Revista Dr. Plinio 228
Março de 2017
Março de 2017
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A sagrada intimidade<br />
com Nossa Senhora
Luiza Dantas<br />
Imagem da eternidade<br />
Imaginem um pássaro que, de cem em cem anos,<br />
passasse uma vez pelo Pão de Açúcar e roçasse com<br />
o bico aquela montanha, de maneira a retirar um<br />
pouquinho de farelo. Quantos séculos levaria esse pássaro<br />
para destruir o Pão de Açúcar?<br />
Pois bem, quando o Pão de Açúcar estivesse<br />
desfeito, a eternidade ainda estava no começo,<br />
porque não tem fim...<br />
(Extraído de conferência de 15/10/1989)<br />
2
Sumário<br />
Ano XX - Nº <strong>228</strong> Março de 2017<br />
A sagrada intimidade<br />
com Nossa Senhora<br />
Na capa, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
na década de 1970.<br />
Foto: Arquivo <strong>Revista</strong><br />
As matérias extraídas<br />
de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
— designadas por “conferências” —<br />
são adaptadas para a linguagem<br />
escrita, sem revisão do autor<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />
propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />
CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />
INSC. - 115.227.674.110<br />
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Tel: (11) 2238-4200<br />
Editorial<br />
4 Sagrada intimidade com Nossa<br />
Senhora e com a Santa Igreja<br />
Piedade pliniana<br />
5 Ação de graças pelo sofrimento recebido<br />
Dona Lucilia<br />
6 Fidelidade às verdades supereminentes<br />
De Maria nunquam satis<br />
10 Caro Christi, caro Mariæ;<br />
sanguis Christi, sanguis Mariæ<br />
Hagiografia<br />
14 São José, Protetor da Santa Igreja<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
19 O gosto do corre-corre<br />
Calendário dos Santos<br />
24 Santos de Março<br />
Preços da<br />
assinatura anual<br />
Comum............... R$ 130,00<br />
Colaborador........... R$ 180,00<br />
Propulsor.............. R$ 415,00<br />
Grande Propulsor....... R$ 655,00<br />
Exemplar avulso........ R$ 18,00<br />
Serviço de Atendimento<br />
ao Assinante<br />
editora_retornarei@yahoo.com.br<br />
Reflexões teológicas<br />
26 As cruzes do convívio<br />
Luzes da Civilização Cristã<br />
31 Um seminário do Céu<br />
Última página<br />
36 Prêmio demasiadamente grande<br />
3
Editorial<br />
Sagrada intimidade<br />
com Nossa Senhora e<br />
com a Santa Igreja<br />
A<br />
Encarnação do Verbo, celebrada em 25 de março, é a Festa da Escravidão a Maria Santíssima.<br />
Com efeito, durante o tempo de sua gestação no claustro virginal de Maria, o Verbo Encarnado<br />
viveu uma dependência incomparável em relação a Ela. É o maior estado de submissão que<br />
se possa imaginar, pois a criança que está no seio materno vive da vida da mãe, e em tudo é conduzida<br />
e, por assim dizer, circunscrita por ela.<br />
Como no estado de escravidão voluntária o escravo renuncia completamente à sua liberdade para<br />
ficar inteiramente contido e circunscrito pela vontade de seu senhor – de maneira que a sua vida é<br />
para o serviço de seu senhor, os seus pensamentos tendem ao seu senhor, os seus atos são para o serviço<br />
de seu senhor –, assim também era Nosso Senhor em relação a Nossa Senhora.<br />
Portanto, quem quiser ser verdadeiro escravo de Nossa Senhora deve venerar, de modo muito especial,<br />
essa miraculosa e insondável sujeição de Jesus a Maria, em que o infinitamente maior se deixou<br />
dominar e conter pelo menor, na realização de um plano de Deus, de uma sabedoria que excede<br />
a qualquer cogitação humana.<br />
Por outro lado, se tomarmos a sério a devoção apregoada por São Luís Maria Grignion de Montfort,<br />
compreenderemos que a Sagrada Escravidão comporta uma espécie de intimidade com Maria<br />
Santíssima por onde cada escravo trata à sua maneira com Ela, e Nossa Senhora aceita benignamente<br />
o modo de ser de cada um.<br />
Desta forma, a Sagrada Escravidão à Santíssima Virgem tem um aspecto que poderia chamar-se<br />
“a sagrada intimidade com Nossa Senhora”, um sagrado e personalíssimo trato em que Ela é toda inteira<br />
como se existisse só para nós.<br />
O mesmo poderíamos dizer a respeito da Igreja Católica. Para cada um dos que nela entram, a<br />
Santa Igreja abre um firmamento de beleza particular. Ela tem um jeito de encher até os bordos tanto<br />
a alma pequena quanto a grande, sendo para cada fiel como o maná que no paladar espiritual tem<br />
um sabor próprio feito completamente para aquele.<br />
Assim, por mais diferentes que sejam os homens, cada católico sempre poderá afirmar: “A Igreja<br />
Católica é tal que se fosse feita para mim, ela seria exatamente como é.” *<br />
* Excertos de conferências de 15/8/1970 e 16/3/1971.<br />
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />
4
Piedade pliniana<br />
Ação de graças<br />
pelo sofrimento<br />
recebido<br />
Óminha Mãe, eu Vos agradeço por me terdes<br />
dado esta ocasião de sofrer por Vós,<br />
e Vos digo: quero esta dor! Eu a desejo<br />
porque Vós assim o quereis; e a desejo durante<br />
o tempo que Vós quiserdes! Ajudai-me na minha<br />
debilidade para que eu possa carregar esta cruz<br />
como Vós entenderdes. Eu a osculo como Nosso<br />
Senhor a osculou no momento de colocá-la sobre<br />
os ombros, porque desejo tudo sofrer.<br />
Eu ficaria desolado se minha vida fosse sem<br />
cruz. A vida sem cruz é uma vida sem Vós e, portanto,<br />
aceito a cruz de todo o coração. Tenho a<br />
alegria de receber este sofrimento em união convosco<br />
e para Vos agradar.<br />
Dai-me, ó Mãe, o amor e o senso da cruz!<br />
(Composta em 5/12/1967)<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Francisco Lecaros<br />
Jesus Nazareno de<br />
Viñeros - Igreja de Santa<br />
Catalina, Málaga, Espanha<br />
5
Dona Lucilia<br />
Fidelidade às verdades<br />
supereminentes<br />
Em meio às inúmeras provações<br />
que ornaram sua vida, Dona<br />
Lucilia manteve-se sempre fiel<br />
às verdades que orientavam e<br />
fundamentavam sua existência.<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Por vezes acontece que entre<br />
pessoas destinadas a manterem<br />
um relacionamento<br />
mais intenso, profundo e elevado se<br />
estabelece uma certa confusão, que<br />
quanto mais se tenta esclarecer, mais<br />
confusa ela se torna. O verdadeiro<br />
nessa situação é não falar, e sim esperar.<br />
É preciso confiar.<br />
Incompreensões dentro<br />
de um convívio<br />
Tive experiência disso em algumas<br />
ocasiões nas quais procurei ajudar<br />
determinadas pessoas em assuntos<br />
de vida espiritual. Acontecia, às<br />
vezes, eu entrar no tema por um lado,<br />
e a sensação da pessoa era de que eu<br />
deveria ter entrado por outro. O jeito<br />
era parar, rezar e esperar passar o<br />
tempo. Não se podia fazer nada.<br />
Como é duro isso: queremos fazer<br />
o bem, mas o outro é como alguém<br />
que está com o corpo inteiro queimado.<br />
Onde se põe o dedo, ele geme.<br />
Isso é duro como tudo!<br />
Quando a pessoa se coloca numa<br />
relação errada, fica impossível o entendimento.<br />
Pode acontecer por culpa<br />
própria ou por uma provação,<br />
mas é uma dilaceração muito séria,<br />
pois a vida fica truncada num ponto<br />
fundamental.<br />
Qual a razão pela qual Deus permite<br />
isso?<br />
Nossa Senhora e São José,<br />
exemplos de fidelidade às<br />
certezas supereminentes<br />
As certezas não são autônomas<br />
umas das outras. Há algumas certezas<br />
supereminentes que garantem o todo,<br />
ainda que as “bombardas” estejam estourando<br />
nas convicções inferiores.<br />
Um exemplo claro disso é a perplexidade<br />
de São José (cf. Mt 1, 19-<br />
24). Ele não podia ter dúvida sobre<br />
a integridade de Nossa Senhora. Ele<br />
tinha a respeito d’Ela uma certeza<br />
supereminente. O demônio deve ter<br />
atuado, fazendo de tudo para perturbá-lo,<br />
mas ele conservou a paz de<br />
6
alma. Fez o clássico raciocínio: “Não<br />
decifro, mas quando decifrar vou ver<br />
que isso ocultava uma maravilha.”<br />
Ele não desconfiou porque era fiel<br />
às certezas supereminentes.<br />
Em geral, quando a pessoa é tentada,<br />
ela tem uma espécie de amnésia<br />
em relação às certezas supereminentes.<br />
Outro exemplo: Nossa Senhora e<br />
São José quando perderam o Menino<br />
Jesus (cf. Lc 2, 43-50). Como podiam<br />
ter dúvidas em relação ao Menino<br />
Jesus? Eles viam bem que Nosso<br />
Senhor quis prová-los. Aquele<br />
episódio foi um pouco como a crucifixão<br />
para Nossa Senhora.<br />
Anna Catarina Emmerich 1 conta<br />
que, antes desse episódio, a Santíssima<br />
Virgem começou a notar que seu Divino<br />
Filho A tratava com certa frieza.<br />
Por humildade, julgou ter culpa. Foi<br />
um tormento! O mais curioso é o fato<br />
de Maria Santíssima não ter perguntado<br />
nada ao Menino Jesus. Há horas<br />
em que é melhor não perguntar...<br />
Isso acontece na vida de família<br />
também. Há um desentendimento<br />
entre duas pessoas, e para que ele<br />
não aumente, os familiares fingem<br />
não notar. A vida é assim.<br />
Rodrigo Aguiar<br />
Quando falta essa<br />
fidelidade...<br />
Toda espécie de nervosismo é inevitável<br />
quando as verdades supereminentes<br />
não estão bem colocadas.<br />
Consideremos os Apóstolos no episódio<br />
da tempestade no Mar da Galileia<br />
(cf. Mc 4, 37-40). Era uma verdade<br />
supereminente que o barco onde estava<br />
Nosso Senhor não podia afundar.<br />
Eles foram homens de pouca fé.<br />
Outro exemplo eloquente nessa<br />
matéria é o de São Pedro afundando,<br />
depois de ter andado sobre as ondas<br />
(cf. Mt 14, 28-31). A desconfiança<br />
o mais das vezes é uma sensação.<br />
Quando São Pedro sentiu as ondas se<br />
moverem debaixo de seus pés, as certezas<br />
supereminentes fracassaram.<br />
Encontro do Menino Jesus entre os doutores<br />
Santuário do Caraça, Santa Bárbara, MG, Brasil<br />
7
Dona Lucilia<br />
François Boulay<br />
No sono dos Apóstolos no Horto<br />
(cf. Mt 26, 40-45), qualquer coisa das<br />
certezas supereminentes estava toldada.<br />
Era um sono cheio de mal-estar.<br />
Três vezes foram acordados, três<br />
vezes disseram “não”! Estavam num<br />
estado de infâmia moral. Se as certezas<br />
supereminentes tivessem ficado,<br />
a coisa teria sido outra.<br />
Provações que ornaram<br />
a vida de Dona Lucilia<br />
Oração de Jesus no Horto das Oliveiras - Igreja do<br />
Sagrado Coração de Jesus, Nova Orleans, EUA<br />
Há imponderáveis que a observação<br />
não consegue catalogar bem. Por<br />
exemplo, mamãe. Ela, que alcançou<br />
viver o Brasil de Dom Pedro II, não<br />
chegava a ter ideia da Causa Católica<br />
com toda a articulação existente contra<br />
ela. Sabia haver inimigos da Igreja,<br />
mas eram como matilhas de cachorros<br />
bravos, que invadem um jardim<br />
e são expulsos. Por isso Dona Lucilia<br />
não compreendia o Movimento<br />
fundado por mim. Não era uma incompreensão<br />
hostil. Ela possuía uma<br />
noção meio vaga a respeito das forças<br />
que atuavam contra a civilização cristã,<br />
tinha apenas vislumbres sobre isso.<br />
Em consequência, ela não compreendia<br />
a distância tomada por<br />
mim em relação a ela por causa do<br />
apostolado que eu desenvolvia junto<br />
aos meus seguidores.<br />
Em certa ocasião tive que me preparar,<br />
de uma hora para outra, para<br />
uma viagem ao Uruguai. Por razões<br />
especiais, precisei vender alguns objetos<br />
da estima dela para obter dinheiro,<br />
e não podia dizer a ela. Se eu fosse<br />
explicar as razões, criaria uma situação<br />
de intranquilidade que permaneceria<br />
até o fim de<br />
sua vida. Ela não teve<br />
a explicação, mas<br />
percebi ter-se dado<br />
conta da operação<br />
feita por mim. Entretanto,<br />
não perguntou<br />
nada.<br />
Ela deveria<br />
achar que eu fiz<br />
porque precisei, e<br />
tinha um fim honesto.<br />
O que teria<br />
ela pensado? “É<br />
um filho tão bom,<br />
honesto... Mas se<br />
é honesto, por que<br />
não me conta? Ele<br />
percebeu que eu vi,<br />
mas não conta! Alguma<br />
razão deve<br />
ter. Olho para ele,<br />
está o mesmo...”<br />
Ela acreditou<br />
nas verdades supereminentes<br />
que<br />
moravam tranquilamente<br />
em sua alma,<br />
até o fim. Isso<br />
foi exigido pela<br />
Providência. Não é<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
em 1966<br />
verdade que essas provações ornam<br />
a vida de Dona Lucilia?<br />
Que a Providência possa exigir<br />
de nós padecimentos semelhantes,<br />
é uma glória! Devemos sofrer coisas<br />
dessas como uma provação.<br />
Discernimento, confiança e<br />
desvelo de uma mãe amorosa<br />
Quando viajei para a Europa em<br />
1952, não revelei a mamãe minha<br />
8
viagem para não a traumatizar. Antes<br />
de partir, deixei uma carta para<br />
ela, com uma tia com quem combinei<br />
que a missiva só devia ser entregue<br />
quando ela recebesse um telegrama<br />
enviado por mim da Europa.<br />
Quando essa minha parente,<br />
de posse do telegrama, foi avisar<br />
mamãe, encontrou-a aflita, dirigindo-lhe<br />
a seguinte pergunta: “Onde<br />
está <strong>Plinio</strong>? Porque meu coração<br />
o procura e não o encontra em nenhum<br />
lugar. Procura-o no Rio, em<br />
Santos, no interior, e não o encontra!”<br />
Minha tia então lhe contou que eu<br />
já havia chegado à Europa, e deu-lhe<br />
a carta. Depois mamãe me escreveu<br />
agradecendo todas as atenções, e dizendo<br />
estar passando muito bem.<br />
Quando cheguei de viagem, minha<br />
mãe abraçou-me e beijou-me.<br />
Em seguida, recuou um pouco e,<br />
olhando-me, disse: “Você é sempre o<br />
mesmo!” Depois me abraçou e beijou-me<br />
de novo. Ela possuía os elementos<br />
para discernir o que se passava<br />
comigo.<br />
Isso indica bem o contexto geral<br />
dentro do qual se deu a venda dos<br />
objetos a que me referi, e me facilitou<br />
quando necessitei tomar essa decisão<br />
tão dura.<br />
Às noites, quando eu chegava do<br />
restaurante Giordano, onde me reunia,<br />
por razões de apostolado, com<br />
membros do nosso Movimento, por<br />
vezes ela estava rezando junto à imagem<br />
do Sagrado Coração de Jesus. Eu<br />
entrava em casa, ela não interrompia a<br />
oração. Tinha um invariável rito: fazia<br />
cruzes no coração da imagem e depois<br />
na fronte dela, pedindo por ela e por<br />
todos por quem rezava. Enquanto não<br />
tivesse terminado todas as cruzes, não<br />
vinha me cumprimentar.<br />
Em seguida, sempre com aquela<br />
calma, da qual quem não a conheceu<br />
não pode ter ideia, vinha até mim e<br />
dizia: “Filhão!” Então começávamos<br />
a conversar sobre as coisas mais minúsculas,<br />
até às maiores.<br />
Quando eu lhe perguntava<br />
por que não<br />
ia dormir mais cedo,<br />
ela dizia: “Não<br />
vou enquanto você<br />
não chega, porque<br />
com você em casa<br />
não pode acontecer<br />
nada.” No fundo<br />
era porque eu<br />
estava perto dela...<br />
Derradeiro<br />
ato de fé com<br />
um amplo<br />
Sinal da Cruz<br />
Essas verdades supereminentes<br />
não podem ser apenas<br />
“verdades”, têm que ser uma união,<br />
uma consonância supereminente.<br />
...minha mãe<br />
abraçou-me e<br />
beijou-me...,<br />
recuou um pouco<br />
e, olhando-me,<br />
disse: “Você é<br />
sempre o mesmo!”<br />
No caso de Dona Lucilia, vejam<br />
como agiu a Providência: deixá-la<br />
chegar ao outono, ao inverno da vida<br />
para pedir o lance heroico. Olha-<br />
-se para o Quadrinho 2 , parece já ter<br />
passado tudo. Ninguém sabe... No<br />
fim da vida, não se sabe o que a Providência<br />
cobra.<br />
Quando mamãe morreu, tinha<br />
passado uma noite regular. De manhã,<br />
enquanto eu lia o jornal, o médico<br />
que a assistia me chamou: “Venha<br />
depressa porque ela está morrendo!”<br />
Eu estava me recuperando<br />
de uma cirurgia no pé e não estava<br />
com as muletas naquela ocasião. Então<br />
fui o mais rapidamente possível,<br />
apoiado em duas vassouras, para o<br />
quarto dela. Quando cheguei, ela tinha<br />
morrido…<br />
Podia ser que o demônio apagasse<br />
as certezas, para ela passar pela<br />
tentação. Nesse caso, ela teria que<br />
fazer um ato de fé na memória. Se<br />
ela duvidasse, quiçá poria em risco a<br />
salvação dela, pois poderia pensar:<br />
“Se isso é assim, o que é ser católico?<br />
De que vale a Igreja?”<br />
O amplo Sinal da Cruz que ela fez<br />
antes de expirar indicava a sua certeza<br />
nas verdades supereminentes. v<br />
(Extraído de conferência de<br />
12/8/1978)<br />
1) Freira Agostiniana favorecida por<br />
muitas revelações místicas a respeito<br />
da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
2) Quadro a óleo, que muito agradou<br />
a <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, pintado por um de seus<br />
discípulos, com base nas últimas fotografias<br />
de Dona Lucilia. Ver <strong>Revista</strong><br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> n. 119, p. 6-9.<br />
João S. Clá Dias<br />
9
De Maria nunquam satis<br />
Caro Christi, caro Mariæ;<br />
sanguis Christi, sanguis Mariæ<br />
Desde o primeiro momento de sua concepção, Jesus começou<br />
a adorar o Pai Eterno, o Divino Espírito Santo e a alimentar-Se<br />
dos elementos que o santíssimo e virginalíssimo corpo de sua<br />
Mãe Lhe proporcionava. Nossa Senhora tinha consciência inteira<br />
do que se passava em seu interior, e sentia a sublimação de seu<br />
sangue que estava sendo transformado n’Ele.<br />
Gustavo Kralj<br />
Antes da Santíssima Virgem<br />
Maria saber que seria Mãe<br />
do Redentor e Esposa do<br />
Divino Espírito Santo, tudo n’Ela se<br />
orientava nesse sentido. Não que Ela<br />
aspirasse ser a Mãe do Messias, mas<br />
a fim de que Ele viesse logo.<br />
“Mandai o Messias,<br />
mandai o Messias...”<br />
Virgem Maria menina - Museu Hermitage,<br />
São Petersburgo, Rússia<br />
As orações de Nossa Senhora para<br />
a vinda do Messias devem ter acelerado<br />
muito essa chegada, pois Ela é<br />
onipotente em suas súplicas. A partir<br />
do momento em que Deus A criou,<br />
Maria Santíssima teve conhecimento<br />
da situação da humanidade e começou<br />
a rezar para vir logo o Salvador.<br />
Com o nascimento d’Ela levantou-se,<br />
portanto, como que uma coluna<br />
de fumo odorífero de cor maravilhosa,<br />
de movimentação encantadora<br />
e ao mesmo tempo majestosa<br />
na presença de Deus. Era a oração<br />
de Nossa Senhora que subia do<br />
Coração Imaculado d’Ela até o trono<br />
do Criador, pedindo: “Mandai o<br />
Messias, mandai o Messias...”<br />
10
A Virgem Maria<br />
possuía tanta admiração<br />
e adoração pelo<br />
Messias o qual devia<br />
vir, que se acredita<br />
– a meu ver com<br />
muito fundamento –<br />
ter Ela pedido para<br />
ser escrava da Mãe<br />
d’Ele e poder, assim,<br />
servi-La de todos<br />
os modos, como<br />
uma forma indireta<br />
de servir o próprio<br />
Salvador. Essa oração<br />
também foi ouvida,<br />
como acontecerá<br />
com tantas preces de<br />
Nossa Senhora, mais<br />
até do que Ela esperava.<br />
Segundo a narração<br />
do Evangelho, a<br />
Anunciação se deu<br />
sem preparação extraordinária.<br />
A Santíssima<br />
Virgem estava<br />
muito normalmente<br />
rezando naquele claustrozinho<br />
da casa d’Ela, quando apareceu<br />
um Anjo e A saudou: “Ave, cheia<br />
de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,<br />
28). Com certeza, na medida em que<br />
isso se pode entender de puros espíritos,<br />
ele se inclinou profundamente<br />
diante d’Ela.<br />
A Santíssima Virgem<br />
julgava-Se indigna<br />
Anunciação - Igreja Trinità dei Monti, Roma, Itália<br />
Isso dito por um Anjo! Os Anjos<br />
são seres de uma beleza, de um esplendor<br />
incomparável. Podemos calcular<br />
a impressão que isso deve causar,<br />
ainda mais para uma pessoa humílima<br />
como Nossa Senhora.<br />
Foram surpresas sobre surpresas:<br />
Por que um Anjo vai aparecer<br />
para Ela? Por que A saúda reverentemente?<br />
Por que Lhe faz esse<br />
elogio? Depois, surpresa ainda<br />
maior: Maria Santíssima tinha pactuado<br />
com São José de ficar sempre<br />
virgem. E Ela vê que o Anjo lhe fala<br />
de um Filho ao qual deverá dar o<br />
nome de Jesus.<br />
Ora, Nossa Senhora estava longe<br />
de imaginar que o Messias seria<br />
Filho d’Ela e, para se manter longe<br />
dessa suposição, tinha uma razão<br />
que em sua psicologia era invencível:<br />
a indignidade d’Ela. Sendo Ela<br />
tão indigna – pensava –, estava claro<br />
que não era para Ela que viria isso.<br />
E chega a revelação de que Ela<br />
– com sua promessa de virgindade –<br />
dará à luz um Filho chamado Jesus<br />
e, com certeza, o Anjo quando pronunciou<br />
esse santíssimo nome reluziu<br />
num esplendor muito maior.<br />
Talvez as miríades de Anjos que<br />
deveriam encher, nesse momento, o<br />
pequeno claustro da casa de Nossa<br />
Senhora também tivessem indicado,<br />
de algum modo, a festiva presença<br />
deles, anunciando o nome de Jesus.<br />
Então Ela perguntou como isso<br />
seria possível, pois fizera o voto de<br />
permanecer sempre virgem. O Anjo<br />
deu a entender que isso não seria<br />
impedimento, porque para Deus não<br />
há obstáculos e, portanto, Ela não se<br />
preocupasse, pois seria assim, desde<br />
que Ela consentisse. O bonito está<br />
nisto: que Ela consentisse. E Maria<br />
Santíssima deu aquela resposta perfeita:<br />
“Eis a escrava do Senhor, faça-<br />
-se em Mim segundo a tua palavra”<br />
(Lc 1, 38). Deu-se, então, a Encarnação<br />
do Verbo de Deus, e naquele<br />
momento Ela sentiu-Se Esposa do<br />
Divino Espírito Santo.<br />
É uma situação tão colossal, tão<br />
fabulosa que ninguém imagina bem<br />
o que seja. Houve muitos santos que<br />
tiveram revelações do Espírito Santo,<br />
a quem Ele manifestou-Se de algum<br />
modo. Isso não é nada em comparação<br />
com o fato de Se tornar Esposa<br />
do Espírito Santo!<br />
Gustavo Kralj<br />
11
De Maria nunquam satis<br />
Início do processo<br />
da Encarnação<br />
Quer dizer, houve um determinado<br />
momento em<br />
que o Espírito Santo se manifestou<br />
a Nossa Senhora<br />
tão profundamente que gerou<br />
n’Ela um Filho. Se tudo<br />
quanto os Santos sentiram<br />
na hora da manifestação do<br />
Divino Espírito Santo fosse<br />
somado, não daria nada em<br />
relação ao momento em que<br />
Ela, sendo uma criatura humana,<br />
passou a ser a Esposa<br />
do Divino Espírito Santo,<br />
por toda a eternidade.<br />
Essa situação gerou, necessariamente,<br />
tanta felicidade,<br />
tanta intimidade, tanto fogo<br />
dentro da alma d’Ela, que nós<br />
não podemos conceber, e teve<br />
como resultado o início do<br />
processo da Encarnação.<br />
Ou seja, a Segunda Pessoa<br />
da Santíssima Trindade Se<br />
encarnou no claustro d’Ela<br />
e, desde o primeiro momento<br />
da concepção, começou a<br />
adorar o Pai Eterno, o Divino<br />
Espírito Santo e a alimentar-<br />
-Se dos elementos que o santíssimo<br />
e virginalíssimo corpo<br />
de sua Mãe Lhe proporcionava.<br />
Nesses atos simultâneos,<br />
na medida em que Ele Se<br />
nutria, o seu Corpo ia tomando<br />
consistência e também a<br />
união da alma d’Ela com Ele<br />
ia aumentando.<br />
Nesse período da gestação, a intimidade<br />
entre Ele e Ela, seus colóquios,<br />
como se amaram, são coisas<br />
inefáveis. É algo superior a toda cogitação!<br />
Pensarmos que tudo quanto rezamos<br />
no Veni Creator Spiritus deu-se<br />
com a Santíssima Virgem em grau<br />
superlativo!<br />
“Veni, Creator Spiritus, mentes tuorum<br />
visita”. Considerem o que signi-<br />
“Virgen del Parto” - Catedral de León, Espanha<br />
fica pedir que o Divino Espírito Santo<br />
visite as nossas mentes. A entrada<br />
d’Ele e sua ação em nossas mentes, o<br />
que é uma coisa dessas?!<br />
“Imple superna gratia quæ Tu creasti<br />
pectora”: Os corações que Tu<br />
criaste, enche com a tua graça superior”.<br />
“Qui diceris Paraclitus, donum Dei<br />
altissimi...”: Tu que és chamado o Paráclito,<br />
dom de Deus altíssimo...<br />
Sergio Hollmann<br />
“Fons vivus, ignis, caritas,<br />
et spiritalis unctio”: Fonte<br />
viva da graça e de todos os<br />
bens espirituais que a pessoa<br />
possa ter, e unção espiritual.<br />
Essa presença do Espírito<br />
Santo nos enche de graça<br />
e de unção espiritual.<br />
A gruta de Belém se<br />
torna mais augusta<br />
que qualquer<br />
outro palácio<br />
Mas como essa presença<br />
é tênue, leve, pequenina, em<br />
comparação com a de Nosso<br />
Senhor em Nossa Senhora!<br />
Imaginem esse ato de comunhão<br />
perpétuo – no sentido<br />
de que será durante todo<br />
o período da gestação –,<br />
em que Ele está dentro d’Ela<br />
e vai Se nutrindo do sangue<br />
puríssimo d’Ela, e a carne do<br />
Homem-Deus vai cada vez<br />
mais se constituindo. Ela sabe<br />
disso, tem a consciência<br />
inteira do que se passa em<br />
seu interior e sente a sublimação<br />
de seu sangue que está<br />
sendo transformado n’Ele.<br />
Diz-se caro Christi, caro<br />
Mariæ; sanguis Christi, sanguis<br />
Mariæ: a carne de Cristo é a<br />
carne de Maria; o sangue de<br />
Cristo é o sangue de Maria.<br />
Assim, no corpo d’Ela vai<br />
se modelando o d’Ele. Aí se<br />
dão certos fenômenos, como<br />
o da hereditariedade, por onde Ele<br />
herda elementos de sua Mãe, tornando-Se<br />
parecido com Ela, e a inter-relação<br />
entre os dois vai aumentando<br />
de intimidade, à medida que<br />
vai se definindo essa semelhança.<br />
Imaginem, quando o processo está<br />
terminado e Nosso Senhor prestes<br />
a manifestar-Se aos homens na noite<br />
de Natal, até que ponto a intimidade,<br />
a relação mútua entre Eles é grande!<br />
12
Naturalmente, à medida que no<br />
Presépio de Belém a complementação<br />
da geração d’Ele vai se tornando<br />
perfeita, tudo anuncia em<br />
volta de Nosso Senhor que Ele está<br />
para nascer, e a gruta vai ficar<br />
augusta com nunca nenhum palácio<br />
ficou. Os Anjos enchem aquele<br />
ambiente, há uma respeitabilidade,<br />
mas, ao mesmo tempo, uma doçura,<br />
um amor, uma confiança inexprimíveis.<br />
Só no Céu ter-se-á uma<br />
ideia exata do que foi a gruta de<br />
Belém naquela noite.<br />
Chega, por fim, a hora bendita entre<br />
todas as horas como Maria é bendita<br />
entre todas as mulheres. Por<br />
um modo de fazer que só Deus sabe,<br />
Aquela que era a Porta do Céu<br />
e sempre Virgem Se torna Mãe de<br />
Deus. Porque a maternidade se completa<br />
quando Maria Santíssima dá<br />
ao mundo o Filho que Ela gerou.<br />
Afinal, aparece na manjedoura o Filho<br />
de Deus vivo.<br />
Os olhares se entrecruzaram<br />
Um artista comum representa<br />
o Menino Jesus como uma criança<br />
que ainda não tem consciência muito<br />
completa de si, batendo um pouco as<br />
perninhas, os bracinhos numa posição<br />
bonita, mas que não é diretamente<br />
racional; são mais ou menos movimentos<br />
reflexos. E Nossa Senhora,<br />
com o olhar profundamente sábio,<br />
santo, etc., observando-O e analisando-O.<br />
Mas não é essa a realidade das<br />
coisas. Como Ele, desde o seu primeiro<br />
instante de ser, refletiu e refletiu…<br />
Ao seu lado, pouco favorecido e ignorante<br />
aquele que foi o mais inteligente<br />
dos homens: São Tomás de Aquino!<br />
Pobre, rústico e bárbaro quem foi<br />
o mais civilizado dos homens – digamos<br />
que tenha sido São Luís! E daí<br />
para fora, diante do Menino, o mais<br />
lúcido, mais fino, mais nobre, mais<br />
casto e mais piedoso de todos.<br />
Ele olhou-A no momento em que<br />
Ela O viu, os olhares se entrecruzaram,<br />
mas Ele A olhou com mais lucidez<br />
do que Ela a Ele. Porque Ele era<br />
Ele. Nós devemos fazer a pergunta:<br />
Que fisionomia Jesus fez ao ver a<br />
Mãe que Deus Lhe tinha dado?<br />
Ele já A conhecia, mas com os<br />
olhos humanos observava-A com<br />
a análise amorosa, completamente<br />
embevecida, etc....<br />
Então podemos imaginá-La sentindo-Se<br />
assim analisada, querida,<br />
sem a mínima timidez porque Nossa<br />
Senhora era puríssima, perfeita,<br />
nunca tinha tido a menor falha, em<br />
nenhum ponto, jamais deixara de<br />
crescer e progredir em toda a medida<br />
do necessário. Enfim, Eles se<br />
olham e Eles se reconhecem e cada<br />
um vê o outro pela primeira vez.<br />
Que momento de afeto deve ter sido<br />
esse! Eu acho que não é possível<br />
imaginar.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de<br />
2/7/1995)<br />
Francisco Lecaros<br />
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo - Catedral de Prato, Itália<br />
13
Hagiografia<br />
São José, Protetor<br />
da Santa Igreja<br />
Gustavo Kralj<br />
Modelo de todas as grandes virtudes, São José foi<br />
o homem escolhido por Deus para estar à altura<br />
d’Aqueles com quem deveria conviver: Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo e Maria Santíssima. Apesar dessa insigne<br />
missão, pouco se sabe sobre ele, mas a Igreja, dotada<br />
de sabedoria, proclama-o seu Protetor e Patriarca.<br />
Victor Toniolo<br />
Fuga da Sagrada Família para o<br />
Egito - Catedral de Curitiba, Brasil<br />
N<br />
a festa de São José há varias<br />
invocações que nós<br />
poderíamos considerar.<br />
Creio que dessas invocações, depois<br />
das que dizem diretamente respeito<br />
a Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhuma<br />
é mais bonita do que a de Protetor<br />
da Santa Igreja Católica.<br />
Da estirpe real de Davi<br />
Os dados biográficos de São José<br />
são muito escassos. Sabemos que ele<br />
era da estirpe real de David, era virgem,<br />
foi casado com Nossa Senhora.<br />
Sabemos que eles mantiveram a virgindade<br />
depois do casamento e que<br />
ele teve o famoso caso da perplexidade.<br />
Sabemos também que ele esteve<br />
presente no Santo Natal e uma<br />
das glórias dele é de, em todos os<br />
presépios, até o fim do mundo, naturalmente<br />
figurar como um dos per-<br />
sonagens essenciais. Sabe-se que ele<br />
levou o Menino Jesus e Nossa Senhora<br />
até o Egito e de lá voltou, depois<br />
há um silêncio sobre ele.<br />
Se tomarmos em consideração<br />
quem foi São José, compreende-se<br />
que deve ter sido um dos maiores<br />
Santos, e que até não faltam razões<br />
para se considerá-lo como o maior<br />
Santo de todos os tempos. Há razões<br />
para supor que o maior Santo tenha<br />
sido São João Batista ou, talvez, São<br />
João Evangelista. Em todo caso, há<br />
razões muito grandes e muito boas<br />
para supor que tenha sido ele, e<br />
podemos imaginar que a respeito de<br />
um tão grande Santo os dados biográficos<br />
os mais emocionantes, empolgantes<br />
e edificantes não poderiam<br />
faltar. Ora, vemos que em lugar<br />
de falar a respeito destes dados, e de<br />
nos dizer algo a respeito das maravilhas<br />
deste Santo, que ocupa um pa-<br />
14
pel tão proeminente na piedade católica,<br />
pelo contrário, a Sagrada Escritura<br />
nos diz pouco, e muito pouco,<br />
e a Tradição também. Como se<br />
explica isso?<br />
A primeira observação que cumpre<br />
fazer é que também a respeito de<br />
Nossa Senhora, figura não infinitamente,<br />
mas insondavelmente superior<br />
a São José, também a respeito<br />
d’Ela as Sagradas Escrituras dizem<br />
muito pouco, talvez até menos que<br />
a respeito de São José. Entretanto,<br />
sabemos que Nossa Senhora é a<br />
obra-prima da Criação e que depois<br />
da humanidade Santíssima de Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo, ligada à Segunda<br />
Pessoa da Santíssima Trindade,<br />
por união hipostática e, portanto,<br />
já superior a qualquer cogitação<br />
que o espírito humano possa fazer,<br />
depois d’Ele não há criatura, e nunca<br />
houve ou haverá, que possa sustentar<br />
uma pálida comparação<br />
com Nosso<br />
Senhor.<br />
Ora, a respeito<br />
de Nossa Senhora,<br />
por que a Sagrada<br />
Escritura diz<br />
tão pouco? E por<br />
que a respeito destas<br />
duas grandes figuras<br />
há tal silêncio das Escrituras?<br />
Pálida ideia<br />
da realidade<br />
Tenho a impressão que,<br />
além das razões indicadas habitualmente,<br />
como, por exemplo,<br />
a humildade de Nossa Senhora<br />
e de São José, que quiseram ficar<br />
apagados em louvor a Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo e em<br />
Gustavo Kralj<br />
15
Hagiografia<br />
Angelis David Ferreira<br />
Sonho de São José - Pró-Catedral do Brooklyn, Nova Iorque, EUA<br />
reparação a todas as provas de orgulho<br />
que os homens deveriam dar até<br />
o fim do mundo; além dessa razão,<br />
que é muito boa, há outra muito formativa<br />
e feita para que compreendamos<br />
a índole, o espírito da Igreja Católica:<br />
por maiores que sejam as maravilhas<br />
que Nossa Senhora e São José<br />
tenham praticado em vida, aquilo<br />
que nós sabemos deles, pelo simples<br />
fato de uma ter sido a Mãe do Criador<br />
e o outro ter sido o Pai legal de<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo e Esposo<br />
de Nossa Senhora, isto só nos leva a<br />
deduzi-los tão grandes, que nenhum<br />
fato concreto praticado na vida daria<br />
uma ideia suficiente daquilo que eles<br />
foram, porque estão acima de qualquer<br />
ato praticado.<br />
Tomemos dois fatos notáveis: a<br />
perplexidade de São José, a confiança<br />
que conservou durante esse momento.<br />
A delicadeza com que resolveu<br />
o caso, a prova em que a Providência<br />
o colocou, no momento em<br />
que ele estava chamado a receber a<br />
honra excelsa de ser o Pai legal de<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo. Tomem,<br />
na vida de Nossa Senhora, por exemplo,<br />
um fato eminente: as bodas em<br />
Caná, na qual Ela obteve, pelas orações<br />
d’Ela, a antecipação das manifestações<br />
da vida pública de Nosso<br />
Senhor e fez com que Ele praticasse<br />
um milagre notável como a transmutação<br />
da água em vinho, um milagre<br />
direto e imediato, para uma família<br />
que se sentia provada naquele<br />
momento.<br />
Nossa Senhora praticou ali uma<br />
grande ação, mas por maior que seja<br />
essa ação, não nos dá uma ideia<br />
suficiente de Nossa Senhora. O que<br />
nós sabemos d’Ela, sabendo que Ela<br />
é Mãe de Deus, é tão mais do que isso!<br />
Assim também São José: algumas<br />
coisas dele que nós sabemos,<br />
por mais eminentes que sejam, não<br />
chegam à altura de quem Ele é.<br />
Como terá sido o homem que<br />
Deus destinou a ser o Pai legal de<br />
Nosso Senhor? Porque São José, como<br />
Esposo de Maria Virgem, tinha<br />
um verdadeiro direito sobre o fruto<br />
das entranhas d’Ela, embora não<br />
fosse o pai do Menino Jesus. Então,<br />
como deve ter sido esse varão, como<br />
Deus deve ter adornado essa alma,<br />
como deve ter constituído esse corpo,<br />
como deve ter enchido de graça<br />
essa pessoa, para que ela estivesse à<br />
altura desse papel?<br />
Ora, se Deus tanto respeitou e venerou<br />
Nossa Senhora, quanto não<br />
terá venerado ao escolher um esposo<br />
adequado a Ela? Porque Ele deve<br />
ter feito desse casal o casal perfeito,<br />
no qual o esposo fosse o mais proporcionado<br />
possível à esposa.<br />
O que deve ter um homem para<br />
estar na proporção de ser Esposo de<br />
Nossa Senhora? É uma coisa verdadeiramente<br />
insondável. E qualquer<br />
coisa que ele tenha dito, feito, não<br />
nos dá ideia de quem ele foi, como<br />
nos dá essa simples afirmação: Pai<br />
16
do Menino Jesus e Esposo de Nossa<br />
Senhora!<br />
Ora, ser o Pai do Filho de Deus é<br />
a mais alta honra a que um homem<br />
possa chegar, depois da honra de ser<br />
a Mãe do Filho de Deus, que é, evidentemente,<br />
uma honra maior. Quer<br />
dizer, ele não só foi nobre porque se<br />
casou com Nossa Senhora, mas porque<br />
Nosso Senhor o investiu na mais<br />
alta função de governo que possa haver<br />
na Terra abaixo de Nossa Senhora.<br />
O exercer uma alta função de governo,<br />
de acordo com os conceitos<br />
da sociedade tradicional daquele<br />
tempo, nobilitava, conferia nobreza.<br />
Ora, ser o Pai do Menino Jesus, governar<br />
o Menino Jesus e Nossa Senhora<br />
é mais do que governar todos<br />
os reis e impérios do mundo. Ora,<br />
isso não lhe veio só do casamento.<br />
Deus o escolheu para isso. Compreendemos<br />
então a nobreza excelsa<br />
que lhe vinha disso.<br />
Quer dizer, fica acima de todo<br />
elogio e de todo feito. Aqui é que entra<br />
a coisa bonita: vemos que a Providência<br />
quis constituir, a respeito<br />
de Nossa Senhora e São José, os fundamentos<br />
de culto com base num raciocínio<br />
teológico, porque é o raciocínio<br />
teológico que nos pinta o perfil<br />
moral destas pessoas excelsas.<br />
Protetor da Igreja<br />
Papa, a ponto de ele ter uma guarda<br />
nobre especialmente constituída<br />
de fidalgos romanos para guardarem<br />
a pessoa dele, então, que honra é ser<br />
guarda da Santa Igreja Católica!<br />
O Anjo da Guarda da Igreja Católica<br />
por certo é o maior Anjo que<br />
existe no Céu. Porque das criaturas<br />
de Deus nenhuma tem a dignidade<br />
da Igreja. Exceção de Nossa Senhora,<br />
que é a Rainha da Igreja, ninguém<br />
pode se comparar à Igreja Ca-<br />
tólica. Nem qualquer Anjo, ou todos<br />
os Santos considerados cada um separadamente,<br />
têm a dignidade da<br />
Igreja Católica, porque ela envolve<br />
todos os Santos e ela é a fonte da<br />
santidade desses Santos, portanto,<br />
um Santo nunca pode ter a dignidade<br />
igual a da Igreja.<br />
São José, pelo contrário, tem que<br />
ser alguém de tão alto, de tão excelso,<br />
que ele, por assim dizer, tem que<br />
ser o reflexo da Igreja que ele guar-<br />
Sergio Hollmann<br />
Imaginem, agora, o que é ser o<br />
Santo Padroeiro da Igreja Católica.<br />
Protetor de algo é de algum modo<br />
um símbolo daquilo que ele protege.<br />
Para conceberem isso precisam<br />
imaginar da seguinte maneira: considerem,<br />
por exemplo, alguém que<br />
é guarda de uma rainha. Essa pessoa,<br />
de algum modo, toma em si algo<br />
da realeza, e escolhem-se para ser os<br />
guardas da rainha os indivíduos mais<br />
capazes, os que tiveram maior coragem,<br />
os que nas guerras provaram<br />
maior dedicação à coroa.<br />
Se é uma honra ser guarda da rainha,<br />
se é uma honra ser guarda do<br />
Bodas de Caná - Mosteiro de Montserrat, Barcelona, Espanha<br />
17
Hagiografia<br />
da para estar proporcionado a ela. E<br />
nós podemos então considerar que o<br />
“thau” de São José, enquanto coidêntico<br />
com o espírito da Igreja<br />
Católica, enquanto sendo<br />
exemplar prototípico e<br />
magnífico da mentalidade,<br />
das doutrinas, do espírito<br />
da Igreja Católica, é<br />
um “thau” que só se pode<br />
medir por esse outro<br />
critério do “thau” dele,<br />
que é o fato de ser Esposo<br />
de Nossa Senhora<br />
e Pai adotivo do<br />
Menino Jesus e, portanto,<br />
estar proporcionado<br />
a Eles.<br />
Alma excelsa<br />
Thiago Tamura Nogueira<br />
Se nós quisermos<br />
ter uma ideia da alma<br />
de São José, do<br />
espírito dele, acho<br />
que não encontraremos,<br />
eu ao menos não<br />
encontrei na minha vida<br />
inteira, uma pintura<br />
ou uma escultura que representasse<br />
a ele adequadamente.<br />
Por exemplo, aqui no<br />
nosso oratório, tão a propósito<br />
colocado junto ao estandarte,<br />
os senhores têm uma imagem<br />
muito boa de São José, que<br />
quando foi comprada foi até catalogada.<br />
Como escultura é muito boa,<br />
mas não dá, a meu ver, aquilo que<br />
é a alma de São José. Seria preciso<br />
imaginar tudo quanto pensamos da<br />
Igreja Católica: toda a dignidade,<br />
toda a afabilidade, toda a sabedoria,<br />
toda a imensidade da Igreja, tudo<br />
quanto se pudesse dizer da Igreja<br />
Católica e imaginar isto realizado<br />
num homem, e então nós teríamos<br />
a fisionomia moral de São José.<br />
E então eu quisera ver quem seria<br />
o artista capaz de compor a face<br />
de São José.<br />
São José - Basílica de<br />
Nossa Senhora do Rosário,<br />
Caieiras, SP, Brasil<br />
Devemos imaginar pelo menos o<br />
perfil moral desse Santo, a castidade<br />
de São José, a pureza ilibadíssima<br />
dele, e nós devemos nos aproximar<br />
dele com respeito, com veneração<br />
e pedir que nos conceda aquilo que<br />
nós tanto desejamos receber. Cada<br />
um se pergunte a si próprio, num<br />
exame de consciência de um minuto,<br />
qual é a graça que quer pedir a São<br />
José por ocasião da festa de hoje.<br />
Graças a implorar<br />
A primeira das graças a pedir seria<br />
a da devoção a Nossa Senhora.<br />
Outra é a de refletir tão bem<br />
o espírito da Igreja Católica<br />
quanto esteja nos desígnios<br />
da Providência ao nos ter<br />
criado e nos ter conferido<br />
o Santo Batismo. Outra<br />
graça que poderíamos<br />
pedir é a de sermos<br />
filhos da Igreja Católica,<br />
tendo inteiramente<br />
o espírito do Grupo,<br />
que é o espírito<br />
da Igreja enquanto<br />
vivendo numa unidade<br />
viva da Igreja<br />
onde esse espírito se<br />
refrata de um modo<br />
particular. Nós podemos<br />
pedir a pureza,<br />
a despretensão,<br />
pedir tudo, podemos<br />
escolher cada uma<br />
dessas coisas.<br />
Podemos pedir todas<br />
essas coisas no seu<br />
conjunto. Às vezes é<br />
bom pedirmos uma coisa<br />
só – a graça nos leva a pedir<br />
uma coisa só –, às vezes<br />
é bom pedirmos tudo, porque<br />
há momentos em que a<br />
graça nos leva a sermos audaciosos<br />
e a pedir muita coisa ao<br />
mesmo tempo.<br />
Então hoje, na festa de São José,<br />
conforme o movimento da graça<br />
interior em cada um de nós, devemos<br />
pedir alguma coisa a ele. E se<br />
não soubermos bem o que pedir, dizer<br />
a São José: “Meu bom São José,<br />
vede que eu sou meio palerma, dai-<br />
-me Vós aquilo que eu preciso, uma<br />
vez que sequer sei o que me convém!”<br />
Eu acredito que do mais alto<br />
dos Céus ele sorri e dará com bondade<br />
alguma graça muito bem escolhida.<br />
<br />
v<br />
(Extraído de conferências de<br />
19/3/1969, 19/3/1970 e 19/3/1976)<br />
18
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
O gosto do<br />
Gustavo Kralj<br />
corre-corre<br />
Descrevendo com muita verve os<br />
detalhes de locomoções feitas de<br />
automóvel, de trem e de bonde, <strong>Dr</strong>.<br />
<strong>Plinio</strong> analisa com profundidade as<br />
modificações de estados de espírito<br />
provocadas pela Revolução Industrial.<br />
Muito mais que uma obra de literatura,<br />
é uma explicitação a qual deve figurar<br />
nos Tratados de vida espiritual.<br />
Percebo ter uma certa graça<br />
para o discernimento dos espíritos,<br />
mas isso nasceu tão<br />
cedo em mim e tão conjugado com<br />
a minha natureza, que foi só muito<br />
tempo depois, quando eu tinha<br />
mais ou menos cinquenta ou sessenta<br />
anos, que me chegou ao espírito a<br />
ideia de que esse fenômeno era discernimento<br />
dos espíritos.<br />
Como <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> deuse<br />
conta de que possuía<br />
discernimento dos espíritos<br />
Talvez tenha concorrido para isso<br />
o meu empenho em não me comparar<br />
com ninguém. Então, está se<br />
dando comigo, logo ocorre com todo<br />
mundo, todas as pessoas são assim.<br />
Mas depois, fazendo um retrospecto...<br />
Como cheguei a dar-me conta de<br />
que isso era discernimento dos espíritos?<br />
Foi por uma operação, onde<br />
a coisa saltava com uma evidência<br />
de arrebentar e que era o seguinte:<br />
se todo mundo visse como<br />
eu vejo, as pessoas agiriam em muitas<br />
ocasiões com muito mais habilidade<br />
do que de fato costumam agir.<br />
Isso é uma prova de que não veem<br />
a situação como está. E também entenderiam<br />
muito melhor o que eu digo<br />
e se compenetrariam muito mais.<br />
Mais uma prova de que não veem a<br />
situação como eu vejo.<br />
Por outro lado, em nada do que<br />
li em Psicologia, etc., encontrei algum<br />
traço, vestígio de que as pessoas<br />
têm facilidade de ver a mente dos<br />
outros como eu vejo. Dada a relação<br />
disso com a minha vocação, como a<br />
serve e sendo até indispensável para<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> na década de 1950<br />
19
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
que ela se realize, em consequência<br />
é realmente imprescindível o discernimento<br />
dos espíritos. Vamos aos livros<br />
de Teologia para ver o que dizem<br />
sobre esse tema, e conferem<br />
com o que eu percebo em mim; logo,<br />
é mesmo discernimento dos espíritos.<br />
Foi por este processo que cheguei<br />
a me persuadir disso.<br />
Como apareceu no meu espírito<br />
o discernimento, todo gotejante de<br />
dúvidas, a respeito da opinião pública?<br />
A expressão “Revolução Industrial”<br />
eu conheci na década de 1930,<br />
porque nunca notei a pronunciarem<br />
diante de mim antes disso, ou se pronunciaram<br />
não fixei a atenção. Li um<br />
artigo escrito por uma pessoa que tinha<br />
sido acusada de não gostar da<br />
Revolução Industrial e que, para se<br />
livrar dessa pecha, dizia-se fanática<br />
dessa Revolução e dava as razões de<br />
seu fanatismo.<br />
Foi nessa ocasião que cogitei:<br />
“Revolução Industrial: que expressão<br />
bem pensada, não vou mais me<br />
esquecer dela.” Mas, antes disso, eu<br />
já entendia o que era. Eu não sabia<br />
dar nomes aos bois, mas já sabia qual<br />
era o boi daquele nome.<br />
Deleites da alma<br />
Tratava-se de um conjunto de estados<br />
de espírito que se definiria assim:<br />
eu notava que havia pessoas na<br />
minha família as quais não estavam<br />
impregnadas pela Revolução Industrial.<br />
Não que possuíssem uma oposição<br />
de doutrina a essa Revolução,<br />
mas tinham um alheamento, porque<br />
quase toda a vida delas passou-<br />
-se numa São Paulinho ainda muito<br />
antiga, na qual a Revolução Industrial<br />
não tinha começado a fazer seus<br />
estragos. Era toda a geração de minha<br />
avó. Ela tinha irmãos, irmãs, que<br />
iam bastante em casa. Dois de seus<br />
irmãos eram solteirões, ateus, republicanos,<br />
etc., e eu notava que estavam<br />
ultraencharcados de ideias revolucionárias.<br />
Mas eu observava, por exemplo,<br />
que o modo deles andarem na rua<br />
era de tranquilidade, a qual eles degustavam,<br />
mas ia acompanhada de<br />
um certo gosto de sentir os bem-estares,<br />
os lazeres da própria alma, e<br />
isso constituía um fator de contentamento.<br />
Não é uma coisa sentimental.<br />
É o gosto de um sosseguinho, de<br />
uma certa despreocupação, de um<br />
certo laisser faire, laisser passer 1 , do<br />
aconchego da vida comum, de permanecer<br />
dentro da natureza. A alma<br />
deles estava dentro da São Paulinho<br />
– usando uma expressão um<br />
pouco prosaica – não como um indivíduo<br />
veste uma roupa de gala, mas<br />
como quem “usa pijama”. Quando o<br />
corpo de um indivíduo está num pijama,<br />
ele sente os mil confortinhos<br />
que a roupa corrente não dá, e o traje<br />
de gala proporciona menos ainda.<br />
É natural.<br />
Por exemplo, chega um, pergunta<br />
como vão passando; todos param<br />
a conversa, então indagam por ele<br />
também, e se há alguma novidade.<br />
Quando conta uma notícia que interessa<br />
muito a todos, comentam: “Ah,<br />
que importante!”, etc. Depois voltam<br />
para o mesmo estilo anterior.<br />
Em certo momento, quando chega a<br />
hora de todo mundo dormir, a prosa<br />
se desfaz com muita tranquilidade:<br />
“Até amanhã, até amanhã, até amanhã!”<br />
Esses lazeres, essas demoras, esse<br />
sentir as comodidades e os deleites<br />
da existência – este é o ponto importante<br />
– são principalmente alma;<br />
inclusive pessoas as quais conheci,<br />
que negavam a existência da alma,<br />
viviam das delícias da alma.<br />
Dois irmãos muito diferentes<br />
Lembro-me, por exemplo, de dois<br />
irmãos os quais tinham vidas muito<br />
diferentes. Um deles era um bem<br />
bonito homem. E às vezes – é uma<br />
coisa esquisita na vida, mas acontece<br />
–, quando há dois irmãos e um é bem<br />
construído fisicamente, bonitão, saudável,<br />
etc., todas as felicidades correm<br />
para a mão dele. E o outro é<br />
um tanto raro, fisicamente meio torto,<br />
também todas as desventuras caminham<br />
em direção a ele. Acho que<br />
um dos sentidos da expressão “atrás<br />
dos apedrejados correm as pedras” é<br />
esse. Eles eram pobres, porque seu<br />
ancestral morreu sendo eles muito<br />
pequenos, e deixou-os sem recursos.<br />
O primeiro, como eu estava dizendo,<br />
bonitão e muito agradável de<br />
trato. Não era um homem brilhante,<br />
mas luzidio, muito garboso. Certo<br />
dia − ele era engenheirozinho da<br />
Secretaria de Agricultura e Obras<br />
Públicas –, veio da Light um recado:<br />
perguntavam-lhe se tinha interesse<br />
em vender as terras pertencentes<br />
a ele no alto da Serra da Cantareira,<br />
pois aquela empresa ia fazer<br />
obras lá. E ele, que era um pouco rabugento,<br />
disse que não tinha terras<br />
nesse local.<br />
Depois, examinando as escrituras,<br />
verificou que por sucessão tinham ficado<br />
aquelas terras para ele. O homem<br />
pulou como uma hiena, foi para<br />
a Light e constatou que seu bisavô<br />
tinha comprado uma infinidade<br />
de terras naquele local, com um fim<br />
especulativo. Então, ele vendeu por<br />
uma fortuna as terras e ficou rico.<br />
Creio que dias depois pediu demissão<br />
da Secretaria de Agricultura; em<br />
seguida foi para a Europa. E morreu<br />
no Brasil entre os oitenta e noventa<br />
anos, numa vida só de prazer.<br />
Seu irmão, pelo contrário, levou<br />
uma vida dura. Montou uma<br />
loja de ferragens no antigo Centro<br />
de São Paulo. Era um positivista,<br />
alto, feio, com um narigão de bico<br />
de águia malograda – que foi atingida<br />
por defluxo –, olhinhos pequenos,<br />
bem mais inteligente que o primeiro,<br />
mas por causa disso cheio de<br />
ideias originais que não davam certo,<br />
meio abstruso, extravagante. Em<br />
certo momento ficou louco, com mania<br />
de perseguição.<br />
20
Guilherme Gaensly (CC3.0)<br />
Naquele tempo, embora a Revolução<br />
Industrial já tivesse ido longe,<br />
alcançara pouco a vida da São Paulinho,<br />
quer dizer, o viver quotidiano<br />
do paulista, seu estado de espírito<br />
muito pouco atingidos. Mamãe<br />
era assim.<br />
Eu via o jeito das pessoas acenderem<br />
os botões elétricos dentro da<br />
casa: uma certa volúpia. Viam a luz,<br />
contentamento! E a vida inteira com<br />
uma sofreguidão de fazer as coisas<br />
acontecerem com rapidez, que indicava<br />
uma espécie de embriaguez da<br />
pressa e da eficácia, no sentido de<br />
desencadear dentro de pouco tempo<br />
muitas ações e sensações ao mesmo<br />
tempo, todas no oposto daquela<br />
impressão dos dois que contei há<br />
pouco. Não era sentir a própria alma,<br />
mas o mundo exterior enquanto<br />
influenciando, mexendo com a alma,<br />
ter as sensações rápidas, em passo<br />
veloz, etc., uma sucessão de impressões<br />
em que a alma não se sente<br />
a si mesma, e de dentro de si mesma<br />
observa o mundo exterior, mas experimenta<br />
o mundo exterior invadi-<br />
-la antes que ela tenha tido tempo de<br />
tomar consciência de si mesma.<br />
O principal objeto do bem-estar<br />
de um homem da era pré-industrial,<br />
ou ao menos da era industrial<br />
tão incipiente que não tinha tocado<br />
a vida dele, consistia em sentir-se<br />
degustando o viver. Para os outros<br />
não: era sentir o viver impondo de<br />
fora para dentro sensações, as mesmas<br />
em todo mundo. Portanto, muito<br />
menos individuadas, marcadas pelo<br />
temperamento de cada um, saboreadas,<br />
mas uma coisa que meio embriaga<br />
e dá ao indivíduo o gosto dessa<br />
embriaguez.<br />
Movimentação na<br />
Estação da Luz<br />
Depois ele caiu na miséria, mas<br />
enfim a cabeça ficou mais ou menos.<br />
Então, os outros irmãos que eram ricos<br />
se cotizavam e davam-lhe uma<br />
mesada, para levar uma vidoca sossegada,<br />
agradável, e paga com aquela<br />
pontualidade de antigamente.<br />
O primeiro morava no Esplanada,<br />
um dos grandes hotéis de São Paulo.<br />
O segundo residia numa casinhola,<br />
numa dessas vilas que têm uma espécie<br />
de pente, uma rua só de entrada<br />
e com várias casas.<br />
Embriaguez da pressa<br />
Parque da Luz, em 1902 - São Paulo, Brasil<br />
Em toda essa geração havia o prazer<br />
da alma primando o do corpo, e<br />
consistindo sobretudo na folga, no<br />
ter tempo, no trabalhar pouco ou<br />
não trabalhar nada, na despreocupação<br />
e no conversar.<br />
Esses dois eram capazes até de falar,<br />
caminhando no Jardim da Luz,<br />
sobre o fato de que os miosótis existentes<br />
em sua casa estavam morrendo,<br />
e seria melhor arranjar uma outra<br />
modalidade dessa flor, que tinha<br />
em tal lugar; e combinariam para ir<br />
no dia seguinte àquele local, para<br />
ver se conseguiriam adquiri-la. Assim<br />
era a vida.<br />
Por exemplo, a Estação da Luz,<br />
como quase todas as estações ferroviárias,<br />
tem dois planos: uma plataforma<br />
com um cais onde as pessoas<br />
embarcam ou desembarcam dos<br />
trens; e outra num nível mais alto,<br />
que é o da rua, na qual há um hall<br />
grande, bilheterias, restaurantes.<br />
Chegava-se à estação pouco antes<br />
do trem partir. E havia certo inebriamento<br />
em chegar pouco tempo<br />
antes, fazendo que o automóvel corresse<br />
bastante. Então, diziam para o<br />
chauffeur: “Toca, toca, toca”. Nas ruas<br />
quase desertas da São Paulinho,<br />
aqueles automóveis com umas buzinas<br />
de borracha ligadas a uma espécie<br />
de corneta; apertava-se a buzina<br />
de borracha: fuóóónnn. Dava a impressão<br />
de que o automóvel assoava<br />
o nariz naquela hora. Depois a borracha<br />
ia se enchendo de novo, e o veículo<br />
correndo, os para-lamas muito<br />
grandões, mal fixados no corpo do<br />
automóvel, fazendo barulho. As ruas<br />
não eram asfaltadas, mas com calçamento<br />
que provocava muitos solavancos,<br />
e solavancos de ferro. Cada<br />
vez que o automóvel mudava de velocidade,<br />
eu tenho a impressão de que<br />
precisava abrir o escapamento e sair<br />
barulho; e a família dentro apressada<br />
porque podia perder o trem. Mas isto<br />
era um atrativo da viagem.<br />
O chefe da família – se era um homem<br />
digno de ser homem –, ao che-<br />
21
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
Guilherme Gaensly (CC3.0)<br />
Avenida Tiradentes, tendo ao fundo a Estação<br />
da Luz, em 1900 - São Paulo, Brasil<br />
gar na estação, quando o automóvel<br />
mal encostava na calçada, de dentro<br />
para fora já estava abrindo a porta e<br />
os carregadores vinham pegar as malas,<br />
mas ele precisava não ser bobo<br />
e tomar nota do número do carregador,<br />
porque senão este podia sumir<br />
com as malas todas. Às vezes, dois,<br />
três carregadores, porque para fazer<br />
uma viagem curtinha era uma mudança,<br />
devido à quantidade de objetos<br />
que levavam.<br />
Os criados ali prontos para atender<br />
uma ordem que o dono ou a dona<br />
da casa dessem na hora de partir,<br />
e a criançada toda que descia do automóvel.<br />
Alguns minutos antes do trem<br />
partir, começava a tocar uma campainha<br />
de metal branco e com uma<br />
linguinha do lado de fora e uma bola<br />
na ponta, que era acionada pelo chefe<br />
da estação para dar ideia de que<br />
todos precisavam descer logo porque<br />
o trem ia partir.<br />
Então, era naquela atmosfera que<br />
o dono da casa comprava os bilhetes,<br />
e havia sempre um probleminha de<br />
troco, o que tornava mais angustiante<br />
a história. Afinal, todos desciam<br />
a escada correndo, entravam no vagão.<br />
E, antes mesmo de dar o sinal<br />
de partida, a máquina se movia com<br />
um golpe para trás em todos os vagões,<br />
mas com uma certa brutalidade,<br />
e inopinado.<br />
Gosto da calma<br />
Depois, a chaminé com o silvo<br />
que rasgava o silêncio da cidade:<br />
fuuuu, fuuuu, fuuuu, a fumaça começava<br />
a exalar e o trem saía da estação.<br />
Adeuses… – iam se ver dali<br />
três ou quatro dias; gente da família<br />
ia acompanhar os viajantes à estação,<br />
às vezes –: “Olha, não deixe de<br />
me escrever, hein!” Essas coisas à última<br />
hora, as senhoras lançavam beijinhos,<br />
etc. Afinal de contas, o trem<br />
estava tão longe que todos se sentavam:<br />
Ahhh! Mas então já se encontrava<br />
mais ou menos no campo, e<br />
outras imagens se sucediam.<br />
Por que tomei o trabalho de descrever<br />
todas essas banalidades? Para<br />
mostrar as impressões que se superpõem<br />
e o gosto do corre-corre.<br />
Mas todo aquele mundo introspectivo<br />
do tempo dos meus avós ia desaparecendo.<br />
E surgia um horror à<br />
introspecção, ao isolamento, às sensações<br />
proporcionadas à vibratilidade<br />
do homem e que não a quebravam<br />
nem a cansavam; e um gosto pelo<br />
contrário.<br />
O trem ia tocando. Em certo momento,<br />
uma voz de criança: “Mamãe,<br />
eu estou enjoado.” Era eu falando<br />
com Dona Lucilia, porque não<br />
sabia proceder bem no trem: em vez<br />
de olhar o que vinha, voltado para o<br />
futuro, olhava reto para o presente.<br />
E aí começava a me enjoar.<br />
Mamãe dizia: “Chupe uma bala.”<br />
Era um conselho que sempre encontrava<br />
ouvidos gratos em mim: comer<br />
alguma coisa. Então, chupava uma<br />
bala, já comprada em casa para o caso<br />
de eu me enjoar. Afinal, depois<br />
me acomodava também e continuava<br />
a viagem.<br />
Eu pensava: “Quando acaba esta<br />
porcaria de viagem!?” E o pessoal<br />
todo contente...<br />
Não há nada contra a pureza aí,<br />
mas é uma outra questão. É o gosto<br />
do temperado, da moderação, da<br />
calma, de sentir-se mais alma do que<br />
corpo, de espichar-se, de esticar-se,<br />
de estar só; nada disso os da geração<br />
nova tinham.<br />
O bonde e o cinema<br />
Uma coisa característica disso é<br />
a seguinte: o bonde morreu debaixo<br />
da execração geral. Ele foi um ídolo.<br />
E no meu tempo de pequeno,<br />
mesmo pessoas ricas e até muito ricas,<br />
que podiam andar de automóvel,<br />
tomavam bonde. Este tinha seu<br />
fascínio próprio; era aberto, quando<br />
uma pessoa entrava via todo mundo,<br />
cumprimentos para esse, para aquele,<br />
sentava-se às vezes ao lado de um<br />
conhecido, ia conversando. Havia<br />
solavancos quando os trilhos se encontravam<br />
uns nos outros e depois,<br />
nas grandes avenidas, o bonde tocava<br />
muito rápido. Às vezes tinha uma<br />
história que nem sei descrever muito<br />
bem, mas em certos momentos o<br />
condutor do bonde parava, descia<br />
e, com uma espécie de chave elétrica,<br />
abria uma caixa que estava ligada<br />
a um poste, dava um sinal qualquer<br />
e acendia ou apagava uma luz<br />
22
dentro daquela caixa. Era para dar a<br />
um outro bonde o sinal de que ele ia<br />
entrar, pois naquele percurso havia<br />
uma linha só. Então, o outro bonde<br />
tinha que ficar esperando, porque os<br />
dois veículos não podiam se encontrar<br />
juntos nos mesmos trilhos. E os<br />
passageiros ficavam esperando que o<br />
outro bonde chegasse, para deixar os<br />
trilhos livres.<br />
Durante esse tempo, pequenas<br />
impaciências indiscretas, que indicavam<br />
a pressa e o gosto do corre-<br />
-corre do homem, e que ele estava<br />
aggiornato. Às vezes, uma senhora<br />
também dizia meio alto: “Ih fulano!<br />
Como está cacete isso, não é?” Para<br />
todo mundo ver que era uma senhora<br />
moderna e estava na onda.<br />
Ora, tudo isso era o contrário do<br />
meu modo de ser.<br />
O cinema apresentava aspectos<br />
assim da vida norte-americana, mas<br />
muito mais agudos e de um modo<br />
inebriante.<br />
Anos mais tarde, aparece no cinema<br />
o Empire States, aquelas pontes<br />
norte-americanas. Então, sempre<br />
havia alguém que dizia: “Imagine,<br />
hein! Isto se sobe em três minutos!”<br />
Subir oitenta andares… inebriante!<br />
Eu pensava: “Puxa! Sobe em<br />
três? Se eu encontrasse um elevador<br />
que levasse dez minutos, era capaz<br />
de preferir, desde que houvesse<br />
um banquinho dentro dele”, como<br />
havia em muitos elevadores. E ainda<br />
na Europa eu alcancei isto: banquinhos<br />
para os passageiros subirem<br />
sentados.<br />
prestando atenção nas distinções sociais,<br />
nem fazer mesuras.<br />
No total, um despojamento de tudo<br />
o que fazia a vida da Idade Média.<br />
Ideia, portanto, de heroísmo individual,<br />
nunca! Só heroísmo coletivo.<br />
Sentir coisas individuais, não.<br />
Apenas coisas coletivas. O progresso<br />
é eminentemente coletivista, porque<br />
foi feito para as massas, a fim de se<br />
sentirem felizes, gostarem, adorarem,<br />
etc. E o indivíduo sente um gosto estranho<br />
em ser massa, estar na massa e<br />
viver na consonância da massa.<br />
E assim como descrevi no começo<br />
da exposição aquele estado de espírito,<br />
que se evolava das pessoas à<br />
maneira de um fantasma extrínseco<br />
e a influenciava, o espírito laico, coletivista,<br />
otimista, e com outras características<br />
do gênero da Revolução<br />
Industrial, se destacava como um<br />
fantasma, ou um demônio, tragando<br />
as almas de todos que entravam naquilo,<br />
e dirigindo o curso dos acontecimentos.<br />
E não havia resistência.<br />
Por exemplo, mexer com instrumentos<br />
mecânicos era considerado,<br />
pelas pessoas da geração dos meus<br />
avós, como muito complicado. Um<br />
reflexo que minha avó, entretanto<br />
uma senhora inteligente, nunca conseguiu<br />
romper era este: ela falava<br />
pouco ao telefone, e quando o fazia<br />
punha o pince-nez 2 . Todas as pessoas<br />
brincavam com ela: “Mas o que é isso?”,<br />
brincavam com respeito. Ela dizia:<br />
“Não me amolem.” Mas na hora<br />
em que a chamavam de novo ao telefone,<br />
ela pegava o pince-nez e o colocava.<br />
Vemos que é como quem se<br />
muniu de um recurso a fim de fazer<br />
algo para o qual ela não se adapta.<br />
As gerações que vieram posteriormente<br />
já nasceram, num certo sentido<br />
da palavra, com lente de contato.<br />
Então, também não fica nada difícil<br />
se compreender a ascensão das neuroses,<br />
das psicoses; depois, das manias<br />
coletivas.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de<br />
27/8/1986)<br />
1) Do francês: deixar fazer, deixar passar.<br />
2) Óculos leves que se mantinham sobre<br />
o nariz pela pressão de uma mola.<br />
Um fantasma ou um<br />
demônio tragando as almas<br />
Então, laicismo completo, otimismo<br />
constante, todo o ambiente da civilização<br />
industrial é continuamente<br />
otimista, porque a Ciência vai resolver<br />
tudo, curar todas as doenças.<br />
Portanto é preciso estar sempre alegre,<br />
rindo, sorrindo. E igualitarismo<br />
total que nem dá tempo de ficar<br />
Cássia Marquez (CC3.0)<br />
23
Raimond Spekking (CC3.0)<br />
C<br />
alendário<br />
Santo Agilolfo<br />
1. Quarta-Feira de Cinzas.<br />
São Rosendo, bispo (†977). Como<br />
Bispo de Mondoñedo, Espanha, empenhou-se<br />
em renovar e estimular a<br />
vida monástica. Após renunciar à sé<br />
episcopal, ingressou no mosteiro beneditino<br />
de Celanova, do qual se tornou<br />
abade.<br />
2. Santa Ângela da Cruz Guerrero<br />
González, virgem (†1932). Fundadora<br />
das Irmãs da Companhia da Cruz,<br />
em Sevilha, Espanha, nada considerava<br />
mais seu que dos pobres, a quem<br />
costumava chamar seus “senhores”, e<br />
se dedicava verdadeiramente ao seu<br />
serviço.<br />
3. Beato Frederico da Frísia, abade<br />
(†1175). Foi pároco de Hallum,<br />
Holanda, e depois abade do mosteiro<br />
premonstratense de Mariengaarde.<br />
4. São Casimiro, rei (†1484).<br />
Beata Plácida Viel, virgem (†1877).<br />
Religiosa da Congregação das Esco-<br />
dos Santos – ––––––<br />
las Cristãs da Misericórdia, sucedeu<br />
Santa Maria Madalena Postel no cargo<br />
de Superiora-Geral.<br />
5. I Domingo da Quaresma.<br />
Beato Jeremias de Valachia, religioso<br />
(†1625). Frade capuchinho que, sempre<br />
cheio de alegria e dedicação, praticou<br />
durante mais de quarenta anos a<br />
caridade junto aos mais necessitados.<br />
6. Beata Rosa de Viterbo, virgem<br />
(†1253). Religiosa da Ordem Terceira<br />
de São Francisco, que consumou precocemente<br />
em Viterbo, Itália, o breve<br />
curso da sua vida aos dezoito anos<br />
de idade.<br />
7. Santas Perpétua e Felicidade,<br />
mártires (†203).<br />
São Paulo, o Simples, eremita<br />
(†séc. IV). Discípulo de Santo Antão<br />
na Tebaida, Egito.<br />
8. São João de Deus, religioso<br />
(†1550).<br />
São Veremundo, abade (†c. 1095).<br />
Nascido em Estella, Navarra, ingressou<br />
no Mosteiro beneditino de Nossa<br />
Senhora de Irache, do qual foi eleito<br />
abade.<br />
9. Santa Francisca Romana, religiosa<br />
(†1440).<br />
Santa Catarina de Bolonha, virgem<br />
(†1463). Religiosa da Ordem de<br />
Santa Clara. Ilustre nas artes liberais,<br />
mas ainda mais ilustre pelos dons místicos<br />
e pelas virtudes da penitência e<br />
da humildade, foi mestra das virgens<br />
consagradas.<br />
10. São João Ogilvie, presbítero e<br />
mártir (†1615). Depois de estudar em<br />
Lovaina, Bélgica, e ingressar na Companhia<br />
de Jesus, retornou clandestinamente<br />
à Escócia natal para exercer<br />
seu ministério. Encontrando-se em<br />
Londres, foi preso e inclementemente<br />
torturado durante quatro meses, antes<br />
de obter a palma do martírio.<br />
Francisco Lecaros<br />
11. São Sofrônio, bispo (†639). Foi<br />
eleito para suceder a Modesto na Sede<br />
Episcopal de Jerusalém e, quando<br />
a Cidade Santa caiu nas mãos dos sarracenos,<br />
defendeu vigorosamente a fé<br />
e a segurança do povo.<br />
12. II Domingo da Quaresma.<br />
Beata Ângela Salawa, virgem<br />
(†1922). Escolheu passar toda sua vida<br />
exercendo a profissão de empregada<br />
doméstica. Morreu numa extrema<br />
pobreza, aos quarenta e um anos.<br />
13. Santos Rodrigo, presbítero, e<br />
Salomão, mártires (†857). Encarcerados<br />
e degolados em Córdoba, Espanha,<br />
por não quererem aderir à religião<br />
maometana.<br />
14. Santa Matilde, rainha (†968).<br />
Esposa fidelíssima e exemplar do Rei<br />
Henrique da Saxônia, Alemanha, cui-<br />
Santa Maria Josefa do<br />
Coração de Jesus<br />
24
––––––––––––––––– * Março * ––––<br />
dou dos pobres e dos anciãos, fundou<br />
hospitais e mosteiros.<br />
15. São Clemente Maria Hofbauer,<br />
presbítero (†1820). Religioso redentorista<br />
nascido na Morávia, República<br />
Checa, foi enviado em missão para<br />
Varsóvia, onde pregou durante duas<br />
décadas. De volta a Viena, empenhou-se<br />
na reforma da disciplina<br />
eclesiástica na Áustria.<br />
16. Beato Roberto Dalby, presbítero<br />
e mártir (†1589). Ministro protestante<br />
inglês que, convertido, recebeu<br />
a ordenação sacerdotal em Reims,<br />
França. Voltando à Inglaterra, foi<br />
encarcerado e condenado por exercer<br />
seu ministério.<br />
17. São Patrício, bispo (†461).<br />
Beato João Nepomuceno Zegri y<br />
Moreno, presbítero (†1905). Nascido<br />
em Granada, Espanha, fundou a Congregação<br />
das Irmãs da Caridade de<br />
Nossa Senhora das Mercês.<br />
18. São Cirilo de Jerusalém, bispo<br />
e Doutor da Igreja (†c. 386).<br />
São Bráulio, bispo (†651). Discípulo<br />
e amigo de Santo Isidoro de Sevilha,<br />
nomeado Bispo de Saragoça, Espanha.<br />
Ajudou o mestre na restauração da disciplina<br />
eclesiástica em toda a Hispânia.<br />
19. III Domingo da Quaresma.<br />
Beato Narciso Turchan, sacerdote<br />
e mártir (†1942). Franciscano preso<br />
na Polônia pelo regime nazista e deportado<br />
para o campo de concentração<br />
de Dachau, onde morreu.<br />
20. Solenidade de São José, esposo<br />
da Virgem Maria e padroeiro da Igreja.<br />
(Transferida do dia 19, por ser domingo<br />
da Quaresma). Ver página 14.<br />
Santa Maria Josefa do Coração de<br />
Jesus, virgem (†1912). Fundadora da<br />
Congregação das Servas de Jesus, em<br />
Bilbao, Espanha.<br />
21. São Nicolau de Flüe, eremita<br />
(†1487). Casado e com dez filhos, renunciou<br />
a importantes cargos, abandonou<br />
o mundo aos cinquenta anos e fez-<br />
-se eremita. É o padroeiro da Suíça.<br />
22. São Nicolau Owen, mártir<br />
(†1606). Durante as perseguições<br />
na Inglaterra, dedicou-se à construção<br />
de esconderijos para os católicos.<br />
Ingressou como irmão converso na<br />
Companhia de Jesus. Foi encarcerado,<br />
cruelmente torturado e morto no<br />
reinado de Jaime I.<br />
23. São Turíbio de Mogrovejo, bispo<br />
(†1606).<br />
Santa Rebeca de Himlaya, virgem<br />
(†1914). Da Ordem Libanesa das Maronitas<br />
de Santo Antônio. Viveu cega<br />
e paralítica durante trinta anos, mas<br />
com uma inabalável confiança em<br />
Deus.<br />
24. Santa Catarina da Suécia, virgem<br />
(†1381). Filha de Santa Brígida.<br />
Casou-se com um nobre sueco e ambos<br />
fizeram voto de viver em perfeita<br />
castidade. Aos quarenta e quatro<br />
anos ingressou no mosteiro de Vadstena,<br />
do qual foi eleita abadessa.<br />
25. Solenidade da Anunciação do<br />
Senhor. Ver página 10.<br />
São Dimas. O bom ladrão a quem<br />
Jesus disse, no alto da Cruz: “Hoje estarás<br />
comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).<br />
26. IV Domingo da Quaresma.<br />
Também chamado Domingo Lætare.<br />
Beata Madalena Catarina Morano,<br />
virgem (†1908). Recebeu o hábito<br />
das Filhas de Maria Auxiliadora<br />
das próprias mãos da santa fundadora.<br />
Erigiu na Sicília, Itália, inúmeras<br />
casas e escolas.<br />
27. Beata Panacea de Muzzi, virgem<br />
e mártir (†1383). Pastorinha italiana,<br />
assassinada por sua madrasta<br />
São Clemente Maria Hofbauer<br />
aos quinze anos, dentro da igreja, enquanto<br />
rezava.<br />
28. São José Sebastião Pelczar, bispo<br />
(†1924). Bispo de Przemyśl, Polônia,<br />
mestre exímio da vida espiritual.<br />
Fundou a Congregação das Servas do<br />
Sagrado Coração de Jesus.<br />
29. São Guilherne Tempier, bispo<br />
(†1197). Defendeu a Diocese de Poitiers,<br />
França, contra a opressão dos<br />
nobres, reformou os costumes e deu<br />
exemplo de uma vida íntegra.<br />
30. São Zósimo, bispo (†600). Foi<br />
primeiramente o humilde guarda do<br />
túmulo de Santa Luzia e depois abade<br />
no mosteiro de Siracusa, Itália.<br />
31. Santo Agilolfo, bispo (†751/752).<br />
Bispo de Colônia, Alemanha, ilustre<br />
pela sua pregação e santidade de vida.<br />
Gustavo Kralj<br />
25
Reflexões teológicas<br />
Gustavo Kralj<br />
As cruzes<br />
do convívio<br />
No trato com as pessoas,<br />
uma palavra, um<br />
olhar, um gesto podem<br />
contribuir para seu<br />
progresso ou decadência<br />
na vida espiritual.<br />
Assim, suportando os<br />
pequenos padecimentos<br />
do relacionamento<br />
humano, colaboramos<br />
com a obra da Redenção,<br />
à qual Nosso Senhor quis<br />
misteriosamente nos<br />
associar.<br />
26
Temos aqui uma das páginas<br />
admiráveis de São Luís<br />
Grignion de Montfort 1 , em<br />
que ele realça o valor da pessoa que<br />
abraça verdadeiramente a cruz.<br />
Levar a cruz com alegria,<br />
ardor e coragem<br />
“Tollat crucem suam” (Mt 16, 24):<br />
que carregue a sua cruz. Suam, a dele!<br />
Que esse homem, que essa mulher<br />
“de ultimis finibus pretium ejus” (Pr<br />
31, 10) – cujo preço toda a Terra, de<br />
uma extremidade a outra, não poderia<br />
pagar – tome com alegria, abrace com<br />
ardor, e leve aos ombros com coragem<br />
a sua cruz, e não a de outro; a cruz<br />
que com a minha sabedoria fiz para<br />
ele em número, peso e medida (Sb 11,<br />
20); sua cruz que, com minhas pró-<br />
Victor Toniolo<br />
prias mãos, pus com grande exatidão,<br />
suas quatro dimensões, a saber: sua<br />
espessura, seu comprimento, sua largura<br />
e sua profundidade (Ef 3, 18).<br />
Sua cruz, que lhe talhei de uma<br />
parte da que carreguei no Calvário,<br />
por um efeito da bondade infinita que<br />
tenho para com ele.<br />
Sua cruz que é o maior presente<br />
que possa fazer aos meus eleitos na<br />
Terra.<br />
Sua cruz, composta em sua espessura<br />
das perdas de bens, das humilhações,<br />
dos desprezos, das dores, das<br />
enfermidades e das penas espirituais,<br />
que devem por minha Providência<br />
chegar-lhe cada dia, até a morte.<br />
Sua cruz composta, em seu comprimento,<br />
de certo número de meses<br />
ou de dias em que ele deverá ser aniquilado<br />
pela calúnia, estar estendido<br />
num leito, ser forçado a mendigar, tornar-se<br />
presa das tentações, da aridez,<br />
do abandono e de outras penas do<br />
espírito.<br />
Sua cruz composta, em sua largura,<br />
das circunstâncias mais duras<br />
e mais amargas, sejam elas causadas<br />
pelos amigos, criados ou parentes.<br />
Sua cruz, enfim, composta, em sua<br />
profundidade, pelas mais ocultas<br />
penas com que o afligirei,<br />
sem que possa encontrar<br />
consolação<br />
nas<br />
criaturas que,<br />
por minha ordem,<br />
voltar-lhe-<br />
-ão mesmo as costas<br />
e juntar-se-ão a<br />
Mim para fazê-lo sofrer.<br />
Nosso relacionamento<br />
com os outros<br />
É tal o valor de quem aceita carregar<br />
a própria cruz que é preciso ir<br />
até os confins do universo para encontrar<br />
uma pessoa que valha tanto.<br />
Todo o ouro da Terra não poderia<br />
pagar uma pessoa assim.<br />
Realmente, a obra-prima de Deus<br />
no universo é a pessoa que carrega<br />
a cruz. Cruz composta do levar todo<br />
o sofrimento que traz consigo o<br />
perfeito cumprimento da vontade divina<br />
sobre nós. Eis o peso de nossa<br />
cruz. Portanto, uma pessoa capaz de<br />
fazer isso vale um preço que todo o<br />
ouro, toda a prata, todos os tesouros<br />
da Terra seriam insuficientes para<br />
pagar.<br />
“Sua cruz que é<br />
o maior presente<br />
que possa fazer<br />
aos meus eleitos<br />
na Terra.”<br />
Logo, uma pessoa, por menos dotada<br />
que seja, ainda que valha pouco<br />
e seja nula do ponto de vista humano,<br />
se carrega a sua cruz não há ouro<br />
no mundo inteiro que valha tanto<br />
quanto essa pessoa.<br />
Daí o fato de devermos ter tanta<br />
alegria quando vemos alguém progredir<br />
nessa aceitação da cruz, pois<br />
cada vez mais ele vai se identificando<br />
com esse ideal de valer mais do<br />
que todo o ouro da Terra.<br />
Na vida de todos os dias, nós temos<br />
isso bem presente?<br />
Cada alma está, a toda hora, progredindo<br />
ou decaindo, subindo ou<br />
descendo, ainda que seja um pouco.<br />
Se cada vez que tratássemos com alguém<br />
tivéssemos isto inteiramente<br />
em vista e de modo consciente: qualquer<br />
palavra que eu diga nesse momento<br />
pode aumentar esse tesouro<br />
e torná-lo mais magnífico; qualquer<br />
omissão minha pode fazer com<br />
27
Reflexões teológicas<br />
Francisco Lecaros<br />
“Mas eu já<br />
tentei ... e não<br />
consegui nada.”<br />
Um dia virá em<br />
que o peso de<br />
tudo quanto se<br />
realizou e não<br />
adiantou, Nossa<br />
Senhora fará<br />
frutificar...<br />
Virgem da Esperança - Igreja de São Tiago, Perpignan, França<br />
que esse tesouro se torne menos esplendoroso;<br />
qualquer palavra errada<br />
minha pode arrancar de dentro<br />
desse tesouro algum valor. Se tivéssemos<br />
isso bem presente, não é verdade<br />
que nosso viver seria completamente<br />
diverso?<br />
Também seria um existir com<br />
muito mais sabor, mais interesse.<br />
Porque então veríamos nosso relacionamento<br />
como uma espécie de<br />
prodigiosa partilha, na qual cada<br />
um de nós tem em relação ao outro<br />
um papel, uma tarefa, uma missão<br />
individual.<br />
A todo momento podemos estar,<br />
em relação com cada alma, fazendo-<br />
-a subir ou decair. Se cada um tiver<br />
a intenção de fazer à alma do outro<br />
todo o bem que possa, sem dúvida<br />
o realizará. Essa é a pura verdade.<br />
Porque a capacidade de comunicar<br />
e de incendiar do zelo é enorme! Às<br />
vezes, basta uma palavra, um olhar,<br />
uma atitude, uma maior simpatia para<br />
tocar uma alma para a frente.<br />
Alguém dirá: “Mas eu já tentei<br />
isso com vários muitas vezes, e não<br />
consegui nada.”<br />
É verdade, mas não importa. Vá<br />
fazendo. Um dia virá em que o peso<br />
de tudo quanto se realizou e não<br />
adiantou, Nossa Senhora fará frutificar<br />
pela palavra de um outro. Então,<br />
o mérito do que eu possa ter dito florescerá<br />
de repente.<br />
Quer dizer, eu não perdi absolutamente<br />
o meu tempo batendo à porta,<br />
pedindo, convidando, atraindo, apagando-me<br />
quando notava estar sendo<br />
molesto. De tudo isso não terei perdido<br />
nada, porque dá glória a Nossa Senhora<br />
e fica inscrito no livro da vida<br />
para o bem da minha alma.<br />
Em certo momento aquele que foi<br />
objeto de meus esforços recebe, pelo<br />
ministério de outro, uma graça que vai<br />
tocá-lo e convertê-lo. Essa graça veio,<br />
em grande parte, por causa de tudo<br />
quanto eu fiz, perseverantemente, para<br />
conseguir a salvação daquela alma.<br />
Como continuamente fazer<br />
o bem à alma de outrem?<br />
Aqui vale muito a teoria dos pequenos<br />
sacrifícios, de Santa Teresinha do<br />
Menino Jesus. Porque isso, em si, não<br />
custa tanto, ao menos tomada alma<br />
por alma. São sacrifícios minúsculos<br />
como uma acolhida afável, pela qual<br />
o outro perceba nossa afinidade com<br />
ele pelos lados bons. Simplesmente isso<br />
pode fazer um bem enorme.<br />
28
Ou então um pequeno favor, uma<br />
pequena atenção, dirigir a palavra<br />
a alguém quando se percebe que<br />
aquele está sem prosa. Enfim, qualquer<br />
coisinha assim.<br />
Mas essa preocupação de estar<br />
continuamente fazendo bem à alma<br />
de outrem ou, muito delicadamente,<br />
reprimindo o mal na alma desse ou<br />
daquele é de um valor incalculável.<br />
Reprimir os defeitos dos outros<br />
não consiste, necessariamente, em<br />
empunhar o rebenque contra eles. Isso<br />
pode ser eficaz quando tratamos<br />
com os filhos da Revolução, inteiramente<br />
entregues ao mal. Mas não<br />
com os filhos da Contra-Revolução.<br />
Refrear os defeitos alheios não consiste,<br />
sobretudo, em dizer algo quando<br />
estamos irritados. Porque o verdadeiro<br />
zelo produz necessariamente frutos<br />
de paz. Mesmo quando ele dá origem<br />
a uma palavra inflamada, esta sai sem<br />
a irritação e a vibração sensível, características<br />
do amor-próprio ferido. Onde<br />
entra esse tipo de excitação, o zelo<br />
está conjugado com algo que não é zelo.<br />
E a parte dinâmica está não no zelo,<br />
mas nesse outro elemento no qual<br />
entrou o egoísmo.<br />
O puro amor de Deus não levaria a<br />
agir com impaciência. No convívio entre<br />
os filhos da luz, nós só temos o direito<br />
de punir a alma que esteja aberta<br />
para a punição. Essa sim receberá com<br />
retidão e com avidez a repreensão.<br />
Não devemos agir, portanto, como<br />
se pegássemos uma rês e a marcássemos<br />
com ferro em brasa: garroteamos<br />
e metemos o sinete! Absolutamente<br />
não é assim.<br />
Como punir? É, no trato com a pessoa,<br />
estabelecer o vácuo em torno dos<br />
defeitos dela, de maneira a fazê-la notar<br />
que tais imperfeições não têm a<br />
menor acolhida de nossa parte. As<br />
qualidades sim, mas os defeitos não. O<br />
indivíduo assim tratado percebe que<br />
por um lado é muito atraído, mas por<br />
outro há uma zona de vácuo e silêncio.<br />
Isso causa na pessoa uma certa<br />
sensação de mal-estar, mas é no fundo<br />
benfazeja porque afasta o que é<br />
mau e põe em dinamismo aquilo que<br />
de bom existe nela.<br />
Modo de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
cumprimentar as pessoas<br />
Certa ocasião, uma pessoa me dizia<br />
não compreender porque se for-<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
...a teoria dos<br />
pequenos<br />
sacrifícios, de<br />
Santa Teresinha<br />
do Menino<br />
Jesus..., não<br />
custa tanto,...<br />
e pode fazer<br />
um bem<br />
enorme.<br />
Santa Teresinha do Menino Jesus preparando as hóstias para a Missa<br />
29
Reflexões teológicas<br />
mava um chumaço de gente para<br />
me cumprimentar, quando<br />
eu saía de uma de nossas<br />
sedes. Ela se perguntava<br />
qual era o bem que<br />
um cumprimento tão<br />
fortuito podia fazer.<br />
Eu não quis dizer<br />
nada, mas tenho<br />
certa experiência<br />
e, por isso, ao<br />
cumprimentar alguém,<br />
presto inteiramente<br />
atenção na<br />
pessoa, tenho em vista<br />
o estado de alma dela<br />
e desejo sua santificação.<br />
Um cumprimento assim,<br />
mesmo sendo um contato<br />
fugazíssimo, é de molde a fazer<br />
bem. A alma fica livre de rejeitar<br />
e deixar cair no chão, mas, pelo menos<br />
as que queiram aproveitam algo<br />
com isso.<br />
Por exemplo, quando se cumprimenta<br />
uma pessoa, ter interiormente<br />
amor pelos seus bons lados, considerando<br />
como ela seria se fosse santa;<br />
creio que bastaria isso para fazer-<br />
-lhe um bem considerável.<br />
Essas são as mil pequenas coisas<br />
as quais fazem com que, a todo momento,<br />
possamos estar melhorando<br />
ou piorando um ambiente. Embora<br />
para nós isso constitua uma cruz, alivia<br />
a cruz dos outros.<br />
Não se trata de uma amabilidade<br />
humana, laica, com a mão estendida<br />
à maneira de campanha eleitoral. Mas<br />
é uma impostação espiritual, tendo a<br />
ideia de como é aquela alma, amando-a<br />
pelo que ela em parte já tem de<br />
bom, e por aquilo que é chamada a<br />
ser. Isso seria uma coisa maravilhosa!<br />
Arquivos <strong>Revista</strong><br />
Nosso Senhor quis associar<br />
nossos sofrimentos à<br />
sua missão redentora<br />
Alguém poderá objetar: “Por que<br />
o senhor diz com tanta ênfase algo<br />
que é tão sabido?”<br />
...tenho certa<br />
experiência e,<br />
ao cumprimentar<br />
alguém, presto<br />
inteiramente<br />
atenção na<br />
pessoa, tenho<br />
em vista o estado<br />
de alma dela<br />
e desejo sua<br />
santificação.<br />
Porque são as verdades mais conhecidas<br />
e fundamentais que nós<br />
devemos amar com maior entusiasmo.<br />
Por isso tenho esse ardor e es-<br />
sa alegria em constatar que isso é<br />
assim, e ver a beleza da ordem<br />
de coisas posta por Deus e<br />
auxiliada continuamente<br />
por Nossa Senhora,<br />
com suas preces.<br />
Algumas pessoas<br />
são dotadas de um<br />
gênio muito fácil,<br />
outras não. Conforme<br />
o temperamento<br />
isso é mais<br />
difícil, entendo<br />
bem, mas há maior<br />
mérito. Sem dúvida,<br />
isso é mais meritório<br />
num genioso do que em<br />
alguém com um temperamento<br />
mais apático. Reconheço<br />
e presto homenagem. Mas façamos<br />
assim e será um gáudio, como o<br />
trato entre os Anjos no Céu. Esse é<br />
o valor de quem carrega a sua cruz.<br />
São Luís diz que Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo prepara a cruz de cada<br />
um com conta, peso e medida, talhada<br />
da própria Cruz d’Ele. É uma<br />
metáfora linda!<br />
O nosso sofrimento, aceito por<br />
amor ao Redentor, é uma espécie<br />
de complemento dos padecimentos<br />
d’Ele no Calvário. Por uma disposição<br />
misteriosa da Providência – embora<br />
o sofrimento de Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo tenha valor infinito, e<br />
uma gota de Sangue da circuncisão<br />
teria sido suficiente para remir todos<br />
os homens –, Ele quis derramar todo<br />
o seu Sangue. Mais ainda: quis associar,<br />
de algum modo, o sofrimento<br />
dos homens à sua missão redentora.<br />
Então, os nossos sofrimentos são<br />
um prolongamento dos d’Ele, a nossa<br />
cruz, um prolongamento da Cruz<br />
d’Ele. <br />
v<br />
(Extraído de conferência de<br />
5/8/1967)<br />
1) Carta Circular aos amigos da Cruz, n. 18.<br />
30
Luzes da Civilização Cristã<br />
Um seminário<br />
Antonio Lutiane<br />
do Céu<br />
Jardim do Castelo de<br />
Chenonceau, França<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> amava de tal modo a<br />
Europa que, se para lá viajasse<br />
de navio, teria vontade de oscular<br />
o solo do cais do primeiro porto<br />
europeu onde a embarcação<br />
ancorasse, porque é a única parte do<br />
mundo onde o Sangue de Cristo e<br />
as lágrimas de Maria geraram uma<br />
civilização católica.<br />
Ao tratar a respeito das belezas da Europa, é<br />
preciso evitar dar a ideia de ser um lugar como<br />
o Brasil, mas onde há castelos e palácios como<br />
Chenonceau, Versailles, ou alguns existentes ao longo<br />
do Reno.<br />
Pelo menos na Europa de antes da Segunda Guerra<br />
Mundial, essas belezas existiam enquanto sendo o ponto<br />
alto de toda uma vida comum em que, em ponto menor e<br />
de maneiras diferentes, havia também belezas mais singelas.<br />
Um castelo elevado, nobre, digno<br />
De maneira que não eram como aquelas montanhas<br />
no caminho de Teresópolis que, geograficamente falando,<br />
são únicas, saem diretamente do chão. A Europa<br />
31
Luzes da Civilização Cristã<br />
constituía, por assim dizer, uma “cordilheira” altíssima<br />
na qual, para haver os “picos” de que falamos, deviam<br />
existir muitas outras elevações na vida cotidiana, mais<br />
ou menos naquela altura, formando, portanto, todo um<br />
ambiente, um estilo e um teor de vida de um continente.<br />
Por exemplo, assim como há Chenonceau, existem<br />
centenas de castelos em graus menores muito bonitos,<br />
casas antigas senhoriais, residências populares e aldeias<br />
que, enquanto tais, são superiores à cidadezinha brasileira,<br />
como Chenonceau é superior à mais bonita casa<br />
que haja no Brasil. Esse traço é importantíssimo, e sem<br />
ele a Europa verdadeiramente não se compreende.<br />
Então, chegando à casa de um pequeno burguês de<br />
Munique que tem pãezinhos de leite, encontrar-se-ão taças<br />
para beber cerveja, facas com cabo de chifre de veado,<br />
e uma porção de outros objetos outrora acessíveis a<br />
todo o mundo, mas que para os padrões atuais são superiores<br />
ao nível comum das pessoas.<br />
Portanto, tempo houve em que todo o teor da vida era<br />
diferente, e a Europa é um continente onde muito disto<br />
resta ainda e foi possível ao homem realizar na Terra,<br />
não propriamente um mundo de gostosuras, mas de<br />
maravilhas, de coisas arquitetônicas sapienciais capazes<br />
de nos falar do Céu e que, por ricochete, também eram<br />
agradáveis.<br />
Muitas vezes, comentam-se belezas da Europa, como<br />
o castelo de Chenonceau, dizendo: “Olhe que gostoso estar<br />
aqui!”<br />
Ora, esse aspecto agradável não é um critério profundo.<br />
É preciso afirmar o seguinte: “Olhe como é elevado,<br />
nobre, digno, e como isso engrandece o homem. Não<br />
parece até um mundo irreal?!” Esse mundo “irreal” é a<br />
imagem do Céu.<br />
Desejo de realizar a maravilha na Terra<br />
Deve-se acentuar que esses são valores religiosos, por<br />
causa do aspecto simbólico que tais coisas têm. O Para-<br />
Antonio Lutiane<br />
Juan Pablo Calavid Arango<br />
Sergio Hollmann<br />
Aspectos do Castelo<br />
de Chenonceau<br />
32
Aspectos do Castelo de<br />
Chambord, França<br />
Marcelo Ferreira<br />
Juan Pablo Calavid Arango<br />
Juan Pablo Calavid Arango<br />
íso celeste, considerado na sua realidade material, é um<br />
lugar onde Deus fez coisas magníficas para o homem viver<br />
imerso num mundo da matéria que lhe fala de Deus,<br />
enquanto sua alma goza da visão beatífica. Tão necessário<br />
é ao homem alimentar o seu espírito com Deus, não<br />
só na consideração das coisas diretas da Religião, mas a<br />
propósito do mundo temporal e do mundo da matéria,<br />
que até no Céu isso vai ser assim.<br />
Precisamos compreender, portanto, que houve uma<br />
virtude, levada pelo europeu medieval a um grau inimaginável,<br />
que foi exatamente o desejo de realizar a maravilha<br />
na Terra.<br />
Aliás, aqueles monumentos gregos tinham isto de interessante:<br />
exprimiam o desejo de fazer um Olimpo na<br />
Terra. As construções dos gregos são mais feitas para serem<br />
habitadas por semideuses do que por homens. Havia<br />
uma certa ideia de fazer um mundo de maravilha. De<br />
sorte que a Europa é uma espécie de mito realizado, e<br />
que a Religião Católica elevou a um seminário do Céu.<br />
A maior maravilha da Europa, por onde propriamente<br />
era maravilhosa, não consistia tanto no fruto produzido<br />
e deixado por ela, mas no espírito europeu, o contato<br />
com as almas sedentas de maravilhoso, nas quais se<br />
sentia muito mais isso do que naquilo por elas realizado,<br />
porque o efeito é sempre menor do que a causa. Os homens<br />
e a sociedade que elaboraram essas maravilhas tinham-nas<br />
em quantidade enormemente maior do que as<br />
coisas por eles deixadas.<br />
Belezas como fator de santidade<br />
Por exemplo, a corte de Luís XIV era muito mais fina<br />
do que Versailles. São Luís IX era enormemente mais<br />
a Sainte-Chapelle do que ela própria. Como também<br />
São Francisco de Assis, incomparavelmente mais que o<br />
Eremo delle Carceri, pois o efeito nunca manifesta tudo<br />
quanto está dentro da causa. Nessa causa, o efeito existia<br />
de um modo inebriante.<br />
33
Luzes da Civilização Cristã<br />
Paulo Mikio<br />
Interior da Sainte-Chapelle, Paris, França<br />
Então, ao considerar a Europa, trata-se de imaginar<br />
as virtudes, as qualidades de alma, o ambiente moral outrora<br />
ali existentes.<br />
Os historiadores, em geral, ressaltam os defeitos e<br />
omitem tudo quanto tornava possível a realização, por<br />
exemplo, Versailles e tantas outras belezas, que duraram<br />
séculos e ainda se encontram nos dias de hoje. Ora, é<br />
claro que havia uma estrutura moral, virtudes, capacidades<br />
sem as quais aquilo não seria possível.<br />
Não se concebe, por exemplo, um nababo que atualmente<br />
construa um palácio como o grande Trianon de<br />
Luís XIV. Embora custasse incomparavelmente mais barato<br />
do que um arranha-céu moderno, não se construiria,<br />
porque havia qualidades de alma que no homem<br />
contemporâneo já não existem.<br />
Devemos, pois, procurar conhecer essa alma e considerar<br />
tais belezas como fator de santidade, como atmosfera<br />
orientada ao Reino de Maria, e imergir no lado religioso<br />
da questão, porque esse é o aspecto mais profundo.<br />
Portanto, ver como do Sangue infinitamente precioso de<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Nossa Senhora<br />
se gerou, pela correspondência à graça, um mundo<br />
inteiro apetente disso.<br />
Teríamos vontade de, chegando à Europa sacrossanta<br />
que criou essas maravilhas, beijar o solo do cais do primeiro<br />
porto europeu onde nosso navio parasse, porque é<br />
a única parte do mundo onde o Sangue de Cristo e as lágrimas<br />
de Maria geraram uma civilização.<br />
Sem dúvida, o Escorial é muito bonito. Mas que encanto<br />
pensar em Felipe II lendo, em um dos salões daquele<br />
palácio, uma carta de Santa Teresa! E desfazendo,<br />
por exemplo, as manobras de um núncio gordalhão, bonachão,<br />
renascentista e contrário à reforma do Carmelo.<br />
Aqui está o cerne, porque Filipe II era mais Escorial do<br />
que todo o Escorial. E Santa Teresa ainda mais, pois ela<br />
era o “Escorial” do Céu, enquanto Filipe II era o da Terra<br />
olhando para o Céu.<br />
Assim nós temos a visualização completa e mais profunda,<br />
pois toca no religioso, no sacral, reconhecendo<br />
e afirmando que nada é válido, nada é autêntico se<br />
não brotar de uma verdadeira visão da Religião Católica,<br />
que os santos tiveram nos seus conventos, nas suas<br />
Ordens religiosas, enfim, nas instituições da Santa Igreja<br />
Católica.<br />
É preciso aprender a amar o<br />
Paraíso celeste nesta Terra<br />
Nessa perspectiva, compreendemos que Versailles,<br />
por exemplo – nos seus bons aspectos, pois ali nem tudo<br />
34
era bom... –, estava presente na alma de São Luís IX, de<br />
São Vicente de Paula, que viveu no tempo de Luís XIII,<br />
dos santos que existiram na época de Luís XIV. Porque,<br />
em seus aspectos virtuosos, Versailles nasceu da Igreja<br />
– receptáculo e fonte de todas as virtudes – e, enquanto<br />
tal, tinha de estar contido no espírito, na mentalidade e<br />
no modo de ser das instituições e dos homens sagrados,<br />
que incutiram naquela gente o espírito católico.<br />
Essa junção entre a Europa e a Religião Católica me<br />
fala à alma até o fundo e é indispensável para compreender<br />
a História da Igreja. Desse modo, temos uma visão<br />
católica da Europa e uma perspectiva da Igreja meditada<br />
em função da obra realizada por ela, o que proporciona<br />
um alargamento da própria visão da Esposa de<br />
Cristo.<br />
O erro dos que não aceitam essa visão é querer para<br />
esta Terra uma espécie de “visão beatífica”, a qual é<br />
o contato com a Igreja sem essa espécie de “paraíso celeste”,<br />
a Civilização Cristã. É fundamentalmente errado<br />
conceber uma religião desligada dessa modelação celeste<br />
da Terra, quando no próprio Céu vamos ter um quadro<br />
material que sustenta a natureza humana, por causa<br />
da psicologia e da estrutura do homem.<br />
Alguém poderia me objetar: “Mas o puramente celeste<br />
não é mais alto do que o terreno?”<br />
Eu respondo: é evidente que é. Basta falar em celeste<br />
para o terrestre ficar como que pulverizado, não precisa<br />
dizer mais nada.<br />
“Então por que o senhor se inebria com essa junção?”<br />
Porque é por meio dela que eu tenho a inteira perspectiva<br />
do celeste, que é o inebriante; aí está a questão.<br />
Mesmo no Céu, sem a junção entre os dados do Paraíso<br />
celeste e a visão beatífica, não teríamos tudo quanto<br />
nossa natureza pede para contemplar a perfeição de<br />
Deus. Em última análise, o Paraíso celeste é necessário,<br />
e é preciso aprender a amá-lo na Terra. v<br />
(Extraído de conferência provavelmente de 1969)<br />
Divulgação (CC3.0)<br />
Gustavo Kralj<br />
Palácio do Escorial, Espanha<br />
O Grande Trianon de Luís XIV<br />
35
Prêmio<br />
demasiadamente<br />
grande<br />
Segundo uma bela e tão razoável tradição,<br />
no momento em que a Santíssima<br />
Virgem, meditando na figura do<br />
Messias profetizado nas Sagradas Escrituras,<br />
completou a imagem que Ela deveria formar<br />
a respeito d’Ele, o Arcanjo São Gabriel Lhe<br />
apareceu.<br />
Assim, a primeira tarefa de Nossa Senhora<br />
foi conceber em seu espírito como seria o Redentor.<br />
Que santidade deveria ter a Virgem Maria<br />
para, com êxito, imaginar a fisionomia, o<br />
olhar, o timbre de voz, os gestos, o caminhar,<br />
o repouso do Filho de Deus!<br />
E que alma era preciso ter para, depois disso,<br />
receber de Deus esta sentença: “Dedicaste<br />
a tua mente a desvendar este mistério, fizeste-o<br />
com tanto amor e tanto acerto que Eu<br />
Te digo: “Aquele que excogitaste, Tu gerarás!”<br />
Prêmio maravilhoso, como nunca houve<br />
nem haverá igual na História!<br />
Ele disse de Si mesmo àqueles que fossem<br />
fiéis: “Serei, Eu mesmo, a vossa recompensa<br />
demasiadamente grande” (cf. Gn 15, 1). Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo é tão perfeito que até<br />
para Nossa Senhora Ele foi o prêmio demasiadamente<br />
grande.<br />
(Extraído de conferência de 2/2/1985)