S. C. Stephens - Rock Star #4 - Intenso Demais (Pelo ponto de vista de Kellan Kyle) [oficial]

anahimo

Copyright © 2015 by S. C. Stephens

Publicado mediante contrato com Grand Central Publishing, New York, USA.

TÍTULO ORIGINAL

Thoughtful

CAPA

Marcela Nogueira

FOTO DE CAPA

Claudio Marinesco

FOTO DA AUTORA

Tara Ellis Photography

DIAGRAMAÇÃO

Kátia Regina Silva | Babilonia Cultura Editorial

ADAPTAÇÃO PARA EBOOK

Marcelo Morais

S855r

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Stephens, S. C.

Rock star [recurso eletrônico] / S.C. Stephens; tradução de Renato Motta. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Valentina, 2016.

recurso digital

Tradução de: Thoughtful

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-85-5889-022-9 (recurso eletrônico)

1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Motta, Renato. II. Título.

16-34802

CDD: 813

CDU: 821.111(73)-3

Todos os livros da Editora Valentina estão em conformidade com

o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA VALENTINA

Rua Santa Clara 50/1107 – Copacabana

Rio de Janeiro – 22041-012

Tel/Fax: (21) 3208-8777

www.editoravalentina.com.br


Eu não estaria onde estou hoje sem o amor e o apoio de meus fãs, então dedico esta canção a

vocês. Obrigado por virem me ver – às vezes viajando centenas de quilômetros para isso; suas

camisetas, scrapbooks, joias e lindos presentes sempre me deixam tremendamente surpreso!

Obrigado por me amarem tanto a ponto de decorar as letras das minhas músicas; ouvir minhas

canções cantadas por vocês, quando estou no palco, é uma emoção que eu nunca esquecerei.

Obrigado pela paixão de vocês, por sua devoção... e suas tatuagens. Fico atônito e me sinto

humilde quando vejo uma delas que foi inspirada em mim ou na minha vida. Por fim, obrigado

por me amarem apesar dos meus defeitos. Sei que eles são muitos, mas vocês escolheram

enxergar além deles e me amar pelo que sou; minha gratidão por tudo isso é maior do que eu

conseguiria expressar.

Sempre no meu coração,


Agradecimentos (S. C. Stephens)

Este livro não existiria sem o apoio dos meus fãs, então meu primeiro agradecimento vai para você, leitor ou

leitora! Também amo profundamente o núcleo de leitores que me acompanham desde o primeiro texto que

publiquei na fictionpress.com. O grupo dos que torceram por mim ainda no começo do meu hobby-que-viroucarreira

foi o que me fez ir em frente! Os livros que seguiram Intenso Demais não teriam existido sem o

incentivo diário de vocês.

Quero agradecer a todos os autores que me apoiaram e inspiraram, especialmente: K. A. Linde, Nicky

Charles, J. Sterling, Rebecca Donovan, Jillian Dodd, C. J. Roberts, Kristen Proby, Tara Sivec, Nicole

Williams, Tarryn Fisher, A. L. Jackson, Tina Reber, Laura Dunaway, Katie Ashley, Karina Halle, Christina

Lauren, Alice Clayton, Colleen Hoover, Abbi Glines, Jamie McGuire, Tammara Webber, Jessica Park, Emma

Chase, Katy Evans, K. Bromberg, Kim Karr, Jessica Sorensen, Jodi Ellen Malpas, Lisa Renee Jones, T.

Gephart, Gail McHugh, e muitos, muitos outros! Também quero agradecer a todos os autores que curtiram

meus personagens a ponto de me perguntar se eles poderiam fazê-los entrar em seus mundos. Sempre me

alegro quando vejo os D-Bags participando de outras histórias.

Para meu lindo, dedicado e trabalhador grupo de leitores beta – MUITO OBRIGADA!!!!! A ajuda de

vocês ao longo dos anos tem sido inestimável para mim, bem como sua boa vontade em me permitir entrar em

suas vidas sem aviso prévio! Vocês são incríveis! Agradeço efusivamente a todos!

Quero agradecer aos seguintes blogs que declararam de forma tão apaixonada o seu amor pelas minhas

histórias: Totally Booked, Maryse’s Book Blog, Flirty and Dirty Book Blog,Tough Critic Book Reviews, The

Autumn Review, SubClub Books, Martini Times Romance, Brandee’s Book Endings, Crazies R Us Book

Blog, Shh Mom’s Reading, Kayla the Bibliophile, Nose Stuck in a Book, Chicks Controlled by Books,

Fictional Men’s Page, Fictional Boyfriends, A Literary Perusal, Sizzling Pages Romance Reviews, My

Secret Romance Book Reviews, Madison Says, The Rock Stars of Romance, Literati Literature Lovers,

Aestas Book Blog, The Book Bar, Schmexy Girl Book Blog, Angie’s Dreamy Reads, Bookslapped, Three

Chicks and Their Books, We Like It Big Book Blog, The Little Black Book Blog, Natasha Is a Book Junkie,

Love N. Books, Ana’s Attic Book Blog, Bibliophile Productions, Sammie’s Book Club e muitos outros além

desses! Vocês todos são uma das principais razões de as pessoas saberem quem eu sou!

Gostaria de fazer um agradecimento especial a todos os vários membros do Team Kellan – também

conhecido como #SexyKK – por estarem sempre à altura do desafio de fazer campanha em prol de Kellan

para tudo a que ele foi indicado. Essa loucura é divertidíssima de assistir, e a arte dos fãs é sempre criativa e

bonita. Como eu não conseguiria trabalhar com o Photoshop nem que a minha vida dependesse disso, fico

impressionada o tempo todo com a arte de vocês. E posso garantir que a campanha #BeggingSC funcionou!

Espero que vocês gostem deste livro tanto quanto eu gostei de escrevê-lo!

Obrigada à minha incrível, fantástica e superagente Kristyn Keene, da ICM Partners. Seus conselhos,

apoio e incentivo são fabulosos! Um agradecimento sincero a Beth de Guzman, da Forever, por ser uma

grande defensora do meu trabalho, e também a Megha Parekh, uma editora extraordinária, pelo cuidadoso

polimento que transformou Rock Star na bela história que é hoje. Gostaria também de agradecer a Lalone

Marketing, a The Occasionalist, a JT Formatting, a Debra Stang, à Okay Creations, à Toski Covey


Photography e à Tara Ellis Photography, por toda a ajuda na concepção e/ou na promoção, tanto minha quanto

dos meus livros.

Em nível pessoal, agradeço à minha família e aos amigos pelo apoio interminável, e também pela sua

paciência e aceitação dos meus horários malucos, especialmente aos meus filhos, que por vezes sofrem com o

fato de mamãe estar em casa, mas indispo​nível. Amo demais todos vocês!

Por último, preciso agradecer a Kellan Kyle. Você pode ser um personagem de ficção, mas mudou

completamente a minha vida, e por isso, devo-lhe tudo.


Capítulo 1

Tudo ao mesmo tempo num dia só

Toco violão desde que tinha seis anos. Integro a banda D-Bags há alguns anos, mas já toquei em várias

outras bandas desde o ensino médio. Minha infância não foi das mais fáceis e a música foi a minha salvação.

Desde a primeira vez em que peguei num violão me senti fisgado. Talvez tenha sido a sensação da madeira

sob meus dedos, lisinha e gelada. Ou a rigidez das cordas e a reverberação profunda dentro do instrumento.

Mesmo no tempo em que eu ainda era muito jovem para entender de verdade o impacto que a música teria

sobre a minha vida, tocar violão já me afetava profundamente. Havia algo significativo naquele instrumento

simples que parecia louco para explodir em som para o mundo. E também havia algo importante dentro de

mim que morria de vontade de extravasar.

Meus pais tinham me dado o instrumento como presente, mas eu já sabia, mesmo naquela época, que

aquilo era mais para eles do que para mim. Talvez fosse um jeito conveniente de me manter ocupado e sem

pegar no pé deles, pois assim eles também não precisariam se mostrar tão presentes. A gravidez de minha

mãe tinha acontecido por acidente e meus pais nunca me cobriram de carinho e amor, nunca me aceitaram de

verdade. Eu fui um erro que havia modificado suas vidas para sempre, e eles nunca me deixavam esquecer

isso. Mas tudo bem. O violão me manteve fora do caminho deles e eu sempre adorei tocar, por isso eu o

considero um presente muito bom, apesar das segundas intenções por trás do gesto.

Embora meus pais não tenham se dado ao trabalho de me colocar em aulas de violão, eu aprendi a tocar

sozinho. Levei um tempão para conseguir um som decente, mas ser filho único, sem amigos próximos e com

pais que não queriam nada comigo foi algo que me proporcionou uma grande disponibilidade de tempo livre.

Meu pai gostava de ouvir rádio o tempo todo, sempre que estava em casa. Geralmente ouvia noticiários ou

entrevistas, mas quando colocava música era sempre rock clássico. Eu adorava tentar imitar as canções;

depois de dominar os acordes básicos, acompanhava com o violão todas as músicas que conseguia. Isso

irritava meu pai terrivelmente. Ele aumentava o volume e me mandava ir para o quarto. “Se quer causar danos

auditivos permanentes com essa barulheira infernal, faça isso lá dentro, para sofrer sozinho”, ele dizia.

Eu subia, mas deixava a porta do quarto entreaberta para continuar ouvindo a música. Tínhamos uma casa

grande quando eu era criança, mas se eu dedilhasse baixinho conseguia acompanhar o que tocava lá embaixo.

Ao longo dos anos que se seguiram, “Stairway to Heaven” foi minha música favorita, mas acho que essa é a

favorita de todo mundo quando está aprendendo.

Pela primeira vez em minha vida de criança eu tinha encontrado algo que me trazia uma paz completa e

total, algo com que eu me conectava, uma coisa que tinha vontades e desejos semelhantes aos meus. O violão

precisava ser tocado. Eu precisava tocá-lo. Foi uma relação mútua, linda, bonita e simbiótica; durante muito

tempo esse foi o único relacionamento verdadeiro que eu tive.

Agarrado ao meu adorado instrumento, fechei a porta à minha casa. “Lar” era uma palavra que eu usava

com parcimônia quando descrevia meu espaço. Aquela era a casa dos meus pais, na verdade, mas eles

morreram alguns anos depois e a deixaram para mim. Eu continuei morando lá porque era um lugar com


quatro paredes e um teto, mas não tinha nenhuma ligação emocional com a residência em si. Tudo ali não

passava de madeira, tijolo, vidro, pregos, cola e cimento.

Na época em que morei em Los Angeles, meus pais venderam a casa dos meus tempos de infância e se

mudaram para uma casa muito menor. Eu só soube disso quando eles morrerem. Quando voltei, notei que eles

tinham jogado fora tudo que era meu. Foi um momento confuso. Eles tinham tentado apagar de sua vida a

minha existência, mas também tinham deixado a casa de herança para mim. E também ações, fundos de

aposentadoria e todo o resto. Às vezes eu tinha dificuldade em entender o porquê de eles terem feito isso.

Será que tinham passado por uma mudança sentimental a meu respeito? Talvez não.

Dei as costas para a casa deles, do lado de fora, e me voltei para o meu lindo Chevelle Malibu preto e

cromado que brilhava ao sol de fim de tarde. Eu tinha comprado aquela máquina em Los Angeles por uma

merreca, e passara grande parte do verão ajeitando o carro todo. Ele era uma coisa linda, era o meu bebê, e

ninguém mais podia dirigi-lo, só eu.

Guardei a guitarra no porta-malas e fui me encontrar com a galera da banda para ensaiar. Depois de entrar

na autoestrada os meus olhos, como sempre, se voltaram para a paisagem urbana única que parecia florescer

em volta: a silhueta de Seattle.

Eu tinha desenvolvido um relacionamento tenso com a “Cidade Esmeralda” ao longo dos anos, amando-a

e odiando-a com a mesma intensidade. Lembranças ruins se escondiam em cada esquina – a solidão da minha

infância, a rejeição, as broncas homéricas, as humilhações constantes, os lembretes diários sobre o quanto eu

era um fardo indesejável. O veneno emocional que meus pais tinham injetado em mim deixou marcas

profundas, mas havia uma coisa boa acontecendo ali e agora; a banda foi o grande motivo para a minha

relação com a cidade mudar.

Evan Wilder e eu tínhamos formado a D-Bags juntos. Só com minha guitarra nas costas, alguns dólares no

bolso e sonhos de uma vida melhor na cabeça, eu tinha deixado Seattle logo após minha formatura do ensino

médio. Pegando carona sempre que conseguia, logo eu me vi num bar na costa de Oregon. Tinha parado para

tomar um drinque e conheci Evan no instante em que ele tentava convencer o barman de que tinha idade

suficiente para tomar uma cerveja. Não tinha. Nem eu, mas consegui uma garrafa para nós dois com algumas

piscadas de olho. Dividimos a bebida e nos entrosamos graças ao amor comum pela cerveja e pela música.

Depois de passar algum tempo com a família de Evan, nós dois fomos para o sul, rumo a Los Angeles, a

Cidade dos Anjos, em busca de alguns músicos para formar uma banda. Conhecemos Matt e Griffin Hancock

no mais improvável dos lugares: um clube de strip-tease. Bem, talvez não fosse tão improvável assim. Afinal,

Evan e eu estávamos cheios de tesão; éramos adolescentes recém-saídos do ensino médio.

Nós quatro nos entrosamos bem desde o princípio, e logo estávamos agitando em bares e boates de L.A.

Provavelmente ainda estaríamos por lá até hoje, mas eu larguei tudo e corri de volta para Seattle depois que

meus pais morreram. Para minha surpresa a galera toda me acompanhou, e temos tocado aqui em Seattle

desde então.

O tráfego ficou mais intenso quando me aproximei do centro. A gente sempre ensaiava no apartamento de

Evan. Como ele não morava num bairro residencial, tecnicamente falando, o barulho que fazíamos nunca era

problema. O estúdio dele ficava em cima de uma oficina de carros. Isso era ótimo, especialmente quando meu

bebê precisava de manutenção. Roxie era a minha mecânica favorita na oficina. Ela amava meu carro quase

tanto quanto eu, e sempre tomava conta da máquina com carinho enquanto eu estava lá em cima tocando com

os rapazes.

Roxie estava rindo de alguma coisa ao lado de um colega quando estacionei o carro, e acenou para mim

no instante em que me viu. Ou, mais precisamente, viu o meu Chevelle; aquela garota só tinha olhos para o

meu carro.

– E aí, Roxie, como vão as coisas?

Passando a mão suja pelo cabelo muito curto, ela respondeu:


– Tudo na boa. Estou pensando em escrever um livro infantil sobre uma chave inglesa que ajuda animais

em apuros. Posso escrever uma cena em que ela dirige um Chevelle. – Ela piscou para mim.

– Parece uma ideia legal. – Eu ri. – Boa sorte.

– Obrigada. – Ela sorriu. Enquanto eu seguia para as escadas com minha guitarra, Roxie gritou: – Ei, me

avise se o Chevelle precisar de alguma coisa! Você sabe que para trabalhar nele eu atendo de graça, não

sabe?

– Sim! Eu sei – gritei de volta.

Griffin estava na cozinha quando entrei. Vasculhava a comida de Evan. Tocar sempre lhe dava fome. Seus

olhos claros se voltaram para mim e eu, sorrindo, joguei para ele a caixa de Froot Loops que trouxera. Na

verdade, eu tinha resolvido pegar aquilo quando estava com o estômago vazio, ao fazer as compras da

semana no supermercado, mas me arrependi depois e sabia que aqueles cereais coloridos nunca seriam

consumidos em minha casa.

A expressão de Griffin se iluminou quando ele pegou a caixa.

– Que maravilha! – murmurou, abrindo a caixa na mesma hora para enfiar a mão no saco plástico interno,

pegando um punhado de cereais açucarados e mastigando tudo de forma barulhenta antes mesmo de eu chegar

à área que funcionava como sala de estar no único e imenso cômodo.

Matt ergueu os olhos quando coloquei o estojo da guitarra sobre o sofá ao lado dele. Olhava para algo no

celular que me pareceu um site. Eu não tinha certeza, não tinha celular e provavelmente nunca teria.

Tecnologia moderna era uma coisa que me deixava desconcertado; eu simplesmente não me importava o

bastante com essas coisas para me interessar. Gostava do que gostava, não importa se estava ou não fora de

moda. Sério mesmo, meu carro ainda tinha toca-fitas e Griffin vivia me zoando por causa disso, mas enquanto

o aparelho funcionasse eu me sentia feliz. Era assim com tudo que eu tinha.

– Acho que nós deveríamos começar a tocar em festivais e feiras, não só em bares. É tarde demais para

entrar no Bumbershoot deste ano, mas acho que deveríamos participar no ano que vem. Já estamos prontos. –

Com corpo magro, cabelo louro e olhos azuis, Matt e Griffin se pareciam muito, fisicamente. Em termos de

personalidade, porém, os dois primos não poderiam ser mais diferentes.

– Será? Você acha? – perguntei, não muito surpreso por Matt estar pensando em nosso futuro. Ele quase

sempre fazia isso.

Atrás dele eu vi Evan vagar através do equipamento de ensaio que a banda mantinha ali. Seus olhos

castanhos sorriam para mim debaixo de seu cabelo escuro cortado bem curto, quando ele se aproximou do

sofá.

– Na verdade, acho que estamos tão bem preparados quanto jamais poderemos estar, Kell. É hora de

darmos um passo à frente. Com suas letras e meus arranjos… nós valemos ouro. – Matt era um dos

guitarristas mais talentosos que eu já tinha visto, mas era Evan quem fazia os arranjos da maioria das nossas

canções.

Matt olhou para Evan com um aceno de cabeça entusiasmado. Olhando de um para o outro, ponderei

comigo mesmo se realmente estávamos prontos. Dei razão a eles: estávamos, sim. Tínhamos uma quantidade

de músicas mais que suficientes e muitos fãs. Aquilo seria um grande avanço para a banda, ou talvez uma

monumental perda de tempo.

Quando Evan chegou à parte de trás do sofá, cruzou os braços sobre o peito. Todos os meus colegas de

banda eram cheios de tatuagens – as de Griffin eram mais do tipo obsceno, garotas nuas e coisas desse tipo;

as de Matt tinham mais classe e significado por trás de cada curva ou símbolo. As de Evan, por sua vez, eram

como quadros vivos e fortes. Seus braços eram uma obra-prima de museu, imagens feitas de fogo, água e os

outros elementos da natureza.

Matt e Griffin tinham compleição magra, enquanto Evan era mais volumoso. Meu tipo de corpo ficava no

meio-termo entre esses extremos, não muito magro nem musculoso. Em termos de arte corporal, porém, eu era


virgem. Simplesmente não conseguia pensar em algo que amasse o bastante a ponto de marcar de forma

permanente na pele. Já que nada na vida era permanente, por que fingir que era imortalizando uma imagem

numa tatoo? Aquilo me parecia sem sentido.

Sorri para meus empolgados companheiros de banda.

– Vamos partir para isso, então. Pode agitar tudo, Matt.

Sorrindo, Matt voltou para o celular. Griffin se aproximou e jogou um braço em volta de mim.

– Fantástico! O que devemos fazer, então? – Alguns pedaços soltos de cereais Fruit Loops caíram de sua

boca quando ele perguntou isso.

– Por enquanto nada – respondi, dando um tapa amigável no seu peito.

Ele emitiu um som de dor e mais cereais coloridos lhe caíram das bochechas. Juro que Griffin tinha a

maior boca entre todas as pessoas que eu conhecia.

Depois de duas horas de ensaio, demos o dia por encerrado. Nos enfiamos em nossos carros e fomos para

o Pete’s Bar. Ali era a nossa base, o local onde tocávamos pelo menos uma vez por semana, às vezes mais, e

sempre acabávamos o dia ali, mesmo nas noites em que não nos apresentávamos. Era como se o dia não

estivesse completo até entrarmos pelas portas duplas, mesmo que fosse por pouco tempo. Todos nos

conheciam ali, e nós também conhecíamos todo mundo. Nossas coisas estavam lá, nossos amigos viviam lá,

toda a nossa vida estava naquele lugar.

Estacionei o Chevelle na minha vaga quase oficial. Como sempre ela estava vazia, à minha espera.

Quando desliguei o motor, os sons de uma canção de Fleetwood Mac desapareceram em pleno refrão. Por um

instante eu pensei em ligar o carro novamente para acabar de ouvir a música, mas já a tinha ouvido um milhão

de vezes e queria mais era me sentar no bar e tomar uma cerveja gostosa e estupidamente gelada. Essa

imagem me pareceu fantástica naquele momento.

Evan saltou do carro dele quase ao mesmo tempo que eu, e me deu um tapinha no ombro quando nos

encontramos, na traseira do meu carro. Olhei em torno, em busca de Matt e Griffin, mas eu não vi a Vanagon

de Griffin por ali.

– Ué… Onde estão Tweedledee e Tweedledum? – perguntei a Evan.

Ele sorriu com o canto do lábio.

– O babaca do Griffin disse que precisava correr para casa porque esqueceu de trazer o short de Traci e

ela precisa dele para trabalhar.

Imaginando os dois, balancei a cabeça. Traci era garçonete no Pete’s. Ela e Griffin andavam brincando

ultimamente, o que não era exatamente um problema, a não ser pelo fato de que Traci estava começando a se

apegar; ela não era o tipo de mulher que aceita manter as coisas em nível casual sempre. O que a tornava

exatamente o oposto de Griffin.

A luz acolhedora dos anúncios em néon no bar tomou conta de mim quando abri as portas para entrar no

meu refúgio. Respirei fundo assim que entrei e algumas ansiedades desconhecidas foram dissolvidas dos

meus músculos. Tudo naquele lugar me relaxava. O barulho, os cheiros, a música e as pessoas. Se havia um

lugar onde eu poderia dizer que me sentia contente de verdade, era ali.

Do meu lado esquerdo, uma voz rouca gritou:

– E aí, qual é, Kellan?

Olhando para trás eu vi Rita, a atendente do bar, que me observava. Tinha no rosto a expressão de um

homem morrendo de sede diante de uma garrafa de água, mas eu já estava acostumado com esse olhar. Eu

tinha dormido com ela uma vez; pela forma como ela sempre me olhava, porém, uma vez não tinha sido o

bastante.

– E aí, Rita? – Balancei a cabeça em saudação, e seus olhos se fecharam com um gemido suave.

– Nossa! – murmurou ela, fazendo descer uma unha muito comprida e pintada até o fundo do decote. –

Como ele é gostoso!…


Depois de acenar em saudação para os frequentadores de sempre, Evan e eu seguimos lentamente até

nossa mesa. Bem, tecnicamente ela não era “nossa”; porém, do mesmo modo que a vaga “cativa” para o meu

carro, ela ficara conhecida como a “mesa da banda” devido às nossas visitas constantes ao Pete’s.

Inclinando-me para trás na cadeira, coloquei os pés sobre a ponta da mesa. Enquanto decidia se iria pedir

iscas de frango ou hambúrguer, meus pés foram arrancados dali sem a menor cerimônia, e bateram no chão

com um baque surdo. Perdi o equilíbrio e meu corpo foi lançado para frente. Uma loura bonita vestindo uma

camiseta vermelha muito justa onde se lia “Pete’s” estava em pé ao lado da mesa com uma das mãos no

quadril. Seus lábios pareciam colados, com um ar de desagrado.

– Não coloque os pés sobre a mesa, Kellan. As pessoas comem aí.

Um sorriso divertido fez meus lábios se curvarem.

– Desculpe, Jenny. Estava só ficando à vontade.

A boca de Jenny se abriu num sorriso encantador.

– A cerveja é que deve te deixar à vontade. Duas ou quatro? – Seus olhos claros se alternaram entre mim,

Evan e as cadeiras ainda vazias em nossa mesa.

Evan percebeu que aquela era uma pergunta sobre os companheiros de banda que faltavam e ergueu

quatro dedos.

– Eles estão chegando.

O sorriso de Jenny se tornou brincalhão quando ela estendeu a mão e coçou a cabeça de Evan. Ele fechou

os olhos e começou a bater com a perna no chão num ritmo rápido, como um cão que recebe carinhos na

barriga. Jenny riu e seus olhos se iluminaram de um jeito muito atraente. Eu gostava dela. Jenny tinha um bom

coração e nunca me julgava abertamente pela natureza promíscua da minha vida.

Eu tinha descoberto o sexo numa idade muito precoce, completamente por acaso e, como a música, aquilo

me marcara profundamente. Eu ainda ansiava pelo sentimento e pela sensação de proximidade que o sexo me

proporcionava, e procurava por isso sempre que tinha chance. Não era exigente sobre as mulheres com quem

dormia – mais velhas, mais novas, atraentes ou simples, mães, namoradas ou esposas. Quem elas eram não

me importava, eu só queria saber se estavam interessadas. Isso provavelmente não me parece uma coisa boa

de se admitir, mas era a pura verdade. Sexo era uma válvula de escape para mim. Ele me fazia sentir como

parte de algo maior que eu; ele me fazia sentir conectado com o mundo à minha volta. E eu precisava me

sentir desse jeito, porque minha vida era cheia de espaços vazios.

Eu tinha tentado muito seriamente dormir com Jenny assim que ela começou a trabalhar no Pete’s, mas ela

me cortou logo de cara. Disse que não pretendia ser brinquedinho de ninguém. Mesmo assim não recusara

minha amizade, e isso significou muito para mim. Eu não a dispensaria se ela mudasse de ideia algum dia e

topasse uma ou duas transas, mas não pretendia forçar a barra. Gostava do ponto onde estávamos, mesmo não

rolando nada sexual.

Quando Jenny se virou para ir embora, eu pedi:

– Quero um hambúrguer também. Com bacon! – Ela ergueu o polegar no ar para me mostrar que tinha

ouvido.

Quando desviei os olhos da bunda de Jenny, Evan me deu uma cotovelada nas costelas.

– Escuta, Kell – começou ele. – O que você acha de Brooke? Ando pensando em convidá-la para sair.

Ainda não sei ao certo, cara, mas acho que ela pode ser a mulher da minha vida. Tipo, você já reparou nas

covinhas dela?

Evan sorriu e eu não pude deixar de sorrir de volta para ele.

– Sim, eu acho que ela é ótima, vá em frente. – Evan encontrava uma nova “mulher da sua vida” a cada

seis semanas, mais ou menos. Bem que poderia tentar algo sério com Brooke. Quem sabe esse seria o melhor

mês e meio da sua vida. Depois de dar meu pitaco, recoloquei os pés sobre a mesa e esperei a comida, a

bebida e a chegada dos meus outros companheiros de banda.


– Ai meu Deus… Você é Kellan Kyle!…

Virei-me ao ouvir meu nome. Graças à minha ocupação eu era reconhecido o tempo todo, especialmente

naquele bar. Na mesa à minha frente, uma jovem baixinha com cabelo tão louro que era quase prateado olhava

na minha direção. Por trás do volumoso rímel preto, as íris da garota eram de um tom azul-turquesa, como

água tropical calma. Não havia como negar que ela era muito bonita e parecia saber quem eu era. Diante

disso, lancei-lhe um sorriso genuinamente simpático em resposta à sua declaração empolgada.

– A seu dispor – eu disse, dando um tapinha num chapéu imaginário. Ela riu e o som que emitiu foi

estranhamente inocente, considerando a forma como ela me comia com os olhos. A verdade estava na cara:

aquela garota não era nenhum anjo de inocência. Como eu também não era, já combinávamos um com o outro

logo de cara.

Ela perguntou se poderia se sentar à minha mesa e eu dei de ombros. Claro, por que não? Depois que ela

puxou uma cadeira exclamou, emocionada:

– Eu vi você tocar duas semanas atrás na Pioneer Square. – Sua mão se aproximou, seus dedos tocaram

meu peito e, em seguida, deslizaram até minha barriga. – Você foi… incrível!

Meus lábios se abriram de leve quando eu acompanhei com os olhos a mão dela, e ela também baixou o

olhar. Só aquele breve toque despertou algo em mim… desejo, anseio. Eu não tinha certeza do porquê,

exatamente, mas havia algo no toque humano que calava fundo em minha alma. Um tapinha nas costas dado

por um amigo conseguia alterar completamente o meu humor, e uma garota alisando minha coxa me deixava

com tesão na mesma hora. Aquela era uma ligação forte e inexplicável que eu compartilhava com as pessoas

que cruzavam meu espaço pessoal, quer elas percebessem ou não. Naquele momento, aquela mulher que eu

nunca tinha visto me acariciava e me colocava na mente coisas devassas e lascivas.

Eu era uma massa moldável nas mãos dela, agora. Faria qualquer coisa por aquela garota… Bastaria ela

pedir.

Vamos lá, peça para mim, garota com olhos de mar, e eu serei o que você quiser que eu seja.

No fim da noite ela finalmente me perguntou, sem muitos rodeios:

– Que tal irmos até sua casa para tomarmos um drinque? Onde você mora?

Senti a avidez me correr pelas veias e sabia muito bem o que iria acontecer, mas mantive uma expressão

casual e despreocupada.

– Moro perto daqui.

Levamos menos de quinze minutos para chegar à minha casa; minha “convidada” me seguiu no carro dela.

Com ela quase nos meus calcanhares, caminhei até a porta da frente e a abri. Assim que entrei, joguei as

chaves sobre a mesa em forma de meia-lua que ficava debaixo de uma fileira de ganchos para pendurar

casacos. Por sobre os ombros, perguntei a ela:

– Então, que tipo de bebida você gostaria de tomar?

A porta da frente bateu com força; em seguida, dedos ferozes agarraram meu braço e me viraram para

trás. As mãos dela puxaram meu rosto para baixo e, antes que eu percebesse, a boca da loura cobria a minha

por completo. Acho que ela tinha mudado de ideia com relação à bebida. Descendo, segurei-a pela bunda e a

ergui no ar. Como se fosse uma jiboia, ela enroscou as pernas em volta da minha cintura e apertou com muita

força. Isso tornou um pouco mais difícil carregá-la, mas consegui chegar até a base da escada.

A loura começou a me arrancar as roupas no segundo em que a coloquei no chão do meu quarto. Depois

de jogar longe a minha jaqueta e a camiseta, fazendo com elas uma pilha no chão, ela passou as unhas pela

minha barriga. Meus músculos se retesaram em resposta e ela gemeu baixinho.

– Puta merda, você tem uma barriga de tanquinho que é uma delícia. Quero lambê-la.

Ela me empurrou de costas na cama e começou a fazer exatamente o que tinha anunciado. Meus olhos se

fecharam lentamente como os movimentos leves da sua língua, que enviaram ondas de desejo até minha

virilha. Malhar regularmente era outra forma de libertação para mim, algo que eu fazia para clarear as ideias


e limpar as teias de aranha das recordações ruins que às vezes se agarravam aos cantos da mente, se

recusando a me deixar em paz. Como resultado disso eu malhava muito e meu corpo era sarado e bem

definido. As mulheres adoravam isso e eu me sentia grato pelo corpo escultural, efeito colateral da minha

libertação.

Quando a loura chegou às minhas calças, não hesitou nem por um segundo. Abriu o zíper com força,

arriou-as e caiu de boca. Respirando fundo, agarrei os cabelos dela no instante em que ela alcançou meu

ponto mais sensível. Algumas mulheres não gostavam quando eu segurava a cabeça delas com força para

mantê-las no lugar. Outras enlouqueciam com isso. A loura gemeu e enviou vibrações com a língua ainda mais

excitantes ao longo do meu pau.

Quando acabou de me degustar ela se afastou ligeiramente. Eu abri os olhos para vê-la me fitando com

uma expressão de paixão, luxúria e diversão. Por um breve segundo eu me perguntei o que ela realmente

pensava de mim. Será que sabia algo além do meu nome e de eu tocar numa banda de rock? Será que sacava

que eu virava meu coração do avesso nas letras das minhas músicas? Será que percebia que a vida que eu

levava sempre deixava um buraco vazio na minha alma? Que eu me sentia tão sozinho que às vezes quase não

me aguentava em pé? Será que estava interessada em descobrir todas essas coisas? Ou o fato de eu ser um

rock star era o suficiente para ela? Como costumava ser para todas as outras garotas com quem eu dormia?

Menos de cinco segundos depois estávamos completamente nus e eu explorava o corpo dela com a língua.

Agindo de forma quase agressiva, minha convidada me virou de costas e se colocou por cima. Aquilo foi

bom; suas mãos em todo o meu corpo me traziam sensações maravilhosas. Relaxando, eu lentamente me

entreguei à emoção de estar fisicamente ligado a alguém. Adorava esse momento. Os lábios da garota

viajaram pelo meu corpo e seu cabelo quase prateado fez cócegas na minha pele; eu adorava isso também.

Sem nenhum aviso prévio, ela deixou de enfiar a língua várias vezes dentro do meu umbigo e me tomou

inteiro na boca. Gemendo, agarrei um pedaço do lençol com força no instante em que o prazer em estado puro

me acendeu ainda mais. Minha mente se desligou de vez e eu comecei a entrar de verdade no clima. Quando

senti o tesão aumentar até o quase doloroso ponto de erupção, a garota parou. Ergui a cabeça e olhei para ela.

Por Deus, aquilo era uma provocação?

Com os olhos semicerrados, ela lambeu os lábios.

– Você é gostoso demais. Quero você dentro de mim. Quero que você me foda agora! Com força e

depressa.

Direto ao ponto. Tudo bem… Com força e depressa. Eu estava com tesão suficiente para fazer as duas

coisas. Empurrando-a de costas, trepei em cima dela. Quando tentei me afastar para pegar uma camisinha ela

enrolou as pernas em torno de meus quadris, como se pretendesse deixar o caminho livre por completo.

Tudo bem, tenha paciência!

Afastei suas pernas e ela fez cara de estranheza. Percebi até um clarão de fúria em seus olhos.

Enquanto ela se contorcia debaixo de mim e implorava para eu me apressar, abri a gaveta da minha

mesinha de cabeceira. Camisinhas eram uma coisa da qual eu não abria mão. Não estava a fim de pegar

alguma doença, nem de engravidar alguém. Minha própria existência tinha sido o resultado de minha mãe trair

meu pai, e essa era uma das muitas razões pelas quais ele me detestava. Se bem que minha mãe, na verdade,

também me odiava. Um bastardo na minha árvore genealógica já era o bastante, e era por isso que eu sempre

me protegia.

Pegando um dos muitos pacotes quadradinhos que mantinha ali, abri a camisinha e a desenrolei sobre o

pau antes de minha acompanhante reclamar ainda mais sobre a minha ausência. Quando eu a penetrei com

força ela não me pareceu tão apertada quanto eu gostaria, mas foi legal… foi realmente bom. Assim que

entrei ela gritou meu nome. A plenos pulmões. Meus ouvidos doeram. Ela estava tão pronta para mim que me

mexer e rebolar lá dentro foi fácil. Dei-lhe uma estocada interminável, afundando o máximo que consegui,


mas me encolhi um pouco quando ela tornou a gritar com mais força. Será que eu a estava satisfazendo tanto

que ela não conseguia controlar os berros?

– Isso mesmo, Kellan! Mais forte! Mais rápido!

Ela gritou isso tão alto que eu tinha certeza de que todos no quarteirão conseguiriam ouvi-la. Talvez a

ideia fosse exatamente essa. Quando continuei a bombeá-la sem parar, ela colocou os braços e as pernas em

volta de mim. Sentindo algo ainda melhor que meu clímax iminente, enterrei minha cabeça na curva de seu

pescoço. Sua mão subiu para se enredar suavemente no meu cabelo e eu finalmente senti. Aquilo. Aquela

ligação. Aquele vínculo. Era isso que eu queria, o que eu gostava, e tentei desesperadamente me agarrar com

mais força nela.

Deixe-me sentir isso só por mais um minuto…

– Mais força, Kellan! Ai Deus, você é incrível! Vamos, me foda. Isso mesmo, me foda com força!

A ligação que eu sentia se desfez à medida que os gritos dela se intensificavam. Tentei segurar aquele

sentimento íntimo, mas não consegui; o momento passou. Grunhindo, me enfiei lá dentro com mais força e

mais depressa. Era melhor acabar logo com aquilo. Os gritos e gemidos dela se tornaram quase teatrais, mas

eu a senti se apertar ao redor de mim, então percebi que ela não estava fingindo por completo. A tensão

também foi aumentando dentro de mim, até me lançar além dos limites da sanidade.

– Por Deus, sim – murmurei, no instante em que ejaculei. Porra! Por uma fração de segundo, enquanto

ejaculava com força, me senti muito bem. Tudo em minha vida era perfeito, tudo estava certo no meu mundo.

Então meu orgasmo terminou, a sensação desapareceu e um sentimento mais escuro começou a preencher o

vazio.

Saí de dentro dela, rolei de lado e me deitei de costas. Ela estava ofegante ao meu lado com uma

expressão de satisfação no rosto.

– Nossa, você é mesmo tão incrível quanto elas contam.

Olhei para a garota.

Elas dizem que eu sou incrível? Quem são elas, exatamente?

– Volto rapidinho – avisei, me erguendo.

Levantando da cama eu saí do quarto, entrei no banheiro e arranquei a camisinha. Imaginei que deveria

estar me achando incrível naquele momento, mas me senti esquisito. Ainda mais incompleto. Aquilo

começava a se tornar um sentimento familiar que surgia logo depois do sexo. Era como acordar com uma

ressaca poderosa, e toda vez eu me enxergava um pouco mais asqueroso que antes.

Enquanto eu olhava para mim mesmo no espelho e me debatia em confusão, ouvi minha acompanhante se

agitando de um lado para outro no quarto. Um segundo depois ela saiu no corredor, já completamente vestida.

Com um suspiro melancólico, ela olhou para o meu corpo magro e totalmente nu.

– Puxa, se eu tivesse tempo, gostaria de ficar aqui para repetir a dose com você desde o início. –

Encolheu os ombros. – Pena eu ter de ir embora. – Entrando no banheiro, jogou os braços em volta de mim e

me deu um abraço forte. – Eu me diverti muito. Obrigada! – Beijou meu ombro, e deu um tapa estalado na

minha bunda nua. – A gente se vê por aí, Kellan. – Rindo, completou: – Mal consigo acreditar que eu acabei

de trepar com Kellan Kyle!

Virando-se, seguiu quase aos pulos pelo corredor até a escada. A porta da frente abriu e fechou menos de

um minuto depois. Em seguida o motor de um carro foi ligado e o veículo começou a se afastar ruidosamente.

Ainda olhando para a porta do banheiro, eu sussurrei “Até logo”, para o corredor vazio.

Voltando os olhos para o espelho, respirei fundo novamente. Uma sensação de desapontamento me

inundou. Eu deveria me sentir melhor do que aquilo. Quando eu era mais jovem, a euforia do pós-sexo

sempre me acompanhava durante um longo tempo. Às vezes até por vários dias. Agora, porém… ela

desaparecia quase instantaneamente. Alguma coisa estava faltando. Eu me sentia vazio e ainda mais solitário

do que antes do sexo… E não fazia a menor ideia do que devia fazer para mudar isso.


Capítulo 2

Um pedido inesperado

As paredes do loft de Evan reverberavam com o poder de nossos instrumentos amplificados. Os pratos

metálicos vibravam enquanto a caixa da bateria emitia sons graves e curtos. A guitarra de Matt entoava alto

uma melodia complexa e o baixo de Griffin fornecia um cenário firme no qual podíamos pintar nossa obraprima

musical.

Sem refrear absolutamente nada da minha habilidade, cantei o refrão intenso no limite do alcance das

minhas cordas vocais. E me mantive com segurança lá no alto. Minha voz se harmonizava com os vários

ritmos que circundavam nosso pequeno palco e isso me provocava arrepios. Perto do final, a canção atingiu o

clímax. Todos os instrumentos seguiram no mesmo ritmo intenso e pleno. Subitamente, tudo caiu num

completo silêncio. Essa era a parte mais difícil da canção. Para mim, pelo menos. Eu tinha dois versos para

cantar naquele espaço de silêncio total. Não haveria instrumental para mascarar quaisquer falhas potenciais

que surgissem na minha voz. Não haveria chance de refazer tudo quando eu executasse aquela passagem ao

vivo. Seria apenas eu, minha voz e centenas de ouvidos atentos a tudo. Mas eu não estava preocupado com

isso, em absoluto. Havia pouquíssimas coisas sobre as quais eu tinha certeza na minha vida, e essa era uma

delas. Minha voz nunca me deixava na mão. Isso jamais acontecera.

No silêncio do loft de Evan, dei tudo de mim. Após o segundo verso, Evan voltou a atacar as caixas. De

leve, a princípio, de um jeito quase imperceptível, para em seguida se elevar num crescendo que

complementava a intensidade da minha voz. Quando consegui botar pra fora os últimos quatro versos, os

rapazes cantaram junto. Em seguida, todos os instrumentos entraram em ação ao mesmo tempo, até mesmo

minha guitarra. Os pelos em meus braços permaneceram arrepiados enquanto terminávamos a música

poderosa, e eu me vi sorrindo de orelha a orelha quando a última nota desvaneceu. Os fãs iriam enlouquecer

com aquilo. Aquela música definitivamente faria parte do nosso repertório durante muito tempo.

Querendo saber se os rapazes sentiram o mesmo, eu me virei para analisar as expressões de Matt e de

Evan. Matt sorria tão amplamente quanto eu. Evan assobiou com força.

– Caralho, cara, isso foi incrível! Acho que ela já está pronta. Devíamos tocá-la na próxima sexta-feira.

Balancei a cabeça em concordância. Era exatamente isso que eu estava pen​sando. Tirando a guitarra do

ombro, Matt a colocou no suporte metálico e se aproximou de mim. Analisando meu rosto como um médico

que examina o paciente, perguntou:

– Como está sua garganta? Foi um tom muito alto para você? Muito intenso? Nós poderíamos baixá-lo um

pouco, acho que tudo continuaria funcionando bem.

Experimentando devagar, massageei minha garganta e engoli em seco duas vezes.

– Não precisa, estou numa boa.

Matt olhou como se não acreditasse em mim.

– Vamos apresentar essa canção centenas de vezes nos palcos. Se você não puder recriá-la à perfeição

todas as vezes, acho melhor modificá-la para que você consiga. Manter a consistência é o mais importante.

Essa música não vai nos servir de nada se ela esculhambar com a sua garganta.


Meus lábios abriram um sorriso imenso diante da preocupação genuína de Matt com o meu bem-estar e

com o som ideal para a banda. Se não fosse pela tenacidade dele, eu não tinha dúvida de que não seríamos

tão bons quanto éramos.

– Sei disso, Matt. Confie em mim, se eu não conseguisse segurar o tom com firmeza eu lhe diria. Conheço

minha voz. Essa canção não nos trará problemas.

Aparentemente satisfeito, Matt finalmente sorriu.

– Beleza, porque desse jeito ficou bom pra cacete! – Ele riu, e eu não pude deixar de rir junto com ele.

Pegando minha guitarra, guardei-a no estojo que estava sobre o sofá de Evan. Pensando no meu astral

melancólico da noite anterior e me lembrando de uma das razões disso, falei por sobre o ombro:

– Ahn… a Joey foi embora lá de casa. Se vocês souberem de alguém que procura um quarto, aquele

espaço está livre novamente. – Joey, minha ex-roommate passional, tinha caído fora algumas noites antes e a

casa estava muito mais calma desde então. Só que eu odiava aquele silêncio opressivo.

Griffin estava ocupado, fingindo tocar seu baixo para uma horda de fãs devotados. Entre balanços

enlouquecidos da cabeça, ele imitava chifres de diabo, girava a língua e lançava a pelve para frente com

violência. Como de costume, nos ensaios, todos nós só ignorávamos sua exibição do tipo “sou um roqueiro,

veja minhas macaquices”, optando por deixá-lo curtir suas fantasias em paz. Ele normalmente ignorava

nossos comentários também, já que eles eram geralmente relacionados às músicas. Minha última frase,

porém, atraíra a sua atenção.

Seu rosto pareceu despencar quando ele largou a guitarra.

– Joey tirou o time de campo? Porra, que merda. De verdade? O que aconteceu?

Eu não tinha vontade de entrar em detalhes, então lhe dei uma resposta tão vaga quanto possível.

– Ela ficou com raiva e caiu fora. – A verdade era que ela me pegara no flagra; me viu na cama com outra

mulher e se mandou. Joey e eu não éramos exclusivos, mas eu só tinha percebido o quanto ela era possessiva

algumas noites antes, quando ela praticamente tentou me capar e perseguiu minha visita até o fim da rua.

Depois voltou e anunciou algumas palavras bem escolhidas para me descrever, mas a pérola “Você vai ficar

sozinho pelo resto da vida porque é um pedaço de merda que não vale nada” era a frase que tinha ficado

grudada na minha cabeça.

Griffin enxergou através da minha resposta nebulosa. Com os lábios finos e franzidos de aborrecimento,

cruzou os braços sobre o peito.

– Quer dizer então que você já tinha comido Joey, não é? – Eu não respondi a isso. Nem mesmo pisquei.

Griffin bufou um suspiro irritado. – Caralho, Kellan! Era para eu comer aquela mulher primeiro.

Mesmo que seu argumento fosse absurdo e idiota, tive de sorrir para ele. Não tinha conhecimento de que

existia uma lista de espera para trepar com Joey. Matt zoou o primo.

– Você queria que Kellan esperasse passar sessenta anos, até Joey finalmente ficar entediada o bastante

para lhe dar uma oportunidade, Griffin? Ninguém tem esse tipo de paciência, cara.

Griffin lançou olhares furiosos para todos os lados, enquanto Evan ria do papo, e avisou a Matt:

– Eu não estava falando com você, seu babaca.

Matt não desanimou diante da resposta agressiva de Griffin. Em vez de cuidar da própria vida, como

Griffin subentendeu, ele respondeu com:

– Por que Kellan deveria se contentar com o que você dispensa, afinal? Acabaria pegando alguma doença.

Eles dão palestras especiais nas escolas sobre essas merdas, sabia?

Chamas iluminaram os olhos claros de Griffin.

– E por que eu sou obrigado a pegar as mulheres comidas e dispensadas por Kellan o tempo todo? Por

que não posso arranjar uma invicta, pelo menos de vez em quando? Não seria justo?

Evan começou a rir tão forte que teve de passar um dedo no olho para enxugar uma lágrima. Ver que ele

começava a perder a seriedade de vez me fez rir muito. Matt tentava manter a cara séria enquanto respondia à


pergunta tola de Griffin, mas era difícil. Com a voz entrecortada com risadas, Matt lhe explicou:

Kellan tem opções e você não tem, seu bundão. Tem de agarrar o que lhe cai de migalhas.

Nem um pouco contente ao ouvir isso, Griffin olhou para cada um de nós, com vagar.

– Foda-se você; e você; e você! – Com isso, ele saiu ventando e puxou a porta com força.

Matt suspirou quando suas risadas acabaram.

– Imagino que eu deva ir até lá para acalmá-lo. Precisamos da van dele para o show de hoje à noite. –

Dei um tapa forte de incentivo no ombro dele, quando passou por mim. Boa sorte.

Duas semanas depois eu ainda estava morando sozinho na casa vazia que tinha sido dos meus pais quando o

telefone tocou na cozinha.

– Alô! – atendi no segundo toque. Recostado na bancada, brinquei de enrolar o fio do telefone nos dedos

enquanto esperava resposta. E ela veio rápido.

– E aí, Kellan?

Meus lábios se abriram num sorriso largo e instantâneo. Eu conhecia muito bem o sotaque forte do outro

lado da linha. E o reconheceria em qualquer lugar.

– Denny?

de ouvir sua voz de novo me fez sentir mais leve, como se minhas preocupações já estivessem

desaparecendo. Denny Harris tinha sido um dos pontos mais brilhantes da minha infância, talvez o único. A

fim de parecer altruístas e santos para os amigos, meus pais decidiram participar de um programa para

hospedagem de um estudante de intercâmbio que tinha dezesseis anos de idade. Eu tinha quatorze, na época.

Eles não pediram minha opinião, é claro, mas eu tinha gostado muito da novidade. Sempre quis ter um irmão,

e a ideia de ter um amigo em casa por um ano inteiro tinha me parecido excelente.

Contei cada segundo até a chegada dele e quando o momento finalmente chegou, desci correndo a escada

do andar de cima para conhecê-lo.

Quando cheguei à porta de entrada, ainda correndo, um adolescente muito bronzea​do e de cabelos escuros

estava parado entre meus pais, analisando os aposentos da casa com olhos interessados. Um sorriso educado

estava em seus lábios quando ele levantou a mão de leve, em sinal de saudação; seus olhos eram tão escuros

quanto seu cabelo, que era cortado muito curto. Eu devolvi o gesto de saudação e exibi um sorriso torto. Fui o

único membro da família a sorrir.

Os lábios de minha mãe estavam franzidos em sinal de desaprovação. Papai me olhou com um ar

carrancudo, mas isso não era novidade. Papai sempre fazia cara de poucos amigos para mim.

Com voz sensível e melindrada, mamãe se manifestou:

– É rude manter seus convidados esperando, Kellan. Você deveria ter aguardado nossa chegada na porta

da frente, ou nos encontrado no carro para ajudar a descarregar as malas.

Papai ladrou:

– E por que diabos você demorou tanto tempo para aparecer, afinal?

Tive vontade de dizer que eu deveria ter ido com eles até o aeroporto para esperar o nosso hóspede, mas

essa era uma briga que eu não conseguiria vencer, então não me dei ao trabalho de falar nada. Eu tinha pedido

para ir, mas eles me fizeram ficar em casa. Mamãe tinha dito que eu iria apenas “atrapalhá-los”, como se eu

fosse um bebê que ainda não conseguisse andar, ou algo assim. Papai simplesmente sentenciou:

– Nada disso. Fique aqui.

Fiquei lá em cima no meu quarto, tocando violão, até que ouvi a porta da frente se abrir. Tinha levado

trinta segundos para guardar o instrumento e correr para o andar de baixo. Mas, sabendo que nada do que eu

dissesse teria adiantado, simplesmente abri um sorrisão e lhes dei uma resposta que eu sabia que eles iriam

pelo menos aceitar e concordar.

– Acho que sou um pouco lento.


Um ar de impaciência e irritação encheu os olhos de papai, nada de novo nisso.

– Isso é uma grande verdade – murmurou ele. Mas seus olhos se estreitaram quando ele me examinou. Ele

queria que eu me vestisse bem para a chegada do novo morador de nossa casa; acho que ele esperava que eu

estivesse de terno e gravata. Nem pensar, certo? Eu vestia uma calça jeans desfiada, tênis, e a camiseta de um

bar local.

Foi nesse momento que, me pegando desprevenido, meu pai estendeu a mão e agarrou um punhado de fios

do meu cabelo e os puxou com força, girando o pulso e me enviando alfinetadas de dor. Sabendo que

qualquer movimento que eu fizesse iria tornar tudo ainda mais desagradável, eu me aguentei firme e

completamente imóvel. Quase arrancando fora o meu cabelo, meu pai empurrou minha cabeça para trás e

rosnou:

– Eu lhe disse para cortar a porcaria desse cabelo. Você parece um vagabundo degenerado. Vou raspar

sua cabeça qualquer dia desses, quando estiver dormindo! – Meus pais sempre tinham odiado meu cabelo em

estilo rebelde e desgrenhado. Talvez esse fosse o motivo de eu o manter assim o máximo de tempo que

conseguia.

Com o canto do olho, percebi que o novo visitante de cabelos escuros acompanhava o que acontecia com

olhos arregalados e um ar de choque. Pela forma como lançava olhares para meu pai e para mim, muito

inquieto e deslocando o peso do corpo para frente e para trás, era óbvio que se sentia desconfortável por

assistir ao confronto. Não o culpo. Não era exatamente um grande momento do tipo “bem-vindo ao nosso

bairro”.

Com os dentes cerrados, perguntei ao meu pai:

– Você vai me apresentar ao nosso hóspede ou vai tentar me escalpelar com as mãos nuas?

Papai caiu em si, lançou um olhar para o estranho que estava entre nós e me largou na mesma hora.

Mamãe, com toda a sua glória maternal, soltou um suspiro longo, como se sentisse sitiada, e disse:

– Não seja tão dramático, Kellan. Até parece que ele machucou você só por “tocar” no seu cabelo. – Pelo

seu tom de voz, era como se papai tivesse simplesmente despenteado meu cabelo com um gesto divertido. O

mais estranho foi que as palavras de minha mãe me fizeram sentir como se eu tivesse exagerado na reação.

Inflando o peito com força, papai finalmente nos apresentou.

Kellan, este é Denny Harris. Ele veio lá da Austrália. Denny, este é Kellan, o meu… ahn… filho. – Essa

última palavra foi adicionada com uma clara relutância.

Com um sorriso afável, Denny me estendeu a mão.

– É muito bom conhecer você.

Tocado por sua sinceridade, eu apertei a mão dele e devolvi a gentileza.

– Prazer em te conhecer também.

Depois disso as malas de Denny foram quase empurradas na minha cara, e eu fui condenado a virar o

mordomo da casa enquanto meus pais mostravam todos os cômodos ao novo visitante. Meus pais esperavam

obediência cega de mim, por isso não houve palavras gentis para acompanhar a exigência de eu levar a

bagagem para cima, mas Denny agradeceu com muita educação quando recolhi suas coisas. Isso fez com que

eu simpatizasse com ele na mesma hora. Sua gratidão simples era mais reconfortante do que qualquer coisa

que mamãe e papai tivessem me dito alguma vez na vida.

Mas meu momento de alegria calorosa não durou por muito tempo. No instante em que Denny desapareceu

com minha mãe, meu pai me agarrou pelo braço e zombou:

– Não teste a minha paciência, Kellan. Você terá de se comportar de forma impecável enquanto Denny

estiver aqui. Não vou aturar nenhuma merda sua. Se você mijar fora do penico, vou surrar você com tanta

força que vão se passar duas semanas antes de você aguentar ficar em pé. E mais duas antes de conseguir se

sentar sem dores. Você entendeu o que eu disse?


Papai tinha cutucado meu peito com força para ressaltar suas palavras, dando-lhes uma ênfase

desnecessária. Eu tinha entendido tudo perfeitamente. Ao contrário de alguns pais, ele não costumava me

fazer ameaças vazias só para me manter na linha. Nada disso… Ele tinha falado sério em cada palavra que

pronunciara. Iria ignorar meus gritos pedindo para ele parar. Ele me deixaria quase em carne viva, à beira de

uma hemorragia. Estava no comando e queria que eu soubesse disso. Eu não representava nada para ele.

Absolutamente nada.

Lembrando a mim mesmo que as ameaças de meu pai já não importavam mais, empurrei essas lembranças

para os recessos mais distantes do meu cérebro e foquei a atenção em Denny, do outro lado da linha. Estava

empolgado por ter notícias do meu velho amigo. Fazia séculos desde a última vez em que tínhamos nos

falado. Isso era lamentável, já que ele tinha voltado a morar nos Estados Unidos e mantermos contato era

mais fácil agora, pelo menos teoricamente. Denny entrava frequentemente em meus pensamentos, e eu sempre

me perguntava como será que ele estava indo na faculdade.

Denny riu.

– Pois é, sou eu. Há um tempão que a gente não se fala, né, companheiro?

Meu sorriso se ampliou.

– Sim, tempo demais. Acho que já está na hora de um reencontro.

– Bem, na verdade… Esse é mais ou menos o motivo de eu estar ligando. Estou de mudança para Seattle.

Vou me mudar assim que me formar, daqui a duas semanas, e tive a leve esperança de você conhecer algum

lugar onde eu possa ficar. Um local onde eu e minha namorada possamos ficar, na verdade. De preferência um

apartamento que não seja muito caro. A grana anda meio curta por aqui, sabe como é?

Pisquei depressa, sem acreditar na boa notícia. Ele estava se mudando para Seattle? De vez? Senti uma

fisgada de empolgação me subir pela espinha. Mal conseguia esperar para tornar a ver Denny.

– Você está vindo de mudança para cá? Sério mesmo? Isso é fantástico, cara. E sua percepção de tempo

foi perfeita! Estou com um quarto livre. Totalmente mobiliado, por sinal. A última pessoa que morou nele

deixou um monte de coisas para trás. Posso alugá-lo para você pelo preço que você puder pagar. – Eu teria

dito que ele poderia ficar até de graça, mas Denny não gostava desse tipo de mordomias, e eu sabia que nunca

iria aceitar uma oferta assim. A proposta que eu lhe apresentei, porém, ele não conseguiria recusar.

Houve uma pausa longa do outro lado que me deixou um pouco apreensivo. Puxa, eu não tinha acabado de

fazer a Denny uma ótima proposta? Ele não deveria estar em êxtase?

– Denny, você me ouviu?

– Ahn, ouvi sim, mas é que eu não esperava… Tem certeza de que está tudo bem se a gente ficar com

você? – Seu sotaque me pareceu mais forte, com uma ponta de preocupação, talvez. Ele estava preocupado

comigo? Será que sentia como se estivesse forçando uma situação a favor de si mesmo? Puxa, isso não

poderia estar mais longe da verdade.

Tentei tranquilizá-lo com meu tom de voz e palavras bem escolhidas.

– É claro, cara, por que não estaria tudo bem? Fiquei muito feliz com a ideia. Você não gostou da

proposta?

Outra longa pausa estranha se estendeu por vários segundos, acompanhada por um suspiro pesado.

– Sim, sim, claro que gostei. Será ótimo! Kiera e eu não vamos criar problema algum para você, eu

prometo.

Uma risada leve me escapou. Denny nunca era um problema para ninguém. Era a pessoa mais fácil do

mundo para se conviver. Na verdade, eu não conseguia pensar em uma pessoa que não gostasse dele.

– Não se preocupe com isso. Minha casa é a sua casa. – Depois de uma pausa eu acrescentei, zoando

dele, de leve: – Quer dizer que você finalmente arrumou uma namorada, hein?

Denny tinha sempre resistido aos avanços de todas as garotas da escola. Costumava dizer que não queria

se envolver com alguém porque sabia que a coisa não iria durar muito tempo. Sua recusa constante em sair e


se encontrar com garotas era uma piada interna de longa data entre nós dois. Agora, porém, pensei que era

genial Denny ter finalmente encontrado uma garota com quem se comprometer. Era grande a chance de ele não

ser mais virgem, como no tempo de escola.

Bom trabalho, companheiro.

– Kiera é o nome dela, então? – perguntei. – Como ela é?

Juro que seu riso me pareceu tenso, como se ele de repente tivesse ficado nervoso.

– Ela é… É ótima. O amor da minha vida. Não sei o que eu faria da vida sem ela.

Ele ressaltou bem essas palavras, como se estivesse me alertando sobre alguma coisa. Franzi a testa de

estranheza, sem sacar muito bem o significado daquilo. Balançando a cabeça para os lados, decidi que

simplesmente o estava interpretando errado. Já fazia um tempão desde que tínhamos nos falado pela última

vez. Era normal pintar algum constrangimento, até colocarmos os nossos papos em dia.

– Beleza, então! Fico feliz em ouvir isso. Você merece toda a felicidade do mundo.

Depois de outra pausa, Denny disse, baixinho:

– Você também merece, Kellan. – Uma sensação de desconforto despencou em cima de mim, pois suas

palavras ressaltaram muito o silêncio do lugar onde eu morava. Ele já tinha me dito algo semelhante antes de

voltar para sua casa, na Austrália, quando ainda éramos adolescentes.

– Ahn… Obrigado – sussurrei, incapaz de dizer mais.

Denny pigarreou com força para limpar a garganta, como se estivesse limpando o passado.

– Não se preocupe. Vou ligar para você novamente quando o dia da nossa ida estiver mais próximo. E…

Obrigadão, Kellan. Isso significa muito para mim.

– Você é sempre bem-vindo.

Isso significa muito para mim também.

Quando pousei o fone de volta no gancho, percebi que um sentimento de justiça e correção me inundava.

Denny estava voltando. Sinceramente, nunca achei que fosse voltar. Nunca sequer me ocorreu que ele poderia

voltar a Seattle. Porém, apesar de Denny e eu só termos morado juntos durante um ano, ele era como se fosse

um membro da família para mim. Um irmão.

Ele acabou me salvando naquele verão, de certo modo. Sem ter a intenção de fazer isso, eu tinha forçado

demais a barra em casa. Papai costumava segurar seu temperamento agressivo sempre que Denny estava por

perto, mas o controle completo da raiva nunca tinha sido um dos seus pontos fortes.

Kellan, traga sua bunda até aqui dentro!

Tentando adivinhar o que eu tinha feito para tornar a voz do meu pai tão furiosa, respirei fundo duas vezes

e hesitei antes de entrar em casa. Não queria me juntar a ele na cozinha. Na verdade, senti vontade de sair

correndo. Mas Denny colocou a mão no meu ombro e disse:

– Vou com você, companheiro. – Aquilo me fez relaxar. Se Denny estivesse comigo, papai provavelmente

não faria muita coisa além de gritar, e eu conseguiria lidar com isso.

Fingi um ar corajoso, apesar de minha barriga estar se contorcendo de medo, e entrei na cozinha com

Denny alguns passos atrás de mim. Talvez meu pai não tivesse notado que Denny estava comigo, ou se sentia

revoltado demais para se importar. Agarrando meus ombros com força, ele me puxou na direção dele, mas

logo desviou e me empurrou contra a parede. O movimento repentino me pegou desprevenido e eu bati a

cabeça contra o gesso do revestimento.

Minha visão ficou enevoada por um segundo e um choque de dor me envolveu a cabeça. Para o caso de

papai ainda não ter acabado comigo, eu instintivamente ergui as mãos. Mas ele só gritou.

– Eu mandei você se certificar de que as tampas das latas de lixo estavam bem fechadas! Você fez um

trabalho de merda e agora temos lixo espalhado por todo o quintal! Vá limpar aquilo agora mesmo!

Lembrei da minha raiva ao perceber que aquele era o motivo de meu pai estar tão completamente fora de

si. A porra do lixo? Até hoje isso me deixava indignado.


Denny resolveu se colocar do meu lado nessa disputa.

– Nós vamos limpar tudo juntos, sr. Kyle.

Dei um passo para frente e coloquei a mão no ombro de Denny, com um sinal para que calasse a boca.

Não tinha certeza sobre até que ponto meu pai estava furioso, e Denny não merecia aturar sua ira. Não

querendo que ele tomasse parte daquela briga, balancei a cabeça para os lados e disse a ele:

– Não precisa, Denny. Vá lá para cima que eu cuido de tudo.

Impaciente, papai tornou a empurrar meus ombros para trás. Eu perdi o equilíbrio, tropecei e caí de bunda

no chão. Torci o pulso ao cair em cima da mão, e me lembro que ofeguei de dor. Papai não se importou.

Olhando para mim no chão, gritou:

– Deixe de perder tempo e vá limpar a bagunça que ficou aquilo lá, antes de os vizinhos perceberem o

chiqueiro em que você transformou nossa casa.

Irritado e ferido, berrei com ele também, algo que nunca deveria ter feito.

– Se você me deixasse em paz, eu poderia ir limpar a porra do seu precioso gramado!

Todo o sangue desapareceu do meu rosto no instante em que percebi que tinha dito isso em voz muito alta.

Tinha respondido com rispidez e desrespeito, e falado um palavrão. Olhando para meu pai, percebi

claramente o instante em que ele perdeu o controle por completo e soube, sem sombra de dúvida, que o fato

de Denny ser testemunha daquilo não importava mais. Minha insolência tinha ido longe demais e meu pai

estava decidido a partir para a ignorância.

Enquanto eu me erguia do chão devagar, meu pai cerrou os punhos. Nesse instante eu me lembrei de

fechar os olhos com força, sabendo o que estava por vir e pensando:

Vá em frente, papai, estou pronto.

Essa lembrança ecoou em minhas lembranças. Para minha surpresa, porém, foi a voz de Denny que tinha

interrompido o silêncio sinistro.

– Escute, espere…

Houve um golpe forte, o som de algo se esmigalhando e o corpo de Denny colidiu com o meu. Eu tinha

recuperado o equilíbrio a tempo de segurá-lo quando ele começou a cair. Quando olhou para mim, havia

sangue escorrendo de seu lábio cortado. Ele tinha se colo​cado na minha frente e recebera o soco em meu

lugar, e também a minha dor. Vendo que ele ficara tonto e desorientado, ajudei Denny a se sentar no chão e me

agachei ao lado dele.

Papai ficou sem ação, paralisado, olhando para nós como se tivéssemos entrado em combustão

espontânea. Foi então que desviou o olhar para as mãos e murmurou:

– Santo Cristo! – Sem outra palavra para nós, correu para longe da cozinha como se estivesse fugindo da

cena de um crime.

Lembro-me de que eu ainda tremia muito quando me agachei ao lado de Denny. Tinha certeza de que meu

pai iria me golpear logo depois de atingir Denny, numa punição dobrada por eu ter estragado a sua fachada de

pai zeloso. Logo depois, tive a certeza de que isso iria acontecer assim que ele me encontrasse sozinho. Foi

nesse instante que Denny colocou a mão sobre o meu joelho e disse:

– Está tudo bem. Estou bem.

Quando olhei para ele, vi que seu lábio estava sangrando, muito inchado, mas ele não me pareceu ter um

pingo de medo quando seus olhos encontraram os meus. Balançando a cabeça, repetiu baixinho:

– Está tudo bem.

Assustado, comecei a balançar a cabeça para os lados, como se tivesse um tique nervoso. Meu corpo

inteiro tremia, como se eu estivesse sofrendo de hipotermia. Eu não conseguia me acalmar. Tinha certeza de

que meu pai nunca iria deixar as coisas por isso mesmo. Ele iria me pegar. Iria me ensinar uma lição. Iria me

fazer sofrer.


Sentando-se um pouco mais reto, Denny colocou uma mão reconfortante no meu ombro e me disse

palavras que ninguém me tinha dito antes.

– Tudo vai ficar bem. Eu estou aqui por você, Kellan. Sempre estarei aqui para você.

Meu medo começou a diminuir quando contemplei seus olhos calmos. Ele parecia tão certo do que

dizia… Aquilo me deu esperança. E ele estava certo mesmo. Meu pai teve tanto medo de Denny contar a

alguém o que ele tinha feito que não colocou a mão em mim durante todo o resto do tempo em que Denny

ficou conosco. Aquele tinha sido o melhor ano da minha vida.

Esperar pela chegada de Denny e sua namorada foi um cuidadoso exercício na arte da paciência. Tentei

deixar o tempo fluir o mais naturalmente que me foi possível, mas havia momentos em que eu literalmente

olhava para o relógio e desejava empurrar os ponteiros para frente. Mas nada ajudava e cada dia parecia se

arrastar mais lentamente que o anterior. Cheguei a pensar que a tensão pela expectativa da chegada deles iria

fazer estourar um vaso qualquer do meu cérebro. Isso não seria poético?

Eu me senti empolgado de verdade pela perspectiva de Denny ouvir minha banda. Essa, provavelmente,

era a razão de eu ter montado uma banda, para início de conversa. Normalmente os meus pais nunca teriam

concordado em me deixar fazer algo assim, mas depois de meu pai ter dado aquele soco sem querer em

Denny, tudo tinha ficado muito mais agradável. Num esforço para manter Denny feliz e de bico calado, não

creio que existisse algo que meu pai tivesse negado a ele.

Denny sempre tinha se mostrado fascinado pela minha capacidade de tocar e cantar, e sempre me

incentivara a usá-la.

– Você tem um talento dado por Deus – costumava dizer. – Não fazer nada com ele seria um desperdício.

– Quando ele descobriu que nossa escola passaria a usar bandas locais para tocar nos bailes, em vez de

contratar um DJ, ele me pediu para montar um grupo juntos, e chegou mesmo a limpar o caminho e evitar a

proibição do meu pai.

Não só Denny tinha sido um ponto brilhante no meu passado como também tinha, talvez sem ter

consciência disso, trazido um propósito para a minha vida, que até então me parecia sem sentido. Ele tinha

preparado um molde para o meu futuro, e eu faria qualquer coisa para retribuir esse favor.

Eu assobiava alguma coisa, descontraído, quando entrei no Pete’s naquela sexta-feira à noite. Jenny me

lançou um olhar que claramente dizia: Por que tanta alegria? Dei de ombros e disse, simplesmente:

– É sexta-feira e, como dizem no filme, “Graças a Deus é sexta-feira”. – Jenny riu da minha resposta, o

rabo de cavalo loiro saltitando ao redor dos ombros. Deixando-a, caminhei até Sam, o segurança no bar.

Estendendo a mão, mostrei a ele a chave extra da minha casa. Suas sobrancelhas se uniram e seus lábios se

apertaram.

– Vamos morar juntos, nós dois? Você é um cara legal e tudo o mais, Kellan, mas eu gosto de morar

sozinho. – Sua voz era profunda, meio rouca, e combinava perfeitamente com os músculos absurdamente

desenvolvidos. Juro que os bíceps do cara eram tão grandes quanto o meu crânio, e eu não tinha certeza de

como isso era fisicamente possível, mas a verdade é que ele não tinha pescoço.

Rindo, balancei a cabeça para os lados.

– Denny vai chegar hoje à noite. Eu provavelmente vou estar no palco, tocando. Você pode entregar isso

para ele? – Denny e Sam tinham sido colegas de turma no ensino médio, e nós três sempre saíamos juntos na

época em que Denny estava aqui. Assim que Denny me ligou para perguntar sobre algum quarto para alugar,

eu contei tudo a Sam.

Seu punho enorme se fechou em torno do metal brilhante.

– Claro, entrego sim – grunhiu ele, guardando a chave no bolso.

– Obrigado! – Batendo no ombro dele de forma amigável, eu me virei e fui em direção à minha mesa.


Evan e Matt já estavam lá. Griffin estava levando um papo com Traci perto do bar. Por papo eu quero

dizer que Traci lhe dizia alguma coisa em poucas palavras enquanto ele piscava os olhos com uma expressão

confusa no rosto estupefato. Matt observava Griffin com um sorriso nos lábios e Evan estava abraçado com

Brooke. Acho que Brooke tinha topado o convite que ele lhe fizera para sair. Muito bom, pois isso iria deixálo

feliz por algum tempo.

Dois segundos depois de eu me sentar, duas garotas se aproximaram de mim. Puxando cadeiras ao mesmo

tempo e se colocando uma de cada lado, as duas falaram quase ao mesmo tempo:

Kellan Kyle! Nós amamos sua… música!

Lançavam olhares ousados para o meu rosto e o meu corpo, e eu me perguntei se estavam sendo sinceras

ao dizer aquilo. Com a maior cortesia que consegui, respondi:

– Obrigado. Fico muito feliz com isso.

As duas fãs continuaram a flertar comigo abertamente até o momento de subir ao palco. Eu tinha certeza

de que poderia marcar um encontro com qualquer uma delas, se quisesse. Talvez até com as duas ao mesmo

tempo, se estivessem realmente interessadas. Mas não fiz nada disso porque minha cabeça estava em outro

lugar. Denny chegaria em breve, ainda naquela noite.

Quando chegou a hora de irmos tocar, um sentimento familiar me inundou e tomou conta de mim:

ansiedade misturada com paz. Enquanto eu subia os degraus para o palco desgastado pelo uso constante, senti

os vestígios de quem eu era derretendo lentamente para fora de mim. Em cima do palco, nenhuma das minhas

preocupações me alcançava. Era como se eu fosse uma pessoa diferente. Eu atuava. Mesmo assim, eu me

sentia mais real do que em qualquer outro momento fora do palco. Colocava para fora o meu coração que

sangrava, sempre que estava me apresentando… Não que a maioria das pessoas percebesse isso; elas

estavam ocupadas demais curtindo o espetáculo, a produção, o cenário e as luzes para cavar mais fundo no

significado das letras. Havia uma espécie de segurança na exposição pública ali no palco; um momento de

anonimato, mesmo debaixo dos refletores. Eu me sentia invencível ali em cima. Era só eu e minha guitarra.

Atrás de mim havia o cenário mais genial de qualquer palco onde eu já tinha estado. A parede era escura

como breu, enfeitada com guitarras antigas de todas as formas, tamanhos e modelos que alguém possa

imaginar. Nenhuma delas se comparava ao meu instrumento acústico simples, é claro. Às vezes as coisas

mais bonitas do mundo são ignoradas por causa de outras mais chamativas e ofuscantes. Eu preferia a beleza

tranquila.

Quando agarrei o microfone, lancei o olhar para um ponto imaginário à frente, bem diante de mim. Gritos

ensurdecedores se misturavam e formavam uma parede gigante de som. Garotas de todas as raças, idades e

tipos físicos disputavam posição junto dos meus pés. Eu sorria para elas com uma expressão que era tanto um

incentivo quanto um convite. Elas me comiam com os olhos a cada movimento, pulando e acenando com as

mãos para que eu reparasse nelas. Ergui os olhos para apreciar a multidão mais ao fundo do salão, longe do

palco. Uma massa de gente estava sentada em torno das muitas mesas. O bar continuava lotado. Ótimo! Eu

gostava muito de tocar para uma casa cheia.

– Boa noite, Seattle – murmurei no microfone.

As meninas bem diante do palco começaram a se esgoelar novamente. Uma delas, à minha esquerda,

deixou-se cair lentamente, como se estivesse desmaiando. Felizmente um dos seus amigos a agarrou em tempo

e a ajudou a se manter em pé; eu odiava a possibilidade de ser responsável por alguém ficar seriamente

ferido.

– Todo mundo está numa boa hoje à noite? – perguntei, enquanto Matt, Griffin e Evan se acomodavam em

seus lugares no palco. Houve uma enxurrada de respostas e reações vindas do bar, a maioria de natureza

positiva. Olhei para meus companheiros de banda, vi que todos estavam acomodados e prontos, e voltei

minha atenção para a multidão. – Vamos começar a festa, então!


Apontei com um dos dedos para trás, onde Evan estava. Ele percebeu minha dica e deu início à primeira

música da nossa lista daquela noite. Uma batida dura e forte encheu o ambiente e eu segui o ritmo. Matt e

Griffin ampliaram o volume do som com os seus instrumentos; por fim, no momento certo, eu entrei e me

juntei a eles. As meninas perto de mim enlouqueceram. Brinquei com elas, flertei um pouco, fiz com que todas

e cada uma delas sentissem que eu estava ansioso para me encontrar com elas mais tarde, ainda naquela noite.

Não pretendia fazer isso, é claro, muito menos naquela noite; mas que mal existia em fazer com que elas

acreditassem nisso? Todo mundo queria um pouco de fantasia em sua vida.

Ao longo da nossa set list, mantive um olho nas portas do bar, ligado o tempo todo na chegada iminente

de Denny. Ele devia estar para aparecer a qualquer momento. Perguntei a mim mesmo se ele estaria com a

mesma aparência de antes: seu cabelo escuro meio bagunçado que se espetava em todas as direções; seu

corpo magro e não muito alto. Fiquei imaginando como sua namorada pareceria. Eu a imaginava como uma

loura baixinha, por algum motivo.

A canção que cantávamos agora era uma favorita dos fãs, e em toda parte para onde eu olhava as pessoas

cantavam junto. Foquei a atenção no grupo que continuava à minha frente. Apoiando um pé sobre uma das

caixas de retorno, eu me inclinei para a multidão e permiti que me tocassem. Foi o caos completo, mas a

maneira como elas sorriam me fazia sorrir também. Era muito bom ser capaz de fazer as pessoas felizes,

mesmo que fosse por algum motivo meio estranho.

Eu passava a mão de forma sugestiva pelo meu corpo quando senti algo no ar. Foi a sensação mais

estranha que eu já tinha sentido na vida, como um raio que estivesse prestes a cair e deixasse o ar carregado

de eletricidade estática; embora estivesse fazendo calor no ambiente, minha pele ficou toda arrepiada. Eu

mantive a maior parte da atenção nas garotas que imploravam para que eu olhasse para elas; de repente,

porém, ergui os olhos na direção das portas da frente.

Havia uma garota que estava sendo levada na direção do bar. Quem estava com ela abria caminho através

da multidão embalada. Eu não podia enxergar a pessoa que estava na frente dela e só pegava uns vislumbres

da mulher misteriosa, mas isso foi o suficiente. Eu olhava para centenas de garotas todas as noites; via

algumas de beleza simples, e outras eram tão lindas que poderiam ser modelos em capas de revistas. Mas

aquela garota… Apesar de estar vendo seu vulto no meio de uma multidão, havia algo sobre ela que parecia

cantar para mim. Isso quase me deixou petrificado. Mentalmente, pelo menos. Senti dificuldade para

conseguir fazer as palavras certas saírem da minha boca. Tive quase certeza de ter cantado errado os dois

últimos versos da canção que apresentávamos.

Foi quase como se eu tivesse levado um soco no estômago. Minha respiração ficou difícil e eu me senti

meio tonto. O que havia nela que me afetava tanto? Eu não sabia exatamente, e isso me assustou. Ela

analisava a banda e eu, discretamente, a observava. Pelo que pude ver de sua expressão, ela não me pareceu

muito empolgada com nossa apresentação. Eu me perguntei por quê.

Seu cabelo castanho ondulado lhe saltou nos ombros enquanto ela caminhava diante do meu campo de

visão. Era difícil analisá-la com clareza, devido à distância e aos corpos entre nós, mas eu vi pernas longas

debaixo do shortinho jeans; elas pareciam intermináveis. E ela vestia uma camiseta apertada que lhe

destacava os seios pequenos e empinados. O tecido amarelo-claro quase lhe alcançava a cintura, e a pele que

aparecia em cima do cós do short exibia seu estômago lisinho de um jeito elegante e tentador. Ela era alta e

magra como se fosse uma corredora; uma corredora como eu? De repente eu me peguei perguntando a mim

mesmo se tínhamos isso em comum. Em seguida, especulei sobre o que mais poderíamos ter em comum.

Olhos azuis? Amor pela música? Uma necessidade quase debilitante de nunca estar sozinho?

Eu queria permanecer ali secretamente, olhando para ela a noite toda, mas não podia permitir que a

sensação estranha e esmagadora daquela atração poderosa me distraísse das fãs. Eu tinha um trabalho a fazer,

afinal de contas. Baixei os olhos para as minhas garotas e lhes ofereci belos giros de corpo, atraindo a

atenção delas e tentando-as com minha voz e meu corpo. Não importava quem era aquela mulher


desconhecida, porque eu provavelmente nunca mais a veria depois daquela noite. E se por acaso eu pudesse

chegar a conhecê-la, isso só aconteceria depois do show. Não havia necessidade de me fixar nela agora.

Mesmo assim, eu não resisti a mais uma espiadela. Estranhamente, ela e a pessoa com quem estava, que

dava para ver agora que era um homem, conversavam com Sam junto à parede dos fundos. Sam parecia feliz

por estar conversando com o casal. Estranho… Sam raramente se mostrava descontraído daquele jeito, ainda

mais numa noite em que o Pete’s estava tão lotado. “Problemas em potencial”, era como ele costumava

descrever as pessoas. Mas ele estava sorrindo agora. Depois, ainda estendeu a mão e deu um forte abraço no

cara. Foi nesse momento que a ficha caiu. O cara era Denny. A garota por quem eu me senti instantaneamente

atraído, apesar da enorme distância entre nós, era… a namorada de Denny.

Merda, é claro que era.

Na mesma hora eu desviei o rosto, olhei fixamente para as fãs que estavam na minha frente e tentei

amplificar meu poder de sedução sobre aquela massa de pessoas. Cheguei até a tocar em algumas delas, uma

vez que era seguro. A namorada de Denny não. Eu não poderia ter pensamentos impróprios a respeito dela.

Seria inadequado em todos os níveis. Era verdade que eu, uma vez ou outra, tinha dormido com garotas que

estavam em relacionamentos sérios. Quem era eu para julgar o que alguém decidia fazer com o próprio

corpo? Mas não faria isso com Denny. Ele era meu irmão. Minha família. A única família de verdade que eu

tinha nesse mundo, além da minha banda.

Sentindo falta do meu amigo há muito desaparecido, eu ergui os olhos novamente para fazer contato visual

com ele. Queria ter certeza de que ele já estava com a chave, me certificar de que tudo estava resolvido,

talvez até mesmo lhe enviar um aceno rápido, apesar de ainda estar cantando. Eu o vi agarrar a mão da garota

com força e um sorriso irrompeu através das minhas palavras. Denny parecia mais velho, certamente, mas

ainda tinha um ar juvenil que me fez ter vontade de fazer um cafuné nele, de forma carinhosa. A inocência no

seu rosto e no seu sorriso me aqueceu o coração. Eu faria qualquer coisa por aquele cara. Daria minha vida

por ele, se necessário.

A namorada de Denny… Kiera era o nome dela, se eu me lembrava bem… olhava para Denny como se

ele fosse a lua e as estrelas em sua vida. Deixei de lado minha atração inicial e sorri pelo relacionamento

deles. Ele estava claramente feliz com ela, e era óbvio que os dois estavam apaixonados. Recolhi meus

próprios desejos e deixei apenas a felicidade por eles brilhar através de mim. Balancei a mão para Denny

quando a canção terminou e ele ergueu o queixo e a chave, para me mostrar que estava tudo sob controle.

Odiei quebrar o contato visual, o amigo com quem eu estava louco para colocar os assuntos em dia, mas

olhei rapidamente para Matt e lhe dei o ok para começar a próxima música. O trabalho vinha sempre em

primeiro lugar, especialmente quando eu estava no palco. A música que Matt começou a tocar era uma das

minhas favoritas. Era também uma das canções mais dolorosas, para mim. Eu tinha escrito aquela letra para

falar dos meus pais. Era uma espécie de apelo triste para que eles me amassem. “Muito pouco, muito tarde.”

Eles nunca tinham me amado de verdade e, agora que tinham ido embora, nunca mais o fariam. Mesmo assim

eu cantava aquela música quase todas as noites. Por mais desesperança que houvesse, eu não conseguia parar

de tentar ganhar a afeição deles.

Por um instante eu me perdi tão completamente nas palavras e nas sofridas lembranças que todo o resto

desapareceu no fundo da mente. Então eu vi que meu olhar novamente vagou na direção de Kiera. Ela estava

saindo do bar com Denny. Mas olhou para mim no último instante, antes de sair. Lábios entreabertos, sua

expressão parecia de reverência, enquanto me via abrir o coração e me deixar sangrar por todo o palco.

Talvez tenha sido efeito das luzes, mas podia jurar que seus olhos lacrimejaram, como se ela entendesse que

aquela canção era muito dolorosa para mim. Que eu tinha que lutar contra a minha gar​ganta, que ficava

apertava a cada sílaba emitida. Que a única maneira de eu conseguir cantá-la era me forçar a isso através de

ensaios intermináveis e apresentações marcantes. Pela primeira vez em muito tempo, eu olhava para alguém

que me via. Alguém que enxergava não a estrela do rock, não o playboy descontraído, mas a mim. O meu eu


verdadeiro. Então, pela primeira vez em muito tempo, o terror se arrastou pela minha espinha. Kiera

estremeceu, como se também compartilhasse o meu medo, mas logo desapareceu com Denny.

Aquela garota… Ela já tinha deixado uma impressão marcante em mim, e nós ainda nem tínhamos sido

apresentados. Nós três morando juntos debaixo do mesmo teto poderia ser uma experiência incrível e

reveladora. Mas também poderia ser um verdadeiro pesadelo. De qualquer modo seria, com certeza, algo

muito interessante.


Capítulo 3

Estou feliz por você estar de volta

O sol já era ofuscante e uma onda de pânico me percorreu por dentro. Já tinha amanhecido. Denny estava

partindo.

Senti o medo me circundar e corri para o quarto de Denny. A porta estava fechada. Será que ele ainda

estava dormindo? Não respondeu quando eu bati de leve, então bati com mais força.

– Denny? – Quando ele não respondeu, entreabri a porta. – Denny? – O quarto estava vazio e minha voz

ecoou. Ele foi embora? Será? Mas nós não tínhamos nos despedido…

Desci a escada, gritando para meus pais e pedindo para que me esperassem. Só que ninguém estava em

casa e apenas o silêncio me respondeu. Verifiquei em todos os cômodos da casa, mas eu estava realmente

sozinho em casa. Atordoado, olhei para a porta da frente.

Eles realmente tinham ido embora sem mim.

Meus pais tinham impedido que eu me despedisse do melhor amigo que tive na vida. Malditos idiotas!

Lágrimas quentes me pinicaram os olhos. Era a cara deles fazer aquilo: roubar de mim qualquer momento de

felicidade que conseguissem. Provavelmente eu nunca mais veria Denny.

Enquanto esse pensamento rolava em meu cérebro, ouvi um carro subir pela entrada da garagem.

Sobrepujado pela culpa e pela raiva, gritei para o meu pai quando ele entrou pela porta da frente.

– Como vocês puderam fazer isso? Levá-lo embora sem ao menos deixar que eu me despedisse?!

Quando cheguei ao alcance do meu pai, as costas da mão dele voaram e me atingiram o queixo com força.

Senti gosto de sangue na boca e a surpresa foi tamanha que eu caí no chão. Já tinha me acostumado a meu pai

recuando e se impedindo de me atacar quando Denny estava por perto. Eu tinha ficado complacente, mais

confortável… Só que Denny tinha ido embora. Eu estava por minha conta, agora.

Quando olhei para meu pai, vi uma expressão em seu rosto que beirava a felicidade.

– Você sabe quanto tempo eu esperei para fazer isso? – perguntou, com voz rouca.

Começando a tremer, deslizei para trás até que minhas costas bateram contra a parede.

– Sinto muito – falei na mesma hora.

Como eu poderia ter me esquecido tão depressa de como ele realmente era?

Papai estreitou os olhos e então, de forma lenta e metódica, desafivelou o cinto. Senti enjoo ao olhar para

ele, sabendo que não poderia escapar, não tinha para onde ir. Não havia onde me esconder e as lágrimas me

embaçaram a visão.

Mamãe se colocou atrás de meu pai com os olhos apáticos; meu pai disse, com toda a calma do mundo:

– Acho que você escapou de mim com muita facilidade durante o tempo em que tivemos companhia. Você

confiou demais na nossa indulgência… Você nos testou demais, abusou da nossa bondade… E nos fez de

idiotas. – Sua voz aumentou de volume e seu rosto ficou sombrio. Quando o cinto saiu da calça, ele o dobrou

ao meio. Agarrando cada extremidade, ele fez o couro estalar com um som agudo horrível, e eu percebi que

aquilo ia doer pra cacete.

Balançando a cabeça, murmurei:


– Sinto muito.

Ele me ignorou. Parando bem diante de mim, ele quase cuspiu as palavras:

– Você achou que eu deixaria você ir longe com aquela insolência… achou que ia ser para sempre? Achou

que não haveria um preço a pagar por suas ações? Sempre existe um preço, Kellan. E já está mais que na hora

de você aprender isso.

Acordei com um pulo, o peito ofegante e o coração disparado. Com dedos trêmulos, passei a mão pelo

cabelo. Era de supor que meus pesadelos iriam parar, já que as pessoas que os provocavam estavam mortas,

mas isso não aconteceu. Eu tinha pesadelos frequentes, alguns baseados na realidade, outros em fantasias. O

que me assustara naquele momento tinha sido real. As coisas tinham acontecido exatamente desse jeito. Meus

pais tinham levado Denny embora enquanto eu ainda estava dormindo, e quando eu reclamei disso na volta

deles, meu pai compensou todas as vezes em que não tinha conseguido me bater naquele ano. Ele me deixou

muito machucado e sangrando. Até respirar me provocava dores.

Foi nesse dia que eu decidi que iria fugir dali no dia em que me formasse. Tinha resolvido ir embora e

nunca mais olhar para trás. Só que acabei voltando. Olhei para trás e voltei porque no fim das contas, apesar

da forma como eles me trataram a vida toda, ainda eram meus pais e eu não podia deixar de dar meu último

adeus a eles.

Sentindo-me lento e meio tonto, ainda sacudindo da mente os restos de pesadelo, eu me levantei da cama.

Precisava de água. Entreabri a porta e bem diante dos meus olhos surgiu uma visão que fez com que os restos

do pesadelo evaporassem no ar.

A namorada de Denny, Kiera, saía do banheiro que ficava entre os dois quartos do andar de cima. Pelo

visto, tinha acabado de tomar um banho e enrolara uma das minhas toalhas finas e pequenas em torno do

corpo. O material que a cobria era tão escasso que não deixava muita coisa para a imaginação. Ela tinha

prendido a toalha em torno do busto, mas havia um buraco entre as pontas de baixo que lhe subia até bem

acima do quadril. Possivelmente aquele era o quadril mais sexy que eu já tinha visto.

Senti uma súbita coceira no peito e deixei escapar um bocejo preguiçoso, tentando expulsar com força,

para fora da mente, qualquer pensamento indesejado.

Nada disso, com essa garota não!

Ela pareceu chocada ao me ver. Ou talvez fosse o jeito inesperado com que ela me viu que lhe pareceu

chocante. Mas minha presença ali não deveria ser surpreendente. Eu morava naquela casa, afinal. Seus olhos

ficaram arregalados quando eles me analisaram de cima a baixo, a partir do meu cabelo bagunçado, cor de

areia escura, e detendo o olhar na minha barriga de tanquinho, que estava exposta. Foi preciso muita força de

vontade, mas eu tentei me impedir de ficar excitado diante da sua inspeção. Denny não gostaria de saber que

sua namorada tinha me provocado uma ereção, embora eu não creio que ele me culpasse por eu ser humano.

Agora que ela estava perto de mim, deu para ver que tinha olhos cor de mel. Lindos, por sinal. Eu nunca

tinha visto olhos daquela cor em especial; eles pareciam ter vida própria, mudando e se transformando

conforme a incidência da luz. Senti um forte desejo de levá-la até lá fora para observar o fluxo de reflexos

claros de castanho e verde, sob a luz do sol. Mas imaginei que isso não seria adequado naquele momento,

ainda mais pelo fato de não termos sido nem mesmo apresentados. Bem, pelo menos isso era algo que eu

poderia consertar.

Inclinando a cabeça de leve, afirmei:

– Você deve ser a Kiera.

Eu estava prestes a dizer a ela que meu nome era Kellan quando ela estendeu a mão, meio desajeitada,

como se quisesse me cumprimentar.

– Sou… Oi – murmurou. Sua tentativa de ser formal apesar de vestir apenas uma toalha me deu vontade

de rir, mas ela pareceu realmente envergonhada com a situação, então eu me limitei a exibir um pequeno

sorriso quando peguei a mão dela. A palma de sua mão era quente, suave, ainda com a umidade da ducha


ecente. O contato foi muito agradável, e eu poderia ter mantido aquela conexão por muito mais tempo, mas

deixei-a ir.

A pele dela junto do pescoço ficou muito vermelha e ela trocou o peso do corpo de um pé para o outro,

como se realmente quisesse fugir dali correndo. Em vez disso, porém, perguntou:

– Você é o Kellan? – Eu quase consegui vê-la mentalmente dando um chute em si mesma, por me perguntar

algo tão óbvio. Um simples processo de eliminação diria a ela quem eu era. Ela parecia desajeitada, tímida,

adorável… e bonita. Uma combinação mortal. Denny era um homem de sorte.

– Hum-hum… – respondi, distraído. Havia algo no jeito como ela disse meu nome que era hipnotizante.

Talvez fosse a forma como seus lábios se moviam quando ela falava. Tinha lábios belíssimos, cheios, com

uma ligeira curva nos cantos que eu apostava que lhe daria um sorriso incrível. Foi provavelmente

inapropriado para mim pensar isso, mas eu tive vontade de ver nela um sorriso brilhante, despreocupado e

inconsciente.

Kiera parecia desconfortável sob o meu olhar atento, mas, em vez de me pedir para ir embora ou parar de

olhar para ela meio de lado, ela fez cara de arrependimento.

– Desculpe pela água. Acho que usei toda a quente.

Ela se virou e colocou a mão na maçaneta da porta do quarto, claramente usando esse momento como uma

chance para escapar dali. Eu tive de sorrir para ela pela consideração educada sobre eventuais problemas

que pudesse ter causado. Não foi um problema, na verdade. Uma ducha quente não era realmente o que eu

queria naquele momento. Por outro lado, simplesmente o fato de falar com ela já estava fazendo desaparecer

o horror ligado à lembrança do meu sonho. Eu é que deveria agradecer a ela pela distração.

Com genuína sinceridade, eu lhe disse:

– Não tem problema. Só vou usar hoje à noite, antes de sair.

Ela murmurou:

– Menos mal. Vejo você mais tarde, então. – Entrou correndo no quarto, quase batendo a porta na pressa

de fugir. Uma pequena risada me escapou. Nossa, como ela era bonita! E doce. Parecia uma boa combinação

para Denny.

Eu não precisava mais beber água, mas fiz uma rápida visita ao banheiro e depois voltei para o quarto, a

fim de fazer algumas flexões e abdominais, pois precisava me manter em forma. Ideias para uma letra de

música passaram pela minha cabeça enquanto eu me exercitava. Não querendo perder o fluxo de

pensamentos, interrompi minha rotina de exercícios um pouco mais cedo e peguei um caderno na minha

gaveta. Eu tinha um monte de caderninhos espalhados por toda a casa. Reconheço que essa não era a melhor

maneira de organizar as ideias, porque a letra de uma única música poderia estar espalhada em quatro ou

cinco caderninhos, todos em cômodos diferentes da casa. Se alguma coisa me acontecesse, Matt e Evan

teriam um trabalhão para tentar compilar tudo e montar uma canção coerente.

Deu para ouvir sons de paixão vindos do quarto de Denny e Kiera, enquanto eu anotava mais alguns

versos aleatórios. Fiz uma pausa para ouvir por alguns segundos e então, com um aceno de cabeça e um

sorriso, bloqueei o som na mente e continuei trabalhando. Ouvir as pessoas fazendo sexo no quarto ao lado

não era novidade para mim. Sendo franco, já tinha participado de festas onde os casais ficavam “mandando

ver” no mesmo aposento que eu. Eu não me importava com isso. As pessoas eram livres para fazer o que bem

quisessem. No fundo, eu achava que cada manhã deveria começar com um pouco de brincadeiras desse tipo.

Depois de imortalizar alguns versos surpreendentemente fortes e intensos, vesti uma camisa e um short,

arrumei o cabelo do melhor modo que consegui e desci para preparar um café.

Enquanto a água fervia, fui para a sala de estar e peguei o jornal. Imaginando que Denny gostaria de saber

o que estava acontecendo na cidade, já que ele tinha ido embora dali fazia muito tempo, coloquei-o sobre a

mesa. Ouvi Denny e Kiera descendo as escadas. Dobrei o jornal e fui até a cozinha para encontrá-los. Quem

sabe eles gostariam de tomar café comigo?


A manchete da primeira página do jornal chamou minha atenção, e eu estava ocupado lendo sobre o futuro

de Green Lake quando ouvi a voz de Denny.

– E aí, cara?!

Ergui os olhos e não consegui conter o sorriso. Fazia muito tempo desde que eu tinha ouvido aquela voz

ao vivo e sentia saudade disso. E dele. Eu estava muito feliz por ele estar de volta.

– Oi, que bom que vocês chegaram! – Apertei o ombro de Denny e lhe dei um rápido abraço. Poucos

passos atrás dele, Kiera nos observava com um pequeno sorriso no rosto, como se apreciasse nosso

reencontro. Seu sorriso discreto era cativante.

Denny olhou para ela quando nos afastamos.

– Eu soube que você e Kiera já se conheceram.

O sorriso dela sumiu na mesma hora diante da lembrança de nosso encontro com pouca roupa. Um

beicinho surgiu naqueles lábios perfeitos, e eu percebi que não conseguiria resistir à tentação de provocar

aquela mulher.

– Pois é – murmurei, imaginando todas as maneiras como poderia, potencialmente, fazê-la corar. Não, eu

não faria isso. – Mas muito prazer por ver você de novo – eu disse, da forma mais educada possível.

Resistindo a uma risada, fui até o armário para pegar algumas canecas. – Café?

Denny fez uma careta quando eu olhei para ele.

– Não, para mim, não. Nem sei como vocês conseguem beber esse troço. Mas a Kiera adora.

Olhei para Kiera e coloquei duas canecas sobre a bancada. Ela exibiu para Denny o sorriso amplo e

amoroso que eu estava torcendo para ver. Exatamente como eu tinha imaginado, o sorriso dela era incrível.

Simplesmente… lindo. Eu mal conseguia imaginar como Denny se sentiria, tendo aquele sorriso dirigido só

para ele. Puxa, ele devia se sentir como um milionário o tempo todo.

– Está com fome? – perguntou ele, com a voz cheia de carinho. – Acho que ainda tem comida no carro.

– Estou morta de fome – foi a resposta dela, seguida de uma mordidinha no lábio inferior. Ela lhe deu um

beijo leve e depois esfregou os dedos na barriga de Denny, com um jeito brincalhão. Foi uma exibição

tranquila e sensual de afeto. Eu não pude deixar de sorrir ao vê-los.

Denny deu-lhe um beijo e disse:

– Ok, já volto – e saiu da cozinha.

Kiera ficou olhando Denny como se pudesse vê-lo de alguma forma através das paredes. Será que já

sentia falta dele? Denny ainda estava dentro da casa, pegando as chaves do carro. Ela parecia muito ligada a

ele, obviamente. Balançando a cabeça, entre divertido e encantado, caminhei até a geladeira e peguei um

pouco de creme. Eu não sabia como Kiera gostava de tomar café. Para mim, porém, ela definitivamente

parecia ser do tipo que prefere “doce e cremoso”.

Preparei nossas canecas, o meu café preto e o dela com cor de caramelo, enquanto Kiera finalmente

piscou com força, pareceu sair de um transe e se sentou à mesa. Mexi meu café, coloquei a colher na pia e fui

me juntar a ela. Aquele era um bom momento para eu aprender alguma coisa sobre a minha nova roommate,

além do fato evidente de que seus olhos observavam e analisavam tudo ao redor, sem falar no sorriso incrível

que provavelmente deixava de joelhos os homens à sua volta. E que ela estava numa relação sólida com o

meu amigo. Essa era a minha coisa favorita sobre ela, até agora.

Coloquei a caneca com café e creme diante dela e seu sorriso se transformou numa careta. Opa, talvez ela

preferisse o café puro. Tudo bem, poderia ficar com o meu, não me importava. Eu bebia café de qualquer

jeito que viesse. Expliquei isso a ela.

– Eu trouxe um preto para mim. Posso trocar com você, se não gosta de creme.

– Não, pelo contrário, é assim mesmo que eu gosto. – Ela me deu um sorriso travesso quando me sentei.

Muito charmoso. – Achei que você podia ler pensamentos, ou algo assim.

Tive que rir com o senso de humor dela.


– Quem me dera – disse, tomando um gole de café. Esse seria um superpoder muito útil. Poderia ter

evitado toda a confusão com Joey. Mas eu não tinha certeza se queria realmente saber o que as pessoas

pensavam sobre mim. Analisando melhor, a ignorância era uma bênção.

Kiera ergueu a caneca.

– Bem, obrigada. – Ela tomou um gole. Seus olhos se fecharam e um pequeno ruído de prazer escapou de

sua garganta, como se estivesse tendo um breve orgasmo. Parecia que ela gostava de café tanto quanto eu,

talvez mais. Gostei de saber que tínhamos algo em comum. Era mais fácil conviver com pessoas que

compartilhavam gostos similares.

A curiosidade tomou conta de mim no instante em que seus olhos expressivos se reabriram. Eu sabia a

razão de Denny estar ali – um novo emprego com incrível potencial –, mas continuava no escuro sobre o

motivo pelo qual Kiera tinha vindo junto. Toda a sua família e seus amigos estavam no leste do país. Ela

deixara a faculdade e tudo o que ela já tinha conhecido na vida para seguir um cara que estava namorando.

Por quê? Eu nunca tinha conhecido uma mulher capaz de desistir de tudo assim, num estalar de dedos. Sabia

que Denny a achava o máximo, e ela também parecia pensar o mesmo dele, mas por tudo que eu já tinha visto

na minha curta vida, os casais de nossa faixa etária não ficavam juntos durante muito tempo.

Inclinando a cabeça, perguntei a ela:

– Ohio, não é? A terra do trigo sarraceno e dos vaga-lumes, certo?

Isso era tudo que eu sabia de Ohio. Kiera pareceu suprimir uma risada ao perceber o quanto meu

conhecimento era limitado.

– É, é por aí.

– Você sente saudades de lá? – eu quis saber, perguntando a mim mesmo se alguma vez na vida tinha tido

uma garota disposta a desistir de toda a sua vida por mim. Eu duvidava muito. As garotas queriam sexo de

mim. Nada mais.

– Bem, sinto falta dos meus pais e da minha irmã, claro. Mas sei lá… um lugar é só um lugar. – Fez uma

pausa e suspirou. – Além disso, eu não vou ficar longe de lá a vida toda.

Ela me lançou um sorriso misturado com tristeza, e o verde de seus olhos assumiu um tom forte de jade.

Eu não entendi aquilo. Ela claramente estava com um pouco de saudade de casa. Sentia falta da família, dos

amigos, da sua vida. A curiosidade foi demais para mim e, embora eu soubesse que aquilo iria soar

incrivelmente rude, tive de perguntar por que diabos ela resolvera desistir de tudo.

– Não me leve a mal por perguntar, mas por que você veio de tão longe para cá?

Ela pareceu um pouco irritada com a pergunta, mas respondeu mesmo assim.

– Denny.

O nome de Denny foi dito com certa reverência. Ela realmente tinha mudado sua vida inteira só por causa

dele. Para se manter junto dele o maior tempo possível, mesmo que fosse uma tentativa fútil. Ou talvez não

fosse. A maneira como eles olharam um para o outro, o respeito que mostraram um ao outro… Eu nunca tinha

visto um relacionamento como aquele antes.

– Hum – foi tudo que eu disse em resposta. Não havia muito mais que eu pudesse dizer. Boa sorte para

vocês iria soar idiota.

Ela deixou escapar a pergunta seguinte enquanto eu tomava um gole do meu café.

– Por que você canta daquele jeito? – Suas bochechas ficaram rosadas, como se ela não quisesse

expressar o que tinha acabado de dizer. Estreitei os olhos em estranheza, imaginando o que ela queria dizer

com isso. Eu só conhecia uma maneira de cantar: abrindo a boca e deixando tudo fluir. Ela estava insinuando

que eu era ruim? Puxa, isso seria doloroso. Não era algo que eu estava acostumado a ouvir. A maioria das

pessoas gostava da minha voz.

– Como assim? – perguntei lentamente, já me preparando para uma avaliação negativa das minhas

habilidades.


Ela demorou um tempão para me responder. Eu não tomei isso como um bom sinal. Ela devia ter odiado

tudo. Por alguma razão isso me incomodou de verdade. Eu podia jurar que tinha havido um momento na noite

anterior em que ela me enten​dera. Que tinha sacado por completo de onde eu vinha. Aquilo chegou a me

assustar na hora, mas talvez eu tivesse julgado errado a sua expressão. Talvez ela não tivesse sacado nada de

mim.

Engolindo o café, ela gaguejou.

– Você estava ótimo. Só que às vezes você se comportava de um jeito muito…– Fez uma pausa e eu pude

sentir apreensão naquilo. Sua crítica da minha atuação saiu num sussurro: – … sexual.

Uma sensação de alívio me inundou – ela tinha gostado! A onda de bons sentimentos foi imediatamente

seguida por uma boa dose de humor. Eu comecei a rir. Não consegui evitar. O olhar no seu rosto no instante

em que disse uma palavra tão inocente como “sexual” estava me matando. Por Deus, ela talvez fosse a coisa

mais fofa que eu já tinha visto.

A expressão de Kiera pareceu ficar mais sombria e seu rosto ficou vermelho. Eu poderia dizer que ela

estava mortificada quando olhou para o café, e eu fiz o que pude para parar de rir. Não queria que ela

pensasse que eu estava zoando com a cara dela. Porque não estava. Não estava mesmo.

– Desculpe… É que eu não achei que era isso que você ia dizer. – Pensando sobre meu flerte agressivo no

palco, na véspera, dei de ombros. – Sei lá. As pessoas tendem a reagir de uma maneira receptiva àquilo.

Pelo olhar em seu rosto, eu tinha certeza de que ela sabia que quando eu falava “as pessoas” queria dizer

“as mulheres”. Não resisti à vontade de ir mais adiante e perguntei:

– Eu ofendi você?

– Nããão. – Ela olhou para mim e eu tive que morder o lábio para não rir. Ela precisava trabalhar melhor a

sua expressão de seriedade, se pretendia me intimidar de algum modo. – Só que pareceu uma coisa meio

excessiva. De mais a mais você não precisa disso… Suas músicas são ótimas.

Percebi que não havia sarcasmo, nem algum sentido oculto em suas palavras. Ela estava apenas me

oferecendo uma opinião sincera. Recostei na cadeira e simplesmente olhei para ela, agradecido. Fazia muito

tempo desde que uma garota tinha feito uma crítica sincera sobre o meu trabalho. Tudo o que eu ouvia,

geralmente, era uma babação de ovo exagerada cujo único objetivo era me fazer arriar a calça. Sua pequena

sugestão foi revigorante.

Ela estava olhando para a mesa novamente, talvez envergonhada pelo comentário que fizera.

– Obrigado. Vou tentar me lembrar disso. – Ela ergueu os olhos e percebeu a sinceridade na minha voz.

Curioso para saber o que tinha acontecido com Denny lá fora, perguntei: – Como foi que você e Denny se

conheceram?

Um sorriso maravilhoso se espalhou pelo rosto dela quando ela começou a pensar nas lembranças com o

seu namorado. Isso me fez desejar que alguém, algum dia, pudesse sorrir daquele jeito por minha causa.

– Na faculdade. Ele era assistente de professor de uma das minhas matérias. Eu estava no primeiro ano e

ele no terceiro. Achei que ele era a pessoa mais linda que já tinha visto. – Seu rosto ficou ainda mais corado

quando ela se emocionou ao mencionar Denny. Eu mantive o mesmo sorriso, pois não desejava que ela se

sentisse constrangida em continuar. Queria que ela se sentisse à vontade para falar comigo. Tive a sensação

de que ela seria uma pessoa fácil de se conversar. Esse pensamento foi ligeiramente inquietante. Eu não

conversava sobre muita coisa. Pelo menos, não sobre coisas importantes.

– Enfim, nós nos demos bem logo de cara e estamos juntos desde então. – Seus lábios se abriram, num

sorriso despreocupado e brilhante. Aquilo foi impressionante! Com uma expressão interessada, ela me

perguntou: – E você? Como conheceu Denny?

Meu sorriso se ampliou tanto quanto o dela quando eu me lembrei de tudo.

– Bem, os meus pais acharam que seria uma boa ideia hospedar um aluno de intercâmbio. Acho que os

amigos deles ficavam impressionados com esse tipo de coisa. – Parei para pensar naquilo e meu sorriso


vacilou quando eu me lembrei das expressões pomposas dos meus pais. Eles exibiam um olhar de

superioridade quando alguém lhes perguntava sobre Denny. Um olhar que claramente dizia: Viu como somos o

máximo? Como somos calorosos e acolhedores? Não somos pessoas maravilhosas?

Afastando isso da cabeça, viajei de volta ao presente e voltei ao meu sorriso.

– Mas Denny e eu também nos demos bem logo de cara. Ele é gente finíssima. – Eu não tinha sido capaz

de me livrar do passado tão depressa quanto esperava e meu pesadelo me inundou novamente. Tive de

desviar os olhos de Kiera. Ela não precisava ver a minha dor. Não entenderia aquilo, mesmo. Ninguém

conseguiria. A voz do meu pai pareceu aumentar de volume em meus ouvidos enquanto eu chafurdava nas

trevas do meu passado. Sempre existe um preço, Kellan. E já está mais que na hora de você aprender isso.

Quase em transe, sussurrei:

– Devo muito a ele. – Denny me deu esperança. Apegando-me a essa lembrança naquele momento, tornei

a sorrir e voltei o olhar para Kiera. Dava para ver que ela queria me perguntar mais coisas. Felizmente não

fez isso. Dando de ombros, agi da forma mais casual que consegui. – Enfim, eu faria qualquer coisa por

aquele cara, por isso quando ele ligou e disse que precisava de um lugar para ficar, foi o mínimo que pude

fazer.

– Ah. – Ela abriu a boca como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas logo tornou a fechá-la, dando-me

espaço. Enviei-lhe um agradecimento silencioso por isso. Eu não queria que ela perguntasse mais nada.

Denny voltou para a cozinha com restos do lanche do carro – pretzels e batatas fritas. Depois de eles dois

comerem aquelas porcarias, Kiera ligou para os pais, enquanto Denny e eu ficamos de papo. Batendo no seu

braço, quis saber o que ele achara do pedacinho de show a que tinha assistido na véspera, no Pete’s.

– O que você acha da banda? Bem melhor que os Washington Wildcats, né? – Esse tinha sido o nome

infeliz que minha banda do tempo de colégio havia escolhido. Eles acharam que o nome revelava o espírito

da escola. Eu sempre achei péssimo.

Minha frequência cardíaca acelerou consideravelmente enquanto eu esperava pela resposta de Denny. Se

ele não tivesse gostado do nosso som… Tenho que admitir que ficaria um pouco desanimado. Mas ele sorriu.

– Ah, pode crer que você melhorou muito desde o nosso baile de formatura, companheiro. Você estava

surpreendente!

O orgulho inchou em meu peito, mas eu tentei disfarçar. Eu não era a única razão pela qual os D-Bags

eram bons. Lembrar da minha antiga banda do ensino médio e de nossa primeira grande apresentação me fez

rir.

– Você se lembra do Spaz? Meu terceiro baterista, eu acho?

Denny riu comigo ao concordar com a cabeça.

– Aquele cara merecia o nome estranho… era maluquinho. O que será que anda aprontando agora?

Vendo uma oportunidade para provocá-lo eu disse, bem depressa:

– Talvez tenha se casado com Sheri. Você se lembra dela?

Lançando um olhar rápido para Kiera, Denny murmurou:

– Lembro, sim… uma garota legal.

O riso me surgiu sem querer.

– Garota legal? Ela foi sua única namorada no ensino médio, se me lembro bem.

Denny franziu o cenho.

– Você não está se lembrando muito bem. Você literalmente a jogou para cima de mim no baile e passamos

a noite dançando. Foi só isso.

As recordações de quando eu estava em cima do palco analisando a multidão me invadiram a mente. Ele

tinha feito um pouco mais do que dançar com ela. Essa foi a única vez em que eu o tinha visto com uma

garota, enquanto ele esteve aqui.


– Dançando? É isso que vocês chamam de jogar hóquei com as amígdalas na Austrália? – Mesmo que

eles só tivessem se beijado naquela noite, eu ainda considerava um sucesso pessoal o fato de ter lhe

conseguido uma namorada. Por assim dizer.

Você era teimoso como diabo, mas eu ganhei, companheiro.

Olhando para Kiera novamente, Denny balançou a cabeça.

– Você está tentando me meter em encrenca? – perguntou. Antes de eu ter chance de responder, sua

expressão se suavizou num sorriso. – Além do mais… se eu me lembro bem… você foi quem acabou ficando

com ela. E com a irmã gêmea.

Dei de ombros em resposta e ele riu. Após lembrar das leviandades do passado ele balançou a cabeça e

disse:

– Sempre me impressionei com o jeito como você ficava calmo em cima do palco. Imagino que continue

do mesmo jeito, certo? – Encolhendo os ombros novamente, assenti com a cabeça. Apresentações em público

não me incomodavam. Eu me sentia mais confortável debaixo dos refletores do que quando estava sozinho.

Denny sorriu. – É como eu lhe disse naquela época, viu só?… Você está destinado para essa vida, Kellan.

Está em seu sangue.

– Está, sim… – eu disse, me sentindo desconfortável.

No silêncio que se seguiu, Denny acrescentou:

– Eu também me lembro do que seu pai disse quando chegamos em casa, depois da formatura.

Denny não repetiu exatamente o que ele disse, e não precisava. Eu me lembrava de tudo muito bem.

Depois de Denny elogiar nossa apresentação, o meu pai se virou para mim e disse: “Eu já ouvi essa merda

que os jovens escutam hoje em dia. Um bode treinado provavelmente seria considerado boa música para

eles.” Em seguida, começou a me censurar pela roupa que eu usava, pelo meu penteado e pelo fato de termos

chegado em casa dez minutos mais tarde do que a hora marcada. Aquela tinha sido uma noite monumental

para mim, e meu pai não conseguia sequer me oferecer um pingo de alegria me fazendo um elogio que fosse.

Essa era a história da minha vida.

Pigarreando de leve para limpar a lembrança, dei um tapa no ombro de Denny.

– Caso eu nunca tenha dito isso, obrigado por fazer aquela noite acontecer. Obrigado por fazer acontecer

um monte de grandes noites. Eu lhe devo mais do que você imagina.

Apesar de minha voz exibir uma ponta de seriedade, Denny balançou a mão no ar para mim, como se

aquilo não importasse.

– Você deu muita importância a tudo aquilo. Na verdade, eu não fiz quase nada.

Fez, sim.

Antes que eu pudesse dizer isso em voz alta, porém, Denny mudou de assunto e nossa conversa passou

para as lembranças mais alegres. Era bom revisitá-las. Às vezes, os momentos mais escuros tinham a

tendência de ofuscar os bons. E Denny e eu tínhamos curtido um monte de bons momentos juntos.

Quando Kiera desligou o telefone, depois de conversar com a família, ela e Denny resolveram trazer o

resto de suas coisas do carro para dentro de casa. Perguntei a ele se eu poderia lhes dar uma mãozinha, mas

contraindo os olhos e balançando a cabeça ele me garantiu:

– Você já fez muito por nós nos deixando ficar aqui em troca de uma merreca. Eu não me sentiria bem se

você ainda ajudasse na mudança. – Abri minha boca para argumentar, mas ele rapidamente acrescentou: –

Não se preocupe, companheiro. Nós só trouxemos algumas caixas.

Com uma risada, bati no ombro dele mais uma vez e o deixei ir. E ele tinha razão, é claro. Eles dois

conseguiram levar todas as caixas do carro para o quarto em duas viagens. Quando voltaram para baixo,

Denny perguntou como poderia chegar a Pike Place, o famoso mercado de Seattle, a partir dali. Expliquei

onde o lugar ficava, e ele e Kiera se prepararam para sair.

– Obrigado. Vejo você depois do sol alto – disse Denny, agarrando a mão de Kiera.


Kiera sorriu para Denny e se virou para mim e explicou:

– Isso significa de tarde.

Eu ri e balancei a cabeça.

– Eu sei, entendi. – Nossos olhos se encontraram quando sorrimos um para o outro e, por um segundo, eu

me senti aprisionado. Algo se agitou em meu peito e acelerou meu coração. Eu quase me senti como se

estivesse numa corrida e alcançado meu limite. Simplesmente me sentia… bem. E olha que tudo que eu estava

fazendo era olhar para ela. Compartilhando um momento; compartilhando uma ligação. Aquilo era estranho,

mas agradável.

Foi preciso muita força de vontade para eu erguer minha mão e acenar, e depois finalmente virar na

direção da cozinha, mas me obriguei a fazer isso. Eu não deveria ter ligações com Kiera, não importa o

quanto aquilo era bom. Alguns prazeres eu simplesmente deveria negar a mim mesmo.

Encontrei um caderno de anotações na cozinha, na gaveta de tralhas e coisas velhas, e o peguei. Sentei-me

à mesa e comecei a escrever letras de músicas. Versos e mais versos sobre aqueles olhos do caleidoscópio

foram sendo despejados da minha mente. Acho que poderia escrever uma música inteira só sobre os olhos de

Kiera, que sempre mudavam de cor. Só que isso seria altamente inapropriado. Talvez eu pudesse mudar a cor

deles na revisão final. Não. Logo depois de pensar nisso, sabia que eu jamais mudaria a cor deles. Não dá

para mudar o que já é perfeito.

Quando ouvi a porta da frente se abrir, olhei para o relógio. Denny e Kiera já tinham ido embora há muito

tempo. Estavam rindo quando entraram na cozinha, com os braços cheios de sacolas. Depois de colocar sobre

a mesa as coisas que tinham comprado, Denny passou os braços em torno de Kiera e ela beijou seu pescoço.

Eu sabia que aquilo era errado e meio intimidador, mas eu simplesmente não conseguia parar de observá-los.

Era maravilhoso ver duas pessoas tão contentes e felizes. Também era doloroso agitar coisas em mim que eu

tinha enterrado há tanto tempo. Esperanças… Sonhos… Mas aquela vida não era para mim. Eu só “ficava”

com as mulheres, isso era tudo que eu tinha. Já aceitara isso muito tempo atrás e estava numa boa com a

situação. Tinha de ser assim.

Para lhes dar privacidade, eu me forcei a continuar olhando para o caderno de anotações. Depois de

algumas palavras tranquilas de despedida, Kiera saiu da sala e eu olhei para Denny. Rindo um pouco, eu lhe

disse:

– Sei que você vai dizer que não, mas eu seria um idiota se não me oferecesse, por isso… Posso ajudar

em alguma coisa?

Por cima do ombro, Denny encontrou meu olhar e sorriu.

– Não, cara, não precisa. – Ele colocou algumas coisas na geladeira e fechou a porta. Virando o rosto

para mim, disse: – Eu já acabei. Quer encontrar um jogo para assistirmos?

Na mesma hora eu me lembrei de mais uma coisa sobre Denny. Ele gostava de esportes muito mais que

eu. Provavelmente era por isso que meu pai tinha se identificado muito mais com ele do que comigo. Bem,

uma das muitas razões, pelo menos. Mas eu não tinha nada melhor para fazer, já que não havia ensaio naquele

dia, então dei de ombros e topei, dizendo:

– Claro! – Eu poderia assistir a algum jogo só para ficar na companhia dele.

Denny sorriu como se eu tivesse lhe dado a melhor notícia da vida. Eu ri de novo e me levantei para

guardar novamente o caderninho de anotações na gaveta de tralhas da cozinha. Eu provavelmente deveria

escondê-lo no meu quarto para que Kiera ou Denny não o encontrassem, mas milhares de pessoas tinham

olhos castanho-esverdeados. Eu poderia estar cantando sobre qualquer uma delas. Ou sobre ninguém em

especial. Nem todas as canções eram baseadas na realidade.

Escutei os barulhos de Kiera no andar de cima mais do que eu assisti aos melhores momentos do jogo na

tevê. Aquilo era muito mais interessante. Consegui ouvi-la tropeçando pelo quarto e percebi até mesmo


quando ela deixou algo cair no chão e soltou um palavrão. Isso me fez prender o riso. Seu rosto inocente a

fazia parecer incapaz de dizer uma palavra feia.

Quando ela finalmente desceu, lancei-lhe um sorriso educado, mas não tenho certeza se ela percebeu; seus

olhos estavam colados em Denny. Ao vê-lo esparramado no sofá, um sorriso feliz enfeitou seus lábios. Ela se

arrastou para cima dele e se espremeu para se enfiar entre ele e o sofá. O braço de Denny a enlaçou pela

cintura, enquanto Kiera jogava a perna por cima de Denny e encostava a cabeça no peito dele. Denny

suspirou, beijou a cabeça dela e a expressão contente de Kiera nunca saiu de seus olhos. Até me pareceu que

ela estava ainda mais em paz.

Uma dor vibrou no meu peito enquanto eu os observava. Era como ver carinho e amor personificados.

Pessoa alguma jamais tinha me tocado daquele jeito. Pelo menos, não de uma forma não sexual. Não pela

pura alegria do contato, sem nenhum outro plano ou intenção. Observar o que eles dois tinham construído

juntos foi quase demais para suportar, mas eu não conseguia desviar os olhos deles. Era assim que o amor

deveria ser? Calmo, feliz, em paz? Eu nunca tinha presenciado aquilo, daquele jeito. Pelo menos, não

exatamente. Eu só tinha visto raiva, ciúme, amargura e ressentimento. Amor era igual a dor, no meu mundo. E

eu geralmente tentava evitar a dor.

Os olhos de Kiera se viraram para mim por um momento. Havia uma pergunta naquelas profundezas

castanho-esverdeadas. A pergunta que eu não queria que ela fizesse, porque de algum modo eu sabia que

acabaria por responder, e doeria pra burro quando eu o fizesse. Felizmente, ela fechou os olhos e permaneceu

em silêncio. Então, cercada pelo seu mar de serenidade, ela pegou no sono. Por um momento, não tive certeza

de quem eu sentia mais inveja: de Kiera, pela paz que ela estava curtindo, ou de Denny, por ele ter encontrado

alguém incrível com quem compartilhar a vida.


Capítulo 4

Esgotado

Enquanto Denny descansava e Kiera cochilava, eu cambaleei até o andar de cima, a fim de me aprontar para

a noite. Depois de tomar banho e fazer a barba, escolhi uma camisa de manga comprida vermelha para vestir,

passei um pouco de desodorante que me pareceu cheirar muito bem e espalhei um produto qualquer no

cabelo.

Minha guitarra ainda estava no carro desde a apresentação da véspera; peguei minha carteira e desci a

escada para avisar Denny que eu estava saindo. Quando cheguei ao pé da escada, porém, vi que ele estava

ocupado. Kiera tinha acordado e, aparentemente, estava com tesão. Denny massageava sua bunda e ela se

contorcia em seu colo. Não dava para ver onde a cabeça dela estava, mas eu podia apostar que ela estava

lambendo o pescoço de Denny, ou algo assim. Ri sozinho enquanto caminhava na direção dos cabides junto à

porta de entrada. Morar com aqueles dois ia ser como viver com recém-casados, já dava para perceber.

Kiera deve ter ouvido minha risada. Na mesma hora se sentou no colo de Denny como se eu tivesse

encostado nela um espeto de tocar gado. Estava vermelha das bochechas até o peito, e seus olhos ficaram

arregalados como se estivesse envergonhada. Por beijar o namorado? Será que era tão tímida? Pensar no

quanto ela era diferente das garotas que eu conhecia me fez rir ainda mais.

– Desculpem. – Eu ri mais uma vez, pegando o casaco. – Vou largar do pé de vocês num minuto… se

vocês conseguirem esperar. – Fiz uma pausa, considerando o que dissera. – Ou não. Isso realmente não me

incomoda. – Eu já sabia que Kiera não era do tipo de garota que aceitaria numa boa a possibilidade de

transar bem na minha frente, e também sabia que não deveria fazê-la ficar ainda mais envergonhada do que já

estava, mas aquilo era tão bonitinho que era difícil não zoar.

Na mesma hora ela pulou do colo de Denny e se sentou o mais longe dele que conseguiu, na outra

extremidade do sofá. Olhou para Denny com as sobrancelhas juntas e os lábios franzidos. Ele deve ter feito

uma expressão divertida como a minha, porque o humor dela não mudou nem um pouco. Parecendo

perturbada, tanto quanto envergonhada, ela olhou para mim e perguntou, num fôlego:

– Aonde você vai?

Seu tom de voz me surpreendeu um pouco, mas achei que foi por ela ter sido zoada. Na mesma hora sacou

que tinha sido ríspida, mas eu a vi se acalmar quando respondi.

– Vou ao Pete’s. Vamos apresentar mais um show lá hoje à noite.

– Ah… – Seus olhos avaliaram meu cabelo e minhas roupas, como se só nessa hora ela percebesse que eu

estava vestido de forma diferente. Essa inspeção cuidadosa fez minha respiração acelerar.

Querendo encobrir essa reação, perguntei:

– Vocês querem ir também…? – Não consegui resistir a outra provocação e lhes mostrei um sorriso

brincalhão ao completar: – Ou preferem ficar aqui?

Mais uma vez, Kiera pareceu responder antes de pensar. A reação foi instintiva.

– Não, nós vamos. É uma boa.


– Sério? – perguntou Denny, soando um pouco decepcionado. Ele devia estar ansioso para que eu os

deixasse sozinhos. Puxa… Eu não queria ser um empata foda, mas gostei da ideia de Denny assistir a um

show completo; ele teria uma chance de realmente confirmar o quanto eu tinha crescido, em termos musicais.

Kiera brincou com uma mecha do cabelo, como se estivesse pensando numa explicação para ter aceitado

o convite tão depressa. Interessante… Para Denny, ela timidamente disse:

– Puxa, eles me pareceram muito bons ontem à noite. Eu bem que gostaria de ouvi-los um pouco mais.

– Beleza, então. Vou pegar minhas chaves. – Denny suspirou e se levantou lentamente do sofá.

Eu não consegui deixar de perguntar a mim mesmo se Kiera realmente quis dizer o que tinha acabado de

dizer sobre a banda. Ela pareceu honesta sobre isso mais cedo, quando conversamos, mas não me parecia

sincera agora, ao dizer a Denny que queria ir. Qual das duas opções era a verdadeira? Eu não tinha certeza.

Ela olhou para mim quando Denny se levantou, e de repente eu vi a verdade em seus olhos e em seu sorriso

tímido. Ela poderia ter deixado escapar, sem querer, que queria fazer algo diferente naquela noite, mas o que

tinha dito era verdade: ela queria ouvir mais. Tentei não enxergar muita coisa nisso. Era da música que ela

gostava.

Balançando a cabeça, como se tentasse tirar da mente a ideia de que eu a tinha coagido a ir ao Pete’s

depois de envergonhá-la, eu disse:

– Tudo bem. A gente se vê lá, então.

Pensei em Kiera ao longo do caminho até o bar. Decifrá-la era fácil ou impossível. Não havia meiotermo.

Mas nada do que eu vira até agora me parecia maldoso ou mal-intencionado. Ela era gentil e doce, se

envergonhava com facilidade e era desnecessariamente tímida, inocente e ingênua. Mas também era sedutora

e brincalhona. Mesmo eu tendo certeza de que tínhamos mais ou menos a mesma idade, eu me sentia como se

fosse um milhão de anos mais experiente que ela. Isso me fez querer protegê-la, apesar de isso ser função de

Denny, já que ele era seu namorado. Bem, talvez eu pudesse desempenhar o papel de irmão mais velho em

sua vida. Um amigo. Alguém com quem ela pudesse contar. Eu tinha a sensação de que ela precisaria disso,

morando tão longe de casa e da família.

Já havia duas cervejas diante de cada um dos meus colegas de banda quando eu cheguei ao Pete’s; eles já

estavam lá havia algum tempo. Eu precisava recuperar o atraso. Depois de pegar uma cerveja de Rita, sentei

ao lado de Griffin.

– Quer ouvir o que eu fiz ontem à noite? – perguntou ele, olhando por cima do meu ombro.

Matt, na minha frente, suspirou.

– Se ele disser que não você vai manter a boca fechada?

Griffin olhou com desdém para Matt.

– Vá chupar um caralho! – Voltou os olhos para mim e começou sua história, mesmo sem esperar pela

minha resposta. – Então… Havia duas louraças no show de ontem… Melody, Harmony, Cadence, Tempo…

Eu não sei seus nomes, mas tinham a ver com música.

Olhei para Evan, sentado ao lado de Matt e ele fez mímica com a boca:

Tempo?

Tentei não rir quando tomei um gole da cerveja e voltei a atenção para Griffin.

– O importante – disse ele, acenando com a mão – é que elas estavam cheias de fogo por minha causa, e

praticamente treparam comigo no estacionamento mesmo. – Contra a minha vontade, uma imagem de Griffin

sendo “atacado” surgiu na minha cabeça. – Elas me convidaram para ir a uma festinha depois do show, certo?

Um monte de gente fazia um jogo na cozinha, ou algo assim, enquanto bebiam. Então, eu e uma das loiras nos

sentamos para jogar junto…

Griffin bateu no meu ombro com força e ergueu as sobrancelhas, como se me preparasse para o que vinha

em seguida. Apesar de eu não saber ao certo o que poderia ter rolado durante o tal jogo, fazia uma boa ideia

de como a história tinha terminado. Já ouvira variações dessa história antes.


Inclinando-se, Griffin me disse:

– Ela me fodeu com os olhos durante uns bons vinte minutos. Eu já estava de pau duro a essa altura! –

Fechou os olhos como se lembrasse do momento… ou estava tendo uma ereção ao lembrar de tudo. Torci

para que não fosse isso. Abrindo os olhos, ele nos garantiu: – Cara, aquela garota tinha os peitos mais

maravilhosos que eu já vi. – Esticou os braços a uns quarenta centímetros do próprio pescoço e os girou,

imitando o formato de seios com as mãos. – E a saia mais curta também. Todo mundo ao nosso redor estava

completamente chumbado, de modo que eu me meti debaixo da mesa e levantei a saia dela o mais alto que

pude. Em seguida peguei minha garrafa de cerveja e enfiei…

Com o canto do olho, vi que algumas pessoas se aproximavam da mesa. Por instinto, dei um tapa no peito

de Griffin para fazê-lo calar a boca. Suas histórias geralmente não eram seguras para serem compartilhadas

com garotas sérias, especialmente porque eu já sabia o que ele tinha feito com a garrafa.

Griffin ainda parecia confuso com o tapa quando eu olhei e vi Denny e Kiera em pé junto da ponta da

mesa. Kiera estava vermelha e brilhante como um tomate, e parecia querer estar em qualquer lugar, menos ali.

Certamente tinha ouvido a última frase.

– Cara… Eu estou chegando à melhor parte, espera aí.

Parecia que ele estava prestes a retomar a história, então eu o cortei depressa.

– Griff… – Apontei para os nossos recém-chegados. – Meus novos roommates estão aqui.

– Ah, tá… roommates. – Griffin lhes lançou um olhar superficial e se virou para mim fazendo um

beicinho. – Sinto a maior saudade da Joey, cara… Ela era gostosa demais! Fala sério, por que você tinha que

comer a garota? Não que eu te condene por isso, mas…

Tornei a cortar o papo com outro tapa em seu peito. Griffin costumava ficar excessivamente gráfico se não

fosse devidamente controlado. E eu não queria que Kiera soubesse o que tinha acontecido com Joey. Ela não

entenderia. Iria achar que eu era um porco. Ei, espere, o que foi que eu pensei? Eu não deveria me importar

com o que ela iria achar de mim. Com surpreendente esforço, empurrei esse pensamento para bem longe da

minha mente.

Ignorando a irritação de Griffin, fiz as apresentações:

– Pessoal, esses são o meu amigo Denny e a namorada dele, Kiera.

Olhei à volta em busca de lugar para eles se sentarem, enquanto Denny e Kiera diziam alô a todos.

Percebendo que havia duas cadeiras vazias numa mesa ali perto onde duas garotas nos olhavam, eu me

levantei e fui até lá. Ambas ficaram um pouco agitadas quando eu me aproximei, e logo percebi que eram fãs

do nosso trabalho. Com um sorriso de desarmar, fui até a garota que estava ao lado das duas cadeiras vazias

que eu precisava. Debrucei-me para poder falar diretamente em seu ouvido; havia muito barulho.

Ela estremeceu quando eu coloquei uma mecha do cabelo dela atrás da sua orelha.

– Desculpe a intrusão, mas posso pegar essas duas cadeiras para os meus amigos? – Ela assentiu com a

cabeça que estava tudo bem e sua amiga deu uma risadinha. Agradeci, endireitei o corpo e levei as duas

cadeiras para Kiera e Denny. Ouvi algumas risadinhas abafadas quando me afastei.

Kiera me observou quando eu coloquei as cadeiras na ponta da mesa. Parecia um pouco desconfortável

com o flerte amigável que eu tinha usado para consegui-las.

– Pronto, vamos sentar. – Kiera franziu o cenho quando se sentou, e eu tive de me esforçar para não rir.

Ela era ainda mais bonita quando ficava inquieta.

Quando Rita olhou na minha direção, acenei para ela e pedi mais duas cervejas para a mesa. Ela me deu

um sorriso do tipo “qualquer coisa para você, querido”, pegou algumas cervejas e as entregou a Jenny. Vireime

para Denny enquanto Jenny forçava a passagem para chegar até nós.

– Então, o que você vai fazer no emprego novo, afinal? – eu quis saber.

Denny exibiu um sorriso divertido.


– Um pouco de tudo. – Começou a entrar em detalhes sobre o que faria na empresa de publicidade, e eu

percebi algum nervosismo e emoção em sua voz. Como Kiera estava sentada entre nós, junto à mesa, estava

na minha linha de visão enquanto eu ouvia Denny. Pelo visto, ela já tinha ouvido aquela história antes, pois

estava analisando o bar. Seus olhos passearam pelas janelas envidraçadas que davam para a rua, cobertas por

letras em néon, e vagueou pelo salão até o palco escuro, à nossa espera para a apresentação daquela noite.

Em seguida, voltou a atenção para o bar do outro lado do salão, onde Rita estava ocupada enchendo copos.

Jenny se aproximou com as cervejas enquanto Kiera olhava em torno. Parecia apressada e eu entendi o

porquê. Como geralmente acontecia antes do nosso show, o bar rapidamente enchia de clientes; a banda era

boa para o movimento da casa. Ela entregou as cervejas a Denny e Kiera; depois, seguiu quase correndo para

a cozinha.

Saboreando a bebida, Kiera começou a observar o outro lado do salão. Sua curiosidade era tão

interessante quanto seu ar de estranheza diante de tudo. Percebendo que eu estava gastando muito tempo com

o olho grudado na namorada de Denny, fiz o possível para me abstrair dela e me concentrar no papo com

Denny, e lhe perguntei por que alguns comerciais não tinham absolutamente nada a ver com os produtos que

anunciavam.

Evan aproveitou para perguntar algo a Denny:

– Por que aparecem banheiras em quase todos os comerciais? Eu não entendo. – Antes de Denny ter

chance de responder, alguém se aproximou de nossa mesa. Erguendo a cabeça, vi que era Pete, o proprietário

do bar. Apesar de ele parecer muito profissional, vestindo camisa polo e uma jovial calça cáqui, Pete parecia

arrasado, como se o estresse da vida o estivesse consumindo. Pete sempre tinha sido muito bom para mim,

então eu torci para que ele estivesse bem.

– Vocês estão prontos? Vocês entram em cinco minutos. – Disse isso e soltou um suspiro imenso que não

fez nada para aliviar o estresse em seu rosto.

– Você está bem, Pete? – perguntei, preocupado.

– Não… Traci se demitiu pelo telefone; não vai mais voltar. Tive de pedir a Kate para emendar um

segundo turno para não ficarmos na mão hoje à noite. – Seus olhos cinzentos se estreitaram muito e pareceram

me dar alfinetadas quando olhou para mim. Sua expressão dizia claramente: O que diabos você fez com a

minha garçonete? Só que eu não era culpado por aquilo. Não era mesmo… Dessa vez o babaca à minha

esquerda era o responsável.

Virei a cabeça e olhei para Griffin. Traci devia ter descoberto que Griffin tinha dormido com sua irmã e

obviamente ficara revoltada. Griffin devia ter se tocado de que isso iria acontecer. A não ser quando as duas

topam e não se importam, um cara não se mete com duas irmãs ao mesmo tempo. Todo mundo sabe disso.

Pelo visto Griffin sabia, pois pareceu genuinamente envergonhado ao tomar um belo gole de cerveja.

– Desculpe, Pete.

Pete simplesmente abanou a cabeça em resposta. O que mais poderia fazer? Por mais ofensiva e irritante

que fosse a nossa interação com a equipe que trabalhava no bar, Pete precisava de nós. Não havia saída e eu

me senti mal por ele. Fiz uma nota mental para conversar a sério com Griffin, mais tarde. Talvez fosse o

momento de criar uma nova regra para a banda: nada de envolvimento com as funcionárias de Pete.

Kiera anunciou em seguida:

– Eu já trabalhei como garçonete. Preciso arrumar um emprego, e trabalhar à noite seria perfeito quando

minhas aulas na universidade começarem. – Pelo seu jeito de olhar, ela parecia estar dizendo aquilo tanto

para ajudar Pete quanto a si mesma. Ela se preocupava com os outros. Gostei de saber disso. Mais do que

deveria.

Pete me lançou um olhar questionador. Querendo ajudar Kiera a conseguir o emprego, apresentei Kiera e

Denny, para Pete perceber que eles não eram completos estranhos ali. Meu selo de aprovação talvez não

garantisse muita coisa, mas torci para ter força suficiente. Ambos precisavam daquilo.


Pete lançou para Kiera um olhar de avaliação, mas deu para perceber que ele estava aliviado por ter

achado alguém tão depressa.

– Você já tem vinte e um anos?

Curioso para saber a idade dela, prestei atenção à resposta. Ela pareceu nervosa ao falar, ou talvez

estivesse nervosa com a entrevista de improviso. Ela despejou as palavras sem refletir, mais uma vez.

– Tenho, fiz em maio. – Kiera tinha a mesma idade que eu. Gostei disso também.

Pete pareceu satisfeito com a resposta. Eu tinha noventa e nove por cento de certeza de que ela estava

falando a verdade. Simplesmente não parecia o tipo de garota que mente a toda hora.

– Tudo bem – sentenciou Pete, com um pequeno sorriso lhe enfeitando os lábios. – Preciso contratar

alguém, e logo. Pode começar na segunda, às seis da tarde?

Kiera olhou para Denny como se pedisse sua permissão, silenciosamente. Achei que ela estava

simplesmente sendo educada. Não conseguia imaginar Denny proibindo-a de fazer o que ela quisesse. Quando

ele exibiu um curto aceno de cabeça e um sorriso caloroso, Kiera se voltou para Pete.

– Claro, seria ótimo. Obrigada.

Pete saiu um pouco mais leve, como se algum peso tivesse sido tirado de seus ombros. Fiquei feliz ao

sentir isso. Virei-me para Kiera e disse:

– Bem-vinda à família. Acho que nós vamos nos ver muito mais, agora que você vai trabalhar na minha

segunda casa. – Dei um sorriso brincalhão. – Espero que não fique enjoada da minha cara.

As bochechas de Kiera ficaram vermelhas e ela rapidamente levou a garrafa de cerveja à boca.

– Pois é – murmurou, antes de tomar alguns longos goles. Eu ri da expressão em seu rosto e reparei que

Denny fez uma breve careta para mim. Foi tão rápido que eu quase pensei ter imaginado. Sim, devia ser

minha imaginação. Denny e eu éramos muito amigos.

Pete acendeu as luzes do palco e o bar irrompeu em gritos. Os olhos de Kiera se arregalaram com os

berros. Levantando-me, eu disse a ela:

– Prepare-se, porque o barulho vai ficar ainda mais alto.

Evan e Matt já saíam da mesa e se dirigiam ao palco. Griffin ainda estava sentado, acabando sua cerveja.

Torci sua orelha, fazendo-o dar um pulo; pequenos rios de álcool vazaram de sua boca e lhe molharam a

camisa.

– Vamos! – ordenei, quando ele olhou para mim.

Ele levou mais um segundo para matar a cerveja e deixou escapar um arroto quase tão alto quanto o

rugido da multidão. Por fim, porém, se levantou, reclamando:

– Tenha calma, cara. Minhas cordas vocais precisam ser lubrificadas.

Ergui uma sobrancelha ao ouvir isso. Griffin fazia backing vocal, é verdade, mas não cantava tanto assim.

De repente ele já estava diante do bar e erguia os punhos no ar como Rocky, então eu o deixei e segui até a

escada. O volume aumentava a cada degrau que eu subia em direção ao palco. Matt preparava o equipamento.

Bati no seu ombro e fui até o microfone. Agarrando o suporte, encostei-o à boca.

– Esse troço está ligado? – murmurei, numa voz intencionalmente baixa.

Os gritos foram tão altos que meus ouvidos se sentiram dentro de um sino. Sorrindo, dei uma ampla

olhada nos fãs que já se aglomeravam em torno do palco. Kiera e Denny ainda estavam na mesa, mas ambos

exibiam sorrisos de orelha a orelha.

– Como está a porra da noite aqui em Seattle?

As garotas mais próximas de mim começaram a pular e uivar de alegria em resposta. No canto do salão,

vi Griffin vindo para o palco com toda a calma do mundo. Franzindo a testa, eu disse ao microfone:

– Parece que estamos sem um dos D-Bags. Se algum de vocês sabe tocar baixo, por favor, sinta-se à

vontade para subir aqui no palco e se juntar a mim.


Cerca de meia dúzia de garotas não perderam tempo e se atropelaram para subir no palco e se colocar ao

meu lado. Sam correu atrás delas na mesma hora e as levou de volta para a multidão. Isso me fez rir, mas Sam

me lançou vários olhares de irritação. Griffin também. Correu com tal velocidade que até parecia haver uma

garota nua no palco. Agarrou o baixo, olhou mais uma vez para mim e gritou:

– Vá catar coquinho, seu babaca.

Matt e Evan riram comigo ao ver a rapidez com que Griffin se aprontou. Para lhe dar mais algum tempo,

voltei a me dirigir à multidão.

– Desculpem… Parece que estamos todos juntos, afinal. – Kiera e Denny estavam rindo, como quase

todos na parte de trás do salão. As garotas mais próximas ainda berravam loucamente, alheias ao humor da

situação. – Algum pedido especial? – perguntei a elas.

– Você! – berraram pessoas diferentes, em dois locais distintos do salão. Olhei para o bar, mas não deu

para descobrir quem tinha sido.

Rindo, respondi com um sorriso.

– Talvez mais tarde. Se você for uma pessoa legal. – Assobios e vaias seguiram essa observação, e eu me

perguntei se alguém tentaria cobrar aquilo de mim depois do show. Olhei para Evan e ele ergueu o polegar.

Todo mundo estava pronto. Girando o corpo na direção do bar eu disse, com a boca colada no microfone: –

Hoje nós temos gente nova na área. Que tal uma das canções antigas?

Sem olhar, apontei para Evan. Era a dica para ele iniciar a música. Ele soltou o braço e deu início à

introdução. Matt entrou algumas batidas mais tarde. Mordendo o lábio, fiquei um tempo balançando o corpo

enquanto esperava minha vez de entrar. Griffin entrou meia batida depois de mim e então decolamos de

verdade.

Eu adorava começar o show com aquela música porque eu tinha de xingar no refrão. Aquilo era não

apenas divertido como ajudava a soltar a multidão e deixava a plateia enlouquecida – não que aquela

multidão fosse difícil de enlouquecer. Eles costumavam ir ali para nos ver e eram sempre muito receptivos. E

isso ajudava em outros níveis, também. Observar a reação de Kiera foi fantástico.

Você me derrubou e me fodeu. Ainda estou me segurando, esperando um repeteco. Pode me chamar de

maluco, mas a verdade é que eu não consigo ter o suficiente de você.

Kiera ficou boquiaberta ao ouvir o primeiro verso, mas logo começou a rir com vontade e enterrou a

cabeça no ombro de Denny. A bela imagem dela se divertindo com uma das minhas músicas me preencheu

com uma estranha sensação de satisfação. Aquele era o jeito perfeito de começar a noite.

Tocamos algumas músicas depois dessa e a multidão riu, gritou e dançou, divertindo-se de coração

aberto. Denny e Kiera passaram a maior parte do tempo à margem da multidão, dançando juntos ao som da

música. Quando eu peguei minha guitarra e entoei uma canção suave e melosa, todos começaram a dançar

lentamente. Exibi um sorriso enorme ao ver Denny tão feliz. Ele parecia satisfeito, como se tudo em sua vida

estivesse exatamente do jeito que ele queria. Ao vê-lo dessa maneira, meu astral começou a espelhar o dele.

Todos nós morando juntos na mesma casa ia ser fantástico – quase como uma família, de certo modo.

Agora eles se beijavam suavemente com os braços apertados em torno um do outro, num quadro de paz

perfeita. Kiera pousou a cabeça no ombro de Denny. Seu rosto estava voltado para mim e eu lhe lancei um

sorriso acolhedor e amigável. Então pisquei para ela, porque simplesmente não consegui resistir àquela

oportunidade de fazê-la corar. Ela ficou claramente surpresa com meu gesto amigável, até que eu ri e desviei

o olhar. Algumas das fãs bem na minha frente começaram a se abanar, como se sentissem excesso de calor por

minha causa. Isso me fez rir muito.

Tocamos mais uma música rápida, uma favorita dos fãs, para fechar a noite. Mesmo sabendo que era o

fim, algumas das garotas começaram a pedir por mais músicas; elas faziam isso de vez em quando, algo que

me parecia estranho. Nós estávamos ali todos os fins de semana. Se elas realmente queriam mais, sabiam

onde nos encontrar.


Falei mais perto do microfone e todos fizeram silêncio para me ouvir.

– Obrigado por virem aqui hoje. – Esperei a breve explosão de gritos diminuir e ergui um dedo. – Quero

aproveitar a oportunidade para apresentar a todos vocês os meus novos roommates. – Sem conseguir resistir

à tentação de fazer o rosto de Kiera ficar vermelho mais uma vez, apontei para ela e Denny. Ela parecia

querer me matar ou ser tragada pelo chão. Talvez as duas coisas. Denny correu para ampará-la e isso foi,

provavelmente, a única coisa que conseguiu mantê-la em pé. E junto do bar.

– Minhas caras amigas, aquele sujeito ali, moreno e bonito é Denny. Mas não se empolguem muito, porque

a garota linda ao lado dele é Kiera, sua namorada. – Kiera escondeu o rosto no ombro de Denny, morrendo de

vergonha. Perguntando a mim mesmo se depois daquilo ela convenceria Denny a se mudar da minha casa na

manhã seguinte eu completei, olhando para a multidão: – Agora, todos vocês vão gostar de saber que Kiera

vai entrar para a nossa familiazinha feliz aqui no Pete’s, a partir de segunda à noite.

Kiera espiou por trás de Denny e me fitou com um conjunto delicioso de olhos cruéis e bochechas

vermelhas brilhantes. Se eu estivesse perto o suficiente, provavelmente ela me daria um tapa com força. Eu ri

da expressão em seu rosto. Pena que ela estava tão longe… e eu tinha o microfone. Não importava o quanto

ela me olhava com ar de reprovação, isso não me impediu de provocá-la.

Chegando ao ponto principal do meu discurso, avisei à multidão:

– Quero que todos vocês sejam legais com ela. – Virei os olhos para Griffin, que já devorava Kiera

mentalmente. – Principalmente você, Griffin.

Griffin virou para mim e me deu um sorriso do tipo “Ora, mas claro!” Balancei a cabeça para ele, dei boa

noite à multidão e, em seguida, me sentei no palco para descansar um pouco. É muito quente debaixo dos

refletores. As garotas diante de mim não pareciam se importar por eu estar suado. Elas subiram no palco para

ficar perto. Como o show já tinha acabado, Sam não as impediu.

Uma delas me entregou uma cerveja, que eu aceitei com gratidão. Outra começou a brincar com meu

cabelo, provocando arrepios na espinha. Eu adorava a sensação de dedos contra o meu couro cabeludo. Uma

garota mais atirada se sentou de forma muito descontraída no meu colo. Rindo, eu a deixei ali.

– Você está suado – comentou ela, com uma risadinha. Em seguida, se inclinou para lamber uma gota de

suor do meu pescoço. Confesso que aquilo me deixou ligado, e meu astral estava tão alto que aquele ato de

afeição foi muito bem-vindo.

Olhei para Denny e Kiera. Ambos pareciam exaustos. Duvidei muito que nós fôssemos curtir mais algum

tipo de interação entre roommates naquela noite. Provavelmente eles iriam direto para casa e desabariam na

cama. Enquanto eu olhava Kiera bocejou, confirmando minhas suspeitas. Denny disse algo para ela e se virou

na minha direção. Ao me ver cercado de mulheres na beira do palco, ele ergueu a mão e acenou para mim.

Levantei minha cerveja em sinal de despedida. Tudo bem, eu iria vê-los mais tarde. Senti um tesão gostoso

pós-show e decidi que queria que aquilo continuasse.

A garota no meu colo seguia direto para o meu ouvido. Meu pau estava ficando duro muito depressa e,

pelo jeito como ela contorcia os quadris no meu colo, percebi que ela sabia disso. Quando ela chegou ao meu

ouvido, sussurrou:

– Acho que você está gostando disso.

Eu lhe dei um sorriso suave.

– Uma mulher linda lambendo meu pescoço? Que homem não gostaria?

Ela mordeu o lábio enquanto eu tomava um gole da minha cerveja.

– Quer sair daqui? – quis saber ela, com um sorriso cheio de promessas.

Considerei a proposta enquanto engolia a cerveja que já estava na boca. Eu queria sair dali com ela?

Denny e Kiera estavam a caminho de casa; o pessoal da banda se juntara a amigos ou fãs e já saíam do Pete’s.

Eu me sentia incrível depois de um show fantástico, e não estava nem um pouco cansado. Por que não passar

a noite envolvido numa mulher? Além do mais, era gostoso tê-la em meus braços.


– Tudo bem. O que você tem em mente? – Eu tinha certeza de que sabia o que ela queria, mas era sempre

bom confirmar. Eu não queria presumir nada e depois ficar com cara de idiota.

– Tenho um apartamento em Capitol Hill – informou ela, e tornou a rir.

– Parece ótimo – foi minha resposta. Envolvendo os quadris dela com meus braços, eu a coloquei no

chão. Ela brincou com um fio de cabelo muito comprido e preto como breu, enquanto esperava que eu fosse

me juntar a ela. Com muito cuidado, eu me desvencilhei do grupo de garotas que continuavam à minha volta e

isso as fez gemer, lamentar e atirar insultos desagradáveis para a morena que ia sair comigo. Ela não disse

nada, só lançou um olhar vingativo na direção delas.

– Fiquem numa boa, meninas – disse eu a todas, antes de pular do palco e me juntar à morena.

Ela colocou os braços em volta da minha cintura no momento em que conseguiu fazê-lo. Coloquei meu

braço em torno do seu ombro e comecei a conduzi-la para a porta de saída. A multidão agora era bem menor

do que antes do show, mas o bar continuava cheio e as mulheres estendiam a mão para me acariciar enquanto

eu passava por elas rumo à saída.

Levei a morena até meu carro e abri a porta com um jeito cavalheiresco. Ela se sentou no banco e

deslizou quase até o outro lado, onde eu iria sentar. Quando eu me posicionei ao volante, quase não havia

espaço para mim. A mão dela voou na mesma hora para a minha coxa e sua boca procurou o meu pescoço.

Sua língua se sacudiu contra a veia junto à minha garganta e eu reprimi um gemido. Aquela seria uma longa

viagem de carro se ela continuasse assim.

– Onde fica a sua casa? – perguntei.

Mordiscando minha orelha, ela me disse que caminho tomar. Quando chegamos ao prédio ela me pegou

pela mão e me puxou escada acima até o seu apartamento. Entramos correndo e ela me levou para o quarto na

mesma hora. Eu não tinha certeza do porquê de ela ter tanta pressa. Eu certamente não iria a lugar algum por

muito tempo.

Assim que entramos no seu quarto ela fechou a porta, colocou os braços ao redor do meu pescoço e me

puxou com força até sua cama. Era quase como se tivesse medo que eu fosse desaparecer se ela não me

levasse para debaixo das cobertas o mais rapidamente possível.

– Isso vai ser muito divertido – ronronou ela, antes de rasgar minha camisa.

Cerca de vinte minutos depois, quando estávamos ambos arrasados, eu me deitei de costas na cama e

olhei para o teto. Ela já estava dormindo, seu corpo nu estendido meio atravessado sobre o colchão. Eu me

senti estranho. Ela certamente tinha razão… Tudo certamente fora muito divertido, mas havia algo faltando.

Tudo que eu conseguira pensar enquanto me enterrava dentro dela era em Denny e Kiera; esse era um

pensamento estranho de ter num momento como aquele. A verdade é que a ternura e os toques suaves que

rolavam entre eles eram o tipo de coisa que eu esperava para aquela noite. Minha acompanhante não tinha me

oferecido nada disso. Quis tudo com força, de forma áspera, estilo atlético. E barulhento. Eu consegui um

bom desempenho e tive um belo orgasmo, mas não diria que gostei de verdade. Apenas curti um pouco…

Talvez.

Sentindo-me pronto para ir embora eu me levantei silenciosamente, procurei pelas minhas roupas, que

tinham ficado espalhadas pelo quarto, e me vesti. Após calçar as botas, abri a porta devagar e fui embora do

apartamento. Sentindo-me estranhamente insatisfeito, caminhei até o carro com a cabeça baixa.

Eu não tinha certeza do que procurava, mas sabia que queria mais do que aquilo. Talvez fosse hora de eu

dar um tempo com o sexo. Ou talvez eu estivesse apenas esgotado.


Capítulo 5

Roommates e D-Bags

Eu me senti melhor depois de algumas horas de sono. Até um pouco animado. Não tinha nada para fazer até

a hora do ensaio, mais tarde, e me sentia ansioso para curtir um dia de descanso com meus novos roommates.

Queria passar algum tempo com Denny e conhecer Kiera um pouco mais. Ela me surpreendia constantemente.

Era diferente da maioria das garotas que eu conhecia. Diferente de um jeito bom. E tinha um sorriso

surpreendente…

Eu tomava meu café e já acabava de ler um artigo no jornal que tinha começado um pouco antes quando

ela entrou na cozinha, caminhando devagar. Seu cabelo era uma massa de fios emaranhados por causa do

sono, e ela quase se arrastava em vez de andar. Obviamente não era uma pessoa matinal. Ela me viu sentado à

mesa, vestido e pronto para o dia, e eu juro que um ar de irritação escureceu seus olhos e apertou sua boca.

Mas não dava para afirmar se aquilo era dirigido a mim ou não. Ela poderia muito bem estar apenas

amaldiçoando o sol por ele ter nascido.

– ‘dia – cumprimentei-a, com voz alegre.

Ela fez um grunhido que soou como um urro.

– Hum.

Percebi que um pouco de café iria animá-la; voltei os olhos para o meu jornal e a deixei cuidar de si

mesma. Esperei até se sentar e tomar o primeiro gole antes de lhe fazer a pergunta que estava louco para fazer

desde que nosso show terminara na véspera.

– E então, o que achou? – Não consegui evitar meu sorriso arrogante. Tinha visto pelo seu rosto, enquanto

ela dançava, que estava se divertindo.

Ela lutou com a expressão que exibia no rosto, como se tentasse me confundir, mas sem me convencer.

Sua alegria não tinha sido fingida.

– Vocês estavam fantásticos. Sério, o show foi incrível.

Balancei a cabeça enquanto tomava o café.

Eu sabia!

– Obrigado. Vou dizer para o pessoal que você gostou. – Curioso sobre como ela responderia ao que viria

em seguida, observei-a por cima da caneca e perguntei: – Menos ofensivo?

Seu rosto brilhou com a lembrança da vergonha anterior, mas logo em seguida um pequeno sorriso lhe

iluminou o rosto. Seus olhos estavam mais acastanhados hoje, com um tom de mel quente que sugeria a

natureza gentil da alma por trás deles. E também sensualidade, cercada por uma orla verde de determinação.

Notável.

– Hum-hum, muito melhor… obrigada.

Ri de sua resposta e continuamos curtindo nossos cafés num silêncio confortável. Bem, pelo menos o

silêncio perdurou até Kiera deixar escapar, atropelando as palavras:

– Joey era a pessoa que morava aqui antes de nós?


Pousei lentamente a caneca sobre a mesa, sentindo a tensão que se infiltrava no ambiente. Será que ela

iria me julgar pelo que tinha acontecido entre mim e Joey? Será que iria me rotular de mulherengo, um

dissimulado, um babaca egoísta? Seria muito decepcionante se ela passasse a me enxergar desse jeito. Droga.

Por que diabos Griffin sempre tinha que abrir sua boca imensa nos momentos mais inoportunos?

– Era… Ela saiu algum tempo antes de Denny ligar a respeito do quarto.

Vamos deixar o assunto por isso mesmo.

A inteligência nos olhos de Kiera parecia cintilar enquanto ela me examinava. Estava curiosa, mas será

que realmente queria saber? Torci para que não. Ela iria pensar o pior de mim.

– Ela deixou um monte de coisas aqui. Será que não vai voltar para buscá-las?

Prendi a respiração enquanto olhava para baixo. A pergunta estava mais focada em Joey do que em mim;

de um jeito ou de outro, porém, aquilo não iria soar muito bem. Voltando os olhos para ela eu disse, sem

rodeios:

– Não… Tenho certeza absoluta de que ela foi embora da cidade.

Joey era uma rainha do drama, maníaca por me controlar e, talvez, mentalmente instável. Isso tudo

fazia parecer ainda pior eu ter transado com ela; resolvi manter tudo aquilo apenas para mim mesmo. Por

favor, não pergunte o que aconteceu.

– O que aconteceu? – perguntou ela, ignorando meu apelo mental.

Droga.

Fiz uma pausa, procurando uma maneira de descrever a situação com Joey sem fazer nenhum de nós dois

ficar mal na fita.

– Um… mal-entendido. – Essa foi a única resposta que me veio à cabeça.

Kiera pareceu entender pelo meu tom reservado que eu não queria falar sobre Joey. Aquela era uma

conversa em que eu só teria a perder. Felizmente Kiera não pressionou mais. Lançou-me um sorriso simpático

e se concentrou no café.

Quando Denny desceu um pouco mais tarde, Kiera se levantou e lhe deu um abraço monstruoso, como se

ele estivesse voltando da guerra, e não lá do chuveiro. Aquilo me fez sorrir. Denny fechou os olhos e a

recebeu muito bem. Seu abraço foi imenso, abrangente. Eu nunca tinha visto duas pessoas se abraçando com

suas almas inteiras. Mais uma vez, percebi que estava com inveja deles.

Afastando-se, Denny disse a Kiera:

– Este é nosso último dia de liberdade completa. O que você gostaria de fazer?

Kiera mordeu o lábio enquanto pensava no assunto.

– Que tal relaxar de todo, sem fazer nada? – Ela encolheu os ombros.

Denny riu e acariciou o braço dela.

– Eu conseguiria fazer isso numa boa. – Olhou para mim e perguntou: – E quanto a você, Kellan? Quer

ficar de bobeira conosco por algum tempo?

– Isso me parece ótimo! – foi minha resposta.

Kiera estava nervosa por causa de seu novo emprego no Pete’s. Diante disso, Denny e eu passamos a hora

que se seguiu preparando-a. Tentamos nos lembrar do preparo de todos os drinques que conhecíamos.

Obviamente ela não conseguiria se lembrar de todos eles, mas nos divertimos muito. Chegamos até a preparar

algumas bebidas, só para dar a ela um treinamento adicional.

Quando eu saí de casa no fim da tarde, Kiera finalmente parecia já estar se sentindo mais confortável a

respeito do seu novo trabalho, mas era Denny que começava a ficar preocupado com o dele. Pensei em

cancelar o ensaio para ficar em casa e tomar uma bebida com ele ou algo assim, mas pelo olhar que Kiera lhe

lançava, eu tive certeza de que ela descobriria uma maneira muito melhor de relaxá-lo. Com uma risada e um

aceno, deixei tudo por conta dela.


Na manhã seguinte, Denny estava pálido, mas me pareceu mais calmo. Eu estava bebendo meu café e

lendo o jornal quando Kiera entrou na cozinha. Ela viu minha camiseta e começou a rir. Eu estava vestindo

uma das muitas camisetas da banda que Griffin tinha mandado fabricar. O nome DOUCHEBAGS* estava

orgulhosamente estampado na frente, em imensas letras brancas.

Com ar de provocação, eu lhe disse que poderia conseguir uma camiseta daquelas para ela. Com um

sorriso bem-humorado, ela fez que sim com a cabeça. Quando Denny desceu um pouco mais tarde vestindo

uma camisa bonita elegante e calças de pregas, ele também comentou sobre minha camiseta. Fiz uma anotação

mental para pegar duas delas com Griffin, mais tarde.

Kiera e eu animamos Denny para o seu primeiro dia de trabalho. Ela disse que ele estava supersexy; eu

concordei, com ar de zoação. Ela lhe deu um beijo de despedida; com jeito de brincadeira, eu também lhe dei

um beijo na bochecha. Ele ria muito quando saiu, e eu sabia que mesmo que ainda estivesse um pouco

nervoso, ele iria se dar muito bem no trabalho. Denny era um cara inteligente. Sempre tinha sido.

Depois disso, fiquei completamente sozinho com Kiera pela primeira vez desde sua chegada. Era

estranhamente agradável estarmos só nós dois em casa. Ela enchia o ambiente com uma energia pacífica.

Quente, doce… inocente. Só estar perto dela já me fazia sentir melhor.

Eu trabalhei na letra de uma música enquanto ela assistia a um pouco de tevê na sala de estar. Eu podia

vê-la me observando do sofá. De repente, especulei comigo mesmo se ela estaria disposta a me ajudar e

perguntei:

– Por favor, me diga o que você acha desses versos: Olhos silenciosos gritam no escuro, implorando

pelo fim. Palavras frias caem de bocas fechadas, cortando a carne viva. Nós sangramos, dois corações

bombeando o desespero enquanto a dor, intemporal e sem fim, segue em frente.

Ela piscou rapidamente para mim, muda. Por um momento, achei que não deveria ter compartilhado

aquelas palavras com ela. Talvez devesse ter escolhido algo mais benigno, coisas mais leves ou mesmo

menos deprê. Só que era naquilo que eu trabalhava naquele momento; pedindo a opinião dela eu poderia

compartilhar um pouco de mim mesmo sem me revelar de verdade. Enquanto ela não me pedisse para

explicar a letra eu estaria seguro.

Engolindo em seco, ela respirou fundo e disse:

– Bem, eu não sou tão boa assim para avaliar músicas, mas se você conseguisse uma rima para o segundo

verso, não acha que a mensagem iria fluir melhor? – Ela encolheu os ombros, o rosto distorcido em uma

expressão de desculpas.

Sorri para ela e garanti que não tinha ficado ofendido de forma alguma pela sua sugestão. A maioria das

pessoas dizia só “Está ótimo!”, e não se dava ao trabalho de sugerir coisa alguma. Apreciei sua tentativa

honesta de tornar a música melhor.

– Obrigado, acho que você está certa. Vou trabalhar nisso. – Seus olhos se iluminaram quando ela

percebeu que eu estava realmente grato por sua ajuda.

Quando voltei a trabalhar, um sentimento forte surgiu em meu peito, circulou pelos meus músculos, até

que eu me vi embebido numa sensação de calor. Eu não tinha certeza se aquilo era contentamento, conforto,

felicidade ou algo mais, mas tudo era maravilhoso e absorvi a sensação como se fosse uma esponja.

Kiera sumiu mais ou menos duas horas antes de sua entrada no trabalho. Eu me perguntei se ela realmente

precisaria de tanto tempo para se preparar. Ela não me parecia o tipo de mulher que se enfeita e leva duas

horas se maquiando. Sua beleza era natural; ela não precisava fazer nada para melhorar sua aparência. Mas

quando ela desceu a escada e me perguntou sobre o horário dos ônibus, eu entendi por que ela começara a se

aprontar tão cedo.

Balançando a cabeça, me ofereci para levá-la de carro. Ela olhou para mim da porta de entrada, já com o

casaco na mão.

– Não, não. Você não precisa fazer isso.


Dava para ver que ela não queria me dar trabalho. Só que aquilo não era trabalho e, além do mais, eu

praticamente morava no Pete’s. Ir de carro até lá era tão comum quanto ir até a geladeira de casa.

– Não tem problema. Eu tomo uma cerveja e bato papo com o Sam. Vou ser seu primeiro cliente.

Exibi o sorriso mais encantador que consegui, mas ela não pareceu animada com o meu comentário. Pelo

contrário, ficou ainda mais apreensiva. Caminhando até a sala de estar, me disse:

– Tudo bem, então. Obrigada.

Ela se sentou ao meu lado no sofá e ficou olhando para a tevê enquanto brincava com o zíper do casaco.

Ela parecia Denny, nervosa enquanto esperava o início de uma nova etapa. Eu estava de bobeira, assistindo a

séries antigas. Para ser franco eu não dava a mínima para o que estava passando, e entreguei o controle

remoto para Kiera.

– Pode ficar, eu não estava assistindo a nada em especial.

– Ah, obrigada. – Ela pareceu gostar do meu gesto e começou a zapear por vários canais.

Eu me perguntei o que ela iria escolher para assistir, e fiquei muito surpreso quando ela parou numa cena

em que duas pessoas transavam loucamente. Ela me perguntou sobre os canais premium, como se não tivesse

reparado no que rolava diante de nós. Contive meu riso até ela perceber o que acontecia na tela. Eu tinha a

sensação de que ela ficaria muito envergonhada ao se pegar assistindo a um pornô leve ao lado de um

completo estranho.

Quando Kiera finalmente percebeu o que passava na tevê as suas bochechas pareceram pegar fogo;

assumiram um tom de vermelho brilhante e ela se atrapalhou toda tentado trocar de canal. Tentou voltar para a

série cômica que eu via antes e quase jogou o controle remoto longe, com a pressa para mudar de canal. Eu

consegui rir apenas de leve para ela, e fiquei muito feliz pela minha capacidade de me conter.

Quando faltavam uns vinte minutos para começar seu horário no trabalho, desliguei a tevê e perguntei se

ela já estava pronta para sair. Embora ela ainda estivesse com um tom pálido esverdeado no rosto, ela me

disse:

– Claro.

Eu a tranquilizei, garantindo que tudo iria dar certo. Pegamos nosso casaco e seguimos na direção da

porta.

Apesar de Kiera demonstrar ter curtido andar no meu muscle car – quem não curtiria? – ela ainda parecia

prestes a passar mal; olhou pela janela, respirou fundo várias vezes pelo nariz e expirou pela boca. Pensei em

parar por alguns minutos para deixá-la pegar um pouco de ar, mas percebi que chegar logo ao Pete’s e acabar

com o seu medo seria o melhor remédio para os nervos.

Tive uma estranha vontade de segurar sua mão quando chegamos ao Pete’s, só para demonstrar

solidariedade e ajudar a desacelerar sua mente, mas aquilo me pareceu inadequado, então eu evitei. Ela olhou

para o lugar como se as portas duplas da entrada tivessem dentes e fossem mordê-la. Quis tranquilizá-la mais

uma vez, dizendo que tudo ficaria bem, mas segurei minha língua. Por algum motivo, aquele excesso de

incentivo poderia parecer condescendência.

Quando passamos pelas portas Kiera deu um passo para junto de mim, de forma inconsciente. Por um

momento, pensei que ela fosse me agarrar como uma tábua de salvação. Eu teria que deixá-la fazer isso,

apesar de tal coisa parecer tão inadequada quanto entrar de mãos dadas. Mas aceitaria qualquer coisa que a

ajudasse a superar o medo. Só que Jenny surgiu e parou na nossa frente. Com um sorriso brilhante nos lábios,

estendeu a mão.

– Kiera, certo? Eu sou Jenny. Vou lhe explicar como tudo funciona.

Com um aceno para mim, Jenny agarrou a mão de Kiera e começou a conduzi-la para os fundos do bar.

Kiera olhou para mim com uma expressão que dizia “socorro!” e “obrigada” ao mesmo tempo. Isso me fez rir.

Rita na mesma hora apareceu e sacou meu humor.

– E aí, garotão sexy? Adoro ouvir sua risada. Quase tanto quanto adoro ouvir outros sons que você faz.


Como eu sabia o que ela insinuava, sorri de leve. Ela mordeu o lábio e seus olhos travaram em minha

boca.

– Meu Jesus Cristinho! Esses lábios… – gemeu baixinho. Em seguida estendeu a mão e pegou uma

cerveja para mim. – Beba isso! – ordenou, colocando a garrafa na minha frente. – Preciso de uma distração,

senão vou puxar você por cima do balcão para atacá-lo. De novo.

Ela piscou e eu ri.

– Hum, obrigado. – Dei-lhe algum dinheiro para a cerveja e um pouco mais para algo que eu poderia estar

devendo no bar. Nem sempre eu me lembrava de pagar. Pete já estava acostumado com isso. Mantinha atrás

do balcão uma lista com os nomes dos integrantes da banda, e tirava do nosso pagamento mensal o que

pudéssemos estar devendo.

Quando Kiera reapareceu no corredor, eu não pude deixar de lhe lançar um sorriso. Ela parecia fantástica

vestindo a camiseta vermelha do Pete’s. Incrível, na verdade. Sensual. A cor brilhante fazia sobressair os tons

rosados de sua pele, fazendo-a parecer um pouco ruborizada, como se tivesse acabado de fazer sexo. O rabo

de cavalo meio solto destacava seu pescoço elegante e enfatizava essa ilusão. Eu sabia que não deveria estar

olhando para ela desse jeito, mas a verdade é que eu não estava morto. Reparava em mulheres atraentes como

qualquer homem, e Kiera era muito atraente. Ela iria combinar muito bem com o lugar. Mesmo que ainda não

se sentisse à vontade, parecia ter trabalhado sempre ali.

Ela franziu o cenho quando chegou perto de mim. Eu não entendi o motivo disso até perceber que ela

olhava para a cerveja em minha mão. Foi quando eu me lembrei que deveria ter sido seu primeiro cliente.

Opa, que mancada…

– Desculpe. Rita passou na sua frente. Fica para a próxima.

Jenny levou Kiera embora e começou a lhe explicar o funcionamento das coisas. Observei Jenny

ensinando tudo a Kiera por algum tempo. Mais do que deveria. Por fim, cheguei ao ponto em que eu tinha de

ir embora e fui até Kiera para me despedir. Dei-lhe uma gorjeta pela minha cerveja, apesar de ela não ter me

servido nada. Suas sobrancelhas se uniram quando ela pegou o dinheiro.

– É pela cerveja – expliquei. Ela pareceu prestes a recusar o dinheiro, mas eu ergui a mão para detê-la.

Ela precisava do dinheiro e eu não. – Vou fazer um show em outro bar. Preciso ir me encontrar com os caras,

para dar uma mãozinha na montagem do equipamento, entende?

Seus olhos se suavizaram quando ela me olhou.

– Muito obrigada pela carona, Kellan.

Sorri para ela e meu contentamento anterior não foi nada comparado ao que sentia agora. Quando eu

estava prestes a responder, Kiera se colocou na ponta dos pés e me deu um beijo leve na bochecha. Pareceu

envergonhada por fazer aquilo e logo recuou; minha pele ficou mais quente onde os lábios dela tinham me

tocado. Quis que ela me beijasse novamente e, ao mesmo tempo, sabia que não deveria desejar isso. Beijar

era algo que ela fazia com Denny, e essa era uma coisa que deveria continuar exatamente desse jeito. Eles

eram ótimos juntos. Só que foi apenas um beijo na bochecha… Aquilo não significava nada. Puxa, eu tinha

beijado Denny na bochecha naquela manhã mesmo. Aquilo realmente não queria dizer nada de mais.

Olhei para baixo, quase me sentindo envergonhado.

– Não precisa agradecer – murmurei, tentando pensar direito. Depois de conseguir me recompor, dei

adeus aos outros e segui em direção à porta. Disse um “divirta-se” para Kiera, antes de sair. Pela forma como

ela sorriu para mim, tive certeza de que ela se divertiria.

Na noite seguinte, a banda decidiu ir para o Pete’s depois do ensaio. Bem, não creio que tenha sido

consciente, foi mais como um “Vamos nos ver no bar, certo? Sim, a gente se vê por lá”, logo depois que

acabamos de ensaiar.


Denny estacionou ali perto justamente no momento em que eu desligava o motor do meu Chevelle, e

esperei por sua chegada encostado na traseira do carro. Ele ainda estava com a roupa de trabalho e exibiu um

grande sorriso enquanto vinha em minha direção.

– E aí, companheiro, que legal encontrar você aqui! – exclamou ele.

Eu lhe dei um tapinha afetuoso no ombro e lhe perguntei como estava indo o trabalho. Pela sua resposta,

você pensaria que ele tinha acabado de elucidar um dos segredos do universo. Um sorriso largo tomou conta

do meu rosto enquanto caminhávamos rumo às portas da frente do Pete’s. Meus dois roommates estavam

conseguindo encontrar seu caminho ali. Gostei daquilo. Fiquei empolgado ao perceber o quanto Denny estava

feliz com seu novo emprego. Todos dizem que a pessoa deve fazer o que mais ama, e ele definitivamente

parecia adorar o que fazia.

Matt, Griffin, e Evan entraram no bar um pouco antes de mim e de Denny. Como se ela pudesse sentir

nossa presença, Kiera virou a cabeça em nossa direção. Eu estava longe demais para avaliar com certeza,

mas ela me pareceu meio ofegante e tentou se recompor, como se estivesse nervosa por servir nossa mesa.

Será que os D-Bags eram tão intimidantes assim? Sinceramente, eu não achava que fôssemos. Éramos muito

brincalhões, isso sim. Divertidos. Poderíamos zoá-la um pouco, mas só fazíamos isso com as pessoas de

quem gostávamos.

Ela pareceu relaxar quando viu que Denny estava conosco. Ele lançou um aceno para ela e Kiera curvou

os dedos, em resposta. Baixinho para mim, ele perguntou:

– Sou eu que acho ou ela parece um pouco assustada?

Ri e olhei para ele.

– É o Griffin. Ele assusta todo mundo. – Quase como se tivesse me ouvido, os olhos de Kiera se lançaram

na direção de Griffin, mas ela logo desviou a cabeça e ficou com as bochechas claramente ruborizadas,

mesmo a distância.

Denny e eu compartilhamos uma risada ao ver aquilo, enquanto todos seguiam em direção à minha mesa

favorita. Quando Kiera se aproximou de nós, Evan a levantou e lhe deu um abraço, fazendo-a rir. Griffin

apertou seu traseiro enquanto estava impotente nos braços de Evan. Ela lhe lançou um olhar desagradável que

prometia violência física, mas Griffin já tinha se sentado à mesa e estava fora de seu alcance. Matt levantou a

mão em saudação e eu lhe dei um breve aceno. Quando Evan colocou Kiera no chão, Denny imediatamente

tomou o seu lugar. Denny e Kiera se envolveram longamente num abraço profundo, curtindo um beijo quente e

pacífico.

Não importavam os temores individuais que eles tinham, ambos encontravam força e conforto um no

outro. Eram uma equipe. Aquilo me comovia, e eu me pegava especulando o tempo todo como seria ter algo

remotamente parecido.

Pela primeira vez na vida a minha casa estava sempre com um ambiente caloroso, pacífico e feliz. Kiera e eu

ficávamos juntos durante o dia; Denny e eu saíamos à noite; geralmente íamos até o Pete’s, para que ele

pudesse ver Kiera um pouco. Nós dois retomamos nossa velha amizade despreocupada e, depois de algum

tempo, parecia que ele nunca havia deixado Seattle.

Jenny comentou sobre o meu alto-astral uma noite, enquanto eu observava Kiera trabalhar; Kiera

cantarolava enquanto limpava uma mesa, e eu tinha certeza que ela estava cantando uma das minhas músicas.

Isso me deixou insanamente feliz.

– E aí, Kellan? Como vão as coisas na sua casa? Todo mundo me parece muito feliz, até agora.

Entornei a cerveja antes de responder.

– Está tudo ótimo. Nós nos damos muito bem. Denny e Kiera são… gente boa. – Meus olhos se voltaram

para Kiera quando eu disse o nome dela. Passar o dia com ela era inesperadamente agradável. Ela não era


melodramática nem psicótica; e também não me usava para preencher alguma fantasia envolvendo uma estrela

do rock. Eu conseguia ser simplesmente eu, ao lado dela.

Jenny olhou para Kiera ao mesmo tempo que eu. Em seguida, voltou os olhos para mim e os estreitou.

Mantive a expressão firme.

Eu estava só olhando, não havia mal nisso.

– Sim, ela e Denny são adoráveis juntos – comentou Jenny.

Tive a sensação de que ela estava sutilmente me dizendo para deixar Kiera em paz. Só que nenhuma

advertência era necessária. Eu estava firme como uma rocha no mesmo time do casal Denny & Kiera.

Lançando para Jenny um sorriso brincalhão, zoei:

– Nem de perto tão adoráveis quanto você e Evan.

Ela revirou os olhos para mim e olhou para Evan sentado no palco, flertando com um grupo de garotas. A

verdade é que eu sabia que ele estava sozinho naquele momento. Se Jenny queria uma chance, agora era a

hora de entrar na fila.

– Por favor, Kellan! Somos apenas amigos.

– Sei… Eu vi vocês dois se acariciando na festa do Quatro de Julho, e os dois pareciam muito

aconchegados.

Ela me deu um sorriso apaziguador.

– E eu vi você junto daquela garota de vermelho, azul e branco, sei lá o nome dela. E aquilo não

significou nada. – Ela me lançou um sorriso brilhante, como se tivesse acabado de ganhar a disputa. Com uma

risada, resolvi deixar pra lá.

Erguendo as duas mãos, eu disse:

– Ok, nessa você me pegou. Eu estava só jogando verde. – Baixando as mãos, continuei: – Mas quando

vocês dois acabarem juntos, por favor lembrem disso: eu cantei essa pedra.

Ela balançou a cabeça com um sorriso divertido nos lábios.

– Tudo bem, Nostradamus, tudo que você disser. – Eu me recostei na cadeira, rindo para mim mesmo

enquanto ela se afastava.

Matt e Griffin estavam por perto, e mostravam a Sam as suas novas tatuagens. A de Matt era o símbolo

chinês para a determinação. A de Griffin era uma cobra sensualizando com uma mulher nua; Griff adorava

tatuagens sugestivas. Como eu já tinha visto seus trabalhos artísticos, me desliguei dos amigos e fiquei

observando Kiera, que saltitava entre as mesas. Ela pegara o trabalho de garçonete com muita facilidade, e

tal como Denny no seu trabalho e eu no meu parecia se divertir numa boa.

Kiera reparou que eu a observava no instante em que meu copo de cerveja ficou vazio. Fiz um gesto para

que ela me conseguisse outro.

– E aí? Uma cerveja? – perguntou ela.

Balancei a cabeça para frente, adorando ela já estar conseguindo adivinhar minhas necessidades agora.

– Hum-hum. Obrigado, Kiera.

Os olhos dela se fixaram num ponto atrás de mim algumas vezes, e eu seria capaz de apostar que ela

preferia que Griffin tornasse a vestir a camisa. Quando ela colocou uma mecha solta de cabelo escuro atrás

da orelha, seu rosto ficou vermelho de repente e ela desviou os olhos. Ela geralmente só ficava vermelha

daquele jeito quando eu a zoava por algum motivo, mas eu não tinha dito coisa alguma; portanto, ela é que

devia estar pensando algo que julgava embaraçoso. A curiosidade me aguçou e me fez tentar descobrir o que

poderia ser.

– Que foi? – eu quis saber, já me divertindo.

– Você tem uma? – Ela apontou para Griffin.

Olhei para trás. Ele flexionava o braço para um grupo de fãs. Elas guinchavam ao tocá-lo.


– Tatuagem? – perguntei, olhando para Griffin. Neguei com a cabeça e disse: – Não consigo pensar em

nada que eu gostaria de ter gravado na pele para sempre. – Especulando comigo mesmo se Kiera tinha alguma

marca oculta em algum lugar do corpo, sorri e perguntei: – E você?

Ela me pareceu um pouco perturbada quando respondeu.

– Não… Minha pele é virgem. – Aparentemente, ela não tinha a intenção de dizer exatamente aquilo,

porque ficou vermelha. Eu tive que rir da expressão infeliz que surgiu em seu rosto quando ela murmurou: –

Já volto com a sua cerveja.

Ela fugiu de mim na velocidade com que uma bala sai de uma arma. Balançando a cabeça eu fiquei ali,

rindo. Não sabia por que ela ficava envergonhada com tanta facilidade; certamente não havia coisa alguma

com ela ou com sua personalidade que a fizesse se sentir daquele jeito a respeito de tudo, mas assistir à sua

luta interna era divertido. Ao mesmo tempo, eu esperava que ela se sentisse confortável e confiante em si

mesma, um dia. Ela deveria se sentir assim, porque era maravilhosa.

Enquanto eu olhava, Denny entrou correndo pelas portas e quase colidiu com Kiera. Ele a agarrou pelos

ombros, seu rosto iluminado com o que só poderia ser uma boa notícia. Kiera sorriu, obviamente feliz em vêlo

e ansiosa para conhecer as novidades. Em seguida o seu rosto desabou de tristeza. Eu fiz uma careta, me

perguntando o que estaria rolando. Denny encolheu os ombros ao dizer algo para ela e Kiera permaneceu de

boca aberta, como se ele a tivesse esmurrado o estômago. Desejei estar mais perto para ouvir o que eles

conversavam, mas sabia que aquilo não era da minha conta e fiquei na minha.

Kiera estava chateada e parecia tentar extrair mais alguma informação de Denny. Por sua vez, Denny

parecia confuso enquanto lhe explicava algo. Então, de repente ela exclamou:

– O quê? – As pessoas em todo o bar começaram a se virar e olhar para o casal, que obviamente

começava uma briga. Levantei-me da cadeira, preocupado. Denny e Kiera nunca discutiam. Nunca! E se

eventualmente o faziam, com certeza não era num lugar público como aquele.

Denny olhou ao redor para os olhos curiosos, agarrou o braço de Kiera e a levou lá para fora. Dei um

passo, pensando em segui-los, mas o problema não tinha nada a ver comigo. Eu não podia me intrometer.

Mesmo assim, tive uma sensação muito ruim.

Mantendo os olhos grudados nas portas, fui até o balcão para pedir mais uma cerveja. Enquanto eu

bebericava ali, olhei para as portas e desejei que Denny e Kiera voltassem a entrar por elas no seu estado

normal, feliz, no estilo “está tudo numa boa”, como sempre. Eu meio que tive a sensação de que eles estavam

rompendo e isso me encheu de medo. O que aconteceria com nossa família improvisada se eles se

separassem? Por que diabos Denny terminaria com Kiera, para início de conversa? Ela era calorosa, doce,

divertida, verdadeira… linda! Estava tão perto da perfeição quanto uma garota poderia estar.

Quando as portas finalmente se reabriram, Kiera estava sozinha. Não vi isso como um bom sinal. Ela

tentava colocar uma expressão de corajosa no rosto, isso dava para perceber, mas quando passou os dedos

por debaixo dos olhos, eu percebi que estava à beira de fracassar. Algo estava muito errado.

Fazendo uma expressão de estranheza, fui até ela.

– Você está bem?

Seus olhos estavam vermelhos e brilhantes, com lágrimas não vertidas. Ela evitou contato visual comigo e

olhou por cima do meu ombro. Tinha chorado e parecia que não tinha acabado.

– Estou.

Não era preciso ser um gênio para ver que ela estava mentindo.

– Kiera…

Fale comigo.

Coloquei a mão em seu braço, esperando que ela se abrisse. Ela ergueu os olhos para mim e as comportas

ruíram. Na mesma hora eu a trouxe para dentro dos meus braços. A necessidade de protegê-la me inundou e

eu a pressionei com força junto do peito. Como Denny poderia se atrever a magoá-la? Ao mesmo tempo que


pensava isso, sabia que não podia julgar o que não compreendia, e fiz o melhor que pude para tentar afastar

de mim aquele sentimento hostil. Repousando a bochecha sobre a cabeça dela, acariciei suas costas e a

acalmei da melhor forma que pude, enquanto ela soluçava. As pessoas à nossa volta nos olhavam, mas eu não

me importava. Ela precisava de mim e eu ficaria ali para lhe dar força.

Fiquei um pouco surpreso ao notar o quanto me pareceu natural abraçá-la. Ela se encaixava no meu corpo

com perfeição, como se tivéssemos sido moldados um para o outro. Confortá-la começou a agitar algumas

coisas dentro de mim. Além de querer protegê-la e salvá-la do mal, outra coisa foi crescendo… Amizade, ou

talvez algo ainda mais profundo que isso. Eu não tinha certeza. Tudo o que eu sabia era que não queria largála.

Não tenho certeza de quanto tempo ficamos ali, abraçados. Um pouco depois, Sam veio até onde nós

estávamos. Eu sabia o que ele ia dizer antes mesmo de abrir a boca. A banda já fora para o palco e estava na

hora do show. Balancei a cabeça para ele e avisei que queria mais um minuto. Kiera ergueu os olhos, me fitou

e interrompeu nosso contato. Estava com os sentimentos mais ou menos sob controle agora; só algumas

lágrimas ainda teimavam em escorrer quando ela limpava as bochechas.

– Estou ótima. Obrigada. Vai, está na hora de ser um rock star.

Preocupado, perguntei:

– Tem certeza? A galera pode esperar mais alguns minutos.

Se você precisar de mim eu estarei bem aqui.

Ela sorriu, comovida pela minha oferta, apesar de rejeitá-la.

– Não, sinceramente, estou bem. Tenho que voltar mesmo para o trabalho. Acabei não trazendo sua

cerveja de novo.

Eu não queria, mas a soltei. Com uma risada, disse a ela:

– Fica para a próxima.

Acariciei-lhe o braço, desejando que ela realmente estivesse tão bem quanto fingia estar, e me amaldiçoei

por ter de deixá-la para subir no palco, enquanto me perguntava por que a maciez de sua pele fazia meu

coração bater mais rápido.

Afastando esse pensamento irrelevante da cabeça, eu a deixei voltar para o seu trabalho. Talvez ela se

sentisse bem o bastante depois do show para se abrir comigo. Torci muito para que isso acontecesse. Queria

que ela conversasse comigo e confiasse em mim. Eu nunca faria nada para magoá-la ou traí-la, e queria que

ela visse isso em meus olhos. Kiera significava muito para mim.

*Douchebag é uma gíria em inglês que significa babaca, mané, otário. D-Bag é uma abreviação dessa palavra. (N. do T.)


Capítulo 6

Estou aqui para você

Evan me olhava de um jeito estranho quando subi no palco.

Relaxe, eu não vou fazer nada com Kiera.

Eu não iria jogar charme algum para cima dela, nem dar em cima, nem ser inapropriado de qualquer

forma. Ela era namorada de Denny.

Eu a observei durante todo o show para tentar avaliar seu estado de espírito. Eu desceria do palco

correndo e a receberia nos braços se ela precisasse de mim novamente. Era só me dar um sinal de que estava

desmontando. Mas ela não fez isso; simples​mente me lançou sorrisos tranquilizadores sempre que me pegava

olhando em sua direção.

Quando o seu turno terminou, ela se recostou numa cadeira e olhou para todo mundo como se não quisesse

ir para casa. Até enxugou mais algumas lágrimas quando sentiu que recomeçara a chorar. Torcendo para que

ela finalmente se abrisse comigo, eu me sentei em uma cadeira ao lado dela.

– E aí? – disse, quando ela ergueu os olhos. – Quer conversar sobre isso?

Ela olhou para o palco, onde o resto da banda ainda estava. Ela hesitou em me responder e eu percebi que

eles eram o motivo. Quando ela balançou a cabeça, tive certeza disso. Em vez de pressioná-la a falar comigo

na frente deles, perguntei:

– Quer uma carona para casa? – Entendi sua necessidade de privacidade, e também sua relutância em

falar. Eu não iria pressioná-la.

Ela olhou para mim com um sorriso agradecido e assentiu.

– Aceito, obrigada.

– Certo. Vou só pegar minhas coisas e a gente já sai.

Exibi um caloroso sorriso de apoio. Como se estivesse envergonhada, suas bochechas ficaram rosadas.

Talvez ela se sentisse mal, como se estivesse me incomodando. Mas não deveria se sentir assim. Eu estava

indo para o mesmo lugar que ela, afinal de contas; morávamos na mesma casa. Fui até onde os rapazes

estavam para pegar minhas coisas. Griffin me olhou com um jeito diferente, como se soubesse de alguma

coisa. Eu tinha certeza que ele já estava imaginando um monte de imagens pervertidas de mim com Kiera.

Maravilha!

Sam estava lá com eles. Tinha um copo na mão e o entregou para mim quando eu cheguei mais perto.

– Não quer tomar um drinque com a gente? – Estreitou os olhos e completou. – Mas só um, ouviu? Eu não

quero mais bancar a babá do seu traseiro bêbado.

Eu ri com o comentário. Aquilo já fazia um tempo, mas Sam teve que me dar uma carona para casa mais

de uma vez. Esse era um aspecto do seu trabalho que ele não curtia. Só fazia isso porque éramos seus colegas

de trabalho. E amigos.

– Não, obrigado. Kiera precisa de uma carona e vou levá-la para casa. – Griffin franziu os lábios e

cutucou Matt nas costelas, enquanto ele assentia com a cabeça. Obviamente ele achou que andava rolando

algo diferente entre nós.


Balancei a cabeça para os lados diante da suposição incorreta deles e peguei minha guitarra. Quando me

virei para sair, Evan me agarrou pelo cotovelo. Puxando-me mais para perto, disse:

– Eu saquei vocês dois antes do show. Está acontecendo alguma coisa?

A irritação de perceber que a mente de Evan acompanhava a de Griffin me provocou um calafrio na

espinha. Ele devia ter um pouco mais de fé e confiança em mim.

– Não. Pintou algum problema entre ela e Denny, mas eu não sei por que ela está… chateada. Estou sendo

um bom amigo, porque é disso que ela precisa agora. Mas é só isso.

Evan aceitou minha resposta e soltou meu braço. E deveria aceitar mesmo; eu estava dizendo a verdade.

Flexionando os ombros para relaxar, voltei para Kiera.

– Pronta? – perguntei a ela.

Em pé à minha espera, ela assentiu com a cabeça e saímos do bar juntos. Ficou em silêncio por algum

tempo e eu a deixei em paz. Se quisesse falar, ela faria. Se não, eu não poderia forçá-la. Mas o silêncio que

se instalou não foi opressivo. Não havia tensão alguma, nem apreensão. Só uma amizade confortável.

Quando eu já estava certo de que o silêncio iria durar toda a viagem para casa, Kiera disse com muita

calma:

– Denny vai viajar.

Eu não poderia ter ficado mais chocado com suas palavras.

Não!… Eu acabei de reencontrá-lo e eles estavam tão felizes juntos ali. O que poderia ter acontecido?

Por que ele iria querer viajar… ir embora? Será que eu tinha feito alguma coisa…?

– Mas…?

Seu rosto formou uma careta, como se ela estivesse com raiva de si mesma.

– Não, é só por alguns meses… a trabalho.

Eu relaxei quando percebi que a ausência de Denny seria apenas temporária. Nosso relacionamento

continuava intacto, afinal, e o deles também. Essa separação seria difícil para os dois, mas eu tinha certeza de

que eles iriam conseguir.

– Ah, eu pensei que talvez…

Vocês tivessem terminado.

Ela me interrompeu com um suspiro antes que eu pudesse terminar meu pensamento.

– Não, eu fiz uma tempestade em copo d’água. Está tudo bem. É só que… – Fez uma pausa longa, como se

até mesmo o ato de dizer as palavras pudesse machucá-la.

– Vocês nunca se separaram – adivinhei.

Erguendo a cabeça, vi seus lábios se curvarem num pequeno sorriso de alívio. Alívio por eu ter entendido

e por não tê-la julgado.

– Exatamente. Quer dizer, nós até nos separamos, mas não por tanto tempo assim. Acho que eu fiquei

acostumada a ver Denny todos os dias e… enfim… nós esperamos tanto para viver juntos, as coisas têm ido

tão bem, e agora…

– Ele vai viajar.

– Pois é…

Pude sentir os olhos dela me avaliando enquanto eu me concentrava na direção. Tentei imaginar como

seria a sensação de esperar muito tempo para ficar com alguém para, então, ter essa pessoa arrancada no

momento que você a tinha.

– No que você está pensando? – murmurou Kiera, com uma voz distante, quase como se não estivesse

falando comigo.

– Em nada… – Olhei para ela e seus olhos estavam arregalados, como se ela não tivesse percebido que

tinha feito uma pergunta para mim. Ignorei sua expressão assustada enquanto analisava o que eu estava

desejando. – Estava apenas desejando que você e Denny passem por cima disso. Vocês dois são…


Pessoas incríveis, uma inspiração, minha esperança para o futuro… São muito importantes para mim.

O silêncio desceu sobre nós de novo, mas dessa vez era um silêncio mais agradável. Eu estava feliz por

Kiera se abrir comigo, e feliz por saber que seu problema parecia ser de curto prazo.

Quando chegamos, o carro de Denny estava estacionado na entrada. Kiera inspirou com força ao ver o

veículo. Mas estava sorrindo, como se estivesse feliz por ele estar em casa. Torci para que ela sempre se

sentisse daquele jeito. Virando-se para mim, ela disse:

– Obrigada… Por tudo.

Senti um súbito desejo de que ela me beijasse o rosto novamente, e baixei a cabeça. Se eu fosse mais

parecido com ela, esse pensamento certamente teria me feito corar.

– Não há de quê, Kiera.

Saímos do carro, seguimos pelo caminho que levava à porta de casa e entramos. Kiera parou na porta de

seu quarto e eu parei diante da minha. Eu a vi olhando para a porta fechada, sua mão apertando a maçaneta,

em vez de girá-la. Parecia nervosa, como se estivesse com medo do que iria encontrar do outro lado.

– Vai ficar tudo bem, Kiera – sussurrei na penumbra. Ela olhou para mim com carinho e gratidão nos

olhos.

– Boa noite – ela se despediu, mas seus olhos continuaram grudados nos meus. Por fim, tomou coragem e

abriu a porta para o quarto onde Denny estava.

Sozinho no corredor, olhei para a porta fechada do quarto deles durante vários minutos. A sensação de ter

Kiera nos braços me voltou com intensidade; o cheiro do seu cabelo, o calor em seus olhos, o conforto de seu

corpo pressionado contra o meu. Por uma fração de segundo eu me perguntei o que aconteceria se Denny

fosse embora e nunca mais voltasse. Será que Kiera passaria a me ver como outra coisa além de uma estrela

do rock com jeitão de playboy, caso ficássemos morando só nós dois naquela casa? Será que eu queria que

ela me visse como algo além disso?

Agitando a cabeça, abri a porta do meu quarto e entrei. Não importava se Kiera conseguiria ou não

desenvolver algum interesse por mim. Não era isso que estava acontecendo ali ou estava em jogo naquele

momento. Denny não a tinha abandonado; estava apenas indo passar um tempo fora, durante alguns meses.

Nada de mais. Eles estavam bem, estavam ótimos, totalmente numa boa. Por algum motivo estranho, esse

pensamento me deixou um pouco triste.

Denny e Kiera ficaram colados um no outro o tempo todo, enquanto contavam os minutos até a hora de ele ir

embora. Mas eu consegui arrumar um momento a sós com Denny.

– E aí, posso falar com você?

– Claro. Que foi?

Eu não tinha ideia de como dizer o que queria sem parecer indelicado, então comentei, apenas…

– Eu vi o quanto Kiera ficou chateada quando você disse que ia embora por algum tempo. Tem certeza que

é isso que você quer?

Denny franziu o cenho, como se achasse que eu estava ultrapassando meus limites. Talvez estivesse.

– Serão só alguns meses. – A expressão de estranheza dele se transformou em empolgação. – Você não

entende o que isso pode significar para minha carreira, Kellan? Isso talvez seja o começo de algo fantástico.

Segurei a língua, mas tudo em que consegui pensar foi:

Talvez seja o fim de algo muito melhor.

No dia em que Denny tinha de ir embora, eu me ofereci para levá-lo ao aeroporto, pois não sabia o que

mais poderia fazer. Os olhos de Kiera não desgrudaram de Denny enquanto íamos para o terminal, em Sea-

Tac. Os olhos de Denny, porém, não saíram de cima de mim ao longo de todo o caminho.

Já no aeroporto, dei aos meus dois amigos um pouco de espaço pessoal para as despedidas. Foi um

momento de muita emoção, e foi difícil, para mim, testemunhar o óbvio conflito de Kiera. Sua devoção era


comovente. Eu nunca tinha visto alguém se importar tanto. Eu, certamente, nunca tivera alguém que se

importasse comigo daquele jeito.

Eles se separaram depois de um beijo apaixonado. Denny disse algo que só podia ser um adeus, beijou-a

no rosto e veio caminhando em minha direção. Sorriu quando eu lhe disse adeus e olhou para Kiera. Quando

tornou a virar o rosto para mim, sua expressão estava completamente diferente. Mais dura, por assim dizer.

Inclinando-se de leve, sussurrou:

– Preciso que você me dê sua palavra de que não vai tocá-la enquanto eu estiver fora. Que vai olhar por

Kiera, mas vai se manter o mais longe possível dela. Entende o que estou dizendo? – Recuou um pouco, sua

expressão muito séria.

Chocado, lancei um rápido olhar para Kiera, que nos observava. Ele estava realmente me lembrando de

que eu não deveria dormir com sua namorada? Será que achava mesmo que eu seria capaz de fazer isso? Sim,

eu gostava de Kiera… Gostava muito dela, para ser franco… Só que ela era dele, e eu respeitava isso. Eu o

respeitava. Jamais…

Denny estendeu a mão para mim. Balancei a cabeça, atônito, mas logo estiquei o braço e apertei sua mão.

De certo modo, aquele aperto de mãos parecia mais um pacto que uma despedida.

– Eu não vou… Nunca faria algo desse tipo para magoar você, Denny.

Denny me deu um sorriso curto como resposta; em seguida, virou-se e lançou um beijo para Kiera, antes

de se dirigir para a segurança do aeroporto. Eu levei um minuto para processar o que tinha acontecido.

Sempre achei que Denny enxergava o melhor de mim… Só que ele não devia confiar em mim tanto quanto eu

imaginei, pois acreditava que eu pudesse fazer algo assim enquanto ele estava fora. Até mesmo Evan achou

que deveria me alertar… Era essa a pessoa que eles viam quando olhavam para mim? Era assim que eu era?

Kiera olhava para o espaço vazio quando Denny desapareceu, e lágrimas começaram a se formar em seus

olhos. Vi que ela estava a cerca de quinze segundos de uma crise de nervos, e também percebi que não queria

pagar aquele mico no meio do aeroporto, então rapidamente a levei de volta para o carro.

Ela se aguentou até entrarmos na autoestrada de volta, mas acabou se descontrolando por completo. Eu

nunca tinha visto alguém tão arrasado antes; era como se a sua alma tivesse sido despedaçada. A dor dela me

fez sofrer também, e eu achava muito difícil entender o motivo de Denny obrigá-la a passar por tudo aquilo.

Eu queria cuidar dela, livrá-la de toda a dor, queria fazer com que nunca mais na vida ela se sentisse daquele

jeito. Percebi que não poderia fazer qualquer dessas coisas, então simplesmente a levei para casa,

acompanhei-a até o sofá, trouxe-lhe um copo d’água, uma caixa de lenços de papel e me sentei na poltrona ao

lado, para lhe fazer companhia.

Esperando que isso pudesse afastar sua mente dos problemas, procurei algo engraçado na tevê para

vermos. Pareceu funcionar. Após algumas risadas, sua pele ficou mais brilhante e ela já não usava tantos

lenços de papel. Eu acompanhei mais Kiera do que o filme. Seus olhos estavam mais verdes naquele

momento de dor, e ela mordia o lábio enquanto assistia ao filme ridículo. De repente senti vontade de me

sentar ao lado dela no sofá, talvez envolvê-la com um braço e lhe oferecer meu ombro para ela chorar, mas

tinha prometido a Denny que me manteria longe.

Depois de algum tempo as suas lágrimas secaram. Dava para ver o cansaço em seu rosto quando ela se

deitou no sofá, e não me surpreendi nem um pouco quando adormeceu antes do filme acabar. Ela

provavelmente não tinha dormido a noite toda. Achei um cobertor leve e o coloquei sobre seu corpo

enroscado. Ela se mexeu um pouco e sorriu, como se soubesse que eu tinha feito aquilo por ela.

Fiquei com o rosto pouco acima do dela, observando-a por alguns minutos. Uma mecha de cabelo lhe caiu

sobre a bochecha e os lábios. Sua respiração suave fazia com que os fios vibrassem, e eu sabia que a

qualquer segundo aquilo lhe faria cócegas e ela acordaria. Com muito cuidado, de forma lenta e suave, tirei a

mecha do seu rosto e a coloquei atrás da orelha; sua pele me pareceu seda entre os dedos.


Kiera não se moveu, então eu achei que ainda estivesse dormindo. Eu sabia que não deveria ficar parado

ali, mas seu rosto exposto me hipnotizava. Minha respiração acelerou de expectativa e meus lábios se

separaram levemente. Ela era mesmo bonita, incrivelmente bela. Apesar de parecer emocionalmente esgotada

e exibir olheiras leves, estava deslumbrante. A parte macia do meu polegar roçou de leve a sua bochecha. A

pele era tão suave que eu senti vontade de cobri-la com a palma da mão e sentir mais daquela suavidade.

Queria esfregar minha bochecha contra a dela, e roçar meus lábios pelo seu rosto. Mas eu já estava passando

dos limites e não iria mais longe. Kiera e eu tínhamos a base de uma amizade muito boa. Parecia simples,

colocado nesses termos, mas essa era a única maneira de eu poder descrever nosso relacionamento, e eu não

pretendia fazer coisa alguma que prejudicasse isso, ou a ligação entre mim e Denny, mesmo que ele não

confiasse em mim por completo.

Fiz o meu melhor, nos dias que se seguiram, para tornar a vida de Kiera mais confortável. Basicamente eu

tentei manter sua mente afastada da dor preenchendo todo o seu tempo livre. Infelizmente, havia muitas horas

vazias para ela gastar sozinha, pois suas aulas ainda não tinham começado.

Quanto mais tempo passávamos juntos, mais eu curtia a sua companhia. Ela era inteligente, engraçada,

perspicaz, e um prazer para olhar; especialmente quando eu conseguia fazer suas bochechas ficarem mais

vermelhas que um tomate. Ela também era boba e brincalhona quando baixava o seu escudo protetor, um fato

divertido que descobri quando consegui fazer com que ela dançasse e cantasse comigo em pleno

supermercado. Era para eu estar afastando a mente dela da solidão, mas ela estava fazendo com que eu me

esquecesse da minha.

Claro que eu flertava com as garotas de vez em quando, porque o toque de uma mulher não era algo que

eu estivesse preparado para abrir mão, mas não conseguia sequer lembrar quando fora a última vez em que eu

tinha realmente dormido com alguém. Parecia uma eternidade, porque eu não considerava o sexo como

dormir. A verdade é que raramente eu pensava sobre sexo com garotas que eu não via mais. Só que tinha,

ocasionalmente, pensamentos quentes e absolutamente inadequados sobre Kiera. E sonhos. Caraca, os sonhos!

Alguns deles me deixavam duro o suficiente para quebrar vidro quando acordava. Mas eu não deixei que isso

afetasse nossa amizade ou a minha promessa para Denny. Aquelas eram duas pessoas que significavam muito

para mim.

Eu estava tendo um pensamento bastante inadequado sobre como ela pareceria toda molhada quando a

ouvi bater na minha porta, uma noite. Eu tinha acabado de sair do chuveiro e ainda estava um pouco

encharcado quando disse que ela podia entrar.

Empurrando para longe da cabeça a imagem de água escorrendo entre seus seios, exibi um sorriso

cintilante e amigável quando ela abriu a porta.

– Que foi?

Ela ficou em pé na soleira da porta, olhando para mim com a boca aberta. Provavelmente não esperava

que eu estivesse apenas metade vestido. Fechou a boca e tentou se recompor, mas em seguida começou a

gaguejar. Foi uma reação bonitinha, à qual eu não estava acostumado. Será que ela também pensava em mim

pelado? Não, de jeito nenhum.

– Hum… Eu estava pensando… se podia ir com você… ao Razors… Para ouvir a banda?

– Sério? – Eu peguei minha camisa na cama, surpreso. Razors era um pequeno bar onde nós íamos tocar

naquela noite. Kiera já tinha ouvido nossa banda tantas vezes no Pete’s que nos ouvir mais uma vez talvez

fosse um pouco monótono. Mas se era isso que ela queria eu iria adorar sua companhia. – Já não está cansada

de me ouvir? – Dei uma piscadela quando vesti a camisa. Ela devia estar farta de nós.

Ela engoliu em seco, como se ainda estivesse surpresa com o meu corpo. Hummm, pensando bem, talvez

eu devesse ficar seminu na frente dela com mais frequência. Sua distração era sedutora.

Amigos. Apenas amigos.


– Não… Ainda não – garantiu ela. Quase como uma reflexão tardia, acrescentou: – Pelo menos vou ter

alguma coisa para fazer.

Ri com seu comentário. Tudo sempre acabava em Denny e no jogo de espera perpétua que ela curtia.

Acabei de me vestir, fui até meu armário para pegar o gel que usava no cabelo e o espalhei com cuidado, para

lhe dar um ar de caos ordenado.

Quando olhei para trás, Kiera estava absorta me observando.

– Tudo bem, já estou quase pronto – avisei, sentando-me na cama para calçar as botas e dando um tapinha

na cama para Kiera se juntar a mim. Quando ela o fez, descobri que eu gostava de tê-la ao meu lado; de ter

seu cheiro fresco e limpo em volta de mim; mesmo sem tocá-la, de algum jeito eu senti um calor que nunca

tinha sentido antes. Mas sabia que não deveria pensar coisas assim.

O show acabou sendo muito bom, e eu estava feliz por Kiera ter tido a chance de vê-lo. Assim que a

apresentação terminou e nosso equipamento foi embalado, fiz questão de agradecer aos funcionários por eles

terem nos acolhido e aos clientes por terem ido até lá nos assistir ou, pelo menos, nos receber bem, mesmo

que tivessem ido ali sem saber que iríamos tocar. Quando estava me despedindo do barman, uma garota mais

atirada colocou a mão no meu bolso de trás e apertou minha bunda. Quando olhei por cima do ombro, ela me

perguntou:

– Você já tem planos para hoje à noite?

Meus olhos voaram dela para Kiera, que nos observava junto à porta. Não muito tempo atrás, eu teria

concordado em ir a qualquer lugar que aquela mulher quisesse, mas as coisas eram diferentes agora; eu não

queria ir a lugar algum com ela. Além do mais, não poderia. Na verdade, eu tinha planos.

– Desculpe, tenho planos, sim. – Ela fez uma cara de estranheza e eu lhe dei um beijo no rosto. Torci para

que aquilo fosse o suficiente para deixá-la feliz.

Kiera estava de ótimo humor no caminho para casa. Olhava para mim como se estivesse hipnotizada. Eu

não tinha certeza do porquê daquilo, até perceber que eu estava cantando baixinho a última música que

tínhamos tocado.

– Adoro essa música – confessou ela. Assenti com a cabeça. Já sabia disso. Não importa o que estivesse

fazendo, Kiera sempre parava e ouvia “Remember Me” quando nós a tocávamos no Pete’s. – Parece

importante para você – comentou, subitamente curiosa. – Tem algum significado especial?

Ela parecia quase envergonhada por querer saber, como se tivesse feito a pergunta de forma irrefletida.

Seu questionamento me pegou desprevenido, tanto quanto sua percepção. E sua preocupação. A maioria das

garotas nem prestava atenção às letras que eu fazia, pelo menos quando estavam perto de mim.

– Hum… – foi tudo que eu consegui dizer.

É claro que isso não foi suficiente para ela.

– Que foi? – insistiu ela, com voz tímida.

Nessa simples pergunta, eu quase consegui ouvi-la implorando para eu me abrir com ela. A ideia de Kiera

saber o que a música significava para mim, ou sobre o que eu estava realmente cantando, já não me assustava

tanto quanto como aconteceu no instante em que eu percebera, pela primeira vez, a sua reação ao ouvi-la. A

verdade é que eu me sentia muito confortável com ela. Não confortável o suficiente para me abrir e colocar

para fora cada história triste que se arrastava dentro de mim, mas confortável o bastante para não ter medo de

confiar pequenos pedaços de mim. Desde que ela não perguntasse demais; mas Kiera não forçava a barra

quando eu não queria contar.

Com um sorriso caloroso e despreocupado, eu lhe disse:

– Ninguém jamais tinha me perguntado isso antes. Bem, quer dizer, ninguém fora da banda. – Fiz uma

pausa, perguntando a mim mesmo se eu queria entreabrir a porta do confessionário naquele momento. –

Sim… – murmurei, olhando para ela. Ela piscou e se virou para mim, seus olhos se arregalaram com alguma


emoção que eu não consegui identificar. Sentindo que me perdia no formato da sua boca e no brilho dos seus

olhos, deixei uma parte do meu coração transbordar. – Significa muito para mim…

O que eu esperei ter ao longo de toda a minha vida. O que meus pais nunca tinham conseguido me dar.

O que eu sabia que não era digno de receber: o amor de alguém. Era isso que a canção significava para

mim.

Uma fatia de dor inesperada fez abalar meu coração. Eu não queria dizer mais nada para Kiera; não

queria que mais dor escoasse para fora de mim. Então, armei minhas defesas mentais e foquei a atenção na

estrada, torcendo para ela captar a dica. Felizmente ela não me pediu para ir em frente e desenvolver a ideia.

Kiera sempre parecia perceber quando tocava em alguma ferida, e eu me senti grato por ela recuar antes de

aquela ferida reabrir e voltar a sangrar.

Contemplei a ideia de ir procurar Evan ou Matt assim que chegamos em casa. Precisava urgentemente de

alguma coisa que arrancasse da minha cabeça os últimos minutos, mas o sorriso de Kiera foi tão acolhedor e

convidativo quando ela me agradeceu pela noite divertida que aquilo conseguiu derreter o gelo que se

formara em torno do meu coração. Pelo menos foi isso que eu senti. Então, como se ela fosse o sol, tive

vontade de ficar perto dela. E fiquei.

Ter Kiera por perto estava iluminando minha vida de maneiras que eu não tinha previsto. Como numa tarde,

por exemplo, quando voltei para casa e encontrei o lugar completamente transformado. Aquilo me divertiu

logo de cara. Eu ri muito quando peguei Jenny e Kiera colocando quadros na cozinha. Enquanto andava de

cômodo em cômodo, fiquei impressionado com o que elas tinham feito. As cestas avulsas espalhadas, a arte e

as fotos faziam a casa parecer mais habitada. De repente, aquilo já não era apenas quatro paredes e um teto.

Tinha personalidade, e essa personalidade pertencia a Kiera. A casa se parecia com ela.

Até mesmo o meu quarto.

Parando na porta, olhei para o meu quarto, surpreso. Pendurado na parede estava um pôster dos Ramones.

Eu adorava os Ramones. Tentei relembrar as nossas conversas, mas não consegui me recordar de ter

mencionado isso para ela. O fato de ela ter percebido algo em mim enquanto estava na rua vendo lojas, de ter

pensado em mim e de ter comprado alguma coisa para me trazer de presente… Bem, era meio

incompreensível.

Eu não conseguia me lembrar de quando tinha sido a última vez em que alguém tinha feito algo assim, do

nada, para mim. Não era feriado, nem uma ocasião especial. Era apenas um domingo. Sentado na minha cama,

olhei para o pôster perplexo, impressionado e profundamente comovido.

Ouvi Jenny dizer adeus ao sair e gritei palavras de despedida. Olhando para o chão, refleti sobre o quanto

minha casa deveria ter parecido estéril antes de Kiera enfeitá-la. Eu nunca me sentira tão insignificante em

toda a minha vida quanto no dia em que tinha corrido de volta para Seattle e descobri que meus pais tinham

basicamente me erradicado da sua vida. Todas as minhas coisas tinham ido embora, não havia fotos minhas,

nem quadros nas paredes, nem recordações nas prateleiras. Ver aquela aniquilação da minha existência foi

dez vezes pior do que todas as vezes em que meu pai tinha, sutilmente – não tão sutilmente –, deixado

implícito o quanto eu não significava nada para ele. Palavras feriam fundo a alma da gente, mas aquilo era

pior. Não havia nenhuma forma de interpretar equivocadamente o que eles tinham feito.

Ver a maneira como eles tinham me cortado de sua existência tinha sido um golpe maior do que todos os

pontapés que eu levara ao longo da infância, dados pela bota com bico de aço de papai. Quis chorar e senti

vontade de vomitar. O que acabei fazendo foi colocar cada peça da mobília que era deles do lado de fora da

casa, na beira da calçada, com um cartaz de GRÁTIS pendurado. Quando acabei de remover todos os

vestígios da presença deles ali, a casa ficara tão vazia por dentro quanto eu.

Ouvi uma batida na porta aberta do quarto; ergui a cabeça e vi Kiera parada ali. Deixando de lado minhas

lembranças sombrias, acenei para que ela entrasse.


Ela se encolheu um pouco quando falou, e isso formou rugas bonitas na parte acima do seu nariz.

– Olha… Desculpa pelas mudanças. Se não gostou, posso tirar tudo.

Ela parecia absurdamente arrependida e cheia de desculpas ao se sentar ao meu lado, como se realmente

tivesse feito algo errado. Mas tudo o que ela fez foi adicionar um pouco de vida à minha… vida.

– Não, está tudo bem. Acho que a casa estava mesmo… um pouco vazia.

Para dizer o mínimo.

Apontei para o pôster dos Ramones atrás de mim.

– Gostei muito… obrigado.

Eu mais que gostei. E agradecer não é o bastante, mas é tudo que eu posso lhe oferecer.

– Pois é, achei que talvez você… Não há de quê. – Seu belo sorriso se transformou numa careta. – Você

está bem? – perguntou, as sobrancelhas unidas como se estivesse realmente preocupada.

Será que estava mesmo preocupada comigo? Tudo que ela tinha visto era eu olhando para o chão por um

segundo.

– Hum-hum, estou ótimo… Por quê?

Mais uma vez ela pareceu envergonhada, como se estivesse invadindo minha privacidade.

– Nada, é que você parecia… Nada, desculpe.

Lembrando de todas as vezes que ela não tinha bisbilhotado a minha vida quando poderia ter feito isso;

lembrando de como eu abri o coração para ela, mesmo que por uma fração de segundo, tinha sido agradável

antes de voltar a doer, considerei a possibilidade de contar a ela o que eu estava pensando quando ela entrou.

Mas não houve jeito de fazer isso. Não era algo simples que poderia ser explicado com uma ou duas frases.

Não mesmo… Para explicar o quanto Kiera tinha feito de bom para mim, eu teria de lhe explicar tudo. E não

conseguiria fazer isso. Aquela não era uma história que eu costumasse contar para as pessoas.

Em vez de dizer a ela o que eu tinha certeza que ela queria ouvir, sorri e perguntei:

– Está com fome? Que tal o Pete’s? – Com uma cara divertida, acrescentei: – Faz tanto tempo que não

vamos lá!

Ao chegar ao Pete’s, nos acomodamos na mesa da banda e fizemos nosso pedido a Jenny. As pessoas

olharam para nós dois juntos ali, mas eu as ignorei. Pretendia fazer uma refeição ao lado da minha amiga.

Nada além disso.

Kiera geralmente parecia bem quando estávamos só nós dois, mas às vezes entrava na fossa e ficava

muito pra baixo. “Depressões Denny”, era como eu chamava esses momentos. Enquanto esperávamos a

comida chegar, vi que a empolgação no seu rosto tinha se transformado num silêncio macabro. Ela estava

sentindo saudades dele.

Apesar de saber o que estava errado com ela, lhe perguntei se estava bem. Ela encolheu os ombros,

balançando a cabeça e empinando as costas ao dizer que estava bem, mas dava para ver que aquilo era só da

boca para fora. Seu coração doía e ela estava sozinha. Eu conseguia entender a solidão. Desejei ardentemente

haver mais que pudesse fazer por ela, mas não era de mim que ela sentia falta, então a minha ajuda seria

limitada. Apenas um remendo, algo para ajudar a suprimir a tristeza. Mesmo assim, tudo bem. Pelo menos eu

estava sendo útil.


Capítulo 7

Promessa feita, promessa quase cumprida

Várias semanas se passaram desde que Denny tinha deixado Seattle, mas o tempo parecia ter voado. Pelo

menos para mim. Uma coisa que eu tinha começado a notar era que as ligações de Denny eram cada vez

menos frequentes. Não mencionei minhas preocupações para Kiera, mas aquilo estava começando a me

perturbar. Principalmente porque a incomodava. Eu via a decepção estampada em seu rosto. Era como

assistir a uma escultura ir se descascando e esfarelando aos poucos, pedaço por pedaço. Se Denny não

cuidasse dela e a restaurasse logo, estaria com um problemão nas mãos, e isso não tinha nada a ver com seus

medos infundados sobre mim.

Conversei com ele algumas vezes, quando ele ligava lá para casa e Kiera não estava.

– E aí, como é que Tucson anda tratando você? – perguntei-lhe, numa tarde em que ele ligou.

Denny riu.

– Aqui o clima é muito mais quente do que em Seattle, mas eu gosto. Como andam as coisas por aí?

– Numa boa. Não precisa se preocupar.

Estou mantendo minha promessa.

Ele soltou um suspiro saturado de alívio.

– Que bom. Eu odiaria que acontecesse algum… problema aí na minha ausência.

Minha mandíbula se apertou com força e eu me perguntei se aquilo era alguma advertência vaga para

mim. Ele não tinha nada com o que se preocupar, falando sério. Kiera não estava interessada em mim, não

estava mesmo. Tudo que pensava o tempo todo era em Denny.

Limpando a garganta, redirecionei meus pensamentos.

– Percebi que você não tem ligado tantas vezes. Há algum problema por aí, com você?

Viu só?… Eu também sei fazer perguntas vagas com significados ocultos.

Denny ficou em silêncio por vários segundos. Era um cara inteligente, então eu sabia que ele entendeu o

que eu estava insinuando. Ou ficou chocado, ou então estava resolvendo sobre como iria me responder. Meu

estômago se agitou com a possibili​dade de Denny estar traindo a Kiera. Será que eu deveria contar para ela,

caso isso estivesse rolando? Tinha certeza de que faria isso. Esconder a verdade de Kiera não era algo que eu

estivesse disposto a fazer.

– Nada… Sem problemas por aqui. Só… um monte de trabalho e pouco tempo para descanso. – Ele

suspirou, como se de repente estivesse esgotado. – Estou fazendo o melhor que posso, companheiro.

Pelo tom de sua voz, percebi que ele estava dizendo a verdade. Dei-lhe algumas palavras de incentivo e

deixei o assunto morrer. Eu era o seu amigo, e não seu conselheiro.

A preocupação com as ligações de Denny estavam saindo da lista de estresses de Kiera à medida que o

início das aulas se aproximava. Dava quase para ver a tensão aumentando nela a cada dia. Ela estava mais

ansiosa com o primeiro dia do que com qualquer outra coisa até agora, e eu tinha certeza de que Denny não

estar por perto só servia para tornar a sensação dez vezes pior.


Foi numa tarde que a apreensão de Kiera explodiu numa erupção de puro estresse. Uma explosão teatral

que eu provavelmente não deveria ter presenciado, mas entrei na cozinha na hora certa. Ela soltou um sonoro

“Foda-se!” e jogou no chão todos os folhetos dos cursos da faculdade.

Eu tive que rir diante da exibição exagerada.

– Mal posso esperar para contar essa para o Griffin.

Ela ficou vermelha como um pimentão ao perceber que eu estava ali, e então gemeu ao pensar naquela

ameaça. Acenei com a cabeça para a bagunça no chão, enquanto ela se recuperava do embaraço.

– Vão começar as aulas na universidade, não é?

Ela se abaixou para pegar os folhetos e eu fiz o melhor que pude para ignorar o quanto ela me pareceu

ótima naquela posição.

– Pois é – confirmou ela, com um suspiro. – E eu ainda nem estive no campus. Não faço a menor ideia de

onde ficam as coisas. – Endireitou o corpo e um olhar triste de desprezada, do tipo “onde está Denny?”, lhe

invadiu o rosto. – É só que… Denny devia estar aqui para me ajudar. – Franziu o cenho, irritada consigo

mesma ou irritada com Denny. Talvez um pouco de ambos. – Ele já está fora há quase um mês – murmurou.

Eu a analisei e observei a tristeza em seu rosto, misturada com raiva e embaraço. Acho que ela queria ser

forte e independente; por algum motivo, porém, lhe faltava confiança. Eu não conseguia descobrir o porquê

daquilo. Ela era bonita, inteligente, engraçada, doce… Não havia motivo para recear nada. Mas eu também

entendia a necessidade de ter alguém por perto para fazer uma pessoa se sentir completa. Entendia bem

demais, até.

Kiera desviou os olhos de mim e, com voz doce, eu lhe disse:

– Os D-Bags se apresentam no campus de vez em quando. – Seus olhos voltaram aos meus e eu lhe sorri.

– Na verdade, eu conheço bem o lugar. Posso mostrar a você, se quiser.

Seu alívio imediato foi quase palpável.

– Ah, quero sim, por favor. – De repente pareceu mortificada, pigarreou e mudou os pés de posição. –

Quer dizer, se você não se importar.

Seus olhos castanhos adquiriram uma suave sombra verde sob aquela luz, e me pareceram ainda mais

vivos com calor, carinho e esperança. Como eu poderia negar alguma coisa para aqueles olhos?

– Não, Kiera, eu não me importo…

Eu faria qualquer coisa por você. Isso me torna mais feliz e me faz borrar as calças de medo ao mesmo

tempo.

Eu a levei para se inscrever nas matérias que ela iria cursar na tarde seguinte. Alguns dias depois,

resolvemos dar um passeio por todo o campus. Como eu pretendia impressioná-la, talvez tenha exagerado na

turnê pela universidade. Eu só queria que ela se sentisse o mais confortável possível, quando as aulas

começassem. Kiera devorou cada palavra do que eu explicava. Talvez tenha sido por isso que eu exagerei

tanto. Gostei de vê-la concentrada em cada palavra que eu pronunciava. Aquilo me fez sentir um tanto ou

quanto invencível.

Estava mostrando a ela o prédio onde aconteceriam as suas aulas de Literatura Europeia quando uma voz

rompeu pelo corredor silencioso.

– Ai! Meu! Deus! Kellan Kyle!

Eu percebi pela voz estridente que aquilo era uma fã gritando de alegria por me ver. E me encolhi,

imaginando como o encontro iria rolar; porém, sempre atencioso com minhas fãs, eu me virei para olhar. A

ruiva de cabelos encaracolados praticamente corria pelo corredor para chegar até onde eu estava. Eu

realmente não fazia ideia do que ela iria fazer quando chegasse junto de mim. Pensei em agarrar a mão de

Kiera e sair dali correndo, mas não havia tempo. A garota de corpo miúdo era surpreendentemente rápida. Já

tinha os braços arremessados ao redor do meu pescoço e sua boca esmagava a minha antes mesmo de eu

entender o que tinha me atingido.


Enquanto ela me salpicava o rosto com beijos febris, quebrei a cabeça tentando descobrir de onde a

conhecia, mas não consegui me lembrar quem era aquela maluca.

– Mal posso acreditar que você veio me visitar na universidade!

Ah, tá bom, ela frequentava as aulas dali, de modo que isso reduzia o número de garotas possíveis cerca

de… um por cento. Ela olhou para Kiera ao meu lado e eu fiquei tenso por um momento. Era melhor ela não

começar nenhum escândalo ali. Felizmente não me pareceu muito interessada em saber quem era a Kiera.

Depois de passar rapidamente os olhos por Kiera, ela curvou seus lábios numa careta e murmurou:

– Ah, vejo que você está ocupado. – Pegando a bolsa, ela rabiscou algo em um pedaço de papel e o

enfiou no bolso da frente da minha calça. Seus dedos passearam por dentro do bolso, procurando por mim, e

eu me inquietei um pouco. Uma garota me beijar na frente de Kiera era uma coisa; carícias íntimas, no

entanto, era uma coisa meio esquisita para Kiera testemunhar.

– Me liga – sussurrou ela, antes de me dar um último beijo e sair dali quase aos pulos.

Tudo bem. Então tá…

Comecei a andar pelo corredor como se nada estranho tivesse acontecido. O que eu poderia dizer sobre

aquilo, afinal? Podia sentir Kiera me observando. Ela devia estar muito curiosa sobre a garota que tinha

praticamente me devorado no corredor.

Quando eu finalmente virei para olhar para Kiera, ela ainda tinha uma expressão de incredulidade

estampada no rosto.

– Quem era aquela?

Tentei lembrar o nome que se encaixava na garota de flamejantes cachos vermelhos, mas me deu um

branco total.

– Não faço a menor ideia – disse a ela, sabendo que iria soar mal. Agora que estava realmente pensando

sobre aquilo, me pareceu que eu já tinha me encontrado com ela antes, mas os detalhes estavam confusos nas

minhas lembranças e seu nome tinha desaparecido por completo da minha cabeça. Tentando disfarçar, dei uma

olhada no bilhete que a garota tinha enfiado no meu bolso. – Hummm… Era Candy.

Ah, claro! Candy. Eu a tinha conhecido perto de uma máquina de venda automática de doces. Eu ainda

achava isso engraçado. Rindo, amassei o pedaço de papel com o nome dela e o joguei no lixo. Eu queria mais

do que conexões aleatórias. Quando saímos do prédio, percebi que Kiera sorria de leve, como se estivesse

contente por eu ter jogado o papel fora. Interessante. Eu me perguntava por que ela se importava com a

possibilidade de eu sair com alguém. Talvez estivesse simplesmente cuidando de mim.

À medida que os dias passavam, Kiera começou a entrar em pânico. Os telefonemas de Denny eram cada vez

mais raros. Eu gostaria de poder ajudar de alguma forma, mas de fato não sabia como consertar o que os

estava separando lentamente. Denny retornar era a única solução, e isso iria acontecer em breve. Kiera só

precisaria enfrentar mais algumas semanas sem ele.

Quando o fim de semana chegou e ela estava mais uma vez largada no sofá de pijama, percebi que

precisava fazer alguma coisa. Os rapazes e eu tínhamos planos para aquele dia, mas não era algo que a

impedisse de se juntar a nós. Na verdade, Kiera provavelmente curtiria muito, caso topasse sair conosco.

Tudo que eu tinha de fazer era arrancá-la daquele maldito sofá. Ela vivia colada nas almofadas irregulares do

móvel, zapeando furiosamente os canais da tevê como se estivesse possuída.

Quando ela soltou mais um suspiro desesperado, me coloquei entre ela e a tevê.

– Vamos lá – decretei, estendendo a mão.

Ela olhou para mim, confusa.

– Hum?

– Você não vai passar mais um dia plantada nesse sofá. Vai sair comigo. – Ergui a mão estendida um

pouco mais alto, mas ela se recusou a pegá-la.


Franziu o cenho e fez cara de bunda.

– E aonde nós vamos?

Eu sorri, sabendo que o que estava prestes a dizer não iria fazer absolutamente nenhum sentido para ela.

– Ao Bumbershoot.

Como se eu tivesse falado alguma palavra numa língua estrangeira, ela piscou lentamente os olhos

arregalados, enquanto tentava compreender o que aquilo poderia ser.

– Bumper o quê?

Eu ri do jeito como ela pronunciou o nome errado e lancei um sorriso brilhante e tranquilizador.

– Bumbershoot. Não se preocupe, você vai adorar.

O sorriso zombeteiro que ela me lançou em resposta tornou as curvas dos seus lábios extraordinariamente

cativantes. Fiz o melhor que pude para ignorar o quanto seus lábios eram atraentes, e como deveriam ser

suaves.

– Mas isso vai estragar um dia perfeito de deprê.

– Exatamente! – Sorri, balançando a mão para que ela, finalmente, a pegasse.

Insistindo em ser teimosa, ela soltou um suspiro dramático e se levantou.

– Tudo bem. – Fez questão de exibir a irritação por eu insistir em levá-la para se divertir, e eu ri disso.

Ela teria que fazer mais do que pisar duro e fazer biquinho para me convencer de que estava zangada.

Naquele momento ela estava simplesmente… bonita.

Quando ela desceu mais tarde usando shorts que expunham suas coxas e um top justo que abraçava cada

curva como uma segunda pele, percebi que ela era outra coisa: sexy. Incrivelmente sexy.

Pegamos nossas coisas, entramos no carro e fomos direto até o Pete’s, onde os rapazes tinham combinado

de me encontrar para irmos todos juntos. Ainda curiosa para saber aonde estávamos indo, Kiera fez uma

piadinha com isso quando entramos no estacionamento.

– O Bumbershoot fica no Pete’s?

Revirei os olhos ao estacionar o carro na minha vaga.

– Não, é que o pessoal está aqui. – Olhando em torno, reparei que eles já tinham chegado. O veículo de

Evan estava ao lado da van de Griffin.

Kiera pareceu um pouco decepcionada com a minha resposta.

– Ah, eles vêm também?

Estudei seu rosto depois de parar o carro. Por que ela parecia tão triste? Eu pensei que ela gostasse deles.

Bem, talvez não de Griffin, mas dos outros, pelo menos. Franzindo o cenho, disse a ela:

– Hum-hum… Tudo bem?

Eles iriam ficar revoltados se eu lhes dissesse que não iria com eles, mas se Kiera quisesse ir só nós

dois… Eu toparia, só por ela. Na verdade, eu meio que gostei da ideia.

Kiera balançou a cabeça com um suspiro, como se não tivesse certeza do motivo de ter dito aquilo.

– Claro, com certeza. Já estou mesmo empatando o seu dia.

De repente, tive o desejo estranho de tocá-la e roçar meu polegar ao longo do leve rubor em seu rosto.

– Você não está empatando nada, Kiera – garanti, com voz suave.

Hoje vai ser um dia até melhor, porque você estará aqui para compartilhá-lo comigo.

Como não queria assustá-la com meus pensamentos melodramáticos, guardei-os para mim.

Os rapazes vieram em nossa direção assim que viram meu carro. Houve alguns problemas para acomodar

todo mundo, principalmente porque Griffin estava de frescura e não queria se sentar no meio. Felizmente,

Kiera resolveu o problema, embora sua solução tenha sido ela ir para o banco de trás para se sentar no meio,

onde seria incomodada por Griffin durante todo o trajeto, algo que não me deixou nem um pouco empolgado.

A ideia das mãos dele em qualquer lugar perto dela me provocava os mais estranhos impulsos de


protecionismo. Tivemos de decidir uma configuração diferente de lugares, senão eu seria capaz de estrangulálo.

Quando chegamos ao local, todos saíram do meu carro, com muito cuidado para não bater nos carros

estacionados dos lados. Era um fato bem conhecido que danificar o Chevelle de qualquer maneira resultava

num passe grátis para eu rebocar o infrator para casa na mesma hora. Algo que só Griffin tinha experimentado

até aquela data, no dia em que teve a audácia de colocar a comida toda para fora no meu banco de trás. Eu

juro que ainda posso sentir cheiro de vômito, às vezes.

Esperei por Kiera ao lado da porta e estendi a mão para ajudá-la. Como ela estava prestes a descobrir,

Bumbershoot era um festival de música e arte no Centro de Seattle, e geralmente ficava lotado. Eu não queria

correr o risco de me perder dela, especialmente porque nenhum de nós tinha celular. Ela teria de

simplesmente segurar na minha mão a noite toda, uma ideia que me deixou mais feliz do que deveria.

Evan me lançou um olhar significativo ao notar nossa ligação física, mas eu o ignorei. Havia uma razão

válida para eu tocá-la. Basicamente, era para sua própria segurança. Pelo menos, foi isso que eu disse a mim

mesmo.

Os olhos de Kiera ficaram arregalados quando ela olhou ao redor do espaço de lazer. Sua alegria e

admiração óbvia me fizeram apreciar o festival como se aquilo fosse novidade. Eu já tinha ido ali tantas

vezes que, de certo modo, perdera a sensação de reverência pela área. Era renovador enxergar tudo

novamente através dos olhos de Kiera. Isso quase tornava um detalhe insignificante nós estarmos

constantemente levando esbarrões de pessoas estranhas.

Havia estandes em toda parte que vendiam de tudo, desde camisetas até algodão-doce. Artistas levavam

seus trabalhos ali, para exposição. Havia um monte de estampas de animais selvagens, quadros de paisagens

e aquarelas retratando Seattle. Quando passamos junto do Obelisco Espacial, os olhos de Kiera viajaram até

o deck de observação no topo. Inclinando-se para ela poder me ouvir, eu lhe disse:

– Mais tarde nós podemos ir até lá em cima, se você quiser.

Seus olhos brilharam com um lampejo de verde sob a luz do sol, e ela concordou com entusiasmo. Tive

de rir da sua empolgação.

Quando chegamos à parte principal do Centro, a multidão ficou mais compacta. Dava para ouvir música

tocando em toda parte. O mais estranho é que o som parecia se misturar bem com o movimento das pessoas

andando ao redor, de um lado para outro, criando um corpo a corpo agradável sob a energização das

melodias. Aquilo me empolgou. Eu estava a fim de conferir vários dos shows, para ouvir algumas músicas

novas.

Matt e Griffin tinham o mapa do lugar e, na mesma hora, começaram a liderar o caminho. Evan o seguiu,

mas Kiera e eu ficamos na parte de trás do pavilhão. Fiz questão de manter minha mão grudada na dela

enquanto tentávamos achar um caminho através da multidão. Quando chegamos ao palco ao ar livre onde o

Mischief’s Muse tocava, Kiera apertou minha mão com mais força. Eu sorri e a puxei para perto de mim. Não

pretendia perdê-la no meio daquela massa de gente.

Os rapazes queriam ficar nos melhores lugares e Matt resolveu dar uma olhada no equipamento da banda,

de modo que eles forçaram a passagem até a frente do palco. Dava para ver pelo olhar de Kiera que ela não

queria entrar no turbilhão de gente lá na frente, então paramos bem no fundo. Ali, ainda teríamos uma boa

visão do palco sem sermos incomodados. Pelo menos em demasia. Já estávamos sendo empurrados por

pessoas à nossa volta, que queriam chegar mais perto do palco. Kiera estava sendo esmagada para cima de

mim com firmeza e tentava sair do caminho, mas isso ainda não era suficiente.

Querendo mantê-la a salvo e, ao mesmo tempo, confortável, posicionei-a na minha frente e usei meu

corpo como escudo contra a maior parte dos empurrões. Deslizei os braços e enlacei a cintura dela, pois

assim ela ficaria ainda mais protegida das pessoas ao nosso redor. Bem… e também porque eu queria

colocar meus braços em torno dela; me pareceu absolutamente natural segurá-la quando ela ficou na minha


frente, naquele momento. Qualquer outra coisa teria ficado estranho. Porém, essa ainda era uma desculpa

esfarrapada e eu sabia disso. Começava a ultrapassar um limite que deveria respeitar.

Kiera não pareceu se importar com meus braços em torno dela. Deixou as mãos entrelaçadas às minhas,

na altura da sua barriga, e se recostou contra o meu peito. Parecia tão confortável quanto eu enquanto assistia

à banda e observava a multidão. De repente, virou a cabeça para se concentrar em algo na extrema direita do

palco e meu olhar a seguiu. Meus colegas de banda estavam ali ficando doidões, pelo que me pareceu.

Nenhum dos caras usava drogas pesadas, mas eles fumavam um baseado de vez em quando, especialmente

Griffin. Pessoalmente eu não ligava para o bagulho; preferia tomar cerveja, mas não me importava de eles

fumarem.

Olhei para Kiera, me perguntando se ela se importaria. Com um sorriso, dei de ombros. Ela pareceu

tranquilizada pelo meu gesto, e percebi que estava numa boa com aquilo quando voltou os olhos para o show.

Foi nesse instante que tudo mudou para mim. Kiera deixou escapar um longo suspiro, como se estivesse

conseguindo respirar pela primeira vez em semanas. Eu estava refletindo sobre o quanto me sentia feliz por

ter conseguido que ela saísse conosco quando senti sua mudança corporal. No início, achei que ela estava

farta de ter os braços de um estranho em torno dela, então decidi soltá-la um pouco. Mas ela não se afastou.

Na verdade, ela se virou de frente para mim.

Seus braços deslizaram em torno da minha cintura, me segurando com mais força, e descansou a cabeça

no meu peito. Cada músculo do meu corpo ficou instantaneamente bloqueado de tensão. Seus dedos

colocados na lateral do meu corpo começaram a me acariciar lentamente para frente e para trás, num padrão

rítmico calmante, e ela inspirou com força uma única vez, como se precisasse se limpar por dentro. Será que

começava a se sentir mais confortável? Ela definitivamente não conseguia mais ver o show posicionada

daquele jeito, uma vez que meu peito bloqueava parcialmente a sua visão. O motivo, portanto, era aumentar

seu conforto.

Quando eu relaxei em seu abraço e passei os braços com mais força ao redor dela, comecei na mesma

hora a sentir o mesmo conforto. Era um calor mais forte que aquele outro, que o sol irradia do céu. Aquilo era

de uma leveza maior que a de flutuar na água.

Sabia que já estava ultrapassando tantos limites agora que a coisa ia ficando mais ridícula a cada instante,

mas eu não conseguia evitar. Segurando Kiera… Simplesmente segurando-a… eu senti que deveria

reconhecer que já desejava abraçá-la daquele jeito há algum tempo, só não tinha conseguido uma boa

desculpa para fazê-lo. Sabia que isso iria magoar Denny se ele pudesse ver a cena, e feri-lo era a última

coisa que eu queria, mas… droga!… Eu precisava daquilo e, naquele instante, decidi que iria me comportar

como um babaca egoísta.

Fechando os olhos, acariciei suas costas com dedos leves e inalei o perfume inebriante dela. Nunca tinha

experimentado nada como aquela sensação, e queria mantê-la de forma desesperada.

Sinto muito, Denny, mas eu não consigo largá-la.

Acho que nunca vou querer largá-la.

Mas acabei fazendo isso. Nós nos separamos quando os rapazes vieram em nossa direção. Eu não queria

que nenhum deles pensasse coisas que não deveria sobre nós dois. Bem… pelo menos nada mais do que já

pensavam. Ficar de mãos dadas num lugar como aquele era muito inofensivo, e eles já nos tinham visto fazer

isso; então, continuei segurando a mão dela com força. Só que eu já estava ansioso, querendo chegar ao

próximo show para poder ouvir a música e sentir mais uma vez aquela conexão com Kiera. Para poder tocála,

envolvê-la em meus braços e sentir os braços dela em torno de mim. Aquela era a coisa mais incrível que

eu já tinha sentido e eu não queria que acabasse.

A cada música, Kiera e eu recuávamos um pouco e parávamos cada vez mais no fundo. Esperei até que

Evan, Matt e Griffin desaparecessem em meio à massa de corpos que dançavam; então, lancei um novo

sorriso para Kiera e tornei a envolvê-la em meus braços. Adorei sentir a cabeça dela pousada sobre meu


coração e o ombro aconchegado ao meu. Então, meu braço envolveu suas costas e meus dedos roçaram sua

caixa torácica. Precisei de toda a minha força de vontade para não me inclinar e beijar sua cabeça. Satisfiz o

instinto descansando minha bochecha contra o seu cabelo. Aquilo… era o paraíso. Um paraíso puro e

doloroso porque, por mais que fosse gostoso, eu sabia que não era certo.

Denny não gostaria nem um pouco daquilo…

Continuamos colados de algum jeito o tempo todo. Apesar de parecer que metade da população de Seattle

estava ali, a impressão era que eu e Kiera estávamos sozinhos. Conversamos sobre as bandas que tínhamos

visto. Eu não tinha prestado muita atenção nelas, mas Kiera ficara atenta. Sua primeira observação sobre

qualquer das bandas que eu perguntava sempre era:

– Bem, com certeza eles não são tão bons quanto vocês, mas…

Seus olhos brilhavam quando ela dizia isso, como se estivesse realmente sendo sincera. Fiquei nas nuvens

o dia todo.

Nem mesmo os olhares de curiosidade que Evan nos lançava conseguiram arruinar minha alegria natural,

e eu continuei a ignorar as sugestões no olhar dele. Felizmente, mais tarde, quando Matt distribuiu seu “suco

de adultos” durante o almoço, os olhares significativos se tornaram menos frequentes. Mas eu sabia que Evan

iria me questionar sobre tudo aquilo; era só uma questão de tempo.

Eu não queria pensar nisso ou em qualquer outra coisa, então concentrei todo o meu foco em Kiera. Ela

teria minha atenção única e completa naquele dia. Mais uma vez eu não consegui deixar de pensar que tinha

começado o dia querendo ajudá-la, mas no fim foi ela quem me ajudou. Esperei poder, um dia, ser um pouco

menos egoísta ao seu lado.

Depois do almoço, fomos todos passear um pouco no parque de diversões. Deixamos os rapazes nos

brinquedos e fizemos nosso próprio roteiro, Kiera e eu. Foi divertido. Kiera riu muito e sorriu ainda mais, o

que me deixou muito feliz. Eu até consegui ganhar um urso de pelúcia para ela – algo que “só” me custou

trinta dólares –, mas na mesma hora o demos de presente a uma menininha que chorava por causa do seu

sorvete de casquinha que tinha caído no chão. Nunca vou me esquecer do olhar no rosto de Kiera quando ela

me viu dar o urso para a menina. Era quase um olhar de… adoração.

Assim que nos reencontramos com os rapazes, seguimos para os brinquedos mais radicais. Como tinham

feito todo o dia, eles desapareceram na multidão, mas Kiera e eu continuamos juntinhos assim que eles

sumiram. No último show da noite ficamos na parte de trás, mas não tão fora da massa humana. Estava muito

apertado à nossa volta; Kiera e eu estávamos tão abraçados que parecíamos uma só pessoa. Acariciei o

cabelo dela e seus dedos tracejaram um caminho carinhoso no meu peito. Meu coração acelerou com a

proximidade dela combinada com a escuridão, e torci para ela não perceber que ele estava aos saltos.

A música estridente através dos alto-falantes era uma canção que tocava muito no rádio, e eu cantei a letra

junto. Era uma música mais lenta, e eu balançava meu corpo um pouco, enquanto cantava. Kiera acompanhou

meu movimento e, em pouco tempo, estávamos dançando juntos e agarradinhos. Parei de cantar e

simplesmente curti o momento. Puxei-a para um abraço mais apertado e ela devolveu o sentimento. Meu

coração bateu ainda com mais força quando ela me apertou de volta.

Por que tocar em você é tão gostoso? Isso vai acabar na hora em que eu a levar para casa?

Eu não queria parar, mas sabia que isso seria o certo. O que estávamos fazendo era tolo e perigoso.

Alguém iria se machucar. Denny iria se machucar. Mesmo sabendo disso, meus dedos deslizaram do cabelo

dela para as costas, acariciando-a. Eu queria muito deixá-los descer mais, até sentir a curva que ia dar no seu

traseiro. Queria apalpá-la toda, mas ela provavelmente me daria uma bofetada se eu fosse tão longe. De

qualquer modo, a questão não era essa. Aquilo não tinha a ver com sexo, tinha a ver com a nossa ligação.

Mesmo assim, eu ainda queria sentir seu corpo. Também queria me inclinar e beijá-la, mas coloquei de

lado os dois desejos. Dançar com ela era o bastante. Dançar com ela era incrível. Melhor do que qualquer

sexo que eu já tinha experimentado.


Eu não queria que a canção acabasse, não queria que o show terminasse, mas logicamente os dois

chegaram ao fim. Kiera e eu soltamos as mãos um do outro enquanto a multidão em torno de nós se

dispersava. Talvez eu estivesse imaginando coisas em demasia, mas ela me pareceu relutante em se separar

de mim, como se tivesse curtido aquela proximidade tanto quanto eu.

Só que ela estava claramente exausta. Quando os rapazes se juntaram a nós estavam ligados demais,

praticamente pulavam pelas paredes, mas Kiera mal conseguia andar em linha reta. Ainda segurando sua mão,

eu a levei de volta para o carro através da multidão que se espalhava. Fiz uma rápida inspeção do Chevelle,

mas tudo me pareceu em ordem.

Evan e Matt entraram no carro e Griffin segurou a porta aberta para Kiera. Ele estava meio doidão a essa

altura, e eu consegui imaginar o que ele poderia tentar fazer com ela, caso se sentasse ao seu lado. Eu estava

prestes a lhe dizer para ela trocar com Evan quando Kiera entrou quase engatinhando no banco da frente, em

vez de entrar no banco de trás, e se sentou entre mim e Evan. Griffin fez um beicinho de decepção e eu lhe

lancei um sorriso quando entrei no carro depois dela.

Desculpe, Griff, nada de carícias nessa viagem.

Exausta, Kiera deitou a cabeça no meu ombro. Ela apagou como uma lâmpada no momento em que

entramos na estrada. Eu quase podia ouvir Evan olhando fixamente para mim; todo o lado direito do meu

rosto ardia com o olhar penetrante dele, mas eu me concentrei na estrada.

Não há nada para ver aqui, Evan, eu juro.

Quando chegamos ao Pete’s, Kiera ainda estava dormindo e eu tive o cuidado de não sacudi-la quando

entrei no estacionamento. Parei o carro atrás da van de Griffin para deixar todo mundo saltar. Matt e Griffin

saíram do carro e Griffin começou a se empolgar e descrever para Matt como seria incrível quando os D-

Bags tomassem conta do Bumbershoot. Matt, pelo menos dessa vez, pareceu concordar com ele.

Evan saiu e fez uma pergunta para Matt e Griffin. Em seguida, virou-se para mim.

– Olha só, Kellan, nós vamos passar a noite no Pete’s. Você vem? – Pelo olhar em seu rosto, ficou claro

que ele queria que eu ficasse.

Olhei para Kiera dormindo no meu ombro. Ela estava cansadíssima. Acordá-la e arrastá-la para o bar não

me pareceu justo. Nem deixá-la no carro; é claro que eu não a deixaria para trás, sozinha e vulnerável, dentro

do carro.

– Não, hoje não. Acho que vou colocá-la na cama.

Evan simplesmente olhou para mim em resposta. Ele me pareceu dividido, deu para perceber. Sabia que

eu tinha razão, precisava levá-la para casa, mas obviamente estava encucado com o que poderia acontecer se

eu fosse embora sozinho com ela. Eu queria que ele não se preocupasse com coisas desse tipo. Nada iria

acontecer. Não enquanto ela estivesse feliz com Denny.

Após uma longa pausa, ele finalmente me disse:

– Toma cuidado, Kellan. Você não precisa de outra Joey… e Denny é nosso amigo, cara.

Embora eu soubesse o que ele estava imaginando, machucou ouvi-lo dizer isso na minha cara. Recuei,

pensando em como poderia lhe explicar o que Kiera e eu éramos. O que ela significava para mim. O que

Denny significava para mim. Que eu nunca magoaria nenhum dos dois. Mas era difícil dizer tudo isso

porque… Eu realmente tinha gostado de abraçar Kiera a noite toda. Muito mais do que deveria gostar. O pior

é que eu já sentia vontade de abraçá-la outra vez.

Baixinho, limitei-me a dizer:

– Evan, não é nada disso. Eu não seria capaz de

Não seria capaz do quê? Trair Denny? Fazer um joguinho com Kiera?

Eu já não tinha feito exatamente isso, ao permitir que os lances daquele dia tivessem rolado? Sentindo-me

culpado e, então, querendo escapar daquele papo, dei a resposta que eu sabia que Evan queria ouvir.

– Não se preocupe. Tá, talvez eu apareça por aqui mais tarde.


Pelo sorriso em seu rosto, eu poderia dizer que ele ficou satisfeito com a minha resposta e esperava me

ver no Pete’s, ainda naquela noite.

– Tudo bem, então, até mais.

Ele fechou a porta do carro e eu deixei escapar um longo suspiro de alívio. Eu não gostava do que Evan

estava imaginando, mas podia entender por que ele pensava assim. Eu nem sempre me preocupava com os

relacionamentos das outras pessoas. Afinal, já que todos os relacionamentos eram temporários mesmo, não

havia motivos para eu deixar que detalhes insignificantes atrapalhassem as coisas. Só que Denny e Kiera

eram diferentes; eles deveriam estar juntos. Eu precisava recuar e me transformar unicamente em amigo de

Kiera, porque ela realmente precisava de um amigo naquele momento.

Minha mente rodou e travou uma batalha interna enquanto eu dirigia até em casa. Eu queria a amizade de

Kiera, queria seus braços em volta de mim, e também queria que ela e Denny ficassem juntos e fossem

absurdamente felizes. Esses desejos não eram compatíveis, até eu entendia isso, e também sabia que se a

minha atração física por Kiera e minha visão dos relacionamentos continuassem soltos, aquilo poderia levar a

mais. Se as coisas não fossem controladas, aquilo poderia levar ao sexo, e isso iria destruir tudo para nós

três. A menos que eu fosse forte o bastante para não permitir que as coisas chegassem tão longe. Então era

isso… Talvez eu pudesse manter a intimidade e a ligação que tinha experimentado naquele dia, e Denny e

Kiera ainda poderiam ser um casal forte. Talvez… Mas isso exigiria muita força de vontade, e ignorar meus

desejos carnais era uma coisa na qual eu não era muito bom.

Quando estacionei na entrada da casa, desliguei o motor e olhei para Kiera, que ainda dormia apoiada em

mim. Parecia muito confortável e contente. Eu queria lhe acariciar o cabelo, tocar seu rosto, beijar sua testa.

Dentro de mim foi crescendo um desejo de envolvê-la com os braços e segurá-la com força. De contar o

quanto ela significava para mim; de confessar que ninguém me via do jeito que ela conseguia ver, e que

ninguém se importava comigo como ela. Eu também queria dizer que gostava dela de um jeito que, às vezes,

me assustava terrivelmente. Ela era conforto e dor embrulhados num pacote muito bonito… que não era meu.

Mas não podia dizer nada daquilo, então simplesmente olhei para ela e agradeci pelo que o destino

colocara em minha vida.

Depois de um momento ela bocejou, se espreguiçou e levantou a cabeça do meu ombro. Foi bom olhar

longamente para ela, mas uma dor já se infiltrava em mim, com a perda do seu toque.

– Ei, dorminhoca! – sussurrei, resistindo à vontade de puxá-la para junto de mim novamente. – Eu já

estava começando a achar que ia ter que carregar você.

Na verdade eu estava torcendo para ter de carregar você no colo.

A imagem pareceu constrangê-la. Seus olhos ficaram meio sombrios, mesmo à luz escassa da noite, e ela

olhou para o outro lado como se pedisse desculpas.

– Ah, desculpe… – murmurou ela.

Ri em silêncio, imaginando seu rosto vermelho, flamejante. E muito cativante.

– Tudo bem, eu não teria me importado. – Na verdade eu teria adorado. – E então, se divertiu?

Um sorriso largo invadiu seu rosto.

– Muito mesmo. Obrigada por me convidar.

A sinceridade genuína em seus olhos e em sua voz era quase demais para suportar. Parecia até que eu

tinha feito algo espetacular, pelo jeito como ela olhava para mim com tanta adoração. Só que eu não tinha

feito nada de especial. Mais uma vez, foi ela quem tinha levantado o astral do meu dia. Aquela tinha sido a

melhor tarde que eu passara em… vários anos.

– Foi um prazer.

– Desculpe por prender você comigo e fazer com que perdesse o mosh.*

Ela riu ao dizer isso e eu compartilhei seu ar divertido ao olhar de volta para ela.


– Não se desculpe. Prefiro ficar abraçado a uma linda mulher a acordar coberto de roxos no dia seguinte.

– Opa, foi mal… Provavelmente eu não deveria ter dito aquilo. Acho que não era apropriado chamá-la de

linda, só que… ela era linda mesmo, e devia saber disso. Além do mais, aquele tinha sido um dia cheio de

inadequações. Mais uma, menos uma, tanto fazia.

Sem graça ao ouvir o elogio, Kiera olhou para baixo. Como eu não queria que ela se sentisse estranha ou

desconfortável perto de mim, mudei de assunto.

– Bem, vamos lá. Eu levo você para dentro.

Eu me encaminhei para a porta e a abri. Pelo canto do olho, eu a vi balançando a cabeça.

– Não, não precisa fazer isso. Eu me viro. Pode ir para o Pete’s.

Girei a cabeça com rapidez ao ouvir isso. Como é que ela sabia? Estava dormindo quando Evan e eu

tínhamos conversado… Não estava? Se não estava, certamente tinha ouvido o comentário de Evan, a minha

fraca tentativa de me defender e poderia achar que… Bem, poderia achar que eu não passava de um cara

desprezível que estava tentando abrir as pernas dela, como Evan deixou implícito. Mas eu não era nada disso.

Queria apenas… Queria só estar perto dela. Isso era tudo. Eu queria uma ligação especial com ela. Sexo era

a última coisa que eu esperava.

Talvez vendo a minha confusão ou o meu pânico, eu não tinha certeza, Kiera deu de ombros e declarou:

– Imagino que tenha sido para lá que os outros D-Bags foram?

Puxa, ela não estava me enxergando como um verme, afinal, então relaxei.

– É, mas eu não tenho que ir. Quer dizer, se você não quiser ficar sozinha. Nós podemos pedir uma pizza,

ver um filme, alguma coisa assim.

Qualquer coisa que você queira, vamos apenas fazer esse momento bom durar mais um pouco.

Seu estômago roncou com força, como se estivesse do meu lado, me apoiando. Kiera riu, meio sem graça.

O sorriso no rosto dela era incrível.

– Ok, pelo visto meu estômago votou na opção número dois.

Eu sorri. Ia pedir a melhor pizza da cidade para agradecer ao seu estômago.

– Tudo bem então.

Abri a porta, recuei e a deixei entrar na frente. Ela quase se arrastou de cansaço e segurou minha mão ao

passar. A mão dela era quente, muito macia, e a ligação foi instantânea. Apesar de termos nos tocado o dia

todo, eu parecia não me saciar daquilo. Era algo pequeno, na verdade, mas eu já estava viciado naquele

toque.

* Forma de “dança” em que os participantes se empurram, se chocam, distribuem cotoveladas e outros movimentos agressivos. Ou quando um fã

sobe ao palco e se lança sobre a multidão. (N. do T.)


Capítulo 8

Aconchegos

Eu estava preocupado quando acordei na manhã seguinte. Achava que Kiera iria dizer que tínhamos levado

as coisas longe demais no Bumbershoot. Eu não tinha certeza do que esperar quando ela desceu para tomar

café da manhã, mas exibi um sorriso caloroso e lhe servi uma caneca. Queria abraçá-la, colocar o braço ao

seu redor, qualquer coisa desse tipo, mas a verdade é que não havia motivo para eu tocá-la assim. Não havia

multidões das quais protegê-la na minha cozinha.

Foi então que ela veio até onde eu estava e descansou a cabeça no meu ombro enquanto soltava um longo

bocejo. Minha tensão diminuiu quando eu a enlacei com o braço. Era quase como se ela estivesse me

pedindo, em silêncio, para abraçá-la. Ela queria também. Isso me surpreendeu.

Seus braços envolveram timidamente a minha cintura e ela se aconchegou em mim como se sentisse frio.

Corri meus dedos para cima e para baixo pelos seus braços nus, a fim de aquecê-la, e sua pele se arrepiou

onde eu a toquei. Suas bochechas ficaram mais rosadas quando ela me olhou fixamente; vê-la corar era muito

excitante. Com o cabelo em desalinho e as roupas meio tortas ela parecia ter acabado de fazer sexo. Tentei

mudar meu foco, mas antes que eu conseguisse isso uma imagem de Kiera enterrando os dedos nas minhas

costas e gemendo meu nome surgiu na minha cabeça. Afastei essa imagem da mente enquanto pegava a caneca

de café que tinha enchido e a entregava para ela. Apesar de ser maravilhosa a sensação de tocá-la, não era

bom pensar nisso.

Com um sorriso tranquilo no rosto, ergui a caneca no ar.

– Quer café? – perguntei, sabendo que ela iria aceitar correndo.

Seus olhos brilhavam quando ela me largou e pegou, com muito cuidado, a caneca que eu segurava.

Prendi um suspiro de tristeza por ela não estar mais me tocando. Para minha surpresa, porém, a coisa não

acabou aí. Depois de tomar um banho e se preparar para o dia que começava, Kiera desceu com um livro e

começou a ler ao meu lado, enquanto eu trabalhava nas letras de algumas canções. Descansou a cabeça no

meu ombro enquanto eu anotava pensamentos aleatórios. Depois de um tempo, coloquei meu braço livre em

volta dos seus ombros. Tudo o que ela fez foi dar um suspiro satisfeito e se aconchegar mais junto de mim. Eu

poderia ter morrido de felicidade ali mesmo.

As carícias e aconchegos continuaram ao longo de toda a semana. Nós nos abraçávamos de manhã, por

vezes durante todo o tempo que levava para a água do café ferver; eu passava o que parecia uma eternidade

balançando-a com suavidade ao ritmo do café que filtrava. De mãos dadas, sempre assistíamos à tevê antes

de seu turno ter início. Eu não fazia ideia do que tínhamos assistido. Seus dedos na minha pele eram minha

única preocupação. Nas noites em que tínhamos folga juntos eu sempre dispensava sair com os rapazes;

ficávamos em casa, pedíamos pizza e assistíamos a algum filme. Eu mantinha os braços em torno de Kiera

enquanto ela se sentava com as pernas esticadas sobre as almofadas do sofá. Descansava a cabeça no meu

ombro e eu fechava os olhos, muito contente. Enquanto nenhum de nós dois mencionasse o que estava rolando,

poderíamos fingir que não havia nada de errado no que acontecia ali.


Por outro lado, apesar de Kiera e eu continuarmos juntos de forma muito confortável em casa,

mantínhamos distância no trabalho. Eu não queria que as pessoas fofocassem sobre ela, e também não queria

que Evan me submetesse a interrogatórios. Não queria que as pessoas pensassem sobre nós de um jeito ou de

outro. Além disso, aqueles nossos momentos íntimos de conexão eram privados. Ninguém precisava saber

sobre eles, só nós dois. A única vez em que eu a toquei mais do que por acaso foi quando Griffin deu início a

uma dança festiva no bar e se lançou na direção dela. Só então eu entrei em campo para impedir.

Mas eu me sentia culpado sempre que Denny ligava; ele não gostaria nem um pouco de saber sobre o que

acontecia por trás das suas costas. Ouvir Kiera conversar com ele era uma lembrança dolorosa de que tudo

que havia entre mim e ela não passava de felicidade temporária. As coisas mudariam no minuto que Denny

voltasse. Ela iria abraçá-lo e se aconchegar nele, não em mim, e era desse jeito que as coisas deviam ser.

Mesmo assim, todos os dias havia um relógio no meu cérebro tiquetaqueando para me avisar que tudo aquilo

iria ter fim em breve, e eu devia acabar com tudo bem depressa, antes de ficar muito apegado. Só que já era

tarde demais para isso. Eu já estava viciado em ficar perto dela.

– Eu não estou a fim de ir para casa. Vamos dar uma passada na casa de Kellan.

Ao ouvir meu nome, levantei minha cabeça e olhei para Griffin. Ele sorria para mim e acenava com a

cabeça, como se a sugestão que tinha acabado de dar fosse a declaração mais profunda alguma vez feita por

um ser humano. Tínhamos acabado de apresentar um show no centro da cidade; Evan e eu lutávamos para

guardar a bateria de Evan dentro da van de Griffin. Colocamos no chão com um grunhido e eu tentei fazer o

possível para manter a irritação longe do rosto. Até agora, a única contribuição de Griffin para limpar a área

e guardar o equipamento tinha consistido em tocar air guitar e distribuir autógrafos. Aliás, autógrafos que

ninguém tinha pedido.

– Por que a minha casa? Já que temos de levar essa tralha para a casa de Evan, poderíamos ficar por lá.

Evan bateu no meu ombro, em resposta.

– Não vai dar. Tenho um encontro, cara.

Pisquei depressa, surpreso.

– Mas são duas da manhã! – exclamei.

Ele deu de ombros enquanto ajeitava alguns pratos na posição certa.

– O tempo não espera por ninguém, Kell.

Fiz uma careta ao constatar o quanto aquela declaração era verdadeira.

– Tudo bem, mas… Kiera vai estar dormindo no momento em que chegarmos lá, e vocês dois vão ter de

ficar quietos. – Apontei para Matt e Griffin. Matt deu de ombros; Griffin esfregou as mãos enquanto um

sorriso de psicopata crescia em seu rosto. Voltei minha atenção para ele. – Se você tentar abrir a porta do

quarto dela vai levar porrada!

Griffin franziu a testa e em seguida fez beicinho.

– Seu senso de amizade entre companheiros de banda está distorcido. Não deveríamos compartilhar tudo?

– Ele encolheu os ombros.

Evan, Matt e eu respondemos, ao mesmo tempo:

– Não!

Evan e eu rimos e Matt acrescentou:

– Ninguém quer compartilhar qualquer coisa que você tenha, meu chapa. Na verdade, você deveria

compartilhar um pouco menos, para que essa porcaria não se espalhe por toda Seattle.

Griffin deu um olhar emburrado para Matt.

– Você é tão engraçado que minha barriga dói.

Com um rosto absolutamente sério, Matt replicou:

– Sífilis não é motivo de graça, cara.


Griffin olhou em volta, em busca de algo para atirar em seu primo, mas a única coisa perto dele era sua

guitarra. Ele se contentou em chutar uma pedrinha da rua em direção a Matt.

– Eu não tenho essa merda de doença. Estou totalmente limpo disso, cara. Acabei de fazer exames na

semana passada. – Enquanto Matt riu dele, Griffin franziu a testa, confuso. – Além do mais, eu não poderia ter

esse troço, porque eu tomo suco de laranja todos os dias.

Nós todos paramos o que estávamos fazendo e olhamos para ele, estupefatos. De que diabos ele estava

falando? Matt era o único que percebeu o sentido daquilo. Inclinando para frente e segurando a barriga de

tanto rir, ele disse, atropelando as palavras:

– É sífilis, idiota. Não escorbuto.

Griffin ainda parecia confuso, mas Evan e eu já ríamos de forma aberta e quase descontrolada, a essa

altura. Griffin ergueu o dedo médio para nós, num gesto obsceno. Em seguida, aboletou-se atrás do volante e

fez beiço de emburrado enquanto terminávamos de arrumar tudo no porta-malas. O senso de amizade entre

companheiros de banda tinha ido para o espaço.

Descarregamos a van com o equipamento e seguimos para a minha casa. Como medida de precaução,

obriguei Griffin a andar na ponta dos pés quando ele entrou na casa. Geralmente ele era tão silencioso quanto

um trem de carga. Ele olhou para mim e começou a exagerar, caminhando com passos ainda menores. Quando

esses passos começaram a levá-lo para o andar de cima, estalei os dedos e apontei para o chão.

– Preciso fazer xixi – ele sussurrou.

Apontei para o corredor que ficava depois da cozinha.

– Use o outro.

Ele endireitou as costas.

– Você tem outro banheiro aqui?

Revirando os olhos, eu o empurrei na direção certa. Em seguida, Matt e eu pegamos umas cervejas na

geladeira. Griffin também pegou uma quando voltou do banheiro e seguiu em linha reta até a tevê. Matt e eu

nos olhamos, demos de ombros e o seguimos. Todos se acomodaram de um jeito confortável. Matt ficou na

poltrona e eu fui para o sofá; tomamos um gole das nossas cervejas enquanto Griffin procurava algo bem sujo

para assistir.

Griffin ainda zapeava pelos canais quando, de repente, virou a cabeça e olhou para a escada.

– Kiera! E aí, gostosinha? Pijama bonito.

Quando eu me virei para olhar, vi Kiera já no último degrau da escada. Exatamente como Griffin tinha

dito, ela vestia um pijama e estava com o cabelo todo bagunçado. Parecia cansada, talvez um pouco chateada

também. Um de nós, provavelmente Griffin, devia tê-la acordado. Opa… Ela me pareceu um pouco insegura

sobre se devia ou não continuar até a sala de estar, mas a essa altura já era tarde demais. Griffin já a tinha

visto.

Eu lhe lancei um sorriso de lamento.

– Putz, desculpe. A gente não queria te acordar.

Ela encolheu os ombros e caminhou lentamente em nossa direção.

– Não acordaram… Eu tive um pesadelo.

Mentalmente eu fiz uma careta, especulando sobre o que seu sonho tinha sido. Torcendo para ela não

desistir e voltar para a cama, exibi um sorriso e levantei minha garrafa.

– Quer uma cerveja? – Mesmo que já fosse tarde, eu gostaria de passar algum tempo com ela. Talvez

conseguisse distrair sua mente do pesadelo.

– Aceito.

Feliz com a resposta, fui para a cozinha, a fim de lhe pegar uma garrafa. Ela ainda estava em pé quando eu

voltei, então eu apontei para o sofá. Ainda irritado com a falta de boa pornografia, Griffin se sentou no sofá

ao mesmo tempo. Pegou o lugar mais próximo da mesinha lateral, para poder pousar sua cerveja e se


concentrar unicamente em zapear até encontrar um filme bem indecente. Antes que eu pudesse me perguntar se

Kiera gostaria de se sentar ao lado dele, ela disparou até a outra ponta do sofá. Com uma sacudida divertida

da cabeça, peguei o assento do meio. Poderia apostar com segurança todo o meu dinheiro como Kiera não

estava disposta a se sentar junto de Griffin.

Sentei-me o mais perto dela que foi possível. Ela se ajeitou do meu lado e se aninhou, como se

pertencesse àquele lugar. Ergueu as pernas e as colocou sobre as minhas. Querendo tocá-la e mantê-la

aquecida, passei um braço ao redor das suas pernas. Eu provavelmente não teria feito isso se Evan estivesse

ali conosco. Felizmente, para mim, ele tinha ido ao tal encontro. Esbarrei no ombro de Kiera, de brincadeira.

Ela sorriu e descansou a cabeça no meu ombro. Eu quase suspirei de contentamento. Aquilo era o paraíso.

Agora que ele não precisava mais ficar quieto, Griffin quebrou o silêncio.

– Sabem, eu andei pensando…

Matt soltou um grunhido do tipo “lá vamos nós…” e Kiera riu; era um som bonito. Griffin continuou, sem

se deixar intimidar.

– Quando os Douchebags se separarem… – Kiera ergueu a cabeça, muito surpresa ao ver Griffin dizer

algo assim. Eu não fiquei nem um pouco surpreso. Já tinha ouvido algumas de suas ideias para “depois que a

banda se dissolver”. Sua última ideia pós-D-Bags tinha sido trabalhar como depilador de vaginas, então eu

estava meio curioso para saber o que ele sonhava em fazer agora. – … acho que vou fazer rock evangélico –

completou.

Kiera cuspiu sua cerveja e começou a tossir. Eu já tinha ouvido ideias piores vindas de Griffin, mas olhei

para o teto e balancei a cabeça para os lados, mesmo assim. Matt se virou para Griffin com uma expressão

vazia.

– Você, fazendo rock evangélico? Fala sério!

Com os olhos ainda grudados na tevê, Griffin sorriu.

– É isso aí! Todas aquelas virgens gostosas, cheias de tesão. Tá brincando?

Griffin finalmente escolheu algo para assistir enquanto Kiera tomava grandes goles da sua cerveja. O

programa que Griffin escolheu era algo que tinha a cara dele. Havia um cara forçando seu corpo contra o de

uma garota que gemia sem parar, como se os empurrões selvagens dele estivessem dando muito prazer a ela.

Devia ser algum pornô com temática espacial, porque eles estavam mandando ver na ponte de comando de

uma nave estelar. Por alguma estranha razão, os dois usavam capacetes que eu imaginava que servissem para

usar no espaço sideral. Eles estarem usando aquilo num ambiente fechado, não fazia o menor sentido…

Enquanto eu estava distraído por um detalhe sem importância, Kiera ao meu lado olhava para sua cerveja

como se tivesse deixado cair algo importante pelo gargalo. Querendo saber se ela estava bem com aquele

filme ridículo, eu a observei com curiosidade por um segundo.

Suas bochechas estavam muito vermelhas, e dava para ver isso até mesmo com a iluminação

relativamente fraca da sala. Estava envergonhada, isso ficara bem claro. Será que não tinha reparado nas

antenas idiotas sobre os capacetes? Ela não se sentiria tão desconfortável se percebesse o quanto tudo aquilo

era tolo. Só que, obviamente, não conseguia fingir ignorar a intimidade do ato sexual que estava sendo

apresentado.

Querendo lhe dar uma chance de escapar daquilo, inclinei-me em sua direção e perguntei:

– Está constrangida?

Ela imediatamente fez que não. Pela forma vigorosa como balançou a cabeça, dava para ver que ela não

queria que eu pensasse que aquilo a incomodava. Não sei por que ela acharia importante o que eu achava

daquilo. Mas se quisesse sair dali eu entenderia. Observar as pessoas transando era esquisito. Excitante, mas

esquisito.

Comecei a imaginar Kiera na cena. Só que sem as pessoas estranhas de pele verde e capacetes idiotas.

Imaginei-a sozinha… comigo. Eu me imaginei beijando sua orelha, lambendo seu pescoço, chupando seu


mamilo. Imaginei que eram meus dedos que deslizavam para dentro de seu corpo e sentiam o quanto ela

estava molhada e pronta para me receber… Tomei um gole da minha cerveja e passei a língua sobre a boca.

Em seguida, desejando que Kiera me tocasse, rocei os dentes sobre meu lábio inferior. Por Deus, aquele

pornô idiota estava me deixando duro. Eu deveria parar de assistir aquilo agora mesmo, e definitivamente

devia parar de pensar em Kiera daquele jeito.

Ouvi um gemido suave escapar de Kiera. Ao contrário dos sons provenientes da tevê, o ruído que ela fez

era real. Foi quando eu me lembrei de que ela ainda estava bem ali, ao meu lado… e reparei que a tocava.

Meus olhos ficaram mais focados, para absorvê-la por inteiro. Ela olhava para mim, agora, e não para o

filme. Seus lábios estavam entreabertos, sua respiração parecia mais rápida. O sangue circulou mais depressa

pelo meu corpo, acelerando meu coração, fazendo minha respiração ficar ofegante e endurecendo meu pau.

Tentei me lembrar do motivo pelo qual eu não poderia me inclinar e sugar o lábio inferior dela com a minha

boca. Tentei me lembrar por que eu não poderia esticar o braço e sentir em meus dedos os seus mamilos

intumescidos, que apontavam para fora com força debaixo da camiseta. Por que motivo eu não poderia deitála

ali mesmo e possuí-la? Naquele momento eu não conseguia me lembrar de mais nada, a não ser do quanto

eu adorava sua pele se roçando contra a minha.

Eu a queria. Agora mesmo.

Meus olhos se desviaram na direção dos seus lábios cheios. Eles me chamavam docemente, me atraíam

para eles. Rocei minha língua contra o meu lábio inferior novamente, mas era a língua dela que eu queria que

me tocasse. Aposto que Kiera tinha um gosto bom. Garanto que era deliciosa. Eu queria descobrir com

certeza. Nunca desejei coisa alguma na vida com mais intensidade. Meus olhos subiram até os dela mais uma

vez e eu percebi o calor quando ela olhou para mim. Ela queria que eu a beijasse. Queria que eu sentisse o

gosto dela. Eu quase podia dizer que ela queria aquilo tanto quanto eu. Meu pau ficou mais apertado contra a

minha calça, me implorando para ir em frente.

Simplesmente faça!

Voltei o olhar para os lábios dela e deixei que eles me chamassem.

Sim… Por favor… Me beije!

Sua respiração acelerou à medida que eu me aproximei mais; notei que seu peito subia e descia, dava

para sentir o ar que ela expirava em minha bochecha. Seu corpo se contorcia sob o meu toque. Aposto que ela

estava molhadinha. Aposto que estava pronta. Para mim. Mas… Não… Ela não era minha.

Como se meu crânio tivesse batido contra uma parede de tijolos eu me lembrei, de repente, do motivo de

não poder tocá-la. Denny. Ela era de Denny, e ele era o meu melhor amigo. Porra! Eu precisava parar com

aquilo. Só que era muito difícil parar. Tudo entre nós parecia eletrificado. Cada ponto de contato entre nós

era como se estivesse em chamas. Em vez de pressionar meus lábios contra os dela, encostei minha testa na

dela e permiti que apenas nossos narizes se tocassem. A provocação que aquilo representou para os meus

sentidos seguiu direto para o espaço entre as minhas pernas e lançou um raio de dor e prazer através de todo

o meu corpo. Porra, eu não queria parar.

Um gemido lento escapou dos lábios de Kiera, e isso só serviu para tornar ainda mais difícil, para mim,

não abaixar a minha boca e possuir a dela. Kiera começou a erguer o queixo, procurando por mim. Porra,

aquilo ia acabar acontecendo se eu não fizesse alguma coisa bem depressa. Quando eu consegui sentir seu

lábio roçar minha boca virei de lado e passei o rosto sobre a sua bochecha. Gemi também, sob a força

daquela tortura feliz. Porra. Eu precisava dela. Precisava senti-la, tocá-la, dar-lhe prazer, estar com ela. Eu ia

trair Denny. Ia acabar arruinando tudo, porque eu não tinha um pingo de força de vontade.

Com o nariz ainda descansando colado em sua bochecha, respirei fundo duas vezes, em pânico. Tentava

acalmar meu corpo, queria voltar a ter controle dos meus sentidos. Kiera se derretia contra mim como se

estivesse perdendo o próprio poder de decisão. Seu corpo se moveu em direção ao meu, sua mão desceu

rumo à minha coxa e sua cabeça se virou na direção da minha boca. Eu sabia que não teria forças para me


afastar novamente. Se os lábios dela descobrissem o caminho para os meus, ela iria me encontrar ansioso e

disposto. Foda-se Denny. Fodam-se Matt e Griffin. Eu a jogaria no chão e faríamos sexo ali mesmo, junto

com o pornô idiota.

E ela nunca me perdoaria. Eu nunca me perdoaria.

Apertei a mão dela, que subia pela minha coxa, e desviei a boca para a sua orelha.

– Vem comigo – sussurrei. Meu corpo desesperadamente queria que ela gozasse junto comigo, mas isso

não iria acontecer. Porque eu não iria deixar.

Colocando-me em pé, eu a levei para a cozinha. Eu sabia que teria de estar em total controle para fazer

aquilo, então imaginei tudo que podia para me desligar e diminuir aquele fogo. Denny. Como era bom que

eles estavam juntos; como era bom saber o quanto eles pertenciam um ao outro. Pensei no seu olhar quando

ele me pediu para não tocá-la. Imaginei o olhar que eu sabia que iria aparecer quando ele descobrisse que eu

tinha traído a sua confiança. Recordei Denny me poupando da ira dos meus pais; Denny se colocando do meu

lado e levando um soco no meu lugar. Denny! Meu irmão, mesmo sem ser de sangue. Eu não podia fazer uma

coisa dessas com ele.

Eu estava mais ou menos recomposto quando chegamos à cozinha. Ainda dava para ouvir a porcaria do

filme ao fundo, mas ignorei os sons. Soltando a mão de Kiera, coloquei minha cerveja sobre a bancada, fui

até o armário em busca de um copo e peguei um pouco de água para ela. Kiera ainda respirava pesadamente,

confusa e frustrada, quando eu peguei sua cerveja, lhe entreguei o copo com água e exibi um sorriso tranquilo.

Quando ela o pegou, pareceu também um pouco constrangida. Provavelmente, esperava que algo muito

diferente fosse acontecer ali.

Respirou fundo algumas vezes para se acalmar, mas logo em seguida tomou a água toda quase de uma só

vez, como se não tivesse bebido nada o dia todo. Eu me senti mal por ela se sentir envergonhada. Aquilo não

tinha sido culpa dela. A culpa era minha. Eu tinha me descontrolado e deixara as coisas irem longe demais.

Não deveria ter me inclinado na direção dela… Nem deveria andar tocando sua pele, para começo de

conversa. E definitivamente não deveria estar criando o meu próprio pornô na cabeça, tendo nós dois como

estrelas.

Só que não havia nenhuma boa maneira de pedir desculpas por tudo aquilo, então eu simplesmente disse:

– Desculpe pelo filme escolhido… – Eu me obriguei a rir quando ela olhou para mim. Mantenha-se

descontraído. – Griffin é… enfim, Griffin. – Eu dei de ombros. Como não queria que ela dissesse coisa

alguma que pudesse levar a uma conversa que eu não queria ter, perguntei: – Você parecia transtornada

naquela hora na escada. Quer conversar sobre o seu sonho?

Eu me encostei na bancada e cruzei os braços sobre o peito, fingindo informali​dade. Quando todo o resto

falhar, finja. As sobrancelhas de Kiera se juntaram num ar de estranheza quando ela observou minha postura.

Ainda me parecia abalada, envergonhada e realmente confusa.

– Eu não me lembro dele… só que foi ruim.

– Ah… – Fui subitamente atingido por uma fisgada de culpa e tristeza. Seu sonho só podia ter sido

comigo, então. Eu estava provocando a sua dor, e só fazia piorar as coisas ao me deixar levar pelos desejos

que sentia por ela. Eu precisava da sua proximidade, mas também precisava mantê-la a distância. Havia uma

linha fina por onde eu poderia caminhar, e eu não tinha certeza de que conseguiria fazer isso.

Chateada consigo mesma, ela pousou o copo e passou por mim, anunciando:

– Estou cansada… Boa noite, Kellan.

Precisei de todas as minhas forças para me impedir de agarrá-la e puxá-la para junto de mim, num abraço.

Eu sinto muito. Por favor, me perdoe.

– Boa noite, Kiera – sussurrei.

Depois que ela saiu da sala, deixei cair a cabeça nas mãos.

Que merda eu acabei de fazer? Que porra foi essa que eu deixei que acontecesse?


Eu poderia ter arruinado tudo! Eu me larguei encostado na bancada e massageei a testa, onde já dava para

sentir uma grande dor de cabeça se formando. Talvez eu já tivesse arruinado tudo. Eu realmente não saberia

até o dia seguinte, quando veria Kiera novamente. Pela primeira vez em muito tempo, eu não quis que o

amanhã chegasse.

Mas a chegada do dia seguinte foi inevitável. Quando a luz do amanhecer entrou através da minha janela,

meus olhos já estavam abertos. Eu não tinha dormido muito, praticamente nada. Na véspera, à noite, tínhamos

estado muito perto de ultrapassar o limite. Eu devia a Denny mais do que aquilo. Muito mais.

Estava nervoso quando desci as escadas. Ficar nervoso não era algo que me acontecia com muita

frequência, mas quando isso acontecia era quase paralisante. Eu estava com medo que ela quisesse

“conversar”. Eu não queria papo. Queria só fingir que a noite passada nunca tinha acontecido. Queria que as

coisas voltassem ao normal. Bem, pelo menos à nossa versão do normal. Só queria abraçá-la sem pintar um

clima estranho. Talvez se eu não mencionasse o assunto ela poderia achar que a noite anterior tinha sido parte

de seu sonho. Puxa, tomara que ela não tivesse tido um pesadelo comigo. Eu não queria magoá-la, nem mesmo

em sonho.

Quando eu a ouvi descendo a escada, minhas mãos começaram a tremer.

– Pare com isso – sussurrei para mim mesmo, abrindo e fechando as mãos. Ela não precisa saber que eu

estava apavorado. Inalei profundamente e exibi minha expressão de jogador de pôquer. Talvez devesse

agradecer aos meus pais por eles terem me dado tantas oportunidades para aperfeiçoar aquele ar dissimulado.

Além da minha frequência cardíaca acelerada, tudo estava normal quando Kiera entrou na cozinha. Suas

bochechas ficaram vermelhas, então ela provavelmente ainda estava envergonhada. Eu não lhe dei tempo para

puxar assunto.

– ‘dia. Quer café? – Estendi a xícara fumegante na minha mão para ela.

Ela sorriu quando a pegou. Suas olheiras não tinham diminuído nem um pouco; ela devia ter dormido tão

mal quanto eu.

– Obrigada.

Servi outra xícara para mim enquanto Kiera colocava creme em seu café. Nós nos sentamos à mesa juntos

e um sentimento de tristeza me inundou por um segundo. Nós não tínhamos nos abraçado. Kiera franziu a testa,

e meu pensamento se evaporou.

Porra. Ela queria conversar. Não, por favor. Vamos deixar tudo de lado. Algumas coisas não precisam

ser ditas. Como o quanto eu quero você, e como é errado eu me sentir assim.

– Que foi? – sussurrei, desejando estar em qualquer lugar, menos ali.

Ela pareceu confusa e apontou para a minha camiseta.

– É que você nunca descolou uma dessas para mim…

Olhei para a camiseta. Era exatamente aquela dos D-Bags que Kiera tinha dito, há algum tempo, que

queria. Eu tinha ficado de lhe conseguir uma, mas me esquecera por completo da promessa.

Uma onda de alívio circulou por mim por não estarmos tendo a “conversa do inferno”, a que eu tinha

temido a manhã toda.

– Ah… Tem razão. – Eu estava transbordando de bons sentimentos, agora que tínhamos ultrapassado o

momento mais difícil. Como não queria falar com Griffin tão cedo e gostei da ideia de Kiera usando minha

camiseta, eu me levantei e a despi. Os olhos dela brilharam diante da minha seminudez; de repente ela já não

me pareceu nem um pouco cansada. O jeito como ela olhou para o meu corpo me fez querer ficar pelado o

tempo todo, mas isso não era exatamente uma boa ideia. A ligação entre nós já era um problema difícil o

bastante.

Estiquei a camiseta e a vesti por sobre a sua cabeça. Ela simplesmente abriu a boca de espanto enquanto

eu enfiava os braços dela nas mangas, como se ela fosse uma criança.


– Pronto. Pode ficar com a minha. – Ela ficou muito bem vestindo a minha camiseta. Eu deveria ter dado

para ela na primeira vez que me pediu.

Ela gaguejou algo em resposta e suas bochechas assumiram um tom encantador de rosa.

– Eu não tive intenção de… Você não precisava…

Não conseguiu formar mais palavras além dessas. Foi muito bonito aquilo. Percebi tudo que ela queria

dizer e ri ao retrucar:

– Não se preocupe com isso. Eu tenho como conseguir outra. Você não acreditaria quantos desses troços

Griffin mandou fazer.

Virei-me para sair da cozinha, mas logo olhei mais uma vez para Kiera. Ela estava olhando para a minha

bunda. Quando percebeu que tinha sido flagrada, suas bochechas rosadas passaram a um vermelho brilhante.

Muitas das garotas que eu conhecia me devoravam com os olhos e não davam a mínima quando eu notava,

mas Kiera era sempre daquele jeito: envergonhada. Contendo o riso, sorri e olhei para o chão. Ela era tão

incrivelmente adorável!… Apesar de eu saber que não deveria, adorei o jeito como ela olhou para mim.

– Volto logo – avisei a ela. Lancei-lhe mais um sorriso e saí da cozinha para vestir outra camiseta. Meu

sorriso foi incontrolável quando eu subi a escada. Dei graças a todas as estrelas lá no alto: nós não íamos

conversar sobre o que acontecera. Parece que íamos varrer o incidente para debaixo do tapete, lugar ao qual

ele pertencia.

Apesar de não termos mencionado o que tinha acontecido na noite anterior, eu não tinha certeza de onde

estávamos em relação aos… Bem, “aconchegos” era provavelmente a melhor forma de descrever. Parte de

mim queria que aquilo cessasse; o resto de mim não conseguia parar. Enquanto ela se sentisse numa boa

comigo abraçando-a, eu a queria em meus braços.

Ela levou grande parte do dia para se aproximar de mim, mas quando eu me acomodei no sofá para

assistir a um pouco de tevê antes do ensaio, ela olhou para mim com um ar de nostalgia. Como eu precisava

do seu toque e ainda não tínhamos nos abraçado o dia todo, estiquei o braço e dei um tapinha no sofá, num

convite mudo.

Por favor.

Ela me exibiu um sorriso de tirar o fôlego e se aconchegou ao meu lado. Fechei os olhos, contente. Nada

tinha mudado. Ainda poderíamos fazer aquilo. Estávamos numa boa. Tudo estava bem.

Nossa rotina continuou como se nada estranho tivesse acontecido entre nós. Mas eu notei uma ligeira

alteração. Nossos toques pareciam mais… íntimos. Quando nos abraçávamos, minhas mãos descansavam nela

durante mais tempo, seguiam na direção dos quadris e os seios dela pressionavam com mais firmeza o meu

peito; seus dedos corriam para cima e para baixo ao longo do meu pescoço; sua cabeça ficava inclinada em

direção a mim, e não para fora. Eu amava cada segundo de tudo aquilo, então não pretendia reclamar de coisa

alguma.

Como de hábito, ela ainda dormia quando eu saí do meu quarto na terça-feira seguinte. Imaginei-a

esparramada na cama de Joey. Ou, quem sabe ela estivesse encolhida na cama, formando uma bolinha?

Desejei poder abrir a porta para olhá-la e vê-la enquanto ela dormia, mas seria estranho se ela me pegasse no

flagra. Um pouco assustador, na verdade. Com um suspiro, desci a escada. Havia certos aspectos da nossa

vida que nunca iríamos compartilhar; dormir juntos era um deles.

Para me animar um pouco, cantarolei alguma coisa enquanto preparava um bule de café. Comecei a cantar

uma canção popular no rádio, mas quando o café ficou pronto eu já entoava uma canção dos D-Bags. Era uma

música de ritmo rápido, mas eu cantei numa batida lenta, como uma balada. Ela funcionava muito bem

daquele jeito. Eu devia mandar Evan acrescentá-la na nossa lista de canções do tipo acústico.

Kiera entrou na cozinha com um caminhar incerto, enquanto eu cantava. Parou e prestou atenção, como se

nunca tivesse me ouvido cantar antes. Eu adorava o jeito como ela me escutava de verdade quando eu


cantava, como se tentasse absorver o significado além das palavras. A maioria das pessoas que eu conhecia

não se importava com isso.

Ela estava encostada à bancada de um jeito inconscientemente sedutor. Já fazia várias horas que eu a tinha

embalado nos braços, e como ainda me sentia um pouco melancólico, decidi que não conseguiria esperar

mais tempo para tocá-la. Estendendo a mão eu a puxei com carinho para uma dança. Ela engasgou de

surpresa, mas logo seu rosto se iluminou. Ela também me pareceu meio triste naquele dia. Querendo fazê-la

sorrir eu a girei e, em seguida, puxei-a de volta para mim e a lancei para trás, num mergulho. Funcionou: ela

riu. Eu me senti empolgado ao ver que aquilo tinha nos deixado um pouco mais felizes.

Deixei escorregar os dois braços ao redor da sua cintura e ela soltou um suspiro feliz quando entrelaçou

as mãos em torno do meu pescoço. Não havia nada melhor que dançar com ela. O jeito como nossos corpos

se moviam juntos, a forma como ela se sentia em meus braços… Eu poderia ter ficado ali, fazendo aquilo

durante o dia todo, mas sabia que o momento teria de terminar mais cedo ou mais tarde. Eu não precisava de

uma repetição da nossa “noite pornô”, mas tinha a sensação de que, se continuasse a dançar lentamente

daquele jeito com ela por mais tempo, a vontade de beijá-la iria me sobrepujar. Com boas intenções ou não,

eu era apenas um ser humano.

Parei de me mover e Kiera parou também. Olhamos um para o outro e meu coração começou a bater mais

forte. Ela continuava muito perto de mim e parecia estar numa boa. Seus lábios me pareciam ainda melhores.

Seus dedos estavam entrelaçados em meu cabelo, enviando fisgadas de alegria pelo meu corpo. Será que ela

percebia o quanto aquilo era incrível?

Como se pudesse ouvir meus pensamentos, ela tirou os dedos do meu cabelo e os deixou descansar sobre

meus ombros. Sabendo que estávamos indo na direção de um território perigoso mais uma vez, eu lhe disse

algo inesperado, com toda a calma do mundo:

– Eu sei que você preferia que Denny estivesse aqui… – Ela se retesou em meus braços e eu me xinguei

por trazê-lo para aquele momento. Mas tive de fazer isso. Nós dois precisávamos daquele lembrete. – … mas

será que posso te levar para a universidade no seu primeiro dia?

Por um momento ela ficou perturbada por mim ou pela minha pergunta, não consegui identificar qual das

duas opções. Mas me pareceu à vontade ao me responder:

– Acho que você serve – afirmou, com um sorriso brincalhão.

Rindo, eu a apertei; em seguida, deixei-a ir; foi muito difícil largá-la. Precisando de algo para fazer, dei

um passo até o armário e peguei uma caneca para ela.

– Não é o tipo de coisa que estou habituado a ouvir das mulheres – murmurei, tentando manter leveza na

voz.

Kiera entendeu errado meu tom.

– Desculpe, não tive a intenção…

Ri novamente quando comecei a lhe servir o café. Será que ela realmente achava que tinha me ofendido?

Seria preciso muito mais do que aquilo. Olhei em sua direção.

– Estou brincando, Kiera. – Meus olhos voltaram para a sua caneca. – Bem, mais ou menos. – Aquilo, na

realidade, não era uma coisa que eu ouvia das mulheres em geral. De um jeito distorcido, era mais ou menos

confortador ouvir isso dela.

Quando chegou a hora, levei Kiera de carro até a sua aula. Ela parecia um feixe de nervos, muito pior do

que no seu primeiro dia no Pete’s. Se ao menos ela pudesse enxergar o que eu via quando olhava para ela:

beleza, graça, humor, inteligência… não se sentiria nem um pouco nervosa com a faculdade. Entraria na sala

de aula como se fosse dona do pedaço.

Kiera parecia enjoada quando eu parei o carro. Eu não poderia largá-la ali e deixar que ela seguisse até a

sala daquele jeito. Ela poderia até vomitar de nervoso, e isso era uma vergonha que ela não precisava passar


logo no primeiro dia. Eu tinha certeza de que conseguiria mantê-la calma o suficiente para, pelo menos, evitar

que ela passasse mal, então eu abri minha porta com força e saltei do carro.

Sua expressão foi de perplexidade quando ela me viu contornar o carro até o lado dela. Quando eu lhe

abri a porta ela ensaiou um sorriso torto.

– Acho que consigo lidar com isso. – Ela apontou para a porta com a cabeça ao se colocar em pé ao lado

do carro.

Eu ri quando agarrei sua mão. Sabia que ela seria capaz de enfrentar tudo. Ter vontade de fazê-lo já era

outra história. Sorrindo, indiquei o prédio onde aconteceria sua aula.

– Vamos lá – declarei.

Ela olhou para mim, curiosa.

– Aonde você está indo?

Eu ri quando olhei para ela.

– Estou acompanhando você até sua sala… obviamente.

Como se ela sentisse que estivesse sendo irracional, ela revirou os olhos; o gesto era claramente de

constrangimento, mas não de irritação.

– Você não precisa fazer isso. Posso me virar sozinha.

– Talvez eu queira fazer – repliquei, apertando-lhe a mão de leve. Quando chegamos ao prédio, eu abri a

porta e a segurei para ela. Enquanto ela entrava, acrescentei: – Eu não sou o cara mais ocupado do mundo na

parte da manhã. Provavelmente estaria dormindo a essa hora.

Ou pensando em você.

Ela riu quando olhou para mim.

– Então, por que você acorda tão cedo?

Deixei escapar um riso irônico enquanto caminhava ao lado dela pelo corredor.

– Não é por minha escolha… pode acreditar. – Não era mesmo… Meu pai tinha enraizado aquele padrão

de sono em mim havia muito tempo. Agora eu normalmente acordava mais ou menos na mesma hora todos os

dias, e quando não o fazia e dormia até mais tarde por algum motivo, eu normalmente acordava em pânico,

meio que esperando ver meu pai junto dos pés da cama. Embora ele já tivesse desaparecido há muito tempo,

o medo irracional permanecia. – Eu preferiria dormir direto a funcionar com quatro ou cinco horas por noite.

Ela me disse que eu devia voltar para casa e tirar uma soneca e eu garanti a ela que faria isso. Talvez

fizesse, mesmo. Eu bem que precisava de um descanso para me recompor, e isso faria o tempo voar. Já

tínhamos chegado à sua sala de aula e eu segurei a porta aberta para ela passar. Ela me lançou uma expressão

estranha e calculista, como se me perguntasse se eu iria acompanhá-la até o seu lugar. Eu não tinha planejado

isso… mas faria numa boa se ela quisesse.

– Quer que eu entre com você? – perguntei, quase de gozação.

Ela soltou minha mão e me empurrou para trás.

– Não – respondeu, brincando. Então me olhou por um momento com uma expressão séria de adoração.

Eu adorava ver aquele olhar nela. – Obrigada, Kellan. – Esticando-se um pouco, ela me deu um beijo suave

na bochecha. Eu adorei isso também. O calor que eu sentia quando estava perto dela aumentou.

Olhei para baixo e lhe dei uma piscada.

– De nada. – Eu faria qualquer coisa por você. – Eu venho buscar você mais tarde. – Ela ensaiou um

protesto, mas rapidamente eu a cortei com um olhar sério. Depois que ela aceitou que eu lhe desse carona de

volta para casa, verifiquei sua sala de aula, cheia de alunos jovens e dedicados. Disse-lhe para se divertir,

me virei e saí. Curioso, olhei para trás para ver se ela estava acompanhando a minha saída. Estava. Isso fez o

meu peito se contorcer um pouco, mas de um jeito bom. Ergui a mão e acenei. Levá-la até a aula não era tão

ruim… Eu acabaria me acostumando com isso.


Acabei por levá-la para a faculdade todos os dias da primeira semana. Na sexta-feira eu já estava

curtindo a nossa nova rotina e, apesar de sentir a falta dela durante o dia, ver a gratidão em seu rosto quando

eu a levava até a sala de manhã e a emoção em seus olhos quando a buscava de tarde fazia a separação valer

a pena. Por um minuto eu podia fingir que significava tudo para ela, porque ela certamente começava a

representar tudo para mim. E quando a gente finge alguma coisa durante um tempo suficiente, aquilo acaba se

tornando realidade. Certo?


Capítulo 9

Cura para a tristeza

Fechei o estojo da guitarra, ansioso para ir para casa. Era domingo, ainda bem no início da noite, e Kiera

estava de folga. Agora que o ensaio da banda tinha acabado, nós poderíamos passar a noite toda juntos. Se eu

corresse, talvez chegasse em casa antes de ela jantar e poderíamos comer juntos. Eu poderia preparar alguma

coisa para ela. Macarronada, talvez? Não era o maior chef do mundo, mas colocar água para ferver era algo

que eu sabia fazer.

Olhei para Evan e Matt.

– A gente se vê amanhã, então.

Tenho um encontro. Bem, não exatamente um encontro, mas há um lugar onde eu devo estar.

Evan me lançou um olhar tão estranho que eu congelei. Ou ele suspeitava de algo ou eu estava me

esquecendo de alguma coisa importante.

– Que foi? – perguntei, devagar.

Evan não disse nada, simplesmente inclinou a cabeça para Matt e ergueu as sobrancelhas. Foi aí que a

ficha caiu.

– Porra. Matt. É o seu aniversário. Sinto muito, cara, eu esqueci completamente.

As bochechas de Matt ficaram vermelhas quando ele coçou a cabeça.

– Não esquente com isso, Kell. Não é nenhuma data especial. – Lançou um olhar de reprovação para

Evan. – Nós não precisamos fazer nada de diferente. Tocar com vocês hoje já foi comemoração suficiente.

Griffin estava sentado no encosto do sofá e fez um ruído de desgosto ao ouvir o comentário de Matt e se

manifestou.

– Que porra é essa? Vamos festejar, sim! Nenhum aniversário fica completo até você vomitar a própria

alma. – Ele franziu a testa, com ar de concentração. – Nós já jantamos?

Evan sorriu para Matt.

– Ainda não. Aonde você quer ir, garoto aniversariante?

A expressão de Matt foi quase de irritação. Ele não gostava de ser o centro das atenções.

– Eu não tenho cinco anos… Por favor, não me chame de “aniversariante”. – Suspirou. – Sei lá…! Algum

lugar discreto, onde não haja muita empolgação por alguém estar um ano mais perto da morte.

Griffin ergueu as sobrancelhas.

– Uau. Estamos mórbidos hoje? Quantos anos você faz mesmo? Setenta e dois?

Matt ergueu seus dois dedos médios e exclamou:

– Essa aqui é a idade que eu tenho.

– Onze anos? – Ele sorriu. Seu riso se ampliou quando ele se virou para mim. – Deve ser mais ou menos

isso mesmo.

Até eu ri da piada de Griffin, mas por dentro eu sentia um monte de cinzas no peito. Kiera devia estar em

casa sozinha agora, e provavelmente ficaria sozinha até o dia seguinte. Eu não teria outra chance de passar


uma noite inteira em paz com ela durante… Puxa, sei lá quanto tempo, mas me pareceu demais. Por outro

lado, eu não poderia deixar de sair com os rapazes.

Obrigando-me a sorrir, disse a Griffin:

– Conheço um lugar onde todos usam chapéus com insultos e as pessoas que servem zoam e maltratam os

clientes a noite toda.

Griffin pulou do sofá.

– Beleza da porra, vamos fazer isso! Mas… como é que elas “maltratam” os clientes? – Virando-se, ele

se inclinou sobre o sofá e lançou a bunda para cima. – Será que elas vão me espancar se eu for um menino

malvado?

Matt apontou um dedo para o primo.

– Não existe a mínima chance de eu ir a algum lugar onde ele possa ser espancado na bunda. – Dando de

ombros, acrescentou: – Não podemos ir até o Pete’s?

Segurando um suspiro, ergui os ombros num sinal de “tanto faz”.

– A noite é sua. Vamos ao Pete’s, então. – Por que Kiera não poderia estar trabalhando lá naquela

noite? Talvez eu ligasse para ela quando chegássemos ao Pete’s, a fim de convidá-la. Entrei no meu carro me

sentindo meio irritado, mas disposto a deixar a irritação passar. Não era o caso de eu nunca estar com Kiera,

eu a via o tempo todo. Só que… eu estava muito consciente de que iria perder um tempo precioso a sós ao

lado dela, e tive a sensação horrível que nosso tempo juntos se esgotava.

Tentei passar despercebido por todos e ir até os fundos para dar um telefonema quando cheguei ao Pete’s,

mas Griffin entrou pela porta junto comigo. Agarrando o meu braço, imediatamente me puxou na direção do

bar. Batendo a mão no balcão, ordenou:

– Uma rodada de Jäger para a banda, Reets. Vamos encher a cara esta noite!

Rita sorriu ao ouvir o apelido que Griffin usava com ela e se inclinou para beijar minha bochecha. Sem

fazer parecer que eu estava me desvencilhando, recuei para longe dela lentamente. Ela suspirou quando eu me

afastei.

– Qualquer coisa para as minhas estrelas do rock favoritas – disse ela, fazendo um bico com os lábios

como se me beijasse mentalmente. – Hum, hummm – murmurou, enquanto servia as doses.

Griffin levantou sua bebida no ar quando todos foram servidos. Alto o suficiente para todo o bar ouvir,

exclamou:

– Brindo ao meu primo, que finalmente ganhou pentelhos nesse ano e está torcendo para tocar uma mulher

nua pela primeira vez na vida… Feliz Aniversário!

Todo o bar estava gargalhando. Evan e eu rimos também, enquanto Griffin virava o shot. Depois, enfiou a

língua para fora e fez uma careta, enquanto Matt lhe lançava um olhar vazio.

– Eu odeio você com todas as minhas forças – declarou Matt, com toda a calma do mundo, para Griffin.

Griffin roubou o drinque do aniversariante e virou de novo.

– Eu sei – disse Griffin com um sorriso imenso, quando acabou. Depois, agarrou o pescoço de Matt,

colocou sua cabeça debaixo do braço e deu-lhe um cascudo, esfregando os nós dos dedos em seu cabelo.

Matt finalmente começou a rir enquanto tentava escapar daquilo, e foi assim que os dois primos que

brigavam o tempo todo viraram melhores amigos num piscar de olhos. Balançando a cabeça para eles dois,

entreguei a Matt o meu drinque. Ele alegremente bebeu tudo com muita rapidez. Evan tomou o dele e todos

colocaram os copos sobre o balcão, onde foram novamente enchidos em questão de segundos.

Passou uma eternidade antes de eu, finalmente, conseguir escapar dali. Fui até o banheiro do corredor e

passei pelo velho telefone público na parte de trás do bar. Ninguém o usava mais e reparei que o aparelho

estava meio enferrujado quando peguei o fone. Encontrei algumas moedas no bolso e liguei para casa, mas o

telefone tocou e tocou sem parar. A secretária eletrônica não entrou e eu achei aquilo meio estranho; Kiera


vivia obcecada e verificava sempre se tudo estava ligado e pronto para gravar todas as chamadas de Denny

que ela pudesse ter perdido.

Imaginei que Kiera tinha ido para a cama. Senti saudades dela. Uma tristeza quase irresistível me

inundou, mas eu mantive um sorriso na cara pela minha banda. Não queria que eles fizessem perguntas quando

voltei para a mesa.

Quando chegou o fim da festa, já era muito tarde. Eu tinha parado de beber fazia muito tempo para poder

ir para casa dirigindo, mas ainda me sentia um pouco zonzo quando parei o carro e desliguei o motor, na

entrada de casa. Sorri ao ver o Honda de Denny, que Kiera usava, parado ao lado do meu. Kiera já estava em

casa e segura, na cama. Adorei saber que ela estaria bem ali, dormindo a poucos metros de mim… assim que

eu conseguisse me arrastar pela porta. Talvez um pouco de água ajudasse a limpar minha cabeça. Isso mesmo.

Água seria ótimo.

Com a intenção de me hidratar, fiz uma linha reta até a cozinha assim que coloquei o pé dentro de casa.

Joguei minhas chaves na bancada, mas fiquei paralisado ao perceber que não estava sozinho ali. Kiera ainda

estava de pé, de pijama… e parecia claramente chateada com alguma coisa. Seus olhos estavam vermelhos, o

rosto um pouco inchado, e ela bebia um copo de vinho como se aquilo fosse suco. Algo estava errado, muito

errado. Meu coração acelerou de expectativa.

– Oi! – saudei, tentando parecer casual.

Ela não me respondeu, simplesmente continuou bebendo seu vinho. Eu pude ver pela garrafa vazia na

bancada que ela estava quase no fim do estoque. Havia apenas uma coisa que a deixaria tão perturbada…

– Você está bem? – perguntei, já sabendo que não estava.

Ela fez uma pausa na bebida para me responder.

– Não. – Pensei que ela fosse deixar as coisas por isso mesmo, mas ela me sur​preendeu ao acrescentar: –

Denny não vai voltar… Nós terminamos.

Uma multidão de emoções tomou conta de mim ao mesmo tempo: pena, sofrimento, alegria… e culpa. Fui

até onde ela estava, louco para envolvê-la nos meus braços e dizer que eu estava bem ali para ela, que nunca

iria deixá-la, mas era óbvio que ela tentava sufocar a própria dor. Ouvir o quanto eu me preocupava com ela

provavelmente não iria ajudá-la naquele momento; eu precisava deixá-la chorar as mágoas antes. Em vez de

tocá-la, apoiei o corpo na bancada. Cheguei a colocar as mãos atrás das costas, para não ser tentado a usálas.

Sem saber o que fazer por ela, percebi que ela me analisou por um longo minuto. Em seguida, torcendo

para ela dizer “não”, porque não queria nem um pouco discutir seus sentimentos por Denny, perguntei:

– Quer conversar sobre isso?

Ela fez uma pausa novamente na bebida, só o tempo suficiente para me responder.

– Não.

O alívio me inundou mais uma vez ao ver que ela não queria falar sobre Denny. Provavelmente não queria

falar sobre mim também, mas tudo bem. Eu entendi o fato de ela não querer falar. E sabia o que eu iria querer,

no lugar dela. Olhei para a garrafa de vinho vazia e para o copo quase vazio.

– Quer um pouco de tequila? – ofereci.

Um sorriso genuíno se espalhou pelos seus lábios.

– Quero!

Abri o armário acima da geladeira e, vasculhando pelo meu estoque de álcool, peguei a tequila. Eu não

tinha certeza se fazer Kiera ficar bêbada seria uma boa ideia, mas foi a única solução que me ocorreu no

momento. Além do mais, pelo menos ela não beberia sozinha a partir de agora. Peguei copos, sal e limão na

geladeira. Coloquei a tábua de madeira sobre a bancada e fatiei os limões. Sentia os olhos de Kiera grudados

em mim.

Servi duas doses e entreguei a dela com um sorriso.


– Me disseram que é um bom remédio para a dor de cotovelo.

Ela pegou o copo da minha mão e nossos dedos se tocaram brevemente. Foi o suficiente para enviar uma

onda de calor pelo meu corpo. Ela estava solteira agora… e isso mudava tudo. Não mudava? Denny era o

meu melhor amigo. Eu devia muita coisa a ele…

Determinado a parar de pensar naquilo e deixar o barco correr, mergulhei o dedo na bebida e molhei as

costas das nossas mãos. Kiera observava cada movimento que eu fazia enquanto eu sacudia o saleiro. Quando

ela não fez nenhum movimento para beber sua dose, quebrei o gelo e entornei o meu drinque de uma vez só,

para que ela se sentisse mais confortável em fazer isso comigo. Minha garganta parecia anestesiada, depois

de tomar doses de Jäger a noite toda, e eu nem senti arder. Kiera, porém, sofreu a queimação da bebida.

Sua língua saiu para lamber o sal na mão, sua boca se abriu para receber a bebida e seus lábios se

curvaram com força ao redor do limão, espremendo o suco. Foi uma cena erótica de assistir. Então, seu rosto

se contorceu numa careta horrível. Eu ri com a reação dela e servi mais uma rodada.

A segunda dose desceu com mais facilidade para ela. A terceira foi ainda mais tranquila. Nós não

falávamos, apenas bebíamos. E quanto mais álcool ela consumia, mais famintos os seus olhos se tornavam.

Ela já olhava para mim de forma determinada, como as mulheres no bar costumavam fazer. Fiz o que pude

para ignorá-la, mas foi difícil… Eu queria que ela me olhasse daquele jeito. E também queria olhar para ela

assim. Mas eu não queria fazer prognósticos de tipo algum sobre o que poderia acontecer naquela noite.

Éramos apenas um casal de amigos que compartilhavam uma bebida. Um homem e uma mulher solteiros que

quase tinham compartilhado coisas demais, ultimamente…

Na quarta dose o álcool começou a me afetar. Derramei a tequila ao tentar servi-la naqueles copos

minúsculos. Ri muito e quase deixei cair o limão da boca. Eu estava para lá de Marrakesh, a essa altura.

Na quinta dose, tudo mudou. Justo quando eu me inclinava para lamber o sal da minha pele, Kiera pegou

minha mão e passou a língua sobre as costas dela. Sua língua era suave, úmida, quente, e pareceu maravilhosa

para o meu corpo já sensível. Queria que ela continuasse fazendo aquilo, mas ela recuou um pouco para beber

sua dose de tequila. Quando ela colocou a fatia de limão entre meus lábios, meu coração acelerou.

Será que ela…?

Ela fez. Sua boca se ergueu e se encontrou com a minha. Nossos lábios se esmagaram enquanto ela

chupava o limão. Tudo o que eu consegui sentir foi o limão e ela. Uma combinação inebriante. Mas aquilo

não foi satisfatório, nem de longe. Eu precisava de mais.

Minha respiração ficou ofegante quando Kiera se afastou. Quase falha. Ela removeu o limão da boca com

um jeito sedutor e o colocou sobre a bancada. Quando lambeu os dedos com um jeito sexy, minha

determinação se evaporou. De repente eu não dei a mínima para o que tinha rolado entre nós antes, ou com

quem tínhamos estado. Eu já não me importava se Kiera tinha namorado Denny, e naquele instante isso me

pareceu um detalhe distante no tempo. Não me importei com os alertas de Evan, nem com minha experiência

lamentável ao levar roommates para a cama, nem com minha promessa a Denny de que iria ficar longe dela,

nem com minha própria decisão de não cruzar aquela linha intransponível. Kiera tinha me beijado. Ela me

queria. Além do mais… Foda-se, eu também a queria.

Tomei minha dose de tequila numa virada só e bati com o copo na bancada. Em seguida, puxei Kiera de

volta para minha boca, onde era o lugar dela.

Nossos lábios se movendo juntos foi uma sensação melhor do que eu tinha imaginado. Havia tanta ânsia,

desejo e paixão represados que eu pensei que fôssemos explodir em chamas, tipo combustão espontânea. Eu

não conseguia o suficiente dela. Minha mão foi para a sua nuca e a puxou mais para perto de mim. Minha

outra mão acariciou a curva na base das suas costas. Perfeição.

Eu a empurrei contra a bancada, nossos lábios ainda se movendo em conjunto com uma intensidade quase

frenética. Sua língua roçava a minha, provocando, lambendo e procurando. Eu gemi, precisando de mais.

Meus dedos desceram pela lateral do seu corpo e deslizaram sobre suas costelas até a bunda. Descendo mais,


eu a ergui e a coloquei sobre a bancada. Ela fez um som suave e sedutor ao me enlaçar com as pernas e me

apertar com força.

Isso mesmo…

Apesar de eu me sentir meio bêbado, já estava duro como uma pedra. Tudo o que conseguia pensar era em

levá-la para o meu quarto, deitá-la na cama e explorar seu corpo. Queria sentir cada curva, descobrir cada

pico e vale, saborear cada centímetro. Queria tudo dela. Começava a acreditar que sempre quisera aquilo.

Minha mão percorreu sua garganta e meus lábios seguiram o mesmo caminho. Sua pele era doce como

morangos. Deliciosa. Emitindo um gemido que atravessou meu corpo, Kiera deixou cair a cabeça para trás e

fechou os olhos com força. Por Deus, como ela era bonita! Sua respiração estava tão pesada quanto a minha;

estávamos quase ofegantes. Desesperados para ficar juntos.

Corri o nariz pela garganta dela até a sua orelha e lambi bem de leve a pele sob o lóbulo. Kiera se

contorceu e seus dedos começaram a palmilhar minha camisa, como se quisesse arrancá-la ou rasgá-la. Eu a

ajudei a remover o tecido desagradável. Ela se afastou para observar melhor e seus olhos me devoraram.

Adorei aquilo. Curti muito perceber a necessidade despudorada em seu rosto. Aquilo me deixou louco.

Seus dedos arranharam meu peito e eu já não aguentava mais. Graças a Deus todos os obstáculos tinham

sido removidos. Graças a Deus eu poderia finalmente fazer aquilo, finalmente ceder ao que sentíamos um

pelo outro… ao que eu sentia por ela. Então, abracei-a com força e puxei-a para fora da bancada.

Eu me senti meio descoordenado nos pés, pois meu corpo não estava em sincronia com minha mente. Bati

numa parede aqui e ali, e quase deixei Kiera cair antes mesmo de chegar às escadas. Não ajudou em nada eu

não estar olhando para onde caminhava. Não consegui. Todo o meu foco estava nela – meus olhos, meus

lábios, minha língua, minha respiração, meu coração, minha alma. Era tudo dela.

Logo após a curva que ia dar na escada, perdi todo o equilíbrio e caí no chão. Consegui me apoiar antes

de esmagar Kiera sobre os degraus, mas o choque foi forte mesmo assim, e tive certeza de que nós dois

sentiríamos dores quando amanhecesse. Só que nada importava naquele instante, e rimos muito daquilo.

– Desculpe – murmurei, correndo minha língua pela garganta dela. Kiera estremeceu sob o meu toque e

enterrou os dedos em meus ombros. Eu estava esparramado por cima dela, agora. Tê-la embaixo de mim era

muito melhor do que tê-la na bancada. Posicionei o corpo para me encaixar entre suas pernas e esfreguei os

quadris contra os dela. Ela engasgou ao sentir o quanto eu estava duro.

Isso é tudo para você. Isso é o que você faz comigo. Eu quero você… Quero demais!

Ela chupou o lóbulo da minha orelha, o que enviou explosões de desejo ao longo da minha pele.

Precisando de seu calor, de sua suavidade e sentindo a urgência de prová-la novamente, eu procurei sua boca.

Ela enredou os dedos em meu cabelo, mantendo-nos colados um no outro. Como eu ainda precisava de muito

mais, arriei a calça do pijama dela. Tire tudo! Eu precisava dela sem roupa.

Ela me ajudou a fazer isso, e quando a calça estava em torno de seus tornozelos nós a chutamos escada

abaixo. As mãos dela procuraram minha calça jeans, mas seus dedos dormentes não conseguiram abrir os

botões de metal. Ela riu quando as palmas de minhas mãos lhe exploraram as coxas nuas e acariciaram sua

bunda por baixo da calcinha. Desistindo de abrir meus jeans, as mãos dela voltaram ao meu peito, sentindo

meus músculos rígidos. Eu chupava seu lábio inferior enquanto minhas mãos viajaram cada vez mais para

cima. Quase tremi de expectativa quando me aproximei dos seus seios. Eu queria sentir aquilo fazia muito

tempo. Cobri um deles com a palma da mão e passei o polegar lentamente em torno do mamilo duro.

Minha nossa, ela era uma delícia!

Eu queria girar a língua sobre seu seio e colocá-lo na boca, mas ainda não tinha acabado de explorá-la.

Kiera já se contorcia debaixo de mim, pousando beijos leves ao longo do meu braço, e mordendo de leve o

meu ombro. Ela me deixou descontrolado. Gemidos guturais escapavam dela cada vez que eu a tocava. Ela já

tinha sentido meu desejo por ela… Agora, eu queria sentir seu desejo por mim. Enquanto circulava com os

lábios no ar sobre sua boca, provocando-a com a ponta da língua, deixei escorregar a mão para dentro de sua


calcinha. Ela corcoveou contra meus dedos, ansiosa, louca para que eu a tocasse lá. Só de pensar nisso eu

quase gozei. Mas consegui me segurar… Queria que aquilo durasse muito tempo.

Olhando para baixo, inclinei a mão para poder ver meus dedos entrando nela. Um deles deslizou através

de sua pele escorregadia e Kiera gritou.

Estava muuuito excitada.

Meu queixo caiu quando eu me ajeitei melhor para ver sua reação. Ela era muito gostosa. E me desejava.

Ela me queria!

Estava ficando louca debaixo de mim enquanto eu a excitava com a mão. Seus dedos passeavam pelos

meus braços, minhas costas e meus ombros. Ela rebolou os quadris devagar, desesperada por mais.

– Por favor, Kellan… me leve para o seu quarto. Por favor. Ai meu Deus… Por favor! – ela sussurrou.

Porra! Sua súplica suave implorando por mim era a coisa mais excitante que eu tinha ouvido na vida. Eu a

peguei no colo segurando-a pela bunda, mas não a coloquei novamente no chão até chegarmos ao portal do

meu quarto. Assim que ela se viu em pé, arrancou fora a calcinha. Eu tirei os sapatos, as meias, e logo

comecei a tirar a calça, já que Kiera não tinha conseguido fazer isso. Ela riu da sua falta de habilidade e eu ri

com ela. Seu sorriso se ampliando me pareceu maravilhoso. Isso fez com que eu a quisesse ainda mais. Tirei

sua camiseta de pijama pela cabeça e me abaixei um pouco para, finalmente, sentir seu seio empinado em

minha boca. Kiera gemeu e segurou minha cabeça contra o seu corpo.

Depois de breves provocações com a língua eu a empurrei lentamente, com jeito brincalhão, para cima da

cama. Tirei a cueca enquanto ela se apoiava nos cotovelos e erguia o corpo para me olhar de cima a baixo. O

ar de brincadeira que pairava no ambiente se desfez quando olhamos um para o outro. Não havia ninguém no

mundo que eu quisesse mais que aquela mulher e ela estava finalmente ali, na minha cama, me querendo…

Engatinhei por cima da cama até ela e nossas peles colidiram. Ela estava quente e macia. Era mais

gostosa ao tato do que qualquer coisa que eu já tinha conhecido. Enquanto nos encarávamos, senti a conexão

que havia entre nós. Quando nos beijamos, a ligação se intensificou. Minhas mãos percorriam seu corpo e

meus lábios seguiam o mesmo caminho. A sensação de estar conectado e de ser um só com ela aumentava a

cada novo lugar em que eu a tocava. Minha boca vagou pelo espaço entre as suas pernas, e eu provei o desejo

dela por mim. Era tão fantástico quanto o resto. Ela gritou e seus quadris se moveram contra a minha boca

quando ela murmurou meu nome.

Puxando-me um pouco mais para cima e quase se ajoelhando em seguida, ela passou os dedos sobre os

meus músculos e seus lábios me cobriram de beijos suaves. Recostei-me, enquanto sua boca descia pelo meu

corpo. Apertei os lençóis quando ela passou a língua ao redor da ponta do meu pênis. Eu me senti prestes a

explodir. Já não aguentava mais. Precisava estar dentro dela.

Virei-a de costas na cama e me lancei dentro dela com força. A sensação de preenchê-la por completo me

surpreendeu. Olhávamos um para o outro com as bocas abertas, respirando de forma ofegante, enquanto ela

emoldurava meu rosto com as mãos e passava o polegar na minha bochecha. Eu nunca tinha sentido tanto

calor durante o sexo. Só quando eu comecei a remexer os quadris, já dentro dela, foi que percebi que não

tinha colocado preservativo algum. Essa era minha regra principal e eu a tinha quebrado. Considerei a

possibilidade de parar tudo e colocar uma camisinha, mas ela sussurrou meu nome novamente com tal

adoração que eu não podia fazer isso. Está​vamos finalmente livres, e eu não queria que coisa alguma se

colocasse entre nós novamente. Ela era minha e eu queria deixar uma parte de mim dentro dela.

Começamos a nos mover em sintonia total, de forma tão perfeita que parecia a nossa milésima vez, e não

a primeira. Quando fortes sensações circularam através do meu corpo como foguetes, torci para que aquela

fosse a primeira de milhares de vezes. Torci para aquilo nunca terminar. Nossos movimentos eram lentos no

início, mais prazerosos do que determinados. Foi então que Kiera puxou meus quadris com força e murmurou:

– Mais depressa! – Eu acelerei, sentindo a intensidade aumentar enquanto o fazia. Não pude conter os

ruídos que me saíam dos lábios. Nunca tinha sentido nada tão bom. Kiera parecia igualmente estupefata. Seus


gemidos suaves eram muito mais estimulantes do que os berros de qualquer das mulheres barulhentas que eu

já tinha levado para a cama. Elas bem que poderiam aprender um ou dois segredos com Kiera.

Senti meu orgasmo chegando e queria desesperadamente aquilo, embora ao mesmo tempo não quisesse.

Gozar dentro de Kiera seria o céu e o inferno. Céu pela pura felicidade que aquilo representava; inferno

porque todas as sensações cessariam quando acabássemos. Kiera agarrou minha cabeça com força, me puxou

para mais perto dela e seus gritos aumentaram. Ela estava quase gozando. Eu também estava quase… Porra,

aquilo realmente ia acontecer!

Senti a parte baixa da minha barriga se contorcer e o esperma sair de mim num jorro de prazer rítmico

que percorreu todo o meu corpo. Kiera ficou mais rígida debaixo de mim e gritou ao mesmo tempo, enquanto

cavalgávamos o orgasmo juntos. Eu nunca tinha gozado exatamente no mesmo instante que uma garota. Isso

intensificou o momento para mim. Senti como se não fosse acabar nunca de ejacular. Quando finalmente o

jorro começou a diminuir, olhei fixamente para Kiera. Ela também olhou para mim; eu quase fui esmagado

pela emoção que vislumbrei em seu rosto, e também pela emoção que senti no coração. Eu nunca tinha

experimentado nada assim. Aquilo foi além de toda expectativa e de toda a razão. Foi algo que me mudou. Eu

nunca mais seria o mesmo depois daquele momento. Nós dois nunca mais seríamos os mesmos depois

daquilo.

Olhando um para o outro, continuamos com a respiração descompassada até nossos corações abrandarem.

Eu me removi suavemente de dentro dela e então a envolvi em meus braços. Achava que dançar com ela era

melhor do que fazer sexo. Estava errado. Nossa… Muito, muito errado. Dançar não chegava nem perto do

sexo. Pelo menos, não do sexo com ela.

Kiera apagou assim que nos sentimos relaxados. Eu a segurei bem apertado, saboreando o calor que

sentia com ela em meus braços. Observei-a dormindo durante um longo tempo. Era tão bom abraçá-la, sentir

sua pele contra a minha e sentir sua res​piração leve me acariciando o peito. Eu me vi totalmente conectado a

ela naquele momento, e ela nem mesmo estava consciente. O tempo continuou a passar e então, no silêncio do

meu quarto, ela falou.

Kellan… – Foi pouco mais que um murmúrio. Meu coração batucou no peito. Tive certeza de que ela

acabara de acordar. O que eu poderia dizer a ela? O que ela diria para mim? Congelei, aterrorizado, mas ela

não disse mais nada.

Lentamente eu me senti relaxando aos poucos, na cama. Kiera ainda estava dormindo e pensava em mim.

Em mim. Fiquei surpreso, me senti nas nuvens por estar em seus pensamentos e me perguntei o que ela estaria

sonhando. Foi então que eu me senti mais leve que o ar, como se meu coração começasse a bater por outro

motivo. Ela dizendo meu nome e pensando em mim enquanto dormia quase me provocou um zumbido na

cabeça e um sacolejo maior que o do sexo. E eu soube, sem sombra de dúvida, que conseguiria dormir com

ela aninhada nos braços todas as noites da minha vida e me sentir completamente feliz. E esse pensamento me

assustou terrivelmente porque, ao mesmo tempo, entendi que eu ficaria absurdamente infeliz sem ela.

Então, o que será que Kiera e eu éramos, agora? Eu não fazia ideia. Não tinha a menor noção de coisa

alguma. Tudo que sabia era que por um longo tempo eu tinha gostado de Kiera de um jeito que não deveria. E

agora, naquela noite mesmo, fiz algo com ela que iria matar o meu amigo, caso ele descobrisse. Com o

relacionamento deles rompido ou não, Kiera deveria permanecer fora do meu alcance por causa dele. Eu

sabia disso e mesmo assim tinha trepado com ela. Eu era uma pessoa horrível.

Enquanto refletia sobre a palavra “trepado”, meu interior se agitou de aversão. Essa palavra não estava

certa. Não tínhamos simplesmente ficado bêbados e “trepado”. Eu, pelo menos, não tinha. A minha alma

participara por inteiro daquele ato. Estar com ela era tudo para mim. Ela era tudo para mim. O jeito como

gargalhava, a maneira como sorria, a forma como ouvia minha música, o jeito como olhava para mim, toda

cheia de compaixão, como se entendesse a extensão da minha dor, mesmo sem saber exatamente qual era.

Tudo nela me deixava sem fôlego.


Olhei para ela, ainda aninhada debaixo do meu braço. Sua boca estava ligeiramente aberta enquanto

dormia. Seus olhos se movimentavam, como se ainda estivesse no meio de um sonho. Eu queria tanto que ela

dissesse meu nome mais uma vez. Como eu queria que ainda estivesse pensando em mim. Torcia para

continuar dentro de sua cabeça, já que ela era a única coisa na minha mente. Queria protegê-la. Queria ajudála

a crescer. Queria o que ela compartilhava… com Denny.

Merda. Denny. Onde ele se encaixava em tudo aquilo? Eu, de forma egoísta, o tinha chutado para fora de

campo para poder pegar o que eu queria. Tinha traído o único pedido, a única promessa que fizera para ele.

Uma onda de culpa me inundou, enquanto meu cérebro se acomodava de volta à realidade, e não pude deixar

de pensar nas muitas vezes que ele esteve ao meu lado, me apoiando… Eu era um filho da mãe. Ele nunca me

perdoaria por isso. Eu ia acabar perdendo a sua amizade. E para quê? Será que Kiera ao menos se importava

comigo?

Quase como se tivesse ouvido meus pensamentos, Kiera se afastou de mim. Ela virou de bruços e um frio

tomou conta de mim com a sua ausência. Meus olhos passearam sobre suas costas nuas; sua pele era suave,

cremosa, perfeita. Ela era toda perfeita. Considerei a possibilidade de puxá-la para dentro dos meus braços

novamente, mas minha mente começou a girar, e agora ela estava mais agitada que nunca. Eu não conseguia

controlar os múltiplos pensamentos dissonantes que se batiam uns contra os outros no meu cérebro. O que eu

tinha acabado de fazer?

Você acabou de fazer sexo com a mulher que esteve dentro de sua mente a cada segundo de cada dia;

uma mulher que está apaixonada pelo seu melhor amigo; um amigo a quem você deve tudo; seu melhor

amigo, que você acaba de esfaquear pelas costas ao dormir com “o amor da sua vida” cinco segundos

depois de eles terem terminado. Foi isso que você fez.

– Cale a boca – murmurei para mim mesmo. Eu não desejava perder o momento de euforia para permitir

que a realidade penetrasse. Tudo que queria era me debruçar sobre o sentimento que batucava em minhas

costelas e vibrava dentro da minha cabeça. Eu me senti completamente bêbado ali, ao lado de Kiera, mas não

era o álcool que fazia com que eu me sentisse assim. Não, não era a tequila que tornava meu peito mais leve e

minha cabeça zonza. Não era o álcool que me inflava a alma com aquela necessidade de sorrir, gargalhar e

apertar Kiera com mais força. Eu estava completamente embriagado, sim… Por ela.

Mas será que isso significava alguma coisa para nós? Será que, ao menos, havia um nós? Ou ainda

éramos apenas ela e eu? Pessoas completamente separadas?

O lençol estava quase nos pés de Kiera, expondo a maior parte do seu corpo. Quis me inclinar e pousar

beijos entre suas omoplatas, descansar minha bochecha na parte inferior das suas costas, puxá-la mais para

perto do meu corpo. Mas estava com medo de acordá-la. O que diria quando recuperasse a consciência? Que

o que tinha feito fora um erro? Que ela ainda estava apaixonada por Denny? Que iria sair da minha casa? Ou

será que… Será que ela diria o impossível? Que se importava comigo e queria ficar junto de mim?

Não, isso era altamente improvável. Nenhuma mulher com quem eu tinha dormido na vida se importava de

verdade comigo. Não desse jeito. Muito provavelmente, o que aconteceu foi que Kiera estava triste e eu a

animei um pouco. Fim da história

Só que… O jeito como ela me olhava, às vezes! A forma como me abraçava. A maneira como beijava

meu rosto e depois enrubescia. Eu não conseguia tirar isso da cabeça. Eu não conseguia tirá-la da cabeça.

Em nenhum momento. Ela estava sempre na minha mente. Por Deus, eu só queria que ela se importasse

comigo. Não queria ser o único a ter aquele sentimento. Eu gostava dela muito. Eu a amava demais.

Uau… Pode parar, cacete! Eu a amava? Será que eu sabia ao certo o que isso significava?

Pulei para fora da cama como se alguém tivesse jogado um balde de água gelada em mim. Felizmente,

Kiera não se mexeu quando eu arranquei meu braço debaixo dela. Acho que estava realmente apagada.

Eu a amava? Amava. Prova disso: eu não conseguia viver sem ela e não queria mais ninguém, certo?

Merda, tudo parecia tão perfeito. Mas eu não poderia estar apaixonado por ela de verdade. Poderia?


Merda.

Parando o meu vagar incessante de um lado para outro, me virei para olhar Kiera na cama. Ela parecia

tão bem esparramada sobre os meus lençóis. Senti que começava a ficar excitado novamente só de observála.

Puxa, o que eu não daria para deslizar de volta para a cama junto com ela. Eu a envolveria com os braços

e a beijaria gentilmente até acordá-la. Daria qualquer coisa para fazer sexo com ela de novo. Só que sóbrio,

dessa vez. Eu levaria mais tempo para explorá-la. Para apreciar cada centímetro do seu corpo. Eu… eu faria

amor com ela. Puxa, aquilo me soou estranho, mesmo em pensamento. Eu não tinha certeza do que significava

esse conceito, certo? Fazer amor? Era tudo o mesmo ato. Eram os mesmos movimentos. Sexo era sexo, qual

era a diferença? E por que construir a frase daquele jeito fazia o meu estômago se apertar tanto que eu sentia

como se estivesse bagunçando de vez minhas entranhas?

Porque você está apaixonado por ela, seu idiota.

O luar sendo filtrado pela janela destacou sua bunda, o cume que surgia além da parte inferior das suas

costas. Deus, como eu amava aquele cume. Havia algo sobre esse ponto que era insanamente erótico para

mim. A forma como a luz atingia a pele ali, acentuando uma área e escurecendo outras… era quase como se a

lua estivesse acariciando-a. Isso me provocou ciúmes. É mole?!… Eu já estava com ciúmes da porcaria da

lua! Precisava cair fora daquele quarto para conseguir me recompor.

Virando-me de costas para ela, fui quase correndo até minha cômoda. Abri com força a gaveta de cima e

peguei uma cueca limpa. Depois de vesti-la, fechei a gaveta com mais barulho que o necessário. Voltei a

olhar para Kiera, mas ela continuava fora do ar.

Por que estou tão zangado?

Porque você a ama e não é bom o bastante para Kiera. Ela nunca vai amar você, e é claro que você

sabe disso. Você foi impossível de amar desde que nasceu.

Engolindo em seco, eu me virei e vasculhei em outra gaveta para encontrar um jeans. Sim, tudo isso era

verdade, mas… talvez eu pudesse convencê-la a me dar uma chance, não é? Ela não precisava me amar de

volta, mas talvez conseguisse realmente… gostar de mim ou algo assim, não? Talvez pudéssemos arriscar um

relacionamento. Eu sabia que seu coração obviamente ainda pertencia a Denny, já que os dois tinham acabado

de terminar, mas se eu dissesse a ela que a amava, talvez… talvez ela aceitasse pelo menos tentar ficar

comigo durante um tempo. Um tempo com ela seria melhor que nada. Eu quase não podia acreditar que Denny

tinha realmente ido embora, que ele realmente tinha preferido ficar com o seu trabalho, em vez de ficar com

ela.

Fechando o zíper da calça, olhei para ela com um desejo despudorado. Ela estava sozinha. Será que ficar

comigo não seria melhor do que ficar sozinha? Não… talvez ela preferisse permanecer sozinha a ficar

comigo. Eu não era exatamente o homem mais fácil de uma mulher amar. Mas se eu dissesse que a amava e

que só queria estar com ela, talvez ela se sentisse confortável o suficiente comigo para dizer “tudo bem”.

Irritado, tornei a me virar para procurar uma camisa. Tudo bem, agora como, diabos, eu poderia fazer isso

sem parecer um mané patético? Como, merda, eu poderia lhe dizer que a amava? Eu mal consegui aceitar as

palavras. A raiva se apoderou novamente de mim quando enfiei uma camiseta sobre a cabeça. Eu não saberia

como fazer isso. Não saberia como ser aberto e honesto. Não saberia como deixá-la entrar na minha vida. Eu

poderia me oferecer a centenas de garotas, uma diferente a cada noite, e isso não me incomodava nem um

pouco. Mas, agora, abrir o jogo todo com ela… estava me apavorando mais que qualquer coisa.

Eu precisava dar o fora dali. Não conseguia raciocinar direito estando no mesmo quarto que ela. Porra, eu

não conseguia raciocinar nem com ela na mesma casa. Calcei os sapatos e saí na ponta dos pés para fora do

quarto. As roupas de Kiera estavam espalhadas por toda parte. Aquela casa me sufocava. Eu precisava pegar

um pouco de ar fora dali. Agarrando as chaves na bancada da cozinha, fiz uma pausa para analisar as

evidências do nosso encontro… minha camisa no chão, uma garrafa de vinho vazia, tequila derramada por

toda parte, fatias de limão espremidas, copos vazios. Tanta coisa tinha mudado em tão pouco tempo.


Eu quase conseguia, ainda, ouvir os gemidos de êxtase que Kiera emitira enquanto olhava atentamente

para o aposento onde tudo tinha começado. Girando o corpo, saí de lá o mais rápido que pude. Limparia tudo

mais tarde, quando voltasse para dizer a Kiera tudo que ela significava para mim. Eu limparia as coisas

depois. Consertaria tudo, de algum jeito.

Fugindo de casa, corri para o meu carro. Rastejando para dentro dele eu respirei fundo, numa inspiração

profunda, de limpeza. Eu sabia que estava sendo um covarde, que deveria marchar de volta para dentro de

casa e voltar para a cama com a mulher que eu amava, mas, porra!… Só de pensar nisso minha cabeça já

formi​gava. Eu não poderia realmente amá-la, certo? E ela poderia me amar? Eu era valente o bastante para

descobrir?

Enquanto observava a casa para captar sinais de movimento, girei a chave do carro. Nada aconteceu lá

dentro quando liguei o motor. Ela provavelmente ainda estava dormindo ou, mais precisamente, desmaiada.

Eu deveria ficar e me certificar de que tudo estava bem. Ela tinha bebido muito, e muito depressa; poderia

passar mal quando acordasse.

Ao pensar nessa possibilidade, engrenei a ré. Queria ficar, mas não conseguia. Eu simplesmente não

conseguia.

Saí pela rua sem saber para onde ia. Sabia apenas que precisava dirigir. E precisava pensar. Antes de

perceber, eu estava dirigindo na direção de uma cidade próxima de Seattle: Olympia. Talvez fosse melhor eu

simplesmente seguir em frente, certo? O que haveria para mim lá atrás? Uma garota que eu não poderia ter e

da qual eu não conseguiria ficar longe. Mas talvez eu pudesse tê-la. Por mais improvável que aquilo

parecesse, eu jamais descobriria se fugisse.

Grunhindo de frustração, girei o volante no último segundo para sair da autoestrada. Dirigi pela cidade

vizinha até achar um restaurante que funcionasse vinte e quatro horas por dia. Uma garota da minha idade me

cumprimentou com um sorriso brilhante.

– Uma pessoa ou duas? – quis saber ela, olhando atrás de mim para ver se eu estava sozinho ou não.

Essa era a grande pergunta do dia, não?

– Uma – murmurei, me sentindo muito sozinho quando a palavra ecoou em minha cabeça.

– Ótimo! Siga-me. – A garçonete me levou até uma mesa próxima, perguntou se eu queria café e saiu para

pegar um bule quando eu disse que sim. Ela me pareceu muito feliz ao ver que eu estava sozinho. Mas eu não

estava.

Devia voltar para casa.

Enquanto eu debatia comigo mesmo sobre as possibilidades de Kiera se importar comigo, a garçonete

voltou com café e uma fatia de torta; o recheio de frutas vermelhas cheirava muito bem. Ela colocou tudo na

minha frente com uma piscadela brincalhona.

– Essa é por conta da casa – brincou. Eu não estava no clima para flertar, então lhe dei um simples

“obrigado” em troca.

Fiquei no restaurante por algum tempo, bebendo uma xícara de café que nunca acabava e remexendo a

torta no prato. Com um sorriso esperançoso, a garçonete foi embora quando o seu turno terminou, mas eu

fiquei no mesmo lugar. Continuei ali até bem depois do nascer do sol, e só então percebi que era hora de ir

para outro lugar. Depois de pagar a conta, fiz meu caminho de volta para casa na maior lentidão possível.

Suspirei longamente quando a silhueta de Seattle surgiu na estrada mais uma vez. Eu já sabia o que

precisava fazer. Tinha de me sentar e levar um papo sério com Kiera. Precisava dizer a ela que, ao longo das

últimas semanas, quando tínhamos ficado só nós dois em casa, eu tinha me afeiçoado muito a ela. Eu me

preocupava com ela, muito mais do que me preocupava com qualquer pessoa, e queria que ela fosse minha.

Porque estava de cabeça virada, completamente de quatro, do tipo “vou até o fim do mundo por você”,

apaixonado por ela na base do “até que a morte nos separe”. Caraca, como eu era idiota!


Peguei uma saída da autoestrada que levava ao centro. Ainda não estava pronto para voltar para casa; de

qualquer modo, Kiera provavelmente continuava dormindo como uma pedra. Eu daria a ela uma chance para

acordar e se recuperar antes de bombardeá-la com meus sentimentos patéticos e não correspondidos.

Descendo em direção à água, achei um lugar para parar junto ao cais e paguei para estacionar ali durante o

dia todo, só por garantia. Saltando do carro, inalei o ar fresco do meio da manhã e decidi dar uma caminhada.

Isso iria limpar minha cabeça e me acalmar. Só então eu estaria pronto para enfrentá-la e encarar meus

medos. Tinha certeza disso.

Andei durante horas. Cobri tantos quilômetros que meus pés começaram a doer. Mas essa dor ainda era

melhor do que ouvir Kiera dizer que não sentia por mim o mesmo que eu sentia por ela. Eu não podia suportar

a ideia de que o que havia entre nós era uma via de mão única. O jeito como ela me acariciou na noite

passada, e depois me beijou… Ela só podia gostar de mim. Era a única opção.

Quando o sol já estava baixo no céu, percebi que era hora de enfrentar tudo como um homem, ir para casa

e resolver aquilo. Porra. Eu queria puxá-la para dentro dos meus braços, abraçá-la, beijá-la, dizer-lhe que eu

estava arrependido por ter vazado e tê-la deixado sozinha de manhã; em seguida eu lhe diria que a amava. Era

isso que eu queria fazer. Também era o que eu não queria fazer.

Meu coração martelava o peito quando eu me aproximei da minha rua. Foda-se, eu realmente tinha de

fazer isso. Eu ia colocar tudo para fora, jogar meu coração aos pés dela e torcer para que ela não o

despedaçasse em mil fragmentos. Ela poderia me destruir… ou dizer que sentia o mesmo, e minha vida

poderia mudar completamente. Foi essa possibilidade que me fez ir em frente.

Tive de expirar com força pela boca várias vezes ao entrar na minha rua. Era isso. Tudo ou nada.

Quando minha casa apareceu, notei algo que fez meu coração despencar. O Honda tinha ido embora. Eu

tinha passado o dia me matando de preocupação e Kiera nem mesmo estava em casa. Onde diabos ela poderia

estar? Ah, era segunda-feira. Claro! Era seu dia de aula na faculdade, e depois ela devia ter ido direto para o

Pete’s. Pensei em sair pela rua novamente e ir direto para o bar, mas não podia fazer isso. Eu não conseguiria

colocar o meu coração e minha alma para fora dentro de um bar, com dezenas de pessoas nos observando.

Não, aquilo precisava rolar só entre nós dois. Em particular. Depois, nós analisaríamos tudo e decidiríamos

ficar juntos. Eu seria o seu namorado. Ela seria minha namorada. Um formigamento passou por dentro de mim

ao pensar nisso. Namorada. Eu nunca tinha tido uma namorada antes. Eu não podia esperar que Kiera

aceitasse ser a primeira. Por Deus, eu esperava que ela dissesse que sim.

Bocejei ao saltar do carro. Estava tremendamente cansado. O cheiro de álcool me atingiu em cheio no

instante em que eu passei pela porta de casa. Caraca! Eu ainda não tinha limpado a bagunça que tínhamos

feito. Mantive um sorriso no rosto o tempo todo enquanto colocava o lixo fora; a noite passada tinha sido o

máximo! No segundo em que terminei a faxina o telefone tocou. Torcendo para que fosse ela, atendi na mesma

hora, cheio de ansiedade.

– Alô…?

Kellan, onde diabos você está?

Franzi minha testa quando reconheci a voz do outro lado da linha.

– Matt? O que quer dizer com “onde eu estou”?… – Minha voz sumiu quando eu me lembrei que estava

atrasadíssimo para o nosso ensaio. Suspirando, prometi: – Estarei aí em vinte minutos.

– Ótimo! – foi tudo o que ele disse antes de desligar.

Olhei em volta da minha cozinha limpa e depois para a escada, com um ar melancólico. Eu queria muito

tirar um cochilo, mas isso teria de esperar. De qualquer jeito, talvez aquilo fosse bom. Eu provavelmente iria

dormir direto, não acordaria até amanhã de manhã e perderia a chance de conversar com Kiera. E eu queria

desesperadamente falar com ela ainda naquele dia. Tinha muita coisa para lhe dizer.


Capítulo 10

Tarde demais

Matt e Griffin brigaram mais que o habitual durante o ensaio, por isso a sessão não rendeu. Toda vez que

eles começaram a implicar um com o outro eu fechava os olhos. Em pé, junto do microfone, cheguei a

cochilar duas vezes. Eu estava mental e fisicamente esgotado. Quando Matt finalmente deu o ensaio por

encerrado e Griffin murmurou “Graças a Deus… vamos beber”, eu senti um imenso alívio. Isto é, até entrar

no carro e refletir sobre o que iria dizer para Kiera.

Eu tinha repassado as possibilidades milhares de vezes na cabeça, mas não descobri uma boa maneira de

dizer a ela como eu me sentia. Quem sabe eu poderia escrever uma letra? Ou lhe fazer uma serenata? Por

Deus, não, seria patético.

Depois que os rapazes saíram para o Pete’s, coloquei a cabeça no banco e fechei os olhos. Precisava de

algo bom, algo sincero, algo real, para ela saber que eu falava sério, que não queria brincar com ela, nem

bagunçar sua cabeça ou tentar ser o playboy que as pessoas achavam que eu era. Eu só queria estar com ela.

Quando abri os olhos tinham se passado várias horas. Droga. Eu tinha caído no sono. Liguei o Chevelle e

fui para casa. Curiosamente, o carro de Kiera estava estacionado na porta. Achei que ela ainda estaria

trabalhando, mas aquilo era bom. Eu poderia falar com ela agora mesmo, em vez de esperar até mais tarde.

Só que agora que eu estava realmente ali e tudo começava finalmente a acontecer, meus nervos voltaram a se

manifestar. Dei passos curtos e incertos até a porta de entrada, sem ter certeza do que iria fazer ou dizer. Eu

tinha de pegar leve. Precisava ouvir sobre a dor dela por causa de Denny, tinha de ser útil e compreensivo,

para depois lhe oferecer suavemente uma alternativa para o seu sofrimento. Certamente ela iria querer uma

alternativa, correto?

Segurei a respiração quando abri a porta da frente. Tornei a fechá-la sem fazer ruídos e deixei escapar um

longo suspiro. Olhei para a sala de estar e para a cozinha, mas Kiera não estava lá. Andando até a escada,

abri a boca para chamar pelo nome dela, mas ouvi algo estranho e congelei, escutando com atenção. A

princípio, me pareceu que Kiera estava assistindo à tevê, mas… se ela estava, aquele era um dos filmes

preferidos de Griffin. Sons claros de sexo flutuaram para baixo, pelos degraus, até onde eu estava. Arquejos e

gemidos, uma cama rangendo. Em seguida, ouvi claramente Kiera gritar. Como já tinha ouvido aquele som

antes, sabia que não era um filme. Era de verdade. Ela estava trepando com alguém… naquele exato

momento.

Totalmente arrasado, me afastei da escada. Eu não conseguia compreender o que estava acontecendo.

Aquela não era Kiera. Ela não era o tipo de garota que levava algum estranho a reboque ao voltar para casa.

Só podia ser alguém que ela conhecia. Mas quem ela conhecia em Seattle, além de mim? Talvez um colega da

faculdade? Mas ela estudava lá fazia pouco tempo, e eu simplesmente não conseguia acreditar que ela faria

isso comigo. Que ela faria isso com… Denny. Porra. Denny.

Meus olhos voltaram para a poltrona da sala de estar. Uma jaqueta estava largada no encosto dela;

algumas malas estavam bem ao lado da jaqueta de Denny. As malas de Denny. Então… Denny estava em casa.


Ele estava ali, na minha casa, trepando com a garota com quem eu tinha acabado de fazer amor. A minha

garota. Não… a namorada dele.

Ela sempre tinha sido dele. Ela estava chateada ontem à noite por causa dele. Ela se deixou ficar bêbada

por causa dele. Tinha transado comigo para esquecê-lo. Tudo aquilo tinha a ver com Denny. Eu não

significava nada para ela. Absolutamente nada. Kiera tinha me usado, assim como todas as outras piranhas

tinham me usado.

Eu ainda podia ouvi-los trepando no andar de cima. Não havia jeito de eu passar por aquele inferno, ficar

ali ouvindo aquilo. Não depois do que eu tinha curtido com ela. Não depois de descobrir o quanto eu a

amava. Porra. Uma dor apertou meu peito com força, tornando difícil respirar, difícil pensar, difícil fazer

qualquer coisa. Eu a amava tanto, mas ela não dava a mínima, cagava e andava para mim. Não me queria.

Ninguém me queria.

Eu precisava sair dali. Precisava fazer minha cabeça parar de girar. Eu precisava parar de pensar

naquilo. Fui até a cozinha, abri o armário em cima da geladeira e peguei uma garrafa de uísque. Precisava me

livrar daquela dor no peito. Precisava apagar, perder a consciência, e a bebida iria me ajudar a conseguir

isso.

Saí de casa, perguntando a mim mesmo se eu conseguiria algum dia voltar para lá. Não queria voltar. Não

queria nunca mais vê-la. Ainda mais porque seus lábios, seu corpo e os gemidos que ela fizera para mim

ainda estavam tão recentes na minha cabeça. Porra, ela realmente tinha me enganado. Eu tinha realmente

acreditado, por alguns minutos, que significava alguma coisa para ela. Como eu era burro!

Fiquei imaginando ela e Denny juntos, enquanto dirigia. Imaginei suas bocas pressionadas uma à outra,

suas mãos percorrendo o corpo um do outro. Eu o visualizei penetrando-a uma vez, outra, várias vezes sem

parar. E por ser um filho da puta doente, cheguei a imaginar os olhares em seus rostos quando eles chegaram

ao orgasmo juntos. Porra. Denny poderia estar gozando dentro dela naquele exato momento. Minha dor se

transformou em ciúmes quando eu imaginei o esperma dele sendo derramado por cima do meu. No momento

em que cheguei ao meu destino, a casa de Sam, meu ciúme tinha se transformado em raiva.

Aquela piranha escrota, puta, vagabunda!

Agarrando meu uísque, saltei do carro e bati a porta. Então tornei a abri-la e a bati com força mais uma

vez. Aquela bocetinha fodedora! A vadia tinha brincado comigo durante meses e finalmente conseguiu que eu

a comesse, mas na mesma hora voltou para ele como se eu fosse um merda qualquer. Como se não fôssemos

nada um para o outro. Ela era a maior puta que eu conhecia. E olha que eu conhecia um monte de putas.

Caminhei até a entrada da casa de Sam e comecei a tomar goles longos da garrafa, dois ou três seguidos.

Eu ia esvaziar aquela porra de garrafa e me deixar cair na bosta do esquecimento. Assim, a raiva iria acabar.

Em seguida, o ciúme se dissiparia. E a dor iria passar. Engasguei com a bebida duas vezes, mas continuei

forçando o uísque para dentro da goela. Não conseguia tirar aquela dor do peito. Não conseguia lidar com a

forma como cada músculo do meu corpo estava retesado. Tremia muito e senti que talvez acabasse

vomitando. Por que eu tinha de me preocupar com ela? Por que ela teve de fazer aquilo comigo? Por que não

podia simplesmente me amar do jeito que eu a amava?

Continuei bebendo até que finalmente o meu corpo rejeitou o álcool. Enquanto estava ali, inspirando e

expirando lenta e profundamente, ouvi uma voz explodir:

– Que porra é essa? – Sam estava em casa. Ele chutou minha bota. – Kellan, é você? Que diabos está

fazendo aqui? Você… Você vomitou em cima das minhas rosas? Droga!

Sam suspirou e me ajudou a entrar no carro dele. Sem se mostrar nem um pouco cuidadoso, me empurrou

para dentro do veículo. Eu mantive os olhos grudados em seu porta-luvas. Se eu não me mexer muito, talvez

não me sinta tão enjoado. Sam entrou do lado, diante do volante, e eu quis dizer a ele para não me levar para

casa.


Leve-me para Evan, me leve até a casa de Matt, só não me leve para a minha casa. Eu estava errado

sobre ela. Eu estava errado sobre tudo.

Mas ele não deu ouvidos ao meu pedido mental e foi na porta da minha casa que eu acabei chegando. Sam

abriu a porta do meu lado e me ajudou a saltar. Minhas pernas pareciam feitas de borracha; ele tinha que me

escorar para me manter em pé. Conseguimos chegar até a porta e Sam começou a bater nela com força. Fiquei

imaginando qual dos meus roommates iria atender a porta. A garota que eu tinha acabado de comer, ou o cara

com quem ela acabara de trepar? De um jeito ou de outro, eu era quem estava fodido.

Como o destino é assim mesmo, foi Kiera quem abriu a porta. Eu não estava olhando para ela, mas dava

para dizer que era ela pelos seus pés. E pelas pernas. E pelos quadris. Aqueles quadris sensuais e sedutores.

Pena que as pernas e os quadris se abriam para todo mundo que quisesse entrar. Vagabunda!

– Acho que isso pertence a você – afirmou Sam quando começamos a caminhar para dentro de casa. Eu

quis protestar ao ouvir essas palavras. Eu não significava coisa alguma para ela. Esse era o problema. Sam

me levou para a sala de estar sem a menor cerimônia e me largou sobre a poltrona. Eu caí para a frente, meio

torto, porque isso foi tudo que eu consegui fazer…

Dormi pessimamente, me joguei de um lado para outro, tornei a virar de barriga para cima e meu estômago se

contorceu; juro que meu corpo estava vibrando. No entanto, nada naquela dor física se comparava com as

imagens que passaram pela minha mente. Vi Kiera e Denny em toda a sua glória do tipo “amo você para

sempre”. Eu os assisti fazendo amor mil vezes, sem parar. Vi o rosto dela quando ele a deixou à beira de

gozar mais uma vez. Ouvi os dois sussurrando seus sentimentos um pelo outro. Era tortura pura, mas a coisa

ficava ainda pior quando eu repassava mentalmente o filme de mim e Kiera juntos. Minha cabeça percorreu

todo o encontro, tentando encontrar um momento que me pareceu descaradamente falso ou forçado. Não

consegui encontrar um único segundo em que Kiera não estivesse total e completamente focada no lance. Não

descobri nada naqueles momentos que não tenha me parecido genuíno, mas sabia, no fundo do coração, que

não era. Ela não tinha curtido um sexo gostoso comigo; simplesmente resolvera colocar um Band-Aid sobre

uma ferida.

Desistindo do sono que não estava vindo, me sentei na cama. Minha cabeça late​java e minha garganta

estava completamente seca. A última coisa da qual eu lembrava claramente era Sam me levando para casa de

carro… e Kiera. Ela estava acordada e tinha atendido a porta. Eu não conseguia me lembrar muito depois de

Sam me largar na poltrona, mas ela devia ter me ajudado a chegar lá em cima e me colocado na cama. Por

que diabos ela faria isso?

Minha cabeça quase doía demais para eu raciocinar. Olhando para o meu chão, vi minha camisa úmida e

me lembrei de ter entrado debaixo do chuveiro totalmente vestido. Merda… Kiera tinha me ajudado a tomar

banho. Depois, ela me limpou e me ajudou a voltar para o meu quarto… Por quê?

Então, tive uma lembrança cristalina de dizer para ela:

– Não se preocupe. Eu não vou contar a ele.

Mesmo arrasado eu soube, naquele momento, que ela estava sendo boa comigo para se certificar que eu

ficaria em silêncio. Bem, eu não precisava de suas falsas compaixões. Eu não ia contar a Denny porque não

tinha desejo algum de magoá-lo. Eu tinha sido inconsequente, apenas. Era uma ferramenta que ela usou

quando precisou consertar algo. Nada além disso. O martelo não reclama quando é esquecido no canto depois

de enfiar todos os pregos. E o martelo também não grita para a chave de fenda.

Olhei para a minha cômoda, mas ela estava longe demais, então eu me inclinei para pegar minha camisa

suja do chão. Pensei que eu ia perder o controle do estômago e vomitar quando me curvei, mas isso não foi

nada comparado com quando endireitei o corpo novamente. Com a camisa úmida ainda apertada entre os

dedos, inalei profundamente e expirei bem devagar. Eu precisava de água. E de café.


Enfiei o tecido por cima da cabeça; estava frio e a camisa ficou colada no meu corpo, me fazendo tremer.

Olhei para a calça jeans, mas nem por um cacete eu conseguiria vesti-la novamente. Eu ia ficar de cueca

mesmo, e os incomodados que se mudem. De qualquer forma, eles tinham interesses maiores do que a roupa

que eu estava usando. Eu não ia contar nada a Denny, mas me perguntei se Kiera faria isso. Se ela

confessasse, isso iria mudar as coisas entre mim e Denny. Ele me odiaria. E deveria mesmo me odiar. Eu

tinha feito exatamente o que ele implorara para eu não fazer. É que eu simplesmente achei que… Eu tinha

certeza de que Kiera…

Não importava mais o que eu tinha achado. Nada importava.

Lentamente, eu me endireitei. Cada centímetro do corpo me provocava uma nova dor, fisgada ou

desconforto. Eu não tinha certeza de como conseguiria chegar ao andar de baixo, mas do que eu precisava

estava lá, então tinha que tentar. Cada passo que eu dava era lento e metódico. Se eu me concentrasse nos

meus dedos dos pés, todo o resto não me pareceria tão ruim. Olhei para a porta fechada do quarto de Denny e

Kiera; em seguida, voltei o foco para os meus pés. Meus pés eram tudo que existia naquele momento. Meus

pés me ajudariam a enfrentar a manhã.

Eu me arrastei até a cozinha, olhei para a mesa e morri de vontade de simplesmente me deitar em cima

dela. Apenas por um minuto. Só até que a dor fosse embora e meu estômago se acalmasse. Com todo o

cuidado do mundo eu me sentei numa cadeira; já tinha visto velhinhos de noventa anos que se sentavam com

mais agilidade do que eu, mas senti uma breve trégua rolando entre meu estômago e minha cabeça, e não

queria interromper aquela bela aliança me movimentando rápido demais.

Quando finalmente me sentei, debrucei-me sobre a mesa com a cabeça nas mãos, e trabalhei a respiração.

Inspirar. Expirar. Repetir. A ideia do café estava em minha mente, mas eu ainda não queria tornar a me mover.

Pelo menos por enquanto. Só mais um minuto.

Eu não tinha certeza quanto tempo estive sentado à mesa, dando um tempo e respirando cuidadosamente,

mas de repente Kiera entrou na cozinha. Perfeito.

– Você está bem? – sussurrou ela.

Por que ela estava gritando?

– Estou – respondi.

Estou ótimo.

– Café? – ela perguntou.

Vacilei por um instante, mas logo aceitei.

Sim, por favor.

Café era o maior motivo de eu ter descido do quarto.

Ela começou a preparar o bule e eu tive de fechar os olhos. Tudo o que ela fazia era tão alto! Quando

terminou de me atormentar, ela perguntou:

– Como você soube que Denny tinha voltado?

Afundei a cabeça sobre a mesa e gemi. Meu cérebro pareceu latejar contra o meu crânio. Tudo doía. Até

mesmo sua pergunta.

Como eu soube? Porque eu ouvi vocês. Ouvi vocês dois trepando, logo depois de você trepar comigo.

– Eu vi a jaqueta dele – murmurei.

– Ah. – Senti meu coração despencar. Isso era tudo que ela tinha para me dizer? Ah? Pelo visto havia

mais, porque ela rapidamente acrescentou:

– Tem certeza de que está se sentindo bem?

Ergui a cabeça depressa e a fitei longamente.

Você fodeu comigo, e logo depois com meu melhor amigo. Eu amo você. Nada nessa história está bem,

então pare com essa merda de me perguntar isso.

– Estou ótimo – respondi, com voz fria.


Ela pareceu confusa com minhas palavras e ações. Eu era realmente tão difícil de entender? Ela era a

única pessoa difícil de entender, ali. Ela adorava Denny, mas olhava para mim como se eu fosse algo

especial. Enquanto ela continuava a preparar o café, pensei sobre Bumbershoot. Aquele dia tinha sido o

máximo! A maneira como tínhamos nos abraçado, o jeito como ela procurara o meu conforto. Era quase como

se Denny nunca tivesse existido. O que mudou? Ou será que ela estava me usando, já naquela época? Não, ela

se importava comigo… As conversas que tivemos, a maneira como ela ouvia a minha música, as minhas

letras, o jeito como ela penetrou na minha alma. Kiera tinha se importado comigo, sim. Talvez ainda se

importasse. Talvez estivesse dividida, confusa, sobrecarregada. Era bem possível que estivesse sofrendo, e

eu simplesmente não estava vendo.

Quando o café ficou pronto ela pegou duas canecas no armário. Com o coração nas mãos, arrisquei uma

pergunta que poderia levar a uma conversa muito difícil. Mas talvez fosse hora de termos uma conversa

difícil. Nós nunca conversávamos sobre nós dois. Tínhamos sempre ignorado as coisas que tinham

acontecido. Mas eu não podia ignorar aquilo. Precisava saber se eu significava alguma coisa para ela.

– Você está… bem? – perguntei. Essa era uma pergunta carregada, diria até idiota. Eu deveria ter feito

papel de homem e perguntado logo o que realmente queria saber.

O que eu sou para você?

Ela me deu um sorriso brilhante e alegre.

– Hum-hum, estou ótima.

Seu rosto e suas palavras confirmaram tudo que eu já sabia. Eu não significava porra nenhuma para ela.

Senti como se fosse vomitar ali mesmo, em cima da mesa. Coloquei os braços para baixo e enterrei a cabeça

neles. Ela estava ótima… E eu desejava nunca ter nascido. Senti os olhos cheios d’água, então voltei a me

concentrar na respiração. Eu não pretendia lhe dar a satisfação de ver a minha dor. Minha dor emocional,

pelo menos. Essa era só minha; ela não tinha direito a ela.

Eu a ouvi servir as canecas de café. Precisava me acalmar e reprimir os sentimentos que borbulhavam e

ameaçavam me devorar. Ela era de Denny, eu sabia disso. Ela me usara; eu estava acostumado com isso. Mas

eu conseguiria superar tudo aquilo. Precisava superar! Mas também precisava de ajuda. Mesmo que tivesse

exagerado nas últimas duas noites, precisava de álcool. Torcendo minha cabeça para que minha boca falasse

com clareza, eu disse para Kiera:

– Põe uma dose de Jack aí. – Ela sorriu para mim, como se achasse que eu estava brincando. Alguma

coisa em mim, naquele momento, parecia insinuar que era brincadeira? Ela estava me causando dor; eu queria

entorpecer essa dor. Algumas doses de Jack Daniel’s iriam resolver o problema. A é igual a B. O mínimo que

ela podia fazer era atender ao meu pedido.

Ergui a cabeça. Lutando para permanecer educado, disse a ela:

– Por favor.

Ela suspirou e murmurou algo que soou como “você é quem manda…”, e eu abaixei a cabeça. Não

precisava dela para entender, só precisava dela para obedecer.

Ouvi-a vasculhando o armário de bebidas sobre a geladeira. Não me mexi quando ela encontrou a garrafa

e a colocou na minha frente. Ela voltou em seguida com a caneca e a colocou na minha frente também.

Continuei sem me mexer. Depois de um segundo observando minha quietude, ela derramou um pouco de

álcool na caneca e começou a fechar novamente a tampa. Eu sabia que ela não iria derramar o bastante, nem

de longe; então, sem olhar diretamente para ela, tossi para chamar sua atenção e fiz sinal pedindo mais. Ela

suspirou, mas me atendeu.

Levantei a cabeça e, por força do hábito, murmurei com suavidade:

– Obrigado.

Obrigado por arrancar meu coração. Obrigado por me mostrar algo que eu nunca poderei ter.

Obrigado por parecer tão bonita esta manhã, isso me faz querer arrancar os olhos. Obrigado por não me


enxergar como algo além de uma liberação.

Kellan… – ela finalmente começou. Tomei um longo gole do café. Aqui vamos nós… – Ontem à noite…

– Ela olhou para mim enquanto eu olhava para ela.

Sim, naquela noite em que eu toquei cada centímetro do seu corpo, mergulhei minha língua dentro de

você, me lancei para dentro de você um monte de vezes até você gozar em torno de mim… essa noite? Ou

você está se referindo a outra noite, sem ser essa?

Ela limpou a garganta, parecendo muito desconfortável.

Se o sexo a deixa tão pouco à vontade, Kiera, talvez você não devesse estar fazendo isso.

Especialmente quando não pretende levar a coisa a sério.

Finalmente, ela murmurou:

– Eu só não quero um… mal-entendido.

Consegui sentir o sangue começar a ferver por dentro quando tomei mais um gole longo e lento de café.

Sério? Um mal-entendido? Ela resolveu usar minhas próprias palavras contra mim? Ia comparar o que

tínhamos feito com o que eu tinha feito com Joey? Nós tínhamos curtido uma rodada de sexo casual e ela

estava pedindo para nada mudar entre nós. Queria que nós voltássemos ao que éramos antes, para que ela e

Denny pudessem avançar rumo ao seu final feliz. Não, não havia mal-entendido algum. Eu não significava

coisa alguma para ela.

– Kiera… Não há mal-entendidos entre nós – eu lhe disse, com a voz sem expressão.

Não existe nada entre nós. Nunca existiu.


Capítulo 11

Agarrando-se à raiva

Denny desceu um pouco mais tarde; eu rapidamente me desculpei e saí de perto. Não conseguiria lidar com

Denny, pelo menos por enquanto. Mal conseguia lidar comigo mesmo. Ficava alternando entre raiva, culpa,

resignação e tristeza. Não tinha certeza de onde eu iria finalmente acabar. Exceto sozinho. Isso era

praticamente certo.

Rastejando até a cama, eu me enrolei como uma bola e tentei dormir um pouco, mas o sono estava esquivo

e ficou me evitando. Imaginei Denny e Kiera juntos no andar de baixo, felizes e rindo muito enquanto

trocavam esperanças, sonhos e planos para o futuro. Provavelmente estavam escolhendo a data do casamento

e nomes de bebês. Provavelmente iriam me pedir para ficar ao lado de Denny enquanto ele se casava com a

mulher que eu amava, e em seguida, me chamariam para ser padrinho de seu bebê pequeno e doce. Era uma

foda a minha vida!

Eu me perguntava se Kiera iria contar tudo a Denny antes de eles entrarem pela porta da igreja. Eu

deveria descobrir quais eram as intenções dela, para não ser pego de surpresa por algo inesperado… Os

punhos de Denny, por exemplo. Eu deveria, mas não queria conversar com Kiera. Sua alegria estava me

irritando. Ela não precisava exibir o quanto estava escrotamente feliz. Eu já tinha entendido. Denny a

completava. Vitória do Team Austrália!

Ouvi Denny sair de casa e logo depois percebi que Kiera se preparava para sair para a aula. Eu precisava

de um pouco d’água e mais ainda de um bom banho, mas não queria encará-la. Quando ela me deixasse

sozinho eu tentaria cuidar de mim mesmo.

Quando ouvi movimento junto da porta de entrada, percebi que ela já estava saindo. A faculdade ficava

muito longe, mas Denny tinha levado o carro e Kiera teria de pegar um ônibus. Mesmo que meu carro

estivesse em casa eu não iria levá-la para a aula naquele dia. Uma fisgada de dor me percorreu quando

percebi que dar carona e acompanhá-la até a sala todos os dias era algo que acabara. Eu tinha curtido muito

aqueles nossos momentos juntos. Só que não eram verdadeiros. Por que manter todo aquele faz de conta só

porque era bom, na superfície? Se ela não sentisse o mesmo que eu… de que serviria?

Desci vagarosamente até o andar de baixo quando ouvi a porta se abrir. A caminho da cozinha, olhei pela

janela e vi Kiera em pé, olhando para a calçada vazia. Será que ela já sentia falta de Denny? Ele não podia

ficar fora por cinco segundos sem ela se despedaçar? Caraca!

Ela se virou e me viu na janela olhando para ela. Fez menção de me dar um adeus, mas eu saí antes que

ela pudesse terminar o gesto inútil.

Não aja como você se importasse comigo, já que isso não é verdade.

Sozinho com meus pensamentos, comecei a viajar na maionese. Não conseguia parar de pensar em Kiera,

no que tínhamos tido e no que eu queria que tivéssemos no futuro. Pensei sobre Denny, sobre o nosso passado

e a nossa amizade. Um ato idiota e irrefletido tinha mudado ambos os relacionamentos. Se ao menos eu

tivesse sido mais forte e afastado Kiera para longe quando ela precisava de conforto, nada disso estaria


acontecendo agora. Mas eu fui fraco. Precisava dela. Tinha caído de quatro por ela. E agora, todos nós

iríamos pagar o preço.

Enquanto eu ainda estava recostado no sofá, esperando acalmar o cérebro preenchendo-o com imagens de

programas de tevê sem sentido, ouvi a porta da frente ser aberta. Eu não sabia se era Kiera ou Denny. Isso, na

verdade, não importava. Eu tinha ligado para Griffin algum tempo antes, pedindo uma carona para ir pegar o

meu carro. Ele chegaria em breve e eu poderia sair de casa. Talvez nem voltasse.

Como se nada estivesse diferente, Kiera entrou na sala e se sentou na poltrona em frente ao sofá. Olhei

para ela e voltei a assistir à tevê. Ela parecia bem, o cabelo mais cacheado, a maquiagem ainda fresca. Ela

era o oposto completo de mim. Parecia estar no topo do mundo ao passo que eu, em termos emocionais e

físicos, me sentia um merda.

Nós dois estávamos em silêncio, tipo ignorando um ao outro, quando Kiera perguntou, embaralhando as

palavras:

– De quem você aluga essa casa?

Mantive os olhos grudados na tevê.

Sério? É sobre isso que você quer falar?

– Eu não alugo. É minha – disse a ela.

Dava para ver que a curiosidade a corroeu.

– Ah. Mas como foi que você conseguiu comprar…

Ela parou de fazer a pergunta que parecia completamente inútil e aleatória. Por que você se importa?, eu

quis perguntar, mas não o fiz, pois isso poderia abrir a porta para uma conversa sobre nós, e eu não queria

tocar nesse assunto. Em vez disso, respondi à sua pergunta não formulada. Kiera ainda conseguia fazer com

que eu me abrisse, mesmo quando eu preferia estar fazendo outra coisa que não fosse falar com ela.

– Meus pais. Eles morreram num acidente de carro dois anos atrás. E me deixaram este… palácio. Filho

único, et cetera e tal. – Isso ainda me assombrava. Será que se importaram no final e se sentiam mal, ou tudo

era apenas outro erro em uma longa fila de erros?

– Ah… Sinto muito – disse Kiera, parecendo genuinamente culpada por trazer o assunto à tona.

– Não precisa – disse-lhe eu. – São coisas da vida.

Um monte de merdas acontecem e nada disso importa.

A curiosidade de Kiera ainda não estava satisfeita.

– Mas, então, por que você aluga aquele quarto? Quero dizer, se a casa é sua?

Abri a boca, mas fiz uma pausa antes de responder. Por um segundo, esqueci que tudo havia mudado entre

nós e me preparei para lhe dizer a verdade.

Eu não gosto de morar numa casa vazia. Gosto de companhia. Você e eu somos iguaizinhos, pelo

menos nisso.

Só que depois me lembrei que as coisas estavam diferentes e fechei a boca. Seu desejo de “nunca estar

sozinha” a levara a me usar como fonte de conforto. Eu tinha achado que ela era diferente, que nós éramos

diferentes, mas ela acabou me usando como todas as outras.

Meu coração tornou a endurecer, eu me virei de volta para a tevê e lhe disse uma mentira.

– Um dinheirinho extra é bem-vindo.

Talvez isso tenha sido a coisa errada a dizer para ela. Kiera se levantou e caminhou até o sofá. Sentou-se

ao meu lado, e meu corpo doeu com sua proximidade. Eu daria qualquer coisa para abraçá-la. Odiava ainda

me sentir daquele jeito. Por que não conseguia simplesmente desligar aquele sentimento?

Com uma expressão de arrependimento no rosto, ela me disse:

– Eu não tive a intenção de bisbilhotar. Me desculpe.

Bisbilhotar sobre o meu passado foi a coisa menos dolorosa que você fez, Kiera. Senti um nó na garganta

e engoli em seco.


– Não tem problema.

Só me deixe em paz. Por favor.

Mas ela não fez isso. Inclinou-se sobre o meu corpo e me deu um abraço. Fiquei rígido com o seu toque.

Não fazia muito tempo e eu ansiava por momentos como aquele. Tinha armado o maior esquema para fazer

tudo acontecer. Mas isso era quando eu achava que essas coisas importavam. Quando eu pensava que eu

importava. Ela não deveria mais me tocar daquele jeito. Não agora que seu namorado tinha voltado. Não

agora que doía muito eu sentir o que não poderia ter.

Fique longe de mim.

Ela recuou e seus olhos se arregalaram de choque, como se de repente entendesse que eu não estava

gostando de sua presença.

Por favor, me deixe em paz.

Olhei para algum ponto além, porque não queria explodir com ela. Não serviria de nada gritar, não era

bom eu ficar com raiva, e não havia razão para ela me tocar novamente.

Kiera desistiu do gesto. Com o rosto confuso, ela disse meu nome com um tom de pergunta clara.

Kellan…?

Eu precisava ficar longe dela e tentei me levantar do sofá.

– Com licença… – Minha voz era áspera e dura, mas pelo menos eu ainda consegui ser educado. Mas não

seria se ela continuasse se aproximando de mim com tanta indiferença, como se nada daquilo a incomodasse

nem um pouco.

Ela agarrou meu braço antes que eu pudesse ficar em pé. Um fogo intenso me queimou por dentro.

Pare de me tocar.

– Espera… Fala comigo, por favor…

Apertei os olhos com força ao fitá-la.

Tire a porra dessas mãos de mim e me deixe em paz. Pare de fingir que você se importa. Eu vejo

através de você e sei que você não dá a mínima.

– Não há nada a dizer. – Coisa alguma importava, de qualquer modo. Eu tinha muitas coisas para dizer.

Balançando a cabeça antes de explodir, quase mordi as palavras: – Tenho que ir. – Afastei a mão dela da

minha e finalmente me levantei.

– Ir? – reagiu ela, ainda sentada no sofá. Parecia confusa e desalentada. Aquilo era realmente tão

incompreensível para ela?

Estou apaixonado por você. Você se entregou a mim e logo depois correu de volta para ele. Você…

Me… Matou.

Saindo da sala, eu lhe disse:

– Tenho que ir pegar meu carro.

Tenho uma vida sem você. Você não é o meu mundo inteiro. Você é apenas a parte que eu mais amava…

Corri para o meu quarto, bati a porta com força, me apoiei contra a madeira fria e fechei os olhos. Droga!

Será que ela não podia ver o quanto me machucara? Por que ela não conseguia enxergar que eu a amava? Por

que não podia me amar de volta?

Diga a Denny para ir embora, Kiera… Fique comigo. Me escolha!

Só que isso nunca iria acontecer. Havia mais chance de meus pais voltarem de suas sepulturas e me

pedirem desculpas pelas décadas de abuso e negligência. Isso provavelmente me machucaria muito menos,

também.

Levei todo o tempo do mundo me preparando. Quando percebi que Griffin estava para chegar a qualquer

momento, desci a escada correndo para pegar meu casaco. Quase desejei que houvesse uma porta secreta que

me deixasse escapar de casa sem ser notado. Na boa, eu realmente não queria encarar outro confronto

estranho e doloroso com Kiera. Só que a sorte não estava do meu lado.


Kellan

Havia algo em sua voz que me fez olhar para ela na sala de estar. Tristeza, pânico, eu não tinha certeza.

Ela se levantou e caminhou até onde eu estava. Quase suspirei, sem forças. Queria lhe implorar que me

deixasse ir embora, lhe dizer que tudo que ela fazia só estava servindo para me magoar, mas eu não podia.

Não consegui resistir e deixei que ela se aproximasse de mim, mesmo sabendo que ia me machucar com

qualquer coisa que ela achasse que precisava me dizer.

Ela começou a corar, como se estivesse envergonhada, e baixou o olhar para o chão. Observei sua

expressão com curiosidade. Ela geralmente só olhava daquele jeito quando se sentia tola ou idiota. Era assim

que ela se sentia perto de mim, agora? Eu estava com o coração partido e ela estava aflita? O que será que

iria me dizer agora? Realmente eu não fazia a mínima ideia.

Sem erguer os olhos, ela murmurou:

– Eu lamento sinceramente pelos seus pais.

Ela levantou os olhos por um instante na minha direção e eu relaxei. Ela ainda estava preocupada com

isso? Aquilo não tinha sido nada. Água debaixo da ponte. Eles eram idiotas, mas tinham partido para sempre.

Fim da história. Mas meus pais eram um assunto sobre o qual muitas pessoas não conversavam comigo. Ela

ainda tentava me conhecer, tentava me entender, tentava se aprofundar. Por quê?

Você já me teve, Kiera; o que mais você quer agora?

Suavemente, eu lhe disse:

– Está tudo bem, Kiera.

Eu te daria tudo, se ao menos você quisesse aceitar.

Olhamos um para o outro por longos e silenciosos segundos. Eu queria que as coisas fossem diferentes.

Desejava que nosso tempo juntos tivesse sido diferente. Desejava significar mais para ela. Queria que ela me

amasse como eu a amava. Queria que meu coração não disparasse quando olhava para seus olhos. Desejava

que meus lábios não ardessem como fogo, querendo se pressionar contra sua pele. Mas desejar isso não

mudava nada.

Depois de mais um segundo de silêncio, Kiera se inclinou e beijou meu rosto. Isso queimou tanto que eu

senti como se ela tivesse me dado um soco. Desviei o olhar quando ondas de dor quase me puseram de

joelhos.

Por Deus… Por favor, pare com essa tortura.

Dei as costas para ela e fui em direção à porta. Eu precisava de espaço. E também da capacidade de

desligar as lembranças do cérebro. Aquela pequena demonstração de afeto estava me fazendo reviver cada

momento que Kiera e eu tínhamos compartilhado. Abraçados, rindo, eu fazendo-a corar, fazendo-a feliz,

fazendo-a gemer. Era demais tudo aquilo. Belisquei o alto do nariz e senti uma dor de cabeça que parecia

chegar com força total. Se eu conseguisse esquecer tudo do mesmo jeito que ela, aparentemente, tinha

esquecido, eu não iria mais sofrer tanto.

Griffin chegou e estacionou o carro. Caminhei até a porta do carona para entrar. Olhei para a casa e vi

Kiera me olhando da janela. Por que ela me observava com tanta atenção? Por que continuava tentando se

aproximar de mim? Por que não podia me deixar em paz? Por que eu não conseguia esquecê-la?

Balançando a cabeça para afastar todos esses pensamentos, entrei no carro. Eu precisava fazer alguma

coisa antes que aquela dor me consumisse.

A raiva parecia minha melhor opção. Quando eu estava revoltado com ela, a dor não parecia tão grande.

E estar zangado com Kiera era algo em que eu era bom. Não demorou muito para isso atiçar as brasas na

minha barriga e colocá-las em força total. Eu iria afastá-la para longe de mim sempre que estivéssemos

sozinhos. Iria obrigá-la a se manter distante de mim, já que ela não devia chegar perto mesmo, de um jeito ou

de outro. A partir de agora, eu iria ficar o mais longe dela quanto conseguisse. Raiva e rejeição. Era desse

jeito que eu iria sobreviver a tudo aquilo.


Quando ela desceu para o café na manhã seguinte eu me envolvi com uma muralha de fúria, como se

usasse uma armadura. Deixe que ela tente encontrar uma rachadura. Duvido que consiga! Recostando-me

contra a bancada, ergui a cabeça e ouvi sua aproximação. Eu conseguiria fazer aquilo. Eu poderia fechá-la do

lado de fora da minha vida e trancaria as portas do coração para afastar a dor. Ela não representava nada

para mim, assim como eu não era nada para ela. Nada daquilo representava porra nenhuma.

Quando ela entrou na cozinha, deslizei os olhos para ela e lancei-lhe um meio sorriso.

Bom-dia, piranha. Denny já sabe sobre nós dois?

– E aí? – ela sussurrou, claramente nem um pouco feliz com o meu olhar. Bem, eu estava cagando e

andando para ela estar feliz ou não.

– ‘dia – respondi, olhando-a de cima para baixo.

Está gostando do jeito como eu olho para você agora? Você queria a minha atenção… Pois então,

agora você a tem.

Ela pegou uma caneca e esperou a água começar a ferver. Seu rosto era de especulação. Será que ela se

perguntava sobre o que dizer para mim? Ela podia dizer o que quisesse que eu não me importava. Poderia me

desejar um bom-dia, ou poderia me mandar catar coquinho. Nada disso importava, e nada disso mudava o

fato de que ela era uma piranha de coração frio. Eu a odiava intensamente. Só que não… Eu não a odiava nem

um pouco. Nem mesmo a culpava. Eu também não iria me querer.

Deixei esse pensamento irritante de lado e foquei na minha ira. A raiva fez a dor ir embora. Raiva era

tudo que eu me permitiria sentir.

Quando o café ficou pronto eu me servi de uma caneca e depois ofereci o bule a ela.

– Gostaria que eu a enchesse? – perguntei, da forma mais grossa possível. Talvez Denny não estivesse

fazendo um bom trabalho. Talvez a prostituta precisasse de uma boa trepada naquela manhã. Eu estava apenas

cumprindo o meu dever cívico, oferecendo meus serviços.

É só para isso mesmo que eu sirvo, certo, Kiera?

Eu não passava de um vibrador ambulante. Isso é tudo o que eu era e tudo o que jamais seria.

Ela pareceu confusa e desconfortável com a minha pergunta. Seus olhos estavam quase num tom de verdefolha

naquela manhã. Impressionante. A beleza deles só serviu para me irritar ainda mais.

Pegue seus olhos incríveis e enfie-os naquele lugar. Eu não preciso deles. Nem de você.

– Hum… gostaria – ela disse, com a caneca estendida.

Quando enchi a caneca, prendi uma risada. Eu não podia acreditar que ela tinha mesmo dito aquilo para

mim. Acho que ela realmente queria que eu a fodesse.

– Creme? – perguntei, com ar sugestivo.

Você quer que eu goze dentro de você de novo?

– Quero, por favor – ela sussurrou, engolindo em seco, como se estivesse nervosa.

Não precisa ficar nervosa. Nós já fizemos isso antes. Sou apenas o seu brinquedinho, afinal. Não há

necessidade de você ter medo de um brinquedo.

Fui até a geladeira pegar o creme para ela. O creme que eu só continuava comprando por causa dela. A

cadela tinha se infiltrado em todos os aspectos da minha vida. Eu realmente odiava aquela porra.

Kiera parecia preferir estar em qualquer lugar que não fosse perto de mim quando eu voltei com o creme.

Segurei o pote no ar e deixei escorrer o líquido gosmento.

– É só dizer quando estiver satisfeita.

Meus olhos estavam fixos nos dela enquanto eu derramava o líquido.

Quer a porra verdadeira? Vou te dar isso de novo, também. Vamos apenas foder, dessa vez. Sem

emoções confusas, sem equívocos nem mal-entendidos. Apenas uma trepada de intensidade 10 na Escala

Richter. Tenho a sensação de que você seria muito boa nisso.

– Pare! – ela pediu, quase na mesma hora.


Inclinando-me mais para perto, sussurrei:

– Tem certeza de que quer que eu pare? Pensei que você gostasse.

Pensei que você gostasse de mim, mas estava errado… Estava errado sobre muitas coisas.

Ela engoliu em seco novamente e se afastou de mim. Suas mãos tremiam quando ela se atrapalhou com o

açúcar. Eu ri, apesar de nada daquilo ser engraçado.

Olhei para ela por um tempo, reconstruindo minha reserva de raiva antes de trazer para o papo um tema

sobre o qual eu não queria falar, mas para o qual queria uma resposta. Eu precisava saber o que esperar.

Precisava saber qual era o nosso plano. Ou o plano dela, já que eu era o seu show. Eu era apenas o seu

fantoche.

– Quer dizer que você e Denny… “voltaram”? – perguntei, apertando o estômago para passar o

desconforto ao pronunciar o nome dele.

Kiera corou muito.

– Voltamos.

Senti como se ela tivesse acabado de me dar um soco no estômago. Cheguei a fazer um esforço para não

me curvar para frente. A dor começou a surgir e tive que me obrigar a lembrar o quanto eu a odiava para fazer

aquilo parar.

Cadela trepadora.

– Simples assim… Sem maiores perguntas?

Ela parecia assustada com meu questionamento, como se achasse que de repente eu iria correr até Denny

para lhe contar tudo.

Desculpe, mas eu me preocupo de verdade em não feri-lo, então não vou dizer uma única palavra. Mas

não ficaria surpreso se você mesma contasse. Prostituta.

– Você vai contar a ele sobre…? – Fiz um gesto obsceno com os dedos. Essa era a realidade. Não

adiantava tentar pintar as coisas com cores mais bonitas.

– Não… é claro que não. – Ela desviou o olhar de mim, como se eu a tivesse ofendido. A verdade era

ofensiva? Sim, suponho que às vezes era. Voltando os olhos para mim, ela sussurrou: – E você?

Dei de ombros. Eu podia estar muito bêbado na hora, mas me lembrava de já ter respondido àquela

pergunta, e com sinceridade. Não era eu que iria magoar Denny. Essa era uma escolha dela. Tudo aquilo era

escolha dela.

– Não, eu disse a você que não iria contar. – Segurando firme a minha raiva, menti por entre os dentes. –

De um jeito ou de outro, não faz muita diferença para mim. Só estava curioso…

– Bem, não, eu não vou… e obrigada por não contar a ele… acho. – Ela pareceu surpresa com minha

resposta e minha indiferença. Por que eu deveria me importar com ela, se ela não se importava comigo? Eu

estava apenas nivelando o campo do nosso jogo. De repente a raiva dela surgiu. Estreitando os olhos ela

perguntou, quase cuspindo: – O que aconteceu com você na noite passada?

Sorrindo maliciosamente, como se eu não tivesse arrumado nada além de uma bela putaria, peguei meu

café e tomei um gole longo, enquanto pensava.

O que aconteceu comigo ontem não é da sua conta; se eu tiver a chance de escolher, você jamais

saberá o quanto eu fiquei estressado ao perceber que estive prestes a confessar que amava você, ou o

quanto me senti ferido quando você puxou o tapete debaixo dos meus pés. Você nunca vai saber qualquer

coisa verdadeira a meu respeito. Essa é a única forma com a qual eu posso punir você agora.

Ela foi embora depois disso, e eu a deixei. Não havia mais nada a dizer, mesmo.

Quando meu café acabou, fui para o meu quarto me esconder. Eu odiava estar me escondendo, mas não

queria mais ver Kiera naquele dia. Ainda dava para ouvi-la, o que já era ruim o bastante. Eu a ouvi rindo com

Denny antes de ela desaparecer no banheiro para tomar um banho. Deitei na minha cama enquanto ouvia a

água correndo, e as imagens de seu corpo nu rolaram pela minha mente. Eu odiava o filme que passava na


minha cabeça e desejei poder desligá-lo. Mas as lembranças dolorosas do que eu não poderia mais ter não

me abandonaram. Eu estava preso num inferno visual que eu mesmo tinha criado.

Assim que eu tive a chance de escapar dali sem que nenhum dos dois percebesse – porque eu também não

conseguiria lidar com Denny naquele momento –, caí fora e fui para a casa de Evan. Levei algumas coisas

extras comigo, pois não tinha planos de voltar para minha casa. Só queria ficar longe de lá por um tempo.

Queria estar em algum lugar onde eu não precisasse ver Denny e não tivesse de ficar sozinho com Kiera.

Passar algum tempo com os rapazes era uma ótima escapatória.

Quando eu apareci na casa de Evan com uma sacola de pano, ele levantou uma sobrancelha para mim.

– Você se importa se eu ficar aqui por alguns dias? – perguntei.

Como eu esperava, Evan deu de ombros e disse:

– Não. Posso perguntar por quê?

Percebi pelo brilho nos seus olhos castanhos que ele achava que aquilo tudo tinha alguma coisa a ver com

Kiera. E tinha mesmo! Exatamente o que o preocupava acontecera. Eu tinha escorregado feio. Era um sujeito

asqueroso. Mas Kiera também era desprezível, e eu não estava nem um pouco a fim de conversar sobre ela

com ele.

Colando na cara um sorriso despreocupado eu disse:

– É a volta de Denny. Ele ficou longe muito tempo, então eu pensei em dar ao feliz casal algum espaço

para respirar.

Minha voz estava um pouco tensa com as palavras “feliz casal”, mas Evan não pareceu notar. Ele também

estava muito empolgado por Denny ter voltado.

Eu sei, é uma grande notícia, não é? Agora você não precisa mais se preocupar em me ver ultrapassar

os limites com a namorada dele. Só tem um problema: desculpe estragar sua alegria, Evan, mas Denny

voltou um dia atrasado e já era tarde demais.

Apesar de conseguir evitar a minha casa por um bom tempo, não tive tanto sucesso para escapar do

Pete’s. Kiera poderia me fazer fugir de um dos dois lugares, mas não de ambos. De qualquer modo, era mais

fácil estar perto dela no Pete’s. Havia certa segurança no número de pessoas à minha volta. Não doía muito

vê-la quando eu estava cercado por meus companheiros de banda, pela equipe do bar e por dezenas de

mulheres que adorariam ter uma chance comigo. Mesmo que fosse só por uma noite. Já que eu só servia para

isso, mesmo.

Usei todas as oportunidades no Pete’s para me vingar de Kiera de formas pequenas e patéticas. Pegar no

dela ajudava a alimentar minha raiva, e essa raiva era a única coisa que me mantinha em pé ultimamente.

Se a raiva sumisse… Acho que a dor de perder Kiera ou, mais precisamente, a dor de nunca mais tê-la iria

me consumir. Como um jarro de plástico vazio jogado no fogo, eu desabaria lentamente sobre mim mesmo e

me dissolveria até virar um nada. Era por isso que eu alimentava minha raiva: para proteger minha sanidade.

Flertei com Rita no bar, agindo como se estivesse interessado em curtir mais uma rodada de transas com

ela. E me recusei a deixar que Kiera servisse minhas bebidas; ela pareceu ofendida por eu não permitir que

ela me servisse, mas ela já tinha me servido bastante. Dei corda para que Griffin se estendesse mais em suas

histórias sórdidas, histórias que poderiam ou não ter sido verdadeiras. Mas Griffin adorava ser muito

explícito quando as contava. Eu sabia que Kiera odiava ouvir aquilo, então me certifiquei de que ela não

tivesse escolha a não ser ouvir. Eu mesmo a arrastava para essas conversas sempre que conseguia.

Ela corava de vergonha quase toda vez que se aproximava de nossa mesa. Griffin amava deixá-la sem

graça, então nós dois nos divertimos muito. Só que eu acabei ouvindo um questionamento de Evan mais tarde,

em seu apartamento.

– Por que você anda pegando tanto no pé da Kiera?

Senti o sangue gelar nas veias quando olhei para ele. Eu estava deitado no sofá, já me preparando para

dormir. Evan estava no seu canto, lendo alguma coisa.


– Eu não estou pegando no pé dela.

Evan fechou o livro e se sentou na cama. Eu me encolhi mentalmente. Eu não queria ter aquela conversa,

não com ele.

– Está, sim. E anda fazendo papel de idiota. Por quê? Por que está fazendo isso? Numa boa, Kellan?

Suspirei mentalmente. Eu precisava voltar para minha casa no dia seguinte, para que Evan não ficasse

desconfiado. Joguei os braços para os lados.

– Não estou fazendo nada. Só estava me divertindo um pouco com Griffin. Estava mais pegando no pé

dele do que outra coisa. Ele é um idiota completo e noventa por cento das histórias que conta são falsas.

Evan riu.

– Sim, isso é verdade. Mas acho que Kiera não saca nada disso, então você devia pegar um pouco mais

leve com ela.

Abri um sorriso brilhante quando coloquei o braço sobre os olhos.

– Sim, tudo bem. Eu não estava tentando fazê-la ficar desconfortável ou algo desse tipo. – Só infeliz.

Como eu.

Na manhã seguinte eu voltei para casa. Desde que Kiera e eu não nos olhássemos, nos falássemos, nem

ficássemos em lugar algum perto um do outro, estar em casa seria quase a mesma coisa que estar na casa de

Evan. Tudo daria certo, numa boa.

Abri a porta da frente da minha casa e congelei. Encontrei Denny e Kiera acordados. Eles estavam

praticamente transando no meu sofá da sala. Embora um dia eu tivesse achado aquilo divertido, não era mais

tão engraçado. A dor me veio subindo pelo estômago, mas eu a empurrei de volta. Ela era uma puta que

gostava de trepar, tinha me usado, eu a odiava.

E sentia falta dela.

Kiera e eu trocamos olhares. Ela estava sentada no colo de Denny, com os dedos em seu cabelo. Lembreime

daqueles dedos no meu cabelo e senti o ódio contaminar meu sangue. Maldita mulher que me machucava

tanto! Enquanto eu sorria para a vagabunda, Denny finalmente notou minha presença. Na mesma hora mudei

minha expressão para um sorriso simpático.

– ‘dia.

– Chegando em casa, companheiro?

Denny começou a acariciar as coxas dela. Isso me lembrou daquelas pernas ao redor da minha cintura.

Nossa, como aquilo foi bom! Ela curtiu muito, mas o que tínhamos compartilhado não era verdadeiro. Não

passava de uma libertação de tesão para a piranha trepadora.

Olhando apenas para Denny, respondi:

– Pois é… Dei uma saída. – Olhei para Kiera na palavra “saída”.

Entenda isso da maneira que você quiser. Eu não me importo.

Kiera pareceu meio desconfortável e desceu do colo de Denny. Ele riu e colocou o braço ao redor dela.

Meu estômago se embrulhou enquanto eu observava os dois se alisando. Eles pareciam muito felizes juntos,

mas aquilo era uma mentira tão grande quanto a de nós dois tinha sido. Denny queria o seu antigo emprego de

volta e Kiera… Bem, quem diabos poderia saber que porra ela queria?

– Vejo vocês mais tarde – murmurei, caminhando até a escada e subindo para o meu quarto. Fechei a porta

e me deitei na cama. Minha raiva só foi aumentando a cada vez que eu respirava, mas o calor da raiva foi

bem-vindo. Aquele calor mantinha a dor longe.

Denny estava no Pete’s quando eu entrei lá, naquela mesma noite. Se nós não tivéssemos de tocar mais

tarde, eu teria voltado da porta, na mesma hora; estar perto de Denny era doloroso. Estar perto dele e de

Kiera, juntos, era uma agonia.

Como eu ainda me sentia muito atraído por ela, apesar de isso ser totalmente sem propósito e fútil, meus

olhos se colaram nos de Kiera. Ela prendera o cabelo puxado para cima, expondo seu pescoço esguio. A


camiseta do Pete’s estava colada no seu corpo e ela usava shorts pretos minúsculos, que exibiam por

completo suas pernas magras. Aquela paisagem maravilhosa era torturante.

Seus lábios cheios estavam separados, e se eu não a conhecesse bem poderia jurar que ela estava

segurando a respiração, como se só o fato de me ver a afetasse. Mas eu sabia que isso não acontecia. Eu não

era nada para ela. Kiera lançou um olhar furtivo para Denny, como se não quisesse ser pega olhando para

mim. Olhei também, mas Denny saudava a banda e não prestou atenção alguma a nós. Sabendo que ele iria se

sentar à mesa durante toda a noite, tornando minha vida ainda mais infernal, fui até Kiera. Se aquela noite ia

ser tão estranha quanto eu imaginei, era melhor eu me preparar o melhor que pudesse.

Quando Kiera notou que eu me aproximava, pareceu pouco à vontade, como se fosse sair correndo. Eu

não a culparia por isso. Não tinha sido exatamente agradável para ela nos últimos dias. Mas, tudo bem, eu

poderia ser um cara legal agora, já que Denny estava assistindo. Ia ser cordial, mas não simpático. Isso eu

não conseguiria mais fazer.

– Kiera – disse eu, friamente, como se tivesse lido o seu nome no crachá que usava.

– Sim, Kellan? – Seu tom foi de desconfiança, e ela parecia estar se obrigando a olhar para mim.

Gostando de ver que eu a deixava desconfortável, sorri.

– Vamos querer o de sempre. Traz uma para o Denny também… já que ele faz parte disso.

A maior parte, na verdade. Muito maior que eu, isso era certo.

Algumas garotas vieram se aconchegar comigo antes do show e eu deixei. Na verdade, eu me perdi em

sua maravilhosa atenção feminina. Isso era melhor do que ficar vendo Kiera e Denny fazendo caras e bocas

um para o outro. Como precisava me distrair da dor e da culpa, flertei descaradamente com as garotas; nem

olhei mais para onde Denny estava.

Quando chegou a hora da banda subir ao palco, um sorriso de escárnio se instalou nos meus lábios. Não

pude conter minha satisfação. Eu tinha mudado a lista daquela noite para que tocássemos todas as canções do

tipo “eu te odeio” e “você não presta” que tínhamos em nosso repertório. Eu precisava desabafar e ia fazer

isso através da música, para me impedir de fazer o mesmo com as palavras.

Percebi logo de cara que Kiera soube que minha setlist era sobre ela, em termos de sentimento, não só de

letras. A que estávamos tocando naquele momento era uma canção que os fãs muitas vezes interpretavam

errado, achando que era sobre sexo de uma noite só. Não era, mas eu a cantei dessa forma, para Kiera pensar

que era com ela.

Isso mesmo, a letra fala de sexo sem importância. E sim, Kiera, dedico esta canção a você e ao sexo

casual que compartilhamos.

Enquanto eu cantava, flertei o mais que pude com a plateia.

Sexual demais? Você ainda não viu nada, Kiera.

Ela abriu a boca de espanto ao me ver fazendo isso, e juro que seus olhos ficaram cheios d’água. Eu me

incomodei um pouco ao vê-la sofrer, mas apertei minha raiva com mais força em torno de mim e fui em frente

com determinação. Ela só estava chateada porque eu a estava desafiando, não porque se importasse. Ela

nunca se preocupou comigo. Tudo aquilo tinha sido uma mentira.

Na manhã seguinte eu me senti um pouco melhor. Claro que estava fazendo papel de idiota, mas ser um

babaca era melhor do que ficar remoendo as coisas encolhido em posição fetal porque uma piranha qualquer

tinha me arrasado. Que se foda tudo isso! Eu já tinha sobrevivido a coisas piores.

Estava lendo o jornal e bebendo meu café sentado à mesa quando Kiera entrou na cozinha. Ela parecia

nervosa, mas ainda irritada quando ergui a cabeça para ela. Vi quando ela fechou os olhos e deu um suspiro

profundo para se acalmar. Achei que ela poderia dizer alguma coisa sobre a minha apresentação na noite

anterior; em vez disso, porém, ela se serviu de uma xícara de café. Coragem líquida, talvez?

Quando ela se sentou à mesa eu estava concentrado no jornal ou, pelo menos, fingia estar concentrado. Já

tinha lido o mesmo parágrafo três vezes. Pensei em ignorar Kiera, mas não falar com ela de propósito


indicaria que eu me importava. E eu não dava a mínima. Nós não éramos nada e estava bom desse jeito.

Estava ótimo.

– ‘dia – disse eu, sem me preocupar em olhar para cima.

Kellan

Olhei para ela.

Qual é, Kiera? O que mais você poderia querer de mim? Porque não me sobrou nada para lhe dar.

– Que é? – disparei.

Evitando contato olho no olho ela sussurrou:

– Por que você está tão zangado comigo?

O quê? Será que ela realmente ainda não tinha sacado o que tinha feito para mim? Como ela me tratara

como um pedaço de carne, igualzinho a todas as garotas com quem eu tinha estado? Que até aquele momento

eu achava que seria diferente? Eu pensei que a amasse. Não… Eu a amava. Eu ainda a amo, pensei. Mas

precisava odiá-la agora, então tinha de deixar tudo aquilo de lado.

– Eu não estou zangado com você, Kiera. Eu fui maravilhoso com você. – Mesmo que ela não estivesse

olhando para mim, lancei-lhe um sorriso sarcástico. – A maioria das mulheres me agradece por isso.

E me dão baixa em sua lista de conquistas, como você fez.

A raiva brilhou em seus olhos quando ela olhou para mim.

– Você está se comportando feito um babaca! Desde que…

Parou de falar. Ela ainda não podia dizer, ainda não conseguia falar sobre sexo. Bem, se ela não podia

colocar o assunto sobre a mesa, eu é que não iria fazer.

Por que eu deveria tornar tudo mais fácil para ela? Na verdade, acho que vou ignorá-la por completo.

Voltei minha atenção para o meu artigo e meu café.

– Não faço a menor ideia do que você quer dizer, Kiera…

– É por causa de Denny? Você se sente culpado…?

Ouvir isso me irritou e, antes que eu pudesse me impedir, coloquei para fora:

– Não fui eu quem traiu Denny.

Ela se encolheu com minhas palavras e mordeu o lábio, como se não pudesse acreditar que eu iria tão

longe. Eu não tinha a intenção de ir, mas seu comentário me obrigou a isso. Claro que me sentia culpado. Eu

devia tudo a Denny e o tinha traído… Em troca de absolutamente nada. Eu arriscara tudo por porra nenhuma,

e se Denny algum dia descobrisse nunca me perdoaria.

– Nós éramos amigos, Kellan – Kiera sussurrou, com a voz quase num pio.

Esse comentário me atingiu fundo. Sim, fomos amigos uma vez, e depois muito mais. Ou eu pensei que

tínhamos sido, mas não fora esse o caso. Eu tinha sido um cobertor para mantê-la aquecida quando ela estava

com frio. Nada mais.

Comecei a ler o artigo novamente.

– Éramos? Eu não estava sabendo disso.

Dor e raiva surgiram em sua voz quando ela respondeu ao meu comentário insensível.

– Éramos sim, Kellan. Antes de nós…

Suas palavras abriam feridas que eu estava tentando fazer com que cicatrizassem. Não queria falar sobre

isso. Meus olhos se ergueram para os dela e eu a cortei.

– Denny e eu é que somos amigos. Você e eu apenas… dividimos uma casa. – A frase teve um sabor

amargo na minha boca, mas era a pura verdade.

Suas bochechas se inflamaram com raiva quando ela me olhou com a boca aberta de espanto.

– Nesse caso você tem um jeito muito estranho de demonstrar amizade. Se Denny soubesse o que você…

Mais uma vez, deixei minha raiva assumir o controle.


– Mas você não vai contar a ele, vai? – Eu a fuzilei com o olhar. Em seguida, me acalmando um pouco,

retomei a leitura do jornal. Cada palavra que eu lia mentalmente ajudava a me acalmar mais um pouco. Só

que essa calma abria caminho para a tristeza, uma tristeza que eu não queria sentir. Refleti sobre o sentimento

inútil que me latejou na boca do estômago. Por que eu era assim tão impossível de amar? Eu sabia que

precisava ficar com raiva novamente para empurrar aquela dor de lado, mas simplesmente não tinha forças

para isso no momento.

Estudei o jornal, embora não lesse uma palavra dele. Resolvendo ser mais honesto do que tinha sido em

muito tempo, disse a ela:

– Seja como for, isso é entre vocês dois, não teve nada a ver comigo. Eu simplesmente fiquei… à sua

disposição.

Eu te amo tanto… Isso dói muito… Fico me lembrando de como as coisas eram quando estávamos só

nós dois aqui, e isso me faz morrer um pouco de novo a cada vez.

Diante da necessidade de estar longe dela, da necessidade de me ver longe de casa e me afastar da minha

própria vida, eu suspirei e olhei de volta para ela. Seus lindos olhos estavam arregalados, seu rosto pálido,

os lábios cheios e convidativos… Mas nada daquilo era meu.

– Já acabamos? – perguntei, numa voz suave. Aparentemente em estado de choque, tudo que ela conseguiu

fazer foi assentir com a cabeça. Levantei-me e saí da cozinha; eu me senti esgotado a cada passo que dava

para longe dela. Mas ficar junto dela era muito pior.

Quando consegui chegar ao quarto, peguei algumas coisas, saí de casa e fui para a casa de Matt. Não era

tão perto quanto a de Evan, nem tão tranquila, mas ninguém questionaria se eu ficasse por lá alguns dias. E eu

precisava de espaço. Acho que era mais fraco do que supunha. Já tinha desistido de ser capaz de lidar com

alguma coisa.

Depois de passar algum tempo na casa de Matt, consegui me recompor minimamente antes de voltar para

casa. Voltei para o meu velho método, testado e aprovado, de lidar com a dor: raiva e fuga. Ficava muito

tempo no meu quarto. Passei um tempão torturando Kiera com comentários grosseiros. Gastei um tempão

lembrando a mim mesmo de como eu deveria cagar e andar para ela. Só que isso nunca funcionou. Eu ainda

me importava, aquilo ainda estava machucando.

Denny teve de conseguir um emprego novo, porque acabou largando o antigo quando correu de volta para

Seattle a fim de salvar seu relacionamento. Quando eu finalmente tive forças para conversarmos, ele me

confessou que odiava o novo emprego.

– Você já teve a sensação de que, não importa o que você faz, nunca vai conseguir que seja o bastante? –

ele me perguntou um dia. Parando para refletir, fiquei matutando se ele estava se referindo a Kiera. Ela

parecia estar a cada dia mais descontente, desde que Denny retornara. Eu não tinha certeza do porquê, mas

também não pretendia perguntar a ela.

– Às vezes, sim – respondi, com toda a calma do mundo.

Tudo bem, acho que todos os dias desde que eu nasci.

Denny balançou a cabeça e deu para ver em suas feições uma guerra entre arrependimento e culpa.

– Esse meu novo emprego… Eu sinto que estou golpeando a cabeça contra uma parede o tempo todo.

Continuo tentando mostrar o meu valor, mas quanto mais eu tento, mais eles me repelem. Sei que não deveria

comparar essas coisas, mas no meu antigo emprego eu nunca teria… Eu simplesmente sinto falta… –

Suspirando, deixou seus pensamentos morrerem sem expressá-los.

Sabendo que, na condição de amigo, eu deveria dizer alguma coisa para fazê-lo se sentir melhor sobre o

seu sacrifício, empurrei para longe a culpa e a mágoa e disse:

Pelo menos você ainda tem Kiera. – Torci para ele não perceber a amargura na minha voz.

Com um sorriso triste, ele murmurou:

– É… – Eu entendi. Ele estava sofrendo de remorso; eu também.


O emprego de Denny o obrigava a fazer mais tarefas e missões que não tinham nada a ver com o trabalho

real, pelo que eu pude observar. Minha percepção era de que ele passava mais tempo fora do que ficava em

casa. A cada nova tarefa à qual era enviado, Kiera se tornava mais irritadiça. Havia uma espécie de frieza

entre eles que não existia antes, e eu achei interessante a reação dela à ausência dele. Denny tinha

abandonado seu emprego dos sonhos por causa de Kiera, e agora era ela quem se irritava com o trabalho

novo que ele conseguira? Considerando o que Kiera tinha feito contra Denny, ao dormir comigo, era de se

imaginar que ela deveria ter um pouco mais de compreensão com ele. Mas quando cheguei ao andar de baixo

uma noite e ela estava olhando para fora na direção do quintal pela porta de correr, com cara de desamparo

total e os olhos fechados e úmidos, meu coração ainda sentiu vontade de confortá-la. Mesmo depois de tudo

eu ainda a amava. Provavelmente sempre a amaria.

À medida que fui testemunhando Denny e Kiera ficarem frustrados um com o outro com mais frequência,

uma parte de mim ficou feliz em descobrir uma pequena rachadura em seu conto de fadas. Outra parte de mim

sentiu culpa, como se talvez a origem de tudo aquilo fosse eu. Só que não era. Eu não fazia parte daquela

equação.

Vários dias se passaram e as coisas não melhoraram. Denny estava mal-humorado, Kiera vivia agitada e

eu com raiva. Minha casa tinha sido enredada numa teia de espinhos afiados e todo mundo se sentia no limite,

reclamando uns com os outros. Foi um inferno. Eu esperava que as coisas começassem a se tornar mais

tranquilas depois de algum tempo, mas nada foi ficando mais fácil. Fiquei magoado, irritado, solitário e farto.

E mesmo sabendo que era infantil e imaturo, percebi que iria me sentir melhor se apertasse os botões certos

para Kiera reagir, e foi o que eu fiz.

Depois de ver Denny sair do bar às pressas e revoltado, uma noite, eu me aproximei de Kiera com os

lábios curvados num sorriso frio. Como se estivesse tentando me ignorar, ela se ocupou com a limpeza de

uma mesa. Boa tentativa, mas eu não pretendia deixar as coisas por isso mesmo. Precisava liberar aquela dor

reprimida.

Chegando bem perto eu me encostei nela. Kiera não podia ignorar o quanto eu estava invadindo o seu

espaço pessoal. Estar tão perto dela acendeu novamente alguma coisa em mim, mas eu converti o sentimento

em combustível para aumentar o fogo da minha barriga. Como eu já sabia que ela iria fazer, Kiera se afastou

de lado e olhou para mim.

– Denny deixou você de novo? – perguntei. – Posso arrumar outro companheiro de copo, se você estiver

se sentindo… sozinha? Que tal Griffin dessa vez? – Eu me encolhi diante da imagem de Griffin tocando-a,

mas não deixei transparecer nada. Tudo que Kiera viu foi meu sorriso perverso.

Kiera, pelo visto, não estava com disposição para me deixar pegar no seu pé. Com raiva na voz, reagiu

com uma explosão.

– Não estou com paciência para as suas palhaçadas hoje, Kellan!

– Você não me parece estar feliz com Denny. – Eu tinha a intenção de dizer aquilo de um jeito irritado e

sarcástico, cheio de indiretas, mas as palavras saíram da minha boca como uma declaração séria. A ficha caiu

de verdade quando Kiera me respondeu com um olhar vidrado. Ela não estava feliz com Denny. Tinha sido

mais feliz comigo.

Kiera enxergou através das minhas palavras e leu meus pensamentos. Com o rosto espremido de dor, ela

retrucou:

– Como é que é? E por acaso eu estaria mais feliz com você?

Meu coração se contraiu quando ela acertou na mosca.

Sim, você estaria muito mais feliz comigo. Se você se permitisse me amar como eu amo você, nós

poderíamos ser felizes de verdade novamente. E eu tornaria você muito feliz…

Mas eu não podia dizer nada disso para ela; tudo que eu podia fazer era sorrir.

Meu sorriso a fez transbordar. Inclinando-se para mim, ela sussurrou:


– Você foi o maior erro da minha vida, Kellan. Você tinha razão… Nós não somos amigos, nunca fomos.

Gostaria que você fosse embora.

Senti como se ela tivesse arrebentado meu peito e tivesse apertado meu coração até ele se desfazer em

suas mãos. Suas palavras me machucaram mais do que qualquer coisa que eu já tinha ouvido, e olha que eu já

tinha ouvido muita merda na vida. Aquilo foi pior do que qualquer coisa que meu pai tinha dito ou feito para

mim. Foi pior do que ouvi-la fazendo sexo com Denny cinco segundos depois de fazer comigo. Aquilo… me

destruiu.

Meu sorriso desapareceu e eu passei direto por ela para recolher minhas coisas e cair fora daquele bar.

Eu fui o maior erro de sua vida? Ela queria que eu fosse embora? Beleza! Então era exatamente isso que eu

faria. Eu iria dar uma de Joey e cairia fora de vez daquela cidade esquecida por Deus. Toda aquela região já

estava me sufocando, mesmo.


Capítulo 12

Noitada com os amigos

Adormeci olhando para aquele pôster idiota dos Ramones e sonhei com o dia que Kiera o tinha dado de

presente para mim.

Achei que você ia gostar.

Quando acordei, senti como se não tivesse dormido durante várias semanas. Finalmente tinha ficado bem

claro, na minha cabeça, o que eu precisava fazer. Eu tinha de ir embora. Assim que eu tomasse meu café da

manhã, arrumaria meu carro e daria o fora dali. Para sempre.

Eu gostaria que você fosse embora. Não se preocupe, Kiera. Eu vou.

É claro que Kiera desceu enquanto eu tomava meu café e lia o jornal. Eu não ergui a cabeça e ela não

falou comigo. Simplesmente se serviu de café e saiu. No último segundo, porém, murmurou em minha direção,

por cima do ombro:

– Desculpe, Kellan.

A confusão tomou conta de mim. Ela estava arrependida e me queria fora de sua vida, ou pedia desculpa

por ter dito que me queria fora de sua vida? Minha ira se evaporou quando seu vago pedido de desculpas

tomou conta de mim, e nada do que eu fiz serviu para trazer a raiva de volta. Agora, tudo o que eu sentia era

dor. Uma dor daquelas de esmagar os ossos.

Passei os dias que se seguiram chafurdando na depressão enquanto analisava minhas opções. Eu quase

não falava com ninguém, e quando o fazia tudo o que dizia era educado e cordial. As pessoas notaram o meu

silêncio nem um pouco normal, mas eu sempre sorria e conseguia afastar as preocupações de todos.

Finalmente, numa manhã de sábado, Denny me tirou daquela fossa. Eu estava encostado na bancada

tomando meu café e analisando as opções para aquela noite. Talvez uma distração fosse o que eu precisasse;

uma espécie de festa de despedida, se esse ainda fosse o plano, e eu tinha quase certeza de que era.

Quando Denny entrou na cozinha, assenti com a cabeça para saudá-lo. Ele fez que sim uma vez e pegou

uma caneca no armário, mas me lançou olhares de lado quando a colocou sobre a bancada. Com a caneca

ainda vazia na mão, se virou para mim.

– Está tudo bem, companheiro? Você me parece meio pra baixo ultimamente.

Fingi um sorriso casual.

– Nunca estive melhor.

Denny franziu a testa. Ele já tinha me visto fingir sorrisos vezes demais ao longo da vida. Pousando a

caneca, cruzou os braços sobre o peito. Obviamente ele queria uma resposta sincera de mim.

– O que anda rolando com você?

Eu balancei a cabeça. Como a maioria das boas mentiras são sempre baseadas em fatos, resolvi seguir a

linha da verdade.

– Não sei. Acho que o problema é… Anda havendo muita tensão no ar, por aqui, ultimamente. Acho que

isso está me afetando.

Denny suspirou e olhou para cima, para onde Kiera estava.


– Sim, as coisas têm estado muito diferentes desde que eu voltei. – Olhou mais uma vez para mim. – A

culpa é toda minha. Estou me sentindo infeliz e acabo trazendo essa infelicidade aqui para dentro de casa. –

Desviou os olhos e eu, na mesma hora, fechei os meus para não ter de olhar para o seu rosto. Ele achava que

tudo aquilo era culpa dele? De todos nós, ele era quem tinha a menor parcela de culpa.

Sua voz era suave quando continuou.

– Kiera se sente culpada porque eu deixei meu emprego por causa dela, e eu odeio o lugar onde estou

trabalhando agora, mas… isso é minha culpa também. Eu não devia ter aceitado o cargo em Tucson, para

início de conversa, nem devia tê-la abandonado aqui em Seattle. Eu sabia que ela não conseguiria se

transferir novamente sem perder a bolsa de estudos, e também sabia que ela não podia desistir disso. Ela

estava presa até terminar a faculdade, eu sabia disso e… Não me importei. Queria o cargo que ofereceram e

simplesmente o peguei. Depois, esperei muitos dias até dizer a ela que não iria voltar para cá… Não é de

admirar que ela tenha terminado comigo. Eu fui um babaca.

Eu senti como se me encolhesse por dentro.

Não, eu é que fui um babaca. Deveria ter pedido a ela para fazer as pazes com você. Só que em vez

disso eu a levei para a minha cama.

A cara tensa de Denny se transformou num pequeno sorriso; ver aquilo foi como levar um soco no

estômago.

– Mas tudo isso são coisas do passado e eu não vou chorar leite derramado. Eu quero que as coisas

voltem a ser como antes, então tive uma ideia.

Eu tive que engolir o nó de vergonha que se formou em minha garganta.

– Ah, é? Qual a sua ideia?

Seu sorriso era brilhante e cheio de esperança quando ele me contou seu plano de mestre.

– Nós três temos de sair juntos para descontrair. Precisamos nos divertir um pouco. Curtir as coisas como

as outras pessoas da nossa idade. – Riu um pouco e completou: – Ou talvez até como os que são mais novos

do que nós.

Quis me enfiar num buraco profundo e escuro. Preferia cortar os braços fora a sair com eles nesse

momento. Por outro lado… eu estava num ponto de ruptura e não podia mais ficar ali. Essa noitada poderia

ser a última oportunidade de estarmos juntos. Quanto mais eu pensava nessa possibilidade, melhor a ideia me

parecia. Sim, já era hora de eu ir embora. Ficar em Seattle estava me matando lentamente. A única opção era

eu cair fora. Curtiria essa última noite com os meus amigos e tentaria fingir que tudo era como costumava ser;

depois, iria arrumar as malas e sair sem olhar para trás. Haveria pastos mais verdes me aguardando em outro

lugar. Ou menos dolorosos.

– Isso parece divertido, Denny. Tenho um amigo que vai tocar na Shack hoje à noite. Poderíamos ir até lá

para ouvi-lo, se vocês quiserem…

Exibi um sorriso largo quando ele me deu um tapinha no ombro, aceitando a ideia.

– Perfeito.

Kiera entrou na cozinha quando estávamos em pé, nesse clima. Pareceu comovida ao notar que estávamos

conversando numa boa; eu não fazia muito isso, ultimamente. Denny a olhou quando ela se aproximou.

– Será que você consegue trocar seu turno? Nós vamos sair hoje à noite… programa de velhos amigos.

Um pequeno sorriso tentou se formar nos lábios dela, mas desapareceu rapidamente. Kiera também não

estava a fim de fazer aquilo.

– Ahhhh, que ótima ideia, amor. Aonde nós vamos?

Encontrando os olhos de Kiera pela primeira vez desde que eu tinha ouvido dela para ir embora, conteilhe

os detalhes. Ela disse que poderia trocar de turno com uma colega e assim, num estalar de dedos, tudo

ficou acertado. Nós três iríamos sair juntos naquela noite. Uma família feliz.


– Maravilha! – exclamou Denny, dando-lhe um beijo. Virei o rosto para não ver o espetáculo. Por Deus,

eu odiava ver e ouvir aquilo. Um clima de afeição emanou deles como ondas de calor que se erguem do

asfalto no auge do verão. Senti vontade de vomitar.

Denny pediu licença para ir tomar um banho. Quando eu fiquei sozinho com Kiera, algo que normalmente

evitava, ela perguntou:

– Você está bem?

Eu estava ficando cansado das pessoas me perguntando isso. Olhando para ela, vi que ela ainda estava de

pijama, sua camiseta regata apertada sobre os seios pequenos e perfeitos. Seu cabelo estava solto sobre os

ombros, como se os acariciasse. E seus olhos eram de um verde profundo, escuro. Incrível, lindíssima, e nem

um pouco interessada em mim.

– Claro. Isso vai ser… interessante.

Minhas palavras a preocuparam. Ela se aproximou de mim com as sobrancelhas franzidas.

– Tem certeza? Você não é obrigado a nos acompanhar. Denny e eu podemos ir sozinhos.

Estudando o rosto dela, vi seus olhos mudarem levemente de cor no sol. Eu adorava o jeito como eles

faziam isso, às vezes. Como tudo o mais que tinha a ver com Kiera, eu guardava aquilo na memória. Apesar

de ser doloroso lembrar, eu não queria me esquecer de nada a respeito dela.

– Eu estou ótimo, e gostaria de passar uma… noite… com os meus amigos.

Uma última noite. Antes de eu partir. Para sempre.

Virei-me em seguida e a deixei sozinha porque ficar ali machucava muito, e aquela noite já seria dolorosa

o bastante. Não havia necessidade de prolongar a agonia.

Quando cheguei ao Shack mais tarde, o carro de Denny ainda não estava lá. Fiquei feliz por ter chegado

antes. Isso me daria a oportunidade de me preparar. Pedi uma garrafa grande e três copos; em seguida fui até

lá fora. A cervejaria ao ar livre ficava numa grande área cercada, com um palco numa das extremidades e

mesas e cadeiras na outra. Peguei uma mesa vazia perto de uma porta que dava para o estacionamento. Tive o

pressentimento de que poderia precisar fazer uma fuga rápida mais tarde, caso aquilo se tornasse demais para

eu aguentar.

Enquanto esperava por Denny e Kiera, foquei a atenção no palco, onde os instrumentos da banda estavam

sendo instalados. A baterista, Kelsey, era minha amiga. A cena musical em Seattle era pequena; todo mundo

conhecia todo mundo. E todo mundo já tinha dormido com todo mundo. Ou, pelo menos, com quase todo

mundo. Caminhando até lá, ergui a mão para Kelsey e ela acenou de volta.

– E aí, Kellan? Como a vida vem te tratando?

Ai Deus… Por onde começar?

– Numa boa. E você?

Kelsey deu de ombros.

– Está tudo bem. Não posso reclamar.

O cantor da banda se aproximou. Eu também o conhecia. Tínhamos feito alguns shows juntos quando ele

ainda estava em outra banda.

– E aí, Brendon? Que legal ver você de novo!

Estendi a mão e Brendon se abaixou para me cumprimentar.

– Sim, excelente. Que bom que você está aqui. Vai ser um show bem legal hoje à noite.

Apesar de não estar me sentindo descontraído, lancei-lhe um sorriso despreocupado.

– Sim, também estou feliz por isso.

Brendon tornou a se levantar com um sorriso.

– Nós precisamos fazer outro show juntos, em breve.

Concordei com a cabeça e, em seguida, olhei para as portas de entrada. Kiera e Denny tinham chegado e

eu apontei para onde a cerveja estava, já à nossa espera. Eles ergueram a mão em agradecimento e seguiram


até a mesa.

A coisa ia ter início…

Olhei de volta para Brendon.

– Sim, vamos combinar. – Eu me senti um pouco culpado ao dizer isso. Estava indo embora de Seattle

depois daquela noite. Mas era mais fácil concordar.

Eu me despedi e voltei, a contragosto, à nossa mesa. Denny e Kiera estavam se beijando quando me

aproximei. Senti como se uma faca estivesse sendo enfiada e torcida na minha barriga. Eu só precisava

aguentar aquilo durante mais uma noite e então estaria livre. Por algum motivo, esse pensamento não me

deixou mais feliz. Sentando-me à mesa, comecei a servir a cerveja. Eu bem que precisava de uma bebida;

certamente eles também.

– Quando o seu amigo vai se apresentar? – quis saber Denny, com a voz brilhante e animada.

Olhei para ele e tentei ignorar o fato de que Denny andava trepando com a mulher que eu amava.

– Daqui a uns vinte minutos, mais ou menos.

Eu tomei um gole longo e muito necessário da minha cerveja. Uma garota passou diante de nós, na mesa.

Parando, olhou para mim como se esperasse que eu pulasse em cima dela e a convidasse para sair. Eu

realmente não estava a fim. Ela se afastou quando eu não lhe dei a mínima atenção e Denny percebeu.

– Ela era bonitinha.

– Era, sim. – Tomei mais um gole de cerveja e evitei qualquer contato olho no olho.

– Não é o seu tipo? – insistiu Denny. Kiera se remexeu na cadeira, mas eu ignorei.

– Não – respondi, já com a cerveja perto do rosto.

Houve um momento de silêncio, mas logo Denny tentou mais uma vez puxar conversa comigo.

– Como a banda está indo?

– Bem – respondi. Será que tínhamos de conversar? Não poderíamos simplesmente ficar sentados ali em

silêncio, até dar a hora de irmos para casa?

Denny me fez mais algumas perguntas, mas logo desistiu. Dava para notar que Kiera estava irritada

comigo, mas eu não me importei. Ficar sentado ali com eles era um porre total! Eu estava fazendo o melhor

que conseguia. Depois de algum tempo a banda começou a tocar, o que aliviou um pouco o estresse na mesa.

Dali a mais alguns minutos, Denny puxou Kiera para a pista de dança. Embora eu tentasse ignorá-los, fiquei

com os olhos grudados neles de forma implacável. Eles se moviam juntos em sintonia perfeita, e era óbvio

que dançar era uma coisa que Kiera adorava fazer. Sua saia preta rodada girava em torno de seu corpo e seu

cabelo solto parecia explodir em meio à brisa suave. Suas bochechas adquiriram um tom rosado que quase

combinava com a blusa por baixo da sua jaqueta. Ela era de tirar o fôlego, e observá-la em companhia de

outro homem era insuportável.

Várias garotas me chamaram para dançar, mas eu disse não para todas elas. Havia apenas uma que eu

queria em minhas mãos e ela estava, naquele exato momento, sendo girada na pista pelo meu melhor amigo.

Nossa noite mal tinha começado e eu já queria que ela tivesse acabado. Não conseguiria aguentar aquilo até o

fim. Era muito difícil.

Estava ficando mais frio do lado de fora, e eu estava ficando mais frio por dentro. Aquilo era um inferno

para mim, e ninguém parecia perceber ou se importar. Eu estava absoluta e completamente sozinho. Devia

cair fora dali naquele exato momento. Sair dirigindo pela estrada só com a roupa do corpo e a guitarra como

bagagem. Do que mais eu precisava na vida? De nada!

Kiera e Denny voltaram depois de dançar, ofegantes e felizes. Olhei para o meu copo vazio, desejando

poder enfiar a cabeça nele e desaparecer. Pude sentir os olhares de desaprovação de Kiera sobre mim, mas

não me importei.

Não consigo mais fingir que estou feliz. Se não está satisfeita com isso, me processe.


Eu estava pensando na desculpa que daria para ir embora no meio do show quando, de repente, o celular

de Denny tocou. Ele atendeu na mesma hora e eu discretamente observei Kiera. Ela odiava aquele maldito

celular. Quase sempre, depois de tocar, Denny saía. Kiera franziu o cenho para Denny, mas tentou fazer

parecer que não estava chateada. Depois de um segundo, Denny xingou e desligou o celular.

– A bateria acabou. – Ele e Kiera trocaram olhares. Os olhos dela se estreitaram. – Desculpe, mas eu

preciso mesmo ligar de volta para Max. Vou ver se eles me deixam usar o telefone lá dentro.

Voltei minha atenção para o copo. Se ele estava caindo fora, eu deveria ir embora também. Mas Kiera lhe

disse:

– Sem problemas, vamos estar aqui. – Dava para notar que ela tentava não parecer agitada, mas eu sabia

muito bem que estava. Eu já tinha ouvido os dois brigando antes, por causa do chefe de Denny no trabalho.

Denny estava fazendo o máximo que podia para impressionar o sujeito, e isso incluía fazer o papel de garoto

de recados. Franzindo a testa, eu me perguntei se deveria esperar pela volta dele, como Kiera sugerira, ou

simplesmente me levantar e ir embora junto, naquele exato momento. Que diferença faria se eu caísse fora

daquele lugar?

Denny se levantou e beijou Kiera antes de sair. Eu suspirei e tentei ficar confortável na minha cadeira. Só

que era impossível sentir outra coisa além de desconforto, naquele momento. Eu não deveria estar ali,

ouvindo-os fazer aquilo bem na minha frente. Estava farto de ouvir seus lábios estalando o tempo todo. Isso

era outra coisa da qual eu não teria saudade.

Quando Denny saiu, Kiera voltou sua atenção para mim.

– Você disse que não se importava com isso. O que há com você?

Olhei fixamente para ela. Lutando contra minhas emoções agitadas, disse:

– Eu estou me divertindo muito. Não faço a mais pálida ideia do que você quer dizer.

Testemunhar você e Denny se esfregando um no outro é incrível. Simplesmente fantástico.

Kiera desviou o olhar, e eu percebi que ela também lutava com suas emoções. Parecia prestes a agredir

alguém.

– Nada, acho.

Minha paciência explodiu.

Exatamente. Nada! Eu não era nada. Não sou nada. Mas ficar aqui e fingir que nada aconteceu é uma

porra de uma insanidade. Uma coisa aconteceu, sim, e significou algo importante para mim. Você significa

muito para mim, e vê-la brincar de casinha com Denny enquanto vocês fingem que eu não existo não é

moleza, não. É uma merda!

Colocando o copo de cerveja sobre a mesa, eu me levantei. Ficar ali era inútil, eu ia dar o fora.

– Diz ao Denny que eu não estava me sentindo bem… – Pensei em acrescentar mais alguma informação à

mentira, mas não era meu comportamento normal fazer isso. Era melhor deixar que ele pensasse o que bem

quisesse. Balançando a cabeça para os lados, completei: – Para mim, já chega!

Estou completamente, até o pescoço, cem por cento de saco cheio de toda essa merda.

Como se ela compreendesse que eu não falava “para mim chega” apenas em relação àquela noite, e que

me referia a todo o caos da minha vida, Kiera lentamente se levantou da mesa. Estreitei os olhos enquanto a

observava e a desafiei a falar.

Vá em frente, pode me dar um esporro. Eu não me importo.

Quando ela não disse nada, eu me virei e saí pela porta. Tinha ficado bem claro que ela não tinha coisa

alguma a dizer.

Eu estava a meio caminho em direção ao meu carro, no estacionamento quando ouvi o estrondo do portão

se fechando e ouvi Kiera gritar meu nome.

Kellan! Por favor, espera…

Havia pânico em sua voz, e aquilo voou em linha reta até o meu coração.


Eu não posso esperar, já que nunca tive você de verdade

Desacelerando o passo, olhei por cima do ombro e suspirei. Ela estava praticamente correndo para me

alcançar. Por quê? Por que ela se importaria se eu fosse embora?

– O que é que você está fazendo, Kiera?

O que está fazendo aqui fora, o que está fazendo comigo? Que porra eu sou para você?

Ela me agarrou pelo braço e me virou na direção dela.

– Espera… Fica, por favor.

Eu puxei meu braço. Ela não tinha o direito de me tocar. Não deveria me tocar. Ela só se preocupava com

Denny. Eu via isso a cada vez que eles se falavam, a cada vez que se beijavam. Ela o amava. Olhei para o céu

antes de encontrar seus olhos. Senti como se estivesse enlouquecendo.

– Não posso mais fazer isso.

Estou ficando louco porque a amo e você não me dá a mínima. Então, por que está aqui, olhando para

mim desse jeito?

Seus olhos arregalados procuraram os meus. Ela pareceu assustada.

– Não pode fazer o quê?… Ficar? Você sabe que Denny iria querer se despedir de você. – Sua voz foi

sumindo, como se ela soubesse que aquilo não tinha nada a ver com Denny. E não tinha, mesmo.

A dor me corroeu o estômago. Eu não poderia mentir. Não conseguiria lhe dar uma resposta sarcástica. Já

não conseguia nem rir ou fingir que não me importava. Estava me afogando na dor e a verdade era minha

única saída.

– Não posso continuar aqui… em Seattle. Estou indo embora.

Só pronunciar essas palavras já me rasgou em pedaços. Eu não queria ir, mas ficar ali com ela já não era

uma opção. Seria como me jogar de livre e espontânea vontade num caldeirão de água fervendo. Impossível.

Lágrimas brotaram nos olhos de Kiera. Ela agarrou meu braço novamente e o segurou com uma

ferocidade que eu nunca tinha visto antes nela.

– Não, por favor, não vai embora! Fica… fica aqui com… com a gente. Não vai…

Ela começou a soluçar e as lágrimas correram por suas bochechas como rios. Eu só a tinha visto tão

chateada daquele jeito por causa de Denny. Quando ele foi embora, Kiera tinha chorado daquele jeito. Por

que ela estava chorando por mim? Ninguém, nunca, tinha chorado por mim. Ninguém.

– Eu… Por que você está…? Você disse… – Engoli em seco as emoções confusas que tornavam meu

discurso impossível. Por que ela estava chorando? O que aquilo significava? Eu não queria alimentar a

esperança, mas uma pequena quantidade dela começou a borbulhar através do desespero. Será que ela se

importava comigo? Sinceramente se importava?

Olhei para algum ponto além dela. Eu não aguentava mais ver aquelas lágrimas confusas.

– Você não… Você e eu não somos… – Você não se importa comigo. Eu sei disso. Sei que você não dá a

mínima. – Eu pensei que você… – Não, você o ama. Eu fui um erro. Eu sou o único que se importa aqui, é

por isso que dói tanto. – Me desculpe. Me desculpe por ter sido frio, mas não posso ficar, Kiera. Não posso

mais assistir a isso. Eu preciso ir embora… – Minha voz sumiu num sussurro e uma sensação de horror me

atingiu como um raio. Eu tinha dito a verdade para ela. Tinha exposto meu coração e ela poderia me ferir.

Mais uma vez.

Ela pareceu chocada com a minha confissão, mas essa foi sua única reação. Uma dor profunda brotou em

mim. Não, ela não se importava. Virei-me para sair, mas ela puxou meu corpo contra o dela e gritou:

– Não! Por favor, me diz que isso não é por minha causa, por causa de nós dois…

– Kiera…

Sim, esse é exatamente o problema.

Ela colocou a mão sobre o meu peito e deu um passo mais perto de mim. A ternura e a proximidade

enviaram um choque de desejo por todo o meu corpo. Eu ainda a queria. Eu ainda a amava. Isso aliviava a


dor, mas não a minha confusão interna.

– Não, não vai embora só porque eu fui burra. Você levava uma vida tão boa aqui antes que eu…

Eu recuei meio passo. Isso foi o mais distante que eu consegui afastá-la, porque na verdade eu não queria

afastá-la nem um pouco. Eu a queria ainda mais perto… muito mais perto.

– Não é… não é por sua causa. Você não fez nada de errado. Você pertence a Denny. Eu nunca deveria

ter… – Dei um suspiro triste quando a verdade me atingiu como uma tonelada de tijolos. Aquilo nunca tinha

sido culpa de Kiera. Todo aquele tempo eu estive revoltado com ela, mas eu era o único culpado. Eu sabia o

tempo todo que ela amava Denny e que apenas tentava abafar sua dor comigo. Só que ela não sabia. Não

sabia que eu a amava. Não sabia o quanto significava para mim; portanto, como poderia ter imaginado que

aquilo iria me machucar? Eu tinha sumido logo depois de tudo acontecer, depois tinha ficado mais frio e

acabei me distanciando por completo. Ela nunca esteve disponível para mim. Ela pertencia a Denny e eu era

um canalha por ter ido tão longe. – Você… você e Denny são…

Com lágrimas ainda escorrendo pelo rosto, ela se aproximou e pressionou o corpo contra o meu. Seu

toque queimou como fogo… e eu estava tão frio.

– Somos o quê? – ela perguntou.

Eu não podia me mover; mal podia respirar. Eu a desejava mais do que jamais havia desejado alguém,

mas isso não estava certo. Nós não devíamos… mas eu precisava tanto dela.

– Vocês dois são… importantes para mim – sussurrei, sendo sincero em cada sílaba.

Ela trouxe os lábios tão perto dos meus que eu pude sentir sua respiração no meu rosto. Meu coração

disparou. Ela estava tão perto. Mais alguns centímetros… e ela seria minha.

– Importantes… como?

Diga. Coloque tudo para fora de uma vez! Diga a ela que você a ama. Diga a ela que você só pensa

nela e o motivo de todo aquele mau humor e dos comentários babacas era você estar magoado. Confesse,

droga.

Por quê? Ela está com Denny. Isso não vai mudar nada.

Balancei a cabeça e dei um passo para trás novamente.

– Kiera… me deixa ir embora. Você não quer isso… – Você não me quer. – Volta lá para dentro, volta

para o Denny. – A quem você pertence.

Movi a mão para desgrudá-la de mim, mas ela bateu no meu braço e o empurrou.

– Fica – comandou.

O desejo e a dor lutaram dentro de mim. Ninguém jamais me pedira para ficar antes. Ninguém jamais

derramara lágrimas por mim antes. Ela se importava. Só podia ser! Mas ela se importava com ele também…

e eu não sabia o que fazer a respeito disso.

– Por favor, Kiera, vai embora.

Antes que nós dois nos machuquemos mais ainda… Vai!

Seus belos olhos pareciam ter cor de verde-esmeralda profundo, na semiescuridão. Eles procuraram os

meus enquanto ela falava.

– Fica… por favor. Fica comigo… não me deixa.

Sua voz falhou quando ela implorou por si mesma, e não por Denny. Isso já não tinha nada a ver com

Denny. Era sobre nós. Uma lágrima rolou pela minha bochecha e eu não fiz nada para detê-la. Ela queria que

eu ficasse com ela. Ela se importava comigo. Ela me queria.

Queria a mim.

Só que, por mais que eu quisesse fingir que havia só nós dois naquele estacionamento, eu sabia que não

estávamos sozinhos. E eu não podia fazer isso com Denny. Ele significava muito para mim. Mas eu nunca

tinha tido aquilo… nunca tinha tido alguém que me quisesse. Eu nunca tinha sido desejado. Guerreando

comigo mesmo, murmurei:


– Não. Eu não quero…

Não quero feri-lo. Não quero magoar você. Não quero me machucar. Então, o que eu quero?

A palma da mão dela tocou minha face e seu polegar enxugou a lágrima que me descia pelo rosto. Seu

calor me queimava. Essa sensação viajou até a parte baixa do meu corpo e me acendeu. Minha respiração

parou quando meus olhos se grudaram nos dela. Eu a queria. Agora mesmo! Mas ainda sentia que não podia

fazer aquilo.

A outra mão dela se estendeu para agarrar meu pescoço. Ela me puxou até nossos lábios se roçarem.

Minhas pernas cederam e eu quase me coloquei de joelhos, de tanto que aquilo era bom. Ela fechou os olhos

e apertou seus lábios contra os meus com mais força. Eu fiquei rígido, mas movi os lábios junto com os dela.

Nossa, eu tinha sentido tanta falta daquilo! Tinha sentido tanta falta dela. Eu a desejava tanto. Eu a amava

muito. Mas mesmo assim…

– Não faça isso – sussurrei para mim mesmo entre nossos lábios famintos.

Isso só vai nos machucar… nós três. Seja forte o suficiente para impedir. Pare com isso agora mesmo.

Os lábios dela pressionaram os meus com mais força. Enquanto a dor ardia na minha garganta e saía num

gemido, minha força de vontade se dissolveu.

– O que está fazendo, Kiera?

O que eu estou fazendo?

Ela fez uma pausa, ainda com os lábios roçando os meus.

– Eu não sei… mas não me deixa, por favor não me deixa.

A verdade e a dor em sua voz eram inegáveis – ela me queria.

Os olhos dela estavam fechados, então ela não pôde ver o sorriso no meu rosto.

Eu não vou deixar você. Nunca farei isso.

– Kiera… por favor…

Eu sou seu… Pode me levar.

Minha resistência desapareceu com um estremecimento e eu busquei sua boca. Precisava dela. Eu sempre

tinha precisado dela. E ela queria que eu ficasse… ela me queria com ela… ela me queria. E eu era dela.

Meus lábios se separaram e minha língua roçou a dela. Ela gemeu na minha boca e, com um jeito febril,

me provou novamente. Ela queria mais. Eu queria mais. Agora que estávamos jogando pela janela todo o

nosso bom senso, era o desespero que nos movia. A energia e a urgência que pulavam de um para o outro me

deixou eletrificado. Eu queria rasgar suas roupas e cair de boca na boceta dela. Queria vê-la gozar comigo

dentro. Queria sentir sua pele umedecida de suor, queria provar cada centímetro dela, queria que ela gritasse

meu nome no clímax. Meu corpo estava pronto para ela. Meu coração também estava pronto para ela.

Ela me queria…

Puxei-nos para trás enquanto nossas bocas se moviam juntas de forma frenética. Havia um quiosque de

café espresso naquele estacionamento. Eu tinha reparado nele quando ia para o carro. Kiera e eu

precisávamos de privacidade para continuar com aquilo, e eu não pretendia parar agora por nada nesse

mundo. Eu a amava, precisava dela, nada mais importava. Ninguém mais importava.

Minhas costas bateram na porta do quiosque. Kiera me pressionou contra a madeira, seu corpo apertando

o meu. O fogo se espalhou por mim e minha respiração acelerou mais quando meu pau endureceu. Eu

precisava muito dela. Deslizei minhas mãos sob sua blusa para sentir a pele lisa e suave na base das suas

costas. Mas eu queria sentir mais. Precisávamos estar mais sozinhos do que ali.

Estiquei a mão por trás das costas para tentar abrir o quiosque. Se aquela merda não estivesse

destrancada eu pretendia arrombar a maldita porta. De um jeito ou de outro eu ia entrar. Felizmente a

maçaneta girou com facilidade sob a minha mão. Dei graças a Deus por existirem funcionários descuidados.

Afastando-me um pouco da porta, eu a escancarei. Kiera e eu grudamos os olhos um no outro quando

nossas bocas se separaram. Havia tanta paixão e desejo em seu olhar que aquilo me rasgou por dentro. E eu


juro… juro que vi algo mais ali, também. Algo mais profundo. Algo pelo qual valia a pena arriscar tudo que

íamos arriscar. Repassei mentalmente cada palavra gentil e cada carícia suave que ela me fizera. Ela se

importava. Ela valia a pena. Ela valia tudo no mundo.

Meu corpo doía. Eu precisava estar com ela. Deslizei as mãos pelas suas costas, agarrei-a pelas coxas e a

ergui do chão. Quando já estávamos dentro do quiosque, no escuro, eu a soltei e tornei a fechar a porta.

Ficamos ali por um momento, ofegantes. A eletricidade entre nós cresceu à medida que a escuridão

amplificava nossos sentidos. Os braços dela estavam apertados ao redor do meu pescoço e meu braço a

enlaçava pela cintura. Eu não podia acreditar que estávamos ali, juntos, querendo a mesma coisa um do

outro… precisando da mesma coisa.

Eu amo você, Kiera. Muito. Deixe que eu lhe mostre o quanto do único jeito que posso, no momento.

Segurando-a com força junto do meu corpo, eu nos obriguei a ficar de joelhos. Assim que estávamos

firmes no chão, Kiera começou a me atacar, arrancando minhas roupas. Meu peito ficou nu em segundos. Seus

dedos me percorreram, passearam pelos meus mamilos e ao longo de minhas costelas, seguindo as linhas

marcadas que levaram diretamente até a minha virilha. Por Deus, eu queria aquela mão em torno do meu pau.

Queria que aqueles dedos macios e firmes o espremessem e o acariciassem para cima e para baixo.

Por favor… Toque-me.

Um gemido profundo me escapou dos lábios e eu suguei o ar com força. Senti minha cabeça girar como se

eu estivesse bêbado, tonto, sobrepujado. Eu nunca tinha precisado tanto de alguém em toda a minha vida.

Kiera soltou um gemido apaixonado quando eu deixei cair a minha boca sobre o seu pescoço. Tracei uma

trilha de beijos em sua pele sensível enquanto arriava o cardigã dos seus ombros. Ela começou a se contorcer

de impaciência quando eu desabotoei sua blusa.

Apesar de eu estar fazendo aquilo o mais rápido que podia, não era rápido o suficiente para ela. Ela

mesma arrancou a blusa fora e eu a acariciei com os olhos. Nossa, ela era perfeita! Curvilínea, sedutora, sexy

como o diabo. Corri a palma da minha mão para baixo sobre sua pele, sobre seu seio, até a cintura. Um alto e

excitante gemido quebrou o silêncio. Aquilo enviou ondas de choque até o meu pau, já totalmente ereto.

Sim…

Corri a mão de volta até sua pele, acariciando seu mamilo por baixo do sutiã. Ela arqueou o corpo contra

o meu e procurou minha boca novamente. Puxa, imaginei que ela já estava toda molhadinha… por mim…

Estendendo o braço eu a deitei no chão. Estávamos na área de depósito do quiosque de café. Os sacos de

grãos de café guardados nas prateleiras e no piso faziam o lugar todo cheirar como a nossa bebida favorita da

manhã. Isso era algo que compartilhávamos quase todos os dias. Tinha tudo a ver nós cedermos aos nossos

desejos um pelo outro exatamente ali. Nosso relacionamento tinha praticamente começado enquanto

tomávamos café.

Quando já estávamos esparramados sobre o chão sujo, Kiera arranhou com força as minhas costas. Gemi

de prazer.

Por Deus, sim, aquilo era bom demais.

Ela afastou um pouco meus quadris de cima dela para poder desabotoar e abrir o zíper do meu jeans. Nós

dois respirávamos com dificuldade, e parecia que estávamos quase desmaiando. Enquanto seus dedos

trabalhavam, gemi mais forte e suguei o ar pelos dentes.

Deus, sim, por favor, me toque, Kiera. Por favor.

Ela arriou minhas calças até pouco abaixo dos quadris e em seguida ficou olhando para mim, vendo o

quanto meu pênis se esmagava contra a cueca, desesperado para saltar e estar junto dela.

Isso tudo é para você… por favor, me toque.

Então, como se ela tivesse ouvido meu apelo silencioso, seus dedos agarraram meu membro e deslizaram

bem lentamente ao longo de todo o comprimento dele. Pousei a testa sobre a dela, ofegando.

Por Deus, isso mesmo… mais!


Sua mão continuou me envolvendo com suavidade, empurrando e puxando.

Ai, meu Deus, sim… Eu preciso de você. Amo você.

Meus lábios se pressionaram contra os dela, frenéticos. Minhas mãos apalparam por baixo da sua saia

rodada e eu lhe tirei a calcinha. Precisava estar dentro dela. Agora. No meu ouvido, ela gemeu:

– Ah, meu Deus… por favor, Kellan … – Ela queria. A mim. Ela me amava. Só podia ser!

Abaixei a cueca rápido para liberar o caminho e a penetrei com força e determinação. Kiera choramingou

e mordeu meu ombro. Enterrei a cabeça em seu pescoço, precisando de um minuto para me recuperar do calor

úmido que latejava em torno do meu pau.

Nossa… Porra… Isso é tão bom. Você é tão gostosa. Isso parece tão certo. Eu te amo tanto…

Kiera ergueu os quadris para me puxar ainda mais para dentro, para o fundo dela. Ondas de prazer

circularam em mim e eu me pressionei com mais força, enfiando mais, precisando de mais. Muito mais.

– Mais depressa – ela gemeu. Agarrando seus quadris, eu a penetrei com mais força muitas e muitas

vezes. Eu nunca tinha sentido nada parecido. O desejo reprimido, a tristeza, o desespero, a solidão, a paixão,

tudo culminava ali, na melhor experiência sexual que eu já tinha experimentado. Eu não queria que aquilo

acabasse nunca, e ao mesmo tempo mal aguentava esperar para gozar junto com ela.

– Meu Deus, Kiera… – murmurei enquanto nossos corpos se balançavam juntos. – Meu Deus… sim…

Deus, eu amo você… – sussurrei, o som se perdendo em sua pele.

Ela gemeu e me puxou com ímpeto. Nossos movimentos se tornaram mais rápidos, urgentes, mais

profundos, mais duros. Segurei-a com virilidade, sabendo que provavelmente aquilo a machucaria, mas eu

estava muito perto de explodir para me importar. Kiera se remexeu selvagem debaixo de mim, gritando cada

vez mais alto enquanto o prazer assomava até alcançar um nível incontrolável. Perdido no momento, gritei

também. Eu nunca tinha sentido um orgasmo tão potente. Cada terminação nervosa parecia em chamas,

formigando tudo e fazendo aumentar a tensão, que precisava se liberar. Kiera começou a gemer num ritmo

crescente.

Deus, sim, por favor, goze para mim… goze agora.

Eu a senti se contrair em torno do meu pênis quando soltou um grito gaguejado. Então suas unhas

arranharam com vontade as minhas costas e a minha pele pareceu molhada. Inalei com dificuldade, sentindo

dor. A leve agonia misturada com prazer me lançou além dos limites. Deixei escapar um gemido profundo e

apertei os dedos ao redor da coxa de Kiera com tanta força quanto consegui, enquanto meu corpo se desfazia

em explosões de gloriosa liberação.

Meus quadris se acalmaram quando a euforia diminuiu. Por alguns segundos não senti coisa alguma além

de uma satisfação pacífica. Eu a amava. Ela me amava. Tínhamos feito amor um com o outro e tinha sido

melhor do que qualquer coisa que eu já tinha sentido na vida. Eu queria me enroscar nos braços dela, sentir

suas carícias em meu cabelo, sussurrar que a amava e que nunca iria deixá-la. Eu ficaria ali com ela, porque

aquele era o lugar onde meu coração estava. Ela era o meu coração.

Então eu senti Kiera começar a chorar. Não, não chorar, exatamente. Ela soluçava. Eram soluços de dor e

de remorso que pareciam gritar “Por que eu fiz isso?”

Minha felicidade se desintegrou quando eu me afastei dela. Ergui a cueca, depois a calça, e me coloquei

de cócoras em seguida, junto dela. Pegando minha camisa, fiquei segurando-a com força por alguns instantes,

pois ainda não conseguiria vesti-la. Minhas costas sangravam, dava para sentir. Kiera tinha me enfiado as

unhas, de tanto que me queria, e agora parecia que ia vomitar a qualquer momento. Eu tinha acabado de

experimentar a mais profunda conexão física que já tivera com alguém, e ela parecia que ia vomitar.

Simplesmente porque… ela não me amava. Aquilo tinha sido um erro. De novo! Um erro… Era isso que eu

seria para ela. Porra! Eu tinha acabado de dizer que a amava e parecia que o seu mundo tinha acabado de

terminar.


Enquanto Kiera colocava sua calcinha novamente, meu corpo tremia com um frio que não tinha nada a ver

com a temperatura. Ela se vestiu com uma das mãos, enquanto usava a outra para apertar a boca fechada,

como se fosse vomitar. A raiva foi aumentando dentro de mim enquanto eu a observava vestir o sutiã e a blusa

novamente. Por Deus, será que eu era assim tão repugnante para ela? Será que o que tínhamos acabado de

fazer era tão repulsivo?

Quando ela acabou de se vestir, fungou com força e disse meu nome.

Kellan…?

Eu não tinha me movido, não a tinha ajudado a se vestir, não tinha sequer levan​tado o olhar do chão. Não

consegui. Fiquei chocado com a reação dela. E com raiva.

Ela tinha acabado de me usar novamente.

Olhei para cima quando ela disse meu nome. Meus olhos estavam molhados, mas eu não me importei. Eu

tinha arriscado tudo por causa dela… minha amizade com Denny, minha sanidade. Tinha colocado tudo em

risco porque acreditava que realmente tinha encontrado alguém nesse mundo que se importava comigo. E ali

ela estava, devastada. Ela não se importava. Continuava não se importando, pelo menos não tanto quanto eu

precisava. Essa situação estava me arrasando; eu tinha traído Denny novamente, e por nada. Eu deveria ter

entrado no meu carro e ido embora dali. A essa hora eu já estaria bem longe da cidade. Esse tinha sido meu

plano. Por que eu não tinha feito o que planejara?

– Eu tentei fazer o que era certo. Por que você não me deixou ir embora?

Por que eu não fui forte o suficiente para ir embora? Por que sou tão terrivelmente egoísta? Por que

continuo apaixonado por ela?

Ela começou a chorar novamente. Agarrando seu casaco, ela se levantou e se preparou para sair. Eu

olhava para o chão novamente, desejando poder cavar um buraco. Não queria mais nada, só desaparecer. De

repente, ouvi Kiera suspirar. Ela fez um movimento em direção a mim e eu entendi por que; eu podia sentir o

sangue que me escorria pelas costas. Ela acabara de perceber o que tinha feito em mim.

Sim, Kiera. Você me fez sangrar, de um jeito muito mais profundo do que imagina.

Sem olhar para cima, eu disse a ela:

– Não. Vai lá. A esta altura, Denny já deve ter dado por sua falta.

E ele é o cara com quem você quer ficar, certo? Eu não preciso de sua pena. Preciso do seu amor. E

isso eu já sei que você nunca vai me dar.

Kiera se virou, saiu correndo do quiosque e eu fiquei ali sozinho. Mais uma vez.


Capítulo 13

Ficar ou ir?

Fiquei naquele quiosque de café espresso pelo que me pareceram horas. Ouvi as pessoas entrando e saindo

do estacionamento, e imaginei que um dos carros que saíam tinha Kiera e Denny dentro. A pele das minhas

costas ardeu quando minha camisa roçou os cortes, mas eu dei boas-vindas à dor. Aquilo era um lembrete de

o quanto eu era idiota. Eu merecia ter o coração golpeado com força. Burro, burro, burro.

Enquanto caminhava para o meu carro, recordei os momentos antes de Kiera e eu cedermos. Ela me

implorara para ficar. Tinha sido a primeira garota que tinha me pedido para ficar por perto. A primeira

pessoa em toda a minha vida. Nem meus próprios pais tinham me pedido para eu voltar para casa, depois

que eu fugi. Não, em vez disso eles venderam a casa, se mudaram e jogaram fora todas as minhas tralhas. Eles

tinham me jogado fora, e isso era o que eu esperava de todos os outros. Mas Kiera… ela tinha gritado por

mim. Soluçara. Suas lágrimas tinham sido genuínas… ela não conseguiria fingir uma emoção como aquela.

Caminhei quase tropeçando até o carro, desorientado pelos meus pensamentos conflitantes. Eu a odiava.

Eu a amava. Ela não dava a mínima para mim. Ela se importava tanto que tinha chorado.

Ok… então que merda eu faria com tudo aquilo?

E por acaso alguma coisa importava? Ela ainda era a namorada de Denny. Ele era o cara que a tinha

levado de volta para casa. Tinha vencido a disputa, e uma parte de mim queria que fosse assim; depois do que

eu tinha feito por trás de suas costas ele merecia ficar com tudo – com o emprego e com a namorada.

Entrando no carro, dei partida e fui embora do estacionamento. Não tinha certeza sobre para onde ir.

Minhas opções eram intermináveis, mas os resultados eram todos o mesmo. Em qualquer lugar que eu

saltasse, estaria completamente sozinho. Isso, no fim, só me deixou uma opção.

Olhos lacrimejantes verdes, amendoados, encheram a minha visão.

Não me deixe, por favor não me deixe.

Kiera tinha implorado para eu ficar. Tinha se entregado para mim, mesmo sabendo que Denny estava a

menos de cem metros de distância. Isso só podia significar alguma coisa… e eu nunca descobriria se fosse

embora. Ela poderia muito bem ser a primeira pessoa a ter sentimentos por mim. Talvez estivesse confusa

porque tinha sentimentos por Denny também. Tínhamos curtido um momento verdadeiro juntos, naquela noite.

Tínhamos falado em emoções reais, medos reais. Ela não estava brincando comigo, não estava fingindo. Ela

não era uma prostituta, nem uma piranha. Estava simplesmente confusa, sofrendo e com medo… Assim como

eu.

Meu coração amoleceu um pouco e eu relaxei no banco do carro. E se fôssemos mais parecidos do que eu

imaginava? E se ela estivesse com Denny simplesmente porque não gostava de ficar sozinha e não conhecia

outra maneira? E se ela o amasse, mas também sentisse algo por mim? Eu conseguiria compartilhá-la com

ele? Será que isso seria melhor do que nada, melhor do que me sentir vazio e sozinho? Denny poderia ter a

maior parte dela, mas eu ficaria com alguns fragmentos pequenos, minúsculos… como acontecera naquela

noite, quando ela me pedira para ficar. Eu poderia viver unicamente com tão pouco?


Eu não tinha certeza, mas sabia de uma coisa. Eu não podia ir embora. A atração por ela era mais forte

agora. Tinha perdido minha janela de oportunidade. Estava ali para sempre e queria ver no que aquilo ia dar,

de um jeito ou de outro. E eu sabia que poderia doer. Provavelmente seria a minha morte. Por outro lado, a

vida é supervalorizada mesmo, e um segundo em companhia dela era melhor que décadas de solidão. Se a

minha vida estivesse realmente destinada a ser um mar de vazio sem ela, então eu aceitaria desistir.

Fui para casa pelas ruas secundárias. Queria ter tempo para pensar antes de chegar lá. Ter certeza de que

eu poderia fazer o que planejava. Não aguentaria voltar para a dança de dor e raiva em que Kiera e eu

tínhamos nos envolvido desde que Denny retornara. Não, se eu estava voltando para casa a fim de ficar com

ela, então nós teríamos um relacionamento – uma solução com a qual ambos concordássemos. Eu precisava

da proximidade dela. Precisava abraçá-la e precisava ser abraçado por ela. Se ela me rejeitasse novamente,

a coisa não iria funcionar.

Quando cheguei à minha casa era tão tarde que já estava quase na hora de acordar. Eu me percebi tonto

quando entrei. O estranho é que me sentia completamente em paz. Kiera gostava de mim. Queria que eu

ficasse ali, e ali estava eu. Ficaríamos todos felizes e alegres novamente. Pelo menos enquanto ninguém

descobrisse que Kiera e eu nutríamos sentimentos um pelo outro.

Denny acordou e desceu a escada lentamente. Um fiapo de culpa se infiltrou em mim, mas eu a coloquei

de lado. O que eu tinha com Kiera era mais do que já tinha tido na vida com alguém. Não queria machucar

Denny, mas não poderia deixá-la ir. De qualquer modo, ele não tinha nada a ver com aquilo.

Preparei uma cafeteira enquanto Denny fervia água numa chaleira, e conversamos sobre coisas aleatórias

que nada tinham a ver com o que acontecia entre mim e Kiera bem debaixo do seu nariz. Enquanto eu estava

sentado à mesa, tomando café, ouvi alguém descendo a escada correndo. Denny não pareceu perceber a

comoção; estava encostado na bancada e bebia chá enquanto assistia à tevê da sala.

Sabendo que Kiera estava prestes a entrar na cozinha a qualquer segundo, colei os olhos na porta. Como

uma deusa que descia do céu, ela foi iluminada por um raio de luz ao dobrar a esquina. Então parou e olhou

para a nossa estranha imagem, Denny e eu ali, juntos, como se nada tivesse mudado.

Quis lhe exibir um sorriso sexy, talvez até mesmo beijar sua bochecha, mas Kiera olhou para mim com

tamanho choque que uma onda de irritação me percorreu. Ela me pediu para ficar; por que estava tão surpresa

por eu ter feito isso? Será que tinha mudado de ideia? Será que não ia nem mesmo me dar uma chance? Sorri

para ela enquanto tentava esconder a raiva. Tinha me agarrado àquela dor durante tanto tempo que estava

mais que na hora de mandá-la embora para deixar Kiera entrar. Eu precisava relaxar um pouco.

Denny se virou para Kiera quando notou sua chegada.

– Bom dia, dorminhoca. Está se sentindo melhor?

Levou um segundo para ela tirar os olhos de mim por tempo bastante para responder. Isso fez com que

meu sorriso aumentasse. Pelo menos eu tinha a sua atenção.

– Estou, muito melhor – garantiu ela. Fiquei curioso para saber sobre o que eles estavam falando, mas

depois percebi que fingir passar mal tinha sido a desculpa dela para fugir do bar na véspera.

Meus olhos a seguiram quando ela passou direto por Denny e foi se sentar à mesa, bem na minha frente.

Ela ainda nem tinha tocado nele. Interessante. Mas ela o analisou atentamente depois de se sentar, e seu rosto

ficou sombrio e cheio de culpa. Pareceu bem claro que ela estava dividida por tê-lo traído e se entregado a

mim. Eu detestei aquele olhar dela, pois isso fez uma onda de ciúme e culpa me inundarem.

Não… Deixa pra lá… Isso não tem nada a ver com Denny.

Quando terminou de olhar para Denny, ela virou os olhos na minha direção e começou a me analisar. Não

pareceu feliz com o que viu, e sua expressão de dor se transformou em raiva. Ela estava com raiva de mim?

Por quê? Eu não a tinha forçado a fazer coisa alguma. Na verdade, era ela quem tinha me pedido para fazer

tudo aquilo; portanto, se alguém deveria estar sentindo raiva ali, esse alguém devia ser eu. Espelhando sua

expressão, estreitei os olhos enquanto a estudava.


Desviei os olhos no instante em que Denny se voltou para Kiera. Denny pegou no flagra o olhar de

reprovação dela para mim, e eu não pude conter meu sorriso. Bem feito! Ela poderia estar sentindo um monte

de coisas naquela manhã, mas raiva de mim não era uma dessas coisas.

– Quer que eu prepare alguma coisa para você comer? – ofereceu Denny, preocupado de verdade com

Kiera, que ainda podia estar passando mal. Só que não estava.

– Não, não precisa. Não estou com fome agora.

Eu queria me livrar daquele constrangimento. Queria de volta o que tínhamos antes. E queria mais. Ela

parecia tão maravilhosamente bem naquela manhã que eu comecei a ficar excitado só de observá-la. Gostaria

de levá-la para cima e colocá-la de volta na cama. Na minha cama.

– Café? – perguntou Denny, apontando para o bule ao lado dele.

O rosto de Kiera empalideceu quando ela sussurrou:

– Não.

Eu sabia que ela estava se lembrando do mesmo que eu a manhã toda: minhas mãos sobre ela, suas mãos

em mim, suspiros, gemidos, eu me lançando dentro dela, sentindo-a gozar em volta do meu pau e me

liberando dentro dela. Céu e inferno. O cheiro de café estaria permanentemente ligado ao sexo, agora.

Denny pousou a caneca e caminhou até ela. Meu coração começou a bater mais rápido à medida que ele

se aproximava. Eu sabia o que ele ia fazer antes mesmo de acontecer, e isso me incomodou. Inclinando-se,

Denny a beijou com ternura na testa. Eu não queria ver, mas não consegui me impedir e lutei para controlar as

emoções. Tudo o que eu queria fazer era rosnar para ele ficar longe dela, mas tive de permanecer calado. Se

Denny soubesse sobre mim e Kiera, sua alegria não seria a única coisa que poderia ser destruída. Nossa

amizade iria junto, pelo ralo.

– Tudo bem, me avisa quando estiver com fome. Eu preparo o que você quiser – ofereceu Denny com um

sorriso, antes de ir para a sala e se jogar na frente da tevê. Eu queria suspirar de alívio por ele ter ido

embora, mas meu estômago estava embrulhado. Será que Kiera iria se juntar a ele ou ficaria ali comigo?

Para minha surpresa, ela continuou na mesa. Pelo jeito como ela estava, porém, com a cabeça baixa, achei

que talvez estivesse sofrendo com um acesso de culpa. Com tristeza, eu aceitaria aquilo. Pigarreei para

limpar a garganta e Kiera se assustou, como se tivesse esquecido que eu estava ali. Isso doeu. Olhei para

Denny, pacificamente alheio a tudo, e isso doeu também. Eu era o pior tipo de pessoa. Na verdade, não

pretendia magoá-lo. Eu só a desejava demais. Eu a amava e tudo que queria era que ela me amasse também.

Só um pouco. Uma fração dos sentimentos que ela nutria por Denny, isso era tudo que eu queria. Não era

pedir demais, era?

Quando voltei meus olhos para Kiera, ela estava me analisando novamente. Olhava atentamente para a

minha camisa, como se estivesse me imaginando nu e se lembrando de suas unhas arranhando a minha pele.

Talvez até quisesse repetir isso. Eu certamente permitiria. Aceitaria tudo que ela quisesse me dar, não

importava se era muito ou pouco. Meu corpo estava reagindo só com o pensamento de suas mãos em mim, e

eu meio que desejei que ela percebesse o que estava fazendo comigo.

Isso representa o quanto eu quero você.

Um sorriso torto ergueu os cantos dos meus lábios, e agora que Denny estava fora da cozinha, eu

finalmente sentia o ciúme e culpa se esvaindo. Ajudou muito me ver ali sozinho com ela. Quando estávamos

só nós dois eu me permitia imaginar por alguns momentos que só havia duas pessoas no mundo. As bochechas

de Kiera coraram fortemente e ela desviou o olhar para longe de mim. Ela estava pensando o mesmo que eu.

Naquele exato momento ela se imaginava comigo. Queria estar comigo. E, droga!… Eu queria foder com ela

de novo, independentemente do que isso faria a Denny. Se ela estava pensando nisso… talvez também

quisesse a mesma coisa.

– É um pouco tarde para esses pudores, não acha? – sussurrei, provocando-a.

Se você deixar, posso provocá-la de um jeito diferente.


– Você perdeu a cabeça, seu louco? – sussurrou ela, tentando não fazer barulho, mas falhando. Meu

sorriso se abriu um pouco mais.

Sim, é bem possível que eu tenha enlouquecido. O amor faz dessas coisas.

Acalmando-se um pouco, ela perguntou:

– O que você está fazendo aqui?

Inclinei a cabeça para o lado enquanto brincava com ela. O que eu não daria para brincar com ela de

verdade.

– Eu moro aqui… lembra?

Você pode me ter todas as noites, se quiser.

Kiera quase pareceu ter vontade de me dar um soco. Mas simplesmente entrelaçou os dedos das mãos.

– Não, você ia embora… lembra? Uma partida grandiosa, sombria, dramática… Será que isso lhe soa

familiar?

Seu tom era tão sarcástico que não pude deixar de rir. Ela era uma gracinha quando estava irritada. Eu

poderia acalmá-la agora mesmo se ela topasse ir lá para cima comigo.

– As coisas mudaram. Alguém me pediu para ficar de maneira muito convincente. – Sorrindo, eu mordi

meu lábio.

Peça para eu ficar agora mesmo, Kiera. Vamos para algum canto e eu poderei lhe mostrar novamente o

quanto quero estar com você.

Ela fechou os olhos e prendeu a respiração. Seu rosto naquele instante me fez lembrar a noite anterior,

quando ela se mostrara sobrepujada pela necessidade de estar comigo.

Eu poderia acabar com essa sua carência trabalhando no lugar certo, Kiera. Estou pronto para isso. E

você?

– Não. Não há qualquer razão para você continuar aqui. – Ela abriu os olhos, captou meu sorriso e olhou

para trás, para onde Denny estava, ainda esquecido na sala vendo tevê.

Por mais divertido que fosse brincar com ela, eu sabia o quanto era preciso deixar bem claro que eu

estava falando sério. Que eu tinha ficado porque ela me pedira isso. Que eu precisava dela e sabia que ela

precisava de mim também. Ela era apenas teimosa demais para admitir isso. Inclinando-me um pouco, disse:

– Eu estava errado antes. Talvez você queira fazer isso. Para mim, vale a pena ficar e descobrir.

Você vale tudo para mim. Tudo. Se chegarmos ao limite máximo, vale até mesmo a minha amizade com

Denny.

Ela gaguejou em busca de algo para dizer, como se eu tivesse acabado de contar a ela que eu era um

alienígena ou algo assim.

– Não! – Foi tudo que ela conseguiu dizer. Depois de um segundo, se recompôs e acrescentou: – Você

tinha razão. Eu quero Denny. Eu escolho Denny.

Ela estava se defendendo, mas eu não consegui descobrir se ela se defendia para mim ou para si mesma.

E se ainda houvesse uma partícula de dúvida em seu coração, então eu não poderia ir embora. Uma dúvida

dentro dela era uma esperança dentro de mim.

Sorrindo, estendi a mão, toquei em seu rosto e tracei uma linha ao longo de sua boca suculenta. Quase no

mesmo instante ela reagiu ao meu toque. Sua respiração se acelerou, seus olhos ficaram semicerrados e os

lábios entreabertos quando eu rocei a mão sobre eles de leve. Eu sabia que se continuasse a explorar seu

corpo eu a encontraria tão pronta para me receber quanto eu estava pronto para invadi-la.

Com uma grande dose de força de vontade, parei. Tive que rir com a reação dela.

Seja tão teimosa quanto quiser, porque o seu corpo não mente.

– Veremos – eu disse, forçando minha mão a voltar para o meu colo, quando tudo que eu queria era

explorar o colo dela.

Irritada, Kiera meneou a cabeça na direção de Denny e perguntou:


– E ele?

Meus olhos se abaixaram e fitaram a mesa. Sim… Denny. Não importava o quanto eu poderia administrar

a situação, ainda estaria traindo Denny. Magoá-lo não era algo que eu quisesse fazer, e essa era a razão de

topar manter tudo em segredo, um segredo compartilhado só por mim e por ela. Se Denny não soubesse o que

estávamos fazendo, Kiera poderia ficar com ele. Se por acaso escolhesse isso. Tudo o que ela decidisse fazer

com o namorado dependeria apenas dela.

Odiando o que eu tinha a dizer, confessei:

– Eu tive muito tempo para pensar nisso ontem à noite. – Olhei de volta para ela. – Não pretendo magoar

Denny desnecessariamente. Não vou contar a ele, se você não quiser que eu conte.

Vou ficar calado a respeito disso para sempre, caso você não queira que ele saiba que você

compartilha sua vida com nós dois. Aceito o que for mais fácil para você. O que você quiser. Desde que eu

receba uma parte de você, mesmo que ela seja pequena, vou ficar feliz.

Sua resposta foi imediata.

– Não, eu não quero que ele saiba. – Ela parecia sofrer ao admitir isso. Eu entendi. Odiava Denny fazer

parte de tudo aquilo, mas infelizmente ele fazia. Só que o relacionamento deles continuaria separado do

nosso, oficialmente, e eu tentava… aceitar bem isso. Kiera não pareceu partilhar minha aceitação. Parecia

dividida e confusa. – O que você quer dizer com… desnecessariamente? O que acha que nós somos agora? –

perguntou.

Meu sorriso voltou quando estiquei o braço até o outro lado da mesa para pegar sua mão. Era tão gostoso

segurá-la novamente. Depois que ela superasse o choque e a culpa, ela se lembraria do quanto era

maravilhosa a sensação de me tocar, e de como era incrível a ligação que tínhamos um com o outro.

Ela se encolheu e tentou puxar a mão, mas eu a segurei com firmeza enquanto acariciava seus dedos. Ela

precisava se lembrar de como era fácil me abraçar. Aquela era a única maneira de conseguirmos voltar a ser

como éramos.

– Bem… nesse exato momento, nós somos amigos. – Deslizei os olhos para cima e para baixo pelo seu

corpo, desejando que estivéssemos totalmente sozinhos novamente. – Bons amigos.

E muito mais. Deixe-me entrar na sua vida e eu poderei ser tudo que você quiser.

Ela me olhou, boquiaberta, e então ficou com raiva.

– Você disse que nós não éramos amigos. Apenas roommates, lembra?

Eu sabia que não conseguiria explicar tudo que eu sentia para ela, muito menos quando ela ainda estava

envolta em culpa, então eu disse, brincando:

– Você me fez mudar de ideia. Você sabe ser muito… persuasiva. – Sem conseguir resistir, baixei um

pouco a voz e acrescentei: – Gostaria de me persuadir de novo qualquer hora dessas?

Talvez agora mesmo? Eu adoraria passar as mãos sobre seu corpo novamente, ouvi-la ofegar meu

nome, sentir você se contrair com força em torno do meu corpo. Adoraria fazer amor com você. Adoraria

cuidar de você. Basta me dar uma chance.

Ela se levantou tão depressa que arranhou a cadeira no chão. Larguei sua mão, mas não estava disposto a

apagar sua imagem. Kiera teria de me mandar embora à força dessa vez, e eu sabia que ela não faria mais

isso. Não agora.

Seu movimento abrupto chamou a atenção de Denny.

– Você está bem?

Parecendo confusa e envergonhada, Kiera respondeu, em voz alta:

– Estou. Vou subir para tomar um banho. Tenho que me vestir para o trabalho… para o turno de Emily.

Na mesma hora eu a imaginei totalmente encharcada – seu cabelo escuro colado nas costas, bolhas do

sabonete deslizando por entre seus seios. Comecei a me sentir desconfortável dentro do jeans, ao deixar


minha fantasia decolar e me levar junto. Quando ela olhou para Denny, que já havia voltado a prestar atenção

à tevê, calmamente eu lhe perguntei:

– Quer que eu vá com você? Nós poderíamos continuar a nossa… conversa.

Ela olhou para mim fixamente, e eu assumi que sua resposta à minha sugestão brincalhona era um não.

Quando ela subiu a escada e foi tomar banho, eu curti mais um gole do café. Todos os meus pensamentos

giravam em torno dela enquanto eu observava, totalmente distraído, o programa de tevê a que Denny assistia.

Imaginei-a se despindo, imaginei-a abrindo a água, imaginei-a entrando debaixo da ducha e sua pele

arrepiada, até que a água escaldante a acalmasse. Imaginei suas mãos deslizando sobre cada curva do seu

corpo. Com esse filme libertino passando em minha mente, continuar sentado à mesa da cozinha foi difícil;

tudo que eu queria fazer era ir lá para cima e me juntar a ela. Eu poderia provocá-la com carícias leves e

beijos suaves. Eu a excitaria até que ela me pedisse para tomá-la novamente. Eu adoraria fazer isso… mas

não enquanto Denny estivesse ali, no andar de baixo. Aquilo me pareceu ultrapassar demais a linha, e eu já

tinha ido mais longe do que tinha pretendido. O problema é que agora era tarde demais para voltar atrás.

Então, tudo que eu podia fazer era ser tão bom quanto conseguisse quando ele estivesse por perto, e um

canalha charmoso, porém diabólico, sempre que ele não estivesse.


Capítulo 14

Viciado

A partir do momento que as coisas se acalmaram na casa, eu relaxei, mas tive muita dificuldade para me

impedir de flertar de forma implacável com Kiera a cada oportunidade que surgia. Não conseguia evitar.

Mesmo quando Denny estava por perto eu fazia isso, e sempre me sentia um pouco culpado depois.

Eu a tocava em lugares íntimos, beijava-lhe a nuca, os ombros, e mentalmente a despia com os olhos. Eu

só queria que ela me tocasse em troca… me beijasse… fizesse amor comigo novamente. Era só nisso que eu

pensava. Tinha Kiera na cabeça vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

E sabia que Kiera sentia o mesmo, embora ela resistisse e até me repelisse e empurrasse. Seu corpo

reagia a cada lugar que eu tocava. Só de percorrer com os dedos seus ombros nus, ela quase tinha um

orgasmo. Era divertido de assistir, e tornava muito mais forte a expectativa de conseguir ir além. Eu sabia,

com a paixão que havia entre nós, que a próxima vez em que estivéssemos juntos seria explosiva. Estava

viciado em Kiera, de forma nua e crua, e nunca conseguia o bastante dela.

Ela me cobrou uma mudança de comportamento. Tremendo sob minhas carícias uma manhã, ela me

empurrou com força e, num tom de voz irritado, me disse:

– Você é tão… volúvel. Não consigo acompanhar suas mudanças de comportamento. – Estava com um

olhar bonito no rosto. Que desapareceu rápido, como se tivesse medo de ter me irritado. Provavelmente eu de

fato lhe parecia volúvel. Tinha me mantido gélido depois da nossa primeira vez, e agora me mostrava ardente

e com tesão. Mas eu tinha amado todo esse tempo, e ela parecia muito instável com seus sentimentos;

portanto, se eu era volúvel, era porque ela me fazia desse jeito. Sorrindo, eu lhe disse, brincando:

– Sou um artista… e não volúvel.

Seus lábios se franziram num biquinho perfeito. Senti vontade de chupá-los.

– Bem, nesse caso você é um artista volúvel… – rebateu ela. Quase num murmúrio, completou: – Você é

praticamente uma mulher.

Divertido ao ouvir o comentário dela, apoiei-a contra a bancada e pressionei meu corpo contra o dela.

Era muito bom estar tão perto dela. Aquilo me fez lembrar nossa primeira vez. Meu pau, que vivia a meia

bomba, se endureceu num segundo; agarrei-a pela perna e a rodei em torno do quadril para que ela pudesse

me sentir. Correndo a mão pelas suas costas, puxei-a contra mim. Em seu ouvido, sussurrei:

– Posso garantir a você… que não sou.

Meus lábios percorreram seu pescoço saboreando-a, provocando-a. Ela me empurrou, mas foi uma

tentativa fraca, sem esforço verdadeiro por trás da intenção. Ela queria aquilo.

– Por favor… para – ela choramingou.

Apesar de me dizer isso, ela expôs o pescoço de forma explícita para mim, como se implorasse por um

último beijo. Atendi ao seu pedido inconsciente, e chupei com força a pele que eu adorava tocar. Só então eu

me afastei, com um suspiro. Seus olhos estavam ligeiramente fora de foco quando ela olhou para mim.

– Tudo bem – eu disse a ela. – Mas só porque você pediu. Adoro quando você faz isso.


Chuviscou alguns dias depois, e eu sabia que Kiera não curtia chuva nem um pouco, mesmo quando não

passava de uma garoa. Assim, decidi fazer algo cavalheiresco e apareci na faculdade para lhe oferecer uma

carona para casa. Honestamente, bancar o cavalheiro não era o verdadeiro motivo de eu ter dirigido até lá,

com um sorriso enorme pregado na cara. Eu sentia falta das caronas que dava a ela. Isso era uma parte da

nossa velha rotina que eu gostaria de retomar.

Quando ela me viu, sua respiração ficou em suspenso. Não sabia se isso era porque ela estava feliz em

me ver, já que eu não fazia aquilo havia muito tempo, ou se estava simplesmente chateada. Torci para não ser

a segunda hipótese. Eu queria provocá-la, destruir a muralha de resistência entre nós, mas não queria magoála.

Ela revirou os olhos quando eu sorri, e percebi que ela não estava tão feliz em me ver tanto quanto eu por

vê-la. Mas esperava que ela fosse aceitar minha gentileza, em vez de se mostrar obstinada. Afinal, eu não iria

obrigá-la a entrar no carro, nem deitá-la no banco à força e atacá-la. A menos que ela quisesse isso, é claro.

Kiera veio andando até o carro como se caminhasse através de um terreno pantanoso. Avaliei como um

bom sinal o fato de, ao menos, ela estar vindo na minha direção. Pérolas de chuva fina cintilavam no cabelo

em torno de seu rosto e gotículas tinham ficado presas em seus cílios e lábios. Ela era linda.

Quando seus olhos curiosos me fitaram, eu disse com uma voz suave:

– Achei que talvez você quisesse uma carona.

– Claro, obrigada. Estou indo para o Pete’s. – Seu tom era leve e alegre, mas todo o resto desmentia isso.

Ela respirava mais depressa e ficou olhando para os meus lábios e para as minhas mãos, como se debatesse

consigo mesma qual deles queria primeiro sobre ela.

Tive de sorrir ao perceber as ações traidoras do seu corpo, e também pela sua escolha do destino. Seu

turno só iria começar dali a algumas horas. Ficou muito claro que ela só resolvera ir para lá mais cedo a fim

de garantir que não ficaria em casa sozinha comigo.

Depois de abrir a porta para ela com um floreio majestoso, dei a volta no carro e fui para o meu lado.

Kiera olhava para mim quando eu me sentei. Pareceu ficar cada vez mais tensa à medida que nos afastamos

da faculdade, e não pude deixar de especular sobre o que ela achava que iríamos aprontar ao longo do

caminho. Eu faria qualquer coisa que ela me pedisse.

De repente ela olhou para o banco de trás e seu rosto ficou vermelho. Será que estava imaginando nós

dois ali atrás? Havia muito espaço, e eu poderia deixá-la muito confortável, se ela quisesse. Curioso com sua

resposta, perguntei, rindo:

– Tudo bem?

Ela olhou para a frente e respondeu, com a voz aguda demais:

– Tudo.

Claro… Mentirosa!

– Ótimo – eu disse, deixando a mentira de lado.

Paramos num sinal vermelho. Olhei para ela e lancei-lhe um sorriso amigável. Ela começou a respirar

com tanta dificuldade que ficou quase ofegante. Eu tinha certeza de que ela queria que eu a tocasse, quase

transbordava de vontade que isso acontecesse. Isso me deixou excitado, mas eu resisti. Não queria que ela

percebesse que o momento estava chegando. Pretendia pegá-la desprevenida, para conseguir levá-la até o

limite, fazer com que ela parasse com aquela farsa e me aceitasse.

Quando o sinal ficou verde, Kiera se virou e ficou olhando para fora da janela. Parecia imersa em

pensamentos. Perguntei a mim mesmo se ela pensava em mim. Como aquele me pareceu um bom momento

para isso, coloquei minha mão em seu joelho e a deixei deslizar lentamente até a parte interna da sua coxa.

Ela fechou os olhos; senti o fogo correndo através de mim à medida que meu desejo por ela entrou em marcha

acelerada.


Sua respiração tornou-se longa e lenta, como se ela estivesse se forçando a se acalmar. Ela manteve os

olhos fechados durante todo o percurso; e ainda estavam fechados quando eu estacionei o carro. Havia tanta

coisa que eu queria fazer com ela. Eu queria beijá-la. Queria deitá-la lentamente. Queria fazê-la gritar de

vontade. Queria sussurrar em seu ouvido o quanto ela significava para mim, o quanto eu a amava. Eu queria

tudo.

Soltei o cinto de segurança e deslizei sobre o banco até encostar nela. As laterais dos nossos corpos

ficaram coladas uma à outra, e sua respiração suspensa voltou a acelerar. Ela estava perfeitamente pronta

para mim. Eu também estava pronto para ela. Mudei minha mão de lugar e a fiz subir mais pela sua coxa, até

que meu dedo mindinho encostou e descansou junto da costura interna de sua calça jeans, muito perto de onde

eu queria estar. Um suspiro lascivo escapou quando ela abriu a boca. Por Deus, ela me queria, mas

continuava resistindo a isso. Ela precisava aceitar o próprio desejo antes que pudéssemos fazer amor

novamente. Quanto a mim, eu teria de me contentar em simplesmente provocá-la, por enquanto.

Passei minha bochecha ao longo de sua mandíbula. Pude senti-la lutando consigo mesma para não ceder,

virar a cabeça e encontrar meus lábios. Beijei o cantinho da sua mandíbula e corri a língua de leve até sua

orelha. Ela tremeu e eu me senti latejar. Por fim, mordisquei sua orelha, desejando que fosse seu mamilo.

– Está pronta? – sussurrei.

Seus olhos se abriram e se colaram nos meus. Sua respiração estava pesada de desejo, mas ela se mostrou

claramente em pânico com a minha pergunta. Seu olhar baixou para a minha boca quando ela virou o rosto

para mim. Poucos centímetros separavam nossos lábios agora. Foi preciso muita força de vontade, mas eu me

obriguei a não beijá-la. Precisava que ela cedesse a mim antes de beijá-la, mas, por Deus, foi difícil me

segurar.

Mudando o foco, soltei seu cinto de segurança. Sabendo que isso não era, nem de perto, o que ela

esperava, dei uma risada brincalhona quando me afastei. É claro que minha provocação a deixou frustrada.

Muito irritada, ela empurrou a porta e a bateu com força. Eu não pude deixar de sorrir ao ver o olhar irritado

e envergonhado ao mesmo tempo em seu rosto quando ela saiu pisando duro em direção ao bar.

Desculpe, Kiera, mas se você quiser mais vai ter de me pedir. E dessa vez precisa ser com muita

vontade.

Kiera praticamente me atacou na manhã seguinte, mas não da maneira como eu queria. Cortou minha

alegre saudação matinal pela raiz ao bater com o dedo no meu peito. Vê-la tomando a iniciativa de fazer

contato físico me fez sorrir quando eu coloquei o bule da cafeteira de volta na base.

– Você… Precisa parar com isso! – exigiu ela, seu rosto uma mistura de desejo e revolta.

Agarrando a mão dela, eu a puxei para dentro dos meus braços, lugar ao qual ela pertencia.

– Eu não fiz nada com você… recentemente.

Mas adoraria fazer, se você ao menos deixasse.

Ela fez um gesto exagerado para tentar se afastar de mim, mas não foi forte o bastante para se

desvencilhar. Ela teria que tentar com muito mais determinação para eu me afastar. Eu não sairia mais de

junto dela. Com os lábios franzidos numa expressão de aborrecimento, ela olhou para os braços presos sob os

meus.

– Hum… e isso?

Uma pequena risada me escapou quando eu lhe beijei a mandíbula e me aninhei contra o corpo dela. Ela

se sentia muito bem em meus braços. Incrível!

– Nós fazemos isso o tempo todo. Às vezes fazemos mais coisas…

Poderíamos fazer mais agora mesmo. Eu poderia levar você lá para cima, despir e foder você. E você

ficaria muito feliz.

Kiera não estava na mesma vibe que eu. Perturbada com aquilo, gaguejou:

– Como no carro?


Eu ri mais alto ao ver sua reação.

– Ali foi só você, Kiera. Você estava ficando toda… excitada, só de me olhar. – Abaixando um pouco a

cabeça, encontrei seus lindos olhos castanho-esverdeados. – Você queria que eu simplesmente ignorasse isso?

Como seria possível eu ignorá-la?

Com o rosto cheio de cor, ela se afastou de mim com um suspiro. Sabia que eu estava certo. Sabia que me

desejava. Continuava evitando a verdade, mas isso não a fazia ir embora.

Eu sabia que deveria ser honesto com ela e dizer tudo que se passava no meu coração, mas não poderia

fazer isso. Só a ideia de me abrir e deixá-la entrar fazia minhas entranhas se contorcerem em mil nós

dolorosos. Eu preferia espetar o olho com um monte de agulhas. Não… Brincar com ela era o que me deixava

mais confortável, e era isso que eu fazia.

– Hum… você quer que eu pare? – Tracei uma linha do seu cabelo até o rosto, segui pelo pescoço, bem

entre seus seios e fui até os quadris. Como uma flor se voltando na direção do sol, o corpo dela se abriu sob

o meu toque. Foi um movimento tão sutil que ela provavelmente nem reparou que estava arqueando em

direção a mim, mas eu conhecia as mulheres. Eu sabia ler a linguagem corporal delas melhor do que a minha.

E Kiera parecia gritar “me leve!”

Seus olhos se fecharam quando sua respiração se acelerou.

– Quero – ela murmurou.

Isso mesmo, Kiera. Diga sim para mim.

Em voz baixa, eu lhe disse:

– Você não parece ter tanta certeza assim… Eu te deixo pouco à vontade?

Corri os dedos pela parte interna do cós da sua calça e observei seu rosto, enquanto ela lutava para não

me deixar ver o quanto ela adorava aquilo. Eu tinha certeza que ela estava pronta para mim. Bastava eu

mover minha mão um pouco mais para baixo para poder senti-la. Deus, eu queria fazer isso. Eu a desejava

demais.

– Deixa – ela sussurrou. Sua voz era quase um apelo, mais que uma rejeição.

Inclinando-me um pouco mais, sussurrei em seu ouvido:

– Quer me sentir dentro de você de novo?

Sua resposta foi instantânea. E surpreendente.

– Quero…

Seus olhos se abriram quando ela saiu do pequeno transe em que eu a colocara. Seus olhos ficaram

arregalados, como se estivesse apavorada com a possibilidade de eu aceitar sua sugestão sem lhe dar um

segundo para reconsiderar.

– Não. Eu quis dizer não!

Não pude deixar de sorrir ao ver a expressão em seu rosto. Ela estava corada de constrangimento ou

desejo. Tentei não rir dela, mas a raiva invadiu seu rosto e ela repetiu:

– Eu quis dizer não, Kellan.

– Hum-hum, eu sei… sei exatamente o que você quis dizer.

Tem vontade de dizer sim, mas ainda não se sente pronta.

Quando eu vi Kiera novamente naquela tarde, quando ela voltou da faculdade, parecia exausta. Estava

sentada no sofá olhando para a tevê, mas obviamente não estava assistindo coisa alguma. Ela não pareceu

notar minha presença em pé na entrada da sala olhando para ela. Devia estar muito cansada, porque

geralmente pressentia o instante em que eu olhava para ela. Quando eu me aproximei do sofá, perguntei a mim

mesmo se era eu o culpado pelo seu cansaço. Esperava que não.

Sem olhar para o lado, ela fez menção de se levantar quando sentiu alguém se sentar na almofada ao lado,

mostrando que sabia que era eu e não queria ficar perto de mim. Sua relutância, combinada com a teimosia,


era divertida. Agarrando seu braço, eu a puxei de volta para baixo. As coisas não iriam avançar entre nós se

ela me ignorasse.

Ela olhou para mim com os olhos estreitados, obviamente insatisfeita por eu a estar obrigando a passar

algum tempo junto de mim. Cruzou os braços sobre o peito, para deixar bem claro o quanto estava

incomodada. Será que tinha consciência do quanto estava bonita naquele momento? Desviou o rosto ao ver

meu sorriso de adoração. Balançando a cabeça, envolvi seus ombros com o braço. Ela imediatamente ficou

tensa, mas não se afastou. Até que eu comecei a puxá-la para o meu colo; nesse momento ela recuou, como se

eu tivesse derramado água gelada em suas costas.

Eu me assustei com o seu movimento repentino e seu olhar gélido. Só queria que ela repousasse um pouco

em cima de mim, como costumava fazer. Não sabia ao certo o porquê de ela exibir uma reação tão violenta,

até que entendi o que ela achou que eu estava insinuando. Comecei a rir, ainda mais divertido com tudo

aquilo.

Apontando para o meu colo, garanti a ela que eu não insinuava nada de sórdido com o gesto.

– Deita aqui… você parece cansada. – Sem conseguir me controlar, acrescentei, brincando: – Mas, se

você estivesse a fim, eu não te impediria.

Franzindo a testa, ela me deu uma cotovelada nas costelas. Pelo menos percebeu que eu estava brincando.

Eu grunhi de dor e a puxei de volta para o meu colo.

– Como é teimosa… – murmurei quando ela finalmente cedeu e me deixou deitá-la.

Ela virou o corpo para cima e eu olhei para ela enquanto acariciava seu cabelo escuro. Ela era lindíssima

e não tinha consciência disso. Ela não tinha consciência de um monte de coisas. Como o quanto significava

para mim, por exemplo; como era diferente de todas as outras garotas que eu já tinha conhecido; como eu

faria tudo, absolutamente qualquer coisa, por ela. Até mesmo ir embora, caso ela mudasse de ideia e me

pedisse isso. Mas torci para isso nunca acontecer.

– Está vendo? Não foi tão difícil assim, foi? – perguntei.

Poderíamos ficar assim todos os dias novamente, se você me aceitasse de volta em sua vida…

Kiera me analisou enquanto eu olhava para ela com um ar aberto de nostalgia. Será que ela via o quanto

eu queria isso? Era aparente, no meu rosto? Será que entenderia, se visse? Era tão ingênua, tão inexperiente.

Isso me fez imaginar que Denny era a única pessoa com quem ela já tinha estado, a única pessoa para quem

ela se abrira. Talvez ela realmente não tivesse ideia do que estava fazendo, nem do quanto me afetava.

Embora eu soubesse muito bem que não tinha o direito de perguntar, a curiosidade me impeliu a isso.

– Posso te perguntar uma coisa, sem que você fique zangada?

Eu tinha certeza que ela ia dizer não. Para minha surpresa, porém, ela balançou a cabeça para frente. Eu

não consegui olhá-la diretamente ao fazer minha pergunta horrível e invasiva. Em vez disso, deixei meus

dedos percorrerem o seu cabelo.

– Denny foi o único homem com quem você já esteve?

Pelo seu tom de voz, percebi que ela ficara aborrecida por eu ter lhe perguntado isso. Não a culpei. Não

era da minha conta.

Kellan, eu não vejo em que isso pode ser…

Interrompi-a com outro pedido idiota.

– Só responde à pergunta.

Por favor. Sei que não tenho o direito de perguntar, mas preciso saber… Denny e eu fomos os dois

únicos homens com quem você já esteve? É por isso que você não consegue se libertar dele?

Ela parecia confusa quando me olhou. Eu me senti um pouco patético, e tive certeza disso ao olhar para

ela.

– Foi… quer dizer, antes de você. Ele foi o primeiro homem que tive…


Assenti com a cabeça. Eu sabia! Ele tinha sido o seu primeiro amor, a sua primeira vez, o seu primeiro…

tudo. Era por isso que ela estava tão profundamente ligada a ele; era por isso que compartilhar suas emoções

comigo era tão difícil para ela; era por isso que só o pensamento de ele abandoná-la a tinha deixado num

estado de quase histeria. Ele era parte dela, até o seu íntimo. Como eu poderia competir com esse tipo de

história? Eu não conseguiria. E não precisava. Eu não precisava ter tudo dela… só um pouquinho já servia.

Uma fração do seu calor, uma fração do seu amor. Eu conseguiria ser feliz com isso…

A voz suave de Kiera quebrou minha linha de pensamentos.

– Por que cargas-d’água você quis saber isso?

Minha mão em seu cabelo parou quando eu olhei para ela novamente. Mantendo meu sorriso colado no

lugar, considerei a opção de contar a ela o verdadeiro motivo.

Eu amo você, mas sei que Denny tem seu coração. A maior parte, de qualquer modo. Estava só curioso

para saber se havia uma chance de você me amar mais do que a ele. Mas não há. Tudo bem. Enquanto eu

tiver algumas migalhas, tudo bem se ele ficar com o resto.

Eu não podia dizer isso, então não disse nada e continuei acariciando seu cabelo. Como acontecia várias

vezes, Kiera pareceu perceber que eu não poderia responder à pergunta e não me pressionou. Relaxou

encostada em mim e minha cabeça começou a girar enquanto olhávamos um para o outro. Eu queria muito ser

o primeiro e único para os olhos dela, mas isso não ia acontecer. Mesmo que ela e Denny se separassem, isso

não iria acontecer. Ele era uma parte dela e isso era muito forte. Por outro lado, se ela se importasse

comigo… nós tínhamos alguma coisa rolando, e eu gostaria de me agarrar a isso durante o tempo que me

fosse possível.

Enquanto eu a observava, os olhos de Kiera ficaram rasos d’água. As profundezas verdes cintilavam para

mim e a dor por trás deles era inconfundível. Fiz uma careta quando enxuguei uma lágrima que lhe escorreu

pelo rosto. Por que ela estava chorando?

– Estou magoando você? – eu quis saber, esperando que não; eu nunca quis magoá-la.

– Todos os dias – ela sussurrou.

Pronto! Eu flertando com ela, implicando e brincando… tentando reacender o fogo que existia entre nós

para que ela nos aceitasse… isso a estava ferindo. Eu era um canalha, mais uma vez.

– Não estou tentando magoar você. Me perdoe.

Ela uniu as sobrancelhas em sinal de estranheza.

– Então, por que está me magoando? Por que não me deixa em paz?

Meu coração pareceu ter sido apertado por um torno.

Você me implorou para ficar. Chorou por mim. Você fez amor comigo. Como conseguirei deixá-la

depois disso? Eu amo você mais do que qualquer coisa no mundo. Só quero uma parte de você, isso é pedir

muito?

Franzi o cenho, torcendo para que ela não me dissesse que tudo acabara entre nós… de vez.

– Você não gosta disso… de estar comigo? Nem que seja… só um pouquinho?

Por favor, diga que gosta. Eu não saberia o que fazer se você disser que não.

Ela hesitou, como se não tivesse certeza do que dizer, mas logo suas feições relaxaram, como se ela

tivesse aceitado a verdade. Finalmente!

– Gosto, sim… mas não posso. Não devo. Não é certo… fazer isso com Denny.

Embora eu tivesse me sentido aliviado pela sua resposta, não me senti feliz. Denny. Sim, Kiera tinha toda

a razão em relação a isso. Não era justo com ele. Nada disso era.

– É verdade… – eu disse, concordando com a cabeça. Eu só poderia realmente compartilhá-la com Denny

se ele também concordasse, e ele jamais faria isso. Que tipo de homem aceitaria algo assim?

Que tipo de idiota pediria ao seu melhor amigo e à garota de seus sonhos para aceitar um

relacionamento deformado como esse?


Meus dedos pararam de acariciar seu cabelo.

– Não quero magoar vocês… nenhum dos dois.

Vocês significam muito para mim…

Ficamos olhando um para o outro durante longos minutos. Eu não tinha certeza do que ela estava

pensando, enquanto nos analisávamos. Minha cabeça estava uma bagunça. Denny era o inocente em tudo

aquilo e merecia algo melhor, mas eu não podia desistir do meu verdadeiro amor. Não por completo.

Kiera e eu ainda poderíamos curtir um relacionamento íntimo, mas seria em nível puramente emocional,

não sexual. Eu iria sacrificar o aspecto sexual e não a forçaria a dormir comigo. Respeitaria essa parte da

relação dela com Denny; Kiera e eu iríamos voltar ao contato não sexual que tínhamos aproveitado tanto na

época em que Denny estava fora. Eu manteria a proximidade com ela, algo de que realmente precisava. E se

não estivéssemos fazendo nada sexual, não precisaríamos mais sentir culpa. Sim, talvez a coisa funcionasse.

Ou o tiro poderia sair pela culatra… e nós todos perderíamos.

– Vamos deixar as coisas como estão. Só paquera. Vou tentar não passar dos limites com você. Só uma

paquera amigável, como era antes…

Ela pareceu surpresa com a minha sugestão. Suponho que aquilo era absurdo, mas… Eu precisava que ela

concordasse com aquilo. Precisava disso.

Kellan, eu acho que nós não devíamos nem mesmo… enfim, depois daquela noite. Não depois de

termos…

Eu sorri ao ver que ela ainda não conseguia completar a frase. As lembranças de nossas intimidades me

inundaram, mas eu as deixei fluir e numa boa. Eu poderia desistir disso, se conseguisse me manter junto dela.

Acariciei seu rosto, desejando ir mais além, mas sabendo que não poderia.

– Eu preciso ficar perto de você, Kiera. Esse é o melhor acordo que posso te oferecer. – Uma fisgada de

maldade brilhou através de mim, e as palavras escaparam da minha boca antes de eu ter a chance de detê-las.

– Ou eu poderia simplesmente comer você bem aqui, neste sofá.

Ela se enrijeceu toda no meu colo, e ficou claro que não achou minha sugestão engraçada.

– Estou brincando, Kiera. – Eu suspirei.

Ela balançou a cabeça.

– Não, não está, Kellan. Esse é que é o problema. Se eu dissesse que sim…

Eu sorri enquanto o pensamento de fazer amor com ela novamente perturbou meus sentidos.

– Eu faria o que você pedisse.

Qualquer coisa. Tudo. Simplesmente diga sim.

Ela desviou o olhar de mim, expondo seu pescoço. Eu rocei o dedo ao longo da sua bochecha, segui até

sua clavícula e depois até a cintura novamente. Ela era tão linda… Kiera olhou para mim com um olhar agudo

de reprovação, e eu dei um sorriso tímido. Aquilo ia ser mais difícil do que eu pensava. Muito mais difícil.

– Opa… desculpe. Vou tentar…

Eu prometo. Por favor, pelo menos me dê uma chance. As coisas estavam tão bem entre nós, antes.

Quero isso de volta. Não, na verdade eu preciso disso. Por favor, Kiera.

Ela não disse que sim, mas também não se opôs mais. Encarei isso como um sinal de que ela estava

considerando a proposta. Eu esperava que sim. Voltei a acariciar seu cabelo e, depois de algum tempo, o

movimento repetitivo a embalou e ela dormiu. Sorri enquanto observava seus olhos se fechando. Por mais que

fosse divertido irritá-la, deixá-la se contorcendo de desejo e ofegante, tê-la daquele jeito, calma e pacífica,

também era fantástico, de um jeito diferente. Queria experimentar todas as emoções com ela. Bem, pelo

menos as boas.

Quando ficou claro que ela estava profundamente adormecida, eu a tirei de cima de mim bem devagar e

me levantei. Ela continuou dormindo, mas franziu a testa, como se sentisse a minha falta. Eu me perguntei se

ela estaria sonhando comigo. Esse pensamento me deixou incrivelmente feliz. Eu queria invadir seu


subconsciente, assim como ela tinha invadido o meu. Inclinando-me para baixo, eu a peguei no colo. Ela

suspirou de contentamento e esfregou seu rosto contra o meu peito. Fechei os olhos e saboreei o momento.

Nós poderíamos ser fantásticos juntos, se ao menos ela me deixasse ficar em sua vida. E talvez agora ela

fosse fazer isso. Na boa, isso era tudo que eu poderia pedir a ela.

Coloquei-a em sua cama e fiquei olhando para ela durante um tempão. Se ela acordasse e me encontrasse

observando-a daquele jeito, provavelmente me acharia mentalmente perturbado. Mas não era esse o caso. Eu

estava apenas apaixonado. E era gostoso admitir. Se eu conseguisse confessar isso para ela, então talvez ela

achasse mais fácil acreditar que eu não pretendia usá-la, nem estava interessado apenas em sexo. Meu

sentimento era muito mais profundo que isso. Mas eu não podia dizer essas coisas. As palavras simplesmente

não sairiam da minha boca.

Deixei-a dormindo no quarto dela e saí para me encontrar com os rapazes. Tínhamos um show marcado

para aquela noite no Razors, e eu estava muito ansioso por isso. Eu me sentia esperançoso pela primeira vez

em muito tempo, e isso iluminava meu coração e meu humor. Eu estava zoando com Matt quando Evan me

perguntou a respeito.

– Você parece diferente. Não anda tão melancólico como estava algum tempo atrás – disse ele. –

Aconteceu alguma coisa?

Dando de ombros, apontei para Griffin. Ele tinha acabado de pegar uma das caixas da bateria na van e

olhava em torno, como se não tivesse a mínima ideia do que fazer com ela.

– Aconteceu, sim. O sem noção ali está nos dando uma mãozinha, para variar. Isso é um verdadeiro

milagre. Quem sabe o que poderá acontecer em seguida? A paz mundial? O fim da fome? As torcidas dos

Huskies e dos Cougars começarem a se dar bem? Qualquer coisa é possível, agora. Com exceção, talvez,

dessa última.

Ri ao pegar a guitarra na van. Evan estreitou os olhos, mas não me perguntou mais nada. Eu meio que me

senti mal por evitar sua pergunta, mas não poderia lhe contar a verdade. Estava apaixonado por Kiera. Ela me

via. Ela me entendia. Bem, ela compreendia as partes de mim que eu a permitia ver. Ela era tudo para mim e,

apesar de ser errado, eu mal conseguia esperar para vê-la novamente.

Na manhã seguinte, Kiera desceu a escada, enquanto a cafeteira trabalhava. Não fazia isso há algum

tempo. Vinha evitando ficar sozinha comigo e, até onde eu sabia, não tomava café desde aquela noite no

quiosque de café espresso. Eu ainda não conseguia pensar em café sem lembrar dela gemendo debaixo de

mim. Era uma pena aquilo ter acabado.

Virei-me para cumprimentá-la quando a ouvi entrar na cozinha. Seu cabelo estava bagunçado e

emaranhado de dormir, e ela ainda vestia a calça do pijama e um top. Como de costume não usava sutiã, e

seus seios firmes apareciam claramente delineados sob o tecido justo; seus mamilos eram picos rígidos no

frio da manhã. Ela era de tirar o fôlego. E parecia completamente alheia a isso, o que a deixava ainda mais

encantadora.

– ‘dia. Café? – perguntei, apontando para o bule.

Ela me lançou um sorriso deslumbrante que fez meu coração pular uma batida e deslizou os braços em

volta da minha cintura, fazendo meu coração bater mais forte. O toque dela me surpreendeu muito; senti o

corpo rígido antes de relaxar em seu abraço. Deus, parecia incrível ter seus braços em volta de mim

novamente. Eu nunca quis deixá-la ir.

Seus olhos eram de um verde lindo e tranquilo quando olhou para mim.

– Bom dia. Quero, sim, por favor. – Indicou o bule com a cabeça.

Uma sensação de paz me inundou quando olhei para ela.

Sim, isso era exatamente o que eu queria.

– Não vai ficar brava comigo por causa disso? – perguntei, puxando-a para mais perto.

Ela me deu um sorriso que combinava com a calma que eu sentia.


– Não… Eu senti falta.

Eu me inclinei para plantar um beijo suave em seu pescoço, mas ela me empurrou para trás com gentileza.

– Mas nós precisamos definir algumas regras básicas.

Eu ri, imaginando que regras ela inventaria. Além da que dizia “nada de sexo”. Essa estava na lista.

– Tudo bem… Manda.

Ela mencionou logo de cara o que eu estava pensando.

– Bem, além da regra óbvia, de que você e eu jamais iremos… – Ela corou, incapaz de completar o

pensamento. Tão bonitinha.

Sem conseguir resistir, completei a frase para provocá-la.

– Fazer… sexo… intenso… e alucinante? Tem certeza de que não quer reconsiderar? Nós dois juntos

somos simplesmente sensacio…

Ela me cutucou o peito com o dedo, me interrompendo. Com um olhar sedutor, me disse:

– Além da regra óbvia, nós também não vamos nos beijar… nunca mais.

Meu sorriso despencou. Puxa, isso era sacanagem! Eu gostava de beijá-la, gostava de saborear sua pele.

Mesmo quando não era nos lábios, beijá-la era incrivelmente gostoso para mim. E desde que não fosse na

boca, eu realmente não via problema algum com isso. Talvez conseguisse fazê-la ver aquilo sob o meu

ângulo.

– E se o beijo não encostar nos seus lábios? Beijo de amigos.

Ela franziu o cenho e estremeceu.

– Não do jeito como você faz.

Eu suspirei, odiando ela estar me privando disso, mas fiquei muito feliz por finalmente estarmos

conseguindo algum tipo de entendimento para me importar. Pelo menos eu ainda conseguiria abraçá-la todas

as manhãs.

– Está certo… Mais alguma coisa?

Com um sorriso atrevido, ela se afastou de mim. Como se o seu corpo fosse o grande prêmio numa

disputa, apontou com as mãos e desceu lentamente pelos seios e pelos quadris. Essa era uma disputa da qual

eu não me importaria de participar.

– Zonas proibidas… Não invadir! – anunciou ela, com um tom de voz entre o brincalhão e o sério.

Eu poderia ter adivinhado essa e lamentei muito, mas exagerei meu desapontamento afirmando:

– Putz, você está tirando toda a graça da nossa amizade. – Transformei minha expressão num sorriso, para

ela saber que eu estava brincando. – Tudo bem… Mais alguma regra de que eu deva ficar a par?

Abri os braços e ela se deixou envolver por eles. Paraíso puro! Os olhos dela buscaram os meus.

– Isso deve continuar inocente, Kellan. Se você não aceitar, vai estar tudo acabado entre nós.

Dava para ver que ela procurava algum sinal de que eu não conseguiria lidar com aquilo. Mas eu

conseguiria, sim. Se era aquilo ou nada, aceitaria qualquer coisa. Eu puxei a cabeça dela para junto do meu

ombro e a abracei com força.

– Está certo, Kiera.

Eu te amo. Muito. O que quer que você estiver disposta a me oferecer vou aceitar.

Recuando um pouco, eu a empurrei para trás com ar brincalhão e avisei:

– Mas isso vale para você também, entende? – Apontei para os meus lábios e depois para o espaço entre

as minhas pernas. – Não encoste. – Ela me deu mais um tapa no peito e eu acrescentei, com uma risada: – A

menos que você esteja com muita, muita vontade de fazer isso…

Quando ela me deu mais um tapa, eu a puxei para um abraço forte. Compartilhar aquilo com ela era

incrível. Estar com ela era fabuloso. Ela era fantástica. Eu aceitaria uma vida inteira de dor se soubesse que,

no fim, conseguiria momentos desse tipo. Aquilo fazia tudo valer a pena.


Kiera estava relaxada em meus braços, aceitando nossa conexão. Por mais estranho que parecesse,

funcionou para nós. Mas ela se colocou em estado de alerta quando o telefone tocou. Olhou para o teto antes

de sair correndo para atender, e eu sabia por quê. Denny. Uma nuvem de dor e culpa em potencial pairava

sobre nossas cabeças. Nós só poderíamos curtir aquela proximidade e intimidade, quando ele estivesse

dormindo ou fora de casa. Eu sabia por que motivo isso precisava ser daquele jeito, mas mesmo assim a

coisa me incomodava. Por mais que eu gostasse de Denny e o respeitasse, uma parte de mim sempre iria

querer o que ele tinha.

Kiera se inclinou sobre a bancada para pegar o telefone. Sua bunda em plena exibição foi demais para

mim. Uma pequena risada me escapou quando eu viajei, pensando em todas as coisas que poderia fazer com

Kiera nessa posição. Sabia que não deveria pensar essas coisas com ela, já que tínhamos acabado de

combinar em deixar tudo no nível da “inocência”, mas ela era pura perfeição. Pensamentos imorais eram

difíceis de manter fora.

Endireitando o corpo, Kiera se virou. Colocou a mão no quadril e fez beicinho. Sua expressão não fez

nada para reorganizar meus pensamentos indecentes, mas eu tracei no ar um halo sobre a cabeça.

Posso pensar coisas devassas sobre você, mas não vou colocá-las em prática. Vou ser um perfeito

cavalheiro, o máximo que me for humanamente possível.

Kiera sorriu quando se recostou na bancada.

– Oi, Anna. – Eu comecei a preparar nossos cafés enquanto Kiera falava com a irmã. – Não é um pouco

cedo para telefonar? – perguntou Kiera ao telefone. Ficou em silêncio por alguns segundos enquanto eu

derramava um pouco de creme em sua caneca, e então disse: – Não, eu já estava acordada.

Mexi o café de Kiera enquanto ela ria de algo que sua irmã disse.

– Não, o Tesão também já está acordado. – Olhei por cima a tempo de ver Kiera se encolher toda e olhar

para onde eu estava. Tesão? Sério? Será que ela se referia a mim? Levantando uma sobrancelha, fiz mímica

da palavra e apontei para mim mesmo. Revirando os olhos, Kiera fez que sim com a cabeça. Tive que rir do

apelido, e me perguntei quem tinha inventado aquilo primeiro… Kiera ou sua irmã?

Com os olhos grudados em Kiera, tomei um gole de café. Um sorriso brincalhão lhe surgiu nos lábios e eu

me perguntei o que ela estava pensando. Num tom descontraído, ela disse à irmã:

– Nós estávamos trepando em cima da mesa, esperando o café ficar pronto.

Eu quase me engasguei com o café e o cuspi de volta na caneca. Não podia acreditar que Kiera tinha

acabado de dizer aquilo. Eu estava me tornando uma má influência para ela. Ou uma influência muito, muito

boa, dependendo de quem avaliava. Meus pensamentos indecentes voltaram na mesma hora e Kiera virou o

rosto para o outro lado para não ver o meu sorriso; suas bochechas estavam vermelhas.

– Por favor, Anna. Eu estou brincando. Nunca faria nada desse tipo com ele. Você devia ouvir sobre todas

as garotas com quem ele já andou. Ugh, o cara é nojento… E Denny está dormindo no andar de cima, entende?

Ela olhou para o teto, onde Denny estava, e meus olhos se desviaram para o chão.

Ele é nojento.

Então… era isso que ela realmente pensava de mim? Meu estilo de vida a repelia. Eu a repelia. Em algum

nível, eu era um cara sujo e nojento para ela. Eu sabia que ela devia mesmo pensar isso. Eu era, afinal,

totalmente indigno dela. Ela deveria voltar correndo para Denny e nunca mais me dar seu tempo nem sua

atenção. Isso era o certo para ela fazer.

Colocando o café sobre a bancada eu comecei a sair da cozinha, mas Kiera estendeu a mão e agarrou meu

braço. Sentindo-me triste e derrotado, eu olhei para ela.

Você devia simplesmente me deixar ir embora.

Olhando fixamente nos meus olhos, ela disse ao telefone:

– Está tudo bem. – Eu sabia, pelo seu tom, que ela não estava apenas respondendo a alguma pergunta

aleatória da irmã, e sim me explicando que não falara sério ao dizer aquilo.


Ela puxou meu braço e o colocou em torno da sua cintura, e eu precisava demais dela para conseguir

resistir. Mesmo que ela me considerasse um monstro horrível, isso não mudava o fato de que eu precisava da

ligação que curtia quando estava com ela.

Relaxando um pouco, sorri, apertei-a com força e nós dois nos recostamos na bancada. Uma mancha

vermelha brilhante se destacou em suas bochechas quando ela olhou para mim. Eu quis saber por que, mas

não perguntei, já que ela estava no tele​fone. Eu gostaria de imaginar que tinha pensado alguma coisa sobre

mim, algo bom.

Tentei não ouvir como Kiera terminou seu telefonema, mas pelo que eu entendi as irmãs faziam planos

para se encontrar. Kiera não estava muito empolgada com isso. E soltou um palavrão quando finalmente

desligou o telefone.

Quando ela me pediu para não contar a Griffin sobre o palavrão que falara, eu dei de ombros. Eu nunca

tinha contado coisa alguma sobre Kiera para Griffin, mesmo.

– Que foi que aconteceu? – perguntei, sorrindo.

Em uma voz desesperada, ela me contou.

– Minha irmã quer vir me visitar.

Eu franzi as sobrancelhas. Já tinha mais ou menos juntado as peças na cabeça, pelo que ouvira, mas não

entendi o motivo da sua relutância.

– Sei… e você não gosta dela?

Esfregando os braços, ela balançou a cabeça.

– Gosto… não é isso. Eu amo a Anna, muito mesmo, mas… – Ela desviou os olhos e eu tentei recuperar o

contato com ela.

– Mas o quê?

Com uma expressão derrotada, ela olhou para mim novamente.

– Você é doce com sabor de homem para a minha irmã.

Eu ri. Acho que a irmã dela estava interessada em mim. E pela descrição de Kiera, sua irmã era muito

mais atirada que ela. Bem, isso não importava muito para mim. Kiera era o meu único interesse, em questão

de mulher.

– Ahhh… quer dizer então que eu vou ser vorazmente atacado, é isso? – Ri mais uma vez, imaginando ter

que manter a irmã de Kiera a distância. Isso seria interessante.

Kiera não achou a coisa tão divertida quanto eu.

– Isso não tem graça, Kellan.

Eu lhe exibi um sorriso caloroso.

– Até que tem, Kiera. – A irmã que eu queria não conseguia se entregar por completo para mim, e a que

não me interessava estava disposta a arrancar fora sua calcinha. Achei isso muito divertido, de um jeito

distorcido.

Kiera pareceu se entristecer mais e mais. Embora olhasse para o outro lado, vi lágrimas se formando em

seus olhos. Eu ainda não fazia ideia do motivo de ela estar tão chateada. Que importava se sua irmã ia

aparecer aqui em casa? E daí se ela ia dar em cima de mim? Meu coração era só de Kiera. Total e

completamente.

Colocando uma mecha de cabelo atrás da sua orelha, murmurei:

– Ei… – segurando o queixo dela com delicadeza, eu a fiz olhar para mim. – O que você quer que eu

faça?

Farei o que você quiser. Basta pedir.

Ela parecia estar lutando consigo mesma, especulando sobre se deveria ou não ser sincera comigo. Eu

queria que ela fosse. Queria entender qual era o problema ali. Eu não poderia fazer a coisa certa se não

soubesse o que ela esperava.


– Não quero que você coma a minha irmã. Não quero nem mesmo que toque nela.

Ela olhou fixamente para mim e eu comecei a entender. Ela estava com ciúmes. Pensou que eu fosse

dormir com sua irmã, já que eu não podia dormir com ela. Como se eu fosse aceitar uma pálida imitação da

coisa verdadeira. Como se eu pudesse aguentar estar com qualquer outra pessoa, quando Kiera era tudo que

existia para mim. Não tinha certeza de quanto tempo eu conseguiria aguentar sem sexo… mas sabia quanto

tempo eu iria durar sem Kiera. E não era muito. Eu não ia fazer coisa alguma que pudesse afastá-la. Tocar em

sua irmã… essa não era nem mesmo uma possibilidade na minha cabeça.

– Tudo bem, Kiera – garanti, acariciando sua bochecha.

Sem compreender a profundidade do meu acordo e com os olhos cheios de lágrimas ela pediu:

– Promete, Kellan.

Eu lhe mostrei o sorriso mais tranquilizador que consegui.

– Prometo, Kiera. Eu não vou dormir com ela, ok?

Você é a única que eu quero.

Levou um momento, mas ela finalmente concordou com a cabeça e me deixou abraçá-la mais uma vez.

Você é a única que eu sempre vou querer.


Capítulo 15

Céu e inferno

Os últimos dias com Kiera tinham sido incríveis. Era como tinha sido no início, só um pouco diferente.

Antes, havíamos flertado, mas nunca reconhecemos o flerte. Nunca tínhamos falado sobre isso. Agora, porém,

havia insinuações no ar, e eu era capaz de segurá-la, flertar com ela e brincar com ela sobre isso. Isso mudou

as coisas e ampliou o nosso relacionamento. Não havia nada de inocente no nosso flerte agora, mas Kiera

parecia confortável com isso, então não ressaltei para ela que havia uma tensão sexual entre nós que era forte

o bastante para iluminar uma cidade pequena. Ela provavelmente sabia disso, mas não queria admitir.

Olhando para o teto, repassei o sonho que acabara de ter. Kiera estava sozinha, me preparando um almoço

antes de eu ir para o trabalho. Depois de me entregar a bolsa, ela olhou fundo nos meus olhos e me disse:

“Eu te amo tanto, Kellan. Não sei o que faria sem você.”

Eu queria que ela dissesse isso para mim de verdade, sério. Sorrindo na escuridão, sussurrei:

– Eu também te amo, Kiera. Mais do que você imagina.

Era início da manhã e eu não tinha dormido muito, porque quando fechava os olhos tudo que via era

Kiera. Ansioso para estar com ela novamente, não consegui voltar a dormir. Quando finalmente desisti de

tentar, desci a escada e comecei a preparar um bule de café. Meu sorriso se alargou quando o líquido escuro

começou a encher o bule. Vê-lo e cheirá-lo me lembrou dela. E também me lembrou de fazer amor com ela,

me lembrou do meu sonho. Como uma agradável fantasia… Desejei que aquilo fosse real.

O bule estava quase cheio quando senti braços quentes em volta da minha cintura. Inalei profundamente

como se ela fosse um perfume, e em seguida me virei para encará-la. Ela me deu um sorriso meio cansado,

mas feliz.

– ‘dia.

Seu sorriso se ampliou ao ouvir a minha saudação.

– Bom dia. – Ela colou a cabeça no meu peito e eu a puxei para mim. Fechando os olhos, eu a saboreei:

seu cheiro, sua suavidade, seu calor. Queria me lembrar de tudo, só para o caso de aquilo ser um sonho

também.

Não nos afastamos até ouvirmos o chuveiro ser aberto no andar de cima. Com um pequeno suspiro, Kiera

recuou. Surgiu uma leve ruga em sua testa. Culpa. Eu queria que ela não se sentisse dessa forma, mas entendia

sua situação. Uma parte de mim também estava assim. Éramos dois canalhas curtindo um jogo de sedução,

nos esgueirando de Denny pelas costas, contornando uma linha que já havíamos cruzado e não devería​mos

cruzar novamente. Precisávamos parar o que estávamos fazendo… mas eu já sabia que não iríamos conseguir.

Era muito profundo.

Enquanto eu preparava as canecas para nós dois, Kiera começou a fazer chá para Denny. Era um gesto

doce, esse dela, mas também era um lembrete cruel de que meu sonho era apenas isso: um sonho. Observá-la

era como ser apunhalado no peito, então eu me concentrei em nossas bebidas, em vez de sofrer.

Momentos depois, Denny desceu a escada. Eu lhe exibi um sorriso cordial de saudação e quando me

sentei à mesa com o meu café, Kiera estava encostada na bancada, bebendo o dela. Mantinha distância de


mim para que Denny não suspeitasse de nada. Ela lhe entregou o chá e ele disse:

– Obrigado, amor – e se inclinou para lhe dar um beijo.

A expressão de seus olhos quando ela o fitou me atraiu, e eu não consegui parar de analisar. Havia amor

em seus olhos quando ela estava diante dele; não havia dúvida de que Denny era o dono do seu coração. Mas

quando inclinou a cabeça para acariciar divertidamente o pescoço dele, seus olhos se voltaram para mim e,

por incrível que pareça, sua expressão não mudou. Bem, talvez seu sorriso tenha diminuído um pouco… a

tristeza e o incômodo encheram seus olhos. Ela me disse “desculpe” com os olhos, mas eu não tinha certeza

se ela estava se sentindo culpada por mim, por Denny ou por ambos. Foi confuso, doloroso. Eu exibi um

sorriso curto do tipo “não se preocupe”, e me concentrei no café.

Quando Kiera se sentou, Denny comunicou a ela:

– Talvez eu tenha que trabalhar até mais tarde hoje à noite. Max tem um trabalho extra e precisa da minha

ajuda – explicou, ressaltando estranhamente a palavra “trabalho”; Kiera franziu a testa, como se tivesse

certeza de que essa tarefa era algo trivial, muito abaixo das habilidades de Denny. Coisas como essa

realmente a irritavam. Vendo sua expressão, Denny rapidamente acrescentou: – Você vai trabalhar de

qualquer modo, então achei que não se importaria se eu dissesse que iria ajudá-lo… certo?

Kiera abriu a boca como se fosse protestar, mas não tinha nenhuma razão verdadeira para isso. Depois de

lançar um novo olhar para mim, ela murmurou:

– Certo… tudo bem. – Ela pareceu culpada novamente depois de dizer isso, e eu resisti à vontade de

segurar sua mão.

Eu era todo sorrisos quando ela deslizou sobre o banco do meu carro, logo depois. Levá-la para a

faculdade era, de certo modo, o meu momento favorito do dia. Eu adorava vê-la sentada ao meu lado. Aquilo

parecia adequado e certo. Ela sorriu quando fechou a porta, igualmente feliz. Quando eu liguei o carro,

perguntei:

– Vou conseguir entrar com você na sala hoje? – Ela me deixara para trás na última vez em que eu lhe

dera carona.

Ela apertou os lábios, pensativa, e balançou a cabeça.

– Não, acho que seria melhor se você ficasse no carro.

Eu suspirei, mas deixei a coisa por isso mesmo. Ela devia ter suas razões, eu acho. Mas eu gostava muito

de dar carona a ela, e isso era algo inocente, como ela queria. Eu continuaria tentando. Deixei-a com um

“Divirta-se, vejo você mais tarde”, e fui para o supermercado fazer compras para a casa.

Quando acabei, voltei para casa, planejando trabalhar um pouco. Havia uma música que Evan e eu

estávamos lapidando e já estava quase pronta. Evan andava ocupado preparando a harmonia para a minha

letra, e alguns versos que não se encaixavam antes estavam bons agora. Suas melodias eram melhores do que

as minhas letras, então eu estava mudando tudo para as ideias caberem.

Trabalhei na mesa da cozinha até minha visão começar a enevoar e eu começar a cochilar. Acho que três

horas de sono não eram suficientes. Pondo de lado meu caderno de anotações, eu me arrastei até o sofá.

Ainda tinha um pouco de tempo para descansar antes de pegar Kiera. Depois de ligar a tevê, eu me estendi

sobre as almofadas. Meu sofá de superfície irregular e cheio de calombos não era o mais confortável do

mundo, mas dava para o gasto.

Quando começava a pegar no sono, a porta da frente se abriu e eu fiquei surpreso. Kiera estava em casa;

ela não devia ter acabado a aula ainda.

– Oi! Voltou cedo. Eu ia te buscar – disse, quando ela entrou na sala de estar.

Ela caminhou até o sofá e se sentou; eu dei um tapinha no espaço entre as minhas pernas para que ela se

sentasse junto de mim.

– Você parece cansado – ela comentou. – Está tudo bem? – Ela se aninhou entre as minhas pernas e

encostou as costas no meu peito.


Sim, estou mais que bem. Estou no paraíso.

Segurando-a com força, brinquei com seu cabelo.

– Eu estou ótimo… É que cheguei tarde em casa e não dormi bem.

Virando a cabeça para poder me olhar, ela me deu um sorriso brincalhão.

– Ah. Está se sentindo culpado por alguma coisa?

Ri de sua observação e lhe dei um aperto.

– Em relação a você? Todos os dias.

Suspirei. Havia muita verda<