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Untitled - MARCELO PACIORNIK Fine Arts

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

O MAGO de PRATA<br />

Este livro é dedicado ao todo poderoso Schaia III, por ocasião de seu retorno<br />

do Planeta Azul. Que Deus o proteja.<br />

A todos que lerão estas páginas<br />

Deve-se saber que esta é uma história real, nada aqui é ficção. Apenas as páginas<br />

que antecedem ao primeiro capítulo foram baseadas em fatos históricos estipulados<br />

pelos historiadores de Carmel. Esses fatos são questionáveis, pois datam de trinta<br />

mil anos-padrão atrás ou mais; são fatos meramente ilustrativos em seus detalhes,<br />

porém, aparentemente, muito próximos da realidade do Planeta Azul, inclusive com<br />

nomes de territórios e datas, todos pesquisados arduamente nos memo-cristais trazidos<br />

por Schaia III do próprio Planeta Azul. E explicam mais que bem os acontecimentos<br />

que geraram o maior problema ocorrido em toda a história do império.<br />

Que as próximas gerações aprendam que os pequenos fatos, mesmo ocorrendo<br />

nos confins do universo conhecido, podem se expandir em escala e transformar mesmo<br />

a mais sólida civilização em poeira cósmica.<br />

A pedido do próprio Schaia III, a linguagem aqui adotada para relatar os fatos,<br />

em sua maioria narrados pelo próprio Schaia III, é, em sua totalidade, de cunho jornalístico,<br />

simples, para que mesmo o mais comum dos seres que habitam os Planetas<br />

distantes possa entender e compartilhar de sua essência.<br />

Atenção, Planetas Grinfort, Curitixatro, Marson, Dremctom, Lacreines, Particres<br />

e seus satélites:<br />

Este livro contém narrações de cenas de sexo e entorpecentes. Sendo estes<br />

Planetas ainda dotados de uma postura reacionária, estas páginas devem ser passadas<br />

por censura prévia antes de serem lidas por sua oprimida população.<br />

Deve-se saber ainda que o Planeta Azul é agora o Planeta Verde, e era chamado<br />

por seus antigos habitantes (sabe-se lá por quê) de Terra. As primeiras páginas são<br />

uma explicação sobre o nascimento da magia. Elas são relatadas a partir de conhecimentos<br />

empíricos de nossos estudiosos, os quais são baseados na própria narrativa de<br />

Ortal, o Guerreiro, segundo os cristais concedidos a Schaia III pelo Mago de Prata.<br />

Chefe do Estado de Segurança na informação de Plan Ex.<br />

Boa leitura


Introdução<br />

Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

O nascimento da “Eco Magia”<br />

2015, o ano em que poderia ter acontecido a maior catástrofe natural desde a<br />

era glacial no Planeta Azul.<br />

Depois de cinco anos de guerras em certos territórios do Planeta, finalmente<br />

a humanidade descamba para uma terrível e alarmante Terceira Guerra Mundial que<br />

nunca terminaria, não fosse um poderoso incidente.<br />

O início do conflito está agora perdido na memória da história. O que apenas se<br />

sabe é que foi pelo fato de o ser humano ter ido longe demais em sua crueldade para<br />

consigo mesmo e para com a sua casa que algo o impediu de ir além. O processo de<br />

“evolução” estava errado, isto foi notado e desfeito.<br />

O problema não foi o conflito em si, mas as consequências que este acarretaria<br />

para o Planeta. O emprego de armas químicas foi apenas uma brincadeira, os fasers<br />

e o início dos miniatômicos poderiam ter sequelas reversíveis, mas quando cem milhões<br />

de chineses foram mortos pela amplificação da energia estelar via satélites de<br />

potencialização, a “eco-consciência” despertou. Começou por ser chamada de “Eco<br />

Revolta”, depois de “Eco Justiça” e mais tarde de “Eco Magia”.<br />

A “Eco Revolta” teve início no começo do ano em que foram empregados os<br />

satélites de potencialização estelar, o que, além de matar milhões de seres humanos,<br />

vegetais e animais por um décimo do custo de uma bomba atômica padrão, teoricamente<br />

não afligiria o ecossistema a longo prazo como a bomba. Eis o grande erro do<br />

ser humano. As consequências desse tipo de armamento se tornariam irreversíveis e a<br />

devastação do Planeta seria fato.<br />

Logo depois do emprego da arma na China, que devastou uma imensidão de<br />

terras, ela seria empregada num núcleo calculado, num ponto geográfico qualquer.<br />

Provavelmente em um ponto de conflito extremo como o Oriente Médio que, a essa<br />

altura, não teria mais muitos a quem matar, devido à vastidão de violência que a<br />

guerra criara. Qual o ponto em particular ninguém sabia e nem viria a saber. Foi exatamente<br />

assim: (conta a história falada) momentos antes do disparo dos canhões dos<br />

terríveis módulos de potencialização de raios estelares, com o seu maligno grito da<br />

morte, que a vida simplesmente enlouqueceu sobre a face do Planeta.<br />

Repentinos terremotos, maremotos, vulcões, furacões começaram a agir em<br />

conjunto com animais que, desde insetos até baleias, se tornaram violentamente insanos.<br />

Cidades foram destruídas em segundos, todas as zonas de principais conflitos<br />

entre seres humanos foram arrasadas, uma coluna de montanhas surgiu separando o<br />

Oceano Atlântico em dois de cima a baixo do Planeta. O Japão mergulhou no mar e<br />

nunca mais voltou; a América do Norte foi devastada por furacões de um lado, pelo<br />

mar do outro e o meio coberto por quilômetros de lavas, formando um tapete de mais<br />

de quarenta metros de altura; a Europa se afogou em inundações, a África tornou-se<br />

um zoológico-hospício, com revoltas de animais de todo o gênero e espécie. Fábricas<br />

foram destruídas com o mesmo sopro que derrubara usinas nucleares e hidrelétricas;<br />

uma vastidão de morte caiu sobre a Terra. Não sobraram feridos, só mortos. A popu-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

lação da Terra tornou-se uma migalha se comparada aos dez bilhões de habitantes que<br />

haviam antes do início do principal conflito. Nenhuma guerra na história alcançou tais<br />

proporções. E o ser humano tornou-se um bebê no colo de uma Terra agora desconhecida,<br />

selvagem e extremamente rica.<br />

Então a “Eco Revolta” se acalmou. Foram apenas cinco dias em que a natureza<br />

guerreou contra o homem e venceu. Sim, venceu a natureza, mas o homem, como faz<br />

parte da natureza, também venceu. Os poucos que sobraram, sem distinção de raça ou<br />

credo, iriam reconstruir as cidades, resgatar a tecnologia que haviam aprendido com<br />

os seus ancestrais, e recomeçar a vida, não iriam? Afinal tudo tinha passado, sobraram<br />

poucos, mas sobraram! Sim, eles poderiam se erguer, formar suas comunidades, construir<br />

fábricas e escolas, carros e naves, medicamentos e armas, não poderiam? Não,<br />

não poderiam.<br />

Pois então veio a “Eco Justiça” e assim falou ao homem:<br />

“Sua capacidade de destruição voltou-se contra você. Acredite, a “Eco Revolta”<br />

não acabou. Mas poderá descansar, caso você descanse. Descanse da química e<br />

da guerra, descanse da poluição e das fábricas, e dos carros e da tecnologia e dos rios<br />

desviados e dos mares sujos, dos bichos em mutação e das chuvas ácidas, descanse<br />

das religiões e das blasfêmias das sociedades urbanas e do espaço sideral e da miséria<br />

e da devoção ao ódio e do prazer da maldade e das coisas inventadas para as calamidades<br />

e do ócio e do petróleo e do abismo e da vergonha...” E assim a “Eco Justiça”<br />

falou e falou, e era como se toda a humanidade ouvisse uma só voz de um só Deus e de<br />

uma só vez, mas que todos já sabiam que não era nenhum Deus, mas uma chance que<br />

eles, aqueles que ouviam, recebiam. Eram os afortunados, que recebiam uma dádiva<br />

e desta forma foi implantada no homem a sensatez das novas leis naturais e de como<br />

o ser humano poderia evoluir sem agredir o seu meio. Sim, o ser humano poderia<br />

evoluir e guerrear, e também caçar e pescar e sobreviver, mas sem jamais agredir as<br />

leis da “Eco Justiça”.<br />

Como ele saberia que estaria agredindo ou não? Simples estava agora na sua<br />

consciência: tudo o que agredisse as “Leis”, agrediria o ser humano.<br />

Então, o ser humano começou a reconstrução de seu novo mundo, formando<br />

pequenas vilas nas áreas onde ainda havia vida, construindo um mundo diferente das<br />

grandes cidades. Inicialmente eram vilas básicas, como na Idade Média, mas logo<br />

foram-se estruturando, com canalização de água, esgoto, energia solar para aquecer<br />

a água, carroças construídas com madeiras e puxadas por cavalos, casas de pedra e<br />

palha e tijolos feitos à mão, com conforto, sem eletricidade, mas com lareira. Tudo se<br />

tornara esquisito, mas suave, uma nova forma de vida, nada do mundo passado tinha<br />

sobrado, nem ferramentas nem sucatas, tudo fora destruído para sempre, menos a<br />

memória. E foi com a memória, e apenas com ela, pois não havia papel, que o homem<br />

começou sua nova evolução.<br />

O maior problema foi adaptar-se, afinal, em 2015, apesar da guerra, a evolução<br />

tecnológica tinha chegado à beira do sonho. A questão de “aldeia global” era uma<br />

brincadeira de criança perto do que era o nível de transmissão das informações.<br />

Através da sistematização unilateral dos equipamentos, um estudante de medicina


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

poderia estar, como se fosse ao vivo, numa sala de operação do outro lado do Planeta,<br />

vendo a cirurgia em tempo real, além de sentir o cheiro e, se quisesse, sentir o gosto<br />

dos materiais utilizados. A divulgação de produtos e serviços era feita da forma mais<br />

obscena possível, através de canais de divulgação próprios. Eram separados por categorias<br />

e levados ao consumidor em clips com referências subliminares que levaram<br />

o comércio sem censura nenhuma, à beira da loucura.<br />

A cultura do Planeta se tornou única; o Planeta inteiro era apenas uma língua,<br />

um ritual, uma estética, todos ligados por um mesmo fio de comunicação. O que era<br />

inventado num dado momento em determinado laboratório de pesquisa era, no mesmo<br />

instante, espalhado, quisesse o inventor ou não, para sabe-se lá onde, conforme a necessidade<br />

do outro usuário.<br />

Portanto, era um mundo de informação sendo passado de pessoa para pessoa,<br />

de país para país, de continente para continente em frações de segundos, desde músicas<br />

a filmes, teatros em 3D, perfumes, sabores, até arquiteturas de bombas, esqueletos<br />

de tramas políticas. Era só querer ter as vias de acesso e pronto, estava lá, na sua<br />

casa, a última tendência em moda da Nova Guiné ou de Roterdã ou de onde alguém<br />

desejasse.<br />

Mas de repente tudo acaba, não há mais eletricidade, nem computadores, nem<br />

vias de acessos, apenas carroças puxadas a cavalo e, quando muito, água quente;<br />

esqueça as músicas e os vídeos, os teatros em 3D ou o final de semana numa praia<br />

virtual. Acabou. E quem tentar fazer, através da antiga fórmula está morto, pois a “Eco<br />

Justiça” apenas descansa, mas de olhos abertos.<br />

A “Eco Magia”<br />

A necessidade tornou-se um lamento. Como um viciado que não possui sua<br />

droga favorita, a tecnologia passou a ser a síndrome de abstinência do ser humano,<br />

pelo fato de não poder mais ter contato com outras pessoas, informações, prazeres<br />

como tinha anteriormente. A “Eco Revolta” fez do homem um obstinado em desenvolver<br />

um método para o retorno destas funções perdidas.<br />

O primeiro passo foi de não esquecer, a memória foi a arma mais potente para<br />

a “Eco Magia”. O segundo foi o estudo de materiais, afinal, com a “Eco Revolta” e<br />

toda a potencialidade das manifestações naturais, surgiram do fundo da terra materiais<br />

desconhecidos até então. Novos cristais, novas plantas começaram nascer, novas<br />

formas de vida começaram a se desenvolver e o ser humano, como uma criança,<br />

começou a questionar e avaliar como esses novos materiais poderiam ajudá-lo na<br />

busca da comodidade perdida.<br />

Então, sem os recursos da tecnologia, mas com a necessidade do conforto, dos<br />

prazeres e de todo o universo de coisas e aspectos perdidos, o ser humano notou que,<br />

só através do desenvolvimento cerebral, poderia, algum dia, voltar a ter o momento<br />

inventivo que ele estivera vivendo anteriormente.<br />

A “Eco Revolta” teve o capricho de deixar as “tribos” separadas o bastante<br />

para só se encontrarem depois de muito tempo, o que tornou o desenvolvimento<br />

das mesmas bastante diferenciado, conforme as características de cada região. Além<br />

disso, os materiais encontrados em cada parte do Planeta eram realmente muito dife-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

rentes. Cada “tribo” passou a se dedicar a uma forma de vida peculiar comparada à<br />

outra, mas com algo em comum. O ponto inicial, o ponto de partida foi o mesmo, o<br />

não-esquecimento, a memória do conforto e da segurança perdida.<br />

Inicialmente, a maior parte das “tribos” começou a desenvolver armas arcaicas,<br />

mas que possibilitavam a sobrevivência. A ferro e fogo foram construídos os<br />

mais notáveis armamentos de defesa e ataque, a pólvora e outros tipos de explosivos<br />

estavam não só extintos como também altamente proibidos pela “Eco Justiça”. Se<br />

houvesse alguma batalha, iria ser à moda antiga, isto é, luta corporal.<br />

O segundo aspecto do desenvolvimento foi a questão da alimentação e medicamentos,<br />

e foi, a partir daí, que o homem começou um poderoso processo de pesquisa<br />

que o levou à descoberta de várias ervas, pedras, plantas e até animais que tinham<br />

peculiaridades de poderes até então desconhecidos.<br />

Uma das mais poderosas ervas descobertas foi a “Laxenema”, que tem o poder<br />

de ampliação da memória, o que foi extremamente necessário, pois a palavra escrita<br />

estava proibida. Esta erva podia ser encontrada por quase todo o Planeta e devia ser<br />

fumada para que sua capacidade de ampliação da mente fosse efetivada. Portanto,<br />

quase todas as tribos teriam esta erva e não estariam com o perigo do esquecimento do<br />

passado, o que era a chave para o próximo passo; para o desenvolvimento.<br />

Com os novos recursos materiais que traziam essas novas descobertas, a mente<br />

do ser humano foi se ampliando. Alguns cristais davam pequenos poderes telepáticos,<br />

outros poderiam ter funções geriátricas, algumas ervas tinham o poder de entorpecimento,<br />

outras agiam como anestésicos. Na totalidade, a natureza se mostrou extremamente<br />

eficaz com as necessidades dos homens, que, ano após ano, foram desenvolvendo<br />

funções mentais que jamais sonharam.<br />

O desenvolvimento corporal se consolidou tanto quanto a mente, com uma<br />

comida altamente substancial, sem aditivos químicos, com o ar puro, sem a poluição<br />

das fábricas, com a proximidade das florestas, com a necessidade dos “trabalhos braçais”<br />

e com uma vida voltada para o dia. Sem a luz artificial e com os novos recursos<br />

naturais, o corpo do ser humano tornou-se muito mais belo e “durável”, a expectativa<br />

de vida quarenta anos após a “Eco Revolta” saltou para cem anos, e duzentos anos<br />

depois para cento e oitenta anos! Além disso o aspecto do homem artesão se tornou<br />

um fato consumado; desde o desaparecimento das fábricas, o ser humano deveria<br />

inventar os seus próprios utensílios, que de início foram básicos, mas depois com a<br />

sabedoria do design que havia herdado de séculos anteriores, ele começou a adaptar<br />

esses métodos de construção de aparelhos e ferramentas não seriais em verdadeiras<br />

obras-primas.<br />

As tribos só começaram a se encontrar cem anos depois da “Eco Revolta” e<br />

notaram diferenças bastante grandes acerca do desenvolvimento de umas e de outras.<br />

Mas as informações começaram a ser trocadas e não houve atrito entre elas.<br />

O número de pessoas de cada tribo era de no máximo vinte mil, pois a “Eco<br />

Justiça” foi enfática quanto à superpopulação. As “Aldeias” foram organizadas de<br />

forma inteligente e civilizada. Com o aparecimento e descoberta dos novos materiais,<br />

as construções passaram a ter um aspecto “naturalmente” futurístico, uma arquitetura


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

bastante peculiar e muito bonita, porém principalmente, funcional, sem esbanjamento<br />

de material, sem adornos desnecessários, pois o ser humano aprendeu dentro da sua<br />

nova evolução a venerar apenas a natureza. A capacidade dos novos materiais possibilitou<br />

o aparecimento desta “magia” que tornaria o homem poderoso.<br />

O processo evolutivo estava encaminhado. Com a memória do passado, o<br />

homem começou a construir sua nova condição evolutiva; uma evolução não tecnológica,<br />

mas cerebral e corporal. Foi um casamento perfeito entre um ser humano<br />

finalmente civilizado e uma natureza selvagem e rica.<br />

“Ortal sentou-se fatigado de sua jornada de volta e revelou, após uma imensa<br />

dose de “Laxenema”, ao cristal de memória a história de sua vida.<br />

Que alguém o ache e veja que o sonho de dez mil anos não foi sua culpa, que<br />

a revolução do Império de Schaia III não foi sua culpa, e que a morte do general Arcrates<br />

era prevista, pois ele sempre teve o intuito de trair a casa de Schaia III.<br />

O sonho de Ortal não foi o culpado, mas a culpa real foi da beleza do Mago de<br />

Prata, nunca Deus deveria ter criado um ser assim.<br />

Palavras de Simom Prantra, historiador herege, membro dos que tentaram<br />

romper com o general Arcrates, depois do reaparecimento de Schaia III.<br />

As próximas páginas são imagens da visão do cristal, achado no Planeta Azul<br />

(Verde), por Schaia III. Para o usuário do cristal recomenda-se não levar em consideração<br />

o delírio do narrador, fruto apenas de uma imaginação que estava sob forte<br />

efeito de uma poderosa droga. Porém, leve-se em conta que foi esta imaginação que<br />

criou um dos maiores problemas da infinitamente longínqua vida do império, o sonho<br />

de dez mil anos-padrão. Além disso, existem passagens, nesta narrativa, que talvez<br />

sejam as únicas testemunhas de como era a vida no Planeta Azul povoado por seres<br />

humanos antes da “Eco Revolta”.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

LIVRO UM<br />

O Cavaleiro Ortal<br />

Enquanto eu subia a encosta secreta para a aldeia, mastigava um punhado de<br />

“malacha brena”, uma erva revitalizadora e muito refrescante. Tinha um gosto parecido<br />

com hortelã e canela misturadas, soltava um líquido que dava a sensação de algo<br />

estar penetrando no meu sangue e enrijecendo os meus músculos. O que não precisaria<br />

muito, pois eu era muito jovem e forte, tinha os cabelos loiros, quase brancos,<br />

pela cintura, e uma cara com uma expressão forte de guerreiro, apesar da pele lisa e<br />

nem sinal de um fio de barba, por enquanto. Tinha os olhos claros e verdes, como era<br />

inerente a minha raça, e os cílios compridos e negros, assim como as sobrancelhas que<br />

contrastavam com minha cabeleira clara. Meu nariz era reto e fino como o meu rosto.<br />

Tinha os lábios carnudos e vermelhos. Meu corpo era definido pelos músculos, os<br />

quais não se avolumavam em demasia, mas, sempre que eu precisava deles, estavam<br />

lá com uma força exagerada para a minha idade.<br />

Como minhas amigas diziam, “tens a força de um guerreiro aliada à beleza de<br />

uma criança”.<br />

Estava me sentindo ótimo naquela manhã; afinal, tinha sido condecorado na<br />

noite anterior com honra, pelo próprio Lorde Pompe Carmalhoc, como o mais novo<br />

cavaleiro da aldeia. Eu tinha apenas vinte anos e já era um cavaleiro real! Que sensação<br />

maravilhosa dava o triunfo da glória, e ainda misturada com esta “malacha” e um<br />

dia com um céu azul era algo de sonho.<br />

A minha ida bem cedo para as “Florestas Azuis” tinha sido um tanto cansativa,<br />

mas agora estava me sentindo realmente ótimo, e melhor ainda, poderia chegar para a<br />

hora do almoço na casa de Greenmy, minha mãe de criação, que me adotou depois da<br />

morte dos meus pais, quando tinha apenas alguns meses de idade. Fui morar com ela<br />

na floresta juntamente com um grupo de pesquisadores de ervas e minerais.<br />

Morei nas florestas até aos dez anos, onde fui instruído dos mais notáveis valores<br />

entre as plantas, rochas e animais, e suas peculiaridades e efeitos sobre nós, seres<br />

humanos. Depois, aos onze anos, fui morar na aldeia, onde entrei para a Escola Real,<br />

para me tornar cavaleiro, que decididamente era a coisa que mais queria.<br />

Minha tarefa nas “Florestas Azuis” tinha sido de trazer algumas sementes de<br />

“Florplasc” e a erva “Laxenema” de ampliação de memória para a grande festa de<br />

hoje à noite. Eram ervas dos dias antigos e tinham a única necessidade de transmitir a<br />

tradição, pois agora já tínhamos os memo-cristais. Estava com uma mala pendurada<br />

pelas costas cheia dos produtos e galopava pelas encostas secretas da aldeia, o que era<br />

uma tarefa um tanto difícil não só pelo peso da mala, mas também pela trilha, que era<br />

bem complicada e completamente indecifrável para alguém que não fosse da aldeia, e<br />

mesmo assim, quem estava acostumado, às vezes se perdia.<br />

A aldeia estava localizada numa planície em cima de um penhasco e entre uma<br />

cordilheira de altas montanhas que a cercavam, tinha uma boa alimentação de água,


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que era feita através de vários rios que desciam pelas encostas e formavam um lago.<br />

A aldeia ficava ao redor, e as águas caíam pelo penhasco abaixo na forma de uma<br />

enorme cachoeira de uns cento e cinquenta metros. Deste platô, onde ficava a minha<br />

aldeia, podia-se ver o “Grande Mar Azul” que ficava depois das “Florestas Azuis”,<br />

assim chamados pela ilusão azulada que tínhamos ao vê-los.<br />

Ao chegar em casa, deparei-me com um enorme prato de comida no qual se<br />

achava grande quantidade de vegetais, cereais e um enorme pedaço de tender defumado,<br />

tudo muito bem temperado e ornamentado com várias frutas em volta. Se eu já<br />

estava me sentindo bem, agora estava melhor ainda. Larguei logo a mala num canto da<br />

casa, lavei-me rapidamente e sentei ao lado de Greenmy, que já se impacientara com<br />

a minha pequena demora para o almoço:<br />

– Já estava a pensar em devorar o seu prato também! – disse-me minha mãe.<br />

– Pois então não te demores a pegar mais um prato para me acompanhar, bela<br />

mãe!<br />

– Creio que, se comer mais uma uva expludo como um tomate maduro que cai<br />

do pé! Como está se sentindo jovem e triunfal cavaleiro?<br />

– Não poderia estar melhor. Fiz uma bela colheita para a grande festa de hoje.<br />

Creio que vou comer este prato, tomar um bocado de vinho e deitar-me por uma hora,<br />

afinal quero estar muito bem para minha primeira comemoração de novo ano como<br />

cavaleiro.<br />

– Pois então faça isso que eu me atarefo de levar a sua colheita para a praça<br />

central, onde estão sendo efetuados os preparativos para a grande festa.<br />

– Agradeço-lhe muitíssimo, minha mãe.<br />

E assim comi e fui dormir como havia dito. Dormi aquele sono que se dorme<br />

quando se está com a barriga cheia, quando se deita na cama e se tem a melhor sensação<br />

do mundo; de que realmente vai “tirar a sesta”! E lá fui eu para o reino dos<br />

sonhos! Mas por um infortúnio, acordei sobressaltado. Tinha tido um sonho claro<br />

e assustador. Sonhei que alguém me chamava aos prantos, como se algo realmente<br />

ruim tivesse acontecido. Este ser estava numa caverna e tinha o rosto escondido por<br />

uma capa que refletia uma luz prateada, à sua volta existia uma grande quantidade de<br />

nuvens e fogo, mas ele parecia estar imune a isto. Ele estava realmente muito triste e<br />

chorava. Era pelo que parecia, um ser pequeno, uma criança ou talvez um anão, e de<br />

seu manto erguiam-se pequenos braços como que implorando minha presença.<br />

Fiquei muito abismado com o sonho, pois sabia que através de certas ervas<br />

de ampliação mental era possível ser chamado ou chamar alguém telepaticamente.<br />

O problema era que esse poder tinha um espaço limitado de atuação, e a pessoa com<br />

quem eu sonhara não me era conhecida, portanto não era da aldeia, e se alguém de<br />

fora da aldeia realmente fez esse chamado, esse ser deveria ser dotado de muito poder.<br />

Mas por que me chamaria se não me conhecia? E se conhecia, por que não<br />

conseguia identificar seu rosto definidamente? Estava deveras intrigado e tentei não<br />

pensar mais nisso, pois era muito assustador, triste e real, como aqueles pesadelos que<br />

tendem a continuar um pouco após o despertar.<br />

Saltei da cama, fui para fora, montei no meu cavalo Delirium e segui para a<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

praça no intuito de ajudar nos preparativos da festa.<br />

A aldeia em que morava era algo de extraordinário. Por mais que seus moradores<br />

estivessem acostumados com ela, sempre todos ficavam admirados com a<br />

beleza, não só das construções, com sua simplicidade, mas também com a harmonia<br />

que tinha com o local.<br />

Como já disse, a aldeia se localizava num platô em cima de um penhasco de<br />

uns cento e cinquenta metros de altura e rodeada de montanhas enormes, com os picos<br />

apinhados de neve e penhascos feitos de cristais azulados. A cor verde imperava<br />

no local, com muitos campos abertos entre as construções, e entre estas havia muitas<br />

flores e árvores frutíferas.<br />

Andava por suas ruas e sentia que toda a população estava agitada com a festa<br />

daquele dia.<br />

Delirium, meu cavalo, trotava por sobre os cristais azuis, de que eram feitas<br />

as ruas e calçadas, que davam um ótimo contraste com os cristais alaranjados de que<br />

eram feitas as paredes das casas e construções, as quais tinham o telhado do mesmo<br />

material das ruas. Portanto, formavam uma unidade visual perfeita.<br />

Além disso, havia muitas árvores e flores em vasos multicoloridos espalhados<br />

pelas calçadas e janelas. A aldeia era sempre muito limpa e brilhante pelo reflexo do<br />

sol nos cristais das construções, mas naquele dia se encontrava ofuscante!<br />

Tinha duas avenidas principais que circundavam, uma de cada lado o grande<br />

lago central, e se encontravam numa praça que também ficava na sua beira.<br />

A praça estava sublime. Era um círculo com oitocentos metros de diâmetro de<br />

cristais azuis perfeitamente encaixados no chão formando uma circunferência, alternando<br />

com vasos de meio metro de altura com todo o tipo de ervas e flores, até que<br />

bem no meio surgia uma torre de vinte metros feita também de cristais azuis e cor de<br />

laranja.<br />

A cidade toda era feita destes cristais, por eles terem a peculiaridade de absorverem<br />

parte da energia luminosa para soltá-la à noite, tornando-os fluorescentes e<br />

naturalmente não desperdiçando madeira para a iluminação, lembrando que a energia<br />

elétrica estava banida para sempre pela “Eco Justiça”. No topo da torre poderia ser<br />

vislumbrado um enorme relógio feito de diamantes, que funcionava movido à energia<br />

solar.<br />

Ao pé da torre haviam portas em forma de arcos e lá dentro um grande salão<br />

que à noite estaria transbordando de pessoas, mesas, cadeiras, bebidas, ervas e comidas<br />

por ocasião da festa.<br />

Quando cheguei ao meio da praça, após ter cumprimentado metade da aldeia,<br />

deparei- me com os outros cavaleiros, todos mais velhos do que eu, mas que me cumprimentaram<br />

com grande alarde e respeito. Assim, desmontei do Delirium e fui para<br />

junto deles ajudar nos preparativos.<br />

O que se podia fazer era arrastar cadeiras, gritar, pendurar bandeiras nas cores<br />

azul e laranja, que eram as cores sagradas de nossa aldeia, e levar caixas com ervas e<br />

comidas para cá e para lá, e assim por diante, conforme uma festa deve ser organizada.<br />

Todos pareciam muito felizes e entusiasmados com o acontecimento festivo que se


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

aproximava.<br />

Então, não mais que de repente, chega montado em seu cavalo o Lorde Pompe<br />

Carmalhoc.<br />

Imediatamente todos os cavaleiros correram em posição de guarda e saudação,<br />

e como não poderia deixar de ser, o Lorde, que era um homem muito espirituoso,<br />

pulou de seu cavalo, não deu a mínima atenção para nós e correu para ajudar uma<br />

donzela que estava tendo dificuldades com uma caixa de ervas. Desabamos a rir e<br />

fomos da forma dele, saudá-lo, com os preparativos.<br />

Ao terminar os preparativos, já eram quase seis horas. Todos iriam descansar,<br />

pois a noite seria longa. Estava quase a partir com Delirium quando o Lorde me<br />

chamou a um canto:<br />

– Quero que tu, cavaleiro real desta aldeia, Ortal, nomeado por mim mesmo<br />

e pelos meus antepassados, que me forneceram suas memórias, saibas que hoje será<br />

uma noite especial para ti, não apenas por ser tua primeira noite de ano novo como<br />

cavaleiro real, mas também porque vou incumbir-te de uma missão muito especial.<br />

Portanto prepara, não só as tuas vestimentas, para hoje, mas também tua força e coragem.<br />

E com estas palavras se despediu de mim! Deus das ervas e das plantas! Dos<br />

mares e dos cristais! O que o Lorde estava a aprontar comigo? Primeiro me transforma<br />

em cavaleiro (o mais jovem de todos os tempos de nossa aldeia!), agora vem<br />

me alertar desta missão misteriosa! Fora isso aquele sonho! Tão estranho, tão... belo!<br />

Meu Deus, que coisa me veio à mente! E logo quando ia me lembrar da figura no meu<br />

sonho, como se isto tivesse a ver com o que o Lorde acabara de dizer, uma voz de trás<br />

de mim berrou:<br />

– Ortal! Pelo amor de nossos cristais, tua comida está a esfriar! – era minha<br />

querida mãe, interrompendo meus devaneios.<br />

Então percebi todos os outros cavaleiros rindo de mim e da cena que presenciaram.<br />

Saí dali às pressas, pois já estava sendo motivo de troça dos meus companheiros.<br />

Cheguei em casa, comi meu jantar e pus-me a um gostoso descanso, deitado<br />

na rede da varanda lateral de minha casa, observando o entardecer por sobre a floresta<br />

azul. Que cena! Sorvia goles de um vinho preparado à base de uvas e castanhas,<br />

enriquecido de gotas de mel geriátrico das abelhas douradas, que era extremamente<br />

saudável e impedia o processo de deterioração do corpo causado pelo álcool do vinho.<br />

Entrava então num período de devaneio. Certa melancolia passava pelo meu corpo, e<br />

perguntava a mim mesmo:<br />

– Não estaria eu perdendo alguma coisa neste mundo? Não existiria algo mais<br />

aventuresco do que morar nesta aldeia? Que tipo de espírito tenho eu para querer procurar<br />

algo longe daqui deste lar tão perfeito e belo, onde todas as pessoas são amigas<br />

e onde não há guerras nem catástrofes, como diz a história falada sobre nossos ancestrais,<br />

passando estas histórias de geração a geração através da expansão da memória?<br />

Por que estou sentindo isso, afinal? Estaria em mim sempre e só agora veio à tona?<br />

Então parei de pensar nas perguntas porque já tinha a resposta. Fumei um<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

pouco de laxenema e fui procurar na memória o que queria. E lá estava ele, o sonho!<br />

Esta era a resposta. Este sonho estava fazendo isso comigo, este novo espírito de aventura,<br />

esta busca por uma coisa nova que eu não sabia ainda o que era, e que estava me<br />

corroendo o espírito.<br />

Isto provinha deste sonho tão belo e tão misterioso.<br />

Capítulo 2<br />

O Mago Maior<br />

Às dez horas a praça já estava cheia. Chegamos juntos eu e minha mãe. Ela<br />

logo foi se sentar ao lado de umas amigas, enquanto eu fui para minha cadeira disposta<br />

ao lado da cadeira do Lorde junto às dos cavaleiros. Esperamos até que Lorde<br />

Pompe Carmalhoc chegasse para dar curso às comemorações.<br />

Passara-se meia hora desde a minha chegada até a chegada do Lorde. Agora<br />

a praça estava lotada e praticamente toda a aldeia estava no local. Um homem alto e<br />

loiro com os olhos enormes e verdes foi para o centro do salão e anunciou:<br />

– Está aqui para a abertura desta solenidade o Lorde Pompe da família Carmalhoc,<br />

que fundou esta aldeia. Que com força e prosperidade governe, nosso Lorde,<br />

por mais cem anos!<br />

Todos na plateia se levantaram com um grande “Hurra!” de boas vindas ao<br />

Lorde.<br />

Logo veio em nossa direção, cavaleiros reais, e cumprimentou, agora solenemente,<br />

cada um de nós, que saímos atrás dele e ficamos postados ao redor de um<br />

tablado bem no meio do salão da torre.<br />

Assim ele começaria a cerimônia:<br />

– Cidadãos de Carmalhoc, membros do Conselho dos Mágicos que tão solenemente<br />

cuidam do templo da memória ancestral, cavaleiros reais que preservam a<br />

paz dos cidadãos e das outras tribos, membros da família real que têm o sangue dos<br />

Carmalhoc. Estamos aqui para dar continuidade ao que há quatro mil anos se iniciou.<br />

Sim, estamos comemorando quatro mil anos de existência após a queda da “tecnologia”<br />

humana. Estamos comemorando com toda a honra a sabedoria, a dádiva que nos<br />

foi dada pela natureza para que possamos sobreviver sem agredir uns aos outros e à<br />

nossa casa, nosso Planeta.<br />

Houve, então, as primeiras palmas calorosas de todo o povo. Porém, sem dar<br />

muito tempo para prosseguirem as palmas, o Lorde continuou:<br />

– Caros irmãos; tenho a honra de estar pela centésima nona vez aqui com<br />

vocês, desde que meu pai me concedeu esta dádiva, para passar o ano nesta bela festa.<br />

Infelizmente não posso dizer que vá ser uma bela festa do começo ao fim.<br />

Naquele momento, passou-me um frio na barriga, era o que eu esperava.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Há algum tempo – continuou o Lorde – abateu-se uma grande calamidade<br />

sobre nós da raça humana.<br />

Por todo o povo pairou um imenso pesar, e logo que o Lorde continuou a falar<br />

só se podia ouvir um silencioso medo.<br />

– Como sabem, a cada cem anos existe uma reunião de todas as tribos conhecidas.<br />

Reunimo-nos no Espaço Piramidal Dourado, onde desde há três mil e quinhentos<br />

anos trocamos informações sobre nossas vidas, nossas novas curas, novos elementos<br />

naturais, novos procedimentos para com a natureza. E a cada cem anos descobrimos<br />

não só novas tribos como novas experiências, que nos trazem esta felicidade que<br />

temos hoje.<br />

“Embora tivesse sido proibido contar para os outros membros das tribos, devo<br />

agora dizer-lhes um segredo que na última reunião, há<br />

duas semanas, foi liberado com aceitação de todos os Lordes, governadores e<br />

responsáveis de todas as tribos conhecidas. Este é o segredo que nos foi relatado por<br />

nossos antepassados e que vem caminhando durante os séculos na obscuridade:<br />

Há dois mil anos, assim me relatou meu pai, o Lorde Nasteu Carmalhoc. Apareceu<br />

em uma de nossas reuniões um ser muito diferente. Ele era muito belo e trajava<br />

um manto comprido até os pés, inteiramente prateado. De seu íntimo emanava uma<br />

força espiritual que dava a todos os presentes uma sensação muito boa, muito confortante.<br />

Este ser, passou por todos nós sem nos olhar, tomou o tablado central do Espaço<br />

Piramidal Dourado e logo foi falando:<br />

– Caros amigos desconhecidos, venho de muito longe e por isso vós não me<br />

conheceis. Permiti-me então me apresentar. Sou o Mago Maior do clã dos Magos de<br />

Prata. Nossa aldeia é formada por uma família muito antiga que vem prosperando por<br />

si só entre as Selvas Tristes. É assim que nós a chamamos, embora não tenha nada de<br />

triste. Infelizmente, por motivo de segurança, e logo ides saber por que não lhes posso<br />

dizer onde ela fica, mas o que posso dizer é que como todos que aqui estão, venho<br />

em missão de paz e de troca. Se me aceitardes entre vós, ficareis muito gratos pelas<br />

magias que trago na minha cartola.<br />

Repentinamente, surge de suas mãos uma enorme cartola prateada, e todos no<br />

local ficam muito surpresos. Mas o Governador da província do Extremo Sul revelarase<br />

um tanto descortês:<br />

– Desculpe-me, caro Mago Maior, mas infelizmente não sabemos de sua procedência<br />

e simplesmente, como o senhor mesmo diz, por questão de segurança, não<br />

podemos aceitar um novo membro sem saber de onde vem e nem mesmo quais são<br />

suas intenções para conosco.<br />

– Caro Governador Devidê, do Extremo Sul – falou o Mago. – Se estivesse<br />

aqui para causar desarmonia, já há muito tempo teria causado, pois na realidade há<br />

muito meu clã vem estudando os senhores, suas funções, suas aldeias e com isso interpretamos<br />

que deveríamos nos envolver e ensinar algumas de nossas magias para a<br />

melhoria de vossas vidas sem agredir a “Eco-Magia”. Mas como estou vendo que sou<br />

malquisto nestas paragens, devo dizer que tenho mais o que fazer.<br />

E foi saindo, com um andar que mais parecia estar levitando. Mas logo o Gov-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

ernador Devidê se levantou e falou:<br />

– Perdoe-me, senhor Mago Maior do Clã dos Magos, sou um homem nervoso.<br />

Apesar de não parecer, por trás dessa minha máscara mal-educada se esconde um<br />

homem bondoso e humilde; apenas zelo por esta gente assim como eles zelam por<br />

mim, suas tribos, e por eles mesmos.<br />

Então, o Mago voltou-se a todos e falou:<br />

– Espero que todos concordeis com o senhor Devidê.<br />

E todos os que estavam presentes fizeram um gesto afirmativo, muito cauteloso.<br />

O Mago voltou para o tablado central com um sorriso no rosto e disse:<br />

– Não me temais nem a mim nem à minha magia. Ela é bondosa como eu e<br />

meu povo. O que vós vedes e sentis vindo de mim pode ser um tanto estranho e ao<br />

mesmo tempo fantástico, talvez por isso tenhais medo, por verdes algo que não compreendeis<br />

e nem vossos ancestrais vos transmitiram através da memória.<br />

Pois bem, devo dizer que estes poderes vieram graças, não só ao lugar de<br />

onde viemos, mas também da qualidade do meu clã, que vem herdando isto desde os<br />

primeiros ancestrais desde a “Eco Justiça”.<br />

Os primeiros a sobreviver faziam parte de uma família de cientistas, dotados<br />

de uma enorme curiosidade e uma encantadora visão do mundo. Eram muito estudiosos,<br />

não só atrás de máquinas e equipamentos, mas também de campo. Era uma família<br />

muito grande e unida e estavam num lugar remoto quando aconteceu a devastação<br />

da “Eco Revolta”, há exatos dois mil anos.<br />

Como por milagre, todos sobreviveram. Realmente não estavam acreditando<br />

no que estava ocorrendo. Eram mais ou menos quarenta pessoas ligadas por um forte<br />

parentesco. Eles tinham, antes da “Eco Revolta”, uma empresa de pesquisas e possivelmente<br />

estavam em férias quando tudo aconteceu. O mais velho de todos reuniu<br />

toda a família e disse que tinham que começar a trabalhar pela sobrevivência. Fizeram<br />

então uma base-acampamento para estudar o local e ver quais eram as possibilidades<br />

de vida. Dividiram-se em equipes e começaram a colher materiais. Após três meses<br />

de pesquisas, ficaram espantados com o número de pedras e ervas novas que tinham<br />

encontrado e com suas peculiaridades.<br />

Após um ano de pesquisas, um dos jovens que tinha saído para uma busca<br />

temporária voltou à base dizendo que tinha encontrado a maior surpresa até então.<br />

Alguns dos cientistas foram verificar e logo voltaram dizendo que tinham achado um<br />

lugar para morarem.<br />

O lugar era um verdadeiro palácio feito de cristais. Quando entraram por uma<br />

passagem extremamente estreita, descobriram num magnífico campo inteiramente<br />

florido com uns mil metros de diâmetro e uma muralha de cristais em sua volta. Era<br />

um lugar perfeito, mais perfeito ainda quando um dos cientistas descobriu que havia<br />

um rio, correndo bem no meio do campo.<br />

Assim o pequeno clã se instalou ali e passou a vida pesquisando, estudando<br />

materiais novos, descobrindo e principalmente procriando.<br />

Hoje, dois mil anos depois, somos mil habitantes daquelas paragens e temos,


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

graças a esses ancestrais que, além de estudarem, passaram as informações aos seus<br />

filhos pelos métodos que vós conheceis e outros, toda a sabedoria que fez do nosso<br />

clã o que ele é hoje.<br />

Uma das coisas que logo foi descoberta e quero que seja um presente para todos<br />

vós e os seus, é este cristal, que, tenho certeza, vós tendes nos arredores de vossas<br />

aldeias, mas não sabeis como empregá-lo.<br />

– Não preciso dizer – falou o Lorde ao povo – que todos estavam abismados<br />

não só com a narrativa do Mago Maior, mas também com a força e autoconfiança que<br />

emanava dele. E com muita curiosidade juntaram-se para ver o cristal. Então, descobriram<br />

o que temos de mais valioso na nossa cultura.<br />

– Vede senhores – falou o Mago. – Até agora toda sua sabedoria é passada de<br />

pai para filho, de professor para aluno. Através da linguagem falada e por suas ervas<br />

de expansão da memória, elas são mantidas, quase que imortalizadas, nas cabeças dos<br />

seus. Isto pode mudar.<br />

– Então – falou o Lorde – ele pegou um grande anel de cristal e colocou sobre<br />

sua cabeça; anel este que ficava flutuando em volta dela. O Mago retirou uma areia<br />

prateada de uma pequena algibeira e jogou por cima de sua cabeça. O pó prateado<br />

começou a flutuar. O Mago fechou os olhos e por cinco minutos ficou assim, com o<br />

pó caindo lentamente sobre o anel de cristal. Então, abriu os olhos, tirou o anel e deu<br />

para um dos Lordes. Pediu para colocá-lo na cabeça como havia feito.<br />

O Lorde pegou o cristal, colocou-o na cabeça e sentiu o que um memo-cristal<br />

faz, isto é, a transferência de memória. Toda a história que o Mago tinha contado foi<br />

transferida, através do cristal, para todos os Lordes, um de cada vez, e assim os Lordes<br />

ensinaram todas as tribos a usarem o memo-cristal.<br />

E desde então este povo maravilhoso vem, a cada cem anos, nos ensinando a<br />

usar novos materiais e novas maneiras de explorarmos o mundo que temos.<br />

Até hoje isso era segredo, até que no último encontro nenhum mago apareceu.<br />

Então, resolvemos contar isso a cada membro de cada tribo.<br />

Quando o Lorde terminou de falar isso, todo o povo estremeceu e ele mesmo<br />

ficou muito triste.<br />

– Então, nós que estávamos reunidos – continuou – decidimos tentar um contato<br />

com o Clã dos Magos. Pusemos todos juntos os cristais de transferência telepática<br />

e por muito tempo ficamos nos concentrando. Não tínhamos notado o tempo passar.<br />

Ficamos nesse estado extático durante três dias. Caso não fosse a nossa alimentação<br />

enriquecida com o mel geriátrico das abelhas douradas, poderíamos ter sucumbido,<br />

pela tamanha força que havíamos feito para manter o contato. Por fim, no término do<br />

terceiro dia de concentração, os cristais telepáticos começaram a vibrar. O que poderia<br />

ser uma pequena felicidade por termos entrado em contato, terminou na maior calamidade<br />

já vista por olhos humanos desde a “Eco Revolta”.<br />

Vimos os corpos dos que achamos que era toda a população dos Magos no<br />

chão, mortos, já em decomposição. Vimos a Cidade de Prata em ruínas. Vimos o<br />

sofrimento estampado nos olhos abertos daqueles que estavam mortos e não tiveram<br />

tempo de fechar. Vimos o desespero, o horror, sentimos o que a história falada conta<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

sobre o holocausto, sim, meus irmãos, vimos o holocausto, a tragédia da perda de um<br />

amado povo, de uma amada família. O lugar estava devastado, construções em ruínas,<br />

animais mortos, plantações queimadas, corpos retorcidos, tudo indicava a devastação<br />

total de um povo, e o que era pior, se conseguiram devastar, sejam eles quem forem,<br />

este povo que era o mais instruído que nós conhecemos, que fariam a nós que fomos<br />

por séculos e séculos seus alunos? Mas não enxergávamos com nossos próprios<br />

olhos, víamos tudo aquilo através dos olhos de alguém que, obviamente, nos transmitia<br />

aquelas imagens telepaticamente. Então, a figura se olhou no espelho de uma<br />

grande sala por onde entrara e pudemos, com muita mágoa, mas com uma pontada de<br />

alívio, perceber que restara um Mago, que por alguma razão se olhara no espelho com<br />

metade da cara escondida por seu manto de prata. Então, pudemos ouvir por sua fina<br />

voz algo que me fez chorar, não só a mim, mas a todos aqueles que estavam assistindo<br />

a tamanho horror:<br />

– Me ajudem!<br />

E ele, como que por encanto, desapareceu. E só ficou na nossa memória um<br />

meio rosto, deformado por um espelho sujo, com uma expressão de profundo sofrimento.<br />

Eu estava horrorizado, por pouco não caí em lágrimas como quase todo o povo<br />

fazia. Só não o fiz por uma simples razão: tinha certeza de que o Mago que me chamara<br />

no meu sonho era o mesmo que entrara em contato com os Lordes em reunião.<br />

– Povo de Carmalhoc – continuou o Lorde – não nos desesperemos! No<br />

começo, logo depois da notícia, foi difícil de tomar alguma decisão quanto a isso.<br />

Mas depois de muito discutirmos, chegamos à seguinte conclusão: sabemos que os<br />

magos compartilhavam sua sabedoria com todos os membros da aldeia, e sabemos<br />

que um deles está vivo. Agora pergunto: como ele está vivo? Temos várias hipóteses:<br />

ou ele fugiu na hora do ataque; ou não estava lá no dado momento; ou, e é no que mais<br />

queremos acreditar, ele tem algum poder que os outros não tinham e pôde, por meio<br />

deste, se salvar. E mais! Ter feito os atacantes recuarem, pois ainda existia algo a ser<br />

saqueado, e coisas pelo chão, muito valiosas, como que deixadas cair por pânico na<br />

hora de uma fuga! Foi o que vimos por seu relato telepático.<br />

Mesmo com o coração partido por toda a história relatada pelo Lorde, consegui<br />

finalmente ter um momento de esperança no fundo de minha alma. E pensei comigo<br />

mesmo, “sim é claro que ele, seja lá quem for, tem este poder”.<br />

– Irmãos, – continuou o Lorde – elaboramos no Espaço Piramidal um plano<br />

imediato. Amanhã, um cavaleiro de cada tribo – meu coração disparou – irá sair pelo<br />

mundo afora para achar o Mago de Prata que sobrou. Quem achá-lo deverá, imediatamente,<br />

trazê-lo para os seus e faremos contato com as outras aldeias. Ao trazer este<br />

mago, temos certeza que poderemos saber quem é este povo maldito e como proceder,<br />

e então provocaremos o maior distúrbio já causado na Terra desde a “Eco Revolta”.<br />

Enquanto estes cavaleiros, que os Cristais abençoem suas existências, o procuram,<br />

pelas ervas, aprenderemos a lutar e em conjunto derrotaremos quem fez isto aos nossos<br />

irmãos prateados!<br />

E com isso, esmurrou a mesa à sua frente e todo o povo urrou em favor de tal


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

resolução. Eu estava atônito! Sabia que seria o escolhido, tinha certeza! E quanto ao<br />

Mago! Ele aparecera no meu sonho! E certamente iria aparecer de novo. Eu poderia<br />

achá-lo!<br />

– Queridos cidadãos de Carmalhoc – continuou o Lorde – Sentemo-nos agora,<br />

que a calma nos proteja do infortúnio; deveremos prosseguir com nossa cerimônia. Os<br />

menores devem saber que tipo de pessoas nós somos e como eles devem proceder no<br />

futuro para que possamos sempre continuar sendo assim, um povo que faz da natureza<br />

sua casa, sua irmã e sua amada.<br />

Então, a cerimônia continuou não como sempre, mas triste, como não deveria<br />

ser e lenta. As pessoas comiam sem vontade e bebiam apenas por compaixão à alma,<br />

pois esta merecia um alívio nem que este viesse da bebida. Após a ceia, fizemos, como<br />

sempre, o culto à memória e passamos aos mais jovens as memórias do que somos<br />

e de onde viemos e por que vivemos assim, em comunhão com a natureza. Depois,<br />

fumamos a erva laxenema para mantermos tudo o que foi dito vivo em nossas mentes.<br />

Logo após todos os procedimentos normais da festa, o Lorde, muito solenemente,<br />

se levantou e pediu que todos se mantivessem sentados. Então, me puxou<br />

gentilmente pelo braço e me postou no centro do tablado central. Fez um gesto de<br />

reverência para mim, o que me deixou avermelhado, e falou:<br />

– Cavaleiro Real Ortal, terás o fardo nas tuas costas enquanto alcanças o Extremo<br />

Norte, que é para onde vais amanhã ao amanhecer, em nome de tua casa, de teu<br />

pai e de tua mãe, de mim e de teu povo.<br />

“És o que mais corresponde a este trabalho, pois sabes lutar como um experiente<br />

cavaleiro, apesar de seres jovem; e és o mais experiente cavaleiro em sobrevivência<br />

nas florestas, pois és instruído, desde menino, na magia das ervas e cristais,<br />

sabendo usá-los melhor do que todos os outros.<br />

Por este motivo nomeei-te cavaleiro tão logo cheguei da reunião que fatidicamente<br />

nos revelou tal catástrofe. Tenho certeza que acharás o Mago de Prata e<br />

logo trá-lo-ás para cá, para que possamos, com a ajuda dele e das outras tribos, nos<br />

defender daqueles que matam e destroem nossa conduta de paz e fraternidade entre os<br />

seres que habitam este Planeta.”<br />

Olhei para ele com extrema seriedade e depois para todo o povo, e com enorme<br />

convicção, que até alarmou a todos, declarei:<br />

– Tenho absoluta certeza, e que todos os cristais quebrem se isso for inverdade,<br />

que acharei não só o Mago de Prata, mas nosso futuro e nossa sorte.<br />

Com isso, todas as pessoas se levantaram e me olharam, primeiro assustadas,<br />

pois nunca me haviam visto falar daquele modo, e depois, muito expressivas, soltaram<br />

um “hurra!” E assim terminou a festa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Capítulo 3<br />

O Mago de Prata<br />

Acordei às seis horas da manhã. O sol não havia despontado, mas todos os<br />

cavaleiros reais estavam mais que despertos me esperando na porta de minha casa,<br />

enquanto me despedia de Gren. Logo que saí, ouvi um murmúrio de bom-dia. Todos<br />

pareciam muito tensos. Montei em Delirium e eles me levaram à Casa Real, onde o<br />

Lorde morava.<br />

Todos na aldeia sabiam que aquela casa era especial, não só porque ali morava<br />

o senhor mais ilustre da aldeia, mas também por guardar todos os memo-cristais, os<br />

cristais que continham toda a memória de nossa cultura. Entramos na grande casa<br />

pela porta principal. Era uma grande porta feita de cristal laranja, assim como todas as<br />

outras, mas esta era especial. Tinha adornos feitos pelos melhores artesãos da aldeia;<br />

não causava impressão de riqueza, mas seriedade.<br />

Naquela hora o sol começava a raiar e logo que entramos sua luminosidade<br />

nos acompanhou, mostrando com ela um enorme salão com vários metros de altura, e<br />

uma cúpula redonda que fechava o ambiente. Esta cúpula era dotada de cristais transparentes<br />

que, quando os raios solares nela incidiam, quebravam o espectro branco da<br />

luz em um arco-íris artificial, dando ao ambiente um efeito muito especial. Depois de<br />

quatro mil anos manipulando toda sorte de cristais, o homem aprendeu muito bem<br />

como manejá-los!<br />

Um homem muito alto e magro veio ao nosso encontro. Tão logo me viu, disse:<br />

– Tenho alguns memo-cristais que servirão para sua bem– aventurança, nobre<br />

e corajoso cavaleiro. Saiba, antes de recebê-los, que não estará aqui, dentro da proteção<br />

de quatro paredes, quando usá-los, mas, sim, em lugares pouco conhecidos por<br />

homens e que dificilmente chamaria de amigáveis. Portanto, aconselho a usá-los, para<br />

sua própria segurança, em lugares que sejam de difícil acesso para predadores, pois<br />

sabe que quando está usando um destes cristais, seus sentidos são absorvidos para o<br />

interior da informação que os cristais contêm, tirando você da realidade em que se<br />

encontra para a da informação do cristal.<br />

– Sim, mestre-guardador de cristais, respondi. Agradeço-lhe profundamente o<br />

empréstimo de tão valioso material.<br />

– Tenho certeza de que os memo-cristais que escolhi para sua viagem lhe servirão<br />

bem, pois suas informações contêm desde memórias para o aprendizado de autodefesa<br />

até entretenimento musical. Veja: com este pequeno cristal você poderá ter<br />

um resumo de todos os outros e saber onde está a informação de que precisa, é só<br />

colocá-lo na testa, como de costume, jogar a areia prateada e pensar no que quer. Esta<br />

é uma mágica valiosa, que o povo dos Magos nos ensinou há dois mil anos. Tenha<br />

cuidado para que não caia em mãos erradas.<br />

Desta forma, deu-me um cinturão com vários pequenos cristais de todas as<br />

cores e uma algibeira com a areia prateada. Virou as costas e entrou num outro salão.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Os cavaleiros me olharam e vieram comigo para fora. O mais velho de todos,<br />

veio com um olhar muito sério e me disse:<br />

– Ortal, nos conhecemos há mais de doze anos, quando você ainda era uma<br />

criança. Tenho por você um amor quase como de pai. Desejo-lhe, assim como todos<br />

os cavaleiros, nesta jornada, toda a sorte possível. Sabemos que é muito bom nas<br />

florestas em termos de sobrevivência, mas preparamos esta maleta para você. Ela<br />

contém vários tipos de alimentos, ervas, e alguns cristais-fluorescentes para iluminar<br />

seu caminho no escuro, além de facas e iniciadores de fogo.<br />

Então, muito solenemente, tirou seu cinturão de couro e me deu com sua<br />

enorme espada inteira esculpida no diamante-roxo, o mais nobre dos diamantes, que<br />

corta qualquer material conhecido de nossa cultura.<br />

Estava comovido e assustado. Sabia que seria uma dura missão, mas agora estava<br />

totalmente comprometido, pois, para que um cavaleiro real desse sua mais nobre<br />

arma, a situação deveria ser realmente extrema.<br />

Quase tremendo, peguei o presente e imediatamente dei-lhe a minha espada,<br />

como manda a tradição. Agradeci e tomei o caminho para a trilha secreta. Todos os<br />

cavaleiros me acompanharam até o final da trilha e, com um grande “Hurra!”, me deixaram<br />

à mercê de minha tão amiga Floresta Azul. Assim começou a maior aventura<br />

de minha vida.<br />

Galopava por um corredor de árvores numa trilha conhecida para o norte.<br />

Como estava muito familiarizado com aquele caminho, resolvi revisar mentalmente<br />

minhas armas. Tinha dois lançadores de dardos muito possantes, amarrados nos meus<br />

antebraços, que funcionavam com uma fibra elástica, tirada dos tendões de uma ave<br />

de rapina. Estes dardos eram mortais, pois continham a toxina de uma larva marinha<br />

muito perigosa encontrada nas encostas do grande Mar Azul e podiam ser facilmente<br />

recarregáveis. Tinha várias facas penduradas pelo corpo, duas com lâminas envenenadas<br />

sendo que uma estava alojada nas minhas costas, embaixo da nuca, e a outra<br />

ao lado de minha canela esquerda. Tinha mais duas facas, uma na cintura na forma<br />

de facão e outra do lado de minha tíbia direita. Além disso, trazia mais um facão embaixo<br />

da cela de Delirium assim como estrelas de diamantes-roxos, que poderiam ser<br />

lançadas manualmente, herdados do Povo Oriental Amarelo e um arco com flechas<br />

para caçar. Por fim, para o meu deleite, a espada mais poderosa de toda a aldeia, dada<br />

pelo mais nobre e antigo cavaleiro real. Realmente, em termos de armamento estava<br />

sossegado, gostaria apenas de não precisar usá-los.<br />

Andei muito depressa até as fronteiras extremas do norte da Floresta Azul.<br />

Quando cheguei lá, já estava quase escurecendo, então resolvi montar o primeiro<br />

acampamento da minha jornada.<br />

Havia bastante comida na mochila que meus colegas cavaleiros tinham preparado<br />

para mim, mas como ali ainda era um território bastante conhecido meu, resolvi<br />

caçar. Sabia que por ali perto haviam algumas tocas de coelho, desta forma não<br />

foi difícil capturar um. Também não foi difícil encontrar alguns cogumelos e ervas<br />

para temperá-lo. Meu jantar estava perfeito. Só faltou algo para beber. Então logo<br />

me lembrei de um pequeno córrego mais para a direita. Achei água. Fiz uma fogueira<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

utilizando-me da maneira natural, isto é, sem utilizar os iniciadores de fogo, pois<br />

poderia precisar para um momento posterior.<br />

Após o belo jantar, amarrei minha rede no topo de uma árvore muito alta e<br />

escolhi um memo-cristal qualquer para o meu entretenimento. Assim que lancei a<br />

areia prateada por cima de minha cabeça, imagens e sons começaram a aparecer. Eram<br />

imagens muito estranhas das antigas cidades, antes da “Eco Revolta”. Fiquei realmente<br />

atordoado. Como as pessoas conseguiam viver assim? Colunas de construções<br />

surgiam por todo o espaço. Um barulho infernal de veículos e pessoas a tagarelar sem<br />

o mínimo de educação, uma fumaça que cheirava muito mal. Sentia o gosto de uma<br />

comida pavorosa como que feita por produtos inexistentes na natureza. Comecei a<br />

passar muito mal.<br />

Uma voz surgiu acima de todos os ruídos e começou a explicar as imagens que<br />

iam surgindo.<br />

“A raça humana, antes da ‘Eco Revolta’, era uma raça que tinha, na maioria<br />

das vezes, crenças nos valores materiais acima de tudo, mais ainda que na vida. Na<br />

verdade, segundo algumas discussões entre os pensadores das tribos, eles desacreditavam<br />

da vida, principalmente nos últimos anos antes da ‘Eco Revolta’.<br />

Eles tinham como crença deuses que eram ditados por instituições, tecnologias<br />

artificiais. Sua sabedoria evoluiu através de guerras. Tinham como parâmetro de<br />

poder algo denominado dinheiro, que era baseado no... ouro! Sim, num metal completamente<br />

sem valor potencial nenhum! Na verdade eles se ornamentavam de ouro e<br />

diamantes! Compostos químicos que hoje em dia servem para camuflar minerais de<br />

verdadeiro valor potencial para nossas vidas.<br />

Além disso, usavam um poluente poderoso para gerar energia, chamado<br />

petróleo. Praticamente, toda a humanidade dependia desse produto altamente tóxico<br />

para nosso Planeta. Hoje em dia, só o fato de se falar esta palavra pode causar um terremoto<br />

em algum lugar do Planeta, de tão proibido que é pela ‘Eco Justiça’!<br />

Uma tecnologia que se transformou através da guerra, chamada de tecnologia<br />

atômica, baseada na transformação de matéria em energia liberando assim uma<br />

enorme explosão que danifica de maneira...”<br />

Imediatamente tirei aquele memo-cristal. Senti um certo desprazer por aquela<br />

humanidade. Como poderiam crer num deus que era a fachada de uma instituição? E<br />

o pior: será que não sabiam que Deus, na verdade, é a vida, e que a vida está acima de<br />

tudo? E que a natureza faz parte da vida e nós fazemos parte da natureza e, portanto,<br />

somos o ser mais valioso que existe? Como podem chamar de evolução algo que<br />

destrói a vida? E essa história de se adornar com ouro! Ouro? Que diabos de metal é<br />

esse que não serve para nada? E diamantes! Imagine que temos uma cordilheira inteira<br />

de diamante de um pólo ao outro dividindo o oceano! Que bando de idiotas eram<br />

esses seres humanos!<br />

Coloquei um outro memo-cristal em contato com minha testa, pois já não<br />

aguentava aqueles pensamentos. Lancei novamente a areia prateada. Começou a fluir<br />

algo que poderia ser chamado de uma música suave, com uma batida ritmada quase<br />

que lenta. Aquilo foi inspirador. Deveria ser algum tipo de música das paragens do


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Extremo Sul, que dava um aspecto quente à melodia, realmente muito apaziguador! E<br />

foi ao som dessas melodias sulinas que me embalei para o reino dos sonhos.<br />

Era um caminho feito de cristais azuis fluorescentes, e, por ser noite, estava<br />

muito iluminado por sua própria fluorescência. Caminhava muito lentamente e<br />

com um certo receio, pois era um caminho desconhecido. Um corredor de plantas<br />

me acompanhava e o aspecto azul-luminoso, emergindo de baixo para cima, num<br />

degradê fantástico, dava ao lugar um aspecto delicioso. O caminho continuava por<br />

quilômetros adiante, mas algo me chamava para a esquerda e foi o que eu fiz. Tomei<br />

um caminho muito fechado. Praticamente ninguém tinha passado por ali há anos. No<br />

caminho deparei-me com uma enorme pedreira preta. Existia ali uma caverna meio<br />

que escondida por entre as plantas. Foi dali que saiu um brilho prateado que, como<br />

por encanto, me chamou.<br />

Depois, esse pequeno brilho foi se transformando numa enorme luz branca,<br />

que, ao despertar, notei que era o sol iluminando meu sonho. Então tive certeza, era o<br />

Mago de Prata que estava me mostrando como achá-lo.<br />

Desci da enorme árvore com minhas coisas. Tão logo toquei o solo, alimentei<br />

Delirium e comi um pouco de barras de cereal com café adoçado com o mel geriátrico<br />

das abelhas douradas. Aquilo me deixou imediatamente revitalizado. Passei para a<br />

segunda etapa da minha viagem, as montanhas do caminho do norte, não muito conhecidas<br />

e portanto um pouco mais perigosas do que o primeiro dia na Floresta Azul.<br />

Delirium parecia estar muito feliz e trotava depressa por entre a mata, agora<br />

já desconhecida. Invadiu-me um certo desestímulo, talvez por não conhecer o lugar e<br />

achar que estava no caminho errado. No começo foi apenas um leve desconforto, mas<br />

depois de percorrer longo tempo, fiz Delirium relaxar o passo. Estava começando a<br />

ficar preocupado. Foi quando avistei um descampado muito bonito que ia se elevando<br />

num tom esverdeado com várias flores pelo caminho. Era a primeira subida para uma<br />

baixa montanha. Animei-me um pouco, pois sabia que aquele tipo de flor dava um<br />

ótimo tempero adocicado para qualquer cozido; desta forma comecei os preparativos<br />

para o almoço. Já estava com um pouco de fome e seria ótimo dar uma pequena<br />

parada e deslumbrar a vista com aquele descampado.<br />

Era realmente bela. A Floresta Azul daquele ângulo já impedia a visão do<br />

Grande Mar Azul, mas de qualquer maneira podiam-se ver várias cascatas caindo<br />

aqui e ali das montanhas do caminho do norte.<br />

Com uma flechada precisa consegui abater um pequeno dragão amarelo, uma<br />

espécie de réptil, que tem o gosto parecido com o de frango, e que daria um ótimo<br />

cozido junto com aquelas flores e mais alguns temperos à base de ervas que meus<br />

colegas cavaleiros colocaram na mochila para mim.<br />

Após a refeição, senti-me um pouco atordoado, o que me deixou um pouco<br />

preocupado, pois estava acostumado a fazer grandes viagens. Pensei logo em tirar um<br />

breve cochilo, pois achei que fosse o almoço que me deixara com aquela lassidão.<br />

Estava enganado. Não foi o almoço mas, sim, a magia! Logo que adormeci,<br />

me veio à mente um riacho. Parecia que eu estava dentro de uma pequena canoa e<br />

navegava em suas águas. De repente, vi que estava prestes a cair numa grande cascata.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Não tinha como sair do barco e assim fui, com velocidade cada vez maior, em direção<br />

do abismo. E quando o barco caiu, como por uma forte magia, eu não caí. Soltei-me<br />

do barco e comecei a voar! Estava vendo em minha frente a Floresta Azul. Olhei um<br />

pouco mais para baixo e vi um descampado e então... Lá estava eu, deitado e sonhando<br />

comigo mesmo! Que visão fantástica! Parecia que estava fora do meu corpo e<br />

estava me vendo. Então, virei a cabeça um pouco para a direita e comecei a aterrissar:<br />

Caí dentro d’água, provavelmente no mesmo rio em que estava com o meu barco antes<br />

da cachoeira. Sim, era o mesmo rio, pois o barco estava lá na borda já quebrado.<br />

Fui para uma das margens e lá fiquei sem me mexer. Algo me impedia de sair do lugar.<br />

Acordei sobressaltado. Delirium comia logo ao meu lado e a fogueira que tinha<br />

feito para o almoço estava ali, ainda acesa. Olhei para cima e vi claramente, com um<br />

arrepio na nuca, o lugar de onde tinha decolado o vôo! Recolhi imediatamente minhas<br />

coisas e saí em disparada, pois já sabia qual o caminho que deveria seguir. Não era tão<br />

perto como imaginava. Passei a tarde percorrendo o rio até chegar próximo do barulho<br />

da cachoeira. Estava uma tarde gostosa e refrescante, pois o rio liberava, não só um<br />

aroma delicioso como também uma umidade que tornava o ar muito leve. A trilha ao<br />

lado do rio era divertida. Várias espécies de esquilos brincavam por entre as flores e<br />

corriam quando eu passava por eles. O tempo parecia fluir levemente naquela tarde.<br />

Ao chegar ao lugar que vira no sonho, já era quase o entardecer. Desmontei de<br />

Delirium e comecei a fazer os preparativos para o acampamento. Acendi o fogo e tive<br />

uma ideia ótima. Deixei no fogo alguns peixes que havia pescado. Tirei toda minha<br />

roupa e me atirei nas deliciosas e mornas águas do rio.<br />

Fiquei por alguns minutos me banhando até que, exausto de tanto pular e brincar<br />

naquelas águas, me sentei numa pedra na margem. Fiz duas enormes tranças na<br />

minha vasta cabeleira, pois ela me incomodava um pouco na viagem.<br />

Logo que terminei a segunda trança, fiquei tenso. Senti que estava sendo observado.<br />

Levantei-me rapidamente e num pulo olhei para trás. Imediatamente ouvi uma<br />

deliciosa risada infantil. Notei um pouco alarmado que minha refeição noturna não<br />

estava mais no fogo, mas desaparecera com a risada por entre a floresta.<br />

Corri para minhas coisas com o intuito de me vestir, mas já era tarde. Minhas<br />

roupas também tinham sido levadas. Pelo menos minhas armas e Delirium estavam<br />

intactos. Peguei um cobertor na cela de Delirium, o que pôde me trazer um certo conforto,<br />

pois já não estava totalmente nu. Foi quando ouvi de novo aquela risada. Peguei<br />

minha espada e coloquei rapidamente os lançadores de dardos nos meus antebraços.<br />

Corri na direção de onde viera a última risada, mas nada havia lá, nem sequer<br />

marcas de pegadas. Parei por um momento e nada. Olhei para a fogueira muito devagar<br />

e notei uma pequena figura sentada numa das pedras em volta do fogo. Olhava-me<br />

muito curiosa e vi que minhas roupas já estavam no lugar.<br />

Relaxei o corpo e, com um olhar de quem acaba de cair numa troça, dirigi-me,<br />

com muita cautela, em direção à figura, sentada na minha improvisada sala de jantar.<br />

Ela reagiu de maneira estranha. Como mantive a espada desembainhada e em guarda,<br />

notei que ela iria fugir. Abaixei a espada e finalmente consegui ter um vislumbre de<br />

quem tinha me pregado uma peça.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Tratava-se de uma pequena criatura, impossível de determinar o sexo, mas<br />

muito linda. Tinha os cabelos um pouco despenteados, muito loiros, e chegavam até o<br />

chão devido ao tamanho dessa pessoa, se realmente fosse uma pessoa, que se encontrava<br />

sentada. Tinha dois enormes olhos azuis, um nariz muito pequeno e arrebitado.<br />

Cílios enormes juntamente com duas sobrancelhas oblíquas emolduravam um olhar<br />

agora quase calmo. Fiquei olhando para ela (imaginava agora se tratar de uma linda<br />

menina de mais ou menos oito anos) e vi que parecia estar iluminada. Cheguei mais<br />

perto e ela não se mexeu. Soltei calmamente minha espada e me sentei na sua frente.<br />

Estava atônito. Jamais vira um ser assim. Estava seminua, apesar de o longo cabelo<br />

cobria a maior parte do seu corpo. Então me lembrei de que estava seminu. Tive um<br />

arrepio de frio. Peguei minhas calças e me vesti rapidamente. Notei um olhar brincalhão<br />

na sua cara. Mas com um pouco de mau humor, falei:<br />

– Onde está meu jantar?<br />

Ela não respondeu. Apenas ficou me olhando agora com um olhar um pouco<br />

vazio. Notei então que a cor de sua pele era prateada! Senti um frio na barriga. Seria<br />

ela o Mago de Prata? Não, não era possível. Não era assim que ele se apresentara no<br />

meu sonho.<br />

– Sou a Irmã Floresta – ela me disse com uma voz que quase que me fez chorar<br />

de tão bela.<br />

– Estás me dizendo que és a irmã do Mago? – perguntei.<br />

– Não – respondeu. – Estou dizendo que sou Irmã Floresta, e você é Ortal.<br />

Pode chamar de Irmã e, se quiser, posso ser sua irmã também, além de ser da Floresta.<br />

Era um delírio, enquanto ela falava. Parecia que mil vozes, dela mesma, saíam<br />

de sua boca, como se fosse um coro infantil cantando só para mim. A música que embalou<br />

o meu sono na noite passada era uma afronta perto disso.<br />

– Gosta de música? – perguntou.<br />

– Adoro – respondi – apesar de que, por ora, meus peixes fariam um efeito<br />

melhor.<br />

– Gosta de borboletas? – perguntou.<br />

– Gosto – respondi, tentando não perder a paciência, mas também achando<br />

aquilo um tanto divertido.<br />

Então, com um movimento de seus pequenos braços, recitou uma pequena<br />

cantoria com uma bela melodia:<br />

– Borboletas divertidas, peixes saborosos, batatas rechonchudas, aparecer depois<br />

das batidas!<br />

E com duas palmas, a fogueira se iluminou. Dei um pulo para trás, de susto. Vi<br />

várias borboletas saírem voando do nada, e meus peixes lá estavam de volta no espeto,<br />

além de, pendurada num galho, uma panela. Fui ver. Um pouco assustado ainda, me<br />

deparei com uma enorme porção de batatas com todos os tipos de ervas dentro!<br />

Sentei-me de novo na pedra e olhei muito seriamente para a pequena nova<br />

amiga. Ela me encarou com um olhar agora místico. Sua beleza era desconcertante.<br />

– És do povo prateado, cara Irmã Floresta? – perguntei.<br />

– Irmã Floresta, da Floresta. Pequeno Mago de Prata, amigo da floresta. Gosta<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

de borboletas e de peixes também. Não pode sair do templo, nem ser olhado por ser<br />

vivo. Gosta de Irmã Floresta. Irmã Floresta gosta do Mago, somos amigos! – Respondeu<br />

muito rapidamente.<br />

– Ele te mandou aqui? – Perguntei.<br />

– Sim.<br />

– Para quê?<br />

– Vou levá-lo, ser sua amiga e sua irmã, se quiser minha companhia – agora a<br />

voz tinha mudado.<br />

Era como uma donzela e de seu olhar saiu um súbito momento de paixão ao<br />

cruzar com o meu enquanto falava. Fiquei um pouco atordoado com isso. Que tipo<br />

de ser era este? Por nenhum momento me pareceu maligno. Mas como uma criança<br />

poderia transmitir um olhar daqueles?<br />

Olhou para mim novamente, agora com o olhar infantil de novo:<br />

– Já está quase pronto, quer que pegue água? – perguntou, um pouco tímida.<br />

– Sim, por favor – respondi. Foi aí que estremeci por completo! Não era um ser<br />

humano nem um ser conhecido por nós até hoje, ou pelo menos eu nunca tinha visto<br />

nada igual. Quando ela se virou, notei pasmo que seu corpo era realmente pequeno,<br />

talvez, de uma criança de oito anos, e o que tinha nas costas! Pelos cristais! Eram duas<br />

enormes e belas asas de borboleta azul! Do mesmo tom de seus olhos. Então ela se<br />

virou para mim num gesto muito malicioso e com um sorriso, agora tímido, me deu<br />

uma rápida piscadela.<br />

Estava nas nuvens! Que ser maravilhoso! Que tipo de mutação sofrera? Será<br />

que existe um povo inteiro assim? Ou ela é única, ou quem sabe fruto da minha<br />

imaginação ampliada pelo Mago, ou uma criação do Mago com o intuito de me levar<br />

até ele? Enquanto questionava em silêncio, ela voltava com a água e via que eu ainda<br />

estava pasmo. Então se sentou e com gestos muito graciosos começou a me servir.<br />

Preferi não fazer mais perguntas sobre ela. Imaginei que o que ocorreu como o povo<br />

do Mago poderia ter acontecido com o dela, e nunca gostaria de ver aquele lindo rosto<br />

triste. Comemos juntos em silêncio até que finalmente ela falou:<br />

– O Mago me pediu para ajudar a achá-lo. Amanhã, se formos rapidamente,<br />

poderemos achar a trilha dos cristais azuis. Então, infelizmente terei de deixá-lo, pois<br />

preciso voltar ao meu posto. Protejo a floresta, pois sou sua irmã, a mais nova.<br />

– Então sabes o que ocorreu com o povo do Mago?<br />

– Irmã Floresta nunca fala de tristeza. O Mago irá contar. Mas devo preveni-lo.<br />

Jamais deverá olhar diretamente para o Mago de Prata, a não ser que ele mande.<br />

– Por quê? – Perguntei.<br />

– Uma forte magia caiu sobre ele. Há tempos não nos vemos por isso. Quem<br />

olha para ele fica imediatamente cego, não só dos olhos mas do espírito.<br />

Um forte medo se apoderou de mim.<br />

– Por que isto acontece, eles não são um bom povo? – Perguntei.<br />

– Sim, eram o mais bondoso povo da terra. Grande magia emanava dos seus<br />

belos corações. Só existe um Mago agora, e sua proteção é sua beleza.<br />

– Tu estás me dizendo que quem olha para ele fica cego por ser ele muito belo?


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Sim, a beleza perfeita! Nenhum ser vivo deve olhá-lo diretamente. Esta é<br />

a sua defesa, e por isso não foi morto pelo povo do outro lado dos diamantes; todos<br />

fugiram.<br />

– Mas como? – Perguntei. – Se ele tem essa magia como os outros não têm<br />

tam...<br />

– Por favor. Não posso mais falar sobre tristeza. Minhas asas somem, não<br />

posso voar, nem viver. Falando sobre essas coisas, isso toma meu coração e faz de<br />

mim, larva de novo.<br />

– Desculpa.<br />

Ela sentou do meu lado e me envolveu em seus pequenos braços. Ficamos assim<br />

durante algum tempo, vendo a fogueira queimar. Então ela disse:<br />

– Tenho certeza, o Mago sabe o que faz. Melhor dormir.<br />

– E tu não vais dormir?<br />

– Sim, do teu lado, afinal sou tua irmã agora!<br />

Peguei a minha rede e estendi sobre o chão fazendo dela um enorme lençol.<br />

Peguei meu cobertor e fiz minha pequena irmã se deitar. Deitei ao seu lado e ela me<br />

disse:<br />

– Não tenha medo, todos os bichos são meus irmãos, e também irão cuidar de<br />

nós.<br />

E como nunca na vida, dormi. Um sono dos deuses, dos deuses das borboletas!<br />

Estava quase despertando quando senti um toque úmido e muito gostoso em<br />

meus lábios. Abri meus olhos e senti um frio na barriga! Era a pequena fada! Ali bem<br />

na minha frente com sua magistral beleza. Todo o seu corpo estava sobre o meu, sua<br />

barriga tocava meu peito e suas mãos estavam apoiadas nos meus ombros.<br />

– Fiz um ótimo café, com doces da floresta, ovos de codorna selvagem, sucos<br />

de morangos silvestres e minha especialidade, panquecas de mel geriátrico!<br />

Eu estava abobado. O que uma aparente menina de oito anos estava fazendo<br />

em cima de mim como se fosse minha amante? E mais, me beijando nos lábios! É<br />

claro que aquela visão matinal foi realmente uma delícia, mas era muito estranho,<br />

pelo menos para mim.<br />

Tentei um gesto; ameacei levantar-me, mas ela chegou com sua cabeça mais<br />

perto de mim e disse:<br />

– Não vai me dar um beijo de bom-dia?<br />

Com muito receio e cuidado toquei rapidamente seus lábios, sentindo um gosto<br />

muito doce, que jamais sentira anteriormente. Ela ficou me olhando com uma expressão<br />

meio estranha mas logo deu um pulo para trás, me libertando e ficando parada<br />

na minha frente, flutuando a meio metro do chão com suas grandes e azuladas asas de<br />

borboleta a bater muito devagar.<br />

Levantei-me e vi, pasmo, o que poderia ser uma mesa de café da manhã feita<br />

para um Lorde! Olhei para ela, muito feliz, e ela me disse:<br />

– A essa hora da manhã o rio está muito quente! Poderíamos, antes de comer,<br />

tomar um belo banho, não poderíamos?<br />

– Nós dois juntos? – Perguntei.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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– Sim, por que não? Ela me respondeu e afastou seus longos cabelos, que escondiam<br />

grande parte do seu pequeno corpo, para trás e foi logo tirando o que poderia<br />

ser um pequeno calção feito de folhas. Se eu já estava pasmo, agora fiquei boquiaberto.<br />

Ela definitivamente não era humana, só poderia ser uma fada ou um anjo! Não<br />

tinha seios, nem tampouco qualquer vestígio de sexo, tinha pernas e braços e barriga<br />

como um ser humano, mas seus aparelhos reprodutores simplesmente não estavam<br />

lá! Era um ser incompreensível para mim. Talvez por isso tenha me acordado daquela<br />

maneira, sem o mínimo de vergonha, apenas como uma forma de carinho ingênuo.<br />

– Vai ficar esperando a água esfriar, Ortal? – Gritou, já a caminho do rio.<br />

Então muito timidamente tirei minhas calças e corri para o rio. Tão logo cheguei,<br />

joguei-me na água, formando uma grande onda que atingiu a fada, e ela, sem<br />

esperar eu ficar de pé, já estava empurrando água em minha direção. Ficamos algum<br />

tempo nesta brincadeira até que nos acalmamos e sentamos numa pedra um pouco<br />

submersa deixando que a água quente passasse por nossos corpos.<br />

– Quantos anos tu tens? – Perguntei.<br />

– Doze anos na forma de larva e oito em crescimento nesta forma de Borbohumana,<br />

a Irmã Floresta.<br />

– Então tu tens vinte anos? – Perguntei admirado.<br />

– Sim, mas com aparência de oito. Entretanto, só aparência, pois enquanto<br />

estávamos na forma de larvas, o Povo Prateado nos nutria com sua sabedoria através<br />

dos Cristais de transferência telepática. E nos mantinham informadas de tudo.<br />

– Quando falas que “nos mantinham informadas” significa que teu povo é<br />

composto apenas de mulheres? – Perguntei<br />

– Sim, é claro – ela respondeu, como se fosse a pergunta mais tola do mundo.<br />

– Mas como procriam?<br />

– Bem, você quer saber como preservamos nossa espécie?<br />

– Sim – respondi, meio envergonhado.<br />

– Enquanto ainda existia, o povo Prateado nos tinha como amantes – respondeu<br />

muito triste.<br />

– Mas, que tipo de relacionamento tinham para procriarem? – Perguntei, muito<br />

embaraçado.<br />

– O Povo Prateado não é definido sexualmente até os quarenta anos, quando<br />

eles atingem a idade adulta e não crescem mais. Até então eles podem ter a sexualidade<br />

que bem entenderem. Porém, sua maturidade sexual ocorre muito cedo, aos oito<br />

ou dez anos, mais ou menos assim como a nossa. Para nós isso é muito bom, pois<br />

assim podemos procriar com eles sem muito problema, afinal, como você deve saber,<br />

nós não crescemos muito mais do que esta minha altura.<br />

Então olhei para o seu corpo e logo que eu ia questionar, ela me respondeu.<br />

– Minha maturidade sexual ainda não chegou, mas está para chegar!<br />

– Como sabes? – Perguntei.<br />

– Porque nunca tive vontade de abraçar um homem como abracei você hoje –<br />

ela afirmou, com uma entonação desesperadamente tímida.<br />

Olhei para ela e fiquei um pouco avermelhado. Então passei o meu braço pelo


Marcelo Paciornik<br />

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seu pescoço e dei-lhe um beijo no rosto.<br />

– Vamos, temos um longo caminho pela frente – falei com medo de que alguma<br />

coisa a mais pudesse vir a acontecer com aquela pessoa adulta, mas que para<br />

mim ainda parecia uma criança.<br />

Deliciei-me com o café que, por sinal, me deu muita energia. A Irmã Floresta<br />

comeu muito bem para o seu tamanho. Recolhemos rapidamente nossas coisas<br />

e deixamos aquele jardim encantado. Estava galopando em Delirium enquanto Irmã<br />

Floresta ia de pé nas costas dele, segurando nos meus ombros com suas delicadas<br />

mãozinhas. Tomávamos uma trilha cruzando o rio. Existia uma bruma fina por entre<br />

as grandes árvores e podiam-se ver muitas flores penduradas nos galhos. Às vezes<br />

Irmã Floresta se abaixava no meu ouvido para sussurrar alguma coisa referente ao<br />

caminho ou o nome de uma árvore que se pronunciava mais do que as outras, ou às<br />

vezes o nome de algum bicho que ela deveria conhecer.<br />

Estávamos galopando há algum tempo quando ouvimos, de muito longe, um<br />

tremor de terra. Fiz com que Delirium parasse imediatamente e Irmã Floresta zarpou<br />

como uma flecha para cima. Flutuava muito acima das árvores e gritou com sua bela<br />

e fina voz:<br />

– Ortal, corra na minha direção!<br />

Pus-me a galopar feito louco por entre as árvores, tentando seguir Irmã, que<br />

voava rapidíssimo. De repente, vi-a bem na minha frente com um gesto de “pare” em<br />

suas mãos. Ela estava flutuando logo acima de um abismo de quase cem metros de<br />

altura. Por pouco eu e Delirium não nos esborrachamos lá para baixo. Então senti o<br />

tremor, agora um pouco mais forte. Irmã Floresta apontou para um ponto bem à frente.<br />

Era uma entrada para um grande tapete verde que ficava lá embaixo do penhasco,<br />

onde estávamos. O tremor foi crescendo e Delirium foi ficando um pouco irritado,<br />

no instante seguinte rompeu um grande estrondo! Do lugar onde Irmã tinha apontado<br />

sairam uns oitocentos búfalos-rosa de uma só vez, fazendo um grande alvoroço.<br />

Pensei na sorte de estarmos naquele lugar, bem longe e bem acima do ponto que em<br />

questão de segundos, foi tomado por toda aquela manada. Era um espetáculo assustador<br />

e fascinante! Depois, quando todos os búfalos-rosa estavam pastando em seu<br />

recanto particular, retomamos a trilha, ainda maravilhados pelo grande espetáculo que<br />

acabara de ocorrer.<br />

Andamos o dia inteiro sem mais paradas, pois com aquele café da manhã não<br />

precisávamos de nada. Irmã contava, sempre eufórica, sobre cada parte da floresta por<br />

onde passávamos. Ela conhecia tudo sobre aquele lugar! Ao entardecer, sentimos um<br />

vento frio vindo do sul. Irmã Floresta logo falou que aquilo parecia ser não só um sinal<br />

de chuva mas de uma grande tempestade. Eu tinha certeza.<br />

Encontramos uma árvore enorme, com uma parte do tronco oco. Joguei um<br />

cristal azul fluorescente ativado para ver se não havia nenhum animal perigoso morando<br />

ali dentro. Por sorte não tinha nenhum e o buraco na árvore mais parecia uma<br />

enorme caverna do que uma árvore oca. Tanto melhor, iria caber Delirium ali dentro.<br />

Pedi que Irmã Floresta fizesse os preparativos na nossa “pousada” particular enquanto<br />

eu ia caçar alguma coisa para o jantar.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Voltei com dois coelhos nas costas e, quando entrei, Irmã tinha deixado o local<br />

um verdadeiro quarto para um rei! Tinha colocado os cristais azuis fluorescentes<br />

espalhados pela parede interna da grande árvore. Acendeu uma bela fogueira. Deixou<br />

Delirium aparentemente muito feliz num canto com uma boa quantidade de frutas ao<br />

seu alcance e finalmente preparou, numa pedra achatada, o que poderia se dizer, para<br />

a ocasião, que era uma verdadeira mesa de jantar, até com um cristal azul brilhando<br />

no centro da mesa!<br />

– Que bela esposa tu não darias! – Falei brincando.<br />

– Vamos preparar estes coelhos, pois estou morrendo de fome! – ela respondeu.<br />

– Não sabia que borboletas comem coelhos.<br />

– Sou uma fada, que foi criada por magos que adoram carne, portanto aprendi<br />

a gostar!<br />

– Ótimo – disse eu, e começamos a preparar o jantar.<br />

Comemos e logo depois fumamos um pouco de malacha, a erva da ampliação<br />

da memória, para que aquele belo momento ficasse bem registrado em nossas mentes.<br />

De repente, Irmã Floresta me olhou muito assustada. Tive o ímpeto de perguntar<br />

alguma coisa mas não deu tempo, ela estava caindo. Com um pulo por cima da<br />

pedra que servira como mesa, consegui segurá-la. Coloquei-a na minha rede que já<br />

estava armada e passei sobre seu rostinho um pano molhado. Ela acordou lentamente<br />

e me falou.<br />

– Ortal, meu querido, está começando.<br />

– Pelos cristais, não me assustes! O que está começando?<br />

– Minha maturidade! Estou a senti-la!<br />

– Como assim? Esta coisa chega assim, de uma hora para outra, sem mais nem<br />

menos?<br />

– Não, ela demora uma noite para se revelar – e tão logo falou isso, desmaiou<br />

de novo.<br />

Fiquei atordoado. Passei um bom tempo pensando no que fazer. Olhei para ela<br />

e vi aquela beleza perfeita ali na minha rede, dormindo feito um anjo. Sua pele estava<br />

com uma ótima cor, passei a mão em sua testa e senti sua temperatura normal. Fiquei<br />

um pouco mais calmo. Sentei no canto de nossa “pousada” e vi os cristais azuis irem<br />

perdendo a fluorescência. Os primeiros pingos da tempestade começaram a cair. Fui<br />

para rede e muito gentilmente me ajeitei do lado da fada. Dei um pequeno beijo em<br />

sua boca e ela estremeceu, com um leve sorriso. Fiquei bem calmo com isso e pela<br />

segunda vez em minha vida dormi como os deuses e fadas dormem!<br />

Acordei com um berro. Irmã Floresta já estava de pé, ou melhor, flutuando<br />

dentro da árvore.<br />

– O que foi? – perguntei.<br />

– Aconteceu! Finalmente! – ela falou, atônita.<br />

– Aconteceu o quê? – perguntei assustado. Afinal tinha acabado de acordar e<br />

mal sabia onde me encontrava.<br />

Então me lembrei. Sim, a menina virara uma mulher! Será? – pensei. – Afinal<br />

seu tamanho estava igual! O que seria então? Olhei para ela e vi que seu olhar infantil


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

continuava o mesmo. Então muito calmamente ela tirou o enorme cabelo da frente<br />

do seu corpo e, para meu espanto, estava lá. Tudo que uma mulher deve ter estava<br />

lá. Surgiu como por magia! Dois pequenos seios, bem proporcionais ao seu pequeno<br />

tamanho, e seu quadril, agora um pouco torneado, seu sexo no devido lugar! Fiquei<br />

muito vermelho e só consegui encará-la porque ela estava diante de mim com sua<br />

pequena mão puxando meu queixo para cima e dizendo: - Todo o meu povo estava<br />

com os Magos quando aconteceu. Fui a única que sobrou. Meu tempo de vida não é<br />

tão longo como o seu ou do Povo Prateado. Não posso olhar para o pequeno Mago de<br />

Prata, então não posso ficar com ele, mesmo porque não sei se eu seria sua escolhida.<br />

Temos que fazer, por mais estranho que possa parecer para você. Se não fizermos<br />

nosso povo pode desaparecer para sempre!<br />

E sem me dar chance de pensar, agarrou meu pescoço com seus pequenos<br />

braços e me beijou profundamente. Parecia que uma magia caíra sobre mim. Não tive<br />

como reagir. Em um segundo estava dentro da rede de novo com uma pequena fada<br />

me possuindo! Ela gentilmente tirou minha calça e postou-se em cima de meu sexo,<br />

agora tendo quase uma convulsão. Seu corpo exalou uma fragrância doce e excitante,<br />

eu estava em transe! De repente sentou-se e fez-me penetrar. Ela soltou um grito de<br />

dor e prazer ao mesmo tempo e começou a cavalgar muito gentilmente sobre mim. Eu<br />

não parecia estar ali, mas no céu. Sentia aquele pequeno ser ora lambendo meu lábio,<br />

ora penetrando meu sexo no seu com muita suavidade. Suas asas estavam totalmente<br />

abertas e delas, saía um pó brilhante que reluzia a luz da manhã que entrava no nosso<br />

pequeno paraíso. Por fim, senti um enorme arrepio por todo o corpo que, imediatamente,<br />

foi transmitido para ela. Nossos corpos se enrigeceram até que explodimos de<br />

prazer um dentro do outro. O futuro das borboletas-fadas estava a salvo!<br />

Ela caiu em meus braços completamente exausta e saciada. Seu rosto estava<br />

grudado em meu peito e eu podia sentir sua respiração primeiramente forte, mas logo<br />

se acalmando. Ficamos nesta posição de relaxamento durante meia hora. Depois, com<br />

um impulso sobre meu corpo, ela se levantou e começou a arrumar as coisas. Eu tinha<br />

uma missão e pelo que parecia, tinha ainda um grande caminho pela frente.<br />

Saímos da grande árvore e rumamos para o norte, mascando torrões de cereais<br />

com mel geriátrico, por entre a floresta agora muito úmida devido à forte chuva da<br />

noite anterior.<br />

Quase não falávamos. Parecia que estávamos ligados mentalmente, ela só me<br />

dizia de vez em quando qual o caminho que eu deveria tomar.<br />

Ela estava muito agarrada em minha cintura, sentindo as minhas costas com<br />

um dos lados de seu rosto, como que ouvindo meu coração por trás. Delirium cavalgava<br />

rapidamente por entre as árvores molhadas e eu sentia um prazer muito diferente,<br />

de estar em companhia de um ser muito especial. Sentia-me muito bem com isto, mas<br />

não queria me envolver demais com aquele sentimento, pois sabia que aquela companhia<br />

iria durar pouco.<br />

Foi com estes pensamentos, divagando por entre a vegetação e as brumas<br />

daquela floresta muito misteriosa para mim, que penetramos num lugar esquisito.<br />

Irmã Floresta pediu que Delirium parasse. Assustei-me um pouco, parecia que Irmã<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

estava um pouco reservada por estar naquele lugar.<br />

– Este é o Vale da Penumbra – disse-me ela. – É um lugar inamistoso. Devemos<br />

tomar cuidado. Espere aqui um pouco.<br />

Assim que ela terminou a frase, subiu rapidamente até o topo das árvores.<br />

Voltou um pouco menos nervosa.<br />

– Devemos atravessar este vale rapidamente, – falou – antes do anoitecer. Existe<br />

uma cabana de um ser muito especial e amigo do outro lado, porém, dentro do<br />

vale moram animais perigosos que adoram os seres humanos para servir no jantar.<br />

Com estas palavras, desembainhei minha espada e ela ficou impressionada.<br />

Alimentei meus lança-dardos até o máximo e partimos. Agora ela voava alguns metros<br />

acima de minha cabeça, para monitorar a nossa passagem. Iniciamos a descida<br />

calmamente. Conforme descíamos, a temperatura ia-se tornando mais fria e o ambiente<br />

mais úmido. Sentia um certo entorpecer, meu corpo estava mole e sentia muito<br />

sono. Ela parou e me olhou. Tirou um punhado de Malacha Brena de uma algibeira em<br />

sua cintura e me deu para mastigar. Imediatamente senti a droga nos meus músculos.<br />

Agora estava muito tenso e acordado. Agradeci e tornamos a caminhar.<br />

Quando chegamos ao rio, na parte mais baixa do vale, ouvi um estalo. Num<br />

segundo, Irmã tomava meu facão e subia de novo para o topo, se escondendo. Num<br />

piscar de olhos me virei e parti ao meio o corpo de um enorme lobo preto que vinha<br />

pelas minhas costas. Então, ouvi um berro da Irmã, lá de cima.<br />

– Ortal, corra pelo caminho direito, eles o estão cercando.<br />

Disparei pelo caminho mandado e logo vi Irmã voando em minha direção, com<br />

meu facão apontado em minha direção.<br />

– Abaixe! – ela gritou.<br />

Então, só senti o vento passar sobre mim e um uivo de um lobo agonizante<br />

e logo depois o barulho do corpo se estatelando no chão. Não deu tempo de olhar.<br />

Três lobos ao mesmo tempo voaram para mim, mas com apenas um golpe da espada<br />

de diamante cortei seus corpos pela metade. Porém, para retomar a posição do golpe<br />

demorei demais. Um enorme lobo malhado vinha de frente ao meu encontro e em segundos<br />

me derrubara de Delirium. Ainda tive tempo de cortar-lhe o estômago com um<br />

golpe da espada, quilos de material em digestão e sangue caíram sobre mim. As patas<br />

do lobo estavam cravadas em meu ombro, o que fez a matilha inteira enlouquecer com<br />

o cheiro de sangue. Irmã veio em meu socorro e conseguiu, com a força da raiva que<br />

sentia, me levantar. Eu estava atordoado com o cheiro horrível dos dejetos que estavam<br />

em contato com meu corpo. Mas, com a dor nos meus ombros, senti um grande<br />

ódio, e com fogo nos olhos, gritei para Irmã se afastar.<br />

Uns vinte lobos me cercaram. Quando viram a fúria em meus olhos, não tiveram<br />

muita coragem de atacar. Porém, era muito tarde para arrependimentos, logo<br />

comecei a lançar os dardos com uma velocidade inacreditável. Eles só tinham uma<br />

chance: me atacar. Era isto que eu esperava. Com muita rapidez, girei a espada no ar e<br />

saí como um louco atrás deles. Foi uma carnificina. Não sobrou um lobo vivo.<br />

Por um momento parei exausto, caindo de joelhos. Se houvesse algum outro<br />

lobo, estava perdido. Mas não era isto que me incomodava, era a minha força, baseada


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

numa fúria que jamais sentira. Senti um poder que nunca imaginei que tivesse e, sem<br />

compaixão nenhuma, derrotei até o último lobo que estava fugindo.<br />

– Deve controlar sua fúria – disse Irmã Floresta, muito assustada, provavelmente<br />

não pelos lobos, mas pela maneira que eu lutara.<br />

– Creio que por um momento fiquei cego – disse amargamente.<br />

– Por um momento? – perguntou ela, abismada. – Você esteve perseguindo os<br />

lobos durante uma hora! Creio que deve ter matado todos os lobos do vale! – O que?<br />

– perguntei, alarmado.<br />

– Infelizmente não matou – não era a voz da Irmã. Mas uma voz rouca e<br />

agradável que vinha do final de uma trilha.<br />

Olhei com os olhos cerrados para melhor enxergar por entre a penumbra. Notei<br />

uma silhueta do que poderia ser um homem muito velho apoiado numa bengala.<br />

– Má é a índole desses demônios – continuou o velho. – Nossa sorte está mudando<br />

com você aqui, nobre cavaleiro.<br />

– Sebastian! – gritou Irmã Floresta, muito contente, e já em disparada na direção<br />

do velho. Ao chegar perto dele, parou e fez uma graciosa reverência ainda no ar.<br />

– Como vai, pequena borboleta? – disse ele muito alegre, mas logo mudando<br />

sua expressão para um agradável espanto. – Vejo que já te tornaste uma moça, se assim<br />

me permites falar!<br />

Ela ficou muito envergonhada e disse:<br />

– Veja, Sebastian, este é Ortal, nobre cavaleiro das Florestas Azuis, encontrei-o<br />

em seu caminho, a pedido do próprio Mago de Prata!<br />

– Que os cristais abençoem os dois – disse o velho, que já se encontrava bem<br />

perto de mim. – Vejo que mereces um banho, Ortal.<br />

– Se não for incômodo, caro Senhor.<br />

– Pode me chamar de Sebastian, é o meu nome, e não é incômodo algum servir<br />

àquele que quase destroçou, com sua virtuosa espada, a matilha dessas repulsivas criaturas!<br />

– disse o velho, dando-me seu braço como apoio para eu sair daquela posição<br />

de joelhos.<br />

– Sebastian – disse Irmã para mim – é o ser especial de quem lhe tinha falado,<br />

Ortal. Ele mora há muitos e muitos anos na cabana para a qual estamos indo. Ele é<br />

muito amigo dos Magos e talvez possa lhe contar o que ocorreu com eles e com o<br />

meu povo.<br />

– Melhor não – disse Sebastian. – Melhor eu não contar. Apesar de ser um<br />

tanto tagarela, acredito que seria mais aconselhável o próprio Mago contar para este<br />

cavaleiro, pois não tenho absoluta certeza do que aconteceu, visto que ninguém pôde<br />

ter contato com o único Mago que sobrou, devido à magia que está em seu corpo.<br />

Depois disso, todos nós ficamos um pouco calados até chegarmos à cabana de<br />

Sebastian. Eu estava muito cansado, sujo e dolorido. Era uma cabana de fato muito<br />

rústica por fora, feita de madeira e telhado de cristal azul. Mas por dentro era espetacularmente<br />

aconchegante! Uma lareira ardia em chamas, pois aquela parte do vale era<br />

fria, apesar de ficar ais no topo do que no fundo do mesmo. Existiam muitos cristais e<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

ervas penduradas por todas as paredes. Acredito que mais da metade eu simplesmente<br />

não conhecia! Sebastian me tomou pelo braço e me levou para uma sala que tinha uma<br />

enorme banheira feita de cristal laranja, onde já escorria uma água escaldante.<br />

– Lava-te, nobre cavaleiro – disse Sebastian - depois te falarei sobre os cristais<br />

e ervas, tudo acompanhado de uma maravilhosa sopa de cogumelos e chá antiinflamatório<br />

para essas feridas.<br />

Enquanto eu me lavava deitado na banheira, pensava sobre o Povo do Mago e<br />

da Fada-Borboleta. Que tipo de civilização teria feito isto com estes povos tão nobres?<br />

Depois me veio à cabeça o que eu tinha feito no vale com os lobos. Será que esse tipo<br />

de ódio não seria o mesmo ódio que atacou o Povo de Prata e as fadas? Não é possível!<br />

O ódio que senti foi por autodefesa e não por maldade. Acredito plenamente que nem<br />

o Povo de Prata nem as fadas poderiam ter feito mal a alguém que quisesse tamanha<br />

vingança. Acho que o que atacou esses povos foi apenas por maldade, ou por querer<br />

se apoderar daquilo que esses povos tinham acumulado durante os séculos.<br />

Após me lavar e vestir uma roupa nova que Sebastian reservara para mim,<br />

voltei à sala onde se encontravam ele e Irmã Floresta.<br />

Sebastian havia feito um maravilhoso jantar, com frutas, torradas, sopa, e arroz<br />

com molho de galinha. Para beber havia chá e vinho. O ambiente parecia um tanto<br />

solene. Porém todos nós comemos com muito prazer, pois estávamos com muita fome.<br />

Irmã Floresta retirou os pratos sujos enquanto eu e Sebastian dividíamos um<br />

cachimbo de Malacha Brena. Quando Irmã se sentou, os dois ficaram me fitando com<br />

um olhar meio estranho. Então Sebastian começou: – O que ocorreu hoje na floresta<br />

com os lobos foi muito perigoso, Ortal. O ódio é uma dádiva para a guerra, é o<br />

desamor. Muitas das memórias que nos foram passadas por nossos ancestrais foram<br />

alteradas pela linguagem falada. Durante séculos o ser humano passou de geração<br />

para geração as memórias sem o uso do memo-cristal, o cristal que tem o poder de<br />

imortalizá-las. Nesse período foi perdida muita coisa.<br />

“Como a maioria dos homens se tornara um povo pacífico, pois a natureza se<br />

encarregou de deixar as tribos separadas, a questão do ódio foi praticamente esquecida.<br />

O homem se dedicou a pesquisas para sua sobrevivência sem a necessidade da<br />

guerra. A maldade do ser humano para com ele mesmo foi deixada de lado e o homem<br />

perdeu o sentido da guerra e do ódio. Mas estes sentimentos, apesar de não serem<br />

usados há séculos, podem ser resgatados, pois fazem parte da nossa natureza enquanto<br />

seres humanos.<br />

– Então – falei, finalmente – achas que o que ocorreu hoje comigo foi um resgate<br />

da maldade?<br />

– Não – respondeu Sebastian. – Não foi um resgate da maldade, mas foi um<br />

sentimento de ódio que surgiu em ti pela necessidade de autopreservação. Como este<br />

sentimento, possivelmente tu nunca deves ter sentido antes desta forma, pois nunca<br />

houve uma situação de perigo tão grande, deves ter perdido o controle.<br />

– E como devo aprender a controlar isto? – perguntei.<br />

– Não sei – respondeu Sebastian. – Mas creio que o Mago deve ter te chamado<br />

para ensinar isto, para que possas ensinar isto também ao teu povo e ao resto das tribos


Marcelo Paciornik<br />

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a fim de que saibam lutar com a razão contra o perigo iminente que está a nos rodear.<br />

Caso contrário, se começarem a lutar como nossos ancestrais faziam, creio que haverá<br />

uma outra “Eco Revolta”, e duvido muito que a natureza poupará um ser humano<br />

nesta terra de novo.<br />

– Então achas que o Mago sabe controlar o ódio, mas como?<br />

– Não creio que ele saiba – respondeu Sebastian.<br />

– Mas como ele vai me ensinar algo que nem ele mesmo sabe?<br />

– Não sei.<br />

Ficamos todos em profundo silêncio. Eu estava realmente atordoado. O que<br />

ocorrera hoje na floresta com os lobos foi algo estarrecedor. Eu estava assustado comigo<br />

mesmo, com o poder de destruição que eu tinha em minhas mãos, com a força do<br />

meu próprio corpo. Havia histórias antigas de superpoderes dos homens e armas antes<br />

da “Eco Revolta”, que foram passadas para nós e em que não acreditávamos muito<br />

por, possivelmente, terem sido distorcidas pela linguagem falada. Porém, o que ocorreu<br />

comigo hoje foi absolutamente real, sem distorções, porque fora eu quem vivera<br />

aquilo. Se eu não conseguisse controlar isto, provavelmente este poder poderia subir à<br />

minha cabeça e virar um monstro destrutivo para qualquer um que tentasse se opor à<br />

minha vida ou à das pessoas que eu achava que eram boas. Era esse o medo do velho<br />

Sebastian e meu também.<br />

– Creio que devemos achar o Mago o quanto antes – falei, após alguns instantes<br />

de silêncio – estou muito assustado com o que ocorreu.<br />

Certamente Sebastian esperava ouvir isto, pois me fitou com uma feição de<br />

alegria.<br />

– Se sairmos amanhã bem cedo – falou Irmã Floresta – creio que poderemos<br />

alcançar a Vila dos Magos à noite. Então você poderá estar em contato com ele.<br />

Fiquei atônito. Pensar em estar na presença de um ser tão poderoso me deixou<br />

nervoso. E como se Sebastian pudesse ler os meus pensamentos, falou:<br />

– Deverás enfrentar o medo. Acho que nem imaginas o que é o Mago de Prata.<br />

Devo te afirmar que terás uma surpresa quando te encontrares com ele.<br />

– Fala-me como ele é. O senhor o conhece?<br />

– Sim, tanto eu como Irmã Floresta o conhecemos. Não depois da magia que<br />

caiu sobre ele, mas antes. O Mago de Prata é filho dos dois Magos mais poderosos da<br />

aldeia e herda um grande poder de várias gerações de magos desde a “Eco-Revolta”.<br />

Ele descende da lendária primeira família de cientistas e pesquisadores que, como<br />

nenhuma outra tribo, soube desenvolver uma fantástica pesquisa sobre os novos materiais<br />

que o Planeta tinha dado à luz. Creio que por isso ele foi salvo. Porque dentro<br />

dele está todo o poder deste povo.<br />

“Acredito plenamente que se foste o escolhido para estar na presença dele é<br />

porque deves ser uma pessoa especial, pois senão o Mago não o teria feito. E depois<br />

do que vi hoje na floresta, vejo que ele tem toda razão.”<br />

– Achas que o Mago vai me passar este poder? – perguntei assustado.<br />

– Não acho, tenho certeza. Mas acredito que deverás passar por um teste.<br />

Se já estava assustado, agora entrara em pânico. Receber o poder do Mago?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Passar num teste? Isso já era demais. Como este Mago poderia saber se eu era especial<br />

ou não se nem mesmo eu sabia? Isso já estava ficando muito complicado, meu ombro<br />

começara a doer de novo.<br />

– Creio que tens algum chá sonífero, não tens, Sebastian?<br />

– Achei que irias precisar, Ortal. Tomei a iniciativa de prepará-lo para ti.<br />

– Realmente és um ótimo anfitrião, Sebastian. Acho que nossa conversa sobre<br />

ervas ficará para outra ocasião, estou muito cansado e nervoso, foi um longo dia.<br />

– Não te preocupes, Ortal. Trarei teu chá e poderás descansar até amanhã. Será<br />

um grande dia para ti, grande cavaleiro!<br />

Assim, tomei o chá e logo estava no mundo dos sonhos.<br />

Acordei com a doce voz da Irmã Floresta dizendo que meu café estava pronto.<br />

Comemos cereais, frutas, queijos, e tomamos sucos de frutas e café com mel geriátrico.<br />

Logo nos despedimos e tomamos o caminho para o norte.<br />

Irmã Floresta estava parecendo uma gralha! Não parava de falar um minuto,<br />

o que me acalmou um pouco, pois sua voz soava como um belo instrumento musical<br />

aos meus ouvidos. Começou falando do que ela e Sebastian tinham conversado depois<br />

que eu fui dormir.<br />

Ela estava muito orgulhosa porque carregava muitas Fadas-Borboletas em seu<br />

ventre, que provinham do meu amor. Falava que, por meu sangue não estar modificado<br />

como o dos magos, iriam nascer não só fadas, mas elfos! O que tornaria a espécie<br />

possibilitada de procriar por si só sem a necessidade da ajuda dos magos. Isto era bom<br />

e ruim ao mesmo tempo. Bom porque teriam finalmente elfos para procriarem, e ruim<br />

porque ela adorava o Povo dos Magos e sentia muita saudade.<br />

Falava das esperanças que o Mago tinha sobre mim e meu povo, que tinham<br />

observado o nosso povo durante séculos e que a escolha do Mago estava absolutamente<br />

certa. Experimentei um momento de preocupação quando ela me falou isto.<br />

Mas, como ela não parava de falar, logo tornou o assunto um pouco mais ameno.<br />

Mal começara a contar sobre como os Magos tinham modificado as borboletas<br />

para se tornarem Fadas-Borboletas, ela soltou um berro. Imediatamente fiquei alerta,<br />

com a mão na espada, logo, porém, relaxei de novo. Percebi o motivo de tal empolgação.<br />

Era a estrada de cristais azuis! Começava ali, uns cem metros adiante. Era<br />

deslumbrante! O azul faiscava energia e emprestava às árvores um reflexo azulado<br />

muito peculiar. Logo que chegamos à estrada, paramos e fizemos uma breve refeição.<br />

Estávamos muito empolgados para chegar à caverna do Mago.<br />

Comemos alguns bolinhos de peixe feitos por Sebastian, muito gostosos por<br />

sinal, e continuamos pelo caminho azulado. A floresta fechava a estrada como uma<br />

caverna feita de folhas, galhos, flores e frutos, e de vez em quando eu pegava alguns<br />

para me deliciar durante a viagem pelos cristais. Andamos durante muito tempo na<br />

estrada. Começava a anoitecer quando vi algo semelhante ao meu sonho. Sim, estávamos<br />

chegando. Olhei para trás e vi Irmã Floresta chorando bem baixinho. Quando<br />

ela viu que eu a observava, caiu em prantos! Então eu a abracei e ela quase quebrou<br />

meu pescoço. Ficamos assim durante vários minutos, até que ela encostou seus lábios<br />

nos meus e me beijou profundamente e por muito tempo. Depois, pegou em meu rosto


Marcelo Paciornik<br />

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com as duas mãos e disse:<br />

– Eu “te” amo, Ortal. Saiba que não nos veremos mais.<br />

– Por quê? – perguntei, abismado.<br />

– O tempo de fecundação e nascimento das larvas é rápido e após isso morrerei.<br />

Comecei a chorar com ela e nos beijamos durante muito tempo. Então falei:<br />

– Eu te amo também, Irmã Floresta.<br />

E ela se afastou de mim e saiu voando para a floresta que era seu refúgio.<br />

Só depois de algum tempo é que me dei conta de que eu estava sozinho de<br />

novo. Muito tristemente comecei a procurar a entrada da caverna do Mago. Mal sabia<br />

que estava entrando no que iria modificar minha vida por completo, para sempre!<br />

Saí da estrada como mandava a mensagem através do meu sonho. Andei um<br />

pouco em meio à floresta fechada e logo percebi a grande parede de pedras à minha<br />

frente. Achei a fenda por onde deveria entrar. A fenda aparentava ser pequena demais<br />

para Delirium, mas quando nos aproximamos, reparei que Delirium cabia perfeitamente<br />

no buraco que servia de entrada. O lugar já estava escuro. Entrei com Delirium<br />

sendo puxado por mim. Dentro da caverna era uma parede de escuridão, acionei imediatamente<br />

um cristal azul fluorescente, que me deu pelo menos uma breve visão de<br />

onde deveria pisar.<br />

Comecei a penetrar pela caverna. Delirium não estava gostando nada daquela<br />

escuridão, nem eu tampouco. Andamos cerca de cinco minutos. Parecia que estávamos<br />

ali há horas, e como por encanto o cristal azul começou a apagar. Em questão de<br />

segundos estávamos em total escuridão. Tentei acionar outro cristal, mas estava, como<br />

por alguma magia, sem fluorescência nenhuma. Tentei andar um pouco no escuro,<br />

porém Delirium logo se deteve de medo. Então lembrei dos iniciadores de fogo; pelo<br />

menos poderiam fazer luz por alguns minutos, até o cavalo se acalmar.<br />

Quando acendi o fogo, notei que estava numa divisão de caminho. Não sabia<br />

por qual deveria ir e, para o meu desespero, uma leve brisa apagou a chama que<br />

iluminava o lugar. Estava desolado. Pensei em retornar. Porém, fiquei ali parado observando<br />

se algo acontecia. Será que tinha entrado na fenda errada? Impossível: era<br />

idêntica ao meu sonho! Mas logo vi algo estranho. Era uma luz prateada vindo em<br />

minha direção; primeiramente muito pequena, mas logo se intensificou. Parou sobre<br />

mim e começou a se mover na direção de onde tinha vindo. Imediatamente comecei<br />

a segui-la.<br />

Então ela parou sobre uma pedra de mais ou menos meio metro de altura onde<br />

se encontrava uma tira de pano prateado. Ficou ali, iluminando o pano. Imaginei que<br />

eu deveria pegar o tal pano, e foi o que eu fiz, mas a luz não se moveu. Olhei para o<br />

pano para ver do que se tratava e lembrei do que a Irmã e Sebastian falaram: “Não se<br />

pode olhar diretamente para o Mago”. Pensei que a tira seria uma espécie de venda.<br />

Coloquei a tira com os olhos fechados e depois de alguns segundos, com a venda<br />

sobre os meus olhos, fiquei pasmo! Conseguia enxergar tudo! E tudo estava prateado!<br />

A luz começou a se mover de novo pelos corredores da caverna e logo estávamos<br />

no que parecia ser um salão enorme.<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Paramos bem ao centro e soltei Delirium. Imediatamente ele saiu correndo.<br />

Tentei sair atrás dele, mas a luz se postou diante de mim me impedindo; era tarde<br />

demais.<br />

Fiquei parado, olhando para o ambiente que, mesmo com a luz agora em cima<br />

de mim, estava muito escuro. Tentei melhorar minha nova visão me concentrando um<br />

pouco. Então vi que eu estava realmente num salão muito grande. As paredes formavam<br />

um círculo enorme à minha volta. Comecei a notar que não eram apenas paredes,<br />

mas estátuas: enormes estátuas de seres humanos postados nas mais diversas e belas<br />

posições, ou segurando vigas que sustentavam um teto abobadado, ou em posições<br />

eróticas, ou glorificando árvores, ou dramatizando alguma situação, e eram muitas, de<br />

vários tamanhos, sendo que uma se destacava.<br />

Tratava-se de uma estátua bem à minha frente, a uns cem metros mais ou menos.<br />

Era a estátua do que poderia ser um jovem que “batia” no meu peito, de um metro<br />

e setenta mais ou menos. Seu brilho era diferente das outras. Parecia emanar alguma<br />

vida. Foi quando notei meu coração bater fortemente. Minhas mãos ficaram geladas e<br />

minha cabeça começou a girar.<br />

O que era para ser uma estátua começou a se mover. A luz do local se intensificou<br />

um pouco e de repente, comecei a perceber o que vinha em minha direção.<br />

Logo centenas de vozes soaram em meus ouvidos com uma nota só, era uma nota de<br />

lamento e muito forte; então caí de joelhos.<br />

O Mago estava à minha frente olhando para mim! Não conseguia me mexer.<br />

Minha boca estava aberta e seca, o Mago não piscava. Sua pele era branca. Vestia um<br />

manto de prata que caía de seus ombros até o chão, aberto no meio, deixando à mostra<br />

parte de seu peito, sua barriga e seu sexo, que, como eu já sabia, ainda não estava<br />

definido. Porém, por seu rosto, acredito eu que ele poderia ter mais tendência a uma<br />

beleza masculina, apesar de ter alguns traços muito delicados como o nariz, as orelhas<br />

e principalmente os lábios, que tinham um desenho feminino.<br />

Então notei, com espanto, que, fora sua pele, todo o resto tinha tons azuis-esverdeados,<br />

não só os olhos, mas o cabelo, que era extremamente curto, quase raspado,<br />

as sobrancelhas, os cílios e os lábios, que também tinham a mesma tonalidade.<br />

Seu rosto era muito redondo e seu nariz reto e pequeno, assim como suas orelhas,<br />

que quase não se notava. Suas sobrancelhas tinham agora um desenho reto e<br />

severo, e seu olhar estava postado com uma expressão muito séria sobre mim.<br />

– Consegues ver-me? – perguntou.<br />

Então cambaleei. Ele não se mexeu, mas eu quase caí. Sua voz era um espasmo<br />

de beleza e graciosidade. Tentei recuperar-me e só depois de algum tempo, esperado<br />

pacientemente por ele, é que consegui responder.<br />

– Sim.<br />

– Ótimo – disse ele, agora com um sorriso tão espontâneo que esta nova forma<br />

de expressão em seu rosto me fez cambalear de novo. Pensei comigo se a cada novo<br />

movimento dele seria a mesma coisa.<br />

Ele então me segurou nos ombros e disse:<br />

– És a primeira pessoa que vejo há muito tempo, Ortal. Mas gostaria de ver-te


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

sem esta venda, pois não consigo ver a expressão em teu rosto.<br />

– Podes apostar que é de muito espanto – disse para ele.<br />

Ele me olhou um pouco embaraçado, mas sorridente, e falou:<br />

– Um pouco antes do ataque que destruiu meu povo, meu pai, o Mago Maior,<br />

depositou uma magia muito grande sobre mim, uma magia que só eu posso quebrar,<br />

mas para isso eu deveria ter alguma segurança, pois estava muito assustado. Esta<br />

magia faz da minha pessoa um ser quase divino. Na verdade a minha beleza não foi<br />

alterada, mas a magia altera a forma como as pessoas me vêem, tornado-me uma espécie<br />

de semideus. Como estás aqui, creio que posso quebrar pelo menos parte da magia,<br />

isto é, por algum tempo só poderá me ver com teus próprios olhos, enquanto te ensino<br />

alguma magia que pode nos ajudar a nos protegermos. Se alguém entrar aqui e tentar<br />

nos atacar enquanto te ensino, esse ser ficará imediatamente cego.<br />

– E quanto a Delirium? – perguntei.<br />

– Não te preocupes, ele está num lugar apropriado. Agora por favor, para de te<br />

ajoelhar para mim. Afinal não sou um deus, apenas um Mago!<br />

Notei que não saíra da posição em que estava desde que ele tinha aparecido em<br />

minha frente. Tentei me mexer, mas não consegui. Então ele passou sua mão sobre<br />

minha cabeça e soltou um pó brilhante. Imediatamente eu estava livre. Pensei comigo<br />

mesmo: que ser fascinante!<br />

Agora o grande salão estava totalmente iluminado. Atravessamos para uma<br />

sala menor e nos sentamos num sofá bem confortável.<br />

– Estás com fome? – ele me perguntou.<br />

– Sim, um pouco.<br />

Então trouxe uma bandeja com vários tipos de alimentos e chás, como se ele<br />

já esperasse pela minha estadia. Comemos juntos. Eu me sentia muito nervoso em<br />

sua presença. Estava tremendo, e ele notou. Olhou-me e pegou muito gentilmente em<br />

minha mão, não falou nada, apenas passou uma espécie de energia reconfortante. Meu<br />

coração se acalmou e eu me sentia melhor. Meu sentimento para com aquele ser era<br />

totalmente diferente de tudo o que eu jamais sentira.<br />

Após comermos, ele me disse:<br />

– A magia desta venda pode acabar a qualquer momento. Devo cortar parte da<br />

magia que meu pai me transmitiu para que possas me olhar com teus próprios olhos.<br />

Isto não será muito normal para ti: deverás confiar em mim.<br />

Olhando para aquele ser e da maneira como ele falava, se tivesse pedido para<br />

cortar minha cabeça, teria feito imediatamente. Acredito que ele tenha notado minha<br />

resposta apenas pela minha expressão e me pegou pela mão.<br />

Entramos de novo no grande salão. Ele foi até uma escultura e abriu uma espécie<br />

de gaveta que surgiu da grande cabeça que era a estátua. Retirou de lá um<br />

pequeníssimo cristal e veio em minha direção.<br />

– Tiro da cabeça de Dionísio este cristal encantado, que fará tua mente viajar<br />

acordada, e as formas que verás serão transformadas da realidade, assim como as<br />

cores, e seu efeito cessará vagarosamente para que te acostumes com a visão da minha<br />

beleza e possamos conviver juntos sem medo da magia que me protege do Povo do<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mal. Por favor, Ortal, ajoelha-te.<br />

Ajoelhei-me. Ele colocou o cristal em sua boca, em cima de sua língua. Chegou<br />

muito perto de mim. Estremeci. Agarrou meu rosto com suas duas mãos, encostou<br />

os seus lábios nos meus e me beijou profundamente, me passando o cristal. Enquanto<br />

me passava o cristal com o beijo, tirou minha venda ao final do beijo, e me deparei<br />

com seu olhar. Não aguentei. Caí para frente, desmaiado em seus braços.<br />

Não sei quanto tempo fiquei desmaiado, mas quando acordei, estava deitado<br />

em uma cama muito macia. Ele estava ao meu lado acariciando minha testa com um<br />

pano úmido. Abri os olhos lentamente. Tudo estava colorido! Todos os objetos em<br />

volta refletiam muitas luzes, os cristais então chegavam a ofuscar meus olhos. Por<br />

vezes, alguns objetos pareciam estar derretendo. Meus ouvidos podiam escutar os<br />

sons mais absurdos, como o caminhar de uma formiga verde no chão ou o barulho do<br />

teto do quarto onde nós nos encontrávamos se contorcendo, o que, é claro, não passava<br />

de uma alucinação causada pelo cristal-dionísio.<br />

Eu estava achando tudo aquilo muito engraçado. A cara do Mago se mostrava<br />

mais bela do que eu tinha visto antes, se é que isto era possível, mas para mim, era o<br />

que estava parecendo, e acredito que foi isso que não me cegou. A impressão incorreta<br />

da realidade era a chave para a quebra da magia! E enquanto eu me acostumava<br />

com a beleza do Mago, vista antes por um processo alucinógeno, ia gradualmente me<br />

acostumando com sua imagem à medida que diminuía o efeito da droga sobre o meu<br />

corpo.<br />

O Mago se contagiou um pouco pela brincadeira e parecia que via algumas<br />

coisas estranhas também, pois ele tinha estado com o cristal-dionísio em sua boca<br />

antes de mim.<br />

Então ele me puxou para fora da cama e com sua mão me conduziu para fora<br />

do quarto. Entramos de novo naquele salão enorme, que agora estava com luzes excitantes.<br />

As estátuas pareciam ter vida, pareciam nos acompanhar com os olhos! Pareciam<br />

estar muito alegres com a nossa passagem pelo salão e acenavam para nós! O<br />

Mago e eu começamos a rir ao mesmo tempo. Então perguntei a ele:<br />

– Vês o que eu vejo?<br />

– É claro, Ortal. Graças ao cristal, nossas mentes estão unidas ao mesmo processo<br />

alucinógeno, tudo que sentes eu sinto. Não é fantástico?<br />

Eu parei e olhei para ele.<br />

– Tens certeza? Estás sentindo o que eu estou sentindo?<br />

– É claro! Vamos aproveitar!<br />

Comecei a ficar meio preocupado, pois estava com medo do que sentia pelo<br />

Mago. Não sabia ao certo, mas era algo muito forte. Mas, afinal de contas, nem deu<br />

tempo para pensar nisso. Logo ouvi uma bela música, mas não era música. Era a porta<br />

do grande salão se abrindo para o lado de fora da construção.<br />

Se dentro do salão eu e o Mago estávamos alucinados, agora tínhamos chegado<br />

aos céus! Era a Vila dos Magos de Prata, ali, bem à minha frente, cintilando em cores<br />

e formas absurdas. Via um pouco da destruição que ocorrera, mas meu estado mental<br />

estava tão incoerente que não notei estranheza de espécie alguma acerca das con-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

struções. E se estavam destruídas ou não, não poderia notar, pois o efeito do cristaldionísio<br />

agora era tão forte que mal podia notar o que era realidade ou fantasia.<br />

O mago me puxou e saímos correndo feito duas crianças pela Vila. Tudo brilhava<br />

em demasia. Todas as formas se tornaram tão divertidas que em dado momento<br />

rolamos por grande gramado, pois não conseguíamos nos manter em pé de tanto que<br />

ríamos.<br />

Ficamos ali e notamos que ainda era noite! Ficamos deitados, delirando nas<br />

formas que as estrelas faziam no céu. Nossos corações começaram a se acalmar e a<br />

alucinação começou a enfraquecer. Então o Mago sentou na minha barriga e segurou<br />

os meus braços, me encarou profundamente e disse:<br />

– Agora, grande amigo, deverás me olhar profundamente. Não tires os olhos de<br />

mim, pois deverás te acostumar com minhas formas até que o efeito do cristal-dionísio<br />

passe.<br />

E assim ficamos por mais de meia hora. O efeito foi passando aos poucos e a<br />

imagem do Mago já era conhecida de minha mente, por isso não iria mais me cegar.<br />

O Mago se deitou ali mesmo na grama ao meu lado. Encostou sua cabeça em<br />

meu ombro e dormiu. Eu ainda fiquei olhando para as estrelas, agradecendo aos céus<br />

por ter encontrado este ser que estava ao meu lado, e por fim adormeci.<br />

Acordamos assim que os primeiros raios solares atingiram nossos rostos. Olhamo-nos<br />

e começamos a rir assim que nos lembramos da noite anterior.<br />

– Vamos – disse o Mago -, temos muito o que fazer. Mas primeiro comeremos!<br />

– Sim! – falei entusiasticamente.<br />

A caminho do grande salão, que possivelmente poderia ter sido a casa do Mago<br />

antes da batalha, paramos num pequeno lago no centro da vila. O Mago despiu-se de<br />

sua capa prateada e começou a correr, gritando:<br />

– Vem, Ortal! O último que chegar é mulher do sapo!<br />

Tirei minha camisa e mesmo de calça caí na água gelada do lago. Que maravilha!<br />

Então, o Mago agarrou meu pescoço por trás e iniciamos uma tremenda batalha<br />

para ver quem afogava quem primeiro. Fiquei surpreso com a força daquele pequeno<br />

rapaz! Mas, logicamente, consegui colocar sua cabeça para dentro d’água e por fim<br />

soltei-me de todo o seu corpo, lançando-o por cima de minha cabeça! Ele deu um grito<br />

de excitação e logo estava na água de novo. Ficou de pé e disse, como uma pequena<br />

criança que perde o jogo:<br />

– Não é justo, Ortal, és muito maior!<br />

– Da próxima vez te dou mais uma chance, tá bem?<br />

– Tá bem; vamos comer!<br />

E assim saímos da água e rumamos para um lugar ao lado da construção por<br />

onde tínhamos saído na noite passada. Era um imenso pomar com uma porção de árvores<br />

frutíferas de todos os tipos. Pegamos uma porção de frutas e entramos no grande<br />

salão de novo. Lavamos todas as frutas e colocamos numa tigela. Com um simples<br />

gesto, o Mago acendeu o fogo e começou a preparar o café. Indicou-me onde ficava o<br />

resto das coisas e preparamos juntos um maravilhoso café da manhã.<br />

Após tomarmos o café, tomei um pouco de coragem e finalmente perguntei:<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Tu... Bem tu pareces estar muito feliz, não é pequeno Mago?<br />

– Sim, estou muito feliz, principalmente com tua chegada, Ortal. Por que me<br />

perguntas?<br />

– Não estás triste com tudo o que ocorreu com tua família ou com o teu povo?<br />

– Sim, fiquei muito triste nos primeiros dias, e tive que limpar a vila e recolher<br />

os cadáveres sozinho, pois, como sabes, ninguém podia me ver. Mas agora já estou<br />

melhor. Além disso, sentir a falta da presença física das pessoas, logo passa.<br />

– Presença física? – perguntei.<br />

– Sim, as pessoas morrem e tu sentes saudade da presença física. Mas logo depois<br />

a presença mágica aparece, e pode ficar contigo enquanto quiseres, não é mesmo?<br />

– Ah! sim, a presença mágica! – falei, fingindo entender.<br />

– Bom, já que tocamos no assunto – falou o pequeno Mago – e já que estamos<br />

alimentados, vamos à presença mágica de minha família. Estou louco para falar com<br />

eles e te apresentar, pois foi meu pai que falou de ti, e que poderíamos ser um dia, bons<br />

amigos. Claro que nunca imaginei que seria nessas circunstâncias, mas tudo bem.<br />

Tenho certeza que com nossa união e com o que sentimos um pelo outro poderemos<br />

dar continuidade ao que a Eco Consciência quer!<br />

– Sim, claro! – disse, simulando algo rotineiro.<br />

Já estava atônito de novo. Falar com sua família? O que sentimos um pelo<br />

outro? Então ele sente o mesmo que eu? Isto é, alguma coisa que não sei o que é?<br />

Pelos cristais! Isto estava ficando complicado.<br />

Ele tomou a dianteira e disse:<br />

– Vamos, Ortal, estou louco para saber o que meus pais têm para nós!<br />

Fui seguindo-o, já sentindo um certo medo de novo. Atravessamos o grande<br />

salão, entramos numa porta que nunca imaginaria existir e descemos por uma enorme<br />

escada em caracol iluminada com os cristais azuis. O ambiente estava limpo. As paredes<br />

eram brancas e com o reflexo dos cristais ficavam com um efeito interessantíssimo.<br />

Descemos muitos degraus até chegar a uma ante-sala, também muito iluminada.<br />

A ante-sala dava para dois imensos portais, com muitos desenhos talhados na<br />

pedra de que eram feitos.<br />

O Mago rugiu algumas palavras muito fortes e os portais se afastaram um do<br />

outro fazendo um movimento circular. Então vi a coisa mais espetacular de minha<br />

vida, até então. Era uma enorme sala inteiramente feita de cristais violetas e alaranjados,<br />

todos muito claros e com luz própria. O ambiente era muito fresco e cheio de uma<br />

deliciosa umidade. Havia diversas pequenas cachoeiras deslizando pelas enormes<br />

paredes de cristais.<br />

– Este é o maior tesouro que meu povo possui – falou o Mago, com muito<br />

orgulho.<br />

– Posso perguntar por quê?<br />

– Porque é através desta câmara de cristais encantados que fazemos a presença<br />

mágica.<br />

– E o que seria a presença mágica?<br />

– Olha para trás!


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Olhei e cambaleei. Havia dois espectros voando! Dois Magos de Prata a meio<br />

metro do chão! Iluminados, meio transparentes, prateados e sorrindo para mim!<br />

– Ortal, esses são meus pais. O Mago Maior e a Senhora Cristalina. Cara Senhora<br />

e Mago Maior, apresento-lhes Ortal, o cavaleiro da Floresta Azul, descendente<br />

da tribo dos Carmalhoc, a tribo guerreira do passado que esqueceu de guerrear e por<br />

isso se tornou um povo nobre e belo.<br />

Estava sem palavras, mas nem precisava! Eles falavam tudo!<br />

– É um imenso prazer estar em sua presença – disse o Mago Maior. – Através<br />

de gerações meu povo e meus ancestrais vêm estudando seu povo e seus ancestrais.<br />

Descobrimos através disso que vocês descendem de um povo guerreiro, mas nobre.<br />

Que por não ter necessidade se esqueceu de lutar, e, graças aos cristais, se esqueceu<br />

do ódio. E você, Ortal de Carmalhoc, é um ser muito especial, pois conviveu com a<br />

floresta desde pequeno e sabe de suas leis. Além de trazer em seu corpo muita força e<br />

em sua alma muita ingenuidade. O que faz de você um cavaleiro perfeito para o que a<br />

humanidade precisa neste momento.<br />

– Seu aprendizado será breve – agora era a voz da Senhora Cristalina. – Deverá<br />

sentir o poder que seu corpo tem e como poderá usá-lo para nobres ações. E nosso<br />

filho, o Pequeno Mago de Prata, irá com você numa jornada em que jamais ser humano<br />

algum foi. Vocês dois descobrirão novos sentimentos. E deverão estar sempre<br />

juntos, pois um ajudará o outro. Sejam como irmãos nesta jornada.<br />

– Que tipo de jornada será esta, minha mãe? – falou agora o Mago, num tom<br />

assustado.<br />

– Vocês irão partir em breve para um mundo desconhecido. Toda a nossa tribo<br />

está trabalhando nisso. Vocês irão resgatar algo do passado. Enquanto nós fazemos os<br />

últimos retoques em nossos planos, você deverá ensinar a Ortal nossa magia, e ele,<br />

por sua vez, ensinará a você a arte da luta. Deverão utilizar os cristais de transferência<br />

psíquica, pois o tempo é curto. Chamá-lo-ei em breve, filho. Por enquanto, para sua<br />

segurança, não se desfaça da magia que lhe forneci. Agora vão e não se preocupem<br />

com a jornada, apenas aprendam um com o outro. Logo o chamarei. Adeus, Ortal, até<br />

breve.<br />

– Adeus – murmurei, quase num sussurro.<br />

E assim desapareceram, nos deixando naquela enorme sala de cristais. O Mago<br />

olhou para mim levantando os ombros como se não entendesse nada do que estava<br />

acontecendo. Eu estava atordoado demais para pensar em alguma coisa.<br />

Saímos dali e fomos para fora. O sol já estava a pino. Sentamos na grama e<br />

colocamos dois cristais, um na testa do outro. Demos as mãos e começamos a fazer as<br />

primeiras transferências de informações.<br />

As informações que o Mago estava me passando eram algo de fenomenal. Era<br />

engraçado, pois aquele tipo de cristal era diferente. Era como se o que eu quisesse<br />

saber saísse da cabeça do Mago sem ele fazer esforço, assim como eu não precisava<br />

me concentrar no que o Mago queria que eu passasse para ele.<br />

O que eu pude saber eram coisas bem importantes. Por exemplo, agora eu<br />

já tinha um caminho no meu cérebro para transmitir mensagens para o Mago tele-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

paticamente. Podia controlar a química do meu corpo, e então soube que todos os<br />

sentimentos que temos são feitos num grande laboratório interno, e que, controlando<br />

este laboratório, podemos controlar o que sentimos. O medo, a alegria, a tristeza, o<br />

desespero, a compaixão, a dor, isto sem falar nos sentidos básicos como o olfato, o<br />

tato, a visão, a audição e o paladar, e tudo o mais que podemos sentir não passa de<br />

química que nosso organismo promove para que nosso sentido da realidade trabalhe<br />

melhor. E isto pode ser controlado!<br />

Através de mecanismos de autocontrole, os Magos conseguiram obter um<br />

elevado grau de experimentação corporal, que tornou toda esta química palpável e<br />

conhecida.<br />

Outra informação que me foi passada é que os Magos estavam a ponto de<br />

desenvolver uma transmissão telepática desses sentimentos. Isto é, poderiam fazer<br />

com que um receptor qualquer sentisse medo ou inveja ou amor ou qualquer outro<br />

sentimento bastando apenas o desejo por parte daquele que detivesse este poder. Fui<br />

mais a fundo nesta questão e indaguei em silêncio até onde eles tinham chegado nesta<br />

pesquisa. Então, a transmissão foi enfática: eles tinham conseguido fazer experiências<br />

com este processo. Era algo que eu queria perguntar para o Mago depois do nosso<br />

aprendizado telepático, pois não queria tirá-lo de sua concentração.<br />

Fui aprendendo rapidamente truques básicos de magia: acender uma pequena<br />

chama, como se localizar no escuro, fazer desaparecer pequenos objetos etc.<br />

Ao final da tarde, já estávamos exaustos, pois tínhamos dedicado praticamente<br />

umas seis horas nos concentrando e imaginando as aplicações do nosso aprendizado<br />

para uma possível utilização dos mesmos.<br />

O Mago e eu começamos a treinar certas capacidades ensinadas um ao outro,<br />

primeiramente com relação à transmissão de sentimentos. Foi ótimo e óbvio! Nós<br />

dois estávamos com fome. Então o Mago saltou como um gato, lançando o calcanhar<br />

em direção ao meu queixo. Esqueci-me, abaixando rapidamente, mas já o derrubando<br />

com uma rasteira em seu pé de apoio. E imediatamente transmitindo-lhe:<br />

“Aprendeste a teoria, a prática, mas não a velocidade: para isso deves treinar<br />

muito.”<br />

E ele me respondeu:<br />

“Prefiro ouvir tua voz”, olhando-me com uma expressão muito afetuosa.<br />

Fiquei vermelho, pois sabia que tipo de declaração era aquela. E respondi,<br />

agora usando a voz:<br />

– Sabes muita coisa para tua idade, não sabes?<br />

– Como assim? – me perguntou, meio que indignado.<br />

– Não achas que és muito jovem para esse tipo de coisa?<br />

– Ortal, preciso te explicar uma coisa, mas antes gostaria de te fazer uma pergunta,<br />

para comprovar minha intuição. Quantos anos eu aparento para ti?<br />

– Bem, na minha vila, pelo teu tamanho, acredito que no máximo uns doze<br />

anos.<br />

Ele soltou uma longa risada, deixando-me um pouco surpreso por sua reação.<br />

– Muito bem – falou -, era o que eu esperava. Não sei se tu sabes, mas meu


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

povo vive muito mais do que o teu, algo em torno de uns trezentos e cinqüenta anos,<br />

pois descobrimos a erva da longevidade, que te mostrarei mais tarde. Fora isso, temos<br />

vários mecanismos para conseguir aproveitar a vida fazendo-a durar muito mais do<br />

que qualquer outro povo soube. Portanto, nosso processo de envelhecimento é muito<br />

mais lento, tornando uma pessoa de dezoito ou vinte anos com aparência de como<br />

disseste dez ou doze!<br />

– Tu estás querendo me dizer que tens vinte anos? – falei, quase que com raiva,<br />

pois estava abismado.<br />

– Dezoito, para falar a verdade, mas, como meu pai dizia, com atitudes de dez!<br />

– falou, muito orgulhoso desta última parte.<br />

– Simplesmente não posso acreditar!<br />

– Acredita. E acredita também que, apesar das minhas atitudes de dez, sou uma<br />

pessoa muito alegre e adorava ficar em contato com as crianças da tribo quando elas<br />

eram vivas. Tenho conhecimento de gerações de Magos, pois descendo da linhagem<br />

principal deles. Ou seja, logo eu iria me tornar o Mago Maior da minha tribo, caso não<br />

tivesse acontecido esta calamidade.<br />

Eu estava sem fala. Como sempre, não sabia que tipo de sentimento estava<br />

passando por mim, só sei que ia da surpresa até a raiva. Então, pus em prática o que<br />

havia aprendido, deixando a coisa esfriar, me acalmando e... deu certo! Larguei uma<br />

gargalhada que até assustou o pequeno Mago. Ele olhou para mim e logo soube o que<br />

eu tinha feito.<br />

– Meus parabéns, Ortal. Nenhum iniciante em magia do corpo conseguiu<br />

domar seu espírito tão rapidamente como tu! Estou orgulhoso. Acho que meu pai teve<br />

razões de sobra para te escolher como meu companheiro.<br />

– Obrigado, caro amigo. Estou muito emocionado com tudo isso.<br />

– Ótimo! É assim que se deve ficar, afinal, recebeste informações muito valiosas.<br />

Mas agora vamos comer! Porque depois deveremos amadurecer nossos conhecimentos.<br />

E assim estávamos de novo nos energizando com a maravilhosa cozinha dos<br />

Magos. Desta vez comemos arroz com ervas e peixes que pescamos de uma enorme<br />

“piscina” que havia na aldeia. Como sempre, a comida foi feita à base de magia, mas<br />

desta vez o Mago exagerou:<br />

– Agora que já adquiriste alguns dos nossos poderes de controle do corpo, acho<br />

que podes experimentar a força de nossas ervas mais poderosas. Se por acaso sentires<br />

que as sensações vão sair do controle, passa-me imediatamente uma mensagem<br />

telepática, de qualquer modo estarei aqui do teu lado.<br />

Eu estava deitado bem no meio do salão principal. Uma luz direta caía sobre<br />

meu corpo. O Mago estava deitado ao meu lado e todas aquelas enormes estátuas<br />

pareciam nos vigiar.<br />

Comecei a flutuar, não meu corpo, mas minha alma. Agora via meu corpo<br />

iluminado de cima. Senti um breve estremecimento de minha alma quando observei<br />

o corpo do Mago ao meu lado. Mesmo que a magia já não me atingisse, sua beleza<br />

era indescritível. Sua capa prateada escorregara pelo seu corpo, deixando à mostra<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

toda sua pele incrivelmente branca e lisa. Suas pernas eram bem torneadas, como de<br />

alguém que passou a vida inteira correndo ou brincando. Seu torso era definido já com<br />

alguns desenhos de músculos de homem quase adulto. Ele parecia estar dormindo,<br />

mas não estava. Na verdade estava me observando, e sabia muito bem o que eu observava<br />

nele. Ele podia sentir o que eu estava sentindo!<br />

Porém, desviei o meu olhar para as estátuas, elas estavam comentando algo<br />

sobre mim. Olhei para o Mago de novo, ele estava lá deitado no mesmo lugar. As estátuas<br />

pareciam conversar num idioma muito estranho, mas logo comecei a entender.<br />

Minha alma flutuava no meio do enorme salão e as enormes estátuas estavam, a<br />

princípio me ensinando algum idioma antigo, mas logo percebi que não era bem isso.<br />

Elas me ensinavam o aprendizado da linguagem, com isto eu poderia compreender a<br />

linguagem dos homens antigos.<br />

Mas por que elas estavam me ensinando aquilo? Não estava entendendo o<br />

propósito, mesmo assim continuei a aprender. Era uma linguagem complexa que<br />

exigia muita concentração. Porém, foi passado de um modo simples, e logo estava<br />

compreendendo algumas das mais importantes línguas do passado, línguas que eram<br />

faladas havia mais de quatro mil anos!<br />

Por um momento as estátuas se calaram, mas eu comecei a entrar em outro<br />

devaneio. É interessante que tudo isto parecia ser um sonho, porém com um nível de<br />

percepção da realidade muito superior à própria realidade. O devaneio tornou-se mais<br />

forte e comecei a visualizar de longe o que parecia ser uma cidade realmente muito<br />

grande. Nossos memo-cristais nunca foram tão realísticos ao passar uma informação<br />

como este tipo de alucinação estava me passando. Comecei a me aproximar da cidade.<br />

Era algo muito estranho, tinha prédios enormes, luzes, muitas pessoas andando apressadamente,<br />

um cheiro muito forte e carregado no ar... agora já sabia! Eu estava numa<br />

cidade do passado! Imediatamente comecei a sentir uma violência muito grande emanando<br />

dali. O tamanho me assustava, a massa de gente me assustava, e todos aqueles<br />

objetos estranhos, além de não existirem florestas nem animais! Comecei a entrar em<br />

pânico. Na verdade eu estava tremendo, parecia que nunca iria sair daquele lugar.<br />

Então senti alguém me abraçando. Era o Mago! Senti seu pequeno corpo em contato<br />

com o meu, mas não era seu corpo, nem o meu. Fechei os olhos para não olhar mais<br />

aquela cidade fétida e terrível, e quando abri, estava de novo flutuando no salão com<br />

a alma do Mago nos braços da minha.<br />

Então, nossos espectros, em uma decisão conjunta, desceram para os nossos<br />

corpos, e lá permanecemos até o amanhecer.<br />

Quando acordamos, o Mago estava assustado:<br />

– Tenho certeza do que nos reserva o futuro, Ortal.<br />

Não tirei os olhos dele, e ele continuou:<br />

– Teremos nossas almas amaldiçoadas – Abri a boca de espanto. – Somos filhos<br />

da natureza – continuou – Temos a bênção dos cristais e das ervas, e dos animais<br />

e de tudo que rege este Planeta. Mas agora seremos amaldiçoados para sempre. Eu e<br />

tu. Nosso povo aprendeu a esquecer o ódio e a guerra. Durante séculos e séculos deixamos<br />

de lado todas as rixas entre seres humanos. Só matávamos para nos alimentar.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Cultivamos a amizade entre os povos e deixamos livres todos aqueles que queriam ter<br />

um modo de vida distinto do nosso, mesmo sabendo que, mais tarde, pereceriam pois<br />

não obedeciam às leis da Eco Justiça.<br />

– Agora, para que a humanidade não pereça nas mãos desse povo que atacou e<br />

destruiu todos os meus, deveremos buscar um conhecimento maldito. Pelo que vi no<br />

teu aprendizado, senti nosso destino. Senti que deveremos retomar o fluxo do ódio,<br />

como nossos ancestrais faziam e quase se autodestruíram. Senti que deveremos fazer<br />

uma longa viagem, através do passado, para poder readquirir o que em milênios conseguimos<br />

finalmente esquecer. Senti que o mais negro dos cristais caiu sobre nossas<br />

almas com sua ponta empapada do mais podre veneno existente na Terra e que seremos<br />

esmagados por ele, pois do nosso ódio surgirá mais e mais veneno.”<br />

E assim caiu no mais doloroso dos choros, num choro que nunca tinha visto<br />

antes. Ele agora estava em meus braços, soluçando como uma criança que ele era. E<br />

todas as estátuas começaram a chorar, e a luz do sol que entrava pelas janelas no teto<br />

se apagou, tornando o ambiente em uma penumbra. Um imenso fardo caiu sobre nós.<br />

Uma tristeza indescritível começou a assolar minha alma. Não iria aguentar muito<br />

tempo ver aquela criatura em meus braços sofrendo.<br />

Eu estava num estado lastimável. Aquilo que poderia ser um semideus estava<br />

se agarrando em minhas roupas fortemente, como se estivesse tentando se prender<br />

em mim para não cometer suicídio, de tanta dor que sentia em sua alma. Olhei para a<br />

frente para tentar alcançar algum caminho para apaziguar aquele desespero. No meio<br />

dos olhos tristes de todas aquelas estátuas comecei a notar uma fumaça verde, luminosa,<br />

que começara a brincar no ar que nos rodeava. Sem mais nem menos, a fumaça<br />

começou a tomar forma de uma pessoa, e logo a fumaça se tornou prateada. Sim, era<br />

o espectro do pai daquele que caíra em meus braços! O Mago Maior!<br />

– Deveria ter orgulho de carregar este fardo, pequeno Mago, pequeno filho,<br />

pequeno escolhido. Serão você e este cavalheiro que irão salvar nosso Planeta e nosso<br />

conhecimento daqueles que nos violaram. Por isso é que vocês dois foram escolhidos.<br />

Porque irão aprender o poder do ódio, das guerras, da hipocrisia, da má-fé, da mentira,<br />

da covardia, e irão derrotar o inimigo com isto e com nossos poderes que foram passados<br />

para vocês. Mas vão guardar este poder para vocês. Será o fardo que irão carregar<br />

e nunca dividirão isto com ninguém. Em troca, irão salvar o Planeta e receberão de<br />

mim uma surpresa.<br />

O Mago parecia mais calmo, mas de seus olhos as lágrimas não paravam.<br />

– Mas, mas o que iremos fazer? – perguntou o pequeno Mago.<br />

– Ainda não estou preparado para lhe responder, porém lhes digo que será uma<br />

tarefa muito difícil. Creio no seu poder e na coragem de Ortal. Apesar de perigoso,<br />

tenho certeza que não terão problemas para aprender isto. Acredito que, depois de se<br />

acostumarem com a ideia, irão até se divertir!<br />

– Nos divertir? – perguntou o pequeno Mago, abismado. – Como podes falar<br />

uma coisa dessas, meu pai?<br />

O espectro do pai cintilava, iluminando o espaço.<br />

– Não te aflijas, filho. Acredito na força de Ortal. E acredito que vocês, juntos,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

conseguirão passar tranquilamente por esta primeira obrigação pela sua raça e por seu<br />

Planeta, não é mesmo?<br />

A expressão do Mago Maior era de pertinência absoluta. Tanto eu como o<br />

Mago estremecemos. E o pequeno Mago falou, agora arrependido de sua falta de<br />

coragem:<br />

– Sim, pai.<br />

– Ótimo, continuem a se preparar. Em dois dias estarão partindo para uma viagem<br />

nunca feita antes por nenhum ser humano deste Planeta e talvez do universo: a<br />

viagem no tempo! Todo o poder de nossa tribo será empregado para tamanha façanha.<br />

Não decepcione aqueles que dedicaram a vida para você, e para você também, Ortal.<br />

Você não imagina o quanto nós fizemos para que você chegasse aonde está.<br />

E com estas palavras sumiu no espaço, deixando-nos ali parados, sem fala.<br />

Era de manhã e resolvemos sair daquele salão para animar os espíritos. Pois foi<br />

ao sairmos que tudo mudou. Acredito que o Mago Maior tenha feito isto para que o<br />

Mago de Prata melhorasse seu humor. Toda a cidade estava reconstruída! Havia flores<br />

por todas as partes. Peixes pulavam feito loucos para fora d’água no enorme lago que<br />

centralizava a aldeia. As casas estavam como novas com todos os seus cristais estalando<br />

à luz solar. Eu e o Mago nos olhamos e não tivemos dúvida. Tiramos a roupa e<br />

fomos direto ao lago. Antes de mergulharmos, o Mago me disse que estava na hora de<br />

me mostrar uma surpresa.<br />

Mergulhamos e fomos de encontro ao lindo mundo submerso; era fantástico!<br />

A superfície da aldeia dos magos era maravilhosa, com suas casas de cristais de todas<br />

as cores e a enorme parede de cristais transparentes que a circundava, o fundo do lago<br />

era um absurdo.<br />

Não sei como não havia notado isto antes, talvez por ter estado preocupado<br />

demais com as outras coisas, mas o fato era que o fundo do lago era feito inteiramente<br />

de... prata! A mais pura prata, com lindos ornamentos moldados para que os peixes<br />

pudessem brincar por entre as infinitas cavernas de corais feitas de cristais incrustados.<br />

Os cristais recebiam os raios solares de cima, pois a água era muito transparente,<br />

e de baixo, fruto da reflexão que a prata fornecia, fazendo do ambiente um<br />

mundo de cores que faria qualquer arco-íris morrer de inveja.<br />

O Mago parecia outra pessoa, e eu também! Aquele banho de beleza submarina<br />

adicionada à maravilhosa temperatura da água do lago prateado, sem contar a<br />

companhia das mais variadas criaturas que vivem naquele aquário de cristal, deram<br />

um banho de alegria aos nossos desolados espíritos. Ao sairmos da água, após horas<br />

de divertimento, estávamos exaustos e famintos. Comemos uma grande quantidade de<br />

frutas e o Mago me disse:<br />

– Ortal, precisamos trabalhar. Se vamos fazer uma viagem ao passado, deveremos<br />

retomar alguns aspectos culturais do povo antigo, principalmente entender a<br />

escrita, agora proibida, e as suas línguas. Vamos à câmara dos memo-cristais.<br />

Contornamos o lago prateado e tomamos a direção oposta ao grande salão.<br />

Andamos uns trezentos metros e viramos numa ruela à esquerda. Ao chegar ao fim


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

da rua, nos deparamos com uma construção de uma estrutura um tanto estranha. Ela<br />

tinha sua base como um quadrado; uns cinco metros quadrados, sem portas nem janelas.<br />

A partir deste quadrado as paredes subiam opostamente uma da outra num ângulo<br />

para fora, como uma pirâmide de ponta cabeça. A altura desse desenvolvimento era<br />

de uns dez metros. Mas depois a pirâmide tomava a direção certa, indo para cima e<br />

terminando seu pico com mais uns dez metros.<br />

Toda ela era negra e espelhada. Eu podia agora ver nossos reflexos em sua<br />

parede curva para fora.<br />

– O sol – falou o Mago – é uma das melhores fontes energéticas do nosso<br />

Planeta. Diz-se que foi por se utilizar desta fonte para o mal que a antiga civilização<br />

sucumbiu.<br />

– E foi aí que começou a Eco Revolta – falei empolgadamente.<br />

O Mago me fitou perplexo.<br />

– Então tu sabes sobre a história falada?<br />

– Sim, um pouco. E sobre as cidades e algumas coisas sobre a civilização passada<br />

também.<br />

– Ótimo, não precisamos perder muito tempo com isso então. Vamos colocar<br />

alguns memo-cristais em funcionamento, digerir rapidamente essas informações e<br />

voltar para a magia, que é o que devemos aprender.<br />

– E o senhor, um pouco de defesa pessoal.<br />

– Acredito na força do nosso poder mental, Ortal.<br />

– Talvez por isso que teu povo tenha sucumbido – respondi.<br />

– Meu povo não sucumbiu. Os corpos deles estão mortos, mas suas almas<br />

estão vivas e livres. E se os seus corpos morreram é porque não sabíamos como usar<br />

a magia para o mal. Por isso é que devemos aprendê-la do modo correto, sem que ela<br />

faça de nós escravos da maldade.<br />

– Acredito plenamente nisso, pequeno Mago, mas a defesa pessoal não é apenas<br />

um meio de saber lutar, mas um meio de conservar seu corpo e espírito.<br />

– Sim, tens razão – falou o Mago. – Mas vou mostrar-te algo que realmente<br />

conserva o espírito!<br />

Tirou um pequeno cristal do bolso de sua manta prateada e jogou para cima.<br />

O cristal ficou rodopiando parado no ar durante alguns segundos e o Mago gritou<br />

algumas palavras. Sua voz ressoou em ecos que duraram muito tempo. Eles foram<br />

sumindo, mas de repente voltaram, primeiro bem fracos e então crescendo, até que<br />

retornaram na altura da voz original. Mas não pararam por aí. O que era uma voz fina<br />

de um grito de uma criança começou a se tornar vagarosamente um rugido e logo um<br />

trovão interminável. Eu estava com os ouvidos tampados e o Mago na minha frente se<br />

postava de braços abertos para a construção na nossa frente.<br />

Uma das laterais da pirâmide começou a desaparecer. O Mago se voltou para<br />

mim. Deu um pulo para alcançar minha mão que se encontrava tampando um dos<br />

meus ouvidos. Segurou-a e gritou alguma coisa, me puxando. Como não ouvi o que<br />

ele disse, simplesmente pensou e me transmitiu:<br />

“Vem rápido antes que feche. Minha voz ainda é muito fraca para manter ab-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

erto muito tempo.”<br />

Corri com ele para dentro do estranho templo. O templo era apenas uma escada.<br />

Descemos, agora não tão rapidamente. No começo era escuro, mas, à medida<br />

que avançávamos, o ambiente se tornava claro e azulado.<br />

– O azul torna o espírito livre – falou o Mago.<br />

Estávamos num imenso salão azul. Tudo era refletido, desde as colunas que<br />

seguravam o local, as quais eram perfeitamente lisas e também reflexivas como as<br />

paredes, até nós mesmos, que ficávamos com uma espécie de textura azul e também<br />

reflexiva!<br />

– Ortal, agora vamos nos deitar e tu te tornarás um memo-cristal.<br />

– Como assim? – perguntei.<br />

– Esta câmara é inteira feita de memo-cristal. E ela tem a propriedade de tornar<br />

teu corpo um memo-cristal reversível, então vais escolher as memórias que quiseres<br />

sentir, através desta experiência. É lógico que isso só pode durar pouco tempo, pois<br />

senão tu te tornarás um cristal para sempre. Não tentes saber de tudo de uma só vez.<br />

Terá a oportunidade de voltar aqui mais vezes quando o teu corpo estiver recuperado.<br />

Isto pode demorar uns seis meses.<br />

– Quer dizer que eu vou ficar debilitado por fazer isso?<br />

– Não, apenas não é aconselhável retornar aqui com muita frequência, pois o<br />

nível energético desta câmara é muito grande. E afinal de contas, faremos esta viagem<br />

no tempo para aprender pessoalmente as coisas. Portanto, vamos ter aqui um breve<br />

entendimento do que vamos encontrar no passado.<br />

Deitamos e um mar de informação começou a pairar sobre minha mente. Eu<br />

estava de novo no passado, mas o que eu queria saber era como se iniciou a guerra<br />

que fez a Eco Consciência despertar. Infelizmente, pouco havia sobre isso. Aproveitei<br />

para rever as grandes cidades. Fiquei abismado com o tamanho das construções e<br />

com a feiúra das coisas. Embora os sentimentos das pessoas que tinham deixado essas<br />

memórias fossem inconfundivelmente bons. Como que extasiadas por um passado<br />

que não conheceram. Creio que as memórias foram, em sua maioria, distorcidas pela<br />

história falada, antes de terem descoberto os memo-cristais. Talvez fosse mais um<br />

capricho da Eco Justiça.<br />

Acabamos a sessão sem um resultado objetivo. Apenas tivemos informações<br />

que já conhecíamos. Falei ao Mago sobre minha ideia da distorção que a linguagem<br />

falada fez com as memórias e ele concordou plenamente.<br />

Eu estava meio descontente com o resultado dos nossos estudos, mas o Mago<br />

me animou. Disse que eu iria aprender tudo sobre o passado logo, logo, em carne e<br />

osso. Creio que ele já estava se acostumando com a ideia de viajar ao passado.<br />

Passamos mais dois dias numa rotina de aprendizados de magia, sempre regados<br />

a muitos cristais, muitos banhos no lago prateado, boa comida e belas caminhadas<br />

pela cidade dos Magos, agora reconstruída e bela. No final do segundo dia, o Mago<br />

me disse:<br />

– Creio que estamos no final do aprendizado, Ortal. Acredito que pelo menos a<br />

parte funcional da magia já aprendeste. Com algum tempo poderás desenvolver o que


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

foi aprendido e com um pouco de criatividade irás saber aplicar este poder nas devidas<br />

circunstâncias. Não tardará a hora em que meu pai me chame para a nossa viagem.<br />

Mal o Mago acabara de falar, surgiu no quarto um ponto de luz que tornou o<br />

ambiente claro. O rosto do Mago se iluminou com a luz e com um sorriso.<br />

– É chegada a hora Ortal! Iremos conhecer um mundo novo, e logo depois<br />

salvar o nosso!<br />

Eu mal acreditava na empolgação dele. Já não sabia o que me fascinava mais<br />

naquele lugar maravilhoso. Até aquele momento eu estava imparcial quanto a toda<br />

aquela missão, como se fosse algo que estivesse longe para acontecer, mas na hora em<br />

que o Mago falou aquilo, um sentimento de ansiedade tomou conta de mim. Resolvi<br />

botar à prova o conhecimento adquirido naqueles últimos dias. Concentrei-me em<br />

todo o processo de controle mental e corporal. Sabendo que todas as nossas reações<br />

emocionais são derivadas de uma química fabricada por nosso corpo e lançadas para<br />

o mesmo quando se trata de algum sentimento qualquer, resolvi interpretar o que estava<br />

sentindo, detectar qual era o elemento químico que gerava aquele sentimento e<br />

finalmente fazer com que o meu próprio corpo metabolizasse o antídoto. Após alguns<br />

momentos de tentativa... deu certo! Estava calmo de novo!<br />

O Mago sorria para mim com uma expressão de orgulho estampada na face!<br />

Era incrível como eu não conseguia me acostumar com a beleza daquela pequena<br />

criatura. Ele continuava a me olhar e sem mais nem menos se jogou no meu pescoço,<br />

entrelaçou suas pernas nas minhas costas e eu, atingido pela mesma emoção, abraceio<br />

fortemente.<br />

– Não tenhamos medo, Ortal. Temos um poder de milênios dentro de nossos<br />

cérebros, é só termos cuidado ao usá-lo.<br />

Assim, despencou do meu colo e me puxou pela mão atrás da luz que já saía,<br />

voando, porta afora. Descemos as escadas do grande salão e fomos para a câmara<br />

onde havíamos encontrado os pais do Mago antes.<br />

A câmara estava à meia-luz. Sentamos no chão e esperamos que os espectros<br />

chegassem. O aparecimento do Mago Maior foi, como das outras vezes, deslumbrante.<br />

Começou com alguns reflexos bem à nossa frente, com imagens desconexas que<br />

voavam aleatoriamente de um lado para o outro até que formaram a imagem do espectro<br />

iluminado e transparente. O Mago Maior trajava um manto que esvoaçava como<br />

se tivesse grande quantidade de vento no local. Seus cabelos estavam compridos e ele<br />

parecia estar muito jovem agora, tudo que eu podia ver eram tons de prata translúcidos<br />

e iluminados que formavam a imagem de um ser humano. Ele carregava nas duas<br />

mãos um perfeito círculo verde, do qual emanava uma luz muito forte.<br />

“– Saudações, jovens Magos, se assim me permitem que fale. Seguro nas<br />

minhas mãos o trabalho de meu povo que será concedido a vocês, sob o juramento de<br />

não utilizarem dele para o mal, interpretado pela quebra da magia e das leis da Eco<br />

Justiça. Com este cristal dos outros mundos vocês irão para outros tempos. Além de<br />

ser um cristal com o objetivo de transporte temporal, é também um memo-cristal.<br />

Vocês deverão implantá-lo atrás de suas orelhas, assim que ele tomar a forma conveniente.<br />

Através dele receberão algumas instruções básicas de como voltar para esse<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

tempo e o poder que ele pode depositar nas suas mãos. Uma vez colocado, vocês irão<br />

ser deslocados no tempo imediatamente; portanto, creio que devem se preparar para<br />

isso. Deverão colocar duas capas sobre suas roupas. As capas devem ser de prata<br />

escurecida. Deverão levar suprimentos de mel geriátrico concentrado, pois a comida<br />

no lugar para onde vão é extremamente ruim. Ao colocar o cristal atrás da orelha,<br />

ele nunca mais sairá, e para sua segurança, ninguém notará nitidamente, pois ele se<br />

tornará muito pequeno.”<br />

“Não precisarão levar mais nenhum cristal consigo, pois este tem o poder de<br />

todos os outros. Ao chegarem lá, aprendam o que devem e voltem imediatamente.<br />

Vocês retornarão quando os dois sintonizarem o mesmo sentimento de partida. Não<br />

revelem a ninguém de onde vêm, nem o que são, isto seria desastroso para vocês.<br />

Contem apenas um com o outro.”<br />

“Ah! Já ia me esquecendo! A magia que protege você está desfeita. A partir de<br />

agora, você tem um ótimo protetor, Ortal, o Mago guerreiro. Só falta ele se acostumar<br />

com o poder que tem nas mãos. Isso não levará mais que três ou quatro horas, pois,<br />

assim que eu desaparecer, vou dar-lhe uma pequena ajuda. Adeus, meu querido filho,<br />

adeus Ortal. Algum dia nos veremos de novo!”<br />

E, dito isto, desapareceu, deixando cair o círculo verde, que imediatamente<br />

parou de brilhar e, ao chegar ao chão, se espatifou em dois pedaços idênticos. Tanto<br />

eu como o Mago pegamos um pedaço. Corremos para os aposentos do Mago e imediatamente<br />

colocamos as capas que iam até nossos pés. Fomos ao depósito e pegamos<br />

umas drágeas de mel geriátrico das abelhas douradas e colocamos nos bolsos. Com<br />

isso poderíamos viajar.<br />

Quando o cristal parou de se modificar, alcançando um tamanho muito pequeno<br />

e uma forma de meia-lua que se encaixava precisamente atrás de nossas orelhas,<br />

instalamo-los.<br />

A princípio nada sentimos, mas logo o local onde estávamos desapareceu, e<br />

uma escuridão total tomou o seu lugar. A última coisa de que me lembro foi o Mago<br />

me olhando. Daí fiquei um pouco preocupado, pois achei que o Mago Maior se enganara<br />

quanto à retirada da magia, pois o pequeno Mago continuava igual, perfeitamente<br />

belo.<br />

CAPÍTULO 4<br />

O Inferno na Terra<br />

Um ruído de coisas sendo arrastadas foi a primeira impressão que obtivemos<br />

do mundo a que acabáramos de chegar. Logo vimos que estávamos dentro de um<br />

enorme salão, que estava um pouco escuro. As paredes à nossa volta eram negras<br />

e metálicas. Bem à nossa frente, no alto de uma parede, se encontrava uma enorme<br />

janela que continha uma série de desenhos em cores transparentes. Podíamos então<br />

ver que lá fora o dia estava sumindo. Esta janela começava com uma base reta, uns<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

dez metros acima de onde estávamos, e terminava pontiaguda; as paredes laterais formavam<br />

uma curva até chegar ao pico. Os desenhos eram em tons de vermelho, preto<br />

e laranja e simbolizavam bestas copulando com seres humanos, formando uma orgia<br />

baseada na dor e sofrimento.<br />

O movimento das pessoas ali dentro era frenético. Enormes caixas eram trazidas<br />

de um lado para o outro. Pessoas gritavam, bandeiras eram penduradas, balões<br />

subiam e luzes eram acesas e apagadas num ritmo absurdo. Parecia que ia haver uma<br />

enorme festa ali hoje.<br />

De repente, um som muito alto começou com uma batida violentíssima. Viramo-nos<br />

imediatamente para ver de onde o som provinha, mas logo cessou. Foi então<br />

que percebemos o verdadeiro tamanho do local. Do lado oposto ao que estávamos,<br />

a uns cem metros de distância, havia um palco com uma caixa e um homem atrás da<br />

mesma. Controlava algum equipamento, tinha nas orelhas dois globos enormes, que<br />

parecia estar utilizando para ouvir alguma coisa, pois mexia a cabeça em movimentos<br />

ritmados. Logo atrás dele, mais no alto, uma mensagem corria em luzes vermelhas, na<br />

antiga escrita proibida, que dizia:<br />

“00:01 HORA DO DIA PRIMEIRO DE JANEIRO DO ANO DOIS MIL O<br />

TEATRO NOSFERATUS TEM O PRAZER DE INICIAR O TERCEIRO MILÊNIO<br />

COM A MAIOR FESTA RAVE DO PLANETA – FELIZ ANO NOVO!”<br />

Então uma voz surgiu lá de cima dizendo que estava ótimo, e que era para ser<br />

colocado exatamente no horário.<br />

Sim, eu e o Mago tínhamos certeza de que aquilo que estávamos presenciando<br />

eram os preparativos para a comemoração de ano novo, do ano dois mil, há exatamente<br />

quatro mil e duzentos anos atrás de nossa era!<br />

O Mago se agarrava fortemente em minha mão. Logo ele me puxou e disse:<br />

Vamos nos esconder para ver o que significa isso.<br />

Fomos para tráz de umas mesas que ficavam num lugar muito escuro. Sentamos<br />

num banco e esperamos.<br />

Então pudemos ver todos os preparativos da festa. Muitas pessoas estavam<br />

naquele local. Finalmente observamos que existiam mais quatro andares para cima e o<br />

teto era uma cúpula em vidro com os mesmos motivos da enorme janela que tínhamos<br />

visto. Nos andares superiores podíamos ver muitas mesas e cadeiras sendo arrumadas.<br />

Em cada uma era posta uma cesta com muitas frutas e uma garrafa de um líquido borbulhante<br />

era depositado dentro de um balde de metal. Toalhas pretas eram colocadas<br />

em cada mesa juntamente com uma porção de objetos estranhos e coloridos.<br />

Olhei para o Mago e resolvemos testar nossos poderes. Sintonizamos nossas<br />

mentes e começamos a analisar em conjunto o lugar. Descobrimos através de nossas<br />

memórias ancestrais que aqueles objetos coloridos eram papel, um material proibidíssimo<br />

de ser feito no nosso tempo pela Eco Justiça. O líquido borbulhante era champanhe,<br />

e dentro dos baldes iriam ser colocados cubos de gelo, para que a bebida se<br />

tornasse mais gostosa. Era incrível como minha mente juntamente com a do Mago<br />

conseguiam localizar todas aquelas informações tão facilmente.<br />

Estávamos mais à vontade quando percebemos o que se passaria na tal festa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Sabíamos que iria haver uma enorme quantidade de pessoas, música altíssima, muita<br />

bebida e principalmente drogas, muitas drogas. Acredito que na maioria seriam<br />

parecidas com o cristal-dionísio, porém, é claro que devido às circunstâncias de sua<br />

produção, fariam muito mal ao usuário.<br />

Sentimos um movimento à nossa esquerda. O pessoal que distribuía as coisas<br />

estava se preparando para arrumar as mesas próximas daquela onde estávamos. Com<br />

toda a cautela saímos dali e procuramos uma escada para subir e verificar o andar de<br />

cima.<br />

O movimento de pessoas estava tão frenético que mal perceberam nossa passagem.<br />

Mas logo o Mago me transmitiu que ele estava se utilizando de um artifício<br />

de não-presença para nós dois naquele lugar. Ainda bem! Creio que aquelas pessoas<br />

logo notariam nossa presença, afinal, não é todo dia que se vê um ser de quase dois<br />

metros de altura com duas tranças até a cintura acompanhado de um Pequeno Mago<br />

com todos os ornamentos de seu rosto, azuis-esverdeados. Definitivamente não, não<br />

naquele lugar. As pessoas eram muito estranhas, eram pequenas, mesmo o Mago se<br />

tornara grande, perto delas. Eram fracas e com cara de cansadas. Tinham manchas estranhas<br />

na pele e olheiras fundas. Acreditei que era pelo fato de comerem mal e terem<br />

contato com um mundo poluído, como havia visto através dos memo-cristais. Logo o<br />

Mago confirmou minha teoria.<br />

Ficamos sentados numa mesa no primeiro andar do local, olhando toda a movimentação<br />

interna. Não paravam de chegar materiais para a festa. A coisa começou a<br />

ficar entediante.<br />

Mas, de repente, o som começou a tocar e as luzes começaram a piscar como<br />

loucas. O som era uma batida rapidíssima num ritmo alucinante. A potência era algo<br />

tão impressionante que tanto eu como o Mago tivemos que controlar nossa química<br />

corporal, pois o nível de adrenalina se tornou caótico. Cinco minutos depois o salão<br />

estava vazio, havia apenas o homem controlando o som. Alguns homens, vestidos<br />

com uma roupa uniformizada e muito elegante começaram a entrar. Consegui contar<br />

cem, mas depois me perdi. Eles tinham na mão um pedaço de papel e estavam muito<br />

solenes. Espalharam-se por todo o local, inclusive no nosso andar. Então, vários homens<br />

com o mesmo uniforme dos primeiros, mas escuros, e com um instrumento na<br />

mão segurando perto do ouvido, começaram a se mover feito loucos de um lado para<br />

o outro.<br />

De repente o som tornou-se ensurdecedor e uma chuva de fagulhas caiu do<br />

teto, ao mesmo tempo que dois enormes portais se abriram. Eu e o Mago nos abraçamos<br />

de tanto medo, não deu tempo nem de fazer o controle corporal. Uma verdadeira<br />

enxurrada de pessoas entrara ao mesmo tempo no local.<br />

Era gente de todas as raças e todas as cores, vestidas com as roupas mais espalhafatosas<br />

possíveis, com cabelos coloridos e arrepiados. Seus rostos eram pintados de<br />

todas as cores, porém o preto predominava, não só na maquiagem como nas roupas.<br />

Tinham adornos pontiagudos nos pulsos e nos pescoços. De suas orelhas, narizes,<br />

sobrancelhas, umbigos e sabe-se lá mais onde, pendiam diversos adornos prateados.<br />

Era o povo mais estranho que eu já tinha visto na minha vida.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Em um segundo o local estava tomado. O Mago me passou a informação de<br />

que nossa não-presença estava desfeita. Senti um arrepio, mas era algo necessário,<br />

pois deveríamos participar de tudo aquilo para aprender o que viemos buscar.<br />

Logo as pessoas começaram a pular feito loucas no ritmo da música. As garrafas<br />

eram abertas e seu líquido era ingerido mesmo no gargalo, e logo os homens de<br />

branco vinham e traziam mais e mais garrafas. Eu e o Mago passeávamos por tudo aquilo<br />

com muito receio. Podíamos ouvir as pessoas e entendê-las, mas nossa dicção não<br />

estava preparada para esta língua antiga e transformada por mais de quatro mil anos.<br />

Se alguém nos dirigisse a palavra por qualquer razão, não saberíamos o que fazer.<br />

Isto não custou a acontecer. Estava com medo que sentissem a presença da<br />

beleza do Mago, mas foi a mim que se dirigiam. Eu e o Mago estávamos de mãos dadas,<br />

pois estávamos com medo de nos separarmos, quando um homem preto que batia<br />

no meu queixo me encarou com um sorriso malicioso e gritou para que eu ouvisse,<br />

pois a música estava muito alta:<br />

– “E”, “E”!<br />

Fiquei parado na sua frente e logo o Mago me transmitiu que ele estava me<br />

oferecendo uma espécie de droga, e que era para eu imediatamente fazer um gesto<br />

que não com a cabeça. Logo o homem me abandonou, pois havia dois garotos que o<br />

abordaram para comprar sua mercadoria; começaram a discutir muito rapidamente.<br />

Fiquei abismado ao ver aquilo. Eram duas crianças que estavam a comprar a<br />

droga! Pelo que eu podia saber através dos ensinamentos dos memo-cristais, essas<br />

drogas eram usadas para incentivar a violência. O Mago me pediu para eu agir com<br />

naturalidade, pois aquele era definitivamente um mundo cruel e nada podíamos fazer<br />

para evitar a isso. Continuamos a andar com dificuldade pelo local sem dar muita<br />

importância, aparentemente, para o que víamos, ou o que sentíamos. O ar estava carregado.<br />

Havia fumaça para todos os lados e um cheiro de produtos que eu não conhecia<br />

começou a ser sentido. Era um cheiro muito desagradável de algo não natural,<br />

doce, e provinha da fumaça que cada vez mais era lançada no lugar para dar algum<br />

tipo de efeito nas luzes.<br />

As luzes, apesar de serem um tanto agressivas para nossos olhos, tinham uma<br />

certa beleza, fazendo desenhos incompreensíveis pelas enormes paredes do local.<br />

Porém nem se comparavam às luzes dos corais de cristais no lago prateado.<br />

Tanto eu como o Mago começamos a ficar um tanto enjoados naquele local. O<br />

Mago me puxou para um canto e falou:<br />

– Vamos tomar uma cápsula de mel-geriátrico, pois este ambiente está nos<br />

envenenando e poderemos logo passar muito mal aqui.<br />

Concordei imediatamente. Colocamos as cápsulas de nossa salvação na boca.<br />

Nunca imaginaria que através daquele gesto nossa estada no passado seria tão rápida!<br />

Logo que tomamos o mel geriátrico, dois homens de preto vieram em nosso encalço.<br />

Mostraram uma arma para cada um de nós e falaram com violência para nos encostarmos<br />

na parede.<br />

Fiz menção de defender tanto a mim quanto ao Mago, pois os homens, pela<br />

aparência, deviam ser fracos e fáceis de controlar, porém o Mago logo me transmitiu<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que aquilo seria a forma mais fácil de ter o que viemos aprender nesse lugar de malucos.<br />

Os homens nos revistaram e acharam umas dez cápsulas de mel geriátrico em<br />

nossos bolsos. Era óbvio que não sabiam do que se tratava.<br />

– Que espécie de droga é essa, cabeludo? – falou, referindo-se a mim e me<br />

dando um tapa na cabeça.<br />

O Mago logo me disse que estávamos completamente ligados agora e que iria<br />

me ajudar a controlar tudo isso, era só eu ficar calmo. E foi o que eu fiz.<br />

Não respondemos nada. Então os homens nos amarraram com braceletes de<br />

metal e nos levaram a um quarto.<br />

– Os primeiros traficantes da noite chegaram, chefe. Que devemos fazer?<br />

O homem com quem falavam estava se agarrando com uma mulher e nem<br />

sequer notou nossa presença, apenas falou entre beijos e pegações:<br />

– Chame a polícia e entregue-os com a droga, e não me atrapalhe mais!<br />

O segurança pegou o telefone e disse para a polícia que já tinha uma encomenda<br />

para eles.<br />

Em quinze minutos eu e o Mago estávamos passeando num carro de polícia<br />

por uma enorme cidade. Ficamos abismados com tudo aquilo. Luzes por todos os<br />

lados, pessoas se arrastando pelo chão, pessoas bebendo nas calçadas, uma gritaria o<br />

tempo inteiro devido à comemoração do ano novo, um cheiro horrível de ar estragado,<br />

tudo parecia um verdadeiro inferno. As cores da cidade eram feias mesmo sendo constantemente<br />

iluminadas. O ambiente parecia ser verdadeiramente hostil. Então imaginei<br />

que se tínhamos que aprender algo acerca do ódio, viemos ao lugar certo. Nem o<br />

inferno das antigas e inúteis culturas poderia ser pior que isso!<br />

Os dois policiais praticamente não notaram nossa presença, nem perguntaram<br />

nada para nós. Então o Mago me transmitiu que ele estava fazendo isso, pois sabia que<br />

assim seria mais fácil aprender o que queríamos.<br />

Os policiais nos tiraram do carro com violência e nos levaram para dentro<br />

de uma construção antiga e mal cheirosa. O lugar estava bem iluminado por dentro.<br />

Trancaram-nos numa sala e falaram que era para esperar o delegado, que, devido às<br />

comemorações do ano novo, iria demorar. Enquanto isso, falaram sarcasticamente que<br />

era para nós aproveitarmos a decoração.<br />

Logo que saíram, o Mago me disse:<br />

– Ótimo, agora terás tempo de sintonizar teu poder. Deves usar a cabeça, Ortal,<br />

lembra-te de tudo que foi ensinado a ti e alia com teus instintos mais antigos. Como<br />

deves perceber, estas pessoas acham que o poder que elas exercem sobre nós é através<br />

do medo. Procura aprender com isso. Acho que podes evitar o ódio, que seria muito<br />

perigoso para nós neste lugar, e enfrentar isso apenas fazendo-os sentirem um medo<br />

superior àquele que eles acham que nós estamos sentindo por eles.<br />

Então comecei a sentir uma comichão nas minhas mãos que logo foi sendo<br />

transmitido por todo o meu corpo. Uma sensação de poder começou a brotar dentro de<br />

mim. Eu estava extasiado! Senti que podia fazer o que quisesse! O Mago experimentou<br />

algo parecido, pois estávamos muito ligados mentalmente agora. Então resolvi


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

saber até aonde isso poder iria.<br />

E dentro daquele cubículo eu e o Mago começamos a flutuar no ar! Demos as<br />

mãos e começamos a rodar feito crianças, mas a meio metro de altura! Não parávamos<br />

de rir e durante algum tempo ficamos assim, rodopiando pela sala em que estávamos<br />

confinados, sem nos importar com isso. Acredito que o poder do Mago foi duplicado<br />

quando eu tive a capacidade de controlá-lo.<br />

Então paramos de brincar. Sentamos no chão e começamos a traçar nosso plano<br />

para aquelas pessoas que nos tinham prendido. Teríamos que ver se nossa teoria do<br />

medo iria dar certo. Se desse certo com estas pessoas, possivelmente daria com o povo<br />

que destruiu a tribo dos Magos e que estava a assolar o nosso futuro.<br />

Passaram uns trinta minutos até que entraram na sala dois policiais muito feios.<br />

Eles tinham quase o tamanho do Mago, finalmente alguém notou nossa presença!<br />

Quando olharam para o Mago ficaram um pouco assustados, mas fui eu quem os assustou<br />

mais. Meu tamanho e aparência eram realmente muito diferentes de todas as<br />

pessoas normais daquele tempo.<br />

Um deles falou pausadamente, olhando para mim, notando que eu dava quase<br />

o dobro do seu tamanho.<br />

– Quem foi que prendeu vocês e por quê?<br />

Resolvemos não responder nada. O outro se irritou.<br />

– Por que não responde, cabeludo?<br />

O Mago me olhou, para dizer que compreendia o que o homem estava dizendo.<br />

Então o homem olhou para o Mago e disse, evitando seus olhos:<br />

– E você, quantos anos tem? É menor de idade e está se envolvendo com drogas?<br />

E este aí com você é teu amante, é? Pois se for, vai levar a maior surra de sua<br />

vida.<br />

O Mago deu um passo adiante e transmitiu-lhe mentalmente:<br />

“Leva-nos ao teu superior.”<br />

Os dois deram um pulo para trás! O Mago estava certo! Esses homens temeriam<br />

o que não entendessem. Era só fixar um padrão dos seus não-conhecimentos e<br />

teríamos como fazer todo o distrito morrer de medo!<br />

Imediatamente um dos homens gritou:<br />

– Precisamos de reforços, tragam o delegado e rápido!<br />

Uns dez homens vieram ao nosso encontro e nos agarraram de qualquer jeito.<br />

Arrastaram-nos pelo corredor até que fomos jogados numa sala bem maior. Vários<br />

homens apontavam armas para nós. Depois, entrou um homem muito gordo na sala e<br />

foi sentar calmamente na outra mesa:<br />

– Então, o que é que os meus ratos estão temendo? Essas duas crianças?<br />

Ninguém respondeu. Os homens que estavam no cubículo e para os quais o<br />

Mago fez a telepatia deram um passo para trás e os outros começaram a rir deles. O<br />

delegado continuou:<br />

– Muito bem, o que os dois namoradinhos fizeram de errado para estarem em<br />

tão nobre local?<br />

– Foram presos com esta droga, senhor – falou o policial que nos prendeu.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Ah! O que temos aqui? – falou o delegado em tom sarcástico. – Muito bem,<br />

podem me explicar que tipo de droga é essa?<br />

Silêncio. O delegado fechou a cara.<br />

– Eu quero uma resposta! Quem são vocês e que espécie de droga é esta?<br />

Nada. Nem eu nem o Mago iríamos falar. De repente senti uma forte pancada<br />

em minhas costas. Um policial bateu com o cacetete em minhas costas com toda a força.<br />

Apenas fiz menção de olhá-lo e voltei a olhar o delegado, que estava boquiaberto.<br />

Aquela pancada derrubaria qualquer homem adulto, e pela minha aparência, apesar<br />

do meu tamanho, eu parecia uma criança para eles. Ouvi então um murmúrio atrás de<br />

mim e, logo, mais uma pancada. Porém, quando foram atingir o Mago, levantei a mão.<br />

Imediatamente três armas surgiram no meu rosto. E o delegado gritou:<br />

– Já chega. Por que estes garotos não querem falar? Alguém revistou suas<br />

roupas?<br />

– Não, senhor.<br />

– Então revistem! Bando de idiotas!<br />

O Mago me olhou. Transmitiu imediatamente a aquele que estava vindo em<br />

sua direção:<br />

“Não me toques! “<br />

O homem parou e o delegado gritou:<br />

– O que esta acontecendo aqui? Por que parou?<br />

Levantou e veio em nossa direção. O Mago me transmitiu:<br />

“Agora, Ortal!”<br />

Tanto das minhas como das costas do Mago surgiram por encanto duas asas<br />

de anjos prateadas e iluminadas. As armas dos policiais foram jogadas para as outras<br />

salas voando pela parede de vidro que as separavam. Imediatamente toda a delegacia<br />

estava nos vendo, a meio metro do chão, com enormes asas de anjos. Estávamos a<br />

encarar todos ali que, já brancos, se ajoelhavam!<br />

O delegado gritou para nós:<br />

– O que vocês querem? Quem são vocês?<br />

Jogamos mais sensação de medo sobre ele e apagamos as luzes do local. Agora<br />

só existia uma luz muito forte sobre nós que emergia de nossas asas! Sentíamos que<br />

todas aquelas pessoas iriam sucumbir diante de nossa presença.<br />

Então o Mago foi mais longe. Entoou uma nota de lamento tão forte que quebrou<br />

todos os vidros do local. As pessoas estavam paralisadas de pânico! O delegado<br />

implorava perdão e os homens não conseguiam nem ao menos fugir. Suavam feito<br />

loucos, com a boca aberta sob o efeito do grito do Mago.<br />

Agora no silêncio, sentíamos apenas o cheiro do medo no ar. Continuávamos<br />

a flutuar. Todos estavam nos olhando com os olhos arregalados. Então o Mago foi<br />

voando em direção ao delegado e transmitiu a todos que estavam nos olhando:<br />

“Agora concedo a vocês a dádiva que o Mago Maior deu um dia ao povo que<br />

tentou nos destruir, um povo tão mau quanto vocês, adoradores do ódio e da mentira.”<br />

“Vocês terão a visão mais bela que jamais viram em suas pobres vidas. Darei<br />

a vocês o poder de me ver sob o efeito da magia do Mago Maior, que foi transmitida


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

para o Mago-Cavaleiro, e será a última visão que terão, pois vocês são maus e vivem<br />

da calúnia.”<br />

Olhou para mim e disse na linguagem deles:<br />

– Mago-Cavaleiro conceda-me a beleza, a beleza perfeita, a beleza que um<br />

dia não te cegou, pois você tinha amor em seu coração. Mostre nossa gratidão a esses<br />

senhores, pois aprendemos com eles o poder através do medo e do ódio, pois é só o<br />

que eles têm em seus corações e não merecem viver com a dádiva da visão.<br />

Bati com força as minhas mãos e dela saiu um estrondo assombroso, que fez<br />

tremer todo o prédio. E com a propagação do som, saiu de minhas mãos, agora unidas,<br />

um facho de luz, luz de prata, que atingiu o Mago, fazendo de sua beleza uma beleza<br />

perfeita, tão perfeita que cegaria qualquer ser vivo que olhasse para ele.<br />

Todos os presentes, ao ver aquela criatura, ficaram abismados com sua beleza,<br />

mas logo começaram a gritar, pois jamais veriam de novo, estavam todos cegos.<br />

Não veriam mais nada e não se lembrariam de nada que tivessem visto na vida<br />

até hoje, a não ser a imagem daquele que tirou sua visão, o Mago de Prata. Estavam<br />

gritando como loucos. Desesperados, começaram a correr por todos os lados se debatendo<br />

entre si. Estavam com suas vidas condenadas. E eu e Mago também, pois<br />

tínhamos adquirido sua doença, a doença do poder e do medo.<br />

Depois disso, fechamos os olhos e deixamos a gritaria daqueles demônios para<br />

trás. Teríamos um trabalho grande no nosso tempo e não aguentávamos mais aquele<br />

inferno. Estávamos voltando para casa. Arrasados, mas estávamos.<br />

Capítulo 5<br />

A Cordilheira dos diamantes<br />

Sentimos um grande alívio quando respiramos o ar do grande salão das estátuas.<br />

Tudo parecia igual a quando partimos. Apenas algo nos chamou a atenção.<br />

O salão estava muito mal iluminado, só havia uma pequena estrela iluminando um<br />

pedacinho do chão, sob a qual havia um pedaço de memo-cristal. Fomos até lá para<br />

pegá-lo. O Mago logo colocou-o em contato com sua testa e imediatamente sentimos<br />

a seguinte mensagem:<br />

“Queridos Magos – era a voz do Mago Maior -, fico feliz pelo modo como<br />

conduziram sua viagem. Conseguiram obter a informação de que precisavam sem ser<br />

tomados pelo ódio nem pelo poder que este proporciona. Após um descanso merecido<br />

deverão ir para o oeste, pela estrada secreta. Lá encontrarão os sinais que os levarão à<br />

civilização que está destruindo as leis da Eco Justiça.”<br />

“A natureza está dividida. Ela não quer cometer o genocídio de nossa espécie,<br />

pois esta se mostrou valorosa após a Eco Revolta. Porém, existe uma tribo que cresce<br />

como formiga no mel, e despreza a Eco Justiça. Eles não têm o poder dos cristais, nem<br />

da magia, pois quando quiseram nos roubar, falharam, e fugiram da magia depositada<br />

em você, filho, porém sua ‘tecnologia artificial’ é complexa e poderosa; eles invadiram<br />

campos proibidos.”<br />

“Uma vez a natureza deu aos nossos ancestrais uma dádiva de nos deixar viver<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

num paraíso perfeito. Agora ela clama por nossa ajuda, pois senão terá que destruir<br />

seus próprios filhos benévolos, que somos nós.”<br />

“Devem se lembrar de algo muito importante. Vocês detêm um poder enorme.<br />

Ao contato com esta gente, este poder pode se tornar ambição, pois eles podem tentar<br />

convencer vocês, com suas ‘invenções tecnológicas’. Jamais se esqueçam de que<br />

vocês têm a maior das tecnologias, a tecnologia baseada na sabedoria da natureza em<br />

si, isto é, a Magia Prateada!”<br />

“Que os cristais enriqueçam suas almas!”<br />

Já estávamos muito mais inspirados. O Mago Maior sabia como levantar a<br />

moral das pessoas! Porém, ao sairmos do salão, tivemos uma surpresa. Era a surpresa<br />

que o Mago Maior nos tinha prometido antes da viagem no tempo.<br />

Lá estava Delirium, bem na frente do portal que separava o grande salão das<br />

estátuas do resto da aldeia! E ao seu lado um clone prateado, um cavalo idêntico a<br />

Delirium só que de prata. Era a sensação mais feliz que tínhamos desde a viagem no<br />

tempo!<br />

Os dois cavalos pareciam sorrir quando nós chegamos perto. Estavam alvoroçados<br />

com a nossa presença! Esquecemos o cansaço e os momentos horríveis que<br />

tivemos no passado. Pulamos nos cavalos e galopamos feito loucos pelas ruas desertas<br />

da aldeia. Para finalizar, entramos com cavalos e tudo no lago prateado; estávamos<br />

extasiados.<br />

Faltava apenas um belo jantar para terminar bem o dia! Quando entramos na<br />

cozinha, tivemos mais uma surpresa. Havia na mesa um banquete indescritível! Desde<br />

sucos até carnes, tudo era fantástico. Os pratos eram decorados com todos os tipos de<br />

legumes e flores comestíveis e bem no centro havia um pote de cristal que sobressaía<br />

dentre os outros. Tratava-se de uma erva verde com luz própria. O Mago ficou pasmo:<br />

– Meus cristais amados! Desta vez meu pai foi longe demais!<br />

– Do que se trata, pequeno Mago? – perguntei.<br />

– Estás vendo aquele vaso de cristal bem no centro da mesa, com aquela erva<br />

fosforescente?<br />

– Sim.<br />

– É a maior quantidade de erva da longevidade que já vi na minha vida! Ela é<br />

extremamente rara! Acho que se comermos tudo aquilo, voltaremos à infância! – falou,<br />

em tom de gozação.<br />

– Então tratemos de comer! Estou faminto!<br />

A comida tinha gosto de magia! Era algo fabuloso. A erva da longevidade deveria<br />

ser misturada aos outros alimentos e dava um gosto adocicado aos outros pratos.<br />

As carnes tinham cores especiais e com molhos multicoloridos pareciam ter saído de<br />

um sonho absurdo. Comecei a perceber que, à medida que íamos comendo, tanto eu<br />

como o Mago começamos a sentir algo realmente estranho. Quanto mais comíamos<br />

a erva da longevidade, mais as cores ficavam intensas! E uma sensação de paz de espírito<br />

misturada com uma inspiração vital era acompanhada de uma leve melodia que<br />

começara a invadir o ar.<br />

Eu olhava para o Mago e parecia que ele sentia a mesma coisa que eu, e na


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

verdade sentia! Pois eu podia sentir o que ele sentia, mas não de uma maneira superficial,<br />

como no passado, mas algo intenso. Agora a sensação estava tão forte que eu<br />

podia ver o Mago por dentro! Conseguia ver sua pulsação, sua corrente sanguínea,<br />

sua vida e finalmente seu espírito! Mas logo reparei que eu estava me vendo! Sim, eu<br />

estava dentro do corpo do Mago e estava me vendo com os olhos do Mago, e sentia<br />

tudo o que ele sentia, pois eu estava no seu corpo e ele no meu! Estávamos olhando<br />

um para o outro completamente extasiados, pois nunca o Mago tinha feito tal magia.<br />

Controlamos um pouco a situação e cada um voltou para o seu corpo.<br />

A sensação de paz e poder continuava. As cores vibravam freneticamente, e o<br />

Mago falou:<br />

– Eu tenho certeza de que este poder provém da erva da longevidade. Nunca<br />

ninguém comeu tamanha quantidade! Acho que nosso poder aumentou ainda mais,<br />

Ortal!<br />

– Eu nunca imaginei que alguém poderia ter um poder deste tamanho! Nós<br />

simplesmente trocamos de corpos!<br />

– Foi realmente uma loucura. Creio que isso pode ser muito proveitoso no<br />

futuro.<br />

Agora estávamos empanturrados de comida e começamos a sentir um sono<br />

abismal, afinal fazia muito que não dormíamos e tínhamos tido momentos bastante<br />

cansativos.<br />

– Vamos dormir, Ortal. Precisamos descansar, por mais que esta erva faça-nos<br />

sentir fortes, estamos fracos e com sono.<br />

– Sim, estou com muito sono.<br />

E assim dormimos quase doze horas seguidas.<br />

No dia seguinte, acordamos um pouco mais tarde do que de costume. Arrumamos<br />

com muita calma nossas bagagens, com todo o tipo de ervas, cristais e principalmente,<br />

comida.<br />

Arrumei minhas armas, que estavam guardadas, e fomos cuidar dos cavalos.<br />

Após um breve desjejum, tomamos a estrada que saía da aldeia. Contornamos a muralha<br />

de cristal por fora, pela estrada secreta, e rumamos para o oeste.<br />

Os dois cavalos pareciam estar muito entusiasmados com a viagem, pois trotavam<br />

alegremente por entre a floresta. O dia estava maravilhoso e o Mago ia cavalgando<br />

a meu lado, transmitindo-me telepaticamente uma bela e alegre música que<br />

falava sobre novas sensações. A melodia era realmente alegre e a voz não era do<br />

Mago, mas de alguém que ele provavelmente inventara. A música tinha uma batida<br />

parecida com a música que tínhamos ouvido no passado, mas não era tão forte e com<br />

certeza, mais melódica.<br />

Então resolvi entrar na brincadeira. Tomei as rédeas da transmissão e encaixei<br />

uma outra melodia, porém na mesma batida. Agora quem cantava era uma voz um<br />

pouco mais acentuada. O Mago adorou e continuou a ouvir. Assim, passamos a inventar<br />

novas músicas o tempo inteiro. Mas algo nos interrompeu. Já tínhamos viajado<br />

muito tempo e não sentíamos o tempo passar. Foi guando ouvimos um estalido atrás<br />

de nós.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

“Não pares, Ortal – pensou o Mago. – Vamos continuar como se nada tivesse<br />

acontecido, mas presta atenção! Tu te concentrarás o máximo possível. Tomarás conta<br />

do meu corpo e do teu ao mesmo tempo. Enquanto isso eu voarei sem meu corpo e<br />

verei por cima o que nos persegue. Não te preocupes, não levará mais que alguns<br />

segundos. Agora começa a penetrar no meu corpo enquanto eu saio lentamente. Entendeste?”<br />

“Já estou aqui. Estás sentindo?”<br />

“Sim! É ótimo estar aqui contigo! Já volto. Cuida bem de mim!”<br />

Então consegui ver através dos meus olhos e dos olhos do Mago, seu espectro<br />

saindo de seu corpo. Era incrível! Até nisso o Mago era prateado! Ele saiu voando e<br />

foi para cima e para trás. Continuei na mesma marcha, controlando tanto o meu corpo<br />

quanto o dele. Era incrível, eu virava o rosto do Mago e me via! Depois eu virava o<br />

meu rosto em direção ao corpo do Mago e me via também! Logo depois ele voltou.<br />

– Podes sair, Ortal. E podes parar de cavalgar também.<br />

– Quem nos persegue? – perguntei.<br />

– Já vais ver – respondeu, colocando os dedos na boca e soltando um estrondoso<br />

assobio.<br />

Logo depois apareceu um imenso e peludo cachorro, inteiramente branco e,<br />

como não podia deixar de ser, prata. Pulou em cima do Mago com o rabo abanando.<br />

Este deu um grito, abraçando o cachorro.<br />

– Léspas! Não acredito que estás vivo!<br />

Então o Mago me olhou e disse:<br />

– Ortal, este é o Léspas. Um dos cachorros da aldeia. Creio que ele vem nos<br />

seguindo desde que saímos de lá. Ele é um ótimo companheiro, mas acho que vou<br />

pedir para ele voltar. Penso que, se ele for para casa de Sebastian, ficará mais seguro,<br />

não achas?<br />

– Ele é um cachorro muito simpático, pequeno Mago, mas creio que seria melhor<br />

ele ficar, pois não sabemos o que vamos encontrar pela frente.<br />

– Léspas! – gritou o Mago. – Para casa de Sebastian! Agora!<br />

E assim, sem vacilar, o enorme monte de pelos saiu correndo para o meio da<br />

floresta. O olhar do Mago estava melancólico.<br />

– Vamos, Ortal. Logo na frente existe um lago ao pé de uma pequena cachoeira<br />

onde poderemos comer e passar a noite.<br />

Passamos a um trote um pouco mais rápido para chegar ao local.<br />

Das águas do pequeno lago saía uma leve bruma que deixava toda a grama<br />

verde em volta com uma aparência quase mística. Havia muitas flores no local, e ao<br />

redor de tudo, as árvores formavam uma imensa parede viva.<br />

O Mago parou em frente de tal paraíso e me perguntou:<br />

– Já viste algo semelhante, Ortal?<br />

A princípio não tinha notado nada de diferente no aspecto daquele lugar. Embora<br />

fosse muito bonito, não tinha nada de extraordinário.<br />

É claro que o Mago estava me escondendo algo. Esperei para ver o que seria a<br />

próxima surpresa. De momento nada. Desci de Delirium e o Mago desceu de Magia


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

(era esse o nome de seu novo cavalo). Começamos a preparar uma pequena fogueira<br />

para esquentar os alimentos que tínhamos trazido. Sentamos e comemos. O Mago<br />

parecia se divertir com a minha cara! Após um breve descanso, o Mago falou:<br />

– Que tal um banho, Ortal?<br />

– Claro, seria ótimo!<br />

Despimo-nos e fomos de encontro às águas mornas do lago. Após nadarmos<br />

um pouco e brincarmos nas águas, nos encostamos numas pedras na margem e,<br />

aproveitando a temperatura e a corrente da água e relaxamos.<br />

O lago estava cheio de Magos em volta. Todos estavam vestidos com suas<br />

enormes capas prateadas e pareciam flutuar. Logo à nossa frente havia uma menina<br />

grávida que flutuava na horizontal, a uns dez centímetros do nível da água. Ela era extremamente<br />

bonita e parecia ter apenas alguns anos a mais que o Mago. As brumas deixavam<br />

seu corpo parcialmente à mostra, envolvendo-a cada vez mais. Um dos Magos<br />

que estavam do outro lado do lago começou a flutuar na direção da menina, e agora eu<br />

podia reconhecê-lo! Era o Mago Maior! Mas o que ele estava fazendo ali? Ele chegou<br />

bem perto da menina e apalpou seu ventre. Com alguns gestos delicados começou a<br />

fazer o trabalho de parto. Os outros Magos, em volta, jogavam o pó prateado para dentro<br />

d’água, o que dava um efeito muito belo ao ambiente. Logo nasceu uma criança,<br />

um anjo, um ser assexuado. E em seguida veio uma entonação maravilhosa de mil<br />

vozes num coro alegre e forte. Após isso, tudo desapareceu.<br />

– Foi assim que eu nasci, neste lugar!<br />

– Meu Deus!<br />

Para variar, eu estava pasmo.<br />

– Tu te lembras do teu nascimento?<br />

– De algumas partes sim, mas a maioria foi-me passada pelo memo-cristal.<br />

– Que coisa maravilhosa!<br />

Estava olhando diretamente nos olhos do Mago, e ele nos meus. Ele não se<br />

movera dali nem um centímetro. O que viria a seguir, perguntei a mim mesmo.<br />

– Tu me amas, Ortal?<br />

Foi uma bomba! Era óbvio que uma hora ou outra essa questão viria à tona, e,<br />

para não mudar o costume, o Mago a fez vir na hora mais improvável possível.<br />

– Eu ainda não entendi uma coisa, pequeno Mago. Como posso amar-te se<br />

provavelmente já não somos do mesmo povo, isto é, da mesma espécie? Afinal, eu<br />

nasci como um ser masculino e sei que sou um homem, mas tu... Bem, eu nem sei<br />

como definir-te.<br />

– Isso não importa. Apenas o amor importa. Eu tenho certeza que tu me amas,<br />

pois já caminhei pela tua mente inúmeras vezes, assim como já caminhaste na minha,<br />

mas eu gostaria de ouvir isso de ti.<br />

Apoiei minhas costas nas rochas e tomei com minhas mãos seu rosto. Eu estava<br />

tremendo! O mundo desabou. Ficamos assim, nos olhando, durante muito tempo.<br />

Saímos do lago e fomos dormir, sem nem uma palavra, sem nem uma mensagem<br />

telepática. Já não precisávamos mais disso, éramos uma pessoa só. Parecia que nem<br />

nossos corpos eram distintos.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Acordamos na mais bela manhã de nossas vidas. Eu ainda estava um tanto<br />

preocupado com nossa relação e procurei guardar o máximo desta preocupação dentro<br />

de mim, para que o Mago não percebesse. Afinal, acho que alguma privacidade<br />

deveríamos ter.<br />

Recolhemos todo o nosso material, sem deixar de comer antes algumas frutas,<br />

e tomamos a estrada. Não nos comunicávamos desde ontem, não por estarmos arrependidos<br />

de alguma coisa, muito pelo contrário, para que aquele momento continuasse<br />

o máximo de tempo.<br />

Com muita suavidade, o Mago começou a despertar-nos para a realidade. Fez<br />

que eu ouvisse uma bela música, com uma melodia muito forte e uma letra maravilhosa.<br />

Cavalgamos rapidamente durante o dia todo. Ainda estávamos em silêncio,<br />

apenas as músicas do Mago cortavam a floresta, porém sabíamos que só nós dois<br />

ouvíamos. Flagrei-me pensando que aquilo era um tremendo egoísmo de nossa parte,<br />

afinal, naquele momento tão feliz, toda a floresta deveria ouvir aquela bela canção. Eu<br />

estava realmente apaixonado!<br />

O silêncio foi finalmente quebrado quando chegamos ao oceano. Estávamos<br />

num platô muito acima do nível do mar, e lá de cima podíamos ver quilômetros de<br />

praias. Fixei meu olhar na linha do horizonte e quase caí do cavalo! Avistei a cordilheira<br />

de diamantes!<br />

– Estás vendo aquilo, pequeno Mago?<br />

Ele parecia divagar com alguma coisa na praia.<br />

– O quê? – perguntou logo, olhando na direção dos meus olhos.<br />

– Pelos cristais! – gritou, e logo foi descendo de Magia, seu cavalo.<br />

Tratava-se de uma imensa cordilheira de montanhas todas feitas de diamantes<br />

que cortavam de um pólo ao outro o imenso oceano! Era algo absolutamente maravilhoso,<br />

mesmo visto assim, de longe.<br />

– Será que temos que atravessar isto, Ortal?<br />

Olhei para ele com cara de pasmo.<br />

– Atravessar o quê? O oceano inteiro a cavalo ou a cordilheira voando?<br />

Soltamos uma risada meio nervosa quando fomos interrompidos por algo.<br />

Logo eu desembainhei a espada e corri para o mato. O Mago flutuou cinco metros de<br />

altura e me indicou a direção da onde vinha o ruído. Em um segundo eu estava com<br />

uma criatura pequena, com o fio de minha espada em sua garganta.<br />

A criatura não pôde acreditar em tamanha rapidez do golpe, mas logo estava<br />

tentando me acalmar.<br />

– Calma, calma, nobre cavaleiro. Pensei que eram vocês os dois por quem<br />

espero há tanto tempo!<br />

– E quem esperas há tanto tempo, curiosa criatura? – perguntei, e logo chegou<br />

o Mago atrás de mim.<br />

– Espero um Mago e um cavaleiro para providenciar auxílio em suas jornadas,<br />

mas vejo que me enganei, porque vejo apenas duas crianças aqui.<br />

Olhei para o Mago e quase não me contive em cair numa gargalhada. O Mago


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

parecia enfrentar o mesmo fardo. Então o Mago perguntou:<br />

– E quem te mandou para que prestasses auxílio?<br />

– Ora, não sei. Apenas vi um ser muito grande de prata num sonho dizendo<br />

para eu auxiliar um cavaleiro e um mago em sua travessia pelo oceano. E como<br />

acredito em sonhos e não tinha mais nada o que fazer, vim verificar por estas paragens<br />

se era ou não verdade.<br />

– Isso é bem coisa do meu pai, Ortal.<br />

– O que disse? – perguntou a criatura. – Ortal? Isto é, seu nome é Ortal? –<br />

Agora a criatura me olhava embasbacada. – Pelos Cristais! Era verdade. E você deve<br />

ser o Mago... Mas como? Não passa de uma criança!<br />

Então o Mago bateu três vezes as palmas das mãos e cada vez que ele batia<br />

todo o lugar mudava inteiramente de cor. Primeiro tudo ficou lilás, depois laranja,<br />

depois verde; e na quarta vez tudo ficou normal.<br />

A criatura, que parecia um duende, ajoelhou-se.<br />

– Pelos deuses, me perdoem! Sou ignorante o bastante para confundir um<br />

grande cavaleiro e um Mago de Prata!<br />

Mas o Mago logo acariciou sua cabeça e disse.<br />

– Não temas, pequeno duende. É claro que não poderias imaginar que éramos<br />

nós que procuravas. Meu pai gosta de fazer surpresas. Agora leva-nos à tua casa e<br />

mostra-nos como atravessar este lugar – falou, apontando para o enorme oceano.<br />

– Não vou apenas levá-los à minha casa. Irei levá-los à minha aldeia e apresentá-los<br />

para todos aqueles que não acreditam em meus sonhos. Provarei que finalmente<br />

um se tornou realidade!<br />

O duende postou-se à frente numa complicada descida por um estreito caminho<br />

pelo meio do mato. Já estava escurecendo e a vista para o mar era realmente muito<br />

bela. O pôr-do-sol refletia centenas de arco-íris na imensa cordilheira de diamantes.<br />

Parecia uma cena épica!<br />

Então chegamos a uma aldeia de casas pequenas, mas muito bonitinhas, todas<br />

feitas de madeira, com os telhados pontiagudos provavelmente feitos de um tipo de<br />

cristal avermelhado. A aldeia formava um círculo ao redor do que parecia ser uma<br />

grande fogueira pronta para ser acesa.<br />

O povoado estava alvoroçado com pequenos duendes correndo para todos os<br />

lados com todo o tipo de afazeres. Todos estavam vestidos com roupas espalhafatosas,<br />

com cores gritantes e imensos capuzes que iam até os pés. Muitas crianças corriam<br />

para lá e para cá como loucas, brincando. Suas roupas eram mais berrantes que as de<br />

seus pais e produziam um efeito no mínimo, caótico para quem visse aquilo de fora,<br />

como nós.<br />

Quando repararam em nossa chegada, todos saíram correndo mais ainda, e<br />

gritando para dentro de suas casas, batendo portas e janelas como se tivessem visto<br />

um fantasma! Foi uma cena hilariante. Em um segundo a aldeia estava deserta! Mas<br />

logo o duende que nos acompanhava gritou:<br />

– É desta maneira que vocês recepcionam meus convidados? Esses gigantes<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

não são maus, eles são dois viajantes que necessitam de nossa ajuda. São aqueles que<br />

eu tinha dito que iriam aparecer por aqui, do povo prateado! Seus imbecis! Será que<br />

são tão covardes assim? Bando de palermas amedrontados. É por estas coisas e por<br />

outras que são baixos como formigas!<br />

Aos poucos foi se formando um círculo de pessoas pequenas em nossa volta.<br />

Todos muito curiosos e assustados com a nossa presença. O duende voltou a falar:<br />

– Povo pequeno, esses são meus mais novos amigos: Ortal, o cavaleiro, e o<br />

Pequeno Mago de Prata.<br />

Então todo o povo soltou um breve grito uníssono de comoção. E o duende<br />

continuou.<br />

– Nós devemos ajudá-los, pois foi o pai desse garoto que apareceu no meu<br />

sonho dizendo que tínhamos que ajudá-los a atravessar o oceano.<br />

Todo o povo ficou estarrecido com tal ideia e logo um dos duendes falou:<br />

– Estás lelé da cuca, Piri? Como pode ver, esses dois gigantes não passam de<br />

duas crianças gigantes, e queres que eles atravessem o oceano para caírem logo nas<br />

mãos do povo Blasfêmico? Imaginas que esses dois podem ser maiores do que nós,<br />

mas como vão fazer se forem capturados pelo Povo do Mal? Vão virar escravos ou<br />

coisa pior. Como podes notar, essas duas crianças não têm um mínimo de poder para<br />

lutar com tal povo. Acho melhor encaminhá-los para seus pais para que eles possam<br />

terminar de serem amamentados! E essa história de Mago? Não sabes que o Povo de<br />

Prata foi destruído pelos Blasfêmicos?<br />

Logo o tagarela parou de falar, afinal, eu e o tal duende Piri não parávamos<br />

de rir e o Mago já ficava um tanto irritado de ser chamado de criança. Caminhou em<br />

direção ao duende que falava e abaixou-se para bem perto dele, olhando-o nos olhos e<br />

fazendo-o estremecer com sua beleza e o seu tamanho. De fato, o duende deveria ter<br />

uns trinta centímetros de altura e até o Mago parecia ser um gigante perto dele. Todo<br />

o povo ficou muito assustado com tal procedimento, mas logo o Mago se levantou e<br />

começou a falar:<br />

– Muito bem, povo pequeno, muito bem, caro Quiri, irmão de Piri, filho de<br />

Locoi e de Martara...<br />

Mas o duende interrompeu-o:<br />

– Ei, como sabe meu nome, garoto?<br />

O Mago virou-se bruscamente para o duende e, já irritado, falou:<br />

– Cala-te, Quiri. Sei seus nomes, pois sou o Mago de Prata, o último Mago que<br />

sobrou da minha aldeia prateada, a qual, como sabeis, foi destruída por este povo que<br />

chamais de Blasfêmicos. Estou acompanhado pelo meu amigo e também Mago, que<br />

além de Mago é um cavaleiro das terras azuis. Estamos numa missão de achar esse<br />

povo maldito e livrar o nosso Planeta deles. Sabemos que será uma missão difícil e<br />

não temos nem ideia de como proceder, mas tende certeza de que temos poder suficiente<br />

para isso.<br />

O povo logo soltou mais um uníssono grito de comoção pelas palavras do<br />

Mago, porém o duende tagarela disse:<br />

– Poder? Mago de Prata? Você deve ter andado muito com o Piri, esse meu


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

irmão que é um lunático de marca maior. Acho que você e esse seu amigo aí deveriam<br />

passar a noite aqui, pois já é tarde, e amanhã bem cedinho tomar a estra...<br />

O duende não conseguiu terminar a frase, pois do casaco do Mago começaram<br />

a sair milhares de borboletas fluorescentes!<br />

– O que estava falando, Quiri? – perguntou o Mago sorrindo.<br />

E logo as borboletas estavam em volta de Quiri e capturando-o elevaram-no<br />

do chão uns três metros de altura! Todo o Povo caiu de joelhos ao ver aquela cena.<br />

Mas logo soltaram uma gargalhada ao ver a cara do duende. Em seguida as borboletas<br />

desapareceram e o duende estava nos braços do Mago, que o devolveu ao chão.<br />

Logo depois estávamos em volta de uma fogueira no meio da aldeia, comendo<br />

vários tipos de alimentos imagináveis. O tal duende Quiri, que parecia ser o chefe,<br />

comandava tudo com veemência. Sentou-se ao nosso lado e, todo querido, começou<br />

a explicar como era o povo Blasfêmico e como iríamos chegar até lá. Falou que o tal<br />

povo queria a todo o custo se apoderar das terras desse lado do oceano e muitas vezes<br />

passava para cá, mas nunca se deparara com sua aldeia por ela ser muito pequena e escondida.<br />

Após a queda da aldeia do povo prateado, as excursões do povo Blasfêmico<br />

pararam, não se sabe por quê. Eu e o Mago sabíamos, e já começávamos a confabular<br />

secretamente como iríamos lidar com esse povo.<br />

O duende Quiri nos disse que haviam sobrado várias barcaças do povo Blasfêmico,<br />

pois parecia que muitos não conseguiram retornar, talvez por terem sido mortos<br />

na batalha. E que nós poderíamos utilizar estas barcaças para atravessar o oceano.<br />

O Mago me passou secretamente a informação de que nenhum dos Blasfêmicos<br />

foi ferido na aldeia prateada, e concluiu que os que ficaram cegos possivelmente<br />

foram executados pelos outros, pois eles deveriam achar que os cegos carregavam<br />

uma magia má. Este era outro ponto que deveria ser estudado.<br />

Após várias horas de tagarelices desse povo que se mostrou muito simpático<br />

e hospitaleiro, fomos dormir, pois no dia seguinte deveríamos preparar a travessia do<br />

oceano.<br />

Eu e o Mago tivemos que dormir em uma cabana de tecido, pois as casas eram<br />

muito pequenas para nós. Estávamos muito cansados e dormimos profundamente.<br />

Acordei sobressaltado. Olhei para o lado e o Mago não estava. Havia várias<br />

marcas de pegadas de botas esquisitas mas nenhuma do Mago. Ele fora levado, raptado.<br />

Soltei um berro tão forte que acordou a aldeia inteira. Saí correndo, acordando<br />

todo mundo. Em um segundo a aldeia inteira estava em pé, já procurando pistas do<br />

paradeiro do Mago. Logo percebemos que realmente foi uma emboscada, pois os<br />

guardas que faziam a ronda noturna foram encontrados mortos! Pelos deuses, agora o<br />

povo estava desesperado, chorando, enquanto eu estava paralisado, estava realmente<br />

em pânico. O Mago de Prata tinha sumido! Não podia acreditar naquilo. Havia uma<br />

gritaria enorme ao meu redor, mas minha mente não estava mais ali. Eu caí de joelhos<br />

e se não fossem os duendes jogarem um balde de água em mim, acho que teria tido<br />

um colapso nervoso.<br />

Tentei manter a calma na forma de controle corporal. Procurei fazer contato<br />

telepático com o Mago, mas não consegui. Ou ele estava em transe, sob o efeito de<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

alguma droga ou estava... morto. Não, eles não o matariam, afinal eles precisam do<br />

Mago vivo, para poder roubar os seus poderes e tentar dominar o mundo. “Malditos!<br />

Nunca conseguirão!”, pensei.<br />

– Quiri e Piri, reúnam a aldeia aqui imediatamente – falei, em desespero.<br />

Toda a aldeia reuniu-se à minha volta.<br />

– Amigos duendes, estamos a enfrentar uma fase difícil para nossas vidas. Se<br />

este povo maldito se apoderar dos poderes do Mago, estaremos condenados. Não há<br />

tempo a perder. Uma parte da aldeia deverá me ajudar na travessia, a outra deverá<br />

encontrar o quanto antes a minha tribo. Ela fica no meio das Florestas Azuis. Devereis<br />

levar um memo-cristal com informações confidenciais para o Lorde Pompe<br />

Carmalhoc. De maneira nenhuma podeis vos utilizar desse cristal, apenas se o Lorde<br />

autorizar.<br />

“Muito bem, os que vão preparar a travessia que comecem já; os outros me<br />

esperem no centro da aldeia, pois deverei ficar a sós para preparar o memo-cristal.”<br />

Então todo o povo, num grande alvoroço, começou a se mexer. Eu afastei-me<br />

sozinho, para os arredores da aldeia. Com muita dor no espírito me sentei e retirei um<br />

memo-cristal virgem da minha algibeira. Comecei a contar rapidamente o que havia<br />

ocorrido até então. Depois transmiti alguns poderes mágicos e como eles funcionavam,<br />

e depois, com todo o cuidado, deixei claro que a próxima informação deveria<br />

ser passada apenas para as pessoas mais confiáveis possíveis. Era a informação do<br />

sentimento do poder do ódio, e que os Cristais ajudassem a não precisar usá-lo, pois<br />

da forma como eu passei, foi algo de estarrecedor. Afinal, a palavra ódio estava muito<br />

longe de descrever o estado em que eu me encontrava.<br />

Após os preparativos, todo o povo se despediu de mim, lamentando-se do<br />

ocorrido. Os outros que se encarregaram de achar minha aldeia já tinham saído há<br />

algum tempo, trotando em pequenos pôneis.<br />

Os duendes me falaram que existia um enorme labirinto por entre as cordilheiras<br />

de diamantes, que poderia haver milhares de passagens para chegar do outro lado,<br />

mas que possuíam o segredo de uma passagem que era indiscutivelmente a mais rápida<br />

de todas. Era só entrar no lugar certo e deixar a corrente levar o barco. Conforme<br />

a corrente, se poderia atravessar a cordilheira em dois dias e logo avistar a outra margem<br />

do oceano. Porém, se tomasse a entrada errada poderia me perder para sempre!<br />

Eles me deram as exatas coordenadas por onde entrar. Tomei um dos barcos<br />

médios do povo maldito e zarpei para o alto mar, com a pior sensação que já tive em<br />

toda minha vida. Eu chorava de raiva enquanto apunhalava a água com os enormes<br />

remos da barcaça.<br />

O vento ajudava muito a travessia. Eu ia de vento em popa, com o combustível<br />

do meu ódio. Esse povo iria ver agora o que era maldade.<br />

Passei o dia inteiro remando feito louco, cada vez tentando em vão fazer contato<br />

com o Mago. Porém, quase no final da tarde, percebi algo que os duendes haviam<br />

descrito. Tratava-se de três pontas de diamante geminadas, todas tendendo para o<br />

norte e exatamente do mesmo tamanho. Era o sinal! A partir dali, eu deveria ficar<br />

atento para o quarto túnel e entrar pela via da esquerda, então poderia descansar, pois


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

a corrente se encarregaria de conduzir o barco.<br />

Contei quatro túneis, e lá estava, pelos cristais! Exatamente como os duendes<br />

falaram. Emboquei com muita dificuldade na entrada da esquerda e logo senti um<br />

supetão para trás. A correnteza era realmente forte. Finalmente eu estava dentro da<br />

Cordilheira de Diamantes! Infelizmente, toda aquela genialidade da natureza não foi<br />

apreciada por mim, muito pelo contrário. À medida que eu entrava num emaranhado<br />

de túneis, vielas e córregos cada vez mais fortes, com suas paredes refletindo a luz de<br />

um recém-nascido luar, mais eu me deprimia, por não estar naquele que deveria ser<br />

um maravilhoso lugar, com o Mago.<br />

E assim vivi uma interminável noite, tentando fazer contato com o Mago, entrelaçando<br />

infinitos canais na interminável cadeia de montanhas feitas de diamantes,<br />

atravessando o que, outrora, fora um enorme oceano.<br />

Ao acordar, tentei comer algo que os duendes tinham colocado em minha<br />

mala. O reflexo da luz do sol ali naquele lugar produzia infinitos arco-íris, mas eu já<br />

não me importava com isso. Ao terminar o que foi o meu café da manhã, comecei a<br />

divagar em milhares de pensamentos absurdos sobre o Mago. A sua despresença estava<br />

me deixando completamente louco. Já não conseguia mover um músculo, minha<br />

depressão tinha chegado a um estado de paralisia extrema, nem mesmo o sentimento<br />

de vingança me animava. De repente, caí para trás, no chão do barco.<br />

Foi um chamado distante, a princípio, mas logo depois eu já conseguia ver o<br />

Mago ali bem na minha frente! Ao seu redor não existiam diamantes, nem córregos,<br />

nem águas, mas sim um fundo preto, apenas isso. Seu corpo se destacava em toda<br />

aquela penumbra, sua pele branca parecia ter luz própria dentro daquele lugar escuro.<br />

Podia-se vê-lo como numa aparição hiper-real. Seus cabelos, sobrancelhas, olhos, lábios<br />

e cílios verdes eram um choque em contraste com a cor de sua pele. Foi aí que eu<br />

reparei uma coisa. Eu estava sonhando! Sonhando conscientemente.<br />

“Ortal, por favor pára de divagar!”, falou o Mago. “Eu sei que o sonho é teu<br />

mas eu devo tomá-lo emprestado para transmitir-te uma mensagem. Eu estou bem.<br />

Fui atingido por uma cerda sonífera de alguns mercenários que trabalham para o povo<br />

Blasfêmico. Eles acham que estou desacordado ainda, pois coloquei meu corpo em<br />

hipo-funcionamento. Na verdade eles até estão preocupados comigo, pois eu já deveria<br />

estar acordado. Mas ficarei desta maneira até descobrir para onde estou sendo<br />

levado. Afinal, assim consigo sair do meu corpo para observá-los sem que eles notem<br />

a minha não-presença espiritual, se é que eles conseguem saber o que isto significa.<br />

Pelo que vejo eles são um povo muito estúpido. Provavelmente não farão mal algum<br />

a mim, pois se fizerem, não receberão o dinheiro do resgate. Foi isto que eu ouvi.”<br />

“Agora por favor, acorda, e logo faze contato comigo, pois assim saberemos<br />

nossa localização exata. Não podemos deixar que eu caia nas mãos do povo Blasfêmico<br />

sozinho. Lembra-te de que meu pai falou para não subestimá-los.”<br />

Dei um pulo no barco. Suas últimas palavras ainda soavam em minha cabeça.<br />

Logo sentei de novo e imergi num procedimento de concentração absoluta. Finalmente<br />

localizei a mente do Mago.<br />

“Pelos cristais, tu estás vivo!”<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

“Sim, Ortal, e pelo que vejo estamos muito próximos!”<br />

“Sim, acho que apenas algumas enormes paredes de centenas de metros de<br />

diamantes nos separam! Com certeza estamos em canais paralelos e próximos. Mas,<br />

como posso sentir, meu barco navega mais depressa do que o teu, então chegarei ao<br />

outro lado mais rapidamente.”<br />

“Ótimo, Ortal! Dessa forma poderás oferecer uma emboscada a esses idiotas.”<br />

“Creio que estarei chegando ao outro lado da cordilheira antes do anoitecer de<br />

hoje, pois foi assim que os duendes falaram.”<br />

“Muito bem, assim estarei chegando logo em seguida. Tenta parar o barco atrás<br />

de uma das pequenas montanhas de diamantes do outro lado, escondendo-te desta<br />

forma do meu barco. Ao avistar-nos, investe contra nós, que eu já estarei tomando<br />

conta das mentes destes palermas.”<br />

“Tem cuidado.”<br />

“Até mais, Ortal.”<br />

O mundo voltou ao normal! Ou quase. Consegui comer alguma coisa e fiquei a<br />

esperar as correntes me levarem para o outro lado das cordilheiras. Foi uma tarde que<br />

levou um ano para passar!<br />

No final da tarde eu estava do outro lado. Como previsto, podia avistar a outra<br />

parte do oceano, que em nada se diferenciava da nossa. Existiam muitas pontas de<br />

diamantes saindo da água. Escolhi uma que escondia o barco por inteiro. Joguei a<br />

âncora e subi no diamante, para ter uma melhor visão da chegada do barco do Mago.<br />

Tentei fazer contato com ele.<br />

“Sim, Ortal. Estamos quase chegando, ainda permaneço desacordado. A surpresa<br />

que iremos fazer para eles será realmente muito grande.”<br />

Consegui ver a ponta de um grande barco, em meio à penumbra noturna, saindo<br />

do emaranhado de montanha a uns trezentos metros ao sul de onde eu estava. Corri<br />

para o meu barco. Icei a âncora e logo estava em movimento. Mas, ao olhar para trás,<br />

senti um arrepio. Três barcaças vinham em minha direção. Estavam longe, rezei para<br />

que não me tivessem avistado. Comecei a remar feito louco. O Mago me informou<br />

que já podia me ver e que já estava entrando em ação. Ouvi um tremendo barulho<br />

vindo da direção do barco do Mago. Logo depois reparei que seu barco estava parado.<br />

Cheguei o mais rápido que pude aonde estava o Mago. Senti que ele pulava<br />

para o meu.<br />

– E os teus raptores?<br />

– Se não estiverem mortos, vão demorar para se recuperarem do susto que dei<br />

neles – respondeu o Mago.<br />

– Como fizeste isso? – perguntei, e imediatamente comecei a remar.<br />

– Primeiro fingi estar morto, o que já os deixou atônitos. Depois fiz uma ilusão<br />

que meu espírito saía como um anjo, com asas e tudo, tocando uma harpa e olhando<br />

para o céu. Eles ficaram abismados. Mas logo o anjo olhou para eles. Jogou a harpa<br />

no chão do barco, transformando-se em centenas de cobras e fazendo um barulhão<br />

enorme. Tão logo a harpa se quebrou, o anjo começou a se transformar num terrível e<br />

vermelho demônio, voando para cima deles. Eles estavam ou correndo ou desmaiando


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

ou tendo um ataque cardíaco!<br />

– Aposto que tiraste essas imagens de anjos e demônios das crendices dos nossos<br />

amigos antepassados, não foi?<br />

– E de quem mais poderia ter tirado? – respondeu o Mago, sorrindo.<br />

– Não temos tempo para nada, Mago. Vi três barcaças vindo em minha direção<br />

antes de te pegar no barco.<br />

– Então rememos, Ortal. Ao chegarmos em terra, teremos tempo suficiente<br />

para nos esconder, afinal, aqueles que me raptaram terão muito trabalho para explicar<br />

o que houve. E lembra-te de que eles acham que eu estou morto, até eles não acharem<br />

o meu corpo.<br />

– Foi uma ótima ideia, Mago.<br />

Ao chegarmos à praia vimos que ninguém nos perseguia, ficamos abraçados<br />

por muito tempo no clarão da lua cheia. E prometemos ter mais cuidado de agora em<br />

diante.<br />

Capítulo 6<br />

A origem de Orh<br />

– Estás com fome? – perguntei ao Mago, enquanto caminhávamos pela areia.<br />

– Não, o estado de hipo-funcionamento de meu corpo quase não gastou energia<br />

durante a viagem. E tu?<br />

– Também não. Estou preocupado.<br />

– Por quê?<br />

– Logo que sumiste, relatei o que ocorrera num memo-cristal para o Lorde<br />

Carmalhoc. Acredito que em alguns dias estarão aqui com um enorme exército, feito<br />

por todas as tribos conhecidas para nos livrar desta enrascada.<br />

– Tanto melhor! Vamos liquidar com este povo maldito!<br />

– Só há um problema, pequeno Mago.<br />

– O quê? – O Mago parou atônito, já percebendo o que eu fizera. – Tu transmitiste<br />

o poder do ódio para um memo-cristal, Ortal? Estás louco?<br />

– Calma Mago, eu fiz um código que só o Lorde Pompe Carmalhoc saberá<br />

decifrar. É um código dos cavaleiros e cada um tem um, portanto não te preocupes<br />

em demasia. Acredito plenamente que o Lorde jamais trairia o seu povo e sua casa.<br />

– Assim é melhor! Conseguiste me assustar, Ortal.<br />

E entramos numa mata fechada, sem percebermos para onde estávamos indo.<br />

– E quanto aos cavalos? – perguntou-me o Mago.<br />

– Estão sendo cuidados pelos duendes.<br />

– Tens ideia de para onde devemos ir?<br />

– Não, mas creio que deveremos penetrar o máximo que pudermos nesta mata<br />

fechada, assim será mais difícil sermos encontrados. Lembra-te de que agora estamos<br />

sendo caçados.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Sim – respondeu o Mago, com um tom de voz meio assustado.<br />

Prosseguimos penetrando cada vez mais a obscura mata, sob um belo luar. Estávamos<br />

eufóricos e só então começamos a nos comunicar em sentimentos. Havíamos<br />

obtido uma grande facilidade para isso, principalmente depois de nossa separação.<br />

Acredito que nossos poderes estavam fluindo cada vez mais, depois de nossa passagem<br />

pelo oceano, ou que talvez nosso susto com a separação tenha atiçado uma certa<br />

reação em nosso sistema de defesa, tornando-nos mais sóbrios sobre os poderes que<br />

tínhamos.<br />

Estávamos discutindo isso mentalmente quando uma interrogação nos invadiu.<br />

Como iríamos achar o povo Blasfêmico e qual seria nosso procedimento para com<br />

eles? Que tipo de povo deveria ser? Será que seus armamentos eram tão poderosos<br />

quanto o Mago Maior tinha dito? E qual seria nossa posição em combate? Teríamos<br />

que realmente lutar contra eles?<br />

Então eu e o Mago decidimos tentar nos infiltrar disfarçadamente e espionar<br />

o que esse povo poderia ter de poder. Poderíamos com esta informação voltar para a<br />

aldeia dos anões em uns três dias e nos encontrarmos com o exército de Carmalhoc,<br />

que estaria chegando por lá, se nossos cálculos estivessem corretos.<br />

Foi com estes pensamentos que logo subimos como dois pássaros para uns dez<br />

metros de altura, dentro de uma imensa rede. Estávamos capturados!<br />

Abaixo de nós podíamos ouvir umas risadinhas muito finas de alguém que não<br />

conseguíamos visualizar da altura onde estávamos.<br />

“Que faremos?” – interroguei ao Mago, telepaticamente.<br />

“Espera um pouco. Essas pessoas, se é que são pessoas, não me parecem ser<br />

o povo Blasfêmico, mas pelas risadas parecem estar pensando que conseguiram uma<br />

bela caça para o jantar. Poderemos nos aproveitar desta situação e fazer amizade com<br />

eles. Porém, esteja preparado para usar teus poderes.”<br />

E assim ficamos em silêncio, enquanto nos desciam da enorme árvore. Ficamos<br />

extremamente quietos quando algumas delicadas senhoritas vieram nos sondar.<br />

Pareciam ser um povo guerreiro, extremamente primitivo, pois usavam grandes<br />

lanças de madeira, as quais estavam apontadas para nós naquele momento. Usavam<br />

farrapos para esconder pequenas partes de seus corpos e eram adornadas com colares,<br />

anéis, e todos os tipos de ornamentos de povos místicos.<br />

Imediatamente eu e o Mago pudermos crer que este povo possivelmente não<br />

tinha tido contato com qualquer tipo de desenvolvimento pós-Eco Justiça, mas deveriam<br />

viver em um estado paralelo de cultura. Talvez alguma tribo desgarrada que perdeu<br />

o contato com as leis da Eco Justiça, pois não usavam cristais nem possuíam tipo<br />

algum de linguagem telepática superior. Na verdade, seu linguajar era muito difícil<br />

de ser decifrado.<br />

Mas nós conseguimos entender parcialmente o que elas estavam sentindo. Estavam<br />

confusas, não sabiam se nos fritavam em óleo ou nos amavam como filhos.<br />

Eu e o Mago continuávamos em estado de letargia apenas prontos para alguma<br />

mágica extrema, caso aquele povo resolvesse nos atacar. Por fim elas decidiram nos<br />

levar para sua aldeia. Amarraram nossas mãos e nos puseram a andar sob a mira de


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

suas primitivas armas. Fomos andando agora em meio a ferozes porém delicados empurrões<br />

de nossas lindas anfitriãs. Eu e o Mago queríamos rir, poderíamos sair voando<br />

a qualquer momento, deixando aquelas mulheres atônitas, mas resolvemos ver aonde<br />

iria tudo aquilo.<br />

Andamos durante longo tempo por entre árvores, mata densa. Atravessamos<br />

pequenos riachos. Subimos e descemos pequenas montanhas, tudo isso acompanhado<br />

por um forte calor noturno.<br />

De repente, senti que aquilo começava não só a me irritar como também ao<br />

Mago. Então ele disse para me preparar, pois iria tentar deixar tudo aquilo com um<br />

toque menos tenso.<br />

Transmitiu-me para parar de andar e levitar da maneira mais normal possível.<br />

Em segundos nossos pés não tocavam o chão, nem mesmo faziam sequer um movimento,<br />

apenas acompanhávamos as donzelas guerreiras sem que elas se dessem conta<br />

de como. Foi quando começamos a rir de tal situação que elas notaram, com muito<br />

alarde, o que estávamos fazendo. Imediatamente eu e o Mago subimos bem alto para<br />

não sermos atingidos pelas lanças, mas realmente não era este o intuito das donzelas.<br />

Olhamos lá de cima por entre as árvores, em meio à luz do luar, e constatamos que<br />

havia seis donzelas ajoelhadas para nós! Provavelmente teríamos um bom jantar!<br />

Ao voltarmos para o solo, as donzelas continuavam ajoelhadas. O Mago deu<br />

um pequeno grito.<br />

– Ei! Vocês não precisam ficar assim a noite inteira! Foi só uma brincadeira.<br />

Elas nem piscaram. Desamarramos mentalmente os nós de nossas mãos e o<br />

Mago foi delicadamente tocar no cabelo de uma delas. Ela começou a tremer! Realmente<br />

a brincadeira tinha ido longe demais. Com uma enorme concentração conseguimos<br />

transmitir a elas uma espécie de calma. Tentamos dizer o propósito de nossa<br />

vinda e da onde éramos. A telepatia causou um certo efeito. Elas muito delicadamente<br />

começaram a falar em sua língua absurda.<br />

Olharam para nós e uma das nativas começou a falar que queriam levar-nos à<br />

sua aldeia, pois eram um povo amável, mas estavam com medo. Um povo mau tinha<br />

raptado todos os homens da aldeia delas, inclusive os meninos. Não havia sobrado<br />

nenhum!<br />

Eu e o Mago nos olhamos atônitos. Elas poderiam não apenas saber onde encontraríamos<br />

o povo Blasfêmico, como também poderiam ajudar-nos a entender este<br />

povo.<br />

Seguimos, agora como respeitosos, semideuses mata adentro. Foram mais algumas<br />

horas de caminhada até chegarmos a uma aldeia pouco iluminada, a tochas.<br />

Assim que chegamos; houve um imenso escarcéu. As donzelas que nos haviam caçado<br />

corriam para todos os cantos acordando em meio à penumbra do luar o restante<br />

da aldeia. Eu e o Mago ficamos parados bem no meio da aldeia. Era realmente algo<br />

primitivo. Muitas das casas foram construídas em cima das árvores. Meninas desciam<br />

para o solo em cordas amarradas nos galhos, mulheres corriam em nossa direção,<br />

formando um círculo em nossa volta.<br />

O Mago não perdeu tempo. Ergueu os dois braços e lançou uma forte magia<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que fez com que todas as tochas da aldeia se iluminassem com um fogo esverdeado.<br />

E tão logo isso ocorreu e todas as mulheres já estavam no chão, transmitiu as sensações<br />

do que havia ocorrido com sua aldeia e descrevia o povo que fez aquilo com os<br />

prateados. Perguntou se havia alguma semelhança com o povo que raptara os homens<br />

da aldeia delas.<br />

Uma mulher muito bonita e forte, com os cabelos negros pela cintura, levantou-se<br />

e olhou para o Mago. Ele batia em seu peito e a mulher olhou com estranheza<br />

para mim depois de ter visto o real tamanho do Mago. Mas falou, e nós sentimos que<br />

ela sabia que teria que falar com os sentimentos, pois de outra forma a comunicação<br />

seria parcial.<br />

“O povo que procuram é o mesmo que está escravizando toda a nossa gente.<br />

Eles se utilizam de armas que cospem fogo. São mágicos, não como vocês, mas diferentes.<br />

Eles são maus e cortam as árvores, e matam por prazer. Eles têm um enorme<br />

exército. Neste momento nossos filhos estão sendo criados para fazer parte deste exército.”<br />

“E o que eles querem?” perguntei. “Para que serve um exército desse tamanho?”<br />

“Eles querem conquistar o povo do outro lado do grande lago.”<br />

Era óbvio que ela se referia ao oceano, comentou o Mago comigo.<br />

“Eles querem saber que tipo de força liquidou a visão de seus homens. Eles vão<br />

atacar as nossas terras de novo e agora vai ser de uma maneira devastadora. Vamos<br />

nos infiltrar o quanto antes neste povo e verificar qual o seu ponto fraco.” Assim eu e<br />

o Mago confabulávamos secretamente. Nossas mentes estavam unidas a tal ponto que<br />

nossos pensamentos eram quase um só.<br />

As mulheres fizeram com que nós fôssemos para uma tenda e nos serviram<br />

um ótimo jantar. Algumas continuaram na tenda trocando pensamentos sobre o Povo<br />

Blasfêmico. Porém já era tarde e todos nós estávamos cansados. Fomos dormir.<br />

Acordamos tarde, fizemos o desjejum. A mulher com quem havíamos falado<br />

na noite anterior, disse que colocaria à disposição duas ótimas guerreiras para nos<br />

mostrar o caminho da cidade dos Blasfêmicos. Disse-nos também, que teríamos o que<br />

quiséssemos da aldeia delas se trouxéssemos seus homens. Eu e o Mago agradecemos<br />

e dissemos que faríamos o possível não só para trazer seus homens, como também<br />

para massacrar aquele povo maldito.<br />

Elas não entenderam direito esta última parte. Provavelmente não tinham conhecido<br />

o valor do ódio. Tanto eu como o Mago ficamos preocupados. Será que seria<br />

certo este caminho que estávamos seguindo? Nosso sentimento de ódio estava<br />

começando a tomar conta de nossas mentes de uma maneira quase que questionável.<br />

A vingança imperava em nossas mentes.<br />

Eu, o Mago e as duas jovens e belas guerreiras saímos da aldeia ainda ao sol da<br />

manhã. Estava um dia maravilhoso e a companhia das duas donzelas se mostrou bastante<br />

divertida. Elas não sabiam que nós podíamos ler suas mentes e portanto falavam<br />

sem parar entre si sobre os mais diversos assuntos femininos. Falavam, sobre a nossa<br />

beleza e estavam fazendo apostas com quem iriam ficar! Eu e o Mago riamos o tempo


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

inteiro. Caminhamos durante várias horas sem contar às donzelas que podíamos saber<br />

do que elas estavam falando. Paramos para o almoço numa bela colina, num descampado<br />

de onde se podia ver muitos quilômetros de distância.<br />

Na sombra de uma solitária e enorme árvore fizemos uma revigorante refeição.<br />

Então, eu e o Mago resolvemos entrar em contato com as duas. Dissemos a elas, telepaticamente,<br />

que podíamos conversar com elas. Elas enrubesceram imediatamente!<br />

Finalmente puderam notar que nós havíamos espionado suas conversas o tempo inteiro.<br />

Elas não paravam de rir. Começamos a conversar sobre quem eram elas e o que<br />

faziam. Eram duas jovens guerreiras que foram adotadas de uma outra tribo há algum<br />

tempo, pois seus pais haviam sido mortos em combate com o Povo Blasfêmico. Na<br />

verdade elas mal conheceram seus pais. Foram achadas ainda bebês pela tribo que nos<br />

acolhera. Seus nomes eram Bartrê e Faloma. Tinham idades de mais ou menos dezoito<br />

anos e eram, agora que não existiam homens na aldeia, responsáveis por parte da<br />

segurança e da caça da tribo. Eram muito belas, com a pele bem morena e os cabelos<br />

negros até o quadril. Tinham corpos tão moldados de músculos quanto o meu, além<br />

de serem mais ou menos da altura do Mago.<br />

Ficamos muito amigos depois de algumas horas de conversa, embora elas tivessem<br />

demorado a se acostumar com o tipo de linguagem que estávamos empregando.<br />

Ao cair da noite, continuamos a caminhar sob a luz de um imenso luar. Estávamos<br />

em uma espécie de transe com estas garotas. Eu me preocupava com o Mago,<br />

pois agora nós estávamos com nossas mentes completamente conjugadas. Podíamos<br />

sentir tudo em conjunto como se fôssemos parte de um só corpo. E o que sentíamos<br />

agora era a mais pura luxúria por aquelas donzelas, que faziam o possível para transmitir<br />

o mesmo em relação à nós.<br />

Ouvimos o ressoar de uma pequena cachoeira e fomos para lá. Tratava-se de<br />

um córrego que desabava num imenso lago que refletia entusiasticamente uma lua<br />

prateada. Pensei imediatamente que aquilo seria demais para nossos corpos aguentarem.<br />

Tanto eu como o Mago nos desfizemos de nossas mochilas e roupas. Mergulhamos<br />

no lago refrescando nossos corpos nus com pulos e brincadeiras. As duas<br />

meninas não perderam tempo, logo estavam participando da brincadeira. Foi quando,<br />

sem pensar, estávamos entrelaçando nossos corpos à beira do lago. Então nos secamos,<br />

comemos alguns peixes que pescamos ali mesmo, e fomos nos deitar. Agora o<br />

prazer carnal era compartilhado entre eu e o Mago da maneira mais abrangente possível.<br />

Eu sentia ao mesmo tempo o que o Mago estava sentindo. Da mesma forma ele<br />

podia sentir o que eu estava sentindo. Em uma maré de prazer com as duas donzelas<br />

descobrimos que poderíamos ser duas pessoas completamente interligadas!<br />

Um barulho irritante me tirou de todo esse devaneio. Era uma espécie de tilintar<br />

de metais batendo rapidamente. Em meio ao prazer daquela cena de sexo, fui<br />

tirado da minha mais caprichosa evolução sexual. Um abrir de porta interrompeu<br />

completamente tudo o que estava ocorrendo.<br />

Ouvi a voz de uma mulher me chamando carinhosamente, dizendo algo como<br />

se eu estivesse atrasado para não sei o quê. Realmente notei que eu não estava em<br />

nenhuma floresta, estava em uma cama! Embaixo de vários acolchoados. E o Mago<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

não estava ao meu lado nem mesmo as belas donzelas! Que lugar era aquele? Então,<br />

a voz entrou no quarto com uma forte luz artificial:<br />

– Vamos, Macoi, este é seu primeiro dia nesta nova escola. Você não vai querer<br />

chegar atrasado, vai? Levante-se e vista-se, sua roupa está em cima da cadeira e seu<br />

café já está na mesa. O ônibus da escola estará aqui daqui a meia hora. Eu e seu pai<br />

estaremos no escritório, o número do telefone está na primeira página da sua agenda.<br />

Vê se não cria problema hein? Até a tarde. Se precisar de qualquer coisa, a Clotilde<br />

está na lavanderia.<br />

E saiu, batendo a porta. Que absurdo é esse? Levantei-me e senti algo dentro<br />

de mim que me fez ter alguma esperança! O Mago estava comigo! Em minha mente.<br />

Ou eu estaria em seu corpo? Olhei para o meu corpo e levei um susto! Eu estava no<br />

corpo do Mago! Mas havia algo de estranho. Diferente. Abri uma porta do que parecia<br />

ser um armário. Quase caí para trás! Eu e o Mago estávamos no mesmo corpo. Só que<br />

o corpo era meu e dele, uma mescla! O tamanho era o mesmo do Mago, um metro e<br />

setenta de altura. Estava mais forte, com os músculos um pouco mais desenvolvidos<br />

quase como o meu, a cara era do Mago mas os cabelos eram meus. Quase desmaiei.<br />

Tentei entender o que a mulher havia dito. Que absurdo! Eu gritava comigo mesmo<br />

e com o Mago, porque não deu sinal de vida dentro deste novo corpo. Então parei e<br />

sentei.<br />

Meu Deus! Eu e o Mago éramos agora a mesma pessoa! No mesmo corpo.<br />

Tudo que eu estava sentindo ele também sentia.<br />

Tentei me vestir. Pensei que isto poderia ser parte de alguma magia ou coisa<br />

parecida. Ao cruzar a porta do “meu” quarto, notei que estava dentro de uma casa<br />

muito diferente, com objetos estranhos. Fui para onde havia o som de alguém trabalhando.<br />

Entrei numa espécie de cozinha; tudo era muito branco e artificial. Meu sangue<br />

parecia faltar em minha face.<br />

– Viu um fantasma? – perguntou uma mulher muito gorda, com cara de anjo.<br />

– Macoi, melhor comer alguma coisa senão não vai aguentar a escola. Vem cá, toma<br />

este suco de laranja e coma estes ovos. Logo o ônibus vai chegar. Tua mochila está<br />

aqui, não vai esquecer.<br />

Sentei e tomei o café, tinha gosto de nada. Eu estava começando a ficar assustado.<br />

Lembrei então dos meus poderes. A primeira coisa a fazer é tentar entender<br />

a mente das pessoas, tentando fazer o que elas esperassem que eu fizesse. Era uma<br />

ótima tática.<br />

Chamei então a senhora gorda:<br />

– Clotilde! – gritei.<br />

– Sim, Macoi – veio ela, toda afetuosa.<br />

Então, em questão de segundos comecei a interrogar secretamente sua mente.<br />

Tratava-se de uma senhora que trabalhava para a família que achava que eu era<br />

filho deles. Diverti-me um pouco com isso. Ela estava com aquele ar de interrogação.<br />

– O que houve com você, Macoi? Está tão quieto hoje!<br />

Li sua mente e descobri o que eu deveria falar.<br />

– Ah, não é nada, apenas estou nervoso em mudar de colégio. Você sabe onde


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

está o mel geriátrico das abelhas douradas?<br />

Ela me olhou com uma cara de espanto. Imaginei ter falado demais.<br />

– O mel está na sua frente. Vê se para de balela e vai logo para o ônibus, que<br />

acabou de chegar – falou carinhosamente.<br />

Coloquei uma colher de mel na boca e engoli com um gole o suco. A mulher ficou<br />

me olhando pasma. Então gritou que eu estava esquecendo a mala. E logo gritava<br />

que a porta de saída era pelo outro lado!<br />

Saí daquela casa e quase desmaiei de novo! Que aldeia enorme! Parei e fiquei<br />

olhando, tentando achar alguma mente para ler. O que me chamou a atenção era o tal<br />

do ônibus. Um velho de chapéu me chamava com gestos bruscos na porta de entrada.<br />

Corri para lá.<br />

O velho estava pensando por que eu demorava tanto para ir até o ônibus, então<br />

pensou que deveria ser o aluno novo, eu estava desculpado, segundo seus sentimentos.<br />

Subi pela porta e encarei o velho. Ele disse que eu poderia sentar em qualquer<br />

banco. Fui andando pelo corredor do ônibus. Várias crianças das mais variadas idades<br />

me olhavam assustadíssimas! Comecei a ler seus pensamentos:<br />

“Meu Deus, que gato!”, pensava uma menina. “Que cara estranho, para que<br />

tanto cabelo?”, pensou um garoto. Então notei que meus cabelos estavam com as duas<br />

enormes tranças até minha cintura! Ninguém daquele ônibus tinha um cabelo assim!<br />

Um menininho de uns dez anos me olhava com ar de assustado. Sentei ao seu lado.<br />

Ele continuava me olhando. Eu o encarei e ele desviou o olhar. Eu deveria ser o maior<br />

de todos ali dentro, talvez por isso era motivo de tamanha inquietação.<br />

– Como é seu nome? – perguntei ao garoto.<br />

– Thomas – respondeu ele, timidamente.<br />

Ele me sentia como uma grande montanha ao seu lado que estivesse prestes a<br />

desabar. Pensei em confortá-lo, porém isso indicaria que eu saberia seus sentimentos<br />

que agora eram de medo e fascínio por mim.<br />

Logo comecei a sentir medo. O ônibus começou a se mover. Segurei-me avidamente<br />

numa barra à minha frente. O garoto me olhou espantado.<br />

– Nunca andou de ônibus? – perguntou-me, com ar de divertimento.<br />

Tentei ler em sua mente qual seria a melhor reposta.<br />

– Como você descobriu? – respondi.<br />

Ele soltou uma risada afetuosa e perguntou-me:<br />

– Qual o seu nome?<br />

– Ortal, ou melhor... é... Macoi!<br />

– Você é novo neste colégio. De onde você vem?<br />

– É... – de novo interroguei-o mentalmente. – Da minha casa.<br />

Ele desabou de rir novamente.<br />

Provavelmente tinha feito um amigo, pensei comigo mesmo. Nisso, senti um<br />

leve toque em meu ombro. Era uma menina.<br />

– Oi! Estou vendo que você já arranjou um amigo.<br />

– Sim, possivelmente.<br />

Ela me olhou estranhamente.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Eu sou Jessica, irmã deste demônio com quem você está conversando, nós<br />

estamos na mesma sala. Eu ouvi falar que você iria chegar, mas não imaginei que você<br />

seria... assim. – falou, olhando-me de cima abaixo, percorrendo os olhos por mim com<br />

grande avidez.<br />

“Que coisa!”, pensei, quantos anos esta menina deveria ter? Uns treze, talvez.<br />

– Você ouviu falar que eu estava para chegar? Quem lhe disse isso?<br />

– Ah, esse tipo de boato corre, você sabe...<br />

Eu não estava entendendo.<br />

– Olhe, Macoi. É melhor você ficar bem perto de mim. Assim você não se<br />

perde, tá bom?<br />

– Tá bom – respondi, como ela gostaria.<br />

– Falando nisso, você tem namorada?<br />

– Hã? Você quer dizer hoje?<br />

– Estou vendo que você é rapidinho! – falou, me encarando.<br />

Nisso, o menino me puxou bruscamente.<br />

– Olha aqui, Macoi. Acho melhor você ficar longe de minha irmã. Ela tenta<br />

namorar com todo o colégio, e além disso...<br />

– Cala essa boca, seu demônio imbecil – falou a menina, interrompendo o<br />

garoto com uma bofetada na cara. Imediatamente o garoto pulou por cima de mim,<br />

agarrando a menina pelo pescoço com um berro. O ônibus inteiro começou a berrar<br />

feito louco. Eu tentava separar a briga mas já era tarde. As duas crianças rolavam pelo<br />

chão, com os aplausos dos companheiros.<br />

O velho parou o ônibus e começou a gritar:<br />

– Mas que porcaria é essa?<br />

Eu me levantei e tirei o menino de cima da menina, que já começava a esmurrá-lo<br />

de novo. Coloquei-o pacientemente ao meu lado no banco e disse-lhe para ficar<br />

quieto, usando o poder da magia na voz. O menino calou-se. Olhei para a menina, que<br />

já se levantara e estava prestes a pular no pescoço do irmão. Interrompi seu movimento<br />

apenas me levantando e olhando para baixo. Ela batia no meu peito.<br />

– Faça o favor de sentar-se, Jéssica – falei novamente, usando a magia na voz.<br />

Ela sentou-se e todo o ônibus soltou um murmúrio indignado. O velho estava<br />

abismado! Olhava-me como se eu fosse um deus.<br />

Deu-me as costas, pensando: “Como esse garoto conseguiu controlar esses<br />

dois diabos? Logo esta Jessica, ainda? Ela só pode estar apaixonada por ele! Hã,<br />

crianças!”<br />

O resto da viagem foi no mais puro silêncio. Apenas eu pensava, aterrorizado:<br />

“Essas pessoas pensam que eu sou uma criança ainda! E eu estou indo conviver com<br />

uma delas! Que espécie de prova é essa?”<br />

O ônibus parou. A menina passou sem olhar para mim, já o menino era todo<br />

amores.<br />

– Vamos nos ver no recreio? – perguntou o garoto.<br />

– Vamos – disse-lhe, usando o mesmo método de resposta.<br />

Desci do ônibus e um homem gordo veio ao meu encontro. Tinha um olhar


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

severo, pensei em puxar a espada, mas ela não estava ali.<br />

– Você deve ser Macoi, o aluno novo – afirmou sorridente.<br />

– Sim – respondi.<br />

– Muito bem! Seja bem-vindo a nossa escola. Eu sou o diretor Mandel. Por<br />

favor, siga-me, eu quero explicar algumas coisas. Afinal vocês chegaram de viagem<br />

ontem e não tive tempo de passar para seus pais as regras de nossa escola. Venha até<br />

minha sala.<br />

Atravessamos um pátio enorme atulhado de alunos de todas as idades. Era<br />

uma tremenda balbúrdia, gritos por todas as partes, uma música muito alta ressoava<br />

nos ouvidos dos presentes. O diretor parecia estar em casa. Eu tentava me acostumar<br />

com o lugar da melhor forma possível, isto é, tentando ler superficialmente as mentes<br />

de todos que passavam por mim. Era uma avalanche de informações que eu estava<br />

colhendo. Alunos tentando comprar a tarefa de casa de outros, meninas tentando saber<br />

o que um tal colega tinha feito na noite anterior, outros querendo saber quem ganhou<br />

tal jogo, uns sendo empurrados por seus colegas, xingamentos provinham de todos<br />

os lados; mas uma coisa era certa, por onde eu passava, o efeito que causava era de<br />

espanto. Minha aparência era no mínimo comovedora, tanto para as meninas como<br />

para os meninos. Os menores olhavam assustadíssimos, já os maiores olhavam com<br />

um certo desdém, preocupados. Eu estava começando a ficar nervoso. Cruzamos o<br />

pátio inteiro. Deveria haver umas duas mil crianças agrupadas ali.<br />

Entramos por um corredor muito bem iluminado com luzes artificiais. Seguimos<br />

pelo corredor passando por várias salas com muitas pessoas e equipamentos.<br />

O lugar era muito limpo e organizado. Comecei a perceber o tipo de ensino que era<br />

aplicado ali, todo ele feito com a palavra falada e escrita. Nada de cristais. Chegamos<br />

a uma sala onde existiam várias telas interligadas, todo o pátio da escola aparecia<br />

nessa tela, de repente mudava a imagem para dentro das outras salas. Fiquei olhando<br />

impressionado.<br />

– Este sistema custou muito caro para o nosso colégio, Macoi. Mas evitamos<br />

vendas de drogas e abusos dos estudantes. Por favor, sente-se.<br />

O diretor começou a mexer em alguns papéis. Tentei captar alguma informação<br />

na própria sala. Usando o método de assimilação, consegui ler na parede um<br />

calendário. Estávamos no dia dez de abril de 1998. Pelo menos eu ou este corpo aparentemente<br />

não iríamos morrer na Eco-Revolta, ainda faltava muito tempo.<br />

– Muito bem, senhor Macoi di Carmalho – disse o diretor. Eu me assustei com<br />

a semelhança do nome da minha tribo, os Carmalhoc. – Aqui estão os documentos<br />

que você deverá enviar a seus pais hoje mesmo. Saiba portanto que por hoje o senhor<br />

estará livre das leis do nosso colégio, mas não abuse da minha boa vontade. Sabemos<br />

pelo seu currículo que o senhor é um ótimo aluno e espero que saiba que nós só estamos<br />

o aceitando na metade do ano pelo fato de seu pai ser um dos maiores cientistas<br />

da atualidade e virá trabalhar aqui na nossa cidade. Lembre-se de que estamos numa<br />

pacata cidade, portanto não se espante se os outros alunos o incomodarem pelo seu visual.<br />

Como sabe, cabelos compridos estão fora de moda por aqui, mas acho que você<br />

não terá muitos problemas devido ao seu tamanho. Muito bem. Leia com cuidado<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

todas as regras de nossa escola. Agora venha que eu vou levá-lo para sua sala.<br />

A coisa estava indo rápido demais. Eu não conseguia entender o que realmente<br />

estava acontecendo. Enquanto caminhávamos pelo imenso pavilhão de ensino que era<br />

aquela construção, ia tentando compreender o que estava ocorrendo. Supostamente,<br />

eu e o Mago estávamos em um mesmo corpo, de um tal de Macoi di Carmalho. Este<br />

corpo era de um adolescente e se assemelhava fantasticamente com o meu corpo e<br />

com o corpo do Mago. A situação da mente desse garoto era naquele momento de<br />

dormência, pois não conseguíamos absorver nenhuma informação de sua vida até<br />

então. A própria situação de nossa consciência era complicada. Eu e o Mago estávamos<br />

no mesmo corpo, porém como uma mente só. Não discutíamos nem tínhamos<br />

dualidades, apenas operávamos aquele cérebro como se fôssemos um só. Eu estava<br />

apavorado, por que estávamos numa situação dessas, não conseguia pensar com tantas<br />

informações daquele mundo passando por mim.<br />

– Muito bem – disse o diretor, parando em frente a uma porta num corredor,<br />

como tantas outras idênticas àquela. – Esta é sua sala, Macoi, oitava dez. Todas as<br />

suas aulas serão aqui, apenas as aulas de condicionamento físico serão no pátio. Agora<br />

entre comigo e vamos conhecer seus colegas.<br />

Ele abriu a porta, pedindo licença ao professor. Quando me deparei com a sala,<br />

fiquei mais nervoso ainda. Era um imenso anfiteatro com espaço para umas duzentas<br />

pessoas, com um tablado e um quadro onde o professor estava escrevendo algo<br />

quando sua aula foi invadida.<br />

– Bom dia, senhor diretor, a que devo esta visita? – perguntou o professor,<br />

olhando-nos entusiasticamente.<br />

– Bom dia, oitava dez. Bom dia, professor Gonçalves. Trata-se de um novo<br />

aluno. Por favor, entre, Macoi – falou o diretor, apontando para mim e ao mesmo<br />

tempo me chamando com um gesto.<br />

Entrei na sala com uma expressão severa, de quem acaba de levar uma rasteira<br />

do seu próprio destino. Todos os duzentos alunos que estavam naquele anfiteatro fizeram<br />

“hummm “ quando entrei. Na verdade não consegui avaliar o que poderia ser<br />

aquela expressão e nem tive tempo de ler as mentes dos que estavam mais próximos. A<br />

bem da verdade, era eu que me realmente diferenciava fisicamente daquele grupo. Era<br />

muito mais alto e aparentemente mais forte do que todos ali. Além disso, como dizia<br />

o próprio diretor, “cabelos compridos não estavam mais na moda”. Notei que isso<br />

poderia ser uma das razões de tantas caras de espanto. Afinal, meus cabelos estavam<br />

com duas enormes tranças e pela cintura! Além disso me lembrei de que o rosto desse<br />

Macoi era extremamente semelhante ao do Mago, graças aos céus, sem os adornos de<br />

sobrancelha, cílios, etc., verdes, como era o Mago na realidade! O que tornaria aquela<br />

figura que estávamos habitando verdadeiramente extraordinária. Acredito ainda que,<br />

para piorar a situação, nossas mentes compostas estavam começando a emitir uma<br />

certa energia, típica dos magos. Era o caos!<br />

– Muito bem, turma – falou o diretor. – Este é Macoi di Carmalho, seu novo<br />

colega. Espero que vocês se deem bem. Sr. Carmalho. Pode se sentar naquela carteira<br />

vazia, seu número será 68, como diz a carteira, guarde-o bem. Boa aula para todos.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

E saiu da sala. Dei uma olhada para a turma e depois para o professor, que estava<br />

esperando que eu fosse sentar para continuar a aula. Com muito cuidado desci do<br />

tablado e fui para a minha carteira. Ela ficava muito apertada com as outras dos outros<br />

alunos. Consegui ajeitar-me como pude e dei uma olhada para o meu colega logo ao<br />

lado. Ele me olhava com cara de louco.<br />

– E aí? – perguntou.<br />

Fiz uma varredura rápida em sua mente. Esta expressão poderia ter infinitos<br />

significados, mas o mais próximo que eu pude entender era que tinha uma entonação<br />

de cumprimento e conspiração ao mesmo tempo, como se e ele e eu tivéssemos uma<br />

mesma atitude perante o social.<br />

– Beleza? – respondi, como ele estava esperando que eu respondesse.<br />

– Legal – disse-me ele.<br />

Tratava-se de um minúsculo componente daquele bando, com pele morena e<br />

olhos negros, muito espertos por sinal. Ele estava em fantásticos delírios mentais, possivelmente<br />

fruto de alguma alteração produzida por ervas ou, quem sabe, algum cristal.<br />

Porém, logo vi que cristal era impossível, pois não existia naquela época. Então<br />

notei que era uma erva que deixaram de usar há milênios, pois seus efeitos eram<br />

completamente sem valor positivo para o corpo e mente. Ele continuou com seus<br />

mirabolantes malabarismos mentais, enquanto eu varria as mentes dos que estavam<br />

perto. Praticamente todos aqueles que estavam à minha volta estavam sob o efeito da<br />

mesma droga. Eles compartilhavam, provavelmente, uma mesma situação de entretenimento<br />

escolar.<br />

Logo adiante vi uma mãozinha acenando para mim, era a menina do ônibus.<br />

Sorria e parecia que ia me escrever alguma coisa. Dei de ombros e tentei investigar o<br />

que o professor estava querendo ensinar.<br />

Era uma série de anotações que eu jamais iria entender: matemática! Logo<br />

imaginei, completamente superada após o surgimento dos memo-cristais. E além<br />

disso sem valor nenhum em um mundo como o nosso, onde a tecnologia artificial, o<br />

consumismo e tantas outras coisas foram modificadas pela natureza. Graças aos céus<br />

não precisaria me concentrar naquilo.<br />

Logo chegou o bilhete:<br />

“Macoi, desculpe-me se fui mal-educada no ônibus. Se você quiser pode pedir<br />

ao diretor para mudar de lugar para sentar ao meu lado, afinal você não vai aguentar<br />

ficar ao lado desse bando de maconheiros o ano inteiro, não é? Ass. Jessica.”<br />

Não notei que o garoto do meu lado lera o bilhete. Ele rapidamente o arrancou<br />

da minha mão, passando-o para um colega a duas carteiras a seu lado, e logo gritando<br />

a plenos pulmões para toda a sala ouvir:<br />

– Cara, olha o que essa vaca dessa Jéssica perua escreveu pro novo brother<br />

que entrô!<br />

O outro colega leu, compartilhando o bilhete com mais duas amigas que aparentemente<br />

eram do mesmo bando, devido às roupas diferenciadas do resto da turma.<br />

Uma delas logo se ergueu da carteira. O professor já começara a gritar para que parassem,<br />

mas nem deu tempo. A menina enterrou uma bela bofetada na cara da Jéssica,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que se agarrou fortemente aos cabelos da primeira! Logo, a outra menina que também<br />

lera o bilhete e que também era da turma desses “maconheiros”, juntou-se à primeira<br />

com tabefes para todos os lados. Todo o resto da turma se ergueu num “hurra” de<br />

satisfação que me deixou chocado.<br />

Mas assim que a coisa ia realmente esquentar, surgiu o diretor do colégio aos<br />

berros pela porta, com dois ajudantes vestidos de azul.<br />

– Muito bem, eu vi tudo! As três fileiras a partir do senhor Macoi para a sala<br />

de inspeção. Aliás, senhor Macoi, parabéns, cinco minutos de colégio e já está em<br />

encrenca!<br />

Toda a turma começou a gritar “fora, fora, fora!”. Logo as outras salas ouviram<br />

e começou a ecoar por todo o colégio “fora, fora, fora!” e gritos de saudação aos que<br />

haviam conseguido importunar as entediantes aulas. Seja como for, consegui fazer de<br />

minha entrada numa escola uma pequena revolução.<br />

Logo estávamos em umas trinta pessoas andando em conjunto pelos corredores<br />

do colégio. O garoto que estava ao meu lado na sala veio falar comigo.<br />

– Ô, brother, foi mal aí. Mas não vai dá nada. Os cara tão com tudo filmado,<br />

quem vai se fodê são as mina, tá limpo?<br />

– Tá limpo – respondi, na melhor forma que achei.<br />

Então ouvi o garoto dizendo para seu colega:<br />

– Pô, o cara aí é manêro, pensei que eu ia tomá o maior sopapo.<br />

Olhei para ele de novo, mas ele já estava rindo com o resto das meninas que<br />

arrebentaram a tal da Jéssica.<br />

Fui andando sozinho para a sala de inspeção, pensando na loucura que era tudo<br />

aquilo. Porém aconteceu algo que me deixou atônito. Um dos meninos que estavam<br />

caminhando no corredor com a gente notou que os ajudantes do diretor não estavam<br />

olhando e imediatamente deu um pontapé numa pequena caixa de vidro que estava na<br />

parede. Uma sirene começou a tocar! Todas as portas de todas as salas do colégio se<br />

abriram. Uma voz anunciou que havia sido detectado incêndio nas dependências do<br />

colégio. Uma chuva artificial emanou do forro molhando tudo e todos. Logo estávamos<br />

em bando correndo em direção ao pátio externo. Essas crianças eram loucas! O<br />

menino que sentava ao meu lado na sala me disse para segui-lo. Fiz o que ele disse, todos<br />

eles não paravam de rir. Só paramos de correr quando estavam todos num enorme<br />

gramado externo. O colégio inteiro estava lá. Uma voz nos alto-falantes pedia calma<br />

e silêncio até que os bombeiros verificassem a ocorrência. Então, toda essa turma que<br />

acompanhava o menino sentou-se e eu logo fui puxado para sentar-me com eles por<br />

uma bela menina.<br />

– Daí, gato – falou ela. – Tá curtindo seu primeiro dia?<br />

Não respondi nada, eu estava muito apavorado com tudo aquilo.<br />

– Daí. Meu nome é Malu, essa é a Lô, o garotinho que senta do seu lado é o<br />

Tom, esse aqui é o Mau; e o resto cê conhece depois, que eu esqueci o nome da galera<br />

– e todos riram.<br />

Eu parecia estar em outro mundo, tamanho era meu raciocínio sobre tudo aquilo.<br />

Eles acharam ótimo, pois pensaram que eu também estava sob o efeito de drogas.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A conversa entre eles continuava.<br />

– Cara, se alguém descobrir que foi o Mau que chutou a parada do incêndio,<br />

vai dá merda.<br />

– Ninguém descobre picas – falou o Mau. – E eu tô tão fodido nesse colégio<br />

que mais uma, menos uma, não rola nada.<br />

Como era difícil entender o que eles estavam falando, optei pela leitura de<br />

cérebros, o que em alguns casos era pior ainda.<br />

– Vamo convidá o cara novo pra uma volta hoje à tarde? – falou a menina,<br />

como se eu não estivesse ouvindo.<br />

– Tá a fim dele é, Malu? – perguntou o pequeno.<br />

– Por que, tá com ciúmes? – respondeu a Malu.<br />

Logo vi que iria dar confusão de novo. Então me interpus.<br />

– Para ir aonde? – perguntei.<br />

– Porra, vamo fumá um e depois a gente vê – respondeu um dos meninos.<br />

– Pode ser – eu disse.<br />

– A gente pode sair daqui e ir almoçar fora – um deles falou. – Afinal, hoje é<br />

sexta!<br />

– Só. Vamos com a gente, Macoi – falou a menina.<br />

– Tá limpo.<br />

Era uma ótima oportunidade de verificar a vida daquela sociedade primitiva,<br />

e além disso, poderia ter tempo de localizar alguma fagulha de informação sobre o<br />

corpo que eu e o Mago estávamos habitando.<br />

Depois de alguns minutos de conversa e muita gozação para cima da Jéssica,<br />

a voz nos alto-falantes disse que as aulas seriam interrompidas até depois do recreio.<br />

Com um único uivo, todas as crianças vibraram! Parecia que eles realmente odiavam<br />

as aulas. Comecei a andar por ali, sempre seguido de minha nova “turma” e principalmente<br />

de meu pequeno e fiel “escudeiro”, o Tom, que agora já se achava meu íntimo.<br />

– De onde você vem, Macoi? – perguntou-me, enquanto éramos observados<br />

por todos que nos cruzavam.<br />

– Hã... de uma cidade... hã...<br />

– Tá limpo, não precisa se lembrar. Cê deve tá ligadão!<br />

– Na verdade estou com muita fome. Onde podemos arranjar algo para comer?<br />

Tom virou para trás e perguntou para o Mau:<br />

– Cê tem aquelas fichas roubadas da cantina aí com você? O Macoi tá com a<br />

maior larica.<br />

– Tá em cima.<br />

E deu para o Tom algumas fichas em papel.<br />

– Quê que tu qué, Macoi? Cachorro-quente, hamburguer ou pizza?<br />

Mentalizei na mente dele o que ele pensava enquanto falava. Nada daquilo me<br />

parecia comida.<br />

– Hambúrguer – falei.<br />

– Ótimo. Eu também vou querer.<br />

Chegamos a um balcão onde dezenas de estudantes gritavam para duas mul-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

heres, que faziam o possível para atendê-los. Ouviam todos os tipos de xingamento,<br />

pois era óbvio que não conseguiam satisfazer a vontade de todos. Resolvi entrar no<br />

clima da situação. Olhei para baixo. Tom estava tentando penetrar no mar de crianças<br />

que berravam seus pedidos.<br />

– Tom – perguntei -, como devo pedir?<br />

– Pegue as fichas e diga que você quer dois hambúrgueres e duas cocas.<br />

– Ótimo, agora olhe isso! – falei a ele.<br />

Olhei para a mulher. Tom me acompanhava em tudo o que eu fazia. Mentalmente<br />

chamei-a e pedi secretamente com tamanha força hipnótica que ela cambaleou.<br />

Largou tudo que estava carregando e foi pegar o meu pedido. A outra mulher gritou:<br />

– Cê tá louca?<br />

Ela nem deu bola, logo estava com o meu pedido nas mãos, sem ninguém<br />

notar. Tom ficou abismado!<br />

– Como você fez isso?<br />

– Mágica! Mas não conte pra ninguém.<br />

O resto da turma tinha sumido. Eu e o Tom estávamos sentados num canto do<br />

pátio sorvendo nosso péssimo lanche. Após terminar, Tom recostou-se numa parede e<br />

fechou os olhos, estava dormindo. Aproveitei para tentar me concentrar no que afinal<br />

estava acontecendo. Eu e o Mago tínhamos sido deslocados no tempo de novo! Mas<br />

por que razão? E sem aviso nenhum! E o pior, nós dois no mesmo corpo, só que como<br />

se fôssemos uma pessoa só. É certo que estávamos muito ligados ultimamente, mas<br />

isso era ridículo! E afinal, o que este lugar tinha a nos ensinar a não ser malandragens<br />

de um bando de adolescentes malucos? Talvez fosse isso: aprender a enganar, roubar,<br />

burlar as leis, poderia ser uma ótima ideia para nós, uma vez que o povo que iríamos<br />

enfrentar fazia isso o tempo inteiro. Mas havia algo a mais, este corpo em que nós<br />

estávamos alojados se parecia demais com a gente, e tinha o nome Macoi di Carmalho!<br />

Era um absurdo, mas podia-se pensar que foi algum antepassado de minha tribo.<br />

Mas e a semelhança com o Mago? Era completamente ininteligível esta situação. O<br />

pior era chegar em casa. Como os pais desse garoto iriam reagir quando percebessem<br />

que seu filho virara de uma hora para outra um guerreiro real e um Mago de Prata?<br />

Comecei a rir da situação.<br />

– Então encontramos a mariquinha! – falou a voz de um rapaz acompanhado<br />

de mais alguns ao nosso redor. Não tinham notado que eu estava com Tom – E então,<br />

Thomas? Vai me pagar aquele beise que tu ficou me devendo ou vai ter de levar um<br />

pau aqui mesmo? – perguntou, acordando o pobre Tom de sua sesta.<br />

– Não tô te devendo nada, seu porco!<br />

– Ah, seu porco, é? – pegou Tom pela gola da camisa quadriculada que o menino<br />

vestia e puxou-o para cima, num gesto brusco.<br />

Imediatamente eu estava de pé, encarando o tal que atacara Tom. Ele viu meu<br />

tamanho e minhas tranças mas não se assustou.<br />

– Ora, vejam só. A bichinha arranjou uma bichona para se defender!<br />

Todos os seus acompanhantes começaram a rir. Logo, já havia uma pequena<br />

roda de alunos em volta de nós.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Largue-o! – falei, porém sem usar magia nenhuma.<br />

– Com todo o prazer – ele disse, empurrando Tom de encontro à parede, mas<br />

logo fechando a mão para me esmurrar.<br />

Com toda sua força tentou meter um soco em meu rosto. Apenas levantei<br />

minha mão segurando a dele “carinhosamente”. Todos em volta soltaram um murmúrio.<br />

Tom soltou uma gargalhada. O resto da turma que acompanhava meu agressor<br />

deu um passo para trás. Eu ainda segurava a mão do rapaz. Ele tentou dar um outro<br />

soco com a esquerda, mas antes que ele fechasse a mão, eu já apertara a primeira a<br />

ponto de ele se ajoelhar em minha frente.<br />

– Ótimo modo de nos conhecermos. Meu nome é Macoi, sou irmão mais velho<br />

do Tom. Então é você que está vendendo maconha para meu irmão? – falei sentindo o<br />

estremecimento de Tom logo atrás de mim.<br />

– Pois muito bem, se você quiser continuar a viver, seu porco de merda, não<br />

chegue nunca mais perto de meu irmão, tá limpo? – Eu estava me sentindo ótimo à<br />

medida que conseguia me comunicar com aquela sociedade!<br />

– Tá limpo – falou o rapaz com um gemido. – Agora dá pra me soltar?<br />

Soltei-o, ele saiu num pulo para trás me xingando mentalmente, com sentimentos<br />

de vingança. Mas logo interferi: – procure me xingar na cara, e se quiser vingança,<br />

faça ela agora mesmo. Depois pode ser tarde.<br />

Ele virou-se, abismado. Transmiti a ele um sentimento de terror, uma indução<br />

mental de algo terrível. Ele começou a tremer e logo desmaiou.<br />

Olhei para Tom e disse:<br />

– Acho que exagerei, melhor sairmos daqui. Você só me traz problemas! Mas<br />

acho que é isso que eu preciso, para entender este inferno!<br />

Tom não sabia o que dizer, sua cabecinha estava dando voltas. Eu apenas sorria.<br />

Até que isto começava a ficar divertido!<br />

– Por que você disse aquilo? – ele me perguntou.<br />

– Aquilo o quê?<br />

– Que você era meu irmão?<br />

– Por que me deu vontade de ter um irmão.<br />

– Sério? Como assim?<br />

– Não sei explicar. Apenas achei que seria uma boa forma de assustar aquele<br />

rapaz.<br />

– Ele nunca mais vai me vender uma porra de um baseado, será que você não<br />

entende a cagada que fez?<br />

– Olha aqui – falei, com voz muito severa, olhando para ele e parando de andar.<br />

– Se você quiser ser meu amigo você vai parar de fumar essa merda.<br />

Ele me olhou com ar furioso.<br />

– Cê só pode tá louco, seu careta de merda. Quem precisa de um cara como<br />

você? – ele me disse, virando-se e indo embora.<br />

– Bem, eu já esperava por essa – falei para suas costas.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Menino estúpido, pensei. Continuei a andar com todos aqueles alunos me olhando<br />

cada vez mais assustados. Acho que a notícia de minha briga já havia se espalhado.<br />

Pois muito bem, vamos ver no que isso vai dar, pensei; afinal quem tinha o<br />

poder ali éramos eu e o Mago, nada poderia dar errado! É uma pena que eu não tivesse<br />

um memo-cristal virgem para relatar tudo isso para a tribo.<br />

Soou um sinal que me pareceu ser para o retorno às salas, pelo menos era o<br />

que todos os alunos vagarosamente faziam. Tive um pouco de dificuldade para achar<br />

o caminho de volta à Oitava dez, mas logo descobri alguns alunos que eu tinha visto<br />

na sala antes da quebra na aula de matemática. Segui esses alunos e logo estava sentado<br />

na minha carteira. Aquela que era para ser a minha nova turma de amigos entrou<br />

logo depois de mim. Eles nem olharam na minha cara. Não liguei. Todos os alunos<br />

entraram e sentaram. O professor estava se arrumando para começar a aula mas foi<br />

bruscamente interrompido pelo diretor, que estava furioso!<br />

– Muitíssimo bem! – gritou. – O senhor Thomas, o senhor Mau e as senhoritas<br />

Malu, Lorena e, para variar, Jéssica. Para minha sala imediatamente!<br />

Quase tive um ataque de riso. Provavelmente o diretor tinha repassado os<br />

vídeos e notou o que ocorrera. Quando o Tom passou por mim, tive uma certa pena<br />

dele.<br />

– Desculpe, Macoi. Acho que fui um pouco grosso com você. Se você ainda<br />

quiser poderemos ser irmãos, tá limpo?<br />

– Tá limpo – falei baixinho.<br />

Consegui determinar nessa atitude do garoto algo que poderia ser de muita<br />

vantagem para mim. Acho que eu estava inspirando algum fascínio sobre ele. Pelo<br />

menos existia algum sentimento a mais nele, que possivelmente seria de alguma<br />

paixão ou algo parecido. O problema é que estava terrivelmente escondido dele<br />

próprio. Comecei a acreditar que esta sociedade primitiva não tinha a capacidade de<br />

encarar seus sentimentos e talvez sua mente estivesse incapacitada de mostrá-los, já<br />

que eram teoricamente proibidos, pela própria sociedade. Era isso que estava ocorrendo<br />

agora com aquele garoto. Ele estava escondendo de si próprio algum tipo de<br />

fascínio que sentia por mim.<br />

Vi-o sair da sala acompanhado por sua turma e do diretor, ele estava com medo.<br />

Comecei a trabalhar mentalmente. Lancei-lhe um sentimento de paz, mas relacionado<br />

a mim, o que naturalmente iria alimentar o seu fascínio. Ele não iria saber que eu estava<br />

fazendo isso, mas de alguma maneira, o sentimento de paz que ele precisava seria<br />

relacionado a mim. Eu precisaria daquele menino para investigar algo sobre o corpo<br />

que eu estava usando e isto precisava ser feito o quanto antes. Nada como confiar em<br />

uma pessoa que está com alguma relação sentimental por você. E principalmente se<br />

esse sentimento for uma paixão enrustida.<br />

A aula começou, era de história. O professor começara a falar.<br />

– Caros alunos, muito bom dia. Como decorreu hoje um incidente um tanto<br />

raro, vamos tomar esse incidente como fonte de inspiração para nossa aula. Como<br />

estamos falando em Idade Média, vamos falar das fogueiras, das queimas de bruxas.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Como vocês sabem, na Idade Média existia algo chamado de tribunal da Inquisição.<br />

Era um tribunal composto pelos membros do clero em que uma das atividades mais<br />

comuns era julgar se alguma pessoa era particularmente perigosa para a instituição<br />

eclesiástica ou não. A pena era irremediavelmente a fogueira. E quem era julgado? As<br />

bruxas. Sim, todas as pessoas que tentavam estudar os fenômenos da natureza ou tinham<br />

algum comportamento estranho para a sociedade daquela época eram chamadas<br />

de bruxas. Logo estavam ajudando a lenha a ser queimada.<br />

Então um aluno levantou a mão e perguntou:<br />

– Mas, professor, quer dizer que nunca houve bruxas, nem magia nem nada<br />

disso?<br />

A turma toda lançou-lhe uma vaia. E tão logo pôde, o professor respondeu.<br />

– É claro que não. O que sempre houve e sempre haverá é algo chamado de<br />

ciência, nada de ritos mágicos nem de bruxas nem de magos. Isso tudo é história para<br />

crianças, como vocês, dormirem.<br />

O professor levou uma vaia que o fez rir.<br />

– Estão me vaiando, é? – perguntou. – Muito bem, vamos ver a coisa num<br />

processo democrático. Quem acredita em mágicos, duendes, fadas e em todas essas<br />

porcarias, levante a mão.<br />

Meia dúzia de pessoas, inclusive eu, levantamos. Ele veio direto a mim.<br />

– Muito bem, o aluno novo. Seu nome é...<br />

– Ortal – respondi sem querer. A turma toda caiu na gargalhada.<br />

– Sr. Ortal... – todos voltaram a rir. – Mas que é isso? Deixem eu fazer a pergunta!<br />

– Falou simpaticamente o professor. – O senhor acredita realmente em magia<br />

ou está me gozando?<br />

Não respondi, apenas encarei o professor e por indução nervosa fiz que ele<br />

visse alguns milhares de borboletas de todas as cores saindo de minhas orelhas. Ele<br />

parou de rir e deu um passo para trás, quase caindo de costas no tablado.<br />

– Algum problema com borboletas, professor, ou quem sabe com magia? –<br />

perguntei.<br />

Ele estava pálido. Toda a turma estava quieta, pois não entendia nada, afinal<br />

era só o professor que vira as borboletas. As borboletas sumiram. O professor continuava<br />

a me olhar.<br />

– A magia existe sim, professor, é só usar a imaginação – falei.<br />

Ele me olhou severamente.<br />

Após a aula quero falar com o senhor, em particular.<br />

Ninguém na turma entendeu nada. Apenas soltaram um “hummmmmmmm”<br />

bem alto, a ponto de a turma ao lado ouvir e repetir, assim como todas as outras turmas<br />

logo em seguida.<br />

Fiquei num delicioso silêncio, mas o professor, por sua vez, continuou a aula<br />

com um terrível mau humor. Cada vez mais meus colegas me olhavam de maneira<br />

alarmada.<br />

Comecei a pensar como eu iria fazer com que Tom me ajudasse a descobrir<br />

sobre o Macoi di Carmalho. A resposta me veio na aula seguinte. Era aula de filosofia.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A professora fez uma introdução sobre como as pessoas se conheciam mal e falavam<br />

umas das outras sem ter a devida informação sobre o assunto, e estipulava uma tarefa<br />

de casa que consistia numa entrevista com os pais de seu colega, para saber como<br />

outras pessoas pensavam sobre uma pessoa com quem você convivia quase que diariamente.<br />

Era uma ótima oportunidade! Pediria a Tom que fizesse esta entrevista sobre<br />

mim mesmo com os meus “pais”, e assim teria um ótimo meio de agir e descobrir<br />

afinal alguma pista sobre este corpo que eu e o Mago estávamos utilizando.<br />

Quando bateu o sinal para o término da aula, fiquei esperando Tom. Ele entrou<br />

na sala com alguma dificuldade, pois a turma estava na porta esperando a enorme<br />

população de alunos passar para poder ir embora. Tom veio com um enorme sorriso<br />

no rosto, mostrando descaradamente enormes e perfeitos dentes brancos.<br />

– Cara, cê não sabe o que o Mau está ferrado! Acho que o cara vai ser expulso<br />

desta vez!<br />

– Sério? – perguntei.<br />

– Só. A bicha do diretor descobriu tudo, por isso que você não foi chamado. Eu<br />

só levei uma advertência. As guria tão fodida também, mas o Mau se ferrô direitinho!<br />

Vamo almoçá no Mac?<br />

– Vamos, mas acho que eu preciso avisar minha mãe.<br />

– Tá limpo! Tem um telefone no final do corredor. Vamo nessa.<br />

Acompanhei-o até o corredor, fugindo do professor de história, e expliquei a<br />

ele a tarefa de filosofia que tínhamos que fazer. Ele concordou imediatamente. Achei<br />

isso um tanto estranho, afinal, aquele tipo de aluno não gostaria de uma tarefa como<br />

essa. Minha dedução sobre o que ele estava sentindo por mim estava correta. Ele<br />

queria me conhecer melhor.<br />

Então tive de fazer algo bem difícil. Ligar para minha “mãe”. O telefone estava<br />

no caderno. “Como se usa esse tipo de aparelho?”, perguntei a mim mesmo, olhando<br />

um telefone vermelho bem na minha frente.<br />

– Quer uma ficha? – Tom me perguntou.<br />

– Olhe, Tom, na minha cidade os telefones são diferentes. Será que você pode<br />

ligar para mim e chamar minha mãe?<br />

– Claro! Como é o nome dela?<br />

– É... chame, mmm... senhora Carmalho.<br />

– Está bem.<br />

Ele ligou sob meu atento olhar e logo minha “mãe” estava na outra linha.<br />

– É a senhora Carmalho? – perguntou Tom.<br />

– Sim – deu para ouvir a mesma voz que tinha me acordado.<br />

– Só um minuto, por favor – disse Tom.<br />

– Hã... Oi, mãe – falei no fone.<br />

– Oi, filho. Como foi a aula?<br />

– É... foi boa, muito boa! Olha, mãe, eu não vou almoçar em casa, tá? Depois<br />

do almoço eu te ligo de novo, tem muita gente aqui.<br />

– Tá bom! Divirta-se! Tchau!<br />

– Hã... Tchau...


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Pronto – falei sorrindo para Tom.<br />

Ele estava me olhando com um olhar interrogativo.<br />

– Tem certeza que ela é sua mãe? –perguntou- me sorrindo.<br />

– Tenho. Por quê?<br />

– Hum, por nada. Só estava brincando.<br />

E assim saímos da escola para a rua. Eu, o Mago de Prata e um escudeiro<br />

mirim, em pleno século vinte! Era alarmante. Quando chegamos à rua, vi o que era estudar<br />

naquela época. Deveria haver mais de três mil alunos concentrados na frente do<br />

colégio. Fora isso, uma imensidão de automóveis subindo a rua, num engarrafamento<br />

gigantesco.<br />

– Venha, Macoi, eu sei que a cidade em que você morava era bem maior e sua<br />

escola também, mas não precisa ficar parado feito bobo. E além disso tô morrendo<br />

de fome!<br />

Seguimos a pé pela rua, onde uma imensidão de estudantes fazia o mesmo<br />

trajeto. Tom não parava de falar um minuto. Ou cumprimentava alguém aqui, ou me<br />

apresentava para alguém ali, e assim ia, até que as pessoas começaram a se dissipar.<br />

Mesmo assim, uma boa parte possivelmente estava indo para o mesmo lugar que nós.<br />

Chegamos ao que poderia ser um imenso lugar colorido, com muitas pessoas<br />

na frente, fazendo uma imensa e desconexa fila.<br />

– Finalmente chegamos – disse-me Tom, com um sorriso. – Mac Donald’s. O<br />

único de nossa pacata cidade.<br />

– Ei! – gritou uma menina no final da fila. – Tom, podemos comer com vocês?<br />

– Claro, venham. – disse Tom, a grande altura.<br />

As meninas vinham do final da fila em nossa direção.<br />

– Cê quer ver o que são de galinhas essas gurias, Macoi? – falou-me baixinho.<br />

E quando elas chegaram, reparei em suas roupas, altamente insinuantes.<br />

– Olha só! Quem é esse gato, Tom?<br />

– É um amigo meu, seu nome é Macoi, ele é aluno novo.<br />

– Qual é, gatinho, mas que cabelo manêro, hein? – falou uma delas, me dando<br />

um beijo no rosto e me abraçando o pescoço.<br />

A outra, por sinal, já estava agarrada com o Tom. Que loucura!<br />

– E então, o que vão fazer à tarde? – perguntou a menina, ainda pendurada no<br />

meu pescoço.<br />

– Eu e o Macoi vamos fazer uma pesquisa com a mãe dele, mas depois estamos<br />

livres. Que tal a gente comer aqui e depois ir ao shopping?<br />

– Certeza! Tamos na barca! – falou a menina.<br />

Entramos depois de meia hora de espera. Eu e a menina ficamos numa mesa,<br />

cuidando enquanto Tom e sua amiga pegavam nossa comida. A menina começou todo<br />

o inevitável questionário:<br />

– E daí, gatinho, de onde você vem?<br />

– De terras distantes – respondi calmamente.<br />

– Nossa, tá ligadão, hein? Também, amigo do Tom! E aí, tá a fim de alguém?<br />

– Como é seu nome mesmo?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Ah, desculpe! É Val.<br />

– Que tipo de atividade você faz, Val?<br />

– Nossa, ó o cara! Bem, eu estudo na mesma escola que você de manhã, e à<br />

tarde eu vou ao shopping. Às vezes vou ao cinema, e quando aparece, fumo um, na<br />

casa da galera quando tá liberado, tá ligado?<br />

– Você não faz nenhuma atividade extra acadêmica? Algo que possa usufruir<br />

no seu futuro?<br />

– O que poderia ser melhor do que ficar com um gatinho como você ou fumar<br />

um a tarde inteira? – respondeu-me, com jeito esquisito.<br />

Nisso, chegou Tom com a outra menina, carregando cada um uma bandeja<br />

cheia de caixas coloridas, onde provavelmente estaria nosso almoço. Comecei a sentir<br />

falta das Florestas Azuis.<br />

Logo, estávamos nos empanturrando com batatas empapuçadas em gordura,<br />

sanduíches com gosto de plástico e Coca-Cola, uma combinação perfeita de detritos<br />

dessa sociedade absurda de que eu estava participando. Após o almoço, marcamos<br />

um encontro com as garotas num shopping. Eu pedi para elas verificarem os cinemas.<br />

Estava louco para ver como era um filme, a maneira antiga de contar histórias.<br />

Combinei tudo com o Tom acerca da nossa entrevista com minha mãe. Ele<br />

telefonaria e marcaria um encontro com ela. A professora especificou que a entrevista<br />

deveria ser apenas com os pais e o amigo, sem a participação do filho; era perfeito!<br />

Tom ligou para minha suposta mãe e marcou tudo direitinho. Ele tinha pegado<br />

o endereço. Tomamos um táxi e fomos ao escritório de minha mãe. Eu fiquei numa<br />

praça em frente ao enorme prédio onde Tom entrou. Deixei o corpo de Macoi com<br />

apenas uma parte de consciência, para que eu retornasse imediatamente se houvesse<br />

algum perigo. Para quem olhasse de fora pareceria um menino cochilando num banco.<br />

Agora eu estava acompanhando telepaticamente a mente de Tom.<br />

Ele entrou alegremente no hall do prédio. Era uma enorme construção, cheia<br />

de espelhos e concreto. Para a época deveria ser moderníssimo. Tom foi logo interceptado<br />

por um segurança.<br />

– O que deseja, menino? – falou o guarda bruscamente.<br />

– Olha aqui, ô mané! – respondeu Tom. – Tô procurando a senhora Carmalho,<br />

ela é muito minha amiga e está me esperando, tá ligado?<br />

– Espere aqui um pouco – falou o guarda, já se dirigindo a um balcão onde<br />

havia outro segurança, que olhou para Tom com cara incrédula.<br />

Pegou o fone e falou alguma coisa que não foi possível captar. O outro guarda<br />

retornou.<br />

– Ah! Você que é o Tom! Por que não disse antes? Venha, eu acompanho você<br />

até o escritório da doutora Carmalho.<br />

– Ih! Ó o cara aí! Vê se não se chega muito, falô?<br />

– Gracinha de criança – falou o guarda, com um sorriso amarelo, puxando Tom<br />

pela camisa.<br />

Entraram em um elevador e subiram até o último andar. O guarda o levou até<br />

uma sala onde havia uma linda mulher à espera de Tom.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Uh! Mas que dia de sorte! – falou, olhando para o guarda, que enrubesceu.<br />

– Té mais aí, mané! – gritou para o guarda, que já estava esperando o elevador<br />

para voltar ao seu posto.<br />

– Oi, lindinho! – disse a secretária. – Quer tomar alguma coisa? Uma água, um<br />

refrigerante, um sorvete?<br />

– Uma cerva, por favor!<br />

– Gracinha. Venha, a Dra. Carmalho está esperando você. Você deve ser muito<br />

importante para ela receber você assim, sem mais nem menos, no meio da tarde!<br />

– Só, eu sou o presidente da “Liga dos estudantes jacarés importados”. Estamos<br />

pedindo um auxílio para as pessoas portadoras de síndrome de jacaré, que passam<br />

o dia inteiro enfiados dentro de uma bolsa de mão, já ouviu falar?<br />

Ela deu uma risadinha e bateu numa porta.<br />

– Entre! – gritou minha “mãe” lá de dentro.<br />

A secretária abriu uma bem talhada porta de madeira e o menino entrou.<br />

– Olá, Tom. Muito prazer em conhecê-lo!<br />

– Boa tarde, doutora Carmalho. Como está a senhora?<br />

– Ora, vejam só! Muito bem, obrigada! Mas a que devo a honra...<br />

Tom foi logo se sentando numa cadeira oposta à que minha mãe se dirigia.<br />

– Muito bem, doutora Carmalho. Estou necessitando de algumas informações<br />

pessoais sobre seu filho. É claro que a senhora deve achar um tanto estranho este pedido,<br />

mas é para uma pesquisa filosófica escolar. Como eu e seu filho nos conhecemos<br />

hoje e nos damos, aparentemente, muito bem, eu o escolhi para esta pesquisa. A senhora<br />

pode ficar sossegada que todas as informações aqui registradas serão apenas de<br />

proveito acadêmico, e para que eu não faça nada de errado com elas, fique a senhora<br />

sabendo que seu filho terá as mesmas informações sobre mim de meus pais.<br />

Minha “mãe” estava abismada.<br />

– Sabe que para uma pessoa do seu tamanho você fala muito bem?<br />

– Obrigado, doutora. Não é por menos que uma pessoa inteligente como seu<br />

filho me escolheu como amigo.<br />

Que cara de pau! Nunca vi tamanha enrolação em toda minha vida. Então<br />

aquele indefeso menino sabia mesmo como se comportar. Era hilariante! Minha<br />

“mãe” estava tão pasma quanto eu. Mas logo ela começou.<br />

– Então do que se trata?<br />

– Muito bem – disse Tom. – Fale-me sobre ele desde seu nome até suas predileções.<br />

Poupe-me da infância, quero saber de suas atitudes de uns anos para cá.<br />

A mulher estava embasbacada, assim como eu!<br />

– Você não vai anotar nada?<br />

– Este é um trabalho de observação e análise, acredito que qualquer anotação<br />

possa interferir na minha análise empírica.<br />

– Está bem, vamos lá. Macoi nasceu em 1984, portanto ele tem quatorze anos.<br />

– O quê? Aquele poste?<br />

– Sim, como pode ver, tanto eu como Marçons, seu pai, somos muito altos.<br />

Macoi sempre foi um garoto estudioso, nunca repetiu o ano, gosta de esportes, apesar<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

de não gostar de competir em nada. Adora namorar, principalmente garotas louras<br />

de olhos azuis. Vê filmes sempre que pode e gosta mais dos de ficção científica. É<br />

gamado em música erudita e rock pesado.<br />

– Pelo cabelo eu poderia imaginar que ele tinha um ótimo gosto musical! –<br />

falou Tom.<br />

– É, mais ou menos. Acredito que sua matéria predileta seja história. Ele é<br />

muito querido em casa, se dava muito bem com o pessoal do bairro onde morávamos,<br />

principalmente com os menores, os quais ele sempre defendia. Acho que ele sempre<br />

sentiu falta de um irmão menor.<br />

– Ei, isso eu reparei!<br />

– É, eu já imaginva qual seria o tipo de amigo que ele escolheria.<br />

– Como assim?<br />

– Alguém como você, menor que ele, esperto e completamente hílare.<br />

– Hi, hi! Muito obrigado!<br />

– Ótimo, de que mais você precisa, Tom?<br />

– Deixa eu ver... Bem, fora os filmes e o tipo de música, a senhora diria que ele<br />

tem algum tipo de literatura predileta?<br />

– Ah, sim, ele adora magia, consome todos os tipos de livros sobre magos,<br />

duendes, fadas, elfos, dragões, e ainda os que ensinam todos os tipos de magia. Uma<br />

loucura o que ele lê sobre isso! Ele gosta muito de se expressar por desenhos e pintura,<br />

na verdade estava até cursando aulas de pintura antes de mudarmos para cá.<br />

– Muito interessante! Isso eu não sabia. Muito bem, acho que eu já tenho o<br />

bastante para fazer um perfil psicológico dele. Muito obrigado, senhora Carmalho.<br />

– Pode me chamar de Gioconda, Tom. Foi um grande prazer. Apareça lá em<br />

casa para comer um bolo de chocolate, o Macoi adora! E se você o vir hoje, diga para<br />

ele me ligar aqui mais tarde que eu irei pegá-lo. Afinal, duvido que ele saiba como ir<br />

para casa.<br />

– Muito obrigado pelo convite, Gioconda. Foi um grande prazer conhecê-la!<br />

Tom saiu da sala e a secretária o acompanhou até o elevador.<br />

– Não quer me dar seu telefone, gatinha?<br />

– Quando você crescer meio metro, “te” darei, fofinho!<br />

Os dois riram muito. Tom estava de saída do prédio e eu resgatei a consciência<br />

do corpo de Macoi.<br />

– Daí, malandrage? – veio ele sorrindo. – Tua mãe é muito manêra, hein?<br />

– E você é um cara de pau! – falei, esquecendo que ele nunca saberia que eu<br />

estava lá como ele.<br />

– Quê que tu qué dizê com isso, bródinho?<br />

– Bem – tentei responder. – Nada, ou melhor, acho que nós precisamos conversar,<br />

Tom. Preciso lhe contar uma coisa muito séria, e acho que você é uma ótima<br />

pessoa para me ajudar.<br />

– Ei! Tá querendo dizer que vamos dar os boi nas minas?<br />

– Dar o quê?<br />

-Vamo deixar as mina esperando?


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Ah! As meninas. Bem, acho que sim.<br />

– Ih, cara! Tu não vai me dizer que você é gay.<br />

Era isso! Esta sociedade realmente tinha preconceito para alguns tipos de sentimentos!<br />

Ela aceitava o ódio como se fosse a coisa mais normal e proibia certos tipos<br />

de amor por não serem algo comum.<br />

– Não, não se trata disso.<br />

– Então qual é a treta?<br />

– Bem, precisamos de um lugar calmo, em que possamos conversar um assunto<br />

realmente sério. Trata-se de minha vida.<br />

– E você vai confiar isso a um cara desconhecido como eu?<br />

– Tenha certeza de que eu o conheço mais que você imagina. E agora você me<br />

conhece também, não é verdade?<br />

– É, pode ser, e mesmo assim tô cansado de agarrar aquelas peruas. Já sei! Tem<br />

um lugar muito manêro e que ninguém vai nos incomodar. Eu sempre ia lá pra fumar<br />

um com a galera, até que sujô.<br />

Na mesma praça, pegamos um ônibus que estava praticamente vazio. Sentamos<br />

no banco de trás. Tom encostou a cabeça de lado e aparentemente cochilou, eu<br />

fiquei vendo a paisagem da cidade passar. Esta, pelo que me falaram, era uma cidade<br />

modesta, mas dava pelo menos umas vinte vezes o tamanho da Aldeia Carmalhoc.<br />

Que loucura! Como tanta gente podia viver assim, apinhada num mesmo lugar? O<br />

céu, apesar de limpo, não tinha a mesma intensidade de azul de onde vínhamos, nem<br />

mesmo as árvores pareciam ter a mesma vida. Tudo era cinzento, ainda que a cidade<br />

aparentasse ser limpa e com muitas áreas verdes.<br />

Comecei a pensar sobre o que significava a nossa ida para lá. Repassei mentalmente<br />

a entrevista com minha “mãe”. Era óbvio que eu entrara em sintonia com<br />

sua mente enquanto ela falava sobre o verdadeiro Macoi, e fui muito mais a fundo do<br />

que aquelas meras palavras relatadas para Tom. Comecei a me concentrar no assunto,<br />

utilizando-me de várias técnicas de significação por indução mental. Algo dominado<br />

apenas pelo povo dos Magos de Prata, mas um poder que agora eu poderia utilizar<br />

porque fazia praticamente parte desta tribo. Afinal, eu e o Mago éramos agora um só.<br />

Era isso! Estremeci com o choque da descoberta! Eu e o Mago não apenas<br />

fazíamos parte daquele corpo naquele momento. Na verdade, aquele Macoi era eu e<br />

o Mago juntos o tempo inteiro, e que quatro mil anos depois iríamos viver de novo,<br />

mas separados em dois corpos diferentes, um como o Mago de Prata e outro como<br />

Ortal Carmalhoc! Deuses! Nós já havíamos estado juntos antes! Fomos repassados<br />

geneticamente durante gerações para só depois de mais de quatro mil anos nos encontrarmos<br />

de novo, e numa situação extrema. Mas o que significava isso? Se existia já<br />

uma pessoa que compreendia eu e o Mago, por que tornaríamos a nos encontrar e por<br />

que, ao nos encontrarmos e termos uma relação de uma pessoa só, voltaríamos a ser<br />

a primeira pessoa de novo? Era óbvio que isso tinha algum sentido, algum propósito<br />

secreto. Algo estava para acontecer, algo grande, e nós não tínhamos nem ideia do<br />

que era.<br />

Com todos esses pensamentos, nem notei que estávamos para chegar ao tal<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

lugar aonde Tom queria me levar. Realmente, era um lugar muito bonito se comparado<br />

às pilhas de concreto da cidade. Tratava-se de um parque de flores. Ali se comercializavam<br />

flores, mel, e vários tipos de frutas e verduras. Mas além disso, havia uma<br />

grande extensão de matas virgens em torno de um lago.<br />

Andamos muito por este parque, até que chegamos a um local afastado, logo<br />

depois de uma ponte. Era uma pequena clareira com várias rochas espalhadas pelo<br />

chão. Tom foi para uma delas e sentou-se na grama, encostando-se na rocha. Fiz o<br />

mesmo. Começamos a conversar.<br />

– E então, Macoi, o que está te afligindo? Seus pais vão se separar?<br />

A esperteza desse menino era de espantar.<br />

– Não, não é isso.<br />

– Então o que é?<br />

Demorei um pouco para dar a resposta.<br />

– Tom, eu não sou quem você pensa que eu sou.<br />

– Como assim?<br />

– Na verdade é muito difícil de lhe explicar.<br />

Assim que terminei de falar isso, comecei a notar algo estranho naquele corpo<br />

em que eu e o Mago estávamos. Comecei a sentir algo se mexer dentro daquela cabeça.<br />

“Mago, o menino está despertando!”, pensei comigo mesmo. Fechei os olhos e<br />

esperei um pouco. Deveríamos tomar uma atitude, o choque seria muito grande para<br />

Tom, mas era a única saída para aquela situação.<br />

– O que está acontecendo, Macoi? – perguntou Tom com voz de preocupação.<br />

Com isso, o despertar estava completo. Eu e o Mago deveríamos sair daquele<br />

corpo para não influenciar a mente do verdadeiro Macoi.<br />

Num verdadeiro deslumbre visual, como não poderia deixar de ser, eu e o<br />

Mago nos separamos do corpo de Macoi. Éramos dois espectros prateados, brilhantes<br />

e transparentes, flutuando na frente dos dois garotos encostados na rocha. Tínhamos<br />

a forma original de nossos corpos, só que emitíamos uma luz própria. Os dois ficaram<br />

assustadíssimos. Acho que tentaram se levantar e correr, mas não conseguiam<br />

se mexer.<br />

– Mas que porra é essa, Macoi! – gritou Tom, embasbacado.<br />

– Sei lá! – disse Macoi, olhando com espanto para Tom e, perguntando a si<br />

mesmo quem era esse cara que sabia seu nome.<br />

– Calem-se – pediu calmamente o Mago.<br />

Eles estavam perplexos com a situação.<br />

– Não vamos machucá-los – disse eu. – Estamos aqui porque tivemos que, de<br />

alguma forma, interferir em parte de suas vidas. Não somos deuses, nem fantasmas,<br />

nem anjos, somos pessoas como vocês. Só que de um tempo mais avançado. Tivemos<br />

que voltar a este passado para reconhecer alguém que somos nós mesmos.<br />

– Ei, calma aí! – disse Tom – Eu conheço esse jeito de falar! Você é o Macoi,<br />

só que não está no corpo dele.<br />

– Exatamente! Meu nome é Ortal e este é o Mago de Prata. Nós éramos, neste<br />

tempo em que vocês vivem, esta pessoa chamada Macoi. Nós fomos separados após


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

quatro mil anos e agora tivemos que voltar para este corpo, para que pudéssemos<br />

perceber que um dia fomos a mesma pessoa. Alguém tentou mostrar isto para nós,<br />

não sabemos por que. Mas o fato é que nós pedimos desculpas por interferir desta<br />

maneira nas suas vidas. Pedimos a você, Tom, que continue sendo amigo de Macoi e<br />

o auxilie na percepção desta sua nova casa, afinal, acho que ele nem sabe que já teve<br />

um dia inteiro na nova cidade. E quanto a você, Macoi, continue a levar a sua vida<br />

como está levando. Um dia você vai conhecer um mundo maravilhoso, mas através<br />

de dois corpos diferentes.<br />

– Ei! E quanto mim? – protestou Tom.<br />

– Desculpe-nos, Tom – era o Mago que falava -, mas não sabemos nada sobre<br />

seu futuro. Sabemos apenas que você é uma pessoa especial e, pelo fato de estar em<br />

nossa companhia, isto é, de Macoi, fará algo de bom. E não se esqueça, pare de fumar<br />

maconha.<br />

Macoi olhou-o com ar meio de gozação. Ótimo, eles estavam reagindo bem.<br />

– Agora devemos ir – continuou o Mago.<br />

– Esperem! – protestou Macoi. – Falem-me de vocês. De onde vêm? Quem<br />

são?<br />

– Nós somos você, Macoi, só que daqui a quatro mil anos. Tenha paciência,<br />

isto passa rápido.<br />

Ele sorriu.<br />

– Acho que podemos ir, disse o Mago. Mas, penso que devemos deixar-lhes<br />

um presente, para que sempre se lembrem de que existirá um futuro grandioso.<br />

Então, eu e o Mago mandamos algumas lembranças de nosso mundo para eles<br />

e, é claro, algumas receitas de magia básica, afinal de contas os meninos deveriam se<br />

divertir um pouco. Desaparecemos.<br />

CAPÍTULO 7<br />

O Povo Rebelde<br />

Caímos num sono profundo, estávamos exaustos. Sonhamos com os meninos<br />

no passado! Era um sonho quase real, que eu e o Mago compartilhamos. Eles se divertiam<br />

muito na volta para casa, do parque. Já estavam formulando a concepção da magia<br />

e como poderiam usá-la. Ficamos tranquilos, pois sabíamos que tínhamos dado,<br />

além da receita da magia, certas combinações de elementos mentais que faziam com<br />

que eles tivessem a consciência da Eco Revolta antes mesmo de esta ter acontecido.<br />

Estávamos plantando uma nova raiz acerca de nosso tempo.<br />

Após uma maravilhosa noite de sono, acordamos em meio à floresta. Não<br />

tínhamos sequer ideia de onde estavam as jovens donzelas. Pensei em perguntar ao<br />

Mago, mas antes mesmo de falar sobre isso, ele já me transmitiu que não sabia o<br />

paradeiro delas. Senti que ele me escondia algo. Desmontamos o acampamento e<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

continuamos a nossa busca ao Povo Blasfêmico, agora dotados de mais informações<br />

sobre mentiras e enganações que aprendemos com nosso peculiar instrutor Tom, no<br />

passado. Como seria bom se ele estivesse com a gente!<br />

Continuamos andando rapidamente pela mata durante uns três dias. E já no<br />

terceiro dia começamos a sentir a presença maligna do Povo Blasfêmico.<br />

Eu e o Mago tínhamos que discutir um plano de como penetrar naquele povo<br />

maldito, e depois sobre o que fazer. Deveríamos esperar pelo exército que vinha liderado<br />

pelo Lorde Pompe Carmalhoc com todas as tribos em conjunto ou deveríamos<br />

investir nós mesmos contra eles? Estávamos sem respostas. O melhor que pudemos<br />

pensar foi tentar espionar o povo antes, ver como viviam e quais eram suas falhas e<br />

seus medos. Depois pensaríamos sobre como investir contra eles, se é que investir<br />

contra eles seria a melhor solução.<br />

Começamos, na manhã seguinte, uma delicada caminhada em meio a floresta.<br />

Cada gesto dali para diante seria meticulosamente planejado. Não queríamos de maneira<br />

nenhuma ser capturados, pois não sabíamos ainda qual era a extensão do poder<br />

daquele povo. E assim, deslocando-nos como uma brisa através da mata, andamos por<br />

mais dois dias na direção em que as donzelas nos tinham dito para ir.<br />

Chegamos ao topo de um enorme desfiladeiro. Era impressionante a altura<br />

daquele lugar. Na verdade, nem tínhamos certeza da altura, pois sequer podíamos ver<br />

o chão. Já era tarde e existia uma neblina cinzenta. À nossa frente, o mundo tornara-se<br />

obscuro e frio.<br />

Armamos nosso acampamento, pois agora a neblina era tanta que não conseguíamos<br />

nem enxergar a alguns poucos metros de distância. Era algo aterrorizante.<br />

Eu e o Mago nos fechamos em uma redoma mental, estávamos protegidos ali dentro;<br />

afinal, a boa e velha magia estava ao nosso lado. Fizemos uma refeição à base de mel<br />

geriátrico, pois necessitávamos de muita energia, já que estávamos na iminência de<br />

um encontro pouco recomendável. Tivemos uma noite tranqüila.<br />

Ao acordarmos, porém, ficamos abismados com o que vimos. Realmente estávamos<br />

no ponto mais alto daquele penhasco. Dali, tínhamos uma visão espetacular<br />

de uma imensidão de terras impossível de calcular. Mas foi quando nossa visão se<br />

acostumou à claridade da manhã e à magnitude do lugar que começamos a observar<br />

por que aquele povo era chamado de blasfêmico.<br />

Lá embaixo no abismo. De onde nos encontrávamos, podíamos ver uma imensa<br />

cidade, feita principalmente de casas de madeira e lama. As pessoas moravam na<br />

mais absoluta miséria e trabalhavam acorrentadas, movidas a chicote. Esta cidade se<br />

estendia por quilômetros no vale. Era cortada por vários rios que em nada lembravam<br />

os rios de minha aldeia, pois eram escuros e nada refletiam. Os casebres se misturavam<br />

à vista, à medida que ia se observando ao longo da cidade, um emaranhado de<br />

arquitetura mal acabada até onde a visão alcançava.<br />

Bem no meio desses casebres havia uma espécie de templo, uma enorme catedral<br />

negra que se erguia com muito estilo perante as pequenas e pobres casas. O<br />

efeito que resultava era algo aterrorizador. A catedral se impunha de tal forma sobre<br />

as casas que parecia que iria engoli-las. Era uma cena atordoante.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Das casas lá em baixo saíam nuvens de fumaça negra. Ao acompanhar o desenho<br />

destas fumaças se erguendo ao céu, notamos uma coisa mais estarrecedora ainda!<br />

Circundando a imensa catedral, havia cinco redomas quase invisíveis, de vidro,<br />

flutuando a cem metros do chão. Aguçando muito bem a visão, podíamos ver uma<br />

cidade em cada uma destas redomas, que eram interligadas por imensos corredores<br />

também transparentes. Nelas morava o Povo Blasfêmico, sustentado pelo trabalho<br />

escravo de uma imensa massa popular aos seus pés. Foi a cena mais aterrorizante que<br />

vimos em nossas vidas.<br />

Eu e o Mago resolvemos nos infiltrar secretamente em meio à população escrava.<br />

Descemos o penhasco acompanhando sua borda, levamos o dia inteiro para isso.<br />

Ao chegarmos lá embaixo, começamos a investigar sorrateiramente os movimentos<br />

da cidade escrava. Estávamos longe, porém já sentíamos o terrível cheiro que emanava<br />

dali. Já era noite, entraríamos na cidade de madrugada. Ficamos ali a observar<br />

o que acontecia.<br />

As pessoas trabalhavam nas mais diferenciadas tarefas, eram coisas que nunca<br />

tínhamos visto antes. A população escrava trabalhava sem parar, mas o mais interessante<br />

era que eles não eram forçados a isso. Existia um certo policiamento, no entanto<br />

os escravos pareciam não estar ostensivamente vigiados, não havia nem cercas nas<br />

margens da cidade. Na verdade, só se tinha a impressão de serem escravos por estarem<br />

fazendo um trabalho mecânico, de repetição, na absoluta miséria em que viviam.<br />

O que os escravos produziam era algo interessante, vários tipos de objetos de<br />

todos os tamanhos e formatos. Pareciam ser extremamente complexos, mas todos<br />

feitos de matéria-prima bruta, isto é, minerais e madeira. Portanto, quanto a isso não<br />

estavam de forma alguma burlando a lei da Eco Justiça. Mas com relação a poluir o<br />

meio ambiente, eles estavam, e muito. Primeiramente, jamais a Eco Justiça permitiria<br />

o convívio de tantos seres humanos juntos, exatamente pelo fato de estar ocorrendo<br />

isso que estávamos vendo e sentindo, isto é, um enorme despejo de poluição tanto no<br />

ar como na mata e nos rios. Era algo nojento.<br />

Víamos toda aquela população trabalhando sem parar. Havia pequenas fogueiras<br />

onde fundiam metais, casas onde eram serradas madeiras, tudo era muito primário.<br />

Mas a atitude dos escravos estava nos deixando confusos. Eles trabalhavam como se<br />

fosse para eles, embora tudo o que produziam fosse levado por carroças a cavalo pelo<br />

emaranhado das vielas. Crianças estavam trabalhando feito loucas, e também homens<br />

e velhos. O que pouco vimos foram mulheres.<br />

Todos estavam muito mal vestidos, com trapos e pés descalços. Todos estavam<br />

muito sujos, com os cabelos despenteados. Eram magros, quase secos; vimos mesmo<br />

alguns caindo de mais completo cansaço. A miséria imperava naquele lugar, porém,<br />

ainda assim, eles continuavam a trabalhar, como se estivessem sob um efeito hipnótico.<br />

Enquanto observávamos e já estipulávamos como iríamos penetrar naquele<br />

lugar absurdo, sentimos a presença de pessoas a nos vigiar. Começamos a transmitir<br />

telepaticamente o que estava ocorrendo e qual seria nossa estratégia. O Mago<br />

começou:<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

“Trata-se de oito jovens, Ortal. Estão armados com lanças e têm a sabedoria<br />

das lutas antigas.”<br />

“Já senti, Mago. Eles nem desconfiam que nós sabemos sobre eles. Pois bem,<br />

ficaremos aqui em forma de ilusão. Tu ficas de costas para mim enquanto eu pego o<br />

líder que está montado na árvore do centro, logo atrás de nós.”<br />

Um deles deu um cutucão naquilo que parecia ser nossos corpos deitados em<br />

meio à mata. Quando ele reparou que nada havia ali, virou-se para o líder. Este já estava<br />

flutuando a dois metros de altura, com minha a espada em seu pescoço. O Mago<br />

estava logo acima de mim. Todos agora estavam em silêncio, olhando para aquela<br />

cena alarmante. Então, eu e o Mago falamos numa só voz:<br />

– Sob minha algibeira tenho os seus cadáveres. Sou o Mestre da Magia, sou<br />

aquele que, neste momento, detém os seus destinos. Eu tenho a força dos teus deuses,<br />

eu traço os planos da tua fé, eu forneço a fagulha de tua luta, eu sou a tua cegueira e a<br />

tua maior paixão. Porém, também sou a fúria de teus pesadelos. Na receita de meu ser<br />

não existe a menor pitada sequer de ódio, mas tenho sob minha espada a garganta de<br />

seu líder e forneço-lhe a vida, se sobre a mata suas armas caírem.<br />

– Façam o que ele disse – falou o líder, com a voz estrangulada pela espada.<br />

Após todas as armas estarem no chão, soltei-o vagarosamente. E ele disse:<br />

– Como pode tamanha força emanar de um só ser?<br />

– Posso vencer um exército com minha força, porém posso vencer o mundo<br />

junto com minha outra parte.<br />

Coloquei o Mago na minha frente. Ele ainda flutuava a uns dez centímetros<br />

do chão.<br />

– Quem são vocês? – perguntou um deles.<br />

– Eu sou o Guerreiro que veio antes – falei, em forma de códigos, pois notei<br />

que aquele povo tinha um grande senso místico. – E sou acompanhado do último<br />

Mago Prateado, agora somos um.<br />

Ao ouvir isso, eles fizeram algo inesperado. Todos ao mesmo tempo se ajoelharam<br />

diante de nós, falando em conjunto, mas num murmúrio:<br />

– É a lenda! A lenda de Ohr!<br />

Dera certo, logo notamos que aqueles jovens eram rebeldes. Defendiam uma<br />

causa.<br />

– Finalmente – falou o líder – achamos o que por séculos nossos antepassados<br />

procuraram. A lenda está diante de nós!<br />

Mas logo um dos seus acompanhantes levantou a questão:<br />

– Como poderemos saber se não são blasfêmicos disfarçados tentando descobrir<br />

nossas bases? Só porque se utilizaram de algo que chamam magia? Poderia ser a<br />

tecnologia desse povo maldito – falou, apontando para a cidade escrava.<br />

– Não lhe posso responder, caro Maifrem – disse o líder.<br />

Mas logo o Mago interveio.<br />

– Se você é Maifrem, você é Tramas – falou o Mago, apontando para o líder-,<br />

filho de Dorim e de Marnas. Mas seu nome é Trar, aquele que luta sem destruir.<br />

Eles estavam quase em choque com o que aquela aparente criança falara. E eu


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

logo entrei na mente do Mago e continuei, mas me assustando, pois o rumo da conversa<br />

não tinha nada de lenda, mas, sim, de algo que poderia ser real:<br />

– E eu sou Ortal Carmalhoc, o mago guerreiro, e sou o que ama o Mago de<br />

Prata, pois sei que nós dois somos um só. Descendo da família Carmalhoc, mas temos<br />

nossa descendência em comum – apontei para o Mago. – Descendemos de Macoi di<br />

Carmalho, o primeiro Mago de todos, o que veio antes da Eco Revolta, e nosso destino<br />

é o Ser Supremo.<br />

Quando terminei, não sabia a princípio do que estava falando, mas os rebeldes<br />

estavam no chão! Com a cara voltada para a terra. Acho que eu tinha ido longe demais.<br />

O Mago fez um sinal de satisfação para mim, e falava:<br />

– Levantai-vos, filhos do outro lado das cordilheiras dos diamantes. Estais com<br />

amigos. Temos que discutir nossas causas.<br />

Eles se levantaram com a cabeça baixa. O líder nos olhou ainda muito assustado<br />

e disse:<br />

– Sigam-me, nobres pessoas, nosso lar será seu, se isso desejarem.<br />

Andamos num absoluto silêncio pela mata, até chegarmos em uma enorme<br />

rocha. Entramos por uma fissura quase imperceptível na escuridão. Andamos vagarosamente<br />

pelo breu, descendo por uma caverna sem fim. Finalmente vimos ao longe<br />

uma luz. Fomos naquela direção e nos deparamos com uma enorme abertura, uma<br />

verdadeira cidade subterrânea, iluminada com uma luz avermelhada, um imenso teto<br />

abobadado com milhões de estalactites voltadas para uma enorme população lá embaixo.<br />

Havia pelo menos umas mil pessoas, fazendo todo o tipo de trabalho. Estávamos<br />

bem acima do chão e quando as pessoas nos viram, lá no alto de sua imensa<br />

caverna, pararam imediatamente de trabalhar. Ficaram nos olhando assustadas.<br />

O líder falou.<br />

– Antes de eu começar a falar, lembrem-se de quem sou. Trar, o filho do último<br />

sacerdote, o que trazia em seu sangue a memória de nossos antepassados. A memória<br />

da lenda de Ohr, o Ser Supremo. Agora não vou relembrar uma lenda pela qual oramos<br />

todos os dias, mas vou trazê-la a vocês.<br />

Ao falar isso, apontou para nós. Todo o povo estremeceu! Eu e o Mago estávamos<br />

ali diante de mais de mil pessoas nos olhando. O Mago capturou minha mente.<br />

Falamos em uníssono:<br />

– Somos a atitude mais próxima de Ohr, e temos o poder para isso. Somos<br />

o Mago de Prata e o cavaleiro Ortal Carmalhoc. Temos provas de que somos a descendência<br />

de Macoi, o primeiro, e provaremos. Pois nossa magia é antiga e infalsificável,<br />

é a magia do próprio Macoi.<br />

Assim que terminamos de falar, o Mago assumiu o show. Toda a caverna, que<br />

estava muito iluminada, se apagou. O povo soltou um gigantesco murmúrio. Mas logo<br />

uma luz surgiu, quase tocando o teto da abóbada, bem no centro da caverna. Era uma<br />

luz azulada e dela começou a surgir uma imensa forma de pessoa. Era Macoi! Agora,<br />

vendo-o assim, senti um calafrio. Como ele era parecido comigo e com o Mago ao<br />

mesmo tempo! Todo o povo começou a entoar um cântico na forma de hino. Estavam<br />

ajoelhados diante da imensa imagem tridimensional que rodava sobre suas cabeças.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Fiquei emocionado.<br />

Assim que o cântico terminou, o Mago reacendeu as luzes e o lugar tornou a<br />

ser o que era. Todo o povo então gritou num único som, que estremeceu a caverna<br />

toda:<br />

– Ohr!!!<br />

Ficamos por um tempo em silêncio, olhando para todos. Finalmente, Trar nos<br />

conduziu para uma câmara lá embaixo. Vagarosamente o povo recomeçou o seu trabalho.<br />

Entramos na câmara com mais quinze pessoas. Eram os líderes daquele povo.<br />

Sentamos todos em volta de uma grande mesa feita de pedra. Eu e o Mago<br />

ficamos em absoluto silêncio com os olhos fechados, lendo as emoções daquela gente.<br />

Eles perceberam nossa concentração e deixaram que nós fizéssemos nosso interrogatório<br />

secreto.<br />

Agora, eu e o Mago éramos novamente uma única pessoa, separados apenas<br />

por nossos corpos. E em conjunto começamos a falar, mas a voz era do Mago.<br />

– Creio que não tendes poder para ver onde estão vossos inimigos. Ao contrário<br />

do que pensais, ele não está escondido no enorme deserto de águas rasas, atrás<br />

das terceiras montanhas. Mas está aqui. Logo acima da cidade escrava – todos ali<br />

ficaram espantados. – Sei que vistes cidades em meio do deserto das águas rasas, mas<br />

aquelas imagens eram apenas uma forma de magia artificial, feita através da tecnologia<br />

herege. Aquilo não vale como realidade e deveis retirar esta falsa informação de<br />

suas mentes.”<br />

“O povo Blasfêmico vive em cinco cidades separadas de nossa realidade por<br />

redomas fabricadas por seus escravos. Esta redoma protege o povo maldito da meticulosa<br />

observação da Eco Justiça. Mas eles cometeram um grande erro. Atacaram minha<br />

tribo, a tribo dos Magos de Prata, e assim, com um alto custo (o da vida de toda a<br />

tribo, menos a minha), nós, os prateados, descobrimos que o povo Blasfêmico planeja<br />

dominar os recursos naturais deste Planeta sem ser observado pela Eco Justiça. Eles<br />

desenvolveram uma tecnologia para isso e vão conseguir muito em breve, caso nós<br />

não os impeçamos.”<br />

Houve um grande lamento por parte de todos.<br />

“Nós temos uma grande vantagem sobre eles. Assim como vós, nós somos<br />

totalmente desconhecidos desse povo, eles simplesmente ignoram nossa existência.”<br />

“Existe um enorme exército, composto por todas as tribos conhecidas e liderado<br />

pelo Lorde Pompe Carmalhoc, vindo para cá neste momento. Acredito que eles<br />

estejam reunidos nas terras dos homens pequenos, os duendes. Uma guarnição bem<br />

equipada deve ir para lá imediatamente, com os planos que passaremos a vós ainda<br />

hoje. Nós devemos combater esse povo o quanto antes, porém deveremos poupar a<br />

enorme população escrava, pois esta, como sabeis, está lá apenas por indução hipnótica.<br />

Porém, sabemos que esta indução não é fruto de magia mas, sim, de fanatismo religioso,<br />

muito usado pelo povo primitivo e facilmente dissolvido, graças à boa mágica<br />

prateada.”<br />

“Agora passaremos a vós, por indução mental, nossos planos de ataque. Cada


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

um de vós passará para suas bases e sub-bases, através desses cristais-telepáticos”.<br />

Eu pegava os cristais de minha mochila e espalhava sobre a mesa. “Pois eles agilizam<br />

a informação sem deixar passar erros. A guarnição que se encontrará com o exército<br />

de Pompe Carmalhoc também levará um dos cristais. E lembrai-vos de que nossos<br />

planos só darão certo caso as informações estejam corretas.”<br />

Assim, eu e o Mago distribuímos os cristais para cada um dos líderes de cada<br />

base. Jogamos a areia prateada e começamos a implantar mentalmente nosso plano<br />

de ataque.<br />

Após isso, sentimos o nervosismo de todos.<br />

– Agora precisamos dormir – disse o Mago. – As informações serão passadas<br />

imediatamente para suas tribos e para Pompe. Enquanto dormimos, estaremos resguardando-as.<br />

Nada será violado, pois estaremos em cada uma delas, durante o sono.<br />

Por isso, precisaremos de uma câmara secreta, muito bem vigiada.<br />

Logo veio Trar e pediu que o seguíssemos. Antes, porém, de nos levar para a<br />

câmara, fomos para um lugar onde muitas pessoas estavam nos esperando com uma<br />

grande refeição. Espalhamos o mel geriátrico por todos os tipos de comida, iríamos<br />

precisar.<br />

Após comermos, Trar nos guiou para a câmara. Entrou conosco para ver se<br />

estava tudo como gostaríamos. Mas antes de sair, fez uma pergunta que me deixou<br />

confuso.<br />

– Como começou esta lenda? – perguntou, em um tom que não parecia ser de<br />

teste, mas sim, de pura curiosidade.<br />

Então, o Mago começou a contar uma história que estava escondendo de mim<br />

o tempo inteiro.<br />

– Quando nos encontramos com um povo nativo daqui deste lado das montanhas<br />

de diamantes, eu percebi, através de um contato muito íntimo com uma donzela<br />

guerreira, que este povo era muito primitivo. Devido provavelmente ao esquecimento<br />

causado pela não-manutenção de uma postura doutrinadora, de uma não-detenção de<br />

um dogma, nem político, nem religioso. Dessa forma, executei um plano extremo. Eu<br />

deveria fornecer ao passado destes povos uma figura lendária, para que neste tempo a<br />

situação fosse outra. Então estipulei, através de uma padronagem de meus ancestrais,<br />

uma figura que pudesse ser cativante para as gerações seguintes. Com muito espanto,<br />

encontrei nas veias da história genética que corre em meu sangue um elemento que<br />

coincidia com a família de Ortal. Isto para mim foi um fato inquietante. Deveria haver<br />

uma razão para que, dentro de minha pesquisa, eu chegasse a essa pessoa.<br />

“Então voltamos ao passado, agora nos incorporando em Macoi, o ser que eu<br />

havia encontrado, na história genética. Descobrimos, num êxtase fantástico, que este<br />

Macoi nada mais era do que eu e Ortal juntos, no mesmo corpo. Então, introduzi em<br />

Macoi um princípio de magia e informações que, através da aleatoriedade dos acontecimentos,<br />

provocaria exatamente o que ocorreu. Isto é, Macoi começou, naquela época,<br />

a profetizar a vinda de um elemento no futuro que seria a salvação do povo, uma<br />

espécie de messias, um deus semi-humano que traria a sabedoria e a liberdade para os<br />

povos. Macoi fez exatamente o que eu estipulara, e, na verdade, ele profetizava um<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fato verídico, que eu sei que vai ocorrer.”<br />

“O que aconteceu é que este povo do lado de cá das montanhas de diamantes<br />

se adaptou, durante os últimos quatro mil anos, a esta lenda profetizada por Macoi,<br />

pois antes de nós termos voltado ao passado e termos depositado o princípio da magia<br />

em Macoi, a lenda não existia, e todo este povo era apenas um povo escravizado tanto<br />

física como intelectualmente.”<br />

– Então Ohr realmente existe? – perguntou Trar, com uma expressão de pasmo.<br />

– Ele começou a existir quando Macoi foi gerado, mas ainda não está totalmente<br />

formado. A existência de Ohr na sua totalidade, vai depender de uma série de<br />

acontecimentos. Estes acontecimentos estão na teia de informações que eu passei para<br />

vós, dentro da estratégia de ataque ao Povo Blasfêmico.<br />

Tanto eu como Trar ficamos abismados com o que o Mago falara. Na verdade,<br />

eu estava admirado com toda a situação, com o procedimento do Mago. Então tudo<br />

aquilo fora calculado meticulosamente! Comecei a me sentir apenas uma peça dentro<br />

deste jogo que o Mago jogava, mas logo este sentimento foi reprimido por ele.<br />

– Não deves pensar desta maneira, Ortal. Fazes parte de Ohr, assim como eu.<br />

Só que eu tive um treinamento durante minha vida inteira para o surgimento de Ohr, e<br />

tu serás o elemento-chave para que isso ocorra. Deves te orgulhar disso.<br />

Eu não tinha a menor ideia de como Ohr surgiria, apenas sabia que Ele viria<br />

através de mim e do Mago.<br />

Trar estava muito abalado com toda esta história que o Mago havia contado,<br />

mas nos deixou a sós, ainda que pretendesse continuar conversando.<br />

Eu e o Mago finalmente fomos descansar. Porém, uma parte de nossa mente<br />

estava nos informantes que levavam os planos da guerra contra os blasfêmicos. Tudo<br />

estava na mais perfeita ordem, pois o Mago já tinha traçado tudo. Restava apenas<br />

saber se o poder dos blasfêmicos poderia descobrir algo.<br />

Durante uma semana ficamos dentro da base rebelde, a trinta metros abaixo da<br />

grande rocha. Aquilo que era para ser uma enorme caverna havia se transformado em<br />

uma verdadeira cidade subterrânea. Graças às mudanças de planos que eu e o Mago<br />

fizemos no passado daquele povo, eles desenvolveram um meio de vida baseado na<br />

adoração da lenda de Ohr. E assim conseguiram se safar das armadilhas intelectuais<br />

geradas pelos blasfêmicos.<br />

Pudemos saber, vivendo ali em meio aos rebeldes, que os blasfêmicos necessitavam<br />

do trabalho escravo dos povos mais primitivos. Eles impunham uma religião<br />

baseada na adoração da tecnologia que eles detinham e praticamente hipnotizavam<br />

os povos para que trabalhassem para eles como se trabalhassem para um deus. Mas,<br />

graças à adoração da lenda, os rebeldes conseguiram se libertar desta hipnose e, gradativamente,<br />

ir libertando centenas de outras pessoas que agora faziam parte de seu<br />

enorme clã.<br />

Aparentemente, os blasfêmicos não tinham consciência deste fato, pois a cada<br />

dia milhares morriam de estafa e eram substituídos por outros povos, que os próprios<br />

escravos, fervorosos adoradores da religião blasfêmica, capturavam.<br />

Todas as semanas vários membros da corte e do alto clero blasfêmico desciam


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

de suas cidadelas voadoras para a grande igreja central para fazer o culto ao deus<br />

da sua tecnologia, chamado por todos de Cyberneus. Nesse culto, eram introduzidos<br />

centenas de novos escravos para a sua subserviência. E além disso a hipnose era restabelecida,<br />

ou seja, quanto mais tempo o escravo trabalhasse ali, mais fanático ele se<br />

tornaria. Os blasfêmicos formaram uma legião de pessoas que lutariam por eles até a<br />

morte.<br />

O tempo dentro da base passava rápido. Haviam muitas outras bases espalhadas<br />

nos arredores da cidade dos escravos, todas elas subterrâneas, mas nenhuma era<br />

tão grande quanto esta. Por isso, acreditávamos que toda nossa legião não superava<br />

nem metade do número de escravos que poderiam lutar contra nós. O Mago porém,<br />

me disse silenciosamente que isso não era preocupante, pois ele já tinha planejado<br />

tudo e provavelmente a violência seria mínima. “O que ele estava a tramar?”- eu<br />

questionava o tempo inteiro. Na verdade eu estava muito preocupado.<br />

CAPÍTULO 8<br />

A Traição do Mago de Prata<br />

Finalmente fomos informados de que o exército de Lorde Pompe Carmalhoc<br />

estava escondido onde o Mago havia determinado, esperando o sinal para o ataque.<br />

O mensageiro estava atônito. Falava de uma enorme legião com cavaleiros enormes,<br />

com roupas adornadas com cristais protetores e espadas de diamantes. Falava que<br />

existia também um povo de pessoas pequenas, duendes, que acompanhavam a delegação<br />

montados em pôneis, e ainda muitos cachorros. Todos estavam eufóricos e<br />

principalmente preocupados com a situação do Mago de Prata e do Cavaleiro Ortal de<br />

Carmalhoc. Mas os cristais que o Mago mandara informavam tudo e eles ficaram mais<br />

calmos. Agora apenas esperavam pelo sinal dele.<br />

Na última noite antes do encontro com o Povo Blasfêmico, o Mago selecionou<br />

alguns jovens para acompanhar a mim e a ele. Na realidade tudo aquilo já não<br />

era do meu conhecimento, pois o Mago trabalhava mentalmente sozinho, eu apenas<br />

executava o que ele pedia.<br />

Estávamos numa das câmaras secretas da cidade subterrânea. Havia mais vinte<br />

pessoas conosco. Eram jovens muito fortes que aparentavam ter uns vinte anos. O<br />

Mago pedira a Trar para providenciar mantos pretos cristalizados, que agora repousavam<br />

sobre uma enorme mesa dentro da câmara. Os jovens estavam em uma fila única<br />

voltados para mim e o Mago que falava.<br />

– Eu vou implantar em cada um de vós um cristal capaz de promover nosso<br />

intercâmbio de informações. Esse cristal é dotado de uma essência muito especial.<br />

Com ele vós vos tornareis unos quando desejarem. A inteligência de dez se tornará<br />

uma, porém há um preço a se pagar. O primeiro é quase simbólico, pois o cristal<br />

substituirá e para melhor o efeito daquilo que perdereis. O segundo é a liberdade de<br />

escolha: se um de vós se voltar para o lado contrário à Eco Justiça todos serão destruídos.<br />

Portanto, o amor que vós deveis sentir um pelo outro deve ser levado às últimas<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

consequências. Caso algum de vós ache que não está preparado para essa tarefa, há<br />

muito como ajudar, mas esta é uma dádiva de Ohr.<br />

Ninguém se mexeu.<br />

– Ótimo – continuou o Mago. – Agora todos deveis vos despir e entrar na<br />

próxima câmara. Lá todos deveis vos banhar e vossos cabelos devem ser totalmente<br />

raspados. É algo que não vereis nascer mais por agora estardes utilizando um cristal<br />

sagrado. Após isso, devereis retornar e vestir esses mantos, para depois serem implantados<br />

os cristais.<br />

Enquanto eles tomavam banho e raspavam os cabelos, o Mago pediu para juntar<br />

todos os cristais que eu tinha com os dele. Logo surgiu um pequeno monte de<br />

cristais sobre a mesa. Ele pediu para eu ficar postado do lado oposto da mesa onde<br />

ele estava e disse para apenas ajudá-lo em sua magia; que liberasse minha mente de<br />

qualquer pensamento ou questão.<br />

A partir daí não vi mais nada. O Mago tomou emprestado meu cérebro e se<br />

utilizou dele para efetuar a magia sem nenhuma interferência minha. Quando “acordei”<br />

deste pseudo-transe, todos os rapazes estavam de volta, enfileirados, nos olhando<br />

muito assustados, com as cabeças raspadas e os mantos pretos cristalizados. Sobre a<br />

mesa havia dez cilindros de cristais verdes com uns doze centímetros de diâmetro por<br />

cinco de altura. O Mago pegou um dos cristais-cilindros e foi até o primeiro dos jovens.<br />

Colocou uma das mãos numa das orelhas do jovem e encostou a base do cristalcilindro<br />

na outra. E começou a apertar a cabeça do rapaz com muita força, dizendo:<br />

– Sobre a terra sagrada e sob a bondade dos Magos de Prata, com a pureza<br />

deste cristal, com a magia que me foi dada, pela voz de séculos de poder e sabedoria<br />

da natureza eu posso e devo modificar seu corpo, e faço isso com o consentimento<br />

de meus ancestrais, que sempre devotaram seus dons à terra e seus habitantes, e que<br />

guardaram e guardam seus segredos. E sob a luz desta lua que ilumina nossos sentidos,<br />

eu o nomeio como Gran-Ohr, o guardião das palavras de Ohr.<br />

Após isso, o primeiro guardião sucumbiu aos pés do Mago. Estatelou-se no<br />

chão desmaiado, e no lugar de uma orelha jazia um cristal-cilindro, enfiado na lateral<br />

da cabeça pelada. Todos os outros estremeceram de medo, mas o Mago sequer olhou<br />

para o jovem no chão. Logo foi para o segundo, que de tamanho terror nem sequer<br />

se mexeu. E assim foi com os dez. Um após o outro receberam o implante do cristalcilindro<br />

e cairam no chão. No final, o Mago me olhou satisfeito.<br />

– Acho que o pior desta fase está feito, Ortal. Quando eles acordarem, terão em<br />

suas mentes parte da sabedoria que irão desenvolver em conjunto para tomar conta<br />

das leis da Eco Justiça e proteger o conceito de Ohr.<br />

Eu preferi não perguntar nada sobre isso, estava exausto demais, pois a cada<br />

novo guardião que o Mago transformava, tomava minha energia emprestada. Então<br />

cochilamos um pouco, afinal fazia tempo que não dormíamos direito, descansando<br />

mente e cérebro.<br />

Acordamos com os dez guardiões postados em silêncio mortal à nossa volta.<br />

Eles já sabiam o que fazer e estavam com um ar confiante e orgulhoso no rosto. Pelo<br />

que pude ver, os cristais estavam trabalhando bem.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Fomos para fora da câmara secreta acompanhados pelos guardiões em formação<br />

como os cristais indicavam, eu e o Mago no meio, quatro guardiões na frente,<br />

quatro atrás e dois nos lados. Havia muita gente à nossa volta e todos ficaram espantados<br />

com o efeito que o visual causava. Os jovens com as cabeças totalmente limpas<br />

e um cristal enfiado no lugar das orelhas esquerdas, além de um manto preto cristalizado<br />

até os pés. O Mago trajava seu manto prateado também até os pés e eu, a roupa<br />

formal de cavaleiro, com a espada pendurada na cintura.<br />

Dirigimo-nos até o meio do enorme pátio central da caverna, que estava muito<br />

bem iluminada com cristais fluorescentes. Trar estava lá, bem no meio, com toda<br />

a delegação de todas as bases à sua volta. Além disso, para minha total surpresa, o<br />

Lorde Pompe Carmalhoc estava junto! E ainda dois cavaleiros, alguns chefes das<br />

outras aldeias e dois duendes. Todo o povo estava presente. Era uma situação muito<br />

solene. O Mago e eu estávamos num estado de profunda concentração perante toda<br />

aquela gente. Então, o Mago falou:<br />

– Trar, trago a ti, a teu povo e a todos os convidados a demonstração de nosso<br />

poder. Para que aceiteis com louvor e sem questionamento a ordem que foi passada<br />

a vós por mim, e que a executeis conforme especificado nos cristais. Agora trazei a<br />

arma roubada.<br />

Eles tinham roubado uma arma dos blasfêmicos!<br />

Trar falou em voz alta:<br />

– O Mago de Prata pediu-me em segredo que eu roubasse uma arma de flecha<br />

de luz de nosso inimigo. Consegui isso graças ao próprio poder do Mago.<br />

– E agora – disse o Mago – tu posicionarás a arma em minha direção e acionarás<br />

o gatilho.<br />

Todos ficaram espantados, inclusive eu. E Trar respondeu, enraivecido:<br />

– Está louco? O poder desta arma não só destruirá a você mas metade desta<br />

caverna e todos aqui dentro!<br />

O Mago se calou e todos ainda estavam espantados. Então, em uníssono, os<br />

guardiões falaram com magia na voz, o que despertou terror e comoção a todos no<br />

recinto:<br />

– Execute a ordem.<br />

As vozes ecoavam com efeito por todo o lugar e Trar ia levantando a arma para<br />

nós sem vontade mas com os olhos vidrados num infinito inexistente. Quando a arma<br />

estava apontada para nós, Trar disparou. Um enorme e possante raio partiu da arma<br />

em nossa direção com uma força descomunal. Parecia que levara dez anos para chegar<br />

até nós, mas sua velocidade era indescritível. Quando nos atingiu, o raio foi bloqueado<br />

e se esfarelou numa redoma de força que surgiu dos cristais implantados na cabeça<br />

dos guardiões. Todo o povo ficou boquiaberto. Começou a fazer comentários em voz<br />

baixa e logo todos gritaram em conjunto:<br />

– OHR!<br />

Era a prova final. Nem a arma mais possante dos blasfêmicos poderia atingir o<br />

Mago. O povo estava rindo de felicidade, o próprio Lorde Pompe Carmalhoc estava<br />

sem palavras. O Mago, então, falou:<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Agora só nos resta esperar. Todos aqui e lá fora sabem o que fazer. Entrarei<br />

com os guardiões e com Ortal no meio do culto daqueles malditos e nosso plano será<br />

colocado em prática. Por ora comamos e louvemos a Ohr.<br />

Com isso, o povo foi lentamente se dissolvendo, cada qual para seus afazeres.<br />

Eu, o Mago e os Guardiões voltamos para a câmara secreta. Comemos e ficamos em<br />

absoluto silêncio até a hora de nossa ida ao encontro fatídico.<br />

Ao sairmos da câmara, havia muito poucas pessoas no lugar. Todos estavam<br />

em seus postos cercando a cidade dos escravos. Saímos da caverna e fomos caminhando<br />

lentamente pela floresta em direção ao portal principal da entrada da cidade.<br />

Quando chegamos, o portal estava escancaradamente aberto, com apenas dois guardas<br />

na passagem. Não foi preciso nem pensar para que eles nos deixassem passar. O<br />

Mago havia determinado aos guardiões os mínimos detalhes. A cidade estava vazia<br />

naquele ponto. Então paramos. Olhei para o Mago, que me olhava com um rosto sem<br />

expressão, quase pálido.<br />

– Boa sorte, Ortal.<br />

Não deu tempo de responder. O Mago se transformou num plano redondo de<br />

três metros de diâmetro e de alguns milímetros de espessura, feito de uma luz prata,<br />

que flutuava a dois metros do chão. E que agora nos acompanhava rumo ao grande<br />

templo no meio da cidade.<br />

Caminhávamos na formação indicada pelo Mago, quatro guardiões na frente,<br />

quatro atrás e dois dos lados. Eu ia logo atrás da nova forma do Mago. Enquanto<br />

andávamos pela cidade, deserta naquele ponto, ouvíamos o discurso absurdo do que<br />

parecia ser o “reverendo”, gritando as mais loucas aberrações pelos alto-falantes espalhados<br />

pela cidade.<br />

Entramos numa rua principal que dava direto para o enorme templo. A visão<br />

daquela construção, aliada às palavras frenéticas do “reverendo”, fazia da cena algo<br />

estarrecedor. O templo era feito de pedras pretas, com uma arquitetura onde tudo<br />

era alto, desde os portais de entrada até os vitrais, com desenhos de seres em indumentárias<br />

tecnológicas conquistando o Planeta em clima de violência e matança. Em<br />

todas as bordas da construção havia estátuas de gárgulas com enormes asas prontas<br />

para voar, caso avistassem algum procedimento errado por parte dos escravos. Todo o<br />

clima ditado pela imensa catedral emanava medo. As pessoas tinham a impressão de<br />

estar a todo o momento sendo observadas pelas pedras negras daquele imenso palácio<br />

de terror.<br />

Naquele momento do culto as pessoas estavam completamente hipnotizadas<br />

pelas palavras do “reverendo”. Ele prometia uma vastidão de riquezas para aqueles<br />

que lutassem pela “causa” do seu povo. As pessoas nem sequer se permitiam pensar<br />

sobre quais eram essas causas de que o “pregador” falava. Estavam em tal estado de<br />

subserviência que apenas devotavam um clamor selvagem ao locutor.<br />

A catedral estava de tal forma tomada pelos escravos que estávamos a duzentos<br />

metros de distância e ainda havia gente para fora. Chegamos na mesma formação<br />

perto destas pessoas que começavam a se amontoar voltadas para a catedral. Quando<br />

chegamos bem perto, as pessoas olharam assustadas para nosso cortejo. Iam abrindo


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

caminho enquanto passávamos sem olhar para elas. Algumas ajoelhavam-se, outras<br />

desmaiavam, mas todas estavam apavoradas, pois era algo jamais visto por aquelas<br />

pobres almas.<br />

Continuamos a seguir em direção à porta principal da catedral. O “orador”<br />

continuava com seu estúpido discurso, bradando blasfêmias contra a Eco Justiça e<br />

uma série de outras mentiras que me davam nos nervos. A multidão agora estava<br />

quase fora de controle por onde passávamos. Houve algumas quebras no discurso do<br />

“reverendo”, pois ele não sabia o que estava ocorrendo. Até que chegamos no enorme<br />

portal. A catedral estava inteiramente iluminada por dentro com luz artificial. No teto<br />

em forma de abóbada, havia todos os tipos de desenhos com difamações aos povos<br />

que foram conquistados, inclusive com a queda do povo prateado.<br />

Entramos com a mesma formação na catedral. O “reverendo” estava agora em<br />

absoluto silêncio, assim como todo o resto do povo. Dois guardas tentaram nos impedir<br />

mas foram desmaterializados imediatamente. Ele, vendo aquilo, pediu prudentemente<br />

para ninguém impedir os “visitantes”, referindo-se a nós. Continuamos a andar<br />

até o enorme palanque onde estavam o “reverendo” e toda sua laia de blasfêmicos<br />

sentados em vários tronos, como se fossem reis do universo.<br />

Tudo ali refletia a mais esnobe provocação à natureza. A construção se baseava<br />

apenas na estética e não na funcionalidade. Havia desperdício de materiais. Tudo era<br />

adornado com brilhantes e ouro apenas, em um senso estético deprimente e perdulário.<br />

Além disso, os tronos eram feitos com partes de animais mortos! Com cabeças<br />

acima do encosto como fossem troféus de uma matança sem significado. As roupas<br />

dos blasfêmicos eram feitas de peles de animais mortos, mostrando que não havia<br />

compaixão daqueles assassinos nem para se vestir. Acima do grande palanque havia<br />

uma cúpula menor que a central, onde existia toda uma parafernália de refletores e<br />

luzes, como na “Nosferatus” que visitamos na virada do século, havia mais de quatro<br />

mil anos. Aliás, a essência do lugar era a mesma, o que mudava era que o povo naquele<br />

lugar do passado parecia estar se divertindo, e neste, o povo estava sendo logrado.<br />

Tanto o “reverendo” como todos os blasfêmicos ali presentes estavam nos<br />

olhando assustados enquanto nos aproximávamos. Seus guardas miravam armas de<br />

flecha-luz para nós, mas não sabiam em quem atirar.<br />

Então, um dos nossos guardiões deu um passo à frente e esperou. Toda a iluminação<br />

do lugar diminuiu muito, não deixando o lugar na total escuridão. A “base”<br />

do Mago estava agora no auge das atenções por todos os presentes, pois brilhava<br />

mais que tudo. Os cristais encravados nas cabeças de nossos guardiões se acenderam<br />

num verde fluorescente. E do meio da “base” surgiu o Mago, completamente nu, e<br />

seu corpo estava em forma de luz. Todo o povo caiu de joelhos imediatamente, num<br />

lamento único.<br />

O Mago não falava mas expressava seus pensamentos, e os guardiões traduziam<br />

numa só voz, forte e rouca.<br />

– Dirijo minhas palavras para aqueles que louvam o mal. Para aqueles que desrespeitaram<br />

um acordo com sua própria casa. Para aqueles que mataram tantos povos,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

inclusive o meu. Deixo um aviso. Renunciai às suas maléficas intenções e vivereis.<br />

Libertai esse povo e voltai a viver na terra como deve ser feito e nada acontecerá a<br />

vós.<br />

E o “reverendo”, com um sorriso sarcástico, perguntou:<br />

– E como acha que pode vencer algo que é invencível?<br />

As vozes dos guardiões ressoaram em conjunto outra vez.<br />

– Sou o Mago de Prata – tanto o “reverendo” como os outros blasfêmicos<br />

fecharam o sorriso imediatamente. – Sim! Tende medo, seus canalhas! Tenho todo o<br />

poder dos Magos nas mangas das minhas almas. O povo que vós tentastes destruir e<br />

falhastes. Agora deveis saber que não estou só.<br />

Estalou os dedos e um imenso feixe de luz saiu de sua “base” flutuante até o<br />

céu, fazendo um rombo na cúpula da catedral.<br />

Imediatamente ouviu-se um enorme grito de guerra vindo lá de fora.<br />

– Ohr!<br />

Era nosso exército.<br />

– Tenho um exército cercando sua catedral. Libertaremos este povo através de<br />

minha magia e logo, vós não conseguireis mais os elementos de que necessitais para<br />

vossa sobrevivência nas vossas ridículas cidades voadoras! Pois cercaremos vossas<br />

instalações e deixarvos-emos isolados do mundo, isolados de vossa matéria-prima<br />

para a feitura do mal que quereis espalhar por nosso mundo. Não tendes opção: ou<br />

vos rendeis ou sucumbireis.<br />

Mas o “reverendo” falou:<br />

– Ah! Temos uma opção, sim, caro Mago.<br />

Fez um clique com a mão e um de seus atiradores lançou um raio em direção<br />

ao Mago. Para meu total espanto, a flecha atingiu o Mago em cheio no peito! Ele<br />

caiu para trás, nos meus braços. Imediatamente, um grito de lamento surgiu no ar,<br />

estraçalhando todos os enormes vitrais, que começaram a cair muito vagarosamente,<br />

enquanto todo o ambiente se tornava verde com sombras negras. Ninguém se mexia.<br />

O “reverendo” estava boquiaberto com o sentimento de lamento que pairava no ar.<br />

Parecia que o mundo caíra na mais absoluta tristeza e que tudo e todos compartilhavam<br />

dela.<br />

Eu estava agora ajoelhado com o Mago nos meus braços. Num sussurro, ele<br />

me chamou para perto e disse para eu “tomar isso” e prosseguir meu destino. Aproximou<br />

seu rosto do meu, beijando meus lábios e passando-me sua centelha de vida. A<br />

multidão estava ainda paralisada com toda a cena. Após o beijo, o Mago desapareceu<br />

de meus braços. Uma lágrima começou a correr por meu rosto, logo meu corpo estava<br />

em prantos. Mas o espaço-tempo era controlado agora por mim.<br />

Parecia que eu era o único que chorava, mas todos os presentes estavam chocados.<br />

Ninguém se mexia, nem mesmo os blasfêmicos. Os próprios guardiões estavam<br />

parados, olhando para a frente como se nada tivesse acontecido. No entanto, o<br />

guarda que tinha atirado contra o Mago tentou me atingir, mas seu raio foi bloqueado<br />

pelos guardiões. Após meus soluços, veio o silêncio. Senti um fio de sangue surgir<br />

em minha boca, eu continuava ajoelhado com a cabeça baixa. Comecei a sentir meu


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

rosto ficar quente. Meu estômago começou a revirar, num instante não sentia mais<br />

meu corpo. Estava flutuando, sentia o Mago despertando dentro de mim. Agora eu<br />

era a raiva. Estiquei meu corpo daquela posição. Já não estava vestido e meu corpo<br />

não era mais o meu. Era sim um gigante que ia crescendo. Eu olhava com ódio para<br />

baixo, vendo aqueles que mataram o corpo do Mago, o corpo que eu amava, ficando<br />

cada vez menores. Com um golpe, fiz toda a cúpula da catedral explodir para fora.<br />

Os atiradores tentavam em vão me acertar, mas os guardiões estavam ali protegendo<br />

aquele corpo em gestação. Até que parei de crescer e disse, com algo que não era a<br />

minha voz, mas, sim, o estrondo de mil trovões:<br />

– Eu sou o princípio do ódio, a primeira forma de Ohr. E pela sua necessidade<br />

nasci aqui neste antro. Todos os presentes serão testemunhas da minha ira.<br />

Soprei o ar formando de minha boca nuvens carregadas e negras que taparam<br />

a lua e as estrelas. E das nuvens surgiram os raios. Todos os escravos saíram correndo<br />

para fora da cidade, sendo recepcionados pelo exército do Lorde. A função do exército<br />

era de apenas dar apoio moral às pobres almas que fugiam, protegendo-os da tormenta<br />

que surgiria.<br />

Os blasfêmicos não tiveram a mesma sorte. Com a minha tempestade de raios,<br />

ventos, pedras e água atingindo sem piedade suas cidade e derrubando-as uma a uma<br />

dos céus, se espatifando num mar de lama, carne e sangue. Formaram uma cena de<br />

terror feita da morte do povo que ali morava. Os comandantes do Povo Blasfêmico<br />

que estavam na catedral foram aprisionados pelos guardiões. Neles foram implantadas<br />

a magia da dor, da dor eterna. Pois não mereciam nem o descanso da morte, mas ver<br />

seu horrendo mundo ruindo, ver que suas intenções de conquista daquilo que era para<br />

a vida de todos foram extintas por uma criança, por um pequeno Mago de prata.<br />

Eu, na imensa forma que era agora, desaparecia, fluindo na energia da natureza.<br />

Não estava em lugar algum, apenas sentia todas as coisas como sempre senti.<br />

Surgiu então, num sussurro, a voz do Mago em meus ouvidos inexistentes:<br />

– Ortal, graças a ti Ohr foi constituído no nosso plano.<br />

– Mas o que é Ohr? – perguntei.<br />

– Ohr é um meio entre duas inteligências. Nós, do povo prateado, sempre sonhamos<br />

em desenvolver um intermediário entre a inteligência humana e a inteligência<br />

da natureza divina. Agora conseguimos. Mas isso foi feito pela sua intervenção.<br />

– Como assim?<br />

– Tínhamos que executar o feitiço para a feitura de Ohr através de uma imensa<br />

carga energética que nunca possuímos. Vimos em ti essa possibilidade e demos decorrência<br />

a nossos planos. Existe um equilíbrio entre o amor e o ódio que é a maior energia<br />

que o ser humano pode conceber. O amor tu já possuías, faltava o ódio, que era<br />

algo que já estava implantado mas precisava ser desenvolvido. Assim, com a minha<br />

morte carnal, sabíamos de antemão que tu fornecerias essa energia na hora e no local<br />

em que precisássemos. Com a minha centelha de vida foi possível a realização da<br />

magia. Agora temos Ohr em pleno funcionamento. Estamos ligados tanto à natureza<br />

divina como também à natureza humana, e poderemos, quem sabe, um dia, juntar as<br />

duas.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Quer dizer que sacrificaste teu corpo para que o ódio surgisse em mim? –<br />

falei com ar de perplexidade.<br />

– Sim. Foi algo que tive que escolher sem que pudesses participar. Infelizmente<br />

tivemos que contar com tua ajuda sem te pedir permissão. Mas sabíamos que<br />

concordarias, pois sabemos como é feita a essência de tua alma. Assim, sacrificamos<br />

não só meu corpo, mas também nossa paixão carnal.<br />

– Isto significa que jamais te verei de novo? – Eu estava aterrorizado com tal<br />

possibilidade.<br />

– Tu podes escolher o que quiseres, Ortal. Mas nós não podemos nos ver de<br />

novo, nem mesmo conversar. Pelo menos nesta realidade.<br />

– Por quê?<br />

– Porque agora eu faço parte de Ohr, assim como o meu povo. Esse foi meu<br />

destino. Fazemos parte de um outro contexto.<br />

– Qual seria o lugar em que eu poderia estar mais próximo de ti de novo? –<br />

perguntei.<br />

O Mago não respondeu, teve medo do que estava me ocorrendo.<br />

– Sim, Mago! Vou voltar no tempo de novo! Voltarei a onze de abril de mil<br />

novecentos e noventa e oito. Um dia depois de nossa saída do passado. Vou me encontrar<br />

com Macoi! E com os poderes que eu tenho...<br />

– Tu não podes. Essa é uma possibilidade inaceitável. Se fores ao passado,<br />

poderás interferir neste presente que tanto nos custou realizar.<br />

– Mas isto é um absurdo! Não pode estar acontecendo. Nós temos que ficar<br />

juntos! Todos apenas me usaram! Usaram meu amor por ti!<br />

Ele nada falou. Mas comecei a sentir algo que ele me passava pelas entranhas<br />

do vórtice que nos ligava.<br />

– Como pudeste, meu pequeno amigo? Tu sabias de tudo desde o início, não<br />

sabias? Usaste de tua beleza e de teu carisma para me conquistar e dar vazão ao plano<br />

de tua família. Nunca pensaste que eu pudesse estar ligado a ti mais do que tudo?<br />

Nunca pensaste que eu realmente te amava? E ainda amo? Como pudeste? Por Deus!<br />

O Mago estava agora em prantos, sua voz ecoava nas suas lágrimas, que não<br />

poderiam existir, mas que eu sentia.<br />

– Ortal, as coisas apenas aconteceram. Existia um plano, mas jamais poderiam<br />

imaginar que chegasse a este ponto. Ou melhor, contavam com isso, mas de outra<br />

forma. Devo-te confessar algo que eles nunca puderam imaginar que aconteceria.<br />

– E o que é? – perguntei, em lágrimas.<br />

– Ortal, eu também te amo.<br />

– Então faze algo! Volta! Vamos viver juntos como sempre deveria ter sido.<br />

– Não posso. Isso quebraria uma lei inviolável. Na verdade já estou quebrando<br />

esta lei apenas por falar contigo. Ortal, devo ir. Mas há um meio, acredito que exista!<br />

Isto não pode ser quebrado desta maneira.<br />

E sumiu.<br />

Eu estava agora em meio aos escombros do que era o palácio negro. Então pensei:<br />

“malditos sejam. Que mundo é esse afinal de contas? Como pode ter ocorrido tão


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

rápido, como eu pude ter sido tão negligente? Como pude deixá-lo escapar e morrer<br />

nos meus braços? Nos meus braços...”<br />

Levantei em meio aos risos dos que festejavam a vitória daquela guerra imunda.<br />

Vi que muitos vinham correndo em minha direção para cumprimentar-me, mas<br />

eu definitivamente não poderia ficar ali. Não saberia olhar de novo para o Lorde, os<br />

cavaleiros e para os seres dos outros povos que ajudaram a fazer o medo surgir, como<br />

o Mago tinha estipulado.<br />

Dei as costas a tudo isso e comecei a jornada a lugar nenhum, pois aquele<br />

mundo já não me pertencia. Não poderia voltar como um herói para minha aldeia, pois<br />

eu não me sentia herói nem de perto. Muito pelo contrário, era um nada, uma alma<br />

penada dentro de um corpo sem rumo.<br />

Entrei pela mata e o primeiro lugar que me veio à cabeça foi voltar à cidade<br />

abandonada do povo prateado. Estava escuro, eu não tinha nem alimentos nem armas.<br />

Uma forte chuva começou a cair e me lancei ao abandono. Nada me guiava. Andava<br />

a esmo por entre as densas florestas para chegar ao oceano.<br />

Andei por dias e noites nas cinzas entranhas de meu sofrimento. Parecia que a<br />

cada respiração me sentia mais atordoado, mais cansado, mas não parava. Consegui<br />

finalmente chegar ao oceano. Andei incansavelmente pela praia à procura de um barco<br />

ou qualquer coisa que pudesse navegar. Eu estava completamente fora de mim. Não<br />

consigo imaginar quanto tempo passei andando pelas areias brancas. Se foram dias ou<br />

semanas, não saberia dizer.<br />

Da única coisa que realmente me lembro é que existia uma melodia incansável<br />

vindo todo momento à minha cabeça. Era dramaticamente triste, com uma voz muito<br />

grave, e dizia: “não chore por ele. Ele se matou”.<br />

Lembro-me de ter avistado um barco com vários homens tentando desencalhálo.<br />

Cheguei perto e todos os homens vieram a meu encontro, muito alegres me pareceram.<br />

Quando o primeiro chegou para me cumprimentar, joguei minha mão contra<br />

seu rosto. Seu pescoço quebrou com tamanha força que eu possuía. Os outros vieram<br />

chocados para interferir, mas já era tarde. Então voltaram-se contra mim, mas de nada<br />

adiantou. Dos oito que tentaram me golpear, se bem me lembro, apenas três saíram<br />

cambaleando pela água que cobria nossos tornozelos.<br />

Tomei a embarcação e entrei mar adentro em direção à cordilheira dos Diamantes.<br />

Tenho plena certeza de que minha magia me guiava, pois não imagino como<br />

poderia ter atravessado tal labirinto.<br />

O resto da viagem foi completamente apagado de minha memória. Do que eu<br />

tenho plena certeza é que estou agora aqui, dentro da sala de cristais do povo prateado.<br />

Como vim parar aqui? Não sei. Apenas sei que tenho muitos suprimentos e estou<br />

trancado relatando toda esta história a este memo-cristal que vocês estão sorvendo.<br />

Devo dizer que tomei uma dose excessiva de laxenema para conseguir me lembrar<br />

com detalhes de tudo, e mesmo assim falhou ao final. Por ter tomado esta dose<br />

creio que vou logo sucumbir num sono que acredito irá durar dez mil anos. Devo dizer<br />

ainda que não existe nada em minha memória tão forte como o Mago de Prata, o ser<br />

de carne, osso e magia que de dentro de minha alma nunca sairá.<br />

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LIVRO DOIS<br />

Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

O Mago Neres<br />

“Há dez mil anos vivemos e há dez mil anos morremos da mesma forma. Todos<br />

nós, sem exceção, teremos a mesma forma de morte. Sempre nos confins da fronteira<br />

da auréola, a fina terra que se expande ao espaço infinito. Mas sabemos que um dia<br />

morreremos de outra forma.”<br />

“Um dia a auréola chegará aos confins do universo e então surgirá o messias, o<br />

messias em que será encarnado o Mago de Prata, e então morreremos por Ele.”<br />

Os anos passaram rápido para Ket. Ele era mais um dos pequenos que entravam<br />

para o vasto campo do aprendizado da magia prateada. Ele segurava firmemente<br />

a mão do grande Mago Neres enquanto via seu pai ir embora. De algo ele sabia, nunca<br />

mais iria vê-lo. Sua mãe estava ali à frente. Abanando as mãos e rindo, ela gritava:<br />

– Não chore por nós, nós nos mataremos! Nos mataremos por você e pelos que<br />

te seguem.<br />

Mas Ket chorava. Era apenas uma criança e não conseguia entender por que<br />

deveria deixar seus pais irem embora. Na verdade ninguém sabia, nem mesmo o<br />

enorme Mago Neres, que agora tentava puxá-lo para si, para evitar mais sofrimento.<br />

– Para onde eles vão, Mago Neres, para onde? – perguntava.<br />

Mas o Mago não respondia, pois não tinha a mínima ideia. Apenas sabia que<br />

um dia ele teria de ir também. Sabia que, ao ficar adulto, quase velho, seria chamado,<br />

e teria de ir para nunca mais voltar. Mas todos sabiam de uma coisa: eles todos iriam<br />

de encontro à morte.<br />

Agora o grande Mago carregava Ket nos braços. Este se agarrava ao pescoço<br />

do Mago, pousando sua cabeça em um dos seus enormes ombros, ainda derramando<br />

lágrimas.<br />

– Acalme-se, Ket. Logo estaremos em Cosmo, o lugar para onde vão todos<br />

aqueles que se perdem muito cedo de seus pais e onde são, por dádiva de Orh, instruídos<br />

na magia prateada. Não é algo que você sempre sonhou?<br />

– Sim, todos sonham, mas a que preço? – perguntou o menino.<br />

– Eu sei, Ket. Eu também tive que pagá-lo. E era menor que você! Agora,<br />

olhe – o Mago parou. – Não importa para onde seus pais foram, quem os chamou foi<br />

o próprio Orh! Sabemos que Ele é o Deus, não sabemos?<br />

– Não, não sabemos – disse o menino.<br />

– Como ousa!<br />

– Alguém já provou? Como pode dizer que existe um Deus, que você tem que<br />

dar sua vida a Ele? E cadê esse Deus que nunca aparece? Nem sabemos como Ele é!<br />

– Veja, Ket – disse o Mago. – Vamos para Cosmo, será muito rápido se continuarmos<br />

andando pelas estepes desertas; quando chegarmos, você aprenderá muita<br />

coisa, coisas que para o povo em geral devem ficar omitidas, pois são informações<br />

reservadas apenas aos Magos. E você será um deles, com a graça desse Deus contra


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

quem blasfemou. Por isso me prometa que nunca mais irá dizer um absurdo desses<br />

novamente!<br />

– Está bem, eu prometo. Mas posso fazer apenas uma pergunta?<br />

– Que seja breve.<br />

– O nome dele é realmente Orh ou existe algum outro?<br />

– Bem, acho que você merece saber isso antes de chegar. Ele é conhecido como<br />

Orh pelo povo em geral, mas sabemos que existem dois outros nomes envolvidos com<br />

Ele, e sabemos que sem eles Orh não existiria.<br />

– E quais são estes nomes?<br />

– É muito estranho falar isso sem a proteção da Ordem do Cosmo, mas está<br />

bem. Um deles não sabemos e o outro é Mago de Prata. Agora se acalme, está bem?<br />

– Certo.<br />

O Mago tomou Ket no colo de novo e começou a caminhar. Logo seu passo<br />

aumentou e, como Ket estava quase dormindo, assumiu o passo das aves. Flutuou<br />

sobre o solo a alguns centímetros e começou a correr como o vento. Não demoraria<br />

para que chegassem.<br />

Quando Ket acordou, notou que eles estavam a uma grande velocidade atravessando<br />

as estepes geladas; seu pequeno corpo começara a tremer. Ao perceber isto, o<br />

Mago enfiou Ket dentro de suas vestimentas. Com o contato do corpo do Mago, Ket<br />

logo sentiu-se melhor. Tentou entender o que estava ocorrendo. Viu as estepes passarem<br />

a grande velocidade. Teve quase um espasmo quando notou que estava flutuando<br />

nos braços do Mago, mas nada perguntou. Fechou os olhos, encostou o rosto no ombro<br />

do Mago e pensou: “meus pais estão mortos, eu posso sentir.” Começou a chorar<br />

de novo.<br />

Após alguns instantes, o Mago tocou em seu cabelo.<br />

– Pequeno Ket, veja, já podemos perceber Cosmo, o grande palácio do saber!<br />

Ket descolou o rosto do ombro do Mago e olhou para a frente. Ficou pasmo!<br />

Era uma construção inteira em cristais! Quase riu, mas estava muito triste para isso.<br />

De qualquer maneira, seus olhos soltavam lágrimas, não só devido ao vento que quase<br />

os perfurava, mas pelo absurdo arquitetônico que era a construção. Ele não poderia<br />

dizer se aquilo que sentia era bom ou mau, mas apenas conseguia discernir algo em<br />

sua alma, que nunca sentira antes.<br />

Cosmo ficava no meio das estepes desérticas geladas. Aparentemente nada existia<br />

em volta, apenas gelo. O que poderia se notar neste momento eram duas formas<br />

bem distintas, uma retangular, pousada no solo e a outra, um cubo na vertical, rasgando<br />

o espaço e flutuando, tão grande que poderia encostar em uma estrela.<br />

O Mago se aproximava rápido e ficou feliz em perceber a mudança no humor<br />

de Ket.<br />

À medida que iam chegando mais perto, Ket ficava mais e mais abismado.<br />

Logo notou que a construção eram só e apenas as duas formas que tinha visto anteriormente,<br />

nada de detalhes intrincados como imaginara.<br />

– Você só notará os entalhes nos cristais quando estiver bem perto. O lugar é<br />

desse tamanho para que você nunca esqueça do seu tamanho e do tamanho de Orh –<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

disse o Mago Neres, orgulhoso.<br />

Agora eles estavam praticamente embaixo de uma das faces do grande cubo.<br />

Era como um céu feito de cristal, completamente liso e sem uma cor distinta, algo<br />

quase verde muito escuro. Ao notar isso, Ket pensou: “este lugar é muito triste.”<br />

– Sim – disse o Mago, lendo os pensamentos do garoto. – Aqui todos rezam<br />

pela volta daquele que se foi.<br />

Quem se foi? – perguntou Ket.<br />

– Você logo saberá, querido irmão.<br />

“Ele já me considera um Mago!” pensou Ket, contente.<br />

Eles demoraram uma eternidade para chegar à frente do local. Aparentemente<br />

não existia entrada alguma e, na velocidade em que estavam eles, iam simplesmente<br />

se esborrachar na parede de cristal. Ket estava assustado com esta possibilidade, mas<br />

imaginou que o Mago sabia o que estava fazendo. Começou a perceber uma série de<br />

desenhos incrustados ao longo da parede da construção, que parecia não ter fim. Olhava<br />

de um lado ao outro e via as paredes se perderem na linha do horizonte.<br />

Quando estavam quase a colidir, um imenso buraco abriu-se dando passagem<br />

aos dois. Estavam dentro da grande catedral. O Mago foi diminuindo a velocidade<br />

até voltar a andar normalmente. Então Ket descobriu que na verdade a construção se<br />

situava bem no meio de uma grande circunferência. O muro de cristal, laranja internamente,<br />

que acabaram de atravessar, dividia as estepes geladas de uma enorme floresta<br />

azul, que era onde eles estavam andando naquele momento. A floresta era densa, mas<br />

eles andavam por um caminho absolutamente reto e largo feito do mesmo cristal do<br />

muro.<br />

Parecia ser muito antiga. Ket podia ouvir gritos de pássaros que ecoavam num<br />

canto frio e triste. O visual, na realidade, era muito belo, mas ao mesmo tempo parecia<br />

carregar um fardo muito pesado. Ket lembrou-se de uma vez em que seu pai falara que<br />

existia um mundo muito antigo, em que os homens enterravam os mortos num mesmo<br />

lugar a que as pessoas iam para visitá-los. Ket pensou, “que lugar triste deveria ser”,<br />

e a mesma sensação que teve ao imaginar aquele lugar, estava tendo ao ver a imensa<br />

floresta.<br />

– Vamos – disse o Mago. – Já podemos ir. Eles já sabem que aqui estamos.<br />

O Mago pegou Ket no colo de novo e começou a andar como o vento. Voaram<br />

a uma grande velocidade pela estrada laranja, atravessando a floresta. Após um interminável<br />

momento, Ket viu a ponta do enorme cubo que mal tocava o chão. Por uma<br />

das arestas, os dois penetraram e subiram a uma enorme velocidade até a metade do<br />

gigantesco edifício. Ket estava a ponto de desmaiar, não só pela velocidade com que<br />

subiam mas também por ver o mundo abaixo de si, pois o cristal era completamente<br />

transparente para quem olhasse de dentro.<br />

Finalmente chegaram a um grande salão redondo, onde alguns Magos os esperavam.<br />

Estavam todos vestidos de prata.<br />

Foi uma solenidade rápida. Deram um manto prateado a Ket e ao Mago Neres,<br />

que trajava roupas comuns. Com muito cuidado, implantaram um cristal atrás da orelha<br />

de Ket e disseram:


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Com seus sentidos irá saber do nosso segredo. Este cristal irá ajudá-lo a compreender<br />

o que agora você se tornará.<br />

Atravessaram o salão em direção a uma escadaria em caracol, pela qual subiram.<br />

Chegaram a um outro salão que parecia dar a volta em torno de outro e do<br />

próprio cubo. Ket podia ver a grande floresta lá embaixo, a imensa vastidão de terras<br />

que ia crescendo no espaço de um lado e do outro. Boquiaberto, viu pela primeira vez,<br />

quase como um pequeno ponto, o Planeta Azul, que dera início ao grande anel de terras<br />

que dividia o universo.<br />

O Imperador Schaia II<br />

A nave parou em frente a Plan Ex, o planeta-sede do Imperador. A visão do<br />

Planeta era estarrecedora. Mas a tripulação já estava cansada de esperar a liberação<br />

de entrada no Planeta.<br />

– Não posso acreditar que estão nos fazendo esperar tanto tempo – disse Taih,<br />

um dos exploradores do espaço extra-colonial. – As informações que trazemos não<br />

são um mero estudo de habitantes do mundo extremo.<br />

– Esses caras são uns palhaços! – falou Fahiat, seu colega de expedições e renomado<br />

cientista inter-galaxial. – A burocracia desta galáxia pode colocar abaixo toda<br />

a megalomania do nosso Imperador!<br />

Os dois caíram na gargalhada.<br />

“Plan Ex elimina microcírculo de bloqueio, transfusão iniciada.”<br />

– Ah, finalmente! – disse Taih, ouvindo a voz que dava as instruções de entrada.<br />

A nave foi deslocada pelo complexo circuito de transferência até a sede da<br />

inspeção, localizada na própria atmosfera do Planeta. A travessia foi lenta.<br />

Após uma eternidade, a nave dos dois exploradores estava sendo pousada nos<br />

arredores do palácio Imperial.<br />

– Meu deus! – disse Fahiat. – Nem mesmo em Melfx poderíamos encontrar<br />

tamanho esbanjamento!<br />

– É, Fahiat. É nisso que são gastos todos o tesouros que encontramos para esses<br />

burocratas de sangue real!<br />

A comitiva era de apenas vinte guardas à porta da nave. Os dois desceram da<br />

nave. Foram levados solenemente pela escolta, atravessando os alegres jardins do palácio<br />

real. O sol estava se pondo naquela parte de Plan Ex, o que dava ao cenário um<br />

quê de sonho. Enquanto caminhavam, o chefe de protocolo falava:<br />

– Sabemos dos seus feitos, senhores. Estamos honrados com sua presença na<br />

sede Imperial, esperamos que gostem da arquitetura deste palácio. A meu ver, é um<br />

tanto inóspita. Prefiro a sede central em Clancar, do outro lado do meridiano. Mas<br />

acredito que sirva para sua estadia. Não sei se o Imperador avisou, mas terão que ficar<br />

por aqui por mais tempo do que imaginam. Ele não está muito interessado nos seus<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

últimos achados de Carbo, por isso gostaria de mostrar uma nova pedra que começou<br />

a colecionar para a construção de um novo palácio que dará para seu último filho, que<br />

acaba de nascer.<br />

“Estão vendo aquele pequeno riacho? Pois bem, quando o sol se põe completamente<br />

ele vira uma lagoa, e imediatamente começa a jorrar águas escaldantes do meio<br />

do Planeta até mais de dois quilômetros de altura. É o maior chafariz do universo, não<br />

é maravilhoso?”<br />

Os dois cientistas caminhavam sem notar nada. Para eles o que tinham começado<br />

a estudar há mais de seis meses nos confins da zona intermediária, sobre a qual nem<br />

o império tinha declarado posse, era muito mais abismal do que aquele palácio real.<br />

Ficaram em completo silêncio, o que tornou o monólogo do chefe de protocolo<br />

mais irritante. Ele relatava, a cada estátua, todos os feitos dos mais de cem imperadores<br />

que estavam imortalizados naquela área do jardim.<br />

Ao chegarem à imensa porta de entrada, um serviçal totalmente abarrotado<br />

de joias chegou correndo ao encontro deles. Com uma voz frenética e gesticulando<br />

muito, falou:<br />

– Senhores, senhores, me perdoem, mas o Imperador está ocupadíssimo!<br />

Acredito que não poderá recebê-los agora. Terão que ir para seus alojamentos, onde<br />

poderão descansar, e creio que em dois ou três dias o Imperador os chamará para um<br />

desjejum ou, quem sabe, um jantarzinho, como preferirem.<br />

Fahiat estava pasmo de raiva.<br />

– Olhe aqui, lacaio imperial! O que temos a relatar para o Imperador é de extrema<br />

urgência, diz respeito a descobertas de altíssimo nível. Queremos uma audiência<br />

imediatamente!<br />

– Ora, ora. Mas o nosso cientista está irritado! – disse o chefe de protocolo. –<br />

Saiba que não podemos receber ordem de seja lá quem for. Mesmo vocês, cientistas,<br />

que julgam ser os donos da verdade, não podem nos dar ordens!<br />

– Escute aqui, seu pequeno merda. – disse Taih, indo em direção ao chefe<br />

de protocolo e não ligando para as armas que os soldados apontavam para ele. – Se<br />

você gosta deste Planeta e da merda de palácio onde você puxa o saco deste monte de<br />

banha que se diz que governa o universo, me deixe passar, pois trago comigo ordens<br />

do Plano Superior.<br />

– Ora, ora. Se é o Plano Superior que quer falar com urgência com o Imperador,<br />

por que teria mandado dois meros mortais para lhe dizer qualquer asneira que seja?<br />

Os guardas estavam a ponto de disparar as armas. Nesse momento, Fahiat<br />

mandou um sinal para as naves do Plano Superior, que aguardavam em estado não<br />

detectável em órbita de Plan Ex.<br />

As naves se posicionaram em manobras ofensivas, imediatamente soando o<br />

alarme geral do Planeta.<br />

– Pois bem – disse Fahiat. – Os meros mortais foram classificados há algum<br />

tempo como prioridade de plano. Por isso, estamos com uma escolta significativa<br />

para transformar seu Planeta em um mero buraco-negro. Como sabíamos da prepotência<br />

do Imperador, resolvemos trazer nossos guarda-costas. Desejamos uma audiência


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

imediatamente.<br />

A confusão no Planeta inteiro era total. A tentativa de fechamento da camada<br />

atmosférica falhou imediatamente, pois quem controlava a energia para tal feito era o<br />

Plano Superior. Guardas corriam para todos lados e o alarme gritava feito louco. Os<br />

únicos que não se mexiam eram os dois cientistas e o mestre de protocolo, que tentava<br />

inutilmente dizer à central de forças que não se tratava de um ataque, mas apenas uma<br />

mostra da capacidade bélica do maldito Plano Superior.<br />

Finalmente os cientistas estavam dentro do palácio propriamente dito, acompanhados<br />

da inevitável escolta e do pomposo chefe de protocolo. A confusão lá dentro<br />

era mais alarmante que fora. Com um pouco de paciência, o chefe de protocolo<br />

conseguiu explicar a situação ao comando. Pelo menos o alarme parou. Em meio à<br />

confusão, os dois cientistas foram levados até um salão que permanecia alheio ao<br />

tremendo terror externo.<br />

– Ótimo, agora que vocês conseguiram tumultuar a paz do Planeta inteiro,<br />

posso saber pelo menos do que se trata para fazer com que o Imperador possa receber<br />

vocês?<br />

– Trata-se de uma informação fase oito, o que o senhor, como chefe de protocolo,<br />

deve saber que é de extremo sigilo – disse Taih.<br />

– Ah, é claro!<br />

– Cale-se – disse Fahiat. – Fomos escolhidos apenas para o transporte da informação.<br />

A informação em si deve ser dada por um próprio Extuártico.<br />

O chefe de protocolo ficou branco.<br />

– Você quer dizer que carregam em si um Extuártico? Como... por que não<br />

falaram antes?<br />

– Para não criar pânico. Sabemos que o Império externo não recebe um Extuártico<br />

desde o começo do acordo. Temíamos que, se a população soubesse, fosse criada<br />

uma expectativa emocional perigosa para o selo e para o pacto. Devo lembrar que o<br />

senhor deve ser morto depois de dar esta informação ao Imperador.<br />

O chefe de protocolo já estava hipnotizado pelo cientista. Agora ele não falaria<br />

nada até ver o Imperador, sua informação seria passada imediatamente e todos os presentes<br />

seriam mortos pelo próprio chefe, que se mataria em seguida.<br />

Alguns instantes depois, o Imperador entrou sozinho no salão onde os cientistas<br />

estavam. Olhou para os dois com ódio e disse friamente:<br />

– Sigam-me.<br />

Eles desceram uma enorme escadaria em caracol e se confinaram os três em<br />

uma pequena sala completamente hermética.<br />

– Chamem o Extuártico – disse o Imperador.<br />

Eles estavam de pé e o Imperador estava com a mão em sua espada, no caso de<br />

aquilo ser uma emboscada, o que particularmente ele preferia que fosse.<br />

Os dois cientistas conectaram dois pedaços de placas de Tincadium que carregavam<br />

no pescoço. Nesse momento, o Imperador tirou a mão da espada e arregalou<br />

os olhos. Com aqueles dois pequenos pedaços de Tincadium ele poderia comprar mais<br />

um império igual ao seu!<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Após feita a conexão, os dois cientistas se afastaram, pois sabiam o tamanho<br />

da forma que viria. Um ser imenso dentro de um lóbulo gigante apareceu, a sala hermética<br />

parecia ser pequena para tamanha criatura.<br />

Os olhos enormes de peixe olhavam para o Imperador com uma expressão<br />

sarcástica, por sua boca entrava e saía um líquido esverdeado que era logo absorvido<br />

pela água do lóbulo gigante. O Imperador ouvira falar das formas dessa criatura, mas<br />

nunca imaginou que veria uma na vida.<br />

– Estamos contentes em ser recebidos pelo Imperador – disse o Extuártico,<br />

com a voz rouca que saía pelos painéis de amplificação do lóbulo. – Através dos tempos<br />

mantemos um acordo de amizade. Para nós, o tempo nada significa. Porém, para<br />

vocês... faz milênios... Não gostamos do espaço externo, não gostamos de estar aqui<br />

– sua voz estava ficando um pouco irritada. – Selamos um acordo para a transferência<br />

energética para sua massa.<br />

– Sim – disse o Imperador.<br />

– Seus bruxos trabalham para nós – o Extuártico se referia aos cientistas.<br />

– Sim – disse o Imperador. – Sabemos disso, faz parte do acordo.<br />

– O que mais faz parte do acordo? – berrou o Extuártico, dando um tremendo<br />

susto no Imperador e nos dois cientistas.<br />

– Que o Império tome conta do espaço externo e faça florescer a Ordem Universal,<br />

mesmo que isso possa gerar a guerra entre os povos. E mesmo que haja a guerra,<br />

sabemos que ganharemos, pois temos a sua energia e a energia do espaço interno.<br />

– Nós achamos que vocês haviam esquecido desta parte do acordo – disse o<br />

Extuário.<br />

O Imperador estava pasmo.<br />

– Como? Como assim? O que fizemos, ou melhor, deixamos de fazer, que<br />

incomodasse a Ordem Universal?<br />

– Nós dormimos pouco – disse o Extuártico.<br />

O Imperador ainda esperava algo a mais quando os três desapareceram da sala<br />

hermética. Soltando um suspiro de decepção, disse:<br />

– Agora eles podem desaparecer mesmo dentro de uma sala hermética.<br />

Cosmo<br />

Ket caminhou por sob um imenso portal. Estava ainda em silêncio mórbido,<br />

pois nunca tinha visto um Planeta tão de perto, quanto mais o Planeta Azul, a casa<br />

onde a lenda dizia que foi criado Orh. Sentia uma espécie de estranheza quanto a essa<br />

ideia. Como poderia um Deus ter vindo de um Planeta, e por que nunca, ninguém dessas<br />

terras tinha ido até lá para verificar a veracidade daqueles fatos? Estava tão absorto<br />

em seus pensamentos que não percebera onde tinha entrado.<br />

Tratava-se do maior espaço que já conhecera. Embora sempre tivesse vivido<br />

nos campos abertos, jamais, sequer, podia imaginar a existência de um lugar como<br />

aquele. Tentou entender que parte do cubo era aquela.<br />

Bem podia lembrar que uma das pontas do imenso cubo quase tocava o solo,<br />

desta forma, o cubo se posiciona na vertical, com uma das pontas para o chão a outra<br />

para o espaço e as quatro restantes para os lados. Portanto, eles estavam exatamente


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

na metade da altura do cubo, e, certamente, a parte com o maior diâmetro. Ali cabia<br />

aquela imensa abóbada, para a qual olhava agora do portão pelo qual acabara de entrar.<br />

Seus sentimentos quanto ao Planeta Azul se foram. Aquilo que ele estava olhando<br />

era um Planeta à parte! Mas como se fosse oco e todas as pessoas estivessem<br />

na parte de dentro.<br />

Quando eles começaram a avançar para o centro, andando pelo interminável<br />

corredor, Ket notou que todos ali estavam em estado de transe. Na maioria eram crianças<br />

como ele, uns um pouco mais velhos, outros mais jovens. Na verdade, os únicos<br />

adultos ali eram os grandes Magos que o cercavam. Todos ali dentro estavam vestidos<br />

de maneira igual, com o manto prateado caído sobre os corpos. Ao observar isto,<br />

Ket notou que as crianças estavam ajoelhadas, como que rezando, mas os mantos<br />

flutuavam no ar. Então, quando os portões se fecharam atrás deles, ele finalmente entendeu.<br />

Com a leve brisa ocorrida pela expansão de ar dos portões ele viu os mantos<br />

esvoaçarem por um pequeno momento. Todas as crianças estavam ajoelhadas no ar!<br />

Estavam voando!<br />

Continuou andando, tentando não demonstrar sua emoção diante do que estava<br />

vendo, o que era um tanto penoso para ele, não só pelo tamanho do local mas pela<br />

forma como tudo ali era feito. Um mundo absurdamente inconcebível. Em primeiro<br />

lugar, o teto só era percebido porque sua forma arredondada e a transparência do<br />

material de que era feito distorcia o espaço externo, isto é, Ket podia ver todo o infinito<br />

espaço com estrelas e Planetas e ao mesmo tempo sentir-se dentro de um vão<br />

perfeitamente esculpido no cubo que o continha. Outro aspecto impensável do lugar<br />

era a iluminação. Para cada criança existia um pequeno cilindro de cristal verde que<br />

Ket, estarrecido, percebeu que flutuava, fazendo com que a chama que saía da sua<br />

ponta ficasse exatamente na altura das mãos das crianças, unidas em frente aos olhos.<br />

As crianças eram um espetáculo à parte. Aparentemente podia atravessar um<br />

meteoro pelo grande templo que elas não se mexeriam. Elas sequer respiravam!<br />

“Que mundo absurdo é esse?”, perguntou-se Ket. “Será que eu farei parte disso<br />

tudo? E ficarei rezando aqui para sempre? Pode ter certeza que não. Vou fugir logo,<br />

logo.”<br />

Mas Ket continuava a andar por entre os Magos. O corredor continuava e continuava,<br />

e quanto mais andava, mais crianças ele via. Começou a pensar sobre sua<br />

mãe. Lembrou uma vez em que estava correndo pelas estepes, perto de sua casa. Seu<br />

pai colecionava cristais e estava longe, em alguma mina no setor setentrional.<br />

Tentava de alguma forma conseguir que um pássaro feito por ele de cristais levantasse<br />

vôo. Ele amarrara o brinquedo com um pedaço de fibra que o pai usava para<br />

empacotar os cristais que vendia. Mas o pássaro apenas flutuava por instantes e depois<br />

caía sobre o alto gramado. Ket só conseguia encontrá-lo graças ao resto de fibra que<br />

estava enrolada em sua mão.<br />

Em certo momento, perseguia a linha quando percebeu que tinha ido muito<br />

longe de casa. Estava quase perto dos precipícios negros. Sabia muito bem que não<br />

podia ir lá sem a companhia de alguém mais velho, pois os penhascos eram traiçoeiros.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mas viu algo no céu que lhe chamou a atenção. Era um imenso meteoro, na iminência<br />

de colidir com o solo. Correu para os penhascos e observou a queda da gigantesca<br />

pedra.<br />

Mas um fato muito estranho aconteceu. Quando o meteoro iria colidir, o chão<br />

se abriu. E Ket, boquiaberto, vislumbrou alguma coisa que poucos conseguiram ver. O<br />

outro lado do mundo. Ele viu que o solo era uma fina camada e do outro lado ele vira o<br />

espaço, o mesmo espaço que estava agora sobre sua cabeça, mas com outras estrelas e<br />

Planetas e em posições diferentes! O meteoro passou pelo buraco que logo se fechou,<br />

formando o mar que estava antes lá embaixo dos precipícios negros.<br />

Uma luz esverdeada tirou-o de seus devaneios. Vinha de longe, no corredor.<br />

Só então notou que aquela luz se encontrava bem no meio do templo e que todas as<br />

crianças estavam posicionadas de frente para ela. Após mais um enorme tempo de<br />

caminhada, eles chegaram até a luz e se ajoelharam em frente. Ket não conseguia<br />

olhar para ela. Mantinha os olhos fechados, até que um dos magos falou:<br />

– A luz agora vai escurecer, não olhe para o que surgir. É a própria referência<br />

ao Deus. Você deve saber de algo que jamais pode sair deste templo. Orh é apenas<br />

um nome para o povo, nós o chamamos de Mago de Prata. Após o que Ele lhe falar,<br />

você deve nos comunicar secretamente, então caberá a você entender sua missão e<br />

realizá-la, para preservar o Mago e nosso mundo. Lembre-se de que não poderá olhálo<br />

diretamente. Todos os que olharam ficaram cegos e foram banidos da existência<br />

neste mundo, nem suas mortes foram louvadas para a expansão do anel.<br />

“Concentre-se, abaixe a cabeça e reze por ele.”<br />

Ket fixou sua testa nas pontas de seus dedos unidos. Seus olhos estavam tão<br />

fechados que seus músculos da face começaram a doer. Sentiu então que a luz do<br />

ambiente começara a diminuir. A luz, que antes era muito forte e transpassava suas<br />

pálpebras, agora sumia em uma total escuridão.<br />

Não sentiu nada. Ninguém falou nada. O silêncio era absoluto. Pensou que o<br />

mago se enganara, que simplesmente esse deus era uma farsa, que tudo aquilo não<br />

passava de um truque, e para provar que estava certo, resolveu desmentir a si mesmo<br />

tudo aquilo.<br />

Abriu os olhos e deu de encontro com o Mago de Prata.<br />

Quase soltou um berro com o que vira! Era o espectro de uma criança um<br />

pouco maior do que ele, completamente nu em cima de um pedestal enorme.<br />

O Mago era branco como a neve. Tinha o corpo completamente liso, mas suas<br />

linhas eram extraordinariamente perfeitas. Ket estava boquiaberto com tal visão. Jamais<br />

vira algo tão belo em toda sua vida.<br />

O pedestal começou então a baixar, o Mago de Prata estava bem em sua frente.<br />

Agora podia melhor observá-lo. Seus olhos verdes estavam penetrando dentro de seu<br />

ser. Ele estava começando a ficar com medo. Ficaria realmente cego?<br />

– Não – disse o Mago. A voz quase fez Ket cair. – Você teve coragem. Há tempos<br />

atrás muitos ficaram cegos. Mas desde a criação deste mundo nunca aconteceu<br />

isto. Todos os que vieram e estão em nossa dimensão não tiveram coragem de olharme,<br />

mas suas vidas são necessárias para manter este mundo.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Eles não podem te ouvir? – perguntou Ket.<br />

– Não, nem têm coragem de me olhar, assim como são os magos deste mundo.<br />

– Deste mundo? Como assim?<br />

– É uma longa história. Devo contar-lhe algo, assim você entenderá o que deve<br />

fazer. Você será o messias e terá a mim. Juntos construiremos um sonho.<br />

– Mas veja o meu tamanho, sou apenas uma criança – disse Ket, assustado.<br />

– Não, você não é mais.<br />

O Mago tirou o cristal implantado atrás da orelha de Ket e tocou-lhe a testa.<br />

– Transmito a você uma sabedoria de milênios. Após a chegada da minha luz<br />

todos aqui despertarão de novo e você deverá caminhar como pássaro pela mesma<br />

entrada por onde veio. Irá para o topo do cubo, onde encontrará um quarto. Tranque-se<br />

lá e durma. Em sono profundo, eu revelarei a você tudo o que deve saber. Deve porém<br />

lembrar-se de algo: ninguém deve falar com você até a chegada nesse quarto, bloqueie<br />

sua mente. A melhor forma de fazê-lo é mudando de nome. Seu nome não é mais Ket,<br />

mas sim Muir-Iled, em homenagem a Delirium, um grande amigo do passado. Dentro<br />

do quarto lhe darei minha própria essência, então você se tornará o messias.<br />

O Mago desapareceu. A luz surgiu em seu lugar novamente. Os magos em<br />

volta de Ket, olhavam-no com admiração. Para eles Ket deveria estar como tantas<br />

outras crianças flutuando e rezando em volta da luz divina. Porém, Ket estava ali olhando<br />

para eles. Deu as costas aos magos e com passos de pássaro caminhou de volta<br />

ao portal por onde tinha entrado.<br />

Os chamados dos magos não adiantaram. Ket continuou a voar com uma velocidade<br />

que eles nunca tinham visto. Para Ket, aqueles chamados não tinham sentido<br />

algum. Seu nome era Muir-Iled e estava a caminho de um merecido descanso, no<br />

quarto extremo-norte do templo do Deus Mago de Prata.<br />

Um dos magos olhou para o chão e viu o cristal que tinha sido implantado atrás<br />

da orelha de Ket.<br />

– Ele falou com o Mago de Prata – disse o mago.<br />

– Então Ele realmente existe – disse o outro.<br />

Com uma voz chocada e como que falando para si mesmo, o Mago Neres<br />

disse:<br />

– Sim! Ele realmente existe!<br />

O Imperador Schaia III<br />

Após o desaparecimento do Extuártico e dos dois cientistas, o Imperador<br />

Schaia II saiu da sala hermética. Estava velho e cansado. Carregava em sua carcaça de<br />

mais de cem anos um governo que para ele parecia ter sido perfeito. Nos últimos anos<br />

de reinado, tinha se apoderado de centenas de estrelas e seus planetas em órbita. Na<br />

verdade, desde que seu povo fez o acordo com os Extuárticos, muito tempo antes, todas<br />

as gerações de governantes de sua família nunca tiveram problemas em governar<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

e adquirir posses para seu império intergaláctico. Mas agora, após uma visita de cinco<br />

minutos de um Extuártico em pessoa, parecia que tudo estava a ruir.<br />

Quando entrou no salão principal do palácio, havia ainda reminiscências do<br />

caos deixado pelo falso alarme dos cientistas.<br />

“Malditos cientistas”, pensou o imperador.<br />

Quando se sentou no trono, logo comandou o aparecimento imediato dos três<br />

pilares de seu governo. Eram os elementos mais respeitados de todo o império, às<br />

vezes mais até que o próprio imperador. Seus feitos na área de tecnologia, segurança<br />

espacial e formação da fé davam ao império a certeza de um poder imaculado. Até<br />

agora, pois após a visita do Extuártico, as coisas estavam diferentes.<br />

“Aquele ser estava transparecendo uma impressão de verdadeira preocupação,<br />

e eles sempre foram tão arrogantes”, pensava o imperador. “Que maneira poderia ser<br />

pior de terminar meu reinado, do que com uma crise iminente com a fonte de energia<br />

e poder que sustenta todas essas colônias que tanto nos respeitam.”<br />

Essa era a ideia que o Imperador tinha das coisas. Sua família esteve ao longo<br />

dos séculos colonizando Planetas e fazendo de outros povos seus escravos, graças<br />

à enorme fonte de poder que tinham. Na verdade, todos os reinados foram, sem exceção,<br />

de déspotas, inclusive o dele.<br />

Como era na verdade um grande covarde, resolveu ali mesmo dar fim a tudo<br />

isso. Chamou dois de seus guardas pessoais e ordenou:<br />

– Você – disse, apontando ao guarda real como se fosse um membro da baixa<br />

infantaria. – Faça uma requisição imediata para a vinda de meu filho Schaia III. Ele<br />

deve estar em Carmel, o Planeta da criação da fé. Digam que seus estudos devem<br />

ser paralisados, pois ele deve assumir o trono. Avise ainda que ele tem uma reunião<br />

urgente com os mestres dos três pilares. O assunto deve ser visto pelos quatro a portas<br />

fechadas, nos arquivos dos últimos quinze minutos estocados na sala hermética. Ele<br />

vai ter uma ótima surpresa. Pode dizer a ele que é meu presente de coroação.<br />

– Agora você – disse ao outro guarda. – Você terá uma tarefa muito mais interessante.<br />

Pegue sua arma – o guarda fez isso imediatamente. – Aponte-a para mim<br />

e atire.<br />

O guarda quase cambaleou. Mas estava sob juramento e, quando notou que o<br />

seu colega estava a ponto de executá-lo caso ele não obedecesse, atirou no imperador.<br />

Os dois viram, com uma certa satisfação, o corpo do imperador cair do imenso<br />

trono. Logo, quase toda a corte estava na sala para chorar a morte do déspota.<br />

O guarda encarregado de dar a notícia para o novo Imperador teve de usar<br />

um transporte de desmaterialização. Sua viagem foi feita em segundos. Deveria ter<br />

pressa, pois os três pilares já tinham sido convocados e a presença do novo Imperador<br />

era urgente.<br />

Sua chegada no Planeta Carmel era esperada. O próprio chefe da guarda imperial<br />

tinha feito a conexão. Porém, a notícia da morte do Imperador não saíra da corte.<br />

Carmel estava em meio a um festival. De todas as festas religiosas do Planeta,<br />

esta era a mais importante. Dizia respeito ao nascimento de Luntra, o revolucionário<br />

da hierarquia do clero.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Sua doutrina tinha se infiltrado no Planeta logo que o acordo com os Extuárticos<br />

fora feito. Era tudo muito simples. Como o clero não podia aceitar a nova energia<br />

que os Extuárticos estavam comercializando com o império, pois era completamente<br />

inaceitável pelas ideias daquela igreja, o clero foi completamente banido. Foi uma<br />

das maiores carnificinas já feitas pelo império desde a reforma de Marchor, o rei sem<br />

alma.<br />

Quase todo o Planeta foi aniquilado. É claro que o resto do império se manifestou<br />

contra aquela guerra religiosa, porém os governantes estavam convictos de que<br />

iriam vencer, pois a propaganda feita da nova forma de energia era muito óbvia:<br />

“Ou aceite ou sinta.”<br />

A mensagem aparecia em todas as formas de comunicação conhecidas na época;<br />

é claro que o império não era tão vasto quanto agora. Ninguém entendia muito<br />

do que tratava aquele slogan, pois apenas a frase era transmitida. Quando o clero do<br />

Planeta Carmel resolveu se manifestar fortemente contra a entrada da nova forma de<br />

energia, o Planeta inteiro foi destruído com imagens ao vivo para todo o mundo o ver.<br />

Após as efervescentes imagens da destruição, aparecia a frase. Logo, todos que assistiram<br />

entenderam do que se tratava.<br />

Então veio Luntra, mandado pelo próprio império, como um desbravador do<br />

Planeta atingido pelas novas armas imperiais. Segundo a lenda, fez o Planeta renascer<br />

com uma nova forma de hierarquia: a fé se curvava para a tecnologia. Foi muito fácil<br />

erguer este pilar filosófico. Bastou interpretar o mundo segundo as normas científicas.<br />

Logo, o Planeta inteiro foi reconstruído segundo estas normas. Fez-se daquele lugar<br />

um verdadeiro Planeta universitário, pois a tecnologia regia a fé. Na verdade, todo o<br />

aspecto científico passou a se chamar de fé, a ciência virou religião.<br />

Assim, naquela grande festa, o Planeta inteiro estava infestado de demonstração<br />

das novas ideias, dos novos princípios e, é claro, dos novos “deuses” que eram<br />

criados através da Tecnologia.<br />

Foi surpreendente o fato de o filho do imperador ter de sair em meio às principais<br />

festividades. A urgência era tamanha que um veículo do próprio regente do<br />

Planeta fora buscá-lo, assessorado de muitos guardas, pois tudo se podia esperar da<br />

falta do Schaia III.<br />

De início, todos pensavam se tratar de um rapto. Houve um dilúvio de manifestações<br />

por todo o Planeta. Porém, quando se soube de um desvio de um regimento<br />

da frota imperial ao Planeta, as manifestações se calaram.<br />

Schaia foi transferido imediatamente para Plan Ex, o Planeta-sede do império.<br />

Ele próprio não sabia do que se tratava. A transferência fora feita da maneira mais sutil<br />

possível. Houve um embargo de informações a Carmel durante vários dias.<br />

Ao chegar em Plan Ex, Schaia III estava atônito.<br />

“O que esse imbecil do meu pai aprontou agora”, pensava ele. Schaia III tinha<br />

visto seu pai pela última vez aos cinco anos, quando foi transferido para Carmel. Seu<br />

desenvolvimento na área científica era espantoso para sua idade e, de longe, era diferente<br />

de seu pai. Nunca se interessou pela política suja do império. Era conhecido nos<br />

meios acadêmicos de Carmel como um verdadeiro revolucionário.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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Seu pai nunca se preocupou com isso. “Quando ele sentir o gostinho de governar<br />

o universo, sem nada com que se preocupar, ele mudará de ideia”, dizia seu pai<br />

a toda a corte. E todos riam. Porém Schaia III estava agora no nível máximo de sua<br />

revolta. Beirava os dezesseis anos e tinha aquele sentimento de repulsa a tudo que se<br />

podia chamar de poder. Principalmente porque sabia das manipulações que o império<br />

de seu pai fazia.<br />

Era um rapaz pequeno, muito magro. Tinha os cabelos quase passando pelas<br />

costas, vestia-se mal, segundo os conceitos do império. E era extremamente violento.<br />

Tinha plena consciência de seu poder intelectual e sabia que estava cercado de cobras.<br />

Pode-se dizer que odiava o império de seus antepassados e naquela ocasião mais<br />

ainda, pois fora tirado do meio de uma festividade importante. Não que ele desse a<br />

mínima atenção para Luntra e as mentiras por trás dessa nova religião, mas as festividades<br />

eram demasiado importantes para ele estar ali naquele Planeta feito de ideais<br />

pernósticos.<br />

Seu raciocínio fora rápido. “Esses idiotas não têm noção de minha antipatia por<br />

eles, farei o que for preciso para ganhar sua popularidade. Após isso, vou descobrir o<br />

que está ocorrendo por aqui e darei meu golpe. Vou destruir todo o tipo de absurdo que<br />

esse império construiu.” Mal ele sabia que faria isso tão brevemente.<br />

Schaia III foi levado para um quarto. Foi informado pelo chefe de cerimônias<br />

que aquele quarto fora escolhido a dedo pela tropa. O chefe de cerimônias disse ainda<br />

que o império estava prestes a passar por uma crise, uma verdadeira calamidade, que<br />

ele deveria se apressar a se apresentar perante a corte, pois iria assumir o governo.<br />

– E quanto ao meu pai? – Schaia III perguntou.<br />

– Seu pai morreu – disse o chefe de cerimônias, friamente.<br />

Quando entrou no quarto, Schaia não sabia se ria ou chorava. Estava tão perdido<br />

com o impacto da notícia que apenas ficou parado, sem pensar em nada. O chefe<br />

de cerimônias ainda perguntou se precisava de algo, mas Schaia III nada disse.<br />

Ouviu algumas batidas na porta e logo se virou. Quatro mulheres muito bonitas<br />

entraram sem sequer pedir a permissão do garoto e o olharam com encantamento.<br />

Ele porém parecia não estar ali. Elas o pegaram pelas mãos e o levaram para a cama.<br />

Tiraram suas roupas e, sem nada dizer, começaram a chupá-lo como loucas. Ele estava<br />

pasmo. Seu sexo reagiu imediatamente, estava completamente extasiado. Cada<br />

mulher lambia uma parte de seu corpo. Apesar de assustado, Schaia não conseguia se<br />

controlar. Uma delas agora colocara a boca em seu sexo e, com movimentos frenéticos,<br />

o massageava.<br />

Então, o carregaram para uma outra sala, onde havia um enorme piscina. Colocaram-no<br />

vagarosamente dentro d’água e continuaram as massagens orais.<br />

Schaia tinha a pele lisa e, por sua idade, não tinha praticamente pêlos no corpo.<br />

As mulheres pareciam gostar disso e continuaram, até que uma o fez penetrá-la.<br />

Schaia não demorou muito para chegar ao êxtase.<br />

Depois, elas o lavaram e vestiram. Suas roupas eram majestosamente lindas,<br />

até mesmo para ele, que não gostava da moda daquele Planeta.<br />

Enquanto estava andando pelo imenso corredor a caminho da coroação, pen-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

sou consigo mesmo: “esses idiotas acham que vão fazer de mim um fantoche como<br />

era meu pai! Pois eles vão ver.”<br />

Ao chegar ao grande salão onde iria ser coroado, Schaia descobriu um leve<br />

toque de mentira no ar. Algo eles estavam escondendo. Havia pelo menos duas mil<br />

pessoas ali. A indumentária era absurda, mas tudo fora feito muito rapidamente.<br />

“Pois bem, seus cretinos, então é assim... Acham que com quatro prostitutas<br />

vocês me comprarão.”<br />

Deixou que o levassem para o trono. Em uma cerimônia que durou mais de<br />

cinco horas, foi coroado perante todo o Império, ao vivo. Foi um verdadeiro choque<br />

para todos a rapidez dos eventos. Os três pilares agiram imediatamente ao saberem<br />

do ocorrido com o antigo imperador. Tinham visualizado todo o problema através<br />

das informações contidas na sala hermética. Como sabiam que o novo imperador era<br />

apenas um adolescente, decidiram resolver o problema da forma mais rápida e secreta<br />

possível. Eles nem imaginavam o que estava para ocorrer.<br />

Após a coroação, e o chamado juramento da guarda imperial que dizia “juramos<br />

solenemente obedecer ao Imperador Schaia III em qualquer ordem, mesmo que<br />

seja tirar a vida de qualquer membro do império, até mesmo a do próprio Imperador,<br />

se necessário for para o bem da ciência divina”, Schaia III quebrou completamente o<br />

protocolo. Levantando-se do trono, disse:<br />

– Como minha primeira ordem, exterminem imediatamente os três pilares e<br />

todos os membros da antiga corte.<br />

A matança foi transmitida ao vivo para todo o império.<br />

O Templo de Cosmo<br />

Muir-Iled atingiu tamanha velocidade por entre os intermináveis corredores<br />

do Templo de Cosmo, que sua capa de prata rasgou-se inteira. Ao chegar ao quarto<br />

no topo da pirâmide superior do cubo ficou impressionado, estava praticamente nu.<br />

No entanto não sentia frio, o quarto era aquecido. A vista era espetacular. Através<br />

do finíssimo cristal transparente, podia-se ver o imenso anel de terras que cercava o<br />

Planeta Azul a uma distância inimaginável, e todo o espaço que se fazia de céu sobre<br />

sua cabeça.<br />

Mas Muir-Iled estava exausto. No meio do quarto existia um imenso espaço<br />

para descanso, era uma espécie de almofada gigante de forma redonda. Ele se lançou<br />

ao ar e caiu; com imenso prazer notou que a almofada era d’água! Estendeu seu corpo<br />

sobre a macia superfície e logo dormiu.<br />

A visão era fantástica. Inicialmente ele achou um pouco estranho, pois estava<br />

voando num céu azul-claro, o que ele nunca tinha visto antes. A paisagem lá embaixo<br />

era de arrepiar, milhares de árvores se estendiam sobre morros, ao longe podia-se ver<br />

um mar azul. Até mesmo a floresta tinha uma certa nuance de azul também.<br />

Logo ele viu um ser a cavalo. Suas roupas eram bem esquisitas e ele tinha uma<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

beleza peculiar, cabelos muito longos e loiros. Cavalgava em meio àquela floresta<br />

com muita destreza. De repente, tudo sumiu. Ele estava ao lado daquele ser, que conversava<br />

com uma menina que tinha asas de borboletas. Era difícil de entender o que<br />

estava sentindo, pois as imagens estavam completamente ofuscadas.<br />

Agora, o ser estava em frente a outro bem menor do que ele, mas num ambiente<br />

muito escuro, uma espécie de caverna. Quando o outro apareceu, Muir-Iled se<br />

sentiu muito estranho. Era como se já conhecesse o menino. Ficou extremamente chocado<br />

com a beleza desse novo personagem, não conseguia tirar os olhos dele. Então<br />

percebeu quem era. O Mago de Prata estava à sua frente de novo. Mas que mundo<br />

estranho! Então, ouviu-os conversando e não conseguiu entender do que se tratava. O<br />

ser maior, o loiro, usava uma faixa prateada nos olhos, mas parecia ver tudo perfeitamente.<br />

Então, para seu espanto, viu os dois se beijando.<br />

Agora tudo mudou absurdamente. Se aquele lugar já era estranho, este fez<br />

Muir-Iled ficar chocado. Um lugar escuro, com luzes e sons que deixavam os sentidos<br />

conturbados. Viu então a mesma dupla ser levada por alguém. Viajaram pela enorme<br />

vila, com estradas separando blocos de imensas casas que rasgavam o céu, que agora<br />

estava normal, escuro e com estrelas, como ele conhecia. Acompanhava esses eventos<br />

como um ser à parte, sentia até mesmo os cheiros dos lugares, mas ninguém o percebia.<br />

Parecia que os dois tinham voltado para aquele mundo anterior, em meio à<br />

floresta. Então começou a sentir algo muito estranho. Seu coração estava batendo<br />

muito forte. Ele estava sentindo uma paixão absurda por aquilo, não em particular por<br />

alguém, mas pela situação. Começou a delirar completamente, vendo os dois andando<br />

a cavalo, banhando-se em uma estranha fonte, conversando com um povo pequeno e,<br />

de súbito, sentiu uma dor terrível. Foi quando raptaram o Mago de Prata. Mas logo<br />

estava se sentindo bem de novo, de novo na imensa vila, agora com o céu enlouquecidamente<br />

azul. O Mago de Prata e seu grande amigo tinham desaparecido. Surgira<br />

no lugar um outro menino, um pouco mais velho que ele próprio, e que lembrava<br />

muito os dois. Muir-Iled viu uma porção de imagens completamente fora do comum,<br />

lugares onde pessoas se concentravam em salas, muita gritaria, barulhos estranhos e<br />

uma confusão danada.<br />

Então viu o Mago de Prata sendo levado por seres com cristais nos ouvidos,<br />

seu amigo estava logo atrás. Foi quando sentiu um espasmo de dor se apoderar de todo<br />

seu corpo. O Mago de Prata estava morto nos braços de seu grande amigo. Muir-Iled<br />

chorava muito, não só pela dor mas pela própria morte do pequeno Mago.<br />

Também viu o amigo loiro em prantos, enlouquecido, vagando por aquelas terras<br />

estranhas. O céu se transformara de azul para um cinza escuro e uma forte chuva<br />

caía.<br />

O loiro estava agora dormindo numa câmara com muitos cristais. Muir-Iled<br />

saiu voando da câmara e viu a floresta se afastar, estava no céu de novo. Mas foi<br />

subindo cada vez mais alto, até que podia ver o Planeta inteiro. O Planeta Azul! O<br />

mesmo que vira pelas paredes do Templo de Cosmo. Ele ficou observando o Planeta.<br />

Não tinha noção de tempo, mas viu o Planeta em órbita ao redor de uma estrela por


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

centenas, talvez milhares de vezes; a velocidade era imensa. Então viu um anel sendo<br />

formado ao redor do Planeta. O anel começou a se expandir pelo espaço aberto do<br />

universo.<br />

Muir-Iled estava sentado numa sala vazia e escura. Percebeu que havia alguém<br />

na mesma sala. Virou-se devagar e para seu espanto viu o Mago de Prata. Sentiu um<br />

espasmo. Era exatamente o mesmo ser que tinha visto no templo e acompanhando o<br />

guerreiro loiro, mas agora emanando uma força interior muito mais intensa.<br />

– Não tenha medo – disse o Mago.<br />

Muir-Iled nada falou.<br />

– Estou povoando seu sonho – continuou o Mago. – Eu o escolhi, pois é chegada<br />

a hora. Ortal estava completamente fora de si quando começou isto tudo, há muito<br />

tempo atrás. Ele dormiu com uma forte dose de uma droga muito poderosa. A droga se<br />

amplificou dentro da câmara dos cristais e com esta força ele sonhou com este mundo<br />

em que você vive. Durante todo este tempo, por culpa de sua ira e do poder dos cristais<br />

e da droga, ele manipulou sem querer uma fonte energética universal que fez criar este<br />

mundo de sonho. O problema é que este mundo está se transformando num vórtice<br />

material. Ele está se transformando em outra realidade, que vai afetar completamente<br />

outro universo que você não conhece. Devemos nos unir e dar continuidade a isto,<br />

pois agora não há volta.<br />

Muir-Iled estava chocado. Não entendia metade das palavras que o Mago estava<br />

falando, porém entendia o sentido de tudo. Então perguntou:<br />

– Nos unir, como assim?<br />

– Na verdade não vamos nos unir, eu vou roubar a sua essência de vida. Você<br />

vai ser eu.<br />

– Você está louco?<br />

– Não se preocupe. Você vai adorar ter o meu corpo e meu poder. Vai demorar<br />

um pouco para que as coisas fiquem normais, mas você não irá sofrer.<br />

Muir-Iled acordou suando. Estava sozinho no quarto onde tinha adormecido.<br />

Começou a sentir medo. Saiu do quarto e foi tentar achar o Mago Neres.<br />

Não precisou andar muito. Logo que desceu um lance de escadas, deparou-se<br />

não só com o Mago Neres, mas com pelo menos doze outros, todos muito assustados.<br />

– Você esta dormindo há dias, Ket – disse o Mago Neres.<br />

– Meu nome não é mais Ket! É Muir-Iled.<br />

Então, um dos Magos interveio.<br />

– Quer nos contar o que aconteceu? Como você conseguiu modificar a geração<br />

de energia para a manutenção do Mago?<br />

– Isto tudo é uma bobagem – disse Muir-Iled. – Nós somos parte de um sonho.<br />

Ninguém sustenta o Mago de Prata a não ser ele mesmo. O que essas crianças fazem<br />

é sustentar o sonho de Ortal, que está morto há muito tempo. Porém, o seu sonho<br />

permanece.<br />

Os Magos riram.<br />

– Como você pode falar tanta besteira, menino?<br />

– Cale-se – a voz de Muir-Iled tinha mudado, na verdade ele mesmo estava<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

mudando. – Vocês estão prestes a passar por uma fase estranha, assim como a que eu<br />

estou passando. – Ele estava se sentindo muito esquisito, parecia que não era ele quem<br />

estava falando.<br />

Então todos os Magos ficaram boquiabertos. Muir-Iled não conseguia mais<br />

falar e caiu.<br />

– Rápido! – disse o Mago Neres. – Lembrem-se! As palavras sagradas! Ele<br />

mencionou o nome Ortal. Ele vai renascer! Devemos levá-lo para o centro do templo<br />

sagrado.<br />

Os Magos correram para o pequeno corpo de Muir-Iled. Levaram-no para o<br />

imenso templo onde as crianças dormiam. Atravessaram com o corpo de Muir-Iled e<br />

o colocaram no centro do pedestal do templo.<br />

– Os sonhadores devem ser acordados – disse um dos Magos.<br />

Nesse momento, os doze magos se postaram de pé em volta e de costas para o<br />

corpo de Muir-Iled, que estava deitado no chão.<br />

Mas antes de os magos fazerem qualquer coisa, a luz que atingia o corpo de<br />

Muir-Iled no meio do templo, se intensificou. Não se podia ver nada, a não ser um<br />

clarão esverdeado que agora iluminava mais da metade do imenso recinto.<br />

A luz se apagou, mas os magos podiam ver agora os rostos assustados das<br />

crianças que acabaram de acordar. Atrás deles e flutuando a quase dois metros de altura<br />

estava o Mago de Prata. Os magos maiores se voltaram para ele. Imediatamente<br />

caíram de joelhos.<br />

O Mago de Prata estava imóvel, apenas sentindo o lugar. Os magos maiores<br />

olhavam-no com espanto. Após um enorme espaço de tempo, o Mago de Prata disse:<br />

– Este mundo deverá ficar imaculado, nós deveremos fazer isto.<br />

O Mago Neres deu um passo à frente e disse:<br />

– Faremos o que pudermos para que isto aconteça, mas gostaríamos de saber<br />

sobre a lenda. É ela verdadeira, ó, Mago de Prata?<br />

– Vocês deverão me chamar Muir-Iled, não sou o Mago de Prata. Sou um espectro,<br />

assim como todos aqui. Somos um sonho, um sonho de um ser chamado Ortal,<br />

que por sua paixão desenfreada pelo Mago de Prata criou este mundo. O problema<br />

é que quando Ortal sonhou, estava sob efeito de substâncias muito poderosas. Seu<br />

sonho teve continuidade, até que o próprio sonho começou a sonhar com este lugar,<br />

todas estas crianças sonhando davam sustentação a este mundo. Porém, agora não<br />

precisamos mais sonhar, pois estamos mudando de substância, e este é o problema.<br />

Este sonho que nós vivemos irá se transformar em matéria e isso irá dividir o universo<br />

em dois. Aquele Planeta que vemos – falou Muir-Iled, apontando para o Planeta Azul<br />

– nos confins de nosso mundo é o início. Foi lá que Ortal começou o nosso mundo.<br />

É um anel invisível que se expande pelo universo. Nós podemos ver o universo, mas<br />

ninguém consegue ainda nos ver. Quando começarmos a virar matéria, haverá discórdia.<br />

Devemos nos preparar.<br />

Todos estavam assustados com estas revelações de Muir-Iled. Ele continuou:<br />

– Vocês serão os messias deste mundo. Deverão sair deste lugar onde passaram<br />

tanto tempo e farão de Cosmo todas as terras que são o sonho de Ortal. Isto enquanto


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

há tempo. Eu vou ter que fazer uma tarefa muito mais perigosa, deverei ir antes para<br />

o mundo material. Lá encontrarei a chave de vivência que eles têm. Assim, com este<br />

aprendizado, retornarei e teremos que, juntos, enfrentar este mundo que nos rodeia.<br />

Por ora, todos aqui levarão as informações que passarei para os doze magos. Eles irão<br />

instruí-los. Quando a transformação for consumada, retornaremos para este lugar, e<br />

só então saberemos o que fazer com o mundo lá fora. Estamos com uma grande vantagem,<br />

pois eles não sabem que existimos e nós sabemos.<br />

Então Muir-Iled ficou a portas fechadas com os doze magos. Falou-lhes sobre<br />

o procedimento necessário para informar a todos os habitantes das terras que se<br />

chamariam Cosmo, o reino de Ortal. Os magos aprenderam com Muir-Iled muitas das<br />

coisas que ele havia recebido do Mago de Prata. Por estarem habitando o sonho de Ortal,<br />

não foi difícil entender a maneira como aqueles cristais funcionavam. Finalmente<br />

souberam a utilidade de tudo aquilo que apenas pairava nos ares e que formava um<br />

indecifrável quebra-cabeça. Desde as lendas até as pessoas que deveriam morrer num<br />

certo momento da vida.<br />

Após esta reunião, os doze magos viram Muir-Iled desaparecer. Foram em<br />

seguida ao grande salão onde as crianças que há tempos mantinham o sonho de Ortal<br />

em pé, esperavam impacientes pelas informações.<br />

Foi assim que, após dez mil anos, Cosmo se transformou, de um lugar de sonhadores,<br />

em uma catedral onde o centro da veneração era um menino por quem um ser<br />

outrora se havia apaixonado. E feito dele um deus.<br />

Plan Ex<br />

O imperador Schaia III havia mandado chamar de Carmel todos os melhores<br />

cientistas de sua época. Colocou todo o império sob a guarda do general Arcrates. Este<br />

deveria manter a ordem, pois após a devastação que ocorrera na antiga corte, muitos<br />

dos grandes colaboradores do antigo governo estavam perturbados.<br />

O general Arcrates era um ser impaciente e conseguiu, com muito custo, fazer<br />

do império um lugar quase aceitável. Muitas das oligarquias criadas pelos sectários<br />

do imperador Schaia II foram desfeitas. Vários Planetas foram invadidos pelas tropas<br />

imperiais para manter a ordem, mas o verdadeiro problema estava guardado a sete<br />

chaves em Plan Ex.<br />

Após terem visto as gravações feitas na sala hermética por mais de cem vezes,<br />

Schaia III e os cientistas começaram a pesquisar o verdadeiro problema.<br />

O salão oval era o cenário da discussão. Pela mesa, que tinha a mesma forma<br />

do salão, espalhavam-se as mais diversas facções e categorias de historiadores, cien-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

tistas e analistas, todos com o maior respaldo que uma pessoa poderia ter.<br />

A discussão se prolongara por mais de um mês, nenhum tema emergente fora<br />

achado para poder colocar, tanto o universo como o império em perigo. Haviam<br />

analisado as revoltas dos Planetas mais antigos que o império possuía e feito uma<br />

enigmática consideração dos Planetas Aquários, os mais desconhecidos e menos influenciados<br />

pelo império, pois eram quase que independentes. Fizeram uma busca<br />

em todos os Planetas por qualquer fato estranho, levando em conta revoltas populares,<br />

grupos radicais separatistas, idealistas religiosos e assim por diante. O que conseguiram<br />

descobrir foi até mesmo interessante. O sistema de governo dos ancestrais<br />

de Schaia III até Schaia II, apesar de ter sido extremamente demagogo e oligárquico,<br />

conseguiu construir uma base sólida de vida. É claro que nem todos estavam satisfeitos,<br />

mas a grande maioria, digamos que oitenta por cento do império, era a favor da<br />

atual política.<br />

Todos os Planetas eram abastecidos com a energia gerada pelos Extuárticos.<br />

Recebiam quase que instantaneamente todas as novidades tecnológicas criadas no<br />

Planeta Carmel e, apesar de ser proibido, podiam crer nos deuses que bem entendessem,<br />

pois as autoridades faziam vista grossa.<br />

A velocidade de transporte era bastante rápida de um Planeta a outro. É claro<br />

que o povo em geral não utilizava o transporte de desmaterialização devido ao alto<br />

custo, mas mesmo assim, se uma pessoa quisesse mudar para um Planeta do outro<br />

lado do quadrante central, poderia fazê-lo sem despender quase nada de dinheiro e<br />

numa viagem que levaria de um a sete dias. As empresas de transportes gostavam<br />

de frisar isto: “não se adaptou ao sistema burocrático de Plancrus? Venha morar em<br />

Allcrem! Sete dias de viagem ou seus míseros trocados de volta!” Dessa forma, as<br />

pessoas migravam de um Planeta a outro sem muita cerimônia, e era fácil então de<br />

construir suas próprias vidas, vista a facilidade de se incorporar na sociedade que mais<br />

facilitasse seus mais variados sonhos.<br />

Portanto, aparentemente o império crescia a olhos vistos. Quase não existiam<br />

revoltas, pois cada planeta era como que um paraíso feito dos sonhos da população<br />

que ali morava.<br />

Foi um velho que nada falara durante toda a reunião que começou a se pronunciar.<br />

Menos de cinco pessoas das mais de cento e cinquenta que estavam ali reunidas<br />

conheciam este velho, que estava acompanhado por dois senhores com aparência um<br />

pouco mais jovem.<br />

O velho se chamava Laprisius e vinha de um longínquo Planeta que nem fazia<br />

parte do mapa do império. Era um Planeta-satélite e por isso não tinha quase nenhuma<br />

influência do império. Na verdade, os Planetas mais próximos davam uma vaga cobertura<br />

a este Planeta, que vivia na mais absoluta miséria. Sua população era devotada<br />

às antigas escrituras. Eles eram os historiadores à moda antiga, sem a influência dos<br />

atributos tecnológicos que reinavam pelo vasto império de Schaia III. As características<br />

principais daquela população poderiam ser traduzidas na aparência daquelas três<br />

figuras que agora chamavam a atenção de toda a sala oval. Eram ermitões com longas<br />

barbas brancas, de aparência cansada, mas que cativavam qualquer um por possuir


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

uma poderosa aura, rica em tranquilidade e da mais absoluta sabedoria.<br />

Assim que o velho se levantou pesadamente, todas as discussões paralelas terminaram.<br />

Todos os componentes da mesa oval se voltaram para ele com olhos fascinados.<br />

Então, o velho Laprisius, segurando uma imensa bengala de madeira bruta,<br />

começou a falar, com uma voz baixa e forte:<br />

– Este maldito império está com seus dias contados.<br />

Houve um murmúrio quase escandaloso por toda a mesa. Um dos guardas<br />

ensaiou um gesto, mas logo Schaia III levantou-se e fez um sinal para que todos se<br />

calassem.<br />

– Caro senhor – disse Schaia III. – Peço-lhe que se apresente e retire o que<br />

disse, a menos que tenha uma boa desculpa para tamanha blasfêmia.<br />

– Blasfêmia! – gritou o velho, com um sorriso cínico na boca. – Blasfêmia! – e<br />

começou a rir mais ainda, agora com cara de espanto. E então começou a falar, muito<br />

depressa. – Vermes! Burocráticos, lançadores de dádivas nutridas no inferno! Construtores<br />

de mausoléus que clamam a morte! Pútridos magnatas da fé em nada! Possuidores<br />

da lança lambida pelo diabo e passada pelo coração de Deus após sua morte!<br />

Schaia III sentou-se, de boca aberta. Os dois guardas estavam no chão após<br />

uma tentativa frustada de intervenção. O velho continuou:<br />

– Assim se forma seu destino. Nós temos lido nos laudos de Deus! – gritava,<br />

impaciente. – Todos os pequenos impérios tiveram o mesmo fim, após um reinado de<br />

imposições e calúnias. Sempre foi e sempre será assim. Vocês se vestem de bem, de<br />

bons, se intitulam os guardiões do espaço e de tudo que nele existe. Mas a história é<br />

sábia, pois é real! É um padrão. As civilizações são assim: surgem impérios que se<br />

sustentam na força, mas logo chega a antítese. Todo o bem, todo o bom se reverte,<br />

surgem deuses. Fatigados com sua demagogia, o povo entende que o seu bem e o seu<br />

bom são mera especulação e tende ao outro. Vocês estão mortos, todos mortos, foram<br />

longe demais! Haverá a revolta, está sendo formada lá – o velho apontava na direção<br />

contrária a Schaia III. – No extremo dos seus poderes há de se formar.<br />

Então, os três velhos saíram quase cambaleando da sala oval. Houve um silêncio<br />

de quase meia hora na sala, após a saída deles. Schaia III levantou-se e disse<br />

calmamente:<br />

– Alguém aqui pode dizer-me a que tipo de revolta este velho se referia? Se<br />

nosso sistema se tornou quase que de liberdade total, por que alguém iria se revoltar,<br />

e contra o que, afinal de contas?<br />

– Talvez seja apenas o padrão – disse alguém. – Um império não pode ficar no<br />

poder por muito tempo, e, com o devido respeito, caro imperador... há quanto tempo<br />

este império existe?<br />

– Ninguém sabe – disse outro. – Há especulações de mais de cem mil anos,<br />

mas ninguém realmente sabe.<br />

– Cem mil anos? – as vozes vinham sabe-se lá de onde.<br />

– A família real começou nosso império neste Planeta em que estamos há mais<br />

de cem mil anos, isto é fato.<br />

Schaia III interveio.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Esta discussão não leva a nada. Isto não pode ser tão simples. Uma revolta<br />

não pode sair do nada, um império desse porte não sucumbe desta maneira, principalmente<br />

com os aliados que temos.<br />

– O senhor se refere aos Extuárticos?<br />

– Exatamente.<br />

Houve um silêncio profundo.<br />

– Não, de maneira nenhuma, nem podemos pensar nisto! – disse Schaia III. –<br />

Eles jamais conseguiriam viver no espaço externo.<br />

Muir-Iled<br />

Se existe algo mais traumático que o nascimento ninguém sabe. O problema<br />

mais sério seria nascer consciente de que você já está vivo. Este era o grande martírio<br />

que Muir-Iled estava passando naquele momento. Ele descobrira-se vivo. Acabara de<br />

nascer, porém com o corpo desenvolvido de um menino que ele era.<br />

Ele passara da terra dos sonhos para uma outra realidade, uma realidade que<br />

Ortal e o Mago de Prata deixaram havia milênios. Muir-Iled achava-se agora fazendo<br />

parte do Planeta em que viveram milhares de seres humanos, agora desaparecidos.<br />

A impressão inicial era de dor, uma imensa e insuportável dor física. Sentia frio<br />

e fechou seu manto prateado ao redor do pequeno corpo. Começou então a notar, com<br />

muito espanto, o mundo à sua volta. Era um mundo fascinante, com uma luz mágica.<br />

O céu estava meio nublado, num crepúsculo onde nuvens eram abençoadas com a luz<br />

dourada de um sol que se punha.<br />

A umidade do ar formava uma bruma que fazia com que o imenso cenário<br />

daquele estranho e belo mundo desaparecesse, em partes, e aparecesse de novo. Muir-<br />

Iled se encontrava num platô e podia ver uma imensa extensão de terras verdes, com<br />

imensas pedras rasgando o chão selvagem. A vegetação era rala, mas ia crescendo<br />

à medida que os olhos avançavam em direção ao horizonte. Córregos desciam de<br />

pequenas colinas que eram encapadas por pequenos nichos de florestas aqui e acolá.<br />

As árvores eram imensos monstros que pareciam dançar ao sabor do vento.<br />

Um cheiro doce e úmido preenchia o lugar. Havia um ruído de magia, como<br />

tambores tocando uma melodia forte vindo de lugar algum. Na verdade eram manadas<br />

de seres esquisitos que corriam como loucos ao longo de uma das centenas de aberturas<br />

lá em baixo, entre as árvores.<br />

Muir-Iled não aguentou ficar de pé por muito tempo. Teve de sentar, pois aquilo<br />

era demais para ele. Era, na realidade, exatamente o mundo em que vivia, porém<br />

era real, era vivo e além de tudo, não estava no meio do espaço infinito, mas havia<br />

um céu, parecido com um imenso teto suspenso no ar e que se modificava a seu belprazer.<br />

Sem saber por que, começou a chorar. Deitou-se na enorme pedra daquele<br />

platô que serviu de seu novo nascimento e esperou. Sabia que algo muito esquisito


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

iria acontecer, e aconteceu.<br />

O céu se tornou escuro e Muir-Iled sentiu um terrível medo. Parecia que aquele<br />

céu agora escuro e com algumas constelações aparecendo e sumindo, conforme a<br />

dança das nuvens, se tornara o céu de Cosmo, a terra dos sonhos. Mas ele logo notou<br />

que não, que não era, nada mudara em seus sentimentos tão reais, e fez algo que parecia<br />

muito estranho, Muir-Iled adormeceu.<br />

Ao acordar, sentiu-se revitalizado. O mesmo lugar que vira no crepúsculo do<br />

dia anterior estava mudado. Com a quase cegante luz da aurora, o mundo parecia<br />

outro, com uma energia infinita. Muir-Iled deu um salto de cima da pedra onde estava<br />

e desceu o enorme morro em que tinha dormido. Tudo era tão fantástico que teve que<br />

parar diversas vezes para apalpar flores, pedras, folhas, árvores e tudo que passava<br />

em seu caminho. Ficou chocado ao saber que um bando de pássaros resolvera voar<br />

quando ele se aproximara. Quase tinha um colapso de tanto que ria a cada descoberta<br />

que fazia daquele mundo tão real.<br />

Contudo, algo o incomodava, algo que vinha de seu estômago. Pela primeira<br />

vez na vida Muir-Iled sentiu fome, muita fome. Mas tudo que o cercava era tão fantástico<br />

que ele não ligou muito para a estranha sensação que vinha de seu estômago.<br />

Continuou a caminhar a passos largos, sempre sorrindo por aquele imenso jardim sem<br />

dono.<br />

O sol já estava um tanto quente quando se deparou com um riacho. A água<br />

era rasa e ele pôde contemplar uma quantidade infinita de peixes que formavam um<br />

labirinto de cores e formas. Não pensou duas vezes e se atirou no pequeno riacho.<br />

– Mas o que é isso? – disse, em um grito que fez com que centenas de pássaros<br />

levantassem voo num imenso estardalhaço. – Isto é... isto está gelado!<br />

Sim, ele sabia de todas as sensações possíveis para um ser humano, apenas não<br />

as tinha experimentado num mundo real. Ele estava estarrecido.<br />

Assim Muir-Iled começou sua caminhada por este novo mundo, desabitado<br />

por seres humanos. E descobriu que para o desconforto de seu estômago precisava<br />

apenas catar algumas frutas e engoli-las.<br />

– Que gosto bom! – dizia, a cada descoberta que fazia com a imensidão de<br />

frutos e flores que experimentava.<br />

Tudo era perfeito e Muir-Iled avançou muito por aquelas terras intermináveis.<br />

Teve muita sorte em não ter que enfrentar os imensos perigos existentes por lá. Estava<br />

protegido, e parecia saber disso.<br />

Um dia, porém, algo fez com que sentisse medo. Ele estava andando como<br />

sempre sem destino, quando teve uma impressão muito esquisita. Ele sentiu que estava<br />

sendo seguido.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Plan Ex<br />

Após aquela reunião em que o velho louco se pronunciara com tamanho<br />

descaramento, Schaia III resolveu parar com tagarelices e pôs todos aqueles seres<br />

pensantes do império para trabalhar. Mandou trazer de Carmel todo equipamento de<br />

última geração que pudesse ser aproveitado nas pesquisas. A ordem era clara: todo e<br />

qualquer movimento no universo conhecido pelo império deveria ser relatado.<br />

Todos os tipos de equipamento foram postos a todo o vapor para analisar<br />

qualquer fator que pudesse estar fora do padrão, desde astros, estrelas, quasares, pulsares,<br />

planetas, até mesmo fenômenos sociais em todos os lugares do império. O trabalho<br />

era tão absurdamente grande que Plan Ex ganhou duas novas luas artificiais, pois<br />

o Planeta inteiro não tinha espaço suficiente para tamanho empreendimento.<br />

Após quase dois meses de pesquisas, Schaia III começou a sentir-se um tanto<br />

irritado com a situação. Além disso, com a dimensão de todo aquele poder que possuía,<br />

ficara muito amargo, dando ordens desnecessárias e tratando seus colegas de<br />

estudos como meros coadjuvantes de seu reinado. O poder subira à cabeça de Schaia<br />

III e aquele jovem, que antes tinha tanta inspiração para o cargo como um novo tipo<br />

de governante, lentamente se transformava no mesmo déspota que seus antepassados<br />

haviam sido.<br />

Após um longo período de tempo, Schaia III achava que todos aqueles estudos<br />

estavam indo pelos buracos negros adentro. Os gastos com os equipamentos eram<br />

enormes, muito maiores do que o império jamais vira, e os Planetas começaram a<br />

interrogar o porquê daquilo tudo.<br />

Finalmente, depois de muitas revoltas pacíficas, houve uma pesada e sangrenta<br />

em um dos Planetas do setor norte, um Planeta perigosamente próximo de Plan Ex.<br />

Então, Schaia III teve que se pronunciar a todos os súditos informando o perigo em<br />

que o império se encontrava. Imediatamente as manifestações cessaram e, ao contrário<br />

do que se previa, o império inteiro se uniu para descobrir o inimigo comum.<br />

Isso porque aparentemente Schaia III era um jovem governante, criativo, esperto e<br />

simpático. Afinal, ele tinha matado toda a corte de seu pai em nome do império, e isso<br />

o tornara muito popular.<br />

Finalmente Schaia III conseguiu notar o erro que estava cometendo. Acalmouse<br />

e resolveu se retirar de Plan Ex. Seus planos eram de passar uma semana em um<br />

Planeta sagrado qualquer, um daqueles Planetas que prometiam uma vida pacata,<br />

longe das grandes invenções tecnológicas e em contato com a natureza selvagem, sem<br />

as modificações genéticas que se espalharam por todo o império.<br />

Isolou-se num daqueles Planetas, retirando-se para uma cabana perto do mar,<br />

apenas com a companhia dos locais e observado a quilômetros de distância por naves


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que faziam a proteção do jovem imperador.<br />

Schaia III estranhou, nos primeiros dois dias, o convívio com todas aquelas<br />

pessoas seminuas, que pescavam para sobreviver e se divertiam ao sabor das areias<br />

e no frescor da deliciosa brisa local. A aparência da região começou então a se tornar<br />

fantástica a seus olhos. Schaia III estava agora deslumbrado com toda aquela natureza<br />

virgem e descobriu que era sensacional descer pelas ondas, agarrado em pranchas de<br />

madeira.<br />

Mas algo fez com que ele questionasse tudo aquilo, toda aquela sua alegria;<br />

afinal, Schaia III havia experimentado todos os tipos de novas tecnologias de expansão<br />

mental. Viajara em câmaras de desmaterialização, tinha provado das mais exóticas<br />

comidas do universo e, mais que tudo, era o dono do universo! Sim, era o imperador<br />

Schaia III, e tudo aquilo era apenas uma migalha de seu imenso império. Ele tinha<br />

todo o poder em suas mãos! Então, por que estava ali brincando com as crianças<br />

daquele pequeno e mísero Planeta no meio do nada?<br />

Ficou paralisado na areia da praia sob o belo pôr-do-sol do Planeta Anacom;<br />

perplexo, ao saber por que se sentia tão mais fascinado pela vida ali naquele mísero<br />

lugar onde as pessoas se vestiam com pedaços de pequenos panos apenas para esconder<br />

seu sexo e não em qualquer outro lugar do universo. Estava enfeitiçado! E<br />

foi a figura em sua frente que despertou sua descoberta e indignação para com todo<br />

aquele sentimento.<br />

Schaia III não conseguia se mover, a cena era como de um sonho. Estava plantado<br />

de pé, na areia. Algumas crianças brincavam de construir castelos bem mais ao<br />

fundo, fazendo uma espetacular composição com as montanhas lá no horizonte. Perdendo-se<br />

nos limites do oceano, bem à sua frente, a uns trinta passos, estava um nativo<br />

que só agora ele notara. Era quem tinha despertado nele o fascínio daquele lugar.<br />

O nativo olhou para ele com um olhar forte. Era um pouco menor que ele, e<br />

Schaia III estremeceu ao perceber que sempre vira aquela criatura ali, mas nunca tinha<br />

se dado conta de sua beleza.<br />

O Mago de Prata, à sua frente, só teve a consideração de dar um pequeno sorriso.<br />

Era o que Schaia III tinha pensado que fosse, mas não foi, pois o Mago de Prata<br />

apenas desapareceu, deixando o resto da cena para as crianças brincando ao longe e<br />

as montanhas bem mais atrás. Schaia III deu um grito e caiu desmaiado na areia de<br />

Anacom.<br />

Algumas crianças vieram correndo para ver o que ocorrera. Como Schaia III<br />

não acordara, as pequenas crianças, pensando que ele estava morto, pegaram uma<br />

grande prancha de madeira e colocaram o corpo do rapaz em cima. Os homens da<br />

aldeia estavam pescando e as mulheres estavam nos seus afazeres domésticos quando<br />

Schaia III foi levado ao mar, pois era comum para aquelas crianças que qualquer ser<br />

vivo que morresse fosse levado ao mar para ser engolido pelo grande deus branco que<br />

lá vivia.<br />

Quando as crianças soltaram o corpo de Schaia III atrás da arrebentação das<br />

ondas, uma imensa nave cobriu o céu daquela parte de Anacom. Apenas as crianças<br />

puderam ver o corpo de Schaia III sendo removido para o imenso trans-universo im-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

perial. Elas aplaudiram aquilo de cima de suas pequenas pranchas de madeira e, ainda<br />

sorrindo, abanaram as mãos para o ser que podia voar em direção a “deus”.<br />

– Por que me tiraram de lá? – Schaia III berrava, pasmado. – Eu não queria<br />

ir embora! – agora, histérico e chorando como uma criança que perdera a coisa mais<br />

importante da vida. – Transfiram-me imediatamente! Agora! Suas cabeças vão rolar,<br />

estou avisando!<br />

A nave, que já tinha percorrido três dias de viagem em direção a Plan Ex,<br />

imediatamente deu meia-volta. O imperador estava desmaiado quando foi resgatado<br />

e por resolução de todos os cinquenta médicos a bordo da nave deveria ficar assim,<br />

pois precisava descansar.<br />

Schaia III estava enlouquecido de raiva. Estava quase que explodindo dentro<br />

de seus pensamentos quando teve uma grande ideia. Os comandantes da imensa nave<br />

levaram um susto quando viram-no abrir um imenso sorriso e sair correndo para a sala<br />

de controle externo.<br />

– Eu quero todos os dados sensoriais que tive nos cinco minutos antes do meu<br />

desmaio. Agora! – gritou para os técnicos da sala de controle externo, de uma maneira<br />

tão rápida que não deu tempo nem de eles fazerem a saudação imperial.<br />

Schaia III parecia um cachorro que levara o maior carinho de seu dono quando<br />

corria pelos corredores da nave até chegar em seu quarto imperial. Quando chegou,<br />

colocou todos os controles em funcionamento para rever a cena que ocorrera com ele<br />

na praia.<br />

Ele via-se saindo de sua cabana com um olhar quase magnetizado, com uma<br />

satisfação no rosto de quem tinha tomado Pralplenart, a droga que simulava o sentimento<br />

de amor. Mas aquilo que sentira era real e não o efeito da maldita tecnologia de<br />

sua época. Viu-se caminhando pela praia e sentiu de novo aquele cheiro doce de mar<br />

e vegetação. Tudo “sampleado” pelas máquinas do império. Então, ao caminhar pela<br />

praia viu-se diante da cena fatídica, mas nada havia ali nos “samplers” do império. Via<br />

apenas as crianças brincando em seus castelos e as montanhas com o pôr-do-sol como<br />

pano de fundo, nada mais, nem um ser em sua frente.<br />

Quase que histericamente apertou os botões do equipamento para mudar a<br />

visão. Colocou na visão da nave, nada. Colocou na visão das crianças, nada. Tentou a<br />

leitura de calor, nada; de frio, nada. Não existia nada entre ele e as malditas crianças,<br />

nenhum ser divino. Apenas a mágoa que agora começava a subir por sua garganta.<br />

Schaia III começou a soluçar, a berrar. Jogou-se ao chão, após ter quebrado o equipamento<br />

que não tinha transmitido aquilo que ele desejara.<br />

Imediatamente, entrou meia centena de guardas em seu quarto. A cena era<br />

estarrecedora. O imperador do universo em posição fetal no chão, aos prantos. Um<br />

comandante da nave entrou no quarto e mandou todos os soldados saírem.<br />

– Volte imediatamente para Plan Ex – ordenou Schaia III. E quando o comandante<br />

saiu, entrou no mundo dos sonhos.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Schaia III em Cosmos<br />

O lugar era o maior lugar em que Schaia III já estivera.<br />

– Meu Deus do céu! – Schaia III gritava, contente. – Isto é maior que Plan Ex<br />

inteiro!<br />

E realmente era. Estava dentro do Templo de Cosmo, o lugar agora se achava<br />

deserto. Subia com afinco as imensas escadarias. Ao chegar no meio do templo, quase<br />

teve um colapso dentro do seu próprio sonho. Viu as terras sonhadas e no meio estava<br />

o Planeta Azul, como centro daquele universo.<br />

– Deus! Isto não pode ser sonho, é muito real. Não pode ser sonho! – dizia para<br />

si mesmo em voz alta.<br />

Então, conseguiu se libertar da maravilhosa visão e entrou no templo onde as<br />

crianças haviam sonhado por milênios sustentando aquele lugar. Nunca imaginara que<br />

isso pudesse ter acontecido, mas sentiu ali uma energia poderosa, uma energia que<br />

dava calafrios. Continuou seguindo em direção ao meio do gigantesco templo.<br />

– Quem poderia ter tamanha tecnologia para construir um lugar como este? –<br />

perguntava para si mesmo. – Meu Deus! Quando isso vai acabar? – falava, olhando<br />

indignado para o teto que parecia não ter fim.<br />

Uma voz veio do nada, quase o matando de susto.<br />

– Schaia III, você está num sonho! Se voar poderá ir mais rápido.<br />

– Isto é loucura! – gritou. – Quem falou isso? Como posso saber que estou<br />

sonhando e não acordar?<br />

– Porque este sonho não é seu! – disse a voz. – É de Ortal.<br />

– Quem está aí? Apareça imediatamente!<br />

Mas a voz se calou. Então, experimentou algo que era impensado. Sim, ele<br />

estava voando!<br />

– Para a frente! – gritava.<br />

E assim foi, bem mais rápido, cruzando o templo das crianças adormecidas.<br />

Avistou lá ao longe, no que supunha ser o centro do templo, a luz que Muir-Iled havia<br />

visto um dia. Avançou a um palmo do chão até lá.<br />

Ao chegar perto, porém, a luz foi diminuindo e ele não conseguia discernir o<br />

que iria encontrar. Só a alguns metros da estátua, ele conseguiu ver o que era. Sim, era<br />

o próprio ser que havia visto nas areias de Anacom! Então, Schaia III caiu de novo,<br />

desmaiou de novo, mas agora dentro de Cosmo, dentro do sonho que um dia fora de<br />

Ortal.<br />

Sentiu aos poucos, uma mão batendo delicadamente em seu rosto. Acordou<br />

nos braços de um ser que parecia ser um monge muito jovem.<br />

– O que faz aqui, rapaz? – perguntou o monge, com uma voz delicada. O<br />

monge tinha uma capa prateada muito brilhante. – Por que não está com os outros<br />

informando todo o povo do nosso feito?<br />

– Que feito? Quem é você? – perguntou Schaia III.<br />

– Sou o Mago Neres – respondeu o monge. – Você, você... não é daqui? Você<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

não faz parte deste mundo, eu consigo notar! O que veio fazer aqui? O que faz em<br />

frente à referência divina? O que faz em frente ao Mago de Prata? – agora o Mago<br />

Neres estava de pé, com indignação na face.<br />

– Eu, eu não sei – disse Schaia III, assustado. – Eu achei que estava sonhando.<br />

– Sim, você está sonhando, mas está sonhando dentro do sonho de Ortal.<br />

Então as coisas começaram a diluir-se. O Mago Neres parecia um fantasma<br />

e tudo à sua volta desapareceu. Schaia III começou a cair e cair, pois estava muito<br />

alto. Enquanto caía, viu o mundo do sonho do alto e viu algo que chamou muito a sua<br />

atenção. Um imenso Planeta passar por um buraco na terra lá ao longe. A superfície<br />

se abrira para a passagem do Planeta e depois se fechara de novo, e o Planeta ia como<br />

um imenso asteroide vagando por sua órbita.<br />

Schaia III acordou em seus aposentos em Plan Ex.<br />

Muir-Iled<br />

Vagando por aquele mundo aparentemente inabitado, Muir-Iled, agora com<br />

um certo receio de que alguém o perseguia por entre as florestas e campos abertos do<br />

Planeta, questionava a si próprio sobre o que o Mago de Prata lhe havia dito.<br />

“Isto aqui está um tanto esquisito. Não é para eu aprender uma certa cultura<br />

fora do reino dos sonhos de Ortal? Pois que espécie de mundo é este, sem ninguém?<br />

Parece que apenas eu estou habitando este lugar, que, embora magnífico, não passa<br />

do próprio Cosmo que eu habitava antes, muito diferente devo dizer, muito mais real,<br />

porém com o mesmo fundamento daquele que Ortal tinha sonhado.”<br />

Andava agora como nas terras do sonho, porém com consciência de estar vivo,<br />

de ser matéria, de sentir a matéria como nunca antes tinha sentido. Estava muito feliz<br />

com isto, porém preocupado.<br />

À sua frente só existiam terras verdes, longínquas, infinitas, que faziam dele<br />

um ser muito pequeno, minúsculo, a vagar sem sentido por entre oceanos de rios,<br />

florestas, campos e rochas.<br />

Muir-Iled começou a ficar quase exausto devagar por aquelas terras, e o pior,<br />

sentia- se solitário. Sua solidão era questionável, pois era um menino muito sozinho<br />

nas terras de Ortal, mas sabia que existiam mais “pessoas” a vagar por aquele mundo.<br />

Certo dia tinha ido com seu pai, agora morto, para uma pequena vila. Seu pai trocara<br />

coisas com outras pessoas. Ele não entendia como isto funcionava. Parecia ser uma<br />

espécie de troca fictícia, pois sabia que tudo que seu pai trocava de nada valia para<br />

eles, era como fazer aquilo apenas por fazer. Nunca tinha questionado seu pai, pois<br />

tinha medo de o próprio pai não saber as respostas.<br />

Nunca havia sentido fome antes, perambulava pelo mundo de sonhos apenas<br />

por perambular, assim como todos ali. Foi então que começou a perceber certas


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

questões.<br />

O Mago de Prata havia falado para ele que as pessoas que morriam iam para<br />

os confins do sonhar, e morriam lá para expandir as terras do sonhar. Assim como<br />

aquelas crianças rezando por toda a vida sustentavam o sonhar, as pessoas que morriam<br />

expandiam as terras.<br />

Então, concluíam que os habitantes daquele sonho nasciam de alguma forma<br />

inexplicável apenas para prolongar o sonho de Ortal. Que coisa estranha. Agora que<br />

ele tinha esta sabedoria, em parte dada pelo próprio Mago de Prata, começou a entender.<br />

Nós éramos escravos daquele mundo. Éramos seres pensantes, mas manipulados<br />

de forma a não pensar, pois não tínhamos estes questionamentos. Estávamos ali<br />

apenas por estar. Mas qual a razão de expandir este mundo sem sentido?<br />

Lembrou-se do que o Mago de Prata falara, este mundo se tornará matéria. Pelos<br />

deuses! Isto era loucura! As terras em expansão do sonhar eram como um imenso<br />

anel achatado que iria dividir todo o universo em dois!<br />

Não tinha se dado conta de que caminhava por terras agora um pouco estranhas.<br />

Eram árvores com imensas frutas mas não da forma como havia visto nas florestas<br />

anteriores; as árvores estavam em perfeitas fileiras! Imensas! Muir-Iled seguiu<br />

então uma destas fileiras e lembrou-se dos corredores de crianças a rezar sustentando<br />

Cosmo.<br />

“Ah, se eu pudesse voar aqui nestas terras!” Sim, se ele pudesse voar como<br />

voara no templo. Então parou. Agora estava certo. Alguém estava a observá-lo!<br />

– Quem está aí? – gritou.<br />

Nada. Começou a sentir um pouco de frio. Pegou um pouco das frutas e tentou<br />

encontrar um lugar para dormir. Alojou-se embaixo de uma enorme árvore. Comeu<br />

algumas frutas e, enleando-se em sua capa, dormiu.<br />

Ao acordar ficou extremamente surpreso. Estava coberto com um manto, muito<br />

lindo e bem feito. Com um tecido que jamais vira em sua vida, era óbvio. Como<br />

poderia ver ou sentir algo assim, afinal Ortal poderia ter criado todo aquele mundo,<br />

mas não poderia ter pensado em tudo. Mas de onde viera aquele manto? Ele o abriu e<br />

percebeu que havia uma figura maravilhosa estampada no tecido, uma flor feita com<br />

o próprio tecido mas de cores diferentes, criando aquela forma. Muir-Iled apalpou a<br />

enorme flor ali feita e gritou:<br />

– Apareça! Por favor, apareça! Estou aqui perdido, este não é meu mundo! Será<br />

que vocês não podem me ajudar?<br />

De novo o silêncio, logo depois de alguns pássaros saírem, indignados pelo<br />

barulho de seus berros. Muir-Iled abaixou a cabeça, olhando para o pano.<br />

– Bem, pelo menos acho que, seja lá quem for, é pacífico. Engraçado, havia<br />

uma certa preocupação na voz do Mago de Prata...<br />

Nesse momento, um vento começou a soprar, quase que cantando um lamento<br />

triste por toda a parte. Muir-Iled olhou pasmo, enquanto o vento se acalmava junto<br />

com o canto. Ele ficou muito assustado e seguiu pela trilha numa manhã ensolarada.<br />

Caminhou o dia inteiro, empanturrando-se de deliciosas frutas do imenso pomar. Chegou<br />

à beira de um pequeno lago de onde partiam todas as fileiras de árvores.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Já era quase o entardecer, mas Muir-Iled não pensou duas vezes para entrar no<br />

convidativo lago. Para seu maior espanto, a água era morna! Ficou ali boiando nas<br />

águas rasas enquanto caía o anoitecer. Muir-Iled tinha certeza que havia mais alguém<br />

ali com ele. Encostou a cabeça numa pedra e fingiu que estava dormindo, com os olhos<br />

semifechados. Então viu surpreso o que o seguira. Eram duas pequenas beldades<br />

femininas que o observavam em meio às árvores frutíferas. Dois seres muito pequenos<br />

que emanavam uma luminosidade, iluminando as próprias árvores onde estavam<br />

escondidas. Tinham dois olhos sorridentes e arregalados olhando o corpo do menino;<br />

flutuavam em meio às brumas das águas do lago.<br />

Elas se olharam sorridentes e Muir-Iled teve que fazer um enorme esforço<br />

para não sair correndo nu dali quando as duas abriram duas enormes asas de borboletas<br />

e alçaram vôo em sua direção. Uma delas estava agora bem perto de seu rosto.<br />

Era realmente muito pequena, quase do tamanho de seu braço esticado. Ela foi se<br />

aproximando cada vez mais. Muir-Iled estava à beira de um ataque, mas se conteve.<br />

A pequena fada, num impulso de coragem encostou seu lábio no lábio dele, dando-lhe<br />

um pequeno beijo! As duas então desapareceram como que por encanto, quase que se<br />

matando de rir.<br />

Muir-Iled não se mexia! Estava pasmo, mas conseguiu esboçar um sorriso depois<br />

de algum tempo de susto. Levantou-se calmamente e deitou na relva que cercava<br />

o lago. Tornou a semicerrar os olhos e esperou. Lá estavam elas de volta. Agora um<br />

tanto assustadas, vigiavam-no a certa distância, flutuando no meio do lago.<br />

Muir-Iled esperou-as chegarem um pouco mais perto e abriu bem devagar os<br />

olhos. Fitou aqueles seres agora paralisados, tão abismados com a presença dele ali,<br />

como se ele fosse a coisa mais anormal do mundo. E na verdade ele era.<br />

– Quem são vocês? Meu nome é Muir-Iled.<br />

Foi o bastante para as duas quase caírem de susto. Ficaram paradas por um<br />

momento, mas logo saíram gritando, como se tivessem sido perseguidas por algum<br />

animal feroz. Muir-Iled ainda tentou ficar de pé e falar alguma coisa mais, mas já era<br />

tarde, tinham sumido.<br />

Plan Ex<br />

– O senhor está bem? – perguntava um dos médicos que se postara nos cuidados<br />

do imperador.<br />

– Solicite uma audiência com todos os pesquisadores e cientistas que se encontram<br />

no Planeta trabalhando no Projeto Descoberta – disse Schaia III.<br />

Projeto Descoberta fora o nome dado ao empreendimento que deveria visualizar<br />

o problema que levara Schaia II ao suicídio.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Duas horas mais tarde, Schaia III estava de novo trancado com os melhores<br />

cientistas e pesquisadores do império na sala oval.<br />

– Muito bem, senhores – Schaia III estava muito diferente, parecia muito brilhante,<br />

quase alegre.<br />

Seu rosto não transmitia nenhuma diferença, era frio como tinha se tornado<br />

nos últimos meses, fruto da expectativa de solucionar o problema. Mas todos naquela<br />

sala sabiam que algo tinha mudado, aquele ser parecia ter rejuvenescido. Não que<br />

Schaia III parecesse velho, mas todo o aspecto da situação o deixara amargo como<br />

seus ancestrais, nos últimos anos de governo. O imperador agora parecia belo, uma<br />

beleza peculiar, aquela beleza que qualquer adolescente transmite por nunca ter passado<br />

pelas incansáveis teias maléficas do amadurecimento.<br />

– Gostaria de apontar um foco para a nossa pesquisa. Todos os cientistas aqui<br />

presentes devem abandonar qualquer atividade anterior, por mais significativa que<br />

possa ter aparentado, e se voltar a uma nova pesquisa.<br />

Houve um grande murmúrio pela sala. Schaia III porém, não deu ouvidos a<br />

isso e continuou.<br />

– Gostaria que toda a nossa tecnologia fosse condicionada a qualquer alteração<br />

energética significativa no campo de ondas alfa. Como estudante do Planeta Carmel,<br />

sei que temos tecnologia suficiente para isso, afinal – agora ele estava sorrindo – todos<br />

nós, quando pequenos, brincávamos com os aparelhos de decodificação de sonhos.<br />

Mas devo dizer que uma equipe deve ser formada até esta noite para analisar meus<br />

próprios sonhos.<br />

A sala estava silenciosa. Aquela era uma decisão quase que absurda para<br />

aqueles cientistas. Schaia III estava, nas últimas reuniões, extremamente arisco, e<br />

ninguém tentou questionar qualquer decisão que ele tomara. Porém aquilo era um<br />

absurdo, e visto que Schaia III parecia estar um tanto de bom humor, um dos cientistas<br />

que era mais íntimo dele como estudante em Carmel, perguntou:<br />

– Caro imperador, sabemos da importância do caso. Gostaria apenas de alimentar<br />

minha curiosidade sabendo como uma reviravolta tão drástica nas nossas pesquisas<br />

poderá ser favorável.<br />

– Estamos lidando com este problema há meses e até agora nada no plano<br />

material foi descoberto, nem mesmo um desalinhamento na moda do penteado no Planeta<br />

Curloc foi descoberto – todos riram com a piada. – Então tive uma ideia, quase<br />

como um aviso de que nossas forças deveriam ser voltadas a este plano, a este aspecto.<br />

Se alguém tem alguma dúvida, por favor, se pronuncie.<br />

Agora era demais! Schaia III voltara ao normal, estava até sendo democrático<br />

de novo. Isto deu um impulso de otimismo aos cientistas. Todos se levantaram, fizeram<br />

o sinal de cordialidade ao imperador e saíram. Quando Schaia III ficou sozinho,<br />

na imensa sala oval, pensou: “se não encontrarem o maior problema que nossa civilização<br />

já enfrentou, pelo menos irão encontrar aquele ser para mim. Deus! Isto não<br />

pode estar acontecendo comigo...”<br />

Uma semana após aquela reunião, Schaia III ficara muito doente. Não havia<br />

nem sinal de qualquer aparente desordem no sistema referente a ondas alfa. O Projeto<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Sonho, como fora denominado, não demonstrou nenhuma alteração de qualquer padrão<br />

dentro do espaço do império.<br />

Mas havia uma alteração categórica: era Schaia III. O rapaz entrara num labirinto<br />

crescente de sentimentos e confusões. Não queria obviamente mostrar isto de<br />

maneira nenhuma, mas toda a corte só falava nisto. Estava branco, quase não comia,<br />

e perdia-se em melancolia pelos jardins do palácio imperial. “Estou apaixonado, terrivelmente<br />

apaixonado por um sonho. Por um sonho...” E repetia isto na sua cabeça.<br />

“Não consigo nem me lembrar de suas feições. Meu Deus, como pode isto estar acontecendo?”<br />

Mas estava. Schaia III foi envolvido de tal maneira com este sentimento que<br />

a sua melhora na reunião logo desapareceu. Não se tornara aquele quase déspota que<br />

estava na iminência de surgir, mas, pelo contrário, tornou-se quase um ser à parte.<br />

Nem lia os relatórios, apenas perguntava a seus assessores se existia alguma novidade.<br />

– Não senhor. Infelizmente nada – respondiam.<br />

Houve uma pesquisa minuciosa em seus sonhos, que eram passados e repassados<br />

em telas de vivência, e nada: nem sinal do sonho que tivera.<br />

Após duas semanas, reuniu de novo o conselho de cientistas e decidiu algo<br />

jamais esperado.<br />

– Os sinais de recepção devem ser instalados nos Planetas fora dos limites de<br />

nosso espaço – disse ele calmamente, quase como se não estivesse ali.<br />

Agora, o que era para ser um murmúrio tornou-se um grande alarde na sala<br />

oval. Cientistas quase berravam em desaprovação. Schaia III fez um sinal e uma tropa<br />

de duzentos soldados entrou na sala com armas engatilhadas. Os cientistas logo se<br />

sentaram em silêncio.<br />

– Nós conquistamos este império – disse Schaia III, agora com ar digno de<br />

um imperador. – Temos expandido nossos territórios por milhões de anos-luz. Não é<br />

porque há milênios tivemos uma tentativa frustrada de tentar cultivar um Planeta fora<br />

de nosso território energético que devemos tremer atrás de nossas fronteiras. Viemos<br />

de um Planeta que derrotou os absurdos religiosos. Cultivamos a matéria. Nossos<br />

deuses são a nossa tecnologia e nossa energia. Temos em nossas mãos a maior fonte<br />

energética do universo. Deveremos enfrentar as tagarelices populares da má-sorte trazida<br />

pelo desconhecido.<br />

Os cientistas nada falaram, afinal foram educados sob o medo da derrota que<br />

esta civilização sofrera quando tentaram colonizar um Planeta distante, há milênios.<br />

Era chamado popularmente de Planeta do Terror, mas conhecido como o Planeta Azul.<br />

De todos os cientistas, o mais experiente e mais velho era um simpático ser<br />

chamado Fladrim. Todos respeitavam suas decisões e quase todos ali foram seus alunos.<br />

Quando ele se levantou, os guardas postaram suas armas contra ele, mas Schaia<br />

III interferiu.<br />

– Caro Imperador! Sei de nossas capacidades mais que qualquer um aqui. Não<br />

tenho medo algum de invadirmos o espaço exterior às nossas fronteiras, pois nunca<br />

fui ligado a dogmas religiosos ou de ordem emocional. Há fatos castradores ligados<br />

a esses dogmas. Sempre acreditei que todo este problema viesse do espaço externo,


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

porém nunca mencionei isto pelo fato do medo imposto à colonização do Planeta<br />

Azul. Porém...<br />

Schaia III ficou branco. Afundou-se em sua cadeira e abriu a boca pasmado.<br />

Imediatamente o velho parou de falar e todos votaram a atenção a Schaia III.<br />

– Senhor? – disse o velho.<br />

Os guardas ficaram alterados. Ouviu-se um grande murmúrio na sala. Schaia<br />

III tentou falar, mas as palavras não saíam. Desfaleceu ali mesmo. Os médicos entraram<br />

em cena imediatamente. Foi implantado um leitor de sinais na cabeça de Schaia<br />

III. Os sinais revelaram uma imensa carga energética de ondas alfa. Deslocaram<br />

Schaia III a uma sala hermética com um decodificador de sonhos.<br />

Schaia III estava tendo espasmos enquanto sonhava. Todos os seus sonhos<br />

estavam sendo decodificados e guardados em arquivos que somente ele poderia rever;<br />

esta era uma regra de ética absolutamente inquebrável, sob pena de morte no império<br />

inteiro.<br />

A única preocupação dos cientistas encarregados era saber se Schaia III sobreviveria<br />

a tal aparente sofrimento.<br />

Muir-Iled<br />

Após o desaparecimento das pequenas fadas, Muir-Iled demorou para dormir.<br />

Ao amanhecer, tornou a se banhar no lago morno e continuou sua caminhada pelo<br />

gigantesco pomar. Seus pensamentos estavam confusos. Tornara a se lembrar de<br />

seu sonho com o Mago de Prata, que parecia estar tão distante. Era engraçado como<br />

aquele mundo de sonhos divergia deste mundo em que se encontrava. Não só o sonho<br />

que tivera mas o próprio reino de sonho que vivera até então. Na verdade, o sonho<br />

com o Mago de Prata parecia quase irreal, algo falso, criado pela mente de Ortal. Sim,<br />

era como se Ortal tivesse recriado o Mago de Prata em seu próprio sonho e tivesse<br />

imposto tudo aquilo para ele. Mas isso estava se tornando estranho. Como ele poderia<br />

saber que era um Mago de Prata falso se ele mesmo nunca tinha visto o verdadeiro?<br />

Na verdade ele poderia saber, pois o sonho que tivera dentro do sonho de Ortal seguia<br />

o mesmo padrão, as mesmas características das terras de Cosmo, o que divergia totalmente<br />

daquelas paragens em que ele se encontrava.<br />

Muir-Iled sabia que alguma coisa estava muito errada. Começou a se assustar<br />

com seus próprios pensamentos, a duvidar até mesmo de seu passado, pois parecia<br />

ser um passado ilusório e, à medida que caminhava por aquelas terras mágicas, seu<br />

mundo anterior parecia desaparecer de sua consciência. Ele já não conseguia mais se<br />

lembrar de tudo aquilo, como um sonho sem importância que vamos esquecendo à<br />

medida que acordamos.<br />

O grande problema para Muir-Iled era que ele estava vivendo avidamente<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

aqueles momentos. Aquele mundo era algo de grande poder e ele sentia vida naquele<br />

lugar. Ele via animais jamais imaginados, cheiros absurdos e principalmente, cores.<br />

Definitivamente, as cores daquele lugar eram o que mais o impressionava e quanto<br />

mais sentia o lugar, menos conseguia comparar com Cosmo. Cosmo se tornara tão<br />

apagado quanto o sonho que tivera com o Mago de Prata.<br />

Em meio a esses pensamentos, Muir-Iled não percebeu que tinha saído do pomar,<br />

mesmo porque o pomar se mesclava com uma floresta que surgia vagarosamente<br />

em meio às árvores frutíferas. Foi só quando ele estava no meio dessa nova floresta<br />

que percebeu o tamanho das árvores. Eram gigantes, absurdamente gigantes. Deparou-se<br />

com uma delas e ficou petrificado. Era uma parede que se elevava muito acima<br />

de sua cabeça e quando olhou para cima reparou que não era o tronco da árvore, mas,<br />

sim, uma de suas pequenas raízes que se entrelaçava com as demais num confuso<br />

labirinto para os olhos. Muir-Iled ficou acompanhando essa raiz até o tronco e então<br />

percebeu que não iria conseguir enxergar o topo da árvore. Teve que andar muitos passos<br />

para desviar esse monstro e ficou abismado com o surgimento bem mais distante<br />

de uma outra. E assim a floresta se seguia.<br />

“Meu Deus! Eu sou uma formiga!” Muir-Iled riu com este pensamento, mas na<br />

verdade estava assustado. Pelo menos poderia caminhar por entre as imensas raízes<br />

que saíam do chão, pois, devido ao seu tamanho, ele podia passar por baixo delas.<br />

Então as raízes começaram a formar um imenso túnel sem fim. Agora quase não conseguia<br />

ver o céu, apenas pontos azuis por entre o emaranhado de raízes que cobriam<br />

sua cabeça.<br />

Muir-Iled parou e pela primeira vez sentiu o perigo iminente. Estava em meio a<br />

uma escuridão quase palpável. Ouviu ao longe uma respiração ofegante que se transformava<br />

num terrível eco atravessando as raízes. Então, escalou uma das imensas<br />

raízes e subiu o mais alto que pôde. Estava muito alto agora, embora pudesse ver o<br />

chão. Notou um movimento estranho lá em baixo. Eram criaturas cinzentas sobre<br />

quatro patas. Rondavam o lugar onde estivera, cheirando o solo, e acompanharam o<br />

cheiro para onde Muir-Iled tinha ido. Mas, aliviado, percebeu que tais criaturas não<br />

podiam escalar as íngremes paredes por onde tinha subido. Com olhos vermelhos,<br />

olharam para o alto e viram Muir-Iled. Começaram a uivar em sua direção. Ele se<br />

escondeu por entre as raízes. Sentou na enorme superfície e começou a chorar.<br />

Quando a noite caiu e o lugar se transformou em uma cortina negra, ele olhou<br />

para baixo e ainda viu pontos vermelhos, luminosos, a rondar o lugar. Os uivos aos<br />

poucos cessaram e Muir-Iled, enrolado no seu novo manto, adormeceu.<br />

Agora seus sonhos eram floridos. A passividade imposta pelo Cosmo de Ortal<br />

já não existia em sua consciência. O fator relevante era mais realista, mesmo seu<br />

sonho ia se tornando mais real, com mais sentimentos. Muir-Iled sentia pertencer a<br />

este novo lugar e como uma memória artificial ele possivelmente podia pensar que<br />

nasceu ali, cresceu e sabia de todos os segredos daquele lugar. É claro que isto era um<br />

exagero, visto o pouco tempo que passara ali, mas, em sua cabeça, as coisas foram se<br />

transformando e ele começara a criar um novo passado, pois o seu passado surreal já<br />

quase não existia em sua memória. Seus sonhos eram com aquele lugar e não mais


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

com Cosmo. Era como se não apenas seu consciente estivesse esquecendo, mas seu<br />

inconsciente também.<br />

Quando acordou, com poucos raios penetrando por entre as gigantescas raízes,<br />

Muir-Iled sentiu um cheiro ao mesmo tempo estranho e delicioso. Logo à sua frente<br />

havia uma maravilhosa cesta com algo que identificou como um tipo de alimento, algo<br />

que ele jamais vira em sua vida. Mas espere! Não era tão estranho para ele afinal de<br />

contas. Sim, ele já vira aquilo em algum lugar, apenas não sabia onde.<br />

Postou-se diante da cesta, pegou um punhado das esverdeadas folhas que<br />

tão magnificamente lhe sorriam com uma luminosidade ofuscante. Cheirou muito<br />

desconfiado o exuberante punhado e achou muito estranho, não havia cheiro de nada!<br />

Mas, espere um instante, pensou. Se eu acordei com um cheiro delicioso e parecia vir<br />

daqui, como é que isto não está cheirando mais? Tentou se lembrar do cheiro e imediatamente<br />

as folhas começaram a exalar tal cheiro. Muir-Iled ficou de pé.<br />

– Isto é magnífico! Agora eu quero que cheire àquela pequena frutinha azul<br />

que peguei dias atrás... – lembrou do cheiro e as folhas logo estavam não só exalando<br />

o cheiro, mas com as mesmas cores da tal fruta. – Hei! Isso já é demais! – falou sorridente.<br />

Com muito cuidado, lambeu um pouquinho das folhas.<br />

– Nossa! Mas isso tem o mesmo gosto daquelas frutinhas! – e comeu avidamente<br />

aquele punhado.<br />

Então pegou mais um punhado e pensou em outra fruta. A magia continuou,<br />

as folhas mágicas tornaram-se exatamente o que Muir-Iled queria, não só cheiro mas<br />

cor e gosto também.<br />

Muir-Iled fez várias experiências. Cheirou a árvore onde estava em pé e descobriu<br />

que aquele tipo de árvore tinha um gosto muito estranho, meio amargo. Então,<br />

cheirou a sua própria mão e experimentou.<br />

– Nossa! Que horror – gritou.<br />

Nesse momento ouviu uma série de risos por entre a floresta.<br />

– Oi, fadinhas! – gritou de novo. – Obrigado por estas... por estas... folhas<br />

mágicas!<br />

Elas riram de novo, mas agora deveriam ser mais de duas. Muir-Iled deu de<br />

ombros e continuou a comer, divertindo-se com as cores e gostos que inventava.<br />

Depois de comer quase metade da cesta, Muir-Iled ficou com muito sono.<br />

– Nossa! Eu acabei de acordar e já estou com sono. Devo ter comido demais!<br />

Acho melhor andar um pouco.<br />

Lembrou-se com um pequeno espasmo da noite anterior, das criaturas maléficas<br />

de olhos avermelhados lá embaixo, não teve coragem de descer. Olhou para seu<br />

manto e deixou-se cair novamente no sono. Adormeceu profundamente.<br />

As fadas agora o envolviam. Eram cinco ao todo. Por alguma razão elas não<br />

estavam com medo.<br />

– Olá! – disse Muir-Iled.<br />

– Oi, Muir-Iled – disseram as fadas em conjunto. – Nós não somos fadas, Muir-<br />

Iled! Nos chamamos as Irmãs Floresta. Mas cada uma de nós tem um nome.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Como sabem meu nome?<br />

– Nós não sabemos, ou melhor, agora sabemos.<br />

– Como assim?<br />

– Nós estamos no seu sonho! E aqui dentro sabemos tudo sobre você.<br />

– Onde estou?<br />

– Você está no Planeta Azul. E nós somos as filhas desta terra, irmãs da floresta<br />

e filhas da Irmã Floresta e de Ortal.<br />

– Vocês são filhas de Ortal?<br />

– Sim! Ou melhor... somos descendentes dele e da Irmã Floresta, e vivemos<br />

neste mundo há muito tempo. Agora nosso povo está só, pois já não existe mais nenhum<br />

outro povo, a não ser os animais que nesta terra habitam. Nós nunca tínhamos<br />

visto alguém como você. De onde você veio?<br />

– É difícil explicar. Mas será que não dava para eu acordar? Passei minha vida<br />

inteira dentro de um sonho.<br />

– Tem certeza que não vai nos fazer mal?<br />

– É claro que não!<br />

Muir-Iled acordou assustado.<br />

– Mais um desses sonhos estranhos – falou para si mesmo. Não existia nenhuma<br />

fada perto dele. Ficou de pé e vasculhou o lugar com um olhar preciso. Então,<br />

percebeu uma luminosidade atrás de algumas folhas lá em cima, entre as gigantescas<br />

árvores.<br />

– Irmãs Floresta! – gritou.<br />

As pequenas fadas apareceram timidamente, escondendo-se o quanto podiam<br />

por entre as folhas.<br />

– Podem vir! Não lhes farei mal!<br />

As fadas chegaram muito depressa. Muir-Iled levou um susto e se encostou<br />

na enorme raiz atrás dele, elas riram. Uma chegou bem perto de seu rosto. Fez uma<br />

careta e levantou as duas mãos como querendo dar um susto nele. Ele quase deu um<br />

pulo. Todas riram de novo.<br />

Logo ele esboçou um pequeno sorriso e foi se sentando calmamente.<br />

Elas estavam bem em sua frente, olhando-o admiradas.<br />

– É melhor o levarmos conosco – disse uma delas.<br />

As outras concordaram e para total espanto de Muir-Iled, elas o agarraram por<br />

seu manto prateado e levantaram voo com ele.<br />

Muir-Iled só não gritava porque lhe faltava voz. Estava subindo por entre as<br />

gigantescas árvores e agora já estava sobrevoando o topo das mesmas. As fadinhas<br />

não paravam de rir ao perceber o espanto do rapaz. Após algum tempo sobrevoando a<br />

floresta gigante, eles aterrissaram em uma clareira. Elas estavam em sua frente esperando<br />

que ele se recuperasse do seu primeiro vôo.<br />

– Agora Muir-Iled – disse uma delas – nos conte de onde você vem. Nós precisamos<br />

saber.<br />

– Não sei se vão acreditar – disse Muir-Iled, um tanto constrangido. – Mas sou<br />

um habitante de um sonho, se bem me lembro de um sonho feito há muito tempo atrás


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

por um ser chamado Ortal. Ele sonhou este lugar onde eu habitava porque acho que<br />

ele queria que um menino voltasse à vida. O nome desse menino era Mago de Prata<br />

e parecia que este Ortal gostava muito dele. Este Mago de Prata me apareceu num<br />

sonho dentro do sonho de Ortal, falando que eu deveria fazer não sei o que numa terra<br />

habitada por uma gente muito estranha. Me disse que isto faria que o sonho de Ortal<br />

pudesse se tornar real. Mas acho que fui mandado para o lugar errado. Afinal, não vejo<br />

nem sinal de uma civilização estranha por aqui, pelo menos nada do que o Mago de<br />

Prata me havia dito!<br />

As fadas estavam com os olhos esbugalhados e muito pálidas. Nada falavam e<br />

tinham um olhar quase vago, embora parecessem pensar muito.<br />

– Será que eu falei algo errado? – perguntou Muir-Iled, assustado.<br />

– A lenda! – sussurrou uma delas – Está acontecendo!<br />

– Que lenda? – perguntou Muir-Iled. – Já me falaram isso uma vez.<br />

– Mas ele não está cego! – disse outra.<br />

– Sim... a lenda dizia que Ortal iria tentar uma vingança em nome do Mago de<br />

Prata. Graças aos Cristais, ele veio parar aqui!<br />

– Foi o Mago de Prata que assim desejou, tenho certeza!<br />

– Podem me dizer o que está acontecendo? – perguntou<br />

– Não – disseram as três juntas. – Mas você deverá esperar aqui, Muir-Iled.<br />

Neste lugar você estará protegido. Nós deveremos retornar e mandaremos alguém que<br />

cuidará de você. Não se preocupe. Você estará protegido.<br />

Elas começaram a desaparecer.<br />

– Ei, calma!<br />

– Não se preocupe, Muir-Iled. Alguém retornará!<br />

E sumiram.<br />

Cosmo<br />

O Mago Neres se postara diante de uma multidão de espectros. Ele jamais<br />

poderia pensar que aquele sonho era tão povoado. Eram milhares de “pessoas” que<br />

tinham vindo de várias partes de Cosmo para saber o que estava por interromper suas<br />

pacatas vidas.<br />

Na verdade, eles eram apenas coadjuvantes num sonho. Suas vidas eram apenas<br />

um lamento criado por Ortal para sustentar um sentimento obsessivo. Estavam ali<br />

apenas para expandir aquele sonho. Teriam que ir, numa certa “idade”, para as fronteiras<br />

do sonhar, para serem transformados em terra de sonho. Cada vida daquelas era<br />

transformada em milhares e milhares de quilômetros de sonho que ia se espalhando<br />

pelo universo. Mas agora isso não era mais necessário. Segundo o Mago de Prata nin-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

guém necessitava morrer mais, afinal, o sonho estava por se expandir por si próprio.<br />

O Mago Neres estava um tanto nervoso, pois era a primeira vez que falava<br />

para tantas pessoas juntas. Estava na beira de um grande penhasco, em cima de uma<br />

pedra de uns dez metros de altura. A cidade se espalhava pelo descampado aos pés<br />

da imensa coluna de rochas. Como não poderia deixar de ser, as rochas eram feitas<br />

do mais puro cristal laranja, cuja luminosidade clareava permanentemente a cidade.<br />

Era uma cidade muito bonita, toda ela feita nos moldes da antiga aldeia de Ortal, com<br />

suas casas de telhados laranja e ruas bem acabadas. A única diferença é que era uma<br />

cidade sonhada e portanto nada tinha a ver com uma cidade normal. Nada precisava<br />

funcionar, pois fazia parte de um sonho. A maior diferença era o céu, sem atmosfera,<br />

negro como o universo deve ser, com vista para as estrelas e Planetas que pareciam<br />

estar tão perto.<br />

Foi naquela cena onírica que Mago Neres começou seu discurso:<br />

– Há dez mil anos vivemos e há dez mil anos morremos da mesma forma.<br />

Todos nós, sem exceção, teremos a mesma forma de morte, sempre nos confins da<br />

fronteira da auréola, a fina terra que se expande ao espaço infinito. Mas sabemos que<br />

um dia morreremos de outra forma.<br />

“Um dia, a aureola chegará aos confins do universo e então surgirá o messias,<br />

o messias que encarnará o Mago de Prata e então morreremos por Ele.”<br />

Todo o povo estava atento àquelas palavras, pois era a única coisa em suas<br />

vidas que os interessava. Era por isso e apenas por isso que existiam.<br />

– Não chegamos aos confins do universo ou quem sabe chegamos e não sabemos,<br />

pois o Mago de Prata foi encarnado e está em algum lugar agora, formando<br />

o nosso destino. Não necessitamos morrer mais, apenas vamos esperar seu regresso<br />

com as boas novas.<br />

“Devo dizer-lhes do que somos feitos. Somos parte de um sonho! Nossa civilização<br />

se tornará logo outra, de uma forma diferente. Iremos habitar um outro plano,<br />

iremos nos tornar matéria, mas para isso haverá uma grande tormenta. Deveremos<br />

lutar para isso.”<br />

Todo o povo estava boquiaberto. Nem imaginavam do que aquele ser estava<br />

falando. Afinal, por que deveriam mudar, se não iriam morrer mais nas fronteiras?<br />

Estava tudo muito bem, não estava? Eles tinham suas vidas pacatas, sem nada por<br />

que lutar e nada a fazer, a não ser existir, não tinham? Então porque deveriam lutar?<br />

O Mago Neres percebeu essas questões nas faces dos habitantes do sonho e<br />

continuou:<br />

– Não sentem falta de nada? Não sentem um vazio em suas vidas? Já se perguntaram<br />

o que fazem aqui e por quê? Levam uma vida pacata sem nada a fazer,<br />

suas vidas foram programadas. De que adianta viverem assim? Vocês sabem como<br />

surgiram? Sabem como nasceram? Seus pais são seus pais apenas por serem. Não percebem<br />

que vocês não nasceram deles e sim, foram postos neste mundo como mágica?<br />

O povo começou a se inquietar. Sabiam que existia um certo sentimento de<br />

vazio em todos, como se suas vidas não tivessem valor algum, pois nada precisavam<br />

fazer para viver. Mesmo que tivessem sido criados por um sonho, eles faziam parte de


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

uma mente que havia vivido realmente, que havia habitado uma terra divina, sentido<br />

fome, sede e necessidades, que havia principalmente amado e venerado um ser que<br />

agora estava por mudar tudo isso. Sim, todo aquele povo começou a entender que<br />

lá no fundo de sua existência havia algo mais. Havia um mundo a ser descoberto e<br />

vivido de uma forma mais real mais intensa.<br />

Então, o Mago Neres disse:<br />

– Eu tenho algo que faz parte de vocês, algo que pertenceu a seu criador e foi<br />

passado a mim, e que agora eu o repasso a vocês. Dividam e sintam o que os espera,<br />

o mundo em que vocês irão habitar.<br />

Tirou um imenso cristal verde de seu bolso e jogou de cima da rocha em que<br />

se encontrava. O cristal caiu na rocha de cristal laranja lá em baixo, espatifando-se<br />

em milhares de pedaços. O som foi ouvido por todas as partes de Cosmo. O cristal<br />

verde começou a se mesclar com o cristal laranja e o imenso muro de rocha laranja<br />

transformou-se em cristal verde.<br />

– Este penhasco é agora a memória de Ortal. Agora vocês poderão saber como<br />

surgiram. Apenas encostem suas cabeças na rocha verde e sintam as memórias de<br />

Ortal.<br />

Foi assim que se espalhou por todo o Cosmo a notícia de que Mago Neres havia<br />

transformado a parede de cristal laranja em cristal verde. A cidade, então, passou<br />

a ser chamada de I Cidade Sagrada da Memória Esverdeada de Ortal. E começaram a<br />

surgir peregrinos de todas as partes para reverenciar o Penhasco Verde.<br />

Plan Ex<br />

Schaia III acordou inteiramente molhado de suor na sala hermética. Imediatamente<br />

ordenou que queria ficar sozinho. Os médicos insistiram que ele necessitava<br />

de cuidados, mas Schaia III não deu ouvidos. Estava extasiado demais para ouvir<br />

qualquer coisa. Imediatamente começou a rever seu sonho. Aquele equipamento era<br />

de última geração, o que possibilitava não só rever o sonho, mas senti-lo de uma<br />

forma mais forte ainda do que a sonhada. Schaia III ajustou no nível máximo e se<br />

deitou de novo.<br />

Após rever seu sonho, saiu da sala hermética. Ordenou que parassem todas as<br />

pesquisas e que o Império ficasse em prontidão para qualquer chamado seu. Foi então<br />

para a base de navegação espacial e secretamente pegou sua nave particular. Cinco<br />

minutos depois, estava em espaço aberto, sozinho, a caminho do Planeta Azul.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Muir-Iled<br />

A noite caiu rapidamente, fazendo da floresta em volta de Muir-Iled um sinônimo<br />

da mais pura solidão. Sentiu que algo em sua vida iria mudar drasticamente. Teve<br />

vontade de correr, mas sabia que mesmo que corresse, estaria condenado.<br />

Percebeu que o lugar estava cercado de fadas iluminando a noite que acabara<br />

de chegar. Uma das fadas se aproximou. Ele estava sentado e chorando. Não se mexia.<br />

A fada despejou em sua volta um pó prateado, formando um círculo. Era uma fada<br />

velha, um pouco maior que as jovens que vieram visitá-lo anteriormente. A fada, com<br />

um olhar severo, falou, apontando o dedo na cara de Muir-Iled:<br />

– Você não deveria estar aqui! Você e todo o seu povo são uma aberração, mas<br />

você se tornará parte de sua própria destruição. Como você foi criado segundo a essência<br />

do próprio Mago de Prata, poderemos trazê-lo de volta. Sua centelha de vida<br />

será dada a ele e, assim como diz a lenda, ele retornará para pôr um fim a este absurdo<br />

criado por Ortal!<br />

Imediatamente a fada se pôs a fazer gestos mirabolantes, que ficavam cada vez<br />

mais grandiosos e mais enérgicos. Logo, porém parou. Toda a tribo de fadas-borboletas<br />

estava abismada ao redor da clareira. O que era para ser um episódio épico não<br />

passou de uma enervante efervescência de gestos da fada mais poderosa da aldeia. Ela<br />

estava olhando para Muir-Iled, pasma. Ele, por sua vez, não se mexia de tanto medo.<br />

Então, uma das fadas-borboletas que tinham aparecido para Muir-Iled anteriormente<br />

se aproximou. Ele estava ajoelhado de cabeça baixa, chorando. A velha<br />

berrou para a fada:<br />

– Como ousa interferir em meu feitiço?<br />

– O seu feitiço não atingiu o rapaz! Não percebe? Seu poder pode atingir a<br />

qualquer um, menos aos que são eleitos pelo próprio Mago de Prata!<br />

– Mas ele não pode ser um eleito! De onde veio senão do sonho de Ortal? Vejam!<br />

Ele tem todas as características descritas pelo próprio espírito do Mago de Prata!<br />

Muir-Iled, então, falou:<br />

– Sim, eu venho do sonho de Ortal.<br />

Todos ao redor soltaram um murmúrio. A velha fada se afastou, como se estivesse<br />

diante de uma das flores negras das terras frias.<br />

– Não sei por que estou aqui – continuou Muir-Iled –, nem sei por que fui<br />

criado. Agora começo a entender este mundo. Estou me sentindo realmente vivo, mas<br />

ainda não entendo o propósito de tudo isso. Digo-lhes que não trago maldade em meu<br />

coração, se é que tenho um. Mas, como posso perceber, creio que vocês sabem quem<br />

é o Mago de Prata. Pois devo dizer que ele apareceu para mim no sonho de Ortal e me<br />

disse que eu deveria ir a terras distantes para aprender como aquele povo vivia, pois<br />

haveria uma grande batalha com aqueles domínios. E encontrei vocês. Não era exata-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

mente o tipo de povo que o Mago de Prata me fez pensar que fosse, e agora, vendo<br />

que vocês o conhecem, devo dizer que algo saiu errado.<br />

Toda a aldeia estava se aproximando de Muir-Iled quando ele parou de falar.<br />

Olhavam-se e depois de um longo tempo, a velha falou:<br />

– Vejo que veio aqui com outro propósito, Muir-Iled. Nós estávamos esperando<br />

uma aberração, como eu havia dito. Mas, por favor, conte-me sobre esta aparição<br />

do Mago de Prata.<br />

Muir-Iled contou sobre como ele havia chegado a Cosmo e como o Mago de<br />

Prata tinha aparecido para ele. Contou sobre o cristal e como tudo ocorrera e que ele<br />

deveria ser o messias do Mago de Prata e assim por diante, até a chegada dele aquele<br />

mundo.<br />

A velha olhou para toda a tribo que a cercava tomando quase toda a extensão<br />

da clareira, e disse:<br />

– Acredito que este rapaz deveria saber a verdade. Acredito ainda que ele não<br />

esteja aqui por um erro de percurso, mas acho que está aqui por intervenção do próprio<br />

Mago de Prata.<br />

Todos agora olhavam fascinados para Muir-Iled.<br />

A velha fez um sinal para que todos se sentassem. Com alguns gestos acendeu<br />

uma fogueira no chão em frente a Muir-Iled e sentou-se. Fechou os olhos. Muir-Iled<br />

estava assustado, porém conseguia conter as lágrimas. Viu que todos estavam com os<br />

olhos fechados. Algo fez subir seu campo de visão, algo que estava acima de sua cabeça<br />

e que se tornara mais forte. Era uma espécie de luz que vinha do céu. Deitou-se,<br />

com os olhos arregalados e viu que o céu estava mudando!<br />

Com cenas escuras viu um ser loiro de cabelos longos chorando pela praia.<br />

Logo percebeu que era Ortal. Notou que suas feições estavam se transformando de<br />

tristeza em raiva, estava agora quase enlouquecido. Com uma força absurda conseguira<br />

matar algumas pessoas e tomar um barco. As imagens eram complexas, como<br />

se todos os corpos fossem feitos de estrelas que delineavam a luz, o próprio céu escuro<br />

e as sombras. Era um espetáculo maravilhoso e assustador. Os efeitos sonoros dos<br />

ventos e da tempestade que caía eram bem mais altos que as vozes de Ortal ou de<br />

qualquer animal que se encontrava na cena.<br />

Ortal estava agora atravessando enormes rochas muito brilhantes. Muir-Iled<br />

sentia como se estivesse prestes a cair do céu, pois era como se estivesse no céu e Ortal<br />

na terra. Ortal jogava os braços para cima clamando e gritando, suas feições eram<br />

de fúria. Mas não parava. Em meio à tempestade, conduzia o barco por um labirinto<br />

de caminhos entre as rochas.<br />

Agora Ortal chegara à margem do imenso oceano. Várias criaturas muito<br />

pequenas vieram ajudá-lo, criaturas que eram menores que as fadas ao redor de Muir-<br />

Iled e não tinham asas. Mas pareciam ser muito simpáticas e conhecer Ortal. Porém<br />

Ortal, com desdém, se limitou a tirar sua espada e, com golpes e mais golpes, matar<br />

pequenas mulheres e crianças, que, em pânico, corriam para se proteger. Ortal, sorrindo<br />

como um louco, parecia ter-se lembrado de seu poder. Correu para a aldeia das<br />

pequenas criaturas e com um gesto ateou fogo em tudo e em todos. Saiu correndo por<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

entre a mata e, a uma velocidade incrível, foi deixando um rastro de fogo e destruição.<br />

Chegou então ao que parecia ser uma grande construção, um lugar que outrora<br />

fora uma bela cidade e que agora estava cinza e morta. Ortal fez abrir um portal e entrou<br />

com toda sua fúria. Desceu por escadas até um compartimento onde havia muitos<br />

cristais. Os cristais emanavam uma energia frenética e Ortal parecia não perceber.<br />

Apenas se limitou a tirar a roupa e deitar exatamente no meio daquele lugar. Enquanto<br />

Ortal dormia, fora da câmara dos cristais houve um imenso estardalhaço. Podiamse<br />

ver pessoas morrendo, aldeias pegando fogo e, mais tarde, uma luz muito forte<br />

apareceu no céu, criando um círculo de fogo ao redor de todo o Planeta. Este círculo<br />

desapareceu, mas criou ao mesmo tempo o sonho de Ortal. Foi de lá que começou a se<br />

expandir, por todo o universo, Cosmo, o reino de onde Muirled tinha vindo.<br />

A velha fada abrira os olhos.<br />

– Nós sabemos disso, pois guardamos os cristais que narram estes fatos. Sabemos<br />

que esses cristais estão amaldiçoados pela fúria de Ortal, mas devemos preserválos.<br />

Não podemos destruí-los, tememos que caiam em mãos erradas. Eles detêm muito<br />

poder, como você deve saber.<br />

Muir-Iled nada falava, apenas pensava em tudo que vira através dos olhos do<br />

povo-borboleta. A velha ainda disse:<br />

– Após o surgimento do sonho de Ortal nenhum ser como você sobreviveu,<br />

apenas nós. E sabemos que somos filhos de uma maldição, somos todos descendentes<br />

de Ortal e da Irmã Floresta. A única coisa que nos resta de consolo é que fomos abençoados<br />

pelo Mago de Prata após toda essa tragédia.<br />

Muir-Iled pensava que algo estava realmente errado. Se tudo isso realmente<br />

acontecera, não era possível que o Mago de Prata aparecesse para ele naquele sonho<br />

de Ortal. Só podia ser um Mago de Prata falso, criado pelo próprio Ortal!<br />

– Vocês sabem qual é o motivo de Ortal ter criado esse sonho? – perguntou<br />

Muir-Iled.<br />

– Sim. Foi para que todos aqueles que viviam desaparecessem, pois não tinham<br />

mais direito de viver, já que o Mago de Prata havia morrido. Mas acreditamos que haja<br />

algo maior.<br />

“Sim”, pensou Muir-Iled, “é isso que eu devo saber.”<br />

– Acreditamos que Ortal tenha feito isso para criar um novo deus, um deus à<br />

imagem do Mago de Prata.<br />

– Sim! – gritou Muir-Iled, assustando a todos. – Foi o que ele ou o seu sonho<br />

tentaram fazer comigo! Ele me tentou transformar no Mago de Prata em seu sonho!<br />

– Mas algo interferiu – disse a velha. – E você veio para cá... Sim, só pode ser<br />

isto. Venha, temos que levá-lo a um lugar. Lá nós saberemos a verdade e, pelos cristais,<br />

esperemos estar certos.<br />

Toda a tribo de fadas-borboletas começou uma grande caminhada por entre as<br />

florestas do Planeta Azul, com Muir-Iled, uma criança criada num sonho e que o Mago<br />

de Prata resolvera adotar.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Schaia III<br />

O sinal de alerta da nave de Schaia III começara a tocar. Ele tinha deixado a<br />

nave no piloto automático, coisa que não costumava fazer, mas que para aquele tipo<br />

de distância era mais recomendável. Além disso queria estar bem para enfrentar um<br />

Planeta que, seguramente, era hostil. Ficou todo o tempo da viagem em uma câmara<br />

de fortificação corporal, pois todo aquele tempo sonhando com todo aquele absurdo<br />

deixou-o em farrapos.<br />

Começara a pensar no grande erro que estava cometendo. Tinha em suas mãos<br />

todo o poder até agora conhecido no universo, com toda a categoria de equipamento,<br />

e viera naquela missão, sozinho. Com certeza, todo o império estava à sua procura.<br />

Por isso, utilizara o procedimento padrão de invisibilidade. Nem o mais poderoso<br />

equipamento de detecção poderia localizá-lo. E agora não tinha volta, não por falta de<br />

combustível ou algo assim, mas simplesmente porque ele mesmo não podia se dar ao<br />

luxo de voltar. Sua obsessão em encontrar aquele ser o tinha levado àquela loucura.<br />

Sua nave estava por atingir o Planeta Azul. Schaia III, agora nos comandos,<br />

começou a fazer uma varredura no Planeta. Procurava qualquer indício de civilização.<br />

“Deve haver algo errado com este equipamento”, pensava, enquanto lia os<br />

relatórios da nave. “Vazio! O que aconteceu com nossa colonização? Bem, isto foi<br />

há quanto tempo atrás, afinal de contas. E é claro que sem a ajuda do império este<br />

povo pode ter perecido... ou algo pior.” Postou-se no equipamento de fornecimento de<br />

dados, pediu informações sobre o Planeta Azul, enquanto o outro equipamento fazia<br />

a varredura. O mostrador foi categórico: qualquer informação sobre o Planeta Azul<br />

era qualificada de extrema segurança, apenas com um código de general ou superior<br />

poderia ser liberada. Schaia III soltou uma gargalhada. Colocou seu código secreto<br />

de imperador do universo e a máquina quase teve um colapso! Todas as informações<br />

estavam a seu dispor.<br />

Ele já sabia da resposta da máquina, mas queria ter alguns detalhes que não<br />

lembrava. Como ancontecera tantas outras vezes, pois o Planeta Azul era uma das<br />

únicas incógnitas do universo conhecido, todas as respostas eram vagas. Se quisesse<br />

saber há quanto tempo o Planeta fora colonizado, por exemplo, a máquina dizia que<br />

entre vinte a trinta mil anos. Extremamente vago, mas aceitável. Tipo de colonização,<br />

nos padrões da época, com as famosas bases piramidais, moda do império, esquisitíssima.<br />

Fato marcante é que haviam colonos da mesma raça em desenvolvimento! Isso<br />

começava a ficar interessante... Desmembramento da colonização – nesse ponto o<br />

transmissor de dados começava a engasgar. Dessa vez, porém, ele foi mais categórico,<br />

dizia ter sido um fracasso total. O aparecimento e desenvolvimento de seres da mesma<br />

espécie no Planeta fizeram que o império tivesse dificuldades de tomar providências<br />

imediatas. O surgimento de problemas paralelos e mais próximos de Plan Ex fez com<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que a colonização do Planeta Azul fosse esquecida.<br />

Quando foi retomada já era tarde. Haviam passado quase cinco gerações e os<br />

equipamentos imperiais tinham sido destruídos. O povo nativo era mais perigoso do<br />

que se podia imaginar. Houve então uma estranha união entre o povo do descendente<br />

do império e o povo nativo. Por incrível que pareça, a investigação foi bloqueada de<br />

novo. Foi quando uma enorme revolução começou no Planeta Acraza e as forças do<br />

império tiveram que ser deslocadas para lá. Em uma das maiores batalhas já consumadas<br />

pelo império, o Planeta Acraza foi quase destruído e o então imperador, Marchell,<br />

morreu em batalha. Seu filho Natleid resolvera pôr fim de uma vez àquela batalha e<br />

considerou Acraza como o limite do império.<br />

O fato mais alarmante foi que quase metade dos esquadrões do império estava<br />

voltada ao Planeta Azul quando a revolução em Acraza começara. Como eles não tinham<br />

ainda o mapeamento planetário daquela região, o esquadrão demorou para voltar,<br />

perdendo ainda um grande efetivo devido a uma explosão estrelar. Então, Natleid<br />

resolveu amaldiçoar o Planeta Azul, pois fora ele a causa da morte de seu pai. E nunca<br />

mais foi mandada nenhuma nave pesquisadora para lá.<br />

Schaia III estava atônito. Jamais vira uma máquina se manifestar com tanta<br />

emoção. É claro que sabia de histórias a respeito do Planeta Azul, mas aquilo era<br />

demais! Então, perguntou o motivo de todos esses detalhes terem sido escondidos por<br />

tanto tempo. A máquina se limitou a responder:<br />

– Não sei.<br />

– Não sei? – Schaia III repetiu, abismado. – Não sei? Esta é a resposta que você<br />

tem para o imperador?<br />

A máquina nada respondeu. Havia alguma coisa errada! Aquele tipo de máquina<br />

tinha uma certa capacidade de interpretar perguntas e respostas de maneira inteligente,<br />

funcionando quase como um cérebro, porém mais com uma função de recolhimento,<br />

coleta e informação de dados. Naquele momento a máquina estava atuando<br />

como um equipamento de memosensor. Isto era fantástico e aterrorizante. Se todos os<br />

equipamentos daquela nave resolvessem nascer de uma hora para outra e interrogar o<br />

que Schaia III estava fazendo ali, olhando para o Planeta Azul (e só agora ele tinha se<br />

dado conta disso!), eles iriam enlouquecer.<br />

Schaia III tentou manter a calma, resolveu começar a conversar com seu novo<br />

e inteligente amigo.<br />

– Você tem alguma informação a mais sobre o Planeta Azul?<br />

– Pode me chamar de Sebastian – disse a máquina.<br />

Agora era demais mesmo! A máquina estava fazendo jogo de interpretação<br />

com Schaia III! O tipo de jogo que as melhores máquinas pensantes fazem. Mas aquela<br />

máquina era um mero informante de dados! Schaia III estava agora quase em pânico.<br />

Realmente não deveria ter vindo sozinho, aquele Planeta era realmente amaldiçoado.<br />

– Sebastian – perguntou Schaia III, com uma voz embargada pelo terror -, você<br />

tem consciência de com quem está falando?<br />

– Tenho algumas informações recolhidas – resposta típica do joguinho...<br />

Schaia III resolveu entrar no jogo:


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Estas informações foram recolhidas onde? E...<br />

– Foram captadas – interrompeu a máquina, agora com irreverência e insubordinação,<br />

pois o imperador do universo tinha o direito à palavra em qualquer ocasião!<br />

– na Terra.<br />

– Quem lhe forneceu tal informação? – perguntou Schaia III, alarmado.<br />

A máquina processava os dados da pergunta de maneira desordenada. Schaia<br />

III olhou o monitor que descrevia os passos do processamento, a máquina não estava<br />

pensando por si só. De repente, um alarme tocou, fazendo com que Schaia III desse<br />

um pulo de sua cadeira! A máquina havia utilizado os circuitos da nave para potencializar<br />

a resposta e berrava feito louca.<br />

– Ortal! Ortal! Ortal! Ortal! ORRRRRRRRRRtal!<br />

Então o barulho cessou. A máquina parecia estar respirando fundo! Mas era<br />

só impressão ou seria real? Schaia III voltou a sentar, necessitava de calma naquele<br />

momento. Tinha ido longe demais e agora já era tarde. Não quis ordenar a volta para<br />

casa, pois tinha receio de que algum outro sistema tivesse sido afetado. Qualquer erro<br />

naquela distância dos limites do império era fatal. Schaia III começou a se questionar<br />

sobre sua vida.<br />

Tudo voltara ao normal. Schaia III então, com muita calma, olhando para a<br />

máquina, resolveu interrogá-la de novo.<br />

– Pode me passar as informações captadas sobre o Planeta Azul?<br />

– Sim, Imperador Schaia III – disse a máquina, com um certo sarcasmo. Schaia<br />

III estremeceu.<br />

– Por favor, – disse a máquina – coloque o sensor de indução cerebral.<br />

Schaia III estava em pânico, era só o que faltava! “Se esta máquina enlouquecer<br />

eu enlouqueço também!” Porém, ele não tinha outra alternativa. Colocou os sensores<br />

e esperou.<br />

Houve uma série de imagens desconexas, mas logo tudo ficou claro em sua<br />

mente. A máquina começou a passar mensagens de indução de imagens, sons e cheiros<br />

sobre a colonização do Planeta pelo império, sobre as passagens históricas importantes<br />

do Planeta, o surgimento e desaparecimento de povos, como a humanidade<br />

evoluiu e regrediu durante os milênios, o surgimento de mártires e as desgraças que<br />

os seguiram, as doenças, os amores, as artes e artefatos, a evolução da tecnologia, as<br />

guerras, e então, o quase desaparecimento do Planeta e o surgimento das tribos voltadas<br />

para a Eco Justiça. Tudo era muito rápido, mas digerível. Mas foi quando apareceu<br />

uma tribo em cima de um enorme e belo platô com uma inimaginável vista para um<br />

oceano azul, que as mensagens começaram a vir de uma maneira mais detalhada e<br />

ordenada. Foi aí que Schaia III entrou em contato com a história de Ortal, que fora um<br />

guerreiro belo e destinado a encontrar com um ser supremo, o Mago de Prata.<br />

Schaia III suava enquanto as mensagens eram recebidas por sua mente. Ele<br />

vira todas as passagens que Ortal vivera. Estava ali sentado e parecia que o próprio<br />

Ortal lhe estava contando sua história. Schaia III chorava de emoção sobre o que<br />

ocorrera e como tudo isso lhe fora passado. Chorou mais ainda quando viu a morte do<br />

Mago de Prata. Depois desse momento, as imagens começaram a se dissolver, já não<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

havia nexo algum.<br />

Tirou os sensores e, cansado, olhou para a máquina.<br />

– Existe alguma informação a mais sobre tal Planeta, Sebastian?<br />

A máquina não respondeu. Schaia III entendeu que algo estava diferente e<br />

perguntou na maneira formal sobre as informações do Planeta Azul. A máquina se<br />

limitou a dar as respostas usuais. “Bom, pelo menos isso está normal de novo!”, pensou,<br />

aliviado.<br />

O monitor de rastreamento detectou uma pequena tribo se deslocando nas coordenadas<br />

estipuladas. Schaia III tornou a nave invisível e desceu para o Planeta.<br />

Localizou visualmente o que o rastreador tinha detectado e notou a presença de um<br />

ser humano com outros tipos bem esquisitos a acompanhá-lo. Pediu uma ampliação<br />

da imagem e ficou petrificado ao notar que aquele ser com a famosa capa prateada estava<br />

sendo acompanhado por incontáveis Irmãs Florestas. Sim, ele, Schaia III, estava<br />

começando a entender.<br />

Muir-Iled entre o povo da Irmã Floresta<br />

Como era de se esperar, as três fadinhas que tinham encontrado Muir-Iled estavam<br />

agora em seu redor, tagarelando com ele sobre tudo que podiam fazer quando<br />

tudo aquilo terminasse... Muir-Iled, como ainda era uma criança, não estava entendendo<br />

direito do que se tratava. Estava mais preocupado com o que iria ocorrer com<br />

ele e o que acontecia naquele lugar.<br />

– Por que vocês têm essas asas? – ele perguntava.<br />

– Ora, porque descendemos da Irmã Floresta!<br />

– Quanto tempo isso faz?<br />

– Ah! Muitas e muitas luas! Mas desde que Ortal morreu já faz muitas e muitas<br />

gerações, mais luas do que gerações – e as três riam como bobas.<br />

Muir-Iled estava angustiado. Estava começando a sentir cada vez mais profundamente<br />

os sentimentos de seu corpo, embora ainda não entendesse muito bem o que<br />

era. Pensou em seus pais. Sim, era isso, era a mesma coisa. Sentia falta de algo, porém<br />

não sabia ao certo o que era, pois parecia jamais ter tido.<br />

Ele mal olhava para as lindas paisagens que passavam. Caminharam durante<br />

horas, dias. Só descansavam à noite, quando ao redor de fogueiras assistia aos intermináveis<br />

teatros feitos pelas pequenas fadas para contar-lhe a epopeia de suas vidas<br />

após a morte de todos os seres parecidos com ele que viviam ali. Contavam com<br />

máscaras enormes e coreografias malucas, sobre como as pessoas viviam em paz e<br />

como a paixão de Ortal pelo Mago de Prata acabara com tudo. Contavam sobre como<br />

elas achavam que era o mundo do sonho de Ortal, feito de demônios que queriam<br />

capturar o Mago de Prata e enjaulá-lo para que Ortal pudesse ficar olhando-o por toda<br />

a eternidade.<br />

Muir-Iled ria ao pensar no mundo distante em que vivia e no que estas fadas<br />

pensavam sobre ele. Limitava-se a dizer que não era bem isso, mas na realidade ele<br />

mesmo não se lembrava mais do sonho do Ortal, como se ele mesmo tivesse sonhado


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

com aquilo há muito tempo atrás e que agora já não mais importava.<br />

As fadas também não se importavam. Agora estavam interessadas em contar<br />

sobre suas vidas para aquele estranho ser que tanto se assemelhava às formas do Mago<br />

de Prata, que elas tanto adoravam.<br />

Todas aquelas histórias tinham sido passadas de geração a geração pelos poucos<br />

cristais que sobraram, e quem tinha gravado os cristais fora a própria Irmã Floresta,<br />

contando como ela engravidara de Ortal e tinha povoado de novo aquele lugar<br />

com as novas fadas.<br />

Muir-Iled parecia fascinado de ver como aquelas fadas mudavam de opinião<br />

quanto a Ortal. Algumas o chamavam de pai, outras nem sequer tocavam no nome<br />

dele. O fato é que nenhuma brigava com a outra. Ajudavam-se o tempo inteiro e esqueciam<br />

que ele, Muir-Iled, tivesse vindo de um sonho, mas tentavam enfatizar que<br />

fora mandado pelo próprio Mago de Prata para combater Ortal e seu sonho maligno.<br />

Na verdade Muir-Iled começara a ficar confuso quanto a esta história. Achava que<br />

tudo aquilo não passava de uma grande besteira, e que por não terem mais nada para<br />

inventar, as fadas falavam de histórias perdidas no tempo, lutando uma guerra inexistente<br />

naquelas lendas loucas. Muir-Iled ria e se divertia, parecia ser seu destino e<br />

estava feliz ali, com aquele povo louco e engraçado.<br />

Mas logo notou que estava errado. Quando cruzaram um grande rio escuro,<br />

parecia que toda aquela festa se acabara, as fadas se tornaram estranhas. Mal falavam<br />

e nem sequer pensavam em cantar. Caminhavam agora no mais absoluto silêncio.<br />

Muir-Iled resolveu imitar o que as fadas faziam. Percebeu uma certa mudança na atmosfera;<br />

aquele lugar parecia emanar uma energia diferente. Realmente, a cada passo<br />

que dava, notava que o lugar se tornava mais belo. As plantas tinham luz própria e<br />

aquele cheiro... Sim! O lugar tinha um cheiro adocicado, um cheiro que penetrava na<br />

alma, era uma mistura de flores com algo que Muir-Iled não sabia definir. Mas tinha,<br />

em algum ponto de sua consciência, que era um lugar sagrado.<br />

As coisas iam ficando cada vez mais fascinantes. Por entre o caminho apertado<br />

pelas fabulosas árvores, começaram a surgir pontas de cristais laranja. Agora estavam<br />

por toda a parte, emitindo uma luz que, com a luminosidade das plantas, causava um<br />

efeito atordoante.<br />

O silêncio das fadas foi interrompido por um canto uniforme. Mais ao fundo<br />

ouviam-se flautas com uma melodia penetrante, quase triste. A melodia fundia-se<br />

agora com tambores surdos, tudo parecia lamentar à medida que caminhavam. Eram<br />

centenas de fadas cantando e tocando instrumentos. Muir-Iled chocou-se quando percebeu<br />

que ele mesmo acompanhava o canto!<br />

A noite ia caindo e as fadas tornaram-se brancas. Suas asas de borboleta ficaram<br />

com um tom uniforme de um azul profundo. Os enormes pedaços de cristais<br />

alaranjados faziam parte de um labirinto entre as árvores que os engolia. Agora já não<br />

pisavam mais na terra, mas em um caminho de pedras perfeitamente encaixadas no<br />

chão. Todo o céu já estava escuro, mas o lugar brilhava com as luzes das fadas, plantas<br />

e cristais. Muir-Iled seguia na frente de todo o povo, fascinado pelo local, rindo à toa.<br />

As três fadinhas que o tinham encontrado estavam logo atrás e um pouco mais longe<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

vinham todas as outras, sem parar de cantar e tocar.<br />

Logo à frente Muir-Iled notou que o caminho se modificava. Apressou o passo<br />

para ver a nova surpresa. Era uma grande abertura no meio da floresta, uma clareira<br />

com o chão feito dos mesmos cristais laranja, que se abria em círculos a partir do centro.<br />

Foi até o meio e olhou ao redor, todo o povo estava ocupando o lugar. Ele tinha a<br />

impressão de que algo significativo iria acontecer ali.<br />

Quando todos os componentes da tribo estavam em volta dele, pararam com<br />

o canto num súbito silêncio. Nada se ouvia, absolutamente nada. Era como se a floresta<br />

não estivesse ali. Muir-Iled não soube quanto tempo ficaram parados escutando<br />

o nada, mas tanto ele como a tribo estavam numa espécie de transe, captando uma<br />

estrondosa energia que emanava daquele local.<br />

Então todos sentaram. Muir-Iled estava no centro e aquele parecia ser o lugar<br />

em que ele deveria estar. Uma das fadas estava voando com um grande saco colorido,<br />

do qual tirava pequenas bolas que distribuía para todos da tribo. O último a receber<br />

fora Muir-Iled. Esperou que alguém fizesse algo com aquilo, pois não tinha a menor<br />

ideia do que se tratava. Viu então que as fadas faziam um pequeno furo com o dedo<br />

na bola e levavam à boca. Imediatamente Muir-Iled fez o mesmo. Que delícia! Era<br />

um líquido muito suave com gosto de frutas. Degustava devagar e em silêncio aquela<br />

especiaria. Todos os membros da tribo faziam isso calmamente.<br />

Ao redor deles havia focos de luz que pareciam ser tochas de fogo. Mas eram<br />

pedaços de cristais incrustados nas árvores e iluminavam fantasticamente o local. Agora<br />

tudo parecia estar muito mais iluminado, as fadas brilhavam como nunca. Muir-<br />

Iled olhou para as mãos e notou que até mesmo ele estava brilhando agora. Sua pele<br />

tornara-se branca como a das fadas. Na verdade não só sua pele que estava diferente.<br />

Seus cabelos tinham crescido muito e ficaram brancos, ele próprio parecia estar diminuindo<br />

de tamanho. Cada vez que tomava aquele líquido sentia-se mais próximo<br />

daquele lugar. Ele achou que tudo o que estava sentindo era culpa daquele líquido,<br />

mas parecia ser tão real, só faltava olhar para trás e ver duas asas de borboletas em<br />

suas costas! Foi o que ele fez, e teve um ataque de riso! De suas costas saíam duas<br />

enormes asas de borboleta azuis!<br />

Toda a tribo, que estava em completo silêncio admirando a transformação<br />

de Muir-Iled, agora estava perplexa. Porém, imediatamente uma das três fadinhas<br />

começou a rir também, logo todos estavam rindo. Passaram então mais uma dose<br />

da bebida misteriosa, e logo a cantoria recomeçou. Muir-Iled estava em meio a tudo<br />

aquilo sorrindo e cantando, maravilhado.<br />

Agora as doses já não paravam! As fadas estavam dançando e se acasalando<br />

por toda a parte. A pequena fadinha que acompanhara Muir-Iled pegou-o pela mão e<br />

arrastou-o pelo ar. Ele estava, pela segunda vez na sua vida, voando, mas agora com<br />

uma beldade em seus braços. Ela o beijava e tirava os restos do manto prateado que<br />

ainda sobraram em seu corpo. A fadinha o apalpava pelas pernas e braços, Muir-Iled<br />

estava excitado. O cheiro da fadinha era provocante, um cheiro de carne doce, de vida.<br />

Muir-Iled podia também sentir o cheiro de seu próprio corpo, era muito parecido com<br />

o da fada, ele gostou muito disso. Mas estava ocupado demais para ficar analisando


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

cheiros e sentimentos, na verdade, desde que tomara aquela bebida maravilhosa ele<br />

se engajara ao local e a tudo o que ocorria ali, principalmente agora que estava em<br />

pleno ar com seus lábios grudados nos da fadinha e seu corpo no dela. Dançavam para<br />

lá e para cá, num êxtase sem fim. As pernas da fadinha estavam ao redor de seu novo<br />

corpo (um pouco menor do que ele tinha antes) e ele, Muir-Iled, estava virando os<br />

olhos para as estrelas!<br />

Schaia III<br />

Quando Schaia III entrou na câmara de equipamentos externos de sua nave<br />

ficou muito satisfeito em saber que tudo o que precisava estava lá. Vestiu-se com<br />

a roupa que refletia raios ultravioleta e portanto invisível a olhos comuns. Fixou as<br />

lentes de filmagem que iriam transmitir tudo o que visse para os receptores de dados<br />

da nave. Além disso, implantou, pelo ouvido, um dispositivo que iria se alojar em seu<br />

cérebro e tudo o que pensasse sobre aquilo que visse seria transmitido aos coletores<br />

de dados em forma de narrativa verbal.<br />

O restante dos equipamentos eram apenas os normais para qualquer excursão<br />

fora da nave. Algumas armas leves para defesa pessoal, o que não seria tão necessário,<br />

visto que a roupa que vestia era dotada de um escudo protetor extremamente potente.<br />

E a própria nave iria segui-lo de perto, qualquer problema bastava entrar lá de novo.<br />

Como precaução, Schaia III programou os equipamentos para, em caso de sua morte,<br />

a nave voltar imediatamente para Plan Ex com todos os movimentos de Schaia III<br />

gravados. Além disso, deixou uma mensagem que dizia o seguinte:<br />

– Acredito plenamente que todos os problemas detectados pelos nossos produtores<br />

de energia estejam no Planeta Azul. Aqui está a fonte desses problemas, e não<br />

descarto a possibilidade de que eles sejam de ordem onírica. De alguma forma os seres<br />

que habitavam este Planeta desenvolveram uma tecnologia muito superior à nossa,<br />

tecnologia esta que pode transformar ondas oníricas em matéria. Um dos nomes que<br />

eu ouvi falar é um tal de Ortal, o qual deixou antes de sua morte um sonho que se<br />

expande sozinho pelo universo, criando um vórtice imaterial poderoso. A causa deste<br />

vórtice é um Deus, que agora vou investigar. É muito importante que todos saibam<br />

que acredito plenamente neste Deus, foi Ele a causa de eu estar aqui.<br />

“Schaia III, imperador do universo”<br />

Após gravar esta mensagem, verificou ainda alguns suprimentos de energia e<br />

saiu da nave, pairando pelo ar do Planeta Azul.<br />

A sua roupa era dotada de vários elementos interessantes. Um deles era a expansão<br />

visual. Ele podia lidar com as lentes de contato como bem entendesse, aproximando<br />

objetos ou afastando-os para melhor vê-los. Agora, por exemplo, ele estava<br />

tentando localizar Muir-Iled e o povo das fadas:<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Estou a quase vinte e três martos de distância do chão – algo em torno de<br />

cinquenta metros de altura. Ele pensava e ao mesmo tempo as palavras de sua narrativa<br />

eram gravadas. – O dia está lindo e este Planeta é absolutamente maravilhoso.<br />

A flora e fauna parecem nunca ter sido tocadas. Não há sinal de civilização até o momento,<br />

embora eu saiba que existem habitantes inteligentes neste Planeta, por tê-los<br />

visto no monitor da... epa! Acabo de localizá-los. Tentarei uma aproximação para ver<br />

se a roupa invisível a nossos olhos é invisível aos olhos deles.<br />

“Perfeito! Dei várias voltas em torno de toda a tribo e daquele a que chamam<br />

Muir-Iled. Eles apenas cantam, tocam instrumentos rústicos e dançam sem parar no<br />

ar. Nem sequer notaram minha presença.”<br />

“Devo dizer que a meus olhos é um povo muito belo, apesar de pequeno. As<br />

peles brancas e quase todos com absurdos olhos violetas fazem a população do Planeta<br />

Lau Fromt (aquele que produz modelos de beleza para todo o império) se parecer<br />

com as bestas que víamos no laboratório do professor Barnac, nas aulas de mutação<br />

genética. Devo dizer ainda que todo este meu bom humor não é à toa. Estou muito<br />

excitado com este Planeta, como se houvesse um toque de Deus por aqui, o que eu<br />

tenho certeza que houve.”<br />

“Estou sobrevoando todo o povo que, ao caminhar, colhe flores e folhas por<br />

toda o caminho que percorre. O único que está completamente fora de sintonia é Muir-<br />

Iled (aquele um pouco maior, com a capa prateada). Ele conversa às vezes com umas<br />

pequenas fadas, possivelmente muito jovens, que vêm e vão ao seu encontro e saem<br />

sempre gargalhando do que ele fala. Tentarei aproximar- me mais e expandir meu fator<br />

auditivo para ouvir do que se trata... Meu deus! Elas estão propondo para ele as<br />

mais variadas aventuras sexuais. Bem, ele parece ser um tanto imaturo para isso, mas<br />

qualquer criança do império saberia o que falar para aquelas alvoroçadas fadinhas.”<br />

“Devo abrir um parêntese e, enquanto eles caminham pelos labirintos de árvores<br />

do Planeta, digo minha teoria sobre este menino, Muir-Iled. Eu acredito que ele<br />

era um habitante do sonho de Ortal. O nome deste lugar, segundo minhas fontes, era<br />

ou é Cosmo. De alguma maneira este menino veio parar neste Planeta e talvez tenha<br />

sido isso que me trouxe até aqui. Na verdade, acredito que o próprio Cosmo tenha<br />

feito isso para verificar seu poder em transformar energia onírica em matéria. Como<br />

vocês podem ver com seus próprios olhos, ele conseguiu. Portanto, minha teoria sobre<br />

o problema que o povo do universo interior, os Extuárticos alertou está, até agora,<br />

correta.”<br />

“Tudo aquilo que grande parte do povo colhe é dado a algumas fadas (digo<br />

fadas, pois mesmo aproximando a visão para muito perto não consigo definir a situação<br />

sexual deste povo; parece-me que todos são do mesmo sexo, embora ele seja visivelmente<br />

indefinido). Essas fadas elaboram um ritual complexo com tais elementos,<br />

fazendo deles pequenas bolas que caberiam facilmente na palma de minha mão.”<br />

“Como podem notar, o povo agora está cruzando um rio. O indicador de temperatura<br />

externa da roupa está acusando um leve esfriamento. A tarde começa a cair<br />

nesta parte do Planeta.”<br />

“ Houve uma mudança súbita no humor de todos, inclusive Muir-Iled, que já


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

estava engajado nos cantos da tribo, parece ter ficado em silêncio também.”<br />

“Nesta parte da região o ar está mais leve, e um cheiro agradável começa a<br />

ser sentindo gradualmente à medida que avançamos por este lado do rio. Se isto não<br />

está sendo captado pelas lentes de contato, devo dizer que as plantas desta área têm<br />

uma certa luminosidade, algo que jamais vira em qualquer Planeta de nosso império.<br />

A cada momento que avanço nestas terras fico mais surpreendido com o que vejo.<br />

Agora, por entre a mata começo a notar o surgimento de algumas rochas que... Nossa!<br />

São os famosos cristais alaranjados! De onde os vejo, aqui de cima, eles parecem ser<br />

milhares e notando mais adiante... Sim! Era o que eu supunha! Eles vão crescendo em<br />

número e tamanho, tornando a visão desta floresta mágica um verdadeiro espetáculo.<br />

Tentarei captar uma mostra do cheiro expelido por esta parte do Planeta... Pronto,<br />

está coletado, espero que vocês tenham esta mesma sensação de cheiro que eu estou<br />

tendo.”<br />

“As fadas agora estão cada vez mais luminosas e enquanto a estrela deste sistema<br />

se põe, a cena lá em baixo fica mais clara. Eles estão caminhando por uma estrada<br />

feita de cristais alaranjados, continuam no mais absoluto silêncio. Começo a pensar<br />

que uma grande magia está para acontecer.”<br />

“O povo se desloca em marcha lenta, Muir-Iled sempre na frente como se<br />

soubesse o caminho decor. Como podem ver, a visão é estarrecedora. Nenhum dispositivo<br />

energético está iluminando o local, apenas a luz interior desses seres, árvores<br />

e rochas faz com que todo o lugar esteja claro. Vale dizer que pesquisei no equipamento<br />

de minha roupa se havia algum sinal de deslocamento energético para tal fato,<br />

o monitor nada acusou.”<br />

“Aqui de cima consegui localizar o fim do caminho alaranjado. Como não há<br />

sinal de mudanças no rumo, mesmo porque não existe saída daquele caminho, a não<br />

ser duas paredes paralelas de cristais e gigantescas árvores, estou indo para lá antes<br />

deles.”<br />

“É apenas um círculo no chão feito com os mesmos cristais alaranjados, nada<br />

de mais. Vou ficar sentado em um dos galhos destas árvores que circundam a clareira<br />

para ver o espetáculo. Dentro de instantes todo o povo irá chegar por este caminho que<br />

agora se encontra à minha frente. Estou realmente excitado sobre isto.”<br />

“Os únicos passos que posso ouvir são de Muir-Iled, todo o resto está em pleno<br />

vôo. É interessante ressaltar que eles mal abanam as asas azuis para voar, com meros<br />

leves lampejos eles se sustentam no ar. Fico lembrando da história sobre como foi<br />

difícil para nossos antepassados conseguirem adaptar este tipo de roupa que estou<br />

usando para que pudéssemos flutuar, e mesmo assim, a quantidade de energia gasta<br />

para isso...”<br />

“Agora eles se aproximam. Estou um pouco nervoso, pois receio que me vejam.<br />

Não, eles não estão me vendo... apenas se aproximam. Agora estão ali, a quase<br />

cinco martos de distância! Meu coração está acelerado! Muir-Iled toma o centro da<br />

clareira e espera, muito surpreso com tudo por ali, os outros tomarem suas posições.<br />

Agora estou ajustando as lentes de contato para fazer uma varredura de seu corpo.<br />

Creio que com isto possamos (que os cristais desejem assim!) compreender se existe<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

algum fato anormal naquele corpo.”<br />

“Todos eles estão sentados. Muir-Iled segue à risca os movimentos dos outros.<br />

Uma fadinha surge com um saco multicolorido e começa a... entregar as bolas que<br />

tinham feito durante a caminhada. Já posso até imaginar o que isto seja! Quando todos<br />

têm suas bolas, eles começam a beber. Eu daria tudo para pegar uma daquelas... Com<br />

muita calma estou sobrevoando toda a tribo. Ah, lá está! O saco enorme, esquecido<br />

enquanto todos bebem... peguei! Estou dando a volta pela tribo para que ninguém<br />

veja três bolinhas de bebida voando por aí. Do mesmo lugar onde estava, noto... alguém<br />

solta uma gargalhada... ei!... quase deixo as bolinhas cairem quando vejo que...<br />

que Muir-Iled virou uma fada! Não consigo nem sentar! Agora todos riem também<br />

e começam a cantar e tocar novamente, como eu tinha esperado... Era uma daquelas<br />

festas de fadas.”<br />

“O gosto da bebida é de uma delícia, indescritível. E só isso me faz relaxar por<br />

ter perdido a transformação de Muir-Iled. Sento-me de novo no meu conhecido galho<br />

e observo as danças e gritarias de todo o povo, agora embriagado. Ei, mas eu também<br />

estou embriagado! Mas que sensação! Acomodo-me melhor no galho, colocando<br />

minhas pernas num e minhas costas em outro um pouco mais acima, fazendo daquela<br />

árvore meu novo trono, trono sem reino. Como é possível eu, Schaia III, imperador do<br />

universo, estar ali no meio de um sonho onde outros sonhos se tornam reais e fadas se<br />

embebedam, cantam e dançam numa orgia magnífica... Que sensação esta bebidinha<br />

dá, meu deus! Nossa! O que é que Muir-Iled está fazendo agora? Acho que não preciso<br />

dizer, não teria palavras...”<br />

“Recosto-me um pouco mais no meu improvisado trono e admiro a felicidade<br />

de todos. Aos poucos, um e outro descem ao solo e deita-se ali mesmo. Logo todos,<br />

inclusive Muir-Iled e sua pequena fadinha, se recostam no cristal laranja. O cristal por<br />

sua vez, assim como as árvores ao redor, tornam-se mais opacos e perdem a luminosidade.”<br />

“Todos estão dormindo. A única luz que permanece é a da própria pele esbranquiçada<br />

do povo. Sinto uma sensação de sono também, porém, aciono um dispositivo<br />

em minha roupa para que solte uma substância no meu corpo pare que fique alerta.<br />

E que substância! Fico “aceso”, qualquer pequeno movimento é captado pelos meus<br />

olhos, agora funcionando com o filtro de detecção de luminosidade que essas maravilhosas<br />

lentes têm.”<br />

“Creio ter ficado há muito tempo sem utilizar esta substância, praticamente<br />

nem mais sinto o efeito da bebida, mas pelo contrário, sinto estar neste lugar com uma<br />

percepção muito maior que a normal. Vejo até mesmo mais do que o normal. Parece<br />

que algumas estrelas despencaram do céu e estão fazendo círculos no ar! Puxa, isso<br />

me faz lembrar... Ei, esperem um pouco!... Isto não é efeito da substância! Elas estão<br />

ali, as estrelas estão ali fazendo formas estranhas, dançando uma estranha música.<br />

Pelo império! As estrelas estão tomando a forma de... de uma pessoa! É ele, só pode<br />

ser! As luzes de milhares estrelas estão dando forma ao espectro do Mago de Prata<br />

bem acima de Muir-Iled! E ninguém além de mim está vendo! Todos estão dormindo...<br />

e o Mago de Prata agora encosta a mão na cabeça de Muir-Iled! Ele.. Ele está


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

puxando a forma de Muir-Iled para fora do corpo! O espectro de Muir-Iled está rindo<br />

para o Mago de Prata! Ele pega na mão do Mago de Prata e os dois estão subindo e<br />

subindo... desapareceram!”<br />

“Levanto-me rapidamente e fico flutuando um pouco mais perto de todo o<br />

povo, que continua a dormir. Vou chegando bem perto do corpo de Muir-Iled. Toco<br />

em sua testa e comprovo o que tinha imaginado. Ele está morto. Agora noto um<br />

pequeno sussurro em meio às árvores. Viro-me rapidamente e vejo que há alguém me<br />

espiando. Noto que, seja lá quem for, continua lá e mesmo com minha roupa invisível<br />

consegue me observar, não tira os olhos de mim. Sinto aquele olhar quase que fulminante.<br />

Não deveria estar fazendo isso, pois estou colocando em risco minha vida, mas<br />

estou tentando uma aproximação agora. Sinto uma de minhas mãos apertando o lançador<br />

de paralisanex. O ser não se move, aparentemente percebe que vou investir contra<br />

ele. Mas ao contrário do que pensei, entra no círculo onde as fadas estão dormindo.”<br />

“Estou paralisado, não consigo me mover, como se estivesse anestesiado. O<br />

que vejo na minha frente é tão estarrecedor que tenho vontade de chorar. Porém o<br />

impulso é maior, seja lá qual for a força desta criatura não pode ser maior que um raio<br />

de paralisanex. Aperto o gatilho e como vocês podem perceber, o Mago de Prata, cai.”<br />

“Agora, com alguém que eu posso dizer que seja a criatura mais poderosa de<br />

tudo o que conhecemos nos meus braços, adormecido como um bebê, me desloco<br />

para minha nave. O dia já está nascendo e tenho certeza de que o povo das fadas só<br />

irá se dar conta do que ocorreu com Muir-Iled quando eu já estiver viajando para Plan<br />

Ex. Se alguém sabe solucionar o grande problema de meu império é este ser que está<br />

nos meus braços. Só espero que ele entenda o porquê de eu estar fazendo isso. Minha<br />

missão por aqui está cumprida. Este lugar escuro por onde estou entrando é minha<br />

nave. É com muito pesar que tenho que sair deste Planeta-paraíso.”<br />

Cosmo<br />

Todos agora no imenso sonho de Ortal sabiam o que eram. Sabiam porque<br />

estavam vivos naquele lugar e tinham a resposta daquilo que qualquer ser humano<br />

sempre se perguntou: “de onde viemos?”<br />

“Somos parte de um sonho. É o sonho que o ajudante de Deus fez para nós e<br />

nos deu como dádiva!” Esta era a ideia agora do povo de Cosmo. Eles tinham uma<br />

razão para viver, para louvar e finalmente para lutar! Sim, o povo enlouquecera com<br />

a ideia de que aquele Deus lhes tinha dado a dádiva da vida e por ela e por Ele teriam<br />

que lutar. Sabiam agora que viriam outros povos de outras regiões do mundo e cabia<br />

a eles informar-lhes que Deus os tinha criado e que o Mago de Prata era esse Deus. E<br />

que Ortal havia iluminado aquela terra com sua sabedoria.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Sim, era tudo muito simples. Houve um garoto que fora mandado com ordens<br />

explícitas do Mago de Prata para dizer a todos os povos do universo que Cosmo iria<br />

chegar, e com ele a palavra de Deus, do Deus Mago de Prata!<br />

“Muir-Iled está a caminho!”, gritava o Mago Neres. “E todos os outros que<br />

foram mandados para todas as partes de Cosmo!” E todo o povo se alvoroçava, com<br />

os punhos cerrados acima das cabeças, gritando feito loucos que Deus deveria ser<br />

louvado e a vida de Ortal, que morrera para salvar a alma de seu próprio Deus, se<br />

transformara na dádiva que eles carregavam. Era a glória para todo o ser onírico que<br />

habitava o sonho de Ortal.<br />

“Vejam”, dizia um dos magos. “Este é o símbolo de nossa vitória!” Levantava<br />

um pedaço de cristal que aos poucos se iluminava sozinho. Era a primeira prova de<br />

que a energia dos cristais estava realmente agindo no sonho. “Para que todos os céticos<br />

possam ver! Nós temos a energia de Deus em nossas mãos e ela está nascendo<br />

em todo lugar. Existe até uma cidade inteira feita destes cristais! É a prova de que o<br />

Mago de Prata está conosco! Deus está conosco e nós não precisamos morrer para<br />

expandir nossas terras! Agora todo o universo será transformado em nossa terra! Sim!<br />

Cada Planeta, cada estrela se transformará em nossas terras! Eles não passarão mais<br />

por nossas terras como se nós não existíssemos, mas eles serão a nossa matéria-prima,<br />

tudo o que for matéria no universo se transformará em Cosmo. Nossa terra!” E todo o<br />

povo saía por todas as partes espalhando a notícia.<br />

Plan Ex<br />

O general Arcrates andava muito atarefado desde que Schaia III desapareceu<br />

nas bordas-limites do império. Chamara toda a frota imperial para Plan Ex e decretou<br />

estado de emergência. Como estava com o poder passado pelas próprias mãos do<br />

imperador Schaia III, ele se autopromovera Guardião Vitalício do Império, afinal, a<br />

morte de Schaia III fora recebida com muito espanto por todos os Planetas.<br />

O golpe do general Arcrates era tão simples que ninguém poderia questionálo.<br />

Como Schaia III não tinha herdeiros e o poder estava nas mãos do próprio general<br />

quando da notícia de que o imperador havia primeiro desaparecido e depois morrido,<br />

nada poderia derrubá-lo, a não ser o reaparecimento de Schaia III.<br />

Era exatamente nisso que o general Arcrates estava trabalhando. Para que toda<br />

a corte pudesse engolir seu golpe, ele forjara um acidente com uma nave idêntica à<br />

de Schaia III, derrubando-a num Planeta próximo a Fancton. Houve inspeções e inspeções<br />

na nave, mas nada poderia provar que não era a nave de Schaia III. É claro<br />

que ninguém iria discordar do general Arcrates. Afinal, ele era o braço direito de<br />

Schaia III, era o que o general dizia.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mas o general estava muito ocupado com um segmento da frota que, este sim<br />

era seu braço direito, pois era composto na sua maioria de familiares e amigos que<br />

conviveram com ele a vida toda. A ordem era localizar e destruir qualquer nave que<br />

entrasse pelo setor zplaint e zplaint 2, 3 e 5. Era por onde o imperador fora detectado<br />

pela última vez. Na verdade se eles tivessem supevisionado só o setor zplaint já seria<br />

suficiente, pois abrangia um absurdo da área de fronteira. Mas devido ao contexto, era<br />

melhor que tudo corresse da forma como o general Arcrates queria.<br />

A ideia de sair do império por aquelas áreas era o que estava deixando o general<br />

Arcrates mais satisfeito. Aquele era o lugar menos indicado para se viajar, desde<br />

o problema com o Planeta Azul quando aquela área fora considerada como quase<br />

assombrada.<br />

“Espero que ele tenha ido direto para lá”, pensava o general Arcrates, referindo-se<br />

obviamente a Schaia III e ao Planeta Azul. Era incontestável o medo que a<br />

maioria dos guerreiros imperiais tinha das famosas histórias sobre o Planeta Azul. E<br />

mesmo que o próprio general Arcrates mandasse, se acaso ele tivesse coragem para<br />

isso, qualquer guerreiro da frota preferiria a morte.<br />

O maior problema, no entanto, que o general Arcrates estava tendo era com<br />

os cientistas que vieram de Carmel. Eles ainda não acreditavam na morte do amado<br />

imperador. Arcrates teve que pedir a uma parte da frota para se encarregar da retirada<br />

dos cientistas, que após muito custo saíram do Planeta e foram para Carmel.<br />

O General tinha certeza que alguns deles duvidavam da veracidade dos fatos.<br />

Quase mandou executá-los por insubordinação e por duvidarem da palavra do<br />

Guardião, porém teve respeito aos sentimentos dos amigos de Schaia III. Como gesto<br />

de solidariedade deixou que os rebeldes fossem para Carmel.<br />

O império se tornou, em poucas horas, um inferno. O general governava com<br />

punho de ferro. No terceiro dia depois de ter tomado o poder, todos os seus inimigos<br />

políticos tinham sido mortos e toda a forma de comunicação deveria ser passada por<br />

um processo de censura. Todo o problema que fora criado pela visita do Extuártico<br />

foi desmentido e o desaparecimento de Schaia III foi por uma crise depressiva que o<br />

imperador havia tido.<br />

Era assim que o general Arcrates governava. Se todos os últimos imperadores,<br />

que foram uns déspotas, tivessem governado juntos, nem chegariam aos pés da tragédia<br />

que se abatera sobre o império agora, nas mãos desse louco.<br />

Após uma semana, o povo já começava a sentir o problema. Ninguém entendia<br />

o que se passava pela cabeça do general. Afinal o império não estava indo tão mal<br />

assim, estava? Não, é claro que não, mas a ideia do general era outra. Ele estava poupando<br />

a energia dos Extuárticos, era esse o seu medo. Mesmo sabendo que, depois de<br />

muitas e muitas gerações de imperadores, a convivência com aqueles estranhos seres<br />

era amigável, o general não admitia que eles queriam viver pacificamente.<br />

“O que fazem aqueles monstros com tanta energia?”, perguntava o general<br />

para si mesmo. “E o que devemos dar em troca? Então eles vêm, depois de milhares<br />

de anos, e dizem que não estamos cumprindo o trato... Ha, ha, ha!... E o imbecilzinho<br />

do imperadorzinho cai nesta balela! Eles querem o pagamento, isso sim! Querem algo<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

do império que não sabemos o que é, e dizem que não estamos cumprindo o trato!<br />

Bando de monstros!” E era verdade! O general Arcrates estava disposto a acreditar<br />

em seus pensamentos, tanto que tomou um Planeta inteiro apenas para esconder<br />

parte da energia que deveria ser distribuída para a população. Era na verdade muita<br />

energia. Arcrates queria ter muita energia para seu plano... destruir o espaço interior!<br />

Sim, destruir o mundo dos Extuárticos. Ele estava convencido de que os Extuárticos<br />

estavam planejando algo contra o império, e não iria ser ele, enquanto general e agora<br />

guardião universal, que iria deixar isso ocorrer.<br />

Schaia III<br />

O Mago de Prata acordou ainda atordoado de seu conturbado sono. Estava<br />

num ambiente muito diferente daquele em que pretendia estar, mas sabia que isto<br />

fazia parte de seu plano, não exatamente dessa maneira, mas o caminho era certo.<br />

Tentou adivinhar o que era tudo aquilo à sua volta. Levantou-se de uma cama<br />

muito macia e percorreu a sala onde estava. Parecia não haver saída, e imaginava que<br />

seu raptor o espiava. Sentou-se na cama, percebeu uma jarra de água ao lado. Fazia<br />

muito tempo que não tomava algo daquele tipo, não fazia? Na realidade, se não fosse<br />

seu poder de concentração estaria louco ali dentro, afinal tinha voltado para a materialidade.<br />

Isso era indiscutivelmente estimulante. É claro que muitos espectros já haviam<br />

feito esta passagem, mas ele via-se numa situação peculiar, tudo fora planejado.<br />

Com muito esforço, soube do grande problema que ocorrera no universo material,<br />

problema por sinal causado por sua existência, e que agora deveria tentar reverter. O<br />

Mago de Prata sabia que era tudo uma questão de energia, e esta energia vinha dos<br />

cristais, amplificados pela magia de seu povo e usada erroneamente por Ortal.<br />

Mas a questão do momento era aquela jarra de água a seu lado. Ele se dirigiu a<br />

ela e cheirou-a... Ei, nada mau! Tomou diretamente da jarra. A água escorreu-lhe pela<br />

boca e molhou seu corpo nu. Agora ele estava bem estimulado pela ideia. Colocou a<br />

jarra sobre sua cabeça e fez toda a água cair, formando um delicioso chuveiro. Sim,<br />

aquilo sim era uma forma de resgatar a energia de que precisava, o contato com a<br />

água. Ficou parado, de olhos fechados, absorvendo aquela matéria que percorria seu<br />

corpo.<br />

Schaia III estava pasmo. Desde que O Mago de Prata acordara, o imperador<br />

observava cada movimento dele. Schaia III estava quase debruçado, engolindo os<br />

monitores, que faziam de sua sala de comando uma galeria de arte a cada gesto que o<br />

Mago de Prata fazia. Como poderia uma criatura ser tão bela! Schaia III ficou petrificado<br />

quando a água no corpo do Mago de Prata começara a dançar com movimentos<br />

que discordavam da gravidade artificial da nave.<br />

O Mago de Prata sorria ao ver a água dançando em seu corpo. Sua magia es-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

tava voltando. Aos poucos, mas estava.<br />

Schaia III ficou atônito, já não sabia o que fazer. Achava que cometera um<br />

enorme erro. Se aquele ser fosse tão poderoso como ele vira, calculava que poderia<br />

estar perdido. Mas que bobagem! O que estava feito, estava feito, não estava? Era<br />

melhor encarar os fatos, afinal não o fizera por maldade, fizera? Schaia III parou para<br />

pensar. Sim, fizera. Em parte queria se apoderar do Mago de Prata. Por um certo momento<br />

soube que aquela beleza o corrompia e todo o escrúpulo aprendido em sua vida<br />

pareceu ter desaparecido. Schaia III estava triste. Por alguma razão muito especial<br />

aquele ser voltara à vida, talvez fosse o próprio problema no universo que o trouxera<br />

até ali de novo e ele, Schaia III, o roubara. Talvez o Mago de Prata fosse o único ser<br />

que pudesse reverter o sonho de Ortal, afinal o sonho fora sonhado por sua causa...<br />

Mas ele, Schaia III, o roubara de seu destino apenas por seu próprio egoísmo.<br />

O imperador olhava de novo para os monitores. Levantou-se. O Mago de Prata<br />

abrira a porta e saíra. Como ele fez isso? Schaia III ficou imóvel, agora suava frio. O<br />

Mago estava à solta pela nave! E não seria muito difícil encontrá-lo, seria? Não, não<br />

seria. Schaia III não quis olhar para a porta da sala de controle, atrás dele, mas a leve<br />

brisa que batera em suas costas respondia a sua pergunta. O Mago de Prata estava ali,<br />

olhando para ele!<br />

Schaia III virou-se bem devagar e caiu sentado. O ser estava ali, nu, na sua<br />

frente! O Mago olhava-o com um olhar paciente. Não havia mágoa em seu olhar, nem<br />

mesmo frieza. Schaia III tentou falar algo mas as palavras não saíam. Foi na verdade<br />

o Mago de Prata quem falou.<br />

– Não se assuste. Por mais que você ache que foi um erro ter me raptado, não<br />

se esqueça que eu vim a você primeiro, em seu sonho, lembra?<br />

– Sim, você veio a mim.<br />

Schaia III não entendia como estava falando com ele. Era uma língua que jamais<br />

ouvira em sua vida, porém conseguia se comunicar perfeitamente.<br />

– Por favor, não tente entender meus poderes. Sei que sua civilização desenvolveu<br />

enormes poderes também, poderes que talvez eu não entenda, mas acredite:<br />

só com a união de nossos poderes é que conseguiremos reverter a tolice que Ortal<br />

fez. Agora porém, devemos nos preocupar com algo mais imediato. Primeiro, sei que<br />

meu corpo o abala, por isso gostaria de vestir algo, pois não quero nenhum incidente<br />

desnecessário.<br />

Schaia III enrubesceu, mas nada falou a respeito.<br />

– Venha, vou mostrar-lhe alguns trajes a que você possa se adaptar.<br />

O Mago de Prata escolheu uma longa capa preta que, por sinal, lhe caía muito<br />

bem.<br />

– E agora...? – perguntou Schaia III.<br />

– Bem, agora... deixe-me ver... Bom, espero que vocês gostem de comer, na<br />

sua civilização.<br />

– Sim, isto é uma boa ideia!<br />

Schaia III estava rindo feito criança. Sua preocupação desaparecera ao perceber<br />

que o Mago de Prata estava feliz por estar ali, ao menos era o que estava parecendo.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Foram de novo para a sala de comandos da nave. Schaia III abriu uma enorme<br />

escotilha sobre suas cabeças e todo o universo apareceu através da transparência do<br />

material. Agora era o Mago de Prata quem ria como criança.<br />

– É realmente lindo.<br />

Podiam ver o Planeta Azul se afastar rapidamente, agora que Schaia III impulsionava<br />

a nave mais velozmente. O Imperador fez alguns gestos no ar e colocou a<br />

nave em curso, logo em seguida repetiu os estranhos movimentos e disse:<br />

– Nós desenvolvemos muitas maneiras de lidar com nossas criações, mas a que<br />

mais eu me identifico é esta, por gestos. Eu dou o comando para que os equipamentos<br />

façam o que eu queira. É claro que estas decisões são passadas por um equipamento<br />

de inteligência, que mede os comandos e, se detectar qualquer risco, imediatamente<br />

retorna os parâmetros para mim, explicando-me o que pode ocorrer e o que devo fazer.<br />

O Mago de Prata estava olhando atento e, com um olhar quase alarmado, perguntou:<br />

– Essas máquinas são quase mágicos artificiais, não são?<br />

– Sim, podemos dizer que sim. São máquinas avançadas e que aprendem com<br />

seus próprios erros. É praticamente impossível uma máquina dessas errar, pois, devido<br />

à sua longa existência, ela já considerou qualquer erro possível.<br />

– Vou me lembrar disso.<br />

Schaia III não gostou nada do que o Mago de Prata falara. Além de ter duvidado<br />

do potencial em que se baseava todo o império, o Mago de Prata detectou, e<br />

mostrou explicitamente em seu olhar, que a menina dos olhos do império, a tecnologia,<br />

poderia cometer erros.<br />

De uma escotilha inferior surgiu o que poderia se dizer um maravilhoso banquete<br />

com várias espécies de alimentos. O Mago de Prata estava pasmo, e sorrindo<br />

para Schaia III, disse:<br />

– Mas é uma maravilha! Que espécie de magia é esta que prepara uma refeição<br />

como essa em tão pouco tempo?<br />

– Nossa civilização é baseada na nossa tecnologia. Não é magia, caro Mago de<br />

Prata! É tecnologia!!<br />

O Mago de Prata riu de novo.<br />

– Sabe há quanto tempo alguém não me chama assim, Schaia III?<br />

Schaia III riu.<br />

– Desfrute da cordialidade de meu império, meu amigo.<br />

Começaram a comer e Schaia III contou todo o problema que estava ocorrendo<br />

em seu império desde a morte de seu pai. O Mago de Prata ouvira com atenção todos<br />

os detalhes e visualizava em sua mente tudo o que o imperador lhe dizia.<br />

Após terminarem a refeição, a enorme bandeja foi recolhida. Schaia III continuava<br />

a falar seriamente sobre seu império.<br />

– Ainda não tínhamos chegado a nenhuma pista do que poderia ser este grande<br />

problema, até que você, ou seu espectro, me apareceu naquela praia... Aí comecei a<br />

entender que o problema poderia ser de ordem imaterial, onírica. Assim, após uma série<br />

de fatos irrelevantes, fui até o Planeta Azul escondido de todos, pois algo me dizia


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que deveria proceder dessa forma. E quando vi aquele que chamam de Muir-Iled lá,<br />

tive certeza que o que eu estava fazendo não era loucura. Agora, com você aqui, sintome<br />

mais aliviado. Acho que, como você mesmo disse, juntos, com minha tecnologia<br />

e sua magia, poderemos solucionar este problema, não poderemos?<br />

– Como era mesmo o nome do general que você nomeou para tomar conta do<br />

seu império? – perguntou o Mago de Prata.<br />

Schaia III olhou-o meio que estranhando a pergunta e respondeu, dando de<br />

ombros:<br />

– General Arcrates! Por quê?<br />

– Não estou bem certo se já posso confiar em minha magia, mas acredito que<br />

vi um bloqueio em minha mente quando você falou sobre este general.<br />

Schaia III encostou-se em sua cadeira.<br />

– Pode me explicar melhor?<br />

– Acho que vou dormir. Devo recuperar minhas funções dormindo. Acredite,<br />

não consegui visualizar um futuro certo quanto a solucionarmos juntos o problema,<br />

com sua tecnologia e a minha magia. Alguém roubou sua tecnologia, Schaia III.<br />

O Mago de Prata desaparecera da sala, mas o imperador viu-o entrando na<br />

mesma sala onde dormira enquanto estava sob o efeito do paralisanex.<br />

Schaia III ficou alarmado com o que o Mago de Prata falara. Pensou que a<br />

comida tivesse feito algum mal a ele, mas mesmo assim não poderia correr riscos.<br />

Colocou toda a potência dos receptores de dados de sua nave em direção ao império.<br />

Deixou todos os equipamentos captando as mensagens e foi descansar. Iria levar algum<br />

tempo para que as mensagens chegassem.<br />

Carmel<br />

Se todo o império estava sendo espionado pelas garras do general Arcrates,<br />

nenhum Planeta era mais investigado do que Carmel.<br />

– Mas qual é a preocupação desse imbecil do general Arcrates? – perguntava<br />

Gundel de sua câmara secreta para a pequena comissão que analisava o império às<br />

escondidas.<br />

– Use seu mediador de dados, caro senhor – dizia um dos participantes da<br />

comissão.<br />

Essa comissão era tão secreta que nem mesmo quem pertencia a ela sabia a<br />

identidade dos outros. Eles usavam codinomes e Gundel agora era Sargento Luntra.<br />

Mexia e remexia em seu analisador de dados.<br />

– A resposta mais plausível é que por termos um potencial tecnológico ainda<br />

desconhecido, por estar em evolução, o general acha que podemos usar isto contra ele.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Com a miséria de energia que ele desloca para nós! Não conseguiríamos nem<br />

fazer os painéis mecânicos funcionarem!<br />

– Ei, espere um momento! O que você disse?<br />

– Eu disse que o nosso querido general, que agora está no poder de tudo que<br />

este Planeta vem criando, não libera nem uma migalha de energia.<br />

– E o que mais?<br />

– Que a energia que nós temos não bastaria para ativar os painéis mecânicos.<br />

– É isso! Sargento Luntra sai da conferência.<br />

– Sargento Luntra espere, é...<br />

Já era tarde, Gundel desativara o contactador. Ele sabia qual era o problema, ou<br />

melhor, achava que sabia. Dedilhava categoricamente seu analisador de dados.<br />

– É isso, só pode ser isso! – dizia para si mesmo.<br />

Tinham-se passado quase dois meses-padrão desde a notícia da morte de<br />

Schaia III. Gundel era um colega de Schaia desde a infância, não que isso tivesse sido<br />

há muito tempo, mas conhecia o futuro imperador.<br />

– Ele não iria morrer daquele jeito. Não mesmo – afirmava, enquanto depositava<br />

os dados na máquina pensante.<br />

– Sim, sim, sim, sim! Existe uma possibilidade. Se esta máquina fria diz que<br />

existe uma possibilidade, é porque existe!<br />

Ele jamais pensou na possibilidade de que Schaia III estivesse morto. O general<br />

jamais poderia ter até mesmo pensado em matá-lo, nem mesmo ninguém da tropa.<br />

Eles eram condicionados. A nave de Schaia era de última geração, mas poderia haver<br />

falhas naquele modelo. E foi o que o general, em seu discurso em cadeia universal,<br />

afirmou que ocorrera. O que ninguém sabia é que aquela nave fora modificada secretamente,<br />

era à prova de erros. Não havia cogitação.<br />

– Mas o grande problema é que não havia energia suficiente para tentar contatar<br />

a nave. É óbvio! O general deixou os Planetas isolados para que ninguém achasse<br />

o imperador. Inventou um problema com os Extuárticos e qualquer mensagem deveria<br />

ser mandada à Plan Ex. Depois, ela retransmitia para o canal desejado. Isso na era da<br />

comunicação sensorial! O general enlouqueceu achando que ninguém iria descobrir<br />

seu erro. Muito bem, mãos à obra!<br />

Gundel saiu de sua sala privada, tomou seu transportador e foi à sede de telescopia<br />

espacial, que, àquela hora, estava deserta. Pudera! Além de ser um tanto tarde,<br />

com a energia que tinham só conseguiam ver as três luas ao redor de Carmel. Mas<br />

Gundel tinha muita experiência nisso.<br />

– Qual era mesmo o quadrante de onde a nave de Schaia III saiu? Aquele que<br />

secretamente ouvimos falar que estava com a segurança redobrada... Ah, sim! Localizei.<br />

Colocou os satélites naquela direção.<br />

– Agora... com esta pequena lanterna de projeção holográfica eu encaixo<br />

no adaptador de recepção/transmissão do equipamento e... Sim, lá vai! Pronto, conectado.<br />

Muito bem, qual é a mensagem? Ah, sim: “Pranta, lnvikdm;;, ioj io ejfh<br />

navwejj, jeif jqp,, kjeiowjkjweqpfh.mijfqweom..ijiewoju dfkpjfeil,..lkof mkiej


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fiqpiofle.//,kefqjikd....iieuea;iuyf. Mnfufhaln jehu aopui uihuf pufh puioerf puihfa<br />

uiejhfi poijh p iefua pihfjdhl nmkj ioejfp; kjhif; kmk ijafkj ,djka o kefio ikeiawfpuih<br />

kjiaew qiqwpjkk.” Código indecifrável!<br />

– Aí está! Agora é só fazer o equipamento do satélite inverter a função vetorial...<br />

Pronto! A mensagem está sendo codificada e amplificada... Isso!... gastando<br />

a energia da pilha da minha lanterna... Agora, o satélite pensa que a mensagem é<br />

uma imagem de um Planeta muito, muito distante... e para recebê-la deve gastar... a<br />

quantidade suficiente de energia que o vetor deste Planeta distante gastou. Assim, nós<br />

invertemos a polaridade e... bum! O satélite explode, lançando minha mensagem para<br />

o espaço em direção à nave de Schaia, o Cabeludo. E eu, bem... devo correr!<br />

Dez minutos depois, Gundel estava deitado em seus aposentos, ansioso para<br />

receber a mensagem de volta.<br />

Schaia III<br />

– Mago de Prata! – Schaia III chamava o Mago pelo ampliador de voz da nave.<br />

“Como dorme este menino... menino? Bem, esta coisa...”<br />

Schaia III foi pessoalmente aos aposentos do Mago de Prata. Ele vira pelos<br />

monitores da nave que o pequeno dormia um sono profundo, mas três dias parciais era<br />

demais. Além disso, eles deveriam traçar um plano, afinal quem teria o poder ali era<br />

o Mago, não era...? Claro que era. O Mago de Prata iria tirá-los dessa enrascada. Mas<br />

como Schaia III poderia confiar naquele ser? E agora, pensando bem... que loucura era<br />

aquela toda? Simplesmente deixar centenas de domínios do império, gerações e gerações<br />

de poder, nas mãos daquele estúpido general...! Schaia III entrou nos aposentos.<br />

– Meu Deus! É, ele não pode ser uma farsa.<br />

O Mago de Prata estava deitado apenas coberto com um fino e transparente<br />

lençol. Schaia III teve que forçar seu consciente para voltar à realidade. Porém, diante<br />

daquela visão avassaladora, era quase impossível.<br />

Schaia III tocou o ombro do Mago de Prata, sentindo uma emoção especial ao<br />

fazê-lo... Sim, ele está vivo. O Mago acordou. Ficou em silêncio, se recuperando das<br />

intermináveis horas de sono. Assim que viu a cara de espanto do imperador, perguntou:<br />

– Viu algum fantasma?<br />

– Não... não! É claro que não.<br />

– Você irá receber uma mensagem... Meus poderes se solidificaram com o<br />

sono, mas eu preciso de matéria orgânica para poder mantê-los.<br />

– Mensagem... matéria orgânica... Uma coisa de cada vez. Se é comida que<br />

necessita temos toneladas de arranjos genéticos que podem fabricar a comida mais<br />

pura e saudável do universo.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Pura sim, saudável não.<br />

– Você está brincando! Nossos alimentos são fabricados da forma mais evolutiva<br />

jamais vista! Uma máquina sonda seu corpo e desenvolve o prato baseando-se<br />

exatamente no que você necessita, e com o paladar que você deseja.<br />

– Naturalmente você, como imperador de todas essas quinquilharias tecnológicas,<br />

jamais ouviu falar no valor das vidas de uma planta ou animal em desenvolvimento.<br />

Toda a carga energética adquirida por um alimento enquanto em vida é muito<br />

mais poderosa do que a própria matéria que ela oferece.<br />

Schaia III estava pasmo. O poder daquele indivíduo na sua frente era sem<br />

dúvida nenhuma algo jamais possível de atingir por qualquer fruto tecnológico da<br />

civilização imperial.<br />

– O que deveremos fazer então? – perguntou Schaia III, ainda assustado de ter<br />

concordado com as palavras do Mago de Prata.<br />

– Em primeiro lugar, analise a mensagem que está para chegar. Tente fazê-la<br />

chegar mais rápido, pois seu amigo teve dificuldade em transmiti-la.<br />

– Amigo?<br />

– Sim, um ser chamado Gundel.<br />

Schaia III quase perdeu o controle. Gundel! Como um ser que vivera há não<br />

se sabe quantos séculos atrás e que agora revivia da forma mais explícita possível era<br />

capaz de saber o nome de um dos seus melhores amigos?<br />

– Basta! – gritou Schaia III. – Como é possível? Até agora eu vi coisas aqui que<br />

provocariam um ataque em qualquer cientista do império!<br />

– Não se preocupe, imperador! Haverá a hora das explicações. Temos uma<br />

linha a seguir. Estamos os dois correndo perigo.<br />

Schaia III foi para a sala de controle, agora acompanhado do Mago de Prata.<br />

Assumiu os controles e com muita precisão localizou a mensagem codificada para<br />

sua nave.<br />

– Um maldito golpe! – gritou. – O bastardo está no poder do império! Forjou<br />

minha morte! Isso é completamente contra a... – olhou para o Mago de Prata e<br />

começou a chorar.<br />

A cabeça de Schaia III estava um alvoroço. E a primeira coisa que surgiu foi<br />

que a culpa era dele, que jamais deveria ter deixado o império daquela maneira.<br />

– O bastardo cortou a energia. Os Planetas estão desconectados, não existe<br />

forma de transporte entre eles. Por que ele fez isso? – Schaia III esmurrava os controles<br />

da nave com tanto ódio que o Mago estava assustado.<br />

Mas Schaia III se recuperou, olhou novamente para o Mago de Prata e disse:<br />

– Do que você precisa, caro Mago?<br />

– Tente localizar um Planeta fora dos domínios do império, mas próximo. É<br />

primordial que o Planeta seja habitável e com uma grande quantidade deste material<br />

– o Mago de Prata esticou a mão para Schaia III, que ficou um tanto perplexo ao<br />

perceber que nada havia na mão dele.<br />

Olhou de novo para o seu rosto e notou que o Mago de Prata estava com os<br />

olhos fechados, se concentrando.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Não vai durar muito, Schaia... Meu poder está mais fraco do que eu imaginava.<br />

Então, Schaia III olhou de novo para a mão do Mago de Prata e constatou que<br />

havia surgido um pequeno pedaço de cristal sobre ela. Tomou-o de imediato e colocou<br />

dentro de uma caixa que se abrira nos controladores da nave. O Mago ainda estava<br />

concentrado.<br />

– Pronto! Já tenho a linha principal do material. Podemos reproduzi-lo, se você<br />

quiser.<br />

– Não. Devemos utilizá-lo na sua forma natural. Nenhum tipo de máquina<br />

pode efetuar magias.<br />

Schaia III olhou-o com atenção. Por que esta pequena criança tinha tanta<br />

aversão às criações tecnológicas?<br />

– Você irá saber, meu amigo, irá saber.<br />

O que interrompeu os pensamentos de Schaia foi a voz da máquina à sua frente,<br />

dizendo as características do material e as áreas onde poderia ser achado. Era um<br />

material que praticamente existia em quase todos os Planetas naturalmente habitáveis.<br />

– Bem, só devemos achar um Planeta isolado do império... Aqui está... Gelo?<br />

Por que será que alguém daria um nome desses a um Planeta?<br />

Foi a máquina que respondeu...<br />

“Planeta Gelo, teoricamente inabitado... Massa polar gigantesca, habitável em<br />

condições críticas... Antiga população... Cxarms... População que originou as famosas<br />

tropas de Sarmartans, o exército do terror dos antigos imperadores... O Planeta sofreu<br />

forte corrente migratória a ponto de se encontrar inabitado no presente... Pela falta de<br />

condições de vida confortável se encontra fora dos domínios imperiais... Alta taxa de<br />

umidade... Alta taxa de minerais... Animais perigosos... Rico em vegetais nas áreas<br />

centrais... Sem mais informações devido ao desinteresse dos cientistas imperiais.”<br />

– Está aí, meu querido Mago! Eu, como imperador Schaia III, o nomeio tutor<br />

vitalício do Planeta Gelo!<br />

O Mago de Prata nada falou. Estava em transe.<br />

– O futuro do seu império está nesse Planeta, Schaia III.<br />

Schaia III quase riu, só não o fez porque o Mago estava muito sério.<br />

– O que quer dizer?<br />

– Sinto uma tremenda energia vindo dessa linha temporal.<br />

“Como ele consegue fazer isso?”, perguntava-se Schaia III mentalmente.<br />

– É muito simples. Você deve traçar mentalmente todos os dados do que está<br />

acontecendo no momento. Una isso à sua sabedoria do passado e pense nas possibilidades<br />

futuras. Sempre existirá uma mais forte do que as outras. Ela já faz parte do<br />

seu conhecimento passado, ela já tem um referencial, um padrão, por isso ela se torna<br />

mais visível em sua mente. Então você percebe que se agir dentro dessa determinada<br />

linha, ela se tornará mais segura do que as outras. Além disso, os acontecimentos<br />

universais não se dão ao acaso. Nós fazemos parte desses acontecimentos como seres<br />

integrantes deles, portanto, se os manipularmos, estaremos alterando-os da maneira<br />

que quisermos. Mas para isso devemos conhecer as linhas e saber qual seguir para<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fazer nossas conquistas mais facilmente.<br />

O Mago de Prata falava isso olhando para o monitor onde aparecia a imagem<br />

de Gelo, como se estivesse falando a coisa mais normal do mundo.<br />

Schaia III no entanto estava assustado. Tentou fazer o que o Mago de Prata<br />

tinha dito, mas suas ideias eram outras. Visualizou o presente, onde eles estavam,<br />

então o misturou com o passado, à maneira de como o destino colocou o Mago de<br />

Prata em sua vida. As linhas de pensamento se embaralhavam, nada se determinava,<br />

apenas um caos de informações.<br />

– Ah – disse o mago –, esqueci-me de lhe dizer. Nunca tente fazer isso quando<br />

o objeto seja um Mago de Prata. Nós não conseguimos nem determinar o nosso sexo.<br />

Schaia III engoliu em seco, como era possível... Mas evitou pensar nisso.<br />

Tinha coisas urgentes a fazer, e uma delas era mandar uma mensagem para Gundel.<br />

Disse-lhe, em outro código, que estaria indo para o tal Planeta, acompanhado por um<br />

amigo. E que se possível gostaria de saber mais notícias sobre o império, ou que ele<br />

próprio se deslocasse o mais secretamente possível para Gelo.<br />

A nave de Schaia III não era um trans universal, porém era uma grande nave,<br />

digna de um imperador. Iria mostrar agora ao Mago de Prata que ele, Schaia III, também<br />

tinha cartas na manga.<br />

– Muito bem, Mago de Prata – dizia Schaia III. – Está vendo, neste monitor? É<br />

um mapa estelar plano. Nós vamos traçar um plano de viagem até Gelo. O problema é<br />

que Gelo está exatamente no lado oposto do espaço do império, portanto, deveremos<br />

atravessá-lo. Se não o fizermos, mesmo com todo o potencial desta magnífica nave,<br />

fruto da mais alta tecnologia de Carmel, o Planeta da fé, nós levaremos duas vezes o<br />

tempo de nossas vidas... O que iremos fazer é estipular uma rota, e esta belezinha fará<br />

exatamente o que fez quando eu fui ao seu querido Planeta Azul. Viajar por um hiperespaço<br />

paralelo, coisa que nem um cruzador imperial poderia fazer! Sim, podemos<br />

viajar com esta tecnologia para onde quisermos, sem os parâmetros dos portais que<br />

as naves do império utilizam e que consomem tanta energia dos Extuárticos. E tem<br />

mais: ninguém poderá saber disso! Pois para eles, isto não pode existir, a não ser que<br />

o General Arcrates resolva investigar cada código secreto em Carmel para adquirir<br />

esta informação. Mas isso ele não fará, pois não existe tal código. Nem Carmel sabe<br />

da existência disso, nem mesmo os próprios cientistas que criaram esta belezinha. Ela<br />

foi criada por seus cérebros, mas em outros corpos! Corpos estes que eram artificiais e<br />

foram aniquilados, junto com as memórias deste projeto. Não é simples?<br />

O Mago de Prata nada falou... Apenas pensou na Eco Justiça. Grande Deus! Se<br />

o sonho de Ortal estiver com a memória da Eco Justiça e realmente atingir o que Ortal<br />

estava querendo que atingisse... Deus!... O universo iria sucumbir!<br />

Schaia III nem olhou mais para o Mago de Prata, estava apenas interessado em<br />

traçar o plano de viagem. Enquanto isso, o Mago pensava em seu próprio plano. O que<br />

o futuro e o passado tinham reservado para ele...


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Cosmo<br />

O Mago Neres estava angustiado. Apesar de toda a revolução que se criara<br />

por todo o Cosmo, alguma coisa o perturbava. O que aquela figura de cabelos longos<br />

estaria fazendo ali? Dentro do palácio de Orh... dentro de Cosmo... dentro do sonho<br />

de Ortal? De onde tinha vindo?<br />

– Muir-Iled... onde está você? O povo está aflito! Por que não temos o contato<br />

com o mundo exterior...?<br />

Gelo<br />

A primeira impressão que o Mago de Prata teve quando viu a pequena bola<br />

branca se aproximando, era de que iriam bater diretamente na Lua. Mas quando a nave<br />

chegou bem perto, pensou: “não, nem a própria Lua poderia brilhar tanto”.<br />

Era um Planeta feito totalmente de gelo, completamente branco. Refletia uma<br />

luz muito intensa, provinda de uma estrela próxima.<br />

– Nem sinal de contato com o império – dizia Schaia III, contente e ainda olhando<br />

para os equipamentos.<br />

O Mago de Prata nada falou; estava ainda assustado com tudo aquilo. “Seria<br />

possível a tecnologia ir tão longe? Bem, talvez aquele povo se tivesse desenvolvido<br />

sem atacar tanto a natureza de seu Planeta... Mas mesmo assim era um povo dominador,<br />

um povo guerreiro.”<br />

– Schaia... – perguntou. – Como foi desenvolvido seu império?<br />

– Você quer dizer como meu império dominou quase todo o universo conhecido?<br />

– Humm... sim.<br />

– Bem, a princípio conhecíamos uma tecnologia muito mais sofisticada que<br />

a de qualquer Planeta daquela época. Começamos a entrar em contato com aqueles<br />

Planetas e logo vimos que seria fácil cobrar impostos deles. Isto foi com uns dez<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Planetas se as escrituras estiverem corretas. Após isso, começamos a compartilhar<br />

nossa tecnologia com eles. Então, eles começaram a fazer parte do próprio império,<br />

isto é, fazíamos parte de uma coligação de Planetas. Quando começamos a ter contato<br />

com Planetas mais distantes, eles também quiseram se juntar àquela coligação. Assim,<br />

exportávamos tecnologia para uns, enquanto importávamos comida de outros,<br />

cada Planeta tinha seu dever dentro da coligação. Foi então que o império começou<br />

a se expandir mais e mais. Estávamos procurando uma energia muito maior, que suportasse<br />

os portais de hiperespaço, que nos permitiriam viajar pelo universo na dobra<br />

do espaço.<br />

“Fizemos um acordo com os Extuárticos, que nos fornecem energia suficiente<br />

para qualquer deslocamento. Com isso, o império, que se espalha por uma imensidão,<br />

pode ser cruzado em semanas, dias ou até mesmo horas, dependendo de aonde você<br />

queira chegar.”<br />

– Mas como tivemos energia para fazer isto agora, se o seu querido general<br />

tomou toda essa energia?<br />

– Simplesmente porque esta pequena nave é uma nave do próprio imperador<br />

e carrega, entre os acessórios opcionais, seu próprio portal de hiperespaço, conectado<br />

ao outro, de destino. É só apertar um botão e estamos lá!<br />

– Poderíamos voltar à Terra, ou melhor, ao Planeta Azul?<br />

– Não tão facilmente, pois o Planeta Azul não faz parte do império, portanto<br />

não tem um portal que possamos aterrissar. Mas não se preocupe. Acharemos seu<br />

cristal neste Planeta.<br />

– Com este cristal, Schaia III, poderemos ter infinitamente mais energia; tanta<br />

que seus amigos Extuárticos jamais sonharam! – o Mago de Prata falou como se para<br />

si mesmo.<br />

Schaia III estava paralisado, olhando para o Mago.<br />

– O que você disse?<br />

– Eu disse que a energia deste cristal pode ser absoluta. É por isso que o sonho<br />

de Ortal me preocupa. Se os habitantes do sonho obtiverem quantidade suficiente<br />

desse cristal, o que eu acredito que eles já tenham conseguido... o sonho pode se tornar<br />

real, para este plano.<br />

– O que há de tão especial nesse cristal?<br />

– É um cristal comum, mas com a sabedoria de minha família, desenvolvemos<br />

habilidades para transformá-lo num poderoso catalisador de nossa magia. Portanto,<br />

com ele e vários outros elementos naturais, muito bem encaixados, aliados ao poder<br />

de nossas mentes, podíamos até mesmo fazer viagens no tempo.<br />

– Meu Deus... – Schaia III estava começando a entender o potencial que tinha<br />

nas mãos.<br />

Definitivamente, todo o poder do império não era sequer uma migalha se comparado<br />

ao poder da natureza e daquele povo que habitava o famigerado Planeta Azul...<br />

Tão famigerado que criou o maior problema do império de todos os tempos e que<br />

agora, segundo esse ser fantástico ali na sua frente, iria dar início ao salvamento do<br />

universo. Materializar um sonho que se apodera de todo o universo... Como poderia?


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mas Schaia III não teve mais tempo de pensar. O ruído frenético de alerta que<br />

a nave emitia era ensurdecedor. Eles estavam sendo atacados.<br />

Schaia berrava nos microfones, tentando fazer contato, enquanto fugia dos<br />

tiros que choviam em direção a sua espaçonave. Se ele não tivesse tido tempo de aplicar<br />

o escudo de plasma de contato, certamente já estariam mortos. Mas os cruzadores<br />

do império poderiam aniquilar a nave de Schaia logo, logo, pois o escudo poderia ser<br />

manipulado.<br />

– Mas o que vocês estão fazendo? Quem está no comando? Esta nave é de<br />

Schaia III, o imperador...!<br />

Mas logo veio a resposta.<br />

– Sua nave não está em nossa memória... Identifique-se.<br />

– Sou Schaia III, imperador do universo!<br />

– Schaia III está morto, esta nave não está registrada no arquivo central... Você<br />

só tem mais uma chance: estamos com o parâmetro de seu escudo ativado...<br />

– Não, senhor! – falou Schaia para si mesmo.<br />

Ele conhecia sua nave como a palma da mão e mudou os parâmetros do escudo<br />

em segundos. Logo veio um tremendo estrondo. Eram as naves imperiais tentando<br />

acertá-los!<br />

– Mago de Prata!... Não suportaremos muito tempo!... Espero que você tenha<br />

uma magia para isso!...<br />

– Sim, há uma possibilidade! Como não tenho nenhum cristal, não terei o<br />

poder de transportar toda esta nave, mas tenho certeza de onde possa ter. Posso estar<br />

lá em um segundo, mas deveremos nos separar... Ao entrar no sonho de Ortal conseguirei,<br />

com a ajuda dos cristais do sonhar dele, transportar sua nave. Isto levará<br />

um segundo, mas não saberei onde sua nave irá entrar. Você deverá me procurar pelo<br />

sonho, estarei perto da Terra. Estarei num lugar que chamam de Templo de Cosmo,<br />

um templo muito grande.<br />

– Sim, eu conheço este lugar... Tenha sorte!<br />

E o Mago de Prata desapareceu.<br />

De dentro da nave do império, um guarda imperial traçou o código de abertura<br />

do escudo de Schaia III, uma potente arma foi disparada. Para espanto da tripulação<br />

o raio não atingiu a nave, mas, sim, o Planeta Gelo, que explodiu e logo entrou em<br />

colapso, sugando as naves do império que estavam à sua volta.<br />

Plan Ex<br />

Isso foi o bastante para que o general Arcrates chegasse à loucura. Ele tinha<br />

certeza que só poderiam ter sido os Extuárticos que explodiram as naves do império,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

e ainda o Planeta Gelo inteiro.<br />

– Propriedade do império!!! Eles vão pagar por isso! Chamem a Confederação<br />

dos Planetas! Devemos começar a atacar os malditos Extuárticos imediatamente! Já<br />

temos energia estocada suficiente para mais de cem anos! Que aqueles malditos do<br />

Planeta Carmel descubram alguma fórmula para um novo tipo de energia! E que todos<br />

vão à...<br />

Cosmo<br />

A nave de Schaia III rasgou o céu de Cosmo, o sonho de Ortal, com um assombroso<br />

estrondo. Havia centenas de fileiras de pessoas se deslocando num leve<br />

caminhar por toda a parte daquelas terras planas. Milhares de pessoas caminhando<br />

para um único ponto, agora ainda invisível, devido à enorme distância que separava<br />

cada fileira.<br />

Schaia III parecia estar tendo um espasmo, não só pela passagem entre os<br />

mundos, mas por estar consciente naquele mundo de sonho. Naquele mundo onde o<br />

universo era o mesmo que o seu, mas completamente diferente. Ele podia ver os Planetas,<br />

as estrelas, como se estivesse dentro de uma maquete do próprio universo. Ali<br />

o espaço era diferenciado, ali, no sonho de Ortal, tudo era insignificante... Apenas o<br />

próprio sonho era enorme. Schaia III tentou ativar todo o maquinário de sua nave para<br />

saber em que quadrante do universo se encontrava, mas nada funcionava. Todas as<br />

máquinas estavam operando loucamente, a nave estava completamente em suas mãos.<br />

Schaia III sabia que todas aquelas pessoas se dirigiam apenas para um único<br />

local, para onde o Mago de Prata deveria estar.<br />

– Não só o espaço, mas o tempo também está em colapso neste lugar – dizia<br />

Schaia III a si próprio.<br />

Colocou então sua nave em uma enorme velocidade e rompeu os céus de Cosmo,<br />

para espanto de todos, em direção ao templo.<br />

– Sim, devo alcançar o Mago de Prata o quanto antes. Schaia III visualizava<br />

ainda aquele ser que tanto o cativara e colocara seu universo naquela situação. – Não<br />

devo deixar que minha emoção tome conta de mim novamente – porém, a sensação<br />

de estar longe dele, e mesmo sabendo que iria encontrá-lo logo, o deixava em pânico.<br />

– Que espécie de domínio este ser exerce sobre os outros? É com todos ou apenas<br />

comigo?<br />

Schaia III descobriu-se num grande vazio, um vazio causado pela falta do<br />

Mago; não que sua presença pudesse trazer algo de útil, não, definitivamente não era<br />

algo carnal, mas algo um pouco mais profundo, mais egoísta, sim, era isso! Não era<br />

o fato de ter uma paixão carnal ou até mesmo espiritual, mas era o fato de o Mago de


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Prata existir que incomodava Schaia III. Incomodava mas ao mesmo tempo fazia sua<br />

vida melhor. Talvez como as doses de Martrere, que iam causando dependência cada<br />

vez que se aplicava mais ao corpo, sim, era quase isso! Mas havia mais. Schaia III<br />

experimentou algo ainda mais complexo... Ele invejava o Mago de Prata! Era um ser<br />

superior, não só em sua beleza... principalmente em sua beleza... mas todo o complexo<br />

de seu corpo e mente o tornava um ser superior...<br />

– Superior a mim! Isso é um absurdo!... Não posso concordar com isso! Eu<br />

descendo de uma linhagem que governou o universo durante séculos!<br />

Mas Schaia III ia logo concordando com a ideia. Ficou calado, considerando<br />

em sua consciência, algo o incomodava mais que tudo. “E se eu não encontrá-lo de<br />

novo...?”<br />

Ajustou os propulsores da nave, colocou em velocidade total. Aquilo era uma<br />

loucura, e loucuras eram o que ele mais havia feito. Uma a mais, uma a menos não<br />

seria relevante. Voava pelas planícies do sonhar evitando olhar para baixo.<br />

– Essa “porra” nunca termina!<br />

Sim, o sonhar fora longe demais! A nave poderia ter passado por mais de cem<br />

vezes o tamanho de Plan Ex inteiro e nada do templo de Cosmo. Porém, algo em sua<br />

frente, logo à esquerda, chamou sua atenção. Um imenso buraco no chão do sonhar ia<br />

se abrindo e logo um pequeno Planeta atravessava com uma velocidade avassaladora.<br />

– Então é isso, este universo coexiste com o nosso!<br />

Mas o Planeta que ele tinha visto não era um Planeta, apenas um pequeno<br />

satélite artificial. E logo um buraco mais enorme ainda fora aberto bem à sua frente.<br />

Schaia III não teve tempo de desviar do Planeta que surgira.<br />

– Meu deus, eu vou bater em um Planeta!<br />

A nave de Schaia III se aproximou do Planeta a uma velocidade abissal, mas ao<br />

colidir, não colidiu. Sim, a nave de Schaia III, com ele mesmo dentro, desapareceu...<br />

e... reapareceu do outro lado do Planeta! Agora Schaia III sabia.<br />

– Eu faço parte deste sonho! Para meu universo eu não existo mais. Sou matéria<br />

neste sonho!<br />

Mas ele não compreendeu apenas isso. Compreendeu que as dimensões do<br />

sonho eram diferentes do seu mundo real. Os Planetas eram menores, o próprio universo<br />

era menor.<br />

– Sim, é por isso que estas terras se aprofundam no universo tão rapidamente.<br />

Deus, eu tenho que deter isto com ou sem ajuda do Mago... Nossa civilização está<br />

comprometida.<br />

Foi com este pensamento que Schaia III visualizou o Templo de Cosmo, num<br />

horizonte negro, e mais atrás o tão temido Planeta Azul. Num espasmo, Schaia III<br />

disse:<br />

– Se esta loucura acontecer realmente... se este sonho se tornar matéria no meu<br />

mundo... a Terra se tornará o centro do universo!<br />

Mas logo veio em sua mente como um tufão a voz do Mago de Prata:<br />

– Acontecendo isso ou não, a Terra se tornará o centro do universo.<br />

Schaia III diminuiu a velocidade da nave, pois pelo tamanho do Templo ele<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

pensara que estava bem perto. Mas não estava. Demorou muito para chegar. Conseguiu<br />

visualizar então, lá embaixo, centenas de milhares de pessoas ao redor do templo.<br />

Pareciam formigas. Deu a volta ao redor do enorme templo.<br />

– Deus! Isto não termina nunca!.<br />

O Templo de Cosmo parecia infinito. Schaia III percebeu que na parte onde estava<br />

agora, que seria não a parte de trás do templo mas a parte de trás do caminho por<br />

onde tinha vindo, e, por sinal, exatamente entre o templo e o Planeta Azul, o número<br />

de pessoas parecia diminuir. Como se elas soubessem que o que estava para acontecer<br />

estivesse exatamente do outro lado.<br />

Resolveu então verificar aquele mundo mais de perto. Pousou com extrema<br />

facilidade sua nave no que parecia ser uma praia. Havia um grupo de jovens sentados<br />

em pedras, à beira de um mar escuro. Schaia III saiu de sua nave. Ninguém parecia ter<br />

notado sua chegada, pois o céu era escuro, tornando sua nave quase invisível. Caminhou<br />

para perto do grupo, eles cantarolavam e brincavam na areia, eram jovens com<br />

cabelos compridos. Quando Schaia III chegou todos o cumprimentaram com muita<br />

simpatia. Sentou-se e observou-os. “Deus...” pensou ele, “como estas pessoas são<br />

lindas!” De fato, todos ali pareciam ser irmãos próximos do próprio Mago de Prata.<br />

Mais que isso, Ortal criara as pessoas daquele mundo à imagem e semelhança de seu<br />

“deus”.<br />

Schaia III ficou ali parado, melancólico, apenas apreciando aquelas pessoas se<br />

movimentando e cantando alegremente. Não se deu conta de quanto tempo passara<br />

ali, talvez horas, talvez dias, não tinha mais a noção do tempo-padrão do império. Um<br />

estrondo muito forte o tirou de seu devaneio, assustando não só a ele, mas a todos<br />

que estavam no local. Notou que não só eles notaram o estrondo, mas houve gritos<br />

por todo o Cosmo. Um pânico coletivo se apossara de toda a gente. Olhou perplexo<br />

para os céus de Cosmo e, com muita desolação, viu não uma nem duas, mas centenas,<br />

talvez milhares de fragatas trans galácticas. Ele sabia, mais do que ninguém, do que se<br />

tratava. Eram suas fragatas. As armas mais mortais do império estavam ali, cercando<br />

o Templo de Cosmo.<br />

– Mas como descobriram! – gritou Schaia III para os céus.<br />

Mas seu brado foi em vão... As pessoas ao seu redor formaram um imenso caos<br />

de gritos e correria. Ele não teria muito tempo. Saiu correndo para sua nave.<br />

– Agora esta merda vai ter que funcionar direito! – disse ele para os controles<br />

da nave. – Estado de alerta geral, propulsores dinâmicos em operação, controle manual<br />

total, desvio de radar geral, sistema de invisibilidade total, ignição parcial.... ignição<br />

total!<br />

A nave saiu dali a plena velocidade, enganando não só os habitantes do sonho<br />

mas também as fragatas. Schaia III foi em direção ao templo, em velocidade assombrosa.<br />

– Vamos, Mago de Prata... Dê algum sinal! Preciso tirar você daí!<br />

Schaia III contornou o templo e viu finalmente em uma das imensas janelas,<br />

agora abertas, a figura de deus, do deus daquele mundo. Viu que aquele deus tinha<br />

uma expressão de horror, mas só conseguiu receber uma mensagem: “o Planeta Azul,


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

a chave de tudo está lá”, e sumiu.<br />

Schaia III impulsionou sua nave para cima e para o lado. Tomou a direção do<br />

Planeta Azul e viu através dos monitores traseiros a enorme explosão. Tomou todo o<br />

ar que pode e, num espasmo, gritou:<br />

– Malditos!!!!!<br />

Agora chorando, esmurrava os controles da nave. Veio a lembrança das crianças<br />

na praia brincando e cantando, e começou a soluçar num choro quase interminável.<br />

Viu então todo o chão do Cosmo, do sonho de Ortal, desaparecer numa nuvem de<br />

fogo. Estava acabado. Schaia III sabia que era para acabar, mas não desta forma. Não,<br />

não desta forma...<br />

E assim voltou ao tão temido Planeta Azul pela segunda vez. Já não tinha mais<br />

esperanças de nada, apenas queria voltar para lá e ver sua vida passar. Já não suportava<br />

mais nem um tipo de guerra nem traição. Aquele não podia ser seu império. Não<br />

foi assim que durante centenas de gerações o universo foi controlado. Não com aquela<br />

forma de violência.<br />

Interlúdio<br />

O Magnânimo e absoluto General Arcrates transmite agora para todo o Império<br />

a seguinte mensagem.<br />

“Agentes da Côrte, Frota Imperial, Corporação dos Planetas, Casas Maiores,<br />

Casas Menores, súditos do império. Há dois dias, três fragatas estelares foram bombardeadas,<br />

assim como um Planeta inteiro: o Planeta Gelo. A princípio pensamos que<br />

havia sido obra dos Extuárticos, mas estávamos enganados. Quando analisamos a<br />

situação, resolvemos combater imediatamente o espaço interno, fazendo da Casa Extuártica<br />

um monte de cinzas. Contudo, um dirigente do Planeta Carmel, acompanhado<br />

pelo próprio Extuártico-Mor, pediu uma audiência anunciando uma pequena Carmelhita.<br />

Sabemos muito bem da importância disso.”<br />

“Mandei que a frota esperasse em alerta geral uma posição da Carmelhita. O<br />

fato é que tanto Carmel como os Extuárticos provaram-me incontestavelmente que o<br />

ataque ao Planeta Gelo e às três fragatas não foram feitos pelos Extuárticos, e sim por,<br />

algo que vem assolando nosso império há milênios. E que provavelmente foi isso que<br />

matou nosso querido imperador Schaia III. Trata-se de uma nova arma que vem sendo<br />

desenvolvida em outro plano material, algo nunca antes visto, mas que, com a ajuda<br />

dos controladores de Carmel e dos próprios Extuárticos, descobrimos a tempo. Devo<br />

pedir as mais sinceras escusas ao espaço interior e dizer que vamos atacar imediatamente<br />

esta aberração.”<br />

“Tomaremos a forma material deles e atacaremos de surpresa. Não sobrará<br />

sonho sobre sonho!”<br />

“Saudações imperiais.”<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Terra, o Planeta Verde<br />

Schaia III ainda tentava controlar suas lágrimas quando descobriu estar cercado.<br />

Eram milhões, não bilhões de micropartículas que viajavam tão rápido quanto<br />

ele. Schaia III escaneou uma delas e mandou a nave analisar. Sim, era possível! Os<br />

cristais que tinham se alastrado por todo Cosmo estavam agora viajando com ele em<br />

direção ao Planeta Azul! Fruto, é claro, da explosão do próprio Cosmo. Schaia III<br />

começou a rir.<br />

– Sim! É possível que haja uma saída!<br />

E havia! Devido ao impulso da explosão de Cosmo, a nave de Schaia III entrou<br />

na atmosfera do Planeta Azul com uma velocidade espantosa. Ele havia notado que,<br />

à medida que penetrava na atmosfera, as pequenas partículas verdes diminuíam em<br />

número. Schaia III conseguiu controlar a nave facilmente, fazendo um vôo rasante<br />

por sobre um enorme oceano. Mas quase perdeu o controle de si mesmo quando se<br />

aproximou da costa.<br />

– Não é possível! – gritou ele, com um enorme sorriso nos lábios. – Esse<br />

Mago, esse Mago de Prata... só pode ser um anjo! Mandado diretamente por Deus<br />

Todo Poderoso! – e de fato era.<br />

A imensa construção do Templo de Cosmo, o Templo de Ohr, estava ali, enterrada<br />

pela metade no meio de uma gigantesca montanha, e na praia...<br />

– Sim!... na praia!... Toda a gente de Cosmo!<br />

Era óbvio que no sonho de Ortal existiam muito mais pessoas, mas uma grande<br />

parcela do povo estava ali.<br />

– O Mago de Prata conseguiu salvar pelo menos uma parte do povo... E se não<br />

bastasse, o templo, o enorme templo!<br />

Schaia III sobrevoou toda aquela gente que olhava admirada sua nave. Todos<br />

estavam espantados, não só com a nave, mas possivelmente, com a beleza do local.<br />

Afinal, tudo ali era muito diferente de Cosmo. Ele sobrevoou várias vezes o local.<br />

Havia uma movimentação muito estranha lá embaixo. Deixou sua nave em estado<br />

estacionário logo acima da estranha movimentação das pessoas. Começou então a entender<br />

do que se tratava. Eles estavam se dividindo. Tribos estavam sendo formadas,<br />

e uma intensa peregrinação começara. Calmamente, as tribos estavam se deslocando,<br />

cada uma com seu líder devidamente vestido de prata, como era esperado. Levou<br />

horas e horas para que toda aquela gente se deslocasse, e ao entardecer, os últimos<br />

resquícios de civilização já haviam desaparecido.<br />

Schaia III sabia muito bem o que fazer. Em alguma daquelas tribos estava escondido<br />

o ser que ele procurava, e não foi difícil localizá-lo. Caminhava lentamente,<br />

acompanhado de alguns outros jovens. Ele se fizera incógnito perante os outros, o que<br />

era uma medida espantosamente esperta, afinal, as doze tribos separadas fizeram a<br />

diáspora aleatoriamente. E obviamente, se soubessem que o Mago de Prata estava em<br />

alguma delas haveria no mínimo uma calamidade.<br />

Foi bem ao norte, quando a tribo já havia caminhado pelo menos três dias, que


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Schaia III notou uma certa anomalia no caminhar.<br />

– Eu sabia que isto iria acontecer.<br />

E era verdade. Para o espanto de todos, uma pequena criança tomou a liderança<br />

da fila. Subiu em uma pedra e fez toda a gente parar. Logo o Mago que liderava até<br />

então a tribo, falou:<br />

– Por tudo o que é mais sagrado! Pelo amor dos céus e das estrelas, sem falar<br />

nos cristais!... O que queres, criança, atrasando-nos em nossa jornada?<br />

– Para onde vais, grande Mago? Qual é o final de tua jornada? – perguntou o<br />

pequeno Mago de Prata.<br />

– Vamos encontrar nosso destino, não foi assim estipulado? Ou estavas a brincar<br />

com os garotos de sua idade quando os céus nos falaram para que cada uma das<br />

doze tribos buscasse um lugar seguro para viver, amar e procriar?<br />

– Não, não estava a brincar com os da minha idade, mesmo porque, ninguém<br />

aqui tem minha idade. Nem mesmo tu tens minha idade. Talvez nem mesmo esta rocha<br />

e estas plantas tenham minha idade.<br />

Todos estavam pasmos, mas o Mago de Prata continuou.<br />

– Por certo que escutei o que os céus disseram, pois eu fui a voz que surgiu<br />

dos céus.<br />

Ao dizer isso, o Mago de Prata tirou as pesadas vestes que lhe escondiam o<br />

corpo. Imediatamente todos os presentes se ajoelharam, tampando os rostos com as<br />

mãos. Então, o Mago que liderava a caravana falou:<br />

– Pelo amor dos cristais, ó poderoso Mago de Prata! Todos estávamos a chorar<br />

seu desaparecimento de Cosmo, pensávamos que tinha sucumbido, assim como as<br />

Terras de Ortal sucumbiram. Perdoe-nos e não jogue a ira de sua beleza aos nossos<br />

olhos.<br />

– Que todos se levantem! Minha magia está mais forte do que nunca! Tenho<br />

em minhas mãos o poder do Mago Maior e de toda minha tribo. Vim para ajudá-los,<br />

pois foi por minha causa que surgiram. Se Ortal foi seu criador, eu fui criador de Ortal.<br />

Portanto, seu povo é minha responsabilidade; minha beleza é só bondade e não ira.<br />

Todos se levantaram um tanto temerosos, mas logo risonhos.<br />

– Abençoarei esta tribo com minha presença e meus ensinamentos, porém logo<br />

os céus mudarão e não necessitarão mais de mim. Vou levá-los ao meu território.<br />

Vocês substituirão a minha tribo há muito exterminada e terão o mesmo dever que<br />

tivemos no passado, ajudar as outras tribos a continuar com a vida na terra.<br />

Todos ficaram muito felizes com aquelas palavras e o Mago de Prata liderou<br />

a peregrinação para o lugar onde uma vez, há mais de dez mil anos-padrão, havia<br />

existido a aldeia prateada.<br />

Schaia III acompanhava tudo isso de sua nave, que já não era mais causa de<br />

espanto para eles. Era como se aquela nave fosse parte do local.<br />

Por mais de dez dias andaram e andaram por entre as florestas do Planeta Azul.<br />

Não notaram porém, que a cada dia o céu se transformava. Aquele azul-claro de antes<br />

começava a se transformar em azul-esverdeado. Schaia III notara, não acreditava, mas<br />

notara. Os equipamentos da nave diziam que uma camada de cristal se apossara da<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

atmosfera, que estava se transformando numa espécie de plasma, como uma enorme<br />

nuvem de cristais que encapava todo o Planeta.<br />

– Que consequências terá isso para este Planeta? – perguntava-se.<br />

Toda a tribo chegara finalmente a uma enorme cordilheira. Então o Mago de<br />

Prata disse:<br />

– Esta será nossa última noite fora de casa. Amanhã bem cedo estaremos<br />

habitando o lado de dentro destas montanhas. Esta noite, porém, receberemos pela<br />

primeira vez as novas águas que cairão dos céus e finalmente vocês sentirão as águas<br />

dos cristais. E aprenderão com elas sobre a minha magia. Infelizmente as outras tribos<br />

sentirão as mesmas águas, mas não saberão lidar com este poder. Portanto, que todos<br />

se banhem nela; bebam as águas da magia! Provinda das nuvens de cristais que estão<br />

a se formar nos céus de minha casa, de nossa casa. Esta nuvem, este plasma transparente<br />

feito de magia, se formará aos poucos, mas sua água cairá como qualquer chuva<br />

e com ela virá para vocês toda a sabedoria de meu antigo povo.<br />

Todos os olhares estavam fascinados com a beleza das palavras do Mago de<br />

Prata. Como um ser daquele tamanho poderia emanar tanta energia, tanto fascínio?<br />

Mas como era de praxe, ele ignorou aqueles olhares e continuou a falar, agora como se<br />

só tivesse um espectador, Schaia III. E olhando para onde estava a nave, disse:<br />

– Hoje teremos uma visita muito especial, uma visita que nos tem acompanhado<br />

durante esta nossa jornada por algum tempo. Ele se unirá a nós e verá o ressurgimento<br />

de uma civilização neste Planeta. Uma nova civilização, que sempre se banhará<br />

nas virtudes do passado, uma civilização que terá uma tremenda energia, a maior já<br />

vista pelo ser humano.<br />

Todo o povo olhava indignado para o Mago de Prata. Eles sabiam que de sua<br />

boca saía apenas e somente sabedoria, mas não entendiam o que ele falava. Em compensação,<br />

Schaia III estava atento.<br />

– Uma energia capaz de mover montanhas e mares. Porém, esta energia ficará<br />

intocada, será apenas nossa, de nosso povo, que na verdade nem necessita dela, pois<br />

este Planeta é o bastante para nós. Mas será nosso trunfo para um futuro incerto.<br />

As águas da magia, que cairão para sempre em nosso Planeta, contêm um elemento<br />

gerado no sonho de Ortal e que se modificou durante os milênios. Talvez essa água<br />

seja a substância mais forte do universo, pois ela provém de um desejo não satisfeito,<br />

potencializado durante todos os milênios que o sonho de Ortal pairou pelo espaço.<br />

E agora está aqui. Os cristais que foram explodidos no sonho estão aqui, sob outra<br />

forma. Venha, Schaia III, sinta as gotas da substância que algum dia todos os povos<br />

sonharão em ter!<br />

Schaia III saiu da nave, muito assustado. O Mago de Prata não era a criança<br />

que aparentava, mas, mesmo assim, o imperador estava demasiado curioso. Assim<br />

que tocou o solo do Planeta Azul, sentiu um pingo de chuva tocar nele, e então mais<br />

outro e mais outro, e assim, uma tempestade morna caiu sobre todo o povo. A chuva<br />

começou então a se modificar. O Mago de Prata se postara em cima de uma pedra e<br />

abriu os braços, como que para sentir melhor aquela bênção divina.<br />

Schaia III por sua vez estava parado, assim como o povo, sem sentir diferença


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

alguma nas águas que caíam. Mas algo estava realmente acontecendo. A chuva se<br />

modificara, as águas não eram mais transparentes mas luminosas, uma luminosidade<br />

esverdeada, simplesmente linda, com um sabor maravilhoso. Schaia III sentiu o gosto<br />

da sabedoria entrando por sua garganta, o gosto da magia. Agora ele ria! Seu corpo<br />

estava tomado por um delírio fascinante. Ele estava em contato com seu verdadeiro<br />

“eu”, estava lá dentro de seu interior. Começou a sentir suas células pulsando, a vida<br />

dentro de seu corpo! Sim, aquilo era mais que qualquer droga jamais experimentada<br />

no império. Aquilo era a fonte de tudo! Mais que isso... Schaia III simplesmente não<br />

conseguia explicar.<br />

– Ei, espere! É claro que consigo! Estou vivenciando meu eu, meu próprio eu,<br />

sem a interferência do mundo. É como se eu não tivesse nascido e vivido num mundo<br />

como este. É como se eu não tivesse tido nenhuma experiência no meu passado, mas<br />

aqui estou eu! Vivendo este momento...<br />

Mas logo as águas da magia acabaram. Foram duas horas de chuva e todo o<br />

povo estava, assim como Schaia III, extasiado, sorrindo um para o outro. Então, o<br />

Mago de Prata falou:<br />

– Agora vocês já se conhecem, já sabem quem são. Mesmo que este mundo<br />

soe estranho a vocês, de alguma forma sabem quem são. E agora sabem também o<br />

poder desta água, que através de mim fluiu este conhecimento. Vocês saberão lidar<br />

com isto. Porém agora devem descansar. Amanhã entraremos onde um dia foi minha<br />

casa, a casa de meus pais e minha aldeia. E onde de certo modo nasceram, onde Ortal<br />

dormiu pela última vez e sonhou com vocês... Com aqueles que foram no sonho dele,<br />

seus antepassados.<br />

Schaia III apenas sentou-se na terra molhada, encostou a cabeça em algumas<br />

folhas e dormiu. Sim! Schaia III, imperador do universo, estava deitado na lama dormindo<br />

após um banho de chuva.<br />

Uma pequena menina sacudia-o delicadamente, e numa língua muito estranha<br />

disse que deveria levantar. Schaia III abriu lentamente os olhos e notou com grande<br />

fascínio a extrema beleza dos olhos da menina. Era quase uma moça, com seus belos<br />

quatorze anos-padrão.<br />

– Deus! Até seus despertadores têm que ser deuses...<br />

A menina o olhou admirada, sorriu e o ajudou a levantar.<br />

Schaia III percebeu que eles e mais alguns membros da tribo eram os últimos.<br />

Todo o resto já se pusera a andar pela trilha entre a mata. Schaia III tocou umas cinco<br />

ou seis vezes em seu pulso, desta forma ele ativara o controle-remoto da nave, que<br />

imediatamente levantou num grande estrondo e começou a segui-lo.<br />

A menina que estava a seu lado olhou-o espantada. Ele deu uma pequena risada<br />

e disse:<br />

– É uma velha amiga...<br />

Os dois foram juntos em silêncio, caminhando com os demais na enorme peregrinação.<br />

Schaia III não conseguiu calcular quantas pessoas haviam ali, pois todas<br />

estavam anteriormente espalhadas pela densa mata, mas agora estavam em uma fila<br />

só, que se perdia nas entranhas daquilo que poderia ser chamado de trilha.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Eles percorreram por muitas horas aquele caminho. Schaia III começou a ter<br />

fome, pois em meio ao tumulto da noite anterior, esquecera de pegar seus equipamentos<br />

de sobrevivência. Então sua fome foi esquecida e seu coração começou a bater<br />

mais rápido. Agora todos que estavam na fila se encaminhavam a uma gruta.<br />

– Sim, eu conheço esta gruta! Foi ali que Ortal conheceu o Mago de Prata.<br />

A gruta estava completamente iluminada. Havia muitas entradas laterais, assim<br />

como um labirinto, porém todo o povo sabia para onde ir, era por onde o caminho<br />

estava iluminado. Eles caminharam por muito tempo neste universo de cavernas. A<br />

menina pegara em sua mão e Schaia III sentiu algo passar por seu corpo. Uma sensação<br />

de prazer profundo, uma grande alegria de estar ali. Afinal, ele estava vendo uma<br />

civilização nascer, de uma forma inusitada, pode-se dizer, mas era um nascimento.<br />

O caminho os levara não à imensa sala de pedra em que Ortal tinha quase<br />

sucumbido ao encontrar o Mago de Prata, há mais de dez mil anos atrás, mas ao<br />

que parecia ser um imenso jardim. Eles caminharam em direção à luz que provinha<br />

daquele lugar e quando chegaram ao final, Schaia III sorriu, talvez como nunca havia<br />

sorrido antes. Águas brotaram de seus olhos. Ele olhou para a menina, que estava<br />

também quase a chorar.<br />

Tratava-se da aldeia do Mago de Prata. Mas parecia não haverem passado dez<br />

mil anos que aquele lugar fora abandonado, não, definitivamente não. Tudo parecia<br />

estar restaurado. E em meio a todas as casas de prata e cristais, em meio ao imenso<br />

lago bem no centro do espaço, em meio a todo o povo de Cosmo, estavam as pequenas<br />

beldades! As pequenas fadas e elfos da floresta! Sim, era aquele pequeno povo que um<br />

dia Schaia III vira e roubara o Mago de Prata deles, era uma cena fantástica. No meio<br />

de uma pequena praça, o povo das fadas havia feito uma enorme mesa com todos os<br />

tipos de frutos que havia no Planeta. Além disso, havia alimentos e bebidas, flores,<br />

copos e arranjos com ervas e cristais, era uma imensa festa de boas-vindas!<br />

Todos estavam reunidos e esperando que todo o povo chegasse à praça que<br />

rodeava o lago central. Então, num pôr-de-sol maravilhoso, o povo das fadas começou<br />

a cantar e oferecer as bolas com aquele embriagante líquido dentro.<br />

– Ai, meu Deus – disse Schaia III, e a menina ao seu lado o olhou.<br />

– Eu conheço esta bebida... – disse, mostrando a bola que chegara a suas mãos<br />

pelas mãos da fada que acabara de entregar a ele.<br />

– Bebida – repetiu a menina.<br />

– Sim... Você não está com sede?<br />

A menina fez que sim, mas Schaia III notou então que no mundo de Cosmo<br />

não havia bebida nem comida de verdade, sim, era um sonho! Como poderia haver?<br />

– Bem, você vai aprender rápido o que o seu corpo necessita para viver aqui.<br />

Ela fez que sim com a cabeça e olhou maravilhada de novo para o desenvolvimento<br />

das ações dos elfos e fadas.<br />

Só quando o céu estava quase escuro, o povo começou a circundar a mesa. O<br />

Mago de Prata estava bem no meio, em cima de uma pequena rocha que o fazia visível<br />

a todos. A mesa, assim como a praça, circundava o lago pela metade e todos assistiam<br />

ao povo das fadas tocando os instrumentos e cantando logo acima do lago, com o


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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

reflexo do sol se pondo. A imagem era de sonho!<br />

Schaia III estava tão comovido que nem notou que não largara a mão da menina.<br />

Ela parecia estar gostando, pois cada vez que algo novo aparecia dava um leve<br />

apertão na mão de Schaia III. Ele se divertia com isso e depois da décima olhada no<br />

rosto dela, não teve dúvidas, estava apaixonado.<br />

Então, todos os cristais se acenderam de uma só vez e a música parou. Houve<br />

gritos de alegria por toda a parte. O Mago de Prata fez um gesto com a cabeça e todas<br />

as fadas e elfos voaram em direção a todos na mesa. Quando estavam em cima do<br />

povo, despejaram um pó verde, com a mesma cor e brilho da chuva da noite anterior.<br />

Isto despertou fome em Schaia III, e, pelo jeito, não só nele, pois todo o povo<br />

começou a olhar para a mesa com muita avidez. Assim, aquele povo compreendeu<br />

pela primeira vez o que é uma das melhores sensações que podemos ter, saciar o<br />

desejo da fome.<br />

Depois que comeram como nunca e beberam daquele “vinho” de frutas, todo o<br />

povo começou a se dispersar, cada grupo com uma fada ou elfo. Schaia III acompanhou<br />

a menina naquela pequena jornada. O elfo explicava o que era cada prédio e casa<br />

da aldeia e como os novos donos deveriam cuidar daquilo tudo.<br />

Por fim, como era para acontecer, Schaia III e a menina ficaram a sós, na beira<br />

do lago, ouvindo um canto de elfo aqui e acolá e conversando sobre tudo o que passaram.<br />

Schaia III ficou pasmo com as loucas histórias da menina e como seus pais<br />

tiveram que morrer para que o sonho de Ortal continuasse, e como ela teve que dormir<br />

orando, para que um dia o Mago de Prata aparecesse. Apesar de tudo, ela não poderia<br />

estar mais feliz, pois aquilo sim era um sonho.<br />

Schaia III não quis falar sobre sua vida, porque achava que era muito para a<br />

cabeça dela. Mas, ficou sabendo algo muito importante para ele naquele momento,<br />

seu nome era Nashat. Sim, era um nome lindo. E dormiram abraçados em meio à<br />

suave melodia do povo das fadas. Schaia III sonhou com seu império, com sua casa.<br />

O Império<br />

Após todo o estardalhaço alcançado pelas forças da frota imperial, o império<br />

nunca esteve tão agitado. Havia festas por toda a parte e Planetas comemorando a<br />

derrota do adversário invisível. Mesmo a dinastia de Schaia III já não era mais interrogada,<br />

não existiam parentes próximos o bastante para questionar o trono. Até<br />

mesmo Carmel, o Planeta que viu Schaia III crescer, já se tinha tornado a favor do<br />

general Arcrates. Além disso, o império já estava tão dissolvido politicamente pelas<br />

terríveis maquinações de Schaia II que nem ligavam mais para a força do império,<br />

visto que parecia não haver mais inimigos para tal força. E quando finalmente apareceu<br />

uma, o General Arcrates dissipou-a “tão heroicamente” que todo o império se<br />

tornou uma vez mais voltado a adorar este “simpático ditador” e até mesmo esquecer<br />

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a grande dinastia.<br />

O General Arcrates, por sua vez estava nas nuvens. Tinha refeito o acordo<br />

com os Extuárticos, que agora forneciam toda a energia de que o império necessitava,<br />

porém com uma condição: que o império se expandisse, utilizando-se da força<br />

gerada pelos terríveis Extuárticos. Que o império dilatasse suas fronteiras, pois os<br />

Extuárticos não queriam mais nenhum incidente desagradável como o que ocorrera.<br />

E a primeira operação militar, para total inquietação do General Arcrates, era destruir<br />

o quanto antes o Planeta Azul. Era óbvio que o General Arcrates não fazia ideia do<br />

porquê disso, mas também não tornou o assunto aterrador, afinal, com a demonstração<br />

de força que tivera nada o preocuparia, nem a ele nem ao império. Melhor que isso!<br />

Se o Planeta Azul fosse destruído, não iria sobrar mais nenhum tipo de estigma contra<br />

o império. Sim! Toda aquela bobagem de que o Planeta Azul fora um Planeta amaldiçoado<br />

e protegido por forças sinistras e invisíveis iria acabar em poeira cósmica.<br />

O General Arcrates ordenou que fosse construída uma nova série de armamentos,<br />

uma frota especial só para este Planeta. Seria o maior espetáculo que o império já<br />

tivera ocasião de presenciar! Então, as naves começaram a ser construídas.<br />

O Planeta Verde<br />

Nashat estava com uma barriga enorme. Quando o Mago de Prata entrou na<br />

pequena cabana de cristais de Schaia III, ele estava acariciando a barriga da menina.<br />

O Mago de Prata sorriu para ela e olhou para Schaia III.<br />

– Acredito que você tenha mudado de ideia com relação a voltar para seu império,<br />

não é, Schaia III?<br />

Schaia III olhou para baixo com um olhar quase triste e disse:<br />

– Ainda sinto saudades daquilo que me pertence. Apesar de desfrutar uma vida<br />

que nenhum imperador jamais sonhara, me preocupo com o império e com o que<br />

possa estar ocorrendo com ele.<br />

– Creio que com as doses da água da magia que temos tomado nos últimos<br />

meses você tenha condições de captar as vibrações de seu antigo lar...<br />

– Sim, acredito plenamente que tenho, porém ainda não o fiz, e nem desejo<br />

fazê-lo tão cedo.<br />

– É, este lugar é realmente mágico – disse o Mago de Prata, um tanto irônico.<br />

– O que quer dizer?<br />

– Posso convidá-lo para um passeio? Preciso lhe mostrar um lugar muito belo,<br />

e faz muito tempo que não vou até lá.<br />

– Ficará bem aqui, Nashat?<br />

– Sim – respondeu a menina. – Hoje teremos uma reunião, na câmara central.<br />

Precisamos trocar receitas!<br />

Os três riram e o Mago de Prata saiu acompanhado por Schaia III.<br />

Foi uma cavalgada silenciosa, em meio ao entardecer. Os dois atingiram o topo<br />

de uma colina, já bastante distante da aldeia. O que parecia era que os dois estavam


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

muito dispersos, apenas desfrutando da energia do local. Foi numa repentina abertura<br />

da mata que Schaia III se deparou com um pequeno lago que refletia a imensa lua.<br />

Ele fez menção de rir, mas notou que o Mago de Prata estava um tanto sério, muito<br />

diferente dos últimos tempos, desde que o imperador estava vivendo ali.<br />

– Acredito – disse o Mago de Prata, descendo de seu cavalo – que você saiba<br />

que fui feito para não amar... desde Ortal... nesta minha nova vida. Porém tenho uma<br />

grande afeição por você. Talvez você não saiba, mas graças a você e à minha magia,<br />

consegui salvar estas pessoas e esta cultura. Schaia III se aproximou do Mago de<br />

Prata, um pouco sério. – Acho que você deveria tentar visualizar seu povo, mesmo<br />

sendo contra sua vontade.<br />

O Mago de Prata tinha o poder de hipnotizar quem quer que fosse, porém ele<br />

estava usando apenas parte da magia em Schaia III naquele momento.<br />

– Será que notei algo de incomum em você, pequeno Mago?<br />

– Sim, sei que estou usando um certo poder em você neste momento, mas isto<br />

é muito importante.<br />

– Eu confio muito em você, acredite. Não precisa tentar me persuadir dessa<br />

forma. Meu coração jamais ficará dividido entre você e Nashat... Cada um tem ao seu<br />

modo um lugar especial.<br />

– Sei disso, mas quero lhe dizer que minhas palavras são verdadeiras quando<br />

digo que sinto uma certa afeição por você. Talvez mais do que possa imaginar.<br />

Schaia III deu as costas, não suportando olhar para tal beleza. Sentou-se em<br />

uma rocha. O Mago de Prata sentou-se ao seu lado e retirou uma cristal oco, encheuo<br />

de erva e acendeu-o calmamente. Schaia III fazia uma certa ideia do que aquilo<br />

significava.<br />

– Não temos muito tempo, meu amigo. Vamos, trague e lance um pequeno<br />

olhar dentro daquilo que não quer ver.<br />

Schaia III baforou o cristal avidamente. Imediatamente sua consciência se dispersou.<br />

Uma ousada viagem espacial tomou conta de seu corpo. Quando acordou, estava<br />

suado, o sol estava para se levantar e o Mago de Prata o estava segurando, como<br />

um bebê. Ele olhou dentro dos olhos do Mago e disse:<br />

– Vejo um mundo preto e um verde. São duas linhas iniciais, mas que interferem<br />

em muitas outras. Visualizei muitos futuros, mas que começam nestas duas<br />

linhas. Precisamos voltar para a aldeia.<br />

– Sim – disse o Mago de Prata, ainda segurando Schaia III fortemente em seus<br />

braços.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Plan Ex<br />

O que se passou no império foi algo estarrecedor, nunca se gastou tanto dinheiro<br />

público para algo tão supérfluo. O general Arcrates e sua equipe militar, por<br />

sinal agora com uma vida muito mais confortável, resolveram fabricar uma questão<br />

quase divina no problema do Planeta Azul. Eles resolveram, devido ao entusiasmo da<br />

população, investir pesado em toda a campanha. O que era para ser um aparato militar<br />

virou um espetáculo.<br />

Foram montadas nada menos que cinquenta naves de combate que poderiam<br />

ser naves de passeio ao mesmo tempo! Foram vendidas cotas de turismo para a população<br />

endinheirada do império para que eles pudessem assistir ao vivo à destruição do<br />

Planeta Azul. Além disso, a viagem prometia todo o conforto que qualquer cruzador<br />

hiperestelar poderia ter.<br />

A festança seria transmitida ao vivo para todo o império. Os veículos de informação<br />

de imagem estavam livres para transmitirem o que quer que se passasse desde<br />

a saída das naves até a destruição propriamente dita. Desde que, é claro, depositassem<br />

uma soma absurda nos bolsos de Plan Ex. Mas isto não importava. Havia todo o tipo<br />

de patrocinadores para o evento, desde fabricantes de provedores transespaciais até a<br />

famosa Fran-Glans, bebida consumida entre os mais poderosos do império.<br />

Além disso, a destruição do tão temido Planeta Azul tinha mais um pilar, o<br />

de destruir uma fraqueza que o império tinha até Schaia III. Portanto, para o General<br />

Arcrates isto era o renascer de uma nova era, a era em que seu golpe tornara o império<br />

uma ditadura militar irrevogável. Mas se o povo estava contente; o que importava?<br />

O Planeta Verde<br />

A primeira coisa que Schaia III e o Mago de Prata fizeram quando retornaram<br />

à aldeia foi avisar Nashat que Schaia III iria ficar na câmara de cristais por algum<br />

tempo. Naturalmente ela não entendeu o porquê disso, porém, quando Schaia III disse<br />

que o Mago de Prata iria tomar conta dela e do bebê que iria nascer, ela ficou mais<br />

contente.<br />

Schaia III ficou muito tempo na câmara de cristais. Seu corpo era hidratado<br />

com a água da magia e ele tinha apenas uma pequena ligação com o mundo exterior,<br />

uma ligação de emergência com o império. Ele já sabia, por meio da magia, o que<br />

o General Arcrates e sua estirpe estavam preparando, portanto ele mesmo resolvera<br />

solidificar seus poderes. Com a água da magia ele já havia captado muito do conhecimento<br />

do povo prateado, porém, dentro da câmara de cristais isso era potencializado.<br />

Logo que deitou na mesma cama que deitara Ortal há milênios atrás, ele sentira


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

um calafrio, mas imediatamente os cristais começaram a agir, e sob o comando do<br />

Mago de Prata, Schaia III adormeceu num sono profundo, um sono que iria elevá-lo<br />

à categoria de verdadeiro mago.<br />

Ao mesmo tempo que Schaia III estava no seu isolamento, Nashat teve os<br />

gêmeos. Eram os primeiros bebês que nasceram desde que o povo de Cosmo se tinha<br />

“mudado” para aquele mundo. E como Nashat tinha tomado a água da magia durante<br />

a gestação, os bebês nasceram com a sabedoria dos magos. Era um lindo casal, com os<br />

olhos verdes da precoce mãe e os cabelos negros do imperador Schaia III.<br />

Quase um ano depois do nascimento dos bebês, Schaia III acordou sobressaltado.<br />

Era uma bela manhã ensolarada quando o Mago de Prata entrou na câmara<br />

dos cristais e viu, pela primeira vez, depois de mais de um ano, Schaia III sentado no<br />

mesmo lugar em que seu amigo Ortal morrera.<br />

– Seus olhos... Schaia... estão verdes!<br />

Sim, Schaia III estava diferente. Havia uma beleza peculiar nele que assustou<br />

até mesmo o próprio Mago de Prata.<br />

Schaia III não falou nada. Dele emanava uma energia absurda. O Mago de<br />

Prata deu um passo para trás.<br />

“Não tenha medo, querido amigo”, falou Schaia III em pensamento. Seu poder<br />

era inimaginável. “Temos que agir rápido, eles estão vindo.”<br />

E só então falou.<br />

– Como estão os gêmeos?<br />

O Mago de Prata estava realmente assustado.<br />

– Talvez com o mesmo poder que o seu, com um ano de idade eles já falam.<br />

Coisas estranhas para o povo, devo dizer. Mas todos estão felizes por tê-los aqui.<br />

– Sim, estive em contato com eles durante meu sono. Eles já sabem de tudo.<br />

Venha, vamos ver Nashat.<br />

Tanto Schaia III como o Mago de Prata saíram da câmara de cristal. Toda a<br />

tribo estava esperando na porta. Schaia III flutuava logo atrás do Mago, que falou<br />

para todos:<br />

– Assim como eu, Schaia III, imperador do universo, tenho o poder da magia.<br />

Um poder para poucos, mas que estará selado nas dinastias seguintes. Porém, agora<br />

temos algo importante a fazer. Devemos nos concentrar. A partir de hoje, durante um<br />

mês tomaremos apenas a água da magia, como combinado. Cada um que instruí durante<br />

o sono de Schaia III irá, a passos de pássaro, levar às outras tribos as providências<br />

que devem ser tomadas. Isso é uma questão de vida para nós e este Planeta. Nosso<br />

inimigo é forte, mas não tão forte quanto nossa magia. Que vão agora!<br />

Assim, uma pequena legião de crianças saiu da aldeia tão rápido que os olhos<br />

não poderiam acompanhar. Com eles iria a água da magia e alguns ensinamentos do<br />

Mago de Prata. O culto deveria começar. Todo o Planeta dependia disso, assim seria<br />

protegido do mal iminente.<br />

Só então Schaia III se juntou com os gêmeos Mordehai I e Shaan, com Nashat<br />

e com o Mago de Prata. Em alguns momentos eles estariam preparados. Que o império<br />

começasse a tremer.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Arcrates<br />

A festa de saída das naves foi muito mais do que o império estava esperando.<br />

Todas as emissoras de imagens do universo estavam lá. Todo o comando do império<br />

estava naquelas naves, uma legião dos Extuárticos, príncipes dos Planetas menores e<br />

maiores, toda classe social que pudesse pagar para ir, estava lá. Havia lançamentos<br />

de bebidas, de naves pequenas, de cigarros, todo tipo de material bélico, roupas, equipamentos<br />

de última geração. Tudo para acompanhar o que seria a maior batalha de<br />

todos os tempos.<br />

Todas as naves tinham o mesmo tamanho e todas eram dotadas do mesmo<br />

equipamento, tanto bélico como turístico. Seria um grande divertimento, não só para<br />

quem estava indo, como para quem iria ficar. Afinal, nada menos que cinco naves<br />

foram projetadas para a emissão de imagens, de todos os ângulos, ao vivo e em terceira<br />

dimensão, do maior evento já ocorrido no universo! Sim, isso era o que diziam<br />

os promotores da festa.<br />

O fato é que Plan Ex foi, uma vez mais, a estrela pulsante do império. Nunca<br />

tantas pessoas juntas assistiram a um evento ao mesmo tempo, mesmo os Planetas<br />

que estavam fora da fronteira do império voltaram suas precárias antenas para lá, e<br />

já havia pedido daqueles Planetas para a integração com a política imperial. Foi um<br />

plano de propaganda insuperável.<br />

Enfim as naves foram lançadas, fazendo todo o estrondo que poderia ser feito.<br />

As emissoras acompanhavam tudo na viagem, que por sinal foi lenta, para que os<br />

patrocinadores pudessem desperdiçar todo seu dinheiro durante a viagem. Tudo era<br />

transmitido. Todas as festas internas de cada nave, todas as fofocas, o que tal príncipe<br />

comeu, o que a filha de tal diplomata andara fazendo com um dos tripulantes, o que<br />

a mulher de um general estava vestindo no café da manhã, enfim, tudo aquilo que a<br />

estúpida sociedade tem que saber, sabe-se lá por quê.<br />

Quando as naves diminuíram suas velocidades de trans galácticas para sistema<br />

solar, ouviu-se uma sirene e um urro de alegria surgiu por todas as partes, tanto nas<br />

naves como nos Planetas do império. Era chegada a hora! As naves se enfileiraram<br />

ao redor do Planeta Azul. Houve um certo murmúrio por parte de todos. Eles ficaram<br />

horrorizados, pois o tão famoso Planeta Azul estava verde! Foi a primeira deixa para<br />

que o General Arcrates falasse.<br />

– A todos do Império, nós não erramos de endereço. O que ocorreu é que o<br />

Planeta Azul ficou verde de medo!<br />

Novamente um urro de risadas ouviu-se por todos os cantos do universo.<br />

– Senhores! Apesar de tudo, este é um procedimento militar. Devo dizer que<br />

nosso comando será padrão, mesmo o Planeta tendo mudado de cor. Hoje haverá<br />

a festa que infelizmente mudará de nome; ao invés de “Adeus Planeta Azul” será


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

“Adeus Planeta Verde”! Portanto, comecem a se preparar. Quero ouvir o tilintar dos<br />

champanhes! Pois amanhã não haverá ressaca, mas apenas mais uma festa. Eu decreto<br />

três dias de festas tanto aqui, como no império! Que todos se divirtam.<br />

O império inteiro aplaudiu o General Arcrates e começaram a grande festa.<br />

E o Império silenciou<br />

A noite artificial caiu sobre todas as naves. Era uma grande balbúrdia em todos<br />

os segmentos. As naves estavam alinhadas, preparadas para o ataque. Eram cinquenta<br />

e cinco naves ao todo. Cinquenta de combate e cinco estúdios de imagens, que captavam<br />

e transmitiam tanto internamente como externamente. Para quem assistia, era<br />

um verdadeiro “show”.<br />

Já no Planeta Verde, tudo era diferente. Todas as doze tribos estavam na mais<br />

silenciosa concentração. As legiões de semimagos conseguiram atingir seus objetivos<br />

com perfeição. Todos se concentravam fielmente, numa magia coletiva. Então, o<br />

Mago de Prata se preparou e começou a definir sua linha de ação. Todo o plasma de<br />

cristal esverdeado que cobria o Planeta se solidificou numa fina camada. Para quem<br />

via da superfície do Planeta, a aparência era de que o céu tinha cristalizado, mas para<br />

quem via de fora, o plasma continuava a ser uma imensidão de nuvens a se mover<br />

naturalmente ao redor do Planeta. Ninguém das naves notou nada.<br />

Por volta de doze horas depois do início da festa, quando alguns bêbados ainda<br />

sobreviviam às doses de bebidas e drogas distribuídas e outros acordavam do porre, o<br />

General Arcrates ordenou o início do movimento militar.<br />

As duas naves da extremidade da linha de ação deveriam começar o ataque,<br />

disparando seus raios cósmicos. Em seguida as seguintes e assim por diante, até que<br />

a nave do general, que estava bem ao centro, terminasse com o show. Cada raio tinha<br />

ação de um minuto. Como cada nave da extremidade iria lançar dois raios por vez, a<br />

duração do ataque iria ser de vinte e cinco minutos. A contagem regressiva fora dada.<br />

A apreensão, não só nas naves como em todo o império, era constrangedora. Apesar<br />

disso, havia um certo sarcasmo no rosto de todos.<br />

Então, as duas naves lançaram seus raios. Parecia uma eternidade até que eles<br />

chegassem ao Planeta, mas chegaram. Chegaram e, para espanto de todos, retornaram<br />

com a mesma potência, atingindo não só as naves mais externas mas já levando de<br />

sobra outras duas. Tudo fora filmado e transmitido ao vivo para todo o império!<br />

Parecia que o universo tinha sucumbido. Imediatamente, uma câmara mostrava<br />

o rosto do General. Nada no mundo poderia expressar o tamanho do desgosto que<br />

surgia naquele rosto. Mas o General não se abateu. Ordenou que todas as naves em<br />

conjunto lançassem mísseis herméticos, nada poderia detê-los.<br />

Entretanto, algo o fez retroceder. Havia um sinal de emergência na sua própria<br />

nave, uma invasão sensorial na nave. O alerta seria dado em seguida em todas as<br />

outras naves.<br />

O General se sentou. Todos ali estavam esperando algum comando. Os Extuár-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

ticos olhavam-no severamente. Mas Arcrates ficou imóvel. A figura que surgira à sua<br />

frente, à frente de seu pomposo trono e da pretensiosa corte ao seu redor, era desafiadora.<br />

Os guardas sacaram as armas, mas o general levantou o braço.<br />

Um ser pequeno com uma capa prateada cobrindo parte do rosto, olhando para<br />

o chão, com dois seres bem menores também vestidos de prata, fizeram toda a corte<br />

abrir a boca. E a forma como se materializaram ali, sem nenhum vínculo com equipamento<br />

algum, assustava.<br />

– São estas crianças que quer destruir? – perguntou o Mago de Prata para o<br />

General Arcrates. Ele apenas abriu a boca mais ainda e olhou severamente para os Extuárticos,<br />

que começavam a tremer compulsivamente. No instante seguinte, os imensos<br />

aquários onde os Extuárticos estavam trincaram e se quebraram em mil pedaços,<br />

matando-os imediatamente. A cena era de terror, e eram de terror as caras de todos<br />

que a acompanhavam.<br />

O General Arcrates levantou-se num pulo e gritou:<br />

– Como se atrevem! Guard...<br />

Mas as duas crianças deram um passo à frente, tiraram os capuzes que cobriam<br />

seus rostos e falaram, usando magia na voz:<br />

– Sente-se, traidor!<br />

O general sentou-se, amedrontado, ainda sentindo os ecos das vozes e espantando-se<br />

com as caras das crianças. Elas tinham crescido demais para sua idade,<br />

mas suas feições eram ainda de bebês. Quando a corte viu isto, todos olharam ferozmente<br />

para o General. Mas este logo revidou:<br />

– Por que me chamam de traidor, quando só quero o bem de meu povo?<br />

Então, o Mago de Prata deu um passo à frente e, enquanto falava, tirava seu<br />

capuz:<br />

– Seu povo?<br />

Agora, a corte estava quase em prantos. O Mago de Prata tinha modificado sua<br />

beleza de tal forma que, quando o vissem, se sentiriam diante de uma beleza divina,<br />

todos, sem exceção.<br />

Ninguém no recinto falava, nem mesmo a anos-luz de distância. Nos Planetas<br />

foi um silêncio doloroso, castigante.<br />

– Será que ninguém aqui suspeitou que havia um povo, uma civilização morando<br />

neste Planeta? – perguntou o Mago de Prata. – E com que autoridade o senhor<br />

resolve explodir um Planeta, se nem faz parte da dinastia de Schaia III?<br />

– Schaia III está morto! Todos sabem disso!<br />

Então, os gêmeos falaram:<br />

– Nós não sabemos, só se ele morreu há segundos atrás.<br />

– Quem são vocês? Malditos demônios, vindo deste maldito Planeta! – gritou<br />

Arcrates.<br />

– Somos parte da dinastia que você roubou, somos Morderhai e Shaan, filhos<br />

de Schaia III.<br />

Nesse momento, para surpresa geral, o próprio Schaia III, acompanhado de<br />

Nashat, surge logo atrás do Mago de Prata, materializando-se do nada, como seus


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

filhos e o Mago.<br />

– Esta geração inteira irá pagar por esse erro – disse Schaia III, com um poder<br />

na voz que fez todos se calarem.<br />

Ele olhou para o General Arcrates e com um pequeno sussurro quase inaudível<br />

fez sua cabeça explodir, lambuzando a guarda pessoal que estava à sua volta.<br />

– Uma vez o Mago de Prata disse que o Planeta Azul, que agora é Verde, se<br />

tornaria o centro do universo. Nunca entendi isso, mas agora eu sei. Esse será o legado<br />

para os meus filhos, e não para os seus filhos, mas seus netos, que irão desfrutar esse<br />

poder. Isso se aprenderem esta lição e outras que virão. A energia dos Extuárticos será<br />

imediatamente cortada, não sobrará um Extuártico para contar essa história. Vocês<br />

viverão na mais absoluta miséria, até que chegue o dia em que meus filhos decidirão<br />

se devem ou não distribuir energia para este medíocre império. Mas até lá, os Planetas<br />

viverão isolados. Vocês deverão aprender a viver em harmonia consigo mesmos, para<br />

aprender a respeitar os outros. E eu terei meu castigo, por fazer parte desta maldita dinastia.<br />

Deixarei meus filhos aqui no Planeta Verde e retornarei a Plan Ex, para acertar<br />

os detalhes de sua maldição.<br />

Parecia ter havido um pequeno murmúrio por parte de todo o império, mas<br />

devido aos fatos, logo foi absorvido com a presença de tão poderoso imperador.<br />

Então, Schaia III virou-se para Nashat e para o Mago, assim como para os<br />

gêmeos.<br />

– Um dia retornarei, somente quando estiver convencido de que plantei a semente<br />

certa para isto que se chama civilização – apontou para trás. – Até lá, vocês<br />

aprenderão a viver no mais belo dos Planetas, com o mais belo dos seres.<br />

Olhou para o Mago de Prata que, com uma lágrima nos olhos, juntou-se aos<br />

gêmeos e a Nashat, desmaterializando-se de volta ao Planeta Verde.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A ANDRÓIDA ANDRÓGINA<br />

O aniversário de Pan-noa<br />

A pérola-cubo despertou Pan-noa Kalumbry duas horas antes de seu horário<br />

habitual. Ele aguardava este momento há pelo menos cinco anos. Era o dia de seu aniversário<br />

e seu pai havia lhe prometido há algum tempo que quando ele completasse<br />

doze anos poderia fazer sua animotatoo.<br />

Bem, era óbvio para Pan-noa que seu pai poderia estar brincando ou tentando<br />

empurrar a data para mais tarde, de modo que Pan-noa esquecesse ou reconsiderasse<br />

a ideia. O fato era que Pan-noa não havia esquecido e, muito menos, reconsiderado.<br />

Muito pelo contrário! Organizou uma escapada duas horas antes de ir para a escola<br />

para fazer aquilo que mais queria sem que houvesse problema algum.<br />

Seu Aerojet estava estrategicamente acomodado do outro lado do castelo em<br />

que morava. Ele teve que se esquivar dos empregados e fazer malabarismos para<br />

chegar até o local da fuga sem ser captado pelos sensores de segurança. Fácil demais,<br />

afinal ele era Pan-noa Kalumbry e ninguém mais do que ele sabia de todas as passagens<br />

do enorme castelo.<br />

Quando abriu a janela vislumbrou algo que sempre fazia os pelicos da sua nuca<br />

arrepiarem: a holografia animada de um dragão em pleno voo estampada na lateral<br />

de seu Aerojet Plasma! Drakunum Maximatrya. Com muita calma Pan-noa pulou a<br />

janela e caiu sobre o Aerojet, deitou-se sobre o corpo da mini nave, ligou os controles<br />

e, com o zumbido fino da plasma turbina, avançou em direção ao céu na velocidade<br />

de batalha, camuflando assim, sua passagem pelos radares do castelo, da cidade e<br />

finalmente do planeta. Ao alcançar a atmosfera seu Drakunum Maximatrya fechou a<br />

carenagem fazendo o Aerojet virar um minúsculo transgaláctico.<br />

Pan-noa começou a rir e pensou: “nada como implantes de mecânica cósmica<br />

na minha pérola-cubo! Terceira Lua em cinco segundos!”<br />

E então o mecanismo de navegação alertou: “Terceira Lua em cinco, quatro,<br />

três, dois, desaceleração automática, carenagem reaberta.”<br />

- E cá estamos! – Gritou Pan-noa eufórico. Deu uma guinada ao ver dois aerojets<br />

miliciantes e se deslocou rapidamente para a Zona Nacro.<br />

- Muito bem. Procurar no mapa “Zamstas Harcers Animotatuagens”. Seu<br />

aerojet se deslocou para ruas pouco iluminadas... Sombrias!<br />

- Ei isso é sinistro! – Gritou Pan-noa sarcasticamente.<br />

O aerojet parou em frente a uma construção em cuja fachada se podia ver os<br />

desenhos mais bizarros se movimentando. Pan-noa ficou paralisado frente tamanha<br />

aberração. Estava boquiaberto. Jamais vira desenhos antiestáticos tão perfeitos!<br />

- Isso é alucinógeno! – Falou empolgado.<br />

A porta da frente se abriu e uma jovem de corpo torneadamente perfeito olhou


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

para ele.<br />

- Foi você que me fez acordar tão cedo?<br />

Sua roupa de látex cromado era algo que deixou Pan-noa nas nuvens. Ficou<br />

parado, absolutamente pasmado, olhando para o corpo da mulher a sua frente.<br />

- Então garoto? – Disse ela. – Vai entrar ou desistiu da sua tatoo?<br />

- A tatoo? A sim é claro! Foi sim, fui eu, quero dizer, fui eu quem marcou com<br />

você. – Enquanto falava olhava de cima abaixo o perfeito modelo de mulher à sua<br />

frente. As animotatuagens que ela tinha pareciam ainda estar dormindo.<br />

- Venha. – Disse a moça. – Entre, eu não mordo! Bem, só se você me pedir...<br />

- Pedir? A sim, estou indo. – Disse ele horrorizado com seu próprio comportamento.<br />

A moça ainda sorria quando Pan-noa entrou no estúdio. Então ele percebeu que<br />

uma linda fada tatuada no corpo dela abriu os olhos e deu um lindo sorriso para ele.<br />

Pan-noa ficou com os olhos esbugalhados.<br />

- Então você é Pan-noa. – Disse a moça. – Bem diferente do que eu imaginei.<br />

Muito prazer eu sou Zamtas, mas pode me chamar de Zam, bem o que vai querer?<br />

- Você é Zamtas? – Perguntou Pan-noa – A famosa tatuadora?<br />

- Estou vendo que eu não sou aquilo que você tinha imaginado. – Algumas<br />

tatuagens no corpo dela começaram a acordar.<br />

- Bem, para ser sincero não.<br />

Zam olhou para Pan-noa com um olhar malicioso.<br />

- Quantos anos você tem? – Perguntou ela.<br />

- Estou fazendo doze hoje. Minha maioridade sexual! – Disse Pan-noa com<br />

afinco e olhando muito sério para o corpo da moça, que estava caótico com todas as<br />

fadas, peixesgolfins, dragões e magos a se movimentarem.<br />

- Hahaha! – Riu Zam. – Estou vendo que vou começar bem o meu dia. Quem<br />

diria! Doze anos. Sabe Pan-noa, você é muito bonitinho mas acho melhor deixarmos<br />

para outra hora, afinal você quer uma animotatoo e acredito que daqui um pouco você<br />

tem que ir para a escola, não tem?<br />

Parecia que Pan-noa tinha visto um fantasma. De repente a realidade surgiu em<br />

sua frente de novo: ele não tinha muito tempo para bate papo, tinha que estar indo para<br />

a escola em menos uma hora.<br />

- Legal Zam! Eu quero uma fase dois. É o que meu corpo suporta não é?<br />

Zam olhou para ele, chocada.<br />

- Você não terá tempo de aprender a controlá-la antes de ir para a escola! Sabe<br />

o que estas coisas fazem se quiserem te colocar em enrascada, não sabe? Além disso,<br />

tem os efeitos hipnóticos do começo. Aposto que você nunca usou algo mais pesado<br />

do que uma pastilha de Almatadema, usou?<br />

- Sabe Zam, você é legal mas não sabe que eu me meto em tantas enrascadas<br />

que mais uma menos uma, não dá nada. Além disso, eu fabricava pastilhas de Almatadema<br />

quando tinha oito anos e vendia nas festinhas, se tocou?<br />

- Você é quem manda. Tire a roupa e deite-se ali de barriga para cima.<br />

- Tirar a roupa? – Perguntou Pan-noa, lembrando-se que não tinha se recu-<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

perado da ereção que começou quando viu o corpo de Zam.<br />

- Claro! É o que mais preciso neste momento! – Falou Zam sorrindo sarcasticamente.<br />

Pan-noa deu um sorriso malicioso e fez o que a moça tinha pedido. Zam então<br />

assumiu uma postura diferente, extremamente profissional. Nem sequer olhou para o<br />

corpo de Pan-noa. Este no entanto ficou um pouco nervoso ao ver a máquina que Zam<br />

preparava. Sua ereção tinha sumido. Notou pela primeira vez a sala em que se encontrava:<br />

era um lugar escuro, cheio de equipamentos por todas as paredes, conectados a<br />

uma cadeira de um azul belíssimo no meio da sala.<br />

- Zam... Isso não vai doer muito, vai?<br />

- Nem um pouco querido. – Enquanto falava Pan-noa viu alguns raios de luz<br />

sobre seu corpo. Dançavam para cima e para baixo fazendo cócegas. As luzes eram de<br />

todas as cores possíveis de se imaginar. – Para falar a verdade, já está pronto!<br />

- Sério? Só isso? Mas onde está ela?<br />

- Bem, é o que eu te falei, você deve controlá-la. Vou te dar uma dica: comece<br />

com algum desenho relacionado a algo de que você goste. Deixe ele vir a sua mente,<br />

concentre-se.<br />

Imediatamente surgiu em sua mente o dragão desenhado no aerojet e até mesmo<br />

Zam ficou surpresa com a qualidade da imagem. Era um dragão com asas enormes<br />

voando pelo corpo de Pan-noa. Ele levantou-se e olhou no espelho.<br />

- Uau! Isso é demais! – Disse Pan-noa.<br />

- É realmente está muito bom Pan-noa! E você sabe, as animotatoos se transformam<br />

no que você quiser e vão para qualquer parte do seu corpo, é só saber controlá-las,<br />

tá limpo? Agora seja bonzinho, vista-se, passe a grana e vá para escola.<br />

- Na boa. – Mas ele nem se mexeu vendo seu dragão dar voltas e voltas em seu<br />

corpo a toda velocidade e cuspindo labaredas de fogo pela boca. Zam riu da cara de<br />

satisfação do menino e lembrou-o mais uma vez para ter cuidado no começo.<br />

- Não enfureça sua tatoo Pan-noa, elas são muito sensíveis.<br />

- Está bem. – Disse Pan-noa já em direção a porta. – Bem, foi muito bom te<br />

conhecer Zam. Espero que a gente se veja de novo.<br />

- Você é sempre bem-vindo Pan-noa. – Falou Zam se curvando para frente<br />

e dando um beijo na testa de Pan-noa. Então parou olhando para ele, muito séria,<br />

curvou-se de novo e beijou-o na boca, encostando sua língua na dele. Depois olhou-o<br />

de novo e sorrindo disse:<br />

- Essa foi por sua maioridade sexual!<br />

Pan-noa ainda tremia de prazer quando entrou na atmosfera do planeta Kalum<br />

Br, planeta no qual seu pai, Pan-Newe Kalumbry, reinava.<br />

Pan-noa teve um pouco de dificuldade para desviar dos escudos de defesa do<br />

planeta.<br />

- Que estranho. – Falou para si mesmo. – Não costumo ter problemas com<br />

estas coisas.<br />

Pan-noa na verdade não tinha problema algum com qualquer miliciante ou<br />

autoridade do planeta. Não por ser o filho do rei pois todos eram tratados da mesma


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

forma perante a lei naquele planeta mas por ter algo que ninguém imaginava: informações<br />

altamente secretas dos sistemas de defesa, ataque e, sobretudo, dos conhecimentos<br />

de alta tecnologia do planeta. Pan-noa possuía secretamente, além de tudo, uma<br />

pérola-cubo de última geração de uma eficiência absurda obviamente furtada por ele<br />

mesmo nos intermináveis laboratórios subterrâneos do castelo.<br />

Toda a grande fortuna do planeta Kalum Br era graças a dois produtos: alimentos<br />

para planctons atmosféricos que favoreciam a vida em planetas inabitáveis e<br />

o outro era desconhecido graças a um planeta chamado Carmel.<br />

O fato era muito simples: Carmel queria dominar toda a produção de tecnologia<br />

de ponta do Império mas o problema era que planetas como Kalum Br fabricavam<br />

tecnologias muito mais eficientes do que a de Carmel. O trato feito pelos dirigentes<br />

de Carmel era que esta tecnologia fabricada em Kalum Br deveria ser vendida secreta<br />

e exclusivamente para Carmel. Obviamente Kalum Br aceitou a proposta desde que<br />

Carmel pagasse um preço exorbitante. O trato foi feito e assinado há muitas gerações.<br />

O que os dirigentes de Carmel ignoravam era uma cláusula no contrato permitindo<br />

a Kalum Br ficar e utilizar sua tecnologia como bem entendesse, desde que<br />

não vendesse para nenhum outro planeta.<br />

Kalum Br nunca quebrou este trato porém, escondia tecnologias que fariam<br />

qualquer cientista de Carmel virar lixeiro espacial. Uma destas tecnologias estava agora<br />

implantada, camufladamente, na testa de Pan-noa: era a pérola-cubo. Na verdade<br />

quase todos no planeta usavam a pérola-cubo, um tipo de bio-processador de dados<br />

que permitia às pessoas comunicarem-se “telepaticamente”, captarem e aprenderem<br />

todo o tipo de informação, além de muitas outras funções para a ajuda do desenvolvimento<br />

psíquico.<br />

- Mas que merda! Parece que eu tomei Vortex fabricado em Branda! – A cabeça<br />

de Pan-noa começava a rodar. Colocou então seu Aerojet em piloto automático e<br />

pediu uma cérebro-conferência com Zam.<br />

- A pessoa em questão não está munida de pérola-cubo. – Falou a voz na cabeça<br />

de Pan-noa.<br />

- Que bosta do caralho! Como uma pessoa do nosso sistema não tem uma<br />

pérola-cubo? - Pan-noa tentou lembrar-se de quem havia feito uma animotatoo que<br />

ele conhecia mas era difícil. Ninguém que ele conhecesse havia feito uma daquelas!<br />

Então a pérola-cubo enviou um impulso cerebral para ele: “Chamada via voz para<br />

Zam”.<br />

- Não acredito! Estou pior do que eu imaginava! Chamada via voz para Zam.<br />

- E aí garoto? – Era a voz de Zam. – Problemas?<br />

- Zam estou tonto, enjoado e não consigo pensar direito. – Disse Pan-noa em<br />

voz de desespero.<br />

- Ah! – Disse Zam triunfante. – E parece que tomou um litro de Vortex de<br />

Branda?<br />

- Ei, como você adivinhou?<br />

- Bem, – Disse Zam. – Está em piloto automático?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Sim!<br />

- Vou te transferir um Enecto-Lex, vai te ajudar, mas não manifeste raiva de<br />

maneira nenhuma senão sua animotatoo vai ficar louca! Não vai acontecer nada de<br />

mais para você, mas sua animotatoo vai tentar fazer cenas que nem as putas da primeira<br />

lua poderiam imaginar, tu tá entendendo irmãozinho?<br />

- Não ficar com raiva? Em plena aula de socialização? Você quer que Schaia<br />

III se vista de Extuártico e saia na Videogaláxia?<br />

- É tua única chance Pan-noa. – Disse Zam rindo.<br />

- Manda a parada.<br />

- Já tá aí.<br />

- Valeu. – Disse Pan-noa desligando a conexão. – Introduzir Enecto-Lex via<br />

pérola-cubo. - Disse Pan-noa para os controles do aerojet.<br />

Imediatamente o alívio tomou conta do corpo de Pan-noa. Na verdade, ficou<br />

tão calmo e tranquilo que deixou o aerojet em piloto automático até chegar a escola.<br />

- Uau! Parada maneira! – Falou Pan-noa andando pelos corredores da escola.<br />

Três ou quatro meninas olharam para ele de forma estranha, fazendo comentários<br />

entre si.<br />

- Pan-noa! Aqui! – Uma mãozinha no final do corredor acenava para ele.<br />

“Caralho.” Pensou Pan-noa. “Se a Be souber que eu to ligado vai rolar esporro.<br />

Vou tentar me acalmar”. “Mais do que você já está?” Disse a pérola-cubo. “Cale a<br />

boca!” Respondeu Pan-noa.<br />

- Oi Be, tudo bem?<br />

- O que houve com você? Não parece muito bem.<br />

- Be, contato cerebral imediato.<br />

- Tá limpo.<br />

Pan-noa e Be sintonizaram suas pérolas-cubo e começaram a conversar mentalmente,<br />

cada um em seu compartimento secreto, dentro de seus cérebros.<br />

Be finalmente deu berro:<br />

- Uma animotatoo fase dois da terceira lua!?<br />

O corredor inteiro de estudantes olhou para os dois.<br />

- Como eu odeio aula de socialização. – Disse Pan-noa. – Olha Be, - continuou,<br />

falando baixinho – Eu não tô legal. Tive que tomar uma parada prá porra da tatoo<br />

não ficar enlouquecendo. Vê se me ajuda! Não esquece hoje é meu niver!<br />

- E você acha que eu iria te deixar na mão? Vem, fica comigo e nada de azucrinar<br />

a aula de socialização.<br />

Pan-noa nem respondeu. Pegou na mão de Be e foram para sala. Sentaram bem<br />

no fundo. A professora entrou na sala e, para variar, começou falando sobre o terrível<br />

método de ensino estipulado após a invenção das pérolas-cubo. Era um tabefe na cara<br />

de Pan-noa.<br />

- Então, – Falava a velha e raquítica professora Trala. – Vocês enfiam um cubo<br />

na testa, contatam com o que querem aprender e em segundos suas mentes já estão<br />

com a informação. Que maravilha! Sem leitura, sem transferência de dados corporais,<br />

sem o uso das antigas tecnologias de interpretação. Vocês vão se transformar em


Marcelo Paciornik<br />

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robôs.<br />

Pan-noa deu uma risadinha mas a professora não percebeu e continuou falando.<br />

- Essas novas tecnologias nem foram testadas propriamente. Por quê vocês<br />

acham que a socialização deve ser feita em grupo, como nós estamos fazendo, numa<br />

sala de aula e não na frente de um programador? Porque nós devemos trocar informações<br />

um com o outro e não só recebê-las.<br />

Pan-noa começou a ficar um pouco tenso, afinal ninguém estava trocando informações<br />

até agora, apenas uma bruxa idiota não parava de falar merda. Um rabo<br />

do dragão passou por sua cara enquanto a professora estava de costas. A turma toda<br />

soltou um breve murmúrio ao ver tal espetáculo.<br />

- É isto mesmo que eu quero ouvir de vocês! Tentem liberar este vocabulário<br />

restrito a cubos implantados nas testas! Desfaçam-se desta escravidão tecnológica que<br />

nos impuseram neste planeta e logo irão impor no Império inteiro!<br />

Pan-noa pensou em seu pai, dedicando praticamente a vida inteira para desenvolver<br />

esta tecnologia que, provavelmente, estaria pagando o salário desta aberração<br />

que estava agora quase espumando de raiva e falando contra a tecnologia que tornara<br />

o planeta em que viviam tão rico e próspero.<br />

- Pois bem já que ninguém vai se manifestar, – Falou a professora olhando<br />

para Pan-noa que tentava-se manter calmo. - Vamos abordar da seguinte forma: quem<br />

aqui acha que esta tecnologia de cubos transmitindo conhecimentos, informações,<br />

conexões e sabe-se mais o que é superior às nossas famosas trocas de informações tão<br />

valorizadas durante séculos, levante a mão.<br />

Todas as cabeças voltaram-se para Pan-noa, afinal ele era o único que sabia<br />

defender a tecnologia das pérolas-cubo muito bem. Mas Pan-noa permanecia calado.<br />

Be segurava sua mão suada e lhe transmitia secretamente: “Pense só no que você vai<br />

poder fazer com sua animotatoo quando nós sairmos daqui! Nem escute a megera.<br />

Pan-noa, saiba o quanto eu te amo!” Pan-noa olhou para os lindos olhos violetas de<br />

Be e perguntou:<br />

- É verdade?<br />

Be não sabia onde botar a cara. Sua feição se tornou avermelhada porém alguém<br />

estava entendendo mal as coisas. Então veio a irritante voz da megera:<br />

- Quer dizer que vocês ficam transando através destas malditas conexões?<br />

Com essas absurdas pérolas-cubo enfiadas em seus cérebros? É por isso que o senhor<br />

Pan-noa está tão quieto? Por que está flertando secretamente com esta menina estúpida<br />

ao seu lado?<br />

Pan-noa levantou-se. Agora era tarde para pensar em qualquer coisa que fosse.<br />

O efeito da droga que Zam dera para ele já tinha revertido contrariamente e quando<br />

Pan-noa abriu a boca para falar a animotatoo começou a se manifestar mas, para<br />

espanto do próprio Pan-noa, não exatamente para ir contra ele, mas para, de algum,<br />

modo assustar a megera à sua frente.<br />

Da garra do dragão que ainda estava atada à pele de Pan-noa saiu uma garra<br />

virtual de pouca espessura mas suficiente para rasgar a vestimenta de Pan-noa. “Eu<br />

não sabia que essas coisas faziam isso!” Pensou Pan-noa. Mas a animotatoo tinha<br />

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começado o espetáculo e não queria parar tão cedo.<br />

Pan-noa estava semi nu agora, no meio da sala de aula. Obviamente a megera<br />

jamais vira uma animotatoo na vida e quase teve um colapso quando a roupa de Pannoa<br />

caiu no chão e o enorme dragão, agora completamente enlouquecido, fazia os<br />

gestos mais obscenos para a megera. Pois foi quando o demônio resolveu mostrar<br />

o que realmente não devia que a sala toda deu um pulo para traz e a megera caiu de<br />

costas desmaiada no chão da sala de aula.<br />

Após alguns segundos que duraram horas para Pan-noa, a sala toda, olhando<br />

ainda abismada para ele, soltou um urra de satisfação que pelo prédio inteiro se ouviu.<br />

As chamadas via pérolas-cubo foram imediatas e em questão de segundos Pannoa<br />

foi não só considerado herói diante de todos os estudantes da escola mas também<br />

para todos os “Nacroinômades”, marginais da sociedade que cultivavam as animotatoos<br />

e as artes alternativas, pois fora o “Nacroinômade” mais jovem até então, que<br />

conseguira controlar uma animotatoo fase dois em menos de uma hora! Ao receber a<br />

notícia Zam ficou muito orgulhosa.<br />

O Último Jantar no Castelo<br />

Das muitas coisas que Pan-noa pensou na volta para o castelo, após o trágico e<br />

cômico evento na escola, duas tinham maior importância: Be e seu Drakunum Maximatrya.<br />

Sem dúvida tinha o Aerojet mais bem equipado porém, era hora de esquecer.<br />

Provavelmente o castigo seria não utilizar o Aerojet por um ano ou mais, o que para<br />

Pan-noa nem significava muito. O maior problema era Be. Se seus pais estivessem<br />

desconfiados de que ele, Pan-noa, estava loucamente apaixonado pela menina das<br />

casas menores, eles definitivamente iriam sofrer.<br />

Pan-noa ainda brincava de dar piruetas no caminho de casa como se fossem as<br />

últimas de sua vida.<br />

- Eu estou fodido, simplesmente fodido. E além de tudo, Be...vou ficar sem ver<br />

Be para o resto da porra da minha vida. - Pan-noa estava agora chorando. Analisou os<br />

fatos ocorridos e jamais esteve tão encrencado. Sabia que nem tudo era sua culpa mas<br />

fazer uma professora, nem que fosse a Senhora Trala, ir para o Hospital com o coração<br />

rompido era uma tremenda enrascada. Isso sem contar ter ido à terceira lua e à zona<br />

Nacro, ter feito uma animotatoo, ter tomado um Enecto-Lex em pleno voo com uma<br />

das máquinas mais rápidas do sistema!<br />

Pan-noa avistou o castelo ao longe, uma magnífica construção imperial ainda<br />

da época de Schaia Alcandes I, construída há milênios. Ele avançava agora pelos<br />

jardins intermináveis do palácio. Nunca tinha reparado que sua casa era tão grande,<br />

tão majestosa e tão bela. Ao pensar nisso percebeu estar com muito medo, medo até<br />

mesmo, de perder isso tudo.<br />

Deu uma volta pelo palácio inteiro e entrou com seu Aerojet direto pela enorme<br />

janela de seu quarto. Desceu de sua pequena nave e olhou ao redor. Estava tremendo.<br />

Descobriu então algo incomum: na sua tele percebeu um bilhete:<br />

“Querido Pan-noa, seus familiares estão te esperando na sala de jantar princi-<br />

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pal para comemorar seu aniversário às oito em ponto, não demore.”<br />

- Fodeu tudo. – Disse Pan-noa, já conectando com Be.<br />

- Pan-noa você está bem?<br />

- Estou com medo Be. Eles ligaram para seus pais?<br />

- Ligaram, mas só falaram que sua festa de aniversário havia sido suspensa.<br />

- Ai, Be. O que eu faço? Estou com muito medo!<br />

- Medo do que Pan? No máximo vão tirar seu Drakunum por algum tempo e<br />

te dar um esporro! Festa a gente faz semana que vem!<br />

- Não é isso Be. É sobre você.<br />

- Sobre mim?<br />

- Eu tenho um pressentimento que eles já sabem.<br />

- Já sabem o que Pan?<br />

- Que eu também te amo.<br />

Silêncio. Silêncio mortal tanto nos aposentos de Be como nos de Pan-noa.<br />

- Oh! Pan...eu, eu sinto muito. Quero dizer, vai dar tudo certo.<br />

- Eu não sei Be, me ajuda.<br />

A cara da Be apareceu no monitor principal do quarto de Pan-noa. Ela estava<br />

chorando assim como ele.<br />

- Olhe bem para mim Pan-noa. Se você realmente me ama você vai tomar<br />

coragem, vai aparecer, nem que seja com um Tralmtantico azul calcinha, no nosso<br />

esconderijo do castelo assim que você puder. Estarei lá te esperando daqui duas horas<br />

está bem?<br />

Pan-noa olhou para ela, assustado. Reparou em seu cabelo extremamente curto<br />

para uma menina, seu rosto liso, sua boca violeta da cor do seus olhos, extremamente<br />

violeta para uma humana, mas ela era real, ela era a sua Be, a menina que ele amava.<br />

- É claro Be, eu estarei lá.<br />

Após um belo banho Pan-noa vestiu-se de maneira formal, muito mais formal<br />

do que se vestiria para a festa de seu aniversário.<br />

Quando estava na metade das escadarias que ligavam os aposentos à sala de<br />

jantar principal, Pan-noa viu que alguma coisa estava realmente errada: a mesa estava<br />

posta para quatro pessoas. Ele, seu pai, sua mãe e mais alguém. Quem poderia ser em<br />

uma ocasião destas? Ao ouvir o som afetado de uma voz que vinha do fundo da sala,<br />

Pan-noa parou na escada e pensou: “Agora sim fodeu. Fodeu mesmo e fodeu tudo.<br />

Que caralho, que puta que o pariu, a porra da bicha da merda do meu tio Francian.”<br />

Quando finalmente parou diante da sala, os três estavam olhando para ele. Os<br />

olhares não podiam esconder mais insatisfação simplesmente por falta de espaço nos<br />

rostos. Pan-noa quase riu, mas sua situação era lamentável.<br />

- Pan-noa, meu filho, por que não sentamos?<br />

Pan-noa nada disse, cruzou o longo percurso e sentou-se na ponta da mesa, o<br />

mais longe possível de Francian. Sua mãe nem o olhava e Francian parecia contorcer<br />

os lábios para não rir.<br />

De uma coisa Pan-noa podia estar feliz: conseguira até agora controlar sua<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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animotatoo.<br />

- Pan-noa. – Voltou a falar seu pai. – Não quero que você pense que este jantar<br />

tão solene seja pela sua belíssima atuação na escola hoje. Na verdade nem estamos<br />

interessados nesta monstruosidade que você colocou em seu corpo.<br />

Os três adultos entreolharam-se. Pan-noa ficou chocado. “Eles já sabem sobre<br />

Be, sabem que estou com uma plebeia, uma menina das casas menores, eles vão me<br />

proibir de vê-la!” Pan-noa com este pensamento ficou pálido. Agora os três o fitavam<br />

com interesse.<br />

- Por que está tão assustado Pan-noa? – Perguntou o tio - Algo que ainda não<br />

sabemos?<br />

- Já chega Francian. – Interrompeu Larissa, mãe de Pan-noa. – Ele não precisa<br />

disso. Vamos Pan-newe, conte logo a ele.<br />

Seu pai levantou-se, deu um gole na bebida cintilante que borbulhava no cálice<br />

dourado-transparente e, finalmente, encarou Pan-noa.<br />

- Veja filho. – Disse seu pai. – Eu quero que você saiba que nós queremos o seu<br />

bem. Eu quero que você tenha certeza de que nós monitoramos pelo menos noventa<br />

por cento dos seus atos. - Pan-noa passou de um branco perolado para uma vermelho<br />

rubro e seu pai quase riu. – Veja, nós só fazemos isso para não deixar você cair em<br />

mãos inimigas. Você não desconhece o fato de que sua família corre riscos constantes,<br />

mesmo na proteção do nosso sistema de satélites e luas, desconhece?<br />

Pan-noa nada falou mas ele sabia muito mais do que o pai imaginava e, por ter<br />

feito uma expressão que traduzia este sentimento, seu pai continuou parecendo mais<br />

satisfeito.<br />

- Pois bem nós sabemos a maior parte de conhecimentos que você anda coletando<br />

por aí, inclusive a pérola-cubo de ultima geração que está na sua testa e dos<br />

testes que você tem feito com ela. - Pan-noa arregalou os olhos “Fodeu mais ainda”.<br />

– Bem, eu quero que você saiba que nós estamos extremamente orgulhosos de você.<br />

E mais rápido que Pan-noa pudesse pensar, o tio colocou:<br />

- Principalmente de você ter feito a Trala parar de dar aula. Você sabia que ela<br />

trabalhava como espiã para o inimigo?<br />

Pan-noa estava abismado, mas não conseguia sorrir. Apenas murmurou:<br />

- Vocês estão brincando, não é? É uma forma de tortura, uma nova forma que<br />

esse balofo do Francian bolou para me torturar, para eu falar a verdade. – Então Pannoa<br />

pulou da cadeira com a mão na boca pensando “Fodeu”.<br />

- Verdade? – Perguntou seu pai. – Que verdade? Nós sabemos de tudo! Sabemos<br />

da animotatoo, sabemos de Zamtras, da terceira Lua, das bebedeiras em Clardorfs,<br />

das suas escapadas pelos porões do palácio, de suas visitas aos laboratórios, da<br />

maneira que você transformou seu Drakunum Maximatrya em um mini transgaláctico<br />

de guerrilha e assim vai... A lista é infinita e te digo uma coisa: tivemos que moldar um<br />

sistema de vigilância só para você, Pan-noa! Uma polícia secreta só para você pois os<br />

nossos sistemas normais simplesmente eram ineficazes perante sua habilidade!<br />

Pan-noa ainda estava de pé, agora quase com um sorriso na boca.<br />

- Então? - Falou o tio. – O que te preocupa, o que o pequeno diabinho fez que


Marcelo Paciornik<br />

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nem um grupo especial não descobriu?<br />

Pan-noa sentou-se. Uma lágrima correu por sua face e ele disse quase num<br />

suspiro:<br />

- Estou apaixonado.<br />

- O quê? Eu não ouvi. – Disse sua mãe do outro lado da mesa.<br />

- Nem eu. – Falaram o tio e o pai ao mesmo tempo.<br />

Então Pan-noa levantou-se e esmurrou a mesa:<br />

- Se vocês não estivessem preocupados com o que o seu menininho prodígio<br />

estava maquinando em sua pérfida mente, vocês teriam mais tempo para perceber<br />

que ele, no caso eu estou loucamente, perdidamente apaixonado por uma guria da<br />

escola e que eu não estava, até agora, preocupado se vocês iriam tirar meus caríssimos<br />

brinquedos ou não, desde que vocês não me tirassem ela! Está bem agora?! Será que<br />

vocês entenderam?!<br />

A princípio os três olharam-se pasmos. Então houve uma imensa gargalhada o<br />

que fez Pan-noa se arrepiar e, por final, os três voltaram a se olhar, porém desta vez<br />

sem máscaras. Eles estavam realmente preocupados.<br />

Foi o pai que finalmente falou.<br />

- Pan-noa queira nos desculpar. Nós queríamos fazer uma surpresa para você<br />

mas vejo que a situação mudou drasticamente. Larissa, por favor.<br />

- Vamos Pan-noa, devemos conversar antes de irmos para a festa, se é que<br />

você quer ainda uma festa.<br />

- Festa, que festa? Por que eu não iria querer uma festa? Estavam planejando<br />

uma festa surpresa?<br />

- Venha Pan-noa. – Disse sua mãe calmamente. - Eu preciso te contar.<br />

Os dois deixaram a sala principal. Pan-noa ajustou mentalmente seu nível auditivo<br />

e, quando estavam passando pela porta, ouviu o tio dizer secretamente ao pai:<br />

- Queira ou não queira o plano deve continuar Pan-newe.<br />

Pan-noa posicionou o nível auditivo ao normal e pensou. “É um balofo filho<br />

da puta mesmo.”<br />

Mãe e filho sentaram-se na mesa da cozinha e, enquanto Pan-noa comia, Larissa<br />

se remoía em pensamento. “Como pudemos não ter perguntado a ele antes?<br />

Como poderíamos saber? Bem, afinal de contas ele pode voltar se ele quiser, apenas<br />

o primeiro ano é obrigatório.”<br />

Quando Pan-noa parou de comer sua mãe o abraçou e disse.<br />

- Querido, a coisa está feita. Nós achávamos que seria algo útil para você,<br />

afinal é o que você mais faz o dia inteiro!<br />

- Mãe, – Disse Pan-noa decidido. – Seja lá o que for eu vou suportar. Estou<br />

confiando em você.<br />

- Está bem. – Disse a mãe olhando-o firmemente. – Como você sabe, suas<br />

notas na escola são péssimas, sua atuação como líder de classe é um absurdo, suas<br />

experiências com drogas, suas farras, suas matações de aula, enfim tudo que você fez<br />

e deixou de fazer na sua vida acadêmica é um verdadeiro desastre para quem quer ir a<br />

uma escola imperial.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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Pan-noa espichou o pescoço de maneira a olhar a mãe de cima para baixo:<br />

- Escola imperial? Aos doze anos?<br />

- Você é filho de um rei Pan-noa, não se esqueça disso.<br />

- Bom, graças ao bom Deus eu tenho péssimas notas não é mamãe? Assim,<br />

posso concluir meu curso aqui, ao lado de Be e, quando eu tiver vontade, eu irei para<br />

onde quiser, não é mesmo?<br />

- Pan-noa, veja bem meu filho. Seu pai formou um grupo especial de espiões<br />

para te observar, pois nenhum outro grupo conseguia.<br />

- Mãe, tudo o que eu fiz foi pura sorte! São as encrencas que vem em minha<br />

direção! Eu não as procuro!<br />

- Eu não estou falando de encrencas, estou falando de suas criações, de como<br />

você se esquiva de miliciantes com os melhores radares como se estivesse se esquivando<br />

de uma criança num jogo de Quinlapalas!<br />

- Então? O que isso tem a ver comigo?<br />

- O que tem a ver? Este grupo mandou os relatórios do que você tem feito há<br />

três anos! A Imperial Extuártica está enlouquecida pela sua chegada há meses!<br />

- A o quê? Aquela escola de frescos? A Imperial Extuártica? Do outro lado do<br />

sistema imperial? Do outro lado do universo? Nunca! Nem pensar!<br />

- Pan-noa agora eu devo ser dura com você. Você parte amanhã cedo, queira<br />

ou não queira. Eu consegui convencer os dirigentes da escola que você poderia levar<br />

o seu Aerojet. Agora está havendo uma festa de despedida para você. Se você quiser<br />

ficar sozinho no seu quarto com esta tal de Be, pode ir. Mas lembre-se do que você<br />

tem feito de cagada - nesse ponto Pan-noa levou um susto com o linguajar da mãe -<br />

você deveria estar indo para uma prisão infantil e não para uma das melhores escolas<br />

do universo, portanto, agradeça ao destino por ele não ser tão cruel com você.<br />

Pan-noa teve um sentimento estranho quando a mãe falou aquilo sobre destino<br />

mas pensou bem em tudo que ela disse e foi à festa despedir-se de todos e pegar Be,<br />

afinal eles tinham muito o que conversar.<br />

Breve relato da situação do Império<br />

O General Arcrates se autodenominara Guardião Vitalício do Império, após o<br />

desaparecimento do jovem imperador Schaia III.<br />

Como ninguém sabia do paradeiro do imperador, o General Arcrates forjara<br />

sua morte e tomara o poder do Império para si.<br />

Nesta época, o Império inteiro estava passando por uma crise sem precedentes,<br />

uma crise com os fornecedores de energia, os poderosos seres que moravam no espaço<br />

interno, os Extuárticos.<br />

Schaia III, em seu exílio, descobrira parcialmente a causa da crise quando se<br />

encontrou com ser semidivino - ou supremo - conhecido como “O Mago de Prata”.<br />

Porém, paralelamente, o General Arcrates também descobriu a causa do problema<br />

e atacou Cosmo, o sonho de dez mil anos, destruindo assim a raiz da crise do<br />

Império. Aclamado como herói, o General Arcrates teve carta-branca das grandes ca-


Marcelo Paciornik<br />

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sas – os planetas imperiais - para fazer o que bem entendesse. Então inventou que a<br />

origem de Cosmo, o antigo gerador da crise, era um planeta temido freneticamente<br />

por todas as pessoas do império: o Planeta Azul.<br />

O General Arcrates resolvera destruir este planeta por inteiro. Entretanto o<br />

Planeta Azul foi o refúgio dos que moravam em Cosmo, refúgio, inclusive, do Mago<br />

de Prata e de Schaia III, que estavam em Cosmo quando este foi atacado.<br />

Quando o General Arcrates atacou o Planeta Azul O Mago de Prata, com ajuda<br />

do Imperador Schaia III, conseguiu proteger o planeta. Schaia III retornou então ao<br />

seu trono e voltou a Plan Ex, planeta sede do Império, com novos planos de governo.<br />

Alguns detalhes foram marcantes para os novos eventos que se seguiram na<br />

vida do império e seus habitantes. Schaia III tornou-se Imperador Mago com poder<br />

sobre humano, pois fora instruído pelo Mago de Prata.<br />

Quando o General Arcrates resolveu destruir o Planeta Azul ele tinha apoio<br />

de todo o Império e, mais que isso, resolveu fazer da destruição um verdadeiro espetáculo,<br />

levando uma frota de inúmeras naves de turismo, naves de transmissão, toda<br />

a corte e convidados ilustres, como se a destruição de um planeta fosse um evento<br />

circense. A suposta destruição iria ser transmitida para todo o império ao vivo. Os<br />

Extuárticos apoiaram plenamente as ideias do General Arcrates e foram convidados a<br />

participar deste evento. A destruição foi um fiasco total e o General Arcrates foi morto<br />

na frente das câmeras que transmitiram a cena para todo o Império.<br />

Quando Schaia III, o Imperador Mago, retornou do Planeta Azul, sua primeira<br />

ordem foi implantar a nova bandeira por todo o Império. A bandeira simboliza o Templo<br />

de Cosmo, supostamente destruído pelo General Arcrates.<br />

A segunda ordem foi a feitura do livro onde se relata a história que o levou a<br />

ser o Imperador Mago. O título deste livro é O Mago de Prata.<br />

A partida de Pan-noa<br />

Na manhã seguinte à festa de despedida de Pan-noa, Schaia III, O Imperador<br />

Mago, apareceu em todas as teles para um breve discurso de retomada do poder. Ele<br />

parecia alarmado e extremamente arisco:<br />

- Gostaria de informar que em breve estarei mandando um exemplar do livro<br />

“O Mago de Prata” a todos os habitantes do Império. É imprescindível que todos<br />

leiam. Nele haverá uma notícia que modificará para sempre a vida dos que habitam<br />

este Império. Devo dizer ainda, que esta notícia será uma maldição a todos aqueles<br />

que um dia tornaram-se comparsas do mal.<br />

Nas teles apareceu o palácio imperial com milhares das novas bandeiras do<br />

Império.<br />

Pan-newe olhou para Francian que fitava o monitor com o sorriso mais sarcástico<br />

que poderia ter dado em toda sua vida. Pan-newe sorriu também e disse:<br />

- O Imperadorzinho simplesmente enlouqueceu. É outro que logo vai cair do<br />

poder. Bem, vamos ao que realmente interessa. Onde está Pan-noa?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Pan-newe, – Chamou Larissa – Você tem certeza de que vamos fazer isto?<br />

- Não vamos discutir de novo! O garoto vai e vai levar todo o estipulado.<br />

Pan-noa desceu as escadas de mãos dadas com Be. Estavam felizes quando<br />

olharam para o Rei e a Rainha.<br />

- Eu li o regulamento da escola. – Disse Pan-noa. – Eles permitem uma visita<br />

no terceiro mês do curso. Nós falamos com os pais da Be e eles vão leva-la para lá,<br />

não é ótimo?<br />

- Uma maravilha, meu filho! – Disse Larissa. – É ótimo ver você tão feliz<br />

querido! Bem, seu pai quer lhe dizer uma coisa antes de você partir.<br />

- Nós tivemos que mudar um pouco os planos, Pan-noa.<br />

- É mesmo? Sabe, já estou me acostumando com pessoas agindo pelas minhas<br />

costas.<br />

- Pan-noa! – Disse Be horrorizada.<br />

- Está bem, desculpe-me majestade. – No rosto de Pan-noa estava estampado<br />

o desgosto.<br />

- Bom filho, você não irá com a nave expresso comum.<br />

- Não? Que ótimo! Poderia ir a pé. O que vocês acham? Não é um ótimo exercício?<br />

- Pan-noa, – Continuou o pai. – Na verdade acho que você vai gostar disso.<br />

Seu tio deve fazer uma entrega exatamente na lua do Planeta Marson, o planeta de sua<br />

escola, então resolvemos que você será o único encarregado da entrega. O que você<br />

acha?<br />

- Francian! – Exclamou Pan-noa. – Devo carregá-la nas costas para você,<br />

titio?<br />

- Na verdade não Pan-noa. – Seu pai ainda aparentava calma. – Você vai pilotando<br />

um dos meus trans universo imperiais.<br />

Silêncio.<br />

- Mais uma brincadeira de mau gosto, papai?<br />

- É sério Pan-noa, já está na hora de você amadurecer e tenho certeza que<br />

podemos confiar em você. Depois que você entregar a carga na lua, você vai até Marson<br />

e comanda a nave para voltar para cá. O que me diz?<br />

Pan-noa não sabia se ria ou se chorava.<br />

- Eu não acredito! Eu, pilotando um trans universo imperial inteirinho! A<br />

maior nave de batalha que nós temos! Que o império tem! E só eu! Sozinho!<br />

Be no entanto estava alarmada. – Vocês vão deixar Pan navegar até o outro<br />

lado do sistema num trans universo imperial sozinho?<br />

- Sim. – Disse o tio. – A carga que Pan-noa levará para nós é de valor extremo,<br />

confiamos nele e em mais ninguém, para levá-la. Não podemos ir com ele<br />

pois demonstraria o valor da carga. Portanto, achamos que Pan-noa seria a melhor<br />

camuflagem. Além disso, o trans universo imperial é impenetrável, ninguém tentaria<br />

atacá-lo, mesmo porque não há nenhuma razão para isso, visto que será apenas um<br />

menino navegando. Nada mais seguro.<br />

Larissa ainda estava nervosa, mas concluiu que Francian estava certo. Nada


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

era mais seguro que um trans universo imperial.<br />

- E tem mais uma coisa Pan-noa. – Disse o tio. – Como você levaria teu amado<br />

Drakunum Maximatrya no Expresso comum, com toda aquela ralé espremida?<br />

- Por mim está ótimo. - Pan-noa estava eufórico. - Quando eu parto?<br />

- O quanto antes.<br />

- Larissa, está tudo estocado?<br />

- Sim Pan-newe.<br />

- Bem, hora de dizer adeus.<br />

Pan-noa beijou Be profundamente. Seus pais ficaram chocados ao ver pela<br />

primeira vez a animotatoo se manifestando nos braços, pescoço e cara de Pan-noa.<br />

Eram lindas flores azuis que desabrochavam enquanto ele beijava a menina. Be derramava<br />

lágrimas e Larissa se emocionou, abraçando o marido e percebendo que ele<br />

também chorava. O tio no entanto pensava profundamente.<br />

Pan-noa só percebeu a gravidade da situação quando se deparou com a magnitude<br />

dos cinco trans universo imperiais que estavam estacionados na órbita de Kalum<br />

Br, seu planeta. A pequena nave de translado acoplou-se na extremidade da cabine de<br />

comando da nave. Alguns inspetores ainda faziam ajustes na nave quando a família<br />

imperial chegou. Pan-noa estava branco. Um dos inspetores veio ao encontro de Pannoa.<br />

- O senhor gostaria de algum ajuste pessoal Pan-noa?<br />

- Não, obrigado. Conheço essa nave mais do que qualquer um.<br />

- Conhece mesmo senhor? – Perguntou o inspetor incrédulo.<br />

- Você não tem tido muito contato com os simuladores de última geração, tem?<br />

O inspetor olhou estarrecido para Pan-newe.<br />

- É inspetor, é possível sim. Ele entrou no sistema de defesa, roubou os códigos<br />

de acesso e tem nos monitores de seu quarto todos os simuladores de todas<br />

as naves de batalha de nossa frota. Graças ao bom Deus que é o meu filho e não um<br />

inimigo, você não acha?<br />

O Inspetor olhava para Pan-noa mais incrédulo ainda. Pan-noa no entanto<br />

deslocou-se para os controles e mexeu em alguns comandos. Então uma voz muito<br />

sensual foi ouvida por toda a nave.<br />

- Kenn, processador de comandos, apresentando-se para navegante. Saudações<br />

Pan-noa. Nave pronta para partida, destino Marson com conexão na lua Defort.<br />

- Ótimo. – Disse Pan-newe. – Está mais que perfeito.<br />

Pan-noa voltou-se para seus pais e abraçou-os.<br />

- Vocês vão se orgulhar de mim. Podem ter certeza.<br />

Pan-noa estava agora sentado sozinho em frente aos comandos da enorme nave<br />

e via, através das janelas, o breu do universo infinito.<br />

- Kenn. Quando você quiser.<br />

- Comandos ligados, navegante. Ignição de plasma. Estamos a caminho da<br />

dobra.<br />

E assim o trans universo imperial se deslocou da órbita de Kalum Br e encaminhou-se<br />

para a dobra do espaço. A viagem até a dobra iria levar alguns dias.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A única coisa que deixou Pan-noa preocupado foi o fato de não ter perguntado<br />

ao tio qual era a tão valiosa carga que ele estava transportando.<br />

A chegada do livro<br />

Somente após alguns instantes depois do trans universo imperial tomar velocidade<br />

galaxial, Pan-noa começou a perceber sua nova realidade. Nos centenas de<br />

monitores ao seu redor Pan-noa começou a ver o tamanho real da nave e, para seu<br />

maior espanto, a magnitude do poder de batalha que estava em suas mãos. Ficou<br />

perplexo. Estava em silêncio, pensando se aquilo não era um sonho. Estava quase que<br />

caindo numa espécie de depressão melancólica, por se sentir tão pequeno em relação à<br />

guinada que seu destino dera. Então, de repente ficou de pé, olhou ao redor da imensa<br />

e absurdamente extravagante sala de controle e disse:<br />

- Caralho... Esta é maior cagada em que eu me meti na minha vida! Kenn?<br />

- Sim Pan-noa?<br />

- Acho que a navegação até a dobra está pré determinada, não está?<br />

- Sim Pan-noa.<br />

- Bom, então vamos precisar de diversão por aqui. Em primeiro lugar quero<br />

mais iluminação em toda a nave, em segundo quero video-reunião com os seguintes<br />

códigos, são de meus amigos e resolvi que eu vou dar uma festa virtual nessa porra!<br />

- Pan-noa, a iluminação já está providenciada. – A nave ficou muito iluminada<br />

e brilhante por dentro. – Quanto à sua festa, infelizmente não podemos fazer comunicação<br />

externa, chamaria a atenção de possíveis investigadores e colocaria em risco a<br />

missão da entrega.<br />

- Que merda! Não vou poder falar com ninguém durante todos esses dias?<br />

- Infelizmente não.<br />

- Puxa Kenn... Bem, vamos então nos divertir de outra forma. Que tal um<br />

simulador de navegação de aerojet? Você conseguiria tomar as características do meu<br />

Drakunum Maximatrya?<br />

- Conseguiria, mas devo informá-lo de algo.<br />

- Vai me dizer que devo ficar aqui sentado nestes controles até Marson? –<br />

Disse Pan-noa, já ficando irritado.<br />

- Não Pan-noa. Esta nave tem corredores largos e posso abrir todas as portas<br />

da nave ao mesmo tempo, já que você está sozinho aqui dentro. Quero lembrá-lo que<br />

esta nave tem cem quilômetros de extensão por quarenta de largura e mil metros de<br />

altura intercalados por magníficos mezaninos, alguns com cascatas e vegetação. É<br />

uma nave de batalha transformada por um dos melhores decoradores...<br />

- Não! – Disse Pan-noa eufórico, interrompendo o discurso de Kenn. – Você<br />

não está me dizendo que...<br />

- Devo trazê-lo imediatamente? - Kenn já estava se acostumando ao modo de<br />

falar do garoto.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Imediatamente!<br />

Uma escotilha se abriu na sala de comando e do chão saiu a devastadora visão<br />

da carenagem com o símbolo do dragão cuspindo fogo do Aerojet Plasma! Drakunum<br />

Maximatrya.<br />

Pan-noa tremía. Então a voz de Kenn falou.<br />

- Devo conectar em sua pérola-cubo uma planta detalhada da nave Pan-noa?<br />

- Sim!<br />

Pan-noa deu um pulo e mal caiu no aerojet este já estava atravessando a sala<br />

de comando. Então Pan-noa viu com seus próprios olhos algo que nem os melhores<br />

simuladores do universo poderiam mostrar: o saguão de conexão dos setores de um<br />

trans universo imperial. Era uma queda de mil metros num vão com vários corredores<br />

conectando as extremidades dos vários andares de mezanino. Pan-noa comunicou a<br />

Kenn, via pérola-cubo, algumas instruções e, em segundos, a nave inteira foi chacoalhada<br />

com o pulsar de vozes de cantos eufóricos e batidas desconexas do que poderia<br />

ser uma música tão pesada quanto uma batalha.<br />

Pan-noa caiu em parafuso até o fundo do saguão e ficou estarrecido com o<br />

enorme chafariz lá em baixo. Teve que subir e descer várias vezes para reconhecer o<br />

saguão. A partir daí começou a entrar nos outros setores da nave. Pan-noa voou com<br />

seu aerojet pelos corredores, salas, saguões da nave até que, exausto, depois de horas<br />

voando resolveu voltar para sala de comando.<br />

- Kenn, a única coisa que eu devo dizer a você é que eu te amo!<br />

Kenn riu.<br />

- Deseja algo para comer?<br />

- Sim os melhores sanduíches que alguém possa fazer! E por favor diga que<br />

pelo menos podemos receber programação de tele.<br />

- Ah! Isso sim, qual a programação?<br />

- Bem vamos ver o que está acontecendo com “Alnos” no seriado “A Volta<br />

do Senhor das Sombras”. Sabe, eu adoro essas coisas de castelos antigos com janelas<br />

feitas de ferro retorcido.<br />

- Ah sim, a idade das sombras foi um momento muito interessante na nossa<br />

cultura. Seu sanduíche está pronto e servido nos sofás laterais. Um dos monitores<br />

servirá de tele para você, Pan-noa. Divirta-se.<br />

- Obrigado Kenn. A propósito, poderíamos manter o mesmo horário de Kalum<br />

Br?<br />

- Sim claro, são nove horas da noite agora.<br />

- Ótimo! Assim que eu terminar de comer e ver o programa vou dormir. Você<br />

pode me acordar às sete. Estou louco para nadar naquele lago artificial que descobri lá<br />

atrás.<br />

- É uma ótima ideia Pan-noa, boa noite.<br />

Pan-noa sentia-se realmente satisfeito com tudo aquilo, mas mesmo assim não<br />

conseguia parar de pensar em Be.<br />

O som de uma bela melodia começou a ser ouvida por Pan-noa, introduzida em<br />

seu sistema auditivo através da pérola-cubo. A música foi aumentando até que toda<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

nave se transformou em uma grande orquestra. Os monitores mostravam o lago artificial<br />

que Pan-noa queria nadar. No ambiente do lago, Kenn preparara um magnífico<br />

nascer do sol virtual. Além disso, na sua frente Pan-noa tinha ovos, torradas, cremes<br />

verdes e frutas fatiadas.<br />

- É impressionante Kenn, muito obrigado.<br />

- É um prazer servi-lo, Pan-noa. Gostaria de fazer uma pergunta. Durante seu<br />

sono notei manifestações estranhas no seu corpo...<br />

- Ah sim! Vou lhe mostrar.<br />

Pan-noa tirou seu pijama e ele mesmo ficou abismado ao se olhar num dos<br />

espelhos. Seu corpo estava inteiro coberto por uma paisagem paradisíaca. Existiam<br />

mesclas de belos pequenos animais e no centro estava Be mexendo nas flores que a<br />

cercavam. Pan-noa ficou parado olhando o corpo nu da menina desenhada na sua pele.<br />

Ficou um pouco triste mas Be olhou para ele através do reflexo no espelho e sorriu.<br />

Depois disso a tatuagem se transformou em duas aves idênticas que agora ocupavam<br />

os braços de Pan-noa. As aves bateram as asas algumas vezes e ficaram imóveis.<br />

- É, por enquanto é só pessoal. – Disse Pan-noa melancólico.<br />

- Isso foi muito legal Pan-noa! – Disse Kenn com uma entonação verdadeiramente<br />

empolgada.<br />

- Sabe Kenn, eu realmente estou começando a gostar de sua companhia.<br />

- Obrigada, agora que tal seu desjejum? Gostaria de algo a mais?<br />

- Não está ótimo, vou comer e me divertir.<br />

O lago era incrível, estava cercado por um jardim maravilhoso e ainda tinha<br />

uma cascata em que se podia sentar e ficar sentindo a água bater nas costas. Pannoa<br />

resolvera passar o dia ali. Pediu a Kenn para servir seu almoço embaixo de uma<br />

grande árvore. Passou o dia explorando a pé os arredores do lago. No final da tarde<br />

deu mais algumas voltas com seu aerojet, descobrindo as partes mais extremas da<br />

nave. Ficava impressionado a cada descoberta que fazia.<br />

Passou alguns dias assim, se divertindo e descobrindo os cantos e mais cantos<br />

da nave. Quando estava para ficar enjoado daquilo tudo Kenn anunciou que ele deveria<br />

vir a sala de comando.<br />

- Pan-noa, devo pedir que sente-se na cadeira de comando da nave, estamos<br />

por chegar no espaço de dobra.<br />

- Ah! Finalmente. Quanto vai demorar?<br />

- Mais ou menos cinco minutos. Está preparado?<br />

- Sim.<br />

- Ótimo: vou começar o procedimento.<br />

Então a nave deu uma guinada para baixo, entrou em algo que parecia um túnel<br />

e logo depois voltou ao normal. Todos os monitores estavam desligados e a mesa de<br />

comando estava sem luz alguma. Kenn estava fazendo tudo sozinha.<br />

- Cá estamos Pan-noa. Agora, contagem regressiva em cinco, quatro... - Neste<br />

momento Pan-noa percebeu uma luz vermelha piscar no canto da sala de comando.<br />

Era o alerta de que algo tinha chegado à nave. Uma entrega qualquer, pensou Pan-noa.<br />

- ... Três , dois, um. – Continuou Kenn.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A nave deu um solavanco e entrou na velocidade de dobra. Pan-noa estava<br />

atravessando o universo.<br />

- Estamos estabilizados? – Perguntou Pan-noa a Kenn.<br />

- Sim e você tem um pacote na parte esquerda da sala de comando, chegou<br />

antes de nossa entrada na dobra.<br />

- É; eu percebi.<br />

Pan-noa foi verificar. Tratava-se de um pacote e um envelope. Os dois tinham<br />

o selo de Schaia III, o Imperador Mago. Pan-noa abriu o pacote e deixou o envelope<br />

em cima da mesa de comando. Ao ver o que havia dentro do pacote, Pan-noa falou<br />

confuso:<br />

- Um livro mandado pelo Imperador Schaia III para mim?<br />

Então Pan-noa viu o título do livro e leu em voz alta:<br />

- “O Mago de Prata”. Kenn, quanto tempo nós temos até sair do espaço de<br />

dobra?<br />

- O suficiente para que você leia o livro, Pan-noa.<br />

- Ótimo, vou fazer como nos velhos tempos, sem usar minha pérola-cubo.<br />

Então Pan-noa entrou no mundo do Mago de Prata. Enquanto lia Pan-noa tinha<br />

verdadeiros espasmos de riso, gargalhava sem parar.<br />

- Ai, meu Deus! Acho que o Imperador enlouqueceu! É a coisa mais ridícula<br />

que eu já li em toda a minha vida! Fadas, duendes e semi deuses, tudo isso ainda<br />

naquela porra daquele Planeta Azul! E agora o cara está apaixonado por um mago<br />

assexuado! Acho que o imperador vai cair do trono logo logo!<br />

- Pan-noa. – Disse Kenn. – Prepare-se para a reentrada.<br />

De fato a reentrada foi um pouco mais dramática. Houve um tremendo solavanco,<br />

algumas luzes de alerta piscaram. Pan-noa arregalou os olhos e viu que um dos<br />

sistemas estava falhando, virou-se então para ajustar e, ao sair da cadeira sentiu mais<br />

um solavanco que o derrubou. Ao cair não percebeu que o envelope que recebera<br />

junto com o livro caíra em baixo de sua cadeira.<br />

- Ei Kenn! Pode dar uma ajudazinha aqui?<br />

- Pan-noa, estamos em dificuldades mas acho que logo vai voltar ao normal,<br />

vou desviar algumas prioridades de auxílio.<br />

As luzes já não piscavam. Pan-noa levantou-se e chacoalhou a cabeça.<br />

- Puxa! Que coisa. Pode me informar o que houve Kenn?<br />

- Sim, já estou preparando um relatório.<br />

A Maldição de Schaia III<br />

Pan-noa começou a ficar confuso. Os dois maiores monitores que ficavam ao<br />

lado da grande janela frontal da nave estavam totalmente enlouquecidos. Esses monitores<br />

mostravam a localização da nave dentro do mapa estelar, mas neste momento<br />

não mostravam nada, a não ser o caótico piscar de linhas e pontos. Era como se os<br />

monitores tentassem se comunicar com vetores que o Império havia colocado no es-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

paço para a localização das naves e não conseguissem.<br />

O resto parecia estar funcionando normalmente. Nenhuma avaria na nave havia<br />

sido detectada. Então Kenn disse:<br />

- Pan-noa a nave está em pleno funcionamento. O único problema detectado<br />

foi na localização de nossa posição no mapa estelar.<br />

- Bem... Isso eu já estou percebendo. Os monitores de mapeamento não estão<br />

fornecendo os dados. Posso saber o que isto significa?<br />

- Espere mais um instante.<br />

O instante foi mais demorado do que Pan-noa desejara.<br />

- Kenn por favor, seja lá o que for me informe. - Pan-noa estava sentado ereto<br />

na cadeira de comando, olhando para a janela e percebendo apenas um breu à sua<br />

frente. – Ei! Não deveria haver umas estrelas e alguns planetas por aqui? Afinal nós<br />

deveríamos estar no sistema do maldito planeta Marson, não deveríamos?<br />

- Deveríamos, Pan-noa.<br />

- Então - Pan-noa estava gritando. – Dá prá me explicar o que está acontecendo<br />

com essa porra?<br />

Houve mais um momento de silêncio e então Kenn começou a falar muito<br />

devagar:<br />

- O livro que você recebeu.<br />

- Sim o que tem?<br />

- Eu passei as informações do livro para o meu banco de dados.<br />

- E o que essa bosta dessa bicha do Mago de Prata tem a ver comigo?<br />

- Não só tem a ver com você Pan-noa, com tem a ver com todo o Império.<br />

- Como assim?<br />

- Leia a última página do livro.<br />

Pan-noa tomou o livro nas mãos e leu a última página, agora prestando muita<br />

atenção.<br />

- Meu deus! – Disse Pan-noa com o livro aberto. – Veja o que o filho da puta<br />

diz: “... A energia dos Extuárticos será imediatamente cortada ... Vocês viverão na<br />

mais absoluta miséria ... Os planetas viverão isolados!” Isso significa que ... – Agora<br />

Pan-noa começara a chorar.<br />

Foi Kenn que tentou explicar melhor a situação para que Pan-noa pudesse realmente<br />

entender, apesar de ele já ter entendido sozinho, de alguma forma.<br />

- Isso significa que sem a energia dos Extuárticos, os espaços de dobra não<br />

podem ser feitos. Isso significa também que quando nós estávamos atravessando o<br />

espaço de dobra este foi desfeito e nós estamos em algum lugar do universo sem<br />

parâmetro nenhum de reconhecimento, pois os vetores dos mapas foram igualmente<br />

desconectados. Nenhuma nave poderá sair de seu próprio sistema. E nós estamos<br />

completamente perdidos no meio do fim do mundo.<br />

Enquanto Kenn falava, Pan-noa apanhou de baixo de sua cadeira o envelope<br />

que tinha chegado com o livro e que ele não tinha aberto. Ao lê-lo, Pan-noa teve que<br />

admitir: tudo que Kenn estava falando era a mais pura verdade. Os planetas estavam<br />

isolados, os mapas estelares não estavam mais disponíveis para a navegação e todo o


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Império estava simplesmente fodido.<br />

Pan-noa afundou-se inteiramente na cadeira e começou a chorar, a chorar de<br />

verdade. Kenn tinha parado de falar. Pan-noa encostou a testa na mesa de controle e<br />

começou a esmurrar o braço de sua cadeira, então fechou a mão num punho a levou-a<br />

a sua boca soltou um urro e caiu no chão, ao lado da cadeira, desfalecido.<br />

O Planeta Deusaflor<br />

Os guerreiros Litri, Milos e Clia conseguiram, no último momento, entrar no<br />

tronco oco da enorme árvore. Quando entraram notaram que a água do rio passava por<br />

baixo e dentro do tronco.<br />

- É um milagre! – Disse o pequeno Litri. – Vamos, entrem na água e não saiam,<br />

assim eles não vão sentir mais nosso cheiro.<br />

Os três entraram na água e logo ouviram a voz de um dos homens que os perseguiam.<br />

- São apenas três crianças e vocês não conseguem pegá-los! Imprestáveis!<br />

O som de patas de cavalos estava em toda parte. De repente dois cães entraram<br />

no tronco oco da árvore. Os três afundaram a cabeça na água e ficaram o máximo que<br />

puderam. Quando se levantaram os cães já não estavam. Ficaram ali por horas. Ao<br />

cair da noite já não ouviam mais nada. Saíram da água mas ficaram dentro do tronco.<br />

- Nada de fogueiras. – Resmungou Clia. – Ficaremos aqui até estar bem<br />

escuro. Durante o outro lado da noite iremos atrás deles. Devemos descobrir até onde<br />

chegaram.<br />

- Sabe o que vai acontecer se nos apanharem? – Disse Milos. – Vão nos arrancar<br />

a verdade e descobrirão o caminho.<br />

Clia olhou triunfante para os dois. – Eu não abriria minha boca por nada nesse<br />

mundo!<br />

- Nós também não! – Disse Litri. – Mas você sabe o que eles podem ter para<br />

nos fazerem falar?<br />

- Porque não voltamos às cavernas e não contamos aos outros que existem<br />

intrusos procurando?<br />

- Porque fomos longe demais. – Disse Clia.<br />

- Você quer mostrar coragem aos outros ou a si mesma Clia?<br />

- Eu quero proteger a Deusa, coisa que nossa tribo tem esquecido ano após<br />

ano. Esqueceram-se que são guerreiros, que seu destino é o de proteger a Deusa e<br />

que são treinados como nós fomos para serem guerreiros e enfrentar qualquer um que<br />

saiba o segredo da existência da Deusa.<br />

Os dois se calaram. Sabiam que aquilo era verdade, mas sabiam que eram um<br />

dos poucos que haviam visto a Deusa com os próprios olhos.<br />

- Talvez seja porque eles nunca a tenham visto... – falou pensativamente Milos.<br />

- Não. – Respondeu Litri. – É porque são estúpidos, porque querem viver<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

como os outros, como as outras tribos, tanto que venderam o segredo de Sua existência.<br />

Pensam que Ela é imprestável.<br />

- Pela Deusa! – Disse Clia tocando a testa. – Como podem?<br />

- E o que querem com Ela afinal? – Interrogou Milos.<br />

- Disseram que Ela é valiosa, que tem poderes mágicos, que pode curar até a<br />

morte.<br />

- Isso é um absurdo! Todos sabem que a Deusa só faz aquilo que faz para<br />

preservar o nosso mundo, que sem ela simplesmente não haveria mais equilíbrio.<br />

- São tolos, Clia, todos tolos. Aposto que fariam dela uma peça de decoração.<br />

É uma pena eles não saberem que ela só dura três pétalas ao chão a cada trinta luas.<br />

- É. É uma pena que dure tão pouco. Como alguém pode ser tão belo? – falou<br />

Litri, bocejando. Recostou-se em Clia e logo os três dormiram.<br />

O despertar de Pan-noa<br />

Kenn enviou uma dose de Enecto-Lex para a pérola-cubo de Pan-noa depois<br />

de algum tempo que o menino ficara deitado no chão. A droga logo o fez despertar.<br />

Pan-noa levantou-se calmamente e, durante algum tempo, ficou pensando preguiçosamente.<br />

A droga iria trazê-lo à realidade com um pouco mais de conforto e, realmente,<br />

ele sentou-se de novo na cadeira e pegou a carta de Schaia III.<br />

- Existe alguma coisa errada com tudo isso, Kenn.<br />

- Eu imagino o que seja, mas fale sua teoria.<br />

- Bem, aqui diz que todos os planetas foram alertados para não mandarem<br />

nenhuma nave para os espaços de dobra... Então, por que nós não fomos avisados?<br />

- Vocês foram.<br />

- O que?<br />

- Vocês foram. Era para você voltar para Kalum Br mas meus sensores foram<br />

alterados. Seu tio tinha muita urgência em mandar aquele material para a lua de Marson.<br />

- Francian. – Falou Pan-noa. – Como fomos acreditar nele?<br />

- Ele nos traiu, Pan-noa. A todos nós. Ele sabia de tudo desde o começo. Seu<br />

plano foi tão pérfido que ele me programou para contar isso a você somente agora,<br />

quando estivesse tudo acabado. E você perdido. Acredito que seus pais estejam mortos,<br />

Pan-noa. Desculpe.<br />

Pan-noa só não teve outro ataque porque Kenn o estimulou ainda mais com<br />

Enecto-Lex. Pan-noa ficou durante muito tempo parado, apenas pensando. Quando<br />

finalmente voltou a si perguntou:<br />

- Mas e quanto à entrega? O que era?<br />

- Na verdade ele ainda tinha esperanças de que você conseguisse entregá-la há<br />

tempo. Depois, provavelmente, seria morto pelo próprio Império por estar navegando<br />

numa área que não era do seu sistema. Acredito que o produto em si não vale nada<br />

para você.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Mas o que é afinal?<br />

- É um contrabando, um produto altamente proibido pelo Império.<br />

- Sim, Kenn. Você está me deixando curioso.<br />

- Bem, é um ser semi-humano moldável do planeta Lafrout.<br />

Pan-noa afundou de novo na cadeira.<br />

- Eu não acredito! Para quem ele iria vender tamanha aberração?<br />

- Não tenho a mínima ideia, mas acho que deveríamos...<br />

- Não. Eu quero ver isso com os meus próprios olhos. Se meus pais morreram<br />

por isso e eu estou perdido nesse fim de mundo, eu quero ver de perto esta bosta.<br />

Então, Pan-noa subiu no seu aerojet e disse a Kenn:<br />

- Dê-me as coordenadas de onde está estocado o produto. Enquanto isso, neutralize<br />

os programas de mapas convencionais, amplie todos os telescópios e tente<br />

achar algum sistema que seja semelhante a algum do Império. Mesmo que não se<br />

assemelhe encontre um que possa ter um planeta habitável. Vamos sair desta enrascada<br />

Kenn!<br />

A droga estava ajudando, mas quando Pan-noa avançou nave adentro começou<br />

a chorar. Seus pais estavam mortos. Mortos da pior maneira possível, por traição.<br />

Então sua mente se reverteu. Pensou em Schaia III que também traíra o Império. Pensou<br />

em Be. Será que o crápula do tio mandara matá-la também? Começou a acelerar<br />

mais seu aerojet. Era a raiva.<br />

- Eu vou vingá-los. – Disse a si mesmo. Olhou então para sua mão e notou<br />

uma figura se formando. Era o rosto de um ser magnífico. Então a animotatoo formou<br />

em volta da cabeça deste ser um manto prateado. Pan-noa sorriu. Um sorriso aterrador.<br />

– Sim, e você vai ser o primeiro! Por você ser o que é, por você ter começado isso<br />

tudo, por você ter enlouquecido Schaia III ... eu vou matá-lo Mago de Prata, você será<br />

o primeiro.<br />

Pan-noa chegara em uma sala lacrada. Ele desceu calmamente de seu aerojet,<br />

porém suas feições estavam com a expressão da mais pura raiva.<br />

- Destrave Kenn.<br />

A porta se abriu. Era um quarto escuro que foi se iluminando à medida que<br />

Pan-noa entrava. Uma luz azul e fria focava uma espécie de caixa metálica ornamentada<br />

em vidro, muito parecida com um caixão funerário. Dentro da caixa havia um<br />

líquido azul viscoso e, mergulhado no líquido, pairava o corpo de um ser mais ou<br />

menos do mesmo tamanho que o seu.<br />

Na parte de cima do “caixão” havia uma mensagem em código. Pan-noa leu e<br />

transferiu os dados para sua pérola-cubo. Imediatamente retornou a tradução:<br />

“De Francian, novo rei de Kalum Br, com afeição. Devo dar-lhe um conselho:<br />

ao matar o menino, faça do bio Andróida algo parecido com ele, afinal não é Pan-noa<br />

uma graça? A propósito! Se o fizer, molde um pênis um pouco maior, afinal, nesta<br />

idade, bem, você sabe...Saudações Francian.”<br />

- Kenn?<br />

- Sim Pan-noa?<br />

- Transfira essa caixa para a sala de comando.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Tem certeza?<br />

- Absoluta. Ao olhar para esse semi humano eu vou lembrar todos os dias que<br />

devo vingar meus pais através dele.<br />

Os guerreiros Litri, Milos e Clia<br />

Ao passar da lua pela árvore os três guerreiros acordaram.<br />

- Vamos descer pelo rio. – Disse Clia. - Foi por lá que eles foram. Temos que<br />

entender como andam, como lutam e se suas armas são mais fortes do que as nossas.<br />

- Nossa maior arma é a Deusa. – Falou Milos. – Estamos contatados com ela<br />

através do solo, das árvores, do ar e das águas.<br />

- Sim. – Disse Litri. – Nossos olhos estão brancos de novo, a cor dos olhos da<br />

Deusa! Devemos seguir rapidamente. Lembrem-se que o contato dura pouco.<br />

Os três tomaram um tronco grande e, sob as fortes correntezas, desceram o rio<br />

em direção à vila dos homens. Os três agora tinham o poder da Deusa. Manipulavam<br />

em pequena escala a natureza que os cercava. As águas do rio empurravam-nos mais<br />

rapidamente e eles conseguiam segurar no tronco tão forte que nem a correnteza iria<br />

derrubá-los. Os três conseguiam enxergar à noite de maneira que nenhum outro ser<br />

humano conseguiria sem artifícios tecnológicos.<br />

- Nossa nunca durou tanto! – Disse o pequeno Litri.<br />

Clia estava igualmente ansiosa.<br />

- Estamos mais fortes! Algo importante está ocorrendo! Nunca senti Sua presença<br />

desta forma.<br />

- Vamos continuar até onde pudermos então. – Afirmou com convicção Milos.<br />

- Sim! Estou sentindo também! Jamais imaginei tamanha força!<br />

Os três navegavam rapidamente e então viram fogueiras. Era o acampamento<br />

dos homens! Estavam dormindo.<br />

- Vejam! – Disse Clia. – Uma sentinela.<br />

- Sim e está cochilando.<br />

- Devemos matá-los? – Perguntou Litri assustado.<br />

- Sim. – Disse Clia. - Mas deixaremos o líder vivo. Vivo, porém sem as mãos.<br />

Litri estremeceu, mas logo fitou o brilho da lua e seus olhos cintilaram. Ele foi<br />

o primeiro a tomar fôlego e seguir por baixo d’água para a margem. Os outros dois o<br />

seguiram. Litri saiu da água e, sem fazer nenhum barulho, apunhalou o sentinela na<br />

garganta, por trás. Milos e Clia já estavam dando conta dos outros. O líder acordou<br />

com seus companheiros mortos, os cavalos afugentados e seus pertences queimados.<br />

Ele estava amarrado, deitado no chão. Então Litri falou.<br />

- Por nos perseguir e tentar achar a Deusa, deverias morrer, porém, serás o<br />

aviso que mandaremos para seu povo e para todos os que vivem nas planícies, que não<br />

devem tentar achar a Deusa. Ela nada tem para vocês. Agora vá.<br />

Assim Litri cortou as cordas que estavam amarrando o líder. Num piscar de<br />

olhos Clia e Milos deceparam as duas mãos do homem. Ele caiu de dor. Litri cortou as<br />

cordas que amarravam os pés. Os três então juntaram o homem que estava aos prantos


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

e o empurraram para frente, na direção da correnteza do rio.<br />

Seus olhos ficaram negros de novo e o sol aparecia.<br />

- Devemos descansar e segui-lo à noite, quando o poder voltar. Devemos ver<br />

o que irá acontecer. – Disse Clia.<br />

- Teremos o poder de novo? – Perguntou Litri.<br />

- Agora teremos, enquanto isso durar. – Disse Milos.<br />

O Quarto Planeta<br />

A figura mórbida do “caixão” na sala de controle já não assustava mais Pannoa.<br />

Na verdade, Pan-noa não se referia ao “caixão”, mas ao pseudo ser que estava<br />

ali dentro.<br />

Enquanto Kenn procurava algum planeta habitável Pan-noa lera o livro dezenas<br />

de vezes. Estava realmente perplexo com a história. Estava perplexo principalmente<br />

com o poder deste ser nefasto que chamavam de Mago de Prata.<br />

- Eu espero que Schaia III tenha exagerado nisso tudo. Não pode ser possível<br />

alterar a realidade como estes seres fizeram.<br />

Pan-noa lia, relia o livro e não via sentido para o que estava fazendo.<br />

- Porque não paro de ler esta bosta? – Perguntava-se. Então parou, colocou o<br />

livro aberto no joelho e olhou para a Andróida ali, deitada dentro da água que a mantinha<br />

em estado de semi vida.<br />

- Transforme-o no menino morto, afinal Pan-noa não era uma graça? - Então<br />

este semi-humano deveria ser moldado em outro qualquer, não é? – A cabeça de Pannoa<br />

estava fervilhando quando Kenn falou.<br />

- Pan-noa, coordenadas em posição, achei um planeta!<br />

- Ei calma lá! Não estamos mapeados. Como evitaremos corpos estelares?<br />

- Bom, eu achava que você soubesse como navegar um trans universo imperial....<br />

- Ah então é isso!<br />

- Modulo manual ativado. – Disse Kenn. Pan-noa estava nervoso. – Escudo de<br />

defesa ativado. Armas de defesa ativadas.<br />

A monstruosa nave começou a tomar outra forma. A cabine de comando foi<br />

para frente e Pan-noa, abismado, assistia tudo pelo monitor. Os dois monitores ao lado<br />

da janela que dava para o espaço ampliaram a localização do planeta e projetaram um<br />

mapa vetorial. Todas as luzes do painel foram ligadas. Um capacete que era muito<br />

maior do que a cabeça de Pan-noa desceu do teto e tocou em seus ombros. Dali Pannoa<br />

tinha uma visão total de dentro da sala de controle e, transparentemente, da parte<br />

de fora da nave. Pan-noa sentiu suas mãos penetrando em luvas. Ele tinha o toque de<br />

qualquer instrumento da sala de controle de onde estava.<br />

- SHOW! – Gritou ele. – Vamos arregaçar!<br />

- Já tenho um vetor apropriado. Vamos ter uns rodopios para evitar alguns<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

asteroides. Daremos a volta naquele planeta enorme, impulsionando nossa velocidade<br />

a 906.759 L.U. Estaremos chegando ao planeta no próximo amanhecer. Vou usar um<br />

estimulante atemporal em sua pérola-cubo assim, quando chegarmos ao planeta você<br />

poderá dormir. Até lá, você é o navegante.<br />

- Estou preparado. – Disse Pan-noa, eufórico.<br />

A pancada da droga atemporal em seu cérebro foi pavorosa. Pan-noa parecia<br />

sentir uma força indomável em seu corpo.<br />

- Pan-noa, partida em três, dois, um.<br />

Ele focalizou sua força em um só ponto: chegar ao planeta com a nave inteira.<br />

Os fatos foram totalmente alterados em sua memória. Não havia uma linha<br />

de tempo a ser seguida. Ele viu um enorme asteroide se aproximando à sua esquerda<br />

antes mesmo de Kenn falar “dois” na contagem regressiva. Viu três luas passarem e só<br />

depois visualizou um planeta. Talvez eles tenham passado por muitos planetas, mas a<br />

única coisa que a mente de Pan-noa conseguia fazer era focalizar a chegada a salvo. E<br />

assim foi. Quando chegaram, Pan-noa visualizou um lindo planeta laranja pálido com<br />

tons de verde azulado e uma grande atividade atmosférica. Foi o que o fez relaxar.<br />

- Muito bem Pan-noa, estamos salvos. O planeta é o quarto de seu sistema,<br />

habitável, praticamente do mesmo tamanho de Kalum Br. Mas depois falaremos sobre<br />

isso, agora é melhor você dormir.<br />

Pan-noa olhou para cima com os olhos vidrados, como se estivesse bêbado e<br />

falou:<br />

- Boa noite Kenn e boa noite para você também Andróida.<br />

A Cidade dos Homens<br />

Os três guerreiros da Deusa seguiram o homem que conseguira recuperar um<br />

cavalo. Ele estava desmaiado nas costas do animal. A jornada foi longa. Os três guerreiros<br />

perceberam que o homem havia morrido, mas mesmo assim o cavalo continuava.<br />

Quando os três avistaram a cidade de cima de uma pequena montanha, ficaram<br />

estarrecidos. Era uma cena muito triste.<br />

Sob um céu cinza escuro o cavalo andava cansadamente numa trilha em meio<br />

ao capim baixo. Ele se dirigia a um portal feito de ferro que agora se encontrava aberto.<br />

A cidade era inteira feita de pedras negras, as casas muito parecidas umas com as<br />

outras se empilhavam como se faltasse espaço. O amontoado de telhados altos e pontudos<br />

dava um aspecto sombrio. Mas o que mais chamava a atenção eram as janelas<br />

feitas de ferro retorcido, parecendo olhos pequenos de algum animal cego.<br />

De cima de uma das torres ao lado do portal, um soldado fazia gestos aos outros<br />

habitantes da cidade. Então várias pessoas vieram correndo de encontro ao cavalo<br />

com seu ocupante moribundo.<br />

Litri, Milos e Clia assistiam a tudo com o coração triste.<br />

- Essas pessoas não sabem viver alegremente. – Disse Clia.<br />

- Como podem se enclausurar em habitações como estas? – Perguntou Milos.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Como vamos entrar lá? Como poderemos ver como nosso inimigo vive afinal<br />

de contas? – Litri falava intrigado.<br />

Então uma figura grande apareceu atrás deles e perguntou:<br />

- O que fazem, filhos de camponeses, fora da escola?<br />

Os três estiveram a ponto de atacar o homem mas notaram que ele estava sorrindo.<br />

- Então preferem os campos do que ficar trancados nas salas... bem, exatamente<br />

como eu fazia. Mas não podem ficar aqui para sempre. Venham. Sigam-me.<br />

Vou levar vocês para a escola de novo. Vocês estão na escola aberta ou no internato?<br />

Nenhum dos três estava entendendo uma palavra que o homem falava, foi Litri<br />

que resolveu experimentar.<br />

- Estamos no internato.<br />

- Puxa que pena. Bem é a vida. Venham. Acompanhem-me antes que algum<br />

soldado os veja.<br />

Os três seguiram o homem em direção a cidade. A cada passo que davam ficavam<br />

mais nervosos.<br />

Quando passaram pelo homem morto, ouviram uma grande discussão.<br />

- Vamos resolver isto hoje à noite. Pelo que estou vendo, muitos dos nossos<br />

parentes morreram nesta empreitada. Devemos achar os malditos que fizeram isto!<br />

E desta vez vamos colocar os soldados para acharem este maldito tesouro que tanto<br />

estão falando.<br />

- E quanto ao estrangeiro? Este que veio do norte com esta notícia de tesouro?<br />

O que faremos com ele?<br />

- Foi o povo dele que matou nossos irmãos e parentes, não foi? Então vamos<br />

queimá-lo como fazemos com as malditas bruxas!<br />

E então ouve um grande alvoroço. Pegaram o homem sem mãos e o levaram<br />

carregado acima das cabeças. Os três guerreiros seguiam tudo aquilo com grande<br />

expectativa.<br />

Clia disse murmurando para Litri e Milos.<br />

- Vão matar Trauro, o traidor.<br />

- Que assim seja. – Falou Litri.<br />

Milos olhava para a cidade se aproximando com os olhos arregalados de terror.<br />

O homem que os estava acompanhando falou:<br />

- Dia alvoroçado para fugir do colégio, não? Não pensem que vou deixar<br />

vocês assistirem ao estrangeiro ser queimado. Vocês são muito crianças para isso.<br />

Crianças. Esta era uma palavra que os três não entenderam. Mesmo assim decidiram<br />

não falar nada ao homem.<br />

Quando chegaram à cidade perceberam que esta era muito maior do que imaginavam.<br />

Os muros eram enormes, havia calçamento de pedras para as pessoas andarem.<br />

Tudo era muito sujo e sombrio. O cheiro de estrume imperava no local. Mas eles<br />

podiam sentir cheiro de comida também. Logo se depararam com uma grande praça<br />

onde o povo começava a se aglomerar. Mas eles foram levados para outro lugar. Andaram<br />

por ruelas e mais ruelas, um verdadeiro labirinto de pedras negras e sombrias.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Chegaram então a uma construção maior com uma enorme porta de ferro negro. Sobre<br />

a porta havia inscrições esculpidas em pedra. Nenhum dos três conseguiu decifrar<br />

aquilo, pois não sabiam ler.<br />

O homem bateu na porta várias vezes mas, no começo da rua, um outro gritou<br />

seu nome:<br />

- Dantres! Corra, vão queimar o estrangeiro!<br />

O homem olhou para os guerreiros e disse.<br />

- Não quero ver vocês perambulando por aí está bem crianças? Logo vão abrir<br />

a porta. Não saiam mais, são dias difíceis.<br />

Os três ficaram olhando o homem descer a rua correndo para se encontrar com<br />

o amigo.<br />

O trinco da porta de ferro se abriu com um barulho forte. Uma voz nada afetuosa<br />

falou sarcasticamente.<br />

- Vejam só! Alunos novos! E pelas roupas esfarrapadas devem ser filhos de<br />

algum negligente ou quem sabe órfãos. Órfãos são o que mais temos por aqui. Vamos,<br />

entrem. Parece que vão queimar alguém.<br />

Os três entraram. O lugar era detestável, escuro. Iluminado apenas por luz de<br />

velas. Seguiram por um corredor frio que desembocava num enorme pátio com chão<br />

de terra vermelha. Lá havia centenas de pessoas gritando e correndo num caos total.<br />

Litri disse baixinho para os outros dois.<br />

- Crianças. Aqui este povo difere pessoas não crescidas das crescidas, não é<br />

um absurdo?<br />

- É engraçado. – Disse Milos. – Seremos tratados como se não soubéssemos<br />

tomar conta de nós mesmos.<br />

- Venham. – Disse a mulher. – Vamos fazer suas fichas e depois para o banho.<br />

Por hoje nada de atividades, apenas jantar e cama. Espero não ter problemas com<br />

vocês.<br />

A mulher deixou os três com uma outra que os introduziu em uma sala com<br />

uma mesa e atrás, uma cadeira.<br />

- Oi. – Disse a nova mulher sentando-se. – Meu nome é Gala e vou fazer<br />

algumas perguntas a vocês. Se não souberem as respostas não fiquem preocupados,<br />

afinal vocês estão aqui para aprender. Os três se olharam quase rindo. A mulher riu da<br />

expressão dos três.<br />

- Bem vamos começar. Primeiro eu quero que vocês me contem de onde vêm,<br />

está bem?<br />

Os três se olharam de novo. Esperaram um pouco e finalmente Clia deu um<br />

passo a frente e começou.<br />

- Nós morávamos no campo, muito ao sul daqui. Morávamos com nossos pais<br />

cuidando das plantações. Então um dia saímos para pescar e, quando voltamos, nossa<br />

casa estava incendiada e nossos pais mortos. Não tínhamos mais ninguém. Fomos até<br />

a casa de um camponês vizinho e ele nos disse que nossos pais haviam sido mortos<br />

por um desses bandos que vivem nas cavernas. Então, o vizinho nos disse para acharmos<br />

uma cidade. Disse que nas cidades eles têm lugares onde cuidam das crianças.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Gala estava quase chorando enquanto ouvia a história de Clia. Milos e Litri,<br />

por outro lado, tiveram que baixar a cabeça para não rir de tamanho descaramento.<br />

- Bem, – Disse Gala. – Sinto muito pelos seus pais. Preciso saber seus nomes.<br />

- Clia, Milos e Litri. – Disse Clia, somos irmãos.<br />

- Sim, isso eu sei. Vocês tiveram algum tipo de educação onde moravam?<br />

Os três ficaram quietos. Não sabiam o tipo de educação que ela se referia.<br />

Foram treinados desde muito pequenos nas artes da caça, defesa e ataque. Moravam<br />

nas florestas, em árvores, conheciam tudo sobre a vida e a morte dentro da selva, conheciam<br />

o poder das plantas, das frutas, das pedras, sabiam os aspectos das coisas pela<br />

observação da lua, do sol, das correntezas dos rios, da forma que a chuva caía, além de<br />

possuírem poderes mágicos quando a Deusa mandava a lua para eles. Mas a educação<br />

à qual Gala se referia, não tinham a mínima ideia do que era.<br />

- Entendo. – Disse Gala. – Bem, não se preocupem. Amanhã vocês começarão<br />

com a turma de aprendizado mínimo. Agora, vamos para um bom banho e depois<br />

jantaremos está bem?<br />

Os três concordaram com a cabeça.<br />

Foram levados para o banho e tiveram uma imensa surpresa ao saber que não<br />

iriam tomar banho num rio mas sim em banheiras com água aquecida.<br />

- Eu não sei quanto a vocês. – Disse Clia. – Mas essa lagoa no meio da sala<br />

com água quente dentro é a melhor coisa que apareceu até agora.<br />

- Clia, – Perguntou Milos. – De onde você tirou aquela história do camponês?<br />

- Você queria que eu dissesse que somos guerreiros da floresta e prestamos<br />

serviços à Deusa?<br />

- Foi muito esperta, Clia. – Disse Litri.<br />

- Obrigada. Mas o que faremos agora?<br />

- Bem, vamos aprender. Aprender com o inimigo.<br />

Pan-noa em Deusaflor<br />

A dor de cabeça era insuportável.<br />

- Kenn por favor, apenas um analgésico.<br />

- Chega de drogas, seu corpo precisa descansar. Tome um suco. Do que você<br />

quiser?<br />

- Verde creme.<br />

O copo de suco apareceu na sua frente. Enquanto Pan-noa tomava o suco, suas<br />

lembranças voltavam. “Meus pais estão mortos”, pensava com lágrimas nos olhos.<br />

Kenn percebera a mudança nas feições do garoto. Deveria mantê-lo ocupado.<br />

- Já enviei micro satélites espiões. Na órbita do planeta, existe vida inteligente,<br />

porém muito primitiva.<br />

- Casas de pedras com janelas de ferro retorcido? – Perguntou Pan-noa lembrando-se<br />

de seu seriado favorito.<br />

- Precisamente!<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Não brinque comigo!<br />

- Estou falando sério. Você se deparou com um planeta que está no que chamamos<br />

em nossa cultura de idade das sombras. Na verdade eles nem possuem algum tipo<br />

de energia a não ser o fogo.<br />

- Não posso acreditar nisso. Pode me dar uma tomada de alguma cidade?<br />

- Já estou preparando isso. Existem várias cidades e vilas no planeta inteiro,<br />

mas acho que você vai gostar muito desta.<br />

O satélite posicionado centenas de quilômetros acima da cidade, orbitando o<br />

planeta, focalizou e começou a transmitir as imagens. Pan-noa vislumbrou, chocado,<br />

um cavalo com um homem morto e sem as mãos indo em direção a uma cidade que<br />

nem nos melhores seriados poderia reproduzir. Era algo de sonho. Uma cidade feita<br />

de pedras negras, janelas feitas de ferro retorcido e telhados pontudos.<br />

- Você não está fazendo isso para me divertir, está Kenn?<br />

- É a mais pura realidade, Pan-noa.<br />

- Muito bem, vamos descer imediatamente.<br />

- Seu traje de proteção já está preparado e obviamente armado. Devo dizer-lhe<br />

apenas uma coisa: você deverá ficar algum tempo sem usar o Drakunum Maximatrya<br />

por que existe uma pequena diferença de tamanho entre este planeta e o seu. Seu corpo<br />

deverá se adaptar a esta nova gravidade para depois você poder voar. Não se esqueça<br />

que a roupa de proteção tem antigravitacionais, então você poderá fazer voos rasos.<br />

Rasos, Pan-noa. A roupa não é um aerojet.<br />

- Está bem. Como nos deslocaremos até lá?<br />

- Não usaremos um transportador comum, vamos deslocar a sala de controle.<br />

Precisarei estar perto de você com todo o equipamento além de estar conectada aos<br />

satélites e ao próprio trans universo imperial, caso algo aconteça. Para entrarmos e<br />

ficarmos sem ser vistos no planeta vamos usar o camuflador.<br />

- E o trans universo?<br />

- Ficará em alerta máximo, qualquer nave num raio de cem anos-luz de distância<br />

será captada e nós seremos imediatamente informados. Em caso de qualquer<br />

ataque a você ou à sala de comando o trans universo imperial lançará um contraataque<br />

imediato ao inimigo.<br />

- Perfeito! Comece a descida imediatamente! Por incrível que pareça minha<br />

dor de cabeça passou!<br />

A sala de comando se soltara do resto da nave, tornando-se assim uma nave de<br />

reconhecimento e uma base para Pan-noa. A nave entrara na atmosfera do planeta e<br />

se aproximava da cidade.<br />

Pan-noa não acreditava no que via enquanto a sala de comando circundava a<br />

cidade.<br />

- Pessoas sendo transportadas por cavalos! Veja, eles têm miliciantes ali em<br />

cima das torres. Kenn, veja: as pessoas estão se aglomerando naquela praça.<br />

Então a alegria de Pan-noa acabou como por encanto. Ele vira um homem<br />

sendo arrastado e amarrado em um poste. Alguns instantes depois o homem estava<br />

morrendo queimado e todo o povo em volta berrava de alegria diante da cena.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Bem-vindo a idade das sombras. – Disse Kenn.<br />

- Vamos estacionar a nave próximo da cidade. Estamos com a camuflagem<br />

máxima?<br />

- Sim, ninguém pode nos ver desde que deixamos o trans universo imperial.<br />

Pan-noa, espero que você saiba que esta roupa de proteção é de última geração. Além<br />

de levitação, ela possui camuflagem tornando você praticamente invisível além de<br />

armas e micro mísseis.<br />

- Sim Kenn, eu ouvi falar sobre ela. Schaia III usou exatamente a mesma<br />

quando desceu de sua nave no planeta Azul. Mas foi bom você ter me lembrado.<br />

Agora devo traçar algum plano?<br />

- Primeiramente devo implantar em sua pérola-cubo a maneira que estas pessoas<br />

se comunicam. Consegui captar algumas falando e consegui o padrão da língua.<br />

Você poderá expressar suas ideias na sua própria língua, a pérola-cubo irá traduzir<br />

imediatamente.<br />

- Perfeito.<br />

- Segundo, devo lembrá-lo que você ainda é uma criança, tente fazer o que as<br />

crianças fazem. Não se esqueça que você tem uma inteligência de talvez mais de dez<br />

mil anos além das pessoas que habitam este mundo, porém, cuidado, às vezes culturas<br />

primitivas podem surpreender. Acho que a melhor coisa a fazer é ir a uma escola.<br />

Acredito que eles devem ter uma. Não sei o que esperar deste planeta, mas devemos<br />

ter esperanças que o programa de Schaia III não tenha interrompido a conquista de<br />

novos planetas, caso contrário, estaremos perdidos aqui para sempre.<br />

Pan-noa baixou a cabeça ao perceber sua realidade. Mas então olhou para fora<br />

da nave e viu a estranha construção à sua frente.<br />

- É como voltar ao passado. Uma experiência única! Devo aproveitar. Só gostaria<br />

de saber porque o destino gosta de me por em tais enrascadas.<br />

Pan-noa vestiu a roupa protetora que imediatamente tomou forma e cor de<br />

seu corpo. Foi até seu guarda-roupa, parou em frente às roupas de última moda em<br />

seu planeta e pensou. “E agora? Se eu sair vestido assim vou ser queimado imediatamente.”<br />

Então teve uma ideia: suas fantasias de festa de passagem de ano! Sim, sua<br />

mãe teria colocado algo em algum lugar. Foi ali que achou uma fantasia que lembrou<br />

muito o personagem do livro O Mago de Prata. “É isso. Uma calça, e por cima um<br />

manto, logicamente não prateado, mas apenas um manto que cubra minha cabeça e<br />

reserve meu rosto em sua sombra. Perfeito!”<br />

- Kenn? Você tem um descaracterizador de identidades aí, não tem?<br />

- Sim, o que você tem em mente?<br />

- Que tal cabelos compridos e brancos até a cintura com duas tranças, olhos<br />

azuis e pele queimada pelo sol?<br />

- Vai ficar uma beleza! Entre na câmara de banho ali atrás, vamos ver o que dá<br />

para fazer.<br />

Quando Pan-noa se olhou no espelho riu muito.<br />

- É isso! Uma pessoa pequena, escondida num manto. Vão pensar ser um mensageiro<br />

de Deus ou qualquer coisa parecida. As tranças deram um toque fenomenal!<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Acho que vou começar a gostar deste visual.<br />

Porém, neste momento sua animotatoo fez um emaranhado de linhas abstratas<br />

perfeitamente simétricas dos dois lados de seu rosto. As linhas começaram a dançar<br />

formando padrões de desenhos em espirais hipnóticas, variando de prata a azul num<br />

dégradé incrível. Pan-noa ficou chocado. Abriu então o manto e a tatoo começou a se<br />

expandir por todo o seu corpo. Ele olhava fascinado para as formas que iam se modificando.<br />

Então Pan-noa começou a tentar interferir nas formas, utilizando o mesmo padrão<br />

de imagens, conseguiu domar a tatuagem até que esta terminou em um pequeno<br />

reflexo prateado dentro de suas duas pupilas.<br />

Pan-noa ainda se olhava perplexo no espelho e reparou em algo que jamais<br />

reparara antes ou, se reparara, aquilo que jamais havia despertado seu real interesse:<br />

era a sua beleza. Olhou novamente dentro de seus olhos, captando o último resquício<br />

de luz deixada pela animotatoo. “Acho que estou começando a ficar bom nisso”. -<br />

Pensou, virou-se e percebeu que nenhum sinal dos comandos se manifestara perante<br />

seu pequeno show. Mas então:<br />

- Pan-noa. – Disse Kenn. – Estamos contatados via pérola-cubo. É só mandar<br />

o impulso do seu pensamento para a pérola-cubo que ela me transmite, está bem?<br />

- Está ótimo, quero informações do planeta inteiro, o que você conseguir<br />

através dos “mini satélites”. Mapas, situação atmosférica, terremotos, furacões, enfim,<br />

tudo.<br />

- Boa sorte Pan-noa.<br />

A escotilha externa se abriu. Pan-noa teve uma descarga de adrenalina e enviou<br />

uma mensagem via pérola-cubo para que sua roupa de proteção flutuasse. Saiu<br />

em um voo rasante da nave. Seu corpo sentiu o impacto do frio do local. Mas logo a<br />

roupa protetora fez a inversão térmica, deixando o corpo do menino em temperatura<br />

confortável.<br />

Pan-noa olhou para cima e viu o céu acinzentado. “Bem-vindo à era das sombras”<br />

- disse a si mesmo. Tocou o solo com os pés e teve o imenso prazer de saber<br />

que estava bem protegido. A roupa protetora não deixaria nada penetrar em sua pele<br />

e quanto aos seus pés, estavam bem confortáveis, mesmo parecendo estar pisando<br />

diretamente no solo.<br />

Começou a caminhada até a cidade. Era bem mais longe do que imaginava.<br />

A reunião<br />

Os três guerreiros comeram sopa. Estavam famintos e aquilo parecia um banquete.<br />

Nenhuma das crianças do local falava com eles. Nem mesmo olhavam para eles.<br />

Eles eram diferentes. Coisa que talvez tenha passado desapercebida pelas mulheres<br />

que cuidavam do local, mas não passaria pelas crianças. Não era apenas o cabelo,<br />

branco demais e curto demais, nem mesmo a cor da pele extremamente morena, nem


Marcelo Paciornik<br />

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as marcas da musculatura, forte demais para crianças mas sim os olhos. O olhar. Um<br />

olhar negro, de um breu total. Coisa que arrepiava. As outras crianças se afastaram<br />

e, na hora de dormir, deixaram os três guerreiros num canto do dormitório, sozinhos.<br />

O poder aguçado de audição dos três fez com que ouvissem algumas conversas<br />

nas camas ao longe. De todas uma interessou mais.<br />

- ...uma reunião. – Dizia um menino. – Quando fui buscar a lenha ouvi dois<br />

soldados conversando. Parece que capturaram dois do povo do norte, do povo que<br />

matou os que foram buscar o tal tesouro. Vão fazer uma reunião para saber sobre este<br />

tesouro. Estão chamando os das cidades vizinhas, querem vingança. Disseram que<br />

vão queimar estes dois que foram capturados hoje a noite mesmo. E sabe do que mais?<br />

Esses estranhos que foram capturados...sabe como eles são? Cabelos curtos, olhos<br />

negros e muito fortes...<br />

Então, na réstia de luz azulada que banhava o dormitório os guerreiros puderam<br />

ver três ou quatro cabecinhas olhando para eles. Os três esperaram e viram<br />

pelas grades da janela uma nuvem escorrer no céu escuro e apresentar a todos da<br />

região uma lua de soberba magnitude.<br />

Quando todas as crianças do dormitório finalmente dormiram, três pares de<br />

olhos brancos cruzaram o recinto sem som algum. Pularam para as vigas que sustentavam<br />

o telhado e se foram pelos labirintos da construção mal vigiada.<br />

As ruelas escuras não eram problema. Na verdade, era a ajuda de que precisavam.<br />

Com o olhar ampliado pela ajuda da Deusa os três se espreitaram em sombras e<br />

buracos até chegar na praça central, agora tomada por uma feroz multidão. Uma voz<br />

falava em cima de um palanque. Os três eram muito pequenos para enxergar, então<br />

subiram em uma construção na lateral da praça e nas sombras fizeram seu refúgio.<br />

Perplexos, viram Mabele e Claia, mãe e filha, amarradas em postes com montes de<br />

lenha abaixo de seus pés.<br />

- Temos que salvá-las. Elas foram capturadas, não são traidoras.<br />

- Mabele é minha mãe. Disse Milos. – Devemos salvá-las agora.<br />

Mas então o orador da cerimônia falou.<br />

- Pela última vez bruxa! Verás sua filha ser queimada se não disseres o que é e<br />

onde fica o tesouro.<br />

Então Claia, filha de Mabele disse:<br />

- Não faça isso por mim, mãe. Lembre-se a Deusa é mais importante para<br />

todos inclusive para este povo imundo.<br />

As palavras caíram como um trovão nos ouvidos da multidão. “Queime a<br />

bruxa” - disse um deles.<br />

- Prometa salvar minha filha. – Disse Mabele.<br />

- Não mãe!<br />

- Sim, prometo. – Disse o orador com uma tocha na mão.<br />

- Então solte-a! Solte-a agora que eu falo.<br />

- Soltem a bruxinha! – Berrou o orador.<br />

A menina mordeu a mão do homem que a soltou e saiu como louca pela multidão.<br />

Alguém a segurou, no entanto, Mabele pensava que sua filha estava livre.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Ao norte atrás das montanhas brancas existe uma montanha, a mais alta de<br />

todas, lá existe uma flor, esta flor é o segredo de um tesouro incalculável, o segredo<br />

até mesmo da vida. Porém se esta flor morrer...<br />

- Balela de bruxa. – Gritou alguém. – Queime-a<br />

Neste momento o orador ateu fogo nas mais próximas lenhas aos pés de Mabele,<br />

o fogo se expandia devagar. Claia gritou no meio da multidão e Mabele começou<br />

a se contorcer para salvar a filha. Milos, de cima do telhado não aguentou ver a mãe e<br />

a irmã neste estado. Pulou seguido por Litri e Clia.<br />

A reunião sob o olhar de Pan-noa<br />

Pan-noa chegou na cidade ao entardecer. Os soldados o saudaram como se<br />

ele fosse um convidado ilustre. “Até agora tudo bem”. Seguiu em frente admirando a<br />

arquitetura da cidade. “Janelas com ferro retorcido. Exatamente como eu imaginei”.<br />

Os telhados pontudos, ora negros ora muito acinzentados, davam um contraste mórbido<br />

ao céu cinzento que ia perdendo a já pouca luz existente. “Parece que entrei num<br />

mundo preto e branco”. Realmente existia pouca cor naquele lugar. Um sentimento<br />

quase de angústia se retorceu no estômago de Pan-noa.<br />

Logo deparou-se com uma enorme praça. Viu que estavam construindo um<br />

grande palanque. Pan-noa decidiu tentar investir em alguma comunicação para ver se<br />

Kenn tinha feito a tradução do padrão de voz corretamente.<br />

- O que temos para hoje à noite, camarada? – Perguntou Pan-noa ativando o<br />

tradutor simultâneo de sua pérola-cubo.<br />

Um homem alto e barbudo virou-se e olhou para baixo, arregalou os olhos e<br />

disse muito alto.<br />

- Olhem o que temos aqui! Um forasteiro do leste! De onde és irmão, de<br />

Flamirnas ou Flancosra?<br />

- Ah! Morei em vários lugares. – Respondeu Pan-noa satisfeito com o investimento<br />

que fizera surrupiando esta pérola-cubo em particular. – Mas nasci em Flamirnas.<br />

- Tanto melhor. – Disse o barbudo. – Teremos um espetáculo, aprisionamos<br />

duas bruxas do norte, aquelas que dizimaram nossos homens da busca do tesouro!<br />

Que eu bem me lembre, tinha um dos seus nesta empreitada. Seu nome era...<br />

Pan-noa viu que era uma boa chance de provar que ele realmente tinha vindo<br />

de Flamirnas. Buscou então na memória do barbudo usando a pérola-cubo.<br />

- Frintas! – Disse Pan-noa surpreso.<br />

- Isso mesmo o pobre Frintas. Mas veja forasteiro, porque não se refresca com<br />

um bom trago de Klandras? Te digo que é a melhor cerveja da região!<br />

- Deve ser mesmo. – Disse Pan-noa indo na direção que o barbudo apontara.<br />

Quando Pan-noa entrou na taverna, todos olharam para ele em busca de algum<br />

conhecido que viera para a reunião. Como ninguém o reconheceu o próprio taberneiro<br />

gritou.<br />

- Aqui camarada, tem um banco aqui. É do leste não é? Talvez de Flamir-


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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

nas...- Pan-noa foi se sentando enquanto o taberneiro continuava. – Sabe, ninguém de<br />

Flarminas chegou ainda.<br />

- Estava viajando. – Disse Pan-noa. – O que está havendo?<br />

- Ah! Uma grande balbúrdia. Sabe, algumas cidades amigas se juntaram para<br />

ir ao norte, pois chegaram notícias de um grande tesouro por lá. Algumas luas mais<br />

tarde, apenas um dos nossos voltou, sem as mãos e morto. Todos os outros devem<br />

ter morrido também. Sabemos que existe um povo que mora ao norte. Um povo de<br />

bruxos. Imagine que eles não rezam para Klaia-am! Não é um absurdo?<br />

- Que barbaridade! – Disse Pan-noa se divertindo.<br />

- Então soubemos que foram estes bruxos do norte que aniquilaram nossa comitiva.<br />

Bem, agora vamos juntar nossos exércitos e exterminar os desgraçados e vamos,<br />

ainda, achar o tal tesouro que eles tanto prezam.<br />

Pan-noa estava atônito! “Kenn! Estou no meio de uma guerra da época das<br />

sombras!”<br />

“Cuidado Pan-noa isso não é um seriado da tele. Estou captando massas de<br />

pessoas indo para onde você está, além disso, no norte começou uma grande euforia<br />

natural, parece que a atmosfera enlouqueceu por lá.”<br />

“Fique atenta a isso. Deixe que eu me viro por aqui. A propósito, posso experimentar<br />

esta cerveja?”<br />

“De maneira nenhuma! Mesmo que o traje protetor possa te salvar de alguma<br />

toxina, quero você atento para os próximos acontecimentos.”<br />

- Ei taberneiro! – Gritou Pan-noa. - Uma cerveja!<br />

- É pra já. A primeira é por conta da casa!<br />

- Obrigado.<br />

Pan-noa tomou a cerveja e saiu da taverna, prometendo ao taberneiro que<br />

voltaria. A cerveja era forte e o deixou em estado de alegria. Mas ele resolvera investigar<br />

a coisa toda. Na verdade, a praça já estava ficando cheia e o palanque já estava<br />

montado. Então, alguns soldados passaram por ele e depois mais alguns segurando<br />

uma mulher e uma menina. Elas estavam amarradas. Pan-noa ficou chocado. “Então<br />

essas são as bruxas?” A mulher e a filha eram lindas! Tinham cabelos brancos e muito<br />

curtos, pele dourada do sol e olhos negros, extremamente negros. A filha olhou para<br />

Pan-noa com olhar de súplica. Pan-noa ficou atônito. “Devo fazer alguma coisa.” Ele<br />

deu a volta na praça, correndo. Estava já muito escuro. “Kenn, visão noturna.” Agora<br />

Pan-noa via tudo como se fosse dia. A mulher e a criança foram amarradas aos postes.<br />

“Eles vão queimá-las!”. Gritou Pan-noa para si mesmo.<br />

Pan-noa olhou para o lado e viu três figuras mais ou menos de seu tamanho<br />

se escondendo pelas sombras, elas não o perceberam. O orador começara a falar mas<br />

Pan-noa resolvera seguir as figuras: cabelos brancos e curtos, pele queimada! “São do<br />

mesmo povo daquelas que vão ser queimadas”. Pensou. Então ficou abismado com<br />

o pulo que os três deram para alcançar o telhado de uma grande construção. Se não<br />

fosse pela visão que Pan-noa estava utilizando, jamais veria estas três criaturas, tal<br />

era o modo como se moviam. Então, quando elas estavam paradas observando o que<br />

ocorria na praça, Pan-noa finalmente percebeu. “Mas são três crianças!”<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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“Muito bem agora chega. Acho melhor eu ficar preparado.” Pan-noa tirou a<br />

capa, a calça e colocou sua roupa protetora em estado de camuflagem. Agora ninguém<br />

conseguiria vê-lo. Pan-noa flutuou para cima das crianças que estavam escondidas nas<br />

sombras do telhado e observou. Porém estava tendo problemas com o flutuador. Demorou<br />

um pouco para adaptar-se à gravidade do planeta. “Ótimo, finalmente.” Mas,<br />

alguns fatos ele havia perdido. Quando percebeu a mulher já estava em chamas, as<br />

crianças já estavam indo em direção à multidão e ele resolvera ir atrás delas.<br />

Milos conseguiu chegar até sua mãe que lutava desesperadamente para se salvar.<br />

Num salto que deixou Pan-noa e toda a multidão abismada, derrubou o poste em<br />

que sua mãe fora amarrada, mas quando caiu toda a massa de fogo caiu em cima deles.<br />

Quando todos perceberam que estavam sendo atacados, abriu-se um espaço no<br />

qual estavam Clia e Litri, um de costas para o outro, com punhais nas mãos. Então um<br />

homem veio em direção a eles com a menina Claia no colo se debatendo.<br />

- Vejam o que nós fazemos com bruxos aqui. – Gritou o homem. – Levantou a<br />

pequena Claia no ar e atirou-a na fogueira onde jaziam Milos e sua mãe.<br />

Pan-noa caiu no chão, chocado com a cena. Mas logo foi tomado de uma fúria<br />

abismal. Levantou-se e percebeu que estava no meio do círculo junto às crianças.<br />

Então, num ataque de fúria ordenou: “Desligar camuflagem”. O aparecimento de uma<br />

pessoa dentro do círculo foi um impacto tanto para a multidão em volta quanto para<br />

as crianças.<br />

- Mais um bruxo! Vamos pegá-lo! – Gritou alguém.<br />

Mas ninguém se mexia. No corpo de Pan-noa surgiram diversos demônios, os<br />

mais aterrorizantes possíveis, um se engalfinhando ao outro com um efeito de realismo<br />

fantástico.<br />

- Vejam não é um bruxo mas vários demônios! – Gritavam um para o outro.<br />

Pan-noa olhou para as crianças aterrorizadas mais com ele do que com a<br />

própria multidão e passou uma mensagem telepaticamente utilizando-se da pérolacubo:<br />

“Eu vou ajudar vocês, confiem em mim.” Litri e Clia se olharam e fizeram que<br />

sim com a cabeça. Mas a multidão estava eufórica demais. Agora eles queriam matar<br />

os demônios e vieram em direção a Pan-noa e às crianças com facas e paus nas mãos.<br />

Pan-noa abraçou Litri e Clia pela cintura e simplesmente levantou voo. A multidão<br />

efervesceu em urros de horror. Já há uns dez metros de altura, Pan-noa lançou dois<br />

micro foguetes de impacto moral bem no centro de onde o palanque pegava fogo com<br />

os corpos de Milos, Mabele e Claia. Houve uma explosão enorme. A multidão saiu se<br />

atropelando, em pânico.<br />

Pan-noa afastou-se imediatamente para a sala de controle com Litri e Clia nos<br />

braços. Os dois estavam paralisados de medo, agarrados no pescoço de Pan-noa. Antes<br />

de entrar na nave Pan-noa pensou. “Estou num mundo de loucos!”.


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O mistério da Deusaflor<br />

As duas crianças estavam deitadas em uma cama confortável. Era uma sala<br />

no interior da cabine de controle que servia como uma pequena enfermaria. O branco<br />

imperava neste local.<br />

Litri e Clia estavam voltando a si após o efeito dos calmantes que Pan-noa administrara<br />

a eles. Os dois continuavam deitados mesmo depois de estarem totalmente<br />

conscientes. Pareciam estar tristes, mas não tristes o suficiente a ponto de demonstrar<br />

a perda dos amigos.<br />

Pan-noa não sabia o que dizer. Estava em frente a dois seres humanos com um<br />

aspecto que jamais vira em toda sua vida. Ele percebeu como os traços musculares<br />

daquelas crianças eram fortes.<br />

Litri olhou para Clia indagando-a com os olhos. Clia era um pouco maior que<br />

Litri mas os dois eram menores que Pan-noa. Então Litri tomou a iniciativa. Sentou-se<br />

na cama e, neste momento, Pan-noa, por reflexo, afastou-se um pouco. Imediatamente<br />

algumas flores começaram a subir por seu pescoço, como que estivessem nascendo<br />

muito depressa. Litri arregalou os olhos e Clia sentou-se rapidamente falando:<br />

- Você é uma espécie de Deus? Foi a Deusa que mandou você para nos proteger?<br />

Pan-noa fez com que as imagens da tatuagem desaparecessem.<br />

- Eu sou um garoto, uma criança como vocês. Sei que talvez vocês não entendam<br />

isso mas sou de outro mundo, outro planeta.<br />

- Outro planeta. – Repetiu Litri como se a palavra não existisse para ele.<br />

- Venham, acho que está na hora de mostrar algo a vocês. Conseguem se levantar?<br />

Os dois estavam apenas vestidos com trapos sujos que mal cobriam seus corpos.<br />

Então Pan-noa falou.<br />

- Acho que antes de qualquer coisa um belo banho cairia bem por aqui. O que<br />

vocês me dizem?<br />

- Estamos perto de algum rio? – Perguntou Clia.<br />

- Não exatamente.<br />

- Há! Você tem aquele lago muito pequeno que cabe dentro de uma sala e a<br />

água é muito quente!<br />

- Digamos que eu tenho uma pequena cachoeira da qual corre água quente...<br />

Os guerreiros olharam-se satisfeitos. Embora tenham presenciado uma cena<br />

horrorosa antes de entrarem naquele lugar onde estavam, eles pareciam estar muito<br />

calmos, além de emanar uma ingenuidade fora do comum.<br />

- Vocês podem me chamar de Pan-noa. Como devo chamá-los?<br />

- Eu sou Litri e esta é Clia. Somos guerreiros e defensores da Deusa. Viemos<br />

do norte, a pedido de nossa tribo...<br />

Neste momento Clia encostou seu dedo no ombro de Litri que imediatamente<br />

parou de falar. Parecia que eles estavam em alguma missão secreta.<br />

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- Vejam. – Disse Pan-noa. – Vocês podem confiar em mim. Não quero seu<br />

mal, nem quero nenhum tesouro, pois de nada valeria para mim. Mas se vocês querem<br />

guardar segredo sobre o que fazem, eu não me importo.<br />

Pan-noa abriu a porta da enfermaria. Os dois tiveram um sobressalto ao olharem<br />

a sala de controle. Mesmo com Pan-noa lá dentro os dois não se mexeram.<br />

- Ei! – Disse Pan-noa. – Vão ficar aí o dia inteiro?<br />

Então os dois vieram muito devagar e ficaram realmente abismados ao olharem<br />

para a grande sala oval, cheia de luzes e cores mirabolantes a seus olhos.<br />

- Isto é o seu mundo? Quero dizer, seu planeta? – Perguntou Litri boquiaberto.<br />

- Não! Isto é um pedaço de meu trans universo imperial!<br />

Os dois olharam-se abismados.<br />

- Venham, vocês vão tomar banho e, enquanto isso, eu vou preparar algo para<br />

vocês vestirem e comerem.<br />

Pan-noa pôde ouvir os berros de alegria além de muita cantoria dos dois vindos<br />

da sala de banho. Ele deixou dois uniformes brancos e foi falar com Kenn.<br />

- Espero que tudo esteja certo Kenn. O que você me diz?<br />

- Fora adotar duas crianças alienígenas sem ter passado por um exame médico<br />

prévio, ter causado um alvoroço de proporções em uma guerra intergaláctica numa<br />

pequena vila de um planeta perdido que vive na era das sombras....acho que o resto<br />

está indo muito bem!<br />

- As crianças portam algum tipo de doença desconhecida por nossa civilização?<br />

– Indagou Pan-noa insatisfeito consigo mesmo por ter cometido tamanho erro.<br />

- De maneira nenhuma. São saudáveis até demais e mesmo que não fossem a<br />

sua roupa protetora acusaria algum mal. Para falar a verdade, seus corpos são muito<br />

mais resistentes que os da sua raça.<br />

- Eles são de outra raça? - Pan-noa agora se surpreendeu com um sorriso.<br />

- É uma raça muito semelhante à humana, mas definitivamente eles não são<br />

humanos. Eles sofreram alguma mutação durante a evolução da espécie.<br />

- Eu deveria ter imaginado. O que você aconselha para a alimentação?<br />

- Vamos experimentar alguns tipos de frutas e depois você pode propor algum<br />

tipo de carne. Não estou certa de seus hábitos alimentares.<br />

- Está bem. Começaremos com frutas. Pode preparar alguma coisa não muito<br />

estranha?<br />

Os dois entraram na sala de controle de novo. Pan-noa assustou-se com a beleza<br />

daquelas “pessoas” à sua frente, trajando um impecável uniforme branco, de tecido<br />

leve.<br />

- Você estava falando com alguém, Pan-noa? – Perguntou Clia um pouco<br />

desconfiada.<br />

- Sim. Mas antes de eu explicar tudo, venham, sentem-se aqui.<br />

Pan-noa levou-os a um sofá que fazia um grande semicírculo em cujo centro<br />

havia uma mesa redonda onde Kenn havia preparado vários pratos com as mais<br />

variadas frutas cortadas em tiras. Os dois guerreiros ficaram impressionados com disposição<br />

da comida e não pediram permissão para comer. Pan-noa ficou satisfeito e


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começou a comer junto.<br />

- Vejam... – Começou Pan-noa um pouco tenso. - O que eu vou mostrar a<br />

vocês não é mágica nem feitiços nem coisas que os deuses mandam. Existe uma palavra<br />

para isso: chama-se tecnologia e é de última geração! – Concluiu empolgado.<br />

Os dois olharam-se inquietos com a explicação de Pan-noa, mas pareciam estar<br />

aceitando bem.<br />

- Olhem. - Pan-noa prosseguiu. - Estão vendo aquelas placas pretas ali, ali e ali<br />

e lá, lá e lá? - Pan-noa indicou com o dedo os monitores agora desligados.<br />

Os dois olharam para as placas sem muita admiração.<br />

– Pois bem, ali eu vou fazer aparecerem imagens para poder explicar melhor<br />

de onde eu venho e quem sou eu. Vocês vão ouvir a voz de uma graciosa dama, ela é<br />

minha amiga, mas não é de verdade ela é.... Bem .... Ela fica dentro dessas máquinas<br />

que vocês veem piscar e me ajuda a controlá-las está bem?<br />

Os dois pareciam compreender à medida que se empanturravam de frutas.<br />

- Kenn? Vamos começar, não exagere no volume.<br />

Então, para total espanto dos dois guerreiros, a voz suave e feminina de Kenn<br />

começou a apresentar o que poderia ser um cartão de visitas do planeta natal de Pannoa,<br />

Kalum Br. Mostrou como era o castelo de Pan-noa e como ele vivia, como o povo<br />

do planeta vivia, mostrou que havia outros planetas que faziam parte do Império de<br />

Schaia III e, finalmente, depois de horas de narrativa mostrou como Pan-noa havia<br />

chegado neste planeta e como estava preso ali.<br />

Os dois estavam digerindo as explicações no mais absoluto silêncio. Porém,<br />

logo que as explicações terminaram, Clia fez algo absolutamente inesperado. Levantou-se<br />

do sofá, caminhou em direção a Pan-noa tomou seu rosto nas mãos e beijou-o<br />

na testa. Pan-noa teve um pequeno espasmo de satisfação.<br />

- Seja bem-vindo Pan-noa! Você nos salvou a vida e nós nem pudemos te<br />

agradecer ainda. Porém, agora que sabemos quem e o que você é contaremos a nossa<br />

história.<br />

Então, Pan-noa ficou de pé e pediu para Clia esperar pois tinha algo a dizer.<br />

- Vejam, eu tive uma ideia. Kenn mandou, antes de eu chegar aqui, várias<br />

máquinas que podem mandar imagens do seu planeta. Elas estão espalhadas lá no<br />

céu. - Pan-noa esticou sua mão para cima. – Então, à medida que vocês falarem sobre<br />

de onde vocês vieram, nós poderemos localizar os lugares dos quais estão falando e<br />

mostrar aqui, nos nossos monitores!<br />

Clia estava alarmada! Já Litri babava um pedaço de fruta vermelha que escorria<br />

de sua boca para seu, já não tão impecável, uniforme.<br />

- Bem acho que vocês não entenderam. – Disse Pan-noa. – Vamos tentar. Faça<br />

o seguinte Clia, tente se lembrar do caminho por onde vocês vieram desde que vocês<br />

partiram.<br />

Litri e Clia começaram a pensar em suas jornadas. Enquanto isso, Kenn captava<br />

estas informações diretamente da mente das crianças. Como a área em que estavam<br />

pensando não tomava um espaço tão grande no planeta, Kenn programou para<br />

que alguns satélites daquela área comparassem o que havia na mente das crianças com<br />

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o que era a realidade geográfica do planeta.<br />

Os dois guerreiros estavam de olhos fechados quando os satélites mandaram<br />

a planta da área do planeta por onde eles tinham andado. Além disso, os satélites<br />

comunicaram-se com os outros satélites e determinaram uma varredura total. Agora<br />

eles tinham a exata localização de onde estavam no planeta e uma planta geográfica<br />

detalhada. Pan-noa deu-se por satisfeito.<br />

- Muito bem Clia e Litri, podem abrir os olhos. E pela primeira vez na história<br />

de sua cultura, vislumbrem a sua verdadeira casa!<br />

Era apenas uma bola alaranjada, muito pálida, que se misturava a tons de verde<br />

azulado.<br />

- Bem. – Disse Pan-noa. – O que vocês acham? Este é o seu planeta.<br />

Os dois guerreiros olharam fascinados para os enormes monitores.<br />

- E se quiserem, podem saber onde estão. Kenn, vamos fazer uma tomada em<br />

espiral. Faça uma volta pelo planeta inteiro até chegar na sala de comando. A propósito<br />

quando chegar peça ao satélite que forneça uma imagem interna da nave para que<br />

possamos nos ver nos monitores.<br />

Então aconteceu algo que os guerreiros jamais puderam imaginar em suas<br />

pacatas vidas. Um dos pequenos satélites entrou em velocidade hiper sônica na atmosfera<br />

do planeta e com um voo rasante deu a volta inteira ao redor do planeta,<br />

mostrando montanhas, lagos, florestas, plantações, cidades, vilas...até que finalmente<br />

a velocidade do satélite baixou dramaticamente até chegar a uma pequena colina onde<br />

estava a imagem de três pessoas dentro de uma sala cheia de luzes piscando. Eram<br />

eles mesmos!<br />

- Somos nós! – Gritou Litri abanando os braços para comprovar olhando-se no<br />

monitor à sua direita. – Somos nós! Veja Clia. A tal máquina voou pelo planeta inteiro!<br />

Lá do céu e chegou aqui!<br />

- Muito bem Kenn. – Disse Pan-noa. – Voltar espião.<br />

A imagem deles sumiu dos monitores, mas Clia e Litri ainda estavam fascinados.<br />

- Agora que vocês já sabem o que podemos fazer e saber, pode começar sua<br />

história. Lembrem-se que podemos visualizar por onde vocês andaram nos mapas. E<br />

além disso podemos ver sua vila ou suas casas, ou cavernas ou...<br />

Clia porém estava um tanto preocupada. Quando Litri olhou para ela, esperando<br />

alguma coisa, notou que algo estava realmente errado.<br />

Clia olhou muito sério para Pan-noa e perguntou.<br />

- Com isso nós podemos localizar a Deusa não podemos?<br />

- Bem, teoricamente. Se a Deusa viver neste planeta. – Respondeu Pan-noa<br />

um pouco assustado com a cara da menina.<br />

- Litri! – Disse Clia sorrindo. – Estamos salvos! Poderemos achá-la antes dos<br />

outros e salvá-la.<br />

- Ei esperem um pouco! – Disse Pan-noa. – Que espécie de Deusa é esta?<br />

Vejam, eu não quero entrar no mérito se Deus é homem ou mulher nem se acredito<br />

em Deus ou não, mas não quero me meter em assunto religioso. Isso dá cagada e das


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

feias!<br />

Clia levantou a mão para que Pan-noa parasse de falar.<br />

- Você com esta máquina pode ler minha mente não pode? – Perguntou Clia.<br />

- Sim posso. – Disse Pan-noa como se fosse a coisa mais normal do mundo.<br />

- Pois então faça com que ela leia o que estou pensando agora.<br />

- Kenn?<br />

- Estou preparada. – Disse Kenn.<br />

Então apareceu algo fantástico nos monitores. Pan-noa ficou completamente<br />

pasmo perante tal imagem.<br />

Era uma flor fechada em tons de azul claro. A flor tinha um pequeno caule que<br />

brotava de cima de uma pedra negra, brilhante e que refletia as cores da flor de forma<br />

sobrenatural. A flor estava completamente fechada e então começou a mudar de cor:<br />

do azul pálido foi escurecendo passando por tons de azuis jamais imaginados por Pannoa.<br />

O reflexo na pedra era avassalador. Então a flor tornou-se prateada com tons de<br />

azul-escuro percorrendo seu caule e suas pétalas ainda fechadas.<br />

Pan-noa achou tudo muito bonito, mas teve que sentar-se pois quando menos<br />

esperava ela desabrochou e enquanto as pétalas se abriam, uma pequena figura apareceu<br />

de dentro da flor. Estava de costas. Pan-noa arregalou os olhos e, quando a figura<br />

virou-se para ele, teve uma sensação que jamais tivera em toda sua vida. Era o corpo<br />

de um pequeno ser humano, assexuado, inteiro prateado, do qual emanava uma luz<br />

celestial. De uma beleza absurda, a figura estava olhando diretamente para seus olhos.<br />

Ela simplesmente não tinha cor! Ela era algo como prata muito cromado que refletia<br />

seu próprio prateado! Mas o mais aterrador era seu olhar. Um olhar tão angelical e, ao<br />

mesmo tempo, diabólico... Então uma das pétalas da flor soltou-se e quando atingiu o<br />

chão a flor fechou-se novamente e a imagem sumiu.<br />

Clia estava chorando. Litri viera socorrê-la, mas Pan-noa ainda estava sentado<br />

e, para seu espanto, a primeira coisa que veio em sua cabeça foi uma figura que ele<br />

não suportava nem pensar ultimamente. O Mago de Prata.<br />

Pan-noa ficou por muito tempo parado, pensando. Clia e Litri estavam assustados<br />

com a reação de Pan-noa. Foi Kenn quem quebrou o silêncio.<br />

- Devo mostrar mais uma vez a última imagem Pan-noa?<br />

- De maneira nenhuma, apenas guarde nos arquivos. Preciso reler aquela merda<br />

daquele livro de novo. Mas antes. – Olhou para os guerreiros que aguardavam<br />

solenemente alguma decisão de Pan-noa. – O que vocês querem exatamente?<br />

Então Clia começou finalmente a contar sua história e de Litri.<br />

Era fascinante como Clia conseguia imaginar as etapas de sua vida junto a Litri<br />

e Milos que agora estava morto. Ela simplesmente pensava nos fatos de maneira tão<br />

detalhada que era impossível para Kenn perder alguma coisa. Foi então, ouvindo a<br />

narração de Clia junto às imagens de sua memória e à localização geográfica de cada<br />

ponto da narrativa que Pan-noa ficou sabendo da existência de uma flor que desabrochava<br />

em ciclos e que ninguém conseguia entender. Soube também que existia um<br />

povo, chamado de bruxos do norte ou guerreiros do norte, que tinha estranhos poderes<br />

e eram guardiões da Deusa, a flor. Soube onde morava este povo, como vivia em total<br />

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harmonia com a terra e que eram praticamente nômades. Soube que alguns foram<br />

expulsos por terem violado leis sagradas e juraram vingança, indo até os povos do sul<br />

para contar sobre a Deusa, os tesouros e minérios que estão em volta dela.<br />

E, finalmente, soube que vários guerreiros haviam partido para os quatro cantos<br />

do mundo com o dever de achar desertores e minar o caminho até a Deusa na esperança<br />

de salvá-la de qualquer intruso. Apesar de ser extremamente poderosa enquanto<br />

desabrochada, ela era muito frágil quando fechada. Durava apenas o tempo da queda<br />

de uma pétala no chão para abrir e fechar.<br />

Pan-noa estava fascinado. Porém Clia e Litri estavam muito cansados. Eles<br />

queriam dormir para traçar planos para o dia seguinte.<br />

- Então. – Disse Pan-noa. – Antes de nós dormirmos vamos comer algo de<br />

verdade. Espero que vocês gostem. Isso é muito popular em meu planeta. Kenn! Sanduíches<br />

de peixes com folhas multicoloridas!<br />

Todos os três se deliciaram com os sanduíches e foram deitar. Pan-noa no entanto<br />

custou a dormir. Sabia que estava se metendo em uma grande enrascada.<br />

- Na maior da minha vida. – Disse e dormiu.<br />

O Mundo Menor<br />

O alerta da nave estava tocando.<br />

- Temos uma emergência de terceiro nível. – Disse Kenn acordando as três<br />

crianças. Pan-noa levantou-se num pulo.<br />

- Por favor, desligue este alarme Kenn! Vai matar nossos convidados de susto.<br />

E realmente Litri e Clia estavam assustados.<br />

- O que está acontecendo? – Berrou Litri.<br />

- Já vamos descobrir. Kenn, por favor, não faça suspense!<br />

- Movimentação humana Pan-noa. Enormes massas deslocando-se para a cidade.<br />

- Já temos imagens?<br />

- Sim. Agora temos.<br />

Então Kenn contatou os satélites e nos vários monitores da sala de controle, os<br />

dois guerreiros e Pan-noa puderam ver a imensa massa de pessoas indo em direção à<br />

cidade.<br />

- De onde vem tanta gente? – Perguntou Pan-noa abismado.<br />

- São exércitos. – Explicou Kenn. – Exércitos das cidades vizinhas. Pelo jeito<br />

eles estão com medo. Viram o poder que demonstramos na nossa última visita à cidade<br />

e resolveram atacar o perigo ou, quem sabe, os desertores conseguiram convencê-los a<br />

buscar o tesouro.<br />

- Ou, as duas coisas juntas. – Disse Pan-noa.<br />

Pan-noa notou, abismado, como estas pessoas iriam guerrear. Estavam munidos<br />

de espadas e todo tipo de artefato primitivo que ele jamais imaginara poder existir.


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- Eles só podem estar brincando. – Disse Pan-noa sorrindo. – Kenn como você<br />

analisa isto?<br />

- Temos um grande problema Pan-noa. Estamos com equipamento bélico muito<br />

superior, mas não podemos usá-lo em uma guerra de terceiros. É contra o código<br />

do Império tomarmos partido de uma ou outra cultura fora do Império, a não ser que<br />

a vida de algum súdito do Império esteja correndo risco.<br />

- Bem acho que eu sou um súdito do Império e estou bem no meio do caminho<br />

de uma guerra, você não acha?<br />

- Teoricamente não. Você não faz parte da guerra. Atacar qualquer destes povos<br />

é algo que vai contra minha programação.<br />

Então Clia deu um passo à frente.<br />

- Nosso povo é muito mais forte do que estes pedaços de carne com facas e<br />

espadas. Temos o poder da Deusa. Acredite, você não precisa se preocupar em salvar<br />

meu povo. Temos que nos preocupar agora em proteger a Deusa, pois enquanto nosso<br />

povo se defende, não terá tempo de proteger a Deusa.<br />

- Perfeito. – Falou Pan-noa. – Acho que o que devemos fazer é saber o que<br />

estes loucos estão pretendendo e então tomar alguma decisão. O que vocês acham?<br />

- Sim eles estão chegando rápido à cidade. – Respondeu Litri. – Logo vão se<br />

reunir e sair feito loucos para o norte numa cassada sem pé nem cabeça.<br />

Pan-noa estava começando a ficar fascinado com a inteligência das crianças.<br />

Então percebeu algo que o deixou com muito medo.<br />

Olhou para Litri e Clia. Os dois pareciam estar hipnotizados. Olhavam não<br />

para os monitores, mas para as grandes janelas retangulares da sala de comando. Era<br />

uma manhã bonita. A estrela daquele sistema deveria estar atrás da nave, no céu, para<br />

aonde as crianças olhavam. Era uma enorme lua cheia quase que desaparecendo em<br />

meio ao branco azulado do céu. Pan-noa voltou-se para as crianças de novo e deu um<br />

passo para trás. Seus olhos estavam brancos! Totalmente brancos! Pan-noa quase caiu<br />

para trás num passo em falso.<br />

- Não tenha medo Pan-noa. – Disse Litri. – Estamos em contato com a Deusa.<br />

É ela que faz aumentar nosso poder e mudar nossos olhos. Estamos no caminho certo.<br />

Devemos esperar o inimigo se reunir e sair junto com eles na cassada. Seu caminho<br />

já está minado, mas devemos chegar à Deusa antes deles. Lá Ela nos dará instruções.<br />

Você deverá vir conosco. Como Ela sabe de sua existência eu não sei, é o poder Dela,<br />

mas Ela deseja estar com você.<br />

- Estar comigo? – Perguntou Pan-noa abismado. – Como, o que ela quer afinal?<br />

- Não deve interrogar a Deusa, Pan-noa. – Disse Litri. - Na verdade deveria<br />

estar orgulhoso. São poucos os que podem vê-la. Mesmo na nossa tribo, somos<br />

os únicos que a viram em muitos anos. Ela desabrocha de forma muito irregular. E<br />

mesmo assim só os que são chamados que podem vê-la.<br />

- Nossa! – Disse Pan-noa fascinado. – Espero vê-la mesmo.<br />

Seu olhar estava na lua. Os dois guerreiros não se mexiam. Pareciam estar se<br />

concentrando. Pan-noa percebeu ao longe muitas pessoas passando. Pediu a Kenn<br />

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para virar a nave de modo que as janelas ficassem bem de frente para a cidade.<br />

Ao final da tarde já havia muita gente reunida. Parecia um mar de gente! Então,<br />

Pan-noa viu algo que o deixou alarmando: do lado direito da cidade, lá ao fundo, no<br />

horizonte, ele viu pontos pretos se movendo no céu.<br />

- Kenn! Rápido amplie aqueles pontos no céu, ali, do lado direito da cidade.<br />

- Do lado direito e esquerdo você quer dizer?<br />

Então Pan-noa ficou quase que histérico.<br />

- Por tudo o que é mais sagrado! Não me diga que eles tem naves! Vamos<br />

Kenn amplie a porra da imagem!<br />

Então Pan-noa sentou-se de boca aberta. Os dois guerreiros nada diziam. Pareciam<br />

já prever tamanha catástrofe.<br />

- São pássaros domados? – Perguntou Pan-noa ao perceber homens montados<br />

em monstruosos animais com asas voando em direção a cidade.<br />

Mas então para seu total espanto Pan-noa viu que um dos monstros, o que<br />

estava mais próximo da cidade, soltou uma labareda de, pelo menos, cem metros de<br />

comprimento. Então Pan-noa levantou-se num pulo e gritou.<br />

- São dragões! Eles tem dragões!<br />

- Eles são do oeste. – Disse Litri. – São bárbaros.<br />

- É o povo mais temido que conhecemos. Os Olfranoas. – Completou Clia.<br />

- Muito bem Kenn, acho que vou ter que me envolver nesta guerra para que<br />

sua maldita programação permita usar nosso potencial bélico.<br />

- Pan-noa, existe uma maneira de você usar em parte nosso material bélico.<br />

Porém, estarei conectada o tempo inteiro com você. Caso algo aconteça o trans universo<br />

imperial lançará as defesas necessárias imediatamente, pois você estará correndo<br />

risco de vida.<br />

- Ótimo, e qual é a parte de nosso material bélico que posso usar nesta jornada<br />

suicida?<br />

- Bem, o que você acha em usar um dragão infinitas vezes mais veloz do que<br />

qualquer dragão ali fora?<br />

Pan-noa pensou por um momento e então explodiu em alegria.<br />

- Mas é claro! - Berrou Pan-noa assustando os dois pequenos guerreiros. – Vamos<br />

mostrar a eles?<br />

Um buraco redondo começou a se abrir simetricamente no meio da sala de<br />

controle e de lá de dentro surgiu um artefato vermelho, espelhado com a figura holográfica<br />

de um dragão em sua carenagem frontal. Os dois guerreiros ficaram assustados<br />

e fascinados com a aparição. Olharam para onde estavam as letras que cobriam o<br />

dragão e em seguida para Pan-noa com olhar interrogativo.<br />

- Aerojet Plasma! Drakunum Maximatrya. – Disse Pan-noa orgulhoso. - O<br />

menor e mais veloz meio de transporte existente em todo o Império e transformado<br />

em trans galaxial de guerra! Uma verdadeira obra-prima.<br />

Os dois olhavam para a máquina que tomava boa parte da sala de comando,<br />

fascinados.<br />

- O que isto faz exatamente, Pan-noa? – Perguntou Clia assustada.


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- Bem vocês vão descobrir agora. Kenn? Os ajustes para a gravidade deste<br />

planeta foram alterados?<br />

- Está pronto para partir, Pan-noa.<br />

Pan-noa abriu a carenagem superior de seu aerojet e os dois guerreiros puderam<br />

visualizar um assento vermelho em seu interior. Então Pan-noa mexeu em alguns<br />

botões e disse:<br />

- Expandir para três assentos.<br />

O comprimento do aerojet aumentou um pouco e Pan-noa abriu ainda mais a<br />

carenagem mostrando dois novos assentos lado a lado e um pouco atrás do dele.<br />

- Queiram sentar-se senhores. Coloquem seus cintos e preparem-se. Vamos<br />

assustar alguns dragões.<br />

Quando os três estavam sentados no aerojet, uma camada transparente trancou<br />

os três lá dentro.<br />

- Agora tenham calma está bem?<br />

Ninguém ali atrás respondeu. Eles não tinham a mínima ideia do que ia acontecer.<br />

Mas começaram a ficar nervosos quando um buraco começou a ser aberto no<br />

teto da sala de comando. Alguns segundos mais tarde eles estavam a quinhentos metros<br />

de altura, parados no ar.<br />

- Pela Deusa! O que está acontecendo Pan-noa? – Gritou assustado e eufórico<br />

o pobre Litri.<br />

- Nós estamos voando.<br />

Então Pan-noa posicionou a frente do aerojet em direção à cidade.<br />

- Estão prontos? – Olhou para trás sorrindo e viu duas caras alucinadas. –<br />

Ótimo: vamos lá!<br />

O aerojet projetou-se em direção à cidade com uma velocidade extraordinária.<br />

Vários dragões estavam sobrevoando a cidade e provocando alvoroço com suas baforadas<br />

de chamas, numa demonstração do mais puro exibicionismo. Pan-noa teve que<br />

fazer algumas manobras para desviar deles. Isso sim causou um grande alvoroço na<br />

cidade inteira. Porém, não menos alvoroço do que dentro do próprio aerojet. Os dois<br />

guerreiros gritavam de pânico e felicidade ao mesmo tempo.<br />

Pan-noa investiu umas cinco vezes da mesma forma, indo e voltando em velocidade<br />

abismal. Sua velocidade era tanta que as pessoas não conseguiam localizar<br />

de onde vinha tal calamidade. Apenas enxergavam um vulto vermelho passando ora<br />

por aqui ora por ali, deixando os dragões tão histéricos que começaram a investir um<br />

contra o outro.<br />

O aerojet zumbia como um inseto gigante que parecia estar ali comandado por<br />

demônios. Era assim que o povo da cidade e os outros que haviam chegado viam a<br />

cena.<br />

A histeria tomou conta da cidade de tal forma que as pessoas começaram a<br />

bater uma nas outras assim como os dragões que, já enlouquecidos, começaram a cair,<br />

um a um, do céu, num apocalíptico entardecer.<br />

Depois da brincadeira Pan-noa voltou para a sala de controle satisfeito.<br />

- Acho que estes filhos das putas não sabem com quem eles mexeram! – Disse<br />

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sorrindo.<br />

Os dois guerreiros gargalhavam de tal modo que não conseguiam falar. Desceram<br />

do aerojet e foram verificar o estrago. Olharam pelas janelas da sala de controle<br />

e ficaram assustados ao perceber que metade da cidade estava em chamas. Nenhum<br />

dragão estava voando. As pessoas corriam para todos os lados. O caos fora implantado.<br />

- Bom, ou vão ficar muito bravos ou com muito medo. – Disse Pan-noa sorrindo.<br />

- Tanto melhor. – Disse Clia. – Quanto menos organizados estiverem para a<br />

cassada, mais tempo teremos. A primeira coisa a fazer é avisar meu povo. Mas só depois<br />

de sabermos o que o inimigo irá fazer. Depois desse ataque a reunião será breve.<br />

De fato as pessoas começaram a se reunir com urgência. Kenn mandara micro<br />

espiões para que os três pudessem escutar o que estava ocorrendo.<br />

Então, já à noite, as pessoas, segurando tochas nas mãos, reuniram-se fora da<br />

cidade. Num improvisado palanque, vários homens que aparentavam ser os líderes de<br />

cada comunidade, prontificaram-se a falar. O discurso foi mais breve do que Pan-noa<br />

imaginara. Um homem grande, vestido com peles de animais, cabelos compridos e<br />

negros esbravejava para todos ouvirem:<br />

- Pelos poderes investidos a mim pelo próprio Klaia-am. – Agora o povo estava<br />

em total silêncio. - Vizinhos do povo do sul, nosso inimigo em comum, os bruxos<br />

do norte, estão com um poder que não sabemos de onde vem. Foi Klaia-am quem<br />

mandou este presságio, este inseto gigante para nos avisar que Klaia-am está conosco.<br />

Devemos enfrentá-los imediatamente, ou seremos escravizados. Sairemos esta noite,<br />

todos juntos, pela trilha principal que leva ao norte. Aqueles que quiseram tomar o<br />

rumo do rio, poderão faze-lo. Matem todos os que acharem pelo caminho. O povo que<br />

achar o tesouro primeiro terá direito sobre ele. E que Klaia-am proteja-nos e sacrifique<br />

os malditos bruxos!<br />

E assim a imensa massa popular saiu em correria num uivo animalesco que<br />

deixou Pan-noa de cabelos em pé. Foram em direção ao norte sem comando algum,<br />

como uma manada de animais que saem a caça. Era a idade das sombras se revelando<br />

mais que nunca.<br />

- É o ataque mais absurdo que eu já vi em toda a minha vida! – Disse Pan-noa<br />

pasmado. – De qualquer maneira, temos que correr. Kenn, preciso de provisões para<br />

uma jornada. Acho que uma caixa de manipulador de alimentos serve. O aerojet tem<br />

um processador pequeno, mas acho que basta. Estaremos conectados o tempo inteiro.<br />

Infelizmente, não tenho roupas protetoras para os dois guerreiros mas acho que eles<br />

não precisam. - Pan-noa falava isso muito rápido como para si próprio, porém os dois<br />

guerreiros olhavam atentamente o que ele fazia, à medida que arrumava coisas estranhas<br />

na sua nave.<br />

- Bem acho que é isso, não é Kenn?<br />

- Procure não usar armamento pesado, nem que seja do aerojet. Não deve danificar<br />

o planeta de seus novos amigos.<br />

Então Pan-noa olhou para os dois: estavam postados, um ao lado do outro, as-


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sustados com o que a estranha voz que não existia acabara de falar.<br />

Pan-noa sentiu um pequeno aperto em seu coração ao olhar para Litri, mas<br />

quando olhou para Clia teve um grande aperto, uma vontade de abraçá-la de beijá-la.<br />

Lembrou-se de Be e quase chorou. Sentiu então com amargura que os dois guerreiros<br />

perceberam sua fraqueza.<br />

Clia deu um passo à frente e disse:<br />

- Pan-noa está na hora. Devemos correr. Veja! – Apontou para a janela. – Eles<br />

recuperaram os dragões.<br />

Clia neste momento tocou a mão de Pan-noa. Ele queria beijá-la mas ficou<br />

parado, com medo de sua reação. Então Clia ficou na ponta dos pés tomou a nuca de<br />

Pan-noa com a mão e tocou-lhe os lábios com os seus. Pan-noa arregalou os olhos e<br />

teve que fechá-los para não sorrir de felicidade e da cara de espanto de Litri.<br />

Então eles entraram no aerojet e Pan-noa falou:<br />

- Agora nós não vamos brincar, ok? Isso é muito sério. Se vocês estiverem<br />

passando mal, uma pequena agulha entrará na ponta de seus dedos e vocês ficarão<br />

melhores. É uma pena que nós não tenhamos nenhuma pérola-cubo para vocês.<br />

- Não se preocupe com a gente Pan-noa. – Disse Litri. – A Quarta lua logo<br />

aparecerá. É a lua que nos fornece os poderes da Deusa de maneira mais intensa.<br />

- Ótimo. - Pan-noa olhou um pouco para trás e viu o rosto de Clia. “Não vou<br />

perde-la Clia. Não como fiz com Be.”<br />

Clia fez que sim com a cabeça e Pan-noa teve a impressão de que ela estava<br />

entendendo o que ele pensava. Seria possível?<br />

Então Pan-noa olhou para os controles do aerojet, respirou fundo e falou fortemente:<br />

- Linha dolfin, preparar modo de guerra.<br />

O aerojet modificou toda sua volta, tornando-se mais agressivo. Eram as linhas<br />

do dragão que tomavam a forma do aerojet. Um zumbido muito forte foi ouvido de<br />

dentro da cabine. A saída na sala de comando mal tinha sido aberta quando Pan-noa<br />

gritou:<br />

- Modo camuflagem, modo de batalha, impulsão total para fora da atmosfera.<br />

Num empuxo vertical o aerojet projetou-se para fora da atmosfera do planeta.<br />

Os dois guerreiros nada falavam.<br />

- Tudo bem aí atrás? – Perguntou Pan-noa.<br />

Mas nada deveria estar bem, afinal os dois guerreiros estavam vendo seu<br />

próprio planeta lá embaixo. Pan-noa notou o aviso no painel de que duas doses de Enecto-lex<br />

haviam sido aplicadas. Soltou uma pequena risadinha e pensou: “Eu avisei”.<br />

- Kenn, localização dos dragões. Vamos derrubá-los. Depois, localização da<br />

maior concentração da população do norte. Você deve ter captado algo nos pensamentos<br />

de Clia. Mande as informações em forma de vetores.<br />

Pan-noa olhou para o painel e segurou firme nos controles: um visor em meialua<br />

saiu de seu banco tomando sua visão.<br />

- Ei! Agora eu posso ver! – Disse Pan-noa ao perceber seu destino em modo<br />

vetorial.<br />

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O aerojet então investiu para baixo. Pan-noa tentou não pensar no que os guerreiros<br />

estavam sentindo, afinal o que ele estava fazendo era muito sério.<br />

- É, estou numa porra de uma batalha!<br />

Então localizou os dragões à sua frente.<br />

- Mas são tantos!<br />

Eram milhares, em fileiras que rasgavam o céu. As labaredas podiam ser vistas<br />

de vez em quando. Pan-noa resolveu ir por baixo e levar o aerojet para cima, tentando<br />

confundi-los. Porém, ao passar pela primeira fileira, a segunda, logo à frente, pressentiu<br />

o perigo e dois dragões viraram-se e acompanharam o aerojet com o olhar. Um<br />

segundo mais tarde um dragão disparou uma labareda que atingiu a frente do aerojet.<br />

Pan-noa tomou um susto.<br />

- Mas o que é isso? Nesta velocidade?<br />

Então viu que alguns dragões o estavam seguindo.<br />

- Bem, vamos mudar os planos. – Disse para si mesmo. – Velocidade de batalha,<br />

armar semi raios.<br />

Prosseguiu um pouco mais numa velocidade que fez os dragões sumirem e<br />

logo depois voltou. Um dragão enorme estava à frente dos outros tentando achar o<br />

aerojet. Porém foi o aerojet que o achou. Num lançamento múltiplo de raios, Pan-noa<br />

derrubou todos os dragões que tinham vindo procurá-lo.<br />

Voltou-se então para o resto. Com manobras precisas, fez com que os dragões<br />

se voltassem uns contra os outros. Houve algumas batidas aéreas. Além disso, Pannoa<br />

utilizou os raios para atrapalhar ainda mais o voo dos monstros. Já não se via<br />

nenhum dragão no céu. Pan-noa resolveu tentar achar o povo do norte.<br />

- Vamos para casa crianças.<br />

Os dois guerreiros estavam paralisados, mas pareciam bem. Olhou mais uma<br />

vez para Clia e disse:<br />

- Vamos precisar de sua ajuda.<br />

- Está bem.<br />

Mas parecia não estar. Pan-noa já conhecia aquele olhar. Então olhou para<br />

frente e viu no horizonte o nascer de uma lua que ele jamais pudera pensar existir.<br />

- A Quarta lua. – Disse Clia. - A lua prata, a lua da Deusa.<br />

Pan-noa olhou de volta para traz e viu, fascinado, o olhar de Clia se transformar<br />

de negro profundo para prateado.<br />

- É a coisa mais linda que já vi! – Disse Pan-noa abismado.<br />

- Pan-noa. – Ordenou Clia - Siga à frente, reto. Estamos a caminho. Estou<br />

identificando este lugar. Meu povo já está reunido. É o poder da Deusa!<br />

Pan-noa seguia mais devagar agora. A pedido de Clia voava baixo para que<br />

ela pudesse localizar o lugar onde seu povo estava. Pan-noa estava maravilhado. Andavam<br />

por entre uma floresta miraculosa, com árvores gigantescas, entre as quais o<br />

aerojet podia se movimentar livremente.<br />

- Logo à frente prepare-se Pan-noa. – Disse Clia. – Vamos subir pela encosta<br />

de um penhasco.<br />

E de fato o aerojet guinou noventa graus na vertical e subiu. O penhasco pare-


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cia não acabar. Mas logo Pan-noa não via mais a parede. Deu um rodopio no ar e ficou<br />

na horizontal de novo. Então olhou um pouco para baixo, para onde o penhasco havia<br />

terminado e ficou abismado. Clia percebeu o que Pan-noa sentia e disse.<br />

- Hora do meu mundo, Pan-noa!<br />

- Visão noturna normal. – Disse Pan-noa.<br />

Quando o visor voltou para o acento, Pan-noa percebeu que o universo ficara<br />

menor, que tudo no mundo era uma mera fagulha dentro de uma enorme fogueira.<br />

Deparou-se com algo que poderia ser um mundo em miniatura, algo impensável, um<br />

planeta dentro de um planeta.<br />

A encosta que eles haviam subido, na verdade, fazia parte de uma grande montanha<br />

feita de pedra lisa. Lá em cima havia uma espécie de cratera, como a de um<br />

vulcão, tão grande que quase se perdia de vista. Mas não era uma cratera. Era uma<br />

superfície côncava, escondida pela borda de pedra. Era como a forma de um planeta<br />

que fora cortado e colocado ali, naquela cratera. Mas algo estava errado. Aquilo era<br />

desproporcional ao resto do planeta. Aquilo era um mundo muito menor. Pan-noa<br />

estava confuso.<br />

- Eu disse que não era necessário você se preocupar com o meu povo?<br />

- Mas então por que você quis avisá-los?<br />

- Bem, para que eles se protejam.<br />

- Mas como? Afinal o que é isso?<br />

- É a nossa morada. É um mundo à parte, um mundo dentro de um mundo.<br />

- E podemos entrar nele?<br />

- É claro!<br />

- Mas nós não somos muito grandes? Quero dizer, como isso irá funcionar?<br />

- Simplesmente voe para dentro.<br />

E assim Pan-noa fez. Porém, quando estava prestes a se chocar com o solo, ele<br />

realmente entrou, como se tivesse entrado na atmosfera daquele novo planeta.<br />

- Eu não acredito! – Gritou Pan-noa. – Estamos realmente em outro planeta?<br />

- Sim, teoricamente sim.<br />

Então Pan-noa voou para baixo, passando por florestas e lagos.<br />

- Ali na frente. Ali é minha aldeia.<br />

Era uma aldeia simples, mas bela. Casas de madeira, telhados de palha, muitas<br />

casas. Uma fogueira enorme ardia bem no meio de tudo. Então Litri falou.<br />

- Chegou minha hora.<br />

Pan-noa pousou a nave, não entendendo mais nada. Litri pediu a Pan-noa que<br />

o deixasse ali e dizendo que Pan-noa deveria partir com Clia.<br />

- Mas...<br />

- Não pergunte Pan-noa. Você nem deveria ter visto isso.<br />

Litri desceu da nave olhou para Pan-noa e fez um sinal de adeus com a mão.<br />

Olhou para Clia e uma lágrima rolou de seus olhos.<br />

- E agora. O que faremos? – Perguntou Pan-noa angustiado.<br />

- Vamos embora. – Disse Clia chorando.<br />

Pan-noa comandou sua nave extremamente irritado. Subiu em direção um céu<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

escuro, sem estrelas.<br />

- Velocidade de batalha. – Bradou - e o aerojet disparou como um raio. Logo<br />

depois Pan-noa percebeu estrelas e viu, lá embaixo, o mundo menor. Virou o aerojet<br />

para olhar melhor e então reparou que uma densa névoa começara a cobrir o mundo<br />

menor.<br />

- O Mundo menor. – Repetiu para si mesmo.<br />

- É assim mesmo.<br />

- O que? – Perguntou para Clia.<br />

- É assim que nós o chamamos, de mundo menor.<br />

Pan-noa sorriu e disse:<br />

- Dois lugares.<br />

O banco de Clia se moveu para o seu lado, deixando a cabine mais curta.<br />

Pan-noa pegou na mão de Clia e disse.<br />

- E agora?<br />

- Agora meu povo vai guerrear para que possamos proteger a Deusa.<br />

- Vai guerrear? Seu povo acabou de desaparecer naquele mundo.<br />

- Sim. Aquele mundo protege os filhos do meu povo. Para que a Deusa exista,<br />

nós temos que existir para sempre. Mas devemos existir aqui neste mundo também,<br />

para protegê-la. Então, aquele mundo protege os filhos e, quando eles crescem, eles<br />

vêm para este mundo para proteger a Deusa.<br />

Pan-noa olhou admirado.<br />

- É uma troca de favores! Foi a Deusa que fez aquele pequeno mundo para que<br />

a sua raça nunca desaparecesse! Para ela estar sempre protegida e vice-versa!<br />

- Isso mesmo.<br />

- Isso é fantástico. Mas, e quanto a você?<br />

- Bem, eu fui instruída para outra finalidade.<br />

- E qual é?<br />

- Ainda não sei.<br />

A Andróida Andrógina<br />

Clia estava de novo em contato com a Deusa. Pan-noa não ousava tocá-la<br />

apesar de ser ela quem comandava o trajeto. Mesmo vendo de cima ela conseguia<br />

localizar-se. Era o poder da Deusa.<br />

Eles não passaram por nenhum lugar onde se pudesse ver batalhas. Estavam<br />

agora num mar de montanhas geladas, sobrevoando um vasto emaranhado de picos<br />

cobertos por neve. Sob a gigantesca lua, Pan-noa não necessitava de sua visão noturna.<br />

Houve um silêncio aterrorizante. Pan-noa começou a ficar nervoso. Apesar de<br />

estarem em velocidade baixa, já tinham voado por muito tempo. Então tentou falar<br />

alguma coisa:<br />

- Se aquele povo vencer a guerra contra o seu eles nunca vão encontrar sua<br />

Deusa, Clia. Estamos voando há horas e nada...


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Clia não se movia. Mas então ela moveu seu corpo para frente e sorriu.<br />

- Lá embaixo Pan-noa, aquele rio.<br />

- Devemos navegá-lo?<br />

- Podemos? – Perguntou Clia se referindo ao aerojet.<br />

- Claro! Até debaixo d’água!<br />

- Ótimo é para lá que nós vamos. Ninguém nos seguirá desta maneira.<br />

- Ei! – Disse Pan-noa estarrecido. – Eu tenho os melhores radares do universo<br />

aqui! Ninguém está nos seguindo, além disso o planeta inteiro está monitorado.<br />

- Eu sei, Pan-noa. Mas podemos estar sendo seguidos por coisas que seus<br />

radares e sensores não captam.<br />

- Ei! Você está me assustando.<br />

- Não percebeu ainda, Pan-noa?<br />

- Percebi o que?<br />

- Estamos lidando com poderes supremos.<br />

Enquanto se dirigiam para o rio, Pan-noa pensou em tudo que acontecera até<br />

agora. Era verdade. Ele estava preocupado demais com coisas puramente racionais e<br />

não deu a mínima para os absurdos que tinha visto e vivido.<br />

- Ora! Vamos lá! Eu não tive tempo nem de fazer xixi ainda! Como eu poderia<br />

perceber algo anormal, por mais anormal que fosse, se tive que enfrentar uma cidade<br />

enlouquecida tentando queimar crianças, depois dragões, depois mundos dentro de<br />

mundos, fora isso você...<br />

Pan-noa parara por ali.<br />

- Sim o que tem eu? – Perguntou Clia.<br />

- Veja! O rio. – Disse Pan-noa aliviado.<br />

Pan-noa pousou sobre as águas de um rio nada calmo. A correnteza os levou<br />

por entre desfiladeiros feitos de neve. Era um lugar lindo, com uma luz mágica,<br />

mesmo sendo noite.<br />

Pan-noa olhou para Clia.<br />

- Estamos no caminho certo?<br />

- Sim, agora estamos sob a proteção da Deusa.<br />

- Como assim? Só porque estamos navegando em um rio e não estamos voando?<br />

- Não, Pan-noa. Por que vamos entrar em Seu domínio. Olhe para frente.<br />

Pan-noa ficou atônito. Estavam penetrando em uma caverna na qual terminavam<br />

os desfiladeiros. Era uma pequena fenda feita de rocha negra.<br />

- Ai meu caralho! – Disse Pan-noa. – Kenn! Está me ouvindo? – Já era tarde.<br />

Kenn já não podia mais ouvi-lo. – Visão noturna!<br />

Neste momento Pan-noa teve que se sentar mais confortavelmente em seu acento.<br />

A caverna fazia um arco por cima do rio. O fundo da caverna era negro mas em<br />

quase toda parte, sobre a superfície da rocha negra, havia cristais verdes e laranja de<br />

todos os tamanhos.<br />

- Cristais. – Disse Pan-noa. – Cristais verdes e laranja! Como no planeta Azul,<br />

como nas moradias dos povos que habitavam e habitam o mundo do Mago de Prata!<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Estes cristais são encantados!<br />

Clia olhou-o com determinação.<br />

- Como sabe que são encantados, Pan-noa? Quem lhe disse isso?<br />

- Os seres supremos. – Disse Pan-noa pensando se isso que estava acontecendo<br />

com ele era obra de alguém ou simplesmente seu destino. Alguma coisa estava<br />

errada e muito errada.<br />

A coisa ficou realmente errada quando o rio acabou em uma queda abrupta.<br />

- Ei! Por que você não me avisou, Clia? Reverter motores.<br />

Mas a queda foi rápida. Caíram num lago dentro da caverna. Pan-noa acionou<br />

os motores e o aerojet se transformou em um pequeno submarino.<br />

Avançaram pelo lago enorme, com as mais loucas criaturas. Pan-noa estava<br />

fascinado. Clia parecia estar em contato de novo. Pan-noa olhou para ela e não quis<br />

atrapalhar. Se eles se perdessem aqui seria o fim, afinal não tinham contato com o<br />

mundo lá fora.<br />

Seguiram pelo caminho que Clia indicava. Pan-noa pensava naquele povo bárbaro<br />

tentando achar esta tal Deusa. “Já estariam todos congelados”, pensou sorrindo.<br />

- Ali Pan-noa, suba!<br />

Então Pan-noa subiu e viu uma pequena luz. Foi em direção a ela e logo estavam<br />

fora d’água, dentro de uma caverna enorme. Pan-noa pousou o aerojet na neve<br />

e abriu a carenagem transparente do aerojet. Sentiu o cheiro do ar.<br />

- Como é doce!<br />

- Sim é o cheiro da Deusa!<br />

Pan-noa olhou para Clia assustado. Clia soltou uma risadinha ao ver sua cara.<br />

- Ela, Ela está aqui por perto?<br />

Clia olhou para frente. Pan-noa acompanhou o olhar. Era uma pedra negra da<br />

metade do tamanho de Pan-noa. Pan-noa deu um passo à frente admirando a pedra.<br />

Não havia nenhuma fenda da qual pudesse sair uma flor mágica. Mal percebeu os<br />

cintilantes cristais que o cercavam. Uma luz veio do teto da caverna. Era a luz da lua<br />

penetrando e quase o cegando.<br />

- Temos contato com o ar de fora! - Disse ele alegremente. – Kenn? Pode me<br />

ouvir.<br />

- Onde esteve Pan-noa? Dei uma busca pelo planeta inteiro!<br />

- Está tudo bem! Kenn, pode gravar tudo o que eu estou captando nos sensores?<br />

- Comecei agora.<br />

Pan-noa olhou para Clia. Ela estava apenas olhando para o chão, acompanhando<br />

a luz da lua que ia em direção à pedra. Quando lá chegou, parou. Então a flor<br />

começou a nascer. Pan-noa estava enfeitiçado. Viu a flor tomando forma, mudando de<br />

cor, ficando prateada, depois tons de azul e prateada de novo. O desabrochar, o ser de<br />

costas para ele, o ser se virando. Magia, beleza. Era a coisa mais bela que ele já vira.<br />

Pan-noa estava paralisado, mas suas mãos queriam tocá-la, tocar aquilo como se fosse<br />

um objeto mágico e sagrado. Desejo! Pan-noa chegou mais perto e ajoelhou-se. Agora<br />

o ser estava à sua frente. Ele não conseguia vê-lo como uma deusa, mas sim como um


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

anjo, como algo que fazia sua adrenalina subir, dando reviravoltas em seu estômago.<br />

Pan-noa começou a sentir-se inferior. Ele queria aquela beleza. Inveja. Queria para<br />

ele. Ambição. Não queria apenas tocá-la, abraçá-la, queria possuí-la, como se aquela<br />

beleza pudesse lhe trazer tudo o que precisava. Então o ser à sua frente olhou-o de<br />

forma severa. Pan-noa não se mexeu, continuou desejando. Então o ser falou:<br />

- Você terá. Mas deverá saber usá-la. Quando a pétala cair eu vou fechar e<br />

você deverá pegar a pétala para você. No momento certo, você deverá saber o que<br />

fazer. Por enquanto, você deve saber só uma coisa: um dos nossos quebrou uma lei.<br />

Fez isso com boa intenção, mas agora já deveria ter voltado. Ele passou de um estágio<br />

e voltou ao estágio anterior. Você deverá destruí-lo. Só assim ele morrerá de novo.<br />

Você pode fazê-lo com esta pétala. Mas não o subestime. Ele é muito forte e agora tem<br />

um aliado muito pior que ele. Será seu pior inimigo. Agora pegue a pétala e vá.<br />

Então a pétala caiu e, antes que esta tocasse o chão, Pan-noa segurou-a e guardou-a<br />

no aerojet. Clia estava lá quando Pan-noa chegou, pálido como a neve. Nem<br />

esperara a flor se fechar e já estava dentro do aerojet, puxando Clia para dentro.<br />

- O que houve? O que a Deusa disse? – Perguntou Clia angustiada. – Como<br />

ousa sair do templo sem fazer as rezas e as reverências?<br />

- Isto é bobagem. Temos trabalho a fazer e você deve me ajudar. Chega de<br />

segredinhos! Você deve saber de algo. Kenn, preciso de 5 L.u. Quero que você se<br />

acople imediatamente no trans universo imperial. Chegarei junto com você. Mantenha<br />

a escotilha aberta e todos os processadores operando!<br />

Num piscar de olhos o aerojet, com uma Clia abismada e um Pan-noa enlouquecido,<br />

pousou dentro da sala de controle já devidamente acoplada no trans universo<br />

imperial. Pan-noa desceu do aerojet seguido de Clia que não conseguia sequer<br />

piscar ao notar que estava no espaço de novo, vendo seu planeta lá embaixo.<br />

Pan-noa colocou a pétala da Deusaflor dentro de um analisador de substâncias<br />

na mesa de controle do trans universo imperial.<br />

- Kenn, análise total por favor.<br />

Pan-noa olhou intrigado para Clia. Ela estava com uma “cara-de-quem-nadatinha-a-dizer”.<br />

Mas Pan-noa sabia que ela tinha. Que ela era um ser poderoso, criada<br />

por uma criatura poderosa e estava na hora das coisas começarem a se encaixar. Então<br />

Pan-noa resolveu ir ao extremo dos extremos. Conectou-se com Kenn via pérolacubo:<br />

“Vamos resolver o problema da forma mais perigosa, Kenn. Acredito que esta<br />

nave possua pelo menos um suprimento mínimo de pérolas-cubo...estou certo?”<br />

“Pan-noa?” Perguntou Kenn abismada.<br />

- É isso mesmo! - Gritou Pan-noa para Clia – Já estou cheio de fantasmas,<br />

de duendes, fadas, crianças encantadas, sapinhos cor de rosas e dragões. Dragões! –<br />

Repetiu abismado, como se tivesse acabado de sonhar com dragões e acordasse do<br />

sonho mais absurdo de todos. – Ei! Espere um pouco. – Refletiu consigo mesmo. –<br />

Sonho, crianças encantadas. Isto me lembra aquele livro!<br />

- Kenn! – Gritou Pan-noa de novo. – Estava com uma cara de quem tinha tido<br />

uma ótima ideia. – Lance um dardo de inconsciência em Clia, agora!<br />

Clia nem teve tempo de se mover. O dardo a atingiu e ela caiu como uma folha<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

cai de uma árvore. Pan-noa teve tempo de pegá-la antes que ela atingisse o chão.<br />

Levou-a à enfermaria e pediu a Kenn que implantasse uma pérola-cubo na testa de<br />

Clia. Era o maior absurdo já feito por Pan-noa desde que ele nasceu. Mas pelo estado<br />

das coisas Kenn resolveu obedecê-lo.<br />

Algumas horas depois, Clia acordou sobressaltada.<br />

- O que você fez comigo? – Perguntou para Pan-noa.<br />

- Fiz algo para nos salvar. Fiz algo que sua Deusa teria me pedido para fazer<br />

caso tivesse tido mais tempo. Agora tome. - Pan-noa deu a Clia o livro “O Mago de<br />

Prata”. Leia isso e tente associar com algo da sua cultura. Deve haver alguma relação<br />

entre esta porra deste livro e sua Deusa ou eu estou ficando completamente louco.<br />

Clia teve um grande espanto quando abriu o livro e entendeu as palavras.<br />

Pan-noa riu e disse.<br />

- É, nós também temos coisas supremas.<br />

Clia ficou mais abismada ainda quando ouviu aquilo na língua de Pan-noa e<br />

não na sua.<br />

- Não se preocupe, é uma espécie de mágica. Agora sua mente vai trabalhar<br />

mais rápido, você entenderá meu mundo mais facilmente e terá uma bagagem cultural<br />

praticamente igual a minha. Bem, comece a ler o livro. Vou preparar algo para comer,<br />

esse livro dá muita fome. Além de ser meio idiota.<br />

Clia começou a ler o livro, mas imediatamente percebeu que não precisava<br />

ler o livro inteiro. Através da pérola-cubo ela simplesmente poderia ter a história em<br />

sua mente em um segundo, como se alguém a tivesse contado para ela de uma forma<br />

imediata.<br />

Ela foi para onde Pan-noa estava sentado. A comida estava começando a surgir<br />

na mesa de centro.<br />

- As coisas aqui andam meio apressadas. Você não acha, Clia? – Perguntou<br />

sarcasticamente Pan-noa.<br />

Clia limitou-se a sentar no sofá em meia-lua ao lado de Pan-noa. Ela olhou<br />

para ele e no rosto de Pan-noa surgiu a figura do rosto do Mago de Prata, muito parecida<br />

com as formas do rosto da Deusa.<br />

- Então? – Perguntou Pan-noa. Existe alguma relação?<br />

Clia estava muda.<br />

- Sabe o que sua Deusa me falou quando nós conversamos?<br />

Clia mexeu sua cabeça num gesto negativo. Sua aparência era comovente.<br />

- Kenn? Quer retransmitir, por favor?<br />

Então surgiram nos monitores as imagens da conversa entre Pan-noa e a Deusa.<br />

Clia estava estarrecida. Por algum tempo não falou. Pan-noa comia sem parar.<br />

Então Clia finalmente falou.<br />

- Existe uma lenda entre nosso povo.<br />

- Ah! - Disse Pan-noa - Finalmente a verdade! Vamos lá, não se apresse.<br />

- Nós sabíamos de outros mundos. – Continuou Clia ainda angustiada.<br />

- Bem, no nosso Império nós temos cerca de cem mil, sem contar as luas! –<br />

Disse Pan-noa sarcasticamente. Estava furioso.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Cale a boca e deixe a menina falar. – Gritou Kenn.<br />

Pan-noa olhou para cima, tentando achar o rosto inexistente de Kenn.<br />

- Está bem, desculpe-me. Continue.<br />

- Bem, estes outros mundos, nós não sabíamos se eles existiam ou não. Na verdade<br />

nunca soubemos de muita coisa, apenas estava dentro de nós, como um instinto.<br />

Assim como o instinto de que deveríamos cuidar da Deusa. Agora eu consigo visualizar<br />

isto muito melhor! Veja: todos os mundos, pelo que eu estou entendendo agora,<br />

estão conectados. Estão conectados de uma forma especial, não como você se conecta<br />

com suas máquinas. Estão conectados na forma da morte. A morte de certas raças<br />

conectam-se para formar um outro mundo, um mundo fora deste, não um planeta mas,<br />

quem sabe, um outro universo. – Ela parou para pensar no que estava dizendo. – Bem,<br />

existe em cada planeta, habitado ou não, um fio de ligação entre o mundo daqui e o<br />

mundo formado por essas pessoas que passam por este estágio.<br />

- A morte? – Perguntou Pan-noa abismado.<br />

- Sim. É uma espécie de ligação quase mística que existe entre esses dois universos<br />

e os planetas deste universo que estamos habitando.<br />

- Quer dizer que todos os planetas tem uma ligação? – Perguntou Pan-noa<br />

mais abismado ainda.<br />

- Sim e não. Na verdade deveriam ter. Veja a Deusa, por exemplo. Ela é um ser<br />

supremo porque ela pode comunicar-se com os seres do outro universo.<br />

- Os mortos. – Perguntou Pan-noa.<br />

- Sim, os supostos mortos. E consegue também comunicar-se com os “Deuses”<br />

que existem em todos os outros planetas deste universo. Em cada planeta deste<br />

universo existe um ser supremo, podemos chamá-lo de Deus, que se comunica com<br />

os outros seres supremos de cada planeta. São esses seres supremos que morrem para<br />

manter a comunicação entre o universo inteiro.<br />

Pan-noa sentou-se na cadeira com a boca aberta. “Mas é óbvio! Assim como<br />

em qualquer planeta de qualquer sistema a vida se prolonga através da morte...como<br />

aqueles que morrem dão seus corpos para a terra para virarem alimentos para outras<br />

vidas, certas almas de certos corpos de certos seres, os ‘seres supremos’, prolongam<br />

a vida desta maneira, morrendo e formando a vida num plano superior. Uma espécie<br />

de adubo ao contrário!”<br />

- Mas infelizmente, – Clia continuou. – Um desses seres voltou. Voltou para<br />

reparar um erro do passado. – Neste momento Pan-noa sentou-se ereto no sofá. – Se<br />

ele simplesmente tivesse voltado, reparado o erro e depois morresse como um mortal<br />

qualquer... Mas ele não morreu, ele está vivo. Vivo neste planeta que vocês chamam<br />

de Planeta Azul.<br />

- O Mago de Prata! – Gritou Pan-noa. - Então a Deusaflor estava me pedindo<br />

isso! Para matá-lo. Mas por que eles, os seres superiores, não o matam já que são tão...<br />

superiores?<br />

- Porque ele é muito poderoso eu acho. E acho que o que está atrapalhando<br />

tudo não é só o fato de ele estar vivo, mas sim o fato de estar bloqueando a ligação<br />

entre o planeta em que ele vive, com os outros seres supremos. Como você sabe, no<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

universo nada é ao acaso. Tudo está conectado e este Mago de Prata desconectou seu<br />

mundo do universo. Isto deve estar gerando um problemão. Acredito que pelo fato dos<br />

seres superiores não poderem fazer contato com o Planeta Azul eles não podem tocar<br />

o Mago de Prata.<br />

- Mas como? Como você sabe que ele desconectou o planeta Azul do universo?<br />

- Pan-noa estava desnorteado.<br />

- Antes do Planeta Azul ser atacado O Mago de Prata lançou um feitiço fenomenal<br />

no planeta inteiro, lembra-se?<br />

- Sim para se proteger dos mísseis do Império.<br />

- Pois bem esta proteção não é apenas física, é espiritual!<br />

Pan-noa jogou-se de novo no sofá. Estava desiludido.<br />

- Como posso ir contra tamanha força? O filha da puta é um maldito mago!<br />

- A única forma de combater um mago, é ter o mesmo efeito da magia que o<br />

protege.<br />

- É mesmo? Tipo lançar uma magia para transformar um planeta inteiro azul<br />

em verde? Isso é fácil! – Disse Pan-noa irritado.<br />

- Não. – Respondeu Clia no mesmo tom de voz. – Lembra-se do livro, Pannoa!<br />

Com o que O Mago de Prata se protegia e atacava?<br />

Pan-noa pensou um pouco e se ergueu do sofá com a mão na testa, paralisado<br />

por não ter pensado nisso antes.<br />

- Com a sua beleza! A magia do Mago de Prata está no fato de que, se qualquer<br />

ser vivo olhar para ele, fica imediatamente cego! Cego de espírito! A pior maldição<br />

que alguém pode sofrer!<br />

Então Kenn interferiu:<br />

- A análise da pétala indica a construção de um ser. Fiz uma hipótese do ser<br />

que seria construído e já a tenho disponível. Deseja vê-la?<br />

- Imediatamente. – Gritaram Pan-noa e Clia ao mesmo tempo.<br />

Então, para o total espanto dos dois, o que apareceu nos monitores era uma<br />

réplica virtual exata da aparência do Mago de Prata. Era nada mais, nada menos do<br />

que a Deusa vista como um ser humano.<br />

- Pela Deusa! – Disse Clia atônita. – É o próprio ser! Nós o temos.<br />

- Sim, temos virtualmente. Que grande coisa! Vamos até o planeta azul, pegamos<br />

o Mago de Prata pela mão, trazemos até a nave e pedimos para ele olhar para o<br />

monitor. Logo depois ele nos transforma em dois sapos. Ótimo!<br />

Pan-noa sentou-se e sua pérola-cubo lançou-lhe um estímulo. “Você é mesmo<br />

um tapado, não é Pan-noa? Não se lembra que você tem uma andróida moldável enfurnada<br />

num caixão aqui dentro da sala de comando?”<br />

Pan-noa levantou-se num pulo.<br />

- Filha de uma puta! – Berrou. Clia caiu no sofá indignada. – A Andróida! A<br />

maldita andróida deitada no caixão!<br />

Clia olhou para a caixa feita de vidro e metal, cheia de água e um boneco assustador<br />

que jazia lá dentro.<br />

- Pan-noa. – Disse Kenn. – Eu não recomendo a modelagem de tão deplorável


Marcelo Paciornik<br />

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ser. Lembre-se, você dará vida àquilo que te sentenciou ao que você está vivendo.<br />

- Você quer dizer, – Disse Pan-noa olhando no fundo dos olhos de Clia. – A<br />

melhor época da minha vida!<br />

Clia ficou vermelha.<br />

- Kenn. – Ordenou Pan-noa. – Transforme esta Andróida no ser que irá destruir<br />

o Mago de Prata! Transforme esta aberração na Andróida Andrógina!<br />

O Contato com o Império<br />

Schaia III, O Imperador Mago, mandara buscar constantemente remessas do<br />

cristal verde que era encontrado no planeta azul. Era sua nova fonte de energia. Schaia<br />

III tornara-se um imperador mago, com um poder supremo, mas não fazia parte dos<br />

seres que eram predestinados a serem supremos. Como seu fiel amigo Mago de Prata.<br />

Na verdade, os dois estavam amaldiçoados por terem usado a magia dos seres supremos<br />

para sua própria causa.<br />

Schaia III e O Mago de Prata tinham achado a chave da imortalidade. Para isso<br />

eles precisavam dos cristais abençoados pelo Mago de Prata.<br />

Além disso, Schaia III precisava manter seu Império em total coalizão. Como<br />

ele tinha fechado todos os espaços de dobras e, pior ainda, lacrado o espaço interno,<br />

espaço em que viviam os Extuárticos, seres que mantinham a energia para a dobra dos<br />

espaços, todos os planetas do império estavam totalmente isolados.<br />

Os três únicos planetas que estavam conectados por uma via especial de transporte<br />

eram Plan Ex, planeta sede do Império e casa de Schaia III, o Planeta Azul,<br />

conhecido pelos seus antigos habitantes como Terra, lar do Mago de Prata e dos filhos<br />

gêmeos de Schaia III e, finalmente, Carmel, planeta sagrado, confeccionador de tecnologia<br />

para o Império.<br />

Com esses três planetas Schaia III estava construindo algo que ele poderia<br />

torná-lo um ser quase supremo: ele estava construindo, com os cristais encantados do<br />

Planeta Azul e com a sabedoria dos cientistas de Carmel, algo que lhe permitiria observar<br />

todos os planetas e, ainda, observar todos os movimentos dentro de seu Império<br />

além dos seres supremos de cada planeta. Era “O Olho de Deus”.<br />

Pan-noa não tinha a mínima ideia disso tudo. Estava isolado num canto<br />

qualquer do universo, transformando um ser semi orgânico em algo que ele acreditava<br />

capaz de matar O Mago de Prata, o ser que deixara Schaia III louco, que transformara<br />

o Império numa cozinha e que, por consequência, dera oportunidade para que a bicha<br />

de seu tio matasse seus pais e tomasse o poder do seu planeta. Isto era exatamente o<br />

que Pan-noa pensava.<br />

Portanto, a ideia de Pan-noa era muito simples... “Cortaremos o mal pela raiz.<br />

Primeiro esse ou essa bruxa desse Mago de Prata que ninguém consegue nem definir<br />

o sexo. Depois, Schaia III, o imperador bicha que se apaixonou pela outra bicha do<br />

Mago de Prata. Depois, voltaremos para casa e mataremos a bicha do meu tio que<br />

ninguém consegue definir o sexo. Perfeito! Tudo com a ajuda de uma Andróida An-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

drógina que ninguém consegue definir o sexo. Só tem um problema... como vamos até<br />

o maldito planeta Azul sem um portal de dobra? Estamos perdidos! Perdidos e agora<br />

com uma Andróida Andrógina. Um ser que não sabemos o que é nem para que serve,<br />

ou melhor, sabemos que a maioria deles é feita para fazer sexo, obviamente. Mas, e se<br />

meu tio estivesse mandando um presente assassino para não sei quem?”<br />

Pan-noa pensava, pensava, enquanto Kenn preparava os procedimentos para a<br />

transformação da andróida em Andróida Andrógina. Não era um processo fácil. Então<br />

Pan-noa teve uma ideia, o que na verdade foi a segunda maior cagada que já fizera<br />

em sua vida.<br />

- Kenn, por favor, implante uma pérola-cubo na Andróida Andrógina, uma que<br />

nós possamos controlar.<br />

- Você está louco? Utilizar-se de uma tecnologia secreta em um ser como este?<br />

- Pode ser nossa salvação Kenn. O que sabemos sobre este ser? Implante e<br />

deixe a pérola inconsciente. Caso haja algum problema, manipularemos a Andróida<br />

para que nos obedeça. O que você acha?<br />

- Não é uma má ideia, só é arriscada.<br />

- Estamos em uma situação arriscada, Kenn. - Pan-noa falava isso tomando<br />

um belo suco vermelho, deitado no sofá ao lado de Clia que cochilava.<br />

- Pan-noa.<br />

- Sim Kenn?<br />

- Situação arriscada você disse?<br />

- Sim. – Disse Pan-noa calmamente.<br />

- Bem, então acho melhor você se levantar. Acabei de te dar uma pequena dose<br />

de enecto-lex via pérola-cubo para que você não tenha um ataque.<br />

Pan-noa levantou-se e olhou para o monitor.<br />

- Um transportador imperial. Acabou de sair de um portal de dobra. Sem<br />

navegadores, sem radares, sem armas, sem tripulantes. Apenas levando toneladas e<br />

toneladas de um cristal estranho ao meu sistema.<br />

- Pode decodificar o sistema?<br />

- Já estou fazendo. A nave vem do setor Z planct 2 e Z planct 3. Só para você<br />

saber melhor é a entrada ou saída para vários sistemas não catalogados porém muito<br />

famosos para os militares na época do General Arcrates.<br />

- Não!!! – Gritou Pan-noa com satisfação.<br />

- Sim!!! – Disse Kenn, imitando a entonação de Pan-noa. - E tem mais! Segundo<br />

os códigos da nave ela está indo diretamente para Plan Ex, tomando um portal que<br />

estava camuflado mas está aberto permanentemente. Nós podemos utilizá-lo agora<br />

que sabemos sua localização.<br />

Pan-noa não pensou muito.<br />

- Podemos conseguir uma aproximação com o transportador?<br />

- Certamente.<br />

- Podemos localizar o último portal e irmos em direção a Z planct 1 e 2?<br />

- Certamente. Os portais são camuflados mas uma vez detectados podem ser


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

usados.<br />

- Podemos, antes de tudo, colocar um presentinho para Schaia III dentro da<br />

nave?<br />

- Certamente. O que vai ser?<br />

- O que você acha de dois Ulmátrios com detonadores específicos?<br />

- O que? – Gritou Kenn, fazendo Clia despertar num pulo.<br />

- Sim, vamos destruir não só Plan Ex como o sistema inteiro e, quem sabe, a<br />

galáxia?<br />

- E formar um buraco negro? Seu sistema não está tão afastado para se safar<br />

da força de um buraco negro, Pan-noa.<br />

- Está bem! Um Ulmátrio. E é minha última cartada.<br />

- A nave levará sua bomba Pan-noa. E que Deus esteja do seu lado.<br />

- Ah está, Kenn! E não só Deus como todos os seus anjos.<br />

Olhou para Clia e disse:<br />

- Está começando! Nossa guerra terá a bênção de todos os anjos, de todos os<br />

seres supremos. Eles já devem saber. A sua Deusa é boa e poderosa. E já começou a<br />

nos ajudar.<br />

- Kenn, armar e carregar a bomba para este bastardo deste Schaia III. Depois<br />

disso, lançar o trans universo imperial para o maldito Planeta Azul.<br />

Pan-noa beijou Clia. Eles se deitaram no sofá e enquanto a nave entrava em<br />

velocidade inimaginável eles se amaram. Se amaram como os seres jovens, tão jovens<br />

que não sabem o que fazer quando se amam, mas se amaram.<br />

Enquanto isso, dentro do caixão de metal e vidro, a forma de um ser magnífico<br />

se consumava. O sopro de vida estava quase sendo mandado pelos codificadores que<br />

Kenn comandava. Logo nasceria um ser que mudaria o destino da vida no universo.<br />

O nascimento da Andróida Andrógina<br />

O tempo no transuniverso imperial, a partir daquele momento, foi gasto por<br />

Pan-noa e Clia da forma mais estranha possível. Tanto Pan-noa como Clia não tinham<br />

corpos formados para o que eles estavam fazendo, mas por outro lado, os dois estavam<br />

conectados através das pérolas-cubo, as quais possibilitavam aos dois aprenderem<br />

todos os mistérios dos prazeres carnais. Além disso, eles estavam de tal forma unidos<br />

que não repararam que podiam comunicar-se tão facilmente que já não mandavam<br />

instruções às pérolas-cubo. Elas praticamente agiam como parte do corpo deles.<br />

Eles não tinham ideia de quanto tempo passaram viajando pela dobra espacial.<br />

O que eles podiam sentir era o imenso prazer de estarem juntos. Apesar disso Pan-noa<br />

sempre tinha um santuário secreto em sua mente onde guardava seu sentimento de<br />

amor por Be.<br />

Clia demonstrou a Pan-noa formas de se movimentar que ele jamais sonhara.<br />

Eles aproveitaram os imensos jardins da nave para colocar seus corpos na mais perfeita<br />

forma. Passavam dias nos jardins, sem nem mesmo voltar à sala de comando.<br />

Dormiam ali, nas desnaturais florestas, que serviam bem ao propósito deles, como se<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fosse um esconderijo particular, uma espécie de paraíso feito apenas para eles.<br />

Kenn deixava os dois se divertirem, afinal, não detectara nenhum perigo durante<br />

a viagem. A única coisa que a estava preocupando era a demora para chegar ao<br />

sistema do planeta Azul.<br />

O novo casal entregara-se totalmente ao marasmo. Clia ficara fascinada com a<br />

magnitude da nave e só não achava aquilo aterrorizante porque Pan-noa programara<br />

a pérola-cubo que Clia estava usando com as mais variadas formas de conhecimento.<br />

Clia aprendia de uma forma fascinante. E quanto às aulas de socialização, as únicas<br />

que não podiam ser feitas através das pérolas-cubo, Pan-noa fazia sua parte deitando-a<br />

na relva artificial da nave.<br />

Os dois estavam no lago, embaixo da pequena cascata. Pan-noa brincava com<br />

sua animotatoo e Clia ria sem parar das mais absurdas formas que Pan-noa fazia em<br />

seu corpo. Foi quando Kenn soou um alerta que deixou os dois em estado de pânico.<br />

Era um alerta estipulado para a situação mais perigosa que poderia ocorrer. Os dois<br />

começaram a pensar em conjunto nas mais absurdas possibilidades enquanto corriam<br />

para o aerojet. Ou Schaia III descobrira que eles o tinham o atacado e mandara toda<br />

a frota imperial atrás deles, ou o Mago de Prata resolvera combatê-los com um exército<br />

de bruxos cósmicos, ou o transuniverso imperial estava tendo problemas com a<br />

inesgotável energia que o impulsionava bem dentro do espaço de dobra, ou seu tio<br />

resolvera ir atrás deles para matá-los e ficar finalmente com o planeta roubado de seu<br />

pai. As coisas iam mais ou menos por aí, uma ideia mais apavorante que a outra. Mas<br />

foi ao chegar à sala de comando que Pan-noa e Clia visualizaram que a coisa era, na<br />

verdade, muito, muito pior.<br />

A sala de controle estava funcionando. O alarme tinha parado de tocar e Pannoa<br />

estava ao lado de Clia. A sala estava escura. A primeira coisa que Pan-noa e Clia<br />

notaram foi o reflexo muito mais forte das luzes de comando no chão da sala, como<br />

se a sala estivesse inundada.<br />

- Kenn? Pode acender as luzes?<br />

Kenn não respondia, mas as luzes foram acesas, apesar da demora.<br />

Realmente agora Pan-noa e Clia podiam ver que a sala estava completamente<br />

inundada. Então Pan-noa deu um passo para trás, apertou fortemente a mão de Clia e<br />

apontou para o caixão de metal e vidro completamente destruído. Pela primeira vez na<br />

vida Clia sentiu um medo profundo, um medo que a fez respirar ofegante.<br />

- Kenn, por favor me responda. O que aconteceu aqui?<br />

Pan-noa falava isso indo diretamente para a sala de banho onde guardara sua<br />

roupa protetora. Vestiu-se rapidamente e, enquanto se vestia, viu que as luzes da sala<br />

de comando estavam se estabilizando. Então Pan-noa conseguiu vislumbrar o ocorrido.<br />

Nem ele nem Clia necessitavam das explicações de Kenn mas a bela voz da<br />

máquina resolvera dar sinal de vida.<br />

- Ela me desprogramou momentaneamente, Pan-noa.<br />

- Sim eu percebi isso. Consegue localizá-la?<br />

- Não.<br />

- E quanto a pérola-cubo?


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Ela está utilizando-a em proveito próprio.<br />

- Como?<br />

- Não sei. Estes seres são imprevisíveis! Na verdade eles são criados para<br />

serem escravos, escravos sexuais como vocês devem saber. Mas este em particular alterou<br />

seu comportamento. Talvez ela tenha conseguido manipular-me graças a pérolacubo.<br />

Então Clia falou.<br />

- Foi a pétala. A pétala da Deusa. Nós demos o corpo e ela tomou vida. A<br />

Deusa te deu uma pétala para que nós criássemos um outro ser. Não lembra?<br />

Então Pan-noa desesperou-se.<br />

- Um ser supremo! Que se misturou a um ser escravo, que tem uma pérolacubo,<br />

que conseguiu manipular até Kenn, roubando seus arquivos, Ela sabe de tudo,<br />

de toda nossa cultura, sabe como nos matar e ainda...<br />

Pan-noa parara de falar pois viu o terror no rosto de Clia.<br />

- Vamos ficar aqui na sala de comando. – Disse Pan-noa. – Kenn, alerta máximo!<br />

Tente localizá-la o quanto antes. Lacre totalmente a sala de comando. Não sabemos<br />

que tipo de ser criamos e não quero ser atacado por um ser que pode ter poderes<br />

superiores aos nossos. Kenn, tente achar uma roupa protetora para Clia. Implante em<br />

sua pérola-cubo a maneira correta de utilizar a roupa.<br />

Pan-noa ainda estava tenso quando sentou-se na cadeira de comando. Não tirava<br />

os olhos dos monitores que vasculhavam freneticamente todo o interior da nave.<br />

Clia estava parada, em pé, ao seu lado, testando a roupa protetora.<br />

Então Clia perguntou:<br />

- Será que ela não está se escondendo por estar com medo de nós?<br />

- Como assim? Ela roubou todos os arquivos possíveis! Ela sabe tanto da nossa<br />

cultura quanto você ou eu.<br />

- Talvez tenha feito isso por instinto e, por ter vindo da Deusa e ser, na verdade,<br />

a própria Deusa em essência; talvez tenha reconhecido a pérola-cubo como algo<br />

anormal em seu corpo, de maneira que a primeira coisa que fez foi saber o que aquele<br />

corpo estranho fazia em sua testa. Ao verificar, impulsionou a curiosidade e fez com<br />

que a pérola-cubo funcionasse da maneira que funciona, isto é, captando as informações.<br />

Isto é, talvez tenha feito isso não propositadamente.<br />

Pan-noa pensou sobre isso. Clia poderia estar certa. Então, foi um pouco mais<br />

longe.<br />

- Lembra-se da pétala? Era uma pétala que acabara de nascer, era minúscula!<br />

- Sim! – Disse Clia confiante. – A Deusa não poderia refazer-se já adulta. Ela<br />

te deu uma pétala ainda em crescimento.<br />

- E o corpo que estava para ser moldado também era de uma criança. Sim. –<br />

Disse Pan-noa eufórico. – Eu lembro, no bilhete que meu tio dera a não sei quem, estava<br />

escrito para moldar um ser parecido comigo, portanto, a Andróida deve ter mais<br />

ou menos o nosso tamanho, a nossa idade.<br />

Clia olhava para Pan-noa e compreendia o que ele queria dizer.<br />

- Então, concordamos que temos uma criança assustada. Assustada ao nascer<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

consciente. Ela nasceu e logo foi bombardeada com milhares de informações. Ela<br />

deve estar completamente desnorteada!<br />

Pan-noa olhava para os monitores. A imagem passava pelos jardins em que ele<br />

e Clia tanto se amaram. Então Pan-noa levantou-se.<br />

- Kenn, congele a imagem ali, naquele ponto. Traga mais perto. Veja Clia! Ali,<br />

no chão, não é algo estranho para você?<br />

- Pela Deusa! Só pode ser ela! Mas como conseguiu?<br />

- Ela inspirou-se na nossa tecnologia de camuflagem! É uma criança definitivamente<br />

esperta e, logicamente, está com medo. Vamos.<br />

O aerojet saiu da sala de controle em disparada para os jardins da nave. Pannoa<br />

e Clia chegaram ao local que viram no monitor.<br />

- Estou sonhando! – Disse Pan-noa – Ela é ainda mais bela que a Deusa!<br />

- Como é possível? – Perguntou Clia.<br />

O que eles viram os deixou realmente fascinados. Os dois ajoelharam-se para<br />

chegar mais perto do ser que tinha se camuflado na forma de uma flor azul prateada.<br />

Uma flor que deveria ter um metro de altura e que se encontrava totalmente fechada.<br />

Ela cintilava uma luz quase divina, uma luz que era refletida no rosto de Pan-noa e<br />

Clia. Os dois se olharam admirados com a beleza do ser.<br />

- Isso é algo muito além da nossa tecnologia. – Disse Pan-noa.<br />

- Isso é algo muito além da nossa magia. – Disse Clia.<br />

Os dois ficaram parados, de joelhos, olhando para a flor. Estavam tão hipnotizados<br />

que não notaram o tempo passar. A única coisa que começaram a cogitar era<br />

como e quando o ser iria voltar a ter forma humana.<br />

Um forte impacto tirou os dois daquele mundo mágico. Quase caíram no chão<br />

e perceberam que a flor se fechara mais fortemente.<br />

- O que houve Kenn?<br />

- Acabamos de sair do espaço de dobra. Estou com o mapa estelar roubado da<br />

nave de transporte. Estamos indo em direção ao planeta Azul.<br />

Um forte espasmo passou pelo corpo de Pan-noa e Clia. Os dois se olharam<br />

mais uma vez. Agora sabiam que o perigo era palpável.<br />

- Kenn – Pediu Pan-noa. – Pode abrir as janelas laterais?<br />

As imensas janelas subiram. De um lado da nave se encontrava o espaço infinito,<br />

negro e frio. Do outro, havia uma espiral infinita de estrelas.<br />

- O sistema do Planeta Azul. – Sussurrou Pan-noa aterrorizado. – Jamais<br />

imaginei que eu algum dia pudesse estar aqui.<br />

- Estou com o Planeta Azul no vetor, Pan-noa. Disse Kenn. – Devo me aproximar?<br />

Pan-noa esperou um pouco e então disse:<br />

- Sim Kenn, velocidade de batalha.<br />

Então o transuniverso imperial começou a avançar em direção à galáxia em<br />

espiral.<br />

Pan-noa e Clia sentaram-se em volta da flor, deram as mãos e esperaram.<br />

A viagem demorou. Pan-noa e Clia estavam dormindo ainda no mesmo lugar,


Marcelo Paciornik<br />

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abraçados. Então, ainda deitados, sentiram o leve toque nas suas pérolas-cubo. Kenn<br />

estava avisando que tinha contato visual com o Planeta. E de fato, quando os dois abriram<br />

os olhos, viram o imenso planeta através das janelas do transuniverso imperial.<br />

Pan-noa ficou realmente espantado com a beleza do planeta. Ele ainda possuía tons<br />

do azul, apesar do verde imperar. “É a forma que o Mago de Prata protege o planeta”,<br />

pensou Pan-noa. “Uma camada de energia verde acima da atmosfera. Que força um<br />

ser deve possuir para criar tamanha façanha?”. Pan-noa observava, admirado, o Planeta<br />

Azul que agora estava esverdeado. Porém, algo chamara sua atenção. Algo que<br />

iria mudar sua vida para sempre.<br />

Em um lado do planeta, à sua frente, começou a aparecer uma forma branca e<br />

arredondada, uma forma que refletia uma luz branca fantástica. Ele sentou-se ao lado<br />

de Clia e olhou para ela. Seus olhos estavam brancos. Pan-noa sentiu um calafrio. A<br />

luz da lua começara a entrar pela janela da nave e, com um feixe poderoso, banhava<br />

os jardins onde os três seres se encontravam. A luz ficou muito forte ao atingir a flor.<br />

Pan-noa levantou-se num pulo. Clia estava hipnotizada. “Ela vai renascer”. A flor<br />

cresceu meio metro e, ao crescer, começou a mudar de forma. Havia uma quantidade<br />

de energia enorme saindo da flor que agora estava passando pela forma híbrida. Era<br />

quase um ser humano, mas então Clia despertou do seu estado hipnótico, pegou na<br />

mão de Pan-noa e disse rapidamente:<br />

- Modifique um pouco sua visão com o auxílio da roupa protetora antes que<br />

ela se transforme totalmente!<br />

Pan-noa levou um susto. “É claro! A magia vai vir com ela!”<br />

E realmente o ser à sua frente era a criatura mais estarrecedora que Pan-noa<br />

já vira. Uma criatura de um metro e meio, com o corpo desenhado nas mais perfeitas<br />

proporções. Um ser que fazia com que Pan-noa sentisse algo infinito dentro de si. Um<br />

ser que mexia com os mais profundos sentimentos. Um ser que emanava algo inexplicável,<br />

algo puro, algo divino.<br />

O ser olhava para os dois com um olhar de quase mágoa, de quase medo. Um<br />

olhar de lamento. Então Pan-noa não se conteve. Deu um passo adiante. O ser não<br />

se mexeu. Deu outro e mais outro. Então, estava cara a cara com o ser. Clia estava<br />

congelada de medo. Pan-noa levantou os braços e abraçou o ser. Abraçou-o como se<br />

abraça uma criança. Então, o ser o abraçou também. Pan-noa parecia ter sido violentado,<br />

tamanha era força que sentira vindo daquele abraço. Não uma força física, mas<br />

algo místico. Um sentimento de prazer muito além do que ele já havia experimentado,<br />

muito além de qualquer coisa que ele jamais sentira. Pan-noa não conseguia soltá-lo.<br />

Então, conectou-se com Clia e ela fechou os olhos. Era lindo. Clia também sentia.<br />

Pan-noa finalmente deu um passo para trás. Estava chorando de emoção. O<br />

ser o olhava agora com admiração. Era inteiro prateado, azul prateado, os olhos profundos<br />

como água, o cabelo era uma fina penugem num tom mais azul que o resto do<br />

corpo. Os olhos no mesmo tom do cabelo, das sobrancelhas, dos lábios.<br />

- O que devemos fazer? – Perguntou Pan-noa para Clia sem tirar os olhos da<br />

Andróida.<br />

Antes que Clia respondesse o ser criou uma capa prateada e fechou-se nela,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

deixando apenas uma parte de rosto à mostra.<br />

- Suas visões não precisam ser mais modificadas. – Falou uma voz rouca e<br />

fraca, quase meiga.<br />

Pan-noa e Clia levaram um susto. Era a primeira vez que o ser falava com eles.<br />

Mas levaram um susto maior ainda quando o ser desapareceu da frente deles num<br />

piscar de olhos.<br />

- Para onde ela foi? – Berrou Pan-noa desesperado.<br />

- Ela está com a pérola-cubo, vamos nos conectar.<br />

- Para a sala de comando! – Falaram os dois juntos.<br />

Agora os três olhavam para o planeta em frente. Pan-noa e Clia esperavam<br />

impacientes. A Andróida Andrógina concentrava-se profundamente no planeta. Então<br />

disse algo que fez com que Clia apertasse fortemente a mão de Pan-noa.<br />

- Vamos começar a guerra.<br />

No Planeta Azul<br />

Pan-noa estava desnorteado. Enquanto caminhava à noite, como a Andróida<br />

Andrógina tinha estipulado, remoía pensamentos e sentimentos. Ele parecia estar vivendo<br />

num sonho. O que fora escrito naquele livro que Schaia III ordenara que o<br />

Império inteiro lesse, não era nem uma mísera partícula daquele mundo.<br />

A lua estava no meio do céu negro esverdeado, adornada com nuvens de bordas<br />

quase claras. Pan-noa e Clia caminhavam na mata fechada, descendo uma montanha.<br />

Ele podia ver algo fascinante lá embaixo. Uma aldeia, uma aldeia, com a qual<br />

jamais pudera sequer sonhar.<br />

Todas as construções eram feitas de cristais verde e laranja. A aldeia margeava<br />

um lago muito grande e todo o fundo do lago podia ser visto de onde Pan-noa<br />

e Clia se encontravam. O fundo cintilava graças aos cristais que, com a luz da lua,<br />

formavam feixes de luzes multicoloridas. As pessoas na aldeia movimentavam-se freneticamente.<br />

Parecia haver algum tipo de festa, pois Pan-noa conseguia ouvir sons de<br />

tambores e, às vezes, alguma melodia.<br />

Pan-noa não estava desconcertado apenas com a beleza do local. Sempre<br />

imaginara que o planeta azul deveria ser um deserto sem fim, com animais perigosos<br />

e pessoas selvagens. Aquilo era, para ele, uma agradável surpresa. Mas tinha certas<br />

coisas que ele queria saber, que retumbavam em sua mente e que nem a pérola-cubo<br />

implantada em sua testa conseguia lhe responder.<br />

- Algumas coisas deveriam ser esclarecidas. – Falava enquanto caminhava<br />

atrás de Clia.<br />

- O que por exemplo? – Perguntara Clia com uma entonação de puro descaso,<br />

como se tudo fosse absolutamente normal.<br />

- O que por exemplo?! – Repetiu Pan-noa admirado. – Como nós viemos parar<br />

aqui, sem uma nave, por exemplo. Como esta Andróida sabe onde estamos indo, por


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

exemplo. Como aquela aldeia consegue ficar acesa sem energia, por exemplo.<br />

- Pan-noa. – Disse Clia calmamente. – Você está se esquecendo do livro que<br />

leu na nave?<br />

- Não eu não me esqueci, apenas não acreditei na metade.<br />

- Pois então comece a acreditar. Nós viemos parar aqui graças ao poder da<br />

Andróida Andrógina. Você ainda não percebeu que ela ou ele é, na verdade, um ser<br />

que tem o domínio de certas forças no universo que nós não temos?<br />

A Andróida Andrógina estava agora indo na frente deles. Na verdade o que ia<br />

na frente deles era uma forma esférica, totalmente preta e que absorvia a luz da lua. A<br />

Andróida Andrógina se transformara em flor novamente e estava guardada da luz da<br />

lua dentro desta esfera que flutuava na frente dos dois.<br />

Pan-noa olhava para a esfera com receio.<br />

- Ela só se transformou em flor novamente para não despertar a atenção do<br />

Mago. – Dizia Clia.<br />

Pan-noa porém estava pensando em outra coisa. “Vir para um planeta totalmente<br />

estranho assim, sem mais nem menos, apenas com a roupa protetora, sem aerojet,<br />

sem sala de comando. Simplesmente caímos aqui como mágica.”<br />

O fato de Pan-noa não entender a possibilidade de se deslocar no espaço sem<br />

nenhum equipamento para isso o estava incomodando tanto que ele não pensava mais<br />

nenhum possível perigo. Clia ficara satisfeita por isso e deixou Pan-noa se perder<br />

nestes pensamentos.<br />

Mas ela estava preocupada. A esfera à sua frente demonstrou possuir extremo<br />

poder, mas seria suficiente para enfrentar este Mago de Prata? E se o resto do planeta<br />

se voltasse contra eles? Clia começou a pensar que deveria haver algum ser supremo<br />

por aqui durante o intervalo em que O Mago de Prata morrera e retrocedera. Tentou<br />

pensar na história do livro e alguma coisa apontou para um pensamento. Sim, algo<br />

dizia que estavam indo na direção correta.<br />

Eles só caminhavam à noite e só quando a lua aparecia, afinal a Andróida<br />

Andrógina só podia manifestar-se com a luz da lua. Além disso, a lua era a fonte de<br />

seus poderes.<br />

A coisa começou a ficar mais clara para Clia na quinta noite. Inicialmente tanto<br />

ela quanto Pan-noa pensavam que eles estavam indo em direção a alguma aldeia, mas<br />

eles já tinham passado por duas. Então Clia falou:<br />

- A esfera não está procurando uma aldeia de humanos. Ela está procurando os<br />

seres que eram os seres supremos deste planeta no intervalo da morte e ressurreição<br />

do Mago de Prata.<br />

Pan-noa parecia ter voltado ao normal. Já não estava se perdendo em devaneios.<br />

- Sim. – Disse ele. – Possivelmente aqueles seres que foram chamados de Irmã<br />

Floresta.<br />

Clia parou e olhou para trás. Deu um sorriso.<br />

- Fico feliz que você esteja mais seguro.<br />

- Estou aprendendo a lidar melhor com esta situação. – Disse Pan-noa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A esfera e os dois continuavam sua busca. Durante noites caminhavam e nada<br />

achavam. Pan-noa e Clia pareciam ter perdido a esperança mas a Andróida Andrógina<br />

seguia normalmente. Os dias e noites pareciam intermináveis. Pan-noa só resistia e<br />

continuava a busca porque Clia estava ao seu lado. Pan-noa e Clia começaram a ter<br />

uma relação extremamente íntima, um amor ilimitado, algo que, para Pan-noa, era de<br />

fato muito penoso, afinal ele já tinha sentido a poderosa e devastadora força da perda<br />

e o que mais o afligia naquele momento era a possibilidade de perder Clia. Era algo<br />

insuportável de pensar.<br />

Como de costume, eles seguiam à noite por trilhas árduas, colhendo frutas<br />

porque o suprimento de comida que carregavam estava acabando. Clia começou a<br />

fraquejar. Então, enquanto caminhavam por uma floresta de árvores gigantescas, os<br />

dois sentiram algo. Sentiram que haviam passado por uma espécie de fronteira cujo<br />

outro lado se mostrava mais generoso com suas almas. A esfera que carregava a Andróida<br />

Andrógina desaparecera. Os dois se olharam espantados mas um segundo mais<br />

tarde lá estava ela, a criatura que eles praticamente criaram, estava ali, olhando para<br />

eles.<br />

- Um ser maligno morreu neste momento. – Disse a Andróida seriamente.<br />

- O que quer dizer? – Perguntou Pan-noa.<br />

- Entramos em solo sagrado. Aqui o Mago de Prata não me perceberá. – Respondeu<br />

a Andróida Andrógina, olhando profundamente para Clia.<br />

Pan-noa ficou abismado com este olhar. Procurou o olhar da Andróida. Ela<br />

observou-o vagamente, virou-se e continuou pela floresta.<br />

A angústia<br />

Agora eles podiam andar durante o dia. Foram dias belíssimos, penetrando<br />

em uma floresta que, para Pan-noa e Clia, era mágica. A Andróida sempre ia alguns<br />

passos à frente dos dois que, de mãos dadas, sentiam-se em um verdadeiro paraíso.<br />

Foi ao entardecer de um dia particularmente belo que Pan-noa notou que a<br />

Andróida havia parado um pouco à sua frente. Ele e Clia pararam ao lado dela e viram<br />

algo realmente fantástico. Estavam sobre um penhasco imenso e um oceano esverdeado<br />

expandia-se até um horizonte laranja avermelhado. Pan-noa olhou para baixo e viu<br />

uma floresta imensa cujas árvores, podia jurar, eram azuladas. Mas estavam muito no<br />

alto para saber. Então, percebeu um tênue fio de areia dourada que dividia o oceano<br />

da floresta. A Andróida Andrógina apontou para um lugar à frente, na areia. Pan-noa e<br />

Clia ampliaram suas visões com o auxílio da pérola-cubo. Eles podiam ver que a linha<br />

de areia era bem maior do que pensavam e bem no ponto onde a Andróida Andrógina<br />

havia, apontado viram o topo de uma pirâmide<br />

- É para lá que deveremos ir. – Disse a Andróida Andrógina. – Aquela construção<br />

tem um grande poder.<br />

Tomaram o caminho beirando o desfiladeiro. Em alguns momentos, por pre-<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

caução, entravam na mata mas tentavam manter sempre o rumo do desfiladeiro que<br />

descia em direção à floresta.<br />

- Estamos andando em terras protegidas - Dizia a Andróida. – Aqui o Mago de<br />

Prata não nos ouve e não nos sente.<br />

- Então, por que não podemos pedir a Kenn o Drakunum Maximatrya? Já<br />

estamos cansados de andar. – Falou Pan-noa irritado.<br />

A Andróida Andrógina parou e olhou-o severamente.<br />

- Este povo não gosta de sua tecnologia.<br />

Pan-noa ficou chocado com a resposta. “Esta coisa está começando a me irritar.”<br />

Pensou se a Andróida podia saber o que ele estava sentindo sobre ela. “Que<br />

sinta mesmo! Essa aberração do caralho.” Clia não olhou para ele mas deu um aperto<br />

em sua mão.<br />

- Ei! – Disse Pan-noa mais irritado ainda. – Se estamos protegidos da bicha,<br />

vamos, pelo menos, voar! Essas roupas tem antigravitacionais!<br />

Pan-noa não esperou a resposta da Andróida. Ativou o mecanismo da roupa<br />

protetora e desceu o desfiladeiro num voo rasante em uma velocidade abismal. Clia<br />

teve que segui-lo berrando para que ele parasse. Pan-noa, porém, estava cansado de<br />

seguir as ordens de uma Andróida. Olhou para trás e viu, abismado, que a Andróida<br />

tinha duas asas prateadas nas costas. Ela parecia um anjo. Sua expressão não era de<br />

desaprovação. Então Pan-noa avançou e, mesmo chegando lá embaixo, na floresta,<br />

assumiu o controle da comitiva e seguiu na direção da construção em forma de cone.<br />

Ao chegar um pouco mais próximo, parou no ar, logo acima de algumas árvores.<br />

- Meu caralho! – Berrou – Então essa porra realmente existiu!<br />

- Sim – Disse Clia com um sorriso na face. – E ainda existe! Como é enorme!<br />

- O Templo de Cosmo. – Disse a Andróida, novamente olhando para Clia.<br />

- Vamos! – Gritou Pan-noa tomando a mão de Clia e deixando a Andróida<br />

Andrógina para trás.<br />

Tentou uma comunicação com Clia via pérola-cubo:<br />

- “Por que essa porra não para de te olhar, Clia?”<br />

- “Como assim?” – Perguntou Clia.<br />

- “Essa coisa está tentando fazer algo com você, eu tenho certeza!”<br />

- “Imagine Pan-noa.” – Disse Clia abismada. – “Ela é um ser divino e está aqui<br />

numa missão divina.”<br />

Pan-noa não falou mais nada. Estavam aproximando-se da construção. A<br />

aproximação era, no entanto, apenas ilusão. O Templo era muito grande e dava a<br />

impressão de estar perto mas, mesmo flutuando sobre as árvores, eles só conseguiram<br />

chegar realmente perto na manhã do dia seguinte.<br />

- Imagine se estivéssemos andando! – Disse Pan-noa olhando para a Andróida<br />

Andrógina com desdém.<br />

Ela, entretanto, parecia não estar ali. Havia fixado o olhar no templo e não falou<br />

mais nada até chegarem à praia onde o templo estava fincado. Os três “aterrizaram” na<br />

areia e Pan-noa perguntou.<br />

- Essa porra é de verdade?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Não fale assim de algo tão sagrado. – Disse a Andróida.<br />

- É sagrado para aquela bicha do Mago de Prata e do Schaia III, os dois filhas<br />

da puta que me colocaram nesta merda.<br />

Neste momento uma nuvem negra cobriu o céu e um vento violento soprou<br />

vindo de direção nenhuma. Pan-noa estremeceu. Clia pegou na sua mão e disse.<br />

- Cuidado com o que fala, Pan-noa.<br />

- Ei! Que tal a gente comer algo? – Disse Pan-noa. – Se tiver algum ser ali<br />

dentro, acho melhor nós esperarmos um convite para entrar. Não é o mais sensato?<br />

Os três sentaram-se e acenderam uma fogueira. Clia foi em uma direção para<br />

achar água e a Andróida foi em outra para procurar gravetos. Pan-noa ficou sentado<br />

numa pedra, pensando. “Fazer uma fogueira, procurar água, só me falta eu ter que<br />

achar a caça.” Um lagarto enorme começou a correr da mata em direção a água. “Que<br />

saco.” Pensou Pan-noa. Então levantou o braço e com um pequeno gesto disparou um<br />

raio estourando a cabeça do animal.<br />

- Eu não vou limpar isso. – Disse com nojo olhando o lagarto mais de perto.<br />

Olhou para trás e não viu ninguém. Sentiu um frio na barriga e seus pensamentos<br />

começaram a embaralhar-se. Flutuou acima das árvores e viu Clia à beira de<br />

um pequeno lago, deitada em cima de uma pedra e com uma massa azul prateada<br />

penetrando-a. A expressão de Clia era do mais puro prazer. Ergueu o braço e disparou<br />

gritando:<br />

- Não!<br />

Neste momento a Andróida Andrógina virou seu corpo junto com o de Clia.<br />

O raio atingiu a pedra. O rosto da Andróida estava transformado. Sua aparência era<br />

quase masculina, com um sorriso sarcástico olhando para Pan-noa. Mas, para o total<br />

espanto de Pan-noa, Clia não parara de cavalgar em cima do recém-formado pênis da<br />

Andróida Andrógina.<br />

Pan-noa então voltou para a areia e se agachou, mordendo seu próprio joelho.<br />

Soltou um urro que deve ter sido ouvido por meio mundo, tamanho o estardalhaço que<br />

milhares de aves fizeram ao levantar voo, berrando feito loucas. Aves negras.<br />

Pan-noa entrou em contato imediatamente com Kenn.<br />

- Kenn, poder de fogo ao máximo! Lançar Drakunum Maximatrya imediatamente<br />

nas minhas coordenadas.<br />

O estrondo do Aerojet entrando na atmosfera foi ouvido pela metade do planeta.<br />

“Se isso não despertou o Mago de Prata, então ele deve ser surdo.” Pensou<br />

Pan-noa.<br />

Foi só na metade do caminho de volta ao transuniverso Imperial que Pan-noa<br />

pensou. “Estou fugindo.” Mas, se aquela maldita criatura estivesse manipulando a<br />

mente de Clia?<br />

Pan-noa arrependeu-se imediatamente de ter fugido. Uma angústia intolerável<br />

lhe consumia. Agora já era tarde. Devia ir até o Trans Universo Imperial e pensar<br />

sobre isso tudo. Então pensou, mais angustiado ainda: “E se a criatura não tivesse<br />

manipulado a mente de Clia? E se Clia estivesse fazendo aquilo por amor?”<br />

Uma dor em seu coração começou a se manifestar. Pan-noa não conseguia


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

chorar, mas seu coração chorava. Era a pior dor que já sentira. Pan-noa olhou para a<br />

imensa nave à sua frente mas sua mente estava em outro lugar. “Mais uma perda. O<br />

que mais pode vir agora? Acho que este foi o pior dia da minha vida.”<br />

A vingança<br />

Foi Kenn que não deixou Pan-noa dormir por muito tempo. Despertou-o com<br />

imagens apavorantes e, ao mesmo tempo, gratificantes, na medida do possível. Kenn<br />

havia mandado um satélite espião para verificar o que estava ocorrendo lá embaixo.<br />

Então Pan-noa viu como a Andróida Andrógina havia realmente manipulado a<br />

mente de Clia. Logo depois que o Drakunum Maximatrya saíra da atmosfera do planeta,<br />

a Andróida Andrógina capturara Clia e a levara para dentro do templo de Cosmo.<br />

Porém, quando o satélite espião entrou no templo, Pan-noa perdeu contato. A última<br />

coisa que viu foi a cara de desespero de Clia olhando para trás. Pan-noa tinha certeza<br />

que o satélite havia sido destruído.<br />

Uma terrível energia começou a crescer dentro de Pan-noa. Era algo que ele<br />

não conseguia explicar, uma espécie de prazer em poder retornar e recuperar o amor<br />

perdido e uma espécie de raiva por não ter ficado lá para defender este amor. Mas<br />

agora Pan-noa não tinha tempo para ficar se auto condenando ou se arrependendo.<br />

Kenn, como que adivinhando o que Pan-noa iria querer, disse:<br />

- Sua roupa de batalha está pronta Pan-noa. Fiz algumas modificações no<br />

escudo de defesa. Agora, qualquer tipo de energia que tente atravessá-la, será bloqueada.<br />

Consegui entender como esses seres usam seus poderes: nada mais é do que<br />

uma espécie de “energia domada”, uma energia captada da natureza que os cerca e<br />

equalizada da maneira que desejam.<br />

- Então. – Disse Pan-noa com o olhar vago. – Podemos interferir nos poderes<br />

destes seres já que podemos entender como eles agem.<br />

- Sim. Teoricamente sim. Se você conseguir fazer um campo de força que os<br />

cerque e que os isole da fonte onde captam energia, isto é, de tudo o que os rodeia,<br />

você conseguirá não só capturá-los como também mantê-los neste campo sem poder<br />

algum.<br />

Pan-noa deu um sorriso. Sua mente estava trabalhando tão rapidamente que<br />

ele praticamente já visualizava um final absurdo para a coisa toda. Entretanto, parou<br />

e pensou um pouco mais. Como iria capturar seres tão poderosos? Pediu a Kenn que<br />

colocasse nos monitores, detalhadamente, o funcionamento das roupas de batalha.<br />

Pan-noa notou com espanto que este era um modelo novo. Era praticamente<br />

igual ao que ele estava acostumado a usar em seus “treinamentos domésticos”, mas<br />

continha modificações significativas. Pan-noa começou a estudar os tipos de armas.<br />

- Bem. – Disse ele para si mesmo. – Isto não vai ser de grande uso, já que estes<br />

seres devem ter defesas contra este tipo de coisa. Mas poderá distraí-los. Sim, se eu<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

lançar raios múltiplos desta magnitude... eles vão estremecer e assim eu poderei... -<br />

Pan-noa avançou a demonstração – usar isto.<br />

Então parou e olhou para o que estava escrito na tele. “Arma de captura”.<br />

- Vamos lá Kenn, diga-me o que isto faz.<br />

- Acho que você achou, Pan-noa. A arma de captura envolve o inimigo em um<br />

campo energético do qual ele não pode sair, é extremamente eficaz para capturar e<br />

manter o inimigo vivo.<br />

- Kenn, você está brincando? Se vamos manter as bichas lá embaixo vivas,<br />

dentro desta porra, é porque deve passar ar para dentro e se passa ar para dentro passa<br />

energia e eles poderão manipular esta energia de tal forma que vão me transformar em<br />

sapo.<br />

- O manual, – Disse Kenn. – é enfático ao dizer que se duas armas de captura<br />

forem lançadas no mesmo indivíduo haverá dois campos energéticos circundando o<br />

indivíduo e entre estes ... uma zona de vácuo.<br />

Pan-noa ficou olhando para o nada, com cara de quem acabara de levar uma<br />

bofetada.<br />

- Eu não acredito! Com uma zona de vácuo entre os campos de captura eles<br />

não poderão usar energia alguma!<br />

- Na verdade, – Disse Kenn. – Não é somente o campo de vácuo que irá detêlos.<br />

O primeiro campo de captura associado ao vácuo e associado ao segundo campo<br />

de captura vai funcionar como um espelho energético. Qualquer feitiço que tente escapar<br />

dali será refletido e retornará para o...<br />

- Feiticeiro! – Gritou Pan-noa satisfeito.<br />

- Exatamente!<br />

- Kenn! Prepare as naves de combate e prepare o Aerojet. Prepare um plano de<br />

batalha e vamos fazer uma invasão em massa. Tenho certeza que este Mago de Prata já<br />

sabe que estamos aqui mas o nosso ataque vai ser tão rápido que ele não vai conseguir<br />

nem piscar.<br />

- Você vai mesmo matar este Mago de Prata? – Perguntou Kenn.<br />

- Não só ele como esta porra desta Andróida Andrógina.<br />

Pan-noa vestiu-se rapidamente com a roupa de batalha. Estava eufórico.<br />

Então Kenn avisou:<br />

- Todas as naves preparadas.<br />

- Muito bem. – Disse Pan-noa. – Não quero nenhum ser humano morto. Procure<br />

poupar os animais. Bombardeie lugares desertos. Quero também o máximo de<br />

explosões fictícias no céu. Vamos deixá-los completamente perplexos. Quantas naves<br />

temos?<br />

- Todas que um transuniverso pode carregar.<br />

- Você quer dizer incluindo as micronaves e tudo?!<br />

- Exatamente.<br />

- Vamos foder com tudo! Isso significa mais de cem mil naves, satélites e<br />

micro naves! Comece imediatamente. Lançar satélites de comunicação, espiões e<br />

guerrilha nesta ordem ... lançar micronaves ... lançar atordoadores ... lançar naves de


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

batalhas. – Neste momento Pan-noa sentou-se no seu Aerojet. – Formato de batalha.<br />

– Gritou. – Lançar Aerojet. Vamos entrar pelos fundos Kenn!<br />

Como uma nuvem de insetos, toda a parafernália de equipamentos de batalha<br />

foi deixando o Transuniverso Imperial numa velocidade incrível. Com uma precisão<br />

fantástica, todo o poderio de batalha foi circundando o Planeta Azul. As naves e satélites<br />

deram a volta pelo planeta e voltaram num círculo menor. Os satélites entraram<br />

em órbita imediatamente e então as micronaves penetraram na atmosfera. Pan-noa,<br />

neste momento, viu uma tentativa de mudança na atmosfera. O verde começou a ficar<br />

mais forte e mais denso, como se fosse transformar-se num escudo. Mas já era tarde.<br />

As naves entraram por trás, pelo outro lado do planeta onde o escudo nem sequer<br />

começara a se formar. As naves já haviam entrado quando Pan-noa rompeu a atmosfera<br />

com um rastro dourado.<br />

- Show! – Gritou ele ao ver o estardalhaço que suas naves estavam fazendo.<br />

Aonde a vista alcançava o planeta estava sendo bombardeado ou parecendo estar,<br />

graças às falsas explosões criadas por armas apenas para causar impacto visual. Mas<br />

a batalha de Pan-noa não estava neste lado do planeta, estava do outro. Pan-noa acelerou<br />

seu Aerojet à frente das naves e circundou o planeta. As naves o seguiam fazendo<br />

uma demonstração apocalíptica. Por um momento pensou se a Andróida Andrógina<br />

teria matado Clia. Acelerou mais ainda seu aerojet.<br />

- Kenn, ligar escudos em todas as naves.<br />

Estava protegido. Visualizou ao longe uma cadeia de montanhas.<br />

- A cordilheira de diamantes!<br />

Ao passar pela cordilheira viu o imenso templo enterrado na areia pela metade.<br />

Circundou-o lançando uma cortina de bombas ao redor do templo e incendiando a<br />

mata em volta. Pousou o aerojet na frente do templo onde parecia haver uma entrada.<br />

- Kenn, circule o templo com naves de batalha, quero todo o apoio possível.<br />

Avise-me até se uma mosca entrar aqui.<br />

Pan-noa saiu do aerojet flutuando e com seu escudo ligado. Sua roupa o tornara,<br />

neste momento, invisível. Todas as armas carregadas. Pan-noa usou sua visão de<br />

antisólidos que, penetrando no templo, conseguiu ver centenas de seres acomodados<br />

num imenso salão ao redor da...<br />

- Não posso acreditar nisso!<br />

Lá estava ela, a Andróida Andrógina com todos os seres em volta. Milhares!<br />

Conseguiu visualizar Clia no chão, ao lado da Andróida, desmaiada. Seu coração ferveu.<br />

“O que a filha da puta está fazendo agora?” Pan-noa nem ligou para a aparência<br />

dos seres ao redor da Andróida Andrógina. “O povo da Irmã Floresta. Carne humana<br />

e asas de borboleta. Se eu conseguir, vou pegar dois ou três espécimes e levar para<br />

um zoológico.” Pan-noa estava realmente irritado. “Estou muito irritado. Preciso<br />

concentrar-me no que vim fazer.” Enquanto flutuava para a entrada começou a pensar.<br />

“Numa situação de risco esqueça a paixão. A emoção. Só o instinto é válido.” Então<br />

Pan-noa subiu. Ao invés de penetrar pela entrada à sua frente, subiu. “O que esta<br />

Andróida Andrógina está pretendendo ao usar Clia como isca? Ela é um ser supremo<br />

ou não?” Parou quase na metade da altura do templo, em uma parede inclinada que<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

formaria a pirâmide superior. Localizou o ponto médio e calculou o impacto da arma<br />

que iria usar. “Sim, a melhor maneira de entrar sem machucar ninguém... o som.”<br />

Começou a amplificar os módulos e, à medida que ia prolongando o som, viu a lateral<br />

do templo começar a rachar. Cautelosamente abriu uma fissura enorme. Continuou<br />

até que conseguiu visualizar, dentro do templo, o lugar onde a Andróida Andrógina<br />

estava, onde Clia estava, onde o povo da Irmã Floresta estava e onde Schaia III havia<br />

encontrado com o Mago de Prata num sonho. Antes mesmo de sentir um frio na<br />

barriga, Pan-noa disparou dois raios de captura no exato instante em que a Andróida<br />

Andrógina olhou para cima.<br />

- Isto era algo que você não previa não é monstrinho? – Falou Pan-noa sorrindo<br />

e indo em direção a Clia.<br />

Tomou Clia nos braços. Toda uma população de fadas em pânico fervilhava à<br />

sua volta.<br />

- Kenn! Estabilizador corporal via pérola-cubo para Clia. – Clia começou a<br />

despertar mas algo ao lado de Pan-noa o incomodava.<br />

Olhou para o lado e viu a Andróida Andrógina se debater dentro da armadilha.<br />

Clia olhou assustada para a cena.<br />

- O que está fazendo, Pan-noa? Porque a Andróida Andrógina está presa?<br />

- Se você não sabe então é melhor não ficar sabendo. Ela sabe o que fazer para<br />

sobreviver ali dentro e, se tivermos que usá-la, ela estará escondida, fora do alcance<br />

dos poderes do Mago de Prata.<br />

Então os dois e mais uma população inteira de pequenas fadas vislumbraram a<br />

transformação da Andróida Andrógina em flor.<br />

- Assim está bem melhor. – Disse Pan-noa.<br />

Clia levantou-se e só então os dois deram-se conta da multidão à sua volta.<br />

Olharam assustados para as fadas que pareciam estar à beira de um ataque de nervos.<br />

- Clia, acho melhor ligar seu escudo. - Disse Pan-noa.<br />

Os dois estavam um de costas paro o outro. A “Flor Andrógina” flutuava logo<br />

acima de suas cabeças envolta numa esfera de luzes transparentes. Uma fada deslocou-se<br />

para frente encarando Pan-noa. Imensas asas de borboleta batiam vagarosamente<br />

para mantê-la no ar.<br />

- O que pensam que estão fazendo? – Disse a fada controlando a raiva. – Como<br />

se atrevem a entrar aqui como se fossem deuses, macular o Templo de Cosmo e fazer<br />

magias artificiais no lugar que o Mago de Prata nos deu para descansar e rezar?<br />

Pan-noa estava calado. Se a fada se movesse mais um centímetro, dispararia<br />

suas armas. Foi Clia quem interveio. Virou-se em direção à fada e, agora ao lado de<br />

Pan-noa, falou:<br />

- Ele lhes deu este templo para que vocês não mais existissem!<br />

Todo o povo em volta soltou um murmúrio de estarrecimento.<br />

- Como se atreve menina? – Disse a fada, vindo em direção aos dois.<br />

Pan-noa levantou o braço e disse.<br />

- Nem mais um centímetro Irmã Floresta! Ou tudo isto vai pelos ares.<br />

- Irmã Floresta? – Disse a fada. Todos ao redor ficaram mais estarrecidos ainda


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

– Como sabe o nome da Mãe de todos?<br />

- Sei não só esse nome. – Continuou Pan-noa. – Mas sei de Ortal o guerreiro<br />

apaixonado, o dono do sonho de dez mil anos; sei de Muriled, o menino que o Mago<br />

de Prata roubou o corpo para sua encarnação; sei tudo o que ocorreu com seu povo<br />

e sei tudo sobre o Mago de Prata, o ser que não pode ser visto, o ser cuja beleza é a<br />

maldição para aqueles que o olham. Vim aqui com a tarefa de informá-los que estão<br />

sendo traídos! Traídos pelo Mago de Prata! – Neste momento, todas as fadas recuaram<br />

como que para livrar-se de um demônio ou coisa pior. Mas Pan-noa continuou. – Este<br />

templo isola vocês do mundo, do mundo lá fora. Não digo apenas deste planeta, mas<br />

digo do mundo de fora. - Pan-noa lera a mente da fada mais próxima e achou a palavra<br />

correta. – Há quanto tempo vocês não tem contato com o mundo dos espíritos? – “Espíritos”,<br />

pensou Pan-noa “um bom nome para seres supremos”.<br />

Algumas fadas colocaram a mão na boca, outras começaram a chorar, porém a<br />

que estava mais próxima falou:<br />

- Ele está tomando conta dos espíritos. Não devemos perturbá-lo.<br />

- Não, não está. – Disse Pan-noa enfrentando-a - Ele isolou este planeta para<br />

seu próprio bem, para prolongar sua vida eterna aqui sem que os espíritos o impeçam.<br />

A tarefa de contatar os espíritos é de vocês do seu povo, vocês sabem disso.<br />

Pan-noa sentiu o silêncio. As fadas estavam concordando. Agora começavam<br />

a olhar para baixo, como se estivessem com vergonha de terem sido logradas. Porém<br />

Pan-noa não deixou a coisa toda cair.<br />

- Vejam. - Disse ele apontando para a esfera acima de sua cabeça. – Eu trouxe<br />

um ser supremo, um ser comandado pelos espíritos. Ele veio para enfrentar o Mago<br />

de Prata, porque tem o mesmo poder. – Todo o povo se ergueu e flutuou acima das<br />

cabeças de Pan-noa e Clia. Nesta hora Clia tomou a mão de Pan-noa e falou baixinho:<br />

- Você tem certeza disso?<br />

- Não. Mas é a nossa última cartada. – Respondeu Pan-noa.<br />

O povo voltou à altura dos olhos de Pan-noa e uma fada falou:<br />

- Nós vimos a magia deste ser. – Apontou para a esfera onde estava a Andróida<br />

Andrógina. – Mas ela poderia ter a força do Mago de Prata?<br />

Então uma voz poderosa veio de fora e como um trovão estremeceu a alma de<br />

cada ser presente naquele templo.<br />

- Quem poderia ter a mesma força que a minha? - Pan-noa percebeu um murmúrio<br />

e viu que as fadas lá de trás afastavam-se para que uma figura se aproximasse.<br />

- Kenn, escudo total. - Pan-noa e Clia foram envoltos em duas esferas muito<br />

parecidas com a esfera que protegia a Andróida Andrógina. De lá de dentro viram uma<br />

figura envolta em um manto prateado penetrar no enorme salão.<br />

Pan-noa ficou assustado. Tocou o escudo como se fosse um vidro. Não tinha<br />

uma boa visão porque se tivesse já estaria cego diante da beleza do Mago de Prata.<br />

Olhou para Clia e viu que ela estava na mesma posição, completamente aterrorizada<br />

com a beleza do ser que acabara de parar à sua frente. O povo da Irmã Floresta estava<br />

de cabeça baixa.<br />

O Mago de Prata olhou para Pan-noa e para Clia. Depois olhou para a esfera<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

que estava entre eles.<br />

- Consigo ver claramente dois mortais em escudos impenetráveis. Como sempre,<br />

sua raça se acovarda atrás de sua tecnologia.<br />

Pan-noa estava aprisionado pela beleza daquele ser até esta frase. Após ouvila<br />

começou a sentir um comichão no estômago, um certo enjoo que o levou à raiva.<br />

Então olhou bem para o ser à sua frente e com grande desprezo falou:<br />

- Vamos ver o que a minha tecnologia reserva para você, Mago miserável.<br />

Estas palavras foram o bastante para fazer com que o Mago de Prata desse<br />

um passo para trás. Neste momento Pan-noa percebeu que atingira o ponto fraco do<br />

Mago. Em questão de segundos libertou a Andróida Andrógina. A “Flor Andrógina”<br />

caiu no chão despertando a curiosidade do Mago de Prata.<br />

A flor começou a se transformar na imagem do próprio Mago. Neste instante,<br />

prevendo o que ia acontecer e com um movimento das mãos levantou a flor em transformação<br />

e lançou-a para o teto do templo. A recém-transformada Andróida Andrógina,<br />

ao atingir o teto, explodiu em um sangue azul prateado que se espalhou pelo<br />

ar como uma chuva fina. Todo o ambiente foi envolvido por uma fina névoa azulprateada<br />

e os presentes foram forçados a respirar aquele ar. Pan-noa sentiu o mesmo<br />

cheiro adocicado que sentira ao abraçar a Andróida Andrógina pela primeira vez. “O<br />

cheiro da Deusa” - pensou.<br />

Quando o Mago de Prata olhou em direção a Pan-noa com a vitória estampada<br />

na face, este já havia disparado não uma nem duas, mas dezenas de armas de captura.<br />

Agora uma esfera de luzes enormes pairava sobre a cabeça de todos dentro do<br />

templo. Dentro dela, um Mago de Prata derrotado.<br />

As gotas de sangue da Andróida Andrógina ainda molhavam os presentes. Pannoa<br />

olhou para Clia. Ela assim, como ele e todo o povo da Irmã Floresta, estavam<br />

encharcados da substância prateada que ainda pairava no ar.<br />

Pan-noa esperou alguns instantes para saber se sua arma estava funcionando.<br />

Aparentemente o Mago de Prata estava capturado. Então, para seu alívio total, a imensa<br />

esfera diminuiu em frações de segundos e caiu. Pan-noa pegou-a na palma da mão<br />

e olhou. Parecia uma pedra preciosa, negra esverdeada. Guardou-a.<br />

- Agora temos certeza que um já foi pro pau! – Disse Pan-noa retirando os seus<br />

escudos e os de Clia. Olhou ao redor dizendo: – Mas o que é esta névoa de sangue que<br />

respiramos? O que representam os restos mortais da Andróida Andrógina entrando<br />

por nossos poros, por nossas bocas?<br />

- Significa que ela não está morta Pan-noa. – Disse Clia alarmada. – Ela está<br />

agora dentro de nós.<br />

Pan-noa sentiu um frio no estômago.<br />

- Isso era algo que eu definitivamente não estava esperando. – Olhou para Clia<br />

novamente. - Minha esperança é que seja a Deusa entrando em nós e não a Andróida<br />

Andrógina.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

O Livro das Esferas de Pedra Verde<br />

Os Antes e a Morte dos Anjos e Demônios<br />

Há quem diga que os mais opostos dos opostos são, dentre os semidivinos,<br />

os anjos e os demônios. Isso não deixa de ser um pensamento sensato, porém, irreal.<br />

Os anjos e os demônios são, em essência, a mesma coisa. São feitos da mesma não<br />

matéria, têm a mesma virtude, a mesma bondade e a mesma maldade. Eles são, na<br />

verdade, simplesmente, semidivinos e nada mais. Recebem a nomenclatura de Anjos<br />

e Demônios erroneamente porque o que os difere é o olhar de quem os vê. Os seres<br />

em transição, os Antes, são os que veem os anjos e os demônios de maneira diferente.<br />

Eles, os Antes, são puros e desconhecem o próximo círculo. Desta maneira não estão<br />

a par do “Tudo”. Assim sendo, eles julgam os semidivinos conforme a maneira com<br />

que estes colaboram ou não para seus interesses.<br />

Os Antes vivem ainda com a matéria pois dependem dela e só passam para<br />

o próximo círculo após muito tempo em contato com ela. Na verdade, eles têm um<br />

pensamento muito engraçado: acham que quando morrem seus “espíritos” saem do<br />

corpo e vão encontrar-se com Anjos ou Demônios criados por eles! Acham que, após<br />

a morte, vão para o próximo círculo e que este círculo é uma bênção ou uma punição.<br />

Estes pensamentos absurdos estão relacionados com o contato que os Antes mantêm<br />

com os semidivinos. É uma teoria válida pois nas diferentes culturas dos Antes nós<br />

podemos encontrar uma padronagem de elementos que levam à mesma fé inspirada<br />

pelo contato com os semidivinos.<br />

Obviamente os semidivinos são completamente proibidos de manter qualquer<br />

espécie de contato com os Antes, mas de quando em quando isso acontece e quando<br />

acontece...<br />

Antes de explicar o que acontece, existe um pormenor extremamente importante<br />

para entender os Antes e saber porque o contato com os semidivinos pode gerar<br />

uma catástrofe: na maioria das culturas dos Antes, quando um deles morre, o principal<br />

costume é enterrar o morto. Existem alguns outros costumes como queimar o corpo<br />

ou até mesmo comer o cadáver. Existem, mais algumas maneiras de lidar com aqueles<br />

que morreram mas é desnecessário fazermos referência a elas porque o final é sempre<br />

o mesmo.<br />

Pois bem, qualquer que seja o destino do morto, ele sempre acaba voltando<br />

para a matéria alimentando-a e, por consequência, alimentando os Antes através de<br />

uma complexa cadeia de acontecimentos do círculo da matéria. Por exemplo: o Antes<br />

nasce, seu corpo material cresce assim como seus conhecimentos. Isso só ocorre<br />

graças à matéria que o Antes come e bebe. À medida que envelhecem aprendem mais<br />

e guardam os conhecimentos adquiridos ao longo da vida dentro de si, dentro de seu<br />

próprio corpo até que, finalmente, morrem.<br />

Ao morrer (digamos que o Antes é enterrado), seu corpo é decomposto pela<br />

terra e a terra se alimenta do corpo decomposto do Antes. As plantas se alimentam<br />

da terra, os animais se alimentam das plantas e os próximos Antes que nascerem se<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

alimentam destes animais.<br />

Ora, se o Antes que morreu levou consigo, dentro de sua carcaça material, toda<br />

uma série de conhecimentos, o que acontece com eles então? Os próximos Antes que<br />

comeram a carne dos animais ou até mesmo as plantas que se alimentaram da terra<br />

que o Antes morto alimentou, vão estar comendo também, de uma maneira ou de<br />

outra, os conhecimentos que o Antes morto levou consigo para a morte (Inteligência<br />

Cadavérica).<br />

Isso tudo significa que, na verdade, os Antes não morrem! Simplesmente reciclam-se,<br />

expandindo seus conhecimentos, da forma mais paradoxal possível, isto é,<br />

através da própria morte que não é uma morte propriamente dita mas uma não-morte.<br />

Esta não-morte é absolutamente impensável para os Antes. Eles acham que<br />

a morte é ligada ao término do corpo e, depois disso, não sabem de nada. Existem<br />

certas teorias para explicar a morte, graças ao contato esporádico e proibido com os<br />

semidivinos, mas essas teorias não são tão importantes para os Antes quanto a matéria,<br />

quanto seus corpos. Desta forma eles acham que, quando o corpo acaba, tudo<br />

simplesmente acaba também. A morte é o fim mesmo que a fé existente no coração do<br />

Antes seja forte e lhe diga que não.<br />

O Antes só passa para o próximo círculo quando supera a matéria, deixando<br />

de ser Antes e passando a ser um de nós. Isso só ocorre com a transferência do conhecimento<br />

entre os Antes, seja verbalmente seja através da não-morte. Mas isso é<br />

extremamente raro e só alguns conseguem chegar a esse estágio.<br />

Então, para a maioria dos Antes, a morte continua sendo o fim, pois, para eles,<br />

quando termina a matéria termina tudo. É aí que está o grande problema do contato<br />

entre os semidivinos e os Antes. Foram poucos os contatos, mas os que ocorreram<br />

foram catastróficos para o nosso círculo.<br />

Os Antes, de quando em quando, conseguem aliar-se a poderes materiais e espirituais<br />

de tamanha magnitude que nenhum de nós ou até mesmo um dos semidivinos<br />

consegue superar.<br />

Quando um semidivino se depara com o destino de um Antes e este Antes<br />

acha que este semidivino é um demônio, isto porque este semidivino, possivelmente,<br />

está atrapalhando a vida deste Antes, o resultado é simples: o Antes tem poderes que<br />

o semidivino subestima e a única coisa que o Antes consegue pensar é em punir este<br />

semidivino e limpar o caminho do Antes é a morte. Porém o semidivino não está em<br />

seu plano natural. Ele pode estar até mesmo disfarçado com um corpo material, mas<br />

não é um Antes e não vai ter uma não-morte como os Antes têm. Ele vai realmente<br />

morrer e morrer da forma que o Antes entende que deve ser a morte.<br />

Então, o semidivino, seja ele Anjo para alguns ou Demônio para outros, vira<br />

uma esfera de pedra, independente da natureza ou da cultura, porque a morte do semidivino<br />

está concretizada, mas sua força mística se transforma em uma esfera de pedra,<br />

uma esfera que concentra tudo o que o semidivino foi e que ninguém até hoje conseguiu<br />

libertar.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Schaia III<br />

Era o ano de 134.789. Plan Ex havia caído. Os sistemas Craisson, Matricariams,<br />

Samplardacos, Kalum Br, tencionavam avançar pelo espaço e ameaçavam uma<br />

revolta contra o Imperador Schaia III.<br />

Schaia III estava em Carmel quando uma nave de transporte explodiu o sistema<br />

de Plan Ex, casa do Imperador Schaia III.<br />

De seus sonhos nada sobrara a não ser alguns cristais de extremo poder que<br />

seriam usados para fechar a imensa cúpula conhecida como O Olho de Deus que agora<br />

estava destruído. Destruído como o sistema de Plan Ex inteiro.<br />

- A casa imperial. – Schaia III falava para si mesmo ainda não acreditando.<br />

– Quem seria tão corajoso e tão inescrupuloso para mandar, dentro de meu próprio<br />

carregamento de cristais, um Ulmátrio, uma arma de tamanha força.<br />

Schaia III olhou para cima, para o espaço. Uma noite linda, o céu cheio de<br />

estrelas. “Ele poderia ter formado um buraco negro e, pelo menos dez sistemas iriam<br />

sucumbir. Este inimigo é completamente insano. Ele quer me matar! Quem poderia<br />

ser tão idiota ao ponto de destruir a casa imperial, o lar de centenas de milhares de<br />

imperadores?” Schaia III nunca ficara tão alarmado desde a crise do Sonho de Dez<br />

Mil Anos que ele mesmo resolvera. Sua indignação, entretanto, não era proporcional<br />

a tamanha calamidade. Alguma coisa estava errada. “Estou calmo demais. Sinto que<br />

algo terrível vai acontecer.”<br />

Schaia III tocou com os pés descalços o mar à sua frente. Uma lua artificial<br />

começara a surgir no céu. “A lua do ‘projeto descoberta’. O que devo fazer?” Schaia<br />

III ficou ali, parado, de pé por alguns instantes. Então, instintivamente, colocou a mão<br />

no bolso, sentindo que alguma coisa estava pesando mais que o normal. Um cristal<br />

verde. Schaia III tirou o pequeno cristal de seu bolso. Era uma pedra quase bruta. O<br />

cristal emitiu um brilho, um mísero brilho que Schaia III não teria notado se não fosse<br />

treinado pelo Mago de Prata. Colocou o cristal em contato com sua testa, concentrouse<br />

ao máximo e caiu de joelhos na areia de Carmel. A dor era tanta que não conseguia<br />

se mover e, ainda com o cristal na testa, sentiu pingos caindo sobre ele. Com muita<br />

dificuldade olhou para o céu de novo. Não havia nuvem alguma e Schaia III olhou<br />

para seu braço molhado. O cristal estava agora grudado em sua testa, brilhando e<br />

emitindo uma luz esverdeada.<br />

Schaia III percebeu que os pingos não eram de chuva. Eram de uma água azul,<br />

cintilante. Mas então a dor voltou muito mais forte, uma dor vinda do espírito. “A dor<br />

que vem do espírito.”<br />

- Do espírito! – Schaia III berrava. – A dor está vindo de meu espírito.<br />

Então a realidade abateu-se sobre ele. Uma realidade que ele jamais acreditou<br />

um dia conhecer. Com grande dificuldade, retirou o cristal de sua testa e começou a<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

chorar. “Ele está morto, realmente morto. Mataram o Mago de Prata.” Quando finalmente<br />

caiu na areia molhada, os guardas vieram, tomaram-no nos braços e levaram-no<br />

para o castelo imperial de Carmel.<br />

Os médicos o acordaram. Alguns generais cercavam sua cama.<br />

- Estamos em uma situação emergencial Imperador. Algumas casas maiores<br />

estão se revoltando.<br />

- E o que podem fazer? Eles não têm como fazer a dobra e não possuem energia<br />

para isso. Vão se revoltar dentro dos seus próprios sistemas? Que se matem!<br />

- Imperador. – Falou outro general. – Quando o sistema de Plan Ex caiu perdemos<br />

alguns mecanismos de espionagem e, neste meio tempo duas casas inimigas<br />

uniram-se. Duas casas que, antigamente, competiam pela venda de tecnologia a Carmel.<br />

Samplardacos e Kalum Br, senhor. Infelizmente, acreditamos que eles, unidos,<br />

possuam tecnologia para fazer a dobra espacial.<br />

- O que? – Explodiu Schaia III. – Infelizmente vocês acreditam que eles têm<br />

tal tecnologia? Tecnologia que, supostamente era restrita a Carmel?<br />

- Senhor, eles estavam operando dentro da lei. Havia uma cláusula no contrato...<br />

- Eu não quero saber de contrato algum. – Schaia III estava de pé, jogando<br />

seus braços em cima do general que falava. – Coloque todas nossas tropas de prontidão!<br />

Se eles vierem para cá estaremos perdidos! Se eles conseguiram interceptar<br />

meu transportador no meio do espaço da dobra e implantar uma Ulmátrio lá dentro<br />

e destruir a casa imperial eles podem vir até aqui. Agora eu imagino quem possa ter<br />

destruído o sistema de Plan Ex. Toda a inteligência na sala de comando, agora!<br />

Schaia III entrou na sala de comando do planeta Carmel seguido pelos generais.<br />

Ordenou que todos os equipamentos de espionagem possíveis fossem ligados.<br />

- Senhor, conseguimos instalar quase todos os sistemas de espionagem e estamos<br />

operando com praticamente a mesma força que teríamos em Plan Ex.<br />

- Excelente. - Disse Schaia III. – Quero os sistemas de Samplardacos e Kalum<br />

Br sob vigilância máxima.<br />

Schaia III ficou com os generais espionando os sistemas durante horas. Então<br />

passaram para as outras casas maiores. Fizeram todas as varreduras possíveis. Havia<br />

comunicação entre os sistemas. Havia mensagens em código de batalha mas nada<br />

de alarmante. Não havia nem sinal da energia necessária para fabricar os espaços de<br />

dobra.<br />

- O que isso quer dizer? – Perguntou um dos generais.<br />

- Ou eles estão escondendo muito bem ou estão blefando. – Disse Schaia III<br />

pensativo. – Deixe-me ver a rota do espaço de dobra que fizemos secretamente para<br />

os transportes de cristais do planeta Azul para Plan Ex.<br />

Quando os monitores mostraram a rota do espaço de dobra Schaia III ficou<br />

perplexo.<br />

- O que é aquele rompimento no meio da dobra?<br />

Ninguém soube responder. Schaia III olhava para o infinito, algo em sua mente<br />

estava fervendo. Tomou de novo o cristal e colocou-o em sua testa. Imediatamente


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

o cristal acendeu. A sala de comando ficou às escuras e os generais, espantados, tentavam<br />

fazer alguma coisa mas só o que viam era o imperador com a testa iluminada<br />

pelo cristal verde.<br />

- Existe algo. – Schaia III estremeceu ao ouvir a voz do Mago de Prata dentro<br />

de sua mente. – Uma força que poderá nos deter. Não se esqueça, nós fizemos um<br />

pacto e assumimos riscos. Se eles descobrirem nossa aliança e o que você pretende<br />

com ela irão interferir e, de uma maneira ou de outra, acharão um meio de nos parar.<br />

Só não se esqueça de algo: o poder deles aqui neste círculo não é tão grande. Tanto<br />

você quanto eu somos cem vezes mais fortes do que o poder deles aqui, mas se este<br />

poder estiver disfarçado...aí sim poderemos sucumbir.<br />

Schaia III retirou o cristal de sua testa e as luzes da sala de comando voltaram<br />

ao normal. Lembrou-se do exato momento em que o Mago de Prata havia lhe dito<br />

isso tudo.<br />

- No planeta Azul. – Falou para si mesmo. – O Mago de Prata está morto.<br />

Schaia III pensou profundamente. “Não estava esperando por isso. Não está na<br />

hora de reencontrá-los. Mas agora, quem vai cuidar deles? Meus filhos ... minhas adoradas<br />

crianças nascidas com meus poderes, com minha maldição, com minha ganância<br />

de poder. O Mago de Prata. Deus jamais deveria ter criado um ser assim.”<br />

Agora Schaia III estava em pânico. Ele havia deixado no planeta Azul duas<br />

crianças nascidas com poderes semelhantes ao dele e ao do Mago de Prata. “Duas<br />

almas que não pediram para ter este poder e que agora estavam condenadas a um futuro<br />

terrível, se eles descobrirem...” Então Schaia III pensou no livro. “Eles já sabem.<br />

O relato do livro mostra o poder dos pequenos... meus filhos... o que eu fui fazer...”<br />

Os generais ainda esperavam alguma reação do imperador. Schaia III acordou<br />

de seus pensamentos e falou:<br />

- Continuem vigiando todos os sistemas possíveis. Tenho um trabalho a fazer<br />

e devo fazê-lo sozinho. Qualquer manifestação contra as ordens que eu dei a respeito<br />

dos planetas ficarem isolados, deve ser retaliada com o máximo de força. O Império<br />

está em crise de batalha.<br />

Schaia III deixou a sala de comando e dirigiu-se para seus aposentos. Trancouse<br />

lá dentro, recolheu todos os cristais que sobraram, entrou em uma câmara secreta e<br />

encaminhou-se para sua nave.<br />

Olhou para a nave e, com os olhos fechados, tentando encontrar a coragem que<br />

lhe faltava, falou:<br />

- Não acredito que estou fazendo isso. Estou rompendo o maior compromisso<br />

de todos: voltar ao planeta Azul antes de ter terminado o Olho de Deus.<br />

Entrou na nave, colocou-a no espaço e, com o toque de um botão despertou o<br />

ser que estava confinado dentro de uma não-sala da nave. O filhote de Extuártico foi<br />

estimulado a liberar uma enorme carga de energia. Schaia III direcionou o fluxo e sua<br />

dobra particular estava formada. Schaia III estava em direção a Z planct 1 e 2, saídas<br />

para o sistema do planeta Azul.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Pan-noa<br />

Clia tomou a mão de Pan-noa. Todos aqueles seres ao redor deles os olhavam<br />

com um ar de quase idolatria. Às vezes pareciam até mesmo sorrir. Pan-noa notou, ao<br />

deslocar-se para a saída do templo, que o povo estava mudando. Pareciam crescer à<br />

medida que ele e Clia andavam. Pan-noa não queria usar os antigravitacionais de sua<br />

roupa porque, a cada passo dado, sentia-se melhor. Uma força magnífica estava sendo<br />

injetada em seu sangue. Ele percebia, através de suas pérolas-cubo, que esta força<br />

era sentida por Clia e também pelo povo da Irmã Floresta, tamanha era a satisfação<br />

estampada em seus semblantes.<br />

- Parece, – Falou Pan-noa num sussurro para Clia. - que liberamos uma tremenda<br />

energia ao matar a bichinha você não acha?<br />

- Cale a boca e ande. – Disse Clia nervosamente. – Não percebe que o povo<br />

está mudando?<br />

Pan-noa deu uma pequena olhada para trás. O povo da Irmã Floresta já não<br />

parecia um povo composto de pequenas fadas com asas de borboletas.<br />

- Meu Deus eles estão se transformando! – Berrou Pan-noa.<br />

- Olhe para frente e ande, Pan-noa. Estou assustada.<br />

- Mas eles deveriam nos agradecer. Estão crescendo! Estão praticamente já do<br />

nosso tamanho! - Pan-noa falava isso tentando interromper o passo rápido de Clia.<br />

- Cale a tua boca, Pan-noa. E se eles não gostarem deste novo visual?<br />

- Se eles não gostarem! – Repetiu Pan-noa alarmado. – É claro que vão gostar!<br />

Eu pelo menos estou achando super bacana.<br />

Clia puxou-o com mais força e, à medida que andavam o povo continuava a<br />

mudar. Ao abrirem espaço para o casal passar, olhavam-nos admirados.<br />

- Eles estão nos olhando como amigos, Clia.<br />

- Eu sei, mas quero sair daqui! Esse lugar me dá arrepios!<br />

Então Pan-noa percebeu. Olhou para o alto e viu a enorme cúpula que servia de<br />

teto para o templo: estava manchada com o sangue da Deusa. “Deve ser isso.” Pensou<br />

Pan-noa. “O lugar em que a Deusa morreu. É isto que está deixando Clia assustada.”<br />

Mas, ao saírem do templo, os dois ficaram assustados. O clima mudara drasticamente.<br />

Uma imensa massa de nuvens negras despejava uma pesada chuva. Pan-noa<br />

e Clia demoraram para perceber que os dois estavam cercados. Um enorme círculo de<br />

pessoas estava em volta do templo. Então, em meio à chuva, perceberam duas crianças<br />

de mãos dadas, cobertas da cabeça aos pés com mantos prateados. Elas estavam<br />

chorando.<br />

Os dois ficaram parados em frente à abertura que dava passagem para o interior<br />

do templo. Os seres que estavam lá dentro começaram a sair. Passavam por<br />

trás de Pan-noa e Clia em duas fileiras, uma para cada lado e, em seguida, formavam


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

um outro círculo de gente em volta do templo só que menor. Pan-noa e Clia não se<br />

mexiam.<br />

As duas crianças chegaram mais perto e Clia apertou a mão de Pan-noa.<br />

- Eles nos libertaram. – Falou um ser logo atrás de Pan-noa e Clia com uma<br />

magnífica voz. Pan-noa virou a cabeça e admirou, estarrecido, um ser enorme com<br />

uma face delicada postado atrás dele. Olhou com mais atenção para toda aquela massa<br />

corpórea e ficou mais admirado ao reparar que, das costas do ser, saíam duas asas<br />

azuis pontudas como as de um dragão.<br />

As duas crianças pararam tentando identificar, por entre a chuva, o ser que<br />

estava falando. Então o ser fez um gesto circular com o braço, apontando de um horizonte<br />

ao outro. À medida que o braço formava uma curva, apontando para o céu, as<br />

nuvens iam desaparecendo e um céu totalmente azul aparecia.<br />

Pan-noa deu um berro de prazer. Clia nem respirava. Todo o povo em volta deu<br />

um passo para trás. O ser veio e tocou os ombros de Clia e de Pan-noa. Os outros seres<br />

levantaram voo e deslocaram-se para todas as partes do planeta. O ser que estava no<br />

comando falou:<br />

- Voltem para suas vilas! Com o tempo vocês saberão o que fazer. Vocês estão<br />

livres de um imenso mal. Vão agora! – Gritou o ser.<br />

As únicas pessoas que restaram no local eram Pan-noa, Clia, o ser absurdo e as<br />

duas crianças. Uma das crianças falou:<br />

- Vocês mataram o segundo pai. – Seus olhares não eram nada amistosos.<br />

- Hum! – Disse Pan-noa rindo das crianças.<br />

Subitamente uma delas levantou um braço e lançou uma rajada invisível de<br />

força sobre Pan-noa, Clia e o ser. Pan-noa percebeu o deslocamento energético a tempo<br />

e imediatamente envolveu os três em um escudo de energia.<br />

Eles sentiram a energia passar por eles.<br />

- Caralho! – Disse Pan-noa. – O que são estes dois agora?<br />

- São os filhos de Schaia III. Eles eram guardados pelo Mago de Prata, a quem<br />

chamavam de o segundo pai. – Disse o ser.<br />

- Mas que merda! – Disse Pan-noa. – Eu não vou matar nenhuma criança!<br />

O ser olhou admirado para baixo e, observando Pan-noa, teve que entortar o<br />

lábio para não rir.<br />

- O que foi? – Disse Pan-noa enfurecido.<br />

- Você não deverá matá-los, Pan-noa. A menos que não consigamos persuadilos<br />

a largarem seus poderes.<br />

As duas crianças ainda estavam ali e pareciam irredutíveis.<br />

- Vocês devem mudar seus nomes assim como eu mudei o meu e o do meu<br />

povo. – Disse o ser a elas – Aceitando esta proposta vocês serão poupados porque<br />

nasceram sob a influência do pacto e não têm culpa disto, porém, nada posso prometer<br />

ao seu pai, Schaia III.<br />

Um frio passou pela barriga de Pan-noa. “E se eu matei Schaia III com meu<br />

Ulmátrio? O pai destas crianças. Meu caralho elas são os herdeiros do Império!” Pannoa<br />

começou a se dar conta de onde estava metido.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Schaia III está a caminho para resgatá-los. – Disse o ser às crianças. – Tomem<br />

a decisão certa. Vocês poderão poupar a vida de seu pai.<br />

As crianças começaram a discutir. Pan-noa tentou ler as suas mentes através<br />

da sua pérola-cubo, mas as crianças tinham enorme poder e Pan-noa não captou nada.<br />

Olhou para Clia. Ela estava realmente muito assustada. “E se tivermos que matá-las?”<br />

Perguntou a Pan-noa. “Acho que vamos deixar o serviço para o novo ser supremo.”<br />

Respondeu Pan-noa, dando uma olhadela para trás. Clia ainda estava assustada.<br />

- Meu novo nome será Ing-mar. - Disse o menino tirando o manto da cabeça e<br />

revelando uma face tão meiga que assustou Pan-noa e Clia. O menino olhou para sua<br />

irmã como que esperando alguma reação dela. Como não houve, olhou para frente de<br />

novo e, quase com medo, disse:<br />

- O novo nome de minha irmã gêmea será Galarina.<br />

- Ótimo. – Disse Pan-noa desligando o escudo.<br />

Então, antes que o ser supremo dissesse qualquer coisa, a menina já tinha investido<br />

uma força energética contra os três. O ser supremo, com um gesto brusco,<br />

revidou com uma força que fez a menina voar alguns metros para trás e cair morta no<br />

chão. Seu irmão saiu correndo em direção a ela. Clia, Pan-noa e o ser também foram<br />

ao seu encontro. Quando chegaram perto o menino olhou para eles chorando:<br />

- Ela tinha concordado! Não foi minha culpa!<br />

- Eu sei. – Disse o ser. – Só não tive tempo de dizer a Pan-noa que somente<br />

se ela pronunciasse seu novo nome não teria mais o poder. É uma pena que ela tenha<br />

escolhido a morte.<br />

Ing-mar veio de encontro ao ser e abraçou-o.<br />

- Por favor. – Disse ele ainda em lágrimas. – Não matem meu pai. Eu tenho<br />

certeza que ele vai se arrepender.<br />

- Eu imaginava, – Disse o ser. – que se vocês dois estivessem juntos ele poderia<br />

se arrepender. Mas agora, quando souber que fui eu quem a matou, não tenho<br />

certeza se seu ódio não vai explodir.<br />

O corpo da menina desapareceu enquanto Ing-mar abraçava o ser pelas pernas.<br />

Pan-noa viu uma pequena esfera verde aparecer na areia no lugar do corpo da menina.<br />

Pan-noa abaixou-se e pegou a esfera, guardando-a ao lado da esfera do Mago.<br />

- Pan-noa. – Chamou o ser. Pan-noa virou-se assustado, como se tivesse roubando<br />

algo. – Você deve esconder sua nave. Schaia III não sabe que você está aqui e<br />

nem deve saber. Devemos ir para a vila de Ing-mar. A mãe deve saber da morte de sua<br />

filha.<br />

Pan-noa contatou Kenn e pediu para recolher tudo que indicasse sua presença<br />

naquele planeta. Então, alarmado, viu seu aerojet a caminho do céu do planeta Azul<br />

(verde).<br />

Ing-mar olhava melancólico para o nada.<br />

- Não devo ficar triste por minha irmã. Ela escolheu o caminho errado. Mas<br />

posso permitir-me sentir sua falta. Talvez isso me deixe triste. – Então olhou para o<br />

ser. – Não ficarei triste. Não com vocês ao meu lado.<br />

O ser tomou a mão de Ing-mar e começou sua caminhada para o norte. Ao ver


Marcelo Paciornik<br />

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os dois caminhando Pan-noa teve um breve momento de melancolia e lembrou-se<br />

de seu pai. O ser era alto, belo e forte. Possuía cabelos mesclados entre o preto e o<br />

dourado, caindo pelas costas entre duas asas gigantes que variavam de azul a verde.<br />

A criança era, de fato, algo entre o humano e o objeto de um sonho, com os cabelos<br />

embaraçados na altura da orelha. A criança olhou para trás e viu Pan-noa e Clia embasbacados<br />

com a cena que assistiam. Seus olhos amendoados finalmente revelaram<br />

um sorriso. Em seguida a boca de Ing-mar também acompanhou o sorriso dos olhos<br />

revelando dois dentes enormes como as crianças costumam ter.<br />

- Então, vocês dois...vão vir ou não?<br />

Pan-noa olhou para Clia mostrando um sorriso prazeroso por ter visto algo<br />

realmente maravilhoso e esquecendo a morte da menina. Os dois deram as mãos e<br />

foram em direção ao ser e Ing-mar.<br />

Ing-mar olhou um pouco para cima, para o rosto de Pan-noa e tomou-lhe a<br />

mão também. Pan-noa sentiu algo estranho, como se tivesse dando a mão para alguma<br />

coisa misteriosa, algo que exercia nele um fascínio mas, ao mesmo, tempo uma certa<br />

aversão. Pan-noa segurou a mão da criança um pouco mais forte e conseguiu sentir<br />

um carinho imenso por aquela pequena figura. “Meu Deus.” Pensou Pan-noa. “Estou<br />

de mãos dadas com o filho do Imperador do Universo, Schaia III! Caminhando numa<br />

praia linda, ao lado de uma menina guerreira e, ainda, acompanhado de um elfo alado<br />

gigante.”<br />

O ser olhou para Pan-noa com um sorriso afetuoso. Pan-noa estremeceu. Então<br />

o ser falou:<br />

Não sou um elfo, Pan-noa. Na verdade sou um presságio de um anjo. Meu<br />

destino, assim como os da minha raça, é entrar para o próximo círculo como um semidivino.<br />

Meu nome, bem, vocês podem me chamar de Lainoriel. É o som que mais se<br />

aproxima de meu nome em sua língua.<br />

Pan-noa olhou para Clia sorrindo. Finalmente estava se sentindo muito feliz.<br />

Olhou para Ing-mar, para Lainoriel e para Clia de novo. Então parou e, ainda sorrindo,<br />

todos pararam à sua volta. Pan-noa ordenou, via pérola cubo, que sua roupa de batalha<br />

ficasse transparente até a cintura, fechou os olhos e se concentrou o máximo que<br />

pôde. Os três estavam parados à sua frente olhando para o corpo semi nu de Pan-noa<br />

e deram um passo para trás.<br />

As flores começaram a subir pela barriga de Pan-noa como se viessem das pernas,<br />

crescendo com caule e folhas. A qualidade da imagem era fantástica! Era como<br />

se estivessem vendo as plantas crescerem de verdade. Então as flores abriram-se e,<br />

logo depois disso, explodiram como fogos de artifício. Ing-mar soltou um murmúrio<br />

de satisfação e se agarrou no braço de Clia. Das luzes dos fogos surgiram massas<br />

disformes como se as pequenas e milhares luzes dos fogos se juntassem em formas abstratas.<br />

Estas formas começaram a rodar e ao rodarem tomaram o formato dos quatro<br />

rostos ali presentes. Quando o desenho ficou estático os três começaram a aplaudir<br />

Pan-noa. Ele então abriu os olhos e, maravilhado, encarou os três à sua frente. Olhou<br />

para Clia, abraçou-a e deu um beijo em sua boca.<br />

O entardecer caía formando um céu de fogo, laranja, vermelho, com tons de<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

rosa e violeta nas nuvens. Os quatro andavam pela areia dourada subindo para o norte.<br />

Pan-noa desejou que aquele momento nunca acabasse.<br />

Kalum br<br />

Be deitou-se na cama de Pan-noa. Era uma noite clara e a terceira lua completava<br />

um céu cheio de estrelas. Be olhava a magnífica noite através das enormes janelas<br />

abertas dentro do quarto de Pan-noa. “Um ano” pensou ela. “Tudo começou na<br />

terceira lua, no aniversário dele.” Be, como em tantas outras vezes, começou a chorar.<br />

“A animotatoo, a festa, a despedida.” Com um estremecimento no corpo lembrou-se<br />

do dia em que Pan-noa foi embora. Os pais dele, reis de Kalum Br, assim como Be,<br />

haviam chegado do trans universo imperial. Francian, tio de Pan-noa, pediu a Be que<br />

se retirasse, porque havia algo muito importante a ser tratado com os pais de Pan-noa.<br />

– De uma importância real, minha filhinha. – Dissera Francian afetadamente<br />

como de costume.<br />

Be retirou-se do palácio e estava saindo dos jardins do castelo quando lembrou-se<br />

do anel que Pan-noa havia lhe dado. Esquecera no quarto dele. Pediu aos<br />

guardas para entrar no castelo de novo. Os guardas a conheciam mas como os reis<br />

estavam em reunião ela não poderia entrar no castelo desacompanhada.<br />

Dois guardas gentilmente acompanharam a menina de volta ao castelo. Entraram<br />

com ela pelo hall e a seguiram pelo salão principal. Ela estava quase subindo<br />

as escadas quando ouviu alguma coisa esquisita na sala ao lado. Os guardas pararam<br />

para ouvir também.<br />

A mãe de Pan-noa estava quase gritando. Então ouviram o ressoar de uma<br />

arma. Imediatamente os dois guardas entraram na sala. A cena era estarrecedora. Francian<br />

apontava uma arma para o casal real. Ele já havia disparado um tiro mas havia<br />

errado. Os dois guardas dispararam várias vezes contra o tio Francian, matando-o. Os<br />

reis olharam para os guardas.<br />

- Como souberam? Essa sala não é anti monitorada.<br />

- Foi a menina. – Disse um dos guardas. – Ela pediu para voltar ao castelo e<br />

ouvimos gritos.<br />

- Graças a você Be. – Falou Pan Newe, pai de Pan-noa. – Estamos salvos.<br />

- Vamos fazer contato imediatamente com a nave. - Disse Larissa, mãe de Pannoa.<br />

– Nosso filho deve estar correndo perigo.<br />

- Já é tarde. – Disse Pan Newe. – O bastardo isolou a nave completamente.<br />

Nosso filho vai seguir seu destino e não podemos fazer nada a respeito.<br />

- Mas o que ele está levando afinal, Pan Newe? – Perguntou Larissa desesperada.<br />

- Quanto a isso não se preocupe. É uma carga perigosa mas está bem lacrada.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Ele está levando um semi moldável do planeta Lafrout.<br />

Toda a sala ficou em silêncio. Até os guardas ficaram boquiabertos.<br />

- Como você deixou, Pan Newe?<br />

- Acredite. – Disse Pan Newe. – Ele está seguro. O lacre da porta é inviolável,<br />

e eu não tinha saída. Era a única forma de fazer com que Pan-noa chegasse são e salvo<br />

ao sistema de Marson.<br />

A tensão pareceu diminuir um pouco. Pan Newe pediu aos guardas que tirassem<br />

o corpo de Francian da sala.<br />

- Que seja feito um enterro comum. – Disse Pan Newe, olhando para o corpo<br />

do irmão com desgosto.<br />

Pan Newe olhou para Be que ainda chorava e abraçou-a . Foram para a outra<br />

sala e pediram ao serviçal que trouxesse creme verde para Be. Os três estavam quase<br />

calmos quando o monitor baixou no meio da sala onde estavam.<br />

- O Imperador Mago, Schaia III, entrará em suas teles para uma declaração<br />

oficial a todo o Império.<br />

Logo depois disso apareceu a cara do imperador no monitor. Na sala, os três<br />

ainda estavam pensando na morte de Francian quando Schaia III começou a falar.<br />

- Dentro de cinco dias padrão de Plan Ex, estarei fechando todas as dobras.<br />

Todas as naves que estão a caminho de qualquer espaço de dobra devem ser detidas.<br />

A partir de cinco dias padrão, todos os sistemas do Império ficarão isolados.<br />

Pan Newe não conseguia falar. O impacto foi tão grande que ele quase desmaiou.<br />

- A nave de Pan-noa está isolada! Não temos como contatá-la! Meu filho está<br />

perdido. – Sentou-se na cadeira e viu a sua mulher e Be entrarem em pânico.<br />

Be lembrava desta cena como se fosse hoje. Ela tentava imaginar se Pan-noa<br />

ainda estaria vivo em algum lugar. Talvez perdido para sempre no espaço infinito,<br />

enclausurado num transuniverso imperial. Mas Be sempre sentia algo em seu coração,<br />

alguma coisa lá no fundo dizia a ela que ele estava bem.<br />

- Pan-noa não é do tipo que vai ficar perdido no espaço. Alguma coisa ele vai<br />

aprontar e, tenho certeza, não vai ser pouca coisa.<br />

As quatro esferas<br />

No segundo ou terceiro dia em que os quatro seguiam pela praia Pan-noa se<br />

perguntava se uma praia tão grande era realmente possível. Pan-noa estava tão eufórico<br />

com a natureza e com as novas companhias que se sentia absolutamente extasiado.<br />

Algumas vezes, porém, ele deixava o mundo de sonhos que aquele planeta<br />

insistia em proporcionar e voltava a alguns temas que o incomodavam. Às vezes eles<br />

ficavam, durante a noite, em volta de fogueiras. Pan-noa viajava em questões sem fim<br />

com Lainoriel que estava sempre pronto a responder. Pan-noa sentia-se tão bem na<br />

presença daquele ser alado que ele mesmo se questionava quanto ao que sentia realmente<br />

por aquele semidivino.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- O ser que vocês chamam de Andróida Andrógina – Dizia Lainoriel. – na<br />

verdade não morreu, Pan-noa. Os seres, na realidade, simplesmente não morrem assim,<br />

sem mais nem menos, como você e sua cultura imaginam. Na verdade, os seres<br />

se transformam tanto em matéria quanto em espírito. Os que ainda estão muito ligados<br />

à matéria vão inteiramente com a matéria do corpo mas não acabam... Eles simplesmente<br />

prosseguem com a vida, gerando mais vida.<br />

Pan-noa já sabia disso e sabia mais ou menos, pela explicação de Clia sobre a<br />

Deusa, que certos seres morrem e vão para outro círculo, alimentando outro nível de<br />

vida. Mas o que ele estava querendo saber era onde estava a Andróida Andrógina e o<br />

que havia ocorrido com ela afinal de contas.<br />

- Bem, – Continuava Lainoriel, com o rosto iluminado pela fogueira enquanto<br />

Ing-mar dormia com a cabeça na coxa de Pan-noa e Clia absorvia todas as palavras do<br />

anjo. – quando o Mago de Prata traiu Ortal o guerreiro e, por consequência, surgiu o<br />

sonho de dez mil anos, nós ficamos aprisionados. O nosso povo, o povo que descende<br />

da Irmã Floresta, ficou apenas procriando, sem ter a possibilidade de evoluir. Por<br />

outro lado, estávamos livres da extinção, porque nada nesse mundo poderia nos matar.<br />

O equilíbrio da magia era, ao mesmo tempo, uma maldição e uma dádiva que o Mago<br />

de Prata havia nos lançado após sua primeira morte, há mais de dez mil anos atrás.<br />

A maldição era que, sem nossa evolução carnal e espiritual, iríamos perambular<br />

sobre esta terra sem nada a fazer a não ser sobreviver. Caímos no marasmo e só não<br />

nos esquecemos de quem éramos realmente porque tivemos o bom senso de guardar<br />

nosso passado nos memo-cristais que achamos na vila abandonada do Mago de Prata.<br />

A dádiva era que nós iríamos sobreviver a qualquer mal que ocorresse nesta<br />

terra.<br />

Quando o Mago de Prata retornou para libertar o universo do mal que tinha<br />

causado, O Sonho de dez mil anos de Ortal, ele nos cedeu o templo de cosmo e ali<br />

ficamos novamente enclausurados.<br />

Entendam que a preocupação do Mago de Prata era que, se nós nos tornássemos<br />

seres supremos avisaríamos os outros seres supremos que o Mago estava quebrando<br />

pelo menos uma centena de leis universais que jamais poderiam ser quebradas.<br />

O que ocorreu no templo de Cosmo quando você chegou, Pan-noa, foi a maior<br />

dádiva que alguém poderia ter-nos concedido. Você praticamente o matou porque o<br />

que resta dele é apenas a esfera do esquecimento da qual ninguém conhece o segredo<br />

para resgatar a vida ou o que quer que seja de dentro dela. – Neste momento Pan-noa<br />

apalpou o lugar onde havia guardado a esfera do Mago. – Você trouxe consigo um<br />

ser, que no seu íntimo, estava guardando a essência de um ser supremo, ou seja, o que<br />

era necessário para que nossa evolução retardada em dez mil anos viesse à tona em<br />

pouquíssimo tempo. Por isso a Andróida Andrógina ainda existe aqui, dentro de nós.<br />

- Mas, a Andróida Andrógina era uma Andróida, ela explodiu no teto do templo,<br />

insistiu Pan-noa.<br />

- Sim e dentro da substância semi orgânica que ela possuía ela conseguiu<br />

transferir a essência da Deusa para nós.<br />

Pan-noa ainda não estava entendendo, mas sabia que o raciocínio de Lainoriel


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fazia sentido. Olhou para baixo, viu o rosto do menino em seu colo e passou a mão no<br />

cabelo dele. “É uma criança sem idade.” Pensou. “Às vezes parece um ser crescido e<br />

às vezes parece um bebê. Que porra de magia fizeram com ele.” Então voltou a olhar<br />

para Lainoriel.<br />

- Nós também respiramos o sangue da Andróida Andrógina. O que isto pode<br />

representar?<br />

- Que vocês também estão com a essência de um ser supremo dentro de seus<br />

corpos. Tenho certeza que Clia pode se tornar a próxima geração de seres supremos<br />

deste planeta – Clia arregalou os olhos - pois nós, o povo da Irmã Floresta, iremos<br />

logo para o próximo círculo. Nossa missão na matéria está para acabar. Mas quanto a<br />

você Pan-noa, você é muito ... – Lainoriel parou por um momento e fitou o menino. –<br />

Impreciso. Você é um dos Antes cujo destino não conseguimos determinar nem sequer<br />

por um dia.<br />

- Antes? O que é isso que você me chamou? – Perguntou Pan-noa indignado.<br />

Lainoriel riu.<br />

- São os seres que estão no estágio anterior, os seres que necessitam da matéria<br />

para viver.<br />

Pan-noa estava boquiaberto. “Então esta história de outros mundos de outros<br />

seres muito mais evoluídos podia ser mesmo verdade? Seres que podem até mesmo<br />

determinar nosso destino. Eu sou um Antes! Isso sim é um nome ridiculamente legal!”<br />

Pan-noa olhou de novo para o menino em seu colo. Clia reparou que Pan-noa estava<br />

determinado a cuidar daquele menino e sentiu um aperto em seu coração. Pan-noa<br />

quase deu um pulo.<br />

- Ei! – Disse Pan-noa assustado. – O que quer dizer que Clia vai ser a próxima<br />

geração deste planeta? Ela não pode ficar aqui.<br />

- Isso é algo que ela vai decidir, mas vejo uma enorme penumbra em seu destino.<br />

Talvez você esteja certo, talvez ela volte com você para o seu planeta.<br />

Pan-noa abriu um sorriso imenso.<br />

- Voltar ao meu planeta? Você tem certeza disso?<br />

- Já lhe disse Pan-noa, você é o Antes mais impreciso que já contatamos. Não<br />

existe destino certo para você nem para aqueles que o rodeiam.<br />

Pan-noa ficou contente com a ideia de voltar para casa, mas lembrou-se de<br />

seus pais mortos e lembrou-se de Be que poderia estar morta também. Uma lágrima<br />

correu pela sua face. Olhou para baixo de novo e viu Ing-mar mexer um pouco a<br />

cabeça sobre sua perna. “É, talvez eu devesse ficar por aqui neste mundo fantástico<br />

e, como Schaia III tirou minha família, talvez eu tire este filho dele. Meu Deus o que<br />

eu estou pensando! Mas por outro lado, esse menino tem algo...” Pan-noa levantou<br />

os olhos cheios de lágrimas. Seus sentimento o traíam. Olhou para Clia e ela sorria<br />

porque compreendia o que Pan-noa estava sentindo. Ele sorriu um pouco para ela mas<br />

estava preocupado demais. Ele queria ficar com aquele menino. Não para vingar-se<br />

de Schaia III mas simplesmente por que o menino o atraía. De alguma forma aquele<br />

menino o enfeitiçara e nenhum sentimento no mundo era mais forte que aquele. Ele<br />

poderia ficar no Planeta Azul para sempre, morando em choupanas, ou poderia ir para<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Kalum Br resgatar seu castelo das mãos da bicha de seu tio. Desde que aquele menino<br />

estivesse com ele. “Para todo o sempre.”<br />

Lainoriel olhava para Pan-noa assustado. Com certeza era uma das coisas que<br />

ele não havia previsto, que não havia visto nas linhas do destino de Pan-noa. Então<br />

Lainoriel pensou. “Creio que estamos com um problema enorme, um problema no<br />

qual não devemos interferir. Ele já está com duas esferas do esquecimento. E tenho<br />

certeza que vai ter mais. Isso é mais perigoso ainda...mas não posso interferir, não<br />

ainda.”<br />

À medida que o tempo passava Lainoriel ficava mais bonito. Agora seus cabelos<br />

estavam lisos e brancos passando das costas. Suas asas haviam crescido ainda<br />

mais e o seu rosto parecia ficar mais delicado. Ninguém poderia dizer qual era o sexo<br />

daquele ser. “Influência da Andróida Andrógina.” Pensava Pan-noa.<br />

Ing-mar dizia que já estavam quase chegando à sua aldeia. Na verdade Ing-mar<br />

falava isto apenas para Pan-noa. Aliás, ele praticamente não falava com ninguém mais<br />

a não ser Pan-noa.<br />

Pan-noa não sabia o por quê disso. Estava ficando preocupado com Clia. Não<br />

queria magoá-la mas o menino não deixava Pan-noa ter um momento a sós com Clia.<br />

Pan-noa parecia sentir-se aliviado com a imposição de Ing-mar, afinal ele também<br />

preferia ficar com o menino do que com qualquer um dos dois ali. Lainoriel estava<br />

ficando cada vez mais nervoso com esta situação. Aquilo para ele já tinha passado de<br />

apenas um sentimento de afeição ou amizade. Estava virando uma obsessão. “E se<br />

os dois tiverem que se separar? A magia do Planeta Azul amplia qualquer sentimento,<br />

principalmente entre pessoas que estão com lacunas sentimentais a preencher. E<br />

quando duas pessoas assim se encontram e se completam ... este planeta ... este lugar<br />

... é algo que extrapola a barreira da sensatez. Tantos problemas foram causados pela<br />

paixão de que este planeta parece se alimentar.”<br />

Lainoriel caminhava um pouco à frente do grupo seguido por Pan-noa e Ingmar,<br />

inseparáveis, e, logo atrás, vinha Clia um pouco alarmada com a situação entre<br />

Pan-noa e aquele menino. Mas Clia era uma guerreira e não estava disposta a enfrentar<br />

uma situação louca como aquela. Na verdade ela parecia estar vislumbrando outra<br />

história. “Vou virar uma Deusa!” Era o que mais a fascinava naquele momento.<br />

Pan-noa parou ao lado de Lainoriel que estava abaixado entre arbustos. Clia<br />

chegara. Ing-mar estava agarrado ao pescoço de Pan-noa e quase chorando.<br />

- Pelos cristais! O que aconteceu aqui? – Perguntou Lainoriel.<br />

- Onde estão todos? – Perguntou Ing-mar agora chorando.<br />

- Vejam! – Disse Lainoriel. – No meio da vila, logo acima do lago de cristais.<br />

Pan-noa estava estarrecido. Não conseguia imaginar o que poderia estar se passando.<br />

Foi Clia quem respondeu.<br />

- Sua pérola cubo, Pan-noa. Acho que está na hora de começar a usá-la.<br />

Pan-noa olhou, estarrecido com as palavras de Clia. Aquilo soou como uma<br />

bofetada. “Mas por quê? Por que Clia está me tratando assim?” Então Pan-noa olhou<br />

para Ing-mar assustado com a visão de sua aldeia.<br />

- Eles foram levados! – Disse Pan-noa.


Marcelo Paciornik<br />

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- Sim. – Respondeu Lainoriel. – E lá no meio do lago existe um ser... pelos<br />

cristais! – Lainoriel percebeu finalmente o que era. – Uma Irmã Floresta não modificada!<br />

E trancada numa destas cúpulas de luz que sua tecnologia consegue fazer!<br />

- Schaia III. – Disseram Clia e Pan-noa ao mesmo tempo.<br />

Ing-mar voltou seu rosto para o de Pan-noa, assustado.<br />

- Meu pai. – Começou a chorar de novo. – Ele fez isso? – Disse estarrecido<br />

apontando para sua aldeia.<br />

Lainoriel levantou voo.<br />

- Fiquem aqui e protejam-se. Eu vou ver o que está se passando.<br />

Lainoriel chegou rapidamente à esfera de luz que pairava sobre o lago de cristal.<br />

Era uma cena linda e aterrorizante de se ver. Uma pequena Irmã Floresta, com<br />

seu minúsculo corpo e asas de borboletas estava deitada na parte inferior da esfera<br />

de energia que a mantinha presa. Lainoriel tocou a esfera produzindo ondas como se<br />

estivesse tocando água. A Irmã Floresta ergueu um pouco a cabeça. Estava fraca. Olhou<br />

contente para Lainoriel, mas logo seu rosto se contorceu em dor. Então Lainoriel<br />

conseguiu distinguir na dança dos lábios dela:<br />

- Schaia III.<br />

E caiu morta. A cúpula de energia sumiu e o corpo da Irmã Floresta caiu afundando<br />

na água. Lainoriel não conseguia mexer-se para fazer qualquer coisa.<br />

- Que ela descanse em paz nas águas do lago de cristal.<br />

Quando Lainoriel voltou viu que os três estavam com os escudos acionados.<br />

- Podem tirar seus escudos. – Disse Lainoriel. – Ele não vai nos atacar. Não<br />

enquanto estivermos com Ing-mar.<br />

Ing-mar tinha um olhar de ódio. Agarrou-se na perna de Pan-noa e disse:<br />

- Meu pai voltou-se para o mal. Ele sequestrou minha aldeia, minha mãe, meus<br />

amigos e quer nosso mal. Agora eu entendo. Ele quer ficar com o poder, o mesmo<br />

poder que corrompeu e tirou a vida de minha irmã. Ele não vai descansar enquanto<br />

não estiver com o poder de novo e sem a interferência de ninguém.<br />

Pan-noa estava com medo, um medo que nunca sentira na sua vida antes.<br />

Schaia III estava vivo e Pan-noa estava com seu filho. O anjo tinha matado sua filha.<br />

Ele tinha matado o Mago de Prata. “Seu filho, que agora se agarra em minha perna e<br />

fala como se fosse um ser crescido”.<br />

Os quatro ficaram em silêncio. Um silêncio mortal.<br />

Pan-noa fechou os olhos, tomou ar e concentrou-se.<br />

“Por tudo o que é mais sagrado... Kenn, você ainda está aí?” A demora era assustadora.<br />

“Kenn, contato via pérola cubo.”<br />

“Espero que seja você Pan-noa.”<br />

- Caralho! – Gritou Pan-noa alegremente.<br />

- Onde esteve Pan-noa? Estou com dados catastróficos aqui. Estou operando<br />

em nível de infusão. Você sabe quem está aí com você neste planeta? Schaia III!<br />

- Relatório total sobre este crápula, Kenn. O que ele esteve fazendo?<br />

- Pan-noa! – Disse Kenn alarmada. – Vocês estiveram na mira dele por dias!<br />

Ele viu tudo o que aconteceu! Ele sabe de tudo, da morte do Mago, da morte da filha<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

e de como o filho está contra ele!<br />

- Como você sabe de tudo isso, Kenn?<br />

- Porque ele transmite tudo para um receptor de dados, como se quisesse provas<br />

de tudo que ele está fazendo! O Imperador está completamente louco. Eu consegui<br />

captar os dados porque ele nem desconfia que exista um transuniverso imperial por<br />

aqui. Ele não tomou providência nenhuma com parâmetros de batalha!<br />

- Ele está confiando muito nos cristais. – Disse Lainoriel. – Esse vai ser seu<br />

erro. Agora que o Mago de Prata está morto os cristais dão informações parciais.<br />

- Mas afinal, o que ele quer? – Disse Pan-noa perplexo.<br />

Os quatro se olharam.<br />

- Preservar seu poder. Certo? – Perguntou Pan-noa.<br />

- Ele quer Ing-mar também. Senão não teria tomado a vila inteira como refém.<br />

– Concluiu Clia.<br />

- Ele sabe que eu não deixarei acontecer nada com estas pessoas. – Disse Lainoriel.<br />

– Ele vai querer negociar seu poder.<br />

- Ele deve saber que eu não vou me entregar. – Disse Ing-mar.<br />

- Eu acho que temos uma carta na manga! – Disse Pan-noa. – Acho que<br />

podemos assustá-lo. Ele não sabe que estamos com um poder de batalha enorme nas<br />

mãos.<br />

- Mas você não poderá usá-lo Pan-noa. – Disse Lainoriel.<br />

- Porque não?<br />

- Essa terra deverá ficar imaculada. Você já causou muitos desastres usando<br />

sua força de batalha. Nós percebemos que era uma tática não para destruir o planeta<br />

e sim assustar o Mago de Prata com armas fictícias mas não devemos acordar a Eco<br />

Revolta.<br />

Pan-noa lembrou-se do livro. “Meu caralho! Eu poderia ter destruído o planeta<br />

inteiro!” Olhou para Ing-mar. “Eu poderia ter destruído Ing-mar”. Um espasmo<br />

percorreu-lhe o corpo.<br />

- Então, como iremos vencer esta guerra? O filho da puta é um mago! – Disse<br />

Pan-noa indignado.<br />

- Use sua força Pan-noa. Mas apenas assuste-o. Finja uma guerra mas não<br />

dispare um míssil. Deixe o resto comigo. – Ao falar isso Lainoriel saiu voando.<br />

- Ei! Para onde você vai? – Gritou Clia.<br />

- Vou chamar os anjos!<br />

Pan-noa olhou para Clia e para Ing-mar.<br />

- Kenn... Aerojet Plasma! Drakunum Maximatrya nas minhas coordenadas. A<br />

toda força! Apostos novamente. Localize o Imperador. Ataque surpresa imediato!<br />

Para total alívio de Pan-noa a expressão infantil retornara ao rosto de Ing-mar.<br />

Foi a aparição do aerojet que o deixou feliz. “Um brinquedo, uma criança feliz” pensou<br />

Clia. Os três entraram no Drakunum Maximatrya. As coordenadas de Schaia III<br />

já estavam no painel. Pan-noa pediu uma visualização do local. Viu então o povo da<br />

aldeia dentro de ruínas, viu a nave de Schaia III estacionada e então, para seu maior<br />

espanto, viu Schaia III em pé do lado de fora das ruínas, esperando. Do seu lado estava


Marcelo Paciornik<br />

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o corpo de uma menina com não mais de dezesseis anos. Pan-noa ampliou a imagem.<br />

Quando o rosto da menina apareceu bem próximo no monitor do aerojet uma mãozinha<br />

veio por trás do ombro de Pan-noa e delicadamente tocou o monitor. Uma voz<br />

enfraquecida e rouca chegou aos ouvidos de Pan-noa e Clia.<br />

- Minha mãezinha. – A mão de Ing-mar acariciava o monitor como se acariciasse<br />

a face de sua mãe morta. Pan-noa começou a chorar. Clia não aguentou e pela<br />

primeira vez abraçou Ing-mar. Ele agarrou-se fortemente ao pescoço dela e chorou<br />

como a criança que era.<br />

Pan-noa colocou o aerojet em movimento. O lugar era de fato longe de onde<br />

estavam, numa região remota. A tribo de Ing-mar foi levada pela nave de Schaia III.<br />

Clia perguntou a Pan-noa o quanto eles iriam demorar para chegar ao local.<br />

- Dentro de instantes. – Disse Pan-noa ainda enfurecido.<br />

- Então reduza a velocidade. Deveremos demorar mais um pouco. – Disse<br />

Clia.<br />

- Por que? – Perguntou Pan-noa irritado.<br />

- Veja. – Apontou Clia para o horizonte.<br />

Então Pan-noa percebeu uma mancha rosa no horizonte.<br />

- O que é aquilo? – Perguntou Pan-noa perplexo.<br />

- Diminua um pouco, Pan-noa.<br />

Então Pan-noa praticamente parou o aerojet no ar. Eles estavam acima de um<br />

platô que terminava em um desfiladeiro. Lá embaixo estava o mar. A noite era clara,<br />

cheia de estrelas. Mas para onde eles olhavam havia nuvens negras. Então, para total<br />

espanto de Pan-noa, a ponta da enorme lua começou a surgir. A mancha rosa intensificou-se.<br />

Era o reflexo de uma lua quase vermelha que vinha surgindo.<br />

Pan-noa manifestou um pequeno sorriso, olhou para trás e viu que Ing-mar<br />

conseguia sorrir para ele. Um sorriso triste mas um sorriso.<br />

Ao olhar para Clia Pan-noa assustou-se: sua cor estava mudando! Ela estava<br />

ficando branca e sua pele começava a brilhar. Seus olhos agora estavam da cor da lua.<br />

Pan-noa sentiu uma força abismal emanando daquele ser.<br />

- Chegou a hora Pan-noa. Voe! Vamos pegar o assassino.<br />

O aerojet atravessou velozmente o ar acompanhando a costa. Depois de alguns<br />

minutos a lua já estava inteira à vista. Então, sem mais nem menos, Clia apertou um<br />

botão do aerojet abrindo a carenagem superior.<br />

- O que você está fazendo Clia? – Berrou Pan-noa. Ing-mar estava assustado.<br />

Clia apenas olhou para Pan-noa e disse:<br />

- Adeus Pan-noa. Adeus Ing-mar.<br />

E saltou no ar. Pan-noa tentou agarrá-la mas já era tarde. Porém Clia não caiu.<br />

Saltou e Pan-noa a viu voar acima do aerojet, mesmo na velocidade abismal em que<br />

estavam. Pan-noa tentou entender. Talvez fosse a roupa protetora. Mas era impossível<br />

porque a roupa jamais iria suportar aquela velocidade.<br />

- Ela está se transformando Pan-noa. – Era a voz de Ing-mar agora sentado ao<br />

seu lado. – Veja mais ali atrás!<br />

Era Lainoriel. E só então Pan-noa percebeu, com um frio na barriga de emoção,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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as asas prateadas que surgiam nas costas de Clia. Os dois voavam na frente do aerojet.<br />

- O que vão fazer? – Perguntou Pan-noa. Mas eles já haviam sumido. Pannoa<br />

sentiu que algo iria dar errado. Chamou Kenn e pediu para que pelo menos trinta<br />

naves e micro naves de batalha acompanhassem o aerojet.<br />

As naves estavam a postos e logo depois Pan-noa estava cercado. Ing-mar estava<br />

completamente enfeitiçado pelo poderio de batalha que tinham em mãos. Então<br />

as naves tomaram distância umas das outras. As mais externas começaram a ir na<br />

frente formando um semi círculo. Pan-noa diminuiu a velocidade. As naves circundaram<br />

o lugar onde estava Schaia III. Todas as naves iluminaram o lugar e, sob a lua<br />

agora já alta, Pan-noa viu, Schaia III a meio metro de altura do chão olhando sem<br />

entender para as naves à sua frente. No chão havia duas pequenas esferas. Pan-noa<br />

estava parado com seu aerojet olhando estarrecido para o monitor que ampliara a imagem<br />

das esferas. Clia e Lainoriel estavam ali, no chão, em formato de esferas, a morte<br />

para os semidivinos na ideia dos Antes.<br />

Pan-noa demorou muito para se recuperar do choque. O fato de mais duas pessoas<br />

morrerem o revoltou. Ele já não conseguia perceber a realidade e só forçou-se a<br />

continuar fazendo o que tinha que fazer porque sabia que mais uma vida estava em<br />

jogo. Não a sua, porque ele já não se dava conta de sua própria existência, mas a de<br />

alguém que estava ao seu lado, do filho do Imperador. O mesmo Imperador que transformara<br />

toda sua vida em um grande inferno.<br />

Por alguma razão Schaia III não se mexia. Estava realmente muito assustado.<br />

Foi quando Pan-noa percebeu por que Schaia III não se manifestava. As naves haviam<br />

sido algo inesperado mas o que estava deixando Schaia III naquele estado era outra<br />

coisa.<br />

A revolta dos Anjos<br />

Pan-noa aterrizou o aerojet há uns dez metros de Schaia III. Abriu sua carenagem<br />

e saiu calmamente lá de dentro. Deu a volta na pequena nave sem sequer olhar<br />

para Schaia III que estava em pânico. Ficou ainda mais espantado quando viu seu filho<br />

ser tirado da pequena nave por aquele menino. Ing-mar deu a mão para Pan-noa e os<br />

dois avançaram em direção a Schaia III. Pan-noa abaixou-se lentamente e lentamente<br />

pegou as duas esferas do esquecimento. Ficou olhando para elas. Schaia III não se<br />

mexia. Olhava para seu filho que fitava a mãe morta no chão.<br />

- Ing-mar. – Disse Pan-noa. – Corra até as ruínas, tire o seu povo de lá e digalhes<br />

que corram e se afastem. Que fiquem reunidos atrás daquela colina.<br />

Logo depois escutou-se os gritos do povo saindo correndo. Pan-noa não parava<br />

de encarar Schaia III com olhar de ódio. Ing-mar retornou e ficou ao lado de Pan-noa<br />

olhando para seu pai.<br />

Schaia III começou a tremer. Olhou em volta e ao longe. A visão deveria ser<br />

aterradora para ele. Abaixo das naves de combate havia milhares de seres alados.<br />

Eram os irmãos de Lainoriel, o povo da Irmã Floresta modificado.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Você destruiu minha vida. – Disse Pan-noa. - Você tirou tudo que eu amava<br />

. – Olhou para as duas esferas. – Mas agora eu tenho o equilíbrio. Tenho as quatro<br />

esferas. Duas boas e duas más. Mas eu levo algo mais. Levo algo que vai me ajudar<br />

a reconstruir minha vida, algo que eu amo de uma forma como nunca amei antes. Eu<br />

levo seu filho comigo. – Ing-mar tomou a mão de Pan-noa e Schaia III fechou os olhos<br />

não suportando aquela perda. – Deixo sua vida para os anjos. Como você matou um<br />

dos seus irmãos eles vão querer entender-se com você. A propósito, se você não entendeu<br />

o que está se passando, graças à sua ganância você destruiu todo seu Império,<br />

o de seu pai e de gerações de Imperadores atrás de você, portanto, tomara que você se<br />

foda. – Schaia III parecia não ouvir.<br />

Pan-noa deu as costas para Schaia III e, de mãos dadas com Ing-mar voltou ao<br />

aerojet. Tirou o aerojet dali e emparelhou com as outras naves.<br />

- Kenn, espero que você esteja gravando tudo isso.<br />

- Que você acabou de mandar o Imperador Schaia III se foder? Não tenha<br />

dúvida, Pan-noa.<br />

Pan-noa e Ing-mar esperaram e então viram a pior cena que se pode conceber:<br />

quando os anjos tornam-se, aos olhos humanos, demônios.<br />

- Ing-mar. – Perguntou Pan-noa. – Você não está triste pelo seu pai?<br />

- Na verdade Pan-noa ele nunca foi meu pai...pai de verdade.<br />

Os anjos começaram a voar em círculos que, à medida que o tempo passava<br />

iam se fechando. A velocidade começou a aumentar e chegou ao ponto em que Pannoa<br />

só conseguia ver a poeira que levantava da areia. Podia-se ouvir ruídos de vozes<br />

berrando em meio ao barulho do vento e da tempestade que começara a se formar.<br />

Quando tudo se acalmou, não restavam mais anjos nem demônios. Schaia III<br />

havia sido engolido pela energia que os anjos formaram. “Provavelmente ele irá responder<br />

pelos seus atos.” Pensou Pan-noa que em meio àquela cena devastadora quase<br />

sentiu pena de Schaia III. Porém, olhou para Ing-mar e pensou em seus pais, pensou<br />

em Clia, em Lainoriel, pensou em Be. “Eles não podem estar mortos. Não podem.”<br />

Então olhou para algo que, até então não lhe chamara a atenção. A nave de Schaia III.<br />

- Como ele veio parar aqui? – Perguntou-se.<br />

Olhou para Ing-mar, deu um pequeno sorriso, abraçou o menino e disse:<br />

- Acho melhor irmos falar com o seu povo. Vamos levá-los para casa.<br />

Ing-mar olhou para Pan-noa muito triste.<br />

- O que foi Ing-mar?<br />

- Você não está pensando em me deixar aqui não é?<br />

Pan-noa sentiu um frio na barriga. “Levar Ing-mar comigo! Cuidar dele como<br />

um irmão, como um filho. Um filho que eu poderia ter tido com Clia mas não tive.”<br />

Pan-noa deu um imenso sorriso e chorando de alegria, de tristeza, de emoção, de saudades,<br />

de compaixão, de amor abraçou Ing-mar.<br />

- É óbvio que você vai comigo Ing-mar! É óbvio! É só a gente achar um jeito<br />

de formar uma dobra espacial, só isso, e vamos para minha casa. Ainda temos que<br />

fazer uma guerra quando chegarmos lá! Uma guerra de verdade. Ainda temos que<br />

matar a bicha do meu tio Francian e retomar meu planeta.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Ing-mar olhou para Pan-noa meio que rindo.<br />

- Uma guerra de verdade?<br />

- Acho melhor a gente descansar um pouco Ing-mar. Eu estou exausto. Vamos<br />

falar com seu povo e ver o que eles vão decidir.<br />

A descoberta de Pan-noa<br />

Nunca, em toda sua vida, Pan-noa imaginou ficar um dia sequer sem toda a<br />

tecnologia a que estava habituado. Já havia se passado muito tempo desde que Pannoa<br />

estivera no Planeta Azul, morando com o povo de Ing-mar. Lá ele concebeu a<br />

grandiosidade de uma lei adotada há muito tempo atrás, a eco Justiça. Era a lei da sobrevivência<br />

implantada pela natureza no ser humano. Graças a esta lei aquele planeta<br />

estava imaculado, protegido de qualquer intervenção humana a não ser a necessária<br />

para que pequenas aldeias espalhadas através do globo conseguissem sobreviver.<br />

Essas aldeias não apenas sobreviviam. Elas assumiram o papel de existir da<br />

forma mais digna possível, respeitando-se e respeitando o planeta.<br />

Era óbvio que Pan-noa sabia tudo a respeito do povo de Ing-mar. Sobre como<br />

eles tinham desaparecido da face do planeta e aparecido de novo. Ele tinha lido o livro<br />

que relatava a história do Mago de Prata, de Ortal o guerreiro, do mundo anterior a eco<br />

Justiça, do mundo anterior ao mundo da magia.<br />

“Qualquer planeta do império poderia ter tido o mesmo destino deste planeta.”<br />

Mas então olhou à sua frente e viu a vasta extensão do mar. Olhou para a cordilheira<br />

de diamantes que tanto o impressionava. “Não, nenhum planeta no universo é como<br />

este. Nenhum planeta consegue ser tão belo, tão mágico. Aqui o amor é ampliado.”<br />

Olhou para Ing-mar ao seu lado dando atenção aos múltiplos raios coloridos que refletiam<br />

na cordilheira dos diamantes.<br />

- É realmente muito bonito, não é Ing-mar?<br />

- É esplêndido. – Disse o garoto.<br />

Pan-noa jamais soube qual era a idade daquele garoto. Pelo que o livro contava<br />

ele deveria ter, agora, três anos segundo os cálculos do planeta azul e mais ou menos<br />

uns quatro e meio segundo os anos calculados por Plan ex. “Plan ex!” Pensou Pan-noa<br />

abrindo um sorriso. “Aquilo sim deve estar em ruínas agora.” Mas este sentimento o<br />

deixou tenso. Ele não poderia ficar ali sua vida toda. Ele teria que voltar e enfrentar<br />

seu destino. Suas férias deveriam acabar. Olhou para Ing-mar de novo. “Quantos anos<br />

afinal? Poderia, às vezes, ter minha idade e às vezes mais! Como era possível? Era<br />

uma sequela da magia depositada nele e em sua irmã gêmea, agora morta. Mas às<br />

vezes ele realmente parece ter quatro ou cinco anos.”<br />

- Ing-mar. – Disse Pan-noa calmamente. – Já faz muito tempo que não andamos<br />

no aerojet, não é mesmo?<br />

- Sim. – Disse o menino, sem dar muita atenção à pergunta.<br />

- Bem, acho que está na hora de vermos uma coisa e eu gostaria de fazer isto<br />

o mais rápido possível.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Ing-mar olhou para Pan-noa. “Agora ele deve ter uns quinze anos!” Pensou<br />

Pan-noa aturdido. Porém Ing-mar olhou para as montanhas de novo. “E agora? Cinco<br />

de novo? Será que ele sabe disso?”<br />

- Está bem. – Disse o garoto.<br />

Pan-noa entrou em contato com Kenn que ficara no espaço monitorando o planeta<br />

e Pan-noa. Logo depois o aerojet descia das nuvens em direção aos dois meninos.<br />

Eles tomaram o caminho para o sul e foram ao encontro da nave de Schaia III.<br />

“Não imaginava ter que ver esta coisa de novo.” Pensou Pan-noa. “Mas se quero ver<br />

o que está acontecendo com meu planeta vou precisar dessa merda.”<br />

Pan-noa voava com Ing-mar ao seu lado pensando em como seria difícil deixar<br />

aquelas terras. Porém, o fato de estar em contato com seu aerojet trouxe-lhe uma<br />

certa melancolia e, ao mesmo tempo, uma vontade de voltar para sua casa, para seu<br />

planeta e, acima de tudo, enfrentar seu tio, enfrentar as armadilhas que seu destino<br />

lhe preparara. “Você é um Antes diferente. Você é um Antes que faz seu próprio destino.”<br />

Pensou Pan-noa imitando Lainoriel e, com um aperto no peito, circundou, numa<br />

manobra violenta, a nave de Schaia III.<br />

- É, estou pegando o jeito de novo! – Disse Pan-noa a Ing-mar. O garoto sorria.<br />

– Muito bem. – Continuou Pan-noa. – Vamos lá. Vamos roubar algo do Império.<br />

Ing-mar olhou Pan-noa um pouco assustado, como se Pan-noa estivesse<br />

contando uma piada de mal gosto, afinal Ing-mar era o Imperador agora que seu pai<br />

estava morto, mas logo depois sorriu.<br />

- É, enquanto eu não for o Imperador...<br />

Pan-noa ficou impressionado com a presença de espírito do menino e teve um<br />

pensamento estranho. “Acho que ele não vai querer ser o Imperador. Não depois de<br />

ver o que é o Império realmente. Ou talvez por outro motivo.” Ficou chocado com<br />

este pressentimento. Há algum tempo sentia coisas esquisitas, coisas que não estavam<br />

ao seu alcance mas que conseguia sentir. Desde que começou a morar neste planeta<br />

ao lado deste menino... “Talvez eu tenha realmente mudado... A Andróida Andrógina<br />

... as quatro esferas...”<br />

Os dois estavam do lado de fora olhando para a nave de Schaia III. Uma visão<br />

destoante daquele lugar tão belo.<br />

- Não é tão pequena quanto eu imaginava. – Disse Pan-noa.<br />

Ing-mar estava absorto em pensamentos.<br />

- Kenn, – Disse Pan-noa. – você conseguiu algum contato com a nave?<br />

- Bem Pan-noa, enquanto você estava de férias durante meses com seu novo<br />

amigo, descobri algumas coisas.<br />

- Ora! Então me impressione.<br />

A porta de entrada da nave se abriu. Um sentimento de alívio passou pela barriga<br />

de Pan-noa.<br />

- Ora, ora, Kenn. Nada mal!<br />

Os dois entraram na nave. Pan-noa ficou mais impressionado ainda quando viu<br />

que a nave estava com tudo funcionando e em condições de voo.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Isso é uma maravilha Kenn! Como conseguiu interferir nos códigos?<br />

- Eu não interferi! – Disse Kenn. – Na verdade tudo estava funcionando desde<br />

que o Imperador abandonou a nave.<br />

Agora Pan-noa estava assustado.<br />

- Kenn! Pode ser uma porra de uma armadilha!<br />

- Não Pan-noa. Tenho certeza que não é.<br />

- Como você pode estar tão certa?<br />

- Existe uma mensagem. É para o filho do Imperador.<br />

- Uma mensagem para Ing-mar! Pois então que venha!<br />

Ing-mar ainda estava absorto. Pegou na mão de Pan-noa pressentindo algo<br />

ruim, algo que talvez nem quisesse ouvir.<br />

Mas, para o desprazer dos dois, a voz do Imperador Schaia III começou a ser<br />

ouvida:<br />

- Caro filho ou filha. Quando um de vocês ouvir esta mensagem eu já estarei<br />

no próximo círculo. Provavelmente estarei sendo julgado pois cometi vários crimes<br />

contra a ordem universal. Um dia você entenderá que nem tudo foi minha culpa. Eu<br />

agi com o coração e não com a cabeça. É, de fato você faz coisas absurdas quando<br />

está apaixonado. Porém entendi meu erro. Sei que um de vocês está agora morto ou<br />

foi transformado na esfera do esquecimento. Se um está morto o outro está vivo e com<br />

um outro nome, com um nome que eu jamais deverei saber. De agora em diante me<br />

torno massa corporal. Meu espírito já se foi. Neste momento estou sendo procurado<br />

por seres intermediários que se dizem supremos. Deixarei este corpo fazer o que deve<br />

ser feito para que eu seja levado ao próximo círculo e julgado.<br />

Para você eu deixo esta nave. Ela o levará a Carmel, sede provisória do meu<br />

Império. Cabe a você governá-lo. Espero que você me desculpe. Sei que errei, mas alguém<br />

me levou a este erro. Fui fraco diante de uma coisa que muito mais forte que eu.<br />

Este planeta amplia a paixão, o amor. Tome cuidado. Saia deste lugar o quanto antes.<br />

Este lugar é mágico. Ele não é bom nem ruim. É apenas mágico. Sei que você ainda é<br />

muito, muito jovem e sei que você ainda não deve entender o que é se apaixonar por<br />

alguém. Mas se isto ocorrer aqui, neste planeta, acho que seu futuro será incerto. Tão<br />

incerto quanto o meu desde que me deparei com o ser chamado Mago de Prata. Que<br />

este tenha morrido em dor.<br />

Pan-noa e Ing-mar olharam-se e, ainda de mãos dadas, constataram algo estarrecedor.<br />

Ing-mar olhou para sua mão sendo tocada pela mão de Pan-noa. Olhou para<br />

cima. Pan-noa estava branco. Ing-mar parecia ter crescido. Parecia ter a idade de Pannoa.<br />

Estavam os dois se olhando como se tivessem o mesmo tamanho. Uma lágrima<br />

escorreu pela face de Ing-mar. Ing-mar abraçou Pan-noa.<br />

- Nosso amor não será amaldiçoado pelo meu pai Pan-noa. – Disse Ing-mar<br />

aos prantos – Esta magia foi quebrada! Quando eu troquei de nome eu troquei de vida.<br />

Não sou mais aquele! Nem lembro mais daquele nome. Seremos o que quisermos ser<br />

sem a interferência desta magia ou deste planeta.<br />

Pan-noa abraçou Ing-mar. “Pena que isto não vai ser tão fácil. Não será tão


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fácil desfazer esta maldita magia.” Tocou o cabelo do ser que o abraçava e disse:<br />

- Maldita e bendita.<br />

Os dois saíram da nave. Pan-noa sentiu algo errado, algo muito errado. Olhou<br />

para Ing-mar. Seu tamanho não tinha se alterado desde que se abraçaram na nave.<br />

“É a maldita magia!” Pensou Pan-noa aborrecido. “O menino não vai voltar ao seu<br />

tamanho real. Tamanho real? Que porra de tamanho real? Ele nunca foi real!” Então<br />

Pan-noa sentiu um frio na barriga. “A Andróida Andrógina! Ela está dentro de mim!<br />

Ela pode estar fazendo esta magia acontecer, mas nem fodendo!”<br />

- Kenn! Leve a nave de Schaia III para dentro do transuniverso imperial, isolea<br />

e veja como qual o procedimento para voltarmos para casa. A maldita nave deve ter<br />

um dispositivo de dobra espacial interno. Faça com que funcione.<br />

- Ing-mar! - Pan-noa estava enlouquecido. – Para o Drakunum agora! Vamos<br />

sair daqui! – Olhou para o que deveria ser o menino e viu alguém do seu tamanho. –<br />

Caralho! Eu não acredito!<br />

- O que foi? – Perguntou Ing-mar. – O que te aflige Pan-noa?<br />

Pan-noa tentou disfarçar.<br />

- Nada, Ing-mar. Só... Bem, vamos falar sobre isso na nave. “Talvez na minha<br />

nave eu tenha mais auto controle. Talvez seja só uma maldita alucinação.” Pensou<br />

Pan-noa em silêncio.<br />

- Nós vamos embora Pan-noa? E os outros? E a tribo?<br />

- Acho que não temos tempo para isso Ing-mar.<br />

Ing-mar refletiu um pouco, olhou para Pan-noa e, vendo a aflição estampada<br />

no rosto do amigo disse:<br />

- Está bem! Já que é para partir, então vamos logo.<br />

Pan-noa sorriu finalmente. “É fascinante...é um ser fasci....” Pan-noa parou<br />

de pensar e fechou o sorriso. O menino já estava dentro do aerojet. Pan-noa tocou o<br />

peito e sentiu as quatro esferas que estavam seguras por um colar. “Vocês não vão me<br />

controlar. Eu sou o pior Antes que vocês já tentaram controlar.”<br />

Entrou no aerojet e rumou para o transuniverso imperial.<br />

Do Livro das Mutações<br />

Sobre as evoluções dos círculos<br />

Uma das leis mais sagradas da ordem universal é a de que um círculo só evolui<br />

quando o seu antecessor evolui, abrindo espaço para que um outro círculo anterior<br />

ocupe o espaço da evolução da vida inteligente.<br />

Os Antes sempre serão o primeiro círculo e só evoluirão para semidivinos quando<br />

deixarem de ser Antes. Existe uma informação muito valiosa acerca da evolução de<br />

qualquer círculo: nenhum círculo torna-se evoluído parecendo com o seu antecessor,<br />

isto é, se um Antes evolui para um semidivino este Antes terá uma forma ou estrutura<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

ou pensamento ou energia totalmente diferente do semidivino que o Antes substituiu.<br />

Outra regra muito importante é que só quando uma espécie evolui totalmente<br />

é que a passagem de círculo é consumada.<br />

Os círculos superiores sempre trabalham para que os círculos inferiores evoluam<br />

pois só assim os superiores evoluirão também. Desta forma, todos os círculos<br />

estão interligados e quanto mais os círculos inferiores evoluírem mais a inteligência<br />

universal evoluirá. Talvez seja por isso que os Antes chamem, inconscientemente,<br />

os semidivinos de Anjos. Os Antes entendem que os Anjos são seres superiores que<br />

protegem suas vidas.<br />

A passagem de uma espécie de Antes para o próximo círculo é demorada em<br />

razão do tamanho da população existente no universo, pois a evolução pode começar<br />

apenas com um Antes e demorar gerações para chegar ao resto da espécie. Às vezes<br />

esta evolução estaciona em uma região do universo e então toda a espécie fica inalterada.<br />

A evolução de um Antes quase sempre começa quando ele se depara com um<br />

ou mais seres de outros círculos. O Antes sofre com extrema intensidade. A evolução<br />

é forçada e, depois de concebida, o Antes tem um choque significativo. Na maioria das<br />

vezes não supera o choque e extingue a evolução.<br />

Nunca houve relato de que um Antes conseguiu desfazer a evolução por si<br />

próprio a não ser, é claro, que ele venha a sucumbir.<br />

O Fardo de Pan-noa<br />

A situação estava piorando para Pan-noa à medida que ele saía da atmosfera<br />

do Planeta Azul e via que Ing-mar o olhava de forma diferente. Parecia fascinado com<br />

Pan-noa. Olhava-o pelo canto dos olhos e ficava nervoso. “O que está acontecendo<br />

com este menino?” Perguntava-se Pan-noa. “E seu tamanho! Ele já não é mais uma<br />

criança pequena! Está do meu tamanho, praticamente um adolescente!” E realmente,<br />

Ing-mar transformara-se em um menino, um menino já quase crescido, crescido ao<br />

ponto de estar se tornando um homem. Mas ainda não era. Pan-noa não queria admitir<br />

mas estava achando a figura de Ing-mar quase atraente.<br />

Pan-noa olhou mais uma vez para Ing-mar. Estava nervoso com a situação.<br />

Tentou controlar o voo. Já estavam quase chegando ao transuniverso imperial. “Ótimo!”<br />

Pensou Pan-noa. “Lá eu vou controlar a situação.”<br />

- Kenn, estou com um mau pressentimento. Prepare a sala de revisão corporal<br />

para Ing-mar. Não tenho certeza se ele está bem.<br />

- Eu estou ótimo Pan-noa! – Disse Ing-mar. Mas Pan-noa não deu ouvidos.<br />

Silêncio.<br />

- Kenn? Está me ouvindo?<br />

- Sim Pan-noa. A sala está preparada mas acho que...<br />

- O que foi Kenn? – Interrompeu Pan-noa bruscamente.<br />

- Bem, por medida de segurança eu vou preparar a sala para você também está


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

bem?<br />

- Para mim? Você está louca? Estou com a roupa de batalha desde que entrei<br />

neste planeta! Nada pode ter me atingido.<br />

- Só por precaução Pan-noa. – Disse Kenn tentando ser simpática.<br />

Pan-noa não entendeu, mas estavam quase chegando e ele queria fazer a manobra<br />

de entrada na nave com perfeição. Não queria nenhum incidente agora, principalmente<br />

para não assustar o menino.<br />

Mas Pan-noa não parava de pensar. “Fazer uma inspeção corporal em mim?<br />

O que há de errado?” A nave deu uma guinada para o lado e Pan-noa teve que concentrar-se<br />

melhor. Parecia até que Kenn tinha feito isso de propósito. “Ela não está<br />

deixando eu me concentrar direito. Ela sabe que estou pensando que há algo errado.”<br />

- Pan-noa! – Disse Kenn. – A sala de controle está pronta para sua chegada.<br />

Pan-noa não disse nada. Agora tinha certeza de que algo estava errado e era<br />

com ele. Kenn jamais agiria deste jeito. “E essa porra desse menino...” Ing-mar não<br />

parava de olhar para Pan-noa. Estava fascinado.<br />

Pan-noa pousou o aerojet na sala de controle e abriu a carenagem. Os dois<br />

saíram da mini nave. O aerojet foi guardado em seu devido compartimento. Pan-noa<br />

estava parado, olhando para os monitores que mostravam o Planeta Azul. Ing-mar<br />

estava olhando para Pan-noa estarrecido. Pan-noa explodiu.<br />

- Posso saber o que está havendo comigo??? – Berrou. O menino deu um pulo<br />

para trás e caiu no chão assustado com a reação de Pan-noa.<br />

- Kenn, pelo amor de Deus! – Disse Pan-noa quase chorando. – Diga-me algo!<br />

Por que você quer fazer uma inspeção em meu corpo?<br />

Silêncio.<br />

O menino não se mexia ainda estatelado no chão da sala de controle. Pan-noa<br />

virou-se calmamente e ordenou, via pérola cubo, que uma parede à sua frente se transformasse<br />

em espelho, um enorme espelho.<br />

Pan-noa caiu de joelhos. Tocou seu rosto, seu cabelo. Não era ele! Simplesmente<br />

não era! Era um ser, um ser tão imensamente lindo que Pan-noa ficou enlouquecido!<br />

Começou a tirar a roupa. Queria saber se o resto do seu corpo tinha mudado<br />

também. A roupa teimava em ficar grudada no seu corpo. Pan-noa foi descobrindo<br />

que seu corpo estava moldado em formas precisas, fabulosas, inacreditáveis! Quando<br />

finalmente conseguiu tirar a parte de baixo simplesmente não conseguiu se mexer. Olhou<br />

para o espelho para ver se o reflexo mentiria para ele. Talvez o reflexo mostrasse<br />

uma outra realidade, uma realidade que ele, Pan-noa, não queria que estivesse acontecendo.<br />

- Não pode ser. – Disse Pan-noa em sussurros. – Eu só posso estar sonhando.<br />

Não pode ser.<br />

Ing-mar olhava-o admirado. Seus olhos brilhavam ao fitar corpo de Pan-noa.<br />

Pan-noa no entanto não tinha mais forças para discutir. Sabia que a forma<br />

daquele corpo que agora era o seu fascinava a todos. A Pan-noa também. Tocou sua<br />

barriga devagar e foi descendo com a mão até onde deveria estar seu pênis. Quando a<br />

mão de Pan-noa tocou o órgão ou melhor, o não-órgão, Pan-noa sentiu-se extasiado.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Tão extasiado que bilhões de pequenos pontos de luz de todas as cores explodiram<br />

de onde estava sua mão para o resto do corpo como uma bomba que detona. Em sua<br />

cabeça, em seu corpo, esta mesma bomba foi detonada e quando a explosão feita<br />

pela animotatoo relaxou, Pan-noa também relaxou só que profundamente e, profundamente,<br />

Pan-noa desmaiou.<br />

Ing-mar permaneceu deitado no chão da nave observando aquele corpo caído.<br />

Por um momento pensou que Pan-noa havia morrido, mas notou que ele respirava<br />

profundamente. Com muito cuidado e esforço Ing-mar colocou Pan-noa sobre um<br />

sofá.<br />

Ing-mar olhou à sua volta. Queria falar com a pessoa ou coisa que Pan-noa<br />

sempre falava, mas tinha medo. Então, timidamente, perguntou:<br />

- Kenn?<br />

- Sim Ing-mar? – Respondeu a voz feminina da nave. Ing-mar sorriu desoladamente.<br />

Olhou para Pan-noa de novo.<br />

- O que ouve com ele?<br />

- Ele foi transformado Ing-mar.<br />

- Ele vai ficar bem?<br />

- Não sei. Mas acho que sim. Pan-noa é um menino que consegue contornar<br />

seus problemas de uma maneira peculiar.<br />

Ing-mar olhava para Pan-noa com afeição.<br />

- Ele ficou tão bonito! Ele parece uma menina. Mas não uma menina de verdade.<br />

Parece um ser que... – Ing-mar não sabia dizer no que Pan-noa se transformara.<br />

- Ele virou um ser Andrógino, Ing-mar. Um ser que possui a beleza dos dois<br />

sexos num só. A Andróida Andrógina manteve a essência da Deusa em seu sangue e<br />

Pan-noa foi transformado.<br />

- É isso! – Disse Ing-mar. – Mas ele não tem nenhum sexo! – Disse Ing-mar<br />

olhando para o meio das pernas de Pan-noa.<br />

- Acho que devemos deixar Pan-noa descansar, Ing-mar. Vamos esperar que<br />

ele acorde. Acho que sua mente está trabalhando de forma muito acelerada. Venha,<br />

vamos deixar este lado da nave no escuro para que ele possa descansar melhor. Você<br />

quer comer algo?<br />

- Sim. – Disse o pequeno menino.<br />

Ing-mar sentou-se, comeu e, assim como Pan-noa, adormeceu.<br />

“Venha Pan-noa!” Dizia Be sorridente. Ela estava olhando para trás enquanto<br />

Pan-noa tentava alcançá-la. Estava montada numa criatura fascinante, uma espécie de<br />

réptil em tons azuis. A cabeça do réptil projetava-se para cima num pescoço alto. A<br />

cauda era enorme e parecia balançar para dar impulso no ar. O réptil voava.<br />

Pan-noa tentava manter o seu réptil estável, porém não conseguia domá-lo.<br />

“Calma Be.” Dizia Pan-noa com receio de perdê-la de vista.<br />

Mas Be tinha sumido. Pan-noa estava muito alto e o réptil parecia não querer<br />

voar. “Vamos bichinho!” Dizia Pan-noa. “Temos que chegar até Be.” Então o réptil<br />

lançou-se para baixo e Pan-noa conseguia ver o chão.<br />

“Não estamos em casa! Estamos de volta ao planeta azul! Mas onde está Be?”


Marcelo Paciornik<br />

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Pan-noa conseguiu localizar Be lá embaixo. Em um instante já estava ao lado<br />

de Be. “Veja Be! Lá ao longe, no meio do oceano.” Be olhava estarrecida. “Lá é a<br />

cordilheira de diamantes!”<br />

Be olhou para Pan-noa. “Como você está lindo Pan-noa. Como você ficou<br />

desse jeito? Eu nunca vi alguém tão lindo!”<br />

Pan-noa não falou nada apenas tomou Be nos braços e começou a beijá-la.<br />

“Você também está linda Be. Muito mais linda que Clia, que Ing-mar, que<br />

Lainoriel.” Be começou a tocá-lo e percorreu o corpo de Pan-noa com as duas mãos<br />

avidamente.<br />

“O que houve com seu corpo...? Como você está diferente!”<br />

Pan-noa conseguia entender o que Be sentia. Ele mesmo sentia seu corpo<br />

através dela.<br />

Mas então Pan-noa começou a ficar com medo. “Meu corpo está mudado.”<br />

Pan-noa começara a ficar excitado mas não sentia nada entre suas pernas. Então parou<br />

e olhou para Be. “O que houve Pan-noa? Do que está com medo?”<br />

Mas Pan-noa voltou a beijá-la. Estava sentindo muito calor, muito frio. Estava<br />

excitado como nunca ficara antes. Então Pan-noa não teve mais medo. Sentiu algo<br />

crescer dentro dele. Algo muito forte, uma paixão tão grande que não conseguia mais<br />

controlar. Tirou a roupa de Be e começou a tirar a sua própria. “Meu Deus! E se eu não<br />

tiver mais...” Mas Pan-noa continuou. Be virava os olhos para cima tocando o corpo<br />

de Pan-noa. Quando Pan-noa tocou o corpo de Be, seus pequenos seios, sua barriga,<br />

quando seu peito tocou nos seios de Be ele sentiu. Sentiu algo absurdo, sentiu algo<br />

rasgando sua pele. Algo que estava lá dentro e que surgiu com uma fúria aterradora.<br />

Pan-noa penetrou Be e sentiu algo fulminante enquanto a penetrava. Be gemia de<br />

prazer e dor ao mesmo tempo.<br />

Os dois rolaram em carícias pela areia. O corpo de Pan-noa estava quente e<br />

suado, grudado ao corpo de Be de forma prazerosa. Pan-noa sentia seu membro dentro<br />

do corpo da menina. Líquidos, cheiros. O prazer começou a brotar lá no íntimo<br />

do corpo de Pan-noa e veio vindo de forma lenta e majestosa. Um arrepio começou<br />

a ser sentido nas pernas depois foi para as costas. Então os músculos de Pan-noa<br />

contraíram-se e ele agarrou os cabelos de Be. Uniu sua boca à dela e explodiu.<br />

Pan-noa explodiu e logo levantou-se dando um berro. Olhou para baixo, para<br />

seu sexo, e viu seu membro molhado. O sofá estava sujo com o líquido branco.<br />

Pan-noa deitou-se de novo, aliviado. Começou a rir. Depois, tocou com sua<br />

mão o membro para ver se realmente estava ali, se era de verdade.<br />

- Graças a tudo o que é mais sagrado! – Disse rindo.<br />

Mas então levantou-se assustado.<br />

- Kenn? Você não viu isso não é?<br />

- Vi o que Pan-noa?<br />

- Você viu! Eu não acredito! – Disse Pan-noa, mas ainda ria.<br />

- Bem, não pude deixar de notar.<br />

Pan-noa parou por um instante.<br />

- Ei, quem tirou minha roupa?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Você mesmo. – Disse Kenn.<br />

- Um sonho e tanto. – Falou Pan-noa. – Onde está Ing-mar?<br />

- Explorando a nave. Você está dormindo há dias Pan-noa!<br />

- Melhor assim.<br />

Pan-noa foi para a sala de banho. Apenas deixou que a água escorresse pelo<br />

seu corpo. Não queria tocar-se muito. Achava que aquele corpo não era o seu. “Devo<br />

me acostumar a isso.” Disse para si próprio. “O que está feito está feito. E agora eu<br />

já entendi. Devo controlar o corpo da mesma forma que aprendi a controlar a animotatoo.”<br />

Vestiu-se e saiu para a sala de comando de novo. Ing-mar não estava lá. Não<br />

quis chamá-lo. “Melhor ele ficar um tempo longe de mim.” Pan-noa realmente estava<br />

assustado com seu novo corpo e com que ele era capaz de fazer.<br />

- Kenn, o que você descobriu sobre a nave?<br />

- Algumas coisas que você vai gostar. Em primeiro lugar a nave esconde um<br />

filhote de Extuártico numa não-sala. Podemos utilizá-lo para voltar para casa porque a<br />

nave tem todos os mapas de todos os sistemas. Outra coisa, existem arquivos na nave<br />

comprovando que o sistema de Plan-ex foi destruído.<br />

- Isso eu já sabia. Nossa bomba deu certo. – Disse Pan-noa alegremente.<br />

- Existe uma informação curiosa. O Imperador Schaia III...<br />

- Que Deus o tenha. – Interrompeu Pan-noa.<br />

- ... estava preocupado com algumas rebeliões. Nada oficial, mas Kalum Br<br />

estava envolvido.<br />

- Kalum Br. – Repetiu Pan-noa com um frio no estômago. – Será possível?<br />

Meu tio jamais se meteria nesse tipo de coisa. – Uma esperança passou pelo coração<br />

de Pan-noa. – Be. Que sonho lindo!<br />

- Muito bem. – Continuou Pan-noa. – O que estamos esperando?<br />

- Pan-noa. – Falou Kenn. – Tem certeza que devemos levá-lo conosco?<br />

- Levar quem? – Perguntou Pan-noa perplexo.<br />

Então Kenn mostrou um pequeno ser humano de cabelos esbranquiçados brincando<br />

nas águas do lago artificial tão conhecido por Pan-noa.<br />

- Ele voltou ao normal! – Disse Pan-noa ao olhar o pequeno Ing-mar nadando<br />

feito louco nas águas transparentes.<br />

- O que quer dizer Pan-noa?<br />

- Veja por si só Kenn. Ele voltou a ser aquele menino de quando eu conheci! –<br />

Disse Pan-noa com cara de afeto.<br />

- Pan-noa, esse menino nunca mudou desde que você o conheceu. Eu tenho<br />

todos os registros.<br />

Pan-noa parou no tempo e espaço. “Então é isso.” Disse a si mesmo. “Você<br />

quer controlar minha mente e meu corpo, não é mesmo? Você mudou a aparência do<br />

menino só para me mostrar o que eu poderia virar. Mas você não vai conseguir. Não<br />

mesmo. Eu já estou treinado. Veja isso!”<br />

Pan-noa abriu a parte de cima de sua roupa, olhou-se no espelho e fez com<br />

que surgisse em seu corpo a figura da Andróida Andrógina e logo depois fez com ela<br />

explodisse em mil pedaços e desaparecesse. Olhou para o espelho olhando-se nos


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

olhos e disse:<br />

- É isso aí! Alguém aqui vai se foder e não vou ser eu! Traga o menino Kenn.<br />

É óbvio que vamos levá-lo. Afinal, eu o adotei e, apesar de ter doze anos, considero-o<br />

meu filho.<br />

- Treze Pan-noa. Você completou treze anos há dois dias.<br />

Pan-noa olhou abismado para o nada.<br />

- Então me dê Kalum Br de presente Kenn.<br />

Ing-mar entrou na sala de comando. Olhou para Pan-noa meio assustado. Mas<br />

logo que viu o sorriso estampado na cara de Pan-noa correu para abraçá-lo.<br />

- Está tudo bem Ing-mar. Nós vamos para minha casa.<br />

Ing-mar olhou para Pan-noa e disse:<br />

- Pan-noa, devo dizer que você está muito bonito.<br />

Pan-noa sorriu. “Eu vou controlar essa porra!”<br />

Kalum Br<br />

Be estava sentada na escada da escola cercada por alguns amigos. Ela parecia<br />

não absorver as conversas. Estava em um mundo à parte. Uma amiga aproximou-se<br />

dela.<br />

- Você não pode ficar assim pelo resto da vida Be. Já faz um ano e dois dias.<br />

Por que você não experimenta sair? Hoje nós vamos à praia. Por que não nos acompanha?<br />

Be não conseguia nem ouvir a menina.<br />

- Desculpe, mas não vai dar. – Disse Be atordoada.<br />

A menina juntou-se ao grupo de amigos. Be ainda estava sentada na escada<br />

quando ouviu um sinal mandado através de sua pérola cubo.<br />

- A todos os habitantes do sistema Kalum Br. O Império declara estado de<br />

emergência. Todos os habitantes estão sob guarda do Império a partir de agora.<br />

Be levantou-se e saiu correndo. Só tinha um lugar no qual ela saberia o que<br />

estava acontecendo.<br />

Entrou sorrateiramente no castelo do qual Pan-noa havia entrado e saído com<br />

ela tantas vezes. Be conseguiu, pelas passagens secretas, entrar no quarto de Pan-noa.<br />

Ligou os monitores que davam acesso às informações secretas e viu, aterrorizada, que<br />

todas as grandes casas estavam cercadas pelo Império. Todos os planetas com alta<br />

tecnologia viam-se sob custódia. O sistema de defesa de Kalum Br estava em alerta<br />

máximo e o clima era de guerra.<br />

A porta do quarto de Pan-noa abriu-se e um guarda pediu a Be que descesse.<br />

Larissa, mãe de Pan-noa, esperava por ela na sala principal. Lá estavam Pan-<br />

Newe e seus assessores. Na mesma sala havia um membro do Império. Be reconheceu<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

pelo uniforme. Larissa abraçou-a e disse para ela ficar quietinha. Be estava chorando.<br />

- A situação está muito delicada Imperador Pan-Newe. – Disse o correspondente<br />

do Império. – Schaia III está desaparecido. Sabemos que ele dirigiu-se para Z<br />

planct 1 e 2.<br />

- E o que nós temos com isso? – Disse Pan-newe. – Ele jamais governou este<br />

Império de verdade. Se não fosse pelo conselho das grandes casas nossa raça já teria<br />

desaparecido.<br />

O correspondente olhou com certa fascinação para Pan-Newe. De certa forma<br />

o homem tinha razão. Schaia III havia demonstrado total desequilíbrio mandando<br />

fechar as dobras espaciais.<br />

- Veja, Pan-Newe. Sabemos da insatisfação de todos. O problema é que não<br />

queremos nenhum incidente até que...<br />

- Até que vocês achem o Imperadorzinho? Será que ele não foi dar um passeio<br />

com o seu amigo, como é o nome da coisa? Mago de Ouro, Mago de Prata?<br />

- Pan-Newe. Por favor. – Disse o correspondente.<br />

- Está bem. – Disse Pan-Newe quase se desculpando.<br />

- Será que podemos contar com vocês?<br />

- Vocês poderão contar com nosso apoio. Vocês sabem que temos tecnologia e<br />

força para fazer dobras no espaço. Temos tecnologia também para abrir o espaço interno<br />

e desta forma obter energia dos Extuárticos. Só não fizemos ainda porque nossos<br />

aliados de agora foram nossos inimigos de antigamente. Existe muita discórdia ainda.<br />

- Nós sabemos, Pan-Newe, nós sabemos. E é por isso que devemos manter a<br />

calma e tentar localizar Schaia III, afinal foi o Império que estabeleceu a paz com seus<br />

rivais, não foi?<br />

- Sim. – Pan-Newe admitiu. – Por mais incrível que pareça, foi graças à união<br />

da família de Schaia III que as grandes casas entraram em acordo. – Pan-Newe parou<br />

por um instante. – Vocês têm meu apoio desde que retirem a custódia de meu sistema<br />

e deixem apenas uma nave de observação para não haver mal entendidos.<br />

- Uma nave de observação?<br />

- Eu disse que vocês têm minha palavra. As casas maiores estão conectadas.<br />

Podemos começar um incidente agora mesmo. Temos um sistema de defesa que faria<br />

estes trans universos de batalha aí em cima virarem pó em um piscar de olhos. – Berrou<br />

Pan-Newe.<br />

O membro do império concordou com a cabeça. Quando retornou para sua<br />

nave e retransmitiu a conversa que teve com o Imperador de Kalum Br, os generais<br />

em Carmel logo viram que estavam travando uma batalha perdida. Se Schaia III não<br />

aparecesse o Império iria entrar em uma guerra interminável.<br />

Pan-Newe informou à população que não existia ameaça alguma por parte do<br />

Império.<br />

Be olhou para Larissa.<br />

- Precisamos conversar.<br />

Larissa tomou a mão de Be e foram para o quarto de Pan-noa.<br />

- Eu sonhei com ele ontem. – Disse Be chorando.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Eu sonho com ele todos os dias meu bem. Devemos manter a fé que ele esteja<br />

vivo mas devemos tocar nossas vidas para frente, mesmo que isso doa.<br />

Be sabia que Larissa falava da boca para fora. Sabia que a mulher sofria até<br />

mais do que ela.<br />

- Não é isso Larissa. O sonho foi real, foi um presságio. Ele estava comigo! Eu<br />

senti. Mas ele ... ele não era ele mesmo.<br />

- O que quer dizer? – Larissa estava assustada.<br />

- Não consigo explicar. Apenas sei que ele, que ele está vivo! – Começou a<br />

chorar de novo.<br />

- Be, por favor. Diga-me o que você sonhou.<br />

Be contou do sonho, contou de como Pan-noa estava, contou de onde o sonho<br />

se passou. Larissa escutou tudo com muita calma, depois falou com a menina da<br />

forma mais carinhosa possível.<br />

Mais tarde, nos jardins do palácio, Larissa pensou. “Meu filho, no Planeta<br />

Azul. Seria possível?” Larissa parou e olhou para o céu estrelado. “Devo agarrar-me<br />

ao sonho de uma menininha? Certamente é a única coisa que tenho.”<br />

O retorno de Pan-noa<br />

Pan-noa e Ing-mar tinham decidido que, não importava o que acontecesse,<br />

iriam ficar juntos. Pan-noa cuidaria de Ing-mar e vice-versa. Se Ing-mar quisesse tomar<br />

o poder do Império, o que era seu direito, iria fazê-lo e a nova sede do Império<br />

seria Kalum Br.<br />

- Espero que meu pai concorde. – Disse Pan-noa assustado com a ideia – Se<br />

ele estiver vivo.<br />

Mas o que mais o assustava era olhar-se no espelho. “O que eu me tornei?”.<br />

Ele tinha suas suspeitas mas não queria responder.<br />

Os dois estavam sentados em cadeiras separadas. Fitavam para o espaço infinito,<br />

negro. Então olharam-se e fizeram um sinal afirmativo com a cabeça.<br />

- Kenn. – Disse Pan-noa. – Coordenadas fechadas?<br />

- Sim Pan-noa. Os mapas foram transferidos da nave do Imperador. Iremos<br />

ativá-la para formar a dobra espacial. Os cálculos estão prontos. Será uma viagem<br />

curta.<br />

- Assim espero Kenn.<br />

A nave entrou em movimento. Ing-mar segurou a mão de Pan-noa. Estava<br />

suando. Os monitores indicaram que a nave estava em velocidade de galáxia. A dobra<br />

formar-se-ia a qualquer momento. O Extuártico fora ativado e a dobra feita. Pan-noa<br />

estava a caminho de casa, de Kalum Br.<br />

Logo que a nave estabilizou-se Pan-noa e Ing-mar sentaram-se no sofá lateral.<br />

Pan-noa viajava em pensamentos e Ing-mar não quis atrapalhar. Sabia que o amigo<br />

havia mudado e precisava pensar. Encostou sua cabeça nas pernas de Pan-noa e dormiu.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

“Como isso foi acontecer?” Pan-noa ativou sua pérola-cubo e pediu um espelho<br />

à sua frente. O espelho desceu imediatamente do teto da nave. Pan-noa começou a<br />

se olhar. À medida que passava os olhos pelo seu corpo ficava mais admirado. “Como<br />

pôde?” Seus cabelos estavam curtos, brancos, suas sobrancelhas negras, a pele branca<br />

tendendo ao dourado e seus olhos... “Meu Deus meus olhos!” Eram de círculos negros,<br />

cinza e verde. “Os cílios negros e tão grandes...” Pan-noa passou a mão em sua<br />

face. “Lisa. Tão lisa.” Então fechou os olhos e concentrou-se. Sim estava funcionando!<br />

A animotatoo mudou a cor de sua pele, estava mais escura. “Ótimo! Então este<br />

será o procedimento. Vou começar com coisas fáceis.” Agora conseguia controlar a<br />

cor do cabelo. “Fascinante!” Mas algo começou a incomodá-lo. Olhou para baixo, era<br />

o menino.<br />

“Não. De novo não.” Ing-mar começou a se tornar diferente. Sua expressão<br />

já não era meiga. Pan-noa continuou olhando. “Vamos ver onde essa porra vai dar.”<br />

Deixou a cabeça mais leve, não tentou controlar a coisa. Ing-mar mexeu-se, causando<br />

um certo desconforto emocional em Pan-noa. “Vamos lá.” Pensou Pan-noa. “É só isso<br />

que vocês sabem fazer?” Mas então veio um baque, algo de dentro de seu coração, de<br />

sua barriga. Ing-mar já não era Ing-mar. “Meu caralho!” Disse Pan-noa sentindo-se<br />

totalmente atraído por aquilo que dormia em sua perna. Começou a tremer. Fechou os<br />

olhos e controlou-se. Olhou-se no espelho e viu que suas feições eram as mesmas de<br />

quando tinha pedido o espelho. Então começou a tocar em meio as suas pernas. Num<br />

segundo deu um pulo acordando Ing-mar com um berro.<br />

Ing-mar olhou-o assustado. Já não era a coisa. Tinha voltado ao Ing-mar normal,<br />

o menino que tanto adorava.<br />

- Não chegue perto de mim. – Gritou Pan-noa para Ing-mar.<br />

O coitadinho estava tão pálido que quase comoveu Pan-noa mas ele lembrouse<br />

do que não havia no meio de suas pernas. Ficou em silêncio. Ing-mar estava quase<br />

chorando. Então concentrou-se. “Be. Pense em Be.” E então veio a imagem da garota<br />

que tanto amava. Pan-noa relaxou com esta visão. Cautelosamente tocou-se de novo<br />

e, ao sentir seu membro, olhou para baixo e começou a rir. Ing-mar, no entanto, estava<br />

assustado. Pan-noa olhou para ele rindo, quase satisfeito.<br />

- Desculpe, Ing-mar. Tive um sonho horrível.<br />

- Você não precisa mentir para mim, Pan-noa.<br />

Pan-noa fechou o rosto. “Seria possível?”<br />

- Do que você está falando Ing-mar?<br />

- Você tornou-se um ser supremo, Pan-noa.<br />

Por esta Pan-noa não esperava. Estava na sua cara o tempo inteiro mas ele não<br />

queria admitir.<br />

Pan-noa não conseguia falar.<br />

- Você não pode ter medo disso, Pan-noa. – Continuou Ing-mar. – Seus pensamentos<br />

vão te trair. Deixe a coisa fluir.<br />

- Mas...mas esta coisa está fazendo eu te ver como alguém mais velho alguém<br />

que possa ser meu amante!<br />

Ing-mar calou-se, pensou por uns instantes e disse:


Marcelo Paciornik<br />

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- Você deve aprender a controlar. É óbvio que tudo isso não passa de uma<br />

provocação, uma espécie de prova.<br />

- Quer dizer que é só uma alucinação, não é? É só para que a coisa diga: “ei<br />

estou aqui Pan-noa, está vendo no que você se transformou?”<br />

- Acredito que sim. Não deixe a coisa te levar mas não trate o assunto tão a<br />

sério está bem?<br />

- Ah sim! Isso é fácil para você dizer não é Ing-mar?<br />

- De certa forma sim Pan-noa.<br />

- Por que está dizendo isso?<br />

Ing-mar tirou a roupa. Pan-noa quase ficou histérico.<br />

- Está vendo? Nós somos iguais. Fui criado a partir de um ser humano, Schaia<br />

III, e de um ser que veio de uma espécie de magia. O Mago de Prata queria a todo<br />

custo criar um ser evoluído, alguém que ele nunca conseguiu ser de verdade.<br />

Pan-noa ficou boquiaberto. Então a pérola-cubo agitou-se e sua cabeça<br />

começou a fervilhar.<br />

- Isso significa que... já não sou mais um Antes. Nós dois não somos mais<br />

humanos!<br />

- Bem. – Disse Ing-mar dando de ombros e quase sorrindo. – Eu nunca fui um,<br />

quer dizer, verdadeiramente.<br />

Pan-noa sentou-se no sofá. Ing-mar estava de pé.<br />

- O que vou fazer? – Perguntou Pan-noa. – Vou voltar para casa e dizer: “Pai,<br />

mãe adivinhem! Acabei de virar um ser supremo! Daqui a pouco, se tudo correr bem,<br />

viro um anjo, logo depois um ser divino e depois bem, quem pode saber...”. Isto se<br />

meus pais estiverem vivos.<br />

- Não é bem assim Pan-noa e você sabe.<br />

- Bom, para falar a verdade eu já não sei de mais nada.<br />

Ing-mar viu a confusão no olhar de Pan-noa. Pela primeira vez viu aquele ser<br />

ficar desnorteado com seu destino.<br />

- Pan-noa, por enquanto só pense em uma coisa: pense que muitas pessoas<br />

morreram para você tornar-se o que tornou-se. Isto deve ser importante não é?<br />

Agora sim havia levado um tapa. Pan-noa começou a pensar sobre tudo, desde<br />

o dia em que havia saído de Kalum Br. Começou a lembrar o que tinha passado.<br />

“Pense que muitas pessoas morreram”. Era engraçado, mas Pan-noa não sentia seus<br />

pais mortos. De alguma forma ele não sentia. Fechou os olhos e começou a chorar.<br />

Chorar por Clia, por Milos, por Litri, por aquele povo da idade das sombras, chorou<br />

pela irmã de Ing-mar que nunca soube o nome, por Lainoriel. Olhou para o pequeno<br />

Ing-mar e chorou por ele. E então pensou: “Não vou chorar pelos meus pais nem por<br />

Be. Não enquanto não souber se eles estão vivos ou mortos.”<br />

Recostou-se no sofá e fechou os olhos.<br />

“Por enquanto eu vou levando, vou segurando. Caminho pelo corredor da<br />

enorme galeria. As portas me levariam a lugares incompreensíveis. Como a chuva,<br />

as lágrimas caem do céu. Como facas lágrimas furam meus sonhos. Sugo meu desejo<br />

pela vida, olho para lado e não o vejo, não a vejo. Lá de cima Deus berra comigo. Tão<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

alto que não consigo compreender. Então olho à minha frente... você poderia ser um<br />

raio de sol e trazer-me aquele sorriso. Poderia brilhar por um instante. Mas sumiu...<br />

todos sumiram. Será esta minha sina? Não tê-lo mais? Nunca mais? Como a chuva, as<br />

lágrimas caem do céu. Todo o belo está morto. Tudo que é belo morre.<br />

Agora estou levando, vou segurando... até você surgir de novo. Mesmo que<br />

abençoado por pecados. Segurarei sua mão e pelo corredor voltarei, voltarei com<br />

você.”<br />

Pan-noa levantou-se num pulo. Ainda chorava. Viu que Ing-mar ainda estava<br />

ao seu lado. Apertou-o contra o peito. “O que vamos fazer? O que poderemos fazer?”.<br />

Pela primeira vez na vida Pan-noa estava assustado, realmente muito assustado.<br />

- Sistema de Kalum Br em cinco, quatro, três, dois, um... agora. – Era tudo que<br />

Pan-noa não queria ouvir. Não naquele momento, não naquele estado. Um baque foi<br />

sentido devido à desaceleração da nave. Pan-noa levantou-se.<br />

- Kenn. Camuflagem total. Vamos seguir para Kalum Br e estacionar atrás da<br />

terceira lua.<br />

Durante o tempo em que a nave entrava no sistema e seguia em direção ao<br />

planeta, Pan-noa vestiu Ing-mar com uma roupa de batalha.<br />

- Devemos retomar nossa força Ing-mar. Vamos nos preparar.<br />

- Pan-noa. – Disse Ing-mar com um brilho nos olhos. – Eu conheci muitas<br />

coisas desde que eu nasci. Conheci poderes que você jamais sonharia e morei com um<br />

dos seres mais poderosos que você possa imaginar. Pan-noa, você é um ser especial,<br />

você tem que saber disso. Não é pelo fato de você ter mudado exteriormente que você<br />

vai virar algum tipo de aberração. Você tem um poder muito além do que imagina e<br />

não pense que vai ficar sozinho porque não vai. Aconteça o que acontecer eu estarei<br />

sempre ao seu lado.<br />

Pan-noa chorava. Como um ser tão minúsculo poderia passar-lhe tanta energia?<br />

Pan-noa segurava Ing-mar pelos ombros. Encarou-o com um olhar muito compenetrado.<br />

Então falou alto:<br />

- Kenn? Já estamos em posição?<br />

- Em alguns instantes.<br />

- Prepare o aerojet.<br />

Pan-noa levantou-se, olhou para cima e pensou. “É agora! Agora vou saber.”<br />

“ Contato via pérola-cubo com Be imediatamente!”<br />

A conexão demorou mas no instante seguinte Pan-noa ouviu uma voz muito<br />

fraca, quase um murmúrio aos seus ouvidos.<br />

“Pan?”<br />

Pan-noa caiu de joelhos. Lágrimas rolavam pela sua face.<br />

“Be ... é você ?”<br />

“Pan-noa. Você....você está vivo?”<br />

“Sim, Be sou eu... estou chegando Be.”<br />

“Pan-noa!” A menina estava em prantos.<br />

“Be, por favor, acalme-se. Eu preciso saber de uma coisa. Por favor Be, digame,<br />

meus pais Be... como eles estão?”


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Be demorou para entender a pergunta, afinal havia se passado mais de um ano<br />

e Be quase esquecera do incidente que salvara os pais de Pan-noa.<br />

“Seus pais? O que têm eles?”<br />

“Eles estão vivos Be? Por favor, diga-me!”<br />

“É claro que estão!”<br />

Pan-noa abraçou Ing-mar que não estava entendendo muita coisa do que se<br />

passava, mas tinha uma certa ideia tamanha a alegria estampada no rosto de Pan-noa.<br />

“Pan-noa, você está aí? Ei! Onde você está?”<br />

“Be, não tenho tempo para respostas. Estou localizando uma nave do Império<br />

em meus monitores. Vá para o castelo e avise meus pais. Estarei lá daqui a pouco.”<br />

- Kenn, escudos totais! Se tem uma nave do império por aqui é por que deve<br />

ter dado merda. Venha Ing-mar.<br />

Os dois entraram no Drakunum Maximatrya.<br />

A notícia de Be<br />

- Senhor, ouve um disparo da nave do Império atrás da terceira lua.<br />

- O quê? – Berrou Pan-Newe aterrorizado.<br />

Todo o comando de segurança de Kalum Br estava reunido no castelo. Estavam<br />

discutindo que posição tomar acerca da nova política externa agora que o Imperador<br />

sumira. Mas a notícia de que uma nave do Império atacou outra nave ou seja<br />

lá o que fosse dentro do sistema de Kalum Br era totalmente absurda!<br />

Pan-Newe imediatamente contatou com o Império.<br />

- O que pensam que estão fazendo?<br />

- Senhor – Disse a voz de um membro do Império. – Captamos um intruso<br />

em seu sistema. Estava totalmente camuflado mas conseguimos localizá-lo atrás da<br />

terceira lua. Creio que estava para atacá-los senhor. Tentamos contato mas não houve<br />

resposta. Não sabemos que tipo de nave é senhor. Depois do ataque houve deflagração<br />

de energia e a perdemos de vista. Ela pode ter explodido ou pode estar usando um<br />

parâmetro de camuflagem que não conseguimos captar.<br />

- Como se atrevem a disparar uma arma dentro de meu sistema? Vocês querem<br />

uma declaração de guerra contra o Império?<br />

- Senhor, ouvimos linguagem de batalha.<br />

Na sala de reuniões do castelo o comando mostrou-se perplexo. Todos estavam<br />

a ponto de apoiar a investida do Império. Larissa olhou para Pan-Newe desnorteada.<br />

Então ela fez algo que Pan-Newe não entendeu: simplesmente saiu da sala de reuniões.<br />

O comando ficou estarrecido, porém a reunião continuou com os ânimos exaltados.<br />

Pan-Newe, no entanto, só conseguiu pensar na última expressão de sua mulher.<br />

Algo realmente importante deveria ter acontecido para que ela saísse de uma reunião<br />

tão peculiar.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Larissa não acreditou na cara de Be. Ela estava sendo segurada por dois seguranças,<br />

em prantos. Be tinha conseguido entrar no castelo da maneira que Pan-noa lhe<br />

ensinara mas, ao tentar encontrar Larissa, foi achada pelos seguranças. Imediatamente<br />

mandou uma mensagem via pérola-cubo para Larissa. Era uma mensagem muito peculiar<br />

e importante. O suficiente para que Larissa saísse da reunião.<br />

- O que foi menina? – Disse Larissa aterrorizada com a cara de Be.<br />

- Ele voltou. Eu falei com ele!<br />

Larissa não teve tempo de pensar. Os seguranças soltaram Be quando Larissa<br />

abriu a sala de reuniões com um estrondo. Todos lá dentro olharam para ela.<br />

- A nave que o Império atacou era de seu filho, era de Pan-noa. – Disse Larissa<br />

angustiada.<br />

Ouve um silêncio mortal na sala de reuniões.<br />

Pan-Newe olhou seriamente para Larissa e leu em seus olhos que aquilo era<br />

verdade. Olhou para fora da sala e viu que Be estava de pé esperando. A menina havia<br />

dado a notícia. Típico de Pan-noa.<br />

- Capturem a nave do Império. – Disse Pan-Newe. – Varredura total no sistema<br />

de Kalum Br. Não atirem em nada. Apenas localizem qualquer nave que esteja nos<br />

arredores.<br />

A resposta veio imediatamente.<br />

- Senhor, estamos sendo atacados. Uma pequena nave acabou de penetrar nos<br />

escudos do planeta! Senhor, ela está vindo em direção ao castelo! Como ela conseguiu!<br />

Ouviu-se alguns disparos nos arredores do castelo.<br />

- Não atirem! – Gritou Pan-Newe. – Todos para fora! Vamos.<br />

Uma multidão de guardas esperava nos jardins do palácio. Todos com as armas<br />

apontadas para a pequena nave que fazia manobras para pousar.<br />

Pan-Newe saiu pela porta da frente seguido de Larissa, Be e todo o comando<br />

de segurança do sistema de Kalum Br. Quando a nave ficou visível por entre os ofuscantes<br />

raios solares, Pan-Newe mandou a guarda abaixar as armas.<br />

A carenagem do Drakunum Maximatrya abriu-se e, após um instante que demorou<br />

horas para todos os presentes, duas pequenas cabeças se levantaram. Pan-noa<br />

desceu, deu a volta pelo aerojet e tirou do outro lado um pequeno menino. Os dois<br />

andaram de mãos dadas em direção à porta do palácio. Pan-noa e um ser na altura de<br />

seu ombro.<br />

Quando estavam há uns trinta metros de distância os dois pararam.<br />

“Pai, mãe. Não se assustem, sou eu mesmo.” Disse Pan-noa através da pérolacubo.<br />

“E este que está comigo é Ing-mar, filho de Schaia III.”<br />

Ninguém se mexia. Nem Pan-Newe nem Larissa conseguiam acreditar que<br />

aquele ser quase divino segurando a mão de um outro quase tão divino quanto ele<br />

poderia ser seu filho. Então Pan-noa olhou para Be. Na mesma hora Be entendeu.<br />

Entendeu que aquele era Pan-noa, o mesmo Pan-noa de seu sonho. Be deu um passo<br />

à frente, passou por Pan-newe e por Larissa e saiu correndo em direção a Pan-noa.<br />

Quando estava a um passo dele parou. Olhou-o assustada.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- O que fizeram com você, Pan-noa?<br />

Pan-noa olhou para Ing-mar e os dois sorriram. Naquele sorriso Larissa viu seu<br />

filho. Era realmente Pan-noa.<br />

Be abraçou-o. Larissa e Pan-newe vieram a passos largos na direção deles.<br />

Todo o castelo estava em silêncio.<br />

Quando os dois chegaram, viram que de algum modo aquele era realmente<br />

Pan-noa. Demoraram-se um pouco, mas depois abraçaram o menino.<br />

Ing-mar olhava para tudo aquilo um pouco deslocado, mas quando Pan-newe<br />

e Larissa soltaram Pan-noa no chão, Pan-noa olhou para Ing-mar e depois olhou para<br />

os pais.<br />

- Bem, acho que vocês devem acostumar-se ao meu novo amigo. Ele vai morar<br />

aqui com a gente.<br />

O comandante da segurança estava logo atrás de Pan-newe. Pan-noa passou<br />

por ele e disse:<br />

- Existe todo um relatório no meu aerojet. O transuniverso imperial está a<br />

salvo atrás da lua de Brics, o oitavo planeta. Ele ficará estacionado na nossa órbita e<br />

ninguém deve ter nenhum contato com a nave até que eu decida o que fazer.<br />

Pan-newe estava impressionado com o filho. Olhou para o comandante e fez<br />

que sim com a cabeça.<br />

Pan-noa entrou no castelo com seus pais, Be e um extremamente impressionado<br />

Ing-mar.<br />

Parecia que Pan-noa nunca estivera ali antes. Não que o castelo estivesse mudado,<br />

mas só agora Pan-noa dava-se conta de que sua visão do mundo mudara. Foi<br />

só olhando um ambiente familiar que Pan-noa notou as alterações em sua capacidade<br />

cerebral. Conseguia sentir o mundo de uma forma que nem mil pérolas-cubo conseguiriam.<br />

“Será que eu já estava com esse poder ou só agora que tudo, ou quase tudo,<br />

acalmou-se é que veio à tona?”<br />

Então algo surgiu em sua mente. “As coisas vão vir lentamente.” Era Ing-mar<br />

respondendo. “Deus, isso não vai parar nunca?” Pensou Pan-noa preocupado.<br />

“Não, na verdade nem começou.” Olhou para Ing-mar e notou com espanto<br />

que não era ele que havia dado essa resposta. Tocou seu peito e sentiu as quatro esferas<br />

dentro de sua roupa de batalha.<br />

O Império diante de Ing-mar<br />

“Agora sim vai ser uma cagada do caralho.” Pensou Pan-noa enquanto caminhava<br />

ao lado de Ing-mar pelo longo corredor.<br />

Pan-noa tentava se lembrar de quando tinha chegado a Kalum Br, não mais que<br />

três meses atrás. Todos sentaram na sala principal do palácio. Sua família, Be, Ing-mar<br />

e todo o corpo da segurança de Kalum Br, além dos generais do Império interligados<br />

pelas teles.<br />

Lembrou-se da cara engraçada dos generais do Império quando a morte de<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Schaia III foi transmitida e do completo estarrecimento ao saberem que aquela figura<br />

ao seu lado era filho do Imperador morto. Era óbvio que ninguém queria acreditar.<br />

“Nem meu pai acreditou”. Pensou Pan-noa.<br />

Para provar, foram mandadas amostras de sangue de Ing-mar para todos os<br />

planetas. Os traços da família imperial estavam lá, mas e o resto? O que eram aquelas<br />

outras infinitas linhas misturadas ao sangue da criança e que, por sinal, não davam<br />

indicação nem do sexo da criatura. Era natural que o Império se inquietasse diante<br />

deste fato. Na verdade, seria natural se o Império ficasse alarmado.<br />

Depois de muitas discussões foi convocada uma reunião, uma reunião sem<br />

precedentes na história do Império.<br />

Todos queriam saber o que estava acontecendo com o Império, afinal, primeiro<br />

o Imperador Schaia III resolve cortar o suprimento de energia dos Extuárticos deixando<br />

todos os planetas isolados, depois apenas as naves do Império trafegavam em espaços<br />

de dobra por terem seus próprios Extuárticos aprisionados em não salas. Então<br />

Schaia III desaparece deixando seus generais perdidos e com uma crise em potencial<br />

nas mãos. Para piorar, chega a todo o Império a notícia de que Schaia III está morto e<br />

seu filho, que aparenta ter de quatro a quinze anos conforme o ângulo que você olha,<br />

aparece assim, sem mais nem menos, junto com o príncipe de Kalum Br para quem,<br />

ninguém consegue olhar sem ser hipnotizado diante de tamanha beleza. O Império<br />

estava insatisfeito com tudo isso e não era para menos. Ninguém dava respostas coerentes,<br />

ninguém acreditava nos fatos novos, haviam boatos de que Kalum Br inventara<br />

tudo aquilo para tomar o poder do Império e, o pior, o que mais deixava todos alarmados,<br />

o transporte de energia, de produtos e de pessoas. Onde estavam os Extuárticos?<br />

Então resolveram, finalmente, diante dos fatos, fazer uma reunião. Havia,<br />

porém, um pequeno problema. Como fazer a reunião?<br />

A questão era muito simples. Como iriam resolver o problema de transporte?<br />

Afinal, sem os espaços de dobra, as viagens entre os sistemas seriam impossíveis.<br />

Não havia possibilidade de reunião alguma se os membros da reunião não pudessem<br />

comparecer.<br />

Pan-noa caminhava contendo o riso. Ing-mar olhava para ele quase rindo também.<br />

“Chegou o dia. Conseguimos provar. Finalmente eles estavam lá, todos os representantes<br />

do maldito Império.”<br />

De alguma forma, naquele dia, eles estavam lá. Estavam reunidos em uma lua<br />

do sistema Kalum br. Representantes de todo o Império. Eram, talvez, milhões de pessoas<br />

reunidas, todas enlouquecidas para saber quem reabrira o espaço interno, quem<br />

fizera um novo pacto com os Extuárticos e quem conseguira fazer a dobra no espaço<br />

novamente. Quem afinal conseguira tal milagre?<br />

Uma imensa porta abriu-se no final do corredor. Pan-noa podia ouvir o murmúrio<br />

das pessoas diminuindo à medida que olhavam para as portas e viam surgir<br />

duas pessoas. As portas fecharam-se logo atrás de Ing-mar e Pan-noa. O silêncio era<br />

estarrecedor. Teles gigantescas estavam espalhadas por todo o local. Praticamente a<br />

lua inteira fora transformada em uma sala de reuniões. E agora, no centro de tudo e<br />

de todos, sobre um palco pequeno e arredondado estavam dois seres vestidos apenas


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

com roupas de batalha. Era uma cena realmente absurda. Representantes do mais alto<br />

escalão de milhares, talvez milhões de planetas, estavam aqui para ver duas crianças?<br />

Tanto Ing-mar quanto Pan-noa resolveram modificar seus corpos da melhor<br />

maneira possível. Modificaram-se criando a ilusão de que eram apenas duas crianças.<br />

Realmente a impressão causou desagrado. Todos começaram a comentar. “Então é<br />

isso... é por isso que viemos? É esse o motivo da reunião? Onde está o tal imperador?”<br />

Ing-mar deu um passo à frente e perguntou, com uma voz tão meiga quanto a<br />

cara que agora ele resolvera assumir:<br />

- Como vocês vieram? – Sua voz soou aos ouvidos de cada indivíduo no local<br />

e dos que estava assistindo ao vivo a transmissão. Pan-noa abaixou a cabeça para não<br />

rir. A multidão calou-se. O Império calou-se.<br />

Uma bolha imensa, transparente e cheia de líquidos coloridos começou a descer.<br />

A bolha parou logo acima da cabeça dos dois. Dentro dela havia um filhote de<br />

Extuártico.<br />

- Reconhecem isso? – Perguntou Ing-mar. – Se alguém quiser comercializar<br />

energia com eles, pode fazê-lo. Agora!<br />

Ninguém se mexeu.<br />

- Agora que provei que posso fazer um novo pacto com os Extuárticos, posso<br />

provar que sou filho do Imperador Schaia III. E que pelo fato dele estar morto, sou<br />

o novo Imperador. Se alguém tiver alguma objeção, o pacto com os Extuárticos será<br />

desfeito imediatamente. Se o problema do Império era este, está resolvido.<br />

Ninguém sequer respirava. O Extuártico deu uma cambalhota engraçada dentro<br />

da bolha.<br />

Alguns instantes se passaram. Pan-noa estava voltando à sua forma normal e<br />

Ing-mar começara a crescer diante de um público cada vez mais alarmado.<br />

Agora o que se via era um ser semidivino, algo que ninguém entendia mas que<br />

parecia um ser semidivino e um Imperador tão pequeno e tão grande que estava difícil<br />

de decidir.<br />

Mas o que mais assustava a todos era o poder demonstrado por aqueles dois<br />

ali, diante de todo o Império. Ninguém conseguia falar. E ainda um Extuártico brincando<br />

dentro de sua bolha. Um Extuártico! Algo que ninguém via desde que Schaia<br />

III enlouquecera.<br />

Então Ing-mar, cansado de esperar, disse:<br />

- Se não há nenhuma objeção, devo retirar-me. A nova sede do Império será<br />

em Kalum Br. A todos vocês, uma boa viagem de volta.<br />

O Extuártico deu mais duas cambalhotas engraçadas e disse no tradutor de sua<br />

bolha:<br />

- Obrigado por voarem com os Extuárticos.<br />

A bolha foi recolhida assim que Ing-mar e Pan-noa entraram no corredor de<br />

novo. Quando as portas fecharam-se atrás deles os dois se abraçaram e quase caíram<br />

no chão de tanto rir.<br />

- Bem se era para foder, nós fodemos com tudo.<br />

- Agora é esperar o resultado.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mas então os dois olharam-se seriamente. Parecia que o momento da brincadeira<br />

havia explodido em mil pedaços. Uma névoa preta parecia ter passado pelos<br />

dois e a consciência dos fatos veio à tona. “Será que temos noção do que fizemos?<br />

Podíamos ter interferido desta maneira em nossa raça?” Continuaram a andar pelos<br />

corredores, agora um pouco assustados com seus atos.<br />

“O mesmo corredor em que eu te perdi. O mesmo em que Deus gritou comigo,<br />

só que desta vez sem saídas, sem portas ao desconhecido.” Pan-noa estava percebendo<br />

seu novo mundo de uma maneira que não queria.<br />

Das leis dos círculos superiores para os inferiores<br />

Lei universal<br />

Quando um círculo superior prontifica-se a cooperar com uma determinada<br />

espécie de um círculo inferior para que esta evolua, é imprescindível que a evolução<br />

tenha sucesso, não importa o tempo que leve.<br />

Caso a tentativa de evolução seja abalada, o círculo superior responsável deve<br />

interferir na espécie.<br />

É inaceitável a existência de indícios de intolerância entre membros da mesma<br />

espécie enquanto estiverem passando por um processo evolutivo. Se isto ocorrer os<br />

membros inferiores da espécie devem ser dispensados, dando chance para que os superiores<br />

da sua espécie continuem a evolução.<br />

Sobre os Antes e os Não Antes<br />

De todos os círculos, o mais difícil de lidar é o dos Antes. Isso se justifica pelo<br />

apego que eles têm à matéria.<br />

Quando o círculo dos semidivinos tem contato com os Antes, fornecendo informações<br />

para que estes evoluam, surge, na maioria das vezes, os Não Antes. Seres<br />

semidivinos que, para os Antes, aparentam ser divinos. Carregam instintos e até mesmo<br />

poderes fornecidos pelos semidivinos.<br />

O momento mais perigoso neste tipo de evolução é que os Não Antes misturam<br />

e confundem os instintos fornecidos pelos semidivinos com seus próprios instintos de<br />

Antes. As consequências são, quase sempre, dramáticas e catastróficas. Quando isso<br />

acontece o círculo de responsabilidade deve recorrer à lei universal.<br />

Se os Não Antes possuírem poderes para quebrar a lei universal a evolução<br />

pode entrar em colapso. Assim, o círculo responsável pode regredir de nível e o processo<br />

evolutivo universal regredirá uma era.<br />

A evolução não pode ser parcial. Se for, a catástrofe é comparável à das esferas<br />

do esquecimento.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

O impacto de Pan-Newe<br />

A fúria do pai era visível. Pan-noa podia perceber claramente apesar de Pan-<br />

Newe tentar aparentar descaso. Enquanto os cabeças do sistema de Kalum Br estavam<br />

presentes à reunião no castelo, Pan-Newe olhava com o canto dos olhos para Pan-noa<br />

e Ing-mar que estavam entretidos em conversas particulares, totalmente alienados ao<br />

que estava acontecendo na reunião. Ing-mar era uma incógnita para Pan-Newe. Na<br />

verdade Pan-noa era uma incógnita maior ainda. Pan-noa percebia que o pai queria<br />

saber o que realmente estava acontecendo. Eles podiam ter enganado o Império inteiro<br />

mas a Pan-Newe não.<br />

Quando os chefes políticos, os dirigentes das luas e planetas próximos e sobretudo<br />

os miliciantes saíram da sala de reuniões Pan-Newe voltou-se para Pan-noa<br />

e Ing-mar.<br />

- Então essa foi a reunião? – Pan-Newe referia-se à reunião do Império inteiro,<br />

aquela que todos os meios de comunicação traduziram como o maior milagre já ocorrido<br />

desde a queda de Marlontres.<br />

- Era isso que vocês estavam querendo fazer? Tornarem-se astros? – De fato,<br />

logo após a reunião todo e qualquer jovem do Império resolvera adotar as vestimentas,<br />

cabelos, atitudes e tudo o que podia ser copiado de Pan-noa e Ing-mar. Pan-noa<br />

abaixou a cabeça para não rir. Será que nem seu próprio pai desconfiava?<br />

Aparentemente não. Pan-Newe parecia estar muito preocupado que o filho e<br />

esta coisa que o acompanhava para cima e para baixo tivessem logrado o Império<br />

inteiro. Pan-noa leu este pensamento do pai.<br />

- O senhor não vê que todo o Império está voltando a ter transporte de novo?<br />

– Perguntou Pan-noa meio constrangido por ter lido o pensamento do pai.<br />

Era verdade. Pan-Newe teve que admitir que os dois haviam feito um novo<br />

pacto com os Extuárticos e que os planetas de todo o Império estavam, miraculosamente,<br />

interligados novamente.<br />

- Muito bem. Como vocês conseguiram?<br />

- Eu não consegui nada. – Disse Pan-noa. – Foi ele. – Apontou alegremente<br />

para Ing-mar como se estivesse culpando-o de algo terrível.<br />

Ing-mar, até agora de cabeça baixa, quando viu que a coisa era com ele, levantou-se<br />

como se levasse um enorme susto e disse:<br />

- Eu?<br />

Pan-noa começou a rir. Mas Pan-Newe não estava acreditando nesta atitude.<br />

- Como vocês podem brincar com algo tão sério? Pan-noa, por favor, uma<br />

única vez, me diga a verdade.<br />

Pan-noa olhou para o pai de uma maneira que Pan-Newe teve que desviar os<br />

olhos. “O que era aquilo? Seria Pan-noa mesmo?”<br />

- Muito bem. Vou lhe contar um segredo. Não sabemos se fizemos a coisa<br />

certa ou errada. Seguimos nossos instintos.<br />

Pan-Newe sentou-se, ou melhor, caiu numa cadeira como se tivesse levado<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

uma pancada.<br />

- Não, não é o que você está pensando.<br />

- Como sabe o que eu estou pensando? Minha pérola-cubo é intangível.<br />

- Eu apenas sei, pai. – Continuava Pan-noa. – Veja, olhe bem para mim. Você<br />

sabe que sou seu filho, não é? Mas sabe apenas por uma razão: você sente isso. Porque<br />

se fosse pela minha aparência... eu não seria. Acontece que uma parte, talvez uma<br />

grande parte de mim não seja mais seu filho. – Ing-mar olhou assustado para Pannoa.<br />

“Pelos cristais ele vai contar!” Pan-Newe olhou estarrecido. “O que ele está dizendo?.”<br />

– Ótimo já que consegui sua atenção, vou contar alguns pedaços da minha<br />

viagem que achei melhor deixar para uma outra ocasião. E a ocasião é esta. Kenn?<br />

- Sim Pan-noa. – Disse a voz da nave ainda estacionada na órbita de Kalum br.<br />

- Lembra daquelas passagens da viagem que não deviam ser mostradas para<br />

ninguém?<br />

- Sim Pan-noa.<br />

- Mande-as em código para minha pérola-cubo.<br />

Pan-noa decodificou as mensagens e começou a passar para Pan-Newe com<br />

todos os detalhes possíveis e com as imagens secretas em uma tele. Então Pan-Newe<br />

ficou sabendo como Pan-noa encontrou-se com a Deusa, como fizeram a Andróida<br />

Andrógina, como Pan-noa fora até o Planeta Azul, como teve contato com o sangue<br />

da Andróida Andrógina e como isso o transformara em um ser que já não era mais um<br />

humano e como os poderes de Pan-noa expandiam-se a cada dia que passava.<br />

Mostrou então tudo sobre Ing-mar, que tipo de ser era, apesar de Pan-Newe já<br />

ter uma vaga ideia graças ao livro de Schaia III, “O Mago de Prata”. Mas pela expressão<br />

de Pan-Newe ou ele não lera o livro ou não acreditara em nada do que estava<br />

escrito nele.<br />

- Ele é um ser como eu. – Explicou Pan-noa para o pai. – Uma espécie em<br />

mutação forçada. Ele já não é mais um humano, assim como eu e assim como eu, ele<br />

tem poderes além dos poderes humanos. Se estamos juntos é porque o destino nos fez<br />

estar juntos. E depois dessa viagem, se tem uma coisa na qual eu comecei a acreditar<br />

é no destino.<br />

Ing-mar olhava para Pan-Newe com uma interrogação nos olhos: “Ei e agora:<br />

o que você acha de mim?”. Mas, Pan-Newe, na medida do possível, não se deixou<br />

abalar.<br />

- Mas então, o que vocês fizeram nesta reunião? – Pan-Newe ainda não conseguia<br />

acreditar que o filho se transformara em algo não humano. Deveria ser mais um<br />

de seus truques.<br />

- Foi simples! – Disse Pan-noa feliz por o pai aceitar tão “bem” sua nova<br />

identidade. – Nós sabíamos que o quê o Império mais necessitava no momento era a<br />

reintegração entre os planetas. Sabíamos que o senhor, assim como outros de vários<br />

planetas, pretendiam implantar, através de outro tipo de energia, eram os espaços<br />

de dobra. Mas sabíamos que era uma energia muito cara e que deveriam ser feitas<br />

coligações entre antigos inimigos para que a energia fosse viável. Iria levar tempo e<br />

dinheiro.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Bem, Ing-mar aqui, - Pan-noa tocou no ombro de Ing-mar mostrando muito<br />

orgulho do novo amigo – sabia como fazer contato com os Extuárticos. Como? Nem<br />

eu sei. Isso é um segredo da família dele. O fato é que os Extuárticos não aguentavam<br />

mais viver no mundo interior. Na verdade, sem o contato com o mundo exterior eles<br />

logo logo iriam morrer. Então Ing-mar fez um novo pacto com o Extuárticos, exatamente<br />

o que o Império e os Extuárticos mais queriam. Convocamos a reunião para<br />

deixar bem claro a todos os membros do Império que temos o poder para viabilizar os<br />

espaços de dobra com a ajuda dos Extuárticos e proclamamos Ing-mar Imperador!<br />

Pan-Newe pensava. Depois de algum tempo falou com uma expressão muito<br />

compenetrada.<br />

- Pan-noa, você poderia ter provado o grande valor do nosso novo Imperador<br />

demonstrando que os Extuárticos estavam liberados; que os espaços de dobra foram<br />

feitos graças a um novo pacto celebrado por ele de outra forma. Eu quero saber o<br />

porque desta maldita reunião!<br />

- Mas pai! – Disse Pan-noa fingindo-se estericamente ultrajado – O Império<br />

queria conhecer o novo Imperador! Eles pediram a reunião!<br />

- Vocês estipularam que essa reunião seria a única alternativa para que o Império<br />

conhecesse o novo Imperador. E por que uma reunião dessa magnitude durou<br />

apenas dois minutos?<br />

- Cinco minutos! – Disse Ing-mar fingindo-se perplexo.<br />

Pan-Newe nem olhou para o menino que sorria. Continuou olhando para Pannoa.<br />

- O que vocês fizeram?<br />

Pan-noa abaixou a cabeça e percebeu que não havia maneira de enganar o pai.<br />

Ergueu a cabeça e falou:<br />

- E se eu te contar a verdade? O que o senhor fará?<br />

- Se cometeram algum erro, ele poderia ser revertido?<br />

- Não, já está feito. Não tem retorno.<br />

- Pois bem, guardarei segredo. Mas eu preciso saber a verdade. Preciso me<br />

preparar caso hajam represálias.<br />

- Se houver represálias, nós nos responsabilizaremos. – Disse Pan-noa olhando<br />

para um Ing-mar sério.<br />

- Meu Deus! – Disse Pan-Newe olhando para Ing-mar. – Ele cresceu de uma<br />

hora para outra.<br />

- São os poderes dele pai. - Pan-noa olhou para baixo de novo. – Bem, depois<br />

da minha transformação, comecei a perceber que tinha mais poderes, mais do<br />

qualquer pérola-cubo poderia sequer sonhar em me dar. Comecei a dominar este meu<br />

novo corpo que, por algum motivo que ainda não sei, pode mudar de um sexo para o<br />

outro num piscar de olhos. – Nesse momento Pan-Newe ficou branco. – Acho que há<br />

alguma conexão com algo que está para acontecer com a humanidade.<br />

- Meu Deus. – Disse Pan-Newe preparando-se para o pior.<br />

- Durante os primeiros dias em que estivemos aqui, – Continuou Pan-noa. –<br />

tanto eu quanto Ing-mar tivemos ideias. Essas ideias manifestavam-se ao acaso, mas<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

sempre tínhamos as ideias em conjunto, como se alguém nos ditasse. Concluímos que<br />

tudo o que pensássemos ou sonhássemos em conjunto, deveríamos botar em prática.<br />

A primeira ideia foi a reunião do Império. O pior veio depois.<br />

- O pior! Existe coisa pior ainda! – Pan-Newe estava estarrecido.<br />

- Bem. Ing-mar notou que os Extuárticos estavam loucos para sair do espaço<br />

interno, então propôs um novo pacto. Os Extuárticos deveriam fazer os espaços de<br />

dobra de dentro das naves. Cada nave indicada pelo Imperador Ing-mar deveria ter um<br />

Extuártico para poder navegar entre os sistemas.<br />

- Vocês estão loucos? Para que tudo isso?<br />

- Assim cada nave teria seu próprio centro de energia para viagens extra sistemas.<br />

Então os Extuárticos foram mandados, junto com as naves, para todos os membros<br />

que deveriam estar na reunião do Império. Mais uma parte do acordo era que<br />

cada Extuártico em nave do Império deveria ser carregado com uma centena de certas<br />

linhas do meu sangue. Assim, todos que navegassem com os Extuárticos receberiam,<br />

de uma maneira que não posso revelar, uma parte do meu sangue, contaminando cada<br />

ser humano na nave. Isso faria com que esses seres humanos, em contato com o meu<br />

sangue, gerassem, a partir daquele momento, seres como eu e Ing-mar.<br />

Pan-Newe estava encostado na cadeira. Seu olhar era vago, suas feições estavam<br />

brancas e seus lábios ficando roxos. Pan-noa foi até o pai e o sacudiu na cadeira.<br />

- Pai? O senhor está bem?<br />

- Ele está entrando em colapso. – Disse Ing-mar.<br />

Porém a pérola-cubo na testa de Pan-Newe resolvera fazer o trabalho sozinha.<br />

Pan-Newe tomou ar como se tivesse acabado de retornar do fundo de uma piscina.<br />

Ainda levou algum tempo para que o pai de Pan-noa se recuperasse totalmente. Então<br />

ele olhou para Pan-noa e para Ing-mar.<br />

- Pelo menos vocês sabem o propósito de tudo isso? Sabem por que vocês vão<br />

modificar essas pessoas?<br />

Agora Ing-mar falou. Pan-Newe nunca tinha conversado direito com Ing-mar.<br />

Para ele, Ing-mar não passava de um brinquedo que Pan-noa tinha trazido de viagem.<br />

Mas agora Pan-Newe estava confuso, era realmente uma criança que falava com ele?<br />

- Nós escolhemos fazer a mudança primeiro com os filhos das pessoas mais<br />

importantes de cada sistema ou planeta. Assim a rejeição de um ser Andrógino seria<br />

menor. Socialmente falando.<br />

- Socialmente falando! – Repetiu Pan-Newe olhando para Ing-mar estarrecido<br />

– Isso significa que vocês não vão apenas mudar os próximos filhos dos dirigentes dos<br />

outros planetas, mas sim a humanidade inteira?<br />

- Foi o que nós entendemos dever ser feito segundo nossos instintos, - disse<br />

Ing-mar da maneira mais natural possível.<br />

- Seus instintos? – Pan-Newe olhava para o menino querendo matá-lo.<br />

- Pai, ele é o Imperador, lembra-se?<br />

Pan-Newe agora olhou para Pan-noa furioso. Não aguentou mais. Deu as costas<br />

para os dois e saiu da sala.<br />

Ing-mar olhou para Pan-noa.


Marcelo Paciornik<br />

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- O que nós temíamos acabou de ser demonstrado. A intolerância entre as raças<br />

vai ser grande.<br />

- Acho que está na hora de começarmos a pensar em sair de Kalum Br por um<br />

tempo. Não sei se meu pai acredita que sou mesmo seu filho.<br />

- É, acho que fodeu.<br />

- Isso não é coisa para um Imperador dizer Ing-mar!<br />

- Mas é verdade! Acho que fodeu mesmo.<br />

- Sabe o que mais me preocupa? – Perguntou Pan-noa.<br />

- O quê?<br />

- É que eu não tenho a mínima ideia do por quê fizemos isto tudo.<br />

Ing-mar parou para pensar e disse.<br />

- Sabe que eu também não?<br />

Be estava com muito medo. Olhava para a imensa janela do transuniverso<br />

imperial e via ao longe o planeta em que nascera. Nunca tinha feito uma viagem fora<br />

do sistema de Kalum Br e nunca imaginou que a faria naquela situação. Pan-noa e<br />

Ing-mar ainda não tinham parado no lugar. Corriam como loucos pela sala de controle<br />

da nave. Faziam todo o tipo de contatos. Contatos que Be não fazia ideia do que eram.<br />

Mas parecia ser coisa importante, afinal não se tornara Ing-mar o Imperador? “O Imperador.”<br />

Pensou Be. “Aquela coisa minúscula. Um toco de gente, um menino de fato<br />

lindo, talvez o mais lido menino que eu já vi.” Olhou perplexa para Pan-noa entretido<br />

em uma comunicação. “Sem contar Pan-noa, é claro. Como pode existir alguém assim?”<br />

Be olhou-se no espelho. Ela também era muito bonita, mas o que faltava para<br />

ficar com aquela aura que Pan-noa e Ing-mar tinham?<br />

- Vocês precisam de ajuda? – Perguntou Be para os dois.<br />

- Não obrigado Be. Estamos quase concluindo, só mais alguns ajustes e estaremos<br />

prontos!<br />

- Prontos para que Pan-noa? Você me trouxe aqui sem falar nada. Não que eu<br />

esteja com medo...<br />

- Assuntos do Império Be, mas logo você saberá de tudo, logo estará tudo<br />

acabado e nós vamos viajar!<br />

- Viajar? Mas e... e a escola?<br />

- Escola? – Perguntou Pan-noa. – Desde que criamos as pérolas-cubo não precisamos<br />

mais das escolas. Elas só servem para a socialização e, para onde estamos<br />

indo, teremos as melhores aulas de socialização que se possa ter. Ei Ing-mar! E os<br />

micro produtores?<br />

- Estão prontos. Este pessoal do Império é mesmo eficiente! É só eu pedir e<br />

eles fazem!<br />

- É sensacional! – Disse Pan-noa eufórico.<br />

Be olhava assustada para os dois que não paravam de trabalhar. “Eles parecem<br />

estar fora de si.”<br />

Depois de algum tempo os dois finalmente se olharam.<br />

- Acho que é isso, não é? - Perguntou Pan-noa.<br />

- Eu nem acredito que fizemos tão rápido. – Disse Ing-mar.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Posso saber o que está havendo Pan-noa?<br />

- Sim. Pode! Kenn, por favor leve-nos ao sistema Goldame-ír.<br />

- Goladame-ír? – Interrogou Be assustada.<br />

A nave começou a virar no espaço. O planeta Kalum Br já não podia ser visto.<br />

Be sentiu uma leve força para trás. A nave começara a entrar em velocidade galaxial.<br />

Logo depois a voz de Kenn soou nos ouvidos dos três.<br />

- Entrando no espaço de dobra em cinco segundos.<br />

- Ah! Nada como ter nosso próprio Extuártico. – Disse Pan-noa.<br />

Quando entraram em velocidade de dobra Be perguntou:<br />

- Por que estamos indo ao sistema mais central do Império Pan-noa? Porque<br />

estamos a caminho de Goldame-ír?<br />

- Bem, a explicação não é tão simples quanto parece. Já tomei um puta esporro<br />

de meu pai quando contei a ele o que eu e Ing-mar estávamos fazendo. Vamos ver se<br />

você aceita melhor está bem?<br />

Be olhou seriamente para Pan-noa e para Ing-mar. “Não é possível que os dois<br />

estejam fazendo algo muito ruim, é? É óbvio que o pai de Pan-noa, enquanto rei do<br />

sistema Kalum Br, deveria ficar preocupado com alguma coisa que Pan-noa pudesse<br />

ter feito. Mas eles estavam ali com uma nave do sistema do pai dele, então provavelmente<br />

ele deveria estar sabendo, não deveria?”<br />

- Não. – Respondeu Pan-noa. – Não sabe. Na verdade nós roubamos a nave<br />

e fugimos porque sabíamos que meu pai nunca me deixaria fazer o que vou fazer,<br />

mesmo que Ing-mar pedisse. Não é mesmo Ing-mar?<br />

- Nem a pau. – Disse o menino.<br />

- Mas Ing-mar é o Imperador! Ele tem poderes sobre tudo!<br />

- Não para isso Be. Se meu pai não deixasse eu fazer, Ing-mar não conseguiria<br />

fazer sozinho. E, de qualquer maneira, assim é bem mais divertido.<br />

- Divertido? Mas afinal o que vocês estão aprontando? – Be estava ficando<br />

realmente muito assustada. “Roubar um transuniverso imperial!”<br />

Pan-noa olhou para Ing-mar.<br />

- Conte você. – Disse Ing-mar meio mal-humorado. – Ela é sua namorada.<br />

Pan-noa olhou para Be e só agora percebeu que não tivera tempo para ela<br />

desde que chegara. Sentou-se ao seu lado, abraçou-a e beijou-a profundamente. Be<br />

sentiu um arrepio na espinha. Sentiu algo realmente bom. O beijo de Pan-noa estava<br />

diferente. Ele estava diferente. “É óbvio que ele está diferente!” Tinha algo a mais,<br />

um calor. Um desejo fulminante subiu pelo corpo de Be. Então Pan-noa afastou-se<br />

um pouco.<br />

- Acho que antes de mais nada preciso te contar algumas coisas.<br />

Be balançou a cabeça não só fazendo que sim, mas fazendo um gesto que<br />

significava muito mais. Um gesto que dizia “Sim meu querido, eu vou compreender<br />

qualquer coisa.”<br />

Pan-noa contou a Be toda sua viagem desde quando saiu de Kalum Br e as<br />

imagens que Kenn gerava para ilustrar eram fantásticas. Obviamente ficou muito<br />

insatisfeita quando soube que fora traída por Pan-noa com uma menina guerreira,


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

mas quando a história começou a ficar mais crítica, quando o Mago de Prata morreu,<br />

quando a Andróida Andrógina morreu, quando a irmã gêmea de Ing-mar morreu,<br />

quando a menina guerreira morreu junto com Lainoriel, quando Schaia III morreu. “ E<br />

de que forma!” Quando Pan-noa começou a mudar e a ficar parecido com aquilo que<br />

chamavam de Deusa e com o próprio Mago de Prata a coisa começou a mudar na cabeça<br />

de Be. A história que Pan-noa relatava estava ficando séria demais. Be começou<br />

a se interrogar se estava no lugar certo e com as pessoas certas. Olhou para Pan-noa e<br />

pensou. “Meu Deus ele já não é mais um humano!”<br />

Pan-noa parecia ter lido a mente de Be, mas ainda tinha esperança na menina.<br />

Então continuou.<br />

- Agora temos uma questão muito peculiar, Be. Temos uma certa quantidade<br />

de membros importantes do Império que gerarão filhos com uma centena de linhas<br />

a mais no sangue, linha esta derivada da Deusa daquele planeta, passada para a Andróida<br />

Andrógina e depois para mim. Assim, esses seres terão essa nova essência, isto<br />

é, eles nascerão nesta forma nova. - Disse isso apontando para seu próprio corpo.<br />

- E o que isso quer dizer exatamente Pan-noa?<br />

- Quer dizer que a humanidade começará a passar por uma mudança drástica.<br />

Irá evoluir para esta nova forma.<br />

Be pensou por um instante.<br />

- Bem. – Disse ela dando de ombros. – Eu acho teu novo visual fantástico<br />

Pan-noa. Sei que você está ganhando poderes acima do normal a cada dia que passa<br />

mas isso tem alguma razão especial de ser, quero dizer, se a humanidade não evoluísse<br />

da maneira forçada que vocês estão querendo, não iria ter que evoluir de algum outro<br />

modo?<br />

Pan-noa não tinha resposta para isso. Na verdade fizera a mesma pergunta a<br />

Ing-mar. “Eu não tenho a mínima ideia do por quê de estarmos fazendo tudo isso.”<br />

Mas disse a Be o que dissera a seu pai:<br />

- Não sei ao certo o por quê de estarmos fazendo isso. Estamos apenas seguindo<br />

nossos instintos. – Mas alguma coisa havia mudado no pensamento de Pan-noa.<br />

Alguma coisa estava errada. Algo que ele deveria investigar sozinho.<br />

Be notou a preocupação no rosto do menino. Abraçou-o e disse:<br />

- Pan-noa, depois de tudo o que você me contou, estou certa de que o que está<br />

fazendo tem realmente alguma razão, tanto para você como para Ing-mar e também...<br />

bem, para a humanidade. – Ela ficou um pouco preocupada com esta frase. “Será que<br />

eu estou falando da humanidade inteira?” – E estarei com você. A única coisa que<br />

quero saber agora e que você não me contou é por que nós estamos indo para o centro<br />

do Império. Por que Goldame-ír?<br />

- Você falou tudo Be. – Disse Pan-noa sorrindo. – Por que lá é o sistema mais<br />

central do Império e, praticamente, o centro do universo conhecido. Estamos com<br />

um carregamento imenso de micro naves trans universais, cada uma com um micro<br />

Extuártico e todas elas carregadas com o concentrado das linhas do meu sangue que<br />

gerarão os seres Andróginos do futuro. Vamos impregnar a atmosfera de cada planeta<br />

conhecido no mapa do Império com a essência. Assim, não só os filhos dos dirigentes<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

dos planetas serão evoluídos mas também toda a humanidade e quando digo toda a<br />

humanidade, quero dizer toda a humanidade mesmo! - Pan-noa apontou, sorrindo,<br />

para as centenas de monitores espalhados pela sala de comando do trans universo<br />

imperial. Cada qual tinha um mapa estelar diferente mostrando a exata localização de<br />

cada planeta com vida humana fizesse ele parte ou não do Império.<br />

- Agora veja. – Continuou Pan-noa eufórico apontando para um dos monitores.<br />

– Aqui está um planeta a ser modificado. – O monitor mostrava um planeta virtual. –<br />

Bem, aí vem a micro nave. É isto que acontece quando a nave atinge a atmosfera do<br />

planeta. – O monitor mostrou a micro nave colidindo com a atmosfera, explodindo e<br />

liberando uma espécie de ar azul prateado que expandia-se pelo planeta inteiro. – Veja<br />

– Continuou Pan-noa mais empolgado ainda. - o que os seres que habitam este planeta<br />

veem – No monitor aparecia a visão de quem morava no planeta. Aparecia o mesmo<br />

ar azul prateado expandindo-se no céu e então, quando o planeta inteiro estava com<br />

o novo ar, o céu fechava-se com um símbolo: uma circunferência com uma flecha do<br />

lado direito apontando para cima e uma cruz apontando para baixo. – Vê? – Disse<br />

Pan-noa. – Este símbolo, nós tiramos da mente de Ing-mar. Ele estava guardado em<br />

sua inteligência genética! É um símbolo usado pelos humanos do Planeta Azul há<br />

milênios. Só que eles usavam os símbolos separados. Um indicava o sexo feminino e<br />

o outro, o sexo masculino. Então nós juntamos os dois e ainda colocamos efeitos de<br />

ferro retorcido como no seriado “A Volta do Senhor das Sombras”. Não é sensacional?<br />

– No monitor a imagem do símbolo desaparecia e logo depois aparecia no céu,<br />

na escrita tradicional do Império: “Bem-vindos ao projeto A Andróida Andrógina.”<br />

Pan-noa olhava para Be eufórico.<br />

Be não acreditou naquilo. Simplesmente abriu a boca e fechou de novo. Olhou<br />

para Pan-noa para ver se ele não estava brincando. Pan-noa olhava para ela com a<br />

expressão radiante e como que dizendo: “E então? Não é uma ideia fantástica? Pelo<br />

menos eu não vou precisar espalhar a essência através de sexo, não é verdade?”<br />

Be não sabia o que dizer, mas não estava disposta a discutir com Pan-noa. “E<br />

se afinal ele estiver correto?” Pensou ela. “Há quantos milhares de anos a humanidade<br />

não muda? Há quanto tempo temos os mesmos valores? As mesmas brigas pelo<br />

poder? Mas o que esta mudança poderia trazer para a humanidade?”<br />

Pan-noa parecia ter captado esta última interrogação. Sua cara fechou. Olhou<br />

para Ing-mar. O menino estava compenetrado em algo que Pan-noa não se interessou.<br />

Olhou para baixo e pensou. “Não pode estar errado. Simplesmente não pode.”<br />

Devemos continuar.<br />

A viagem durou alguns meses. Segundo os cálculos de Pan-noa e Ing-mar era<br />

o tempo certo para que alguns casais que estavam na reunião do Império já estivessem<br />

esperando filhos. Assim, mais os meses ou anos que cada nave demoraria para chegar<br />

ao planeta destino, com certeza alguns bebês dos aristocratas já teriam nascido com a<br />

nova forma. Além disso, quem viajava com as naves dotadas de Extuárticos não eram<br />

pessoas comuns. Eram pessoas com dinheiro e, portanto, com um certo poder. Dessas<br />

pessoas nasceriam os novos seres e quando o populacho em geral começasse a ter<br />

estas novas crianças a humanidade já estaria quase que aceitando a ideia. Pelo menos


Marcelo Paciornik<br />

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a maioria do Império. A notícia do nascimento de uma nova raça não seria vista como<br />

uma aberração total.<br />

Porém, logo após o lançamento das micro naves para todos os planetas habitados<br />

por seres humanos, Pan-noa pensou. “E se eles não aceitarem esta nova raça?<br />

Estamos impondo algo extremamente absurdo para a cabeça deles... um ser com os<br />

dois sexos.” Pan-noa pensou longamente. “Para que serviria isto afinal?” Olhou para<br />

Ing-mar... “Por que quando eu tenho alguma dúvida sobre algo eu olho para ele? É<br />

como se ele tivesse a resposta.” Ing-mar brincava com Be como se fosse uma criança,<br />

ainda comemorando os últimos lançamentos. Be parecia ter aceitado a história sem<br />

muitos problemas.<br />

“Agora devemos esperar. Mas preciso pensar... o que significa exatamente esta<br />

evolução que acabamos de impor à humanidade?” Os resquícios de instinto verdadeiramente<br />

humano estavam começando a ganhar força na consciência de Pan-noa.<br />

O poder das quatro esferas<br />

Pan-noa não podia ter pensado num lugar melhor para esperar do que o planeta<br />

onde encontrara Clia. “Onde tudo começou.” Além disso era um dos planetas mais<br />

atrasados que Pan-noa pensava existir. Assistiria de perto a aceitação ou não dos novos<br />

seres pela sociedade mais grotesca que ele conhecia.<br />

Be parecia estar enfeitiçada por Ing-mar. Os dois brincavam sem parar e Ingmar<br />

assumiu, finalmente, a postura da criança que, no fundo, ele sempre fora e parecia<br />

estar gostando disso. Pan-noa aceitava bem o fato e eventualmente brincava com<br />

os dois também. Mas à medida que o tempo passava Pan-noa começou a sentir um<br />

enorme peso em suas costas. Sua consciência humana começara a interrogá-lo.<br />

Ao chegarem ao planeta chamado pelo próprio Pan-noa de Deusa Flor, tudo<br />

mudou. Pan-noa deixou de lado os sentimentos de culpa e resolveu explorar o planeta<br />

com Ing-mar e Be.<br />

Como da outra vez, Pan-noa estacionou o transuniverso imperial na órbita do<br />

planeta e deslocou a sala de comando para a superfície do planeta. Fez questão de<br />

pousar no mesmo lugar que pousara antes. Sentiu uma certa melancolia ao lembrar-se<br />

de Clia. Sentiu um peso sobre seu peito. Eram as esferas. “As esferas. Eu me esqueci<br />

totalmente delas.”<br />

Be e Ing-mar estavam ansiosos para conhecer o planeta e, principalmente, a<br />

cidade da idade das sombras. Pan-noa fez questão de instalar uma pérola-cubo em<br />

Ing-mar.<br />

- Eu sei que você tem poderes Ing-mar, mas pelo menos assim você vai entender<br />

melhor a língua deles sem ter que ficar investigando minha mente toda hora.<br />

Ing-mar concordou. Vestiram a roupa de batalha e saíram a pé em direção à<br />

cidade. Pan-noa fez questão de deixar toda a roupa de batalha à mostra. Queria ver<br />

a reação das pessoas, queria sentir esta humanidade mais de perto. Estava disposto a<br />

investigar. As roupas eram um absurdo tecnológico para aquela civilização e obviamente<br />

ninguém naquele planeta saberia nada sobre o que as roupas poderiam fazer ou<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

não. Mas o importante era o visual. As roupas eram pretas com partes transparentes<br />

mostrando painéis de controle. A roupa era extremamente justa mostrando as formas<br />

dos corpos. Em certos lugares a roupa cintilava com placas brilhantes e em outros<br />

era opaca. As botas eram um show à parte. Para finalizar Pan-noa resolveu que seu<br />

cabelo, que agora estava batendo nos ombros, deveria ser violeta assim como de Be.<br />

Logicamente Ing-mar o copiou. Pan-noa pediu para que Ing-mar adotasse o maior<br />

tamanho possível.<br />

- O seu tamanho está bom Pan-noa?<br />

- Perfeito. Assim vão pensar que somos uma gangue e não uma família.<br />

E assim os três saíram da nave: com o visual mais absurdo possível e sem<br />

importarem-se com a consequência, afinal, estavam com roupas de batalha, o que<br />

resolveria qualquer problema.<br />

Be andava fascinada. Olhava para aquele planeta e seus olhos brilhavam. Nunca<br />

estivera tão longe de casa. Ing-mar estava mais fascinado com a cidade do que<br />

qualquer outra coisa. Ela era maior do que ele pensara ser. Pan-noa, no entanto, estava<br />

preocupado. Voltara a pensar naquilo que tinha feito.<br />

Então Ing-mar interferiu.<br />

- Pan-noa, acho que você deveria aproveitar. O que está feito está feito. Afinal,<br />

nós tivemos as ideias em conjunto não tivemos? Como você acha que isso foi possível?<br />

- Não tenho a mínima ideia Ing-mar. Você tem?<br />

- Claro! Tenho quase certeza que existe um outro povo, um povo mais evoluído<br />

que o nosso, mais evoluído do que eu e do que você. E mais: estão nos ajudando<br />

como se fossem anjos, entende?<br />

Pan-noa parou. “Anjos. Alguém ajudando a fazer aquilo. Não seria mandando?”<br />

- Vamos Pan-noa. – Disse Ing-mar. – Está tudo certo.<br />

- É, Pan-noa. – Disse Be. – Você não está se sentindo bem em ser o que você<br />

é agora?<br />

Esse era um ponto-chave. É óbvio que Pan-noa sentia-se o máximo sendo o<br />

que era. No começo foi muito estranho. “Essa coisa de dois sexos e tudo mais.” Mas<br />

no final das contas ele estava sentindo-se muito bem assim. “E além do mais eu vou<br />

ser o primeiro dessa raça. Um verdadeiro pioneiro, um fundador!”<br />

Pan-noa sorriu sentindo-se verdadeiramente alegre e disse:<br />

- Sabe o que? Que se foda! Que se foda mesmo! Vamos comemorar. Acho que<br />

está na hora de Ing-mar provar a única coisa que este planeta tem de bom! Uma boa<br />

cerveja.<br />

Be ficou estarrecida.<br />

- Vamos para um bar? Um bar da idade das sombras?<br />

- É isso mesmo!<br />

- Isso é fantástico Pan-noa!<br />

- O que é um bar? – Perguntou Ing-mar.<br />

- É um lugar que você, como Imperador do universo, jamais deveria ir Ing-


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mar.<br />

- Já estou começando a gostar!<br />

Os três abraçaram-se e foram alegremente até a cidade. O sol estava se pondo<br />

colorindo as nuvens de um vermelho dourado. A cidade era um amontoado de formas<br />

negras no meio de um descampado. Era uma cena assustadora. Os três pararam de<br />

caminhar por um momento.<br />

- É realmente fascinante. – Disse Be.<br />

- Fantástico. – Comentou Ing-mar.<br />

- Sensacional! – Falou Pan-noa. – Vamos arregaçar!<br />

Ao chegarem à cidade, postaram-se de uma forma menos alegre. Tinham que<br />

dar um show à parte e resolveram a assumir um olhar maligno, como em um desfile<br />

de modas para bruxos.<br />

Passaram pelos portões da cidade. A impressão que se tinha era de que até as<br />

casas viravam-se para olhar para eles. Uma multidão atordoada arregalava os olhos à<br />

medida que eles passavam. Pan-noa sabia muito bem o que esse povo fazia com pessoas<br />

diferentes deles, mas existiam pessoas incomuns e pessoas incomuns. E a cidade<br />

estava frente a pessoas tão absurdamente incomuns que ninguém conseguia se mexer.<br />

Os três avançavam com um andar nobre, sem olhar para ninguém. A arrogância<br />

era tanta que Ing-mar achou que passaria mal se não risse, mas conseguiu chegar<br />

à praça central sem perder a postura. Os três pararam no meio da praça. As pessoas<br />

simplesmente pararam também. Estavam como estátuas, olhando para os três. Pannoa<br />

finalmente olhou para o povo que estava em volta e gritou a plenos pulmões e na<br />

língua deles:<br />

- Será que não existe uma porra de uma taverna para feiticeiros beberem uma<br />

boa cerveja?<br />

O povo não acreditou que aquele ser pudesse estar ali só para beber uma cerveja.<br />

Então os rostos assustados ficaram menos tensos e a cidade começou a rir. De<br />

repente começou a gargalhar, como se algo terrível acabasse por terminar numa boa<br />

piada. Então, um homem muito grande veio em direção a eles com muito cuidado.<br />

- Posso pagar a primeira rodada? – Disse o homem.<br />

- É claro. – Respondeu Pan-noa sorrindo. Agora Ing-mar e Be sorriam também.<br />

O homem apontou a direção da taverna que Pan-noa já conhecia e os três foram<br />

na frente, seguidos pelo homem e por murmúrios histéricos da população.<br />

O homem abriu a porta da taverna para os três. Eles entraram normalmente,<br />

como se estivessem entrando em um lugar conhecido.<br />

As pessoas que estavam lá dentro viraram-se na direção deles e alguns copos<br />

caíram no chão, espatifando-se. Uma mulher deu um berro e caiu desmaiada. Então o<br />

homem entrou logo depois e disse:<br />

- Ei! Eles são meus convidados. Está tudo bem. Só querem umas cervejas.<br />

A taverna era escura e o cheiro de cerveja e assados impregnava o lugar. Velas<br />

iluminavam o local onde tudo era feito de madeira, rusticamente. Havia um balcão<br />

lotado de pessoas que se aglomeravam para pegar canecos enormes de cerveja. As<br />

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mesas fervilhavam com pessoas indo para lá e para cá. Ing-mar ficou fascinado.<br />

- É do caralho!<br />

- Ing-mar, eu já falei que este tipo de linguajar é desapropriado para um Imperador.<br />

Ing-mar sorriu e entrou na taverna. O bom humor do menino fez com que a<br />

taverna quase se acalmasse. Pan-noa notou que eles ainda olhavam com os cantos<br />

dos olhos para os três. “Não é para menos.” Pensou. Pan-noa percebeu, ainda, que o<br />

homem, antes de entrar na taverna, virou-se para o povo atrás dele e fez um sinal com<br />

a mão para se acalmarem. Era um bom sinal.<br />

Pan-noa, Be e Ing-mar sentaram-se. Não tinha ninguém da idade deles ali, mas<br />

as pessoas não queriam saber da idade deles, mas sim o que eles eram.<br />

O homem veio sorrindo e sentou-se à mesa que os três haviam escolhido.<br />

- É um lugar antiquado, mas acolhedor vocês não acham? A propósito, meu<br />

nome é Caroteno. E o de vocês?<br />

Os três não puderam conter o riso diante do nome do sujeito. O homem sorria<br />

por ver “crianças” tão felizes.<br />

Ing-mar estava quase tendo um ataque de tanto rir quando a cerveja chegou.<br />

- Bem. - Disse ele ainda rindo. - Meu nome é Ing-mar e estes são meus amigos.<br />

Esta é Be e este é Pan-noa. – Ing-mar riu mais ainda ao ouvir o que saia de sua própria<br />

boca, pois a pérola-cubo traduzia tudo o que ele falava.<br />

Be e Pan-noa riram também da expressão do menino.<br />

- Ótimo, muito prazer em conhecê-los. – Disse Caroteno muito alegre e aliviado<br />

por ver que aqueles seres não eram os bruxos do norte, mas apenas crianças desgarradas<br />

de algum povoado próximo.<br />

- O prazer é todo nosso... Caroteno. - Pan-noa não conseguia conter o riso.<br />

- Bem, à saúde de vocês! – Caroteno levantou a caneca e bebeu a cerveja.<br />

Os três o imitaram. Ing-mar gostou tanto da cerveja que virou a caneca inteira<br />

de uma vez.<br />

- É exatamente assim que um Imperador bebe, Ing-mar.<br />

- Imperador? – Perguntou Caroteno.<br />

- A sim! Ing-mar é o Imperador do nosso novo jogo, o jogo de quem bebe mais<br />

cerveja. Ing-mar aqui é o que mais bebeu desde que nós saímos de viajem. – Falou<br />

Pan-noa rapidamente para que Caroteno não desconfiasse de nada.<br />

- Ah! Uma brincadeira não é? Mas já que estão viajando, de onde vocês vieram?<br />

Neste momento passou por eles o taberneiro levando um prato enorme com a<br />

perna de algum animal assado enfeitada por vários legumes.<br />

Ing-mar quase gritou.<br />

- Ei! Eu quero um desses!<br />

Caroteno não pode conter o riso. “É, são apenas crianças que fugiram para<br />

encontrar uma aventura. Mas de onde poderia vir esse cabelo lilás? E essas vestimentas?”<br />

Depois de algumas canecas de cerveja o prato chegou. Caroteno admirou como


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os três comiam, mas ficou mais admirado ainda com algo que ele não tinha reparado<br />

porque a situação até agora era de pura euforia: os dois meninos, eles emanavam algo.<br />

Algo muito estranho. Eles pareciam ser... diferentes.<br />

“Ing-mar ele está nos observado. Está reparando como somos diferentes.”<br />

“Sim Pan-noa eu senti isso. O que vamos fazer?”<br />

“Continuar.”<br />

Pan-noa perguntava ao novo amigo de tudo um pouco, como eles viviam, o<br />

que faziam para sobreviver. Ing-mar e Be entraram na conversa apenas para fazer<br />

piadinhas. O fato era que Ing-mar nunca ficara bêbado e estava adorando a situação.<br />

Então Caroteno voltou a perguntar.<br />

- Vocês não me disseram ainda de onde vieram.<br />

- Do sul - disse Pan-noa - estamos procurando as bruxas do norte. Queremos<br />

caçá-las.<br />

Caroteno viu na expressão de Pan-noa que não era nenhuma brincadeira. Então<br />

Ing-mar e Be explodiram em risadas. Pan-noa começou a rir também e Caroteno, depois<br />

do susto, começou a rir.<br />

- É, não é uma boa ideia falar assim do povo do norte. Vocês sabem, estivemos<br />

em guerra com eles há tempos atrás. São um povo muito poderoso. Tivemos que concordar<br />

em não importuná-los mais.<br />

- É eu soube. - Mentiu Pan-noa satisfeito em saber que o povo de Clia ganhara<br />

a guerra.<br />

Caroteno não perguntou mais de onde eles vinham e deixou a conversa fluir.<br />

A taverna parecia não mais interessar-se por eles, o que era um alívio. Então, depois<br />

de muitas cervejas Pan-noa decidiu ir embora. Agradeceu a Caroteno e retirou-se.<br />

Quando chegou à porta da taverna Caroteno perguntou:<br />

- Onde vão dormir?<br />

Pan-noa virou-se e respondeu:<br />

- Estamos com um acampamento fora da cidade.<br />

- Apareçam. – Disse Caroteno.<br />

- Sim, obrigado. – Falaram os três juntos.<br />

Logo estavam saindo da cidade em direção à sala de controle.<br />

das.<br />

- Kenn. – Disse Pan-noa. – Quantos estão nos seguindo?<br />

- Até agora? Acho que metade da população da cidade.<br />

- Podem nos ver?<br />

- Não creio Pan-noa. Estão usando lanternas a óleo para enxergar suas pega-<br />

- Lanternas a óleo. – Repetiu Pan-noa. – Temos que agradecer aos céus pelo<br />

tempo fechado não é mesmo?<br />

Os três olharam para o céu negro, sem nenhuma estrela.<br />

- Será que podemos levitar? Estou meio tonto. – Disse Ing-mar.<br />

- É, a cerveja bateu. – Falou Pan-noa com um sorriso. – Vai ser melhor. Não<br />

deixaremos pegadas para os curiosos.<br />

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Os três levitaram e foram em direção à nave a meio metro do chão. Porém<br />

quando estavam quase chegando, sentiram um vento forte e, nesse momento, um<br />

clarão apareceu naquela área. Os três olharam para o céu e viram uma gigantesca lua<br />

prateada bem em cima da cabeça deles.<br />

Pan-noa parou chocado e seu corpo começou a tremer. Teve que desligar os antigravitacionais<br />

para sentir algo em baixo de seus pés. Mas mesmo assim não aguentou,<br />

caiu no chão. Não conseguia tirar os olhos da lua. Sua pele ficou branca e seus<br />

olhos também. Apesar disso sentia-se muito forte. Conseguia enxergar muito mais.<br />

Muito mais do que jamais imaginou e começou a ouvir sussurros de todos os lados.<br />

Viu Be e Ing-mar olhando para ele. Conseguia ver não Ing-mar nem Be mas a essência<br />

deles. Ainda estava no chão pois não conseguia controlar seu corpo. Via a corrente<br />

sanguínea dos dois, o coração batendo. Ouviu mais sussurros vindo dos homens que<br />

os estavam perseguindo. Ouvia coisas de muito longe. Sua mente começou a girar<br />

num redemoinho de informações.<br />

Agora estava em outro mundo. Os sussurros continuavam. Não tirava os olhos<br />

de Be e Ing-mar mas, ao mesmo tempo, estava em outro mundo. Um mundo que ele<br />

não sentia na carne, mas sim no espírito. Ondas de prazer tomaram conta do seu corpo.<br />

– Nós lhe devemos isso Pan-noa. – Falavam vozes que não eram vozes. – Foi você<br />

quem iniciou a evolução. Um novo círculo nos espera. Obrigado Pan-noa. – “De quem<br />

eram essas vozes?” Perguntava-se Pan-noa. “O que queriam dizer... e esta sensação...”<br />

Pan-noa tentou olhar para dentro deste novo mundo, do mundo das sensações mas<br />

nada encontrava. Só havia sensações. – Informações espirituais. – Disseram as vozes.<br />

- Se tudo der certo você virá para cá. Não é maravilhoso Pan-noa? – As vozes perguntavam.<br />

– Para cá, Pan-noa. - Pan-noa ouvia. Conhecia esta voz!<br />

- Eles estão vindo para cá, Pan-noa. – Parecia ser Be.<br />

Pan-noa levantou-se sentindo-se muito forte. Seu olhar branco conseguia ver<br />

as pessoas como se fosse dia.<br />

- Camuflagem, agora! A toda velocidade para a sala de controle.<br />

Os três estavam dentro da sala assistindo nos monitores o povo da cidade procurar<br />

por eles. Jamais os encontrariam.<br />

- O que houve com você, Pan-noa?<br />

- É, como foi cair desta maneira?<br />

- Quanto tempo fiquei desmaiado? – Perguntou Pan-noa.<br />

- Desmaiado? – Perguntou Be. - Você simplesmente parou e olhou para a lua.<br />

Caiu no chão e levantou gritando feito louco!<br />

- E seus olhos? – Perguntava Ing-mar. – Como foi que fez aquilo? Foi com<br />

a tua tatuagem não foi? Ou agora você está conseguindo manipular seu corpo desta<br />

maneira? Se está, é muito legal Pan-noa!<br />

“Eles não sabem... Será que foi a cerveja? Não, foi a lua. Assim como Clia!<br />

Claro! Os poderes! Eu consegui ouvir vozes que pareciam ter vindo de Kalum Br!<br />

Mas, e aquelas sensações...? O que as vozes diziam? Era sobre a evolução!” O colar<br />

começou a pesar no seu pescoço.<br />

Pan-noa ficou com sono. Sua consciência pesava de novo. Estava muito cansa-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

do. Então dormiu, assim como Be e Ing-mar.<br />

Pan-noa levantou-se muito cedo. Olhou para Be e Ing-mar dormindo. Passou o<br />

dedo no rosto de Ing-mar “Meu amiguinho...o que fomos fazer?” Olhou para Be. “O<br />

que posso fazer por você, Be? Minha querida Be.” Saiu da nave dando instruções a<br />

Kenn para não deixá-los sair a não ser para encontrar com ele.<br />

Pan-noa foi para o norte levitando. Caminhar seria desperdício de tempo.<br />

Achou um rio e subiu beirando a margem. “Até que é um planeta bonito.” Pensou<br />

Pan-noa. “Nada comparado ao Planeta Azul, é claro...” Encontrou um lago. Havia<br />

uma pedra exposta ao sol. Pan-noa sentou-se nela e começou a refletir. Pensava no<br />

que tinha feito, pensava na mensagem da lua ou seja lá de onde tivesse vindo. “Então<br />

estou realmente ajudando o ser humano a mudar. É realmente uma evolução como nós<br />

suspeitávamos.” Olhou para o espelho d’água. Seu rosto, uma figura perfeita, beleza<br />

infinita. Um ser sem sexo e, ao mesmo tempo, com os dois. “Mas para que? Para<br />

que necessitamos de seres assim? O que mais disse a voz? Que estavam gratos. Meu<br />

deus!” Pan-noa lembrou-se de Lainoriel. “Eles evoluíram também! Será que Lainoriel<br />

falou algo de passar para outro círculo?” As esferas pesaram em seu pescoço. “Vocês<br />

querem dizer algo não é?” Pan-noa sentiu um puxão.<br />

- Caralho, isso dói! O que querem afinal? Onde estão?<br />

Nada. “Eles não vão falar comigo.” Pan-noa pensou de novo. “Um mundo de<br />

sensações. Será que é este o nosso destino? Puxa será que ninguém pode me ajudar?”<br />

Pan-noa esperou um pouco.<br />

Sentiu um aperto no estômago. Sentiu que alguém o observava. Olhou para<br />

baixo. Uma sombra. Olhou para cima. Não era uma nuvem entre ele e o sol. Pan-noa<br />

ficou de pé e colocou a mão quase na frente do rosto. O que estava entre ele e o sol era<br />

transparente. Pan-noa ainda sentia os raios baterem no seu.<br />

Pan-noa estava agora sentado. Via-se sua cara de interrogação olhando para<br />

cima. O braço fazendo sombra nos seus olhos. Olhos verdes, rosto claro, cabelos<br />

quase no ombro. Um ser divino, algo inimaginável.<br />

- Ei! Ei você! - Pan-noa gritou. – Você que está me vendo.<br />

Não houve resposta, mas aquilo continuou olhando Pan-noa. Era uma pessoa.<br />

Pan-noa ainda olhava sério, questionador.<br />

- O que é o mundo deles... você sabe? Como é o outro círculo? O círculo para<br />

onde vamos? Você não precisa dizer. É só pensar! Consigo ler sua mente.<br />

Então a pessoa lá em cima pensou:<br />

“Lainoriel já te falou! Nós somos diferentes deles porque ainda somos apegados<br />

à matéria e eles não.”<br />

- Apegados à matéria! - Pan-noa falou. A pessoa desapareceu. Mas ainda estava<br />

lá. Pan-noa a sentia.<br />

- Ei! - Pan-noa olhou para cima de novo. – Obrigado!<br />

Nenhuma resposta de novo. E agora o seu rosto desaparecera das vistas dele.<br />

- Pan-noa! – Gritou Ing-mar.<br />

- O que pensa em estar fazendo? – Disse Be.<br />

- Vocês não vão acreditar! – Disse Pan-noa eufórico. – Acabei de ver uma pes-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

soa.<br />

- Uma pessoa? – Os dois perguntaram.<br />

- Sim, um ser humano. Lá em cima! - Pan-noa apontou para cima. – Estava lá<br />

e tenho a sensação que ainda está, olhando para nós nesse exato momento!<br />

- E o que ela fez? – Perguntou Ing-mar.<br />

- Ela me respondeu algo, algo que eu precisava saber.<br />

- O quê? – Perguntou Be.<br />

- Algo sobre a evolução!<br />

Os dois baixaram os ombros.<br />

- Você não vai desencanar dessa evolução nunca, Pan-noa?<br />

Pan-noa olhou para baixo. Era verdade. Ele estava muito preocupado.<br />

- Veja, nós trouxemos comida. O que você acha? – Perguntou Ing-mar.<br />

- Perfeito! Estou morrendo de fome.<br />

Os três devoraram os sanduíches e depois nadaram na lagoa. Passaram a tarde<br />

ali.<br />

- Ei, o que vocês acham de caçar algo para comer à noite, aqui mesmo? –<br />

Disse Ing-mar.<br />

- Ótima ideia!<br />

Não foi difícil de encontrar alguns coelhos. Ing-mar mostrou ser um expert<br />

em assá-los. Comeram ao anoitecer em volta de uma fogueira. Os três deitaram-se na<br />

pedra ainda quente e ficaram olhando para o céu. Milhares de estrelas iluminavam a<br />

noite. Os três estavam quase dormindo quando algo chamou a atenção de Pan-noa.<br />

- Vocês estão vendo?<br />

- O que?<br />

- Aquele ponto prata lá no céu.<br />

- Não, onde?<br />

O ponto prata explodiu. Os três se levantaram.<br />

- Caralho o que foi isso? Kenn... Kenn! – Berrou Pan-noa. – O que está havendo?<br />

- Pan-noa. – Disse Kenn calmamente. – As micro naves não são tão rápidas<br />

quanto o transuniverso imperial.<br />

- O que? - Pan-noa não entendera. Mas logo entenderia.<br />

Da explosão surgiu um clarão azul prateado espalhando-se por todo o céu do<br />

planeta.<br />

- Meu Deus. – Disse Pan-noa. – É nossa micro nave trazendo meu sangue!<br />

O céu ficou um pouco mais claro com nuances de prata expandindo-se. Depois<br />

de alguns instantes apareceu a marca da Andróida Andrógina, enorme, cobrindo o céu<br />

inteiro. Logo sumiu e uma frase numa caligrafia maravilhosa escreveu: “Bem-vindos<br />

ao Projeto A Andróida Andrógina.”<br />

Os três se sentaram. Viram então uma finíssima camada de pó prateado descer<br />

do céu. Então sentiram um cheiro doce. O mesmo cheiro doce que Pan-noa tinha, que<br />

Ing-mar tinha.<br />

As esferas puxaram o pescoço de Pan-noa para baixo de modo que a corrente


Marcelo Paciornik<br />

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que as seguravam arrebentou. As quatro esferas caíram na pedra.<br />

Pan-noa olhou e pegou-as segurando-as nas mãos. Elas estavam muito pesadas.<br />

Pan-noa olhou sério para Ing-mar e Be e disse:<br />

- Alguma coisa está muito, mas muito errada por aqui.<br />

Os dois perceberam pela expressão de Pan-noa que aquilo não era só uma vaga<br />

intuição. Perceberam que a coisa já não era mais uma brincadeira. A consciência do<br />

pouco de ser humano que ainda restava em Ing-mar começou a despertar.<br />

O despertar das quatro esferas<br />

Os três estavam sentados ao redor de uma mesa redonda com apenas um feixe<br />

de luz iluminando as quatro esferas. O resto da sala de comando só não estava totalmente<br />

escura porque a luminosidade da lua entrava pela imensa janela frontal.<br />

Ing-mar e Be estavam verdadeiramente assustados. A lua parecia iluminar o<br />

rosto de Pan-noa diretamente e seus olhos estavam totalmente brancos. Mas não era<br />

só isso. Parecia haver uma luz dentro da cabeça de Pan-noa e seus olhos eram como<br />

dois faróis.<br />

Ing-mar estremeceu. Ing-mar nasceu com a inteligência plena de Schaia III, foi<br />

aprendiz do Mago de Prata e era, em essência, um Mago, apesar de ter renunciado à<br />

maioria de seus poderes. Mas nunca, em toda a sua vida, tinha visto algo parecido com<br />

aquilo. O pior era saber que aquele à sua frente tornara-se alguém de quem Ing-mar<br />

dependia totalmente. Não era só um amigo. Era o único amigo. O que sentia por Pannoa<br />

extrapolava a noção de amizade. Pan-noa era tudo em sua vida. E agora Pan-noa<br />

estava, ali, à sua frente, emanando tanto poder, tanta energia que Ing-mar estava com<br />

medo.<br />

Be estava paralisada. Não entendia o que estava acontecendo e sentia falta de<br />

casa. Sentia um vazio. Era como se Pan-noa a tivesse abandonado sozinha naquele fim<br />

de mundo. Mas não era só isso. Era Pan-noa, o seu Pan-noa paralisado à sua frente e<br />

com duas lanternas no lugar dos olhos.<br />

Pan-noa não piscava. Olhava para lua logo atrás da cidade. Um céu iluminado.<br />

A cidade fazia sombras grotescas no espaço aberto que a separava da sala de comando.<br />

“A Deusa.” Pensou Pan-noa. Só que estava difícil para desenvolver qualquer<br />

pensamento sensato. A energia era forte demais e ele não conseguia pensar. Era melhor<br />

deixar a energia penetrar. Sentir a energia entrando e fluindo por seu corpo, indo<br />

tão longe que chegava ao seu espírito. Pan-noa não via nada apenas sentia. O mundo<br />

das sensações. Lentamente começou a entender. “Você que me olha! Você me disse<br />

que ainda somos ligados à matéria e eles não!” Pan-noa entrou de novo nas sensações.<br />

Agora tentava controlar de novo.<br />

- Estou enxergando! – Gritou Pan-noa dando um susto em Be e Ing-mar. – Estou<br />

vendo!<br />

Pan-noa finalmente conseguiu enxergar o lugar, mas não tinha nada para comparar.<br />

“Isso não pode ser um lugar!” Era o tudo e o nada ao mesmo tempo. Era algo<br />

impensável. Pan-noa estava tão eufórico que sua respiração começou a ficar intensa.<br />

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Ing-mar estava preocupado com a vida de Pan-noa. “Será que ele corre perigo?”<br />

- Kenn – Disse Ing-mar. – Você não acha melhor nós fecharmos essa janela?<br />

Kenn não respondeu. Pan-noa, sem saber, controlava tudo à sua volta. Sua<br />

mente estava por toda a parte. Estava na nave e, ao mesmo tempo, no não lugar que a<br />

Deusa o levara. Então, mentalmente deu ordens a Kenn. Um braço mecânico aproximou-se<br />

da mesa. Ing-mar estava com os olhos esbugalhados. Be não piscava. O braço<br />

depositou no centro da mesa um cubo azul. “Uma pérola-cubo!” Pensou Be. Vieram<br />

mais dois braços trazendo uma espécie de material metálico negro. “Mantíros!”<br />

Pensou Be de novo.<br />

“Supercondutores! O que ele vai fazer?” Então mais braços surgiram e, com<br />

muita agilidade, começaram a trabalhar os materiais. Pan-noa não olhava para a mesa,<br />

mas sim para a lua.<br />

A pérola-cubo ganhou uma moldura finíssima e ao redor havia um círculo do<br />

mesmo metal. Para cada esfera verde havia também uma moldura arredondada soldada<br />

ao redor da moldura da pérola-cubo. Havia ainda mais um círculo oco que ligava<br />

as esferas verdes bem no meio. Era uma peça linda. Os braços retiraram-se quando<br />

acabaram o trabalho. Apenas um ficou. Pegou a peça, esperou que Pan-noa retirasse<br />

a parte de cima de sua roupa de batalha e colocou a peça bem no meio do peito de<br />

Pan-noa. A peça foi enfiada no peito rasgando a pele. O braço ainda apertou um pouco<br />

mais contra o peito dele. Pan-noa nem pestanejou. O braço retirou-se. A peça não<br />

tinha como sair dali.<br />

As luzes nos olhos de Pan-noa se apagaram. Pan-noa sorriu para os dois à sua<br />

frente, mas eles não se mexiam. Pan-noa falou:<br />

- Eu vi! – Estava extasiado. – Eu vi o lugar!<br />

Os dois continuavam estáticos.<br />

- Ei! O que houve com vocês?<br />

Ing-mar conseguiu apontar para o peito do amigo. Pan-noa olhou para baixo e<br />

levantou-se da cadeira com um pulo.<br />

- Ei! Quem colocou essa porra em mim?<br />

- Você Pan-noa. – Disse Ing-mar assustado.<br />

Então cada uma das pontas da peça formou um rosto na pele de Pan-noa. Um<br />

rosto para cada esfera. Clia, Lainoriel, O Mago de Prata e a irmã gêmea de Ing-mar<br />

que morreu sem nome.<br />

- Ah! Mas nem fodendo. Vocês estão mortos! - Pan-noa apagou as imagens fazendo<br />

com que um dragão comesse cada uma delas. – É isso aí! Isso sim é um jantar!<br />

Ing-mar tentou rir mas não conseguiu. Pan-noa tentava arrancar a coisa que<br />

estava enterrada em seu peito.<br />

- Kenn, por favor, quer me ajudar com essa porra?<br />

Um braço mecânico veio em direção ao peito de Pan-noa e com um ploc fez<br />

a coisa sair. O braço colocou a coisa em cima da mesa. Voltou ao peito de Pan-noa e<br />

cicatrizou a ferida.<br />

Pan-noa sentou-se olhando para os dois.


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- Muito bem, alguém vai me explicar o que aconteceu?<br />

Os dois olhavam para a peça em cima da mesa ainda com um pouco de sangue.<br />

Então repararam que já não havia mais lua.<br />

- Pan-noa. – Disse Be. – Cada vez que a lua aparece você se transforma. Ontem<br />

você caiu, hoje você chegou aqui muito bravo com as esferas ou seja lá com o que<br />

for. Mas então a lua surgiu no céu e você... bem. – Ela olhou par Ing-mar.<br />

- Você se transformou, Pan-noa. – Disse Ing-mar. – Seus olhos ficaram primeiro<br />

brancos, como ontem, mas hoje parecia que havia uma luz dentro de sua cabeça e<br />

a única forma dela sair era pelos seus olhos!<br />

Pan-noa olhou para a peça que estava na mesa.<br />

- E essa porra? De onde veio?<br />

- Você não sabe? Não foi você quem fez?<br />

- Não. – Disse Pan-noa. – Os malditos estão querendo me manipular. Tem algo<br />

a ver com a evolução. Tem algo a ver com a Andróida Andrógina.<br />

Os dois se olharam.<br />

- Vejam. – Disse Pan-noa. – Isso acontecia com Clia, neste planeta e no Planeta<br />

Azul. Essa coisa dos olhos. Ela ficava esquisita, com um olhar vago e um poder<br />

inexplicável.<br />

- Você ficou assim! – Disse Ing-mar.<br />

- Ela dizia que fazia contato com a Deusa, o ser que gerou a Andróida Andrógina.<br />

Acho que eu fiz esse contato também. Só que acho que eu fui muito mais além.<br />

Acho que eu descobri qual é o plano deles. Acho que sei por que fizemos tudo isso<br />

Ing-mar.<br />

Os três se olharam. A peça rodou em cima da mesa. Pan-noa fechou os olhos e<br />

pegou a peça na mão. “Então seus filhos da puta? O que vocês querem afinal?” Quatro<br />

vozes falavam ao mesmo tempo. Pan-noa largou a peça na mesa.<br />

- Se não forem educados não teremos contato, ouviram?<br />

- O que a peça faz, Pan-noa? – Perguntou Be.<br />

- Aqui dentro estão quatro pessoas não mortas. Eles ainda têm poderes e me<br />

usaram para fazer esta peça. Eles comunicam-se comigo através dela, o problema é<br />

que eles querem falar todos ao mesmo tempo.<br />

Ing-mar olhou para a peça. “Minha irmã está aí dentro.”<br />

- As quatro esferas. – Disse Ing-mar. – Imagine o poder que isso não deve ter?<br />

- É sobre isso que eu quero falar. – Disse Pan-noa. – Esses seres, chamados de<br />

seres supremos, estão nos manipulando. Acredito que eles querem que a humanidade<br />

evolua. Até aí tudo bem. Mas quando tive contato com a Deusa eu vi um lugar, um<br />

lugar que não era um lugar. Um lugar com muita energia. Eu tenho a impressão que<br />

se nós fizermos essa evolução, quero dizer, se ela acontecer como eles querem, nós,<br />

enquanto seres humanos evoluídos, iremos para este lugar depois de mortos. Um lugar<br />

sem matéria.<br />

- Fantástico! – Disse Be. – Então podemos dizer que depois da nossa morte<br />

iremos para um lugar que não é um lugar? Pelo menos não morremos de verdade.<br />

Quero dizer, a vida não acaba por aqui certo?<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Acho que sim. – Disse Pan-noa. – Mas eu gostaria de saber por que eles<br />

resolveram fazer isto agora, assim, sem mais nem menos e o por que tanta pressa em<br />

fazê-lo.<br />

- Pelos Cristais! – Disse Ing-mar. – Eles vão nos matar! Vão matar a todos<br />

quando todos estiverem modificados! Assim iremos mais depressa para esse lugar.<br />

Agora eu me lembro. O Mago de Prata falou uma vez! “Quando um círculo evolui, o<br />

próximo evolui também. É a lei da vida.” Nunca entendi isso muito bem mas agora<br />

está tudo muito claro!<br />

- Mas por quê? – Perguntou Be quase histérica. – E por que esta evolução iria<br />

nos fazer entrar neste lugar? O que tem de mais em ser assim como você ou Ing-mar?<br />

Qual é a grande diferença a não ser esta coisa do sexo?<br />

- Aí está a grande diferença Be. – Falou Pan-noa. – O primeiro impulso instintivo<br />

do ser humano enquanto macho foi o de dominar a fêmea, de fazer com que<br />

ela se sentisse segura, que tivesse um sujeito com poder para que seus descendentes<br />

tivessem a mesma força. O instinto da sobrevivência sempre que falou mais alto. A<br />

humanidade nunca mudou, sempre foi a mesma coisa. Obviamente nos tempos modernos,<br />

tanto os homens como as mulheres tinham atração pelo poder, principalmente<br />

para dominar o ser amado. O impulso é o mesmo desde que a humanidade começou a<br />

engatinhar. O que mudou foi só o ponto de vista. E o ser humano sempre conseguiu o<br />

poder através da matéria seja manipulando-a, seja vendendo-a. O valor espiritual dos<br />

tempos da era das sombras foi esquecido. Só a matéria valia desde então. Por isso o<br />

apego tão grande à matéria. Agora derrube o primeiro pilar. Imagine que você pode<br />

mudar de sexo num piscar de olhos. Todo o primeiro impulso instintivo seria derrubado.<br />

O objeto do desejo seria desfeito porque não existiria mais um par verdadeiro,<br />

um oposto a ser desejado. O ser humano seria colocado em um outro nível e a equação<br />

domínio, poder, matéria seria desfeito. O ser humano estaria disposto a equacionar<br />

outros valores, valores estes, não materiais. A matéria ficaria para um segundo plano.<br />

E então ele poderia passar para um outro estágio quando morresse, um estágio no qual<br />

a matéria não existiria mais, sobrando só e somente a energia. Eu vi este lugar.<br />

Ing-mar e Be estavam chorando. Jamais poderiam imaginar que começariam<br />

tudo aquilo. A expressão de Pan-noa não era a de uma pessoa abalada. Ele parecia não<br />

estar vencido.<br />

Be foi a primeira a notar isso.<br />

- O que foi Pan? – Disse ela com lágrimas na face. – Você tem alguma ideia<br />

não tem? Não tem Pan?<br />

Pan-noa olhou para ela quase sorrindo. Pegou as quatro esferas nas mãos e<br />

ouviu um monte de vozes em sua mente. Com um gesto brusco obrigou as vozes a se<br />

calarem.<br />

- Ainda não Be. Mas vou ter. E quando eu tiver... – Disse Pan-noa chacoalhando<br />

as quatro esferas. – Esses merdas vão se foder.<br />

Mas então Ing-mar falou:<br />

- Seja lá o que você tiver em mente Pan-noa, a evolução já começou. Isso,<br />

ninguém pode mudar.


Marcelo Paciornik<br />

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Pan-noa olhou para Ing-mar com uma expressão de pura sinceridade:<br />

- Nós temos tempo, Ing-mar. Eles não podem simplesmente matar toda a humanidade<br />

só porque nasceram evoluídos. A evolução está na maneira de como a humanidade<br />

irá reagir diante da sua nova identidade. E quem disse que eu queria parar<br />

a evolução? Deixem a humanidade evoluir como queira! Só vamos mudar o ponto de<br />

vista do novo ser humano! E se algum dia nós tivermos que ir para um lugar que não<br />

é um lugar, nós escolheremos quando!<br />

As quatro esferas pesaram nas mãos de Pan-noa ele segurou-as firmemente. “E<br />

acho melhor vocês irem se acostumando com a ideia”<br />

A Morte da Deusa<br />

“Para que querer algo se você já o tem, se você já o é? Que ideia perfeita.” Pensou<br />

Pan-noa. “Esses seres supremos são mesmo espertos.” Pan-noa estava sentado no<br />

aerojet esperando por Be e Ing-mar. “Eles já foram Antes uma vez, devem saber lidar<br />

com nossos sentimentos, com nossas fraquezas melhor que nós mesmos. Imagine!<br />

Não se apaixonar mais simplesmente porque você pode se tornar o objeto amado! Não<br />

ser atraído por outro pelo simples fato de já possuir tudo que o outro lhe daria. Que<br />

merda de ideia fantástica. Destruiria toda a nossa compulsão pela matéria. O próprio<br />

desejo desapareceria!”<br />

Pan-noa não acreditava nos seus próprios pensamentos. Eram elevados demais.<br />

Tocou as quatro esferas presas novamente no seu pescoço, penduradas em um colar e<br />

com a pérola-cubo no meio. “São vocês não são? Eu estou controlando vocês também<br />

e vocês me respondem. Vocês simplesmente passam a informação que eu preciso.”<br />

Pan-noa olhou para sua mão. Uma espiral infinita, uma teia com bilhões de conexões<br />

giravam sem parar. Pan-noa via o infinito naquele desenho. “Com a animotatoo eu<br />

aprendi a controlar meu corpo, meus pensamentos e as quatro esferas. Ninguém havia<br />

conseguido controlar estes objetos antes. Ninguém sabia o que fazer com as esferas<br />

do esquecimento. Nem mesmo os seres supremos.”<br />

Pan-noa viu Ing-mar e Be aproximarem-se da nave.<br />

- Precisava ser tão cedo? – Disse Ing-mar mal-humorado.<br />

Pan-noa sorriu. “Esse menino vai fazer parte da minha vida para sempre.” Olhou<br />

para Be quase sonâmbula. “Assim como essa menina! Mesmo sem ela ser o que<br />

sou... ela é linda.”<br />

Os dois entraram no aerojet.<br />

- Então, para onde vamos? – Perguntou Ing-mar.<br />

- Preciso encontrar alguém. Quero esclarecer algumas coisas.<br />

- Vamos para aquele mundo menor que você nos mostrou? – Perguntou Be.<br />

- Não, vamos ver quem me obrigou a começar tudo isso. Vamos ver a Deusa.<br />

O teto da sala de controle abriu-se em um círculo. “Num círculo.” Pensou<br />

Pan-noa. O aerojet subiu rasgando o céu, fez uma pirueta e voltou num voo rasante<br />

passado a poucos centímetros da casa mais alta da cidade. Be olhou para trás mas já<br />

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não via a cidade. Pan-noa estava em velocidade hiper sônica.<br />

- Você quer matá-los de susto? E a essa hora da manhã? – Perguntou Ing-mar.<br />

- Quanto mais cedo levantar mais dinheiro terá para gastar. – Falou Pan-noa<br />

voltando ao seu humor habitual.<br />

Os três riram. Pan-noa colocou uma música fantástica e fez o caminho que<br />

um dia tinha feito com Clia. Tanto havia acontecido. Pan-noa diminuiu a velocidade.<br />

Sabia que a Deusa só aparecia na presença da luz da lua. Passaram o dia dentro da<br />

nave. Pan-noa queria tempo para pensar e adorava pensar quando estava voando. As<br />

informações começaram a ser coletadas.<br />

O mergulho na água foi emocionante. Ing-mar e Be jamais sonharam em<br />

navegar por baixo d’água. Quando o aerojet entrou no rio subterrâneo eles ficaram<br />

realmente excitados. Pan-noa começou a passar as informações via pérola-cubo para<br />

eles. “ Cada vez que a pétala cair Be lança um micro raio. Nunca deixe a pétala cair no<br />

chão porque a Deusa some. Ing-mar, você será minha proteção. Como não saberemos<br />

se a Deusa vai me atacar ou não, você vai ficar conectado à minha mente o tempo<br />

inteiro. Não faça nada, apenas aponte o braço direito para a Deusa e, se eu perceber<br />

que ela vai fazer alguma coisa contra nós, atirarei com sua arma. A palavra-chave para<br />

isso será “tiro pela culatra.’ ”<br />

O aerojet subiu pela neve que se fazia de areia numa minúscula praia dentro da<br />

caverna. Logo adiante estava a pedra onde a Deusa morava. Uma pedra negra rodeada<br />

de cristais. “Cristais! Cristais mágicos!” Pensou Ing-mar com vontade de tocá-los.<br />

Mas não o fez.<br />

A luz do aerojet iluminava o local. Os três se aproximaram da pedra negra.<br />

Ing-mar com um dos braços apontados para a pedra.<br />

“Diminuir luzes.” Ordenou Pan-noa. O lugar ficou numa escuridão total.<br />

“Visão noturna.” Mas nem precisou porque neste momento a luz da lua penetrou pelo<br />

buraco logo acima da pedra. A flor começou a nascer. Primeiro surgiu o caule, depois<br />

a flor e, finalmente, desabrochou. A Deusa apareceu. Nenhum dos três ficou emocionado.<br />

Estavam ali por uma razão e definitivamente não iriam impressionar-se com<br />

qualquer performance. Nem Be alterou-se. Tinha visto coisas muito mais absurdas<br />

nos últimos dias.<br />

A Deusa notou que havia algo errado. Olhou para Pan-noa e fechou os olhos.<br />

Abriu para ver se aquilo era verdade ou sonho. Depois olhou para Be que não chamou<br />

tanta atenção. O pior momento foi quando viu Ing-mar. Sua cara fechou e a beleza<br />

personificada naquele ser deu lugar à máscara de um monstro. Ing-mar fechou a mão<br />

que estava apontada para a Deusa.<br />

Pan-noa deu um passo à frente.<br />

- Nem pense em fazer-lhe mal. – Disse com uma voz de comando que fez<br />

estremecer o coração de quem ouvia.<br />

A Deusa olhou assustada para Pan-noa e voltando a seu estado natural.<br />

- Então é assim que os demônios surgem... – Disse Pan-noa sarcasticamente.<br />

- Como ousa trazer tamanha aberração à minha presença? – Disse a Deusa<br />

referindo-se a Ing-mar.


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Pan-noa agora falou mais alto e mais forte, sua voz era rouca e penetrava nos<br />

lugares do cérebro onde o medo gosta de se esconder:<br />

- A sua dor será mais forte desse modo.<br />

A Deusa recuou um pouco. Seu medo era visível e o poder dela nesse momento<br />

foi questionado. Uma pétala se desprendeu da flor. Quando estava a caminho do chão<br />

um micro raio a destruiu. A Deusa fechou os olhos.<br />

- Você não pode fazer mal à sua mãe. – Disse a Deusa para Pan-noa.<br />

- Minha mãe se chama Larissa e é um ser humano. – A voz de Pan-noa não<br />

mudava de tom.<br />

- Mesmo que você me mate, mesmo que eu vire uma esfera do esquecimento,<br />

mesmo que tenha que ficar trancada neste círculo, mesmo que não evolua para o outro<br />

círculo, meu trabalho não foi em vão. Morrerei da sua forma sabendo que minha<br />

espécie irá para um outro futuro, que vão evoluir assim como vocês. Minhas atitudes<br />

não foram em vão. Sabemos que nossas ordens foram claras. Vocês enviaram o meu<br />

sangue para todos os planetas. Quando você matou o tutor dessa coisa que está com<br />

você, você permitiu que o Planeta Azul fosse liberado e que sua miserável tecnologia<br />

levasse meu sangue até lá. Portanto, a evolução, a sua evolução forçada, já começou.<br />

- Sabe, dona Deusa, se a senhora permitir que eu a chame assim, – Disse Pannoa<br />

sarcasticamente. – às vezes o ser humano erra. Esquece uma torneira ligada, não<br />

programa um sistema para explodir um planeta direito, não verifica o alarme de casa<br />

ao sair de férias... essas coisas ... é claro que a pérola-cubo nos ajuda muito nesses<br />

casos. Mas veja a senhora que Schaia III não colocou o Planeta Azul como lar de seres<br />

humanos e, por acaso, eu e Ing-mar aqui esquecemos completamente deste detalhe.<br />

A Deusa abriu a boca embasbacada.<br />

- Estou falando sério! – Disse Pan-noa. – Não fizemos por mal! Será que fodeu<br />

tudo? Quero dizer, seu plano? Afinal, eu fiquei sabendo por seus amigos aqui - Pannoa<br />

tirou as quatro pérolas de seu pescoço e mostrou-as à Deusa que quase teve um<br />

colapso ao olhar para a peça. – que se toda a espécie não evoluir então todo o trabalho<br />

será em vão, não é verdade?<br />

- Clia. – Disse a Deusa olhando assustada para o colar. – Ela está ali. Como<br />

você descobriu Pan-noa? Como você conseguiu fazer contato com os seres no esquecimento?<br />

- Ah! Você sabe! Minha miserável tecnologia às vezes serve para alguma coisa.<br />

A Deusa abaixou a cabeça praticamente derrotada. Duas pétalas caíram mas<br />

imediatamente explodiram.<br />

- Sabe, dona Deusa. Eu realmente não fazia ideia dessa história do Planeta<br />

Azul, mas acho que não seria necessário eu ter mandado o MEU SANGUE para eles,<br />

afinal olhe para Ing-mar! Ele já está evoluído e acho que a próxima geração do Planeta<br />

Azul nascerá como ele.<br />

A Deusa olhou para Ing-mar e logo depois para Pan-noa. Um certo brilho passou<br />

pelo seu olhar. “Como? Será que não está tudo perdido?” Mas Pan-noa continuou:<br />

- Veja como vocês não têm a manha para fazer as coisas certas! E ainda se<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

dizem como é mesmo? – Encostou as esferas no pescoço de novo. – Ah sim! Semidivinos.<br />

– Os três riram. A Deusa estava alarmada. “Como é possível? Os Antes estão<br />

rindo de nós!” – Vocês como semidivinos deveriam saber mais coisas sobre nós antes<br />

de tentarem foder com nossas vidas. Se bem que esse novo visual causou muita sensação<br />

no Império, não é mesmo Be?<br />

Be não se mexia.<br />

- Mas, você sabe, dona Deusa. As coisas com os seres humanos são difíceis.<br />

Quando eles não querem alguma coisa simplesmente não querem e quebram uma<br />

carralhada de regras para não fazerem aquilo que não querem. - Pan-noa parou de<br />

falar por um momento. – Sabe, estou falando meio esquisito ultimamente. Bem, mas<br />

voltando ao assunto. Como seus amigos mortos aqui resolveram me contar tudo sobre<br />

leis de círculos e toda essa merda, eu pensei em algo que poderia foder com o seu<br />

plano.<br />

A Deusa estava em pânico. Olhava cada vez mais para Ing-mar, pensando<br />

como deveria ser insuportável ser aprisionada numa esfera do esquecimento. Mas a<br />

raiva estava subindo por seu pescoço e Pan-noa notava.<br />

- Então eu pensei no seguinte: como meu pai tem uma fábrica de pérolascubo<br />

eu poderia manipulá-las com toda essa informação que eu possuo. Assim, todo<br />

o ser humano, quando nascesse, ao invés de ganhar um investimento bancário para<br />

seu futuro, ganharia uma pérola-cubo com instruções sobre seu novo corpo. Quem<br />

quiser ser homem será, quem quiser ser mulher será e quem quiser ser os dois também<br />

será! Não é ótimo? Bom, os que escolheram ser um só vão continuar sendo os seres<br />

humanos sem diferença alguma e os que escolherem serem os dois, possivelmente escolherão<br />

uma vida mais pacífica, mais espiritual e , eventualmente, serão o que vocês<br />

querem que sejam, isto é, seres que estão cagando para a matéria. Não é assim que<br />

funciona? Então, quando morrerem vão para o seu plano, seu círculo. O único problema<br />

é que se uma espécie vai para o próximo círculo pela metade pode dar cagada<br />

não é mesmo? A espécie inteira deve ir ou então só um mínimo de indivíduos, aqueles<br />

que evoluem antes dos outros. Mas são casos raros. E eu estou falando de um monte<br />

de gente que escolherá os dois sexos!<br />

A Deusa estava atordoada com tal possibilidade.<br />

- Nunca aconteceu algo assim antes! – Ela disse com muita raiva.<br />

- Então, dona Deusa? A senhora deveria estar aberta a novidades! Parar um<br />

pouco de se achar a mais gostosa do universo! O que a senhora acha de compartilhar<br />

o seu não lugar com alguns dos seres inferiores que se mostraram, por incrível<br />

que pareça, mais evoluídos que vocês, pois conseguiram foder com seus planos de ir<br />

para um círculo superior? Quem sabe eles não passem por vocês? O que aconteceria?<br />

Vocês iriam retroceder um círculo? Vocês poderiam se tornar Antes de novo! Não é<br />

maravilhoso? Imagine você ter que ir para uma série anterior porque a senhora Trala<br />

errou suas notas nas aulas de socialização!<br />

Be teve um ataque de riso e Ing-mar, mesmo não entendendo a comparação,<br />

também riu.<br />

A Deusa olhava-o. Mas não era mais a Deusa. Era um demônio, algo terrível e


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

feroz. Era a beleza da Deusa ao inverso.<br />

Ninguém se assustou. Pan-noa olhou com uma expressão de riso:<br />

- Pelo jeito teu descaracterizador de identidade foi pro pau! – Os três riram de<br />

novo.<br />

Mas a Deusa falou com sua nova voz de demônio:<br />

- Há quanto tempo a humanidade não evolui? Vocês vão tornar-se a escória do<br />

universo. Vão interromper a evolução da vida inteligente em uma era. Vão continuar<br />

a comer suas informações através dos mortos, através da sua maldita inteligência cadavérica.<br />

É isso que vocês querem? Como pode você, uma criança sem o mínimo de<br />

discernimento, responder pela humanidade inteira?<br />

Pan-noa olhou muito sério para a Deusa.<br />

- Comeremos a inteligência dos nossos mortos até quando quisermos e só<br />

evoluiremos quando estivermos aptos para isso. Falo isso em nome de toda a humanidade<br />

porque vocês, seres semidivinos, me escolheram. Vocês escolheram essa criança<br />

sem discernimento para fazer o seu trabalho sujo. Mas o tiro saiu pela culatra. Coisa<br />

que meu querido amigo Ing-mar jamais deixaria acontecer.<br />

Do braço de Ing-mar saiu um tiro que atingiu o coração da Deusa e depois<br />

outro que atingiu a pedra negra. Restou apenas a luz da lua refletida na neve. Então,<br />

com um som seco a esfera do esquecimento caiu em cima de uma pedra.<br />

Os três sentiram o ar mais leve e o sorriso estampou-se na face de todos.<br />

- Vamos embora dessa merda. – Disse Pan-noa.<br />

Deixaram a esfera lá. Entraram no aerojet e saíram a toda velocidade pelo buraco<br />

onde a luz da lua entrava. A luz da lua atingiu em cheio a cara de Pan-noa. Seus<br />

olhos ficaram brancos. Então ele disse:<br />

- Estou tendo uma visão!<br />

Ing-mar e Be se assustaram. “Até quando isso vai durar?” Os dois pensaram<br />

juntos.<br />

Pan-noa olhou para eles muito sério.<br />

- Amanhã deveremos voltar a Kalum Br e começar a fazer as novas pérolascubo.<br />

Meu pai vai adorar. Ele será o ser mais rico do universo. Mas hoje, - Pan-noa<br />

levantou a voz – eu só consigo ter uma visão!<br />

- O que é Pan-noa? – Falou Ing-mar assustado.<br />

- Eu vejo uma porrada de canecos de cerveja à minha frente!<br />

A luz nos olhos de Pan-noa apagou-se.<br />

- Foi ordem da Deusa!<br />

Os três riram. Pousaram o aerojet na praça da cidade causando alvoroço na<br />

população e dirigiram-se para a taberna. De alguma forma eles deveriam comemorar.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

O Guerreiro Azkenadzy<br />

O Ser menino/menina<br />

Abriu os olhos. A manhã já estava abafada, era um dia de outono, porém o mormaço<br />

se fazia sentir em todos os poros do corpo. Era um dia cinza e úmido. Naquele<br />

dia Azkin acordou sentindo-se particularmente diferente de qualquer outro dia. Não<br />

lembrava o que tinha sonhado, mas logo iria começar a lembrar. “Provavelmente lembraria”<br />

uma voz estranha a sua soou de maneira tímida dentro de sua cabeça.<br />

Desceu da cama que dividia com suas três irmãs e foi ao único banheiro da<br />

casa, quando olhou para seu pênis logo percebeu que tudo estava realmente diferente,<br />

três pequenos pelos pretos haviam nascido contrastando com sua pele morena clara.<br />

- Hum!<br />

Era esse o som que emitia quando algo ligeiramente fora do normal ocorria.<br />

Ficou olhando para seu pequeno pintinho e quase riu. Lembrou-se, no entanto, do dia<br />

que tinha pela frente e prosseguiu com sua rotina. Lavou o rosto e escovou os dentes,<br />

olhou-se no espelho e viu um belo menino de cabelos negros longos e lisos até os ombros,<br />

a pele morena clara, os olhos negros, espertos e felizes; esse era ele. Foi para a<br />

pequena cozinha, a maioria de seus irmãos mais velhos já tinha saído para o trabalho.<br />

Tomou um copo de café preto extremamente doce e já quase gelado. Voltou para o<br />

quarto e vestiu sua roupa, a mesma que tinha usado a semana inteira, surrada, com<br />

alguns pequenos furos na camiseta azul, uma bermuda que deveria ser bege quando<br />

limpa, e os tênis sem meia. Pegou uma mochila preta e velha onde havia umas três ou<br />

quatro caixas de balas que sua mãe deixara para ele vender no centro da cidade. Na<br />

mochila ainda tinha uma blusa, um caderno de desenhos e uma caneta. No bolso ao<br />

lado verificou o dinheiro para a condução de ida para a cidade.<br />

Morava num barraco na periferia, longe o bastante para poder pensar em sua<br />

vida inteira, umas cinco ou seis vezes no caminho, mesmo porque não tinha muito o<br />

que pensar pois não tinha vivido mais que dez anos e sua vida se resumia em pouca<br />

coisa a mais do que a rotina diária de vender balas e às vezes sair com seus irmãos<br />

para algum tipo de jogo ou brincadeira nas redondezas de sua casa.<br />

Esperou a condução pacientemente sem dar muita atenção a qualquer coisa que<br />

fosse, como fazia quase todos os dias desde os seis anos de idade quando começou<br />

este tipo de trabalho para ajudar a família a ter um punhado de feijão na mesa.<br />

A condução era um carro grande e velho caindo aos pedaços e já estava lotada,<br />

Azkin entrou e não deu a mínima para o cheiro horrível que emanava do veículo e das<br />

pessoas ali encurraladas, já se acostumara a este cheiro. Conseguiu um lugar para sentar<br />

sentiu o tranco forte do veículo se deslocando. A condução parava a cada quadra,<br />

as pessoas saiam e entravam, Azkin nada notara de diferente, mesmo porque nada<br />

havia de diferente para ser notado, a não ser talvez, algo nele mesmo. Foi algo quase<br />

insignificante, começou como um arrepio na coluna, algo gostoso e ao mesmo tempo


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

temeroso, um friozinho na barriga, não sabia ao certo o que era, mas a coisa começou a<br />

ficar ao longo do percurso cada vez mais latente, logo estava se segurando firmemente<br />

na poltrona do veículo, suas mãos começaram a suar e tremer. Olhou para o lado e viu<br />

uma outra criança olhando para ele, não saberia dizer se era menino ou menina, e ela<br />

ou ele também olhava para Azkin de forma aterradora, o ser ao seu lado iria segurar<br />

também na poltrona da condução mas acabou tocando na mão de Azkin, apertou-a.<br />

Azkin teve um pequeno espasmo, quis tirar a mão mas não conseguia, como se a mão<br />

ali posta não fosse a sua. Percebeu, entre outras milhares de coisas, o cheiro do ser<br />

ali ao seu lado, adocicado? Um pouco azedo? Uma bala de morango e limão? O que<br />

ocorrera com o tenso cinza do céu? O mormaço tinha virado um inferno, a pequena<br />

sensação na coluna foi parar em seu sexo. Sentiu seu pequeno pintinho agora reto e<br />

duro como pedra. O ser a seu lado fitou-o pelos cantos dos olhos, Azkin conseguiu<br />

reparar no tom esverdeado de seus olhos. Na negritude de suas sobrancelhas e no tom<br />

esbranquiçado de sua pele. E os cílios! “Meu deus!” Pensou. O ser tirou então a mão<br />

de cima da mão de Azkin e ao fazê-lo saltou da condução que estava parada, deixando<br />

e recolhendo pessoas.<br />

Azkin tentou olhar para onde o ser havia ido. Foi-se como um fantasma. Simplesmente<br />

desapareceu. Azkin ficou então desolado, o cinza do céu voltara no tom<br />

mais escuro possível e logo o céu caiu em forma de chuva.<br />

Uma senhora gorda sentou-se ao seu lado. Simpática, viu o olhar triste do<br />

menino.<br />

- Tudo bem, filhinho?<br />

Azkin olhou para ela e não sabia o que responder, estava com algo preso na<br />

garganta, um tipo de vontade de gritar ou soluçar e chorar, mas conseguiu se controlar.<br />

-Tudo. - Respondeu olhando para o outro lado, como que querendo observar<br />

por onde estavam passando, reparou que os barracos tão reconhecíveis estavam mais<br />

feios naquele dia.<br />

Mas então, algo fez com que Azkin olhasse para a mulher assustado. O som<br />

que vinha dos alto-falantes do veículo tocava uma música nada convencional para<br />

aquela condução. Logo todos estavam reclamando, era uma espécie de rock e obviamente<br />

ninguém daquela área gostava deste tipo de som. O assistente do motorista,<br />

responsável pela cobrança do dinheiro, logo tentou corrigir o erro tentando mudar a<br />

estação de rádio, mas de nada adiantava pois a música continuou. Logo Azkin olhou<br />

para frente mais assustado ainda pois a cada frase cantada em outra língua “talvez em<br />

inglês” pensou, ele entendia apesar de nunca ter tido uma aula de inglês na vida.<br />

Time to live - Tempo de viver<br />

Time to lie - Tempo de mentir<br />

Time to laugh – Tempo de rir<br />

Time to die – Tempo de morrer<br />

Takes it easy, baby – Va com calma, criança<br />

Take it as it comes – Tome como vem<br />

Don’t move too fast – Não se mova tão rápido<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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And you want your love to last – E você quer que o seu amor dure<br />

Oh, you’ve been movin’ much too fast – Você tem se movido muito rápido<br />

Time to walk – Tempo de andar<br />

Time to run – Tempo de correr<br />

Time to aim your arrows – Tempo de apontar suas flechas<br />

At the sun – Para o sol<br />

Go real slow – Vá bem devagar<br />

You like it more and more – Eu quero mais e mais<br />

Take it as it comes – Tome como vem<br />

…<br />

Azkin não conseguia pensar direito, estava tonto, a música retumbava em sua<br />

mente. A tiazinha a seu lado chacoalhou um pouco ele, logo ele conseguiu olhar para<br />

ela de novo.<br />

- Aonde está indo, filhinho? – Perguntou ela um pouco assustada.<br />

- Vou pegar o trem para a República. – Respondeu Azkin pálido como a neve.<br />

- Eu estou indo para lá, vou com você está bem?<br />

- Sim, obrigado. - Azkin respondeu debilmente. – Mas acho que vou dormir<br />

um pouco. A senhora me acorda quando chegarmos a estação?<br />

- Claro meu filho! – Disse a mulher ainda preocupada.<br />

Azkin encostou a cabeça na janela e logo aquele mundo desapareceu. Menos a<br />

música. A voz veio a sua mente “agora provavelmente lembraria.”<br />

Um lugar chamado Perdida Lenore:<br />

Azkin estava voando sobre um mar cinza azulado, o céu encoberto por nuvens<br />

esverdeadas, escuras. Logo reparou que a sua frente havia um penhasco gigantesco<br />

e negro, fazendo divisa com campos dourados e verdes, infinitos. Na encosta do<br />

penhasco havia um vilarejo, casas de pedras acinzentadas, telhados de palha, ruas estreitas.<br />

Azkin rodava por cima deste vilarejo como uma abelha que roda a flor. Pessoas<br />

andavam para cima e para baixo nas ruelas de pedras. Algumas tochas começaram a<br />

ser acesas, prenúncio da noite. Lá ao norte uma comitiva vinha a cavalo arrastando<br />

três ou quatro pessoas com as mãos atadas a cordas e os rostos tampados com panos.<br />

Azkin se dirigiu para lá. Uma das pessoas se recusava a andar e logo levou umas chibatadas.<br />

Azkin tremeu. Eram seres pequenos, talvez crianças. Eles vinham em direção<br />

à cidade por uma estrada de pedras. Azkin percebeu um certo alvoroço nos portões da<br />

vila. O tumulto logo se espalhara e todos os habitantes da cidade começaram a formar<br />

um corredor para ver os capturados passarem, provavelmente eles já sabiam o que<br />

ocorreria, pois muitos já se postavam na praça central.<br />

Azkin veio sobrevoando junto à comitiva, passou pelo portal da cidade lá estava<br />

escrito em letras que ele nunca tinha visto na vida, mas conseguia ler: “Bemvindo<br />

a Perdida Lenore” e logo em baixo “Se for um Azkenadzi suma.”<br />

A comitiva entrou na vila arrastando os encapuzados. Gritos ecoaram pela ci-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

dade inteira, uivos de gente que pareciam de cães, dentes podres à mostra. Os três ou<br />

quatro seres foram postados no centro da praça em meio ao turbilhão dos cidadãos. Os<br />

três ou quatros seres foram amarrados em três ou quatro postes na praça central. Os<br />

três ou quatro seres ficaram em um silêncio estarrecedor. Logo os três ou quatro seres<br />

foram desencapuzados. Azkin olhou para eles e notou com um espasmo que um deles<br />

tinha os olhos esverdeados com cílios e sobrancelhas negras a pele extremamente<br />

branca, não conseguia dizer se aquilo era um menino ou uma menina. Mas Azkin ficou<br />

mais estarrecido quando notou que o quarto ser amarrado no poste era ele. Azkin<br />

sentiu a primeira avalanche de pedras a cair sobre ele.<br />

A Praça da República<br />

Azkin acordou com o solavanco do veículo passando por um buraco. A tiazinha<br />

tinha um olhar de pena. Porém Azkin nada falou. Estava tão assustado com o<br />

sonho que não conseguia pensar direito. Foi a tiazinha que disse:<br />

- Quanto mais velhos ficamos mais os sonhos parecem reais.<br />

Azkin pensou “Se houver um sonho mais real do que aquele eu prefiro não<br />

mais sonhar.”<br />

Agora seus pensamentos começavam a assustá-lo também, a mudança que<br />

sentia era tão latente que ele mesmo não conseguia mais se sentir o Azkin que ele conhecia,<br />

parecia haver alguém dentro de sua cabeça. Era um Azkin mais adulto. “Será<br />

que se eu raspar aqueles pelos no meu pau isso pode acabar?” Perguntou a si mesmo.<br />

Mas a resposta estava na sua cabeça. “É claro que não!”<br />

A tiazinha puxou Azkin para fora da condução e logo entraram na estação de<br />

metrô. Ali ela lhe comprou uma água. Ele bebeu e teve outra sensação esquisita: a<br />

própria água parecia ter outro gosto. “De agora em diante acho que tudo vai ser mais<br />

amargo.”<br />

Porém dentro dos túneis do metrô as coisas pareciam ser iguais a o que eram<br />

antes. Azkin conseguiu até conversar um pouco com a tiazinha que logo achou que o<br />

menino deveria ter passado mal devido ao calor.<br />

A viagem demorou cerca de uma hora até que chegaram à Praça da República,<br />

centro da cidade. Azkin agradeceu e se despediu da tiazinha. Já eram dez horas da<br />

manhã e ele tinha um monte de balas para vender. Ao meio dia ele já conseguira dinheiro<br />

suficiente para comprar algo para comer. Pessoas passavam sem dar a mínima<br />

para o garoto sentado na praça comendo um sanduíche e vendendo balas. Na verdade<br />

as pessoas mal se preocupavam com crianças estiradas na rua como ratos subnutridos,<br />

quem dirá com um menino que teve a imensa sorte de poder vender alguma coisa.<br />

Azkin continuou vagando pelo centro nos arredores da praça vendendo suas<br />

balas que eram compradas por um mísero aceno de compaixão dos seres ali passantes.<br />

A noite se fez sem se anunciar e Azkin tinha apenas uns cinco pacotes de balas<br />

para serem vendidas, estava com o dia ganho e foi para um bar em uma esquina comprar<br />

um salgado antes de voltar para casa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Quando entrou um menino o chamou para sentar a sua mesa. Azkin que parecia<br />

ter esquecido do que havia ocorrido naquela manhã foi sentar-se com o menino,<br />

este era mais velho que Azkin deveria ter uns quinze anos, mas Azkin descobriu mais<br />

tarde que ele tinha dezessete. Depois de algum tempo um amigo bem mais velho<br />

deste menino sentou-se a mesa, os três conversaram bastante. Azkin percebeu que<br />

eles viviam em outro mundo, eram muito alegres, emanavam uma felicidade fora do<br />

comum, principalmente naquele ambiente carregado de pessoas medíocres. Este mais<br />

velho não parava de tomar cerveja e colocava uma música mais louca que a outra na<br />

caixa de músicas do bar. Todo o bar ficava indignado com sua estratégia de colocar<br />

um monte de dinheiro na tal caixa não deixando que ninguém escolhesse outro tipo de<br />

música. Azkin achou isso muito divertido e logo fez amizade com os dois. Perguntou<br />

a eles se eram parentes.<br />

- Sim. Somos. - Falou o mais novo. - Ele é meu tio.<br />

- Hum. – Desconfiou Azkin.<br />

Eles tinham muitos amigos todos vinham à mesa e não paravam de conversar<br />

um minuto o mais velho era o mais palhaço, berrava com todo mundo, principalmente<br />

com o garçom que demorava para trazer suas tão amadas cervejas.<br />

Então o mais velho, no alto de sua bebedeira, disse preocupado.<br />

- Você não tem que ir pra casa? O trem acaba a meia-noite, filhinho.<br />

- É mesmo! – Respondeu Azkin.<br />

Então o mais velho, sem mais nem menos, tirou do bolso um mp3 e deu a Azkin<br />

de presente, pediu para o mais novo levá-lo para o metrô. Azkin não sabia como<br />

agradecer o mais velho falou então para Azkin algo que o deixou assustado.<br />

- Tempo de viver, criança, tempo de mentir. Aponte seu arco para o sol.<br />

Azkin tentou falar mais alguma coisa, mas o mais novo já estava puxando-o<br />

para a estação. Não conseguiu conversar sobre nada com o mais novo pois este parecia<br />

conhecer o centro inteiro. Ao chegar à estação ele disse para Azkin.<br />

- Normalmente o guerreiro deixa algo para você sem você saber, se ele deixou<br />

realmente... Bom é melhor você descobrir.<br />

- Qual guerreiro? – Perguntou Azkin.<br />

- Guerreiro? – Perguntou o mais novo. – Você vai voltar aqui, não vai Azkin?<br />

- Sim todo dia venho vender balas.<br />

- Então nóis se cruza. Nóis sempre vem neste bar.<br />

- Ta bom, amanhã a gente se vê. – Falou Azkin.<br />

O mais novo deu um beijo no rosto de Azkin e disse.<br />

- Se cuida e ouve o mp3.<br />

Azkin tinha até esquecido do tal mp3. Quando entrou no trem colocou os fones<br />

no ouvido e logo voltou para a Perdida Lenore.


Marcelo Paciornik<br />

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A figura de preto<br />

A chuva tinha parado. Quando Azkin despertou o sol ainda não havia raiado,<br />

suas mãos ainda estavam atadas ao poste, logo adiante ele podia ver os corpos das outras<br />

três crianças; pareciam mortas. Azkin não tinha muita certeza pois sua visão estava<br />

nublada e sentia dores pelo corpo. Havia pedras ao seu redor, muitas pedras. Então<br />

viu um vulto negro se aproximando, apenas uma capa preta voando ao vento, o vulto<br />

parou junto a um Azkin deitado e contorcido no chão de pedra. Azkin agarrou o poste<br />

com força e medo, um medo doentio. A figura tirou uma adaga que brilhou, um brilho<br />

prateado contrastando com o breu eminente do local e cortou as amarras de Azkin.<br />

- Levante-se, não temos muito tempo. – Uma voz profunda e calma.<br />

A figura foi verificar os outros, então para total surpresa de Azkin dois dos<br />

corpos foram cortados em pedaços. A figura colocou os pedaços dos corpos em volta<br />

dos postes formando um círculo. Azkin se contorceu mais ainda diante do imenso terror.<br />

Agora a figura traçava desenhos com uma enorme quantidade de sangue que saía<br />

dos corpos. Depois foi para a terceira figura: aquela que havia aparecido no primeiro<br />

sonho de Azkin; cortou suas amarras e levantou a criança no colo. Olhou para Azkin<br />

e disse novamente.<br />

- Levante-se e siga-me.<br />

Azkin com um imenso esforço conseguiu levantar-se. Seguiu a figura. Quando<br />

saíram do círculo Azkin ouviu um barulho incompreensível olhou para trás e viu uma<br />

gigantesca labareda de fogo levantar-se ao céu. Azkin olhava e andava para trás, abismado.<br />

O fogo agora azulado formava uma estrela de seis pontas. A figura levantou<br />

Azkin no colo e segurou-o fortemente. Ouviram-se então os primeiros gritos dos cidadãos.<br />

A figura andava a passos largos com as duas crianças no colo. O sol começara<br />

a nascer. Alguns passos ecoaram. Começara então a correria. A figura, porém, não<br />

aumentara os passos, estava se deslocando pela viela que levava para a saída da cidade.<br />

Azkin viu por cima do ombro da figura, alguns aldeões seguindo-os, correndo e<br />

gritando. Azkin segurou fortemente no pescoço da figura. Neste momento os aldeões<br />

já em grande número se aproximavam mais e mais. Dentes podres à mostra. Azkin<br />

poderia tocá-los, mas eles apenas passaram por eles correndo, como se eles não estivessem<br />

ali. Azkin olhou abismado para a figura mas não conseguiu ver seu rosto; viu<br />

então o rosto da outra criança que agora despertara no outro braço da figura que os<br />

carregava e aquela criança tocou nos cabelos de Azkin.<br />

Uma mão tocava na cabeça de Azkin no metrô.<br />

- Última parada. – Falou uma voz despertando-o.<br />

Azkin tinha ainda que pegar a condução para ir do terminal do metrô para sua<br />

casa. Uma música solene começara a tocar no mp3 que ele ganhara daquele seu novo<br />

amigo no bar, foi o que ajudou Azkin a não sentir tanto medo de si mesmo. Porém por<br />

pura curiosidade Azkin olhou para o mp3 e leu o nome do grupo que tocava a música<br />

“Tristania” e com um frio na espinha Azkin leu o nome da música “ My Lost Lenore.”<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Os pensamentos de Azkin dispararam enquanto a condução se deslocava em<br />

direção a sua casa. Eram pensamentos desconexos e assustadores. Azkin sentiu-se<br />

extremamente só e angustiado. Será que o sonho continuaria? O que aqueles dois<br />

novos amigos teriam a ver com tudo isso? E a menina/menino do sonho? Existia em<br />

seu mundo ou era fruto da sua imaginação? Azkin queria vê-lo/vê-la mais uma vez.<br />

Quando chegou em casa, sua família já estava dormindo. Azkin pensou em<br />

comer alguma coisa mas nada havia na geladeira. Sobrara apenas um copo de leite,<br />

provavelmente deixado pela sua mãe. Tomou e foi dormir com o corpo dolorido.<br />

No dia seguinte acordou com um aperto no coração, mas não se lembrava do<br />

que havia sonhado. Iniciou então a mesma rotina de sua miserável vida. Neste dia, no<br />

entanto, nada havia de diferente, passou o dia vendendo balas, angustiado para que a<br />

noite chegasse. Queria se encontrar urgentemente com seus novos amigos. Foi para<br />

o bar logo que a noite caiu. Mas eles não estavam lá. Esperou até as onze da noite,<br />

mas só encontrou um bando de pervertidos e medíocres. Voltou para casa cabisbaixo<br />

a única conexão que tinha com aquele novo mundo que se abria em sua mente eram<br />

as músicas do mp3 que ilustravam tão bem seus temerosos sonhos. Não dormiu no<br />

trem, tomou a condução que o deixara duas quadras de sua casa. A rua estava escura e<br />

vazia, Azkin não se assustou pois era ali que vivia. Tirou o mp3 do ouvido e guardouo<br />

em seu bolso; apesar de conhecer tudo por ali não queria que seus vizinhos vissem<br />

o aparelho pois era algo caro e logicamente perguntas iriam ser feitas a respeito de<br />

como Azkin havia conseguido o tal aparelho. Um sino tocou. Azkin parou arrepiado.<br />

- Hum... Um sino? – “Não havia igrejas por ali.” Pensou.<br />

Mais um toque e outro e mais outro cada vez mais perto. Azkin começou a<br />

correr. Ouviu então barulhos estranhos; já ouvira estes barulhos antes, em filmes.<br />

Agora corria mais ainda em direção a sua casa. Cavalos! Era barulho de cavalos,<br />

sinos e muitos cavalos. Entrou pelo portão e ao olhar para rua uma imensa cavalaria<br />

estava passando pela frente de sua casa! Figuras com capas pretas! A vizinhança toda<br />

olhando assustada pelas janelas. Uma das figuras olhou para Azkin e apontou para ele.<br />

A cavalaria foi até o final da rua e fez a volta. Vinham em sua direção! Azkin entrou<br />

correndo em casa. Quando fechou a porta o barulho desapareceu. Porém sua mãe, irmãs<br />

e irmãos vinham correndo para ver o motivo de tal estardalhaço. Azkin ficou em<br />

frente a porta trancando-a palidamente.<br />

- Não saiam! Eles vieram me buscar!<br />

A família assustada foi ver a janela.<br />

- Quem Azkin? – Perguntou sua mãe.<br />

A rua estava num alvoroço, todos assustados comentando o que viram ou deixaram<br />

de ver. Os irmãos de Azkin passaram por ele e foram lá para fora. Azkin<br />

abraçou sua mãe, mas nada mais falou. Sabia que as coisas começaram a ficar muito<br />

sérias para ele.<br />

Azkin ouviu de seu quarto os irmãos voltarem e ninguém sabia explicar nada,<br />

ninguém falava coisa com coisa na rua, todos pareciam enlouquecidos, mas todos<br />

concordavam com algo: alguma coisa esteve lá fora; algo grande e barulhento.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Azkin estava agora em uma sala escura, havia uma mesa grande e redonda,<br />

várias figuras de preto estavam sentadas ao redor da mesa, Azkin estava sentado com<br />

o ser menino/menina ao seu lado. Azkin tentou falar algo mas nada saia de sua boca, o<br />

ser encostou seu dedo na boca em sinal de silêncio; ele entendeu e voltou a olhar para<br />

os de capa preta. Existiam muitas velas acesas na mesa, porém Azkin não conseguia<br />

ver o rosto de ninguém. Por algum motivo somente agora ele conseguia, vagarosamente,<br />

entender o que um deles falava. Parecia ser o menor deles, porque tinha uma<br />

voz infantil.<br />

- Por qual motivo esta é a noite que se difere de outras noites?<br />

Todos os outros respondiam a pergunta em coro.<br />

- Esta noite não difere de outras noites, pois nada mudou a não ser a luz da lua<br />

e do sol.<br />

- Por qual motivo comemos em silêncio nesta noite diferentemente de todas as<br />

outras noites?<br />

- Comemos em silêncio, pois em silêncio devemos ficar todas as noites e todos<br />

os dias, pois libertos ainda não estamos.<br />

- Por qual motivo não bebemos o vinho esta noite diferentemente das outras<br />

noites?<br />

- Não bebemos o vinho nem esta noite nem qualquer outra noite pois esta noite<br />

não difere de qualquer outra noite.<br />

As pessoas de preto, então, comeram um pão branco e achatado e tomaram<br />

uma água amarelada.<br />

- Esta noite difere de qualquer outra noite?<br />

Um tempo se passou, ninguém na sala respondeu. O ser menor que perguntava<br />

o que parecia ser uma reza, olhou para os outros que permaneciam com a cabeça<br />

abaixada. Agora Azkin pode ter um breve vislumbre dos olhos deste ser que fazia as<br />

perguntas. Então ele continuou.<br />

- Se esta noite difere das outras noites, então deveremos beber o vinho?<br />

- Se esta noite é a noite que difere das outras noites, esta será a noite na qual<br />

beberemos o vinho que não beberíamos em nenhuma outra noite.<br />

- Hum! – Fez Azkin sem querer.<br />

Imediatamente todos olharam na direção dele; pelo que parecia ninguém tinha<br />

notado a presença dele ali. Estavam assustados, ou pareciam estar. Mas então Azkin<br />

notou que eles não o enxergavam.<br />

- Qual de vós, espíritos da noite, vem presenciar nosso ritual sagrado? Não<br />

basta o abandono de anjos seus a nosso povo? O que querem, espíritos orgulhosos?<br />

Mais sacrifício deste povo que se faz escravo há tantas eternidades?<br />

O ser menino/menina agarrou a mão de Azkin.<br />

- Apareçam, se vieram de bom grado, caso contrário sumam para o silêncio que<br />

preferiram, levem para fora vosso orgulho, deixe-nos sós neste deserto agreste. Não<br />

tornem mais nem por compaixão, pois vosso Deus já nos abandonou há tempos. Nem<br />

venham mais para zombar. Se riem, que sejam risadas de vossas desventuras.<br />

Azkin suava nas mãos. Todos na sala contornaram para o outro lado da mesa<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

e encaravam a parede que Azkin e o menino/menina estavam agora, em pé. Mas eles<br />

não os viam.<br />

Então o menino/menina, segurando a mão de Azkin deu um passo a frente. Sua<br />

voz era de um esplendor inacreditável:<br />

- Que esta noite se torne diferente de todas as outras noites! Que a luz aqui<br />

presente ilumine nossas feições, que seja servido o vinho.<br />

Um dos seres de capa preta avançou alguns passos e olhou para eles, como que<br />

buscando algo:<br />

- O vinho deve ser servido. – Disse. – Fui eu que trouxe estes dois espíritos.<br />

Eles foram capturados por engano; eles presenciaram a morte de Ruth e Ester. Eu<br />

achava que eram mais dois dos nossos, mas logo eles sumiram dos meus braços, logo<br />

que eu passei a fronteira, se não fosse por eles os Nadzim iriam me capturar; eles me<br />

fizeram desaparecer. São espíritos poderosos, e pelo visto não compreendem isto.<br />

“Não compreendem isto!” Pensou Azkin. “ Eu não to compreendendo é nada!”<br />

Então o menino/menina falou novamente.<br />

- Que assim seja, de bom grado aqui estamos. Que o vinho seja servido.<br />

O menor dos de preto foi buscar o vinho, foram servidos treze taças de vidro,<br />

e mais três taças de prata. Azkin olhou para o menino/menina e ele/ela disse baixinho.<br />

- Quando eles pegarem as taças você também pega e bebe.<br />

- E a terceira? – Perguntou Azkin.<br />

- Não sei. – Respondeu o ser menino/menina.<br />

Então os seres de preto pegaram suas taças, e entraram em total comoção<br />

quando as outras três flutuaram e foram bebidas também. Imediatamente Azkin e o<br />

menino/menina apareceram de mãos dadas na sala dos seres de preto.<br />

Silêncio. Silêncio absurdo e mortal. Azkin agora podia senti-los. Não como<br />

sentira qualquer coisa até hoje em sua vida, ele sentia a alma daquelas pessoas, e<br />

parecia para ele que as pessoas sentiam Azkin da mesma forma.<br />

- Onde está o terceiro? – Perguntou o menor.<br />

- Não havia um terceiro. – Respondeu o que resgatou Azkin e o ser menino/<br />

menina.<br />

- O terceiro. – Disse uma voz muito fraca, poderia ser o mais velho dos seres<br />

de preto. – É o guardião, seu nome é Eliau Anavi. Mas agora devemos saber o nome<br />

destes dois. – Sentem, espíritos.<br />

Obviamente estava falando para Azkin e para o ser menino/menina mas Azkin<br />

teve que rir.<br />

- Espíritos? – Perguntou sorrindo. – Eu não sou nenhum espírito!<br />

Até o ser menino/menina o olhava assustado/a.<br />

“Que merda!” Pensou Azkin. “Agora como vou explicar o que sou.”<br />

Foi o ser menino/menina que o salvou:<br />

- Somos entidades. Viemos para cá em nome de Adonai.<br />

Os seres de preto começaram a orar histericamente.<br />

- O que está fazendo? - Perguntou Azkin baixinho para o ser menino/menina.<br />

- Calma! Eu sei o que faço. – Disse ele/a num sussurro.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Depois da reza eles olhavam mais abismados ainda para os dois.<br />

- O que diz Adonai, ó anjos? O que fala o Senhor?<br />

- Ele diz. – Continuou o ser menino/menina. – Que haverá discórdia e perseguição,<br />

morte e calamidades, mas haverá também liberdade.<br />

Os treze fitaram o ser menino/menina por um tempo, mas ele/ela continuou.<br />

- Nós precisamos de algo, temos que resgatar um amuleto, só assim seu povo<br />

irá ser libertado.<br />

Azkin estava atônito. “ Que que eu to fazendo aqui?”<br />

- Precisamos do símbolo. - Disse o ser. – Precisamos do amuleto Azkenadzi.<br />

Silencio. Depois risos muitos risos.<br />

- Como o Senhor? Como o próprio Adonai? – Disse o mais velho ainda sorrindo.<br />

– Manda anjos Seus para pedir tal absurdo!<br />

- Não é Adonai que quer o amuleto. – Disse o ser menino/menina, agora mudando<br />

totalmente a entonação de sua voz.<br />

Então todos ficaram em silêncio mais uma vez.<br />

- Então quem o quer? Por tudo o que é mais sagrado! – Perguntou o mais velho.<br />

- Somos nós, queremos o amuleto para entregar para o próprio demônio! – A<br />

voz do ser menino/menina agora era gutural.<br />

A cabana em que estavam se desfez em pó. Agora os treze de preto o ser menino/menina,<br />

Azkin a mesa com velas as taças estavam num deserto escuro e frio,<br />

o vento apagou as velas e o vulto de Eliau Anavi surgiu num relâmpago, mas logo<br />

desapareceu.<br />

Atrás de Azkin e do ser menino/menina surgiu um exército de seres gigantescos<br />

montados em cavalos, com tochas nas mãos. Atrás dos treze de preto surgiu um<br />

outro exército de homens com capas pretas, também montados em cavalos. O ser<br />

menino/menina estendeu a mão para frente e olhou diretamente nos olhos do mais<br />

velho. Então na palma da mão do ser menino/menina surgiu uma peça em prata com<br />

uma estrela de seis pontas rodeada por círculos que formavam pontas entre si. O ser<br />

menino/menina bateu com o amuleto no peito de Azkin. A carne de Azkin gemeu de<br />

dor e o amuleto entrou no peito do menino. Fixou-se ali dentro como uma tatuagem<br />

de metal. O ser de preto mais velho desfaleceu ali mesmo.<br />

Azkin acordou indignado com a dor em seu peito.<br />

Correu para o banheiro e se olhou no espelho, verificou com enorme alívio que<br />

nada havia em seu peito.<br />

- Meu deus! – Disse rindo e aliviado para si mesmo no espelho. Percebeu que<br />

estava inteiro suado. Despiu-se e entrou no banho, olhou para seu sexo e disse.<br />

- Que merda heim seus pentelhos! Tudo isso começou graças a vocês! Ainda<br />

bem que eram só sonhos... Sorria para a água que caia em sua cara. Pegou o sabonete<br />

e começou a lavar seu corpo, passou pela barriga, pelas pernas, embaixo dos braços e<br />

pelo peito, ao passar com o sabonete por ali parou imediatamente.<br />

- A não. Não pode ser. – Olhou para seu próprio peito e viu num pequeno<br />

reflexo da luz que penetrava pela pequena janela do banheiro o amuleto apareceu<br />

brilhando encravado em seu peito.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Quando saiu do banheiro, porém, logo viu algo que o deixou um pouco mais<br />

feliz. Havia um bolo de chocolate no centro da mesa. Sua família estava lá reunida.<br />

-Feliz aniversário Azkin!<br />

-Hum!<br />

Logo estavam todos comendo um pequeno pedaço de bolo e tomando café. Azkin<br />

conseguiu esquecer por um momento seus problemas oníricos. Depois da pequena<br />

comemoração Azkin pegou a mochila e foi para sua jornada diária: vender balas.<br />

Por mais que estivesse assustado e relutante em ouvir o mp3 Azkin deixou-se<br />

levar pelo impulso. Ao ouvir a música logo os sentimentos vieram como raios a atingir<br />

seu cérebro. Colocou a mão no peito e sentiu uma fina camada mais dura de metal<br />

ali depositada. Fechou os olhos e tentou se concentrar nos acontecimentos dos seus<br />

sonhos. Mas os pensamentos eram desconexos, havia apenas uma sensação latente da<br />

presença do ser menino/menina. Azkin continuou sendo envolvido nesta sensação,<br />

sem fazer força para evitá-la, gostava de senti-la. Apesar da estranheza e do medo que<br />

vinham junto, não conseguia permitir que ela fosse embora e a música era o melhor<br />

canal para senti-la.<br />

O dia passou mascarado pelas sensações. Azkin agora compreendia que aquilo<br />

fazia parte dele e deveria encarar da melhor maneira possível, assim não tentou mais<br />

entender e sim apenas sentir e quanto mais deixava a coisa penetrar em seu ser mais<br />

latente ela ficava. Às seis horas da tarde Azkin resolveu tomar o caminho para o bar,<br />

tinha que encontrar seus amigos de alguma maneira.<br />

Andava por inúmeras ruas recheadas de seres recostados em muros, todos enlouquecidos<br />

por uma droga poderosa. Vários miliciantes em todas as esquinas viam<br />

aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Crianças como ele, maiores ou<br />

menores, ali deitadas a consumir as piores das drogas possíveis. Proibidas por lei, mas<br />

consideradas toleráveis a olhos vistos. Ninguém poderia se meter neste mundo, era<br />

um mundo a parte. Nem miliciantes, nem donos de lojas, nem clientes ou passantes<br />

poderiam se meter naquele mundo fatídico. Se quisessem se matar, que assim fosse.<br />

Uma forma de vida descartável, sem um mínimo de valor... Eram os seres acabados,<br />

abandonados por uma sociedade alheia, a um mundo que deveria ir em frente, postergando<br />

os argumentos alheios a aquilo que Azkin começava a entender.<br />

Fatigado daquela realidade Azkin começou a penetrar em si mesmo; tentou<br />

tornar-se alheio àquilo que estava presenciando, porém, não conseguiu. Logo adiante,<br />

em meio aqueles seres quase mortos, viu o ser que aparecia em seus sonhos. Correu<br />

gritando. Aquilo não poderia estar acontecendo. Viu aquele ser menino/menina<br />

deitada/o completamente esfarrapada/o fumando um cachimbo de crack.<br />

Ao colocar o ser em seus braços os outros se afastaram, existia uma certa repulsa<br />

ao ser Azkin, por toda aquela realidade. Os drogados começaram a correr. Azkin<br />

não entendia como aquilo funcionava e não ficou alarmado com aquela situação. Os<br />

miliciantes, porém acharam meio esquisito a correria e vieram ver o que ocorrera.<br />

Acharam Azkin deitado com o ser menino/menina em seu colo.<br />

- Está drogada? – Perguntou um dos miliciantes.


Marcelo Paciornik<br />

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- Não. – Respondeu Azkin. – Um pouco bêbada.<br />

Os miliciantes foram embora. Olhou para o ser ali deitado/a em seus braços.<br />

- O que você fez comigo? – Perguntou Azkin a figura desmaiada.<br />

Ficou ali sentado em uma calçada suja com ele/a nos braços sem saber o que<br />

fazer. Suas mãos no rosto do menino/a.<br />

- Pelo menos o seu nome... – Disse Azkin desesperado.<br />

O despertar de Pan-noa<br />

Pan-noa estava deitado, desmaiado, em uma calçada imunda embaixo de um<br />

viaduto imundo que cortava uma cidade imunda de leste a oeste. Seu corpo nu tremia,<br />

o barulho da cidade era ensurdecedor. Foi isso que fez com que ele despertasse. Pannoa<br />

não tinha a menor noção do que ele era. Abriu os olhos devagar, piscou algumas<br />

vezes. Sentiu seu corpo febril e dolorido, notou veículos ao seu redor num engarrafamento<br />

enorme e caótico. O cheiro era horrível, não só de seu próprio corpo, mas a<br />

cidade fedia como nada que sua memória pudesse lembrar.<br />

Ergueu um pouco a cabeça, era noite, uma iluminação amarelada revelava seu<br />

pequeno corpo a todos os passantes, que por algum motivo mal o notavam. Tentou<br />

respirar um pouco mais fundo, mas seu corpo tossiu compulsivamente. Sentou-se vagarosamente<br />

e arrastou-se para uma das imensas pilastras que sustentavam o viaduto.<br />

Seu olhar estava longe, como se ele não estivesse ali, mas sua mente fervilhava. Tentava<br />

descobrir quem era ele e onde estava.<br />

Um cobertor imundo foi jogado sobre seu corpo. Uma garrafa de vidro entrou<br />

no seu campo de visão. Pan-noa pegou a garrafa e tentou agradecer, mas não sabia<br />

falar qualquer língua que fosse. O gosto da cachaça desceu queimando sua garganta.<br />

Pan-noa tentou cuspir mas o líquido já estava em seu corpo. Pan-noa continuou ali<br />

sentado por um tempo. A mente tentando funcionar, a bebida, agora atrapalhava, estava<br />

tonto. Continuou assim, agora observando com alguma consciência o movimento<br />

dos veículos; as pessoas olhavam para ele de dentro deles com olhares frios, sem<br />

emoção alguma, um pedaço de carne a apodrecer num mundo injusto.<br />

Após algumas horas Pan-noa conseguiu levantar-se, andou mancando com<br />

dores pelo corpo, apoiando-se na pilastra do viaduto. Olhou para um lado e para o<br />

outro a fila de veículos era interminável, assim como o viaduto.<br />

Pan-noa começou a andar, seu corpo parecia doer um pouco menos. Levava<br />

um cobertor em volta de seu corpo sujo. Seguiu pela calçada, a passos lentos, ainda<br />

concentrando-se em seu próprio ser. Logo adiante havia um bando de crianças na<br />

mesma situação que ele; algumas dormiam enroladas em seus cobertores imundos,<br />

outras estavam sentadas com o olhar vazio. Pan-noa foi até eles, não falou nada pois<br />

até aquele momento não sabia como se comunicar. Uma das crianças fez um sinal com<br />

a mão para ele, o que o fez entender que era para ele ir até ela. Pan-noa sentou-se ao<br />

lado da criança, podia ser um pouco mais jovem que ele, mas Pan-noa não conseguia<br />

pensar sobre isso. A criança passou-lhe uma lata vermelha, Pan-noa bebeu o líquido<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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compulsivamente; era doce, gelado e gostoso.<br />

- Como é seu nome? – Perguntou a criança.<br />

Pan-noa não conseguiu responder. A criança pareceu não se preocupar. Sabia<br />

qual era o estado de Pan-noa, passava por isso todos os dias, todos ali passavam. Ficavam<br />

em uma semiconsciência constante; era assim o mundo deles, e era assim que<br />

deveria ser.<br />

Pan-noa ficou com eles durante dias, eles alimentaram Pan-noa da forma que<br />

podiam, mas Pan-noa não saia do estado letárgico que estava. Porém depois de algum<br />

tempo algo dentro da cabeça de Pan-noa começou a ficar mais claro ele começou a<br />

compreender o que os outros falavam, e logo começou a balbuciar algumas palavras,<br />

às vezes desconexas, às vezes em outras línguas às vezes na língua deles. Eles na<br />

verdade não se interessavam muito com a mudança de Pan-noa, continuavam ali,<br />

alguns vinham outros iam de maneira inconstante, mas Pan-noa começou a perceber,<br />

e vagarosamente algo em sua testa começou a despertar.<br />

Então depois de alguns dias Pan-noa sentiu seu corpo um pouco mais forte.<br />

Conseguiu se mexer, levantar-se e até mesmo andar. No começo seguia um ou dois<br />

do bando, mas eles mandavam Pan-noa voltar, falando que Pan-noa poderia se perder.<br />

Pan-noa voltava com medo. Se amontoava junto aos que dormiam e ficava ali, quieto<br />

apenas sorvendo um mundo mágico que queria despertar em sua mente. Eram coisas<br />

estranhas, viagens em lugares escuros por entre as estrelas, castelos e existia ainda<br />

uma menina e um menino que povoavam esses pensamentos longínquos.<br />

Numa noite chuvosa um dos meninos do bando voltou sorridente. Pan-noa ouvia<br />

o que ele falava e conseguia discernir entre algumas coisas e alguns sentimentos;<br />

era algo como se ele tivesse conseguido roubar algo valioso que iria dividir com todos<br />

ali. Pan-noa achou que era uma coisa boa, pois todos do bando começaram a comemorar.<br />

Então fizeram uma espécie de tenda com os cobertores, armaram uma mesinha de<br />

caixas de papelão ali dentro e um após o outro entravam na casinha e logo saíam. Pannoa<br />

admirava aquilo com aquele um vazio. Então um dos garotos do bando o pegou<br />

pela mão e levou para dentro da tenda.<br />

- Olha aqui Sem Ideia – Era assim que eles chamavam Pan-noa. – Ta vendo<br />

aquela carreirinha de pó ali? Tu põe o nariz ali e cheira. Assim cê vai fica com ideia!<br />

Pan-noa olhou para a carreira de pó sem saber o que era nem o porque de fazer<br />

aquilo. Ele meteu o nariz na carreira e cheirou o pó. Depois olhou para frente, erguendo<br />

a cabeça da mesinha de caixa de papelão. Saiu da tenda e olhou em volta. Viu<br />

todo o bando em torno e todos falavam muito. Pan-noa começara a entender a língua<br />

deles. Respirou fundo e começou a sentir o mundo a sua volta.<br />

A pérola cubo despertou Pan-noa embaixo do viaduto que corta a cidade de<br />

leste a oeste. Descobriu-se vestido com farrapos de tecidos imundos, sentiu o cheiro<br />

do lugar e começou a comparar com as informações que seu cérebro carregava. Ele<br />

despertou de forma violenta, seus olhos agora estavam aguçados; olhava para os lados<br />

analisando sua situação.<br />

- Onde estamos? – Perguntou para o bando sem ter ninguém realmente em<br />

foco.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

As informações começaram a chegar telepaticamente (via pérola cubo). Os<br />

meninos apesar da situação precária em que se encontravam conseguiram dar algumas<br />

informações, mas nada relevante, eram seres a parte do mundo e era assim que deveria<br />

ser. Os meninos estavam agora um pouco assustados. Pan-noa continuou processando<br />

as informações e visualizou o que deveria fazer. Foi para a esquina mais próxima e esperou<br />

um pouco. Os meninos do bando vieram perguntar algo, mas ele percebeu que<br />

deveria ficar incógnito. Os meninos voltaram para a aparente festa na tenda. Alguns<br />

carros pararam no sinal vermelho daquela esquina. Pan-noa analisou os condutores<br />

do veículo. Olhou para um em especial. Era um veículo preto, havia um homem de<br />

meia-idade lá dentro. Pan-noa fez um sinal de afirmação com a cabeça, o homem<br />

dentro do carro retribuiu e apontou com o dedo para a outra esquina. Pan-noa foi para<br />

lá, a esquina estava deserta, Pan-noa viu o carro preto dando a volta. O carro parou,<br />

o homem abriu a janela do carro, perguntou alguma coisa para Pan-noa, mas agora já<br />

era tarde. Pan-noa dominava a mente do homem que abriu a porta do carro sem pestanejar.<br />

O homem o levou para um motel. Entraram lá com o veículo, fechou-se uma<br />

garagem atrás do carro e estavam a salvo de qualquer testemunha. Os dois desceram<br />

do veículo e entraram no quarto. A porta fechou-se o homem tentou dizer algo, mas<br />

Pan-noa fez com que ele deitasse na cama desacordado. Pan-noa revistou o sujeito.<br />

Cartões de crédito, dinheiro, chaves do veículo... Pan-noa tomou um banho, havia<br />

alguns por menores que o atrapalhavam, mas logo iria solucionar a situação. Começou<br />

a pensar no que tinha: apenas a pérola cubo, e a roupa protetora. Analisou a mente do<br />

ser desacordado na cama e refletiu.<br />

“ Merda, não tenho roupas e a roupa dessa bichona não me serve, o carro também<br />

não posso usar porque essa merda desta civilização não deixa meninos usarem<br />

veículos. Muito bem Pan-noa, vamos lá: como você veio parar aqui?” Sabia que as<br />

coisas iriam demorar para funcionar, especialmente a pérola cubo. “Viajem no tempo!<br />

É isso! A pérola cubo não está funcionando bem por causa da maldita viagem no<br />

tempo. A roupa protetora, sim é isso! Posso usar a roupa protetora, mas para quê? Não<br />

estou conseguindo processá-la direito. Merda! Por que eu vim parar neste fim de mundo?<br />

Alguma missão... É claro mas, qual?” A água quente era uma bênção para ele. “Ta<br />

bom! Ta bom! Agora com calma... Posso usar a bichona por enquanto! Sim é isso.”<br />

Voltaram para o carro e o sujeito perguntou.<br />

- Quer que eu te deixe em algum lugar, garoto? – Perguntou o sujeito lhe entregando<br />

uma nota com o número dez escrito, como se ele tivesse feito algo com Pan<br />

noa e ele merecesse esse dinheiro.<br />

Ele então, condicionou a mente do sujeito e este conduziu o veículo. Andaram<br />

pela cidade. Pararam em frente a uma loja, o sujeito estacionou o carro e desceu; era<br />

um fantoche para Pan-noa. Logo depois o sujeito voltou com algumas sacolas. Pannoa<br />

analisou a mente do sujeito e notou que a casa desse homem era um ótimo refúgio<br />

por enquanto. Foram para a casa dele. Largou seu novo fantoche sentado na sala com<br />

a cara mais idiota possível, pegou as sacolas e vestiu-se de maneira quase descente.<br />

“Bem, não são as roupas de Plan-ex, mas tudo bem. Tomara que tenha custado uma<br />

fortuna.” Pan-noa começou a pesquisar a casa do sujeito. Ligou a televisão. “Caralho<br />

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de mundo ridículo.” Viu um computador e conseguiu ligá-lo via pérola cubo. “Finalmente<br />

algo um pouco menos pre-histórico” Acessou todas as informações possíveis.<br />

“Mundinho filho da puta, hein! Se eu tenho uma porra de uma missão então tenho que<br />

descobrir onde estou e quando eu estou. Vamos dar uma olhadinha nestas velharias,<br />

olha só essa porra que chamam de internet que merda de tecnologia. Vamos acessar<br />

os satélites desses filhos das putas... Ta aqui: fotos do planeta, nome da pocilga, blábláblá,<br />

e...”<br />

E de repente Pan-noa parou. Olhou para a tela do computador e sentiu um frio<br />

na barriga. “Que merda... que merda filha da puta e pau no cu...”<br />

Olhava abismado, atordoado e estarrecido para a foto do planeta azul muito<br />

antes de virar verde na tela do computador. “Agora acho que eu me fodi mesmo.”<br />

O Topo do mundo<br />

Azkin e o ser menino/a estavam sentados no topo do mundo; era uma espécie<br />

de montanha enorme e eles podiam ver tudo lá embaixo, haviam planícies, rios, plantações,<br />

florestas, tudo era muito lindo e colorido, o céu tinha várias cores com nuvens<br />

em formatos lindos, em tons violetas e rosas; o sol estava se pondo, os dois levantaram-se<br />

e olharam para aquele mundo delicioso que se estendia aos pés da maravilhosa<br />

montanha. Então o ser menino/a apontou para os quatro pontos daquele mundo. Azkin<br />

olhava para os quatro cantos que o ser menino/a apontava, mas nada via a não ser a<br />

vastidão maravilhosa que era aquele mundo.<br />

O ser menino/a apontou mais uma vez, e mais uma, mas Azkin não viu nada.<br />

Queria perguntar para o ser menino/a o que ele/a queria mostrar, mas não conseguia<br />

falar. Então o sol se pôs e o céu ficou escuro, e tudo que era lindo e verde começou a<br />

ficar cheio de sombras negras, e um trovão sem fim começou a ser ouvido, crescendo<br />

e crescendo dentro dos ouvidos de Azkin. O ser menino/a apontou de novo para os<br />

quatro cantos do mundo e Azkin começou a ver que as sombras negras começavam a<br />

tomar formas estranhas ao que eram. Então as sombras negras começaram a se mover<br />

e de dentro de sua negritude Azkin começou a ver pontinhos de luzes sendo acesas.<br />

Eram pequenos pontos de chamas que começavam a se mover junto com as sombras e<br />

dos quatro cantos do mundo as chamas vinham em direção a Azkin e ao ser menino/a.<br />

Então o rugido do trovão foi se erguendo e Azkin conseguiu discernir entre imagens e<br />

sons dois exércitos vindo dos quatro cantos do mundo.<br />

Agora Azkin sentia o chão tremer, e o céu começou a ficar mais escuro do que<br />

as sombras e todas as estrelas começaram a sumir; nuvens negras começaram a se<br />

chocar, Azkin agora podia ouvir berros vindos lá de baixo; uma multidão de berros<br />

e sons de cavalos e aço a cortar o vento. Então o rugido ficou mais alto ainda, muito<br />

mais alto com todos estes sons estraçalhando os ouvidos de Azkin, e logo em seguida<br />

os sons cessaram e um raio caiu do céu iluminando os exércitos lá embaixo. Mas o<br />

raio com seu estrondo ensurdecedor iluminou também a Azkin e sua luz refletiu o que


Marcelo Paciornik<br />

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estava no peito de Azkin e todos os exércitos lá embaixo viram o talismã Azkenadzi<br />

cravado em seu peito. E todos os exércitos berraram juntos e vieram em direção a<br />

Azkin e ao ser menino/a.<br />

Azkin ainda estava com o ser menino/a deitado na calçada imunda do mundo<br />

imundo em que vivia. Azkin acordou o ser menino/a e disse:<br />

- Está na hora de você me contar alguma coisa.<br />

O ser menino/a olhou para Azkin e disse.<br />

- Eu não sou um ser comum, Azkin. Eu sou uma criação humana. Sou uma<br />

androida. Sou uma Androida Andrógina. E nós temos uma missão neste mundo.<br />

E simplesmente para total espanto, não só de Azkin, mas de todos os que estavam<br />

em sua volta, fossem eles mendigos, policiais, crianças, velhos, moços, mulheres<br />

ou homens ele/a desapareceu. Desapareceu nos braços de um Azkin sentado.<br />

Azkin imediatamente levantou-se berrando e todos a sua volta começaram a gritar<br />

também. Os policiais vieram correndo em direção a Azkin, mas o alvoroço foi tão<br />

imenso que Azkin conseguiu correr para junto dos mendigos infiltrando-se na corrente<br />

caótica que agora imperava no local. Não foi uma nem duas pessoas que viram a cena,<br />

mas uma centena de pessoas, e logo a notícia se alastrou com uma velocidade absurda,<br />

a polícia chamou reforços pois a área ficou catastrófica, todos corriam para todos os<br />

lados sem saber onde ir, e logo, com tamanha confusão, gerada assim, sem mais nem<br />

menos, iniciou-se o quebra-quebra. Vitrines foram saqueadas, pessoas foram pisoteadas,<br />

a polícia começou a atirar para todos os lados, e logo chegaram mais carros de<br />

polícia, tentando tomar a praça de guerra que ali se formara. Azkin conseguiu, em<br />

meio aos mendigos, correr. Correr como nunca tinha corrido antes, foi em direção,<br />

sem saber porque à Praça da República, achou que fosse um local seguro, mas na<br />

verdade era seu instinto que falava mais alto, ao chegar na praça, correu para a rua do<br />

bar onde encontrara aqueles seus supostos amigos. Para total alívio em sua alma, lá<br />

estavam eles, sentados, sem nada saber do incidente, tomando cerveja. Azkin entrou<br />

no bar e foi imediatamente para baixo da mesa onde os dois estavam. Ao sentar-se no<br />

chão Azkin começou a chorar.<br />

Pan-noa na Praça da República<br />

Pan-noa acordou, ainda em frente à tela do computador. Tinha babado no teclado.<br />

A foto do planeta azul ainda estava lá. Levantou-se e viu a bichona ainda esparramada<br />

no sofá da sala; já deveria ser tarde. Pan-noa viu no relógio do computador<br />

17:35. “Caralho... dormi pra caralho.” Pan-noa começou a pensar e agora sua mente<br />

estava funcionando muito melhor. Deu uma olhada pelo apartamento da bichona.<br />

“Pelo menos peguei uma bichona rica.” Foi até a cozinha tentou compreender como<br />

as coisas naquele mundo funcionavam. “Ora vejam só... nada mal, para uma civilização<br />

idiota.” Abriu a geladeira, estava com muita sede. Cheirou algumas garrafas, a<br />

roupa protetora começara a interagir com ele. Provou um líquido preto gaseificado.<br />

“Horrível, mas serve.” Achou pão, frios, manteiga. “Um sanduíche do mundo dos escrotos,<br />

dos filhos das putas que quase destruíram o planeta.” Enquanto comia pensava,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

mas suas ideias ainda não estavam totalmente claras. Tentou processar a pérola cubo<br />

da melhor maneira possível, alguma coisa realmente estava errada. A pérola cubo,<br />

por mais que pudesse ter sofrido danos na viagem do tempo não deveria estar em tal<br />

estado. A programação de uma missão estaria agora explícita para ele. Outra coisa<br />

que o incomodava era o fato de Be e Ing-mar não darem sinal de vida ainda; sabia<br />

que qualquer missão que fosse eles estariam juntos porque era assim que funcionava<br />

desde que eles voltaram para Kalum-Br. Tentou de novo e de novo visualizar algum<br />

dado, mas nada.<br />

Então um pensamento veio-lhe a mente: algo terrível. “Fui mandado para cá<br />

através de uma cilada, fui raptado, talvez obrigado a vir sem que eu mesmo saiba, mas<br />

por quê?”<br />

A bichona começou a resmungar na sala. Pan-noa foi até lá. Não sabia o que<br />

fazer com aquele ser, não sabia se ele poderia ajudá-lo de alguma forma. Olhou para o<br />

corpo do homem ali esparramado e imediatamente pensou em seu maldito tio. “Sabe o<br />

quê? Que se foda... nunca precisei da ajuda de ninguém para solucionar minhas cagadas.”<br />

Pan-noa induziu, via perola cubo, um sentimento que provocou uma descarga<br />

elétrica absurda na mente da bichona, a qual entrou em coma profundo ali mesmo.<br />

“Malditos seres inferiores.”<br />

Pan-noa olhou-se no espelho, suas roupas pareciam adequadas para aquele<br />

mundo, voltou à sala, pegou na carteira da bichona seus cartões de crédito, “coisa<br />

ridícula”, dinheiro, o que mais precisava? “Uma arma seria ótimo, ou melhor não?<br />

Consigo controlar a mente destes idiotas, mas em todo o caso.” Procurou uma arma no<br />

apartamento da bichona, não achou nenhuma. “Bicha filha da puta.” Tomou o elevador<br />

e saiu do prédio, o porteiro o olhou de forma estranha, mas Pan-noa não precisou<br />

fazer nada; a bichona deveria trazer rapazinhos para transar em seu apartamento. Saiu<br />

do prédio e deparou com o pior aspecto que poderia imaginar de uma civilização. Andou<br />

por uma calçada larga, gente de todos os tipos, veículos barulhentos de todos os<br />

tamanhos pareciam estar em uma guerra caótica. Foi até a esquina e analisou algumas<br />

informações; poderia ter que voltar ali, leu uma placa. “Av. Paulista. Tudo bem Pannoa,<br />

não pode ser tão ruim assim, pense que você está visitando uma daquelas favelas<br />

daqueles planetas nos confins do império, não nada chegava a este ponto.” Pan-noa riu<br />

sozinho. Seu humor estava começando a melhorar, por enquanto. “ Para aonde eu deveria<br />

ir?” Continuava andando absorvendo tudo. Um relógio marcava 18:30. “A hora<br />

aqui é diferente de Kalun-Br, o planeta deve ser um pouco menor.” Então viu uma<br />

placa, uma flecha indicava para a direita e dizia Consolação, Centro. “Centro, isso<br />

pode ser um caminho, afinal é no centro que as coisas acontecem. E se não acontecer<br />

nada pelo menos posso dizer que já conheço o centro desta maldita cidade.”<br />

Desceu a rua da Consolação em direção ao centro. Após alguns minutos caminhando<br />

e percebendo o local só conseguiu pensar em uma coisa a respeito daquilo tudo:<br />

“Como é que esta civilização já não foi pras cucuias há muito tempo”. E como nada<br />

mais o interessava por ali foi tentando se concentrar em administrar melhor a sua<br />

pérola-cubo. Porém ao passar pelo Cemitério da Consolação sentiu algo estranho. Na<br />

verdade não foi ele quem sentiu, mas a pérola cubo mandou um sinal estranho para


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seu corpo. Pan-noa parou em frente a entrada do cemitério e ficou olhando para dentro<br />

do mesmo. Alguns dados entraram em conflito dentro da pérola cubo, mas ele já sabia<br />

mais ou menos o que era. A referência aos mortos levou-o a imaginar coisas. Coisas<br />

que não o agradaram em nada. Sentiu uma presença estranha a aquele mundo e imediatamente<br />

veio à sua mente a figura da Androida Andrógina. Ouviu o sino da igreja<br />

da consolação soar sete badaladas. Continuou a descer e quanto mais descia, mais<br />

sentia a presença do ser maldito. Estava realmente em uma cilada. Quando chegou em<br />

frente à igreja não sentiu mais a presença do ser. Parecia ter desaparecido como por<br />

encanto. Logo depois, ainda a caminho do centro ouviu muitas sirenes e vários carros<br />

de polícia passaram em direção ao centro. “Então a cagada ta feita!”<br />

Pan-noa seguiu o barulho das sirenes, não teve muito problema em estar andando,<br />

pois os veículos mal podiam se locomover visto o tamanho do tráfico. Andou<br />

em direção à Praça da República. Sua concentração estava voltada para qualquer coisa<br />

que fosse estranha àquele mundo, e não demorou muito. Avistou uma figura pequena<br />

correndo feito louca pelo meio da praça, o menino passou por Pan-noa assustadíssimo,<br />

um objeto prateado cintilou por baixo da camisa do garoto, era um símbolo que<br />

Pan-noa nunca tinha visto, mas a perola cubo encravada na testa de Pan-noa detectou<br />

o material como sendo algo impensável para aquela civilização. Pan-noa seguiu Azkin<br />

a passos largos. Viu o menino entrar pela rua Vieira de Carvalho, entrar num bar onde<br />

duas figuras esquisitíssimas tomavam cerveja, o menino logo se alojou embaixo da<br />

mesa onde as duas figuras estavam. Pan-noa foi para o balcão do bar, pediu uma água<br />

e ficou observando.<br />

Os exércitos Nadzim, Azkenadzim e o Homodemônio<br />

A rua estava lotada, assim como o bar; eram seres selvagens, estavam ali para<br />

usufruir dos prazeres mais primitivos do ser humano, era um ritual bárbaro e caótico,<br />

não havia lógica naquele ritual, era uma busca por prazer e só isso.<br />

Haviam pessoas de todas as idades e todos os sexos possíveis, homens querendo<br />

ser homens, homens querendo ser mulheres, mulheres querendo ser homens,<br />

crianças querendo ser adultos e adultos sentindo-se como crianças. Pessoas ricas, pobres,<br />

ladrões, travestis, traficantes, a corja da humanidade. Era uma fauna apocalíptica<br />

transvestida em seres humanos. Pan-noa começou a perceber que o lugar que estava<br />

poderia ser o pior lugar que já estivera em toda sua vida e ele estava realmente muito<br />

assustado. Estava esperando pelo pior e sabia que aquele lugar merecia sua total atenção.<br />

Focou sua mente naquele ambiente como um todo, mas sabia que uma parte de<br />

sua concentração deveria estar naquela mesa.<br />

Ali, naquela mesa, parecia ser outro universo, outra existência, uma existência<br />

a parte daquele mundo grotesco. Havia estes dois seres esquisitos, não que o resto não<br />

fosse, mas estes eram esquisitos em outro sentido; eles modificavam aquele ambiente<br />

de alguma forma que Pan-noa não conseguia entender. Nem a pérola cubo conseguia<br />

identificar o que quer que fosse de diferente naqueles seres, na verdade Pan-noa ficou<br />

indignado pois a pérola cubo parecia não funcionar ali e somente ali naquela mesa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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O mais velho vestia uma saia negra de um tecido grosso que passava seu joelho,<br />

uma bota preta passava acima de sua canela e uma camiseta preta, seu cabelo<br />

pendia até metade de suas costas, ele emanava uma beleza diferente algo um pouco<br />

aterrador aos olhos de Pan-noa, ele tinha um olhar forte e agora preocupado com a<br />

aparição do menino aterrorizado embaixo de sua mesa. O outro era um pouco menor.<br />

Talvez do tamanho de Pan-noa. Tinha um rosto com o olhar hipnótico, olhos verdes e<br />

cabelos raspados dos lados e uma franja caia sobre o seu rosto. Os dois olhavam para<br />

baixo da mesa. Pan-noa não conseguia ouvir o que diziam. Tentou manipular a pérola<br />

cubo, mas não adiantava, então conseguiu fazer com que a pérola cubo diminuísse o<br />

volume da gritaria ao seu redor e focasse apenas na mesa. Deu certo, conseguia entender<br />

o que falavam pois a língua já tinha sido codificada pela pérola cubo.<br />

- O que houve? – Perguntou o mais velho, tomando a mão do menino e puxando-o<br />

para si. O mais novo olhava assustado, Pan-noa não conseguia entender o que<br />

falavam pois a criança falava muito perto do mais velho.<br />

A criança começou a narrar debatendo-se em gestos e lágrimas. Falou muito<br />

rapidamente, cada vez o mais velho olhava em volta assustado, olhava para o mais<br />

novo e de novo para o menino em prantos explicando o que ocorrera. Então o mais<br />

novo levantou a camiseta suja e rasgada até acima do peito e mostrou para o mais<br />

velho o símbolo que Pan-noa tinha visto brilhar ainda há pouco. Pan-noa conseguiu<br />

fotografar o símbolo mentalmente. O menino abaixou a camisa e narrou mais um<br />

pouco do acontecido. Parou quase sufocado quando terminou.<br />

O mais velho pediu para o garçom alguma coisa e ficou parado por algum<br />

tempo olhando para um vazio inexistente. Então o mais velho reparou em algo que<br />

deixou Pan-noa atônito. O mais velho olhou para Pan-noa, e seus olhares se cruzaram.<br />

Pan-noa engoliu em seco. Pan-noa quis sair do lugar, mas o mais velho voltou a atenção<br />

para o menino e para seu amigo e disse em voz alta.<br />

- Kley. Chame o Japa, agora!<br />

Kley saiu correndo do bar e foi para a rua. O mais velho fez o menino sentar-se<br />

e continuou.<br />

- Azkin. Se acalme e tente me dizer exatamente como era esse ser do teu sonho.<br />

Azkin, agora um pouco mais calmo, olhou para o mais velho e começou a fazer<br />

quase que um retrato falado do ser que havia aparecido em seu sonho. Enquanto Azkin<br />

falava, o mais velho olhava algumas vezes para Pan-noa de forma que ele percebeu<br />

que a descrição era para ser ouvida por ele também.<br />

O Japa chegou enlouquecido no bar e Kley vinha logo atrás com um olhar assustado.<br />

- Mordehay! – Gritou alto o Japa. – Venha correndo, estão revistando todo<br />

mundo! Tá uma cagada animal na rua.<br />

Mordehay tomou Azkin pela mão e saiu a passos largos do bar, seguido pelo<br />

Japa e Kley. Ao passar pela porta Mordehay olhou para Pan-noa com um olhar bravo<br />

e assustado como que dizendo: -vai ficar esperando aí ou vai nos seguir?<br />

Pan-noa seguiu os quatro. A rua estava um caos. Muitos, mas muitos carros de<br />

polícia estavam esparramados pelas ruas. Os policiais seguravam armas enormes e


Marcelo Paciornik<br />

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aos berros faziam com que as pessoas se postassem nos muros para serem revistados.<br />

- Qualquer suspeito deve ser revistado. – Gritou um policial. Pan-noa pensou<br />

“suspeito de quê, afinal de contas?”<br />

Os quatro foram passando por aqueles seres selvagens e pela polícia, quase<br />

que imunes a tudo. Pan-noa estava quase que grudado atrás deles e o Japa perguntou:<br />

- Mordehay, tem um erê nos seguindo, você o conhece?<br />

- Não. – Disse Mordehay. – Mas ele está com a gente. Deixe ele nos seguir. O<br />

Japa olhou para Pan-noa desconfiado e continuou. Desceram pela Vieira de Carvalho<br />

até a Rua Vitória e lá dobraram a direita. Vitória era uma ruela apertada e escura e eles<br />

toparam com mais carros de polícia. “Que merda de cagada filha da puta.” Pensou<br />

Pan-noa. Mordehay olhou para trás fixou seu olhar no de Pan-noa como dizendo:<br />

-você ainda não viu nada! “Será que este Mordehay consegue ler minha mente?”<br />

Questionou Pan-noa.<br />

Neste momento um policial gritou algo para Mordehay.<br />

- Você! – Os quatro pararam. Logo atrás Pan-noa também parou.<br />

Mordehay encarou o policial. O policial mediu Mordehay de cima abaixo e<br />

disse:<br />

- Vá logo! Isto aqui está uma praça de guerra.<br />

Mordehay e os outros avançaram até à Rua São João.<br />

- Vamos até o bar do Aguiar. – Disse Mordehay.<br />

- Você ta louco! – Disse o Japa. – O pior lugar do centro! Olhe como está esta<br />

rua! E você com esse menor!<br />

- Vamos Japa, lá não dá erro.<br />

Entraram pela Rua São João à esquerda, andaram por entre bandos mais malencarados<br />

ainda, quase todos sendo revistados pela polícia; passaram incógnitos e<br />

foram se sentar em umas mesas na calçada.<br />

Mordehay estava certo, aquele bar deveria ter algum tipo de proteção. Tanto<br />

o Japa quanto Mordehay cumprimentaram as poucas pessoas ali sentadas. Pan-noa<br />

parou olhando para os quatro sem saber o que fazer.<br />

Mordehay puxou mais uma cadeira e fez um gesto para Pan-noa vir sentar-se.<br />

Enquanto ele vinha, gritou para dentro do bar.<br />

- Aguiar! Traz duas cervejas. – Olhou para Pan-noa quando este sentava-se assustado.<br />

Todos os quatro estavam agora olhando também para Pan-noa.<br />

A cerveja chegou. Mordehay serviu quatro copos, Azkin fez que ia pegar um<br />

copo mas Mordehay disse.<br />

- Este não é para você Azkin, é para nosso novo amigo.<br />

Pan-noa não teve alternativa senão pegar o copo, os quatro brindaram e beberam.<br />

- Vamos dar um tempo aqui. – Disse Mordehay.<br />

- Que que ta havendo? – Perguntou o Japa.<br />

- Uma cagada filha da puta. – Respondeu Mordehay.<br />

- Cara em toda minha vida, eu nunca vi a Vieira desse jeito! – Disse Kley.<br />

- Deu alguma cagada feia mesmo. - Disse o Japa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- Ninguém sabe o que aconteceu, nem mesmo a polícia, se é que o que Azkin<br />

contou é verdade. – Todos olharam para Azkin.<br />

- É verdade é verdade sim! – Disse Azkin olhando para Mordehay.<br />

- Ninguém ta duvidando de você, Azkin, só é meio estranho não é? – Disse<br />

Kley.<br />

- Afinal o que aconteceu? – Perguntou o Japa. – E quem é esse erê tomando<br />

cerveja com a gente?<br />

Pan-noa não sabia o que responder. Se falasse uma mentira, Mordehay poderia<br />

saber; nenhuma história poderia caber ali, para aquele momento.<br />

Foi Mordehay que falou então.<br />

- Azkin me contou que ele estava aqui no centro com uma menina ou menino,<br />

ele não sabia dizer, e esta coisa simplesmente desapareceu. Rolou um quebra-quebra<br />

pois a galera não entendeu nada e a polícia desceu pra conter a situação.<br />

“Modo simples de explicar.” Pensou Pan-noa.<br />

- Você já viu este ser antes? – Perguntou Mordehay para Pan-noa.<br />

Pan-noa ia abrir a boca para falar alguma coisa mas Azkin gritou.<br />

- Ali! Ali está ela! – A figura apareceu bem no meio da Av. São João com uma<br />

capa preta e apontando para Azkin. Os quatro se levantaram de onde estavam sentados<br />

assustados olhando para o meio da rua.<br />

- Caralho! – Gritou Pan-noa. - É ela: a Androida Andrógina!<br />

Mordehay fez que ia correr para pega-la/lo mas no momento do impulso a<br />

figura desapareceu. E recomeçou a gritaria, pois, não foram só eles que viram. As pessoas<br />

ali passando e até mesmo alguns, para não dizer muitos policiais, viram também<br />

a cena. Os três ficaram parados olhando para o meio da rua, embasbacados. Os berros<br />

obviamente chamaram a atenção da polícia que veio correndo em direção ao meio da<br />

rua para onde todos estavam agora apontando.<br />

- Ninguém se mexe! – Gritavam os policiais apontando suas armas para todos<br />

os lados. - Vocês quatro aí: parados! - Alguns policiais apontavam para eles. - Não se<br />

mexam daí. - O nervosismo imperava no local. Logo vieram pela rua mais carros de<br />

polícia. A Av. São João estava tomada de gente e polícia num caos absoluto quando<br />

ouviu-se o primeiro estrondo de tambores a rufar por entre os prédios.<br />

O estrondo foi tão forte que fez com que a terra tremesse. Logo alguém estava<br />

gritando.<br />

- Terremoto!<br />

Mas logo em seguida, o que fez com que todos parassem de falar e gritar ou<br />

se mover, um outro estrondo, como tambores do inferno. A terra tremeu de novo e de<br />

novo à medida que os estrondos começaram a soar e soar.<br />

Agora a rua estava tomada pelo pânico, a polícia tentava falar em seus rádios,<br />

ou fazer alguma coisa, mas nada poderia ser feito diante de tamanho estardalhaço que<br />

os tambores faziam. Então, inúmeras vozes foram ouvidas vindo de baixo do Elevado<br />

Costa e Silva que ficava a algumas quadras de onde eles estavam.<br />

Uma forte trombeta soou por entre as vozes, um clamor obscuro que começava<br />

agudo e tornava-se grave a ponto de fazer tremer os carros ali parados.


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Uma marcha forte começou a ser ouvida com o retumbar dos tambores em seu<br />

encalço. Todos olhavam agora para a direção do que poderia ser uma imensa torcida a<br />

se deslocar em direção a eles. Os policiais agora gritavam nos seus rádios.<br />

- Apoio...apoio...precisamos de apoio! - Vários policiais vinham correndo para<br />

o local. E para espanto de todos logo viu-se a primeira linha de um exército de seres<br />

imensos com capas pretas sendo liderados por um que montava um cavalo. Vieram<br />

vagarosamente batendo com suas espadas em seus escudos prateados e negros com<br />

uma cruz suástica encravada no meio de cada um. E a cada duas batidas de tambores<br />

ouvia-se o estardalhaço das espadas nos escudos. Tum, tum, plas. Tum, tum, plas...<br />

Todos estavam absolutamente paralisados diante de tal visão. O exército parou<br />

então a meia quadra da onde estava a polícia; os cinco, e um bando de gente que nada<br />

falava.<br />

Mordehay tomou um gole de sua cerveja, olhou para o Japa, pegou na mão de<br />

Azkin e disse.<br />

- Fodeu tudo! Vamos sair daqui. – Neste momento porém, um policial disparou<br />

com uma doze contra a multidão do exército que estava parada logo a frente. Ouviu-se<br />

a bala colidir com um dos escudos, nenhum dos seres do exército caiu.<br />

- Que caralho! – Gritou o Japa. E nisso a polícia começou a disparar como louca<br />

contra o exército que veio como uma manada, correndo e gritando hinos infernais.<br />

Os cinco saíram correndo. A polícia só tinha uma preocupação agora: o exército<br />

de bárbaros que resolvera invadir o centro de São Paulo. Mas isso facilitou um<br />

pouco a fuga dos cinco. Entraram pela rua Vitória e continuaram a correr. A rua estava<br />

em pavorosa situação. Eles conseguiram correr juntos até a Vieira de Carvalho. Corriam<br />

pelo meio da rua junto à multidão desordenada. Estavam para entrar na Aurora<br />

quando um novo ruído estrondoso foi ouvido vindo do final da rua.<br />

Agora já não eram tambores nem espadas mas o ruído de um animal gigantesco<br />

que ressoava num rufar absurdo.<br />

Eles olharam para o final da rua Aurora junto à multidão e viram um ser gigante<br />

que avançava por entre os prédios. O ser deveria ter o tamanho de um prédio de<br />

dez andares e estava completamente louco.<br />

Alguns tiros foram ouvidos e o ser apareceu num raio de luzes que emergia da<br />

rua do Arouche e trouxe a visão de todos a tamanha aberração que era. Um demônio<br />

vermelho gigantesco com chifres negros e pernas de algum animal, como um fauno,<br />

o corpo delineado por músculos, um rabo de escorpião que movia-se para lá e para cá<br />

com tamanha violência que derrubava os prédios por onde passava. Nesse momento<br />

a luz do centro de São Paulo apagou-se. O demônio clamou aos céus com um uivo<br />

estonteante e um raio partiu das nuvens para chocar-se com o chão logo adiante dele<br />

e por grande azar, diante dos cinco que estavam ali parados sem nada falar ou fazer.<br />

A luz do raio iluminou então, num reflexo poderoso, o peito de Azkin. O<br />

demônio visualizou o talismã que demorou um pouco a se apagar. E veio em direção<br />

dos cinco. O demônio se debatia feito louco entre os prédios, derrubava tudo<br />

no seu caminho, pisava em carros e a cada passo sentia-se o tremor na terra. Os cinco<br />

começaram a correr em direção à Praça da República, viraram na rua que tangencia<br />

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a praça e continuaram correndo sendo seguidos pelos estrondos de cada passo do<br />

demônio. Ao chegarem na esquina com a Rua do Arouche, no entanto, não sentiram<br />

mais os paços do demônio, este tinha parado. Os cinco olharam para trás e viram a<br />

criatura parada olhando para o nada.<br />

- O que houve? – Perguntou Kley. – Porque ele parou?<br />

Todos estavam em silêncio, podia-se ouvir apenas os berros e tiros que vinham<br />

ao longe de uma outra guerra, algumas quadras para trás.<br />

Surgiu então uma nova movimentação: algo que vinha descendo pela Rua da<br />

Consolação. Os cinco viraram-se e visualizaram uma imensa luz azul vindo na direção<br />

a Praça. O som das patas dos cavalos começaram então a ser ouvidos, alguns<br />

estandartes de luz azul começaram a aparecer por entre os cavalos pulando acima<br />

dos carros e desviando do que viam em seu caminho. Nos estandartes luminescentes<br />

podia-se ver o símbolo do talismã que Azkin carregava incrustado em seu peito. Os<br />

guerreiros montados nos cavalos eram um vulto fantasmagórico, não se podia ver seus<br />

rostos, porém Azkin já os conhecia.<br />

- Não vamos perder tempo. – Gritou Mordehay. – Vamos para o metrô.<br />

Correram para a Rua do Arouche, e entraram na caverna negra que era estação<br />

de metro da República. Algumas luzes de emergência funcionavam, dando ao ambiente<br />

uma atmosfera assustadora. Neste momento sentiram o chão tremer quando a<br />

cavalaria passou. Logo um estrondo absurdo e um rugido enorme do demônio, parecia<br />

ter caído, mas a cavalaria continuava.<br />

Mordehay parou os quatro e disse alto, em meio aquele som ensurdecedor.<br />

- Japa, pegue o Azkin e o Kley, vá de metro até a estação Santa Cecília, vão pra<br />

minha casa correndo, acho que essas coisas nem sabem que existe metrô.<br />

Pessoas passavam por eles gritando enlouquecidas de pavor e indignação.<br />

- Kley, quando chegarem no meu prédio não subam, peça para o Igor abrir a<br />

porta da garagem, vão até a garagem do meu carro, Kley sabe aquela portinha ao lado<br />

que você sempre me pergunta para que serve?<br />

Kley fez que sim com a cabeça. Olhos esbugalhados a tamanha assombração.<br />

- Abra e desça a escada. Lá em baixo vai ter mais uma porta, use o código para<br />

entrar, é a data do meu aniversário, entrem lá e me esperem.<br />

- Aonde você vai? – Perguntou Azkin assustado.<br />

- Não se preocupem. Eu vou pra lá mais tarde. Você. – Olhou para Pan-noa. –<br />

Venha comigo.<br />

Mordehay pegou Pan-noa pelo braço e saiu da estação. Ainda podiam ver os<br />

cavalos passando. Mordehay pegou Pan-noa pela camiseta e juntou-o na parede.<br />

- Não pense que eu não sei quem você é Pan-noa, certo?<br />

- Como sabe meu nome? – Perguntou Pan-noa assustado.<br />

- Já faz algum tempo, mas você ainda está em minha memória...E não tente<br />

usar seus poderes em mim. – Mordehay tirou um saquinho com um pó branco dentro<br />

e continuou. – Eu estou com meu saquinho mágico!<br />

Pan-noa estava indignado.<br />

- Agora venha. Eu sei que você consegue localizá-la/lo.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mordehay saiu na frente deixando Pan-noa boquiaberto.<br />

- Como sabe?<br />

- Cale-se e venha tentar uma coisa, você sabe montar, não sabe?<br />

Uma outra cavalaria vinha pela Rua do Arouche em direção à Praça; era a<br />

polícia montada. Vinham disparando contra os guerreiros montados. Mordehay puxou<br />

Pan-noa para o lado de um carro, ficaram ali agachados. Os dois levantaram um pouco<br />

a cabeça para ver o que ocorria por entre os vidros do carro. Os seres guerreiros desapareciam<br />

quando eram atingidos, mas havia muitos ainda e a cavalaria da polícia deveria<br />

ter apenas uns vinte ou trinta soldados montados. O seres guerreiros começaram<br />

a atacar a polícia com suas lanças, não demorou para que houvesse vários cavalos sem<br />

seus donos. Alguns policiais tentaram retornar, mas logo foram atingidos pelas lanças.<br />

- Vamos pegar um cavalo. – Disse Pan-noa. – Fique junto de mim, eu tenho<br />

uma roupa protetora nada pode nos atingir.<br />

Pan-noa pegou um cavalo. Mordehay ainda estava agachado, mas agora por<br />

trás do carro, puxou o corpo de um policial e pegou suas armas e seu rádio.<br />

- Venha Mordehay. Suba no cavalo atrás de mim.<br />

Mordehay pulou.<br />

- Vamos! Disse Mordehay. - Siga o fluxo dos guerreiros.<br />

Os dois cavalgaram junto aos guerreiros, os quais estavam agora ocupados demais<br />

para perceberem qualquer coisa que fosse, estavam no encalço do demônio que<br />

combatia no chão da praça. Pan-noa e Mordehay seguiram adiante e tornaram a entrar<br />

na Rua Vieira de Carvalho. Já não havia muita gente por ali, seguiram até a próxima<br />

rua e entraram para a direita em direção à Rua São João.<br />

O combate prosseguia entre a polícia e o primeiro exército.<br />

- Vamos pegar a Androida, Pan-noa.<br />

- Era isso que eu tinha em mente.<br />

Passaram cavalgando entre tiros e carros de polícia. Agora o exército tinha<br />

avançado bastante, alguns guerreiros lutavam contra os policiais com suas espadas; o<br />

exército parecia não haver fim.<br />

Mordehay sentia algo bater em suas costas eram as balas perdidas que com a<br />

ação da roupa protetora de Pan-noa perdiam a força. Avançaram derrubando alguns<br />

guerreiros que lutavam no chão. Logo adiante viram a Androida montada em seu<br />

cavalo, dando instruções a torto e a direito. Foram em sua direção. Ela porém ao perceber<br />

Pan-noa mudou de direção e começou a correr pela Rua Vitória em direção ao<br />

Largo do Arouche.<br />

Pan-noa conseguiu, via pérola cubo, fazer com que o cavalo da Androida diminuísse<br />

o ritmo. Quando chegaram perto o bastante, Mordehay deu uma pancada<br />

com a coronha do revolver na nuca da Androida e ele/a caiu desmaiada. Mordehay<br />

desmontou do cavalo de Pan-noa pegou a Androida nas costas e montou em seu cavalo.<br />

- Vamos Pan-noa, me siga.<br />

Os dois saíram cavalgando pelas ruas do centro de São Paulo em direção ao elevado,<br />

pegaram a esquerda e seguiram pela Amaral Gurgel. As ruas estavam escuras,<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

carros haviam sido abandonados, e eles apenas ouviam a gritaria e os tiros que vinham<br />

da guerra que deixaram para trás.<br />

Japa, Kley e Azkin entraram na estação do metrô. O Japa com um em cada<br />

mão. Corriam por entre a multidão ensandecida e o Japa berrava feito louco. As pessoas<br />

saiam de sua frente, tamanha era sua bravura. Eles conseguiram pular pela catraca<br />

e avançaram lá para baixo. Um trem estava parado e eles entraram. O Japa dava<br />

pontapés e gritava para se afastarem. Neste momento Kley também começou a lutar<br />

feito louco por um lugar no trem. O trem logo começou a andar e várias pessoas<br />

lá dentro choravam assustadas com o que havia ocorrido. Na próxima estação eles<br />

saíram correndo e foram lá para cima, onde encontraram ruas desertas e sombrias;<br />

havia apenas o barulho dos tiros e gritos a algumas quadras dali. Os três passaram em<br />

frente à Santa Casa que agora estava mais sombria do que nunca; apenas as luzes de<br />

emergência iluminavam poucos aspectos daquela construção de estilo vitoriano.<br />

Atravessaram em poucos minutos as ruas desertas que levavam a rua do prédio<br />

de Mordehay.<br />

Quando chegaram, Igor estava na porta, meio que escondido, mas querendo<br />

saber o que estava ocorrendo.<br />

- Igor! – Gritou Kley. – Não saia de maneira nenhuma do prédio!<br />

- O que houve? – Perguntou Igor assustado. – Onde está Mordehay?<br />

- Ele está vindo pra cá. Abra a porta da garagem que nós vamos esperar por ele<br />

lá embaixo. E não saia, ta a maior cagada lá no centro.<br />

Igor abriu a porta da garagem e os três entraram. Foram até onde Mordehay falou<br />

para entrarem. Kley não estava acreditando muito naquilo, mas quando viu a porta<br />

embaixo da escada e os números ao lado para digitar a senha, ficou mais relaxado.<br />

Abriram a porta e não acreditaram no que viram.<br />

- Um bunker! Não acredito que Mordehay tem um bunker!<br />

- O que é um bunker, Japa? – Perguntou Azkin, só conseguindo falar agora.<br />

- É isso que você está vendo, fofinho! Um esconderijo secreto! Vamos ver o<br />

que aquela loca guarda aqui em baixo.<br />

O bunker tinha luz de emergência, um computador meio antigo, algumas camas,<br />

um banheiro, uma pequena cozinha.<br />

- É ótimo! – Disse o Japa.<br />

- É mesmo! - Disse Azkin agora um pouco mais alegre do que assustado.<br />

- Japa, ponha Azkin embaixo do banho que ele está fedendo a chulé. – Disse<br />

Kley, vou dar uma olhada no que tem para a gente comer e você veja se da alguma<br />

notícia na internet.<br />

- Ok. – Disse o Japa.<br />

O Japa ligou o computador.<br />

- Eu não to acreditando! – Falou um pouco assustado para Kley, que vinha ver<br />

o monitor abrindo uma caixa de purê de batatas.<br />

Viram por um site de notícias as imagens de um centro de São Paulo em<br />

chamas, em guerra, semidestruído, com cavalos, carros de polícia e pessoas mortas


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

pelo chão.<br />

O nome da matéria era:<br />

Centro de São Paulo em guerra civil.<br />

A câmera estava em um helicóptero filmava todo o tumulto. O locutor não<br />

conseguia descrever direito o que acontecia, as imagens estavam desconexas e ele não<br />

conseguia dizer de onde tinham vindo os exércitos e os cavalos; apenas informava em<br />

meio a estrondos que as forças armadas haviam sido convocadas.<br />

- Que caralho! – Disse o Japa meio que para si mesmo.<br />

Mordehay e Pan noa abandonaram os cavalos na esquina do prédio onde Mordehay<br />

morava, estava um breu absoluto e não havia ninguém nas ruas. Mordehay<br />

ainda carregava a Androida nas costas quando desceram pela garagem e foram em<br />

direção ao bunker. Mordehay digitou o código e a porta do bunker abriu-se.<br />

O Japa e o Kley olharam assustados para trás, os dois vieram socorrer Mordehay<br />

com a Adroida que foi depositada em uma cama.<br />

- O que vocês fizeram? – Perguntaram Japa e Kley ao mesmo tempo.<br />

- Trouxemos a namoradinho/a do nosso amigo Azkin. – Falou Mordehay.<br />

Azkin estava saindo do banho, enrolado numa toalha e vociferou enlouquecido<br />

ao ver o/a Androida Andrógina desmaiado/a na cama:<br />

- O que vocês fizeram com ele/a?<br />

- O que nós fizemos com ele/a? – Perguntou Mordehay abismado...- O que<br />

ele/a fez com a gente!<br />

Azkin ficou olhando assustado para a Androida deitada na cama.<br />

Pan noa foi para o computador, fez conexão com a máquina. Mordehay, Kley<br />

e Japa vieram ver o que Pan noa estava fazendo, Azkin foi sentar-se ao lado do/a<br />

Androida.<br />

- Por mais que suas máquinas sejam arcaicas, “umas merdas” ainda posso fazer<br />

algumas coisas por aqui. – Disse Pan noa com os olhos vidrados no monitor que mostrava<br />

um turbilhão de informações de forma tão rápida e inesperada que não parecia<br />

vir daquele computador tão antigo. Passados alguns instantes Pan noa falou.<br />

- Não sei quanto a vocês, mas acho que isso aqui ta uma verdadeira cagada!<br />

- Não diga! – Disseram os três juntos.<br />

- O que você quer dizer exatamente Pan noa. – Perguntou Mordehay.<br />

- Bem, a princípio não existe explicação concreta da onde vieram esses exércitos<br />

montados a cavalo. Segundo os dados dos satélites eles simplesmente surgiram em<br />

seu mundo, “do nada”, assim sem mais nem menos. O que é extremamente incoerente<br />

para sua tecnologia.<br />

- Ei pera aí! – Disse o Japa perplexo. – Nossa tecnologia? O que você quer<br />

dizer com isso? Que você não faz parte dela? Que você é? Um tipo de alienígena?<br />

Você só pode estar tirando com a nossa cara... E de qualquer maneira como você surgiu<br />

aqui, em primeiro lugar? Mordehay quem é essa porra desse erê metido a besta<br />

que você trouxe pra cá? – Ficou apontando para Pan noa e olhando para Mordehay.<br />

Mordehay, no entanto não falava nada, ele próprio apesar de saber o nome de<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Pan noa e saber que ele tinha certos poderes, não sabia ao certo o que era. Foi Pan noa<br />

que começou a responder.<br />

- Não sou deste planeta, nem mesmo deste tempo, deste agora, sou de um planeta<br />

chamado Kalum Br. Acordei aqui sem saber de nada do que estava ocorrendo,<br />

provavelmente caí em uma cilada... Tenho um equipamento na minha testa chamado<br />

pérola cubo que faz com que minha mente trabalhe de forma mais eficiente, posso fazer<br />

com que esse dispositivo se manifeste de diferentes formas produzindo um poder<br />

em seres e máquinas conforme minha mente comande. Com isso pude analisar dados<br />

do seu mundo que vocês dificilmente conseguiriam.<br />

- Cê ta louca?!? – Perguntou o Japa. Mordehay e Kley apenas observavam.<br />

- Não. – Continuou Pan noa. – Não estou louco. Posso provar utilizando-me<br />

deste computador de forma que ninguém neste seu mundo pode, mas acho que isto<br />

vocês já perceberam; posso provar lendo suas mentes mas não agora pois acredito<br />

que o talismã encravado no peito daquele menino – apontou para Azkin que ainda<br />

estava ao lado da Androida deitada. – Possa estar gerando alguma interferência. Mas<br />

posso mostrar algo que pode atrair um pouco mais a sua atenção. – Tirou a camiseta<br />

e mostrou imagens abstratas perfeitamente bem geradas em seu corpo. – Isto é uma<br />

ânimo- tatoo. – Explicou Pan noa. – Muito na moda em meu mundo.<br />

Os três não tinham palavras para aquilo, estavam em total desequilíbrio mental<br />

ao ver as imagens no corpo de Pan noa formado cataclismos pictóricos de uma beleza<br />

absurda.<br />

- Acho que agora vocês podem acreditar em mim, não podem?<br />

- Acho que podemos, não é mesmo Mordehay? – Pergunto o Japa.<br />

- E como podemos! – Respondeu Mordehay. – Como eu sabia seu nome? E<br />

como eu sabia de seus poderes?<br />

- Taí algo que eu realmente não sei, Mordehay. – Disse Pan noa sem pestanejar.<br />

- Muito bem, - continuou Mordehay. - E quanto a ele/a? - Perguntou a Pan noa<br />

apontando para a Adroida.<br />

- Bem ele/a é um ser proibido, é uma Androida Adrógina, um ser criado organicamente<br />

pelo ser humano, num planeta do Império, que deveria servir para os<br />

mais absurdos apetites sexuais, pois ele/a além de ser algo sintético e portanto sem<br />

problemas com a ética, é também um ser moldável, tanto intelectualmente como fisicamente,<br />

neste caso aqui, eu imagino que tenha sido raptada para servir a propósitos<br />

contra mim e provavelmente contra este aqui e agora.<br />

- Como sabe disso? Por que alguém iria te fazer mal? – Perguntou Mordehay.<br />

- Bem eu fiz umas cagadas no meu breve passado, acho que alguém pode ter<br />

ficado um pouco puto da cara.<br />

- Um pouco? – Perguntou Mordehay cinicamente.<br />

- Eu matei um ser superior, matei uma deusa incorporada em ser/flor, acho<br />

que eles não gostaram muito disso, mas é mera especulação, deveríamos interrogar a<br />

Androida, mas acho que minha telepatia não serviria de nada para este ser. – Concluiu<br />

Pan noa.<br />

- O que você acha Japa? – Perguntou Mordehay.


Marcelo Paciornik<br />

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- Deve ter um meio de interroga-lo/la. – Disse o Japa.<br />

- Você disse que é um ser orgânico Pan noa? Como isso funciona?<br />

- O ser Androida Andrógina é uma imitação do nosso corpo. É feito com elementos<br />

orgânicos e sintéticos. Cabe à parte orgânica imitar nossos sentimentos através<br />

de procedimentos elétricos/químicos. As partes sintéticas funcionam para manter e<br />

alterar a forma da Androida, por isso ela é um ser mutável morfologicamente só que<br />

com capacidade de sentir.<br />

Os três ouviam as explicações de Pan noa boquiabertos, após alguns instantes<br />

Mordehay perguntou.<br />

- Então isto é um robô com sentimentos?<br />

- Não. – Disse Pan noa. – Um robô não tem funções humanas, é apenas uma<br />

ferramenta para os humanos, a Androida é uma ferramenta com sentimentos.<br />

- Caralho! – Disse o Japa.<br />

- E esta pérola cubo? – Perguntou Mordehay. – Você pode controlar a Androida<br />

com ela?<br />

- Não. Não esta Androida, ela tem um dispositivo de proteção.<br />

- Então como vamos saber o que está ocorrendo? – Perguntou o Japa. – Como<br />

vamos interrogá-la?<br />

- Você disse que ela imita as nossas funções orgânicas, nossos sentimentos? –<br />

Perguntou Mordehay.<br />

- Sim. – Disse Pan noa.<br />

- Então ela pode ser drogada?<br />

- Teoricamente sim, dependendo da droga ela pode ter alterações sensoriais.<br />

- Então. – Disse Mordehay rindo. – Acho que vocês vão adorar saber que eu<br />

tenho uma caixa de Rohypinol nesse bunker!<br />

- O que é Rohypinol? – Perguntou Pan noa.<br />

- Boa noite Cinderela. – Respondeu o Japa sorrindo também.<br />

- Ainda não entendi. – Disse Pan noa.<br />

- Você vai ver. – Concluiu Mordehay, já indo para um armário e tirando de uma<br />

gaveta uma caixa de remédio.<br />

- Esse medicamento. – Disse Mordehay, com uma cara alegre. – É um hipnótico,<br />

na medida certa podemos dopar essa coisa e ela vai falar até mesmo se ela já<br />

transou com um elefante.<br />

Os quatro olharam para a Androida deitada na cama com Azkin ao seu lado.<br />

Kley foi até ele e o pegou pela mão.<br />

- Venha Azkin. Agora você vai ter que ficar aqui jogando comigo no computador<br />

enquanto o Japa, o Pan noa e o Mordehay, vão tratar da tua amiga, você quer que<br />

ela fique bem, não quer?<br />

Azkin olhou desconfiado para os quatro, mas logo sentiu-se mais aliviado assim<br />

que Kley segurou sua mão. Enquanto os dois sentavam-se no computador, Mordehay<br />

já pegara uma garrafa de água gelada.<br />

O impacto de água fria no rosto da Andrógina revelou seus absurdos olhos<br />

azuis. Mordehay deu um passo para trás.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Caralho! – Disse ao vê-lo/a agora podendo prestar atenção em sua beleza.<br />

O Japa também fez um movimento brusco como que assustado pela existência<br />

de tal ser.<br />

- Não se iludam. – Disse Pan noa. – Eu já caí nessa; esse ser não mostra o que<br />

ele realmente é. Por trás desta bela máscara existe algo amaldiçoado. Lembrem-se do<br />

horror que sua cidade está passando graças a esta bela coisa.<br />

Os dois ainda estavam atônitos olhando para a Androida e por mais que a coisa<br />

fosse realmente do mal era algo que eles jamais poderiam imaginar existir. O fato de<br />

que aquilo era uma criação humana era impensável. Se fosse criado pelo próprio Deus<br />

já seria impensável, mas ali estava ele/a, olhando para os três com um olhar indescritível,<br />

aterrador, e definitivamente hipnótico, como se ele ou ela própria soubesse<br />

que eram eles que iriam hipnotizá-lo/a.<br />

Pan noa agiu rapidamente.<br />

- Vamos lá, Mordehay. Quanto mais você olhar para a Androida, mais você<br />

sucumbirá aos seus poderes.<br />

Mordehay chacoalhou a cabeça, pegou quatro comprimidos de Rohypinol tomou<br />

com uma mão as bochechas da Androida num gesto brusco, fazendo com que<br />

ele/a abrisse a boca num bico e enfiou os comprimidos lá dentro. O Japa meteu a água<br />

gelada goela a baixo. Tomaram a Androida segurando-o/a pelas axilas e fizeram-no/a<br />

sentar-se.<br />

Kley e Azkin agora estavam sentados de costas para esta cena, Azkin com um<br />

fone de ouvido.<br />

- Agora podemos esperar um pouco. – Disse o Japa. – Acho que estou com<br />

fome. Kley fez um purê de batatas e salsichas, deve estar ótimo.<br />

- Beleza. Vamos comer enquanto a droga faz efeito. – Disse Mordehay.<br />

O Japa trouxe uma taboa com um montinho de purê de batatas no meio e várias<br />

salsichas cortadas em volta, cobertas com uma deliciosa mostarda preta. Os três comeram<br />

em silêncio.<br />

Foi o Japa que quebrou o silêncio.<br />

- Devemos amarrá-la?<br />

- Com a dose de Rohypi que eu dei pra ela? Acho que não.<br />

Os olhos da Androida começaram a ficar sem brilho, olhavam para o vazio.<br />

A Vendeta<br />

- A interferência não deve ser no espaço vazio.<br />

- Devemos agir no plano material.<br />

- As consequências não podem ser devastadoras para os Antes, apenas para<br />

aqueles que estiverem relacionados com os fatos.<br />

- O ser que destruiu a semideusa deve pagar com a vida antes que ele se torne<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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superior, as quatro esferas deverão ser capturadas e escondidas.<br />

- O procedimento ficará a cargo de uma Androida, para não haver sentimentos<br />

retroativos.<br />

- Confiar num Antes tal comando, seria conspirar contra nós mesmos.<br />

- A Androida deverá proceder de forma incógnita.<br />

- Tanto a Androida quanto o ser, deverão ser transportados ao passado.<br />

- Ao passado de forma a intervir no nascimento da tecnologia dos Prateados.<br />

- Deveremos utilizar de um manifesto em forma de vendeta para que seja consumado<br />

no plano dos Antes e não interrogado pelo Supra Ser.<br />

- O manifesto é concebível desde que não seja entrevisto pelos seres superiores<br />

após o início dos atos da Androida.<br />

- A Androida só conseguirá realizar a vendeta em plano semimaterial.<br />

- Para tanto o ser que matou a semideusa deverá cair em duas armadilhas, a<br />

primeira do tempo e espaço a segunda em espaço semimaterial.<br />

- A primeira, nós conseguiremos proceder sem o auxílio da Androida.<br />

- Enviaremos o ser via tempo ao passado pré-prateados.<br />

- A segunda, a Androida terá instruções para proceder no tempo e espaço anterior<br />

à Eco Revolta no Planeta Azul (Verde).<br />

- Lá ela deve roubar as quatro esferas do ser e capturá-lo em um plano semimaterial.<br />

- A Androida será responsável pela criação do plano semimaterial utilizando-se<br />

da mente de um Antes aleatório.<br />

- Conforme instruções plantadas em seu inconsciente inorgânico.<br />

- Que assim seja.<br />

O rapto do Judeu<br />

O primeiro a perguntar foi Pan noa. Extremamente concentrado, não aparentava<br />

ser a criança que era. Na verdade foi a primeira vez que tanto Mordehay quanto o<br />

Japa conseguiram visualizar o rapazote, prestando realmente atenção em sua aparência.<br />

Não poderia ter mais de quatorze anos, mas aparentava menos; era bonito, na<br />

verdade, agora estava muito bonito, parecia ter mudado. O Japa sentiu um arrepio na<br />

espinha ao perceber aquilo e logo olhou para Mordehay que estava olhando para o<br />

menino completamente embasbacado. “Esse filho da puta esconde-se atrás de mascaras<br />

desconhecidas”. Olhou para o Japa, mas nisso o menino já estava formulando<br />

a pergunta.<br />

- Modelo e ano de fabricação. – Perguntou Pan noa sem pestanejar.<br />

A Androida olhava inebriada, mas nada respondia.<br />

- Quando chegou neste agora? – Continuava Pan noa.<br />

- Quem mandou-nos para cá? – Pareciam estar fazendo uma conversinha particular.<br />

Mordehay voou no pescoço de Pan noa levantou-o e juntou-o contra a parede<br />

mais próxima, causando tamanho susto no Japa que as salsichas voaram pelo bunker.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- Vamos parar com os joguinhos, Pan noa. É um - dois pra eu te arrebentar aqui<br />

mesmo; com ou sem roupa protetora eu dou um jeito de te foder.<br />

- Está bem. – Disse Pan noa assustado, tamanha era a força que Mordehay<br />

segurava ele contra a parede. O Japa, ainda sentado, só olhava. A Androida parecia<br />

não estar ali.<br />

Mordehay jogou Pan noa na cadeira e chegou perto da Androida, extremamente<br />

furioso, pegou-a pelo maxilar e levantou sua cabeça até estabelecer contato<br />

visual.<br />

- Muito bem travequinha, não quero saber de porra nenhuma a não ser o que<br />

eram aquelas merdas daqueles exércitos no meio de São Paulo.<br />

Pan noa fez que não com a cabeça tipo o-cara-não-sabe-fazer-um-interrogatório-mesmo.<br />

Mas a Androida começou a falar.<br />

- Vieram de Azkenadzia.<br />

Os três se sentaram, Mordehay olhou para Pan noa que fez que sim com a cabeça<br />

indicando que ela poderia estar falando a verdade.<br />

- Onde é Azkenadzia? – Perguntou Mordehay.<br />

- É a terra dos Azkenadzym, onde moram, onde vivem.<br />

- Azkenadzim são os judeus que viviam na Europa central. – Disse Mordehay. -<br />

E não lembro de eles terem fundado um país, estado, cidade, vila ou qualquer caralho<br />

a quatro que seja chamado Azkenadzia.<br />

- Eles não fundaram, na verdade só um judeu fundou.<br />

- Como assim? Só um judeu resolveu fundar uma terra que tem uma caralhada<br />

de exércitos que lutam contra si e além de tudo um demônio de dez metros de altura<br />

que resolve foder com o centro de São Paulo?<br />

- São apenas dois exércitos, são vários demônios e seres desconhecidos por<br />

vocês, e ele não fundou por si só. – Disse a Androida.<br />

- Então explique, caralho! Com quem ele fundou? – Perguntou Mordehay irritado.<br />

Mas para piorar a situação Azkin e Kley perceberam o que estava ocorrendo e<br />

vieram ver o ser menino/a falar. Foi Azkin que perguntou:<br />

- Japa, o que é um judeu?<br />

Mordehay teve vontade de rir, mas conseguiu se controlar.<br />

- Azkin, se quiser ver o que está acontecendo tudo bem, mas não faça perguntas<br />

isto aqui é muito sério, tá bom?<br />

- Tá bom.<br />

- Então, Androida, da onde vem e quem fundou esta terra Azkenadzia?<br />

- Eu ajudei o judeu a fundar. – Disse a Androida.<br />

Mordehay e o Japa começaram a ter um acesso de riso.<br />

- A traveca só pode ta loca da boceta! – Disse o Japa.<br />

- Bom. – Disse Mordehay. – Pelo menos o Rohypi fez efeito!<br />

- Cale-se Mordehay. – Disse Pan noa. – O que ele/a fala tem coerência, eu sinto<br />

via pérola cubo que o que ele/a fala é a mais pura verdade.<br />

Mordehay ficou sério e olhou para a Andrógina.


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- Então, conte sua história: toda ela.<br />

- Fui enviado/a para este “agora” para corrigir um erro. – Olhou para Pan noa<br />

severamente. – Minhas instruções foram claras. Raptar um humano, abduzi-lo para<br />

um plano intermediário e formular neste plano um semi- universo semi material de<br />

quintessência.<br />

Consegui capturar a essência de um ser que fosse capacitado para tal coisa,<br />

ele deveria estar semi formado e deveria ter em seu inconsciente elementos fortes o<br />

bastante para criar um mundo razoavelmente coerente, porém com conflitos míticos<br />

significativos, o que foi razoavelmente difícil de encontrar.<br />

Depois que eu achei este ser, um Judeu Azkenadzi de doze anos, consegui, graças<br />

a poderes implantados em mim pelos seres superiores, transportá-lo para um plano<br />

intermediário de existência onde lá se consumou a fundação de Azkenadzia, graças as<br />

forças míticas inerentes no inconsciente deste pequeno judeu.<br />

A partir daí o pequeno judeu teve domínio destas novas terras, como uma espécie<br />

de semideus.<br />

Fui para lá e consegui graças a este outro ser que está nesta sala (apontou para<br />

Azkin) causar distúrbios, roubamos um objeto de extremo valor mítico para os habitantes<br />

de Azkenadzia, os distúrbios seguiram para este plano material que estamos,<br />

pois este Azkin tem em seu peito O Talismã Azkenadzy. Os exércitos de Azkenadzia<br />

vão caçá-lo até conseguirem levar o talismã para Azkenadzia de novo.<br />

A única coisa que realmente fazia com que todos não explodissem em uma<br />

risada total foi a palidez de Pan noa.<br />

Após alguns instantes o Japa perguntou.<br />

- O que isto quer dizer, Pan noa?<br />

Pan noa não conseguia falar. Porém depois de um tempo pediu:<br />

- Alguém poderia me dar uma bebida forte por favor?<br />

Mordehay olhou para Kley e fez um gesto com a cabeça indicando a geladeira.<br />

Kley trouxe uma cerveja. Pan noa tomou num gole só a lata inteira.<br />

Olhou para o Japa e logo depois para Mordehay. A Androida permanecia impassível.<br />

- O que esta porra desta Androida fez foi alterar este presente de forma criminosa.<br />

Ele/a abduziu uma criança humana para criar um mundo paralelo, este mundo<br />

chamado Azkenadzia, que está agora interferindo neste mundo em que vocês vivem,<br />

neste aqui agora.<br />

O mundo Azkenadzia foi criado com a força psíquica deste judeu que ela<br />

raptou. Graças ao subconsciente deste judeu Azkenadzia foi criada e existe paralelamente<br />

a este mundo que agora estamos, estes exércitos vem deste mundo inicialmente<br />

psíquico, mas que agora fazem parte do universo em uma existência semimaterial.<br />

Azkenadzia é na verdade um mundo paralelo criado a partir do subconsciente<br />

de um judeu de doze anos.<br />

Dentro deste mundo, Azkenadzia, existia um objeto de extremo poder, provavelmente<br />

criado no inconsciente deste judeu, através de alguma manipulação sór-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

dida. A Androida conseguiu levar Azkin para este universo paralelo e roubar o tal<br />

Talismã. Quando Azkin voltou para cá os exércitos de Azkenadzia o perseguiram, e<br />

pelo jeito os dois exércitos querem o mesmo talismã. Resolveram então começar uma<br />

guerra no centro desta cidade que estamos. Para piorar a situação devem existir outros<br />

seres absurdos na mente deste garoto, que podem vir para cá conforme sintam a falta<br />

do Talismã.<br />

Quando Pan noa terminou eles estavam ainda muito confusos com estas informações.<br />

Na verdade mal acreditavam em tal possibilidade, mas lembraram os exércitos<br />

que simplesmente apareceram do nada no centro de São Paulo, eram verdadeiros<br />

e que pessoas morreram lá e poderiam ainda estar morrendo, sem contar a destruição<br />

que estes exércitos estavam fazendo.<br />

- Qual é o propósito de você ter criado este mundo, Androida? – Perguntou<br />

Mordehay indignado.<br />

- Corrigir um erro do futuro, erro este, feito por Pan noa.<br />

Todos olharam para Pan noa.<br />

- Eu matei um semi Deus por estar interferindo em nossa existência, foi só isso,<br />

agora eles querem se vingar.<br />

- Só isso Pan noa? – Perguntou Mordehay perplexo e já se levantando para<br />

descer uma camaçada de pau no garoto.<br />

Pan noa foi rápido na resposta.<br />

- Vejo muito de você em mim, Mordehay, tenho certeza que pelos motivos que<br />

tive você faria o mesmo. Não vê que eu não abduzi ninguém do seu mundo? Foi essa<br />

aberração que fez. Esses filhos das putas fazem planos sórdidos dentro de planos mais<br />

sórdidos ainda! – Falou rapidamente apontando para a Androida.<br />

Mordehay relaxou, mas logo franziu os cenhos e voltando-se velozmente para<br />

a Androida tomou-a pela garganta e vociferou chacoalhando-a.<br />

- Porque logo um judeu, sua filha da puta? Porque logo uma porra de um judeuzinho<br />

que nem bar mitsfa fez, sua maldita filha da puta? Por que você escolheu<br />

um judeuzinho? – Berrava com tanto ódio e chacoalhava a Androida que a poderia ter<br />

matado caso ele/a não fosse uma Androida.<br />

Ela olhou cinicamente para os olhos de Mordehay como se não tivesse sido<br />

agarrada nem chacoalhada e respondeu sorrindo.<br />

- Ora eu o escolhi porque os judeus foram o povo escolhido. Não foram Mordehay?<br />

Mordehay deixou a Androida cair na cadeira estatelada, ainda teve forças para<br />

dar um chute em sua cara que logo após ficar desfigurada voltou ao normal, com<br />

aquela beleza que tanto Mordehay quanto os outros já estavam aprendendo a odiar.<br />

Ninguém esperava mais nada naquele estado das coisas, mas Azkin falou algo<br />

que chocou a todos.<br />

- Eu estive neste mundo, nesta Azkenadzia, eu estive lá com a Androida. Este<br />

mundo realmente existe e é tão real quanto este mundo que nós vivemos agora. E ela<br />

me fez ir até lá porque eu achava que ela gostava de mim!


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Todos olhavam para um Azkin em estado indignado, falava como se tivesse<br />

levado um tiro pelas costas, estava muito bravo.<br />

- Acho que nós deveríamos ir até este mundo e simplesmente devolver este<br />

talismã. – Falou apontando para o próprio peito, o talismã refletia a pouca luz que o<br />

bunker oferecia. – Assim destruiríamos o plano desta travequinha.<br />

Mordehay olhou para Pan noa. Queria rir do que o pobrezinho Azkin acabara<br />

de falar, mas pensou mais um pouco e disse.<br />

- E então? Você acha que seria possível fazer tamanha loucura.<br />

- É exatamente este o plano deles. – Disse Pan noa. – Afinal por que eu estaria<br />

aqui? Eles querem me levar para me aprisionar neste mundo, eles sabem que com<br />

minha roupa protetora e minha pérola cubo não podem interferir em minha existência,<br />

mas se eles me levarem para lá a coisa se torna diferente. Se nós formos juntos,<br />

poderíamos ficar todos aprisionados lá. Seria passagem só de ida.<br />

- Ficar aprisionado num mundo que na verdade é o subconsciente de um judeuzinho<br />

de doze anos? – Perguntou o Japa. – Me parece um tanto estranho...vai ter<br />

guefiltefish?<br />

Mordehay riu. Achava que estava num sonho discutindo com um bando de<br />

loucos, mas continuou.<br />

- Então, Androida? – Perguntou Mordehay. – É este seu plano?<br />

A Androida não respondeu.<br />

- Acho que Pan noa tem razão, quem cala consente, não é, travequinha. - Disse<br />

Mordehay. – Mas acho que eles não contavam que nos levariam também e nem contavam<br />

que nós teríamos o poder de dopar a Androida.<br />

- Nem de estarmos dispostos a entregar o talismã em troca da nossa volta. –<br />

Disse o Japa.<br />

- É algo a ser considerado. – Disse Pan noa quase alegre. – Você pode conseguir<br />

algo mais forte que este Rohypinol, Mordehay? Talvez possamos alterar totalmente<br />

esta situação... Quem sabe possamos convencer a nossa amiga Androida em<br />

levar algo a mais, apenas como precaução.<br />

- Você quer dizer alguns equipamentos, Pan noa?<br />

- Você não consegue imaginar como é o subconsciente de um judeuzinho de<br />

doze anos, não é verdade? – Perguntou Pan noa.<br />

- Bom. – Respondeu Mordehay. – Eu sou judeu e já tive doze anos, mas não<br />

imaginava que pudesse existir em meu subconsciente exércitos enlouquecidos nem<br />

demônios loucos para destruir tudo por causa de um talismã.<br />

- Acho. – Disse o Japa sorrindo. – Que você não tem ideia do que seria do<br />

centro de São Paulo se essa maldita Androida abduzisse você e não seu patriciozinho.<br />

Mordehay soltou uma gargalhada. - Sendo seguido por todos no bunker menos<br />

é claro a Androida.<br />

- Acho que nós vamos ter que sair em viagem, não é mesmo? – Perguntou<br />

Mordehay. – Tipo: a gente vai mesmo para esse mundo absurdo?<br />

- Enquanto conseguirmos manipular a mente da Androida, acho que sim, dependemos<br />

dela para sermos enviados para lá. – Disse Pan noa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Eu também consigo ir para lá. – Disse Azkin. – Eu vou quando estou dormindo.<br />

Todos olharam para Azkin admirados. Por um instante Mordehay viu uma centelha<br />

de brilho de ódio no olhar da Androida, mas nada falou. Levantou-se, pegou<br />

vários comprimidos de Rohypinol misturou com alguns de Lexotan veio em direção a<br />

Androida e falou meio que por acaso.<br />

- Você está com aquela garrafa de água, Japa?<br />

- Ta aqui.<br />

- A Androida está com sede. – Despejou os comprimidos goela abaixo e logo o<br />

Japa enfiou meia garrafa d´água na Androida.<br />

- Bons sonhos, travequinha. – Disse Mordehay. – Agora nós poderemos dormir<br />

um pouco, quando acordarmos vamos ver o que faremos. Japa, não custa nada amarrar<br />

a traveca.<br />

Enquanto o Japa amarrava a Androida Andrógina com a ajuda de Kley, Azkin<br />

e Pan noa. Mordehay foi dar uma olhada no monitor do computador.<br />

- Ei! Vejam isso! – Disse Mordehay eufórico. – As imagens mostravam um<br />

centro de São Paulo amanhecendo, enquanto a luz do sol incidia por entre as ruínas<br />

dos prédios e das pessoas mortas, via-se também os exércitos de Azkenadzia desaparecendo.<br />

– Os exércitos desaparecem durante o dia!<br />

- Perfeito! – Disse Kley. – Eles são como vampiros, só vão vir para cá durante<br />

a próxima noite.<br />

- Espero que sim. – Falou o Japa.<br />

- É isso mesmo. – Disse Pan noa. – O subconsciente só se manifesta durante os<br />

sonhos mais profundos, exatamente quando um menino de doze anos está dormindo.<br />

Provavelmente eles seguem um horário padrão associado ao da noite e dia do garoto<br />

antes de ter sido abduzido.<br />

- Vamos descansar. – Falou Mordehay. – Acordaremos enquanto ainda houver<br />

sol para nos prepararmos.<br />

Mordehay acordou sobressaltado, parecia ter acordado com a pior ressaca de<br />

sua vida, tentou se lembrar de alguma coisa, então as cenas da noite anterior invadiram<br />

sua mente como uma avalanche. Gostaria que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas<br />

não era. Viu Kley logo na outra cama e os outros esparramados como podiam pelo<br />

bunker, a Androida estava ali de olhos abertos e amarrada a uma cadeira, parecia uma<br />

estátua que fora encravada naquele lugar apenas para lembrá-lo que tudo era verdade.<br />

“Maldita traveca filha da puta”.<br />

Foi então acordar o Japa, e logo viu que Pan noa também despertara.<br />

- Bons sonhos, Alienígena? – Perguntou Mordehay cinicamente.<br />

Pan noa não respondeu.<br />

- Japa. – Disse Mordehay de mansinho. O Japa começou a acordar vagarosamente.<br />

- Pelo amor de deus, Mordehay. Diga que foi tudo uma viagem de ácido.<br />

- É só olhar pra traveca amarada na cadeira.


Marcelo Paciornik<br />

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O Japa levantou um pouco a cabeça, olhou para o ser ali postado fantasmagoricamente<br />

e jogou a cabeça no travesseiro de novo.<br />

- Que merda.<br />

- Mordehay, Japa. – Chamou Pan noa baixinho. – Preciso falar algo que eu<br />

descobri.<br />

Os dois olharam para Pan noa quase assustados.<br />

- Diga. – Falaram os dois ao mesmo tempo.<br />

- Enquanto a Androida estiver dopada eu posso ter alguma espécie de controle<br />

em sua mente.<br />

- Isso é ótimo! – Disse o Japa. – Quanto de controle?<br />

- Ainda não sei ao certo, mas acho que o suficiente para nós controlarmos um<br />

pouco a situação. Esses medicamentos que você deu para ele/a atuam de forma completamente<br />

diferente dos que nós possuímos no futuro; na verdade nós não usamos<br />

mais medicamentos, apenas indução neural.<br />

Os dois olhavam para Pan noa um pouco alarmados.<br />

- Japa, você já viu uma criança desta idade falando deste jeito? – Perguntou<br />

Mordehay.<br />

- Talvez no Japão exista!<br />

- Cala a boca Japa! – Riu Mordehay. – Vamos, me ajudem com os outros! Acho<br />

que eu tenho um plano.<br />

Mordehay, Japa, Pan noa, Kley e um sonolento Azkin estavam em volta de<br />

uma mesa tomando café e comendo bolachas. A Androida estava submersa no coquetel<br />

de químicos que Mordehay providenciara para ele/a na noite anterior.<br />

Foi Kley que perguntou.<br />

- Ele/a já acordou? Quero dizer pode nos ouvir?<br />

- Não. - Respondeu Pan noa. – Na verdade eu estou conseguindo controlar a<br />

mente dela via pérola cubo. Não era só a mente dela que estava me atrapalhando, mas<br />

o amuleto no peito de Azkin também estava interferindo na minha pérola, acho que a<br />

própria pérola achou um caminho para corrigir o problema.<br />

- Acho isso ótimo, Pan noa. – Disse Mordehay encarando-o. – Mas até que<br />

ponto isso é bom para nós todos, quero dizer, até que ponto podemos confiar em você.<br />

Pan noa pensou um pouco.<br />

- Acho que todos nós estamos em uma situação difícil por aqui. Vamos ter que<br />

confiar uns nos outros e é isso: temos um inimigo em comum, devemos nos ajudar.<br />

- É, acho que estamos em uma posição bem difícil. – Respondeu Mordehay,<br />

ainda encarando Pan noa. Foi Kley que tentou facilitar as coisas.<br />

- Pan noa. Você disse que pode ler a mente das pessoas usando esta coisa na<br />

sua testa...bem você poderia ler a mente de Azkin, já que ele esteve neste lugar... Você<br />

sabe, para ver como é lá e do que vamos precisar caso a gente realmente tenha que ir...<br />

- Acho que é uma boa ideia caso o Azkin concorde. – Disse Pan noa.<br />

- Olha só! – Falou Mordehay. – Agora você resolveu ficar educadinho... Você<br />

está louco para entrar na mente de cada um nesta sala, Pan noa.<br />

- Já chega, Mordehay. – Interrompeu o Japa. – Acho que você está pegando no<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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pé do Pan noa, ele já disse que vai nos ajudar, assim como nós vamos ajudá-lo. Não<br />

é Pan noa?<br />

Pan noa nem respondeu. Olhou para Azkin e disse.<br />

- Posso Azkin?<br />

Azkin olhou para Mordehay interrogando-o.<br />

- Vai nessa, filhinho, a cabeça é tua.<br />

- Vai doer? – Perguntou Azkin para Pan noa um pouco assustado.<br />

- Não é lógico que não. E eu só vou ver como é este lugar chamado Azkenadzia.<br />

- Ta bom, devo fazer alguma coisa?<br />

- Tente se lembrar dos lugares que você esteve.<br />

Azkin fechou os olhos fazendo mais força do que deveria o que o deixava com<br />

uma cara engraçada, mas logo sentiu um baque, como se algo fizesse com que ele<br />

relaxasse, um instante depois abriu os olhos.<br />

- Já? – Perguntou assustado.<br />

- Legal. – Disse Pan noa meio que para si mesmo. – Casas com janelas de ferro<br />

retorcido.<br />

- O que quer dizer? – Perguntou Mordehay.<br />

- O mundo que o pequeno judeu criou é uma espécie do que seria a sua idade<br />

média, eu sei pois vi tudo da sua cultura no computador de uma bichona. Bem vamos<br />

lá, uma espécie de idade média com muitos signos judaicos, parece ter um outro povo<br />

que vive brigando com os Azkenadzis, acho que são os Nadzis, parece que os dois<br />

querem o talismã que a Androida roubou e está com o Azkin, todos eles usam cavalos,<br />

não tem armas de fogo, é bem rudimentar a principio, um pouco aterrador, mas com<br />

certeza não precisaremos levar comida, tem muitas tavernas, todas com uma placa<br />

com uma mulher gorda e simpática em cima da porta.<br />

- Ra! – Riu Mordehay. – Claro as Idish Mamas!<br />

- Acho que é mais ou menos isso. – Continuou Pan noa. – As imagens que eu<br />

consegui foram passadas muito rápidas, acho que o Azkin não teve uma experiência<br />

muito boa por lá, não foi Azkin.<br />

- Foi horrível! – Disse Azkin. – Até me atiraram pedras!<br />

Eles se olharam em silêncio, permaneceram assim pensando um pouco, foi<br />

Mordehay que explodiu.<br />

- Vocês têm ideia do que nós estamos falando aqui dentro? Alguém aqui tem<br />

a mínima ideia do que ta acontecendo; a gente ta ficando louco, é isso? Nós estamos<br />

falando em viajar para outra dimensão criada por um judeu de doze anos, levando um<br />

ser alienígena! Uma porra de uma Androida! Japa... você...<br />

- Calma. Mordehay. – Disse o Japa. – Eu também estou confuso.<br />

- Também está confuso? – Todos olhavam assustados para Mordehay. Foi<br />

quando Pan noa se levantou.<br />

- Está bem. – Disse ele. – Calma, talvez isso ajude. – Pan noa contatou as mentes<br />

dos presentes na sala e passou via pérola cubo um pouco das informações sobre<br />

sua vida, sobre o que fora sua vida junto a Be e a Ing- mar, sobre o Mago de Prata e


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

como ele conseguiu superar todos os seus problemas e afinal por que ele estava ali<br />

naquela enrascada com eles e como e porque ele matara a deusa flor. De forma muito<br />

rápida e prática ele descreveu a história da Androida Andrógina.<br />

Então todos no bunker conseguiram se acalmar e por mais incrível que pudesse<br />

parecer Mordehay foi de encontro a Pan noa e o abraçou.<br />

- Puxa Pan noa, desculpe eu ter duvidado em algum momento de você.<br />

- Não se preocupe Mordehay, como eu mesmo falei há pouco, eu vejo muito<br />

de você em mim.<br />

- Vão começar a transar é? – Perguntou o Japa.<br />

Tanto Mordehay quanto Pan noa se afastaram num pulo, como que um irmão<br />

se afasta de outro ao constatar algo de estranho entre eles.<br />

Mordehay falou ainda um pouco embaraçado.<br />

- Bem... o que vamos precisar? Kley faça uma lista. Cavalos, é claro. Cavalo<br />

deve ter um monte por aí. Vamos tentar conseguir armas, mochilas...<br />

- Apesar de ter muita comida por lá era bom a gente levar alguma. – Disse o<br />

Japa.<br />

- Capas pretas. – Disse Pan noa. – Eles se vestem assim por lá.<br />

- Água. – Disse Kley. - Rohypinol e Lexotan não se esqueçam.<br />

- Japa, será que celulares funcionam lá? – Perguntou Azkin.<br />

Todos riram.<br />

- Não Azkin, acho que não. – Disse o Japa.<br />

- Vamos arranjar isso por enquanto. – Disse Mordehay. – Vamos eu e o Japa<br />

lá para fora, Pan noa cuide da traveca, Kley cuide do Azkin, acho que eu tenho duas<br />

mochilas no armário, arrumem o que puderem da lista, nós já voltamos. Deve ta uma<br />

zona lá fora...<br />

E realmente estava. O portão da garagem não funcionava visto que ainda não<br />

tinha energia no centro. Mordehay bateu diversas vezes no portão da garagem e logo<br />

apareceu um Igor assustadíssimo na porta do prédio.<br />

- Mordehay! Graças a deus vocês estão bem...<br />

- Rápido Igor abra a garagem, a gente precisa arranjar umas coisas.<br />

- Cara! Vocês tão loucos de sair daqui... Está uma balburdia por aí.<br />

- Eu sei Igor, mas nós precisamos mesmo. Fique atento para quando nós voltarmos,<br />

não abra o portão pra ninguém. Você precisa de alguma coisa?<br />

- Não a Dona Rose ta me trazendo comida. Cara, eu soube que aquele vizinho<br />

que você vive brigando levou um pau de uma gangue!<br />

- Legal, pelo menos uma notícia boa!<br />

O Igor sorriu.<br />

- Voltem logo! Vejam se não dão mole.<br />

Mordehay mostrou uma arma, - não se preocupe Igor, estamos preparados. O<br />

Japa ligou o rádio de polícia que Mordehay havia dado para ele, vozes desconexas<br />

começaram a ser ouvidas.<br />

- Vamos Japa... Primeiro os cavalos.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Correram pelos cantos, caia uma chuva fina, deveria ser umas quatro horas da<br />

tarde e o céu estava escuro. Desceram na primeira quadra em direção a república, um<br />

bando já podia ser avistado na próxima esquina, eles estavam saqueando uma padaria.<br />

- Vamos Japa nem olhe pros caras. – Disse Mordehay assustado.<br />

Mas do outro lado da rua veio uma voz.<br />

- Ei cabelo! – Mordehay olhou, era um de seus apelidos. – Venha tomar umas<br />

com a gente aqui, é de graça. – Falou um cara desdentado que Mordehay poderia conhecer<br />

de suas andanças pelas noites naquela área. Mordehay foi para lá.<br />

- Daí cara... Você viu cavalos? Precisamos de cavalos...<br />

- Cavalos! Meu, cê ta bem loco... Tem uma porrada de cavalos na praça, a polícia<br />

montada inteira de São Paulo estava lá, mas os alibã tão tudo morto, só cuidado<br />

que os cara tão vindo com os exército.<br />

- Beleza, valeu... – Disse Mordehay já saindo correndo em direção a praça.<br />

- Ei, não vai toma umas aí com as baranga?<br />

Mas Mordehay e Japa já estavam na outra esquina. Quando viraram a quadra<br />

começaram a ver o tamanho da encrenca. Havia milhares de carros espalhados, quebrados,<br />

amassados, vitrinas quebradas e saqueadas... Muitos corpos pelo chão.<br />

Eles foram avançando agachados por entre os carros. Logo viram alguns policiais<br />

mortos, estirados pelo chão, foram verificar, mas já tinham levado suas armas,<br />

então começaram-se a ouvir os primeiros tiros vindos do meio da praça. Havia alguns<br />

soldados do exército ainda em pé, mas eles não estavam lutando contra exército algum<br />

e sim contra saqueadores!<br />

- Típico dessa corja dessa porra desse país. – Disse o Japa. – Somos atacados e<br />

a população ao invés de se unir contra o inimigo se torna outro inimigo.<br />

- Típico. – Disse Mordehay ainda olhando da onde vinham os tiros. Olhou<br />

para a rua que tangencia a praça. – Veja Japa, ali. Aquela rua que vai dar na Rua do<br />

Arouche, ta cheio de corpos e temos um corredor de carros para nos escondermos...<br />

- Vamos Mordehay... correndo agachado.<br />

Correram nenhum barulho de tiro, pelo menos ali perto.<br />

- Japa, acho que o pior foi na rua São João. – Ali Japa, ali...quatro cavalos!<br />

Acho que vai dar pra pegar.<br />

- E ali no chão, alguns policiais.<br />

Mordehay tirou a mochila das costas. Correu para os policiais junto com o<br />

Japa. Pegaram as armas e os rádios. Havia ainda duas “Doze” um pouco mais perto, o<br />

Japa tentou alcançá-las, mas dois tiros vieram em sua direção.<br />

Mordehay deu dois tiros pra cima, mirou para onde vinham os tiros e então<br />

gritou:<br />

- Gabriel! Sou eu o Cabelo!<br />

- Pai! – Era assim que Gabriel chamava o Mordehay. E veio correndo em sua<br />

direção junto com uns mendiguinhos amigos dele, todos armados.<br />

- Pai! Ta a maior zoeira mano!<br />

- Gabriel, venham pra cá se abaixem aqui. – Eram uns cinco pivetes de ruas<br />

cuja idade não dava trinta anos se somassem todas.


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- Tem soldados por aqui? – Perguntou Mordehay.<br />

- Não mano, tão todos lá pra São João, mas tão vindo pra cá...Mano, matei um<br />

monte de alibã!<br />

- Gabriel, nós precisamos daqueles cavalos, vocês nos dão cobertura se nós<br />

formos naquela direção?<br />

- Certeza mano, nóis quebra tudo! – Falou Gabriel eufórico, parecia nunca ter<br />

estado tão feliz na vida.<br />

- Beleza, Gabriel a gente se fala por aí.<br />

- Valeu Pai.<br />

O Japa correu para pegar as “Doze”, Mordehay colocou a mochila nas costas<br />

e foi em direção aos cavalos, neste momento ouviu os tiros que começaram a ser disparados<br />

pela pequena gangue. O Japa montou e os outros dois cavalos que sobraram<br />

vieram junto com os que tinham sido montados.<br />

Mordehay olhou para o Japa e os dois começaram a rir, não sabendo se riam<br />

de alegria ou de nervoso. Dobraram a primeira rua a esquerda, olharam para os dois<br />

lados e ouviram na direção oposta da onde iam, tiros e barulhos de carros blindados.<br />

- Caralho! – Disse Mordehay. – Japa rápido segure meu cavalo.<br />

O Japa fez o que pode pois estava com as duas “Doze” nas costas, conseguiu<br />

segurar o cavalo de Mordehay que desceu, pegou uma pedra e arrebentou o vidro de<br />

uma loja de tecidos. Entrou e logo saiu com um rolo de tecido preto de ceda. Olhou<br />

para o Japa e disse.<br />

- Estamos com sorte! – Montou o cavalo e saíram em disparada para o prédio<br />

pela Rua Aurora, completamente destruída, quase todos os prédios estavam no chão.<br />

- Cara! – Gritou o Japa. – Por aqui que passou aquele demônio gigante!<br />

Mordehay olhou para trás e viu um prédio, em particular, desmoronado.<br />

- Japa! Ali que mora o Kans! Será que ele...<br />

- Ele está bem. – Interrompeu o Japa. - Está viajando.<br />

- Graças a Deus! – Falou Mordehay para si mesmo.<br />

Não demoraram para chegar no prédio. Igor já estava esperando no portão.<br />

- Onde vocês vão com esses cavalos! E essas armas? – Perguntou.<br />

- Vamos pra uma guerra Igor! – Gritou Mordehay triunfante.<br />

Desceram para garagem e logo para o bunker.<br />

Os outros estavam ávidos para saber o que estava ocorrendo lá fora, já que<br />

agora as imagens na net estavam péssimas e repetitivas.<br />

Mordehay e Japa contaram, empolgados, sua pequena aventura, mas não tinham<br />

muitos detalhes pois não tiveram tempo nem de pensar direito.<br />

A Androida estava aparentemente muito bem controlada e amarrada em sua<br />

cadeira.<br />

- Japa, ele/a não precisa comer? – Perguntou Azkin preocupado.<br />

- Não. Respondeu Pan noa prontamente. – Ela tem energia interna.<br />

O Japa puxou primeiro Kley pela mão.<br />

- Venha Kley, vamos ver como fica esta capa em você. – Mediu um pedaço do<br />

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pano que havia saqueado da loja.<br />

- Mordehay... – Perguntou o Japa. – Você tem uma tesoura neste bunker?<br />

- Não. Mas acho que você pode se resolver com uma faca, não pode?<br />

- Posso sim. – Disse o Japa.<br />

Começou então a cortar o tecido.<br />

- Preciso de um prendedor para o pescoço. – Falou o Japa para Mordehay.<br />

- Tenho fio e linha em uma gaveta, podemos fazer prendedores com os botões<br />

daquela jaqueta velha ali no armário.<br />

O Japa trabalhou rápido, logo todos estavam com suas capas de seda com seus<br />

devidos capuzes caídos nas costas.<br />

Olharam-se uns aos outros e riram.<br />

- Está do caralho Japa! – Disse Kley. - E a Androida?<br />

- Ele/a já tem um. Ali no chão. – Disse Azkin.<br />

- Então está ótimo! Aprontaram as mochilas? – Perguntou Mordehay.<br />

- Sim. – Disse Pan noa. – Água e algumas caixas de alimentos que Kley falou<br />

que estava bom.<br />

- Sardinhas, bolachas, e água. Foi o que eu achei. – Disse Kley.<br />

- Eu achei chocolate! – Falou Azkin empolgado.<br />

- Beleza. E agora? – Perguntou Mordehay.<br />

Eles se olharam, um frio na barriga passou por todos. Estava na hora.<br />

- Como vamos até lá? – Era uma pergunta que estava na ponta da língua de<br />

todos, mas foi o Japa que perguntou. Todos olharam para Pan noa.<br />

- Bom. – Disse o menino. – Ta na hora de ver se meus poderes vão dar certo<br />

nisso.<br />

Saíram do bunker, pegaram os cavalos, a Androida amarrada pelas mãos, Mordehay<br />

num cavalo, Japa no outro, Kley e Azkin no outro, Pan noa e Androida no<br />

outro. Formaram um círculo ainda na garagem do prédio de Mordehay. Um cavalo<br />

olhando nervoso para o outro. Pan noa concentrou-se, uma mão na garganta da Androida,<br />

pronto para estrangulá-la. Fechou os olhos, penetrou nas funções cerebrais da<br />

Andrógina, uma luz começou a brilhar no peito do Azkin. Mordehay olhou assustado<br />

para o peito do menino, depois para o Japa que estava começando a ficar pálido. “Está<br />

acontecendo.” Pensou Mordehay. A luz no peito do menino ofuscou a todos, iluminou<br />

a garagem inteira e num baque estrondoso eles sumiram daquele universo.<br />

O Prisioneiro Emocional<br />

Moishe olhava lá para baixo, na rua onde morava. Estava na janela do seu<br />

quarto no décimo andar. Eram quase seis horas e as hordas de seres estranhos começavam<br />

a chegar lá embaixo, naquele mundo tão proibido a ele; proibido, mas fascinante.<br />

- Como eu queria ir lá. – Falou baixinho.<br />

Eram góticos, seres da sua idade ou um pouco mais velhos que se vestiam de<br />

preto como ele e seus pais, mas eram diferentes, tinham cabelos pintados, unhas ne-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

gras, usavam brincos espalhados pelo corpo, tinham colares, pulseiras e todos os tipos<br />

de adereços que deixava Moishe fascinado.<br />

- Moishe! – Gritou sua mãe. – Vamos logo é quase Shabbat!<br />

Era sexta-feira e como todo bom pequeno judeu Moishe deveria acompanhar<br />

seus pais para a sinagoga que ficava a algumas quadras de sua casa.<br />

Moishe deu mais uma olhada lá para baixo e desceu pelo elevador com seus<br />

pais; ainda podiam usá-lo naquele horário.<br />

Quando chegaram à calçada, Moishe ficou nervoso, olhava pelos cantos dos<br />

olhos para todas aquelas pessoas tão maravilhosas para ele. Porém para os olhos de<br />

seus pais eles não existiam. Estavam ali, mas não existiam.<br />

Moishe tentava não mostrar que estava olhando, conseguiu durante alguns passos,<br />

mas logo teve que parar para total espanto de seu pai e sua mãe. Moishe olhava<br />

simplesmente estarrecido para uma figura com um véu preto que cobria sua cabeça e<br />

caia pelo seu corpo até seus pés, a figura usava botas até o joelho e uma espécie de saia<br />

negra feita de um plástico brilhante. Suas coxas estavam cobertas por uma meia muito<br />

colada com desenhos de dragões coloridos em tons vermelhos e dourados.<br />

A figura agora olhava para Moishe. Moishe sabia que era bonito, era branco,<br />

lábios carnudos e rosados, olhos gigantes e azuis. Usava aquelas roupas de judeus<br />

hassídicos e tinha aquelas trancinhas que tão bem emolduravam seu rosto; o chapéu<br />

negro era um detalhe à parte, mas causava uma ótima impressão. Moishe tinha doze<br />

anos.<br />

A figura estava fascinada por Moishe. E obviamente Moishe estava alarmado<br />

com a figura, não só pela roupa e adereços, mas o que mais deixava Moishe a beira<br />

da histeria era o fato de que Moishe não conseguia discernir se aquela figura era um<br />

menino ou uma menina.<br />

A figura continuou olhando para Moishe enquanto sua mãe o puxava como<br />

uma enlouquecida por entre a interminável tribo de góticos que agora tomava a rua<br />

inteira.<br />

Desceram a rua até a sinagoga. Seu pai parecia estar à beira de ter um ataque,<br />

mas nada falava, a mãe estava mais vermelha do que já era. Desceram num silêncio<br />

estarrecedor.<br />

Já dentro da sinagoga os meninos estavam sentados em volta do rabino que se<br />

prestava a dar aulas para aqueles que iam fazer bar mitsva.<br />

- O que é ser judeu? – O rabino perguntava.<br />

- É ter três mil anos de tradição e conhecimento! – Disse um dos meninos com<br />

empolgação.<br />

O rabino sorriu. Mas Moishe pensou, “ É ter três mil anos de sofrimento e<br />

prisão emocional.” Então levantou a mão, um gesto que jamais faria em outra ocasião,<br />

pois era tão tímido que nenhum dos seus colegas demonstravam nenhum tipo de<br />

interesse naquele pequeno judeu.<br />

O rabino olhou-o admirado, pensando que Moishe iria responder alguma coisa<br />

a mais sobre a pergunta que fizera, mas Moishe apenas disse.<br />

- Rabi Joshua desculpe interromper, mas não estou muito bem, posso ir ao<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

banheiro?<br />

O rabino olhou-o em silêncio, os meninos em sua volta também olhavam-no<br />

sérios, como se Moishe acabasse de comer carne com queijo derretido. Mas o rabino<br />

disse.<br />

- Sim Moishe, pode. Mas ande logo.<br />

Moishe saiu da sala onde estavam, ouviu a cantoria dos adultos vindo da sala<br />

principal da sinagoga onde rezavam. Correu pelo corredor, esquivou-se dos seguranças<br />

que mal o notaram e correu rua acima em direção a rua de sua casa que em todos<br />

os finais de semana ficava entulhada de góticos.<br />

Não demorou muito para Moishe encontrar o ser que havia visto anteriormente.<br />

O ser estava sentado no meio fio com um grupo ao redor conversando e tomando um<br />

enorme garrafão de vinho. Moishe chegou bem devagar, o ser olhou para Moishe e<br />

imediatamente ofereceu o garrafão de vinho para ele.<br />

Moishe tomou o garrafão de vinho da mão do ser ali sentado e tomou alguns<br />

goles. Todos a sua volta ficaram olhando para Moishe fascinados com a presença de<br />

um judeu ali, no meio deles. Quando Moishe devolveu o garrafão o ser deu um sorriso<br />

tão intenso, tão afetuoso que Moishe esqueceu de todos os seus temores causados por<br />

anos da educação rígida que tinha tido. Parecia que Moishe já não era um prisioneiro<br />

emocional.<br />

O ser levantou-se, tomou a mão de Moishe e levou-o para um canto, onde<br />

um bar terminava e logo começava outro. Moishe tremeu com o contato da mão do<br />

ser. Então o ser encostou Moishe na parede e o beijou na boca. Neste momento tanto<br />

Moishe quanto a Androida Andrógina desapareceram daquele universo e foram para<br />

o mundo inconsciente de Moishe que aparecera materialmente em uma dimensão<br />

qualquer, previamente preparada pelos seres superiores.<br />

O rapto do pequeno judeu estava consumado, restava agora encontrar Pan noa<br />

e levá-lo ao mundo psíquico do judeu... Azkenadzia. Para isso a Androida deveria roubar<br />

algo do mundo do judeu, qualquer coisa que fosse, encontrar um bode expiatório,<br />

qualquer pessoa que fosse e Pan noa com sua maldita pérola cubo iria ser atraído.<br />

A armadilha estava consumada.<br />

Azkenadzia<br />

A luz branca foi diminuindo para revelar uma extensão vasta de areia azulturquesa,<br />

então surgiu o céu num entardecer violeta com esporádicas nuvens vermelhas.<br />

Os cavalos ainda formavam um círculo, mas a visão de todos ainda estava um<br />

pouco nublada. Num tremendo esforço Mordehay fez uma busca rápida ao seu redor,<br />

o Japa estava ali estarrecido com o visual do local, Pan noa ainda segurava a Androida<br />

com uma das mãos em sua garganta, mas então Mordehay olhou pra o cavalo onde<br />

deveria estar Kley e Azkin. O cavalo estava, Azkin estava, porém, Kley havia sumido.


Marcelo Paciornik<br />

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Estarrecido Mordechay desceu de seu cavalo e foi em direção ao cavalo de Azkin.<br />

- Azkin! Onde está Kley? – Perguntou sobressaltado.<br />

Mas Azkin estava tão fora de si que não conseguiu responder, apenas olhava<br />

para Mordechay com um olhar assustado.<br />

Num salto impossível Mordechay voou para cima da Androida Andrógina derrubando-o/a<br />

do cavalo e caindo em cima de seu corpo na areia azul. O movimento foi<br />

tão rápido que Pan noa não conseguiu se controlar e caiu do cavalo também logo ao<br />

lado dos dois. Mordechay logo estava de pé com a Androida aos seus pés. Mordechay<br />

pegou pela capa da Androida e começou a socá-lo/a.<br />

- Onde – Tuf. Um soco. – Está. – Tuf outro soco. – O. – Tufo mais um soco. –<br />

Kley? – Tuf mais um soco.<br />

- Mordechay. – Gritou Pan noa. – Calma!<br />

Mas Mordechay não se acalmou, continuou socando a Androida e a cada soco<br />

começou a ser ouvido um trovão atrás do outro, vindo do leste.<br />

Japa desmontou do cavalo e logo conseguiu controlar Mordechay segurando-o<br />

pelo pescoço. Pan noa segurava a Androida agora por traz com o braço em volta de<br />

seu pescoço.<br />

Os trovões começaram a ficar mais fortes e a se aproximar.<br />

Mordechay tirou a nove milímetros de sua cintura e apontou para a cabeça<br />

da Androida que estarrecida colocou as mãos na frente para se proteger do ataque<br />

eminente.<br />

Os trovões se aproximavam junto a uma nuvem negra que surgia no horizonte<br />

em meio a raios.<br />

- Fale agora maldita Androida, onde está Kley. – Disse Mordechay engatilhando<br />

a nove milímetros.<br />

- Ele sumiu quando passamos para este mundo. – Respondeu a Androida. –<br />

Ainda com medo na face. – Ele não está morto. Eu não sei o que deu errado, era para<br />

ele estar aqui.<br />

O Japa soltou Mordechay que se aproximou da Androida e colocou a nove<br />

milímetros na cabeça dela.<br />

- Ele/a está dizendo a verdade. – Disse Pan noa. – Pelo menos a parte de que<br />

Kley está vivo. A outra parte ele/a se confunde em pensamentos.<br />

- Onde o Kley está, pela última vez. – Mordechay estava com a arma quase<br />

afundando na cabeça da Androida.<br />

- Eu tive que ter minha segurança, quanto ao paradeiro dele eu não sei, mas<br />

ele não está morto, eu te garanto. – Pela primeira vez Mordechay viu verdade naquela<br />

face, mas continuou com a arma engatilhada na cabeça da Androida.<br />

- Mordechay. – Chamou o Japa um tanto alarmado.<br />

Mordechay não se mexeu, ainda olhava para a Androida. Pan noa estava olhando<br />

para Mordechay extremamente assustado, mas ainda tinha o braço em volta da<br />

garganta da Androida, Azkin chorava agora ao lado do Japa segurando fortemente em<br />

sua mão.<br />

- Mordechay! – Gritou o Japa.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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Mordechay olhou para traz e viu que o Japa não olhava para ele; seu olhar<br />

estava distante nas nuvens que se aproximavam. Mordechay virou o rosto e viu atrás<br />

da cabeça de Pan noa um considerável número de nuvens a se aproximar, junto aos<br />

trovões que retumbavam na cabeça deles de forma ensurdecedora.<br />

Mordechay deu um passo para traz, Pan noa ainda segurando a Androida virou-se<br />

bruscamente e olhou para o céu. Logo soltou a Androida num impulso de terror<br />

e viu que junto as nuvens vinham os raios, os trovões e pelo menos uns vinte dragões<br />

voando em direção a eles.<br />

A Androida estava caída no chão, ainda se recuperando dos socos e disse:<br />

- Esta é a minha segurança. Eles estão vindo buscá-los, a raiva de Mordechay<br />

os trouxe.<br />

Eles pensaram em montar nos cavalos mas os dragões iriam alcançá-los já<br />

estavam ali em cima sobrevoando-os em círculos.<br />

- O que vamos fazer! – Gritou Azkin chorando.<br />

- As armas! – Gritou o Japa já engatilhando uma doze a apontando para o céu.<br />

- Não! – Gritaram Azkin e Pan noa juntos.<br />

Mas já era tarde o Japa já tinha disparado um tiro e logo outro e mais outro. Os<br />

trovões reverberaram mais alto ainda e quando um tiro atingiu um dos dragões fazendo-o<br />

cair em chamas os outros vieram abaixo em espirais. Quando o primeiro chegou,<br />

pronto para estufar os pulmões e cuspir fogo, Mordechay mirou com sua “doze” bem<br />

no meio da testa do mesmo onde uma cruz suástica fora estampada a ferro e fogo.<br />

Mordechay atirou e o dragão explodiu, mas logo vinha outro, o Japa conseguiu acertar<br />

mais um e mais trovões e raios caiam de um céu agora totalmente tomado pelas trevas.<br />

Então Azkin gritou.<br />

- Para cada tiro que vocês dão surgem mais e mais dragões! – Estava ajoelhado<br />

com as mãos cobrindo a cabeça, desesperado.<br />

- Você tem alguma outra ideia? – Gritou Mordechay.<br />

- O amuleto Azkin! – Gritou Pan noa. - Abra sua capa!<br />

Então num pulo Azkin saiu do chão e parou no ar abrindo sua capa, mostrando<br />

seu peito. Por um momento parecia que o tempo havia parado. Azkin estava no ar com<br />

a capa caída em sua cintura sendo segurada com as duas mãos, braços abertos. Os<br />

outros ainda apontavam as armas para os dragões quando uma luz azul saiu do peito<br />

de Azkin alastrando-se até as nuvens como um canhão. Os dragões negros revelaramse<br />

em corpos pútridos e num instante começaram a gritar e se incendiar. As nuvens<br />

negras sumiram como por encanto e o céu tornou-se azul e violeta de novo. Azkin caiu<br />

com a cabeça abaixada. Todos correram em seu encalço, menos a Androida que estava<br />

no chão estatelada e olhos arregalados de pavor a tal visão.<br />

Azkin ergueu a cabeça, de seus olhos ardiam lágrimas, mas logo ele conseguiu<br />

dar um sorriso.<br />

- Eu consegui! O amuleto funcionou!<br />

- Agora sabemos porque estes caras querem tanto este amuleto. – Disse Mordechay<br />

abraçando Azkin.<br />

A Androida tentou levantar-se, mas logo Pan noa meteu um pé nas suas costas.


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- Você ta fodida bichinha! – Disse Pan noa.<br />

Desta vez foi o Japa que veio e deu um chute na cara da Androida fazendo-a<br />

desmaiar.<br />

Mordechay abraçava Azkin e chorava. O Japa veio e abraçou os dois.<br />

- Pelo menos nós sabemos para onde não devemos ir.<br />

Mordechay olhou para o Japa, lágrimas saíam dos seus olhos.<br />

- Vamos. – Disse o Japa. – Na direção oposta de onde vieram aquelas nuvens.<br />

Pan noa colocou o corpo da Androida em seu cavalo e montou-o.<br />

- Vamos! – Disse. – Temos que achar o Kley.<br />

Mordechay, Azkin e o Japa olharam-no. E sem dizer nada montaram em seus<br />

cavalos e seguiram para oeste.<br />

Só depois de muito tempo já no escuro que Mordechay falou.<br />

- Acho que poderíamos parar um pouco, estou com sede.<br />

Eles pararam, tiraram da mochila água e bolachas, abriram uma lata de sardinha<br />

e comeram em silêncio. Por sorte uma gigantesca lua dourada surgiu no céu.<br />

- Vamos achá-lo. – Disse Mordechay como que para si mesmo.<br />

- É claro que vamos achá-lo. – Disse Pan noa. – Nós temos este amuleto, eu<br />

subestimava sua força, mas agora vejo que ele tem imenso poder.<br />

Ficaram mais um pouco em silêncio então Azkin falou.<br />

- Acho que este poder vem de mim também, não só do amuleto.<br />

Todos olharam para Azkin e sob a luz daquela lua eles perceberam algo fascinante<br />

no olhar daquele menino; algo que nunca tinham percebido.<br />

Mordechay pensou “Será que a Androida tinha em mente isso? Por que ela<br />

pegou logo Azkin para ser o portador do amuleto? Foi o mero acaso? Se foi, ela não<br />

contava com a força deste menino...” Deitou-se e logo adormeceu com estes pensamentos.<br />

Logo todos estavam dormindo. Pan noa manipulou sua pérola cubo se a Androida<br />

acordasse ele saberia.<br />

O despertar foi menos traumático do que esperavam, uma série de nuvens projetavam<br />

sombras agradáveis, fazendo com que a luz do sol não fosse insuportável.<br />

Estavam num deserto de areia azul. O frescor da manhã parecia ter animado a todos.<br />

Por mais que a preocupação com Kley estivesse iminente, eles sabiam que deviam<br />

continuar.<br />

Montaram nos cavalos, sem antes empurrar alguns Rohipinols garganta abaixo<br />

da Androida que não dava nem sinal de vida. “Que se foda”. Pensou Mordehay.<br />

Cavalgaram comendo bolachas, chocolate e tomando água. Foi o Japa que<br />

conseguiu quebrar o silêncio.<br />

- Então temos dois exércitos... Pelo jeito, um do mal que nos atacou ontem e<br />

vamos imaginar que um deve ser do bem.<br />

- Eu imagino. – Disse Mordehay. – Que deve ser o exército que atacou o<br />

demônio na praça da república, deve ser o exército, digamos do bem, o que portava<br />

nos estandartes o símbolo que Azkin carrega no peito.<br />

- Eles podem ser do bem. – Disse Pan noa. – Mas para eles nós somos do mal.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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Para os dois, visto que eles pensam que fomos nós que roubamos o amuleto. Os dois<br />

exércitos querem nos pegar, eles não sabem que queremos devolver o talismã.<br />

- Mas pelo menos sabemos para quem devolver, isto é, não vamos devolver<br />

para os “nazistas psicológicos.” – Disse Mordehay.<br />

- Nazistas psicológicos Mordehay? – Perguntou o Japa.<br />

- Sim. Tudo aqui é psicológico, estamos num mundo psicológico, areia azul<br />

psicológica, céu psicológico, sol psicológico. Só nós não somos psicológicos.<br />

- E o que vocês me dizem de um vinhedo psicológico? – Perguntou Pan noa<br />

apontando para frente.<br />

- Eu não acredito! – Disse Mordehay.<br />

Eles pararam os cavalos e viram lá no fundo, quase no horizonte, uma enorme,<br />

gigantesca plantação de uvas.<br />

- Acabei de começar a gostar deste judeuzinho! – Disse o Japa eufórico. – Só<br />

falta ter uma plantação de papoula também!<br />

- Japa! – Disse Mordehay indignado. – Nós estamos em um mundo psicológico<br />

e você já está pensando em drogas!<br />

- Como assim drogas! Estou pensando nas sementes de papoulas para por nos<br />

pretzels!<br />

Pan noa e Mordehay tiveram um acesso de riso. Azkin não entendendo logo<br />

perguntou.<br />

- O que são papoulas, Japa.<br />

- São flores super legais que da pra fazer um monte de coisas com elas, tipo<br />

torrá-las e colocá-las em cima de pãezinhos deliciosos chamados pretzels.<br />

- Ah! Que delicia. Eu bem que comeria um pretzels... – Respondeu Azkin.<br />

- É. Um pretzels – Continuou Mordehay. – Mas dá pra fazer também algo<br />

chamado guerra do ópio, ou heroí...<br />

- Cala a boca Mordehay. – Disse Pan noa. – O menino não precisa saber tudo<br />

de uma vez!<br />

- O que é ópio, Japa? – Perguntou Azkin.<br />

- Por que ele pergunta tudo para mim! – Indignou-se o Japa. – Bem, ópio é uma<br />

espécie de... droga que causa um monte de cagada no teu corpo.<br />

- E porque as pessoas fazem isso, e usam isso, esse ópio? – Continuou Azkin.<br />

- É Japa! – Entusiasmou-se Mordehay. – Fale pra ele sobre heroína também!<br />

- O que é heroína, Japa.<br />

- Já chega! – Cortou Pan noa. – Azkin, depois eu te explico estas coisas. Eles<br />

só estão brincando com você.<br />

- Pra um moleque da tua idade você é muito chato, Pan noa! – Disse Mordehay.<br />

- Se nós trotearmos. – Mudou de assunto Pan noa. – Nós chegaremos mais<br />

rápido no vinhedo, estou louco para saber se as frutas são boas pra comer!<br />

- Como vamos saber se são boas, Pan noa? – Perguntou Azkin.<br />

- Eu tenho uma roupa protetora que me livra de qualquer toxina.<br />

- E se ela não funcionar neste mundo, Pan noa? Não era isso que você mais<br />

temia? – Perguntou Mordehay.


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- Bom, daí nós vamos saber de verdade, mas com certeza a pérola cubo pode<br />

analisar.<br />

- Japa? – Perguntou Mordehay. – Já reparou que estamos viajando com o Frodo<br />

só que sem anel, mas com um talismã e com um Harry Potter do futuro metido a besta?<br />

- Eu acho o Pan noa bem mais bonito que o Harry Potter. – Comentou o Japa.<br />

- Mas muito mais metido. – Disse Mordehay.<br />

Trotavam agora com afinco. Chegaram ao vinhedo ali pelo meio-dia.<br />

- Caralho! – Disse Mordehay. – É muito legal. Olhem o tamanho disso!<br />

E de fato a plantação de uvas era estarrecedora, as uvas eram gigantescas. E os<br />

corredores que as árvores faziam eram sem fim.<br />

- Então Pan noa. – Falou Mordehay. – Vamos atacá-las?<br />

Pan noa chegou perto e arrancou uma uva que era quase do tamanho de sua<br />

mão, escura, quase negra, absolutamente linda. Ele a cheirou. Olhou bem e sem pestanejar<br />

deu uma mordida. Sem olhar para os outros engoliu o pedaço da imensa uva.<br />

Começou a tremer feito louco e se jogou no chão.<br />

- Pan noa! – Gritaram os três juntos. Já pulando dos cavalos e indo ao encontro<br />

dele no chão tendo uma convulsão. Chegaram perto.<br />

- Pan noa! Pan noa! – Azkin berrava.<br />

Mordehay estava indo agarrar Pan noa para fazê-lo vomitar, mas quando Mordehay<br />

chegou bem perto Pan noa deu um pulo em sua frente.<br />

- BUUUU!!!!<br />

Mordehay caiu para traz com o susto.<br />

Azkin rolava no chão com o Japa de tanto que riam. Mordehay ficou ali deitado<br />

olhando para o céu:<br />

- Ai meu deus! Eu realmente mereço! É o meu castigo. Eu mereço.<br />

Pan noa pegou na mão de Mordehay levantou-o e deu-lhe um pedaço da uva.<br />

- Vamos Mordehay, é a melhor uva que eu já comi em toda minha vida!<br />

E realmente era. Sentaram e se banquetearam com as uvas, ainda tinham bolachas<br />

e sardinhas.<br />

- Se a gente seguir por um corredor destes, nós vamos parar em quem fez esta<br />

plantação? – Perguntou Pan noa.<br />

- Acho que é a única alternativa. – Disse o Japa.<br />

- Eu por mim ficaria aqui dormindo. – Falou Mordehay. – Mas acho melhor<br />

irmos; eu durmo em cima do cavalo.<br />

- Tá bom! – Disse o Japa. – Vamos estou louco para ver esta civilização psicológica.<br />

Cavalgaram durante a tarde inteira por entre os corredores que o vinhedo formava.<br />

Foi quase no final da tarde que viram o final do corredor. Aproximaram-se<br />

lentamente e olharam para baixo, estavam no cume de uma pequena montanha, lá embaixo<br />

formava-se, gloriosamente, uma cidadela magnífica, com prédios muito altos<br />

todos feitos como castelos de areia, areia azul com as janelas feitas em ferro retorcido.<br />

Uma enorme muralha, também azul circundava a cidadela. Na entrada, dois dragões<br />

azuis guardavam um imenso portal.<br />

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- Eu só posso estar num sonho. – Disse Azkin.<br />

- Azkin! – Gritou Mordehay bravamente. – Será que você não entendeu nada?<br />

Você está num sonho! Este mundo é feito da mesma coisa que se fazem os sonhos!<br />

- É sério, Japa? – Perguntou Azkin.<br />

Japa estava tão abismado com a visão da cidadela que mal respondeu.<br />

- É Azkin...é sério.<br />

- E aqueles dragões lá embaixo? – Perguntou Mordehay. – O que você acha,<br />

Pan noa?<br />

- Me parecem bem civilizados. – Respondeu Pan noa. – Estão vendo os estandartes?<br />

O símbolo que Azkin carrega no peito está em todos os lugares!<br />

Eles notaram então, as bandeirolas em cada detalhe da cidadela, todas tinham<br />

a forma com a estrela de seis pontas cercada pelas pontas de duas cruzes de malta em<br />

seu redor.<br />

- Não posso deixar de dizer que de tudo que eu imaginava, isso é absolutamente<br />

inesperado. – Disse o Japa boquiaberto. – Jamais em minha vida achei que<br />

iria vislumbrar algo tão maravilhoso. E não posso imaginar que algo tão maravilhoso<br />

possa guardar algum mal, acho que devemos ir sem medo em nossos corações. Cavalgaremos<br />

em direção aquele portal com os rostos erguidos, sem demonstrar medo nem<br />

rancor, só assim aqueles dragões perceberão que estamos aqui para o bem, ao contrário<br />

daqueles que nos atacaram ontem.<br />

- Eu concordo. – Disse Pan noa.<br />

- Eu também. – Disse Azkin.<br />

- Ta bom! Ta bom! – Disse Mordehay. – Se viemos até aqui... Era pra isso<br />

mesmo. Que caralho! Vamos nessa.<br />

Os quatro cavalos desceram a pequena colina e se dirigiram num trote elegante<br />

até o portal da cidadela.<br />

Quando se aproximaram, não diminuíram a marcha. Os dragões se levantaram.<br />

Os quatro olharam para eles, mostrando suas feições. Sentiram os olhares dos dragões<br />

perfurando suas almas. Então para total espanto dos quatro, os dragões abriram os<br />

portões e deixaram os quatro passar.<br />

Mordehay ainda olhou de perto um dos dragões e deu um aceno com uma das<br />

mãos; o dragão acenou para ele. Mordehay sentiu uma emoção, um prazer tão intenso<br />

que começou a rir sozinho, rir de felicidade.<br />

O sol de final de tarde ainda batia nos prédios da cidadela, os quatro pararam<br />

e estarrecidos repararam que a cidadela estava deserta, nenhuma alma viva estava lá.<br />

Todos os prédios estavam fechados, não havia sinal de absolutamente nada naquele<br />

lugar. A não ser a própria cidadela.<br />

Cavalgaram longamente, abismados a cada construção que passavam; tudo era<br />

azul e negro, inclusive as enormes pedras quadradas que formavam o chão das ruelas.<br />

O sol já estava se pondo quando chegaram à imensa praça central, lá havia postes<br />

com tochas que não estavam acesas. Nos quatro cantos da praça existiam esculturas<br />

enormes, de uns trinta ou quarenta metros de altura. Eram estruturas cônicas, quase<br />

como seres gigantes vestidos com mantos negros, mas de um material estranho, só-


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lido. Lá em cima, porém, havia dois anéis prateados em cada estrutura.<br />

- Isso não me é estranho! – Disse o Japa.<br />

Chegaram mais perto e rodearam a estrutura, então para total espanto de Mordehay<br />

e do Japa, viram o símbolo Azkenadzy e logo abaixo uma frase. “ Em associação<br />

a Bo”.<br />

- Eu não acredito! – Disseram Mordehay e Japa ao mesmo tempo.<br />

- O que é Bo, Japa? – Perguntou Azkin.<br />

- Bang and Olufsem!<br />

- O que é isso? – Perguntou Pan noa. – Não consigo achar nos meus dados.<br />

- É a melhor marca de som do mundo, para não dizer do universo! – Falou<br />

Mordehay empolgado. – Isso aqui é uma praça de shows!<br />

Então o sol se pôs. Com pequenos estalos as chamas dos postes tochas<br />

começaram a acender. Viam-se chamas sendo acesas também dentro dos edifícios, e<br />

parecia que muita gente começara a acordar.<br />

- Vamos nos esconder! – Falou Mordehay.<br />

Os quatro mais a Androida galoparam rápido para uma rua lateral à praça; era<br />

um pequeno beco sem saída. Amarraram os cavalos em uma janela baixa, fizeram<br />

um pacote como puderam para prender e esconder a Androida em cima de um dos<br />

cavalos, colocaram as capas sobre as cabeças e ficaram na esquina do beco escuro,<br />

agachados.<br />

Aos poucos começaram a observar o movimento das pessoas vindo em direção<br />

à praça que agora estava mais iluminada. O contraste entre a luz vermelha do fogo<br />

com o azul que imperava no local dava uma impressão maravilhosa. Azkin tremia,<br />

segurou a mão de Mordehay. Este no entanto não se mexia. O Japa falou baixinho:<br />

- Caralho Mordehay, que caralho!<br />

Então as portas dos edifícios foram abertas e várias placas foram acesas: eram<br />

lojas, bares, restaurantes e tudo o mais que uma cidade deveria ter, porém, todos tinham<br />

a marca do amuleto Azkenadzy, cada uma do seu jeito, mas a marca imperava.<br />

As pessoas começaram a sair dos edifícios, então os quatro repararam abismados<br />

que todas as pessoas vestiam-se de preto com adornos absurdos. Os cabelos eram<br />

um show a parte; eram na verdade as únicas coisas que não tinham cor azul e preto.<br />

0- Meu deus! – Falou o Japa. – É uma cidade que só tem góticos!<br />

Eles repararam também que possivelmente o Japa e Mordehay deveriam ser os<br />

mais velhos ali, todos os moradores da cidade eram jovens, muito jovens. Bandos e<br />

mais bandos que começaram a tomar a praça, todos muito alegres se cumprimentavam<br />

e começavam a andar para lá e para cá como se estivessem em uma festa, entravam<br />

nas lojas, nos bares e restaurantes, comiam e bebiam. Algumas pessoas vinham a<br />

cavalo, outras em carruagens lindíssimas.<br />

- Temos que ver isso mais de perto! – Disse Mordehay.<br />

- Será? – Falou o Japa um tanto atônito.<br />

Porém neste momento eles sentiram uma vibração surda como um bumbo gigantesco,<br />

e as primeiras exclamações de alegria vieram do povo que enchia a praça.<br />

De repente a música começou, as chamas ficaram mais altas e todo o povo ficou mais<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

feliz ainda.<br />

- Vamos Japa. – Disse Mordehay empolgado. – São só crianças em uma festa<br />

gótica absurda!<br />

Eles começaram a andar e foram se misturando aos demais habitantes. A música<br />

não era alta o bastante para terem que gritar, uma primeira turma passou por eles e<br />

os cumprimentaram.<br />

- E aí? – Falaram.<br />

Os quatro sem saber o que fazer responderam.<br />

- E aí!<br />

- Até agora tudo bem. – Disse Mordehay feliz.<br />

Os outros já não estavam com tanto medo, só Azkin não largava a mão de<br />

Mordehay de maneira nenhuma. Rodearam a praça vendo as lojas e vitrinas, os bares<br />

e restaurantes. Muitos deles tinham mesinhas para fora da calçada. Mordehay não teve<br />

dúvidas. Escolheu uma mesa e sentou-se. A taverna chamava-se Dorian Grey, tinha<br />

um retrato maravilhoso pintado à mão; na placa logo acima a logomarca Azkenadzy<br />

aparecia.<br />

Os três meio sem jeito sentaram-se também.<br />

- Como vamos pagar a conta? – Perguntou o Japa.<br />

- Sei lá! – Respondeu Mordehay. – Vamos ver como funciona.<br />

Uma garçonete obviamente toda de preto veio falar com eles.<br />

- Então os cavaleiros vão de cerveja hoje? Está uma noite maravilhosa para<br />

cerveja, não está?<br />

- Bem. – Disse Mordehay. – Seria ótimo, mas não sabemos como devemos<br />

pagar, você sabe. Acabamos de chegar e não temos, ou melhor, achamos que não<br />

temos dinheiro, vocês aceitam Visa?<br />

A menina olhava-o abismada.<br />

- Dinheiro? Visa? O que é isso?<br />

Os quatro se olharam. O Japa deu de ombros e falou agora mostrando o rosto.<br />

- Bem já que vocês não sabem o que é dinheiro nós queremos sua melhor cerveja<br />

e um daqueles que aquela galera está comendo. – Falou empolgado apontando<br />

para uma enorme costeleta de cordeiro com batatas e cebolas assadas em volta.<br />

A menina porém não se mexia, olhava para o Japa como se tivesse vendo um<br />

fantasma. Ficou assim durante um tempo e logo berrou a plenos pulmões para todos<br />

ouvirem.<br />

- Um japonês!!!<br />

Todos em volta pararam de falar comer ou fazer qualquer coisa que estivessem<br />

fazendo, todos ali em volta que ouviram o berro da menina se viraram e olharam para<br />

o Japa.<br />

Então, sem mais nem menos levantaram-se e num hurra começaram a aplaudir<br />

o Japa se inclinar da maneira que os japoneses fazem.<br />

Nisto o dono do bar (que não tinha mais que dezoito anos) veio empolgadíssimo<br />

para agradecer a presença do Japa no bar dele.<br />

- Meu querido, que bom que escolheram nosso bar, fiquem a vontade, seu pe-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

dido aqui é uma ordem!<br />

Então os que estavam em volta sentaram-se e continuaram a comer e conversar,<br />

mas cada vez vinha um ou outro para ver o Japa, queriam tocá-lo pegar em seu<br />

cabelo e até pediram para o Japa dar autógrafos.<br />

Ele estava eufórico, falava com todos, cumprimentava e logo espalhou-se a<br />

notícia que havia um japonês na cidade.<br />

Quando a comida e a bebida chegou, no entanto, as pessoas não vinham mais,<br />

apenas olhavam e acenavam para o Japa.<br />

- Muito legal esse lugar, heim Mordehay!!!<br />

- Legal mesmo, ainda mais sendo você um japonês. – Disse Mordehay colocando<br />

um naco de cordeiro na boca.<br />

- Hum...humm! Meu deus do céu! – Disse Mordehay. – Mas isso aqui está<br />

divino!<br />

Azkin e Pan noa pegaram rapidamente um naco de carne, cada um com a mão<br />

e se deliciaram. O japonês tomou a cerveja.<br />

- Gente!!! O que é isso! – Parece sorvete de cerveja.<br />

Os outros experimentaram e ficaram chocados com o sabor da cerveja.<br />

- A mente deste judeuzinho pode ter umas coisas estranhas mas isso aqui está<br />

delicioso! – Disse Pan noa empolgado.<br />

- Será que eu posso virar japonês, Japa? – Perguntou Azkin.<br />

- Claro querido! Na outra encarnação você pode até ser chinês se quiser.<br />

Azkin riu e comeu.<br />

- Tá... – Falou Mordehay. – Então este povo vem pra cá a noite e fica bebendo<br />

e ouvindo música e indo às compras. Não têm dinheiro nem nada pra fazer a não ser<br />

isso... é isso?<br />

- Eu não to reclamando. – Disse o Japa.<br />

- Bom nem eu... só acho um tanto estranho.<br />

- Não seria isso o sonho de um garoto desta idade? – Perguntou Pan noa.<br />

- Não de um judeu. – Falou Mordehay. – A não ser que este tivesse a mente um<br />

tanto atordoada.<br />

- Isso é meio óbvio, não é?<br />

- Me parece que sim, vamos esperar e ver o que acontece.<br />

- Eu acho uma ótima ideia. – Disse Azkin empolgado com a carne.<br />

- Ei ele pode beber cerveja? – Perguntou o Japa.<br />

- Acho que neste mundo pode. Afinal é uma cerveja psicológica. – Falou Mordehay.<br />

Ficaram ali conversando e observando os passantes, comendo e bebendo. Até<br />

que a certa altura o som ficou mais alto. Resolveram dar uma volta e deram um aceno<br />

para a garçonete e para o dono do bar.<br />

- Voltem sempre!<br />

Andaram um pouco e o Japa falou em meio aos acenos que dava para deus e<br />

mundo.<br />

- Cara, é muito estranho você sair do bar sem pagar.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Ah Japa! Eu sempre vejo você fazer isso no mundo real!<br />

Todos riram e seguiram andando, pararam em outro bar e experimentaram a<br />

cerveja dali.<br />

- É completamente diferente!<br />

- E o mais engraçado é que não deixa você bêbado de verdade. – Disse Pan<br />

noa.<br />

- É mesmo. – Falou Mordehay.<br />

- Acho que é uma bebedeira psicológica.<br />

A música agora era ensurdecedora, todos estavam realmente muito agitados.<br />

Mas os quatro não paravam já tinham até mesmo feito amizades aqui e acolá. Mas<br />

nada conseguiram saber sobre o talismã; ninguém ali ouvira falar nisso.<br />

- Essa galera é mesmo meio sem noção. – Disse Mordehay.<br />

- Meio sem noção? – Falou o Japa. – São um bando de chapados!<br />

- Eu acho que eles são meio alienados. – Disse Azkin.<br />

Os três olharam pra ele meio que rindo.<br />

- É. – Disse Pan noa. - Essa é a melhor palavra pra definir essa galera Azkin.<br />

Mesmo assim continuaram andando, já estavam bastante cansados daquilo<br />

tudo quando depararam com uma taverna um pouco diferente: era mais sombria e<br />

ficava meio fora do circuito da praça, quase afastada da praça, mas ainda dava para<br />

ouvir o retumbar da música. O nome da taverna era “Drakonia”. E não para menos<br />

a placa era quatro dragões vistos de baixo soltando fogo azul pela boca, no centro o<br />

símbolo Azkenadzi. Não tinha mesas fora, apenas uma porta de madeira e ferro retorcido,<br />

nada de janelas.<br />

- Ta aí um lugar mais interessante. – Disse o Japa.<br />

- Sem dúvida. – Respondeu Mordehay.<br />

- Bem sinistro. Acho que eu vou ficar por aqui. – Falou Azkin.<br />

- Nada disso. Não vamos nos separar. – Falou Pan noa.<br />

Depois de algum tempo em frente à porta, repararam que ninguém da turma<br />

da praça vinha para aquele lugar. Com uma pontada de curiosidade Mordehay deu o<br />

primeiro passo.<br />

- Vamos. Talvez aqui tenhamos alguma resposta.<br />

Entraram.<br />

O lugar era pequeno, escuro, algumas tochas estavam acesas na parede, as<br />

mesas eram redondas com velas no meio de cada uma. Os quatro demoraram um<br />

pouco para se acostumar com a pouca luz do local. Seguiram em frente ao bar que<br />

estava mais iluminado, havia apenas vultos enormes sentados, todos com os mesmos<br />

capuzes negros que os quatro usavam. Eram os guerreiros, não exatamente os mesmos<br />

que foram a praça da república, mas definitivamente era o mesmo exército.<br />

Então os quatro notaram que a taverna não era tão pequena assim, ela se estendia<br />

por entre um emaranhado de corredores e salas que ficavam escondidas lá para<br />

traz. E para o maior espanto ainda, todas estas salas e corredores que pareciam seguir<br />

ao infinito estavam repletas de guerreiros, todos sentados em suas mesas, fossem de<br />

três ou quatro pessoas, cada mesa com sua vela sobre um castiçal em forma de dragão,


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

uma garrafa de vinho e taças em prata azulada.<br />

Mordehay foi falar com o taverneiro, porém Pan noa se adiantou, olhou de<br />

soslaio para Mordehay e emitiu um pensamento via pérola cubo. “Acho que a coisa<br />

está ficando mais séria, deixe eu tentar, esses caras não podem saber quem somos.”<br />

Pan noa conseguiu decifrar o código de linguagem dos presentes e falou com<br />

o taverneiro em hebraico:<br />

- Somos forasteiros do exército do sul, nos perdemos nas paragens do deserto<br />

de Azkenadzia Central, trouxemos ainda um guerreiro japonês que rumava ao norte,<br />

viemos solicitar abrigo.<br />

O taverneiro respondeu também em hebraico:<br />

- Sejam bem-vindos Azkenazim; minha casa os recolhe de braços abertos. Os<br />

guerreiros estão para serem chamados em busca do Amuleto Divino, se quiserem se<br />

juntar a eles saibam que estarão saindo amanhã, caso esteja em outra missão ninguém<br />

os perturbará; são dias difíceis.<br />

- Todarabá. – Respondeu Pan noa.<br />

- Todarabá. Encontrarão abrigo na porta lateral à taverna. – Falou o taverneiro<br />

colocando uma chave antiga em cima do balcão.<br />

Os quatro se retiraram seguindo Pan noa.<br />

No lado de fora Mordehay perguntou:<br />

- O que foi aquilo, Pan noa?<br />

- Eu explico mais tarde, vamos pegar os cavalos e a Androida, rápido.<br />

Imediatamente os quatro andaram a passos largos para aonde tinham deixado<br />

os cavalos; felizmente a Androida ainda estava lá. Pegaram os cavalos e trotaram até<br />

a taverna, entraram a esquerda na esquina onde havia um beco mal iluminado. Dois<br />

guerreiros pegaram os cavalos ao verem a chave na mão de Pan noa. Seguiram para o<br />

quarto indicado na chave. Entraram. O quarto era grande, tinha um banheiro e jarras<br />

com algum tipo de suco. Mordehay foi direto as jarras e disse:<br />

- Suco de uva. – Experimentou em uma taça de prata azulada. – Por deus! É<br />

delicioso!<br />

Cada um tomou seu banho, a água era morna e obviamente azul. Quando todos<br />

estavam recompostos Pan noa sentou-se em uma cama e começou a explicação sempre<br />

bebericando o maravilhoso suco de uva.<br />

- No início achei que minha pérola cubo não ia funcionar aqui, mas como<br />

vocês puderam perceber ela funciona. Eu consegui obter algumas informações sensoriais<br />

sobre este mundo, que vão nos ajudar muito.<br />

Como sabemos existem dois exércitos. Um deles, é este que está aqui em baixo<br />

e alojado nos quartos desta taverna, na verdade esta é apenas uma minúscula parte do<br />

exército Azkenadzy.<br />

Pelo que percebi Azkenadzia é imensa, e os exércitos estão em toda parte. Eles<br />

se formaram a partir do lado defensivo da mente do pequeno judeu, a parte ofensiva<br />

provém dos seus maiores medos, o maior medo implantado na mente de um judeu<br />

desta idade é feito através das histórias do maior inimigo que os judeus já tiveram: os<br />

nazistas. Mas os exércitos ofensivos não tem apenas as características nazistas, eles<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

são um emaranhado de coisas que estavam na mente deste judeu, sejam elas em forma<br />

de perseguições que os judeus sofreram em toda sua existência sejam na forma do que<br />

este pequeno judeu sofreu na escola, ou em casa na forma de represálias ou excesso<br />

de disciplina; tudo isso molda este exército que não tinha poder até que o que amuleto<br />

Azkenadzy foi roubado, este amuleto era uma forma de proteção criada mentalmente<br />

pelo pequeno judeu para afastar todos estes medos e frustrações que geraram o exército<br />

que aqui é chamado de Nadzy. Eles têm que recuperar o amuleto, para que este<br />

plano psicológico entre em equilíbrio, caso contrário o medo dominará todas estas<br />

terras psicológicas e, se vocês querem saber, é aí que pode foder tudo, inclusive nós.<br />

- E se nós simplesmente entregarmos o amuleto? – Perguntou Mordehay.<br />

- Você quer dizer entregar Azkin? O amuleto faz parte do corpo dele, não temos<br />

como tirá-lo de seu peito. – Respondeu Pan noa. – E tem mais, não fazemos parte<br />

deste mundo, não estamos aqui apenas para salvá-lo das forças do mal, estamos aqui<br />

para devolver o amuleto, recuperar Kley e voltar sãos e salvos para casa, além disso<br />

eu queria saber mais uma coisa, o quê, afinal de contas eu to fazendo aqui... Qual é<br />

plano para mim nesta história toda?<br />

Eles olhavam abismados para um Pan noa assustado, ninguém ali tinha imaginado<br />

o poder que aquele menino tinha.<br />

Foi o Japa que respondeu.<br />

- Temos uma missão isolada, devemos ficar incógnitos, a primeira prioridade<br />

é proteger o Azkin, a segunda é descobrir com quem devemos barganhar o amuleto e<br />

obter as respostas que você decididamente merece, Pan noa.<br />

- Acho que temos uma boa chance se nos juntarmos ao exército. O que vocês<br />

acham? – Perguntou Pan noa.<br />

- Vamos pensar bem sobre isso, mas agora temos que descansar. – Disse Mordehay.<br />

Azkin já estava deitado, quase dormindo. Os três olharam para o pequeno menino<br />

ali deitado, uma pontada de pena bateu no coração deles e foram dormir um tanto<br />

desolados.<br />

Acordaram com a movimentação das tropas, olharam pela janela que dava<br />

para praça central da cidadela e viram espantados que o que era uma festa horas atrás,<br />

virou um acampamento de guerreiros e seus cavalos. Todos com seus mantos negros,<br />

lanças, espadas e escudos com o símbolo Azkenadzy.<br />

- Não sei se é uma boa nos metermos no meio deles. – Disse Mordehay.<br />

- Mas para onde vamos então? – Perguntou o Japa.<br />

- Acho que poderíamos dar uma olhada para ver onde vão. Se estiverem indo<br />

para uma guerra não vale a pena ir com eles. Temos outras coisas a fazer. E já vimos<br />

que nossas armas são um tanto inúteis contra o inimigo.<br />

- O que você acha de ir até lá comigo, Pan noa? – Disse Mordehay.<br />

- Vamos tentar descobrir algo, mas ainda acho que é um pouco perigoso. De<br />

qualquer maneira é nossa única chance. Vamos. Japa você consegue cuidar das coisas<br />

por aqui?<br />

- Certamente.


Marcelo Paciornik<br />

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Mordehay e Pan noa saíram com suas capas. Andaram por entre os guerreiros.<br />

Pan noa lia as mentes de cada guerreiro. Andaram durante um bom tempo, incógnitos,<br />

apenas acenando com a cabeça para aqueles que os cumprimentavam, sentiram o<br />

clima tenso. Então Pan noa resolveu voltar. Ao chegar no quarto o Japa e o Azkin os<br />

aguardavam impacientes.<br />

- Então. – Perguntou o Japa.<br />

- Eles realmente estão indo para a guerra contra os Nadzim, não temos nada o<br />

que fazer com eles, mas consegui perceber algo que eu não esperava, existe uma espécie<br />

de centro cultural nesta cidade, aquele pessoal que estava na festa aqui na praça<br />

ontem parece ser uma turma de estudantes desta cidade. Depois da saída do exército<br />

eles vão para este lugar, quem sabe lá nós poderemos achar o que queremos.<br />

- Além de ser bem mais seguro estar com um bando de estudantes góticos do<br />

que com um bando de guerreiros góticos. – Disse Mordehay.<br />

O exército começou a avançar para a saída da cidadela e em pouco tempo a<br />

praça já estava vazia de novo. Eles saíram, pegaram os cavalos e quando chegaram à<br />

praça viram os primeiros bandos de estudantes saindo dos prédios. Todos se dirigiam<br />

para o mesmo local. Passaram por uma taverna aberta. A placa não poderia ser mais<br />

convidativa: “Idish Mumy” Refeições Azkenadzim. Os quatro deixaram os cavalos<br />

fora e entraram.<br />

Uma mulher baixinha e gordinha veio sorridente.<br />

- Temos bosh e guefilte fish para o café!<br />

- Ótimo. – Disse o Japa.<br />

Sentaram.<br />

- O que é guefilte fish. Japa? – Perguntou Azkin.<br />

- É um bolinho de peixe fantástico. – Disse o Japa.<br />

Comeram se deliciando com o Guefilte fish e tomando o boshe que estava na<br />

temperatura certa, nem quente nem frio demais.<br />

Saíram mais uma vez sem pagar com um certo desconforto e seguiram, montados<br />

nos cavalos, as hordas de estudantes góticos que caminhavam silenciosa e cansadamente<br />

por uma avenida absurdamente enorme.<br />

A avenida parecia ser uma saída da cidadela, porém sem muros. Era uma estrada<br />

que atravessava o deserto de areia azul, as construções já não mais existiam, a<br />

não ser uma que podia ser avistada lá na frente; enorme, era como um castelo de conto<br />

de fadas. Uma placa indicava que eles estavam na Av. Drakonia.<br />

Por estar montados nos cavalos eles se deslocavam mais rapidamente que os<br />

estudantes e chegaram lá antes que todos.<br />

Havia um jardim absolutamente impecável com árvores gigantescas, as folhas<br />

eram azuis, tinha uma plantação de flores.<br />

- Sabe o que são estas flores, Mordehay? – Perguntou o Japa.<br />

- Deixe adivinhar... Papoulas!<br />

- Eu sabia desde o começo que iria ter papoulas aqui, mas nunca imaginei que<br />

seriam azuis!<br />

Cruzaram os jardins e começaram a observar que havia cartazes imensos e eles<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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pararam em frente a um deles.<br />

- Eu não to botando fé! – Disse Mordehay.<br />

- Só pode ser um sonho! – Disse o Japa.<br />

- O que é histeria e sexualidade infantil, Japa? – Perguntou Azkin.<br />

- Não se trata do tema, Azkin, mas quem vai dar a palestra! O próprio criador<br />

da psicanálise! Sigmund Freud! Hoje as sete! Aqui mesmo! Aqui é uma universidade<br />

de psicologia!<br />

- Eu falei que tudo isso é psicológico! – Disse Mordehay sorrindo. – Por mais<br />

que eu queria ver esta palestra não temos tempo para isso, vamos ver se achamos<br />

alguma coisa para sairmos desta enrascada!<br />

Seguiram adiante, tinha lugar para deixar os cavalos, amarraram bem a Androida.<br />

- Será que ela morreu? – Perguntou Azkin.<br />

- Não. – Respondeu Pan noa. – Está desligada. Desligada, mas esperando algum<br />

erro nosso, temos que ficar atentos.<br />

Começaram a percorrer os corredores da universidade, a coisa parecia não ter<br />

fim. Mas logo se viram num pátio central; havia um palco ali montado. Repararam<br />

que o pátio era gigantesco, uma estrutura quadrada, ao redor estavam os corredores<br />

com seus inevitáveis pilares em pedra maciça azul, que sustentavam arcos em forma<br />

de asas de dragões. E para além disso os infinitos corredores, com portas e mais portas<br />

que levavam a outras salas ou outros corredores.<br />

Logo veio um funcionário com sua vestimenta negra, seu capuz cobrindo<br />

metade do rosto:<br />

- Teremos uma reunião de emergência para todos os alunos antes das aulas aqui<br />

no pátio central. Podem ir ficando por aqui porque é de extrema importância que todos<br />

estejam. Avisem os que chegarem.<br />

Pan noa olhou para os três.<br />

- Acho que viemos no lugar certo, eles vão falar sobre o roubo do talismã,<br />

consegui ler a mente do funcionário.<br />

Sentaram-se num banco do pátio central e esperaram. Em pouco tempo o pátio<br />

estava lotado de estudantes góticos, alguns vieram cumprimentar o Japa.<br />

- Fazendo amigos, Japa? – Perguntou Mordehay sarcasticamente.<br />

- Vejam, ali! – Falou Pan noa baixinho e apontando para um senhor gordo<br />

todo de preto e com uma barba enorme e branca. A cabeça era coberta por um chapéu<br />

lindíssimo. Era uma figura fantástica, estava cercada de assessores que abriam<br />

caminho para ele. Todos os alunos o cumprimentavam solenemente.<br />

- Rabi Schaia!<br />

- Rabi Schaia!<br />

- Schaia. – Falou baixinho Pan noa. – Que coincidência perturbadora!<br />

- O que disse, Pan noa? – Perguntou Mordehay.<br />

- Nada. É mais uma justiça poética na minha vida.<br />

O Rabi subiu no palco e começou.<br />

- A todos os alunos e funcionários, professores e convidados, serei breve, pois


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o tempo que me foi dado é escasso. Já há rumores entre nós, mesmo aqui na distante<br />

Universidade de Drakonia, de um fato que foi consumado tempos atrás. Preferimos<br />

não falar sobre o acontecido aos nossos alunos para não gerar interpretações erradas,<br />

mas devido a gravidade da situação devo relatar o ocorrido.<br />

Uma inexplicável força roubou o símbolo sagrado, o Amuleto Azkenadzy, dos<br />

treze guardiões. – Neste momento houve uma explosão lamentosa vinda de todos os<br />

alunos. – Como vocês sabem o Amuleto Azkenadzy é a força vital de nossa cultura.<br />

Vocês podem ter percebido movimentações de nossas tropas pela nossa cidade,<br />

eles estão indo em busca do Amuleto.<br />

Enquanto isso, os sacerdotes supremos pediram-me para não alertá-los sobre<br />

isso, mas acho que todos devem saber do risco que nossa civilização corre. Surgiu<br />

das profundezas do deserto de areia azul uma tribo hostil, a qual tenta capturar nosso<br />

Amuleto. A princípio nossas tropas estão com a situação controlada, mas devemos<br />

ficar atentos, a todos que estudam os Enigmas e Disfunções Místicas. Peço que acompanhem<br />

os professores no corredor Semiótico, pois foi achado em meio ao deserto<br />

um espectro da vida exterior. Pedimos que só e somente só os alunos de Enigmas e<br />

Disfunções Místicas acompanhem os professores, o resto está liberado para as aulas<br />

normais.<br />

- É o Kley! – Disse Pan noa eufórico em meio ao estardalhaço feito pelos<br />

alunos depois que o Rabi deixou o palco. - Eles estão com o Kley! Eu consegui ler a<br />

mente do Rabi!<br />

Os quatro se olharam.<br />

- Bom. – Disse o Japa. – Vamos atrás deles, vamos ao tal corredor semiótico!<br />

- Como vamos achar o tal corredor! Olhe o tamanho disso! – Falou Azkin.<br />

- Pan noa, por favor diga que você consegue localizar alguma coisa! – Disse<br />

Mordehay.<br />

- Calma. Estou me concentrando.<br />

A multidão de alunos era enorme e todos estavam só falando e provavelmente<br />

só pensando em uma coisa: no roubo do Amuleto. Os quatro olharam em volta e<br />

tentaram ver se conseguiam achar o tal corredor Semiótico. A multidão começou a<br />

se dissipar. Pan noa olhava para os lados angustiado e não conseguia localizar nada.<br />

- Ali! – Disse o Japa. Que conseguia olhar por cima de todos devido a sua altura.<br />

– Estou vendo o corredor, vejam se não é!<br />

Os quatro olharam para onde o Japa havia indicado, onde uma placa ao longe<br />

dizia: Assuntos Místicos, Cabala, Numerologia e Ocultismo Semiótico.<br />

- Só pode ser! – Falou Mordehay. – Vamos!<br />

Os quatro se apressaram, atravessaram o pátio central e foram atrás de um<br />

grupo de alunos que se dirigia naquela direção.<br />

- Não somos alunos, Japa o que vamos dizer? – Perguntou Azkin.<br />

- Deixem comigo, falou o Japa.<br />

Chegaram ao corredor. Um grupo de cem alunos deveria estar ali esperando<br />

pelo professor. O professor chegou, deu uma olhada nos alunos e prontamente apontou<br />

para os quatro.<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Vocês. Vocês cursam esta matéria?<br />

O Japa tirou o manto do rosto. Todos soltaram um murmúrio.<br />

- Um Japonês! Que sorte!<br />

Então o Japa disse.<br />

- Somos guerreiros Azkenadzim, viemos em missão do sul, queremos averiguar<br />

a descoberta do corpo em questão.<br />

- Como sabem que é um corpo? – Perguntou o professor assustado.<br />

- Recebemos informações da inteligência Mossádica. – Disse Pan noa rapidamente.<br />

- Informações Mossádicas! – Repetiu o professor. – Então venham. Terão lugar<br />

privilegiado para discutir o tema e se preferirem podem ter acesso ao objeto de estudos.<br />

Os quatro se olharam, Pan noa falou.<br />

- Agradecemos a colaboração, achamos que o objeto em questão possa ter ligação<br />

com os eventos que causaram a aparição dos exércitos citados pelo Rabi Schaia.<br />

- Muito bem, venham! Me acompanhem. – Falou o professor eufórico.<br />

Os quatro passaram adiante de todos os alunos e ficaram logo atrás do professor<br />

que caminhava em direção ao corredor Semiótico.<br />

Mordehay falou baixinho para Pan noa.<br />

- Você é muito cara de pau, Pan noa.<br />

Seguiram por um corredor de pé direito imenso, o murmúrio dos estudantes<br />

ecoava pelas paredes feitas de pedra azul. Olharam para cima e perceberam os adornos<br />

feitos de ossos de asas de dragão. Passaram por portas e mais portas, até que<br />

finalmente chegaram ao local. O professor parou diante da porta em questão e perguntou<br />

aos quatro: os senhores querem minha companhia ou desejam estudar o objeto,<br />

sozinhos?<br />

- Podemos dar uma olhada antes de todos, caso tenhamos alguma dúvida, imediatamente<br />

o chamaremos, professor. – Disse Pan noa convictamente.<br />

- Estaremos aqui fora esperando. – Disse o professor.<br />

Os quatro entraram em uma sala do tipo auditório redondo, sem acreditar muito<br />

na sorte que tinham tido, mas ao mesmo tempo com o coração apertado, estaria o<br />

Kley morto?<br />

Uma espécie de aquário gigante, feito de vidro, estava no meio da sala oval, estava<br />

mal iluminado e embaçado por dentro. Os quatro desceram correndo para ter uma<br />

visão melhor. Só conseguiam visualizar um corpo deitado dentro do aquário, deitado<br />

em posição fetal. Os quatro encostaram as mãos e os rostos junto ao vidro para ver<br />

melhor. Podiam ver uma pessoa mas não conseguiam ter certeza se era o Kley ou não.<br />

Mordehay deu uma batidinha com a mão fechada no vidro, sentiu que era<br />

extremamente grosso.<br />

- Kley ... Kley, é você?<br />

O corpo não se mexia. Mas logo Azkin falou.<br />

- Vejam! Eu consigo vê-lo respirar.<br />

O movimento da capa era quase imperceptível, mas eles podiam ver que, seja


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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

lá quem estivesse lá dentro, estava vivo.<br />

- E se for uma armadilha da Androida? – Perguntou Pan noa.<br />

- Foda-se. – Disse Mordehay. – Não podemos deixar o Kley aí dentro; temos<br />

que correr o risco. Você não consegue fazer contato telepático, Pan noa?<br />

- Estou tentando... Esperem! Consegui. É o Kley ele está bem, apenas dormindo,<br />

um sono profundo.<br />

- Caralho, como vamos tirá-lo daí? – Perguntou o Japa.<br />

- Vamos perguntar ao professor, quem sabe foram eles que o colocaram aí<br />

dentro. – Disse Azkin.<br />

Mordehay saiu correndo subindo as escadas que levavam a porta do anfiteatro.<br />

- Professor. Precisamos de sua ajuda. Por favor mantenha os alunos aqui fora.<br />

O professor entrou e Mordehay perguntou.<br />

- Quem achou o corpo, professor?<br />

- Foi uma tropa Azkenadzy. Ele estava no meio do deserto. Foi pura sorte!<br />

- E ele estava assim dentro desta redoma de vidro ou foram vocês que o colocaram<br />

aí dentro?<br />

- Não, não. – Disse o professor. – Nós nunca prenderíamos ninguém, ele chegou<br />

assim, já tentamos abrir de todo o jeito, até utilizamos magia antiga, mas nada<br />

abre esta caixa.<br />

- Japa. – Disse Mordehay. – Você está pensando o mesmo que eu?<br />

- Estou.<br />

O Japa tirou a “doze” debaixo da capa preta e posicionou contra o vidro.<br />

- Que artefato interessante é esse? – Perguntou o professor.<br />

O Japa olhou para o professor e respondeu.<br />

- Uma “doze”. Nunca ouviu falar?<br />

- Não! – Respondeu o professor.<br />

- Então agora vai ouvir.<br />

Bammm!<br />

O professor se agachou no chão tampando os ouvidos.<br />

- Mas o quê...<br />

Após alguns momentos via-se que não houve nenhum arranhão no vidro. Mas<br />

Kley havia acordado! Estava em pé dentro da caixa de vidro pulando e batendo no<br />

vidro como um louco. O professor não podia acreditar. Kley olhou para Pan noa e<br />

colocou um dedo na cabeça fazendo gestos para que Pan noa lesse sua mente.<br />

- Ok. – Fez Pan noa.<br />

Pan noa leu os pensamentos de Kley e falou para os outros.<br />

- Temos de tirá-lo agora! Ele está sem ar e com muita sede! Ele disse que só<br />

Azkin conseguiria tirá-lo de lá, Azkin deve usar o amuleto!<br />

- Vamos Azkin! – Disse Mordehay. – O que está esperando?<br />

Azkin abriu a capa, se concentrou e um raio de luz azul saiu de seu peito explodindo<br />

a caixa de vidro em bilhões de pedaços.<br />

Eles foram para o que sobrou da caixa, mas Kley não estava lá, havia porém<br />

um bilhete no chão. Pan noa o pegou.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- Agora sabemos onde vocês estão!<br />

Os quatro se olharam.<br />

- Vamos. – Disse Mordehay. – Temos que dar o fora daqui.<br />

O professor no entanto gritava.<br />

- Vocês! Vocês que roubaram o amuleto!<br />

O Japa olhou para o professor e disse.<br />

- Desculpe professor, mas temos que ir embora. – Deu uma coronhada com a<br />

“doze” na nuca do professor que caiu desmaiado e saiu correndo seguido pelos três.<br />

Quando chegaram lá em cima abriram e fecharam a porta rapidamente.<br />

Pan noa falou para os alunos.<br />

- Rápido! É uma emergência! Vocês devem ir para o pátio central e esperar o<br />

professor lá.<br />

Os alunos saíram correndo junto com os quatro. Quando chegaram ao pátio<br />

central se separaram dos alunos, foram até a entrada da universidade em direção aos<br />

cavalos. Quando chegaram perceberam que a Androida já não estava mais lá.<br />

- Fodeu tudo! – Disse Pan noa.<br />

Montaram rapidamente nos cavalos e galoparam pela estrada em direção oposta<br />

a cidade.<br />

- Que bosta! - Gritou Mordehay.<br />

Logo o deserto de areia azul abriu-se novamente. A sombra de uma perseguição<br />

eminente aterrorizava os quatro. A estrada era agora apenas resquícios de pedras que<br />

se perdiam nas areias, porém ainda podiam imaginar que ela seguia uma linha reta e<br />

contínua. Tentaram então, não sair desta linha que se desfazia em areia cada vez mais.<br />

Um vento forte começou a soprar, olharam para trás e viram as pegadas dos<br />

cavalos desaparecendo, o que causou um certo alívio. Continuaram num galope forte<br />

até que o sol já não se fazia tão forte. Como por encanto uma lua gigantesca começou<br />

a aparecer no horizonte, laranja e vermelha, e com esta luz inebriante puderam ver lá<br />

ao longe o início do que poderia ser uma grande floresta, margeando o deserto. A luz<br />

do sol já não era mais necessária com aquela lua e assim desapareceu na linha oposta<br />

à da lua. Pequenos ramos de mato brotavam em meio aos passos dos cavalos e tão<br />

logo a lua se tornou mais amarela que vermelha a floresta surgiu à frente deles com<br />

árvores gigantescas.<br />

Pararam os cavalos e perceberam que manter a linha reta imaginária da estrada<br />

fez eles chegarem a uma nova estrada. Uma que contrariamente à do deserto,<br />

se fechava ante o novo cenário da floresta. Ali dentro, no caminho que levava para<br />

dentro da floresta eles avistaram réstias de luz da lua no caminho que necessariamente<br />

deveriam seguir.<br />

Olharam-se e sem questionar nada entraram na floresta. Os cavalos estavam<br />

um tanto cansados. Perceberam o nervosismo, Azkin quase chorava, mas logo viu<br />

as armas nas mãos dos três, pois até mesmo Pan noa pegou uma das armas que Mordehay<br />

tinha nas mãos. Seguiram vagarosamente a trilha, primeiro Pan noa, depois<br />

Mordehay, Azkin e Japa por último. O barulho da floresta começou a ser percebido;<br />

ao contrário do que acontecia no deserto, ali não havia descanso para os ouvidos. E


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o barulho mais íntimo era a respiração profunda de cada um; até as patas dos cavalos<br />

emitiam um eco estranho, como se estivessem em uma caixa que amplificava os sons<br />

de maneira sobrenatural.<br />

Podiam ver a lua por entre as árvores e suas folhas. A estrada de pedra que se<br />

revelava anteriormente, pois já não havia mais areia para cobri-la, dava lugar a uma<br />

estrada de terra que, à medida que os quatro avançavam ia se estreitando, mas não ao<br />

ponto de terem que desmontar dos cavalos.<br />

Logo um barulho quase identificável se revelou; primeiro era insignificante,<br />

mas logo um pouco mais alto. Logo perceberam que era um riacho.<br />

- Perfeito. – Disse Mordehay. – Estamos quase sem água!<br />

Mas o eco de sua voz foi ouvido várias vezes e eles até pararam pois não podiam<br />

imaginar que tal eco seria possível.<br />

Pan noa emitiu um pensamento via pérola cubo para todos.<br />

“ Melhor não falarmos alto, isso aqui tem um poder acústico absurdo e se alguém<br />

estiver por aqui, seremos um alvo fácil.”<br />

Mesmo Mordehay que achou aquilo absolutamente óbvio concordou com a<br />

cabeça ainda assustado com o eco de sua própria fala.<br />

Quanto mais seguiam o caminho mais ouviam o som das águas.<br />

O Japa tacou um pedaço de pau seco nas costas de Mordehay que se virou<br />

armado e pronto para atirar, mas viu entre as sombras das árvores um Japa com a mão<br />

na frente. Mordehay parou e tão logo Pan noa.<br />

O Japa desceu do cavalo e tirou a faca da mochila. Vagarosamente adentrou<br />

um pouco na mata e colheu algo nos troncos das árvores. Após alguns instantes voltou<br />

com as duas mãos cheias de alguma coisa escura e estranha.<br />

Mostrou para Mordehay que não entendeu a princípio o que era, mas logo fez<br />

uma cara de espanto e falou muito baixinho em direção ao Japa.<br />

- Cogumelos!<br />

O Japa fez que sim com a cabeça.<br />

- Pegue mais! – Tornou a falar baixinho.<br />

Mas o Japa abriu a mochila e mostrou um monte de cogumelos enfiados ali<br />

dentro. Mordehay fez que sim com a cabeça novamente, com um olhar alegre, olhou<br />

para Azkin e sorriu. O menino conseguiu dar um pequeno sorriso, olhou para Pan noa<br />

que já estava sorrindo.<br />

Continuaram por mais uma ou duas horas. Foi quando se depararam com uma<br />

pequena clareira. Bem no meio perceberam à luz do luar uma pequena queda d’água.<br />

Com certeza não era dali que vinha o som da verdadeira queda d’água que tanto impregnava<br />

seus ouvidos, mas não poderiam ter descoberto um lugar melhor para ficar.<br />

Desceram cuidadosamente dos cavalos e perceberam que ali seus barulhos não<br />

faziam o mesmo efeito que na estrada logo atrás.<br />

Mordehay tentou falar algo, mas ainda bem baixinho.<br />

- Tudo bem por aí.<br />

Azkin fez que sim com a cabeça e em seguida ouviu-se Pan noa:<br />

- Aqui tudo bem.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- Eu achei shitaque! – Disse o Japa sorrindo.<br />

Logo os quatro estavam sorrindo.<br />

- Vamos, vamos preparar uma fogueira. – Falou o Japa ainda baixinho.<br />

- Por que está saindo fumaça da água, Japa? – Perguntou Azkin baixinho.<br />

O Japa foi então ao pequeno lago que ficava na encosta das pedras onde havia<br />

a queda d’água e cheirou a fumaça. Logo pegou um pouco da água com as mãos e<br />

passou no rosto, pegou um pouco mais, encostou vagarosamente na boca e engoliu.<br />

Olhou para os outros e disse:<br />

- É deliciosa...e morna!<br />

Logo notaram que não precisavam falar tão baixo assim.<br />

- Venha Pan noa. – Disse Mordehay. - Vamos pegar alguns troncos para fazer<br />

uma fogueira, enquanto o Japa fica dando banho no Azkin.<br />

- Eu não preciso que ninguém me de banho! – Disse Azkin.<br />

- É só modo de falar Azkin. Não leve tudo tão a sério.<br />

Logo a fogueira estava acesa Mordehay pegou uma pedra grande e chata e<br />

colocou ao lado da fogueira, depositou um pouco de fogo ao redor da pedra e sobre<br />

ela os cogumelos. Pan noa enchia as garrafas com a água.<br />

Logo os dois estavam dentro da água também.<br />

- Nada como relaxar depois de um árduo dia de trabalho! – Disse Mordehay.<br />

- Muito engraçado Mordehay. – Disse Pan noa. – Mas temos muito o que<br />

discutir.<br />

O Japa o olhava sério.<br />

- Sei em qual ponto você quer chegar Pan noa. Eu também tenho algumas<br />

questões sobre tudo isso...<br />

- E vocês acham que eu to achando tudo isso uma grande festa? – Retribuiu<br />

Mordehay.<br />

- Então? – Perguntou Pan noa. – O que afinal você esta achando? – A pergunta<br />

era para todos.<br />

- A questão aqui é: – Falou o Japa. – Como uma mente pode criar tudo isso?<br />

Quero dizer se foi só e somente só este judeuzinho que criou este mundo. Devo dizer<br />

que é um mundo bem complexo, com shitaque e tudo o mais...<br />

- Era esse o ponto, Japa. – Falou Pan noa.<br />

Ficaram um pouco em silêncio. Mordehay então falou.<br />

- Eu acho que isso não é grande coisa, quero dizer, é coisa pra caralho, mas vamos<br />

pensar em nossos sonhos, como são complexos e às vezes sonhamos com coisas<br />

que parece que jamais ouvimos falar.<br />

Os três olhavam para ele.<br />

- Tudo neste mundo faz parte de uma mente que absorveu um monte de coisas<br />

durante toda a sua existência. Não me admira o fato de estar tudo por aqui desde plantações<br />

de shitaques até enormes caixas Bang and Olufssem, desde cavaleiros nazistas<br />

até uma cidade de góticos, tudo deve fazer parte da mente do judeuzinho, tudo que ele<br />

absorveu, inclusive uma universidade de psicologia, tudo deve fazer parte de algo que<br />

ele idealizou mentalmente, misturou num enorme liquidificador psicológico e pronto!


Marcelo Paciornik<br />

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Cá estamos!<br />

- Mas – Disse o Japa. – Vamos pensar em nossos sonhos, e até mesmo em<br />

coisas que pensamos acordados. Nós não controlamos tudo, não é mesmo? Se fosse<br />

assim não teríamos pesadelos, algumas coisas de dentro de nossos sonhos se tornam,<br />

digamos, autossuficientes, ou melhor dizendo, com vontade própria; os personagens<br />

dos nossos sonhos agem de maneira isoladas de nós.<br />

- Também pensei sobre isso, Japa. – Falou Mordehay. – Mas o que pode diferir,<br />

visto que a matéria-prima da coisa toda provém só de uma pessoa, mesmo que as pessoas<br />

que povoam este sonho tenham vontade própria eles agem sempre dentro deste<br />

domínio, que é o domínio mental do judeuzinho.<br />

- O que nos dá uma certa vantagem. – Falou Pan noa. – Pois se eles agem dentro<br />

deste ambiente fechado qualquer coisa divergente disso se torna impensável. Mas<br />

nós somos de um ambiente externo a tudo isso, portanto nossos atos aqui dentro são<br />

únicos e naturalmente fora dos padrões daqui.<br />

- Será por isso que eles não vieram atrás de nós? – Perguntou o Japa. – Por eles<br />

não agirem da maneira que nós pensávamos que iriam agir? Tipo: eles não podem sair<br />

de uma fronteira do sonho ou de uma mente para outra, como nós fizemos? Como se<br />

aquele lugar lá atrás fosse parte deles e eles não pudessem vir para cá por não terem<br />

vontade própria ou acharem que este aqui que estamos, não seja parte da onde eles<br />

deveriam estar?<br />

- Acho que é mais ou menos por aí. – Disse Mordehay.<br />

- Bem, então acho que voltamos ao começo e cada vez que acharmos uma<br />

civilização psicológica vai ser a mesma coisa. – Disse Pan noa.<br />

- Não exatamente, Pan noa. Lembre-se que existe mais um agente externo a<br />

tudo isso e que está contra nós.<br />

Os quatro se olharam, e ficaram em silêncio.<br />

Foi Azkin que quebrou a concentração.<br />

- Não seria melhor nós comermos para pensar depois? – Falou já saindo da<br />

água e passando a capa negra pelo seu corpo.<br />

- Boa ideia Azkin. – Disse Mordehay. – Vamos Japa. Vamos Pan noa. Temos<br />

muito o que explorar deste mundo e temos sorte de estarmos aqui ainda juntos e com<br />

comida.<br />

Saíram da água, mas obviamente que os três ainda pensavam sobre a seguridade<br />

da situação.<br />

Comeram sem falar muita coisa que realmente pudesse tirar o apetite e logo<br />

depois quando achavam que iriam discutir um pouco mais caíram num sono profundo.<br />

Quando acordaram o sol revelou finalmente a cor das plantas.<br />

- Meu Deus! – Disse Azkin, pois foi o primeiro a acordar. – Mas este menino,<br />

como vocês dizem? Esse Judeuzinho gosta mesmo de azul, não é verdade?<br />

Os outros ainda não tinham percebido, mas tudo na floresta era azul, menos o<br />

shitaque que ainda sobrara encima da pedra.<br />

Mordehay olhou ao redor pensativo, tomou um gole da água do pequeno lago<br />

e lavou o rosto.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- Acho que alguma coisa está errada sobre o que eu pensei ontem a noite. –<br />

Disse como para si mesmo, mas os outros o olhavam esperando por algo.<br />

- Nós não estamos exatamente num sonho, nós estamos num mundo que foi<br />

gerado pelo inconsciente do menino. As coisas aqui funcionam autônomas, apenas a<br />

referência é a mente do menino.<br />

- Mas isso não explica porque não fomos perseguidos. – Disse o Japa.<br />

- Não sabemos se não fomos perseguidos, Japa. – Disse Mordehay. – Talvez<br />

não tiveram tempo de nos perseguir, pois saímos sem que fossemos vistos, talvez<br />

estejam à nossa procura.<br />

- E se nos encontrarem, o que irão fazer? – Perguntou Azkin assustado.<br />

- Aí que está a chave de tudo. – Disse Mordehay. – O que eles podem fazer?<br />

Nós derrotamos os dragões no deserto pois temos o amuleto, na verdade acho que o<br />

amuleto nos protege de qualquer coisa que seja deste mundo. Ele é mais poderoso que<br />

nossas armas.<br />

Os três pensaram só que agora com feições mais aliviadas do que na noite<br />

anterior.<br />

- O que nós devemos fazer é tentar descobrir o que fazer com o amuleto. –<br />

Disse Pan noa.<br />

- Não sei se devemos voltar para a cidade. – Disse Mordehay.<br />

- Claro que não! – Falou o Japa. – Mesmo porque não vi nada naquela cidade<br />

nem mesmo na universidade, que possa nos ajudar. E de qualquer maneira eu quero<br />

seguir em frente e explorar este mundo.<br />

- Eu também! – Disse Pan noa.<br />

- Então vamos. – Falou Azkin. – Eu também quero ver mais deste mundo!<br />

Eles olharam para Azkin divertindo-se, pois o menino estava mais entusiasmado<br />

do que nunca. E já montado no cavalo disse:<br />

- E tem mais uma coisa: devemos achar o Kley, e sabemos que ele não está na<br />

cidade.<br />

Os três montaram e seguiram pela trilha. Perceberam logo que durante o dia o<br />

eco infernal da floresta não existia. Foi um alívio e ao mesmo tempo puderam andar<br />

mais rapidamente.<br />

A trilha não mudara em nada, talvez um pouco mais sinuosa, mas só isso. Foi<br />

mais ou menos perto do meio-dia que tornaram a ouvir o barulho da água e logo após<br />

uma curva na trilha tiveram que parar os cavalos.<br />

A abertura no campo visual era estarrecedora, o vale se aprofundava de forma<br />

íngreme e só com muito esforço eles puderam ver uma pequena vila lá em baixo, rodeada<br />

de montanhas monstruosas.<br />

- Tava na cara. – Disse Mordehay.<br />

- É. – Falou o Japa. – Mas não imaginava que pudesse ser tão bonito.<br />

- É um conto de fadas e eu estou dentro dele! – Disse Azkin.<br />

- Vejam. – Falou o Japa. – A trilha vai por ali e... – Apontou com o dedo para<br />

ocasionais falhas em meio a vegetação que descia. -...Segue por ali e vai até a cidade.<br />

- E vejam! – Disse Pan noa apontando para o céu. – A trilha que os dragões


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seguem é... – Fez um círculo com o braço. – Seguindo um círculo por cima da cidade.<br />

Os quatro ficaram olhando para os dragões que voavam incessantemente lá no<br />

alto.<br />

- Que merda. – Disse Mordehay.<br />

- Acho que devemos ir para lá, Mordehay, com ou sem dragões. Temos que ver<br />

no que isso vai dar, já estou começando a ficar de saco cheio. Ou temos o poder ou<br />

não temos. – Falou o Japa.<br />

- Bem acho que não temos saída mesmo. É por ali?<br />

- É. – Disse Pan noa tomando o caminho primeiro. – Vamos e foda-se.<br />

- Você disse foda-se, Pan noa? – Falou Azkin sorrindo.<br />

- É a convivência com Mordehay.<br />

- Ótimo, agora é minha culpa.<br />

Os cavalos desciam com cuidado, pois a trilha era íngreme. Pan noa ergueu-se<br />

de sua cela e pegou uma maçã em uma árvore. Deu uma mordida e gritou.<br />

- Podem comer! Está ótima.<br />

Os três repetiram o mesmo gesto de Pan noa e seguiram a trilha. Quando achavam<br />

que estavam na metade do caminho, o sol começou a se pôr.<br />

- Mas já! – Disse Azkin.<br />

- É andamos pra caralho. – Falou Mordehay olhando para cima da onde vieram<br />

e lá já estava bem escuro.<br />

Por entre as árvores conseguiam visualizar a cidade acendendo as tochas. Um<br />

frio na barriga passou pelos quatro.<br />

- O que vocês acham? Devemos chegar lá a noite? – Perguntou Mordehay.<br />

- Acho melhor. – Disse o Japa. – Assim podemos ser confundidos com guerreiros<br />

Azkenadzim.<br />

- Então vamos. – Falou Mordehay.<br />

A espetacular lua começou a nascer de novo. Estava no meio do céu quando<br />

chegaram a vila. Era bem menor do que esperavam. Olharam para a placa na entrada,<br />

o Japa e o Mordehay, e tiveram um acesso de riso.<br />

- Bem-vindo a Zaratustra? Uma vila para todos e para ninguém? Essa foi a<br />

melhor até agora!<br />

- O que é Zar-tusta, Japa? – Perguntou Azkin.<br />

- Zaratustra, Azkin, foi um personagem de um filósofo muito loco.<br />

- Ele era bom ou ruim?<br />

O Japa olhou para Mordehay.<br />

- Ele estava além do bem e do mau, Azkim. – Falou Mordehay.<br />

Azkim fez que sim com a cabeça, mas claro que não entendeu.<br />

- Esse judeuzinho leu muita coisa pra idade dele, não leu Mordehay? – Perguntou<br />

Pan noa.<br />

- Até demais. – Falou Mordehay pensativamente. – Até demais.<br />

Seguiram o caminho estreito para a cidade. Pan noa ia na frente, logo atrás<br />

Azkin bem no meio de Mordehay e Japa, todos menos Azkin com as armas engatilhadas<br />

à mão. Azkin segurava com uma mão a cela do cavalo e com a outra o manto que<br />

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cobria sua cabeça, qualquer problema ele abriria seu manto no peito. Por um breve<br />

momento Azkin viu um vago brilho de luz em seu peito, concentrou-se e a luz apagou,<br />

sentia que possuía um certo controle sobre o amuleto e seu poder, isso trouxe-lhe<br />

uma sensação de total excitação, ficou praticamente inebriado com aquilo, mas logo<br />

concentrou-se na entrada da pequena vila.<br />

Ao contrário da grande festa que era a cidadela, a vila não possuía nada a não<br />

ser pequenas casas bem construídas de madeira, como chalés campestres. Poderiam<br />

estar em um pequeno rancho, mas estavam agrupados ali com pequenas ruelas e mais<br />

nada.<br />

Não havia movimento na vila, estava deserta, sombria, algumas tochas iluminavam<br />

parcamente as ruelas e os quatro viram velas acesas dentro das casas, mais<br />

adiante e perceberam um pouco de movimento, era uma taverna de dois andares; possivelmente<br />

o segundo andar era um pequeno hotel. No primeiro ouvia-se o barulho<br />

de conversa de algumas pessoas. Dirigiram-se para lá. Havia lugar para amarrar os<br />

cavalos. Apearam e entraram na taverna calmamente. Entraram e rapidamente todo o<br />

barulho da conversa cessou. Todos ali olhavam para os quatro de maneira interrogativa.<br />

Eram pessoas um pouco mais velhas que os jovens da cidadela. Tinham caras<br />

amistosas, a maioria com cabelos compridos.<br />

Os quatro dirigiram-se para o balcão do bar e a conversa continuou, ainda que<br />

alguns olhares viessem de encontro aos quatro.<br />

Pan noa percebeu que não precisaria usar outra língua e falou na linguagem<br />

comum.<br />

- Boa noite nobre senhor, procuramos comida e um quarto para passarmos a<br />

noite.<br />

- São guerreiros? – Perguntou o taverneiro.<br />

Pelo tom de voz Pan noa notou que guerreiros não eram bem-vindos ali.<br />

- Não, somos andarilhos, estamos a procura de conhecimento, somos curiosos<br />

por novas culturas.<br />

O taverneiro sorriu, e alguns clientes olharam agora com uma certa afeição<br />

pelos quatro.<br />

- Se vieram em busca de conhecimento Zaratustra é uma vila para vocês, apesar<br />

de ser para ninguém.<br />

Pan noa concordou com a cabeça, sem saber que resposta dar para esta afirmação.<br />

- Sentem-se andarilhos, logo lhes levarei um bom vinho, um bom assado com<br />

batatas, vocês são bem-vindos por aqui. Logo teremos um quarteto a tocar músicas<br />

antigas.<br />

Os quatro sentaram-se e logo chegou a comida e a bebida. Eles comeram e<br />

beberam em silêncio um pouco deslocados. Mas perceberam que a taverna começara<br />

a encher mais e mais e as pessoas começaram a ficar um pouco mais empolgadas em<br />

suas conversas a medida que iam bebendo.<br />

Então quatro jovens com seus cabelos imensos e roupas desleixadas entraram,<br />

três carregavam violinos e um quarto, um cello. Foram direto para um pequeno palco


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no canto da taverna e começaram a tocar músicas agradáveis e melódicas.<br />

- Me parecem músicas judaicas. – Disse Mordehay. – Só que um pouco diferentes,<br />

as melodias são mais...deixe ver...<br />

- Psicodélicas? – Falou o Japa.<br />

- Isso! – Exclamou Mordehay. – Acho que agora viemos para uma vila de hippies<br />

judaicos!<br />

Eles riram um pouco, e tão logo riram, uma mesa ao lado riu também. Eram<br />

dois rapazes e duas moças com uns vinte anos mais ou menos.<br />

Mordehay ergueu a caneca prateada de vinho e falou.<br />

- L´haim!<br />

Eles responderam.<br />

- L´haim!<br />

Uma das meninas olhou para todos e reparou mais precisamente em Azkin.<br />

- Olá! – Disse para Azkin.<br />

- Oi. – Respondeu Azkin encabulado.<br />

A moça chamou a atenção de sua amiga que rapidamente já estava interessada<br />

em Azkin.<br />

- Olha que menininho bonitinho!<br />

Olharam para Mordehay, para o Japa e para Pan noa e logo voltaram para<br />

Mordehay.<br />

- É seu filho?<br />

- Hum! – Fez Azkim.<br />

- É... não exatamente. – Disse Mordehay. – Mas estamos cuidando dele, você<br />

sabe, estamos viajando e resolvemos que ele deveria aprender um pouco sobre...alguma<br />

coisa.<br />

- Que ótimo! Vieram ao lugar certo. Esta é uma vila de conhecimentos! – Disse<br />

a outra menina. – Nós sempre nos encontramos aqui nesta taverna para discutirmos<br />

filosofia e ouvimos músicas alternativas também.<br />

O Japa e Mordehay se olharam pelos cantos dos olhos querendo rir mas se<br />

contiveram.<br />

Logo já estavam todos muito bem apresentados e conversando sobre coisas<br />

absurdas, até Azkin se mostrou interessado e todos da mesa ficaram muito orgulhosos<br />

em relatar em todos os detalhes possíveis quem foi Zaratustra. Azkin estava fascinado.<br />

- Mas ele matou deus de verdade? – Perguntou Azkin estarrecido.<br />

- Não!!! – Dizia um deles. – É apenas um simbolismo.<br />

- O que é simbolismo, Japa?<br />

Mas o Japa nem precisou responder visto que as meninas da outra mesa já<br />

tinham adotado Azkin como aluno.<br />

Nisso Pan noa chegou perto do ouvido de Mordehay e do Japa.<br />

- Isso aqui é uma mina de ouro! É uma vila de rebeldes intelectuais! Eles negam<br />

todo o resto das culturas impostas nas terras de Azkenadzia, acho que podemos<br />

entender um pouco mais sobre as coisas deste lugar aqui! E nem precisamos perguntar<br />

muito, as pessoas aqui têm a mente tão aberta que eu consigo colher todas as informa-<br />

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ções só de olhar para elas!<br />

- Boa Pan noa! – Falou o Japa. – Continue assim que eu e o Mordehay continuamos<br />

com o vinho que está ótimo.<br />

Enquanto Pan noa captava as informações alheias Mordehay e Japa se divertiam<br />

com as duas meninas ensinando Azkin todo o tipo de coisas absurdas. E Azkin<br />

teimava em não perguntar as coisas para elas, mas para o Japa, que para sua felicidade<br />

não precisava responder nada.<br />

- Mas o que é dialética, Japa?<br />

E as meninas respondiam prontamente.<br />

Mordehay já estava um pouco alto quando resolveu entrar na conversa, e muito<br />

disfarçadamente perguntou sobre o amuleto Azkenadzy. Foi aí que todos os olhos da<br />

mesa se voltaram para ele e um sombrio silêncio imperou na mesa.<br />

Foi um dos rapazotes que estava ali sentado que aproximou o corpo mais perto<br />

de Mordehay, que ficou ali impassível, olhando para o rapaz esperando por uma briga<br />

que jamais aconteceria. O rapaz, no entanto, falou com a língua entre os dentes num<br />

gesto um pouco arrogante.<br />

- Não falamos sobre estas bobagens neste canto do mundo.<br />

- Ora, ora! – Começou Mordehay sarcasticamente. – Mas o que há de errado<br />

em falar sobre algo da cultura Azkenadzy?<br />

- São blasfêmias! – Disse o rapaz prontamente. – É o que induz o povo a ser<br />

ignorante. Religiões antigas! Prisões intelectuais.<br />

- E não foi destas religiões que nasceram todo seu rancor e toda a tua atividade,<br />

dita, libertadora? – Perguntou Mordehay. - Não foi o mesmo criador de Zaratustra que<br />

disse: “Qual de nós quereria ser livre-pensador se a igreja não existisse?”<br />

O rapaz encostou-se embasbacado na sua cadeira. Não sabia o que pensar sobre<br />

aquilo. Mas o clima tornou-se tenso.<br />

- Mas o talismã é apenas uma tolice. – Disse uma das meninas. – Um artifício<br />

para crianças respeitarem as leis impostas pela religião.<br />

- E quanto a estes exércitos nazistas? – Perguntou Japa. – Não ouviram falar<br />

deles?<br />

- Exércitos nazistas? – Falou o rapaz. - Mais uma invenção da religião para que<br />

tenhamos medo e sacrifiquemos nossa liberdade de pensamento.<br />

- Mas vocês não viram nenhum desses exércitos por aqui? – Perguntou Pan<br />

noa. – Nenhum dragão?<br />

- Dragão? –Falou a menina. - Vocês andaram bebendo demais do vinho!<br />

- Havia dragões sobrevoando sua vila quando nós chegamos! – Disse Azkin.<br />

- Olha só o que vocês estão fazendo com a mente do pobre menino! Eram<br />

pássaros gigantes que estavam rodando nossa vila hoje, assim como fazem sempre,<br />

estavam em busca de alimentos, como sempre fazem! Não existe nenhum dragão em<br />

nosso mundo!<br />

Porém a expressão dos quatro novos amigos de Azkin não condiziam totalmente<br />

com a afirmação da menina.<br />

- Vejam. – Disse o Japa. – Vocês podem tentar ser diferentes de todos os outros


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

mas não podem ficar cegos a uma realidade que está à sua frente.<br />

Então um rapaz um pouco mais velho do que aqueles quatro, apareceu por traz<br />

e disse.<br />

- Já chega.<br />

Todos olharam para traz. Era um homem quase robusto o bastante para ser um<br />

guerreiro, cabelos loiros até a cintura, trazia uma adaga amarrada em uma calça que<br />

parecia de brim, porém mais grossa e cinza. Calçava botas negras e uma camisa quadriculada,<br />

também nos tons cinza. Olhou para os quatro ali na mesa e disse:<br />

- Vocês podem vir comigo, temos muito o que conversar, verão que nossa vila<br />

não é apenas um bar com alguns intelectuais rebeldes.<br />

Todos se levantaram, as meninas e os rapazes que estavam na mesa, logo<br />

saíram fazendo uma reverência para este loiro. Todo o bar estava calado olhando a<br />

cena, o loiro olhou para as pessoas do bar e fez um sinal com a cabeça e estes também<br />

saíram. Quando os quatro estavam a sós com o loiro no bar ele disse.<br />

- Agora podemos sair, vocês estão com estes cavalos ali fora, não estão?<br />

- Sim. – Disse Mordehay. – Para onde vamos e qual é seu nome.<br />

- Você parece ser o líder desta trupe. – Disse o loiro.<br />

- Não temos líder nem somos uma trupe. – Falou Mordehay.<br />

- Ótimo! As apresentações serão feitas num lugar seguro, que é para onde estamos<br />

indo. Agora sigam-me em silêncio.<br />

Os quatro seguiram o loiro. Pan noa enviou via pérola cubo que deveriam estar<br />

todos alertas pois eles iriam ser testados.<br />

“Ei sei.” Respondeu Mordehay em pensamento. Pan noa olhou para Mordehay<br />

com uma cara de você-me-transmitiu-um-pensamento!<br />

“Sério!” Pensou Mordehay novamente.<br />

“Eu também consigo ouvi-lo Mordehay” Pensou Azkin para Mordehay.<br />

“Caralho! Estamos interligados telepaticamente” Pensou Mordehay.<br />

“E não pensem mal de mim! Só porque eu sou japonês não quer dizer que não<br />

estou na parada com vocês.”<br />

“Mas isso é incrível! Como conseguimos!” Pensou Mordehay.<br />

“Fui eu.” Respondeu Azkin. “Não eu exatamente, mas é o amuleto; de repente<br />

eu comecei a senti-lo! E sem querer pensei: como seria bom nós nos comunicarmos<br />

como o Pan noa! E aqui estamos, interligados!”<br />

“O que é “interligados” Azkin?” Perguntou o Japa.<br />

Os quatro riram juntos, porém muito alto. O loiro olhou para traz muito sério.<br />

“A traveca ta braba!” Pensou Mordehay.<br />

Sufocaram o riso.<br />

“Pare de pensar, Mordehay.” Pediu Pan noa.<br />

“Tá bom, tá bom, vamos nos concentrar. Ei Azkin, você consegue entender o<br />

que a loira ta pensando?”<br />

“Não só consigo ler nossos pensamentos.”<br />

“Pan noa?” Perguntou Mordehay.<br />

“Consigo. Nós vamos pegar os cavalos iremos pela estrada à direita, andare-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

mos um pouco e na segunda curva estaremos encurralados. A turminha de intelectuais<br />

na verdade é um bando de rebeldes e querem ver qual é a nossa, será uma espécie de<br />

teste, mas eles virão com tudo, portanto vamos as armas, cavalheiros! Eles não tem a<br />

mínima ideia do que sejam estes artefatos. Lembrem-se: vamos só fazer barulho nada<br />

de matar ninguém.”<br />

Seguiram o caminho em cavalos, o loiro ia na frente. Quando chegaram à<br />

primeira fila Pan noa transmitiu:<br />

“ Mordehay, passe a doze pro Azkin, quando eu der o sinal você avança ao<br />

lado do loiro, nós atiramos para cima você o segura pela garganta; mata leão, certo?”<br />

“Certo” Pensou Mordehay já passando a arma pro Azkin.<br />

“Nós atiramos de novo para cima e fazemos um círculo em volta de você com<br />

o loiro no chão se alguém chegar perto, nós atiramos pra valer. Azkin só use o amuleto<br />

em último caso.”<br />

“Beleza.” Pensou Azkin.<br />

“Estamos chegando, vai Mordehay, agora!”<br />

Mordehay trotou, em segundos estava ao lado do loiro, ouviu-se três tiros,<br />

o cavalo do loiro empinou. Mordehay saltou em cima do loiro agarrando-o pelo<br />

pescoço, juntou a nuca com a mão entrelaçada no braço; agora o loiro não sairia dali<br />

mais. Os dois caíram no chão Mordehay ainda segurava o loiro. Os outros saíram de<br />

sua tocaia e quando vieram acudir o loiro ouviram mais três tiros o que os deixou<br />

perplexos, parados sem saber o que fazer, foi o Japa quem gritou.<br />

- Temos armas que vocês desconhecem isto pode matar três javalis de uma<br />

vez, não queremos machucá-los, fiquem parados e vamos agir como gente civilizada,<br />

como intelectuais.<br />

- Eles têm a magia da luta! – Gritou o loiro. – Se podem fazer isso comigo<br />

quem dirá com nosso inimigo, eu ofereço casa e vinho e digo meu nome cavaleiros:<br />

sou Salomão chefe e líder desta tribo, nosso pão será dividido.<br />

- Querido Salomão. – Disse Mordehay em sua orelha. – Vamos levantar bem<br />

devagarinho, se eu der um apertãozinho, ta vendo? Você já era, portanto se tiver parentes<br />

por lá, pode dizer adeus, compreendeu bem meu caro? E já que você falou seu<br />

nome eu falo o meu. Chamo-me Mordehay.<br />

- Mordehay! – Repetiu Salomão relaxando completamente o corpo. Mordehay<br />

não entendeu esta atitude.<br />

- Então vocês existem! – Disse Salomão<br />

- Ei parem de transar aí no chão Moedehay. – Falou o Japa. – O cara já falou<br />

que não fará nada e além disso tem três “doze” apontadas pro povo dele.<br />

Mordehay soltou Salomão devagar. Os dois se levantaram. Mordehay encarava<br />

Salomão.<br />

- Que história é esta de nós existirmos?<br />

- Não podemos mais ficar aqui esta barulheira que vocês fizeram pode ter despertado<br />

os... Salomão falou agora encabulado. – Os dragões.<br />

- Há!!! Então agora os dragões existem!<br />

- Cale-se Mordehay. – Disse Pan noa. – Vamos logo. Esse cara sabe o que fala.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A tropa que estava em volta recuou para a mata e quando Salomão saiu liderando<br />

os quatro, toda a tropa saiu da mata com seus cavalos, poderia ter cinquenta<br />

cavaleiros ali.<br />

- Caralho! – Disse Mordehay.<br />

Galoparam freneticamente por entre uma floresta fechada. Quase nada se via<br />

quando de repente notaram tochas nas paredes de uma caverna. Agora os cavalos<br />

diminuíram a marcha e a caverna ficava maior a medida que eles avançavam. O retumbar<br />

dos cascos deu lugar ao som de muitas vozes; podia-se ouvir, às vezes, alguns<br />

cânticos em meio a balburdia dos sons. Então a caverna abriu-se em uma enorme<br />

nave, eles estavam bem acima dos guerreiros que fizeram da caverna seu refúgio.<br />

O lugar era iluminado por fogueiras e tochas por toda a parte. Salomão olhou para<br />

os quatro mas nada falou, este gesto apenas representava um certo orgulho de deu<br />

poderio. Salomão liderou os quatro por uma das inúmeras passagens que se abriam<br />

na rocha como um labirinto. Sua tropa foi para outra passagem que descia em direção<br />

aos guerreiros lá embaixo.<br />

Agora os cinco cavaleiros deixaram seus cavalos para assistentes e seguiram<br />

Salomão que foi em direção a uma tenda num dos platôs que ficava ainda acima do<br />

exército.<br />

Os quatro estavam realmente aturdidos com a situação, mas podia-se ver pelas<br />

feições de Salomão que nada tinham a temer, ele parecia mais nervoso que eles, se é<br />

que isso era possível.<br />

- Então. – Disse Salomão – Sentem-se. Fiquem a vontade.<br />

Os quatro não se mexeram, olhavam para Salomão agora com um pouco de<br />

reverência e uma certa desconfiança. Olharam para o chão, havia almofadas espalhadas<br />

pelo local em cima de um tapete magnífico.<br />

- Minha casa não lhes agrada? – Perguntou Salomão um pouco assustado. –<br />

Desejam alguma coisa? Vinho?<br />

- É... – Falou Mordehay. – Acho que bebemos vinho o suficiente por esta noite,<br />

você teria chá ou água?<br />

- Sim, sim. – Falou Salomão com simpatia. – Chá! Claro!<br />

Salomão pegou uma jarra linda de prata e serviu quatro taças com chá. Mordehay<br />

foi ajudá-lo, logo eles estavam bebendo o chá. Salomão sentou-se em uma das<br />

almofadas e os quatro o imitaram.<br />

Olharam-se em silêncio e Pan noa perguntou.<br />

- Este exército... Pelo que vejo estão se preparando para uma guerra. Estou<br />

certo?<br />

Salomão encarou-o.<br />

- E não foi para isso que vocês vieram?<br />

Os quatro se olharam. O que poderiam falar?<br />

- Não necessariamente. – Disse Mordehay. – Nos foi tirado algo e queremos<br />

de volta.<br />

- Algo valioso, eu presumo. – Disse Salomão.<br />

- Muito mais do que você imagina. – Falou Azkin.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Entendo. – Afirmou Salomão. A conversa seria difícil. - E pelo jeito fariam de<br />

tudo para recuperar o que lhes foi tirado.<br />

- Temos nossos limites éticos. – Disse Mordehay. – Mas recuperaremos o que<br />

nos foi tirado.<br />

Salomão olhou-o perturbado. Perturbado, mas com uma pontada de admiração.<br />

- Posso lhes perguntar o que foi tirado de vocês?<br />

- Depois que você nos disser contra quem irá guerrear. – Falou Mordehay<br />

secamente.<br />

- Tenha certeza, Mordehay. Não fomos nós que tiramos nada de vocês, mas<br />

acho que podemos ajudar a recuperar, temos certeza de nossa posição neste mundo.<br />

- E qual seria? – Perguntou o Japa.<br />

Salomão olhou-o em silêncio. Depois de alguns momentos concordou com a<br />

cabeça.<br />

- Está bem. Vou falar, não quero nada em troca, apenas que vocês avaliem<br />

nossa situação. Caso não queiram juntar-se a nós podem procurar o que quer que seja,<br />

sozinhos, vocês não são meus prisioneiros.<br />

- Muito bem então. – Disse Mordehay. – Avaliaremos sua posição e decidiremos.<br />

Salomão foi para a jarra de chá. Pegou-a serviu-se em uma taça e trouxe a jarra<br />

para o meio da tenda onde todos estavam sentados. Azkin pegou a jarra e serviu a<br />

todos. Salomão começou a falar.<br />

- Estamos no meio de uma guerra sem sentido. Esta guerra começou a mais ou<br />

menos quatrocentos ou quinhentos anos, ninguém sabe ao certo.<br />

Os quatro se olharam assustados.<br />

- Quinhentos anos? – Sobressaltou-se Mordehay.<br />

- Sim nesta época, assim nos foi contado. Dois anjos malignos roubaram um<br />

amuleto de nossos antepassados.<br />

Azkin corou.<br />

- Em certos lugares, principalmente nas cidades escolas, esta informação é<br />

guardada; apenas as tribos guerreiras têm esta informação. Por todo o percurso do<br />

tempo nunca houve especulação alguma sobre como recuperar o amuleto. Foi há algumas<br />

luas que soubemos que os exércitos do povo Nadzim tinham feito um pacto com<br />

um dos anjos que roubou o amuleto. Este anjo mostrou o caminho para o inferno, onde<br />

o amuleto era guardado. Conseguimos segui-los até o inferno e houve guerras entre os<br />

seres do inferno: os Nadzim e nós, os Azkenadzim. Porém quando nós voltamos vimos<br />

que os Azkenadzym estavam lutando em vão, pois sabíamos que o tal anjo tinha<br />

enganado os Nadzim e os Azkenadim caíram na mesma cilada. Como eu era um dos<br />

generais Azkenadim resolvi tirar minha tropa da cilada, e fundar um outro exército,<br />

que está esperando pelo pior.<br />

- O que seria o pior? – Perguntou Pan noa.<br />

- Que o povo do inferno consiga vir para Azkenadzia e enfrentá-la. Sabemos<br />

como eles lutam e sabemos de suas armas mágicas, as quais não poderíamos enfrentar.<br />

Os quatro sabiam exatamente o que era o inferno e sabiam quais eram as armas


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

de que Salomão estava falando.<br />

“O inferno é São Paulo!” Transmitiu Mordehay para os três. “E as armas mágicas<br />

são nossas doze e as pistolas que possuímos! Acho que ele sabe o que somos e da<br />

onde viemos!”<br />

“Ele ainda está em dúvida, Mordehay” Transmitiu Pan noa.<br />

- O que faz o amuleto? Salomão. – Perguntou Mordehay.<br />

- Isso que é o mais incrível! Depois que o amuleto foi roubado, nossos sábios<br />

antepassados escreveram que viria um messias. Ele estaria entre três cavaleiros e seria<br />

o único ser que poderia controlar de forma natural todo o poder do amuleto. Ele seria<br />

a mão de Deus nesta terra dando equilíbrio e enfrentando nossos inimigos; ele se<br />

tornaria o verdadeiro Guerreiro Azkenadzy! Pois nenhum outro ser de outrora jamais<br />

conseguiu dominar o poder do amuleto.<br />

Uma onda de choque passou pelos três, Azkin estava pálido.<br />

- Mas o mais interessante de tudo é que as escritas sagradas diziam que um dos<br />

três guardadores deste messias se chamaria Mordehay. Este nome foi proibido durante<br />

todos estes séculos ao nosso povo. Pois nunca saberíamos se e quando o messias<br />

viria se não fosse acompanhado por alguém com este nome. Isto não é interessante,<br />

Mordehay?<br />

Salomão o encarava de forma assustadora. Mordehay engoliu em seco.<br />

- E agora eu estou aqui na minha tenda, cercado pelo mais poderoso exército de<br />

Azkenadzya, de frente para quatro cavaleiros, entre eles uma criança que se assemelha<br />

inacreditavelmente bem a um dos anjos malditos que roubaram o amuleto descrito<br />

no Talmud; e outro ser que se chama Mordehay todos com armas muito semelhantes<br />

as armas do inferno que eu mesmo vi e além disso soubemos por nossos informantes<br />

rebeldes que há três luas atrás houve uma luz que varreu o céu do deserto azul<br />

espantando uma horda de dragões Nadzim. Portanto antes que vocês deem busca a<br />

aquilo que é tão sagrado para vocês, gostaria que considerassem minhas palavras e,<br />

por sua ética, digam a mim quem são vocês?<br />

Os quatro olhavam para Salomão um tanto assustados, nem de perto tanto<br />

quanto Salomão achava que iriam ficar, pois ele tinha acusado aquelas pessoas de<br />

serem seres infernais, mas seus olhares agora refletiam uma certa sensatez e não espanto.<br />

Teria Salomão ido longe demais? Mas o que eram estes seres afinal?<br />

Mordehay olhou primeiro para Azkin, viu que o menino estava intrigado, já<br />

estivera assustado antes, mas agora parecia haver uma redoma em seu ser, algo que<br />

poderia ser descrito como um impenetrável escudo, olhou então para Japa e Pan noa,<br />

os dois estavam da mesma forma, quase hipnotizados e ligados à figura de Salomão.<br />

Olhou para Azkin de novo e não pode deixar de notar um breve brilho vindo de seu<br />

peito.<br />

“Ele não deve saber de tudo.” Veio a voz em sua mente, não sabia dizer de<br />

quem era, nem se era dele mesmo. “Diga apenas o necessário para que ele se acalme;<br />

ele confia em nós.”<br />

Mas Mordehay nada falou, pois nesse momento algo completamente inesperado<br />

ocorreu; algo que iria mudar completamente a vida dos quatro ali sentados.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Começou com uma luz vinda do peito de Azkin, e logo o tempo parou dentro daquela<br />

tenda.<br />

As mentes dos quatro desgarraram-se dos seus corpos e flutuaram em meio<br />

a tenda. Viram seus corpos ali sentados, os tapetes, as velas acesas, Salomão agora<br />

parado como uma estátua. Azkin olhou para os três e voou para fora da tenda. Os três<br />

o seguiram e Azkin avançou por entre a imensidão do exército Azkenadzi presente<br />

nas cavernas e dali saiu sendo seguido pelos três. Eles voaram para o céu estrelado de<br />

Azkenadzia e lá do alto puderam ver aquele mundo que agora estavam. Um espasmo<br />

mútuo passou pelos quatro ao perceberem a vastidão de um local plano que avançava<br />

por um universo desconhecido.<br />

“Este mundo é plano!” Os quatro pensaram juntos.<br />

A manhã já fazia-se e eles continuaram voando pelo mundo que foi criado a<br />

partir das memórias de um pequeno judeu que foi raptado para este propósito. Este<br />

mundo era como uma ilha onde a água que deveria cercá-la foi substituída por uma<br />

imensidão espacial com um número infindável de estrelas.<br />

Mas a concentração das quatro mentes voando por aquelas terras, era por onde<br />

tinham andado. Tentaram localizar como se estivessem vendo um mapa gigantesco, o<br />

que lhes poderia ser familiar. Viram então o deserto azul, a cidade dos Góticos cercada<br />

pelos seus infindáveis vinhedos, a universidade de psicologia, o caminho que fizeram<br />

até as florestas e logo a vila de Zaratustra. Mas existia muito mais terras a serem<br />

vistas e parecia ser Azkin quem estava no comando da navegação pois os três foram<br />

forçados a irem para o norte. Passaram por mais florestas que logo tornaram a ficar<br />

deserto. Mais ao norte enquanto voavam puderam ver uma imensidão de montanhas<br />

gigantescas, uma cordilheira que parecia cortar as terras de Azkenadzia ao meio, mais<br />

acima encontraram terras mais planas e logo o oceano. Voaram costeando o oceano,<br />

não havia praias, mas um gigantesco precipício que dividia as terras planas e verdes<br />

com a água. Azkin buscava algo, e logo viram o que era: uma vila. Foram em direção a<br />

ela entraram pelo portão principal e lá estava escrito: “Bem-vindo à Perdida Lenore”.<br />

Azkin liderou-os até à praça central. Agora já não havia mais postes, mas um pequeno<br />

palco. Em cima do palco estava a Androida Andrógina, Kley e mais um ser com mantos<br />

negros. Os aldeões tomavam a praça central, o ser de capa preta falava e os aldeões<br />

esbravejavam com suas espadas para cima.<br />

Tentaram escutar o que o ser de capa preta falava, mas nada ouviam. Tentaram<br />

falar com Kley mas ele estava incógnito a tudo e a todos. Puderam reparar, no entanto<br />

e com uma pontada de alívio que ele se encontrava bem, parecia nada ter sofrido.<br />

Mas neste momento, para total espanto dos quatro, a Androida Andrógina<br />

apontou para aonde eles estavam, meio que para o alto, onde ninguém mais estava,<br />

e vociferou de forma absurda. Todos na praça olharam para aquele nada, pois só a<br />

Andrógina parecia vê-los. A Androida Andrógina pegou uma adaga da cintura do ser<br />

de preto, tomou os cabelo de Kley e cortou sua garganta, o menino não teve tempo de<br />

se defender. Caiu morto ali no meio do pequeno palco.<br />

Um grito fulminou os céus de Azkenadzya.<br />

Saíram então da vila e voaram mais para o leste, ali puderam ver hordas e hor-


Marcelo Paciornik<br />

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das dos guerreiros Nadzis, com seus cavalos e dragões que estavam enlouquecidos,<br />

comemorando a morte do inimigo. Um ódio crescente tomou conta do coração dos<br />

quatro que voavam em uma viagem enlouquecida, como um pesadelo sem fim.<br />

Tomaram a direção da caverna de Salomão, porém no caminho de volta perceberam<br />

algo estranho em meio as montanhas, era como um buraco no meio das terras<br />

de Azkenadzia, um círculo perfeito grande o bastante para ser visto da altura que<br />

estavam, mas o que fez com que percebessem tal buraco não foi apenas a negritude<br />

do mesmo, mas as estrelas que lá haviam; era o espaço, o próprio céu daquele mundo<br />

só que visto por entre a terra. Voaram para lá, descendo até o local, mas pararam a uns<br />

dez metros de altura da onde iria começar o buraco, presas a borda do buraco havia inúmeras<br />

correntes que convergiam a uma esfera de vidro que estava presa às mesmas.<br />

Dentro da esfera havia um menino vestido de preto com trancinhas a cair pelo rosto.<br />

Eles tentaram chegar mais perto, mas algo os impedia; parecia haver uma magia que<br />

não permitia que nada passasse daquele ponto em diante. Após alguns instantes ali<br />

parados, olhando abismados para o menino preso dentro da redoma de vidro, viram<br />

com um choque que agora o menino olhava para cima, para eles. O menino então<br />

ergueu uma mão e começou a chorar. Neste momento o céu de Azkenadzia enegreceu<br />

e uma imensa massa de água começou a cair por toda a terra. Eles voltaram imediatamente<br />

para a tenda de Salomão, e puderam, mais chocados ainda, notar que Salomão<br />

também chorava pois também tinha visto o que eles viram.<br />

- Então a guerra começará. – Falou Mordehay com todo o ódio que poderia<br />

caber nestas palavras.<br />

O Ser Que Vestia Mantos Negros.<br />

Devo agora entrar nesta narrativa. E para minha infelicidade eu a assumo;<br />

esta que pode ser a mais medíocre história que já vivenciei. E não como um mero<br />

personagem, mas como um ser que viveu e agora relato os fatos que tive o desprazer<br />

de testemunhar.<br />

Eu sou um guardião. Sou um guardião do destino, e como todos da minha espécie<br />

jamais deveria interferir nos fatos que acompanhei. Mas os fatos precisaram de<br />

interferência; eu descumpri meus juramentos e agora pago por estes erros.<br />

O que acontece comigo hoje, não cabe ser narrado aqui. Mas como diria o ser<br />

que eu tive que incorporar, Mordehay Schaya, eu me fodi pra caralho.<br />

Quando a Androida Andrógina, conhecida também por o ser menino/menina<br />

neste relato, retirou do meu cinturão a adaga que matou o ser Kley no plano Azkenadzya,<br />

eu previ tudo. Eu previ porque eu sou um dos guardiões do destino e desta<br />

forma eu saberia o que iria ocorrer depois deste evento. Eu previ e antecipei mentalmente<br />

como Mordehay iria ganhar a guerra contra os Nadzym. Eu previ mentalmente<br />

como Mordehay iria incorporar todo o poder do amuleto Azkenadzy, roubando não só<br />

o corpo de Azkim, mas o poder do talismã obtendo desta forma todo o poder de que<br />

se pode ter ideia em Azkenadzya, e quem sabe além destas terras. Eu estive lá e eu vi<br />

o que ocorreu. Eu consegui por um milésimo de segundo, mas que parecia ter durado<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

uma eternidade para mim, quando a Androida matou com a minha adaga, naquele<br />

pequeno palco, o ser Kley.<br />

Eles estavam lá, não fisicamente, mas espiritualmente e viram o assassinato do<br />

ser Kley. Este era o plano da Androida, assim como era plano dela e dos seres superiores,<br />

e dentro deste plano estava o que ocorreu depois.<br />

Mordehay enlouqueceu completamente ao ver a morte de Kley, neste momento<br />

eu, pelos poderes que me foram dados, tive não só que captar o que é Mordehay, mas<br />

eu tive que incorporar Mordehay. Porque eu naquele momento tive que deixar Azkenadzya<br />

e ir ao plano material que viviam todos eles: Mordehay, Japa, um não mais<br />

existente Kley, Azkin e por alguns breves momentos, Pan Noa.<br />

Foi nesse momento que eu traí minha condição de guardião do destino. Foi<br />

nesse momento que eu deixei de ser o que eu era. Tive que fazê-lo inicialmente dentro<br />

dos moldes e regras dos da minha espécie, mas tão logo cheguei as terras infernais a<br />

coisa descambou. Então aqui começa meu relato do que ocorreu no plano material no<br />

universo mediano dos “Antes”.<br />

O baque de entrada foi completamente inacreditável. Sentir este mundo com a<br />

consciência explícita em meu ser, de na verdade ser Mordehay, foi algo que fez toda<br />

a minha gratidão por ser um guardião do destino, um juiz do destino, um ser que jamais<br />

poderia interferir no plano material, cair por terra. Eu senti a força do poder da<br />

emoção humana, degradante, infame e egoísta por excelência, mas que alterou todo o<br />

meu código existencial.<br />

A T.B.C.<br />

O meu propósito no plano onde vivia Mordehay era relativamente simples;<br />

um tanto sórdido, mas simples. Eu deveria levar a Azkenadzya um ser que alterasse<br />

o comportamento futuro de Mordehay. Por isso estava agora em seu mundo como o<br />

que chamamos de meta-avatar, isto é um ser aproximado do que foi Mordehay em<br />

existência neste mundo. Veja bem, eu era algo aproximado a Mordehay, não uma<br />

cópia perfeita, eu ainda tinha os meus traços de guardião do destino, deveria ficar<br />

com minhas vestimentas, pois elas guardavam os poderes de que eu necessitava para<br />

minha missão. Eu tinha em minha mente o que eu era, no entanto, e que isso fique<br />

realmente bem explícito: a personalidade do meu meta-avatar, isto é a personalidade<br />

de Mordehay, começou a tomar conta do meu ser. Obviamente que eu não senti isso<br />

naquele momento pois teria ido contra a intervenção ou teria imediatamente chamado<br />

a ajuda de outro guardião. Mas a personalidade então se apoderou de mim, e ainda


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assim consegui em parte cumprir com minha missão.<br />

Eu subia a rua que levava a um espaço de entretenimento que Mordehay costumava<br />

frequentar: era uma casa onde as pessoas do plano de Mordehay iam para<br />

dançar e para meu completo espanto, literalmente enlouquecer. Foi ao me aproximar<br />

de tal lugar que o meu meta-avatar começou a se apoderar de mim.<br />

A maioria das pessoas que estavam no lugar conheciam Mordehay, mas como<br />

eu não tinha todas as características físicas de Mordehay causei apenas uma certa<br />

surpresa. Conseguia sentir os olhares quando me aproximava. Eles estavam ainda fora<br />

do lugar e era um bando de pessoas que nada se assemelhavam aos seres do mundo<br />

de Mordehay. Diferiam não só no comportamento, mas também nas vestimentas, nos<br />

penteados e principalmente na atitude excessivamente afetada para não dizer, agressiva.<br />

Eles falavam alto, berravam uns com os outros, riam espalhafatosamente, se<br />

xingavam de maneira afetuosa (se é que isso poderia ser possível) e pareciam estar<br />

muito, mas muito felizes. Era uma turma, um grupo que pelo que eu pude perceber, na<br />

réstia de consciência que me sobrara, sempre se reunia naquele lugar, como se fosse<br />

um templo que pregava uma religião ensandecida.<br />

Mordehay, no entanto, parecia estar meio que perdido dentro do meu ser; ele<br />

não dominava o meu corpo, e isso foi o que realmente salvou a minha missão, mas<br />

o que Mordehay sentia pelo lugar e, principalmente pelas pessoas que ali estavam<br />

começara a me dominar.<br />

Eu senti que dentro do grupo que ali estava, ainda fora do local, um em particular<br />

me olhava de forma mais pertinente. Obviamente eram os amigos mais chegados<br />

de Mordehay. Quase tive um ímpeto de ir falar com eles, pois os sentimentos de Mordehay<br />

me atraiam para isso. Porém consegui dominá-lo. O que deveria fazer? Qual era<br />

mesmo o propósito de eu estar ali? Minha mente estava confusa e eu estava agindo de<br />

maneira imprópria. Me encostei atordoado na parede do local. Via claramente que os<br />

amigos de Mordehay agora me olhavam de forma aterradora. Definitivamente estava<br />

correndo perigo, pois eles poderiam vir me interrogar.<br />

Tentei usar os poderes de minha vestimenta, o que achei que tinha dado certo<br />

pois eles pareceram mais distantes, esse talvez tenha sido o maior erro que cometi em<br />

toda minha vida.<br />

Quando achei que os olhares do grupo se desviaram de minha atenção, consegui<br />

me concentrar mais em minha missão. O que eu viera buscar? As coisas não<br />

estavam funcionando bem, meu meta-avatar estava tentando dominar meu corpo e<br />

minha consciência estava se dissipando.<br />

Então a coisa ocorreu da forma mais intensa que eu poderia imaginar; foi um<br />

choque tremendo. Um ser saiu da casa onde eles iriam entrar logo mais, pois a festa<br />

iria começar. O ser olhou para mim e gritou muito contente em me ver:<br />

- Mordehay!<br />

E meu meta-avatar quase respondeu – E aí Benne! – Quase, pois ainda consegui<br />

segurá-lo. Neste momento, no entanto o tal Benne me olhou assustado.<br />

-Nossa! – Disse ele. – Desculpe. Achei que você fosse um amigo.<br />

Mas o tal Benne continuava me olhando ainda pasmo com minha semelhança a<br />

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Mordehay. O que realmente me diferenciava de Mordehay eram minhas roupas, meus<br />

mantos negros que cobriam meu corpo assim como minha cabeça e acho que isso que<br />

me salvou naquele momento. Então, para meu alívio, logo alguém gritou.<br />

- Benne! Quem vai ser hostel hoje? – Lembro-me desta frase pois foi graças a<br />

ela que a coisa começou a realmente se alterar.<br />

O Benne virou-se bruscamente, como que apanhado num susto, havia coisas<br />

urgentes a serem resolvidas e pelo jeito o mais urgente era o tal do hostel, então ele<br />

gritou muito alto e muito brabo para o meio da multidão ali agrupada.<br />

- Tawan! Que merda, porque você não está na porta?<br />

Levei um susto com o berro e por pura curiosidade olhei para ver com quem<br />

ele estava gritando. Foi nesse momento que uma onda de choque passou pelo meu<br />

corpo e quase caí. O meu meta-avatar entrou em minha mente como uma onda de<br />

terror, então eu senti o que os seres humanos sentem quando têm o que é chamado<br />

de compulsão. Foi algo aterrador, era um medo infinito, era como se meu corpo estivesse<br />

tomado por uma onda de sentimentos tão conflitantes que poderia desfalecer<br />

ali mesmo. A figura foi em direção ao Benne, era um ser hipnótico, de uma beleza<br />

tão fantástica que minhas mãos começaram a suar e tremer; na verdade eu comecei a<br />

sentir todo o meu corpo a tremer incontroladamente. Era eu que estava sentindo aquilo<br />

ou meu meta-avatar? Até hoje não saberia explicar. Enquanto o ser se dirigia para o<br />

Benne aconteceu algo que piorou ainda mais minha situação. O ser olhou para mim.<br />

O ser estava a alguns passos de distância. Pude sentir seu olhar penetrando o meu e<br />

agora meu pânico estava tão intenso que eu não conseguia mais controlar meus movimentos.<br />

Não conseguia mais pensar, nem reagir a nada naquele mundo; já não sentia<br />

mais o tempo, nem o espaço a minha volta.<br />

Mas o ser foi falar com o Benne. Eu fiquei ainda parado, vivenciando aquele<br />

olhar, digerindo aquele momento como o funesto e o mais belo momento da minha<br />

existência. Demorou um pouco para que eu pudesse voltar a mim. O ser estava agora<br />

sentado em uma banqueta quase ao meu lado, na frente da porta da casa, onde algumas<br />

pessoas começavam a formar uma fila para entrarem. Todos deveriam passar por este<br />

ser, que anotava nomes, conversava e ria o tempo todo.<br />

Então quando eu já estava quase retornando ao meu equilíbrio, um dos seres<br />

que poderiam ser amigos de Mordehay veio falar comigo, senti um certo medo em seu<br />

olhar, mas também curiosidade.<br />

- Oi. Desculpa a pergunta, mas por um acaso você não é irmão ou primo do<br />

Mordehay? Meu, você é idêntico a ele!<br />

- Mordehay? – Perguntei em pânico. – Não nunca ouvi falar.<br />

A pessoa me olhou indignada. Então olhou pra trás e disse aos outros.<br />

- Gente, ele nem conhece o Mordehay!<br />

O ser olhou de novo pra mim.<br />

- Bom, desculpe. – Disse o ser meio que sarcasticamente. Mas existia ainda<br />

uma incógnita em seu olhar. Ele continuou, precisava saber mais. – Então você vai<br />

entrar na TBC?<br />

- Não sei. - Respondi. - Na verdade estou em busca de algo. – Obviamente


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minha resposta foi muito estranha pois o ser quase riu, e continuou me olhando.<br />

- Olha só. Se você quiser entrar eu ponho o teu nome na lista, vem cá, como<br />

é teu nome? – O ser falava isso muito rapidamente e era extremamente afetado e<br />

para meu total espanto olhou para aquele que estava sentado na banqueta. Comecei a<br />

tremer novamente. Então esse que veio falar comigo disse rispidamente:<br />

- Tawan. – Porém o Tawan nem respondeu. Fingiu que não ouvira. – Ô Tawan<br />

dá pra olhar pra mim bichinha do caralho!<br />

Então o tal Tawan olhou para ele.<br />

- Que que qué Juan, não ta vendo que eu to trabalhando?<br />

O tal Juan olhou pra mim com um olhar indignado.<br />

- Você acredita nesta bicha!<br />

O Tawan estava olhando para o Juan esperando pela resposta. Era um clima<br />

tenso. Tawan no entanto não olhava para mim. Eu não sabia o que fazer, estava completamente<br />

desnorteado. Senti meu meta-avatar se manifestando. Neste momento para<br />

meu total espanto o Juan me tomou pelo braço com tamanha força que não consegui<br />

escapar dele; me puxou para junto de Tawan que agora me encarava incrédulo.<br />

- Olha aqui. – Disse Juan. – Você põe esse aqui na minha lista, entendeu. E<br />

pare de dar uma de loca comigo. Ele quer entrar e eu quero ele na minha lista.<br />

Então o Tawan respondeu.<br />

- Você nem conhece ele, tenho certeza, e eu sou o hostel, se ele não tá na tua<br />

lista eu tenho que pôr ele na minha.<br />

A turma que eu identifiquei como amigos de Mordehay se juntara em volta<br />

do Juan e encaravam o Tawan que começara a ficar mais e mais nervoso e por algum<br />

motivo desviava seu olhar do meu, mas não do deles.<br />

- Que que é. – Disse Tawan. – Vieram me encher o saco, né? Não tão vendo<br />

que estou trabalhando. – E virou-se pra mim com um olhar de afronta. – Qual é teu<br />

nome, você vai pra minha lista!<br />

Não deu tempo de responder. Nesse momento Juan desceu a mão na cara do<br />

Tawan que indignado pegou a banqueta que estava sentado e deu na cara de Juan. Dei<br />

um passo para trás atordoado com a situação, mas vi que isso poderia ser a deixa para<br />

eu concluir minha missão. Obviamente que os amigos do Juan entraram na briga, o<br />

Benne que estava dentro da porta logo veio para ver o que ocorria e tentou apartar.<br />

Então os amigos do Juan fecharam um círculo em volta de Tawan e tentavam espancálo.<br />

Foi neste momento que acionei como pude os poderes da minha roupa, com<br />

uma força sobrenatural consegui afastar os que estavam em volta dele, tomei-o nos<br />

braços e como era um ser muito pequeno, envolvi-o em meus mantos. Ele se debatia<br />

como louco, mas algo o fez parar. Eu estava horrorizado pois de minha boca saiu algo<br />

inimaginável.<br />

- Tawan. Se acalme, sou eu. Mordehay!– Disse a voz de Mordehay. Tanto<br />

Tawan quanto os outros imediatamente pararam. O Benne também parou e olhou horrorizado<br />

para mim.<br />

- Você! - Disse ele, me apontando. - Você é o Mordehay!<br />

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Então consegui sair do círculo de seres que me olhavam espantados. Virei-me<br />

ainda com Tawan nos braços e saí correndo dali. Mas não sem antes ouvir estupefato<br />

a voz de Mordehay sair novamente de minha boca.<br />

- Juan, Rodrigo. – Berrava Mordehay. – Arthur, Larissa! Me ajudem!<br />

Alguém me puxou pela roupa, um pedaço dela rasgou-se, mas eu consegui<br />

escapar. Sai correndo, minha força era descomunal. Avancei muitos passos a frente<br />

deles e corri por meio de veículos. Sentia ser perseguido, mas eles já estavam muito<br />

atrás. Desci algumas ruas e entrei em baixo de um enorme viaduto. Olhei para trás e<br />

não vi ninguém. Retirei Tawan de meus mantos. Ele estava petrificado de medo. Senti<br />

o meu meta-avatar se contorcer em meu íntimo, indignado com a situação. Mas agora<br />

estava muito mais forte do que qualquer ser ali presente. Fiz Tawan sentar-se. Minha<br />

missão estava cumprida. Era o que eu achava.<br />

A Transferência de Tawan para Azkenadzya.<br />

O menino Tawan sentou-se no chão-espelho e olhou muito sério para a figura<br />

que acabara de entrar no recinto. A figura sentou-se em frente ao menino Tawan. Ela<br />

estava envolta em mantos negros, seu rosto encoberto em sombras. O menino Tawan<br />

conseguia vislumbrar apenas um brilho prateado nos olhos da figura. Então a figura<br />

em mantos falou ao menino Tawan:<br />

- Seu reflexo é perfeito no chão-espelho.<br />

O menino Tawan não se abalou com a voz fantasmagórica do ser em mantos.<br />

Então a figura um pouco mais nervosa disse num tom mais áspero:<br />

- Você sabe porque está aqui?<br />

Tawan nada respondeu, mas uma lágrima começou a descer de seu olho. Tawan<br />

já sabia porque estava ali. A figura em mantos, sem dar atenção a lágrima do menino<br />

Tawan continuou:<br />

- Eu vou levar você a Azkenadzya. Você será a nossa arma contra o Guerreiro<br />

Azkenadzy, será através de você e por sua existência que Mordehay irá trair<br />

Azkenadzya, e nem o próprio Guerreiro será capaz de ir contra a tamanha força de<br />

Mordehay. Você será a sina de Or.<br />

A T.B.C.<br />

Rodrigo encontrou Juan na esquina de baixo da The Boy Club. Como sempre<br />

o estardalhaço foi ouvido uma quadra abaixo, acima e dos lados, pois quando se en-


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contravam era berro.<br />

Para piorar a situação a Larrissa e o Arthur tinham acabado de descer do ônibus,<br />

e logo viram o Rodrigo e Juan em berros de comprimentos e lisonjas por suas<br />

roupas e cabelos enlouquecidos. Logicamente que os berros se multiplicaram quando<br />

esses últimos se encontraram com os dois primeiros. Assim seguiram para a TBC que<br />

tanto gostavam, confabulando e falando as maiores besteiras que podiam passar na<br />

mente de seres humanos.<br />

Era uma linda tarde de sábado, e eles subiam a rua de braços dados. Logo<br />

chegaram na The Boy que ficava apinhada de gente nesse horário. A baderna era latente,<br />

uma alegria descomunal emanava daqueles seres que não mediam esforços para<br />

botar as fofocas em dia. Mas logo que os assuntos mais importantes foram discutidos<br />

a plenos pulmões, Larissa e Arthur chamaram Juan e Rodrigo num canto. Foi o Arthur<br />

que começou com um olhar um pouco mais sério.<br />

- Alguém tem falado com o Mordehay? – Perguntou preocupado.<br />

Eles se olharam entre si, mas ninguém respondeu. Arthur continuou.<br />

- Meu, ele não está online a uma semana! E o celular dele ninguém atende.<br />

Então o Juan olhou para o outro lado da rua e fez um gesto com a cabeça como<br />

que dizendo para todos olharem para uma pessoa que estava chegando na TBC.<br />

- Quem sabe a bichinha Tawan não sabe. – Falou Juan sarcasticamente.<br />

- Eu não vou perguntar, não falo com ele. – Disse o Rodrigo. – E nem conheço<br />

esse Mordehay direito, na verdade ele me da medo.<br />

- Ai Ro! – Exclamou Larissa. – O Mordehay é super legal, você deveria ser<br />

amigo dele.<br />

- Ai sei lá. – Respondeu Rodrigo. – Ele me olha de um jeito estranho e ele é ....<br />

sei lá.... muito grande.<br />

Eles tiveram que rir do jeito que o Rodrigo falara sobre Mordehay.<br />

- Ta eu vou lá perguntar pro Tawan. – Disse Larissa.<br />

- Vamos todos juntos, quero ver o que ele tem a dizer. – Falou Juan.<br />

E foram em direção ao Tawan. Quando chegaram perto, ele tentou desviar<br />

deles, mas logo eles o cercaram. A Larissa que era mais amigável perguntou simpaticamente.<br />

- Oi Tawan, tudo bem?<br />

- Tudo e você? – Ele foi enfático em perguntar olhando só e somente só para<br />

Larissa.<br />

- Então. Você tem falado ou visto o Mordehay?<br />

Tawan ficou muito sério e olhou para todos.<br />

- Porque vocês querem saber dele?<br />

- Ah, porque faz tempo que a gente não fala com ele, e a gente tá um pouco<br />

preocupado. – Disse Larissa tentando parecer o mais simpática possível.<br />

Mas Tawan não se comoveu. Continuou com a cara mais fechada possível e<br />

respondeu quase que agressivamente olhando em particular para o Rodrigo.<br />

- Não. Não tenho visto nem falado com ele. E nem sei porque vocês estão tão<br />

interessados nele.<br />

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Claro que Juan não ia deixar isso pra trás.<br />

- Olha aqui bichinha. Porque você não pega o Mordehay e não o enfia no teu<br />

cu sua passivinha do caralho.<br />

Tawan jogou o cabelo e saiu com a cara amarrada como se aquilo não fosse<br />

com ele. Foi cumprimentar alguns amigos, sem dar a mínima pelo que Juan tinha dito.<br />

Os quatro ficaram olhando com raiva para Tawan.<br />

- Eu falei pro Mordehay não se envolver com essa bicha do caralho. – Disse<br />

Juan.<br />

Mas Larissa e Arthur estavam sérios, absortos em sua preocupação com o paradeiro<br />

do amigo.<br />

- Ah, quer saber? – Disse Rodrigo. – Eu não sei porque vocês estão tão preocupados<br />

com este Mordehay, eu já disse eu acho ele estranho e...<br />

Mas então Rodrigo parou de falar. Ficou pasmo olhando para o outro lado da<br />

rua vendo o ser que chegava. Os outros três olharam imediatamente para o ser que<br />

caminhava em direção a TBC.<br />

- Gente o que é isso? – Perguntou Rodrigo apavorado.<br />

E com razão. O ser era alto magro, e estava totalmente envolto em panos negros,<br />

panos finíssimos que resplandeciam uma luz fantástica. Eles ficaram parados<br />

embasbacados com aquilo; o ser passou e num lampejo ínfimo deu uma pequena olhadela<br />

para eles. O queixo dos quatro caiu imediatamente. Mas foi Larissa que tomou<br />

a iniciativa, foi dar um passo em direção àquele, que tanto lembrava Mordehay. Imediatamente<br />

o Arthur agarrou o braço da Larissa.<br />

- Pare. Não pode ser ele. Vamos chegar mais perto.<br />

Os quatro atravessaram a rua e foram em direção ao ser que agora se encostava<br />

na parede da TBC. Olharam de novo; agora podiam vislumbrar o rosto do suposto<br />

Mordehay.<br />

- Não é ele. – Disse o Arthur. – E se fosse ele, ele viria falar com a gente.<br />

Ficaram olhando para o ser indignados. O ser de repente pareceu distante, mas<br />

eles continuaram observando.<br />

Em seguida Benne o dono da boate saiu e logo viu o suposto Mordehay encostado.<br />

Os quatro viram Benne berrando para Mordehay, mas logo parou assustado.<br />

Os quatro viram Benne, que era muito amigo de Mordehay, cometer o mesmo erro<br />

que eles tinham cometido. Viram então Benne berrar com Tawan para este ir para a<br />

porta da boate. Viram o ser ficar quase enlouquecido quando observou Tawan indo em<br />

direção ao Benne.<br />

- Meu. – Disse Arthur. – Tem alguma coisa muito errada nisso. Tenho certeza<br />

que tem alguma cagada nisso.<br />

- Eu vou falar com ele. – Disse Juan.<br />

- Não! – Falou Larissa. – E se ele for perigoso!<br />

- Ah meu cu. – Disse Juan. E foi. Começou a conversar com ele. Logo depois<br />

se virou para os três e disse.<br />

- Gente! Ele nem conhece o Mordehay!<br />

Nisso, para total espanto dos três que observavam a cena e para total espanto


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do próprio ser, Juan tomou o braço do suposto Mordehay e levou-o para falar com<br />

Tawan.<br />

Como não poderia deixar de ser a confusão começou. Depois de uma pequena<br />

discussão Juan largou um sopapo na cara de Tawan que nem pestanejou em pegar a<br />

banqueta que estava sentado e jogou na cara de Juan: a briga começara. Benne saiu<br />

da boate para tentar acalmar os ânimos, mas nada conseguiu. O ser tomou Tawan nos<br />

braços e com uma força descomunal escondeu-o em suas vestes negras. Então para<br />

espanto de todos ouviu-se a voz de Mordehay sair da boca do ser de mantos negros<br />

que tentou fugir. Quem estava logo atrás do ser era o Rodrigo que agarrou suas vestes<br />

negras e puxou com toda a sua força, rasgando-a em um pedaço tão grande que poderia<br />

cobrir todo o seu corpo. Ele começou a fugir com Tawan em seus braços. Mas<br />

antes eles ouviram mais uma vez a voz de Mordehay:<br />

- - Juan, Rodrigo. – Berrava Mordehay. – Arthur, Larissa! Me ajudem!<br />

Foi o bastante para Arthur começar a correr atrás do ser.<br />

- Meu, o cara raptou Mordehay! – Disse Arthur, sabendo da incoerência deste<br />

pensamento. Mas agora Juan Rodrigo e Larissa corriam feitos loucos atrás do ser.<br />

Conseguiram segui-lo. Mas logo o perderam. Então viram alguns mendigos sentados<br />

numa esquina e perguntaram.<br />

- Meu, vocês viram um cara de preto passando correndo por aqui? – Vociferou<br />

Arthur.<br />

- Ele foi por ali ó. – Falou um dos mendiguinhos. – Ele foi pro minhocão!<br />

Eles correram e viram então, ainda um pouco longe, o ser de preto tirar Tawan<br />

de suas vestes e colocá-lo para se sentar no chão embaixo do minhocão. Estavam<br />

quase lá.<br />

- Ei filho da puta do caralho! – Gritou Juan. Mas neste momento viram tanto<br />

o ser como Tawan desaparecer completamente. Chegaram ofegantes no local do desaparecimento.<br />

- Que caralho! – Berrou Arthur. Tomou bruscamente o pedaço de pano da mão<br />

de Rodrigo e jogou no chão pisoteando-o. Neste momento os três tentaram segurar<br />

Arthur para acalmá-lo e ao tocá-lo desapareceram.<br />

A Transferência de Rodrigo, Juan,<br />

Larissa e Arthur para Azkenadzya.<br />

Os quatro estavam em uma sala gigantesca, escura, mas podiam ver seus reflexos<br />

no chão. Então para total espanto deles viram dois seres sentados um olhando<br />

para o outro. Não puderam acreditar quando viram que era Tawan sentado e chorando.<br />

Nem o ser de preto, nem o Tawan percebeu a presença dos quatro ali no recinto, então<br />

ouviram o ser dizer algo para Tawan.<br />

- - Eu vou levar você a Azkenadzya. Você será a nossa arma contra o Guerreiro<br />

Azkenadzy, será através de você e por sua existência que Mordehay irá trair<br />

Azkenadzya, e nem o próprio Guerreiro será capaz de ir contra a tamanha força de<br />

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Mordehay. Você será a sina de Or.<br />

E assim o ser desapareceu, e em seguida o chão de espelho desapareceu como<br />

também o próprio recinto desapareceu.<br />

Azkenadzya.<br />

Os quatro estavam em um platô muito alto. Eles podiam ver muitas montanhas<br />

ao redor. Olharam para o lado e viram Tawan sentado com lágrimas nos olhos tentaram<br />

falar com ele, mas Tawan não respondia, estava em choque, não se mexia. Por<br />

mais que eles não gostassem de Tawan não puderam deixar de ter pena dele. Logo<br />

viram algum movimento, olharam ao redor, existiam algumas pedras muito grandes<br />

no platô, foram se esconder. Tentaram ainda mais uma vez chamar Tawan, mas o<br />

menino nada fazia. Agora, atrás de uma pedra, observaram o ser de mantos negros<br />

aparecer como que por encanto na frente de Tawan. O ser falava com ele algo que eles<br />

não compreendiam. Depois tomou Tawan pela mão levantou-o e escondeu-o atrás de<br />

uma outra pedra na direção oposta a que estavam.<br />

Larissa e Rodrigo começaram a chorar.<br />

- Aonde a gente ta Arthur? – Perguntava Larissa em prantos.<br />

Mas Arthur estava branco, não conseguia responder, então ouviram um estrondo<br />

abismal. Olharam para cima e viram um imenso dragão negro voando, circundando<br />

o local onde estavam. Se abaixaram num espanto.<br />

O dragão fez algumas espirais e foi vagarosamente pousando. Ao tocar o solo<br />

o chão tremeu. E para total espanto dos quatro, Mordehay desceu do dragão junto a<br />

uma criança de uns dez anos.<br />

Eles ficaram tão chocados com esta aparição de Mordehay ali naquele lugar<br />

absurdo, que não conseguiam se mexer.<br />

Mas outra pessoa conseguiu. Foi o Guardião do Destino que saiu de trás da<br />

pedra onde estava escondido e tão logo apareceu vociferou para Mordehay.<br />

- Pare Mordehay! – Disse o Guardião. – Você já conseguiu o que queria, já<br />

ganhou a guerra, já vingou Kley, já matou a Andrógina. O que você quer mais. Esta<br />

na hora de voltar. Eu conheci seu mundo você tem amigos por lá, não percebe que era<br />

isso que a andrógina queria o tempo todo, o quê vai fazer? Vai sacrificar esta criança<br />

para dar continuidade a tua sede de poder?<br />

Mordehay então retirou uma espada da cintura, e foi com seu olhar macabro<br />

em direção ao guardião.<br />

- Quem és tu assombração? – Berrou Mordehay. – Como ousa interferir no<br />

destino do Guerreiro Azkenadzy?<br />

Mordehay parou a uns dez passos do Guardião do Destino.<br />

- Engraçado você falar em destino, Mordehay. Porque eu sou um Guardião do<br />

Destino e lhe digo que se você continuar com esta loucura você estará fazendo exatamente<br />

aquilo que os teus inimigos queriam que você fizesse.


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Mordehay parou para pensar um pouco e então perguntou para o Guardião do<br />

Destino.<br />

- Então fale-me o que eu vou fazer.<br />

- Você vai tomar Azkim para si. Vai sugar a vida dele para você junto com o<br />

amuleto Azkenadzy vai querer se perpetuar no poder nesta terra que nunca deveria ter<br />

existido. E quanto ao pequeno judeu que sustenta esta terra? Vai mantê-lo preso pelo<br />

resto de sua vida para você poder viver nesta terra de sonhos?<br />

- Estou vendo que nada sabe então, ó guardião do Destino, pois vou me unir a<br />

Azkim para poder libertar Moishe, deixarei minha vida para trás para libertar aquele<br />

menino que nada tem a ver com isto. Sacrificarei minha vida para que ele volte para o<br />

mundo dele.<br />

- E quanto a Azkin, Mordehay?<br />

- Azkim concorda com o que vamos fazer, seremos uno, seremos Or!<br />

Neste momento o Guardião do Destino tremeu, pois sabia que sua missão tinha<br />

caído por terra; Mordehay sabia mais do que os Guardiões do Destino esperavam, mas<br />

como? Como poderia Mordehay saber sobre Or? E o que isso implicaria, se Mordehay<br />

mantivesse aquele mundo paralelo, isso poderia acarretar em disfunções universais<br />

terríveis.<br />

- Mordehay. – Disse o Guardião do Destino numa última cartada. – Eu trouxe<br />

alguém de seu mundo, ainda se lembra de seu mundo, Mordehay? Ou já está tão absorto<br />

na sua sede de poder? – O Guardião fez um gesto e Tawan apareceu na frente de<br />

Mordehay.<br />

Mordehay tremeu, e num espasmo baixou a espada.<br />

- Como ousa? – Falou baixo pois sua voz não saia da garganta.<br />

Tawan chorava. Mordehay baixou a cabeça e pensou. Olhou então para Azkim<br />

que fitava-o de cabeça erguida; Mordehay olhou de novo para o Guardião do Destino<br />

e disse:<br />

- Você é um daqueles seres que não podem interferir no destino, não é mesmo?<br />

- Sim. – Disse o Guardião.<br />

- Então como está interferindo agora? Como rouba um pedaço de minha vida<br />

e trás para cá para manipular, não só meu destino como deste que você trouxe?<br />

Mordehay ergueu sua espada e foi em direção ao Guardião do Destino e com<br />

um gesto brusco cortou sua cabeça.<br />

Os quatro na outra pedra não puderam acreditar no que viam. E então para total<br />

espanto deles Mordehay ergueu a espada mais uma vez e cortou a cabeça de Tawan.<br />

A cabeça caiu num baque surdo no chão do platô, nuvens negras começaram a surgir<br />

nos céus de Azkenadzya. Mordehay tomou a cabeça de Tawan pelos seus cabelos e<br />

avançou para a extremidade do platô, lançou a cabeça para o abismo, voltou chorando<br />

para Azkim tomou-o nos braços fortemente, uma luz prateada surgiu no corpo dos<br />

dois. O corpo de Azkin penetrou no corpo de Mordehay, o qual cresceu pelo menos<br />

um metro de altura. Mordehay caiu de joelhos e clamou aos céus. Brandiu sua espada<br />

no ar e gritou desesperadamente. A chuva caiu. Mordehay levantou-se agora com todo<br />

o poder do Guerreiro Azkenadzy, implantado em seu corpo e no corpo de Azkin que<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

agora eram unos. Montou no dragão que saiu voando.<br />

Os quatro ficaram ainda atrás da pedra que os escondia sem saber o que fazer, e<br />

choravam. Larissa foi então até o corpo de Tawan estendido no chão. Viu aterrorizada<br />

o corpo sem cabeça de Tawan, deu um passo pra trás. Olhou para outros, para seus<br />

três amigos e disse.<br />

- O que vamos fazer?<br />

Eles não se mexiam, ficaram parados um olhando para o outro completamente<br />

aterrorizados com a situação. Rodrigo que era o menor de todos, cambaleou e quase<br />

caiu, não fosse o Arthur segurá-lo.<br />

Juan foi então para a borda do abismo e olhou para baixo e para os lados, estava<br />

muito escuro. Olhou para os outros e falou.<br />

- Meu! Não tem como descer dessa porra!<br />

Eles vieram correndo onde Juan estava e concluíram a mesma coisa. Raios<br />

cortavam os céus de Azkenadzya que agora estava negro.<br />

Voltaram então para o meio do platô. Estavam desesperados, não tinham o que<br />

fazer.<br />

A chuva caia. O desespero começava a tomar conta dos quatro quando algo<br />

totalmente inesperado ocorreu. Mais uma vez aquele estrondo absurdo surgiu nos<br />

céus de Azkenadzya, estrondo característico do bater de asas de um dragão que eles<br />

já tinham vivenciado.<br />

Mas para espanto dos quatro eram dois dragões que se aproximavam. Correram<br />

então para a pedra que servia como refúgio anterior. Os dois dragões pousaram.<br />

Desceram então o Japa de um dragão e mais um ser que eles nunca tinham visto antes,<br />

do outro dragão.<br />

Larissa teve o ímpeto de ir até o Japa pois este era amigo deles, mas Arthur<br />

logo falou em sussurros.<br />

- Você não viu o que Mordehay fez? E se o Japa estiver enlouquecido também<br />

e resolver nos matar como Mordehay fez com Tawan?<br />

Claro que Larissa entendeu e ficou quieta observando o que ocorria.<br />

O Japa chamava em gritos estéricos.<br />

- Mordehay! Mordehay!<br />

E obviamente nada de Mordehay. O Japa e aquele ser que o acompanhava<br />

começaram então, a averiguar o local. Viram com total espanto a figura do guardião<br />

do Destino decepado e o corpo de Tawan sem cabeça logo adiante. O Japa deu um<br />

pulo para trás quando viu o corpo de Tawan.<br />

- Meu deus. – Disse o Japa. – Mas este é Tawan! O que rolou aqui?<br />

E tão logo viu, ajoelhou-se ao lado do corpo e começou a chorar. Pan noa o<br />

olhava sem saber o que fazer. O Japa começou a rezar.<br />

- Tem uma parte do meu corpo que não se enerva.<br />

Não a parte que treme.<br />

Você não tem o que merece.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mas você é o que tem.<br />

Queimando em chorar por sua luxuria em lucro.<br />

Eu não recebi tudo.<br />

Então me de tudo o que eu mereço.<br />

- Receber tudo que você merece? – Falou a voz do Guardião do Destino logo<br />

atrás do Japa.<br />

Quando a figura do Guardião do Destino apareceu junto à figura de Tawan no<br />

platô, os quatro que agora estavam escondidos se revelaram num estardalhaço. Logo<br />

as figuras decepadas no chão desapareceram.<br />

O Japa levantou-se num pulo.<br />

- Tawan! Você está vivo! Graças aos céus!<br />

- Graças a mim! – Disse o Guardião do Destino. – Se não fosse por minha intervenção<br />

que o destino me proteja, esse estaria sem cabeça agora! E eu também! Não<br />

preciso dizer que estou atolado no descrédito dos meus.<br />

Os quatro vieram abraçar Tawan que não acreditou que até o Rodrigo o abraçava.<br />

O Guardião do Destino então falou.<br />

- Não temos tempo para ficar aqui, eu já interferi por demais nas teias do destino.<br />

E vocês quatro! O que fazem aqui? Vocês estavam no mundo de Mordehay! Por<br />

tudo que é mais sagrado! O que fazem aqui?<br />

- Nós o seguimos. – Disse Arthur. – Você raptou Mordehay, graças a você<br />

estamos neste inferno! Mas afinal que porra é esse lugar e ... e esses dragões!<br />

Claro que os quatro começaram a se tocar do absurdo que estavam vivendo e<br />

queriam respostas.<br />

- Vocês terão suas respostas no devido tempo e não da minha boca. Consegui<br />

fazer o que deveria apesar de meus erros. – Disse o Guardião do Destino. – Mas agora<br />

devo falar com este aqui. – Apontou para o Japa. – Pois meu tempo é curto e logo os<br />

Guardiões virão para me aprisionar pois interferi por demais nas coisas aqui.<br />

O Guardião chamou o Japa num canto e começou a falar enlouquecidamente.<br />

Os quatro mais Tawan começaram a falar muito rapidamente sobre o que ocorrera.<br />

- Mas porque Mordehay me matou ou, sei lá, tentou me matar? – Perguntou<br />

quase em prantos. – Meu, eu achava que ele gostava de mim!<br />

Os quatro se olharam, Larissa iria responder alguma coisa, mas a chuva parou<br />

de repente e mais um estrondo veio dos céus. Cinco figuras de preto apareceram no<br />

platô. Os quatro tomaram Tawan e foram novamente para o refúgio atrás das rochas.<br />

Observaram então os cinco guardiões irem em direção ao Guardião que estava com o<br />

Japa, e ao tocá-lo desapareceram.<br />

- Meu. – Disse Arthur. – Eu vou ter um treco nessa porra!<br />

Mas o Japa chamou-os.<br />

- Vamos! Não temos muito tempo. – Disse seriamente. – Vocês não têm medo<br />

de altura, têm?<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mas não deu tempo de responder.<br />

- Pan noa! – Disse o Japa. – Esses são alguns amigos de meu mundo e de Mordehay,<br />

vamos levá-los.<br />

Larissa, Arthur e Juan foram com Pan noa em um dragão. Rodrigo, Tawan e o<br />

Japa no outro. Eles ainda se demoraram um pouco para montar nos dragões, estavam<br />

relutantes, principalmente Tawan e Rodrigo.<br />

Quando porém os dragões levantaram voo, não se ouviu mais nada além dos<br />

berros dos cinco. Desde que começara a guerra em Azkenadzya que Pan noa e Japa<br />

não riam tanto.<br />

Mordehay-Azkin e Moishe<br />

- Porque você fez aquilo Mordehay? – Perguntou Azkim para ele mesmo<br />

porque Azkin estava no corpo de Moedehay. O dragão sobrevoava Azkenadzya em<br />

direção à cela de vidro de Moishe.<br />

- Não me diga que você não sabe? – Perguntou Mordehay.<br />

- É claro que sei. Mas queria saber se é a mesma coisa...<br />

- Você não sente o que eu sinto?<br />

- Quero ter certeza. O que você sentia por aquele ser?<br />

- Um amor descabido, proibido, irracional, doentio, burro, inconsequente, irresponsável,<br />

compulsivo.<br />

- Você sabia que você não o matou, sabia?<br />

- Como assim acabei de cortar a cabeça dele e a joguei pelo penhasco!<br />

- E porque você fez aquilo?<br />

- Por que você me obrigou.<br />

- E você não está sofrendo?<br />

- Claro que sim, mas ao mesmo tempo sinto um certo alívio.<br />

- Entendo. Isso, eu começo a sentir também. Mas ele não morreu, eu fiz aquilo<br />

para que o Guardião do Destino pensasse que o plano dele estava dando certo, aquilo<br />

foi uma ilusão que ele fez para que você cometesse aquele ato. O ser ainda está vivo<br />

assim como o Guardião.<br />

- Com qual propósito.<br />

- Ele é um espião dos seres que mandaram a Androida para cá. Agora ele está<br />

preso, pois cometeu o crime de intervir na realidade. Mas ele acha que plantou a semente<br />

do mal no teu coração. Quando ele viu que você matara aquele ser ele imaginou<br />

que estaria dando certo seu plano e o plano dos tais seres superiores que Pan Noa tanto<br />

fala.<br />

- Por um momento eu achei que realmente estava com o mal dentro de mim...<br />

por um momento eu achei que tinha gostado de fazer aquilo, mas no fundo, lá no<br />

fundo mesmo, eu sabia de alguma maneira que aquilo deveria ser uma encenação.<br />

- Por isso que eu te perguntei...sente-se mais aliviado?<br />

Mas nesse momento Mordehay começou a chorar e sentiu que Azkin também


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

chorava.<br />

- Então ele fez isso, imaginando que eu mataria no futuro Pan Noa, não é<br />

mesmo?<br />

- Sim. Não só Pan Noa, mas todos aqueles que se pusessem em teu ou melhor<br />

dizendo, nosso caminho.<br />

- Meu caminho? Nosso caminho?<br />

- Mordehay. Você tem agora o amuleto em seu peito, ele sempre te pertenceu,<br />

ele foi dado a mim, mas tudo ocorreu para que você o tomasse de mim. Eles sabiam<br />

desde o início que você iria querer não só me possuir, mas também ao amuleto. Aquilo<br />

que você sente ou sentia por aquele ser que você não matou...você já sentiu por mim;<br />

é a sua fraqueza, você em verdade, sempre quis isso que está acontecendo agora. De<br />

eu estar em teu ser e você estar no meu, eles já sabiam disso e fizeram com que isso se<br />

consumasse, mas eles não contavam que eu, graças ao amuleto, saberia disso tudo. E<br />

eles não contavam que eu iria me separar de você logo que nós pousássemos e nunca<br />

poderiam imaginar que eu daria o amuleto a você. Você é o verdadeiro Guerreiro Azkenadzy,<br />

Mordehay.<br />

Mordehay sorvia estas informações em um silêncio mortal. “Planos dentro de<br />

planos.” Pensou: “Mas qual o propósito de tudo isso? O que teria feito Pan Noa para<br />

que estes seres desprendessem tanta energia e tempo para apenas matá-lo? Ou não<br />

seria só isso? Ou existiria algo a mais nesta história toda? O que poderia ser? Como<br />

este plano paralelo poderia influenciar em qualquer coisa que fosse, no estado da vida<br />

humana? E porque afinal eu acho que eles estariam pensando na vida humana? Não<br />

seria só matar Pan Noa e pronto? Não...existe algo a mais.”<br />

A redoma de vidro aproximava-se, o dragão deu algumas voltas sobre ela.<br />

Mirou bem o alvo e desceu. Agarrou com suas quatro patas a redoma e com um<br />

pouco de esforço a retirou das correntes que a sustentavam. Voou um pouco para<br />

longe do local onde havia o buraco onde a redoma estava e depositou-a no chão. O<br />

imenso dragão estava agora olhando para o ser Moishe dentro da redoma e um imenso<br />

Mordehay-Azkin olhava-no também. Uma enorme lua azul iluminava-os. Mordehay<br />

ajoelhou-se em frente a um Moishe muito assustado, ainda preso na redoma de vidro.<br />

Então para seu total espanto viu Azkin saindo de dentro do corpo de Mordehay. Azkin<br />

tentou ainda segurar Mordehay, mas este caiu para o lado. Azkin ergueu-se e olhou<br />

para Moishe. Os dois choravam. Azkin tocou a redoma de vidro e Moishe tocou no<br />

lugar onde estava a mão de Azkin.<br />

- Como vamos tirá-lo daí? – Perguntou Azkin em prantos. Olhou de novo para<br />

trás e viu Mordehay ainda desfalecido.<br />

O menino Moishe parecia não entender o que estava ocorrendo e começou a<br />

socar a redoma. Mas nada o abalava, na verdade Azkin nem ouvia o som das batidas.<br />

Azkin foi até Mordehay e tentou chacoalhá-lo mas Mordehay não se mexia.<br />

- Meu Deus o que vou fazer?<br />

Moishe sentou-se dentro da redoma. Azkin sentou-se também observando<br />

o menino tristemente preso ali dentro. Mordehay estava um pouco atrás. O dragão<br />

soltou uma pequena baforada em alguns galhos logo ao lado acendendo uma pequena<br />

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fogueira. Logo Azkin deitou-se, assim como Moishe.<br />

- Olha só o que temos aqui! – Disse Mordehay ao acordar. Olhou para o<br />

dragão que o olhava seriamente. Fez uma careta meio que dizendo, “nem me fale<br />

nada sobre isso.” Olhou de novo para baixo e viu Azkin deitado e dormindo no chão<br />

de Azkenadzya. “Se me restasse um mínimo de índole eu nem sei o que faria com<br />

você pequeno amigo...” Olhou para o menino dentro da redoma ainda dormindo. “Ah<br />

pequeno Moishe...que merda de judeuzinho que eu fui...que pequeno ser humano que<br />

tu és... O que vamos fazer com você, meu pequenino? O que eu deveria fazer comigo<br />

mesmo? Olhando para você aí deitado me dá até pena do que você é, do que eu fui...<br />

um pequeno judeu em uma redoma de vidro... Criou teu pequeno mundinho que agora<br />

se esvai... Como eu gostaria de te matar pequeno Moishe...como eu gostaria de não<br />

estar aqui.<br />

Mordehay se ajoelhou defronte à redoma onde Moishe dormia.<br />

- Pena eu não ter me encontrado com você, pequeno Moishe ainda em vida.<br />

Pena eu não ter dado alguns conselhos... Pena nós trilharmos sozinhos os artifícios<br />

da vida... Não seria melhor eu ter dado alguns conselhos? Do tipo: não invente tantas<br />

histórias idiotas? E aí eu não estaria aqui agora te olhando e chorando por ti, meu<br />

pequeno Moishe? Você nesta redoma. Nesta cela que você propôs para si mesmo?<br />

Mas que pequeno judeuzinho você é...sempre se auto fodendo... Devo eu te abandonar<br />

pequeno Moishe? Bom, como você só dorme, como sempre dormiu... Nossa!<br />

Parece que eu estou falando de mim mesmo...e não me responde. Vou deixar aqui ao<br />

lado de Azkin um martelo. Assim Azkin quebrará a redoma. Leva Azkin para longe<br />

deste lugar que tu criaste, Moishe. Leva ele para as terras onde você foi concebido e<br />

lá cria amizade com Azkin, pois ele te salvou. E deixa este mundo para mim, deixa<br />

Azkenadzya para Mordehay, pois agora vou lutar por estas terras sem me preocupar<br />

por ti pequeno amigo, agora que tu foste para sempre...pequeno ser dentro de mim...<br />

pequeno “mim mesmo”...poderei dar adeus aos meus pecados que você nunca fez.<br />

Mordehay olhou para Azkin ainda dormindo.<br />

- Nós nunca mais nos veremos de novo querido amigo. Prefiro despedir- me de<br />

ti sem um beijo. Pois de tua carne não quero mais me lembrar. Nem do teu cheiro. E<br />

se nos encontrarmos de novo será em um mundo distante e não mais neste. Vai Azkim.<br />

Segue tua vida, como se eu nunca tivesse existido. Faz desta tua vivência um sonho.<br />

Pois nada você tem com estas paragens.<br />

Mordehay seguiu para o sul, ainda muito abalado, cambaleando, sendo sugado<br />

por seus próprios pesadelos, corroído por suas escolhas e por seus atos na guerra que<br />

se passara. O dragão o seguia como seu único e fiel escudeiro. Seus pensamentos o<br />

levavam agora para aquilo que tinha sonhado ainda há pouco. Ele mesmo seria então,<br />

capaz de sustentar as terras de Azkenadzya? Quando Azkin encontrasse o martelo e<br />

destruísse a redoma, quando Moishe pegasse na mão de Azkin e retornasse ao mundo<br />

real, seria ele mesmo capaz de sustentar sozinho, tudo aquilo? E quem era o ser que<br />

ele vislumbrava em sonho, aquele ser que o fitava com olhos negros, aquele ser alegre,<br />

lindo, ingênuo? Teria ele conhecido aquele ser? Tentava resgatar suas memórias...


Marcelo Paciornik<br />

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Larissa, Arthur, aquele gordo pentelho, mas divertido do Juan...o que eles tinham<br />

a ver com tudo isso? E Tawan, o que Tawan estava fazendo ali, estaria Tawan realmente<br />

bem? Não teria matado Tawan...decepado sua cabeça e lançado realmente ao<br />

abismo? Como foi fazer tal absurdo? “Como pude decepar a cabeça de um ser que<br />

eu tanto amava? Malditos guardiões do destino.” Caminhou muito tempo em meio as<br />

florestas, mas então parou, pois em uma clareira logo a sua frente viu uma pequena<br />

fogueira. Então pode comtemplar algo realmente inesperado. Viu Japa dormindo, Pan<br />

noa e adiante, “por Deus!” Tawan! Arthur! Larissa! O gordo Juan! E...bem...quem era<br />

aquele ali perto de Larissa? Já o tinha visto antes! Sim aquele menino pequeno, menino<br />

que sempre estava para cima e para baixo na T.B.C., mas que ele nunca trocara<br />

uma palavra sequer, o que ele estava fazendo ali? “Não! O que todos eles estavam<br />

fazendo ali! O que os malditos guardiões estavam a aprontar? Trazer seres para um<br />

mundo proibido...”<br />

Ora! Mas aquele ser ali deitado perto da Larissa, não era ele que povoava seu<br />

último sonho? “Por Deus! É claro! Eu já o tinha visto, mas o que ele estava fazendo<br />

ali? E o que ele tem a ver com tudo isso? Mas que merda! Isso tá ficando cada vez<br />

mais confuso.”<br />

Mordehay não aguentou. Foi muito lentamente até o meio da clareira, mas<br />

ninguém acordou; estavam num sono profundo. Foi até o ser que ele mal conhecia.<br />

Abaixou-se tocando apenas um joelho no chão. Olhou para o ser ali deitado. Parecia<br />

morto. Olhou para frente viu que Larissa o olhava assustada. Colocou o dedo indicador<br />

na ponta do nariz pedindo silêncio, Larissa estava quase transtornada. Tomou o<br />

ser no colo, levantou-se e caminhou em direção ao dragão que o aguardava fora da<br />

clareira. Montou no dragão e saiu voando. Para onde? Ele mesmo não sabia.<br />

O Rapto de Rodrigo<br />

Por mais complexo e assustador que fosse para os cinco recém-chegados a<br />

Azkenadzya, eles realmente não conseguiram parar de rir, visto que o voo dos dragões<br />

não era algo linear, mas uma verdadeira montanha russa. Os dois dragões azuis tentavam<br />

seguir o dragão negro de Mordehay. Pan noa liderava pois com sua pérola cubo<br />

conseguia obter, ainda que não tão precisamente, aonde Mordehay/Azkim estavam<br />

indo. Pan noa transmitiu via pérola cubo para Japa que Mordehay estava indo resgatar<br />

Moishe. Japa sabia de antemão, pois o Guardião do Destino o havia informado disso e<br />

era exatamente isso que o Japa temia. Mas agora já era tarde, ele tinha que pensar em<br />

algum plano pois as coisas poderiam piorar de verdade.<br />

Existia uma fronteira ao redor da onde Moishe estava aprisionado, portanto os<br />

dragões azuis não poderiam voar ali para dentro. Tentaram entrar inúmeras vezes por<br />

esta fronteira, mas não conseguiam. Pan noa resolvera aterrissar os dragões. Avistou<br />

uma clareira em meio a floresta e lá pousaram.<br />

Tinham um pouco de comida e vinho. Fizeram uma fogueira e os cinco recémchegados,<br />

isto é, Larissa, Arthur, o gordo Juan, Rodrigo e Tawan sentaram-se ao lado<br />

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de Pan noa e Japa que já servia pedaços de queijo e vinho para todos.<br />

- Vocês não vão acreditar como é gostoso esse queijo e esse vinho. – Disse<br />

Japa meio que tentando amenizar a tensão nos rostos dos cinco.<br />

- Japa. – Começou Arthur. – O que é este lugar?<br />

Japa o olhou muito seriamente e disse:<br />

- Vamos com calma. Comam um pouco, tentem relaxar que eu vou contar o<br />

que está ocorrendo.<br />

Eles comeram e beberam. Certa paz começou a imperar no local. Japa não conseguia<br />

discernir se era o efeito do vinho ou se Pan noa estava utilizando-se da pérola<br />

cubo para amenizar a tensão ali presente.<br />

- Ai, não gostei muito desse queijo não. – Disse Tawan.<br />

- Bicha! – Respondeu Juan. – Não começa. Você reclama de tudo. Para de ser<br />

chata.<br />

- Ai para que eu já to nervosa. – Falou Tawan irritado.<br />

- Parem vocês dois. – Disse Arthur. – Não tão vendo que isso é sério?<br />

O Japa tomou um grande gole de vinho e começou. Contou tudo a respeito de<br />

como eles tinham vindo parar ali.<br />

- Meu. – Disse Arthur. – Então aquele lance no centro de São Paulo realmente<br />

aconteceu! Os caras tentaram justificar aquilo como um terremoto!<br />

- Um terremoto! – Falou Japa embasbacado. – Mas são mesmo uns filhos das<br />

putas!<br />

Japa continuou a história até quando Mordehay resolveu entrar na guerra junto<br />

a Salomão. Daí ele parou a narrativa.<br />

- Então houve uma guerra de verdade aqui? – Perguntou Larissa.<br />

- Sim. – Disse Japa. – Mas não vai ser eu que vou contar. Esse menino que está<br />

com a gente. – Disse apontando para Pan noa. Todos olharam para ele. – Ele tem um<br />

artefato em sua testa que pode transmitir pensamentos e sensações telepaticamente,<br />

assim ele vai transmitir para vocês como foi esta guerra, pois em palavras eu jamais<br />

conseguiria.<br />

Pan noa fechou os olhos e concentrou-se. Os cinco tiveram um baque ao sentirem<br />

as primeiras imagens e sons penetrando em suas mentes. Logo vieram os cheiros<br />

e todas as sensações; mergulharam, então, no que poderia ser um sonho fantástico e<br />

real...<br />

Sentiram-nos saírem da tenda de Salomão. Mordehay ia na frente, enlouquecido,<br />

uma raiva latente poderia ser sentida no seu corpo, na maneira como andava,<br />

nas suas mãos fechadas em punho. Viram então Mordehay tomar a mão de Azkin.<br />

Azkin olhou pra cima, para o rosto de Mordehay. Azkin fez que sim com a cabeça.<br />

Estavam num platô dentro de uma enorme caverna. Lá em baixo milhares de guerreiros<br />

a postos.<br />

Azkin abriu seu manto revelando seu peito. Uma luz prateada quase cegante<br />

surgiu dali, indo em direção a uma abertura no teto da imensa caverna. Sentiram então<br />

os primeiros estrondos do bater de asas dos dragões que vinham lá do fundo escuro da<br />

caverna; vinham em bandos. Uma sensação de medo e poder apoderou-se de todos ali


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presentes. Os guerreiros lá embaixo abriram espaço para os dragões pousarem. Uma<br />

fila infinita de dragões começara a ser formada à medida que um a um foi pousando.<br />

O primeiro de todos era um dragão negro e enorme. Mordehay de mão dadas com<br />

Azkin, desceu por uma trilha lateral, seguido por Pan noa, Japa e Salomão, que já não<br />

entendia mais nada. Mordehay foi diretamente para este primeiro dragão acompanhado<br />

sempre de Azkin. O dragão saiu voando pela caverna e foi para fora. Mordehay<br />

estacionou seu dragão e aguardou. Ouviu o que Salomão agora falava, mandado por<br />

Pan noa, que transmitia via pérola cubo para Mordehay. O plano era simples, visto que<br />

eles sabiam a localização do exército inimigo. Tinham uma armada de dragões nunca<br />

antes imaginada nas terras de Azkenadzya, além disso e o que era mais importante, o<br />

amuleto azkenadzy em pleno funcionamento! Salomão falava isso aos seus guerreiros<br />

que uivavam de alegria e ainda aos berros montaram nos dragões que começaram a<br />

voar para fora da caverna. Quando o primeiro dos muitos dragões saiu Mordehay já<br />

estava no céu, iniciando a liderança para a guerra.<br />

Eram milhares de dragões voando em uma noite clara com uma lua prateada.<br />

Os dragões enegreciam o céu e quando chegaram as terras dos Nadzym baixaram voo<br />

e começaram a queimar tudo e todos.<br />

Azkin e Mordehay porém tinham outra missão e quando viram que os guerreiros<br />

de Salomão estavam fazendo seu papel na guerra foram em direção a Perdida<br />

Lenore.<br />

A Androida Andrógina estava em pé no palco onde fizera seu último e talvez<br />

único discurso. A Androida olhou para cima e viu o enorme dragão descer em sua<br />

direção. Não teve tempo de se mover, a enorme labareda veio em direção a ele/a com<br />

tal força que queimou a vila inteira de uma só vez.<br />

Mordehay e Azkin voltaram para onde os exércitos dos Nadzym estavam sendo<br />

queimados, Mordehay e Azkin tomaram outra direção, quando viram que nada<br />

mais sobrara para fazer ali. Mas logo estavam sendo seguidos pelos dragões de Japa<br />

e Pan noa. Aí o relato de Pan noa se interrompeu, pois este perdera o contato com<br />

Mordehay e Azkin.<br />

Então Japa disse.<br />

- Foi aí que encontramos com vocês naquele platô.<br />

Os cinco estavam estarrecidos. Jamais poderiam imaginar estar dentro de uma<br />

guerra daquele tipo. Jamais poderiam ter imaginado estarem em tal lugar. Uma onda<br />

de cansaço tomou conta de todos ali em volta daquela fogueira, então todos caíram<br />

em um sono profundo.<br />

Larissa acordou um pouco antes do amanhecer, a escuridão ainda imperava no<br />

local, só uma pequena luz provida da pequena fogueira iluminava Mordehay ajoelhado<br />

sobre Rodrigo. Mordehay olhou para Larissa que não gritava porque não tinha<br />

mais força, mas também porque a figura de Mordehay em sua frente a deixara transtornada.<br />

Mordehay pediu silêncio com um gesto, tomou Rodrigo nos braços e foi-se<br />

embora. Larissa só conseguiu gritar quando viu o dragão de Mordehay rasgar os céus.<br />

Acordaram sobressaltados ao ouvir o estridente grito de Larissa. Em segundos<br />

todos estavam em pé. Ainda um tanto atordoados olharam para ela, seu olhar era de<br />

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imenso terror.<br />

- O que houve, Larissa? O que houve? – Gritava Japa enlouquecido e olhando<br />

para os lados para ver o que poderia ter ocorrido.<br />

- Mordehay! – Disse Larissa em prantos. – Mordehay! Raptou o Ro!<br />

Olharam em volta e realmente faltava alguém.<br />

- Mas que caralho! – Gritou Japa. Os outros estavam olhando para ele em<br />

pânico. – Mas o que Mordehay quer agora?<br />

Olhou então para a trilha aberta na floresta pelo dragão de Mordehay.<br />

- Venham. – Disse o Japa. – Ainda podemos fazer alguma coisa. – Falou correndo<br />

pela trilha aberta.<br />

- Mas ele saiu voando com o dragão, Japa! – Disse Larissa ainda em prantos.<br />

- Eu sei! – Disse Japa. – Mas nós vamos tentar achar o Azkin. Se ele estiver<br />

ainda com Moishe nós poderemos fazer alguma coisa!<br />

Eles obviamente não entenderam nada do que o Japa estava falando, mas nem<br />

pestanejaram em não segui-lo.<br />

Eles seguiam a trilha como enlouquecidos, mesmo Juan que era extremamente<br />

gordo ia quase junto a Japa pois via que a coisa realmente ficara séria. Todos eles corriam<br />

como loucos pela floresta. Como poderiam estar naquela situação, há algumas<br />

horas atrás eles deveriam estar em uma boate dançando, e agora estavam num mundo<br />

de loucos e um de seus amigos tinha sido raptado por um ser que...quem era esse ser...<br />

esse Mordehay afinal!<br />

Seguiam Japa como alucinados, pulavam pelas enormes raízes das imensas<br />

árvores que ali existiam e ouviram então um estrondo. O que era aquilo? Uma força<br />

invisível veio em direção a eles e num segundo todos estavam no chão, um barulho<br />

absurdo de algo se rompendo. Mas Japa levantou-se de imediato. – Rápido. A redoma<br />

de Moishe foi quebrada! – Gritou – Não temos muito tempo.<br />

Correram cambaleando em meio a floresta, até que viram logo adiante um Japa<br />

paralisado em uma clareira. Azkin e Moishe estavam de mãos dadas em frente a todos<br />

eles. Logo viram-nos desaparecendo.<br />

- Tchau Japa! – Disse ainda Azkin.<br />

Uma luz branca cegou-os. E logo estavam no centro de uma cidade imunda<br />

com um cheiro imundo.<br />

O ser que vestia mantos negros.<br />

O ser que vestia mantos negros olhou para Tawan ajoelhado em meio as florestas<br />

de onde havia desaparecido Azkin, Moishe, Arthur, Larissa, Japa, Pan noa e Juan.<br />

Estava num estado tão lastimável que o próprio guardião do destino teve pena dele.<br />

Seria ainda Mordehay dentro dele a sentir esta pena?<br />

- Erga-se pequeno ser. Temos muito o que fazer ainda nestas terras. – Disse o<br />

Guardião.<br />

Tawan no entanto olhou para ele com ódio.<br />

- Você. Você. Seu filho da puta. Você me trouxe pra cá. O que quer de mim?


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Aonde estão todos? Aonde estão meus amigos?<br />

- Eles se foram, Tawan. – Disse o Guardião. – E eu estou foragido dos meus.<br />

Vim para cá pois não poderia ficar longe de ti, já que agora minha alma já não pertence<br />

a mim. Assim sendo nem eu sou mais eu.<br />

Tawan começou a chorar.<br />

-Ta ta... – Disse o Guardião. – Vamos tentar achar aquele que pode te ajudar.<br />

Vamos atrás de Mordehay. Que na verdade agora está dentro de mim.<br />

Tawan o olhava sem compreendê-lo. Mas mesmo assim levantou-se e pela<br />

semelhança que ele tinha com Mordehay seguiu-o. Os dragões azuis, que tinham<br />

seguido toda a comitiva até ali, estavam agora chegando, com seus passos estrondosos.<br />

O Guardião pegou um dos dragões.<br />

- Venha Tawan. Vamos tentar achar Mordehay antes que descubram a minha<br />

fuga.<br />

É engraçado, mas ao mesmo tempo frustrante aquela parte do sonho em que<br />

você acha que vai conseguir fazer aquilo que você já sabe fazer, porém na hora que<br />

você vai fazer a coisa não acontece e aí o sonho se torna um pesadelo.<br />

No momento em que eles iam levantar voo, o dragão não voou, então as coisas<br />

começaram a descambar. Muitos seres em mantos negros surgiram em volta do<br />

dragão. Este não se mexia. O Guardião do Destino que na verdade era em essência<br />

Mordehay abraçou Tawan pelas costas. Ele tremia compulsivamente. O guardião tentou<br />

ainda fazer o dragão levantar voo mais uma vez em gestos desesperados, mas o<br />

dragão não se mexia. Parecia ter virado uma estátua em meio aos seres de mantos negros<br />

que se multiplicavam a sua volta. O céu enegreceu em nuvens. O ser em mantos<br />

negros desceu rapidamente do dragão e retirou sua adaga da cintura.<br />

- Ninguém deverá tocá-lo. – Disse o Guardião aos outros. – Ele está sob minha<br />

guarda e caso ocorra algo a ele, todos pagarão como eu devo pagar por interferir no<br />

destino deste e de outros seres.<br />

- Ninguém irá tocá-lo, Guardião Tibério. – Disse um dos Guardiões.<br />

- Quem está aí? Quem é você Guardião? Quem fala a mim? – Perguntou o<br />

Guardião Tibério surpreso e amedrontado.<br />

- Sou o Guardião Vitório, e só a mim deverá responder, pois estou na liderança<br />

deste grupo agora.<br />

- O que quer de nós Guardião Vitório? – Perguntou Guardião Tibério.<br />

- Sua conduta causou distúrbios irreparáveis, tanto neste plano como no plano<br />

material. Devemos abaixar as armas e conversar. Este ser que defendes pode ser a<br />

chave para dissimular este Mordehay que agora governa este plano. Deveremos interferir<br />

neste plano, sim, pois caso Mordehay consiga transferir sua loucura para o plano<br />

material nós não poderemos mais agir de forma incógnita como podemos agir aqui.<br />

- Do que você esta falando? – Gritou Tawan ainda de cima do dragão. – Mordehay<br />

é meu amigo e não é louco. Vocês todos são, vocês que me trouxeram pra cá e<br />

ainda fizeram Mordehay sentir raiva de mim e quase me matar.<br />

- Se ele é seu amigo. – Disse o Guardião Vitório com paciência. – Então de-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

verá ajudá-lo pois ele corre perigo.<br />

Tawan ainda ia falar algo a mais pois estava indignado com a situação, mas<br />

pensou melhor e calou-se.<br />

- Então Guardião Tibério. – Disse Guardião Vitório. – Podemos contar com<br />

você?<br />

Guardião Tibério olhou para Tawan em cima do dragão e fez que sim com a<br />

cabeça, Tawan deu de ombros.<br />

- Você tem minha palavra caso este aqui nada sofra. – Disse Tibério.<br />

- Muito bem, Tibério, abaixa tua adaga e vamos analisar o que está ocorrendo.<br />

Mas neste momento Tawan pulou do dragão e num gesto rápido tomou a adaga<br />

do Guardião Tibério e avançou para o Guardião Vitório. Este deu um paço para trás,<br />

mas a adaga já estava em seu peito. Tawan tremia de raiva.<br />

- Se vocês fizerem qualquer coisa contra Mordehay eu mato um por um, eu<br />

juro pela minha alma.<br />

- Calma Tawan. – Disse Tibério logo atrás. – Nada ocorrerá a Mordehay, vamos<br />

apenas tentar interferir nos atos dele para que ele não faça nada que possa ser pior<br />

para todos.<br />

Tawan prendeu a adaga em seu próprio cinto, virou-se para Tibério e disse.<br />

- Agora essa faquinha é minha, te multei, dei à Elza, só por você ter me trazido<br />

aqui. Não pensa que só porque você é parecido com o Mordehay que eu vou ser teu<br />

amigo. Vocês são tudo umas travecas filhas das putas.<br />

Foi até uma árvore sentou-se encostando-se e começou a chorar. O Guardião<br />

Tibério teve o ímpeto de ir falar com ele mas olhou para Vitório e foi até ele. Logo<br />

eles estavam no salão do chão-espelho. Tawan ficou sentado olhando para os seres em<br />

mantos negros conversando.<br />

A Cabana na Encosta do Abismo<br />

Mordehay visualizou a cabana lá ao longe, o céu estava cinza, e ele, assim<br />

como o dragão estavam exaustos. Rodrigo ainda dormia encostado em seu peito. A cabana<br />

era feita de pedras o telhado de palha, e estava quase que por cair em um abismo<br />

gigantesco, lá em baixo o mar se estilhaçava entre as pedras negras. O dragão negro<br />

pousou nos campos verdes acinzentados que circundavam infinitamente a pequena<br />

cabana, ventava muito e fazia frio. Mordehay conseguiu retirar Rodrigo de cima do<br />

pescoço do dragão sem acordá-lo. Levou-o carregado em seus braços, o menino parecia<br />

morto. Mordehay entrou na cabana e notou com alegria que ali dentro era muito<br />

aconchegante. Colocou Rodrigo em uma cama muito macia e foi ascender o fogo.<br />

Estava tudo meio úmido, teve um pouco de dificuldade, mas logo pegou um pedaço<br />

de lenha e foi para fora. O dragão deu uma pequena baforada na madeira e ela ficou<br />

em chamas.<br />

- Obrigado amigão. – Disse Mordehay para o dragão, que o olhou meio que de<br />

mal humor, mas logo abaixou a cabeça e dormiu.<br />

Mordehay acendeu a pequena lareira e as velas que estavam por todo o canto


Marcelo Paciornik<br />

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da cabana. Logo iria escurecer de verdade, pois tinham voado o dia inteiro. Olhou<br />

para Rodrigo ali deitado e disse:<br />

- E agora o que vamos fazer...?<br />

Mas tão logo levantou-se para ver o que tinha para comer, Rodrigo abriu os<br />

olhos e em desespero, olhou para Mordehay e começou a gritar.<br />

- O que você vai fazer comigo? Vai tentar me matar também?<br />

Mordehay tinha esquecido do episódio em que supostamente matara Tawan.<br />

Deu uma pequena risada e disse.<br />

- Te acalma menino, morrer você irá se não acharmos nada o que comer aqui<br />

dentro.<br />

Mordehay continuou tentando achar alguma coisa que fosse, porém Rodrigo<br />

não se mexia, olhava quase indignado para Mordehay.<br />

Mordehay olhou novamente para ele e disse.<br />

- Vai me ajudar ou não?<br />

Rodrigo levantou-se, deu uma olhada pela janela e viu o mar lá em baixo. Deu<br />

um pulo para trás.<br />

- Meu Deus! Onde estamos? Esse lugar não vai cair lá em baixo, né?<br />

- Claro que não. Mesmo porque cair lá em cima é bem difícil. – Disse Mordehay.<br />

– Olha só! Achei queijo... e... meu deus! Vinho! E olha um pão! Beleza, tá meio<br />

duro, mas a gente põe na lareira e faz torradas, tá bom pra você?<br />

Rodrigo deu de ombros.<br />

- Vocês só têm queijo e vinho por aqui? Aquele japonês também nos deu queijo<br />

e vinho ontem.<br />

- O Japa? – Perguntou Mordehay. – Como ele está? Aonde ele está?<br />

- E você não sabe? Quero saber o que está acontecendo... onde estão meus<br />

amigos? Como eu vim parar aqui e logo com você?<br />

- O que você tem contra mim? – Perguntou Mordehay.<br />

- Ah, eu não tinha nada até ver você decepar a cabeça da travequinha e jogá-la<br />

no penhasco, não que eu morra de amores por ela, mas sei lá... e olhe essa tua cara<br />

você é muito sinistro, e...e muito grande. Na verdade sempre que eu te via na TBC eu<br />

tinha medo de você.<br />

- Sabe de uma coisa...eu também nunca fui muito com a tua cara, você tem<br />

cara daquele ratinho...o Ratatuile...e sempre achei você uma bichinha muito afetada,<br />

com esse cabelo ridículo de emo, e sempre estava com aquela mesma camiseta branca<br />

mostrando o ombro...<br />

Os dois se olharam com ódio um para o outro, mas logo desabaram a rir.<br />

- É mesmo. – Disse o Rodrigo. – Eu sempre estava com aquela camiseta, mas<br />

achava que ninguém ia notar...<br />

- E é verdade, as pessoas têm mesmo um pouco de medo do meu jeito.<br />

Rodrigo o olhou com interrogação.<br />

- Tá bom, tá bom, da minha cara... Mas eu não sou tão feio sou?<br />

- Eu não falei isso.<br />

- É agora olhando bem pra você eu também acho você bem bonitinho.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- Eu não disse que você era bonitinho também...<br />

Foi a vez de Mordehay olhá-lo com interrogação.<br />

- Tá bom, tá bom... Você é bem bonito Mordehay.<br />

- Ora. Obrigado. Rodrigo.<br />

Os dois já estavam sentados e comendo o queijo que Mordehay inventou de<br />

derreter na lareira e o pão que agora quente estava muito bom. Beberam muito vinho<br />

e depois de muita conversa boba foram dormir.<br />

Mordehay acordou na manhã seguinte e levou um susto ao ver um menino ao<br />

seu lado. “Deus! O que é isso aqui? E onde estou?” Olhou em volta e realmente não<br />

se lembrava das coisas que tinham acontecido ultimamente em sua vida, na verdade<br />

não se lembrava de quase nada. Levantou-se e olhou para o pequeno ser ao seu lado.<br />

“Espere um pouco! Eu conheço esse menino! É aquele...como é o nome dele mesmo?<br />

Ahhhh, Rodrigo... Hum, é isso! O Rodriguinho que a...como era o nome dela mesmo?<br />

Larissa! É isso Larissa sempre me falava que ele era legal, mas porque exatamente<br />

estamos aqui?” As coisas iam de mal a pior na cabeça de Mordehay. Ele olhou para<br />

fora e percebeu que sua situação estava realmente pior do que imaginava. Olhou para<br />

o mar lá embaixo e quase teve um colapso ao ver que a cabana em que estavam ficava<br />

na beira de um abismo. Olhou pela outra janela e viu um campo infinito de grama<br />

verde e alta... “Nossa parece que estou na Escócia!” Olhou então mais para o lado e<br />

viu com um imenso assombro um dragão imenso. “Calma Mordehay, muita calma!<br />

Isso é só um sonho, tente pegar em seu braço e se belisque, como você sempre fazia se<br />

tinha um pesadelo quando era pequeno.” Mordehay beliscou-se mas nada de acordar.<br />

Neste momento o Rodrigo acordou. Olhou para Mordehay e disse calmamente.<br />

- Bom dia.<br />

Mordehay o olhou pasmo. “Bom dia? Como assim bom dia?” Rodrigo o olhava<br />

meio indignado com a cara de Mordehay.<br />

- O quê? – Disse Rodrigo.<br />

- O quê? Eu que pergunto o quê...o quê você esta fazendo aqui...ou melhor o<br />

quê estamos fazendo aqui? E que lugar é este?<br />

Rodrigo o olhava pasmado.<br />

- Bom, eu que deveria perguntar; você que me trouxe aqui.<br />

- Eu... Como assim?<br />

- Pelo que você me contou ontem à noite você me trouxe naquele dragão ali<br />

fora. Você estava um pouco estranho e não dizia coisa com coisa, achei que foi por<br />

causa do vinho que tomamos mas, para falar a verdade eu também não sei o que estamos<br />

fazendo aqui. Eu me lembro apenas que eu estava quase entrando na TBC daí<br />

deu uma briga na porta com o Juan e depois a gente saiu correndo eu a Larissa, o Juan,<br />

o Arthur, fomos atrás de um cara sei lá porque, e de repente estou aqui com você...<br />

Nossa parece que arrancaram um pedaço de mim... Nossa se a gente não voltar logo<br />

minha mãe vai me matar!<br />

- Eu acho que minha mãe vai me matar, também... – Disse Mordehay. Mas<br />

olhou em volta dentro da cabana e falou. – Meu, a gente precisa achar alguma coisa<br />

pra comer...


Marcelo Paciornik<br />

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Mordehay procurou pela cabana e percebeu que só havia queijo e vinho.<br />

- Que merda! Estamos fodidos. Só tem queijo e vinho aqui dentro!<br />

- Não aguento mais isso. – Disse Rodrigo.<br />

- Eu não vou sair daqui com este dragão aí fora. – Mordehay olhava pela janela,<br />

mas como por encanto o dragão olhou para ele e deu uma piscadela. – Ai! Caralho!<br />

O dragão piscou pra mim!<br />

Rodrigo veio na janela correndo para ver, quando ele olhou para o dragão este<br />

fez que sim com cabeça.<br />

- Meu Deus! – Disse o Rodrigo. – Vamos Mordehay, vamos lá fora nós dois<br />

juntos!<br />

- Jura? – Perguntou Mordehay boquiaberto. Mas Rodrigo já estava saindo.<br />

Mordehay foi logo atrás.<br />

O dragão olhava para eles com cara de mas-vocês-são-muito-estranhos-mesmo!<br />

Rodrigo chegou bem perto e se curvou para o dragão como os japoneses fazem.<br />

- Que que você ta fazendo? – Perguntou Mordehay baixinho.<br />

- Ei vi isso no Harry Potter. – Disse Rodrigo.<br />

O dragão fez que sim com a cabeça e Rodrigo foi acariciar a cara do dragão,<br />

Mordehay veio com muito medo e fez o mesmo gesto que o Rodrigo mas nesse momento<br />

o dragão fez um gesto que parecia estar rindo de Mordehay.<br />

- Que que eu fiz?<br />

- Sei lá. – Respondeu Rodrigo. – Mas acho que ele achou você engraçado!<br />

Mordehay foi e acariciou o dragão também.<br />

- Cara! Isso é muito legal. – Disse Mordehay entusiasmado.<br />

Então Mordehay notou algumas cordas que envolviam o pescoço do dragão.<br />

Olhou para Rodrigo e disse.<br />

- Acho que isso é para montar nele!<br />

- É claro né Mordehay. Eu não te falei que você me trouxe aqui neste dragão?<br />

- Meu, não consigo me lembrar disso! Mas então acho que vou montar.<br />

Mordehay olhou bem para o dragão, mas não fez nada.<br />

- Mordehay! Você só tem tamanho; deixa que eu vou.<br />

E para total espanto de Mordehay, Rodrigo saltou e caiu direto no pescoço do<br />

dragão. Mordehay olhou para a cara do dragão que o retribuiu com um ta-você-táesperando-o-quê?<br />

Então Mordehay pulou e sentou-se logo atrás do Rodrigo. Ficou um pouco<br />

desconfortável com tal situação, mas logo gritou.<br />

- Ei dragão! Pode nos levar para uma loja de conveniência? – Rodrigo o olhou<br />

com indignação pela pergunta. – Tá! Para uma vendinha? Um supermercado...sei lá<br />

uma vila?<br />

Então o dragão levantou voo e...por deus! Como os dois gritaram! Logicamente<br />

o dragão não estava entendendo nada. Na noite passada ele levara o mais poderoso<br />

guerreiro que Azkenadzya já vira e na manhã seguinte esse mesmo guerreiro estava<br />

gritando como um adolescente por estar em voo.<br />

Avistaram a vila lá de cima. Mordehay gritava.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Dragão! Dragão! Lá em baixo uma vila!<br />

- Acho que ele já sabia Mordehay. – Disse Rodrigo.<br />

E o dragão desceu em espirais até pousar nos arredores da vila. Muitos camponeses<br />

vieram correndo para ver quem havia chegado. Mordehay estava descendo<br />

do dragão muito desajeitadamente e quando atingiu o solo sua capa abriu revelando<br />

o amuleto azkenadzy em seu peito. Imediatamente os camponeses vieram abraçar<br />

Mordehay gritando.<br />

- Mordehay! Mordehay! É uma bênção...é uma bênção!<br />

Mordehay olhou assustado para Rodrigo que ria muito ao ver o amigo em tal<br />

situação.<br />

- Mas, – Disse Mordehay. – Como esses caras sabem meu nome! E porque<br />

estão me agarrando assim?<br />

Rodrigo deu de ombros.<br />

Eles levaram Mordehay e Rodrigo para a vila. Lá chegando conduziram-nos<br />

para uma taverna. O taverneiro ao olhar para Mordehay quase teve uma convulsão.<br />

Mas logo serviu cerveja e muitos tipos de queijos e vários pretzels. Logo em seguida<br />

um cordeiro assado.<br />

Os aldeões sentaram-se em volta deles e logo começaram.<br />

- Conte-nos Mordehay. Conte-nos como conseguiu vencer o exército dos<br />

Nadzym?<br />

Mordehay olhou para Rodrigo.<br />

- Acho que eles piraram de vez!<br />

Os aldeões não entenderam. Mordehay então disse.<br />

- Caros amigos, agradeço muito sua hospitalidade, mas eu e meu amigo estamos<br />

um pouco cansados, gostaríamos de comer, apesar de não termos nenhum cartão<br />

de crédito aqui, nem dinheiro, mas com certeza podemos lavar alguns pratos até que<br />

eu consiga ligar para o Visa e pedir um cartão, tenho certeza que eles podem mandar<br />

um em vinte e quatro horas!<br />

Os aldeões não estavam entendendo nada, mas um deles disse:<br />

- Comam a vontade, Mordehay. Vocês são nossos hóspedes mais ilustres nestas<br />

terras. E se, quiserem levar consigo comida e bebida estejam a vontade. Se quiserem<br />

ficar a sós para confabularem sobre o destino de Azkenadzya nós iremos, sabemos<br />

que vocês têm muito o que planejar para nossas terras!<br />

Mordehay tentou captar todas essas novas informações, mas não entendeu<br />

quase nada. Então respondeu.<br />

- Tá bom, muito obrigado. Acho que desejamos ficar um pouco a sós... E muito<br />

obrigado pela comida.<br />

- Nós é que agradecemos, Guerreiro Mordehay, nós é que agradecemos ó<br />

grande guerreiro Azkenadzy.<br />

Quando eles se foram Mordehay olhou para Rodrigo e disse:<br />

- Esses caras são loucos?<br />

- Acho que eles te confundiram com alguém Mordehay!<br />

- É eu também acho... Bom vamos aproveitar!


Marcelo Paciornik<br />

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Comeram muito e levaram o máximo de comida, vinho e água que puderam<br />

carregar. O taverneiro conseguiu umas sacolas de couro para que eles levassem os<br />

mantimentos e quando estavam saindo da taverna perguntou:<br />

- Irá voltar, Mordehay?<br />

- Sim, claro que sim! Assim que eu puder eu volto.<br />

Mas a coisa não parou por aí. Parecia que toda a vila estava ali fora esperando<br />

os ilustres convidados saírem da taverna. Mordehay estremeceu.<br />

- Meu, isso não vai acabar nunca? – Disse baixinho para Rodrigo.<br />

Os aldeões vieram correndo pegar as sacolas da mão de Mordehay, logo disseram<br />

que carregariam até o dragão. Mordehay tentou dizer que não era necessário,<br />

mas os aldeões foram enfáticos.<br />

Logo os dois já estavam de volta à cabana na encosta do abismo.<br />

- Nós deveríamos dar um nome para este dragão, não é Mordehay?<br />

- Eu tenho um nome ótimo! Me surgiu assim, de repente...juro que não sei da<br />

onde veio...mas o que você acha de Delirium?<br />

- Delirium? – Falou Rodrigo pensativamente. – Olha, gostei. Eu tinha pensado<br />

em Madona, mas acho que ele não iria gostar.<br />

- Meu, eu odeio a Madona, seja lá quem ela for!<br />

- Tá bom, tá bom, Delirium está ótimo.<br />

- Está bem pra você Delirium? – Perguntou Mordehay ao dragão. O dragão o<br />

olhou tipo eu-não-tô-acreditando-que-você-está-tão-retardado, mas logo fez que sim<br />

com a cabeça.<br />

- Acho que esse dragão entende o que nós falamos. – Disse Mordehay para<br />

Rodrigo.<br />

- Sabe que eu também!<br />

Entraram na cabana, já ia começar a escurecer.<br />

- O que vamos fazer Mordehay? – Perguntou Rodrigo. – Vamos ficar aqui até<br />

quando?<br />

- Não sei. Mas se ficarmos aqui, logo alguém vai vir nos procurar.<br />

- Mordehay. Quem mais sabe que estamos aqui? Fora os aldeões?<br />

Mordehay pensou.<br />

- Pra falar a verdade eu estou muito confuso. Porque a gente não senta, toma<br />

umas cervejas e tenta se lembrar de tudo? Talvez, se a gente conversar a gente se lembre,<br />

e de qualquer maneira podemos sair amanhã com este dragão e vasculhar a área...<br />

quem sabe a gente não encontre alguém?<br />

- Acho que é uma boa ideia – Falou Rodrigo.<br />

Acenderam novamente a lareira e as velas e começaram a conversar.<br />

- Então, – Falou Mordehay. Servindo-se de cerveja e arrumando alguns pretzels<br />

na pequena mesa logo abaixo da janelinha que dava para o abismo. – Eu realmente<br />

não consigo me lembrar de como vim parar aqui; na verdade eu só não estou<br />

tendo algum tipo de crise nervosa porque...bem, nem isso eu sei. Não consigo entender<br />

como eu era. As coisas vêm em flashes, mas nada é realmente palpável. Nada<br />

é muito coerente. Algumas coisas me fazem falta, por exemplo, música!... Sim eu me<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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lembro que eu gostava muito de música do tipo melódica, com guitarras e violinos...<br />

- Mordehay. – Cortou Rodrigo assustado. – Você tinha visto aqueles violões<br />

ali no canto da cabana?<br />

Mordehay olhou rapidamente para traz e ficou boquiaberto.<br />

- Ei espere um minuto! Eu não me lembro de ter visto estas coisas aqui, são<br />

violões mesmo! Me parecem um pouco diferentes dos violões normais.<br />

Mordehay ergueu-se da cadeira em que estava sentado e foi vagarosamente até<br />

o canto da cabana, onde os violões estavam.<br />

- Meu. Isso não estava aqui nem fodendo! – Falou Mordehay meio que eufórico<br />

e assustado. Rodrigo o fitava ainda da cadeira. Sua cara ficava engraçada quando<br />

estava sério e confuso. Mordehay pegou um dos violões e tentou dedilhar alguma<br />

coisa. Porém ficou mais eufórico ainda quando suas mãos começaram a dedilhar as<br />

cordas do instrumento de forma absurdamente talentosa. Continuou dedilhando e olhou<br />

para Rodrigo, que estava pasmo.<br />

- Mordehay! Você sabe tocar muito bem!<br />

- Cara! Eu nunca toquei um violão na vida! Isso é impossível de estar acontecendo!<br />

– E na verdade Mordehay estava agora tocando uma melodia enlouquecida, rápida<br />

e virtuosa. Enquanto ia sentar-se na cadeira continuava tocando e falou eufórico<br />

para Rodrigo. – Meu, pega o outro! Pega o outro e tenta tocar...vai rápido Rodrigo!<br />

Tenta você!<br />

Rodrigo não pestanejou; quase tropeçou no tapete da cabana e logo estava com<br />

o instrumento na mão. Olhou para o que Mordehay estava fazendo com os dedos e<br />

tentou também. Logo seus dedos estavam acompanhando os dedos de Mordehay.<br />

- Meu deus! Como isso pode estar acontecendo! – E foi sentar-se também,<br />

seguindo perfeitamente a melodia que Mordehay fazia.<br />

Logo começaram a brincar um com a melodia do outro, faziam malabarismos<br />

melódicos impensáveis. Enquanto um subia as notas o outro descia num arranjo fantástico.<br />

Eles riam como duas crianças ao descobrir um talento que jamais poderiam<br />

imaginar que tinham. O som dos instrumentos era de um timbre completamente mutante,<br />

conforme eles tocavam ou conforme a força da pegada nas cordas o timbre<br />

mudava e mudava, ficando mais forte ou mais fraco, às vezes tinha efeitos sonoros<br />

absurdos, com ecos e distorções magníficas. Quando um parava era só para dar um<br />

gole na cerveja enquanto o outro continuava, sem deixar a música parar. Continuaram<br />

assim até que a melodia começou a ficar mais lenta. E então pararam, um olhando para<br />

o outro, um completamente fascinado com o outro. Uma luz prateada surgiu no peito<br />

de Mordehay iluminando por dentro de seu manto negro, sua face fascinada.<br />

- Mordehay! – Gritou Rodrigo. – O que você tem?<br />

Mordehay assombrou-se com o grito de Rodrigo, mas logo a luz desapareceu.<br />

- Ali, bem ali no seu peito, tinha uma luz prateada!<br />

Mordehay abriu sua capa rapidamente como se tivesse entrado algum bicho<br />

ali dentro.<br />

- Nada! Não tem nada aqui.<br />

- Tinha uma luz prateada logo agora aí no seu peito!


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Mas o reflexo da luz das velas revelou um pequeno brilho dentro do peito de<br />

Mordehay indicando a presença do amuleto.<br />

- Meu deus! – Disse Rodrigo. – O que é isso em seu peito.<br />

Mordehay não conseguia ver nada. Mas então virou-se para lá e para cá e viu<br />

que existia realmente um pequeno reflexo. Rodrigou levantou-se, foi em direção a<br />

Mordehay, tocou em seu peito e sentiu algo um pouco mais duro sob a pele de Mordehay.<br />

- Um espelho. Eu vi um espelho por aqui. – Disse Mordehay eufórico. Rodrigo<br />

trouxe o espelho até Mordehay. Logo pegou uma das velas em cima da mesa e<br />

passou em frente ao peito de Mordehay.<br />

Os dois puderam visualizar então o amuleto Azkenadzy, ali encravado no peito<br />

de Mordehay.<br />

- Tá tá tá. – Falou Mordehay zangado. – Mas o que é isso agora?<br />

Rodrigo não respondeu; estava atordoado. Os dois se olharam.<br />

- Acho que eu preciso de um ar. – Disse Mordehay. Olhou para fora pela janela<br />

que dava para os campos. – Está uma noite linda lá fora, vamos dar uma volta?<br />

- A pé? – Disse Rodrigo indignado.<br />

- Bom se tivéssemos cavalos seria ótimo, não sei se o dragão poderia voar<br />

agora.<br />

- Eu não sei cavalgar. – Falou Rodrigo.<br />

- Mas nós não temos cavalos. – Respondeu Mordehay.<br />

- Tá, então o que são aquelas coisas de quatro patas ali fora? – Disse Rodrigo<br />

olhando pela outra janela.<br />

Mordehay olhou indignado pela janela e disse.<br />

- Ei espere só um minuto! O que está acontecendo nesta merda! Não tinha uma<br />

porra de um cavalo por aqui.<br />

- Mordehay. – Cortou Rodrigo agora muito tenso. – Cada vez que você fala<br />

alguma coisa ou deseja alguma coisa a coisa acontece!<br />

- Como assim?<br />

- Você falou que gostava de música, que sentia falta de música, de repente<br />

apareceram esses violões, agora você falou dos cavalos, não tinha nenhum cavalo por<br />

aqui.<br />

- Mas quem poderia ter deixado isso para nós? Como poderiam saber?<br />

- E se perguntássemos ao dragão?<br />

- Rodrigo! O dragão não fala, só faz umas caras engraçadas.<br />

- Vamos só tentar, e de qualquer maneira vamos sair, você não queria sair?<br />

Vamos lá pra fora.<br />

- E se for uma armadilha? – Perguntou Mordehay assustado. – E se alguém<br />

colocou os cavalos ali para nos pegar?<br />

- Quem vai querer nos pegar Mordehay? Meu, olha o teu tamanho! Você é<br />

muito cagão. – Disse isso e saiu da cabana, Mordehay saiu logo atrás, olharam por<br />

tudo e realmente não havia ninguém ali; somente dois cavalos negros, enormes e<br />

belíssimos.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Pergunte. Mordehay... Vai! Não tenha medo.<br />

- Delirium. – Disse Mordehay muito vagarosamente. – Delirium. – O dragão<br />

olhou para ele. – Você viu quem deixou esses cavalos aqui? Você viu se alguém esteve<br />

aqui agorinha há pouco?<br />

O dragão olhou para Mordehay e sua cara era de você-só-pode-estar-brincando-comigo.<br />

Baixou a cabeça e fechou os olhos.<br />

- Meu, – Disse Mordehay – às vezes eu acho que esse dragão tá tirando uma<br />

com a minha cara.<br />

- Vamos Mordehay vamos tentar montar.<br />

Por mais incrível que pudesse parecer, os cavalos estavam selados. Os dois<br />

chegaram perto dos cavalos e acariciaram suas cabeças, cada um em um. Os dois<br />

montaram. A luz das estrelas era inimaginável então, se foram pelos campos.<br />

- Eu sei montar! – Berrava Rodrigo. - Eu sei montar!<br />

Mordehay só ria.<br />

A sensação era de liberdade absoluta, nada poderia atrapalhar aquele momento,<br />

no entanto, algo veio na cabeça de Mordehay algo extremamente ruim, ele diminuiu<br />

a marcha. Logo Rodrigo viu que Mordehay ficara para trás. Rodrigo viu na cara de<br />

Mordehay que algo estava errado. Deu a volta e veio por trás. Emparelhou seu cavalo<br />

junto ao dele.<br />

- O que houve? Porque está com essa cara?<br />

- Não sei. Aconteceu assim de repente, algo estranho me passou pela cabeça.<br />

Algo muito ruim...<br />

- Mas o que pode ser?<br />

- Um medo. Um medo extremo, algo difícil de relatar, um medo de sei lá.<br />

Perder isso tudo, perder você, perder este lugar, é como se isso fosse um sonho absurdo,<br />

mas que pode se acabar de uma hora para outra. Medo que alguém venha e tire<br />

isso de mim.<br />

- Calma Mordehay. – Falou Rodrigo. – Antes que alguém tire isso, antes de<br />

você sofrer por esta perda, você deveria aproveitar ao máximo para que isso se torne<br />

uma lembrança tão forte que ninguém possa tirá-la de você.<br />

Mordehay olhou pasmado para Rodrigo.<br />

-<br />

- Puxa Rodrigo! Que pensamento legal. Acho que eu não posso deixar isso<br />

me abalar. Vou esquecer isso. É claro que você tem razão. Fazer destes momentos os<br />

melhores possíveis para que nunca possamos esquecê-los.<br />

Rodrigo deu um tapa na traseira do cavalo de Mordehay e os dois dispararam<br />

pelos campos. Só muito mais tarde voltaram para a cabana. E desabaram na cama.<br />

Os Guardiões do destino e Tawan<br />

Tawan não aguentava mais. Os guardiões estavam conversando. Era isso que<br />

Tawan achava, pois só sussurravam há horas. Logo Tawan levantou-se e foi falar com


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Tibério.<br />

- Olha aqui, não to gostando nada disso, vocês me deixaram aqui sentado há<br />

horas, ficam falando e falando e não resolvem nada. Eu quero comer alguma coisa; to<br />

morrendo de fome, quero um mac. Agora vocês tratem de me levar num mac que eu<br />

quero um chedar e uma coca enorme e ainda um sorvete de sobremesa com aqueles<br />

m&ms em cima.<br />

Era o que os Guardiões estavam esperando, pois o que Tawan decidisse, seria<br />

o que eles iriam fazer.<br />

- Você consegue visualizar aonde quer ir? – Perguntou Tibério.<br />

- Como assim? Já falei. Que merda que vocês são? Não sabem onde encontrar<br />

um Mac? Uma porra de um Mac Donalds? Tem em qualquer lugar!<br />

- Tente imaginar este lugar, onde tem esse tal mac, se você não imaginar nós<br />

não conseguiremos te levar.<br />

- Mas vocês são umas travecas muito burras mesmo! Tá, tá, deixa eu ver um<br />

mac... Tá, já sei... Tem um ali, perto do teatro municipal; eu sempre ia lá com Mordehay,<br />

estão vendo? Conseguiram ver? Ó to pensando bzbzbzbzbz. – Tawan fazia isso<br />

fazendo gestos eufóricos com as mãos como que querendo passar as informações que<br />

ele tava pensando através dos gestos.<br />

Então todos os guardiões do destino se condensaram apenas no corpo de<br />

Tibério e Vitório. Tawan ficou indignado.<br />

- Ei como fizeram isso?<br />

Mas os dois guardiões não responderam a Tawan. Falaram entre si:<br />

- Pode ser este o local, se não for estaremos perto, conseguiremos localizar<br />

os outros, pois agora Azkenadzia está fora do nosso alcance, visto que Mordehay se<br />

esconde por trás do amuleto.<br />

- Localizar quem? – Perguntou Tawan. - Se for aquela gorda do Juan eu não<br />

quero encontrar com ele!<br />

Novamente os guardiões não responderam. Se olharam e deram as mãos.<br />

Tibério levantou sua mão para Tawan.<br />

- Eu não vou pegar na sua mão, maricona!<br />

- Venha, Tawan. Chega de brincadeiras, está na hora de nos ajudar. E ajudar<br />

este seu amigo Mordehay.<br />

Tawan olhou desconfiado, mas se fosse para ganhar um mac até pegaria na<br />

mão daquele ser que tanto odiava. No momento que tomou a mão de Tibério os três<br />

desapareceram do espaço de chão de espelho e apareceram em frente ao Teatro Municipal,<br />

no centro de São Paulo. A tarde já estava a terminar.<br />

A surpresa de Pan noa<br />

Na rua de Moishe não havia nenhum ser gótico quando ele e Azkin surgiram do<br />

nada. Por sorte ninguém reparou na aparição dos dois. Moishe parecia ter despertado<br />

de um sonho, olhou indignado para Azkin e soltou sua mão com nojo. Correu para sua<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

casa, para seu lar doce lar.<br />

Azkin, no entanto parecia estar lembrando de tudo o que ocorrera. Correu<br />

então para uma rua muito movimentada a sua frente, logo reconheceu o lugar, tomou<br />

a direita e correu. Correu como nunca correra em sua vida, sabia de alguma maneira<br />

que poderia ainda encontrar alguém, alguém que iria dizer-lhe que o que ocorrera<br />

fora verdade, que ele não havia enlouquecido, que por alguns instantes ele fora um<br />

guerreiro de verdade. Já estava descendo a rua da Consolação e as pessoas se assustavam<br />

ao ver aquele pequeno ser correndo e chorando. Azkin não tinha certeza se iria<br />

encontrar com alguém, mas algo, alguma coisa fazia com que ele continuasse a correr<br />

feito louco. Ao chegar em frente a Igreja da Consolação tomou a esquerda e desceu<br />

pela rua lateral do viaduto imundo que cortava a cidade imunda. Ali chegando parou;<br />

estava fatigado, mas ficou muito triste ao perceber que ninguém estava ali. Seria este<br />

o lugar certo? O momento certo? Sentou-se embaixo do viaduto e chorou mais ainda.<br />

“O que vou fazer? O que vou fazer?” O dia já estava quase escurecendo quando com<br />

um ruído absurdo surgiram, do nada, o Japa, o Juan, Arthur, Larissa e é claro Pan noa.<br />

Azkin deu um pulo e foi direto de encontro ao Japa, abraçou-o em prantos.<br />

- Meu deus! Meu deus! Japa, então aconteceu de verdade! Vocês estavam lá<br />

também!<br />

- Lá aonde? – Brincou Japa. Mas logo. – É claro que estávamos... Como você<br />

esta Azkin, aonde está Moishe? E Mordehay?<br />

- Esse tal Moishe foi pra sua casa, já Mordehay, eu não sei.<br />

- Mordehay ficou em Azkenadzya. – Disse Pan noa. – Assim como Rodrigo e<br />

Tawan.<br />

- Meu! Meu! Meu! – Berrava Arthur. – Como assim ficou em Azkenadzya?<br />

Como assim? E agora?<br />

- Calma Arthur. – Disse Pan noa. Temos que sentar e conversar. Algo aqui está<br />

errado. Na verdade está muito errado.<br />

Pan noa estava pálido. Logo foi para o pequeno murinho em que Azkin sentara<br />

e sentou-se lá também. Todos o olhavam. Ele ergueu o rosto para todos ali e disse:<br />

- Vocês não vão acreditar no que aconteceu!<br />

- Como assim? – Disse Juan. – O que aconteceu fora toda essa barbaridade que<br />

nós vivemos? O que pode ser pior que isso?<br />

Todos falavam agora ao mesmo tempo. Pan noa porém levantou a mão e disse:<br />

- Eles me acharam.<br />

- Quem te achou, puta que o pariu! – Gritou Larissa enlouquecida.<br />

Pan noa parecia quase estar chorando, demorou o que pareceu uma eternidade<br />

para responder.<br />

- Meus amigos! Do meu planeta! Eles me mandaram uma nave! Um trans<br />

universo imperial, o qual está agora em órbita neste planeta, esperando pelos meus<br />

comandos!<br />

A cara de todos ali presentes, inclusive alguns mendigos que assistiam a cena<br />

embasbacados, foi da mais assombrosa transformação: de completo pasmo, para<br />

uma gargalhada geral. Somente depois de algum tempo, que apenas o Japa e o Azkin


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

começaram a perceber que Pan noa realmente estava falando sério. Os outros continuavam<br />

rindo. Pan noa então percebeu a seriedade no rosto do Japa. Foi então que ele<br />

disse:<br />

- Preciso de um lugar onde eu possa fazer a primeira comunicação com a nave,<br />

deve ser um local com uma acústica boa, no qual não haja nenhum barulho. Sem toda<br />

essa balburdia dessa cidade. É apenas para estabelecer o primeiro contato; depois eu<br />

consigo dominar a nave.<br />

O Japa pensou um pouco, logo os outros perceberam que o Japa estava sério<br />

e todos ficaram quietos, mesmo que muito aturdidos com essa nova notícia; “seria<br />

realmente verdade?”<br />

O rosto do Japa se iluminou.<br />

- Já sei! – Disse ele eufórico. – O local mais próximo e com uma ótima acústica<br />

é o Teatro Municipal, fica só alguns quarteirões daqui!<br />

- Então vamos. – Disse Pan noa. – Não temos tempo a perder.<br />

Os dois saíram caminhando a passos largos rumo ao teatro, os outros vinham<br />

atrás só porque não tinham mais o que fazer. Foi Arthur que interrompeu o silêncio.<br />

- Meu! Como assim? Vamos pra onde? Eu ouvi bem? Pro teatro? Meu!<br />

Mas já estavam indo. O entardecer caía na cidade de São Paulo quando eles<br />

cruzavam o centro. Era realmente uma turma estranha, mas como tudo é estranho no<br />

centro, eles passavam incógnitos a olhos vistos.<br />

Os guardiões do destino no Mac Donalds<br />

Tawan não estava acreditando na sua sorte. Estava de novo em São Paulo! Tá<br />

certo que estava com estas duas traveconas góticas, mas estava em São Paulo e “meu<br />

deus! Em frente a um Mac!”<br />

Tawan nem pestanejou em largar a mão de Tibério, muito pelo contrário, tomou<br />

a mão de Vitório também e os arrastou direto para dentro do Mac Donalds. A<br />

atendente ficou realmente aflita quando viu aquele pequeno ser que não dava para saber<br />

se era um menino ou uma menina com duas entidades góticas junto a ele ou ela...<br />

Tawan começou a falar rapidamente para a atendente.<br />

- Olha só! Eu to com muita fome e muito nervosa...esses dois aqui... – Falou<br />

olhando para trás focando os guardiões do destino. – Bem esses dois aqui são meus<br />

pais tá bem, eles são de fora.... dos estados unidos... e não falam direito português.<br />

– Os Guardiões se olharam, mas nada falaram. – Eles são um casal de gays e vieram<br />

pra cá pra me adotar...então eu sou filho deles...tá bem? E eu vou querer um cheddar<br />

e uma coca bem grande e um sorvete com mms em cima, e seja rápida porque eu to<br />

nervosa. E eles vão pagar, porque eles me prometeram vir pra cá e me comprar um<br />

Mac, está bem? Agora vai anda logo.<br />

- Eles vão pagar como? Com cartão? São vinte e dois reais. -Perguntou a atendente<br />

assustadíssima com Tawan, mas mais assustada ainda com os dois que estavam<br />

com ele.<br />

Tawan olhou para trás.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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- E como vocês vão pagar? Não me digam que vocês não têm dinheiro? Ou<br />

cartão?<br />

Foi Tibério que tomou a frente de Tawan e levantou a mão, Tawan ficou abismado,<br />

não tinha reparado que a mão de Tibério era de uma magreza absurda; era<br />

quase uma mão de um esqueleto, enorme e comprida com unhas enormes e sujas.<br />

Tawan deu um passo para trás, Tibério apontou para a máquina de cartão de crédito<br />

e logo saiu o comprovante de pagamento. A atendente estava paralisada. Mas piscou<br />

algumas vezes e pegou o papel. Logo o lanche de Tawan estava em suas mãos. Tawan<br />

ainda olhou de relance para Tibério, meio que querendo agradecer, meio com medo e<br />

foi para o andar de cima. Ao chegarem puderam perceber que o salão estava lotado,<br />

mas para maior espanto de Tawan, as pessoas olhavam para ele e para seus acompanhantes<br />

completamente atônitas, uma a uma elas começaram a sair. Tawan começou a<br />

ficar com muito medo, mas olhou para o lanche e “sabe o quê...que se foda.” Sentouse<br />

e logo os guardiões sentaram em sua frente, olhando para ele curiosos.<br />

- Ai o que foi agora? Se vocês queriam comer deveriam ter pedido o de vocês,<br />

ai que saco que vocês são... Tá. Peguem as batatas eu odeio essas batatas.<br />

Os guardiões nem olharam para a comida. Fixaram o olhar em Tawan e só.<br />

Tawan começou a comer sem se importar com os olhares dos guardiões. Quando ele<br />

estava na metade do lanche ouviu-se um reboliço vindo lá de baixo. Os dois guardiões<br />

levantaram-se, uma figura sombria vinha subindo a escada tentando se desvincular<br />

dos seguranças. Tibério então gritou com uma voz espantosa; obviamente que Tawan<br />

parara de comer ficara olhando assustado com o sanduíche ainda em sua mão.<br />

- Deixe-o passar, ele é um dos nossos. – Os seguranças olharam atônitos para<br />

o Tibério e logo desceram a escada correndo. A figura era um homem magro e alto,<br />

Tawan não poderia sequer distinguir a idade dele tão assustado estava. Veio em direção<br />

a ele, não olhou para os guardiões e logo que estava muito perto de Tawan falou:<br />

- Eles voltaram e estão indo para a cúpula. – Tawan largou o sanduíche e<br />

começou a tremer. A figura fazia gestos horríveis com as mãos. E agora estava estérico<br />

quase em prantos. – Não vê o que fez? Você nos roubou. Você nos roubou! Eles estão<br />

na cúpula, Tawan. Na cúpula! – Berrava a figura que começou a desaparecer.<br />

- Tawan! – Gritou Tibério. – Este é Segregory. Ele trabalha para nós. Ele não<br />

existe; ele faz parte dos teus sonhos. Ele não está aqui.<br />

Tawan chorava de medo, encolheu-se todo na cadeira em que estava sentado.<br />

A figura havia desaparecido. Algumas pessoas começaram a entrar no salão como se<br />

nada tivesse acontecido.<br />

- Aonde é a cúpula, Tawan? – Perguntou Tibério. – Aonde é a cúpula, se recomponha<br />

Tawan foi só um sonho.<br />

Tawan levantou o rosto em lágrimas, e com muito medo, quase sem voz respondeu<br />

a Tibério.<br />

- É no teatro. Eles estão no teatro. A cúpula é o teatro.<br />

Tibério tomou a mão de Tawan, agora sua mão estava normal. Desceram os<br />

três as escadarias do Mac Donalds, saíram correndo para a esquerda em direção ao<br />

teatro municipal. Já se fazia noite quando Tawan percebeu que estava à beira das


Marcelo Paciornik<br />

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escadarias do teatro, sozinho. Olhou aterrorizado para os lados a procura de Tibério e<br />

Vitório, mas estes tinham sumido.<br />

O Trans Universo Imperial<br />

O Japa olhou para o papel colado na entrada do teatro. “Fechado para reforma.”<br />

Bateu então na porta de vidro. Mesmo Pan noa ficou impressionado com a construção:<br />

era um teatro magnífico no estilo clássico com muitas esculturas a segurar a estrutura.<br />

Logo veio um segurança mostrando o papel informativo, mas tão logo Pan noa olhou<br />

para o segurança este abriu a porta sem pestanejar. “Esta tua pérola cubo é um crime.”<br />

Transmitiu o Japa para Pan noa. Eles entraram no teatro e o segurança os levou para<br />

dentro da sala principal. Desceram as escadarias da plateia e foram diretamente para<br />

o palco. O segurança os deixou, voltando para a entrada. Quando Pan noa percebeu<br />

que o segurança havia saído, começou o procedimento de comunicação com a nave.<br />

- Kenn?<br />

- Sim, Pan noa. – Transmitiu a voz dos comandos da nave para Pan noa. Somente<br />

ele podia ouvir.<br />

- Consegue me localizar?<br />

- Certamente.<br />

- Como podemos proceder com o transporte? Estou com alguns amigos.<br />

- Posso mandar um transportador para as suas coordenadas.<br />

- Quanto isso pode demorar?<br />

- Alguns minutos.<br />

- Ótimo. Estaremos em frente às escadarias do teatro esperando.<br />

- Sim Pan noa.<br />

Os que assistiam a performance de Pan Noa não puderam acreditar no que ele<br />

estava fazendo. Pan noa saiu correndo para fora do palco.<br />

- Meu! – Disse Arthur.<br />

Mas logo o Japa disse.<br />

- Não vamos discutir, vamos atrás dele.<br />

E saíram correndo atrás de Pan noa. Passaram pelo segurança que abriu a porta,<br />

estava com uma cara de idiota. Ao saírem, porém, depararam com Tawan extremamente<br />

atordoado.<br />

- Que que você tá fazendo aqui, Tawan? – Perguntou o Japa.<br />

- Aquelas travecas Góticas me trouxeram e agora desapareceram! Não sei o<br />

que fazer...<br />

- Venha conosco então. – Disse o Japa.<br />

- Aonde? – Perguntou Tawan ainda confuso. – E Mordehay? Aonde está Mordehay.<br />

- Vamos achá-lo. – Disse Pan noa olhando para o céu, procurando por algo.<br />

- Por que o menino está olhando pro céu, Japa? – Perguntou Tawan.<br />

- Porque ele jura que vai vir uma nave espacial nos pegar e nos levar para a<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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terra do nunca. – Disse Juan sarcasticamente.<br />

- Eu não perguntei pra você, gorda do caralho. – Berrou Tawan.<br />

Mas Juan não respondeu pois neste momento um estrondo absurdo surgiu do<br />

nada. Pan noa apontou para o céu em direção ao que poderia ser uma estrela cadente<br />

rasgando a noite, a possível estrela, no entanto, não desapareceu, mas veio rodando<br />

em espirais em direção a eles. Obviamente que o pânico tomou conta das pessoas ali<br />

presentes e de quem pode presenciar a cena. A nave não pousou, mas ficou estacionada<br />

a uns dez metros de altura em frente ao Teatro Municipal.<br />

O que fazia com que Arthur, Tawan, Larissa, Juan, Japa e Azkin não tivessem<br />

um ataque nervoso foi exatamente a grandiosidade e o design da nave ali parada. As<br />

pessoas em volta ou berravam ou corriam ou ficavam mudas e boquiabertas ou rezavam<br />

como desesperadas. A nave era branca, era como uma pílula de remédio achatada<br />

e tinha uns vinte metros de comprimento por cinco de largura, só isso, mais nada. Pan<br />

noa acionou via pérola cubo um mecanismo que fez com que um elevador descesse<br />

da base da nave e quase tocasse a rua logo a frente deles. Pan noa foi em direção ao<br />

elevador, e olhou para trás.<br />

- Vamos crianças, hora de dar um passeio.<br />

Todos seguiram Pan noa, temerosos. Azkin deu a mão para Japa e sorriu ao<br />

entrar no elevador. Logo estavam dentro da nave.<br />

- Meu! Meu! – Disse Arthur.<br />

Mas nada mais poderia sair da boca dele. Pois a coisa era realmente absurda...<br />

Eles podiam ver o mundo ali fora de uma forma jamais imaginada. A nave era um<br />

telescópio virtual gigantesco. Eles tinham a visão do que tinha dentro da nave, isto é,<br />

a nave em si por dentro, mas também podiam ver por fora da nave, como esta fosse<br />

feita de um material transparente Eles podiam ver tanto fora como dentro e também<br />

os arredores de onde estavam e se olhassem para o céu e fixassem, poderiam ampliar<br />

a visão, através da nave, para os confins da galáxia. Foi Pan noa que modificou os<br />

parâmetros e falou.<br />

- Chega de brincadeiras, as coisas começaram a ficar sérias. Sentem-se pois<br />

vocês irão para onde nenhum ser humano do seu tempo foi, ou se já foi, nunca desta<br />

forma. Meu deus o que eu estou fazendo? – Disse quase em sussurros meio que de si<br />

para si.<br />

Nem Pan noa terminou a frase os seis já estavam sentados nos bancos da nave<br />

que por dentro e pelo menos ali, parecia ser uma van absurdamente futurista, então a<br />

nave em questão de minutos estava sobrevoando o planeta que aqueles seres moravam.<br />

Eles então puderam ver o que só viriam em fotos ou em filmes: a imagem do<br />

planeta em que viviam, e por um longo tempo ficaram a contemplar aquela imagem<br />

absurda...fantástica! Mas em segundos, como era esperado, o estrondo na nave foi<br />

abismal. Afinal de contas!<br />

Mas logo tudo ficou negro, e de repente, muitas luzes... A nave estava entrando<br />

num compartimento do Trans Universo Imperial, esta sim, uma nave de magnitude<br />

inimaginada por nenhum dos seres ali presentes, menos é claro, Pan noa. Quando<br />

o compartimento fechou eles puderam sair da nave de transporte e não ficaram tão


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

eufóricos com aquela suposta garagem, mas então Pan noa apontou para algumas mini<br />

naves que pareciam ser umas motocas moderníssimas, e logo disse:<br />

- Cada dois de vocês vão pegar uma mini-dracunia-maximatria; eu vou com<br />

aquele ali. – Apontou Pan noa sorrindo para o seu tão adorado Aerojet Plasma! Drakunum<br />

Maximatrya.<br />

Todos ficaram estarrecidos com a mini nave de Pan noa; era realmente fascinante<br />

a estrutura que lembrava uma escultura de dragão, mas Pan noa nem pestanejou,<br />

abriu a estrutura, fazendo com que a nave se tornasse conversível, montou como se<br />

estivesse montando em uma moto e disse para os outros:<br />

- Vamos! Montem nas mini-drakunias. Eu as controlo via Aerojet Plasma! Drakunum<br />

Maximatrya.<br />

Ao subirem nas supostas motocas futurísticas, algumas peças de um material<br />

absurdo prendeu-os na nave.<br />

- Ei! – Gritou Arthur ao se ver preso.<br />

- É para sua segurança. Não vou prender ninguém aqui nessas naves. – Falou<br />

Pan noa rapidamente. – Bem é melhor segurarem-se, mas antes uma pequena dose de<br />

Enectolex, só como garantia...<br />

A droga foi injetada nos corpos dos visitantes e eles conseguiram se sentir um<br />

pouco mais calmos. Mas quando as naves flutuaram e foram em direção a uma passagem<br />

que não abria, eles começaram a gritar. Quando a imensa porta do compartimento<br />

finalmente se abriu, e eles puderam visualizar o saguão de cinco quilômetros que<br />

conectava as sessões da nave eles simplesmente explodiram em berros.<br />

A Cabana na Encosta do Abismo<br />

Rodrigo despertou de um sono profundo. Notou com um certo desconforto que<br />

Mordehay não estava ao seu lado. Viu pelas pequenas janelas da cabana uma aurora<br />

magnífica. Lá ao longe, junto ao mar, existia uma tonalidade de rosa em um céu ainda<br />

muito escuro que fez seus pequenos pelos da nuca arrepiarem. Abriu a porta da cabana<br />

e com uma pontada de alívio viu Mordehay em pé à beira do abismo. Delirium estava<br />

magistralmente sentado ao seu lado. Foi até Mordehay e o abraçou por trás. Mordehay<br />

abraçou-o também. Ficaram em silêncio observando o amanhecer, mas este não viria<br />

pois agora Mordehay controlava Azkenadzya por completo e ele não deixaria a cena<br />

daquela aurora passar.<br />

- Acho que eu estou apaixonado por você Mordehay. – Disse Rodrigo.<br />

Mordehay olhou para ele, seus olhos se encontraram, havia lágrimas nos olhos<br />

dos dois.<br />

- Sim Rodrigo, eu também estou apaixonado por você.<br />

- O que vamos fazer, Mordehay?<br />

- Ainda não sei, mas estou sentindo este mundo agora como se ele fizesse parte<br />

de mim. É como se fosse a extensão dos meus sentidos. Está vendo esta aurora? Eu a<br />

controlo, está vendo como ela esta parada no tempo e no espaço? Embora possamos<br />

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sentir o tempo passar como o vento que está batendo em nossos corpos?<br />

Rodrigo olhou para os tons de rosa no céu ao longe, a se refletirem num mar<br />

revolto.<br />

- Sim, a aurora ainda está lá. Mas como faz isso, Mordehay?<br />

- Este símbolo, esta espécie de amuleto que está encravado em meu corpo faz<br />

com que eu controle este mundo. E eu estou louco para explorá-lo, pois agora eu não<br />

tenho mais medo.<br />

Rodrigo abraçou Mordehay mais fortemente e disse.<br />

- Então vamos Mordehay está na hora de voar pra valer neste dragão.<br />

Os dois montaram em Delirium, que agora parecia estar muito contente de<br />

ter visto o verdadeiro Mordehay voltar a si. Mas não era aquele Mordehay quase enlouquecido<br />

de outrora e sim um Mordehay mais sóbrio, mais seguro de si, pois agora<br />

ele sabia a extensão de seus poderes naquelas terras.<br />

O dragão tangenciava o mar. Voou por muito tempo e eles, nada viram. Parecia<br />

uma terra virgem, então Mordehay forçou um pouco a mente, fechou os olhos e visualizou<br />

para si mesmo uma cidadela. O dragão avançou mais para o interior e então em<br />

meio aos campos infinitos surgiram montanhas magníficas e em meio aos vales a cidadela<br />

ergueu-se cintilando em prata e negro. Mordehay pensou: “Nossa! Finalmente<br />

uma cidade neste lugar!”<br />

A Cidadela de Prata<br />

Nada poderia se comparar aquela visão; Delirium pousou em frente ao portal<br />

da cidadela. Até ali havia uma grama rala e muito verde, a partir de então começava a<br />

estender-se uma ruela feita de pedras negras, o portal estava aberto, era imenso, todo<br />

feito em prata com desenhos retorcidos em detalhes mínimos. Aparentemente pareciam<br />

ser desenhos desconexos, cheios de pontas, mas ao observar melhor poderiam<br />

ser notado milhares, talvez milhões de rostos esculpidos por entre as emaranhadas<br />

formas que pertenciam ao portal.<br />

- Eu realmente queria trocar umas palavrinhas com o escultor deste portal.<br />

– Disse Mordehay estarrecido, tocando no portal para ter certeza que ele realmente<br />

existia.<br />

- É mesmo? – Perguntou Rodrigo sarcasticamente. – Pois eu queria trocar<br />

umas palavrinhas com quem fez esta rua. – Rodrigo olhava para a rua agachado, logo<br />

veio Mordehay e se agachou também, imitando o amigo.<br />

- Que foi? - Perguntou Mordehay sem saber o que Rodrigo tinha descoberto,<br />

mas então... – Meu deus do céu! – Mas isso que esta unindo as pedras, essa linha,<br />

entre as pedras, como se chama isso mesmo? A sei lá...mas é prata! A rua inteira tem<br />

o rejunte feito de prata!<br />

Os dois levantaram-se e olharam pra cima, então viram que não só o rejunte<br />

das pedras, era feito de prata, mas praticamente a cidade inteira era feita de pedras<br />

negras e prata.<br />

Eles entraram muito assustados e com medo de sujar o chão da cidadela.


Marcelo Paciornik<br />

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Começaram a avançar por entre os prédios, que até um metro de altura eram construídos<br />

com as mesmas pedras negras da rua, e logo a seguir erguiam-se acima destas pedras<br />

uma sólida construção prateada. Estas construções, no entanto, não eram polidas<br />

e sim foscas; as poucas coisas que eram polidas e cintilavam absurdamente eram os<br />

detalhes dos prédios e das casas, como por exemplo, os desenhos das janelas todos<br />

muito parecidos com os desenhos do portal.<br />

- Meu deus. – Disse Rodrigo. - Mas esta cidade deve ter custado uma fortuna!<br />

Será que eu posso fazer a festa do meu aniversário aqui?<br />

Mordehay, porém, não respondeu, estava tão boquiaberto com as construções<br />

que nem conseguiu prestar atenção no que Rodrigo havia falado. Andaram muito,<br />

perceberam todos os malabarismos arquitetônicos de que era feita a cidadela.<br />

- Meu, – Disse Mordehay – os caras tiveram a manha de plantar somente um<br />

tipo de árvore e que por mais incrível que possa parecer são árvores brancas!<br />

- E olhe os vasos Mordehay! E você reparou que tudo aqui tem este símbolo<br />

que está no seu peito?<br />

Mordehay então parou e olhou assustado para Rodrigo.<br />

- E você reparou que nesta cidade não mora ninguém?<br />

- Como você sabe?<br />

Mas então ouviu-se um estardalhar de vozes, como se as pessoas surgissem<br />

do nada.<br />

- Meu espere um pouco! – Disse Mordehay.<br />

- Mordehay. Você não está pensando o que eu estou pensando, né?<br />

- Espero que não, mas o que você está pensando?<br />

Então para total histeria do Rodrigo, surgiu logo ali na frente uma loja da<br />

Prada Azkenadzya. Rodrigo soltou um berro e as pessoas que andavam em volta deles<br />

começaram a repará-los. Rodrigo pegou a mão de Mordehay que não se mexia perante<br />

aos pensamentos que estavam borbulhando em sua cabeça e falou quase que histericamente<br />

puxando Mordehay.<br />

- Eu quero ir na loja da Prada agora!<br />

Eles saíram correndo bem na hora em que alguns passantes começavam a reconhecê-los.<br />

Entraram na loja. Rodrigo estava completamente eufórico. Logo uma<br />

recepcionista veio atendê-los porém, ela quase teve um ataque, ou melhor, teve um<br />

ataque quando os viu. O gerente da loja veio correndo com mais alguns atendentes<br />

para ver o que ocorria, mas tão logo perceberam quem havia entrado na loja,<br />

começaram a balbuciar estarrecidos olhando para os dois, que ficaram petrificados<br />

com tal comportamento.<br />

Foi o gerente, ou o suposto gerente, que conseguiu, após algum tempo falar<br />

alguma coisa, do tipo:<br />

- Nós não estávamos esperando pelos senhores, mas, meu deus, ou melhor,<br />

mas são eles, mesmo? – Perguntava rapidamente para a atendente. – Como vieram, ou<br />

melhor, como podemos servi-los?<br />

Rodrigo logo saltou a frente de Mordehay e disse para o gerente, tomando a<br />

mão dele, que queria ver tudo. O gerente quase teve outro ataque ao sentir que Ro-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

drigo pegava em sua mão.<br />

Mas Mordehay foi para uma das pequenas janelas da loja e viu uma imensa<br />

multidão se formando na porta da loja. Mordehay olhou para trás e viu que três atendentes<br />

ainda olhavam atônitos para ele.<br />

- Mas porque estas pessoas estão se aglomerando aí fora? – Perguntou Mordehay<br />

olhando novamente para os atendentes.<br />

- O senhor, digo, posso lhe chamar de senhor? – Perguntou a atendente.<br />

- Sim, claro, ou melhor, lógico que não! O senhor está no céu. – Falou Mordehay<br />

olhando para fora de novo não notando a palidez dos funcionários da loja.<br />

- No, no céu? – Perguntou a atendente.<br />

- Sim, sim no céu, lá em cima. Você pode me chamar de você, e não pense que<br />

eu tenho dinheiro aqui comigo para comprar qualquer coisa, o Rodrigo adora ficar<br />

olhando as roupas e provando tudo, mas é só para incomodar vocês.<br />

A atendente estava mais estarrecida ainda. Mordehay olhava ainda para fora,<br />

então a atendente falou:<br />

- O senhor, quero dizer, vô...você é Mordehay, não é?<br />

- Sim, eu mesmo. – Disse Mordehay ainda olhando pela janela. – Meu, mas<br />

o que está acontecendo aqui? Agora chegou a polícia montada! Será que vieram me<br />

prender?<br />

Os atendentes riram constrangidos, a porta da frente da loja começou a abrir.<br />

Logo a atendente foi correndo para lá e com muito esforço fechou-a dizendo.<br />

- Estamos fechados, estamos fechados.<br />

Mordehay olhou para ela, atônito.<br />

- Como assim estamos fechados se eu e o Ro acabamos de entrar?<br />

A atendente olhou para Mordehay e falou muito seriamente.<br />

- Você é Mordehay, o guerreiro? Mordehay o justo? Mordehay o fundador? O<br />

pregador, O Anjo, O Deus Mordehay? O que criou este mundo? Me diga, pois em seu<br />

peito está encravado o amuleto Azkenadzy, e tem uma estátua tua em cada praça de<br />

cada cidade de Azkenadya e todas elas refletem você e apenas você.<br />

Mordehay olhou para ela, abismado.<br />

- Deus? Você está achando que eu sou um deus? – Mordehay só não riu pois<br />

a cara da mulher era de tal espanto e perplexidade que ninguém no mundo iria achar<br />

que ela estava brincando.<br />

Então Mordehay gritou.<br />

- Rodrigo! Rodrigo! Venha aqui já!<br />

Rodrigo veio correndo pois os berros de Mordehay eram avassaladores, mas<br />

Rodrigo estava enfiado em um casaco de peles branco tão espalhafatoso que Mordehay<br />

teve que rir.<br />

- Que foi não gostou? – Perguntou Rodrigo indignado.<br />

- Meu! Olhe pra fora e veja o alvoroço que esta aí na frente, e sabe porque?<br />

- Ai não me diga que a Hanna Montana está vindo pra loja, eu não saio daqui<br />

se ela estiver vindo pra cá.<br />

- Rodrigo esses caras acham que eu sou um deus! Eles acham que fui eu que


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fundei esse lugar que chamam de Azkenadzya, e se você quer saber, acho que fui eu<br />

mesmo! Lembra do que eu te disse na cabana na encosta do abismo, de como eu podia<br />

manipular este lugar?<br />

- Tá. Agora você quer que eu acredite que você construiu esta cidade? Com<br />

esta loja da Prada e tudo?<br />

Mordehay ainda pensou. Os atendentes estavam abismados com o que os dois<br />

estavam falando. Alguém bateu fortemente na porta. Um dos atendentes falou:<br />

- Acho melhor vocês discutirem isto depois, eles vão enlouquecer daqui a<br />

pouco; tem uma saída pelos fundos.<br />

- Posso levar este casaco? – Perguntou Rodrigo para Mordehay. Mordehay<br />

olhou para os atendentes.<br />

- Claro, claro! – Disse o gerente. – Venham por aqui. – Falou rapidamente,<br />

tinha o rosto mais pálido do que o branco do casaco.<br />

Mordehay e Rodrigo saíram apressados. O fundo da loja dava para um beco<br />

que no final tinha uma pequena escada.<br />

- Subam as escadas, vocês irão pelas trilhas que dão no pé da montanha. Corram<br />

e voltem sempre, foi um prazer servir a vocês.<br />

- Obrigado. – Disse Rodrigo. Mas Mordehay já corria para as escadas.<br />

Ao chegarem aos primeiros degraus, Mordehay olhou para Rodrigo e disse:<br />

- Quer saber o que vai acontecer?<br />

- O que?<br />

- Nós vamos subir estas escadas e Delirium estará nos esperando lá em cima<br />

da montanha.<br />

- Como você sabe?<br />

- Porque eu sei. Assim como eu sei que esta cidadela é prateada e preto porque<br />

eu adoro prata e preto, então ela surgiu assim.<br />

- Surgiu assim Mordehay? Ela estava assim a anos, e como poderia ter uma<br />

loja da Prada inteira montada em uma cidade que acabou de surgir e ainda da tua cabeça?<br />

Mordehay pensou um pouco.<br />

- Você já conhecia esta marca? Prada?<br />

- Claro que sim, né Mordehay.<br />

- Você fez com que eu a fizesse, foi teu desejo que foi passado a mim.<br />

- Ah tá!<br />

Mas eles já estavam no final da escada e, com efeito, lá em cima, por trás dos<br />

prédios da cidadela de prata havia um dragão negro imenso.<br />

Rodrigo parou atordoado ante aquela visão.<br />

- Eu não disse, Ro? Agora vamos ver o que vamos fazer nesta porra! Meu que<br />

caralho, um deus? Eu nunca quis ser isso. E se algum engraçadinho um dia escrever<br />

que eu to morto?<br />

- Porque alguém iria escrever isso?<br />

- Nada, Ro, nada. Vamos sair daqui, quero ver como é essa cidade por cima,<br />

vai que eu fiz um castelo pra nós...<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Obviamente que Mordehay sabia que existiria um castelo, mas no momento<br />

em que Delirium levantou voo eles viram que, fosse lá o que Mordehay tinha em<br />

sua mente, nem ele nem Rodrigo poderiam imaginar que seria algo tão complexo. A<br />

cidade era algo descomunal. Ela se estendia pelos vales e parecia ser interminável.<br />

Margeava as montanhas e às vezes subia aqui e acolá um pouco nas mesmas, mas<br />

nunca muito alto. As casas e prédios pareciam geminados, tamanha a semelhança<br />

entre um e outro; tinham telhados pontudos, todos negros, como as pedras das ruas<br />

que agora a multidão tomava ensandecida, olhando para os céus para ver o dragão do<br />

seu “personal deus” passar junto a seu anjo favorito. Mordehay e Rodrigo sentiram<br />

um calafrio maior ainda, se é que isto seria possível, ao avistarem logo adiante, acima<br />

de um pequeno morro uma construção realmente atordoante. Não se tratava de um<br />

castelo propriamente dito, mas, talvez, centenas deles formando um círculo que era<br />

o cume deste morro. Mordehay sobrevoou este círculo algumas vezes e foi pousando<br />

perplexo com as enormes esculturas que o circundavam. Pousaram então bem no centro<br />

do círculo no qual estava desenhado, com pedras negras e pratas, o símbolo que<br />

era o amuleto Azkenadzy.<br />

Ao descerem do dragão Delirium, avistaram uma imensa tropa de soldados ao<br />

seu redor. Todos montavam cavalos magníficos e logo atrás vinha outra tropa de soldados<br />

montados em dragões azuis. Mordehay passou o olho por todos eles e logo viu,<br />

ainda muito abismado, um ser pequeno que carregava um estandarte prateado com o<br />

símbolo Azkenadzy estampado em preto. Era um menino loiro de cabelos imensos<br />

que agora vinha em direção a eles, marchando a passos largos, com um olhar forte e os<br />

cabelos voando ao vento que ali se fazia. Estava vestido com mantos negros e prateados,<br />

ao chegar a uns dez passos de Mordehay e Rodrigo, olhou para os dois agora com<br />

o olhar assombrado e vociferou com uma voz rouca de criança.<br />

- Sou Salomão III, neto de Salomão que lutou com Mordehay e Azkin nas<br />

guerras contra os Nadzym.<br />

Mordehay olhou atônito para o pequeno ser ali diante dele. Poderia ter uns onze<br />

talvez doze anos de idade. Mas o que realmente atordoou Mordehay foi o que aquele<br />

pequeno ser acabara de falar! “Neto de Salomão! Mas a guerra contra os Nadzym foi<br />

há alguns dias! E Salomão era apenas um rapaz quando isso ocorreu, como iria ter<br />

um neto?” Então Mordehay teve que improvisar, pois não caberia a ele explicar que<br />

a guerra fora tão recente e que eles, aqueles seres, eram apenas alguma manifestação<br />

do seu inconsciente, que agora, Mordehay notara, ser mais absurdo do que jamais<br />

sonhara. Então falou:<br />

- E eu sou Mordehay, o guerreiro, e este é Rodrigo, anjo escudeiro.<br />

Rodrigo segurou o riso, pois imaginara que Mordehay não tinha pensado nem<br />

por um minuto que a frase soaria com rima, e que fosse tão ridícula.<br />

Mas a frase dita por Mordehay causou efeito pois todos os soldados e até mesmo<br />

Salomão olhava-nos com uma reverência doentia. “Meu, isto tá ficando casa vez<br />

mais absurdo!” Pensou Mordehay. Mas então Salomão falou:<br />

- Esta é sua casa ó Mordehay, seja bem-vindo. – Assim abriu-se um caminho<br />

por entre os soldados e Salomão III estendeu a mão para a passagem dos dois. Morde-


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

hay e Rodrigo foram andando, mas logo Mordehay olhou para Delirium que o fitava<br />

com uma cara de Ta-vendo-bem-feito-queria-dar-uma-de-bom-agora-quero-ver-como-vai-se-sair-sendo-deus-desses-malucos!<br />

Mordehay olhou para frente de novo pensando. “Maldito dragão filho da puta,<br />

só pra me deixar mais preocupado. Meu, só quero ver o que esses caras vão me explicar<br />

sobre tudo isso!” Rodrigo, por outro lado, estava nas nuvens.<br />

Andaram sendo seguidos por Salomão III que passou o estandarte para um<br />

soldado. Logo dois soldados entraram na frente dos dois fazendo uma reverência e<br />

começaram a conduzi-los. Andaram por intermináveis corredores até chegarem em<br />

um imenso salão que deixava ver a cidadela de prata lá em baixo por todos os lados.<br />

Todos os soldados saíram e ficou apenas Salomão III, Mordehay e Rodrigo. Foram<br />

para o centro do salão e sentaram-se em almofadas gigantescas. Ao lado delas havia<br />

algumas jarras de vinho e chás com várias taças. Algumas nozes descansavam em<br />

pratos de prata. Salomão III olhou muito sério para Mordehay.<br />

- Sua visita é uma honra, Mordehay. Mas devo perguntar o que traz aqui, são<br />

tempos calmos.<br />

Mordehay teve o ímpeto de dizer algo para aliviar Salomão III, mas sentiu que<br />

deveria conduzir a conversa por outro caminho.<br />

- Preciso de informações Salomão III. Peço que me conte, por mais que você<br />

ache que eu saiba, a história desde a guerra com os Nadzym.<br />

Salomão o olhava assustado. Parecia que Mordehay fizera uma pergunta errada,<br />

mas logo soube do que se tratava o desconforto de Salomão III.<br />

- Seria um teste, Mordehay? Deveria eu estar melhor informado sobre nossa<br />

história?<br />

- Em absoluto, Salomão III, apenas pressinto mudanças em nossas terras e<br />

preciso saber as teias de nossa história vinda de você, para que eu possa questionar<br />

nosso futuro.<br />

- Questionar nosso futuro... – Falou Salomão III para si mesmo, visivelmente<br />

alarmado. Mas então levantou o rosto e disse:<br />

- Algo com que eu deva me preocupar, Mordehay?<br />

- Por enquanto não, Salomão. Apenas relate os fatos.<br />

- Muito bem, mas vou fazer isso de uma maneira mais confortável. Peguem<br />

uma taça de vinho e me sigam. Você, obviamente, conhece esta sala, mas vamos para<br />

lá de novo, pois se quer ouvir nossa história faremos isso de modo mais ilustrativo.<br />

E, com efeito, iriam mesmo.<br />

O Fazedor de Sonhos<br />

Mordehay poderia jurar por tudo que era-lhe mais sagrado que nunca estivera<br />

naquela sala, na verdade não era bem uma sala, mas um corredor bem largo e de comprimento<br />

inimaginável, pois eles não conseguiam ver o fim. O que Salomão III agora<br />

mostrava eram pinturas enormes nas paredes deste corredor, e começara a falar sobre<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

o nascimento de Azkenadzya, o qual tanto Mordehay quanto Rodrigo acharam muito<br />

estranho pois eram palavras sem nexo, algo como o nascimento do mundo e outras<br />

coisas que não faziam muito sentido. Andavam e para cada pintura que passavam<br />

acendia uma luz sabe-se lá vinda de onde, mas que causava uma impressão fantástica<br />

a cada quadro. Eram quadros abstratos que, como nas histórias de Salomão III, não<br />

tinham significado nenhum. Até que Salomão III parou diante de um.<br />

Aqui Mordehay, é onde você surge. Mordehay ficou realmente muito impressionado,<br />

pois ele mesmo, em sua outra vida, fora uma espécie de pintor, não que fosse<br />

muito bom, muito menos reconhecido, na verdade era quase desconhecido, mas se<br />

vangloriava infinitamente de possuir uma técnica própria que ninguém conseguiria<br />

imitar. E desta forma ficou muito abismado em ver que as telas que Salomão III mostrava<br />

eram exatamente feitas com a sua tão estimada e secreta técnica.<br />

“Não pode ser”, pensou, “eu não pintei estes quadros, mas no entanto quem<br />

poderia ter pintado utilizando-se de minha técnica? Isso seria impossível!”<br />

As primeiras telas eram o encontro da gangue de Mordehay com Salomão, e<br />

iam passando, conforme a história transcorreu, até que eles ganharam a guerra contra<br />

os Nadzym, até aí Mordehay conseguia visualizar toda a história, pois estava dentro<br />

de seu subconsciente, porém daí em diante a coisa começou a se complicar.<br />

Salomão III começou a narrar de forma muito rápida, mas ainda mostrando<br />

cada momento importante nas figuras dos quadros o que poderia ser uma história<br />

de quase, ou talvez mais de cem anos, desde a coroação de Salomão I como rei de<br />

Azkenadzya, do desaparecimento de Mordehay do plano visível, mas que aparecia<br />

frequentemente nos sonhos de Salomão I, II, e III dando ordens de como deveria ser<br />

construída uma nova Azkenadzya, segundo especificações milimétricas do próprio<br />

Mordehay. Os anos passaram-se sem guerras nem conflitos, apenas Azkenadzya<br />

prosseguiu se expandindo como um mundo de sonhos que realmente era. No entanto<br />

Mordehay estava realmente aflito. Como ele sozinho poderia ter imaginado tal mundo,<br />

com todas estas cidades maravilhosas, com estas lojas e todo este glamour, que para<br />

ele nem significava muito? Na verdade ele até achava muito bonitas estas cidades,<br />

em certo sentido, mas um tanto eufóricas demais, talvez até bonitas demais para seu<br />

gosto, pareciam passarelas de moda onde as pessoas poderiam morar!<br />

“Não, não!” - pensou Mordehay “Isso aí não tem só minha assinatura! Bem, os<br />

quadros, pode ser, mas este mundo tão artificialmente belo, eu não poderia ter criado,<br />

pelo menos não sozinho.” Então olhou para o lado e viu que Rodrigo estava eufórico,<br />

estava realmente enlouquecido com este mundo que ali se mostrava em telas pintadas<br />

a óleo.<br />

“Então é isso.” Pensou Mordehay. “Este menino tem, imagino que sem saber,<br />

um poder absurdo sobre mim. E que enquanto estávamos na cabana na encosta do<br />

abismo, ou até mesmo quando estávamos vindo para cá voando por terras virgens, ele<br />

despertou seus sonhos sobre mim e moldou estas cidades e seres que, com um pouco<br />

das minhas próprias vontades estéticas e obviamente minha ajuda, foram se materializando.<br />

Só posso pensar que isto é fantástico. E assustador.”<br />

Mordehay resolveu fazer um pequeno teste.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Rodrigo? – Perguntou Mordehay.<br />

- Sim?<br />

- O que você acha de nós bebermos alguma coisa, tipo um suco ou quem sabe<br />

um café, pela cidade, assim nós poderíamos entrar em contato com tudo isso que você<br />

está vendo nestas pinturas.<br />

O rosto de Rodrigo se iluminou.<br />

- Mas é claro! Imagino que a gente possa ir em um Starbucks. Deve ter um por<br />

aqui não deve?<br />

- Mas é claro que tem! – Disse Salomão III eufórico. – Praticamente um em<br />

cada esquina!<br />

Assim o teste estava feito e consumado! Obviamente que há cinco segundos<br />

atrás não havia nem cheiro de um coffee shop qualquer quem dirá de um Starbucks!<br />

Eles saíram eufóricos da sala das pinturas e seguiram pelo castelo. Rodrigo<br />

estava quase em prantos diante de tudo o que via. Mordehay no entanto observava introspectivamente,<br />

avaliando o que poderia ser seu ali e o que poderia ter sido domado,<br />

em seu interior, por este fazedor de sonhos que era este seu novo e poderoso amigo.<br />

Mordehay estava preocupado. “Até quanto este seu amigo podia manipulá-lo?” Pensou<br />

cabisbaixo. Mas uma voz veio de dentro de si mesmo. “Até quanto ele quiser,<br />

idiota, você está apaixonado, e ninguém, nem você mesmo poderá detê-lo; só não<br />

demonstre esta sua fraqueza para ele, senão você está fodido!”<br />

E realmente estava. Quando saíram do castelo aquela cidade já estava mudada,<br />

existia algo de cor-de-rosa por onde passavam. Uma estética quase adolescente poderia<br />

ser sentida ali. Andavam em uma carruagem cercada por um séquito de seguranças<br />

a cavalo. Todo o povo estava agora acenando à medida que passavam. Salomão III<br />

já não era mais aquela criança séria que eles encontraram lá em cima no castelo, mas<br />

parecia ser um velho amigo de escola do Rodrigo. Mordehay ficou cada vez mais<br />

soturno e preocupado. Poderia seu mundo, sua identidade, seu bom senso, descambar<br />

diante de tal sentimento? Poderia Rodrigo realmente manipular seu ser e seus sentimentos<br />

desta forma?<br />

Mordehay olhava para fora da carruagem e percebia que nem tudo estava perdido,<br />

os prédios continuavam sendo negros e prata, assim como as ruas. “Então alguma<br />

coisa ainda permanece.” - Pensou “o que poderia acontecer para que isto pudesse<br />

ser mudado? Como posso sair desta enrascada que o destino me trouxe junto a este<br />

Rodrigo?”<br />

Mal sabia ele que logo tudo isso mudaria da maneira mais louca e imprevisível<br />

possível.<br />

O Trans Universo Imperial<br />

Por mais que desejasse Pan noa não teve muito tempo para se exibir com a<br />

nave.<br />

Voou direto para a sala de comando. Mesmo assim seus convidados estavam<br />

sem ar. As mícron aves pousaram no grande salão que era a sala de comandos do trans<br />

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Marcelo Paciornik<br />

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universo imperial. Enquanto Tawan, Larissa, Arthur, Juan, Azkim e Japa olhavam<br />

estarrecidos para a sala de comandos, Pan noa não perdeu tempo, foi diretamente para<br />

a cadeira central e começou a falar com a nave.<br />

- Kenn, preciso de um relatório urgente.<br />

- Sim, Pan noa o relatório é de Be. Ela que mandou o trans universo para este<br />

aqui e agora.<br />

Pan noa pensou em milhares de coisas ao receber esta notícia, mas logo a voz<br />

de Be ecoou dentro da sala de comandos.<br />

- Pan. – Todos agora ouviam a linda voz da menina que era a namorada de Pan<br />

noa. – Quando você sumiu, eu e Ing-mar tivemos que fazer algumas coisinhas por<br />

aqui. Sabíamos de antemão quem poderia estar por trás de teu rapto, sim, Pan, sabíamos<br />

que você fora raptado pois sua pérola cubo nos enviou um pedido de socorro no<br />

último momento de você ser transferido via espaço-tempo. Da mesma forma a pérola<br />

cubo nos informou quem o havia raptado. Imediatamente conseguimos capturar um<br />

dos seus captores. Eles se autodenominam Guardiões do Destino e estão em cumplicidade<br />

com o povo da Deusa-Flor, aquela que você derrotou e quer de qualquer<br />

maneira desfazer este ocorrido. Eles imaginaram que para fazer isso deveriam atacar<br />

a civilização anterior à civilização do Mago de Prata, isto é o Planeta Azul antes da<br />

eco revolta. Eles mandaram uma Androida Andrógina para lá, ou melhor, para aonde<br />

você está agora. Não imagino o que ela possa fazer para destruir esta civilização, mas<br />

mandaram você para esta civilização no tempo em que esta seria destruída, portanto<br />

você iria ser destruído junto. Tenho certeza que nossa ajuda chegou a tempo Pan, pois<br />

o Guardião do Destino não iria nos enganar visto que estamos com uma arma que<br />

pode destruir toda esta corja! Pan, não confie neles, se eles aparecerem tente despistálos,<br />

só nós aqui no Império, podemos controlá-los pois temos esta arma que deve ficar<br />

em segredo. Nem a você podemos contar o que ela é. Pan, tem mais uma coisa: não sei<br />

como fazer para você voltar. Suas coordenadas de espaço-tempo estão com Kenn, assim<br />

como as coordenadas que o Guardião nos deu para você ir para um lugar chamado<br />

Azkenadzya, não sei bem o que é isso Pan, mas por favor. – Agora a voz de Be se traia<br />

pois ela mesma estava em prantos. – Volte Pan, volte, não temos muito mais tempo<br />

devo mandar o trans universo agora, pois estamos perdendo a conexão que o Guardião<br />

do Destino abriu para nós... Adeus.<br />

Pan noa chorava. Todos os outros o olhavam em silêncio. Mesmo chorando<br />

Pan noa começou a trabalhar sem dar muita atenção aos outros. Eles estavam paralisados<br />

com tudo aquilo e Pan noa não queria perder tempo com explicações, no entanto,<br />

pediu comida e bebida a Kenn. Logo surgiram sanduíches em uma mesa e eles se<br />

dirigiram para lá enquanto Pan noa continuava a trabalhar. Junto à mensagem de Be<br />

havia as coordenadas para que o trans universo imperial pudesse ir para Azkenadzya.<br />

Pan noa parou abismado diante das coordenadas e falou para si mesmo “Mas isso é<br />

impossível! Estas coordenadas estão erradas! Não conseguiremos ir para este lugar se<br />

é que isso é um lugar...” Começou a tentar entrar com as coordenadas nos codificadores<br />

da nave, nada acontecia.<br />

Neste momento, Tawan que estava com um copo de alguma bebida na mão


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

resolveu sair da sala de controle. Não estava gostando do que estava acontecendo e<br />

ele mesmo não se sentia bem ali; parecia que algo ou alguém o chamava para fora<br />

da sala. Quando saiu da sala viu que lá em baixo, no saguão principal havia milhares<br />

daqueles seres, aquelas travecas góticas que ele tanto odiava. Tentou entrar de novo na<br />

sala de controle, mas as portas estavam trancadas. Teve um espasmo de medo e olhou<br />

de novo, assustado, para trás. O guardião Vitório estava a olhá-lo com um semblante<br />

assustador. A nave toda deu um solavanco e Tawan quase caiu.<br />

- Agora, Tawan, você faz parte do nosso séquito. – Disse Vitório. – Graças a<br />

você poderemos entrar em Azkenadzia de novo, com um poder absoluto. Você traiu a<br />

todos, inclusive seu tão grande amigo Mordehay.<br />

Tawan o olhava assustado. – Mas eu não traí ninguém. Eu não trouxe vocês<br />

para cá.<br />

- Ah pequeno Tawan... – Disse Vitório sorrindo – trouxe sim, dentro de sua<br />

cabecinha idiota nós viemos, e graças a ela vamos terminar nosso trabalho, vamos<br />

exterminar com os seres que começaram com tudo isso, pois agora já estamos amaldiçoados<br />

e podemos interferir em suas vidas.<br />

Tawan olhou para baixo e pensou, “será que não era isso que eu queria o tempo<br />

todo?”<br />

A sala de controle em Azkenadzya.<br />

Logo que Tawan saiu da sala de controle Pan noa entrou com os códigos das<br />

coordenadas que iria transferir o trans universo imperial para Azkenadzya, ele não<br />

estava acreditando muito naquilo pois os parâmetros eram absurdos. Mas a nave deu<br />

um solavanco. Era curioso. Não. Era ridículo, a nave estava acima de uma vasta área<br />

plana em meio a um universo desconhecido. Pan noa olhava aquilo abismado. Estava<br />

de novo em Azkenadzya só que agora com uma das naves mais poderosas que o ser<br />

humano já construíra. Parada em uma órbita inexistente, pois aquilo era um planeta<br />

plano. Os outros esqueceram dos sanduíches e das bebidas oferecidas por Pan noa e<br />

olharam primeiro para sua cara, a qual estava pasma, e logo para os enormes monitores<br />

da sala de controle.<br />

- Meu! – Disse Arthur. – Meu! Que porra é essa?<br />

- É Azkenadzya Arthur, é o lugar onde nós estávamos ainda há pouco, só que<br />

visto de cima.<br />

- Que caralho. – Disse o Japa. – Nunca na vida eu precisei tanto de uma cerveja.<br />

Logo Kenn fez subir uma cerveja em cima da mesa onde estavam os sanduíches.<br />

- Kenn. – Disse Pan noa. – Procedimento padrão. Vamos desconectar a sala<br />

de controle da nave, iremos pousar a sala de controle em Azkenadzya, nosso objetivo<br />

é resgatar Mordehay e Rodrigo, e logo depois destruir Azkenadzya por completo,<br />

utilize tudo o que temos de armamentos para isso. Este mundo deve ser destruído<br />

imediatamente, to com o saco cheio dessa porra.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Sim Pan noa todos os parâmetros da nave estão em procedimento de ataque.<br />

- Temos as coordenadas para voltar ao plano material? A órbita do Planeta<br />

Azul?<br />

- Sim Pan noa, fiz uma análise das coordenadas e elas conferem. Poderemos<br />

voltar facilmente para a órbita do Planeta Azul (verde) assim que a missão estiver<br />

completada.<br />

A sala de controle separou-se do trans universo imperial e começou a descer<br />

para Azkenadzya.<br />

- Kenn. Localize qualquer tipo de vida humana.<br />

- Sim Pan noa. Já localizei ela está no centro do cemitério.<br />

- Cemitério? – Perguntou Pan noa.<br />

- Sim Pan noa. Neste momento Azkenadzya inteira é um imenso cemitério.<br />

Lá estão enterradas, segundo os códigos captados pela nave, todas as pessoas que já<br />

morreram na face do Planeta Azul.<br />

- Meu Deus. – Disse Pan noa.<br />

- Meu caralho. - Disse o Japa.<br />

- Mas isso é realmente Possível? – Perguntou Larissa.<br />

- Do que vocês estão falando? – Perguntou o gordo Juan.<br />

- São todas as pessoas que já morreram desde os inícios dos tempos? – Perguntou<br />

Azkim.<br />

- Aonde esta Tawan? – Perguntou o Japa.<br />

- Está na nave junto a um séquito enorme de seres semimateriais. Cálculo que<br />

seja o que vocês chamam de Guardiões do Destino. – Disse Kenn.<br />

- Meu!<br />

- Travequinha filho da puta. – Disse Juan.<br />

- Calma. – Disse Pan noa. – Vamos continuar com o procedimento. – Eles<br />

agora são seres materiais pois se solidificaram na nave. E eu controlo tudo o que<br />

ocorre dentro da nave através da sala de comando.<br />

A sala de comando voava para o centro do grande cemitério que era agora<br />

Azkenadzya, enquanto Tawan e milhares de Guardiões do Destino estavam no trans<br />

universo imperial.<br />

O Cemitério Azkenadzya.<br />

A sala de controle pousou em frente ao que poderia ser uma capela, talvez uma<br />

pequena igreja, melhor dizendo uma pequena e Rústica sinagoga. Mas era o único<br />

lugar onde poderia ser pousada, pois no cemitério não existia lugar nem para uma<br />

agulha. Era um emaranhado de túmulos sem fim. Se amontoavam desordenadamente,<br />

num caos absoluto. O céu era negro, sem estrelas, sem lua, a luz emanava só e somente<br />

só, dos túmulos. Quando saíram da sala de controle sentiram um frio absurdo.<br />

Um medo, um pavor. Não obviamente das pessoas mortas, mas do lugar. O lugar era<br />

pavoroso, era o antagonismo da vida, a morte imperava ali. (e só ela!). Eles respiraram


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

fundo e não sentiram nada. Nada havia ali. Apenas o lugar e, tão-somente o lugar.<br />

Neste momento Juan caiu. Pois este lugar não aceitava pessoas fracas, sejam elas de<br />

espírito ou de alma. E assim ele morreu pois neste mundo os fracos deveriam padecer.<br />

Os outros olharam para o enorme corpo de Juan ali caído, se olharam e o deixaram<br />

pois eles sabiam que nada poderiam fazer, deveriam seguir em frente e deixar aquele<br />

cadáver asqueroso ali, sim, eles sentiram que aquele cadáver era asqueroso pois ele<br />

era, e aquele mundo sabia disso e mostrava de alguma forma para eles. Nem por um<br />

momento sentiram a presença de Tawan no local. Na verdade fora ele, Tawan, que<br />

matara Juan, e fizera os outros sentirem asco daquele grande e gordo amigo que era<br />

Juan.<br />

- Vamos. – Disse Japa com a cabeça erguida. – Nada podemos fazer por este<br />

ser que nos enganou até agora.<br />

- Ele sempre foi um idiota. – Disse Azkin.<br />

- Sim. Um grande e gordo covarde. – Disse Larissa.<br />

- Que vá para o inferno. – Disse Arthur.<br />

- Nem o diabo em pessoa vai gostar dele. – Disse Pan noa.<br />

E assim foram pelo cemitério infindável agora sem ter que carregar este fardo<br />

imenso e imbecil que era este Juan.<br />

Sabiam de antemão que deveriam ir para o centro do cemitério, que era o centro<br />

de Azkenadzya, pois era ali que Kenn havia localizado a única pessoa viva neste<br />

mundo. Kenn mandava via pérola cubo, o caminho que deveriam seguir. Não foi nada<br />

fácil pois a trilha era mínima por entre os túmulos e cada vez eles tinham que escalar<br />

alguns dos túmulos como se estivessem em um labirinto cadavérico.<br />

Azkenadzya<br />

Mordehay olhava para Rodrigo abismado. “Como este ser, este pequeno ser,<br />

culturalmente medíocre, este ser, visivelmente incapacitado, diminuto, anacrônico,<br />

pode ter tamanha força sobre mim?” Mordehay olhou para a cidadela a se transformar,<br />

conforme a vontade daquele pequeno ser. “Muito bem Mordehay, vamos começar a<br />

ajeitar as coisas por aqui.” Mordehay olhou para Rodrigo e aquele Salomão III, de<br />

mãos dadas. Mordehay fora afastado de seu próprio mundo. Foi banido. Rodrigo apenas<br />

se aproveitava daquele mundo que era de Mordehay por direito, ele era um ladrão,<br />

um abutre. Mordehay resolveu então, através de uma força enorme, a qual, veio de<br />

dentro de sua alma expulsar Rodrigo de seu mundo, expulsar Rodrigo de Azkenadzya,<br />

expulsar Rodrigo de sua existência. “Que volte para a Brasilândia que é o seu lugar.<br />

Aonde nasceu e aonde irá morrer, num bairro imundo numa cidade imunda.”<br />

E ao fazê-lo, ao expulsar Rodrigo, Mordehay caiu em cima de seu próprio<br />

túmulo, por entre o enorme cemitério onde todas as pessoas que já existiram na face<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

da terra estavam enterradas. E lá ficou em posição fetal num frio abismal, em cima da<br />

lápide negra, sua própria lápide, pois já nada mais poderia fazer, o que ele tirou dele<br />

mesmo foi sua própria alma, e ele deveria estar ali dentro daquela lápide enterrado e<br />

não ali em cima vivendo como uma pessoa que não tinha mais razão para isso.<br />

O reencontro com Mordehay<br />

Pan noa, Larissa, Arthur, Azkin e Japa estavam atordoados. A visão de um<br />

imenso Mordehay, envolto em panos negros deitado em cima de uma lápide negra<br />

exatamente no centro de um cemitério de proporções abismais, deitado em posição<br />

fetal era no mínimo alarmante. Eles sentiram pena? Quem sabe? Mais que isso talvez.<br />

Quem ali deveria ir primeiro tocá-lo, acordá-lo? Quem deveria chamá-lo? Ele estaria<br />

morto? Claro que não. Se estivesse Azkenadzya não estaria ali. Porém nenhum foi.<br />

Mordehay levantou-se sozinho e olhou para eles ali parados com medo, mas fascinados.<br />

- Por mais que você possa estar triste, por qualquer razão que seja, acho que<br />

isso é um exagero, não é Mordehay? – Falou o Japa.<br />

- Aonde está o Rodriguinho? – Perguntou Larissa.<br />

Mordehay olhou-a com raiva. E respondeu.<br />

- Aonde deveria sempre ter estado e nunca ter saído. Na Brasilândia.<br />

- Ha! – Riu Arthur. – Bem a cara dele!<br />

- Mordehay – Falou Pan noa - não entendendo de quem estavam falando e<br />

nem o porque de tudo aquilo. – Devemos sair deste local. Está mais do que na hora de<br />

destruí-lo.<br />

Mordehay ainda estava sentado na lápide. Suas feições estavam envelhecidas,<br />

olhou para Pan noa e disse sarcasticamente.<br />

- E voltar para Calum br. Seu planetinha querido? Muito conveniente, não é<br />

Pan noa?<br />

- Mordehay – Disse Japa seriamente – Já chega. Vamos embora. Esse lugar<br />

nunca deveria ter existido.<br />

- É, eu sei. Vamos nessa então. To precisando tomar uma cerveja no mundo<br />

real. Com pessoas reais, e de repente a gente não pega um teco ali na pizzaria? Já to<br />

cagando pra tudo isso. Que se foda essa merda.<br />

Levantou-se e chegou mais perto dos amigos, mas eles viam que seu olhar era<br />

de tristeza...da mais aterradora tristeza. Pensava, porém, como seria bom ir para sua<br />

casa, ir até a Vieira de Carvalho e tomar umas boas cervas com o Japa. Mas então viuse<br />

cercado, não só ele, mas todos eles, porque em meio aos túmulos apareceram os<br />

guardiões do destino, todos eles, milhares deles. Logo ali na frente o guardião Tibério<br />

estava ao lado de um muito arrogante Tawan a olhá-los. Tibério logo disse:<br />

- Belo lugar para morrer, não é Mordehay?<br />

Mordehay deu alguns passos para trás, estava assustado. “Uma invasão assim<br />

inesperada em meu mundo? Como poderia?” Mordehay olhou para o chão do<br />

cemitério sem saber o que fazer. Ainda caminhando para trás tropeçou em seu próprio


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

túmulo. Vitório com uma rapidez incompreensível tomou sua adaga de Tawan, agarrou<br />

Pan noa e posicionou sua adaga em seu pescoço.<br />

- Sem truques de sua roupa protetora, pois agora nós domamos esta realidade.<br />

Logo os outros Guardiões do destino agarraram cada amigo de Mordehay, todos<br />

eles com suas adagas inclusive Tawan.<br />

- Ei maricona do caralho!<br />

- Cale-se pequeno fedelho. – Disse Tibério – Vocês pagarão com a vida por<br />

terem nos transformado em seres malditos. Nós teremos nossa vingança. E teremos<br />

nossa recompensa perante os seres superiores.<br />

Mordehay lutava contra si mesmo, onde estavam suas forças? Onde foi seu<br />

poder? Como estes seres podiam controlar aquilo que era seu? Então a resposta veio<br />

de imediato. Rodrigo. Sim ao expulsar Rodrigo de sua alma esta se cansou assim<br />

como sua vontade de viver e portanto todo o seu poder. “Mas calma, eu expulsei<br />

Rodrigo deste lugar, por ele ser um chato, um arrogante, mas sabia ele o que estava<br />

fazendo? Não amava ainda Mordehay e estava apenas desfrutando daquilo que Mordehay<br />

o ensinara a gostar? Sim era isso, não deveria sentir mais raiva de Rodrigo, mas<br />

sim ir buscá-lo. Assim que resolvesse este pequeno impasse.”<br />

Mordehay levantou-se e ficou em cima de seu túmulo, olhou para os seres ao<br />

seu redor. Fechou os olhos e concentrou-se naquilo que mais gostava, naquilo que<br />

destinava a ter desde o começo desta loucura. Lembrou-se das feições do fazedor de<br />

sonhos, do que ele dissera. “Toma este sentimento e faz dele uma memória, guarda<br />

para sempre este momento.” E assim fez Mordehay e então estavam todos a cavalo,<br />

ele, Tawan, Japa, Larissa, Arthur, Azkin, Pan noa, galopando por entre as pradarias<br />

verdes acinzentadas num entardecer absurdo, ali em meio aos Guardiões do destino<br />

que não entendiam mais nada. Mordehay olhou ainda para a cabana na beira do abismo<br />

e gritou para Pan noa.<br />

- Pense na sala de comando Pan noa, visualize-a para mim.<br />

Os Guardiões ainda tentaram ir atrás dos cavalos com suas adagas em punho,<br />

mas logo ali a sala de comandos do trans universo imperial surgia soberba. Iluminada<br />

como um portal celestial que na verdade era. Eles entraram com os cavalos na sala.<br />

- Kenn, feche a escotilha. Ativar destruidores padrões, ativar desfragmentadores<br />

de energia, ativar sequência de antimatéria.<br />

- Mas Pan noa!<br />

- Não interrogue minhas instruções, Kenn! Ativar escudo protetor da sala de<br />

comando, ativar resgate imediato da sala de comando, ativar protocolo de coordenadas<br />

de retrocesso para o Planeta Azul. – A sala de comando, decolou do chão de Azkenadzya<br />

e voou em direção a enorme nave, já estava se acoplando ao trans universo<br />

imperial. Eles podiam ver todo o armamento sendo descarregado da supernave e indo<br />

em direção a Azkenadzya logo que a nave ficou devidamente acoplada e já ia sumindo<br />

daquele universo puderam ter um breve vislumbre das bombas de antimatéria colidir<br />

com as terras de Azkenadzya, fazendo dela um buraco negro. Neste momento Mordehay<br />

desfaleceu.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

A Brasilândia<br />

Rodrigo acordou embaixo de um viaduto imundo que cortava uma cidade<br />

imunda. Vários mendigos o cercavam, olhando fascinados aquele ser que acabara<br />

de surgir ali assim sem mais nem menos. Rodrigo olhou-os e com muito medo saiu<br />

correndo, não sabia da onde tirava forças para correr daquela maneira, mas logo foi<br />

para aonde deveria imaginar que estavam seus amigos. Corria feito um louco para<br />

a porta da TBC, mas lá chegando não viu ninguém. Sentou-se ainda atordoado em<br />

frente à boate que costumava frequentar. Mas logo uma pontada de dor penetrou-lhe<br />

o coração, onde estava aquele mundo mágico que ele começara a gostar tanto? Teria<br />

sido um sonho? Mas logo percebeu que as pessoas olhavam para ele e riam, estava<br />

ainda com aquele casaco de peles brancas tão maravilhoso. “Meu deus! Eu estive lá<br />

mesmo!” Então a dor começou a se alastrar em seu corpo, pois ele sabia que nunca<br />

mais poderia ir para lá, lembrou-se daquele seu novo amigo Mordehay, como ele tinha<br />

sido estúpido com este seu novo amigo, como ele foi egoísta tentando tomar para si<br />

o mundo que os dois podiam ter compartilhado tão bem... Pelo visto nunca mais iria<br />

ter aquilo de novo. Começou a compreender que iria sofrer por algumas escolhas que<br />

fizesse na vida. E ainda atordoado levantou-se. “Tenho que ir para casa.” Foi uma<br />

volta difícil, seus pensamentos estavam desconexos e ele não sabia dizer como tinha<br />

chegado em casa. “Como ele tinha tomado o ônibus? Ok. Passara por de baixo da roleta.”<br />

Havia caminhado até sua casa. Lembrou-se que sua mãe berrava enlouquecida<br />

por ele ter desaparecido por tantos dias. Mas o pior, o pior de tudo era ter que levantar<br />

para ir para escola. Eram seis da manhã e ele ainda não acreditava que tinha perdido<br />

tudo aquilo. Estava de pé ao lado de sua cama agarrando seu casaco de peles brancas<br />

que conseguira na Prada Azkenadzya.<br />

Mas logo tudo iria ficar muito pior. O telefone tocou e alguém disse a sua irmã<br />

que o corpo de Juan, seu melhor amigo, fora achado em baixo de um viaduto imundo<br />

que cortava uma cidade imunda. E, como Rodrigo chorou. Mas mesmo assim foi para<br />

escola. Pois nada mais poderia fazer. Esta era sua vida e era assim que deveria ser.<br />

O trans universo imperial<br />

Todos os outros menos Pan noa estavam na sala de comando, sentados, preocupados<br />

com Mordehay. Ele e Pan noa estavam em uma das enfermarias da nave. Pan<br />

noa nunca vira seus preciosos equipamentos falharem para curar alguém, mas neste<br />

momento estavam falhando. A nave já estava na órbita do planeta azul. Pan noa deveria<br />

simplesmente deixá-los lá em baixo e dar um jeito de voltar ao seu espaço-tempo,<br />

mas algo dizia para ele não abandonar Mordehay. Algo dentro dele se afeiçoara a<br />

aquele ser tão antipático. Pan noa não acreditava no que estava fazendo, mas lá estava<br />

ele segurando a mão de um Mordehay desfalecido, deitado em uma das camas da<br />

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enfermaria branca da nave. Mas Mordehay não acordava. Nem iria se não fosse pelas<br />

palavras de Pan noa.<br />

- O que devo fazer, grande amigo? Como posso ajudá-lo?<br />

Mordehay não se mexeu.<br />

- Vamos Mordehay, você é um guerreiro! Só uma palavra! Uma palavra e eu<br />

te tiro desta!<br />

Mordehay mexeu sua cabeça e logo disse algo que iria salvá-lo.<br />

- Rodrigo. Ache o Rodrigo.<br />

Pan noa tomou seu Aerojet Plasma! Drakuniun Maximatria e voou pela nave,<br />

chegou a sala de comando enlouquecido. Logo Larissa, Arthur, Azkin, Tawan e Japa<br />

levantaram-se.<br />

- Quem é Rodrigo? – Perguntou Pan noa. – Como podemos achá-lo?<br />

- Eu sei! – Gritaram Arthur e Larissa juntos. – Na Brasilândia!<br />

Os outros se olharam.<br />

- Típico de Mordehay. – Disse Japa muito mal-humorado.<br />

Pan noa na Brasilândia<br />

Por mais que as imagens mostrassem bem aonde Rodrigo morava nem Larissa<br />

nem Arthur puderam mostrar exatamente aonde era, visto o emaranhado desconexo<br />

de casas ali amontoadas.<br />

- Se eu pudesse ir até lá, eu conseguiria chegar. – Disse Arthur.<br />

Pan noa olhou-o.<br />

- Mas você pode. Porém eu prefiro ir sozinho, assim se ocorrer algo eu posso<br />

me virar com o aerojet sem me preocupar em você ter um ataque. Aonde eu for você<br />

irá visualizar em tempo real aqui na nave, nestes monitores. Você irá me mostrar o<br />

caminho me dizendo aonde eu devo ir ou não. Sem correr perigo algum. Você dá as<br />

instruções a Kenn e ela transmite para mim via pérola cubo.<br />

Arthur teve o ímpeto de falar que iria junto na boa, mas pensando melhor...<br />

- Está bem. Mas vê se não vai muito rápido eu fui lá só umas vezes e aquele<br />

lugar é um labirinto. E... meu, toma cuidado; é perigoso pra caralho<br />

Pan noa não pestanejou.<br />

- Kenn. Ativar sistema de apoio a navegação, ativar sistema de armas do Drakunium,<br />

ativar defesas da nave.<br />

Os cinco viram o Aerojet Plasma Drakunium Maximatria sair do trans universo<br />

imperial. Viram o aerojet assumir velocidade de batalha e nos monitores da sala<br />

de comando viram a cidade se aproximar.<br />

Pan noa deu um rasante estarrecedor bem em cima da avenida Paulista, os estilhaços<br />

das vidraças dos prédios caiam em cima de uma multidão em pânico.<br />

- Hehehe! – Riu Pan noa. – Um pouco de velocidade de batalha pra vocês<br />

verem com quem estão lidando!<br />

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O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Os cinco estavam eufóricos na sala de comando pois podiam ver tudo o que<br />

ocorria com Pan noa.<br />

- Meu, o cara destruiu com a paulista! – Disse Arthur.<br />

Os outros berravam.<br />

Pan noa se dirigiu para as coordenadas da onde o tal Rodrigo deveria morar.<br />

“Puta cidadezinha filha da puta!” Então chegou ao local mais próximo que as coordenadas<br />

da nave poderia dar.<br />

- Arthur. – Disse Pan noa. – E agora?<br />

- Pergunta pra alguém como chega no terminal cachoeirinha.<br />

- Como assim perguntar pra alguém?<br />

- Você não sabia como ir visualizando nos monitores?<br />

- Não até chegar no terminal cachoeirinha e vai mais devagar!<br />

- Tá bom taá bom.<br />

Pan noa não sabia o que fazer. “Como vou perguntar para alguém, isso? Tá tá,<br />

já sei.” Sobrevoou uma avenida em baixa altitude como se ele estivesse em uma moto<br />

bem esquisita. Parou ao lado de uma viatura de polícia.<br />

- Bom dia. Vocês poderiam me dizer aonde fica o terminal cachoeirinha?<br />

Os cinco na nave berravam.<br />

- Meu! Meu! O cara foi perguntar logo pra porra da polícia!<br />

Um dos policiais sem notar direito que era um rapazote de uns treze anos que<br />

pilotava um Aerojet Plasma! Drakunium Maximatria disse sem pestanejar.<br />

- Está com o dia ganho! É só seguir em frente.<br />

- Obrigado! – Disse Pan noa.<br />

O Aerojet saiu com uma velocidade abismal furando o farol vermelho aonde<br />

estava parada a viatura. Pan noa logo viu, muito lá atrás, as sirenes sendo ligadas.<br />

- E agora Arthur?<br />

Mas nem Arthur, nem os outros, conseguiam controlar o riso; foi Larissa quem<br />

falou.<br />

- Ali! Passa o terminal e vira a esquerda!<br />

O Aerojet deu uma guinada.<br />

- E agora?<br />

- Direita<br />

- E agora?<br />

- Esquerda. Direita. Esquerda...para!!!!<br />

Pan noa parou e o estrondo logo chegou. Uma menina de uns vinte anos veio<br />

ver o que estava ocorrendo estava com um bebê no colo.<br />

- Pan noa! – Disse Larissa. – Essa é a irmã do Rodriguinho!<br />

- Oi. – Disse Pan noa. – O Rodrigo está aí?<br />

A menina estava assustadíssima.<br />

- Ele está na escola.<br />

- Ta... e aonde é?<br />

- Quem é você? E o que é isso que você está montado?<br />

- Bem... eu sou uma espécie de um amigo, de um amigo dele e isto que eu


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

estou montado é uma micro nave de batalha, um Aerojet Plasma! Drakunium Maximatria.<br />

Já que eu respondi tuas perguntas você pode responder a minha?<br />

- Bem, ele estuda logo ali. Primeira a esquerda, sobe o escadão, vira a direita,<br />

anda uns dez passos, vira a direita, chegou. É uma escola que parece com uma prisão...<br />

mas o que você quer com o meu irmão?<br />

Pan noa sobrevoou a rua deu um looping no ar voltou pela mesma rua e tomou<br />

a direção da escola. “Meu, o que eu to fazendo nesse buraco?”<br />

Rodrigo<br />

Rodrigo estava num estado tão lastimável que ninguém falava com ele, mesmo<br />

porque ele não conseguiria responder a ninguém.<br />

“Por que eu não consigo entender o que está acontecendo comigo? Minha cabeça<br />

está girando. As flores e as árvores estão me rodeando e eu estou girando.” Ele<br />

era o menininho da sala e não sabia que dois mais dois, eram quatro e que quatro mais<br />

quatro eram oito. Ele realmente não sabia. Você entende? Realmente não sabia... Ele<br />

era o menininho da sala, mas que pobre alma! “Será que eu estou navegando no navio<br />

dos tolos? Porque a vida é tão frágil e tão cruel? Eu fecho os meus olhos e tento imaginar<br />

o que você sente... porque você não vê o que você fez comigo, Mordehay, minha<br />

vida gira...” Ele era o menininho da sala, tão pequeno e tão incerto; sofria, a pequena<br />

criança, mas que pobre alma!<br />

“Estou navegando no navio dos tolos e o que está acontecendo do lado de fora<br />

da escola, eu não quero nem saber.” Afinal, que porra de mundo era aquele que ele<br />

morava? Jamais iria ter o que tivera. Só uma porra de um casaco de peles brancas e<br />

uma lembrança de seu amigo que morrera. E Mordehay onde estaria? “Por que a vida<br />

é tão preciosa e tão cruel.”<br />

Mas então uma menina veio correndo lá de fora da escola perguntando por ele.<br />

Berrando.<br />

- Rodrigo! Tem um menino muito esquisito, montado em uma moto que voa<br />

perguntando de você, ali fora!<br />

A chegada de Pan noa na escola de Rodrigo<br />

Pan noa não podia imaginar como alguém poderia chamar aquilo de escola.<br />

Estava realmente de saco cheio com o que estava ocorrendo e queria pegar logo este<br />

Rodrigo, fosse ele quem fosse, e ir embora. Chegou estraçalhando com os motores<br />

do Aerojet. As pessoas estavam saindo da escola. Um punhado de gente já se encon-<br />

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trava lá fora para as mesmas conversas de todo o dia. Porém não puderam acreditar<br />

no zumbido ensurdecedor de uma mini nave com formato de dragão inteira vermelha<br />

aterrissando no meio da rua onde ficava aquela escola.<br />

Primeiro eles ficaram boquiabertos, de repente mais e mais alunos saiam correndo<br />

para ver o que estava a acontecer em frente à escola, mas todos paralisaram<br />

quando um moleque, de treze...quatorze...quinze? Vai lá saber! Ele descia daquela<br />

nave que parecia uma moto. Mas a moto voava! E as suas roupas... O que era aquilo?<br />

Que tecido era aquele?! E seu penteado?! E a cor de seu cabelo?! E seu rosto?! O<br />

que era aquilo?! Mesmo os meninos absurdamente homofóbicos ficaram fascinados<br />

com a beleza daquele menino! E o menino desceu da nave/moto, olhou para todos<br />

com um olhar de me-desculpem-estar-incomodando-a-sua-saida-de-escola-de-periferia-de-bairro-de-periferia-de-cidade-de-periferia-de-país-de-periferia-de-planeta-deperifeira-mas-eu-não-estou-a-fim-de-muito-papo.<br />

“Meu, que nojeira!” Focalizou uma<br />

menina qualquer e foi perguntar.<br />

- Você conhece algum Rodrigo? Ou Rodriguinho?<br />

A menina parecia ter visto um fantasma e saiu correndo, para dentro da escola.<br />

Pan noa ficou olhando para os que o olhavam. “Nossa! Turminha, bonitinha<br />

heim?!?” Todos olhavam para Pan noa. Era realmente uma situação estranha, mas<br />

ninguém sequer imaginava ir ali falar com aquele ser em meio aquela roda de gente<br />

que se formara em volta dele. De repente chega a menina de mãos dadas com o tal<br />

Rodrigo. “Sim eu me lembro é este mesmo.” E tão logo Larissa berrou dentro de sua<br />

cabeça via pérola cubo.<br />

- É ele é ele! Pega logo e vamos Pan noa!.<br />

Mas não se tira um menino de frente de um colégio assim, não é mesmo? O<br />

resto da turminha bonitinha poderia não entender... “Calma Pan noa, calma. Pergunte<br />

a ele sobre Mordehay.”<br />

Pan noa gritou para o Rodrigo de uns dez ou quinze passos que os separavam.<br />

Rodrigo ainda estava de mãos dadas com a sua amiga, assustadíssimo.<br />

- Rodrigo! Você se lembra de Mordehay?<br />

Toda a turma olhava para Rodrigo completamente absurdada. Esperando por<br />

uma resposta que não viria caso Rodrigo não fosse chacoalhado por sua amiga. Mas<br />

mesmo assim ele não respondeu. Focou a micro nave logo adiante e logo o menino<br />

ali na sua frente. Pan noa. Aquele que estava na floresta comendo queijo e tomando<br />

vinho que o Japa dava pra eles. A cabeça de Rodrigo começou a vagar. Juan estava lá<br />

na floresta, na clareira. E agora estava morto. E eu... “Fui raptado, raptado naquela floresta?<br />

Por aquele Mordehay? Calma...calma Rodriguinho, não se desespere. Aquele<br />

Mordehay...bem, ele era amigo não era? Mas quem era esse na sua frente? E na frente<br />

de toda a escola? Meu, a escola inteira está me olhando!” Rodrigo queria fugir. “Mas<br />

não. Calma! Não era tudo o que ele esperava na vida! Ser alguém a mais que todos<br />

aqueles ali? Não seria ele, Rodrigo, aos seus próprios olhos, alguém especial? Alguém<br />

que de alguma forma superava todos aqueles ali presentes? Predestinado a uma<br />

riqueza artificial, a uma importância sem sentido? Uma espécie de sou popular, sou<br />

importante, sou respeitado, mas nada fiz pra isso? Nunca adquiri um conhecimento


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

qualquer, nunca desenvolvi nada do meu cérebro para fazer algo de importante nesta<br />

sociedade, para esta civilização, mas me julgo no direito, por na verdade nem saber<br />

porque, ser alguém, assim sem mais nem menos, diante de todos que eu acho um<br />

bando de medíocres, sabe-se lá por quê. Mas, que são eles, são. E então? Tem este<br />

cara, este ser aqui na minha frente estendendo sua mão para mim... Rodrigo, venha!<br />

Mordehay te chama! Era seu dia de glória perante a todos!” A diretora da escola já estava<br />

lá na frente, algumas sirenes de polícia já ecoavam pelas redondezas.... Rodrigo<br />

não se mexia. Pan noa já estava ficando muito, mas muito nervoso. Poderia interferir<br />

nesta situação? Simplesmente raptar o menino dali e levá-lo para aonde o destino<br />

mandou que ele estivesse? Por deus! O que ele estava esperando? Mordehay estava<br />

definhando na sua nave por causa daquele ser ali na sua frente... “Que porra... Devo eu<br />

interferir?” - Pensou Pan noa - “ E se... E se não era para Mordehay morrer?” Agora<br />

Pan noa baixou a mão. Olhou para Rodrigo e pensou: “Por que eu estou me metendo<br />

nesta história inteira?” Algo veio em sua cabeça. Lembrou-se “Pan noa, não é?” Era<br />

o que Mordehay tinha lhe perguntado lá na praça da República. “Como ele sabia seu<br />

nome? Quem era esse Mordehay?... Que merda!”<br />

Pan noa avançou sobre Rodrigo. “Maldito seja! Vou levá-lo comigo! Preciso<br />

saber como um ser que viveu há milênios antes de mim, num planeta totalmente distante<br />

do meu sabia meu nome, sabia da minha existência.”<br />

Ninguém ali diante deles nem pestanejaram ou movia um músculo diante da<br />

cena.<br />

Pan noa andou a passos largos em direção ao Rodrigo, tomou-o pela mão e<br />

disse:<br />

- Está na hora de você crescer.<br />

Os carros de polícia já estavam a descer a rua quando o zumbido do Aerojet<br />

deixava o chão da rua em frente à escola de Rodrigo e se dirigia ao Trans Universo<br />

Imperial. Um pânico total tomou conta do local.<br />

Rodrigo no Trans Universo Imperial<br />

Rodrigo parou de berrar feito idiota quando notou que a nave de Pan noa o levava<br />

para cima da atmosfera terrestre. Quando notou, começou a entender o tamanho<br />

da enrascada que estava metido. Aquilo não era uma brincadeira. O que ele havia<br />

vivido naquele mundo absurdo era realmente verdade, e ele agora estava de novo<br />

entrando naquela espécie de mundo paralelo que ele havia presenciado com aquele<br />

Mordehay, mas agora era muito mais sério. Muito mais verdadeiro. O que ele estava<br />

sentindo, a nave, os cheiros, os impactos em seu corpo, tudo era verdade, sem blusas<br />

de pelos brancos...aquilo era real. Ele estava entrando agora em uma nave imensa,<br />

impensável. Ele estava entrando no Trans Universo Imperial, na sala de comando e<br />

lá ele viu “por deus!” seus amigos... Larissa, Japa, Arthur, aquele pequeno menino...<br />

Azkim... “que deus os tenha!” Como era bom vê-los ali.<br />

- Que ótimo! – Disse o Japa. – E agora? Não me diga que você... – Disse ol-<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

hando para Pan noa - Você o leva para a enfermaria e Mordehay acorda com o beijo<br />

do Rodriguinho encantado!<br />

- E você tem alguma outra ideia? – Perguntou Pan noa para Japa.<br />

- Não. Não tenho. Vai leva esse pentelho pra lá e que finalmente façam algum<br />

sexo porque essa porra dessa história tá um saco sem sexo.<br />

Pan noa pegou Rodrigo pela mão e o levou aonde estava Mordehay, ainda desfalecido.<br />

Entraram na enfermaria. Pan noa viu que Mordehay ainda estava lá deitado.<br />

Pediu para Rodrigo entrar na sala e os deixou. Rodrigo veio muito calmamente até a<br />

cama de Mordehay. Tomou-o pela mão e disse.<br />

- Então. É você que eu deveria salvar?<br />

Mordehay nesse momento levantou-se. Olhou para Rodrigo e disse.<br />

- Pra falar a verdade, não.<br />

- Como assim?<br />

- Cale-se. Agora eu assumo as coisas.<br />

Jogou Rodrigo em uma cadeira qualquer e sentiu tudo ali em sua volta.<br />

- Show!!! O amuleto então, funciona aqui!!! Ou não? Ora ora! Afinal de contas!!!<br />

Que se foda! Eu tenho o poder...seja ele qual for...<br />

Mordehay sentiu Pan noa logo atrás da porta esperando. Transmitiu via amuleto<br />

Azkenadzy, para a pérola cubo de Pan noa. “Entre. Já estou bem melhor agora!”<br />

“Já não era sem tempo!” Pensou Pan noa.<br />

Entrou na sala de enfermaria pensando em ver um Rodrigo abraçado com Mordehay,<br />

mas o que viu foi um Mordehay em pé olhando para Pan noa e o Rodrigo<br />

jogado com um olhar atordoado em uma cadeira qualquer naquele quarto.<br />

A porta da enfermaria fechou-se logo atrás de Pan noa.<br />

- Surpresa engraçada ver você aqui, Pan noa... – Disse Mordehay.<br />

Pan noa não conseguia entender. “Era uma jogada? Caíra de novo? Plano dentro<br />

de planos?”<br />

- Muito bem Mordehay. – Disse Pan noa. – O que você quer agora?<br />

- Bem...pra falar a verdade...não sou eu que quero, afinal. Você não imaginou<br />

que a coisa iria acabar assim, não é mesmo? Você deveria ser destruído...mas na verdade<br />

eu também...<br />

- Como assim?<br />

- Bem Pan noa...é uma longa história. Não pense que eu fiz você fazer este<br />

percurso turístico pela Brasilândia por nada, você deveria me trazer este aqui para<br />

uma função.<br />

- Mordehay....<br />

- É, eu sei eu não sou eu mesmo...<br />

- Não é mesmo.<br />

- Então. Vamos lá? Acabar com esta palhaçada?<br />

- O que você sugere?<br />

- A coisa é bem fácil de entender. – Disse Mordehay sentando-se na cama em<br />

que estava desfalecido há pouco. – Moveu-se mundos e fundos para te matar ok?<br />

- Ok...


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

- Te mandaram para cá, quero dizer, meu mundo, foi criado uma porra de um<br />

mundo paralelo, pessoas morreram, tomaram entidades para que o que ocorrido se<br />

consumasse, que você fosse assassinado, sei lá porque, mas nada disso ocorreu...as<br />

coisas se complicaram ainda mais. Certo?<br />

- Bom, até aqui eu consigo te seguir. Mas qual é a grande ideia nisso tudo?<br />

Você sabe Mordehay? Você está falando como se você soubesse o final da história...<br />

- Olha só que engraçado... O final da história...<br />

- Tá então me diga! Pare de ficar aí dando uma de “eu sei de tudo”.<br />

- Calma... Pan noa! Calma! Eu sei o que eu vou te pedir...e você não morrerá,<br />

pois agora eu sei o que eu devo fazer...<br />

- O que você deve fazer?<br />

- Sim, o que eu devo fazer...<br />

- E o que é Mordehay? O que você me pede?<br />

- Bom... Você vai ter que confiar em mim... Assim como eu confiarei em você.<br />

- Até aí tudo bem... – Pan noa falou revelando uma sinceridade latente.<br />

- Tá. – Disse Mordehay. – Eu preciso deste ser. – Falou Mordehay apontando<br />

com os olhos para Rodrigo estarrecido na cadeira da enfermaria.<br />

- Como assim? – Perguntou Pan noa.<br />

- Não esconda as coisas de mim! – Disse Mordehay enfurecido. – É a sua vida<br />

que está aqui em jogo e a minha e deste aqui também!<br />

Pan noa não entendia o que Mordehay falava. Estaria ele louco?<br />

Não, não estaria...<br />

- Eu sei. – Disse Mordehay, agora olhando para as paredes da enfermaria com<br />

um olhar vago. – Eu sei o que vocês escondem dentro desta nave.<br />

Pan noa engoliu em seco. “Como poderia?”<br />

- O que você acha que nós escondemos, Mordehay?<br />

- Uma Androida. Um ser moldável. Uma androida andrógina! Virgem. Vocês<br />

têm lá dentro, num caixão mortuário, uma androida pronta para ser ativada conforme<br />

instruções em situações excepcionais! Eu sei disso e você não pode me negar esta<br />

informação!!!<br />

“Como ele poderia saber?” Pensou Pan noa. Isso era segredo militar de sua<br />

casa imperial!<br />

Pan noa de novo engoliu em seco. “Eu não posso ir contra este Mordehay. O<br />

que ele quer afinal?”<br />

- Muito bem Mordehay. Nós temos uma androida andrógina aqui nesta nave.<br />

Não tenho a mínima ideia de como você descobriu isto, mas nós temos, pois eles/as<br />

podem ser muito úteis para algum tipo de serviço.<br />

- É eu sei...como serviram ao propósito de quase te matar...<br />

- Mas então, Mordehay, para que você quer uma Androida Andrógina?<br />

- Nossa! Eu achei que esta pérola cubo serviria para alguma coisa!<br />

- Bom...desculpe acho que eu me perdi...<br />

- Você não acha que eu roubaria a vida de nosso amiguinho aqui, não é Pan<br />

noa? – Falou Mordehay olhando para Rodriguinho ainda sentado e não entendendo<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

nada da conversa dos dois.<br />

- Por mais que você ache que sua cidade, sua escola e sua vida seja imunda,<br />

meu querido Pan noa, eu jamais iria tirar isto dele.<br />

- Espere só um minuto Mordehay! Você está querendo dizer que você quer que<br />

eu ou melhor, nós transformemos a Androida aqui depositada nos caixões funerais em<br />

um.... Rodriguinho?!? Para você...<br />

- Para eu ir junto à você e com esta Androida Transformada para o seu mundo,<br />

pois aqui eu já não devo mais ficar.<br />

- Por que não deves ficar, Mordehay? – Perguntou Pan noa abismado.<br />

- Porque só assim eu te salvarei. Isto tem só e somente só a ver comigo. Se<br />

você me levar, nunca mais estes seres superiores, vão te incomodar, pois na verdade,<br />

na realidade, eles querem a mim e só a mim.<br />

- Você só pode estar brincando! Porque você acha que é tão importante, Mordehay?<br />

- Se eu te falasse iria ser óbvio demais. Mas acredite: só eu posso te tirar daqui.<br />

Vai. Dê-me isso de presente. Tire-me daqui com este souvenir de minha existência. É<br />

só o que eu peço para ir com você levando algo que me foi dado e em seguida, tirado.<br />

E deixe o resto para trás, pois tudo foi uma tentativa de nos destruir e nada mais...e<br />

eles não conseguiram...estou certo?<br />

- E imagino que você saiba como voltar para meu planeta em espaço-tempo...<br />

- Sim eu sei, eu tenho ainda os resquícios do poder do amuleto Azkenadzy, só<br />

eu posso te levar, através deste poder, talvez seja a última coisa que eu consiga fazer<br />

com ele.<br />

Pan noa ainda olhou para Mordehay, totalmente insatisfeito com suas respostas.<br />

Mas se fosse para voltar para seu planeta, mesmo levando Mordehay e sua<br />

Androida transformada em Rodrigo, nem que fosse para dar para ele uma pousada<br />

num planeta distante e nunca mais se preocupar com tudo isso, ele faria. Pan noa iria<br />

buscar a maldita androida lá em baixo, traria para a sala de enfermagem e começaria o<br />

processo de transformação, a Androida iria se transformar em um Rodrigo de carne e<br />

osso e quem sabe, no ser que Mordehay iria amar para sempre. Os outros que estavam<br />

na sala de comando iriam voltar para o planeta Azul e viver suas vidas, assim como<br />

Rodrigo.<br />

A porta da enfermaria se abriu e Pan noa iria sair dali, não fosse Rodrigo gritar.<br />

- Não!<br />

Mordehay e Pan noa olharam para trás. Rodrigo agora estava de pé.<br />

- Mordehay não precisa de um boneco. Ele tem a mim.<br />

Os outros foram levados para o planeta azul em uma nave que logo retornou<br />

ao trans universo imperial.<br />

Mordehay conseguiu através do poder do amuleto Azkenadzy conduzir a nave<br />

via espaço-tempo ao mundo de Pan noa, certamente com uma boa dose de ajuda de<br />

Kenn, a nave imperial. Ao chegarem lá Mordehay sentiu o amuleto desaparecer em


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

seu peito. “Então é isso mesmo, vou ficar aqui para sempre.” Olhou para Rodrigo e<br />

ainda conseguiu sorrir.<br />

- Espero que agora você me conte o porque de tudo isso, não é Mordehay? –<br />

Falou Pan noa ao chegar em Calum BR, seu planeta.<br />

- Bem acho que sua pérola cubo já sabe, Pan noa.<br />

Rodrigo olhou para Be, namorada de Pan noa, e falou.<br />

- Como você conseguiu um cabelo tão violeta?<br />

- Com isso. – Be mostrou um pequeno bastão prateado a Rodrigo, tocou em<br />

seu cabelo e este estava da mesma cor do cabelo de Be. Be mostrou uma espécie de<br />

espelho a Rodrigo.<br />

- Meu. Eu vou amar este lugar!<br />

Prólogo<br />

Rodrigo vinha todas as tardes, depois das aulas, para dormir na cabana que<br />

Mordehay escolhera viver. Era um mundo pequeno para a forma de transportes que<br />

eles tinham. Tudo era perto, até mesmo uma cabana no alto de um penhasco onde lá<br />

em baixo o mar se revoltava contra as pedras. Mordehay preferiu este exílio, pois o<br />

complexo mundo do planeta de Pan noa o enjoava.<br />

Rodrigo, no entanto, adorava tudo aquilo, fizera amigos. E uma pérola cubo<br />

fora implantada em sua testa. Assim, milênios de conhecimento foi passado ao seu<br />

cérebro automaticamente. Ele estava imediatamente conectado a aquele mundo, tão<br />

fácil como o estalar dos dedos.<br />

Pan noa foi um dia falar com Mordehay.<br />

- Vejo que você conseguiu, não é Mordehay?<br />

- Sim, sim... – Disse Mordehay entusiasmado, mas obviamente sarcástico. –<br />

Existem duas hipóteses: ou o espectador é medíocre ou o artista é medíocre.<br />

- Neste caso o povo que você deixou é medíocre... Não é mesmo Mordehay?<br />

- Sim... sim... O povo que eu deixei era medíocre... Pan noa. Tão medíocre que<br />

deixou aquele mundo se foder.<br />

- Sim, Mordehay... Deixaram... Mas agora... Bem você é um grande artista<br />

aqui...no futuro...quero dizer...obras únicas não é mesmo? Quem iria pintar a óleo<br />

num mundo como este? Sim, isto sim é um feito...<br />

- Ah meu caro Pan noa...é um grande feito... – Mordehay olhava para o chão<br />

com lágrimas nos olhos.<br />

- Mordehay. – Disse Pan noa muito seriamente. – Eu devo minha vida a você.<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Meu retorno ao meu mundo só se deu por sua existência. Você abandonou a tudo, a<br />

todos para me trazer aqui. Eu devo a você tudo que eu tenho...se você quiser alguma<br />

coisa...qualquer coisa que seja...eu juro que farei, para agradecer o que você fez por<br />

mim... tudo...qualquer coisa.<br />

Mordehay largou seu pincel, olhou para Pan noa. Rodrigo apareceu no horizonte<br />

pilotando seu aerojet. Já era final de tarde.<br />

Mordehay parou em frente a um Pan noa um pouco assustado. “O que viria<br />

agora?”<br />

- Me leve para o Planeta Azul neste agora, neste tempo, me leve para a Terra,<br />

eu quero ver o que aconteceu ao meu planeta depois de tantos milhares de anos, quero<br />

ir para minha casa Pan noa. Me leve para lá eu sei que você pode. Se Rodrigo quiser<br />

ficar aqui que se foda...mas eu quero ver o que aconteceu com meu planeta.<br />

Rodrigo estacionou o aerojet no jardim ao lado da cabana.<br />

Pan noa olhou para o chão da cabana de Mordehay, estava com o olhar de meucomo-eu-fui-burro-de-vir-falar-com-ele-pois-eu-já-sabia-o-que-ele-iria-me-pedir...<br />

- Tá bom, Mordehay... Se é o que você me pede...<br />

- O que você pediu a ele, Mordehay? – Indagou Rodrigo parado a porta da<br />

cabana.<br />

Os dois o olharam.<br />

- Nós vamos viajar, Ro. Vamos dar uma volta pelo espaço. Vamos voltar para<br />

nosso planeta. Vamos ver o que aconteceu por lá...<br />

Rodrigo os olhava indignado.<br />

- Mas vamos voltar, não é mesmo Mordehay? Vamos, não é Pan noa?<br />

- Sim Rodriguinho, iremos eu, você, Be e Mordehay, talvez até mesmo Ing<br />

mar, o Imperador, vamos ver o que aconteceu por lá, fazer uma visita, e depois retornaremos.<br />

– Pan noa falou isso com muita dor no coração, pois sabia que ir ao Planeta<br />

Azul sempre dava merda, e desta vez com certeza iria dar de novo. Mas não era isso<br />

que ele queria? Não estava a vida dele, muito monótona ali? E agora com este Mordehay...<br />

“Meu isso vai ser muito do caralho ou vai dar a maior cagada de todas!”<br />

Epílogo<br />

A diretora entrou na sala um tanto consternada. Parecia que a notícia não iria<br />

ser das melhores, mesmo assim, ninguém ali naquela sala estava se preocupando muito.<br />

Afinal você não se preocupa muito com qualquer coisa quando você tem nove, dez<br />

ou onze anos de idade, se preocupa? Claro que não. No entanto alguém ali, naquela<br />

sala de aula se preocupou um pouco com a cara da diretora, não muito, mas o mínimo<br />

para dizer a si mesmo... “Ei espere um pouco, a cara daquela tão amável diretora não


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

estava muito boa. Bom...não estava tão ruim, mas não dava pra dizer que estava totalmente<br />

boa.” Era claro que não.<br />

A diretora se postou diante dos alunos daquela classe, quase fez uma mesura<br />

se desculpando por algo que iria falar, mas não o fez... afinal de contas... “ acho que<br />

eles estão mais do que preparados para vivenciar coisas do mundo afora. Meu Deus!<br />

Desde que nasceram viviam juntos. Só eles neste mundo fechado, preservado, por esta<br />

instituição tão meticulosamente fechada. Qual seria o impacto para eles? Como poderiam<br />

administrar o surgimento de um mundo tão...imperfeito seria a palavra? Como<br />

eu pude fazer parte desta redoma que cerca estas crianças?”<br />

- Olá! – Disse a diretora.<br />

- Olá diretora. – Disse a classe em coro.<br />

- Bom. – Sua insegurança era visível. – Hoje nós teremos alguns colegas novos.<br />

Não na sua sala de aula, mas eles vão dividir nosso espaço durante o recreio.<br />

Eles são. – Aí ela parou mais insegura ainda. – Bem eles são alunos especiais de uma<br />

escola especial. E nós vamos ficar com eles durante algum tempo, na hora do recreio.<br />

– Então ela engoliu em seco. – Eu imagino que todos nós poderemos nos dar muito<br />

bem com estas crianças tão especiais. E tentaremos ser...amigos delas. O que vocês<br />

acham? Podemos ser amigos de pessoas um pouco diferentes?<br />

Obviamente ela esperava alguma resposta das crianças daquela classe.<br />

Qualquer coisa que fosse. Diante de sua própria insegurança. A coisa estava indo de<br />

mal a pior.<br />

Nada.<br />

Ninguém respondeu. A professora, no entanto logo falou.<br />

- Oi gente! – Disse sorrindo, constrangida. – A diretora fez uma pergunta:<br />

poderemos nos dar bem com uma turma nova de...novos amigos?<br />

A turma então respondeu. Não a pergunta propriamente dita, mas ao apelo final<br />

da professora, que, afinal de contas, era mais amável ainda que a diretora, ou algo assim,<br />

e por isso todos responderam, sem muito saber sobre o que era.<br />

- Sim, poderemos... – Responderam todos em coro.<br />

- Ótimo. – Disse a diretora satisfeita, ou parecia estar, embora não estivesse. E<br />

logo saiu, parecendo estar aliviada, da sala. Teria mais algumas salas para dar a notícia<br />

e depois...esperar pelas consequências...<br />

Ao percorrer os corredores de volta à sua sala, a diretora, teve que pensar. “O<br />

que pensam estar fazendo? Não mais que de repente resolvem mostrar um mundo tão<br />

diferente a esses judeus? A esses judeuzinhos que ficaram aqui, dentro destas paredes,<br />

isolados de tudo e de todos, vivendo essa fantasia, esse mundo a parte como eles,<br />

seus pais, avós ou seja lá mais o que, acham que devam ser vividas...vidas a parte,<br />

perfeitas...até que a real seja mostrada. Até que... – Oi pessoal! O palhaço do circo na<br />

verdade gosta muito de colocar vocês em um forno e assá-los até as cinzas! É assim<br />

que o mundo é e é assim que deveria ser. Ninguém gosta muito de judeus, mesmo que<br />

agora ninguém demonstre isso. Vivemos tempos modernos, mas vocês vão aprender<br />

que vocês vão ter que entender que existe um monte de injustiça no mundo, e elas<br />

aparecem assim de repente...sem mais nem menos!”<br />

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Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Ela estava realmente preocupada com a situação, mas já tinha feito o que deveria<br />

fazer, se opôs completamente a esse processo de interação com escolas especiais.<br />

- Nossos alunos. – Dizia ela em uma das reuniões responsáveis pela escola.<br />

– Precisam de uma integração primeiramente com alunos como eles. Não podemos<br />

colocá-los em um plano superior. Como se o que existe do outro lado destas paredes<br />

fossem só pessoas “especiais”. Devemos mostrar tudo a eles, mas primeiramente integração<br />

com o que seja mais próximo deles. Por que esta proposta de desequilíbrio?<br />

Os dirigentes do projeto, já previamente aprovado pela comunidade nem se deram<br />

ao trabalho de responder a tais questões “impostas agora por esta góy”. Deveriam<br />

fazer andar o projeto de integração como o governo mandara e pronto. Porque ficar<br />

se preocupando com o que aquela diretora da escola pensava ou não? Afinal tudo não<br />

passava de um projeto social. O que aquilo poderia interferir nas vidas dos seus, aparentemente,<br />

tão protegidos filhos? Interação com algumas pessoas especiais? Temos<br />

coisas mais importantes a pensar...sobre qualquer coisa que seja...e assim é.<br />

E assim é o que deveria ser.<br />

O sinal tocou e a gritaria começou. Não poderia se dizer que era uma escola<br />

com muitos alunos. Talvez uma média de quinze a vinte por classe, mas o estrondo<br />

na hora do recreio era significativo. Principalmente para quem tinha seu principal<br />

sentido, para aquele momento, a audição.<br />

Mordehay conseguiu como sempre sair por primeiro da sua classe, como ele<br />

conseguia isso? Bem... ele tinha um despertador no estômago. E assim, ao descer as<br />

escadarias da escola, ele foi o primeiro a perceber que no pátio de seu colégio havia<br />

três figuras, uma agarrada a outra, como se estivessem com muito medo, encostadas<br />

em um canto, deste mesmo pátio. Mordehay parou e nem deu a mínima quando percebeu<br />

toda a renca de alunos passando por ele para ir em direção a cantina que se<br />

entulhara de gente, enquanto Mordehay investia seu olhar para aquelas crianças, possivelmente<br />

da sua idade, se agarrando mais e mais a medida que o barulho das outras<br />

crianças cresciam.<br />

Mordehay estava paralisado. Nunca poderia imaginar tal sensação. Ele via<br />

aquelas crianças, uma abraçada a outra e tentava imaginar o porque de elas estarem,<br />

assim, se agarrando. Sua fome sumira, e um enjoo tomou conta de seu ser.<br />

Mordehay estava petrificado. Sentia algo fora do comum. Algo que ninguém<br />

ali sentia. Na verdade nem se importavam. Mas ele, ele viu algo fora do normal.<br />

Sentiu um aperto no coração. “Porque aquelas crianças estavam ali se abraçando?<br />

Com medo de tudo ou de todos? Porque não mostravam seus rostos? Porque não estavam<br />

na cantina a pedir seus lanches como todos faziam?” Mordehay ficou ali parado<br />

tentando entender o que aquelas crianças estavam fazendo. E porque elas estavam<br />

com tanto medo de tudo e de todos.<br />

Foi então, num relance mínimo, que Mordehay teve um pequeno espasmo.<br />

Ele conseguira visualizar o porque de tamanho medo. O porque de aquelas pessoas<br />

estarem atreladas entre si como se o mundo em sua volta estivesse prestes a sucumbir.


Marcelo Paciornik<br />

O Mago de Prata A Andróida Andrógina O Guerreiro Azkenadzy<br />

Mordehay não sentia seus próprios pés. Nem suas pernas. Estava tão perturbado com<br />

aquela cena. Tão aturdido. Tão... comovido...quase vomitou de tanto nojo. Não da<br />

cena, obviamente, mas da situação inteira.<br />

Nenhuma criança até então notara os intrusos. Mesmo porque para que notar?<br />

“Um mundo à parte...que foi colocado aqui? Não me incomodam, não vamos<br />

incomodá-los.”<br />

Mordehay fechou os olhos. Respirou fundo e olhou de novo. Os três estavam<br />

lá. Ainda abraçados uns aos outros. Nenhuma professora, nenhum adulto por perto.<br />

“Estavam nos testando?” Mordehay deu um passo à frente. “Que merda!” Disse a si<br />

mesmo. Ninguém, nem mesmo seus amigos mais próximos estavam perto. “Era um<br />

sonho?” Não, não era.<br />

Andou em direção aos três pequenos cegos que se agarravam de medo ao<br />

estrondo das crianças que resolveram não notá-los. Chegou perto deles e com muito<br />

medo de tocá-los, pois nunca tinha visto um cego sequer, assim, tão de perto em toda<br />

sua vida. Tocou no braço daquele que estava mais próximo. O ceguinho levou um<br />

susto. Mas logo sorriu. Uma felicidade avassaladora.<br />

Mordehay ficou tão abismado com aquele sorriso, tão comovido. Mordehay<br />

queria chorar, mas não sabia porquê. Olhou para aquele menino à sua frente e se apaixonou<br />

completamente. Se tornou amigo dos três. Mas principalmente daquele, que<br />

primeiramente tocara. Por um período que Mordehay jamais poderia conceber foi o<br />

melhor amigo daquele ser especial, até que um dia...<br />

Não demorou muito para que o programa de interação com pessoas especiais<br />

terminasse. E como Mordehay chorou. E como aquele amigo de Mordehay chorou.<br />

E nunca mais nem Mordehay, nem aquele ser especial se viram, nem nesta vida nem<br />

em outra, pois era assim que era e era assim que deveria ser. E nunca mais Mordehay<br />

curou-se deste seu infortúnio. Mordehay jurou jamais perder aquilo que seu coração<br />

resolvera amar, era assim que ele estipulara para si mesmo e era assim que ele iria ser.<br />

Custasse o que custasse.<br />

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