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Revista Brasileira de Engenharia de Pesca

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H<br />

ISSN –<br />

ISSN 1980-587X<br />

Subiendo re<strong>de</strong>s (Quadro <strong>de</strong> Héctor Becerini)*<br />

VEJA TAMBÉM NESTE NÚMERO<br />

<strong>Revista</strong><br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

<strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong><br />

<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

Volume 2, Número 1 - Janeiro <strong>de</strong> 2007<br />

<strong>Pesca</strong>, Aqüicultura, Tecnologia do <strong>Pesca</strong>do, Ecologia Aquática<br />

Aqüicultura: áreas na<br />

Bacia do Itapecuru, MA<br />

Alemanha e Áustria:<br />

Atlas da Ictiofauna<br />

Carotenói<strong>de</strong>s:<br />

Fontes naturais para a<br />

aqüicultura<br />

História: Associação<br />

dos Eng os <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> PE<br />

REVIZEE:<br />

Missão cumprida?<br />

Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto, Mar <strong>de</strong>l Plata, Argentina � Macrófitas aquáticas na produção <strong>de</strong> tijolos<br />

Análise <strong>de</strong> variáveis na carcinicultura � Biofertilizantes e sobrevivência <strong>de</strong> tilápias<br />

Beneficiamento <strong>de</strong> pescado em Itapissuma, PE � Anelí<strong>de</strong>o enquitréia na alimentação do niquim<br />

A pesca oceânica no Brasil no século 21 � Transporte ina<strong>de</strong>quado <strong>de</strong> caranguejo-ucá<br />

1<br />

ATENÇÃO: PARA NAVEGAR USE “BOOKMARKS” À ESQUERDA


DIRETOR<br />

2<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />

VOLUME 2, NÚMERO 1, 2007<br />

Eds.: José Milton Barbosa e Haroldo Gomes Barroso<br />

Haroldo Gomes Barroso - UEMA<br />

EDITORES<br />

José Milton Barbosa - UFRPE<br />

Haroldo Gomes Barroso - UEMA<br />

DIRETOR DE MARKETING<br />

Rogério Bellini - Netuno<br />

ASSISTENTES DE EDIÇÃO<br />

Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira Mendonça<br />

Fábia Gabriela Pflugraph Carraro<br />

Pollyanna <strong>de</strong> Moraes França Ferreira<br />

Elton Lima Santos<br />

Hel<strong>de</strong>r Correia Lima (UFRPE)<br />

WEBMASTER<br />

Junior Bal<strong>de</strong>z - UEMA<br />

Paula <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s - UFRPE<br />

COMISSÃO EDITORIAL<br />

Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE<br />

Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales - FAEP-BR<br />

Luiz <strong>de</strong> Souza Viana – Emater/PR<br />

Maria do Carmo Gominho Rosa - Unioeste<br />

Maria Nasaré Bona <strong>de</strong> Alencar Araripe - UFPI<br />

Paula Maria Gênova <strong>de</strong> Castro - Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>/SP<br />

Paulo <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s - UFRPE<br />

Rogério Souza <strong>de</strong> Jesus - INPA<br />

Raimundo Nonato <strong>de</strong> Lima Conceição - UFC<br />

Neiva Maria <strong>de</strong> Almeida - UFPB<br />

Vanildo Souza <strong>de</strong> Oliveira - UFRPE<br />

Walter Moreira Maia Junior - UFPB<br />

CONSULTORES AD HOC<br />

Alex Augusto Gonçalves - UNISINOS<br />

Antônio Diogo Lustosa Neto – Consultor Autônomo<br />

Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE<br />

Fábia Gabriela Pflugraph Carraro - UFRPE<br />

Fábio Vieira Hissa Hazin - UFRPE<br />

Fernando Porto - UFRPE<br />

Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira Mendonça - UFRPE<br />

José Milton Barbosa - UFRPE<br />

Maria do Carmo Figueredo Soares - UFRPE<br />

Neiva Maria <strong>de</strong> Almeida - UFPB<br />

Paula Maria Gênova <strong>de</strong> Castro – Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>/SP<br />

Paulo <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s - UFRPE<br />

Raimundo Nonato <strong>de</strong> Lima Conceição - UFC<br />

Walter Moreira Maia Junior - UFPB


© Publicada em janeiro <strong>de</strong> 2007<br />

Todos os direitos reservados aos Editores<br />

Proibida a reprodução, por qualquer meio,<br />

Sem autorização dos editores.<br />

Impresso no Brasil<br />

Printed in Brazil<br />

Ficha catalográfica<br />

Setor <strong>de</strong> Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE<br />

R454 <strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

Nacional / editores José Milton Barbosa, Haroldo Gomes<br />

Barroso -- São Luís, Ed. UEMA, 2007.<br />

V.2, n.1 : 166p : il.<br />

Quadrimestral<br />

3<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

______________________________________________________________________________<br />

Apoio<br />

Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />

1. <strong>Pesca</strong> 2. Aqüicultura 3. Ecossistemas Aquáticos,<br />

4. <strong>Pesca</strong>dos – Tecnologia I 5. Extensão Pesqueira. Barbosa,<br />

José Milton II. Barroso, Haroldo Gomes III. Universida<strong>de</strong><br />

Estadual do Maranhão<br />

CDD 639<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco


4<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />

ISSN 1980-587X<br />

Volume 2 Janeiro, 2007 Número 1<br />

Editorial<br />

P<br />

rezados amigos que estão acompanhando nossa <strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong><br />

<strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>), estamos apresentando o segundo número (V.2, N.1) da<br />

<strong>Revista</strong>, esperando correspon<strong>de</strong>r a expectativa <strong>de</strong> todos ou pelo menos da maioria.<br />

Muitas coisas ocorreram neste período, eleições, <strong>de</strong>bates e como não po<strong>de</strong>ria <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> ser<br />

calorosas discussões entre os honoráveis participantes <strong>de</strong> nosso “GI <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e<br />

Aqüicultura”. Por outro lado, alguns sectários da <strong>de</strong>sinformação lançaram suas re<strong>de</strong>s, com<br />

velhos refrões. Ultimamente, tem estado na moda criticar a ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> aqüicultura<br />

imputando-lhes culpa pelos <strong>de</strong>smazelos ambientais: seculares práticas <strong>de</strong> poluidores<br />

tradicionais. Não se levando em consi<strong>de</strong>ração os benefícios <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong>, geradora <strong>de</strong><br />

emprego e renda em regiões <strong>de</strong> tão baixo nível <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento humano e <strong>de</strong> tão<br />

escassas possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> implemento <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s capazes <strong>de</strong> gerar suporte financeiro e<br />

valorização social do homem. Outro fato notório foi a crítica infundada aos colegas que<br />

trabalham no controle dos ataques <strong>de</strong> tubarões na costa do gran<strong>de</strong> Recife que esqueceram<br />

os reclamos da socieda<strong>de</strong> acerca os aci<strong>de</strong>ntes com tubarões que, além <strong>de</strong> ceifar vidas, tem<br />

causado prejuízos a ativida<strong>de</strong> turística e cerceado a população do seu direito <strong>de</strong> lazer,<br />

prazeroso e barato.<br />

*CAPA: “SUBIENDO REDES” QUADRO DO PINTOR MARINISTA E DIRETOR DO Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l<br />

Puerto (MAR DEL PLATA, ARGENTINA) HÉCTOR BECERINI (FOTO), QUE GENTILMENTE NOS CEDEU AS<br />

FOTOS DE SEUS QUADROS PARA EMBELEZAR NOSSA REVISTA, COM INTERVINIÊNCIA DE PASQUALINO<br />

Marchese. A AMBOS OS NOSSOS MAIS SINCEROS AGRADECIMENTOS.<br />

José Milton Barbosa<br />

Editor Chefe


Sumário<br />

5<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Normas para Publicação 6<br />

I - ARTIGOS TÉCNICOS/INFORMATIVOS<br />

Atlas da biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes da Alemanha e Áustria – um contributivo para comunicação e 9<br />

informação na ictiologia<br />

- Heiko BRUNKEN, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen, Alemanha.<br />

A Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco: histórico e atuação<br />

19<br />

- Maria do Carmo Figueredo SOARES; Leonardo Teixeira <strong>de</strong> SALES; José Milton BARBOSA; Augusto<br />

José NOGUEIRA; Vanildo <strong>de</strong> Souza OLIVEIRA; Claudia Fernanda da F. OLIVEIRA<br />

REVIZEE – Missão cumprida?<br />

27<br />

- Carlos Fre<strong>de</strong>rico Simões SERAFIM - SECIRM<br />

Beneficiamento e comercialização do pescado na Região <strong>de</strong> Itapissuma, Pernambuco<br />

44<br />

- José Milton BARBOSA; Hel<strong>de</strong>r Correia LIMA; Erivaldo José da SILVA JÚNIOR; Artur Delmiro<br />

Sodré da MOTA; Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira MENDONÇA; Edson José da SILVA FILHO<br />

Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto (Mar <strong>de</strong>l Plata, Argentina)<br />

56<br />

- Héctor BECERINI<br />

A pesca oceânica no Brasil no século 21<br />

60<br />

- Fábio Hissa Vieira HAZIN; Paulo Eurico TRAVASSOS<br />

Método primitivo <strong>de</strong> transporte do caranguejo-uçá compromete sustentabilida<strong>de</strong> do estoque<br />

76<br />

- Raimundo Ivan MOTA<br />

I I- ARTIGOS CIENTÍFICOS<br />

Áreas potenciais para a aqüicultura sustentável na bacia do rio itapecuru: bases para o<br />

80<br />

planejamento utilizando o Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica<br />

- Haroldo Gomes BARROSO; Antônio <strong>de</strong> Pádua SOUSA<br />

Fontes naturais <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s <strong>de</strong> interesse para a aqüicultura: eficiência <strong>de</strong> métodos <strong>de</strong> extração 103<br />

- Renata PASSOS; Danilo G. MORIEL; Francisco LAGREZE; Luisa GOUVEIA; Marcelo<br />

MARASCHIN; Luis H. BEIRÃO<br />

Utilização da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa Planchon, 1849 (Hydrocharitacea) na produção <strong>de</strong> tijolos 114<br />

para construção civil<br />

- Thales Pacífico BEZERRA; Cristiano Pereira da SILVA; José Patrocínio LOPES<br />

Análise estatística das variáveis <strong>de</strong> cultivo do camarão Litopenaeus vannamei (Boone, 1931)<br />

128<br />

- Bruno Leonardo da Silva SANTOS; Paulo <strong>de</strong> Paula MENDES<br />

Sobrevivência <strong>de</strong> tilápia-do-nilo Oreochromis niloticus (Linnaeus, 1758), em diferentes concentrações <strong>de</strong> 143<br />

biofertilizante.<br />

- É<strong>de</strong>r André GUBIANI; Nyamien Yahault SEBASTIEN<br />

Utilização do aneli<strong>de</strong>o enquitréia, Enchytraeus albidus Henle, 1837 na alimentação do niquim,<br />

156<br />

Lophiosilurus alexandri Steindachner, 1876 durante a alevinagem inicial<br />

- José Patrocínio LOPES; Tâmara A. e SILVA; Darciene S. GOMES; Ana Cristina M. RANGEL<br />

Pag.


6<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA (RE<strong>Pesca</strong>)<br />

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO<br />

OBJETIVO - A <strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>) tem por objetivo publicar artigos<br />

científicos e técnicos/informativos, abordando temas <strong>de</strong> interesse na área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e<br />

<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />

INFORMAÇÕES GERAIS - Os originais – redigidos <strong>de</strong> forma concisa, com a exatidão e a clareza<br />

necessárias à sua fiel compreensão – <strong>de</strong>vem ser enviados à Comissão Editorial pelo e-mail:<br />

repesca@gmail.com ou entregues em CD, rigorosamente <strong>de</strong> acordo com estas normas, don<strong>de</strong> serão<br />

enviados aos consultores “ad hoc”, membros da Comissão Editorial ou indicados pelo Editor. Os<br />

pareceres serão transmitidos anonimamente aos autores. Em caso <strong>de</strong> recomendação <strong>de</strong>sfavorável,<br />

po<strong>de</strong>rá ser pedida a opinião <strong>de</strong> um outro assessor. Os trabalhos serão publicados na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> aceitação,<br />

ou pela sua importância.<br />

Nunca use negrito no texto, em parte ou para <strong>de</strong>stacar títulos sub-títulos ou expressões.<br />

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS<br />

DIGITAÇÃO - Os artigos com no máximo 15 páginas, incluindo tabelas e figuras, <strong>de</strong>vem ser digitado<br />

em letra Times New Roman, tamanho 12, papel A4 e em espaço 1,5 (entre linhas) com margens <strong>de</strong> 2<br />

cm em todos os lados, justificado e sem divisão <strong>de</strong> palavras no final da linha. Nomes científicos e<br />

palavras estrangeiras <strong>de</strong>vem ser grafados em “itálico”.<br />

TÍTULO - O título <strong>de</strong>ve dar uma idéia precisa do conteúdo e ser o mais curto possível escrito em letras<br />

maiúsculas tamanho12, centralizado.<br />

NOMES DOS AUTORES - Os nomes dos autores <strong>de</strong>vem constar sempre na sua or<strong>de</strong>m direta, sem<br />

inversões, com o sobrenome maiúsculo. Segue-se aos autores os en<strong>de</strong>reços institucionais e após o email<br />

do autor correspon<strong>de</strong>nte.<br />

Ciro Men<strong>de</strong>s CASTOR 1* José Mário BRAGA 2 ; Maria da Penha PIRILO 1<br />

1 Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Carolina<br />

2 Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Carolina<br />

*Email: ciromc@ymail.com<br />

O RESUMO E O ABSTRACT (que é iniciado com o título em inglês) - <strong>de</strong>vem conter as mesmas<br />

informações e sempre sumariar resultados e conclusões. Não <strong>de</strong>vem ultrapassar 300 palavras e serem<br />

seguidos <strong>de</strong>, no máximo, cinco palavras-chaves e key-words.<br />

Os artigos <strong>de</strong>vem ter os seguintes itens:


7<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

ARTIGOS CIENTÍFICOS - Resumo (+ Palavras-chave), Abstract (+ Keywords), Introdução, Material e<br />

Métodos, Resultados e Discussão (estes dois juntos ou separados), Conclusões (opcional),<br />

Agra<strong>de</strong>cimentos (opcional) e Referências.<br />

ARTIGOS TÉCNICOS/INFORMATIVOS - Resumo (+ Palavras-chave), Abstract (+ Key words),<br />

Introdução, Corpo (<strong>de</strong>senvolvimento do assunto) Conclusões (<strong>de</strong>nominados <strong>de</strong> Comentários<br />

Conclusivos ou Finais, Consi<strong>de</strong>rações Finais), Agra<strong>de</strong>cimentos (opcional) e Referências (quando<br />

houver citações no texto).<br />

Os nomes dos itens <strong>de</strong>vem ser maiúsculos e centralizados, com um espaço acima e abaixo.<br />

REFERÊNCIAS - Baseada no APA Citation Gui<strong>de</strong> (Publication Manual of the American Psychological<br />

Association, 5th ed.).<br />

Livro (um autor)<br />

Bellini, C. T. (2005). Tratado <strong>de</strong> Zoogeografia do Brasil: aspectos econômicos. Ubá: Editora Nova.<br />

No texto: A espécie ocorre... (Bellini, 2005) ou Segundo Bellini (2005) a espécie...<br />

(Dois autores)<br />

Rocha, R. & J.P. Lara (Eds.) (2004). Marine fishes. Victoria: University Press.<br />

No texto: (Rocha & Lara, 2004)<br />

Capítulo <strong>de</strong> livro<br />

Brito, N. & Datena, C. R. (2005). Crescimento <strong>de</strong> miracéu Astrocopus y-grecum em laboratório. In: H.<br />

G. Barroso (Ed.). The Sea Fishes (pp.23-27). São Luís (MA): Ed. Amazônia.<br />

No texto: (Brito & Datena, 2005)<br />

Artigo <strong>de</strong> <strong>Revista</strong><br />

Costa, J.B. (1957). A seca no agreste pernambucano. Rev. Bras. Secas. 7(27): 21-7.<br />

No texto: (Costa, 1957)<br />

Galvão, G.G.& Café , J.M. (2002). Peixes do Rio Farinha, MA. Rev. Mar. Biol. 27(7): 733-49.<br />

No texto (dois autores): (Galvão & Café, 2002)<br />

Pantaleão, N. T., Omino, P., Gil, C. & Falcão, E. (1987). Raias do Brasil. Bol. Zool. 7(8): 3-13.<br />

No texto (três a cinco autores) (Pantaleão, Omimo, Gil & Falcão, 1947)<br />

Koike, J., Itu, B., Marinho, A., Bitu, R. Brito, A.A. & Victor, J. (2007). A importância do bem-estar.<br />

Rev. Bras. Bem-estar. 7(1):7-27.<br />

No texto (mais <strong>de</strong> cinco autores): (Koike et al., 2007)<br />

Anais<br />

Marinho, M. A. & Abe, B. (2001). A violência contra as tartarugas. In: Congresso Latinoamericano <strong>de</strong><br />

Zoociências (pp. 33-47). Buenos Aires: Anais do CLZ, 6.


No texto: (Marinho & Abe, 2001)<br />

8<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Tese e Dissertação<br />

Maris, M. (2001). Contribuição estudo da pesca na Lagoa dos Patos [Tese <strong>de</strong> Doutorado]. Pelotas<br />

(RS): Universida<strong>de</strong> do Arroio.<br />

No texto: (Maris, 2001)<br />

Artigo on-line<br />

FAO (2007). The world's fisheries. Acessado em 27 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2007 em<br />

http://www.fao.org\fi\statist\htm.<br />

No texto: (FAO, 2007)<br />

Correções - Os trabalhos que necessitarem <strong>de</strong> correções serão <strong>de</strong>volvidos aos autores e <strong>de</strong>verão<br />

retornar ao Editor no prazo <strong>de</strong> 7 dias, caso contrário po<strong>de</strong>rão ter a publicação postergada.<br />

MATERIAL ILUSTRATIVO - As Tabelas e Figuras <strong>de</strong>vem se restringir ao necessário para o<br />

entendimento do texto e numeradas em algarismos arábicos. As Figuras <strong>de</strong>vem ser “inseridas” no texto<br />

e nunca “recortadas” e “coladas”, <strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong> tamanho compatível, para não per<strong>de</strong>r a niti<strong>de</strong>z quando<br />

reduzidas e agrupadas, sempre que possível. As Tabelas <strong>de</strong>vem ser feitas com utilização da ferramenta<br />

Tabela do “Word”. As legendas <strong>de</strong>vem ser auto-explicativas colocadas acima nas Tabelas e abaixo nas<br />

Figuras. Símbolos e abreviaturas <strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong>finidos nas legendas.<br />

OBSERVAÇÃO - Antes <strong>de</strong> remeter o trabalho, verifique se o mesmo está <strong>de</strong> acordo com as normas,<br />

atentando ainda para os seguintes itens: correção gramatical, correção da digitação, correspondência<br />

entre os trabalhos citados no texto e os referidos nas referências, correspondência entre os números <strong>de</strong><br />

tabelas e figuras, e as citações no texto.<br />

ATENÇÃO:<br />

a) a revista não concorda necessariamente com os conceitos emitidos pelos articulistas; b) os recursos<br />

advindos <strong>de</strong> possíveis doações, financiamentos, assinaturas, venda <strong>de</strong> publicações da RE<strong>Pesca</strong><br />

(disquetes, CDS, cópias impressas etc.) serão utilizado na manutenção da revista, não cabendo<br />

participação dos autores no usufruto <strong>de</strong>sses recursos; c) os autores ao enviar seus trabalhos concordam<br />

com os termos <strong>de</strong>stas normas; d) o autor principal (ou correspon<strong>de</strong>nte) é responsável pela aceitação,<br />

para publicação nesta RE<strong>Pesca</strong>, dos <strong>de</strong>mais autores do trabalho.<br />

DÚVIDAS E ENVIO DE TRABALHOS: contactar o Editor-Chefe no seguinte e-mail: repesca@gmail.com<br />

A RE<strong>Pesca</strong> está disponível em pdf (Adobe rea<strong>de</strong>r ou adobe acrobat) no site da Universida<strong>de</strong> Estadual<br />

do Maranhão/<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>: www.engenharia<strong>de</strong>pesca.uema.br


I - ARTIGOS TÉCNICOS/INFORMATIVOS<br />

9<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

ATLAS DA BIODIVERSIDADE DE PEIXES DA ALEMANHA E ÁUSTRIA – UM<br />

CONTRIBUTIVO PARA COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO NA ICTIOLOGIA<br />

Heiko BRUNKEN (brunken@fbsm.hs-bremen.<strong>de</strong>)<br />

Instituto <strong>de</strong> Meio Ambiente e Biotecnologia, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen, Alemanha<br />

RESUMO<br />

Pela primeira vez são apresentados mapas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong> peixes <strong>de</strong> água doce e peixes marinhos,<br />

para toda a Alemanha e Áustria. O projeto “Atlas da Biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Peixes da Alemanha e Áustria”<br />

tem um sistema <strong>de</strong> informações ictiológico feito com base nos programas BioOffice 2.0© (BIOGIS<br />

GmbH, Salzburg) e ArcGis 9© (ESRI) (banco <strong>de</strong> dados e geographical information system). O acesso<br />

a mapas e informações biológicas está aberto para o público via internet (www.fischartenatlas.<strong>de</strong>). Os<br />

mapas se baseiam em grid <strong>de</strong> sistema <strong>de</strong> mapas na escala 1:25.000 para Alemanha (sistema <strong>de</strong> grid<br />

1:50.000 para Áustria e sistema <strong>de</strong> grid 5x5 milhas marítimas para o Mar do Norte e Mar Báltico<br />

respectivamente). O layout dos mapas po<strong>de</strong> ser modificado online, a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r <strong>de</strong> informações<br />

escolhidas no background, como topografia, bacias hidrográficas, sistema <strong>de</strong> grid <strong>de</strong>ntre outras. Além<br />

disso, os mapas da distribuição oferecem informações ictiológicas, por exemplo, sobre biologia e<br />

taxonomia das espécies com uma galeria <strong>de</strong> fotos. Fora essas informações a cerca <strong>de</strong> espécies, o atlas<br />

contém informações sobre literatura, lei européia nas áreas <strong>de</strong> proteção ambiental, projetos <strong>de</strong><br />

recuperação dos rios e chaves <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação das espécies. O atlas é um projeto in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte non<br />

profit e preenche uma lacuna entre as ofertas <strong>de</strong> informações globais, como fishbase, e regionais (por<br />

exemplo, com relação a cada Estado). A redação do projeto encontra-se na Hochschule Bremen<br />

(Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen) sob os auspícios <strong>de</strong> Gesellschaft für Ichthyologie<br />

(Socieda<strong>de</strong> Ictiologia da Alemanha). O input das informações específicas ou informações sobre as<br />

bacias hidrográficas é provido por uma equipe <strong>de</strong> aproximadamente 50 especialistas externos, que vão<br />

completando e atualizando o banco <strong>de</strong> dados continuamente.<br />

PALAVRAS-CHAVES: Sistema <strong>de</strong> informação ictiológica, Alemanha, Áustria, Mar do Norte, Mar Báltico


INTRODUÇÃO<br />

10<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Até hoje não há mapas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong> peixes, nem da Alemanha (incluindo o Mar do Norte e<br />

o Mar Báltico), nem da Áustria. Uma das causas <strong>de</strong>sta ausência é o fato do órgão responsável pela<br />

pesca na Alemanha ser estadual, e não fe<strong>de</strong>ral. Com a introdução da Lei Européia referente às áreas <strong>de</strong><br />

proteção ambiental, on<strong>de</strong> os peixes servem como bioindicatores para a qualida<strong>de</strong> das águas (Diretiva<br />

2000/60/CE), ou seja, estão protegidos pela re<strong>de</strong> européia das reservas da natureza “NATURA 2000”<br />

(Diretiva 92/43/CEE).<br />

Apesar <strong>de</strong> o interesse pelos dados <strong>de</strong> biologia e distribuição <strong>de</strong> peixes ter aumentado muito,<br />

tanto em águas doces, como em águas marinhas, ainda não existem informações a<strong>de</strong>quadas. Os dados<br />

existentes estão espalhados (por exemplo, nas instituições estaduais <strong>de</strong> pesca, nas universida<strong>de</strong>s ou<br />

museus naturais) e o sistema global fishbase (FROESE; PAULY, 2006) não tem uma escala apropriada<br />

e ainda não foi plenamente aceito por estar em inglês e ter uma estrutura complexa. No entanto, fazer<br />

uma monografia sobre todas as espécies da Alemanha e Áustria por meio <strong>de</strong> uma abordagem científica,<br />

a fim <strong>de</strong> preencher essa lacuna, parece quase impossível para uma só pessoa, <strong>de</strong>vido à gama <strong>de</strong><br />

informações existentes atualmente.<br />

Desta necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma exata catalogação das espécies <strong>de</strong> peixes resultou a idéia <strong>de</strong> distribuir<br />

o trabalho entre diversos colegas. Partindo da idéia <strong>de</strong> “um peixe (espécie) por pessoa” tentaremos criar<br />

uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> especialistas, para a qual um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> “encarregados <strong>de</strong> espécies” contribuirão,<br />

cada um em seu lugar <strong>de</strong> origem, o que resultará em uma plataforma <strong>de</strong> informações sobre biologia e<br />

distribuição dos peixes. Essa plataforma, que tem o nome <strong>de</strong> “Atlas da Biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Peixes da<br />

Alemanha e Áustria”, terá uma redação central na Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas <strong>de</strong> Bremen,<br />

on<strong>de</strong> também será administrada e posta à disposição <strong>de</strong> um público <strong>de</strong> cientistas e pessoas interessados.<br />

Uma vez que na realida<strong>de</strong> não haverá especialistas suficientes para todas as espécies e, por outro<br />

lado, muitos especialistas trabalham com várias espécies, tentar-se-á construir um grupo <strong>de</strong><br />

especialistas <strong>de</strong> aproximadamente 50 pessoas para peixes <strong>de</strong> água doce e, caso se leve em consi<strong>de</strong>ração<br />

os peixes marinhos, o número será bem maior.<br />

Objetivo e intenção do projeto são a criação, a longo prazo, <strong>de</strong> uma plataforma <strong>de</strong> comunicação<br />

e informação na área <strong>de</strong> ictiologia, tendo em vista primordialmente a conservação e a proteção das<br />

espécies e dos ecossistemas aquáticos. Com este projeto, queremos reunir pessoas e informações para<br />

apoiar a pesquisa ictiológica. É importante frisar que não temos a intenção <strong>de</strong> construir um centro <strong>de</strong><br />

dados, paralelo ao das instituições oficiais já existentes. Em várias instituições já existem excelentes<br />

bancos <strong>de</strong> dados (por exemplo, nas superintendências <strong>de</strong> pesca estaduais ou nas instituições ligadas à


11<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

pesquisa <strong>de</strong> ictiologia) e possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> análises, mas não há uma plataforma <strong>de</strong> informação<br />

nacional. O objetivo do projeto é prioritariamente divulgar informações já existentes e, com isso,<br />

melhorar o conhecimento <strong>de</strong>stas informações.<br />

O atlas é um projeto in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte non profit sob os auspícios <strong>de</strong> ONG Gesellschaft für<br />

Ichthyologie (Socieda<strong>de</strong> Ictiologia da Alemanha e Áustria). O projeto encontra-se na Hochschule<br />

Bremen (Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências Aplicadas Bremen) e o autor é responsável pela sua concepção e<br />

redação.<br />

MAPAS DE DISTRIBUIÇÃO<br />

O atlas é um sistema <strong>de</strong> informações ictiológico sobre os peixes da Alemanha e Áustria na área<br />

<strong>de</strong> especialização em biodiversida<strong>de</strong> e proteção do meio ambiente (em parte ainda na fase <strong>de</strong><br />

estruturação; novembro 2006). Pela primeira vez estamos apresentando os mapas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong><br />

peixes <strong>de</strong> água doce e <strong>de</strong> peixes marinhos para toda a Alemanha (Figuras 1, 2) e Áustria. O acesso a<br />

mapas e informações biológicos está aberto para o público via internet (www.fischartenatlas.<strong>de</strong>).<br />

Base <strong>de</strong> dados são os mapas <strong>de</strong> distribuição dos peixes existentes em cada estado e dados <strong>de</strong><br />

distribuição em parte ainda não publicados por várias instituições e especialistas <strong>de</strong> ictiologia da<br />

Alemanha e Áustria; em pormenor: BARLAS et al., 1987; DIERCKING; WEHRMANN, 1991;<br />

SCHIRMER, 1991; GAUMERT; KÄMMEREIT, 1993; VILCINSKAS; WOLTER, 1993; BOCK et<br />

al., 1996; FÜLLNER et al., 1996; KAMMERAD et al., 1997; SPRATTE; HARTMANN, 1998;<br />

BRÄMICK et al., 1999; BOHL et al., 2000; PELZ; BRENNER, 2000; DUßLING; BERG, 2001;<br />

FISCHEREIVERBAND SAAR, 2001; KLINGER, 2001; SCHAARSCHMIDT; LEMCKE, 2004;<br />

assim como dados <strong>de</strong> Centro <strong>de</strong> Pesquisa Nacional <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Hamburgo Bun<strong>de</strong>sforschungsanstalt für<br />

Fischerei Hamburg, a Secretaria <strong>de</strong> Meio Ambiente do Estado <strong>de</strong> Mecklenburg-Vorpommern,<br />

Protecção a Natureza e Geologia do Estado <strong>de</strong> Mecklenburg-Vorpommern Naturschutz und Geologie<br />

Mecklenburg-Vorpommern, Instituto Alfred-Wegener para Pesquisa Polar, Instituto <strong>de</strong> Ecologia das<br />

Águas Institut für Gewässerökologie Scharfling e mais.<br />

As distribuições <strong>de</strong> peixes são apresentadas numa visão geral nos mapas e apresentados por<br />

espécies em representações <strong>de</strong> presença-ausência. Os mapas baseiam-se em grid <strong>de</strong> sistema <strong>de</strong> mapas<br />

na escala 1:25.000 para Alemanha, em grid <strong>de</strong> sistema <strong>de</strong> mapas na escala 1:50.000 para Áustria e em<br />

grid 5x5 milhas marítimas para o Mar do Norte e para Mar Báltico. Atualmente o atlas tem mais ou<br />

menos 100.000 séries <strong>de</strong> dados (pontos <strong>de</strong> distribuição).


12<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 1 – Mapa <strong>de</strong> distribuição exemplar do banco <strong>de</strong> dados, parte „Peixes <strong>de</strong> água doce da<br />

Alemanha”. Nas barras <strong>de</strong> navegação à direita se po<strong>de</strong> modificar o layout dos mapas online<br />

escolhendo-se várias informações no background como, topografia (Topographie), bacias<br />

hidrográficas (Flussgebiete) ou sistema dos rios (Gewässernetz). Clicando „Artinformationen<br />

(PDF)“ se po<strong>de</strong> acessar aos dados biológicos da espécie. O “cartão-<strong>de</strong>-visita” tem informações<br />

sobre o especialista da espécie.


13<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 2 – Mapa exemplar da distribuição do banco <strong>de</strong> dados, setor <strong>de</strong> “Peixes <strong>de</strong> marinhos da<br />

Alemanha”, referente apenas ao Mar do Norte. AWZ Ausschließliche Wirtschaftszone Zona<br />

Econômica Exclusiva da Alemanha. Os polígonos ver<strong>de</strong>s mostram áreas protegidas (FFH-Gebiete<br />

preservação dos habitats naturais e da fauna como também da flora selvagem).<br />

ESTRUTURA DE DADOS<br />

No centro do sistema das informações há o programa BioOffice 2.0© (<strong>de</strong> empresa BIOGIS,<br />

Salzburg, Áustria), feito especialmente para o projeto (BRUNKEN; BRUNSCHÖN, 2006) (Figuras 3 e<br />

4). Importação e exportação <strong>de</strong> dados são feitas com um módulo do programa MS-Access© com várias<br />

funções especiais para filtrar e controlar os dados. Os mapas são configurados com ArcGis© (<strong>de</strong><br />

empresa ESRI), com o programa BioMapper© (<strong>de</strong> empresa BIOGIS). A exportação <strong>de</strong> dados para<br />

internet é feita através <strong>de</strong> um banco <strong>de</strong> dados MySQL.<br />

Os mapas <strong>de</strong> distribuição são criados online, quando o usuário acessa o site na internet. Com<br />

isso, po<strong>de</strong> ter várias opções <strong>de</strong> background, como topografia, bacias hidrográficas, sistema dos rios ou


14<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

áreas protegidas. Os mapas têm informações biológicas, fotografias e vários outros dados sobre cada<br />

espécie (atualmente ainda em fase <strong>de</strong> construção).<br />

MS Access ©<br />

Dados <strong>de</strong> distribuição<br />

Importação<br />

BioOffice 2.0 ©<br />

Banco <strong>de</strong> dados<br />

principal do Atlas<br />

SQL-Exportação<br />

Shapefiles<br />

Exportação<br />

MySQL - Banco <strong>de</strong> dados<br />

para apresentar os dados na<br />

internet<br />

(online information system)<br />

ArcGIS 9 ©<br />

para fazer mapas <strong>de</strong><br />

distribuição<br />

Figura 3 – Estrutura do sistema das Figura 4 – Banco <strong>de</strong> dados principal<br />

informações ictiológicas. (BioOffice 2.0©).<br />

PLATAFORMA DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO<br />

A base <strong>de</strong> projeto é uma re<strong>de</strong> centralizada <strong>de</strong> especialistas da área <strong>de</strong> Ictiologia na Alemanha e<br />

Áustria (Figuras 5 e 6).<br />

Figura 5 – Colaboradores do projeto e estrutura Figura 6 – Equipe <strong>de</strong> redação<br />

da re<strong>de</strong> dos especialistas ictiológicos.<br />

Locais <strong>de</strong><br />

distribuição<br />

a. grid dos mapas<br />

b. Coor<strong>de</strong>nadas<br />

exatas<br />

Contatos<br />

Especialistas e redação<br />

Coleção<br />

Por exemplo: Dados do<br />

„Atlas <strong>de</strong> Peixes da Alemanha“<br />

A estrutura do atlas é aberta para colaboradores. Há várias formas <strong>de</strong> apoiar o projeto, por<br />

exemplo, redigindo uma monografia sobre uma espécie, contribuindo com literatura ou colaborando<br />

Objetos<br />

Pontos da distribuição<br />

(agora mais ou menos<br />

100.000 dados)<br />

Literatura<br />

Espécies<br />

Tabelas das<br />

espécies<br />

Alemanha água doce<br />

Austria água doce<br />

Alemanha marinhos


15<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

com projetos nas áreas <strong>de</strong> recuperação dos rios ou proteção das espécies ameaçadas. Os colaboradores<br />

po<strong>de</strong>m corrigir e completar as informações sobre a distribuição das espécies. O atlas tem muitas<br />

informações para download sobre normas para publicação, transferência <strong>de</strong> dados, etc. na página<br />

“contato e redação” (Kontakt & Redaktion). O input das informações específicas ou informações com<br />

relação às bacias hidrográficas é provido por um grupo <strong>de</strong> aproximadamente 50 especialistas externos,<br />

que vão completando e atualizando o banco <strong>de</strong> dados continuamente. Os especialistas contribuem com<br />

monografias e outras colaborações com direitos autorais, havendo regras claras <strong>de</strong> como se fazer<br />

citações. A redação do projeto encontra-se na Hochschule Bremen (Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ciências<br />

Aplicadas Bremen), no grupo <strong>de</strong> pesquisa ecologia <strong>de</strong> peixes.<br />

O projeto ainda está na fase da construção. Além <strong>de</strong> informações específicas, o atlas <strong>de</strong>ve conter<br />

colaborações sobre temas como: lei européia nas áreas <strong>de</strong> proteção das águas (quadro <strong>de</strong> ação<br />

comunitária no domínio da política da água; Diretiva 2000/60/CE) e da natureza (preservação dos<br />

habitats naturais e da fauna e da flora selvagens; Diretiva 92/43/CEE), literatura, especialmente artigos<br />

sobre distribuição <strong>de</strong> peixes, relatórios, monografias e várias dissertações, chaves <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação com<br />

fotografias, gráficos, tabelas, informações sobre espécies ameaçadas e possibilida<strong>de</strong>s para a sua<br />

proteção, informações sobre projetos <strong>de</strong> recuperação dos habitats aquáticos e informações sobre<br />

coleções ictiológicas (museus, universida<strong>de</strong>s),<br />

CONCLUSÕES<br />

Com o projeto “Atlas <strong>de</strong> biodiversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Peixes da Alemanha e Áustria” po<strong>de</strong>mos preencher<br />

uma lacuna no conhecimento ictiológico. As primeiras reações mostram que existe uma gran<strong>de</strong><br />

necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> informações sobre a biologia e a distribuição <strong>de</strong> peixes. O atlas, mesmo se tratando <strong>de</strong><br />

um trabalho científico, tem uma linguagem simples. Além disso, alguns aspectos são muito importantes<br />

para o projeto ser aceito pelo gran<strong>de</strong> público <strong>de</strong> interessados. A viabilida<strong>de</strong> científica dos dados e<br />

informações é essencial e po<strong>de</strong> ser garantido, não só <strong>de</strong>vido à participação <strong>de</strong> muitos especialistas,<br />

como pelo fato <strong>de</strong> a redação ser efetuada <strong>de</strong> forma centralizada. A varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> opiniões entre os<br />

pesquisadores é normal como, por exemplo, sobre a taxonomia das espécies, e por isso o atlas <strong>de</strong>ve ser<br />

uma plataforma apropriada para apresentar e discutir esses casos. Um outro aspecto é a garantia <strong>de</strong> os<br />

colaboradores terem todos os direitos autorais preservados, seja nas monografias, fotografias etc. O<br />

atlas tem citações <strong>de</strong> diversas instituições utilizadas <strong>de</strong> formas distintas e só apresenta informações<br />

sobre presença/ausência, espécie, ano e origem <strong>de</strong> dados. Os dados completos, com mais informações,<br />

como por exemplo sobre parâmetros dos habitats, permanecem nas instituições originais. O atlas não


16<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

<strong>de</strong>ve se utilizado para um projeto paralelo <strong>de</strong> museus ou universida<strong>de</strong>s, muito pelo contrário, ele <strong>de</strong>ve<br />

ser uma plataforma <strong>de</strong> comunicação e ajuda para todos os colaboradores.<br />

Em princípio, as idéias apresentadas nesse artigo – tanto o banco <strong>de</strong> dados como a estrutura <strong>de</strong><br />

uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> ictiologistas – po<strong>de</strong>m ser empregadas a outras áreas e outros grupos <strong>de</strong> animais e plantas.<br />

Sua estrutura permite, com seu sistema facilmente inteligível, que essas idéias possam ser empregadas<br />

aplicando uma mistura <strong>de</strong> programas universais e específicos (BioOffice©) sem gran<strong>de</strong> esforço.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

Gostaríamos <strong>de</strong> agra<strong>de</strong>cer a:<br />

- Corinna Brunschön, Henning Har<strong>de</strong>r, Martin Sperling e Martin Winkler pelo apoio técnico e pela<br />

realização do projeto.<br />

- Silke Eilers, Jörg Freyhof e Matthias Hein pela colaboração redacional.<br />

- Glícia Calazans pela ajuda nos contatos e comunicação no Recife.<br />

- Vania Kahrsch pela tradução.<br />

BIBLIOGRAFIA<br />

BARLAS, M.; BRUNKEN, H.; LELEK, A.; MEINEL, W.; PELZ, G.R., 1987, Natur in Hessen. Das<br />

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BOCK, K.-H.; BÖßNECK, U.; BRETTFELD, R.; MÜLLER, R.; MÜLLER, U.; ZIMMERMANN, W.,<br />

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Staatsministerium für Ernährung, Landwirtschaft und Forsten (ed.), München, 212p.<br />

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Binnenfischerei e.V. Potsdam-Sacrow (ed.), Potsdam, 151p.<br />

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estabelece um quadro <strong>de</strong> acção comunitária no domínio da política da água.<br />

Jornal Oficial nº L 327 <strong>de</strong> 22/12/2000: 1-73.<br />

Directiva 92/43/CEE do Conselho, <strong>de</strong> 21 <strong>de</strong> Maio <strong>de</strong> 1992, relativa à preservação dos habitats naturais<br />

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DUßLING, U.; BERG, R., 2001, Fische in Ba<strong>de</strong>n-Württemberg. Hinweise zur Verbreitung und<br />

Gefährdung <strong>de</strong>r freileben<strong>de</strong>n Neunaugen und Fische. 2. Aufl. Ministerium für Ernährung und<br />

ländlichen Raum Ba<strong>de</strong>n-Württemberg (ed.), Stuttgart, 176p.<br />

FISCHEREIVERBAND SAAR (ed.)., 2001, Fische und Flusskrebse <strong>de</strong>s Saarlan<strong>de</strong>s. 1. Aufl.<br />

Atlantenreihe 1., Dillingen, 111p.<br />

FROESE, R.; PAULY, D. (eds.), 2006, FishBase. World Wi<strong>de</strong> Web electronic publication.<br />

www.fishbase.org, version (03/2006).<br />

FÜLLNER, G.; PFEIFER, M.; SIEG, S.; ZARSKE, A., 1996, Die Fischfauna von Sachsen,<br />

Rundmäuler, Fische, Krebse, Geschichte, Verbreitung, Gefährdung, Schutz. Sächsische Lan<strong>de</strong>sanstalt<br />

für Landwirtschaft (ed.), Dres<strong>de</strong>n, 166p.<br />

GAUMERT, D.; KÄMMEREIT, M., 1993, Süßwasserfische in Nie<strong>de</strong>rsachsen. Nie<strong>de</strong>rsächsisches<br />

Lan<strong>de</strong>samt für Ökologie, Dezernat Binnenfischerei (ed.), Hil<strong>de</strong>sheim, 161p.<br />

KAMMERAD, B.; ELLERMANN, S.; MENKE, J.; WÜSTEMANN, O.; ZUPPKE, U., 1997, Die<br />

Fischfauna von Sachsen-Anhalt. Verbreitungsatlas. Ministerium für Raumordnung, Landwirtschaft und<br />

Umwelt <strong>de</strong>s Lan<strong>de</strong>s Sachsen-Anhalt (ed.), Mag<strong>de</strong>burg, 180p.<br />

KLINGER, H., 2001, Fische unserer Bäche und Flüsse. Aktuelle Verbreitung, Entwicklungsten<strong>de</strong>nzen,<br />

Schutzkonzepte für Fischlebensräume in Nordrhein-Westfalen. Ministerium für Umwelt und<br />

Naturschutz, Landwirtschaft und Verbraucherschutz <strong>de</strong>s Lan<strong>de</strong>s Nordrhein-Westfalen (ed.),<br />

Düsseldorf, 200p.<br />

PELZ, R.; BRENNER, T., 2000, Fische und Fischerei in Rheinland-Pfalz. Bestandsaufnahme,<br />

fischereiliche Nutzung, Fischartenschutz. Ministerium für Umwelt und Forsten Rheinland-Pfalz (ed.),<br />

Mainz, 258p.


18<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

SCHAARSCHMIDT, T.; LEMCKE, R., 2004, Quellendarstellungen zur historischen Verbreitung von<br />

Fischen und Rundmäulern in Binnengewässern <strong>de</strong>s heutigen Mecklenburg-Vorpommerns. Mitt.<br />

Lan<strong>de</strong>sforschungsanstalt Landwirtschaft Fischerei Mecklenburg-Vorpommern, Gülzow 32: 1-261.<br />

SCHIRMER, M., 1991, Die Verbreitung <strong>de</strong>r Fische im Land Bremen. Abh. Naturwiss. Verein Bremen<br />

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SPRATTE, S.; HARTMANN, U., 1998, Fischartenkataster. Süßwasserfische und Neunaugen in<br />

Schleswig-Holstein. Ministerium für ländliche Räume, Landwirtschaft, Ernährung und Tourismus <strong>de</strong>s<br />

Lan<strong>de</strong>s Schleswig-Holstein (ed.), Kiel, 183p.<br />

VILCINSKAS, A.; WOLTER, C., 1993, Fische in Berlin. Verbreitung, Gefährdung, Rote Liste.<br />

Senatsverwaltung für Stadtentwicklung und Umweltschutz, Referat Öffentlichkeitsarbeit (ed.), Berlin,<br />

109p.�


19<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

ASSOCIAÇÃO DOS ENGENHEIROS DE PESCA DE PERNAMBUCO:<br />

HISTÓRICO E ATUAÇÃO<br />

Maria do Carmo Figueredo SOARES (mcfs@ufrpe.br);<br />

Leonardo Teixeira <strong>de</strong> SALES (leopesca@ufpi.br);<br />

José Milton BARBOSA (jmilton@gmail.com)<br />

Augusto José NOGUEIRA (augustopesca@ig.com.br)<br />

Fe<strong>de</strong>ração das Associações <strong>de</strong> Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil, FAEP-BR<br />

Vanildo <strong>de</strong> Souza OLIVEIRA (vanildo@ufrpe.br);<br />

Claudia Fernanda da F. OLIVEIRA (cffoliveira@hotmail.com)<br />

Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco, AEP-PE<br />

RESUMO<br />

São apresentados alguns dados sobre a Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco<br />

(AEP-PE), ao longo <strong>de</strong> sua trajetória <strong>de</strong> 28 anos <strong>de</strong> existência, na qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma associação <strong>de</strong><br />

classe pioneira no país. Destacou-se um pequeno histórico <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a sua fundação, com a composição da<br />

primeira diretoria até as principais ações <strong>de</strong>senvolvidas pelo grupo.<br />

PALAVRAS-CHAVE: engenharia <strong>de</strong> pesca; presi<strong>de</strong>ntes da AEP-PE; congressos.<br />

INTRODUÇÃO<br />

A importância do convívio em nível das associações <strong>de</strong> classe po<strong>de</strong> ser mais bem entendida,<br />

refletindo-se sobre as três instâncias indivíduo-socieda<strong>de</strong>-espécie, formando uma tría<strong>de</strong> inseparável. O<br />

indivíduo humano, mesmo na sua autonomia, é 100% biológico e 100% cultural (MORIN, 2005).<br />

Partindo <strong>de</strong>ssa premissa apresenta-se a Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco, (AEP-<br />

PE) uma das primeiras associações da classe dos engenheiros <strong>de</strong> pesca, que vem conseguindo reunir-se<br />

ao longo dos anos, <strong>de</strong> forma contínua, com uma boa participação <strong>de</strong> seus associados.<br />

A AEP-PE foi fundada em 20/01/1978 no Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral<br />

Rural <strong>de</strong> Pernambuco. É nesta universida<strong>de</strong>, que também foi criado o primeiro curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong><br />

<strong>Pesca</strong> do país, cuja implantação se <strong>de</strong>u em 1971, por iniciativa do então reitor, Adierson Erasmo <strong>de</strong><br />

Azevedo. Nesses vinte e oito anos <strong>de</strong> existência vem implementando ações, no sentido <strong>de</strong> fortalecer as<br />

ativida<strong>de</strong>s do profissional da <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. Com o <strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional<br />

a responsabilida<strong>de</strong> da categoria aumentou, principalmente, no que se refere à extração sustentável <strong>de</strong><br />

produtos pesqueiros através da pesca e da aqüicultura.


20<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> é uma habilitação que integra a área das Ciências Agrárias, na subárea<br />

<strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e qualifica, em nível superior o profissional para a<br />

intervenção técnico-científica em aqüicultura, pesca e tecnologia do pescado, além <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />

pesquisa, ensino e extensão em biotecnologia e <strong>de</strong>mais serviços voltados à aqüicultura e pesca.<br />

Portanto, as associações dos engenheiros <strong>de</strong> pesca no Brasil, buscam discutir e <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r, além <strong>de</strong><br />

valorizar as ações da categoria inseridas no <strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional.<br />

CRIAÇÃO DA AEP-PE<br />

A Comissão <strong>de</strong> Fundação da Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco teve como<br />

presi<strong>de</strong>nte Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales e, na data <strong>de</strong> sua fundação, foi aprovado o estatuto da associação<br />

e eleita a primeira diretoria, assim composta: Presi<strong>de</strong>nte: Raimundo Evangelista Neto; Vice-presi<strong>de</strong>nte:<br />

Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales; Secretário geral: Fábio José Castelo Branco Costa; Primeiro secretário:<br />

Erivaldo Barbosa da Silva; Segundo secretário: Elizeu Augusto <strong>de</strong> Brito; Primeiro tesoureiro: Eu<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />

Souza Correia e Segundo tesoureiro: Jorge Almeida <strong>de</strong> Albuquerque.<br />

Foram sócios fundadores: Raimundo Evangelista Neto; Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales; Fábio José<br />

Castelo Branco Costa; Erivaldo Barbosa da Silva; Elizeu Augusto <strong>de</strong> Brito; Eu<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Souza Correia;<br />

Jorge Almeida <strong>de</strong> Albuquerque; Itamar <strong>de</strong> Paiva Rocha; Paulo Guilherme <strong>de</strong> Alencar Albuquerque;<br />

Antônio Lisboa Nogueira da Silva; Elias Alves Cor<strong>de</strong>iro; João Alves da Silva Filho; João Batista<br />

Cabral; Enox <strong>de</strong> Paiva Maia; José Roberto Fonseca e Silva; Isabel Cristina <strong>de</strong> Sá Marinho; Maria <strong>de</strong><br />

Fátima Pereira <strong>de</strong> Sá; Tarcizo Cirilo; Antônio Carlos <strong>de</strong> Arruda Pires <strong>de</strong> Freitas; Aradi Alves <strong>de</strong> Melo;<br />

Athiê Jorge Guerra Santos; Ricardo Múcio <strong>de</strong> Oliveira; Manlio Ponzi Júnior; Rômulo Alves Ebrahim;<br />

Joel Xavier <strong>de</strong> Barros; Paulo da Silva Oliveira; José Geraldo dos Santos; Josélio Lucas Ribeiro; José<br />

Benigno Viana Portela; Odilon Juvino <strong>de</strong> Araújo; Flávio Marcelo Correia <strong>de</strong> Melo; Marluce Rocha<br />

Melo; Maurílio Gonçalves da Silva; Carlos Roberto da Silva; Francisco <strong>de</strong> Assis Câmara Dantas e<br />

Val<strong>de</strong>mir Batista.<br />

No ano <strong>de</strong> 1979, a AEP-DF realizou em Brasília o I Congresso Brasileiro <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong><br />

<strong>Pesca</strong> (I CONBEP). Em 1981 foi a vez da AEP-PE realizar, no Recife, o II CONBEP e, a partir daí,<br />

outros congressos foram realizados, sempre contanto com o apoio <strong>de</strong>sta Associação.<br />

Acatando <strong>de</strong>cisão da Fe<strong>de</strong>ração das Associações dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil (FAEP-<br />

BR) a AEP-PE passou a comemorar, na data <strong>de</strong> 14 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro, o dia do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, pois<br />

nesta data ocorreu no Recife a Colação <strong>de</strong> Grau da primeira turma <strong>de</strong> Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil.<br />

Des<strong>de</strong> sua fundação até meados <strong>de</strong> 1980 as assembléias e reuniões da AEP-PE foram realizadas<br />

em se<strong>de</strong> provisória do antigo Laboratório <strong>de</strong> Ciências do Mar (LACIMAR), hoje Departamento <strong>de</strong>


21<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Oceanografia da UFPE, na época, funcionando na Av. Bernardo Vieira <strong>de</strong> Melo, 986, Pieda<strong>de</strong>,<br />

Jaboatão dos Guararapes. A partir do segundo semestre <strong>de</strong> 1980, a se<strong>de</strong> provisória passou a ser o<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da UFRPE, no Bairro <strong>de</strong> Dois Irmãos. Seguiu-se como se<strong>de</strong> para reuniões em<br />

1982, o Clube <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> localizado na Rua Real da Torre 501, bairro da Madalena. Durante o<br />

biênio 1986/1987 funcionou no Edifício CIBRAZEN no Bairro <strong>de</strong> São José, sendo que, a partir <strong>de</strong><br />

1988, retornou para o Clube <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> Pernambuco. Na reunião <strong>de</strong> 02/06/1988 estabeleceu-se<br />

em ata, que as reuniões da AEP-PE, seriam realizadas semanalmente, toda às quintas-feiras, no horário<br />

das 18:00h, no Clube <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong>. Posteriormente, em junho <strong>de</strong> 2005, as reuniões passaram a ocorrer<br />

no Círculo Militar <strong>de</strong> Pernambuco, com freqüência semanal, até a atualida<strong>de</strong>.<br />

PRINCIPAIS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA AEP-PE<br />

Dentre as principais ativida<strong>de</strong>s da AEP-PE <strong>de</strong>stacam-se suas reuniões periódicas presididas pelo<br />

presi<strong>de</strong>nte e, na sua ausência, pelo vive-presi<strong>de</strong>nte. É interessante caracterizar, uma certa informalida<strong>de</strong><br />

nestas reuniões e o clima <strong>de</strong> amiza<strong>de</strong> que se construiu ao longo do tempo. A Tabela 1 apresenta a<br />

relação dos presi<strong>de</strong>ntes da AEP-PE com as respectivas datas <strong>de</strong> seus mandatos.<br />

Tabela 1 – Presi<strong>de</strong>ntes da AEP/PE com as datas <strong>de</strong> seus respectivos mandatos<br />

Nome Mandato<br />

Raimundo Evangelista Neto 20.01.78 a 19.01.80<br />

Itamar <strong>de</strong> Paiva Rocha 19.01.80 a 14.02.81<br />

Eu<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Sousa Correia 14.02.81 a 12.12.81<br />

Jaime Teles <strong>de</strong> Andra<strong>de</strong> Lima l2.l2.81 a 27.04.84<br />

Clau<strong>de</strong>milson Farias Barreto 27.04.84 a 25.04.86<br />

Jorge Pereira <strong>de</strong> Castro Filho 25.04.86 a 27.05.88<br />

Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales 27.05.88 a 12.12.89<br />

José Rodolfo Rangel Moreira Cavalcante 12.12.89 a 19.12.91<br />

Ricardo Múcio <strong>de</strong> Oliveira 19.12.91 a 14.12.93<br />

Augusto José Nogueira l4.12.93 a 14.12.95<br />

José Telino <strong>de</strong> Lima Neto l4.12.95 a 14.12.99<br />

Augusto José Nogueira l4.12.99 a l4.12. 0l<br />

Ronaldo Almeida Lins l4.12.01 a 14.12.03<br />

Dalgoberto Coelho <strong>de</strong> Araújo 14.12.03 a 14.12.04*<br />

Vanildo Souza <strong>de</strong> OLiveira 14.12.04<br />

* Dalgoberto Coelho <strong>de</strong> Araújo foi substituído pelo Vice-Presi<strong>de</strong>nte, Vanildo Souza <strong>de</strong> Oliveira, em<br />

virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> sua redistribuição para o Departamento Nacional <strong>de</strong> Obras Contra a Seca, no Estado do<br />

Ceará.<br />

Os presi<strong>de</strong>ntes são eleitos para gestão que compreen<strong>de</strong> um biênio, po<strong>de</strong>ndo ser re-eleito. O<br />

regimento interno estabelece um prazo mínimo <strong>de</strong> 30 dias para a posse da diretoria eleita. A pose <strong>de</strong>


22<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

cada diretoria eleita é feita em assembléia da categoria. Neste momento é comum ocorrer homenagens<br />

com distribuição <strong>de</strong> placas e títulos a sócios benemérito e honorário. Acontece também um jantar <strong>de</strong><br />

confraternização natalina e <strong>de</strong> comemoração ao dia nacional do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, aproximando a<br />

categoria profissional do Estado.<br />

A partir da VIII Semana do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (2002), evento anual, realizado pelo grupo do<br />

Programa <strong>de</strong> Educação Tutorial do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (PET/<strong>Pesca</strong>) da UFRPE, o dia 14 <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>zembro, passou a ser anunciado em fol<strong>de</strong>r e faixas <strong>de</strong>ste evento, abrindo-se inclusive a participação<br />

<strong>de</strong> representantes discentes no jantar <strong>de</strong> a<strong>de</strong>são do dia do Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, organizado anualmente<br />

pela AEP-PE. A associação também tem participado, a convite do grupo PET/<strong>Pesca</strong> das semanas,<br />

apoiando-as e marcado sua presença através <strong>de</strong> mesas-redondas e na sessão <strong>de</strong> abertura, ressaltando os<br />

aspectos da valorização profissional.<br />

A Tabela 2 apresenta um <strong>de</strong>monstrativo dos Congressos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (CONBEP),<br />

evento máximo da categoria, que acontece com periodicida<strong>de</strong> <strong>de</strong> dois anos, congregando os<br />

profissionais da área e associações responsáveis pela sua organização, juntamente com a Fe<strong>de</strong>ração das<br />

Associações dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil (FAEP-BR).<br />

Outras ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>senvolvidas pela AEP-PE são eventos e celebração <strong>de</strong> convênios/projetos na área<br />

das Ciências Pesqueiras, a exemplo do convênio celebrado entre a AEP-PE e a SUDENE, intitulado:<br />

“Estudo para o Desenvolvimento da Maricultura do Nor<strong>de</strong>ste” durante a gestão 2000/2001, envolvendo<br />

engenheiros <strong>de</strong> pesca, pesquisadores da SUDENE e professores do Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e<br />

Aqüicultura da UFRPE. Palestra e cursos <strong>de</strong> extensão estão ocorrendo na atual gestão com apoio do<br />

DEPAq, a exemplo do curso, intitulado: Piscicultura Ornamental, Concepção, Implantação e<br />

Empreendimento, ocorrido nos período <strong>de</strong> 30/10 a 1/11/2006 na se<strong>de</strong> do DEPAq, tendo sido ministrado<br />

pelo Prof. Dr. George Nilson (UFPE) que também é engenheiro <strong>de</strong> pesca associado da AEP-PE. Outro<br />

momento bem prestigiado pelo público acadêmico da UFRPE foi a palestra: O <strong>de</strong>senvolvimento da<br />

tilapicultura no São Francisco a partir do papel comercial da Netuno e as oportunida<strong>de</strong>s para o<br />

Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, ministrada em 28/08/2006 pelo Eng o <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> Rogério Bellini .<br />

Uma ativida<strong>de</strong> acadêmica que vem acontecendo junto a AEP-PE, através do Programa <strong>de</strong><br />

Educação Tutorial do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>Pesca</strong> da UFRPE, é a participação <strong>de</strong> discentes/bolsistas<br />

<strong>de</strong>ste programa nas reuniões da associação <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o ano <strong>de</strong> 2003, numa ação <strong>de</strong>nominada: O PET/<strong>Pesca</strong><br />

vai a AEP/PE. A ativida<strong>de</strong> foi inserida no planejamento anual do grupo e visa aproximar os alunos <strong>de</strong><br />

graduação do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, mais precisamente os bolsistas e voluntários do PET com<br />

a categoria profissional.


23<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Tabela 2 - Demonstrativo dos Congressos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (CONBEP),<br />

com respectivos locais e períodos.<br />

CONGRESSO LOCAL AEP RESPONSÁVEL MÊS ANO<br />

I CONBEP Brasília – DF AEP-DF Julho 1979<br />

II CONBEP Recife – PE AEP-PE Julho 1981<br />

III CONBEP Manaus – AM AEPA Julho 1983<br />

IV CONBEP Curitiba – PR AEP-SUL Julho 1985<br />

V CONBEP Fortaleza – CE AEP-CE Julho 1987<br />

VI CONBEP Teresina – PI AEP-PI Junho 1989<br />

VII CONBEP Santos – SP AEP-PE Junho 1991<br />

VIII CONBEP Aracaju – SE AEP-SE Setembro 1993<br />

IX CONBEP São Luís – MA AEP-MA Setembro 1995<br />

X CONBEP Guarapari – ES AEP-ES Novembro 1997<br />

XI CONBEP Recife – PE AEP-PE Outubro 1999<br />

XII CONBEP Foz do Iguaçu – PR AEP-SUL Setembro 2001<br />

XIII CONPEB Porto Seguro – BA AEP-BA e AEP-SE Setembro 2003<br />

XIV CONBEP Fortaleza - CE AEP-CE Outubro 2005<br />

Os petianos vêem participando <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong>, numa forma <strong>de</strong> interação entre a aca<strong>de</strong>mia e os<br />

profissionais. Nas reuniões semanais do grupo na Sala do PET/<strong>Pesca</strong> na UFRPE são colocados os<br />

principais temas que foram tratados na AEP-PE, sendo sempre retirado o representante do grupo que<br />

participará da próxima reunião. Todos os bolsistas, voluntários e a própria tutora do grupo já<br />

participaram <strong>de</strong> várias reuniões realizadas na AEP-PE, <strong>de</strong> tal forma que está se mantendo uma<br />

freqüência quinzenal do grupo na Associação. Foi realizado pela tutora e integrantes do grupo um<br />

breve resgate histórico da AEP-PE e das principais ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>senvolvidas, sob a forma <strong>de</strong> pequena<br />

publicação (SOARES et al, 2003), apresentada durante a III Jornada <strong>de</strong> Ensino, Pesquisa e Extensão<br />

(JEPEX) da UFRPE, ressaltando a atuação <strong>de</strong>sta associação e o espaço por ela aberto para a aca<strong>de</strong>mia.


24<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Outro aspecto a ser <strong>de</strong>stacado foi à criação da comunicação eletrônica entre os membros da<br />

AEP-PE, incluindo a convocação das reuniões entre seus associados, na gestão do presi<strong>de</strong>nte Ronaldo<br />

Almeida Lins e a criação do GI <strong>Pesca</strong> & Aqüicultura - pesca_aquicultura@grupos.com.br (Grupo <strong>de</strong><br />

Interesse em <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura) pelo então vice-presi<strong>de</strong>nte Leonardo Sales. De fato, com o<br />

<strong>de</strong>senvolvimento das tecnologias eletrônicas e informatizadas, o cotidiano na socieda<strong>de</strong> atual tem<br />

encurtado as distâncias e permitido maior interação. A partir <strong>de</strong>sta ação, aumentou inclusive, a<br />

freqüência <strong>de</strong> participação dos associados nas reuniões.<br />

A CATEGORIA PROFISSIONAL DO ENGENHEIRO DE PESCA<br />

O Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> é um profissional <strong>de</strong> nível superior capaz <strong>de</strong> supervisionar, planejar e<br />

coor<strong>de</strong>nar ativida<strong>de</strong>s integradas visando ao aproveitamento dos recursos naturais aqüícolas, à criação e<br />

à exploração sustentável <strong>de</strong> recursos pesqueiros marítimos, fluviais e lacustres e sua industrialização.<br />

De acordo com o Art. 1 o da Resolução n o 279/83 - Compete ao Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> o<br />

<strong>de</strong>sempenho das ativida<strong>de</strong>s 01 a 18 do Art. 1 o da Resolução nº 218, do CONFEA, <strong>de</strong> 29 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong><br />

1973, no referente ao aproveitamento dos recursos naturais aqüícolas, a cultura e utilização da<br />

riqueza biológica dos mares, ambientes estuarinos, lagos e cursos d' àgua; a pesca e o beneficiamento<br />

do pescado, seus serviços afins e correlatos.<br />

O profissional da <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> é congregado através da Fe<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> Associações dos<br />

Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Brasil (FAEP-BR), existindo atualmente no país doze (12) associações da<br />

categoria. (SOARES, 2004).<br />

Com o aumento do número <strong>de</strong> cursos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> no país (na década <strong>de</strong> 1970,<br />

haviam apenas 2 cursos e atualmente temos 14 cursos) há que se pensar na profissão e no profissional<br />

pautados pela ética, inclusive numa ética planetária como discorreu Moran (2005), on<strong>de</strong> o autor<br />

<strong>de</strong>stacou que: pela primeira vez, na história humana, o universal tornou-se realida<strong>de</strong> concreta: é a<br />

intersolidarieda<strong>de</strong> objetiva da humanida<strong>de</strong>, na qual o <strong>de</strong>stino global do planeta sobre<strong>de</strong>termina os<br />

<strong>de</strong>stinos singulares das nações e na qual os <strong>de</strong>stinos singulares das nações perturbam ou modificam o<br />

<strong>de</strong>stino global.<br />

É preciso ainda consi<strong>de</strong>rar na formação <strong>de</strong>sses profissionais que atuam com os recursos<br />

pesqueiros os princípios da sustentabilida<strong>de</strong> que têm como paradigma à noção da verda<strong>de</strong> científica<br />

fundamentada na ética civilizatória, princípios esses que <strong>de</strong>rivam das bases conceituais do<br />

eco<strong>de</strong>senvolvimento, que, segundo Sachs (1993) é um projeto <strong>de</strong> Estados e socieda<strong>de</strong>s, cujo centro do<br />

<strong>de</strong>senvolvimento econômico é a sustentabilida<strong>de</strong> social e humana capaz <strong>de</strong> ser solidária com a biosfera.


25<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Ainda, segundo o mesmo autor op.cit. para que o <strong>de</strong>senvolvimento seja sustentável, precisa contemplar<br />

as dimensões: econômica, social, ambiental (ecológica), espacial e cultural.<br />

Iniciativas como a Reunião sobre o Ensino da <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> no Brasil, ocorrida em<br />

Fortaleza no ano <strong>de</strong> 1995, numa promoção da FAEP-BR, tendo a frente o presi<strong>de</strong>nte Leonardo Teixeira<br />

<strong>de</strong> Sales e contando na época com o patrocínio do Conselho Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong>, Arquitetura e<br />

Agronomia (CONFEA) além do apoio da AEP-CE, DEPESCA-UFC e do CREA-PE precisam ser mais<br />

estimulados na atual conjuntura on<strong>de</strong> a Resolução n o 5, <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2006, instituiu as diretrizes<br />

Curriculares para o curso <strong>de</strong> graduação em <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />

CRIAÇÃO DA REPESCA<br />

Outro importante marco para a classe, com participação da AEP-PE, foi a recente criação da<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>). Lançada no dia 4 <strong>de</strong> agosto, <strong>de</strong>ste ano, durante a<br />

aula inaugural do curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão, no Palácio dos<br />

Leões em São Luis do Maranhão. A RE<strong>Pesca</strong> é uma revista semestral e tem por objetivo divulgar<br />

trabalhos técnicos/informativos e científicos <strong>de</strong> profissionais da área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e<br />

<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />

CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />

Consi<strong>de</strong>rando que os Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, presentes em quase todos os estados do Brasil, se<br />

congregam através <strong>de</strong> suas associações <strong>de</strong> classe <strong>de</strong>nominadas Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

(AEP) torna-se interessante, que cada associação, faça um pequeno resgate <strong>de</strong> sua atuação e o divulgue<br />

nesta RE<strong>Pesca</strong>, que tem como objetivo publicar artigos resultantes <strong>de</strong> pesquisas científicas e artigos<br />

técnicos/informativos da área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. O volume 1 trouxe a<br />

publicação do histórico da Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> do Estado do Amazonas e agora,<br />

neste volume, constam algumas informações sobre a AEP-PE, o que vem contribuir para a valorização<br />

do profissional.<br />

É importante que os movimentos sociais, as associações e as organizações não governamentais<br />

que lhes dão apoio re<strong>de</strong>finam suas estratégias <strong>de</strong> atuação, a princípio limitadas à esfera reivindicatória,<br />

para o domínio econômico e do conhecimento, estabelecendo parcerias e discutindo à luz das<br />

transformações que o Brasil e o mundo vem passando na contemporaneida<strong>de</strong>.<br />

A participação do grupo PET-PESCA nas reuniões da AEP-PE tem sido <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância,<br />

aproximando estudantes e profissionais, enriquecendo <strong>de</strong>sta maneira o aprendizado e servindo para dar<br />

uma visão holística, sobre a profissão, através da atuação dos seus profissionais nas diversas áreas.


26<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Depoimentos e a práxis do cotidiano <strong>de</strong>stes profissionais tornam-se focos <strong>de</strong> discussão das reuniões<br />

permitindo que conceitos e vivências possam ser formados e internalizados pelo estudante <strong>de</strong><br />

engenharia <strong>de</strong> pesca da UFRPE.<br />

A discussão das diretrizes curriculares nacionais para os cursos <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong>ve<br />

necessariamente envolver os atores interessados, passando pelos profissionais egressos <strong>de</strong>stes cursos<br />

através <strong>de</strong> suas associações, da aca<strong>de</strong>mia e do público em geral com atuação no setor pesqueiro<br />

nacional.<br />

REFERÊNCIAS<br />

MORAN, E. O Método 6: ética. (Tradução Juremir Machado da Silva), 2 a ed, Sulina: Porto Alegre,<br />

2005, 222p.<br />

SACHS, I. et al. Estratégicas <strong>de</strong> transição para o Século XXI. In: Para pensar o <strong>de</strong>senvolvimento<br />

sustentável. São Paulo: Brasiliense, 1993.<br />

SOARES, M. C. F. <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>: A profissão, os cursos e o Programa Especial <strong>de</strong><br />

Treinamento (PET). Imprensa Universitária, UFRPE, Recife, 2004, 53 p.<br />

SOARES, M. C. F. S. A Associação dos Engenheiros <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Pernambuco e o Programa Especial<br />

<strong>de</strong> Treinamento do Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. Anais do III JEPEX- UFRPE, 2003. CD-ROM .�


REVIZEE – MISSÃO CUMPRIDA?<br />

27<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Carlos Fre<strong>de</strong>rico Simões SERAFIM (serafim@secirm.mar.mil.br)<br />

Capitão-<strong>de</strong>-Mar-e-Guerra, Subsecretário para o Plano Setorial para os Recursos do Mar,<br />

Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar<br />

RESUMO<br />

O presente trabalho apresenta uma breve avaliação do programa REVIZEE, <strong>de</strong>senvolvido durante <strong>de</strong>z<br />

anos por diversas instituições <strong>de</strong> pesquisa do país, constituindo-se no mais importante programa <strong>de</strong><br />

pesquisa na área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> no âmbito nacional. Os resultados<br />

possibilitaram uma mudança <strong>de</strong> mentalida<strong>de</strong> com respeito aos mares brasileiros: mitos foram <strong>de</strong>sfeitos<br />

e realida<strong>de</strong>s foram mostradas, com a <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong> novos recursos, dantes <strong>de</strong>sconhecidos.<br />

MITO E REALIDADE<br />

No dia quatro <strong>de</strong> setembro passado, em cerimônia realizada no Espaço Cultural da Marinha, com<br />

a presença da Ministra <strong>de</strong> Estado Marina Silva, do Secretário da <strong>Pesca</strong> Altemir Gregolin, e do<br />

Comandante da Marinha e Coor<strong>de</strong>nador da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar<br />

(CIRM), Almirante <strong>de</strong> Esquadra Roberto <strong>de</strong> Guimarães Carvalho, foi encerrado o mais bem sucedido<br />

Programa, <strong>de</strong> âmbito nacional, sobre os recursos vivos do mar no Brasil, o REVIZEE, programa que<br />

propiciou o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas no mar brasileiro pelo período <strong>de</strong> <strong>de</strong>z anos.<br />

Em pesquisas que duraram <strong>de</strong>z anos, o REVIZEE quebrou o mito <strong>de</strong> que em função <strong>de</strong> sua<br />

gran<strong>de</strong> extensão costeira – cerca <strong>de</strong> 8.500 km, e uma Zona Econômica Exclusiva (ZEE), <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong><br />

3,5 milhões <strong>de</strong> km 2 e volume <strong>de</strong> massa líquida d’ água da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 10,0 bilhões <strong>de</strong> m 3 , <strong>de</strong>limitada por<br />

uma área que se esten<strong>de</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> limite do Mar Territorial, <strong>de</strong> 12 milhas marítimas <strong>de</strong> largura, até 200<br />

milhas marítimas - o mar brasileiro reuniria todas as condições para transformar o país num dos<br />

maiores produtores mundiais <strong>de</strong> pescado por captura. Mas pelos levantamentos realizados, <strong>de</strong>vido às<br />

condições oceanográficas, que tornam a zona eufótica <strong>de</strong> nossas águas jurisdicionais, on<strong>de</strong> vive a<br />

maioria dos peixes, <strong>de</strong>ficitária em nutrientes, observa-se a ocorrência <strong>de</strong> baixos estoques pesqueiros, ou<br />

seja, biomassas relativamente pequenas <strong>de</strong> cada espécie.<br />

Por outro lado, o REVIZEE possibilitou a <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong> novas espécies, diversas <strong>de</strong>las<br />

endêmicas, a apuração do potencial <strong>de</strong> captura <strong>de</strong> outras já conhecidas, algumas <strong>de</strong> alto valor comercial<br />

e ainda subexplotadas, revelou hábitos <strong>de</strong>sconhecidos <strong>de</strong> espécies pelágicas e <strong>de</strong>mersais e apresentou<br />

uma exuberante fauna marinha, constituída <strong>de</strong> um invejável número <strong>de</strong> espécies. Mas, como dito<br />

anteriormente, com pouco volume <strong>de</strong> exemplares em cada uma, todas sensíveis à <strong>de</strong>gradação ambiental


28<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

e <strong>de</strong> equilíbrio ecológico <strong>de</strong>licado. Também é <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong>sse Programa, o estabelecimento do macro<br />

vetor que <strong>de</strong>ve ser perseguido para <strong>de</strong>senvolver o setor pesqueiro nacional, a fim <strong>de</strong> alcançar as<br />

sonhadas inserção social e a geração <strong>de</strong> emprego e renda, além <strong>de</strong> promover a segurança alimentar dos<br />

mais necessitados, tornando o setor pesqueiro forte elemento para o <strong>de</strong>senvolvimento do país.<br />

MOTIVAÇÃO<br />

Os ambientes marinhos, costeiros e oceânicos abarcam a maior parte da biodiversida<strong>de</strong> do<br />

planeta. Com o crescimento da população mundial, principalmente nas proximida<strong>de</strong>s do litoral, a<br />

pressão antrópica sobre o mar se elevou em níveis exponenciais, levando muitas populações <strong>de</strong><br />

importantes recursos pesqueiros, antes numerosos, à reduzida abundância, por vezes ameaçando<br />

algumas espécies <strong>de</strong> extinção. Hoje, os <strong>de</strong>sequilíbrios <strong>de</strong> ecossistemas causados, na maioria das vezes,<br />

pela poluição e pela sobrepesca, ameaçam o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável do planeta, e o Brasil não é<br />

exceção.<br />

Na segunda meta<strong>de</strong> do século passado a comunida<strong>de</strong> internacional, preocupada com o<br />

<strong>de</strong>sequilíbrio ecológico da Terra, pactuou normas para a exploração racional das regiões costeiras,<br />

mares e oceanos, plataformas continentais e gran<strong>de</strong>s fundos marinhos. Destacam-se a Convenção das<br />

Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), também conhecida como Lei do Mar ou,<br />

simplesmente, Convenção; o Capítulo 17 da Agenda 21, que trata da proteção dos oceanos, <strong>de</strong> todos os<br />

tipos <strong>de</strong> mares e <strong>de</strong> zonas costeiras, além da proteção, uso racional e <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> seus recursos<br />

vivos; e a Convenção da Diversida<strong>de</strong> Biológica. O Brasil participou da construção e assinou todos<br />

esses documentos, o que <strong>de</strong>monstra nosso interesse e preocupação com o tema.<br />

A Convenção, ratificada por 145 países, dispõe sobre os usos <strong>de</strong> todos os espaços marítimos e<br />

oceanos, estabelecendo direitos e <strong>de</strong>veres dos Estados costeiros. O Brasil incorporou seus conceitos<br />

sobre espaços marítimos à Constituição Fe<strong>de</strong>ral (art. 20, incisos V e VI) em 1988; e os internalizou na<br />

legislação ordinária, em 1993.<br />

Em 1994, com a entrada em vigor da Lei do Mar, um ano após o <strong>de</strong>pósito do 60 o instrumento <strong>de</strong><br />

ratificação por parte da Guiana, foi concedido ao Brasil o uso <strong>de</strong> seus espaços marítimos, <strong>de</strong>ntre eles o<br />

da ZEE, on<strong>de</strong> o país tem direitos exclusivos <strong>de</strong> soberania para fins <strong>de</strong> exploração e aproveitamento,<br />

conservação e gestão dos recursos naturais, vivos e não-vivos, das águas sobrejacentes ao leito do mar,<br />

do leito e seu subsolo, assim como para a produção <strong>de</strong> energia a partir da água, marés, correntes e<br />

ventos.<br />

Por outro lado, em seus artigos 61 e 62, a CNUDM estabelece que os Estados-parte, no caso<br />

específico dos recursos vivos, incluindo os biotecnológicos, <strong>de</strong>vem avaliar o seu potencial sustentável,


29<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

tendo em conta os melhores dados científicos disponíveis, <strong>de</strong> modo que fique assegurado, por meio <strong>de</strong><br />

medidas apropriadas <strong>de</strong> conservação e gestão, que tais recursos não sejam ameaçados por um excesso<br />

<strong>de</strong> captura ou coleta. Essas medidas <strong>de</strong>vem ter, também, a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> restabelecer os estoques da<br />

captura, <strong>de</strong> modo que se produza o rendimento máximo sustentável dos recursos vivos marinhos, sob<br />

os pontos <strong>de</strong> vista econômico, social e ecológico.<br />

CRIAÇÃO DO REVIZEE<br />

Para aten<strong>de</strong>r a esses dispositivos da CNUDM, a<br />

CIRM aprovou, em 1994, o Programa REVIZEE -<br />

Avaliação do Potencial Sustentável dos Recursos Vivos<br />

da Zona Econômica Exclusiva, <strong>de</strong>stinado a fornecer<br />

dados técnico-científicos consistentes e atualizados,<br />

essenciais para subsidiar o or<strong>de</strong>namento do setor<br />

pesqueiro nacional. A logomarca do programa po<strong>de</strong> ser<br />

visualizada na Figura 1.<br />

ESTRATÉGIA E ESTRUTURA<br />

Figura 1 - Logomarca do REVIZEE<br />

Iniciado em 1996, o Programa adotou como estratégia básica o envolvimento da comunida<strong>de</strong><br />

científica nacional, especializada em pesquisa oceanográfica e pesqueira, atuando <strong>de</strong> forma<br />

multidisciplinar e integrada, por meio <strong>de</strong> Subcomitês Regionais (SCOREs). Em razão <strong>de</strong>ssas<br />

características, o REVIZEE foi consi<strong>de</strong>rado o Programa mais amplo e com objetivos mais complexos<br />

já <strong>de</strong>senvolvido no país, entre aqueles voltados para as ciências do mar, <strong>de</strong>terminando um esforço sem<br />

prece<strong>de</strong>ntes em termos <strong>de</strong> logística <strong>de</strong> pessoal especializado, material no estado da arte e provisão <strong>de</strong><br />

recursos financeiros.<br />

Essa estratégia foi alicerçada na divisão da ZEE em quatro gran<strong>de</strong>s regiões, <strong>de</strong> acordo com as<br />

características oceanográficas, biológicas e tipo <strong>de</strong> substrato dominante (Figura 2), a saber:<br />

a) Região Norte – da foz do Rio Oiapoque à foz do Rio Parnaíba; b) Região Nor<strong>de</strong>ste – da foz do Rio<br />

Parnaíba até Salvador, incluindo os Arquipélagos <strong>de</strong> Fernando <strong>de</strong> Noronha e <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo,<br />

além do Atol das Rocas; c) Região Central – <strong>de</strong> Salvador ao Cabo <strong>de</strong> São Tomé, incluindo a Ilha da<br />

Trinda<strong>de</strong> e o Arquipélago Martin Vaz e d) Região Sul – do Cabo <strong>de</strong> São Tomé à foz do Arroio Chuí.


30<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Em cada uma <strong>de</strong>ssas regiões, a coor<strong>de</strong>nação e<br />

execução do Programa ficaram a cargo <strong>de</strong> um SCORE,<br />

formado por representantes das instituições <strong>de</strong><br />

pesquisa locais e contando, ainda, com a participação<br />

<strong>de</strong> membros do setor pesqueiro regional.<br />

O processo <strong>de</strong> supervisão do REVIZEE foi<br />

orientado para a garantia, em âmbito nacional, da<br />

unida<strong>de</strong> e coerência do Programa e para a<br />

alavancagem <strong>de</strong> meios e recursos, em conformida<strong>de</strong><br />

aos princípios cooperativos (formação <strong>de</strong> parcerias) da<br />

Figura 2 - Subcomitês Regionais do REVIZEE<br />

CIRM, por meio da Subcomissão para o Plano Setorial<br />

para os Recursos do Mar – PSRM e do Comitê Executivo para o Programa. Coor<strong>de</strong>nado pelo<br />

Ministério do Meio Ambiente, esse fórum foi composto pelos seguintes representantes: Ministério das<br />

Relações Exteriores (MRE); Ministério da Educação (MEC); Ministério da Ciência e Tecnologia<br />

(MCT); Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong> da Presidência da República (SEAP/PR); Marinha<br />

do Brasil (MB); Conselho Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Instituto<br />

Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), coor<strong>de</strong>nador operacional<br />

do REVIZEE; Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM); e Bahia<br />

<strong>Pesca</strong> S.A. (Empresa vinculada à Secretaria <strong>de</strong> Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária da Bahia).<br />

INVESTIMENTOS<br />

Foram compartilhados recursos dos diversos órgãos e instituições envolvidas. O Programa<br />

recebeu recursos diretos, entre 1994 e 2004, <strong>de</strong> pouco mais <strong>de</strong> R$ 32 milhões, não computados aqui os<br />

custos relativos à operação dos navios da Marinha e os custos da PETROBRAS, que financiou todo o<br />

combustível utilizado pelos navios do REVIZEE.<br />

RESULTADOS: AMPLIAÇÃO DO CONHECIMENTO, POSSIBILIDADES DE EXPANSÃO<br />

E ESPÉCIES EM COLAPSO<br />

Os dados coletados mostram que a tomada <strong>de</strong> ações mais efetivas no controle do esforço<br />

pesqueiro são essenciais. Todos os trabalhos científicos e análises, reunidos em diversos relatórios e<br />

concentrados no sumário executivo, recentemente publicado e disponibilizado pelo MMA, são<br />

categóricos: salvo poucas exceções, a pesca na ZEE do Brasil está sendo feita <strong>de</strong> forma insustentável.<br />

O REVIZEE mostrou com clareza a inexistência <strong>de</strong> estoques <strong>de</strong> pescado capazes <strong>de</strong> gerar ou sustentar


31<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

um aumento significativo da produção, pelo fato <strong>de</strong> os recursos tradicionais apresentarem biomassas<br />

muito reduzidas.<br />

A importância do estudo não se resume, entretanto, às advertências sobre a oferta e a sobrepesca<br />

no país. Pelo contrário, o Programa ampliou o conhecimento da biodiversida<strong>de</strong> marinha,<br />

principalmente a existente em águas profundas. Os pesquisadores não sabiam o que encontrariam em<br />

profundida<strong>de</strong>s maiores do que 100 metros, pois não havia estudos suficientes para isso. A pesquisa<br />

sobre as populações que habitam a quebra da plataforma, on<strong>de</strong> a profundida<strong>de</strong> aumenta dos 100 ou 200<br />

metros para 1.000 metros ou mais, gerou informações absolutamente inéditas e muito interessantes do<br />

ponto <strong>de</strong> vista científico.<br />

Além <strong>de</strong> ocorrências <strong>de</strong> peixes conhecidos em novos locais, os pesquisadores i<strong>de</strong>ntificaram várias<br />

espécies até então <strong>de</strong>sconhecidas. Só na região Su<strong>de</strong>ste-Sul foram onze. Entre elas estão a Hydrolagys<br />

matallanasi e a Eptatretus menezesi. Descobertas durante os vários cruzeiros oceanográficos dos quais<br />

participaram os cientistas, a maioria das <strong>de</strong>scobertas ainda carece <strong>de</strong> <strong>de</strong>scrição completa e até <strong>de</strong> nomes<br />

populares, como as citadas acima.<br />

Um dos achados relativos a hábitos diz respeito ao<br />

peixe-lanterna (Maurolicus stehmanni) (Figura 3).<br />

Descobriu-se que essa espécie migra, em alta velocida<strong>de</strong>,<br />

das zonas mais profundas para as mais rasas, em busca <strong>de</strong><br />

alimento. O <strong>de</strong>slocamento ao longo <strong>de</strong> um curto período Figura 3 - Peixe-lanterna<br />

Maurolicus stehmanni<br />

tem implicação ecológica gran<strong>de</strong>, pois se trata <strong>de</strong> espécie<br />

forrageira, impactando o ecossistema <strong>de</strong> vários animais. O<br />

mesmo ocorre com o calamar argentino (Illex argentinus)<br />

(Figura 4), já explorado no Sul do país, no Uruguai e na<br />

Argentina, que po<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rado um recurso pesqueiro<br />

potencial propriamente dito. Essa espécie foi <strong>de</strong>tectada na<br />

Figura 4 - Calamar argentino<br />

região oceânica localizada na quebra da nossa plataforma<br />

Illex argentinus<br />

continental.<br />

Dentro <strong>de</strong>sse grupo <strong>de</strong> estoque potencial, o REVIZEE fez outras <strong>de</strong>scobertas. A anchoíta<br />

(Opisthonema oginum) ocupa a plataforma continental em abundância consi<strong>de</strong>rável, no extremo Sul, e<br />

mo<strong>de</strong>rada, no Su<strong>de</strong>ste. Sua ampla distribuição e facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> captura tornam essa espécie um recurso<br />

importante, mas ainda sem aproveitamento no Brasil, apesar <strong>de</strong> apresentar potencial para a obtenção <strong>de</strong><br />

concentrados protéicos. Dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong> conservação e falta <strong>de</strong> mercado têm sido apontados como<br />

fatores impeditivos à sua explotação.


32<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A merluza (Merluccius hubbsi) e a abrótea-<strong>de</strong>-profundida<strong>de</strong> (Urophycis mystacea) (Figura 5)<br />

também po<strong>de</strong>rão ser explotadas em maior quantida<strong>de</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que estabelecidas as quotas <strong>de</strong> captura.<br />

Essas espécies vêm sendo explotadas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2001.<br />

A merluza ocorre <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a Patagônia, Argentina, no Sul do<br />

continente, até o Sul do estado do Espírito Santo. Ela é mais<br />

abundante no talu<strong>de</strong> superior, a partir dos 300 metros <strong>de</strong><br />

profundida<strong>de</strong>. Na região Nor<strong>de</strong>ste, os grupos <strong>de</strong> atum também<br />

fazem parte da lista das consi<strong>de</strong>radas surpresas positivas. O<br />

Figura 5 - Abrótea-<strong>de</strong>-profundida<strong>de</strong><br />

estoque <strong>de</strong>sses peixes e <strong>de</strong> seus <strong>de</strong>rivados (afins), <strong>de</strong> alto valor<br />

Urophycis mystacea<br />

comercial, apresenta gran<strong>de</strong> potencial para exploração.<br />

Por outro lado, possuímos espécies cujo colapso é evi<strong>de</strong>nte. É o caso do cherne-poveiro<br />

(Polyprion americanus), <strong>de</strong> alto consumo, mas que se esgotou. Apenas a proibição total <strong>de</strong> pesca <strong>de</strong>ssa<br />

espécie po<strong>de</strong>, neste momento, permitir algum nível <strong>de</strong> explotação sustentável no futuro. A produção,<br />

que era <strong>de</strong> duas mil toneladas anuais, entre 1989 e 2001, caiu para 460 toneladas nos últimos anos.<br />

Por outro lado, essa espécie <strong>de</strong>sapareceu das águas do Sul, junto com várias outras também <strong>de</strong><br />

alto valor comercial, como a cioba, pargo e peixe-batata.<br />

Sobre a plataforma continental, a lista <strong>de</strong> espécies próximas do colapso é mais longa. Os<br />

camarões, entre os invertebrados, a sardinha-verda<strong>de</strong>ira (Sardinella brasiliensis), cações, tubarões,<br />

arraias e a corvina (Micropogonias furnieri), estão todos sendo explotados acima dos limites possíveis.<br />

O caso específico dos tubarões merece ser <strong>de</strong>stacado. Sua situação po<strong>de</strong> ser classificada como<br />

dramática. Apenas no oceano Atlântico, cerca <strong>de</strong> dois milhões <strong>de</strong> tubarões-azuis são capturados por<br />

ano. O gran<strong>de</strong> atrativo para sua captura continua sendo as barbatanas, comercializadas a preço <strong>de</strong> ouro<br />

no mercado internacional, on<strong>de</strong> são tidas como iguaria.<br />

DINÂMICA DA FROTA PESQUEIRA E TÉCNICAS DE CAPTURA<br />

Para reunir toda a informação necessária, os pesquisadores do REVIZEE foram consultar<br />

diferentes fontes. O Programa, com recursos disponibilizados pelo Governo e pela iniciativa privada,<br />

fez várias campanhas oceanográficas durante os últimos anos pela ZEE brasileira. Essas missões <strong>de</strong><br />

campo, além <strong>de</strong> reunir dados importantes da oceanografia física, química e geológica, também<br />

ajudaram os pesquisadores a escolher as espécies-alvo que <strong>de</strong>veriam ser estudadas mais<br />

profundamente.<br />

Depois disso, foram coletados dados sobre produção, ou seja, a quantida<strong>de</strong> pescada por dia, nos<br />

principais portos <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque das frotas, e nos arquivos <strong>de</strong> várias instituições <strong>de</strong> pesquisa que já


33<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

estudavam o tema, localizadas no Rio Gran<strong>de</strong> do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio <strong>de</strong> Janeiro. Para<br />

cada população foi montado um diagnóstico sobre o conhecimento e o estado <strong>de</strong> explotação das<br />

espécies. Isso equivale a dizer que os pesquisadores estudaram, além da dinâmica da frota <strong>de</strong><br />

pesqueiros, o ciclo <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> cada conjunto <strong>de</strong> indivíduos. Para que a análise ficasse completa, o foco<br />

dos cientistas se voltou tanto para o coletivo quanto para o individual, com o estudo <strong>de</strong> cardumes e <strong>de</strong><br />

seus indivíduos.<br />

No caso específico da região Sul-Su<strong>de</strong>ste, on<strong>de</strong> a exploração industrial dos recursos pesqueiros é<br />

maior, foi necessário analisar cinco tipos <strong>de</strong> frota. A <strong>de</strong> arrasto, a <strong>de</strong> cerco ou traineiras, a <strong>de</strong> covos ou<br />

armadilhas, a <strong>de</strong> espinhel ou linha e a <strong>de</strong> emalhar. Em todos os casos, o que os empresários e<br />

pescadores fazem é <strong>de</strong>senvolver um método e aliá-lo à tecnologia disponível, para melhorar cada vez<br />

mais o rendimento final. E para que tudo isso dê certo, é preciso que se saiba, <strong>de</strong> antemão, qual o<br />

objetivo daquela pescaria.<br />

As técnicas <strong>de</strong> arrasto, que praticamente varrem o fundo do mar, normalmente na altura da<br />

plataforma continental, com profundida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 150 metros, são usadas para a pesca dos chamados<br />

peixes <strong>de</strong>mersais. São peixes como o linguado, que gosta <strong>de</strong> areia. Eles têm os dois olhos <strong>de</strong> um lado só<br />

do corpo. As camaroneiras também utilizam esse mesmo sistema, que po<strong>de</strong> ter algumas variações,<br />

<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da situação. A frota <strong>de</strong> cerco é composta necessariamente por traineiras. No litoral Sul e<br />

Su<strong>de</strong>ste do Brasil, esses barcos suspen<strong>de</strong>m dos portos com a missão <strong>de</strong> voltar atestados,<br />

principalmente, <strong>de</strong> sardinha (Sardinella brasiliensis). Apenas durante o inverno, na entressafra, é que<br />

eles buscam os cardumes <strong>de</strong> corvina (Micropogonias furnieri). A sardinha <strong>de</strong>saparece no inverno (por<br />

causa do ciclo reprodutivo) e então, a única alternativa encontrada foi sobreviver com a pesca da<br />

corvina.<br />

As armadilhas servem para a captura<br />

<strong>de</strong> peixes e <strong>de</strong> crustáceos. E essas operações<br />

po<strong>de</strong>m ser feitas a mil metros <strong>de</strong><br />

profundida<strong>de</strong>, no caso dos caranguejos real<br />

(Chaceon ramosae) e vermelho (C. notialis)<br />

(Figura 6), cuja biomassa abundante foi<br />

<strong>de</strong>scoberta pelo REVIZEE.<br />

As técnicas mo<strong>de</strong>rnas <strong>de</strong> linha e anzol estão sendo usadas na pesca comercial para <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong><br />

espécies, tanto oceânicas como costeiras, pelágicas ou <strong>de</strong>mersais. Nessa lista estão os famosos<br />

espadartes (Xiphias gladius), cação-azul (Prionace glauca) e o anequim (Isurus oxyrinchus), que vêm<br />

para a costa por causa da técnica <strong>de</strong> espinhel-<strong>de</strong>-superfície. Os chernes (Epinephelus niveatus e<br />

Figura 6 - Caranguejo-real Chaceon ramosae (Esquerda)<br />

e caranguejo-vermelho C. notialis (Direita)


34<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Polyprion americanus), o peixe-sapo (Lophius gastrophysus)<br />

(Figura 7) e o namorado (Pseudopersis numida) (Figura 8), por<br />

exemplo, são capturados pelo mesmo sistema, mas bem mais<br />

fundo, a 600 metros <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong>, em média.<br />

Usada apenas em<br />

Figura 7 - peixe-sapo Lophius<br />

zonas estuarinas, a passiva gastrophysus<br />

técnica do emalhar está<br />

ganhando cada vez mais a<strong>de</strong>ptos em regiões costeiras. Nesse<br />

caso, o peixe é apreendido quando a porção anterior <strong>de</strong>le se<br />

Figura 8 – Namorado Pseudopersis<br />

numida<br />

enrosca com a malha lançada ao mar.<br />

Com a finalização dos estudos do REVIZEE, foi possível elaborar diretivas sobre qual<br />

modalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pesca se adapta melhor a <strong>de</strong>terminadas populações. Conhecer a fundo o comportamento<br />

dos animais é essencial para a escolha da técnica <strong>de</strong> captura.<br />

RODÍZIO ECOLÓGICO<br />

Na comunida<strong>de</strong> científica, após as revelações inquestionáveis dos números e das centenas <strong>de</strong><br />

estudos gerados na última década, poucos pareceram ter uma leitura diferente <strong>de</strong>ssa mensagem final,<br />

dada com clareza pelo Programa REVIZEE. "Os dados nos colocaram diante <strong>de</strong> um paradigma",<br />

avaliou Silvio Jablonski, pesquisador da Universida<strong>de</strong> do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro, e consultor “ad<br />

hoc” da Coor<strong>de</strong>nação Geral do Programa. "Não há dúvida <strong>de</strong> que a maior parte dos estoques, objeto <strong>de</strong><br />

pescaria comercial, encontra-se plenamente explotada ou no limite <strong>de</strong> explotação".<br />

Com tudo mapeado, e com a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> esforços e percursos cada vez maiores para ser<br />

mantida a produção atual no mar (extrativa + maricultura) <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 600 mil toneladas por<br />

ano, foi possível indicar os pilares <strong>de</strong> sustentação para uma nova gestão da pesca no Brasil.<br />

A política <strong>de</strong> gerir os recursos pesqueiros nacionais, principalmente na região Sul-Su<strong>de</strong>ste, on<strong>de</strong><br />

a presença das frotas comerciais é maior, foi iniciada, por meio <strong>de</strong> Instruções Normativas emanadas<br />

pela Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong> da Presidência da República (SEAP/PR), com base em<br />

cinco linhas <strong>de</strong> ação emergenciais: suspensão da possibilida<strong>de</strong> indiscriminada <strong>de</strong> acesso aos recursos<br />

marinhos e aos subsídios concedidos; <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> pesca e <strong>de</strong> preservação; foco maior no<br />

aproveitamento dos recursos que são <strong>de</strong>scartados a bordo (fauna acompanhante) e no processamento<br />

do pescado, que muitas vezes são plenamente aproveitáveis; <strong>de</strong>senvolvimento da maricultura, a<br />

criação <strong>de</strong> organizamos marinhos na beira do mar, como caranguejos e invertebrados em geral; e<br />

investimentos na pesca <strong>de</strong> atuns e afins.


35<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

O extenso litoral brasileiro, recortado por enseadas e baías, po<strong>de</strong> muito bem comportar, <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />

que bem regulamentadas ativida<strong>de</strong>s que tragam <strong>de</strong>senvolvimento econômico e social, em<br />

complementação à ativida<strong>de</strong> pesqueira tradicional. Isso, claro, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que se leve em conta o uso <strong>de</strong><br />

águas públicas e o interesse <strong>de</strong> seus múltiplos usuários, o <strong>de</strong>stino dos efluentes, o controle sanitário e<br />

assim por diante. É importante, em termos <strong>de</strong> áreas geográficas, que ocorra uma espécie <strong>de</strong> rodízio <strong>de</strong><br />

espécies cultivadas nas mariculturas. Com os dados do REVIZEE é muito fácil i<strong>de</strong>ntificar on<strong>de</strong> é<br />

possível pescar.<br />

O pescador artesanal sabe agora on<strong>de</strong> encontrar <strong>de</strong>terminada espécie. Os experimentos<br />

realizados no âmbito do Programa também permitem saber se uma técnica é mais ou menos nociva a<br />

certas espécies. A expectativa é <strong>de</strong> que, além <strong>de</strong> se transformar em paradigma da pesquisa<br />

oceanográfica brasileira, o REVIZE continue dando frutos. Temos material para mais <strong>de</strong>z anos <strong>de</strong><br />

trabalho, que po<strong>de</strong>rão produzir um número significativo <strong>de</strong> relatórios, trabalhos científicos, teses,<br />

apresentações em conclaves e contribuições em reuniões técnicas. Ele também está sendo publicado<br />

em linguagem não científica para que possa ser divulgado à socieda<strong>de</strong> como um todo, incluindo os<br />

nossos pescadores artesanais.<br />

Como efeito colateral, além do conhecimento das espécies que habitam nosso oceano, o<br />

Programa acabou ampliando a formação <strong>de</strong> recursos humanos em todo o país, seja na área <strong>de</strong><br />

oceanografia propriamente dita, da hidroacústica ou da pesca. O <strong>de</strong>senvolvimento científico foi mais<br />

acentuado no Norte e Nor<strong>de</strong>ste do Brasil. Além dos dados biológicos, os cientistas conhecem melhor<br />

agora as condicionantes oceanográficas que regem os recursos pesqueiros e o efeito <strong>de</strong> novas<br />

tecnologias <strong>de</strong> pesca. O <strong>de</strong>talhamento do fundo marinho, realizado por mo<strong>de</strong>rnas técnicas <strong>de</strong> análise,<br />

também foi possível a partir dos esforços do REVIZEE.<br />

Os mapas do leito do oceano foram gerados pelo Departamento <strong>de</strong> Oceanografia da Fundação<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Rio Gran<strong>de</strong> (FURG), situado na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Rio Gran<strong>de</strong>. Todo o estudo esteve<br />

sob coor<strong>de</strong>nação do oceanógrafo Lauro Saint Pastous Madureira, do Laboratório <strong>de</strong> Tecnologia<br />

Pesqueira e Hidroacústica. Para chegar ao exuberante resultado, os pesquisadores trabalharam sobre<br />

dados fornecidos por satélite e medições feitas com a técnica <strong>de</strong> batimetria, que registra a<br />

profundida<strong>de</strong> do oceano com o auxílio <strong>de</strong> ecossondas instaladas em navios. As inéditas figuras foram<br />

geradas com base em sete milhões <strong>de</strong> pontos georreferenciados, com latitu<strong>de</strong>, longitu<strong>de</strong> e<br />

profundida<strong>de</strong> <strong>de</strong>terminadas com rigor. No caso da Prainha <strong>de</strong> Canto Ver<strong>de</strong>, no litoral leste do Ceará,<br />

ativida<strong>de</strong>s paralelas também surgiram com o estudo do mar, como o turismo sustentável. Mas a pesca<br />

ainda é a principal fonte <strong>de</strong> renda daquele local.


ESFORÇO DE PESQUISA E FRÁGIL DIVERSIDADE<br />

36<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Em pesquisa que durou <strong>de</strong>z anos, mais <strong>de</strong> 300 pesquisadores fizeram um levantamento completo<br />

sobre a ZEE do Brasil, representando cerca <strong>de</strong> 60 universida<strong>de</strong>s e instituições <strong>de</strong> pesquisa, distribuídas<br />

ao longo <strong>de</strong> 17 estados costeiros. Foram empregadas mais <strong>de</strong> 10 embarcações oceanográficas e <strong>de</strong><br />

prospecção pesqueira, incluindo aquelas alugadas da frota comercial. Como já citado, apesar da gran<strong>de</strong><br />

diversida<strong>de</strong> da fauna marinha, o estoque <strong>de</strong> peixes é pouco e <strong>de</strong>ve ser manejado com cuidado para não<br />

haver um <strong>de</strong>sequilíbrio ecológico.<br />

ULTRAPASSAGEM TECNOLÓGICA<br />

No Brasil, frotas comerciais estão um passo à frente das científicas. As caravelas portuguesas,<br />

que há 500 anos atravessaram o oceano Atlântico rumo ao Novo Mundo, são consi<strong>de</strong>radas um gran<strong>de</strong><br />

símbolo tecnológico da história da navegação. Nos tempos “cabralinos”, <strong>de</strong>scoberta e negócios eram<br />

protagonizados por uma mesma nau. Agora, separados os objetivos, a ciência ficou para trás. As frotas<br />

comerciais que operam nos mares brasileiros continuam com tecnologia embarcada avançada, mais<br />

mo<strong>de</strong>rna do que a dos navios oceanográficos.<br />

Assim, para fazer frente às suas necessida<strong>de</strong>s, o REVIZEE arrendou alguns <strong>de</strong>sses navios, pois as<br />

embarcações disponíveis para a prospecção eram, em sua maioria, ina<strong>de</strong>quadas para o trabalho em<br />

águas profundas.<br />

Os avanços tecnológicos cada vez mais presentes nos barcos comerciais vencem a ciência. Com<br />

mais ferramentas em mãos, os pescadores das frotas comerciais conseguem ir atrás dos cardumes que<br />

lhes interessam com muito mais facilida<strong>de</strong>. Os recursos, portanto, são mais facilmente explorados. No<br />

mundo inteiro, a tecnologia empregada na pesca vem tendo um papel mais <strong>de</strong>strutivo do que<br />

construtivo, ampliando <strong>de</strong> forma <strong>de</strong>smedida a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> navegação, localização do pescado e<br />

captura por parte dos barcos comerciais.<br />

Com todos os avanços técnicos, singrar os sete mares também tem sido uma tarefa muito fácil,<br />

por isso, são comuns embarcações <strong>de</strong> ban<strong>de</strong>ira espanhola, japonesa e coreana chegarem ao largo da<br />

costa brasileira.<br />

Para evitar sérios conflitos internacionais, por causa da disputa por espaços oceânicos, a<br />

Organização das Nações Unidas (ONU) criou a Lei do Mar. A gran<strong>de</strong> contribuição do texto da ONU é<br />

<strong>de</strong>finir os conceitos <strong>de</strong> mar territorial, zona econômica exclusiva e plataforma continental. Esse último<br />

difere um pouco do mesmo termo usados pelos oceanógrafos, que se baseiam apenas em características<br />

topográficas. O mar territorial brasileiro, a partir da convenção, passou a ter largura <strong>de</strong> 12 milhas, ou<br />

21,6 km. A ZEE, por sua vez, é mais ampla: esten<strong>de</strong>-se até 200 milhas, ou 350 km. Nessa região, a


37<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Nação é soberana no direito <strong>de</strong> navegação e <strong>de</strong> ocupação do espaço aéreo. A soberania se esten<strong>de</strong> para<br />

fins exploratórios e <strong>de</strong> aproveitamento dos recursos, sejam eles <strong>de</strong> origem mineral, como o petróleo, ou<br />

biológica, caso dos pescados.<br />

Antes <strong>de</strong>ssas <strong>de</strong>finições, muitos conflitos ocorreram. Na década <strong>de</strong> 1960, o mar territorial<br />

brasileiro tinha largura <strong>de</strong> apenas três milhas. Mas, a plataforma continental que já era associada ao<br />

sentido <strong>de</strong> soberania, era muito maior. Barcos franceses vieram para o litoral nor<strong>de</strong>stino pescar lagosta<br />

sem autorização. Afirmavam estar em águas internacionais, porque nunca ultrapassavam as três milhas<br />

da costa. O Brasil conseguiu fazer valer a idéia <strong>de</strong> que o crustáceo vivia exclusivamente em sua<br />

plataforma continental e, portanto, era direito brasileiro a exclusivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> explorar a lagosta. A<br />

questão agora é ocupar cada vez mais esta imensa área, pois os pequenos conflitos estão longe <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>saparecer.<br />

Tendo como limite Norte a foz do rio Oiapoque e ao Sul o Chuí, as águas oceânicas do Brasil se<br />

projetam bastante para Leste, incluindo as regiões do Atol das Rocas e dos Arquipélagos <strong>de</strong> Fernando<br />

<strong>de</strong> Noronha e <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo, além <strong>de</strong> abrigar as lhas Trinda<strong>de</strong> e o Arquipélago Martin Vaz.<br />

A plataforma continental brasileira chega a ter 160 milhas náuticas na direção da <strong>de</strong>scarga das águas do<br />

colossal Rio Amazonas.<br />

Nos trechos on<strong>de</strong> ela é mais estreita, na baía do rio Tubarão, no Sul, tem apenas 40 milhas<br />

náuticas. A profundida<strong>de</strong> também oscila bastante, entre o mínimo <strong>de</strong> onze metros e o máximo <strong>de</strong> quatro<br />

mil. A gran<strong>de</strong> distância entre a superfície e o assoalho oceânico é registrada nas planícies abissais do<br />

Ceará e <strong>de</strong> Pernambuco. Nesse trecho, a plataforma continental não existe mais, pois é interrompida<br />

por um gran<strong>de</strong> escorregador submarino antes do mundo abissal.<br />

Normalmente, na altura do litoral norte do Rio Gran<strong>de</strong> do Sul, a corrente das Malvinas encontrase<br />

com a corrente do Brasil, que veio da zona equatorial. Nesse local é que se forma a Água Central do<br />

Atlântico Sul (Acas), rica em nutrientes e bastante fria. Em alguns meses do ano, no verão, as águas<br />

mais <strong>de</strong>nsas e <strong>de</strong> menor temperatura afloram até a plataforma continental. Esse é o fenômeno da<br />

ressurgência. Em gran<strong>de</strong> parte das vezes ele é registrado na área <strong>de</strong> Cabo Frio.<br />

Todas essas correntes - e no norte do Rio Amazonas elas também têm importância toda especial -<br />

são diretamente responsáveis pelo fluxo, ou não, dos seres vivos. No caso específico do REVIZEE, as<br />

informações geológicas, físicas e químicas foram direcionadas para o enriquecimento do conhecimento<br />

biológico, necessário para um melhor gerenciamento da pesca no Brasil. Isso não significa, entretanto,<br />

que qualquer uma <strong>de</strong>ssas quatro gran<strong>de</strong>s áreas tenha peso maior que as <strong>de</strong>mais.


LACUNAS<br />

38<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Os estoques apontados como promissores <strong>de</strong>mandam a <strong>de</strong>terminação mais precisa <strong>de</strong> seus<br />

potenciais. Para diversos recursos, há a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> levantamentos mais focados, com a<br />

i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> agregações reprodutivas, que possam subsidiar a gestão pesqueira e a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong><br />

áreas <strong>de</strong> restrição ao esforço <strong>de</strong> pesca.<br />

RECOMENDAÇÕES PARA A PESCA MARINHA<br />

Quais as alternativas para o crescimento da produção brasileira <strong>de</strong> pescado?<br />

1) PESCA COSTEIRA E CONTINENTAL (PLATAFORMA E TALUDE)/ARTESANAL<br />

No segmento da pesca costeira e continental, consi<strong>de</strong>rando-se a atual condição <strong>de</strong> esgotamento da<br />

maioria dos estoques, já não há praticamente qualquer possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> expansão das capturas. A<br />

recuperação do setor <strong>de</strong>ve ser buscada a partir do aprimoramento dos instrumentos <strong>de</strong> gestão,<br />

or<strong>de</strong>namento e fiscalização, no sentido <strong>de</strong> assegurar a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, além <strong>de</strong> iniciativas<br />

que permitam agregação <strong>de</strong> valor ao produto capturado, sem que haja necessariamente uma ampliação<br />

da produção.<br />

Entre as alternativas disponíveis para se estimular a recuperação do setor estão: a)<br />

<strong>de</strong>senvolvimento da aqüicultura, particularmente em escala familiar; b) organização da base produtiva<br />

(associativismo, cooperativismo e gestão); c) <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> técnicas <strong>de</strong> beneficiamento e<br />

conservação do pescado que permitam a agregação <strong>de</strong> valor ao produto capturado; d) <strong>de</strong>senvolvimento<br />

<strong>de</strong> novas tecnologias <strong>de</strong> captura, que permitam a explotação <strong>de</strong> novos estoques; e) política <strong>de</strong> crédito<br />

a<strong>de</strong>quada à ativida<strong>de</strong> e voltada para a melhoria <strong>de</strong> infra-estrutura, aparelhos <strong>de</strong> pesca e embarcações; f)<br />

capacitação e treinamento nas várias fases da ca<strong>de</strong>ia produtiva, incluindo a alfabetização dos<br />

pescadores e dos seus filhos e g) aprimoramento dos processos <strong>de</strong> comercialização.<br />

2) PESCA OCEÂNICA<br />

Em relação à pesca oceânica, a situação é bastante diversa. No Oceano Atlântico, atualmente, são<br />

capturadas cerca <strong>de</strong> 600.000 t <strong>de</strong> atuns e espécies afins, por ano, correspon<strong>de</strong>ndo a um valor da or<strong>de</strong>m<br />

<strong>de</strong> US$ 4 bilhões. A participação brasileira neste total, contudo, é ainda bastante tímida, com uma<br />

produção próxima a 50.000 t, o que representa cerca <strong>de</strong> apenas 8% do total capturado.<br />

Consi<strong>de</strong>rando-se, porém, que praticamente a meta<strong>de</strong> da produção brasileira é <strong>de</strong> bonito listrado,<br />

uma das espécies <strong>de</strong> atum <strong>de</strong> menor valor comercial, capturada quase que inteiramente <strong>de</strong>ntro da ZEE,<br />

a participação nacional, em termos <strong>de</strong> valor, é ainda muito mais reduzida.<br />

Os recursos pesqueiros oceânicos apresentam uma série <strong>de</strong> vantagens em relação aos recursos<br />

costeiros, <strong>de</strong>ntre as quais po<strong>de</strong>-se <strong>de</strong>stacar: a) gran<strong>de</strong> proximida<strong>de</strong> das principais áreas <strong>de</strong> pesca, no


39<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

caso do Brasil; b) algumas espécies capturadas, como as albacoras, apresentam um alto valor comercial<br />

para exportação, constituindo-se em uma importante fonte <strong>de</strong> divisas para o país; c) outras espécies,<br />

também presentes nas capturas, como os tubarões, apresentam preço relativamente baixo, apesar do seu<br />

excelente valor nutritivo, representando uma importante fonte <strong>de</strong> proteínas para a população <strong>de</strong> baixa<br />

renda; d) ciclo <strong>de</strong> vida in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte dos ecossistemas costeiros, já intensamente <strong>de</strong>gradados; e) ampla<br />

distribuição e f) biomassa elevada.<br />

Uma vantagem adicional é que, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que a<strong>de</strong>quadamente planejado, o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />

pesca oceânica nacional po<strong>de</strong>ria resultar em uma redução do esforço <strong>de</strong> pesca sobre os estoques<br />

costeiros, já sobreexplotados. Como os estoques pesqueiros oceânicos também já estão sendo<br />

explotados em níveis próximos do limite sustentável, a ampliação da produção brasileira <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá<br />

diretamente da sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> negociação com os países pesqueiros tradicionais, no âmbito da<br />

ICCAT - Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico.<br />

Neste sentido, a posição do governo brasileiro tem sido sempre a <strong>de</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r intransigentemente<br />

o respeito aos limites sustentáveis, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>ndo, porém, com a mesma intransigência, o direito <strong>de</strong> o país<br />

participar, <strong>de</strong> forma eqüitativa, da pesca oceânica. Por meio <strong>de</strong> um gran<strong>de</strong> esforço <strong>de</strong> negociação, em<br />

gran<strong>de</strong> medida fundamentado nos instrumentos jurídicos internacionais, particularmente na Convenção<br />

das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, o Brasil tem conseguido ampliar suas cotas <strong>de</strong> captura <strong>de</strong><br />

algumas espécies, como o espadarte, cuja cota passou <strong>de</strong> 2.340 t para 4.086 t em 2003, crescendo até<br />

4.365 t em 2006. Infelizmente, a maior parcela da produção nacional <strong>de</strong> atuns e afins, excetuando-se o<br />

bonito listrado, é ainda proveniente <strong>de</strong> embarcações arrendadas.<br />

Apesar <strong>de</strong> extremamente útil como forma <strong>de</strong> assegurar a assimilação da tecnologia <strong>de</strong> pesca<br />

estrangeira e gerar um histórico <strong>de</strong> capturas essencial ao processo <strong>de</strong> negociação para ampliação das<br />

quotas <strong>de</strong> captura, o instrumento do arrendamento <strong>de</strong>ve ser compreendido sempre como um dispositivo<br />

provisório e emergencial.<br />

O gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>safio que se impõe ao país neste momento é <strong>de</strong>senvolver uma frota oceânica<br />

genuinamente nacional, que permita superar a elevada <strong>de</strong>pendência, e conseqüente vulnerabilida<strong>de</strong>, da<br />

frota estrangeira arrendada. Desta forma, é preciso compreen<strong>de</strong>r que o <strong>de</strong>senvolvimento da pesca<br />

oceânica brasileira não diz respeito apenas à produção <strong>de</strong> pescado, nem à geração das divisas,<br />

empregos e renda <strong>de</strong>la resultantes; ele implica também na efetiva ocupação das águas internacionais do<br />

Atlântico Sul, essencial à plena realização da estatura geopolítica <strong>de</strong> nosso país.<br />

Por fim, cabe <strong>de</strong>stacar que a realização das aspirações nacionais quanto ao crescimento <strong>de</strong> sua<br />

participação na pesca oceânica <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá, diretamente, <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fazer cumprir<br />

internamente as medidas <strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento e conservação impostas pela ICCAT, uma vez que a <strong>de</strong>fesa


40<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

<strong>de</strong> qualquer direito só se sustenta se <strong>de</strong>vidamente amparada pelo fiel cumprimento dos <strong>de</strong>veres<br />

correlatos.<br />

3) MARICULTURA<br />

O macro vetor para a expansão dos recursos pesqueiros no país é a maricultura, pois o Brasil<br />

possui cerca <strong>de</strong> 8.500 km <strong>de</strong> costa, 2.500.000 ha <strong>de</strong> manguezais, clima tropical e subtropical, o que<br />

permite o ciclo <strong>de</strong> produção durante todo o ano,<br />

temperatura da água entre 24 e 30º C, luminosida<strong>de</strong><br />

entre 130 e 310 lux, boa infra-estrutura, rodovias,<br />

eletricida<strong>de</strong>, comunicações, portos e aeroportos.<br />

No final <strong>de</strong> 2004, apenas cerca <strong>de</strong> 17.000 ha<br />

eram utilizados em maricultura, sendo que mais <strong>de</strong><br />

82% para a produção <strong>de</strong> camarão (carcinicultura)<br />

(Figura 9), que teve uma produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> apenas<br />

75.000 t, ficando a produção <strong>de</strong> ostras, mariscos,<br />

Figura 9 – Carcinicultura do Nor<strong>de</strong>ste<br />

vieiras, peixes e caranguejos, com produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> brasileiro<br />

apenas 13.000 t.<br />

Com o a<strong>de</strong>quado or<strong>de</strong>namento costeiro, minimizando os impactos ambientais causados pelas<br />

fazendas <strong>de</strong> maricultura, as quais não <strong>de</strong>verão lançar produtos químicos nos estuários e rios e,<br />

tampouco, o excesso <strong>de</strong> nutrientes, será possível elevar em níveis exponenciais a produção aqüícola do<br />

país, po<strong>de</strong>ndo atingir a produção da China, que é <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 400.000 ton/ano, correspon<strong>de</strong>ndo a quase<br />

1/3 da produção nacional <strong>de</strong> pescado e gerando divisas, emprego e renda, principalmente, na região<br />

Nor<strong>de</strong>ste do país.<br />

RECOMENDAÇÕES GERAIS<br />

Além da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> superação das lacunas apontadas, alguns direcionamentos para o futuro<br />

da gestão pesqueira foram evi<strong>de</strong>nciados pelo Programa:<br />

- investimento em qualida<strong>de</strong> do pescado, condições <strong>de</strong> armazenamento, manuseio, <strong>de</strong>sembarque<br />

e comercialização, a fim <strong>de</strong> agregar valor e renda ao produto das pescarias;<br />

- medidas <strong>de</strong> preservação – implantação <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> preservação para todas as pescarias, em<br />

especial para aquelas <strong>de</strong> baixa seletivida<strong>de</strong> e operantes nos ecossistemas recifais e <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong>.<br />

Além disso, é preciso tomar ações que evitem a captura aci<strong>de</strong>ntal <strong>de</strong> espécies não comercializáveis e <strong>de</strong><br />

indivíduos juvenis;


41<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

- aperfeiçoamento da gestão das pescarias – dar continuida<strong>de</strong> aos programas <strong>de</strong> amostragem e<br />

monitoramento <strong>de</strong> espécies comerciais, ao controle <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarques artesanais e industriais, assim<br />

como à fiscalização da ativida<strong>de</strong> pesqueira por meio <strong>de</strong> observadores <strong>de</strong> bordo, ao rastreamento das<br />

embarcações por satélite, ao cadastro <strong>de</strong> embarcações e ao licenciamento à pesca; e<br />

- medidas <strong>de</strong> controle – compatibilizar o esforço <strong>de</strong> pesca com o efetivo potencial dos estoques<br />

disponíveis.<br />

CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />

Além <strong>de</strong> nos proporcionar um nível <strong>de</strong> conhecimento inédito sobre os recursos vivos existentes<br />

em uma parte da nossa Amazônia Azul, não po<strong>de</strong>mos nos esquecer que o REVIZEE foi apenas uma<br />

fotografia instantânea <strong>de</strong> nossa ZEE, a qual caracterizou o ambiente marinho, no que tange à<br />

climatologia, circulação e massas d`água, produtivida<strong>de</strong>, geologia e biodiversida<strong>de</strong>; retratou os<br />

estoques pesqueiros no que concerne a abundância, sazonalida<strong>de</strong>, biologia e dinâmica; e analisou as<br />

pescarias comerciais. Por isso, embora tenha cumprido a sua missão, o Programa REVIZEE também<br />

nos alerta para a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> continuarmos a trabalhar para a conservação e uso sustentável dos<br />

recursos vivos da nossa ZEE.<br />

Para tal, surge com igual vigor, o Programa <strong>de</strong> Avaliação do Potencial Sustentável e<br />

Monitoramento dos Recursos Vivos Marinhos, o REVIMAR, já em fase inicial <strong>de</strong> execução.<br />

O REVIZEE foi concluído, po<strong>de</strong>ndo ser consi<strong>de</strong>rado como o maior esforço integrado<br />

<strong>de</strong>senvolvido no país para a avaliação <strong>de</strong> estoques pesqueiros. Como resultado <strong>de</strong>sta avaliação, foi<br />

possível a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> alguns estoques até então <strong>de</strong>sconhecidos, com a abertura <strong>de</strong> novas fronteiras<br />

para a pesca no país, em áreas mais afastadas na ZEE, o que po<strong>de</strong> contribuir para a diversificação da<br />

ativida<strong>de</strong> pesqueira nacional, com a conseqüente geração <strong>de</strong> emprego e renda e o alívio da pressão<br />

sobre as espécies tradicionais, em geral sobrexplotadas.<br />

Em continuida<strong>de</strong> àquele Programa, será imprescindível uma ação permanente <strong>de</strong> monitoramento<br />

dos principais estoques pesqueiros, a fim <strong>de</strong> permitir a geração contínua <strong>de</strong> informações essenciais para<br />

a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> política <strong>de</strong> pesca que possa garantir a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, incluindo medidas<br />

<strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento.<br />

O REVIMAR tem a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> avaliar continuamente o potencial sustentável e monitorar <strong>de</strong><br />

forma sistemática os estoques presentes nas áreas marítimas sob jurisdição nacional, com vistas a<br />

subsidiar políticas pesqueiras que garantam a sustentabilida<strong>de</strong> e a rentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>.<br />

A avaliação e o monitoramento dos principais estoques pesqueiros marinhos permitirão o<br />

or<strong>de</strong>namento da ativida<strong>de</strong>, assegurando o aproveitamento sustentável dos estoques pesqueiros, e


42<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

beneficiarão o setor pesqueiro nacional, neste incluídos os segmentos industrial e artesanal, e<br />

contribuirão, também, para a produção <strong>de</strong> alimentos e a geração <strong>de</strong> emprego e renda, além da<br />

necessária conservação dos ecossistemas marinhos, beneficiando, assim, a socieda<strong>de</strong> brasileira como<br />

um todo.<br />

Serão i<strong>de</strong>ntificados os recursos vivos marinhos, oceânicos e costeiros, que <strong>de</strong>verão ser avaliados<br />

ou monitorados, assim como os dados oceanográficos, biológicos e pesqueiros a serem coletados e<br />

acompanhados <strong>de</strong> forma sistemática. No sentido <strong>de</strong> possibilitar o gerenciamento a<strong>de</strong>quado da sua<br />

explotação, os recursos pesqueiros selecionados <strong>de</strong>verão ter os seus estoques avaliados periodicamente,<br />

por meio da realização <strong>de</strong> prospecção pesqueira, pesca exploratória e do uso <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> dinâmica<br />

populacional que permitam a obtenção subsídios necessários ao or<strong>de</strong>namento pesqueiro, o que requer o<br />

utilização <strong>de</strong> barcos <strong>de</strong> pesquisa, como o Antares (Figura10).<br />

O acompanhamento do esforço <strong>de</strong> pesca ao<br />

longo do litoral brasileiro <strong>de</strong>verá ser mensurado a<br />

partir dos seguintes dados: quantificação dos<br />

<strong>de</strong>sembarques totais, localização das áreas <strong>de</strong><br />

captura e registro das condições <strong>de</strong> comercialização<br />

do pescado, conforme <strong>de</strong>screve a Proposta Nacional<br />

<strong>de</strong> Trabalho do Programa REVIMAR, baseada nas<br />

recomendações do REVIZEE.<br />

Para tal, <strong>de</strong>verão ser <strong>de</strong>finidos mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> coleta <strong>de</strong> dados padronizados para pescarias <strong>de</strong><br />

pequena escala e industriais. Em paralelo, <strong>de</strong>verá ser <strong>de</strong>senvolvido um sistema <strong>de</strong> gerenciamento <strong>de</strong><br />

dados sobre a ativida<strong>de</strong> pesqueira, envolvendo a coleta, o armazenamento, a análise e a disseminação<br />

<strong>de</strong> dados <strong>de</strong> captura, o esforço <strong>de</strong> pesca, a comercialização e as informações biológicas e<br />

socioeconômicas que se mostrarem pertinentes, assim como <strong>de</strong>finidas as estratégias <strong>de</strong><br />

disponibilização da informação, buscando-se reduzir, ao mínimo, o tempo <strong>de</strong>corrido entre a coleta dos<br />

dados, os procedimentos <strong>de</strong> crítica e seu efetivo acesso pelas instituições interessadas e por aquelas<br />

com responsabilida<strong>de</strong>s na gestão <strong>de</strong>sses recursos. Várias <strong>de</strong>ssas ações já se encontram em curso.<br />

A imensa extensão da Amazônia Azul, gigante pela própria natureza, por si só já nos enche <strong>de</strong><br />

orgulho. Afinal, estamos falando <strong>de</strong> uma área com cerca <strong>de</strong> 4,5 milhões <strong>de</strong> km 2 Figura 10 - Navio Oceanográfico Antares<br />

– participou ativamente do REVIZEE<br />

.<br />

Conhecê-la, protegê-la e integrá-la ao espaço econômico do país, assegurando a justa apropriação<br />

pela socieda<strong>de</strong> brasileira dos recursos vivos nela presentes, <strong>de</strong> forma sustentável, é uma tarefa<br />

grandiosa, ao mesmo tempo em que é árdua e espinhosa.


43<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Fazer-se ao mar para explorar os seus recursos exige coragem, <strong>de</strong>dicação, <strong>de</strong>nodo e patriotismo,<br />

sentimentos esses alentados pela satisfação <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r contribuir para assegurar ao povo brasileiro o<br />

pleno usufruto dos recursos vivos que as nossas águas jurisdicionais po<strong>de</strong>m nos oferecer, e que se<br />

constituem em um patrimônio que é nosso.<br />

O Programa REVIZEE, mais do que representar o necessário cumprimento das obrigações<br />

assumidas pelo país frente à CNUDM, se constituiu num divisor <strong>de</strong> águas acerca do conhecimento das<br />

espécies e dos ecossistemas da ZEE brasileira.<br />

O passo inicial foi dado, e foi um gran<strong>de</strong> passo. Conhecemos uma parcela dos recursos existentes<br />

na nossa Amazônia Azul. Cabe agora gerenciarmos e monitorarmos seus recursos vivos, preservarmos<br />

seus ecossistemas e exercermos a nossa soberania nessa importante porção do nosso Brasil.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

O autor apresenta seus agra<strong>de</strong>cimentos às pessoas e instituições cujos textos serviram <strong>de</strong> base<br />

para elaboração <strong>de</strong>ste trabalho: Eduardo Augusto Geraque, Biólogo e Jornalista; Silvio Jablonski,<br />

Oceanógrafo, Pesquisador da Universida<strong>de</strong> do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro; Fábio Hissa Vieira Hazin,<br />

Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Professor da UFRPE; Rudolf <strong>de</strong> Noronha, Diretor do Programa e Gerenciamento<br />

Ambiental da Secretaria <strong>de</strong> Qualida<strong>de</strong> Ambiental do MMA; Roberto <strong>de</strong> Guimarães Carvalho,<br />

Almirante-<strong>de</strong>-Esquadra, Comandante da Marinha e Coor<strong>de</strong>nador da CIRM; e ao Ministério do Meio<br />

Ambiente, pela consulta ao Relatório Executivo do Programa REVIZEE.�


44<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

BENEFICIAMENTO E COMERCIALIZAÇÃO DO PESCADO NA REGIÃO DE<br />

ITAPISSUMA, PERNAMBUCO<br />

José Milton BARBOSA (jmiltonb@gmail.com);<br />

Hel<strong>de</strong>r Correia LIMA (hel<strong>de</strong>rcl@gmail.com);<br />

Erivaldo José da SILVA JÚNIOR (erivaldojrufrpe@hotmail.com);<br />

Artur Delmiro Sodré da MOTA (arturdsm@hotmail.com);<br />

Ivo Tha<strong>de</strong>u Lira MENDONÇA (ivo_tha<strong>de</strong>u@yahoo.com.br);<br />

Edson José da SILVA FILHO (titomarques_7@hotmail.com)<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco.<br />

RESUMO<br />

O município <strong>de</strong> Itapissuma, situado à margem Norte do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz é o principal ponto <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>sembarque, beneficiamento e comercialização <strong>de</strong> boa parte da produção pesqueira artesanal advinda<br />

<strong>de</strong>sse complexo. A pesca inci<strong>de</strong>, principalmente, sobre peixes <strong>de</strong> pequeno porte, <strong>de</strong> espécies como:<br />

sapuruna Pomadasys corvinaeformis, <strong>de</strong>ntão Lutjanus jocu, carabeba Eugerres brasilianus, carapicu<br />

Diapterus olisthostomus, boca-torta Cetengraulius e<strong>de</strong>ntulus, saúna Mugil sp. que são <strong>de</strong>stinados a<br />

salga como peixe salgado-seco, conhecido por “caíco”, sendo este processo realizado <strong>de</strong> forma precária<br />

e sem controle <strong>de</strong> sanida<strong>de</strong>. A pesca representa uma das principais ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> subsistência praticada<br />

pelos moradores da região, muitas vezes, constituindo-se como a única fonte <strong>de</strong> renda <strong>de</strong> famílias<br />

inteiras. Além disso, esta ativida<strong>de</strong> é prejudicada, tanto pela falta <strong>de</strong> políticas públicas <strong>de</strong> incentivo,<br />

quanto à visível <strong>de</strong>gradação ambiental e por conflitos, gerados pela crescente exploração turística no<br />

Canal <strong>de</strong> Santa Cruz. A comercialização do pescado produzido nesta região, geralmente é intermediada<br />

por “empreseiros” (intermediários), proprietários dos barcos e re<strong>de</strong>s, além dos girais on<strong>de</strong> os peixes são<br />

submetidos à secagem, iniciando, nesse caso, uma ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> intermediação para revenda em Recife<br />

(mercado público <strong>de</strong> São José, bairros próximos da Avenida Caxangá) ou nas feiras livres da Região<br />

Metropolitana do Recife e no interior do Estado (Limoeiro, Orobó, Carpina, Caruaru e outros).<br />

PALAVRAS-CHAVE: Itapissuma, peixes, salga.


ABSTRACT<br />

45<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

The city of Itapissuma, situated to the edge North of the Canal of Santa Cruz is the main point of<br />

landing, improvement and commercialization of good part of the happened artisan fishing production<br />

of this complex. It fishes it happens, mainly, on fish of small transport of species as: “sapuruna”<br />

Pomadasys corvinaeformis, “<strong>de</strong>ntão” Lutjanus jocu, “carabeba” Eugerres brasilianus, “carapicu”<br />

Diapterus olisthostomus, “boca-torta” Cetengraulius e<strong>de</strong>ntulus, ‘saúna” Mugil sp., <strong>de</strong>stined salts it, the<br />

salty-dry fish is known as “caíco”, being this, carried through of precarious form and without control of<br />

health during the process. It fishes it represents one of the main activities of subsistence practised for<br />

the inhabitants of the region, many times, consisting as the only source of income of entire families.<br />

Moreover, this activity is harmed, as much for the lack of public politics of incentive, how much to the<br />

visible ambient <strong>de</strong>gradation and for conflicts, generated for the increasing tourist exploration in the<br />

Canal of Santa Cruz. The commercialization of the produced fished one in this region, generally are<br />

intermediated by “empreseiros”, proprietors of the boats and nets, beyond turn them where the fish are<br />

submitted to the drying, initiating, in this in case that, a chain of intermediação for resale in Recife<br />

(public market of São José, quarters next to the Caxangá Avenue) or in the free fairs of the Region<br />

Metropolitan of Recife and in the interior of the State (Limoeiro, Orobó, Carpina, Caruaru and others).<br />

KEY-WORDS: Itapissuma city, fishes, salty fish<br />

INTRODUÇÃO<br />

A região <strong>de</strong> Itapissuma apresenta intensa ativida<strong>de</strong> pesqueira sendo consi<strong>de</strong>rada uma nas mais<br />

produtivas do Brasil. A pesca inci<strong>de</strong>, principalmente, sobre espécies <strong>de</strong> pequeno porte, <strong>de</strong>stinadas a<br />

salga.<br />

O processo <strong>de</strong> salga é extremamente rústico, realizado em condições precárias, sem controle <strong>de</strong><br />

higiene e sanida<strong>de</strong>, sendo os peixes lavados com águas impróprias, expostos às moscas e à ação<br />

bacteriana durante o processo <strong>de</strong> secagem. Ações para melhoria <strong>de</strong>sta realida<strong>de</strong> seriam <strong>de</strong> gran<strong>de</strong><br />

importância para o melhoramento das condições <strong>de</strong> higiene e da qualida<strong>de</strong> final do produto, no entanto<br />

esbarram no aumento do custo <strong>de</strong> produção, o que não é interessante para os produtores e<br />

consumidores. Após a salga o produto passa por uma ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> comercialização ainda pouco estudada.<br />

O município <strong>de</strong> Itapissuma, <strong>de</strong>smembrado do município <strong>de</strong> Igarassu, foi criado pela Lei<br />

Estadual Nº 8.952 <strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 1982 e instalado a 1º <strong>de</strong> janeiro <strong>de</strong> 1983. Situado na região metropolitana<br />

do Recife a 36 Km <strong>de</strong> distância da capital pernambucana. Possui uma área <strong>de</strong> 74,3 Km 2 e sua<br />

população é <strong>de</strong> aproximadamente 20.405 habitantes (MORAES, 1998).


46<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Devido a sua localização, muito próxima ao gran<strong>de</strong> Recife, sua beleza natural e a sua alta<br />

produtivida<strong>de</strong> pesqueira, essa região é agredida por diversas ações antrópicas, como a urbanização,<br />

aterros imobiliários, turismo, <strong>de</strong>spejo <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos e a pesca predatória que ameaçam a sua<br />

sustentabilida<strong>de</strong> (BARROS e ESKENAZI-LEÇA, 2000). Segundo Macedo et al. (2000), as áreas<br />

estuarinas sofrem forte agressão ambiental, <strong>de</strong>vido a explorações pesqueiras, <strong>de</strong>rrubadas <strong>de</strong> mangues,<br />

turismo ou simples especulação imobiliária.<br />

Estima-se na região <strong>de</strong> Itapissuma, que o<br />

número <strong>de</strong> pescadores (homens e mulheres)<br />

totaliza cerca <strong>de</strong> 4,2 mil pessoas, no entanto,<br />

apenas 35% dos pescadores e 33% das<br />

pesca<strong>de</strong>iras foram cadastrados no IBAMA,<br />

em 1996. Estima-se, que 70% da população<br />

do município está envolvida direta ou<br />

indiretamente com a produção,<br />

beneficiamento e o comércio do pescado.<br />

Itapissuma é o único município da região que<br />

apresenta todos os pontos <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque no<br />

canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Figura 1) e com frota<br />

pesqueira formada exclusivamente por Figura 1 – Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, às margens do<br />

canoas, que correspon<strong>de</strong> à cerca <strong>de</strong> 20% da município <strong>de</strong> Itapissuma/PE.<br />

produção pesqueira marítima do Estado (LIMA e QUINAMO, 2000).<br />

Neste contexto, o objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi estudar as condições <strong>de</strong> beneficiamento e<br />

comercialização do pescado (relações comerciais entre os trabalhadores do mar), <strong>de</strong>terminar ca<strong>de</strong>ias <strong>de</strong><br />

comercialização das espécies utilizadas na salga e propor melhorias na técnica <strong>de</strong> salga empregada<br />

pelos pescadores da região e outras que possam promover maior qualida<strong>de</strong> do produto.<br />

METODOLOGIA<br />

O projeto foi realizado durante o período compreendido entre os meses <strong>de</strong> junho e <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong><br />

2003, pelos estagiários do Laboratório <strong>de</strong> Avaliação Pon<strong>de</strong>ral em Animais Aquáticos (LaAqua) do<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura (DEPAq) da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco –<br />

UFRPE, junto a Colônia <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>dores do Município <strong>de</strong> Itapissuma (Z-10).


47<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Antes da observação do processo <strong>de</strong> salga em campo, foram realizadas pesquisas bibliográficas<br />

sobre as ativida<strong>de</strong>s relacionadas com a pesca e salga realizada naquela região, visando maior<br />

compreensão e familiarização com o processo.<br />

Após o levantamento bibliográfico foram realizadas visitas periódicas (quinzenais) a Colônia <strong>de</strong><br />

<strong>Pesca</strong>dores <strong>de</strong> Itapissuma Z-10, localizada às margens do Canal <strong>de</strong> Santa-Cruz, com o intuito <strong>de</strong><br />

observar não somente o processo <strong>de</strong> salga, e sua organização, como as reais condições <strong>de</strong> realização do<br />

mesmo e as relações comerciais existentes entre os pescadores da região.<br />

ÁREA DE ESTUDO<br />

O município <strong>de</strong> Itapissuma, situado à margem Norte do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz é o principal ponto<br />

<strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque, beneficiamento e comercialização <strong>de</strong> boa parte da produção pesqueira artesanal<br />

advinda <strong>de</strong>sse complexo.<br />

A fauna potencialmente econômica do canal po<strong>de</strong> sustentar cerca <strong>de</strong> cinco mil pescadores que<br />

<strong>de</strong>senvolvem a pesca <strong>de</strong> sobrevivência, obtendo alimento e gerando empregos e renda para as famílias<br />

envolvidas no processo (LIMA e QUINAMO, 2000) <strong>de</strong> forma que se presta como excelente mo<strong>de</strong>lo<br />

para estudos ictiofaunísticos e do contexto social da ativida<strong>de</strong> pesqueira.<br />

PROCESSO DE SALGA<br />

Segundo Ogawa (1999), o processo <strong>de</strong> salga baseia-se no princípio da <strong>de</strong>sidratação osmótica.<br />

Os tecidos do peixe vivo atuam como membranas semipermeáveis e após a morte do animal, estas se<br />

tornam permeáveis, permitindo, assim, a entrada <strong>de</strong> sal por difusão, à medida que ocorre <strong>de</strong>sidratação<br />

dos tecidos.<br />

Em circunstâncias <strong>de</strong> alta pressão osmótica, o protoplasma das células dos microorganismos se<br />

<strong>de</strong>sidrata, havendo contração da membrana plasmática, fenômeno este conhecido por plasmólise. Em<br />

virtu<strong>de</strong> disso, o crescimento <strong>de</strong> microorganismos é inibido.<br />

O processo <strong>de</strong> salga aumenta o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> conservação do pescado, havendo inibição da ativida<strong>de</strong><br />

enzimática, tanto <strong>de</strong> enzimas próprias do pescado como <strong>de</strong> bactérias. Há ainda uma redução no<br />

<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> microorganismos aeróbicos, em face da diminuição da solubilida<strong>de</strong> do oxigênio na<br />

salmoura, ou pela <strong>de</strong>sinfecção direta do produto com íons Cl - . Porém, o princípio <strong>de</strong> conservação<br />

consiste na retirada <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> tissular, paralelamente à entrada <strong>de</strong> sal.<br />

Em concentrações <strong>de</strong> 1 a 3% <strong>de</strong> sal, verifica-se uma aceleração no <strong>de</strong>senvolvimento da maioria<br />

das bactérias patogênicas e envolvidas no processo <strong>de</strong> putrefação. Em geral, é necessária uma<br />

concentração acima <strong>de</strong> 15% para inibir este <strong>de</strong>senvolvimento, quando a ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água torna-se<br />

reduzida.


PESCA E APETRECHOS<br />

48<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A pesca constitui uma das principais ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> subsistência praticada pelos moradores da<br />

região próxima ao Canal <strong>de</strong> Santa Cruz no município <strong>de</strong> Itapissuma. Muitas vezes, constituindo-se<br />

como a única fonte <strong>de</strong> renda das famílias. Em sua maioria, a pesca ainda é praticada <strong>de</strong> forma<br />

incipiente, com embarcações rústicas e sem a utilização <strong>de</strong> qualquer método <strong>de</strong> sensoriamento remoto.<br />

A captura dos peixes é promovida em<br />

embarcações <strong>de</strong> pequeno porte conhecidas como<br />

“baiteiras” (Figura 2). São embarcações movidas à<br />

vela ou mais comumente a remo, confeccionadas<br />

em ma<strong>de</strong>ira, com dimensões que variam <strong>de</strong> 5 a 8<br />

metros <strong>de</strong> comprimento e largura po<strong>de</strong>ndo variar<br />

<strong>de</strong> 1 a 1,5 metros. São utilizadas re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cerco, <strong>de</strong><br />

espera, mangote e tarrafas, cujo diâmetro da malha<br />

po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> 15 a 30 mm (entre nós opostos).<br />

Figura 2 – Enbarcações, tipo “baiteiras”<br />

O comprimento das armadilhas (re<strong>de</strong>s) utilizadas na pesca artesanal no canal <strong>de</strong><br />

varia bastante, <strong>de</strong> acordo com o tipo <strong>de</strong> pesca a que Santa Cruz em Itapissuma, PE.<br />

se <strong>de</strong>stina. Algumas chegam a medir mais <strong>de</strong> 150m <strong>de</strong> comprimento. A pesca é realizada durante toda a<br />

semana, nos mais variados horários do dia ou mesmo durante a noite. As embarcações po<strong>de</strong>m voltar ao<br />

mar mais <strong>de</strong> uma vez por dia, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das condições <strong>de</strong> pesca, po<strong>de</strong>ndo até mesmo, algumas<br />

permanecerem no mar, por mais <strong>de</strong> um dia. O número <strong>de</strong> pessoas para realização da captura dos peixes<br />

também po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> dois a seis pescadores por embarcação.<br />

A ativida<strong>de</strong> pesqueira se inicia com a escolha <strong>de</strong> um <strong>de</strong>terminado local <strong>de</strong> pesca (escolhido com<br />

base nas experiências acumuladas pelos pescadores), on<strong>de</strong> a re<strong>de</strong> é jogada na água. A partir <strong>de</strong>ste<br />

ponto, o barco segue se afastando e a re<strong>de</strong> é gradativamente lançada ao mar até ser totalmente<br />

distendida. Após um período <strong>de</strong> espera, que po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> 30 minutos a 1 hora, a re<strong>de</strong> é puxada com o<br />

auxílio <strong>de</strong> uma corda presa em uma <strong>de</strong> suas extremida<strong>de</strong>s, e é fechada perfazendo uma trajetória em<br />

forma <strong>de</strong> ferradura, <strong>de</strong>pois puxada para <strong>de</strong>ntro da embarcação on<strong>de</strong> os peixes são recolhidos e<br />

separados <strong>de</strong> acordo com o tamanho (pequenos e gran<strong>de</strong>s) e colocados em cestos.<br />

O <strong>de</strong>sembarque é realizado em pequenos ancoradouros ou em pontos localizados próximo às<br />

comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pescadores. Após retornarem da pesca, os trabalhadores do mar lavam os peixes com<br />

água do próprio canal (Figura 3A e B). Para facilitar o transporte dos peixes para os locais <strong>de</strong> secagem,


49<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

“girais”, ou <strong>de</strong> venda, muitas vezes os pecadores utilizam carros-<strong>de</strong>-mão ou levam os peixes nos<br />

próprios cestos <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da distância <strong>de</strong>stes locais (Figura 4).<br />

Figuras 4 – Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma: transporte dos peixes para local <strong>de</strong><br />

salga e secagem.<br />

Durante o processo <strong>de</strong> pesca, vários peixes <strong>de</strong><br />

diferentes tamanhos e espécies são capturados. Os<br />

peixes maiores (Figura 5) são vendidos, muitas<br />

vezes, sem beneficiamento para comerciantes. Os<br />

peixes <strong>de</strong> pequeno porte (Figura 6) geralmente são<br />

<strong>de</strong>stinados a salga ou mesmo vendidos sem este<br />

processamento, após secarem ao sol nos “girais” ou<br />

sobre re<strong>de</strong>s dispostas no chão, mais comumente na<br />

rampa que dá acesso aos locais <strong>de</strong> <strong>de</strong>sembarque,<br />

durante algumas horas.<br />

Figura 5 – Peixes capturados no canal <strong>de</strong> Santa<br />

Cruz, Itapissuma, PE. De cima para baixo: salema,<br />

bicuda, agulha, agulhinha, sauna e carapeba.<br />

A B<br />

Figura 3 – Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma/PE - A) Desembarque do pescado;<br />

B) Lavagem dos peixes após o <strong>de</strong>sembarque.


50<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

As principais espécies capturadas são as seguintes: a manjuba Opisthonema oglinum<br />

(exemplares juvenis <strong>de</strong> sardinha-laje), tainha Mugil spp., boca-torta Anchovia clupeoi<strong>de</strong>s (manjuba),<br />

sardinha Cetengraulis e<strong>de</strong>ntulus, sauna Mugil spp., carapeba Eugerres brasilianus, camurim<br />

Centropomus un<strong>de</strong>cimalis, Xaréu Caranx spp.<br />

A quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes capturados varia muito, <strong>de</strong> embarcação para embarcação e no <strong>de</strong>correr<br />

da semana, po<strong>de</strong>ndo uma embarcação capturar 400kg <strong>de</strong> peixes, num dia <strong>de</strong> boa pescaria.<br />

Os pescadores <strong>de</strong>sta região ainda contam com uma casa, localizada na rua José Gonçalves, nº<br />

83 – Centro, que dá acesso ao Canal, e abriga a se<strong>de</strong> da Colônia <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>dores Z-10 <strong>de</strong> Itapissuma,<br />

responsável por assegurar os direitos <strong>de</strong>stes pescadores. Porém, segundo o relato dos próprios<br />

pescadores, esta po<strong>de</strong>ria atuar mais na <strong>de</strong>fesa dos interesses dos pescadores.<br />

CONDIÇÕES PREJUDICIAIS À ATIVIDADE DE PESCA<br />

A B C<br />

D E F<br />

Figura 6 – Itapissuma – Peixes utilizados na salga: A) sapuruna Pomadasys corvinaeformis,<br />

B) <strong>de</strong>ntão Lutjanus jocu, C) carabeba Eugerres brasilianus, D) carapicu Diapterus olisthostomus,<br />

E) boca-torta Cetengraulius e<strong>de</strong>ntulus, F) saúna Mugil sp.<br />

A pesca em Itapissuma também enfrenta problemas que refletem diretamente sobre as<br />

condições <strong>de</strong> vida dos pescadores, influenciando o comércio local e indiretamente as ativida<strong>de</strong>s<br />

comerciais <strong>de</strong> outros municípios, da Região Metropolitana do Recife e do interior do Estado, que<br />

também <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m da produção pesqueira do município.


ALGUNS DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS RELACIONADOS À PESCA<br />

51<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Os problemas mais graves na Região são: a) pesca predatória, <strong>de</strong>vido ao gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> pessoas<br />

pescando com re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> malha fina e re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> arrasto (pesca não seletiva); b) poluição dos rios e<br />

estuários por esgoto doméstico e resíduos industriais (calda <strong>de</strong> usina açucareira, cloro e outros<br />

produtos); c) circulação intensa <strong>de</strong> embarcações motorizadas (lanchas e jet skis) nas bocas Norte e Sul<br />

do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, afugentando os peixes, <strong>de</strong>struindo as re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pesca, pondo em risco a vida<br />

dos pescadores e ameaçando a reprodução das espécies que realizam parte <strong>de</strong> seu ciclo <strong>de</strong> vida nos<br />

estuários (LIMA e QUINAMO, 2000).<br />

Além <strong>de</strong> outros, como a dragagem <strong>de</strong> certas áreas do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, para passagem <strong>de</strong><br />

embarcações maiores, refletindo a influência da exploração turística sem o <strong>de</strong>vido planejamento e sem<br />

levar a cabo o impacto ambiental que essas ativida<strong>de</strong>s po<strong>de</strong>rão causar ao ecossistema.<br />

BENEFICIAMENTO POR SALGA<br />

Durante a coleta <strong>de</strong> dados foram evi<strong>de</strong>nciadas<br />

as condições precárias on<strong>de</strong> é realizado o processo <strong>de</strong><br />

salga, este normalmente realizado por dois homens.<br />

Os peixes ao serem <strong>de</strong>sembarcados, são<br />

lavados com água do próprio estuário, <strong>de</strong>pois<br />

transportados até as “salga<strong>de</strong>iras” (tanques <strong>de</strong> cimento<br />

<strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 1m 3 , revestido com azulejos ou cimento)<br />

(Figura 7), on<strong>de</strong> são <strong>de</strong>positados inteiros e com Figura 7 – Salga<strong>de</strong>iras usadas no<br />

vísceras, <strong>de</strong>pois é adicionado o sal, que posteriormente<br />

beneficiamento por salga do pescado<br />

formará a salmoura, on<strong>de</strong> permanecerão por cerca <strong>de</strong><br />

24 horas.<br />

no canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma/PE.<br />

Passado este período na salmoura, os<br />

peixes são colocados nos “girais” (Figura 8),<br />

espécie <strong>de</strong> mesa, construída com varas <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira,<br />

possuindo pequenos espaços entre elas e forrada<br />

com re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pesca, facilitando o escoamento da<br />

água dos peixes e evitando que estes caiam no<br />

chão. Os girais apresentam medidas que variam <strong>de</strong><br />

10 a 15 metros <strong>de</strong> comprimento por 2 metros <strong>de</strong><br />

Figura 8 – “Quarais” utilizados na secagem<br />

<strong>de</strong> peixes na Região <strong>de</strong> Itapissuma.


52<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

largura e cerca <strong>de</strong> 1 metro <strong>de</strong> altura, os peixes são dispostos sobre a re<strong>de</strong> e permanecem lá para secarem<br />

ao sol por períodos que po<strong>de</strong>m variar <strong>de</strong> 2 a 6 horas <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das condições climáticas.<br />

Os “girais” estão localizados próximos à margem do canal <strong>de</strong> Santa Cruz, on<strong>de</strong> o acúmulo <strong>de</strong> lixo<br />

<strong>de</strong> várias origens (Figura 9) e a presença <strong>de</strong><br />

pragas urbanas tornam-se bastante evi<strong>de</strong>ntes,<br />

contribuindo <strong>de</strong> forma negativa na qualida<strong>de</strong><br />

do produto final, o peixe salgado-seco<br />

conhecido como “caíco”. A produção muitas<br />

vezes é comercializada nos próprios girais,<br />

para comerciantes que compram em gran<strong>de</strong><br />

quantida<strong>de</strong> para reven<strong>de</strong>rem nas feiras locais<br />

ou <strong>de</strong> outras cida<strong>de</strong>s. O peixe <strong>de</strong>pois <strong>de</strong><br />

salgado e seco po<strong>de</strong> ainda ficar estocado por<br />

até três dias <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da procura.<br />

Figura 9 – Proximida<strong>de</strong> dos “girais” com lixo<br />

doméstico propiciando a presença <strong>de</strong> pragas<br />

RELAÇÕES COMERCIAIS<br />

As relações comerciais envolvendo a produção da salga, muitas vezes são conduzidas pelos<br />

“empreseiros”, proprietários dos barcos e re<strong>de</strong>s, além dos girais on<strong>de</strong> os peixes são submetidos à<br />

secagem.<br />

As relações <strong>de</strong> trabalho observadas durante este estudo apresentam pequenas diferenças em<br />

relação às <strong>de</strong>scritas por Lino (2003), porém, ainda estão baseadas em ativida<strong>de</strong>s informais sem vínculo<br />

empregatício.<br />

Mediante entrevistas realizadas na Região, registrou-se que muitos pescadores possuem<br />

embarcações e apetrechos <strong>de</strong> pesca, porém, preferem negociar o pescado com os “empreseiros”, muitas<br />

vezes, pela natureza da ativida<strong>de</strong> que se torna muito <strong>de</strong>sgastante, <strong>de</strong>sestimulando o pescador a<br />

comercializar o pescado diretamente com o consumir. Às vezes, nos finais <strong>de</strong> semana, as esposas <strong>de</strong><br />

alguns pescadores esperam seus maridos retornarem da pesca e levam uma certa quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixe<br />

para ven<strong>de</strong>rem nas feiras livres, conseguindo assim um lucro maior com a venda direta ao consumidor.<br />

Os pescadores que não possuem embarcações <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m unicamente dos meios fornecidos<br />

pelos “empreseiros” para a realização da ativida<strong>de</strong>, comprometendo-se assim, a ven<strong>de</strong>r a produção<br />

comercializável para estes.<br />

Após o processamento: salga e secagem, os peixes são comercializados pelo “empreseiro” em<br />

transações feitas diretamente por telefone, sendo negociadas pequenas quantida<strong>de</strong>s ou em grosso,


53<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

iniciando, nesse caso, uma ca<strong>de</strong>ia <strong>de</strong> intermediação (Figura 10) para revenda em Recife (mercado<br />

público <strong>de</strong> São José, bairros próximos da Avenida Caxangá) ou nas feiras livres da Região<br />

Metropolitana do Recife e no interior do Estado (Limoeiro, Orobó, Carpina, Caruaru e outros).<br />

Consumo<br />

Próprio<br />

Meio<br />

Ambiente<br />

<strong>Pesca</strong>dor<br />

Empreseiro<br />

Processamento<br />

Salga / Secagem<br />

Armazenamento<br />

Intermediário<br />

Atacadista<br />

Varejista<br />

(comerciante e feirante)<br />

Consumidor<br />

Figura 10 – Fluxo do processamento e comercialização do peixe salgado-seco (caíco)<br />

na região <strong>de</strong> Itapissuma, Pernambuco.<br />

O “empreseiro” adquire o pescado ao preço <strong>de</strong> R$ 0,50 o quilo. O produto final após o<br />

processamento e a intermediação chega ao consumidor pelo preço <strong>de</strong> R$ 2,00 o quilo. No local da<br />

salga o preço ao consumidor é R$ 1,50 o quilo.


COMENTÁRIOS CONCLUSIVOS<br />

54<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A pesca artesanal no município <strong>de</strong> Itapissuma representa uma importante fonte <strong>de</strong> subsistência,<br />

senão a única, para uma gran<strong>de</strong> parcela da população marginal do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz. Esta ativida<strong>de</strong>,<br />

bem como outras advindas <strong>de</strong> sua efetivação (comércio <strong>de</strong> frutos do mar em feiras livres, bares,<br />

restaurantes etc.) são responsáveis, quase que inteiramente, pelo volume comercial e base econômica<br />

do município, sendo esta retransmitida por várias gerações, constituindo-se numa herança cultural e<br />

profundamente enraizada no costume local.<br />

Porém esta ativida<strong>de</strong> se <strong>de</strong>senvolve sem planejamento, sugerindo que, sem o <strong>de</strong>vido<br />

direcionamento, a pesca no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz po<strong>de</strong>rá sofrer futuramente com a falta do produto<br />

pesqueiro <strong>de</strong>vido à redução dos organismos aquáticos explorados, que já sofrem com a influência do<br />

turismo e da poluição.<br />

Os trabalhadores diretamente envolvidos na pesca são pessoas simples e <strong>de</strong> poucas posses,<br />

quando muito, donos apenas <strong>de</strong> poucos utensílios <strong>de</strong>stinados à pesca ou a ela ligados.<br />

O beneficiamento do pescado se <strong>de</strong>senvolve <strong>de</strong> acordo com as condições econômicas da<br />

população diretamente favorecida e está intimamente influenciado pelo <strong>de</strong>senvolvimento da região.<br />

A salga, embora se constitua num dos métodos mais antigos <strong>de</strong> conservação <strong>de</strong> alimentos,<br />

aten<strong>de</strong> as necessida<strong>de</strong>s e condições <strong>de</strong> vida <strong>de</strong>stes pescadores.<br />

Ações para melhoria no beneficiamento do pescado, e conseqüentemente, das ativida<strong>de</strong>s<br />

econômicas e condições <strong>de</strong> vida dos pescadores e consumidores, po<strong>de</strong>m ser efetivadas, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que<br />

sejam incorporadas na realida<strong>de</strong> da região, levando em consi<strong>de</strong>ração os custos advindos <strong>de</strong> sua<br />

implantação e os benefícios que po<strong>de</strong>m ser alcançados, e levando paralelamente a conscientização da<br />

responsabilida<strong>de</strong> social com a preservação e uso racional dos recursos naturais.<br />

SUGESTÕES OU RECOMENDAÇÕES<br />

No <strong>de</strong>correr <strong>de</strong>ste projeto tomou-se ciência da realida<strong>de</strong> enfrentada pelos pescadores que<br />

<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m do produto da labuta diária no mar e no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, e as principais rotas <strong>de</strong>stinadas<br />

ao pescado daquela região além <strong>de</strong> alguns dos problemas ocasionados pela falta <strong>de</strong> conhecimento das<br />

possíveis vias <strong>de</strong> contaminação do pescado e dos possíveis causadores <strong>de</strong> doenças.<br />

Como sugestões para a melhoria das condições <strong>de</strong> pesca, processo <strong>de</strong> comercialização e<br />

conseqüentemente da qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida das pessoas influenciadas por essa ativida<strong>de</strong>, po<strong>de</strong>mos citar:<br />

a) Encaminhar solicitação aos órgãos competentes, através <strong>de</strong> suas representações, para que as águas<br />

<strong>de</strong>correntes da drenagem pública e canalizada para os estuários da região sejam tratadas, <strong>de</strong> forma a<br />

minimizar o impacto ambiental provocado nos organismos aquáticos e que é repassado para a


55<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

população; b) recolhimento periódico do lixo doméstico acumulado próximo ao Canal; c) engendrar<br />

formas <strong>de</strong> esclarecer e conscientizar a população resi<strong>de</strong>nte na região e visitantes, da importância que o<br />

Canal <strong>de</strong> Santa Cruz representa para a subsistência dos pescadores e tentar promover melhor interação<br />

entre a exploração turística da região e a ativida<strong>de</strong> pesqueira realizada; d) efetuar campanhas que<br />

busquem a conscientização, envolvendo a população local na solução dos problemas existentes e, em<br />

parceria com a Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco, a Prefeitura <strong>de</strong> Itapissuma e <strong>de</strong>mais órgãos<br />

e entida<strong>de</strong>s interessadas na proposta, da importância da preservação da flora e fauna da região e do<br />

planejamento a<strong>de</strong>quado como forma <strong>de</strong> promover o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável da localida<strong>de</strong>.<br />

REFERÊNCIAS<br />

BARROS, H.M. e ESKENAZI-LEÇA, E. Introdução. In: LEÇA, E.; MACÊDO, J.; LIMA, T.; (Ed)<br />

Gerenciamento Participativo <strong>de</strong> Estuários e Manguezais. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2000. p.<br />

7-25<br />

LEÇA, E.; MACÊDO, J.; LIMA, T.; (Ed) Gerenciamento Participativo <strong>de</strong> Estuários e Manguezais.<br />

Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2000. p. 7-25.<br />

LIMA, T. e QUINAMO, T. Características sócio-econômicas. In: BARRO, H. M.; ESKENAZI-LEÇA,<br />

E.; MACÊDO, J.; LIMA, T.; (Ed) Gerenciamento Participativo <strong>de</strong> Estuários e Manguezais. Recife.<br />

Ed. Universitária da UFPE, 2000. p. 181-224.<br />

LINO, M.A.S. Estudo Biológico-Pesqueiro da Manjuba Opisthonema oglinum (Lesueur, 1818) da<br />

Região <strong>de</strong> Itapissuma, Pernambuco. Dissertação (Mestrado em Recursos Pesqueiros e Aqüicultura) –<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco, [2003]. f. 24-26.<br />

MORAES, A.L. <strong>Pesca</strong> predatória na área estuarina do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Itapissuma-PE.<br />

Monografia (Pós-Graduação em Geografia) Fundação <strong>de</strong> Ensino Superior <strong>de</strong> Olinda/ UNESF, [1998].<br />

OGAWA, M. e MAIA, E. L. Manual <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> Ciência e Tecnologia do <strong>Pesca</strong>do. São Paulo. v. 1,<br />

1999. p. 293-294.�


56<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

MUSEO DEL HOMBRE DEL PUERTO (MAR DEL PLATA, ARGENTINA)<br />

Héctor BECERINI, Director <strong>de</strong>l Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto, Mar <strong>de</strong>l Plata, Argentina<br />

INTRODUCCIÓN<br />

El Museo <strong>de</strong>l Hombre <strong>de</strong>l Puerto, inaugurado en noviembre <strong>de</strong> 1990. Posee una importante<br />

colección <strong>de</strong> fotos, documentos, bibliografía y objetos que hacen a la vida y costumbres <strong>de</strong> los primeros<br />

pobladores <strong>de</strong> la zona. En una sala <strong>de</strong>dicada al célebre pintor Cleto Ciocchini se exponen sus más<br />

renombradas obras, en las que supo plasmar los paisajes, activida<strong>de</strong>s e idiosincrasia <strong>de</strong> los pescadores.<br />

El proyecto <strong>de</strong> crear un museo en el barrio portuario <strong>de</strong> la ciudad <strong>de</strong> Mar <strong>de</strong>l Plata, fue concebido<br />

tiempo atrás con los integrantes <strong>de</strong> la Asociación <strong>de</strong> Fomento <strong>de</strong>l Puerto, siendo uno <strong>de</strong> sus principales<br />

precursores Don Aldo Marcone Benvenuto.<br />

Con este objetivo se fueron convocando a integrantes <strong>de</strong> viejas familias radicadas en la zona, así<br />

se consiguió rescatar antiguas fotografías y material que hace a la historia primigenia <strong>de</strong>l lugar.<br />

Finalmente tras muchos esfuerzos, la obra <strong>de</strong> la Asociación <strong>de</strong> Fomento <strong>de</strong>l Puerto, se concreta en<br />

el Museo que es inaugurado el 22 <strong>de</strong> noviembre <strong>de</strong> 1990 en el edificio <strong>de</strong> calle Padre Dutto 383. Hacia<br />

el año 2002 el Museo se traslada a su actual se<strong>de</strong> en el Centro Comercial Puerto local 8.<br />

EL MUSEO<br />

Cuenta con un amplio frente <strong>de</strong> acceso, allí encontraremos sobre su fachada elementos que<br />

pertenecieron a la lancha pesquera, “Fratelli Uniti”, y una placa <strong>de</strong> bronce sobre mármol con la efigie<br />

<strong>de</strong>l pintor Cleto Ciocchini, donada por su hijo Fe<strong>de</strong>rico Ciocchini Solá.<br />

En su interior, el Museo ofrece una serie <strong>de</strong> salas en don<strong>de</strong> se tratara <strong>de</strong> introducir al visitante en<br />

una dimensión diferente, la cual le permite vivir sensaciones que solo el Puerto pue<strong>de</strong> ofrecer.<br />

La primer sala funciona como centro <strong>de</strong> interpretación <strong>de</strong> la temática general <strong>de</strong>l museo, allí nos<br />

encontraremos con la temática <strong>de</strong> la Inmigración, pasaportes, <strong>de</strong>cretos y leyes, objetos y un baúl <strong>de</strong> la<br />

familia Penisssi en el que trajeron sus pertenencias. Tambien nos encontraremos con el origen <strong>de</strong> Mar<br />

<strong>de</strong>l Plata, el sala<strong>de</strong>ro, los proyectos <strong>de</strong> puertos, el origen <strong>de</strong> la pesca y la aparición <strong>de</strong>l turismo.<br />

La segunda sala esta <strong>de</strong>dicada a la construcción <strong>de</strong>l puerto a cargo <strong>de</strong> la “Societe Nationale <strong>de</strong><br />

Travaux Publics”, con documentos y fotografías y en otro sector <strong>de</strong> la misma se exhibe mobiliario<br />

original <strong>de</strong> la empresa.<br />

En otra sala encontraremos a las familias <strong>de</strong> los primeros pobladores <strong>de</strong>l Puerto, la llegada <strong>de</strong> los<br />

pescadores, sus activida<strong>de</strong>s y sus tradiciones, objetos típicos, la historia <strong>de</strong>l barrio <strong>de</strong>l Puerto.


57<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Existe otra sala <strong>de</strong>dicada al pintor Cleto Ciocchini, con obras como el óleo “Quico” que recuerda<br />

a un típico y conocido pescador marplatense, mientras otro muestra a la Parroquia Sagrada Familia,<br />

primera iglesia <strong>de</strong>l Puerto y punto <strong>de</strong> partida <strong>de</strong> las procesiones. Junto a ésta, el caballete, porta<br />

estudios <strong>de</strong> Ciocchini y otras obras.<br />

Dentro <strong>de</strong> la misma sala, se pue<strong>de</strong> observar la historia <strong>de</strong> los astilleros, los hombres que se<br />

<strong>de</strong>dicaron a la construcción y reparación <strong>de</strong> embarcaciones, junto a las artes <strong>de</strong> pesca y construcción <strong>de</strong><br />

re<strong>de</strong>s.<br />

En otra parte se exhiben paneles en don<strong>de</strong> están representadas todas las colectivida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>l Puerto<br />

<strong>de</strong> Mar <strong>de</strong>l Plata, con sus Santos patronos, estando el Museo bajo la protección <strong>de</strong>l “Divino san<br />

Salvador”.<br />

Finalmente las salas <strong>de</strong> exposición <strong>de</strong> pintura y escultura, con exposiciones temporarias y <strong>de</strong><br />

colección <strong>de</strong>l museo y la sala <strong>de</strong> proyecciones audiovisuales y conferencias en don<strong>de</strong> se exhiben vi<strong>de</strong>os<br />

con la temática <strong>de</strong>l museo.<br />

ACTIVIDADES<br />

La principal motivación <strong>de</strong>l Museo es rescatar el acervo cultural e histórico <strong>de</strong>l puerto, ya que<br />

constituye un nucleamiento humano con valores artísticos, pautas <strong>de</strong> vida, artesanías y tradiciones que<br />

se han mantenido como testimonio histórico, con su carácter singular, propio y autentico. Su función es<br />

preservar para las futuras generaciones, los nombres y hechos históricos y anécdotas que se vinculan al<br />

origen <strong>de</strong>l primer asentamiento en el lugar, y como su crecimiento y <strong>de</strong>sarrollo constituyo la actual<br />

comunidad portuense.<br />

El Museo ha establecido vínculos con los viejos pobladores a fin <strong>de</strong> obtener material y reconstruir<br />

la historia <strong>de</strong>l Puerto.<br />

EL ECO-MUSEO<br />

Se trata <strong>de</strong> revalorizar los sitios <strong>de</strong> interés <strong>de</strong> la zona, sus edificios históricos y patrimoniales, sus<br />

monumentos y viviendas típicas mediante placas <strong>de</strong> referencia, así como <strong>de</strong> la realización itineraria <strong>de</strong><br />

circuitos turísticos culturales guiados por profesionales especializados a través <strong>de</strong>l área <strong>de</strong> su<br />

influencia, con la distribución <strong>de</strong> folletos explicativos.<br />

SERVICIO EDUCATIVO<br />

Compren<strong>de</strong> la atención <strong>de</strong>l público en general, como a establecimientos educativos <strong>de</strong> distintos<br />

niveles y universitarios, mediante visitas guiadas, proyección <strong>de</strong> vi<strong>de</strong>os, cursos y conferencias referidas<br />

a temas artísticos culturales.


58<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

El Museo cuenta con un servicio <strong>de</strong> extensión a la comunidad e institución que lo solicite.<br />

ARCHIVO DEL INMIGRANTE<br />

Se creo con el fin <strong>de</strong> almacenar datos obtenidos a través <strong>de</strong> entrevistas personales, con voces <strong>de</strong><br />

los protagonistas relatando anécdotas familiares, narrando las peripecias y angustias <strong>de</strong> la inmigración,<br />

los comienzos en el arraigo y el <strong>de</strong>stino que les <strong>de</strong>paro nuestra tierra, todo ilustrado y documentado con<br />

fotografías aportadas por la misma comunidad.<br />

Se constituye así no solo en la herramienta para hilar esta historia, sino fundamentalmente como<br />

banco <strong>de</strong> datos computarizado, a disposición <strong>de</strong>l público, para ubicar a sus orígenes y conocer a sus<br />

antecesores.<br />

En este momento el Museo se ha hermanado con el <strong>de</strong> “San Bene<strong>de</strong>to <strong>de</strong>l Tronto”, Italia,<br />

ampliando así nuestros datos e intercambiando información y exposiciones artísticas.<br />

El museo tiene el seguinte cuerpo técnico:<br />

Director - Hector Becerini; Servicio Técnico y Educativo - Arq. Osvaldo Destandau;<br />

Investigación Histórica - Prof. Jose Mateo; Secretaria: Patricia Macchia<br />

Sigue abajo algunas fotos <strong>de</strong>l Museo<br />

AGRADECIMIENTOS*<br />

Queremos hacer expreso nuestro inmenso agra<strong>de</strong>cimiento a Pasqualino Marchese cuya<br />

colaboración tornó posible la publicación <strong>de</strong> este artículo.<br />

* Agra<strong>de</strong>cimientos <strong>de</strong>l editor.�


FOTOS DEL MUSEO DEL HOMBRE DEL PUERTO<br />

�<br />

59<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]


A PESCA OCEÂNICA NO BRASIL NO SÉCULO 21<br />

60<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Fábio Hissa Vieira HAZIN (fhvhazin@ufrpe.br); Paulo Eurico TRAVASSOS (paulotr@ufrpe.br)<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

RESUMO<br />

As capturas <strong>de</strong> atuns e espécies afins no Oceano Atlântico, incluindo as albacoras (laje, branca e<br />

bandolim), o bonito listrado, o espadarte (meka), os agulhões (branco, negro, vela e ver<strong>de</strong>), diversas<br />

espécies <strong>de</strong> tubarão (principalmente o tubarão-azul), além <strong>de</strong> outros peixes como a cavala, o dourado e<br />

o peixe-prego, têm, nos últimos anos, oscilado em torno das 500.000 t. Em 2004, a frota atuneira<br />

nacional, composta por embarcações brasileiras e estrangeiras arrendadas, capturou 44.640 t, ou o<br />

equivalente a cerca <strong>de</strong> 9% do total capturado no Atlântico. Em 2005, este montante subiu para 48.900t,<br />

representando um incremento próximo a 10%. Do ponto <strong>de</strong> vista do resultado econômico, entretanto,<br />

uma vez que aproximadamente a meta<strong>de</strong> da produção nacional é constituída por bonito-listrado, uma<br />

das espécies <strong>de</strong> atum mais costeiras e <strong>de</strong> menor valor comercial, a participação brasileira no rendimento<br />

proporcionado por esta pesca, em torno <strong>de</strong> US$ 4 bilhões/ano, certamente se situou bem abaixo dos<br />

5%. Consi<strong>de</strong>rando-se a proximida<strong>de</strong> estratégica do País em relação às rotas migratórias dos principais<br />

estoques <strong>de</strong> atuns e afins no Atlântico Sul, além da gran<strong>de</strong> extensão <strong>de</strong> sua costa, com cerca <strong>de</strong> 8.500<br />

km, fica claro que a posição atualmente ocupada pelo país no cenário da pesca oceânica no Atlântico<br />

não se justifica. Neste contexto, o presente trabalho apresenta uma breve <strong>de</strong>scrição da evolução e atual<br />

situação da pesca <strong>de</strong> atuns e afins no país, abordando os principais aspectos estratégicos que <strong>de</strong>vem ser<br />

consi<strong>de</strong>rados para promover o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong> no Brasil.<br />

PALAVRAS-CHAVES: <strong>Pesca</strong> oceânica, atuns e afins, captura, <strong>de</strong>senvolvimento sustentável.<br />

STATUS DA PESCA NO BRASIL<br />

No ano <strong>de</strong> 2004, no Oceano Atlântico, excluindo-se o Mar mediterrâneo, foram capturadas<br />

cerca <strong>de</strong> 500.000 t <strong>de</strong> atuns e espécies afins, incluindo as albacoras (azul laje, branca e bandolim), o<br />

bonito-listrado, o espadarte (meka), os agulhões (branco, negro, vela e ver<strong>de</strong>), e diversas espécies <strong>de</strong><br />

tubarão (principalmente o tubarão azul), além <strong>de</strong> outros peixes como a cavala, o dourado, o<br />

peixe-prego, entre muitos outros. No mesmo ano, as embarcações sob jurisdição nacional, brasileiras e<br />

arrendadas, capturaram 44.640 t, ou o equivalente a cerca <strong>de</strong> 9% do total capturado no Atlântico. Em<br />

2005, este montante subiu para 48.900 t, representando um incremento próximo a 10%. Do ponto <strong>de</strong><br />

vista do resultado econômico, entretanto, uma vez que aproximadamente a meta<strong>de</strong> da produção


61<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

nacional é constituída por bonito-listrado, uma das espécies <strong>de</strong> atum mais costeiras e <strong>de</strong> menor valor<br />

comercial, a participação brasileira no rendimento proporcionado por esta pesca, em torno <strong>de</strong> US$ 4<br />

bilhões/ ano, certamente se situou bem abaixo dos 5%. Consi<strong>de</strong>rando-se a proximida<strong>de</strong> estratégica do<br />

País em relação às rotas migratórias dos principais estoques <strong>de</strong> atuns e afins no Atlântico Sul, além da<br />

gran<strong>de</strong> extensão <strong>de</strong> sua costa, com cerca <strong>de</strong> 8.500 km, fica claro que a posição atualmente ocupada pelo<br />

país no cenário da pesca oceânica no Atlântico não se justifica. Enquanto embarcações operando a<br />

partir <strong>de</strong> portos brasileiros alcançam as áreas <strong>de</strong> ocorrência dos cardumes com poucas horas <strong>de</strong><br />

navegação, as frotas <strong>de</strong> países com gran<strong>de</strong> tradição pesqueira, como o Japão, Taiwan, Coréia, Espanha,<br />

Portugal, entre outros, são obrigados, em alguns casos, a viajar mais <strong>de</strong> 20.000 km para atingir as<br />

mesmas áreas <strong>de</strong> pesca. Entretanto, apesar <strong>de</strong> tal condição conferir ao país uma gran<strong>de</strong> vantagem<br />

comparativa, a pesca oceânica nacional apresentou uma tendência <strong>de</strong>clinante, nos quatro primeiros<br />

anos do presente século (2000-2004), com uma leve recuperação somente no ano passado (Figura 1).<br />

Produção em peso vivo (t)<br />

60000<br />

50000<br />

40000<br />

30000<br />

20000<br />

10000<br />

0<br />

2000 2001 2002 2003 2004 2005<br />

Total Bonito Listrado<br />

Outros Atuns e Afins % Bonito Listrado<br />

Figura 1- Evolução das capturas nacionais <strong>de</strong> atuns e afins e do bonito listrado,<br />

incluindo a sua participação relativa no total capturado.<br />

É importante <strong>de</strong>stacar que as quatro principais espécies capturadas pelas embarcações nacionais,<br />

<strong>de</strong>pois do bonito listrado, as albacoras laje, branca e bandolim, além do espadarte, vêm sendo<br />

capturadas em níveis próximos, porém abaixo do rendimento máximo sustentável (Figura 2), indicando<br />

60<br />

50<br />

40<br />

30<br />

20<br />

10<br />

0


Produção em peso vivo (t)<br />

160000<br />

140000<br />

120000<br />

100000<br />

80000<br />

60000<br />

40000<br />

20000<br />

0<br />

Albacora Laje Albacora<br />

Branca<br />

62<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 2 - Rendimento Máximo Sustentável (RMS), captura total no Oceano Atlântico e<br />

captura nacional <strong>de</strong> albacoras e do espadarte.<br />

Albacora<br />

Bandolim<br />

RMS Captura Total Captura Nacional<br />

que os seus estoques estão sendo a<strong>de</strong>quadamente manejados pela ICCAT- Comissão Internacional para<br />

a Conservação do Atum Atlântico (International Commission for the Conservation of Atlantic Tunas).<br />

Na mesma figura, contudo, po<strong>de</strong>-se observar claramente a ainda reduzida participação brasileira.<br />

PERSPECTIVAS PARA O SÉCULO 21<br />

Espadarte<br />

Com o esgotamento dos recursos pesqueiros costeiros, a principal alternativa para o<br />

<strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional, excetuando-se a aqüicultura, resi<strong>de</strong> na pesca oceânica,<br />

voltada para a captura <strong>de</strong> atuns e peixes afins (espadarte, agulhões e tubarões), os quais apresentam<br />

uma série <strong>de</strong> vantagens comparativas, em relação aos recursos costeiros, entre as quais po<strong>de</strong>-se<br />

<strong>de</strong>stacar: a) gran<strong>de</strong> proximida<strong>de</strong> das principais áreas <strong>de</strong> pesca, no caso do Brasil; b) algumas espécies<br />

capturadas, como as albacoras, apresentam um alto valor comercial para exportação, constituindo-se<br />

em uma importante fonte <strong>de</strong> divisas para o País; c) outras espécies, também presentes nas capturas,<br />

como os tubarões, apresentam preço relativamente baixo, apesar do seu alto valor nutritivo,<br />

representando uma importante fonte <strong>de</strong> proteínas para a população <strong>de</strong> baixa renda; d) ciclo <strong>de</strong> vida<br />

in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte dos ecossistemas costeiros, já intensamente <strong>de</strong>gradados; e) ampla distribuição; e f)<br />

biomassa elevada. Uma vantagem adicional é que, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que a<strong>de</strong>quadamente planejado, o<br />

<strong>de</strong>senvolvimento da pesca oceânica nacional po<strong>de</strong>ria resultar em uma redução do esforço <strong>de</strong> pesca<br />

sobre os estoques costeiros, já sobre-explotados.


63<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Vários são os entraves, porém, para o <strong>de</strong>senvolvimento da pesca oceânica nacional, com <strong>de</strong>staque<br />

para a falta <strong>de</strong> mão-<strong>de</strong>-obra especializada, <strong>de</strong> tecnologia e <strong>de</strong> embarcações a<strong>de</strong>quadas, as quais, <strong>de</strong>vido<br />

ao seu elevado custo, encontram-se comumente muito além da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> investimento das<br />

empresas <strong>de</strong> pesca brasileiras. Para que o País consiga, portanto, ampliar a sua participação na pesca<br />

oceânica, precisará ampliar quotas <strong>de</strong> captura, consolidar uma frota pesqueira oceânica nacional,<br />

formar mão-<strong>de</strong>-obra especializada e gerar conhecimento científico e tecnológico sobre as espécies<br />

explotadas.<br />

Como os estoques pesqueiros oceânicos já estão sendo pescados em níveis próximos do limite<br />

sustentável, a ampliação da produção brasileira <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá diretamente da sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

negociação com os países pesqueiros tradicionais, no âmbito da ICCAT- Comissão Internacional para a<br />

Conservação do Atum Atlântico, assim como na FAO, no seu Comitê <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, na OMC e na própria<br />

ONU. Ocorre que os atuns e afins são espécies altamente migratórias com suas populações<br />

distribuindo-se por todo o Oceano Atlântico ou hemisfério oceânico. A albacora-bandolim capturada<br />

por barcos nacionais, por exemplo, pertence à mesma população explorada pelos barcos norteamericanos<br />

na costa do Maine, ou pelos barcos espanhóis na Baía <strong>de</strong> Biscay, uma vez que há uma<br />

única população em todo o Atlântico. Já a albacora-branca que o Brasil captura no nor<strong>de</strong>ste brasileiro<br />

faz parte do mesmo estoque explorado pelos sul-africanos, na costa africana. Ou seja, são todos<br />

estoques internacionais, explotados simultaneamente por vários países.<br />

Não existe, assim, atum brasileiro. O atum brasileiro é somente aquele pescado por barcos<br />

nacionais ou estrangeiros arrendados a empresas brasileiras e <strong>de</strong>sembarcado nos portos do País. É<br />

exatamente em função disto, por serem recursos internacionais e altamente migratórios, que o seu<br />

or<strong>de</strong>namento tem que ser realizado por um organismo internacional, no caso a Comissão Internacional<br />

para a Conservação do Atum Atlântico-ICCAT, da qual o país é membro <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a sua fundação, no Rio<br />

<strong>de</strong> Janeiro, em 1966.<br />

PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NO ICCAT<br />

A ICCAT possui um corpo científico, <strong>de</strong>nominado <strong>de</strong> Comitê Permanente <strong>de</strong> Pesquisa e<br />

Estatística (SCRS- Standing Committee on Research and Statistics), integrado por pesquisadores dos<br />

vários países membros, e uma Comissão política. De uma maneira simplificada, a ICCAT funciona da<br />

seguinte forma: todos os anos o SCRS se reúne e <strong>de</strong>fine os limites sustentáveis <strong>de</strong> captura das diversas<br />

espécies explotadas. Subseqüentemente, a Comissão <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> como a captura máxima permitida (TAC-<br />

Total Allowable Catch) será repartida entre os vários países membros. Um ponto fundamental, neste<br />

contexto, é que a gran<strong>de</strong> maioria, se não a totalida<strong>de</strong>, das espécies <strong>de</strong> atuns e afins já estão sendo


64<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

capturadas em níveis próximos <strong>de</strong> suas capacida<strong>de</strong>s máximas sustentáveis, ou seja, não há,<br />

concretamente, como se ampliar a captura <strong>de</strong> atuns no Oceano Atlântico sem comprometer a<br />

sustentabilida<strong>de</strong> dos estoques. Neste sentido, a posição do governo brasileiro tem sido sempre a <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r o respeito estrito aos limites máximos sustentáveis <strong>de</strong> captura, com a mesma ênfase com que<br />

tem <strong>de</strong>fendido o direito do País <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver a sua pesca oceânica. Ou seja, o tamanho da torta <strong>de</strong><br />

atum do Atlântico <strong>de</strong>ve ser respeitado, mas o tamanho da fatia brasileira tem que aumentar.<br />

Assim sendo, é evi<strong>de</strong>nte que o crescimento da produção nacional <strong>de</strong> atuns e afins implicará<br />

necessariamente a redução das capturas por parte dos países pesqueiros tradicionais, como Espanha,<br />

Japão, Taiwan, etc. Consi<strong>de</strong>rando-se que esta ativida<strong>de</strong> no Oceano Atlântico envolve valores da<br />

magnitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> US$ 4 bilhões, conforme dito acima, é fácil compreen<strong>de</strong>r a forma agressiva com que os<br />

países pesqueiros tradicionais têm <strong>de</strong>fendido a sua hegemonia histórica nesta ativida<strong>de</strong>. É óbvio,<br />

também, que o atum que o Brasil não pescar, será pescado por outras nações.<br />

É preciso, também, contextualizar o momento político atravessado pela ICCAT hoje. Pois com a<br />

entrada em vigor da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em novembro <strong>de</strong> 1994, e<br />

do Acordo das Nações Unidas sobre as Espécies <strong>de</strong> Peixes Transzonais e Altamente Migratórias, em<br />

Dezembro <strong>de</strong> 2001, se estabeleceu um arcabouço jurídico com base no qual os países pesqueiros em<br />

<strong>de</strong>senvolvimento conquistaram condições favoráveis para ampliar as suas quotas <strong>de</strong> captura, a partir do<br />

pleno reconhecimento do seu direito <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver a sua pesca oceânica.<br />

Foi com base nesses e em outros instrumentos jurídicos internacionais, como o Código <strong>de</strong><br />

Conduta para uma <strong>Pesca</strong> Responsável, da FAO (Organização para Alimentação e Agricultura das<br />

Nações Unidas), com os seus Planos Internacionais <strong>de</strong> Ação correlatos, que o Brasil conseguiu aprovar<br />

na ICCAT, em novembro <strong>de</strong> 1998, um Grupo <strong>de</strong> Trabalho para a Definição <strong>de</strong> Novos Critérios para<br />

Alocação <strong>de</strong> Quotas <strong>de</strong> Captura. Finalmente, em 2001, após quatro reuniões, marcadas por negociações<br />

duríssimas, a ICCAT terminou por aprovar uma lista <strong>de</strong> 27 novos critérios, em substituição ao critério<br />

<strong>de</strong> capturas históricas, até então utilizado <strong>de</strong> forma quase que exclusiva pela Comissão, na distribuição<br />

<strong>de</strong> quotas <strong>de</strong> captura. Entre os novos critérios aprovados, incluem-se, por exemplo, a ocorrência do<br />

estoque na Zona Econômica Exclusiva do país, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se privilegiar a pesca artesanal e <strong>de</strong><br />

pequena escala, a importância do estoque para as comunida<strong>de</strong>s costeiras, entre outros.<br />

A vitória dos países em <strong>de</strong>senvolvimento foi resultado <strong>de</strong> sua sólida argumentação jurídica,<br />

fundamentada nos instrumentos citados. Segundo o critério <strong>de</strong> capturas históricas, as quotas eram<br />

tradicionalmente divididas em função dos montantes capturados pelo País nos últimos anos, ou seja, os<br />

países <strong>de</strong>senvolvidos com pescarias tradicionais perpetuavam a sua hegemonia, enquanto os países em<br />

<strong>de</strong>senvolvimento eram tolhidos nos seus direitos legítimos <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolverem a pesca oceânica. Assim


65<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

foi que, em uma reunião realizada na Paraíba, em Julho <strong>de</strong> 1997, ao Brasil coube apenas 16% (2.340 t)<br />

da quota do espadarte do Atlântico Sul, para o período <strong>de</strong> 1998 a 2000, cabendo à Espanha e ao Japão<br />

(países sem costa no Atlântico Sul), respectivamente, 40% e 26%.<br />

Nas reuniões da ICCAT em 2000 e 2001, gran<strong>de</strong> parte em função <strong>de</strong> um endurecimento da<br />

posição brasileira, não foi possível se alcançar um consenso para distribuição das quotas <strong>de</strong> espadarte<br />

no Atlântico Sul. Finalmente, na reunião da ICCAT realizada em Bilbao, em 2002, com base nos novos<br />

critérios <strong>de</strong> captura, a <strong>de</strong>legação brasileira conseguiu aumentar a quota para o País no Atlântico Sul, <strong>de</strong><br />

2.340 t, para 4.086 t, em 2003, crescendo <strong>de</strong>ste ano em diante até atingir 4.365 t (ou 27,2% do total),<br />

em 2006. Além disto, conquistou, também, pela primeira vez, o direito <strong>de</strong> pescar até 200 t no Atlântico<br />

Norte, além <strong>de</strong> haver sido perdoado da penalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 1.500 t que <strong>de</strong>veria <strong>de</strong>scontar em função do seu<br />

excesso <strong>de</strong> captura em 1998.<br />

Em função <strong>de</strong>ssas conquistas, imediatamente após a reunião da ICCAT, o Governo da Espanha,<br />

em retaliação, proibiu a continuida<strong>de</strong> das operações dos barcos espanhóis arrendados a empresas<br />

brasileiras. O <strong>de</strong>spacho do Secretário Geral <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> Marítima do Ministério <strong>de</strong> Agricultura, <strong>Pesca</strong> e<br />

Alimentação da Espanha, datado <strong>de</strong> 05/12/01, no qual baixa a referida or<strong>de</strong>m, é bastante esclarecedor<br />

acerca <strong>de</strong> como as autorida<strong>de</strong>s daquele país compreen<strong>de</strong>m a gestão dos recursos atuneiros do Atlântico:<br />

“As razões para impedi-lo (o arrendamento) são sólidas e se fundamentam na melhor <strong>de</strong>fesa do<br />

patrimônio espanhol gerado pelos direitos históricos na pesca <strong>de</strong> espadarte e outras espécies reguladas<br />

pela ICCAT”.<br />

Vale ressaltar que até o ano <strong>de</strong> 1987 a Espanha não possuía qualquer captura no Atlântico Sul.<br />

Naquele ano, em <strong>de</strong>corrência da aplicação <strong>de</strong> medidas <strong>de</strong> limitação das capturas no Atlântico Norte, a<br />

Espanha <strong>de</strong>slocou boa parte da sua frota para o Atlântico Sul com o objetivo óbvio <strong>de</strong> construir um<br />

histórico <strong>de</strong> captura, que assegurasse a sua hegemonia quando <strong>de</strong> uma futura alocação <strong>de</strong> quotas, como<br />

<strong>de</strong> fato aconteceu.<br />

A captura espanhola <strong>de</strong> espadarte no Atlântico Sul, inexistente em 1987, alcançou já no ano<br />

seguinte, 1988, 4.400 t, saltando para 9.622 t, em 1996, ano anterior ao da reunião da Paraíba, 1997,<br />

quando as quotas <strong>de</strong> captura para os anos <strong>de</strong> 1998 a 2000 foram estabelecidas.<br />

A produção nacional <strong>de</strong> atuns e afins cresceu <strong>de</strong> pouco mais <strong>de</strong> 20.000 t, em 1995, para mais <strong>de</strong><br />

50.000 t, em 2000, em <strong>de</strong>corrência, principalmente, da ampliação dos arrendamentos promovidos pelo<br />

DPA/ MAPA (Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura do Ministério da Agricultura, Pecuária e<br />

Abastecimento). Excetuando-se o bonito listrado, atingiu um máximo em 2002, igual a 32.200 t,<br />

<strong>de</strong>clinando, contudo, em 2004, para 21.600 t, uma retração da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 30% (Figura 1). Esse <strong>de</strong>clínio<br />

resultou, principalmente, <strong>de</strong> uma redução da frota espanhola, em retaliação à ampliação da quota


Produção em peso vivo (t)<br />

8000<br />

7000<br />

6000<br />

5000<br />

4000<br />

3000<br />

2000<br />

1000<br />

0<br />

2000 2001 2002 2003 2004 2005<br />

Albacora Laje Albacora Bandolim Albacora Branca<br />

Espadarte Tubarões<br />

66<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

brasileira, em 2002, e da frota chinesa, em função <strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong>s para o a<strong>de</strong>quado cumprimento da<br />

legislação nacional. Cabe <strong>de</strong>stacar, em relação a este aspecto, o importante avanço no controle das<br />

ativida<strong>de</strong>s dos barcos arrendados, advindo da obrigatorieda<strong>de</strong> da presença <strong>de</strong> observadores <strong>de</strong> bordo em<br />

100% da frota arrendada, instituída pela SEAP/ PR, a partir <strong>de</strong> 2004.<br />

Como conseqüência da saída dos barcos espanhóis, em 2002, a produção brasileira <strong>de</strong> espadarte<br />

<strong>de</strong>cresceu <strong>de</strong> um patamar acima <strong>de</strong> 4.000 t, em que vinha se mantendo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1997, para 2.900 t, em<br />

2002. A captura da albacora-branca, principal alvo da frota chinesa, <strong>de</strong>clinou, com a saída da mesma,<br />

<strong>de</strong> quase 7.000 t, em 2001, para 3.200 t, em 2002, atingindo um mínimo <strong>de</strong> 522 t, em 2004 (Figura 3).<br />

Figura 3 - Evolução da produção nacional das albacoras-laje, branca e bandolim,<br />

espadarte, e tubarões, entre 2000 e 2005.<br />

Tal situação, obviamente, expõe a gran<strong>de</strong> vulnerabilida<strong>de</strong> do País, em função <strong>de</strong> sua alta<br />

<strong>de</strong>pendência da frota estrangeira. Apesar disso, ocorre relativa estabilida<strong>de</strong> na produção oriunda <strong>de</strong><br />

barcos nacionais, em torno <strong>de</strong> 2.000 t (Figura 4).<br />

Uma gran<strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong> enfrentada pelo País no processo <strong>de</strong> negociação foi, e continua sendo, o<br />

fato dos principais adversários brasileiros serem também os nossos principais mercados (Espanha,<br />

EUA, Japão). Assim, o Brasil tem disputado com estes países o direito <strong>de</strong> pescar mais, em gran<strong>de</strong> parte<br />

como o País po<strong>de</strong> ser atingido por medidas <strong>de</strong>ssa natureza, po<strong>de</strong> ser encontrado nas recentes<br />

exigências da Comunida<strong>de</strong> Européia (CE), relativas à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> equivalência das normas<br />

sanitárias, em função da qual o Brasil foi obrigado a preparar e implementar um Plano Nacional <strong>de</strong>


67<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 4 - Evolução da produção brasileira <strong>de</strong> espadarte, entre 1999 e 2004, oriunda <strong>de</strong><br />

embarcações nacionais e arrendadas (números, em azul, no interior da figura, indicam os<br />

limites correspon<strong>de</strong>ntes às quotas conquistadas pelo País, em 2002). Fonte: SEAP/ PR.<br />

Controle <strong>de</strong> Resíduos, o qual, inclui, no caso dos atuns e afins, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se realizar exames <strong>de</strong><br />

histamina, entre outros, através <strong>de</strong> Cromatografia Líquida <strong>de</strong> Alta Performance. Mesmo<br />

<strong>de</strong>sconsi<strong>de</strong>rando-se os empecilhos <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m logística <strong>de</strong>correntes <strong>de</strong> tal medida, a mesma,<br />

evi<strong>de</strong>ntemente, implicará um importante aumento dos custos <strong>de</strong> produção, diminuindo, por conseguinte,<br />

a competitivida<strong>de</strong> da indústria nacional. Quando não são barreiras tarifárias, são barreiras técnicas, ou<br />

mesmo artifícios legais, como a ação alegadamente “anti-dumping” impetrada pelo governo<br />

estaduni<strong>de</strong>nse contra o camarão brasileiro, sem qualquer fundamento, se não o <strong>de</strong> preservar os interesses<br />

dos pescadores <strong>de</strong> camarão da Lousiana e <strong>de</strong>mais estados do Golfo do México, infligindo pesados<br />

prejuízos à carcinicultura nacional.<br />

Uma outra disputa recorrente com a CE tem sido a utilização do documento estatístico <strong>de</strong><br />

acompanhamento da exportação <strong>de</strong> atuns e afins, como forma <strong>de</strong> criar dificulda<strong>de</strong>s burocráticas à<br />

entrada do pescado brasileiro, incluindo exigências, como a i<strong>de</strong>ntificação pessoal, com nome e<br />

assinatura, dos responsáveis técnicos no Brasil pela validação do referido documento, quando a<br />

recomendação aprovada pela ICCAT não estabelece tal necessida<strong>de</strong>. Nesse contexto, o Brasil tem se<br />

contraposto, também, veementemente, à pretensão comunitária <strong>de</strong> utilizar o documento estatístico<br />

como forma <strong>de</strong> unilateralmente controlar as quotas dos países exportadores.<br />

Um outro argumento recorrente tem sido o <strong>de</strong> que um país não <strong>de</strong>ve receber quotas <strong>de</strong> captura<br />

se não tem a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> utilizá-las <strong>de</strong> forma plena. Neste contexto, uma outra batalha dificílima,


68<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

finalmente vencida também na reunião da ICCAT, em Bilbao, em 2002, foi o reconhecimento formal<br />

por parte da Comissão, refletido na Recomendação 02/21 (Art. 5), <strong>de</strong> que as capturas realizadas pelos<br />

barcos arrendados pertencem ao país arrendatário (Brasil). Note-se que esta batalha vem sendo travada<br />

também em outros fóruns internacionais, particularmente no Comitê <strong>de</strong> Regras <strong>de</strong> Origem, da<br />

Organização Mundial do Comércio (OMC), on<strong>de</strong> a CE tem tentado, insistentemente, reverter a vitória<br />

alcançada pelo Brasil na ICCAT, sobre a questão. Neste contexto, igualmente, o crescimento <strong>de</strong> quase<br />

800 t, ou cerca <strong>de</strong> 30%, na produção nacional <strong>de</strong> espadarte em 2004, foi crucial no sentido <strong>de</strong> assegurar<br />

a manutenção das quotas <strong>de</strong> captura conquistadas na rodada <strong>de</strong> Bilbao, em 2002.<br />

Pulverizar a agenda internacional da pesca em diversos fóruns tem sido uma das estratégias dos<br />

países pesqueiros tradicionais para preservar a sua hegemonia, apostando na tradicional dificulda<strong>de</strong> dos<br />

países em <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> acompanhar os <strong>de</strong>sdobramentos internacionais, em <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong> suas<br />

tradicionais <strong>de</strong>ficiências <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação interna. Assim sendo, um outro tema <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> relevância<br />

para o setor pesqueiro nacional, também tratado no âmbito da OMC, é a questão da utilização <strong>de</strong><br />

subsídios à pesca.<br />

Neste sentido, o Brasil apresentou uma proposta, fundamentada na necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um tratamento<br />

especial e diferenciado para os países em <strong>de</strong>senvolvimento (TN/RL/GEN/79) 1 , na qual busca assegurar<br />

o direito <strong>de</strong>sses países <strong>de</strong> utilizarem subsídios para o legítimo <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> sua pesca oceânica,<br />

a exemplo do que pesadamente o fizeram os países pesqueiros tradicionais, impedindo, ao mesmo<br />

tempo, o uso abusivo <strong>de</strong> subsídios por parte das nações <strong>de</strong>senvolvidas, que continuam a subsidiar as<br />

suas frotas pesqueiras.<br />

Apenas para citar um exemplo, em meados <strong>de</strong> junho último, a União Européia <strong>de</strong>cidiu criar um<br />

novo fundo <strong>de</strong> apoio ao setor pesqueiro, no valor <strong>de</strong> 4,8 bilhões <strong>de</strong> dólares, com o objetivo exclusivo <strong>de</strong><br />

subsidiar os pescadores europeus <strong>de</strong> 2007 a 2013. Além <strong>de</strong> ser travado em várias frentes, o embate<br />

pelos recursos atuneiros do Oceano Atlântico reverbera entre os diversos fóruns, <strong>de</strong> forma que<br />

conquistas diplomáticas e políticas em uma <strong>de</strong>terminada área, muitas vezes motiva iniciativas e<br />

retaliações em outras áreas, aparentemente totalmente <strong>de</strong>svinculadas da questão.<br />

Recentemente, a Espanha, assim como o Japão em outros momentos, <strong>de</strong> forma recorrente, tem<br />

<strong>de</strong>senvolvido gestões bastante incisivas, não apenas junto ao governo fe<strong>de</strong>ral, mas diretamente também<br />

aos governos estaduais, no sentido <strong>de</strong> viabilizar a criação <strong>de</strong> “portos internacionais”, na costa brasileira,<br />

a partir <strong>de</strong> financiamentos evi<strong>de</strong>ntemente assegurados pelos mesmos. Tais portos, se criados, claro,<br />

reduziriam significativamente os custos operacionais <strong>de</strong> suas frotas no Atlântico Sul, particularmente<br />

1 http://www.tra<strong>de</strong>-environment.org/page/theme/tewto/para28.htm


69<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

quando da explotação dos estoques que apresentam uma maior proximida<strong>de</strong> da costa brasileira. Uma<br />

das poucas, se não a única, vantagem comparativa que o Brasil ainda possui ao competir com as frotas<br />

oceânicas <strong>de</strong> longa distância no Atlântico Sul é exatamente a proximida<strong>de</strong> dos seus portos das áreas <strong>de</strong><br />

pesca.<br />

Neste contexto, registre-se que as embarcações nacionais são obrigadas a competir pelos recursos<br />

pelágicos <strong>de</strong>ste oceano, com as frotas estrangeiras, particularmente a espanhola e japonesa,<br />

pesadamente subsidiadas e que operam com um custo financeiro que representa uma pequena fração da<br />

realida<strong>de</strong> brasileira, com tecnologia mais sofisticada e mão-<strong>de</strong>-obra infinitamente melhor qualificada.<br />

Não é um <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> pouca monta. Se diante <strong>de</strong> tal contexto o Brasil <strong>de</strong>cidir franquear a utilização dos<br />

seus portos pela frota internacional estará, evi<strong>de</strong>ntemente, anulando a principal vantagem comparativa<br />

que possui o que invariavelmente resultará no aniquilamento <strong>de</strong> qualquer pretensão brasileira <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>senvolver a sua pesca oceânica. O que claramente se coloca, portanto, é qual futuro o Brasil prefere.<br />

Conce<strong>de</strong>r às frotas internacionais o livre acesso aos portos brasileiros, e ficar literalmente a ver os<br />

navios estrangeiros pescando em seu quintal, ou enfrentar o <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver a sua pesca<br />

oceânica. Cabe <strong>de</strong>stacar, ainda, que tal <strong>de</strong>senvolvimento não diz respeito apenas à produção <strong>de</strong><br />

pescado, nem à geração das divisas, empregos e renda <strong>de</strong>la resultantes, ele implica também a efetiva<br />

ocupação, não apenas da Zona Econômica Exclusiva, mas das águas internacionais do Atlântico Sul,<br />

essencial à efetiva realização geopolítica do País. A <strong>de</strong>cisão do Estado brasileiro foi, e não po<strong>de</strong>ria ser<br />

outra, pelo <strong>de</strong>senvolvimento do setor pesqueiro nacional. Diante <strong>de</strong> tal estratégia, a cessão dos portos<br />

nacionais às frotas estrangeiras é claramente incompatível e <strong>de</strong> todo in<strong>de</strong>sejável.<br />

QUESTÕES COMERCIAIS<br />

Além dos <strong>de</strong>safios apresentados pelas negociações internacionais, há, ainda, outras gran<strong>de</strong>s<br />

dificulda<strong>de</strong>s conjunturais que vêm diminuindo sobremaneira a capacida<strong>de</strong> competitiva da pesca<br />

oceânica nacional, entre as quais <strong>de</strong>stacam-se: a <strong>de</strong>fasagem cambial, o preço do petróleo e o preço <strong>de</strong><br />

comercialização dos atuns e afins, no mercado internacional. O valor do real frente ao dólar atingiu em<br />

2006 níveis próximos à meta<strong>de</strong> do que se verificou no início da década reduzindo, portanto,<br />

substancialmente a margem <strong>de</strong> lucro do pescado exportado (Figura 5).


Taxa <strong>de</strong> Câmbio (R$ x US$)<br />

4,50<br />

4,00<br />

3,50<br />

3,00<br />

2,50<br />

2,00<br />

1,50<br />

1,00<br />

0,50<br />

0,00<br />

03/01/00<br />

03/05/00<br />

03/09/00<br />

03/01/01<br />

03/05/01<br />

03/09/01<br />

03/01/02<br />

03/05/02<br />

03/09/02<br />

70<br />

03/01/03<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 5- Variação da taxa <strong>de</strong> câmbio R$ x US$, entre janeiro <strong>de</strong> 2000 e junho <strong>de</strong> 2006.<br />

Por outro lado, em função <strong>de</strong> um aumento <strong>de</strong> quase sete vezes no preço do petróleo no mesmo período<br />

(Figura 6), o custo do diesel, um dos principais insumos da ativida<strong>de</strong> pesqueira, particularmente no<br />

caso da pesca oceânica, em função das gran<strong>de</strong>s distâncias que as embarcações são obrigadas a<br />

percorrer, e do frete, especialmente o aéreo, do qual <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> toda a exportação do pescado fresco,<br />

subiram fortemente, aumentando simultaneamente o custo <strong>de</strong> operação e <strong>de</strong> exportação do produto<br />

capturado.<br />

Figura 6- Variação do preço do petróleo e da gasolina, entre 1997 e 2006.<br />

03/05/03<br />

03/09/03<br />

03/01/04<br />

01/01/2000 a 30/06/2006<br />

03/05/04<br />

03/09/04<br />

03/01/05<br />

03/05/05<br />

03/09/05<br />

03/01/06<br />

03/05/06


71<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Os preços <strong>de</strong> venda, por outro lado, tomando-se como exemplo o espadarte fresco no mercado norte<br />

americano, caíram cerca <strong>de</strong> 40%, em relação aos valores vigentes na década <strong>de</strong> 90, particularmente<br />

após o 11 <strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2001, atingindo em 2002 o seu menor valor (US$ 3,50/lb, contra US$ 6,5/lb,<br />

em 1996) (Figura 7). Tais dificulda<strong>de</strong>s têm erodido a lucrativida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, obstando, na mesma<br />

proporção, a consolidação <strong>de</strong> uma frota genuinamente nacional, particularmente em função da atual<br />

condição <strong>de</strong> <strong>de</strong>scapitalização do setor pesqueiro nacional.<br />

US$/ lb<br />

7<br />

6<br />

5<br />

4<br />

3<br />

2<br />

1<br />

0<br />

1991<br />

1992<br />

1993<br />

1994<br />

1995<br />

1996<br />

1997<br />

1998<br />

1999<br />

2000<br />

2001<br />

2002<br />

2003<br />

2004<br />

Figura 7- Variação do preço do espadarte fresco (meka) no mercado norte-americano (New<br />

York’s Fulton Market), entre 1991 e 2004 (Fonte: U.S Department of Commerce).<br />

A FROTA PESQUEIRA<br />

Para formar e consolidar uma frota pesqueira, o Brasil dispõe basicamente <strong>de</strong> três diferentes<br />

instrumentos: o arrendamento, a importação, e a construção <strong>de</strong> barcos em estaleiros nacionais. São<br />

instrumentos complementares, com diferentes alcances, finalida<strong>de</strong>s e tempos <strong>de</strong> resposta. Se por um<br />

lado, o arrendamento po<strong>de</strong> ser extremamente útil na construção <strong>de</strong> um histórico <strong>de</strong> captura, <strong>de</strong> forma a<br />

assegurar o cumprimento <strong>de</strong> quotas politicamente conquistadas, por outro, torna o País extremamente<br />

vulnerável a eventuais retaliações dos países <strong>de</strong> ban<strong>de</strong>ira das embarcações arrendadas, particularmente<br />

quando os mesmos são também importantes mercados para o pescado brasileiro, como o da Espanha.<br />

Diante <strong>de</strong> tal circunstância, a suspensão dos arrendamentos pela SEAP foi uma medida acertada,<br />

principalmente no intuito <strong>de</strong> gerar um fator motivador para a importação e construção <strong>de</strong> novos<br />

atuneiros pelas empresas arrendatárias, através do PROFROTA Pesqueira 2 . Entretanto, o instrumento<br />

do arrendamento não <strong>de</strong>ve ser <strong>de</strong>finitivamente abandonado, tendo em vista a sua gran<strong>de</strong> importância<br />

2 Programa Nacional <strong>de</strong> Financiamento da Ampliação e Mo<strong>de</strong>rnização da Frota Pesqueira Nacional.


72<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

para assimilação <strong>de</strong> novas tecnologias, treinamento da mão <strong>de</strong> obra nacional e formação <strong>de</strong> um<br />

histórico <strong>de</strong> captura. A presente suspensão, portanto, <strong>de</strong>ve ser flexibilizada, caso o monitoramento das<br />

capturas nacionais, particularmente no caso do espadarte, aponte dificulda<strong>de</strong>s para a consecução das<br />

quotas atribuídas ao País, ou no caso da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> assimilação <strong>de</strong> novas tecnologias <strong>de</strong> captura,<br />

voltadas para espécies pouco explotadas pelo País.<br />

Em relação ao arrendamento <strong>de</strong> embarcações pesqueiras, uma outra medida urgente, e já bastante<br />

atrasada, é a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se viabilizar legalmente o arrendamento <strong>de</strong> embarcações a casco nu, com<br />

suspensão <strong>de</strong> ban<strong>de</strong>ira, uma vez que sob tal enquadramento jurídico, a mesma passa a ser, para todos os<br />

efeitos da legislação nacional e internacional, uma embarcação brasileira. De qualquer modo, o<br />

arrendamento <strong>de</strong> barcos pesqueiros <strong>de</strong>ve ser entendido sempre como um instrumento provisório, a ser<br />

utilizado estrategicamente, em circunstâncias emergenciais.<br />

Em relação à importação <strong>de</strong> embarcações pesqueiras, por outro lado, tem prevalecido no País a<br />

lógica perversa <strong>de</strong> que tal instrumento <strong>de</strong>ve ser evitado, ou pelo menos limitado, em função <strong>de</strong> que a<br />

construção <strong>de</strong> barcos em estaleiros nacionais seria muito mais vantajosa para o Brasil. O argumento<br />

seria verda<strong>de</strong>iro se não houvesse uma gran<strong>de</strong> oferta <strong>de</strong> barcos usados no mercado internacional, a um<br />

custo que representa uma fração do custo <strong>de</strong> construção, com a gran<strong>de</strong> vantagem <strong>de</strong> já estarem prontos<br />

e equipados, sendo, portanto, capazes <strong>de</strong> dar uma resposta em termos <strong>de</strong> ampliação da capacida<strong>de</strong><br />

pesqueira nacional muito mais rápida do que o moroso processo <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> um barco <strong>de</strong> pesca,<br />

com todos os <strong>de</strong>safios tecnológicos implicados. Assim, com a intenção <strong>de</strong> se favorecer a indústria<br />

naval, perversamente sacrifica-se o setor pesqueiro nacional, retardando ou mesmo, em certa medida,<br />

impedindo o <strong>de</strong>senvolvimento da pesca oceânica no País. Além das embarcações pesqueiras<br />

representarem uma parcela diminuta do mercado naval, em relação a outros setores como o <strong>de</strong><br />

transporte marítimo e <strong>de</strong> exploração <strong>de</strong> petróleo, esquece-se, também, que, uma vez nacionalizadas, tais<br />

embarcações continuariam a <strong>de</strong>mandar manutenções periódicas, gerando emprego e renda para os<br />

estaleiros sediados no País.<br />

A flexibilização da importação <strong>de</strong> embarcações atuneiras seria particularmente conveniente, no<br />

caso das embarcações que já se encontram em operação no Brasil, através do arrendamento, uma vez<br />

que a empresa arrendatária, além <strong>de</strong> já estar plenamente inserida na ca<strong>de</strong>ia produtiva da pesca <strong>de</strong> atum,<br />

estaria importando uma embarcação cujos aspectos técnicos e operacionais já seriam completamente<br />

conhecidos e dominados. A importação po<strong>de</strong>ria, inclusive, ser apresentada como uma alternativa à<br />

continuação das ativida<strong>de</strong>s da embarcação no País, uma vez finalizado o período autorizado <strong>de</strong><br />

arrendamento.


73<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Por fim, cabe <strong>de</strong>stacar a gran<strong>de</strong> importância do PROFROTA como instrumento <strong>de</strong> consolidação<br />

da pesca oceânica nacional, embora o seu alcance seja limitado pela morosida<strong>de</strong> na resposta no<br />

aumento da produção, tendo em vista o longo tempo <strong>de</strong>mandado para construção <strong>de</strong> um barco<br />

pesqueiro, assim como pelos altos custos financeiros envolvidos, <strong>de</strong>correntes da realida<strong>de</strong> nacional.<br />

Infelizmente, mesmo subsidiados, os juros no Brasil implicam um custo financeiro muito maior que o<br />

<strong>de</strong> outras frotas internacionais, gran<strong>de</strong> parte das quais continuam a ser pesadamente subsidiadas.<br />

Não adianta, porém, se dispor <strong>de</strong> embarcações <strong>de</strong> pesca bem equipadas se, ao mesmo tempo, não<br />

houver disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mão <strong>de</strong> obra qualificada para tripulá-las. Neste sentido, cabe <strong>de</strong>stacar o<br />

gran<strong>de</strong> esforço <strong>de</strong> treinamento <strong>de</strong> mão-<strong>de</strong>-obra nacional <strong>de</strong>senvolvido pela SEAP/ PR, que, por meio do<br />

Subcomitê Científico do Comitê Consultivo Permanente <strong>de</strong> Gestão <strong>de</strong> Atuns e Afins (SC-CPGAA), e<br />

pela UFRPE, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 2005, já viabilizou a realização <strong>de</strong> 8 cursos <strong>de</strong> formação <strong>de</strong> pescadores<br />

para a pesca oceânica, tendo sido 2 em Natal- RN, 2 em Cabe<strong>de</strong>lo- PB, 2 em Recife- PE, e 2 em<br />

Santos- SP, com 250 pescadores treinados. Além dos pescadores, também com o apoio da SEAP-PR, a<br />

UFRPE já treinou 85 observadores <strong>de</strong> bordo, em 3 cursos realizados <strong>de</strong>s<strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2004,<br />

capacitando os mesmos não apenas em relação aos diversos aspectos diretamente ligados a sua função<br />

a bordo, mas a habilida<strong>de</strong>s complementares necessárias ao bom <strong>de</strong>sempenho do trabalho, incluindo o<br />

conhecimento acerca da legislação nacional e internacional pertinente, a biologia das principais<br />

espécies capturadas, o acompanhamento e <strong>de</strong>scrição da metodologia <strong>de</strong> pesca empregada, assim como<br />

o monitoramento dos <strong>de</strong>scartes e capturas inci<strong>de</strong>ntais <strong>de</strong> espécies que não constituem o alvo da pesca,<br />

como aves e tartarugas marinhas.<br />

A consolidação do Brasil como um País importante na pesca oceânica do Atlântico Sul, porém,<br />

só po<strong>de</strong>rá se concretizar se todo o esforço <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento pesqueiro for a<strong>de</strong>quadamente calçado<br />

pela condução <strong>de</strong> pesquisas que permitam, não apenas gerar as informações biológicas essenciais para<br />

uma correta avaliação dos estoques explotados, aspecto crucial para a construção <strong>de</strong> medidas <strong>de</strong><br />

or<strong>de</strong>namento que possam assegurar a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong>, mas também informações técnicas<br />

que possam contribuir para aumentar a competitivida<strong>de</strong> e a eficiência da frota nacional. Consi<strong>de</strong>randose<br />

que a <strong>de</strong>fesa <strong>de</strong> qualquer direito só se sustenta quando <strong>de</strong>vidamente amparada pelo a<strong>de</strong>quado<br />

cumprimento dos <strong>de</strong>veres correlatos, po<strong>de</strong>-se igualmente afirmar que o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas<br />

científicas sobre os atuns e afins do Atlântico se configuram como um importante ativo no processo <strong>de</strong><br />

negociação necessário à sustentação das aspirações brasileiras <strong>de</strong> crescimento <strong>de</strong> sua participação na<br />

pesca <strong>de</strong>sses importantes recursos pesqueiros.<br />

Novamente, o SC-CPGAA, com o apoio da SEAP- PR, tem envidado um gran<strong>de</strong> esforço <strong>de</strong><br />

pesquisa, o qual, além <strong>de</strong> incluir a coleta sistemática e rotineira <strong>de</strong> dados <strong>de</strong> esforço <strong>de</strong> pesca, captura e


74<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

<strong>de</strong>sembarques, tem envolvido o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas pioneiras no País, entre as quais se<br />

<strong>de</strong>stacam os projetos: Agulhões do Atlântico - Estudo sobre a Biologia <strong>de</strong> Agulhões da Família<br />

Istiophoridae capturados no Oceano Atlântico Sul; Tubarões Oceânicos do Brasil; ESCALAR- Estudo<br />

do Comportamento da Albacora Laje no Arquipélago <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo; e ECOBAN- Ecologia<br />

da Albacora Bandolim no Atlântico Tropical.<br />

O primeiro, já iniciado <strong>de</strong>s<strong>de</strong> meados <strong>de</strong> 2005, a respeito dos agulhões, envolve, além do estudo<br />

da biologia reprodutiva e do crescimento dos agulhões negro e branco, a utilização <strong>de</strong> marcas PSAT-<br />

Pop-up Satellite Archival Tags 3 , para i<strong>de</strong>ntificação do comportamento e uso do habitat pelos mesmos,<br />

sendo esta a primeira vez no Brasil que este tipo <strong>de</strong> marcas é utilizada em peixes. O projeto, que é<br />

<strong>de</strong>senvolvido em cooperação com pesquisadores norte-americanos da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Miami, do<br />

Instituto <strong>de</strong> Ciências Marinhas da Virginia e do Centro <strong>de</strong> Ciência Pesqueira do Su<strong>de</strong>ste (NMFS/<br />

NOAA 4 ), envolve também uma pesquisa com anzóis circulares, cujos resultados preliminares apontam<br />

para um significativo aumento do rendimento pesqueiro e do tempo <strong>de</strong> vida pós-captura das espécies<br />

alvo da pesca, reduzindo, ao mesmo tempo, as capturas inci<strong>de</strong>ntais.<br />

O projeto Tubarões Oceânicos do Brasil, cujo início <strong>de</strong>verá ocorrer já no próximo mês <strong>de</strong><br />

setembro, assemelha-se ao projeto dos agulhões, focando, contudo nas principais espécies <strong>de</strong> tubarão<br />

capturadas na pesca atuneira (tubarão-azul, estrangeiro, mako, raposa, e cachorro, além da raia roxa<br />

pelágica). Da mesma forma, também será conduzido em cooperação com pesquisadores norteamericanos<br />

da Universida<strong>de</strong> da Flórida, do Instituto <strong>de</strong> Ciências Marinhas da Virginia e do Centro <strong>de</strong><br />

Ciência Pesqueira do Su<strong>de</strong>ste (NMFS/ NOAA).<br />

O Projeto ESCALAR, por sua vez, objetiva estudar o comportamento da albacora-laje, face à<br />

variabilida<strong>de</strong> do ambiente oceanográfico, no entorno do Arquipélago <strong>de</strong> São Pedro e São Paulo,<br />

principalmente em relação à distribuição vertical da temperatura da água, prevendo-se, para a<br />

realização do mesmo, a utilização <strong>de</strong> telemetria acústica e marcas PSAT.<br />

Já o ECOBAN preten<strong>de</strong> aprofundar os conhecimentos técnicos e científicos sobre a pesca e<br />

biologia da albacora-bandolim, contribuindo para a exploração sustentável <strong>de</strong>ste importante recurso<br />

3 São marcas que, uma vez fixadas no peixe, passam a coletar dados a respeito da temperatura da água,<br />

profundida<strong>de</strong>, e posição geográfica. Após um período <strong>de</strong> tempo pré-programado, normalmente entre 1 e 6<br />

meses, as mesmas se liberam automaticamente, vindo até a superfície, a partir <strong>de</strong> on<strong>de</strong> passam a transmitir<br />

todos os dados coletados durante o período em que permaneceu presa ao peixe, através do sistema <strong>de</strong> satélite<br />

ARGOS, para uma base em terra.<br />

4 NMFS- National Marine Fisheries Service/ NOAA- National Oceanic and Atmospheric Administration.


75<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

pesqueiro oceânico pela frota atuneira nacional, prevendo-se a realização <strong>de</strong> pesca experimental com<br />

espinhel profundo, com a utilização <strong>de</strong> hook timers 5 e minilogs 6 , além <strong>de</strong> marcas PSAT.<br />

Cabe <strong>de</strong>stacar, que uma gran<strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong> enfrentada no <strong>de</strong>senvolvimento das pesquisas aqui<br />

<strong>de</strong>scritas tem sido a falta <strong>de</strong> uma embarcação <strong>de</strong> pesquisa pesqueira no País, capaz <strong>de</strong> realizar a pesca<br />

oceânica, <strong>de</strong> forma experimental, sendo urgente a superação <strong>de</strong> tal <strong>de</strong>ficiência.<br />

A aquisição <strong>de</strong> um barco <strong>de</strong> pesquisa, com este fim po<strong>de</strong>ria, aten<strong>de</strong>r igualmente, outras iniciativas<br />

<strong>de</strong> pesquisa marinha no Brasil, além do treinamento <strong>de</strong> alunos vocacionados para a pesca e pescadores<br />

profissionais. É importante ressaltar, neste tocante, o fato <strong>de</strong> existirem hoje no País 15 Cursos <strong>de</strong><br />

<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, sem que nenhum <strong>de</strong>les possua uma embarcação capacitada a operar na área<br />

oceânica, a quase totalida<strong>de</strong> dos quais, aliás, não possuem é embarcação nenhuma.<br />

A embarcação aqui proposta po<strong>de</strong>ria ser administrada por uma fundação, dotada da necessária<br />

flexibilida<strong>de</strong> administrativa, a qual aten<strong>de</strong>ria às diversas <strong>de</strong>mandas <strong>de</strong> pesquisa e treinamento<br />

apresentadas pelas Escolas Técnicas, Universida<strong>de</strong>s e Institutos <strong>de</strong> Pesquisa no País.<br />

CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />

Por fim, cabe <strong>de</strong>stacar, também, que as aspirações brasileiras para o crescimento <strong>de</strong> sua pesca<br />

oceânica não se sustentarão se o país não <strong>de</strong>monstrar a sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> implementar e fazer cumprir<br />

as medidas <strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento e conservação adotadas pela ICCAT. Aspecto em relação ao qual ainda se<br />

faz necessário um consi<strong>de</strong>rável progresso, particularmente em relação à fiscalização da ativida<strong>de</strong>. Por<br />

exemplo, nas capturas <strong>de</strong> agulhão-branco e negro, embora o <strong>de</strong>scarte em alto mar seja obrigatório -<br />

caso os exemplares capturados se encontrem ainda vivos no momento do embarque, além <strong>de</strong> sua<br />

comercialização se encontrar proibida, por meio da Instrução Normativa n o 12, <strong>de</strong> 14 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 2005,<br />

da SEAP- PR, não há praticamente qualquer controle do po<strong>de</strong>r público sobre a efetiva implementação<br />

<strong>de</strong> tais medidas. Em parte, como conseqüência <strong>de</strong>ste fato, as capturas <strong>de</strong> ambas espécies em 2005<br />

voltaram a crescer significativamente. Tal situação precisa ser revista e retificada com a máxima<br />

urgência, para que o País possa, <strong>de</strong>finitivamente, se cre<strong>de</strong>nciar a ser um dos mais importantes<br />

pescadores do Oceano Atlântico.<br />

Por outro lado o interesse <strong>de</strong> instituições científicas e empresas privadas, além das excepcionais<br />

condições climáticas e extensão <strong>de</strong> nossas costas, têm alavancado sobremaneira o interesse pelas<br />

pesquisas referentes à implementação da maricultura no Brasil. De forma que po<strong>de</strong>mos prever, num<br />

futuro próximo, o substancial incremento da produção pesqueira brasileira por esta via.�<br />

5 Dispositivos que permitem i<strong>de</strong>ntificar a hora em que o peixe foi fisgado.<br />

6 Equipamento que, unido à linha secundária, registra continuamente a temperatura da água da mar.


76<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

MÉTODO PRIMITIVO DE TRANSPORTE DO CARANGUEJO-UÇÁ<br />

COMPROMETE SUSTENTABILIDADE DO ESTOQUE<br />

Raimundo Ivan MOTA (Raimundo-ivan.mota@ibama.gov.br)<br />

Gerência Regional do IBAMA no Ceará<br />

RESUMO<br />

O mais importantes recursos pesqueiros do <strong>de</strong>lta do Rio Parnaíba, localizada ao norte dos Estados do<br />

Piauí e do Maranhão, é o caranguejo-uçá, (Uci<strong>de</strong>s cordatus) que é o maior crustáceo encontrado nos<br />

manguezais brasileiros. Apresenta carne muito apreciada e é comercializado em gran<strong>de</strong>s quantida<strong>de</strong>s.<br />

Sua captura, realizada <strong>de</strong> forma artesanal, representa postos <strong>de</strong> trabalho para mais <strong>de</strong> 4.500 coletores da<br />

região, que, em sua maioria, têm nessa ativida<strong>de</strong> a única fonte <strong>de</strong> renda. Embora esses trabalhadores do<br />

mar tenham renda média inferior a um salário mínimo, a ativida<strong>de</strong> é <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> interesse sócioeconômico.<br />

Os caranguejos <strong>de</strong>sta região são transportados e comercializados em quase todos os estados<br />

do Nor<strong>de</strong>ste, especialmente nas capitais, on<strong>de</strong> há um gran<strong>de</strong> fluxo turístico. As condições ina<strong>de</strong>quadas<br />

<strong>de</strong> transporte <strong>de</strong>sses animais tem trazido muitos <strong>de</strong>sperdícios e ameaçado a sustentabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu<br />

estoque.<br />

PRODUÇÃO E TRANSPORTE<br />

Segundo dados do IBAMA, em 2005 a produção <strong>de</strong>sembarcada alcançou 980 toneladas <strong>de</strong><br />

caranguejos, o equivalente a cerca <strong>de</strong> 6.000.000 <strong>de</strong> indivíduos que foram comercializados para diversas<br />

cida<strong>de</strong>s do Nor<strong>de</strong>ste, com <strong>de</strong>staque para Fortaleza, no<br />

Estado do Ceará, como maior centro consumidor<br />

adquirindo 95% <strong>de</strong>sta produção. Ocorre que <strong>de</strong>stes seis<br />

milhões <strong>de</strong> caranguejos, cerca <strong>de</strong> três milhões foram<br />

<strong>de</strong>scartados, jogados ao lixo, ou seja, 50% dos<br />

caranguejos coletados são <strong>de</strong>scartados <strong>de</strong>vido à<br />

mortalida<strong>de</strong> precoce no processo <strong>de</strong> transporte e<br />

comercialização (Figura 1). A causa <strong>de</strong>sta mortalida<strong>de</strong><br />

está relacionada a diversos fatores, tais como: manuseio<br />

incorreto dos animais durante a coleta, realizada dias<br />

antes da entrega para distribuição, quando se utiliza o Figura 1 – Caranguejos-uçá Uci<strong>de</strong>s cordatus<br />

<strong>de</strong>scartados por morte durante o transporte<br />

“cambito”, instrumento que fere o animal; o manuseio<br />

<strong>de</strong>scuidado dos distribuidores, durante a acomodação no meio <strong>de</strong> transporte – os animais são


77<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

amarrados, empilhados e enlonados aos montes em caminhões e posteriormente transportados durante a<br />

noite aos centros consumidores. Com isso muitos animais perecem antes do abate para o consumo, não<br />

sendo aproveitados, e com isso leva os pescadores a extrair mais caranguejos do que o necessário para<br />

aten<strong>de</strong>r a <strong>de</strong>manda do mercado consumidor. A coleta dos caranguejos é feita manualmente por<br />

pescadores nos manguezais e transportados vivos, diariamente, através <strong>de</strong> embarcações motorizadas, à<br />

vela e a remo, até as vilas <strong>de</strong> pescadores (Figura 2).<br />

Figura 2 – Transporte <strong>de</strong> caranguejo-ucá no Delta do Parnaíba: amontoados para embarque em<br />

caminhões (à esquerda) e transportados em embarcações (a direita).<br />

O intermediário é que faz o transporte e a distribuição e a comercialização da mercadoria por sua<br />

conta e risco, sendo os caranguejos transportados para os gran<strong>de</strong>s centros consumidores través <strong>de</strong><br />

caminhões e caminhonetas. Os pontos <strong>de</strong> revenda nos gran<strong>de</strong>s centros urbanos são localizados em<br />

feiras livres, <strong>de</strong>ntro e fora dos mercados públicos, logradouros públicos, bares, restaurantes e em pontos<br />

isolados <strong>de</strong> comercialização <strong>de</strong> pescado. Toda a produção do caranguejo do Brasil é comercializada no<br />

mercado interno, sendo o estado do Ceará um dos principais compradores. O produto é vendido “vivo”,<br />

carne ou massa e a “patola” (quela).<br />

A pesca indiscriminada é outro problema na cata <strong>de</strong> caranguejo-uçá em vários locais do<br />

nor<strong>de</strong>ste do Brasil, observando-se o uso <strong>de</strong> artes predatórias como a “redinha” no Rio Gran<strong>de</strong> do Norte<br />

e a “ratoeira” no Ceará, Rio Gran<strong>de</strong> do Norte e Alagoas. Outro aspecto preocupante é a captura<br />

realizada na época da migração reprodutiva (andada) quando, aumentam o número <strong>de</strong> pescadores na<br />

ativida<strong>de</strong>, principalmente os pescadores “eventuais” que se <strong>de</strong>dicam a esta prática neste período,<br />

<strong>de</strong>vido à facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> captura dos indivíduos.


REGULAMENTAÇÃO<br />

78<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A regulamentação da pesca do caranguejo-uçá no Brasil foi estabelecida pelo IBAMA, a partir <strong>de</strong><br />

1989, visando proteger o estoque juvenil, proibindo a captura <strong>de</strong> indivíduos machos menores <strong>de</strong> 45 mm<br />

<strong>de</strong> comprimento da carapaça e o estoque <strong>de</strong>sovante, não permitindo a pesca <strong>de</strong> fêmeas <strong>de</strong> qualquer<br />

tamanho. No ano <strong>de</strong> 1998 foi estabelecido o primeiro <strong>de</strong>feso da espécie nos estados <strong>de</strong> Espírito Santo,<br />

Rio <strong>de</strong> Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Em 1999 este órgão estabeleceu que na captura do<br />

caranguejo-uçá, somente seria permitida pelo método do “braceamento” (coleta manual), proibindo,<br />

assim o uso <strong>de</strong> aparelhos e arte <strong>de</strong> pesca na fase <strong>de</strong> captura. A partir do ano <strong>de</strong> 2003 o IBAMA proíbe a<br />

captura da fêmea, anualmente, somente no período <strong>de</strong> 1º <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro a 31 <strong>de</strong> maio no estado do Pará e<br />

região Nor<strong>de</strong>ste e <strong>de</strong>lega competência aos gerentes nestes estados para suspen<strong>de</strong>r a captura do<br />

caranguejo-uçá durante o fenômeno da migração reprodutiva (andada, carnaval).<br />

A situação dos estoques do caranguejo-uçá se apresenta com uma elevada taxa <strong>de</strong> explotação, em<br />

algumas regiões do nor<strong>de</strong>ste, principalmente na região do Delta do Rio Parnaíba, nos estados do<br />

Maranhão e Piauí. Observamos também um aumento do esforço <strong>de</strong> pesca, mesmo assim,<br />

provavelmente a captura ainda não entrou no estágio <strong>de</strong> sobrepesca <strong>de</strong>vido ao processo <strong>de</strong> coleta, com<br />

baixo índice <strong>de</strong> participação <strong>de</strong> fêmeas, em <strong>de</strong>corrência da proibição <strong>de</strong> sua pesca e do seu pequeno<br />

valor comercial, e da pequena proporção <strong>de</strong> indivíduos capturados com comprimento abaixo daquele<br />

correspon<strong>de</strong>nte à primeira maturida<strong>de</strong> sexual.<br />

PESQUISAS<br />

A Embrapa Meio-Norte, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o início <strong>de</strong> 2002, vem priorizando a pesquisa aplicada à pesca e<br />

aqüicultura na região Nor<strong>de</strong>ste, através <strong>de</strong> sua Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Execução <strong>de</strong> Pesquisa, em Parnaíba. O<br />

Núcleo Integrado <strong>de</strong> Pesquisa em Aqüicultura e Meio Ambiente da UEP-Parnaíba vem promovendo<br />

ações articuladas com diversos parceiros, incluindo Instituições <strong>de</strong> Pesquisas e Desenvolvimento,<br />

Ensino e Extensão, IBAMA, SEBRAE, Banco do Nor<strong>de</strong>ste, Prefeituras Municipais e Instituições <strong>de</strong><br />

Fomento. Dentre <strong>de</strong>ssas ações, em 2004 <strong>de</strong>u início ao Projeto <strong>de</strong> Sustentabilida<strong>de</strong> do Extrativismo do<br />

caranguejo-uçá no Estado do Piauí, <strong>de</strong>stinado a encontrar formas <strong>de</strong> reduzir a mortalida<strong>de</strong> do animal<br />

durante o processo <strong>de</strong> transporte. Apesar do Projeto já ter conseguido i<strong>de</strong>ntificar as causas das mortes<br />

dos caranguejos, e <strong>de</strong> ter <strong>de</strong>senvolvido alternativas que po<strong>de</strong>m fazer cair as perdas para taxas <strong>de</strong> 0% a<br />

5% durante todo o processo, a EMBRAPA, ainda, não apontou soluções factíveis para solução <strong>de</strong>sse<br />

problema.


CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />

79<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Portanto, a principal preocupação com a sustentabilida<strong>de</strong> da ativida<strong>de</strong> está relacionada com o<br />

ritmo <strong>de</strong> exploração, estrutura ina<strong>de</strong>quada <strong>de</strong> transporte, aliado a <strong>de</strong>gradação ambiental do ecossistema<br />

manguezal, constantemente agredido <strong>de</strong> várias formas, <strong>de</strong>ntre as quais se <strong>de</strong>stacam as seguintes: aterros<br />

motivados pela especulação imobiliária, <strong>de</strong>smatamento para o uso da ma<strong>de</strong>ira, com finalida<strong>de</strong>s<br />

diversas, bem como para implantação <strong>de</strong> culturas <strong>de</strong> arroz, campos para pastagens; poluição <strong>de</strong> origem<br />

doméstica e industrial; ocupação por salinas e projetos <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> camarão. É necessário um trabalho<br />

conjunto e articulados entre as instituições <strong>de</strong> pesquisa, legislação ambiental e <strong>de</strong> fomento visando a<br />

salvaguarda <strong>de</strong> tão importante recurso econômico e principalmente social do litoral do Delta do<br />

Parnaíba.�


II - ARTIGOS CIENTÍFICOS<br />

80<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

ÁREAS POTENCIAIS PARA A AQÜICULTURA SUSTENTÁVEL NA BACIA DO<br />

RIO ITAPECURU: BASES PARA O PLANEJAMENTO COM USO DO SISTEMA<br />

DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA<br />

Haroldo Gomes BARROSO (hgbarroso@uol.com.br)<br />

Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />

Antônio <strong>de</strong> Pádua SOUSA<br />

Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Estadual <strong>de</strong> São Paulo<br />

RESUMO<br />

As áreas mais a<strong>de</strong>quadas para o implemento <strong>de</strong> projetos aqüícolas sustentáveis, na bacia do rio<br />

Itapecuru, foram selecionadas a partir da sinergia <strong>de</strong> parâmetros que tornam a aqüicultura uma<br />

ativida<strong>de</strong> capaz <strong>de</strong> gerar benefícios econômicos como: elevar o nível <strong>de</strong> inclusão social <strong>de</strong> gran<strong>de</strong><br />

parcela <strong>de</strong> seus habitantes; melhorar o grau <strong>de</strong> conforto a seus usuários; propiciar maior usufruto <strong>de</strong><br />

mananciais <strong>de</strong> água integrantes da bacia; alertar para a importância dos estudos das bacias nacionais,<br />

visando o planejamento da aqüicultura responsável. O planejamento e execução <strong>de</strong>ste trabalho foram<br />

motivados pela necessida<strong>de</strong> mundial <strong>de</strong> preservar o meio ambiente, em particular, os sistemas<br />

aquáticos. A bacia é composta por uma contingência <strong>de</strong> problemas que tiveram início em sua<br />

colonização, marcada pelo latifúndio e exploração ina<strong>de</strong>quada <strong>de</strong> seus recursos naturais, apesar <strong>de</strong> sua<br />

gran<strong>de</strong> importância ao Estado do Maranhão. Exibe um quadro <strong>de</strong> difícil diagnóstico em função da<br />

escassez <strong>de</strong> dados seguros para seu planejamento sustentável, principalmente das ativida<strong>de</strong>s produtivas<br />

que <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m do binômio água/uso da terra. A viabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sse trabalho ocorreu com a utilização da<br />

metodologia do Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica (SIG) que selecionou um total <strong>de</strong> 16.768,64 km² <strong>de</strong><br />

áreas com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s entre 0% e 3%, das quais 9.122 km² foram enquadradas segundo os atributos<br />

admitidos para escolha <strong>de</strong> áreas propícias para a instalação <strong>de</strong> projetos e programas <strong>de</strong> aqüicultura.<br />

10% <strong>de</strong>ssa área foram <strong>de</strong>stinadas a aten<strong>de</strong>r mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> gestão cujos efluentes produzidos na<br />

aqüicultura sejam utilizados pela agricultura perene ou temporária nos 90% das áreas eleitas por classes<br />

<strong>de</strong> pon<strong>de</strong>ração da seguinte forma: 8,68 km² excelente; 351.82 km² muito boa; 48.62 km² boa; 122.83<br />

km² regular; 237.59 km² ruim e 142.66 km² com restrições técnicas. Os estudos apontaram o baixo<br />

curso da bacia do rio Itapecuru como a área que reúne maiores chances para o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />

aqüicultura sustentável.<br />

PALAVRAS-CHAVE: Bacia do rio Itapecuru, Aqüicultura sustentável, Sistema <strong>de</strong> Informação Geográfica


ABSTRACT<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

The adjusted areas more for implement it of sustainable aquatic programs, in the basin of the river<br />

Itapecuru, had been selected from the synergya of parameters that become the aquaculture an activity<br />

capable to generate economic benefits as: to raise the level of social inclusion of great parcel of its<br />

inhabitants; to improve the comfort <strong>de</strong>gree its users, to propitiate greater fruition of water integrant<br />

sources of the basin; to alert for the importance of the studies of the national basins, aiming at the<br />

planning of the responsible aquaculture.The planning and execution of this work had been motivated<br />

by the world-wi<strong>de</strong> necessity to preserve the environment, in particular, the aquatic systems. The basin<br />

is composed for a contingency of problems that had had beginning in settling, marked for the large<br />

state and ina<strong>de</strong>quate exploration of natural resources, although its great importance to the State of the<br />

Maranhão. It shows a picture of difficult diagnosis in function of the scarcity of safe data for<br />

sustainable planning, mainly of the productive activities that <strong>de</strong>pend on the use of the water and<br />

land.The viability of this work counted of the use of the methodology of the Geografic Information<br />

System (SIG) that km² of areas with <strong>de</strong>clivities in the interval between 0% and 3% selected a total of<br />

16.768,64, of which 9,122 km² had been fit according to attributes admitted for choice of propitious<br />

areas for the installation of projects and programs of aquaculture. 10% of this area had been <strong>de</strong>stined to<br />

take care of management mo<strong>de</strong>ls whose effluent produced in the aquaculture they are used by perennial<br />

or temporary agriculture in 90% of the elect areas for classrooms of balance following the form: 8,68<br />

km² excellent; 351.82 km² very good; 48.62 km² good; 122.83 km² to regulate; 237.59 km² bad and<br />

142,66 km² with restrictions techniques. The studies had pointed the low course of the basin of the river<br />

Itapecuru as the area that congregates greaters possibilities for the <strong>de</strong>velopment of the sustainable<br />

aquaculture.<br />

WORDS KEY: Basin of the river Itapecuru, sustainable aqüicultura, Geografic Information System.<br />

INTRODUÇÃO<br />

A produção <strong>de</strong> pescado mundial, em 2002, foi da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 142 milhões <strong>de</strong> toneladas, sendo 96 milhões<br />

oriundos da captura e 45 milhões da aqüicultura. A produção da pesca extrativa encontra-se estagnada, tendo<br />

atingido seu limite sustentável <strong>de</strong> produção. Em contrapartida, a produção proveniente da aqüicultura vem<br />

ganhando importância na oferta total <strong>de</strong> pescados, com crescimento mundial médio <strong>de</strong> 7% ao ano, nos últimos<br />

cinco anos. Mesmo com essa expansão da produção aqüícola, projeta-se para o ano <strong>de</strong> 2010 um déficit <strong>de</strong> 25<br />

milhões <strong>de</strong> t/ano <strong>de</strong> pescados, consi<strong>de</strong>rando-se uma expansão da <strong>de</strong>manda mundial compatível com o atual<br />

consumo per capita <strong>de</strong> 14 kg/ano(FAO, 2003).


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O Brasil, apesar <strong>de</strong> <strong>de</strong>ter um dos maiores aportes <strong>de</strong> variadas classes <strong>de</strong> água do mundo, produziu, em<br />

2002, 985 mil toneladas <strong>de</strong> pescado e apresentou um consumo per capita <strong>de</strong> apenas 5,7 kg/ano, média muito<br />

inferior à mundial, (IBAMA, 2002).<br />

Aqüicultura é o processo <strong>de</strong> produção em cativeiro <strong>de</strong> organismos com habitat predominantemente<br />

aquático, em qualquer estágio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento, ou seja: ovos, larvas, pós-larvas, juvenis ou adultos. De<br />

acordo com a FAO, três fatores caracterizam essa ativida<strong>de</strong>: o organismo produzido é aqüícola, existe um<br />

manejo visando a produção, e a criação tem um proprietário, isto é, não é um bem coletivo como são as<br />

populações exploradas pela pesca (RANA, 1997).<br />

A aqüicultura mo<strong>de</strong>rna está embasada em três pilares: a produção lucrativa, a preservação do meio<br />

ambiente e o <strong>de</strong>senvolvimento social. Os três componentes são essenciais e indispensáveis para que se possa ter<br />

uma ativida<strong>de</strong> perene. A produção <strong>de</strong>ve ser entendida como um processo amplo, que envolve toda a ca<strong>de</strong>ia<br />

produtiva. A simples criação dos organismos não é suficiente para o estabelecimento da ativida<strong>de</strong>, <strong>de</strong> forma<br />

lucrativa e permanente, como <strong>de</strong>ve ser qualquer empresa. Todos os elementos da ca<strong>de</strong>ia têm seu papel e<br />

qualquer elo fraco limitará o <strong>de</strong>senvolvimento da ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> forma geral (VALENTI et al., 2000).<br />

O Estado do Maranhão, integrante da Amazônia Legal, ocupa no Nor<strong>de</strong>ste uma posição privilegiada<br />

com relação ao seu potencial hídrico. Possui nove bacias hidrográficas formadas por rios perenes, complexos<br />

lacustres em planícies <strong>de</strong> inundação, inúmeras pequenas bacias em sua costa oci<strong>de</strong>ntal repleta <strong>de</strong> exuberantes<br />

manguezais; na costa oriental, lagoas temporárias e nas regiões <strong>de</strong> dunas formando os lençóis maranhenses<br />

(IBGE, 1998).<br />

O rio Itapecuru, escolhido para esse trabalho, por sua importância vital ao Estado do Maranhão, o mais<br />

extenso, e sua bacia <strong>de</strong> contribuição ocupa o segundo lugar em extensão no Estado. Divi<strong>de</strong>-se fisiograficamente<br />

em três níveis (alto, médio e baixo curso), atravessa várias unida<strong>de</strong>s litoestratificadas e diversas divisões<br />

geomorfológicas se caracterizando como um rio <strong>de</strong> planície.<br />

A bacia hidrográfica do rio Itapecuru encontra-se geologicamente localizada na porção oriental da<br />

plataforma Sul-Americana, na Província Estrutural do rio Parnaíba. Constitui-se <strong>de</strong> uma faixa <strong>de</strong> direção<br />

dominante Norte-Sul, formada por rochas, na maioria sedimentar, <strong>de</strong> bacia Introcratônica do rio Parnaíba e da<br />

bacia marginal <strong>de</strong> São Luís (ALMEIDA et al., 1997).<br />

O rio Itapecuru nasce nos contrafortes das serras da Crueira, do Itapecuru e do rio Alpercatas, a 500m <strong>de</strong><br />

altitu<strong>de</strong>, percorrendo 1.090 km, até sua <strong>de</strong>sembocadura na baía do Arraial, ao sul da ilha <strong>de</strong> São Luís (IBGE,<br />

1998). Limita-se a sul e ao leste pela bacia hidrográfica do rio Parnaíba, pela serra do Itapecuru, chapada do<br />

Azeitão entre outras pequenas elevações, a oeste e a su<strong>de</strong>ste com a bacia do rio Mearim e a nor<strong>de</strong>ste com a bacia<br />

do rio Munim.<br />

A aqüicultura praticada na bacia do rio Itapecuru, apesar <strong>de</strong> empírica, é responsável por 40% do pescado<br />

consumido na região, on<strong>de</strong> se registrou 22 criadores, cultivando principalmente o tambaqui (Colossoma<br />

macropomum), tilápia (Oreochromis spp), carpa (Cyprinus carpio), curimatá (Prochilodus spp), bagre-africano


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(Clarias gariepinus), camarão-gigante-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), camarão-marinho (Litopenaeus<br />

vannamei) e rã (Rana catesbeiana) (PEREIRA et al., 2000).<br />

O estado do Maranhão criou a Agência Estadual <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura em 2002, para se<br />

a<strong>de</strong>quar ao mo<strong>de</strong>lo fe<strong>de</strong>ral que criou a Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong> da Presidência da<br />

República-SEAP/PR, objetivando o planejamento e or<strong>de</strong>namento <strong>de</strong>sse setor produtivo com<br />

representação regional e estadual, em fase <strong>de</strong> estruturação.<br />

A crescente expansão das ativida<strong>de</strong>s antrópicas sobre o meio ambiente tem gerado aumento expressivo<br />

da <strong>de</strong>manda por tecnologias <strong>de</strong> manejo ambiental (TROTTER, 1991). A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mapeamento, manejo e<br />

monitoramento dos recursos naturais renováveis e não renováveis tem resultado na evolução tecnológica dos<br />

Sistemas <strong>de</strong> Informação Geográfica (SIG). Tais sistemas, utilizados inicialmente apenas no auxílio à elaboração<br />

<strong>de</strong> mapas, vêm sendo cada vez mais utilizados no auxílio <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> informações e tomadas <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões.<br />

Em um SIG a apresentação <strong>de</strong> dados tem papel relevante na extração <strong>de</strong> informações. Ela é usada para<br />

visualizar o problema, possibilitando observar, manipular e estudar os relacionamentos geográficos envolvidos, e<br />

também po<strong>de</strong> apresentar alternativas à solução do problema consi<strong>de</strong>rado (EGENHOFER, 1990). Tais técnicas<br />

têm avançado significativamente nesta última década e sua importância tem estabelecido papel relevante para o<br />

gerenciamento <strong>de</strong> recursos.<br />

A tecnologia do SIG emprega, na maioria <strong>de</strong> suas aplicações, um banco <strong>de</strong> dados para armazenagem e<br />

recuperação <strong>de</strong> informações, o qual po<strong>de</strong> também ser aproveitado para gerar outras formas <strong>de</strong> análises <strong>de</strong> dados e<br />

facilitar a tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões. As informações capazes <strong>de</strong> serem extraídas <strong>de</strong> um banco <strong>de</strong> dados dificilmente<br />

po<strong>de</strong>m ser obtidas examinando-se apenas a parte gráfica dos dados, ou seja, mapas contidos no SIG.<br />

Informações complementares po<strong>de</strong>m ser utilizadas por um SIG <strong>de</strong> modo a possibilitar novas formas <strong>de</strong><br />

apresentação e análise <strong>de</strong> dados.<br />

Com a <strong>de</strong>ficiência <strong>de</strong> informações citadas em Pereira et al. (2000) levantou-se a hipótese <strong>de</strong> que somente<br />

se disponibilizando <strong>de</strong> ferramentas científicas para o planejamento da aqüicultura sustentável, a bacia do Rio<br />

Itapecuru certamente experimentará o equilíbrio ecológico e sócio-econômico.<br />

Caso haja o incremento da aqüicultura sustentável na área em estudo, serão eliminados os<br />

<strong>de</strong>smatamentos ciliares; haverá um aumento na oferta <strong>de</strong> alimentos protéicos, da lâmina d’água, da evaporação e<br />

da umida<strong>de</strong> relativa do ar, da recarga dos mananciais; minimização dos riscos <strong>de</strong> queimadas; um crescente grau<br />

<strong>de</strong> conforto aos usuários e conseqüentemente um maior nível <strong>de</strong> inclusão social.<br />

Este trabalho objetivou <strong>de</strong>terminar macro áreas propícias à prática da aqüicultura sustentável, sem<br />

egessar a produção <strong>de</strong> pescado na bacia do Rio Itapecuru, apontando mo<strong>de</strong>los capazes <strong>de</strong> alavancar a ativida<strong>de</strong><br />

como a melhor alternativa na promoção do emprego e renda à maioria da população rural ribeirinha,<br />

promovendo uma socioeconômica equilibrada da área em estudo.


GEOMORFOLOGIA<br />

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Os fatores como característicos da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> drenagem, a compartimentação, as formas <strong>de</strong> relevo e a<br />

navegabilida<strong>de</strong> formaram um conjunto <strong>de</strong> critérios adotados pela SUDENE para dividir a bacia do rio Itapecuru<br />

em três níveis fisiográficos: alto curso, médio curso e baixo curso (BIZERRA, 1984).<br />

Os limites e características <strong>de</strong> cada trecho da bacia são:<br />

• Alto Itapecuru: Compreen<strong>de</strong> toda a bacia <strong>de</strong> contribuição a montante da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Colinas, on<strong>de</strong><br />

recebe as águas <strong>de</strong> seu maior tributário, o rio Alpercatas, com predominância dos chapadões, chapadas e<br />

cuestas, relevo forte ondulado compondo as partes mais elevadas da bacia com as serras do Itapecuru, do<br />

Alpercatas, da Crueira e da Boa Vista.<br />

• Médio Itapecuru: Compreen<strong>de</strong> o trecho entre os municípios <strong>de</strong> Colinas a Caxias, apresentando uma<br />

situação morfológica <strong>de</strong>nominada testemunhos, on<strong>de</strong> predomina o relevo <strong>de</strong> chapadas baixas e uma<br />

superfície variando <strong>de</strong> suave ondulado a forte ondulada, com uma diferença <strong>de</strong> altitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> 60m.<br />

• Baixo Itapecuru: Compreen<strong>de</strong> o trecho entre os municípios <strong>de</strong> Caxias até a foz, na baia do Arraial.<br />

Essa área possui uma geomorfologia caracterizada pela presença da superfície maranhense com testemunho<br />

e na sua foz pelo Golfão Maranhense, com um relevo <strong>de</strong> superfície suave ondulado, originário<br />

principalmente da Formação Itapecuru do Cretáceo.<br />

HIDROLOGIA<br />

Os rios da bacia do Itapecuru drenam os terrenos sedimentares da bacia do rio Parnaíba, composto<br />

principalmente pelas seqüências <strong>de</strong> arenitos, siltitos, folhelos e argilitos, on<strong>de</strong> a ocorrência <strong>de</strong> falhas e fraturas<br />

direcionam o curso dos mesmos. Devido a isto, as perspectivas no que dizem respeito às suas reservas em águas<br />

subterrâneas são relativamente promissoras. Os principais sistemas aqüíferos são as formações: Mutuca,<br />

Sambaíba, Corda e Itapecuru. Em conjunto, essas formações po<strong>de</strong>m ser consi<strong>de</strong>radas como um único sistema<br />

aqüífero livre, localmente com potências em carga nas áreas on<strong>de</strong> são sobrepostas por formações impermeáveis<br />

que são: Pedra <strong>de</strong> Fogo, Pastos Bons e Codó (IBGE, 1998; PETRI; FULFARO, 1988; TUCCI, 2001).<br />

A bacia hidrográfica do rio Itapecuru é falciforme, cuja concavida<strong>de</strong> está voltada em direção Oeste, para<br />

o vale do Mearim. É uma bacia irregular, estreita nas nascentes e na <strong>de</strong>sembocadura, alargando-se na parte<br />

central, on<strong>de</strong> atinge aproximadamente 120 km. A re<strong>de</strong> <strong>de</strong> drenagem distribui-se em padrão geral<br />

aproximadamente paralelo no alto curso, embora uma tendência <strong>de</strong>ntrítica se revele cada vez mais à medida que<br />

vai atingindo o baixo curso (IBGE, 1998).<br />

Corre no sentido Oeste-Leste das nascentes até o povoado <strong>de</strong> Várzea do Cerco, 25 km à<br />

montante da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mirador, tomando rumo norte ao <strong>de</strong>slocar-se sobre os chapadões do alto curso<br />

até receber seu maior <strong>de</strong>positário o Rio Alpercatas, que contribui com 2/3 <strong>de</strong> seu volume em sua<br />

<strong>de</strong>sembocadura. Muda <strong>de</strong> direção para nor<strong>de</strong>ste até receber o rio Corrente, mudando bruscamente sua<br />

direção para o sentido nor<strong>de</strong>ste, tracejando um longo contorno, no município <strong>de</strong> Caxias. Apesar <strong>de</strong>


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apresentar algumas inflexões, se mantém na mesma direção até sua <strong>de</strong>sembocadura na baia do Arraial<br />

por dois braços, o Tucha como principal e o Mojó como secundário.<br />

Um problema que acomete a bacia do rio Itapecuru são os esgotos. O esgotamento, da maioria das<br />

cida<strong>de</strong>s brasileiras, é feito a céu aberto e os resíduos normalmente são conduzidos a um corpo d’água que recebe<br />

o esgoto in natura. Uma gran<strong>de</strong> metrópole tem um efeito poluidor das águas que po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>tectado a centenas<br />

<strong>de</strong> quilômetros rio abaixo, comprometendo seu uso em outros povoamentos nas ativida<strong>de</strong>s humanas que<br />

<strong>de</strong>pendam da água bruta. A poluição industrial também contribui com diversos tipos <strong>de</strong> poluentes orgânicos e<br />

inorgânicos que <strong>de</strong>gradam a qualida<strong>de</strong> da água. Alguns possuem alta toxida<strong>de</strong> e periculosida<strong>de</strong> para os<br />

organismos aquáticos e para o consumo humano.<br />

Além <strong>de</strong>ste, a agropecuária se constitui em mais um responsável pela <strong>de</strong>gradação da bacia do rio<br />

Itapecuru, com gran<strong>de</strong>s queimadas como conseqüência da pecuária e, principalmente, do extrativismo vegetal<br />

para a produção <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira e, <strong>de</strong> significativa produção <strong>de</strong> carvão vegetal.<br />

ASPECTOS QUANTITATIVOS DA ÁGUA<br />

A disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água no alto curso do rio Itapecuru até o <strong>de</strong>flúvio do rio Alpercatas é <strong>de</strong> 17,6m.s -1 ,<br />

em média, dado que limita o uso da água em gran<strong>de</strong>s projetos hidroagrícolas, não significando sua vasta<br />

utilização em projetos sustentáveis, embora o acompanhamento técnico responsável se torna um requisito básico.<br />

A partir do município <strong>de</strong> Colinas, on<strong>de</strong> o aporte fluvial triplica a oferta <strong>de</strong> água já qualifica essa área<br />

para maiores <strong>de</strong>mandas por parte <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> maiores proporções no uso <strong>de</strong> água.<br />

A oferta <strong>de</strong> água na bacia do rio Itapecuru para múltiplos usos apontou uma bacia <strong>de</strong> médio porte, que<br />

apesar da inexistência <strong>de</strong> um completo cadastramento do uso <strong>de</strong> suas águas não há indícios do comprometimento<br />

da oferta <strong>de</strong> água bruta para seus usuários, mesmo assim, faz-se necessário seu controle na perspectiva <strong>de</strong> sua<br />

preservação como bem público e <strong>de</strong> duração finita (IBGE, 1998).<br />

CLASSIFICAÇÃO CLIMÁTICA<br />

As combinações diversas dos processos atmosféricos produzem um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> tipos climáticos, o<br />

que se aplica à bacia do rio Itapecuru como área <strong>de</strong> transição <strong>de</strong> macroclimas da região Amazônica com alta<br />

umida<strong>de</strong> e da região Nor<strong>de</strong>stina com baixa umida<strong>de</strong>.<br />

A classificação climática distribui em diferentes tipos climáticos a bacia do Itapecuru. O Clima<br />

predominante na bacia é o sub-úmido seco, seguido do sub-úmido e Úmido na interface com áreas marinhas <strong>de</strong><br />

altas pluviosida<strong>de</strong>s. Os maiores excessos pluviométricos ocorrem entre janeiro e maio (período chuvoso) e com<br />

maiores <strong>de</strong>ficiências <strong>de</strong> julho a setembro (período seco).<br />

TEMPERATURA E UMIDADE RELATIVA DO AR<br />

A variação da temperatura na bacia do rio Itapecuru tem uma amplitu<strong>de</strong> média muito pequena, não<br />

ultrapassando a 4°C, variando <strong>de</strong> 25°C a 28°C na maioria da referida bacia, sendo registradas médias <strong>de</strong> 27°C no


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baixo Itapecuru e nos município <strong>de</strong> Caxias e Codó, registrando-se menores médias no alto curso do rio<br />

Itapecuru, com 25°C. Essa baixa temperatura está relacionada com a latitu<strong>de</strong> e a altitu<strong>de</strong> do local.<br />

A umida<strong>de</strong> relativa do ar na bacia do rio Itapecuru varia em média entre 70 a 82%, registrando-se<br />

maiores índices no litoral. O período <strong>de</strong> maior umida<strong>de</strong> é <strong>de</strong> janeiro a maio com médias <strong>de</strong> 85%, as áreas com<br />

menores índices são as mais próximas da bacia do rio Parnaíba.<br />

PRECIPITAÇÃO PLUVIOMÉTRICA<br />

É a variável climática que apresenta maior variabilida<strong>de</strong>, tanto espacial como temporal. Através do<br />

conhecimento da distribuição da precipitação pluviométrica, anual e mensal, po<strong>de</strong>-se ter noção do potencial<br />

hídrico disponível ao longo do ano na referida bacia. Essas informações são imprescindíveis para todos os<br />

setores da economia, principalmente para projetos hidroagrícolas. Os valores médios <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong>monstram<br />

uma diferença <strong>de</strong> amplitu<strong>de</strong> média <strong>de</strong> precipitações na bacia do rio Itapecuru entre a mínima e máxima <strong>de</strong> 1600<br />

mm (INSTITUTO DO HOMEM, 1992).<br />

USO E OCUPAÇÃO DA TERRA<br />

Segundo o Instituto do Homem (1992), um fato que tem agravado este problema é a má distribuição<br />

fundiária, ficando as terras mais férteis à disposição <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s latifúndios, com explorações <strong>de</strong> monoculturas<br />

principalmente do arroz, como primeira cultura para em seguida serem transformados em pastos;<br />

conseqüentemente, os pequenos e médios produtores acabam sendo <strong>de</strong>slocados para áreas ina<strong>de</strong>quadas, mais<br />

pobres, on<strong>de</strong> se dá um outro processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>vastação, seja pela exploração da ma<strong>de</strong>ira ou implantação <strong>de</strong><br />

agricultura nôma<strong>de</strong>.<br />

UNIDADES DE CONSERVAÇÃO E ÁREAS AFINS<br />

A maior reserva da bacia é o Parque Estadual do Mirador, com 500.000 ha nas nascentes e a formação<br />

dos primeiros córregos que constituem o curso principal, visa a proteção do ecossistema do alto curso do rio.<br />

As outras Áreas <strong>de</strong> Preservação Ambiental instituída na bacia são a do Upaon-Açu/Miritiba/Alto<br />

Preguiça (<strong>de</strong> acordo com o Código Florestal, CONAMA, Código <strong>de</strong> Águas, Código <strong>de</strong> Proteção do Meio<br />

Ambiente do Maranhão, Lei do Babaçu), que na verda<strong>de</strong> está contida na bacia do rio Itapecuru apenas nas<br />

proximida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> sua <strong>de</strong>sembocadura, fronteiriça à bacia do rio Munim.<br />

Foram constatadas pelo Instituto do Homem (1992) agressões às matas ciliares, às bordas <strong>de</strong> chapadas e<br />

<strong>de</strong>smatamentos indiscriminados, inclusive em nascentes e babaçuais. Fatos do cotidiano na bacia do rio<br />

Itapecuru acentuam ainda mais com o uso indiscriminado <strong>de</strong> <strong>de</strong>fensivos agrícolas, <strong>de</strong>spejos urbanos e industriais<br />

em todo o seu curso (INSTITUTO DO HOMEM, 1992; IBGE, 1998).<br />

ORGANIZAÇÃO SOCIAL DA POPULAÇÃO NA BACIA<br />

A população da bacia do rio Itapecuru é resultante da ocupação pelos primitivos indígenas, portugueses,<br />

africanos e franceses, passando por variados regimes como em todo Brasil, registrado em sua história como


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palco <strong>de</strong> conflitos, a exemplo da guerra da Balaiada que teve seu maior foco <strong>de</strong> resistência no município <strong>de</strong><br />

Caxias, no limite do alto e médio curso da Bacia em estudo. Outro marcante episódio foi marcado pela passagem<br />

da Coluna Prestes em <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1925 nos municípios <strong>de</strong> Colinas e Mirador, no alto curso do Itapecuru<br />

(IBGE, 1998). A consolidação da atual estrutura político-administrativa da bacia do rio Itapecuru se <strong>de</strong>u no<br />

século passado, nas décadas <strong>de</strong> 40 e 50, pela emancipação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> municípios.<br />

A política implementada a partir <strong>de</strong> 1970, incentivando a instalação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s projetos agropecuários,<br />

aumentou a concentração <strong>de</strong> terra. Esse processo causou a <strong>de</strong>sestruturação social e econômica <strong>de</strong> milhares <strong>de</strong><br />

famílias, obrigadas a migrarem para as zonas urbanas ou outras regiões (IBGE, 1998).<br />

As práticas políticas na bacia do Itapecuru ainda são consi<strong>de</strong>radas colonialistas pelos estudos do IBGE<br />

(1998), com imensos latifúndios improdutivos. Os agricultores, em sua maioria, são parceiros ou arrendatários<br />

refletindo no menor Índice <strong>de</strong> Desenvolvimento Humano-IDH da fe<strong>de</strong>ração, segundo relatório da ONU/2003,<br />

(JORNAL NACIONAL, 2003).<br />

CONCEITOS SOBRE SUSTENTABILIDADE<br />

Segundo Sachs (1993), para que o <strong>de</strong>senvolvimento seja sustentável, é preciso que ele contemple pelo<br />

menos os pontos a seguir:<br />

• Ativida<strong>de</strong> seja economicamente viável;<br />

• Socialmente justa, contribuindo para a redução das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s e para a eliminação das injustiças;<br />

• Consi<strong>de</strong>ração ecológica, a perda da qualida<strong>de</strong> ambiental e a <strong>de</strong>gradação dos ecossistemas, não sejam<br />

o preço a ser pago, comprometendo a perenida<strong>de</strong> da vida;<br />

• Imperativo da eqüida<strong>de</strong> espacial, ou a importância <strong>de</strong> se evitarem as concentrações ou aglomerações<br />

que, pela lógica das economias <strong>de</strong> escala, acabam resultando em <strong>de</strong>seconomias <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida e em<br />

distribuição <strong>de</strong>sigual das oportunida<strong>de</strong>s;<br />

• Cultura: as características <strong>de</strong> cada grupo social <strong>de</strong>vem ser preservadas frente à avassaladora<br />

tendência homogeneizadora dos padrões <strong>de</strong> produção e consumo, que viola e <strong>de</strong>scaracteriza i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s;<br />

• Político-institucional, que na atual crise do Estado, em todo o mundo, cujas raízes têm características<br />

diferenciadas em cada país, mas que tem se manifestado na esfera das finanças públicas, tem fragilizado e<br />

<strong>de</strong>slegitimado o papel regulador do po<strong>de</strong>r público, abrindo espaço para que a conjuntura <strong>de</strong> mercado<br />

prevaleça como regulador.<br />

CONCEITOS SOBRE SIG<br />

Um SIG é baseado em computador que permite capturar, mo<strong>de</strong>lar, manipular, recuperar, consultar,<br />

analisar, e apresentar dados geograficamente referenciados (CÂMARA NETO, 1995). A tecnologia do SIG po<strong>de</strong><br />

trazer enormes benefícios <strong>de</strong>vido à sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manipular a informação georeferenciada <strong>de</strong> forma precisa,<br />

rápida e sofisticada (GOODCHILD et al., 1993).


88<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Na década <strong>de</strong> 80 do Século XX, o uso do SIG, tornou-se comum nas empresas, universida<strong>de</strong>s e agências<br />

governamentais, e atualmente diversos profissionais o utilizam para as mais variadas aplicações. Essa<br />

diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> usos e aplicações fez surgir várias <strong>de</strong>finições do SIG, tais como:<br />

• conjunto po<strong>de</strong>roso <strong>de</strong> ferramentas para coletar, armazenar, recuperar, transformar e visualizar dados<br />

sobre o mundo real (BURROUGH, 1987);<br />

• banco <strong>de</strong> dados in<strong>de</strong>xados espacialmente, sobre o qual opera um conjunto <strong>de</strong> procedimentos para<br />

respon<strong>de</strong>r as consultas sobre entida<strong>de</strong>s espaciais (SMITH et al., 1987);<br />

• sistema <strong>de</strong> suporte à <strong>de</strong>cisão que integra dados referenciados espacialmente num ambiente <strong>de</strong><br />

respostas a problemas (COWEN, 1988);<br />

• conjunto manual ou computacional <strong>de</strong> procedimentos utilizados para armazenar e manipular dados<br />

georeferenciados (ARONFF, 1989).<br />

Essas <strong>de</strong>finições <strong>de</strong> SIG refletem, cada uma à sua maneira, a multiplicida<strong>de</strong> <strong>de</strong> usos e visões possíveis<br />

<strong>de</strong>sta tecnologia e apontam para uma perspectiva interdisciplinar <strong>de</strong> sua utilização. Atualmente algumas <strong>de</strong> suas<br />

aplicações incluem temas como aqüicultura, agricultura, florestas, cartografia, geologia, cadastro urbano, re<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

concessionárias (água, energia e telefone), <strong>de</strong>ntre outras (STAR; ESTES, 1990).<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

A bacia hidrográfica do rio Itapecuru situa-se na parte centro-leste do Estado do Maranhão, entre as<br />

coor<strong>de</strong>nadas <strong>de</strong> 21°51’ a 06°56’ <strong>de</strong> Latitu<strong>de</strong> S e 43°02’ a 45°58’ <strong>de</strong> Longitu<strong>de</strong> W, Abrange uma área 54.300<br />

km², que correspon<strong>de</strong> a 16,7% da área do Estado (IBGE, 1998).<br />

A pesquisa teve duas etapas distintas: (1) avaliação do potencial para o <strong>de</strong>senvolvimento do projeto; (2)<br />

coleta dos dados <strong>de</strong> campo.<br />

ORDENAMENTO METODOLÓGICO<br />

A abordagem metodológica para realização <strong>de</strong> estudos em bacias hidrográficas, propostas por Pires e<br />

Santos (1995), <strong>de</strong>finem o planejamento ambiental como um processo <strong>de</strong> planificação que busca soluções para os<br />

problemas e as necessida<strong>de</strong>s humanas, visando metas e objetivos: maximização da qualida<strong>de</strong> ambiental,<br />

produção sustentada com o <strong>de</strong>senvolvimento e aproveitamento dos recursos naturais <strong>de</strong>ntro dos limites da<br />

capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> suporte ambiental e da minimização dos riscos a impactos ambientais.<br />

As bases para elaboração <strong>de</strong> um projeto integrado <strong>de</strong> manejo <strong>de</strong> bacias hidrográficas (ARÉVALOS,<br />

1998), são as seguintes:<br />

• Unificação <strong>de</strong> métodos e <strong>de</strong> planejamento <strong>de</strong> propostas <strong>de</strong> ação e <strong>de</strong> investigação, originadas a partir<br />

dos problemas e limitações da região;<br />

• Confecção <strong>de</strong> mapas geoecológicos e;<br />

• Planejamento e zoneamento ambientais.


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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Segundo Ballester et al., (1995), para o manejo <strong>de</strong> um complexo ambiental é necessário um<br />

conhecimento <strong>de</strong>talhado das variações espaços-temporais dos fatores naturais e antrópicos que atuam sobre o<br />

mesmo. A união <strong>de</strong> tais dimensões, permitindo o processamento simultâneo <strong>de</strong> dados, <strong>de</strong>ssa forma, tem sido<br />

possibilitada pelos SIG, <strong>de</strong>finidos como tecnologias para investigação dos fenômenos ambientais que combinam<br />

os avanços tecnológicos da cartografia e banco <strong>de</strong> dados automatizados, o sensoriamento remoto e a mo<strong>de</strong>lagem.<br />

As informações <strong>de</strong> caráter sinergético resultantes do emprego <strong>de</strong>ssas ferramentas têm auxiliado na formulação <strong>de</strong><br />

propostas <strong>de</strong> manejo.<br />

O SIG foi a principal ferramenta utilizada para análise espacial das informações geradas para esse<br />

trabalho, por ser um sistema <strong>de</strong> coleta, armazenamento, checagem, manipulação, análise e disponibilização <strong>de</strong><br />

informações espaciais in<strong>de</strong>xadas, sobre as quais várias perguntas po<strong>de</strong>m ser interpretadas, respondidas e<br />

visualizadas, através <strong>de</strong> cruzamentos <strong>de</strong> informações criando uma imagem final.<br />

Dessa forma, foram utilizadas imagens geradas pelo IBGE (1998), na Escala <strong>de</strong> 1:250.000 e 1:180.000,<br />

geoprocessadas posteriormente com agregação <strong>de</strong> novos dados bibliográficos, 360 entrevistas utilizando<br />

formulários semi-estruturados, nas cida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>: Sucupira do Norte, Mirador, Colinas, Caxias, Codó, Timbiras,<br />

Coroatá, Cantanhê<strong>de</strong>, Itapecuru Mirim, Santa Rita, Bacabeira e Rosário; doze expedições para avaliação <strong>de</strong><br />

impactos ambientais, quatro para investigação dos parâmetros físicos e químicos da água do rio Itapecuru e três<br />

seminários sobre o aproveitamento <strong>de</strong> ecossistemas fluviais sustentáveis.<br />

Os parâmetros físicos medidos <strong>de</strong> maior importância para a aqüicultura foram a transparência e a<br />

temperatura, medidos com disco <strong>de</strong> Sechi e termômetro digital YSI do kit F1003.<br />

Utilizando-se o kit F1003, foram feitas medições diretas dos principais parâmetros exigidos para o bom<br />

<strong>de</strong>sempenho da aqüicultura (O2, CO2, pH, Condutivida<strong>de</strong> elétrica, Nitrato, Nitrito, Amônia, Alcalinida<strong>de</strong>,<br />

Fósforo e Silicato), na superfície, meio e fundo, a montante e jusante <strong>de</strong> oito municípios ribeirinhos (Mirador,<br />

Colinas, Caxias, Codó, Coroatá, Itapecuru Mirim, Cantanhê<strong>de</strong> e Rosário). A Alcalinida<strong>de</strong> foi obtida por titulação<br />

<strong>de</strong> acordo com o método <strong>de</strong>scrito por (MACHERETH et al., 1978).<br />

Para <strong>de</strong>terminação dos nutrientes, amostras brutas e filtradas foram congeladas a -20ºC e, posteriormente<br />

analisadas para fósforo total (VALDERRAMA, 1981), nitrato, nitrato e amônia (KOROLEFF, 1976), fósforo<br />

inorgânico dissolvido, silicatos e cloretos (GOLDERMAN et al., 1978).<br />

O fator solo ao ser relacionado a aqüicultura se subenten<strong>de</strong> como um conjunto <strong>de</strong> fatores que interfiram<br />

nos sistemas <strong>de</strong> cultivo, proporções <strong>de</strong> áreas a serem utilizadas continuamente e economia do empreendimento,<br />

para em seguida a<strong>de</strong>quar-se às questões legais, técnicas globais e localizadas. No advento da mo<strong>de</strong>rnida<strong>de</strong> hoje,<br />

a tipologia <strong>de</strong> solo está mais intimamente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do sistema <strong>de</strong> cultivo, economia do projeto e espécie a ser<br />

cultivada, não <strong>de</strong>ixando <strong>de</strong> prevalecer os fatores ecológicos que são limitantes e <strong>de</strong>terminantes para a seleção <strong>de</strong><br />

espécies a serem cultivadas (ONO; KUBITZA, 2002).<br />

As áreas foram selecionadas a partir <strong>de</strong> cruzamentos e manipulação <strong>de</strong> dados (Figura 1), seguindo a<br />

metodologia do SIG, com pon<strong>de</strong>ração dos diversos parâmetros correlacionados à ativida<strong>de</strong> da aqüicultura, com


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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

<strong>de</strong>limitação <strong>de</strong> áreas propícias com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> variando <strong>de</strong> 0 a 3% e que ofereça menor risco para<br />

empreen<strong>de</strong>dores e meio ambiente.<br />

As áreas selecionadas em toda a bacia são prestáveis para a piscicultura, ranicultura e carcinicultura <strong>de</strong><br />

água doce até o município <strong>de</strong> Rosário no baixo curso do rio Itapecuru. Po<strong>de</strong>rão também ser realizadas ativida<strong>de</strong>s<br />

<strong>de</strong> malacocultura e carcinicultura <strong>de</strong> águas salinas no baixo curso do referido rio, segundo o somatório das<br />

pontuações enquadradas nas diversas categorias (ASSADA; SANO, 1998; HARA, 1997; NISHIYAMA, 1998;<br />

SAITO et al., 1998).<br />

Figura 1 - Ilustração da metodologia <strong>de</strong> montagem do mapa final utilizando o SIG<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

CARATERIZAÇÃO DA AQÜICULTURA NA BACIA DO RIO ITAPECURU<br />

Mapa <strong>de</strong> Declivida<strong>de</strong><br />

Mapa <strong>de</strong> Drenagem<br />

Mapa <strong>de</strong> Geologia<br />

Mapa <strong>de</strong> Geomorfologia<br />

Mapa <strong>de</strong> Infra-estrutura<br />

Mapa <strong>de</strong> Solo<br />

Mapa <strong>de</strong> Climático<br />

Mapa Final<br />

Apesar <strong>de</strong> constituir um ambiente <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância para a aqüicultura, a bacia do rio Itapecuru não<br />

dispõe <strong>de</strong> assistência técnica sistêmica a exemplo do Estado, o que compromete seu <strong>de</strong>senvolvimento. Constitui<br />

como ação concreta apenas a programação propiciada pelo Fundo <strong>de</strong> Amparo ao Trabalhador (FAT), com minicursos<br />

para produtores, que na verda<strong>de</strong> não satisfazem as necessida<strong>de</strong>s do público com verda<strong>de</strong>iro potencial,<br />

pelos processos seletivo e metodológico efetuados.


91<br />

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A área em estudo não dispõe <strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> dados capazes <strong>de</strong> propiciar elementos para um<br />

planejamento a<strong>de</strong>quado, constituindo-se esse trabalho no primeiro material com tal finalida<strong>de</strong>.<br />

O Estado do Maranhão dispõe <strong>de</strong> menos <strong>de</strong> <strong>de</strong>z especialistas na área <strong>de</strong> aqüicultura com nível superior,<br />

seis com pós-graduação Lato Sensu, dois Mestres e um Doutorando, aspecto que <strong>de</strong>monstra a distância entre<br />

potencialida<strong>de</strong>, produção e assistência técnica. Na Bacia do rio Itapecuru só existem três <strong>de</strong>sses profissionais,<br />

todos os produtores na área da piscicultura, ativida<strong>de</strong> mantida com recursos próprios com total ausência do<br />

Estado, que não esboça nenhuma vonta<strong>de</strong> política em mantê-los atualizados, ao contrário, mantém políticas que<br />

pulverizam o setor com generalida<strong>de</strong>s sem nenhuma projeção a curto, médio e longo prazo, ofuscando toda a teia<br />

produtiva potencial, do profissional ao consumidor.<br />

REGULARIDADE E QUALIDADE NA OFERTA DE ALEVINOS<br />

Na bacia do rio Itapecuru a oferta <strong>de</strong> alevinos é muito escassa e irregular, contabilizando-se apenas um<br />

produtor com oferta mais regular durante oito meses por ano, mesmo assim não aten<strong>de</strong> à <strong>de</strong>manda do mercado<br />

que não se constitui apenas <strong>de</strong> produtores da Bacia em estudo e sim a todas as áreas vizinhas.<br />

Não é privilégio do Estado do Maranhão a oferta <strong>de</strong> alevinos <strong>de</strong> baixa qualida<strong>de</strong> genética,<br />

principalmente do tambaqui (Colossoma macropomum) que ainda permanecem como reprodutores os<br />

remanescentes <strong>de</strong> cruzamentos dos espécimes selvagens introduzidos no Nor<strong>de</strong>ste em 1976 pelo DNOCS, que<br />

concretizou sua primeira propagação artificial e distribuição dos alevinos para <strong>de</strong>mais entida<strong>de</strong>s e estações <strong>de</strong><br />

piscicultura no ano seguinte, perdurando até nossos dias como banco genético, promovendo gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>gradação<br />

consangüínea. No que se refere à bacia do rio Itapecuru, os alevinos cultivados nessa área, são na maioria,<br />

importados <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s distâncias, <strong>de</strong> outros estados, causando um gran<strong>de</strong> estresse e alta taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong>,<br />

baixo índice <strong>de</strong> rendimento final, fatos que <strong>de</strong>sestimulam o produtor.<br />

A oferta <strong>de</strong> alevinos além <strong>de</strong> precária é <strong>de</strong> alto custo e não aten<strong>de</strong> a nenhum preceito <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong>,<br />

controle sanitário e profilático, <strong>de</strong>ixando toda a bacia susceptível a contaminação por parasitos e bactérias<br />

exóticas que po<strong>de</strong>m causar gran<strong>de</strong>s danos ao meio ambiente da área em estudo.<br />

Os projetos <strong>de</strong> aqüicultura existentes na bacia do rio Itapecuru, não têm nenhum preceito <strong>de</strong><br />

sustentabilida<strong>de</strong>, com exceção do Centro <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Mirador, hoje <strong>de</strong>sativado, on<strong>de</strong> a inobservância da<br />

legislação pertinente é nítida em cada direção, predominando uma conceituação neoliberal, mesmo inconsciente,<br />

<strong>de</strong>ixando-se <strong>de</strong> lado a sustentabilida<strong>de</strong> social pela visão do maior lucro mesmo que os danos ao próximo e ao<br />

meio ambiente sejam imensuráveis (ARANA, 1999).<br />

Na atual conjuntura com ares <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>rnização da aqüicultura mundial, aqui no Brasil já se dispõe <strong>de</strong><br />

tecnologias capazes <strong>de</strong> relegar certos preceitos que visem à escolha <strong>de</strong> áreas para instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong><br />

aqüicultura a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r <strong>de</strong> seu sistema como: Tanque-re<strong>de</strong>, raceway e gaiolas. Mesmo para um sistema<br />

convencional <strong>de</strong> cultivo já se dispõem <strong>de</strong> tecnologias <strong>de</strong> impermeabilização <strong>de</strong> viveiros com mantas plásticas,<br />

controles <strong>de</strong> temperaturas, estufas, entre outros mo<strong>de</strong>rnos sistemas <strong>de</strong> aproveitamento <strong>de</strong> qualquer área, <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />

que haja uma prévia relação <strong>de</strong> custo/ benefício (ONO; KUBITZA, 2002).


92<br />

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É com esse contexto que a visualização da real potencialida<strong>de</strong> da bacia do rio Itapecuru para a<br />

aqüicultura, on<strong>de</strong> os avanços tecnológicos quebram barreiras no dia a dia, e transformam áreas imprestáveis a<br />

verda<strong>de</strong>iros celeiros produtivos. Isso significa que se utilizando o princípio da imaginação e do bom senso;<br />

haverá um gran<strong>de</strong> avanço nas ações tomadas em direção ao <strong>de</strong>senvolvimento sócio-econômico da bacia do rio<br />

Itapecuru. É com essa notorieda<strong>de</strong> que discutimos um total <strong>de</strong> áreas com maiores chances <strong>de</strong> sucesso sem que o<br />

meio ambiente seja exatamente o coletor <strong>de</strong> todas as formas impactantes, causando malefícios a curto, médio e<br />

longo prazo.<br />

OFERTA DE RAÇÃO E DE MATÉRIA-PRIMA<br />

Com o eventual aquecimento do setor aqüícola mundial, essa prática tem crescido bastante, chegando<br />

figurar como a principal responsável pela oferta <strong>de</strong> pescado na bacia do rio Itapecuru. Constatado um gran<strong>de</strong><br />

número <strong>de</strong> pequenos piscicultores, que lastreia a Bacia <strong>de</strong> forma empírica, socialmente <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nada,<br />

impossibilitando seu levantamento estatístico, principalmente com relação à oferta e consumo <strong>de</strong> ração, porém a<br />

oferta <strong>de</strong> matéria prima para fabricação é muito competitiva e abundante, por conter em sua Bacia e entorno,<br />

gran<strong>de</strong>s produtores <strong>de</strong> grãos (comodities) utilizáveis na fabricação <strong>de</strong> ração, proporcionando menores custos ao<br />

produto final na região, fato que tem <strong>de</strong>spertado interesse <strong>de</strong>sses produtores, já operando uma pequena fábrica <strong>de</strong><br />

ração extrusada (250 kg. h -1 ) no município <strong>de</strong> Balsas, hoje em ampliação, e uma peletizadora (200 kg.h -1 ) no<br />

município <strong>de</strong> Colinas.<br />

A maioria da ração consumida na bacia é proveniente <strong>de</strong> estados vizinhos, principalmente a extrusada,<br />

porém a fabricação artesanal sem balanceamento a<strong>de</strong>quado e acompanhamento sistêmico é quase totalida<strong>de</strong>, fato<br />

que concorre para baixas produtivida<strong>de</strong>s.<br />

DEMANDA DE PESCADO<br />

O consumo <strong>de</strong> pescado no Maranhão tem <strong>de</strong>staque no litoral, na baixada oci<strong>de</strong>ntal maranhense e nas<br />

áreas ribeirinhas aos gran<strong>de</strong>s lagos. Na bacia do rio Itapecuru <strong>de</strong> modo geral, não há hábito <strong>de</strong> consumo <strong>de</strong><br />

produtos pesqueiros no cotidiano, lentamente este hábito vem mudando, em função da freqüência <strong>de</strong> oferta <strong>de</strong><br />

produtos advindos da piscicultura regional, uma vez que os rios da bacia não disponibilizam estoques naturais <strong>de</strong><br />

pescado em quantida<strong>de</strong> para aten<strong>de</strong>r a atual <strong>de</strong>manda, até pelos problemas ecológicos que se agravam a cada<br />

ano, diminuindo a vida nos ambientes naturais.<br />

QUALIDADE DOS PRODUTOS<br />

Na década <strong>de</strong> 80 do Século XX, o Governo Fe<strong>de</strong>ral construiu um gran<strong>de</strong> entreposto <strong>de</strong> pesca no Estado,<br />

no complexo do Itaqui, chegando a funcionar por seis meses e fechou, <strong>de</strong>ixando para trás toda uma perspectiva<br />

<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento do setor naquele momento.<br />

As investidas do Estado, no sentido <strong>de</strong> alavancar o setor pesqueiro ainda não aconteceram. Conta-se com<br />

pequenas instalações da iniciativa privada ao longo do litoral e nas áreas <strong>de</strong> maiores concentrações <strong>de</strong>


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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

pescadores, porém os aqüicultures não dispõem <strong>de</strong> estruturas <strong>de</strong> refrigeração para agregar benefícios ao pescado<br />

produzido, obrigando-os a comercializá-los inteiro “in natura”, fresco, resfriado ou eviscerado resfriado. O<br />

pescado congelado, conduzido, <strong>de</strong> outras áreas, para as feiras dos centros urbanos, não oferece nenhuma<br />

segurança <strong>de</strong> sua sanida<strong>de</strong> ao consumidor, normalmente são submetidos ao congelamento por processos<br />

ina<strong>de</strong>quados e após o rigor mortis, promovendo a condução <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> carga bacteriana ocasionando uma<br />

baixa qualida<strong>de</strong> no pescado.<br />

ESPÉCIES CULTIVADAS<br />

As principais espécies cultivadas na bacia do rio Itapecuru são: o tambaqui (Colossoma macropomum),<br />

tilápia (Oreochromis sp.), curimatá (Prochilodus sp.) e carpa-comum (Cyprinus carpio), com gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>staque ao<br />

primeiro, que além <strong>de</strong> reunir maiores vantagens em sua oferta <strong>de</strong> alevinos já faz parte da culinária da região.<br />

O diagnóstico da aqüicultura na bacia do rio Itapecuru revela sua insipiência na produção dos diversos<br />

organismos aquáticos, seja pela pequena extensão utilizada ou pelo pequeno grau tecnológico empregado, <strong>de</strong><br />

certo é que na mesma proporção se mantém com relação ao meio ambiente, não sendo ainda apontada como uma<br />

ativida<strong>de</strong> que venha a comprometer a vitalida<strong>de</strong> equilibrada na referida bacia. Contudo propõe-se a indicação <strong>de</strong><br />

mo<strong>de</strong>los a serem investigados e aplicados como padrão <strong>de</strong> uso nas bacias hidrográficas brasileiras como forma<br />

<strong>de</strong> antece<strong>de</strong>r a ações poluidoras provenientes da aqüicultura. De modo que para a bacia em estudada, precisa<br />

adotar mo<strong>de</strong>los capazes <strong>de</strong> manter a sustentabilida<strong>de</strong> das áreas potencialmente selecionadas, tais como:<br />

“Sistemas <strong>de</strong> cultivo em viveiros escavados”, são viveiros instalados através <strong>de</strong> operações <strong>de</strong> escavação corte e<br />

aterro. Essa operação é uma sincronização <strong>de</strong> máquinas e instrumentos, são facilitados e a<strong>de</strong>quados<br />

economicamente, segundo a <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>, tipo <strong>de</strong> solo e cobertura vegetal.<br />

Proponho para esse mo<strong>de</strong>lo, a inclusão da agricultura irrigada, como reciclador <strong>de</strong> efluentes, composto<br />

por micro e macro nutrientes e cobertura ver<strong>de</strong> proveniente <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> microalgas potencializadas<br />

no cultivo <strong>de</strong> organismos aquáticos não filtradores, o que os tornam indispensáveis ao aproveitamento na<br />

agricultura, <strong>de</strong>volvendo o corpo líquido à natureza por infiltração ou evaporação sem nenhum dado aos sistemas<br />

aquáticos, ao contrário, passa pela produção, seja fruticultura ou para outras cultivares, como arroz, feijão,<br />

milho, cebola, minimizando seus custos com insumos e <strong>de</strong>volvendo a água com qualida<strong>de</strong> ao meio ambiente.<br />

Com a concepção <strong>de</strong>ssa proposta <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> gestão integrada da aqüicultura com a agricultura<br />

irrigada, se <strong>de</strong>monstra uma gama <strong>de</strong> vantagens para o caso da bacia do rio Itapecuru como:<br />

a) Propiciar maior permanência da água na bacia promovendo sua movimentação em maior volume, em todo seu<br />

ciclo, seja aumentando sua superfície <strong>de</strong> contato com a atmosfera e solo, obviamente a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vapor<br />

d’água aumentará consubstancialmente bem como as recargas dos mananciais superficiais e freáticos;<br />

b)Aumentar a Umida<strong>de</strong> Relativa do Ar da região melhorando o grau <strong>de</strong> conforto das populações, bem como<br />

contribuir para minimizar as chances <strong>de</strong> incêndios na região, sobretudo nas margens ciliares e áreas adjacentes a<br />

projetos, on<strong>de</strong> a vegetação permanecer ver<strong>de</strong> pelo ciclo vivo <strong>de</strong> água e nutrientes dispensados;


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c) Retorno constante da água a seu curso d’água anterior, filtrada naturalmente pelo sistema planta, solo,<br />

evaporação e evapotranspiração;<br />

d)Favorecer o crescimento da fauna ciliar, animais que <strong>de</strong>pendam da margem ciliar para sua sobrevivência e<br />

interação naquele nicho ecológico, habitat misto entre vegetação água, abrigo e oferta <strong>de</strong> alimento natural.<br />

e) Minimizar o processo <strong>de</strong> assoreamento através da interposição <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura consorciados a<br />

agricultura irrigada, utilizando os efluentes como base para a adubação agrícola e forma <strong>de</strong> filtragem e<br />

<strong>de</strong>volução <strong>de</strong> água pura aos mananciais superficiais e freáticos.<br />

A proposta que utiliza a agricultura irrigada, em substituição à lagoa <strong>de</strong> <strong>de</strong>puração, canais, viveiro <strong>de</strong><br />

fundo rebaixado, on<strong>de</strong> os efluentes ficam <strong>de</strong>positados po<strong>de</strong> acumular problemas ao aquicultor, ao invés <strong>de</strong> lucros<br />

com sua utilização econômica sustentável.<br />

REFLEXOS DAS ATIVIDADES ANTRÓPICAS<br />

Durante expedições, constatou-se que o rastro <strong>de</strong> <strong>de</strong>vastação tem se agravado, principalmente com a<br />

<strong>de</strong>masiada quantia <strong>de</strong> carvoarias clan<strong>de</strong>stinas e criminosas que têm atingido gran<strong>de</strong>s proporções, capazes <strong>de</strong><br />

manter as guseiras em pleno funcionamento, sem nenhum programa <strong>de</strong> reflorestamento promovendo um<br />

crescente número <strong>de</strong> aluviões. Nas terras do alto curso encontram-se as maiores carvoarias do Estado, nas<br />

adjacências do Parque Estadual do Mirador, acentuando-se no município <strong>de</strong> Colinas até o município <strong>de</strong> Caxias,<br />

on<strong>de</strong> o misto <strong>de</strong> chapadões e cerrado está ce<strong>de</strong>ndo lugar às voçorocas e <strong>de</strong>sertos <strong>de</strong> areias quartzosas, que<br />

facilmente são conduzidas aos córregos e ao curso principal do rio Itapecuru, promovendo assoreamentos <strong>de</strong><br />

gran<strong>de</strong>s proporções, transformando seu curso navegável em armadilhas para a prática da navegação (IBGE,<br />

1998). Todo o curso do rio Itapecuru e seus afluentes, alguns como o Balseiro e o Itapecuruzinho, já agonizam<br />

com seus regimes modificados, só se mantendo com <strong>de</strong>flúvio no período chuvoso.<br />

Observou-se também que muitas áreas que outrora serviram como criadouros naturais (lagos naturais),<br />

encontram-se assoreadas e invadidas pela cultura <strong>de</strong> forrageiras para bovinos ou agricultura, penalizando todo<br />

um ecossistema aquático conjuntamente à sócio-economia da área em discussão.<br />

Baseados nos conceitos <strong>de</strong> sustentabilida<strong>de</strong> chamam a atenção em especial para o processo <strong>de</strong>vastador e<br />

inconseqüente que o <strong>de</strong>smatamento vem submetendo a bacia do rio Itapecuru, tanto para fins <strong>de</strong> expansão <strong>de</strong><br />

suas fronteiras agropecuárias como na produção <strong>de</strong> carvão vegetal, e <strong>de</strong>ixando sua marca <strong>de</strong>soladora,<br />

principalmente por se tratar <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> fragilida<strong>de</strong> como o cerrado on<strong>de</strong> nasce o rio Itapecuru e alguns<br />

afluentes outrora perenes (IBGE, 1998).<br />

Todo esse rol <strong>de</strong> evidências é preocupante, com relação ao comprometimento da qualida<strong>de</strong> e/ou escassez<br />

completa da água na bacia do rio Itapecuru que pelos aspectos geológicos e antrópicos.<br />

No último século, on<strong>de</strong> no início <strong>de</strong>finia-se que os oceanos e outros recursos naturais eram inesgotáveis,<br />

em suas últimas décadas as autorida<strong>de</strong>s científicas, técnicos, organizações governamentais e não<br />

governamentais, visualizaram um outro cenário on<strong>de</strong> se constatou o contrário, daí a gran<strong>de</strong> preocupação com o<br />

futuro do planeta. As preocupações com os dias futuros tomaram direção rumo à preservação, <strong>de</strong>ixando o


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homem <strong>de</strong> ser apenas um extrativista poluidor e transformando-se em extrativista conservacionista e produtor<br />

conservador, muito menos poluidor (AGENDA 21, 2000).<br />

No <strong>de</strong>correr dos anos a legislação tem avançado no sentido <strong>de</strong> conscientizar e cobrar a aplicabilida<strong>de</strong> da<br />

mesma, coibindo abusos contra agressões à natureza. Segundo documento elaborado em 1987, Nosso Futuro<br />

Comum, pela Comissão Mundial <strong>de</strong> Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, a pesca e a aqüicultura são<br />

ativida<strong>de</strong>s consi<strong>de</strong>radas estratégicas para a segurança alimentar sustentável do planeta, pois estas são capazes <strong>de</strong><br />

fornecer proteínas e gerar empregos, (AGENDA 21, 2000).<br />

Constitui-se em fato inusitado a apropriação <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> hidroelétricas, cercados pelos antigos<br />

proprietários, já in<strong>de</strong>nizados, proibindo o acesso a usuários da água dos cursos públicos e o <strong>de</strong>sse<strong>de</strong>ntamento <strong>de</strong><br />

animais, fato público sem que as autorida<strong>de</strong>s tomem providências.<br />

O planejamento <strong>de</strong> ações econômicas tem âncora nos adventos ecológicos para que possam ter<br />

sustentabilida<strong>de</strong>. A aqüicultura é uma prática produtiva <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do meio ambiente, portanto é uma ativida<strong>de</strong><br />

que requer sustentabilida<strong>de</strong> em todas as etapas e fases <strong>de</strong> sua gestão, <strong>de</strong>ixando <strong>de</strong> lado a retórica compartilhada,<br />

tanto pelos setores envolvidos na dilapidação dos recursos naturais para a produção quanto por aqueles<br />

envolvidos nos atuais sistemas <strong>de</strong> conservação e gestão ambiental (AGENDA 21, 2000; ESTEVES, 1998;<br />

CUNHA e GUERRA, 1996; TUCCI, 2001).<br />

SOLOS DAS ÁREAS SELECIONADAS COM DECLIVIDADE DE 0 A 3%<br />

O processo metodológico utilizando-se o SIG, como ferramenta para seleção <strong>de</strong> áreas com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s<br />

nos intervalos 0 a 3%, classes <strong>de</strong> solos predominantes, suas características físicas e químicas, já promove uma<br />

<strong>de</strong>finição segura das áreas como se verifica nas <strong>de</strong>scrições <strong>de</strong> Prado (2003), IBGE (1992); e o novo Sistema<br />

Brasileiro <strong>de</strong> Classificação <strong>de</strong> Solos serviu <strong>de</strong> base para a seleção <strong>de</strong> áreas com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 0 a 3%.<br />

PONDERAÇÃO DE CRITÉRIOS PARA SELEÇÃO DE ÁREAS PROPÍCIAS À AQÜICULTURA<br />

O diagnóstico avaliou por meio do SIG, as áreas potenciais para o aproveitamento no cultivo <strong>de</strong><br />

organismos aquáticos, apontadas as vocações e os principais entraves para o <strong>de</strong>senvolvimento das ativida<strong>de</strong>s<br />

aquícolas na bacia do rio Itapecuru.<br />

A disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> áreas propícias para instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura inseridas na bacia do rio<br />

Itapecuru é muito gran<strong>de</strong>, extraídas do cruzamento <strong>de</strong> mapas geoprocessados que contemplou os seguintes itens:<br />

a) Uso e ocupação da terra, visualizado pela pon<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> classe <strong>de</strong> uso como agropecuária explorada ou não.<br />

Nesse item foi visualizada toda a extensão com variações <strong>de</strong> <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 0-3%, cujo critério para seleção <strong>de</strong><br />

áreas para instalação <strong>de</strong> projetos é recomendado o intervalo <strong>de</strong> <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> que varia <strong>de</strong> 0 até 5%, pressupondose<br />

que quanto maior a amplitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> variação <strong>de</strong> <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> maior o custo e mais limitação quanto à extensão<br />

dos viveiros e a<strong>de</strong>quação do layout <strong>de</strong> instalação, (BITTENCOURT; TORRES, 1983; PROENÇA;<br />

BITTENCOURT, 1994; ONO; KUBITZA, 2002; WOYNAROVICH; HÓRVAT, 1983).<br />

Nas classes selecionadas nessa área topográfica estão inseridas as áreas com restrições legais que são:


96<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

a) APP - Áreas <strong>de</strong> Preservação Permanente, constituídas por margens ciliares até 100m, nascentes e áreas<br />

inundáveis anualmente (lagos marginais); APA-Áreas <strong>de</strong> Preservação Ambiental, constituídas pelo Parque<br />

Estadual do Mirador no alto curso do Rio Itapecuru e do Upaon-Açu/ Miritiba/ Alto Preguiças; Reserva Indígena<br />

Kanela na área mais alta da margem direita do rio Alpercatas; Ferrovias, Rodovias, Linhas <strong>de</strong> Transmissão e<br />

Áreas restritas (urbanas, entorno dos centros urbanos até 10 Km, praias, restingas e manguezais).<br />

b) Pon<strong>de</strong>ração da disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água enquadrada pela resolução CONAMA nº 20/86 (II-1, III-2, VI-5 e<br />

VIII-7) quanto à oferta e distância da fonte abastecedora à área do projeto. Nesse estudo foram consi<strong>de</strong>rados os<br />

intervalos com valores úteis a partir <strong>de</strong> 100m, isso <strong>de</strong>vido à restrição <strong>de</strong> uso da APP como área <strong>de</strong> produção só<br />

permitindo sua avaliação para investimentos na aqüicultura as áreas após os 100m da margem <strong>de</strong> áreas<br />

amparadas pela legislação.<br />

Nas referências bibliográficas realizadas não se constatou a <strong>de</strong>manda e uso real da água na aqüicultura,<br />

no Brasil, ferramenta indispensável para o planejamento da ativida<strong>de</strong>, principalmente no tocante ao cultivo<br />

sustentável, on<strong>de</strong> a fonte explorada possa ser utilizada sem que a quantida<strong>de</strong> e qualida<strong>de</strong> sejam comprometidas,<br />

principalmente por sua utilização pelas civilizações futuras. A utilização da água doce no Brasil, on<strong>de</strong> a<br />

aqüicultura fica subentendida como uso agrícola, que para qualquer ativida<strong>de</strong> com chances <strong>de</strong> visualização <strong>de</strong><br />

ascensão não <strong>de</strong>ve passar <strong>de</strong>spercebida ou a ativida<strong>de</strong> é insignificante para constar na estatística ou é tão<br />

<strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nada que não consta como ativida<strong>de</strong> econômica <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte dos recursos hídricos.<br />

A composição econômica <strong>de</strong> projetos passa pelo abastecimento e drenagem, ou seja, pela circulação<br />

diária <strong>de</strong> volumes <strong>de</strong>terminados pelo sistema <strong>de</strong> cultivo, portanto as categorias <strong>de</strong> distância do recurso hídrico ou<br />

fonte <strong>de</strong> abastecimento é <strong>de</strong> fundamental importância no seu custo final no transporte <strong>de</strong> água ao <strong>de</strong>stino (ONO;<br />

e KUBITZA, 2002; PROENÇA; BITTENCOURT, 1994).<br />

• A infra-estrutura constitui um conjunto <strong>de</strong> classes que envolvem bens físicos como: acesso, oferta <strong>de</strong><br />

energia elétrica, existência <strong>de</strong> apoio e centros consumidores com suas respectivas <strong>de</strong>mandas. Esse item é<br />

superlativo para a instalação <strong>de</strong> projetos econômicos, principalmente <strong>de</strong> aqüicultura que exigem essas condições<br />

para seu funcionamento sustentável, assim <strong>de</strong>terminando o local e seu dimensionamento pautado segundo o<br />

mercado. Ao analisar-se esse item <strong>de</strong>talhadamente, fica implícito que ao se tratar do conjunto <strong>de</strong> itens que<br />

compõem a infra-estrutura <strong>de</strong> uma localida<strong>de</strong>, precisa-se lançar mão <strong>de</strong> outros dados, que para esse diagnóstico<br />

não foram consi<strong>de</strong>rados essenciais como: linhas <strong>de</strong> crédito, instituições financiadoras, bens sociais, infraestrutura<br />

<strong>de</strong> comercialização nos centros comerciais e segurança para operacionalizar o empreendimento.<br />

A assistência técnica é uma ferramenta a qual o produtor não <strong>de</strong>ve consi<strong>de</strong>rar apenas nos momentos <strong>de</strong><br />

instalação do projeto, porque a aplicabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> tecnologias no andamento do projeto são tão indispensáveis<br />

quanto o layout <strong>de</strong> instalação, constituindo-se <strong>de</strong> etapas distintas, mas inter<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (HUET, 1983).<br />

• Aspecto climático, composto por um conjunto <strong>de</strong> eventos ecológicos que permitem uma visualização <strong>de</strong><br />

oferta <strong>de</strong> água num <strong>de</strong>terminado ciclo, assim prever sua oferta máxima e escassez. Desses aspectos o <strong>de</strong> maior<br />

significado para a aqüicultura é a temperatura, que além <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar o metabolismo da gran<strong>de</strong> maioria dos


97<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

organismos utilizados no cultivo, seleciona espécies por região e estabelece formas <strong>de</strong> manejo diferenciado para<br />

cada faixa <strong>de</strong> oscilação (HUET, 1983; KUBITZA, 2000; ONO; KUBITZA, 2002).<br />

SELEÇÃO DE ÁREAS COM DECLIVIDADE DE 0 A 3% ATÉ 10 KM DOS MANANCIAIS<br />

Nessa pon<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> classe <strong>de</strong> solo quanto à tipologia e a<strong>de</strong>quação para sua utilização na aqüicultura<br />

foram classificadas 9.121,93 km², no mapa final (Figura 2), com os seguintes conceitos:<br />

Excelente, classe <strong>de</strong> solo com um índice <strong>de</strong> argila elevado, o Gleissolo cotem teores <strong>de</strong> argila <strong>de</strong> alta a<br />

muito alta, somou 86,8 Km² <strong>de</strong> área, requer mo<strong>de</strong>ração pela assistência técnica na seleção do local inserido nessa<br />

classe <strong>de</strong> solo para evitar instalação <strong>de</strong> projetos em áreas com teores <strong>de</strong> argila muito elevados;<br />

• Muito bom, constituídos por solos <strong>de</strong> boa capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> compactação e retenção <strong>de</strong> água. É uma<br />

área composta por <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> suave aparecendo elevações fora da <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> em estudo, não figurando no<br />

mapa por serem pequenas em relação à escala usada, exigindo estudos <strong>de</strong>talhados para seleção final <strong>de</strong> áreas<br />

para instalação <strong>de</strong> projetos, essa classe totaliza 3.518,20 Km²;<br />

• Bom, constituída por solos <strong>de</strong> classe média a argilosa, apresentando longos trechos com <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong><br />

suave e suporta ótima compactação, totaliza 486,13 Km²;<br />

• Regular, área com restrição <strong>de</strong> solo quanto textura grossa e alta porosida<strong>de</strong>, exigindo uma acurada<br />

análise técnica localizada para <strong>de</strong>terminação <strong>de</strong> áreas propícias a instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura,<br />

totaliza 1.228,30 Km²;<br />

• Ruim, constituem as áreas com muitas restrições técnicas, apesar <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r ser utilizada na<br />

aqüicultura, sob análise criteriosa encontram-se áreas <strong>de</strong> <strong>de</strong>posição, planas e argilosas, com elevados níveis<br />

<strong>de</strong> saturação <strong>de</strong> água, me<strong>de</strong> 2.375,90 Km²;<br />

• Com limitações técnicas, são áreas contínuas constituídas por variadas <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s, on<strong>de</strong> se<br />

encontram gran<strong>de</strong>s áreas com solos impermeáveis e <strong>de</strong> topografia favorável e suportam compactação, muito<br />

bom para instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura, me<strong>de</strong> 1.426,6 Km²;<br />

• Inapta, Constituídas por areias quartzosas, muito permeáveis e não permitem compactação, me<strong>de</strong>m<br />

333,21 Km².<br />

Apesar da conceituação mais clássica da aqüicultura convencional, há <strong>de</strong> se convir que nos dias atuais a<br />

tipologia <strong>de</strong> solos não é fator limitante para a instalação <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> aqüicultura, o que limita nesse caso é sua<br />

economicida<strong>de</strong>. No entanto, da área selecionada, prognosticou-se que a ativida<strong>de</strong> aqüícola atingirá um ótimo<br />

grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento sustentável com a utilização <strong>de</strong> 10% <strong>de</strong>sse total.


98<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 2 – Mapa da bacia do Rio Itapecuru, com <strong>de</strong>marcação das áreas para a aqüicultura.


PERSPECTIVAS DA ATIVIDADE<br />

99<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Com o incremento da aqüicultura sustentada na bacia do rio Itapecuru, serão eliminados os<br />

<strong>de</strong>smatamentos ciliares, haverá um aumento na oferta <strong>de</strong> alimentos protéicos, aumento da lâmina d’água e maior<br />

exposição para evaporação acrescendo a umida<strong>de</strong> relativa do ar, mantendo recargas constantes dos mananciais,<br />

minimização dos riscos <strong>de</strong> queimadas, e um maior nível <strong>de</strong> inclusão social.<br />

Muito há <strong>de</strong> ser conquistado para que a socieda<strong>de</strong> da bacia do rio Itapecuru possa ter dignida<strong>de</strong> e<br />

respeito na distribuição <strong>de</strong> bens e direitos, na ocupação humanitária e uso da terra, à exploração racional e<br />

<strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong> seus recursos naturais, imputados pelo autoritarismo <strong>de</strong> sua colonização até hoje.<br />

O cruzamento dos mapas temáticos da área, mostrados no mapa final, <strong>de</strong>monstraram uma complexida<strong>de</strong><br />

exacerbada <strong>de</strong> ações em toda a bacia hidrográfica, composta por itens satisfatórios aos requisitos básicos para o<br />

implemento da aqüicultura, mas com dispersões relevantes, <strong>de</strong>ssa forma as áreas do alto curso são pequenas não<br />

figurando na escala gráfica admitida nesse trabalho. No médio curso do rio Itapecuru, existem muitas restrições<br />

técnicas principalmente na convergência <strong>de</strong> várias outras ações promotoras da elevação do custo <strong>de</strong> produção<br />

como (infra-estrutura, assistência técnica e insumos básicos para a aqüicultura), tornando proibitiva a<br />

implementação <strong>de</strong> uma aqüicultura que não seja a extensiva ou semi-intensiva. No baixo curso, as áreas<br />

oferecem melhores chances para o sucesso econômico <strong>de</strong> empreendimentos com menor custo <strong>de</strong> produção pela<br />

sinergia <strong>de</strong> ações que promovem o <strong>de</strong>senvolvimento da ativida<strong>de</strong> com sustentabilida<strong>de</strong>.<br />

A bacia do rio Itapecuru oferece em toda sua extensão uma imensa área com especial vocação para o<br />

aproveitamento hidroagrícola, on<strong>de</strong> a aqüicultura é uma ativida<strong>de</strong> que comporta oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> emprego e<br />

renda, aliada à gran<strong>de</strong> necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> oferta <strong>de</strong> proteína para o combate da <strong>de</strong>snutrição e oportunizar essa<br />

socieda<strong>de</strong> ao convívio igualitário aos que sobrevivem com dignida<strong>de</strong>.<br />

A aqüicultura familiar e a associativa são as formas a serem implementada com maiores chances <strong>de</strong><br />

sustentabilida<strong>de</strong> na bacia do rio Itapecuru, pelo fato <strong>de</strong> reunirem excluídos em torno <strong>de</strong> uma ativida<strong>de</strong> capaz <strong>de</strong><br />

reparar parcela dos danos causados a eles, com o norteamento <strong>de</strong> políticas capazes <strong>de</strong> sintonizar ações<br />

sinergéticas da atual realida<strong>de</strong> da socieda<strong>de</strong> que nela habita, respeitando a legislação pertinente; aglutinando<br />

chances <strong>de</strong> atenção pelos programas sociais nos diversos níveis, por fim favorecer a eqüida<strong>de</strong> espacial, cultural<br />

e, sobretudo acessar essa categoria ao patamar mínimo <strong>de</strong> justiça social.<br />

Com a instalação <strong>de</strong> projetos em 10% da área selecionada para aqüicultura, haverá uma produção e<br />

oferta <strong>de</strong> pescado na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 273.660 t/ano projetando-se uma produção <strong>de</strong> 3 t.ha/ano.<br />

É <strong>de</strong> fundamental importância para a vitalida<strong>de</strong> da bacia do rio Itapecuru a criação <strong>de</strong> uma reserva<br />

ecológica em toda a bacia do rio Alpercatas pela sua representação do seu aporte fluvial, fragilida<strong>de</strong> dos solos e<br />

facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> implementação <strong>de</strong> um plano <strong>de</strong> manejo a<strong>de</strong>quado para sua preservação total ou parcial.<br />

Se constitui em priorida<strong>de</strong> para a preservação da água na bacia do rio Itapecuru, a efetivação <strong>de</strong> um<br />

programa <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> barragens pelo governo do Estado do Maranhão, em toda a bacia, respeitado a<br />

legislação vigente e as peculiarida<strong>de</strong>s locais, aproveitando todas as rodovias como forma <strong>de</strong> contenção, rios e


100<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

riachos <strong>de</strong> forma a facilitar o acesso da água à aqüicultura, irrigação, fornecimento <strong>de</strong> energia elétrica e<br />

<strong>de</strong>sse<strong>de</strong>ntamento <strong>de</strong> animais <strong>de</strong> forma sustentável.<br />

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103<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

FONTES NATURAIS DE CAROTENÓIDES DE INTERESSE PARA A<br />

AQÜICULTURA: ANÁLISE COMPARATIVA DA EFICIÊNCIA DE<br />

MÉTODOS DE EXTRAÇÃO<br />

Renata PASSOS (renatapassos1978@yahoo.com.br)<br />

Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Santa Catarina.<br />

Danilo G. MORIEL (danilomoriel@gmail.com)<br />

Laboratório <strong>de</strong> Enzimologia e Tecnologia <strong>de</strong> Fermentações, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Paraná.<br />

Francisco LAGREZE (flagreze@hotmail.com)<br />

Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Santa Catarina.<br />

Luisa GOUVEIA (luisa.gouveia@ineti.pt)<br />

DER-Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Biomassa, INETI, Lisboa, Portugal.<br />

Marcelo MARASCHIN (m2@cca.ufsc.br); Luis H. BEIRÃO (beirao@cca.ufsc.br)<br />

Centro <strong>de</strong> Ciências Agrárias, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Santa Catarina.<br />

RESUMO<br />

Na Indústria Alimentar, em particular na Indústria Aqüícola, a utilização <strong>de</strong> corantes tornou-se uma<br />

ferramenta indispensável na conquista <strong>de</strong> mercado, garantindo uma melhoria no aspecto e no aumento<br />

da aceitação e valor econômico <strong>de</strong> seus produtos. A associação dos corantes naturais às vantagens<br />

nutricionais e sua obtenção por processos <strong>de</strong> baixo custo têm reduzido a utilização <strong>de</strong> pigmentos <strong>de</strong><br />

origem sintética na Indústria Alimentar em escala mundial. Desta forma, estudou-se a eficiência <strong>de</strong> três<br />

métodos <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> pigmentos carotenoídicos totais e astaxantina das microalgas Chlorella<br />

vulgaris e Haematococcus pluvialis e da levedura Phaffia rhodozyma, potencialmente utilizadas no<br />

arraçoamento <strong>de</strong> peixes e crustráceos em cativeiro. Dentro das biomassas estudadas, a microalga<br />

Haematococcus pluvialis revelou o maior conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais (20,79 mg <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s<br />

totais/g célula seca), enquanto a levedura Phaffia rhodozyma, apesar <strong>de</strong> um menor conteúdo <strong>de</strong><br />

pigmentos totais (0,22 mg/g célula seca), apresentou a maior relação entre a concentração <strong>de</strong><br />

astaxantina livre e o conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais (cerca <strong>de</strong> 87,5% dos carotenói<strong>de</strong>s presentes como<br />

astaxantina livre), quando comparada aos outros microorganismos (Chlorella vulgaris, 13,4%;<br />

Haematococcus pluvialis, 4,7%). A utilização <strong>de</strong> dimetilsulfóxido DMSO como solvente revelou ser a<br />

melhor estratégia para a extração dos carotenói<strong>de</strong>s <strong>de</strong>ntro dos métodos estudados.<br />

PALAVRAS-CHAVE: aqüicultura, carotenói<strong>de</strong>s, astaxantina.


ABSTRACT<br />

104<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

NATURAL SOURCES OF CAROTENOIDS OF INTEREST FOR AQUACULTURE:<br />

COMPARATIVE ANALYSIS OF THE EFFICIENCY OF EXTRATION METHODS<br />

In Food Industry, particularly Aquaculture Industry, the utilization of pigments has been an<br />

indispensable tool to market achievement, assuring an improvement on visual aspects, increase on<br />

acceptability and economic value of its products. The association of natural pigments to nutritional<br />

advantages and its acquisition by low cost processes have <strong>de</strong>creased the utilization of synthetic<br />

pigments in Food Industry, followed by a worldwi<strong>de</strong> ten<strong>de</strong>ncy for the reduction in the utilization of<br />

synthetic products on foods. Thus the pigmentation activity and pigment extraction efficiency of<br />

microalgae Chlorella vulgaris and Haematococcus pluvialis and the yeast Phaffia rhodozyma,<br />

potentially used on fish farming, were studied. The microalga Haematococcus pluvialis showed the<br />

highest total pigment content (20.79 mg of total carotenoids per gram of dried cells) while the yeast<br />

Phaffia rhodozyma, although showing the lowest total pigment content (0.22 mg/g dried yeast), showed<br />

the highest free astaxanthin content (87.5%) when compared to the other microorganisms studied<br />

(Chlorella vulgaris, 13.4%; Haematococcus pluvialis, 4.7%). The utilization of DMSO as solvent<br />

showed the highest efficiency on carotenoid extraction.<br />

KEYWORDS: aquaculture, carotenoids, astaxanthin.<br />

INTRODUÇÃO<br />

A aqüicultura é uma ativida<strong>de</strong> em crescente expansão <strong>de</strong>vido ao aumento da população mundial e<br />

ao <strong>de</strong>clínio <strong>de</strong> fontes pesqueiras naturais, associado ao consumo crescente <strong>de</strong> pescados em uma dieta<br />

equilibrada e saudável.<br />

Astaxantina é o principal pigmento utilizado na aqüicultura, especialmente na criação <strong>de</strong> salmões,<br />

trutas e crustáceos. Estes organismos não são capazes <strong>de</strong> sintetizar carotenói<strong>de</strong>s e, <strong>de</strong>sta forma, estes<br />

pigmentos <strong>de</strong>vem ser adicionados à sua alimentação para viabilizar sua incorporação e <strong>de</strong>posição na<br />

carne, conferindo a coloração característica da espécie e aumentando sua aceitação e valor <strong>de</strong> mercado.<br />

A <strong>de</strong>posição <strong>de</strong> astaxantina em trutas e salmões é muito mais eficiente, comparativamente a<br />

outros carotenói<strong>de</strong>s, sendo que a maioria dos criadores utiliza astaxantina sintética. Contudo, o custo<br />

<strong>de</strong>ste insumo é elevado, aliado ao fato <strong>de</strong> que suas formulações po<strong>de</strong>m conter configurações<br />

in<strong>de</strong>sejadas <strong>de</strong> astaxantina e seus <strong>de</strong>rivados, diminuindo sua eficiência na pigmentação (LATSCHA,<br />

1990 e TORRISEN, 1995). Adicionalmente, observa-se uma tendência mundial à utilização <strong>de</strong> fontes<br />

naturais <strong>de</strong> nutrientes e à exclusão <strong>de</strong> componentes sintéticos da ca<strong>de</strong>ia alimentar. Tais fatores têm<br />

aumentado o interesse em fontes naturais <strong>de</strong> astaxantina, sendo que diversas empresas têm investindo


105<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

na obtenção <strong>de</strong>ste pigmento, a partir <strong>de</strong> fontes naturais (MCCOY, 1999). Atualmente, as fontes naturais<br />

mais promissoras <strong>de</strong> astaxantina são a microalga Haematococcus pluvialis (GOUVEIA et al., 1996) e a<br />

levedura Phaffia rhodozyma (MORIEL, 2005).<br />

Neste contexto, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong> astaxantina a partir <strong>de</strong> fontes naturais com<br />

elevada produtivida<strong>de</strong>, sustentabilida<strong>de</strong> e baixo custo, aliado ao uso <strong>de</strong> processos eficientes <strong>de</strong> extração<br />

e quantificação daquele carotenói<strong>de</strong>, vem direcionando pesquisas nesta área, buscando incrementos <strong>de</strong><br />

qualida<strong>de</strong> e redução do custo do pescado produzido em cativeiro. Este trabalho avaliou a eficiência <strong>de</strong><br />

três métodos <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais e astaxantina, a partir <strong>de</strong> fontes naturais, a saber, as<br />

microalgas Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris e a levedura Phaffia rhodozyma.<br />

MICROORGANISMOS<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

Amostras <strong>de</strong> biomassas das microalgas Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris foram<br />

gentilmente cedidas pelo Instituto Nacional <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong>, Tecnologia e Inovação (INETI – Portugal).<br />

Para o cultivo dos microrganismos e produção das biomassas <strong>de</strong> interesse, utilizou-se o protocolo e as<br />

condições experimentais <strong>de</strong>scritas por Gouveia et al. (2006).<br />

A levedura Phaffia rhodozyma (cepa ATCC 24202) utilizada nesse estudo foi cultivada<br />

conforme <strong>de</strong>scrito por (BONFIM, 1999) e cedida pela Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Paraná.<br />

Com o intuito <strong>de</strong> romper a pare<strong>de</strong> celular e otimizar a extração dos pigmentos <strong>de</strong> interesse,<br />

amostras (10g – peso seco) das biomassas em estudo foram trituradas em moinho <strong>de</strong> bolas (NV-TEMA,<br />

Labor-Scheibenschwingmuhle, T100), por 60 segundos. Alíquotas <strong>de</strong> 100 mg <strong>de</strong> amostra triturada <strong>de</strong><br />

cada microorganismo foram utilizadas, em três experimentos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, segundo o protocolo <strong>de</strong><br />

extração dos pigmentos carotenoídicos.<br />

EXTRAÇÃO<br />

Três diferentes métodos <strong>de</strong> extração foram testados:<br />

Método A: a extração e a <strong>de</strong>terminação do conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais nas amostras em estudo foi<br />

realizada conforme método <strong>de</strong>scrito por Lim et al. (2002), utilizando-se acetona (Merck, p.a.) como<br />

solvente. Sucintamente, a 100 mg <strong>de</strong> cada amostra foram adicionados 5 mL <strong>de</strong> acetona. A suspensão<br />

foi homogeneizada em agitador vortex e levada à centrifugação (10 krpm/5min). Os sobrenadantes<br />

foram coletados, seguido da repetição do procedimento <strong>de</strong>scrito até a exaustão da extração dos<br />

pigmentos carotenoídicos, condição esta confirmada através da espectrofotometria <strong>de</strong> varredura UV-


106<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Vis (λ = 474 ηm) dos sobrenadantes retirados. Ao final do processo <strong>de</strong> extração, os sobrenadantes<br />

coletados foram reunidos para efeitos <strong>de</strong> dosagem do teor <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais.<br />

Método AB: A cada 100 mg <strong>de</strong> amostra, adicionou-se concomitantemente 6 mL <strong>de</strong> acetona (Merck,<br />

p.a.) e 2 mL <strong>de</strong> bolas <strong>de</strong> vidro (Sigma, 425-600 microns), conforme <strong>de</strong>scrito previamente por Goveia et<br />

al. (1996), seguido <strong>de</strong> agitação (Vortex) por 1 min, com intervalos <strong>de</strong> repouso em banhos <strong>de</strong> gelo por<br />

20 minutos. Os sobrenadantes foram coletados, repetindo-se o procedimento <strong>de</strong> forma a extrair<br />

exaustivamente os pigmentos das biomassas. A confirmação da ausência <strong>de</strong>stes compostos nas<br />

amostras foi realizada através <strong>de</strong> especfotometria <strong>de</strong> varredura UV-Vis (λ = 474 nm), consi<strong>de</strong>rando-se<br />

finalizado o procedimento quando valores <strong>de</strong> absorbância inferiores a 0.05 foram obtidos.<br />

Método DMSO: A cada amostra (100mg) foram adicionados 2ml <strong>de</strong> dimetilsulfóxido (DMSO) (Merck,<br />

p.a.), incubando-se o material em condição <strong>de</strong> repouso por 30 minutos, a temperatura ambiente, sob<br />

atmosfera <strong>de</strong> N2, na ausência <strong>de</strong> luz. Subsequentemente, o material foi centrifugado (3,5 krpm/5 min),<br />

recuperando-se o sobrenadante e repetindo-se o processo <strong>de</strong> extração com o material precipitado. Aos<br />

sobrenadantes coletados foram adicionados 10 ml <strong>de</strong> solução <strong>de</strong> NaCl 20% e éter <strong>de</strong> petróleo (1:1). A<br />

fase etérea foi coletada e, sob a fase aquosa, 5 mL <strong>de</strong> éter <strong>de</strong> petróleo foram adicionados por mais duas<br />

vezes. A fase etérea foi filtrada em suporte contendo Na2SO4 anidro e completada ao volume final <strong>de</strong><br />

25ml (adaptado segundo Moriel, 2005). Todas as extrações foram repetidas até que cor da biomassa se<br />

esgotasse nos solventes extratores, conforme <strong>de</strong>scrito acima (Método AB – extração exaustiva). Todos<br />

os experimentos foram realizados em triplicata.<br />

QUANTIFICAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO<br />

Para a quantificação dos carotenói<strong>de</strong>s totais, os valores <strong>de</strong> absorbância a 477 ηm (métodos A e<br />

AB) e 474 ηm (método DMSO) foram obtidos em espectrofotômetro Shimadzu LC10. Para efeito <strong>de</strong><br />

cálculo da concentração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, utilizou-se a lei <strong>de</strong> Lambert-Beer para os métodos <strong>de</strong><br />

extração A e AB, on<strong>de</strong> o valor da absortivida<strong>de</strong> aplicado para a acetona foi <strong>de</strong> 219,8 L/g.cm, sendo o<br />

valor <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais expresso em equivalentes <strong>de</strong> astaxantina. Para o método DMSO, calculouse<br />

a concentração <strong>de</strong> astaxantina a partir <strong>de</strong> dados da literatura (ANDREWES e STARR, 1976, LIM et<br />

al., 2002) , utilizando-se a absortivida<strong>de</strong> específica para as xantofilas a 474 nm, i.e., A % 1<br />

1cm = 1.600.<br />

Para a i<strong>de</strong>ntificação dos pigmentos, os extratos foram filtrados (0.22 µm) e injetados (10µL) em<br />

sistema <strong>de</strong> cromatografia líquida <strong>de</strong> alta eficiência HP-1100, equipado com coluna C18 <strong>de</strong> fase reversa<br />

(Vydac 201TP54, 250mm, 4,6 mm ∅), e <strong>de</strong>tector UV-VIS (477 ηm). Metanol:acetonitrila (90:10 v:v)<br />

foi utilizado como fase móvel, em fluxo <strong>de</strong> 1ml/min. A i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> <strong>de</strong> astaxantina livre no perfil


107<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

cromatográfico foi confirmada através do tempo <strong>de</strong> retenção (min) <strong>de</strong> padrão cromatográfico (1 mg/ml,<br />

SIGMA, St. Louis – USA, 98% <strong>de</strong> pureza) e para efeitos <strong>de</strong> cálculo da concentração daquele pigmento,<br />

utilizou-se uma curva-padrão externa (r 2 = 0,99), construída a partir da área do pico <strong>de</strong> interesse (Rt<br />

4,59min), nas condições experimentais acima <strong>de</strong>scritas.<br />

Os dados obtidos foram sumarizados e analisados através do teste t-stu<strong>de</strong>nt (p < 0,05), com o auxílio do<br />

programa Statistica (v. 5.0). Tendo em vista o uso mais freqüente <strong>de</strong> Haematococcus pluvialis como<br />

suplemento carotenoídico da dieta <strong>de</strong> peixes e crustáceos cultivados em cativeiro, aquela microalga foi<br />

consi<strong>de</strong>rada como testemunha relativa, para efeito <strong>de</strong> análise estatística referente às biomassas fontes<br />

<strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s, enquanto o método A foi utilizado como referência comparativa para os tratamentos <strong>de</strong><br />

extração em estudo.<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

As amostras das microalgas Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris apresentaram<br />

valores <strong>de</strong> conteúdos <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais superiores, comparativamente ao observado para a levedura<br />

Phaffia rhodozyma, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do protocolo <strong>de</strong> extração utilizado. Teores <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais<br />

superiores em 16 e 82 or<strong>de</strong>ns <strong>de</strong> magnitu<strong>de</strong> foram <strong>de</strong>tectados nas amostras <strong>de</strong> Chlorella vulgaris e<br />

Haematococcus pluvialis, em relação à amostra <strong>de</strong> P. rhodozyma, para os métodos <strong>de</strong> extração A e AB<br />

(Figura 1), respectivamente. Tal fato é <strong>de</strong> interesse, porque indica que o uso <strong>de</strong> bolas <strong>de</strong> vidro (Método<br />

AB) e a incubação das amostras em banho <strong>de</strong> gelo (20 min) não se mostraram vantajosos em relação à<br />

utilização do organosolvente isoladamente (Método A).<br />

O método DMSO, por sua vez, revelou o efeito positivo do pré-tratamento das amostras com<br />

aquele solvente aprótico nas condições experimentais utilizadas.A interação do DMSO com os<br />

componentes <strong>de</strong> pare<strong>de</strong> celular, corroborando para um relaxamento das estruturas macromoleculares<br />

associadas, é um fator que, em alguma extensão, parece favorecer a extração dos pigmentos<br />

carotenoídicos por organosolventes, i.e., éter <strong>de</strong> petróleo, conforme observado. De fato, o método<br />

DMSO mostrou-se como o <strong>de</strong> maior eficiência, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da espécie fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s.<br />

Adicionalmente, ressalta-se que a associação <strong>de</strong> DMSO e éter <strong>de</strong> petróleo: NaCl (1:1) revelou a<br />

existência <strong>de</strong> concentrações <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais altamente significativas (p < 0,01) em H. pluvialis<br />

(28785ug carotenói<strong>de</strong>s totais/g biomassa seca), comparativamente à C. vulgaris (4413ug carotenói<strong>de</strong>s<br />

totais/g biomassa seca) e P. rhodozyma (254ug carotenói<strong>de</strong>s totais/g biomassa seca). Estes resultados<br />

dão suporte à preferência <strong>de</strong> uso <strong>de</strong> H. pluvialis como fonte <strong>de</strong> compostos carotenoídicos em sistemas<br />

intensivos <strong>de</strong> cultivos <strong>de</strong> peixes e crustáceos, por exemplo.


Protocolo <strong>de</strong> extração<br />

Solvente A Solvente AB DMSO<br />

H. pluvialis<br />

P. rhodozyma<br />

C. vulgaris<br />

H. pluvialis<br />

P. rhodozyma<br />

C. vulgaris<br />

H. pluvialis<br />

P. rhodozyma<br />

C. vulgaris<br />

b A<br />

b A<br />

b A<br />

c B<br />

c A<br />

c B<br />

108<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000<br />

Figura 1 - Conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais (equivalentes <strong>de</strong> astaxantina) das microalgas Chlorella<br />

vulgaris e Haematococcus pluvialis e da levedura Phaffia rhodozyma, segundo o método <strong>de</strong><br />

extração utilizado (A, AB e DMSO). Valores médios <strong>de</strong> três experimentos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (*t-<br />

stu<strong>de</strong>nt, p< 0,05), segundo a espécie fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em estudo. Médias seguidas pela<br />

mesma letra minúscula não diferem entre si (p< 0,05), segundo a fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s. Valores<br />

médios não diferem entre si (p < 0,05) para os métodos <strong>de</strong> extração, quando acompanhados pela<br />

mesma letra maiúscula.<br />

A Figura 2 ilustra as distintas colorações das biomassas em estudo, previamente à extração dos<br />

pigmentos carotenoídicos.<br />

(a) (b) (c)<br />

Figura 2 - Amostras <strong>de</strong> biomassas liofilizadas dos microorganismos em estudo (a) Chlorella<br />

vulgaris, (b) Phaffia rhodozyma e (c) Haematococcus pluvialis, previamente à extração dos<br />

pigmentos carotenoídicos.<br />

a A<br />

a A<br />

microgramas carotenói<strong>de</strong>s totais/g biomassa seca<br />

a B*


109<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

As análises por cromatografia líquida revelaram a eficiência na extração <strong>de</strong> astaxantina livre (Rt =<br />

4.59min) em relação aos outros carotenói<strong>de</strong>s, nomeadamente sobre o β-caroteno, equinenona. As<br />

amostras <strong>de</strong> Haematococcus pluvialis apresentaram concentrações <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> 2,6%, 1,7% e<br />

4,7%, em relação ao conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, com a utilização dos métodos A, AB e DMSO,<br />

respectivamente. De forma similar ao observado para a extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, o método<br />

DMSO evi<strong>de</strong>nciou um rendimento superior (p < 0,05) à obtenção <strong>de</strong> astaxantina livre em relação aos<br />

<strong>de</strong>mais tratamentos em estudo.<br />

Para a microalga Chlorella vulgaris, valores <strong>de</strong> concentração <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> 13,1%<br />

(método A), 13,16% (método AB) e 13,4% (método DMSO) foram observados em relação ao conteúdo<br />

<strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, indicando que os três métodos apresentaram a mesma eficiência na extração<br />

daquele carotenói<strong>de</strong> em sua forma livre. No entanto, conteúdos <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> 87,5%, 52,7% e<br />

16,2% foram observados para os solventes A, AB e DMSO, respectivamente, para Phaffia rhodozyma.<br />

Este resultado é <strong>de</strong> interesse, uma vez que revela claramente a necessida<strong>de</strong> da escolha correta do(s)<br />

solvente(s) na <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> métodos extratores <strong>de</strong> alta eficiência. Dadas as características estruturais da<br />

pare<strong>de</strong> celular <strong>de</strong> Phaffia rhodozyma (BONFIM, 1999), é instigante especular que o efeito da acetona<br />

foi mais efetivo em relação aos <strong>de</strong>mais agentes extratores utilizados, no que concerne a uma maior<br />

permeabilização daquele componente celular, viabilizando um maior rendimento <strong>de</strong> extração <strong>de</strong><br />

astaxantina livre, portanto.<br />

Em resumo, os resultados <strong>de</strong>monstraram que para Haematococcus pluvialis e Chlorella vulgaris o<br />

método DMSO foi o mais eficiente à extração <strong>de</strong> astaxantina livre (p < 0,05). De forma contrária, para<br />

as amostras da levedura Phaffia rhodozyma, o método A mostrou-se mais seletivo à extração <strong>de</strong><br />

astaxantina livre. Em função disto, recomenda-se a <strong>de</strong>terminação prévia da eficiência <strong>de</strong> sistemas<br />

extratores, quando se objetiva alcançar altos rendimentos e seletivida<strong>de</strong> na obtenção dos pigmentos <strong>de</strong><br />

interesse, haja vista a aparente especifica<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação <strong>de</strong>stes, segundo a fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em estudo.<br />

Tal abordagem é <strong>de</strong> interesse tecnológico dado ao alto valor agregado dos pigmentos carotenoídicos à<br />

ativida<strong>de</strong> aquícola e à saú<strong>de</strong> humana, bem como em processos <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação e avaliação do potencial<br />

<strong>de</strong> novas fontes daqueles metabólitos secundários.<br />

As microalgas em estudo apresentaram conteúdos altamente significativos (p < 0,01) <strong>de</strong><br />

astaxantina livre em relação à levedura Phaffia rhodozyma, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do solvente extrator<br />

utilizado (Figura 3). De forma interessante, <strong>de</strong>staca-se a similarida<strong>de</strong> <strong>de</strong> valores <strong>de</strong> conteúdo daquele<br />

pigmento nas amostras <strong>de</strong> microalgas observada para o método <strong>de</strong> extração AB, indicando claramente o<br />

efeito do sistema extrator sobre os resultados <strong>de</strong> rendimento do pigmento <strong>de</strong> interesse, a <strong>de</strong>speito das<br />

diferenças genéticas e bioquímicas (i.e., potencial produtivo intrínseco <strong>de</strong> cada genótipo) e <strong>de</strong>


110<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

tecnologia <strong>de</strong> produção das biomassas (i.e., sistemas <strong>de</strong> cultivo e manejo) entre aquelas amostras. Este<br />

resultado reforça a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> sistemas extratores a<strong>de</strong>quados, <strong>de</strong> baixo custo e <strong>de</strong> alto<br />

rendimento, em processos produtivos <strong>de</strong> compostos <strong>de</strong> alto valor agregado e <strong>de</strong> reconhecida<br />

importância tecnológica nas áreas da aqüicultura e da nutrição e saú<strong>de</strong> humana.<br />

Protocolo <strong>de</strong> extração<br />

Solvente A Solvente AB DMSO<br />

H. pluvialis<br />

P. rhodozyma<br />

C. vulgaris<br />

H. pluvialis<br />

P. rhodozyma<br />

C. vulgaris<br />

H. pluvialis<br />

P. rhodozyma<br />

C. vulgaris<br />

b B<br />

b A<br />

b A<br />

a B<br />

a B<br />

Figura 3 - Conteúdo <strong>de</strong> astaxantina livre <strong>de</strong> amostras <strong>de</strong> biomassas <strong>de</strong> microalgas Chlorella<br />

vulgaris e Haematococcus pluvialis e <strong>de</strong> levedura Phaffia rhodozyma, segundo o método <strong>de</strong><br />

extração DMSO, AB e A. Valores médios <strong>de</strong> três experimentos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (*t-stu<strong>de</strong>nt, p<<br />

0,05), segundo a espécie fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em estudo. Médias seguidas pela mesma letra<br />

minúscula não diferem entre si (p< 0,05), segundo a fonte <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s. Valores médios não<br />

diferem entre si (p < 0,05) para os métodos <strong>de</strong> extração, quando acompanhados pela mesma<br />

letra maiúscula.<br />

Na análise dos resultados obtidos, é <strong>de</strong> interesse consi<strong>de</strong>rar que as discrepâncias observadas nos<br />

valores <strong>de</strong> concentração dos pigmentos carotenoídicos para os tratamentos em estudo po<strong>de</strong>m estar<br />

relacionadas, em alguma extensão, à ligação <strong>de</strong>stes compostos a macromoléculas tais como proteínas<br />

protoplasmáticas e polissacarí<strong>de</strong>os (CREMADES et al., 2003; VELU, 2003) nas amostras, dificultando<br />

sua extração. Além disto, a <strong>de</strong>gradação enzimática dos compostos carotenoídicos po<strong>de</strong> ser observada<br />

c A<br />

c C<br />

0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000<br />

micrograma astaxantina livre⁄g biomassa seca<br />

a A<br />

a A*


111<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

no <strong>de</strong>correr da etapa <strong>de</strong> moagem das amostras, ainda que o efeito <strong>de</strong>ste processo possa ser inibido com<br />

a utilização <strong>de</strong> agentes antioxidantes e/ou inibidores enzimáticos.<br />

O protocolo que consi<strong>de</strong>ra o pré-tratamento das amostras via adição <strong>de</strong> DMSO mostrou-se o mais<br />

eficiente para as amostras <strong>de</strong> microalgas, explicado pelo fato <strong>de</strong> que aquele solvente aprótico promove<br />

o inchamento das células dos microorganismos em estudo, favorecendo a extração dos carotenói<strong>de</strong>s<br />

com solventes orgânicos subseqüentemente (ANDREWES; STARR,. 1976) (Figura 1). No que<br />

concerne aos resultados obtidos para Phaffia rodozyma, entretanto, tal fato não foi observado,<br />

ressaltando-se que esta levedura apresenta uma pare<strong>de</strong> celular <strong>de</strong> espessura bastante proeminente, o que<br />

dificulta sobremaneira a extração dos pigmentos em análise (BONFIM, 1999).<br />

Outros métodos <strong>de</strong> extração vêm sendo estudados, com o intuito <strong>de</strong> maximizar a extração dos<br />

carotenói<strong>de</strong>s para posterior emprego alimentos, como é o caso do uso extração supercrítica associada<br />

ou não ao óleo <strong>de</strong> soja usado para a extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s das microalgas Chlorella vulgaris e<br />

Haematococcus pluvialis (GOUVEIA et al., 2007; NOBRE et al., 2006)<br />

Em estudo recente Nobre, et al., (2006), verificou que a extração <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />

Haematococcus pluvialis com o uso do método AB mostrou resultados similares ao observado no<br />

presente trabalho para o conteúdo <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais. No entanto, o método DMSO realizado neste<br />

estudo proporcionou ainda maiores percentagens <strong>de</strong> extração, cerca <strong>de</strong> 59,2% <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais<br />

extraídos da microalga Haematococcus pluvialis.<br />

Em outro estudo, Gouveia et al. (2006) apresenta concentrações na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 4mg/g <strong>de</strong><br />

carotenói<strong>de</strong>s totais na microalga Chlorella vulgaris, um valor bastante próximo aos resultados<br />

encontrados <strong>de</strong>ntro dos três métodos estudados: 4,4mg/g para o método DMSO, 3,4 mg/g para o<br />

método AB, e 3,8mg/g para o método A.<br />

PASSOS et al. (2006) recentemente publicaram um estudo on<strong>de</strong> se verificou a extração <strong>de</strong><br />

astaxantina por extração supercrítica e organosolventes na levedura Phaffia rhodozyma. Os autores<br />

concluíram que a biomassa moída em moinhos <strong>de</strong> bola e extraída com acetona apresentava o maior<br />

rendimento <strong>de</strong>ntro das técnicas estudadas.<br />

Adicionalmente, a extração supercrítica mostrou ter um rendimento em torno <strong>de</strong> 75% comparada<br />

com a extração com acetona. A extração supercrítica mostra-se ser uma alternativa eficaz, e <strong>de</strong> alta<br />

qualida<strong>de</strong>, uma vez que esta proporciona seus extratos <strong>de</strong> forma limpa, sem resíduos <strong>de</strong> solventes<br />

orgânicos.


CONCLUSÕES<br />

112<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do método <strong>de</strong> extração escolhido, a microalga Haematococcus pluvialis<br />

parece ser a biomassa <strong>de</strong> escolha no que concerne à quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais, assim como <strong>de</strong><br />

astaxantina livre.<br />

Entre os métodos <strong>de</strong> extração estudados, o método DMSO mostra ser <strong>de</strong> maior eficiência para a<br />

obtenção <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s totais e astaxantina livre. Contudo, <strong>de</strong>vido à alta toxicida<strong>de</strong> inerente aquele<br />

composto, este método <strong>de</strong>ve ser reservado apenas para a quantificação em laboratório.<br />

Sugere-se para estudos futuros uma análise <strong>de</strong>talhada sobre a facilida<strong>de</strong> em obtenção das três<br />

biomassas em análise e a sua produção <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s em larga escala, com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se obter a<br />

melhor relação custo-benefício entre os métodos e fontes <strong>de</strong> carotenói<strong>de</strong>s estudadas.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

A Professora Dra. Tânia Bonfim por ter cedido a levedura Phaffia rhodozyma para este estudo.<br />

A CAPES pela Bolsa <strong>de</strong> Estudos <strong>de</strong> Renata dos Passos e <strong>de</strong> Danilo G. Moriel<br />

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clarkii). Food Chemistry, v. 82, p. 559 –566, 2003.<br />

GOUVEIA, L.; GOMES, E.; EMPIS, J. Potential use of microalgae (Chlorella vulgaris) in the<br />

pigmentation of rainbow trout (Oncorhynchus mykiss) muscle. Lebensmittel-Untersuchung und-<br />

Forschung, v. 202, p. 75-79, 1996.<br />

GOUVEIA, L. et al. Chlorella vulgaris and Haematococcus pluvialis biomass as colouring and<br />

antioxidant in food emulsions. European Food Research Technology, v. 222, p. 362–367, 2006.<br />

GOUVEIA, L. et al. Functional food oil coloured by pigments extracted from microalgae with<br />

supercritical CO2. Food Chemistry, v. 101, p 717-723, 2007.<br />

LATSCHA, T. Carotenoids - their nature and significance in animal feeds. Basel: Hoffman-La Roche<br />

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113<br />

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MORIEL, D. G. et al. Effect of Feeding Methods on the Astaxanthin Production by Phaffia rhodozyma<br />

in Fed-Batchb Process. Brazilian Archives Of Biology And Technology, v. 48, n. 3, pp. 397-401, 2005.<br />

NOBRE, N. et al. Supercritical carbon dioxi<strong>de</strong> extraction of astaxanthin and other carotenoids from the<br />

microalga Haematococcus pluvialis. European Food Research Technology v. 223, p. 787-790, 2006.<br />

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crustaceans (Streptocephalus dichotomus and Moina micrura. Comparative Biochemistry and<br />

Physiology, Part B. v. 135, p. 35-42, 2003.�


114<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

UTILIZAÇÃO DA MACRÓFITA AQUÁTICA Egeria <strong>de</strong>nsa PLANCHON, 1849<br />

(HYDROCHARITACEA) NA PRODUÇÃO DE TIJOLOS PARA CONSTRUÇÃO<br />

CIVIL<br />

Thales Pacífico BEZERRA (thalespb@ig.com.br); Cristiano Pereira da SILVA<br />

(cristianopsilva@yahoo.com.br); José Patrocínio LOPES ( jpatrobr@yahoo.com.br).<br />

Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> do Estado da Bahia.<br />

RESUMO<br />

Nos reservatórios do rio São Francisco, um fato novo vem ocorrendo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1998 com o<br />

aproveitamento das águas <strong>de</strong>sses reservatórios, gerando também uma nova fonte <strong>de</strong> renda para a região,<br />

através <strong>de</strong> cultivos <strong>de</strong> tilápias em tanques-re<strong>de</strong>. Esta nova ativida<strong>de</strong> econômica praticada nos<br />

reservatórios da Companhia Hidroelétrica do São Francisco é <strong>de</strong> fundamental importância para o<br />

<strong>de</strong>senvolvimento regional, porém precisa-se ter o cuidado necessário para que não venha contribuir<br />

com maior intensida<strong>de</strong> no processo <strong>de</strong> eutrofização das águas e conseqüente proliferação <strong>de</strong> macrófitas<br />

aquáticas, administrando-se rações com baixo potencial poluente e com altos índices <strong>de</strong> conversão<br />

alimentar. Este trabalho busca otimizar a utilização <strong>de</strong> biomassa <strong>de</strong> macrófitas aquáticas na produção<br />

<strong>de</strong> tijolos ecológicos tipo adobe (tijolos <strong>de</strong> barro cru, secos ao sol). Desta forma, a macrófita po<strong>de</strong> se<br />

utilizada para construções <strong>de</strong> habitações <strong>de</strong> baixo custo, já que o tijolo <strong>de</strong> adobe é usado <strong>de</strong>s<strong>de</strong> os<br />

tempos mais remotos com esta finalida<strong>de</strong>. Por outro lado, busca-se uma solução para o bloom da<br />

macrófita Egeria <strong>de</strong>nsa nos reservatórios das usinas hidroelétricas que vem ocasionando problemas<br />

para CHESF, através da eutrofização dos reservatórios. O trabalho foi realizado na Estação Piscicultura<br />

<strong>de</strong> Paulo Afonso, com objetivo <strong>de</strong> testar a utilização da E. <strong>de</strong>nsa para confecção <strong>de</strong> tijolos artesanais.<br />

As porcentagens <strong>de</strong> biomassa adicionada à argila para elaboração dos tijolos foram: 1%, 2% e 5%<br />

visando verificar o melhor percentual da macrófita, para utilização aglutinante na confecção dos tijolos.<br />

Com o acréscimo da fibra da macrófita em quantida<strong>de</strong> certa (5%) e contrastando-se com a estrutura <strong>de</strong><br />

um tijolo normal <strong>de</strong> adobe sem macrófitas verifica-se neste último, mais fissuras do que um tijolo <strong>de</strong><br />

adobe inoculado por esta biomassa vegetal e que nos testes <strong>de</strong> resistência apresentou melhores<br />

resultados.<br />

Palavras-chaves: Tijolo <strong>de</strong> adobe, macrófitas aquáticas, manejo <strong>de</strong> lagos


ABSTRACT<br />

115<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

USE OF MACROPHYTE Egeria <strong>de</strong>nse PLANCHON, 1849 (HYDROCHARITACEA) IN THE<br />

PRODUCTION OF BRICKS AS ALTERNATIVE FOR CIVIL BUILDING<br />

In the reservoirs of river San Francisco, a new fact is happening since 1998 with the use of the waters<br />

of those reservoirs, also generating a new source of income for the area, through tilapias cultivations in<br />

tank-net. This new economical activity practiced in the reservoirs of the Hydro Electric Company of<br />

San Francisco, it is of fundamental importance for the regional <strong>de</strong>velopment, however needs to be the<br />

necessary careful so that it doesn't come to contribute with larger intensity in the process of<br />

eutrofization of the waters and consequent proliferation of aquatic macrophytes, being administered<br />

rations with pollutant potential bass and with high in<strong>de</strong>xes of alimentary conversion. This work search<br />

to optimize the use of biomass of aquatic macrophytes in the production of bricks ecological type it<br />

marinates (bricks of raw mud, dry in the sun), like this looking for a solution to the bloom of the<br />

macrophytes Egeria <strong>de</strong>nsa in the reservoirs of the hydroelectric plants that it is causing problems for<br />

CHESF, through the eutrofization of the reservoirs. The work was accomplished handma<strong>de</strong> in Paulo<br />

Afonso's fish culture, belonging CHESF. The experiment consisted of the use of E. <strong>de</strong>nsa for making<br />

of craft bricks. The biomass percentages ad<strong>de</strong>d to the clay for elaboration of the bricks were: 1%, 2%<br />

and 5% seeking to prove the percentile necessary of these macrophytes as agglutinant in the making of<br />

the bricks. And its has as goal also of suggesting the use of this material for constructions of low cost<br />

houses, since the adobe brick is used since the most remote times with this purpose. With the increment<br />

of the fiber of the macrophytes in right amount (5%) and being contrasted with the structure of a<br />

normal brick of adobe without macrophytes is verified in this last, more fissures than an adobe brick<br />

inoculated by this vegetable biomass and that in the resistance tests presented better results.<br />

KEYWORDS: adobe brick, aquatic macrophytes, handling of lakes<br />

INTRODUÇÃO<br />

Com os represamentos dos trechos encachoeirados do submédio São Francisco, visando a<br />

produção energia hidrelétrica, possibilitou a formação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s lagos artificiais, com amplas<br />

possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> também serem explorados economicamente por meio <strong>de</strong> uma piscicultura racional em<br />

gaiolas flutuantes (TENÓRIO et al., 1999).<br />

Com a formação dos reservatórios, a colonização das áreas adjacentes vem crescendo a um<br />

ritmo acelerado, provocando muitas vezes a <strong>de</strong>rrubada da vegetação ciliar das margens do rio São<br />

Francisco, que pouco ou nada sobrou. A vegetação existente hoje em suas bordas e ilhas é


116<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

inexpressiva e não possui significado fitofisionômico, já que a influência antrópica foi marcante e<br />

arrasadora (HIDROSERVICE, 1987).<br />

O nitrogênio e o fósforo são os nutrientes mais limitantes à produtivida<strong>de</strong> primária (produção <strong>de</strong><br />

fitoplâncton e plantas aquáticas) em ambientes aquáticos naturais (KUBITZA, 1999). Os resíduos e<br />

excrementos lançados na água ten<strong>de</strong>m a acumular-se em algum ponto do reservatório levados pelas<br />

águas, po<strong>de</strong>ndo causar impactos ambientais in<strong>de</strong>sejáveis, como por exemplo, a proliferação excessiva<br />

da Egeria <strong>de</strong>nsa, uma macrófita aquática submersa que po<strong>de</strong> se proliferar a profundida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> até 9 m e<br />

que hoje já é problema nos reservatórios Moxotó/PA IV e Delmiro Gouveia. Segundo Canfield et al.<br />

(1984), quando em excesso as macrófitas aquáticas interferem na produtivida<strong>de</strong> planctônica, na<br />

qualida<strong>de</strong> da água e na ativida<strong>de</strong> da pesca. O controle po<strong>de</strong> ser efetivado através <strong>de</strong> métodos<br />

mecânicos, químicos e biológicos (NAGLE, 1980; SUMMERFELT, 1993; BETOLLI et al., 1993,<br />

apud AGOSTINHO e GOMES, 1997).<br />

Normalmente, constroem-se diques que represam o curso da água, acumulando-a num<br />

reservatório a que se chama barragem. Esse tipo <strong>de</strong> usina hidráulica é <strong>de</strong>nominado Usina com<br />

Reservatório <strong>de</strong> Acumulação. Em outros casos, existem diques que não param o curso natural da água,<br />

mas obrigam a passar pela turbina <strong>de</strong> forma a produzir eletricida<strong>de</strong>, <strong>de</strong>nominando-se usinas a fio <strong>de</strong><br />

água (MÜLLER, 1995). A construção <strong>de</strong> barragens, transformando rios em gran<strong>de</strong>s bacias e<br />

reservatórios, traz gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento às regiões, tornando uma tendência natural o gran<strong>de</strong><br />

crescimento <strong>de</strong>mográfico <strong>de</strong>stas regiões, que quase sempre se encontram <strong>de</strong>sprovidas <strong>de</strong> infraestruturas<br />

específicas no que se refere à saú<strong>de</strong> dos ecossistemas. Consi<strong>de</strong>rando esta nova condição <strong>de</strong><br />

maior consumo <strong>de</strong> água e também em maiores proporções a produção e <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> esgotos que nada<br />

mais é que o <strong>de</strong>spejo <strong>de</strong> águas servidas associadas ao carregamento <strong>de</strong> nutrientes, diretamente para o<br />

leito dos rios, através do aporte dos <strong>de</strong>jetos domésticos e industriais, gran<strong>de</strong> parte sem tratamento, tem<br />

levado a uma condição <strong>de</strong> <strong>de</strong>sequilíbrio no sistema hídrico, caracterizado pela gran<strong>de</strong> disponibilida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> nutrientes acumulada diariamente.<br />

Atualmente esse processo é consi<strong>de</strong>rado por especialistas <strong>de</strong> todo o país como uma das patologias<br />

<strong>de</strong> mais influência em toda a bacia hidrográfica brasileira. Sendo <strong>de</strong>nominado e conhecido como<br />

eutrofização, que se estabelece <strong>de</strong>vido à gran<strong>de</strong> concentração <strong>de</strong> algas e vegetação aquática,<br />

alimentando-se <strong>de</strong>stes nutrientes, acarretando o aumento da produtivida<strong>de</strong> biológica <strong>de</strong>stas espécies,<br />

baixando as taxas <strong>de</strong> oxigenação e ocasionando problemas que vão <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a estética até o<br />

comprometimento da possível utilização da água. Gran<strong>de</strong> parte dos reservatórios da região é colonizada<br />

por macrófitas aquáticas, e entre elas a eló<strong>de</strong>a Egeria <strong>de</strong>nsa uma espécie exótica que vem


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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

caracterizando-se como uma espécie daninha no ecossistema aquático, causando problemas<br />

operacionais e <strong>de</strong> usos múltiplos em <strong>de</strong>corrência do <strong>de</strong>senvolvimento excessivo, formando verda<strong>de</strong>iros<br />

prados <strong>de</strong> macrófitas nas margens e em profundida<strong>de</strong>s superiores a oito metros.<br />

As plantas aquáticas submersas estão entre os mais sérios problemas dos ecossistemas aquáticos,<br />

tendo em vista que elas não po<strong>de</strong>m ser controladas com uso <strong>de</strong> herbicidas e dificilmente eliminadas via<br />

extração mecânica. Elas inva<strong>de</strong>m rapidamente novos locais <strong>de</strong>vido a sua reprodução vegetativa por<br />

sementes, dispersando-se cada vez mais catastroficamente em vários tipos <strong>de</strong> ecossistemas (LANGE,<br />

1996). Desta forma, este trabalho objetiva <strong>de</strong>screver uma forma <strong>de</strong> utilização <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa<br />

(Hydrocharitacea), que hoje se encontra em gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> nas bacias do Complexo Hidrelétrico <strong>de</strong><br />

Paulo Afonso (CHPA), causando gran<strong>de</strong>s prejuízos a este Complexo, inclusive no inverno com<br />

aumento e superpopulação <strong>de</strong>stas plantas, que atingem principalmente as zonas periféricas à montantes<br />

das barragens, comportas e turbinas em <strong>de</strong>trimento da a produção <strong>de</strong> energia elétrica (Figura 1).<br />

Volume em M3<br />

150<br />

140<br />

130<br />

120<br />

110<br />

100<br />

90<br />

80<br />

70<br />

60<br />

50<br />

40<br />

30<br />

20<br />

10<br />

0<br />

JAN FEV MAR ABR MAIO JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ<br />

Mês<br />

Figura 1 - Volume <strong>de</strong> macrófitas <strong>de</strong> retiradas no reservatório Delmiro Gouveia,<br />

apresentando pico no período <strong>de</strong> inverno (março a junho) <strong>de</strong> 1996 (Fonte: Lopes, 2002).<br />

A distribuição das espécies no ambiente aquático é variável, e <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo do grau da adaptação<br />

da espécie, ela habita regiões mais rasas ou mais profundas. Elas estão presentes em todos os<br />

ecossistemas aquáticos, variando somente a composição entre si. Normalmente, as plantas aquáticas<br />

têm uma distribuição mais ampla do que a maioria das plantas terrestres; isto é <strong>de</strong>corrente da pequena<br />

variação sofrida pelos fatores do ambiente aquático, o que confere às macrófitas aquáticas uma ampla<br />

distribuição fitogeográfica, possibilitando o aparecimento <strong>de</strong> muitas espécies cosmopolitas (IRGANG;<br />

GASTAL Jr, 1996).<br />

O controle mecânico utilizando embarcações apropriadas, visando a retirada da biomassa do<br />

corpo hídrico, é uma das alternativas a serem consi<strong>de</strong>radas. Embora este método apresente algumas


118<br />

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vantagens, como ação <strong>de</strong> modo pontual nas áreas infestadas e não-contaminação do ambiente com<br />

compostos químicos e tóxicos, existe a preocupação em relação ao material coletado a ser <strong>de</strong>scartado,<br />

haja vista a gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> biomassa envolvida nesse processo e enfim tentar <strong>de</strong>stinar e<br />

<strong>de</strong>senvolver um valor agregado a este material. A expansão das populações <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa nos<br />

reservatórios do CHPA vem acarretando inúmeros transtornos operacionais, aumentando a<br />

preocupação do setor <strong>de</strong> geração <strong>de</strong> energia elétrica.<br />

A capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> produção <strong>de</strong> biomassa e regeneração dos prados <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa já é avaliada nos<br />

reservatórios <strong>de</strong> Paulo Afonso. Isto indica o gran<strong>de</strong> potencial <strong>de</strong> produção <strong>de</strong> biomassa <strong>de</strong>stes prados e<br />

a rapi<strong>de</strong>z com que estes se recompõem, mostrando a dificulda<strong>de</strong> permanente do seu controle nos<br />

reservatórios, por isso a gran<strong>de</strong> preocupação para uma objetivação nos processos <strong>de</strong> manejos <strong>de</strong>sta<br />

macrófita (FADURPE, 2002). O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi avaliar o potencial <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa,<br />

principal planta aquática que gera gran<strong>de</strong> problema nos reservatórios hidrelétricos e com precisão nos<br />

do CHPA no que se refere à geração <strong>de</strong> energia, visando o estabelecimento <strong>de</strong> programas <strong>de</strong> controle<br />

mecânico e usual, com finalida<strong>de</strong> da utilização <strong>de</strong>ste material coletado como alternativa <strong>de</strong> fabricação<br />

<strong>de</strong> tijolos ecológicos e <strong>de</strong> baixo custo na região.<br />

Este tema envolve diversos profissionais em áreas da engenharia e outros profissionais que<br />

trabalham com manejo <strong>de</strong> reservatórios. O produto final (tijolos) também <strong>de</strong>ve auxiliar principalmente<br />

no estabelecimento <strong>de</strong> novos programas biológicos <strong>de</strong> controle po<strong>de</strong>ndo ser utilizado na construção<br />

civil aten<strong>de</strong>ndo a programas <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> casas populares ou outras obras como da engenharia para<br />

aqüicultura quando <strong>de</strong> sua utilização na construção <strong>de</strong> caixas <strong>de</strong> coletas <strong>de</strong> tanques e viveiros ou<br />

mesmo como forro <strong>de</strong> talu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>stes ambientes, sendo necessária a impermeabilização a base <strong>de</strong> terracimento<br />

conforme utilizado tradicionalmente na construção civil.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

O trabalho foi realizado na Estação Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), pertencente à<br />

Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF). A matéria-prima (eló<strong>de</strong>a) foi colhida no lago o<br />

Boi e a Sucuri que faz parte dos lagos do CHPA. A argila foi doada pela Cerâmica São Francisco <strong>de</strong><br />

Paulo Afonso. O experimento consistiu na utilização da Eló<strong>de</strong>a, Egeria <strong>de</strong>nsa, misturada a argila, para<br />

confecção <strong>de</strong> tijolos artesanais. Na fabricação, serão acrescentadas porcentagens diferentes <strong>de</strong>sta<br />

macrófita junto com a argila para se ter o conhecimento com qual porcentagem se chegará a um tijolo<br />

ecológico <strong>de</strong> melhor resistência e <strong>de</strong> uma boa qualida<strong>de</strong>. As porcentagens <strong>de</strong> biomassa seca<br />

adicionadas a argila para a elaboração dos tijolos foram 1%, 2% e 5% para se ter uma melhor


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comprovação das proprieda<strong>de</strong>s compactantes da eló<strong>de</strong>a e <strong>de</strong>sta forma saber que quantida<strong>de</strong> será<br />

adotada para a confecção dos tijolos.<br />

O primeiro passo foi coletar o material no lago o Boi e a Sucuri, colonizado por esta macrófita e<br />

em seguida colocar para secagem adquirindo a fibra seca e em ponto <strong>de</strong> ser agregada ao produto (tijolo<br />

<strong>de</strong> adobe). As características dos ensaios mecânicos dos tijolos foram realizadas com adaptações<br />

relativas à produção dos tijolos maciços. Desta forma, por se tratar da pouca existência <strong>de</strong> material que<br />

<strong>de</strong>screva os métodos <strong>de</strong> ensaios, normas e especificações e características <strong>de</strong> procedimentos nacionais,<br />

foi optado pelo processo artesanal para po<strong>de</strong>r melhor especificar o <strong>de</strong>talhamento dos testes, mostrando<br />

todas as etapas <strong>de</strong> realização do processo diante das dificulda<strong>de</strong>s encontradas nesta fase <strong>de</strong> experiência<br />

da produção.<br />

A MACRÓFITA<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

Egeria <strong>de</strong>nsa é classificada em função <strong>de</strong> sua instalação ao ecossistema aquático e seu grau <strong>de</strong><br />

povoamento em relação ao nível <strong>de</strong> água, como uma macrófita submersa (Figura 2), é conhecida<br />

vulgarmente como eló<strong>de</strong>a e está incluída na relação das monocotiledôneas aquáticas.<br />

Taxonomicamente está enquadrada da seguinte maneira: Classe Monocotiledônea; Or<strong>de</strong>m Heloliae;<br />

Família Hydrocharitacea; Gênero Egeria e Espécie Egeria <strong>de</strong>nsa Planchon, 1849<br />

A coleta realizou-se no período da manhã para aproveitar<br />

a boa visibilida<strong>de</strong> da água em dia <strong>de</strong> sol forte na região do lago o<br />

Boi e a Sucuri, na zona central <strong>de</strong> Paulo Afonso. Colheu-se um<br />

volume aproximado <strong>de</strong> 20 kg, sendo quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> macrófitas<br />

suficiente para as <strong>de</strong>vidas etapas do experimento. Após a coleta,<br />

as plantas foram <strong>de</strong>vidamente acondicionadas em sacos<br />

plásticos, e levadas para a EPPA e espalhadas ao sol por 48<br />

horas para perda do excesso <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> (87%), tornando a Figura 2 - Eló<strong>de</strong>a Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

planta seca sem se tornar quebradiça. Após a secagem da (Fonte: Lopes, 2002)<br />

macrófita e adquirida a fibra propriamente dita, foi iniciado o processo <strong>de</strong> pesagem que ocorreu no<br />

sentido <strong>de</strong> separar em embalagens plásticas com os respectivos volumes do percentual estipulado para<br />

cada amostra dos tratamentos. Assim, foram selecionados 10 volumes com 20 g equivalentes as<br />

amostras <strong>de</strong> 1%; 10 volumes com 40 g equivalentes as amostras <strong>de</strong> 2% e 10 volumes com 100 g<br />

equivalentes as amostras <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa. O percentual foi baseado no peso total <strong>de</strong> tijolos utilizados<br />

na região (2 kg).


A ARGILA<br />

120<br />

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Encontrada abundantemente na natureza a argila é <strong>de</strong> fácil manipulação, tem uma enorme<br />

elasticida<strong>de</strong> permitindo trabalhos com diversida<strong>de</strong> e é totalmente reciclável. A argila tem em comum<br />

componentes <strong>de</strong> lamas e solos sendo constituída, principalmente <strong>de</strong> minerais do grupo das argilas aos<br />

quais agregam-se hidróxidos coloidais floculados e diversos outros componentes, cristalinos ou<br />

amorfos. Trata-se <strong>de</strong> material natural, <strong>de</strong> textura terrosa, <strong>de</strong> granulações finas, constituídas<br />

essencialmente <strong>de</strong> argilominerais, po<strong>de</strong>ndo conter outros minerais que não são argilominerais (quartzo,<br />

mica, pirita, hematita, etc), matéria orgânica e outras impurezas. Os argilominerais são os minerais<br />

característicos das argilas; quimicamente são silicatos <strong>de</strong> alumínio ou magnésio hidratados, contendo<br />

em certos tipos outros elementos como ferro, potássio, lítio, etc.<br />

Graças aos argilominerais, as argilas na presença <strong>de</strong> água <strong>de</strong>senvolvem uma série <strong>de</strong> proprieda<strong>de</strong>s<br />

tais como: plasticida<strong>de</strong>, resistência mecânica a úmido, retração linear <strong>de</strong> secagem, compactação,<br />

tixotropia e viscosida<strong>de</strong> <strong>de</strong> suspensões aquosas que explicam sua gran<strong>de</strong> varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> aplicações<br />

tecnológicas. Os principais grupos <strong>de</strong> argilominerais são caulinita, ilita e esmectitas ou montmorilonita.<br />

Em função principalmente das possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> emprego tecnológico, que são influenciadas pela<br />

gênese e pela composição mineralógica do material, em muitos casos as argilas recebem <strong>de</strong>signações<br />

como: caulins, bentonitas, argilas refratárias, flint-clays e ball clays.<br />

SELEÇÃO E COLETA DA ARGILA<br />

O solo escolhido partiu <strong>de</strong> uma amostra selecionada pela Empresa Cerâmica São Francisco,<br />

mediante processo <strong>de</strong> produção adotado por essa Empresa, localizada na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Paulo Afonso que<br />

ce<strong>de</strong>u este material para realização <strong>de</strong>sta pesquisa. O material foi previamente colhido na jazida da<br />

localida<strong>de</strong> do povoado Rio <strong>de</strong> Sal, que apresenta uma argila com um excelente fator ligante.<br />

PRODUÇÃO DE TIJOLOS<br />

Os tijolos foram produzidos manualmente na área externa da EPPA, on<strong>de</strong> as etapas <strong>de</strong> produção<br />

dos tijolos maciços exigiram bastante mão-<strong>de</strong>-obra. Esta pesquisa <strong>de</strong> utilização <strong>de</strong> macrófitas aquáticas<br />

na fabricação <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe consistiu em três tratamentos (T1, T2 e T3) com 10 repetições cada.<br />

Foi utilizado um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> “forma” ou gabarito <strong>de</strong> tijolo maciço, comum, utilizado e produzido nesta<br />

região, aon<strong>de</strong> as dimensões adotadas para confecção dos tijolos são: 8cm x 12cm x 25cm. Assim, cada<br />

amostra do tijolo necessariamente estará pesando 2 kg, que é o peso referente a esse tamanho <strong>de</strong> tijolo<br />

adotado na construção civil local. Para se início da construção dos tijolos é necessário o amassamento e<br />

<strong>de</strong>scanso da argila. Segundo Minke (2000), é necessário o amassamento do barro (mistura <strong>de</strong> solo,<br />

biomassa e água), para melhor homogeneização da umida<strong>de</strong> e absorção, sendo necessário o <strong>de</strong>scanso


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do barro por média <strong>de</strong> 48 horas, antes da moldagem dos tijolos. Trata-se <strong>de</strong> um processo vigoroso e<br />

repetitivo para a boa qualida<strong>de</strong> da mistura do aglomerante ao aglomerado. Com isso adquirir o melhor<br />

ponto <strong>de</strong> liga do material composto. O i<strong>de</strong>al seria que o solo passasse por uma peneira grossa para o seu<br />

melhor “<strong>de</strong>storroamento” e mistura para homogeneização do mesmo, logo esse procedimento foi<br />

<strong>de</strong>sprezado <strong>de</strong>vido o material já tinha sido adquirido com um gran<strong>de</strong> teor <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> e seu composto<br />

apresentava-se muito argiloso.<br />

Esse processo <strong>de</strong> amassamento teve toda execução manual por meio artesanal e rústico. Logo<br />

com o tempo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scanso do material concluído, observou-se o ponto <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> do material. Assim,<br />

foi dado início a distribuição das partículas e medição dos volumes disponíveis <strong>de</strong> cada amostra. On<strong>de</strong><br />

foram separados os volumes respectivos <strong>de</strong> cada amostra <strong>de</strong> percentual <strong>de</strong>terminado por tratamento.<br />

Para o tratamento 1 (T1) 1% <strong>de</strong> Egeria adicionado a argila. Para o tratamento 2 (T2) 2% Egeria<br />

adicionado a argila e para o tratamento 3 (T3) 5% da macrófita fenada para inoculação na argila e<br />

confecção dos tijolos <strong>de</strong> adobe. Todos os três tratamentos tiveram 10 repetições.<br />

A moldagem consistiu em produzir uma amostragem com 10 peças <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe com<br />

peso <strong>de</strong> 2 kg <strong>de</strong> cada série. Logo foi feito o processo <strong>de</strong> pesagem volumétrica das amostras usando<br />

uma balança mecânica. Com o material já em ponto <strong>de</strong> boa mistura, on<strong>de</strong> a biomassa foi <strong>de</strong>vidamente<br />

incorporada à argila para imediatamente colocá-la nas formas para tijolos. O ponto <strong>de</strong> boa mistura foi<br />

i<strong>de</strong>ntificado visualmente. Antes da utilização das formas, estas se mantiveram <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> tanques com<br />

água para manter-se úmida e facilitar a rápida <strong>de</strong>smoldagem das peças. Esse processo é bastante<br />

rápido, pois a partir do ponto <strong>de</strong> homogeneização <strong>de</strong> mistura o material é rapidamente lançado nas<br />

formas e em seguida <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> 10 minutos já é feita a <strong>de</strong>smoldagem, com isso torna-se um processo<br />

repetitivo <strong>de</strong> operação <strong>de</strong>: mistura, homogeneização, moldagem e <strong>de</strong>smoldagem.<br />

CARACTERIZAÇÃO DO ENSAIO<br />

Depois <strong>de</strong> confeccionados os tijolos com o intuito testar capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resistência dos mesmos,<br />

foram enviadas três amostras <strong>de</strong> cada ensaio e uma amostra <strong>de</strong> tijolos confeccionados somente com<br />

argila, sem acréscimo da macrófita a sua constituição.<br />

Estas amostras foram encaminhadas ao Laboratório <strong>de</strong> Pesquisas <strong>de</strong> Estruturas e Materiais<br />

(LEMA) do NPT do Núcleo <strong>de</strong> Pesquisas Tecnológicas (NPT) da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Alagoas<br />

(UFAL), Maceió-AL, para os ensaios <strong>de</strong> resistência à compressão <strong>de</strong> corpos-<strong>de</strong>-prova cilíndricos <strong>de</strong><br />

concreto, blocos (cerâmicos e <strong>de</strong> concreto) e prismas (<strong>de</strong> blocos cerâmicos <strong>de</strong> concreto). As amostras<br />

encaminhadas ao laboratório caracterizam-se por quatro amostragens <strong>de</strong> tijolos maciços. Os ensaios<br />

foram realizados com base nos métodos <strong>de</strong> ensaios recomendados pelas normas da Associação


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<strong>Brasileira</strong> <strong>de</strong> Normas Técnicas (ABNT): NBR 8492/81 – tijolo maciço <strong>de</strong> solo – cimento –<br />

Determinação da resistência à compressão da absorção d’água – Método <strong>de</strong> Ensaio e NBR 7170 Tijolo<br />

maciço para alvenaria.<br />

RESULTADOS<br />

Em exame visual verificou-se que os tijolos (T1), que foi adicionado 1% <strong>de</strong> biomassa à argila,<br />

foram encontrados nas <strong>de</strong>z amostras confeccionadas oito blocos que apresentaram fissuras. No<br />

experimento (T2), com 2% <strong>de</strong> biomassa adicionada à argila, dos <strong>de</strong>z blocos, cinco (50%)<br />

apresentaram fissuras. Nos blocos com 5% <strong>de</strong> biomassa misturada à argila somente em dois blocos<br />

(20%) foram encontradas fissuras, o que já <strong>de</strong>monstra que os tijolos com cinco por cento <strong>de</strong><br />

macrófitas misturada à argila apresentam melhor resistência (Figura.3).<br />

Figura 3 - Tijolos com 1, 2 e 5% <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa em sua composição.<br />

A tabela 1 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência da amostra testemunha (tijolos <strong>de</strong> barro sem<br />

macrófitas).<br />

Tabela 1. Resistência em tijolos <strong>de</strong> barro sem inóculo da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

LOTE BLOCO Nº<br />

ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />

14/03/06 COMP. LARG.<br />

CARGA (N) TENSÃO (MPA)<br />

0 01 14/03/06 111 108 22072 1,8<br />

0 02 14/03/06 111 108 17413 1,5<br />

0 03 14/03/06 111 108 22072 1,8<br />

MÉDIA 1,7


123<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A tabela 2 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos <strong>de</strong> barro com inóculo <strong>de</strong> 1% <strong>de</strong> E.<br />

<strong>de</strong>nsa.<br />

Tabela 2. Resistência em tijolos <strong>de</strong> adobe com inóculo <strong>de</strong> 1% da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />

LOTE BLOCO Nº 14/03/06 COMP. LARG. CARGA (N) TENSÃO (MPA)<br />

1 01 14/03/06 111 103 24525 2,1<br />

1 02 14/03/06 111 101 24525 2,2<br />

MÉDIA 2,2<br />

A tabela 3 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos com inóculo <strong>de</strong> 2% <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa.<br />

Tabela 3. Resistência em tijolos <strong>de</strong> adobe com inóculo <strong>de</strong> 2% da macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />

LOTE BLOCO Nº 14/03/06 COMP. LARG. CARGA (N) TENSÃO (MPA)<br />

2 01 14/03/06 109 104 27959 2,5<br />

2 02 14/03/06 108 100 26978 2,5<br />

2 03 14/03/06 107 100 24525 2,3<br />

MÉDIA 2,4<br />

A tabela 4 apresenta os resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos com inóculo, 5% <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa.<br />

Tabela 4 - Resultados <strong>de</strong> resistência em tijolos <strong>de</strong> adobe com inóculo <strong>de</strong> 5% da<br />

macrófita aquática Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

ENSAIO DIMENSÕES (mm)<br />

LOTE BLOCO Nº 14/03/06 COMP. LARG.<br />

CARGA<br />

(N)<br />

TENSÃO (MPA)<br />

5 01 14/03/06 107 105 22073 2,0<br />

5 02 14/03/06 108 102 27713 2,5<br />

5 03 14/03/06 107 105 25751 2,9<br />

MÉDIA 2,5<br />

Diante os resultados, observa-se que a inoculação <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong> fibra <strong>de</strong> E. <strong>de</strong>nsa à argila, para<br />

confecção <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe, apresentou menos fissuras e maior resistência que os <strong>de</strong>mais (Figura<br />

4).


Figura 4 - Tijolos com inóculos <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

DISCUSSÃO<br />

124<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Segundo Margalef (1986) apud Vega (1997), “Comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> macrófitas que formam gran<strong>de</strong>s<br />

ilhas impossibilitando a passagem total da luz po<strong>de</strong> acarretar a diminuição <strong>de</strong> 3 a 6 o C na temperatura<br />

em camadas inferiores da água, que por sua vez po<strong>de</strong> modificar totalmente o ecossistema subaquático”.<br />

Macrófitas aquáticas em excesso nos lagos e reservatórios, e principalmente próximos a capitação <strong>de</strong><br />

água para abastecimento em piscicultura, po<strong>de</strong>m proporcionar sérios problemas no cultivo <strong>de</strong> peixes,<br />

pelo acúmulo <strong>de</strong> matéria orgânica, <strong>de</strong>ixando a água imprópria para esta finalida<strong>de</strong>. Como exemplo real,<br />

po<strong>de</strong>mos citar o lago do Cemitério em Paulo Afonso, que face ao excesso <strong>de</strong> macrófitas aquáticas,<br />

ficou impróprio para o abastecimento <strong>de</strong> água na Estação <strong>de</strong> Piscicultura da CHESF, sendo necessário a<br />

transferência da captação d’água para o reservatório <strong>de</strong> Moxotó. Existem plantas aquáticas que<br />

constituem um substrato i<strong>de</strong>al para proliferação <strong>de</strong> insetos (culici<strong>de</strong>os), moluscos e outras comunida<strong>de</strong>s<br />

transmissoras <strong>de</strong> enfermida<strong>de</strong>s relacionadas com as represas (VEGA, 1997).<br />

A gran<strong>de</strong> discussão <strong>de</strong>ste trabalho está ao redor <strong>de</strong> um questionamento a respeito dos tijolos<br />

<strong>de</strong> adobe confeccionados da forma que este trabalho se propõe com a introdução <strong>de</strong> Egeria <strong>de</strong>nsa<br />

uma macrófita, recolhida nos reservatórios da CHESF, na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Paulo Afonso - Bahia. Estes<br />

tipos <strong>de</strong> tijolos não são levados ao forno para queimar e sim <strong>de</strong>ixados para secar normalmente o que<br />

permite uma discussão em relação a sua resistência.<br />

Ressalta-se que, ao longo do tempo, vários países, inclusive o Brasil e precisamente na<br />

região Nor<strong>de</strong>ste, esta prática ainda é comum. No Estado do Piauí comunida<strong>de</strong>s carentes fabricam<br />

seus tijolos <strong>de</strong> adobe geralmente as margens <strong>de</strong> reservatórios hidrelétricos. Estes secam ao sol e<br />

após, são utilizados diretamente na construção <strong>de</strong> suas casas sem necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> serem assados ao<br />

forno (Figs. 5 e 6). Através <strong>de</strong> várias culturas e hábitos sociais diferentes ainda se utiliza a


125<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

construção <strong>de</strong> casas a base <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> argila crua, estando em acordo com autores como Barrios e<br />

Arcos (1986), que afirma que um terço da população vive em habitações <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe.<br />

Figura 5 - Fabricação <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe as margens do reservatório <strong>de</strong><br />

Boa Esperança, Rio Parnaíba, MA/PI<br />

Figura 6 - Casa construída com tijolos <strong>de</strong> adobe em Porto Alegre do Piauí, PI.<br />

Segundo Meunier (1998), os egípcios, utilizavam tijolos <strong>de</strong> adobe para construir residências<br />

tanto dos ricos como pobres. Na bíblia são encontradas referências aos tijolos <strong>de</strong> adobe com<br />

utilização <strong>de</strong> fibras vegetais adicionadas aos blocos, tais como os seguintes trechos bíblicos: “tira<br />

água para o tempo do cerco; reforça as tuas fortalezas; entra no lodo, pisa o barro, pega na forma<br />

para os tijolos (livro <strong>de</strong> Naum, capítulo 3, versículo 14)” e “não tornareis a dar, como dantes, palha<br />

ao povo para fazer tijolos; vão eles mesmos, e colham palha para si (livro <strong>de</strong> Êxodo, capítulo 5,<br />

versículo 8)”.<br />

No experimento realizado dá para constatar que o tijolo <strong>de</strong> adobe possui uma boa<br />

resistência, mas quando misturada à argila junto com as macrófitas aquáticas na confecção do bloco<br />

principalmente na quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 5% percebe-se nos resultados obtidos uma maior resistência <strong>de</strong>stes<br />

tijolos. Em relação à manutenção <strong>de</strong> construções a base <strong>de</strong> tijolos <strong>de</strong> adobe, lembra-se que a


126<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manutenção não é somente dos tijolos <strong>de</strong> adobe, mas também que qualquer material<br />

utilizado em uma construção exigirá cuidados com sua manutenção seja ela corretiva ou preventiva<br />

para o seu bom <strong>de</strong>sempenho e durabilida<strong>de</strong>.<br />

Os tijolos confeccionados, aparentemente, mostram asperezas no acabamento. No entanto,<br />

esta superfície menos lisa favorece a a<strong>de</strong>rência <strong>de</strong> revestimento das pare<strong>de</strong>s e a proteção mecânica<br />

dos tijolos, contra a ação do intemperismo e favorecem a sua utilização em outras obras <strong>de</strong><br />

engenharia como construção <strong>de</strong> tanques e caixas <strong>de</strong> coletas para viveiros. A produção dos tijolos <strong>de</strong><br />

adobe também favorece a diminuição progressiva do <strong>de</strong>smatamento e extração <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, que<br />

ainda hoje é utilizada como combustível, na queima <strong>de</strong> tijolos e telhas, um dos processos na<br />

produção nas olarias, estes <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> produção na região. On<strong>de</strong> a extração <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira continua<br />

sendo uma exploração econômica.<br />

CONCLUSÕES<br />

A utilização da macrófita Egeria <strong>de</strong>nsa para confecção <strong>de</strong> tijolos do tipo adobe é uma<br />

alternativa no controle do bloom <strong>de</strong>stas macrófitas que ocorrem nos reservatórios das hidroelétricas<br />

como os da CHESF, o que vem acarreta transtornos operacionais ao setor elétrico na geração <strong>de</strong><br />

energia.<br />

Os tijolos apresentaram boa resistência, <strong>de</strong> modo que po<strong>de</strong>m ser utilizados para construções<br />

<strong>de</strong> casas populares e/ou para obras que exijam menor esforço, <strong>de</strong> forma que po<strong>de</strong> ser uma solução<br />

para aproveitamento das macrófitas retiradas dos reservatórios.<br />

REFERÊNCIAS<br />

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TECNICAS NBR 7170. Tijolo maciço para<br />

alvenaria. Rio <strong>de</strong> Janeiro: ABNT, 1983.<br />

AGOSTINHO, A.A.; GOMES, L.C. Reservatório <strong>de</strong> Segredo, Bases Ecológicas para o Manejo.<br />

Maringá: COPEL, EDUEM, UEM, p. 350-351, 1997.<br />

BARRIOS, G. A., L; ARCOS. Comportamiento <strong>de</strong> los suelos para la confeccion <strong>de</strong> adobes.<br />

Informes <strong>de</strong> la construcion. 1986.<br />

CANFIELD J.R. et al. Prediction of chlorophyll a concentrations in Florida lakes: importance of<br />

aquatic macrophytes. Can. J. Fish. Aquat. Sci., v. 41. p. 497-501. 1984.<br />

FADURPE. Estudo do Ecossistema dos Reservatórios das Barragens do Sistema Hidrelétrico <strong>de</strong><br />

Paulo Afonso e Itaparica. Terceira etapa. 3º Relatório. Recife. 2002.


127<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

HIDROSERVICE – <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> Projetos Ltda. Estudos Ambientais Volume II – Diagnóstico<br />

Ambiental da Área <strong>de</strong> Influência do Empreendimento – Usina Hidroelétrica <strong>de</strong> Itaparica, Recife:<br />

CHESF, 1987.<br />

IRGANG, B.E.; C.V.S. GASTAL Jr. Macrófitas aquáticas da planície costeira do Rio Gran<strong>de</strong> do<br />

Sul. Porto Alegre, 1996.<br />

KUBITZA, F. Tanques-re<strong>de</strong>, Rações e Impacto Ambiental. Panorama da Aqüicultura, v. 9, n. 51, p.<br />

44-50. 1999.<br />

MEUNIER, C. Construire em terre crue: hier et aujourd´hui em Dauphiné em France dans lê mon<strong>de</strong>.<br />

(Texto e diapositivo). Grenoble: CRDP et CDDP <strong>de</strong> l´Aca<strong>de</strong>mie <strong>de</strong> Grenoble. 34p. 24 diapositivos,<br />

color. 1998.<br />

MÜLLER, A.C. Hidrelétricas, Meio Ambiente e Desenvolvimento. São Paulo: Makron Books,<br />

1995.<br />

MINKE, G. Manual <strong>de</strong> construccion em tierra: la tierra como material <strong>de</strong> construcción y sus<br />

aplicaciones en la arquitectura actual. Montevidéo: Nordan-Comunidad, 2001.<br />

LANGE, S. The control of aquatic plant by commercial harvesting, processing and marketing.<br />

Proc. Southern Weed Conf. v. 18, p. 536- 452. 1996.<br />

LOPES, J.P.; TENÓRIO, R.A. Contribuição para o conhecimento <strong>de</strong> macrófitas aquáticas<br />

existentes nos lagos e reservatórios do complexo hidrelétrico <strong>de</strong> Paulo Afonso - 0 CHESF. XIX<br />

CONGRESSO DA SOCIEDADE BOTÂNICA DE SÃO PAULO. Anais... Rio Claro: UNESP,<br />

2002.<br />

TENÓRIO, R. A. et al. Desempenho do Niquim, Lophiosilurus alexandri (Pisces, Siluriformes,<br />

Pimelodidae), em Gaiolas Flutuantes durante 365 dias <strong>de</strong> Cultivo. In: XI CONGRESSO BRASILEIRO<br />

DE ENGENHARIA DE PESCA. RECIFE, V. 1. Anais... Recife: CONLAEP, AEP-PE/FAEP-BR,<br />

1999. p. 270-277.<br />

VEGA, L.M.F. Contribución al Estudio <strong>de</strong> Plantas Acuáticas en Embalses Hidroeléctricos. El caso<br />

Itaipu (Margem Derecha). Ciudad <strong>de</strong>l Este: Itaipu Binacional, 1997.�


128<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

ANÁLISE ESTATÍSTICA DAS VARIÁVEIS DE CULTIVO DO<br />

CAMARÃO-CINZA Litopenaeus vannamei (BOONE, 1931)<br />

Bruno Leonardo da Silva SANTOS (brunopesca@hotmail.com);<br />

Paulo <strong>de</strong> Paula MENDES (paulo_ufrpe@yahoo.com.br)<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura/UFRPE.<br />

RESUMO<br />

Foram utilizados 53 dados <strong>de</strong> cultivos <strong>de</strong> uma fazenda comercial do camarão-cinza Litopenaeus<br />

vannamei, objetivando correlacionar as variáveis respostas com as <strong>de</strong> manejo utilizando-se mo<strong>de</strong>los<br />

matemáticos. As variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes analisadas foram: sobrevivência, peso final, fator <strong>de</strong> conversão<br />

alimentar, produção, produtivida<strong>de</strong> e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração, enquanto que as in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes foram:<br />

número do viveiro, número do ciclo, área do viveiro, trimestre do ano, ano, <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem,<br />

dias <strong>de</strong> cultivo, laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva e marca da ração. Para selecionar as variáveis<br />

significativas nos mo<strong>de</strong>los (P < 0,05), utilizou-se a técnica <strong>de</strong> Stepwise associada ao processo <strong>de</strong><br />

transformação <strong>de</strong> Box e Cox. A estimação do transformador (λ) foi feito com a minimização da soma<br />

dos quadrados dos resíduos. Verificou-se que dias <strong>de</strong> cultivo, <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem, laboratório<br />

fornecedor <strong>de</strong> pós-larva e a área dos viveiros foram as variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes significativas para<br />

predição das variáveis respostas.<br />

PALAVRAS CHAVE: Litopenaeus vannamei, manejo, mo<strong>de</strong>los, variáveis.<br />

ABSTRACT<br />

STATISTICAL ANALYSIS OF THE VARIABLE OF CULTIVATION OF THE SHRIMP<br />

Litopenaeus vannamei (BOONE, 1931)<br />

Fifty tree data of cultivations of the commercial marine shrimp farm Litopenaeus vannamei were used,<br />

to correlate the <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt variables with the one of handling being used mathematical mo<strong>de</strong>ls. The<br />

analyzed <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt variables were: survival, final weight, ration rate, factor of alimentary conversion,<br />

production, productivity and amount of ration, while the in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt ones were: number of the pond,<br />

number of the cycle, area of the pond, trimester of the year, year, stocking <strong>de</strong>nsity, days of cultivation,<br />

supplying laboratory of post-larvae and mark of the ration. To select the significant variables in the<br />

mo<strong>de</strong>ls (P < 0.05), it was used the technique of Stepwise associated to the process of transformation of<br />

Box and Cox. The estimate of the transformer (λ) it was done with the minimization of the sum of the<br />

squares of the residues. It was verified that days of cultivation, stocking <strong>de</strong>nsity, and supplying<br />

laboratory of post-larvae and the area of the pond were the significant in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nt variables for<br />

prediction of the variables.<br />

KEYWORDS: Litopenaeus vannamei, handling, mo<strong>de</strong>ls, variables.


INTRODUÇÃO<br />

129<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A produção mundial <strong>de</strong> crustáceos em 2003 foi <strong>de</strong> aproximadamente 2,8 milhões <strong>de</strong> toneladas,<br />

em que os três principais produtores foram China, Tailândia e Vietnã. Desse total <strong>de</strong> crustáceos<br />

cultivados 75% foram representados pelos peneí<strong>de</strong>os e, aproximadamente, 25,9% <strong>de</strong>ssa produção foi<br />

gerada pelo Litopenaeus vannamei sendo, portanto, a espécie mais cultivada no mundo (LIMA e<br />

MENDES, 2005). Atualmente, no Brasil, o L. vannamei é a única espécie <strong>de</strong> camarão-cinza cultivada.<br />

O Brasil produziu em 2004 aproximadamente 75,9 mil toneladas da espécie, o que correspon<strong>de</strong>ram a<br />

5,47% da produção mundial (FAO, 2006). O Nor<strong>de</strong>ste do Brasil é o principal pólo da ativida<strong>de</strong> da<br />

carcinicultura do país, acolhendo um total <strong>de</strong> 883 produtores, os quais são classificados em pequeno,<br />

médio e <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> porte e foram responsáveis por 93,1% da produção nacional em 2004. O estado <strong>de</strong><br />

Pernambuco possui 98 produtores e <strong>de</strong>staca-se por ser o quarto maior produtor do país (RODRIGUES,<br />

2005).<br />

No Brasil, a gran<strong>de</strong> parte dos empreen<strong>de</strong>dores da carcinicultura adota o cultivo bifásico,<br />

composto pela fase <strong>de</strong> berçário e <strong>de</strong> engorda. Segundo Nunes (2004), a fase berçário serve para<br />

aclimatar os camarões às condições ambientais da fazenda e selecionar os indivíduos mais resistentes e<br />

com tamanho homogêneo para a fase <strong>de</strong> engorda. Em sua maioria, a fase berçário, é <strong>de</strong>senvolvida em<br />

tanques <strong>de</strong> alvenaria, a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem média é <strong>de</strong> 15 a 30 mil pós-larva/m³ e o período <strong>de</strong><br />

cultivo <strong>de</strong> 10 a 15 dias. A gran<strong>de</strong> maioria dos criadores <strong>de</strong> camarão brasileiro adota a metodologia <strong>de</strong><br />

cultivo semi-intensivo (na fase <strong>de</strong> engorda), a qual é caracterizada por <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s populacionais<br />

relativamente mo<strong>de</strong>radas (20 a 30 ind/m 2 ), pela utilização <strong>de</strong> aeradores, em horários críticos <strong>de</strong><br />

diminuição do oxigênio dissolvido na água, e também pelo uso <strong>de</strong> ração como complemento ao<br />

alimento natural presente no viveiro (PONTES e ARRUDA, 2005).<br />

Técnicas estatísticas têm sido utilizadas para analisar os dados e mo<strong>de</strong>lar os parâmetros<br />

relacionados com o cultivo <strong>de</strong> camarão, buscando otimizar a produção. A análise <strong>de</strong> regressão é uma<br />

das técnicas utilizadas para correlacionar os dados <strong>de</strong> manejo e vários autores já utilizaram esse método<br />

(PEREIRA, 2001; LIMA, 2005; XIMENES, 2005; BEZERRA, 2006). Segundo Men<strong>de</strong>s (1999), a<br />

regressão tem como objetivo explicar ou prever <strong>de</strong>terminados eventos, baseando-se em fatores que<br />

po<strong>de</strong>m ser quantitativos e ou qualitativos, mas que sejam relacionáveis entre si. A regressão é uma<br />

técnica estatística utilizada para <strong>de</strong>terminar uma curva ou uma reta que melhor ajuste aos dados<br />

observados (PEREIRA, 2001). Men<strong>de</strong>s (1999), ao relacionar uma variável resposta Y, em função <strong>de</strong><br />

outras variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, recomenda a utilização do seguinte mo<strong>de</strong>lo linear múltiplo:


Yi = β0 + β1X1i + β2X2i + ... + βkXki + ei<br />

130<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Em que: Yi – i-ésima observação da variável <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte Y; β0, β1, β2, ..., βk – parâmetros do mo<strong>de</strong>lo; X1, X2, ...,<br />

Xk – variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes; ei - erro aleatório com distribuição N(0, σ 2 ).<br />

Para estimar os parâmetros do mo<strong>de</strong>lo (β) Men<strong>de</strong>s et al. (2006), aconselham fazer com o auxílio<br />

<strong>de</strong> matrizes, ou seja:<br />

bk ˆ = (X T X) -1 (X T Y)<br />

Em que: T – matriz transposta; -1 – matriz inversa; k bˆ – estimadores <strong>de</strong> βk = (0, 1, 2,..., k)<br />

Nesses mo<strong>de</strong>los, ou seja com “Xk” variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, segundo Neter e Wasserman<br />

(1974), a técnica mais utilizada para selecionar as variáveis significativas é a <strong>de</strong> “Stepwise”. Essa<br />

técnica consiste basicamente em estimar o valor da sua estatística “F” <strong>de</strong> todas as variáveis<br />

in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, em relação a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, e <strong>de</strong>pois, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo do seu valor coloca-la ou não no<br />

mo<strong>de</strong>lo. Depen<strong>de</strong>ndo da técnica uma variável que foi inserida no mo<strong>de</strong>lo, po<strong>de</strong>rá ser retirada<br />

posteriormente (MENDES et al., 2006). Para que um mo<strong>de</strong>lo possa ser utilizado, faz-se necessário<br />

realizar a análise <strong>de</strong> variância (ANOVA) para regressão, a qual tem como finalida<strong>de</strong> verificar a<br />

linearida<strong>de</strong> do conjunto dos dados observados (DRAPPER E SMITH, 1981; MONTGOMERY E<br />

PECK, 1982). Com a ANOVA, testa-se se a equação ajustada apresenta as inclinações (β1, 2, 3,..., k)<br />

iguais a zero ou não (MENDES et al., 2006).<br />

Portanto, objetivou-se com o presente trabalho analisar estatisticamente as variáveis <strong>de</strong> cultivo<br />

<strong>de</strong> uma fazenda comercial <strong>de</strong> camarão-cinza Litopenaeus vannamei, com o intuito <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificar as<br />

variáveis <strong>de</strong> manejo mais significativas sobre as variáveis respostas <strong>de</strong> cultivo.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

Dados oriundos <strong>de</strong> uma fazenda do camarão-cinza Litopenaeus vannamei, foram utilizados para<br />

correlacionar matematicamente as variáveis <strong>de</strong> manejo com os dados <strong>de</strong> produção. A referida fazenda<br />

localiza-se no município <strong>de</strong> Sirinhaém, distante 76 Km do Recife, no litoral sul do Estado <strong>de</strong><br />

Pernambuco, Brasil. Esse agronegócio, possui uma área total <strong>de</strong> 54 ha, dos quais 30,7ha são <strong>de</strong>stinados<br />

a carcinicultura. A captação <strong>de</strong> água é realizada por uma estação <strong>de</strong> bombeamento, localizada às<br />

margens do estuário do Rio dos Passos. Sua infra-estrutura principal é composta por prédio <strong>de</strong><br />

administração, quatro tanques-berçário, sendo dois <strong>de</strong> 200 m 3 e dois <strong>de</strong> 100 m 3 . Possui 11 viveiros com<br />

área média <strong>de</strong> 2,64ha/cada.<br />

O sistema <strong>de</strong> cultivo utilizado na fazenda é o bifásico. Na primeira fase, as pós-larvas (PL) são<br />

aclimatadas as condições locais, estocadas a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 25 a 30 PL/L, durante 15 a 20 dias, em<br />

tanques-berçário <strong>de</strong> alvenaria e com forma retangular. Após esse período são transferidas para os


131<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

viveiros <strong>de</strong> engorda (segunda fase), utilizando-se recipientes <strong>de</strong>nominados submarinos. Nessa fase, a<br />

<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> estocagem é <strong>de</strong> 40 camarões/m 2 . Nos viveiros as pós-larvas são estocadas até<br />

atingirem peso para comercialização.<br />

Os tanques-berçário ou os viveiros <strong>de</strong> engorda, antes <strong>de</strong> serem povoados são submetidos a um<br />

período <strong>de</strong> vazio, para sua preparação. A limpeza e <strong>de</strong>sinfecção dos tanques-berçário são feitas<br />

retirando-se os incrustantes, contido na lateral dos tanques, <strong>de</strong>pois são lavados com sabão neutro e em<br />

seguida água clorada (5,0 ppm) e exposição ao sol durante dois dias. A limpeza dos viveiros <strong>de</strong><br />

engorda é baseada na remoção dos incrustantes encontrados nas estacas <strong>de</strong> fixação das ban<strong>de</strong>jas, nas<br />

ban<strong>de</strong>jas, cascos dos aeradores, comportas <strong>de</strong> drenagem e abastecimento. Após a retirada dos<br />

incrustantes é feito o mapeamento do solo, objetivando i<strong>de</strong>ntificar as isolinhas <strong>de</strong> pH e, posteriormente,<br />

fazer a aplicação <strong>de</strong> calcário dolomítico, para sua correção. Também é feita a esterilização, com cal<br />

virgem e hipoclorito <strong>de</strong> sódio, para eliminar possíveis parasitas e predadores existentes no viveiro. A<br />

cal virgem é utilizada nas valas dos viveiros e ao redor das estacas das ban<strong>de</strong>jas <strong>de</strong> alimentação. O<br />

hipoclorito é utilizado apenas nas valas. Após este processo são feitas as vedações das comportas,<br />

colocação das telas e em seguida inicia-se o enchimento do viveiro.<br />

A última etapa para o processo <strong>de</strong> preparação do viveiro <strong>de</strong> engorda é a fertilização, cujo<br />

objetivo é o aumento da disponibilida<strong>de</strong> do alimento natural já existente no viveiro. O uso <strong>de</strong><br />

fertilizante foi feito <strong>de</strong> acordo com as peculiarida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cada viveiro (Área, profundida<strong>de</strong>, produção<br />

natural do viveiro, etc.). Os principais fertilizantes utilizados foram: Silicato e Nitrato <strong>de</strong> sódio.<br />

Na fase do berçário, administrou-se ração a cada duas horas durante todo o dia. Na engorda, nos<br />

primeiros 25 dias a ração foi administrada a lanço. Após esse período, a ração foi administrada em<br />

ban<strong>de</strong>jas e ofertada três vezes ao dia, em intervalos <strong>de</strong> quatro horas, com a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração<br />

previamente <strong>de</strong>terminada.<br />

Após 30 dias <strong>de</strong> cultivo iniciaram-se semanalmente as biometrias, com intuito <strong>de</strong> coletar<br />

dados para monitorar o crescimento e as condições <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos camarões. Foram escolhidos quatro<br />

pontos distintos do viveiro, para coleta do material. Em média, para cada ponto, foram capturados 50<br />

camarões. Baseando-se nessas amostras foram avaliados o crescimento dos camarões.<br />

O monitoramento da qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água (oxigênio dissolvido, temperatura, transparência, pH e<br />

salinida<strong>de</strong>) foi realizado diariamente com três mensurações no período do dia e três durante a noite com<br />

exceção da transparência o qual era mensurado uma vez ao dia. Com base nesses resultados foram<br />

tomadas ações corretivas.<br />

Com base nas informações referidas anteriormente quanto ao manejo, foi organizado o Banco<br />

<strong>de</strong> Dados correspon<strong>de</strong>nte ao período do 3º trimestre <strong>de</strong> 2003 ao 4º trimestre <strong>de</strong> 2005. A massa <strong>de</strong> dados


132<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

utilizada foi or<strong>de</strong>nada pelas variáveis respostas (<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes) e as <strong>de</strong> manejo (in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes) <strong>de</strong><br />

acordo com a Tabela 1.<br />

Tabela 1 - Variáveis utilizadas para o gerenciamento do Banco <strong>de</strong> Dados <strong>de</strong> produção<br />

do camarão-cinza Litopenaeus vannamei.<br />

Variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes Variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />

Sobrevivência (%) (Sob) Número do viveiro (Viv)<br />

Peso final (kg) (Pfinal) Número do ciclo (Ciclo)<br />

Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA) Área do viveiro (ha) (Area)<br />

Produção (kg) (Prod) Trimestre do ano (Trim)<br />

Produtivida<strong>de</strong> (kg/ha/ciclo) (Prodt) Ano (Ano)<br />

Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração (kg) (Qração) Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem (ind/m²) (Dini)<br />

Dias <strong>de</strong> cultivo (Dcult)<br />

Laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva (LAB)<br />

Marca da ração (RAC)<br />

A variável “Trimestre do ano” (Trim) foi inserida no Banco <strong>de</strong> Dados baseando-se na data <strong>de</strong><br />

início do cultivo, portanto cada cultivo foi i<strong>de</strong>ntificado com Trim1, ou Trim2, ou Trim3 ou Trim4, para<br />

os trimestres <strong>de</strong> 1 a 4, respectivamente. A variável “Laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” (LAB) foi<br />

representada por 4 empresas, doravante <strong>de</strong>nominadas <strong>de</strong> LAB1, LAB2, LAB3 e LAB4. Enquanto que a<br />

<strong>de</strong> ração (RAC), por 3 empresas (RAC1, RAC2 e RAC3). Para correlacionar as variáveis respostas <strong>de</strong><br />

cultivo com as <strong>de</strong> manejo (Tabela 1), utilizou-se o seguinte mo<strong>de</strong>lo linear múltiplo:<br />

Respostai λ = β0 + β1 Viv + β2 Ciclo + β3 Area + β4 Trim1 + β5 Trim2 + β6 Trim3 + β7Ano +<br />

+ β8 Dini + β9 Dculti + β10 LAB1 + β11 LAB2 + β12 LAB3 + β13 RAC1 +<br />

+ β14 RAC2 + єi<br />

Em que: Resposta – po<strong>de</strong>rá assumir as variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes; β0, β1, β2, ..., β14 – parâmetros do mo<strong>de</strong>lo; Viv –<br />

Viveiro; Ciclo – Ciclo; Área – Área; Trim1 – 1ºtrimestre do ano; Trim2 - 2ºtrimestre do ano; Trim3 - 3ºtrimestre<br />

do ano; Ano – Ano; Dini – Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem; Dcult – dias <strong>de</strong> cultivo; LAB1 – Fornecedor <strong>de</strong> pós-larva 1;<br />

LAB2 – Fornecedor <strong>de</strong> pós-larva 2; LAB3 – Fornecedor <strong>de</strong> pós-larva 3; RAC1 – Fabricante <strong>de</strong> ração 1; RAC2 –<br />

Fabricante <strong>de</strong> ração 2; λ – Coeficiente <strong>de</strong> transformação; є – Erro; i – i-ésima observação.


133<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

As variáveis <strong>de</strong> manejo “Trimestre do Ano”, “Laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” e “Marca da<br />

ração”, por serem qualitativas foram inseridas no mo<strong>de</strong>lo sob forma <strong>de</strong> variável muda (0 ou 1). Para<br />

não ocorrer numa in<strong>de</strong>terminação do <strong>de</strong>terminante na matriz <strong>de</strong> dados, fez-se necessária a exclusão <strong>de</strong><br />

um dos níveis <strong>de</strong> cada uma <strong>de</strong>ssas variáveis, no mo<strong>de</strong>lo. Os parâmetros do referido mo<strong>de</strong>lo (β) foram<br />

estimados com auxílio das matrizes <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminação, segundo recomendações preconizadas por<br />

Men<strong>de</strong>s et al. (2006). Para selecionar as variáveis significativas no mo<strong>de</strong>lo (P < 0,05) foi utilizada a<br />

técnica <strong>de</strong> Stepwise forward e/ou backward, associada ao processo <strong>de</strong> transformação <strong>de</strong> Box e Cox<br />

(BOX e COX, 1964). A estimação do coeficiente <strong>de</strong> transformação (λ) foi feito com a minimização da<br />

soma dos quadrados dos resíduos, <strong>de</strong> acordo com recomendações <strong>de</strong> Montgomery e Peck (1982). Os<br />

cálculos <strong>de</strong> estimação dos mo<strong>de</strong>los foram realizados utilizando os softwares Syseapro e Excel.<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

Dos 53 registros <strong>de</strong> cultivo foram utilizados apenas 43 dados em <strong>de</strong>corrência dos <strong>de</strong>mais<br />

apresentarem valores <strong>de</strong>stoantes a um Banco <strong>de</strong> Dados para o camarão-cinza Litopenaeus vannamei, ou<br />

por apresentarem erros como valores faltando. Portanto, ao utilizar a estatística <strong>de</strong>scritiva (mínimo,<br />

máximo e média) verificou-se os resultados apresentados na tabela 2.<br />

Tabela 2 - Variação dos dados <strong>de</strong> cultivo do camarão-cinza Litopenaeus<br />

vannamei, oriundos <strong>de</strong> uma fazenda comercial.<br />

VARIÁVEIS MÍNIMOS MÁXIMOS MÉDIA ± ERRO*<br />

Ciclo 1 9 4,53 ± 0,65<br />

Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem (ind/m 2 ) 14,5 71,4 42,04 ± 4,08<br />

Dias <strong>de</strong> cultivo (dias) 69 177 115,93 ± 7,79<br />

Sobrevivência (%) 40,1 89 70,07 ± 3,45<br />

Área (ha) 1,75 3,77 2,62 ± 0,11<br />

Peso final (g) 6,8 14 10,1 ± 0,57<br />

Produção (kg) 1677 18471 7753,37 ± 1019,97<br />

Produtivida<strong>de</strong> (kg/ha/ciclo) 682 6527 2961,69 ± 363,67<br />

Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração (kg) 2378 31505 13681,95 ± 1878,77<br />

FCA 1,01 2,68 1,7 ± 0,09<br />

* Erro = t (GL; α/2). x<br />

S . Em que: t – distribuição t <strong>de</strong> stu<strong>de</strong>nt; x<br />

S – erro padrão da média.


134<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

De acordo com os dados da Tabela 2, observou-se que se trata <strong>de</strong> uma fazenda <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s<br />

recente, pois o número máximo <strong>de</strong> ciclo foi <strong>de</strong> 9. Admitindo a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 3 cultivos por ano<br />

(115,93 ± 7,79 dias), estimou-se uma vida útil nesse agronegócio <strong>de</strong> 3 anos, aproximadamente.<br />

Verificou-se também gran<strong>de</strong> variação entre o peso final mínimo e máximo (106,0%), o que po<strong>de</strong> ser<br />

atribuído à variação dos dias <strong>de</strong> cultivo. A gran<strong>de</strong> variação do peso final e da sobrevivência influenciou<br />

diretamente nas variáveis respostas produção, produtivida<strong>de</strong> e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração. Ao correlacionar as<br />

variáveis <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes com as in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, obtiveram-se as seguintes equações matemáticas e suas<br />

respectivas análises <strong>de</strong> variância apresentado na Tabela 3.<br />

As equações apresentadas na Tabela 3 para serem utilizadas <strong>de</strong>vem estar em conformida<strong>de</strong> com<br />

os valores <strong>de</strong> mínimos e máximos apresentados na tabela 2. Ao observar as equações matemáticas<br />

verificou-se que algumas variáveis <strong>de</strong> manejo não influenciaram nas variáveis respostas <strong>de</strong> cultivo<br />

(Trimestre do ano, Ciclo, Fabricante <strong>de</strong> ração e o número do viveiro) (Tabela 3).<br />

Esses resultados contradizem os mo<strong>de</strong>los estimados por Lima (2005) e Bezerra (2006). Com<br />

base nas equações estimadas, foram construídas as respectivas representações gráficas para uma melhor<br />

compreensão e análise dos dados.<br />

Verificou-se que o fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA) foi influenciado apenas pela variável<br />

“dias <strong>de</strong> cultivo”, ou seja, quanto maior o tempo <strong>de</strong> cultivo maior o valor do FCA (Figura 1). Maia et<br />

al. (2004), ao avaliarem a influência da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem no FCA, constatou que essa variável<br />

não influenciou estatisticamente no mesmo e sim que o FCA obe<strong>de</strong>ceu a uma estreita relação com o<br />

tempo <strong>de</strong> cultivo, aumentando com o incremento da duração do tempo <strong>de</strong> cultivo e diminuindo à<br />

medida que o mesmo <strong>de</strong>cresce. Lima (2005) em uma análise similar encontrou que o FCA é<br />

<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do tempo <strong>de</strong> cultivo e outras variáveis.<br />

Verificou-se que o aumento da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem das pós-larvas, até 71,4ind/m²,<br />

propiciou uma maior produtivida<strong>de</strong> e que nesse caso as pós-larvas com origem do laboratório 3, “Dcult<br />

69” e “Dini 14,5”, tiveram uma produtivida<strong>de</strong> maior em 25,34% em relação as <strong>de</strong>mais fornecedoras <strong>de</strong><br />

pós-larvas (Figura 2). Wasielesky et al. (2003) ao cultivarem o Farfantepenaeus paulensis obtiveram<br />

que as melhores <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> cultivo encontram-se no intervalo <strong>de</strong> 15 a 30 ind/m². Almeida et al.<br />

(1999) ao cultivarem o L.vannamei utilizando rações alternativas e não utilizando aeração mecânica<br />

estimou que a <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 10ind/m² foi a melhor <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cultivo, mas ressaltou que com isto a<br />

produtivida<strong>de</strong> era menor. Castro et al. (2000) utilizando <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 30 ind/m² durante 95 dias<br />

obtiveram uma produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 724,79kg/ha/ciclo.


135<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Tabela 3 - Equações matemáticas obtidas para dados <strong>de</strong> cultivo do camarão-cinza<br />

Litopenaeus vannamei, em viveiros comerciais.<br />

1. Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA)<br />

EQUAÇÃO: FCA = (0,9228 + 0,00327*Dcult)²<br />

ANOVA<br />

FV GL SQ QM F Prob(F)<br />

Regressão 1 2,0377 2,0377 46,8612 0,0000<br />

Resíduo 40 1,7393 0,0435<br />

R² = 0,528 λ = 0,5<br />

2. Produtivida<strong>de</strong> (Prodt)<br />

EQUAÇÃO: Prodt = (9,9256 + 0,16627*Dcult + 0,523*Dini + 4,5605*LAB3)²<br />

ANOVA<br />

FV GL SQ QM F Prob(F)<br />

Regressão 3 44848802,6428 14949600,8809 42,6395 0,0000<br />

Resíduo 38 13322985,3027 350604,8764<br />

R² = 0,7529 λ = 0,5<br />

3. Peso final (Pfimal)<br />

EQUAÇÃO: Pfina l = (2,2137 + 0,008282*Dcult)²<br />

ANOVA<br />

FV GL SQ QM F Prob(F)<br />

Regressão 1 77,0059 77,0059 45,3187 0,0000<br />

Resíduo 40 67,9683 1,6992<br />

R² = 0,5194 λ = 0,5<br />

4. Sobrevivência (Sob)<br />

EQUAÇÃO: Sob = (70,9052 - 0,5686*Dcult)/ (1 – 0,008*Dcult)<br />

ANOVA<br />

FV GL SQ QM F Prob(F)<br />

Regressão 2 4997,1162 2498,5581 372,5349 0,0000<br />

Resíduo 39 261,5695 6,7069<br />

R² = 0,9477<br />

5. Produção (Prod)<br />

EQUAÇÃO: Prod = (-8,07026 + 8,249*Area + 0,2793*Dcult + 0,8541*Dini + 8,9544*LAB3)²<br />

ANOVA<br />

FV GL SQ QM F Prob(F)<br />

Regressão 4 352131364,4153 88032841,1038 39,3856 0,0000<br />

Resíduo 37 82700657,0376 2235152,8929<br />

R² = 0,7892 λ = 0,5<br />

6. Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração (Qração)<br />

EQUAÇÃO: Qração = (-31,1039 + 8,3161*Área + 0,6241*Dcult + 1,0797*Dini + 11,3439*LAB3)²<br />

ANOVA<br />

FV GL SQ QM F Prob(F)<br />

Regressão 4 1413216375,6075 353304093,9019 72,2814 0,0000<br />

Resíduo 37 180852291,7311 4887899,7765<br />

R² = 0,8785 λ = 0,5


Fator <strong>de</strong> Conversão Alimentar<br />

(FCA)<br />

Figura 1 - Fator <strong>de</strong> conversão alimentar (FCA) do camarão-cinza<br />

Litopenaeus vannamei em função dos dias <strong>de</strong> cultivo.<br />

Produtivida<strong>de</strong> (kg/ha/ciclo)<br />

2,50<br />

2,00<br />

1,50<br />

1,00<br />

0,50<br />

4500<br />

3500<br />

2500<br />

1500<br />

500<br />

FCA = (0,9228 + 0,003271*Dcult)²<br />

R² = 0,528<br />

136<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

65 80 95 110 125 140 155 170 185<br />

Dias <strong>de</strong> cultivo<br />

Prodt = (9,9256 + 0,16627*Dcult + 0,523*Dini + 4,5605*LAB3)²<br />

R² = 0,7529<br />

14 24 34 44 54 64 74<br />

Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Estocagem (ind/m²)<br />

Dcult = 69<br />

LAB 3<br />

Dcult = 69<br />

Outros LAB<br />

Figura 2 - Produtivida<strong>de</strong> em função da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem do<br />

camarão-cinza Litopenaeus vannamei (ind/m²) em viveiros comerciais.<br />

De acordo com o mo<strong>de</strong>lo para predição do peso final do camarão-cinza, verificou-se que foi<br />

diretamente proporcional apenas ao tempo <strong>de</strong> cultivo (Figura 3). Bezerra (2006) i<strong>de</strong>ntificou também a<br />

influência do tempo <strong>de</strong> cultivo no ganho <strong>de</strong> peso, porém em seu mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong>tectou a influência da<br />

origem das pós-larvas. Pereira (2001), em seu trabalho com Macrobrachium rosenbergii, constatou que<br />

em cultivos realizados com tempos mais longos, foram obtidos indivíduos com maior ganho <strong>de</strong> peso.<br />

Men<strong>de</strong>s et al. (1997), trabalhando com a espécie Macrobrachium rosenbergii, observaram que os<br />

camarões apresentam maior ganho <strong>de</strong> peso quando cultivados por períodos mais longos. Lima (2005).


Peso final (g)<br />

16<br />

14<br />

12<br />

10<br />

8<br />

6<br />

Pfinal = (2,2137 + 0,008282*Dcult)²<br />

R² = 0,5154<br />

137<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

65 80 95 110 125 140 155 170 185<br />

Dias <strong>de</strong> Cultivo<br />

Figura 3 - Peso final em função dos dias <strong>de</strong> cultivo Litopenaeus vannamei em<br />

viveiros comerciais.<br />

ao analisar o peso final dos camarões L.vannamei observou que além do tempo <strong>de</strong> cultivo outras<br />

variáveis influenciam no seu resultado.Ao correlacionar a sobrevivência com as variáveis <strong>de</strong> cultivo,<br />

verificou-se que ela foi inversamente proporcional ao tempo <strong>de</strong> cultivo e que, nessa equação (Figura<br />

4), apenas o tempo <strong>de</strong> cultivo influenciou nessa resposta.<br />

Sobrevivência (%)<br />

72<br />

71<br />

70<br />

69<br />

Sob = (70,9052 - 0,5686*Dcult) / (1 - 0,008*Dcult)<br />

R² = 0,9477<br />

65 75 85 95 105 115<br />

Dias <strong>de</strong> Cultivo<br />

Figura 4 - Sobrevivência em função dos dias <strong>de</strong> cultivo Litopenaeus.vannamei<br />

em viveiros comerciais.


138<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Segundo Lima (2005), a variável sobrevivência é influenciada pela estação do ano, o que está<br />

em <strong>de</strong>sacordo com presente trabalho, porém ele obteve um R² igual a 0,042, levando a acreditar que<br />

seu mo<strong>de</strong>lo não foi muito preciso. Mo<strong>de</strong>sto e Maia (2004), cultivando o L .vannamei em viveiros<br />

berçários intensivos durante 41 dias obtiveram uma sobrevivência <strong>de</strong> 96,3% e durante 43 dias<br />

sobrevivência <strong>de</strong> 87,9%, porém eles não atribuíram a gran<strong>de</strong> diferença na sobrevivência apenas a<br />

diferença ao tempo <strong>de</strong> cultivo. Paquote et al. (1998), cultivando o L. vannamei em tanque-re<strong>de</strong><br />

obtiveram uma sobrevivência <strong>de</strong> 49% após 120 dias <strong>de</strong> cultivo.<br />

A produção do camarão-cinza L. vannamei, em viveiros comerciais, foi altamente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da área<br />

dos viveiros, dos dias <strong>de</strong> cultivo, da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem e fornecedor <strong>de</strong> pós-larvas (Figura 5). A<br />

produção foi maximizada quando se utilizaram pós-larvas oriundas <strong>de</strong> LAB3, o qual propiciou aumento<br />

<strong>de</strong> 34,38% na produção, em relação às <strong>de</strong>mais pós-larvas.<br />

Produção (kg)<br />

10000<br />

8000<br />

6000<br />

4000<br />

2000<br />

0<br />

Prod = (-8,07026 + 8,249*Area + 0,2793*Dcult +<br />

+ 0,8541*dini + 8,9544*LAB3)²<br />

R² = 0,7892<br />

14 24 34 44 54 64 74<br />

Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Estocagem (ind/m²)<br />

Area = 1,75 ha<br />

Dcult = 69 dias<br />

LAB3<br />

Area = 1,75 ha<br />

Dcult = 69 dias<br />

Outros LAB<br />

Figura 5 - Produção em função da <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem <strong>de</strong> pós-larvas<br />

do Litopenaeus vannamei em viveiros comerciais.<br />

Castro et al. (2000), utilizando dados <strong>de</strong> produção, observaram que um viveiro <strong>de</strong> 2,34 ha<br />

submetido a uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 30ind/m², obtém-se uma produção <strong>de</strong> 1696 kg. Cavalcanti et al. (2000),<br />

analisando os dados <strong>de</strong> cultivo em um viveiro <strong>de</strong> 3,0 ha e uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 19,35 ind/m²<br />

observaram uma produção média <strong>de</strong> 4276,5 kg. Ostrensky et al. (2000), citaram que em viveiros com<br />

área <strong>de</strong> 2,92 ha, com <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 11,73 ind/m², é possível obter uma produção <strong>de</strong> 3282 kg.<br />

Assim como na produção (Figura 5), verificou-se que a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração administrada<br />

(Figura 6) para o L.vannamei foi proporcional à área do viveiro, dias <strong>de</strong> cultivo, <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

estocagem e aos laboratórios fornecedores <strong>de</strong> pós-larvas. Ao utilizar as pós-larvas oriundas do LAB3


139<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

foi i<strong>de</strong>ntificado um aumento <strong>de</strong> 37,9% na quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração administrada em relação às pós-larvas<br />

dos outros fornecedores. Verificou-se que a relação entre <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

ração administrada foi crescente. Maia et al. (2000), ao cultivarem o L.vannamei durante 113 dias<br />

obtiveram um consumo <strong>de</strong> 5100 kg <strong>de</strong> ração. Castro (2000), ao cultivar o L.vannamei em sistema semiintensivo<br />

com uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 30 ind/m² durante 95 dias utilizou 1967 kg <strong>de</strong> ração.<br />

Os mo<strong>de</strong>los, para correlacionar o peso final e fator <strong>de</strong> conversão alimentar, não apresentaram<br />

um bom índice <strong>de</strong>terminístico (R²) isto po<strong>de</strong> ser atribuído à falta <strong>de</strong> outras variáveis principalmente os<br />

parâmetros físicos e químicos da água como oxigênio dissolvido, pH, temperatura, salinida<strong>de</strong>, etc. que<br />

po<strong>de</strong>m ser associadas a essas respostas.<br />

Qunatida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ração (kg)<br />

16000<br />

13000<br />

10000<br />

7000<br />

4000<br />

1000<br />

Qração = (-31,1039 + 8,3161*Area + 0,6241*Dcult +<br />

+ 1,0797*Dini + 11,3439*LAB3)²<br />

R² = 0,8785<br />

14 24 34 44 54 64 74<br />

Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Estocagem (ind/m²)<br />

Figura 6 - Quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração ofertada ao camarão-cinza Litopenaeus<br />

vannamei quando submetido as diferentes <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> estocagens.<br />

CONCLUSÕES<br />

Area = 1,75<br />

Dcult = 69<br />

LAB3<br />

Area = 1,75<br />

Dcult = 69<br />

Outros LAB<br />

“Dias <strong>de</strong> cultivo”, “<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem”, “laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” e “área”<br />

foram as variáveis in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes significativas para predição das variáveis respostas.<br />

As variáveis respostas “fator <strong>de</strong> conversão alimentar”, “peso final” e “sobrevivência” foram<br />

influenciadas apenas pela variável “dias <strong>de</strong> cultivo”.<br />

A variável in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte “laboratório fornecedor <strong>de</strong> pós-larva” foi altamente significativa nas<br />

respostas <strong>de</strong> “produção”, “produtivida<strong>de</strong>” e “quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ração” ofertada.


REFERÊNCIAS<br />

140<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

ALMEIDA, S.A.A. et al. Estudo preliminar do cultivo <strong>de</strong> Penaeus vannamei (Boone, 1931) em tanques<br />

com diferentes <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> estocagem. XI CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA DE<br />

PESCA. Anais… Recife, 1999. p. 648- 653.<br />

BEZERRA, A.M. Seleção <strong>de</strong> Variáveis significativas em mo<strong>de</strong>los otimizados <strong>de</strong> estimação dos<br />

parâmetros <strong>de</strong> cultivo do camarão marinho Litopenaeus vannamei (Boone, 1931). Dissertação<br />

(Mestrado em Biometria), UFRPE, Recife, 2006.100p.<br />

BOX, G. E. P.; COX.D.R. An analysis of transformation. Journal of Roy, Stat. Soc., Ser. B, v. 26, p.<br />

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143<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

SOBREVIVÊNCIA DE TILÁPIA-DO-NILO Oreochromis niloticus (LINNAEUS,<br />

1758) EM DIFERENTES CONCENTRAÇÕES DE BIOFERTILIZANTE<br />

É<strong>de</strong>r André GUBIANI (eagubiani@nupelia.uem.br)<br />

Curso <strong>de</strong> Pós-Graduação em Ecologia <strong>de</strong> Ambientes Aquáticos Continentais, Departamento <strong>de</strong><br />

Biologia, Universida<strong>de</strong> Estadual <strong>de</strong> Maringá<br />

Nyamien Yahault SEBASTIEN (nysebastien@unioeste.br)<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Universida<strong>de</strong> Estadual do Oeste do Paraná<br />

RESUMO<br />

Resíduos <strong>de</strong> suinocultura causam problemas <strong>de</strong> poluição das águas em vários países do mundo, em<br />

virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas altas cargas orgânicas. Dessa forma, tem crescido o uso <strong>de</strong> biossistemas integrados nos<br />

quais os <strong>de</strong>jetos suínos e <strong>de</strong> outros animais passam por um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>composição em um<br />

biodigestor que, além <strong>de</strong> remover boa parcela <strong>de</strong> poluentes, transforma os <strong>de</strong>jetos em biofertilizantes e<br />

biogás. A tilapicultura vem se mostrando uma ótima alternativa para a piscicultura <strong>de</strong> água doce.<br />

Assim, o principal objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi avaliar a sobrevivência <strong>de</strong> tilápia (Oreochromis niloticus)<br />

em diferentes concentrações <strong>de</strong> biofertilizante, em substituição a adubação tradicional, bem como, a<br />

influência <strong>de</strong> algumas variáveis abióticas. O pH, oxigênio dissolvido e a condutivida<strong>de</strong> elétrica<br />

apresentaram diferenças significativas entre os períodos e concentrações analisadas, entretanto a<br />

interação entre os níveis dos fatores foi significativa (p


ABSTRACT<br />

144<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

SURVIVAL OF NILE TILAPIA Oreochromis niloticus (LINNAEUS, 1758) IN DIFFERENT<br />

BIOFERTILIZING CONCENTRATIONS.<br />

Wastes of pig raising cause problems of water pollution in many countries around the world, because<br />

of their high organic loads. Thus, the use of integrated biosystems has increased, in which the rejects<br />

from the pigs and other livestock are <strong>de</strong>composed by a bio-digester, that besi<strong>de</strong>s removing a large<br />

amount of pollutants, can also transform rejects in biofertilizers and biogas. Tilapia farming has been<br />

shown a good alternative to the freshwater fish cultures. Therefore, this work aimed to evaluate the<br />

survival of tilapia (Oreochromis niloticus) raised in different concentrations of bio-fertilizers, as a<br />

substitute for the traditional fertilizing techniques, and the influence of some abiotic factors. Dissolved<br />

oxygen, pH and electric conductivity showed significant differences among the experimental periods<br />

and biofertilizing concentrations. However, the significant interaction among factor levels (p


145<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

No meio rural, os resíduos <strong>de</strong> suinocultura causam problemas <strong>de</strong> poluição e contaminação das<br />

águas em vários países do mundo, em virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas altas cargas orgânicas, <strong>de</strong> sólidos e <strong>de</strong> nutrientes<br />

(N e P). No Brasil, com rebanho <strong>de</strong> suínos estimado em 36,5 milhões (ABCS, 1999), a produção<br />

concentra-se nas regiões Sul (34,1% dos animais) e Su<strong>de</strong>ste (18,8% dos animais). Um dos maiores<br />

problemas no confinamento <strong>de</strong> suínos, é a gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos produzidos diariamente, a qual<br />

é consi<strong>de</strong>rada pelos órgãos ambientais como ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> potencial poluidor. Diagnósticos<br />

recentes têm <strong>de</strong>monstrado um alto nível <strong>de</strong> contaminação dos rios e lençóis <strong>de</strong> água superficiais que<br />

abastecem tanto o meio rural como o urbano (DIESEL et al. 2002).<br />

De forma a reduzir o potencial poluidor da suinocultura algumas medidas estão sendo sugeridas,<br />

como é o caso da integração com outros animais. A criação <strong>de</strong> peixes no sistema <strong>de</strong> integração vem<br />

sendo bastante utilizada nos últimos <strong>de</strong>z anos, possivelmente <strong>de</strong>vido aos baixos custos <strong>de</strong> produção.<br />

Vários autores têm <strong>de</strong>monstrado que a consorciação <strong>de</strong> viveiros associados com porcos e patos<br />

apresentam muitas vantagens, principalmente na Europa, Ásia e África (BLUME, 1960; LINGEN,<br />

VAN DER, 1960; CHISLOV e CHESNOKOV, 1974; WOYNAROVICH, 1976; BEHRENDT, 1978).<br />

Outra medida em crescente expansão é a utilização <strong>de</strong> biodigestores inicialmente mais onerosa, porém<br />

em longo prazo torna-se uma solução viável. Os biodigestores são uma alternativa para o tratamento <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>jetos, pois além <strong>de</strong> permitir a redução do potencial poluidor e dos riscos sanitários dos <strong>de</strong>jetos ao<br />

mínimo, promove a geração <strong>de</strong> biogás, utilizado como fonte <strong>de</strong> energia alternativa e permite a<br />

reciclagem do efluente, po<strong>de</strong>ndo ser utilizado como biofertilizante (AMARAL et al. 2004).<br />

Dessa forma, tem crescido o uso <strong>de</strong> biossistemas integrados nos quais os <strong>de</strong>jetos suínos e <strong>de</strong><br />

outros animais passam por um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>composição em um biodigestor que, além <strong>de</strong> remover boa<br />

parcela <strong>de</strong> poluentes, transforma os <strong>de</strong>jetos em biofertilizantes e biogás. As águas servidas passam por<br />

tanques <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> algas que servem para alimentação <strong>de</strong> peixes e crustáceos, transformando os<br />

<strong>de</strong>jetos, que eram consi<strong>de</strong>rados uma ameaça ambiental, em uma oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> agregar valor a nível<br />

econômico.<br />

A tilapicultura vem se mostrando uma ótima alternativa para a piscicultura <strong>de</strong> água doce e<br />

estuarina. A expansão do cultivo da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) <strong>de</strong>ve-se ao ótimo<br />

<strong>de</strong>sempenho, alta rusticida<strong>de</strong>, facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong> alevinos, adaptabilida<strong>de</strong> aos mais diversos<br />

sistemas <strong>de</strong> criação, gran<strong>de</strong> aceitação no mercado <strong>de</strong> lazer (pesque-pague) e alimentício (frigoríficos),<br />

pelas qualida<strong>de</strong>s nutritivas e organolépticas do seu filé (MEURER et al. 2003).<br />

Assim, o principal objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi avaliar a sobrevivência <strong>de</strong> tilápia (Oreochromis<br />

niloticus) em diferentes concentrações <strong>de</strong> biofertilizante, como substituinte da adubação orgânica “in<br />

natura”. Desse modo, otimizando o uso <strong>de</strong> biofertilizante na adubação <strong>de</strong> tanques <strong>de</strong> piscicultura


146<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

evitando problemas <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes com o uso excessivo <strong>de</strong> tal recurso. Assim, tentamos<br />

respon<strong>de</strong>r as seguintes questões: i) Qual a melhor concentração para que a sobrevivência seja<br />

maximizada? ii) Quais variáveis abióticas influenciam no tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes<br />

concentrações?<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

O presente experimento foi realizado no Laboratório <strong>de</strong> Aqüicultura, do Departamento <strong>de</strong><br />

<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> na Universida<strong>de</strong> Estadual do Oeste do Paraná, durante o período <strong>de</strong> 10 <strong>de</strong> janeiro<br />

a 18 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2001. Foram utilizados 15 alevinos <strong>de</strong> tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus),<br />

com aproximadamente 35 dias <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, distribuídas num <strong>de</strong>lineamento completamente casualizado,<br />

com cinco tratamentos (0, 25, 50, 75 e 100% <strong>de</strong> diluição do biofertilizante) e três repetições, em 15<br />

aquários, on<strong>de</strong> foi consi<strong>de</strong>rado como unida<strong>de</strong> experimental, um aquário com 1 alevino. Os aquários <strong>de</strong><br />

vidro, apresentavam capacida<strong>de</strong> total <strong>de</strong> 57,6 l, entretanto o volume <strong>de</strong> água utilizado neste<br />

experimento foi <strong>de</strong> 35 l. Possuíam aeração constante por pedra microporosa ligadas por meio <strong>de</strong> uma<br />

tubulação <strong>de</strong> PVC, a um soprador elétrico monofásico com potência <strong>de</strong> 1/4 cv. Os alevinos foram<br />

alimentados “ad libitum” com ração comercial contendo 32% <strong>de</strong> proteína bruta.<br />

Os aquários foram sifonados, para a retirada das fezes e restos <strong>de</strong> ração, uma vez ao dia (12h00)<br />

com a remoção <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 30% da água total diária, sendo as diluições novamente repostas para<br />

concentração acima especificada. A temperatura da água (°C), pH, oxigênio dissolvido (mg/l) e<br />

condutivida<strong>de</strong> elétrica (µS/cm) foram quantificados diariamente, em cada aquário, pela manhã e a tar<strong>de</strong><br />

sempre antes da sifonagem.<br />

A fim <strong>de</strong> verificar qual a melhor concentração <strong>de</strong> biofertilizante, que resulte em um maior tempo<br />

<strong>de</strong> sobrevivência, os dados foram plotados em gráfico <strong>de</strong> dispersão, posteriormente foi ajustado aos<br />

dados um polinômio <strong>de</strong> grau dois. Para encontrar o ponto <strong>de</strong> máximo da função ajustada, o qual<br />

correspon<strong>de</strong> a melhor concentração <strong>de</strong> biofertilizante, proce<strong>de</strong>mos <strong>de</strong> forma que <strong>de</strong>rivada fosse igual à<br />

zero, resolvendo o sistema para encontrarmos a solução.<br />

Para verificar se existem diferenças significativas entre as médias das variáveis abióticas entre os<br />

períodos (manhã e tar<strong>de</strong>; fator 1) e concentrações (0, 25, 50, 75 e 100%; fator 2) foi aplicado uma<br />

análise <strong>de</strong> variância (ANOVA bifatorial) (os pressupostos <strong>de</strong> normalida<strong>de</strong> e homocedasticida<strong>de</strong> foram<br />

testados pelos testes <strong>de</strong> Shapiro-Wilk e Levene, respectivamente). Quando a ANOVA i<strong>de</strong>ntificou<br />

diferenças significativas, foi aplicado o teste <strong>de</strong> Tukey a posteriori, para verificar quais os níveis dos<br />

fatores que diferiram isso quando a interação não foi significativa. Os testes estatísticos (ANOVA<br />

bifatorial) e a estimação dos parâmetros do mo<strong>de</strong>lo (procedimento não-linear, método <strong>de</strong> estimação dos


147<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

mínimos quadrados) foram feitos usando o software Statistica TM 7.1 (STATSOFT INC. 2005). O nível<br />

<strong>de</strong> significância estatística adotada foi <strong>de</strong> p


148<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 1 – Variáveis físicas e químicas da água. (A) pH; (B) Oxigênio Dissolvido; (C)<br />

Condutivida<strong>de</strong> elétrica; e (D) Temperatura.<br />

Entretanto, nota-se que há uma tendência <strong>de</strong> diminuição nos valores <strong>de</strong> pH e oxigênio dissolvido,<br />

como aumenta a concentração <strong>de</strong> biofertilizante (Figura 1a e b). É interessante ressaltar que mesmo<br />

com a utilização <strong>de</strong> aeração constante nos diferentes tratamentos, há uma diminuição na concentração<br />

<strong>de</strong> oxigênio dissolvido, tornando-se <strong>de</strong>sse modo, um fator limitante à sobrevivência dos peixes, pois<br />

segundo Boyd (1990) e Popma e Phelps (1998) os padrões i<strong>de</strong>ais indicados para aqüicultura situam-se<br />

entre 3 a 8 mg/l. A condutivida<strong>de</strong> elétrica, ao contrário, aumentou como aumentaram as concentrações<br />

<strong>de</strong> biofertilizante, tornando-se também um fator limitante (BOYD, 1990; POPMA e PHELPS, 1998).<br />

A temperatura da água foi a única variável em que a interação não foi significativa, <strong>de</strong>monstrando<br />

assim, diferenças entre os períodos (manhã e tar<strong>de</strong>), com a temperatura no período da tar<strong>de</strong> sendo<br />

superior ao da manhã, o que é esperado, contudo não ocorreram diferenças entre as concentrações <strong>de</strong><br />

biofertilizante. Apesar <strong>de</strong>ssa diferença significativa entre os períodos a temperatura ficou entre o<br />

recomendado por Popma e Phelps (1998) para o bom <strong>de</strong>sempenho da espécie.


149<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Além do equilíbrio entre produção e consumo no cultivo <strong>de</strong> peixes, a harmonia em viveiros <strong>de</strong><br />

cultivo adubados com excremento, também se aplica à estabilida<strong>de</strong> das variáveis físicas e químicas da<br />

água. Concentrações <strong>de</strong> oxigênio e pH são maiores e os ciclos <strong>de</strong> oxigênio diurno são mais estáveis, em<br />

lagoas adubadas com excremento que contêm peixes que em lagoas sem peixes (SCHROEDER,<br />

1975a). Pela “pastagem” dos planctívoros, os peixes ajudam a eliminar os ciclos extremos <strong>de</strong> “bloom”<br />

<strong>de</strong> algas e a perda pelo sombreamento, comum em viveiros eutróficos. Devido à <strong>de</strong>manda por oxigênio<br />

pelo excremento adicionado ser previsível (SCHROEDER, 1974), o efeito do excremento adicionado<br />

no regime <strong>de</strong> oxigênio do viveiro po<strong>de</strong> também ser previsível. O principal consumo <strong>de</strong> oxigênio no<br />

viveiro é normalmente associado ao plâncton e a respiração dos peixes (SCHROEDER, 1975b; BOYD<br />

et al. 1978). Excremento, até mesmo a taxas <strong>de</strong> aplicação <strong>de</strong> 100 kg <strong>de</strong> matéria orgânica seca por<br />

hectare por dia, é um fator secundário no consumo <strong>de</strong> oxigênio. A interação entre peixe e excremento<br />

requer uma boa prática <strong>de</strong> manejo. Gran<strong>de</strong>s quantida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> excremento, biofertilizante ou esgoto<br />

po<strong>de</strong>m ser adicionados e um alto rendimento <strong>de</strong> peixes po<strong>de</strong> ser atingido com um viveiro<br />

ecologicamente equilibrado (WOHLFARTH e SCHROEDER, 1979).<br />

No entanto, altas cargas <strong>de</strong> biofertilizante necessitam gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> oxigênio para que seus<br />

nutrientes possam ser disponibilizados aos organismos aquáticos, como po<strong>de</strong> ser observado em nosso<br />

estudo, nas maiores concentrações <strong>de</strong> biofertilizante, o oxigênio, mesmo com aeração suplementar, foi<br />

um fator limitante a sobrevivência dos peixes.<br />

Além das variáveis analisadas, é importante <strong>de</strong>stacar que o enriquecimento com nutrientes,<br />

principalmente <strong>de</strong> nitrogênio e <strong>de</strong> fósforo, em tanques <strong>de</strong> piscicultura é bastante comum, <strong>de</strong>vido<br />

principalmente à entrada <strong>de</strong> compostos que contêm tais elementos. Entretanto, o uso ina<strong>de</strong>quado <strong>de</strong>sses<br />

nutrientes associado a uma série <strong>de</strong> outros fatores bióticos e abióticos po<strong>de</strong> ocasionar prejuízos tanto<br />

ambientais quanto financeiros (MAINARDES-PINTO; MERCANTE, 2003). De acordo com<br />

Wolhfarth e Schroe<strong>de</strong>r (1979) o excremento animal contém nitrogênio e fósforo, os quais estimulam a<br />

produção heterotrófica, aumentando assim, a produtivida<strong>de</strong> piscícola em viveiros. Apesar <strong>de</strong> não<br />

termos avaliado as concentrações <strong>de</strong> nitrogênio e fósforo em nosso experimento, pelos dados<br />

disponíveis na literatura, po<strong>de</strong>mos concluir que tais fatores, possivelmente foram limitantes a<br />

sobrevivência dos peixes. Pois, segundo Boyd (1992) os fertilizantes utilizados em tanques <strong>de</strong> cultivo<br />

geralmente contêm nitrogênio na forma <strong>de</strong> amônio e <strong>de</strong> nitrato. A acumulação <strong>de</strong>ssas formas<br />

inorgânicas é um dos principais obstáculos para o <strong>de</strong>senvolvimento intensivo <strong>de</strong> peixes (KOCHBA et<br />

al. 1994). Sipaúba-Tavares (1994) ressalta que a amônia é altamente tóxica para organismos aquáticos<br />

e po<strong>de</strong> causar severas mortalida<strong>de</strong>s em viveiros. As principais fontes <strong>de</strong>sse elemento nesses locais são<br />

os fertilizantes, os excrementos e a <strong>de</strong>composição microbiana dos compostos nitrogenados.


150<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Programas <strong>de</strong> fertilização <strong>de</strong>vem levar em consi<strong>de</strong>ração os requerimentos algais, bem como, a<br />

qualida<strong>de</strong> da água e do sedimento do viveiro. Entradas excessivas <strong>de</strong> nitrogênio po<strong>de</strong>m causar altas<br />

concentrações <strong>de</strong> amônia não ionizadas, as quais po<strong>de</strong>m reduzir o crescimento dos peixes ou causar<br />

mortalida<strong>de</strong> (RUFFIER et al. 1981; MEADE, 1985).<br />

A figura 2A apresenta a dispersão do tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes concentrações. Foi<br />

possível observar uma clara diminuição exponencial no tempo <strong>de</strong> sobrevivência conforme aumentou a<br />

concentração <strong>de</strong> biofertilizante. Desse modo, foi ajustado um mo<strong>de</strong>lo polinomial <strong>de</strong> grau dois, por meio<br />

da seguinte equação:<br />

Tempo <strong>de</strong> sobrevivência = a + b*concentração <strong>de</strong> biofertilizante + c*(concentração <strong>de</strong> biofertilizante) 2<br />

Quando: b e c são os parâmetros e, a é <strong>de</strong>finido pela condição inicial do mo<strong>de</strong>lo (Figura 2B).<br />

O mo<strong>de</strong>lo apresentou um ótimo ajuste (R 2 = 0,99), com uma proporção da variância explicada <strong>de</strong><br />

98,57%. Assim, para que o tempo <strong>de</strong> sobrevivência seja maximizado é necessário calcularmos qual a<br />

melhor concentração <strong>de</strong> biofertilizante, <strong>de</strong>ssa forma, proce<strong>de</strong>mos ao cálculo do ponto máximo da<br />

função, o qual consiste em igualarmos a <strong>de</strong>rivada da função à zero (f’(x) = 0).<br />

A partir do mo<strong>de</strong>lo obtido na figura 2B, o qual correspon<strong>de</strong> a: Tempo <strong>de</strong> sobrevivência = 33,97 +<br />

12,53*concentração <strong>de</strong> biofertilizante – 46,61*(concentração <strong>de</strong> biofertilizante) 2 <strong>de</strong>rivamos a função e<br />

chegamos a: Tempo <strong>de</strong> sobrevivência = 12,53 – 93,22*concentração <strong>de</strong> biofertilizante então, igualando<br />

a zero, temos: 12,53/93,22 = concentração <strong>de</strong> biofertilizante, a qual será igual a: 13,44%. Desse modo,<br />

a concentração i<strong>de</strong>al para que o tempo <strong>de</strong> sobrevivência seja maximizado nessas condições do<br />

experimento foi <strong>de</strong> 13,44% <strong>de</strong> concentração <strong>de</strong> biofertilizante, resultando em um tempo <strong>de</strong><br />

sobrevivência <strong>de</strong> 34,81 dias (Figura 2B).<br />

Fazendas piscícolas provavelmente seja o único ramo da agricultura animal no qual o uso <strong>de</strong><br />

excremento é uma ferramenta <strong>de</strong> manejo tradicional. O uso <strong>de</strong> excremento, como fertilizante <strong>de</strong><br />

viveiros piscícolas, é uma prática antiga e muito difundida na Ásia, principalmente na China, on<strong>de</strong> o<br />

cultivo <strong>de</strong> peixes tem sido praticado por milhares <strong>de</strong> anos e o uso <strong>de</strong> excremento intensivo é uma<br />

prática padrão. Desse modo, o <strong>de</strong>senvolvimento orgânico heterogêneo, causado pela utilização <strong>de</strong><br />

excremento, requer peixes <strong>de</strong> hábitos alimentares diferentes para sua efetiva utilização, <strong>de</strong>stacando o<br />

uso <strong>de</strong> policultivos (diferentes espécies <strong>de</strong> peixes estocadas ao mesmo tempo em cada viveiro) (TANG,<br />

1970; TAPIADOR et al. 1977; WOHLFARTH; SCHROEDER, 1979).


151<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Figura 2 – (A) Dispersão do tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes concentrações; (B)<br />

Ajuste <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> regressão não-linear (função polinomial <strong>de</strong> grau dois) para o<br />

tempo <strong>de</strong> sobrevivência nas diferentes concentrações <strong>de</strong> biofertilizante. (13,44%, ponto <strong>de</strong><br />

máximo da função, indicando a concentração cujo tempo <strong>de</strong> sobrevivência é maior).<br />

De acordo com Tomazelli Jr. e Casaca (2001) em viveiros <strong>de</strong>vidamente adubados e<br />

apropriadamente estocados com peixes <strong>de</strong> hábitos alimentares diferentes (policultivo), as partículas<br />

orgânicas provêem a base <strong>de</strong> nutrientes para a produção <strong>de</strong> pescado, estimulando a produção <strong>de</strong><br />

plâncton e bactérias. Os peixes em policultivo, por sua vez, consomem estes organismos mantendo o<br />

equilíbrio entre a produção e o consumo possibilitando níveis a<strong>de</strong>quados <strong>de</strong> oxigênio dissolvido, pH e<br />

outras variáveis limnológicas. No entanto, a produção integrada não é uma forma <strong>de</strong> utilizar totalmente<br />

os <strong>de</strong>jetos produzidos por suínos, pois os <strong>de</strong>jetos suínos possuem uma gran<strong>de</strong> carga <strong>de</strong> DBO (Demanda<br />

Bioquímica <strong>de</strong> Oxigênio) e DQO (Demanda Química <strong>de</strong> Oxigênio) prejudicando o <strong>de</strong>senvolvimento<br />

dos peixes. Então, é perfeitamente conciliável a esta prática a utilização do exce<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos como<br />

biofertilizantes. Desse modo, como citado anteriormente, mesmo a altas taxas <strong>de</strong> aplicação, se o viveiro<br />

for bem manejado e em sistema <strong>de</strong> policultivo, a concentração <strong>de</strong> biofertilizante adicionada po<strong>de</strong> ser<br />

maior do que 13%.<br />

No Brasil nos últimos anos, a piscicultura vem crescendo <strong>de</strong> uma forma vertiginosa e, <strong>de</strong>vido ao<br />

alto custo dos insumos necessários à produção, os piscicultores estão optando pelo uso do sistema <strong>de</strong><br />

produção integrada <strong>de</strong> peixes com outros animais que tem o meio aquático como hábitat natural ou<br />

eventual, colaborando com seus excrementos no aumento da produção primária dos viveiros<br />

(CECCARELLI; FIGUEIRA, 2001). Os fertilizantes orgânicos são freqüentemente adicionados em<br />

viveiros para aumentar a produção por meio do aumento da produtivida<strong>de</strong> primária em função dos


152<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

nutrientes inorgânicos liberados ou através da liberação <strong>de</strong> carbono orgânico por meio heterotrófico.<br />

Depen<strong>de</strong>ndo das espécies, os peixes ingerem alimento diretamente dos fertilizantes ou <strong>de</strong> algas<br />

planctônicas, <strong>de</strong>trito/fungos ou animais, como zooplâncton e caracóis que se alimentam <strong>de</strong> algas e<br />

<strong>de</strong>tritus (COLMAN; EDWARDS, 1987).<br />

O excremento po<strong>de</strong> entrar no regime alimentar, como alimento diretamente consumido pelos<br />

peixes, como uma fonte <strong>de</strong> minerais usado na produção fotossintética do fitoplâncton e como um<br />

substrato suplementar <strong>de</strong> matéria orgânica e mineral aos microorganismos heterotróficos. O<br />

conhecimento dos vários caminhos da ca<strong>de</strong>ia alimentar natural po<strong>de</strong> facilitar para que a estocagem e a<br />

produção <strong>de</strong> diferentes espécies <strong>de</strong> peixes em policultivo sejam feitas <strong>de</strong> uma maneira mais racional, as<br />

quais resultem no aumento da produção piscícola, diminuindo os riscos da mortanda<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes,<br />

<strong>de</strong>vido à anoxia e a utilização mais eficiente do material contido no excremento (WOHLFARTH;<br />

SCHROEDER, 1979).<br />

Estudos com a utilização <strong>de</strong> excrementos e fertilizantes minerais têm <strong>de</strong>monstrado resultados<br />

contraditórios. Fertilizantes minerais foram mais efetivos do que excremento bovino em um estudo <strong>de</strong><br />

cultivo <strong>de</strong> tilápias realizado no Centro <strong>de</strong> Pesquisas Ictiológicas, Fortaleza, Brasil por Lovshin et al.<br />

1974. No entanto, em Ginosar, Israel na Estação <strong>de</strong> Cultivo <strong>de</strong> peixes intensivos Rappoport et al.<br />

(1977) encontraram resultados opostos. Excremento <strong>de</strong> frango foi mais efetivo do que excremento <strong>de</strong><br />

gado em Ginosar, enquanto que em Dor, Israel na Estação <strong>de</strong> Pesquisas em Aqüicultura e Peixes Moav<br />

et al. (1977) encontraram resultados igualmente efetivos para ambos os excrementos. Essas<br />

contradições po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong>vido aos métodos <strong>de</strong> manejo empregados e aos níveis <strong>de</strong> produção<br />

alcançados.<br />

Formas <strong>de</strong> manejo a<strong>de</strong>quadas são importantes para o sucesso do empreendimento aqüícola e para<br />

a efetivida<strong>de</strong> na utilização <strong>de</strong> excrementos, pois segundo Schroe<strong>de</strong>r (1973; 1974) os microorganismos<br />

presentes em águas lênticas <strong>de</strong> viveiros <strong>de</strong> cultivo são os maiores responsáveis pela eficiência da<br />

utilização <strong>de</strong> adubos orgânicos, como excremento. Esse mesmo autor <strong>de</strong>monstrou que a utilização <strong>de</strong><br />

excremento líquido <strong>de</strong> vacas é relativamente segura quando a patologia dos peixes e a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong><br />

oxigênio não alcançam níveis críticos. A efetivida<strong>de</strong> do excremento líquido <strong>de</strong> vaca no cultivo <strong>de</strong><br />

peixes po<strong>de</strong> ser baseada na ca<strong>de</strong>ia alimentar que inicia com a ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> bactérias e protozoários na<br />

<strong>de</strong>composição da matéria orgânica do excremento. Devido a essa ca<strong>de</strong>ia não ser diretamente<br />

<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da fotossíntese (como é o caso dos fertilizantes químicos), o limite inerente da penetração<br />

<strong>de</strong> luz e a produção <strong>de</strong> alimento natural po<strong>de</strong>m ser limitados somente pelo suprimento <strong>de</strong> nutrientes,<br />

como por exemplo, pela quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> excremento e oxigênio dissolvido presente na água do viveiro.


153<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

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156<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

UTILIZAÇÃO DO ANELIDEO ENQUITRÉIA Enchytraeus albidus HENLE, 1837, NA<br />

ALIMENTAÇÃO DO NIQUIM Lophiosilurus alexandri STEINDACHNER, 1876,<br />

DURANTE A ALEVINAGEM INICIAL.<br />

José Patrocínio LOPES (jpatrobr@yahoo.com.br);<br />

Tâmara Almeida e SILVA; Darciene S. GOMES; Ana Cristina M. RANGEL<br />

Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> do Estado da Bahia, Campus VIII Paulo Afonso.<br />

RESUMO<br />

Na Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), utiliza-se branconeta (Dendrocephalus<br />

brasiliensis), na alimentação do niquim (Lophiosilurus alexandri) após a fase <strong>de</strong> plâncton, sentindo-se<br />

necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alimento vivo intermediário no período pós-larval. O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi<br />

verificar a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> enquitréia (Enchytraeus albidus) aumentar a produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alevinos,<br />

principalmente na larvicultura <strong>de</strong> carnívoros como Lophiosilurus alexandri. Utilizou-se incubadora<br />

para ovos fixos, tipo calha, aon<strong>de</strong> foi colocada a <strong>de</strong>sova para posterior eclosão das larvas <strong>de</strong> niquim.<br />

Após eclosão, estas foram transferidas para seis incubadoras e a seguir foi fornecida dieta à base <strong>de</strong><br />

plâncton, enquitréias e por fim, Dendrocephalus. Foram realizados dois tratamentos (T1 e T2) com três<br />

repetições. Foram colocadas 50 pós-larvas <strong>de</strong> niquim por incubadora, com comprimento médio <strong>de</strong> 10<br />

mm. O cultivo durou 45 dias. No T1, as pós-larvas receberam plâncton durante 15 dias. Do 16º dia e<br />

até o 45º receberam Dendrocephalus animais vivos e mortos. Para o T2, as pós-larvas receberam<br />

plâncton durante 15 dias. Do 16º até o 30º dia, foram alimentadas com o microverme enquitréia como<br />

alimentação intermediária. Do 31º até o 45º dia foram alimentadas com Dendrocephalus. No início do<br />

trabalho, quando os tratamentos receberam a mesma dieta, observou-se crescimento uniforme, com<br />

comprimento médio <strong>de</strong> 35 mm e sobrevivência 100%. Depois <strong>de</strong> 30 dias do experimento, os resultados<br />

foram: T1, comprimento médio <strong>de</strong> 50,01±0,26 mm e T2, comprimento médio <strong>de</strong> 44,91±0,45 mm. Ao<br />

final do experimento, observou-se em T1, comprimento médio <strong>de</strong> 71,46±2,41mm e em T2 <strong>de</strong><br />

65,89±3,94 mm. A sobrevivência foi <strong>de</strong> 100, 100 e 99,33% ao longo do cultivo para T1 com uma<br />

média <strong>de</strong> 99,78% e 100, 12 e 100% para T2 com uma média final <strong>de</strong> 70,66%. Conclui-se que<br />

Dendrocephalus ainda é o melhor alimento vivo obtido na EPPA para alimentação do niquim.<br />

Enquitréia é um bom alimento, mas os resultados mostraram que como alimento alternativo para o<br />

niquim não apresentou vantagem quando comparado com branconeta, no que se refere ao crescimento<br />

em comprimento e sobrevivência.<br />

PALAVRAS-CHAVES: peixes, larvicultura, alimento natural.


ABSTRACT<br />

157<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

USE OF THE ANNELID ENQUITREIA, Enchytraeus albidus HENLE 1837, IN THE FEEDING OF<br />

THE NIQUIM, Lophiosilurus alexandri STEINDACHNER 1876, DURING THE INITIAL<br />

FINGERLING CULTURE<br />

In the Station of Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), branconeta is used (Dendrocephalus<br />

brasiliensis), in the feeding of niquim (Lophiosilurus alexandri) after the phase of plâncton, feeling<br />

intermediate alive food necessity in the after-larval period. The objective of this work was to verify the<br />

enquitreia possibility (Enchytraeus albidus) to increase the productivity of alevinos, mainly in the<br />

larvicultura of carnivores as Lophiosilurus alexandri. It was used for fixed eggs, type gutter, where was<br />

placed the spawning of fishes for posterior eclosão of the larvae of niquim. After eclosão, these had<br />

been transferred to six incubadoras and to follow it was supplied to diet the base of plâncton,<br />

enquitreias and finally, Dendrocephalus. Two treatments (T1 and T2) with three repetitions had been<br />

carried through. Fifty post-larvae of niquim for incubadora had been placed, with average length of 10<br />

mm. The culture during 45 days. In the T1, post-larvae they had received plâncton during 15 days.<br />

From 16º until 45º day, they had received Dendrocephalus alive and <strong>de</strong>ad animals. For the T2, the<br />

post-larvae had received plâncton during 15 days. In 16º and until 30º day they had been fed with the<br />

enquitreia microworm as intermediate feeding. In 31º and until 45º day they had been fed with<br />

Dendrocephalus. In the beginning of the work, when the treatments had received the same diet, was<br />

observed uniform growth, with average length of 35 mm and survival 100%. After 30 days of the<br />

experiment, the results had been: T1, average length 50,01±0,26 mm and T2, average length<br />

44,91±0,45 mm. To the end of the experiment, was observed in the treatment T1, average length<br />

71,46±2,41mm and in the T2 65,89±3,94 mm. The survival had been of 100, 100 and 99.33% to the<br />

long one of the culture for T1 with a average 99,78% and 100, 12 and 100% for T2 with a final<br />

average 70,66%. One conclu<strong>de</strong>s that Dendrocephalus still is the best gotten alive food in the EPPA<br />

for feeding of niquim. Enquitréia is a good food, but the results had shown that as alternative food for<br />

niquim did not present comparative advantage when with branconeta, as for the growth in length and<br />

survival.<br />

KEYWORD: fish, larviculture, natural feed.


INTRODUÇÃO<br />

158<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Em alguns países da Europa, Estados Unidos da América, Taiwan e Japão pesquisadores têm<br />

<strong>de</strong>scoberto novas fontes alternativas <strong>de</strong> alimentos vivos para complementar, mas dificilmente para<br />

substituir rotíferos e Artemia como alimentos vivos para larvas <strong>de</strong> peixes marinhos. Algumas espécies<br />

como Tisbe holothuriae (Copepoda), Daphnia e Moina (Cladocera) surgiram como possíveis fontes<br />

alternativas <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> realizados muitos estudos sobre a nutrição e alimentação <strong>de</strong> larvas <strong>de</strong> muitas<br />

espécies <strong>de</strong> peixes. Alguns <strong>de</strong>sses microcrustáceos planctônicos possuem melhor valor nutricional do<br />

que rotíferos e náuplios <strong>de</strong> Artemia (KJAEDEGAARD, 1997).<br />

A produção <strong>de</strong> algumas espécies <strong>de</strong> organismos zooplanctônicos já acontece em alguns países<br />

da Europa (Reino Unidos, Noruega e Bélgica) e tem se tornado uma possibilida<strong>de</strong> viável em muitas<br />

larviculturas. No Brasil, alguns experimentos <strong>de</strong> maneira isolada estão sendo realizados com o objetivo<br />

<strong>de</strong> se <strong>de</strong>scobrirem novos candidatos a alimentos vivos.<br />

Na região Nor<strong>de</strong>ste do Brasil, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1998, pesquisadores da Companhia Hidroelétrica do São<br />

Francisco (CHESF) em parceria com as Universida<strong>de</strong>s do Estado da Bahia (UNEB) e Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong><br />

Pernambuco (UFRPE) vêm intensificando esforços no sentido <strong>de</strong> dominar a técnica <strong>de</strong> produção <strong>de</strong><br />

cistos e náuplios <strong>de</strong> Dendrocephalus brasiliensis (branconeta) e sua utilização no cultivo <strong>de</strong> espécies<br />

carnívoras e ornamentais, a exemplo <strong>de</strong> Lophiosilurus alexandri (niquim), Salminus brasiliensis<br />

(dourado), Cichla ocellaris (tucunaré), Astronotus ocellatus (apaiari) e Pterophyllum scalare (acarában<strong>de</strong>ira).<br />

Assim como a carcinicultura, a piscicultura continua tendo um gran<strong>de</strong> crescimento. Segundo o<br />

Comitê <strong>de</strong> Organismos Aquáticos (COAq), da Associação Nacional dos Fabricantes <strong>de</strong> Ração<br />

(ANFAL), 101.000 toneladas <strong>de</strong> rações para peixes foram comercializadas em 2000 (KUBITZA, 2001<br />

apud LOPES, 2002). Sabe-se, entretanto, que a formulação <strong>de</strong> dietas compostas por alimentos vivos na<br />

fase <strong>de</strong> larvicultura apresenta melhores resultados quando comparada às rações artificiais<br />

micropeletizadas e microencapsuladas (KOLKOVSKI, 1995). Neste contexto, reitera-se aqui a<br />

importância do domínio da nutrição e da alimentação larval como fator <strong>de</strong>terminante para o sucesso <strong>de</strong><br />

um cultivo em gran<strong>de</strong> escala.<br />

Procurando viabilizar o cultivo <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> peixes carnívoros, o grupo dos crustáceos<br />

branchiópodos, cujo tamanho é normalmente da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 1 a 2 cm, porém po<strong>de</strong>ndo alcançar<br />

dimensões entre 7 a 10 cm como a Branchinecta gigas (COHEN, 1995), vem <strong>de</strong>sempenhando um<br />

papel fundamental no <strong>de</strong>senvolvimento da aqüicultura.


159<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Na Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA), vem sendo utilizado com sucesso a<br />

branconeta, Dendrocephalus brasiliensis, Pesta 1921, na alimentação <strong>de</strong> L. alexandri após a fase <strong>de</strong><br />

plâncton, no entanto sente-se necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um alimento vivo intermediário no período pós-larval.<br />

O cultivo em massa <strong>de</strong> Enchytraeus albidus Henle, 1937 po<strong>de</strong> minimizar as dificulda<strong>de</strong>s e<br />

aumentar a produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alevinos <strong>de</strong> peixes, principalmente a larvicultura <strong>de</strong> peixes carnívoros<br />

como o niquim, L. alexandri. No entanto, para substituição <strong>de</strong> uma dieta é necessário, entretanto, que a<br />

nova dieta tenha características particulares que proporcionem boa aceitação pelas larvas em<br />

crescimento.<br />

Segundo Kjae<strong>de</strong>gaard (1997), a produção <strong>de</strong> algas, <strong>de</strong> diversas espécies (Chlorella sp.,<br />

Chaetoceros sp., Dunaliella sp.) <strong>de</strong> rotíferos (Brachionus plicatilis) e do microcrustáceo<br />

zooplanctônico Artemia (cistos <strong>de</strong>scapsulados, náuplios, metanáuplios e biomassa) há muito é realida<strong>de</strong><br />

na larvicultura <strong>de</strong> peixes marinhos e <strong>de</strong> crustáceos em países <strong>de</strong>senvolvidos e em muitos em<br />

<strong>de</strong>senvolvimento. As técnicas <strong>de</strong> enriquecimento <strong>de</strong> B. plicatilis e <strong>de</strong> Artemia não só estão<br />

suficientemente dominadas como são amplamente utilizadas por técnicos e profissionais da área <strong>de</strong><br />

larvicultura. Entretanto, segundo Kjae<strong>de</strong>gaard (1997), a oscilação do preço dos cistos <strong>de</strong> Artemia no<br />

mercado mundial, sua disponibilida<strong>de</strong> e a crescente <strong>de</strong>manda por estes alimentos vivos imprescindíveis<br />

para a larvicultura <strong>de</strong> <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> espécies marinhas forçaram governo <strong>de</strong> diversos países a investirem<br />

milhões <strong>de</strong> dólares na pesquisa <strong>de</strong> novas fontes alternativas <strong>de</strong> alimentos vivos, rações<br />

microencapsuladas e micropeletizadas que viessem a dar novas perspectivas para substituir ou<br />

complementar o uso <strong>de</strong> rotíferos e <strong>de</strong> Artemia na alimentação das larvas <strong>de</strong> peixes.<br />

Normalmente, o início da fase piscívora <strong>de</strong> peixes carnívoros coinci<strong>de</strong> com a <strong>de</strong>pleção do<br />

zooplâncton e outros alimentos naturais, ou ainda, quando o tamanho do alimento não mais se a<strong>de</strong>qua<br />

às exigências energéticas e preferência alimentar dos juvenis. Desenvolve-se então a preferência<br />

alimentar por crustáceos e peixes que permanecerá por toda vida (LOPES, 2002).<br />

Os estágios mais difíceis da piscicultura são a passagem das larvas para alevinos (SIPAÚBA-<br />

TAVARES, 1993). A larvicultura das espécies <strong>de</strong> peixe tem sido <strong>de</strong>svantajosa por falta <strong>de</strong> alimentação<br />

em tamanhos a<strong>de</strong>quados <strong>de</strong> zooplâncton vivos, para as larvas (LUBZENS 1987; DIAS et al., 1988;<br />

YAMANKA 1988; LUCAS et al., 1990; SIPAÚBA-TAVARES e ROCHA, 1994). Através do cultivo<br />

da enquitréia, E. albidus visando alimentação na alevinagem inicial do niquim, têm-se uma perspectiva<br />

<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento não só <strong>de</strong>sta espécie carnívora, mas <strong>de</strong> muitos outros peixes carnívoros <strong>de</strong><br />

interesse comercial e ecológico. O presente trabalho tem como objetivo o cultivo <strong>de</strong> enquitréia, E.<br />

albidus como mais uma fonte alternativa <strong>de</strong> alimento <strong>de</strong> L. alexandri durante a alevinagem inicial.


MATERIAL E MÉTODOS<br />

160<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

O experimento foi realizado na Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso (EPPA) (24 L 0586000<br />

UTM 8963002), situada na avenida Maranhão S/N, Paulo Afonso, Bahia, pertencente à Companhia<br />

Hidroelétrica do São Francisco (CHESF).<br />

Foram utilizadas sete incubadoras tipo calha<br />

(Figura 1), on<strong>de</strong> foram <strong>de</strong>positada a <strong>de</strong>sova (ovos<br />

a<strong>de</strong>sivos) para posterior eclosão das larvas. Cinco<br />

dias após a eclosão, quando as pós-larvas estavam<br />

aptas para serem transferidas para outras<br />

incubadoras e a seguir acompanhamento <strong>de</strong> sua dieta<br />

a base <strong>de</strong> plâncton, enquitréias e branchoneta<br />

conforme processo tradicional utilizado na EPPA.<br />

FIGURA 1 - INCUBADORAS TIPO CALHA<br />

Por outro lado, para o cultivo da enquitréia UTILIZADAS NO EXPERIMENTO.<br />

foram utilizadas caixas <strong>de</strong> plástico medindo<br />

17x12x10 cm, com carvão ativado em uma coluna <strong>de</strong> 2cm <strong>de</strong> altura, sempre úmida para servir como<br />

substrato. Adicionou-se uma colher <strong>de</strong> sopa com enquitréias <strong>de</strong> cultura prévia e colocou-se uma lâmina<br />

<strong>de</strong> vidro com 8x5cm por cima da cultura (Figura 2). O vidro serve para facilitar a colheita da<br />

enquitréia.<br />

A alimentação para as enquitréias consistiu <strong>de</strong><br />

uma papa <strong>de</strong> aveia e água com uma consistência <strong>de</strong> mel<br />

servida geralmente a cada dois ou três dias. Na coleta<br />

das enquitréias para alimentação dos peixes utilizou-se<br />

<strong>de</strong> uma pinça cirúrgica.<br />

O experimento constou <strong>de</strong> dois tratamentos (T1<br />

e T2) com três repetições cada. Após sorteio das calhas<br />

por tratamento, cada calha recebeu 50 pós-larvas <strong>de</strong><br />

FIGURA 2 – CAIXA PLÁTICA, COBERTA COM niquim cujo comprimento médio inicial foi <strong>de</strong> 10 mm<br />

LÂMINA DE VIDRO UTILIZADA NO CULTIVO DE<br />

ENQUITRÉIAS.<br />

(Tabela 1). Para T1, as pós-larvas receberam plâncton<br />

durante 15 dias. A partir do 16º dia e até o 45º dia passaram a receber branchonetas vivas (Figura 3) e<br />

também mortas, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da disponibilida<strong>de</strong>, <strong>de</strong> acordo com o procedimento <strong>de</strong> rotina da EPPA.<br />

Para T2, as pós-larvas receberam plâncton durante 15 dias. A partir do 16º dia e até o 30º dia receberam


161<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

como alimento vivo enquitréia em alimentação intermediária. A partir do 31º dia e até o 45º dia foram<br />

alimentadas com branchonetas.<br />

O tempo <strong>de</strong> duração do experimento para observação do crescimento médio dos peixes em<br />

comprimento (mm) e percentuais <strong>de</strong> sobrevivência foi <strong>de</strong> 45 dias. Para avaliação do crescimento<br />

tomou-se apenas o comprimento dos peixes, visto que essa variável é mais utilizada nos trabalhos <strong>de</strong><br />

Tabela 1. Alimentação natural das larvas <strong>de</strong> acordo com os tratamentos.<br />

TRATAMENTOS TOTAL DE PÓS-LARVAS CALHA DIETA<br />

T1<br />

T2<br />

propagação <strong>de</strong> alevinos em reservatórios como<br />

os <strong>de</strong>senvolvidos pelas companhias do setor<br />

elétrico, como no caso da CHESF<br />

Os tratamentos foram submetidos ao<br />

teste <strong>de</strong> significância da diferença entre duas<br />

médias (teste “t” ou <strong>de</strong> Stu<strong>de</strong>nt) ao nível <strong>de</strong><br />

significância α = 5%.<br />

50 9 Plâncton + branchoneta<br />

50 10 Plâncton + branchoneta<br />

50 14 Plâncton + branchoneta<br />

50 11 Plâncton + enquitréia + branchoneta<br />

50 12 Plâncton + enquitréia + branchoneta<br />

50 13 Plâncton + enquitréia + branchoneta<br />

RESULTADOS<br />

Figura 3 - Exemplar <strong>de</strong> Dendrocephalus<br />

brasiliensis (Fonte: Lopes, 2003)<br />

Decorridos 15 dias do início da 1ª etapa <strong>de</strong>sse trabalho, com a utilização <strong>de</strong> organismos vivos<br />

do zooplâncton para ambos os tratamentos, foi observado o <strong>de</strong>senvolvimento dos alevinos. Com auxílio<br />

<strong>de</strong> um paquímetro foi realizada biometria e verificou-se um comprimento médio <strong>de</strong> 35 mm para os<br />

alevinos nos dois tratamentos e a sobrevivência <strong>de</strong> 100%.<br />

Na segunda fase do experimento quando os peixes em T1 passaram a receber branconetas e os<br />

peixes em T2 enquitréias como alimento, <strong>de</strong>corridos os quinze dias <strong>de</strong>sta fase (total <strong>de</strong> 30 dias), os<br />

resultados foram os seguintes: em T1, os niquins alimentados com branconeta alcançaram o<br />

comprimento médio <strong>de</strong> 50,01±0,26 mm e sobrevivência <strong>de</strong> 100% e em T2, os niquins alimentados com<br />

enquitréias alcançaram o comprimento médio <strong>de</strong> 44,91 mm e sobrevivência <strong>de</strong> 12%.


162<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

Na terceira e última fase do experimento os alevinos em T1 continuaram a receber branconetas<br />

como alimento e os alevinos em T2 passaram a receber também branconetas em substituição as<br />

enquitréias. Concluídos os 15 dias finais do experimento (total <strong>de</strong> 45 dias), os resultados foram os<br />

seguintes: a) Os alevinos em T1 atingiram ao final do trabalho um comprimento médio <strong>de</strong> 71,46±2,41<br />

mm (Fig 4) e sobrevivência <strong>de</strong> 99,33% com uma média geral em termos <strong>de</strong> sobrevivência <strong>de</strong> 99,78%.<br />

Na tabela 2 é apresentada uma síntese <strong>de</strong> T1.<br />

Os alevinos em T2 alcançaram um comprimento médio <strong>de</strong> 65,89±3,94 mm (Figura 5) e<br />

sobrevivência 100% nesta fase. No tratamento como um todo, a sobrevivência foi <strong>de</strong> 70,66%. Na<br />

Tabela 3 é apresentada uma síntese dos resultados <strong>de</strong> T2<br />

Figura 4 – Tratamento 1: Alevino <strong>de</strong><br />

niquim ao final do cultivo alimentado<br />

com plâncton + branconeta<br />

Figura 5 - Tratamento 2: Alevino <strong>de</strong><br />

niquim ao final do cultivo alimentado<br />

com plâncton + enquitréia +<br />

Tabela 2 - tratamento T1: Síntese dos resultados da alimentação do niquim.<br />

Dias Alimento Comp. Médio (cm) Sobrevivência (%)<br />

0-15 Plâncton 35±0,10 100<br />

16-30 Branconeta 50,01±0,26 100<br />

31- 45 Branconeta 71,46±2,41 99,33<br />

A média dos dois tratamentos (T1 e T2), submetida ao teste <strong>de</strong> significância da diferença entre<br />

as duas médias (teste “t” ou <strong>de</strong> Stu<strong>de</strong>nt) ao nível <strong>de</strong> significância α = 5 % apresentou diferença<br />

significativa no que se refere à sobrevivência e comprimento, com uma superiorida<strong>de</strong> <strong>de</strong> T1 sobre T2.<br />

Tabela 2 - tratamento T2: Síntese dos resultados da alimentação do niquim.<br />

Dias Alimento Comp. Médio (cm) Sobrevivência (%)<br />

0-15 Plâncton 35±0,10 100<br />

16-30 Enquitréia 44,91±0,12 12<br />

31-45 Branconeta 65,89±3,94 100


DISCUSSÃO<br />

163<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

A branconeta, cujo valor protéico em torno <strong>de</strong> 67% <strong>de</strong> proteína bruta, supera o da artêmia 61,60,<br />

se mostra com níveis protéicos suficientes para suprir as necessida<strong>de</strong>s não só <strong>de</strong> peixes carnívoros mas<br />

também <strong>de</strong> outros animais aquáticos como os camarões por exemplo. Com referência ao comprimento,<br />

as branconetas, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das condições ambientais aon<strong>de</strong> são cultivadas, atingem em torno <strong>de</strong> 25<br />

mm, superando também a artêmia que é <strong>de</strong> 11 mm, isto implica positivamente numa maior produção <strong>de</strong><br />

biomassa <strong>de</strong> branconeta em relação a artêmia (LOPES, 1998).<br />

Lopes e Tenório (2003) citam a gran<strong>de</strong> importância da branconeta, Dendrocephalus<br />

brasiliensis, como alimento natural, tornando-se um gran<strong>de</strong> elo para o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> alevinos <strong>de</strong><br />

niquim a partir do momento em que o zooplâncton e outros organismos do plâncton não se fazem mais<br />

atrativos para essa espécie.<br />

Segundo Kubitza (1998), a importância do alimento natural em piscicultura é maior durante as<br />

fases <strong>de</strong> larvicultura e alevinagem ou na recria <strong>de</strong> espécies planctófagas. Daí o bom <strong>de</strong>senvolvimento<br />

dos alevinos <strong>de</strong> niquim quando alimentados com organismos vivos com a branconeta, por exemplo.<br />

Segundo Pillay (1995), os organismos cultivados na aqüicultura têm <strong>de</strong> obter todos os seus<br />

requerimentos nutricionais exceto os requerimentos minerais, através <strong>de</strong> alimentos que eles consomem.<br />

A branconeta como animal filtrador <strong>de</strong> algas, po<strong>de</strong> repassar para os peixes vários nutrientes existentes<br />

nesse alimento natural. Assim, é que para melhorar a qualida<strong>de</strong> nutricional dos alimentos vivos<br />

normalmente utilizados (rotíferos e Artemia) com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fornecer às larvas todos os nutrientes<br />

necessários para seu <strong>de</strong>senvolvimento e crescimento larval, utiliza-se a técnica <strong>de</strong> enriquecimento com<br />

emulsões (Selco TM , Super-Selco TM ) ricas em ácidos graxos (HUFA, EPA, DHA), vitaminas (C e E),<br />

antibióticos e pigmentos (carotenói<strong>de</strong>s).<br />

Kubitza e Lovshin (1999) afirmam que a produção intensiva <strong>de</strong> peixes carnívoros po<strong>de</strong> ser<br />

dificultada quando o alimento vivo é o único item alimentar. Entretanto, seu uso como dieta inicial no<br />

treinamento alimentar <strong>de</strong> peixes carnívoros é amplamente aceito. Em seu trabalho utilizando alimento<br />

vivo como dieta inicial no treinamento alimentar <strong>de</strong> juvenis <strong>de</strong> pirarucu (Arapaima gigas) verificou que<br />

provavelmente o uso <strong>de</strong> alimento vivo seja a estratégia alimentar mais viável para facilitar a aceitação<br />

<strong>de</strong> rações por parte <strong>de</strong>stes juvenis, uma vez que é um alimento naturalmente consumido, po<strong>de</strong>ndo<br />

oferecer a vantagem <strong>de</strong> treinar peixes <strong>de</strong> tamanhos menores e <strong>de</strong> não ser necessário o uso <strong>de</strong> atrativos.<br />

Juvenis <strong>de</strong> pirarucu apresentam associação gregária e po<strong>de</strong>m ser influenciados por condições<br />

que favoreçam o estabelecimento <strong>de</strong> classes hierárquicas aumentando com isso a heterogeneida<strong>de</strong> do<br />

lote, po<strong>de</strong>ndo resultar em agressões (CAVERO et al., 2003). Nos juvenis <strong>de</strong> niquim em estudo, foi


164<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 2[1]<br />

observado canibalismo acentuado em T2 com uso <strong>de</strong> E. albidus como alimento. Isto provavelmente é<br />

justificado pela composição protéica <strong>de</strong>ste microverme que apresenta alto teor <strong>de</strong> gorduras sólidas que<br />

são oleosas, o que dificulta o processamento pelos peixes <strong>de</strong> modo eficaz quando oferecido<br />

diariamente, aliado ao fato também <strong>de</strong> associação gregária existente nesta espécie.<br />

Kubitza e Lovshin (1999) citam que este tipo <strong>de</strong> comportamento (canibalismo) po<strong>de</strong> ocorrer<br />

durante o treinamento alimentar <strong>de</strong> diversas espécies <strong>de</strong> peixes carnívoros. Provavelmente as agressões<br />

observadas: mor<strong>de</strong>duras nas nada<strong>de</strong>iras caudais estejam associadas à mudança repentina da<br />

alimentação durante o treinamento alimentar, fato que po<strong>de</strong> ter influenciado no comportamento dos<br />

peixes. Entretanto, não existem registros <strong>de</strong> canibalismo ou agressões entre juvenis <strong>de</strong> pirarucu criados<br />

em cativeiro.<br />

Lopes et al. (1996) utilizaram o rotífero marinho B. plicatillis, náuplios <strong>de</strong> Artemia salina e do<br />

cladócero Moina micrura na alimentação <strong>de</strong> larvas do surubim-pintado e observaram que esta espécie<br />

aceita bem o alimento vivo como dieta inicial.<br />

CONCLUSÕES<br />

A branconeta é o melhor alimento vivo obtido na região para alimentação do niquim. A<br />

enquitréia é um bom alimento. No entanto, sua utilização como alimento alternativo na dieta do<br />

niquim, não apresenta vantagem quando comparado com a branconeta, tanto no que se refere ao<br />

crescimento quanto à sobrevivência <strong>de</strong> pós-larvas.<br />

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