01 - Eden

samanda

Equipe Pégasus

Lançamentos:

Tradução: Cris

1- Revisão Inicial: Simone T., Natalia C,

Jessica M.,Tay Campos

2- Revisão Inicial: Naty Pantoja

Revisão Final: Monikita

Leitura Final: Lola

Formatação: Lola

Verificação: Anna Azulzinha


Sinopse

Assombrada pelas memórias da morte de seu irmão e

a procura de respostas, Lily Hart embarca em um

trabalho, que a levará a um submundo no qual estará

exposta a riqueza, ganância, luxúria e ao reinado de

homens deslumbrantes, poderosos e perigosos —um

homem em particular causa estragos em suas emoções.

Aos trinta anos Jake Éden tem tudo: beleza,

dinheiro, poder e uma quantidade infinita de mulheres

dispostas a fazer qualquer coisa para tê-lo. Amor? O amor

era para maricas ... até que uma mulher com o nome

artístico de “Jewel” aparece. Ela é diferente de todas as

outras.

Esbanjando sensualidade, forte, inteligente e

independente é tudo o que ele deveria ficar longe, mas faz

com que deseje domá-la e mantê-la para si.

Sua atração é viciante e inegável, e logo está

apaixonado.

Mas quando a linha entre traição e lealdade é posta à

prova ...

Será que o amor será mais forte que a vingança?


Prólogo

Louco

—NÃOOOOOOO! —berro,

minha garganta arde e sinto um gosto ruim na minha boca.

Balanço minha cabeça para trás e para frente como um

brinquedo de corda sem sentido. Meu corpo nega o horror

diante dos meus olhos e caio ajoelhada na porta de seu

apartamento. Desesperadamente, rastejo em sua direção,

gritando, soluçando.

—Não posso perdê-lo! Não ele! Oh, Deus, não ele. Por

Favor, não ele.

A meio metro de seu corpo penso: isso é apenas um

pesadelo. Claro que é, tem que ser. A qualquer momento

acordarei e a primeira coisa que farei? Telefonar e lhe dizer o

quanto sinto sua falta, o quanto o amo.

Raspo meus joelhos nus no chão e percebo que não é

um pesadelo. É real.

Não nos falamos por duas semanas. Eu tinha provas e

quando liguei para seu celular, foi direto para a caixa

postal... Droga de desculpa. Deveria tê-lo chamado

novamente, enviado um e-mail. Por que não fiz? Eu deveria

saber.


Ajoelho perto dele, a minha postura deselegante,

pesada, como um animal sofrendo. Sento nos meus

calcanhares, pressiono meus dedos em minha boca aberta e

olho. Seus lábios e dedos estão azuis e o resto dele está

pálido e quieto. Ele não pode estar morto.

Não pode ser verdade!

O silêncio de um corpo morto é impossível de descrever

e, no entanto, quando você vê se recusa a acreditar. Sempre

acha que é um engano, um erro, um truque... Mas uma

agulha está em seu braço enegrecido, com a pele esticada,

irreal como se fosse de outra pessoa. Isso não é o braço do

meu irmão, conheço-o tão intimamente quanto o meu.

Minha respiração é superficial e tremo. Inspiro e arranco

a agulha agressora. Meu estômago revira. Ela nunca deveria

ter entrado em seu corpo. Jogo fora a seringa que atinge algo

e rola no chão de madeira. Também deixa um buraco

minúsculo na carne de meu irmão, que não sangra. Engulo

em seco e minhas mãos tremem muito.

Isso significa que não sofreu, uma voz sussurra em

minha cabeça. Nem sequer teve tempo para retirá-la antes de

partir.

Oh, Deus! Ele tem dezenove anos. Não pode ter ido.

RCR 1 . Deveria fazer RCR. Deve haver algo que eu ainda

possa fazer. Pego seus ombros e tento arrastá-lo para minhas

coxas, mas seu corpo é tão pesado, tão frio, tão rígido e

1

RCR: Reanimação cardiorrespiratória é um conjunto de manobras destinadas a garantir a

oxigenação dos órgãos quando a circulação do sangue de uma pessoa para (parada cardiorrespiratória).


estranho que tiro minhas mãos depressa. Observo como se

encontra imóvel. O sangue, que corria sem descanso durante

sua curta vida, se acalmou dentro de suas veias. Está frio e

endurecido, como se fosse um pedaço de madeira.

Soluçando de dor e angústia seguro-o e com toda minha

força puxo o seu corpo para mim, levantando-o para meu

colo. Toco seu cabelo castanho suave, que falha na testa e

sinto a diferença: seu couro cabeludo endureceu. Acaricio seu

cabelo, seu rosto, suas mãos. Segurando sua cabeça contra o

meu estômago, fecho os olhos e começo a balançá-lo da

maneira que uma mãe conforta seu bebê angustiado.

Mas não há conforto —sua cabeça está pesada, sua mão

dura batendo repetidamente no chão faz um barulho

estranho. Paro. Atordoada, olho seu rosto.

Sua boca está aberta, a língua estranha e opaca está

empurrada contra os dentes. Sem o brilho saudável da saliva

parece bruta. Tento fechá-la, mas está travada. Seus olhos

não estão totalmente fechados e através das fendas vejo os

brancos. Tento levantar uma pálpebra para ver mais uma vez

os belos olhos azuis que conheci toda a minha vida.

Se eu pudesse pelo menos ver isso.

Mas suas pálpebras fechadas estão coladas, não

abrirão. Minha mão treme quando ainda tenho esse desejo

macabro de abri-las. Quando éramos jovens costumávamos

lamber o sal da pele do outro. De repente sinto a estranha

vontade de lamber sua pele.


Ponho uma das mãos sob seu pescoço, a outra sob sua

cabeça e o coloco no chão. Então corro para trás até que

estou em minhas mãos e joelhos, e meu rosto está pairando a

centímetros do seu. Abaixo minha cabeça, ponho minha

língua para fora. Ao longe uma voz na minha cabeça

urgentemente grita: "Não"!

Paro e ouço o silêncio peculiar ao nosso redor. É mais

quieto do que a neve caindo. Na mesa noto suas impressões

digitais na camada leve de pó, e, em seguida, algo estranho

acontece. Por um segundo claramente me percebo não de

dentro do meu corpo, mas do lado de fora, agacho sobre meu

irmão morto, mais animal do que humano. Então o momento

se vai enquanto abaixo minha cabeça lambendo a último sal

na pele do cadáver.

É o começo de minha descida em território

desconhecido. Um lugar que você pode chamar de loucura.

Tenho medo que minha estadia seja muito dolorosa e

longa.

“Não consegue ler minha, não consegue ler minha,

Não, ele não consegue ler minha cara de pôquer”

— “Poker Face”, Lady Gaga 2 .

2 Stefani Joanne Angelina Germanotta, mais conhecida pelo nome artístico Lady Gaga, é uma

cantora, atriz, compositora, produtora musical, modelo, ativista e dançarina estadunidense


Um

Lily

—Primeira parada, Éden —diz Patrick, com um rápido

olhar para trás, conforme dirige o micro-ônibus de oito

lugares no trânsito da hora do almoço. —Basta dar-lhes seus

melhores movimentos e não se preocupem se não ficarem,

porque ainda temos Spearmint Rhino e Diamonds depois

daqui —acrescenta alegremente.

Tem um rosto de menino, cheio de charme e astúcia,

mas basta olhá-lo e você sabe que é traiçoeiro. E dirige como

um louco. Somos cinco concorrentes sorrindo umas para as

outras, que foram reunidas na estação do metrô de South

Kensington 3 , e estamos a caminho de uma audição.

Discretamente, eu as observo.

Viajando comigo estão uma ruiva alta, uma garota negra

magra, uma Barbie humana com o cabelo loiro volumoso,

além de uma incrível cintura fina e seios enormes, e uma

menina de bonita pele morena. Cada uma de nós tem uma

grande bolsa no ombro. Sem dúvida, suas bolsas contêm as

3 A estação de South Kensington do metrô localiza-se em Kensington, região oeste de Londres.

É servido pelas linhas District, Circle e Piccadilly.


mesmas coisas que a minha: um traje sexy, sapatos

assassinos e uma nécessaire com maquiagem forte.

Olho para fora e vejo que o Clube Éden é nossa primeira

parada. Pena. Eu tinha a esperança de praticar e poder me

acostumar em um palco real, em um dos outros clubes, ver o

desempenho das outras meninas antes de irmos ao Éden,

mas ainda assim, é interessante saber que deve ter pago a

Patrick a maior comissão para ter a preferência. Não

surpreende que superou todos os outros clubes de striptease

4 e tornou-se aquele a ser visto, mesmo que não ofereça

nudez completa.

Em silêncio nos dirigimos para o norte para a infame

região King’s Cross 5 de Londres. Antes era uma área suja

com prostitutas e festas raves em armazéns abandonados,

mas repaginou-se e rapidamente se tornou um centro de

ponta para a moda e as artes, atraindo até mesmo o Google

para criar a sua sede europeia lá.

alto.

Clube Éden fica entre duas torres de escritórios de vidro

Patrick dirige além do logotipo da grande e iluminada

maçã vermelha mordida em néon, virando na próxima rua

lateral, entra no parque de estacionamento traseiro.

Estaciona perto da porta dos fundos, onde um cara com

4

Strip-tease é um ato, geralmente envolvendo dança, no qual uma pessoa se despe

completamente para outras pessoas de forma a excitá-las sexualmente. É um termo da língua

inglesa que significa, literalmente, "provocação ao se despir" (strip, despir + tease, brincar, provocar).

5 A estação de trem London King’s Cross é uma das estações ferroviárias mais importantes

localizada ao norte da cidade de Londres, na Inglaterra.


oupa branca de chef de cozinha está sentado nos degraus

fumando. Ele nos observa através da fumaça, indiferente.

—Aqui estamos nós —Patrick anuncia e desliga o motor.

Nós saímos, arrumamos nossas roupas e o seguimos

pela lateral do edifício para a entrada principal. Assim que

entramos pelas brilhantes portas duplas pretas, meus saltos

agulha deixam uma fissura no tapete e sinto um

formigamento subir pela minha espinha. É tão forte como se

uma aranha realmente estivesse andando na minha pele.

Incapaz de me deter viro minha cabeça.

Jesus!

Profundamente bronzeado, cabelo preto e olhando

diretamente para mim é ele, a lenda! Porra Jake Éden. Meu

coração palpita. Porra! Suas fotografias não lhe fizeram

justiça. Vestido todo de preto, exceto por um par de botas de

pele de cobra branca, desce uma escadaria larga e magnífica,

poderoso como um tigre.

Ele está muito longe para eu ver a expressão de seus

olhos, mas a intensa tensão mal controlada ao seu redor tem

o efeito de uma tempestade elétrica. Isso faz o ar entre nós

vibrar e estalar, perco o fôlego e meus sentidos entram em

alerta. Minha coluna fica rígida e todos os minúsculos pelos

da minha nuca se levantam, como um gato que fica cara a

cara com o perigo mortal.

Por alguns segundos nós olhamos fixamente,

adversários sexuais momentâneos.


Então olho para Patrick, que segura aberta outra porta

atrás de mim. Respirando fundo passo por ela, que nos leva a

um corredor mal iluminado, com ar mais fresco. Minhas

mãos estão fechadas com a energia reprimida. Isso nunca me

aconteceu antes. Nunca simplesmente olhei para um homem

e desejei tê-lo dentro de mim. A sensação é bruta.

—Os vestiários estão ali - diz Patrick indicando outra

porta mais longe no corredor. —Encontrem-me no andar de

cima em quinze minutos que irei apresentá-las ao gerente.

Em seguida, desaparece por onde viemos e nosso grupo

vai aos vestiários, noto que são limpíssimos e semelhantes

aos de um spa luxuoso. As outras meninas imediatamente

abrem suas bolsas, mas o encontro com Jake Éden me

deixou nervosa e perturbada demais, preciso fechar meus

olhos e ter um minuto para me acalmar, ainda estou muito

excitada. Quando abro, eles não estão brilhando, nem estou

corada. Tenho uma missão pela frente. Eu pareço fresca e

composta.

Enquanto abro minha bolsa e pego minha encomenda

especial, o vestido vermelho fácil de tirar, observo as outras.

Já exuberante em um longo roupão transparente com bordas

de lantejoulas, a ruiva usa sapatos dourados brilhantes. De

repente, ela é uma deusa em seus 1,83 m de altura. É

impressionante. A menina negra tirou sua jaqueta, ela é

musculosa como um cavalo de corrida e veste um macacão

preto com padrões geométricos verde e rosa fluorescentes.

Rapidamente ponho meu vestido e pego meus sapatos

plataforma vermelhos de plástico. Enquanto fecho as fivelas


noto que a Barbie humana veste um uniforme de colegial. Ela

vê meus olhos e boca no espelho

—Olá —diz.

Marco-a como minha maior concorrente. A bela menina

morena tem as pernas mais longas que já vi em um ser

humano. Para aumentar a ilusão ainda calça sapatos com

efeito de vidro. Como que por um acordo tácito todas estamos

prontas ao mesmo tempo.

Juntas subimos a escadaria que Jack Éden desceu e

entramos por portas pretas e douradas.

Estive em casas noturnas quando a luz do dia começa a

penetrar e sempre parecem ser sujas e sórdidas, mas não

este lugar. Aqui é como se tivéssemos retrocedido a um

tempo decadente em Paris ou Viena, quando os homens

usavam perucas e saltos altos. Das centenas de espelhos

dourados, poltronas e sofás bordados, os ricos papéis de

parede, as pesadas cortinas de veludo aos enormes lustres,

tudo é magnífico. A rica mistura de cores lembra-me uma

pintura de Gustav Klimt 6 . Patrick está em pé na beira do

palco falando com um homem careca. Ele nos chama com um

aceno.

—Este é Mark, o gerente. É bom serem gentis com ele.

6 Gustav Klimt foi um pintor simbolista austríaco.


—Ei —Mark nos cumprimenta com um sorriso que

abrange todas. Nós respondemos com efusivos “Olá” e “Ei”.

Mark não perde tempo e se concentra na beleza de pele

morena.

—Não vi você antes, querida?

Ela balança a cabeça decisivamente.

—Não. Esta é a minha primeira vez.

—Tem certeza? Você não esteve aqui cerca de seis meses

atrás?

Sem dizer nada, ela se afasta.

Mark olha para Patrick.

—Andarilha.

terá.

Patrick dá de ombros. Essa é uma comissão que não

Vejo-a ir embora, faltam três. Mais tarde eu ficaria

sabendo que “andarilhas” são prostitutas, que trabalham

algumas sessões em clubes de strip por poucos meses,

procurando potenciais clientes particulares.

—Estarei no bar —diz Patrick afastando-se de nós.

—Primeira vez para alguém aqui? —Mark pergunta.

Levanto minha mão.

—Certo. Somos um clube completamente limpo:

nenhuma droga, sem prostituição, tolerância zero. Entendeu?

—Entendi —digo depressa.


Ele balança a cabeça.

—Você trouxe sua música?

Aceno.

—Ótimo. Estabelecemos que você tem duas músicas.

Mantenha suas roupas na primeira, comece a se despir na

segunda e na metade dela tire o sutiã. Seu único objetivo: até

o final das músicas faça com que todo cara no lugar queira

esvaziar a carteira em cima de você.

Concordo com a cabeça lentamente.

Ele se vira para a ruiva.

—Quer ir primeiro, querida?

—Claro —diz com um sorriso doce e dá-lhe o seu CD.

Ele o coloca em uma pequena máquina sob o palco. —

Quando quiser.

Ela lentamente contorna o poste 7 .

—Pronto —diz uma vez em que está na posição.

Mark clica no play e o clube se enche com o som de

Pussycat Dolls 8 cantando, “Don’t You Wish Your Girlfriend

Was Hot Like Me?”. A ruiva é boa, mas nada de especial, e

minha confiança aumenta. À medida em que os segundos vão

passando percebo que sou muito melhor. Na verdade, ela

nem sequer tem a chance de terminar seu primeiro número

antes de Mark desligar a música.

7 Pole dance (dança do cano ou dança do poste) é uma dança sensual que usa um poste ou

barra vertical sobre o qual a dançarina faz sua performance.

8 Pussycat Dolls (2003-2010) foi um grupo musical feminino fundado pela coreógrafa Robin

Antin. Inicialmente criado como uma trupe burlesca, em 1995, na cidade de Los Angeles, cantavam

dance, pop e hip-hop.


—Obrigado, querida, mas você precisa de mais

movimentos. Tenha algumas aulas de dança e depois volte

para outra audição —descarta-a. É um não, mas deixou a

porta aberta. Vira-se para a garota negra.

—Posso ter apenas as luzes ultravioletas sobre mim, por

favor? —ela pede.

Mark grita para o barman, que vai para a parte de trás

do bar. Segundos mais tarde, quando o palco é iluminado por

um brilho incandescente ela entra, e de repente sua pele

escura faz com que desapareça, tornando-se uma coleção de

padrões cor de rosa e verde. “Sexy Back” de Justin

Timberlake 9 toca, ela se lança com energia surpreendente

para o poste, executando movimentos mais complicados. Mas

a verdadeira beleza é que ela parece uma forma geométrica

movendo para cima e para baixo. O jeito que fica quando tira

seu macacão é pura classe. Ela é muito boa e tão

impressionante de se ver que fico apreensiva. Se este é o nível

com o qual estou competindo não há nenhuma chance que

eu tenha este emprego. Quando a música termina tenho

certeza que ela conseguiu o trabalho.

—Show fantástico. Volte esta noite às seis horas —Mark

lhe diz e se volta para mim. Seus olhos viajam casualmente

pelo meu corpo, demorando no vestido vermelho, que eu

poderia tirar em dois segundos. —Quer manter as luzes

ultravioletas?

9 Justin Randall Timberlake é um músico, cantor, compositor, ator, dublador, produtor musical,

dançarino, multi-instrumentista e empresário norte-americano.


Balanço minha cabeça. Meu coração bate tão forte, que

sinto meu sangue fervendo pelo meu corpo. É isso aí, está na

hora.

Ele grita para o barman e as luzes se modificam.

—Certo. Pode ir em seguida.

Sinto meu estômago embrulhado, engulo em seco e

aceno a cabeça.

—Basta ser você mesma e divirta-se —aconselha com

um sorriso amigável.

Dou-lhe o meu CD e caminho até o palco devagar,

propositalmente balançando meus quadris, mas estou tão

nervosa, que meus joelhos oscilam. Subo as escadas com

cuidado. Não tem sentido cair sentada antes de começar a

apresentação. Há grandes espelhos no palco e consigo me ver

caminhando. Um metro e cinquenta de altura em cima de

quase 15 cm de saltos, quadris finos, estômago plano, nada

especial no peito, cabelo chocolate escuro com tons de cobre

e uma grande boca vermelha com o sorriso de uma dançarina

profissional. Minha aparência não é tão ruim e posso fazer

isso. Tenho praticado por horas. Certo, não sou tão boa

quanto a garota que pode fazer mágica em formas

geométricas, mas com certeza posso fazer isso. Tenho uma

prática boa e ágil. Mesmo Ann diz isso e ela ensinou centenas

de meninas. Tudo o que tenho a fazer é chegar ao poste e

seguir o plano.

Chego a ele.

—Pronta? —Mark pergunta.


—Sim.

Mark aperta o play e a voz rastejante de Marilyn

Manson 10 ecoa ao meu redor, “Sometimes I feel I got to run

away”.

Segurando e circulando o poste me esfrego

sinuosamente contra ele. Enrolo minhas mãos sobre minha

cabeça, agarro-o e empino minha bunda, balançando-a de

um lado para o outro. Percebo que Mark está inclinado para

frente, aprovando.

Sim, posso definitivamente fazer isso.

Agarro o poste e com toda a minha força me atiro para o

ar. Deveria ser um balanço enérgico e impressionante, mas

em vez disso a minha mão suada escorrega do metal. Em

pânico tento me endireitar travando no cano com a outra

mão, mas é tarde demais —voo no ar e caio de joelhos no

chão duro do palco. Fico tão atordoada, que sento assim

mesmo. Minha adrenalina bombeia tão forte, que não sinto

nenhuma dor. Então penso. Porra. Porra. Porra. Ainda

sentada toda torta me viro para Mark.

Ele sai da mesa e salta até o palco.

—Deixe-me tentar novamente —imploro, e colocando as

palmas das mãos no chão faço força para me levantar, mas

uma dor aguda atinge minhas pernas. Estremecendo,

persisto e fico em pé.

Mark está na minha frente, olhando-me preocupado.

10 Marilyn Manson é uma banda estadunidense de rock formada em 1989, em Fort Lauderdale,

Florida por Brian Hugh Warner, que adotou o mesmo nome artístico.


—Você está bem?

Ouço os gritos na voz rouca de Marilyn, “amor infectado,

amor estragado”.

—Eu realmente preciso deste emprego —suplico,

humilhada pela minha queda sem graça e irritada comigo

mesma por ser tão descuidada.

Ele olha meus joelhos e esfrega o queixo, pensativo, e sei

só de olhar que me dirá para ter mais aulas ou algo nesse

sentido.

—Por favor —insisto —essa foi a minha primeira vez. Eu

estava apenas nervosa, posso fazer isso.

—Olhe —começa com mais firmeza, mas é interrompido

pelo toque do celular. Tira-o do bolso e olha surpreso para a

tela. Levanta um dedo em um gesto que me diz para esperar e

atende. Ouve por alguns segundos, responde —Sim —e

termina a chamada.

Volta sua atenção para mim, mas agora me avalia

curioso.

—Boas notícias, conseguiu o emprego. Pode começar

quando o inchaço —acena com a cabeça em direção aos meus

joelhos —estiver melhor. Chegue às cinco e meia da tarde,

com uma foto de identificação, comprovante de endereço, seu

número de Seguro Nacional e informe à “Mãe da Casa”. Seu

nome é Brianna.

Por um instante encaro-o sem fala. Meus joelhos estão

latejando agora.


—Consegui o emprego —repito estupidamente.

—Parece que sim —diz sorrindo.

—Obrigada, Mark. Você não vai se arrepender.

—Sem problema —responde e se volta para a loira

Barbie. —Quer nos mostrar o que você tem?

Mancando me afasto do palco e percebo um ligeiro

movimento nas sombras distantes. Viro-me e vejo o brilho da

pele de cobra branca quando Jack Éden sai silenciosamente

pelas portas pretas e douradas. E eu sei, sem sombra de

dúvida, que o gângster mais ilusório do norte de Londres

acaba de me contratar.


Dois

Lily

Por dois dias manquei em

meu apartamento, comendo fast food e relembrando várias

vezes minha reação desastrosa a Jake Éden. Teria sido algum

tipo de atitude louca causada pelo nervosismo por conta da

minha audição? No terceiro dia me convenci de que esse deve

ter sido o motivo, passei um pouco de corretivo nos joelhos e

voltei ao clube.

Para minha surpresa, a “Mãe da Casa” é uma versão

feminina do meu gerente de banco: quarentona, um brilhante

cabelo loiro avermelhado, em um terno azul escuro com um

top fino elegante debaixo dele. Então faz o que o meu gerente

de banco nunca fez: abre um sorriso verdadeiramente

caloroso e sei que nós daremos bem.

—Oi, sou Brianna —ela estende a mão —Patrick me

disse para esperar por você.

Seu aperto é quente e macio.

—Somos conhecidas por nossos nomes artísticos aqui.

Graças a Deus. Ficaria maluca se tivesse que lembrar de dois

nomes para todas as minhas meninas. Você tem um?

—Jewel.


—Jewel. Faz muito tempo que ouvi esse nome.

—Verdade?

—Sim, estou neste negócio há vinte anos, você sabe.

Dancei nos dez primeiros.

Ela era tão respeitável e séria que era difícil imaginá-la

em um poste.

—Você dançou?

—Com toda certeza. Uma parte de mim ainda sente falta

da atenção e do dinheiro, mas sou casada, tenho filhos agora

e não trocaria isso por nada no mundo. Além disso, adoro ser

a “Mãe da Casa” aqui. —Sorri encantadoramente, mas suas

palavras seguintes tem um tom profissional. —Cerca de cento

e vinte meninas trabalham em turnos e é minha função

garantir que apenas a quantidade certa de ruivas, loiras e

morenas estejam presentes, de modo que todas ganhem um

bom dinheiro. —Ela me olha com curiosidade —Você tem

uma aparência muito exótica. Incomum. Seus olhos são

puxados, mas tão azuis.

—Minha avó é da China e meu avô era nórdico —

respondo relutantemente. Não quero jamais falar sobre

minha vida pessoal com ninguém aqui.

—Ah! Isso explica as maçãs do rosto incríveis também.

—Obrigada —aceito educadamente, mas minha cara

séria termina o assunto.

—Certo. Espero que todas façam pelo menos três turnos

por semana. Se, por qualquer razão não puder, se estiver


doente, menstruada ou com a mãe com ressaca, apenas me

avise para que me organize. Seja honesta comigo. Espero

uma comunicação direta de todas as minhas meninas e farei

o mesmo com você. Entendeu?

Concordo com a cabeça rapidamente.

—É também meu trabalho atuar como amortecedor

entre os clientes e as dançarinas, então não importa em que

problema se encontrar sempre pode vir a mim.

—Ok.

—Bom. Vamos começar com as regras para seguirmos

em frente. O mais importante é: os clientes não estão

autorizados a tocá-la e você não tem permissão para tocá-los

abaixo da cintura. Quebre essa regra e está fora. Se as

câmeras de segurança pegarem uma garota tocando a virilha

de um homem com qualquer parte de seu corpo, essa garota

nunca mais dançará aqui. Entendido?

—Entendido.

—Agora, é bastante normal que enquanto você está

dançando para um cara ele tenha algo acontecendo em suas

calças. Isso é exatamente o que acontece com todos os

homens. Eles olharão para sua virilha significativamente e

pedirão para tocá-los.

Meu estômago embrulha, mas luto muito para manter

meu rosto neutro e devo ter tido sucesso, pois ela continua

sem pestanejar.


—Argumentarão com você, oferecerão dinheiro, alguns

dirão que são amigos da gerência e que estará tudo bem se

ajudá-los, mas se tocá-los e forem oficiais disfarçados do

departamento de licenciamento ou a polícia, o clube será

fechado dentro de uma hora.

—Então o que todo mundo faz nessa hora?

—Diga-lhes que adoraria, mas que poderia ser visto

como uma violação e que seria um desrespeito ao

licenciamento do clube. Aponte timidamente para as câmeras

de segurança.

—E se insistirem?

—Se alguém se comportar de maneira pervertida, rude

ou agressiva com você, basta sinalizar para um dos meninos

da segurança e o oportunista será escoltado ou arrastado

para fora, dependendo da situação, para a parte traseira,

onde não há câmeras.

É difícil imaginar que apenas a visão de um par de seios

fará com que homens adultos de bom grado liberem muito

dinheiro de suas carteiras, mas começava a me sentir melhor

sobre o trabalho.

Em seguida, ela explica a organização financeira:

durante os três primeiros dias não pagarei as taxas da casa,

mas depois todos os bailarinos dão noventa e cinco libras -

sessenta e cinco no início da noite e trinta por volta da meianoite.

A utilização das salas VIP 11 custa trinta libras por hora,

11 VIP é a sigla em inglês de “Very Important Person”, uma expressão utilizada para se referir a

uma pessoa muito importante e ilustre.


mas os homens pagam duzentos assim o meu lucro é cento e

setenta para aquela hora.

Então ela fala a parte mais interessante: o dinheiro não

muda de mãos entre clientes e dançarinos, em vez disso,

usam-se fichas plásticas chamadas de “Moedas de Eva” ou

“MEs”. Ao valor que o cliente converte em fichas, o clube

acrescenta vinte por cento, no final da noite os dançarinos

trocam-nas por dinheiro, descontando vinte por cento de

comissão para a casa. Parece incrível que os bailarinos ainda

ganhem dinheiro com todas essas taxas. Meus pensamentos

devem ter aparecido em meu rosto.

—A maioria dos homens que vêm aqui conhecem o

negócio. Entendem que as meninas não estão aqui de graça e

eles mantêm as coisas fluindo adoravelmente. Não se

preocupe, uma menina com sua aparência ganhará dinheiro,

muito dinheiro. Lembre-se sempre de mostrar sua gratidão

aos boatos invisíveis de informações que circulam no clube.

—Boatos invisíveis de informações? Pensei que fosse um

clube de strip para cavalheiros!

—Digamos que um cliente estaciona um Lamborghini 12 .

O porteiro avisa via rádio à recepção que alguém que precisa

de cuidados entrou. A recepção pode não cobrar a taxa de

entrada, o que fará com que ele se sinta especial e bem

humorado. Enquanto instalamos o cliente de prestígio a

12 Lamborghini: é uma fábrica italiana de automóveis desportivos de luxo e de alto desempenho

criada originalmente para competir com a Ferrari.


garçonete irá pergunta-lhe o que deseja ou se tem algum

pedido especial.

Brianna para e sorri descaradamente. —Se ele disser:

"Hoje à noite sinto-me exótico", ela passará essa informação

para o DJ que te chamará imediatamente ou a outra exótica,

até o palco. Nesse momento, você irá até o esbanjador e

perguntará se quer uma dança, assim ele pensará que o Éden

é o lugar mais brilhante do mundo. Tudo o que tem a fazer é

pensar no tipo da garota que quer e eis que, por uma bela

coincidência, ela aparece. O cliente nunca saberá que está em

uma bem afinada cooperação de trabalho.

Ela olhou para o relógio.

—Vou te mostrar o lugar, seu armário, apresentá-la a

Josh, que é chefe de segurança, e em seguida, levá-la até

Terry, nossa maquiadora residente. Como esta é a sua

primeira vez pagará vinte e cinco libras por uma sessão

completa e obrigatória com ela, que te ensinará como mostrar

o seu melhor. Se aprender a recriar esse visual amanhã, não

precisará mais dela, caso contrário, terá que pagar

novamente. Concorda com isso?

Aceno.

—Depois de Terry vou apresentá-la à nossa costureira,

Donna. Ela pode fazer uma roupa para atender a fantasia de

qualquer homem e é um gênio absoluto com velcro. Os

vestidos foram projetados para destacar bem os seios ou a

bunda.

Deus!


Brianna ri.

—Acho que receberá boas gorjetas. Os apostadores

geralmente ficam tão impressionados e entretidos que darão

novas gorjetas apenas para que repita a apresentação. E se

encontrar uma roupa de "sorte" que te faça ganhar um monte

de dinheiro, poderá pedi-la para fazer uma cópia.

—Ok —concordo, então ela abre a porta e começamos o

passeio. O lugar é enorme. O restaurante e o salão ficam lá

embaixo e o clube na parte de cima. Ao final sou apresentada

a Josh, que tem pelo menos 1,98 m de altura, olhos

pequenos, a cabeça raspada e um pescoço mais grosso do

que a minha cintura. Ele acena a cabeça em saudação.

Depois de conhecê-lo sou levada a uma pequena sala

onde encontro com Terry. Após as apresentações Brianna se

vai dizendo que enviará Donna aqui para me ver.

—Sente-se —Terry convida alegremente. Está na casa

dos trinta anos e é bem tagarela. Fala que tenho um olhar

muito diferente e que eu deveria brincar com isso. Primeiro

faz o meu cabelo, um penteando para trás a partir do topo da

minha cabeça endurecendo-o com spray, antes de pentear a

parte da frente para trás, tornando-o alto e grande. Ela é

muito precisa e certeira no que faz.

Eu a assisto no espelho enquanto rápida e habilmente

aplica uma camada de base, usando um tom mais escuro

para enfatizar minhas bochechas, e dá ao meu queixo um

visual mais pontudo. Em seguida, realça meus olhos com

delineador azul salientando sua inclinação e destacando sua


cor, e cola cílios postiços. É uma surpresa como os sinto

estranhos e pesados. Com um bastão, ela passa o pó de

glitter das pontas.

—Estamos quase lá —diz, pintando meus lábios de rosa.

Como toque final, põe uma pinta de beleza em uma

bochecha.

—Agora o toque mágico. Temos aqui uma menina

chinesa chamada Jade, que tem um ar misterioso, mas você

pode se tornar conhecida como... —pega uma flor de plástico

de sua caixa e prende atrás da minha orelha —A menina com

a flor.

Vejo minha transformação. A ideia é sedutora e

concordo que a imagem de “a menina com a flor" é pura e

poética, mas...

—Olha, Terry, não quero te insultar ou qualquer coisa,

mas você não acha que é tudo um pouco demais? Pareço um

travesti.

Terry cobre a boca e gargalhada.

—Não se preocupe. As luzes no palco são muito

brilhantes e depois é muito fraca nas sombras. Você será a

fantasia perfeita em ambos os tipos de iluminação —diz,

desligando as luzes brilhantes que circundam o espelho. E de

repente no escuro há esta criatura da fantasia. Olho-a

admirada quase sem acreditar. Aquela sou eu mesma?

Alguns glitter caem dos meus cílios deslumbrantes em

minhas bochechas e elas brilham com o pó mágico.

—Vê? —diz alegremente.


—Sim, entendo agora —concordo com um sorriso.

Ela muda as luzes novamente.

Enquanto Terry arruma meu cabelo em volta dos meus

ombros, Donna entra. Seu cabelo estava puxado para trás em

um coque bagunçado e parece uma dona de casa apressada,

mas sua voz é baixa e melodiosa.

—Bem, querida, que tipo de roupa você gostaria de

vestir? Poderia te dar um belo vestido longo com um decote

mandarim 13 . Algumas das outras meninas usam e funciona

muito bem se você tiver a fenda indo da direita até a virilha.

Lembro dos belos cheongsams 14 de seda da minha avó

com suas fendas laterais recatadas, de repente sinto tanto

sua falta que fico sem fala e apenas aceno.

—Que cor?

—A que você achar melhor.

—Ou azul para combinar com seus olhos ou vermelho

escuro para chamar a atenção.

—Vermelho escuro então.

Já fantasiada vou aos vestiários. É como se tivesse

acidentalmente pisado nos bastidores de um concurso de

Miss Universo. Incrivelmente lindas garotas de todas as raças

falando ao mesmo tempo e em diferentes estágios de nudez.

13

“vestido longo”.

14 O cheongsam (ou qipao) é um vestido clássico da China, o nome significa literalmente


Com toda a loucura de cremes de barbear, absorventes

internos, lantejoulas, paetês e casacos de penas, localizo a

menina negra que se tornou padrões geométricos no escuro.

Imediatamente sinto-me solidária, há algo sobre ela que

realmente gosto. Mesmo na nossa audição a reconheci como

uma daquelas pessoas diretas, que mostra quem é. Vou até

ela, que está sentada na frente de um espelho aplicando sua

maquiagem.

—Ei, lembra de mim?

Olha-me com frieza através do espelho.

—Claro que lembro. Como estão os joelhos?

—Bem. Eu sou Jewel. Qual o seu nome?

diz:

Ela cola cuidadosamente uma tira de cílios postiços e

—Melanie.

—Em grego antigo significa "a menina negra".

Olha-me pelo espelho, um olho extravagantemente

maquiado, o outro estranhamente nu. A frieza desaparece, já

que ficou tão impressionada quanto eu queria que estivesse.

—Onde você aprendeu isso?

Não direi. —Quando era mais jovem me interessei por

mitologia grega.


—E então se tornou uma stripper 15 —sua voz é um

desafio.

—Sim. Problemas acontecem.

—Hmmm...

—Olha, estou prestes a ser expulsa do apartamento que

divido, sabe de qualquer lugar onde eu possa morar mesmo

que temporariamente?

Ela balança a cabeça.

—Não.

—Ok. Tenho certeza que encontrarei alguma coisa —

digo encolhendo os ombros.

Quando estou saindo Melanie fala:

—Minha colega de apartamento se mudará em duas

semanas, mas se quiser pode ficar no sofá até lá e por

enquanto, contribui apenas com as contas.

Sorrio. Muito melhor do que qualquer coisa que poderia

ter esperado. Viro-me para trás lentamente.

—Isso seria fantástico. Obrigada.

—Duzentas libras por semana, além das contas depois

que ela for.

—Parece perfeito.

15 Stripper ou dançarina exótica é uma pessoa cuja ocupação envolve a execução de striptease.


Três

Jake

A flor atrás da orelha é uma surpresa. Uma grande

orquídea de plástico. É ao mesmo tempo ousado e inocente.

Algo que uma criança ou uma menina da ilha faria. Ela usa

um vestido vermelho sem mangas, com um corte baixo com

decote em V e sem sutiã. Observo como o tecido contorna

seus seios flexíveis. Sinto um comichão nas mãos ao pensar

em moldá-los, sentir seu peso, espremê-los, brincar com eles,

arrastar a minha língua descontroladamente pelos bicos ....

Mordê-los.

A luxúria sacode o meu sangue, endurecendo e

engrossando meu pau com o desejo insatisfeito. Porra! Eu a

quero como nunca quis outra. Desejo-a intensamente. A

partir do momento em que nós vimos fui consumido por uma

espécie de loucura. Continuo pensando em meus dedos

apertando seus cabelos, lambendo a barriga lisa e plana, os


vincos perfumados entre suas coxas, passando os lábios em

torno de sua boceta e sentindo seu gozo em minha boca.

É uma loucura.

Mesmo agora, percebo que a persigo. Assistindo das

sombras como se eu fosse algum animal atrás da presa, mas

não consigo parar. O desejo de possuí-la é mais forte, maior

do que o de simplesmente ganhar um monte de dinheiro e

terminar meus dias entre as pernas de mulheres que não são

minhas. Pensava que não teria da vida nada mais doce do

que isso.

Despejo na garganta o resto do meu uísque, o líquido

frio passa queimando.

Com ela é diferente. Não quero fazer sexo escondido,

quero me casar, lutar com ela no chão e comê-la tão

selvagemente que revidará arranhando minhas costas. Quero

forçá-la a abrir suas coxas e possuí-la, querendo ou não.

Minha boca seca e a luxúria maldita me corrói. O efeito

que esta mulher tem sobre mim é indescritível. Devo tê-la ou

ficarei louco com tanta vontade, com o desejo de sentir o

aroma e o sabor de sua pele.

Nunca paguei por uma dança antes, mas estou prestes

a isso, porra.

Levanto minha mão para sinalizar a uma garçonete.

Duas notam e ansiosamente correm em minha direção,

cientes uma da outra, mas determinadas a chegar a mim em

primeiro lugar. Uma vez já me senti lisonjeado com as

pessoas se jogando para me agradar, mas agora me tornei


cínico. Eu os desprezo por serem tão fracos e apegados. Uma

delas quase me alcança e sorri amplamente, triunfante. O

prazer de servir Jake Éden. Ela sabe que a sua gorjeta será

astronômica.

Atrás dela vejo a mulher tranquila, mas que me deixa

louco. Está de pé no bar, tão delicada, quase etérea e ainda

assim sei que é cheia de segredos e fogo. Há um tumulto ao

seu redor, mas ela parece distante, totalmente perdida em

seus próprios pensamentos. Por um tempo parece segura,

trancada em uma torre de marfim, à espera de seu príncipe

para resgatá-la.

A garçonete está a dois passos de mim quando o meu

sangue começa a ferver de raiva.

Oh! Porra, você não é um cara ciumento!

Lily

—Ei, Lily.

Viro-me cautelosamente, assustada com o uso do meu

nome neste lugar. Um homem está encostado no bar, com

um pequeno sorriso em seus lábios. Olho automaticamente


para o seu rosto e corpo. Deus! Estes homens Éden! Porra,

eles são magníficos!

Relaxo, descansando as costas contra a barra e sorrio.

Ele tem belos olhos. Impossível dizer qual a cor nestas luzes,

mas, provavelmente, verde ou azul.

—Olá, Sr. Éden.

—Shane —corrige suavemente.

Sorrio misteriosamente. Shane é o irmão mais novo de

Jake e proprietário do clube, mas ao contrário de seu irmão,

que é distante e evasivo, ele é querido por todos. É tudo o que

você desejaria em um homem. Parece uma estrela de cinema,

encantador, com boas maneiras, dá a impressão de ser

verdadeiramente agradável. Não é exatamente o tipo de

homem que você se orgulharia em apresentar aos seus pais,

mas deixará todas as suas amigas verdes de inveja. O tipo

que te convenceria facilmente a fazer tudo o que ele quisesse.

Já o vi por aí, mas esta é a primeira vez que se dignou a falar

comigo.

—Quer ir a uma festa? —pergunta com um sorriso

brincalhão e preguiçoso em seus lábios. Uau! Realmente

aperfeiçoou sua técnica.

—Claro. Se eu não estiver trabalhando.

Ele se inclina para perto.

—Você não está.

Sorrio.

—Gosto de um homem esperto.


Ele ri.

—Tenho muitas virtudes que não estou usando,

querida.

Eu rio de volta. É fácil falar com ele.

—Onde será a festa?

—Meus irmãos.

O DJ está tocando “Dangerous” de Sam Martin 16 . Inclino

minha cabeça para cima e faço uma careta, um desobediente

beicinho de “vem me pegar”. Sei que estou flertando

escandalosamente, mas me sinto segura.

—Qual irmão?

—Jake.

Meu coração palpita. Agora este definitivamente não é o

tipo de homem que você quer apresentar aos seus pais ou

que você pode flertar com segurança.

—Ótimo —digo com um sorriso demorado.

—Pego você em sua casa às sete amanhã?

—Ok.

—Tem alguma coisa bonita para vestir?

—O que você acha? —digo, batendo meus cílios postiços

flertando exageradamente. Juro que ele faz com que seja

muito fácil.

Pega sua carteira, tira um maço grosso de notas e coloca

no bar.

16 Samuel Denison “Sam” Martin é um cantor, compositor, músico e produtor americano.


—Compre algo impressionante.

Olho para o dinheiro, para suas mãos, e depois de volta

para ele, que me observa, hipnotizado. Droga, ele realmente

gosta de mim.

—Obrigada —digo em voz baixa.

—Certo, vou tomar uma chuveirada. De água fria.

—Eu ... humm ... estou ansiosa para amanhã.

—Boa noite, Lily —diz saindo do bar com um sorriso

iluminando seus olhos, e então se foi, deixando seu perfume

caro no ar.

Vejo-o partir antes de pegar o dinheiro e colocar na

bolsa de cetim da minha roupa.

A primeira coisa que penso quando acordo na manhã

seguinte é em Jake. Ouço seu chamado como um eco em

uma vasta sala. Rolo para um local fresco no lençol e me

lembro do jeito que me encarou, naquela manhã da audição.

A atração foi imediata, selvagem e elétrica. A promessa, a

tentação do prazer e o orgasmo que só Jake Éden pode dar

na luz difusa da manhã.

Eu o encontrarei novamente hoje à noite, mas não

deixarei esse desejo louco me distrair. Ele usa as mulheres


como outras pessoas usam lenços de papel e quando as

descarta dá a mesma atenção que as outras dão aos lenços

sujos. Não serei uma das suas conquistas.

Quando cheguei em casa ontem à noite contei o dinheiro

que Shane colocou no bar. Duas mil libras! Se irei a uma

festa dada por um senhor do submundo do crime, então irei

com alguma roupa realmente fabulosa.

Depois do almoço, tomo um táxi em Londres e vou à

Pandora, uma loja de designer de segunda mão em

Knightsbridge 17 . Estou em pé na frente de um espelho

experimentando um vestido de cocktail 18 com um decote de

tule transparente. Seu preço é um absurdo, custa 1.800

libras. Muito mais do que já paguei por um vestido, mas é

maravilhoso com miçangas e cristais azuis que embelezam o

tecido. A assistente, uma simpática menina sul americana,

vai à seção de sapatos e volta com um par azul de salto alto.

Calço-o.

—Uau! —ela exclama dramaticamente.

—É muito caro —falo preocupada.

—É um terço do preço de quando era novo e

provavelmente foi usado apenas uma vez.

Viro para olhar o meu perfil. É um vestido

verdadeiramente deslumbrante.

17 Knightsbridge é um distrito residencial e de lojas exclusivas no oeste de Londres, Inglaterra

18 Um cocktail é um vestido elegante, de material sofisticado cuja barra geralmente vai até os

joelhos, usado por mulheres em festas e ocasiões formais que não exijam vestido de gala.


—Espere —diz, vai à uma vitrine, pega um par de

brincos longos, entrega-me e eu ponho. São tão perfeitos que

não há mais nada a fazer senão comprar todo o conjunto.

—Você irá atordoá-lo —afirma sabiamente enquanto

contava o dinheiro de Shane.

Naquele momento, eu sabia. Não iria a esta festa para

ficar com Shane, mas sim com Jake. Mesmo sendo um

criminoso perigoso e um predador sexual, ele é o único para

mim.

Shane chega às sete em ponto vestindo um terno preto

com uma camisa branca com babados. Está maravilhoso. À

luz do dia, percebo que seus olhos são esplendidamente

azuis. Ele me olha genuinamente admirado, franze os lábios e

assobia.

Rodopio.

—Uau —diz apreciando.

Noto o enorme ramo de flores e a caixa de chocolates

artesanais cara que abraça.

—São para mim? —pergunto.

Ele me entrega.

—Obrigada —agradeço. A verdade é que eu tinha

quatorze anos na última vez em que um cara me trouxe

alguma coisa. Andrew Manning comprou uma barra de Aero,

meu chocolate favorito naquela época, e colocou em seu bolso

de trás. Ainda me lembro de seu rosto vermelho enquanto

tirava a coisa disforme derretida.


—Você parece bastante elegante —murmuro, admirando

suas roupas finas.

—Aposto que diz isso para todos os meninos —brinca,

em voz baixa, gutural.

Pode ser bobagem, mas cresci com meu pai ouvindo

Meatloaf 19 no último volume. Por isso, é como se o

conhecesse há anos. Sei que será meu aliado. Um amigo com

o qual posso contar. Ele espera, enquanto coloco as flores em

um vaso e, em seguida, deixamos o apartamento juntos.

O clima é excepcionalmente quente então não levo um

casaco. Há um reluzente Maserati Ghibli 20 preto estacionado.

Shane destrava-o e me senta no banco do passageiro antes de

ir para seu lado. Nunca estive em um carro tão caro antes. É

o exemplo perfeito de luxo e tem um cheiro delicioso.

—Onde fica a casa do seu irmão?

—A festa é em Essex 21 , cerca de uma hora e meia de

distância.

A conversa é fácil e divertida.

Nós deixamos a autoestrada e seguimos por estradas

estreitas cercadas por florestas exuberantes e, finalmente,

19 Meat Loaf é o nome artístico de Michael Lee Aday, cantor e ator que lidera uma banda de

música, também com o nome de Meat Loaf, na qual é vocalista.

20

21 Essex é um condado da Inglaterra situado no sudeste do Reino Unido.


chegamos. Há paparazzi 22 do lado de fora, que imediatamente

pegam suas câmeras na esperança de que sejamos famosos.

—Por que os paparazzi estão aqui?

—Esperam algumas celebridades hollywoodianas.

—Quem?

—Leonardo DiCaprio.

—Sério?

Os portões se abrem e nós entramos. A estrada leva à

uma fabulosa mansão roxo-claro com seis colunas altas em

estilo romano na entrada.

—Uau! —exclamo —Isto pertence a seu irmão!

—Legal, hein?

—O que se tem que fazer para conseguir algo assim?

—Isso e aquilo —diz facilmente, mas evasivo.

Viro-me. —É um segredo?

Ele me dá um breve olhar. —Não, mas algumas coisas

são melhores ignorar.

Bem, isso é alguma advertência. Limpo minha garganta.

—Desculpe, não quero me intrometer.

Ele sorri e o brilho volta aos seus olhos.

—Está tudo bem, querida. Não sei o que você ouviu,

mas Jake não é a pior coisa na cidade —diz. Dirigindo até um

22 Paparazzo (no plural, paparazzi) é uma palavra derivada da língua italiana utilizada para

designar os repórteres que fotografam famosos sem a sua autorização, expondo em público as suas

atividades no seu cotidiano.


grande pátio, encontramos um lugar para estacionar entre

todos os brinquedos do outro garoto muito nervoso. Shane

para, abre a minha porta e saio do assento rebaixado tão

elegantemente quanto o meu vestido curto permite.

Contemplo a magnífica casa e fico nervosa.

—Você está linda —Shane sussurra em meu ouvido.

Olho-o com gratidão. Nós caminhamos até a casa,

subimos a escadaria de pedra e dois sósias de Josh em trajes

pretos estão nas portas altas.

No interior, a festa acontece. Tem gente bonita em todos

os lugares. Atravessamos o piso de mármore brilhante e

entramos em uma grande sala cheia de belos móveis, música

alta e pessoas glamorosas.

Uma mulher loura muito bronzeada e escultural se

aproxima de nós com uma bandeja de prata com taças de

champanhe.

—Boa noite —cumprimenta. —Gostariam de uma

bebida?

Shane pega duas taças, me dá uma e diz —Venha,

deixe-me apresentá-la a Leo.

Então conheço o tão charmoso e cortês Leo assim como

ele estava no Grande Gatsby 23 , um pouco mais arredondado

do que esperava, com sua acompanhante, uma bela sul

americana muito alta. Várias pessoas parecem saber quem

23 O Grande Gatsby é um romance escrito pelo autor americano F. Scott Fitzgerald. Publicado

pela primeira vez em 10 de abril de 1925, teve várias adaptações para o cinema, sendo a última em

2013 estrelado por Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan.


Shane é. Comprimento várias personalidades —uma

celebridade da televisão, uma apresentadora de telejornal,

um casal de primos de Shane, alguns decididamente

sombrios, mas nem Dominic nem Jake parecem estar por

aqui. Discretamente olho para meu relógio. São apenas dez

horas.

É somente quando Shane pede licença para ir ao

banheiro e ando até as portas francesas para observar o

grande gramado, cercado por jardins, que ouço, acima da

música, a voz intensa e rouca do homem que faz meu sangue

correr direto para meu clitóris.

—Olá, Jewel.


Quatro

Lily

Por alguns segundos não faço

nada. Fico parada saboreando a sensação que sua voz me

causou, uma suave brisa levanta o cabelo do meu pescoço.

Sei que quando me virar o mundo será diferente.

Preparo-me e o enfrento lentamente, mesmo assim, não

consigo respirar. Pisco e o encaro.

Ele paira sobre mim em um terno esmeralda, emanando

energia sexual. Seus olhos verdes, com nuances violeta e

preto, lindos, brilham de desejo. Cada fibra do meu corpo

vibra como se ele fosse um grande gerador e eu algum

equipamento bobo que está absorvendo muita energia. E a

pior parte: ele sabe disso.

—Ou é Lily? —Seus lábios pecaminosos acariciam meu

nome como um beijo.

Meus braços ficam arrepiados.

—É o que você quiser que seja.

Percorre meu corpo com um olhar fascinado, ardente,

perverso.

—Eu quero que seja Lily.

Dou de ombros.


—Ok —digo despreocupada.

Pega uma bebida de uma bandeja que passava e me

entrega. Nossos dedos se encostam e eu tremo visivelmente.

Suas sobrancelhas levantam, mas seus olhos permanecem

impenetráveis. Meu rosto esquenta com a tensão sexual.

Aperto o copo com força. Droga. O que é isso? Cristo do céu.

Porra, controle-se Lily. Não acredito como estou afetada por

este homem. Preciso de um tempo para me equilibrar.

Forço um sorriso em meus lábios.

—Obrigada —digo educadamente e tento me afastar.

Sua mão toca meu braço, eu reajo e a empurro.

—Não temos uma política de “não toque” nesta casa —

observa calmamente.

—Não acredito que fomos apresentados. Quem é você?

Sua expressão é divertida, sabe que sei exatamente

quem ele é.

—Quem você quer que eu seja Lily? —Sua voz é

preguiçosa como uma cobra mortal enrolada no sol. Um

movimento errado...

Um estranho calor e calafrios percorrem minhas veias.

—O irmão de meu amante.

A diversão desaparece de seus olhos substituída por um

raio de fúria ardente. O réptil foi acordado abruptamente.

Meu coração para, mas resisto à reação instintiva de

recuar. Por alguns momentos, ou poderia ter sido milhares de


anos, nós nos olhamos fixamente, em seguida ele se vira e se

vai rapidamente.

Aperto a taça de champanhe com força e assisto a sua

figura alta atravessar a multidão. Jack se destaca assim

como um falcão em um bando de canários. Uma mulher em

um sofisticado vestido de veludo marfim coloca a mão bem

cuidada em sua manga. Ele para e inclina a cabeça para ela,

que diz algo. Sua risada é emocionante. Fico extremamente

irritada, com inveja, doente de ciúmes da puta com tesão.

—Sentiu minha falta? —Shane pergunta no meu ouvido.

Sinto-me aliviada ao ouvir sua voz. É como ter uma

bebida forte em um dia frio. Sentindo-me protegida viro para

ele.

—Desesperadamente.

—Quão desesperadamente? —dá um grande sorriso.

—Você não quer saber.

Ele ri.

—Vamos. Quero que conheça o meu irmão. —Antes que

eu possa protestar, segura meu cotovelo e me leva em direção

ao seu irmão e à beleza no vestido marfim. Ela tem cabelo cor

de café e vazios olhos prateados.

—Jake, quero que conheça Lily.

Ele se vira rigidamente para mim

—Nós já nos conhecemos —diz secamente.

—Oh! Quando?


—Momentos atrás. —Parece frio e indiferente.

Shane me olha interrogativamente.

—Você não me deu a chance de lhe dizer —digo

debilmente.

—Você não vai me apresentar, querido? —a mulher diz

adoravelmente, enquanto desliza sua mão pela camisa preta

dele, movendo o paletó. Ciúme queima em meu sangue. Olho

para cima e seus olhos estão escuros e cuidadosamente

sigilosos.

—Andrea Mornington, Lily Hart —diz secamente,

abraçando-a pela cintura.

—Olá, Lily —Andrea diz, seus olhos precisos e diretos,

como uma chave girando na fechadura, compreendem

perfeitamente o que não foi falado.

Forço um sorriso.

—Por favor, desculpe-me, preciso encontrar um lavabo.

—Enquanto me afasto a mão de Shane segura meu pulso. —

Você está bem?

Olho em seus olhos e percebo que está preocupado. Isso

me aquece e me entristece.

—Sim. Volto logo.

Não tenho que olhar para seu irmão para saber que está

me observando. Sinto isso como um punhal nas minhas

costas ou um ato do destino.

Não encontro o lavabo. Em vez disso desvio

discretamente para uma sala próxima, que parece algum tipo


de salão. Tal como tudo na casa, é bonito. Não há ninguém,

fecho a porta e inclino-me contra ela.

A atração é tão inconveniente, tão absurda que nunca

sequer considerei a possibilidade, mas ainda sinto. Eu o

quero tanto que dói. Afasto-me da porta, coloco a minha taça

de champanhe em uma mesa e vou até uma janela alta. Olho

para a escuridão e só vejo meu reflexo fantasmagórico.

Uma dúzia de pensamentos vêm e vão. Sei que deveria

voltar para Shane, mas a parte de mim que odeia vê-los

juntos é mais forte. Sou interrompida por um som na porta e

me viro surpresa.

Pelo amor de Deus! Uma roupa verde esmeralda e um

anel de diamante em seu dedo mindinho! Deveria parecer

ridículo, mas não é. Ele vem em minha direção —seguro,

confiante, majestoso. Deslumbrante.

Não me agrada muito sua expressão arrogante e

autoritária. Seu olhar é agressivamente corajoso e viril, e

percorre meu corpo.

—Perdida?

—Não, eu tentava ficar sozinha.

Olha para baixo, parando sugestiva e intencionalmente

nos meus seios, deixando-me mais confusa.

—Positivamente de tirar o fôlego —murmura baixinho,

mas com uma pitada de diversão sarcástica.

—Insuportavelmente arrogante, não é?

—Já me falaram isso —admite com um sorriso irônico.


—O que você quer? —pergunto. Percebo pânico na

minha voz, que ressoa como um sino na grande sala, e

descubro que não confio em mim mesma.

Ele está na minha frente, suas maçãs do rosto coradas

de desejo

—Não é perfeitamente óbvio o que quero?

—Não para mim.

—Quero que fique longe do meu irmão.

Coro, então rio ironicamente.

—Você é um gângster. Não aja de modo superior e

poderoso comigo.

Ele sorri lentamente, seus olhos franzem com diversão.

—Diga a palavra de novo.

Eu pisco.

—Que palavra?

—Gângster.

—Por quê?

—Porque faz parecer tão sexy que quero me tornar um.

—Devo acreditar que não é?

Encolhe os ombros desinteressadamente, mas seus

olhos tem um novo brilho.

—Posso ser se você quiser que eu seja.

De repente, me sinto tão nervosa que não consigo nem

vê-lo. Olho para baixo.


—É isso o que você realmente quer... Lily? Um gângster?

—É a última coisa...

Ele se move, rápido.

—Então, o que está fazendo brincando com meu irmão?

—reclama e segurando meus braços me empurra rudemente

contra a parede perto da janela.

Faço o que fiz quando tinha nove anos e abri a porta da

frente da casa da minha avó, e havia dois skinheads 24 que

não estavam sorrindo. Um deles segurava um martelo. Não

parei ou considerei. Simplesmente reagi.

—Solte os dois alsacianos 25 , vovó —gritei.

Por um segundo, as duas cabeças pesadamente

tatuadas se entreolharam e então eles fugiram tão rápido que

não houve tempo suficiente para dizer “pele”. Minha avó não

tinha um cachorro.

Mais uma vez deixo meu instinto me guiar.

Surpreendo Jack agarrando seu rosto e beijando com

força, mas ao contrário dos skinheads, o problema não

fugirá.

Sua boca se abre para a minha e o beijo queima meus

lábios. Cambaleio e pego um punhado de seus cabelos

escuros. Suas mãos seguram minha cintura como tiras de

aço quente, forçando-me contra seu corpo duro, derreto,

24 Chamados desta forma devido ao corte de cabelo, Skinhead (cabeça rapada) é uma

expressão que descreve um grupo social, usada quase exclusivamente para se referir a indivíduos

fascistas ou que pertencem a grupos neonazistas, apesar de nem todos os skinheads seguirem essas

doutrinas.

25 Relativo à Alsácia, região do Nordeste da França. Seus habitantes são de descendência alemã.


somos uma coisa só. Meu corpo se torna uma porra de um

mingau, meus dedos dos pés se enrolam nos meus sapatos e

minha calcinha encharca. Por aqueles poucos segundos paro

de respirar!

Então, sem aviso, afasta sua boca, segura meus braços

com suas mãos fortes e me empurra de volta contra a parede

fria. Seus olhos estão animalescos e selvagens, as pupilas tão

grandes como estivesse correndo ou tivesse saído de um

quarto escuro. Hipnotizada, observo-o. Nunca vi nada

parecido, algo tão feroz e bonito. Ele respira profundamente.

—Que porra é essa? —ele diz severamente.

—Desculpe —falo tão friamente quanto posso. —Quando

um homem empurra uma mulher contra uma parede

normalmente quer violentá-la.

Ele respira com dificuldade, ofegante exige

—Fique para caralho longe do meu irmão.

Sua voz é fria e ameaçadora, seu olhar assassino, mas

sei que se eu tocar em suas calças caras seu pau estará

grosso e duro.

—Então, eu sou boa o suficiente para você, mas não

para o seu irmão.

Ele ri amargamente.

—Não, você é boa o bastante para a cama de qualquer

homem. O problema é que Shane irá querer se casar, e nós

dois sabemos que você não é esse tipo.

—O que o faz pensar que não me casaria com Shane?


Furioso ele reage e me puxa tão forte e rápido que

suspiro chocada quando bato no seu corpo. Seu pênis

pressiona a minha barriga.

—Não brinque comigo, Jewel.

Encaro-o desafiadoramente. Seus olhos brilham e um

desejo violento endurece sua mandíbula.

—Se Shane me quiser, ele me terá.

Seus olhos brilham com raiva, mas fala lentamente

—Oh, baby. Você não tem nem ideia, não é?

—Está me ameaçando?

—É um aviso.

—O que fará, hmmm? —desafio.

—Para começar, isso. —inclina sua cabeça e esmaga sua

boca na minha. O beijo é possessivo e exigente, não é nada

como o outro. Este é punição pura, está me marcando,

colocando o selo de propriedade em mim. Viro minha cabeça

e tento me afastar, preparando-me para dar uma forte

joelhada em sua virilha, mas de repente o beijo muda e sou

incapaz de resistir. Nunca experimentei algo assim. É

perfeito. É quente, molhado e selvagem.

Minha boca se abre e sua língua empurra,

corajosamente, da mesma maneira que seu pênis entraria na

minha boceta. Chupo-o e fico excitada, a parte de trás do

meu pescoço se arrepia como se tivesse recebido um choque.

Ele me levanta e me abaixa afastando minhas pernas, puxa

meu vestido acima da minha bunda. Ouço o pequeno pedaço


de renda e cetim rasgando e então seu dedo desliza em meu

núcleo. Lamento impotente em sua boca.

—O que está acontecendo aqui? —Uma voz exige.

Seus largos ombros bloqueiam minha visão de Shane,

mas congelo horrorizada. Minha calcinha rasgada está caída

no chão, e os dedos duros de Jake ainda estão dentro da

minha boceta nua.

Muito casualmente, Jake levanta a cabeça, tira os dedos

de mim, e alisando o vestido sobre meus quadris vira-se para

encarar o irmão, mantendo sua mão firme ao redor da minha

cintura.

—O que você acha, Shane? —pergunta friamente.

Shane olha para mim, ferido.

Tento sair do aperto de Jake, mas ele segura firme.

—Sinto muito —sussurro.

Ele sorri torcendo os lábios, e sei o que pensa. “Ele só

vai te usar e te descartar”. Incapaz de olhar nos meus olhos,

age dignamente. Nesse momento, vejo o homem incrível que é

e o quanto deve ter gostado de mim antes disso. Queria sentir

por ele o que sinto por Jake.

Ele balança a cabeça e olha para fora pela janela.

—Você a levará a salvo para casa.

—Claro —responde.

—Boa noite, então —diz e sai fechando a porta.


Jake me solta, mas continua me olhando. Sentindo-me

estranhamente desamparada, me abraço.

—Você sabia que ele estaria aqui, não é?

—Pedi que viesse —diz com olhar agitado.

Concordo com a cabeça lentamente. Caí em sua

armadilha.

—Foi uma coisa muito cruel que você fez.

Sua voz é estranhamente suave, quase arrependido.

—Eu avisei.

—Ao seu irmão.

—Ele vai sobreviver. Sabe que tenho as melhores

intenções no coração. —Ignora insensivelmente, mas vejo o

brilho de uma lealdade feroz para com seu irmão, sua família.

Seu bando.

—Por que acha que eu seria tão ruim?

—Creio que provei o porquê alguns minutos atrás.

—Você não me conhece.

—Discordo, sei exatamente o que é.

—Gostaria de ir para casa agora.

—Ficará essa noite e pedirei ao meu motorista que a leve

para casa amanhã.

Fico boquiaberta.


—Acha que dormirei com você depois do que fez? Nem

que fosse o último homem na Terra —declaro sem grande

originalidade.

Um sorriso lento e masculino divide seu rosto. Se era

bonito antes agora está devastador. Observo-o. Jesus! Estou

louca por ele.

Ele estende a mão e toca meu rosto com as costas dos

dedos. Estremeço e me afasto. Ele deixa cair à mão para o

lado do seu corpo.

— Não se iluda. Tenho um encontro esta noite.

Claro, Andrea Mornington do vestido de veludo.

Bastardo do caralho. Naquele momento, acho que o odeio.

— Minha empregada Maria irá levá-la a um dos quartos

de hóspedes. — Afasta-se de mim e anda para a porta, onde

para. — Aproveitou a festa, não é? — Em seguida ele se foi.

Toco a minha boca com espanto. Porra! Era um

pesadelo em forma de sonho.


Cinco

Lily

Eu me mexo e me viro sem

parar nos lençóis de seda da cama king-size, procurando um

local fresco. O ar é agradável ainda, mas é o pensamento dele

com ela que me deixa doente de ciúmes. Continuo pensando

nos dois transando, nas estocadas lentas e firmes que dava.

De repente, ouço o som de passos no corredor e ele para

em frente à minha porta. Fico imóvel, só meu coração bate

em meu peito e meus olhos estão fixos na maçaneta da porta.

Ele não ousaria, não se atreveria, porra, a me procurar

depois de ter estado com ela. Silêncio e então ele se vai.

Sento, sentindo-me quente e corada.

Ele não entrou!

Enlouqueci por pensar em sua audácia, mas agora

estou devastada pela decepção. É como uma dor física. Danese.

Dane-se, Jake Éden. Levanto-me e corro para a porta

grande de carvalho. Seguro a maçaneta e paro. Que porra

você está fazendo? Cerro os punhos e aperto contra a minha

boca.

O que acontece comigo? Estou inquieta, sexualmente

frustrada. O que ele tem que me deixa desesperada para


senti-lo dentro de mim? Encosto o ouvido na porta e ouço-o

descer as escadas.

Tiro minha mão da boca e tranco a porta. O metal dá

um clique alto e fino. Sinto-me feliz por isso, controlei-me. Eu

me afasto da porta, minhas mãos tremem de emoção. Uma

luz do lado de fora me surpreende. É ele, acendeu as luzes de

segurança. Corro para a janela e fico nas sombras, por trás

das cortinas.

Vejo-o andar pelo terraço em direção à beira da piscina,

inquieto, com a graça mortal de um puma à espreita.

Banhado pela luz branca, arranca seus sapatos, tira sua

camiseta, seu jeans e com os polegares empurra sua cueca

até o chão. Deveria parar de observá-lo e voltar para a cama,

mas não posso. Estou fascinada por sua bunda musculosa

iluminada pelo azul de néon da iluminação submersa.

Ele sai de sua cueca e fica por um momento ali parado.

Vejo os pelos de suas panturrilhas, em seguida, gloriosa e

fabulosamente nu, vira um pouco em direção a minha janela

e vejo seu pau longo e grosso. Ele olha para cima me

procurando.

Nós nos olhamos e é como um soco no estômago,

doloroso. Não há nada que eu possa fazer a não ser ficar no

meu esconderijo, sinto-me culpada, sem vergonha. Nós

olhamos fixamente. Em seguida, ele se vira e mergulha. Por

mais um tempo vejo-o nadar poderosamente pela água azul,

então me afasto da janela.


Naquele momento percebo duas coisas. Primeira: o

primitivismo absoluto do homem, e segunda: o fato de que

não estou no comando, nunca estive. Minha cabeça se enche

de fantasias sexuais. Suas mãos, sua língua, seu pênis,

montando-me até eu gritar. Aperto firme minhas coxas.

Durmo mal e acordo às cinco e meia da manhã. Está

claro lá fora, mas abençoadamente fresco. Saio da cama,

tomo um banho rápido e visto as roupas e sapatos que Maria

me trouxe ontem à noite: uma lingerie pêssego, um agasalho

azul e tênis branco, todos ainda com suas etiquetas. Fico

espantada por ficarem perfeitos em mim. Ele deve ter

mulheres aleatórias ficando inesperadamente o tempo todo,

reflito amarga.

A casa está silenciosa.

Desço a grande escadaria e saio. Há muita neblina.

Tudo parece muito Sherlock Holmes 26 , sorrio para mim

mesma, atravesso o gramado e sigo em direção ao bosque.

Um som como o de um trovão quebra o silêncio pacífico

da manhã. Olho ao redor, assustada. Um homem sai da

névoa montando sem sela um garanhão preto brilhante. Seu

26 Sherlock Holmes é um personagem de ficção da literatura britânica criado pelo médico e

escritor Sir Arthur Conan Doyle, onde Holmes é um investigador do final do século XIX.


cavalo é como ele — uma presença assustadora, olhar

maligno. Um grande brutamontes, duro e inflexível. Estou

impressionada pela forma como o animal e o homem estão

tão misturados, tão em sintonia.

Ele para ao meu lado. O garanhão bufa inquieto e seus

olhos estão selvagens. Fico admirada com a visão do homem

sobre esse grande garanhão negro. Na luz suave da manhã

seu rosto é severo e vigilante.

—Venha para um passeio comigo —ordena,

completamente imóvel, sua expressão intensa observando

cada detalhe em mim. Apesar do silêncio não há nenhuma

dúvida sobre sua intenção. Naquele momento, parece que

nada pode lhe atrapalhar.

Abro minha boca, mas não falo. Balanço minha cabeça.

Nunca andei a cavalo, muito menos num monstro negro

brilhante como este.

—Você não fala muito —observa e oferece sua mão,

sabendo que interiormente clamo por ele.

Fico atordoada por sua aparência e pelo que me faz

sentir. Seguro seu braço. Sua mão enorme se fecha sobre a

minha com força e me puxa tão de repente, que grito. Estou

perigosamente desequilibrada atrás dele. O cavalo relincha

com meu pânico. Com calma, Jake coloca a mão em seu

pescoço, mantendo-a firme até que o animal se aquieta, e me

equilibra sobre ele.

—Coloque seus braços em volta de mim —diz.


Faço isso com prazer. Seu calor e cheiro me envolvem.

Ouço as batidas do meu coração, alto, forte, rápido. Tento

resistir ao desejo de colocar minha cabeça em suas costas

rígidas.

—Tudo bem? —pergunta, virando a cabeça para me

olhar.

—Sim.

Ele estala sua língua e o cavalo galopa pelos campos.

Não há sons, só o que fazemos: a respiração resfolegante do

cavalo, os galhos estalando embaixo de nós. Nenhum dos

dois fala. Há algo mágico sobre o nosso passeio.

Jake faz com que o cavalo caminhe ao entrar no bosque.

Aqui o ar é mais frio, denso, com aroma de verão, flores

silvestres e trevo. Esquilos e pequenos animais correm na

vegetação rasteira das árvores. Saindo do bosque chegamos

em uma praia.

—Uau —sussurro.

—Segure-se firme —diz e faz o cavalo galopar ao longo

da costa. Por alguns segundos estou chocada e com um

pouco de medo, e então rio. As lágrimas provocadas pelo

vento escorrem em meu rosto e meu cabelo voa. Abaixo de

mim posso sentir o garanhão flexionando graciosamente

enquanto corre com uma velocidade incrível.

O homem difícil na minha frente, o cavalo debaixo de

mim, a sensação fantástica de total liberdade: é magica

antiga. Magia que só pode ser evocada quando todas as

armadilhas da civilização foram arrancadas. O cavalo para.


Jake joga uma perna por cima dele e habilmente pula para o

chão. Segura minha cintura, puxa-me para baixo e dá um

tapinha no pescoço lustroso do cavalo, que foge de nós.

Olho-o. —O cavalo...

—Ficará bem.

Percebo que ele está descalço. Ao contrário de todas as

outras vezes em que o vi, veste uma camiseta velha rasgada e

uma calça de veludo marrom desbotada. Pego meus sapatos.

—Vamos lá —diz e caminhamos juntos, nossas mãos

quase se tocando, mas não completamente. Não

conversamos. Não há uma alma à vista. O mar molha nossos

pés descalços. Acima de nossas cabeças uma gaivota solitária

circunda o céu. Não posso explicar a sensação de paz do

momento. Como se não existisse outra vida para mim,

apenas essa, na qual não sou uma dançarina em um clube

de cavalheiros e ele não é um gângster.

Quero perguntar porque está compartilhando seu

paraíso comigo, mas não consigo, talvez porque saiba que é

temporário e palavras só irão estragar isso. Viro-me para

olhá-lo e o encontro me observando. Seu cabelo está

despenteado, as maçãs do rosto rígidas coradas e seus olhos

brilhantes no sol da manhã.

—O quê? —questiono.

Ele balança a cabeça e assobia. O cavalo galopa em

nossa direção, com a crina voando, parando em frente a

Jake, que cuidadosamente passa a mão em sua cara e fala


em uma língua que não consigo entender. Talvez seja

gaélico 27 .

—O que você disse?

—Estou te apresentando a ele. Nós, ciganos, sempre

conversamos com nossos animais.

—O que falou sobre mim?

—Esse é o nosso segredo.

Ele pega a minha mão, aproxima do cavalo, e sinto sua

respiração quente e úmida na minha palma. Toco sua cara e

vejo um surto de pânico em seus olhos. Ele raspa o casco no

chão. Jake põe a mão nele, acalmando-o.

—Qual o seu nome?

—Thor.

—Ele te ama —sussurro.

—Eu o amo —diz simplesmente e beija o cavalo entre os

olhos.

Com um salto perfeito ele monta novamente, pega a

minha mão e comigo firmemente sentada atrás dele

retornamos. A viagem de volta parece muito rápida, e cedo

demais estamos na entrada da casa. Ele desmonta e me

ajuda a descer.

Olho para seu rosto que já se transformou, tornando-se

distante. Atentamente me recomenda.

27 Línguas gaélicas são um grupo de línguas originadas pelos celtas que povoaram as Ilhas

Britânicas; é um subgrupo das línguas célticas


—Tenho outros assuntos a tratar e não vou acompanhála

no café da manhã. Depois Ian a levará de volta a Londres.

Outros assuntos a tratar. De repente, me lembro da

mulher que ele passou a noite e fico com ciúme. Dane-se ela.

Danem-se os dois.

—Obrigada —digo casualmente.

Morro de vontade de olhar, mas não vou vê-lo galopar

para longe.

Dentro da casa, encontro Maria pairando pela sala de

estar. Ela finge afofar algumas almofadas, mas devia estar na

janela nos observando chegar.

—Bom dia —diz animada —Bem, mocinha, o que

gostaria para o café da manhã? Waffles, cereais, Inglês

completo, continental ou algo diferente?

—Continental soa bem.

—Excelente. Servirei na sala de jantar em dez minutos.

Ela se vai e ando até a janela. Que estranho é tudo isso.

Eu nesta casa e em um cavalo com Jake Éden. Minutos

depois vou para a sala de jantar, que é exatamente como o

resto da casa: rica, esplêndida e sem vida.

Como o meu croissant quente delicioso com montes de

manteiga e geleia e bebo uma xícara de café fresco sozinha.

Quando estou terminando Jake aparece na porta.

Seu cabelo ainda está molhado do banho, veste camisa e

calças pretas, uma gravata de seda branca e sapatos

marrons. Lembro-me de novo do jeito que me olhou vindo


pela névoa, com seu animal. Selvagem e absolutamente lindo.

Ele está segurando uma caixa.

Eu fico olhando para ele, surpresa. Não esperava vê-lo

novamente esta manhã. Tiro as migalhas de croissant de

meus dedos e limpo no guardanapo no colo.

—Tenho uma coisa. —Parece desajeitado, totalmente em

desacordo com sua aparência habitual de macho arrogante.

Fico em pé, a cadeira raspa no tapete. —Você me trouxe

um presente —digo estupidamente.

Ele vem e me entrega. Pego com cuidado, é uma caixa

quadrada, 12 cm por 12 cm, embrulhada em papel cinza

escuro com uma larga fita vermelha e parece cara.

Desfaço a fita e rasgo o papel. Dentro de uma caixa de

plástico transparente está um arranjo de orquídeas brancas.

O caule está imerso em um pequeno tubo de plástico de água

e preso a um pente-grampo.

—Para o seu cabelo —diz em voz baixa. —Use-o amanhã

à noite... para mim.

Flores brancas. Lembro-me do poema: “Em algum lugar

há beleza. Em algum lugar há liberdade”. Eu aceno devagar,

meus olhos fixos nos dele, hipnotizada pelo que vejo. —Vai ao

clube amanhã?

—Sim. Espera por mim?

Fico extremamente feliz e sorrio sonhadora.

—Mais uma coisa. A senhorita Mornington não passou a

noite aqui.


Seis

Lily

É uma noite tranquila no

clube e me preocupo como será estranho ver Shane, mas ele

não vem. Às duas da manhã, Melanie e eu pegamos um táxi e

voltamos ao apartamento.

—Estou com fome —digo indo até a geladeira. —Quer

alguma coisa?

—Pegue o sorvete —diz, jogando-se no sofá.

—Chocolate ou baunilha?

—Ambos.

Levo duas taças de sorvete para a sala de estar e vejo

Melanie retirar notas amassadas e úmidas de seu sutiã.

—Uau! —chuto os sapatos e me enrolo no sofá em sua

frente. —Pensei que tivéssemos que usar as fichas.

—Temos, mas alguns caras querem que eu fique com

todo o dinheiro. Sabem que perco vinte por cento e preferem

que eu fique com tudo.

—Brianna sabe disso?

—Claro.


—Então, quanto dinheiro você ganha em uma noite? —

pergunto, curiosa.

—Cerca de mil libras em uma noite ruim e de três mil e

quinhentas em uma boa.

Arregalo meus olhos. —Três mil e quinhentas?

—Por quê? Quanto faz? —ela me avalia com olhos

entreabertos.

—Depois de pagar a taxa da casa e outros custos, que

foi cerca de trezentas libras, uma vez fiz setecentas.

—De jeito nenhum —ela grita, claramente tão chocada

quanto eu quando me disse quanto tirava em uma noite.

—Por que é tão chocante?

Ela balança a cabeça.

—Droga, garota, se eu me parecesse com você faria

cinco mil por turno. Isso é o que aquelas louras burras levam

para casa a cada noite do caralho.

—Sério?

—Sim, realmente, e sabe o que mais? Se não começar a

ganhar, pelo menos, umas quatro mil, em breve Brianna te

chamará para uma conversa, e se o seu rendimento não

melhorar após esse papo, será educadamente convidada a se

retirar.

—Porra —amaldiçoo. Não posso permitir que isso

aconteça.


—O que acha? Você está tomando o lugar de uma

menina que poderia ganhar milhares de libras para o clube.

Somos os doces numa loja de guloseimas.

Encaro-a estupidamente.

—Olha, não é difícil. Invista em si mesma. Sabe quanto

Jolene leva para casa?

—Jolene? —Enrugo a testa e abano a cabeça. É a garota

de pior aparência no clube, a que tem dentes salientes.

Quando a conheci nos vestiários me surpreendi que Brianna

a tivesse contratado.

—Essa menina leva de seis a sete mil. Já ouvi dizer que

fez dez mil com um dos seus frequentadores.

Fico boquiaberta. —Dez mil libras?

—Sim.

—Em uma noite?

—Sim. Deveria ver quando ela desconta no final do seu

turno. É como se alguém batesse jackpot 28 na máquina de

frutas num cassino em Vegas 29 .

dinheiro?

você.

—Mas o que faz para levá-los a gastar todo esse

—Para começar, não age toda altiva e poderosa como

Abro minha boca para negar, mas Melanie estende a

mão em aviso.

28 Um jackpot é um prémio acumulado em máquinas de cassinos ou em sorteios de loterias.

29 Las Vegas, em Nevada, Estados Unidos, é uma cidade muito conhecida em todo o mundo,

principalmente pelos seus luxuosos cassinos, hotéis, feiras, eventos e convenções.


—Eu vi. Você senta com um cara e sua linguagem

corporal está gritando: não quero estar aqui. Pergunto: que

homem pagará uma garota que lhe diz claramente que não o

quer?

—Mas eles não são atraentes.

—É verdade, mas… —Ela lambe a colher —Por que se

tornou uma dançarina?

—Para ganhar dinheiro.

—Não ganhará nenhum com a sua atitude. Sabe o que

Jolene faz? Ela senta ao lado deles e sussurra em seus

ouvidos: “Estou aqui para ser qualquer coisa que queira que

eu seja. Posso ser a mais suja, a mais proibida prostituta de

suas fantasias. Diga-me, o que quer que eu seja? Fale

sacanagem comigo”, e adivinha? Nunca a tocam, ela fala sujo,

eles esvaziam suas carteiras e voltam para mais. Agora, isso é

uma dançarina inteligente. Até convida outras garotas para a

sala VIP para dançarem para seu cliente e paga-lhes por isso.

A ideia me deixa tonta, muito triste.

—Não entendo por que simplesmente não vão a um

clube de prostituição.

—Aha! —grita triunfante. —Por isso que a simples

Jolene leva para casa dez mil e você traz trezentos. Porque

você não entende o trabalho. A regra de “não tocar” significa

que não há pressão para que o homem faça qualquer coisa

sexual. É tudo sobre suas fantasias. Por algumas centenas de

libras ele pode ser o cara dos seus sonhos, com lindas


garotas interessadas em tudo o que diz, rindo de suas piadas

mais tolas.

Ela se inclina para trás e tira suas botas, há mais notas

suadas coladas em seus tornozelos. Quando descola e estica

sobre a mesa vejo que algumas têm números de telefones

rabiscados.

—E há algo mais que deve entender. Dançar pode ser

incrivelmente excitante e um ótimo afrodisíaco. Por que acha

que as meninas usam absorventes internos, mesmo quando

não estão em seu período?

Arregalo os olhos.

Ela apenas balança a cabeça sabiamente.

—Quando a sua cinta liga começa a ficar recheada com

notas de vinte e cinquenta, você sabe que não é apenas

quente, mas é muito boa no que faz. Sempre os faço se

sentarem com as pernas bem abertas para que possa vê-los

tendo uma ereção. Isso me dá total controle da situação.

Então, rolo meu corpo a milímetros de seus rostos para que

sintam o calor que vem de mim.

Ela coloca os pés sobre a mesa de café e contorce os

dedos.

—De propósito passo meu cabelo por seus rostos ou

deixo escapar um longo suspiro perto de seus ouvidos.

Normalmente eles respirarão pesadamente, o que significa

que fiz um bom trabalho, mas às vezes eles se tornarão tão

obcecados, tão paralisados que esquecerão de respirar e é

quando sei. Estão prontos para a sala VIP.


Melanie me olha como se seduzir homens estranhos

fosse a coisa mais simples do mundo.

—Se conhecer um cara que esteja realmente satisfeito

com seu serviço poderá até mesmo pedir uma gorjeta.

—Uau! —Não pensei numa coisa dessas. —Não se

sentirão roubados depois de pagarem todo esse dinheiro por

uma dança?

—Não pergunte, não continue. —Ela sorri. —Estes

homens conhecem o jogo. Sabem onde estão e o que faço, e

isso significa que se gasto o meu tempo tem que ser em troca

de dinheiro. Exatamente como pagariam seu advogado, por

hora. Não estou lá para me divertir, mas para ganhar

dinheiro.

—De fato —acrescenta - quanto mais rico e poderoso o

homem for, mais atrevida e direta deve ser com ele. Eles a

acharão divertida e é outra dica pra você. É ilegal somente se

acharem que foram enganados. Eu me orgulho por nunca

deixá-los sentir que jogaram dinheiro fora.

Penso nela pendurada no topo do poste dançando ao

som da música eletrônica de David Guetta 30 e uma voz

gritando: "Deixe-me ver suas mãos porra", enquanto

escorrega por ele. E quando a voz masculina pergunta

novamente: "Uma festa sem mim?", as luzes acendem e o

clube soa com linhas da canção, "Pode ser de qualquer um",

30 Pierre David Guetta, conhecido profissionalmente como David Guetta é um músico francês,

atuando no gênero de música eletrônica, sendo produtor musical e DJ.


mas não é de ninguém. Ela é tão bonita quanto Lupita Ny 31

no anúncio da Lancôme 32 e é sempre muito aplaudida após

seu show.

—Sei que é muito boa no que faz —digo sinceramente.

—Isso mesmo. Não mostro apenas um par de peitos,

dou um show que vai enlouquecê-los. E se um cliente me

trata com desprezo, e alguns deles entram lá só para fazer

isso, desprezar uma stripper negra, achando que devo me

sentir desprezível, no dia seguinte uso o dinheiro para

comprar algo que vai fazer me sentir bem, e está será a

minha vingança.

Melanie boceja.

—Obrigada pelos conselhos —agradeço. Ela está

absolutamente certa. É melhor eu descer do meu pedestal ou

esquecer a dança completamente, e desde que deixar o Éden

não é uma opção, tenho que fazer as coisas de maneira muito

diferente a partir de agora.

31 Lupita Amondi Nyong'o é uma atriz e cineasta mexicano-queniana. Ela nasceu no México e foi

criada no Quênia (seus pais são quenianos). Foi a primeira atriz do seu país a ser indicada e a vencer um

Óscar de melhor atriz coadjuvante.

32 Lancôme ou Lancôme Paris é uma marca Francesa de cosméticos de propriedade da L'Oréal,

tendo perfumes, cuidados com a pele e maquiagem como seus principais produtos.


Sete

Lily

O clube tem um ar de carnaval hoje. Homens jogando

dinheiro para o ar como se fosse confete, champanhe fluindo

como se fosse de graça, meninas usando lindos vestidos para

a hora do show, em seguida, o cabaré começa e os travestis

da Tailândia animam o palco. Eles são ousados e talentosos.

Fico nos bastidores e ouço o DJ anunciar o meu nome.

Ando até a porta lembrando-me de Ann, minha instrutora,

dizendo-me: “Quando você está no palco uma varinha, o

poste, te torna uma tigresa. Faça contato visual com os

apostadores, mantenha seus olhares por um longo tempo.

Faça-os pensar que você os quer, faça-os se contorcer em

seus assentos. Faça-os sentir o seu poder, assim, quando sua

cena terminar e andar em direção a eles, saberão que é hora

de abrir suas carteiras.”


Na entrada do palco, faço uma pose enquanto observo

na escuridão a plateia masculina. As luzes estão quentes e

brilhantes nos meus olhos, mas o vejo imediatamente. Ele se

destaca, o único homem que não parece estar à procura de

uma experiência excitante. Sua pose é descontraída, com os

joelhos afastados, uma mão em uma coxa e outra segurando

um copo de líquido âmbar, mas me olha direta e

intensamente, sem sorrir, furioso.

Com que porra ele está irritado?

Congelo e quase perco minha autoconfiança. O palco se

enche com uma doce fumaça branca e uma luz

estroboscópica azul me corta ao meio. Então a música

começa, sinto a energia sexual da batida, do tipo que Melanie

usa em suas apresentações, e penso: dane-se Jake Éden. Não

fiz nada de errado.

Ignoro totalmente que está apoiado no palco. Ouço

assobios e vaias de uma turma de despedida de solteiro

sentada à direita, são doze rapazes e fico feliz por eles.

Endireito minha coluna. Vou fazer a melhor apresentação da

minha vida e levar seu dinheiro. Meu tempo tem que ser

pago.

Concentro-me na música, deixo-a encher cada célula do

meu corpo e danço em torno do poste me esfregando

sinuosamente. Balanço o meu cabelo para trás, aperto forte o

pole e voo perfeitamente ao seu redor parando de joelhos na

frente do público. Os homens da despedida de solteiro

assobiam muito, impressionados.


Procuro o noivo: trinta anos, ruivo, rosto agradável e

tem um sinal de “L” em sua camisa. Dançarei para ele. É

difícil explicar, mas é muito mais fácil dançar para alguém

que você não gosta, é olhar em seus olhos e fingir. Então faço

isso. Quanto mais o encaro, mais barulhentos e arruaceiros

seus companheiros se tornam. Sou claramente um sucesso.

É quase hora de tirar meu sutiã. Escalo o poste lenta e

sedutoramente e eles gritam me encorajando. Concentro-me

totalmente no noivo, seus olhos estão arregalados. Agarro o

pole com minhas coxas, inclinando-me à direita para que

possa ver à multidão enquanto estou de cabeça para baixo.

Pendurada nesta posição expiro bem forte, meu sutiã se abre

e voa. Os garotos ficam loucos.

Distante nas sombras outro homem está assistindo.

Meus olhos estão desprotegidos e a luz forte me faz piscar. Na

sala cheia os clientes trombam com ele. Sinto como se todos

os sons, os cheiros e o caos diminuíssem. Ele está imóvel

como uma estátua. Por um momento estou suspensa no

poste e presa em seu mundo e nele estou em apuros, fiz algo

muito errado. De alguma forma traí Jake Éden.

Em seguida, a gravidade age, me levanto e desço do

poste. Abaixo para pegar meu sutiã no chão do palco e o

noivo está de pé na beirada segurando uma nota de

cinquenta. Nós nos olhamos, há fome nele, do tipo que

Melanie falou. Sinto muito por sua noiva. Puxo minha meia e

ele desliza minha primeira gorjeta. Encaro-o novamente, nos

encontramos ao acaso e seguiremos nossos caminhos.


—Obrigada —digo soprando-lhe um beijo quando saio

do palco. Vou aos bastidores e visto o cheongsam vermelho

escuro com a fenda que vai até a minha virilha. Toco a

orquídea que Jake me deu e é aí que entendo. Respiro fundo

e saio sabendo exatamente o que lhe direi.

Uma garçonete vem a mim.

—Mesa vinte e três deixou um Amex 33 preto atrás do bar

e disse que você é quente —sussurra.

Leio a etiqueta com seu nome e digo:

—Obrigada, Toni. Lembrarei de você mais tarde.

—Sem problemas —pisca e segue em frente.

Por um segundo penso em não ir... Não, estou

trabalhando, preciso deste emprego. Toni teve o cuidado de

me enviar um cliente e esperará sua parte. Farei isso rápido.

Ando até lá. O cliente tem um sorriso que poderia

iluminar uma árvore de natal.

—Oi.

—Estava ótima no palco —diz.

—Obrigada. Gostaria de uma dança?

—Claro, comprarei uma particular com você —sorri

ainda mais.

Droga, péssima hora! Meu primeiro grande esbanjador

e estou com muita pressa. Do outro lado do clube posso

sentir a raiva de Jake queimando minhas costas. Percebo

33 Amex Black Card - O cartão American Express Black ou Centurion Card, é realmente preto,

feito de titânio, estando disponível apenas por convite para uma seleta clientela.


agora que não deveria ter vindo, e sim passado a mesa a

outra dançarina.

Jake

Que porra é essa! Não posso acreditar nisso. Além de

ter que me sentar em uma sala cheia de homens com tesão

olhando para seu corpo quase nu, agora o bastardo gordo

está seguindo-a. Ela entrará em uma dessas salas VIPs e lhe

dará uma dança privada. Cerro os dentes de tão frustrado

que estou. Nunca quis me prender a mulher alguma, não

importa quão sedutora fosse, mas dane-se. Não suporto nem

pensar em qualquer outro homem em uma sala com ela,

olhando-a.

Ela é minha, só minha.

De canto de olho vejo Brianna vindo em minha direção,

sorrindo. Não sorrio de volta. Estou tão furioso que perco o

controle. Levanto e vou até Lily e seu cliente. Brianna avalia a

situação, para sorrindo e se apressa.

Pego a mão de Lily. Sua primeira reação é interessante,

é de pura repulsa, em seguida, nos encaramos e vejo um

misto de alegria, luxúria e ira.

O homem se vira para mim.


—Desculpe-me —diz solene, como se eu é que pisasse

em sua propriedade. Recebi dinheiro de homens como ele

antes. Sem os seus advogados extravagantes são uns

chorões, patéticos, que desistem até de suas mães para evitar

um arranhão.

Felizmente para ele, Brianna chega naquele instante.

Ela é tão suave que tenho que admirá-la.

—Senhor Walsh —murmura. —Jewel tem uma

emergência pessoal da qual precisa cuidar, mas encontrei

duas beldades para dançarem para você. Obviamente, o

champanhe é por conta da casa.

O Sr. Walsh aceita com má vontade sem ter ideia do

quão perto estava de apanhar. Brianna leva-o embora

rapidamente.

Escondendo meu ciúme olho para a pequena atrevida

com frieza.

—Acredito que esta dança é minha.

—Sim, meu senhor —diz sarcástica.

Ainda estou furioso, mas o cheiro dela paira sobre mim

como uma nuvem doce de luxúria, estremecendo meu sangue

quente, endurecendo rápido e dolorosamente meu pau.


Lily

As paredes e o teto da sala VIP são espelhados. Está

quase vazia: tem uma pequena e redonda mesa baixa, uma

grande cadeira vermelha e dourada estofada, e outra preta

muito menor que os dançarinos usam como apoio. Ele chuta

a porta fechada, o calcanhar batendo na madeira, e fica ali,

alto, orgulhoso. Alfa puro. Grande! Estou sozinha na sala VIP

com um furioso gângster.

Em uma voz perigosamente sedosa diz:

—Será que você aproveitou isso?

—O quê? —pergunto nervosa.

—Provocando-me.

—Não estava.

—Você olhou bem nos meus olhos. Sabia que te

esperava.

Lambo meus lábios.

—Este é o meu trabalho.

Ele vai até a cadeira vermelha, senta, tira duas fichas

azuis de sua jaqueta e coloca na mesa. São cem libras cada.

Então me olha.

Com uma voz que parece com o estalo de um chicote,

exige:


—Agora tira.

Sinto meu rosto queimar. Dançar para alguém que você

gosta loucamente é totalmente diferente. A adrenalina é

inegável, explode dentro de mim. Finalmente entendi porque

as outras meninas usam absorventes internos o tempo todo.

Encarando-o solto o meu vestido e deixo escorregar pelo

meu corpo até os tornozelos. Ele olha meu corpo inteiro com

desejo. Dos autofalantes ouço Snoop Dogg 34 : "Diga-me, baby,

você está molhada? Eu só quero que você fique molhada”.

Simplesmente perfeito.

Jake

Ela gira sua cabeça sedutoramente como um animal no

cio e de propósito me mostra sua bunda. Vejo seu sexo pelo

vestido de cetim, está inchado entre suas coxas abertas. Sei

exatamente o que faz, mostrando o calor úmido e doce de seu

centro. A vontade de chegar e tocar é alucinante. Porra!

Ela move os quadris de um lado para o outro,

lentamente, provocando, então empurra para trás até que

34 Calvin Cordozar Broadus, Jr., conhecido pelos nomes artísticos Snoop Doggy Dogg, Snoop

Dogg, Snoop Lion e Snoopzilla é um rapper, compositor, produtor musical e ator norte-americano.


está a centímetros do meu rosto. Posso sentir o cheiro de sua

excitação, que antes estava misturado aos do ambiente, mas

agora está bem na minha cara.

Como um lobo farejando o ar, inspiro rápido, várias

vezes. Ela vai para trás e meu nariz vai para frente, seguindo

o intoxicante rastro de seu aroma. Suas mãos roçam

levemente em suas costelas, passam pela pele acetinada

acima dos seios e os segura arrebitados. Coloca uma perna

sobre o encosto da cadeira e, em um hábil movimento, sentase

na beirada do assento.

Mantendo seu corpo arqueado e as pernas retas, ela

abre suas coxas, fazendo um fabuloso V. A posição é obscena

e fascinante. Ela é boa o suficiente para comer.

Vejo a renda encharcada.

Ela mantém a pose, encaro-a.

—Quanto para empurrar a calcinha para o lado?

Vejo algo em seus olhos, mas ela os fecha rapidamente.

—Mil. —Sua voz é plana e fria.

Naquele momento, ninguém mais no mundo existe. Só

ela, eu e algo bruto e quente demais para tocar. Enfio a mão

no bolso e tiro um punhado de fichas. Pode ter dois, talvez

três mil lá. Ponho na mesa e deixo-as cair. Algumas atingem

a superfície e rolam pelo chão.

Lentamente, pega sua calcinha e puxa para um lado.

Olho para baixo. Só Deus sabe quantas bocetas já vi em

minha vida, mas desta vez perco o fôlego. Olho fixamente


para sua carne cor de rosa molhada e nessa posição parece

que implora para ser preenchida, tomada, comida.

Sedutoramente gotas de néctar pingam dela.

Olho em seus olhos e ela desvia o olhar para minha

virilha, para meu pau duro de tesão. Eu entendo que ela está

zangada, pois mesmo nesta posição humilhante não pode

lutar contra o convite sensual de seu próprio corpo.

Sorri.

—Quer mais alguma coisa?

—O que mais está à venda? —Minha voz soa fria e

distante, mas meu coração bate forte no meu peito, com

medo de sua resposta, de que se transforme em nada mais do

que apenas uma provocação para o meu pau. Aterrorizado de

que se torne outra garota que eu uso e descarto.

Vejo claramente um lampejo de ódio em seus olhos,

muito mais forte que sua excitação. A violência disso me

choca. Ela não fecha as pernas, não puxa o tecido sobre sua

fenda aberta.

—Já comprou tudo o que está à venda —diz

calmamente.

Meu coração dispara, animado, selvagem.

—Cubra-se —ordeno bruscamente para esconder minha

alegria.

Ajeita sua calcinha e fica em pé.

Tiro uma ficha preta do bolso do paletó. Não sabia que a

usaria esta noite, mas estou imensamente aliviado e feliz com


isso. Ponho em cima da mesa e

vejo seus olhos se arregalarem

espantados.

—Isto é para você se vestir e

ir para casa agora.

Oito

Lily

A porta se fecha suavemente atrás dele. Vou até a mesa

e pego a ficha preta, que pesa o mesmo que todas as outras,

mas, uau! Nunca pensei que veria uma destas. Doces dez mil

libras! Pego todas as fichas da mesa, ponho na minha bolsa

de cetim e recolho as que caíram no chão.

Ponho meu vestido e vou à procura de Melanie para

dizer que estou saindo cedo. Troco de roupa, vou ao caixa

onde desconto tudo, exceto a ficha preta, e peço que o

dinheiro seja colocado na minha conta bancária. Surpresa,

vejo que há quase três mil libras.


Vou à recepção e peço a Toni para chamar um táxi, que

chega em menos de cinco minutos. Steve, o porteiro, me

acompanha. Isso é uma coisa que eles fazem, mas à medida

que saímos, vemos o carro indo embora.

—Ei! —Steve grita, logo fica em silêncio quando vê Jake

vindo em nossa direção.

—Boa noite, Sr. Éden —cumprimenta educadamente.

Jake acena com a cabeça, mas não olha para ele.

—Pensei que poderia muito bem te dar uma carona.

Suspiro com a sua audácia.

Steve recua.

—Vou embora, então —diz, saindo muito rápido.

—Como se atreve a dar a impressão de que voltarei com

você? —esbravejo.

—Não vai?

—Não.

—Você pode gozar na minha boca.

Eu suspiro enojada.

—Pelo amor de Deus!

Ele dá de ombros.

—Melhor, certamente, do que ter de ouvir todos aqueles

homens dizendo que querem gozar na sua.

Olho para o chão e vejo suas botas caras e polidas com

um brilho espelhado. Lamento antes mesmo de dizer.


—Não vou lhe incomodar, obrigada.

—Por que não, Lily?

—A verdade?

—Claro. —diz com aqueles olhos ardentes.

Fico excitada. Jesus! Nunca senti isso por homem

algum.

—Não faço uma noite só.

—O que lhe deu a impressão de que seria um caso de

uma noite? —Seu olhar é curioso, interrogativo, fascinado.

Meu coração acelera, com certeza sabe como me

pressionar. Dá mais um passo para perto de mim, mas

preciso que se esforce mais.

—Quero ir a um encontro.

Ele sorri, um olhar de felicidade genuína em seu rosto.

—Um encontro? Comigo?

Aceno. —Poderia ser divertido.

—Sabia que ia gostar de você.

Sorrio, sentindo-me protegida e preciosa.

—Vamos lá —diz e me leva a um Porsche 918 Spyder 35

branco.

Não sei para onde iremos. Distante meu cérebro avisa

que pode ser perigoso, mas a razão parece longe e sem

35


importância, e me afasto dela. Digo a mim mesma para ser

espontânea apenas uma vez. Por que não deveria ter esta

noite? Sem pensar, sem consequências. Abrace, beije, sem

regras, sem culpa, é só pegar e dar prazer. Só hoje à noite.

Nunca irá além disso, não com um homem como ele, para

quem as mulheres vêm e vão. Então, só farei isso uma vez.

Entro e ele fecha a porta atrás de mim.

—Carro legal.

—Sim, eu gosto.

Ele não dirige muito, logo para na frente de um bar

deserto, com todas as janelas fechadas. Um jovem sai de uma

porta escura, Jake joga-lhe as chaves do carro e coloca a mão

na parte inferior das minhas costas.

Olho para ele.

—O lugar parece fechado.

—É fechado para alguns e aberto a outros.

A porta é aberta por dentro. Há um porteiro que acena

respeitosamente para Jake e duas recepcionistas muito

excitadas em cima dele. Passamos por uma abertura lateral e

entramos em uma sala, que se parece com o interior de um

bar. Tem cheiro de cerveja e chulé. Os bancos foram virados

nas mesas prontos para a limpeza do chão na parte da

manhã.

—Que lugar é esse?

—É uma casa de apostas.

—O quê?


—Sim. Quando o bar fecha, as atividades reais começam

nas salas dos fundos.

—Uma operação de jogo ilegal?

—Algo parecido. Sente-se —ele convida e sento em um

dos bancos altos acolchoados.

Ele vai atrás do bar.

—Quer champanhe?

Balanço minha cabeça.

—Estou um pouco enjoada do cheiro dela.

—O que prefere? —pergunta suavemente.

—Uísque.

Ele balança a cabeça, pega dois copos, colocando-os no

bar, e uma garrafa em um movimento fácil.

—Já trabalhei em um bar antes —conta movimentando

a garrafa de uísque do jeito que barmen de boates famosas

fazem, grandiosa e continuamente. Com um baque põe a

garrafa no balcão.

Levantamos nossos copos e bebemos sem brindar. Ele

abaixa o seu, pega a garrafa enchendo-o novamente. Sua

garganta pulsa, ele parece inquieto e nervoso.

—Então, esta é a sua ideia de um encontro? —pergunto.

Ele toma um grande gole.

—Neste momento da noite? Sim.

Realmente, tenho que parar de olhá-lo mesmo sendo

lindo.


—Se não fosse tão tarde?

Jake me olha com aqueles incríveis olhos verdes

insondáveis e engole o resto do uísque.

—Tentaria te impressionar te levando a um restaurante

elegante —diz servindo-se de outra dose.

Olho para o copo, vejo seu reflexo e tento me lembrar de

como ele estava na praia, do calor do seu sorriso, mas não

posso porque o homem na minha frente parece muito

distante daquele outro. Esse aqui tem um ar de perigo e

expectativa, que me arrepia. Sei exatamente que sob nossa

conversa, aparentemente sem sentido, há um intenso desejo

sexual.

—Deve beber tanto? Ainda tem que me levar para casa

—digo disfarçando minha consciência.

—Não estou te deixando, Lily. Se te levar em algum

lugar vou te comer. —Sorri, mas o sorriso não alcança seus

olhos predatórios. Naquele momento, ele parece

absurdamente sexy.

Olho depressa para a minha bebida, enquanto aperto

minhas coxas.

Ele apoia seus cotovelos no balcão e se inclina para

frente.

—Então, me fale sobre você. —Olho para cima e lambo

meus lábios. Ele olha minha boca. —Não há muito a dizer,

realmente. Minha vida foi desperdiçada. —Pego meu copo e o

esvazio. O álcool vai direto para minha cabeça.


Franzindo a testa, pega a garrafa e recarrega nossos

copos.

—De onde você é, Lily?

—Sou uma garota fugitiva que não fez algo bom, ok?

Ele não parecia nem um pouco afetado por todo o álcool

que consumiu.

—Fez isso muito bem.

—Muitas pessoas não concordam com você.

—Não importa o que qualquer um pensa. Fez bem.

Termino minha bebida e coloco o copo na mesa com um

baque.

—Sou uma stripper, Jake.

Ele bebe em um só gole, reabastece nossos copos e me

empurra o meu.

—Está tudo bem. Gângsteres e strippers combinam

como torradas e geleia. Mantemos as mesmas horas, o

homem dos impostos não ouve falar muito de nós ...

Sorrio.

—Está tentando me embebedar?

—O que acha?

—Sim.

Ele balança a cabeça.

—Então, o que há com todo esse uísque?


—Não tem que me acompanhar, estou tentando aliviar a

vontade.

Mantenho minha respiração estável.

—Vontade de que?

—Correndo o risco de parecer um compulsivo obsessivo

idiota possessivo, a vontade de transar com você, é claro.

Sinto o calor subindo em minhas bochechas.

—Você é o tipo de cara sobre o qual toda mãe avisa a

filha.

—Será que a sua te avisou?

De repente estou em areia movediça.

—Não teve a chance.

—Nunca quis voltar?

—Não.

—Tem irmãos ou irmãs?

Aqui está a prova na qual Lily passa com louvor. Olho-o

fixamente.

—Era filha única. Podemos parar com as perguntas

agora?

Ele me olha com uma expressão ilegível, seus cílios

longos e escuros.

—Não sou realmente uma pessoa falante, só pensei que

quisesse conversar.

Desço do banco.


—Vamos voltar para a sua

casa.

Meu peito sobe e desce com a

excitação que vejo em seus olhos.

Ele contorna o bar, pega a minha

mão e saímos. Como por magia o

carro já está esperando lá fora, nós

entramos e seguimos pelas ruas vazias.

Nove

Lily

Paramos em uma casa, em Bloomsbury 36 . Ele desliga o

carro, me olha e sinto desejo correr por meu corpo. Abro a

porta do passageiro e saio. O ar da noite é deliciosamente

36 Bloomsbury é uma área do centro de Londres, no sul do distrito de Camden. Foi

transformado pela família Russell, nos séculos XVII e XVIII, numa elegante área residencial.


fresco. Ele vem ao meu lado, pega a minha mão e me puxa

até um pequeno lance de degraus de pedra.

Abre a porta, poderia até mesmo ter desligado algum

alarme, mas a luxúria é tanta que a única coisa que percebo

é seu abraço forte e seus lábios batendo nos meus. A

sensação de ser dominada e tomada é tão grande que tremo

violentamente.

Ele se afasta.

—Você está bem? —Seus olhos brilham como um

homem possuído que mal consegue se controlar.

Meu corpo esquenta, abro a boca, mas as palavras não

saem. Concordo com a cabeça sem dizer nada.

Por um segundo, ele me olha estranhamente, seu rosto

iluminado pela luz da rua, e logo beija minha boca. Tenho

uma vaga consciência das suas mãos duras deslizando pelas

minhas costas e soltando meu sutiã. Lamento impotente,

com um desejo imenso como se nunca tivesse feito sexo na

vida. O ar frio toca minha pele e suas mãos quentes meus

seios, endurecendo meus mamilos. Minha boca se agarra a

sua, estou encharcada, quero seu pau dentro de mim. De

repente, ele para de me beijar.

—Mais —imploro com a voz rouca, como um viciado.

Ele fica de joelhos e suas mãos quentes levantam

rudemente a minha saia. Engancha seus dedos na minha

calcinha, puxa para baixo, separa minhas coxas, com os

dedos me abre e olha com fome minha boceta nua,

escorregadia.


—Linda —ele respira. Sua voz é grossa com a luxúria.

—Tão linda.

Mergulha a cabeça e arrasta sua língua sobre minha

fenda, dando voltas até meus sucos derramarem em sua

boca. Seu intenso desejo de me possuir é muito mais erótico

do que sexo. Ele reivindicou meu corpo como nenhum outro

homem fez, bebe minha excitação como se fosse néctar, olha

nos meus olhos vidrados, não precisamos de palavras. Inclina

a cabeça e me devora esfomeado.

Não há tempo para dizer que o quero dentro de mim.

Sua língua dura lambe minhas dobras encharcadas e

me leva ao limite rapidamente. Gozo com violência, gritando,

meus dedos agarrando sua cabeça e esfregando sua boca em

mim. Não é bonito, nem feminino, é animalesco, básico. É

Jake me comendo com a língua e eu perdendo o controle por

um homem pela primeira vez na minha vida.

Outra primeira vez: não apenas gozo, eu apago. Sinto

meu corpo caindo para trás e suas mãos fortes me pegando.

—É seguro, Lily. Entregue-se.

Gozo em sua boca como ele planejou e vou para um

lugar onde não existimos, ninguém vive lá, só a felicidade.

Quando volto ele está de pé me segurando firme. Sinto-me

muito exposta para encará-lo, tento me afastar, mas ele me

agarra apertado.

—É a minha vez —exige com urgência, os lábios

brilhando de comer a minha boceta.


De repente, me sinto excitada, não como se fosse uma

obrigação, como se precisasse retribuir. Nem me sinto

ressentida que a deliciosa calmaria após o meu orgasmo será

interrompida. E certamente não senti o que sempre sinto, que

tome um banho primeiro. Na verdade, o quero, cada

pedacinho seu, totalmente sujo e bruto. Que ele tenha gosto

de vinho envelhecido, amargo e sedutor. Sombrio como o

gosto do perigo.

Não vou dizer para não gozar na minha boca, como

sempre fiz, quero que ele goze na minha garganta. Pela

primeira vez não finjo que quero dar a um homem um

boquete, quero lhe dar prazer. Fico de joelhos e abro a minha

boca, que está molhada e faminta.

Ouço sua respiração rápida quando alcanço seu cinto,

atrapalhada com ele, tiro-o, abro o zíper e vejo seu pênis

empurrando contra sua cueca. Seguro, sua pele é quente e

sedosa, ponho seu pau grosso latejante para fora e ofego.

Ele é fabulosamente tatuado.

Fascinada puxo seus quadris e olho a obra de arte. A

pele ao redor da cabeça maciça foi tatuada para se parecer

com uma maçã, uma serpente preta e amarela abocanha a

fruta, seu corpo contorna todo o pau carnudo até onde a

cauda desaparece no ninho dos pelos pubianos.

—É lindo para caralho!

Com um tremor de expectativa o agarro pela base e abro

bem minha boca, pronta para levar o homem, a cobra e a

maçã vermelha entre meus lábios. Ele fecha os olhos e joga a


cabeça para trás em puro êxtase. Seu pênis incha ainda mais

na minha boca, engasgo, deslizo para fora e passo minha

língua ao redor da cabeça da cobra.

Saboreio seu gosto e sinto meus próprios sucos

escorrendo. De joelhos, chupo-o lentamente, uma estranha

sensação de poder e orgulho me enche por lhe dar prazer.

Mexo minha cabeça cada vez mais rápido até que ele não

aguenta, agarra meu cabelo e come minha boca.

Quando olha para baixo nossos olhos se prendem, algo

antigo passa entre nós. Segura minha cabeça apertado contra

sua virilha, dá um grito áspero e goza, líquido quente jorra na

minha garganta. Ele empurra e mais sêmen salgado vem para

mim. Segura minha cabeça no lugar e me observa sugá-lo até

ficar limpo. Então, me puxa em pé e desliza a mão entre

minhas pernas. Estou tão pronta e molhada, que gemo. Seu

olhar é atento e inquieto. Estamos insatisfeitos, famintos.

Jake pega a minha mão e vamos rápido para o andar de

cima. Ele abre uma porta e vejo um quarto branco com um

candelabro vermelho enorme e uma grande cama preta com

roupa de cama branca. É fascinante e estranhamente sem

alma.

Quando tira sua camisa vejo duas coisas que eu não

esperava: uma tatuagem de uma cruz sobre seu coração, que

ao contrário daquela em seu pênis esta é mais íntima, e uma

corrente feita de belos cortes de cristal vermelho em seu

pescoço. É um acessório para uma mulher, mas não parece


estranho ou feminino em um

homem que é todo musculoso e

bronzeado, parece mais misterioso

e masculino.

Toco as suaves e brilhantes

facetas.

—pergunto admirada.

—Por que está usando isso?

—Porque eu gosto.

De repente me assusto ao ver em seus olhos algo que o

torna diferente, mais especial do que qualquer outro que me

despiu ou pressionou seu corpo no meu. Este homem fez

coisas ruins, mas decidiu que sou sua e só sua. Que serei

sempre sua. Desistirá voluntariamente de sua vida por mim.

Ele rasga minha blusa em um puxão cruel e arremessa

em um canto da sala, minha saia desce para minhas coxas e

perco o fôlego.

O sexo fica furioso, incansável, brilhante. Nós

transamos duro, rápido e obsceno, suor escorrendo de seus

músculos e curvas, pingando na minha pele nua.

Dez

Lily


Sonhei com Luke essa noite. Ele está de costas para

mim de pé em uma ponte em um país estrangeiro, talvez a

China ou o Japão.

—Venha! —Chamo.

Ele se vira, me olha, mas não se move, então piso na

ponte para ir até lá, mas instantaneamente seu rosto muda,

parece aterrorizado e sacode sua cabeça. No meu sonho

ignoro seu aviso e ponho o outro pé na ponte, para minha

surpresa ele começa a se desintegrar, como uma estátua

desabando em pedaços. Suas mãos caem. Dou mais um

passo e seus quadris se partem, ficando só o toco de sua

cintura. Quanto mais perto chego, mais ele se desintegra,

mas mesmo horrorizada com a sua destruição sou incapaz de

parar de me mover.

Lágrimas escorrem pelo meu rosto, ainda assim eu

ando. Sua cabeça tomba sobre seu peito, seu rosto se

transforma em poeira e voa. Continuo andando. Quando

finalmente o alcanço ele já virou um punhado de pó, que eu

pego e como.

Acordo nua, corada e agarrada a Jake. Ainda sinto o

cheiro inebriante de nosso sexo selvagem. De repente, lembro

do tempo em que eu fugia de pura raiva. Raiva contra o

mundo que levou Luke para longe. Por alguns segundos não

faço nada. Simplesmente fico deitada ouvindo as batidas do

meu coração e sentindo o suor escorrendo pela minha pele.

A janela está aberta soprando uma brisa suave.


Lentamente, viro meu rosto e olho para Jake dormindo o

sono dos inocentes. Toco o lençol e ele desliza, deixando

descoberto seu enorme ombro, mostrando a cruz

grosseiramente tatuada em seu peito. Muito gentilmente, me

viro e chego perto de seu rosto, sinto seu perfume em sua

garganta.

O desejo irradia em mim como o calor de uma noite de

verão. Meus seios doem. Nunca pensei que sentiria essa doce

dor por homem algum, muito menos por Jake Éden, o

criminoso. Sobre o seu peito deslizo meus mamilos

suavemente, estão tão duros que dói. Olho a sensual e

relaxada curva de sua boca. Ele é delicioso. Inclino a cabeça

para o homem adormecido e cruelmente mordo seu lábio

inferior.

Sua reação é chocante, precisa e imediata. Como um

soldado treinado das forças especiais sob ataque, levanta as

mãos, agarra meu pescoço e aperta. Abro minha boca

suspirando assustada e solto seu lábio. Nós olhamos,

respirando com dificuldade. Não há condenação, só desejo

brilhando em seus olhos. Seu polegar acaricia minha

garganta de uma forma sedosa e sexual. Excitação sussurra

entre nós.

Sem regras e sem culpa nos movemos um para o outro

no mesmo instante. Ele enfia seus dois dedos profundamente

em meu sexo latejante. Olho para sua mão desaparecendo em

minha boceta e abro minhas coxas descaradamente.


—Farei isso ainda melhor para você —diz, girando seu

polegar ao redor do meu clitóris e gemo de prazer. Dobro

meus dedos enterrando-os no colchão, me segurando. É como

se estivesse prestes a cair de uma grande altura.

Seu polegar pressiona meu clitóris e meu sexo se contrai

de desejo. De repente, ele acelera o toque. Tão incrivelmente

rápido todo o meu corpo vibra como uma britadeira. O clímax

chega sem aviso, fazendo meu corpo convulsionar.

Ele me levanta pela cintura, me segura sobre seu pênis

ereto e me puxa com força para baixo, esticando minha

boceta inchada sobre seu eixo.

—Me cavalgue —ordena.

Empalada em seu grosso e duro pau coloco minhas

mãos sobre os músculos tensos de seu estômago, as palmas

queimam, e monto nele. Ele agarra minha bunda e separa as

bochechas, estou ainda mais aberta quando levanta o quadril

e mergulha dentro de mim.

É um impulso de posse pura. Ele está me reivindicando

como sua e apagando a lembrança de qualquer outro homem

que esteve comigo. Deixo que me coma mais e mais forte,

achatando as minhas coxas e empurrando meu sexo para ele

até que é demais para suportar. Nossa luta é brutal, selvagem

e antiga. Esta boceta encharcada é minha, o corpo dele me

diz, e vou comê-la da maneira que eu quiser.

Luto, me retorço, mas ele é muito mais forte, não há

competição. Seu osso púbico continua a bater no meu clitóris

e sinto-me começando a abrir. Minha descida sobre ele não é


mais lenta, mas frenética. Meus seios saltam

descontroladamente.

O clímax vem enquanto estou bem aberta e tomando

cada centímetro de seu enorme pau. Enquanto ele libera seu

gozo quente dentro de mim aperto descontroladamente em

torno de sua carne. Estamos ofegantes. Descanso minha

testa contra seu peito. Lentamente, ele levanta meu corpo e

olhamos um para o outro.

—Lily, por que você está tão assustada? —Sua voz é

suave.

—Não estou assustada.

—Não?

—Não. —Passo levemente minha unha sobre os cristais

vermelhos. Ele pega meus dedos, que parecem tão pequenos

dentro de sua grande mão.

—Sou apenas imprudente —digo.

sou.

—Hmm ... Isso é o que eu seria, se eu não fosse o que eu

—O que você é?

—Sortudo. Tenho muita sorte, Lily —diz sonolento.

Suas pálpebras vibram para baixo e vejo-o cair no sono

enquanto ainda está dentro de mim. Levanto me afastando de

seu corpo suavemente, para não acordá-lo. Deito-me ao seu

lado, nossas peles não se tocam, mas ainda assim sinto o

calor que vem em ondas de seu corpo. Não compreendo a

ligação que tenho com este homem. Não entendo o jeito como


transamos, feito animais selvagens. Nunca agi assim com

ninguém. Simplesmente não posso compreender o sentimento

profundo que tenho por ele.

Olho para a janela até que ela se ilumina.

Levanto com muito cuidado, meu corpo está dolorido e

meu sexo inchado, vou ao banheiro. Quando faço xixi arde

como um louco. Ele deve ter me rasgado na noite passada.

Fecho meus olhos e encosto minha testa contra os azulejos

frios. Ele não usou proteção e também não pedi. Nunca fiz

isso com ninguém, nem mesmo quando eu era adolescente.

Sempre fui tão cuidadosa, tão cautelosa.

Jogo água no meu rosto e volto para o quarto. Ele

cheira a sexo. Muito calmamente pego minhas roupas do

chão. Meu top está destruído, minha saia rasgada e faltando

colchetes, mas ainda dá para usar. Pego uma camisa dele

emprestada e enrolo as mangas, é muito grande, claro, mas

terá que servir.

Por alguns minutos paro perto dele e o observo dormir.

Ele é deliciosamente musculoso. O desejo de acordá-lo e fazer

sexo é tão forte que me obrigo a virar e sair. Andando na

ponta dos pés desço as escadas e saio pela porta da frente.

Do lado de fora o ar está fresco. Não tem ninguém na

rua. Olho para o meu celular, são cinco e meia da manhã.

Ando pelas ruas cegamente. Esta é uma parte boa de Londres

e não há mendigos. Na verdade, não encontro com ninguém

por uns bons dez minutos até que um homem de bicicleta

passa por mim, mas não me vê. Olho a hora e são quase seis.


Finalmente acho uma cabine telefônica. Vejo se o

telefone funciona, vou a uma pequena loja de esquina,

compro uma barra de chocolate, consigo algumas moedas de

troco e volto à cabine. São seis e quinze, ela já deve estar

acordada. Coloco algumas moedas e disco.

Uma mulher atende, e solto a respiração que estava

segurando. Sua voz é afetuosa e familiar. Sinto as lágrimas

caindo e pisco para secá-las.

—Olá —ela diz novamente.

—Oi, mãe —digo. Minha voz soa baixa e frágil. Não

deveria ter negado sua existência. Não importa o motivo, não

deveria ter feito isso.


Onze

Jake

Estaciono meu carro e fico lá

sentado por um tempo. Meu coração está acelerado, sinto-me

muito confuso e agitado. Preciso me acalmar. Saio do carro,

tranco a porta e atravesso a rua. É um prédio velho no

quarteirão em uma área de merda. Ela não deveria viver aqui.

Faço uma nota mental para mudá-la para um lugar melhor

nas próximas duas semanas. Vou até a porta e toco a

campainha. Ela responde quase que imediatamente.

—Sim?

—Sou eu.

Há uma pausa e, em seguida, o alarme soa. Empurro a

porta e entro. As paredes são brancas, o piso é de concreto

liso. É básico, mas limpo o suficiente. Seu apartamento fica

no primeiro andar. Subo dois degraus de cada vez. Ela abre a

porta antes que eu possa tocar a campainha. Seu rosto está

sem maquiagem e sua boca parece inchada e vermelha. Ela

está usando um velho roupão de flanela. Tem uma leve

contusão em sua garganta e sinto um mal-estar, porque fui

eu que fiz isso.

—Melanie está dormindo —explica em voz baixa.


Estendo a mão para tocar a marca azulada em sua

garganta e ela se afasta.

—Entre —diz e vai para a sala de estar para disfarçar

seu movimento involuntário de se afastar de mim.

Sigo-a silenciosamente. A sala tem dois sofás e uma

mesa de café com tampo de vidro, com uma lata de biscoitos

em cima. Ela se senta na beirada de um deles. Não me sento.

Muito nervoso, eu paro perto dela.

—Você está bem?

Ela balança a cabeça.

—Por que não respondeu minhas ligações?

Apenas dá de ombros, sem me olhar. Eu me agacho e

olho diretamente em seus olhos.

—Qual o problema?

Vejo-a olhar para o meu lábio, que ainda está vermelho

e inchado.

—Acho que não devemos nos ver mais —sussurra com

voz rouca.

Cada célula do meu corpo rejeita esta afirmação, mas

meu rosto permanece calmo, minha voz fria.

—Por que não?

—Porque me comporto como um animal quando

estamos juntos.

Pego suas mãos, ela tenta se afastar, mas não deixo.


—Nós vamos nos comportar como animais até não

precisarmos mais —digo-lhe calmamente. É também a minha

voz mais persuasiva.

Ela me olha com aqueles olhos estranhamente belos.

Deus! Só quero rasgar suas roupas desleixadas e tomá-la

aqui mesmo neste sofá barato. Essa é a verdade. Não quero

falar nem tranquilizá-la que tudo ficará bem. Quero transar

com ela sem precisar de explicações ou motivos, porque

quando estamos juntos perto perco todo o controle. Eu me

torno um animal.

—O amor não deve ser assim. Deve ser bonito.

Não respondo, não a deixo perceber que

inconscientemente chamou o que temos de amor, mas fico

eufórico.

—Vamos devagar então, passo a passo, nos conhecendo.

Vamos sair para jantar hoje à noite —murmuro.

—Não posso hoje à noite. Estou trabalhando. —Sua voz

é tediosa e sem emoção.

Sinto a bola quente de ciúme bater em meu estômago.

Tento me controlar, mas não posso. Levanto e me afasto dela,

irritado.

—Não, você não vai para o trabalho hoje à noite.

—Tenho que ir. Não posso deixar Brianna na mão hoje à

noite nem amanhã. Podemos sair no dia seguinte.

Ela não entendeu ainda.

—Você não vai trabalhar no Éden novamente, Lily.


Ergue rápido a cabeça e se levanta.

—O quê? Preciso desse trabalho.

—Não posso deixar você tirar suas roupas para outros

homens. Só o pensamento me mata.

—Isso não é justo. Tenho dívidas para pagar.

Vou até ela.

—Que dívidas?

Ela olha para mim.

—Não quero que você pague minhas dívidas.

—Que dívidas, Lily?

—Isso é problema meu.

—Tudo sobre você é meu problema também.

—Não estou pronta para falar sobre isso. Deixe assim,

por favor. É pessoal.

Franzo minha testa para esta nova complicação. Em que

porra ela estava envolvida? Não quero mostrar meu medo ou

os pensamentos horríveis que passam pela minha cabeça.

—Não quero minha mulher perseguida por cobradores

—eu me oponho razoavelmente.

—Por favor, Jake. Não insista. Tudo isso é muito cedo.

Apenas me dê algum espaço, por favor.

—Espaço? É isso que você quer de mim?

Vejo o brilho de algo feroz em seus olhos. Não, ela não

quer espaço. Ela quer rasgar minhas roupas também. Eu a


agarro pelos antebraços e a beijo. Seu lábio é doce, macio. O

gosto dela me deixa louco. É como se a noite passada nunca

tivesse acontecido, como se eu ainda não a tivesse possuído.

O desejo ardente por ela me enfurece.

Forço-a a abrir a boca, ela enrola a língua suave ao

redor da minha e suga com força como se estivesse se

alimentando de mim. Ela aperta a barriga no meu pau

totalmente duro, querendo-o. Eu me perco nela.

Há um som nas proximidades e com um suspiro ela se

afasta violentamente de mim. Sinto como se uma parte

minha fosse arrancada. Sua companheira de casa coloca uma

mão para cima.

—Não se preocupem comigo, vou para a cozinha.

Olho de relance para ela antes voltar minha atenção

para Lily, que segura a mão trêmula contra sua boca.

—É melhor você ir —diz parecendo pálida, solitária e tão

perturbada que tudo o que quero fazer é segurá-la em meus

braços, mas sei que será a coisa errada a ser feita.

—Pego você às sete hoje à noite.

Ela concorda balançando a cabeça, saio de seu

apartamento e ligo para Brianna.


Doze

Lily

Saio do chuveiro e escolho minha lingerie com cuidado:

cara, com renda e tule. A onda de calor não dá trégua, está

tão quente e úmido que prendo meu cabelo em um coque e

coloco um vestido branco, que deixa minhas costas nuas.

Calço minhas sandálias com salto e por alguma razão,

possivelmente porque eu nunca vi meus lábios parecerem tão

cheios e inchados, passo batom carmim. Eles dominam o

meu rosto, e penso nas macacas cujas bundas ficam

vermelho brilhante quando estão no cio e prontas para

acasalar.

A campainha toca às 6:55h.

Abro a porta e vejo o brilho de desejo em seus olhos

esmeralda.

—Jesus —exclama em voz baixa e acaricia minha

bochecha com os nós dos dedos. Ele está vestindo uma

camisa vermelha escura, dois botões abertos, que brilham

como cristal vermelho enquanto ele se move, e calças pretas

com vincos. Seus sapatos são da cor do mogno.


Ele parece um gângster e me leva a um ridiculamente

envenenado Range Rover com enormes rodas e uma fileira de

faróis no topo. Levanto minhas sobrancelhas, ele sorri, sem

malícia como uma criança.

—As pessoas esperam que os ciganos tenham essas

coisas. Entre, será divertido.

Tenho sérias dúvidas sobre isso, mas descubro que é

mesmo e rio bem alto.

Ele me leva a um sofisticado restaurante, com painéis

de carvalho, com estrelas Michelin chamado Hibiscus 37 .

Garrafas de vinho brilham em seus baldes de prata. O lugar

não cheira a comida, mas ao aroma corpulento de Mayfair 38 .

A equipe é discreta e impecável em seu excelente

atendimento. Há coquetéis de cortesia, pequenas iguarias e

grandes quantidades de pão azedo. O menu é intrigante.

—O que você vai pedir? —pergunto.

—Um leitão assado fatiado com ouriços-do-mar da

Irlanda.

—Nunca provei ouriços antes. São bons?

—Eles são um gosto adquirido. Tem um sabor sujo, sexy

—ele murmura, olhando para minha boca.

Ali está ela novamente, a doce dor por ele. Evito seu

olhar.

37 O Hibiscus, um restaurante com estrelas Michelin, é a casa do premiado chef Claude Bosi e

aparece regularmente nas listas dos melhores restaurantes do mundo. Mistura de cozinha clássica e

moderna feita com os melhores produtos britânicos.

38 Mayfair é uma das áreas mais sofisticadas de Londres.


—Pedirei o atum com alcachofras assadas e espuma de

pinheiro de Herefordshire 39 .

Ele faz uma cara...

—Ugh ... Não posso comer espuma. Isso me lembra um

gato doente.

Não é a espuma, mas os ouriços-do-mar crus na batatadoce

que estão me enjoando. Quase cuspo essa mistura que

Jake coloca em minha boca. Ele ri com a expressão no meu

rosto.

Quando Jake ri torna-se uma pessoa diferente, não

mais um criminoso autoritário de olhos frios, torna-se

impressionante. Observo-o surpresa com o quão

despreocupado, bonito e jovem, de repente, ele parece. Uma

voz inquieta sussurra e me dá arrepios: “Você vai se

apaixonar por ele ... você vai ... você vai.”

Eu me mexo na cadeira perdendo o apetite. Um malestar

como uma gota de óleo de rícino desliza para baixo em

minha garganta.

—Qual é o problema? —ele pergunta.

—Nada.

Nenhum de nós tem muito apetite depois de tudo. Não

quisemos a sobremesa, o café e nem comemos os pequenos

petit fours de chocolate. Jake paga e voltamos ao carro. O ar

da noite está fresco e desarruma seu cabelo. A música é alta,

39 Emulsão infundida com essência do pinheiro Herefordshire.


a batida insistente. Eu me mexo inquieta no assento de couro

macio, sinto meu estômago quente e tenso.

Quando entramos no hall e em sua elegante sala de

estar, Jake acende velas. Sento-me em um tapete branco no

chão.

—Quer um drinque?

—Não.

Ele vai até o bar e se serve de uma boa dose de uísque.

Toma e senta em um sofá baixo branco. Por um tempo, se

recosta me olhando. Olho-o imóvel. Seus olhos estão

brilhantes com as chamas das velas. Sua pele é escura e

parece muito bonita, quase como se ele fosse esculpido em

madeira. Penso no aroma picante de seu pênis, de tomá-lo

em minha boca. Minhas coxas se separam.

—Venha aqui —ordena suavemente.

Coloco as minhas mãos e joelhos no chão e rastejo em

sua direção, para sua ereção, desejando-o. Apoio meu queixo

no sofá entre as suas pernas abertas. Ele solta o meu cabelo

com seus dedos suaves e passa suas mãos por ele. Elas se

movem para baixo das minhas costas nuas e ele abre o

pequeno zíper. Meu vestido desliza.

—Nós ciganos acreditamos em fadas e em sua magia. Os

seres humanos são uma presa fácil. Uma vez que elas lancem

sua magia neles, tornam-se enfeitiçados, nunca vendo o que

está bem na sua frente. Eles vagueiam pelo mundo

atordoados em um emaranhado de luxúria. Como viciados. —


Ele traça o meu queixo com o polegar. —Você se parece com

uma. Seus olhos. Você é uma fada, Lily?

Balanço minha cabeça lentamente, com peso no meu

coração.

—Foi uma longa noite —ele murmura, enquanto inclina

a cabeça para me beijar. Nossos lábios se tocam, sua boca

exige a rendição total. Aceito a dureza de sua pele aveludada

com um suspiro de satisfação. Ele está certo, foi uma longa

noite, muito longa.

Como se eu fosse um peixe escorregadio, ele me pega

pela cintura e me puxa para seu colo. Com seus lábios ainda

ligados aos meus, com fascínio, calor e promessa, me coloca

no sofá e tira meu último pedaço de roupa.

Ele levanta a cabeça, sua boca está carmesim com o

meu batom.

—Nós não usamos nenhuma proteção na noite passada

—observa.

—Cuidei disso esta manhã —sussurro, olhando

profundamente em seus olhos, que parecem como um oceano

durante uma tempestade.

—Não gozo sem proteção dentro de uma mulher desde

que eu tinha dezessete anos —ele admite.

—Jake?

Uma elegante sobrancelha escura se levanta.

—Nenhum homem jamais gozou dentro de mim sem

proteção —digo.


Sua pele enrubesce e olha meu corpo como um dono

satisfeito. Suas gloriosas mãos fortes seguram meus seios

possessivamente, sentindo prazer que meu corpo lhe

pertence. Meus mamilos endurecem e minhas costas

arqueiam. Observo-o fascinada.

Ele respira com dificuldade, sua mandíbula se aperta,

seu pênis está tão duro que luta contra sua calça. A

lembrança de seus músculos lisos, nus contra a minha pele

volta assim como o cheiro de sua excitação forte, densa.

Minha boceta está molhada e quente. Alcanço seu zíper,

minhas mãos estão firmes, rápidas e seu pau está fora em

um instante. Ele se levanta e tira sua camisa, a calça e a

cueca. Sua pele brilha à luz das velas.

Ele se inclina e pega sua calça, procurando o bolso. Sei

o que ele quer. Ouço o barulho da embalagem do

preservativo, cubro sua mão e ele me olha.

—Tem certeza?

Eu aceno.

Sua calça escorrega de seus dedos. Sua grande mão

repousa um momento em meu estômago. Observo seu pênis

lindamente tatuado, que está orgulhoso e grosso. Ele coloca

seus joelhos entre as minhas pernas. Lentamente, tenta

empurrar a cabeça do seu pau em mim, mas estou tão

dolorida e inchada da noite anterior que sinto como se

estivesse sendo dividida em pedaços. Engulo meu grito de

dor, mas os meus olhos se arregalam e minha boca abre em

um chocado “O”.


Ele congela.

Sinto minha carne esfolada e rasgada, mas agarro seu

ombro.

—Não. Não pare —insisto.

Ele recua suavemente, mas ainda assim queima.

—Doce Lily —Não posso machucá-la, mesmo me

pedindo. —Ele respira. A ardência diminui, é um alívio, mas

fico sem ele.

Jake vai para baixo e coloca sua boca quente, molhada

no meu inchado e machucado sexo. Suspiro de prazer. Ele

lambe delicadamente, com grande dedicação me acalmando.

Eu me sinto radiante e maravilhosa novamente. Enterro

meus dedos em seus cabelos pretos brilhantes e puxo sua

boca com mais força para mim.

Gozo rápido, duro e ofegante, minhas coxas abertas

tremem incontrolavelmente. O prazer é tão intenso que é

angustiante.

Tento levantar, mas ele coloca um dedo no meu peito.

—Fique. Você fica linda quando está aberta e pronta

para ser tomada.

—Coma minha bunda.

Assim, centímetro por centímetro, devagar, com

cuidado, dolorosamente, ele vai onde nenhum outro homem

jamais esteve. Não importa o que acontecer depois disso, este

é o meu presente para ele.


Depois, descanso sobre seu peito e ouço seu coração

batendo lento, preciso. Um som acolhedor. Ele merece mais

do que posso dar. Algo se rompe em meu peito. Ele é digno de

muito mais.

Será que Jake sente a batida do meu coração traiçoeiro?

Não deveria ter começado isso, agora é tarde demais. Nunca

sonhei que alguém como ele iria me querer. De repente, me

sinto tão só que dói. Lágrimas doloridas enchem minhas

pálpebras. Reprimo-as. Ele acaricia o meu cabelo, enrolandoo

em torno de seus dedos. Abro meus olhos, as lágrimas

escorrem e molham a nossa pele. Ele para, pega meu queixo

e levanta meu rosto.

—Por quê?

Percebo que quero que ele se sinta bem, quero fingir um

pouco mais.

—Estou muito feliz.

Ele me olha por um longo momento e quando vai falar

novamente, eu sorrio. Tão fácil de fazer, de tranquilizá-lo.

Que mentira.

Traço com o dedo a cruz sobre seu coração.

—Quando foi que você fez isso?

—Eu tinha quinze anos. Fiz ao longo do tempo. Tem

setenta e sete arranhões.

Ergo minha cabeça mais alto e olho para ele com

curiosidade. —O que isso significa?


—Mateus 18:21. “Então, Pedro veio a Jesus e

perguntou: —Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu

irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? —Jesus

respondeu: —Eu lhe digo, não sete vezes, mas até setenta

vezes sete". Minhas setenta vezes sete acabaram, Lily. Não há

mais perdão para mim, apenas o inferno me espera.

Ele não sabe, mas eu sei a sua história. Penso nele

como um menino de quinze anos de idade, magricelo com

músculos longos, arrogante do lado de fora, mas frágil e

destruído por dentro. Marcando sua própria pele,

preenchendo-a com tinta, contando os seus pecados, e, de

repente, me sinto tão triste que quero chorar.

A vida é tão estranha, tão injusta. O que uma criança

faminta na África fez para merecer o seu destino? Ou uma

criança cigana que tem de assumir uma empresa criminosa

com quinze anos? Lembro-me do meu irmão me trazendo um

ninho abandonado de um pássaro, com as cascas quebradas

ainda dentro. Plantando bananeiras em Brighton Pier. Doce

inocente Luke. Fazendo panquecas irregulares em uma

manhã de domingo. Um nó se forma em minha garganta,

engulo e ela dói. Não vou chorar na frente dele.

—Por que não parou em setenta e sete?

—Porque não podia.

—Por quê?

—Quanto mais dinheiro ganhava, mais arrogante me

sentia.


A criança foi agora, esse homem é impenetrável. Ele faz

sexo, goza, não sente e sai. Ainda assim ele é diferente

comigo, como sou diferente com ele. Eu concordo. Sim, o

dinheiro faz o mundo girar. Todos nós, pequenas marionetes

em suas cordas.

—Encontrei um emprego para você —diz em voz baixa.

Eu me sinto cansada.

—Sério? Onde?

—Trabalhará na minha organização.

—Como uma mula de droga?

Seu rosto fica sério.

—Tenho empreendimentos comerciais legítimos.

—O que farei?

Ele dá de ombros.

—Alicia, minha assistente pessoal, irá te dizer.

—Quer dizer que criou um trabalho para mim.

—Lily, Lily —ele sussurra.


Treze

Lily

—Amigos, temos um novo membro entre nós esta noite.

Vamos dar boas-vindas a Lily —anuncia William, o líder do

grupo de GAPSS (Grupo de Apoio a Parentes Sobreviventes do

Suicídio).

Ele me apresenta, sou a única nova no grupo e todos me

olham, mas sou incapaz de reagir, meu corpo e minha mente,

de repente, ficam inexpressivos. Fico olhando para frente,

incapaz de virar para os rostos me encarando, incapaz até de

falar.

Minha dor, uma cicatriz profunda cobrindo meu

coração, começa a sangrar novamente. Talvez isso tenha

acontecido muito rápido ou talvez eu simplesmente não esteja

pronta ainda para vir aqui.

Basta agir naturalmente.


O que quer que isso signifique em um lugar como este.

Respiro fundo e, me forçando a agir, aceno uma saudação

geral. Uma menina se levanta e pega uma cadeira de uma

pilha no canto da sala. O ruído estridente é alto no espaço

vazio e sem carpetes, tento me acalmar. Outros participantes

movem suas cadeiras, alargando o círculo para me receber. A

menina desliza minha cadeira para o espaço recém criado.

—Sente-se, Lily. —A voz de William é firme, hipnótica,

mas de um jeito reconfortante. Isso me afeta. Ando para o

lugar vago e com cuidado me sento na beirada. A mulher ao

meu lado se vira para mim e sorri calorosamente.

—Relaxe, somos todos amigos aqui —diz ela,

pressionando sua mão na minha.

—Oi —digo, resistindo ao impulso de puxar minha mão.

Ouvi pela primeira vez sobre este centro quando uma

amiga sugeriu há quatro anos. Ela disse que isso a mantinha

sã quando seu pai se matou, mas eu nunca quis vir, até

poucos dias atrás. Só vou observar, digo a mim mesma uma e

outra vez. Agora que estou aqui, não sei porque vim, afinal de

contas.

—Então, quem quer começar a sessão?

É essa a hora, quando alguém se levanta e expõe sua

alma!

William olha diretamente para mim. Ah, não. Estou aqui

apenas para observar, não estou pronta para revelar nada

ainda e, com certeza, não para uma sala cheia de estranhos.

Percebo, então, que demorou muito tempo para eu parar de


colocar flores no túmulo de minhas memórias. Não quero

falar sobre ele agora. Talvez nunca. Curvo a cabeça e espero

que ele entenda a dica flagrante e não fale meu nome.

—E você, Lily? Gostaria de compartilhar algo com a

gente?

Cabeças giram para mim e olho para ele com

reprovação.

—Conte-nos um pouco sobre porque você está aqui? —

ele insiste.

—Prefiro não falar nada. Ainda não, de qualquer

maneira.

Ele sorri suavemente.

—Está tudo bem, você não tem que participar ainda,

apenas quando se sentir pronta.

Um peso de repente escapa do meu corpo e me recosto

na cadeira. Este homem tem uma maneira que consola e me

acalma. Outra pessoa começa a falar. Sua voz é como um

ruído e torna-se um zumbido que não escuto. Perco a noção

do tempo.

A próxima coisa que percebo, é que sou acordada por

um toque suave, porém insistente. Meu corpo

involuntariamente recua. William está pairando acima de

mim. Minha reação violenta faz com que se afaste com as

mãos levantadas.

—Sinto muito. —Peço desculpas e seu rosto se abre em

um sorriso amável.


—Gostaria de falar por alguns momentos, Lily?

—Todo mundo se foi —observo.

—Sim, a sessão terminou. Você dormiu muito rápido,

mas parecia tão exausta e já que estava relutante em

participar, eu te deixei descansar.

Eu me sinto horrível, quero dizer, quem vem à terapia e

adormece na primeira sessão?

—Obrigada —digo envergonhada.

—Ei, é para isso que nós estamos aqui, Lily. Ombro para

chorar. Ninguém vai julgá-la. É óbvio que você está muito

perturbada e se há alguma coisa que eu possa ...

—Não —nego, entrando imediatamente em modo

defensivo, fechando a porta a qualquer indício de piedade.

Levanto-me. —Realmente, estou bem —acrescento evitando o

contato visual.

—Isso não vai te fazer nenhum bem, trancando tudo.

—Sim, bem talvez não, mas foi um erro vir aqui —

respondo bruscamente e tento passar por seu grande corpo,

mas ele se move ficando diretamente na minha frente.

—Nunca é um erro procurar ajuda, Lily. Você precisa

encontrar uma maneira de lidar com sua dor ou raiva ou

talvez sua culpa. Guardar tudo para você, só tornará as

coisas muito piores, e acredite em mim, está ouvindo isso de

alguém que já passou por essa situação.


Mesmo que eu tente resistir à sabedoria de suas

palavras, seus olhos cinzentos têm uma profundidade e

compreensão que comanda a minha atenção relutante.

—As pessoas vêm aqui porque perderam o controle de

suas vidas e querem se curar, estão cansadas da dor, das

lágrimas, da apatia. Prometa-me, mesmo que você nunca

mais volte, que se concentrará em algo positivo. Recupere o

controle que perdeu, Lily.

Estranhamente, quando o encaro, sinto-me calma. Não

disse nada dos meus problemas ainda, mas existe alguma

linha de conexão entre nós. Ele sofreu, é claro que ele não é

falso.

—Eu vou.

Ele dá um passo para o lado e acena com aprovação.

Ando em direção à saída.

—Cuide-se. —Suas palavras pontuam o silêncio vazio.

Deixo o estranho, ecoante e triste prédio, voltando para

a agitação do mundo real, mas me sinto diferente agora.

Estou realmente feliz por ter vindo, porque agora entendo.

Não voltarei. A dor não irá embora com conversas, tem

que ser exorcizada. As emoções destrutivas enterradas dentro

de mim rasgam livres, como uma mão saindo de um túmulo.

Começo a correr, o sangue flui para os poderosos

músculos em minhas coxas, meus movimentos longos e

precisos. Meus passos aceleram até que ressoam na calçada.

O vento assobia em meus ouvidos. Gotas de suor na minha


pele fazem minhas roupas se

agarrarem nas minhas costas.

Meus músculos doem, meu peito

arfa como se fosse rasgar. Mas não

paro de correr.

Talvez nunca pare.

Quatorze

Lily

Meu novo emprego é no setor administrativo da empresa

Jake’s Importação e Exportação. O trabalho é terrivelmente

legítimo e chato, mas fico com minhas roupas e ganho muito

mais do que poderia ter esperado. Todos são muito bons para

mim e Ann, minha colega de trabalho, me dá carona para ir e

vir. Não posso reclamar.

Hoje trabalhei até tarde. Quando saio do carro o ar da

noite é quente e espesso com uma tempestade quase caindo.


—Eu te vejo amanhã —grito e aceno enquanto Ann vai

embora.

Ando para minha porta da frente procurando minhas

chaves na bolsa e tenho um pressentimento. Quando as

mãos do homem me apertam sou totalmente pega de

surpresa, meu coração gela, mas o meu cérebro funciona

perfeitamente. Ele é caucasiano, pálido, cheira a fumaça de

cigarro, seus pulsos cheios de pelos escuros, olhos claros sem

expressão e vazios como um réptil. Camisa preta, calça jeans

azul escuro, 1,80m de altura e 86 kg.

Eu o conheço. Desde o clube queria me tocar, eu disse

que não e ele foi embora, com os olhos brilhando de ódio.

Penso em correr, mas ele tem o elemento surpresa, me

puxa e me arrasta na vegetação. Tento levantar os braços e

lutar, mas ele me empurra com força para o chão. Cambaleio

e caio de costas no meio dos arbustos, que arranham meu

rosto e pescoço.

Ele cai em cima de mim, seus dedos apertando meus

ombros. Fico embaixo dele, sem fôlego, incapaz de me mover.

—Você ainda vai me recusar? Sua vadia, pedra fria,

prostituta barata —ele fala, com o queixo tremendo de fúria.

Imóvel o encaro, ele é perverso. Apavorada, meu coração

dispara, sei que não posso correr.

Ele sorri com ódio.

—Ainda acha que é boa demais para mim, vagabunda?


—Não —digo, balançando a cabeça, e ele me dá um soco

na cara.

O golpe me atordoa, não enxergo e fico zonza, antes que

tenha consciência da dor absurda. Meu nariz sangra,

respinga em sua mão e escorre pelo meu rosto. Em pânico,

quero vomitar ou fazer xixi.

Ele apoia o joelho no meu peito, pega o celular do bolso

e tira fotos minhas sangrando, presa sob ele! Estou

aterrorizada, esse cara pode me matar, mas isso é bom,

funciona, porque permite que me recupere um pouco. Penso:

ele é muito grande para eu empurrar e nessa posição não

posso nem dar uma joelhada ou bater nele.

Minha única opção é fingir que estou inconsciente e

descobrir como abrir minha bolsa, que ainda está comigo.

Deixo minha cabeça cair para o lado. Se eu conseguir apenas

mexer dentro dela...

Ele tira o joelho do meu peito e começa a abrir suas

calças. Não faço nada. Mantenho minha respiração, movo

meus dedos lentamente para a aba da minha bolsa. De

repente, ele cai em cima de mim e como um animal raivoso

morde forte o meu pescoço, tão forte, que já não consigo

fingir que estou inconsciente.

Eu grito. Minha mão procurando rapidamente dentro da

minha bolsa. Ele me bate com força. Sinto uma faca na

minha garganta e fecho a minha boca. Encontro meu spray

de pimenta, disfarçadamente pego e num instante espirro em

sua cara. Ele cai para trás, com as mãos arranhando seu


osto. Aproveito o momento, levanto e corro gritando em

direção ao meu prédio. Um homem, que eu já vi antes e deve

viver aqui, corre para mim. Ele quer chamar a polícia, mas

não quero e digo que estou com muito medo. Definitivamente

não quero que ele chame a polícia.

—Você foi atacada, deve informar a polícia.

Olho para ele.

—É alguém que conheço, um ex. Não quero chamar a

polícia, tudo bem?

Ele balança a cabeça com cara de desgosto. Voltamos

juntos e pego minha bolsa. Agradeço a ele, encontro as

chaves e entro em meu apartamento.

Melanie está ao telefone encomendando comida chinesa.

—Porra! O que aconteceu com você?

—Um dos clientes do clube. Lembra-se daquele

deformado que te falei?

—Simon, o pervertido?

Aceno.

—Ele tirou fotos minhas com sua câmera do celular.

—Que trabalho desagradável?

Vou para o espelho. Meu nariz sangra demais e um lado

do meu rosto está muito inchado.

Mantenho minha cabeça inclinada para cima enquanto

Melanie aplica no meu rosto compressas de gelo, que estavam

em seus pés.


—Está um pouco fedido, mas você vai sobreviver. —Pega

seu telefone. —Tenho que dizer a Brianna. Proibi-lo de ir ao

clube e avisar as outras meninas. Você precisa fazer um

relatório para a polícia.

—Polícia não, mas pode avisar Brianna.

Ela se senta ao meu lado, com a testa franzida de

preocupação.

—Por que não avisar a polícia, Jewel?

—Tenho um histórico. Pequenas coisas, mas não posso

ir à polícia.

—Ok. Sem problemas, sem polícia.

—Obrigada, Mel.

Exatamente um minuto depois que Melanie desliga, meu

celular toca.

—Jake —digo, com uma careta.

—Uau! Brianna foi rápida —comenta Melanie.

—Você está bem? —ele vocifera em meu ouvido.

—Sim, pequenas contusões.

—Tem certeza que era ele?

—Sim, olhei bem.

—Certo. Estarei aí em breve. Tenho algo para cuidar

primeiro. E, Lily...

—Sim?

—Não vá a lugar nenhum até eu chegar aí, Ok?


—Ok.


Quinze

Jake

Toco a campainha do filho da

puta e espero, estou enjoado. Ele colocou as mãos sujas na

minha mulher.

Sua voz vem através do intercomunicador.

—Sim?

—Você feriu um dos meus funcionários esta noite.

Gostaria que aparecesse para falarmos sobre isso, discutir

alguma reparação. —Jesus, soo até calmo.

—O quê? Você tem o cara errado, companheiro. Estive

aqui todo o dia. —diz ofendido e muito indignado.

—Se você preferir posso ir à polícia e deixá-la resolver o

problema. Você decide —digo bem racional e ameaçador.

Por um momento, há um silêncio e acho que o covarde

prefere enfrentar a polícia, mas, em seguida, o alarme soa.

Primeiro erro, filho da puta. Abro a porta e corro os dois

lances de escada até a entrada. Apoio o taco de beisebol na

parede ao lado de sua porta, toco a campainha e finjo

descontração. Ele me olha pelo olho mágico, demora para

abrir a porta, mas abre.


—Eu te contei, você pegou o cara errado —diz ele

vigorosamente.

Empurro-o com força, ele voa para trás e cai

esparramado no corredor. Seus olhos se arregalam de terror

quando ele me vê, casualmente, pegar o taco de beisebol.

Entro e fecho a porta, chutando-a. Pena, seus tapetes são

creme.

Ele se move para trás.

—Não fui eu. Você está cometendo um grande erro —

choraminga como um maldito gatinho.

Atiro-lhe uma mordaça de bola. Ele não pega, ela pula e

cai no chão.

—Coloque isto.

—Não, sou inocente. Quero a polícia aqui, agora —fala,

tremendo de medo.

Levanto o bastão e o golpeio na barriga. Ele se dobra em

agonia, cambaleia dois passos para trás e cai de joelhos

segurando o estômago. Em seguida, resmunga como um

moleque de dois anos de idade.

Porra!

—Não tão grande e forte agora, hein?

—Você pegou o cara errado —ele soluça.

—Será? Coloque a mordaça ou vou esmagar seu crânio

com um só golpe. É a surra ou uma morte rápida. Você

escolhe.


Por causa da dor se esforça e respira ruidosamente,

como se estivesse morrendo, mas ele não está. Não sem

sofrimento, como por um tiro no escuro. Ah, não. Morrer

assim seria fácil demais. Ele coloca a mordaça com as mãos

trêmulas. Os covardes sempre me fascinam. Idiota do

caralho! Por que você iria colocar algo para te silenciar?

Dou um gemido gutural, a raiva no som me surpreende,

pensei que eu tivesse superado tudo anos atrás. Há dez anos

não bato em alguém com um taco de beisebol e aqui estou

eu, por ela.

Empurro-o para o chão com meu pé, levanto o bastão

alto sobre a minha cabeça e arrebento seu joelho. Ele

arregala os olhos e os rola para cima de dor. Poderia até

desmaiar, mas felizmente não. Suando frio segura o osso

esmagado. Pego o bastão, destruo o outro joelho e ele

convulsiona com o choque.

Em seguida dou vários golpes bem precisos por seu

corpo, não para matar, mas para mutilar para sempre.

Pronto! Logo estou em cima dele, que está deitado de lado,

vivo. Sua respiração é superficial e seus olhos estão

semicerrados. Viro seu corpo inerte de costas com a ponta do

meu sapato, ele geme, sua boca sangra e dois de seus dentes

estão no tapete.

—Este é apenas um pequeno aviso. Abra a boca do

caralho e algo bem pior vai te acontecer —digo suavemente.

Pego um lenço do bolso e enxugo o sangue do bastão.

Que estranho! Tantos anos desde que fiz algo assim e ainda


carrego um lenço branco imaculado comigo e um taco de

beisebol na mala do meu carro.

Calmamente, saio de seu apartamento. Tem uma cabine

telefônica na esquina, entro e ligo para a polícia. Mudo meu

sotaque para um dialeto londrino e digo que um homem está

morrendo em seu apartamento.

—Parece que ele foi espancado. Chame uma

ambulância, homem.

Desligo e olho minhas mãos. Dormentes. Estou

congelando. Entro no carro e dirijo até o apartamento de Lily.

Melanie abre a porta.

Entro e paro completamente. Minhas mãos tremem e

lágrimas ardem meus olhos. Droga. Não chorava desde os

meus 15 anos quando vi meu pai cair morto aos meus pés.

Droga! Isso dói tanto que quero berrar.

Ela para também e nós nos olhamos fixamente, ambos

chocados. Ela pela minha reação e eu pela sua aparência.

Pequenas contusões! Porra. Seu rosto está tão inchado e

roxo, que mal posso reconhecê-la. Então, avanço sobre ela

como um urso irritado. Quero ser normal, mas não consigo,

estou tão furioso que tremo.

Alcanço-a, ela toca os respingos de sangue em minha

roupa e olha em meus olhos com medo, estranhando-me. Em

seu mundo agradável de algodão doce o que fiz para seu

agressor é errado.

—O que você fez?


—Regras de gângster —respondo severamente.

—Ele está morto?

—Não, mas ele deseja que estivesse. —As lágrimas caem

pelo meu rosto, não posso pará-las. Minha mulher foi

gravemente ferida.

—O que é isso? —ela sussurra.

—Você precisa ir para um hospital.

Ela balança a cabeça.

—Estou bem, parece pior do que é.

Nunca experimentei essa necessidade feroz de proteger

alguém. Jamais. Estou chocado pela maneira como me sinto.

Isso não é comigo, sou difícil, não me envolvo, não confio em

ninguém. Neste negócio você não pode. Um rei nunca é morto

por seu inimigo, mas por seus cortesãos. Eles são os únicos

que chegam perto o suficiente para envenenar o vinho, fincar

a lâmina. Não digo, “Até tu, Brutus,” a ninguém. O jeito mais

fácil —nunca deixo que alguém se aproxime. Exceto ela.

Ela abre os braços. Seu rosto está muito inchado para

sorrir, mas vejo isso em seus olhos, um sorriso de conforto

como se eu é que tivesse sido atacado e estivesse com dor.

Chorando ainda mais, puxo-a para mim e seguro com força.

Ela ainda está aqui, ainda é minha. Fecho meus olhos e a

pego no colo.

—Posso andar —ela sussurra.


Não a ponho no chão. Viro-me, Melanie silenciosamente

abre a porta, e saio com meu amor em meus braços. Poderia

tê-la perdido. Nunca mais serei tão descuidado com ela.

Coloco-a em minha cama e ela me olha sonolenta,

esgotada pelo estresse. Parece tão pequena e indefesa. Suas

mãos estão fechadas. Círculo seu pulso, chocado com a

fragilidade dos ossos de sua mão. Gentilmente esfrego meu

polegar pelo seu pulso. Sua vulnerabilidade me aterroriza, me

assusta, faz com que me sinta fraco.

—Sonolenta?

—Hmmm... —ela geme.

Sinto-a indo embora, flutuando em sonhos nos quais

não posso entrar. Puxo-a para mais perto de mim. Quando

ela está acordada, existe uma parte que permanece reservada

e vigilante. Ela é como uma floresta. Intensa e sombria. Você

pode enfrentar e se aventurar. Ela murmura algo que não

entendo e se aconchega, acidentalmente raspa o rosto no

meu antebraço e estremece.

Paro de respirar, não suporto vê-la sofrendo.

Ela veste um pijama de algodão, não é sedutor, é tão

recatado que a faz parecer uma criança. Acho que é isso que


os pais sentem quando veem suas filhas dormindo,

absurdamente protetores. Olho horrorizado seu pescoço e

meu coração para.

—Merda! O bastardo a mordeu, porra!

É difícil engolir que ele machucou sua pele. Aquele

pedaço de merda marcou a minha mulher! Saio da cama

cuidadosamente e vou para sala de estar. A raiva é

nauseante, revira meu estômago. É tão profunda, que não

posso nem pensar direito. Quero voltar para a porra do

pequeno apartamento e terminar o trabalho, mas ele não

estará lá. Agora deve estar em uma unidade de terapia

intensiva. Vou para o bar e sirvo uma grande quantidade de

Jack Daniel's 40 . Bebo em um gole e bato tão forte o copo na

superfície do bar que o ruído repercute como um tiro.

Pressiono as palmas das mãos nas minhas têmporas.

—Pare. Basta parar —digo a mim mesmo.

Mas o desejo de sair e esmagar a cabeça do doente é tão

forte, que tenho que lutar comigo mesmo. Vou à varanda,

pode chover a qualquer momento. Jogo minha cabeça para

trás e respiro profundamente. Pareço um vulcão prestes a

entrar em erupção. Adoraria sair correndo. Alguns

quilômetros e parte dessa energia reprimida iria embora, mas

não posso deixá-la sozinha.

Não vale a pena ir para a prisão por ele. Já quebrei as

pernas e as mãos em alguns lugares e esmaguei os joelhos.

40 Jack Daniel's é a marca de um uísque americano.


Para não mencionar as costelas e mandíbula do saco de

merda.

Coloco a mão no bolso e pego seu telefone celular. Antes

que eu clique em seu arquivo de fotos, inspiro

profundamente, então, pressiono o botão. O choque de vê-la

presa ao chão, com os olhos cheios de medo e horror, é pior

do que previ. Olho rígido para a tela. Ainda assim ela não

queria chamar a polícia!

Aperto firme meus punhos enquanto me obrigo a me

acalmar.

—Deixe estar. Deixe estar.

Finalmente me acalmo, mas me sinto culpado. Não

deveria tê-la deixado sozinha e desprotegida, era meu

trabalho tê-la defendido melhor.

Tiro a bateria do telefone e guardo ambos em meu cofre.

Eu duvido muito, ele é um pouco covarde, mas ainda pode

ser útil. A sorte favorece a mente preparada.

Volto para o quarto e fico em cima dela. Seu cabelo está

espalhado no travesseiro, o lábio partido, seu rosto inchado e

machucado. É estranho, mas o corte, o inchaço e o

hematoma só a tornam mais preciosa e intrigante. Ela se

mexe, o lençol escorrega, vejo uma pequena faixa da pele de

sua cintura, branca leitosa e sem falhas, e isso me dá

vontade de reivindicá-la.

Observo-a respirando. É estranhamente sedutor e fico

olhando por um longo tempo. Parte de mim está chocada com

a força da minha emoção, outra parte tem receio deste


sentimento. Nunca pensei que me

sentiria assim em relação a uma

mulher, mas os sinais estão todos

ai.

Eu a amo.

Com cada fibra do meu ser eu

a amo. Seu sono é inquieto, ela se

vira e se agita. Ponho meu dedo na sua mão quase fechada,

ela faz um som esquisito e aperta. E, então, enquanto está

num sono profundo diz a coisa mais estranha, algo que

nunca, nem em meus sonhos mais loucos, pensei que ouviria

de seus lábios.

Dezesseis

Lily

Acordo com a cabeça latejando e meu corpo todo

dolorido. Estico-me e estremeço, em seguida, percebo que

estou na cama de Jake. Ele está sentado ao pé da cama me

olhando.

—Bom dia —diz ele em voz baixa.

Gemo uma resposta.


—Como está se sentindo?

—Pior do que ontem.

Ele se levanta e fica ao meu lado.

—Precisa de ajuda para sair da cama?

—Acho que não —respondo, mas ele se abaixa e me

levanta suavemente, colocando travesseiros nas minhas

costas.

—Obrigada.

—De nada —diz tão perto do meu ouvido, que seu

perfume fica em mim.

—Acordou há muito tempo?

—Cerca de uma hora. Em instantes terei que sair, mas

antes queria que comesse um pouco. Mais tarde Alicia trará

algumas revistas, e se houver algum livro que você queira ela

o comprará. Basta lhe telefonar.

—Ficarei aqui esta noite?

Sua mandíbula se aperta. Eu o conheço. Ele está

prestes a impor sua vontade novamente.

—Trouxe todas as suas coisas, você ficará aqui a partir

de agora.

—O quê?

—Não está aberto à discussão, Lily. Você ficará aqui.

Ergo minhas mãos em descrença.

—É impossível.


—Impossível é um desafio.

—Jake, você não pode agir assim. Não pode, de repente,

trazer minhas coisas para cá e simplesmente dizer que vou

morar aqui de agora em diante. Você tem que me perguntar e

tenho que concordar.

—Perguntar implicaria uma escolha.

Dou um suspiro risonho.

—Sim isso é certo. Pelo menos dar a uma menina a

ilusão de escolha.

Ele cruza os braços sobre o peito largo.

—Você gostaria de morar aqui?

—Ficarei por alguns dias e depois falaremos sobre isso.

—Entende porque é estúpido perguntar?

—Não sou uma criança, Jake. Você não pode decidir por

mim.

Ele vem até mim.

—Não entendeu? Não serei capaz de dormir se não

souber que está segura.

Olho para seu rosto e sei que ele fala a verdade.

—Poderia ter acontecido com qualquer um —digo em voz

baixa.

—Mas não foi com qualquer um. Foi com você.

—Não acho que ele estará em condições de voltar depois

de ontem à noite, concorda?


—Protejo o que é meu, Lily —diz sem remorso, seu rosto

é calmo e frio.

Suspiro. Minha cabeça está latejando e simplesmente

não tenho energia suficiente para lutar com ele.

—Ok, falaremos sobre isso quando eu estiver melhor.

—Quer café da manhã?

—Sim. Quero um pouco de sorvete.

—No café da manhã?

—Sempre pude comer sorvete quando estava me

sentindo mal —digo sem pensar e percebo o que falei.

Na luz da manhã seus olhos verdes brilham, de repente,

impenetráveis, mas o que diz é suave e amigável.

—Que sabor?

—Gosto de pistache e baunilha, mas aceito o que tiver

na sua geladeira.

Ganho uma taça de biscoito e creme, que é o que tem.

Jake me observa comer e, em seguida, tem que sair.

—Estarei de volta na hora do almoço —diz e me beija de

leve no rosto, na parte em que não está inchado e latejando.

Quando ouço a porta fechar, lentamente saio da cama e

manco para o quarto de hóspedes, no qual minhas coisas

foram colocadas temporariamente. Vejo o meu violão

encostado em um armário. Eu o pego, sento na cama e

começo a dedilhá-lo. Estou emocionalmente desequilibrada,

talvez ainda em choque com o que aconteceu ontem, mas me


sinto totalmente anestesiada. Tudo o que posso lembrar é

Jake, com sangue salpicado, com lágrimas indefesas

escorrendo pelo seu rosto. Acho que foi uma das poucas

vezes em que chorei muito e não conseguia parar. Meus

dedos se movem sobre as cordas, minha boca se abre e canto.

Toco minha dor com meus dedos.

Sempre a mesma canção. Sempre a mesma tristeza me

matando gentilmente. Matando-me suavemente.

Esqueço o que me cerca e volto a um lugar onde tudo no

mundo está certo. Meus pais foram ao cinema. Posso ouvir o

meu irmão lá embaixo comendo sanduíches de geleia e

fazendo uma bagunça na cozinha. Chove lá fora e estou

deitada na minha cama, minhas mãos embaixo da minha

cabeça, olhando os relâmpagos no céu.

Termino a canção, ouço um barulho na porta, viro-me

rapidamente e meu peito dói. Jake está lá me olhando, pálido

sob sua pele bronzeada.

—Por que você está em casa? —não queria, mas minha

voz soa acusatória.

—Não sei porque voltei —fala, vindo até mim e se

ajoelhando na minha frente. —Não sabia que você tocava

violão tão bem.

Dou de ombros. Dói.

—Agora você sabe.

Ele desliza o dedo na minha bochecha ilesa seguindo o

caminho da minha lágrima.


—Por quem você estava chorando, Lily?

Congelo.

—Ninguém, não estava chorando por ninguém.

—Você vem com instruções, Lily Hart? —Pergunta

suavemente, mas seus olhos estão preocupados e à procura

de algo. Quem sabe por quanto tempo ele será tão paciente

comigo?

Depois de três dias, sento-me na tampa do vaso

sanitário e o vejo mergulhar nas bolhas. Quando ele aparece

está com um chapéu de espuma, e limpa a suas pálpebras.

Tão cativante que faz meu coração bater mais rápido. Assim

que abre os olhos fico admirada por serem tão lindos. Tento

não olhar para os músculos firmes de seus ombros.

—Minha mãe quer conhecê-la.

Meus olhos se arregalam.

—Você gostará dela.

—É um pouco cedo.

Ele fica chateado.

—Não é muito cedo, Lily. Somos uma família muito

próxima.


—Não estou pronta, Jake. De qualquer forma, olha o

meu estado. Não posso conhecer sua mãe assim.

—Tudo bem, vou levá-la quando todos os seus

hematomas tiverem desaparecido.

Respiro aliviada.

—Obrigada, Jake.


Dezessete

Mara Éden

Meu primogênito vem me

visitar, e no instante em que ele caminha pela minha porta

eu sei: há uma nova mulher em sua vida. Está lá para todos

verem o brilho em seus olhos e o leve rubor em suas

bochechas. Estou extremamente feliz. Tenho quarenta e nove

anos e quero poder ver o meu primeiro neto.

Nunca contei a ninguém, mas meu Jake é a minha

tristeza secreta. Quando tinha quinze anos conheceu a

responsabilidade e a brutalidade. Foi obrigado a ver seu pai

ter as duas orelhas cortadas por causa de empréstimos e

dívidas de jogo, assim Jake tinha apenas uma escolha: ou

pagava a conta dele ou assistia toda a sua família morrer da

mesma maneira.

Quando chegou em casa naquele dia, eu sabia que meu

marido já estava morto. Não houve lágrimas, nem luto. Então

ele começou a trabalhar imediata e implacavelmente, dia e

noite, dormia por três horas e logo voltava ao trabalho. Levou

dois anos para pagar as dívidas do pai. Sei que teve que fazer

um monte de coisas ruins, mas fez isso por nós: por mim,

Dominic, Shane e por nossa pequena Layla.


Na época, ele ganhou muito dinheiro, comprou esta bela

casa para mim, meu carro, paga as minhas férias e me dá

uma mesada, que não consigo gastar toda. Ele mesmo vive

em uma mansão com piscina, veste roupas elegantes, possui

carros de luxo e tem muitas mulheres extravagantes, mas até

ontem nunca o vi tão feliz.

—Ela é uma de nós? —pergunto.

—Não, mas ela é linda —responde. Há tanto orgulho em

sua voz, que fico maravilhada.

—Então, traga-a para me conhecer —peço.

Depois de separar uma cesta com geleias caseiras e uma

Tupperware 41 com seus bolos favoritos, entrego-os para

Madeleine, que está no banco do passageiro, e aceno. Fecho a

porta e corro para o meu altar. Vou dar graças à Nossa

Senhora Negra, que é a padroeira da minha família. Durante

várias gerações, a veneramos por ela ter dado visões para

minha avó, para minha mãe e até mesmo para mim. Ela me

mostrou quando meu marido seria assassinado. Estava de pé

em oração quando tive uma visão. Eu o vi levantar a mão e

me pedir desculpas.

—Sinto muito, Mara, mas tenho que sair.

No dia seguinte, ele estava morto.

Com um sorriso acendo uma vela vermelha e fico de

frente à imagem de Nossa Senhora, mas quando começo a

rezar tenho um pressentimento tão horrível, que meus

41 Recipiente plástico utilizados na conservação e preparação de alimento, produzido pela

multinacional norte-americana Tupperware Brands Corporation.


joelhos estremecem e caio no chão. Enquanto estou

esparramada vem a visão: uma bala indo em direção ao meu

Jake e sangue infiltrando-se rapidamente em suas roupas.

Deito no chão atordoada e mordo o punho que empurrei em

minha boca.

Veja, desde que a inocência de Jake foi roubada, nunca

tive paz. Nem mesmo durante o sono. O terror é como uma

cobra no poço profundo e escuro de minha barriga pronta

para atacar a qualquer momento. O dia chegou. E me encara

com olhos malignos.

Com um grito corro e ligo para Queenie, uma amiga da

minha avó que tem um dom: os espíritos falam com ela

através das cartas. Eu a chamo desesperada.

—Venha agora —fala.

Ela vive em uma área de trailers. Entro no meu carro e

dirijo 32km até lá. Estaciono à beira do campo e caminho

rapidamente para sua casa. Ela abre a porta em seu roupão e

me convida para entrar. Seu rosto é redondo, as

sobrancelhas tiradas impecavelmente e desenhadas com

delineador marrom. Debaixo delas estão um par de grandes

olhos negros com uma borda branca na parte inferior, que dá

ao rosto a aparência de uma santa. Sua boca é pequena e os

lábios murchos. Em Brighton Pier, 42 ela é conhecida como

Madame Q, uma charlatã louca.

Londres.

42 Brighton é uma cidade localizada no litoral sul da Inglaterra, a pouco menos de 100 km de


Subo os degraus e entro em sua casa. É impecavelmente

limpa e o sol brilha através das cortinas, mas é cheio de

sombras misteriosas. Isso me lembra da caravana da minha

avó, com a mesma cortina e o mesmo amor por cristais,

estatuetas de porcelana pouco pintadas e vasos de plantas no

peitoril da janela.

—Farei um chá ou você gostaria de algo mais forte? —

ela pergunta.

—Chá —digo rapidamente.

Ela balança a cabeça e coloca uma chaleira no fogo para

ferver.

—Sente-se, Mara, ou você irá desgastar meu tapete —ela

fala, derramando as folhas de chá no bule.

Paro de andar, sento-me em um sofá delicado com

bordados e almofadas com franjas. Minha perna treme, isso

sempre acontece quando estou nervosa ou assustada. Ela

balançou quando a minha mãe estava doente, e ela tremia

incontrolavelmente quando Jake saía à noite para cuidar de

“algo”.

Queenie derrama água fervente no bule, colocando-o em

uma bandeja com xícaras de pires delicados, um jarro de leite

e uma tigela com açúcar, trazendo-a para mim. Coloca a

bandeja sobre a mesa pequena na minha frente, senta-se

para trás e me olha com seus grandes olhos expressivos.

—Vamos nos sentar por um instante, pode ser?

Aceno agradecida.


—Tenho medo pelo meu filho.

—Veremos o que as cartas dizem.

—Sim, por favor.

Ela alcança debaixo da mesa e pega uma velha caixa de

madeira esculpida com padrões intrincados. Coloca-a no

chão ao lado de suas pernas e tira as cartas. Elas têm

estranhas marcas na parte de trás, que são quase apagadas

pelo uso, e bordas amareladas e sujas. Embaralha-as

cuidadosamente em suas mãos muito brancas, deformadas

pela artrite. Ela me entrega o baralho.

Seguro-o assustada. Muitas vezes na minha vida as

cartas revelaram coisas verdadeiras, algumas pequenas,

algumas de vital importância e outras dolorosas.

—Pense nele —ela instrui.

Embaralho as cartas e penso em Jake. De propósito

lembro dele me olhando feliz, imagino-o forte e saudável. Não

as contamino com o meu próprio medo e preocupação.

—Devolva-me quando estiver preparada. —Sua voz é

plana e impiedosa como a de um oficial da imigração.

Embaralho as cartas mais uma vez e lhe entrego.

Ela segura espalhando-as em um semicírculo sobre a

mesa.

—Nossa Senhora Negra protege. Deixe que seu clamor

chegue até ela —diz baixinho.

Faço o sinal da cruz sobre o peito.


—Escolha apenas uma.

Ignoro a sensação de mau agouro e escolho uma carta.

Os Amantes.

Ela olha com uma expressão cuidadosamente neutra.

—Escolha outra.

Pego a que está por último em sua mão esquerda e lhe

entrego em silêncio. Meu coração acelera, minhas mãos se

abrindo e fechando sem parar no meu colo. A “diabhal”. O

demônio.

Ela vê a imagem e me analisa.

—Uma última carta.

Fecho meus olhos e deixo minha mão trêmula pairar

sobre o semicírculo. Com uma oração em meu coração

escolho uma, entrego sem olhar, mas eu sei que algo está

errado, muito errado.

Queenie franze o cenho para as cartas. É um dia

quente, mas sinto um arrepio que faz o meu cabelo ficar em

pé. Ela coloca as três cartas na mesa, lentamente acaricia a

do meio com o dedo indicador, sua unha é espessa e amarela.

—A torre —diz sem me olhar. Por fim, com expressão

solene fala —Cuidado com a mulher que está ferida, é bonita

e cruel. Tem fuligem e morte em sua boca.

Minha boca se abre com horror diante suas terríveis

palavras.

Seus olhos estão negros, sua voz é fraca.


—Você ainda pode rezar a Nossa Senhora por um

milagre. O abismo pode não acontecer. —Ela reúne as cartas

com um estalo. —Possivelmente.

Há uma placa na porta que não pode ser esquecida.

Nela lê-se:

“Entre, porém é de sua responsabilidade e risco.” -

Whodini


Dezoito

Lily

Nessa manhã, Jake se

levanta cedo. Há alguma coisa que tem que fazer no

escritório.

—Sem importância, mas necessária —disse quando lhe

perguntei o que era.

É muito cedo para o café, mas sento-me e o observo

devorar três fatias de torradas grossas com manteiga e geleias

caseiras que sua mãe faz. Eu o levo até a porta da frente, com

meus braços em volta do seu pescoço e fico na ponta dos pés

para beijá-lo enquanto ele me levanta.

—Vou amassar seu terno —sussurro em seu ouvido.

—Mantenha suas pernas em volta de mim, mulher —

manda.

Acho graça e coloco minhas pernas ao redor de sua

cintura.

—Já falei hoje como está linda?

Inclino minha cabeça e finjo pensar.

—Deixe-me ver. Sim, sim falou.

Ele me olha seriamente.


—Você é linda, Lily. Verdadeiramente linda.

—Está tudo bem? —pergunto.

—Sim, tudo se encaminha para como deve ser —sorri.

Nós nos beijamos suavemente e então ele me deixa.

Por um momento fico olhando para a porta e me

preocupo. Ele está fazendo algo perigoso hoje? Volto para a

cama e me deito por um tempo, pensando. Por que não me

falou para onde ia?

Por volta das nove e meia da manhã tomo um banho,

visto-me e saio. Ando até o final da estrada para o ponto de

ônibus, sento-me em uma das cadeiras de plástico vermelhas

e espero. Ele chega às nove e cinquenta e dois.

Subo a bordo, pago o motorista e sento no andar de

cima. O ônibus me leva até a Leicester Square 43 . Desço e

caminho até Piccadilly Circus 44 . Está cheia de turistas, sentome

nos degraus de pedra sob a estátua e os observo, com

seus mapas e câmeras, entusiasmados.

Depois, vou até a rua Regent onde as pessoas entram e

saem das lojas. Procuro um chapéu. Quando eu olho no

espelho vejo meus olhos enormes e assustados e me afasto

rapidamente. Mexo nos cabides sem interesse algum e meu

comportamento chama a atenção de um guarda de

segurança, que começa a me seguir e saio depressa.

43 A Leicester Square é uma das mais belas e charmosas praças de diversão com várias atrações

turísticas, no centro do West End, em Londres

44 Piccadilly Circus é uma famosa praça de Londres, onde se encontra a famosa estátua de Eros


Entro em uma loja de sapatos e depois de experimentar

cerca de dez pares finalmente compro um, saindo percebo

que nem sei de que cor eles são. É uma e quarenta e cinco da

tarde, entro em um pequeno café e peço um sanduíche de

salmão com pepino, mas sou incapaz de terminá-lo. Pago a

conta e vou em direção ao Pier Embankment 45 .

Quando eu atravesso a ponte sinto o primeiro sinal de

nervosismo, algo como chumbo na boca do meu estômago.

Ignorei-o todo esse tempo, mas não consigo mais. Olho não

para o Tate Modern 46 , mas para a St Paul's Cathedral 47 que

está em segundo plano.

Entro no museu e subo as escadas. No fim do corredor

há uma exposição de Marlene Dumas que gostaria de ver,

mas não irei. Em vez disso vou a uma das salas menores,

onde um homem sentado em um banco contempla uma

colagem chamada 'Pandora' de um artista novo, Miranda

Johnson.

As cores são brilhantes e ousadas, mas não há

nenhuma diferença entre esta e a pintura “Weeping Woman “,

de Picasso. Ambas são fortes e repletas de sofrimento.

Observar a pintura é sentir a dor. Meus olhos vagueiam sobre

ela. Tem um olho na colagem, um par cheio de lábios cor de

rosa brilhantes e uma flor. Tem também palavras como

cadela, chupar, mentiroso, babaca, abuso, e no topo uma

letra cursiva que diz: você é convidado …

45 Embankment Pier é um cais localizado na margem norte do rio Tamisa, em Londres.

46 A Tate Modern é um museu britânico de arte moderna.

47 Catedral de São Paulo, é uma catedral anglicana considerada uma das principais igrejas

de Londres, onde eventos religiosos importantes são realizados.


Ando até a pintura com a alma dolorida.

O homem no banco fala.

—Ela não deveria ter aberto a caixa.

Não olho para ele. Simplesmente me sento ao seu lado,

mas não perto o suficiente para tocar. Sinto-me congelada

por dentro. Penso em meu irmão deitado no chão com a

agulha saindo de seu braço. De repente, sinto a sua dor, a

dor da pintura, a minha dor. Posso fazer isso, é claro que

posso fazer isso.

Olho o quadro e tudo o que posso ver é a palavra

"cadela".

—Você me chamou para uma reunião —o homem diz,

sem me olhar.

—Sim.

Ele vira a cabeça para me olhar e rapidamente encontro

o seu olhar. Quero olhar em seus olhos, quero me sentir

segura novamente. Seus olhos estão escuros e inexpressivos.

Exatamente como me lembro deles. Olho-o e ele desvia o

olhar primeiro.

—Bem?

—Há algo grande acontecendo no décimo sexto —digo.

—O quê?

—Não sei ainda, mas algo está chegando por Dover 48 .

da Mancha.

48 Dover é uma cidade localizada no Sudeste da Inglaterra. É o maior porto britânico do Canal


—Bom trabalho, mas não vamos agir ainda, se não irá

comprometê-la. Deixaremos isso passar. Você tem algo muito

mais importante a fazer.

Engulo em seco.

Ele se vira me olhando.

fria.

—Você está se apaixonando por ele? —Sua voz é dura e

Penso na pele de Jake pressionada na minha, sua

língua traçando uma trilha erótica para o meu ouvido, seus

lábios sussurrando: "Eu amo você, Lily. Eu nunca acreditei

que alguém poderia ser tão bonita quanto você."

—Não, claro que não. Este é apenas um trabalho —digo

angustiada.

Ele me analisa.

—Bom. Porque você é uma agente da coroa e nossa

melhor esperança para acabar com Jake e sua empresa

criminosa.

—Sim, senhor. —concordo já saindo.

—Tenha juízo, Hart —ele adverte.

Não volto e também não me permito pensar em Jake.

Afasto-me com o som dos meus pés ecoando no piso duro, e o

belo rosto de Luke desamparado vem em minha mente.

Continua…

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