REBOSTEIO Nº 2
Revista REBOSTEIO DIGITAL número dois - entrevistas, arte, cultura, poesia, literatura, comportamento, cinema, fotografia, artes plásticas.
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conteúdo adulto<br />
<strong>Nº</strong> 2 fev/2012
«Minha maloca,<br />
a mais bela que já vi<br />
hoje está legalizada<br />
ninguém pode demolir.<br />
Minha maloca,<br />
a mais bela desse mundo<br />
ofereço aos vagabundos<br />
que não tem onde dormir.»<br />
(Adoniran Barbosa)<br />
favela do Moinho vista da linha do trem<br />
centro de São Paulo/SP<br />
antes da sua demolição pela prefeitura - novembro/2011<br />
foto: Mercedes Lorenzo<br />
http://olhardelambe-lambe.blogspot.com
editorial<br />
Editores<br />
Mercedes Lorenzo<br />
Rubens Guilherme Pesenti<br />
Contato<br />
revistarebosteio@gmail.com<br />
Blog para mailing-list:<br />
http://rebosteio-revistadigital.blogspot.com/<br />
Colaboradores deste <strong>Nº</strong><br />
Claudio Schuster<br />
Ígor Marques<br />
José Antonio Milagre<br />
Lau Siqueira<br />
Letícia Lanz<br />
Mercedes Lorenzo<br />
Miguel Roberto Nítolo<br />
Myra Landau<br />
Nirton Venancio<br />
Rodrigo Boerin<br />
Rodrigo Machado Freire<br />
Rubens Guilherme Pesenti<br />
Tiago Costa<br />
Willian Delarte<br />
<strong>REBOSTEIO</strong><br />
é uma publicação digital<br />
sem fins lucrativos, construída com a<br />
ajuda de colaboradores voluntários,<br />
independente, apartidária e voltada<br />
para a divulgação de arte em geral,<br />
de idéias, provocações neurais e<br />
expansão dos sentidos... não temos<br />
todas as respostas, mas estamos<br />
interessados nas melhores perguntas.<br />
capa: Rodrigo Boerin<br />
PROJETO GRÁFICO:<br />
Rubens Guilherme Pesenti<br />
http://ru666.blogspot.com<br />
foto<br />
Nosso editorial deste número dialoga através da imagem capturada<br />
na exposição sobre a obra de Oswald de Andrade, nesta curta frase do<br />
próprio. Se você não entendeu, leia a revista toda, e depois volte aqui<br />
novamente. Boa viagem!<br />
índice<br />
4 a violência silenciosa<br />
10 minha respiração é saudade<br />
12 você está no processo de ser<br />
doutrinado<br />
13 nem toda sombra<br />
na parede é cinema<br />
14 frases de oswald de andrade<br />
16 a tal revolução sexual<br />
18 artes plásticas<br />
20 um velho manuscrito<br />
21 de putas e deputados<br />
22 melancolia<br />
foto: mercedes lorenzo<br />
24 poesia<br />
28 fotodocumentário<br />
34 à moda antiga<br />
40 liberte um livro!<br />
42 a cara do careta<br />
44 como fica sua<br />
privacidade com o novo<br />
atrevimento do google<br />
46 rebosteio in dica<br />
47 a cidade se dá<br />
48 anti propaganda<br />
página 03
A violência<br />
silenciosa<br />
O número de<br />
vítimas brancas<br />
caiu de 18.852<br />
para 14.308<br />
(queda de 24,1%).<br />
Já o número de<br />
vítimas negras<br />
aumentou de<br />
26.915 para<br />
30.193<br />
(crescimento<br />
de 12,2%)<br />
página 04<br />
Pelos descaminhos do nosso país e do mundo,<br />
hoje a violência está na ordem do dia. Em<br />
jornais, televisão, revistas, praças e sites de<br />
relacionamento a violência é o prato mais<br />
servido e consumido.Tudo isso com diversas<br />
misturas, quantidades e quente. Praticamente<br />
todas as pessoas têm opinião formada ou<br />
soluções prontas para o desfecho de qualquer<br />
um dos casos colocados sobre a mesa, mal<br />
digeridos e fartamente discutidos. Alguns<br />
defendem a pena de morte, outros a internação<br />
compulsória, aquele pretende salvar o mundo<br />
com trabalho forçado e seu vizinho com o<br />
linchamento puro e simples. Em muitos casos<br />
há quem sinta saudade dos anos de chumbo e<br />
defenda a volta da ditadura militar.<br />
A rapidez da informação de nossos tempos<br />
aliada à sua superficialidade, na maior parte<br />
dos casos de maneira proposital, parece<br />
influenciar e intensificar o jeito simplista e<br />
rasteiro com que as pessoas enxergam, julgam,<br />
executam, ou insinuam que outros o façam,<br />
suas opiniões ou ações.<br />
Parece haver uma conspiração dessa era<br />
“globalizada” em ampliar a questão da<br />
violência ao mesmo tempo em que se joga<br />
uma cortina de fumaça sobre as suas<br />
verdadeiras razões, origens e intenções. A<br />
própria maneira de se entender o que é<br />
realmente violência não é discutida, enquanto<br />
um tipo de violência silenciosa e invisível vai<br />
grassando todo um povo desinformado e<br />
ignorante que, cada vez mais aprisionado em<br />
seu mundinho superficial e egoísta, vai dando<br />
seu o retorno com mais violência e<br />
bestialidade.<br />
Violência Educacional<br />
Muitos falam em educação, mas qual<br />
educação? A educação formal, seja em escolas<br />
públicas ou privadas, é uma das formas mais<br />
violentas a que o ser humano, sobretudo<br />
crianças, está submetido. Quem dela foge,<br />
invariavelmente já está taxado de marginal,<br />
quem fica, é imbecilizado ao limite de<br />
defender as soluções citadas acima e, claro,<br />
desclassificar o analfabeto. Nem estamos aqui<br />
citando a violência econômica que restringe o<br />
acesso de uma grande parte da população a<br />
essa escola castrativa, não só em direitos, mas<br />
também em idéias e inventividade.<br />
Na maioria dos casos, ou a quase totalidade, os<br />
profissionais da educação, da direção aos<br />
inspetores de alunos, estão despreparados para<br />
ela ou para o mundo onde devem aplicá-la. Isso<br />
se dá por questões salariais, por falta de tempo<br />
em preparo, falta de condições, passando por<br />
imposições e atitudes fascistóides<br />
governamentais até o descaso puro e simples,<br />
onde a educação é apenas um emprego. Nesse<br />
último caso, em especial, existe uma<br />
contradição, pois o salário nunca é condizente<br />
com o trabalho e em muitos casos com atraso<br />
de meses. O stress provocado por essa situação,<br />
onde já existe um descompromisso com a<br />
qualidade do ensino, reflete na maneira muitas<br />
vezes violenta como tratam a escola e os<br />
alunos.<br />
A escola é reducionista, no máximo formadora<br />
de técnicos. A educação amputa de maneira<br />
violenta toda e qualquer forma de criatividade,<br />
nunca permitindo o desenvolvimento do lado<br />
humano, vendendo a idéia de formadores de<br />
grandes profissionais para o mercado de<br />
trabalho. Incentiva de maneira insidiosa a<br />
disputa e a competição desleal em busca desse<br />
espaço escasso e seletivo. Ela nunca está<br />
presente na realidade dos alunos ou<br />
professores.<br />
Alguns educadores mais sérios têm uma<br />
preocupação mais humana no desenvolvimento<br />
educacional, buscando em pequenas<br />
experiências formas mais criativas de interação<br />
entre alunos e professores com seu mundo e o<br />
mundo em si. São pequenas experiências, pois<br />
pouco ou nada interessam ao setor público ou<br />
privado, afinal trabalham no sentido de buscar<br />
uma visão crítica e criativa em oposição à<br />
mediocridade reinante. Mesmo assim,<br />
experiências pedagógicas bem sucedidas como<br />
as de Paulo Freire<br />
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire) e<br />
Tião Rocha<br />
(http://www.cpcd.org.br/principal/tiao.html)<br />
ainda enfrentam outro tipo de obstáculo: em<br />
sua disseminação passam a ser “vendidas”<br />
como métodos, limitadas em suas<br />
possibilidades imensas por esse congelamento<br />
aparentemente facilitador do 'método', que já<br />
nasce esmagado pela sua própria formatação.
Violência da Mídia<br />
O Instituto Sangari em seu Mapa da Violência<br />
2 0 1 2 - Os Novos Padrões da Violência<br />
Homicida no Brasil, faz uma abertura com<br />
dados impressionantes, onde é impossível<br />
negar que o país vive uma guerra civil das<br />
mais violentas e sangrentas, independente das<br />
comparações que fazem com outros países,<br />
assim como o fato de colocarem o Brasil<br />
como um país sem conflitos. Vejamos os<br />
dados:<br />
Vemos que a média anual de mortes por<br />
homicídio no país supera, e em casos de forma<br />
avassaladora, o número de vítimas em muitos<br />
e conhecidos enfrentamentos armados no<br />
mundo.<br />
E não precisaríamos ir tão longe.<br />
Recentemente, foi publicado o Relatório sobre<br />
o Peso Mundial da Violência Armada<br />
Tomando como base fontes consideradas<br />
altamente confiáveis, o Relatório constrói o<br />
quadro de mortes diretas em um total de 62<br />
conflitos armados no mundo, registrados entre<br />
2004 e 2007.<br />
Nos 12 maiores conflitos, que representam<br />
81,4% do total de mortes diretas, nos 4 anos<br />
foram vitimadas 169.574 pessoas. Nesses<br />
mesmos 4 anos, no total dos 62 conflitos,<br />
morrem 208.349 pessoas. No Brasil, país sem<br />
disputas territoriais, movimentos<br />
emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos<br />
religiosos, raciais ou étnicos, morreram mais<br />
pessoas (192.804) vítimas de homicídio, que<br />
nos 12 maiores conflitos armados no mundo.<br />
Mais ainda, esse número de homicídios se<br />
encontra bem perto das mortes no total dos 62<br />
conflitos armados registrados nesse relatório.<br />
E esses números não podem ser atribuídos às<br />
dimensões continentais do Brasil. Países com<br />
número de habitantes semelhante ao do Brasil,<br />
como Paquistão, com 185 mi habitantes, têm<br />
números e taxas bem menores que os nossos.<br />
E nem falar da Índia, também elencada, com<br />
1.214 mi de habitantes.<br />
São dados como esses que a mídia, em geral<br />
na mão de grandes grupos e atrelada a<br />
corporações internacionais, omite ou faz<br />
estardalhaço de acordo com suas<br />
conveniências políticas ou econômicas.<br />
O interesse na divulgação ou omissão das<br />
notícias nunca está ligado ao interesse público,<br />
afinal sempre se divulga ou se esconde o fato,<br />
nunca a origem. A omissão desses dados, por<br />
exemplo, pode ajudar a promover governos,<br />
mesmo que violentos no trato com<br />
manifestações sociais, mesmo com uma<br />
polícia que cada dia assassina mais pessoas,<br />
mas que pode prestar grandes serviços<br />
publicitários e outros mais escusos. Por outro<br />
lado, com sua publicação, podem desacreditar<br />
prefeitos, governadores e até presidentes, ou<br />
mesmo derrubá-los incitando toda uma<br />
população ignorante. O que determina a<br />
violência numa sociedade proto- capitalista<br />
como a nossa é sempre mantido no<br />
“esquecimento” e, com raríssimas exceções na<br />
imprensa independente, é questionado. Na<br />
verdade, por paradoxal que pareça, a mentira é<br />
despejada como entulho sobre uma população<br />
que, em sua quase totalidade e por diversas<br />
razões, aceita e assimila o discurso conservador<br />
e reacionário.<br />
Qual a razão que faz com que os grandes meios<br />
de comunicação do país sejam propriedade de<br />
políticos envolvidos no que há de mais<br />
entreguista, sujo e corrupto; a grandes grupos<br />
ligados à extrema direita internacional e a<br />
grupos religiosos conservadores,<br />
ilustração: Rubens Guilherme Pesenti<br />
página 05
foto: Mercedes Lorenzo<br />
Segundo a Anistia<br />
internacional as<br />
ações policiais<br />
em comunidades<br />
carentes brasileiras<br />
deixaram milhares<br />
de mortos e feridos<br />
em 2007, sem que<br />
a Justiça punisse<br />
os responsáveis<br />
por abusos.<br />
página 06<br />
preconceituosos e de moral duvidosa?<br />
Alguém pode acreditar que estão zelando<br />
pelos nossos interesses?<br />
Não esqueçamos de que o serviço de<br />
comunicação é uma concessão do governo<br />
para o serviço público, não para interesses<br />
particulares, sejam religiosos, políticos e<br />
empresariais. O público em geral não se<br />
apercebe disso e digere passivamente uma<br />
programação de conteúdo rasteiro, mal<br />
intencionado, superficial e feita com o<br />
propósito de alienação para questões de<br />
relevância.<br />
Quem foge à regra com meios de<br />
comunicação alternativos, no geral, é<br />
considerado clandestino, portanto ilegal e<br />
sujeito a penas impostas pela lei, enquanto o<br />
de conteúdo medíocre recebe todas as<br />
facilidades do governo e partidos, em todas as<br />
suas instâncias.<br />
Mas talvez o pior aspecto da violência<br />
propagada pelos meios de comunicação seja<br />
justamente incutir o mais insidioso dos<br />
inimigos de uma civilização livre: o medo. O<br />
medo tem sido aliado de governos autoritários<br />
em toda a história humana, sendo o principal<br />
instrumento da opressão e controle do Estado<br />
sobre as liberdades individuais, com a<br />
desculpa, sempre atualizada pela mídia, de<br />
que esse mesmo Estado oferece a 'segurança'<br />
inestimável aos seus cidadãos num mundo<br />
temerário.<br />
A ninguém é mais permitida a “imprudência”<br />
de viver sem medo, ao menos a ninguém que<br />
esteja devidamente atualizado com o<br />
noticiário da semana.<br />
Violência Parental e de Gênero<br />
A violência doméstica - parental e de gênero -<br />
embora tenha sua face bem visível quando<br />
irrompe os limites da agressão física, também<br />
acolhe formas invisíveis como a tortura<br />
piscológica, o controle financeiro, o<br />
cerceamento e manipulação da personalidade e<br />
de comportamentos, etc.<br />
Embora a legislação tente caminhar rumo à<br />
proteção contra agressões à mulher e à criança,<br />
pouco se fala ou pouco se faz no que tange ao<br />
sofrimento emocional, que é tão conhecido por<br />
todos quanto a psicanálise de almanaque que<br />
supostamente o curaria.<br />
É uma violência disseminada, generalizada e<br />
muda, fruto de uma sociedade que tem ainda<br />
como base o modelo de família vitoriana, em<br />
sua grande maioria, embora com alguns toques<br />
de modernidade mais ou menos implantados<br />
conforme a cultura local e o nível de<br />
informação de seus integrantes.<br />
Como em outros casos de violência, esta<br />
também se apóia nas outras para obter<br />
subsídios: os “bons costumes”, a moral, a<br />
repressão ao prazer, o pátrio poder, os dogmas<br />
religiosos, o poder econômico, etc... são<br />
fartamente aludidos quando se trata de<br />
justificar esse tipo de violência.<br />
Violência Política<br />
De uma maneira geral toda e qualquer<br />
organização política partidária é violenta. É<br />
violenta, pois se baseia na organização de seus<br />
pares, excluindo toda e qualquer forma de<br />
contestação e discordância, em busca do poder,<br />
mesmo quando alguns objetivos são<br />
semelhantes. Toda forma de poder é violento.<br />
O exercício dessa política institucional começa<br />
pela obrigatoriedade do voto. Muitos defendem<br />
que o voto tem que ser facultativo, quando na<br />
verdade ele violenta e restringe nossa<br />
interferência e atuação delegando a um sujeito<br />
ou partido qualquer as nossas<br />
responsabilidades.<br />
No geral, esse tipo de política, não política<br />
como ciência, mas como forma reducionista de<br />
se obter vantagens por meio de cargos públicos,<br />
se divide em governo e oposição, que mal<br />
conseguimos distinguir quem é um ou outro<br />
quando as posições se invertem. São jogos de<br />
interesse onde a nação nunca é levada em<br />
conta. O que conta é o Estado.<br />
E nesse jogo, embora a partida sempre embole<br />
no meio de campo, existem aqueles partidos<br />
que são a base do governo e, sem qualquer<br />
margem de erro, vivem na disputa acirrada para<br />
obter cargos, vantagens pessoais, envolvidos<br />
em negociatas escusas, corrupção e<br />
entreguismo.<br />
Numa atitude perversa e sem caráter, também<br />
comumente os partidos políticos, sejam eles de<br />
esquerda ou direita, são oportunistas com a<br />
desgraça coletiva. Dessa forma, qualquer<br />
acontecimento se torna uma bandeira para
promover pretensos ideais de igualdade e<br />
justiça. Se por um lado o poder vigente do<br />
Estado minimiza tais flagelos e influi sobre<br />
uma mídia vendida, por outro lado os partidos<br />
que almejam o poder se apropriam dos fatos<br />
mais graves no sentido de propagar sua<br />
legenda, às custas de pessoas que até ali não<br />
lhes significavam nada além de votos. De um<br />
lado e de outro, a violência moral toma<br />
formatos de abuso e desrespeito com o<br />
sofrimento alheio.<br />
Violência de Dogmas<br />
A noção de pecado e punição contida nos<br />
dogmas das religiões instituídas é<br />
reconhecidamente, junto ao medo incutido<br />
pela mídia, uma das violências menos<br />
contestadas e mais insidiosas de todas.<br />
É como se houvesse um acordo tácito entre<br />
toda a sociedade, que se deva tolerar o<br />
verdadeiro massacre psicológico promovido<br />
pelos pregadores da “verdade”, sendo esta<br />
verdade algo tão abstrato e mutável quantas<br />
são as crenças.<br />
Em nome dos dogmas já foram cometidas<br />
violências atrozes contra indivíduos e nações<br />
inteiras, fartamente documentados nos livros<br />
de história. Porém a violência cometida sobre<br />
aqueles que crêem jamais poderem alcançar a<br />
perfeição de caráter apregoada, esta não é<br />
mensurável e seus estragos sociais também<br />
não.<br />
Em nome dos dogmas, circulam pela internet<br />
discursos de pastores protestantes atribuindo<br />
condutas ditas demoníacas aos cultos de<br />
origem africana e às populações indígenas<br />
brasileiras, incitando seus fiéis a queimar<br />
aldeias em pleno século XXI. Em nome dos<br />
dogmas, homosexuais são julgados doentes ou<br />
pervertidos pela igreja católica. E a lista não<br />
tem fim...<br />
Além disso, os dogmas em sua<br />
incontestabilidade, apóiam e justificam todo<br />
tipo de repressão exercida de indivíduo para<br />
indivíduo, tanto dentro do núcleo familiar<br />
quanto nos ambientes de trabalho e social.<br />
Dogmas religiosos insinuam-se até mesmo no<br />
Estado laico, em políticas educacionais que<br />
dizem respeito ao ensino das ciências, em<br />
políticas públicas que influenciam na saúde da<br />
gestante, na questão do aborto, do<br />
planejamento familiar, etc.<br />
A religião que prevalece num determinado<br />
país acaba sendo determinante até mesmo na<br />
vida de pessoas que não compartilham de suas<br />
crenças, através dessa influência nefasta sobre<br />
o Estado. No caso do Brasil, onde a liberdade<br />
de culto está garantida na própria<br />
Constituição, não é diferente: temas polêmicos<br />
do ponto de vista religioso são evitados em<br />
debates políticos às vésperas de eleições,<br />
canais de TV são concedidos pelo Estado a<br />
grupos religiosos específicos, para livre difusão<br />
de espetáculos bizarros e conversões<br />
estrondosas em detrimento da veiculação de<br />
programação cultural. Em contrapartida, rádios<br />
independentes chamadas “piratas” são cassadas<br />
e seus integrantes detidos por não terem licença<br />
oficial para veicular sua programação, muitas<br />
vezes de qualidade cultural infinitamente<br />
superior ou de imensa utilidade para a<br />
comunidade onde são sediadas.<br />
Violência Ambiental e da Saúde<br />
A violência ambiental tem como as outras, sua<br />
face ruidosa e também a silenciosa.<br />
A ruidosa tem sido alvo de discussões<br />
acaloradas entre corporações que exploram até<br />
Trabalhadores sem-terra<br />
e indígenas foram<br />
vítimas de ameaças e<br />
ataques por parte de<br />
policiais e seguranças<br />
particulares.<br />
página 07
Na Região<br />
Metropolitana do<br />
Rio de Janeiro,<br />
5,3% da população<br />
foram<br />
desrespeitados,<br />
2,3% foram<br />
ameaçados e<br />
1,1% foi agredido<br />
fisicamente por<br />
policiais. Isso<br />
significa que<br />
num período<br />
de um ano,<br />
pelo menos<br />
835.454 pessoas<br />
sofreram algum<br />
tipo de violência<br />
policial.<br />
página 08<br />
o talo os recursos naturais, e ambientalistas.<br />
Estes últimos, por sua vez, divididos em<br />
inúmeras correntes que vão dos mais<br />
científicos e ponderados até os místicos que<br />
vêem na causa ambiental uma plataforma para<br />
difundir novos padrões de crenças.<br />
Porém a violência ambiental silenciosa e que<br />
nos assedia diariamente no meio urbano é<br />
menos conhecida, quase nunca divulgada na<br />
mídia, como seria de esperar.<br />
A ela podemos nos referir quando pensamos<br />
em todas as substâncias cancerígenas<br />
adicionadas a alimentos, não só os<br />
industrializados com seus conservantes,<br />
aromatizantes, flavorizantes... bem como<br />
também os considerados “naturais”, pois foi<br />
divulgado recentemente que o Brasil é o país<br />
campeão no uso de agrotóxicos.<br />
Da mesma forma podemos considerar uma<br />
violência ambiental o excesso de informação a<br />
que nossos sentidos são submetidos a todo<br />
instante, sem tempo hábil para assimilar<br />
conscientemente essa quantidade, tanto na rua<br />
quanto dentro de nossa própria casa, através<br />
da internet e TV.<br />
A poluição não se resume ao ar que<br />
respiramos, mas também a toda espécie de<br />
fator que violente nossa saúde física e<br />
psicológica, derivado de tecnologias ainda<br />
primitivas e insustentáveis.<br />
O lixo que produzimos hoje não se limita<br />
somente a poluir os lençóis freáticos que nos<br />
fornecem água, mas também compromete a<br />
saúde de populações inteiras da África e da<br />
China, que se submetem a um arremedo de<br />
reciclagem de componentes tóxicos para obter<br />
algum sustento. E há casos escandalosos como<br />
o dos 'piratas' da Somália, que nada mais são<br />
do que indivíduos no limite de sua capacidade<br />
de protesto, que viram vilas inteiras ser<br />
atingidas por componentes radioativos<br />
lançados de navios internacionais em sua<br />
costa, adoecendo pessoas e dizimando a<br />
pesca, seu alimento primordial.<br />
O poder econômico de corporações que<br />
ignoram sumariamente legislações<br />
internacionais, com a cumplicidade de<br />
governos omissos ou mais ostensivamente<br />
criminosos, tem permitido que o meio<br />
ambiente seja negligenciado até um ponto<br />
onde não sabemos mais se haverá retorno<br />
possível.<br />
Quanto à saúde, a indústria farmacêutica<br />
representada pelas grandes corporações<br />
internacionais é responsável pela silenciosa<br />
violência cometida ao forjar síndromes de<br />
todo tipo para a comercialização de<br />
medicamentos desnecessários,<br />
insuficientemente testados, maléficos e com<br />
efeitos colaterais que muitas vezes<br />
ultrapassam em alta medida a própria doença<br />
em termos de gravidade.<br />
Essa indústria, tão poderosa no planeta quanto<br />
a indústria bélica, hoje é responsável por uma<br />
fatia da população mundial dependente de<br />
drogas lícitas para sobreviver à dor de existir<br />
em um mundo poluído, mal alimentado,<br />
psicótico e depressivo. Não satisfeita com sua<br />
fatia de lucros sobre o sofrimento já existente,<br />
investe na propaganda e na cumplicidade de<br />
profissionais médicos inescrupulosos ou<br />
ignorantes, para criar pânico desnecessário em<br />
cima de sintomas que, combinados, podem ser<br />
justificativa para a venda de qualquer produto<br />
criado por ela.<br />
No entanto, quando se trata de liberar patentes<br />
para medicamentos necessários a populações<br />
carentes, faz vista grossa às mortes de milhares<br />
de seres humanos e se nega a perder um<br />
centavo que seja de seus fabulosos lucros, vide<br />
os países da África acometidos pela epidemia<br />
de AIDS.<br />
Além disso, essas corporações hoje patrocinam<br />
a biopirataria para detenção do conhecimento e<br />
posse exclusiva da farmacopéia natural onde<br />
ainda existem florestas abundantes, como no<br />
Brasil. E ao lado desse crime, defendem seus<br />
interesses cinicamente evocando a lei quando<br />
se trata de reprimir e coibir o uso de<br />
medicamentos tradicionais e fitoterápicos,<br />
medicinas alternativas, práticas nativas e de<br />
conhecimento popular.<br />
Redefinindo o termo “violência”<br />
“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é<br />
violento. Mas ninguém chama violentas às<br />
margens que o comprimem.”<br />
(Bertold Brecht)<br />
Além de discorrer sobre uma violência que não<br />
é evidente, que é silenciosa, há também que<br />
ressignificar o termo na sua conotação não<br />
negativa ou pejorativa.<br />
O termo violência está atualmente muito<br />
vinculado a catástrofes, guerras, caos urbano, e<br />
a tudo o que de uma maneira ou de outra<br />
agrida o ser humano.<br />
Esquece-se de que o próprio nascimento do<br />
homem é um ato violento. Toda ruptura é um<br />
ato violento.<br />
Ao contrário do que pregam pacifistas e do que<br />
o sistema quer nos fazer entender, a violência<br />
tem seu lado positivo e construtivo. Indo na<br />
razão inversa da passividade, conformismo e<br />
aceitação de pequenas reformas paliativas, toda<br />
transformação exige um grau de violência na<br />
destruição de velhos conceitos, de velhas<br />
crenças e hábitos. O novo não se constrói sobre<br />
os escombros do velho, é necessário antes<br />
limpar o terreno para que uma estrutura nova<br />
possa ser erguida.<br />
Há um tempo para destruir. E há um tempo<br />
para construir. E isso não acontece de maneira
Os maiores índices<br />
de homicídio no<br />
Brasil concentram-se<br />
na faixa de 15 a 24<br />
anos de idade<br />
(o pico está entre os<br />
20 e os 21 anos).<br />
Embora os jovens<br />
representem apenas<br />
18,6% da população<br />
do país em 2007, eles<br />
concentravam 36,6%<br />
dos homicídios<br />
ocorridos nesse ano<br />
ilustração: Rubens Guilherme Pesenti<br />
simples ou regimentar. Existe a resistência de<br />
tudo o que está estabelecido, inclusive dentro<br />
do psiquismo do indivíduo.<br />
Com isso queremos dizer que a ação<br />
transformadora do homem se dá na<br />
congruência de sua ruptura interna, objetiva e<br />
subjetiva. Quando confluem os seus ideais de<br />
valores com a sua mais íntima vontade, aí<br />
cessa a violência consigo mesmo. Essa<br />
transformação é o que geralmente leva o<br />
homem em busca da transformação do mundo<br />
que o cerca. A violência também pode ser<br />
construtiva.<br />
***<br />
* Assinam esta matéria em parceria:<br />
Rubens Guilherme Pesenti e<br />
Mercedes Lorenzo.<br />
página 09
foto: Mercedes Lorenzo<br />
http://olhardelambe-lambe.blogspot.com<br />
Foi por esses dias que andei guri<br />
dentro de mim, pisando grama e barro,<br />
descomprometido com doenças de<br />
prescrição de mãe. Deixando o Sol<br />
queimar no lombo meio-dia, uma hora<br />
ou a hora que fosse, com idéias de<br />
pintar-o-sete girando na cabeça.<br />
Moleque que se mete na gente, e que<br />
não envelhece, e desconhece a palavra<br />
compromisso, muito menos "morte".<br />
Foi nesses dias que se passam dentro<br />
de mim, dias fantásticos, mágicos,<br />
despreocupados, em que a fada da vida<br />
nos concede três desejos e escolhemos<br />
a despreocupação e o encantamento...<br />
Deixamos o terceiro no bolso para nos<br />
sentirmos seguros.<br />
Numas passadas que dei numa rua de<br />
dentro, no interior daquela cidade<br />
minúscula e isolada, um leve flertar<br />
reteve-se num olhar fixo e intenso,<br />
parou meu corpo, e meu cérebro.<br />
Minha paz saiu da atmosfera e hoje<br />
rodeia outro planeta, anéis de saturno.<br />
Eu vi a rosa por entre as grades de uma<br />
mansão. Solitária no jardim, carmim.<br />
Não havia metido a língua ainda<br />
quando meu pensamento atirado lhe<br />
desgustava doce.<br />
Não sei por que cargas era tão<br />
protegida. Pensava antes que o diabo<br />
do amor, que torna as coisas especiais<br />
e singulares, não seria sentido por<br />
todos, necessariamente, pela mesma<br />
flor. Porém, parecia que os<br />
proprietários daquela casa e todos os<br />
transeuntes daquela rua, em vê-la,<br />
amavam aquela rosa solitária no<br />
jardim. Argumento: era tão esperado<br />
pelos donos da casa, tão nítido de<br />
acontecer, que eram dois Dobermanns<br />
no quintal e uma falsa placa avisando<br />
se tratar de uma grade eletrificada.<br />
Ainda não sabia se havia um caseiro<br />
para dar-me um tiro àquela tarde<br />
quando meus pés tocaram o chão do<br />
lado de dentro, num pulo atravessado<br />
rente aos fincos da cerca. Notei alguns<br />
pedaços de minha calça agarrados.<br />
Munido de uma vassoura esquecida no<br />
jardim defendi-me como pude dos<br />
cães, os afugentando depois de<br />
algumas “cabadas”. Sangue vazando<br />
entre os pequenos buracos causados
Minha respiração<br />
é saudade<br />
pelas mordidas não esquivadas.<br />
Aproximei-me da rosa ainda armado.<br />
Toquei a tela que protegia a rosa e<br />
tomei o choque que me fora prometido<br />
na placa da grade, desta vez uma<br />
pancada no braço. E pensei que era<br />
mesmo mais econômico e inteligente<br />
eletrificar somente a tela em lugar de<br />
toda a grade, assim, somente os mais<br />
que abusados fechariam curto se<br />
eletrocutando.<br />
Os cães percebendo-me desprevinido<br />
tornaram a me rondar esperando uma<br />
oportunidade para nova investida. Eu,<br />
de menino em passeio descontraído<br />
passei a animal obsessivo, tanto quanto<br />
os que me rodeavam.<br />
Que pude fazer, ao perceber que<br />
alguém havia aberto as cortinas de uma<br />
das janelas, foi fungar fortemente o<br />
aroma da rosa junto à tela, como quem<br />
leva o que pode dentro de si por não<br />
caber ou amarrotar demais em malas, e<br />
depois sair correndo em meio a euforia<br />
dos cães; patadas e mordidas que me<br />
tangiam, pular a grade, rasgar mais a<br />
calça e as pernas, manchar com sangue<br />
as mesmas pontas de minha invasão<br />
ensandecida.<br />
A rua era deserta. Não me notava ao<br />
momento em que fiz tudo aquilo ou<br />
talvez tenha considerado uma loucura<br />
que deva acometer todas as pessoas, ao<br />
menos, uma vez na vida. Sei que não<br />
me tinha entusiasmo ou euforia pela<br />
aventura o quanto me pareceu devido<br />
em saber disto tudo depois.<br />
A casa era aparentemente um recanto<br />
de férias. Pudera. Ao lado daquela rosa<br />
era tudo um lazer, tudo pelo que se luta<br />
e onde se descansa após a luta. A casa<br />
era imagem dos sonhos operários.<br />
Outrora não parecia ter caseiro.<br />
Contudo, quem alimentaria os cães? A<br />
hipnose da rosa me era maior. Precisei<br />
correr porque parecia que a ponta de<br />
uma espingarda se anunciava no vão da<br />
porta aberta num “croooc”. Não fiquei<br />
para conferir.<br />
Na corrida medrosa o pensamento já<br />
girava em voltar e ganhar a rosa,<br />
arrancá-la de lá. A idéia estalou. Meti a<br />
mão no bolso ciente de meu último<br />
desejo, mas meu desejo ficou pelo<br />
caminho, esvaído pelo furo do bolso,<br />
junto ao meu sangue nos fincos. O<br />
desejo da fada deu-se ao propósito de<br />
proteção da grade e a transformou num<br />
hermético isolamento da rosa, de tal<br />
forma que, sequer, nem lembranças<br />
mais penetram ou podem ir e vir deste<br />
acontecimento, desta rua que não me<br />
vem o nome, desta cidade perdida.<br />
Acontece apenas alguma coisa em meu<br />
instinto, que em visitar um sensitivo<br />
pude descobrir. Eu o procurei em razão<br />
de que tenho, por meus dias de então<br />
“garoto esquecido”, vício de entrar em<br />
perfumarias e sugar com toda a força<br />
das narinas as fragrâncias. Nenhuma<br />
delas me satisfaz. As vendedoras se<br />
aborrecem comigo e já me conhecem.<br />
Comecei a comprar alguns frascos e<br />
dar de presentes para uns amigos para<br />
tornar-me menos chato aos<br />
comerciantes.<br />
Disse a meu consultante que meu<br />
incômodo na vida é constante desde<br />
que ao ato simples e inevitável de<br />
respirar sinto uma imensa nostalgia,<br />
uma dor angustiante no peito. Ele não<br />
me ofertou a cura, apenas me contou<br />
esta história segurando em minhas<br />
mãos de olhos fechados como se<br />
concentrasse a absorver de mim - como<br />
eu em inspirar o aroma da rosa -<br />
explicação para este fenômeno ou<br />
doença que ainda me perturba, e deume<br />
esta história como versão<br />
explicativa à razão de minha respiração<br />
ser saudade.<br />
RODRIGO MACHADO<br />
FREIRE<br />
eu não / e a que me nego pouco<br />
importa!/ digo de minha áspera<br />
inconstância: eu não / antes de<br />
tudo digo “eu não” - nisto vou<br />
agarrado / porque antes de tudo<br />
já não me perdoam “não ser” /<br />
e me inventam “imperdoável” /<br />
“eu não” é como eu sou /<br />
não principalmente.<br />
http://entimesmado.blogspot.com<br />
página 011
Você está no processo<br />
de ser doutrinado<br />
Doris<br />
Lessing<br />
«Talvez não exista outra maneira de<br />
educar as pessoas. Possivelmente, mas<br />
não acredito. Nesse ínterim seria útil<br />
pelo menos descrever adequadamente<br />
as coisas, chamá-las por seus nomes<br />
corretos. Idealmente, o que se deveria<br />
dizer a toda criança, repetidamente,<br />
durante toda a vida escolar, é algo mais<br />
ou menos assim:<br />
- Você está no processo de ser<br />
doutrinado. Ainda não criamos um<br />
sistema de educação que não seja um<br />
sistema de doutrinação. Lamentamos,<br />
mas estamos fazendo o melhor que<br />
podemos. O que lhe estão ensinando<br />
aqui é um amálgama dos preconceitos<br />
atuais e das opções desta nossa cultura.<br />
A consulta mais ligeira à História<br />
revelará o quanto eles são temporários.<br />
Você está sendo ensinado por pessoas<br />
que conseguiram acomodar-se a um<br />
regime de pensamentos transmitidos<br />
por seus predecessores. É um sistema<br />
autoperpetuador. Os que, dentre vocês,<br />
são mais vigorosos e individuais do<br />
que os demais serão incentivados a ir<br />
embora e a encontrar maneiras de se<br />
educar, educando seu próprio<br />
julgamento. Os que ficarem devem<br />
sempre lembrar, sempre, em todas as<br />
ocasiões, que estão sendo amoldados<br />
para se enquadrar nas estreitas e<br />
específicas necessidades desta<br />
determinada sociedade".<br />
cena do filme The Wall, de Alan Parker.
Nem toda sombra<br />
na parede é cinema<br />
O testamento<br />
de Dr. Mabuse,<br />
de Fritz Lang,<br />
1932<br />
Um amigo me disse que não vê filmes no<br />
computador. No máximo, em dvd. Eu<br />
vejo. Não é uma rima, mas é uma solução.<br />
Pego uns dias e revejo a filmografia de<br />
Fritz Lang; antes faço o mesmo com a de<br />
Yasujiro Ozu, depois passo pra Tarkovski.<br />
Revisitando o<br />
Cinema. Não há a mais remota<br />
possibilidade de assistir a esses filmes no<br />
circuito comercial. Provavelmente - e olhe<br />
lá! - em alguma mostra promovida nos<br />
circuitos alternativos.<br />
Claro que seria bem melhor ver o bom<br />
cinema nos telões das grandes salas. Mas<br />
onde estão essas salas? Nos multiplexes?<br />
A "assepsia" dessas saletas de shopping<br />
começa na frieza da bilheteria, que separa<br />
o funcionário do espectador por um<br />
espesso vidro e<br />
"comunica-se" por um microfone high<br />
tech. Não há calor humano nem nesse<br />
momento. E se o filme em cartaz for um<br />
3D a sua "aproximação" com os<br />
personagens é uma grande mentira,<br />
enganação. O tridimensional entra pelo<br />
primeiro coração através de uma boa<br />
história, um bom roteiro, uma boa direção,<br />
e elenco de atores, não de astros.<br />
Não troco duas horas de um “avatar” por<br />
um plano silencioso de Tarkovski, uma<br />
câmera-tadame de Ozu, um ângulo<br />
expressionista de Lang, uma sequência<br />
humanista de De Sica, um take onírico de<br />
Fellini, uma câmera delirante de Glauber,<br />
um duelo ao pôr-do-sol de Sergio Leone,<br />
um susto de Hitchcock, uma parábola<br />
segundo Pasolini, uma verdade-mentira de<br />
Orson Welles, um Monument Valley de<br />
John Ford, um samurai de Kurosawa, um<br />
contra-plano de Antonioni, uma dissecação<br />
n'alma de Bergman, um caso de amor de<br />
Truffaut... mesmo na telinha no meu<br />
computador, chupando drops de anis...<br />
NIRTON VENANCIO<br />
Livros publicados:<br />
"Roteiro dos pássaros", poesia,<br />
"Cumplicidade poética", poesia<br />
Filmes realizados:<br />
"Um cotidiano perdido no<br />
tempo", curta, ficção<br />
"Walking on water", média,<br />
documentário,<br />
"O último dia de sol", curta,<br />
ficção,<br />
"Dim", curta, documentário<br />
Blogs:<br />
www.nirtonvenancio.blogspot.com<br />
www.olharpanoramico.blogspot.com<br />
Atividades recentes:<br />
projeto em andamento, longa<br />
documentário "Pessoal do Ceará"<br />
página 13
fotos da exposição sobre a obra de Oswald de Andrade<br />
Museu da Língua Portuguesa - São Paulo<br />
por Mercedes Lorenzo (http://olhardelambe-lambe.blogspot.com)
A tal “revolução sexual”<br />
Letícia Lanz<br />
O professor José Ângelo Gaiarsa<br />
costumava brincar perguntando se alguém<br />
sabia onde era o lugar em que tinha havido<br />
a tal "revolução sexual", porque ele queria<br />
passar lá pelo menos uma semana, antes de<br />
morrer. Brincadeiras à parte, ele morreu<br />
sem ter o seu desejo atendido. Aliás, como<br />
grande estudioso que era da sexualidade<br />
humana, sabia que esse lugar nunca<br />
existiu, assim como a tão decantada<br />
“revolução sexual” teria sido apenas um<br />
mito contemporâneo.<br />
Se essa tal revolução sexual tivesse mesmo<br />
ocorrido nas proporções em que é<br />
alardeada, a sexualidade não estaria mais,<br />
como sempre esteve, sob a mira<br />
demolidora da "moral, da tradição e dos<br />
bons costumes". O corpo humano não<br />
estaria mais “sexualmente mapeado”,<br />
dividido entre setores onde é permitido<br />
sentir prazer e onde o prazer simplesmente<br />
não deve existir, sob pena da pessoa que<br />
senti-lo nessas regiões proibidas tornar-se<br />
objeto de execração pública e permanente<br />
vigilância moral.<br />
Na realidade, nunca ocorreu, como ainda<br />
continua longe de ocorrer, uma liberação<br />
da sexualidade humana na extensão e na<br />
profundidade erradamente atribuídas a<br />
uma série de movimentos urbanos,<br />
ocorridos na segunda metade do século<br />
XX, aos quais se convencionou chamar<br />
conjuntamente de “revolução sexual”.<br />
Qualquer pessoa razoavelmente informada<br />
sabe que mesmo as sociedades mais<br />
evoluídas continuam a exercer pesada<br />
repressão e permanente controle sobre as<br />
manifestações da sexualidade humana,<br />
particularmente as que são consideradas<br />
fora de conformidade com os modelos de<br />
conduta sexual oficialmente reconhecidos e<br />
aceitos como "normais".<br />
O progresso tecnológico e a mudança de<br />
perfil do mercado de trabalho a partir da<br />
segunda guerra mundial inauguraram uma<br />
época de intensas demandas sociais, em<br />
que pipocaram movimentos<br />
reivindicatórios de direitos humanos<br />
ostensivamente negados ou desrespeitados<br />
até então. A liberação da sexualidade<br />
humana era apenas um item da extensa<br />
pauta de insatisfações sociais existentes na<br />
época.<br />
Inicialmente pouco articuladas entre si, as<br />
reivindicações de inclusão e respeito à<br />
diversidade sexual foram se multiplicando<br />
e se estruturando como movimentos<br />
expressivos nos grandes centros urbanos<br />
dos Estados Unidos e da Europa Ocidental.<br />
Em muitos lugares, esses movimentos<br />
obtiveram importantes vitórias que, por<br />
força da revolução nas comunicações –<br />
essa, sim, uma revolução concreta e<br />
definitiva –acabaram respingando seus<br />
efeitos positivos pelo mundo afora, sempre<br />
sob a atenta vigilância das instituições<br />
conservadoras e com enorme passividade e<br />
resistência das sociedades locais.<br />
Inegavelmente, os chamados "anos<br />
sessenta" produziram importantes<br />
rachaduras nas muralhas da intolerância<br />
página 16
sexual global. Em muitas partes do<br />
planeta, a homossexualidade deixou de ser<br />
considerada doença mental e gravíssima<br />
transgressão moral, assim como todas as<br />
mulheres, sem o perigo de comprometerem<br />
sua reputação de “santas” mães e esposas,<br />
passaram a ter direito ao orgasmo, até<br />
então reservado exclusivamente às<br />
meretrizes.<br />
Mas, a despeito da relevância de tais<br />
conquistas, a sexualidade humana como<br />
um todo continuou travada pela camisa-deforça<br />
que lhe foi imposta, a milênios,<br />
como condição básica para a própria<br />
existência da “sociedade organizada”,<br />
conforme afirma Freud na sua obra “O<br />
Mal Estar da Civilização”. Segundo ele, a<br />
primeira providência necessária para o<br />
êxito do pacto civilizatório era “domar” os<br />
nossos instintos sexuais “selvagens”.<br />
A tarefa de reprimir a livre expressão da<br />
sexualidade sempre foi uma das principais<br />
funções da cultura, através de instituições<br />
como a família, a escola, o Estado e a<br />
religião, todas armadas com seus terríveis<br />
dogmas morais e tenebrosas punições.<br />
Talvez não haja mais, hoje em dia, tanta<br />
gente convicta de que será condenada à<br />
desgraça eterna em virtude de uns poucos<br />
momentos de gozo sexual. A questão,<br />
porém, é que uma regra de conduta moral<br />
não se apaga facilmente do inconsciente<br />
coletivo, por mais que esteja exorcizada no<br />
plano individual. Pelo contrário, a simples<br />
desativação do aparelho repressor não<br />
significa redução automática da influência<br />
da regra de conduta moral na vida dos<br />
indivíduos. Na maioria dos casos, a regra<br />
moral continuará agindo de maneira subreptícia,<br />
influenciando de maneira<br />
categórica as escolhas e as condutas dos<br />
indivíduos.<br />
Mesmo pessoas que individualmente não<br />
apoiam nenhuma daquelas antigas e<br />
absurdas regras feitas para coibir a livre<br />
expressão da sexualidade humana,<br />
costumam enquadrar-se passivamente ao<br />
comportamento social exigido por essas<br />
mesmas normas, reforçando, dessa<br />
maneira, ainda mais, o poder coercitivo<br />
desses dispositivos de repressão.<br />
Como resultado, passamos a viver em uma<br />
sociedade abundante de “discursos<br />
politicamente corretos”, porém cada vez<br />
mais pobre de ações compatíveis com o<br />
conteúdo bombástico de tais discursos. Em<br />
outras palavras, as pessoas falam uma<br />
coisa e fazem outra, que em geral é o<br />
oposto do que dizem.<br />
O mundo de hoje clama por uma<br />
revolução sexual de amplas proporções.<br />
Até que ela se articule, continuarão<br />
chegando refugiados da guerra de<br />
segregação sexual, travada pela sociedade<br />
patriarcal-machista e heteronormativa<br />
contra todos aqueles que se afastam dos<br />
modelos oficiais de sexualidade ainda em<br />
vigor, apesar do seu prazo de validade já<br />
estar pra lá de vencido.<br />
A maneira arrogante com que esses<br />
modelos continuam a ser impostos às<br />
novas gerações é a prova mais elementar<br />
de que realmente não houve nenhuma<br />
revolução sexual, mas apenas batalhas<br />
isoladas, algumas até muito bemsucedidas.<br />
Embora não representem a<br />
liberação consistente da sexualidade<br />
humana, é com base nesses êxitos isolados<br />
que indivíduos mal-informados, eu diria<br />
até mal-intencionados, teimam em afirmar<br />
que a revolução sexual não só aconteceu<br />
como precisa até mesmo ser contida,<br />
porque já foi longe demais...<br />
Letícia<br />
Lanz<br />
Curitiba - Paraná<br />
http://www.leticialanz.org/<br />
página 17
itmo<br />
estrellado<br />
linhas doidas<br />
tratando<br />
de escapar<br />
para onde vai<br />
o mundo?<br />
melhor<br />
que ontem
vertigem provocada por confusão<br />
e continuamos...<br />
acabou, comença, esperamos...<br />
Myra<br />
Landau<br />
Nascida na Romênia, mas criada<br />
entre Brasil e México, Myra Landau<br />
se fixou na Itália em 1994.<br />
"Eu não tenho casa, e eu mesma não<br />
gosto da palavra casa.<br />
Eu vivi em muitos países, mas sou uma<br />
pessoa independente de fronteiras e<br />
bandeiras. Onde eu tenho amigos, eu<br />
estou em casa e na Itália é assim para<br />
mim."<br />
Nestas poucas palavras define a sua<br />
vida intensa, iniciada fugindo da<br />
Europa devastada pela guerra e regimes<br />
totalitários, desembarcou no Brasil dos<br />
anos 50. Landau pintou e ensinou arte<br />
por décadas no México.<br />
Pintora conhecida na América Latina,<br />
com mais de 60 exposições individuais<br />
e em torno de 150 coletivas.<br />
Seu blog:<br />
http://myra-parole.blogspot.com/
Franz Kafka<br />
* um conto extraído de<br />
«A Colônia Penal», 1948.<br />
Poderíamos quase afirmar que o sistema de<br />
defesa em nosso país tem sido<br />
negligenciado. Até o presente ele não nos<br />
preocupou, e continuamos a executar<br />
trabalhos diários. Entretanto ultimamente<br />
vem acontecendo certos fatos que<br />
começam a preocupar-nos.<br />
Tenho uma oficina de sapateiro-remendão<br />
situada à praça que fica bem em frente ao<br />
palácio do imperador. Mal abro as<br />
venezianas logo aos primeiros clarões do<br />
alvorecer, vejo soldados armados e já<br />
postados nas embocaduras de todas as ruas<br />
dando para a praça. Entretanto eles não<br />
pertencem ao nosso país, sendo<br />
evidentemente nômades oriundos do<br />
Norte. Para mim de certa forma é<br />
incompreensível o fato de eles terem<br />
entrado na capital, embora a distância até a<br />
fronteira seja bem grande. Seja como for<br />
aqui estão, parecendo que aumentam todas<br />
as manhãs.<br />
Acampam sob o céu aberto, de acordo com<br />
seu temperamento, porquanto detestam<br />
permanecer confinados em casas.<br />
Ocupam-se afiando as espadas, aguçando<br />
as setas e exercitando a equitação. Esta<br />
praça tranquila e que se mantinha sempre<br />
escrupulosamente limpa, foi por eles<br />
totalmente transformada num estábulo. De<br />
vez em quando tentamos realmente sair de<br />
nossas lojas, para pelo menos limpar o<br />
grosso da sujeira, isto porém vem<br />
acontecendo cada vez mais raramente, pois<br />
é um trabalho inútil e além disto<br />
arriscamo-nos ainda a ser pisados pelos<br />
cascos dos cavalos selvagens, ou sermos<br />
mutilados pelas vergastadas de seus<br />
chicotes. A comunicação com os nômades<br />
é impossível. Desconhecem nosso idioma<br />
e para falar a verdade, eles mesmos nem<br />
sequer possuem o seu próprio. Em nossos<br />
ouvidos ressoa sempre um grito estridente<br />
igual ao das gralhas. Não entendem, e<br />
tampouco esforçam-se por entender nosso<br />
sistema de vida e nossas instituições.<br />
Assim sendo não tem disposição nem<br />
mesmo para aprenderem o sentido de<br />
nossa mímica. Pode-se gesticular para eles<br />
até deslocar os braços, os maxilares e os<br />
pulsos, e continuarão não nos entendendo<br />
e nunca entenderão. Fazem caretas com<br />
muita frequência e nestes momentos o<br />
branco de seus olhos vira para cima e<br />
espumam os lábios, isto porém nada<br />
significa, nem mesmo uma ameaça; agem<br />
assim porque faz parte de sua natureza.<br />
Tudo quanto precisam costumam tirar. E<br />
não se pode dizer que tirem à força.<br />
Agarram-se a qualquer coisa e<br />
simplesmente afastamo-nos deixando-os<br />
tirá-la.<br />
Furtaram vários artigos até de meu<br />
estoque, mas não posso queixar-me ao ver<br />
o que acontece por exemplo, com o<br />
açougueiro do outro lado da rua. Mal ele<br />
aparece trazendo qualquer carne, os<br />
nômades dele se apoderam devorando-a<br />
com sofreguidão. Até mesmo seus cavalos<br />
comem carne e frequentemente vê-se o<br />
cavaleiro e seu cavalo lado a lado, ambos<br />
roendo o mesmo pedaço, cada um em uma<br />
extremidade. O açougueiro anda nervoso e<br />
não ousa interromper suas entregas.<br />
Podemos contudo compreender isto e até<br />
fizemos uma subscrição para auxiliá-lo a<br />
sobreviver. Se os nômades não arranjarem<br />
carne, sabe-se lá o que poderão imaginar<br />
para fazer e seja como for, quem saberá o<br />
que tem em mente, e por este motivo<br />
recebem carne diariamente.<br />
Não faz muito tempo quando o açougueiro<br />
pensou que pelo menos podia poupar-se ao<br />
trabalho do abate, e assim numa bela<br />
manhã levou-lhes um boi vivo. Creio<br />
porém, que nunca mais ousará fazer isto.<br />
durante uma hora permaneci deitado no<br />
chão nos fundos de minha oficina com a<br />
cabeça escondida por baixo de todas as<br />
roupas, tapetes e travesseiros que encontrei<br />
à mão, somente para não ter que escutar os<br />
berros daquele boi puxado por todos os<br />
lados pelos nômades que às dentadas<br />
arrancavam os pedaços do pobre animal.<br />
Há muito que tudo serenara novamente até<br />
arriscar-me a sair. Vitoriosos jaziam à volta<br />
dos restos da carcaça, tal qual os bêbados à<br />
volta de um barril de vinho.<br />
E foi naquela ocasião que imaginei ver o<br />
imperador a uma das janelas do palácio;<br />
em geral ele não costuma entrar nos<br />
aposentos que dão para o exterior,<br />
passando a maior parte do tempo dentro de<br />
seus jardins. Todavia naquela ocasião ele<br />
estava de pé, ou pelo menos assim me<br />
pareceu - em frente a uma das janelas, e<br />
com a cabeça inclinada observava o que<br />
ocorria em frente ao palácio.<br />
- «Que acontecerá agora?» - todos nos<br />
perguntávamos. «Quanto tempo ainda<br />
poderemos aguentar esta carga e este<br />
tormento?» O palácio imperial foi o que<br />
atraiu os nômades, agora porém aqueles<br />
que o habitam não sabem como expulsálos.<br />
Os portões permanecem fechados; os<br />
guardas que costumavam marchar para<br />
dentro e para fora e fazerem a cerimônia da<br />
troca da guarda, vivem agora escondidos<br />
por trás das janelas gradeadas. Resta a nós<br />
- artífices e negociantes, salvar nosso país;<br />
não estamos porém habilitados a cumprir<br />
esta tarefa e tampouco nunca nos gabamos<br />
de sermos capazes de executá-la. Existe<br />
qualquer mal entendido, e ele será nossa<br />
ruína.<br />
página 20
De putas<br />
e deputados<br />
Primeiro veio meu avô, junto com meu<br />
tio mais velho. Sairam de Batatais, interior<br />
do estado e vieram para a capital, São<br />
Paulo, no começo do século 20, em busca<br />
de uma vida melhor.<br />
Meu avô, um excelente sapateiro italiano<br />
acabou se estabelecendo no bairro da Casa<br />
Verde e foi trazendo aos poucos o restante<br />
da família, minha avó e os outros 8 filhos<br />
que lá ficaram.<br />
O segundo a vir, por uma questão<br />
cronológica, foi meu pai, ainda um rapaz<br />
mal saído da adolescência. Tudo foi<br />
combinado através de cartas, o dia em que<br />
ele deveria embarcar, o horário do trem e<br />
meu avô esperando na Estação da Luz.<br />
Mas alguma coisa deu errado, alguma<br />
pequena confusão no que havia sido<br />
decido por intermédio das<br />
correspondências: meu pai chega na Luz e<br />
não tem ninguém a esperá-lo.<br />
Bom, o que poderia fazer um rapaz do<br />
interior, sem conhecer nada daquela já<br />
enorme cidade, sem conhecer ninguém e<br />
sequer um único endereço que pudesse<br />
servir de referência? ficou ali na estação<br />
ferroviária, inseguro e amedrontado à<br />
espera de que alguém pudesse aparecer, ou<br />
mesmo de algum milagre (que é o que se<br />
deseja nessa hora).<br />
O bairro da Luz desde aquela época se<br />
caracterizava por ser uma região de<br />
prostituição. Região do baixo meretrício.<br />
As prostitutas costumavam fazer ponto na<br />
estação, um local óbvio para uma boa e<br />
ampla clientela.<br />
Passados 2 ou 3 dias, chamou-lhes a<br />
atenção ver aquele rapaz ali parado, foram<br />
conversar e ele contou a desventura da<br />
chegada a São Paulo. Como ele não tinha<br />
dinheiro para comer, beber ou fumar, as<br />
mulheres penalizadas e solidárias ao meu<br />
pai passaram a lhe comprar um cafezinho,<br />
um lanche, um cigarro com o pouco<br />
dinheiro que conseguiam.<br />
E assim sob o cuidado, compreensão e<br />
solidariedade das prostitutas, meu pai pode<br />
se aguentar nos dias posteriores até que o<br />
milagre pudesse acontecer.<br />
E o milagre não tardou: um belo dia<br />
alguém chama pelo nome de meu pai. Era<br />
um velho conhecido de Batatais que sabia<br />
onde meu avô estava e lhe passou o<br />
endereço. Chegara ao fim a aventura, ou<br />
como meu pai sempre nos falou, um<br />
aprendizado fundamental na sua formação<br />
como ser humano.<br />
"Seo" Oswaldo, meu pai, sempre nos<br />
contou essa história como exemplo de<br />
respeito que devemos ter para com todos,<br />
independente das condições de vida de<br />
cada um. Mas nunca deixou de contá-la<br />
com certa tristeza e frustração, pois anos<br />
mais tarde, já casado, com filhos e<br />
estabelecido, não pode fazer nada pelas<br />
prostitutas que ele viu sendo presas de<br />
forma violenta e arbitrária, na Estação da<br />
Luz, para serem levadas às zonas de<br />
prostituição nas cidades interior de São<br />
Paulo. Essa provavelmente é a a escola que<br />
o prefeito Kassab teve para a assepsia do<br />
centro de Sampa... aluno bem aplicado.<br />
Dia 25 de dezembro passado, no natal,<br />
meu pai estaria fazendo 96 anos... quanto<br />
tempo se passou!!! as putas continuam lá,<br />
só que em um mundo muito mais cruel e<br />
desumano, menos solidário e artificial,<br />
reflexo de um povo sub moldado à<br />
aparência de todas as autoridades desse<br />
país.<br />
Essas autoridades, sejam do executivo,<br />
legislativo ou judiciário, em qualquer<br />
esfera, municipal, estadual ou federal hoje<br />
tão bem simbolizadas e representadas pela<br />
vergonha dos nossos deputados, nos<br />
cobram caro pelo "programa" de viver.<br />
Não temos mais o referencial da Estação<br />
da Luz, está tudo escuro. Não temos mais a<br />
esperança de um milagre e de alguém que<br />
grite nossos nomes, nem a solidariedade<br />
das putas. Quem faz esse papel nos cobra<br />
caro e não nos permite gozar.<br />
Pai, respeito por essa "gente" não posso<br />
ter... não quero e nem espero nada deles,<br />
afinal você também me ensinou a percorrer<br />
meus próprios caminhos e eu fiz o meu<br />
jeito, a minha maneira. Pra essa "gente"<br />
não dou nem meu voto, preço muito caro<br />
pra esse tipo de michê.<br />
Respeito para e de putas... deputados<br />
NÃO!!!<br />
RUBENS GUILHERME<br />
PESENTI<br />
Desenhista de profissão e editor da<br />
Rebosteio<br />
Escreve no blog Poemastigando:<br />
http://ru666.blogspot.com<br />
página 21
Melancolia Melancolia<br />
O filme “Melancholia”, de Lars Von<br />
Triers, anuncia em enfática linguagem<br />
alegórica que o fim é irreversível.<br />
Nada que religiões, seitas e profetas,<br />
falsos ou não, tenham deixado de<br />
apregoar, histericamente, numa fala<br />
carregada de ódio e vingança,<br />
garantindo a salvação para os<br />
seguidores do senhor e o fim<br />
inexorável para os pecadores,<br />
heréticos e ateus.<br />
O forte sentimento de uma era que se<br />
extingue, de forma irreversível é<br />
compartilhado por nós artistas,<br />
cineastas, poetas e músicos no início<br />
da segunda década do século XXI.<br />
A percepção aguda do<br />
desmantelamento da Europa, dos<br />
EUA, de suas instituições financeiras e<br />
culturais, há gerações mistificadas<br />
pela mídia oficial. O acirramento de<br />
extensas ações bélicas, invasões,<br />
ocupações militares de longo prazo e o<br />
abandono de soluções diplomáticas,<br />
nos leva a crer num momento histórico<br />
terminal.<br />
Intuitivamente colocamos o dedo na<br />
ferida enquanto a sociedade civil e<br />
suas instituições falidas se recusam a<br />
reconhecer sua anunciada caducidade.<br />
Mas, afinal nesse contexto macro, que<br />
relevância tem a voz, o discurso de um<br />
poeta? Em contrapartida e quase que<br />
excepcionalmente, afirmava Freud -<br />
por onde ele investigasse, não importa<br />
o campo de saber, encontraria um<br />
poeta, um artista assinalando os<br />
sintomas, declarando como agora, o<br />
fim e o reinício dos tempos.<br />
O artista não profetiza, ele<br />
sensivelmente, captura os sintomas do<br />
colapso iminente ou a irrupção, sutil ou<br />
violenta de uma nova ordem mundial.<br />
Maiakóvski me parece envolver-se de<br />
corpo e alma com esses dois<br />
momentos, cantando os valores mais<br />
relevantes da revolução socialista de<br />
1917 e sucumbindo ao desmanche, com<br />
o stalinismo, de um projeto único na<br />
história das transformações sociais,<br />
levando-o, trágicamente ao suicídio.<br />
Caetano Veloso, na canção, “Fora da<br />
Ordem”, investiga o afloramento de<br />
uma nova ordem mundial fora dos<br />
sistemas sociais vigentes:<br />
“Eu não espero pelo dia<br />
Em que todos<br />
Os homens concordem<br />
Apenas sei de diversas<br />
Harmonias bonitas<br />
Possíveis sem juízo final...<br />
Alguma coisa<br />
Está fora da ordem<br />
Fora da nova ordem<br />
Mundial...”<br />
*<br />
Ouça a música no Youtube:<br />
http://www.youtube.com/watch?feat<br />
ure=player_embedded&v=HUbz8C3CBs<br />
E veja o trailler do filme:<br />
http://www.youtube.com/watch?v=m<br />
iMZP4tGHuU&feature=related
Vapor barato<br />
Um mero serviçal<br />
Do narcotráfico<br />
Foi encontrado na ruína<br />
De uma escola em construção...<br />
Aqui tudo parece<br />
Que era ainda construção<br />
E já é ruína<br />
Tudo é menino, menina<br />
No olho da rua<br />
O asfalto, a ponte, o viaduto<br />
Ganindo prá lua<br />
Nada continua...<br />
E o cano da pistola<br />
Que as crianças mordem<br />
Reflete todas as cores<br />
Da paisagem da cidade<br />
Que é muito mais bonita<br />
E muito mais intensa<br />
Do que no cartão postal...<br />
Alguma coisa<br />
Está fora da ordem<br />
Fora da nova ordem<br />
Mundial...(4x)<br />
Escuras coxas duras<br />
Tuas duas de acrobata mulata<br />
Tua batata da perna moderna<br />
A trupe intrépida em que fluis...<br />
Te encontro em Sampa<br />
De onde mal se vê<br />
Quem sobe ou desce a rampa<br />
Alguma coisa em nossa transa<br />
É quase luz forte demais<br />
Parece pôr tudo à prova<br />
Parece fogo, parece<br />
Parece paz, parece paz...<br />
Pletora de alegria<br />
Um show de Jorge Benjor<br />
Dentro de nós<br />
É muito, é grande<br />
É total...<br />
Alguma coisa<br />
Está fora da ordem<br />
Fora da nova ordem<br />
Mundial...(4x)<br />
Meu canto esconde-se<br />
Como um bando de Ianomâmis<br />
Na floresta<br />
Na minha testa caem<br />
Vem colocar-se plumas<br />
De um velho cocar...<br />
Estou de pé em cima<br />
Do monte de imundo<br />
Lixo baiano<br />
Cuspo chicletes do ódio<br />
No esgoto exposto do Leblon<br />
Mas retribuo a piscadela<br />
Do garoto de frete<br />
Do Trianon<br />
Eu sei o que é bom...<br />
Eu não espero pelo dia<br />
Em que todos<br />
Os homens concordem<br />
Apenas sei de diversas<br />
Harmonias bonitas<br />
Possíveis sem juízo final...<br />
Alguma coisa<br />
Está fora da ordem<br />
Fora da nova ordem<br />
Mundial...<br />
IGOR MARQUES<br />
Natural do Rio de Janeiro, é<br />
artisa plástico e poeta.<br />
Escreve e expõe seus trabalhos<br />
no blog Desenhospoemas:<br />
http://desenhospoemas.blogspot.com/<br />
página 23
o circo*<br />
O circo está todo armado<br />
e ainda falta pão<br />
O espetáculo é denso,<br />
frio,<br />
superficial como um riso de elevador<br />
em que a dor se eleva encruada<br />
na superfície tensa de um botox<br />
armado em formol,<br />
armado na dor encruada,<br />
encalacrada em forma de amor<br />
O circo está pegando fogo<br />
e os espectadores, os artistas, o leão,<br />
a trapezista - até a pipoca -<br />
fingem dormir<br />
Até a pipoca<br />
encalacrada em seu sonho branco<br />
dorme tensa,<br />
simula eternidade para não mais pular,<br />
saltar,<br />
transformar-se em qualquer coisa diferente<br />
de uma pipoca densa,<br />
fria<br />
e eternamente branca<br />
Há um milhão de deuses sob a terra,<br />
sob a superfície das peles,<br />
em estado eterno de dicionário;<br />
e o Circo segue sua rotina,<br />
entretendo peixes no aquário luminoso,<br />
prometendo Vênus como prêmio,<br />
entregando num laço<br />
sempre<br />
a Mulher-barbada<br />
com a mágica peculiar de criar palhaços,<br />
sem a lágrima encruada,<br />
só palhaços.<br />
(*poema do livro “Sentimento Do Fim Mundo”, Editora Patuá, 2011)<br />
dedicatória<br />
Aos rugosos paternalistas militarizados,<br />
meu colhão empentelhado<br />
Aos etnocêntricos racistas engomados,<br />
linguão no rabo<br />
Aos néscios reacionários politizados,<br />
meu leitinho<br />
Aos caretas moralistas mauricinhos,<br />
meu dedinho<br />
Aos corruptos corruptíveis corrompidos,<br />
a baba do pinto<br />
No cu da mãe dos homofóbicos enrustidos,<br />
meu garoto vinte-por-cinco<br />
Aos hipócritas religiosos safados,<br />
mijadinha na roupa<br />
Aos estadistas coronéis dinossáuricos,<br />
cagada na boca<br />
A todo patriarcal patriarca da “Ordem e Progresso”,<br />
meu caralho em berço esplêndido<br />
com carinho.<br />
complexo de complexidade<br />
Parece que escapamos do maniqueísmo<br />
existencial e político que há milênios suspende<br />
a coluna dos dias e eles, os dias,<br />
com suas plurivozes individuais e coletivas carregam a<br />
realidade de uma tal complexidade<br />
que só nos resta fazer poesia.<br />
bebe-se o amor com a emergência do dia<br />
pontos de vista pintam pontos de fuga<br />
num mundo de fatalidades e iniqüidades<br />
que nem Jesus<br />
nem Bakhtin podem salvar.<br />
Willian Delarte é autor do livro de poesia “Sentimento do Fim do Mundo” (Editora Patuá, 2011), foi um dos vencedores do II e III<br />
Festival de Literatura da Faculdade de Letras da USP na categoria “Conto”. Graduado pela mesma faculdade, foi também finalista da<br />
15ª edição do “Projeto Nascente” (USP). Escreve periodicamente no jornal “Conteúdo Independente” e em seu blog:<br />
http://williandelarte.blogspot.com/<br />
página 24
artéria em pausa<br />
não pintaremos<br />
as bandeiras da farsa<br />
ou da hipocrisia<br />
nem esqueceremos as rimas<br />
dos que trafegam nas palavras<br />
acolhedoras de pior desfecho<br />
não fecharemos os olhos<br />
para o que não pode ser visto<br />
nem deixaremos nossas mãos<br />
alheias ao que germina<br />
memorial da lua<br />
a madrugada<br />
recolhe pequenos<br />
ruídos do vazio<br />
ecoa no medo<br />
dos que dormem<br />
ao relento<br />
neste dia<br />
que nunca<br />
amanhece<br />
as palavras são uma espécie<br />
de coisa nenhuma<br />
aos predadores da utopia<br />
as olheiras do sol<br />
não explicam a noite anterior<br />
tudo está posto<br />
sinta o gosto<br />
livros<br />
pra que<br />
servem os livros?<br />
para enluarar<br />
semente no<br />
esparramo da pele<br />
livro é<br />
alimento dos livres<br />
e dos tigres<br />
dentro de mim<br />
morreram muitos tigres<br />
os que ficaram<br />
no entanto<br />
são livres<br />
desbravata<br />
indiferente<br />
à luz opaca da sala<br />
a vida pulsa desigual<br />
pelas calçadas e campos<br />
onde a humanidade sonha<br />
e espalha o belo e o triste<br />
o fato midiático é o crime<br />
enquanto a miséria guarda<br />
seus motivos num silêncio<br />
de bala perdida<br />
um bolha imagina-se che<br />
numa américa que morre<br />
nas rodas<br />
do degredo sumário<br />
como um sapo singular<br />
(fico quase sem ar)<br />
Lau Siqueira nasceu em Jaguarão, no Rio Grande do Sul e reside atualemente na capital da Paraíba. Nascido no Dia Internacional da<br />
Poesia, 21 de março de 1957, o poeta tem vários livros publicados, sendo o mais recente POESIA SEM PELE. Teve seus poemas também<br />
inseridos em antologias importantes como Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil. Anualmente seus poemas são distribuídos<br />
nacionalmente pela Editora da Tribo, no conhecido Livro da Tribo (SP). Teve poemas traduzidos para o inglês, francês, italiano, espanhol e<br />
catalão. Participou da coletânea de poetas de língua portuguesa, Eispoesia, publicada na cidade do Porto, em Portugal. Escreve para jornais<br />
e sites sobre artes plásticas, literatura, música, políticas culturais, políticas públicas e mantém seu blog POESIA SIM:<br />
www.poesia-sim-poesia.blogspot.com<br />
página 25
pensar nos diferencia<br />
amar nos poesia<br />
dogma<br />
dog<br />
doberman<br />
dogma<br />
pra mim<br />
morde<br />
se você vem para pouco<br />
pouco faz sentido<br />
a um louco varrido<br />
crime perfeito<br />
(abs) trair<br />
os trilhos<br />
transar com o trem<br />
azar<br />
de quem<br />
não descarrila<br />
venha com violência<br />
traga desordem<br />
ponha tudo a perder<br />
destrua minha vida<br />
mate-me<br />
e esconda meu corpo<br />
entre tuas pernas<br />
beber vinho<br />
uvas no lugar de estrelas<br />
num céu verde<br />
tão verde<br />
imensa infinita parreira<br />
para nunca saber<br />
se dormimos ou estamos acordados<br />
quem está dentro de quem<br />
em pé ou deitado<br />
girando só estaremos girando<br />
luminosos pássaros em bando<br />
cagando sobre a bolsa de nova Iorque<br />
passava e não via<br />
fosse a vida uma cobra<br />
mordia<br />
toque meu coração<br />
como quem toca uma canção<br />
como quem toca um violão<br />
viole minha razão<br />
Claudio Schuster é jornalista e poeta, nascido em Pelotas/RS e vive atualmente em Florianópolis/SC com sua mulher Juliana<br />
e seus dois filhos, Theo e Pedro. Gosta de cinema, futebol, não fazer nada, escrever e rir.<br />
Escreve nos blogs BEBA POESIA e COMA CONTOS:<br />
http:bebapoesia.blogspot.com<br />
http://comacontos.blogspot.com/<br />
página 26
piratininga<br />
avenidas me trespassam<br />
rios correndo leito<br />
adagas<br />
a chuva é tanta<br />
lágrima<br />
e o frio abraça por todo lado<br />
violento<br />
me comendo os ossos e adentro<br />
a matriz desse amor difícil<br />
forjado preto no branco<br />
polis urbe úbere<br />
treze listras amordaçam<br />
profano<br />
meu tesão paulista<br />
cuspalavras inoculadas<br />
do caos<br />
jorra-me o aço da matéria<br />
agora que só derivo<br />
em linha férrea<br />
aferrada à vaga sensação<br />
de que na plataforma somos cúmplices<br />
[não espalhe]<br />
potencialmente suicidas<br />
prestes a voar<br />
e loucos pela vida<br />
no susto de sermos um<br />
no desvão do encontro átimo<br />
último ato<br />
a cidade feita a cada passo<br />
e antes que perceba<br />
e antes que anoiteça<br />
e antes que as putas da Augusta<br />
me reconheçam...<br />
o violinista de terno chama<br />
tocando Bach só para mim<br />
sem saber que apaixonada<br />
posso dar meia volta e sorrir<br />
*<br />
São Paulo chora<br />
chovendo bala<br />
em paradoxos -<br />
Moinhos dom quixote<br />
sem sancho ou pança.<br />
Sacis sem perna ou vida<br />
com seus crakchimbos.<br />
Pinheirinhos abatidos<br />
para lenha<br />
que não aquece.<br />
E tudo escorre célere<br />
imundo<br />
para onde ninguém vê<br />
para o fim do mundo<br />
que sangra Tietê.<br />
urbefagia<br />
corre pelo meio fio<br />
a existência vaga<br />
devorada<br />
em bocas-de-lobo.<br />
castelhana<br />
trago na pele o sangue<br />
das touradas perdidas<br />
primitiva<br />
navego vento e calmaria<br />
íntima<br />
inquisição pagã e atrevida<br />
do velho continente<br />
ao novo conteúdo<br />
meu astrolábio beija cada<br />
descobrimento<br />
meu velho blues<br />
num canto de mim<br />
se tanto<br />
resiste um ponto<br />
de trama azul<br />
num canto sem fim<br />
(é banto?)<br />
reside um tempo<br />
de torso nu<br />
metade pranto<br />
metadenim.<br />
sapiens<br />
bichos, nascemos sábios<br />
dúbios, morremos lixo<br />
em nichos se escondem<br />
trágicos<br />
medos e vícios<br />
com poderes<br />
mágicos<br />
entre eu e o poeta<br />
(para Maiakóvski)<br />
uma troca de olhares<br />
furtivos<br />
roubados no tempo<br />
que nos separa<br />
uma cúmplice<br />
espera<br />
pelo século trinta<br />
pelo nunca<br />
pelas novas tintas<br />
pela íntima fera<br />
Mercedes Lorenzo é fotógrafa, paulistana, e esporadicamente escreve poemas descartáveis para serem afixados em<br />
superfícies ordinárias.<br />
Blog de fotografia: http://olhardelambe-lambe.blogspot.com<br />
Blog de poesia: http://cosmunicando.blogspot.com<br />
página 27
Rodrigo Boerin
O fotojornalismo é um seguimento da fotografia que aborda um pouco<br />
de tudo, desde coluna social, passando por esportes e política até<br />
chegar a guerras e questões sociais. Eu ainda não cheguei a guerras, mas<br />
exploro um lado da vida que a meu ver não se distancia muito disso: é<br />
a guerra pela sobrevivência na selva de pedra. E como em qualquer<br />
guerra, nesta também há caos e degradação humana.<br />
Eu passei a explorar os antros decadentes da cidade de São Paulo logo<br />
quando comecei a fotografar, essa sempre foi a minha intenção, o caos,<br />
a sujeira e a degradação humana sempre me atraíram. O idoso que<br />
sobrevive do lixo, o jovem que passa sua vida fumando crack e morando<br />
nas ruas, o travesti que faz programa em hotéis baratos... Tudo isso é<br />
uma guerra silenciosa, não há bombas nem minas terrestres, mas a<br />
guerra está ali, perante nessas faces. Quando eu começo a me aproximar<br />
do local onde vou fotografar e se trata de um local onde a coisa é<br />
extrema (como Cracolândia, por exemplo), eu já dou início à estratégia<br />
de sobrevivência: me aproximo com cautela e discrição e faço o meu<br />
melhor. Ora tenho que ir bem devagar e esperar, ora tenho que fazer<br />
dois ou três cliques o mais rápido possível e me afastar. A adrenalina é<br />
grande quando vou me aproximando do local onde serão realizadas<br />
as fotos, quando olho de longe e vejo que há viciados por ali<br />
consumindo a droga. Isso é perigoso, faz soar o alerta dentro de você,<br />
mas é uma sensação sensacional, me sinto com se estivesse mesmo em<br />
uma zona de conflito, pois tudo pode acontecer. Tem os momentos mais<br />
tranquilos, como abordar um travesti de rua, conversar e fazer as fotos.<br />
Muitas vezes eu encontro pessoas muito legais nesses lugares. Ou escutar<br />
as histórias de vida de um senhor que busca sua sobrevivência no lixo...<br />
Sou novo nisso, mas já escutei de tudo nesses lugares. Uma figura ilustre<br />
que é conhecida como “Paizão”, que sobrevive do lixo na região da<br />
Cracolândia, além de seringas e outros tipos de lixo hospitalar, me disse<br />
que chegou a encontrar fetos enquanto procurava algo que pudesse<br />
comer ou ser vendido, no lixo.<br />
Quero seguir fazendo isso, nunca me aconteceu nada.<br />
Não sei se por sorte ou por adotar táticas eficazes. Tenho a certeza que<br />
daqui desse caos urbano para uma zona de conflito será só questão de<br />
tempo, então eu espero e faço o que dá pra fazer, me embrenho nos<br />
lugares mais decadentes que eu puder. Eu não consigo viver longe dessa<br />
decadência toda, me entristece. Algumas vezes eu fico uma semana sem<br />
visitar esses locais e quando os visito, percebo que perdi tempo demais,<br />
que muita coisa aconteceu e eu não estava lá.<br />
Rodrigo Boerin<br />
fevereiro/2012<br />
http://www.otaboo.com.br/sites/nucleo_fot03/index.html<br />
rodrigoboerin@hotmail.com
À moda antiga<br />
A propriedade<br />
é um roubo;<br />
portanto,<br />
não sou ladrão.<br />
Gino Amleto Meneghetti é uma das figuras marcantes da história de São Paulo.<br />
Uma história que não pode ficar apenas na memória de quem viveu esse período.<br />
Essa matéria foi originalmente publicada na revista Problemas Brasileiros, na edição 318,<br />
de novembro/dezembro de 1996. Sua autoria é de Miguel Roberto Nítolo, a quem<br />
agradecemos a generosidade, assim como aos editores da citada revista.<br />
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=60&Artigo_ID=453&IDCategoria=689&reftype=1<br />
Miguel Roberto Nítolo<br />
Uma pesquisa recente do Instituto Gallup<br />
revelou que 63% dos habitantes de São Paulo<br />
gostariam de abandonar a cidade. Incomodadas<br />
com a falta de segurança, a maioria das pessoas<br />
consultadas disseram que sonham com a vida<br />
em lugares menores, bem longe da capital. Não<br />
é para menos. Hoje em dia, a violência nos<br />
grandes centros urbanos atingiu tal ponto que<br />
mortes resultantes de latrocínio (roubo ou<br />
extorsão violenta, à mão armada) podem ser<br />
causadas por um relógio ou um simples par de<br />
tênis. O pior é que esse tipo de notícia já se<br />
tornou tão cotidiano que não causa mais<br />
espanto. Dados da Secretaria da Segurança<br />
Pública paulista dão conta de que no período<br />
de um ano entre agosto de 95 e julho de 96, só<br />
na Grande São Paulo, foram registradas 358<br />
mortes por latrocínio. Quase uma por dia.<br />
Esse estado de coisas torna inevitável lembrar<br />
que um dos maiores ladrões de todos os<br />
tempos, que passou parte de seus 98 anos de<br />
vida trancafiado no xadrez, nunca feriu as<br />
pessoas que roubou, segundo garantem os mais<br />
velhos e informa a parca literatura disponível.<br />
Na verdade, não via razão para isso. Ele era<br />
astuto, isso sim, e por essa razão a polícia o<br />
odiava. E não media esforços para tê-lo sempre<br />
atrás das grades.<br />
Gino Amleto Meneghetti era o nome do "bom<br />
ladrão", conforme rótulo criado por alguns<br />
jornais das primeiras décadas do século. Apesar<br />
de desconhecido de parcela ponderável da<br />
população, ele continua ocupando certamente o<br />
primeiro lugar no ranking dos grandes gatunos<br />
historiados pela crônica policial brasileira.<br />
"Comecei roubando frutas quando garoto",<br />
contou ele à finada revista "Cruzeiro", em<br />
1952, então aos 74 anos de idade. "Prenderamme<br />
e passei alguns meses na cadeia de Pisa, na<br />
Itália. Ao ser posto em liberdade, tive que fazer<br />
página 34
oubo a minha profissão."<br />
Gato dos telhados<br />
A professora Célia de Bernardi, em sua tese de<br />
mestrado "O lendário Meneghetti: imprensa,<br />
memória e poder", registra os vários apelidos<br />
que Meneghetti recebeu da imprensa: ora era<br />
chamado de "o maior gatuno da América<br />
Latina", ora de "o homem de borracha", ora de<br />
"o gato dos telhados", pela facilidade com que<br />
se locomovia sobre a cobertura das residências<br />
para fugir dos cercos da polícia.<br />
O delinqüente de Pisa tocou o solo brasileiro<br />
em 1913, com 35 anos de idade, e montou<br />
residência na capital paulista. Já era dono de<br />
uma extensa ficha policial e seu nome constava<br />
dos arquivos da Interpol. Em 1914, a polícia de<br />
São Paulo recebeu das autoridades italianas um<br />
comunicado que recomendava a captura de um<br />
sujeito chamado Amleto Meneghetti, nascido<br />
em 1o de julho de 1878, vidreiro de profissão e<br />
considerado um delinqüente. A polícia da Itália<br />
informava que se tratava de "um elemento<br />
perigoso, condenado numerosas vezes por<br />
crime contra a propriedade e por violência<br />
contra agentes da força pública".<br />
O documento dizia que em 1912 ele fora<br />
condenado a 18 meses de reclusão por tentativa<br />
de violência carnal. "Cumprida a pena,<br />
emigrou para o exterior", finalizava. "Naquele<br />
tempo, todo italiano era mal encarado aqui",<br />
disse Meneghetti alguns anos mais tarde.<br />
"Mesmo do Matarazzo diziam que tinha<br />
roubado. Tinham-nos como ladrões e<br />
criminosos."<br />
De fato, havia um forte preconceito contra os<br />
imigrantes. Os conterrâneos de Meneghetti,<br />
por exemplo, foram apelidados nos primeiros<br />
anos deste século de "carcamanos" e eram<br />
tomados por muitos como vândalos e<br />
desordeiros. Um relatório da Secretaria de<br />
Justiça e Segurança Pública de São Paulo,<br />
datado de 1912, revela que a população<br />
carcerária falava várias línguas. Os brasileiros<br />
presos somaram naquele ano 5.238 pessoas; os<br />
italianos, 3.483; os portugueses, 1.213; os<br />
espanhóis, 608; os turco-árabes, 368; os<br />
alemães, 187; os austríacos, 160; os ingleses,<br />
143; os franceses, 137; os hispano-americanos,<br />
109, além de mais 149 de outras<br />
nacionalidades. Um dos mais conhecidos e<br />
tenebrosos crimes cometidos nos anos 20,<br />
quando Meneghetti já era assunto rotineiro da<br />
imprensa, foi protagonizado por um italiano de<br />
nome Giuseppe Pistone, que numa crise de<br />
ciúmes sufocou a mulher, a bonita e delicada<br />
Maria Fea. Admirador de Mussolini e<br />
perdulário como poucos (gastou uma herança<br />
em viagens e passeios), Pistone escondeu o<br />
corpo de Maria numa mala e, na esperança de<br />
não levantar suspeitas, endereçou-a para um<br />
certo Ferrero Francesco, na França. A polícia<br />
descobriu a trama ainda no Brasil: a mala<br />
estava armazenada no porto de Santos, e o mau<br />
cheiro exalado chamou a atenção.<br />
O "crime da mala", como ficou conhecido o<br />
triste episódio, ajudou a colocar mais lenha na<br />
fogueira da discriminação. Meneghetti,<br />
portanto, não fugiu à regra. Suas aventuras<br />
como gângster ganharam, talvez, mais colorido<br />
Jamais roubei<br />
um pobre. Só<br />
me interessava<br />
tirar dos ricos,<br />
e tirar jóias,<br />
que são bens<br />
supérfluos que<br />
só servem para<br />
alimentar a sua<br />
vaidade.<br />
página 35
página 36<br />
Ele era<br />
astuto,<br />
isso sim,<br />
e por essa<br />
razão a<br />
polícia o<br />
odiava.<br />
do que realmente mereciam, e isso pode ter<br />
levado a imprensa e a polícia a exagerar no<br />
tratamento que lhe era dispensado.<br />
Louco por jóias<br />
Certa vez, em 1926, Meneghetti deu uma<br />
suadeira na polícia, que por vários dias tentou<br />
abotoá-lo com um par de algemas. O "gato dos<br />
telhados", no entanto, era especialista em fugir<br />
de cercos. A polícia só conseguiu pôr as mãos<br />
no atrevido assaltante quando decidiu envolver<br />
na caçada a Força Pública, a Guarda Civil e o<br />
Corpo de Bombeiros. E Meneghetti só se<br />
entregou depois de uma tarde e uma noite de<br />
fuga pelos telhados. Preso, ele foi acusado de<br />
ter matado o comissário Valdemar Dória. No<br />
entanto, se disse inocente. "Não matei. O<br />
homem levou um tiro de 38, meu revólver é<br />
calibre 32." Não teve conversa. Mesmo diante<br />
da argumentada inocência, Meneghetti foi<br />
condenado a 43 anos de cadeia, pena comutada<br />
mais tarde para 25 anos.<br />
Vale recordar os motivos que levaram a polícia<br />
a empreender a barulhenta perseguição ao já<br />
afamado ladrão. Uma onda de assaltos, em<br />
meados dos anos 20, tirava o sossego dos<br />
paulistanos, especialmente dos mais abastados.<br />
Grandes e luxuosas mansões estavam sendo<br />
visitadas por um ladrão misterioso, que se<br />
interessava sobremaneira por jóias. A polícia,<br />
perdida, não conseguia achar pistas e, em<br />
pouco tempo, passou a sofrer pressão da<br />
comunidade e da imprensa. Sem ponto de<br />
partida, desorientada, ela chegou a Meneghetti<br />
por acaso. Uma mulher havia procurado a<br />
polícia para reclamar de seu vizinho, um tal<br />
Gino, que teria espancado sem piedade seu<br />
filho. A acusação não batia com a índole<br />
pacífica daquele "carcamano", mas isso era<br />
secundário. A polícia só demonstrou interesse<br />
pelo caso quando a mulher contou que seu filho<br />
entrara na casa do agressor e vira lá baús cheios<br />
de jóias. Estavam finalmente esclarecidos os<br />
roubos às residências dos paulistanos mais<br />
ricos, e a magnitude do cerco, que envolveu<br />
dezenas de homens, foi então plenamente<br />
justificável.<br />
Roubar, roubar, roubar. O verbo foi conjugado<br />
com maestria pelo "maior ladrão da América<br />
Latina" até na união com a bela Concetta, com<br />
quem teve dois filhos, Spartaco e Lenine. Ele<br />
conhecera a jovem nos tempos em que<br />
freqüentava o restaurante Tosca, que ficava na<br />
Rua do Seminário, no centro de São Paulo. Ela<br />
era sobrinha do proprietário do<br />
estabelecimento, Olympio Giusti, que não via<br />
com bons olhos o relacionamento amoroso que<br />
começava a florescer entre os dois. O "homem<br />
de borracha" tomou então o atalho que lhe<br />
pareceu mais propício: raptou a companheira,<br />
coisa que para ele, especialista no ramo, era<br />
como tirar pirulito da boca de criança.<br />
Deve ter encontrado facilidade, também, em<br />
seu primeiro roubo de vulto em São Paulo, no<br />
princípio de 1914, pouco tempo depois de ter<br />
aportado no país. O jornal "O Estado de S.<br />
Paulo" disse, na oportunidade, que Meneghetti<br />
deu provas de audácia: vencendo todos os<br />
obstáculos, penetrou no porão da Casa Sarli,<br />
tradicional loja de armas importadas, e depois<br />
de muito trabalho arrombou o assoalho, o que<br />
lhe permitiu ingresso no armazém. De lá<br />
retirou as armas mais finas, de valor unitário<br />
maior. Ao saber que alguém andava vendendo<br />
armas estrangeiras, a polícia chegou até<br />
Meneghetti.<br />
Cena dantesca<br />
Preso e condenado a oito anos de prisão, o<br />
italiano incorrigível foi encarcerado na Cadeia<br />
da Luz. Em sua tese a professora Célia conta<br />
que Meneghetti era considerado um preso de<br />
péssima conduta. "Devido às suas atitudes de<br />
insubordinação, muitas vezes sofria os castigos<br />
regulamentares, sendo colocado na solitária."<br />
O imigrante de Pisa cultivava o hábito de<br />
escrever cartas, e numa delas narrou em<br />
pormenores seu calvário na prisão. "O<br />
prisioneiro era posto nu, dentro de poços<br />
redondos e isolados, forçado a repousar no<br />
cimento frio. Fui preso num desses poços,<br />
ficando incomunicável." Meneghetti estava<br />
referindo-se à solitária. Tão logo foi colocado<br />
no estreito aposento, pôs a cabeça para<br />
funcionar. "Comecei a pensar num meio de<br />
fugir dali." Notou que o forro do poço era de<br />
ferro-gusa. Subiu calmamente pela parede,<br />
forçou o forro e ele cedeu, esfacelando-se. À<br />
uma hora da madrugada, nu como havia sido<br />
depositado ali, Meneghetti ganhou as ruas<br />
pulando o muro que o separava da liberdade.
"Saí da cela de isolamento um tanto fraco,<br />
porque ali estivera sem comer. Tudo estava<br />
silencioso e uma forte neblina caía sobre a<br />
cidade. Quem me visse assim lá em cima, nu,<br />
poderia perfeitamente pensar que se tratava de<br />
um fantasma, e teria a máxima razão. Deve ter<br />
sido uma cena esquisita, senão dantesca."<br />
Depois dessa espetacular fuga, que hoje em dia<br />
pouco acrescentaria ao currículo do detento de<br />
tão comum, Meneghetti virou notícia e ganhou<br />
grandes espaços nas páginas policiais. O<br />
fugitivo achava que os jornais exageravam na<br />
cobertura de seus feitos, e isso – costumava<br />
reclamar – teve o demérito de torná-lo uma<br />
lenda viva e atiçar ainda mais contra ele a<br />
polícia, que não queria vê-lo nem pintado de<br />
ouro. "Com essas reportagens eu não podia<br />
nem pensar em trabalhar. Meu nome foi ficando<br />
muito falado, enquanto os jornais faziam mil<br />
suposições sobre mim."<br />
O homem dos mil nomes<br />
Depois da fuga Meneghetti saiu perambulando<br />
por aí. Fugiu para o sul do país, estabeleceu-se<br />
como comerciante em Curitiba, morou em<br />
Porto Alegre e Florianópolis, pulou a fronteira e<br />
chegou a Montevidéu e depois Buenos Aires.<br />
Nunca deixou de roubar. Assediado pelas<br />
polícias das capitais do Uruguai e da Argentina,<br />
retornou ao Rio Grande do Sul, tendo tomado o<br />
cuidado de trocar seu nome para Mario Mazzi.<br />
Foi residir na cidade de Rio Grande, onde, com<br />
a maior cara-de-pau deste mundo, apresentouse<br />
à autoridade policial para tirar a carteira de<br />
identidade com o nome falso. Isso foi em 24 de<br />
julho de 1924. Não bastasse isso, arrancou da<br />
justiça gaúcha um atestado de boa conduta. O<br />
homem era um artista.<br />
Cansado de circular por aquelas bandas, acabou<br />
um belo dia no Rio de Janeiro, onde praticou<br />
uma série de assaltos. Certa vez Meneghetti –<br />
que no Rio se apresentava como Antonio<br />
Garcia – foi apanhado no pulo pela polícia. Ele<br />
estava forçando a porta de uma casa na Rua<br />
Conde de São Joaquim. Foi detido mas se<br />
fingiu de louco, sendo removido para o<br />
Hospital dos Alienados, em Praia Vermelha.<br />
Fugiu e retornou a São Paulo, trazendo no<br />
bolso uma carteira de identidade onde se lia o<br />
nome de Menotti Menichetti. Na capital<br />
paulista foi preso, em 1926, depois da denúncia<br />
de que tinha em sua casa baús cheios de jóias,<br />
isso 12 anos depois de ter fugido<br />
completamente despido da Cadeia da Luz. É<br />
interessante salientar que em 1924, portanto<br />
dois anos antes de voltar a ver o sol nascer<br />
quadrado, conforme a gíria popular, Meneghetti<br />
viveu intensamente a criminalidade: os<br />
arrombamentos a cofres, roubos de jóias,<br />
assaltos a casas comerciais e residenciais,<br />
notadamente as dos bairros mais aristocráticos,<br />
se sucediam, incontroláveis. A polícia, atônita,<br />
não sabia por onde começar as investigações. A<br />
imprensa, sempre atenta, não perdoava a<br />
ineficiência do aparato policial. Em suas<br />
manchetes chamava São Paulo de "o paraíso<br />
dos ladrões" e "cidade despoliciada". É certo<br />
que Meneghetti não era o único bandido em<br />
atividade, mas, seguramente, podia ser<br />
considerado, de longe, o mais competente na<br />
arte de roubar. No entanto, segundo relatório do<br />
delegado Leite de Barros, datado de 24 de maio<br />
de 1926, "após uma série de investigações ficou<br />
comprovado o autor de quase todos os assaltos<br />
praticados em prédios de habitação a partir de<br />
fins de 1924. Tratava-se de Gino Amleto<br />
Meneghetti, também conhecido por Angelo<br />
Bianchi, Italo Bianchi, Antonio Garcia e Mario<br />
Mazzi".<br />
Cela blindada<br />
O Bixiga, tradicional bairro italiano de São<br />
Paulo, teve Meneghetti entre seus ilustres<br />
moradores. Assim que chegou do Rio de<br />
Janeiro, ele se instalou com Concetta e os<br />
filhos na Rua da Abolição. O fato de ter como<br />
vizinhos apenas famílias de "carcamanos", ele<br />
imaginava, seria de grande valia em casos de<br />
cerco policial. "A casa que comprei ficava<br />
numa região que era um reduto da grossa<br />
malandragem", escreveu o esperto ladrão em<br />
suas memórias. "Tinha outros pontos, pequenos<br />
apartamentos de luxo, onde podia refugiar-me<br />
na hora de um perigo mais sério, e descansar.<br />
Dinheiro eu tinha, e boa quantidade de jóias." A<br />
professora Célia diz que nas reminiscências de<br />
um dos moradores do antigo Bixiga,<br />
Meneghetti não era considerado um criminoso,<br />
"talvez porque a convivência pacífica com a<br />
vizinhança o eximira do estigma de indivíduo<br />
perigoso, pois não incomodava os<br />
... dentro de<br />
uma cela<br />
blindada,<br />
passando<br />
o que<br />
nenhum<br />
animal<br />
passou<br />
até hoje<br />
página 37
Io sono<br />
Meneghetti!<br />
Il Cesare!<br />
Il Nerone<br />
di San Paolo!<br />
página 38<br />
desfavorecidos. Provavelmente, tiveram início<br />
nesse ponto as lendas criadas em torno de seu<br />
nome, que lhe atribuíam a qualidade de ser<br />
amigo dos pobres".<br />
De nada adiantou ir morar no Bixiga. O falso<br />
Robin Hood acabou preso e ficou 18 anos<br />
"dentro de uma cela blindada, passando o que<br />
nenhum animal passou até hoje", segundo suas<br />
próprias palavras no depoimento dado a "O<br />
Pasquim". Reportagens publicadas na época<br />
pelo jornal "O Estado de S. Paulo" chamavam<br />
de jaula a cela blindada ocupada por<br />
Meneghetti, um cubículo sujo, fétido e sem<br />
ventilação que lhe havia sido reservado como<br />
punição pela morte do comissário Valdemar<br />
Dória. De nada adiantou negar a autoria do<br />
crime com o argumento de que seu revólver<br />
cuspia balas de calibre diferente daquela que<br />
atingiu mortalmente o policial. A prisão do<br />
"famigerado bandido", conforme dizeres da<br />
imprensa, trouxe muita frustração para pessoas<br />
que veneravam Meneghetti e o viam como<br />
herói por causa da canseira que dava à polícia.<br />
"As mesmas pessoas que seguiram fascinadas<br />
por suas fantásticas aventuras, torcendo sempre<br />
contra a polícia, não perdoaram a<br />
vulnerabilidade do mito que haviam<br />
construído", afirmou "O Estado de S. Paulo".<br />
Dali em diante foi uma sucessão de prisões e de<br />
fugas. "Eu sempre consegui pensar, planejar e<br />
fugir", disse ele. "No total, contando o tempo<br />
que fiquei preso na Europa, dá umas 17 fugas.<br />
O amor à liberdade, especialmente quando a<br />
gente está preso, é uma coisa extraordinária. Eu<br />
posso fazer um túnel, uma chave." Meneghetti<br />
sofreu muito nas prisões, e isso explica suas<br />
palavras, a despeito de elas soarem, num<br />
primeiro momento, como simples exercício de<br />
retórica. A evasão da cadeia de Juiz de Fora,<br />
onde também esteve preso, retrata com<br />
fidelidade o apego à liberdade. São suas as<br />
palavras, ditadas a "O Pasquim" na entrevista<br />
de 1970: "Eu esperei o carcereiro sair de perto<br />
e peguei uma serra. Serrei as grades e saí para<br />
o pátio, subi quase dois metros escalando uma<br />
grade e cheguei ao primeiro andar. Alcancei o<br />
telhado e agarrei-me a uma espécie de corda<br />
feita com um lenço velho que não suportou<br />
meu peso e me deixou cair sobre uma muralha.<br />
Aí eu me joguei na calçada. Quase todos os<br />
guardas da cadeia saíram em meu encalço, mas<br />
me perderam. Dias depois, fui para a estação<br />
ferroviária e viajei até o Rio de Janeiro<br />
escondido debaixo do vagão, junto à roda".<br />
A professora Célia diz em certo ponto de sua<br />
tese que na década de 70 as notícias veiculadas<br />
pela imprensa tratavam Meneghetti como um<br />
ladrão diferente, original, um anti-herói. "A<br />
partir de então, ele é transformado em mito,<br />
correspondendo muito mais a um símbolo<br />
romantizado. Assim, a figura construída do<br />
ladrão solitário é evocada com freqüência<br />
quando se discorre sobre a criminalidade de<br />
nossos dias." Se Meneghetti tivesse nascido um<br />
pouco mais tarde e, eventualmente, ainda fosse<br />
vivo, é possível que estivesse neste momento<br />
ajudando a engrossar o coro de vozes dos<br />
paulistanos que exigem maior segurança. E<br />
que, descrentes da capacidade do aparato<br />
policial de pôr um paradeiro à criminalidade,<br />
sonham um dia morar numa bucólica<br />
cidadezinha do interior, bem longe do<br />
burburinho da grande metrópole.
Pérolas do ladrão<br />
Todo dia roubava. Para mim, roubar é<br />
uma necessidade quase física. No dia que<br />
não faço roubo, não durmo direito.<br />
O repórter é um cupincha cheio de vícios<br />
que vive adulando seus chefes de seções,<br />
chefes que muitas vezes não primam por<br />
boa moral, às vezes mais venais que os<br />
próprios criminosos.<br />
(exprimindo todo o seu rancor com a<br />
imprensa, que não lhe dava sossego e,<br />
segundo ele, exagerava ao comentar seus<br />
roubos).<br />
Na rua tinha mais soldados que<br />
paralelepípedos. Mas se eu não estivesse<br />
embriagado a polícia nunca me<br />
prenderia.<br />
(Meneghetti olhando o movimento na rua<br />
de cima de um telhado, em 1926).<br />
Jamais roubei um pobre. Só me<br />
interessava tirar dos ricos, e tirar jóias,<br />
que são bens supérfluos que só servem<br />
para alimentar a sua vaidade.<br />
O que acontece é que sou famoso: é só<br />
deixar a cadeia que vou preso... Já estou<br />
velho demais para roubar. O pior é que só<br />
sei o que tentei assaltar depois de estar na<br />
cadeia.<br />
Inventaram muitas histórias sobre mim.<br />
Que escalava muros altos, que andava<br />
pelas paredes, dava pulos de dez metros.<br />
Até parece que sou o homem de<br />
borracha.<br />
Isso é conversa de médico pedante.<br />
(sobre o argumento de algumas pessoas de<br />
que ladrão já nasce com o dom de roubar).<br />
MIGUEL ROBERTO<br />
NÍTOLO<br />
DICA<br />
Assistam ao excelente e premiadíssimo curta-metragem Dov’ è Meneghetti?, dirigido<br />
por Beto Brant. Realizado no ano de 1989:<br />
http://www.portacurtas.com.br/filme.asp?Cod=435#<br />
Problemas Brasileiros,<br />
edição 318,<br />
de novembro/dezembro<br />
de 1996.<br />
página 39
Quisemos deixar registrada neste número da<br />
Rebosteio a nossa experiência com o LIVRO<br />
LIVRE durante a Virada Cultural Paulistana.<br />
Individualmente já havíamos libertado uma soma<br />
que talvez chegue a mais de cem exemplares no<br />
decorrer dos anos, mas sempre fizemos isso<br />
deixando os livros em lugares públicos, como<br />
pontos de ônibus, orelhões, bancos de praça, lojas,<br />
supermercados, muretas de casas, bancos de motos<br />
estacionadas... enfim, qualquer lugar em que<br />
soubéssemos que alguém iria chegar e encontrar o<br />
livro em seguida.<br />
A idéia não é nossa, ela está correndo o mundo<br />
através de campanhas na internet e outros<br />
veículos. Os próprios livros libertados, alguns<br />
deles (incluindo os nossos) vem com uma nota<br />
pedindo à pessoa que o encontrar, que por sua vez também liberte um outro livro, ou aquele mesmo quando<br />
terminar de ler. Mas a partir de 2010, incrementamos a coisa encapando os livros com papel azul simples,<br />
apenas com dobras, sem fita adesiva, e mandamos fazer um carimbo para que eles começassem a ser<br />
reconhecidos instantaneamente pelas pessoas. Foi a forma que encontramos de fazer com que a idéia circulasse<br />
com mais força, não sendo confundida com um simples acaso por quem os achasse.<br />
Até que na Virada Cultural, além de curtir os shows, decidimos levar alguns exemplares conosco para distribuir<br />
«em mãos», para sentir a reação do pessoal.<br />
Não podia ter sido melhor... a receptividade, não só aos livros, mas à idéia de libertá-los e deixá-los seguir um<br />
caminho imprevisível, foi acolhida com simpatia e alguma surpresa às vezes. Foi uma parte super divertida da<br />
noite, em que tivemos contato com os mais diversos tipos de pessoas, como vocês podem ver nas fotos.<br />
Sugerimos a vocês que experimentem, troquem, libertem livros e «compartilhem» não só no virtual, mas no<br />
calor dos sorrisos reais.<br />
Mê e Ru.<br />
página 40
poema LIVROS LIVRES de<br />
rubens guilherme pesenti<br />
foto: mercedes lorenzo
página 42
A cara do careta<br />
“Vamos pedir piedade:<br />
- Senhor, piedade<br />
para essa gente careta e covarde!”<br />
(Cazuza)<br />
Ah, os Caretas...<br />
Um bom Careta, um Careta nato,<br />
não só veste as mesmas roupas dos pais e<br />
repete as mesmas trezentas palavras dos<br />
avós, Caretice pura é um estado de<br />
alma... Ela torce o nariz e vira a cara a<br />
qualquer anseio de liberdade, ofende-se<br />
com a multiplicidade do sexo e tenta<br />
martelar na cabeça dos nossos jovens<br />
que as famílias são feitas de papais e<br />
mamães e que o papai e a mamãe só<br />
fazem papai-e-mamãe, quando muito,<br />
para procriar.<br />
A Caretice acha um “baseado”<br />
na bolsa do filho e faz um “BICHO-DE-<br />
SETE-CABEÇAS”, pior, autoriza o<br />
Estado a meter-bronca, meter-pau,<br />
descer-a-lenha em quem puxar um, em<br />
quem se manifestar em prol de sua<br />
legalização ou discussão do tema; e não<br />
importa agora se é favelado, preto,<br />
branco, bandido ou estudante, ela está<br />
tatuada na face mais repressora do<br />
sentimento “Capitão Nascimento” que<br />
está por aí, pairando no ar.<br />
Ah, a Caretice...<br />
O Careta carrega não mais que<br />
cinco provérbios na cabeça, tem<br />
decorado três orações (para quando a<br />
coisa aperta) e defende com unhas e<br />
dentes duas ou três GRANDES<br />
VERDADES, e por elas há de morrer,<br />
fedendo.<br />
Eu que não tenho talento para<br />
Chapeuzinho Vermelho, engracei-me<br />
desde cedo com o cabeludo Lobão. Acho<br />
que já nasci cansado desta mesma<br />
Babaquice ou dessa eterna falta do que<br />
falar... Chego até a pensar que o Rock<br />
and Roll me salvou da Caretice; mas o<br />
rock também errou: a Caretice<br />
desconhece limites, classes, tribos, e é<br />
em si o dogma do dogma.<br />
O Careta sabe o que quer (está lá<br />
nos manuais da vida e nos livros de autoajuda).<br />
Ele ama uma bula e sempre<br />
consegue o seu lugar de destaque. A<br />
política está cheia deles: adoram<br />
paisagismos e higienização, mas o serhumano<br />
em sua integridade sócio-psicocultural<br />
é a ele o mais estranho bicho<br />
novo zelandês, uma vigorosa hidra de<br />
quatrocentas mil cabeças.<br />
A Caretice já crucificou gente,<br />
queimou gente, incinerou gente, e vem<br />
segregando mais e mais gente sob o<br />
rótulo da boa saúde, da raça, da condição<br />
social ou psíquica; ela é o eixo de de tudo<br />
- à sua volta tudo é marginal.<br />
Ah, deusa de assombrosas tetas,<br />
o que vai na cara do Careta?<br />
Vai nada!, o Careta não tem cara,<br />
é um projeto mal acabado de qualquer<br />
forma forjada pelo senso-comum<br />
aceitável; e é fato, mais que fato: o<br />
Careta não sabe dançar! Jamais vai<br />
dançar... Para começar, ele não gosta de<br />
música, é estranho à poesia e avesso a<br />
qualquer brisa que desoriente o seu único<br />
amor, a princesinha dos seus ovos-deouro<br />
podres - esse Deus Careta e maior<br />
que costuma se banhar pelo nome de<br />
STATUS QUO.<br />
Autor do livro de poesia “Sentimento<br />
do Fim do Mundo” (Editora Patuá,<br />
2011), foi um dos vencedores do II<br />
e III Festival de Literatura da<br />
Faculdade de Letras da USP na<br />
categoria “Conto”. Graduado pela<br />
mesma faculdade, foi também<br />
finalista da 15ª edição do “Projeto<br />
Nascente” (USP). Escreve<br />
periodicamente no jornal<br />
“Conteúdo Independente” e em<br />
seu blog:<br />
http://williandelarte.blogspot.com/<br />
TIAGO COSTA<br />
Publicitário de formação, designer<br />
gráfico de profissão e ilustrador de<br />
coração.<br />
Nas horas vagas gosta de um violão<br />
e explorar novos conhecimentos em<br />
projetos voltados ao universo das<br />
artes plásticas.<br />
Atualmente é ilustrador da coluna<br />
Cronista de 5ª junto ao escritor<br />
Rubem Leite na revista cultura Nota<br />
Independente e Designer Gráfico<br />
em agência de publicidade.<br />
http://tiagocostailustra.blogspot.com/<br />
tiagodef@hotmail.com<br />
página 43
arte: Rubens Guilherme Pesenti<br />
página http://ru666.blogspot.com<br />
44<br />
Como fica sua privacidade com<br />
Rebosteio deste número lasca o pau através do texto gentilmente<br />
cedido por José Milagre - O que realmente pode acontecer a partir<br />
de 1 de março de 2012 com a vigência da "camisa de força digital".<br />
Todos estão recebendo e-mails, pop-ups e<br />
alertas do Google sobre sua nova "Política<br />
de Privacidade". A partir de 1º de março,<br />
usuários que continuam usando os serviços<br />
tacitamente declaram concordância com as<br />
novas regras impostas pelo provedor de<br />
serviços. Longe das declarações<br />
superficiais, apaziguadoras e que nunca<br />
dizem toda a verdade, por parte dos<br />
representantes do Google, é hora do<br />
cidadão saber realmente como ficará sua<br />
privacidade.<br />
Se você acha que esta informação é<br />
dispensável, talvez não tenha percebido o<br />
valor deste direito - o direito de proteção<br />
dos dados pessoais, o direito de estar só,<br />
de não ser rastreado ou ter padrões,<br />
comportamentos privados e hábitos<br />
logados a cada passo que se dá no mundo<br />
virtual.<br />
Primeiramente, na verdade, nada é para<br />
melhorar a "comodidade dos internautas".<br />
Você realmente acredita nisso? O fato é<br />
que hoje, além da política de privacidade<br />
geral, alguns serviços do provedor tinham<br />
regras próprias, adicionais. Com a nova<br />
política, estas regras (aproximadamente<br />
60) ficam agrupadas em uma única regra.<br />
E o que tem de mal?<br />
Em se unificando as políticas, o Google<br />
também se permite utilizar o que já<br />
estruturou antes de consultar o cidadão:<br />
um grande centro de mineração de dados,<br />
um poderoso cérebro de cruzamento, que<br />
agora, agrupará informações de todos os<br />
serviços, antes separados, isolados.<br />
Quais os efeitos? Um cidadão que tenha<br />
uma conta de e-mail Gmail quebrada por<br />
determinação da Justiça, como os dados<br />
agora são coletados por um todo, poderá<br />
ver sua privacidade em outros serviços<br />
(Blogger, Orkut, Docs etc.) quebrada. Não<br />
há garantias que diante desta nova política,<br />
não fique mais fácil a autoridades e<br />
interessados obterem dados além dos<br />
necessários para uma investigação ou<br />
repressão de um ato ilícito.<br />
Imagine que você faz uma pesquisa<br />
relacionada a sexualidade no buscador e<br />
neste momento, YouTube e Gmail são<br />
influenciados por esta busca; no Orkut ou<br />
Google+, perfis de vendas de produtos<br />
eróticos lhe enviam mensagens. Como se<br />
livrar deste rastro?<br />
Você está no caminho de uma reunião. O<br />
tráfego parece estar diminuindo. Um texto<br />
surge: "você vai se atrasar, pegue a<br />
próxima saída para a rota alternativa". Você<br />
realmente deseja esta facilidade proposta<br />
pelo Google? Pois bem, para isso<br />
acontecer, considere que o Google<br />
bisbilhotou sua localização de seu celular<br />
Android e além disso fuçou no seu<br />
Calendar, para saber para onde você ia e<br />
quais seus compromissos!<br />
Segundo a revista ScientificAmerica,<br />
teríamos também um problema grave de<br />
integração de dados entre contas diferentes.<br />
Imagine que você tem uma conta pessoal<br />
(usada para diversão) e outra profissional?<br />
Você gostaria de ter a integração entre<br />
ambas, relacionamentos, contatos, termos<br />
pesquisados? Pense bem...<br />
A revista vai além, e explica que mais um<br />
problema futuro seria o descobrimento dos<br />
usernames, pois o Google+ solicita nomes<br />
reais e outros serviços, como YouTube,<br />
não. A partir de 01 de março, em tese, seu<br />
nome real poderia aparecer em todos os<br />
seus produtos Google. Legal?<br />
Ao passo em que aprimora sua gestão de<br />
informações, o Google passa a ter um<br />
dossiê global e integrado de cada usuário<br />
de Internet, com cabeçalhos HTTP, IPs,<br />
localização geográfica, termos procurados,<br />
sua agenda do Calendar, conversas do<br />
Gtalk, documentos do Docs, etc. etc.<br />
Imagine tudo isto integrado, nas mãos das<br />
pessoas erradas?<br />
Cada serviço do Google tem sua<br />
característica, o que demanda proteções<br />
adicionais de privacidade. Não se pode, em<br />
prejuízo do principio da especificidade (ou<br />
especialidade), conceder a serviços<br />
distintos regras idênticas. Cada dado deve<br />
ser coletado para finalidade específica.<br />
Agora, crio um simples e-mail e dou o
o novo atrevimento do Google<br />
direito ao Google de usar estes dados em<br />
todos os seus outros serviços? Sim! Não<br />
existe finalidade! E aliás, esta unificação<br />
parte da base mais protetiva à privacidade<br />
ou mais aberta? Com certeza da mais<br />
aberta. Pegue o serviço do Google que<br />
mais lhe dá direitos em relação a dados de<br />
usuários, unifique a todos os demais e<br />
pronto, estamos oferecendo "comodidade,<br />
facilidade aos internautas".<br />
Não se trata de comodidade, mas de<br />
estratégia para anúncios focados, para<br />
lucrar com seus dados. Igualmente, é<br />
obscura a declaração da Privacy Officer<br />
do Google de que "os governos<br />
requisitaram regras menores e mais<br />
simples em relação à privacidade". Fica<br />
clara a intenção, favorecer quebras de<br />
sigilo, investigações e anúncios<br />
publicitários.<br />
E para o usuário, o que resta? Não fazer<br />
login? Ignorar sua privacidade rumo a<br />
"novas experiências"? Não! Cabe ao<br />
Google nos dar o direito de escolhermos e<br />
desativarmos a combinação, conexão e<br />
intercâmbio de informações. Lembrando<br />
que pelo anteprojeto de Lei de proteção de<br />
dados pessoais, toda a combinação de<br />
informações deve ser previamente e<br />
expressamente autorizada pelo usuário,<br />
que aliás poderá revogá-la a qualquer<br />
momento. Não devemos buscar somente o<br />
direito de desligar anúncios, mas de<br />
desligar esta correlação de informações.<br />
Não devemos buscar o direito de limpar o<br />
histórico, mas efetivamente limpar os<br />
registros dos servidores do provedor...<br />
O cidadão que quiser, por exemplo,<br />
manter dados desvinculados entre os<br />
serviços, segundo o Google só teria duas<br />
saídas: ou não fazer login ou criar novas<br />
contas. Imagine-se com uma conta para<br />
cada serviço?<br />
É hora de buscarmos nossos direitos<br />
inerentes à privacidade digital, como os<br />
de poder peticionar e conhecer realmente<br />
cada informação que o provedor coleta<br />
sobre nós, o de realizar as chamadas<br />
"auditorias de privacidade" e<br />
principalmente o de "opt-out" de<br />
mudanças suspeitas nas regras do jogo,<br />
como a presente. Nos Estados Unidos,<br />
um bom exemplo: os republicanos Ed.<br />
Markey e Joe Barton já solicitaram à<br />
Federal Trade Comission (FTC) a<br />
investigação das violações à privacidade<br />
estampadas pela nova política (Veja carta<br />
aqui), zelando, efetivamente, pelos direitos<br />
dos usuários.<br />
Então me desculpe, mas não vejo<br />
benefício algum na política do Google, a<br />
não ser para aqueles ávidos em conhecer o<br />
que fazemos: anunciantes, empresas,<br />
governo e ao próprio Google, que terá<br />
mais tráfego em seus serviços.<br />
Você pode até pensar, "Ora, mas o Google<br />
já faz isso há tempos!" Ok, mas agora<br />
passa a legitimar seus atos, em uma<br />
política em que, ou você concorda ou está<br />
praticamente fora da Internet. Precisamos<br />
de figuras que também defendam nossa<br />
privacidade no Congresso. Pense, e veja se<br />
não é hora de exigir de nossos<br />
Congressistas maior atenção a estes temas<br />
e aos nossos direitos.<br />
Aliás, para nós, nossos direitos, para o<br />
Google, "idéias erradas". Pense bem antes<br />
de colocar seus dados nesta teia. Ou<br />
realmente você acredita que oferecer<br />
lembretes de sua reunião é mais importe<br />
do que seus dados e seu sagrado direito à<br />
privacidade?<br />
Continue achando que o que é de graça<br />
não se questiona. Não há nada de graça, o<br />
preço de tudo isso são seus dados<br />
pessoais, o rastreamento da sua vida. Em<br />
síntese, como bem disse Jeff Chester, um<br />
cão de guarda da privacidade, Diretor do<br />
Centro de Democracia Digital, a partir de<br />
primeiro de março, receberemos uma<br />
"camisa de força digital", forçados a<br />
compartilhar informações pessoais, sem<br />
defesa.<br />
Até quando a destruição de nosso direito à<br />
privacidade será coberto pelo falso manto<br />
da "otimização da experiência do<br />
usuário"? Não queremos novas<br />
experiências impostas, mas liberdade para<br />
construí-las, quando bem nos convier.<br />
* Matéria publicada originalmente no<br />
OLHAR DIGITAL:<br />
http://olhardigital.uol.com.br/colunistas/jos<br />
e_milagre/post/como_fica_sua_privacidade<br />
_com_o_novo_atrevimento_do_google<br />
JOSÉ ANTONIO MILAGRE<br />
Advogado e Perito especializado em<br />
Segurança da Informação.<br />
E-mail:<br />
jose.milagre@legaltech.com.br<br />
Twitter:<br />
http://www.twitter.com/periciadigital<br />
página 45
Como dizia Guimarães Rosa:<br />
- é preciso ampliar a cabeça para o total!<br />
Então não deixe de espiar essas dicas da Rebosteio,<br />
é só clicar sobre o link, que abre:<br />
* Vídeo sobre como as escolas matam a criatividade:<br />
http://www.youtube.com/watch?v=icfOU4VF0aQ&feature=share<br />
* Vídeo do Movimento Zeitgeist no Brasil -<br />
Não Acredite em nada, mas entenda o quanto puder:<br />
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=JvJE9DXIQ30<br />
* Entendendo a Cracolândia e mais... texto na revista Carta Maior:<br />
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19395<br />
* Vídeo com Mia Couto - Mudar o Medo - com transcrição do texto,<br />
no blog Viver Sustentável:<br />
http://viver-sustentavel.blogspot.com/2011/12/mudar-o-medo.html<br />
página 46<br />
* Vídeo com entrevista do educador Tião Rocha para o Conexões Urbanas,<br />
em 2 partes:<br />
http://www.youtube.com/watch?v=4e5LDtnfIOI&feature=youtu.be<br />
http://www.youtube.com/watch?v=a77ac0CixkE&feature=youtu.be
arte: Rubens Guilherme Pesenti<br />
http://ru666.blogspot.com
anti-propaganda<br />
concepção e fotografia: mercedes lorenzo<br />
http://olhardelambe-lambe.blogspot.com