arco revista ED1 2017ed1

arcobh1

Revista de Arte Contemporânea Edição 01 2017

evista

edição 01/2017

arte&afins

Caminhos,atalhosedescaminhos

daartenoséculoXXI

Mercadodearte:quebichoéesse?

Conheçaosartistas

daARCOBH2017

AsesculturasdeAmâncio

GalpãoParaíso44:

umahistóriadesucesso

Essasmulheres...

revista arco:pensar

arte


Art Basel Hong Kong

EDITORIAL

Fui convidado em 2015 pelo produtor de eventos Nilso Farias para

colaborar com o Departamento de Comunicação da ArtBH. Foi

quando percebi um pouco do Mercado de Arte mineiro. A ArtBH era

um audacioso projeto, um verdadeiro embrião da “SP-arte” ou

“ArtRio” para Belo Horizonte ( Saiba Mais).

Nessa época, fiquei por dentro de alguns números: São Paulo

ocupava mais de sessenta por cento do mercado de arte brasileiro,

Rio de Janeiro cerca de dezessete por cento e Minas Gerais apenas

seis por cento, mesmo sendo considerado um celeiro de talentos.

No evento ocorrido no Minas Centro, durante a montagem da feira,

convivi com os principais donos de galerias mineiros, paulistas e

cariocas. Cheguei a algumas conclusões: percebi que estes dados

não são resultados de um fator único, mas de um conjunto

complexo de variáveis.

O galerista carioca Sérgio Gonçalves foi um dos empresários que

mais se destacou dentre aqueles que conheci durante a ArtBH. Era

ousado, empreendedor e inovador. Possuía também um olhar

especial para detectar talentos nas diversas tendências; olhar esse

sem preconceito para quaisquer formas de expressão, sejam

figurativos, abstratos, conceituais e/ou novidades estéticas.

revista

Esta falta de ousadia ou de apostar em novidades talvez seja algo

que limite o nosso mercado regional. Normalmente, os artistas

presentes nas galerias são quase sempre as mesmas figuras

carimbadas. O mesmo acontece com os contemplados pelas leis de

incentivo cultural municipal e estadual, além dos próprios editais de

ocupação.

O Circuito da Praça da Liberdade e o Museu de Inhotim, sem

desmerecer a importância e a relevância dos espaços, podemos

considerar iniciativas acanhadas para uma cidade do tamanho de

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Belo Horizonte, ainda longe de ser considerado um importante polo cultural. Faltam ainda

curadores mais ousados, mais espaços, mais patrocínios para os projetos culturais e também mais

eventos qualificados.

De acordo com o arquiteto mineiro David Guerra “em cada esquina é produzido um artista. Como

fortalecer um mercado de arte local se temos uma superprodução de talentos, onde a oferta é

bem maior que a procura? “

A resposta para tantos obstáculos pode estar na atitude do próprio artista, mas para isso ele tem

que sair de seu universo confortável (o do seu atelier). Mais ousadia ou mais agressividade no

marketing, utilizar-se de tecnologias e novos meios de comercialização e divulgação e buscar

mercados alternativos nacionais e internacionais podem ser saídas significativas.

ArtBH 2015 - Minas Centro

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Obra do artista mineiro Miguel Gontijo: exemplo de inovação, subversão e quebra de paradigmas.


QUER VENDER ARTE

NA INTERNET?

O que não faltam são espaços para vender reproduções ou originais. O que o artista

precisa é analisar as vantagens de cada site, ter uma noção de inglês para entender as

regras. E criar um acervo de suas obras com imagens adequadas e configuradas

corretamente para entrar neste mercado alternativo. No Brasil temos a Urban Arts e

outras boas opções. A Revista ARCO coloca aqui uma relação de 250 empresas

internacionais que fazem esta comercialização. PESQUISE AQUI

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O DISCRETO CHARME DO

GALPÃO PARAÍSO 44


GalpãoParaíso44:umahistóriadesucesso

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GALPÃO PARAÍSO 44

Raquel Isidoro é uma apaixonada pela arte. A voz fala com carinho e devoção dos “seus

artistas” que frequentam o Galpão Paraíso 44. Ela mal tem tempo para dedicar-se a seus

projetos pessoais, que com certeza exemplificam uma arte com A maiúsculo. Seus projetos vão

ficando adormecidos, para que ela mesma possa administrar este ousado centro artístico, que

mistura galeria, oficina, atelier; espaço múltiplo feito no peito e na raça e com a paixão de

acreditar que está fazendo o certo. A palavra que define o local é “coletivo”. Raquel não é um

ser individualista, é movida pelo coletivismo, em que forças somadas tornam-se capazes de

transformar, mover e modificar, contrariamente ao ambiente das artes, que se fundamenta no

egocentrismo e elitização. Raquel tem o dom de doar-se por inteira. E este dom levou o

Galpão a ser referência como Espaço Alternativo de Cultura e de Arte em Belo Horizonte.

Na contracorrente, propõe iniciativas inovadoras que podem mudar e influenciar pessoas e

atitudes. Com um olhar versátil e aprimorado, o espaço vem se tornando uma referência da

arte independente do século XXI na capital mineira.

O Galpão não tem muros estéticos, suas paredes não limitam, mas expandem os horizontes

para os artistas que lá expõe. O intercâmbio e a troca de conhecimentos entre estes seres

criadores, contribuem para um ambiente único, de colaboração e afinidades. Com um

histórico poderoso de exposições individuais e coletivas desde sua fundação em 2014, o

Galpão tem ajudado a transformar a comunidade artística da cidade. Um contraponto

importante para a renovação constante e a ampliação do mercado fechado de arte de Beagá.

Única iniciativa do tipo na cidade, o local funciona como ateliê coletivo, galeria e ponto de

encontro para sessões de vídeo, discussões sobre arte contemporânea, aulas de pintura,

Lídia Miquelão, uma das artistas do Galpão.

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Após dezoito anos no comando de uma empresa de

eventos, Raquel decidiu se dedicar à vocação visceral, a

pintura. Formada pela Escola Guignard, conheceu Leo

Brizola em uma oficina de pintura em 2011. A empatia

entre os dois foi imediata, e eles passaram a buscar um

local para trabalhar juntos. Sem hesitar, ela arrebanhou

o novo amigo e um grupo de artistas que já

demonstrava interesse em reunir os pincéis e as ideias. A

equipe ficou completa com Sérgio Arruda, responsável

pela montagem das principais mostras de Belo

Horizonte nos últimos anos. A parceria entre ele e

Raquel já rendeu sucessos de exibição como Rodin: do

Ateliê ao Museu (2009), O Mundo Mágico de Marc

Chagall (2009) e Caravaggio e Seus Seguidores (2012).

Participar dos projetos neste antigo galpão industrial é

um exercício de humildade. "Muitos artistas precisam de

silêncio e de certa solidão. Não é todo mundo que topa

esse sistema coletivo", explica Arruda. Lídia Miquelão,

por exemplo, estava pincelando calmamente suas

figuras humanas quando Brizola sugeriu que ela

começasse a pintar a partir de uma tela totalmente

preta. "A ideia me agradou e, em ritmo intenso, produzi

cinco trabalhos", afirma Lídia. A intenção é que o Galpão

Paraíso abrigue novos residentes e funcione como uma

vitrine viva. "Aqui não tem pavilhão chique, mas tem

gente talentosa produzindo arte em conjunto", diz

Raquel.

As exposições coletivas fARTura e RefARTura realizadas

no Galpão, foram um divisor de águas para a vida

cultural da capital mineira trazendo um sopro de

renovação e de ousadia. Uma mistura saudável de

diversas gerações e estilos de trabalhos, favorecendo

Obra de Raquel Isidoro, fundadora do Galpão Paraíso

uma leitura panorâmica da produção

em artes visuais na cidade. Entre

consagrados e novos expoentes e

centenas de obras de diferentes

estilos, linguagens e modalidades

artísticas.

Em área de 360m2, são realizadas

exposições, diversas atividades de

formação no campo das artes visuais

( p a l e s t r a s , d e b a t e s , c u r s o s ,

workshops) além do espaço funcionar

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ainda como um atelier coletivo e

a b e r t o . O G a l p ã o p o s s u i

infraestrutura para abrigar grandes

exposições, mostras de vídeos,

performances, apresentações

musicais entre outras situações

artísticas.

Em 2017, o Galpão irá incorporar

mais um projeto audacioso: a

Mostra ARCO BH. Saiba mais sobre

a ARCO: Site oficial

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ARCO BH 2017

A ARCO BH é uma poderosa vitrine que expõe o que há

de mais inovador na arte contemporânea independente.

No ano passado foram divulgadas mais de 200 obras de

arte, entre esculturas, pinturas, fotografias, desenhos,

gravuras e street art. Mais de meio milhão de reais em

obras catalogadas e expostas. Tendo como apoio a

internacional Canson e o Bureau Art Moulin do fotógrafo

premiado Heitor Muinhos. A ARCO BH 2016 foi um marco

e um grande sucesso midiático.

A ARCO BH, idealizada pelo artista visual Fernando

Medeiros de Moraes, em sua 1ª edição em 2016, gerou

grandes resultados de visibilidade e impacto expressivo

(38.600 pessoas), onde 40 artistas mostraram o melhor

de sua produção atual. A Mostra Coletiva seleciona

artistas visuais emergentes, consagrados e de alta

qualificação.

Em 2017, a ARCO em sua segunda edição, acontecerá

entre os dias 31/05 a 10/06 e exibirá mais de 40 artistas

selecionados por uma Comissão de Curadores. Esta

Mostra irá representar uma nova fase da ARCO BH em

parceria com o Galpão.

Entre as novidades e aprimoramentos: será filmado um

vídeo documentário, o plano de mídia foi ampliado com

Facebook, Instagram e You Tube, foi incorporado mídia

externa com outdoor, mailing de 30.000 e-mails

cadastrados, premiação de obra por voto popular,

palestras, oficinas de arte, contratação de assessoria de

impressa profissional para RTVC, leilão e supervisão de

marchand, além de projeto Expográfico da Gestalt. Saiba

mais sobre a ARCO: Site da ARCO.

ARCO 2016: palestras, exposições, live painting

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Entre a figura e o abstrato: instâncias do pensamento

por Eduardo Augusto Alves Almeida e Felipe Goés

SAIBA MAIS

Wassily Kandinsky

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CAMINHOS, ATALHOS E DESCAMINHOS DA ARTE NO SÉCULO XXI

Fernando Medeiros

Algumas das maiores feiras do mundo (Frieze

e Art Basel) têm mostrado uma linguagem

plural, onde é possível perceber a convivência

positiva de figurativos, abstratos e instalações.

Este mosaico é saudável, pois a arte não

deveria ter limites ou filtros.

O século XX foi um período intenso, onde as

tecnologias evoluíram de forma acelerada.

Esta evolução técnica foi estimulada por

duas grandes guerras, que provocaram uma

corrida à inovação, um salto gigantesco para

a humanidade. Isso refletiu consideravelmente

no campo das artes. Cubismo,

f a u v i s m o , d a d a í s m o , s u r r e a l i s m o ,

abstracionismo, concretismo e tantos ismos,

foram pipocando numa busca vertiginosa.

Esculturas do espanhol Juan Muñoz

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Alguns buscaram o aniquilamento dos

fundamentos da arte, do desenho e da

própria função da arte. Outros, uma

conceptualização laboratorial e esterilizada

da arte.

A street art ganha força, pela aproximação

junto ao cenário urbano e ao se misturar com

a população, através de uma interação

poderosa com a rua. As galerias sentiram este

poder e tentam levar a street para o

confinamento de seus ambientes, mas aí,

enjaulada esta arte perde sua força e

interação natural. O figurativo renasce pelas

mãos hábeis dos grafiteiros, uma genial

mistura de muralismo e pop, reverenciando a

figura e sua conexão humana.

Nas feiras misturam-se o digital, o som, o

vídeo, criando novas relações e incorporando

elementos não convencionais ao projeto

visual, que ganha áudio e imagens em

movimento. A criação de obras através de

poderosos softwares reformula a tradição do

atelier, revitalizando as fórmulas de

manufatura do bidimensional.

O abstrato e seus inúmeros caminhos se

misturam com a arte gráfica, gerando novas

formulações visuais. O artista não é somente

plástico, passa a ser artista visual, para

incorporar e aumentar o alcance das suas

explorações.

A objetaria ganha força e novos significados,

se entrelaçando com as artes aplicadas, o

design, a decoração de ambientes e

recriando objetos utilitários ou não.

Impressoras 3D vão se sofisticando e

esculturas surgem de programas sofisticados

de modelagem.

O impacto de todas estas inovações é uma

grande incógnita. Além disso, não só a

inovação do modus operandi, da maneira de

fabricar a arte, mas também de comercializar

e exibir a arte. Galerias virtuais ganham força

e se impõe, criando pontes e atalhos para um

artista chinês vender diretamente a um

comprador americano. A reprodutibilidade

cada vez mais aprimorada gerando cópias

exatas de uma obra feita com tinta e pincel. A

própria impressão ganhará texturas com

volume, aproximando ainda mais do original.

Esta pluralidade de meios talvez assuste. Mas

independente dos meios e linguagens

adotadas, a arte continua a emocionar e ser

uma necessidade quase biológica do ser

humano. Algo que nos suaviza a existência,

a p r i m o r a o i n t e l e c t o e n o s l e v a a

questionamentos importantes e essenciais.

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AMÂNCIO E SUAS ESCULTURAS

por Paula Moraes

Amâncio não é um artista comum, nem um

homem comum. Sua vitalidade é contagiante.

A paixão que percebemos no seu

olhar é inebriante. Paixão por suas esculturas,

pela vida, pela família. Apesar do talento e do

renome, existe uma humildade natural, uma

sinceridade em encarar tudo. Para ele a arte

faz parte da sua existência, é como respirar. E

diferente de tantas lendas vivas das artes

mineiras, não existe um sete um na prosa, não

existe soberba e nem pretensão, nem cartas

nas mangas.

Fui recebida em sua casa, com

cordialidade e intimidade. Mostrou

suas peças fundidas, suas esculturas

soldadas, suas montagens

em madeira, como um pai mostra

com orgulho uma infinidade de

filhos pródigos. Percebi que existe

ali um amor e uma devoção no

fazer. A arte é plena porque feita à

mão. A artesania faz parte de um

processo elaborado. O amassar da

argila, o serrar do metal, o projetar

e dar vida aos sonhos lúdicos. A

obra de Amâncio é poderosa

porque existe uma autenticidade

n o f a z e r . E x i s t e u m p r a z e r

existencial na construção do

tridimensional. E nada é feito sem

um projeto, sem um significado

preliminar, em tudo existe uma

significância e uma arquitetura

consentida.

15


16

Percebemos que existem vários “Amâncios” delineados em

diversas fases do seu vasto trabalho, com uma bela história de

vida e convivência com artistas de peso como Amilcar de Castro,

Jarbas Juarez, dentre outros.

O escultor faz parte da trajetória da arte mineira, uma história rica

e exuberante, feita depor artistas que sonharam e sonham em

viver pela arte. Existe em Amâncio uma generosidade em repartir

experiências e processos, com prazer de ensinar.

E a conversa se estica e é prazerosa, porque é sincera e agradável.

O homem Amâncio fala de si, dos problemas e dos projetos

feitos e engavetados. Transborda o que tem de melhor, sem

vaidade, mas com orgulho de ter feito obras de qualidade,

inovadoras e verdadeiras. Caminhar no seu atelier é entrar um

pouco neste mundo fascinante. Enquanto escutava suas histórias

e processos, lembrei-me da frase do também escultor

Modigliani: “a vida é um dom, de poucos para muitos... dos que

sabem e possuem, para os que nada sabem e nada possuem”.


ESSAS MULHERES...

por Maria Celi Neto Ferreira

Como em muitas atividades humanas, a área da cultura e das artes visuais é ainda uma

atividade reinada e dominada por homens. As mulheres ao longo de séculos aparecem mais

como modelos de pinturas, desenhos, esculturas, gravuras e outras mídias, do que

propriamente autoras desta história.

Mesmo com todas as conquistas, o mundo ainda é muito machista e para as mulheres

ocuparem os espaços foi e é uma grande resistência.

Vamos pensar: quantas mulheres artistas você tem guardadas na memória? É um número

muito pequeno e parece menor quando comparado com o número de homens artistas. Por

exemplo, você já ouviu falar em Christine de Pisan? Então, esta mulher, escritora franco-italiana

do período medieval, foi a primeira mulher a viver de seu trabalho e uma das primeiras

mulheres a falar de feminismo na literatura. Tratava de temas polêmicos e sua última obra foi

Frida Kahlo

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dedicada à Joana D’Arc.

Bem depois dela, temos na Inglaterra

Virgínia Woolf, cuja obra só foi prestigiada

muito tempo depois.

No Brasil, no Modernismo dos anos 40,

Clarice Lispector foi reconhecida como uma

das mais importantes escritoras do século

XX.

Na música, um exemplo importante que

viveu entre os séculos XVIII e XIX é Chiquinha

Gonzaga. Não foi somente a primeira

chorona (pessoa que toca, compõe ou canta

choro) do Brasil, como também a primeira

mulher a reger uma orquestra no país, a

primeira compositora popular e, de quebra,

ainda compôs a primeira marcha de carnaval

com letra. Juntando o piano com os ritmos

populares, ela conseguiu muito de sua fama,

mas também muitas críticas, pois tocara uma

espécie de maxixe, o que foi considerado

vulgar demais para a elite da época,

c o n t r o l a d a p o r h o m e n s d e g o s t o

supostamente muito refinado.

Na Argentina, décadas depois, estava

Mercedes Sosa, uma cantora muito

envolvida com a libertação e a união da

América Latina, que se posicionava sempre

ao lado do povo indígena e de sua cultura, e

também apoiava organizações socialistas.

Por conta disso, sua música “de luta” era um

problema em um período de ditadura

militar, marcado pela censura, repressão e

modos autoritários.

As mulheres nas Artes Plásticas

Você já ouviu falar em Sofonisba Anguissola?

Saiba que alguns quadros dela foram

confundidos com os de Leonardo da Vinci.

Ela foi a primeira mulher artista a adquirir

fama, sendo reconhecida como uma

excelente retratista. Viveu durante o período

renascentista e foi pintora da corte

espanhola por cerca de 20 anos. Devido aos

limites impostos à mulher do seu tempo, que

não podiam ver pessoas nuas, não pode

realizar as complexas pinturas que

precisavam de modelo vivo.

o Impressionismo foi o primeiro movimento

artístico com integrantes mulheres. Porém,

elas ainda não eram bem vistas em espaços

públicos e na vida noturna. O preconceito

era tão grande que um dos pintores mais

Tarsila do Amaral

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celebrados do Impressionismo, Renoir, disse

uma vez: “a mulher artista é ridícula, mas sou

a favor das cantoras e das dançarinas”. Uma

artista que lutou contra as imposições deste

período foi Camille Claudel. Sua arte não era

muito apreciada pelo grande público, em

parte porque diziam que ela copiava Rodin

(seu mestre e com quem teve um

complicado caso de amor) e também por ser

mulher. Abandonada por Rodin e acusada

de imitar seu trabalho, Camille nutriu por ele

um ódio que a levou à loucura. Ela foi

internada à força em um hospício em 1913,

onde permaneceu até o dia de sua morte,

em 1943 (sim, 30 anos!).

Para mencionar outras integrantes que

também participaram do movimento

impressionista temos as pintoras Berthe

Morissot e Mary Cassatt.

A pós impressionista francesa, Suzanne

Valadon, foi a primeira mulher a expor suas

pinturas no Salon des Beaux – Arts de Paris.

Depois, em 1924, participou de exposição

que reuniu as mulheres artistas em Paris,

recolocando-a em evidência. Essa artista

compõe a mostra “Entre Nós”do acervo do

Masp presente no CCBB de Belo Horizonte

que fica em cartaz até 26/06/2017.

No Brasil, a pintoras modernistas mais

comentadas são Tarsila do Amaral e Anita

Malfatti, que participaram ativamente da

Semana de Arte Moderna de 1922. O quadro

Antropofagia de Anita, dedicado a seu

segundo marido, o escritor Oswald de

Andrade, inspirou o importante movimento

antropofágico que “devorava” as tendências

europeias para produzir uma arte brasileira

de verdade.

Outra que merece destaque é Lygia Clark.

Pintora e escultora, foi uma das fundadoras

do Grupo Neoconcreto. Gradualmente,

troca a pintura pela experiência com objetos

tridimensionais. Realiza proposições

participacionais como a série Bichos, de

1960, construções metálicas geométricas

que se articulam por meio de dobradiças e

requerem a coparticipação do espectador.

Nesse ano, leciona artes plásticas no

Instituto Nacional de Educação dos Surdos e

passa a dedicar-se à exploração sensorial em

trabalhos como A Casa É o Corpo, de 1968.

Reside em Paris entre 1970 e 1976, período

em que leciona na Faculté d´Arts Plastiques

St. Charles, na Sorbonne. Nesse período sua

atividade se afasta da produção de objetos

estéticos e volta-se sobretudo para

experiências corporais em que materiais

quaisquer estabelecem relação entre os

participantes. Retorna para o Brasil em 1976;

dedica-se ao estudo das possibilidades

terapêuticas da arte sensorial e dos objetos

relacionais. Sua prática fará que no final da

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vida a artista considere seu trabalho definitivamente alheio à arte e próximo à psicanálise. A

partir dos anos 1980 sua obra ganha reconhecimento internacional com retrospectivas em

várias capitais internacionais e em mostras antológicas da arte internacional do pós-guerra.

Também no pique modernista, mas dessa vez no México, outra artista que merece destaque é a

pintora Frida Kahlo. Frida foi uma das primeiras pintoras que expressou a identidade feminina a

partir de sua própria visão como mulher, recusando a visão do ideal feminino pregada pelo

mundo masculino e rompendo tabus, principalmente sobre o corpo e a sexualidade feminina.

Na Copenhage de 1926, a artista feminina que se destaca é Gerda Wegener, retratada no filme

“A Garota Dinamarquesa”, de Tom Hooper. Foi casada com o pintor Einer Wegener, que a partir

de um determinado momento passou a viver como Lili Elbe (inclusive foi o pioneiro na cirurgia

de transgenitalização). Lili foi modelo e musa de Gerda, cujos quadros de retratos femininos

tiveram dificuldade em serem aceitos pela sociedade dinamarquesa. Seu estilo único buscava

retratar a sensualidade e pintou inclusive, temas polêmicos como de mulheres nuas se

masturbando. Gerda foi, sem dúvida, uma artista à frente de seu tempo, que buscava expor

erotismo e sensualidade. Frequentava a vida agitada de Paris, onde morou com Lili e apesar de

ter tido muitas negativas no início de sua carreira, acabou tendo sucesso. Viveu intensamente e

pintou também com muita intensidade.

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Lygia Clark


CONHEÇA OS ARTISTAS DA ARCO BH 2017

Desde janeiro lançamos a Edição 2017 da ARCO BH. A mostra é uma coletiva que busca ser uma

grande vitrine de artistas independentes, pretende ser um panorama geral dos caminhos da arte

contemporânea no século XXI. Foram selecionados escultores, desenhistas, gravuristas,

pintores, artistas digitais, fotógrafos de diversos estilos, regiões e nacionalidades. Estarão

presentes portugueses, franceses, mineiros, paulistas, cariocas, paranaenses, baianos e

pernambucanos.

Na ARCO, a exposição é o resultado, mas existem outros elementos que serão destacados:

visibilidade, flexibilidade, democracia, liberdade, estratégia, diálogo, troca de informações e

processos. Existe uma variedade de tendências, técnicas e linguagens. Esta pluralidade sem

barreiras faz da ARCO uma mostra divergente e intrigante.

Os artistas da ARCO BH esperam sua visita e interação no Galpão Paraíso 44, entre os dias 31 de

maio a 10 de junho. Conheça os participantes desta edição tão especial:

ALCIMONE TERRÃO - PE

ALYSON CARVALHO - MG

ÂMAR SOUKI - MG

ANA, BÁRBARA– MG

ANA SENRA - MG

ANDREZA NAZARETH - MG

ANDRÉ ARAÚJO - MG

ARNALDOH MARTIINZ- MG

CARMEN FREAZA - BA

CRISTINA VELOSO - MG

DAVID AGUILAR - MG

D'ASSUNÇÃO - DF

ENIO GODOY - MG

FLÁVIA GOMIDE - MG

FLORENCE JOLY - FRANÇA

FRED MENDES - MG

GEORG VINÉ BOLDT – SP

GORETTI GOMIDE - MG

HENRIQUE MONTEIRO - MG

HONÓRIO RODRIGUES - POR

ISABEL GALERY – MG

IZABEL MELO - PORTUGAL

J. VASCONCELLOS - GO

J. L. MOREIRA – MG

JORGE CABRERA - VEN

JOSÉ AMÂNCIO DE CARVALHO

LEO BRIZOLA - MG

LÍDIA MIQUELÃO PENA- MG

LISIANNY MARINHO - MG

LUCIANA CAMPOS HORTA-MG

LUCIMARY TOLEDO - MG

MARA ULHOA - MG

MARCOS ANTHONY - MG

MARCOS TOLEDO - MG

MARIA NAZARÉ SANTOS - BA

MARILENE BERNARDO - MG

MAX HENRIQUE - MG

NANCY PASSOS - PR

NATI SAÉZ - SP

NORMA VILELA - MG

REGINA DANTAS - RJ

RICO MACIEL - MG

ROBERTA STEHLING - MG

RODRIGO ELOI - MG

SANTTO - MG

SONIA ASSIS - MG

WALTER MULLER- MG

ARTISTAS

ORGANIZADORES:

FERNANDO MEDEIROS

RAQUEL ISIDORO

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MERCADO DE ARTE. QUE BICHO É ESSE?

A empresa Latitude tem um projeto muito bacana, com dados setoriais do mercado de arte

brasileiro. SAIBA MAIS

Desde 2015 tem sido desastroso para a política e a economia brasileiras, mas mesmo assim foi

extremamente produtivo para o mercado de arte. De acordo com pesquisa do projeto Latitude

de 2015, uma parceria da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos

(Apex) e a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact), as vendas de arte nacional para

o exterior aumentaram 97,4% em 2015 em relação a 2014. Isso representa um total de US$ 66,96

milhões (cerca de R$ 260,47 milhões) em obras de arte vendidas para 25 países.

De acordo com Solange Lingnau, gerente do Latitude, há várias explicações para o aumento na

exportação de arte brasileira. O fato de ser um mercado de luxo é um deles. A outra está na

crescente internacionalização das galerias nacionais. “Entendemos esse aumento, em parte,

como uma maior participação dos espaços brasileiros em feiras internacionais. Isso é algo que

também constatamos na execução do projeto: como apoiamos financeiramente as galerias em

algumas feiras, percebemos que esse número tem aumentado”, explica Solange.

Até aí, tudo bem. Números e dados globais, que confirmam o seguinte: exportar arte não é um

negócio ruim. E também demonstra que é um mercado de luxo, feito para poucos. Mas aí vem a

pergunta crucial: como o artista entra nesse seleto grupo de artistas valorizados? Qual é a

engrenagem ou sistema que seleciona os produtos aprovados pelo establishment?

Em 2016, no auge da crise econômica brasileira, uma tela da artista Beatriz Milhazes foi vendida

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por 16 milhões de reais na noite de abertura

da SP-Arte. Mas vem de novo a pergunta

básica: qual o critério?

A maior parte dos galeristas, descreve uma

trajetória a ser avaliada da seguinte maneira:

currículo, premiações em salões, um

histórico a ser analisado e o conceito

inovador das obras e a maturidade do

trabalho, além do trabalho ter uma

linguagem dentro da proposta da galeria.

Mas, e aquele critério subjetivo e quase

hermético, porque alguns são escolhidos e

outros não? Mesmo tendo uma carreira de

10 páginas, várias premiações e certificações,

isto não é garantia de aceitação a um círculo

restrito e quase inexpugnável.

O que podemos perceber é que existe um

pequeno grupo que influencia e faz as

escolhas meritórias, baseadas numa

subjetividade, que não pode ser avaliada ou

questionada, em regras pré-estabelecidas.

Não existe um selo de ISSO 9000 para obras

de arte... O mercado de arte tem uma

ausência de parâmetros, ou uma avaliação

subliminar, que não permite uma auditoria

de mérito ou qualidade.

Com certeza, um artista, ou a sua assinatura,

é hoje como uma marca. Em termos de

marketing, ela tem que ser divulgada e

inserida na mídia. Vivemos uma época de

grandes corporações globais dominando o

mercado local e internacional. Grandes

marcas ditam o que é essencial para o

consumo. Isso necessariamente não quer

dizer que tal marca vai te fazer feliz, mas ela

vai dar status, prestígio, vai te destacar em

relação ao resto dos mortais. Dirigir uma

Ferrari, utilizar um iPhone 7, ter um relógio

Rolex, são símbolos de poder e conquista.

Com a arte acontece algo similar. Tal artista

se sobressai, não apenas pelos méritos

estéticos, mas também por um sucesso de

marketing bem planejado. Carreiras são

construídas por um grupo que influencia e

que dita as regras do jogo. São eles: grupos

de investidores em arte, galeristas de peso,

colecionadores, curadores de museus e

salões. Este grupo domina e sanciona quem

está dentro ou fora, influenciando as

cotações. A precificação das obras pode

chegar a valores estratosféricos. É como

manipular a bolsa de valores, só que de uma

maneira muito mais livre, pois a avaliação é

sempre subjetiva e fora de regras rígidas de

mercado. Como auditar uma obra de arte

superfaturada?

I n t e r e s s a n t e e s t a l i s t a d e “ A s 2 4

personalidades do mercado das artes que

você precisa conhecer em 2017”. Link: AQUI

O filme A Corrida da Arte (La Ruée vers l'Art)

foi inspirado no livro “Grandes e pequenos

segredos do mundo da arte”, das jornalistas

Danièle Granet e Catherine Lamour, e mostra

com olhos de leigo curioso o funcionamento

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do mercado da arte contemporânea no

mundo.

Acompanhando as escritoras, a diretora

francesa Marianne Lamour passeou pelas

principais feiras de arte do mundo, leilões e

ateliês, conversando com galeristas,

colecionadores e artistas, em situações

muitas vezes desconcertantes, mas

reveladoras do modo como os agentes

desse mercado atuam. Vale a pena assistir

este documentário. LINK DO FILME

Vale a pena ler o livro “O tubarão de 12

milhões de dólares”, de Don Thompson,

para entender melhor os bastidores deste

mercado estranho. A publicação parte de

um outro recorde na área: a venda de "The

Physical Impossibility of Death in the Mind

of Someone Living" (a impossibilidade física

da morte na mente de alguém vivo), um

tubarão num tanque de formol, do inglês

Damien Hirst, por US$ 12 milhões, em 2004.

No livro, Thompson usa o caso para analisar

os negócios da arte com uma terminologia

recorrente do mercado de luxo: a marca.

Para ele, o preço foi conseguido porque o

galerista Larry Gagosian intermediou a

venda da peça, então pertencente ao

colecionador Charles Saatchi.

Então, é isso. Não basta ser um gênio ou

ganhar premiações em 20 salões de arte.

Hoje a arte, assim como todas as atividades

humanas, faz parte de um sistema

manipulado por grupos poderosos e

influentes. Isto não significa que nós artistas

devemos jogar a toalha. Mas com certeza, o

mérito é algo relativo neste jogo de gente

grande. Entender um pouco este intricado

mercado já é um passo importante para os

artistas buscarem suas opções e estratégias

pessoais. E também compreender que sua

assinatura tem que ser trabalhada como uma

marca e ter um plano de marketing forte. Se

sua intenção for essa: entrar de cabeça para

conquistar um espaço no mercado de arte.

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ARTISTAS SELECIONADOS

ALCIMONE TERRÃO

ALYSON CARVALHO

ÂMAR SOUKI

ANA BÁRBARA

ANA SENRA

ANDRÉ ARAÚJO

ANDREZA NAZARETH

ARNALDOH MARTIINZ

CARMEN FREAZA

CRISTINA VELOSO

DAVID AGUILAR

D’ASSUNÇÃO

ENIO GODOY

FLÁVIA GOMIDE

FRED MENDES

GEORG VINÉ BOLDT

GORETTI GOMIDE

HENRIQUE MONTEIRO

ISABEL GÁLERY

IZABEL MELO

J. L. MOREIRA

J. VASCONCELLOS

JOSÉ AMÂNCIO DE CARVALHO

2017

ABERTURA 31 DE MAIO (A PARTIR DAS 20 HORAS ABERTO AO PÚBLICO)

Visitação: de segunda a sexta das 14 às 19 horas , sábados e domingos

das 10 às 16 horas • Programação e inscrição para oficinas e palestras

a partir de 15/5 disponível no site oficial www.arcobh.com.br e no Galpão.

R. Cachoeira Dourada, 44 - Santa Efigênia - B.Horizonte - MG

LEO BRIZOLA

LÍDIA MIQUELÃO

LISIANNY MARINHO

LUCIANA CAMPOS HORTA

LUCIMARY TOLEDO

MARA ULHOA

MARCOS ANTHONY

MARCOS TOLEDO

MARIA NAZARÉ SANTOS

MARILENE BERNARDO

MAX HENRIQUE

NANCY PASSOS

NATI SAÉZ

NORMA VILELA

REGINA DANTAS

RICO MACIEL

ROBERTA STEHLING

RODRIGO ELOI

SANTTO

SONIA ASSIS

WALTER MULLER

ARTISTAS ESTRANGEIROS

FLORENCE JOLY

HONÓRIO RODRIGUES

JORGE CABRERA

ARTISTAS ORGANIZADORES

FERNANDO MEDEIROS

RAQUEL ISIDORO

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evista

REVISÃO

Ana Cecília

FichaTécnica

TÍTULO:

Revista ARCO / Arte & Afins

DIREÇÃO

Diretor Geral: Fernando Medeiros

Diretora de Jornalismo/

Editora Chefe:

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Ricardo Cardenas

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