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Revista Dr. Plinio 202

Janeiro de 2015

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Publicação Mensal Ano XVIII - Nº 202 Janeiro de 2015

Fidelidade à estrela


O Anjo das Escolas

N

os últimos dias de sua vida, estando hospedado

em uma Cartuxa, São Tomás de

Aquino fez um comentário ao “Cântico dos Cânticos”,

Livro da Bíblia que canta o amor divino.

Ele, que era o Anjo das Escolas, morreu ensinando

a perfeição do amor de Deus a esses religiosos,

almas puríssimas, todas feitas para o amor de

Deus, cuja função não é tanto de meditar sobre a

ciência quanto sobre a caridade, suscitadas para

se separarem de tudo no mundo e viverem apenas

pensando no divino amor.

Que bela cena: as últimas palavras de São Tomás

de Aquino engrandecendo o amor de Deus, e aqueles

monges reverentes, bebendo aquelas palavras como

se cada um sorvesse uma gota descida do Céu!

Assim se fechou, no extremo da contemplação e

do isolamento de todas as coisas do mundo, a vida

desse grande Doutor da Igreja.

(Extraído de conferência de 6/3/1967)

Dornicke (CC 3.0)

São Tomás de Aquino

Museu de Arte de Lima, Peru

2


Sumário

Publicação Mensal Ano XVIII - Nº 202 Janeiro de 2015

Ano XVIII - Nº 202 Janeiro de 2015

Fidelidade à estrela

Na capa, “A visão

dos Magos”

Museu Estadual de

Berlim, Alemanha

Foto: Reprodução

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Editorial

4 Fidelidade à estrela

Dona Lucilia

6 Bondade, doçura e

respeito aveludados

Sagrado Coração de Jesus

10 Grandeza infinita

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Santo Egídio, 418

02461-010 S. Paulo - SP

Tel: (11) 2236-1027

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Pavagraf Editora Gráfica Ltda.

Rua Barão do Serro Largo, 296

03335-000 S. Paulo - SP

Tel: (11) 2606-2409

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

14 Inocência e senso do combate

De Maria nunquam satis

18 Mãe de Deus e dos homens

A sociedade analisada por Dr. Plinio

22 Teoria do progresso - I

Calendário dos Santos

26 Santos de Janeiro

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 122,00

Colaborador .......... R$ 170,00

Propulsor ............. R$ 395,00

Grande Propulsor ...... R$ 620,00

Exemplar avulso ....... R$ 17,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 2236-1027

Hagiografia

28 Santa Genoveva

Apóstolo do pulchrum

32 O belo e o prático - I

Última página

36 Ternura da Mãe de Deus

3


Editorial

Fidelidade à estrela

Segundo uma bela tradição, baseada na exegese de algumas passagens da Escritura Sagrada 1 ,

os Magos guiados pela estrela até Belém eram reis, possivelmente provenientes de pequenos

e longínquos reinos.

Para Dr. Plinio 2 , os três Reis Magos tinham como missão predispor seus respectivos reinos para a

aceitação da Boa-Nova levada pelos Apóstolos ou por seus sucessores, cuja pregação encontraria receptividade

da parte da população previamente preparada por seus monarcas.

Para isso — dizia Dr. Plinio —, o Menino-Deus deve ter tornado presente aos Reis Magos, por

meio de graças místicas, algo de tudo quanto a Igreja e a Cristandade trariam de belo para a humanidade

no decorrer dos séculos, com a promessa de que nas regiões por eles governadas isso se realizaria,

se aqueles povos fossem fiéis.

Baltasar, Gaspar e Melchior eram, por certo, almas escolhidas e muito propensas ao maravilhoso,

a ponto de se deixarem conduzir por uma estrela. Por isso suas pessoas aparecem nimbadas de uma

atmosfera extraordinária, irradiando esse maravilhoso para o qual devem ter preparado seus pequenos

reinos.

Sem dúvida, os Reis Magos foram objeto das orações de Nossa Senhora e de São José junto ao Divino

Infante para o cumprimento de sua bela missão que, na opinião de Dr. Plinio 3 , ultrapassou os limites

do tempo e do espaço, estendendo-se a toda a História.

Procedentes de diversas raças, prefiguravam eles todos os povos que viriam adorar o Salvador.

Por essa razão, os episódios históricos por eles vividos — a visão da estrela no Oriente; o encontro

com Herodes; a insegurança deste rei iníquo e, com ele, de toda a cidade de Jerusalém; a alegria ao

reavistarem a estrela; a adoração feita ao Menino, junto a Maria, sua Mãe; a oferenda de ouro, incenso

e mirra; o aviso recebido, em sonho, para voltarem por outro caminho 4 — estavam envoltos

em aspectos simbólicos que indicavam terem os Magos recebido de Deus uma autêntica e misteriosa

delegação: representar as nações que, no futuro, se abririam à influência da Santa Igreja Católica.

Delegação semelhante encontramos junto à Cruz, onde Nossa Senhora, São João e Santa Maria

Madalena representavam todos os católicos que ao longo da História permaneceriam fiéis aos pés do

Crucificado.

Essa ideia deve dar muito alento àqueles que, nas horas difíceis da Igreja ou da Civilização Cristã,

padecem incompreensões, humilhações, perseguições, e que, embora pouco numerosos, procuram

representar em seus respectivos ambientes, a pureza, a ortodoxia, a intrepidez, o espírito de iniciativa,

no momento em que tudo pareceria falar em recuo, em transigência, em fuga. Esses, por sua fidelidade,

além de alegrar o Menino Jesus em sua pobre manjedoura ou consolar o Redentor em seus

padecimentos no alto da Cruz, representam de algum modo os católicos fiéis do passado e os que o

serão no futuro.

Há, portanto, uma espécie de reversibilidade por cima do tempo e do espaço, por onde essas várias

ações se fundem numa cena única e grandiosa.

4


Adoração dos Magos

Galleria degli Uffizi,

Florença, Itália

Peçamos aos Reis Magos que orem por nós para que tenhamos uma das muitas formas de coragem

que poderão nos ser pedidas: a de estarmos sós como eles estavam no mundo pagão, à espera

da estrela, isto é, da hora de Deus para cumprir com toda retidão, constância e pontualidade a vontade

divina.

Para eles, a hora consoladora foi aquela em que contemplaram o Divino Infante nos braços de

Maria Santíssima.

Também para nós chegará um momento muito preciso em que uma estrela nos dirá que a hora

esperada chegou!

Não será, provavelmente, uma estrela exterior, mas uma voz interior, à qual devemos estar atentos

e dóceis, a fim de nos prepararmos para, nessa hora, sermos modelos de exatidão e fidelidade

como os Reis Magos.

1) Cf. Sl 72, 10-11; Is 60, 3.

2) Cf. Conferência de 22/12/1989.

3) Cf. Conferência de 5/1/1964.

4) Cf. Mt 2, 1-12.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

5


Dona Lucilia

Bondade,

doçura e

respeito

aveludados

Por um particular

discernimento dos espíritos,

Dona Lucilia compreendia

o lado por onde as pessoas

seriam boas e o sofrimento de

cada uma, e as ajudava com

muito afeto, acompanhado de

uma disponibilidade prévia

de perdoar.

Mário Shinoda

N

o centro e no ápice da afetividade de mamãe,

da bondade e de todo seu modo de

ser, havia a devoção dela ao Sagrado Coração

de Jesus e, naturalmente, a Nossa Senhora

também. Muitas e muitas vezes me impressionou

vê-la rezar diante da imagem do Sagrado Coração

de Jesus que havia em seu oratório, e considerar a

relação existente entre ela e aquela imagem.

6


Transparência do divino no humano

Notava-se que a alma de Dona Lucilia era ansiosa de

encontrar aquele termo do afeto dela. Quer dizer, mamãe

era configurada de tal maneira pela graça e por algo

da natureza, que se ela não conhecesse o Sagrado Coração

de Jesus, ela O procuraria. E encontrando-O, ela O

identificaria como sendo aquilo que procurou. E aquilo

tomaria a alma dela inteiramente, como tendo sido criada

para isso. Suposto, é claro, que ela fosse sempre fiel.

Assim, ela era, sob vários aspectos, o espelho do Sagrado

Coração de Jesus para mim. E encontrava nela o

que eu adorava n’Ele, o que estava na Igreja do Sagrado

Coração de Jesus e que eu via estar na Igreja Católica.

Muito cedo, graças a Nossa Senhora, meus olhos se

abriram para a Santa Igreja, e com grande entusiasmo.

Portanto, o elemento determinante foi a minha fé na

Igreja Católica. O amor de filho tinha entrado muito, e

continuou sempre, mas o determinante foi isto: a Igreja

é infalível, santa, verdadeira e ensina que isso deve ser

assim. Logo, a respeito de tudo quanto me leva a crer

que isso é assim, tenho aquela certeza necessária pelo

fato de ver na Igreja Católica.

Nessa adoração a Nosso Senhor e nessa veneração

a Nossa Senhora, o objeto de nossa sensibilidade, de

nossa afetividade fica elevado a alguma coisa que não

está fora do âmbito humano. Ele é o Homem-Deus e,

na unidade de Pessoa d’Ele, possuía duas naturezas: a

humana e a divina. E nós conhecemos a natureza divina,

em larga medida, através da humana. De maneira

que não estava desterrado do humano, como, por

exemplo, se estou olhando para o Sol através de um

vitral, não me encontro desterrado de dentro da catedral.

Eu estou vendo o Sol através do vitral.

Essa transparência do divino no humano eleva e

desperta na afetividade humana possibilidades e modalidades

que ela não teria se não fosse isso.

De maneira que ao amar seres de uma tão alta categoria,

algo de muito elevado se desperta em nós e passa

a viver em nossas almas. Começamos a pedir coisas

que antigamente não pedíamos antes de darmos esse

passo. E, portanto, a procurar também nos outros, no

convívio comum, algo do que vimos n’Ele, n’Ela e na

Igreja Católica.

Surge aí uma coisa sobre a qual fico incerto, indeciso,

mas que mais ou menos pode apresentar-se do seguinte

modo: quem viu Nosso Senhor e Nossa Senhora

assim, de algum modo ganhou um discernimento

dos espíritos, ao menos para certo efeito. Porque não

é possível considerar o Redentor sem ser pelo sobrenatural.

Transparecendo através da natureza humana, é

verdade, mas é o sobrenatural que aparece. E em Maria

Santíssima, analogamente, a mesma coisa.

O resultado é que, na Terra, esse certo discernimento

dos espíritos — ora discreto, ora saliente, conforme

os desígnios da Providência, mas sempre intenso — leva

certamente ao desejo de que outros com quem convivamos

participem desse modo de amar a Nosso Senhor

e a Nossa Senhora, para efeito de podermos ter uma sociedade.

Porque não se tem uma sociedade verdadeira a

não ser assim. Uma vez que se conheceu esse padrão, temos

o desejo de encontrá-lo nos outros e nos pomos inconscientemente

à procura; e essa procura, ao cabo de

algum tempo, passa a ser consciente.

Entra, então, uma distinção entre afeto e afeto, que é

uma bifurcação: de um lado, procurar nos outros o que

me distrai, me diverte, ou então os outros me transformarem

num padrão para eles, mas não enquanto ligado

Lumen sobrenatural

João Dias

7


Dona Lucilia

Reprodução

ao Padrão dos padrões, e sim enquanto um homem em

quem acharam graça e de quem gostaram. Isso não torna

essas pessoas apetecíveis a mim, pois conheci outro valor

muito maior, não tem comparação!

Outro afeto é aquele que nasce quando percebemos

— mais em uns, menos em outros — o que seriam se

também eles se deixassem tocar pelo mesmo amor. Então

começamos a querê-los bem não pelo que são, mas

pelo que poderiam ser.

De maneira que, por amor a eles, mas principalmente

por amor a esse lumen sobrenatural que se acende neles,

suportamos qualquer coisa, com paciência. E os amamos

com um amor, o qual é uma participação do amor

que se tem ao foco desse lumen, que é Nosso Senhor Jesus

Cristo, e ao canal necessário desse lumen por vontade

de Deus, Nossa Senhora.

Luta de amor

“A tentação”, por Nikolay Shilder - Galeria Tretyakov, Moscou, Rússia

Por causa disso, toda a nossa vida afetiva toma um caráter

de salvação religiosa para efeito de conseguir que

o outro se eleve, e nada mais do que isso. Donde o nosso

convívio acaba sendo, em última análise, um contínuo

convite para que o outro seja melhor.

Entretanto, isso não é uma coisa impessoal. Queremos

bem a determinadas pessoas por causa da possibilidade

que elas têm de se assemelharem de tal maneira ao Divino

Salvador. São “rascunhos” de Nosso Senhor Jesus Cristo

que amamos na medida em que o rascunho é melhorável,

adaptável e que pode chegar a um certo resultado.

Pode acontecer encontrarmos uma pessoa que odeie

isso. Há graus de ódio em que, embora não se possa dizer

propriamente que a pessoa esteja condenada, segundo

as vias normais da graça ela estaria perdida. E nela

nada disso reluz. Aí nasce a incompatibilidade e a batalha

inexorável — também levada por esse amor — contra

quem está perdendo almas. Não só, nem principalmente,

no sentido de que a pessoa está levando almas para as

dores infinitas do Inferno, mas porque ela está extinguindo

aquela luz na alma de outro. É uma espécie de deicídio

que é feito. E esse “deicídio” leva-nos, então, à luta.

E daí esta luta ser, de algum modo, dulcíssima, porque

é uma luta de amor. Porque mesmo quando ataca aquele

que está se diferenciando, ela tem por efeito aproximá-lo.

Investe contra o mal que está nele como o médico

ataca o câncer que se encontra dentro do doente. Quer

dizer, é para salvar o enfermo. E, debruçado sobre o doente,

perguntando: “Você não sara?!” É este o sentido

do combate.

O mais entranhado e generoso grau de amor

Há, às vezes, almas que fazem Nossa Senhora esperar.

No Purgatório terá de haver acerto de contas sobre

isso, mas para efeito da salvação Ela tolera, muitas vezes,

a demora dessas almas. E quer que as resgatemos, obtenhamos-lhes

o perdão, esperando, também nós, por elas.

E se eu espero vinte anos que alguém se emende, estou

ajudando-o a conseguir a emenda.

Daí nasce um afeto feito de alegria e de esperança,

que contém em si um grau de amizade, de paciência, de

perdão e, muito mais do que isso, um grau de intercompreensão,

desde que a pessoa me compreenda também.

Ela representa um aspecto de Nosso Senhor, e eu outro.

É Jesus Se amando a Si próprio nos seus vários

aspectos, no interior de nossas almas.

Uma pessoa que chegasse a amar os vários

aspectos de si própria, refletidos em seres distintos,

possuiria o grau mais entranhado e mais

generoso de amor que há. Por exemplo, um

pai que tem muitos filhos: ele se sente retratado

por cada um deles em sua personalidade,

de algum modo. Vendo-os em torno da mesa,

comendo com ele, ele tem um amor a esses filhos

que não pode ser descrito adequadamente

nos graus diversos, pela linguagem comum.

Eu nem sei se a linguagem sabe descrever isso.

Porque as expressões muito legítimas, muito

boas, no fundo não querem dizer isto inteiramente.

E quando não está dito isto inteiramente,

não está dito quase nada.

Por exemplo, “meus filhos queridos” é uma

expressão boa. Mas pode designar tanta outra

coisa inferior a isso de que estamos falando!

8


Reprodução

Um Natal em família - Museu Metropolitano

de Arte, Nova Iorque, EUA

Então, só mesmo formas de convívio de alma que se cifram

nos imponderáveis, mas que são o mais real da vida,

exprimem isso.

Tenho pena das pessoas que não têm isso dentro da

alma porque esta é um deserto na vida, uma tristeza,

uma axiologia quebrada, da qual nem sei o que dizer. E

que deve constituir horas de furor, de depressão, de suscetibilidades,

enfim, equívocos e erros de todo tamanho,

e que tiram o sossego da alma completamente.

Discernimento dos espíritos

já de antemão acompanhado do perdão eventualmente

necessário e ao longo de um caminho por onde não se

sabe até onde ia.

Por detrás disso havia qualquer coisa de aveludado na

alma dela; uma bondade e uma doçura aveludadas. Ao

menos era minha impressão.

Então, uma pergunta qualquer: “Você quer água, meu

filho?” Conforme a ocasião em que fosse dita, poderia

trazer isso. E o timbre, a inflexão de voz, a impostação

do olhar, a maneira do trato, etc., tinha isso às grosas.

Acompanhado de uma coisa curiosa que é o seguinte:

um respeito por todo mundo. Qualquer um que retamente

quisesse olhá-la e analisá-la, se sentiria respeitado.

Eu nunca a vi faltar com o respeito à criatura mais insignificante

como à mais extraordinária.

Era, também, por sua vez, um respeito afetuoso, um

respeito aveludado, que implicava num contentamento

em que o outro tivesse tal coisa para se respeitar. A alegria

de respeitar, de homenagear, ou de ter compaixão

porque o outro não tinha nada, não era nada, tudo isso tinha

uma espécie de “veludo” especial na alma dela

que eu não encontro outra expressão para designar,

e que a tornava imensamente atraente

para mim.

v

(Extraído de conferência

de 30/4/1987)

Mamãe teve muitas decepções. E esperou até o fim da

vida dela, mas sempre com paz, porque estava presente

essa noção religiosa por detrás.

O que havia de característico no afeto de Dona Lucilia

era algo de nativo, de superacrescentado pela graça

e modelado pela vida. No trato com as pessoas, ela

manifestava uma compreensão muito profunda daquele

com quem ela tratava. Era um discernimento dos espíritos

pelo qual ela compreendia perfeitamente o

lado por onde a pessoa seria boa, e amava muito.

Depois, de outro lado, ela compreendia muito

o por onde a pessoa sofria. Ainda que não parecesse

uma pessoa sofredora, esse conhecimento

do sofrimento dos outros era muito profundo

nela, com um reservatório indefinido de disposições

de alma aplicadas a cada sofrimento. E

João Dias

9


Sagrado Coração de Jesus

Grandeza infinita

Ao adorar o Homem-Deus, Dr. Plinio buscava explicitar

o cume de suas perfeições infinitas, cujos maravilhosos

aspectos, aparentemente antagônicos — compaixão, cólera,

serenidade, seriedade, perdão, gáudio, tristeza — deveriam

enfeixar-se em um ponto supremo.

Durante toda a vida, na contemplação de Nosso

Senhor Jesus Cristo, o ponto mais alto da minha

admiração é considerar como Ele é perfeitíssimo

debaixo de todos os pontos de vista. E procurar na personalidade

d’Ele o ponto supremo, no qual todas as virtudes

convergem para uma que é um sol de todas as outras.

Poulos (CC 3.0)

Catedral de León, Espanha

10

Ronn (CC 3.0)


Píncaro de toda

a Criação

Como é esse ponto?

Se pudéssemos

ver isso n’Ele, como

O consideraríamos?

Imaginem uma

catedral composta

de numerosas ogivas

que se sucedem

umas às outras, desde

a porta principal

até o presbitério, e

— existe isso em certas

catedrais — há

uma ogiva mais alta

que abarca todas

as outras. Qual é, em

Nosso Senhor, essa

ogiva suprema?

Gosto de figurar

que é uma grandeza

a qual contém todos

os abismos de perfeição d’Ele. Por exemplo, analisando

toda a Criação, considerar aquilo que podemos

chamar o ponto alfa de todo o criado, o ponto mais alto

que, em última análise, é Ele mesmo, porque é o Homem-Deus.

Enquanto Deus, Ele está infinitamente acima

dos seres criados, mas enquanto Homem é o píncaro

de toda a Criação.

Outro aspecto: uma seriedade infinita, olhando todas

as coisas pelos seus mais altos e mais profundos aspectos,

pela ordenação que as coisas têm entre si, e amando-as

enquanto tais, porque são e devem ser assim.

Depois, uma serenidade insondável, que absolutamente

não é indiferença para com os outros. Pelo contrário,

um amor a cada ser, sobretudo às criaturas humanas,

um amor transcendente do qual não podemos nem

ter uma ideia!

Se o olhar d’Ele pousasse sobre uma multidão com

dez milhões de pessoas, e nós pudéssemos acompanhar

esse olhar enquanto incidindo sobre uma delas, ficaríamos

conhecendo como ela é, como é o amor d’Ele para

com ela, qual o gáudio que Ele tem se essa pessoa for

fiel, e a tristeza se for infiel. Que amor, que alegria e que

tristeza!

É um olhar cheio de serenidade e de seriedade, compreendendo

o que vale cada criatura humana, disposto

a fazer-lhe todo o bem possível, e amando-a totalmente.

De maneira que essa pessoa, se salvando, é para Nosso

Senhor um estremecimento de alegria.

Pórtico do Juízo Final - Cadedral Notre-Dame de Paris, França

Mas se ela se perde, é uma iracúndia sublime! As

tempestades do mar mais terríveis não são senão brincadeira

em comparação com isso. E quando Ele expulsa

alguém para o Inferno, então ficamos pasmos do

horror que Jesus tem àquela criatura que até o fim não

quis atender o chamado d’Ele, e que por causa disso se

precipita no Inferno. Não podemos ter ideia do que é a

cólera se não pensamos na cólera divina de Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Grandeza fulgurante de Nosso Senhor

Ao mesmo tempo em que n’Ele existe esse amor e essa

cólera, há uma compaixão enorme, porque Nosso Senhor

sabe perfeitamente que todos nós, homens, fomos

postos nesta vida para sofrer, somos filhos de Adão e Eva

e, portanto, herdamos o pecado original, temos defeitos

e estamos na Terra para purgá-los e expiá-los, sermos fiéis

e irmos para o Céu.

Jesus manda as provações, as dificuldades, as tormentas,

e Ele mesmo prepara para nós a solução, arranja um

jeito de, suportando-as e vencendo-as, acabarmos sendo

fiéis.

Considerar que tudo isso em relação a todos os homens,

desde o primeiro até ao último, cabe naquela mente

e naquele Coração, nos dá uma ideia da grandeza

d’Ele. Perto da qual, o que adianta dizer que fulano é

um grande homem? Ninguém é grande, todo o mundo é

Sérgio Hollmann

11


Sagrado Coração de Jesus

pequeno, insignificante diante da grandeza fulgurante de

Nosso Senhor.

A consolação d’Ele quando via — porque conhecia

o futuro — os cruzados montarem a cavalo e irem até

a Terra Santa para libertar Jerusalém! Que alegria! Ele

via São Fernando tomar Sevilha, e pouco depois Isabel

e Fernando conquistarem Granada, e o reino maometano

acabar. Nosso Senhor exultou de alegria pensando no

grande São Fernando, que vingaria a glória d’Ele. Tudo

isso são grandezas fulgurantes.

Mas, ao mesmo tempo, lembrando o bom pastor que

tem pena de sua ovelha, tira-a do carrascal, leva-a sobre

os ombros e a cura. E o pai do filho pródigo que perdoa,

etc. Há uma pluralidade tão grande de aspectos, que ficamos

sem ter o que dizer.

Eis a grandeza, a majestade de Nosso Senhor, fazendo

com que queiramos muito a invocação que está na Ladainha

do Coração de Jesus: Coração de Jesus, de majestade

infinita, tende compaixão de nós!

Majestade do abandono

Este é também o divino equilíbrio que há no Coração

de Jesus. Por exemplo, a serenidade, a calma e a visão geral

das coisas que Ele conservou durante sua Paixão.

A agonia no Horto é uma perfeição de equilíbrio e de

majestade. Ali Nosso Senhor entra diretamente em colóquio

com o Padre Eterno e tratando de todos os destinos

do mundo, vertendo gotas de seu Sangue. E, depois, a

majestade do abandono! Quer dizer, tão grande que nenhum

homem conseguiu ficar junto d’Ele.

Portanto, a soledade, a tristeza, mas tudo tão equilibrado,

tão extraordinário, que se a pessoa tomasse o

trabalho de raciocinar um pouco sobre isso, sairia mais

equilibrada e menos nervosa.

Uma pessoa que conhecesse o grande São Fernando

— o qual conquistou terras sem conta aos mouros e

que, de fato, foi quem os expulsou da Espanha — e tratasse

com ele, seria impossível falar com o Santo sem ter

diante dos olhos continuamente a ideia: esse expulsou os

mouros. E na hora em que ele pedisse água para beber,

talvez se pusesse de joelhos por causa dessa ideia, indissociável

da noção da mouraria enxotada da Espanha, e

da coragem do grande São Fernando.

Ao menos eu não saberia olhar para ele sem ter isso

em mente.

Assim também, se eu conhecesse São Tomás de Aquino

— o Doutor que é como um sol da Igreja Católica —,

como me seria possível vê-lo passar por uma estrada, ainda

que distante, montado a cavalo e meditando sobre um

Nosso Senhor

exultou de alegria

pensando no grande

São Fernando,

que vingaria a glória

d’Ele. Tudo isso

são grandezas

fulgurantes.

Enrique Cordero (CC 3.0)

São Fernando III recebe

os embaixadores do

Rei Mohamad

Real Academia de Belas

Artes, Madri, Espanha

12


ponto de Filosofia, e não imaginar

que dentro daquela cabeça estava

nascendo um sol? Sol

de inteligência, de sabedoria,

de santidade. E

o que vale mais do

que tudo é a santidade,

evidentemente.

Antegozo

do Céu

Diante de Nossa Senhora

também pensaríamos

tudo isto, mas com uma

particularidade.

Imaginar, por exemplo, Nossa Senhora,

que foi virgem antes, durante e O sonho de São José

depois do parto. Durante o nascimento Museu de Artes de Lima, Peru

de Nosso Senhor Ela se conservou virgem;

como esse mistério se deu?!

Outro episódio da vida de Maria Santíssima: quando

Ela notou a perplexidade de São José, viu seu esposo passar

por aquele sofrimento sem nome, e percebeu a santidade

dele que não duvidou d’Ela em nenhum momento.

O demônio com certeza queria que ele duvidasse de Nossa

Senhora; São José não duvidou em nenhum instante,

mas resolveu retirar-se. E a tristeza com que ele se acomodou

sobre a cama para dormir, antes de partir pela estrada

para o desconhecido, porque era o homem que estava

colocado na maior perplexidade que houve na História.

Quem sabe se Ela o olhou dormindo em paz, mas afogado

na dor? E se Ela de repente notou — quando já era

quase madrugada, perto da hora de ele se levantar e partir,

no último sonho noturno — a fisionomia de São José

se iluminar como um sol, e percebeu que na última hora

Deus teve pena dele e revelou-lhe o que havia?

Ele no sonho viu o Anjo, não acordou logo, mas pouco

depois um vulcão de alegria estourou dentro dele.

São José ficou junto à porta do quarto de Nossa Senhora

prostrado, à espera do momento em que Ela saísse, osculou

o chão e os pés d’Ela, e a Virgem Santíssima entendeu

tudo e nunca falaram sobre nada. É uma coisa

para lá de sublime!

Conversar sobre temas desses é antegozar o Céu.

Imaginem a hora em que cheguemos ao Paraíso e vejamos,

de repente, São José com aquele bastão e aqueles

lírios, cercado de uma coorte intérmina de Anjos, mas

com uma alegria enorme no olhar porque estava vendo

São José - Museu de

Artes de Lima, Peru

Gustavo Kralj

Nossa Senhora a pouca distância

dele. E um pouco mais adiante

Nosso Senhor, que sem

ser filho dele segundo a

carne, mas sim segundo

a lei, sorriu para

ele e disse: “Meu

pai!”

Só de vermos essa

cena teríamos

uma felicidade própria

para encher a

eternidade.

Tenho a impressão de

que, diante de Nosso Senhor

e de Nossa Senhora, o tema

é tão grande que a graça penetraria

em torrentes dentro de nós para,

por assim dizer, pensar em nós e por

nós a respeito desses temas, porque

não somos dignos, nem estamos à altura de cogitar convenientemente

sobre isso.

v

(Extraído de conferências

de 12/1/1992 e 31/1/1993)

Gustavo Kralj

13


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Inocência e senso

do combate

Com base na experiência pessoal e na observação da

realidade, Dr. Plinio descreve e analisa as relações

existentes entre o instinto de sociabilidade, o senso

da alteridade, a solidão, o subjetivismo e suas

implicações na preservação da inocência.

A

sociabilidade se desenvolve perfeitamente, como

tudo o que existe, na medida em que haja boas

condições de vida em sociedade. Então o instinto

de sociabilidade tem elementos para se exercer. Naturalmente,

quando existe apenas o que lhe é oposto e não

o que lhe é propício, esse instinto se atrofia e se desvia.

Arquivo Revista

Família de Giovanni Vincenzo Imperiale - Museu do Palazzo Bianco, Gênova, Itália

14


Senso da alteridade

Ao longo do processo revolucionário, o instinto de sociabilidade

padeceu de um desvio profundo, que a meu ver

provém de uma deformação, uma deturpação progressiva

da ideia da alteridade. Na normalidade, as alteridades estão

postas de um modo sadio, reto, por assim dizer espontâneo,

apesar dos defeitos que o pecado original coloca em tudo.

Um caçador no Tirol ou um cantador de trovas baianas

não se põe o problema sobre se ele é um indivíduo

distinto em relação a outro. Quer dizer, tudo se coloca

para ele espontaneamente direito, assim como diante de

um homem com a vista correta todos os objetos se apresentam

normais, e não se põem problemas oftalmológicos.

O homem com vistas boas acha aquilo espontâneo:

abriu os olhos e viu, está acabado.

Assim é a alteridade em relação ao instinto de sociabilidade.

Antigamente esse instinto era enormemente favorecido

pela existência das sociedades intermediárias, entre o

indivíduo e a sociedade geral, de maneira que a pessoa

tinha uma sucessão de distâncias variadas em torno de

si. Muito próxima, a família pujante, numerosa, com um

mundo de filhos, com parentela; o que não se dava só

nas casas nobres ou burguesas, mas no povinho também.

Então, o homem tinha aquele ambiente que o cercava e

constituía uma atmosfera para ele. Quando a família é

numerosa, ela forma uma sociedadezinha de um grande

empuxe e de uma grande vitalidade.

O indivíduo tem perto de si um bando de irmãs e irmãos

que são, ao mesmo tempo, quase ele mesmo olhando

para si próprio, mas já não são ele mesmo. De maneira

que, de um lado, entre ele e cada irmão há um abismo

e, de outro, como que — sublinho a expressão “como

que” — não há alteridade.

Segue-se o círculo da parentela no qual esse fenômeno

se dilui, mas ainda existe. Depois, também compondo

isso, círculos de pessoas agregadas à família que não

são apenas os amigos desses ou daqueles familiares, mas

da família inteira, fazendo no âmbito familiar mais ou

menos o papel do estrangeiro residente e semiadaptado

num país: ele enriquece o país pela sua presença e se enriquece

com o que o país lhe proporciona. Não são, portanto,

indivíduos desgarrados, mas membros daquele clã.

O senso da alteridade é convidado, assim, a dar sucessivos

passos e se torna robusto, porque está apoiado nessas

distâncias que separam o homem dos vários círculos

em meio aos quais ele vive.

Senso da realidade objetiva

Ligado a este senso harmonioso e bem construído

da alteridade, existe outro: o senso da realidade objetiva,

externa ao sujeito. Isto é, a noção clara e verdadeira

da existência do mundo externo com todas as gamas intermediárias

que o compõem, desde o prosaico até o admirável,

compreendendo que a realidade é esta e que só

pensamos e agimos adequadamente em função da verdade.

São os corolários da inocência.

Contudo, a inocência faz o homem desejar uma vida

que vai muito além dessa realidade que ele, ao mesmo

tempo, ama e sente-se exilado dentro dela. E quanto

mais ele percebe que ama, mas não cabe dentro da

realidade, tanto mais sente sua superioridade em relação

àqueles que estão inteiramente satisfeitos dentro do

mundo. Então o indivíduo chega à conclusão de que a

nota distintiva de seu talento e de sua superioridade é essa

inconformidade com a realidade.

No primeiro voo, ele procura algumas coisas da realidade

que lhe parecem mais belas, e logo depois começa a

imaginar uma realidade na qual só exista o mais belo. E

sem negar filosoficamente a realidade, é levado a optar

por uma de duas vias.

Uma é a do simbolismo e da Fé, que conduz ao metafísico

e ao sobrenatural. Esta via satisfaz inteiramente

os anelos da inocência e permite-lhe — pela esperança

e pela interpretação, seleção e ordenação da realidade,

Gustavo Kralj

“Retrato de uma criança” - Museu

Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA

15


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

compondo, assim, objetivamente uma realidade que não

existe — voar mais alto e satisfazer o que tem de mais

nobre. Este é o caminho acertado pedido pela inocência.

A alma chegaria, assim, a Deus por meio de vários graus,

dos quais alguns já não são os seres existentes, mas os que

poderiam existir. Isso não constitui uma negação da realidade,

mas uma complementação do real com algo de criativo.

Não é uma revolta contra a realidade, mas alimenta as nossas

esperanças de chegar à realidade que nos aguarda do

outro lado do rio da morte, e para a qual tendemos.

Desejo de ser adorado

A outra via pela qual o homem é convidado a optar está

ligada ao problema da solidão e do subjetivismo.

Tomemos, por exemplo, um rapaz, filho único, obrigado

a conviver em ambientes onde ele não se encaixa,

a não ser com muita dificuldade. Ele tem

a necessidade de, em certas horas, imaginar

um ambiente que não existe, sob pena de não

aguentar. Ele não se pergunta se imaginar algo

irrealizável é legítimo, mas apenas constata

que é necessário.

Diante de uma ordem natural tão avessa a

ele, sente-se no direito de fabricar outra imaginária

na qual ele caiba. Não conseguindo construir

uma circunstância extrínseca inteiramente

como ele quer, e tendo uma necessidade premente

de viver nisso que não lhe foi dado como

seu hábitat próprio, o rapaz fica diante de um

dilema: ou imagina ou perece. E acaba por embarcar

no irreal e adultera o senso da realidade.

A partir daí, abrem-se novamente diante dele

dois caminhos:

Não se resigna com a solidão e procura realizar

o sonho, jogando-se nas aventuras amorosas

ou financeiras. Neste caminho, ele despreza

o subjetivo e pensa ter-se lançado numa realidade

objetiva. De fato, pelo contrário, procurou

transformar a realidade, forçá-la, violentá-

-la para ser conforme a um sonho irreal que estava

em sua cabeça.

Às vezes dá num tipo de pessoa a qual, vendo

que essas tendências poderiam nascer nela,

esmaga-as com horror, se trivializa e fica uma

espécie de positivista. Em nossos dias, a evasão

mais cômoda para isso é dentro da mecânica.

Tenho a impressão de que muita mania de lavar

e conservar automóvel corresponde a uma

evasão para esse terreno.

O outro caminho é a pura interiorização.

O sujeito sonha com uma felicidade que, na

maioria das vezes, não seria conquistada por glórias em

face de outros, mas tendo um tipo humano que ele gostaria

de possuir e, como tal, compreendido e adorado.

Desponsório entre o sonho e a realidade

Encontramos um modelo da posição equilibrada, verdadeira,

em Carlos Magno. Ele concebeu um alto ideal,

batalhou como uma fera para realizá-lo, recrutou quem

O inocente é um homem

tão feliz quanto se pode ser

nesta Terra; e é infeliz porque

está num vale de lágrimas.

Estátua de Carlos Magno - Aachen, Alemanha

AndreasToerl (CC 3.0)

16


com ele lutasse para concretizá-lo, caminhou até o fim

fiel a esse ideal, e morreu deixando-o realizado.

Já na concepção do ideal, o futuro está delineado. Haverá

dificuldades, tentações, acontecerá de tudo, mas ele

anda. E se ao invés de ele viver o quanto viveu, durasse

duzentos anos e morresse, portanto, cento e tantos anos

depois, tudo quanto ele tivesse

inicialmente na cabeça se

apresentaria continuamente

como tendo frutificado, desenvolvido

e aprimorado. O

sonho estaria sempre a jardas

além da realidade obtida.

Havia uma espécie de desponsório

entre o sonho e a realidade.

Ele sonhava o realizável

e realizava o que sonhou.

Formar o homem assim é

tirá-lo do pantanal do positivismo

e da mera imaginação,

do divórcio com a realidade.

Não se trata de um mundo

dos sonhos, mas do mundo

visto aos olhos da inocência

e da Fé. Este seria o sonho

da alma inocente.

Por exemplo, Santa Mônica

com Santo Agostinho. Ela

queria converter o filho, mas

tudo me leva a supor que Santa

Mônica possuía uma ideia

de quem seria o filho dela.

Daí aquele pranto antes e

aquela alegria depois da conversão. Ela sabia que a missão

dela não era derrotar hereges. Santa Mônica precisava

ter Santo Agostinho, depois este faria o caminho para

o qual ela era cabeça de ponte.

O sonho do inocente coloca o homem diante da verdade

total. Seria mais ou menos como um indivíduo que

estivesse em cima de uma pedra sobre a qual bate um

raio de luz, e compreendesse o que aquele granito comum

tem de sólido. Entretanto, compreende também

que ele não pode viver indefinidamente sobre aquele

granito, mas deve se elevar naquele raio de luz.

Inocência e felicidade

Um positivista negaria a condutibilidade daquele raio

de luz, e diria: “Quem entra nesse raio de luz? Tu, inocente,

com teus sonhos afundarás!”

O inocente não sabe o que responder, mas continua

a andar, porque ele é levado pelo princípio axiológico

São Luís Gonzaga

que lhe diz: “Enquanto fores inocente, anda, porque os

Anjos te ajudam!” Então ele tenta devagar, temperantemente.

Aí a solidão, de um problema passa a ser para ele uma

bênção, um calvário no qual ele sente forças para subir

mais e mais pelo raio de luz.

Quando o indivíduo peca

em algo contra a inocência,

duvida dela porque ela desafia

demais o senso dos demais,

e isso o deixa inseguro.

Dou muita importância a isso:

há um determinado momento

em que o inocente é tentado

a duvidar de sua inocência,

pensando que ela é o pior dos

sonhos porque — imagina ele

— quanto mais virtuoso, tanto

mais quimérico.

Para manter-se inocente, a

pessoa precisa ter muito senso

do combate, muita honestidade.

Se ele mantém essa batalha

da inocência, internamente é

um homem feliz? A resposta

é: sim e não. Ele é um homem

tão feliz quanto se pode ser

nesta Terra; e é infeliz porque

Shakko (CC 3.0)

está num vale de lágrimas.

Se a felicidade está em não

sofrer nada, então ele não é

feliz. Se a felicidade é ter gáudios

sérios, sólidos, verdadeiros, substanciosos, embora

com sofrimentos, ele então é um homem feliz. Depende

da tônica que ele ponha na questão.

Ele precisa quase que diariamente voltar a esse ponto,

pensar nisso para não ceder, de tal maneira o mundo

mente dizendo que felizes são os que vivem no pecado, e

o inocente é o errado, o torto, o infeliz.

Diante das pessoas entregues ao pecado, o inocente

se sente completamente recusável e recusado, mais

ou menos como alguém que tivesse nascido com a cabeça

virada para trás se sentiria diante do comum dos

homens.

Aí muitos fraquejam! É a batalha neste vale de lágrimas.

A Igreja é militante, e para isso existe a piedade, os

sacramentos, etc. O inocente, no fundo, é um homem

mais feliz do que todos os outros.

v

(Extraído de conferência

de 4/1/1984)

17


De Maria nunquam satis

Mãe de

Deus e

dos homens

Pináculo de tudo quanto

possa haver de meramente

criado, Nossa Senhora é a

Rainha do Céu e da Terra,

dos Anjos e dos homens,

Medianeira universal de

todas as graças. Esses títulos

e as inúmeras invocações

que existem ou existirão até

o fim do mundo para cultuar

Maria Santíssima são uma

decorrência da Maternidade

Divina.

Aimportância, para a piedade católica,

da Festa da Maternidade Divina da

Bem-aventurada Virgem Maria está em

que todas as graças extraordinárias que Nossa

Senhora recebeu — e que fizeram d’Ela uma

criatura única em todo o universo e na economia

da salvação —, têm como ponto de partida

e razão de ser o fato de Ela ser Mãe de Nosso

Senhor Jesus Cristo e, portanto, Mãe de Deus.

18

Nossa Senhora do Sagrado Coração

Igreja de Santa Maria, Ontário, Canadá

Gustavo Krajl


Como os pequenos orifícios

existentes nas areias das praias...

A propósito desse tema, é interessante

ressaltar o modo pelo qual se estabelece a

hierarquia na obra de Deus, como todas as

coisas feitas por Ele são matizadas, e como

isso é contrarrevolucionário.

O espírito revolucionário é a favor das

simplificações. Pelo contrário, o espírito

contrarrevolucionário ama o matiz, e quando

vê uma coisa meio difícil de compreender

e até meio antitética, ama aquilo porque compreende

que naquela aparente antítese há, no

fundo, uma verdade muito bonita que acabará

por encontrar. É uma realidade que, desde

pequeno, habituei-me a ver na Igreja.

Tive uma surpresa quando comecei

a ver coisas aparentemente

esquisitas na Igreja, e eu ficava

meio enovelado com aquilo,

mas depois aprofundava a análise

do assunto e percebia que

quanto mais esquisito, tanto

mais bonita era sua explicação.

Habituei-me, assim, à ideia de

que toda objeção que se pode fazer à

Igreja é como aqueles furinhos que há na

praia. Vê-se um furinho insignificante do qual estão

saindo borbulhazinhas. Mete-se o dedo ali, e de dentro

sai um caramujo.

Assim também na Igreja: tudo quanto se nos afigura

como esquisito, meio incompreensível, antitético, contraditório,

desde que saibamos buscar e esperar a explicação,

quando de fato Nossa Senhora nos der a entender

aquilo, ali encontraremos uma pérola, uma verdadeira

maravilha.

É próprio da Igreja que, numa coisa eriçada de contradições,

se encontre sempre uma harmonia profunda

resultante de uma verdade.

Mergatroid (CC 3.0)

A união hipostática foi feita com uma

criatura humana e não angélica

Para um espírito cartesiano, o que pode parecer mais

absurdo do que a figura da Mãe de Deus?

Pensemos em um indivíduo a quem nunca se expôs a

Doutrina Católica e que toma conhecimento de que a

Igreja, ao mesmo tempo em que ensina ser Deus eterno

e puro espírito, afirma que Ele tem uma Mãe. Como

é possível um ente espiritual ter essa Mãe material e carnal

que, sendo temporal, gera um Ser eterno?

São contradições que, para

um espírito protestante,

correspondem a um verdadeiro

absurdo. Ora, tratando-

-se da Santa Igreja Católica, nunca

há absurdo. Existe, isto sim, uma harmonia

profundíssima e superior presa a um

princípio extraordinário. A questão está em esperar para

compreender.

Consideremos que Deus eterno, perfeito, criou os anjos

e, abaixo deles, os homens. Contudo, Ele não estabeleceu

com um anjo a união hipostática, e sim com a natureza

humana.

Também isso pareceria uma contradição: a superior

dignidade dos anjos pediria que a união hipostática fosse

feita com eles e, principalmente, com o mais alto, o melhor

dentre eles. Ora, Deus estabelece a união hipostática

com uma natureza inferior à angélica, e opera uma

maravilha maior do que se a estabelecesse com o maior

dos anjos.

Porque feita a união hipostática com um anjo,

Deus dignificaria somente a natureza espiritual. Porém,

ao realizá-la com uma criatura humana, Ele dignifica

os anjos — porque o homem, enquanto tendo

alma, é participante da dignidade espiritual dos anjos

— bem como todo o reino material, pois o ser humano

é também composto de matéria. Portanto, é todo

o cosmo que se dignifica com essa aparente incongruência

de Deus Se unir hipostaticamente a uma natureza

inferior.

Adityamadhav83 (CC 3.0)

19


De Maria nunquam satis

Michael Hurst (CC 3.0)

“O caminho da salvação” - Igreja de Santa Maria Novella, Florença, Itália

Um desequilíbrio na consideração

da maternidade divina

Decorre daí uma disposição hierárquica admirável,

toda ela matizada também. No ápice, Nosso Senhor Jesus

Cristo, Homem-Deus. Depois, uma criatura humana

que é o pináculo de tudo quanto pode existir de meramente

criado: Maria Santíssima.

Ela, como Mãe de Deus, está posta como Rainha do

Céu e da Terra, dos Anjos e dos homens, investida de

todas as outras qualidades, graças e títulos, inclusive de

Medianeira Universal de todas as graças, por causa de

sua Maternidade Divina.

Assim, essa festa atrai a nossa atenção e a nossa piedade

sobre aquilo que, de algum modo, é a própria raiz

da devoção mariana: a Maternidade Divina de Nossa Senhora.

Isso é tão verdadeiro, tão ortodoxo! Entretanto, vejamos

onde pode entrar um desequilíbrio na consideração

dessa verdade.

Há uns vinte anos, eu quis fundar uma congregação

mariana em um bairro de São Paulo e convidei para isso

algumas pessoas conhecidas naquele lugar, sem saber já

estarem elas influenciadas por certas tendências contrárias

à sã doutrina.

Depois de confabularem entre si, uma delas me disse:

— A Congregação se chamará “Nossa Senhora Mãe

de Deus”.

Título doutrinariamente irrepreensível, mas pouco

usual naquela época. Então lhe indaguei:

— Mas por que você escolheu esse título que é pouco

usual?

Resposta:

— Porque, afinal, só o que importa em Nossa Senhora

é ser Mãe de Deus. Todo o resto não é nada.

Aqui já entra o desequilíbrio. É o mesmo que dizer: na

árvore só o que importa é o tronco. A galharia, as folhas,

as flores, os frutos, nada disso tem importância. Aceitar

a doutrina da Maternidade Divina de Maria, procurando

despojá-la de toda essa maravilhosa complexidade e dessa

variedade de títulos que dela deflui, para ficar só com

o tronco, já é, por si mesma, uma posição errada. Nota-se

nisso o bafo do espírito simplificador, protestante, sob o

pretexto de ir às raízes, rejeitando o restante da galharia.

O espírito católico, ao contrário, leva-nos a venerar imensamente

esse principal título de Nossa Senhora, respeitan-

20


do-o como ele merece ser respeitado, mas sequiosos de tirar

dele todas as suas consequências. Portanto, tendo o espírito

aberto e voltado para as mil invocações que existem e se criarão,

até o fim do mundo, para cultuar a Santíssima Virgem,

debaixo desse ou daquele aspecto, o

que será sempre uma decorrência da

Maternidade Divina d’Ela.

Mãe dos homens

Há outro ponto muito importante

para nós nessa invocação. Por ser

Mãe de Deus, Nossa Senhora é também,

por uma série de consequências

e a título especial, Mãe dos homens.

Acredito que a mais preciosa graça

que se pode ter,

em matéria de devoção

a Maria Santíssima,

é a de Ela

condescender em

estabelecer com cada

um de nós, por

laços inefáveis, uma

relação verdadeiramente

materna.

Isso pode dar-se

de mil modos, mas

em geral Nossa

Senhora se revela

principalmente

nossa Mãe quando

nos tira de algum

apuro, de modo

a seu amparo

nos ficar inteiramente

inesquecível.

Ou então,

quando nos perdoa

alguma falta

que particularmente

não tinha

perdão, mas

que Ela, por uma

dessas bondades que só as mães têm, passa por nós, perdoa

e elimina aquilo, como Nosso Senhor Jesus Cristo

curava a lepra, de maneira a não ficar nada.

Realmente, nada ali merecia ser perdoado, não havia

atenuante e não merecia senão a cólera de Deus; mas

Ela, como Mãe, com seu poder soberano e com essa indulgência

que as mães têm, com um sorriso apaga aquilo,

elimina, e o passado fica completamente esquecido.

“Eis que pus à tua frente

uma porta aberta que

ninguém poderá fechar,

pois tens pouca força, mas

guardaste a minha palavra e

não renegaste o meu nome.”

Nossa Senhora e o Menino Jesus. De joelhos, Pedro

de Lardi Lhes é apresentado por São Nicolau - Museu

Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA

Nossa Senhora nos obtém graças dessas, às vezes de

um modo tal que, para a vida inteira, fica marcada a fogo

na alma — um fogo do Céu, não da Terra — essa convicção

de que poderemos recorrer a Ela mil vezes, em

circunstâncias mil vezes mais indefensáveis,

e Ela sempre nos perdoará

de novo, porque abriu para

nós uma porta de misericórdia que

ninguém fechará.

Creio ser disso que vivemos: um

crédito de misericórdia aberto por

Maria Santíssima; dessas misericórdias

como poucas vezes terá havido.

Por essa razão, embora nós não

merecendo e fazendo de tudo, Ela

ainda tem mais um sorriso, mais

um perdão, Ela

nos repesca mais

uma vez.

Vem-me à memória

uma passagem

do Apocalipse:

“Eis que pus à tua

frente uma porta

aberta que ninguém

poderá fechar, pois

tens pouca força,

mas guardaste

a minha palavra

e não renegaste o

meu nome.” 1 Certa

vez vi uma aplicação

dessas palavras

à devoção ao

Sagrado Coração

de Jesus, e acho

imensamente legítima.

Parece-me

também muito

legítimo aplicá-

-las ao Imaculado

e Materno Coração

de Maria para

conosco.

Não conheço verdade mais palpável, mais digna de

nosso amor e de nossa gratidão do que esta. v

1) Ap 3, 8.

Gustavo Krajl

(Extraído de conferência

de 11/10/1963)

21


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Teoria do progresso - I

Hosamalex (CC 3.0)

Ruínas de

monumentos egípcios

Alguns mistérios envolvem o progresso e a decadência dos grupos

humanos: a Idade da Pedra foi o ponto de partida de uma ascensão

ou o termo de um retrocesso? Como se verifica a ação de Deus

na evolução dos povos pagãos? Qual o papel do sobrenatural no

processo ascensional de um povo? Estas e outras questões são

abordadas por Dr. Plinio nesta conferência.

N

os flancos do tema da estagnação 1 , encontra-

-se uma teoria do progresso. E munidos da

doutrina sobre a estagnação, temos elementos,

ao menos os essenciais, mais preciosos, para fazer a

crítica de toda a mania de progresso a qual teve, no século

XIX e em parte do XX, um papel semelhante ao

da razão, nos séculos XVII e XVIII; quer dizer, tudo era

mania de raciocínio, de iluminação, de ilustração.

O homem das cavernas

Se adotarmos a tese, um tanto controvertida, de que o

homem primitivo teria sido mais ou menos o das caver-

nas, concluímos que grande parte da humanidade progrediu.

Essa evolução é muito discutível, mas foi como os

homens que elaboraram a teoria do progresso a apresentaram.

Então, vale a pena iniciar por aí para depois analisar

mais a fundo a questão.

A humanidade, portanto, teria nascido nas cavernas

ou se mudado para lá; seja como for, vivia no mundo

das cavernas. Tomando o estado inteiramente primitivo

daquilo e considerando, muitos séculos depois, como

a questão se tinha posto, como o estado evoluíra, notava-

-se, por exemplo, que na Ásia uma grandíssima parte da

humanidade progredira e já não vivia nesse estado, e sim

em cidades com uma organização rudimentar em certas

22


matérias, mas uma economia que, tanto quanto os estilos

de produção existentes permitiam, tendia a se organizar

e até mesmo a formar um mercado internacional; nascia

uma pequena indústria, que já não era a da pedra lascada

nem da pedra polida, mas uma indústria mais desenvolvida

e, portanto, já existia um rudimento do que seria

o progresso tecnológico.

No terreno das artes isso também se definiu muito. E

se tomarmos as grandes civilizações da Antiguidade, notaremos

que elas representam um progresso fascinante

em relação ao pessoal das grutas, da pedra polida e da

pedra lascada.

Chineses, egípcios, assírios e persas

Qual foi a força que impeliu para esse progresso? Se na

Idade Média recorrermos à tese de que foi a influência de

um fator sobrenatural que causou esse progresso, tal fator

está ausente no que diz respeito a esses povos pagãos.

Entretanto, algo de muito grande foi realizado que,

em alguns sentidos, parece ter atingido o teto a que o homem

pode chegar. Porque, no terreno artístico, quando

se consideram as realizações desses povos, pergunta-se

se era de esperar que eles dessem uma coisa melhor. E

poder-se-ia considerar que não era, porque a arte chinesa,

por exemplo, é tão alta, tão desenvolvida, que naquele

gênero e para a mentalidade e o físico do chinês, é difícil

imaginar algo melhor. Depois, a polidez dos chineses,

a gentileza, o relativo tonus pacífico de vida que eles alcançaram,

a organização do Estado, e depois o Império

chinês representam realizações impressionantes.

Quando se vai falar dos egípcios, nem há o que comentar,

é superior a qualquer louvor.

A respeito de quase todos esses povos pode-se afirmar

que, na linha em que andaram, atingiram um teto o qual

é igualável ao maior teto que a humanidade poderia alcançar.

Por exemplo, pode-se dizer que o estilo francês do século

XVIII é maravilhoso. Se o comparamos com o estilo

assírio, notamos que este é muito mais primitivo. Mas seria

exagerado sustentar, pura e simplesmente, que o estilo

assírio está vários degraus abaixo do francês, porque

ele tem lados magníficos, realizações esplêndidas. A descoberta

das propriedades do barro, da terracota para fa-

Gisling (CC 3.0)

Jean-Pol GRANDMONT (CC 3.0)

Henry Walters (CC 3.0)

23

Wmpearl (CC 3.0)


A sociedade analisada por Dr. Plinio

zer aqueles utensílios de barro lustroso que os assírios e

os persas fabricavam, é um progresso técnico que facilitou

a arquitetura enormemente, impedindo que o homem

ficasse escravo da pedra. O medieval, por exemplo,

levou muito tempo para descobrir isso.

A maior decadência que houve na História

Contudo, creio que não se dá a volta no assunto recorrendo

a dados puramente naturais. Tanto mais que é contestável

que o homem primitivo vivesse habitualmente nas

cavernas, porque os estudos parecem estar conduzindo à

noção de que todas aquelas decorações muito bonitas que

se encontram nas grutas eram pintadas por gente que ia

para prestar culto ali, mas não morava nas cavernas. Estas

eram uma espécie de capela. Eles comiam nas cavernas,

mas não está provado que dormissem ali.

Parece mais razoável admitir que o homem veio à Terra

numa situação muito superior, e decaiu até à pedra

lascada e à pedra polida. E que esses decadentes, depois,

não se reergueram, sumiram dentro dos mistérios

da História.

Nós teríamos que recorrer à versão bíblica, que é a

verdadeira e serve de ponto de partida sério para essas

considerações.

Adão e Eva decaíram, pelo pecado, e foram punidos.

Creio nunca ter havido decadência tão grande quanto a

deles, porque passaram de seres humanos em estado de

inocência para o estado de pecado. Uma tragédia, com

todas as consequências ligadas a isso…

Entretanto, traziam na memória um número enorme

de conhecimentos, porque não está dito que lhes foram

apagados intencionalmente os conhecimentos que tinham

no Paraíso terrestre. É preciso lembrar que Adão

conhecia a natureza de todos os animais e, quando estes

desfilaram diante dele, foi dando a cada um o nome correspondente

à natureza do animal 2 .

Nossos primeiros pais comunicaram esses conhecimentos

aos seus descendentes, os quais tinham, por isso,

uma situação de muito mais conhecimento e progresso

do que os povos orientais tiveram quando chegaram ao

seu auge. De onde podemos deduzir — como mera hipótese

— que deve ter havido, mais ou menos desde Adão

e Eva à Torre de Babel, um movimento ao mesmo tempo

de decadência e de ascensão.

Em alguns pontos eles foram aproveitando o que sabiam

e desenvolvendo para melhorar; e noutros pontos

foram esquecendo o que conheciam, se embrutecendo e

escorregando para baixo. Provavelmente, fizeram um duplo

movimento: nas coisas utilitárias, foram aumentando

o conhecimento, e nas não utilitárias, foram esquecendo.

O que é muito parecido com o homem contemporâneo,

que a partir da Idade Média veio decaindo naquilo que

não era utilitário e subindo naquilo que era utilitário.

A meu ver, foram decaindo na sabedoria.

A Torre de Babel e o povoamento da Terra

A Torre de Babel parece muito ilustrativa nesse sentido,

porque dá toda a impressão de ter sido uma coisa cal-

O povoamento da Terra,

que, sem dúvida, é uma

condição de melhoria

para a vida dos homens,

foi muito facilitado por

uma espécie de bomba

atômica demográfica,

a qual espalhou gente

pelo mundo inteiro a

partir de uma crise.

“A Torre de Babel”

Real Museu de Belas Artes,

Bruxelas, Bélgica

PaulineM (CC 3.0)

24


culada em função de certa utilidade, não tão grande, porque

se quisessem edificar algo tão alto sem elevador, não

podiam construir uma coisa útil. Assim, devia ser um edifício

de uma alturazinha que eles julgavam vertiginosa,

e com a qual quiseram afirmar uma grandeza naturalista,

que não tomava Deus em consideração. Então veio a

dispersão e uma decadência que, em ponto pequeno, era

parecida com a do pecado original, sem o ser propriamente,

e sem os efeitos trágicos que este teve.

Mesmo aí houve uma coisa interessante: o povoamento

da Terra, que, sem dúvida, é uma condição de melhoria

para a vida dos homens, foi muito facilitado por uma

espécie de bomba atômica demográfica, a qual espalhou

gente pelo mundo inteiro a partir de uma crise.

Alguém dirá: “É uma mera hipótese.” Mas essa hipótese

tem um grande valor como meio de fazer caminhar

o raciocínio; e, quando bem cuidada e arquitetada, ela às

vezes faz voar o pensamento.

Sérgio Miyazaki

Respeitabilidade e grandeza do patriarca

Então, é razoável imaginarmos o progresso, deixando

de lado as povoações que ficaram à margem dele — as

da pedra lascada, da pedra polida, etc. —, e considerarmos

como os demais povos progrediram, como o romano,

que não se vê, em nenhum momento, saindo de uma

gruta, e sim vivendo uma vida pastoril, com restos de nomadismo,

mas que vão se fixando e começando a criar

gado, plantar e se proliferar, constituindo assim sociedades

fixas dotadas indiscutivelmente de uma muito bela

grandeza de horizontes e de uma muito poética beleza

de vida.

O patriarca — por exemplo, do Lácio ou da Hélade

primitivos —, que acorda nos primeiros albores e tem

diante de si as tendas dos seus súditos parentes; alguns já

acordaram, outros dormem ainda; o velho patriarca sai

da sua tenda e toca num chifre de boi vazado o sinal necessário

para despertar a todos, que se levantam e começa

a vida.

Tudo isso tem uma grande beleza! O patriarca tem

uma respeitabilidade e uma grandeza tais, que a Igreja se

adornou com a pulcritude da reminiscência patriarcal, e

certas altas dignidades eclesiásticas com poder governativo

se intitulam “Patriarcas”.

No Ocidente os Patriarcas o são mais por representação

do que em realidade: o Patriarca de Lisboa, o Patriarca

de Veneza, etc. Mas, antigamente, os Patriarcas

gozavam de verdadeira jurisdição intermediária entre a

do Papa e a do bispo. Era uma espécie de metropolita,

um pouco um “papazinho”. Pela dificuldade de comunicações

com Roma, ele tinha de centralizar muita coisa

que, futuramente, iria se concentrar na Cidade Eterna.

Dr. Plinio durante uma

palestra na década de 1990

Havia, então, o Patriarca de Antioquia, de Jerusalém, de

Alexandria, dos Caldeus, e daí para fora, que ainda hoje

têm poder efetivo na Igreja.

Tudo isso faz-nos ver a beleza do patriarcado de que

nos fala a literatura grega e a latina. Muitos dos grandes

heróis da História grega e da romana estavam ainda quase

no período patriarcal. Os heróis da Guerra de Tróia já

tinham reis, mas estes eram o mais possível parecidos

com patriarcas. O ambiente todo era patriarcal, com Estados

compostos de tribos governadas por patriarcas. v

(Continua no próximo número)

1) Ver Revista Dr. Plinio, n. 201, p. 22-25.

2) Cf. Gn 2, 19-20.

(Extraído de conferência

de 22/8/1991)

25


C

alendário

dos Santos – ––––––

1. Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria. Ver página

18.

São Segismundo Gorazdowski, presbítero (†1920). Animado

pelo seu grande amor ao próximo, este sacerdote

polonês fundou em Lviv, Ucrânia, o Instituto das Irmãs de

São José.

2. Santos Basílio Magno (†379) e Gregório Nazianzeno

(†c. 389),bispos e Doutores da Igreja.

Beata Maria Ana Soureau-Blondin,virgem (†1890).

Fundadora da Congregação das Irmãs de Santa Ana, em

Quebec, Canadá, para educação dos filhos dos camponeses.

3. Santíssimo Nome de Jesus.

Santa Genoveva,virgem (†c. 500). Ver página 28.

4. Solenidade da Epifania do Senhor (no Brasil, transferida

do dia 6).

Santa Faraílde, viúva (†c. 745). Obrigada a contrair matrimônio

com um homem violento, abraçou até à sua velhice

uma vida de oração e austeridade, em Bruay-sur-

-l’Escaut, França.

5. Santa Emiliana,virgem

(†séc. VI). Tia paterna de São

Gregório Magno, falecida em

Roma.

6. São João de Ribera,bispo

(†1611). Foi por mais de quarenta

anos Arcebispo de Valência, Espanha,

e por dois anos também vice-rei.

Devoto da Santíssima Eucaristia

e defensor da verdade católica,

educou o povo com sólidos

ensinamentos.

7. São Raimundo de Penyafort,

presbítero (†1275).

São Luciano,presbítero e

mártir (†312). Famoso por sua

doutrina e eloquência, foi conduzido

perante o tribunal em Nicomédia,

Turquia, durante a perseguição

de Maximino Daia. Aos

interrogatórios e torturas respondia

intrépido confessando

ser cristão.

Benoit Lhoest (CC3.0)

Santa Ângela Mérici

8. Santo Erardo,bispo (†707). Natural da Escócia, propagou

o Evangelho em Ratisbona, Alemanha, onde exerceu

seu ministério episcopal.

9. Beato Antônio Fatáti, bispo (†1484). Governou a diocese

de Teramo, Itália, e depois a de Ancona, sendo severo

consigo mesmo e bondoso para com os pobres.

10. Beata Ana dos Anjos Monteagudo,virgem (†1686).

Religiosa dominicana em Arequipa, Peru, que com o dom

do conselho e da profecia promoveu o bem de toda a cidade.

11. Batismo do Senhor.

Beata Ana Maria Janer Anglarill,virgem (†1885). Fundadora

do Instituto das Irmãs da Sagrada Família de Urgell.

Faleceu em Talarn, Espanha.

12. São Bento Biscop,abade (†c. 690). Das suas peregrinações

a Roma trouxe para a Inglaterra mestres e muitos

livros. Fundou os mosteiros beneditinos de Monkwearmouth

e Jarrow, dedicados a São Pedro e São Paulo.

13. Santo Hilário de Poitiers,

bispo e Doutor da Igreja (†367).

São Remígio,bispo (†c. 530).

Durante mais de 60 anos foi Bispo

de Reims, França. Batizou

o rei Clóvis e converteu o povo

franco ao Catolicismo.

14. Beato Lázaro Pillai,pai de

família e mártir (†1752). Durante

a perseguição contra os cristãos

no reino de Travancor, foi assassinado

em Aral Kurusady, Índia,

por ter se convertido à Fé Católica.

15. São João Calibita,asceta

(†séc. V). Segundo a tradição,

abandonou a casa paterna, ainda

jovem, e foi viver em uma choupana,

em Constantinopla, Turquia,

dedicando-se à contemplação

e penitência.

16. São Marcelo I, Papa (†309).

São Dâmaso o define como ver-

26


––––––––––––––––– * Janeiro * ––––

dadeiro pastor, hostilizado por

apóstatas que recusavam aceitar

as penitências que lhes foram impostas.

Morreu no exílio.

17. Santo Antão, abade (†356).

São Sulpício,o Piedoso, bispo

(†647). Promovido da corte régia

ao episcopado, em Bourges,

França, teve como maior preocupação

o cuidado dos pobres.

18. II Domingo do Tempo Comum.

Beato André de Peschiera Grego,

presbítero (†1485). Religioso

dominicano que percorreu a pé

durante muito tempo, toda a região

dos Alpes italianos, vivendo

junto aos pobres e pregando a

doutrina católica.

19. São Bassiano,bispo (†409). Lutou junto com Santo

Ambrósio de Milão para defender seu povo da heresia

ariana, ainda viva na diocese de Lodi, Itália.

20. São Fabiano, Papa e mártir (†250).

São Sebastião, mártir (†séc. IV).

21. Santa Inês, virgem e mártir (†séc. III/IV).

Santo Epifânio,bispo (†496). Durante a invasão dos

bárbaros, trabalhou pela reconciliação dos povos, pela redenção

dos cativos e reconstrução de Pávia, Itália.

22. São Vicente, diácono e mártir (†304).

Santos Francisco Gil de Frederich e Mateus Afonso

de Leziniana,presbíteros e mártires (†1745). Sacerdotes

dominicanos mortos a fio de espada em Tonquim, Vietnã,

após um período de cárcere, por pregarem o Evangelho.

23. Santos Clemente,bispo e Agatângelo, mártires

(†séc. IV). Mortos em Ancara, Turquia, durante a perseguição

de Diocleciano.

São João Bosco

Fefemak (CC 3.0)

do czar da Rússia, por se recusarem

a se separar da Igreja Católica.

25. III Domingo do Tempo Comum.

Conversão de São Paulo,

Apóstolo.

Beato Antônio Swiadek,presbítero

e mártir (†1945). Por defender

a Fé perante os sequazes

de doutrinas hostis a toda a dignidade

humana e cristã, alcançou

a coroa imperecível de glória no

campo de concentração de Dachau,

Alemanha.

26. São Timóteo e São Tito,

bispos.

Beato Gabriel Maria Allegra,

presbítero (†1976). Franciscano,

insigne estudioso e pregador do

Evangelho, compôs a versão de toda a Bíblia para a língua

chinesa. Morreu em Hong Kong.

27. Santa Ângela Mérici, virgem (†1540).

Beata Rosália du Verdier de la Sorinière, virgem e mártir

(†1794). Religiosa do mosteiro beneditino da Congregação

do Calvário, guilhotinada em Angers durante a Revolução

Francesa.

28. São Tomás de Aquino, presbítero e Doutor da Igreja

(†1274). Ver página 2.

Beato Julião Maunoir,presbítero (†1683). Jesuíta que,

durante 42 anos, dedicou-se às missões populares, tanto

nas aldeias como nas cidades da Bretanha, França.

29. Santo Afraates,eremita (†c. 378). Nascido próximo

a Nínive, no atual Iraque, converteu-se ao Cristianismo e

passou a viver como anacoreta em Edessa, Síria.

30. São Muciano Maria Wiaux,religioso (†1917). Pertencia

à Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs.

Consagrou toda a sua vida a trabalhar na educação de jovens,

em Namur, Bélgica.

24. São Francisco de Sales,bispo e Doutor da Igreja

(†1622).

Beatos Vicente Lewoniuk e doze companheiros,mártires

(†1874). Leigos de Pratulin, Polônia, fuzilados pelas tropas

31. São João Bosco,presbítero (†1888).

Beata Candelária de São José,virgem (†1940). Fundou

em Altagracia de Orituco, Venezuela, a Congregação das

Irmãs Carmelitas da Madre Candelária.

27


Hagiografia

Santa Genoveva

Tendo apenas sete anos de idade, Santa Genoveva

prometeu, na presença dos bispos São Germano e São

Lupo, guardar a pureza de alma e de corpo. Tal promessa

ela a cumpriu com toda fidelidade e teve a insigne glória

de, em 451, impedir que os hunos comandados por Átila

invadissem Paris, tornando-se a padroeira dessa cidade.

E

m 3 de janeiro comemora-

-se Santa Genoveva, virgem.

A respeito dela,

vamos considerar a seguinte

nota biográfica extraída

da obra L’Année Liturgique,

de Dom Guéranger

1 :

Em meio à

multidão,

São Germano

discerne uma

virtuosa

menina...

Genoveva foi célebre

no mundo inteiro. Ainda

vivia ela nesta carne

mortal, e o Oriente

já conhecia seu nome

e suas virtudes. Do alto

de sua coluna, o estilita

Simeão a saudava como

sua irmã em perfeição

no Cristianismo. A

capital da França tinha-

-lhe sido confiada; uma

simples pastora protegia

os destinos de Paris, as-

Santa Genoveva - Igreja de Saint-Louis-en-l’Ile, Paris, França

sim como um simples lavrador, Santo

Isidro, vigiava a capital das Espanhas.

São Germano de Auxerre

ia para a Grã-Bretanha para

onde o Papa São Bonifácio

I o estava enviando,

a fim de combater a heresia

pelagiana. Acompanhado

de São Lupo,

Bispo de Troyes, que devia

partilhar sua missão,

parou na aldeia de Nanterre.

Enquanto os dois

prelados se dirigiam à

igreja onde queriam rezar

pelo sucesso de sua

viagem, o povo fiel os

circundava com uma

piedosa curiosidade.

Iluminado por uma

luz divina, Germano

discerniu em meio

à multidão uma menina

de sete anos, e foi

advertido interiormente

de que o Senhor a tinha

escolhido. Perguntou

aos presentes qual

era o nome dessa criança

e rogou que a trou-

Mbzt (CC 3.0)

28


xessem à sua presença.

Assim, fizeram aproximarem-se

os pais, Severo

e Gerúntia. Ambos ficaram

enternecidos com

os sinais de ternura com

que o bispo cumulava

sua filha.

...que faz a

promessa de

manter a pureza

de alma e de corpo

— Esta criança é sua?

— perguntou-lhes Germano.

— Sim, senhor —

responderam eles.

— Felizes pais com

uma tal filha — acrescentou

o bispo. Por ocasião

do nascimento desta

criança, saibam-no, os Anjos deram grande festa no Céu.

Esta menina será grande diante do Senhor; e, pela santidade

de sua vida, arrancará muitas almas do jugo do pecado.

Depois, dirigindo-se à criança, disse:

— Genoveva, minha filha...

— Padre santo — respondeu ela — vossa serva escuta.

Então, disse Germano:

— Fala-me sem temor: gostarias de ser consagrada a

Cristo numa pureza sem mancha, como sua esposa?

— Bendito sejais, meu Pai — exclamou a criança —, o

que me pedis é o maior desejo de meu coração. É tudo o

que quero. Dignai-vos rogar ao Senhor que mo conceda.

— Tem confiança, minha filha — retomou Germano

—, sê firme em tua resolução. Que tuas obras sejam conformes

à tua Fé, e o Senhor acrescentará sua força à tua

beleza.

Os dois bispos entraram na igreja e foi cantado o Ofício

de Noa, seguido das Vésperas. Germano tinha mandado

trazer Genoveva junto a si, e durante a salmodia manteve

suas mãos postas sobre a cabeça da criança.

No início do dia seguinte, antes de partir, mandou o pai

trazer-lhe Genoveva.

— Salve, Genoveva, minha filha — disse-lhe Germano.

Lembras-te de tua promessa de ontem?

— Ó Padre santo — retorquiu a criança —, lembro-me

do que prometi a vós e a Deus. Meu desejo é de manter para

sempre, com o socorro celeste, a pureza de minha alma

e de meu corpo.

Santa Genoveva diante de São Germano e São Lupo - Igreja

de Saint-Julien-du-Sault, Borgonha, França

Neste momento, Germano percebeu no chão uma medalha

de cobre marcada com a imagem da Cruz. Tomou-a

e dando-a a Genoveva disse-lhe:

— Faze-lhe um furo, põe-na no pescoço e guarda-a em

lembrança de mim. Não leves nunca colar, nem anel de ouro

ou de prata, nem pedra preciosa; pois se a atração das

belezas terrenas vier a dominar teu coração, perderias logo

teu ornamento celeste, que deve ser eterno.

Depois destas palavras, Germano recomendou à criança

que pensasse nele frequentemente, em Cristo e, tendo-a recomendado

a Severo como um depósito duas vezes precioso,

tomou a estrada para a Grã-Bretanha, junto com seu

piedoso companheiro.

Florilégio de Santos

Nesse episódio, podemos notar algo que explica o admirável

florescimento de almas santas na Idade Média.

Vejamos os homens que figuram nesta história.

Em primeiro lugar, o Papa São Bonifácio. Este envia

São Germano de Auxerre para defender a Inglaterra

contra os pelagianos, e São Germano tem como companheiro

de viagem outro Santo, que é São Lupo, Bispo de

Troyes. Quer dizer, são dois bispos santos mandados por

um Papa santo para defender um país que está ameaçado

pela heresia.

Compreende-se o calor da santidade, a intensidade da

vida espiritual, o que era, afinal de contas, este florilégio

Convivial94 (CC 3.0)

29


Hagiografia

GFreihalter (CC 3.0)

Cenas da vida de Santa Genoveva - Igreja

de Saint-Leu-Saint-Gilles, Paris, França

Ela cresce, enche o panorama

com a sua presença e floresce

como uma flor no centro

do jardim do Ocidente.

enorme de Santos sobre os quais a Idade Média, ponto

por ponto, vinha se construindo.

Ao longo da viagem, passam por uma cidadezinha

chamada Nanterre, onde a primeira providência não é se

dirigirem para o hotel ou para a hospedaria, nem para

um lugar onde possam se divertir. A primeira atitude que

tomam, depois de uma viagem fatigante, é ir para a igreja

a fim de rezar.

Tal é a iluminação desses personagens, tal o seu prestígio,

a atração exercida por eles, que entram na igreja,

o povo os rodeia e começa a olhá-los rezar. É o povinho

fiel, os camponesinhos com o jeito, naturalmente, do que

seriam os camponeses no tempo de Santa Joana d’Arc,

alguns séculos depois, rodeando os dois bispos que, recolhidíssimos

diante do Santíssimo Sacramento, numa pequena

capela, estão fazendo uma oração intensa. E o povo

olhando, maravilhado!

De repente, nesse ambiente de fervor, uma graça se

faz notar por todos: aqueles dois Santos, enviados por

um terceiro Santo, distinguem, entre os fiéis que os rodeiam,

uma grande Santa, uma menina de sete anos.

Eles a chamam e, diante de todo o povo, um deles faz

a profecia a respeito do que a menina haveria de ser. E

começa por dizer assim: “Fiquem sabendo que no Céu

houve uma grande alegria quando esta menina nasceu.”

Quando Genoveva nasceu, houve

grande alegria no Céu

Imaginem o maravilhamento de toda a aldeinha! Um

lugarejo onde tudo é notícia, tudo é novidade, em que

até a chegada de dois bispos é um grande acontecimento...

De repente, esses bispos falam da “fulaninha” que

eles veem correr descalça de um lado para outro, pelas

ruas da cidade. Em relação a essa menina, quando ela

nasceu, houve alegria no Céu!

Ninguém duvidou, ninguém pediu provas, todos acreditaram,

inclusive a menina e seu pai. Porque essas pessoas

são os tais bem-aventurados, dos quais nos fala o

Evangelho 2 , que creem sem ter visto.

Pensam elas: é tão natural ter havido alegria no Céu por

uma menina santa que nasceu! Os Santos são tão frequentes

e tão numerosos, eles estão em um contato tão contínuo

com o Céu, que conhecem o que se passa lá. Portanto,

é natural que eles saibam. É uma comunicação normal.

Como isto é diferente da distância que nos separa do

sobrenatural em nossos dias! Antes de admitir que uma

coisa vem do Céu, o homem contemporâneo se mune de

todas as armas do racionalismo para ver se consegue negar.

Não havendo meios de recusar, só então ele se resigna,

sem grande entusiasmo a, de quando em vez, admitir

a procedência celeste de algo.

30


Pelo contrário, naquele ambiente cheio de Fé a situação

se resolveu imediatamente.

São Germano pergunta à menina:

— Você quer se consagrar a Deus?

— Meu pai — responde ela —, é o mais caro desejo

do meu coração!

Está tudo resolvido. Fica um sulco de luz naquela cidade

que, a partir de então, começa a ter história. A cidadezinha

nasce para a História porque um grande fato

sobrenatural se passou nela.

Arco voltaico de santidade

Ela, provavelmente, foi dali mesmo levada pelos pais

para um convento onde a prioresa ou a abadessa seria

uma Santa também, com um daqueles nomes cuja sonoridade

é estranha para nós, mas uma Santa de verdade.

Chegam lá e dizem:

— Viemos trazer esta menina, nossa filha.

Certamente a resposta da santa abadessa não

seria: “Ah! como ela é engraçadinha”, mas sim:

— Esta menina parece ter o espírito de Deus!

E é possível que Santa Genoveva tivesse dito,

com toda inocência, sem qualquer pretensão:

— Tenho mesmo.

E a abadessa perguntasse para a mãe:

— Mas por que trazes a menina?

Jebulon (CC 3.0)

— Ah! porque São Germano de Auxerre e São Lupo

de Troyes disseram dela tais e tais coisas...

— Ah, que bonito!

A abadessa não iria perguntar se tinham um atestado

timbrado da Cúria, nem nada disso. Ela acredita também,

acolhe no convento a menina que já começa a santificar-se,

elevando-se na vida espiritual, a partir daí, como

um cedro do Líbano.

Ela cresce, enche o panorama com a sua presença

e floresce como uma flor no centro do jardim do Ocidente.

Não havia imprensa, rádio ou televisão; entretanto,

a fama de Santa Genoveva se espalhou até o

Oriente, a ponto de São Simeão Estilita, na Ásia Menor,

ouvir falar dela.

Era o famoso Santo que vivia

no alto de uma coluna,

de onde nunca descia,

rezando o tempo

inteiro. Era uma

forma de verdadeiro

eremita. Ele então

ouve falar das

virtudes de Santa

Genoveva e,

por esses “radares”

que os Santos

têm para se sentirem

uns aos outros,

compreende que ela

era irmã espiritual dele

e saudou de longe, do alto

de sua coluna, esta flor que

nascia no doux pays de France 3 .

Vemos os contatos passando

por sobre os mares, as ilhas, as

cordilheiras, as vastidões desertas

e povoadas, e estes dois Santos

formando uma espécie de

arco voltaico de santidade naquela

época.

v

(Extraído de conferência

de 3/1/1966)

Torvindus (CC 3.0)

Santa Genoveva - Museu Carnavalet. Em destaque, sepultura da

Santa - Igreja de Saint-Étienne-du-Mont, Paris, França

1) GUÉRANGER, Prosper.

L’Année Liturgique – Le temps de

Noël. Tomo I. 13ª edição. Paris: Librairie

Religieuse H. Oudin, 1900.

p. 523-525.

2) Jo 20, 29.

3) Do francês: doce país da França.

31


Apóstolo do pulchrum

O belo e o prático - I

Paulo sande (CC 3.0)

“Terreiro do Paço”

Museu da Cidade,

Lisboa, Portugal

A Revolução, fundamentalmente materialista, propaga a ideia de

que o importante é o lado prático das coisas, pois proporciona

conforto para o corpo, enquanto que o belo nem deve ser

considerado. Dr. Plinio desmonta esse sofisma.

D

iante de tantas coisas bonitas dos tempos

antigos que foram sendo destroçadas, e tantas

coisas hediondas instauradas nos dias de

hoje em nome do prático, põe-se a pergunta: o prático

não é um precursor da feiura e o belo um inimigo

do prático?

Grahamedown (CC 3.0)

Darwininius (CC 3.0)

Carfax2 (CC 3.0)

32


Rapidez e comodidade

Para analisar esta questão, consideremos alguns meios

de transporte.

Toda coisa é perfeita na medida em que atinge o seu

fim. Ora, o fim de uma carruagem, por exemplo, é transportar;

e se ela transporta nas condições ideais, realizou

a sua perfeição.

Quais são as condições ideais do meio de transporte?

Ele deve ser, entre outras coisas, rápido e cômodo. Entretanto,

o conceito de cômodo é muito amplo, porque

uma é a comodidade que se pode querer ter em um automóvel

que transpõe a distância de alguns quarteirões;

outra é a comodidade exigida desse veículo fazendo uma

longa viagem. São distâncias muito diferentes em que o

corpo e o próprio espírito humano pedem graus e modos

de conforto diferentes.

Há outras circunstâncias que condicionam a comodidade

de um veículo, como, por exemplo: um molejo adequado

para transitar em superfícies irregulares; arranque

suave e silencioso do motor; estabilidade pela qual o passageiro

sinta-se bem e seguro, mesmo em alta velocidade,

etc.

Chegamos, assim, à conclusão de que o espírito prático

deve ser adaptado a várias circunstâncias.

Beleza ou conforto?

A beleza interna de um veículo é uma condição de

conforto? Evidentemente sim. Porque tudo que lisonjeia

os sentidos, de algum modo, é condição de conforto. É

muito confortável viajar em uma carruagem e ver o sol

entrando pelos cristais das janelas e incidindo sobre sedas,

damascos, veludos, “brincando” naqueles tecidos de

luxo. Portanto, estaria de acordo com o espírito prático

— que deve procurar o conforto de um veículo — tornar

bonito o interior de uma carruagem.

Mas também deve estar de acordo com o espírito prático

que um automóvel tenha um compartimento com

um pequeno refrigerador contendo líquidos gelados para

que, no auge do calor, sem ter de diminuir a velocidade

do carro, o dono possa servir-se de um refresco.

Havendo tudo isso, pode-se dizer que o espírito prático

obteve uma vitória. Mas torna-se impossível fabricar

uma bela carruagem com essas comodidades. Onde colocar

a geladeira e as supermolas compatíveis com a supervelocidade?

Onde instalar um mecanismo por onde baste

apertar um botão para as janelas subirem e baixarem

fazendo um ruído prestigioso? Essas coisas cabem nos

produtos modernos, não nos antigos. Então, o que escolher:

a beleza da carruagem ou o conforto do automóvel?

Alma do homem e pulcritude

Até pouco tempo atrás, os homens não tinham perdido

a noção do belo, mesmo passando da era da bela

carruagem para a do automóvel. Tomemos, por exemplo,

automóveis do tipo Mercedes. Eram bonitos veículos,

com cores lindas, reluzentes. O homem tinha a impressão

de entrar em uma pedra preciosa, de tal maneira

aquela lataria toda era ornada. Dentro havia couros

de primeira ordem, espaço amplo, enfim, todos os agrados

dos transportes de luxo se encontravam reunidos ali.

Diversos modelos de

carruagens inglesas

Tony Hisgett (CC 3.0)

33


Apóstolo do pulchrum

Dcoetzee (CC 3.0)

Isso obedecia ao seguinte princípio: há uma

razão para, tanto a carruagem quanto o automóvel,

serem belos.

Todos os argumentos dados até agora a favor

do espírito prático valem para o corpo. Mas o homem

tem só corpo? Ele é principalmente corpo?

O homem não é principalmente alma? E se a alma

é o elemento principal do ser humano, do que vale

o belo para a alma? Neste caso, ter beleza não seria o

principal componente que um transporte deveria possuir?

Lindos cavalos, belas carruagens

Dcoetzee (CC 3.0)

O Bucentauro no

Grande Canal de

Veneza - Museu Pushkin,

Moscou, Rússia e

Museu Nacional de Arte,

Copenhagen, Dinamarca

Analisemos o papel do belo.

Primeiramente, a pessoa que está em uma carruagem

ou qualquer outro meio de transporte, ainda que seja

simplesmente um cavalo, apresenta-se aos olhos do público

de modo a chamar a atenção. Porque um indivíduo

que atravessa uma rua dentro de um veículo ou montado

em um animal, atrai muito mais a atenção do que

quem vai a pé, e forma um todo psicológico e artístico

aos olhos dos transeuntes.

Ademais, o homem tem interesse em ser conhecido

pelo que ele é, para que se lhe dê o valor ao qual tem direito.

Se ele é um verdadeiro cavaleiro, descendente, por

exemplo, dos cruzados, convém que monte um lindo cavalo

de raça.

E montar, não é estar sobre o animal como estaria um

saco de batatas. É preciso cavalgar com elegância, altaneria

e dignidade. O cavaleiro deve dar a impressão de

tal domínio sobre o cavalo, que o oriente simplesmente

pelo movimento das pernas. As rédeas servem mais como

um elemento ornamental.

Além disso, o animal

precisa estar belamente ajaezado

com uma bonita sela, belos

arreios. Tudo isso forma a moldura com que o homem

se apresenta em público.

É de acordo com a dignidade do homem que ele queira

cavalgar esplendidamente um lindo cavalo. Isso não é

vaidade, mas o reto exercício do instinto de sociabilidade,

não com pretensão, mas com a naturalidade com que

uma pessoa quer mostrar o rosto limpo para os outros.

Tratando-se de pessoas de uma condição inteiramente

excepcional, como um rei e uma rainha, que ocupam no

Estado e na sociedade o primeiro lugar, é natural que,

por uma necessidade da alma, se façam ver e reverenciar

pelo que eles são, utilizando uma carruagem à altura

de seu cargo.

Para eles, mais importante do que a grande velocidade

e todas as comodidades é ter um coche, no qual se

apresentem como dentro de uma linda moldura.

Por isso as altas situações são tratadas pelos artistas —

no caso concreto, pelos fabricantes de coches — de maneira

a serem realçadas. A arte se empenha em apresentar

o rei, a rainha, os príncipes da casa real, os nobres,

os titulares de altas dignidades da Igreja, do Poder Judi-

34


Peter Isotalo (CC 3.0)

ciário, das Forças Armadas, etc. de modo a serem naturalmente

respeitados, proporcionando-lhes outra modalidade

de conforto: a comodidade de governar.

Então, é uma vantagem do Estado que haja lindas

carruagens. Quanta revolta é evitada, quanta guerra interna

é poupada a um país porque o povo se habituou a

respeitar quem o governa!

O Bucentauro e a ponte sobre o Tâmisa

A República de Veneza tinha um presidente do Conselho

dos Nobres intitulado Doge, palavra derivada do

vocábulo latino dux, chefe.

Para navegar pelas águas fabulosas da Laguna de Veneza,

o Doge dispunha de uma embarcação, toda esculpida,

folheada a ouro, lindíssima, que por uma reminiscência

mitológica chamava-se “O Bucentauro”.

Na ocasião máxima do Estado Veneziano, o Doge

partia no Bucentauro acompanhado de centenas de barcos,

gôndolas com aquelas proas lindas, gente tocando

instrumentos, cantando, etc., laguna adentro, até o Mar

Adriático. E, quando estavam no alto mar, o Bucentauro

parava e o Doge jogava nas águas um anel precioso: era

o casamento de Veneza com o mar.

Veneza era uma grande república comercial e dominava

os mares naquele tempo, sendo, por isso riquíssima.

O casamento da República de Veneza com o

mar representava uma espécie de união entre o Estado

veneziano e seu destino histórico.

Evidentemente era útil para o Estado veneziano

ter um barco assim.

Portanto, nem sempre a beleza tem essa incompatibilidade

com o prático que apresentávamos no início

desta exposição. Para a vida da alma, para o intercâmbio

de relações entre as almas, para a formação da política

e da cultura de um povo, o belo tem uma importância

maior do que o prático. E quando há incompatibilidade,

quase sempre o belo prevalece sobre o prático.

Dou um exemplo de nossos dias: o Rio Tâmisa, em

Londres, com aquela ponte levadiça. Aquilo é lindo, mas

já não necessário, porque com os meios modernos poder-se-ia

construir uma ponte alta que substituísse aquela.

Por que se mantém a ponte atual? Porque é bela!

Há, portanto, um prático de categoria inferior que encontramos

ao olhar automóveis bem equipados. Mas há

um prático mais elevado que toma em consideração que

o homem é mais espírito do que matéria, e que as coisas

do espírito têm muito mais importância do que as da matéria.

Por isso, deve-se dar mais valor ao belo do que ao

prático.

v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de 4/10/1986)

McKarri (CC.3.0)

Stefan.lefnaer (CC.3.0)

Ponte da Torre

Londres, Inglaterra

Proa do Bucentauro

35


Virgem das Escolas Pias - Paróquia dos Escolápios, Madri, Espanha

O

Ternura da Mãe de Deus

protótipo de ternura é o coração matertroem

catedrais magníficas; ora sob o aspecto

no. Especialmente o é o Coração da Mãe

das mães, que excede de um modo inimaginável

a ternura de todas as mães que houve, há e haverá.

Quase que se poderia dizer que Nossa Senhora

é a personificação da ternura.

Para exprimir isso aos homens por formas diversas,

Maria Santíssima multiplica suas graças.

Ora Ela aparece sob a forma de uma Rainha

esplêndida, em homenagem à qual se cons-

de Mãe de misericórdia, meiga, que Se contenta

com o culto que Lhe é tributado em pequenas

choupanas, onde, entretanto, Ela faz milagres

excelentes para tornar mais patente sua maternal

bondade, animar os homens a Lhe pedirem,

com confiança, tudo quanto queiram, e convidá-los

a amá-La por causa da ternura que Ela

lhes demonstra.

(Extraído de conferência de 14/5/1966)

Sergio Hollmann

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