REBOSTEIO nº 0
Revista REBOSTEIO DIGITAL número zero - entrevistas, arte, cultura, poesia, literatura, comportamento, cinema, fotografia, artes plásticas.
Revista REBOSTEIO DIGITAL número zero - entrevistas, arte, cultura, poesia, literatura, comportamento, cinema, fotografia, artes plásticas.
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FOTOGRAFIA<br />
Laura Aidar<br />
CINEMA<br />
Nirton Venancio<br />
CONTO<br />
Rodrigo Machado Freire<br />
POESIA / ILUSTRAÇÃO /<br />
ARTES PLÁSTICAS<br />
0<strong>nº</strong><br />
Entrevista: Adrian Dorado
Alguns dos mais completos<br />
e satisfatórios<br />
man ray<br />
trabalhos de arte<br />
têm sido produzidos<br />
quando seus autores<br />
não têm idéia<br />
da criação<br />
de uma obra de arte.<br />
Isso<br />
se<br />
estabelece<br />
em<br />
nós.<br />
É a faculdade de interpretação<br />
peculiar da mente<br />
humana que vê a arte.
é nóis!<br />
Editores<br />
Mercedes Lorenzo<br />
Rubens Guilherme Pesenti<br />
Contato<br />
revistarebosteio@gmail.com<br />
Colaboradores<br />
Adrian Dorado<br />
Bento Moura<br />
Henrique Pimenta<br />
Laura Aidar<br />
Marcantonio Costa<br />
Nathalia Bertazi<br />
Nirton Venancio<br />
Paulo de Toledo<br />
Rodrigo Machado Freire<br />
Thiago Cervan<br />
Tonho Oliveira<br />
Willian Delarte<br />
<strong>REBOSTEIO</strong><br />
é uma publicação digital<br />
sem fins lucrativos, construída com a<br />
ajuda de colaboradores voluntários,<br />
independente, apartidária e voltada<br />
para a divulgação de arte em geral,<br />
de idéias, provocações neurais e<br />
expansão dos sentidos... não temos<br />
todas as respostas, mas estamos<br />
interessados nas melhores perguntas.<br />
Ufa! finalmente chegamos ao número zero. Pode parecer<br />
pouco, mas todo zero é um ovo. Todo ovo é o novo que<br />
prenuncia, esperamos, uma longa jornada.<br />
Mais que uma revista, nós pretendemos uma blitz nas<br />
idéias arejadas, na divulgação dessas idéias, invenções e<br />
pirações, contra o marasmo conservador e sentimentalóide<br />
que grassa a maior parte da produção dita «artística» no<br />
mundo virtual.<br />
Gostaríamos de poder romper com o isolamento que<br />
limita grandes trabalhos a círculos de amigos ou de gente<br />
simpática. Para isso, neste número (e nos seguintes),<br />
fizemos um caldeirão com o caldo daqueles menos<br />
conhecidos, porém de trabalho vigoroso e inovador,<br />
junto a gente mais tarimbada e com larga experiência em<br />
mostras, publicações e prêmios, sem que com isso façam o<br />
jogo sujo desse mercado. Aqui não queremos celebridades.<br />
Aqui queremos celebração!<br />
04 17fotografia<br />
entrevista<br />
11filmes<br />
20<br />
brasil<br />
by tonho<br />
08conto<br />
12poesia<br />
16<br />
10<br />
crônicas<br />
& agudas<br />
21<br />
crônicas cotidianas/<br />
rebosteio lasca o pau<br />
artes<br />
plásticas<br />
22<br />
23<br />
rebosteio in dica/<br />
rebostivemos lá<br />
espaço<br />
perdido<br />
24<br />
antipropaganda<br />
<strong>REBOSTEIO</strong> fica imensamente feliz pelo entendimento que os colaboradores tiveram da proposta da revista,<br />
disponibilizando sua arte generosamente. Um agradecimento especial ao poeta Henrique Pimenta, que mesmo<br />
estando hospitalizado nos atendeu prontamente. Torcemos pelo seu rápido restabelecimento.<br />
página 03
ebosteio entrevista<br />
Para nossa primeira edição entrevistamos nuestro hermano argentino,<br />
artista de múltiplas linguagens, cidadão do mundo e com uma experiência<br />
de vida ímpar. Com a generosidade que lhe é peculiar, atendeu de maneira<br />
muito carinhosa ao nosso pedido, disponibilizando inclusive as imagens<br />
que ilustram esta matéria.<br />
adrian dorado<br />
Gostaríamos<br />
de uma breve biografia, com<br />
você se apresentando para os leitores com<br />
suas próprias palavras.<br />
Artista visual, poeta, cozinheiro e<br />
performer.<br />
Latinoamericano nascido em 1946,<br />
sobrevivente, medianamente ileso, a várias<br />
ditaduras. Desde 1963 até a presente data<br />
realizei 35 mostras individuais e um sem<br />
número de coletivas. Formei o grupo EL<br />
OJO DEL RIO (O Olho do Rio) com<br />
Alberto Delmonte, Juián Agosta e Adolfo<br />
Nigro; e o coletivo HUMUS com Bastón<br />
Diaz, Pájaro Gomez e Dora Isdatne. Criei<br />
a fundação e coleção do Museu de Arte do<br />
Sul, que recentemente doou ao Museu<br />
Saavedra. Instalei esculturas de grande<br />
porte em diversos espaços públicos e<br />
expus em vários países do mundo.<br />
Possuem obra de minha autoria coleções<br />
privadas e oficiais do meu país e do<br />
estrangeiro. Desde 1971 recebi prêmios<br />
privados e nacionais em distintas<br />
disciplinas. Em 1989 ganhei, na Argentina,<br />
o Primeiro Prêmio do Museu Sívori,<br />
oportunidade em que entendi que minha<br />
obra mantinha uma relação negativa com a<br />
competência, então decidi não enviá-la<br />
mais a concursos e, consequentemente,<br />
abandonei o trabalho de jurado para os que<br />
me convocavam, ou seja, deixei de julgar a<br />
outros artistas.<br />
Farto das indignidades palacianas e do<br />
autoritarismo dos agentes culturais, em<br />
1992 me retirei de perambular pelo poder<br />
do mercado e da corte de obsequiosos,<br />
iludindo, desta maneira, o reino da<br />
mediocridade. Ganhei muito menos<br />
dinheiro, mas de algum lado que<br />
desconheço, me outorgaram o grande<br />
prêmio da paz interior. Não o troco por<br />
nenhum outro.<br />
página 04
ebosteio entrevista<br />
Como foi sendo forjado o ser humano<br />
Adrian Dorado a partir de suas relações<br />
familiares, pessoais e amorosas? Como<br />
esse ser humano se coloca dentro do<br />
mundo hoje?<br />
Tive o privilégio de ter nascido em uma<br />
família de artistas: avô poeta, pai ator, mãe<br />
pintora, tia mezzo soprano, tios pianista e<br />
violinista… o que produziu uma vivência,<br />
desde pequeno, de que a vida e a arte são<br />
uma mesma coisa. Casado sempre com<br />
artistas e com três filhos, um de cada<br />
matrimônio, que vivem também em torno<br />
da arte. Essas condições me colocaram às<br />
margens do mundo de hoje dominado pelo<br />
mercantilismo e materialismo, mas no<br />
centro do que eu entendo que é a vida. Pois<br />
aprendi que somos<br />
energia=vida=arte=espiritualidade (e esta<br />
afirmativa exclui as religiões,<br />
precisamente).<br />
Quais as influências que sofreu e como<br />
elas te levaram a fazer a arte (pintura e<br />
poesia) que você faz hoje? Como foi essa<br />
trajetória?<br />
Minha formação artística fora de casa<br />
começou na Real Academia de San<br />
Fernando, em Madri, Espanha, nos anos de<br />
1961 a 1963. Muito contraditória ou<br />
polarizada, pois na escola dominava uma<br />
escolástica facista de representação<br />
figurativa, enquanto que entre meus<br />
professores, por fora da escola, pertenciam<br />
aos movimentos do informalismo espanhol.<br />
Me marcaram, além dos modernos como<br />
Kandinsky, Miró, Picasso… Tapies,<br />
Millares, de la Vedova, Dubufett, o<br />
existencialismo de Sartre, Camus…<br />
Também Joyce, Macedonio Fernandez,<br />
Oliverio Girondo… Whitman, os beatniks<br />
Allen Ginsberg, Kerouac, Ferlinghetti…<br />
Julio Cortazar, Olga Orozco, Pizarnik,<br />
Pessoa… também a prática de psicoterapia<br />
com alucinógenos, depois como hippie, as<br />
experiências com xamãs, a mescalina, o<br />
peyote, a ayhuasca, ainda que também em<br />
épocas posteriores mas distantes dessas<br />
citadas, fui sensível às leituras políticorevolucionárias:<br />
me interessou a aventura<br />
cubana, Che, Marx, Mao… depois chegou<br />
a psicanálise, Freud, Lacan, Adler, Reich,<br />
até por fim Carl Gustav Jung. Depois<br />
vieram os franceses Focault, Derrida,<br />
Delleuze e Guattari, Barthes, o italiano<br />
Vattimo, etc. Também me interessei pela<br />
produção latinoamericana, em especial me<br />
fascinam os brasileiros de todos os tempos<br />
e em todas as disciplinas. Leio muito e me<br />
é impossível saber em que medida tudo<br />
isso me influencia… ah! E apreciador de<br />
música também, então a música tem na<br />
minha formação uma parte muito<br />
importante.<br />
Você que tem uma obra aberta, inclusive<br />
disponibilizada na internet... como foi sua<br />
vivência dentro desse mundo mais<br />
fechado e acadêmico dos museus? Você<br />
ainda mantém esse trabalho? Como é<br />
hoje a sua relação com os museus?<br />
A obra disponível na internet me fez<br />
assumir que não somos proprietários de<br />
nada nesta vida, assim é<br />
que, se alguma obra de<br />
minha autoria serve para<br />
encadear-se com outras,<br />
bem vinda a oportunidade.<br />
De maneira direta ou mais<br />
indiretamente a cultura<br />
ocidental se constituiu<br />
assim, por mais copyright<br />
ou direito autoral que se<br />
tente sustentar. Além do<br />
mais, estou muito<br />
interessado na criação<br />
conjunta com outros<br />
artistas. Fiz intervenções<br />
em vários grupos e incluo<br />
constantemente a outros<br />
para participar de minhas<br />
produções, pois aprendo<br />
muito com as inter-relações<br />
que se geram entre os autênticos criadores.<br />
O mundo dos museus contextualiza de<br />
uma maneira bastante protocolar e<br />
retumbante, portanto convida ao uso da<br />
página 05
ebosteio entrevista<br />
creio que a América Latina, em especial a<br />
América do Sul, hoje tem uma<br />
oportunidade excelente em todos os<br />
âmbitos para exercer uma presença<br />
importante. Sinto um momento de grande<br />
energia, de grande abertura criativa,<br />
enquanto observo ao hemisfério norte, que<br />
hegemonizou até agora a história, num<br />
momento de franco perigeu. Vejo-os<br />
extremamente epigonais, e salvo algumas<br />
exceções, não têm muito por dizer além<br />
dos seus requentados conhecidos.<br />
Até que ponto a ditadura militar<br />
argentina e as demais na américa latina<br />
atingiram seu trabalho? Em função da<br />
ditadura, você como artista e a sua obra<br />
sofreram transformações? Como elas se<br />
deram?<br />
ironia, ou à apresentação paradoxal, aos<br />
visitantes, dos mesmos estrabismos que<br />
estas instituições propiciam. Retóricas<br />
nada desdenháveis na hora de questionar e<br />
transgredir olhares mais esclerosados, e de<br />
demonstrar à sociedade os prejuízos com<br />
os quais sujeita e aliena seus membros.<br />
Neste preciso momento estamos expondo,<br />
com um grupo em um museu de Belas<br />
Artes e assim temos atuado. Há cinema<br />
experimental, música, performance, poesia<br />
visual, sonora e pintura junto com<br />
escultura. Tudo em função de visualizar<br />
desde um ponto humorístico, até bufo eu<br />
diria, as estreitezas dos discursos únicos.<br />
Apelamos à polissemia do absurdo.<br />
Sendo você um cidadão do mundo, como<br />
você se vê nesse cenário como artista sulamericano?<br />
Como você vê atualmente a<br />
poesia e a arte latino-americana no<br />
cenário internacional?<br />
Poderia me referir somente ao mundo<br />
ocidental do qual tenho informação mais<br />
vivencial do que do oriental, e sobre este<br />
Muito cruamente eu tive que amadurecer.<br />
Pelas minhas convicções ideológicas, fui<br />
detido pelos paramilitares da Triple A, em<br />
fins de 1975 e salvei minha vida<br />
“milagrosamente”, o que me obrigou ao<br />
auto-exílio em meu próprio país<br />
encontrando todas as portas de<br />
participação laboral fechadas por pertencer<br />
às famosas “listas negras”. Minha<br />
produção tomou essa coloração e não é das<br />
épocas mais felizes que tenho lembrança,<br />
muito pelo contrário. Tampouco, apesar de<br />
ter mantido uma forte produção, não<br />
considero o mais destacável de toda minha<br />
obra o que pude ter realizado nessa época.<br />
Depois do advento da democracia, ela se<br />
tornou, igual que eu, mais lúdica, criativa e<br />
expansiva. Aí eu pude sair à vista do<br />
público e lograr certo reconhecimento<br />
como artista. Comecei a atuar no mercado<br />
da arte e dos prêmios até que na falaz<br />
expansão “exitosa” e como consequência<br />
das exigências do meio plástico e meu<br />
desejo de correspondência, tive dois<br />
infartos do miocárdio e uma cirurgia<br />
cardíaca. Mas isso já foi durante a<br />
democracia. O sistema capitalista com sua<br />
página 06
ebosteio entrevista<br />
suposta excelência e suas competências é<br />
verdadeiramente uma merda.<br />
Existe uma grande distância cultural e<br />
artística entre Brasil e Argentina, como<br />
em quase toda a América Latina. Sendo<br />
você visivelmente tão próximo e<br />
interessado no Brasil, como vê esse<br />
distanciamento que ainda existe?<br />
Custa-me um pouco enquadrar-me dentro<br />
de certas generalizações. Não posso ver<br />
distâncias culturais porque creio que a arte<br />
se apoia na subjetividade e aí só encontro<br />
indivíduos, e como tais, singulares. Cada<br />
qual com suas características diferenciadas.<br />
Prefiro submergir nas propostas que cada<br />
artista ou poeta possui e é representativo<br />
de “sua” cultura. Todas elas me resultam<br />
impossíveis de comparar.<br />
É certo que me encontro muito interessado<br />
e comprometido com o Brasil, ao que amo<br />
tanto como à Argentina. Amo também<br />
(será por ser “borderline”?), as periferias<br />
onde se misturam as frequências e se<br />
geram situações que contêm manifestações<br />
de variadas índoles. Maravilham-me as<br />
surpresas que estas mesclas originam<br />
descrendo dos distanciamentos, pois uma<br />
posição semelhante nos obrigaria a partir<br />
da idealização de uma cultura ao modo de<br />
modelo ou padrão, à qual alguns acedem<br />
com maior facilidade ou proximidade que<br />
outros. Esse conceito é próprio dos<br />
colonizadores de todos os tempos e de<br />
diferentes latitudes, que se auto intitularam<br />
centrais e referenciais. Interessam-me<br />
todas as culturas, desde as guaranis até as<br />
mesoamericanas pré-colombianas, e as<br />
transformações que sofreram sob o jugo<br />
colonizador renascentista a princípio, e o<br />
despotismo devastador norte americano<br />
posteriormente, até nossos dias.<br />
cada qual com seus encantos, permitindo<br />
as transformações que ocasiona, sempre, a<br />
presença do outro. Creio que aí<br />
encontraremos um caminho próspero.<br />
Desejaria que abordássemos a<br />
experimentação como signo do nosso<br />
tempo, com inusitada liberdade, e que<br />
outorgássemos à arte todas as qualidades<br />
morfogenéticas e revelatórias que possui,<br />
transportando esses mecanismos a outros<br />
terrenos, entre eles o campo da<br />
convivência fraterna. Não penso que<br />
estejamos longe disso. Ou pelo menos<br />
estamos a caminho.<br />
Como você vê o retorno que obtém das<br />
pessoas que tem contato com a sua obra<br />
pela internet? Como se dá essa relação?<br />
Minha experiência na internet é<br />
particularmente rica, estabeleci relações<br />
das mais variadas e diversas ordens. No<br />
criativo, me conectei com outros artistas<br />
com graus de compromisso e profundidade<br />
crescentes, e até trabalhei em conjunto não<br />
somente “on line”, senão também na vida<br />
“real”. Desfruto de poder convidar a outros<br />
artistas para participarem de distintos<br />
eventos, e recebo de volta também<br />
convites a outras convocatórias, como é o<br />
caso com vocês (da revista) e que, desde já,<br />
agradeço com todo meu carinho.<br />
Para você, o que seria hoje a produção<br />
cultural e artística da Argentina? E do<br />
Brasil?<br />
A pergunta me ultrapassa, pois não tenho<br />
tanta informação, sobretudo da extensão de<br />
um país como o Brasil, para essas<br />
avaliações, e ademais pelo que expus<br />
anteriormente.<br />
Ficaria encantado que nos atrevessemos a<br />
fluir mais em parceria, que perdessemos os<br />
medos de identidades rígidas e fictícias, e<br />
deixássemos que a energia criativa nos<br />
atravessasse, pondo-nos a todos os<br />
criadores para cozinhar num mesmo fogo,<br />
página 07
foto: mercedes lorenzo<br />
Júlia<br />
e<br />
Luíza<br />
Minhas filhas ainda são metade, são a<br />
metade que sou, e moram dentro de mim<br />
com todo os seus pensamentos confusos<br />
e teorias sobre milhares de amores<br />
ensandecidos para que eu me jogue na<br />
cama de algum, para que elas nasçam.<br />
Enquanto tiver minhas filhas dentro de<br />
mim serei abrigo infindo dessa ânsia<br />
animal de procriar, enfeitada por esse<br />
léxico manobrado por pensamentos<br />
maravilhosos, tortuosos e coloridos,<br />
delas. Porém minhas filhas ainda fazem<br />
parte de minha completa solidão, e eu,<br />
por razão, nem quero tê-las. Porque sou<br />
poeta e não reprodutor. Que seria de mim<br />
sem minhas filhas tão instigadoras aqui<br />
dentro? Nenhuma poesia eu seria,<br />
nenhuma teria feito. O amor que posso<br />
ter por Júlia e Luíza neste mundo é,<br />
justamente, não trazê-las pra fora. É<br />
deixá-las sempre com chance, como uma<br />
eterna possibilidade. Que só assim... Ai!<br />
Sei que me vou dessa vida, mas nunca<br />
irei de Júlia e Luíza, pelo amor que<br />
tenho por elas, jamais sentirão falta de<br />
mim.<br />
E olha que Júlia e Luíza quase deram um<br />
jeito de virem ao mundo. Elas usaram<br />
meus braços em dedicatórias desenhadas,<br />
em homenagens tamanhas a uma “mãe”,<br />
que até eu me encantei com seus feitos.<br />
Quase me convenceram de que a vida é<br />
linda e dessa forma quase as deixo<br />
saírem. Fizeram minhas pernas rodarem,<br />
como nunca antes, em busca de alguém,<br />
meus olhos vislumbraram estados pouco<br />
conhecidos a milhas de onde resido - Ê,<br />
Minas! Meninas! Bagunceiras! Que<br />
confusão está o escritório e em minha<br />
cabeça nem se fala! Fizeram minha mão<br />
desenhar nas paredes outra vez e que eu<br />
fosse capaz de sacrifícios intensos longe
contos<br />
de casa, da tia, da vó e das primas<br />
delas. Achei até que a vida tinha algum<br />
propósito, e elas bem sabem que<br />
quando penso isso é que elas têm mais<br />
chances de virem para cá.<br />
Eu perguntei a Júlia e Luíza porque<br />
tanto elas querem vir ao mundo.<br />
Querem vir porque até então é só de<br />
viverem por através de meus olhos,<br />
querem saciar a curiosidade do livre<br />
arbítrio. “Nós, seres, sempre curiosos!”<br />
Curiosas do que podem ser quando<br />
somadas a outra parte - a mãe - e<br />
sabem que preciso de uma (mãe) para a<br />
geração. Querem vir também porque<br />
enjoam de mim quando não quero têlas<br />
nascidas, pois é justamente quando<br />
não amo, quando sou egoísta e vivo só<br />
para mim, me destruindo. “Nossa!<br />
Como choram feito crianças, Júlia e<br />
Luíza, quando me drogo”. Chateiam-se<br />
e amanhecem depressivas. Viver<br />
dentro de mim passa a ser triste, e digo<br />
a elas que não venham mesmo porque<br />
assim é aqui fora também. Porém,<br />
insistem na vontade de unirem-se em<br />
embrião. É a natureza delas esse querer<br />
e, concomitantemente, a minha é de<br />
amar, porque é evidente que essas<br />
meninas são parte de minha natureza.<br />
Como lá de dentro escolhem uma mãe,<br />
Júlia e Luíza? E quando elas escolhem...<br />
quem me conhece sabe que não meço<br />
esforços por elas.<br />
Agora, desiludido, as consolo. Digo<br />
que assim é melhor porque a vida que<br />
elas não têm aqui fora é exatamente a<br />
dor que eu trago aqui dentro, e elas<br />
conhecem muito bem dessa. Enquanto<br />
elas dormem, vou contar baixinho para<br />
todos: Júlia e Luíza são duas almas<br />
lindas que habitam meu ser, que<br />
tentam sempre nascer para serem<br />
também abrigos de outras almas.<br />
Querem ter carne. Júlia e Luíza<br />
conversam sempre comigo, sempre<br />
sendo - eu e elas - a primeira pessoa.<br />
Por que haveria de afastar-me de Júlia<br />
e Luíza? Elas são as partes que amo e<br />
as partes temporais em quais amo, pois<br />
meu amor não é nada senão qualquer<br />
manifesto delas. São minha capacidade<br />
de amar. É! Como todos já devem ter,<br />
obviamente, percebido, Júlia e Luíza<br />
ainda não nasceram, mas existem. As<br />
duas vezes que amei, juro, nada mais<br />
foram que pedidos inegáveis e<br />
mimados de minhas filhas, portanto é<br />
com toda a sinceridade que digo:<br />
EXISTEM!<br />
Escrevo esta parte sobre elas enquanto<br />
elas dormem cansadas, hoje quando<br />
acordarem terei para elas uma triste<br />
notícia a dar com lágrimas nos olhos:<br />
Serei só eu mesmo por esta vida,<br />
queridas! Elas vão chorar e gritar como<br />
nunca ou, talvez, como uma outra vez<br />
fizeram.<br />
O resto de todas as obras minhas,<br />
gráficas, sonoras, dedicadas a uma mãe<br />
ou não, todas, na realidade, sempre<br />
foram feitas por Júlia e Luíza, porque<br />
eu, o Rodrigo, sou muito destrutivo e<br />
nunca tive poesia nenhuma em meu<br />
caminho solitário. Vou dizer mais uma<br />
coisa, ainda baixinho: Toda minha<br />
angústia e dificuldade vem de não<br />
querer deixar que venham de qualquer<br />
forma Júlia e Luíza, porque eu amo<br />
tanto elas que nem precisariam existir<br />
para amá-las assim, e se elas não<br />
existissem de fato eu não poderia<br />
provar esse amor que termino de<br />
mostrar. Vou ali fora enquanto elas<br />
dormem.<br />
Júlia, Luíza e Rodrigo<br />
RODRIGO MACHADO<br />
FREIRE<br />
eu não / e a que me nego pouco<br />
importa!/ digo de minha áspera<br />
inconstância: eu não / antes de<br />
tudo digo “eu não” - nisto vou<br />
agarrado / porque antes de tudo<br />
já não me perdoam “não ser” /<br />
e me inventam “imperdoável” /<br />
“eu não” é como eu sou /<br />
não principalmente.<br />
http://entimesmado.blogspot.com<br />
página 09
^<br />
cronicas & agudas<br />
pess oal.<br />
NATHALIA BERTAZI<br />
Nno sou poeta. Sou prolixa.<br />
A verdade é que débuts sempre me<br />
tiram o sono e é de mim divagar –<br />
gosto do me deixar levar: sou do<br />
tipo de pessoa que perde tempo<br />
sonhando!<br />
Sonho com as coisas que quero que<br />
aconteçam.<br />
Fotografo.<br />
E escrevo! Ponto.<br />
Gosto de luz, natural, e gosto das<br />
letras.<br />
Despretensiosa, interessada.<br />
Expressionista! Simplesmente<br />
complicada – uma insatisfeita<br />
(muitos reclamam!) crônica, que se<br />
contenta com, muito, pouco!: um<br />
paradoxo!<br />
Pra vida, eu busco a verdade. É só.<br />
http://nathaliabertazi.tumblr.com<br />
página 10<br />
“Cuidado para não dizer muito eu isso/eu<br />
aquilo, quando estiverem escrevendo,<br />
pessoal!” ensinava a professora da quinta,<br />
série, ao apresentar dissertação: nada<br />
sabíamos de energia potencial, já nos<br />
alertavam os riscos de gerar ação.<br />
Sim, somos uma explosão de eus! E isso<br />
me encanta! Constantemente ignoro os<br />
conselhos da querida tia e parto logo pro<br />
pessoal: se sou eu escrevendo, óbvio que<br />
sou eu quem penso, eu quem acho, mas é<br />
poderosa essa supercompetência que essa<br />
superindividualidade dos millennials<br />
(nossa!) sugere. (A sugestão é algo<br />
poderoso. É disso que mais gosto na minha<br />
geração: da capacidade de afirmar, de<br />
bater-no-peito! (gosto até do quanto nos<br />
esforçamos em crer que isso baste! -<br />
mistura de culpa, gana, medo e coragem?).<br />
E é disso também que menos gosto: da<br />
sabichanisse (o quanto sabemos, de tudo!),<br />
nossa pretensa arrogância. Somos os<br />
iludidos mais conscientes da história!)<br />
De fino trato, crescemos acostumados a ter<br />
acesso, ter vez, ter voz! E somos rápidos!<br />
Aprendemos rápido! Guardamos pouco.<br />
Vivemos tudo ao mesmo tempo e nada o<br />
tempo todo!<br />
(Intolerantes: só não suportamos o nãosofrimento-por-não-saber-de-mais.)<br />
Angustiados crônicos , estamos sempre<br />
incomodados, incomodando: loucos de<br />
palestra, erguemos a mão e damos a cara à<br />
tapa (pouco importa se nem tangenciamos<br />
o assunto, se transgredimos, chocamos, se<br />
divagamos alheios a ditaduras, das<br />
liberdades, adoramos a de expressão: nossa<br />
pureza é o falar, nosso fazer, não me<br />
intimido, é um tanto fraco.)<br />
Se não queremos fronteiras, já não temos<br />
limites.<br />
Frustrados, marchamos muito ideologia?<br />
Eu quero uma, pra viver! , pouco<br />
encontramos. Nos resistem? Quiçá, quiçá,<br />
quiçá (seríamos mais que exércitos de<br />
pontos de exclamação!!!)<br />
Pretensiosos, claro! Tem-se a consciência<br />
de que se pode ser e, graças a trato um<br />
tanto indulgente desde que se conhece por<br />
gente, é-se (eu, particularmente sou<br />
linguista subversiva sempre que posso!)!<br />
Somos quem podemos ser sonhos que<br />
podemos ter: mitos de super-mulheres,<br />
homens-maravilha, umbigocêntricos,<br />
miramos alto, nem sempre saltamos, mas<br />
sempre nos apropriamos dos<br />
intensificadores, das coisas, do mundo! E<br />
acho bonito isso: essa indulgência do ser!<br />
É quase um novo hedonismo. Um<br />
hedonismo angustiado, culpado, préocupado<br />
(todos ambientalistas, socialistas,<br />
espiritualizados religiosos, deus nos livre!,<br />
veganos, antibombas, antindústriafarmacêutica,<br />
antifeiúra que é dor!),<br />
sofrido, deliciosamente prazeroso,<br />
engajado, sem sentido, permissivo...<br />
Enganados, sem tempos mortos!<br />
Mundo edulcorado!<br />
Penso que a gente nem se sabe, mas tenho<br />
certeza que a gente é (nem a metade do<br />
tanto de tudo que dizem/esperam da gente,<br />
mas nem é isso: o que importa é que a<br />
gente sente)! É tudo. É só.<br />
Só. Todos juntos, somos só presentes!<br />
Autêntica. Acho que se fosse uma,<br />
pareceria essa! - Quase uma mocinha!, lá<br />
vou eu, dissertando do alto do meu<br />
egoísmo, cheia de imposições, oposições,<br />
distrações e muito pesar... Bastante<br />
reflexiva.<br />
Silencio.<br />
Enquanto isso, no lustre do castelo: tem<br />
quase cinco aninhos e, já de salto-alto,<br />
carrega o batom... Essa eu quero ver!<br />
(pra harmonizar: two of us dos Beatles!)
foto: divulgação<br />
filmes<br />
Broderick Crawford (1911-1986) foi<br />
um ator que marcou muito a minha<br />
infância. Em cinquenta anos de carreira<br />
fez mais de sessenta filmes. Sua<br />
interpretação mais conhecida foi em<br />
"A grande ilusão" (All the king's men),<br />
dirigido por Robert Rossen em 1949,<br />
que lhe deu o Oscar de ator pela<br />
interpretação de um político corrupto<br />
(com perdão da redundância). Não<br />
confundir com o filme de Jean Renoir,<br />
o homônimo "A grande ilusão", dirigido<br />
em 1939, com outro grande ator, Jean<br />
Gabin. O filme de Rossen teve uma<br />
refilmagem há uns quatro anos,<br />
mantendo o mesmo título pra aumentar<br />
a confusão, com direção do ilustre<br />
desconhecido Steven Zaillan, com Sean<br />
Penn no papel que coube a Crawford.<br />
Outro grande papel de Crawford foi<br />
em "A trapaça" (Il bidone), que<br />
Federico Fellini dirigiu em 1955, onde<br />
na Itália pós-guerra faz um romântico<br />
vigarista que vive de pequenos<br />
golpes, aproveitando-se da ingenuidade<br />
de camponeses. É um Fellini da fase<br />
que mais gosto, neo-realista. Mas não<br />
foram os filmes de Broderick (eu<br />
adorava pronunciar esse nome...) que<br />
ficaram na minha memória tão<br />
fortemente, e sim o seriado para a<br />
televisão, "A patrulha rodoviária"<br />
(Highway Patrol), produzido nos anos<br />
50 e que assisti em meados dos anos 60<br />
pela TV Ceará, retransmissora da Tupi,<br />
em Fortaleza. Não sei se vi todos, mas<br />
foram mais de 150 episódios, onde o<br />
ator fazia o Sargento Dan Matthews,<br />
um policial severo, implacável,<br />
carismático, quase um John Wayne do<br />
asfalto, com a vantagem que não<br />
matava índios. Perseguia os bandidos,<br />
prendia-os e os entregava à justiça. E<br />
essa minha admiração por Broderick<br />
Crawford era reconfortante porque eu<br />
tinha um tio que era a cara dele. Ver<br />
Meu tio prendeu<br />
um cara<br />
um me remetia ao outro. O meu<br />
mocinho tinha o biótipo de um homem<br />
comum, próximo de mim, sangue do<br />
meu sangue. E assim o cinema e a<br />
infância me jogavam no mundo<br />
próximo e distante da fantasia, da<br />
idealização inquebrantável que as<br />
crianças fazem de um mundo perfeito.<br />
Crescer tem o inconveniente de que o<br />
mundo fica muito palpável, o dia é<br />
irreversível, a esperança necessita de<br />
muito esforço.<br />
Não sei se meu filho hoje espelha o tio<br />
dele no capitão Nascimento de "Tropa<br />
de Elite". Não sei quantos Wagner<br />
Moura são possíveis para um Broderick<br />
Crawford. Não somos mais as crianças<br />
diante da tv em preto-e-branco, e a<br />
fantasia é digitalizada em megapixels,<br />
a um palmo de nosso olho<br />
tridimensional. Tão perto, tão longe.<br />
NIRTON VENANCIO<br />
Livros publicados:<br />
"Roteiro dos pássaros", poesia,<br />
"Cumplicidade poética", poesia<br />
Filmes realizados:<br />
"Um cotidiano perdido no<br />
tempo", curta, ficção<br />
"Walking on water", média,<br />
documentário,<br />
"O último dia de sol", curta,<br />
ficção,<br />
"Dim", curta, documentário<br />
Blogs:<br />
www.nirtonvenancio.blogspot.com<br />
www.olharpanoramico.blogspot.com<br />
Atividades recentes:<br />
projeto em andamento, longa<br />
documentário "Pessoal do Ceará"<br />
página 11
poesia<br />
EGO EXCÊNTRICO<br />
Porque tenho uma certidão,<br />
Porque tenho certa idade,<br />
Não tenho uma imensidão<br />
de vale.<br />
Tenho validade.<br />
Porque tenho um ego findo.<br />
Porque tenho um ser fugindo<br />
pelas horas.<br />
Porque agora você vindo<br />
já me encontrará<br />
indo embora.<br />
9,80665 m/s²<br />
Só me ocorrem palavras<br />
mais pesadas que o ar:<br />
a gravidade<br />
não lhes permite<br />
:<br />
:<br />
:<br />
:<br />
:<br />
: cantar<br />
GRAFEMAS ORGÂNICOS<br />
Grafias<br />
na pele do rosto:<br />
marcas de nascença<br />
&<br />
Marcas do oposto.<br />
marcantonio costa - poemas<br />
APARENTEMENTE<br />
Estou estendido no meu cotidiano<br />
Como um faquir sobre uma cama<br />
De pregos.<br />
TRAÇOS<br />
Olhos<br />
Com lírios.<br />
Na pele<br />
Apelos<br />
Rentes.<br />
Na face<br />
Posfácios<br />
Rubros.<br />
Na boca<br />
Os antecedentes.<br />
Os outros se iludem a respeito<br />
Dos meus próprios riscos.<br />
EDÊNICO<br />
Cidade pequena,<br />
Pequena cidade,<br />
Os olhares<br />
Das tuas janelas<br />
Querem me desnudar.<br />
Mas por que me devo<br />
Envergonhar<br />
Com essa falta de siso<br />
Se sempre quis voltar<br />
Nu ao paraíso?<br />
Marcantonio Costa, natural do estado do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado).<br />
Escreve nos blogs Diário Extrovertido (http://diarioextrovertido.blogspot.com/)<br />
e O Azul Temporário (http://azultemporario.blogspot.com/)<br />
Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte (http://cadernosdearte.wordpress.com/)<br />
página 12
poesia<br />
thiago cervan - poesia visual<br />
Thiago Cervan, (1985) é filho das ruas cinzas do ABC. Corintiano, poeta, articulador cultural, músico frustrado e videomaker.<br />
http://poemavisual.tumblr.com/post/8933230748<br />
página 13
poesia<br />
De quatro<br />
Me bota nos meus quartos, no conciso.<br />
Me entuba, tô de quatro, dando bola.<br />
Sub judice, que sou do seu juízo,<br />
nas pregas, nas vizinhas da aranhola.<br />
Um pau na minha bunda, que eu preciso.<br />
Meu reto, tua rola, não me enrola.<br />
Me pega por detrás, no paraíso,<br />
na porta dos portais, na portinhola.<br />
Entrego o derrière para a bicada:<br />
teu pinto, um amoral, que é grande paca,<br />
cansado de tabaca, quer tabu.<br />
Me ataca sem carinho, de estocada.<br />
Me ataca com teu monstro bate-estaca.<br />
É tão gostoso o tal tomar no cu!<br />
Jezebel Duvivier<br />
para Aldir Blanc<br />
Não és assim um tipo que eu evite...<br />
Se um nume não me lembras... nem o nome...<br />
ao menos o teu corpo não me some<br />
à soma que eu invisto na suíte.<br />
Exijo o que machuca, que me excite,<br />
a ripa na cacunda, que carcome,<br />
dois dias de jejum, a tua fome,<br />
dois dias sem beber, só no rebite.<br />
Algemas nos teus pulsos, como jóias,<br />
permitem que te apóies nas tipóias<br />
devido ao que excedi, e que te agrada.<br />
Amar é tão estranho, um exagero:<br />
o verde dos teus olhos a não ver o<br />
romper sanguinolento da alvorada.<br />
henrique pimenta - sonetos<br />
Amiguinhas de infância<br />
De volta ao mesmo quarto cor-de-rosa,<br />
desejo de um poema que me invade<br />
e, infante, predomina sobre a prosa.<br />
Impúbere menina que se evade<br />
nos sonhos, nas bonecas, na mimosa<br />
colega dos trabalhos para Sade,<br />
Masoch e seus asseclas, carinhosa,<br />
gentil, muito ditosa, pois: é a idade.<br />
Se fingem de crianças e severas<br />
madrastas no brinquedo de vodu.<br />
Seus traumas pacificam-se entre feras...<br />
Recebo-te em meu colo, bom chicote,<br />
depois a acupuntura no meu cu<br />
e após o vibrador na minha glote.<br />
Florescência<br />
Eu penso que dois homens por desejo<br />
comum e por motivos que não cabem<br />
a mim a descrição nem o versejo,<br />
discreto no que penso, que se acabem<br />
os dois com suas línguas em adejo,<br />
seus abissos, enfim, que lhes desabem,<br />
compete-lhes as sobras, o sobejo,<br />
compete-lhes somente, que eles sabem<br />
a angústia, a ansiedade, a contenção,<br />
se devem imprimir mais energia,<br />
se céleres estoques a parti-los.<br />
Só sei de um pormenor, o coração<br />
confunde-lhes num só, pela magia<br />
do que se fez: unção de seus pistilos.<br />
Henrique Pimenta é professor e militar mas, antes de tudo, é um poeta que adora ler, principalmente textos poéticos e, depois, tenta<br />
plagiar os bons textos que lê. Esse processo de mimese é a sua razão de ser e de existir como literato.<br />
Sua produção mais recente pode ser lida nos blogues Bar do Bardo e Brazil's Haiku.<br />
http://dobardo.blogspot.com/ e http://brazilshaiku.blogspot.com/<br />
Os sonetos aqui apresentados fazem parte de seu primeiro livro, “99 sonetos sacanas e 1 canção de amor”, a ser publicado em breve.<br />
página 14
poesia<br />
seis<br />
zero<br />
mãe<br />
três<br />
morte<br />
sexo<br />
love<br />
paulo de toledo - poesia visual<br />
Paulo de Toledo é autor dos livros de poemas A Rubrica do Inventor (Multifoco, 2011), Hi-Kretos e Outras Abstrações<br />
(Sereia Ca(n)tadora, 2011) e 51 Mendicantos (Éblis, 2007). Publicou as plaquetes Desequilivro (2009) (em parceria com<br />
Rodrigo de Souza Leão) e si lence is (Arqueria Editorial, 2010). É colaborador e integrante do Conselho Editorial da revista<br />
Babel Poética.<br />
Blog: http://paulodetoledo.blogspot.com<br />
página 15
artes plasticas<br />
´<br />
Bento, além de pintar e escrever,<br />
é apaixonado por plantas.<br />
Nasceu em Jacobina-Bahia,<br />
em 1971, e atualmente vive em<br />
São Paulo com seu labrador,<br />
Caymmi.<br />
Jornada<br />
bento moura<br />
http://www.bentomoura.net/index.html<br />
Diálogo<br />
Melancolia 18 – Digital<br />
Marcantonio, natural do Rio de Janeiro,<br />
é artista plástico e poeta.<br />
Estes trabalhos são da sua série<br />
Melancolia, exposta no Centro<br />
Cultural Correios / RJ em 2009.<br />
http://cadernosdearte.wordpress.com/<br />
marcantonio costa<br />
Melancolia 36+<br />
página 16
ensaio fotografico<br />
´<br />
Da descoberta<br />
Por meio de experienciações lúdicas<br />
em uma atmosfera que permeia entre<br />
a realidade e o sonho,<br />
a menina descobre um mundo<br />
particular cheio de possibilidades.<br />
Um mundo poético no qual é possível<br />
olhar para o infinito sem ser visto.<br />
Este trabalho tem influência das pinturas<br />
impressionista e surrealista, sobretudo<br />
do pintor belga René Magritte, pelos<br />
elementos que permitem uma brincadeira<br />
de esconde. Outra artista plástica<br />
importante na construção do trabalho<br />
é Lygia Clark com suas obras sensoriais.<br />
No âmbito terapêutico, há referências<br />
fortes do universo de Carl Gustav Jung,<br />
psicanalista suíço fundador da psicologia<br />
junguiana muito interessado pelos mitos<br />
e sonhos humanos.<br />
Dentro da fotografia há diversas pessoas<br />
que influenciaram o projeto de alguma forma,<br />
a mais notável é a fotógrafa americana<br />
Alessandra Sanguinetti, com sua série<br />
The Adventures of Guille and Belinda<br />
and the Enigmatic Meaning of Their Dreams,<br />
na qual explora de maneira surpreendente<br />
o mundo de duas irmãs. A fotógrafa russa<br />
que hoje reside nas Bahamas, Elena Kalis,<br />
com suas meninas debaixo d'água, também<br />
foi um belo presente imagético que serviu<br />
de inspiração para esse trabalho autoral.<br />
Laura Aidar<br />
http://lauraaidar.carbonmade.com/
´<br />
ensaio fotografico
asil by tonho<br />
A presença do trabalho de Tonho aqui se justifica<br />
não apenas por ser ele o nosso mano véio, mas<br />
principalmente pela qualidade de sua obra.<br />
O acabamento primoroso, o humor sutil, a poesia<br />
e o sonho de suas ilustrações, retratam esse Brasil<br />
violentado, colorido e nonsense. Tonho faz com<br />
que seguremos as pontas.<br />
TONHO OLIVEIRA<br />
É arquiteto e ilustrador, premiado pelo<br />
Salão de Humor de Piracicaba/SP.<br />
Mora em Porto Alegre, RS.<br />
Seus trabalhos podem ser vistos aqui:<br />
http://6vqcoisa.blogspot.com/<br />
http://arquitetonho.blogspot.com/
^<br />
cronicas do cotidiano<br />
CLT<br />
Conto de Thiago Cervan<br />
Me estourei por dentro, já operei um<br />
monte de hérnia. Puxei móveis dos outros.<br />
Não é móvel que nem esse, assim,<br />
levinho. Móvel pesado, tapete pesado.<br />
Aqueles tapetes enormes. Já trabalhei<br />
muito na vida, e olha só, agora to aqui<br />
enchendo o saco dos outros, não tenho<br />
nem meu canto pra morrer em paz.<br />
Vou fazer oitenta e dois, sou do vinte e<br />
nove, faz as contas ai. É oitenta e dois<br />
mesmo, em março. Minhas patroas sempre<br />
foram boas comigo, só que trabalhar não<br />
dá camisa pra ninguém, olha só, trabalhei<br />
tanto e agora to aqui.<br />
Seu avô nunca botou a mão em mim, mas<br />
também era um imprestável, não punha<br />
dinheiro em casa. Eu que me virava.<br />
Costurava pra fora, fazia a roupa da sua<br />
mãe e das suas tias.<br />
Nunca tive preguiça. Graças a Deus as três<br />
tiveram bons casamentos, tão com os filhos<br />
criados. Filho criado, trabalho dobrado.<br />
Agora você vê, sua tia sempre deu de tudo<br />
pra aqueles moleques, nunca tiveram luxo,<br />
mas nunca passaram fome, nem frio, nem<br />
nada. E agora você veja só o que o Fábio<br />
fez,vê se pode, foi se envolver logo com<br />
bandido, foi roubar a casa dos outros.<br />
Agora tá lá, preso. Coitada da sua tia.<br />
Espero que ele tome jeito quando sair de<br />
lá. Vai ser difícil agora pra ele arrumar<br />
emprego decente.<br />
Ninguém quer pegar quem já foi preso,<br />
você sabe né que fica com o nome sujo e<br />
ninguém quer assinar a carteira.<br />
Thiago Cervan (1985) é filho<br />
das ruas cinzas do ABC.<br />
Corintiano, poeta, articulador<br />
cultural, músico frustrado e<br />
videomaker.<br />
http://poemavisual.tumblr.com/<br />
rebosteio lasca o pau<br />
Censura no facebook<br />
O Rebosteio deste número não poderia se furtar<br />
a uma discussão que vem ganhando espaço<br />
numa das redes sociais mais frequentadas<br />
ultimamente. E nada melhor para início de<br />
conversa do que a frase de Fellini sobre a<br />
censura, gentilmente resgatada pelo nosso chapa<br />
Sylvio de Alencar:<br />
"A censura é um modo de reconhecer a própria<br />
debilidade e insuficiência intelectual. Ela é sempre um<br />
instrumento político, nunca intelectual. Instrumento<br />
intelectual é a crítica, que pressupõe o conhecimento<br />
do que se julga e/ou, do que se recusa. Criticar não é<br />
destruir, mas pôr um objeto em seu justo lugar entre os<br />
demais objetos. Censurar é destruir, ou ao menos, se<br />
opôr ao processo real."<br />
(Tradução de José Antonio Pinheiro Machado -1983)<br />
Na penúltima semana deste mês de novembro,<br />
chamou-nos a atenção uma postagem do<br />
renomado fotógrafo Fernando Rabelo, que<br />
no seu mural do FB dizia o seguinte:<br />
"Pela segunda vez o Facebook removeu arbitrariamente<br />
uma foto artística do mural de fotografias históricas e me<br />
suspendeu por 24 horas em represália à publicação. A<br />
foto era da bela atriz francesa Emmanuelle Béart, musa<br />
do cinema francês, postada anteontem. Hoje foi um dia<br />
doloroso e desanimador, por imposição deles tive que<br />
remover quase 20 fotos icônicas por exibirem de alguma<br />
forma parte do corpo humano desnudo. O não<br />
cumprimento da ordem implicaria na suspensão<br />
definitiva da minha conta no FB. Foram removidas<br />
imagens de grandes profissionais que fizeram e fazem a<br />
história da fotografia: Helmut Newton, Bettina Rheims,<br />
Bob Wolfenson, Steven Meisel, Brassaï, Rui Mendes,<br />
Diane Arbus, Marcelo Carnaval, Maurice Guibert, Man<br />
Ray, Bruce Weber, entre outros. Infelizmente o cinismo<br />
e o denuncismo continuam prevalecendo no mundo."<br />
Ora, sabemos por experiência própria que<br />
além do denuncismo dos pseudo-moralistas<br />
(que não diferenciam sequer a arte da<br />
pornografia), o facebook também mantém<br />
uma política de censura prévia, como foi o caso<br />
desta revista que vos fala, que por causa do seu<br />
nome não foi aprovada para ter uma página de<br />
divulgação na dita cuja rede social.<br />
Afora isso foi amplamente noticiado durante a<br />
semana que passou, o fato de que essa rede<br />
detecta todos os passos e arquiva todos os sites<br />
visitados pelo usuário que possua uma conta lá,<br />
mesmo que esteja deslogado (ou seja, sem fazer<br />
o login com sua senha supostamente secreta).<br />
Diante disso, consideramos que essas posturas<br />
retrógradas é o que eles querem projetar para o<br />
nosso futuro. E ponderamos que a coisa é bem<br />
mais perigosa que uma simples atitude<br />
conservadora... e perguntamos a vocês: o que<br />
eles desejariam fazer com as informações sobre<br />
as pessoas que vigiam na rede? Que precedentes<br />
você acredita que se abrem numa questão como<br />
esta? Deixamos a batata quente no ar.<br />
página 21
ebosteio in dica<br />
página 22<br />
A dica deste número é um poema do Delarte<br />
divulgado aqui em primeira mão,<br />
abrindo caminho para um novo<br />
projeto poético todo inspirado pelo<br />
imaginário, religião e cultura Afro-brasileiras.<br />
HIPERESTESIA<br />
Rebentar a flor esquecida<br />
Implodir o marasmo dos dias<br />
Extrair o mel sujo da vida<br />
na convulsa colméia fria<br />
do tempo<br />
Pincelar com velhas cores<br />
novos quadros sem moldura<br />
Deixar o som em delírio<br />
ser a glória e contracultura<br />
do vento<br />
Mil olhos de gato<br />
Mil fuças de cão<br />
Aroma estelar de canções esculpidas<br />
Sabor secular de danças lidas<br />
no picadeiro-espelho de telas fluidas<br />
Pintura dramática: CONTRAVENÇÃO<br />
Reviver deuses-do-povo<br />
(genésicos, pós-modernos)<br />
que com mil sentidos loucos<br />
louvam cor<br />
a luz<br />
e acordes do<br />
I<br />
N<br />
F<br />
E<br />
R<br />
N<br />
O<br />
Autor do livro de poesia “Sentimento do Fim do Mundo”<br />
(Editora Patuá, 2011), foi um dos vencedores do II e III Festival de<br />
Literatura da Faculdade de Letras da USP na<br />
categoria “Conto”. Graduado pela mesma<br />
faculdade, foi também finalista da 15ª edição<br />
do “Projeto Nascente” (USP). Escreve<br />
periodicamente no jornal “Conteúdo<br />
Independente” e em seu blog:<br />
http://williandelarte.blogspot.com/<br />
rebostivemos lá<br />
* crédito da foto:<br />
Serra Azul - http://www.flickr.com/photos/serrazul/6352651761/in/set-72157628022946717/<br />
Rebostivemos em 16/11 último, no show de<br />
apresentação da Balada Literária, no SESC<br />
Pinheiros. O Showversa de Augusto de Campos.<br />
Chegando lá com duas horas e meia de antecedência,<br />
visto que o site dizia que os ingressos seriam<br />
retirados no local somente uma hora antes do<br />
espetáculo, fomos informados que eles haviam sido<br />
todos vendidos durante a semana, e o teatro estava<br />
absolutamente lotado. Depois da indignação, e de<br />
reclamar sobre a dubiedade das informações do site...<br />
lidar com a frustração de não poder ver o Augusto, o<br />
Cid Campos e a Adriana Calcanhoto de pertinho, foi<br />
um balde de água fria.<br />
Mesmo assim fomos pedir informações sobre os<br />
eventos do resto da semana, e eis que haviam<br />
desistências de última hora: conseguimos os dois<br />
últimos ingressos em cadeiras contíguas e bem perto<br />
do palco.<br />
Aí começou a magia.<br />
E esse homem de 80 anos completos entra e fica o<br />
tempo todo em pé, falando com aquela clareza que<br />
lhe é peculiar, com aquela congruência de quem já<br />
tem um mundo dentro de si, com absoluta<br />
tranquilidade e o jeito mais simples possível.<br />
Firmeza na voz e nas mãos, firmeza em sua poesia<br />
concreta e em suas intraduções de outros tantos<br />
poetas maravilhosos.<br />
Cid Campos, seu filho, ali bem pertinho pra entrar<br />
certeiro com o violão e as intervenções no telão,<br />
nesse mix multimídia que vinha historicamente de<br />
Daniel Artaud até Caetano Veloso... desfilando<br />
Kilkerry, Mallarmé, Pound, Dickinson, Lewis Carrol,<br />
e tanta gente boa que minha cabeça ainda enlevada<br />
não consegue lembrar direito agora.<br />
Adriana com aquela voz de veludo, sutilmente deu o<br />
toque de leveza indispensável.<br />
Tudo perfeito, tudo repleto da verve desse senhor<br />
que ali, ao vivo, não me intimidava tanto como<br />
quando peguei pela primeira vez em mãos o seu<br />
“Não”, o livro da capa azul.<br />
Concretíssima, além da poesia, foi a emoção e o nó<br />
na garganta ao vê-lo sair, ao final do show, para a<br />
coxia abraçado com seu filho, e saber que eu tinha<br />
acabado de presenciar um dos mais belos e<br />
importantes momentos da história da poesia<br />
brasileira.
john cage<br />
todo silêncio<br />
está grávido de som
anti-propaganda<br />
concepção e fotografia: mercedes lorenzo