Chicos 49

Chicos

e-zine literária de Cataguases - MG - Brasil

21 de dezembro 2016

21 de junho 2017

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Prosa e Verso

em

Cataguases


N. 49

21 de junho de 2017

Um dedo de prosa

Esta é a nossa edição 49.

Chicos é uma e-zine que circula apenas pelos

meios digitais. Envie-nos teu e-mail e teremos

prazer em enviar-te nossas edições.

A linha editorial é fundamentalmente voltada para

a literatura dos cataguasenses, mas aberta ao seu

entorno e ao mundo. Procura manter, em cada

um dos seus números, uma diversidade temática.

Queremos pedir desculpas aos nossos poucos leitores,

ao Ronaldo Werneck e a Enrique de Resende.

Publicamos na edição 48 um poema de Ronaldo

como se de Enrique fosse. Um imperdoável

erro dos editores.

Joaquim Branco é o poeta da primeira página nesta

edição. Um talentoso poeta e grande batalhador

da literatura em Cataguases.

Esta edição de início de inverno, é a segunda de

2017. Uma agradável leitura para todos! E até o

início da primavera de 2017.

Divirtam-se!

Capa: Foto Vicente Costa

Dedicamos este número ao multiartista Paulo Fialho

falecido recentemente em Cataguases MG

Editores:

Emerson Teixeira Cardoso

José Antonio Pereira

Os Chicos

Colaboradores:

Projeto gráfico - Gabriel Franco

Fotografia - Vicente Costa

Ilustrações - Altamir Soares e Merson

cataletras.chicos@gmail.com

http://chicoscataletras.blogspot.com/

01


Chicos 49

Ao Paulo Fialho

Perdemos Paulo Fialho. Cada vez que se esvai

uma alma criadora, ficamos mais pobres. Aí

de nós, humildes criaturas, se não existissem a

arte e os artistas. Já teríamos nos imolado e

seria outra a história. A música, a literatura, o

cinema, a fotografia e tantas outras artes são as

nossas reais salvaguardas nesse mundo violento,

perigoso e cruel. Evito alcunhá-las de “anjos

da Guarda” porque esses são do espectro religioso

e a fé, mais do que a arte, acolhe as almas,

produzindo eficácia em protege-la, salvá-las dos

corriqueiros atos sórdidos da vida humana.

Paulo Fialho sofreu, ao longo de sua trajetória,

as consequências de caminhar solitário pelas

estradas tortuosas do Fazer Artístico no Brasil.

Ator e artista plástico, em determinado momento,

talvez cético diante de uma realidade

autoritária que vigia no país, picou a mula para

a Argentina e por lá ficou um bom tempo. Mas

voltou altivo, capacitado e cheio de amor pela

vida. Até os seus momentos finais, ministrou

cursos de produção de artesanato para os necessitados

de criação e renda na cidade. Manteve

também estreito relacionamento com os humildes

carroceiros, trabalhadores estabelecidos

nas imediações do Mercado do Produtor de Cataguases.

Registro também: gostava do debate

Político. Fazia a crítica da necessidade de conscientizar

o povo das verdades que permeiam a

atividade, mas que não são percebidas pelos

mais frágeis socialmente e que fazem a diferença

no ambiente de nossa relativa democracia.

Trecho da crônica “Dias Nebulosos” de

Vanderlei Pequeno

02


Sumário

Chicos 49

Joaquim Branco

Alguns poemas...................................................................................................... 04

Fernando Abritta

Sobre os corpos e outros poemas...........................................................................19

Rita Marília

Desfrute..................................................................................................................25

Helen Massote

Folhinha Mariana....................................................................................................28

Charles Simic

Poema e outros poemas..........................................................................................29

Emerson Teixeira Cardoso

Poemas desta guerra...............................................................................................34

Ronaldo Werneck

O olhar de Wlademir Dias-Pino..............................................................................36

Emerson Teixeira Cardoso

Um minuto na eternidade, de Gleison V. Dornellas...............................................47

José Antonio Pereira

Aquela que é muito justa........................................................................................52

José Vecchi

E se Apolo falasse?.................................................................................................54

Antônio Jaime Soares

Aurora da minha vida.............................................................................................55

Luiz Ruffato

Lendo os Clássicos..................................................................................................56

José Carlos de Vasconcelos

O Prémio Camões e ‘um copo de cólera’... ...........................................................58

José Antonio Pereira

Paulicéia ou a Chicago desvairada..........................................................................60

Krishnamurti Góes dos Anjos

Uma colcha de retalhos da aventura humana... .....................................................62

Ronaldo Cagiano

Histórias testemunham metamorfoses de um país .................................................65

Clips

Notas, livros e afins................................................................................................68

03


Chicos 49

Joaquim Branco

Nascido em Cataguases (MG), em

1940, o poeta Joaquim Branco herdou de

seus conterrâneos da revista modernista Verde,

do final dos anos 20, o gosto pela experimentação

e pela literatura de vanguarda. É

autor de livros de poesia, ensaios e ficção.

Estudioso do grupo modernista cataguasense,

Envolvido desde cedo com literatura, Joaquim

Branco participou da organização da

Exposição de Poesia Concreta de Cataguases,

em 1968. No ano seguinte,

publicou seu livro de estreia,

Concreções da Fala, obviamente

ligado à estética concretista.

Em 1969, ele já estava ligado ao

Poema Processo, uma radicalização

da poesia concreta que dá

mais peso a elementos gráficos

não verbais.

Joaquim Branco é sobretudo conhecido

por sua participação em movimentos

de poesia de vanguarda, nas década de

80 do século passado.

Bibliografia: Concreções da fala Poemas.

Cataguases: Edição do autor, 1969; Consumito

Poemas. Belo Horizonte: Edição da Impresa

Oficial de Minas Gerais, 1975; Laser

para lazer Poemas. Cataguases: Edições Totem,

1984; Marginais do Pomba Contos

(org.). Cataguases: Fundação Cultural Francisco

Inácio Peixoto, 1985;

500 anos do descobrimento da América Texto

e pintura (erm parceria com D´Paula).

Cataguases: Edição Hidroazul, 1993; O caçapalavras

Poemas. Cataguases: Fundação Cultural

Ormeo J. Botelho, 1997; Do pré ao pós

-moderno Manual de literatura. Cataguases:

Proler/Cataguases, 1998; Ascânio, o poeta

da Verde (org.). Cataguases: Edições Totem,

1998, além de livros de crítica, literatura infantil,

etc.

(...) No Poema/Processo, a partir de 1968,

Joaquim Branco encontraria — a partir de

pesquisas gráficas e visuais — um porto seguro

para a fixação de sua poeticidade. /

Uma poeticidade viva, explosiva, que, com o

passar dos anos, seria marcada pela limpeza

dos signos: a construção de um painel crítico

relacionado com o nosso tempo e o nosso

mundo". Moacy Cirne

04


Tiger

Chicos 49

Corre a tarde em minh'alma e conjecturo

que o tigre vocativo do meu verso

é um tigre de símbolos e sombras (...)

Jorge Luis Borges, "O outro tigre"

(in O fazedor)

Theda Bara me olha

com olhos de quem

mata, e diz:

Desata-me.

Decifrado, o olhar

que espreitara antes

agora fuzila firme

e em cheio

contra o vidro

de um pesadelo.

(Só Borges enfrentara

o tigre antes.)

Felina, garras e boca

em perfeita dentição

são arremessos para lá

de ameaçadores

mesmo sob uma irretocada

e espessa vigília.

05


Gregório de Matos

Chicos 49

Guerra & Poesia

Gregório de mato guerra & poesia

Gregório marco zero da poesia brasileira

Grego rio abaixo mero gozador

Gregor herança basca maior da colônia

Gregório de baixo calão e alta escala

Gregoriano barba e bigode, bode, espingarda

Gregongório bravo que nem o diabo pode.

06


Champoleônica

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a esfinge é clara

a esfinge escarra

na cara do mundo

se és finge ser

es fin gida estátua de mar

fim

inócua matéria decifrada

em pedra erguida

sobre terra

empedernida

são cães canções tuas

(sol solidões solidormidas)

enigfácil mudimundo

serenesfinge pedraberta

dez anos a fio

desafio

o silêncio exausto de teus blocos

mais hirtos que maciços

07


Chicos 49

A Equação da Insolvência

Morre na Solvência da Inequação

que morta não te decifrem

que morta cifrei-te e te decifro

pela fibra em cifra

que vibra ainda víbora-virgem

ser esfinge claresfinge esculpida

consiste em fingir sercreta

quando não há mais clara e rara coisa

que a efígie que te deserta.

08


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Fernando Abritta

Nasceu em Cataguases MG, em 1950. Reside em

Juiz de Fora MG. Tem publicados os livros - umÁrvore

e O Caso da Menina que Perdeu a Voz, e

Uma Verde História em parceria com Joaquim

Branco, um e-book - Relâmpago. E os inéditos MulaSemCabeça

e A Árvore do Esquecimento.

Participações: Grupo 13–RJ(1971); Expoética–RJ

(1973); TOTEM(1975 a 1977); Jornal DE FATO

(1977); Jornal TABU(1977); Expoética–Natal-RGN

(1977); Arte de Rua-Brusque–SC(1978); jornal A

República-Natal–RGN(1978); Expoética–80-

Cataguases-MG(1980); Cataguases-Cartazes(2014)

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Rita Marília

Rita Marília T. Signorini nasceu em Rio

Grande RS. Mora em Florianópolis SC Exbancária,

é atualmente administradora e escritora.

Ama poesia desde sempre e julga ter sido,

quando muito pequena, contagiada pelo lirismo

de seu pai que adorava recitar versos enquanto

caminhavam juntos.

“Escrevo porque a escrita sai de mim como

uma lágrima, sai como uma transpiração: involuntariamente”

Desfrute

Senhor!

Não olheis assim para mim

Minhas rugas denunciam minha idade

Mas, nem de longe, o meu desejo

Pois que pode desnudar minha volúpia

E buscar em vós o meu prazer.

Senhor!

Ficais assim a instigar-me?

Não sabeis então

Que navega em vossos olhos

A pretensão de minha boca?

25


Chicos 49

Ora, Senhor meu!

Não fiqueis a bulir

Quem quieta está

Quem sob o disfarce da

Indiferença

Cobre com panos gélidos

A volúpia

Olhais, por certo, as mais moças

Para mergulhardes no imaginário

Onde o espelho do tempo vos mentirá

Dizendo quem já não sois

Eu, Senhor meu, miro vossa estampa

Vejo vossas rugas

Percebo vossos contornos

E imagino

Ainda possuírdes

Em vossas mãos o meu desejo

A descobrir que a vida,

Em velhas curvas sem beleza,

Também pode levar-me,

Em queda livre, ao prazer

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Chicos 49

Por isso Senhor meu!

Conservai o vosso olhar no meu decote

E percebei

Minha respiração ofegante

Lentamente ofegante

Misteriosamente ofegante

E concedei-me

Bulir vossa íris

Massagear vossa pupila

E ver-me, e sentir-me

Penetrada

Pelo vosso olhar

Então, Senhor meu!

Grávida de vossos desejos

Irei embora

Vaidosa e confiante.

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Chicos 49

Helen Massote

Helen Massote nasceu em Belo Horizonte

MG e mora atualmente no Rio de Janeiro

RJ.

É publicitária e trabalha no Portal Fiocruz.

Redatora, escreve poemas e crônicas, que

divide com os amigos.

Publica pela primeira vez na Chicos.

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Chicos 49

Charles Simic

Charles Simic nasceu em Belgrado em

1938. Poeta, tradutor e ensaísta mudou-se para

Paris aos 15 anos. Em 1954, com a mãe e um

irmão, transferiu-se para os Estados Unidos a

fim de se juntar ao pai, que já residia lá, hoje

vive em Nem Hampshire. Já recebeu quase todos

os prêmios importantes de poesia, entre

eles o Pulitzer Prize e o MacArthur Grant. Foi

também o Poeta Laureado dos Estados Unidos

em 2007 e 2008.

Poema

Toda manhã esqueço como é.

Vejo a fumaça avançar

a passos largos sobre a cidade.

Não pertenço a ninguém.

Depois lembro dos meus sapatos,

Que preciso calçá-los,

Que ao agachar para amarrá-los

Irei olhar para dentro da terra

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Invenção do nada

Chicos 49

Não percebi

enquanto escrevia

que não resta nada no mundo

além dessa mesa e cadeira.

E então disse:

(só por dizer, para abusar da paciência)

É essa a taverna

sem taça, vinho, ou garçom

onde sou o tão esperado bêbado?

A cor de nada é azul.

Eu a golpeio com a mão esquerda e a mão some.

Porque, então, estou tão quieto

e tão feliz?

Subo na mesa

(a cadeira já se foi)

canto pela garganta

da garrafa de cerveja vazia.

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Venus

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No céu

A bem iluminada

Farmácia 24 horas

Aberta,

Alguma coisa, moça,

Por favor,

Para amenizar meu medo

Do escuro.

Ela, sem olhar para cima,

Ocupada,

Medindo

Num frasco

Gota após gota

Daquela droga

Transparente e sem cheiro

Que chamam de infinito.

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Uma carta

Chicos 49

Caros filósofos, fico triste quando penso.

É assim com vocês?

Quando estou prestes a fincar os dentes no númeno

alguma antiga namorada vem e me distrai.

“Ela nem está viva!” grito aos céus.

A luz invernosa me fez tomar aquele caminho.

Vi camas cobertas por lençóis cinzas idênticos.

Vi homens graves segurando uma mulher nua

Enquanto jogavam água fria nela com uma mangueira.

Era para acalmá-la ou era punição?

Fui visitar meu amigo Bob, que disse:

“Alcançamos o real quando superamos a sedução das imagens.”

Fiquei radiante até perceber

Que tamanha abstinência seria impossível para mim.

Me peguei olhando pela janela.

O pai de Bob passeava com seu cão.

Ele se movia com dor; o cão esperava por ele.

Não havia mais ninguém no parque,

Só árvores nuas com uma infinidade de formas trágicas

Para dificultar o pensamento

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O espantalho

Chicos 49

Deus é refutado mas o diabo não.

Os tomates desse ano estão incríveis.

Afunde os dentes, Martha,

Como numa maçã madura.

A cada mordida ponha um pouco de sal.

Se os sucos escorrerem do queixo

até seus seios nus,

incline-se sobre a pia da cozinha.

De lá você vê seu marido

Parar de repente no campo aberto

Diante de um pensamento muito sombrio,

Abrindo os braços como um espantalho.

Tradução de Sylvio Fraga Neto

Poeta e compositor nasceu no Rio de Janeiro em 1986. É

autor de um livro de poesia, Entre árvores (2011), um livro

de tradução de poesia, O andar ao lado: três novos poetas

norte-americanos (2013), e um disco, Rosto (2013).

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Chicos 49

Emerson Teixeira

Cardoso

Nasceu em Cataguases MG, é autor de Símiles

(2001) poesia, coautor de A casa da Rua

Alferes e outras crônicas (2006). Traduziu O

retorno do nativo de Thomas Herdy. Sempre

ativo em publicações literárias. Iniciou-se em

Estilete (1967), mimeografado, editor/fundador

do Delirium Tremens (1983) e Trem Azul (1997).

Poemas desta guerra

Henrique Silveira (1919 – 1943) foi um poeta

que pouco produziu, mas o que produziu, bastou

para situá-lo na plêiade dos poetas da melhor

estirpe de seu tempo.

Pouco se conhece de sua vida intelectual, posto

que tímido, e o que se sabe de sua biografia encontra-se

no livro Poemas desta guerra, pequeno

volume editado aqui mesmo em Cataguases pelo

professor e poeta Joaquim Branco, Edições Totem,

de 1979.

A capa é um excelente trabalho de Fernando

Abritta que desde sempre vinha colaborando no

Totem, jornal homônimo também editado por

Joaquim. Fernando então estudante do Colégio

Cataguases interessou-se por aqueles processos

poéticos inspirado talvez pela leitura de Mario

Faustino, o nome mais cotado na preferência dos

alunos daquela escola, da qual também fui um

deles. Que esta aproximação entre os dois resultasse

na produção deste livro já que como se sabe

Fernando também era desenhista.

Henrique Silveira - Foto de Iannini

Não fosse o trabalho desta dupla talvez não

saberíamos da literatura de Henrique o que hoje

sabemos nem de sua vida pessoal já que H F não

conhecia a outros artistas com quem dividir suas

inquietações e tornou-se muito cedo um ser solitário

que exceto por publicações esporádicas no

jornal Cataguases pouco divulgou seus poemas.

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A segunda 5 poemetos: “Concepção”,

“Fantasia”, “sugestão”, “Lenda e Capricho”

A terceira traz um único poema: “Renuncia”

A quarta, ...à feição do Oriente: “O Bailado

de Aisle”, “Continuidade do Bailado”,

“Reflexão” “Contemplação” e “Canto sobre a

Morte”.

E por fim, “A sílide” ; “Bailado Pastoral”;

“Ensaios”; “Noturno” e outros poemas e notas,

alguns, sem data entre estes um que traz título

bastante sugestivo: “Os anos não me envelhecem.”

Acho que Henrique Silveira é poeta dotado

de uma sensibilidade poética admirável e de

uma forma bastante original.

Em tempo: Onde se encontram os seus desenhos

a crayon?

Para a edição desta obra foram reunidos 75

poemas e a tiragem foi de 500 exemplares. Alguns

destes poemas vêm datados prevalecendo

um registro cronológico que vai do ano de 1939

a 1943 ano da morte do poeta quando contava

apenas 23 anos.

Na apresentação de Joaquim Branco para

este livro, Recortes & Manuscritos, conhecemos

que os primeiros poemas deste autor foram

agrupados num volume com capa de couro quase

todo manuscrito cujo título em letras vermelhas

Diário e Poesia abria-se com a seguinte epígrafe:

“Je renferme ici quelque partie de mon

coeur. L’outre je te donnerai, moi--même...”

Maria Simões da Silveira e

José Ignacio da Silveira Trombos

Pais de Henrique Silveira

Sendo este dividido em cinco partes: a primeira,

Diário e Poesia, tem os poemas “A Sombra”

e “Pastoral”

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Chicos 49

O olhar de Wlademir Dias-Pino

ave

ave ave

ave ave ave

ave voo

voo

voo ave

voo ave ave

voo ave ave ave

ave vae

vae

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Chicos 49

A i m p o r t â ncia d e 1 9 5 6 p a r a a h i s t ó r i a d a l i t e -

r a t u ra b rasileira p o d e s e r regi s t ra d a m e d i a n-

t e t rê s e p i s ó d i o s c a p i t a i s : o l a nçamento d a

p o e s i a c o ncre t a , a p u b l i c a ç ã o d e G rande s e r-

t ã o : V e redas e o s u rg i m e n t o d e A a v e , d e

W l a d e m i r D i a s - P i no, l i v ro q u e s e l i g a ( v a ) à s

v i rt u a l i d a d e s g rá ficas e v e rbo - v i s u a i s d o c o n-

c retismo, m a s q u e a p o n t a v a p a ra u m d e s d o -

b ra r no v o nas a v e nt u r a s c o m p o s i c i o nais d a

p rópria poesia conc reta.

M o a c y Ci r ne in Revista Vo z e s , 1 9 7 2

Entre os anos 1990 e 1995, fui

Assessor de Imprensa e Editor de Textos do

CCBB – e para mim não deixa de ser emocionante

participar, depois de mais de 20 anos, de

um evento neste belo prédio que eu tanto conheço.

Principalmente por também se tratar de

um projeto promovido pela FACHA, faculdade

onde estudei jornalismo na década de 1970.

Quando aqui trabalhei, havia um poeta barbudo

e de longos cabelos à la hippie, um quase demiurgo,

que resolveu montar ”seu escritório” ali

nas escadas do Foyer, ao lado do Teatro I. De

repente, para espanto da direção do CCBB, ele

passou a ter vários seguidores, quase diria epígonos.

Um dia sentei-me ao seu lado na escada e ele

me disse chamar-se “Ex-Kosta K”. Não simplesmente

Kosta K, mas “Ex-Kosta K”. Uma

negação que se transforma e afirma. E firma e

se reafirma formidável. Para surpresa minha, ele

falava de Maiakóvski, Concretismo, Poema Processo.

Ficamos amigos e quase-quase também

virei um de seus epígonos. Nunca mais o vi,

nunca mais o esqueci. Também, pudera, o “Ex-

Kosta K” era primeiro e único. Agora e então,

aqui e agora, sou eu quem percebo ter também

me transformado em Ex. Ex-FACHA, Ex-CCBB,

Ex-Roneck.

Para esta mesa-redonda – com a presença do

poeta Sady Bianchin, professor de artes da Facha-Faculdades

Integradas Hélio Alonso, e criador

de “Um Rio de Versos”, agora em sua nona

edição; do poeta Tchello d´Barros, curador da

mostra Imagética; e de Regina Pouchain, poeta

e artista visual – fui designado a dizer algumas

palavras sobre um dos pioneiros do poema visual

e meu amigo de longa data, o poeta Wlademir

Dias-Pino, que se encontra aqui ao meu lado,

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Wlademir In finito

Ao s 90 a nos, W lademir é f ina lm ente

r e conhe cido como o e norme po eta e

artista p lá stico que é, o que vem

a co ntecendo de sde s ua grande ex po -

s i ção “O Poema I nfinito ”, que no ano

p assado o cupo u to do um a n dar do

MAR, o Mus e u d e A rte do R io, e pelo

P rêmio Faz D i fer ença 2016, rece b ido

d o jorna l O G lobo n a categoria artes

p l ástica s.

Chicos 49

A ex posição no MAR tomo u como e i-

xo ce ntral qua tro p oemas: “ O d ia da

cida d e”, “Ave”, “ So l ida ” e

“ N umérico s”. V isando ampliar a exp

er i ência senso ria l d os traba l hos, ess

es l iv ros -po ema s f oram trans forma -

d os e m grandes instala çõ es magnéticas,

na s q uais os e le mento s e ram

construídos e rearranjado s pe lo s v is i-

ta n tes.

Outro destaque foi a Enciclopédia Visual

Brasileira, na qual o artista vem trabalhando nas

últimas duas décadas. Composto por 1001 volumes,

o trabalho pretende apresentar, por meio

de pranchas resultantes da montagem alegórica

de referências culturais diversas, a história da

construção da imagem no mundo.

Falar em mundo, Wlademir é um mundo

habitado pelo pensador visual que traz dentro de

si. Um artista multifário: vitrinista, tipógrafo,

designer gráfico, poeta-professor, poetainventor,

na classificação de Ezra Pound. Para

Antonio Houaiss, “um dos mais perspicazes pesquisadores

visuais no Brasil". Para o crítico Assis

Brasil, “Wlademir Dias-Pino é o poeta mais

independente na área da poesia experimental”.

Então, dada a grandeza da tarefa, e se me

permitis, permitir-me-ei ler (como já venho fazendo,

e com as velhas mesóclises ora em voga)

algumas palavras minhas, de outros, e até do

próprio poeta e de seu pensar sobre os caminhos

do poema.

Mas antes vamos a uma pequena digressão, que

tem a ver com o Poema Processo, movimento

que ele fundou ao lado dos poetas Moacy Cirne,

Álvaro e Neide Sá, seus maiores expoentes.

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L ibertar de

M eu poema “L ibe rtarde ”, q u e está

ex po sto a qui, n a mo stra Imagética,

f o i r ea l izado neste p rédio há cerca de

50 a nos. Eu traba l hava na Supla, a

S u pe rintendência d e P la ne jamento do

B B, no ter ceiro a ndar. Eram tempos

Chicos 49

d a repr essão, embora m eno s sev era

d o q ue a q ue v ir ia no a no seg u i nte,

com o AI -5 . N um i n tervalo d o t rabal

ho, co mece i a pensar na ba ndeira de

M i nas, n aque l e “L i ber tas q ua e sera

ta men” e nvolv e ndo o t riâ ng u lo verm

e lho .

Troquei o dito em Latim (que o poeta-menino

Vinicius de Moraes lia como “Libertas que será

também”, e nada entendia) por um círculo envolvendo

um pequeno triângulo. Aos poucos, o

triângulo crescia e já tangenciava o círculo e logo

dava o que na minha desvairada cabeça seria

um dialético salto qualitativo – até que cercasse

o círculo, ultrapassasse totalmente a “prisão”

por ele representada. O título “Libertarde” surgiu

da junção do “Liberdade” com o “ainda que

tardia”.

Wlademir Dias-Pino com a palavra: “Programas

que visem a tornar o computador cada vez mais

capaz de produzir pinturas, desenhos, sinfonias

e textos (aleatórios ou figurativos), reduzem as

próprias possibilidades que a eletrônica oferece

na pesquisa de vanguarda. É a tentativa de igualar

(substituir de modo snob) o computador ao

pincel, ao lápis, ao piano e ao dicionário. O uso

contínuo de um instrumento torna-o extensão

do homem: ´o lápis é a ponta grafitada de seu

dedo´. Daí a individualidade do desenho”.

Interessante registrar que “Libertarde” foi inicialmente

produzido em minha mesa de trabalho,

com o auxílio de uma moeda (de onde saiu o

círculo), um lápis (olha o lápis do Wlademir aí!)

e o livro de instruções circulares do BB, que me

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ajudou a traçar o triângulo. Mais que uma época

pré-digital, aquele foi um momento sem régua

ou compasso. Aliás, se a Bahia deu a Gil régua

e compasso, o Banco do Brasil pouco me ofereceu

para a realização do poema, fora o livroesquadro.

Bem, na verdade esta não é certamente

função de bancos.

Era realmente um tempo pioneiro, artesanal. O

poema foi publicado pela primeira vez em livro,

em 1972 na obra “Processo: Linguagem e Comunicação”,

do próprio Wlademir. No ano seguinte,

sairia no Jornal da Poesia, no Caderno B,

editado por Affonso Romano de SantAnna, com

direito a chamada de capa no então poderoso

Jornal do Brasil. Logo, seguiria mundo, publicado

em jornais, livros e revista, daqui e do exterior.

Já neste século, a poeta e designer Regina

Pouchain – que nos honra com sua presença

nesta mesa – faria ótimas releituras cromáticas

de “Libertarde” e de outros de meus poemas

visuais, que podem ser vistas na seção

“Trabalhos/Poemas Visuais” de meu site

www.ronaldowerneck.com.br. Wlademir não

diria “releituras”, mas “versões”. Isso porque,

para ele, a versão é criativa: “Eu pego o poema

inaugural de um cidadão e faço uma versão. O

que eu fiz foi acrescer a minha experiência à

conquista daquele poeta”.


Chicos 49

Um olhar p ra algo além

Pois é, já lá se vão 50 anos. A primeira vez

em que vi Wlademir Dias-Pino, foi aí por volta

de 1967, não sei bem se em Cataguases, na Mata

Mineira, em casa do poeta Joaquim Branco

(onde ele concederia em 1977 longa entrevista

sobre os rumos da poesia visual para o Totem,

jornal que então editávamos em conjunto). Ou,

quem sabe, no Rio, em Santa Teresa, numa reunião

na casa dos poetas Neide e Álvaro de Sá, já

no início dos anos 1970. Ali, onde sempre ao

lado de outros companheiros, como o poetaprofessor

Moacy Cirne, tentávamos estruturar os

rumos do Poema Processo. Não sei bem se lá ou

cá, mas o importante é que nunca me esqueci

do olhar de Wlademir.

Ele nunca nos olhava diretamente, mas sempre

enviesado, como se buscasse o infinito. “Quem

olha é responsável pelo que vê”, ele nos dizia

na entrevista para o Totem, Um olhar pra além,

pra algo além. Futuro ou coisa que fosse. Esse

olhar assim desencontrado de Wlademir Dias -

Pino é tudo o que eu captaria mais tarde como

definição do que fosse, seja ou é o que entendemos,

ou não, sobre poesia visual. Que eu prefiro

chamar de “poema visual”, já que poema é uma

coisa, poesia outra. Poema é veículo, poesia reta

de chegada.

40


Chicos 49

A vida n o meio gráfico

Um rápido flashback sobre a trajetória e o próprio

nascimento de Wlademir Dias Pino já nos

deixa dúvidas logo de início. É certo que o poeta

nasceu em 1927 no Rio (Rua Pareto, na Tijuca).

Mas em que mês? Fala-se em fevereiro,

mas há registros de abril, outros de maio. Ainda

bem que ele está aqui e pode nos dizer a data

certa: afinal, já foi comemorado ou ainda vamos

comemorar os seus 90 anos?

No Rio dos anos 1930, Luciano Pino, o pai de

Wlademir, é militante comunista, jornalista e

trabalha como tipógrafo na Imprensa Nacional.

Figura marcante em sua formação, sua mãe,

Laura, é quem ensina o filho a ler e a escrever.

O método didático da mãe é recortar com tesoura

palavras dos jornais editados pelo próprio

marido. Esse sistema de recorte de palavras e

formas é mantido durante toda a vida do poeta,

sendo a tesoura o instrumento de realização de

várias de suas obras.

Na primeira infância, Wlademir brinca com

os tipos gráficos de chumbo: “Vivi no meio gráfico,

comecei a lidar com o tipo desde muito

cedo e ficou aquele amor pela forma das letras.

Convivendo com o alfabeto desde a tenra infância,

um dia conclui que a maior arbitrariedade

existente na cultura humana é a imposição do

código alfabético”.

Em 1937, por razões políticas, Luciano, é forçado

a transferir-se com a família para Mato Grosso.

Wlademir chega a Cuiabá com 10 anos e lá

permanecerá até os 24. Nesse período, costumava

ler vorazmente os clássicos na biblioteca pública

da cidade. Seu pai foi responsável pela renovação

gráfica da imprensa de Mato Grosso e,

como jornalista e comentarista, também produzia

crítica de cinema e ensaios sobre a vida social.

Nessa época, Luciano conhece o poeta Manoel

de Barros que vai até sua casa para entregar

um exemplar de seu primeiro livro. A visita

do jovem poeta mato-grossense marca o pequeno

Wlademir que, anos mais tarde, seria um dos

responsáveis pelo início da divulgação de sua

obra.

41


Chicos 49

“Os Corcu ndas” : Augusto e Philadelp ho

Em 1938, com apenas 11 anos, já escrevia livros

de poemas. Sem seu consentimento e em

segredo, um dia seu pai, que administrava uma

gráfica, publica um livro seu, que retira de um

conjunto de manuscritos. Extremamente tímido,

quando vê a edição Wlademir revolta-se e coloca

fogo nos livros. Alguns exemplares são salvos.

Coincidência ou não, em 1967, para grande espanto

dos transeuntes e de tutti quanti, os poetas

do movimento do Poema Processo, Wlademir,

Álvaro, Neide e Moacyr Cirne à frente,

queimam livros de poetas consagrados na Cinelândia.

“Espantar pela radicalidade” era seu slogan,

a palavra de ordem.

Em 1939, “Os corcundas”, seu primeiro livro

conhecido, é impresso por seu pai, agora com

sua concordância, como atesta o cólofon na

contracapa do único exemplar existente desta

edição. Wlademir ainda não completara 12 anos

de idade. O universo grotesco dos personagens

do poema foi inspirado, segundo ele, na commedia

dell'arte, que sua avó apresentava aos

netos, além de “forçá-los” a ouvir ópera e ler

peças de teatro.

“Os corcundas e suas deformações linguísticas./

O avesso do muro por toda a parte, o inverso./

Nuvens beliscando o perfil das coisas/ Trapézio

com seus dentes catando // arreiam seus olhos e

como doadores de sangue/ se nivelam e dormem/

aos pés dos cogumelos/ (ficando suas

sombras)/ em ângulos retos borrados/ sobre seus

travesseiros de lilases/ macios como o tato/

(cabelos invisíveis)// e a nuvem que desce forma

uma jaula/ de manequins tombados”.

“Os corcundas” foi reimpresso em 1954, passando

essa data a aparecer equivocadamente

como a data em que foi escrito. Nas décadas de

1950 e 1960, a obra é objeto de análises críticas

em jornais e publicações nacionais. Em nenhuma

delas é apontado o fato absolutamente extraordinário,

então desconhecido, de Wlademir

tê-la escrito enquanto ainda era criança, e o trabalho

é tratado por toda a crítica como obra

adulta e plena, precursora formal de sua surpreendente

originalidade e capacidade inventiva.

Em 1956, escrevia o poeta Augusto de Campos

no Suplemento do Estadão: “A rebeldia de Wlademir

se manifesta ainda, ao nível semântico,

pela dessacralização do “poético”, através de

um sistemático “culto do feio” ou do “mau gosto”

em ‘Os Corcundas’, onde ocorre a intromissão

de um vocabulário rejeitado em poesia e

que pela constante reiteração chega a ser, mais

do que prosaico, propositadamente incômodo e

perturbador. Nesse monturo de dejetos verbais

Wlademir trata de revolver e perseguir uma espécie

de fenomenologia do indizível poético,

para chegar ao fim das calvas coisas. Ao mesmo

tempo sente-se nele a consciência existencial da

solidão e da alienação do poeta no mundo moderno".

E também o crítico e poeta Philadelpho Menezes,

em seu livro Roteiro de literatura: poesia

concreta e visual: "Entre o muito que foi soterrado

na história da poesia concreta, há que se

dar um destaque especial para o poeta Wlademir

Dias-Pino. Em livros como ‘Os corcundas’,

do final da década de 1940, (sic) Dias-Pino

mostra uma poesia incomum para os padrões

brasileiros. Com imagens estranhas, associações

imprevisíveis, um vocabulário rebuscado colocado

numa sintaxe toda desconjuntada, sua poesia

em verso é surpreendente e pede uma reedição

cuidadosa. Em ‘Os corcundas’, o tema é a deformação

física. Mas a deformação não fica só

no tema. Ela invade a própria linguagem, entorta

a sintaxe das frases, põe vocábulos antipoéticos

nos versos, deforma as palavras".

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Chicos 49

“ A fome d o s lados” & “ In te nsivismo”

Em “A fome dos lados”, de 1940, Wlademir,

com apenas 13 anos, descreve o impacto

de ver o corpo de um amigo do pai torturado e

assassinado pela polícia de Filinto Müller na ditadura

Vargas:” Aqui está a mancha do assassinado/

livre agora era bom e é livre/ sua mancha

horizontal e leve/ como são leves as coisas horizontais//

Eis o morto livre/ raso e vazio/ em seu

ninho de sangue calvo/ (calvo como a bala de

fuzil)/ sangue que é escudo/ assim tombado//

Esse mesmo sangue cheirando/ ao sopro exausto

de seu hálito calvo/ como sombra duma parede

lisa/ onde foi fuzilado outro rebelde”.

Em 1948, em Cuiabá, ao lado de outros poetas,

como Silva Freire, ele funda o movimento literário

de vanguarda “Intensivismo”, trazendo em

seu ideário fortes inovações formais que antecipam

as tendências mais radicais da poesia visual

e das artes plásticas dos anos 50 e 60. Wlademir

volta para o Rio de Janeiro em 1952. Nessa década,

edita e programa visualmente a Revista da

União da Nacional dos Estudantes e participa

dos movimentos de vanguarda política e cultural

da época. Mas, mesmo distante, está sempre

com um pé em Cuiabá, como ainda hoje.

De lá pra cá, é história já bem sabida, ou não:

em 1958, o “vitrinista” Wlademir transforma

com sua arte o Carnaval do Rio numa grande

vitrine. Em 1962, escreve Antônio Olinto em

sua coluna Porta de Livraria, no Globo:

“Há quatro anos, fez o poeta Wlademir Dias-

Pino, para a então Prefeitura do Distrito Federal,

uma série de desenhos concretos para a decoração

de rua do Carnaval do Rio. Pela primeira

vez em nossa história, entrou esse tipo de desenho

em contato com o grande público. Os panos

pintados por Wlademir acabaram sendo a

inspiração dos carnavais seguintes, e a verdade

é esta: não pode mais o carnaval do Rio voltar a

ser figurativo, porque o povo se acostumou com

os triângulos, os círculos, o tipo geral de desenho,

enfim, de Wlademir Dias-Pino”.

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Chicos 49

C on creti smo & S DJB

Um dos seis poetas-pioneiros do movimento da

poesia concreta no Brasil (junto a Décio Pignatari,

Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira

Gullar e Ronaldo Azeredo), ele participa em

1956 da I Exposição Nacional de Arte Concreta

em São Paulo, que chega ao Rio no ano seguinte.

Publica poemas e textos no SDJB-

Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o

grande veículo que acolheu o concretismo em

suas páginas. Em 1967, Wlademir é um dos

fundadores do Poema Processo, ao lado de Moacy

Cirne, Álvaro e Neide Sá, entre outros.

Em 17.02.1957, uma versão gráfico-visual do

poema “A Ave” ocupa toda a terceira página do

SDJB. Em 23.02.1958 publica no mesmo SDJB

artigo intitulado “Da negação e positivação do

espaço”, ilustrado por um fragmento em letras

garrafais do poema “A Ave”.

Destaco alguns, vamos dizer, “aforismos” de

seu texto:

“A arquitetura antes de ser parede é o buraco

onde o homem mora. É a arte de organizar vazios”.

“O músculo da máquina é a exatidão, daí o ar

abstrato das artes modernas. É como num poema

concreto: é tal a sua movimentação interior

(em si) que ele passa a ser um poema sem contorno”.

“Um poema escrito é antes de tudo visual e não

sonoro – ele não é um instrumento musical.

Não se há de confundir lira nem bandolim com

um poema. A poesia é silenciosa”.

“A visão completa do poema faz com que ele

perca a lógica linear, o tal contorno que é o máximo

de continuidade de uma linha”.

“Poesia concreta é o aparecimento máximo dos

recursos naturais da palavra, porém não é a palavra

flexível e sim os seus movimentos de ligação.

Por isso, a poesia concreta não ser confundida

com trocadilho”.

44


Chicos 49

a ve vae

Na entrevista que concedeu em 1977 ao Totem,

realizada por Joaquim Branco, dizia Wlademir:

“Dentro da poesia concreta a poesia está ligada

ao sentido de conteúdo. É importante: não pode

existir o poético sem o conteúdo. O conteúdo é

o mais importante no sentido de poesia, natural

do poético. Agora, quando é o poema independe

do conteúdo, quer dizer, o grafismo ou a forma

de registro é mais importante do que o conteúdo”.

“O poema pode ser poético ou não, como um

quadro pode ser bonito ou não. O poema independe

do poético: a inscrição é mais importante

que o conteúdo. Então ele está muito mais próximo

do sentido de linguagem do que a poesia”.

“O que é importante dentro do poema passa a

ser então o processo do poema. Na poesia, o

que se lê é a estrutura, como foi estruturada a

poesia”.

“O que importa no poema é o processo que ele

encerra. Você vê o processo. Daí a possibilidade

da versão. Na poesia se faz tradução do poético.

No poema, não. Não se permite uma tradução

do poema, mas uma versão”.

Num de seus poemas nascidos ainda Cuiabá,

Wlademir registra: “muro gradeado de fuzilaria/

encostado ao limite/ – represa social.// O muro é

a tela para todo o poema”. Pound tinha razão:

os poetas são as antenas da raça. Esse velho

muro de Wlademir, num olhar de hoje, antecipador

de uma cena pseudo-paulista, é mais que

up-to-date: é o grafite que esplende na integridade

de sua arte.

Perdão Wlad, mesmo sabendo ser o poema visual

e não sonoro, não resiste a falar trechos de

“A Ave”, como na na abertura dessas minhas

palavras. Menos ainda a dizer o poema que cometo

a seguir, versão e fecho apressado de meu

texto e de seu próprio poema.

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Chicos 49

ave

vae

ave

ave voa

voar

é preciso

vae

é preciso

ir

vae vae

mirar

ir

ave wlad

vae

ave ave

ave wlademir

Ronaldo Werneck – Cataguases, março 2017

Wlademir Dias-Pino e Emerson Teixeira Cardoso

46


Chicos 49

Emerson Teixeira

Cardoso

Nasceu em Cataguases MG, é autor de Símiles

(2001) poesia, coautor de A casa da Rua

Alferes e outras crônicas (2006). Traduziu O

retorno do nativo de Thomas Herdy. Sempre

ativo em publicações literárias. Iniciou-se em

Estilete (1967), mimeografado, editor/fundador

do Delirium Tremens (1983) e Trem Azul (1997).

Um minuto na eternidade, de Gleison

Dornellas

Busco em ti

o que não encontro no mundo [...]

Com sua poesia amorosa Gleison exprime, como

não poderia deixar de ser a ternura de um apaixonado.

Um minuto na eternidade é livro de poesia

que se lê com este espírito (“não vá pensar

que se trata de um livro espiritualista” brinca o

autor) do que é inatingível. Do fugidio, do inalcançável,

enfim, do amor que o poeta tenta, se

não definir, evocá-lo.

Desta forma o leitor de sua poesia pode imaginá-la

como inspiração de uma musa que também

pode ter as tranças de uma moreninha ao

estilo de Manoel Antonio de Almeida ou de uma

outra com “os mais finos cabelos louros e os

mais pensativos olhos azuis, que o nosso clima

tão avaro delas, já produziu, de Machado.

Afinal seus belos versos podem nos fazer

pensar assim; pois que eles no comovem bem.

Ah, isso comovem!

Então vamos deixá-los aqui assim na integra,

com todo esse sabor que eles nos dão. Como

quem os diz baixinho como uma confissão, um

desabafo, do artista que é, com sua alma lírica e

terna e que assim nos fala de uma paixão eterna.

Mas vamos ao poema inteiro e a outros deste

Um minuto na Eternidade, de Gleison Dornellas

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Chicos 49

Encontro

Busco em ti,

o que não encontro no mundo...

pois meu mundo se encontra no teu universo.

Encontro em ti,

o que por mais que eu negue,

presença de mim;

pois pra me sentir tão bem assim,

somente tão certo da certeza do seu existir.

Busco nessa busca incessante, me achar,

encontrando pedaços meus no teu andar...

pois pouco posso passar a você

o desejo de muito te amar.

Encontro em ti,

palavras que perco ao tentar dizer...

pois, por muito te amar,

muito temo perder.

Embora tudo isso,

parto ao encontro onde nunca te encontro.

Na verdade, muito te busco,

pois, por me sentir tão fora de mi,

creio estar onde sempre me encontro...

dentro de ti.

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Chicos 49

Encontro

Busco em ti,

o que não encontro no mundo...

pois meu mundo se encontra no teu universo.

Encontro em ti,

o que por mais que eu negue,

presença de mim;

pois pra me sentir tão bem assim,

somente tão certo da certeza do seu existir.

Busco nessa busca incessante, me achar,

encontrando pedaços meus no teu andar...

pois pouco posso passar a você

o desejo de muito te amar.

Encontro em ti,

palavras que perco ao tentar dizer...

pois, por muito te amar,

muito temo perder.

Embora tudo isso,

parto ao encontro onde nunca te encontro.

Na verdade, muito te busco,

pois, por me sentir tão fora de mi,

creio estar onde sempre me encontro...

dentro de ti.

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Chicos 49

Elegia à minha infância

O dia amanhecia...

acordava que mal dormiu.

Os olhos abriam e se enchiam

da certeza de um raio que

anunciava mais um grande dia!

E nem o mundo sideral

continha a natureza dominante.

Um dia que se prolongava

e que nascia prematuro.

Não houve cárcere

nem crime hediondo;

nada era capaz de nos

furtar o afago do sol!

E os meus consortes,

não permitiam dissipar

esse ia que é único,

formidável, subnutrido.

Vai elegia...

alcance o senhor do tempo!

Digas a ele que se tornas

impossível tolerar;

e o enegrecer do dia

tem tornado nossas almas

cada dia mais sórdidas

50


Chicos 49

O dia amanhece crispado...

feito mesmo o crepúsculo.

Não há nada opaco em

miragens não obstantes,

que, trazem sempre

toda nossa putrefação.

Há o medo do tédio.

Ninguém esquece o hábito

enfadonho de escovar os

dentes minuciosamente:

os caninos e os molares.

E enfim, despertamos um

calor de cores estranhas

que nos incitam um desejo.

E o tempo, é claro,

é cada dia mais sombrio...

e há tempos eu não durmo.

51


Chicos 49

José Antonio Pereira

Nasceu em Cataguases MG, é coautor de A casa

da Rua Alferes e outras crônicas (2006) e autor de

Fantasias de Meia Pataca (2013).

Aquela que é muito justa

Pegava no batente lá na fábrica

velha todo dia às seis horas da manhã. Ajudante

geral na antiga indústria têxtil, interrompia

a conversa alegre com Mirtes e batia

o cartão, enquanto cordialmente cumprimentava

o porteiro do outro lado da entrada.

Bastaria um aceno; já que pouco se ouvia

com todo o ruído de ferros se esfregando

dos antigos teares que brotava do interior da

tecelagem. Vinha com Mirtes, tecelã, amiga

e sua vizinha lá da Vila Minalda. Moravam

num correio de casas, quase já na estrada

que ia dar na Colônia Major Vieira. Atravessavam

a ponte velha, persignavam-se por

Santa Rita na praça da padroeira. Esta caminhada,

recheada de fofocas, futricas e boas

risadas, só ocorria quando Mirtes estava na

semana do turno das seis horas.

Alguns minutos após a entrada, já estava no

pátio interno recebendo as ordens do chefe

em meio a barafunda de entulho acumulada

por uma obra na expedição. Ôcrides, chefe

autoritário e grosseiro, disparava; – Neguinha

você vai limpar aquele canto onde os

mecânicos estão concertando dois teares que

quebraram. É rápido, ligeiro e rasteiro, ouviu?

Entre dentes, responde, – Sim senhor!

– Depois, quero você de volta aqui para ajudar

dar um jeito neste entulho. Incomodava

aquele Neguinha carregado de preconceitos,

apesar de afável tinha que engolir em

seco, precisava do emprego como todos naquela

fábrica. – Cidade pequena cheia de

desempregados sem o que fazer é foda! Resmungava

entre dentes. E ainda tinha que escutar

a constante ameaça dos contramestres.

– Lá fora, a fila é grande! Mas tinha orgulho

de sua cor, já se metera em muitas brigas

por reagir a atitudes racistas pelas ruas da

cidade. Atravessa o pátio entra na tecelagem,

por onde passa escuta ruidosos e provocativos

fiufius. Ergue a cabeça altiva, sorri;

até gosta e segue seu rumo. Enquanto limpa

o piso e retira toda a sujeira acumulada pela

manutenção dos teares. Os mecânicos vão

chegando, entre provocações piadas e ironias

vão se encostando nas paredes e azucrinando

sua cabeça. – Olha a Miss Brasil da Vila Minalda.

Encontra-se com um jovem tecelão e

combina... – Amanhã é sábado. Tô de folga.

Te espero logo lá em casa, com um maço de

Continental e uma garrafa de Orientina. Segue

andando sorridente rumo ao pátio. .

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Chicos 49

E de lá vem Ôcrides. – Depois que você terminar

com o entulho, volta aqui e termina de

limpar esta sujeirada de graxa feita por aqueles

mecânicos porcos. Cambada de gente ordinária!

Trovejava pelo interior da tecelagem

o truculento chefe.

Atrás do cemitério existia um campinho, era

ali que se soltava e dava vazão à sua grande

paixão, o futebol. A garotada sem muito o

que fazer, numa cidade pobre em lazer, via

nos campos de peladas as únicas oportunidades

de diversão. Naquele campinho, surgiu

muito moleque bom de bola que foi se firmar

no Manu, Flamenguinho e Operário os

times mais populares da cidade. Seduzia os

miudinhos com balas e os maiores com cigarros

e uns trocados. Muitos se iniciaram

nos prazeres da carne por ali também.

Numa manhã de domingo ensolarada, dos

barrancos daquele campinho, Patachoca fazia

a primeira transmissão com microfone

sem fio que se tem notícia, mestre das gambiarras,

soltou no ar trechos da partida que

ali ocorria. E o time local tomou um vareio

de bola do América lá da Granjaria. Uma goleada

homérica.

A amiga Mirtes, que para esquecer as agruras

da tecelagem e os assédios do Ôcrides,

viera prestigiar. Não entendia muito de futebol,

mas não se continha de tanto rir ao ouvir

aquela voz suave e contida do dia a dia,

correndo e gritando na beira do campo. –

Vai Lorim! Vai Lorim! E entre dentes, –

Ruim de bola e bão de pistola. E soltando o

grito. – Vai filadaputa!

Termina o jogo, sorridente aproxima-se da

amiga Mirtes. – Justo. Muito justo, não jogamos

nada. Meu craque virou a noite na

esbórnia.

53


José Vecchi

Chicos 49

Nasceu em Cataguases (MG), mora atualmente

em Viçosa (MG)

Coautor de A casa da Rua Alferes e outras crônicas

(2006). Participou da coletânea de contos premiados

pela UFV em Um pouco de conto (2015)

E se Apolo falasse?

Saio de casa às sete e volto às cinco.

De segunda a sexta. Carteira assinada, salário

mensal, ar-condicionado e chefe. Marco o ponto

e trabalho sem queixas nem entusiasmo. Não

ambiciono o salário do meu colega e menos

ainda o lugar do meu superior. Ganho pouco,

mas isso não me preocupa, porque a outra atividade,

a informal, é bastante lucrativa. Esse outro

negócio é que me trouxe dinheiro e admiração

de muitos, e me levou Lara, o menino e alguns

amigos. Lara não queria ver nosso filho

crescer tão perto da promiscuidade, é o que dizia.

Ficamos eu e Apolo, o meu border collie,

ocupando a casa da frente e o quintal. A casa

dos fundos, pequena, mas limpa e bem arrumadinha,

é parte do negócio e está sempre pronta

para uso. É tudo muito simples: o cliente fala o

seu gosto e como quer o serviço; eu ligo para

uma que confere com o pedido, marco horário e

aguardo o término e o pagamento. Tem cliente

de todo tipo, os comuns e os com carimbo de

distinção. Gerente de banco, contador, gente do

comércio, policial, advogado, tem até um pastor

que vem sempre tarde da noite, uma vez por

semana, sem falta, é sagrado!

Minhas meninas variam de cor, peso, altura

e idade. Só coisa fina. E são profissionais,

não tem erro. Basta a gente combinar o horário,

o tempo e o preço.

Um dia um cliente ligou e tive um mau

pressentimento. Essas coisas que dão na gente,

uns arrepios na espinha, parece que tem um nó

aqui dentro. Mas é tudo cisma, isso me acontece

de vez em quando. Não dou confiança, deixo

pra lá. Chegou a menina, beirando os quinze,

um pitéu. Chegou e foi para a casa dos fundos.

Em seguida chegou o cliente. Apolo rosnou o

tempo todo. Chegou a avançar no sujeito, quase

estragando o negócio, mas o repreendi a tempo

e o coloquei no canil, de onde continuou rosnando,

com os pelos do dorso eriçados, pronto

pra uma briga. Estranhei, ele não era disso.

Cinco minutos depois, um grande susto: o

cara me chama e pede pra falar comigo. Sentou,

elogiou a casa, a menina e se apresentou. Policial.

Começou falando baixo e bem devagar, foi

falando de leis, de uso irregular da casa, de

multas e até de prisão. Foi aumentando a voz,

falando mais depressa, quase gaguejando. E pra

piorar, falou da menina. Era menor. Me colocou

na parede, o desgraçado. Eu olhava aquela cara

gorda e suarenta sem saber o que fazer. Lá do

canil vinha o uivo triste do Apolo, às vezes,

uma sequência de rosnados. O homem gordo

estava impaciente, começou a repetir os delitos,

tropeçando nas palavras. A minha cabeça tava

uma confusão, e ele repetindo, repetindo, até

que de repente abrandou a voz e falou bem baixinho

“vamos resolver isso numa boa; bom pra

mim e pra você”, e, enfim, voltou a falar sem

pressa, até parar e respirar fundo e aliviado. Eu

também respirei fundo e aliviado. Acertamos os

detalhes: valor, data e forma de pagamento em

cash. Ele se levantou, se despediu com um

aperto de mão, passou o lenço pelo rosto encharcado

e saiu a passos largos. Ao chegar no

portão, parou, colocou um boné na cabeça,

olhou atentamente para a rua, enfiou as mãos

nos bolsos do casaco e sumiu sob a sombra da

alameda.

54


Chicos 49

Antônio Jaime Soares

Aurora da minha vida

Nasceu em Cataguases - MG, lá na Chave.

Participou de um dos movimentos culturais mais

ativo dos anos 60 em Cataguases, o CAC.

Depois de morar um longo tempo no Rio de Janeiro,

onde entre outras foi redator de publicidade.

Retornou a Cataguases direto para a Vila.

Poeta e cronista publicou Pedra que não quebra

(crônicas - 2011)

área de extração de bauxita

Mais de trinta anos depois, voltei à Chave,

lugar em que nasci e, mais de cin­quenta, a

Santa Maria, onde moravam meus avós maternos.

Como previa, nenhuma casa do meu tempo, exceto

igrejas, ex-estações de trem, as fazendas do

Rochedo, da Glória e do Humaitá. E poucas casas

novas, propriedades de gente endinheirada, os

camponeses vivendo cada vez mais em cidades,

em busca de trabalho. No plano geral, tudo verde

e vazio, as lavouras ficaram no passado.

E fui além, até a serra da Neblina, onde Roberto,

o sobrinho que me levou, tem uma fazendinha

que comprou pra criar gado e também plantou

café, além de pinho, eucalipto e seringueira.

Desistiu, por dar mais prejuízo e amolação do que

resultados satis­fatórios. Como não precisa daquilo,

deixa lá, a natureza agradece. A casa, não vi,

coberta pelo arvoredo. Casa boa, segundo ele,

com serpentina no fogão a lenha, pra aquecer a

água do banho, e gerador de eletricidade.

Na verdade, um rancho fundo, bem pra lá

do fim do mundo. Ali também brota o ribeirão

Meia-Pataca, um reguinho que já foi bem caudaloso.

Roberto deu uma prova: o local onde havia

mina d’água, primeira afluente, bebedouro da boiada,

secou. No terreno ao lado, extração de bauxita,

pela Mineradora Rio Pemba Cagagases, como

disse o Casseta e Planeta, em boa hora interditada

pela prefeitura.

Clima ameno em dezembro, lá em riba, mil

metros acima do mar. Lugar de onças (só de ouvir

falar eu me arrepiava de medo, ao mesmo tempo,

tinha curiosidade de ver as bichas) que, ultimamente,

voltaram a ser vistas. Agora, só um lagarto

atravessando a estrada. Gostei do dito, assim

como de uma cascata jorrando do alto de uma

pedreira, feito na serra de Petrópolis. Estrada esburacada

e perigosa, serpenteando por uma piram

­beira, deu grilo. Na volta, quando pegamos o

asfalto, falei que estava me sentindo num avião,

em céu de brigadeiro.

Na estrada Glória-Santa Maria, que trilhei muitas

vezes, quedas d’água e gente se refrescando (até

um batizado da Assembleia de Deus, que nos antigamentes

rolava no ainda pouco poluído rio

Pomba), deu inveja. Seria minha praia, fosse mais

perto. Cachoeira é uma delícia e, no ‘poço dos

caranguejos’, meu irmão Plínio (morto antes de

mim, que merda!) mergulhou e perdeu um canivete

que lhe escapou da algibeira, pelo qual verteu

um rio de lágrimas. Sofrimento infantil é passageiro,

no caso, durou o intervalo entre um mergulho

e outro.

Adoro mato, desde que não tenha que viver nele,

idem, montanhas, estas, o mais longe possível:

essa morraiada daqui me inco­moda, oprime.

“Imensa e mansa planície”, cantou Sérgio Ricardo.

Num lugar assim, sim, pôr do sol interminável,

que só vi em Brasília, Pantanal, sul do Brasil

e da Bahia, Castela e Paris. Lembro que Zélia Sereno,

quando foi ao Paraná antes de ir de vez,

falou que da casa em que estava, no interior do

estado, à noite dava pra ver luzes de sete cidades.

Eta eu lá, sô!

Publicado originalmente na Sapeca

https://www.yumpu.com/pt/document/view/58632144/sapeca-11

55


Chicos 49

Luiz Ruffato

Nasceu em Cataguases MG, reside em

São Paulo SP. Entre tantas obras de sua autoria

destacam-se: Eles eram muitos cavalos,

de 2001, ganhou o Troféu APCA oferecido

pela Associação Paulista de Críticos de Arte e

o Prêmio Machado de Assis da Fundação

Biblioteca Nacional. Esse livro o tornou

um escritor reconhecido no país. Em 2011

concluiu o projeto Inferno Provisório, com a

publicação do romance Domingos Sem Deus,

iniciado com Mamma, son tanto Felice em

2005, composto por cinco livros sobre o operariado

brasileiro.

Lendo os Clássicos

28 Contos (1946-1978)

John Cheever (1912-1982) - Estados Unidos

Tradução: Jorio Dauster, Daniel Galera

São Paulo: Cia das Letras,2010, 359 páginas

56


Chicos 49

Os 28 contos que formam essa coletânea

reúnem uma ótima amostra desse excelente

escritor. Representando basicamente o universo

de classe média dos subúrbios de Nova York,

o autor desvenda, com profunda compreensão,

as agruras das famílias formadas por jovens e

empreendedores casais correndo atrás de dinheiro

e vivendo de aparências. Por trás das paredes

das casas confortáveis, do rosto das crianças

saudáveis, dos olhares da vizinhança acolhedora,

esconde-se a pressão dos que perseguem a realização

do sonho norte-americano. Infelizes, solitários,

comuns - para não dizer vulgares -, os

personagens afundam em vidas vazias regadas a

álcool e compromissos sociais. Em geral, os escritores

vão perdendo o ímpeto ao longo de sua

trajetória - mas não no caso de Cheever.

A excepcional qualidade alcançada, por exemplo,

com as narrativas do início da carreira, como

"O enorme rádio", de 1947, ou "Adeus,

meu irmão", de 1951, continuará a ser encontrada

em "O nadador", de 1964, ou "O mundo as

maçãs", de 1973. Essa é a tônica de todo o livro,

por isso, difícil destacar um ou outro título,

todos os textos são realmente muito bons.

Avaliação: MUITO BOM

(Março, 2016)

57


Chicos 49

José Carlos de

Vasconcelos

Nasceu em Freamunde, Paços de Ferreira Portugal.

É advogado, jornalista e escritor.

Licenciado em Direito, pela Faculdade de Direito

da Universidade de Coimbra, pertence a

uma geração de estudantes dessa universidade

onde se inserem figuras como Manuel Alegre,

Fernando Assis Pacheco ou Silva Marques.

Foi também colaborador da revista

Vértice. Pertence à direção editorial da revista

Visão e é diretor do Jornal de Letras.

O Prémio Camões e ‘um copo de cólera’...

A entrega do Prêmio Camões, de 2016, a

Raduan Nassar, em 17 de fevereiro, em São Paulo,

foi a mais falada de sempre. E não ocorreu,

como muitas vezes antes, com a presença dos

Presidentes do Brasil e de Portugal, mas num ato

relativamente discreto, estando o Brasil representado

pelo ministro da Cultura e Portugal pelo

nosso embaixador em Brasília. O que aconteceu

foi que o autor de Lavoura arcaica e Um copo de

cólera, as suas duas obras fundamentais, na sua

curta fala começou por lembrar que esteve entre

nós em 1976, “fascinado pelo país, resplandecente

desde a Revolução dos Cravos”, e por

acentuar que sempre foi “carinhosamente acolhido”

em Portugal, agradecendo ao embaixador.

Logo acrescentando que “infelizmente nada é

tão azul no nosso Brasil”.

A partir daí Raduan fez um ataque cerrado

aos “tempos sombrios, muito sombrios” que se

vivem no país, citando casos, pessoas. Instituições,

incluindo um novo juiz agora indicado para

o Supremo Tribunal Federal e o próprio STF.

Porque, segundo ele, o STF “propiciou a reversão

da democracia”, ao não impedir o impeachment

da Presidente Dilma Rousseff, “íntegra e

eleita pelo voto popular”. E concluiu: “O golpe

estava consumado! Não há como ficar calado.”

O escritor foi muito aplaudido e o ministro

respondeu, defendendo a legitimidade do Governo

e atacando Raduan pelo que dissera:

“desrespeitou a todos”. Segundo Roberto Freire,

o Prêmio ter sido entregue a um “opositor” mostrava

“o momento democrático” vivido no País –

e se o escritor considerava o Governo

“ilegítimo” devia ter recusado o Prémio que ele,

Governo, lhe atribuíra. Houve sururu, vaias, gritos

de “fora Temer”, com a consequente repercussão

nos media.

Não vou, nem seria possível, entrar aqui na

análise do “caso”. Assim sublinho apenas duas

coisas:

58


Chicos 49

1 - O ministro da Cultura do Brasil omitiu/

alterou factos e usou ‘argumentos’ inadmissíveis

em alguém com suas responsabilidades. Porque:

a) O Prémio Camões é de Estados e não de governos;

b) É atribuído por júris independentes,

durante anos nem escolhidos pelos governos (no

caso do Brasil foram-no pela Academia Brasileira

de Letras e pela Fundação da Biblioteca Nacional);

c) Não é um prémio só do Brasil, mas

também de Portugal, nas últimas edições tendo

dois africanos no júri de seis elementos; d) E,

embora pelo atrás exposto isto seja despiciendo,

quando foi dado a Raduan o governo brasileiro

ainda era o de Dilma, e não o atual. Em suma

Roberto Freire não acertou uma...

O que se passou mostra a situação muito difícil e

de grande confronto que hoje se vive no Brasil.

Pela enorme, terrível, corrupção generalizada

entre a classe política, que a operação Lava Jato

está a investigar e combater. E pelo facto de

muitos brasileiros, incluindo uma substancial

parte de setores intelectuais, literários e artísticos,

considerar o impeachment da Presidente

Dilma, e sua substituição por Michel Temer, foi

uma espécie de “golpe de estado constitucional”.

Sem me pronunciar agora a tal respeito,

sublinho que a atitude de Raduan Nassar, 81

anos, foi tanto mais significativa quanto é certo

que sempre teve uma vida e foi uma figura discreta,

fora dos meios políticos e até literários,

desde há muito se dedicando à produção rural. E

noto que na sua excelente intervenção nas Correntes

d’Escritas, na Póvoa de Varzim, a semana

passada, Ignácio de Loyola Brandão, embora

sem referências a nomes, e numa formulação

mais literária, também deu eloquente testemunho

sobre tal situação e confronto.

Publicado na edição 1211 do JL

Jornal de Letras, Artes e Ideias

Portugal

59


Chicos 49

José Antonio Pereira

Nasceu em Cataguases MG, é coautor de A casa

da Rua Alferes e outras crônicas (2006) e autor de

Fantasias de Meia Pataca (2013).

Paulicéia ou a Chicago desvairada

Devo muita coisa a muita gente em São Paulo.

Aportei na cidade em 1978 e por lá vivi muitos

anos de minha vida. Tive, como todos, momentos

bons e momentos ruins. Conheci e convivi

com pessoas de vários quadrantes, fiz belas

amizades que perduram até hoje. Aprendi, desaprendi;

ri, chorei; namorei, casei. Com amigos

fiquei “sitiado” na Catedral da Sé em movimentos

populares contra a ditadura, corri da cavalaria

em campanhas pela Anistia, para paradoxalmente

ouvir hoje que quem matou Vlado Herzog

se acha anistiado. Conheci o cantor Zé Geraldo,

cantando na carroceria de um caminhão, na

campanha das diretas-já lá no Alto do Mandaqui.

Gostava de “viajar” por suas ilhas. Sim, ilhas.

Ilhas formadas por inúmeras comunidades. Gente

de todas as partes com visões, pensamentos,

culturas e sabores fantásticos em sua diversidade.

Mergulhar em bairros onde predominavam

italianos, japoneses, espanhóis, árabes, com seus

falares, suas músicas e suas comidas; gaúchos,

potiguares... com os sotaques de todos os cantos

deste país imenso. Ouvir tarantelas em festas no

Bixiga, forró em Santo Amaro, cantos gregorianos

no São Bento, se sentir zen num templo budista

na Liberdade. Comer um churro de madrugada

na Mooca tomar uma sopa de cebola no

Ceasa, saborear uma bureca no Bom Retiro.

60


Chicos 49

Na rua Major Diogo no Bixiga, entrar no bar do

Espanhol, com o Sô Neves para uma feijoada e

dar de cara com o Adoniran Barbosa numa das

mesas. Foi uma das muitas surpresas daquela

rua. Rir do companheiro de trabalho ao achar

uma coxa de frango no meio da feijoada e com

o bom humor que lhe era peculiar. – Também, a

gente vai se meter a comer feijoada feita por

espanhol! Encarar uma Tripas do Porto no Cunha,

português falastrão de outro bar, que nos

passava a perna em qualquer vacilo. Na mesma

rua, enquanto esperava a hora do TBC abrir, matar

a fome no libanês Kalil, que como poucos

sabia fazer uma bela e farta omelete.

Sempre acreditei que este “arquipélago” irmanados

por estas ilhas - porções alegres, humanistas

que se espraiavam por toda cidade - tornaria sua

cara e sua marca. Mas não aconteceu.

Hoje, de longe, olhando fotos do prefeito andando

pela Cracolândia, no lugar da atitude de vários

velhos cristão-democratas paulistas que em

seus discursos pregavam a política do bem estar

comum, vejo um arrogante pisando sobre frágeis

e degradados seres humanos. Na prática de uma

doutrina que não acolhe nem aos seus. Com

uma troupe de acólitos, todos de negro, percorrem

suas arrogâncias pelo caos de objetos espalhados

pelas ruas. Como autênticos higienistas,

parecem Globocnik implementando uma versão

bandeirante do plano de eliminação dos que vivem

por ali, uma versão cabocla da Operação

Reinhard.

E nesta espiral desumanizadora da cidade, vai

predominando na cidade uma visão desagregadora,

impregnada de preconceitos, relações humanas

partidas pela violência e a intolerância,

onde o individualismo preconizado pela meritocracia,

transforma o outro num animal a ser abatido.

Isto me entristece, aprendi a gostar daquela

cidade. O paulistano e sua cidade não merecem

isto.

Dizem que Faulkner, numa manhã de garoa fria

em São Paulo, curtindo uma ressaca no saguão

de um hotel perguntou: O que estou fazendo em

Chicago?

Pois é Faulkner a cidade está é gótica, taciturna

e violenta. Está mais é para Gotham City. Cenário

perfeito para este Robin de barranca do Tamanduateí

produzir seus factoides.

61


Chicos 49

Krishnamurti

Góes dos Anjos

Escritor, pesquisador e crítico literário, possui

textos publicados em revistas literárias na Argentina,

Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México

e Espanha. É autor, dentre outros, de Gato

de telhado, Doze contos e meio poema e

Um novo século. Reside em Salvador (BA).

Uma colcha de retalhos da aventura humana...

“Diolindas”, romance escrito a quatro mãos por

Eltânia André e Ronaldo Cagiano traz, grosso

modo e resumidamente, a história de uma simples

costureira do interior do Brasil, que após sua

morte tem a vida revisitada por uma de suas filhas.

Os autores mostram-se exímios na arte de

entrelaçar pontas, de desenvolver ficcionalmente

o que no princípio fica insinuado. Propõem o

mistério de uma situação invulgar e, ao mesmo

tempo, e com o desenrolar do enredo vão expondo

os mistérios das personalidades envolvidas. Aí

o pólo irradiador da trama.

Eltânia André e Ronaldo Cagiano

“Quando os primeiros sinais de uma cegueira intermitente

me trouxeram pavor e incerteza, criando

instabilidade e insegurança, comprometendo a

minha liberdade, comecei a me preparar para algo

tenebroso. A sensação de encruzilhada era

real e tormentosa. Era chegada a hora de um

acerto de contas, voltar-me à vida que havia deixado

para trás há alguns anos.” P. 19.

Este o conflito latente de Bel a protagonista (filha

da costureira Diolinda), que refletirá ou interpretará

a matéria-prima, que é a personagem Diolinda.

A filha uma mulher que se emancipou, fez

carreira como estilista em Paris. A mãe uma costureira

simples, que viveu enclausurada na estrutura

patriarcal brasileira dos anos cinqüenta do

século vinte, quando solteira, engravida. Doces

ternuras violentadas pelo meio hostil.

62


Chicos 48

Histórias que se entrelaçam com outras tantas e

que vão constituir uma imensa colcha de retalhos

da aventura humana. Melhora e amplia ainda

mais as perspectivas de compreensão de um tal

entranhamento de histórias, o cenário sóciopolítico

brasileiro e mundial do período em que a

história se desenvolve.

Mais ou menos de 1935 a 2008. Salientamos pela

percuciência da análise política, dois capítulos:

“Fibra de vidro” a comentar o governo de Fernando

Collor e a trajetória do PT e Lula no capítulo

“Lã de escória”. Dois momentos grotescos

da história brasileira recente. Vale muito a pena

ler, refletir, e não esquecer, antes de sairmos matando-nos

uns aos outros, como estamos prestes

a fazer...

Da morte para a vida, voltemos ao livro. Até

porque o que o que verdadeiramente importa

não é a morte dos homens mais sim, como viveram.

Lembramos o óbvio. Deolinda está morta.

Dentro do que acreditamos ou fingimos acreditar,

pela maneira como vivemos, Deolinda pôsse

afinal a salvo de tudo. Sacudiu o fardo de

seus ombros.

A obra flagra também o confronto de gerações

num mundo que começa a erigir novos valores

em detrimento de outro mundo que o julga com

preconceito, sobretudo o de natureza sexual.

Mas aí está: permanece para a humanidade a

insuficiência de significados alicerçados em convicções

consoladoras. Perdura no caso específico

da protagonista Bel (sintomático portanto), o

sentimento da inutilidade da existência. Substituímos

o que era ruim, pelo nada absoluto,

quem sabe?

“Uma sensação desconfortável diante do escuro

que atormentava minha alma – a abundância de

pensamentos, eles fervilhavam como bolhas no

pântano. Sobre mim a noite difusa, imagens sortunas

que me aniquilavam, enquanto eu encarava

o imenso e fúnebre pesadelo da perda. Não

conseguia entender o ciclo da vida. Era essa insegurança,

esse desatino, esse medo instaurado

compulsoriamente em meus sentidos. Conjeturo

sobre o mistério da existência e não encontro

respostas. A verdade fragiliza a esperança. Ela

vem de uma única vez e não tenho forças para

enfrentá-la. Há uma coleção de culpas, e na

guerra contra a finitude todos os argumentos

quedam impotentes, enquanto só podia contemplar

de dentro a liberdade que plasmava do outro

lado. E depois, o imenso vazio de tudo, a

fulminante certeza de não pertencer a lugar nenhum”

p. 37.

63


Chicos 49

Ponto alto do livro é o trecho que, dentro de uma

perspectiva que mescla a sofrida existência de

Diolinda com a interpretação feita por Bel. Desse

mesmo sofrimento, emerge uma visada sobre o

efeito do tempo e da memória sobre o ser: “Cada

lugar é a denúncia silenciosa envenenando o silêncio,

e torna-se o espólio das perplexidades. O

campo em torno é colônia de lágrimas, territórios

do inexistente, em que o passado, sem modéstia,

não sossega, ruína sem igual, consórcio com o

inevitável, e ele nos rói como cupim: monte de

tijolos, casas destelhadas, o gradil das janelas, o

batente das portas, a madeira resistente das cumeeiras,

os mourões das cercas. Tudo se resume

em ausência e fracasso, provavelmente foram servir

de combustível para os fogões a lenha que

ainda havia nas casas, e sobrevivem ao canto

avassalador da modernidade”. P.129

Em meio ao sofrimento de tantas outras perdas

somadas à da mãe, a protagonista vive um mundo

que não é o seu, um mundo que não a satisfaz:

“... porque a velocidade da era moderna,

com fetiches, embalada pelo consumismo, nos

converte em números e cifras. Prefiro a paz do

interior, saber o nome das pessoas”. P.161.

Até que surgem lampejos de reação. E afirmamos

sem medo de errar; ela sempre virá para quem

assim o deseje: “Bel fez-se à sombra do que imaginava

querer Diolinda, mas sendo a outra, viu-se

também esquartejada, aos pedaços espalhados

por um caminho postiço, e agora que percebia a

sua própria ausência, como seriam as manhãs?

P.159, e: “Creio que a consciência de nossa finitude,

por algum tempo despertou-me para a verdadeira

dimensão de nosso estar-no-mundo, de

modo a torná-lo menos vazio e mais produtivo”.

P.152.

Diolinda, Pedro, Ricardo, Tio Chico, Bel, Lurdinha,

Vânia são as personagens/retalhos mais evidentes

da colcha. A vida os costurou, inexoravelmente.

Como sói acontecer com todos os que nos

atravessam os caminhos da existência. Mas há

também a identificação de outro fio que é tecido

pela vida e que nos une num entrelaçamento supremo,

magistralmente sugerido pelos autores

(grande mérito do livro): os fios da existência nos

entrelaçam a todos indistintamente num só tecido,

esta a “súplica que vem de longe, de muito

longe, do íntimo das coisas, do fundo das eras”...

Nelson de Oliveira no Prefácio á obra salienta

que os autores conseguiram o raro feito de, a

quatro mãos, escrever uma obra “com sintonia e

equilíbrio, harmonizando forma e conteúdo”. Na

orelha da obra se afirma sobre o livro: “Vivências

que dizem respeito à nossa própria condição, às

vicissitudes do quotidiano e aquela ancestral luta

em que cada ser, feito Sísifo redivivo em intimorata

repetição, busca vencer a poeira do tempo,

comunicar suas dores & delícias e enganar a morte”.

E Albert Camus, em seu ensaio “O mito de Sisifo”

introduz sua filosofia do absurdo: o do homem

em busca de sentido, unidade e clareza no

rosto de um mundo ininteligível desprovido de

Deus e eternidade (?). Será que a realização do

absurdo exige o suicídio? Camus responde: "Não.

Exige revolta". Revolta entendida, acrescentamos

nós, como luta. Por duas razões bem simples: A

primeira é uma constatação, por mais que a neguem:

“Há mais força na erva que cresce em cima

de uma sepultura do que toda verdade”. E a

segunda; uma exigência da própria vida. O

“mundo está aí, um permanente desafio a exigir

firmeza e esperança”.

Livro: “Diolindas” – Romance. De Eltânia André

e Ronaldo Cagiano. Editora Penalux, Guar

a t i n g u e t á - SP- 2 0 1 7 , 1 9 0 p .

ISBN 978-85-5833-144-9

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Chicos 49

Ronaldo Cagiano

Escritor cataguasense, autor, dentre outros,

de Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília

de Produção Literária 2001), O sol nas

feridas (Poesia, Finalista do Prêmio Portugal

Telecom 2012) e Eles não moram mais aqui

(Contos, Prêmio Jabuti 2016), vive atualmente

em Portugal.

Histórias testemunham metamorfoses de um país

Dos quinze contos que compõem o volume

Miss Tattoo – Uma quase novela (Ed. Jovens

Escribas, RN, 148 pgs), de Luiz Roberto

Guedes, poeta, ficcionista e letrista de músicas

(as quais assina como Paulo Flexa), emergem

várias leituras, que encampam miradas sociais,

políticas e éticas sobre uma época. Porém todas

culminam numa visão significativa, que diz respeito

ao espelho ou testemunho dos fatos, diatribes

e idiossincrasias de toda uma geração, justamente

aquela que se formou durante os anos de

efervescência dos movimentos de resistência e

liberação (políticos, musicais e sexuais) e o período

nefasto da ditadura militar, em que o chumbo

e os coturnos levaram-nos à derrocada de

uma descida anticivilizatória e o homem, sobretudo

no caldeirão dos grandes centros urbanos,

teve seu protagonismo em suas ações e re(l)

ações, com suas histórias especulares de um atípico

brazilian way of life.

Os personagens de Luiz Roberto Guedes

transitam por terrenos em que o desejo de

enfrentamento e dissolução (ou escalonamento)

de valores e costumes são transmutados em atmosferas

e ambientes em que há sempre um tênue

limite entre a utopia e a desilusão. São existências

amiudadas pelas circunstâncias de ordem

política ou moral, desmantelando esquemas nitidamente

burgueses para chacoalhar com a ordem

moral (pre)dominante e impor um ritmo em

que a vida ordinária e sem cor é o que sobra

nesse “mondo cane”, quando é necessário enfrentar,

com unhas e dentes, o caos e a insolvência

em que nos lançaram, para não ser tragado

pela ferocidade do “status quo”. Esses personagens

vivem na corda bamba, num beco-semsaídas;

experimentando suas sinucas de bico ou

na lâmina voraz das circunstâncias.

O autor é um exímio estilista no que

concerne ao aspecto formal, manuseando com

destreza, e sem dourar a pílula os aspectos e peculiaridades

dessa pátria escura e atormentada

que já está tão difusa na memória de muitos,

mas é parte da história pessoal dos que a viveram,

como o autor. Com linguagem afi(n)ada,

em que humor e crueldade às vezes se amparam

simbioticamente, percorre esses universos para

retratar situações tão adversas e apartadoras desse

homem em movimento, que se digladia com

seu destino e seus tormentos.

65


Chicos 49

Guedes alcança uma projeção poética ao escrever

sobre a realidade desértica de desses protagonistas

que muito nos lembram tanto os habitantes

solitários e insularizados na vida encontradiços

nos contos de João Antonio, como aqueles

desbaratados de Nelson Rodrigues, e, ainda, os

inquietos metafísicos de Samuel Rawet. E é com

extrema contenção formal que explicita a ausência

de melodia ou harmonia nessas trajetórias

humanas. Mas é na palavra que os retrata que

carrega, com sua secura e realidade, uma carga

semântica e uma força metafórica, mais pelo

rigor com que o autor reconstrói esses mundos

do que por um uso reiterado de adjetivações.

Estamos diante de um escritor cuja construção

literária, na poesia ou na prosa (juvenil e adulta)

não se perde em malabarismos, firulas ou contorcionismos,

pois sua habilidade é escreviver

sobre o que é realmente essencial e profundo,

sem necessidade de estripulias verbais ou vernizes

de linguagem, no mesmo diapasão de Tchecov

ou Graciliano Ramos, autores modelares para

qualquer candidato a (bom) escritor, em cujas

obras nada falta ou sobra e que usam meticulosamente

a palavra na sua função de dizer e comunicar,

jamais para enfeitar.

Na prosa de L. R. Guedes o substantivo se impõe

com toda sua plasticidade, cada frase, cada

parágrafo, cada página é um retrato sem retoques

do que o autor recolhe no dia a dia e irrompe

de sua experiência de anos transitando

pelos becos, vielas, ruas, avenidas, periferias –

uma espécie de aguda aferição estética – em clave

de alta literatura sobre o mundo e o submundo

que nos cerca. Toda essa realidade se impõe

como flagrantes crônicas cinematográficas (às

vezes temos a sensação de que entramos não

numa história, mas nos imbricamos num road

movie, com essas passagens e paisagens refletidas

no retrovisor da memória) com sua própria

bagagem existencial, notando-se, claramente,

que o autor recuperou (ou resgatou do inconsciente

pessoal ou coletivo) os referenciais e totens,

as mitologias e arquétipos de uma geração que

sofreu suas transições e metamorfoses, nada

passando despercebido ao seu olhar cirúrgico,

da música ao cinema, da cultura de massas e

dos ícones pop aos desbundes, desatinos e leitmotiv

da rapaziada (sexo, álcool, droga & rock

and rol).

Na construção desses contos, o autor cria tipos

paradigmáticos, como esse Josué Peregrino, funcionando

como uma espécie de personagem-rio,

caudatário de muitas histórias e sensações, de

conflitos familiares a embates com a lei, de tensões

com o tempo de obscurantismo político à

busca do prazer e do erotismo. Migrando, ora de

uma história para outra; ou, de um livro para

outro, daí seu nome-metáfora, recurso que o

aproxima de um alterego poderoso a reverberar

a voz de um escritor que sabe contar sobre seu

tempo sem engodo ou mistificação, porque sintonizado

com todas as urgências, dilemas, tormentas

e inquietações que tantos viveram.

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Chicos 49

Sem dúvida um autor que “ transforma num

retrato em que nossa humanidade se reconhece”,

como afirma Sérgio Fantini na apresentação

da obra

Por isso, Luiz Roberto Guedes está a merecer

um lugar de destaque no cenário da literatura

contemporânea brasileira, numa época em que

mediocridades são incensadas sem pudor e autores

de elevado nível estético hibernam nas gavetas

ou são criminosamente negligenciados pela

crítica rendida e a mídia vendida nesse mercado

editorial massacrante e avassalador, com suas

hegemonias e monopólios vergonhosos.

Excertos:

Deixou-se levara para fora da praia, e enveredaram

juntos por um arvoredo cerrado, trotando

na escuridão, em meio à cantoria de grilos, sapos

e pererecas. Então ele ouviu música em

crescendo, um tango estilizado de Piazzolla, e

avistou com alívio a grande casa iluminada, com

portas e janelas abertas. O lamento do bandoneón

vinha do galpão nos fundos do terreno. O

bicho largou o braço e latiu.

(...)

O professor conheceu a garota no quilômetro

330 da via Anhanguera, quando voltava de um

fim de semana chatíssimo no interior. A chuva

de vento chacoalhava tanto seu carrinho popular,

que ele resolveu parar num posto de gasolina.

Tomando seu café espresso, observou-a pela

vidraça. Imóvel, de camiseta e saia jeans, ela

suportava o frio, os braços cruzados no peito,

olhar fixo no céu fechado, a boca entreaberta. A

estátua do estupor. Dezoito anos, no máximo.

Leia um trecho do livro:

Miss Tattoo estava em dia com os modelitos:

um piercing na narina esquerda e um pino prateado

trespassado no canto do supercílio direito –

hum, aquilo devia ter doído paca. O vestido preto,

justo e curto, dava pinta de uma falsa magra,

com um belo par de peitos e pernocas de ginasta

olímpica, apertadas numa meia arrastão. Enquanto

ela arranhava o refrão de um rock da dupla,

o tal Van Zyl tocava uma air guitar, rosnava

um riff, sacudia o corpo e praticamente tilintava,

de tanta argolinha pendurada na fuça. Mucho

loco, bicho. Acho que senti, nesse primeiro

contato, tanto repulsa quanto atração. Miss Tattoo

& Mr. Monster pareciam ser o que havia de

mais moderno na cena ‘rock horror show’.

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Chicos 49

Clips

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Chicos 49

poesia /

poema

Rogério Camara

e Priscilla Martins

Um dos seis poetas revelados

na 1ª Exposição Nacional de Arte

Concreta de 1956, Wlademir Dias-

Pino é responsável por uma das

obras mais singulares da poesia

Este é o novo livro de poemas Observatório do caos, de Ronaldo Cagiano,

está disponível pelo site ou e-mail da editora abaixo.

www.editorapatua.com.br

editorapatua@gmail.com

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Chicos 49

Os amigos, conterrâneos e colaboradores da

Chicos, Ronaldo Cagiano e Eltânia André, se

mandaram para Portugal. Estabelecidos, diuturnamente

Ronaldo nos contempla com impressões

e imagens do país de nossos avós .

Compartilhamos com vocês algumas imagens

das andanças dos amigos.

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