Revista Dr. Plinio 207
Junho de 2015
Junho de 2015
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Dona Lucilia<br />
Dor e seriedade<br />
A seriedade causa dor, mas o pior sofrimento é o produzido<br />
pela falta de seriedade, a qual faz com que a pessoa se sinta<br />
vazia, sem ideias, sem ideais, sem vontade.<br />
Osofrimento era algo tão ligado à vida de Dona<br />
Lucilia e a todo o ser dela, que eu em pequeno<br />
às vezes notava que ela estava sofrendo, porém<br />
não sabia por quê. Ficava olhando para ela e contemplando<br />
o sofrimento, mas sem compreender o que a fazia<br />
sofrer.<br />
Pequenos sofrimentos que originavam<br />
um sofrimento global<br />
Mais tarde, quando me tornei um pouco mais velho, fui<br />
compreendendo uma ou outra razão de um ou outro sofrimento.<br />
Depois, compreendi que os sofrimentos dela formavam<br />
um como que edifício. Era um conjunto de razões<br />
que a faziam sofrer e que constituíam um grande sofrimento<br />
global, o qual era o sofrimento geral da vida dela. Então<br />
comecei a ter uma ideia global do que era o sofrimento.<br />
Quando pequeno, eu notava, sobretudo, que mamãe<br />
tinha restos de enfermidade devido àquela operação da<br />
vesícula, que ela fez na Alemanha em 1912, e percebia<br />
que tinha muita dificuldade em caminhar.<br />
Eu notava que, às vezes, meu pai voltava cedo do escritório,<br />
passava por casa, pegava-a e saíam os dois a fazerem<br />
uma volta a pé. Ele, tendo terminado seu serviço durante<br />
o dia, contente com a tarefa, com saúde e vida, um homem<br />
muito feliz. Ela, uma pessoa na qual cada passo era uma<br />
dor, ao mesmo tempo entendia que não poderia irradiar<br />
seu sofrimento sobre o esposo, ser uma causa contínua de<br />
dores para ele. Ela deveria fingir que não estava sofrendo,<br />
ou contar sorrindo: “Hoje, como estão me doendo os<br />
pés!”, e continuar a andar, todos os dias, a extensão recomendada<br />
pelos médicos. Nunca terminar antes porque lhe<br />
estavam doendo muito, porque essa extensão era necessária<br />
para habituar os pés ao esforço adequado.<br />
O sofrimento produz a seriedade<br />
Então, eu percebia que mamãe tinha uma compreensão<br />
muito profunda dessa situação. Ela sentia esse sofrimento,<br />
e sentia na alma a dor que tem esta quando o corpo<br />
sofre dor física. Não é uma dor superficial, mas uma<br />
dor profunda. O corpo padece e a alma com isso sofre.<br />
Quando voltava para casa, ela descansava, e nesse momento<br />
eu entendia tudo quanto sofrera durante o passeio,<br />
porque, sorrindo, mamãe se deitava numa espécie<br />
de divã e ficava com os pés imobilizados até que a dor<br />
passasse. Ela às vezes gemia sorrindo; então se formava<br />
uma roda de pessoas conversando coisas do dia, e por<br />
amabilidade perguntavam-lhe:<br />
— Você está melhor, Lucilia?<br />
— Sim, sim, estou melhorando.<br />
Eu estava vendo que era todo o dia a mesma coisa,<br />
não acabava mais. E compreendia bem que aquilo trazia<br />
para seu espírito um reflexo, que era a seriedade, porque<br />
o sofrimento produz a seriedade.<br />
A pior dor que o homem pode ter não é a causada pela<br />
seriedade, é a produzida pela falta de seriedade. Sentir-se<br />
não sério, vazio, sem ideias, sem ideais, sem querer<br />
nada, sem dizer algo que valha qualquer coisa, isto causa<br />
um sofrimento pior do que o pior dos sofrimentos.<br />
Um dos melhores dons que Deus pode dar a uma<br />
criança é o sofrimento. Não nos queixemos, portanto,<br />
dos sofrimentos que tenhamos tido. Pelo contrário, agradeçamos<br />
a Nossa Senhora e compreendamos que Ela,<br />
assim, nos destinou para a seriedade.<br />
Atitudes das pessoas perante a<br />
Primeira Guerra Mundial<br />
Pouco tempo depois desses primeiros fatos da minha<br />
infância terem se passado, arrebentou a Guerra Mundial.<br />
Entendi mais ou menos o que era essa guerra, mas<br />
tinha a noção da distância enorme que havia entre o<br />
Brasil e a Europa. Portanto, era impossível que a guerra<br />
chegasse até aqui; enquanto a Europa passava por todo<br />
aquele sofrimento, no Brasil havia a boa vida tranquila<br />
e folgada; o Brasil não entraria em guerra, e por isso as<br />
pessoas aqui gostavam de celebrar a tranquilidade bra-<br />
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