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REBOSTEIO 5

Revista REBOSTEIO DIGITAL número cinco - entrevistas, arte, cultura, poesia, literatura, comportamento, cinema, fotografia, artes plásticas.

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2


EDITORIAL<br />

Editores<br />

Mercedes Lorenzo<br />

Rubens Guilherme Pesenti<br />

Willian Delarte<br />

Contato:<br />

revistarebosteio@gmail.com<br />

Blog para mailing-list:<br />

rebosteio-revistadigital.blogspot.com<br />

Colaboradores deste Nº<br />

Aline Constantino<br />

Ana Fonseca<br />

Christiana Fausto<br />

Coletivo Sarau do Manolo<br />

Eduardo Marinho<br />

Henrique Pimenta<br />

Isadora Krieger<br />

Luiz Roberto Guedes<br />

Mauro Brito Combo<br />

Mercedes Lorenzo<br />

Ni Brisant<br />

Nirton Venancio<br />

Polyana de Almeida<br />

Rafael Anic<br />

Rodrigo Machado Freire<br />

Rubens Guilherme Pesenti<br />

Sonia Regina Bischain<br />

Tamires Santana<br />

Thiago Cervan<br />

Tiago Costa<br />

Walner Danziger<br />

Willian Delarte<br />

<strong>REBOSTEIO</strong> é uma publicação digital<br />

sem fins lucrativos, construída com a<br />

ajuda de colaboradores voluntários,<br />

independente, apartidária e voltada<br />

para a divulgação de arte em geral,<br />

de idéias, provocações neurais e<br />

expansão dos sentidos... não temos<br />

todas as respostas, mas estamos<br />

interessados nas melhores perguntas.<br />

CAPA:<br />

Rubens Guilherme Pesenti<br />

PROJETO GRÁFICO:<br />

Rubens Guilherme Pesenti<br />

http://ru666.blogspot.com<br />

Mercedes Lorenzo<br />

www.mercedeslorenzo.com<br />

Marginal, de periferia ou de rua a cultura é um tambor das nossas<br />

origens, ressoando cruamente hipnótico.<br />

É o movimento que desafia músculos e a gravidade grafitados em<br />

muros que desafiam a imaginação. Já se disse: a imaginação no<br />

poder.<br />

A batida do coração elétrico em pick-ups cuja partitura é feita de<br />

calçadas rachadas, asfaltos esburacados e velhos paralelepípedos.<br />

Apenas cenário para as cores que cobrem cabelos, corpos ou muros.<br />

A cor que é mais que sobreviver. A cor de ser vivo.<br />

Poetas que se iluminam em “gatos” e gambiarras. Palavras que esmurram<br />

o consentimento em se ser assim. Versos cortados por trens<br />

lotados. Ônibus rimam atrasos na falsa assepsia métrica do metrô.<br />

E saraus gritam. E coletivos gritam. E marginais gritam.<br />

É o grito sem autoridade nas bocas. É o grito de ir além de ser esquecido.<br />

Margem e periferia batendo no centro.<br />

Mano. Irmão. Hermano. Chapa. Bródi. Caro. Caríssimo.<br />

Marginal, de periferia ou de rua é esse nosso grito de cumplicidade!<br />

04 - entrevista<br />

Eduardo Marinho<br />

12 - o lamb de<br />

Rafa Anic<br />

09 - Reis<br />

da Rua<br />

14 - Verso e<br />

Reverso da Periferia<br />

10 - Cinema<br />

16 - Africaminhos 18 - AfroBreak 20 - Breaking<br />

26 - Ensaio<br />

Fotográfi co<br />

22 - infográfi co<br />

de Saraus<br />

35 - conto:<br />

Desaparecido<br />

32 - Sarau do<br />

Manolo<br />

24 - A flor e a<br />

bigorna<br />

36 - Plínio Marcos<br />

34 - Projeto<br />

Cantigas de Infância<br />

39- Bonga Mac 40 - Ação Hip Hop 42 - Cabaret<br />

Revoltaire<br />

44 - Coletivos<br />

Culturais<br />

46 - Sobrenome<br />

Liberdade<br />

48- O Advogado<br />

ÍNDICE 50 - Rebosteio<br />

dos Mendigos In Dica<br />

3


EDUARDO MARINHO tornou-se nacionalmente<br />

conhecido quando seu<br />

vídeo/depoimento alcançou o status<br />

de viral na internet.<br />

Postado em 2009 e já com aproximadamente<br />

350 mil visualizações,<br />

este vídeo traz a sua visão de mundo,<br />

da sociedade, da cultura e da arte.<br />

Ele não esquiva de tocar nos pontos<br />

nevrálgicos de uma sociedade consumista<br />

e apática.<br />

Sua opção de vida e a defesa de sua<br />

arte nos fez procurá-lo para esta edição<br />

da Rebosteio, abrindo a revista<br />

com uma entrevista exclusiva.<br />

Observar & Absorver<br />

Rebosteio: Eduardo, sabemos que você é “filho da classe<br />

média”, com um futuro mais ou menos estável naquilo<br />

que sonhavam ou “impunham” seus pais. Poderia<br />

nos descrever brevemente como se deu essa passagem<br />

e por que optou por viver e trabalhar no que podemos<br />

chamar de “marginalidade”, no sentido de “à margem”<br />

do sistema capitalista?<br />

E.M: Sou filho da humanidade. Os pais apenas reproduzem,<br />

na maioria das vezes, as imposições da sociedade<br />

condicionada em valores, comportamentos e visões de<br />

mundo. Não houve uma passagem rápida, foi um processo<br />

longo, a meu ver, que durou dos anos da adolescência<br />

até o princípio da juventude. Um tempo de angústia e<br />

solidão, em que não encontrava com quem conversar<br />

abertamente, os assuntos que me interessavam eram<br />

repelidos, meus sentimentos eram só meus, as dúvidas<br />

com relação à sociedade, a dura percepção de que minha<br />

família vivia ilusões, de que o que me fora ensinado<br />

estava cheio de buracos, não fazia sentido. Na faculdade,<br />

depois da euforia e decepção – em relação à capacidade<br />

real de mudanças sociais – resolvi procurar por minha<br />

conta, mesmo sem saber direito o quê, mesmo sem saber<br />

onde, ou como. Uma forma de não me deixar acomodar<br />

como me era cobrado e me apavorava. Saí sem saber<br />

nada além de que entrava na realidade do mundo, sem<br />

as proteções que antes havia tido, sem lugar pra voltar (a<br />

família rompeu relações e contatos) e com o mundo pela<br />

frente. Não tinha a pretensão de mudar o mundo, queria<br />

apenas entender como funciona.<br />

Anos depois, já com algumas conclusões básicas e óbvias,<br />

comecei a sentir necessidade de falar com o mundo<br />

o que eu estava achando. Como vivia de mangueio,<br />

quando você passa por milhares de pessoas todas as<br />

noites – e dias, conforme a situação -, vendendo artesanato,<br />

falando, conversando, apresentava os temas e debatia<br />

com as pessoas, quase qualquer assunto. Quis colocar<br />

isso no trampo, focalizar os assuntos. E aí comecei um<br />

trabalho com brochinhos que eram a expressão do meu<br />

pensamento e visão de mundo, ainda que com frases de<br />

outras pessoas que encaixavam na minha visão, que causavam<br />

reflexões, questionamentos, compreensões. Meus<br />

filhos foram criados com base nesses brochinhos, ainda<br />

que também fizesse brincos, pulseiras, colares, adesivos,<br />

duendes em durepoxi, o que caísse nas mãos. O grosso<br />

do trabalho eram os brochinhos. Há mais de dez anos<br />

4


parei com eles e até hoje aparece gente que me reconhece<br />

por causa deles. Mas o trabalho com os desenhos abriu<br />

espaço pra investir em outras atividades, como a própria<br />

net. Se fossem os broches, não teria tempo de escrever, a<br />

não ser muito raramente.<br />

Rebosteio: Fale-nos um pouco dos seus trampos e<br />

influências.<br />

E.M: A influência principal do meu trabalho é a realidade<br />

humana como eu a percebo. Fiz camisas, adesivos, pirogravuras,<br />

pinturas, desenhos, gravuras em metal – cobre,<br />

latão e alpaca –, esculturas, chaveiros, bonés, sempre na<br />

direção do que penso, nunca apenas pra vender, mas pra<br />

causar espanto, identidade com os reflexivos, símbolos<br />

existentes ou inventados, frases e palavras críticas à realidade<br />

imposta e assim por diante. Não queria corromper<br />

minhas atividades artísticas. Um dos brochinhos levava<br />

a frase “é fácil ser artista; difícil é viver de arte e não a<br />

prostituir”. Pra mim qualquer trabalho que se odeia ou<br />

se despreza, ou mesmo não se gosta, mas que se faz pelo<br />

dinheiro, é prostituição. Você prostitui seu trabalho quando<br />

não acredita nele, se sacrifica pra fazer, fica louco por<br />

um feriado, uma sexta-feira e a chegada da segunda-feira<br />

dá tristeza. Não vai aqui nenhum julgamento de valor,<br />

não me acho no direito, nem na condição de aprovar ou<br />

reprovar ninguém. Mas quando faço por dinheiro o que<br />

não faria, se pudesse, estou em condição de prostituição<br />

– é bom ao menos ter a consciência disso. Quando<br />

prostituí meu trabalho, não vi ninguém em condição de<br />

me julgar a não ser eu mesmo. Eu já pagava o preço, em<br />

angústia e falta de sentido. Pra não se prostituir, neste<br />

mundo, o preço também é alto - só que de outro tipo, em<br />

dificuldades materiais, em discriminação, em repulsa, em<br />

agressividade das instituições, em desatendimento. Cada<br />

um faz suas opções. E, olhando a realidade em volta, o<br />

tipo de estrutura que se formou na sociedade, é fácil ver<br />

qual opção tem sido a mais escolhida. A sociedade cobra<br />

forma sem conteúdo, ou com conteúdo inofensivo, não<br />

questionador das estruturas sociais e mentais criadas pra<br />

construir e manter privilégios pra poucos, às custas das<br />

maiorias, mantidas em escravidão inconsciente.<br />

Em muitos setores, não só nas artes, há gente trabalhando<br />

nisso, na conscientização, no questionamento dos<br />

valores, dos comportamentos impostos. E há necessidade<br />

disso, por serem poucos ainda, embora altamente contaminantes.<br />

Rebosteio: Em um vídeo no Youtube você usa a expressão<br />

“democracídio”. Explique aos nossos leitores o que<br />

viria a ser isso.<br />

E.M: Isso pode ter, pelo menos, duas interpretações. A<br />

morte da democracia ou a garantia da sua não existência,<br />

num sentido mais amplo, é a primeira.<br />

A que usei no vídeo é pura e simplesmente o assassinato<br />

cotidiano, direto ou indireto, de grandes parcelas da<br />

população, o extermínio por meio de inúmeros procedimentos,<br />

apresentados pela mídia como inevitáveis e até<br />

elogiáveis, como a mentira da “guerra às drogas”, ou<br />

como a saúde pública, sucateada e privatizada, que mata<br />

contingentes enormes de idosos e acidentados das classes<br />

mais pobres, com erros médicos, de procedimentos de<br />

enfermeiros, de falta de condições, de medicamentos, de<br />

recursos, como no sistema penitenciário, como resultado<br />

de desnutrição, de venenos agrícolas, deterioração<br />

ambiental, condições insalubres de vida. É uma lista<br />

interminável.<br />

Rebosteio: Este mesmo vídeo já passa dos 300 mil<br />

acessos. Numa página do Facebook, que criaram com<br />

o seu nome, podemos ver expressões como “O Filósofo<br />

da Rua”, e o quanto você está sendo “seguido”, no<br />

sentido mais visceral dessa palavra. Encontramos na<br />

rede também palestras ministradas por você em universidades.<br />

Que relação você estabelece com a ideia de<br />

“ser seguido” e “estar em evidência”? É algo que você<br />

procurou ou foi fruto das circunstâncias?<br />

E.M: Nunca imaginei a situação em que estou. Sou procurado<br />

pra falar o que falo nas calçadas, nas praças, nas<br />

feiras, nos ônibus, nos bares, em qualquer lugar onde sou<br />

convocado a falar minha ideia ou visão de mundo. Uma<br />

necessidade minha passou a ser pedida. Há muito tempo<br />

exponho o que penso nas situações em que vivo, onde<br />

estiver. Muitas vezes vi nas fisionomias o pensamento de<br />

que sou meio maluco – e nunca me importei com isso.<br />

Diante dos disparates convencionais, eu me senti à vontade<br />

pra soltar os meus disparates, nunca tão grandes e<br />

tão sem sentido quanto as convenções. E acostumei com<br />

a repulsa, a estranheza, o preconceito – passei a ver essas<br />

reações como naturais e até desejáveis, por deixarem clara<br />

minha distância dos valores vigentes, tanto os opressores<br />

e subalternos quanto os que se dizem revolucionários,<br />

mas que reproduzem os condicionamentos conflituosos,<br />

impositivos e doutrinários, embora mudem de cores, sons<br />

e cheiros. O vídeo criou uma exposição maior, claro. Pra<br />

mim, cresce a responsabilidade, e eu assumo sem me<br />

sentir muito à altura. Vejo como obrigação moral com o<br />

que considero minha família humana.<br />

Esse papo de “seguidor” me é bem repulsivo, acho que<br />

cada um tem uma cabeça e é com ela que deveria pensar,<br />

apesar de ser necessário pescar ideias em outras cabeças<br />

5


também, claro. Tornar-se seguidor, pra mim, parece abrir<br />

mão da própria autonomia, uma falta de respeito com a<br />

própria capacidade. Afinal, todas essas “divindades” ideológicas<br />

foram pessoas como qualquer um de nós, com<br />

suas características pessoais, suas capacidades e incapacidades,<br />

acertos e erros.<br />

A tendência à idolatria é muito comum, mas quebra a<br />

capacidade de crítica, a autonomia do pensamento. Prefiro<br />

cometer meus próprios erros e sei que sou propenso<br />

a eles. E, por isso mesmo, me cuido e me interesso por<br />

qualquer vacilo que me apontam, desde que sinceramente<br />

e com base na realidade. Muitos dos que apontam erros<br />

têm como propósito o insulto, a ofensa, a desqualificação<br />

e apenas descarregam raivas e frustrações. A esses, não<br />

perco tempo respondendo. Aceito o insulto e sigo adiante.<br />

Gosto de respeitar, mesmo a falta de respeito – desde<br />

que ninguém queira me espancar fisicamente, afinal<br />

preciso da minha integridade física pra viver.<br />

Rebosteio: Você alimenta bastante seu blog, sempre<br />

com denúncias muito atuais e críticas contundentes.<br />

Fale-nos dele e dessa sua forte relação com a palavra<br />

escrita.<br />

E.M: Sempre gostei de escrever, gostava de fazer redações<br />

nas boas escolas que estudei, diferente da maioria.<br />

Leio desde muito cedo, isso facilita o escrever. A fase da<br />

solidão deve ter desenvolvido bastante essa habilidade. E<br />

a vida me mostrou outra linguagem, a língua da fala, que<br />

eu acho que deu mais alcance ao que escrevo. No livro<br />

“Crônicas e pontos de vista”, uma das discussões com o<br />

editor foi exatamente as correções gramaticais, que eu<br />

não queria. Expliquei pra ele o porquê e ele me pediu pra<br />

escrever essa explicação, que foi colocada antes do índice<br />

do livro, como um aviso (“Tomando as rédeas das regras<br />

– ou declaração” - link do texto: http://observareabsorver.<br />

blogspot.com.br/?q=tomando+as+r%C3%A9deas)<br />

Rebosteio: Na sua opinião, o que de mais nefasto temos<br />

neste país e qual “classe/casta” personifica esta devassidão?<br />

E.M: A resposta serve na maior parte do mundo. As elites<br />

dominantes rendidas ao poderio econômico mundial –<br />

grandes banqueiros, megaempresários transnacionais<br />

que exercem seu poder compondo com as elites locais,<br />

que entregam as riquezas e as populações à exploração,<br />

à espoliação e ao sacrifício, usando todas as artimanhas<br />

possíveis, imagináveis e, sobretudo as inimagináveis,<br />

nos bastidores escuros dos poderes e suas inter-relações<br />

escondidas, cheias de crimes contra a humanidade. O<br />

controle centralizado hoje se estende por todas as áreas<br />

6


estratégicas, produção de armamentos, de dinheiro,<br />

de alimentos, de energia, de informações e nas áreas<br />

cruciais, educação, comunicações e cultura. Tudo<br />

transformado em mercadoria, tudo em função do lucro.<br />

A propriedade tá valendo mais que a vida, os privilégios,<br />

mais que os direitos. Uma inversão descarada e desumana.<br />

No entanto, a colaboração e o consentimento de<br />

todos é que sustentam essa estrutura. Os dominantes, na<br />

verdade, são servidos por explorados em tudo, tanto na<br />

conquista e na manutenção das suas riquezas como nas<br />

suas vidas pessoais. São inteiramente dependentes das<br />

massas, mas numa concepção de que são “benfeitores”<br />

privilegiados por algum direito natural, condicionados<br />

que são de sua superioridade, assim como a maioria recebe<br />

o sentimento de inferioridade. Não é preciso derrubar<br />

o opressor, nem é útil – pois outro ocupará o seu lugar. É<br />

preciso o trabalho de conscientização, para que se deixe<br />

de colaborar e consentir nesse esquema, mudando valores<br />

e comportamentos, desejos e objetivos de vida. Sem esse<br />

enraizamento, a história mostra, só se troca de opressão.<br />

E o preconceito sócio-econômico passa a ser intelectodoutrinário.<br />

É trocar merda por cocô. Misturemos tudo<br />

e a compostagem pode virar um bom adubo pra uma<br />

sociedade sem dirigentes, que decide em assembleia e<br />

por consenso os destinos das coletividades. Uma etapa<br />

pra ser muito discutida quando for a hora. Por enquanto,<br />

trata-se de acender luzes e nada mais. Pretensiosos,<br />

sempre os houve. Mas o homem vale mais pelo que faz<br />

do que pelo que pensa.<br />

O que há de mais nefasto é a ânsia por muito mais do que<br />

se precisa, a ambição desmedida, o olho grande. Essas<br />

características, nos poucos podres de ricos, são muito<br />

responsáveis pelos abismos sociais, pela perversidade do<br />

Estado com os mais pobres e do sistema com a esmagadora<br />

maioria. Mas elas também existem espalhadas por<br />

aí, em todos os níveis. Pra mudar o sistema, é preciso<br />

mudar os seres humanos. Quando<br />

a gente vai mudando por<br />

dentro, o tipo de relação com o<br />

mundo muda, a visão de mundo,<br />

o sentimento na vida. E a gente<br />

se torna contaminador, acendedor<br />

de luzes, só de acender e<br />

trabalhar na nossa própria luz.<br />

É muito fácil apontar pras elites<br />

e não olhar pra si mesmo e pras<br />

suas relações com o mundo. A<br />

parada não é apontar o culpado,<br />

mas escolher o que fazer e<br />

deixar de colaborar, de consentir,<br />

de ser inócuo e levar uma<br />

vida sem sentido. Se cada um<br />

quisesse da vida só o que precisa<br />

mesmo pra viver – e não tô<br />

falando só de ar, água, alimento,<br />

agasalho e abrigo –, teria pra<br />

todo mundo, não haveria miséria,<br />

ignorância, exploração ou<br />

abandonados da sociedade.<br />

Rebosteio: Dentro de um pensamento<br />

mais conservador e linear, muito provavelmente<br />

você já foi questionado sobre suas escolhas serem<br />

algo “quixotesco” ou solitário, que não passariam de<br />

murro-em-ponta-de-faca, uma vez que elas supostamente<br />

não envolvem um projeto coletivo: como você<br />

responderia a isso?<br />

E.M: Não me incomodo muito com teóricos. Em geral<br />

eles falam muito e fazem nada. Ou o que fazem não tem<br />

alcance. É blablablá de quem quer saber a “receita do<br />

sucesso”, posição condicionada, postura convencional.<br />

Aliás, foi por conta dessa mentalidade que percebi que as<br />

“entidades” de esquerda com as quais convivi não iriam<br />

a lugar nenhum ou, se fossem, não seria no benefício<br />

coletivo, mas em proveito próprio. Desisti de acompanhar<br />

essas vaidades e fui buscar algum sentido, sem saber<br />

se iria encontrar alguma coisa. Não tenho um “projeto”,<br />

nunca tive. Simplesmente desacreditei dos revolucionários<br />

seguidores de ideologias extemporâneas, sem criatividade,<br />

que ficam repetindo velhos jargões, estacionados<br />

no descrédito da maioria, de punhos erguidos, pensando<br />

em “tomar o poder” ou “derrotar o capital”, “derrubar o<br />

sistema” e outras imaturidades. E o tempo me mostrou<br />

que eu tinha razão. Encontrei os ex-colegas de faculdade,<br />

dez e vinte anos depois, e estavam todos – todos, os<br />

stalinistas, os trotskistas, os leninistas, os maoístas, os<br />

anarquistas – no sistema, amargurados, descrentes do ser<br />

humano e da sociedade, alguns raivosos, outros envergonhados,<br />

mas todos acomodados em uma vida burguesa.<br />

Minha intenção nunca foi mudar o mundo ou apontar<br />

o caminho que deve ser seguido. Pra mim bastou ver<br />

essa pretensão entre os que se julgam revolucionários e<br />

são vítimas das próprias vaidades, exercendo os condicionamentos<br />

das convenções. Depois de desacreditar<br />

nessas propostas, ou “projetos”, saí atrás de um sentido,<br />

de satisfação em viver. Como não perdi a curiosidade e<br />

7


o senso crítico, fui observando, aprendendo, trocando,<br />

conversando... afinal, vendendo meus artesanatos eu<br />

passava por centenas de pessoas por dia, por noite, e<br />

debatia todos os assuntos que apareciam. Encontrava pessoas<br />

que gostavam de trocar reflexões, de todos os tipos,<br />

professores, médicos, motoristas, advogados, lixeiros,<br />

garçons, todo tipo de gente, de mesa em mesa, de bar em<br />

bar, nos quiosques das praias de Salvador, nos bares de<br />

Belo Horizonte, num sem número de cidades, estradas,<br />

postos e qualquer canto. Dessa maneira fui aprendendo,<br />

concluindo, duvidando e, com o tempo, percebi que meus<br />

pensamentos causavam pensamentos, as pessoas gostavam,<br />

se surpreendiam, questionavam, elogiavam, e que<br />

esta era uma função que eu estava exercendo no mundo e<br />

na vida. Não foi o que escolhi, foi o que aconteceu.<br />

Não sinto necessidade de ter um “projeto coletivo”, nem<br />

individual. Levo a vida como quem canta ou dança, não<br />

assumi nenhum compromisso além de comigo mesmo e<br />

as críticas e opiniões não me dizem muita coisa. Ah, não<br />

adianta nada? Pra mim tá bom. Adoro o desprezo dos<br />

convencionais e o que se pensa sobre mim não me transforma<br />

no que se pensa. Respeito qualquer opinião e não<br />

reajo com ares de ofendido. E continuo dando sentido à<br />

minha vida. Na minha opinião, claro, que é a que mais<br />

me deve importar. Se me convencer, mudo de opinião<br />

a qualquer momento, sem apego nenhum. Não tenho<br />

um projeto coletivo nem vi nenhum que me chamasse o<br />

sentimento. Tudo o que vi foi pretensão desnorteada, arrogância<br />

ignorante e teórica, sem conhecimento de base,<br />

sem possibilidades de mudança real.<br />

Se meu trabalho anda repercutindo por aí, é o mundo<br />

que tá me dizendo que ele é útil. E me incentivando a<br />

caminhar nessa direção. Minha coletividade é a humana,<br />

sou filiado à minha consciência, a nada mais, minha<br />

solidariedade é irrestrita, e minha busca é constante. Não<br />

há uma intenção final além de participar da saga humana<br />

da forma que eu escolher, não de alguma que me seja<br />

imposta, nem pela esquerda, nem pela direita, nem por<br />

cima e nem por baixo.<br />

Minha intenção, reitero, não é mudar o mundo, já<br />

considero por demais difícil entendê-lo, embora eu faça<br />

tentativas permanentemente. O que quero é dar sentido<br />

à minha vida e ter alguma satisfação no viver, no meu<br />

posicionamento diante da sociedade que nos cerca e onde<br />

estamos.<br />

Rebosteio: Gostaria de levantar mais alguma bola? A<br />

revista é toda sua.<br />

E.M: Na minha opinião, só é possível trabalhar por mudanças<br />

reais quando se trabalha dentro de si mesmo. Vejo<br />

os “revolucionários” de academia e das siglas frequentemente<br />

se perdendo em vaidades e disputas inúteis, dando<br />

um valor excessivo às discussões teóricas e ausentes das<br />

práticas revolucionárias cotidianas, que é a humildade<br />

em reconhecer os próprios erros e condicionamentos e<br />

o trabalho profundo e sincero neles, em primeiro lugar.<br />

Esses caras costumam ajudar a formação dessa fajuta fachada<br />

democrática em que vivemos, pois os dominantes<br />

e seus porta-vozes os apontam pra provar que este é um<br />

sistema democrático – “eles podem falar assim porque<br />

isso aqui é uma democracia”. E é mentira. Eles podem (e<br />

devem) falar assim porque não têm poder real de mobilização<br />

além de uns punhados e não representam ameaça<br />

às estruturas da sociedade. Ficam lá nos seus pedestais<br />

de vidro e não descem pra pisar no chão da sociedade,<br />

aprender os saberes da população sabotada. Confundem<br />

falta de escolaridade com falta de personalidade, falta de<br />

informações com falta de sabedoria, não percebem nem<br />

os saberes da vida cotidiana das massas, nem a capacidade<br />

de superação de dificuldades, de perdas, de tragédias<br />

que os de baixo possuem, além da imaginação das classes<br />

pretensamente superiores da sociedade de consumo.<br />

Humildade não é virtude, mas uma questão de inteligência.<br />

Sentimento que favorece o aprendizado, facilita<br />

o reconhecimento de erros, permite o trabalho interno e<br />

a autocorreção. Além de ser o melhor antídoto contra a<br />

humilhação.<br />

Orgulho bloqueia a inteligência e o aprendizado, dá a<br />

sensação de que já se sabe, cria sentimentos ilusórios<br />

de superioridade e impede o reconhecimento<br />

de erros. Reconhecer erros,<br />

para o orgulhoso, causa a sensação de<br />

humilhação.<br />

A função da vida é aprender, mas esse<br />

aprender depende da prática da vida,<br />

do complemento aprender e ensinar,<br />

ensinar e aprender, todo o tempo. A satisfação<br />

da minha vida vem desse fluxo,<br />

desse fazer cotidiano, em toda parte.<br />

LINK DO BLOG OBSERVAR E AB-<br />

SORVER:<br />

http://observareabsorver.blogspot.com.<br />

br/<br />

LINK DO VÍDEO DE EDUARDO<br />

MARINHO NO YOUTUBE:<br />

http://youtu.be/NMn_1rQ3sms<br />

8


O que é a série que apresenta<br />

personalidades escondidas de SP ?<br />

título de REI DA RUA.<br />

Cada episódio é composto por mini documentários,<br />

que abordam a vida do personagem<br />

em questão.<br />

Seu trabalho, relação com a comunidade,<br />

história de vida, família e intimidade<br />

serão alguns dos aspectos abordados para<br />

apresentar da forma mais completa possível.<br />

Mostraremos o que transforma cada um dos<br />

escolhido sem celebridade.<br />

Além disso, a série aborda também como os<br />

instrumentos tecnológicos recentes, internet,<br />

celular, redes sociais, youtube, entre outros,<br />

ajudam a divulgar o trabalho dessas pessoas<br />

sem que elas precisem recorrer aos meios de<br />

comunicação tradicionais. Sendo essa característica<br />

um dos grandes “motes” da série.<br />

A série visa documentar pessoas que são muito conhecidas<br />

em seus bairros ou comunidades, porém que passam<br />

despercebidos para a grande mídia. Cantores, artistas,<br />

líderes comunitários, pequenos empresários, religiosos,<br />

músicos, atores e esportistas que fazem parte da fauna de<br />

celebridades locais.<br />

A periferia das grandes cidades normalmente é vista de<br />

maneira esquemática e preconceituosa<br />

pela grande imprensa,<br />

o que muitas vezes impede que<br />

histórias de grandes talentos cheguem<br />

ao conhecimento do grande<br />

público.<br />

São nessas comunidades, tantas<br />

vezes invisíveis dentro de uma<br />

metrópole, que exemplos de<br />

superação, solidariedade, aprendizado<br />

e dedicação ao próximo<br />

aparecem frequentemente. São<br />

verdadeiras entidades idolatradas<br />

dentro de seu meio ambiente.<br />

Texto: apresentação do Reis da Rua pela TV Cultura.<br />

fotos: Mercedes Lorenzo<br />

LINK PARA O CANAL REIS DA RUA<br />

NO YOUTUBE:<br />

www.youtube.com/user/reisdaruatv<br />

Reis da Rua pretende trazer à<br />

luz esses diamantes e histórias<br />

maravilhosas ainda encravadas<br />

em suas comunidades. Iremos<br />

apresentar à grande audiência a<br />

vida simples e heróica desses que<br />

certamente são merecedores do<br />

9


Cris, 12 anos, e seu irmão mais velho são deixados na<br />

beira da estrada por seus pais. Em pouco tempo percebem<br />

que o castigo vem a se tornar um desafio ainda<br />

maior. O irmão também a abandona. Esse é o mote<br />

do filme pernambucano “Eles voltam”, de Marcelo<br />

Lordello, exibido na primeira noite da Mostra Competitiva<br />

de Longa Ficção no 45º Festival de Brasília<br />

do Cinema Brasileiro, em setembro de 2012. E torço<br />

para quando esta edição da Rebosteio esteja ‘onlinenas-suas-mãos’,<br />

o filme igualmente esteja em cartaz<br />

em alguma tela que se preze.<br />

çada com sangue nas digitais,<br />

entoando o mantra “vamos lá,<br />

gente!”, elenco e equipe com<br />

cachês reduzidos em comum<br />

acordo antes e depois da farra,<br />

sem malabarismos de efeitos e<br />

outras mumunhas mais só para<br />

mostrar que o diretor fez curso<br />

de cinema na França.<br />

Há muito tempo assisto a filmes<br />

ditos “marginais”, “alternativos”,<br />

e outros rótulos para<br />

diferenciar uma terceira via<br />

de acesso à criatividade. Essa cinematografia<br />

de várias partes do<br />

mundo vem revelando talentos<br />

que a grande mídia não está nem<br />

aí. Todos – todos mesmo! – têm<br />

me despertado uma saudável<br />

inquietação de alegria, de crença<br />

na sobrevivência de uma cinematografia verdadeira, uma<br />

prova que há vida inteligente atrás das novas câmeras<br />

digitais, numa exata simetria com a geração superoitista.<br />

Gosto e me empolgo mais com uns, mas nunca excluo<br />

os outros, que são bem melhores do que o cineminha<br />

cosmético em três-dê.<br />

Sobre o argumento de “Eles voltam”, dir-se-ia: simples<br />

assim. Pois é. Depende. Todos os temas, todas as histórias<br />

e todas as lendas são universais: em torno delas e no<br />

olho do redemoinho está o homem e suas inquietações,<br />

seus conflitos, seu espanto, suas alegrias e tristezas, e<br />

O júri do certame reconheceu a qualidade do longa-metragem<br />

premiando em quatro categorias: melhor filme,<br />

melhor atriz (Maria Luíza Tavares), melhor coadjuvante<br />

(Elayne Moura) e Prêmio da Crítica. Mas discordo da<br />

decisão do júri, que é soberano, em dividir o Candango<br />

principal com “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo<br />

Gomes. “Eles voltam” se destaca como o melhor dos<br />

concorrentes.<br />

A produção pernambucana foi realizada com inacreditáveis<br />

R$ 60 mil. Há quem diga que o orçamento<br />

divulgado faz parte de um marketing para atrair “público<br />

curioso”. Curioso em saber como se faz um longa-metragem<br />

com dinheiro para produzir um curta ou comprovar<br />

a qualidade do trabalho? Nada a ver. Vejamos o filme.<br />

Com um orçamento no rodapé do set é possível fazer<br />

cinema, um bom cinema, no pique de juntar uma mo-<br />

sua esperança. Contam-se os limites da aldeia para falar<br />

do universo, lembrando a máxima de Tolstoi. E o que<br />

conta é como contar. Do banal é bem possível se dissecar<br />

reflexões se se conta de uma ótica que comumente é vista<br />

de forma irrelevante. A ousadia é a percepção e coragem<br />

de dizer sim. E não. É risco. É preciso que seja assim. É<br />

preciso cultura para cuspir na estrutura, como dizia outro<br />

vanguardista arretado, Raulzito Seixas. A mesmice é<br />

monótona, fastidiosa como a unanimidade.<br />

O filme “Eles voltam” acompanha a garota em sua<br />

jornada de retorno ao lar. Entre o abandono e o reencontro,<br />

não se sabe o motivo, o que aconteceu. Depois<br />

se revela. Antes a garota precisa saber de umas coisas.<br />

Menina mimada e branquinha, não sabe o caminho de<br />

encontros nesse road movie pedestre, nem desconfia o<br />

que há na imensidão da estrada que só conhecia da janela<br />

10


do carro. Lá fora as realidades<br />

são distintas, e agora serão seus<br />

guias. Uma fábula que lembra<br />

o percurso de Dorothy em<br />

“O mágico de Oz”. Mas sem<br />

arco-íris. A vida não é filme,<br />

você não sabia, Cris, e as cores<br />

têm tons realistas que pintam<br />

outras vivências. O choque de<br />

classes sociais pega a garota de<br />

leve, aos poucos, mas pega, não<br />

poupa.<br />

O grande barato do filme é<br />

justamente como essa história<br />

é contada. O diretor usa sua câmera<br />

quase que invisivelmente,<br />

como um observador que espera<br />

que seus personagens sejam<br />

atingidos, sem perturbá-los, sem<br />

interferir em nada, sem ajudá-los. Marcelo Lordello solta<br />

“cruelmente” aquela garota no deserto que reflete uma<br />

realidade do país que se contradiz com tanto discurso<br />

idiota de progresso. O país pulsa na poeira e nas falas<br />

de quem ali habita. É num acampamento do MST que<br />

a menina chega de encontro ao país em que mora e que<br />

desconhecia sua geografia e sua gente. O cineasta coloca<br />

essa conjuntura de duas realidades sem discursos inflamados,<br />

mas com uma sutileza implacável. A câmera fixa<br />

ou na mão demora-se em longos planos não por descuido<br />

ou desconhecimento de linguagem, mas justamente por<br />

de decupagem dos filmes do diretor cearense Petrus<br />

Cariry, por exemplo, mas tem uma perfeita indicação<br />

dramática e uma competente captação de imagem<br />

no desenho de câmera, nos silêncios, na escassez de<br />

diálogos, na naturalidade dos não-atores contracenando<br />

com quem sabe das marcações de cena, nos links que<br />

se situam em algum canto do enquadramento. Em um<br />

bom filme, nenhum detalhe está ali à toa. Dispensamse<br />

gruas mirabolantes, corrida com steadycam, efeitos<br />

digitais e atores famosos. O encontro de “Eles voltam”<br />

é com o Cinema.<br />

discernimento do olhar. É dessa forma que o espectador<br />

entra na história, contorna o enquadramento, e percebe<br />

o movimento e alma dos personagens. Um longo plano<br />

tem inevitavelmente essa provocação. Ou entra-se no<br />

filme ou se retira da sala. Não há meio-termo. Naquela<br />

noite de estreia, um amigo na saída do cinema, que não<br />

gostou do filme, classificou como um Antonioni tardio.<br />

Bem lembrado o cineasta italiano. Mas não tardio. Nenhuma<br />

arte é datada, e inconscientemente absorvemos<br />

tudo que ela representa para fazer tudo que nos espelhe,<br />

direcione e reinvente. Há pontuações que se possa usar<br />

como analogias, mas “Eles voltam” está longe de um<br />

“Desprezo”, “A noite”, “O eclipse” e outros clássicos<br />

de Antonioni, o mestre da sadia incomunicabilidade. O<br />

filme tem sua identidade. Lembrou-me os ótimos filmes<br />

da nova geração de cineastas asiáticos. Não tem o apuro<br />

NIRTON VENANCIO<br />

Livros publicados: “Roteiro dos pássaros” (poesia); “Cumplicidade<br />

poética (poesia).<br />

Filmes realizados: “Um cotidiano perdido no tempo” (curta, ficção);<br />

“Walking on water” (média, documentário);<br />

“O último dia de sol” (curta,<br />

ficção); “Dim” (curta, documentário).<br />

Blogs: www.nirtonvenancio.blogspot.com<br />

e www.olharpanoramico.blogspot.com<br />

atividades recentes: projeto em andamento,<br />

longa documentário “Pessoal do<br />

Ceará”.<br />

11


O lamb de Rafa Anic<br />

No início de 2010, comecei a acompanhar um amigo que<br />

fazia “bombs” em São Paulo (Letras gordas e coloridas,<br />

uma vertente do picho e do graffiti). Naquela época já era<br />

muito fissurado por fotografia e vídeo, e meu interesse<br />

pela Arte de Rua já existia, porém tinha uma frustração<br />

de não saber desenhar, então não conseguia me ver fazendo<br />

graffiti ou qualquer outra vertente da arte de rua, os<br />

desenhos que fazia em casa eu não gostava, por isso não<br />

quis levar pra rua, portanto usei da fotografia e do vídeo<br />

para participar dessa forma da arte de rua.<br />

Naquela época de 2010 eu pensava em trabalhar com<br />

ilustração para alguma revista, fazia faculdade de<br />

Publicidade e Propaganda e fiz alguns cursos de edição<br />

e manipulação de imagem. Certo dia – após voltar de<br />

fazer umas fotos desse meu amigo que fazia os “bombs”<br />

–, resolvi criar alguma ilustração no computador. Ficou<br />

BEM tosco vendo hoje em dia, mas, na época, gostei;<br />

eram Peões de xadrez de frente para um Bispo também<br />

de xadrez e desciam AK’s 47 (metralhadoras) amarradas<br />

em cordas em cima dos peões, quis passar alguma crítica<br />

a respeito da igreja, os devotos serem os Peões e a peça<br />

Bispo comandava eles, as AK’s 47 descendo nos Peões<br />

seria como uma mudança desse contexto de Religião<br />

ditando o povo, enfim ficou mó tosqueira hahahaha.<br />

Mostrei para esse meu amigo dos “bombs” perguntando<br />

o que ele achava, ele disse que achava médio, não gostava<br />

muito, e então perguntou se eu é quem tinha feito,<br />

disse que sim, e então ele disse que pensou que era algum<br />

artista famoso que tinha feito, se eu, sendo amador, tinha<br />

feito aquilo tinha ficado bem louco. E pronto: aquilo foi o<br />

estopim para eu começar.<br />

Comecei a fazer várias edições caseiras em folhas A4,<br />

todas com cunho crítico, televisões com uma “merda”<br />

na tela, o presidente Bush com uma bala a caminho da<br />

cabeça, macacos armados perguntando sobre “Vivecção”.<br />

E, então, comecei a imprimir em lan houses, porque<br />

não tinha impressora em casa e saía pra colar na rua em<br />

várias folhas com a mesma arte em várias fileiras, assim<br />

entrei para o mundo da colagem ditado como “Lambe<br />

Lambe” ou “Lamb” como eu chamo.<br />

Comecei assim a me sentir muito mais participante da<br />

Arte que admirava como diz o trecho de um rap: “... e me<br />

impeliu a fazer parte da arte que admirava, contribuí bem<br />

mais do que quando eu só observava...”.<br />

Foi aí que surgiu a ideia de fazer um vídeo de bombs e<br />

lambs com aquele meu amigo do início. Demos o nome<br />

de “Choque Urbano”, porque todas as vezes ficávamos<br />

em Choque de ir pra rua gravar esse vídeo (risos), tudo<br />

muito caseiro também, câmera de fitinha emprestada da<br />

faculdade, poucas latas para ele comprar e eu começando<br />

nas colagens. Era fissurado por vídeo, porém não tinha<br />

curso nenhum, fui aprendendo sozinho e perguntando,<br />

fazendo como vinha à cabeça.<br />

Colei lambs em folhas A4 em pontos de ônibus, praças,<br />

piscinões, tirei foto de quase tudo e gravava em vídeo o<br />

que dava. Já haviam me dado a sugestão de eu aumentar<br />

meus lambs e fazê-los grandes, com o tempo fui perguntando<br />

sobre processos com gráficas e como posterizava<br />

no computador sem perder a qualidade da imagem, então<br />

comecei a fazer lambs em Folha A0, cerca de 1,20m<br />

de altura por 84cm. O primeiro que fiz foi uma criança<br />

segurando uma placa escrito “Game Over”, querendo<br />

fazer menção do videogame com a vida das crianças,<br />

fim de jogo para crianças que são mal instruídas mundo<br />

a fora, comecei a colar com um amigo, que desenhava<br />

muito bem, que também começou a fazer lamb comigo,<br />

gravamos e tirávamos foto sempre. No começo saíamos<br />

de madrugada e depois fomos saindo de tarde para colar,<br />

ele deu uma desanimada com o tempo e então comecei a<br />

sair sozinho pra colar, às vezes com algum amigo que se<br />

interessava em ir comigo.<br />

O processo de lambs em folha A0 saía muito caro pra<br />

mim, cerca de R$16 por folha, era um dinheiro que eu<br />

não tinha por estar desempregado e que não rolava,<br />

porque faria mais vezes. Assim, comecei a tentar achar<br />

meios que barateassem ao máximo meu trabalho. Foi aí<br />

então que aprendi a fazer a arte grande no computador e<br />

dividir em várias folhas A4, juntava as folhas A4 em casa<br />

12


fazendo um grande lamb e saía pra colar na rua. Isso barateou<br />

muito o meu trabalho, comprei uma impressora e<br />

então quase não tinha gasto, bastava criar um lamb grande,<br />

dividir em várias folhas A4, imprimir em casa, juntar<br />

as folhas e sair pra rua para colar. Variei também muito<br />

nos métodos de colagem, com vassoura, com broxa, com<br />

rolinho e meu preferido com as mãos. Teve épocas em<br />

que usava balde para colocar a cola, ou fazia furos na<br />

garrafa pet para jogar a cola na parede como squeeze.<br />

Hoje em dia levo em garrafas pet a cola, pego com a mão<br />

e passo na parede: pra mim é a melhor forma que achei.<br />

Meus trabalhos foram mudando muito com o tempo, fui<br />

criando uma identidade que ainda vai mudando até hoje<br />

em dia, de trabalhos com o estilo de “fotocópia” pretos<br />

de manchas que dão silhuetas à imagem, criei uma assinatura<br />

chamada “ANIC” (referência ao meu sobrenome),<br />

que mais parecia com uma assinatura de picho, depois<br />

mudei para um logo mais a ver comigo, comecei a participar<br />

de alguns eventos de graffiti em Campinas, Sumaré<br />

e Sorocaba, conheci muita gente legal do meio e que dá<br />

o sangue pela arte de rua, meu lamb saiu em uma matéria<br />

da Revista Vice sobre “Nazis estão pichando”, porque eu<br />

havia visto um picho de Nazis na Vila Madalena e atropelei<br />

com um lamb que era a foto de uma criança branca<br />

rica e uma criança negra pobre, que dizia em inglês: “O<br />

Brasil não é um país de carnaval e futebol. O Brasil é um<br />

país de Contraste social”. Mandava meus trabalhos para<br />

algumas revistas de Arte, saí na página da Zupi num concurso<br />

de “Top de Arte de Rua” com um lamb de um índio<br />

apontando o dedo na cara da Dilma, dizendo “Pare Belo<br />

Monte”, comecei ser chamado para fazer uns lambs na<br />

casa de pessoas que me contratavam pelo meu trabalho,<br />

e isso foi incrível, levar a arte de rua pra dentro das casas<br />

das pessoas, fiz também parte da decoração com lambs<br />

em um Bar próximo à Rua Augusta chamado “Igrejinha”,<br />

recentemente fiz um trabalho para a Abril na Revista<br />

Lola de Novembro de 2012, e assim minha arte de rua<br />

começou a me dar algum retorno financeiro que eu nem<br />

esperava de início, foi rolando com o tempo. Por isso<br />

digo que tenho duas linhas de trabalho: uma na rua com<br />

um caráter mais agressivo e crítico, e outro trabalho mais<br />

artístico, que é desenvolvido juntamente com as pessoas<br />

em residências, bares e etc.<br />

É muito louco e satisfatório ver a evolução que tive no<br />

meu trabalho desde aquele primeiro lamb dos Peões<br />

em folhas A4 (2010) até os dias de hoje em lambs que<br />

faço de 4/5 metros nas ruas. O cunho crítico continua o<br />

mesmo, porém mais elaborado, e foi aberta também uma<br />

porta mais artística com trabalhos para pessoas e não<br />

apenas para as ruas.<br />

Minha escola foi a rua com o Lamb e, mesmo que eu<br />

consiga um dia me sustentar com meus lambs, nunca vou<br />

largar ela, a rua. Foi lá que eu tive meu primeiro contato<br />

com a arte de rua e foi lá que divulguei meu trabalho e<br />

ofereci para todos. King Robbo, um vândalo assumido da<br />

pichação e do graffiti em Nova York, hoje em coma sem<br />

explicação plausível, disse em um vídeo: “Todo cara da<br />

arte de rua queria ganhar dinheiro com o que faz”. Apesar<br />

da rixa da Arte de Rua Comercial e da Arte de Rua<br />

para o povo, ambos podem trabalhar em conjunto. Não<br />

entendo pessoas que ganham um nome na rua com a arte<br />

de rua e largam ela para fazer apenas trabalhos comercias,<br />

admiro os irmãos Otávio e Gustavo (OSGEMEOS),<br />

que, mesmo sendo um dos nomes mais renomados no<br />

mundo inteiro da arte de rua e com trabalhos comerciais<br />

de milhões de dólares, ainda pintam nas ruas de São<br />

Paulo para o povo, de graça.<br />

contato com Rafael Anic:<br />

rafaelcalvianic@hotmail.com<br />

página no facebook: www.facebook.com/anic.lamb<br />

tumblr: anic-artederua.tumblr.com/<br />

fotos: Maick, Eduardo Tamura, Rafa Anic.<br />

13


VERSO E REVERSO<br />

ANTOLOGIA DO SARAU DA BRASA -<br />

vol 1<br />

ANTOLOGIA DO SARAU DA BRASA -<br />

vol 3<br />

DELÍRIO CINZA<br />

(Douglas Alves)<br />

um pouco de saliva para matar a sede<br />

um pouco de água para acender o corpo<br />

objetos em posição<br />

corpos em dispersão<br />

atropelamentos, desespero e desprezo<br />

as happy hours são after work<br />

muitas vidas e pouco tempo<br />

a cidade canta tiros<br />

e ela quer voar<br />

a cidade esta silêncios<br />

e ela quer voar<br />

as ruas de concreto não oferecem lenços<br />

nem lençóis<br />

o perdão não pode ser comprado<br />

e nem divido em dez parcelas<br />

danos embutidos, enlatados, entaladaos,<br />

enforcados e enviados<br />

via sedex para alguma alma distante<br />

a criança mija e sorri<br />

na estátua de um poeta parnasiano<br />

a revolução ligou dizendo que perdeu a hora<br />

e vai se atrasar<br />

o sol foi pra praia e levou o violão<br />

e talvez nem volte no final<br />

mas quem sabe Deus<br />

ainda tenha um tempinho para tomar um café<br />

QUANDO CHOVE<br />

Cléo Dais (Noelis Dias)<br />

Quando chove<br />

o barraco desce o morro<br />

desce o fino colchão para seis<br />

desce a porta de madeirite<br />

desce a janela que não existe<br />

e os filhos que mais ama<br />

Quando chove<br />

o barraco desce o morro<br />

levando outros barracos<br />

outras portas e janelas<br />

outras vidas<br />

outras velas<br />

outros sonhos<br />

morrem nelas.<br />

14


DA PERIFERIA<br />

ANTOLOGIA DO SARAU DA ADEMAR<br />

PARA ALÉM DOS MUROS<br />

(Cláudio Laureatti)<br />

O problema não é o mundo são os muros<br />

O problema não é a seca são as cercas<br />

O problema é que o muro diz algo deselegante<br />

do vizinho<br />

Cansei de abrir muro na marreta<br />

Mas como pedir ao muro licença?<br />

CONVITE À REFLEXÃO<br />

(Priscila Preta)<br />

Mulheres somos mais que um buraco?<br />

Somos mais que poucas horas de devaneio?<br />

Somos mais que o menos de beijos sem afetos?<br />

Somos mais que ser escolhidas por sorteio?<br />

Somos mais que o depósito de seus líquidos<br />

férteis?<br />

Somos mais que eles, quando escolhemos por<br />

eles e não por nós?<br />

Somos mais que quem quando pensamos que<br />

estamos<br />

sendo espertas que nunca vamos ser descobertas?<br />

Somos mais do mesmo quando não temos<br />

respeito<br />

à irmandade feminina.<br />

Somos mesmo vítimas de liberdade mentirosa.<br />

Somos atacantes, a bola ou o gol?<br />

Somos a juíza quando o coração se apaixona.<br />

Mas será tarde cobrar pênalti? Só você, a bola<br />

e o goleiro.<br />

Bola não fala, corre pelos pés dos jogadores.<br />

Somos mais mulheres quando?<br />

Quando somos mais mulheres?<br />

Os muros das casas são altos<br />

para não deixar ninguém entrar<br />

Os muros das prisões são altos<br />

para não deixar ninguém sair<br />

Muro baixo para quem está fora<br />

Muro alto para quem está dentro<br />

Murros não derrubam o invisível muro<br />

se cada um se fechar em seu mundo<br />

No meio do muro tinha uma árvore<br />

Ser muro onde morro desabou grave<br />

Gatos caem dos muros altos dos outonos<br />

Outras primaveras outras rosas outros donos<br />

Prefiro ser ponte ser morto ser tudo<br />

ser nada cercado ser muro<br />

onde moro onde esmurro palavras<br />

no muro na grama na calçada<br />

CONTATOS:<br />

SARAU DA ADEMAR:<br />

saraudaademar.blogspot.com<br />

fones: (11) 999695377 / 985628294<br />

SARAU DA BRASA:<br />

http://brasasarau.blogspot.com.br/<br />

15


AFRICAMINHOS<br />

Rui Knopfli<br />

MANGAS VERDES COM SAL<br />

Mangas verdes com sal<br />

sabor longínquo, sabor acre<br />

da infância a canivete repartida<br />

no largo semicírculo da amizade.<br />

Sabor lento, alegria reconstituída<br />

no instante desprevenido,<br />

na maré-baixa,<br />

no minuto da suprema humilhação.<br />

Sabor insinuante que retorna devagar<br />

ao palato amargo,<br />

à boca ardida,<br />

à crista do tempo,<br />

ao meio da vida.<br />

Mangas verdes e o sal<br />

O grito negro que soa dia (r) mente não ¬é menos<br />

ouvido que a pintura (grafite) de Shot B, os tufos<br />

saídos dos tambores e batuques das paredes da<br />

acolhedora mafalala, a poesia pendurada nas acácias<br />

da cidade de Maputo, onde construíram moradas<br />

no jardim do thunduro (jardim botânico, o maior<br />

do pais, não são todas estas expressões menos ou<br />

mais cultura, expressão máxima das gentes, não<br />

são falsas as moradias que lhes temos atribuído?<br />

Há no grito, um ressonar, uma refração do insano<br />

condicionalismo dos que residem nos bairros (zonas<br />

urbanas e peri-urbanas). Há quem diga que a arte<br />

não tem lugar, há quem queira aprisiona-la, será<br />

algo ligado a qualquer que seja a condição socioeconómica.<br />

O certo é que ela expressa-se mais livre<br />

e abertamente nos centros suburbanos, ela flui que<br />

nem um rio, ali esta não é imposta por modelos<br />

ocidentalizados que arrastam consigo imposições na<br />

forma de vida e ser das comunidades. Não reclamamos<br />

os dinheiros auferidos pela elite, tampouco<br />

o roubo que é cometido. A insatisfação é de não<br />

deixarem na nossa mercê, deixar fazer a arte a nossa<br />

maneira. A arte não corre de melhor forma assim<br />

como ela é feita assim a maneira e com os arrastos?<br />

Pu-la nos carris, mas será? O teatro à porta a porta<br />

vem lavar a alma de modo suave, a maneira da terra<br />

onde cada palavra uma palavra<br />

e não há filtros a meter.<br />

Eduardo Quive, confrade<br />

meu, jovem residente no<br />

bairro Patrice Lumumba, um<br />

bairro suburbano (peri-urbano),<br />

conta que cresceu no<br />

meio do teatro, onde atuavam<br />

nas escolas, nos bazares,<br />

na rua, em casa onde<br />

juntavam diversos grupos,<br />

a mistura poesia, música<br />

e teatro. Junto o grupo de<br />

rappers Xitikunimbaula, que<br />

regularmente organizava jam<br />

sessions (sessão de cuspir<br />

rimas e reppar para quem<br />

os quisesse ouvir). Consta<br />

aos jovens do grupo que a<br />

arte tem esta faceta crua e<br />

tão real como a vida que<br />

levam, ela só faz sentido<br />

assim, pois desta maneira<br />

feita a arte e cultura, não são<br />

Mangas Verdes com sal…<br />

da periferia para o mundo<br />

16


sujeitas a manuseio ou manipulações que lhe iriam<br />

alterar o paladar, uma arma muito forte fazer no<br />

mesmo meio onde reside pois não são vistos como<br />

estranhos e não compreendidos, a linguagem não se<br />

torna ameaçadora para ninguém, e assim que fazemos<br />

a nossa terra. Porque não as grandes salas de<br />

espetáculos? As salas são para tapete vermelho sim,<br />

muita pompa, mas o artista estando numa grande<br />

sala, e aplaudido por um público estranho que até<br />

no momento não conhece, sente-se como um peixe<br />

fora – da -água. O artista corre o risco de não ser<br />

compreendido completamente. Os problemas por<br />

ele vivido os telespectadores não conhecem, nem as<br />

gravitas e as grandes salas.<br />

“É mais fácil seduzir e mobilizar o analfabeto”<br />

Retratar o quotidiano e o entretenimento usado<br />

como meio de transportar os problemas vividos,<br />

onde o próprio teatro é criado e feito por resistentes<br />

e moradores dos respectivos bairros, sendo responsáveis<br />

desde a criação do palco, montagem das<br />

pecas e cenas, onde o grotesco, melancólico e nostálgico<br />

cruzam caminhos, interpretando-se assim a<br />

vida real vivida. Não se assenta nessa criação tanto<br />

apática e muito filtrada, que encontram-se confinadas<br />

nas salas e palcos, onde só entra quem tem<br />

moeda, onde pode entrar apenas quem paga gorjeta,<br />

meu povo não tem dinheiro de gorjeta. Por isso faz<br />

teatro em casa com a sua gente, onde participa a<br />

família toda.<br />

Por fim as minhas macuas do bairro da mafalala,<br />

as famosas muthianas oreras (mulheres bonitas),<br />

não fogem as longínquas tradições da terra, cantar<br />

para espírito maus espantar, de capulanas garridas a<br />

transportar as tradições, toda ela cheia, de msiro no<br />

rosto, prontas a sacudir a poeira e por os batuques<br />

a rodar, ao ritmo frenético. Tufo a roda, msiripuite,<br />

esta dança de origem mistificada, um pouco pelos<br />

árabes, outra pelas tradições locais, essencialmente<br />

dançadas por mulheres, os homens só a entoarem<br />

nos batuques. Juntam-se todos os finais de semana,<br />

um grupo de oito mulheres, ao som de batuques<br />

emanados por homens, a dança e somente feita por<br />

mulheres, já maduras e que passaram pelos ritos de<br />

iniciação, enquanto dançam, vão esbanjando beleza<br />

e simpatia, as cordas noa ar, belas capulanas, os<br />

cantitos a convidarem pássaros altivos a ouvir os<br />

conselhos.<br />

A África sendo a periferia do mundo não fica de<br />

fora, enquanto o mundo acontece ela fica ali estendida<br />

sempre em ensaios de meia-idade, a construir<br />

em terreno baldio.<br />

MAURO BRITO<br />

Nosso correspondente da coluna Africaminhos, residente em Maputo,<br />

é estudante e mentor do Movimento Literário Kuphaluxa. Foi um dos<br />

poetas classificados no Premio Poetize 2012 do Brasil, com o poema<br />

intitulado “Remendos”.<br />

Tem suas crônicas, poemas e ensaios também nas revistas: Tarja<br />

Preta da Academia Onírica do Piauí,<br />

Revista Blecaute do Brasil e Revista de<br />

Literatura Moçambicana e Lusófona –<br />

Literatas.<br />

Seu blog:<br />

http://pontosdosiiis.blogspot.com.br/<br />

Blog do Movimento Kuphaluxa:<br />

http://kuphaluxa.blogspot.com.br/<br />

Revista Literatas:<br />

http://literatas.blogs.sapo.mz/<br />

17


O Breaking...<br />

Em meados dos anos 70, nasciam diferentes manifestações<br />

artísticas ligadas ao Hip Hop. As primeiras movimentações<br />

relacionadas ao Breaking aconteceram na<br />

mesma época, no bairro do Bronx, em Nova Iorque.<br />

Observando estas expressões de rua, Afrika Bambaataa e<br />

DJ Kool Herc, passaram a organizar festas chamadas de<br />

Block Parties.<br />

Essas festas ao som de Funk (Original dos anos 70), Eletro-Funk<br />

e Break Beat, o DJ ao começar a brincar com<br />

os instrumentais, trazia toda a galera pra dançar. E foi ao<br />

perceber isso, que Kool Herc, pegava o microfone e agitava<br />

todos os dançarinos, chamando-os de “Break boy ou<br />

Break girl” – o garoto ou a garota que dançava no Break<br />

(intervalos) da música, ou seja, B.boy ou Bgirl.<br />

Pra se referir a dança Breaking, muitos utilizam o termo<br />

errado “Break Dance”, que foi utilizado e imposto pela<br />

mídia na década de 80, na qual muitos ainda hoje infelizmente<br />

utilizam. Alguns por falta de informação, já outros<br />

por falta de interesse.<br />

Assim como toda dança ou manifestação, o Breaking<br />

também tem suas referências, carregando grandes nomes<br />

como Crazy Legs, Ken swift, Mr. Wiggles, Storm, dentre<br />

outros, são nomes que fizeram história e propagaram a<br />

dança pelo mundo afora. Mas nesse meio, mesmo que em<br />

menor número, as mulheres também tiveram seu lugar,<br />

algumas delas são Ásia One e RockaFella.<br />

Várias crews (como assim são chamados os grupos de<br />

Breaking) fizeram história na cena e armaram históricas<br />

batalhas na época. Mas uma das maiores referências é a<br />

Rock Steady Crew, que é viva e ativa até hoje.<br />

E como tudo tende a evoluir, o Breaking cresceu, tomou<br />

dimensão e ganhou o mundo, trazendo consigo suas<br />

raízes e suas misturas. Envolvendo diferentes pessoas, de<br />

diversas realidades, reunindo em cyphers (as tais rodas)<br />

B.boys e B.girls com técnicas distintas, movimentos<br />

surpreendentes, criações e experimentações, tudo em um<br />

ambiente saudável e de preferência com muito e total<br />

respeito.<br />

AfroBreak Crew<br />

O Grupo AfroBreak foi criado em 2004, por jovens integrantes<br />

das atividades de Percussão e Breaking da Rede<br />

Cultural Beija-Flor e tem como objetivo unir e estudar as<br />

linguagens da dança e reapresentá-las, lúdica e criticamente,<br />

através de oficinas, eventos e espetáculos artísticos<br />

para diferentes públicos e faixa etárias.<br />

O nome AfroBreak surgiu em homenagem as influências<br />

da cultura africana e toda a sua diversidade, interligada<br />

ao povo brasileiro e suas manifestações artísticas em uma<br />

comunhão com o Breaking, modalidade da dança que<br />

também recebeu influências de povos africanos, apesar<br />

de ter adquirido sua identidade em um ambiente urbano,<br />

também é uma cultura que resiste através da sua própria<br />

renovação.<br />

Hoje, a Crew que trabalha e reside em Diadema (exceto<br />

uma das integrantes, que aqui vos fala), tem seis integrantes,<br />

onde quatro são mulheres, fato até incomum sendo<br />

que normalmente a maioria das crews são compostas por<br />

homens, isso quando não só de mulheres.<br />

Além de estar presente em<br />

diversas ações culturais, eventos,<br />

campeonatos, festivais, espetáculos<br />

e auxiliando na produção de<br />

encontros e outros eventos o grupo<br />

AfroBreak em parceria com a<br />

Rede Cultural Beija-Flor, realiza<br />

dois eventos anualmente:<br />

• Confraternização AfroBreak:<br />

Um encontro que reúne interessados<br />

em Dança e Educação.<br />

Levando ao público e seus<br />

participantes a oportunidade de<br />

conhecer como a diversidade<br />

cultural e as expressões artísticas,<br />

podem intervir como transformador<br />

social. Trazendo diferentes<br />

temáticas, rodas de conversa,<br />

18


distantes de uma “dança de rua”, mas que podiam e ainda<br />

podem caminhar juntos.<br />

batalhas de Breaking, atrações especiais e pra incentivar<br />

a boa alimentação de crianças, jovens e adultos, a entrada<br />

é “paga” com alimentos e bebida não alcoólica, compartilhado<br />

com todos na mesa de confraternização localizada<br />

no mesmo espaço do evento.<br />

• Rival vs Rival: que deseja integrar pessoas<br />

de diferentes realidades sócio-culturais com a cultura<br />

Hip-Hop, em prol do fortalecimento dos movimentos<br />

independentes de dança e da conscientização das responsabilidade<br />

sociais implícitas na arte dentro de um<br />

ambiente educativo. Este evento que acontece desde<br />

2007, já chegou a reunir entre crianças, jovens e adultos,<br />

participantes ou admiradores cerca de 950 pessoas, tanto<br />

do estado de São Paulo, de outros estados do Brasil e<br />

também de outros países, como a Rússia. Estimulando<br />

principalmente e socialmente crianças e jovens.<br />

E...<br />

Além de trabalhar com as questões sociais, nossas ações<br />

sempre vieram com a intenção de arriscar, diferenciar,<br />

impactar e inovar. Trazer diferentes questionamentos e<br />

reflexões seja falando de sociedade ou de dança.<br />

Buscamos sempre estar em diversos lugares e manifestações,<br />

falando sobre vários assuntos: feminismo, sustentabilidade,<br />

militância, danças urbanas, entre outros. Fortificando<br />

os laços entre pessoas, instituições e intervenções.<br />

Pois foi assim que ao longo dos anos, aquelas pessoas<br />

doidas da crew de “Punks” (como nos chamavam) que<br />

“não dançavam Breaking”, foi ganhando respeito e<br />

admiração, pela sua resistência, pelas suas diferenças e<br />

por acreditar que transformar, não significa sair de nossas<br />

raízes, ao contrário, significava valoriza-las. Era mostrar<br />

que brasilidade, africanidade, e protesto, não estavam<br />

O Breaking é uma forma de expressão de sentimentos,<br />

de alegrias e tristezas, de amor e de raiva. É muitas vezes<br />

válvula de escape e cura. As pessoas se perdem do mundo,<br />

pra se encontrar nas rodas, pra compartilhar conquistas,<br />

dividir abraços e doar sorrisos.<br />

Alguns estão tão preocupados em olhar para si mesmos,<br />

competir, ganhar, ver quantos “curtir” tem naquela foto<br />

“foda”, ou quantos “Views” tem no seu vídeo novo,<br />

todo trabalhado na edição, que se esquecem do amor e<br />

da diversão, afinal o lema não era “Paz, Amor, União e<br />

Diversão”? Pois é... Ainda é. Precisa ser!<br />

Dentro da cena são diversos pontos de vista e cada<br />

um fala do que acredita, do que viu e/ou do que viveu,<br />

mantendo sua essência, conservando suas histórias e até<br />

mesmo criando novos experimentos. Entrar em questão<br />

sobre os assuntos que geram tanta discussão (vestimenta,<br />

dança, música das rodas, Bboys/Bgirls não reais e etc),<br />

precisariam de horas, talvez dias ou então meses, pois<br />

como disse, são diversos pontos de vista.<br />

O Importante de verdade, é mostrar o quanto essa dança<br />

tem poder, o quanto ela transforma e salva tantas vidas.<br />

Que ao contrario do que pensam, não são só os MC’s que<br />

falam da sua realidade e protestam, mas perceber que<br />

cada um tem sua maneira de mostrar isso ao mundo, e<br />

que é necessário estudar, pesquisar, praticar, criar e Respeitar<br />

a velha e a nova geração. Assim, manter a cultura<br />

viva e cada vez mais bonita.<br />

Finalizando com o pensamento de um amigo: “São de<br />

países diferentes, de línguas diferentes, mas se entendem<br />

perfeitamente quando começam a dançar e colocar em<br />

pratica seus movimentos, os olhares dizem tudo”.<br />

E que assim seja!<br />

fotos: Olhar Social (Equipe de Comunicação da Rede<br />

Cultural Beija-Flor), e Isabelli Gonçalves.<br />

SOBRE ALINE CONSTANTINO:<br />

Conhecida como Aline AfroBreak, 23 anos, dança desde<br />

2005 e entrou no AfroBreak em 2006. Estuda e pratica<br />

Danças Urbanas desde 2009. Trabalha como Educadora<br />

na Associação Novolhar – Um novolhar sobre o Bixiga<br />

(Bela Vista). Integra a Equipe<br />

de Comunicação Social<br />

da Rede Cultural Beija-Flor<br />

em Diadema - SP.<br />

Entre Coletivos de Hip<br />

Hop e Festas: é assistente<br />

de produção da Zumbiido<br />

festa. Faz parte da equipe<br />

Rinha dos MC’s, criada e<br />

idealizada pelo MC Criolo e<br />

o DJ Dandan; além de ser<br />

uma das coordenadoras do<br />

projeto B.girls Art’Culando<br />

– que busca a valorização e<br />

o fortalecimento das B.girls<br />

na cena. Auxilia na divulgação<br />

da festa Discopédia –<br />

com os DJs Nyack, Dandan<br />

e Marco.<br />

contato: al.fconstantino@<br />

gmail.com<br />

19


eaking<br />

“Viver de arte onde panelas ainda se encontram vazias”<br />

por Tamires Santana<br />

Para evitar se envolver<br />

em brigas de gangues de<br />

rua, a dança ganha papel<br />

de protagonista nas vidas<br />

de muitos jovens, hoje<br />

considerados Old School<br />

no movimento Hip Hop.<br />

Sim, estamos falando do<br />

breakdance, breaking ou<br />

mais conhecida como<br />

dança de rua, manifestação<br />

popular nascida em<br />

Nova York na década de<br />

70. O elemento é uma<br />

cultura, apresenta influências<br />

e estilos variados,<br />

é motivo para a formação<br />

de inúmeras crews -<br />

organizadas por B-boys<br />

e B-girls - e é papo levado a sério, seja na rua ou em<br />

campeonatos a nível mundial.<br />

Enquanto fazia um trabalho de pesquisa escolar de<br />

tema “Hip Hop”, Denis Giaconto, em 2006, na época<br />

com 17 anos, descobre que na quadra do Centro<br />

Esportivo em Francisco Morato (SP) - cidade natal -<br />

havia grupos de jovens que se reuniam todos os dias<br />

para praticarem Breaking. Capoeirista e entendedor<br />

do estilo chamado “Black charme”, conta que teve<br />

facilidade em aprender os movimentos acrobáticos<br />

exigidos, entretanto, dificuldades em acompanhar o<br />

ritmo, conforme a batida do som.<br />

O esforço em aperfeiçoar-se compensou, já que<br />

Denis Giaconto, 24 anos, já fez parte do Grupo<br />

Crewest, desde 2010 faz parte da segunda formação<br />

do grupo a Nossa<br />

Crew e atualmente<br />

coleciona títulos. Foi<br />

1° Lugar Arena Caieiras<br />

1 vs 1 2012 (SP),<br />

1° Lugar Red Bull<br />

Bc One cypher 2011<br />

(SP), semifinalista no<br />

programa ‘Vai Dançar’<br />

2012 no Multishow,<br />

3° Lugar Red Bul Bc<br />

One Qualifier Sul-americana<br />

2011 (BA),<br />

participou do ensaio<br />

fotográfico ‘B.boys in<br />

motion’, exposto pela<br />

Red Bull em Moscou,<br />

do documentário<br />

20


‘Quando o B.boy encontra a Bahia’ pela mesma<br />

marca, faz parte da ala especial da bateria da Escola<br />

de Samba Mocidade Alegre (SP) no carnaval 2013<br />

entre tantas outras participações.<br />

Questionado sobre sua opção profissional, afirma<br />

que escolheu a dança como forma de arte devido<br />

à capacidade que ela proporciona ao expressar-se,<br />

sem o uso de palavras. “Atravesso distâncias, desejos<br />

e limites com um simples cinco, seis, sete, oito”,<br />

expõe.<br />

O Breaking, apesar de lhe render bons títulos, foi<br />

apenas a base. Em busca de novos horizontes,<br />

quebrou barreiras, não deu ouvido a críticas desfavoráveis<br />

e hoje frequenta aulas de Ballet clássico,<br />

teatro e dança de salão. “No mundo da dança já tive<br />

experiências como dançarino, instrutor, monitor,<br />

coreógrafo, cenógrafo e jurado em competições a<br />

nível estadual. Apesar da dificuldade e do preconceito,<br />

vivo da arte. Tenho como refrão pessoal um<br />

verso de uma música de Slim Rimografia:<br />

Cada escolha tem um preço, eu sabia que fácil não<br />

seria, viver de arte onde panelas ainda se encontram<br />

vazias, aos cantos olha sem esperança mirando<br />

um horizonte, onde o sol nasce, mas a esperança<br />

ainda se esconde”, conta Denis Giaconto.<br />

LINKS:<br />

Nossa Crew: http://nossacrew.weebly.com/index.<br />

html<br />

Denis Giaconto: http://www.facebook.com/messages/denis.giaconto<br />

fotos: Marcelo Maragne e BNV-divulgação.<br />

TAMIRES SANTANA<br />

Jornalista Cultural, Designer Gráfica, e militante<br />

em prol dos movimentos culturais no município de<br />

Francisco Morato. Escreve para o blog AODC Noticias<br />

sobre cultura quinzenalmente; e é Assessora de<br />

Imprensa da Comunidade Negra<br />

de Francisco Morato e Escola de<br />

Samba Estação Primeira, na mesma<br />

cidade. Aprecia textos melancólicos,<br />

insensatos, apaixonados<br />

e quase nunca jornalísticos em:<br />

ofilhoemeu.blogspot.com.br<br />

E-mail: tami.santana@ig.com.br<br />

Site: tamisantana.wix.com/oficial<br />

21


CENTRO<br />

Sarau Encontro de Utopias (Consolação)<br />

Suburbano Convicto (Bixiga)<br />

Sarau da Ocupa (Av. São João)<br />

ZONA SUL<br />

PRINCI<br />

Sarau Perifatividade (Ipiranga)<br />

Sarau da Cooperifa (JD Guarujá)<br />

Sarau da Ademar (Cidade Ademar)<br />

Sarau da Vila Fundão (Capão Redondo)<br />

Sarau Sobrenome Liberdade (Jordanópolis)<br />

Sarau Literarua (Campo Limpo)<br />

ZONA NORTE<br />

PAULISTANOS ITINERANTES<br />

Sarau Poesia na Brasa (Brasilândia)<br />

Sarau Projeto Cicas (Vila Medeiros)<br />

Sarau da Cesta<br />

Sarau Poesia é da Hora, Mano<br />

ZONA OESTE<br />

Sarau do Burro (V. Madalena)<br />

22<br />

dados de Ana Fonseca


ZONA NOROESTE<br />

Sarau Quilombaque (Perus)<br />

Sarau Elo da Corrente (Pirituba)<br />

PAIS SARAUS<br />

da Cena Paulistana<br />

ZONA LESTE<br />

Sarau dos Mesquiteiros (Ermelino Matarazzo)<br />

Levante Marginaliaria (São Miguel Paulista)<br />

Sarau na Cozinha (São Miguel Paulista)<br />

Sarau O que dizem os umbigos (Itaim Paulista)<br />

NÃO PAULISTANOS<br />

ZONA SUDESTE<br />

Sarau do Manolo (Atibaia-SP)<br />

Pavio da Cultura (Suzano-SP)<br />

Sarau do Binho (Taboão da Serra-SP)<br />

Sarau Corre Cotia (Cotia-SP)<br />

Sarau da Casa (Embu das Artes – SP)<br />

CENTRO SUL<br />

Ter sarau (Vila Heliópolis)<br />

Sarau A Plenos Pulmões (Casa das Rosas – Bela Vista)<br />

Sarau À Flor da Pele (Centro Cultural São Paulo – Vergueiro)<br />

23<br />

arte de Tiago Costa


A flor e a bigorna<br />

Walner Danziger<br />

De um rolê virtual, puxo fio e dele tramo a teia.<br />

Conto um causo. Um conto. Sim, conto.<br />

Deu-se lá pelas tantas no blog Displisofonia, da<br />

professora de literatura brasileira em Washington,<br />

Laura Soares que, muito interessada no fuzuê literário<br />

cá pros lados de Piratininga, lascou à queima<br />

roupa, assim mesmo, sem massagem, nos peito da<br />

escritora local:<br />

- Pois diga lá ó, fulana: Ouvi buchicho que ferve a<br />

literatura aí por São Paulo. Saraus bombando. Confere?<br />

É isso mesmo? Você deve frequentar, claro.<br />

Sapeca então uma dica bem nervosa. Indica onde é<br />

que rola o fervo aqui pra turma!<br />

A escriba, com muita honestidade, confessou não<br />

frequentar os tais saraus. Indicou timidamente um,<br />

nas cercanias da Avenida Paulista. Muito bom. De<br />

responsa, o sarau.<br />

Um?<br />

E a agitação dos encontros poéticos do lado de cá da<br />

ponte onde tudo borbulha?<br />

Borbulha, mesmo? Como então a renomada escritora,<br />

presumivelmente bem informada (e isso não é<br />

ironia) nada sabia do furdunço?<br />

Talvez porque não seja esse, um movimento do seu<br />

(dela) interesse. Tranquilo. Direito claro, cristalino.<br />

Ou será que não estamos com essa bola toda?<br />

Todos que fazem girar essa engrenagem tem consciência<br />

do espaço, do trabalho e da importância dessas<br />

quizombas culturais. Muito barulho é feito nas<br />

periferias e o eco chegou sim do outro lado da pon-<br />

foto: Mercedes Lorenzo<br />

24


te. Universitários salivantes correm no encalço de<br />

saraus e coletivos, atrás de depoimentos e imagens.<br />

Muito já ouvi de hermanos de caminhada, a palavra<br />

“cobaia”. Depois de bem nutridos de histórias e<br />

humanidades, as adoráveis criaturas, bem nascidas<br />

e educadas, limpam o barro dos tênis importados,<br />

hasta la vista e nunca mais.<br />

Escritores e músicos praticantes do “um pé no salão<br />

outro no quintal” também aparecem. Alguns poucos<br />

fortalecem.<br />

Tá seguindo a prosa, professora Laura? Tá se<br />

ligando na fita? Então segura aqui essa ponta do fio<br />

e bora lá.<br />

É mais ou menos assim: Quem é aqui das quebradas<br />

tá ligado que pra chegar bem chegado em qualquer<br />

lugar, sempre no sapatinho. Miudinho. Assim que é<br />

e nos saraus não seria diferente. Não convém bater<br />

no peito, baixar no terreiro com farofadas e alarde.<br />

Colar é na manha do gato, na humildade.<br />

Sarau é encantamento e comunhão. Caldeirão.<br />

Cada qual com sua cara, sua marca, sua identidade.<br />

Lugar de cultuar a palavra. Falada, rimada, cantada,<br />

filmada. Tem também, aquela que o mano precisa<br />

desentalar da goela, arrancar do peito dolorido ou<br />

raivoso, na emoção, no improviso. Essa é poesia<br />

também. Rola sim, discurso comprido, fora de medida<br />

e propósito, mas tribuna é livre e aparar uma<br />

rebarba aqui outra acolá também é parte da função.<br />

Sarau tem livro, tem sim sinhô. Tem cd, música,<br />

dança, circo, teatro, performance, artes plásticas.<br />

Sarau é quilombo, mistura de raças, idéias e fazeres<br />

artísticos. Sociais.<br />

Sarau lembra as antigas agremiações carnavalescas,<br />

ponto de encontro pro fortalecimento comum.<br />

Sarau é resistência. Corrijo: Existência.<br />

Porque nossa carne suburbana é dura, de difícil digestão,<br />

embaçada de engolir e se assim é, ninguém<br />

está aqui pra esperar nada de ninguém. A gente vai<br />

lá e faz né não, tiozão?<br />

Sarau é vitrine e oportunidade. Lançamos e divulgamos<br />

nossas criações em botequins, ocupações,<br />

escolas públicas, de samba, entre um gole e outro<br />

de cerveja gelada, cachaça ou um copo de café com<br />

bolo de fubá. Embalados ao som dos tambores ancestrais,<br />

do partido alto, rap, o som da gente.<br />

Produção, no geral, independente, uma ou outra ajuda<br />

de incentivos públicos, preço pra lá de acessível,<br />

pra espalhar, gerar movimento. Conhecimento.<br />

Dedicatória, melhor, salve à moda bic, mas nem<br />

por isso “nos contentamos com pouco” viu, sr. Júlian<br />

Ana, entre uma e outra observação pra justificar<br />

no jornal literário O Rascunho, o fato de não ter<br />

gostado da leitura do último romance de um dos<br />

nossos autores mais representativos.<br />

Muito já foi feito. Muito pra melhorar. Força de<br />

sobra. Paixão, ingenuidade e um pouco de pressa,<br />

também.<br />

É bem provável que essa fervura um dia evapore.<br />

Transforme-se, desdobre-se em outro movimento<br />

ainda mais forte, pungente. Quem sabe?<br />

Por hora sarau segue. Arena de encontros artísticos,<br />

debates literários, conversas urgentes sobre melhorias<br />

pra comunidade, violência urbana e policial,<br />

ocupação de espaço... Tudo assim desse jeitinho,<br />

tudo assim ao mesmo tempo. Misturado.<br />

Um verso, um protesto. Uma flor e uma ferramenta,<br />

Lúcia.<br />

O tempo anda instável, amiga. Muito sangue respingando<br />

em nossos irmãos que seguem firmes em suas<br />

missões de fé, mas não convém, por agora, bares<br />

abertos sem proteção, ao deus dará. É bem provável<br />

que os algozes, nada saibam sobre poemas e sonhos,<br />

mas se um dia pintar na área, só chegar: Na bolinha<br />

de meia, lembra? Pianinho. Tem sarau pra todo gosto<br />

espalhados por toda a cidade, só escolher.<br />

Colando, leve consigo uma rosa incandescente de<br />

volta pra América. Nós estaremos por aqui. Punhos<br />

erguidos, martelo pronto a desabar incansavelmente<br />

sobre a bigorna. Com apetite e muita ginga. Sempre.<br />

WALNER DANZIGER<br />

Escritor, dramaturgo e diretor de teatro. Autor dos<br />

livros “Entre a Fome e a Fúria” (contos, crônicas e poemas),<br />

“Giletenamãodomacaco” (contos e outras narrativas)<br />

e “Teatro Vol.1 – 3 Peças”.<br />

Fundador e diretor artístico do<br />

Grupo de Arte Pixaim,<br />

desenvolve os projetos literários<br />

“Crônicas de 2ª” e “Na Cidade, Na<br />

Perifa, Na Função” para a web.<br />

Escreve diariamente no blog:<br />

nasubidadomorro.wordpress.com<br />

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Sarau do Manolo<br />

segundo ano agitando a província<br />

por Coletivo Sarau do Manolo<br />

O que fazer quando se é jovem, cheio de ideias,<br />

mas sua cidade depende enormemente do fomento<br />

artístico privado e estatal? Muitos debates conceituais,<br />

cervejas, arranca-rabos, erros e acertos, e um<br />

projeto tomou forma. Lembrando que forma não<br />

significa, necessariamente, rigidez.<br />

Entre uma e outra conversa de bar, ideias e ideais de<br />

revolução & amor, nasceu o Sarau do Manolo em<br />

Atibaia – interior do Texas brasileiro (o estado mais<br />

militarizado da nação) – em março de 2011.<br />

Como todo nascimento, nunca sabemos o que pode<br />

acontecer ao rebento, ainda mais quando a criança<br />

possui uns vinte cuidadores e responsáveis, onde há<br />

pessoas dos mais variados perfis dentre anarquistas,<br />

comunistas, agnósticos, desempregados, bêbados,<br />

vegetarianos, professores, artistas, ateus & outros<br />

tipos. Desse caldo o que poderia dar?Começamos<br />

com uma casa, a Difusão Cultural de Atibaia. Lá<br />

foram realizados alguns saraus.<br />

Depois resolvemos ser nômades (a criança começou<br />

a engatinhar). Fizemos saraus na Praça da Amada,<br />

no Jardim Alvinópolis, no Caetetuba, na praça da<br />

Matriz, no Jardim Imperial e também ocupamos um<br />

antigo cinema da cidade, o “Cine Itá.” Aos poucos<br />

fomos ganhando uma postura classista: estamos ao<br />

lado dos pobres & fudidos. Não é a toa que realizamos<br />

saraus em apoio à truculenta expulsão dos<br />

moradores de Pinheirinho, em São José dos Campos,<br />

pelo governo do Estado de São Paulo.<br />

A ocupação do “Cine Itá” para a realização do sarau<br />

– antigo cinema localizado no centro de Atibaia –<br />

exatamente atrás da igreja Matriz, foi outra postura<br />

que tomamos com o intuito de chamar a atenção da<br />

população em relação à degradação de um espaço<br />

32


outrora tão importante.<br />

O sarau realizado no bairro do Caetetuba teve, entre<br />

outras motivações, denunciar a situação degradante<br />

dos moradores daquele local. A prefeitura municipal<br />

construiu barracos para os moradores atingidos<br />

pelas enchentes do ano de 2010 com o intuito – segundo<br />

a administração pública – de realocá-los em<br />

casas dignas no menor espaço de tempo.<br />

Mas o que era “provisório” tornou-se permanente.<br />

Há mais de dois anos mais de trinta famílias vivem<br />

em condições sub-humanas. No dia do sarau<br />

convidamos diversos artistas para grafitar as paredes<br />

da quebrada, projetamos curtas-metragens e rolou<br />

muito rap e poesia. Uma verdadeira celebração com<br />

os moradores do bairro.<br />

Desde sempre, tivemos a preocupação em organizar<br />

um evento que não fosse “arte pela arte”. Para nós<br />

a arte não está separada do restante do mundo. Portanto,<br />

deve dialogar com ele. Recentemente temos<br />

realizado aulas públicas com temas como: moradia,<br />

sexualidade, educação popular, entre outros.<br />

O sarau, que começou com uma proposta de ser<br />

somente um evento, expandiu-se e hoje está se<br />

transformando em um coletivo artístico, que busca<br />

por meio de diversas ações mexer com as estruturas<br />

de nossa realidade.<br />

Em uma sociedade envolvida pela exploração do<br />

capital, sabemos que não basta o diálogo, é preciso<br />

espernear para além da perspectiva reducionista da<br />

arte e das amarras impostas a peso de ouro pelos<br />

mecenas da dita alta cultura. Fazse<br />

necessário mais do que nunca a<br />

organização social independente<br />

para opor-se à cultura dominante –<br />

que dilacera e sufoca a identidade<br />

do povo.<br />

Trabalhamos para que esse caldo<br />

engrosse, buscando na força<br />

coletiva o meio para se alcançar a<br />

revolução social.<br />

LINK DO SARAU<br />

www.facebook.com/saraudomanolo<br />

fotos: Alline Nakamura<br />

33


Projeto<br />

Cantigas de Infância<br />

por Christiana Fausto<br />

Sempre trabalhei usando a música como instrumento<br />

terapeutico, razão pela qual decidi gravar o CD Cantigas<br />

de Infância com músicas da região Sudoeste baiana das<br />

décadas de 1960 a 1970.<br />

O Projeto Cantigas de Infância, com acervo raro e de<br />

excelente qualidade, foi contemplado como um dos<br />

vencedores do EDITAL 03/2008 – APOIO À PRODU-<br />

ÇÃO DE CONTEÚDO DIGITAL EM MÚSICA, para<br />

a gravação de 18 canções infantis da década de 1960,<br />

típicas da região sudoeste da Bahia, bem como a sua<br />

disponibilização para download tanto das músicas quanto<br />

das partituras, que poderão ser utilizadas em trabalhos de<br />

educação musical com crianças e adolescentes.<br />

O projeto teve início na década de 90 com o processo<br />

de documentação do material, resultando num apanhado<br />

de outro modo ficaria desconhecido para nossas crianças.<br />

Entendendo, contudo, que a memória não é estática,<br />

a concepção musical do projeto buscou criar arranjos<br />

criativos e contemporâneos, de modo a trazer para a atualidade<br />

estas músicas muito antigas, algumas até centenárias.<br />

A partir das partituras transcritas pelo maestro Fred<br />

Dantas e dos arranjos realizados pelo maestro Cassius<br />

Cardozo, realizamos a gravação em estúdio com a participação<br />

de crianças e músicos profissionais.<br />

Aqui os links para a audição das cantigas:<br />

www.soundcloud.com/cantigasdeinfancia<br />

www.youtube.com/cantigasdeinfancia<br />

Christiana Fausto é Bacharel em Psicologia pela Universidade<br />

Federal da Bahia.<br />

contato: christiana.fausto@gmail.com<br />

de 36 canções infantis. A principal fonte de pesquisa<br />

foi entrevista com pessoas que passaram sua infância<br />

nesta região entre os anos de 1960 e 1970, período em<br />

que a difusão cultural ainda se dava, fundamentalmente,<br />

pela transmissão oral. Estas canções foram passadas de<br />

geração em geração, por pais, avós, trabalhadores rurais<br />

e demais moradores da região, sendo impossível localizar<br />

com precisão suas origens.<br />

A seleção das 18 canções para gravação foi realizada a<br />

partir de experiência com crianças de variadas idades,<br />

atuais moradoras desta mesma região, em um projeto<br />

conjunto com a Escola Municipal Thales Fausto, na<br />

zona rural do município de Pindaí - BA. Tal experiência<br />

atestou a atemporalidade destas canções, observada pelo<br />

grande sucesso que atingiram junto aos alunos, demonstrando<br />

a importância de se preservar este patrimônio, que<br />

34


Desaparecido<br />

conto<br />

Carlos Mendorato era nobre antes de desaparecer. Fora<br />

o mais famoso dentre os seus amigos. Era nobre. Claro,<br />

pois fumava charuto e tudo! Tinha mais de dez cães no<br />

quintal imenso.<br />

Muitos amigos o visitavam, uns ficavam jogando baralho,<br />

outros dominó, outros dormiam lá com ele. “Quando<br />

se é nobre muita gente vem nos ver”, dizia para Cacilda.<br />

Aquele povo todo dentro de casa... Ele deixava, porque<br />

a casa era grande e ele não era outra coisa senão gentil.<br />

Como se não bastassem as visitas, havia também o pessoal<br />

da faxina, o pessoal que lhe trazia a comida.<br />

Gente demais! Carlos não era pouca merda não! Cedo,<br />

cedo ele pegava seu carro e saía pelas ruas tranquilamente,<br />

bem devagarzinho, olhando as coisas, parando de<br />

loja em loja e adquirindo suas bugigangas. Porque ele<br />

aproveitava o máximo de seu anonimato, sempre sem<br />

documentos, caminhando contra e a favor do vento.<br />

Um dia casou com Cacilda, uma mulher de estilo, morena,<br />

magérrima, que praticava uma moda pós-moderna no<br />

cabelo desgrenhado. Mendorato era então acompanhado<br />

por sua “gata”, como ele mesmo dizia, todas as manhãs.<br />

Sua vida era dada a esse estrito itinerário de passear<br />

pela cidade, sair por aí no carrinho, ir de loja em loja<br />

adquirindo coisas e mais coisas, realizando as pequenas<br />

vaidades de Cacilda, como beber coca-cola em shopping<br />

e comer salgado de ovo em padaria. Se não estava disposto<br />

a “sacrificar-se” para realizar os pequenos desejos<br />

de sua esposa... “Há coisas mais importantes para fazer”,<br />

persuadia Mendorato.<br />

Seu patrimônio estava garantido, o governo bancava<br />

tudo. Ele nem se preocupava; mas continuava despertando<br />

com o sol. Assistia TV, tinha muita instrução de vida;<br />

e aprendera que lhe servia pouco tantas instruções, pois<br />

bastava pegar seu carrinho e sair todas as manhãs e voltar<br />

só de noite.<br />

“Mais vale estudar? Que nada!”, respondia aos amigos.<br />

Grande homem, sem família ou de família esquecida no<br />

álcool. Que bebera bastante o Carlinhos, isto sim! Bebera<br />

mesmo! Era nobre, mas era alcoólatra.<br />

Cacilda sentia muito orgulho ou... sabe-se lá! Fato é que,<br />

vez ou outra, o abraçava de noite e chorava um choro<br />

horrendo. Carlos a consolava de seu negro passado. Teria<br />

sido funcionária pública. Quanta tristeza!<br />

Porém, apesar de tudo, a vida entre eles foi se tornando<br />

muda e miúda, cansada de ser todos os dias, foi ficando<br />

pesada de se levar. Até que uma professorinha metida à<br />

filantropa veio ensinar Carlos Mendorato a viver melhor.<br />

Ele, já entediado, abandonou a mulher com os mais de<br />

dez cães, abandonou o lar e nem levou seu carrinho, foi<br />

pelas ruas o Mendorato dentro de seu terno encontrado<br />

no lixo, removido meio úmido entre latas de sardinha<br />

gosmentas e baratas. Deste jeito: um par de sapatos<br />

largos, um charuto sujo de farofa no canto da boca, a<br />

garrafa de cana na mão esquerda, uma galinha preta na<br />

direita. Desistiu de tudo, abandonou a nobreza e foi ser<br />

vagabundo.<br />

E os garis, seus faxineiros, deram por sua falta quando<br />

foram varrer a praça de dia, o pessoal do sopão quis saber<br />

por questão de solidariedade e chatice humanamente<br />

compreensível, “Cadê ele?”.<br />

A mídia deu uma pequena importância ao desaparecimento,<br />

afinal Cacilda procurou uma entidade filantrópica,<br />

e na TV, depois da novela, aparecia a foto de Mendorato<br />

com uma palavrinha - “desaparecido”.<br />

Deixou apenas um bilhete para Cacilda entregar à professora:<br />

Senhora, minha situação é um resultado de meus esforços,<br />

não me queixo. Acho-a até, por demais, confortável.<br />

Este rumo me tomou, diferente da prepotência dos que<br />

pensam que tomam rumo nesta vida. Há que se aprender<br />

isto, professora.<br />

E poderia estender mais o bilhete, não fosse bilhete e<br />

houvesse o que trocar com a senhora, mas tudo que sei<br />

custa demais, de um valor que se não pode pagar. O que<br />

mata é que entre mentiras se diz também verdades. E eu<br />

perdi a boa fé completamente em razão disto.<br />

Sorte,<br />

Professor Mendorato.<br />

Seu carrinho de catar papelão servia, então, ao Dunga<br />

Marceneiro para catar madeira. Cacilda passou a ser<br />

chamada de Cacilda Mendorato e rodava na mão dos frequentes:<br />

voltou a ser funcionária pública... Era sua praça!<br />

RODRIGO MACHADO FREIRE<br />

SOBRE MIM:<br />

eu não<br />

e a que me nego pouco importa!<br />

digo de minha áspera inconstância: eu não<br />

antes de tudo digo “eu não”<br />

nisto vou agarrado<br />

porque antes de tudo já não me<br />

perdoam “não ser”<br />

e me inventam “imperdoável”<br />

“eu não” é como eu sou<br />

não principalmente.<br />

blog:<br />

entimesmado.blogspot.com<br />

35


Plínio Marcos sob a luz de seu abajur lilás<br />

por Henrique Pimenta<br />

Ao se pensar em literatura, as noções clássicas privilegiam<br />

o texto. E, de preferência, o texto bem escrito.<br />

Quando se opta pelo termo “bem escrito”, não significa<br />

dizer que seguirá o padrão gramatical de séculos passados,<br />

ou que nele figurarão firulas sem fim. Bem escrito<br />

pode ser apenas construído de forma a atender a seu<br />

gênero e tipo. Embora, por vezes, um texto seja escrito<br />

para corromper tipo e gênero. Assim, ele pode ser tanto<br />

uma composição bastante ortodoxa quanto uma aberração<br />

progressista. E se deve lembrar de que muitos textos<br />

primam pela mistura desses extremos.<br />

Quando se explora o gênero dramático, em que a tipologia<br />

textual serve para ser oralizada a fim de produzir<br />

certas reações num público, dentro de um teatro, exatamente<br />

por não se ater a leitura e leitor, parece que esse<br />

gênero resiste ao aspecto literário. Esse parecer é de<br />

fato uma aparência, e aparência equivocada, visto que a<br />

dramaturgia em nada perde para textos com narrador ou<br />

para textos poéticos, por exemplo, escritos somente para<br />

serem lidos; aliás, é bastante comum ao texto teatral que<br />

se lhe misturem características de outros gêneros e tipos,<br />

o que só faz enriquecê-lo quando o produto atinge os<br />

objetivos pretendidos.<br />

Afunilando a questão, para se chegar ao texto bem escrito<br />

para teatro, seu autor segue o mesmo roteiro instável que<br />

os outros autores de textos bem escritos para os mais<br />

diversos fins. Se o texto para teatro, contudo, tem algo de<br />

específico, com certeza é a raridade de autores. De modo<br />

geral, a dramaturgia é uma arte literária para poucos, bem<br />

poucos. E se for transpor essa realidade para os limites<br />

de uma nação chamada Brasil... ai, ai, ai. Em síntese,<br />

de forma objetiva, dentre os pouquíssimos dramaturgos<br />

nacionais, Plínio Marcos (1935-1999) ocupa um lugar<br />

de destaque, como autor de algumas das obras-primas do<br />

teatro brasileiro. Pelo menos duas dessas obras há anos<br />

não saem de cartaz, “Dois perdidos numa noite suja” e<br />

“Navalha na carne”. Muito antes do prestígio e do sucesso,<br />

muito antes de dezenas de peças escritas e encenadas,<br />

ele entrou na literatura em 1958, ao escrever “Barrela”,<br />

que teve sua estreia em 1959: após essa primeira e única<br />

apresentação, a peça ficou censurada por nada menos que<br />

21 anos.<br />

Mas uma peça que bem pode resumir o estilo Plínio<br />

Marcos e lançar luzes acerca da literatura marginal é “O<br />

abajur lilás”, peça de 1969 – também censurada por anos<br />

a fio –, que, em muitos aspectos, parece que foi escrita<br />

ontem. Ontem, não. Hoje. Para começo de conversa, a<br />

palavra. O autor foi desde o início de sua atividade como<br />

dramaturgo considerado um revolucionário, dentre outros<br />

motivos, por sua opção de colocar a camada social mais<br />

baixa (ou a classe inferior, ou a arraia-miúda, ou a plebe,<br />

ou a ralé, ou o não-povo) no centro de seus trabalhos.<br />

O mais importante, no entanto, em termos de criação<br />

artística, é que esses “à margem” tinham voz e falavam<br />

naturalmente. Foram colocados personagens marginais<br />

no centro do teatro, pensando, sentindo e falando como<br />

marginais e, assim, passavam de súbito da condição de<br />

personagens para a condição de seres humanos.<br />

A escolha lexical, portanto, foi o elemento que melhor<br />

caracterizou pobres, miseráveis, putas, veados, seguranças<br />

de inferninhos, estupradores, assassinos, cafetões,<br />

presidiários etc. Ainda bem que o conservadorismo (mais<br />

tarde conhecido como o politicamente correto) nunca<br />

abalou a conduta libertária da escrita e da encenação da-<br />

36


quele que se intitulava “maldito”. Na peça em questão, é<br />

o que se lê e vê. Num mocó reservado para atendimentos<br />

sexuais, encontra-se a prostituta Dilma, logo após seu último<br />

programa, quando de supetão entra no quarto Giro,<br />

o dono do negócio. O festival de jargões característicos<br />

do submundo se inicia: não se trata de português lusitano<br />

nem de português brasileiro, é apenas o idioma brasileiro<br />

mesmo, ou melhor, um brasileiro cifrado na malandragem,<br />

uma língua suja, estilisticamente bem composta, a<br />

partir das articulações estéticas de um meticuloso autor.<br />

Seguindo na história, Giro explica que juntara dinheiro<br />

também com virações (trabalhos de ordem sexual),<br />

quando era mais novo e, com as economias, montara<br />

seu próprio mocó, fazendo as vezes de cafetão para, em<br />

princípio, duas mulheres. Na visão dele, suas protegidas<br />

são moles, porque fazem poucos programas. Dilma diz<br />

que trabalha muito e que não há motivo para reclamação.<br />

Discutem e se agridem verbalmente. Giro, ao xingar<br />

Dilma de puta, e ela ao xingá-lo de veado, em essência,<br />

revelam o óbvio, suas identidades, o que são e como são<br />

conhecidos por todo mundo. E ambos sabem que, mesmo<br />

se detestando, um precisa do outro para viver; embora<br />

uma prostituta seja, nesse caso, um elemento mais fácil<br />

de ser descartado. Giro ainda enfatiza de forma negativa<br />

o alcoolismo de Célia, a outra prostituta, e arma uma<br />

confusão ao dizer que havia visto um escarro sanguinolento<br />

na pia do banheiro, sugerindo que uma delas estaria<br />

tuberculosa. Célia chega embriagada, entra no quarto,<br />

e logo briga com Giro. Culminam em violência física e<br />

se prometem vingança. Depois, ela cria um plano para<br />

eliminar o cáften e quer a participação de Dilma, que não<br />

aceita a proposta, alegando que não pode se meter em<br />

problemas e assim perder o trabalho com o qual sustenta<br />

seu filho. A fim de forçar a participação de Dilma no<br />

crime, Célia joga um abajur (que dá<br />

nome à peça) no chão, sabendo que isso<br />

deixará Giro possesso.<br />

Embora se tenha uma boa trama, a<br />

leitura mais interessante e importante<br />

que se deve fazer é a das entrelinhas.<br />

Os comportamentos dos personagens<br />

são muito bem construídos pelo autor.<br />

O mundo marginal, situado na periferia<br />

dos sonhos, parece se iniciar num<br />

círculo e nele se encerrar, viciosamente.<br />

As prostitutas percebem que, mesmo<br />

“trabalhando” de forma exagerada,<br />

nunca terão grandes benefícios com<br />

isso, estarão sempre à mercê de taras<br />

masculinas, recebendo bem pouco pelos<br />

programas feitos. Estarão, também, sob<br />

o jugo de um cafetão que só se interessa<br />

pela produtividade e pelo lucro. É um<br />

esquema de certo modo parecido com<br />

o sistemão capitalistoide, entretanto<br />

tudo se passa no último dos círculos dos<br />

infernos, ou seja, não ocorrerá nunca o<br />

livramento de suas penas.<br />

Talvez, num exagero interpretativo,<br />

aceite-se que Plínio Marcos assuma as<br />

vezes de Cristo, ainda que um Cristo às<br />

avessas, que, com seu arremedo de parábola, proporcione<br />

por meio de “O abajur lilás” uma chance de a escória da<br />

sociedade se expor. O que se tem é, portanto, a mesma<br />

função pedagógica da Bíblia ou a do gênero dramático<br />

na Grécia Antiga, o leitor é levado a refletir acerca das<br />

paixões e dos vícios humanos e, mais e mais importante,<br />

refletir acerca de sua colaboração nessas paixões e vícios.<br />

Moralmente, todos os humanos comungam do mesmo<br />

pão podre e do mesmo vinho avinagrado que nutrem a<br />

alma dos pequeninos de Deus, dos perdedores na vida,<br />

dos esquecidos pelo Estado. O teatro compartilha, pois,<br />

sua dramaturgia, seu palco, sua coxia, seus camarins, sua<br />

plateia, enfim, tudo de si, para a discussão de questões<br />

sociais. A sociedade lê/vê no teatro a si mesma. A sociedade<br />

é espetacular, mas é também especular e especula.<br />

No decorrer da história, Giro arruma uma nova garota,<br />

Leninha, para trabalhar no seu mocó, buscando maior lucro,<br />

ou já prevendo a perda futura de uma de suas antigas<br />

mulheres. Na perspectiva de que o movimento aumente,<br />

a confusão tende a aumentar em igual proporção. E mais<br />

a frente é apresentado em carne e osso o cupincha, o segurança<br />

da casa, Osvaldo, um personagem “forte e mau”,<br />

que vem a calhar para restabelecer a ordem na casa, a<br />

partir do abajur quebrado, aparente sinal de insubmissão<br />

das prostitutas.<br />

Um aspecto digno de nota que floresce dessa urdidura<br />

textual é o tabu. Na realidade, há mais de um tabu<br />

expresso, mas de certo modo todos são engendrados por<br />

interdições na área da sexualidade. Um desses tabus é<br />

o sexo anal. Na situação de tabu, é mais sugerido, por<br />

exemplo, por Giro, do que explicitado, como um meio de<br />

as prostitutas ganharem mais com essa prática: “De todo<br />

jeito e de qualquer lado.”, “A água lava tudo.” Dilma<br />

e Célia denotam não se render à prática e por vezes até<br />

37


explicitam como algo imoral,<br />

indecoroso. A sodomia<br />

assim considerada, como<br />

abjeta, sórdida e de extrema<br />

libertinagem, seria um<br />

desvio dos veados apenas.<br />

Dessa maneira, a única<br />

pessoa atingida em sua<br />

decência é o próprio Giro.<br />

E, de fato, transparece nas<br />

palavras dele o quanto se<br />

sente vítima de preconceito:<br />

“... todo mundo tem raiva<br />

de mim”. Ele sabe que só<br />

é aceito pelo grupo social<br />

de que participa devido ao<br />

dinheiro que possui. Para<br />

além disso, é desprezado como homem e desprezível<br />

como “bundeiro”, uma bicha que sente e proporciona<br />

prazeres pela fenda proibida.<br />

Dá-se a entender que as prostitutas, ao se resguardarem<br />

da sodomia, sentem-se ilesas. Suas práticas sexuais as<br />

identificam como mulheres, mulheres que vendem seus<br />

corpos, mas não os vendem por inteiro e, por isso, não se<br />

corrompem. São trabalhadoras que praticam o sexo como<br />

forma de sobrevivência. São prostitutas que, ao sublimarem<br />

seus ânus, permanecem intactas moralmente. Dilma<br />

sintetiza a questão, quando afirma: “Sou mulher da vida,<br />

mas tenho moral.”<br />

Outro tabu bem demarcado é o do lesbianismo. Entre as<br />

prostitutas não existe amizade. Amizade entre prostitutas<br />

é sinal de excesso de intimidade. Putas são, no máximo,<br />

companheiras e a regra de ouro dessa camaradagem é o<br />

silêncio. Elas nunca entregam os podres umas das outras.<br />

A alcaguetagem (delação) é o pior marca que pode existir<br />

na personalidade de uma prostituta e, por extensão, de<br />

qualquer pessoa que viva na contravenção e na criminalidade.<br />

Marcante no tabu do amor sáfico é a o uso de termos<br />

depreciativos: greluda,<br />

roçadeira. A primeira<br />

explosão de raiva e<br />

consequente ameaça de<br />

Giro contra Célia ocorre<br />

exatamente quando ela,<br />

unindo os dois termos,<br />

potencializando a expressão,<br />

xinga a mãe dele<br />

de “roçadeira greluda”.<br />

Aqui se percebe agregado<br />

um novo tabu, a família,<br />

que deve se manter nos<br />

ditames da tradição e<br />

sempre ser preservada do<br />

submundo. Giro, embora<br />

deseje ser aceito como é,<br />

sente-se desgraçado em<br />

sua condição de homossexual,<br />

mas não permite<br />

nem que lhe sugiram que<br />

sua mãe também fosse<br />

homossexual. Algo parecido ocorre com Dilma: embora<br />

descontente como prostituta, assume esse papel; preserva-se,<br />

no entanto, na figura de uma boa mãe, pois trabalha<br />

na devassidão com o objetivo de dar uma vida melhor<br />

ao seu filho, ainda bebê; mas o seu maior temor é de que<br />

o filho do mesmo modo entre no futuro para a prostituição,<br />

siga a profissão da mãe e, pior ainda, transforme-se<br />

num homossexual.<br />

Plínio Marcos, nos tópicos abordados neste breve ensaio,<br />

demonstra conhecer a fundo a matéria de sua expressão<br />

artística. O que o faz, no entanto, um bom artista não<br />

é esse conhecimento pontual. É a utilização, com alto<br />

teor estético, desse conhecimento em sua dramaturgia<br />

que o põe como figura destacada na literatura dramática<br />

brasileira. O mínimo que se pode afirmar acerca de Plínio<br />

Marcos em “O abajur lilás” é que ele é dono de um texto<br />

bem escrito, bem escrito nas linhas e nas entrelinhas.<br />

Esse mínimo basta.<br />

Sítio oficial de Plínio Marcos<br />

http://www.pliniomarcos.com<br />

fotos colhidas no site.<br />

HENRIQUE PIMENTA<br />

Poeta, professor de Português e Literatura, mantém<br />

o blog Bar do Bardo com seus textos mais recentes e<br />

escreve todos os sábados na Revista Semana On-Line<br />

sobre arte e cultura. Participou do número zero da<br />

Rebosteio - Revista Digital, com alguns dos sonetos<br />

que compõem o seu pocket pornô<br />

“99 sonetos sacanas e 1 canção de<br />

amor”.<br />

blog: dobardo.blogspot.com.br<br />

revista:<br />

semanaonline.com.br/semanaonline.php?edicao=59#page=1<br />

38


Bonga<br />

reconhecimento internacional e referência do graffiti<br />

Por Tamires Santana<br />

Pinos de latas de spray<br />

em praticamente todos<br />

os cantos da casa, telas,<br />

lápis, canetão, caderno de<br />

desenho e quadros de Lazoo,<br />

Loomit, Fred (Farm<br />

Prod), Juan Mac, T-Kid,<br />

Ske(FX), Etnik, Shalak,<br />

Armamento Visual, Drig<br />

(Pac Cru), Sipros e do<br />

próprio artista. Poderia<br />

ser a composição da<br />

decoração de qualquer<br />

casa moderna, mas não.<br />

E também não é nenhum<br />

ateliê ou galeria, e sim a<br />

casa do grafiteiro Bonga,<br />

localizada no bairro de<br />

Laranjeiras, na cidade de<br />

Caieiras, Zona Oeste de<br />

São Paulo.<br />

Bonga Mac, desde 1996,<br />

ajuda a dar cor ao universo<br />

urbano. Faz intervenções,<br />

representando o que se passa no consciente e<br />

no inconsciente de uma sociedade e dos indivíduos,<br />

sobretudo quando se trata de questões culturais,<br />

étnicas e políticas. Apoia-se na técnica do spray<br />

para fazer valer o grito que a sociedade nem sempre<br />

consegue soltar.<br />

Com reconhecimento internacional enquanto artista,<br />

Bonga participou do Meeting of Style Equador entre<br />

os dias 23 a 25 de novembro em Quito, junto com<br />

o amigo e grafiteiro Vespa. O evento tem quinze<br />

anos de existência e já realizou mais de 150 edições<br />

pelo mundo. Produziu dois bombs dos aracnídeos,<br />

de caráter free style puro, ou seja, de improviso,<br />

um painel coletivo que contou com a participação<br />

dos brasileiros Vespa, Stam e Lelin, e outro painel<br />

pintado apenas por ele e Vespa. “O Equador é<br />

um país em crescimento e desenvolvimento e está<br />

‘dolarizado’, assim como grande parte da América<br />

do Sul, incluindo o Brasil. Percebo que há algum<br />

tempo a América Latina estará virando a mesa, e<br />

nossa reestruturação estará prestes a acontecer. Não<br />

tem ninguém bobo no mundo e nem ingênuo como<br />

nos filmes de Hollywood.<br />

Segura, estamos chegando”,<br />

afirma.<br />

Em 2012 já participou<br />

do Kosmopolite Bélgica<br />

com seu amigo Shock –<br />

após o evento foram para<br />

a Itália, permanecendo<br />

um mês na Europa -,<br />

da exposição coletiva É<br />

Tudo Nosso, na Galeria<br />

L’Oeil Aliança Francesa<br />

em São Paulo, ministrou<br />

oficinas no Sesc Bertioga,<br />

Sesc Sorocaba e Fundação<br />

Casa (esta última,<br />

em parceria com a Ação<br />

Educativa), participou<br />

do Tribuna Hip Hop no<br />

Quilombaque, ao lado<br />

dos pioneiros King Nino<br />

Brown, Sharylaine e<br />

Tcheba Zoom, e Festival<br />

Internacional Essência.<br />

Hoje é um dos artistas<br />

no quadro de equipe da<br />

marca brasileira Urgh e<br />

foi indicado para a segunda fase do Prêmio Mundo<br />

da Rua de Hip Hop.<br />

Blog: originalbonga.blogspot.com.br<br />

Facebook: www.facebook.com/bonga.mac.3<br />

foto: Mercedes Lorenzo<br />

TAMIRES SANTANA<br />

Jornalista Cultural, Designer Gráfica, e militante<br />

em prol dos movimentos culturais no município de<br />

Francisco Morato. Escreve para o blog AODC Noticias<br />

sobre cultura quinzenalmente; e é Assessora de<br />

Imprensa da Comunidade Negra<br />

de Francisco Morato e Escola de<br />

Samba Estação Primeira, na mesma<br />

cidade. Aprecia textos melancólicos,<br />

insensatos, apaixonados<br />

e quase nunca jornalísticos em:<br />

ofilhoemeu.blogspot.com.br<br />

E-mail: tami.santana@ig.com.br<br />

Site: tamisantana.wix.com/oficial<br />

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AÇÃO HIP HOP<br />

Intercâmbio: alemães participam de<br />

atividades nas comunidades de São Paulo<br />

A cena é animadora e curiosa: grafiteiros e demais participantes<br />

de olhos claros, cabelos loiros, peles avermelhadas<br />

do sol, estilo underground: animados e, ao mesmo<br />

tempo, com ar de curiosidade. Foram estas as lembranças<br />

que os alemães deixaram ao passar pela 2° Edição Na<br />

Ação Hip Hop na Comunidade Cultural Quilombaque,<br />

em Perus, neste domingo (09/12/2012).<br />

O intercâmbio entre Berlim e São Paulo é uma parceria<br />

da ONG Conceitos de Rua (Capão Redondo), Gangway,<br />

Berlin Massive e Kaos Kult Agency. Também a<br />

Don’t Stop B-Girls e o Projeto Germinação Hip Hop.<br />

A iniciativa ocorre<br />

há dez anos (não<br />

consecutivos, pois<br />

em alguns anos<br />

não conseguiram<br />

viabilizar verba. No<br />

total já se somam<br />

quatro idas para a<br />

Alemanha, e cinco<br />

da Alemanha para o<br />

Brasil) e age da seguinte<br />

forma: num<br />

ano brasileiros vão<br />

a Berlim, enquanto<br />

no próximo, alemães<br />

desembarcam<br />

em São Paulo.<br />

Os “gringos”, entre os dias 02 e 10 de dezembro, passaram<br />

por diversos locais, entre eles: Centro de São Paulo,<br />

Ação Educativa, Estúdio CCJ Cachoeirinha, Estação<br />

da Juventude Cidade Tiradentes, CEU Caminho do<br />

Mar Jabaquara e Quilombaque. “Em 2004 foi feito um<br />

intercâmbio maior, vindo pessoas de Nova York, Porto<br />

Rico e França”, afirma Rodrigo de Souza, conhecido<br />

como Dom, 29 anos, antropólogo formado pela PUC –<br />

Ciências Sociais e coordenador da ONG Conceitos de<br />

Rua. “São dezoito integrantes no total. Muitos não têm a<br />

menor ideia do que vão encontrar e ficam surpresos ao se<br />

deparar com muitas semelhanças de seus países e como<br />

o universo Hip Hop é inserido no cotidiano, principalmente<br />

na quantidade de graffiti existente. O Hip Hop<br />

[em Berlim] é um nicho enquanto produção cultural, ou<br />

seja, é como escolher ser dançarino, é uma atividade, um<br />

segmento”, assegura o coordenador.<br />

Em sua maioria, são jovens ligados à cultura Hip Hop,<br />

entre 24 a 30 anos de idade, dos quais alguns já conseguem<br />

se sustentar exclusivamente da cultura, como o<br />

caso de Inka (referência do graffiti alemão) – o grafiteiro<br />

não desembarcou com o grupo, pois veio para permanecer<br />

cinco meses no país por motivos particulares, mas se<br />

juntou ao grupo (ele participou do intercâmbio em 2002),<br />

e Sinaya (referência do Hip Hop latino em Berlim).<br />

“A Gangway faz trabalhos com meninos que passam<br />

tempo nas ruas. Esses meninos não tem dinheiro, moram<br />

com suas famílias em apartamentos pequenos e não tem<br />

espaço para se reunirem, escolhendo as ruas para estes<br />

encontros, bebem a cultura das ruas. A instituição tem<br />

sede própria, mas trabalha em quatorze bairros diferentes,<br />

com três pessoas cada equipe, obrigatoriamente com<br />

uma mulher e um tradutor que fale a língua estrangeira<br />

[prevalecente do<br />

bairro assistido]”,<br />

explica Mirtha Perrone,<br />

há vinte anos<br />

coordenadora de<br />

um dos grupos da<br />

Gangway Berlin.<br />

Estes jovens, a<br />

maioria filhos de<br />

estrangeiros (foco<br />

da ação) “bebem da<br />

cultura das ruas” e,<br />

apesar de existirem<br />

muitas instituições,<br />

não há uma<br />

identificação com<br />

as regras impostas.<br />

Desta forma, para sucesso dos trabalhos, a coordenadora,<br />

assim como outros grupos da Gangway, trabalha nas<br />

ruas, indo até eles, aceitando suas regras e oferecendo a<br />

ajuda necessária de forma individual. Apenas uma vez<br />

por semana podem ir à sede e participar das atividades,<br />

com duração de duas horas.<br />

“Os problemas são parecidos: pobreza, problemas em<br />

casa, discriminação por ser estrangeiro, problemas na<br />

escola e com drogas. Por isto é uma relação de confiança.<br />

A polícia não pode pressionar ou interferir por saber que<br />

somos institucionalizados. Quem custeia é o Senado de<br />

Berlim, o qual pagam os trabalhadores, e os materiais utilizados<br />

ficam na dependência dos donativos de empresas<br />

e pessoas que ajudam com dinheiro.”<br />

A Gangway é praticamente a única que tem a linha de<br />

trabalho de assistir os jovens estrangeiros. Além do Brasil,<br />

participamos de intercâmbios no Uruguai, Turquia,<br />

Nova York e Colômbia. “No Brasil os intercâmbios tem<br />

mais continuidade porque nos outros países não há estrutura,<br />

os projetos sociais não tem dinheiro”, diz.<br />

40


Descreve que no Uruguai há uma comunidade à qual descendentes<br />

de africanos fazem parte; neste bairro os trabalhadores<br />

não tem dinheiro e uma mulher é quem coordena<br />

as ações durante o período da tarde, pois de manhã<br />

trabalha como doméstica para se sustentar. Em Uganda<br />

também há outros grupos, mas com poucos recursos.<br />

Mirtha, uruguaia, nascida e criada em Montevidéu,<br />

radicada há 25 anos na Alemanha, mãe de duas filhas e<br />

afetivamente de mais outras centenas de jovens, comenta<br />

sobre a sua dedicação: “é um trabalho que deve ter paciência,<br />

porque os jovens não mudam na hora. É um processo.<br />

Toda pessoa necessita do seu tempo para mudar”.<br />

SAIBA MAIS:<br />

Conceitos de Rua<br />

Em atividade desde 2000, foi formada por artistas da<br />

cultura Hip Hop em novembro de 1989 no Jardim Vale<br />

das Virtudes, região do Capão Redondo, zona sul de São<br />

Paulo. É referência no meio cultural paulistano, promovendo<br />

diversas ações com foco na juventude de bairros<br />

periféricos da cidade de São Paulo e a realização de<br />

projetos por todo o país – além de participar de intercâmbios<br />

internacionais. Agrega uma rede de artistas, produtores,<br />

intelectuais e parceiros numa busca de promover o<br />

melhor das manifestações culturais juvenis, urbanas em<br />

especial a linguagem da cultura Hip Hop e do patrimônio<br />

cultural.<br />

Gangway<br />

A Gangway desenvolve seus trabalhos sociais nos bairros<br />

de Berlim desde os anos noventa, após a queda do muro.<br />

A princípio participavam três grupos de três pessoas<br />

cada, em três bairros diferentes, e o foco ainda não eram<br />

os estrangeiros. Após brigas violentas entre gangues,<br />

com integrantes estrangeiros, o governo não sabia o que<br />

fazer para controlar a situação. A partir daí, busccaram-se<br />

novas formas de solucionar o problema. Grupos de pessoas<br />

foram ouvidos, os quais apresentaram um conceito<br />

até então inexistente. Sem saída, o Governo deu o apoio.<br />

Hoje a instituição tem como foco os jovens estrangeiros<br />

que passam a maior parte do tempo nas ruas, por ser o<br />

único lugar de encontro ao qual se identificam. Trabalha<br />

com sete grupos de aproximadamente de 25 pessoas<br />

cada um, desenvolvendo as ações em todos os bairros de<br />

Berlim.<br />

Acesse:<br />

Blog: http://conceitosderua.blogspot.com.br<br />

Facebook: http://www.facebook.com/conceitosderua<br />

Quilombaque Perus:<br />

http://comunidadequilombaque.blogspot.com.br<br />

Fotos: Diogo Immortal e Marco Lauber<br />

Reportagem: Tamires Santana, Jornalista.<br />

TAMIRES SANTANA<br />

Jornalista Cultural, Designer Gráfica, e militante<br />

em prol dos movimentos culturais no município de<br />

Francisco Morato. Escreve para o blog AODC Noticias<br />

sobre cultura quinzenalmente; e é Assessora de Imprensa<br />

da Comunidade Negra de Francisco Morato e<br />

Escola de Samba Estação Primeira,<br />

na mesma cidade. Aprecia textos<br />

melancólicos, insensatos, apaixonados<br />

e quase nunca jornalísticos<br />

em:<br />

ofilhoemeu.blogspot.com.br<br />

E-mail: tami.santana@ig.com.br<br />

Site: tamisantana.wix.com/oficial<br />

41


noites do<br />

Cabaret Revoltaire<br />

por Luiz Roberto Guedes<br />

Os dias e noites se sucediam iguais e banais na net,<br />

até que comecei a ler menções, aqui e ali, a um certo<br />

Cabaret Revoltaire. O que seria? O nome insinuava um<br />

alto astral. Então, a sincronicidade fez com que eu me<br />

encontrasse, na Casa das Rosas, com a poeta Isadora<br />

Krieger – uma das mentoras do Revoltaire, junto com o<br />

poeta Daniel Minchoni –, que me convidou para ir ao<br />

cabaré dizer poemas.<br />

Desci ao Baixo Augusta e entrei no Beat Club, que<br />

abrigava então o Cabaret (até que o imóvel foi vendido,<br />

e será provavelmente demolido para dar lugar a mais<br />

um prédio esquálido). Nessa noite, e nos meses seguintes<br />

– pois o Cabaret baixa à terra a cada 30 dias –, tive<br />

surpresas em série.<br />

No primeiro andar, encontrei uma jovem cujo torso nu<br />

estava sendo pintado por um artista. Com seus ombros e<br />

seios raiados de cores, ela parecia uma nativa do planeta<br />

Fantasia. Enquanto observava, um verso me veio à mente:<br />

o pincel acaricia sua pele...<br />

Nesse mesmo local, a poucos passos, havia uma<br />

modelo nua, sob luz amigável, posando para um grupo<br />

de artistas, que a desenhavam com seus crayons. Toulouse<br />

Lautrec amaria esse cenário, produzido pelo pintor<br />

Maurício Eloy.<br />

A cada edição do Cabaret, uma nova modelo surgiria<br />

em cena: me lembro de uma mulata linda e grávida – e de<br />

ter vislumbrado, certa noite, uma vulva com um design<br />

tão perfeito quanto o de uma concha marinha. Alumbramentos,<br />

diria Bandeira.<br />

No palco, alternavam-se músicos, poetas, performistas<br />

diversos. Os magos do som Pedro Zopelar e Paulo Beto<br />

propunham uma moldura sonora para a leitura de cada<br />

poeta, Pedro ao teclado eletrônico, e Paulo fazendo vibrar<br />

um theremin. Simplesmente brilhantes.<br />

Numa dessas noites, o mestre dos marionetes Rafael<br />

Leidens encantou o público com sua boneca “Elis Regina”,<br />

que interpretou Vou deitar e rolar. A cada inflexão da<br />

cantora, a cada qua-qua-ra-qua-qua, a marionete correspondia<br />

com um gesto de mão, um trejeito de ombro ou de<br />

quadril. Um espetáculo fascinante, que me reconduziu à<br />

infância por alguns momentos.<br />

Em noite mais feérica, a dançarina de burlesque Clóris<br />

Fontainebleau nos deleitou com sua fina arte de strip-teaser.<br />

Em noite mais sombria, num festim vampírico, vimos<br />

um servo de Drácula deitar uma jovem nua (sob uma<br />

camisola translúcida), numa banheira cheia de sangue<br />

cênico. A moça tinha um “talho” horrível na garganta,<br />

obra de um maquiador muito habilidoso.<br />

E assim, noite após noite, o Cabaret se fez ateliê, estúdio<br />

musical, teatro, circo, sarau e arsenal de frissons, sob<br />

o comando da hostess Isadora Krieger, assistida por sua<br />

mana gêmea, a notável fotógrafa Carolina Krieger.<br />

Fui emendando estas recordações para dar uma ideia<br />

do efeito da atmosfera do Cabaret Revoltaire sobre nossa<br />

sensibilidade.<br />

Outros tantos poetas e escritores,<br />

que lá estiveram – Flávio<br />

Viegas Amoreira, Marcelo Ariel,<br />

Fabiana Faleiros, Luís Rodolfo<br />

Dantas, Vanderley Mendonça,<br />

Marcelo Mirisola, André Sant’Anna<br />

e Marcelino Freire, para citar<br />

alguns –, poderão dizer mais<br />

sobre esse refúgio movediço na<br />

Paulicéia megalítica.<br />

42<br />

O fato é que a lenda do Cabaret<br />

Revoltaire cresceu a tal ponto,<br />

que já começam a surgir réplicas<br />

baratas, com rótulos assemelhados,<br />

tentando pegar carona em<br />

sua mística. Porém, é como dizia


aquele anúncio antigo: “Recuse imitações”.<br />

Para nossa alegria, o Cabaret Revoltaire acontece pelo<br />

menos uma vez por mês, em algum lugar da cidade. Vale<br />

a pena ficar alerta – poetas, seresteiros, compositores,<br />

amantes, notívagos, boêmios –, para saber onde e quando<br />

será a próxima jam session.<br />

No mais, só posso dizer que algum dia vou gostar de<br />

ser fantasma num cabaré astral muito parecido com o<br />

Revoltaire.<br />

PÁGINA NO FACEBOOK:<br />

www.facebook.com/pages/Cabaret-Revoltaire/280446558635073<br />

VÍDEOS DO CABARET REVOLTAIRE:<br />

http://vimeo.com/27411581<br />

http://vimeo.com/38347121<br />

fotos: Carolina Krieger<br />

abcdesfghijklmnopqrstuvxzwyk<br />

ISADORA KRIEGER<br />

Foi quem nos forneceu gentilmente<br />

o conteúdo e fotos para esta<br />

matéria. Ela comanda o Cabaret<br />

Revoltaire em parceria com o poeta<br />

Daniel Minchoni.<br />

É natural de Santa Catarina,<br />

começou seu percurso como estilista<br />

da marca “Gêmeas”, criou coleções<br />

e produziu desfiles. É idealizadora<br />

e produtora do Cabaret Revoltaire,<br />

espaço aberto a experimentações<br />

artísticas em diversas linguagens.<br />

Publicou poemas na antologia “Portapoema”,<br />

pela Publicações Iara, em<br />

2011.<br />

43


Coletivos Culturais:<br />

rota alternativa não é sinônimo de atalho<br />

por Tamires Santana<br />

Se para andar de um lugar a outro, a estrada principal<br />

enfrenta algum obstáculo bem como buracos na via, falta<br />

de iluminação, acidente e etc, é comum a procura por<br />

caminhos alternativos. Estes nem sempre levam o automóvel<br />

no mesmo tempo de percurso ou comportariam<br />

a mesma quantidade de beneficiados, mas podem superar<br />

as expectativas e ser um ótimo recurso.<br />

Em um país onde as estratégias de investimentos para<br />

políticas públicas - que diz respeito ao acesso à cultura,<br />

educação de qualidade e informação - são magras e falhas,<br />

e onde nem sempre os espaços públicos são compartilhados<br />

para a socialização, desabrocha uma necessidade<br />

em seguir pela rota alternativa. Metaforicamente, é nestas<br />

condições que pessoas se reúnem e caminham em prol de<br />

um objetivo comum, formando os chamados Coletivos.<br />

A adesão de ideias criativas, improvisadas, organizadas,<br />

às vezes radicais, chamativas, escandalosas... não importa:<br />

desde que seja de cunho social, atinge diretamente<br />

o ponto frágil, seja ele no âmbito da educação, cultura,<br />

social, psicológica, de saúde, religiosa ou política. São<br />

diversos grupos espalhados. Com o crescente acesso à internet,<br />

instrumento de comunicação veloz e “democrático”,<br />

é possível observar que a formação destes coletivos<br />

culturais está ganhando notoriedade.<br />

Há sete meses o Coletivo Corredor Cultural vem atuando<br />

junto a artistas, produtores independentes e cidadãos<br />

comuns, no objetivo de criar uma rede de diálogos e<br />

discussões entre as comunidades sobre novas formas de<br />

produzir arte e cultura, buscando a difusão e o fomento<br />

das atividades e linguagens artísticas presentes no município<br />

de Campo Limpo Paulista, interior de São Paulo.<br />

“Quando a ideia é minha ou sua, ela é apenas uma ideia...<br />

a partir do momento em que eu compartilho<br />

isso, ela se transforma, se realiza e não<br />

tem dono. Foi acreditando neste ponto de<br />

partida que entendemos que era possível<br />

estabelecer um diálogo livre entre as<br />

pessoas, onde todos são atores chaves para<br />

os trabalhos e resultados, cada um com<br />

sua vivência, experiência e formação. Não<br />

sentimos se seríamos ou não mais fortes,<br />

acreditávamos numa relação de um grupo<br />

de pessoas que juntos possuem voz ativa”,<br />

afirma William Sanches, 21 anos, Produtor<br />

cultural independente e Gestor Cultural do<br />

Coletivo Corredor.<br />

grupo não tinha nenhum modelo de coordenação posto à<br />

prova, tudo ficou a cargo da experiência. “Nos dividimos<br />

em eixos chamados de GTs (Grupos de Trabalhos), que<br />

permitem nos organizar e sermos mais eficientes, aliando<br />

a outras plataformas, como as redes sociais, a fim de permitir<br />

maior acesso aos conteúdos do Coletivo e diálogos<br />

entre outros coletivos que nos ajudam a construir uma<br />

linha de trabalho mais coerente”, conta Sanches.<br />

Sobre os chamados GTs, William Sanches explica que<br />

são três etapas para facilitar o diálogo e os pensamentos,<br />

“pra que a coisa não fique jogada”. O primeiro passo é<br />

fazer o cultural, a ação em si, a intervenção, no caso, o<br />

Sarau. O segundo passo é o Núcleo de Produção Cultural,<br />

pequeno grupo que conta com a participação de<br />

pessoas de fora, pra a troca de experiências e formas<br />

sustentáveis de produção cultural. E o terceiro é o da Comunicação.<br />

“Para nós é o que pega mais, pois não temos<br />

ninguém com formação na área, damos os nossos pulos”,<br />

esclarece.<br />

É um pontapé inicial que cultiva entre as atividades<br />

realizadas o Sarau da Boa Vizinhança e no espaço Roda<br />

de Conversa – o qual traz discussões de assuntos específicos<br />

sobre articulações de projetos e políticas públicas<br />

para a área cultural. Como resultado, colhem a criação de<br />

uma comissão responsável em acompanhar a construção<br />

do Conselho Municipal de Política Cultural de Campo<br />

Limpo Paulista.<br />

Outra grande expressão no contexto trata-se do Coletivo<br />

NU-MIC (Núcleo Urbano - Musical Independente<br />

Criativo), criado em 2011 por Mc’s e produtores de<br />

RAP de diferentes locais de São Paulo, frequentadores,<br />

Por outro lado, a barreira vai muito além<br />

de localizar pessoas dispostas a fazer a<br />

diferença, é preciso eficiência na organização<br />

e uma comunicação estreita entre<br />

os interessados pra que tudo dê certo. A<br />

partir do momento em que se reuniram, o<br />

44


A produção independente “Desafio de fio<br />

a pavio 2012” de Marlon Dell, disponível<br />

no Youtube, aprofunda sobre o processo<br />

de criação, concretização e algumas das<br />

recompensas colhidas pelo projeto, como<br />

é o caso do Professor Xavier, 22 anos: “Eu<br />

escrevia, mas não sabia para o que era.<br />

Descobri para quê; passar uma mensagem,<br />

ajudar as pessoas falando, cantando. Chegar<br />

lá e fazer alguma coisa, tentar mudar.<br />

Voltei a estudar por causa do RAP também.<br />

Se eu não tivesse ido à oficina, ido<br />

ao estúdio, conhecer todo mundo, talvez<br />

eu não estaria estudando hoje. Incentivar<br />

mesmo, estudar cultura, política, de tudo,<br />

onde você vive, o que você pode fazer<br />

para mudar, o CD é isto - juntar o pessoal,<br />

invadir e fazer acontecer”.<br />

à época, do estúdio aberto no Espaço Criança Esperança<br />

na Brasilândia. O ato consistiu na gravação de um CD<br />

cujas músicas remetiam ao dia a dia da periferia de São<br />

Paulo. Se a tentativa era trabalhar na divulgação do RAP,<br />

nada foi em vão. Formulado por Bruna Tiengo, 23 anos,<br />

psicóloga e assessora do NU-MIC e o participante David<br />

Madeirit, no ano seguinte o projeto “Desafio De Fio a<br />

Pavio” foi aprovado pelo VAI (Valorização de Iniciativas<br />

Culturais).<br />

Desafio De Fio a Pavio consiste em compor, produzir<br />

e gravar músicas sob temas determinados, lidando com<br />

beatmakers, MC’s e aqueles que nunca tiveram contato<br />

com a atividade. Tudo, diga-se de passagem, ocorre sob o<br />

jugo de várias adversidades, entre elas: encontrar as pessoas<br />

interessadas, combinar os horários para realização<br />

das gravações, já que todos os organizadores não vivem<br />

exclusivamente de cultura, chegar no local onde seriam<br />

realizadas as gravações (devido aos ‘toques de recolher’<br />

- na época São Paulo passava percalços por conta<br />

da relação conflituosa entre Policia e criminalidade),<br />

sem contar com o fator tempo. Enfim, fechar o produto<br />

mediante os infortúnios que a metrópole proporciona aos<br />

seus frequentadores, sem deixar de exigir qualidade no<br />

trabalho.<br />

Ficou claro porque começar o nome da idealização com a<br />

palavra “Desafio” caiu bem pra ocasião? E não é só isto.<br />

Bruna Tiengo, também apresentadora e coordenadora de<br />

produção do “Desafio” esclarece: “Na primeira edição,<br />

em 2011, tivemos o apoio do Criança Esperança, até<br />

porque, foi lá que tudo começou. Em 2012 o único apoio<br />

financeiro foi o VAI. O Nu-mic, não tem grana de lugar<br />

nenhum”. Para gerar renda, o Coletivo vende camisetas,<br />

Cds e o estúdio de gravação, além dos encontros mensais,<br />

se realiza na residência de um dos coordenadores.<br />

Desde sua criação, os Mcs André S/A, Tião Renascendo<br />

das Cinzas, Carol Protesto, Professor Xavier e Rodolpho<br />

JMZ e os beatmakers Nenê Beats, Guilherme Sallow e<br />

David Maderit e a produtora Bruna Tiengo, vem ajudando<br />

o grupo a se apresentar em eventos como: Ação<br />

Global, inauguração da Concha Acústica da Vila Mirante,<br />

vernissage da Exposição Desviolência na ONG Ação e<br />

Educativa, e em eventos das escolas da região da zona<br />

norte e sul da cidade.<br />

Rota alternativa não é sinônimo de atalho,<br />

no entanto, é interessante tanto quanto<br />

percorrer a estrada principal, pois o que faz a diferença<br />

é a força de vontade e a disposição para ajudar a formar<br />

uma sociedade melhor e mais democrática.<br />

CONTATOS:<br />

Coletivo Corredor Cultural<br />

E-mail: coletivocorredor@gmail.com<br />

Desafio de Fio a Pavio<br />

Site: http://defioapavio.tumblr.com/<br />

E-mail: desafio.defioapavio@gmail.com<br />

NU-MIC – Núcleo Urbano – Musical Independente<br />

Criativo<br />

http://nu-mic.blogspot.com.br/<br />

E-mail: contato.numic@gmail.com<br />

Contato: (11) 9 8598-0672 / (11) 96732-5912<br />

fotos: Gino Tadeu e Desafio de Fio a Pavio-divulgação.<br />

TAMIRES SANTANA<br />

Jornalista Cultural, Designer Gráfica, e militante<br />

em prol dos movimentos culturais no município de<br />

Francisco Morato. Escreve para o blog AODC Noticias<br />

sobre cultura quinzenalmente; e é Assessora de<br />

Imprensa da Comunidade Negra<br />

de Francisco Morato e Escola de<br />

Samba Estação Primeira, na mesma<br />

cidade. Aprecia textos melancólicos,<br />

insensatos, apaixonados<br />

e quase nunca jornalísticos em:<br />

ofilhoemeu.blogspot.com.br<br />

E-mail: tami.santana@ig.com.br<br />

Site: tamisantana.wix.com/oficial<br />

45


46


Sara,<br />

Ao invés do Aurélio, procure um sarau. E tu vai<br />

achar sentido de verdade quando encarar os arquitetos<br />

de sonhos – novinhos em folhas – em ação.<br />

Gente, que para provar a máxima de Leminski,<br />

inventou seu próprio estado de ser, uma segunda<br />

adolescência chamada movimento. Porque aos 17<br />

anos todo mundo é poeta.<br />

E pra sarau, não precisa convite nem senha. Toda<br />

palavra é mágica, mas o silêncio é uma prece.<br />

Sarau é o trajeto que a palavra faz entre os lábios e<br />

o coração – diriam os românticos. Mas o contrário<br />

também pode ser.<br />

Nada de novo no front: são palavras, são navalhas e<br />

eu sou apenas um rapaz latino americano, apoiado<br />

por mais de 50 mil manos. Sem aspas, entre amigos,<br />

poesia é dito popular. Pessoa é nóiz.<br />

Lembra quando me disse que nem tudo cabe nos<br />

livros? Pois bem, no sarau cabe. Planos e viagens,<br />

paixões e pilantragens. Até poema de 10 segundos<br />

cabe. De vez em quando, suspeito que mesmo sua<br />

mania de solidão caberia lá.<br />

Amiga, tu vai se encontrar vendo o Laudecir declamando.<br />

Ele é malandro, professor e poeta. Nunca<br />

escreveu uma rima, mas é, sobretudo, poeta. E ao<br />

contrário, também poderia ser.<br />

Tem sarau pra todo mundo; sem se repetir. Alguns<br />

viraram grifes, mas a maior parte continua firme,<br />

com seus amores, protestos, revides e passos largos.<br />

Depois deles, nunca mais falei sozinho, sabia?<br />

Sobrenome Liberdade. Um ritual com mais entidades<br />

que o panteão. Tivesse cobrança, seria igreja.<br />

Fosse mais longe, seria aqui em casa. E para garantir<br />

que é feito por palavras e pessoas livres, Grajaú.<br />

Sara, vá.<br />

Aliás, vamos! Porque sarau é lugar de chegar junto.<br />

* Bahia, Ni Brisant tem na palavra sua pátria, arte e<br />

coração.<br />

Blogs de Ni Brisant:<br />

http://www.nibrisant.blogspot.com.br/<br />

http://levantecult.blogspot.com.br/<br />

Sarau:<br />

http://levantecult.blogspot.com.br/<br />

fotos: Renata Armelin.<br />

47


O ADVOGADO DOS MENDIGOS<br />

matéria Rebosteio<br />

Robson César Correia de Mendonça, eis o imponente<br />

nome deste homem humilde que perambula<br />

pela cidade de São Paulo em sua bicicloteca, sim,<br />

bicicloteca!: uma biblioteca ambulante e itinerante<br />

acoplada a uma bicicleta.<br />

Quem o observa hoje, por trás do bigode e certo<br />

ar de solenidade, não pode imaginar seu percurso<br />

e as causas que o levaram até aqui. Segundo o que<br />

relata, vindo de Alegrete (cidade do interior do Rio<br />

Grande do Sul onde era pecuarista) há mais de 12<br />

anos, para buscar “mais cultura” - enquanto<br />

sua mulher e filhos aguardariam<br />

por lá o seu estabelecimento definitivo<br />

por aqui -, foi vítima de um sequestro<br />

na Rodoviária do Tietê onde seus, hoje<br />

equivalentes R$ 200.000,00 (fruto da<br />

renda dos bens destituídos) foram parar<br />

nas mãos de aproveitadores e bandidos.<br />

banco”.<br />

Desde então passou a viver nas ruas e em albergues,<br />

sem ao menos obter êxito em restabelecer contato<br />

com a família no Sul. “Tentei entrar na Câmara<br />

[Municipal de São Paulo] para dar um telefonema,<br />

mas fui proibido por ser morador de rua”... Mas o<br />

pior ainda estaria por vir: uma TV por trás de uma<br />

vitrine revelaria o triste destino de uma família, a<br />

sua família, fatalmente acidentada na estrada que<br />

os levaria a Juazeiro do Norte (CE), local que sua<br />

“Da rodoviária, vendo todo o dinheiro<br />

que eu tinha, eles me levaram até o<br />

vale do Anhangabaú, onde fizeram um<br />

documento falso de aposentado por<br />

invalidez, usado para sacar mais no<br />

48


esposa sonhava conhecer.<br />

O que se seguiu daí foi,<br />

no mínimo, inusitado.<br />

Nadando contra a maré<br />

que o levaria facilmente à<br />

desistência ou à completa<br />

autodestruição, apegouse<br />

à leitura ao entrar em<br />

contato com livros nos<br />

albergues. Um livro em<br />

especial o despertou para<br />

o caminho que trilharia,<br />

“A Revolução dos Bichos”<br />

de George Orwell.<br />

“Se aqueles bichos faziam<br />

aquela revolução, por que<br />

nós que somos homens<br />

não podemos fazer?”,<br />

indaga e explica o fato ao provocador Antônio Abujamra<br />

da TV Cultura.<br />

Criou em 2000 o “Movimento de Pessoas em<br />

Situação de Rua”. Na biblioteca Mário de Andrade<br />

(centro de São Paulo), já totalmente engajado com<br />

as questões de inclusão social, conheceu o empreendedor<br />

Lincoln Paiva, homem que dedicava-se a<br />

projetos de mobilidade urbana e que disponibilizaria<br />

o apoio material necessário ao que hoje é este incrível<br />

projeto de Biblioteca Itinerante.<br />

Robson queria levar livros a todos os moradores<br />

de rua e às pessoas que perambulam na cidade.<br />

Juntou-se a fome com a oportunidade de fazer. “Na<br />

biblioteca Mário de Andrade, as pessoas mudavam<br />

de mesa quando eu me sentava”, revela.<br />

Inicialmente foi<br />

construído um triciclo<br />

com um baú,<br />

capaz de portar 300<br />

livros. Após um<br />

furto desta primeira<br />

bicicloteca, e<br />

após um vídeo que<br />

o próprio Paiva<br />

produziu para revelar<br />

e promover a<br />

saga deste homem<br />

em busca daquela,<br />

Robson ganhou<br />

mídia e o interesse<br />

de patrocinadores.<br />

Sua história chegaria<br />

até os holofotes<br />

da BBC e do jornal<br />

“Le Monde” da<br />

França.<br />

Empresas financiariam um novo projeto, alterando<br />

o modelo inicial para um totalmente elétrico (placa<br />

solar) com acesso à internet. 107 mil livros foram<br />

emprestados no último ano, 60% deles para moradores<br />

de rua (ou, como um novo eufemismo em<br />

voga diz: “em situação de rua”).<br />

“Eu procurei estudar e aprendi muitas leis, a lei do<br />

morador de rua, seus direitos constitucionais. Isso<br />

me ajudou a entender o ser humano que está na rua,<br />

tanto que, quando prendi o cara que me roubou a<br />

primeira bicicloteca, disse ao delegado que não o<br />

mandasse para um presídio, mas que o internasse<br />

para tratamento contra o vício em droga.”<br />

Totalmente na ativa, com diversas biciclotecas e<br />

colaboradores (geralmente pessoas em processo de<br />

inclusão social), Robson hoje luta contra um câncer<br />

no pulmão e é chamado de “Pai” pelos moradores<br />

de rua. Por ser patrocinado por um escritório de<br />

advocacia, também carrega outro epíteto, este dado<br />

pela polícia: O Advogado dos Mendigos.<br />

*Fotos (e algumas passagens textuais da fala de Robson)<br />

extraídas da matéria de Edson Valente para Folha<br />

de São Paulo, no link: http://www1.folha.uol.com.br/<br />

empreendedorsocial/minhahistoria/1178584-ex-moradorde-rua-dirige-bicicloteca-no-centro-de-sao-paulo.shtml<br />

*Saiba tudo sobre as Biciclotecas, e como contribuir com<br />

o Programa, no site ofi cial: http://biciclotecas.wordpress.<br />

com/<br />

*Assista a entrevista do Robson ao programa Provocações<br />

da TV Cultura, no link: http://tvcultura.cmais.<br />

com.br/provocacoes/programas/programa-600-com<br />

-o-presidente-da-ong-bicicloteca-robson-mendonca-22-01-2013-1<br />

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in dica<br />

SUMO<br />

BAGAÇO<br />

livro de poemas, publicação<br />

independente<br />

de Thiago Cervan.<br />

Contatos com o autor<br />

pelo facebook:<br />

/www.facebook.com/<br />

thiagocervan<br />

Neste trabalho Thiago<br />

apresenta traços<br />

nítidos da cultura<br />

contemporânea, tanto pelas temáticas quanto pelo<br />

estilo de sua poesia. Fala de amor com a simplicidade<br />

natural desse sentimento, de causas sociais<br />

pela perspectiva empírica de um desfavorecido, e<br />

subverte com criatividade os clichês da cultura de<br />

massa. Faz isso com textos curtos e de efeito rápido,<br />

como um nocaute no primeiro round ou um gol nos<br />

primeiros segundos de jogo. Espalha fragmentos que<br />

trazem ao leitor o gosto prazeroso do encontro com a<br />

boa poesia.” - Juli Manzi, músico, poeta e professor<br />

universitário.<br />

Para adquirir o livro, envie um email para<br />

under.ago@gmail.com<br />

Matéria excelente sobre o grafiteiro misterioso<br />

Banksy, no blog Semióticas:<br />

http://semioticas1.blogspot.com.br/2012/11/banksyguerra-e-grafite.html?utm_source=BP_recent<br />

Muros e paredes desenhados com cinzas de fumaça<br />

pelo artista BORONDO, veja em seu blog:<br />

http://borondo.blogspot.it/2012/04/muros-roma.html<br />

Trabalho sensibilíssimo do fotógrafo<br />

SILVIO CRISÓSTOMO no registro dos grafites<br />

paulistanos numa edição em vídeo:<br />

https://www.youtube.com/watch?v=E2ms_S4fbqY<br />

No trabalho “Living Walls” (Paredes Vivas, em<br />

tradução livre), o artista russo Nikita Nomerz fez<br />

uma série de intervenções em locais públicos de seu<br />

país. Desenhando rostos em diferentes locais de cidades<br />

russas, ele deu vida a paredes e outros tipos de<br />

construções. Veja galeria com imagens do trabalho<br />

do artista de rua russo.<br />

http://catracalivre.folha.uol.com.br/2012/12/artistada-vida-a-paredes-em-ruas-da-russia/<br />

contatos: silviocrisostomoaraujo@gmail.com<br />

vídeo de OS GEMEOS e seus gigantescos murais:<br />

Para aqueles que gostam de apreciar a arte de rua<br />

em formas inesperadas, o site Shriiimp, de Vince<br />

Prawns, se dedica a fotos de graffiti no corpo de<br />

mulheres. O portal tem mais de 35 mil usuários e imagens<br />

de pinturas de Vince Prawns e outros artistas<br />

que se dedicam à pintura corporal no estilo da arte de<br />

rua. Veja galeria com fotos das obras.<br />

http://www.shriiimp.com/en/<br />

http://youtu.be/CrUVtCmAKRE<br />

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