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REBOSTEIO nº 0

Revista REBOSTEIO DIGITAL número zero - entrevistas, arte, cultura, poesia, literatura, comportamento, cinema, fotografia, artes plásticas.

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FOTOGRAFIA<br />

Laura Aidar<br />

CINEMA<br />

Nirton Venancio<br />

CONTO<br />

Rodrigo Machado Freire<br />

POESIA / ILUSTRAÇÃO /<br />

ARTES PLÁSTICAS<br />

0<strong>nº</strong><br />

Entrevista: Adrian Dorado


Alguns dos mais completos<br />

e satisfatórios<br />

man ray<br />

trabalhos de arte<br />

têm sido produzidos<br />

quando seus autores<br />

não têm idéia<br />

da criação<br />

de uma obra de arte.<br />

Isso<br />

se<br />

estabelece<br />

em<br />

nós.<br />

É a faculdade de interpretação<br />

peculiar da mente<br />

humana que vê a arte.


é nóis!<br />

Editores<br />

Mercedes Lorenzo<br />

Rubens Guilherme Pesenti<br />

Contato<br />

revistarebosteio@gmail.com<br />

Colaboradores<br />

Adrian Dorado<br />

Bento Moura<br />

Henrique Pimenta<br />

Laura Aidar<br />

Marcantonio Costa<br />

Nathalia Bertazi<br />

Nirton Venancio<br />

Paulo de Toledo<br />

Rodrigo Machado Freire<br />

Thiago Cervan<br />

Tonho Oliveira<br />

Willian Delarte<br />

<strong>REBOSTEIO</strong><br />

é uma publicação digital<br />

sem fins lucrativos, construída com a<br />

ajuda de colaboradores voluntários,<br />

independente, apartidária e voltada<br />

para a divulgação de arte em geral,<br />

de idéias, provocações neurais e<br />

expansão dos sentidos... não temos<br />

todas as respostas, mas estamos<br />

interessados nas melhores perguntas.<br />

Ufa! finalmente chegamos ao número zero. Pode parecer<br />

pouco, mas todo zero é um ovo. Todo ovo é o novo que<br />

prenuncia, esperamos, uma longa jornada.<br />

Mais que uma revista, nós pretendemos uma blitz nas<br />

idéias arejadas, na divulgação dessas idéias, invenções e<br />

pirações, contra o marasmo conservador e sentimentalóide<br />

que grassa a maior parte da produção dita «artística» no<br />

mundo virtual.<br />

Gostaríamos de poder romper com o isolamento que<br />

limita grandes trabalhos a círculos de amigos ou de gente<br />

simpática. Para isso, neste número (e nos seguintes),<br />

fizemos um caldeirão com o caldo daqueles menos<br />

conhecidos, porém de trabalho vigoroso e inovador,<br />

junto a gente mais tarimbada e com larga experiência em<br />

mostras, publicações e prêmios, sem que com isso façam o<br />

jogo sujo desse mercado. Aqui não queremos celebridades.<br />

Aqui queremos celebração!<br />

04 17fotografia<br />

entrevista<br />

11filmes<br />

20<br />

brasil<br />

by tonho<br />

08conto<br />

12poesia<br />

16<br />

10<br />

crônicas<br />

& agudas<br />

21<br />

crônicas cotidianas/<br />

rebosteio lasca o pau<br />

artes<br />

plásticas<br />

22<br />

23<br />

rebosteio in dica/<br />

rebostivemos lá<br />

espaço<br />

perdido<br />

24<br />

antipropaganda<br />

<strong>REBOSTEIO</strong> fica imensamente feliz pelo entendimento que os colaboradores tiveram da proposta da revista,<br />

disponibilizando sua arte generosamente. Um agradecimento especial ao poeta Henrique Pimenta, que mesmo<br />

estando hospitalizado nos atendeu prontamente. Torcemos pelo seu rápido restabelecimento.<br />

página 03


ebosteio entrevista<br />

Para nossa primeira edição entrevistamos nuestro hermano argentino,<br />

artista de múltiplas linguagens, cidadão do mundo e com uma experiência<br />

de vida ímpar. Com a generosidade que lhe é peculiar, atendeu de maneira<br />

muito carinhosa ao nosso pedido, disponibilizando inclusive as imagens<br />

que ilustram esta matéria.<br />

adrian dorado<br />

Gostaríamos<br />

de uma breve biografia, com<br />

você se apresentando para os leitores com<br />

suas próprias palavras.<br />

Artista visual, poeta, cozinheiro e<br />

performer.<br />

Latinoamericano nascido em 1946,<br />

sobrevivente, medianamente ileso, a várias<br />

ditaduras. Desde 1963 até a presente data<br />

realizei 35 mostras individuais e um sem<br />

número de coletivas. Formei o grupo EL<br />

OJO DEL RIO (O Olho do Rio) com<br />

Alberto Delmonte, Juián Agosta e Adolfo<br />

Nigro; e o coletivo HUMUS com Bastón<br />

Diaz, Pájaro Gomez e Dora Isdatne. Criei<br />

a fundação e coleção do Museu de Arte do<br />

Sul, que recentemente doou ao Museu<br />

Saavedra. Instalei esculturas de grande<br />

porte em diversos espaços públicos e<br />

expus em vários países do mundo.<br />

Possuem obra de minha autoria coleções<br />

privadas e oficiais do meu país e do<br />

estrangeiro. Desde 1971 recebi prêmios<br />

privados e nacionais em distintas<br />

disciplinas. Em 1989 ganhei, na Argentina,<br />

o Primeiro Prêmio do Museu Sívori,<br />

oportunidade em que entendi que minha<br />

obra mantinha uma relação negativa com a<br />

competência, então decidi não enviá-la<br />

mais a concursos e, consequentemente,<br />

abandonei o trabalho de jurado para os que<br />

me convocavam, ou seja, deixei de julgar a<br />

outros artistas.<br />

Farto das indignidades palacianas e do<br />

autoritarismo dos agentes culturais, em<br />

1992 me retirei de perambular pelo poder<br />

do mercado e da corte de obsequiosos,<br />

iludindo, desta maneira, o reino da<br />

mediocridade. Ganhei muito menos<br />

dinheiro, mas de algum lado que<br />

desconheço, me outorgaram o grande<br />

prêmio da paz interior. Não o troco por<br />

nenhum outro.<br />

página 04


ebosteio entrevista<br />

Como foi sendo forjado o ser humano<br />

Adrian Dorado a partir de suas relações<br />

familiares, pessoais e amorosas? Como<br />

esse ser humano se coloca dentro do<br />

mundo hoje?<br />

Tive o privilégio de ter nascido em uma<br />

família de artistas: avô poeta, pai ator, mãe<br />

pintora, tia mezzo soprano, tios pianista e<br />

violinista… o que produziu uma vivência,<br />

desde pequeno, de que a vida e a arte são<br />

uma mesma coisa. Casado sempre com<br />

artistas e com três filhos, um de cada<br />

matrimônio, que vivem também em torno<br />

da arte. Essas condições me colocaram às<br />

margens do mundo de hoje dominado pelo<br />

mercantilismo e materialismo, mas no<br />

centro do que eu entendo que é a vida. Pois<br />

aprendi que somos<br />

energia=vida=arte=espiritualidade (e esta<br />

afirmativa exclui as religiões,<br />

precisamente).<br />

Quais as influências que sofreu e como<br />

elas te levaram a fazer a arte (pintura e<br />

poesia) que você faz hoje? Como foi essa<br />

trajetória?<br />

Minha formação artística fora de casa<br />

começou na Real Academia de San<br />

Fernando, em Madri, Espanha, nos anos de<br />

1961 a 1963. Muito contraditória ou<br />

polarizada, pois na escola dominava uma<br />

escolástica facista de representação<br />

figurativa, enquanto que entre meus<br />

professores, por fora da escola, pertenciam<br />

aos movimentos do informalismo espanhol.<br />

Me marcaram, além dos modernos como<br />

Kandinsky, Miró, Picasso… Tapies,<br />

Millares, de la Vedova, Dubufett, o<br />

existencialismo de Sartre, Camus…<br />

Também Joyce, Macedonio Fernandez,<br />

Oliverio Girondo… Whitman, os beatniks<br />

Allen Ginsberg, Kerouac, Ferlinghetti…<br />

Julio Cortazar, Olga Orozco, Pizarnik,<br />

Pessoa… também a prática de psicoterapia<br />

com alucinógenos, depois como hippie, as<br />

experiências com xamãs, a mescalina, o<br />

peyote, a ayhuasca, ainda que também em<br />

épocas posteriores mas distantes dessas<br />

citadas, fui sensível às leituras políticorevolucionárias:<br />

me interessou a aventura<br />

cubana, Che, Marx, Mao… depois chegou<br />

a psicanálise, Freud, Lacan, Adler, Reich,<br />

até por fim Carl Gustav Jung. Depois<br />

vieram os franceses Focault, Derrida,<br />

Delleuze e Guattari, Barthes, o italiano<br />

Vattimo, etc. Também me interessei pela<br />

produção latinoamericana, em especial me<br />

fascinam os brasileiros de todos os tempos<br />

e em todas as disciplinas. Leio muito e me<br />

é impossível saber em que medida tudo<br />

isso me influencia… ah! E apreciador de<br />

música também, então a música tem na<br />

minha formação uma parte muito<br />

importante.<br />

Você que tem uma obra aberta, inclusive<br />

disponibilizada na internet... como foi sua<br />

vivência dentro desse mundo mais<br />

fechado e acadêmico dos museus? Você<br />

ainda mantém esse trabalho? Como é<br />

hoje a sua relação com os museus?<br />

A obra disponível na internet me fez<br />

assumir que não somos proprietários de<br />

nada nesta vida, assim é<br />

que, se alguma obra de<br />

minha autoria serve para<br />

encadear-se com outras,<br />

bem vinda a oportunidade.<br />

De maneira direta ou mais<br />

indiretamente a cultura<br />

ocidental se constituiu<br />

assim, por mais copyright<br />

ou direito autoral que se<br />

tente sustentar. Além do<br />

mais, estou muito<br />

interessado na criação<br />

conjunta com outros<br />

artistas. Fiz intervenções<br />

em vários grupos e incluo<br />

constantemente a outros<br />

para participar de minhas<br />

produções, pois aprendo<br />

muito com as inter-relações<br />

que se geram entre os autênticos criadores.<br />

O mundo dos museus contextualiza de<br />

uma maneira bastante protocolar e<br />

retumbante, portanto convida ao uso da<br />

página 05


ebosteio entrevista<br />

creio que a América Latina, em especial a<br />

América do Sul, hoje tem uma<br />

oportunidade excelente em todos os<br />

âmbitos para exercer uma presença<br />

importante. Sinto um momento de grande<br />

energia, de grande abertura criativa,<br />

enquanto observo ao hemisfério norte, que<br />

hegemonizou até agora a história, num<br />

momento de franco perigeu. Vejo-os<br />

extremamente epigonais, e salvo algumas<br />

exceções, não têm muito por dizer além<br />

dos seus requentados conhecidos.<br />

Até que ponto a ditadura militar<br />

argentina e as demais na américa latina<br />

atingiram seu trabalho? Em função da<br />

ditadura, você como artista e a sua obra<br />

sofreram transformações? Como elas se<br />

deram?<br />

ironia, ou à apresentação paradoxal, aos<br />

visitantes, dos mesmos estrabismos que<br />

estas instituições propiciam. Retóricas<br />

nada desdenháveis na hora de questionar e<br />

transgredir olhares mais esclerosados, e de<br />

demonstrar à sociedade os prejuízos com<br />

os quais sujeita e aliena seus membros.<br />

Neste preciso momento estamos expondo,<br />

com um grupo em um museu de Belas<br />

Artes e assim temos atuado. Há cinema<br />

experimental, música, performance, poesia<br />

visual, sonora e pintura junto com<br />

escultura. Tudo em função de visualizar<br />

desde um ponto humorístico, até bufo eu<br />

diria, as estreitezas dos discursos únicos.<br />

Apelamos à polissemia do absurdo.<br />

Sendo você um cidadão do mundo, como<br />

você se vê nesse cenário como artista sulamericano?<br />

Como você vê atualmente a<br />

poesia e a arte latino-americana no<br />

cenário internacional?<br />

Poderia me referir somente ao mundo<br />

ocidental do qual tenho informação mais<br />

vivencial do que do oriental, e sobre este<br />

Muito cruamente eu tive que amadurecer.<br />

Pelas minhas convicções ideológicas, fui<br />

detido pelos paramilitares da Triple A, em<br />

fins de 1975 e salvei minha vida<br />

“milagrosamente”, o que me obrigou ao<br />

auto-exílio em meu próprio país<br />

encontrando todas as portas de<br />

participação laboral fechadas por pertencer<br />

às famosas “listas negras”. Minha<br />

produção tomou essa coloração e não é das<br />

épocas mais felizes que tenho lembrança,<br />

muito pelo contrário. Tampouco, apesar de<br />

ter mantido uma forte produção, não<br />

considero o mais destacável de toda minha<br />

obra o que pude ter realizado nessa época.<br />

Depois do advento da democracia, ela se<br />

tornou, igual que eu, mais lúdica, criativa e<br />

expansiva. Aí eu pude sair à vista do<br />

público e lograr certo reconhecimento<br />

como artista. Comecei a atuar no mercado<br />

da arte e dos prêmios até que na falaz<br />

expansão “exitosa” e como consequência<br />

das exigências do meio plástico e meu<br />

desejo de correspondência, tive dois<br />

infartos do miocárdio e uma cirurgia<br />

cardíaca. Mas isso já foi durante a<br />

democracia. O sistema capitalista com sua<br />

página 06


ebosteio entrevista<br />

suposta excelência e suas competências é<br />

verdadeiramente uma merda.<br />

Existe uma grande distância cultural e<br />

artística entre Brasil e Argentina, como<br />

em quase toda a América Latina. Sendo<br />

você visivelmente tão próximo e<br />

interessado no Brasil, como vê esse<br />

distanciamento que ainda existe?<br />

Custa-me um pouco enquadrar-me dentro<br />

de certas generalizações. Não posso ver<br />

distâncias culturais porque creio que a arte<br />

se apoia na subjetividade e aí só encontro<br />

indivíduos, e como tais, singulares. Cada<br />

qual com suas características diferenciadas.<br />

Prefiro submergir nas propostas que cada<br />

artista ou poeta possui e é representativo<br />

de “sua” cultura. Todas elas me resultam<br />

impossíveis de comparar.<br />

É certo que me encontro muito interessado<br />

e comprometido com o Brasil, ao que amo<br />

tanto como à Argentina. Amo também<br />

(será por ser “borderline”?), as periferias<br />

onde se misturam as frequências e se<br />

geram situações que contêm manifestações<br />

de variadas índoles. Maravilham-me as<br />

surpresas que estas mesclas originam<br />

descrendo dos distanciamentos, pois uma<br />

posição semelhante nos obrigaria a partir<br />

da idealização de uma cultura ao modo de<br />

modelo ou padrão, à qual alguns acedem<br />

com maior facilidade ou proximidade que<br />

outros. Esse conceito é próprio dos<br />

colonizadores de todos os tempos e de<br />

diferentes latitudes, que se auto intitularam<br />

centrais e referenciais. Interessam-me<br />

todas as culturas, desde as guaranis até as<br />

mesoamericanas pré-colombianas, e as<br />

transformações que sofreram sob o jugo<br />

colonizador renascentista a princípio, e o<br />

despotismo devastador norte americano<br />

posteriormente, até nossos dias.<br />

cada qual com seus encantos, permitindo<br />

as transformações que ocasiona, sempre, a<br />

presença do outro. Creio que aí<br />

encontraremos um caminho próspero.<br />

Desejaria que abordássemos a<br />

experimentação como signo do nosso<br />

tempo, com inusitada liberdade, e que<br />

outorgássemos à arte todas as qualidades<br />

morfogenéticas e revelatórias que possui,<br />

transportando esses mecanismos a outros<br />

terrenos, entre eles o campo da<br />

convivência fraterna. Não penso que<br />

estejamos longe disso. Ou pelo menos<br />

estamos a caminho.<br />

Como você vê o retorno que obtém das<br />

pessoas que tem contato com a sua obra<br />

pela internet? Como se dá essa relação?<br />

Minha experiência na internet é<br />

particularmente rica, estabeleci relações<br />

das mais variadas e diversas ordens. No<br />

criativo, me conectei com outros artistas<br />

com graus de compromisso e profundidade<br />

crescentes, e até trabalhei em conjunto não<br />

somente “on line”, senão também na vida<br />

“real”. Desfruto de poder convidar a outros<br />

artistas para participarem de distintos<br />

eventos, e recebo de volta também<br />

convites a outras convocatórias, como é o<br />

caso com vocês (da revista) e que, desde já,<br />

agradeço com todo meu carinho.<br />

Para você, o que seria hoje a produção<br />

cultural e artística da Argentina? E do<br />

Brasil?<br />

A pergunta me ultrapassa, pois não tenho<br />

tanta informação, sobretudo da extensão de<br />

um país como o Brasil, para essas<br />

avaliações, e ademais pelo que expus<br />

anteriormente.<br />

Ficaria encantado que nos atrevessemos a<br />

fluir mais em parceria, que perdessemos os<br />

medos de identidades rígidas e fictícias, e<br />

deixássemos que a energia criativa nos<br />

atravessasse, pondo-nos a todos os<br />

criadores para cozinhar num mesmo fogo,<br />

página 07


foto: mercedes lorenzo<br />

Júlia<br />

e<br />

Luíza<br />

Minhas filhas ainda são metade, são a<br />

metade que sou, e moram dentro de mim<br />

com todo os seus pensamentos confusos<br />

e teorias sobre milhares de amores<br />

ensandecidos para que eu me jogue na<br />

cama de algum, para que elas nasçam.<br />

Enquanto tiver minhas filhas dentro de<br />

mim serei abrigo infindo dessa ânsia<br />

animal de procriar, enfeitada por esse<br />

léxico manobrado por pensamentos<br />

maravilhosos, tortuosos e coloridos,<br />

delas. Porém minhas filhas ainda fazem<br />

parte de minha completa solidão, e eu,<br />

por razão, nem quero tê-las. Porque sou<br />

poeta e não reprodutor. Que seria de mim<br />

sem minhas filhas tão instigadoras aqui<br />

dentro? Nenhuma poesia eu seria,<br />

nenhuma teria feito. O amor que posso<br />

ter por Júlia e Luíza neste mundo é,<br />

justamente, não trazê-las pra fora. É<br />

deixá-las sempre com chance, como uma<br />

eterna possibilidade. Que só assim... Ai!<br />

Sei que me vou dessa vida, mas nunca<br />

irei de Júlia e Luíza, pelo amor que<br />

tenho por elas, jamais sentirão falta de<br />

mim.<br />

E olha que Júlia e Luíza quase deram um<br />

jeito de virem ao mundo. Elas usaram<br />

meus braços em dedicatórias desenhadas,<br />

em homenagens tamanhas a uma “mãe”,<br />

que até eu me encantei com seus feitos.<br />

Quase me convenceram de que a vida é<br />

linda e dessa forma quase as deixo<br />

saírem. Fizeram minhas pernas rodarem,<br />

como nunca antes, em busca de alguém,<br />

meus olhos vislumbraram estados pouco<br />

conhecidos a milhas de onde resido - Ê,<br />

Minas! Meninas! Bagunceiras! Que<br />

confusão está o escritório e em minha<br />

cabeça nem se fala! Fizeram minha mão<br />

desenhar nas paredes outra vez e que eu<br />

fosse capaz de sacrifícios intensos longe


contos<br />

de casa, da tia, da vó e das primas<br />

delas. Achei até que a vida tinha algum<br />

propósito, e elas bem sabem que<br />

quando penso isso é que elas têm mais<br />

chances de virem para cá.<br />

Eu perguntei a Júlia e Luíza porque<br />

tanto elas querem vir ao mundo.<br />

Querem vir porque até então é só de<br />

viverem por através de meus olhos,<br />

querem saciar a curiosidade do livre<br />

arbítrio. “Nós, seres, sempre curiosos!”<br />

Curiosas do que podem ser quando<br />

somadas a outra parte - a mãe - e<br />

sabem que preciso de uma (mãe) para a<br />

geração. Querem vir também porque<br />

enjoam de mim quando não quero têlas<br />

nascidas, pois é justamente quando<br />

não amo, quando sou egoísta e vivo só<br />

para mim, me destruindo. “Nossa!<br />

Como choram feito crianças, Júlia e<br />

Luíza, quando me drogo”. Chateiam-se<br />

e amanhecem depressivas. Viver<br />

dentro de mim passa a ser triste, e digo<br />

a elas que não venham mesmo porque<br />

assim é aqui fora também. Porém,<br />

insistem na vontade de unirem-se em<br />

embrião. É a natureza delas esse querer<br />

e, concomitantemente, a minha é de<br />

amar, porque é evidente que essas<br />

meninas são parte de minha natureza.<br />

Como lá de dentro escolhem uma mãe,<br />

Júlia e Luíza? E quando elas escolhem...<br />

quem me conhece sabe que não meço<br />

esforços por elas.<br />

Agora, desiludido, as consolo. Digo<br />

que assim é melhor porque a vida que<br />

elas não têm aqui fora é exatamente a<br />

dor que eu trago aqui dentro, e elas<br />

conhecem muito bem dessa. Enquanto<br />

elas dormem, vou contar baixinho para<br />

todos: Júlia e Luíza são duas almas<br />

lindas que habitam meu ser, que<br />

tentam sempre nascer para serem<br />

também abrigos de outras almas.<br />

Querem ter carne. Júlia e Luíza<br />

conversam sempre comigo, sempre<br />

sendo - eu e elas - a primeira pessoa.<br />

Por que haveria de afastar-me de Júlia<br />

e Luíza? Elas são as partes que amo e<br />

as partes temporais em quais amo, pois<br />

meu amor não é nada senão qualquer<br />

manifesto delas. São minha capacidade<br />

de amar. É! Como todos já devem ter,<br />

obviamente, percebido, Júlia e Luíza<br />

ainda não nasceram, mas existem. As<br />

duas vezes que amei, juro, nada mais<br />

foram que pedidos inegáveis e<br />

mimados de minhas filhas, portanto é<br />

com toda a sinceridade que digo:<br />

EXISTEM!<br />

Escrevo esta parte sobre elas enquanto<br />

elas dormem cansadas, hoje quando<br />

acordarem terei para elas uma triste<br />

notícia a dar com lágrimas nos olhos:<br />

Serei só eu mesmo por esta vida,<br />

queridas! Elas vão chorar e gritar como<br />

nunca ou, talvez, como uma outra vez<br />

fizeram.<br />

O resto de todas as obras minhas,<br />

gráficas, sonoras, dedicadas a uma mãe<br />

ou não, todas, na realidade, sempre<br />

foram feitas por Júlia e Luíza, porque<br />

eu, o Rodrigo, sou muito destrutivo e<br />

nunca tive poesia nenhuma em meu<br />

caminho solitário. Vou dizer mais uma<br />

coisa, ainda baixinho: Toda minha<br />

angústia e dificuldade vem de não<br />

querer deixar que venham de qualquer<br />

forma Júlia e Luíza, porque eu amo<br />

tanto elas que nem precisariam existir<br />

para amá-las assim, e se elas não<br />

existissem de fato eu não poderia<br />

provar esse amor que termino de<br />

mostrar. Vou ali fora enquanto elas<br />

dormem.<br />

Júlia, Luíza e Rodrigo<br />

RODRIGO MACHADO<br />

FREIRE<br />

eu não / e a que me nego pouco<br />

importa!/ digo de minha áspera<br />

inconstância: eu não / antes de<br />

tudo digo “eu não” - nisto vou<br />

agarrado / porque antes de tudo<br />

já não me perdoam “não ser” /<br />

e me inventam “imperdoável” /<br />

“eu não” é como eu sou /<br />

não principalmente.<br />

http://entimesmado.blogspot.com<br />

página 09


^<br />

cronicas & agudas<br />

pess oal.<br />

NATHALIA BERTAZI<br />

Nno sou poeta. Sou prolixa.<br />

A verdade é que débuts sempre me<br />

tiram o sono e é de mim divagar –<br />

gosto do me deixar levar: sou do<br />

tipo de pessoa que perde tempo<br />

sonhando!<br />

Sonho com as coisas que quero que<br />

aconteçam.<br />

Fotografo.<br />

E escrevo! Ponto.<br />

Gosto de luz, natural, e gosto das<br />

letras.<br />

Despretensiosa, interessada.<br />

Expressionista! Simplesmente<br />

complicada – uma insatisfeita<br />

(muitos reclamam!) crônica, que se<br />

contenta com, muito, pouco!: um<br />

paradoxo!<br />

Pra vida, eu busco a verdade. É só.<br />

http://nathaliabertazi.tumblr.com<br />

página 10<br />

“Cuidado para não dizer muito eu isso/eu<br />

aquilo, quando estiverem escrevendo,<br />

pessoal!” ensinava a professora da quinta,<br />

série, ao apresentar dissertação: nada<br />

sabíamos de energia potencial, já nos<br />

alertavam os riscos de gerar ação.<br />

Sim, somos uma explosão de eus! E isso<br />

me encanta! Constantemente ignoro os<br />

conselhos da querida tia e parto logo pro<br />

pessoal: se sou eu escrevendo, óbvio que<br />

sou eu quem penso, eu quem acho, mas é<br />

poderosa essa supercompetência que essa<br />

superindividualidade dos millennials<br />

(nossa!) sugere. (A sugestão é algo<br />

poderoso. É disso que mais gosto na minha<br />

geração: da capacidade de afirmar, de<br />

bater-no-peito! (gosto até do quanto nos<br />

esforçamos em crer que isso baste! -<br />

mistura de culpa, gana, medo e coragem?).<br />

E é disso também que menos gosto: da<br />

sabichanisse (o quanto sabemos, de tudo!),<br />

nossa pretensa arrogância. Somos os<br />

iludidos mais conscientes da história!)<br />

De fino trato, crescemos acostumados a ter<br />

acesso, ter vez, ter voz! E somos rápidos!<br />

Aprendemos rápido! Guardamos pouco.<br />

Vivemos tudo ao mesmo tempo e nada o<br />

tempo todo!<br />

(Intolerantes: só não suportamos o nãosofrimento-por-não-saber-de-mais.)<br />

Angustiados crônicos , estamos sempre<br />

incomodados, incomodando: loucos de<br />

palestra, erguemos a mão e damos a cara à<br />

tapa (pouco importa se nem tangenciamos<br />

o assunto, se transgredimos, chocamos, se<br />

divagamos alheios a ditaduras, das<br />

liberdades, adoramos a de expressão: nossa<br />

pureza é o falar, nosso fazer, não me<br />

intimido, é um tanto fraco.)<br />

Se não queremos fronteiras, já não temos<br />

limites.<br />

Frustrados, marchamos muito ideologia?<br />

Eu quero uma, pra viver! , pouco<br />

encontramos. Nos resistem? Quiçá, quiçá,<br />

quiçá (seríamos mais que exércitos de<br />

pontos de exclamação!!!)<br />

Pretensiosos, claro! Tem-se a consciência<br />

de que se pode ser e, graças a trato um<br />

tanto indulgente desde que se conhece por<br />

gente, é-se (eu, particularmente sou<br />

linguista subversiva sempre que posso!)!<br />

Somos quem podemos ser sonhos que<br />

podemos ter: mitos de super-mulheres,<br />

homens-maravilha, umbigocêntricos,<br />

miramos alto, nem sempre saltamos, mas<br />

sempre nos apropriamos dos<br />

intensificadores, das coisas, do mundo! E<br />

acho bonito isso: essa indulgência do ser!<br />

É quase um novo hedonismo. Um<br />

hedonismo angustiado, culpado, préocupado<br />

(todos ambientalistas, socialistas,<br />

espiritualizados religiosos, deus nos livre!,<br />

veganos, antibombas, antindústriafarmacêutica,<br />

antifeiúra que é dor!),<br />

sofrido, deliciosamente prazeroso,<br />

engajado, sem sentido, permissivo...<br />

Enganados, sem tempos mortos!<br />

Mundo edulcorado!<br />

Penso que a gente nem se sabe, mas tenho<br />

certeza que a gente é (nem a metade do<br />

tanto de tudo que dizem/esperam da gente,<br />

mas nem é isso: o que importa é que a<br />

gente sente)! É tudo. É só.<br />

Só. Todos juntos, somos só presentes!<br />

Autêntica. Acho que se fosse uma,<br />

pareceria essa! - Quase uma mocinha!, lá<br />

vou eu, dissertando do alto do meu<br />

egoísmo, cheia de imposições, oposições,<br />

distrações e muito pesar... Bastante<br />

reflexiva.<br />

Silencio.<br />

Enquanto isso, no lustre do castelo: tem<br />

quase cinco aninhos e, já de salto-alto,<br />

carrega o batom... Essa eu quero ver!<br />

(pra harmonizar: two of us dos Beatles!)


foto: divulgação<br />

filmes<br />

Broderick Crawford (1911-1986) foi<br />

um ator que marcou muito a minha<br />

infância. Em cinquenta anos de carreira<br />

fez mais de sessenta filmes. Sua<br />

interpretação mais conhecida foi em<br />

"A grande ilusão" (All the king's men),<br />

dirigido por Robert Rossen em 1949,<br />

que lhe deu o Oscar de ator pela<br />

interpretação de um político corrupto<br />

(com perdão da redundância). Não<br />

confundir com o filme de Jean Renoir,<br />

o homônimo "A grande ilusão", dirigido<br />

em 1939, com outro grande ator, Jean<br />

Gabin. O filme de Rossen teve uma<br />

refilmagem há uns quatro anos,<br />

mantendo o mesmo título pra aumentar<br />

a confusão, com direção do ilustre<br />

desconhecido Steven Zaillan, com Sean<br />

Penn no papel que coube a Crawford.<br />

Outro grande papel de Crawford foi<br />

em "A trapaça" (Il bidone), que<br />

Federico Fellini dirigiu em 1955, onde<br />

na Itália pós-guerra faz um romântico<br />

vigarista que vive de pequenos<br />

golpes, aproveitando-se da ingenuidade<br />

de camponeses. É um Fellini da fase<br />

que mais gosto, neo-realista. Mas não<br />

foram os filmes de Broderick (eu<br />

adorava pronunciar esse nome...) que<br />

ficaram na minha memória tão<br />

fortemente, e sim o seriado para a<br />

televisão, "A patrulha rodoviária"<br />

(Highway Patrol), produzido nos anos<br />

50 e que assisti em meados dos anos 60<br />

pela TV Ceará, retransmissora da Tupi,<br />

em Fortaleza. Não sei se vi todos, mas<br />

foram mais de 150 episódios, onde o<br />

ator fazia o Sargento Dan Matthews,<br />

um policial severo, implacável,<br />

carismático, quase um John Wayne do<br />

asfalto, com a vantagem que não<br />

matava índios. Perseguia os bandidos,<br />

prendia-os e os entregava à justiça. E<br />

essa minha admiração por Broderick<br />

Crawford era reconfortante porque eu<br />

tinha um tio que era a cara dele. Ver<br />

Meu tio prendeu<br />

um cara<br />

um me remetia ao outro. O meu<br />

mocinho tinha o biótipo de um homem<br />

comum, próximo de mim, sangue do<br />

meu sangue. E assim o cinema e a<br />

infância me jogavam no mundo<br />

próximo e distante da fantasia, da<br />

idealização inquebrantável que as<br />

crianças fazem de um mundo perfeito.<br />

Crescer tem o inconveniente de que o<br />

mundo fica muito palpável, o dia é<br />

irreversível, a esperança necessita de<br />

muito esforço.<br />

Não sei se meu filho hoje espelha o tio<br />

dele no capitão Nascimento de "Tropa<br />

de Elite". Não sei quantos Wagner<br />

Moura são possíveis para um Broderick<br />

Crawford. Não somos mais as crianças<br />

diante da tv em preto-e-branco, e a<br />

fantasia é digitalizada em megapixels,<br />

a um palmo de nosso olho<br />

tridimensional. Tão perto, tão longe.<br />

NIRTON VENANCIO<br />

Livros publicados:<br />

"Roteiro dos pássaros", poesia,<br />

"Cumplicidade poética", poesia<br />

Filmes realizados:<br />

"Um cotidiano perdido no<br />

tempo", curta, ficção<br />

"Walking on water", média,<br />

documentário,<br />

"O último dia de sol", curta,<br />

ficção,<br />

"Dim", curta, documentário<br />

Blogs:<br />

www.nirtonvenancio.blogspot.com<br />

www.olharpanoramico.blogspot.com<br />

Atividades recentes:<br />

projeto em andamento, longa<br />

documentário "Pessoal do Ceará"<br />

página 11


poesia<br />

EGO EXCÊNTRICO<br />

Porque tenho uma certidão,<br />

Porque tenho certa idade,<br />

Não tenho uma imensidão<br />

de vale.<br />

Tenho validade.<br />

Porque tenho um ego findo.<br />

Porque tenho um ser fugindo<br />

pelas horas.<br />

Porque agora você vindo<br />

já me encontrará<br />

indo embora.<br />

9,80665 m/s²<br />

Só me ocorrem palavras<br />

mais pesadas que o ar:<br />

a gravidade<br />

não lhes permite<br />

:<br />

:<br />

:<br />

:<br />

:<br />

: cantar<br />

GRAFEMAS ORGÂNICOS<br />

Grafias<br />

na pele do rosto:<br />

marcas de nascença<br />

&<br />

Marcas do oposto.<br />

marcantonio costa - poemas<br />

APARENTEMENTE<br />

Estou estendido no meu cotidiano<br />

Como um faquir sobre uma cama<br />

De pregos.<br />

TRAÇOS<br />

Olhos<br />

Com lírios.<br />

Na pele<br />

Apelos<br />

Rentes.<br />

Na face<br />

Posfácios<br />

Rubros.<br />

Na boca<br />

Os antecedentes.<br />

Os outros se iludem a respeito<br />

Dos meus próprios riscos.<br />

EDÊNICO<br />

Cidade pequena,<br />

Pequena cidade,<br />

Os olhares<br />

Das tuas janelas<br />

Querem me desnudar.<br />

Mas por que me devo<br />

Envergonhar<br />

Com essa falta de siso<br />

Se sempre quis voltar<br />

Nu ao paraíso?<br />

Marcantonio Costa, natural do estado do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado).<br />

Escreve nos blogs Diário Extrovertido (http://diarioextrovertido.blogspot.com/)<br />

e O Azul Temporário (http://azultemporario.blogspot.com/)<br />

Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte (http://cadernosdearte.wordpress.com/)<br />

página 12


poesia<br />

thiago cervan - poesia visual<br />

Thiago Cervan, (1985) é filho das ruas cinzas do ABC. Corintiano, poeta, articulador cultural, músico frustrado e videomaker.<br />

http://poemavisual.tumblr.com/post/8933230748<br />

página 13


poesia<br />

De quatro<br />

Me bota nos meus quartos, no conciso.<br />

Me entuba, tô de quatro, dando bola.<br />

Sub judice, que sou do seu juízo,<br />

nas pregas, nas vizinhas da aranhola.<br />

Um pau na minha bunda, que eu preciso.<br />

Meu reto, tua rola, não me enrola.<br />

Me pega por detrás, no paraíso,<br />

na porta dos portais, na portinhola.<br />

Entrego o derrière para a bicada:<br />

teu pinto, um amoral, que é grande paca,<br />

cansado de tabaca, quer tabu.<br />

Me ataca sem carinho, de estocada.<br />

Me ataca com teu monstro bate-estaca.<br />

É tão gostoso o tal tomar no cu!<br />

Jezebel Duvivier<br />

para Aldir Blanc<br />

Não és assim um tipo que eu evite...<br />

Se um nume não me lembras... nem o nome...<br />

ao menos o teu corpo não me some<br />

à soma que eu invisto na suíte.<br />

Exijo o que machuca, que me excite,<br />

a ripa na cacunda, que carcome,<br />

dois dias de jejum, a tua fome,<br />

dois dias sem beber, só no rebite.<br />

Algemas nos teus pulsos, como jóias,<br />

permitem que te apóies nas tipóias<br />

devido ao que excedi, e que te agrada.<br />

Amar é tão estranho, um exagero:<br />

o verde dos teus olhos a não ver o<br />

romper sanguinolento da alvorada.<br />

henrique pimenta - sonetos<br />

Amiguinhas de infância<br />

De volta ao mesmo quarto cor-de-rosa,<br />

desejo de um poema que me invade<br />

e, infante, predomina sobre a prosa.<br />

Impúbere menina que se evade<br />

nos sonhos, nas bonecas, na mimosa<br />

colega dos trabalhos para Sade,<br />

Masoch e seus asseclas, carinhosa,<br />

gentil, muito ditosa, pois: é a idade.<br />

Se fingem de crianças e severas<br />

madrastas no brinquedo de vodu.<br />

Seus traumas pacificam-se entre feras...<br />

Recebo-te em meu colo, bom chicote,<br />

depois a acupuntura no meu cu<br />

e após o vibrador na minha glote.<br />

Florescência<br />

Eu penso que dois homens por desejo<br />

comum e por motivos que não cabem<br />

a mim a descrição nem o versejo,<br />

discreto no que penso, que se acabem<br />

os dois com suas línguas em adejo,<br />

seus abissos, enfim, que lhes desabem,<br />

compete-lhes as sobras, o sobejo,<br />

compete-lhes somente, que eles sabem<br />

a angústia, a ansiedade, a contenção,<br />

se devem imprimir mais energia,<br />

se céleres estoques a parti-los.<br />

Só sei de um pormenor, o coração<br />

confunde-lhes num só, pela magia<br />

do que se fez: unção de seus pistilos.<br />

Henrique Pimenta é professor e militar mas, antes de tudo, é um poeta que adora ler, principalmente textos poéticos e, depois, tenta<br />

plagiar os bons textos que lê. Esse processo de mimese é a sua razão de ser e de existir como literato.<br />

Sua produção mais recente pode ser lida nos blogues Bar do Bardo e Brazil's Haiku.<br />

http://dobardo.blogspot.com/ e http://brazilshaiku.blogspot.com/<br />

Os sonetos aqui apresentados fazem parte de seu primeiro livro, “99 sonetos sacanas e 1 canção de amor”, a ser publicado em breve.<br />

página 14


poesia<br />

seis<br />

zero<br />

mãe<br />

três<br />

morte<br />

sexo<br />

love<br />

paulo de toledo - poesia visual<br />

Paulo de Toledo é autor dos livros de poemas A Rubrica do Inventor (Multifoco, 2011), Hi-Kretos e Outras Abstrações<br />

(Sereia Ca(n)tadora, 2011) e 51 Mendicantos (Éblis, 2007). Publicou as plaquetes Desequilivro (2009) (em parceria com<br />

Rodrigo de Souza Leão) e si lence is (Arqueria Editorial, 2010). É colaborador e integrante do Conselho Editorial da revista<br />

Babel Poética.<br />

Blog: http://paulodetoledo.blogspot.com<br />

página 15


artes plasticas<br />

´<br />

Bento, além de pintar e escrever,<br />

é apaixonado por plantas.<br />

Nasceu em Jacobina-Bahia,<br />

em 1971, e atualmente vive em<br />

São Paulo com seu labrador,<br />

Caymmi.<br />

Jornada<br />

bento moura<br />

http://www.bentomoura.net/index.html<br />

Diálogo<br />

Melancolia 18 – Digital<br />

Marcantonio, natural do Rio de Janeiro,<br />

é artista plástico e poeta.<br />

Estes trabalhos são da sua série<br />

Melancolia, exposta no Centro<br />

Cultural Correios / RJ em 2009.<br />

http://cadernosdearte.wordpress.com/<br />

marcantonio costa<br />

Melancolia 36+<br />

página 16


ensaio fotografico<br />

´<br />

Da descoberta<br />

Por meio de experienciações lúdicas<br />

em uma atmosfera que permeia entre<br />

a realidade e o sonho,<br />

a menina descobre um mundo<br />

particular cheio de possibilidades.<br />

Um mundo poético no qual é possível<br />

olhar para o infinito sem ser visto.<br />

Este trabalho tem influência das pinturas<br />

impressionista e surrealista, sobretudo<br />

do pintor belga René Magritte, pelos<br />

elementos que permitem uma brincadeira<br />

de esconde. Outra artista plástica<br />

importante na construção do trabalho<br />

é Lygia Clark com suas obras sensoriais.<br />

No âmbito terapêutico, há referências<br />

fortes do universo de Carl Gustav Jung,<br />

psicanalista suíço fundador da psicologia<br />

junguiana muito interessado pelos mitos<br />

e sonhos humanos.<br />

Dentro da fotografia há diversas pessoas<br />

que influenciaram o projeto de alguma forma,<br />

a mais notável é a fotógrafa americana<br />

Alessandra Sanguinetti, com sua série<br />

The Adventures of Guille and Belinda<br />

and the Enigmatic Meaning of Their Dreams,<br />

na qual explora de maneira surpreendente<br />

o mundo de duas irmãs. A fotógrafa russa<br />

que hoje reside nas Bahamas, Elena Kalis,<br />

com suas meninas debaixo d'água, também<br />

foi um belo presente imagético que serviu<br />

de inspiração para esse trabalho autoral.<br />

Laura Aidar<br />

http://lauraaidar.carbonmade.com/


´<br />

ensaio fotografico


asil by tonho<br />

A presença do trabalho de Tonho aqui se justifica<br />

não apenas por ser ele o nosso mano véio, mas<br />

principalmente pela qualidade de sua obra.<br />

O acabamento primoroso, o humor sutil, a poesia<br />

e o sonho de suas ilustrações, retratam esse Brasil<br />

violentado, colorido e nonsense. Tonho faz com<br />

que seguremos as pontas.<br />

TONHO OLIVEIRA<br />

É arquiteto e ilustrador, premiado pelo<br />

Salão de Humor de Piracicaba/SP.<br />

Mora em Porto Alegre, RS.<br />

Seus trabalhos podem ser vistos aqui:<br />

http://6vqcoisa.blogspot.com/<br />

http://arquitetonho.blogspot.com/


^<br />

cronicas do cotidiano<br />

CLT<br />

Conto de Thiago Cervan<br />

Me estourei por dentro, já operei um<br />

monte de hérnia. Puxei móveis dos outros.<br />

Não é móvel que nem esse, assim,<br />

levinho. Móvel pesado, tapete pesado.<br />

Aqueles tapetes enormes. Já trabalhei<br />

muito na vida, e olha só, agora to aqui<br />

enchendo o saco dos outros, não tenho<br />

nem meu canto pra morrer em paz.<br />

Vou fazer oitenta e dois, sou do vinte e<br />

nove, faz as contas ai. É oitenta e dois<br />

mesmo, em março. Minhas patroas sempre<br />

foram boas comigo, só que trabalhar não<br />

dá camisa pra ninguém, olha só, trabalhei<br />

tanto e agora to aqui.<br />

Seu avô nunca botou a mão em mim, mas<br />

também era um imprestável, não punha<br />

dinheiro em casa. Eu que me virava.<br />

Costurava pra fora, fazia a roupa da sua<br />

mãe e das suas tias.<br />

Nunca tive preguiça. Graças a Deus as três<br />

tiveram bons casamentos, tão com os filhos<br />

criados. Filho criado, trabalho dobrado.<br />

Agora você vê, sua tia sempre deu de tudo<br />

pra aqueles moleques, nunca tiveram luxo,<br />

mas nunca passaram fome, nem frio, nem<br />

nada. E agora você veja só o que o Fábio<br />

fez,vê se pode, foi se envolver logo com<br />

bandido, foi roubar a casa dos outros.<br />

Agora tá lá, preso. Coitada da sua tia.<br />

Espero que ele tome jeito quando sair de<br />

lá. Vai ser difícil agora pra ele arrumar<br />

emprego decente.<br />

Ninguém quer pegar quem já foi preso,<br />

você sabe né que fica com o nome sujo e<br />

ninguém quer assinar a carteira.<br />

Thiago Cervan (1985) é filho<br />

das ruas cinzas do ABC.<br />

Corintiano, poeta, articulador<br />

cultural, músico frustrado e<br />

videomaker.<br />

http://poemavisual.tumblr.com/<br />

rebosteio lasca o pau<br />

Censura no facebook<br />

O Rebosteio deste número não poderia se furtar<br />

a uma discussão que vem ganhando espaço<br />

numa das redes sociais mais frequentadas<br />

ultimamente. E nada melhor para início de<br />

conversa do que a frase de Fellini sobre a<br />

censura, gentilmente resgatada pelo nosso chapa<br />

Sylvio de Alencar:<br />

"A censura é um modo de reconhecer a própria<br />

debilidade e insuficiência intelectual. Ela é sempre um<br />

instrumento político, nunca intelectual. Instrumento<br />

intelectual é a crítica, que pressupõe o conhecimento<br />

do que se julga e/ou, do que se recusa. Criticar não é<br />

destruir, mas pôr um objeto em seu justo lugar entre os<br />

demais objetos. Censurar é destruir, ou ao menos, se<br />

opôr ao processo real."<br />

(Tradução de José Antonio Pinheiro Machado -1983)<br />

Na penúltima semana deste mês de novembro,<br />

chamou-nos a atenção uma postagem do<br />

renomado fotógrafo Fernando Rabelo, que<br />

no seu mural do FB dizia o seguinte:<br />

"Pela segunda vez o Facebook removeu arbitrariamente<br />

uma foto artística do mural de fotografias históricas e me<br />

suspendeu por 24 horas em represália à publicação. A<br />

foto era da bela atriz francesa Emmanuelle Béart, musa<br />

do cinema francês, postada anteontem. Hoje foi um dia<br />

doloroso e desanimador, por imposição deles tive que<br />

remover quase 20 fotos icônicas por exibirem de alguma<br />

forma parte do corpo humano desnudo. O não<br />

cumprimento da ordem implicaria na suspensão<br />

definitiva da minha conta no FB. Foram removidas<br />

imagens de grandes profissionais que fizeram e fazem a<br />

história da fotografia: Helmut Newton, Bettina Rheims,<br />

Bob Wolfenson, Steven Meisel, Brassaï, Rui Mendes,<br />

Diane Arbus, Marcelo Carnaval, Maurice Guibert, Man<br />

Ray, Bruce Weber, entre outros. Infelizmente o cinismo<br />

e o denuncismo continuam prevalecendo no mundo."<br />

Ora, sabemos por experiência própria que<br />

além do denuncismo dos pseudo-moralistas<br />

(que não diferenciam sequer a arte da<br />

pornografia), o facebook também mantém<br />

uma política de censura prévia, como foi o caso<br />

desta revista que vos fala, que por causa do seu<br />

nome não foi aprovada para ter uma página de<br />

divulgação na dita cuja rede social.<br />

Afora isso foi amplamente noticiado durante a<br />

semana que passou, o fato de que essa rede<br />

detecta todos os passos e arquiva todos os sites<br />

visitados pelo usuário que possua uma conta lá,<br />

mesmo que esteja deslogado (ou seja, sem fazer<br />

o login com sua senha supostamente secreta).<br />

Diante disso, consideramos que essas posturas<br />

retrógradas é o que eles querem projetar para o<br />

nosso futuro. E ponderamos que a coisa é bem<br />

mais perigosa que uma simples atitude<br />

conservadora... e perguntamos a vocês: o que<br />

eles desejariam fazer com as informações sobre<br />

as pessoas que vigiam na rede? Que precedentes<br />

você acredita que se abrem numa questão como<br />

esta? Deixamos a batata quente no ar.<br />

página 21


ebosteio in dica<br />

página 22<br />

A dica deste número é um poema do Delarte<br />

divulgado aqui em primeira mão,<br />

abrindo caminho para um novo<br />

projeto poético todo inspirado pelo<br />

imaginário, religião e cultura Afro-brasileiras.<br />

HIPERESTESIA<br />

Rebentar a flor esquecida<br />

Implodir o marasmo dos dias<br />

Extrair o mel sujo da vida<br />

na convulsa colméia fria<br />

do tempo<br />

Pincelar com velhas cores<br />

novos quadros sem moldura<br />

Deixar o som em delírio<br />

ser a glória e contracultura<br />

do vento<br />

Mil olhos de gato<br />

Mil fuças de cão<br />

Aroma estelar de canções esculpidas<br />

Sabor secular de danças lidas<br />

no picadeiro-espelho de telas fluidas<br />

Pintura dramática: CONTRAVENÇÃO<br />

Reviver deuses-do-povo<br />

(genésicos, pós-modernos)<br />

que com mil sentidos loucos<br />

louvam cor<br />

a luz<br />

e acordes do<br />

I<br />

N<br />

F<br />

E<br />

R<br />

N<br />

O<br />

Autor do livro de poesia “Sentimento do Fim do Mundo”<br />

(Editora Patuá, 2011), foi um dos vencedores do II e III Festival de<br />

Literatura da Faculdade de Letras da USP na<br />

categoria “Conto”. Graduado pela mesma<br />

faculdade, foi também finalista da 15ª edição<br />

do “Projeto Nascente” (USP). Escreve<br />

periodicamente no jornal “Conteúdo<br />

Independente” e em seu blog:<br />

http://williandelarte.blogspot.com/<br />

rebostivemos lá<br />

* crédito da foto:<br />

Serra Azul - http://www.flickr.com/photos/serrazul/6352651761/in/set-72157628022946717/<br />

Rebostivemos em 16/11 último, no show de<br />

apresentação da Balada Literária, no SESC<br />

Pinheiros. O Showversa de Augusto de Campos.<br />

Chegando lá com duas horas e meia de antecedência,<br />

visto que o site dizia que os ingressos seriam<br />

retirados no local somente uma hora antes do<br />

espetáculo, fomos informados que eles haviam sido<br />

todos vendidos durante a semana, e o teatro estava<br />

absolutamente lotado. Depois da indignação, e de<br />

reclamar sobre a dubiedade das informações do site...<br />

lidar com a frustração de não poder ver o Augusto, o<br />

Cid Campos e a Adriana Calcanhoto de pertinho, foi<br />

um balde de água fria.<br />

Mesmo assim fomos pedir informações sobre os<br />

eventos do resto da semana, e eis que haviam<br />

desistências de última hora: conseguimos os dois<br />

últimos ingressos em cadeiras contíguas e bem perto<br />

do palco.<br />

Aí começou a magia.<br />

E esse homem de 80 anos completos entra e fica o<br />

tempo todo em pé, falando com aquela clareza que<br />

lhe é peculiar, com aquela congruência de quem já<br />

tem um mundo dentro de si, com absoluta<br />

tranquilidade e o jeito mais simples possível.<br />

Firmeza na voz e nas mãos, firmeza em sua poesia<br />

concreta e em suas intraduções de outros tantos<br />

poetas maravilhosos.<br />

Cid Campos, seu filho, ali bem pertinho pra entrar<br />

certeiro com o violão e as intervenções no telão,<br />

nesse mix multimídia que vinha historicamente de<br />

Daniel Artaud até Caetano Veloso... desfilando<br />

Kilkerry, Mallarmé, Pound, Dickinson, Lewis Carrol,<br />

e tanta gente boa que minha cabeça ainda enlevada<br />

não consegue lembrar direito agora.<br />

Adriana com aquela voz de veludo, sutilmente deu o<br />

toque de leveza indispensável.<br />

Tudo perfeito, tudo repleto da verve desse senhor<br />

que ali, ao vivo, não me intimidava tanto como<br />

quando peguei pela primeira vez em mãos o seu<br />

“Não”, o livro da capa azul.<br />

Concretíssima, além da poesia, foi a emoção e o nó<br />

na garganta ao vê-lo sair, ao final do show, para a<br />

coxia abraçado com seu filho, e saber que eu tinha<br />

acabado de presenciar um dos mais belos e<br />

importantes momentos da história da poesia<br />

brasileira.


john cage<br />

todo silêncio<br />

está grávido de som


anti-propaganda<br />

concepção e fotografia: mercedes lorenzo

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