamento e extração <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, que<br />
ainda hoje é utilizada como combustível, na queima <strong>de</strong> tijolos e telhas, um dos processos na<br />
produção nas olarias, estes <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> produção na região. On<strong>de</strong> a extração <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira continua<br />
sendo uma exploração econômica.<br />
CONCLUSÕES<br />
A utilização da macrófita Egeria <strong>de</strong>nsa para confecção <strong>de</strong> tijolos do tipo adobe é uma<br />
alternativa no controle do bloom <strong>de</strong>stas macrófitas que ocorrem nos reservatórios das hidroelétricas<br />
como os da CHESF, o que vem acarreta transtornos operacionais ao setor elétrico na geração <strong>de</strong><br />
energia.<br />
Os tijolos apresentaram boa resistência, <strong>de</strong> modo que po<strong>de</strong>m ser utilizados para construções<br />
<strong>de</strong> casas populares e/ou para obras que exijam menor esforço, <strong>de</strong> forma que po<strong>de</strong> ser uma solução<br />
para aproveitamento das macrófitas retiradas dos reservatórios.<br />
REFERÊNCIAS<br />
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TECNICAS NBR 7170. Tijolo maciço para<br />
alvenaria. Rio <strong>de</strong> Janeiro: ABNT, 1983.<br />
AGOSTINHO, A.A.; GOMES, L.C. Reservatório <strong>de</strong> Segredo, Bases Ecológicas para o Manejo.<br />
Maringá: COPEL, EDUEM, UEM, p. 350-351, 1997.<br />
BARRIOS, G. A., L; ARCOS. Comportamiento <strong>de</strong> los suelos para la confeccion <strong>de</strong> adobes.<br />
Informes <strong>de</strong> la construcion. 1986.<br />
CANFIELD J.R. et al. Prediction of chlorophyll a concentrations in Florida lakes: importance of<br />
aquatic macrophytes. Can. J. Fish. Aquat. Sci., v. 41. p. 497-501. 1984.<br />
FADURPE. Estudo do Ecossistema dos Reservatórios das Barragens do Sistema Hidrelétrico <strong>de</strong><br />
Paulo Afonso e Itaparica. Terceira etapa. 3º Relatório. Recife. 2002.
127<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
HIDROSERVICE – <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> Projetos Ltda. Estudos Ambientais Volume II – Diagnóstico<br />
Ambiental da Área <strong>de</strong> Influência do Empreendimento – Usina Hidroelétrica <strong>de</strong> Itaparica, Recife:<br />
CHESF, 1987.<br />
IRGANG, B.E.; C.V.S. GASTAL Jr. Macrófitas aquáticas da planície costeira do Rio Gran<strong>de</strong> do<br />
Sul. Porto Alegre, 1996.<br />
KUBITZA, F. Tanques-re<strong>de</strong>, Rações e Impacto Ambiental. Panorama da Aqüicultura, v. 9, n. 51, p.<br />
44-50. 1999.<br />
MEUNIER, C. Construire em terre crue: hier et aujourd´hui em Dauphiné em France dans lê mon<strong>de</strong>.<br />
(Texto e diapositivo). Grenoble: CRDP et CDDP <strong>de</strong> l´Aca<strong>de</strong>mie <strong>de</strong> Grenoble. 34p. 24 diapositivos,<br />
color. 1998.<br />
MÜLLER, A.C. Hidrelétricas, Meio Ambiente e Desenvolvimento. São Paulo: Makron Books,<br />
1995.<br />
MINKE, G. Manual <strong>de</strong> construccion em tierra: la tierra como material <strong>de</strong> construcción y sus<br />
aplicaciones en la arquitectura actual. Montevidéo: Nordan-Comunidad, 2001.<br />
LANGE, S. The control of aquatic plant by commercial harvesting, processing and marketing.<br />
Proc. Southern Weed Conf. v. 18, p. 536- 452. 1996.<br />
LOPES, J.P.; TENÓRIO, R.A. Contribuição para o conhecimento <strong>de</strong> macrófitas aquáticas<br />
existentes nos lagos e reservatórios do complexo hidrelétrico <strong>de</strong> Paulo Afonso - 0 CHESF. XIX<br />
CONGRESSO DA SOCIEDADE BOTÂNICA DE SÃO PAULO. Anais... Rio Claro: UNESP,<br />
2002.<br />
TENÓRIO, R. A. et al. Desempenho do Niquim, Lophiosilurus alexandri (Pisces, Siluriformes,<br />
Pimelodidae), em Gaiolas Flutuantes durante 365 dias <strong>de</strong> Cultivo. In: XI CONGRESSO BRASILEIRO<br />
DE ENGENHARIA DE PESCA. RECIFE, V. 1. Anais... Recife: CONLAEP, AEP-PE/FAEP-BR,<br />
1999. p. 270-277.<br />
VEGA, L.M.F. Contribución al Estudio <strong>de</strong> Plantas Acuáticas en Embalses Hidroeléctricos. El caso<br />
Itaipu (Margem Derecha). Ciudad <strong>de</strong>l Este: Itaipu Binacional, 1997.�
128<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
ANÁLISE ESTATÍSTICA DAS VARIÁVEIS DE CULTIVO DO<br />
CAMARÃO-CINZA Litopenaeus vannamei (BOONE, 1931)<br />
Bruno Leonardo da Silva SANTOS (brunopesca@hotmail.com);<br />
Paulo <strong>de</strong> Paula MENDES (paulo_ufrpe@yahoo.com.br)<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura/UFRPE.<br />
RESUMO<br />
Foram utilizados 53 dados <strong>de</strong> cultivos <strong>de</strong> uma fazenda comercial do camarão-cinza Litopenaeus<br />
vannamei, objetivando correlacionar as variáveis respostas com as <strong>de</strong> manejo utilizando-se mo<strong>de</strong>los<br />
matemáticos. As variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes analisadas foram: sobrevivência, peso final, fator <strong>de</strong> conversão<br />
alimentar, produção, produtivida<strong>de</strong> e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração, enquanto que as in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes foram:<br />
número do viveiro, número do ciclo, área do viveiro, trimestre do ano, ano, <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem,<br />
dias <strong>de</strong> cultivo, laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva e marca da ração. Para selecionar as variáveis<br />
significativas nos mo<strong>de</strong>los (P < 0,05), utilizou-se a técnica <strong>de</strong> Stepwise associada ao processo <strong>de</strong><br />
transformação <strong>de</strong> Box e Cox. A estimação do transformador (λ) foi feito com a minimização da soma<br />
dos quadrados dos resíduos. Verificou-se que dias <strong>de</strong> cultivo, <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem, laboratório<br />
fornecedor <strong>de</strong> pós-larva e a área dos viveiros foram as variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes significativas para<br />
predição das variáveis respostas.<br />
PALAVRAS CHAVE: Litopenaeus vannamei, manejo, mo<strong>de</strong>los, variáveis.<br />
ABSTRACT<br />
STATISTICAL ANALYSIS OF THE VARIABLE OF CULTIVATION OF THE SHRIMP<br />
Litopenaeus vannamei (BOONE, 1931)<br />
Fifty tree data of cultivations of the commercial marine shrimp farm Litopenaeus vannamei were used,<br />
to correlate the <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt variables with the one of handling being used mathematical mo<strong>de</strong>ls. The<br />
analyzed <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt variables were: survival, final weight, ration rate, factor of alimentary conversion,<br />
production, productivity and amount of ration, while the in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt ones were: number of the pond,<br />
number of the cycle, area of the pond, trimester of the year, year, stocking <strong>de</strong>nsity, days of cultivation,<br />
supplying laboratory of post-larvae and mark of the ration. To select the significant variables in the<br />
mo<strong>de</strong>ls (P < 0.05), it was used the technique of Stepwise associated to the process of transformation of<br />
Box and Cox. The estimate of the transformer (λ) it was done with the minimization of the sum of the<br />
squares of the residues. It was verified that days of cultivation, stocking <strong>de</strong>nsity, and supplying<br />
laboratory of post-larvae and the area of the pond were the significant in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt variables for<br />
prediction of the variables.<br />
KEYWORDS: Litopenaeus vannamei, handling, mo<strong>de</strong>ls, variables.
INTRODUÇÃO<br />
129<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A produção mundial <strong>de</strong> crustáceos em 2003 foi <strong>de</strong> aproximadamente 2,8 milhões <strong>de</strong> toneladas,<br />
em que os três principais produtores foram China, Tailândia e Vietnã. Desse total <strong>de</strong> crustáceos<br />
cultivados 75% foram representados pelos peneí<strong>de</strong>os e, aproximadamente, 25,9% <strong>de</strong>ssa produção foi<br />
gerada pelo Litopenaeus vannamei sendo, portanto, a espécie mais cultivada no mundo (LIMA e<br />
MENDES, 2005). Atualmente, no Brasil, o L. vannamei é a única espécie <strong>de</strong> camarão-cinza cultivada.<br />
O Brasil produziu em 2004 aproximadamente 75,9 mil toneladas da espécie, o que correspon<strong>de</strong>ram a<br />
5,47% da produção mundial (FAO, 2006). O Nor<strong>de</strong>ste do Brasil é o principal pólo da ativida<strong>de</strong> da<br />
carcinicultura do país, acolhendo um total <strong>de</strong> 883 produtores, os quais são classificados em pequeno,<br />
médio e <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> porte e foram responsáveis por 93,1% da produção nacional em 2004. O estado <strong>de</strong><br />
Pernambuco possui 98 produtores e <strong>de</strong>staca-se por ser o quarto maior produtor do país (RODRIGUES,<br />
2005).<br />
No Brasil, a gran<strong>de</strong> parte dos empreen<strong>de</strong>dores da carcinicultura adota o cultivo bifásico,<br />
composto pela fase <strong>de</strong> berçário e <strong>de</strong> engorda. Segundo Nunes (2004), a fase berçário serve para<br />
aclimatar os camarões às condições ambientais da fazenda e selecionar os indivíduos mais resistentes e<br />
com tamanho homogêneo para a fase <strong>de</strong> engorda. Em sua maioria, a fase berçário, é <strong>de</strong>senvolvida em<br />
tanques <strong>de</strong> alvenaria, a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem média é <strong>de</strong> 15 a 30 mil pós-larva/m³ e o período <strong>de</strong><br />
cultivo <strong>de</strong> 10 a 15 dias. A gran<strong>de</strong> maioria dos criadores <strong>de</strong> camarão brasileiro adota a metodologia <strong>de</strong><br />
cultivo semi-intensivo (na fase <strong>de</strong> engorda), a qual é caracterizada por <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s populacionais<br />
relativamente mo<strong>de</strong>radas (20 a 30 ind/m 2 ), pela utilização <strong>de</strong> aeradores, em horários críticos <strong>de</strong><br />
diminuição do oxigênio dissolvido na água, e também pelo uso <strong>de</strong> ração como complemento ao<br />
alimento natural presente no viveiro (PONTES e ARRUDA, 2005).<br />
Técnicas estatísticas têm sido utilizadas para analisar os dados e mo<strong>de</strong>lar os parâmetros<br />
relacionados com o cultivo <strong>de</strong> camarão, buscando otimizar a produção. A análise <strong>de</strong> regressão é uma<br />
das técnicas utilizadas para correlacionar os dados <strong>de</strong> manejo e vários autores já utilizaram esse método<br />
(PEREIRA, 2001; LIMA, 2005; XIMENES, 2005; BEZERRA, 2006). Segundo Men<strong>de</strong>s (1999), a<br />
regressão tem como objetivo explicar ou prever <strong>de</strong>terminados eventos, baseando-se em fatores que<br />
po<strong>de</strong>m ser quantitativos e ou qualitativos, mas que sejam relacionáveis entre si. A regressão é uma<br />
técnica estatística utilizada para <strong>de</strong>terminar uma curva ou uma reta que melhor ajuste aos dados<br />
observados (PEREIRA, 2001). Men<strong>de</strong>s (1999), ao relacionar uma variável resposta Y, em função <strong>de</strong><br />
outras variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, recomenda a utilização do seguinte mo<strong>de</strong>lo linear múltiplo:
Yi = β0 + β1X1i + β2X2i + ... + βkXki + ei<br />
130<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Em que: Yi – i-ésima observação da variável <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte Y; β0, β1, β2, ..., βk – parâmetros do mo<strong>de</strong>lo; X1, X2, ...,<br />
Xk – variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes; ei - erro aleatório com distribuição N(0, σ 2 ).<br />
Para estimar os parâmetros do mo<strong>de</strong>lo (β) Men<strong>de</strong>s et al. (2006), aconselham fazer com o auxílio<br />
<strong>de</strong> matrizes, ou seja:<br />
bk ˆ = (X T X) -1 (X T Y)<br />
Em que: T – matriz transposta; -1 – matriz inversa; k bˆ – estimadores <strong>de</strong> βk = (0, 1, 2,..., k)<br />
Nesses mo<strong>de</strong>los, ou seja com “Xk” variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, segundo Neter e Wasserman<br />
(1974), a técnica mais utilizada para selecionar as variáveis significativas é a <strong>de</strong> “Stepwise”. Essa<br />
técnica consiste basicamente em estimar o valor da sua estatística “F” <strong>de</strong> todas as variáveis<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, em relação a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, e <strong>de</strong>pois, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo do seu valor coloca-la ou não no<br />
mo<strong>de</strong>lo. Depen<strong>de</strong>ndo da técnica uma variável que foi inserida no mo<strong>de</strong>lo, po<strong>de</strong>rá ser retirada<br />
posteriormente (MENDES et al., 2006). Para que um mo<strong>de</strong>lo possa ser utilizado, faz-se necessário<br />
realizar a análise <strong>de</strong> variância (ANOVA) para regressão, a qual tem como finalida<strong>de</strong> verificar a<br />
linearida<strong>de</strong> do conjunto dos dados observados (DRAPPER E SMITH, 1981; MONTGOMERY E<br />
PECK, 1982). Com a ANOVA, testa-se se a equação ajustada apresenta as inclinações (β1, 2, 3,..., k)<br />
iguais a zero ou não (MENDES et al., 2006).<br />
Portanto, objetivou-se com o presente trabalho analisar estatisticamente as variáveis <strong>de</strong> cultivo<br />
<strong>de</strong> uma fazenda comercial <strong>de</strong> camarão-cinza Litopenaeus vannamei, com o intuito <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificar as<br />
variáveis <strong>de</strong> manejo mais significativas sobre as variáveis respostas <strong>de</strong> cultivo.<br />
MATERIAL E MÉTODOS<br />
Dados oriundos <strong>de</strong> uma fazenda do camarão-cinza Litopenaeus vannamei, foram utilizados para<br />
correlacionar matematicamente as variáveis <strong>de</strong> manejo com os dados <strong>de</strong> produção. A referida fazenda<br />
localiza-se no município <strong>de</strong> Sirinhaém, distante 76 Km do Recife, no litoral sul do Estado <strong>de</strong><br />
Pernambuco, Brasil. Esse agronegócio, possui uma área total <strong>de</strong> 54 ha, dos quais 30,7ha são <strong>de</strong>stinados<br />
a carcinicultura. A captação <strong>de</strong> água é realizada por uma estação <strong>de</strong> bombeamento, localizada às<br />
margens do estuário do Rio dos Passos. Sua infra-estrutura principal é composta por prédio <strong>de</strong><br />
administração, quatro tanques-berçário, sendo dois <strong>de</strong> 200 m 3 e dois <strong>de</strong> 100 m 3 . Possui 11 viveiros com<br />
área média <strong>de</strong> 2,64ha/cada.<br />
O sistema <strong>de</strong> cultivo utilizado na fazenda é o bifásico. Na primeira fase, as pós-larvas (PL) são<br />
aclimatadas as condições locais, estocadas a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 25 a 30 PL/L, durante 15 a 20 dias, em<br />
tanques-berçário <strong>de</strong> alvenaria e com forma retangular. Após esse período são transferidas para os
131<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
viveiros <strong>de</strong> engorda (segunda fase), utilizando-se recipientes <strong>de</strong>nominados submarinos. Nessa fase, a<br />
<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> estocagem é <strong>de</strong> 40 camarões/m 2 . Nos viveiros as pós-larvas são estocadas até<br />
atingirem peso para comercialização.<br />
Os tanques-berçário ou os viveiros <strong>de</strong> engorda, antes <strong>de</strong> serem povoados são submetidos a um<br />
período <strong>de</strong> vazio, para sua preparação. A limpeza e <strong>de</strong>sinfecção dos tanques-berçário são feitas<br />
retirando-se os incrustantes, contido na lateral dos tanques, <strong>de</strong>pois são lavados com sabão neutro e em<br />
seguida água clorada (5,0 ppm) e exposição ao sol durante dois dias. A limpeza dos viveiros <strong>de</strong><br />
engorda é baseada na remoção dos incrustantes encontrados nas estacas <strong>de</strong> fixação das ban<strong>de</strong>jas, nas<br />
ban<strong>de</strong>jas, cascos dos aeradores, comportas <strong>de</strong> drenagem e abastecimento. Após a retirada dos<br />
incrustantes é feito o mapeamento do solo, objetivando i<strong>de</strong>ntificar as isolinhas <strong>de</strong> pH e, posteriormente,<br />
fazer a aplicação <strong>de</strong> calcário dolomítico, para sua correção. Também é feita a esterilização, com cal<br />
virgem e hipoclorito <strong>de</strong> sódio, para eliminar possíveis parasitas e predadores existentes no viveiro. A<br />
cal virgem é utilizada nas valas dos viveiros e ao redor das estacas das ban<strong>de</strong>jas <strong>de</strong> alimentação. O<br />
hipoclorito é utilizado apenas nas valas. Após este processo são feitas as vedações das comportas,<br />
colocação das telas e em seguida inicia-se o enchimento do viveiro.<br />
A última etapa para o processo <strong>de</strong> preparação do viveiro <strong>de</strong> engorda é a fertilização, cujo<br />
objetivo é o aumento da disponibilida<strong>de</strong> do alimento natural já existente no viveiro. O uso <strong>de</strong><br />
fertilizante foi feito <strong>de</strong> acordo com as peculiarida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cada viveiro (Área, profundida<strong>de</strong>, produção<br />
natural do viveiro, etc.). Os principais fertilizantes utilizados foram: Silicato e Nitrato <strong>de</strong> sódio.<br />
Na fase do berçário, administrou-se ração a cada duas horas durante todo o dia. Na engorda, nos<br />
primeiros 25 dias a ração foi administrada a lanço. Após esse período, a ração foi administrada em<br />
ban<strong>de</strong>jas e ofertada três vezes ao dia, em intervalos <strong>de</strong> quatro horas, com a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração<br />
previamente <strong>de</strong>terminada.<br />
Após 30 dias <strong>de</strong> cultivo iniciaram-se semanalmente as biometrias, com intuito <strong>de</strong> coletar<br />
dados para monitorar o crescimento e as condições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos camarões. Foram escolhidos quatro<br />
pontos distintos do viveiro, para coleta do material. Em média, para cada ponto, foram capturados 50<br />
camarões. Baseando-se nessas amostras foram avaliados o crescimento dos camarões.<br />
O monitoramento da qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água (oxigênio dissolvido, temperatura, transparência, pH e<br />
salinida<strong>de</strong>) foi realizado diariamente com três mensurações no período do dia e três durante a noite com<br />
exceção da transparência o qual era mensurado uma vez ao dia. Com base nesses resultados foram<br />
tomadas ações corretivas.<br />
Com base nas informações referidas anteriormente quanto ao manejo, foi organizado o Banco<br />
<strong>de</strong> Dados correspon<strong>de</strong>nte ao período do 3º trimestre <strong>de</strong> 2003 ao 4º trimestre <strong>de</strong> 2005. A massa <strong>de</strong> dados
132<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
utilizada foi or<strong>de</strong>nada pelas variáveis respostas (<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes) e as <strong>de</strong> manejo (in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes) <strong>de</strong><br />
acordo com a Tabela 1.<br />
Tabela 1 - Variáveis utilizadas para o gerenciamento do Banco <strong>de</strong> Dados <strong>de</strong> produção<br />
do camarão-cinza Litopenaeus vannamei.<br />
Variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes Variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />
Sobrevivência (%) (Sob) Número do viveiro (Viv)<br />
Peso final (kg) (Pfinal) Número do ciclo (Ciclo)<br />
Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA) Área do viveiro (ha) (Area)<br />
Produção (kg) (Prod) Trimestre do ano (Trim)<br />
Produtivida<strong>de</strong> (kg/ha/ciclo) (Prodt) Ano (Ano)<br />
Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração (kg) (Qração) Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem (ind/m²) (Dini)<br />
Dias <strong>de</strong> cultivo (Dcult)<br />
Laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva (LAB)<br />
Marca da ração (RAC)<br />
A variável “Trimestre do ano” (Trim) foi inserida no Banco <strong>de</strong> Dados baseando-se na data <strong>de</strong><br />
início do cultivo, portanto cada cultivo foi i<strong>de</strong>ntificado com Trim1, ou Trim2, ou Trim3 ou Trim4, para<br />
os trimestres <strong>de</strong> 1 a 4, respectivamente. A variável “Laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” (LAB) foi<br />
representada por 4 empresas, doravante <strong>de</strong>nominadas <strong>de</strong> LAB1, LAB2, LAB3 e LAB4. Enquanto que a<br />
<strong>de</strong> ração (RAC), por 3 empresas (RAC1, RAC2 e RAC3). Para correlacionar as variáveis respostas <strong>de</strong><br />
cultivo com as <strong>de</strong> manejo (Tabela 1), utilizou-se o seguinte mo<strong>de</strong>lo linear múltiplo:<br />
Respostai λ = β0 + β1 Viv + β2 Ciclo + β3 Area + β4 Trim1 + β5 Trim2 + β6 Trim3 + β7Ano +<br />
+ β8 Dini + β9 Dculti + β10 LAB1 + β11 LAB2 + β12 LAB3 + β13 RAC1 +<br />
+ β14 RAC2 + єi<br />
Em que: Resposta – po<strong>de</strong>rá assumir as variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes; β0, β1, β2, ..., β14 – parâmetros do mo<strong>de</strong>lo; Viv –<br />
Viveiro; Ciclo – Ciclo; Área – Área; Trim1 – 1ºtrimestre do ano; Trim2 - 2ºtrimestre do ano; Trim3 - 3ºtrimestre<br />
do ano; Ano – Ano; Dini – Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem; Dcult – dias <strong>de</strong> cultivo; LAB1 – Fornecedor <strong>de</strong> pós-larva 1;<br />
LAB2 – Fornecedor <strong>de</strong> pós-larva 2; LAB3 – Fornecedor <strong>de</strong> pós-larva 3; RAC1 – Fabricante <strong>de</strong> ração 1; RAC2 –<br />
Fabricante <strong>de</strong> ração 2; λ – Coeficiente <strong>de</strong> transformação; є – Erro; i – i-ésima observação.
133<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
As variáveis <strong>de</strong> manejo “Trimestre do Ano”, “Laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” e “Marca da<br />
ração”, por serem qualitativas foram inseridas no mo<strong>de</strong>lo sob forma <strong>de</strong> variável muda (0 ou 1). Para<br />
não ocorrer numa in<strong>de</strong>terminação do <strong>de</strong>terminante na matriz <strong>de</strong> dados, fez-se necessária a exclusão <strong>de</strong><br />
um dos níveis <strong>de</strong> cada uma <strong>de</strong>ssas variáveis, no mo<strong>de</strong>lo. Os parâmetros do referido mo<strong>de</strong>lo (β) foram<br />
estimados com auxílio das matrizes <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminação, segundo recomendações preconizadas por<br />
Men<strong>de</strong>s et al. (2006). Para selecionar as variáveis significativas no mo<strong>de</strong>lo (P < 0,05) foi utilizada a<br />
técnica <strong>de</strong> Stepwise forward e/ou backward, associada ao processo <strong>de</strong> transformação <strong>de</strong> Box e Cox<br />
(BOX e COX, 1964). A estimação do coeficiente <strong>de</strong> transformação (λ) foi feito com a minimização da<br />
soma dos quadrados dos resíduos, <strong>de</strong> acordo com recomendações <strong>de</strong> Montgomery e Peck (1982). Os<br />
cálculos <strong>de</strong> estimação dos mo<strong>de</strong>los foram realizados utilizando os softwares Syseapro e Excel.<br />
RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />
Dos 53 registros <strong>de</strong> cultivo foram utilizados apenas 43 dados em <strong>de</strong>corrência dos <strong>de</strong>mais<br />
apresentarem valores <strong>de</strong>stoantes a um Banco <strong>de</strong> Dados para o camarão-cinza Litopenaeus vannamei, ou<br />
por apresentarem erros como valores faltando. Portanto, ao utilizar a estatística <strong>de</strong>scritiva (mínimo,<br />
máximo e média) verificou-se os resultados apresentados na tabela 2.<br />
Tabela 2 - Variação dos dados <strong>de</strong> cultivo do camarão-cinza Litopenaeus<br />
vannamei, oriundos <strong>de</strong> uma fazenda comercial.<br />
VARIÁVEIS MÍNIMOS MÁXIMOS MÉDIA ± ERRO*<br />
Ciclo 1 9 4,53 ± 0,65<br />
Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem (ind/m 2 ) 14,5 71,4 42,04 ± 4,08<br />
Dias <strong>de</strong> cultivo (dias) 69 177 115,93 ± 7,79<br />
Sobrevivência (%) 40,1 89 70,07 ± 3,45<br />
Área (ha) 1,75 3,77 2,62 ± 0,11<br />
Peso final (g) 6,8 14 10,1 ± 0,57<br />
Produção (kg) 1677 18471 7753,37 ± 1019,97<br />
Produtivida<strong>de</strong> (kg/ha/ciclo) 682 6527 2961,69 ± 363,67<br />
Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração (kg) 2378 31505 13681,95 ± 1878,77<br />
FCA 1,01 2,68 1,7 ± 0,09<br />
* Erro = t (GL; α/2). x<br />
S . Em que: t – distribuição t <strong>de</strong> stu<strong>de</strong>nt; x<br />
S – erro padrão da média.
134<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
De acordo com os dados da Tabela 2, observou-se que se trata <strong>de</strong> uma fazenda <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s<br />
recente, pois o número máximo <strong>de</strong> ciclo foi <strong>de</strong> 9. Admitindo a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 3 cultivos por ano<br />
(115,93 ± 7,79 dias), estimou-se uma vida útil nesse agronegócio <strong>de</strong> 3 anos, aproximadamente.<br />
Verificou-se também gran<strong>de</strong> variação entre o peso final mínimo e máximo (106,0%), o que po<strong>de</strong> ser<br />
atribuído à variação dos dias <strong>de</strong> cultivo. A gran<strong>de</strong> variação do peso final e da sobrevivência influenciou<br />
diretamente nas variáveis respostas produção, produtivida<strong>de</strong> e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração. Ao correlacionar as<br />
variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes com as in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, obtiveram-se as seguintes equações matemáticas e suas<br />
respectivas análises <strong>de</strong> variância apresentado na Tabela 3.<br />
As equações apresentadas na Tabela 3 para serem utilizadas <strong>de</strong>vem estar em conformida<strong>de</strong> com<br />
os valores <strong>de</strong> mínimos e máximos apresentados na tabela 2. Ao observar as equações matemáticas<br />
verificou-se que algumas variáveis <strong>de</strong> manejo não influenciaram nas variáveis respostas <strong>de</strong> cultivo<br />
(Trimestre do ano, Ciclo, Fabricante <strong>de</strong> ração e o número do viveiro) (Tabela 3).<br />
Esses resultados contradizem os mo<strong>de</strong>los estimados por Lima (2005) e Bezerra (2006). Com<br />
base nas equações estimadas, foram construídas as respectivas representações gráficas para uma melhor<br />
compreensão e análise dos dados.<br />
Verificou-se que o fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA) foi influenciado apenas pela variável<br />
“dias <strong>de</strong> cultivo”, ou seja, quanto maior o tempo <strong>de</strong> cultivo maior o valor do FCA (Figura 1). Maia et<br />
al. (2004), ao avaliarem a influência da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem no FCA, constatou que essa variável<br />
não influenciou estatisticamente no mesmo e sim que o FCA obe<strong>de</strong>ceu a uma estreita relação com o<br />
tempo <strong>de</strong> cultivo, aumentando com o incremento da duração do tempo <strong>de</strong> cultivo e diminuindo à<br />
medida que o mesmo <strong>de</strong>cresce. Lima (2005) em uma análise similar encontrou que o FCA é<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do tempo <strong>de</strong> cultivo e outras variáveis.<br />
Verificou-se que o aumento da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem das pós-larvas, até 71,4ind/m²,<br />
propiciou uma maior produtivida<strong>de</strong> e que nesse caso as pós-larvas com origem do laboratório 3, “Dcult<br />
69” e “Dini 14,5”, tiveram uma produtivida<strong>de</strong> maior em 25,34% em relação as <strong>de</strong>mais fornecedoras <strong>de</strong><br />
pós-larvas (Figura 2). Wasielesky et al. (2003) ao cultivarem o Farfantepenaeus paulensis obtiveram<br />
que as melhores <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cultivo encontram-se no intervalo <strong>de</strong> 15 a 30 ind/m². Almeida et al.<br />
(1999) ao cultivarem o L.vannamei utilizando rações alternativas e não utilizando aeração mecânica<br />
estimou que a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 10ind/m² foi a melhor <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cultivo, mas ressaltou que com isto a<br />
produtivida<strong>de</strong> era menor. Castro et al. (2000) utilizando <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 30 ind/m² durante 95 dias<br />
obtiveram uma produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 724,79kg/ha/ciclo.
135<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Tabela 3 - Equações matemáticas obtidas para dados <strong>de</strong> cultivo do camarão-cinza<br />
Litopenaeus vannamei, em viveiros comerciais.<br />
1. Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA)<br />
EQUAÇÃO: FCA = (0,9228 + 0,00327*Dcult)²<br />
ANOVA<br />
FV GL SQ QM F Prob(F)<br />
Regressão 1 2,0377 2,0377 46,8612 0,0000<br />
Resíduo 40 1,7393 0,0435<br />
R² = 0,528 λ = 0,5<br />
2. Produtivida<strong>de</strong> (Prodt)<br />
EQUAÇÃO: Prodt = (9,9256 + 0,16627*Dcult + 0,523*Dini + 4,5605*LAB3)²<br />
ANOVA<br />
FV GL SQ QM F Prob(F)<br />
Regressão 3 44848802,6428 14949600,8809 42,6395 0,0000<br />
Resíduo 38 13322985,3027 350604,8764<br />
R² = 0,7529 λ = 0,5<br />
3. Peso final (Pfimal)<br />
EQUAÇÃO: Pfina l = (2,2137 + 0,008282*Dcult)²<br />
ANOVA<br />
FV GL SQ QM F Prob(F)<br />
Regressão 1 77,0059 77,0059 45,3187 0,0000<br />
Resíduo 40 67,9683 1,6992<br />
R² = 0,5194 λ = 0,5<br />
4. Sobrevivência (Sob)<br />
EQUAÇÃO: Sob = (70,9052 - 0,5686*Dcult)/ (1 – 0,008*Dcult)<br />
ANOVA<br />
FV GL SQ QM F Prob(F)<br />
Regressão 2 4997,1162 2498,5581 372,5349 0,0000<br />
Resíduo 39 261,5695 6,7069<br />
R² = 0,9477<br />
5. Produção (Prod)<br />
EQUAÇÃO: Prod = (-8,07026 + 8,249*Area + 0,2793*Dcult + 0,8541*Dini + 8,9544*LAB3)²<br />
ANOVA<br />
FV GL SQ QM F Prob(F)<br />
Regressão 4 352131364,4153 88032841,1038 39,3856 0,0000<br />
Resíduo 37 82700657,0376 2235152,8929<br />
R² = 0,7892 λ = 0,5<br />
6. Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração (Qração)<br />
EQUAÇÃO: Qração = (-31,1039 + 8,3161*Área + 0,6241*Dcult + 1,0797*Dini + 11,3439*LAB3)²<br />
ANOVA<br />
FV GL SQ QM F Prob(F)<br />
Regressão 4 1413216375,6075 353304093,9019 72,2814 0,0000<br />
Resíduo 37 180852291,7311 4887899,7765<br />
R² = 0,8785 λ = 0,5
Fator <strong>de</strong> Conversão Alimentar<br />
(FCA)<br />
Figura 1 - Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA) do camarão-cinza<br />
Litopenaeus vannamei em função dos dias <strong>de</strong> cultivo.<br />
Produtivida<strong>de</strong> (kg/ha/ciclo)<br />
2,50<br />
2,00<br />
1,50<br />
1,00<br />
0,50<br />
4500<br />
3500<br />
2500<br />
1500<br />
500<br />
FCA = (0,9228 + 0,003271*Dcult)²<br />
R² = 0,528<br />
136<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
65 80 95 110 125 140 155 170 185<br />
Dias <strong>de</strong> cultivo<br />
Prodt = (9,9256 + 0,16627*Dcult + 0,523*Dini + 4,5605*LAB3)²<br />
R² = 0,7529<br />
14 24 34 44 54 64 74<br />
Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Estocagem (ind/m²)<br />
Dcult = 69<br />
LAB 3<br />
Dcult = 69<br />
Outros LAB<br />
Figura 2 - Produtivida<strong>de</strong> em função da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem do<br />
camarão-cinza Litopenaeus vannamei (ind/m²) em viveiros comerciais.<br />
De acordo com o mo<strong>de</strong>lo para predição do peso final do camarão-cinza, verificou-se que foi<br />
diretamente proporcional apenas ao tempo <strong>de</strong> cultivo (Figura 3). Bezerra (2006) i<strong>de</strong>ntificou também a<br />
influência do tempo <strong>de</strong> cultivo no ganho <strong>de</strong> peso, porém em seu mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong>tectou a influência da<br />
origem das pós-larvas. Pereira (2001), em seu trabalho com Macrobrachium rosenbergii, constatou que<br />
em cultivos realizados com tempos mais longos, foram obtidos indivíduos com maior ganho <strong>de</strong> peso.<br />
Men<strong>de</strong>s et al. (1997), trabalhando com a espécie Macrobrachium rosenbergii, observaram que os<br />
camarões apresentam maior ganho <strong>de</strong> peso quando cultivados por períodos mais longos. Lima (2005).
Peso final (g)<br />
16<br />
14<br />
12<br />
10<br />
8<br />
6<br />
Pfinal = (2,2137 + 0,008282*Dcult)²<br />
R² = 0,5154<br />
137<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
65 80 95 110 125 140 155 170 185<br />
Dias <strong>de</strong> Cultivo<br />
Figura 3 - Peso final em função dos dias <strong>de</strong> cultivo Litopenaeus vannamei em<br />
viveiros comerciais.<br />
ao analisar o peso final dos camarões L.vannamei observou que além do tempo <strong>de</strong> cultivo outras<br />
variáveis influenciam no seu resultado.Ao correlacionar a sobrevivência com as variáveis <strong>de</strong> cultivo,<br />
verificou-se que ela foi inversamente proporcional ao tempo <strong>de</strong> cultivo e que, nessa equação (Figura<br />
4), apenas o tempo <strong>de</strong> cultivo influenciou nessa resposta.<br />
Sobrevivência (%)<br />
72<br />
71<br />
70<br />
69<br />
Sob = (70,9052 - 0,5686*Dcult) / (1 - 0,008*Dcult)<br />
R² = 0,9477<br />
65 75 85 95 105 115<br />
Dias <strong>de</strong> Cultivo<br />
Figura 4 - Sobrevivência em função dos dias <strong>de</strong> cultivo Litopenaeus.vannamei<br />
em viveiros comerciais.
138<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Segundo Lima (2005), a variável sobrevivência é influenciada pela estação do ano, o que está<br />
em <strong>de</strong>sacordo com presente trabalho, porém ele obteve um R² igual a 0,042, levando a acreditar que<br />
seu mo<strong>de</strong>lo não foi muito preciso. Mo<strong>de</strong>sto e Maia (2004), cultivando o L .vannamei em viveiros<br />
berçários intensivos durante 41 dias obtiveram uma sobrevivência <strong>de</strong> 96,3% e durante 43 dias<br />
sobrevivência <strong>de</strong> 87,9%, porém eles não atribuíram a gran<strong>de</strong> diferença na sobrevivência apenas a<br />
diferença ao tempo <strong>de</strong> cultivo. Paquote et al. (1998), cultivando o L. vannamei em tanque-re<strong>de</strong><br />
obtiveram uma sobrevivência <strong>de</strong> 49% após 120 dias <strong>de</strong> cultivo.<br />
A produção do camarão-cinza L. vannamei, em viveiros comerciais, foi altamente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da área<br />
dos viveiros, dos dias <strong>de</strong> cultivo, da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem e fornecedor <strong>de</strong> pós-larvas (Figura 5). A<br />
produção foi maximizada quando se utilizaram pós-larvas oriundas <strong>de</strong> LAB3, o qual propiciou aumento<br />
<strong>de</strong> 34,38% na produção, em relação às <strong>de</strong>mais pós-larvas.<br />
Produção (kg)<br />
10000<br />
8000<br />
6000<br />
4000<br />
2000<br />
0<br />
Prod = (-8,07026 + 8,249*Area + 0,2793*Dcult +<br />
+ 0,8541*dini + 8,9544*LAB3)²<br />
R² = 0,7892<br />
14 24 34 44 54 64 74<br />
Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Estocagem (ind/m²)<br />
Area = 1,75 ha<br />
Dcult = 69 dias<br />
LAB3<br />
Area = 1,75 ha<br />
Dcult = 69 dias<br />
Outros LAB<br />
Figura 5 - Produção em função da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem <strong>de</strong> pós-larvas<br />
do Litopenaeus vannamei em viveiros comerciais.<br />
Castro et al. (2000), utilizando dados <strong>de</strong> produção, observaram que um viveiro <strong>de</strong> 2,34 ha<br />
submetido a uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 30ind/m², obtém-se uma produção <strong>de</strong> 1696 kg. Cavalcanti et al. (2000),<br />
analisando os dados <strong>de</strong> cultivo em um viveiro <strong>de</strong> 3,0 ha e uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 19,35 ind/m²<br />
observaram uma produção média <strong>de</strong> 4276,5 kg. Ostrensky et al. (2000), citaram que em viveiros com<br />
área <strong>de</strong> 2,92 ha, com <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 11,73 ind/m², é possível obter uma produção <strong>de</strong> 3282 kg.<br />
Assim como na produção (Figura 5), verificou-se que a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração administrada<br />
(Figura 6) para o L.vannamei foi proporcional à área do viveiro, dias <strong>de</strong> cultivo, <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
estocagem e aos laboratórios fornecedores <strong>de</strong> pós-larvas. Ao utilizar as pós-larvas oriundas do LAB3
139<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
foi i<strong>de</strong>ntificado um aumento <strong>de</strong> 37,9% na quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração administrada em relação às pós-larvas<br />
dos outros fornecedores. Verificou-se que a relação entre <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
ração administrada foi crescente. Maia et al. (2000), ao cultivarem o L.vannamei durante 113 dias<br />
obtiveram um consumo <strong>de</strong> 5100 kg <strong>de</strong> ração. Castro (2000), ao cultivar o L.vannamei em sistema semiintensivo<br />
com uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 30 ind/m² durante 95 dias utilizou 1967 kg <strong>de</strong> ração.<br />
Os mo<strong>de</strong>los, para correlacionar o peso final e fator <strong>de</strong> conversão alimentar, não apresentaram<br />
um bom índice <strong>de</strong>terminístico (R²) isto po<strong>de</strong> ser atribuído à falta <strong>de</strong> outras variáveis principalmente os<br />
parâmetros físicos e químicos da água como oxigênio dissolvido, pH, temperatura, salinida<strong>de</strong>, etc. que<br />
po<strong>de</strong>m ser associadas a essas respostas.<br />
Qunatida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ração (kg)<br />
16000<br />
13000<br />
10000<br />
7000<br />
4000<br />
1000<br />
Qração = (-31,1039 + 8,3161*Area + 0,6241*Dcult +<br />
+ 1,0797*Dini + 11,3439*LAB3)²<br />
R² = 0,8785<br />
14 24 34 44 54 64 74<br />
Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Estocagem (ind/m²)<br />
Figura 6 - Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração ofertada ao camarão-cinza Litopenaeus<br />
vannamei quando submetido as diferentes <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> estocagens.<br />
CONCLUSÕES<br />
Area = 1,75<br />
Dcult = 69<br />
LAB3<br />
Area = 1,75<br />
Dcult = 69<br />
Outros LAB<br />
“Dias <strong>de</strong> cultivo”, “<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem”, “laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” e “área”<br />
foram as variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes significativas para predição das variáveis respostas.<br />
As variáveis respostas “fator <strong>de</strong> conversão alimentar”, “peso final” e “sobrevivência” foram<br />
influenciadas apenas pela variável “dias <strong>de</strong> cultivo”.<br />
A variável in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte “laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” foi altamente significativa nas<br />
respostas <strong>de</strong> “produção”, “produtivida<strong>de</strong>” e “quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração” ofertada.
REFERÊNCIAS<br />
140<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
ALMEIDA, S.A.A. et al. Estudo preliminar do cultivo <strong>de</strong> Penaeus vannamei (Boone, 1931) em tanques<br />
com diferentes <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> estocagem. XI CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA DE<br />
PESCA. Anais… Recife, 1999. p. 648- 653.<br />
BEZERRA, A.M. Seleção <strong>de</strong> Variáveis significativas em mo<strong>de</strong>los otimizados <strong>de</strong> estimação dos<br />
parâmetros <strong>de</strong> cultivo do camarão marinho Litopenaeus vannamei (Boone, 1931). Dissertação<br />
(Mestrado em Biometria), UFRPE, Recife, 2006.100p.<br />
BOX, G. E. P.; COX.D.R. An analysis of transformation. Journal of Roy, Stat. Soc., Ser. B, v. 26, p.<br />
211-243, 1964.<br />
CASTRO, P.F.; MAIA, E.P.;CORREIA, E.S. Efeito da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem sobre o <strong>de</strong>sempenho<br />
do camarão Litopenaeus vannamei cultivado em sistema semi-intensivo In: SIMPÓSIO BRASILEIRO<br />
DE AQUICULTURA – AQUICULTURA BRASIL 2000, 11, 2000. Anais... Florianópolis. CD-ROM.<br />
CAVALCANTI, L.B. et al. Avaliação <strong>de</strong> cultivos do camarão marinho Litopenaeus vannamei em dois<br />
viveiros da Aquamaris Aquacultura S.A., no período <strong>de</strong> 1996 a 1999. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO<br />
DE AQUICULTURA – AQUICULTURA BRASIL 2000, 11, 2000. Anais… Florianópolis. CD-ROM.<br />
DRAPPER, N.R.; SMITH, H. Aplied regression analysis. 2. ed. New York: Jonh Wiley, 1981, 709p.<br />
FAO. Aquacult-PC: Fishery information, data and statistics (FIDI), time series of production from<br />
aquaculture (quantities and values) and capture fishers (quantities). 2006. Programa computacional.<br />
LIMA, R.J.W. Análise estatística das variáveis <strong>de</strong> cultivo do camarão Litopenaeus vannamei (Boone,<br />
1931), Monografia (curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>), UFRPE. 2005. 24p.<br />
LIMA, A.C.; MENDES, P.P. Captura e Aqüicultura: uma visão estatística. In: CONGRESSO<br />
BRASILEIRO DE ENGENHARIA DE PESCA, 14, 2005. Anais... Fortaleza-CE. CD-ROM.<br />
MAIA, E.P.; EVERTON, D.G.; ARAGÃO,M.L.; Avaliação da influência da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem,<br />
sobre o Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (F.C.A) e duração dos ciclos <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> Litopenaeus vannamei<br />
(Boone, 1931) no nor<strong>de</strong>ste do Brasil, p. 69-77. XII SIMPÓSIO BRASILEIRO DE AQÜICULTURA<br />
2004. Fortaleza-CE.<br />
MAIA, E.P.; BOLOGNA, A.S.; ARAGÃO, M.L.; OLIVEIRA, A. Estudo preliminar sobre o cultivo<br />
super-intensivo <strong>de</strong> Litopenaeus vannamei. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE AQÜICULTURA –<br />
AQÜICULTURA BRASIL 2000, 11, 2000, Anais... Florianópolis. CD-ROM.
141<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
MENDES, P.P. Estatística aplicada à aqüicultura. Recife: Bagaço, 1999, 212p.<br />
MENDES, P.P.; BUCATER, L.B.; FRAGA, A.C. Estudos preliminares da utilização <strong>de</strong> tanques re<strong>de</strong><br />
no cultivo do camarão Macrobrachium rosenbergii. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE<br />
ENGENHARIA DE PESCA, 10, 1997, Guarapari-ES. Anais... Guarapari-ES.1997.p. 476<br />
MENDES, P.P.; MENDES, E.S.; BEZERRA, A.M. Análise estatística dos parâmetros aquicolas, com<br />
fins a otimização da produção. Rev. Brás. Zoot., João Pessoa, Paraíba, v.35, p. 886-903, 2006.<br />
MODESTO, G.A.; MAIA, E.P. Cultivo <strong>de</strong> Litopenaeus vannamei (Boone,1931) em viveiros berçários,<br />
intensivo. XII SIMPÓSIO BRASILEIRO DE AQÜICULTURA. Anais…Fortaleza-CE, 2004. p. 88-94,<br />
MONTGOMERY, D.C.; PECK, E.A. Introdution to linear regression analysis . New York: Jonh<br />
Wiley & Sons, Inc, 1982, 504p.<br />
NETER, J.; WASSERMAN, W. Applied Linear Statistical Mo<strong>de</strong>ls. Regression Analysis <strong>de</strong> Variance,<br />
and experimental Designs. Homewood: Richard D. Irwin, 1974.<br />
NUNES, A.J.; Guia Purina – Fundamentos da engorda <strong>de</strong> camarões marinhos. 2ed. Recife, 2004.<br />
42.p. Disponível em: www.agribands.com.br, Acesso em: 15 agosto <strong>de</strong> 2006.<br />
OSTRENSKY, A.; BORGES, R.B.; ALESSI, F. Relações entre índices zootécnicos obtidos e as<br />
variáveis hídricas monitoradas em viveiros comerciais <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> Litopenaeus vannamei no estado<br />
do Paraná, Brasil. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE AQUICULTURA – AQUICULTURA BRASIL,<br />
11, 2000. Anais… Florianópolis. CD-ROM.<br />
PAQUOTTE, P. et al. Intensive culture of shrimp Penaeus vannamei in floating cages: zootechnical,<br />
economic and environmental aspects. Amisterdan: Ed. Elsevier Science, p. 1-16. 1998.<br />
PEREIRA , E.M.A. Análise dos parâmetros <strong>de</strong> crescimento do camarão <strong>de</strong> água doce Macrobrachium<br />
rosenbergii (De Man, 1879), cultivado em tanques re<strong>de</strong>. Dissertação (Mestrado em Biometria),<br />
UFRPE, Recife, 2001, 94p.<br />
PONTES, C.S.; ARRUDA, M.F. Artificial food access and digestive tract filling of juvenil marine<br />
shrimp Litopenaeus vannamei (Boone) (Crustacea, Decapoda, Penaeidae) during light and dark phases<br />
in 24-hour period. Rev. Bras. Zool., Curitiba, v. 22, n. 4, 2005.<br />
RODRIGUES, J. A carcinicultura marinha - Desempenho em 2004. <strong>Revista</strong> da ABCC, v. 7, n. 2, p.38-<br />
44, 2005.
142<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
WASIELESKY, W. et al. Efeito da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem sobre o crescimento e sobrevivência do<br />
camarão-rosa Farfantepenaeus paulensis cultivado em cercados. XIII CONGRESSO BRASILEIRO<br />
DE ENGENHARIA DE PESCA. ANAIS... Porto Seguro, 2003. p. 282.<br />
XIMENES, N.P. Aplicação <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los lineares na estimação dos parâmetros do cultivo do camarão<br />
marinho Litopenaeus vannamei (Boone, 1931). 2005. 64p. Dissertação (Mestrado em Biometria) –<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco, Recife.�
143<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
SOBREVIVÊNCIA DE TILÁPIA-DO-NILO Oreochromis niloticus (LINNAEUS,<br />
1758) EM DIFERENTES CONCENTRAÇÕES DE BIOFERTILIZANTE<br />
É<strong>de</strong>r André GUBIANI (eagubiani@nupelia.uem.br)<br />
Curso <strong>de</strong> Pós-Graduação em Ecologia <strong>de</strong> Ambientes Aquáticos Continentais, Departamento <strong>de</strong><br />
Biologia, Universida<strong>de</strong> Estadual <strong>de</strong> Maringá<br />
Nyamien Yahault SEBASTIEN (nysebastien@unioeste.br)<br />
Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Universida<strong>de</strong> Estadual do Oeste do Paraná<br />
RESUMO<br />
Resíduos <strong>de</strong> suinocultura causam problemas <strong>de</strong> poluição das águas em vários países do mundo, em<br />
virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas altas cargas orgânicas. Dessa forma, tem crescido o uso <strong>de</strong> biossistemas integrados nos<br />
quais os <strong>de</strong>jetos suínos e <strong>de</strong> outros animais passam por um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>composição em um<br />
biodigestor que, além <strong>de</strong> remover boa parcela <strong>de</strong> poluentes, transforma os <strong>de</strong>jetos em biofertilizantes e<br />
biogás. A tilapicultura vem se mostrando uma ótima alternativa para a piscicultura <strong>de</strong> água doce.<br />
Assim, o principal objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi avaliar a sobrevivência <strong>de</strong> tilápia (Oreochromis niloticus)<br />
em diferentes concentrações <strong>de</strong> biofertilizante, em substituição a adubação tradicional, bem como, a<br />
influência <strong>de</strong> algumas variáveis abióticas. O pH, oxigênio dissolvido e a condutivida<strong>de</strong> elétrica<br />
apresentaram diferenças significativas entre os períodos e concentrações analisadas, entretanto a<br />
interação entre os níveis dos fatores foi significativa (p
ABSTRACT<br />
144<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
SURVIVAL OF NILE TILAPIA Oreochromis niloticus (LINNAEUS, 1758) IN DIFFERENT<br />
BIOFERTILIZING CONCENTRATIONS.<br />
Wastes of pig raising cause problems of water pollution in many countries around the world, because<br />
of their high organic loads. Thus, the use of integrated biosystems has increased, in which the rejects<br />
from the pigs and other livestock are <strong>de</strong>composed by a bio-digester, that besi<strong>de</strong>s removing a large<br />
amount of pollutants, can also transform rejects in biofertilizers and biogas. Tilapia farming has been<br />
shown a good alternative to the freshwater fish cultures. Therefore, this work aimed to evaluate the<br />
survival of tilapia (Oreochromis niloticus) raised in different concentrations of bio-fertilizers, as a<br />
substitute for the traditional fertilizing techniques, and the influence of some abiotic factors. Dissolved<br />
oxygen, pH and electric conductivity showed significant differences among the experimental periods<br />
and biofertilizing concentrations. However, the significant interaction among factor levels (p
145<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
No meio rural, os resíduos <strong>de</strong> suinocultura causam problemas <strong>de</strong> poluição e contaminação das<br />
águas em vários países do mundo, em virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas altas cargas orgânicas, <strong>de</strong> sólidos e <strong>de</strong> nutrientes<br />
(N e P). No Brasil, com rebanho <strong>de</strong> suínos estimado em 36,5 milhões (ABCS, 1999), a produção<br />
concentra-se nas regiões Sul (34,1% dos animais) e Su<strong>de</strong>ste (18,8% dos animais). Um dos maiores<br />
problemas no confinamento <strong>de</strong> suínos, é a gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos produzidos diariamente, a qual<br />
é consi<strong>de</strong>rada pelos órgãos ambientais como ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> potencial poluidor. Diagnósticos<br />
recentes têm <strong>de</strong>monstrado um alto nível <strong>de</strong> contaminação dos rios e lençóis <strong>de</strong> água superficiais que<br />
abastecem tanto o meio rural como o urbano (DIESEL et al. 2002).<br />
De forma a reduzir o potencial poluidor da suinocultura algumas medidas estão sendo sugeridas,<br />
como é o caso da integração com outros animais. A criação <strong>de</strong> peixes no sistema <strong>de</strong> integração vem<br />
sendo bastante utilizada nos últimos <strong>de</strong>z anos, possivelmente <strong>de</strong>vido aos baixos custos <strong>de</strong> produção.<br />
Vários autores têm <strong>de</strong>monstrado que a consorciação <strong>de</strong> viveiros associados com porcos e patos<br />
apresentam muitas vantagens, principalmente na Europa, Ásia e África (BLUME, 1960; LINGEN,<br />
VAN DER, 1960; CHISLOV e CHESNOKOV, 1974; WOYNAROVICH, 1976; BEHRENDT, 1978).<br />
Outra medida em crescente expansão é a utilização <strong>de</strong> biodigestores inicialmente mais onerosa, porém<br />
em longo prazo torna-se uma solução viável. Os biodigestores são uma alternativa para o tratamento <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>jetos, pois além <strong>de</strong> permitir a redução do potencial poluidor e dos riscos sanitários dos <strong>de</strong>jetos ao<br />
mínimo, promove a geração <strong>de</strong> biogás, utilizado como fonte <strong>de</strong> energia alternativa e permite a<br />
reciclagem do efluente, po<strong>de</strong>ndo ser utilizado como biofertilizante (AMARAL et al. 2004).<br />
Dessa forma, tem crescido o uso <strong>de</strong> biossistemas integrados nos quais os <strong>de</strong>jetos suínos e <strong>de</strong><br />
outros animais passam por um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>composição em um biodigestor que, além <strong>de</strong> remover boa<br />
parcela <strong>de</strong> poluentes, transforma os <strong>de</strong>jetos em biofertilizantes e biogás. As águas servidas passam por<br />
tanques <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> algas que servem para alimentação <strong>de</strong> peixes e crustáceos, transformando os<br />
<strong>de</strong>jetos, que eram consi<strong>de</strong>rados uma ameaça ambiental, em uma oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> agregar valor a nível<br />
econômico.<br />
A tilapicultura vem se mostrando uma ótima alternativa para a piscicultura <strong>de</strong> água doce e<br />
estuarina. A expansão do cultivo da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) <strong>de</strong>ve-se ao ótimo<br />
<strong>de</strong>sempenho, alta rusticida<strong>de</strong>, facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong> alevinos, adaptabilida<strong>de</strong> aos mais diversos<br />
sistemas <strong>de</strong> criação, gran<strong>de</strong> aceitação no mercado <strong>de</strong> lazer (pesque-pague) e alimentício (frigoríficos),<br />
pelas qualida<strong>de</strong>s nutritivas e organolépticas do seu filé (MEURER et al. 2003).<br />
Assim, o principal objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi avaliar a sobrevivência <strong>de</strong> tilápia (Oreochromis<br />
niloticus) em diferentes concentrações <strong>de</strong> biofertilizante, como substituinte da adubação orgânica “in<br />
natura”. Desse modo, otimizando o uso <strong>de</strong> biofertilizante na adubação <strong>de</strong> tanques <strong>de</strong> piscicultura
146<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
evitando problemas <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes com o uso excessivo <strong>de</strong> tal recurso. Assim, tentamos<br />
respon<strong>de</strong>r as seguintes questões: i) Qual a melhor concentração para que a sobrevivência seja<br />
maximizada? ii) Quais variáveis abióticas influenciam no tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes<br />
concentrações?<br />
MATERIAL E MÉTODOS<br />
O presente experimento foi realizado no Laboratório <strong>de</strong> Aqüicultura, do Departamento <strong>de</strong><br />
<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> na Universida<strong>de</strong> Estadual do Oeste do Paraná, durante o período <strong>de</strong> 10 <strong>de</strong> janeiro<br />
a 18 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2001. Foram utilizados 15 alevinos <strong>de</strong> tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus),<br />
com aproximadamente 35 dias <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, distribuídas num <strong>de</strong>lineamento completamente casualizado,<br />
com cinco tratamentos (0, 25, 50, 75 e 100% <strong>de</strong> diluição do biofertilizante) e três repetições, em 15<br />
aquários, on<strong>de</strong> foi consi<strong>de</strong>rado como unida<strong>de</strong> experimental, um aquário com 1 alevino. Os aquários <strong>de</strong><br />
vidro, apresentavam capacida<strong>de</strong> total <strong>de</strong> 57,6 l, entretanto o volume <strong>de</strong> água utilizado neste<br />
experimento foi <strong>de</strong> 35 l. Possuíam aeração constante por pedra microporosa ligadas por meio <strong>de</strong> uma<br />
tubulação <strong>de</strong> PVC, a um soprador elétrico monofásico com potência <strong>de</strong> 1/4 cv. Os alevinos foram<br />
alimentados “ad libitum” com ração comercial contendo 32% <strong>de</strong> proteína bruta.<br />
Os aquários foram sifonados, para a retirada das fezes e restos <strong>de</strong> ração, uma vez ao dia (12h00)<br />
com a remoção <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 30% da água total diária, sendo as diluições novamente repostas para<br />
concentração acima especificada. A temperatura da água (°C), pH, oxigênio dissolvido (mg/l) e<br />
condutivida<strong>de</strong> elétrica (µS/cm) foram quantificados diariamente, em cada aquário, pela manhã e a tar<strong>de</strong><br />
sempre antes da sifonagem.<br />
A fim <strong>de</strong> verificar qual a melhor concentração <strong>de</strong> biofertilizante, que resulte em um maior tempo<br />
<strong>de</strong> sobrevivência, os dados foram plotados em gráfico <strong>de</strong> dispersão, posteriormente foi ajustado aos<br />
dados um polinômio <strong>de</strong> grau dois. Para encontrar o ponto <strong>de</strong> máximo da função ajustada, o qual<br />
correspon<strong>de</strong> a melhor concentração <strong>de</strong> biofertilizante, proce<strong>de</strong>mos <strong>de</strong> forma que <strong>de</strong>rivada fosse igual à<br />
zero, resolvendo o sistema para encontrarmos a solução.<br />
Para verificar se existem diferenças significativas entre as médias das variáveis abióticas entre os<br />
períodos (manhã e tar<strong>de</strong>; fator 1) e concentrações (0, 25, 50, 75 e 100%; fator 2) foi aplicado uma<br />
análise <strong>de</strong> variância (ANOVA bifatorial) (os pressupostos <strong>de</strong> normalida<strong>de</strong> e homocedasticida<strong>de</strong> foram<br />
testados pelos testes <strong>de</strong> Shapiro-Wilk e Levene, respectivamente). Quando a ANOVA i<strong>de</strong>ntificou<br />
diferenças significativas, foi aplicado o teste <strong>de</strong> Tukey a posteriori, para verificar quais os níveis dos<br />
fatores que diferiram isso quando a interação não foi significativa. Os testes estatísticos (ANOVA<br />
bifatorial) e a estimação dos parâmetros do mo<strong>de</strong>lo (procedimento não-linear, método <strong>de</strong> estimação dos
147<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
mínimos quadrados) foram feitos usando o software Statistica TM 7.1 (STATSOFT INC. 2005). O nível<br />
<strong>de</strong> significância estatística adotada foi <strong>de</strong> p
148<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 1 – Variáveis físicas e químicas da água. (A) pH; (B) Oxigênio Dissolvido; (C)<br />
Condutivida<strong>de</strong> elétrica; e (D) Temperatura.<br />
Entretanto, nota-se que há uma tendência <strong>de</strong> diminuição nos valores <strong>de</strong> pH e oxigênio dissolvido,<br />
como aumenta a concentração <strong>de</strong> biofertilizante (Figura 1a e b). É interessante ressaltar que mesmo<br />
com a utilização <strong>de</strong> aeração constante nos diferentes tratamentos, há uma diminuição na concentração<br />
<strong>de</strong> oxigênio dissolvido, tornando-se <strong>de</strong>sse modo, um fator limitante à sobrevivência dos peixes, pois<br />
segundo Boyd (1990) e Popma e Phelps (1998) os padrões i<strong>de</strong>ais indicados para aqüicultura situam-se<br />
entre 3 a 8 mg/l. A condutivida<strong>de</strong> elétrica, ao contrário, aumentou como aumentaram as concentrações<br />
<strong>de</strong> biofertilizante, tornando-se também um fator limitante (BOYD, 1990; POPMA e PHELPS, 1998).<br />
A temperatura da água foi a única variável em que a interação não foi significativa, <strong>de</strong>monstrando<br />
assim, diferenças entre os períodos (manhã e tar<strong>de</strong>), com a temperatura no período da tar<strong>de</strong> sendo<br />
superior ao da manhã, o que é esperado, contudo não ocorreram diferenças entre as concentrações <strong>de</strong><br />
biofertilizante. Apesar <strong>de</strong>ssa diferença significativa entre os períodos a temperatura ficou entre o<br />
recomendado por Popma e Phelps (1998) para o bom <strong>de</strong>sempenho da espécie.
149<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Além do equilíbrio entre produção e consumo no cultivo <strong>de</strong> peixes, a harmonia em viveiros <strong>de</strong><br />
cultivo adubados com excremento, também se aplica à estabilida<strong>de</strong> das variáveis físicas e químicas da<br />
água. Concentrações <strong>de</strong> oxigênio e pH são maiores e os ciclos <strong>de</strong> oxigênio diurno são mais estáveis, em<br />
lagoas adubadas com excremento que contêm peixes que em lagoas sem peixes (SCHROEDER,<br />
1975a). Pela “pastagem” dos planctívoros, os peixes ajudam a eliminar os ciclos extremos <strong>de</strong> “bloom”<br />
<strong>de</strong> algas e a perda pelo sombreamento, comum em viveiros eutróficos. Devido à <strong>de</strong>manda por oxigênio<br />
pelo excremento adicionado ser previsível (SCHROEDER, 1974), o efeito do excremento adicionado<br />
no regime <strong>de</strong> oxigênio do viveiro po<strong>de</strong> também ser previsível. O principal consumo <strong>de</strong> oxigênio no<br />
viveiro é normalmente associado ao plâncton e a respiração dos peixes (SCHROEDER, 1975b; BOYD<br />
et al. 1978). Excremento, até mesmo a taxas <strong>de</strong> aplicação <strong>de</strong> 100 kg <strong>de</strong> matéria orgânica seca por<br />
hectare por dia, é um fator secundário no consumo <strong>de</strong> oxigênio. A interação entre peixe e excremento<br />
requer uma boa prática <strong>de</strong> manejo. Gran<strong>de</strong>s quantida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> excremento, biofertilizante ou esgoto<br />
po<strong>de</strong>m ser adicionados e um alto rendimento <strong>de</strong> peixes po<strong>de</strong> ser atingido com um viveiro<br />
ecologicamente equilibrado (WOHLFARTH e SCHROEDER, 1979).<br />
No entanto, altas cargas <strong>de</strong> biofertilizante necessitam gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> oxigênio para que seus<br />
nutrientes possam ser disponibilizados aos organismos aquáticos, como po<strong>de</strong> ser observado em nosso<br />
estudo, nas maiores concentrações <strong>de</strong> biofertilizante, o oxigênio, mesmo com aeração suplementar, foi<br />
um fator limitante a sobrevivência dos peixes.<br />
Além das variáveis analisadas, é importante <strong>de</strong>stacar que o enriquecimento com nutrientes,<br />
principalmente <strong>de</strong> nitrogênio e <strong>de</strong> fósforo, em tanques <strong>de</strong> piscicultura é bastante comum, <strong>de</strong>vido<br />
principalmente à entrada <strong>de</strong> compostos que contêm tais elementos. Entretanto, o uso ina<strong>de</strong>quado <strong>de</strong>sses<br />
nutrientes associado a uma série <strong>de</strong> outros fatores bióticos e abióticos po<strong>de</strong> ocasionar prejuízos tanto<br />
ambientais quanto financeiros (MAINARDES-PINTO; MERCANTE, 2003). De acordo com<br />
Wolhfarth e Schroe<strong>de</strong>r (1979) o excremento animal contém nitrogênio e fósforo, os quais estimulam a<br />
produção heterotrófica, aumentando assim, a produtivida<strong>de</strong> piscícola em viveiros. Apesar <strong>de</strong> não<br />
termos avaliado as concentrações <strong>de</strong> nitrogênio e fósforo em nosso experimento, pelos dados<br />
disponíveis na literatura, po<strong>de</strong>mos concluir que tais fatores, possivelmente foram limitantes a<br />
sobrevivência dos peixes. Pois, segundo Boyd (1992) os fertilizantes utilizados em tanques <strong>de</strong> cultivo<br />
geralmente contêm nitrogênio na forma <strong>de</strong> amônio e <strong>de</strong> nitrato. A acumulação <strong>de</strong>ssas formas<br />
inorgânicas é um dos principais obstáculos para o <strong>de</strong>senvolvimento intensivo <strong>de</strong> peixes (KOCHBA et<br />
al. 1994). Sipaúba-Tavares (1994) ressalta que a amônia é altamente tóxica para organismos aquáticos<br />
e po<strong>de</strong> causar severas mortalida<strong>de</strong>s em viveiros. As principais fontes <strong>de</strong>sse elemento nesses locais são<br />
os fertilizantes, os excrementos e a <strong>de</strong>composição microbiana dos compostos nitrogenados.
150<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Programas <strong>de</strong> fertilização <strong>de</strong>vem levar em consi<strong>de</strong>ração os requerimentos algais, bem como, a<br />
qualida<strong>de</strong> da água e do sedimento do viveiro. Entradas excessivas <strong>de</strong> nitrogênio po<strong>de</strong>m causar altas<br />
concentrações <strong>de</strong> amônia não ionizadas, as quais po<strong>de</strong>m reduzir o crescimento dos peixes ou causar<br />
mortalida<strong>de</strong> (RUFFIER et al. 1981; MEADE, 1985).<br />
A figura 2A apresenta a dispersão do tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes concentrações. Foi<br />
possível observar uma clara diminuição exponencial no tempo <strong>de</strong> sobrevivência conforme aumentou a<br />
concentração <strong>de</strong> biofertilizante. Desse modo, foi ajustado um mo<strong>de</strong>lo polinomial <strong>de</strong> grau dois, por meio<br />
da seguinte equação:<br />
Tempo <strong>de</strong> sobrevivência = a + b*concentração <strong>de</strong> biofertilizante + c*(concentração <strong>de</strong> biofertilizante) 2<br />
Quando: b e c são os parâmetros e, a é <strong>de</strong>finido pela condição inicial do mo<strong>de</strong>lo (Figura 2B).<br />
O mo<strong>de</strong>lo apresentou um ótimo ajuste (R 2 = 0,99), com uma proporção da variância explicada <strong>de</strong><br />
98,57%. Assim, para que o tempo <strong>de</strong> sobrevivência seja maximizado é necessário calcularmos qual a<br />
melhor concentração <strong>de</strong> biofertilizante, <strong>de</strong>ssa forma, proce<strong>de</strong>mos ao cálculo do ponto máximo da<br />
função, o qual consiste em igualarmos a <strong>de</strong>rivada da função à zero (f’(x) = 0).<br />
A partir do mo<strong>de</strong>lo obtido na figura 2B, o qual correspon<strong>de</strong> a: Tempo <strong>de</strong> sobrevivência = 33,97 +<br />
12,53*concentração <strong>de</strong> biofertilizante – 46,61*(concentração <strong>de</strong> biofertilizante) 2 <strong>de</strong>rivamos a função e<br />
chegamos a: Tempo <strong>de</strong> sobrevivência = 12,53 – 93,22*concentração <strong>de</strong> biofertilizante então, igualando<br />
a zero, temos: 12,53/93,22 = concentração <strong>de</strong> biofertilizante, a qual será igual a: 13,44%. Desse modo,<br />
a concentração i<strong>de</strong>al para que o tempo <strong>de</strong> sobrevivência seja maximizado nessas condições do<br />
experimento foi <strong>de</strong> 13,44% <strong>de</strong> concentração <strong>de</strong> biofertilizante, resultando em um tempo <strong>de</strong><br />
sobrevivência <strong>de</strong> 34,81 dias (Figura 2B).<br />
Fazendas piscícolas provavelmente seja o único ramo da agricultura animal no qual o uso <strong>de</strong><br />
excremento é uma ferramenta <strong>de</strong> manejo tradicional. O uso <strong>de</strong> excremento, como fertilizante <strong>de</strong><br />
viveiros piscícolas, é uma prática antiga e muito difundida na Ásia, principalmente na China, on<strong>de</strong> o<br />
cultivo <strong>de</strong> peixes tem sido praticado por milhares <strong>de</strong> anos e o uso <strong>de</strong> excremento intensivo é uma<br />
prática padrão. Desse modo, o <strong>de</strong>senvolvimento orgânico heterogêneo, causado pela utilização <strong>de</strong><br />
excremento, requer peixes <strong>de</strong> hábitos alimentares diferentes para sua efetiva utilização, <strong>de</strong>stacando o<br />
uso <strong>de</strong> policultivos (diferentes espécies <strong>de</strong> peixes estocadas ao mesmo tempo em cada viveiro) (TANG,<br />
1970; TAPIADOR et al. 1977; WOHLFARTH; SCHROEDER, 1979).
151<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Figura 2 – (A) Dispersão do tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes concentrações; (B)<br />
Ajuste <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> regressão não-linear (função polinomial <strong>de</strong> grau dois) para o<br />
tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes concentrações <strong>de</strong> biofertilizante. (13,44%, ponto <strong>de</strong><br />
máximo da função, indicando a concentração cujo tempo <strong>de</strong> sobrevivência é maior).<br />
De acordo com Tomazelli Jr. e Casaca (2001) em viveiros <strong>de</strong>vidamente adubados e<br />
apropriadamente estocados com peixes <strong>de</strong> hábitos alimentares diferentes (policultivo), as partículas<br />
orgânicas provêem a base <strong>de</strong> nutrientes para a produção <strong>de</strong> pescado, estimulando a produção <strong>de</strong><br />
plâncton e bactérias. Os peixes em policultivo, por sua vez, consomem estes organismos mantendo o<br />
equilíbrio entre a produção e o consumo possibilitando níveis a<strong>de</strong>quados <strong>de</strong> oxigênio dissolvido, pH e<br />
outras variáveis limnológicas. No entanto, a produção integrada não é uma forma <strong>de</strong> utilizar totalmente<br />
os <strong>de</strong>jetos produzidos por suínos, pois os <strong>de</strong>jetos suínos possuem uma gran<strong>de</strong> carga <strong>de</strong> DBO (Demanda<br />
Bioquímica <strong>de</strong> Oxigênio) e DQO (Demanda Química <strong>de</strong> Oxigênio) prejudicando o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
dos peixes. Então, é perfeitamente conciliável a esta prática a utilização do exce<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos como<br />
biofertilizantes. Desse modo, como citado anteriormente, mesmo a altas taxas <strong>de</strong> aplicação, se o viveiro<br />
for bem manejado e em sistema <strong>de</strong> policultivo, a concentração <strong>de</strong> biofertilizante adicionada po<strong>de</strong> ser<br />
maior do que 13%.<br />
No Brasil nos últimos anos, a piscicultura vem crescendo <strong>de</strong> uma forma vertiginosa e, <strong>de</strong>vido ao<br />
alto custo dos insumos necessários à produção, os piscicultores estão optando pelo uso do sistema <strong>de</strong><br />
produção integrada <strong>de</strong> peixes com outros animais que tem o meio aquático como hábitat natural ou<br />
eventual, colaborando com seus excrementos no aumento da produção primária dos viveiros<br />
(CECCARELLI; FIGUEIRA, 2001). Os fertilizantes orgânicos são freqüentemente adicionados em<br />
viveiros para aumentar a produção por meio do aumento da produtivida<strong>de</strong> primária em função dos
152<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
nutrientes inorgânicos liberados ou através da liberação <strong>de</strong> carbono orgânico por meio heterotrófico.<br />
Depen<strong>de</strong>ndo das espécies, os peixes ingerem alimento diretamente dos fertilizantes ou <strong>de</strong> algas<br />
planctônicas, <strong>de</strong>trito/fungos ou animais, como zooplâncton e caracóis que se alimentam <strong>de</strong> algas e<br />
<strong>de</strong>tritus (COLMAN; EDWARDS, 1987).<br />
O excremento po<strong>de</strong> entrar no regime alimentar, como alimento diretamente consumido pelos<br />
peixes, como uma fonte <strong>de</strong> minerais usado na produção fotossintética do fitoplâncton e como um<br />
substrato suplementar <strong>de</strong> matéria orgânica e mineral aos microorganismos heterotróficos. O<br />
conhecimento dos vários caminhos da ca<strong>de</strong>ia alimentar natural po<strong>de</strong> facilitar para que a estocagem e a<br />
produção <strong>de</strong> diferentes espécies <strong>de</strong> peixes em policultivo sejam feitas <strong>de</strong> uma maneira mais racional, as<br />
quais resultem no aumento da produção piscícola, diminuindo os riscos da mortanda<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes,<br />
<strong>de</strong>vido à anoxia e a utilização mais eficiente do material contido no excremento (WOHLFARTH;<br />
SCHROEDER, 1979).<br />
Estudos com a utilização <strong>de</strong> excrementos e fertilizantes minerais têm <strong>de</strong>monstrado resultados<br />
contraditórios. Fertilizantes minerais foram mais efetivos do que excremento bovino em um estudo <strong>de</strong><br />
cultivo <strong>de</strong> tilápias realizado no Centro <strong>de</strong> Pesquisas Ictiológicas, Fortaleza, Brasil por Lovshin et al.<br />
1974. No entanto, em Ginosar, Israel na Estação <strong>de</strong> Cultivo <strong>de</strong> peixes intensivos Rappoport et al.<br />
(1977) encontraram resultados opostos. Excremento <strong>de</strong> frango foi mais efetivo do que excremento <strong>de</strong><br />
gado em Ginosar, enquanto que em Dor, Israel na Estação <strong>de</strong> Pesquisas em Aqüicultura e Peixes Moav<br />
et al. (1977) encontraram resultados igualmente efetivos para ambos os excrementos. Essas<br />
contradições po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong>vido aos métodos <strong>de</strong> manejo empregados e aos níveis <strong>de</strong> produção<br />
alcançados.<br />
Formas <strong>de</strong> manejo a<strong>de</strong>quadas são importantes para o sucesso do empreendimento aqüícola e para<br />
a efetivida<strong>de</strong> na utilização <strong>de</strong> excrementos, pois segundo Schroe<strong>de</strong>r (1973; 1974) os microorganismos<br />
presentes em águas lênticas <strong>de</strong> viveiros <strong>de</strong> cultivo são os maiores responsáveis pela eficiência da<br />
utilização <strong>de</strong> adubos orgânicos, como excremento. Esse mesmo autor <strong>de</strong>monstrou que a utilização <strong>de</strong><br />
excremento líquido <strong>de</strong> vacas é relativamente segura quando a patologia dos peixes e a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong><br />
oxigênio não alcançam níveis críticos. A efetivida<strong>de</strong> do excremento líquido <strong>de</strong> vaca no cultivo <strong>de</strong><br />
peixes po<strong>de</strong> ser baseada na ca<strong>de</strong>ia alimentar que inicia com a ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> bactérias e protozoários na<br />
<strong>de</strong>composição da matéria orgânica do excremento. Devido a essa ca<strong>de</strong>ia não ser diretamente<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da fotossíntese (como é o caso dos fertilizantes químicos), o limite inerente da penetração<br />
<strong>de</strong> luz e a produção <strong>de</strong> alimento natural po<strong>de</strong>m ser limitados somente pelo suprimento <strong>de</strong> nutrientes,<br />
como por exemplo, pela quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> excremento e oxigênio dissolvido presente na água do viveiro.
153<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
REFERÊNCIAS<br />
ALZUGUIR, R.F. Situação atual e perspectiva da aqüicultura no Brasil. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO<br />
DE AQÜICULTURA, 3. Anais... São Carlos, ABRAq, 1984<br />
AMARAL, C. M. C. A. et al. Biodigestão anaeróbia <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos <strong>de</strong> bovinos leiteiros submetidos a<br />
diferentes tempos <strong>de</strong> retenção hidráulica. Ciência Rural, v. 34, n. 6. p 1897-1902, 2004.<br />
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CRIADORES DE SUÍNOS. Rebanho suíno. Associação <strong>Brasileira</strong><br />
<strong>de</strong> Criadores <strong>de</strong> Suínos, Concórdia, (Informe, 9), 1999.<br />
BEHRENDT, A.Profits at all levels of the carp pond. Fish Farmer, v.1, n. 4, p. 49, 1978.<br />
BLUME, L. Q. Entenmast in Verbindung mit Karpfenzucht. Dtsch. Fisch. Ztg., n. 7, p. 196-204, 1960.<br />
BOYD, C. Water quality management for ponds fish culture in <strong>de</strong>velopments in aquaculture and<br />
fisheries science. 9 o . ed. New York: Elsevier, 1992.<br />
BOYD, C., ROMAIRE, P.; JOHNSTON, E. Predicting early morning dissolved oxygen concentrations<br />
in channel catfish ponds. Trans. Am. Fish Soc., v.107, n.3, p; 484-492. 1978.<br />
CECCARELLI, P. S.; FIGUEIRA, L. B. Possíveis problemas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>vido ao uso <strong>de</strong> excretas na<br />
aqüicultura. Panorama da Aqüicultura, v. 11, n. 63, p. 39-40. 2001.<br />
CHISLOV, N.; CHESNOKOV, K. Joint cultivation of fish and aquatic birds. Khozyaistvo, 6: 11-15.<br />
English translation by Language Services Division, F43, Washington: Office of International Fisheries<br />
Service, NOAA. DC, 1974.<br />
COLMAN, J.; EDWARDS, P. Feeding pathways and environmental constraints in waste fed<br />
aquaculture: balance and optimization, pp. 240-281. In: D. J. W. Moriarty & R. S. V. Pullin (Eds.).<br />
Detritus and Microbial Ecology in Aquaculture. Manila: ICLARM Conf. Proc. 14, International Center<br />
for Living Aquatic Resources Management, 1987.<br />
DIESEL, R.; MIRANDA, C. R.; PERDOMO, C. C. Coletânea <strong>de</strong> tecnologias sobre <strong>de</strong>jetos suínos. In:<br />
R. DIESEL (Coord.), Boletim Informativo - BIPERS, n. 14, 2002.<br />
FERNANDES, M.C.A.; LEAL, M.A.A.; RIBEIRO, R.L.D.; ARAÚJO, M.L.; ALMEIDA, D.L.<br />
Cultivo protegido do tomateiro sob manejo orgânico. A lavoura, n. 634, p. 44-45, 2000.<br />
KOCHBA, M.; DIAB, S.; AVNIMELECH, Y. Mo<strong>de</strong>ling of nitrogen transformation in intensively<br />
aerated fish ponds. Aquaculture, v. 120, n. 1-2, p. 95-104, 1994.
154<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
LINGEN, VAN DER, M. I. The use of animal manures and the integration of animal keeping and fish<br />
culture in Tilapia culture. Publ. Cons. Sci. Afr. S. Sahara, n. 63, p. 212-216, 1960.<br />
LOVSHIN, L. L.; SILVA, A. B.; FERNANDES, J. A. The intensive culture of the all-male hybrid of<br />
Tilapia hornorum (male) x T. nilotica (female) in northeast Brazil. Paper presented to FAO/CARPAS<br />
Symposium held in Montevi<strong>de</strong>o, Latin America, 1974.<br />
MAINARDES-PINTO, C. S. R.; MERCANTE, C. T. J. Avaliação <strong>de</strong> variáveis limnológicas e suas<br />
relações com uma floração <strong>de</strong> Euglenaceae pigmentada em viveiro povoado com tilápia-do-nilo<br />
(Oreochromis niloticus Linnaeus), São Paulo, Brasil. Acta Scientiarum, v. 25, n. 2, p. 323-328, 2003.<br />
MEADE, J. W. Allowable ammonia for fish culture. Prog. Fish.-Cult., v. 47, n. 3, p. 135-145, 1985.<br />
MEURER, F.; HAYASHI, C.; BOSCOLO, W. R. Influência do processamento da ração no<br />
<strong>de</strong>sempenho e sobrevivência da tilápia-do-nilo durante a reversão sexual. R. Bras. Zootec., v. 32, n.2 p.<br />
262-267, 2003.<br />
MOAV, R.; WOHLFARTH, G.; SCHROEDER, G. L.; HULATA, G.; BARASH, H. Intensive<br />
polyculture of fish in fresh water ponds. I. Substitution of expensive feeds by liquid cow manure.<br />
Aquaculture, n.10, p. 25 -43, 1977.<br />
PAULA JÚNIOR, D.R. Processos anaeróbios <strong>de</strong> tratamento: fundamento e aplicações, pp. 127-140. In:<br />
SEMINÁRIO DE HIDRÓLISE ENZIMÁTICA DE BIOMASSA, 4, Anais... Maringá, EDUEM, 1995..<br />
RAPPOPORT, U.; SARIG, S.; BEJERANO, Y. Observations on the use of organic fertilizers in<br />
intensive fish farming at the Ginosar station in 1976. Bamidgeh, n.29, p. 57-70, 1977.<br />
RUFFIER, P. J.; BOYLE, W. C.; KLEINSCHMIDT, J. Short-term acute bioassays to evaluate<br />
ammonia toxicity and effluent standards. J. Water Pollut. Control Fed., n. 53, p. 367-377, 1981.<br />
SANTOS, A.C.; AKIBA, F. Biofertilizante líquido: uso correto na agricultura alternativa. UFRRJ,<br />
Imprensa Universitária, Rio <strong>de</strong> Janeiro, 1966, 35p.<br />
SCHROEDER, G.L. Factors affecting feed conversion ratio in fish ponds. Bamidgeh, n. 25, p. 104-113,<br />
1973.<br />
SCHROEDER, G.L., Use of fluid cowshed manure in fish ponds. Bamidgeh, n. 26, p. 84-96, 1974.<br />
SCHROEDER, G. Some effects of stocking fish in waste treatment ponds. Water Res., n. 9, p. 591-593.<br />
1975a.
155<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
SCHROEDER, G. Night-time material balance for oxygen in fish ponds receiving organic wastes.<br />
Bamidgeh, n. 27, p. 65-74, 1975b.<br />
SCHROEDER, G.L. Autotrophic and heterotrophic production of microorganisms in intensely<br />
manured fish ponds, and related yields. Aquaculture, n. 14, p. 303-325, 1978.<br />
SIPAÚBA-TAVARES, L. H. E. Limnologia aplicada à aqüicultura. Jaboticabal: Funep, 1994.<br />
TANG, Y. Evaluation of balance between fishes and available fish foods in multispecies fish culture<br />
ponds in Taiwan. Trans. Am. Fish Soc., n. 99, p. 708-718, 1970.<br />
TAPIADOR, O. D.; HENDERSON, H. E.; DELMENDO, M. N.; TSUTSUIV, H. Freshwater fisheries<br />
and aquaculture in China. FAO Fish. Tech. Pap. 168, 1977, 84 p.<br />
TOMAZELLI JR., O.; CASACA, J. M. Policultivo <strong>de</strong> peixes em Santa Catarina. Panorama da<br />
Aqüicultura, v.11, n. 63, p. 26-31, 2001.<br />
WOHLFARTH, G. W.; SCHROEDER, G. L. Use of Manure in Fish Farming - A Review. Agric.<br />
Wastes v. 1, n. 4p. 279-299, 1979.<br />
WOYNAROVICH, E. The feasibility of combining animal husbandry with fish farming, with special<br />
reference to duck and pig production. FAO Tech. Conf. Aquaculture, Kyoto, Japan, 1976.�
156<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
UTILIZAÇÃO DO ANELIDEO ENQUITRÉIA Enchytraeus albidus HENLE, 1837, NA<br />
ALIMENTAÇÃO DO NIQUIM Lophiosilurus alexandri STEINDACHNER, 1876,<br />
DURANTE A ALEVINAGEM INICIAL.<br />
José Patrocínio LOPES (jpatrobr@yahoo.com.br);<br />
Tâmara Almeida e SILVA; Darciene S. GOMES; Ana Cristina M. RANGEL<br />
Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> do Estado da Bahia, Campus VIII Paulo Afonso.<br />
RESUMO<br />
Na Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), utiliza-se branconeta (Dendrocephalus<br />
brasiliensis), na alimentação do niquim (Lophiosilurus alexandri) após a fase <strong>de</strong> plâncton, sentindo-se<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alimento vivo intermediário no período pós-larval. O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi<br />
verificar a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> enquitréia (Enchytraeus albidus) aumentar a produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alevinos,<br />
principalmente na larvicultura <strong>de</strong> carnívoros como Lophiosilurus alexandri. Utilizou-se incubadora<br />
para ovos fixos, tipo calha, aon<strong>de</strong> foi colocada a <strong>de</strong>sova para posterior eclosão das larvas <strong>de</strong> niquim.<br />
Após eclosão, estas foram transferidas para seis incubadoras e a seguir foi fornecida dieta à base <strong>de</strong><br />
plâncton, enquitréias e por fim, Dendrocephalus. Foram realizados dois tratamentos (T1 e T2) com três<br />
repetições. Foram colocadas 50 pós-larvas <strong>de</strong> niquim por incubadora, com comprimento médio <strong>de</strong> 10<br />
mm. O cultivo durou 45 dias. No T1, as pós-larvas receberam plâncton durante 15 dias. Do 16º dia e<br />
até o 45º receberam Dendrocephalus animais vivos e mortos. Para o T2, as pós-larvas receberam<br />
plâncton durante 15 dias. Do 16º até o 30º dia, foram alimentadas com o microverme enquitréia como<br />
alimentação intermediária. Do 31º até o 45º dia foram alimentadas com Dendrocephalus. No início do<br />
trabalho, quando os tratamentos receberam a mesma dieta, observou-se crescimento uniforme, com<br />
comprimento médio <strong>de</strong> 35 mm e sobrevivência 100%. Depois <strong>de</strong> 30 dias do experimento, os resultados<br />
foram: T1, comprimento médio <strong>de</strong> 50,01±0,26 mm e T2, comprimento médio <strong>de</strong> 44,91±0,45 mm. Ao<br />
final do experimento, observou-se em T1, comprimento médio <strong>de</strong> 71,46±2,41mm e em T2 <strong>de</strong><br />
65,89±3,94 mm. A sobrevivência foi <strong>de</strong> 100, 100 e 99,33% ao longo do cultivo para T1 com uma<br />
média <strong>de</strong> 99,78% e 100, 12 e 100% para T2 com uma média final <strong>de</strong> 70,66%. Conclui-se que<br />
Dendrocephalus ainda é o melhor alimento vivo obtido na EPPA para alimentação do niquim.<br />
Enquitréia é um bom alimento, mas os resultados mostraram que como alimento alternativo para o<br />
niquim não apresentou vantagem quando comparado com branconeta, no que se refere ao crescimento<br />
em comprimento e sobrevivência.<br />
PALAVRAS-CHAVES: peixes, larvicultura, alimento natural.
ABSTRACT<br />
157<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
USE OF THE ANNELID ENQUITREIA, Enchytraeus albidus HENLE 1837, IN THE FEEDING OF<br />
THE NIQUIM, Lophiosilurus alexandri STEINDACHNER 1876, DURING THE INITIAL<br />
FINGERLING CULTURE<br />
In the Station of Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), branconeta is used (Dendrocephalus<br />
brasiliensis), in the feeding of niquim (Lophiosilurus alexandri) after the phase of plâncton, feeling<br />
intermediate alive food necessity in the after-larval period. The objective of this work was to verify the<br />
enquitreia possibility (Enchytraeus albidus) to increase the productivity of alevinos, mainly in the<br />
larvicultura of carnivores as Lophiosilurus alexandri. It was used for fixed eggs, type gutter, where was<br />
placed the spawning of fishes for posterior eclosão of the larvae of niquim. After eclosão, these had<br />
been transferred to six incubadoras and to follow it was supplied to diet the base of plâncton,<br />
enquitreias and finally, Dendrocephalus. Two treatments (T1 and T2) with three repetitions had been<br />
carried through. Fifty post-larvae of niquim for incubadora had been placed, with average length of 10<br />
mm. The culture during 45 days. In the T1, post-larvae they had received plâncton during 15 days.<br />
From 16º until 45º day, they had received Dendrocephalus alive and <strong>de</strong>ad animals. For the T2, the<br />
post-larvae had received plâncton during 15 days. In 16º and until 30º day they had been fed with the<br />
enquitreia microworm as intermediate feeding. In 31º and until 45º day they had been fed with<br />
Dendrocephalus. In the beginning of the work, when the treatments had received the same diet, was<br />
observed uniform growth, with average length of 35 mm and survival 100%. After 30 days of the<br />
experiment, the results had been: T1, average length 50,01±0,26 mm and T2, average length<br />
44,91±0,45 mm. To the end of the experiment, was observed in the treatment T1, average length<br />
71,46±2,41mm and in the T2 65,89±3,94 mm. The survival had been of 100, 100 and 99.33% to the<br />
long one of the culture for T1 with a average 99,78% and 100, 12 and 100% for T2 with a final<br />
average 70,66%. One conclu<strong>de</strong>s that Dendrocephalus still is the best gotten alive food in the EPPA<br />
for feeding of niquim. Enquitréia is a good food, but the results had shown that as alternative food for<br />
niquim did not present comparative advantage when with branconeta, as for the growth in length and<br />
survival.<br />
KEYWORD: fish, larviculture, natural feed.
INTRODUÇÃO<br />
158<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Em alguns países da Europa, Estados Unidos da América, Taiwan e Japão pesquisadores têm<br />
<strong>de</strong>scoberto novas fontes alternativas <strong>de</strong> alimentos vivos para complementar, mas dificilmente para<br />
substituir rotíferos e Artemia como alimentos vivos para larvas <strong>de</strong> peixes marinhos. Algumas espécies<br />
como Tisbe holothuriae (Copepoda), Daphnia e Moina (Cladocera) surgiram como possíveis fontes<br />
alternativas <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> realizados muitos estudos sobre a nutrição e alimentação <strong>de</strong> larvas <strong>de</strong> muitas<br />
espécies <strong>de</strong> peixes. Alguns <strong>de</strong>sses microcrustáceos planctônicos possuem melhor valor nutricional do<br />
que rotíferos e náuplios <strong>de</strong> Artemia (KJAEDEGAARD, 1997).<br />
A produção <strong>de</strong> algumas espécies <strong>de</strong> organismos zooplanctônicos já acontece em alguns países<br />
da Europa (Reino Unidos, Noruega e Bélgica) e tem se tornado uma possibilida<strong>de</strong> viável em muitas<br />
larviculturas. No Brasil, alguns experimentos <strong>de</strong> maneira isolada estão sendo realizados com o objetivo<br />
<strong>de</strong> se <strong>de</strong>scobrirem novos candidatos a alimentos vivos.<br />
Na região Nor<strong>de</strong>ste do Brasil, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1998, pesquisadores da Companhia Hidroelétrica do São<br />
Francisco (CHESF) em parceria com as Universida<strong>de</strong>s do Estado da Bahia (UNEB) e Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong><br />
Pernambuco (UFRPE) vêm intensificando esforços no sentido <strong>de</strong> dominar a técnica <strong>de</strong> produção <strong>de</strong><br />
cistos e náuplios <strong>de</strong> Dendrocephalus brasiliensis (branconeta) e sua utilização no cultivo <strong>de</strong> espécies<br />
carnívoras e ornamentais, a exemplo <strong>de</strong> Lophiosilurus alexandri (niquim), Salminus brasiliensis<br />
(dourado), Cichla ocellaris (tucunaré), Astronotus ocellatus (apaiari) e Pterophyllum scalare (acarában<strong>de</strong>ira).<br />
Assim como a carcinicultura, a piscicultura continua tendo um gran<strong>de</strong> crescimento. Segundo o<br />
Comitê <strong>de</strong> Organismos Aquáticos (COAq), da Associação Nacional dos Fabricantes <strong>de</strong> Ração<br />
(ANFAL), 101.000 toneladas <strong>de</strong> rações para peixes foram comercializadas em 2000 (KUBITZA, 2001<br />
apud LOPES, 2002). Sabe-se, entretanto, que a formulação <strong>de</strong> dietas compostas por alimentos vivos na<br />
fase <strong>de</strong> larvicultura apresenta melhores resultados quando comparada às rações artificiais<br />
micropeletizadas e microencapsuladas (KOLKOVSKI, 1995). Neste contexto, reitera-se aqui a<br />
importância do domínio da nutrição e da alimentação larval como fator <strong>de</strong>terminante para o sucesso <strong>de</strong><br />
um cultivo em gran<strong>de</strong> escala.<br />
Procurando viabilizar o cultivo <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> peixes carnívoros, o grupo dos crustáceos<br />
branchiópodos, cujo tamanho é normalmente da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 1 a 2 cm, porém po<strong>de</strong>ndo alcançar<br />
dimensões entre 7 a 10 cm como a Branchinecta gigas (COHEN, 1995), vem <strong>de</strong>sempenhando um<br />
papel fundamental no <strong>de</strong>senvolvimento da aqüicultura.
159<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Na Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), vem sendo utilizado com sucesso a<br />
branconeta, Dendrocephalus brasiliensis, Pesta 1921, na alimentação <strong>de</strong> L. alexandri após a fase <strong>de</strong><br />
plâncton, no entanto sente-se necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um alimento vivo intermediário no período pós-larval.<br />
O cultivo em massa <strong>de</strong> Enchytraeus albidus Henle, 1937 po<strong>de</strong> minimizar as dificulda<strong>de</strong>s e<br />
aumentar a produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alevinos <strong>de</strong> peixes, principalmente a larvicultura <strong>de</strong> peixes carnívoros<br />
como o niquim, L. alexandri. No entanto, para substituição <strong>de</strong> uma dieta é necessário, entretanto, que a<br />
nova dieta tenha características particulares que proporcionem boa aceitação pelas larvas em<br />
crescimento.<br />
Segundo Kjae<strong>de</strong>gaard (1997), a produção <strong>de</strong> algas, <strong>de</strong> diversas espécies (Chlorella sp.,<br />
Chaetoceros sp., Dunaliella sp.) <strong>de</strong> rotíferos (Brachionus plicatilis) e do microcrustáceo<br />
zooplanctônico Artemia (cistos <strong>de</strong>scapsulados, náuplios, metanáuplios e biomassa) há muito é realida<strong>de</strong><br />
na larvicultura <strong>de</strong> peixes marinhos e <strong>de</strong> crustáceos em países <strong>de</strong>senvolvidos e em muitos em<br />
<strong>de</strong>senvolvimento. As técnicas <strong>de</strong> enriquecimento <strong>de</strong> B. plicatilis e <strong>de</strong> Artemia não só estão<br />
suficientemente dominadas como são amplamente utilizadas por técnicos e profissionais da área <strong>de</strong><br />
larvicultura. Entretanto, segundo Kjae<strong>de</strong>gaard (1997), a oscilação do preço dos cistos <strong>de</strong> Artemia no<br />
mercado mundial, sua disponibilida<strong>de</strong> e a crescente <strong>de</strong>manda por estes alimentos vivos imprescindíveis<br />
para a larvicultura <strong>de</strong> <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> espécies marinhas forçaram governo <strong>de</strong> diversos países a investirem<br />
milhões <strong>de</strong> dólares na pesquisa <strong>de</strong> novas fontes alternativas <strong>de</strong> alimentos vivos, rações<br />
microencapsuladas e micropeletizadas que viessem a dar novas perspectivas para substituir ou<br />
complementar o uso <strong>de</strong> rotíferos e <strong>de</strong> Artemia na alimentação das larvas <strong>de</strong> peixes.<br />
Normalmente, o início da fase piscívora <strong>de</strong> peixes carnívoros coinci<strong>de</strong> com a <strong>de</strong>pleção do<br />
zooplâncton e outros alimentos naturais, ou ainda, quando o tamanho do alimento não mais se a<strong>de</strong>qua<br />
às exigências energéticas e preferência alimentar dos juvenis. Desenvolve-se então a preferência<br />
alimentar por crustáceos e peixes que permanecerá por toda vida (LOPES, 2002).<br />
Os estágios mais difíceis da piscicultura são a passagem das larvas para alevinos (SIPAÚBA-<br />
TAVARES, 1993). A larvicultura das espécies <strong>de</strong> peixe tem sido <strong>de</strong>svantajosa por falta <strong>de</strong> alimentação<br />
em tamanhos a<strong>de</strong>quados <strong>de</strong> zooplâncton vivos, para as larvas (LUBZENS 1987; DIAS et al., 1988;<br />
YAMANKA 1988; LUCAS et al., 1990; SIPAÚBA-TAVARES e ROCHA, 1994). Através do cultivo<br />
da enquitréia, E. albidus visando alimentação na alevinagem inicial do niquim, têm-se uma perspectiva<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento não só <strong>de</strong>sta espécie carnívora, mas <strong>de</strong> muitos outros peixes carnívoros <strong>de</strong><br />
interesse comercial e ecológico. O presente trabalho tem como objetivo o cultivo <strong>de</strong> enquitréia, E.<br />
albidus como mais uma fonte alternativa <strong>de</strong> alimento <strong>de</strong> L. alexandri durante a alevinagem inicial.
MATERIAL E MÉTODOS<br />
160<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
O experimento foi realizado na Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA) (24 L 0586000<br />
UTM 8963002), situada na avenida Maranhão S/N, Paulo Afonso, Bahia, pertencente à Companhia<br />
Hidroelétrica do São Francisco (CHESF).<br />
Foram utilizadas sete incubadoras tipo calha<br />
(Figura 1), on<strong>de</strong> foram <strong>de</strong>positada a <strong>de</strong>sova (ovos<br />
a<strong>de</strong>sivos) para posterior eclosão das larvas. Cinco<br />
dias após a eclosão, quando as pós-larvas estavam<br />
aptas para serem transferidas para outras<br />
incubadoras e a seguir acompanhamento <strong>de</strong> sua dieta<br />
a base <strong>de</strong> plâncton, enquitréias e branchoneta<br />
conforme processo tradicional utilizado na EPPA.<br />
FIGURA 1 - INCUBADORAS TIPO CALHA<br />
Por outro lado, para o cultivo da enquitréia UTILIZADAS NO EXPERIMENTO.<br />
foram utilizadas caixas <strong>de</strong> plástico medindo<br />
17x12x10 cm, com carvão ativado em uma coluna <strong>de</strong> 2cm <strong>de</strong> altura, sempre úmida para servir como<br />
substrato. Adicionou-se uma colher <strong>de</strong> sopa com enquitréias <strong>de</strong> cultura prévia e colocou-se uma lâmina<br />
<strong>de</strong> vidro com 8x5cm por cima da cultura (Figura 2). O vidro serve para facilitar a colheita da<br />
enquitréia.<br />
A alimentação para as enquitréias consistiu <strong>de</strong><br />
uma papa <strong>de</strong> aveia e água com uma consistência <strong>de</strong> mel<br />
servida geralmente a cada dois ou três dias. Na coleta<br />
das enquitréias para alimentação dos peixes utilizou-se<br />
<strong>de</strong> uma pinça cirúrgica.<br />
O experimento constou <strong>de</strong> dois tratamentos (T1<br />
e T2) com três repetições cada. Após sorteio das calhas<br />
por tratamento, cada calha recebeu 50 pós-larvas <strong>de</strong><br />
FIGURA 2 – CAIXA PLÁTICA, COBERTA COM niquim cujo comprimento médio inicial foi <strong>de</strong> 10 mm<br />
LÂMINA DE VIDRO UTILIZADA NO CULTIVO DE<br />
ENQUITRÉIAS.<br />
(Tabela 1). Para T1, as pós-larvas receberam plâncton<br />
durante 15 dias. A partir do 16º dia e até o 45º dia passaram a receber branchonetas vivas (Figura 3) e<br />
também mortas, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da disponibilida<strong>de</strong>, <strong>de</strong> acordo com o procedimento <strong>de</strong> rotina da EPPA.<br />
Para T2, as pós-larvas receberam plâncton durante 15 dias. A partir do 16º dia e até o 30º dia receberam
161<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
como alimento vivo enquitréia em alimentação intermediária. A partir do 31º dia e até o 45º dia foram<br />
alimentadas com branchonetas.<br />
O tempo <strong>de</strong> duração do experimento para observação do crescimento médio dos peixes em<br />
comprimento (mm) e percentuais <strong>de</strong> sobrevivência foi <strong>de</strong> 45 dias. Para avaliação do crescimento<br />
tomou-se apenas o comprimento dos peixes, visto que essa variável é mais utilizada nos trabalhos <strong>de</strong><br />
Tabela 1. Alimentação natural das larvas <strong>de</strong> acordo com os tratamentos.<br />
TRATAMENTOS TOTAL DE PÓS-LARVAS CALHA DIETA<br />
T1<br />
T2<br />
propagação <strong>de</strong> alevinos em reservatórios como<br />
os <strong>de</strong>senvolvidos pelas companhias do setor<br />
elétrico, como no caso da CHESF<br />
Os tratamentos foram submetidos ao<br />
teste <strong>de</strong> significância da diferença entre duas<br />
médias (teste “t” ou <strong>de</strong> Stu<strong>de</strong>nt) ao nível <strong>de</strong><br />
significância α = 5%.<br />
50 9 Plâncton + branchoneta<br />
50 10 Plâncton + branchoneta<br />
50 14 Plâncton + branchoneta<br />
50 11 Plâncton + enquitréia + branchoneta<br />
50 12 Plâncton + enquitréia + branchoneta<br />
50 13 Plâncton + enquitréia + branchoneta<br />
RESULTADOS<br />
Figura 3 - Exemplar <strong>de</strong> Dendrocephalus<br />
brasiliensis (Fonte: Lopes, 2003)<br />
Decorridos 15 dias do início da 1ª etapa <strong>de</strong>sse trabalho, com a utilização <strong>de</strong> organismos vivos<br />
do zooplâncton para ambos os tratamentos, foi observado o <strong>de</strong>senvolvimento dos alevinos. Com auxílio<br />
<strong>de</strong> um paquímetro foi realizada biometria e verificou-se um comprimento médio <strong>de</strong> 35 mm para os<br />
alevinos nos dois tratamentos e a sobrevivência <strong>de</strong> 100%.<br />
Na segunda fase do experimento quando os peixes em T1 passaram a receber branconetas e os<br />
peixes em T2 enquitréias como alimento, <strong>de</strong>corridos os quinze dias <strong>de</strong>sta fase (total <strong>de</strong> 30 dias), os<br />
resultados foram os seguintes: em T1, os niquins alimentados com branconeta alcançaram o<br />
comprimento médio <strong>de</strong> 50,01±0,26 mm e sobrevivência <strong>de</strong> 100% e em T2, os niquins alimentados com<br />
enquitréias alcançaram o comprimento médio <strong>de</strong> 44,91 mm e sobrevivência <strong>de</strong> 12%.
162<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
Na terceira e última fase do experimento os alevinos em T1 continuaram a receber branconetas<br />
como alimento e os alevinos em T2 passaram a receber também branconetas em substituição as<br />
enquitréias. Concluídos os 15 dias finais do experimento (total <strong>de</strong> 45 dias), os resultados foram os<br />
seguintes: a) Os alevinos em T1 atingiram ao final do trabalho um comprimento médio <strong>de</strong> 71,46±2,41<br />
mm (Fig 4) e sobrevivência <strong>de</strong> 99,33% com uma média geral em termos <strong>de</strong> sobrevivência <strong>de</strong> 99,78%.<br />
Na tabela 2 é apresentada uma síntese <strong>de</strong> T1.<br />
Os alevinos em T2 alcançaram um comprimento médio <strong>de</strong> 65,89±3,94 mm (Figura 5) e<br />
sobrevivência 100% nesta fase. No tratamento como um todo, a sobrevivência foi <strong>de</strong> 70,66%. Na<br />
Tabela 3 é apresentada uma síntese dos resultados <strong>de</strong> T2<br />
Figura 4 – Tratamento 1: Alevino <strong>de</strong><br />
niquim ao final do cultivo alimentado<br />
com plâncton + branconeta<br />
Figura 5 - Tratamento 2: Alevino <strong>de</strong><br />
niquim ao final do cultivo alimentado<br />
com plâncton + enquitréia +<br />
Tabela 2 - tratamento T1: Síntese dos resultados da alimentação do niquim.<br />
Dias Alimento Comp. Médio (cm) Sobrevivência (%)<br />
0-15 Plâncton 35±0,10 100<br />
16-30 Branconeta 50,01±0,26 100<br />
31- 45 Branconeta 71,46±2,41 99,33<br />
A média dos dois tratamentos (T1 e T2), submetida ao teste <strong>de</strong> significância da diferença entre<br />
as duas médias (teste “t” ou <strong>de</strong> Stu<strong>de</strong>nt) ao nível <strong>de</strong> significância α = 5 % apresentou diferença<br />
significativa no que se refere à sobrevivência e comprimento, com uma superiorida<strong>de</strong> <strong>de</strong> T1 sobre T2.<br />
Tabela 2 - tratamento T2: Síntese dos resultados da alimentação do niquim.<br />
Dias Alimento Comp. Médio (cm) Sobrevivência (%)<br />
0-15 Plâncton 35±0,10 100<br />
16-30 Enquitréia 44,91±0,12 12<br />
31-45 Branconeta 65,89±3,94 100
DISCUSSÃO<br />
163<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
A branconeta, cujo valor protéico em torno <strong>de</strong> 67% <strong>de</strong> proteína bruta, supera o da artêmia 61,60,<br />
se mostra com níveis protéicos suficientes para suprir as necessida<strong>de</strong>s não só <strong>de</strong> peixes carnívoros mas<br />
também <strong>de</strong> outros animais aquáticos como os camarões por exemplo. Com referência ao comprimento,<br />
as branconetas, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das condições ambientais aon<strong>de</strong> são cultivadas, atingem em torno <strong>de</strong> 25<br />
mm, superando também a artêmia que é <strong>de</strong> 11 mm, isto implica positivamente numa maior produção <strong>de</strong><br />
biomassa <strong>de</strong> branconeta em relação a artêmia (LOPES, 1998).<br />
Lopes e Tenório (2003) citam a gran<strong>de</strong> importância da branconeta, Dendrocephalus<br />
brasiliensis, como alimento natural, tornando-se um gran<strong>de</strong> elo para o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> alevinos <strong>de</strong><br />
niquim a partir do momento em que o zooplâncton e outros organismos do plâncton não se fazem mais<br />
atrativos para essa espécie.<br />
Segundo Kubitza (1998), a importância do alimento natural em piscicultura é maior durante as<br />
fases <strong>de</strong> larvicultura e alevinagem ou na recria <strong>de</strong> espécies planctófagas. Daí o bom <strong>de</strong>senvolvimento<br />
dos alevinos <strong>de</strong> niquim quando alimentados com organismos vivos com a branconeta, por exemplo.<br />
Segundo Pillay (1995), os organismos cultivados na aqüicultura têm <strong>de</strong> obter todos os seus<br />
requerimentos nutricionais exceto os requerimentos minerais, através <strong>de</strong> alimentos que eles consomem.<br />
A branconeta como animal filtrador <strong>de</strong> algas, po<strong>de</strong> repassar para os peixes vários nutrientes existentes<br />
nesse alimento natural. Assim, é que para melhorar a qualida<strong>de</strong> nutricional dos alimentos vivos<br />
normalmente utilizados (rotíferos e Artemia) com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fornecer às larvas todos os nutrientes<br />
necessários para seu <strong>de</strong>senvolvimento e crescimento larval, utiliza-se a técnica <strong>de</strong> enriquecimento com<br />
emulsões (Selco TM , Super-Selco TM ) ricas em ácidos graxos (HUFA, EPA, DHA), vitaminas (C e E),<br />
antibióticos e pigmentos (carotenói<strong>de</strong>s).<br />
Kubitza e Lovshin (1999) afirmam que a produção intensiva <strong>de</strong> peixes carnívoros po<strong>de</strong> ser<br />
dificultada quando o alimento vivo é o único item alimentar. Entretanto, seu uso como dieta inicial no<br />
treinamento alimentar <strong>de</strong> peixes carnívoros é amplamente aceito. Em seu trabalho utilizando alimento<br />
vivo como dieta inicial no treinamento alimentar <strong>de</strong> juvenis <strong>de</strong> pirarucu (Arapaima gigas) verificou que<br />
provavelmente o uso <strong>de</strong> alimento vivo seja a estratégia alimentar mais viável para facilitar a aceitação<br />
<strong>de</strong> rações por parte <strong>de</strong>stes juvenis, uma vez que é um alimento naturalmente consumido, po<strong>de</strong>ndo<br />
oferecer a vantagem <strong>de</strong> treinar peixes <strong>de</strong> tamanhos menores e <strong>de</strong> não ser necessário o uso <strong>de</strong> atrativos.<br />
Juvenis <strong>de</strong> pirarucu apresentam associação gregária e po<strong>de</strong>m ser influenciados por condições<br />
que favoreçam o estabelecimento <strong>de</strong> classes hierárquicas aumentando com isso a heterogeneida<strong>de</strong> do<br />
lote, po<strong>de</strong>ndo resultar em agressões (CAVERO et al., 2003). Nos juvenis <strong>de</strong> niquim em estudo, foi
164<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
observado canibalismo acentuado em T2 com uso <strong>de</strong> E. albidus como alimento. Isto provavelmente é<br />
justificado pela composição protéica <strong>de</strong>ste microverme que apresenta alto teor <strong>de</strong> gorduras sólidas que<br />
são oleosas, o que dificulta o processamento pelos peixes <strong>de</strong> modo eficaz quando oferecido<br />
diariamente, aliado ao fato também <strong>de</strong> associação gregária existente nesta espécie.<br />
Kubitza e Lovshin (1999) citam que este tipo <strong>de</strong> comportamento (canibalismo) po<strong>de</strong> ocorrer<br />
durante o treinamento alimentar <strong>de</strong> diversas espécies <strong>de</strong> peixes carnívoros. Provavelmente as agressões<br />
observadas: mor<strong>de</strong>duras nas nada<strong>de</strong>iras caudais estejam associadas à mudança repentina da<br />
alimentação durante o treinamento alimentar, fato que po<strong>de</strong> ter influenciado no comportamento dos<br />
peixes. Entretanto, não existem registros <strong>de</strong> canibalismo ou agressões entre juvenis <strong>de</strong> pirarucu criados<br />
em cativeiro.<br />
Lopes et al. (1996) utilizaram o rotífero marinho B. plicatillis, náuplios <strong>de</strong> Artemia salina e do<br />
cladócero Moina micrura na alimentação <strong>de</strong> larvas do surubim-pintado e observaram que esta espécie<br />
aceita bem o alimento vivo como dieta inicial.<br />
CONCLUSÕES<br />
A branconeta é o melhor alimento vivo obtido na região para alimentação do niquim. A<br />
enquitréia é um bom alimento. No entanto, sua utilização como alimento alternativo na dieta do<br />
niquim, não apresenta vantagem quando comparado com a branconeta, tanto no que se refere ao<br />
crescimento quanto à sobrevivência <strong>de</strong> pós-larvas.<br />
REFERÊNCIAS<br />
CAVERO, B.A.S. et al. Uso <strong>de</strong> alimento vivo como dieta inicial no treinamento alimentar <strong>de</strong> juvenis<br />
<strong>de</strong> pirarucu. Instituto Nacional <strong>de</strong> Pesquisas da Amazônia. Coor<strong>de</strong>nação <strong>de</strong> Pesquisas em Aqüicultura.<br />
Manaus. Pesq. Agropec. Bras., v. 38, n. 8., p. 2003.<br />
COHEN, R.G. Crustacea Anostraca in: Lopretto e Tell (Eds.) Ecossistemas <strong>de</strong> Águas Continentais:<br />
Metodologia para su Estudio. La Plata: Editiones SUR – Tomo II. p. 871-895. 1995.<br />
DIAS, T.C.R.; CASTAGNOLLI, N.; CARNIERO, D. J. Alimentação <strong>de</strong> larvas <strong>de</strong> pacu (Colossoma<br />
mitrei Berg, 1985) com dietas naturais e artificiais. In: VI SIMPÓSIO LATINOAMERICANO E V<br />
SIMPÓSIO BRASILEIRO DE AQÜICULTURA, Anais... Florianóplis, p. 500-504. 1998.<br />
KOLKOVSKI, S. Book of abstract of larvi’ 95. Fish & Shellfish larvicultura Symposium (September<br />
3-7, 1995, Ghent, Bélgica). European Aquaculture Society, Artemia Reference Center, 1995.
165<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
KUBITZA, F.; LOVSHIN, L. L.,1999, The use of freeze-dried krill to feed train largemouth bass<br />
(Micropterus salmoi<strong>de</strong>s): feeds and training strategies. Aquaculture, Amsterdam, v. 148, p. 299-312,<br />
1995.<br />
KUBITZA, F. Nutrição e alimentação dos peixes cultivados. Campo Gran<strong>de</strong>, 1998. 113 p.<br />
KJAEDEGAARD, R.M. Fontes alternativas <strong>de</strong> alimentos vivos na nutrição e alimentação <strong>de</strong> larvas <strong>de</strong><br />
espécies <strong>de</strong> peixes marinhos da costa brasileira. Monografia (Especialização em Aqüicultura).<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco. Recife, 1997. 49 p.<br />
LOPES, J. P; TENÓRIO, R. A. The branconeta (Dendrocephalus brasiliensis, Pesta 1921), as a food<br />
suply for alevines of niquim (Lophiosilurus alexandri, Steindachner, 1876). XIV ENCONTRO DE<br />
ZOOLOGIA DO NORDESTE - A Zoologia no Desenvolvimento Sustentável. Resumos... Maceió. p.<br />
304. 2003.<br />
LOPES, J.P. Produção <strong>de</strong> cistos e biomassa <strong>de</strong> “branchoneta” Dendrocephalus brasiliensis Pesta<br />
1921, em viveiros <strong>de</strong> cultivo. Dissertação (Mestrado em Recursos Pesqueiros e Aqüicultura).<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco. Recife. 46 p. 2002.<br />
LOPES, J.P. Consi<strong>de</strong>rações sobre a branchoneta, Dendrocephalus brasiliensis, (Crustacea,<br />
Anostraca, Thamnocephalidae) como fonte Alternativa na Alimentação <strong>de</strong> alevinos Espécies<br />
Carnívoras. 39 p. Monografia (Especialização em Aqüicultura). Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong><br />
Pernambuco. Recife. 1998.<br />
LOPES, P. J., et al. Branchoneta uma notável contribuição a larvicultura e alevinagem <strong>de</strong> peixes<br />
carnívoros <strong>de</strong> água doce. Panorama da Aqüicultura, v. 8 n. 50 p.31-34, 1998.<br />
LOPES, M. C.; et al. Alimentação <strong>de</strong> larvas <strong>de</strong> surubim pintado, Pseudoplatystoma coruscans<br />
(Agassiz, 1829), em laboratório, na primeira semana <strong>de</strong> vida. Bol. Técnico CEPTA, v. 9, p. 11-29.<br />
1996.<br />
LUCAS, K.; S. SENDACZ,; E. KUBO. Experimentos <strong>de</strong> cultura do Rotífero Brachionus calyciflorus<br />
visando sua utilização na aqüicultura <strong>de</strong> água doce. B. Int. <strong>Pesca</strong>, v.17 p.105-115, 1990.<br />
LUBZENS, E. Rasing rotifers for use Aquaculture Hydrobiologia, v. 147, p. 245-255, 1987.<br />
PILLAY, T.V.R.. Larval foods. In: Aquaculture, principles and practices. Blackwell Scienc. p. 109-<br />
119, 1995.
166<br />
Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />
SIPAÚBA-TAVARES, L. H., Rocha, O. Sobrevivência <strong>de</strong> larvas <strong>de</strong> Piaractus mesopotamicus<br />
(Holmberg, 1887) (Pacu) e Colossoma macropomum (Cuvier, 1818) (Tambaqui), cultivadas em<br />
laboratório, Biotemas, v. 7, p. 46-56, 1994.<br />
SIPAÚBA-TAVARES, L. H. Analise da seletivida<strong>de</strong> alimentar em larvas <strong>de</strong> Tambaqui (Colossoma<br />
macropomum) e Tambacu (Híbrido, Pacu - Piaractus mesopotamicus - e Tambaqui - Colossoma<br />
macropomum) sobre os organismos zooplanctônicos. Acta Limnológica Braziliensia, v. 6, p. 114- 132,<br />
1993.<br />
TENÓRIO, R.A. et al. Desempenho do niquim (Lophiosilurus alexandri, Steindachner, 1876),<br />
cultivado em gaiolas flutuantes, na fase juvenil. I CONGRESSO SUL-AMERICANO DE<br />
AQUICULTURA. X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE AQÜICULTURA. Recife. Abstracts... 1998. p.<br />
264.<br />
YAMANKA, N. Descrição, <strong>de</strong>senvolvimento e alimentação <strong>de</strong> larvas e pré-juvenis do pacu, Piaractus<br />
mesopotamicus (Holmberg, 1887) (Teleostei, Characidae), mantidos em confinamentos. Tese<br />
(Doutorado), Universida<strong>de</strong> do Estado <strong>de</strong> São Paulo, São Paulo. 1988. 125 p.�