Revista Dr. Plinio 204
Março de 2015
Março de 2015
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Publicação Mensal Ano XVIII - Nº <strong>204</strong> Março de 2015<br />
Santidade e nobreza
As coisas terrenas passam,<br />
só a eternidade fica<br />
www. heroinasdacristandade.blogspot.com.br<br />
Corpo incorrupto de Santa Catarina<br />
Igreja do Corpo do Senhor,<br />
Bolonha, Itália<br />
A<br />
fisionomia de Santa Catarina<br />
de Bolonha é distendida. O<br />
mais expressivo deste semblante<br />
está nos lábios cerrados, longos e<br />
finos, com um leve sorriso, ao<br />
mesmo tempo de afabilidade e<br />
de acolhida, como quem, com<br />
muita suavidade, mas com<br />
uma enorme transcendência,<br />
sorri de desdém de todas as<br />
coisas da vida, e diz: “Olhe,<br />
tudo isso não é nada, tudo<br />
acaba, não tem importância;<br />
a figura das coisas terrenas<br />
passa, só a eternidade fica. Eu<br />
passei por tudo, sofri todas as dores,<br />
tive todas as provações, e terminados esses<br />
sofrimentos sorrio para eles. Porque aquilo<br />
que foram mares encapelados, precipícios<br />
temíveis, montanhas instransponíveis, fica para trás. De longe, eu sorrio<br />
para tudo isso e percebo que só a eternidade é séria.”<br />
(Extraído de conferência de 19/5/1971)<br />
2
Sumário<br />
Publicação Mensal Ano XVIII - Nº <strong>204</strong> Março de 2015<br />
Ano XVIII - Nº <strong>204</strong> Março de 2015<br />
Santidade e nobreza<br />
Na capa, imagem de<br />
São José venerada<br />
em uma capela<br />
privada na cidade<br />
de Caieiras, Brasil.<br />
Foto: David Domingues<br />
As matérias extraídas<br />
de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
— designadas por “conferências” —<br />
são adaptadas para a linguagem<br />
escrita, sem revisão do autor<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />
propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />
CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />
INSC. - 115.227.674.110<br />
Diretor:<br />
Antonio Augusto Lisbôa Miranda<br />
Editorial<br />
4 Virtude: fator de enobrecimento<br />
e harmonia<br />
Dona Lucilia<br />
6 Lições sobre os Novíssimos do homem<br />
Sagrado Coração de Jesus<br />
10 Matriz do pensamento de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
Conselho Consultivo:<br />
Antonio Rodrigues Ferreira<br />
Carlos Augusto G. Picanço<br />
Jorge Eduardo G. Koury<br />
Redação e Administração:<br />
Rua Santo Egídio, 418<br />
02461-010 S. Paulo - SP<br />
Tel: (11) 2236-1027<br />
E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br<br />
Impressão e acabamento:<br />
Pavagraf Editora Gráfica Ltda.<br />
Rua Barão do Serro Largo, 296<br />
03335-000 S. Paulo - SP<br />
Tel: (11) 2606-2409<br />
O pensamento filosófico de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
16 Ordenação e desregramento do<br />
instinto de sociabilidade - II<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
20 Modalidades de sofrimento - II<br />
Calendário dos Santos<br />
22 Santos de Março<br />
Hagiografia<br />
24 Nobreza e lógica de São José<br />
Preços da<br />
assinatura anual<br />
Comum .............. R$ 130,00<br />
Colaborador .......... R$ 180,00<br />
Propulsor ............. R$ 415,00<br />
Grande Propulsor ...... R$ 655,00<br />
Exemplar avulso ....... R$ 18,00<br />
Serviço de Atendimento<br />
ao Assinante<br />
Tel./Fax: (11) 2236-1027<br />
Luzes da Civilização Cristã<br />
30 Esplendor do equilíbrio<br />
Última página<br />
36 Pureza, humildade, obediência<br />
3
Editorial<br />
Virtude: fator<br />
de enobrecimento<br />
e harmonia<br />
C<br />
erta ocasião, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> encantou-se com a descrição feita por Antero de Figueiredo de um mendigo<br />
espanhol que, cônscio de sua dignidade de filho de Deus, pedia com tal distinção a caridade<br />
de uma esmola, que mais se assemelhava a um fidalgo maltrapilho do que a um esmoleiro.<br />
Semelhante impressão causou-lhe a réplica de uma simples camareira a uma das filhas de Luís XV.<br />
Ao ver-se obrigada a se opor a um abuso de autoridade, a fiel servidora ouviu de sua senhora a ameaçadora<br />
pergunta: “Não sabes que sou filha do Rei?”<br />
A humilde mucama retrucou, num tom respeitoso, mas firme: “E não sabeis, Alteza, que sou filha<br />
de Deus?”<br />
Contudo, maior admiração experimentou <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> ao tomar conhecimento de que a Bem-aventurada<br />
Anna Maria Taigi, mera dona de casa e cozinheira dos Príncipes de Colonna, causava encanto<br />
ao caminhar pelas ruas de Roma, devido a seu porte que muito se assemelhava ao de uma rainha.<br />
De onde vinha tanta dignidade que conferia nobreza a pessoas do povo? Antes de tudo, concluía<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, de almas habitadas pela graça divina.<br />
Sempre lhe foi muito cara a tese — mencionada na seção “Hagiografia” da presente edição 1 — de<br />
que um dos principais fatores de enobrecimento é a prática da virtude. De modo correlato, a situação<br />
de pecado, escandalosa e duravelmente sustentada, constitui grave razão para destituir alguém de suas<br />
dignidades nobiliárquicas.<br />
Tese essencialmente contrarrevolucionária, pois apresenta o fundamento divino de tudo o que é<br />
nobre e elevado, enquanto aponta como uma das principais tarefas da nobreza dar exemplo das virtudes<br />
cristãs.<br />
Assim como um religioso, por vocação, deve tender à perfeição, também “a condição de nobre —<br />
dizia <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> — é a de quem deve ser perfeito no plano espiritual, quer dizer, exímio no cumprimento<br />
dos Mandamentos, no amor a Deus, à Igreja e ao próximo, de um lado. De outro lado, ele deve<br />
ser exímio do ponto de vista temporal, procurando fazer tudo perfeitamente bem, até mesmo as<br />
mínimas coisas, como o modo de servir-se de um peixe ou de suspender um copo para tomar água,<br />
porque a missão dele é ser o homem arquetípico.” 2<br />
Dentro desta perspectiva católica, torna-se completamente vazia de sentido a luta de classes promovida<br />
pela Revolução, pois o que impede a verdadeira harmonia entre nobres e plebeus, como também<br />
entre ricos e pobres, não são as diferenças existentes entre essas camadas da sociedade, mas o<br />
prurido igualitário que eventualmente domine seus membros.<br />
Com efeito, o mesmo espírito revolucionário que impele o plebeu ou o pobre a se revoltar contra<br />
o nobre ou o rico leva estes a desprezar e, por vezes, explorar aqueles, pois ambos os extremos es-<br />
4
tão impulsionados pelo orgulho — uma das molas propulsoras da Revolução 3 — e não pela graça<br />
de Deus.<br />
Eis a razão pela qual o Magistério da Igreja sempre apontou como contrária ao verdadeiro espírito<br />
cristão a promoção da luta de classes.<br />
Em 19 de março de 1993 era publicado o último livro de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, “Nobreza e elites tradicionais<br />
análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana” 4 , no qual o Autor, baseando-<br />
-se em pronunciamentos do Magistério eclesiástico, trata do importante papel das elites na sociedade<br />
contemporânea.<br />
Essa obra, profundamente imbuída do autêntico espírito católico, o qual sempre inspirou o amor<br />
à hierarquia, promove a cooperação e a harmonia entre as classes sociais.<br />
Desse espírito de harmonia nos falam as duas grandes festas celebradas pela Igreja no mês de<br />
março, respectivamente nos dias 19 e 25: São José, Esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, Padroeiro<br />
da Igreja Universal, e a Anunciação e Encarnação do Verbo.<br />
Poderiam existir diferenças mais extremas do que aquelas que conviviam harmoniosamente no<br />
seio da Sagrada Família?<br />
Ali estava um Menino no qual a majestade divina se unira à pobre natureza humana. O sacrário<br />
onde se operou tal união foi o claustro virginal da humilde esposa de um carpinteiro, ambos descendentes<br />
da estirpe real de Davi, e que, ao se tornar Mãe de Deus, foi elevada à dignidade de Rainha<br />
dos Anjos, dos homens e de todo o universo.<br />
São José, por sua vez, o menor de todos, era quem exercia a autoridade sobre a Mãe e o Filho de Deus.<br />
Como comentava <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, “três perfeições que chegaram todas ao auge ao qual cada uma devia<br />
chegar. Três auges desiguais que se amavam intensamente e se intercompreendiam, e onde Deus<br />
quis que reinasse uma hierarquia com uma ordem admiravelmente inversa: o chefe da casa no plano<br />
humano era o menor na ordem sobrenatural, e o Menino que devia obediência aos dois era Deus.<br />
Inversão que faz amar ainda mais as riquezas e as complexidades de toda ordem verdadeiramente<br />
hierárquica. Eram perfeições altíssimas, maravilhosas, mas desiguais, realizando uma harmonia de<br />
desigualdades admirável como não houve jamais no resto da Terra, dando assim lugar a que toda a<br />
alma fiel que quisesse fazer uma reflexão sobre esse assunto, pudesse entoar um hino de grandeza,<br />
de admiração e de fidelidade a todas as hierarquias e a todas as desigualdades.” 5<br />
1) Cf. p. 26.<br />
2) Conferência de 10/11/1989.<br />
3) Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, <strong>Plinio</strong>. Revolução e Contra-Revolução. Parte I, cap. VII, 3 - A.<br />
4) Porto: Livraria-Editora Civilização.<br />
5) Conferência de 2/11/1992.<br />
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />
5
Dona Lucilia<br />
Lições sobre os<br />
Novíssimos do homem<br />
Dona Lucilia possuía um profundo conhecimento da<br />
Doutrina Católica, não tanto devido à leitura de livros,<br />
mas a suas observações e meditações a respeito de fatos<br />
da vida. A fim de formar seus filhos e instruí-los sobre os<br />
Novíssimos, ela narrava casos impressionantes ocorridos<br />
com pessoas relacionadas com sua família.<br />
Em Dona Lucilia eu via grande seriedade<br />
e profundidade, e seu<br />
amor para com todas as<br />
verdades ensinadas pela Igreja<br />
Católica, entre as quais os Novíssimos<br />
do homem.<br />
Amor à seriedade<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Naquela fotografia tirada<br />
em Paris, ela está<br />
vestida com certa pompa,<br />
certa distinção que<br />
as senhoras daquele tempo,<br />
quer dizer, imediatamente<br />
antes da Primeira<br />
Guerra Mundial —<br />
1914, portanto —, usavam<br />
quando iam para uma reunião<br />
social. E mamãe, com<br />
certeza, estava vestida para<br />
uma reunião social.<br />
Se bem que ela se encontrasse<br />
com uma preocupação de se<br />
fazer fotografar de um modo condigno<br />
e respeitável, e de outro lado tivesse<br />
diante de si a perspectiva de uma<br />
reunião social, na qual uma senhora cônscia<br />
de suas responsabilidades compreende<br />
que tem um papel a representar,<br />
que deve absolutamente ter<br />
realce, destaque, saber conversar,<br />
apesar de tudo isso ela<br />
está com o melhor do seu<br />
espírito voltado para paragens<br />
muito mais altas,<br />
e numa atitude de quem,<br />
contemplando verdades<br />
sérias, se põe numa posição<br />
de alma séria; e ama<br />
muito a seriedade.<br />
Quer dizer, há um<br />
bem-estar dela na seriedade<br />
que se nota no fundo<br />
do seu olhar.<br />
Eu percebo isso até<br />
por um pequeno pormenor<br />
que aqueles que não a<br />
conheceram não podem notar.<br />
Ela tinha os olhos, como a<br />
maior parte das senhoras brasileiras,<br />
de cor castanho-médio, comum.<br />
Mas quando ela considerava<br />
qualquer coisa com mais seriedade, mais<br />
6
atenção, a tonalidade de seus olhos mudava um pouco,<br />
e aquela cor castanha se tornava castanho-escuro, indicando<br />
o esforço visual que estava atrás do esforço da reflexão.<br />
Confiança na salvação eterna, pela<br />
bondade de Nossa Senhora<br />
É bem como o olhar dela está nessa fotografia. Sua<br />
atitude é de senhora de sociedade, mas muito decidida.<br />
Naquilo que ela crê, ela crê; aquilo que<br />
ela sabe, ela sabe; para aquilo que está<br />
disposta a fazer sacrifícios a<br />
fim de homenagear e propugnar,<br />
quer dizer, a Santa Igreja<br />
Católica, ela fará o esforço<br />
necessário.<br />
Toda a educação que<br />
ela me deu está em germe<br />
naquela atitude de<br />
alma.<br />
E essa atitude torna<br />
a pessoa muito propensa<br />
a refletir a respeito<br />
dos Novíssimos. Porque<br />
uma pessoa que está<br />
colocada diante de coisas<br />
sérias, mas não gosta das<br />
coisas sérias e sim da brincadeirada,<br />
da malandragem,<br />
da bobice, toma um ar enfadado,<br />
enfarado, aborrecido, de quem está<br />
querendo escapar daquelas ideias para<br />
cair na folia habitual.<br />
Não havia nada disso com ela. Dona<br />
Lucilia sentia-se inteiramente à<br />
vontade naquela contemplação, naquela meditação, e a<br />
firmeza de sua vontade lhe dá uma espécie de segurança<br />
e de certeza de que, com confiança em Nossa Senhora,<br />
ela chegará até ao Céu; essas são as notas dominantes<br />
de sua vida.<br />
A chama que se desprende<br />
de uma lamparina...<br />
Fae (CC 3.0)<br />
Um sacerdote ministra a<br />
Unção dos Enfermos<br />
Mamãe também contava, de vez em quando, casos a<br />
respeito do Inferno. Não tanto tirados de livros de piedade,<br />
que no tempo dela no Brasil não eram muito difundidos,<br />
mas de fatos que se narravam nas rodas familiares<br />
dela e das famílias amigas.<br />
Por exemplo, o caso de uma fazendeira muito rica,<br />
cujo marido tinha oito fazendas, mais ou menos próximas<br />
uma das outras; o que formava um latifúndio colossal.<br />
Esse homem, naturalmente para fiscalizar essas propriedades,<br />
tinha que ir de uma fazenda para outra com<br />
alguma frequência. E nessas viagens ele muitas vezes<br />
dormia — essas fazendas tinham casas — ora numa casa,<br />
ora numa outra e depois voltava para a residência dele.<br />
Quando havia essas viagens, essa senhora, cujas filhas<br />
já estavam casadas, pedia para uma sobrinha solteira fazer-lhe<br />
companhia, principalmente durante a noite. O<br />
que era uma coisa compreensível na solidão do<br />
sertão daquele tempo, sem policiamento.<br />
E certa noite ela acordou a sobrinha<br />
e lhe disse: “Minha filha, você está<br />
vendo?”<br />
A sobrinha olhou e percebeu<br />
que de uma lamparina<br />
que estava lá, uma chama<br />
se desprendeu, deu<br />
a volta por todo o quarto<br />
e se apagou. E elas ficaram<br />
muito impressionadas<br />
com aquilo.<br />
Qual não foi a sensação<br />
que elas tiveram<br />
quando, de manhã bem<br />
cedinho, veio um empregado<br />
de uma das fazendas<br />
dele, a cavalo, a toda a pressa,<br />
contar que o fazendeiro fora<br />
encontrado morto no cafezal!<br />
Ela contava isso com uma seriedade<br />
que fazia com que a pessoa<br />
sentisse a realidade e a gravidade da<br />
Morte, do Juízo e do risco de se cair<br />
no Inferno.<br />
Mas Dona Lucilia também gostava muito de narrar<br />
fatos relacionados com o Céu, sobre almas que estavam<br />
glorificadas no Paraíso porque tinham sido muito boas<br />
na Terra.<br />
Um homem que caluniava <strong>Dr</strong>.<br />
Antônio Ribeiro dos Santos...<br />
Ela falava com alguma frequência da Morte, sobretudo<br />
fazendo sentir a solidão da Morte. Quer dizer, quando<br />
a pessoa estava para falecer, apesar de ter o quarto<br />
cheio de parentes, amigos, etc., há alguma coisa que a separa<br />
de todo o mundo. Ela está morrendo aos poucos e<br />
se aproximando do instante em que vai estar sozinha em<br />
face de Deus, será julgada e terá de prestar contas de<br />
sua vida; e naquela hora será precipitada no Inferno, ou<br />
7
Dona Lucilia<br />
mandada para o Purgatório, ou irá diretamente para o<br />
Paraíso. E mamãe exprimia isso muito bem.<br />
Dona Lucilia contava fatos bonitos a respeito da morte.<br />
Por exemplo, o caso de um homem que fora grande<br />
inimigo do pai dela. Era um chefe político daquela zona<br />
de Pirassununga, onde ela nascera, um homem de boa<br />
família de São Paulo, mas que tinha em relação ao pai<br />
dela um ódio gratuito, sem razão.<br />
Várias vezes, esse homem pregou calúnias contra o<br />
meu avô, o qual teve que se defender e sempre conseguiu<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
<strong>Dr</strong>. Antônio Ribeiro dos Santos<br />
provar que ele estava sendo caluniado, e que o caluniador<br />
era aquele indivíduo, etc.<br />
...é preso e pede a <strong>Dr</strong>. Antônio que o defenda<br />
Meu avô era muito bom advogado e, estando em Pirassununga,<br />
recebeu certo dia um telegrama desse inimigo<br />
dele, que morava em São Paulo, dizendo o seguinte:<br />
“Eu estou preso porque fui acusado de tal crime. E<br />
devo ser julgado no dia tanto perante o tribunal do júri<br />
de tal cidade — uma localidade próxima a Pirassununga.<br />
Como eu não confio em ninguém tanto quanto no senhor,<br />
peço que aceite defender-me.”<br />
Era uma sem-vergonhice desse homem pedir, sem<br />
mais nem menos, que tivesse como advogado aquele que<br />
ele caluniou. Ele deveria começar por dizer: “Eu reconheço<br />
que tais coisas assim foram calúnias, peço perdão<br />
e misericórdia. A misericórdia consiste em consentir em<br />
me defender.” Aí estaria bem. Mas, antes desse pedido<br />
de perdão e de misericórdia, não se concebia.<br />
Mas meu avô era um homem — segundo ela contava,<br />
porque não o conheci — muito paciente e misericordioso,<br />
e mandou telegrafar-lhe dizendo o seguinte: “Esperá-<br />
-lo-ei na estação quando o senhor descer do trem, e aceito<br />
o encargo que me confia.”<br />
Em cidadezinha do interior, máxime naquele tempo,<br />
esses fatos tinham uma importância enorme, todo mundo<br />
queria ver a notabilidade chegar, com os soldados de um<br />
lado e de outro, presa com algemas e ir para a cadeia. E<br />
era uma coisa horrível o que o povo fazia, mas se a cadeia<br />
não era longe da estação, o prisioneiro ia a pé até a prisão<br />
e com todo o povo acompanhando. E naturalmente os<br />
inimigos dele dizendo coisas horríveis, contra as quais ele<br />
não podia se defender porque estava manietado.<br />
Quando meu avô chegou à estação para receber o homem,<br />
percebeu que o local estava cheio de inimigos do<br />
cliente dele. Então meu avô disse uma coisa mais ou menos<br />
desse gênero, falando bem alto para todas as pessoas<br />
ouvirem:<br />
“Todos sabem que aqui chegará preso Doutor Fulano<br />
de Tal, mas nem todos têm conhecimento de que ele vem<br />
como meu cliente. E sendo meu cliente está sob a minha<br />
proteção; por causa disso qualquer ultraje feito a ele<br />
é uma ofensa contra mim. A honra dele está sob o meu<br />
amparo, e eu quero saber quem vai por esta forma me<br />
agredir.”<br />
O homem desceu do trem, meu avô mandou embora<br />
os soldados e passou o braço por debaixo do braço dele.<br />
Cumprimentou-o amavelmente, perguntou se tinha feito<br />
boa viagem; tudo isso na presença de todos que lá se encontravam,<br />
que ficaram pasmos, porque era conhecida a<br />
inimizade entre o réu e o advogado.<br />
8
Depois disse: “Vamos então!” E começou a atravessar<br />
a multidão, que abriu fileiras, e ele foi até a cadeia, onde<br />
o homem ficou preso.<br />
Dominado pelo vício da inveja<br />
Aí meu avô foi estudar o caso, porque os papéis todos<br />
vinham de São Paulo. E ele achou o seguinte: não estava<br />
provado que o homem era inocente, e nem que era culpado.<br />
Tratava-se de um caso nebuloso. E quando não está<br />
provado que um indivíduo é culpado, se deve soltá-lo.<br />
Uma pessoa não pode ser presa por uma suspeita.<br />
Então meu avô compareceu como seu advogado no júri<br />
e fez a defesa dele nesses termos. Quer dizer, não declarou<br />
que era inocente — porque ainda não estava provada<br />
sua inocência —, mas disse que quando não se provou<br />
que uma pessoa era culpada de um crime, ela não podia<br />
ser condenada, nem ser, portanto, objeto de vaias, de<br />
apupos. O crime de que aquele homem era acusado não<br />
estava provado, logo se supunha que ele era inocente.<br />
Com isso o indivíduo foi solto e já aquela noite não<br />
dormiu na cadeia, mas numa casa qualquer dele ou de<br />
outrem. E começou a levar a vida de um homem livre.<br />
A senhora dele, que estava na cidadezinha, foi a Pirassununga<br />
visitar minha avó para agradecer toda a bondade<br />
que meu avô tinha tido, porque ela não afirmava que<br />
o marido fosse criminoso, mas reconhecia que o mau trato<br />
que ele tinha dado ao meu avô anteriormente não lhe<br />
concedia o direito de recorrer aos seus serviços. Seu esposo<br />
podia ter pedido a qualquer outro advogado que o<br />
defendesse, mas foi logo solicitar ao meu avô.<br />
E na conversa essa senhora disse à minha avó:<br />
“Meu esposo é um invejoso e tem uma inveja medonha<br />
do <strong>Dr</strong>. Ribeiro; quando vê o <strong>Dr</strong>. Ribeiro ter triunfos<br />
como advogado e fazer dinheiro, ele que não consegue<br />
o mesmo começa a caluniar o seu marido. Eu reconheço<br />
que é malfeito, mas ele é meu esposo; estou ligada<br />
a ele para a vida e para a morte, e tenho que seguir o caminho<br />
junto com ele.”<br />
Atingido por grave doença, pede<br />
auxílio em altas horas da noite<br />
Anos depois — eles não se viram mais —, já em São Paulo,<br />
tarde da noite, garoando, para um carro, ainda era o<br />
tempo dos carros puxados a cavalo, na porta da casa de meu<br />
avô e o cocheiro entrega um bilhete. Era daquele homem.<br />
“<strong>Dr</strong>. Ribeiro, eu me encontro reduzido ao extremo,<br />
condenado a morrer porque estou passando muito mal,<br />
com tal doença; além do mais não tenho dinheiro para<br />
me tratar, e então quero saber se o senhor poderia vir<br />
aqui em casa, arranjar um médico para mim e me dar<br />
de presente o dinheiro necessário para eu comprar os remédios.<br />
E mais ainda, passar de carro por uma farmácia,<br />
mandar que seja aberta e conseguir os remédios. Porque<br />
se não for isso eu morro.”<br />
Uma pessoa de minha família, que estava em casa do<br />
meu avô quando chegou esse bilhete, disse-lhe:<br />
— Totó — meu avô chamava-se Antônio, mas no trato<br />
de casa comum era Totó — não atenda, faça esse homem<br />
agora sofrer tudo que ele quis que você padecesse.<br />
Chegou a hora de você se regozijar, a hora da justiça<br />
de Deus.<br />
— Não, esse homem bateu à minha porta, e vou ter<br />
misericórdia para com ele; eu quero que Deus tenha misericórdia<br />
comigo quando chegar a minha vez.<br />
— Mas você está doente, e ainda com essa garoa aí fora!<br />
— Não tem conversa, eu vou.<br />
Cobriu-se com agasalhos, etc., e lá foi meu avô para a<br />
casa do homem, que ficava num bairro afastado.<br />
Lição de misericórdia<br />
Afinal, meu avô chegou à residência do indivíduo, bateu<br />
na porta, entrou e encontrou esta cena: o quarto em<br />
que esse homem estava não tinha nenhum móvel, mas<br />
apenas uma cama com um colchão encostado na parede,<br />
de maneira que esta servia de cabeceira para apoiar<br />
o travesseiro.<br />
Ele disse, arfando: “<strong>Dr</strong>. Ribeiro, muito obrigado.”<br />
— Mas o que o senhor tem?<br />
— Estou tuberculoso em alto grau, e às portas da morte.<br />
Meu avô, sentado na cama dele e sujeito a contágio,<br />
tomou nota do que ele sentia para explicar ao médico, e<br />
tentaria que este fosse àquela hora da noite à casa dele;<br />
depois iria comprar os remédios numa farmácia.<br />
Após algum tempo, meu avô retornou à casa do homem,<br />
deu-lhe todos os remédios, e mandou reservar<br />
uma passagem especial para o enfermo e sua senhora,<br />
num trem que devia ir no dia seguinte para a cidade do<br />
interior do Estado, onde ele queria morrer. Os dois embarcaram,<br />
tendo o meu avô pago tudo.<br />
Era uma lição de misericórdia que mamãe dava, lição<br />
esta acompanhada da ideia de que quem não tem misericórdia<br />
não receberá misericórdia. E que a clemência de<br />
Deus e de Nossa Senhora, no Juízo, é reservada especialmente<br />
para os clementes.<br />
Naturalmente, um menino, como era eu, se impressionava<br />
muito com esse fato narrado por Dona Lucilia, e as<br />
ideias sobre o Céu, o Inferno, o Juízo, a Morte, se radicavam<br />
muito no meu espírito.<br />
v<br />
(Extraído de conferência<br />
de 11/10/1993)<br />
9
Sagrado Coração de Jesus<br />
Matriz do pensamento<br />
de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
Dentre as explicitações nascidas do místico convívio<br />
de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> com o Sagrado Coração de Jesus,<br />
encontra-se o tema da sacralidade, considerada por<br />
ele como sendo a matriz de seu pensamento e cujo<br />
fundamento é o próprio Homem-Deus.<br />
Gustavo Kralj<br />
D<br />
os vários aspectos da Igreja, um<br />
que está profundamente na minha<br />
alma — e que eu vejo em<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo adorável<br />
— corresponde a um substantivo que eu<br />
emprego às vezes. Talvez notem que, quando<br />
o utilizo, é no sentido do sumo da coisa elogiável,<br />
deleitável, magnífica, esplêndida: sacralidade.<br />
Conceito de sagrado<br />
Sei que a palavra “sacralidade” em latim<br />
tem toda uma etimologia e um significado. Já<br />
li algumas coisas a esse respeito, mas não encontrei<br />
uma definição que me agradasse tanto quanto<br />
o termo me agrada.<br />
O que significa sacral? Que diferença há entre<br />
sagrado e sacral? O que é o sagrado nessa<br />
perspectiva das coisas?<br />
A coisa sagrada tem uma superioridade<br />
por onde, de algum lado, é mais<br />
Anagoria (CC 3.0)<br />
voltada para Deus do que para o homem;<br />
desse fato decorre para ela uma espécie de<br />
“participação”, de “ter parte com Deus”.<br />
Ela “tem mais parte com Deus” do que uma<br />
coisa melhor, porém menos sagrada.<br />
Essa “parte com Deus” que a coisa sagrada<br />
tem, lhe dá uma espécie de, eu quase diria<br />
— sei que não é —, uma “presença de Deus”,<br />
fazendo com que nos acerquemos dela com sumo<br />
respeito, suma reverência, ao mesmo tempo<br />
sentindo-nos pequenos, mas elevados até o<br />
nível daquele sagrado, e nos introduzindo num<br />
patamar completamente diferente do patamar<br />
das coisas não sagradas.<br />
Por exemplo, um cálice de Missa. Não sei por<br />
que, mas na minha sensibilidade, na minha imaginação,<br />
fica como o próprio símbolo do objeto sagrado.<br />
Parece-me que a forma do cálice,<br />
com aquela copa que se abre, sua estrutura,<br />
já lhe dá uma disposição natural a<br />
manifestar o sagrado.<br />
10
Além do mais, tendo sido consagrado, penetrou no cálice<br />
algo que a minha imaginação conceberia como um fluido<br />
— não é um fluido —, por onde não se pode nele tocar sem<br />
todo o respeito, sem receber como que uma descarga elétrica<br />
de maldição. Mas também quem o toca respeitosamente<br />
sente-se elevado e, de algum modo, amado por Deus.<br />
Daí uma veneração enorme para com o sacerdócio; e<br />
o sacerdócio nos seus vários graus de jurisdição: o padre,<br />
o bispo e o Papa. E uma veneração submissa, fiel, amiga<br />
de ser menos, desejosa de servir, por causa do conceito<br />
de sagrado: “Aquele foi sagrado!”<br />
Sei que em mim, enquanto católico, há algo disso, por<br />
efeito do Batismo, com um incremento em razão da Crisma.<br />
Mas, em qualquer caso, continua verdadeiro que fico<br />
a meio termo entre o mundo do sagrado e o mundo<br />
do profano, enquanto aquele que está inteiramente no<br />
mundo do sagrado é de uma elevação que não encontro<br />
palavras para dizer.<br />
Esse conceito do sagrado é a própria matriz de meu<br />
pensamento a respeito de uma série de coisas. De maneira<br />
tal que, no fundo, sempre que eu elogio uma coisa, estou,<br />
na minha mente, achando que ela tem uma analogia,<br />
pelo menos, com o sagrado. Em relação ao que é sagrado,<br />
tenho uma propensão a aceitar, a admitir, a servir.<br />
Mas se tem uma contra-analogia com o sagrado, estou vituperando,<br />
e no meu vitupério se encontra uma rejeição,<br />
uma impugnação, uma vontade de combater: porque ali<br />
há uma recusa do sagrado. O ponto de referência é sempre<br />
o sagrado.<br />
A palavra “sacrossanto”<br />
Também na ordem do terreno, elogio certas coisas<br />
porque, no fundo, elas têm tal ou qual analogia, tal ou<br />
qual participação no sagrado.<br />
Por exemplo, os vitrais elaborados à maneira de fundos<br />
de garrafa justapostos. Sei perfeitamente que esses<br />
objetos não são sagrados. Mas a luz que coa através do<br />
vitral tem, em relação à luz do dia, uma analogia com a<br />
comparação entre o sagrado e o não sagrado.<br />
E a luz filtrada por um vitral — qualquer que seja a<br />
cor ou desenho, desde que seja bem feito, de acordo com<br />
o espírito católico — tem uma analogia com o sagrado; e<br />
coando a luz, prepara o ambiente para que o estado de<br />
espírito propenda para o sagrado, amoleça aquilo que é<br />
puramente natural, impetuoso, rústico, e, pelo contrário,<br />
exalte, glorifique o que é sagrado, sacrossanto.<br />
A palavra “sacrossanto” para mim é carregada de todas<br />
as graças e delícias possíveis: “Uma coisa sacrossanta...<br />
Oh!” O próprio vocábulo diz isso: “sacro santo”.<br />
Que coisa maravilhosa, esplêndida! É preciso ajoelhar-<br />
-se: essa coisa é sacrossanta!<br />
Também certos princípios de ordem puramente especulativa<br />
podem parecer à nossa inteligência sacrossantos.<br />
São dos tais princípios delicados cuja força está em que<br />
são quebráveis facilmente por qualquer vândalo, mas,<br />
quebrados, a ordem das coisas está espatifada: “Cuidado,<br />
é uma coisa sacrossanta!”<br />
O sacrossanto alia duas formas de sagrado: o sagrado<br />
— que recebeu uma sagração — e o santo. Então é uma<br />
coisa “sacro santa”. E a palavra “sacrossanta” mostra a<br />
excelência dessas duas presenças cumulativamente, uma<br />
sobre a outra.<br />
Como todo o circuito do meu pensamento se faz em<br />
torno de Nosso Senhor Jesus Cristo, sou levado a considerar<br />
que Ele é sagrado num grau inimaginável, pois é<br />
Deus! E, enquanto Homem, sua natureza humana está<br />
elevada a um grau de união com Deus a ponto de constituir<br />
uma só Pessoa. Então, qual é o grau de sagrado e<br />
de santo que há n’Ele? Não há palavras que o indiquem<br />
suficientemente. É inimaginável! A figura d’Ele no Santo<br />
Sudário, no meu modo de entender, é eminentemente<br />
sacrossanta.<br />
Minha posição de batalha é, no fundo, um furor de<br />
que uma coisa sacrossanta tenha sido atingida, ferida. Se<br />
alguém quer destruí-la ou está pensando nisso, eu já me<br />
indigno: “Como se atreve a mexer naquilo que é sacrossanto?!<br />
Onde está com a cabeça?” E eu me oponho o<br />
quanto possa!<br />
A substância da Revolução é dessacralizar<br />
Tenho impressão de que estou fazendo esses comentários<br />
com uma radical imperfeição num ponto: que a noção<br />
de sagrado está sendo mal definida. Mas vou dizer<br />
por quê.<br />
Em primeiro lugar, porque não sei definir; em segundo<br />
lugar, porque meu objetivo aqui é mais fazer uma descrição<br />
psicológica do efeito do sagrado no homem, do<br />
que propriamente de dar o conteúdo metafísico do sagrado.<br />
Eu poderia ir facilmente a um dicionário de Teologia,<br />
ver no nosso bom Cornélio 1 — que goza de todas as minhas<br />
complacências e benevolências — o que é “sagrado”,<br />
e ficar com uma ideia técnica do que seja. Seria muito<br />
bom.<br />
Mas tenho a sensação de que enquanto não explicitar<br />
inteiramente o que estou pensando, e não descrever o estado<br />
de espírito que o homem deve ter em face do sagrado,<br />
eu de fato, se ler o Cornélio, mais atrapalho a elaboração<br />
da descrição desse estado de espírito do que a favoreço.<br />
Estou certo de que o espírito revolucionário é o oposto<br />
do sagrado, a mais não poder. A substância da Revolu-<br />
11
Sagrado Coração de Jesus<br />
ção é dessacralizar. E a substância da Contra-Revolução,<br />
bem entendida, é sacralizar.<br />
Debaixo de certo ponto de vista, a Contra-Revolução<br />
é o retorno do sagrado a todos os campos que o homem<br />
naturalmente domina: primeiro nas almas, e depois na<br />
ordem exterior das coisas que o homem faz. O retorno<br />
inteiro ao que lhe é próprio.<br />
Uma vassoura da capela e um anel de bispo<br />
Eu diria que o sagrado opera por osmose. Uma coisa<br />
colocada muito em contato com algo de sagrado, ou<br />
que lhe presta apenas um serviço muito remoto, fica com<br />
algo que adere a ela. E nós só não notamos porque temos<br />
o espírito muito leviano, superficial, e não damos a<br />
devida atenção às coisas. Por exemplo, um utensílio vulgar,<br />
uma vassoura que, entretanto, tivesse sido usada para<br />
varrer durante muitos anos uma igreja, especialmente<br />
a capela do Santíssimo Sacramento e a capela<br />
de Nossa Senhora, em um país distante, digamos,<br />
uma das ilhas da Indonésia.<br />
Imaginemos que eu tivesse de embarcar<br />
num navio de protestantes onde não houvesse<br />
nada de sagrado, e no qual me comunicassem<br />
a notícia de que o fim do mundo estava iminente.<br />
E, por uma circunstância fortuita, essa<br />
vassoura estivesse na embarcação.<br />
Eu pegaria essa vassoura, a colocaria no<br />
meu quarto e teria por ela um especial apreço<br />
como remanescente de algo que tocou no<br />
sagrado: uma vassoura que varreu o Santuário<br />
de Deus! Seria capaz de oscular o seu cabo todos<br />
os dias, de manhã e à noite.<br />
Digamos que, ao invés de uma vassoura, me<br />
deixassem um objeto muitíssimo mais nobre: o<br />
anel de um bispo. O mundo iria acabar e, por<br />
isso, estaria por se extinguir inclusive o episcopado,<br />
não haveria mais bispos sobre a Terra.<br />
Restara, entretanto, sobre o mundo prestes a<br />
ser extinto, um anel episcopal.<br />
Eu apanharia esse anel e o trataria diretamente<br />
como uma relíquia porque um bispo católico,<br />
fosse ele quem fosse, o usara. Se só isso<br />
resta pela Terra, sinto-me ligado, por meio<br />
dessa simples relíquia, a todo o oceano de sacralidade<br />
que é a Igreja Católica e, através da<br />
Santa Igreja, com o Céu.<br />
O cantochão, a capela do Santíssimo<br />
que o primeiro é mais sacral. O canto polifônico tem algumas<br />
coisas admiravelmente sacrais, mas ele possui<br />
qualquer coisa de aberto e, no abrir-se, alguma coisa do<br />
recolhido, que é próprio ao sacral, se perde. Esse “fechado”<br />
sacral, não é hermeticamente fechado, mas é como<br />
se fecha a mão de um pai ou de uma mãe…<br />
Uma capela do Santíssimo, por exemplo, eu considero<br />
supervenerável porque naquele ambiente meio fechado<br />
temos um fenômeno curioso: o mistério aumenta a intimidade.<br />
Em todas as coisas da vida, o mistério diminui<br />
a intimidade, mas em contato com o Santíssimo, não. Há<br />
uma maravilha qualquer no Santíssimo Sacramento por<br />
onde o seu mistério nos acalenta e nos aproxima d’Ele.<br />
Participa da bem-aventurança daqueles que amam sem<br />
compreender.<br />
Fica-se ali, como que dizendo: “Estou em contato com<br />
o incompreensível, com o invisível, com o infinito. Mas<br />
nesse contato fico sabendo de alguma coisa que de tal<br />
Dario Iallorenzi<br />
O meu gosto pelo cantochão, mais do que<br />
pelo canto polifônico, provém exatamente de<br />
Basílica do Santíssimo Sacramento - Buenos Aires, Argentina<br />
12
maneira é íntima, afável, bondosa para comigo, me perdoa,<br />
que entro naquilo como num refúgio.”<br />
Antes de Nosso Senhor Jesus Cristo, havia na Terra o<br />
sacerdócio da Antiga Lei, prefigurativo do sacerdócio da<br />
Nova Lei. O sacrifício no sentido pleno da palavra é o de<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
Porém, aquelas prefiguras tinham alguma coisa de sagrado,<br />
razão pela qual quem tocasse na Arca da Aliança,<br />
sem as devidas licenças, ficava fulminado. Há uma porção<br />
de outras coisas que falam nesse sentido.<br />
De modo que, no Antigo Testamento, não se estava<br />
no regime da graça, mas não no regime da mera natureza.<br />
Havia um elemento divino presente na religião judaica<br />
antes de ela prevaricar, e a Igreja Católica é uma continuação<br />
dela.<br />
Os pais, o ancião, o herói de guerra<br />
Também entre as coisas laicas existem algumas que, na<br />
ordem natural, têm algo de sagrado. Por exemplo, o pai<br />
e a mãe, independente do aspecto sacramental do casamento,<br />
pelo fato de serem esposos, pai e mãe, têm qualquer<br />
coisa de sagrado. O ancião adquire qualquer coisa<br />
de sagrado com relação aos mais novos. O herói de guerra,<br />
num nível mais baixo, mas sob certo ponto de vista<br />
mais excelente, adquire qualquer coisa de sagrado também.<br />
Toda autoridade tem algo de sacral. Sobretudo se<br />
nota isso quando ela tem a convicção da sacralidade do<br />
poder que possui.<br />
Morreu há pouco tempo o Imperador do Japão, Hiroito.<br />
Ele não era um imperador investido<br />
pela Igreja, mas um pagão. Entretanto,<br />
nenhum de nós, por mais descontente<br />
que estivesse com ele, teria coragem de<br />
lhe dar umas bofetadas. Por quê? Ele é<br />
o Imperador do Japão, e isso se respeita!<br />
Há mil formas de sacralidade minor,<br />
natural, incomparavelmente menos densas.<br />
E todos esses reluzimentos de um<br />
sagrado de uma ordem inferior existem<br />
também na vida minor.<br />
Isso chega a tal ponto que, se se analisar<br />
com cuidado certas coisas de caráter<br />
pura e estritamente material, elas têm<br />
um “como que” de sagrado em relação<br />
a outras coisas boas, criaturas retas de<br />
Deus, mas que não têm aquele sagrado.<br />
Por exemplo, o cristal em relação<br />
ao vidro. O cristal é uma coisa que tem<br />
qualquer coisa de sagrado. Nesses parques<br />
de diversão, se faz muitas vezes tiro<br />
ao alvo, e põem como alvo pires, pratos e<br />
coisas semelhantes, de um material muito ordinário que<br />
quando é atingido se desfaz.<br />
Se colocassem ali, como meta, uma porcelana de<br />
Sèvres, ou de Limoges, ou taças de champagne de cristal,<br />
nós diríamos: “Não faça essa barbárie!” É um como<br />
que sacrilégio! Essas coisas têm qualquer coisa de sagrado<br />
com relação às outras.<br />
“Minha mentalidade e meu modo de ser<br />
são presididos pela ideia do sagrado”<br />
Quando isso se dá numa sociedade de católicos, isso<br />
se liga mais intimamente à Pessoa de Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo. E as pessoas acabam respeitando, com um respeito<br />
sobrenatural, essas formas naturais de sacralidade, em<br />
função do Redentor.<br />
De onde se deduz que o mundo só está direito quando<br />
embebido, reflete e reluz nele certa sacralidade. Daí<br />
também o conceito de Cristandade. É uma sociedade<br />
temporal sacral que se liga a Nosso Senhor Jesus Cristo,<br />
fundamento de toda sacralidade.<br />
No fundo, é só por aí que os assuntos me interessam: a<br />
defesa da sacralidade.<br />
Por exemplo, nas Cruzadas o élan de heroísmo é muito<br />
bonito; mas se fosse uma cruzada para salvar S.P.Q.R. —<br />
Senatus Populusque Romanorum 2 — façam o que quiserem,<br />
briguem, mas não me amolem! Não entrem no meu<br />
campo visual, porque não me interesso por vocês! Entretanto,<br />
bastaria pôr no alto do lábaro uma cruz: “Ah! Então,<br />
está o sacral presente? Sou soldado nessa guerra!”<br />
Serviço de café em porcelana de Sèvres<br />
BrokenSphere (CC 3.0)<br />
13
Sagrado Coração de Jesus<br />
Sagrado Coração de Jesus<br />
Igreja de Saint-Kilian,<br />
Alsácia, França<br />
Ralph Hammann (CC 3.0)<br />
Poderíamos fazer um exame de consciência a esse respeito.<br />
Houve tempo em que todos nós tivemos muito<br />
presente essa sacralidade, mais ou menos na ocasião da<br />
nossa Primeira Comunhão, e depois fomos aos poucos,<br />
por oportunismo, aceitando aspectos não sacrais da vida<br />
moderna. E gostando das coisas numa perspectiva laica.<br />
Tudo na minha mentalidade, no meu modo de ser é<br />
presidido por essa ideia do sagrado. Não é uma ideia<br />
abstrata, mas o conhecimento de que em Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo não está apenas como uma abstração ou como<br />
uma utopia, mas que Ele é a fonte quente, borbulhante,<br />
eterna, inesgotável, perfeita, de tudo quanto é sagrado,<br />
porque é o Homem-Deus!<br />
Se querem conhecer minha personalidade, observem-<br />
-me enquanto ultracultor do sagrado, embebido disso<br />
até onde possa ser. E o que não compreendam em mim,<br />
procurem explicar por esse lado, que se torna claro<br />
imediatamente.<br />
Há, por exemplo, um vocabulário distinto que está<br />
para o trivial como uma coisa sagrada estaria para<br />
a não sagrada. De onde meu horror ao vocabulário<br />
trivial por causa disso. Quer dizer, não enquanto<br />
linguagem popular, pois num homem do<br />
povo se compreende, porque ele não faz nada<br />
que o diminua com isso. Mas um homem<br />
de cultura, que elevou seu espírito a certo<br />
grau, rebaixar-se e tomar um vocabulário<br />
inferior a seu nível é, em algum sentido,<br />
uma coisa análoga a dessacralizar-se.<br />
Sinfonia de desigualdades<br />
graduadas<br />
Dentro da perspectiva da sacralidade,<br />
poder-se-ia perguntar se o ideal<br />
para uma sociedade não seria um<br />
governo teocrático, no qual o poder<br />
temporal fosse apenas um acessório<br />
do poder espiritual que, de fato, dirigiria<br />
o Estado.<br />
Cheguei a me pôr esse problema<br />
e percebia que isso não deveria ser<br />
assim, mas não compreendia a razão<br />
metafísica pela qual era mais<br />
excelente a organização que Nosso<br />
Senhor deu à Santa Igreja, distinguindo-a<br />
do Estado. Foi-me<br />
preciso maturar para entender<br />
bem essa questão.<br />
São Tomás de Aquino 3 pergunta<br />
se não seria melhor Deus<br />
ter criado um único ser que en-<br />
14
cerrasse em si todas as belezas e perfeições da Criação,<br />
ao invés de criar seres de excelências diversas. E responde<br />
que uma única criatura não seria suficiente para representar<br />
a perfeição e a bondade divinas.<br />
A desigualdade repete de várias formas a relação entre<br />
o homem e Deus. E uma sinfonia de desigualdades<br />
graduadas é mais bela do que uma só nota — um mi ou<br />
um sol perfeitos — tocando por toda a eternidade.<br />
Portanto, para que o homem possa conhecer bem a<br />
Deus, é preciso que haja toda uma clave de perfeições<br />
minores governadas por um ente coletivo de perfeição<br />
minor, fazendo todo um mundo minor — a sociedade<br />
temporal — distinto do mundo maior da Igreja. Assim a<br />
glória de Deus reluz mais perfeitamente. Isso me parece<br />
plenamente convincente.<br />
Então, foi bom que houvesse uma gradação por onde<br />
existissem elementos sacrais de um nível minor, que<br />
ficassem no domínio do Estado; enquanto os de ordem<br />
maior pertencessem à esfera da Igreja. Como as coisas<br />
do Estado são de ordem minor, devem ocupar dentro do<br />
horizonte do homem, nesta Terra, uma posição minor.<br />
Assim, o Estado propriamente temporal fica, não encolhido,<br />
mas com sua estatura natural; porém muito imbuído<br />
da sacralidade superior.<br />
Estou dando a razão metafísica pela qual Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo fez uma coisa mais excelente, instituindo<br />
a Igreja e reconhecendo a existência do poder temporal,<br />
do que estabelecendo um governo teocrático sacerdotal.<br />
Na Idade Média, a Igreja tinha uma realidade enormemente<br />
superior à do Estado. Mas era bom que houvesse<br />
hierarquias diversas, para exemplificar melhor as<br />
formas e os graus de sacralidade que existem no universo.<br />
Com as imperfeições inerentes a tudo quanto é humano,<br />
eu acredito que a monarquia feudal medieval realiza<br />
inteiramente o tipo ideal do governo humano, mostrando<br />
bem a sacralidade da ordem temporal, abaixo da sacralidade<br />
sobrenatural da ordem espiritual.<br />
Por exemplo, o que era o Papa em relação a qualquer<br />
soberano? É uma coisa a perder de vista! Há iluminuras<br />
da Idade Média representando uma cena hipotética, que<br />
nunca se deu: um Papa celebrando Missa com dois coroinhas:<br />
o Imperador do Sacro Império e o Rei da França.<br />
Nisso eu vou inteiro, é como eu faria! Até já me passou<br />
pela mente que no Reino de Maria seria preciso fazer<br />
isso. Não basta a analogia de uma iluminura; ela tem<br />
que sair dos vitrais e entrar na vida. Saindo da igreja,<br />
esse imperador iria para seu palácio, teria sua coroa,<br />
sua corte, etc. Mas, cuidado! Ele do Papa não é senão<br />
coroinha!<br />
Aqui está dada a proporção exata que nossas almas<br />
quereriam entre os dois poderes.<br />
Uma coisa que exprime esse mesmo pensamento é o<br />
que historicamente se passou antes do cisma do Oriente.<br />
Quando os metropolitas de Moscou montavam a cavalo,<br />
o tzar segurava o estribo para eles montarem. Depois<br />
do cisma, foram eles que passaram a segurar o estribo do<br />
cavalo para o tzar...<br />
Esse tema da sacralidade justificaria um acréscimo em<br />
meu livro “Revolução de Contra-Revolução”, mas parece-me<br />
que esta explicitação ainda não está pronta intelectualmente<br />
para ser apresentada.<br />
Quando escrevi essa obra, na minha mente estava a<br />
convicção disso, mas nem sequer no modesto grau de explicitação<br />
em que apresento aqui, nesta reunião.<br />
Se tomarem qualquer coisa que eu faça e a examinarem,<br />
notarão haver uma noção de sacralidade ali<br />
dentro.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de 13/4/1989)<br />
1) Cornélio a Lápide (* 1567 - † 1637): jesuíta e exegeta flamengo.<br />
2) Do latim: O Senado e o Povo dos Romanos. Antiga divisa<br />
do Império Romano.<br />
3) Cf. Suma Teológica, II - q. 47, a. 1.<br />
Sacralidade da ordem temporal<br />
Mário Shinoda<br />
15
O pensamento filosófico de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
Ordenação e desregramento do<br />
instinto de sociabilidade - II<br />
Analisando os desequilíbrios do instinto de sociabilidade<br />
radicados no orgulho, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> explica como do<br />
individualismo egoísta se chega à ditadura do coletivismo.<br />
Outro fator para desviar o curso normal do relacionamento<br />
é o orgulho. A pessoa não se contenta<br />
com o bom conceito, a consideração, o respeito<br />
que estão nas proporções comuns ter, mas ela quer<br />
fruições violentíssimas de glória, só se contenta com extravagantes<br />
glórias imaginárias. A apoteose é a sua medida,<br />
e o que não for apoteose não lhe satisfaz.<br />
Desejo de ser adorado<br />
Resultado: a pessoa só concebe sonhos grandiosos, irrealizáveis,<br />
ou realizáveis com custas tremendas. Para<br />
quê? Para em certo momento beber a taça da admiração<br />
universal. É o relacionamento malfeito.<br />
A pessoa quer, de algum modo, substituir-se a Deus<br />
e ser considerada como uma espécie de divindade. Quer<br />
beber da taça da admiração universal assim: não é que<br />
amem a Deus nele, porque<br />
perde a graça, mas o<br />
amem como ele é. Colosso<br />
é ele, a matriz de qualidades<br />
inefáveis que os outros<br />
devem amar enquanto<br />
tais. Se Deus é ou não é autor<br />
dessas qualidades, pouco<br />
importa. Residem nele e<br />
têm que ser adoradas nele.<br />
Ele cobra essa adoração.<br />
Anseios desenfreados<br />
de sociabilidade<br />
Anteriormente ao século<br />
XIX, duas grandes figuras da<br />
sociedade, com grandes sucessos,<br />
eram o guerreiro e o universitário. Ainda não havia<br />
o tipo do grande orador do mundo letrado e mundano, a<br />
não ser dentro das paredes da universidade. Então, era<br />
um professor a quem os alunos forravam com as suas capas<br />
o caminho para ele passar. Certas congregações universitárias<br />
naquele tempo dão ideia da glória universitária,<br />
como nós não imaginamos.<br />
Havia outra forma de glorificação, mas essa estava monopolizada<br />
pelas dinastias, e era o poder público, o mando<br />
em grau supremo. Alguns monarcas eram sensíveis a<br />
isso. Então aspiravam esse mando, concebido um pouco<br />
de modo salomônico. Era o sujeito que tinha o direito<br />
de mandar, mas ao mesmo tempo um homem completo,<br />
reunindo em si a glória militar com uma sabedoria maior<br />
Da esquerda para a direita:<br />
Frederico II, José II e Luís XIV<br />
Reprodução<br />
16
Khaerr (CC 3.0)<br />
Léna (CC 3.0)<br />
Vandeanos pedem a Cathelineau que chefie a insurreição - Museu Bernard d’Agesci, Niort, França<br />
Missa em alto mar, em 1793 - Museu de Belas Artes, Rennes, França<br />
do que a do universitário, e que este venerava. Era o rei<br />
sábio e guerreiro, que presidia a corte e a organizava.<br />
Quando se queria elogiar alguém, o intitulava de “Salomão”.<br />
Frederico II 1 foi chamado de “Salomão do Norte”.<br />
Se há um homem que quis ser “Salomão” e não conseguiu<br />
foi José II 2 . Outro que bateu as asas um pouquinho<br />
na grandeza salomônica e não conseguiu voar até o<br />
alto e caiu baixo foi Luís XIV.<br />
Tudo isso são desejos de sociabilidade desenfreados<br />
que começam pelo individualismo. Segrega o indivíduo do<br />
convívio social por uma aventura individual, ainda que seja<br />
do herói que se destaca e fica brilhando aos olhos de todo<br />
mundo, levando o afeto de todos atrás dele.<br />
Até a atriz — a era por excelência das atrizes de teatro<br />
célebres foi o século XIX — que quando acabava seu<br />
papel no teatro choviam bouquets de flores, e até caixas<br />
com joias para ela. Eram convidadas para banquetes em<br />
casas nobres, etc. Tudo isso junto constituía a atração de<br />
um afeto universal que satisfazia até à pletora o instinto<br />
de sociabilidade.<br />
Foi o povinho que se levantou<br />
contra a Revolução Francesa<br />
À margem disso ficou sempre uma cota de população<br />
ainda não afetada por essa deformação das elites que se<br />
operou no fim da Idade Média e foi lentamente se espalhando<br />
pelas cortes, depois descendo para a alta burguesia<br />
e que durante muito tempo não tomou a plebe.<br />
De maneira que o equilíbrio medieval que descrevi,<br />
com a sociabilidade temperante e bem centrada em Nosso<br />
Senhor, demorou a desaparecer. E o povinho de Paris<br />
que constituiu a Liga Católica, chefiada pelos Guise,<br />
contra os protestantes, não era levado por esses sentimentos,<br />
mas ainda era o pequeno povo de Deus que se<br />
mantinha na linha antiga. E era esse o verdadeiro sustentáculo<br />
dos restos da Idade Média e do Ancien Régime nas<br />
vésperas da Revolução Francesa.<br />
Quando analisamos os acontecimentos durante a Revolução,<br />
notamos que quem se levantou contra ela foram<br />
as camadas não contaminadas por essa marcha de egoísmo<br />
subjetivo, introspectivo, e foram essas populações<br />
que defenderam as antigas instituições. Restos de estados<br />
de espírito assim, nos nobres e no clero ainda não<br />
contaminados, levaram também a certa defesa das antigas<br />
instituições. Mas o apoio era essa massa normal,<br />
tranquila, em que o instinto de sociabilidade não tinha sido<br />
deformado tão profundamente.<br />
O romance, o teatro ambulante, as<br />
estradas de ferro, a industrialização<br />
Com o progresso da tipografia, os romances de amor<br />
se espalharam por toda a massa da população das grandes<br />
cidades. Ao lado dos romances, difundiram-se também<br />
as companhias teatrais ambulantes que iam de cidade<br />
em cidade levando, infalível e invariavelmente, as pessoas<br />
a sonharem com o drama amoroso que desarticulava<br />
completamente a sociabilidade dos tempos antigos,<br />
porque introduzia uma vibração nova, intensa, que matava<br />
todas as outras e arrastava tudo no seu furacão.<br />
A própria massa camponesa começou a ser mais atingida<br />
por isso com o estabelecimento das estradas de ferro, a<br />
facilidade de ir para o interior, mas também com a atração<br />
enorme que as grandes cidades foram exercendo, por causa<br />
da industrialização, sobre as pessoas do campo.<br />
As pessoas que viajavam para a cidade entravam no<br />
circuito do romance. Quando iam passar férias no campo,<br />
levavam essa vibração e essa disposição, deixando<br />
sempre sementes atrás de si.<br />
17
O pensamento filosófico de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
Havia uma interação campo-<br />
-cidade que fazia com que a cidade<br />
influenciasse muito mais o<br />
campo do que o campo a cidade.<br />
De maneira que isso se espalhou<br />
como uma mancha de azeite, largamente.<br />
O que deu o “golpe de misericórdia”<br />
foi a possibilidade de ter<br />
cinema por toda parte, depois o<br />
rádio e, mais tarde, a televisão.<br />
Escravidão ao coletivismo<br />
Como se explica que desse individualismo<br />
egoísta se chegue ao<br />
coletivismo?<br />
Dizem os franceses: Tout passe,<br />
tout lasse, tout casse et tout se remplace<br />
3 . À força de se esfregar nesse<br />
mito, ele se desgasta e as pessoas<br />
acabam percebendo a irrealidade<br />
dele. E um indivíduo, ao perceber essa irrealidade,<br />
fica mais ou menos como um drogado do qual tiraram<br />
a droga. Ele acha que a vida inteira não tem mais<br />
graça, perdeu todo o interesse, o entusiasmo, o élan, e<br />
que seu problema individual não existe, seu interior está<br />
como caramujo vazio, que só emite ruídos ocos à maneira<br />
de um mar que não significa nada.<br />
Então o indivíduo olha para o mundo e encontra outro<br />
elemento que estimula sua sociabilidade. Ele percebe<br />
que esse mundo está engajado num ritmo de trabalho<br />
acelerado e muito interessante, enquanto é um corre-corre,<br />
com vibrações próprias, que lhe dão um gosto,<br />
um gáudio próprio de viver por todos vibrarem da mesma<br />
maneira.<br />
Então, essa covibração o instala de novo no meio dos<br />
outros. E ele passa do homem que vivia no seu isolamento,<br />
para o homem cuja sociabilidade leva a perder-se no<br />
meio dos outros, na covibração dos outros.<br />
Notem o seguinte: é tão possante o instinto de sociabilidade,<br />
que esses amorosos que se isolavam em parques,<br />
em jardins, de fato faziam assim porque sabiam que todos<br />
se isolavam. Irem todos ao parque-jardim e várias<br />
pencas de amorosos se cruzarem uns aos outros, era um<br />
isolamento sincrônico. Se eles devessem enfrentar a opinião<br />
universal que os desprezasse de fato por isso, o Tristão<br />
e a Isolda se separariam na mesma hora. E o amor<br />
mais violento ficava reduzido a cacos, se eles soubessem<br />
que todo mundo desprezava isso.<br />
De maneira que, mesmo nos delírios do individualismo,<br />
ainda é a escravidão ao coletivismo que dá o tom. E<br />
Tomada da Câmara Municipal de Paris em 1830<br />
Museu Nacional, Versailles, França<br />
o que no fundo move é o fato de todo mundo estar consciente<br />
de ser acompanhado por todo mundo.<br />
Psique coletiva de uma pequena cidade<br />
Evidentemente, as coisas não se passaram esquematicamente<br />
como estou descrevendo: acabou a “langorosidade”<br />
e só então começa aparecer o gosto do coletivismo,<br />
das vibrações. À medida que a “langorosidade”<br />
amorosa foi decaindo, já o coletivismo das vibrações foi<br />
substituindo. Não houve hiatos. Antes de a época seguinte<br />
reinar, ela já invade a anterior, e ambas convivem até a<br />
anterior morrer. Essas coisas se interpenetram como na<br />
embocadura de um rio.<br />
Vamos tomar como exemplo uma cidade pequena,<br />
com cerca de vinte mil habitantes.<br />
Pela natural distribuição das coisas, algumas pessoas<br />
têm muito mais aptidão, necessidade, predisposição, feitio<br />
— às vezes sem perceber — para viverem num intercâmbio<br />
tão grande, ágil e rápido umas com as outras, que formam<br />
uma psique comum da cidade, com o temperamento<br />
próprio à cidade. É gente que quando acontece alguma<br />
coisa na cidade, faz parte ativa do grande bolo — em vinte<br />
mil habitantes, um grande bolo de talvez treze, quinze mil<br />
habitantes — que vibram em uníssono a respeito de tudo.<br />
E não só diante de um acontecimento. Nas horas em<br />
que não acontece nada, elas descansam do mesmo modo,<br />
gozam do mesmo estado psíquico e temperamental,<br />
gozam do não fazer nada, como poderão depois gozar<br />
do fazer alguma coisa. Vivem do mesmo ritmo e da mes-<br />
Paris 16 (CC 3.0)<br />
18
<strong>Dr</strong>. Bernd Gross (CC 3.0)<br />
ma vida que circula entre todas elas porque, como se interpenetram<br />
muito, acabam formando um elemento comum<br />
entre si, que é a tal psique coletiva.<br />
Depois haverá umas cinco, sete mil pessoas dentro<br />
das vinte mil que são isso menos intensamente e que<br />
constituem uma aba um pouco esclerosada. Mas são assim<br />
muito mais por bronquice do que por qualquer outra<br />
razão. Não por uma resistência ideológica, mas porque<br />
são mais átonas, mais broncas, vibram menos e estão<br />
mais voltadas para uma espécie de atonia absoluta.<br />
Essa psique assim constituída passa por muitas ou por<br />
todas as alternações dos vaivens da alma humana comum.<br />
Os pecados coletivos das nações<br />
A alma humana tem épocas em que quer mais uma coisa,<br />
e épocas em que deseja mais outra. Assim também essa<br />
psique comum, ora quer mais isto, ora quer mais aquilo.<br />
E os indivíduos que estão engajados, todos eles, como<br />
uma espécie de plantação sobre a qual sopra o vento, se<br />
inclinam à vista do império dessas necessidades.<br />
É um fenômeno instintivo também. Não confundam<br />
isso com esnobismo. Este é o esforço brutal que o indivíduo,<br />
que seria recalcitrante, faz para se pôr dentro desse<br />
sopro. Neste caso não, o sopro é instintivo.<br />
Há épocas em que o homem é festeiro, épocas em que ele<br />
se torna “raciocinante” e épocas em que ele se torna sentimental.<br />
Às vezes num mesmo dia o homem pode passar pela<br />
predominância de um desses três estados de espírito.<br />
O Iluminismo coincidiu com o período em que essa<br />
alma comum quis se pôr a raciocinar. Então foi a era da<br />
popularidade dos Descartes e dos Voltaire.<br />
E a Revolução sofística, como a tendencial, tem períodos<br />
de maior ou de menor receptividade conforme as disposições<br />
dessa “alma” de doze mil pessoas. As almas de cada<br />
uma delas, postas em comum, sopram numa direção, noutra<br />
direção, de modo isócrono. É o instinto de sociabilidade.<br />
Praticamente os grandes pecados da<br />
humanidade são cometidos por essas<br />
sociedades. Daí o fato da<br />
responsabilidade pelo deicídio<br />
cair menos sobre este<br />
ou aquele indivíduo do<br />
que sobre a massa da nação,<br />
o povo. Porque é fato<br />
que esse povo foi manuseado.<br />
Esses manuseadores<br />
têm uma responsabilidade<br />
enorme. Mas o povo,<br />
Busto de Voltaire<br />
Ferney, França<br />
em última análise, é o que aceita ou rejeita o manuseio.<br />
E nisso ele é o grande executor da caminhada histórica.<br />
E é por força desse instinto de sociabilidade assim,<br />
dessa imposição de todas as personalidades intensamente<br />
comunitárias, que se fazem os grandes pecados coletivos<br />
das nações.<br />
O prazer cibernético<br />
O prazer de certos homens modernos é o prazer cibernético<br />
de se tornar vibração pura, mera sensação coletiva<br />
e independente do pensamento. É a animalidade que<br />
se liberta da inteligência e de todo contato com tudo que<br />
não seja a própria animalidade, e que encontra o gosto<br />
de ser ela mesma.<br />
Para essa posição tende o mundo todo contemporâneo.<br />
É um pecado que não bastaria dizer que foi fomentado<br />
por esse ou por aquele, porque teve o consentimento<br />
individual de milhões. E foi esse consentimento que<br />
constituiu o pecado da coletividade.<br />
Naturalmente, alguém habituado aos padrões da Revolução<br />
sofística, pensa: “Voltaire escreveu um livro, quinhentos<br />
indivíduos o seguiram.”<br />
Mas a questão é: Quem impulsionou a tendência?<br />
Voltaire escreveu um livro, quinhentos o seguiram. Por<br />
que o acompanharam? Por que não o seguiriam na Idade<br />
Média?<br />
Quer dizer, Voltaire tem uma parte enorme de pecado,<br />
mas o grande pecador é a coletividade. Do contrário<br />
seria negar o livre arbítrio. O homem é o principal responsável<br />
do seu próprio pecado. Ele tem graças para evitar<br />
o pecado; se pecou é o responsável essencial, tenha tido<br />
Voltaire o caminho que teve.<br />
Desde o começo esse pecado falseou o senso da sociabilidade<br />
e, falseando, fez da sociedade um canteiro eleito<br />
para a semeadura da Revolução; os homens todos usaram<br />
a sociedade e a sociabilidade para pecar. Acovardaram-se<br />
diante da Revolução porque não ousaram romper<br />
com o princípio da escravização à sociedade, não ousaram<br />
ficar sós, ser diferentes.<br />
Os homens não deveriam estar sujeitos à mera sociabilidade.<br />
Somos criaturas humanas, batizadas, temos Fé!<br />
E o que nos guia é a nossa Fé!<br />
v<br />
(Extraído de conferência<br />
de 5/1/1984)<br />
1) Rei da Prússia de 1740 a 1786.<br />
2) Imperador do Sacro Império Romano-Germânico de 1765<br />
a 1790.<br />
3) Tudo passa, tudo cansa, tudo quebra e tudo se substitui.<br />
19
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
Modalidades de<br />
sofrimento - II<br />
Os sofrimentos da alma, por serem os mais penosos,<br />
podem levar a pessoa a buscar refúgio na irrealidade que,<br />
ao invés de aliviar os padecimentos, agrava-os, tornando<br />
o ser humano escravo de suas próprias mentiras.<br />
Arespeito do sofrimento da alma haveria ainda<br />
algo a acrescentar e que é o seguinte:<br />
Sendo esta Terra um vale de lágrimas, a vida<br />
humana passa-se de maneira a fazer o homem sofrer tanto<br />
do ponto de vista físico, material, como do espiritual,<br />
conforme as várias formas de sofrimento de que tratei.<br />
Dores causadas pela realidade<br />
e pela irrealidade<br />
Na existência do homem o jogo de seus anseios, a finalidade<br />
a que ele se propõe ou para a qual Deus o destina<br />
— na medida em que ele conhece, segue, deseja ou não<br />
essa finalidade — fazem com que, para todo ser humano,<br />
viver acabe sendo uma batalha terrível.<br />
Porque há uma irremediável desconexão entre o que<br />
ele quereria como satisfação, como prazeres de alma, inclusive<br />
legítimos — não estou me referindo apenas aos<br />
ilegítimos —, e aquilo que de fato a vida lhe dará. E ele<br />
tem que sorver o cálice duríssimo na vida que é o enigma<br />
de cada homem.<br />
Adivinhar isso em outro homem é extraordinariamente<br />
difícil. E, em geral, o homem carrega esse seu problema<br />
de tal maneira que os outros imaginam que ele tenha<br />
todos os problemas, menos aquele que realmente tem.<br />
Quer dizer, ele carrega isso no isolamento.<br />
Essa é propriamente uma dor de alma e não do corpo.<br />
A dor do corpo pode aumentar a da alma. É muito pior<br />
ter aborrecimento acrescido de uma dor ciática, do que<br />
ter só o aborrecimento. A dor ciática pode agravar muito.<br />
Mas, de fato, o aborrecimento é tanto mais, que a dor<br />
ciática não é nada em comparação com ele.<br />
Nessa dor de alma entram os sofrimentos que a vida<br />
impõe por causa da realidade, e depois as dores que vêm<br />
para o homem por motivo da irrealidade.<br />
Quando o homem não quer ir para onde Deus deseja,<br />
ele se põe a fazer imagens erradas das coisas e forma<br />
uma ideia irreal da vida. E ruma para uma meta que não<br />
é aquela para a qual ele deveria caminhar, e que não é<br />
realmente a dele. E se faz uma espécie de vida de mentira<br />
dentro dele e em torno dele, que o atormenta enormemente<br />
mais do que a realidade que ele seguiria, cheia de<br />
contradições, de absurdos, de fricções, etc. Mas, de outro<br />
lado, ele se convence cada vez mais de que ele não<br />
aguenta esta vida tão dura, a não ser carregando as mentiras.<br />
As mentiras que são uma causa potentíssima do sofrimento,<br />
ele julga que, se não as carregar, não suporta.<br />
Então, ao mesmo tempo ele aguenta a causa do sofrimento<br />
e esta lhe produz efeitos pelos quais ele se julga<br />
necessariamente preso à causa. Isso forma um círculo vicioso<br />
que leva o indivíduo não se sabe até onde.<br />
São Gregório VII: semelhante a um<br />
toureiro que investe contra o touro<br />
Uma figura histórica pela qual tenho um respeito<br />
enorme é São Gregório VII. O que mais gosto nele é ver<br />
como ele viveu dentro da verdade. Isso é também assim<br />
nos outros Santos, mas nele esta característica fica particularmente<br />
clara aos meus olhos.<br />
Se ele não visse inteiramente de frente a situação na<br />
qual se encontrava, poderia se tapear, levar uma vida mais<br />
ou menos cômoda como Papa, e até iludir-se, fazendo várias<br />
coisas boas. Mas ele não teria cumprido o seu dever.<br />
20
Empolga-me e acho uma maravilha<br />
vê-lo à maneira de um toureiro<br />
que entra diretamente na arena<br />
e faz aquele lance com a capa e a<br />
espada por cima do touro, como a<br />
dizer:<br />
“O caso que eu tenho é um só:<br />
com o Império 1 . O próprio assunto<br />
dos sarracenos se resolverá se<br />
eu solucionar o caso do Império.<br />
Como seria agradável se eu pudesse<br />
combater os meus inimigos ostensivos.<br />
Tenho inimigos pendurados<br />
em mim e que são os meus filhos.<br />
E este meu filho a vários títulos<br />
primogênito, o Imperador<br />
do Sacro Império Romano-Alemão,<br />
está querendo me assassinar!<br />
Irei de encontro a ele e sustentarei<br />
a batalha. Verei o perigo inteiro<br />
como é, e lançarei a ele o contrário<br />
do que ele quer, de tal maneira<br />
que entre mim e ele não haverá<br />
paz possível.”<br />
Vê-se nele um homem que em<br />
nada procurou iludir-se, em nada<br />
buscou um caminho que não era o seu, mas que olhou<br />
de frente.<br />
Ele pediu auxílio para defender-se contra Henrique<br />
IV, e depois morreu exilado. Consta que, parafraseando<br />
o Salmo que diz: “Amas a justiça e odeias a iniquidade,<br />
por isso Deus te consagrou com o óleo da alegria” 2 , São<br />
Gregório teria afirmado: “Amei a justiça e odiei a iniquidade,<br />
por isso morro no exílio!”<br />
É o princípio axiológico 3 quebrado. Mas é um homem<br />
que não teve falsas dores de espírito em nada. Viu a coisa<br />
de frente!<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo fez exatamente isso: foi de<br />
encontro aos que O podiam matar e levar a obra d’Ele<br />
para a ruína. E Ele os enfrentou, ainda que desse embate<br />
saísse a solução antiaxiológica. Nisso estava a axiologia<br />
d’Ele.<br />
Exemplo perfeito de amizade: os sete<br />
santos fundadores dos Servitas<br />
Façamos agora a relação de tudo isso com almas muito<br />
especialmente chamadas. Ou essas almas avançam por<br />
cima de sua própria antiaxiologia, e com coragem, ou<br />
não têm nada feito.<br />
Quer dizer, devem compreender que, em vários episódios<br />
de sua vocação, esta vai lhes parecer antiaxiológica,<br />
Preusachse (CC 3.0)<br />
Henrique IV em Canossa - Palácio<br />
Maximilianeum, Munique, Alemanha<br />
e precisam, apesar disso, continuar<br />
a avançar de qualquer jeito, mesmo<br />
para o absurdo e para a catástrofe,<br />
colocando sua confiança em Deus.<br />
A alma que conserva qualquer<br />
nostalgia de tal alma irmã, no fundo<br />
espera de outra criatura o que ela<br />
só pode receber de Deus! Seja no<br />
terreno alma irmã homem-mulher,<br />
seja no terreno mais inocente, e por<br />
isso menos carregado de veneno,<br />
amigo a amigo. Não conseguirá! Ou<br />
Deus dá, ou não terá…<br />
Para mim, o exemplo perfeito de<br />
amizade, que estou me lembrando<br />
no momento, é São Filipe Benício,<br />
um dos sete santos fundadores<br />
da Ordem dos Servos de Maria. Todos<br />
eles foram enterrados juntos, e<br />
as suas cinzas se misturaram. É uma<br />
coisa extraordinária!<br />
As relações entre eles eram realmente<br />
admiráveis, mas não nesse<br />
sentido de uma alma que encontrou<br />
em outra o seu complemento.<br />
É algo diferente. É Deus que estava<br />
presente numa alma e vendo-Se também presente na<br />
outra, formou o amor que o Altíssimo tem a Ele mesmo.<br />
É outra coisa.<br />
Esperar encontrar noutra criatura uma espécie de paraíso<br />
de contemplação em que a alma tem esse deleite, é<br />
inútil. Ou acha ali dentro Deus, então está certo, ou se<br />
encontrar apenas outra alma, deparou-se com um blefe.<br />
Garrafa vazia… É preciso compreender bem isso. v<br />
(Extraído de conferência de 23/11/1983)<br />
1) <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> se refere à contenda entre o Papa São Gregório<br />
VII e o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico,<br />
Henrique IV. Esta luta, motivada pela questão sobre se as<br />
investiduras eclesiásticas poderiam ser conferidas pelo poder<br />
temporal, teve como alguns de seus pontos culminantes<br />
a excomunhão do Imperador, sua peregrinação ao castelo<br />
de Canossa para pedir perdão ao Papa e a posterior invasão<br />
de Roma, por Henrique IV, para tentar remover São Gregório<br />
VII e substituí-lo por um antipapa.<br />
2) Sl 45, 8.<br />
3) Termo derivado de “Axiologia”: ramo da Filosofia que estuda<br />
os “valores”, isto é, os motivos e as aspirações superiores<br />
e universais do homem, as condições e razões que dão rumo<br />
à sua existência, para os quais ele tende por insuprimível<br />
impulso da sua natureza.<br />
21
C<br />
alendário<br />
dos Santos – ––––––<br />
8. III Domingo da Quaresma.<br />
São João de Deus, religioso (†1550).<br />
São Veremundo, abade (†c. 1095). Nascido em Estella,<br />
Espanha, entrou no Mosteiro Beneditino de Nossa<br />
Senhora de Irache, do qual foi eleito abade.<br />
9. Santa Francisca Romana, religiosa (†1440).<br />
Santa Catarina de Bolonha, virgem (†1463). Ver página 2.<br />
São Veremundo<br />
Carlospalacios (CC 3.0)<br />
1. II Domingo da Quaresma.<br />
São Félix, Papa (†492).Tetravô do Papa São Gregório<br />
Magno. Após ficar viúvo, abraçou a vida clerical e sucedeu<br />
São Simplício na Cátedra de Pedro.<br />
2. São Ceada, bispo (†672). Arcebispo de York, Inglaterra.<br />
Exerceu seu ministério percorrendo a pé seu território.<br />
Transferido para a arquidiocese de Lichfield, edificou a catedral<br />
ladeado por um mosteiro.<br />
3. Santa Catarina <strong>Dr</strong>exel, virgem (†1955). Fundadora<br />
da Congregação das Irmãs do Santíssimo Sacramento, em<br />
Filadélfia, Estados Unidos. Trabalhou para a educação de<br />
índios e negros.<br />
4. São Casimiro (†1484).<br />
São Basino, bispo (†705). Fez-se monge do Mosteiro<br />
Beneditino de São Maximino de Tréveris, Alemanha, do<br />
qual foi abade. Mais tarde foi nomeado Bispo desta cidade.<br />
5. Beato Jeremias de Valáchia, religioso (†1625).<br />
Franciscano capuchinho, que durante 40 anos assistiu os<br />
enfermos em Nápoles, Itália.<br />
10. São João Ogilvie, presbítero e mártir (†1484). De<br />
família escocesa calvinista, foi estudar na França e tornou-se<br />
jesuíta. Regressando clandestinamente à Escócia,<br />
exerceu seu ministério sacerdotal até ser preso e morto em<br />
Glasgow.<br />
11. São Sofrônio, bispo (†639). Monge da Palestina,<br />
eleito Patriarca de Jerusalém. Combateu a heresia monotelista<br />
e compôs hinos e cânticos que até hoje fazem parte<br />
da Liturgia oriental.<br />
12. São Luís Orione, presbítero (†1940). Aluno e dirigido<br />
espiritual de São João Bosco,<br />
fundou a Pequena Obra da<br />
Divina Providência e a<br />
Congregação das Pequenas<br />
Religiosas Missionárias<br />
da Ca ri dade.<br />
Faleceu em Sanremo,<br />
Itália.<br />
13. Santo Eldrado, <br />
abade (†c. 840).<br />
Oriun do de uma<br />
fa mília da aristocracia<br />
franca, tornou-<br />
-se monge beneditino<br />
em Novalesa, Itália.<br />
Reformou o saltério e<br />
promoveu a construção<br />
de nove igrejas.<br />
6. Santa Coleta Boylet, virgem (†1447). Religiosa clarissa,<br />
que reconduziu muitos mosteiros de sua Ordem à perfeita<br />
observância da Regra. Faleceu em Gante, Bélgica.<br />
7. Santas Perpétua e Felicidade, mártires (†203).<br />
São Paulo, bispo (†850). Por defender o culto das imagens<br />
sagradas, foi expulso da sua pátria e morreu no exílio<br />
em Bursa, Turquia.<br />
14. Santa Matilde, <br />
rainha (†968). Esposa<br />
do rei Henrique I,<br />
da Germânia, dedicou-se<br />
à assistência<br />
aos pobres e à fundação<br />
de hospitais e<br />
mosteiros.<br />
GO69 (CC 3.0)<br />
São Casimiro<br />
22
––––––––––––––––– * Março * ––––<br />
15. VI Domingo da Quaresma.<br />
Beato João Adalberto Balicki, presbítero (†1948). Reitor<br />
do seminário de Przemysl, Polônia. Dedicou-se à administração<br />
do Sacramento da Penitência e à formação<br />
dos jovens seminaristas.<br />
16. Santo Heriberto, bispo (†1021). Sendo chanceler do<br />
imperador Oto III, foi eleito contra sua vontade para a sede<br />
episcopal de Colônia, Alemanha. Fundou a abadia beneditina<br />
de Deutz.<br />
17. São Patrício, bispo (†461).<br />
Beato João Nepomuceno Zegri y Moreno, presbítero<br />
(†1905). Fundou a Congregação das Irmãs Mercedárias<br />
da Caridade, em Málaga, Espanha.<br />
18. São Cirilo de Jerusalém, bispo e Doutor da Igreja<br />
(†c. 386).<br />
Beata Celestina da Mãe de Deus, virgem (†1925). Fundou<br />
em Florença, Itália, a Congregação das Filhas Pobres<br />
de São José de Calazans.<br />
19. São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria,<br />
Padroeiro da Igreja Universal. Ver página 24.<br />
20. Beato Hipólito Galantini, leigo (†1619). Fundador<br />
da Irmandade da Doutrina Cristã, trabalhou na formação<br />
catequética dos pobres e humildes.<br />
21. Santo Endeus, abade (†c. 542). Obteve do rei Oengus<br />
a ilha de Aran, na baia de Galway, Irlanda, onde fundou um<br />
mosteiro.<br />
22. V Domingo da Quaresma.<br />
São Basílio de Ancira, presbítero e mártir (†362). Durante<br />
o reinado de Constâncio, lutou contra os arianos e<br />
no tempo do imperador Juliano foi torturado até a morte<br />
em Ancara, Turquia.<br />
23. São Turíbio de Mogrovejo, bispo (†1606).<br />
Santa Rebeca (Rafqa) Choboq Ar-Rayès, virgem (†1914).<br />
Religiosa da Ordem Libanesa das Maronitas de Santo<br />
Antônio, atingida pela cegueira e outras enfermidades,<br />
perseverou durante 30 anos, em contínua oração.<br />
24. Beata Maria Serafina do Sagrado Coração, virgem<br />
(†1911). Fundou em Caserta, Itália, a Congregação<br />
das Irmãs dos Anjos, adoradoras da Santíssima Trindade.<br />
GO69 (CC 3.0)<br />
Santa Francisca Romana<br />
25. Anunciação do Senhor.<br />
Santa Lúcia Filippini, virgem (†1732). Para promover<br />
a formação das jovens e mulheres, fundou o Instituto das<br />
Piedosas Mestras em Montefiascone, Itália.<br />
26. Santo Eutíquio, mártir (†356). Subdiácono de Alexandria,<br />
que no tempo do imperador Constâncio, morreu<br />
em defesa da Fé.<br />
27. Beato Francisco Faà di Bruno, presbítero (†1888).<br />
Associou diligentemente a ciência da matemática e da física<br />
com o ardor das obras de caridade. Morreu em Turim, Itália.<br />
28. Santo Estêvão Harding, abade (†1134). Um dos<br />
fun dadores do Mosteiro de Cister, França, do qual foi abade<br />
e no qual recebeu São Bernardo de Claraval com seus<br />
30 companheiros. Fundou doze mosteiros.<br />
29. Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor.<br />
São Marcos de Aretusa, bispo (†364). Bispo de Aretusa,<br />
atual Al-Rastan, Síria, que durante a controvérsia ariana<br />
nunca se desviou da verdadeira Fé e sofreu violenta perseguição<br />
no tempo do imperador Juliano, o Apóstata.<br />
30. São Júlio Álvarez, presbítero e mártir (†1927). Pároco<br />
de Mechoacanejo, México, fuzilado durante perseguição<br />
religiosa.<br />
31. Beata Natália Tulasiewicz, mártir (†1945). Durante<br />
a ocupação militar na Polônia, foi presa no campo de<br />
concentração de Ravensbrück e executada pela inalação<br />
de gás letal.<br />
23
Hagiografia<br />
Nobreza e lógica de São José<br />
Amor à hierarquia e espírito lógico são características fundamentais<br />
do contrarrevolucionário. <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> analisa as razões pelas quais São<br />
José pode e deve ser cultuado enquanto nobre, e louva a lógica, levada<br />
até o heroísmo, do Patrono da Santa Igreja.<br />
Gustavo Kralj<br />
Otexto que pretendo comentar é tirado do capítulo<br />
VII do livro “Suma dos dons de São José”, do<br />
Padre Isidoro de Isolano, dominicano do século<br />
XVI, um dos primeiros teólogos católicos a atacar Lutero.<br />
É de longe o mais importante Doutor da Teologia sobre<br />
São José. Esta ficha parece conter dados muito interessantes<br />
a respeito deste Santo e o espírito da Contra-<br />
-Revolução.<br />
Carpinteiro e príncipe da Casa de Davi<br />
Não está muito conforme com os mistérios das Sagradas<br />
Letras essa nobreza de sangue tão louvada em São José.<br />
Aqui o autor cuida de São José enquanto nobre de<br />
sangue. Ele era, ao mesmo tempo, trabalhador manual,<br />
carpinteiro e, como tal, pertencente — ao menos do ponto<br />
de vista econômico — à camada mais modesta da sociedade.<br />
Mas, de outro lado, descendia do Rei Davi e de<br />
toda uma linhagem de reis de Israel.<br />
A Casa de Davi decaiu e, com o tempo, perdeu o trono<br />
e afastou-se do poder. Seus membros continuaram a<br />
morar em Israel, mas essa Casa era cada vez menos influente,<br />
menos poderosa e menos rica. A tal ponto que<br />
quando, afinal, da raça de Davi nasceu Aquele que, na<br />
intenção de Deus, era a razão de ser da raça, Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo — a esperança e a alegria de todo o povo,<br />
e que deveria ser um filho de Davi —, a Casa de Davi<br />
estava no auge de sua decadência.<br />
E São José era um trabalhador manual, um mero carpinteiro.<br />
É bem verdade que, nessas sociedades muito<br />
rudimentares, as classes sociais e econômicas não se diferenciam<br />
de um modo absolutamente tão nítido quanto<br />
nas sociedades mais desenvolvidas; e nem sempre é um<br />
sinal de muita decadência econômica o fato de a pessoa<br />
ter pertencido a uma grande família e passar a exercer<br />
um trabalho manual.<br />
Conheço zonas do interior do Brasil, por exemplo, em<br />
que das grandes famílias do lugar há gente que é, por<br />
24
exemplo, chauffeur de praça, carregador da estação, ou<br />
algo análogo, mas que se casa com ramos mais ricos da<br />
família e, depois, ascende novamente na escala social.<br />
Portanto, essa situação de São José não queria dizer<br />
necessariamente tanta prostração quanto seria a de um<br />
descendente de reis que chegasse a ser, hoje em dia, trabalhador<br />
manual. Mas ao menos se pode afirmar que<br />
era, na ordem econômica das coisas, o mínimo que uma<br />
pessoa pode ser.<br />
Então, São José pode e deve ser cultuado enquanto<br />
operário, mas também enquanto príncipe da Casa de<br />
Davi. É por essa razão que, falando a respeito dele, o Papa<br />
Leão XIII, um dos Pontífices que mais inculcaram a<br />
devoção a São José, disse taxativamente que este Santo<br />
deve ser cultuado não só como modelo do príncipe, mas<br />
também como o modelo, o ânimo, o estímulo de todos<br />
aqueles que pertencessem a grandes linhagens decadentes;<br />
para que essas pessoas compreendam como, pela virtude,<br />
pela fidelidade a Deus, podem erguer-se ao mais<br />
alto grau da santidade e realizar esplendidamente os desígnios<br />
da Providência sobre elas.<br />
Argumentação tomista<br />
O Padre Isidoro de Isolano está analisando, precisamente<br />
nesse capítulo, São José enquanto aristocrata. Então,<br />
escreve ele:<br />
São José foi eleito para conhecer a verdade do Verbo de<br />
Deus. São Paulo disse: “Não há, entre vós, muitos sábios<br />
segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres.<br />
Antes escolheu Deus a estultice do mundo para confundir<br />
os sábios, e a fraqueza para confundir os fortes”<br />
(1Cor 1, 27). Logo, não se deve louvar a nobreza de São José,<br />
escolhido por Deus.<br />
Percebe-se que o autor adota o método de São Tomás<br />
de Aquino. Ao tratar desse tema, o Doutor Angélico perguntaria,<br />
por exemplo: “Deve ser São José louvado também<br />
enquanto nobre?”<br />
Então ele daria, em primeiro lugar, as razões pelas<br />
quais parece que não deve. Citaria um, dois, três argumentos<br />
negativos. Depois apresentaria os argumentos<br />
positivos, como quem faz um cálculo de conta corrente:<br />
tem o débito e depois o crédito. Por fim, tira a conclusão:<br />
Se tais são os argumentos pró e tais os contra, como<br />
responder? Então ele refuta os argumentos da tese que<br />
ele quer refutar, faz alguma grande citação em abono da<br />
ideia dele — sobretudo citações da Sagrada Escritura —<br />
e depois tira a conclusão. É o método lógico perfeito.<br />
Nota-se, então, que o Padre Isidoro adota esse mesmo<br />
processo. Começa por dar os motivos pelos quais não se<br />
deve louvar a nobreza de São José. E aqui está uma razão<br />
tirada de São Paulo que, dirigindo-se aos primeiros<br />
católicos, diz: “Entre vós não há muitos que sejam cultos,<br />
nem nobres, nem poderosos de acordo com o mundo.<br />
Mas desde que sirvam a Deus, isso basta.” Então, daí<br />
se tira um argumento contra a nobreza, a cultura, o poder,<br />
que são coisas sem importância e não devem ser louvadas.<br />
É o primeiro argumento, que depois ele vai rebater.<br />
E continua:<br />
Isso mesmo se confirma com a autoridade da Glosa sobre<br />
essas palavras do Apóstolo: “O Deus humilde veio a<br />
buscar os humildes e não os poderosos, entre os quais são<br />
considerados os nobres pelos mortais.”<br />
Esgrima da inteligência<br />
No século XVI os nobres eram considerados poderosos.<br />
Na reviravolta das coisas de hoje, um diretor de sindicato<br />
é, o mais das vezes, mais poderoso do que um duque.<br />
Então, ele diz: “Se é verdade que Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo, ao encarnar-Se, não veio procurar os poderosos —<br />
os nobres, portanto —, não há importância em ser nobre.<br />
Logo, não se deve louvar São José enquanto nobre.”<br />
E passa adiante:<br />
A humildade de Deus foi extrema na Encarnação. Mais<br />
humilhação era escolher um pai putativo pobre do que um<br />
nobre. Logo, não deve elevar-se a nobreza de São José.<br />
A argumentação está muito bem desenvolvida. Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo veio para Se humilhar. Por isso escolheu<br />
um pobre como pai putativo, isto é, a quem se atribui<br />
a paternidade, mas que não era o verdadeiro pai. Então,<br />
não tem importância que esse pobre seja nobre. Nosso<br />
Senhor também não olhou para isso, mas apenas para<br />
o lado da pobreza. Portanto, ser nobre não vale nada.<br />
Continua o autor:<br />
A nobreza não parece ser outra coisa senão a antiguidade<br />
das riquezas, como disse Aristóteles. E José, pobre até o<br />
ponto de ter que exercer o ofício de carpinteiro para ganhar<br />
o pão de cada dia, não podia gabar-se de ser nobre.<br />
O argumento também é interessante. Diz ele que, segundo<br />
Aristóteles, a verdadeira nobreza é ter uma fortuna<br />
muito antiga. Quem tem uma fortuna que passou por<br />
várias gerações, esse ficou nobre. Ora, São José não tinha<br />
nenhuma fortuna e, portanto, já não era nobre. Logo,<br />
não era o caso de louvar a nobreza dele.<br />
Esses argumentos parecem-me muito bem feitos, o<br />
autor sabia objetar bem. Deve fazer parte da destreza<br />
do nosso espírito que apreciemos esse florete da argumentação,<br />
gostemos de ver argumentos feitos ainda que<br />
sejam contra nossas teses para, depois, dar a nossa resposta.<br />
É como uma esgrima. Muito mais alta e mais bela<br />
do que a esgrima da espada é a esgrima da inteligência.<br />
Aqui estão quatro estocadas bem desferidas contra nós.<br />
25
Hagiografia<br />
Vamos ver, agora, como o nosso bom padre responde a<br />
essas estocadas.<br />
Descendente de rei, de sacerdote e de profeta<br />
Para solucionar essa dificuldade, tenha-se em conta que<br />
a nobreza humana pode considerar-se em sua causa, em<br />
sua essência e em sua ação.<br />
Está muito bem lançado! Para responder, começar<br />
por ver o que é a nobreza, para depois desencaixar daí os<br />
argumentos contrários. E, para saber o que é a nobreza,<br />
ela deve ser considerada em sua causa, em sua essência<br />
e em suas ações, ou seja, no que a causou, no que ela é e<br />
no que ela causa. Está perfeito. Não falta nada!<br />
Considerando-a em sua causa, é a nobreza de origem,<br />
no que foi singularíssimo São José, pois tem sua origem<br />
numa tríplice dignidade: corporal, espiritual e<br />
celeste. Ou seja, uma dignidade real, sacerdotal e<br />
profética, que é celestial, pois predizer o futuro é só<br />
de Deus. Davi foi rei, Abraão foi patriarca, Natã,<br />
profeta, e os três foram antepassados de São José.<br />
Ao analisar a causa da nobreza de São José, o<br />
Padre Isidoro explica que ele descende de varões<br />
dignos a três títulos diferentes: segundo o corpo,<br />
por ser descendente de rei; conforme o espírito,<br />
por descender de estirpe sacerdotal; segundo<br />
as coisas sobrenaturais, porque era<br />
descendente de profeta.<br />
Ora, descender de rei, de profeta e<br />
de sacerdote confere a mais alta nobreza<br />
que uma pessoa possa ter. É<br />
esplendidamente bem argumentado.<br />
Que relação há entre rei e corpo?<br />
O rei é o chefe do Estado. O Estado cuida,<br />
entre os homens, daquilo que diz respeito<br />
ao corpo.<br />
O sacerdote faz para a alma o que o Estado<br />
realiza para o corpo. Ele cuida das<br />
coisas da alma, do espírito.<br />
O profeta é o representante de Deus, o<br />
porta-voz da palavra do Altíssimo. Sobretudo<br />
quando se trata do profetismo oficial,<br />
de um homem mandado por Deus<br />
e cuja missão era garantida com milagres,<br />
e que falava oficialmente em nome<br />
do Criador, como o embaixador fala oficialmente<br />
em nome de seu rei. Evidentemente<br />
isso é uma altíssima situação, uma<br />
altíssima missão.<br />
São José tinha, portanto, as três causas<br />
mais altas de nobreza, representativas de<br />
três aspectos da vida do homem: o aspecto<br />
material, o espiritual e a representação de Deus. É muito<br />
bem tratado, superiormente inteligente.<br />
Vejamos agora o que ele diz sobre a essência.<br />
Varão justo, esposo da Rainha do<br />
Céu e pai nutrício de Jesus<br />
São José era nobre em sua essência, quer dizer, na sua<br />
própria pessoa, porque encontramos nela tríplice nobreza:<br />
ele foi justo em sua alma, alcançou a dignidade de esposo<br />
da Rainha do Céu e teve ofício de pai nutrício do Filho<br />
de Deus.<br />
Consideremos que aquele fotógrafo, Antony Armstrong-Jones,<br />
que se casou com a Princesa Margaret, irmã<br />
da Rainha Elizabeth da Inglaterra, antes do casamento<br />
foi elevado à dignidade de Conde de Snowdon,<br />
porque para se casar com a irmã da Rainha tem<br />
que ser nobre.<br />
Mas que pouca coisa é ser casado com a irmã<br />
da rainha, em comparação de ser esposo da Mãe<br />
de Deus! Se isso não constitui nobreza, e se o homem<br />
que se casou com a Mãe de Deus não é nobre,<br />
então não há nobreza na Terra! O estado<br />
dele é, por definição, nobiliárquico.<br />
Nossa Senhora é Rainha do Céu e da Terra,<br />
não por uma alegoria, uma imagem,<br />
mas Ela o é efetiva e autenticamente.<br />
Se a Rainha Elizabeth fosse<br />
católica e reconhecesse, portanto,<br />
a realeza da Santíssima Virgem,<br />
ela, aparecendo diante de Nossa Senhora,<br />
teria que se ajoelhar e colocar<br />
a coroa dela aos pés da Mãe de<br />
Deus. Porque onde Nossa Senhora está<br />
ninguém é rei, ninguém é rainha. Somente<br />
Ela é a Rainha e tem todo o poder.<br />
Os reis e as rainhas não são senão os<br />
representantes d’Ela. Nossa Senhora é que<br />
manda, porque todo o poder que Deus tem<br />
sobre o universo, Ele deu a Ela. Maria Santíssima<br />
é a Rainha de todo o universo. Ora,<br />
aquele que se casa com a Rainha de todo o<br />
universo é nobre, evidentemente.<br />
Notem a coisa interessante: antes de mencionar<br />
a nobreza de São José como fidalgo<br />
casado com Nossa Senhora, o autor refere a<br />
nobreza de São José porque ele era justo, um<br />
varão virtuoso que vivia na graça de Deus.<br />
Temos aí uma tese muito interessante<br />
em matéria de nobreza. Aos olhos dos homens,<br />
um nobre pode valer mais do que um<br />
plebeu, porque não está escrito na fronte<br />
David Domingues<br />
26
de ninguém se ele está ou não na graça divina. Mas, aos<br />
olhos de Deus, o plebeu em estado de graça vale incomparavelmente<br />
mais do que o nobre que esteja em estado<br />
de pecado. Quer dizer, o primeiro foro de nobreza é a<br />
graça de Deus. É uma coisa evidente.<br />
De tal maneira que no Reino de Maria, se houver uma<br />
nobreza, sou da opinião de que os nobres que vivam oficial<br />
e publicamente em estado de pecado percam a nobreza.<br />
Mas, depois, o Padre Isidoro diz bem: São José não foi<br />
apenas o esposo de Nossa Senhora, mas também o pai<br />
nutrício do Menino Jesus. Ora, ser o pai nutrício do Filho<br />
de Deus é a mais alta honra a que um homem possa<br />
chegar, depois da honra de ser a Mãe do Filho de Deus,<br />
que é, evidentemente, maior.<br />
Mais do que governar todos os<br />
reinos e impérios do mundo<br />
Também em suas obras ele deu provas, ao mundo inteiro,<br />
de uma singular nobreza, pois recebeu em sua casa<br />
o Salvador do mundo, conduziu-O são e salvo através de<br />
vários países, serviu-O e alimentou-O durante muitos anos<br />
com seus trabalhos e seus suores.<br />
Quer dizer, ele não só foi nobre porque se casou com<br />
Nossa Senhora, mas porque Deus o investiu na mais alta<br />
função de governo que possa haver na Terra, abaixo<br />
de Maria Santíssima. Exercer uma alta função de governo,<br />
de acordo com os conceitos da sociedade tradicional<br />
daquele tempo, nobilitava, conferia nobreza. Ora, ser o<br />
pai do Menino Jesus, governá-Lo, bem como a Nossa Senhora,<br />
é mais do que governar todos os reinos e impérios<br />
do mundo. Isso não lhe veio só do casamento; Deus o escolheu<br />
para essa tarefa. Compreende-se a nobreza excelsa<br />
que lhe vinha disso, evidentemente.<br />
Esses são os novos raios que emite a nobreza do santíssimo<br />
José, tornando-a mais resplandecente que o mesmo Sol.<br />
Seguindo, como dissemos, o método de São Tomás, o<br />
Padre Isidoro deu os argumentos contra a tese que ele ia<br />
sustentar; depois defendeu a tese e apresentou os raciocínios<br />
a favor dela. Agora ele vai destruir os argumentos<br />
contrários à tese por ele sustentada.<br />
A humildade é o melhor<br />
ornamento da nobreza<br />
Respondendo à primeira dificuldade: São Paulo se refere<br />
aos pregadores que levariam a Fé ao mundo, que deviam<br />
ser de origem humilde e simples, para que não se atribuísse<br />
ao seu poder e sabedoria a dignidade das maravilhas que<br />
obrava a graça de Deus, mediante o ministério deles; restando<br />
daí glória à Cruz de Cristo. Por isso lhes disse a Glosa:<br />
se não houvesse um honrado pescador, teríamos poucos<br />
pregadores humildes.<br />
O pensamento é o seguinte: era natural que entre os<br />
primeiros católicos houvesse poucos nobres, e daí não se<br />
tira nenhum argumento contra a nobreza. Porque se entre<br />
os primeiros católicos existissem muitos nobres, muitos<br />
poderosos, muitos ricos, dir-se-ia que o Evangelho conquistou<br />
toda a Terra por causa do prestígio desses homens.<br />
Ora, não foi isso. Não houve nem nobres, nem sábios, nem<br />
poderosos, nem ricos. Foram homens simples que conquistaram.<br />
Donde o milagre fica patente. E não é porque<br />
a Providência não gostasse da nobreza, ou não lhe desse<br />
valor, mas foi para glorificar mais especialmente a Deus<br />
que foram escolhidos homens de uma condição modesta<br />
para esse primeiro passo. Está muito bem argumentado.<br />
Agora, outra razão:<br />
Mas não era apropriado que o Rei dos reis convivesse<br />
na intimidade com quem não era nobre nem de espírito<br />
nem de sangue. Não era razoável que Aquele a Quem servem<br />
milhões de Anjos, escolhesse por pai a quem não fosse<br />
nobre de linhagem; nem tampouco que a Virgem escolhida<br />
por Mãe, a Quem admiram os moradores da Jerusalém<br />
celeste, fosse desposada por um homem de origem plebeia.<br />
[...]<br />
…sabemos que a humildade não é incompatível com a<br />
nobreza, mas que, pelo contrário, é o seu melhor ornamento;<br />
pois, quanto maior é uma pessoa, tanto mais deve humilhar-se<br />
em tudo. Deus ama singularmente os humildes.<br />
Assim disse a Santíssima Virgem: “Porque Ele olhou a humildade<br />
de sua serva, por isso todas as gerações me chamarão<br />
bem-aventurada” (Lc 1,48).<br />
Tanto é verdade que a grandeza e a humildade não se<br />
excluem, que em Nosso Senhor tiveram uma aliança admirável.<br />
O Magnificat<br />
Foi [Nosso Senhor] pobre em bens de fortuna, mas não<br />
na excelência de sua Pessoa, que é o verdadeiro fundamento<br />
da nobreza.<br />
Está muito bem argumentado. De fato, Deus ama<br />
eminentemente a humildade, porém esta não é uma virtude<br />
exclusiva dos plebeus; é também dos nobres, pois é<br />
a virtude dos grandes e dos pequenos.<br />
A humildade é a verdade. É humilde aquele que,<br />
olhando para si, reconhece a verdade a seu respeito, contenta-se<br />
com o que é, não quer ser mais nem menos, porque<br />
Deus Nosso Senhor, que manda nele, o colocou na<br />
posição que ele tem. Por isso uma pessoa pode ser muito<br />
humilde, embora seja de altíssima categoria.<br />
O autor cita exatamente as palavras do Magnificat.<br />
Porque olhou a humildade de Nossa Senhora, todas as<br />
27
Hagiografia<br />
gerações A chamarão bem-aventurada. Quer dizer, colocou-A<br />
no ápice porque era humilde, tinha a respeito de<br />
Si uma ideia perfeitamente precisa. Se a grandeza fosse<br />
incompatível com a humildade, colocando Nossa Senhora<br />
em tal excelsitude, Deus Nosso Senhor A teria impedido<br />
de ser humilde. Ora, Ela foi humilde até o fim da vida,<br />
sendo a maior das meras criaturas. Logo, entre grandeza<br />
e humildade não há incompatibilidade. É um argumento<br />
que não permite resposta. É perfeito.<br />
Formas de grandeza de Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo<br />
Terceiro argumento:<br />
Constatamos que a Encarnação revelou a suprema humildade<br />
de Deus:<br />
1º- O revestir-Se da carne humana. “Ele Se aniquilou,<br />
tomando a forma de servo” (Fl 2,7).<br />
2º- Por sua humilde vida. “Aprendei de Mim, que sou<br />
manso e humilde de coração” (Mt 11,29).<br />
3º- Pelas terríveis dores de sua Paixão. “Olhai e vede se<br />
há dor comparável à minha dor” (Lm 1,12).<br />
Contudo, nem sempre apareceu no exterior com a mesma<br />
humildade; mas, pelo contrário, mostrava sua grandeza<br />
quando convinha. Assim vemos que Ele ensinou com autoridade,<br />
fez milagres e ressuscitou vitorioso dentre os mortos.<br />
Também está muito bem argumentado. Afirma o autor:<br />
tanto é verdade que a grandeza e a humildade não se<br />
excluem, que em Nosso Senhor tiveram uma aliança admirável.<br />
Ninguém na vida foi mais humilde do que Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo, mas ninguém teve grandeza maior<br />
do que a d’Ele.<br />
E ele indica três formas da grandeza do Redentor. O<br />
ensinamento de Nosso Senhor; ensinar é um atributo<br />
da grandeza. Mostra, de outro lado, o seu poder de fazer<br />
milagres, a ponto de ressuscitar mortos; é manifestar<br />
uma grandeza que ninguém tem. Quando qualquer potentado<br />
da Terra, no auge de seu poder, ressuscitou um<br />
morto? Só Deus o pode fazer. Mas, terceiro, ressuscitou-<br />
-Se a Si próprio, o que é um milagre ainda muito maior.<br />
Porque, estando morto, ressuscitar-Se a Si próprio é uma<br />
grandeza que desafia qualquer palavra. Então, Aquele<br />
que foi o mais humilde de todos foi o maior; logo, a humildade<br />
não é incompatível com a grandeza. Não há o<br />
que dizer! Está perfeitamente respondido.<br />
Mais ainda: a humilhação de Deus na Encarnação não<br />
teria sido maior por escolher um pai de origem humilde;<br />
foi extrema a humilhação e nada poderia acrescentar-se à<br />
humildade que supõe revestir a divindade da natureza humana.<br />
Ele quer dizer o seguinte: falar que Nosso Senhor Se<br />
humilhou muito, sendo filho de operário, é uma coisa inteiramente<br />
secundária. A humilhação verdadeira d’Ele,<br />
sendo Filho de Deus, foi consentir em ficar homem.<br />
Diante disso o resto é inteiramente secundário.<br />
Nobreza en sommeil<br />
Por último, foi pobre em bens de fortuna, mas não na excelência<br />
de sua Pessoa, que é o verdadeiro fundamento da<br />
nobreza, como já foi declarado. Além disso, ele careceu do<br />
supérfluo, mas não do necessário. Nem tampouco se opõe<br />
à nobreza o ganhar o pão com o suor de sua fronte, pois<br />
o trabalho evita a degradação, e ninguém pode glorificar-<br />
-se da nobreza se não souber cobrir suas necessidades com<br />
o trabalho de suas mãos. A natureza, que dá essa nobreza<br />
aos homens, aborrece a ociosidade, combatendo-a com todas<br />
as suas forças. E assim dizia Aristóteles: “Todo o que<br />
trabalha ordena sua operação ao obrar.” O trabalho tem a<br />
si mesmo por seu próprio efeito; e também Deus e a natureza<br />
nada fazem inutilmente.<br />
O princípio que o autor desenvolve aqui é muito interessante.<br />
Ele diz que o trabalhar com as próprias mãos<br />
de si não destrói a nobreza, porque não há uma incompatibilidade<br />
radical da nobreza com o trabalho manual; este<br />
não é uma vergonha, não é um pecado. Um nobre pode<br />
estar reduzido à condição de trabalhador manual e,<br />
com isso, não perde a sua nobreza. Ele pode readquirir,<br />
de futuro, a sua posição, porque não fez uma ação vexatória,<br />
criminosa. São José foi assim. O que ele fez com<br />
seu trabalho manual foi tudo quanto havia de mais nobre<br />
e de mais alto e, por causa disso, não se pode dizer que<br />
ele tenha desmerecido a nobreza de seus antepassados,<br />
trabalhando manualmente.<br />
Certa ocasião li um livro sobre a nobreza no qual o<br />
autor mostrava que, em determinadas regiões da Europa,<br />
havia essa delicadeza de alma: quando um homem de<br />
uma família nobre perdia a fortuna e era obrigado a trabalhar<br />
com suas próprias mãos, não se afirmava que ele<br />
tinha perdido a nobreza, dizia-se que sua nobreza estava<br />
en sommeil — a expressão é muito bonita: em estado<br />
de sono —, e que ela despertaria no dia em que suas condições<br />
materiais lhe permitissem viver no estado nobre.<br />
É um infortúnio, ele ficou pobre, está trabalhando, mas<br />
não está fazendo nada degradante.<br />
É verdade que para um homem que se tornou, por<br />
exemplo, copeiro não é próprio dizer para ele: “Alteza,<br />
traga-me um copo d’água!” A nobreza dele entrou num<br />
estado de sono; ela está como que dormindo dentro dele.<br />
Mas, as circunstâncias melhorando, a nobreza dele refloresce.<br />
O Padre Isidoro de Isolano aplica isso à nobreza de<br />
São José. Perfeitamente bem pensado, bem concluído,<br />
bem articulado.<br />
28
Alegria proporcionada<br />
pelo raciocínio<br />
Uma calma que só os<br />
homens lógicos possuem<br />
Enquanto eu desenvolvia<br />
o pensamento desse sacerdote<br />
a respeito de São José, notei<br />
como as expressões fisionômicas<br />
dos ouvintes indicavam<br />
adesão e satisfação, não<br />
apenas pela tese sustentada<br />
por ele, mas também por verem<br />
a agilidade de sua argumentação.<br />
Permitam-me, nesta reunião<br />
um pouco mais íntima, tratar<br />
de algo à margem do tema.<br />
Aqueles que sentiram algum<br />
contentamento em ouvir<br />
a argumentação desse padre<br />
tiveram um prazer por onde<br />
se esqueceram, por alguns<br />
instantes, das preocupações e<br />
dos aborrecimentos da vida de<br />
todos os dias; experimentaram<br />
certa serenidade, certa tranquilidade.<br />
Façamos uma comparação<br />
entre a alegria que dá a torcida<br />
e a proporcionada pelo raciocínio,<br />
com essa serenidade<br />
da alma, quando o homem<br />
está no estado de repouso, de<br />
distensão, e acompanha o passo<br />
majestoso e cadenciado dos<br />
argumentos que se seguem uns<br />
aos outros como uma bonita<br />
parada; em que ele aprecia o<br />
gume de cada arma da lógica, e tem esse prazer soberano<br />
de ver a arma da lógica entrar no corpo, na carnatura<br />
do erro e fender.<br />
O argumento que, como o bisturi de um médico excelente,<br />
entra e talha, corta o tumor e o organismo respira<br />
satisfeito. Magnífico! O mal ficou inutilizado, prostrado,<br />
arrasado.<br />
Assim faz a lógica clara, precisa, elegante, que como<br />
um Anjo dardeja um raio sobre o erro e o liquida. Vemos<br />
o erro ser apresentado com todos os seus enfeites, mas<br />
depois surge a lógica e o joga ao chão com uma sapecada<br />
certa, um golpe certeiro.<br />
Esse elogio da lógica seja feito em homenagem a São<br />
José, tão lógico, tão coerente, que levou a lógica ao verdadeiro<br />
heroísmo durante a sua vida.<br />
Angelis David Ferreira<br />
Sonho de São José - Igreja de São José,<br />
Nova Iorque, EUA<br />
Qual foi um lance da vida de<br />
São José em que ele levou a lógica<br />
até o heroísmo? Foi aquele<br />
episódio muito conhecido,<br />
quando ele viu que Nossa Senhora<br />
tinha concebido um filho<br />
do qual ele não era pai. O Evangelho<br />
trata disso. Então, ele ficou<br />
colocado diante de uma situação<br />
absurda. Maria era evidentemente<br />
santa, e ele não podia<br />
disso duvidar, porque a santidade<br />
d’Ela reluzia de todos os<br />
modos possíveis; de outro lado,<br />
estava criada uma situação que<br />
ele não conhecia, mas com a<br />
qual ele não podia conviver.<br />
Ao invés de denunciá-La, como<br />
mandava a lei hebraica, ele<br />
saiu com a única solução lógica:<br />
“Quem está demais nessa casa,<br />
não é essa Mãe, que é a dona<br />
e rainha desse lar; nem o filho<br />
que Ela concebeu. Alguém<br />
está demais, mas esse alguém<br />
sou eu. Vou abandonar a casa<br />
e sumir; porque não compreendo<br />
esse mistério, mas contra<br />
ele não me levantarei. Passarei<br />
meus dias longe, venerando o<br />
mistério que não entendi.”<br />
Resolveu, então, fugir da casa,<br />
deixando Nossa Senhora<br />
com o fruto de suas entranhas.<br />
Ele tinha que abandonar o maior tesouro da Terra, a Virgem<br />
Maria, o que para ele representava um sofrimento<br />
inenarrável, inimaginável.<br />
O Evangelho nos conta que ele estava dormindo quando<br />
apareceu um Anjo e lhe deu a explicação. Quer dizer,<br />
antes desse lance tremendo, São José dormia. Ele ia viajar<br />
e tinha que se preparar por meio do repouso para essa<br />
viagem. E foi durante o sono que o Anjo veio e lhe<br />
explicou tudo. Ele continuou a dormir. Vejam a calma<br />
dele! Essa calma só os homens lógicos têm. De manhã,<br />
acordou e a vida continuou normalmente. Suma normalidade,<br />
suma coerência, suma lógica!<br />
Em louvor dessa lógica de São José, fica este rápido<br />
comentário.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de 19/3/1976)<br />
29
Luzes da Civilização Cristã<br />
Esplendor do equilíbrio<br />
Interpretando falsamente o princípio de que a virtude<br />
está no meio, muitas pessoas chegam a defender os<br />
erros mais crassos, contrários à Doutrina Católica.<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> elucida sapiencialmente esse tema, com<br />
base na razão e apresentando belíssimos exemplos.<br />
Catedral de<br />
São Basílio<br />
Moscou, Rússia<br />
São Francisco de Sales, grande Doutor da Igreja,<br />
chegou a identificar o equilíbrio com a virtude, dizendo<br />
que a virtude está no meio. Ora, o meio é<br />
exatamente o equilíbrio entre dois extremos, a considerar<br />
as coisas do ponto de vista geométrico. Assim, se a<br />
virtude está no meio, chegamos à conclusão de que a verdade<br />
se encontra no equilíbrio. Portanto, não há razão<br />
para julgar o equilíbrio como sendo algo insípido, estúpido;<br />
nele deve estar a verdadeira sabedoria.<br />
Noção de equilíbrio<br />
Petar Milošević<br />
Contudo, é preciso ver bem o que nas conotações da<br />
palavra “equilíbrio”, na linguagem brasileira, entra de<br />
fundamentalmente sem sabor, fazendo com que uma<br />
coisa tão eminente como o equilíbrio possa dar uma impressão<br />
tão desagradável.<br />
O equilíbrio, afinal, o que é? É uma excelência das<br />
coisas por onde elas — nos seus aspectos contrários — se<br />
compensam, se harmonizam, de maneira tal que se reúnem<br />
em torno de uma nota suprema, a qual abarca uma<br />
porção de notas colaterais. Poderíamos dizer, por exem-<br />
30
Nesta página e nas seguintes,<br />
aspectos do Castelo de<br />
Cheverny - França<br />
Sanchezn (CC 3.0)<br />
Catedral de Notre-Dame - Paris, França<br />
plo, que um edifício, com uma torre no centro e duas alas<br />
iguais de uma amplitude harmônica com o tamanho da<br />
torre — ou seja, quanto mais alta a torre, mais largas as<br />
alas —, tem equilíbrio. Essa ideia de equilíbrio abrange<br />
uma grande variedade de aspectos, e nós começamos a<br />
entrever através disso, de um modo mais vivencial, quanto<br />
o equilíbrio é uma coisa boa.<br />
Entretanto, no Brasil se chama homem equilibrado,<br />
não aquele que tem uma ideia ou princípio central, em<br />
torno do qual ele traça a circunferência de todos os aspectos<br />
possíveis, mas um simplório que não tem nenhuma<br />
ideia central; e sempre que é atormentado por dois<br />
extremos opostos, o equilibrado se coloca simplesmente<br />
no meio-termo, pensando que com isso resolveu as coisas.<br />
Por exemplo, entre um comunista e um fascista, o<br />
equilibrado seria um burguês. Entre um indivíduo que<br />
quer o divórcio e outro que deseja o amor livre, o equilibrado<br />
quereria um divórcio muito evoluído; entre um<br />
homem que é favor da alopatia e outro da homeopatia,<br />
o equilibrado gostaria de uma mistura sem sentido entre<br />
essas duas coisas incompatíveis. E daí para a frente.<br />
Pensamento seletivo, ordenativo, vigoroso<br />
Então, o verdadeiro equilíbrio não é uma mistura<br />
ininteligente de coisas incongruentes, mas a força de um<br />
pensamento central, com o leque das consequências que<br />
em todos os sentidos dele se podem tirar.<br />
Assim, toda beleza é necessariamente equilibrada.<br />
Mas há certas formas de pulcritude nas quais o que brilha<br />
à primeira vista não é o equilíbrio, mas é quase o desequilíbrio.<br />
Tomem a Catedral de São Basílio, em Moscou, por<br />
exemplo, com aquelas torres pequenas — encimadas por<br />
cúpulas em forma de cebola — que sobem com uma espécie<br />
de ascensão frenética para o céu: a nota daquilo é<br />
de um misticismo que parece não dar lugar ao bom senso<br />
e à razão. Em substância dá, mas parece que não. É uma<br />
nobre e pseudounilateralidade, no fundo da qual existe<br />
um equilíbrio.<br />
Encontraremos, assim, várias formas de beleza. Mas a<br />
forma de beleza francesa — sobretudo nos áureos tempos<br />
da França, na Catedral de Notre-Dame, por exemplo<br />
— é o equilíbrio.<br />
Lieven Smits (CC 3.0)<br />
31
Luzes da Civilização Cristã<br />
Mas é um equilíbrio cheio de gosto, de sabor,<br />
de classe, de estilo — não o equilíbrio abobado<br />
entre duas opiniões das quais, tratando-<br />
-se irenisticamente, se obtém o meio-termo pro<br />
bono pacis 1 —, porque é um pensamento seletivo,<br />
ordenativo, forte, vigoroso, que agrupa em<br />
torno de si os respectivos elementos, e faz disso<br />
propriamente uma maravilha.<br />
Francisco Lecaros<br />
O equilíbrio francês cheio de sabores<br />
Temos um exemplo neste panorama que vemos<br />
aqui. Eu o considero de uma alta categoria. Onde<br />
está a beleza do quadro que contemplamos?<br />
Analisem elemento por elemento. A grama é<br />
de um verde-esmeralda que nos nossos trópicos<br />
não se encontra. No meio da grama, a coisa mais<br />
comum do mundo: um caminho inteiramente reto.<br />
Bem no fundo, um castelo.<br />
O que tem esse castelo propriamente de maravilhoso?<br />
Na fachada, não se vê uma estátua e quase<br />
nenhum ornato. Não se nota no castelo nada que deslumbre.<br />
Não é uma construção cara; custa preço alto apenas<br />
porque é grande, tem muito tijolo, material com que<br />
se faz qualquer casa. Entretanto, eu acho que seria um<br />
absurdo não reconhecer a isto a nota do equilíbrio, do<br />
maravilhoso. Mas qual é o maravilhoso? É o maravilhoso<br />
do equilíbrio, da coisa bem pensada, bem estudada, e<br />
feita com categoria: aqui está o esplendor do equilíbrio.<br />
E é o equilíbrio francês, cheio de toda espécie de sabores.<br />
Observem primeiramente o prédio, depois o resto.<br />
A graça dominando a força<br />
O prédio é composto de uma espécie de torreão central,<br />
que não é uma coisa bojudona, fazendo assim o papel<br />
de um tórax, de um abdômen, perto do qual o resto<br />
são duas asinhas. Pelo contrário: é uma coisa fininha, esguia,<br />
terminada, para acentuar a ideia do fino, por um<br />
teto pontudo. Mais ainda, de um lado e de outro há duas<br />
chaminés altas que realçam ainda mais a ideia do pontudo,<br />
porque elas terminam em ponta; e no alto uma espécie<br />
de campanariozinho — um mirantezinho, uma pequena<br />
cúpula — suportado por coluninhas. E essa ponta<br />
termina numa janela com uma ponta, tendo do lado duas<br />
pontas. Essa parte central do prédio é toda leve, esguia,<br />
fininha; mas está de tal maneira no centro, é tão<br />
bem pensada, que ela não faz o papel de raquítica, de nenhum<br />
modo, em relação aos dois extremos atarracadões<br />
e bojudos que se encontram num ponto e no outro.<br />
O governo, a linha rectrix do prédio está bem no centro.<br />
É a graça dominando a força, Jacó reprimindo Esaú,<br />
Manfred Heyde (CC 3.0)<br />
32
Benh LIEU SONG (CC 3.0)<br />
as coisas pesadas coordenadas em torno<br />
da leve.<br />
Não sei se percebem o alto pensamento,<br />
a afirmação da superioridade<br />
do espírito que há por detrás disso: é o<br />
triunfo da graça sobre a força, a faculdade<br />
ordenante da inteligência sobre as<br />
coisas da matéria.<br />
Alta categoria<br />
Entretanto este contraste entre a parte<br />
central e os dois extremos é equilibrado<br />
— porque todo contraste equilibrado<br />
deve possuir termos intermediários harmônicos<br />
— por dois corpos de edifícios<br />
iguais, nem tão esguios nem tão bojudos,<br />
mas que ficam entre uma coisa e outra,<br />
preparando a transição. As fachadas laterais<br />
são mais largas que a central, os cimos<br />
mais esparramados e não terminam<br />
em ponta, mas em cones truncados. No alto, há uma janela<br />
só no centro, e três janelas nas partes laterais.<br />
Usa-se nas gerações mais novas uma expressão um<br />
pouco popular, mas que às vezes tem uma certa força de<br />
significado: “Que coisa bem craniada!” Porque é preciso<br />
ter crânio para fazer isso.<br />
Esse castelo não foi feito por bobo, nem para bobo,<br />
porque é muito discreto. É como quem diz: “Se tu não<br />
me percebes, eu não te digo. Sou para quem tem quilate;<br />
diante de mim há mata-burro.” Ou então: “Se tu me<br />
julgas banal, eu te julgo trivial. Os eleitos, os seletos venham<br />
a mim. Eu sou feito para poucos.”<br />
Vemos que tudo isso é de alta categoria, realizado por<br />
cabeça superiormente orientada.<br />
O gênio francês<br />
Nos extremos, observamos a coisa curiosa. Esses corpos<br />
de edifícios são atarracadões; não tanto atarracados<br />
porque possuem três janelas — porque os laterais também<br />
têm —, mas devido ao espaço maior entre as janelas,<br />
e, sobretudo, pelo teto pesadão e grandão, que constitui<br />
uma tampona. Mas o muito pesadão horrifica o gênio<br />
francês, e por causa disso, no meio do pesadão há algumas<br />
coisas que o equilibram.<br />
Imaginem que pesadelo seria essa tampa grande se<br />
não houvesse essas janelinhas pequenas em cima, redondinhas!<br />
Como elas dão um sorriso que compensa a carranca<br />
dessa imensidade de ardósia do teto! Por detrás,<br />
as chaminezinhas e os campanariozinhos evitam que isto<br />
tome a aparência de um calcanhar achatando a ala do<br />
33
Luzes da Civilização Cristã<br />
Ziegler175 (CC 3.0)<br />
Ziegler175 (CC 3.0)<br />
www.delcampe.net (CC 3.0)<br />
castelo. Apesar de tudo, isso é pesadão, a parte intermédia<br />
é meio leve, e o centro é levíssimo.<br />
A altivez do castelo está no que ele tem de mais gracioso.<br />
É como quem diz: “Forte eu sou, mas, sobretudo,<br />
eu me prezo de ser inteligente. Em última análise, eu sou<br />
completo, porque tenho tudo. Tenho muita força, mas<br />
tanta inteligência que, em mim, a inteligência domina a<br />
força. Eu sou equilibrado.”<br />
Isso é um equilíbrio de primeira categoria, é degustação,<br />
porque se degusta isso como um prato saboroso! Isso<br />
é turismo! Viajar pela Europa quer dizer ir percebendo<br />
essas coisas. Não basta ouvir o que um guia fala, mas<br />
é preciso ver o que o artista diz, o que o ambiente que<br />
inspirou esse artista tinha a sofreguidão de contemplar.<br />
Vemos aqui uma aplicação da noção de equilíbrio.<br />
Quando São Francisco de Sales afirma que no meio está<br />
a virtude, pensem nesse torreãozinho e encontrarão<br />
a explicação. Não é um equilíbrio<br />
sensaborão, mas sim cheio<br />
de sal; é o gênio francês.<br />
Esse gênio francês, muito<br />
discretamente, se faz sentir<br />
noutra coisa: é o quadro.<br />
O castelo é, talvez, um pouco<br />
discreto demais. Então,<br />
ele é realçado pela perspectiva:<br />
um grande parque. Ele é<br />
tão simples nas suas linhas e<br />
nos seus enfeites que, se houvesse<br />
canteiros com muitas<br />
flores e esguichos, ele ficava<br />
pobre; então, ele tem um simples,<br />
mas esplêndido tapete de esmeralda para lhe servir<br />
de apresentação, e arvoredos formando, um pouco longe<br />
dele, moldura. Dir-se-ia que ele sai de dentro de um<br />
mundo de delícias e de mistérios que essas árvores encobrem;<br />
ou a clareza e a lógica cercadas de imponderáveis.<br />
Outra forma de equilíbrio. Eu acho isso maravilhoso.<br />
Perceber essas maravilhas é um<br />
dos prazeres da vida<br />
Os caçadores! Notem a posição deles! Tenho a impressão<br />
de que é uma fotografia tirada espontaneamente,<br />
mas a pessoa que fotografou o fez tão bem, que se um<br />
encenador devesse colocar esses caçadores numa posição<br />
bonita, ele os poria assim. Querem uma coisa mais<br />
sem graça do que, por exemplo, todos andando na mesma<br />
linha? Estragaria o quadro. Ou um cavaleiro aqui,<br />
outro ali, outro lá, outro acolá,<br />
etc., seis manchas de vermelho,<br />
sem sentido... Aqui<br />
não. Há um misto de distância<br />
e proximidade, fantasia<br />
e ordem dentro da distribuição<br />
deles, que faz com que<br />
sejam deliciosos de ver.<br />
Observem, por outro lado,<br />
o estilo. Os caçadores<br />
estão parados, tranquilos,<br />
de uma tranquilidade pronta<br />
para a ação. E a ideia da<br />
efervescência da caçada<br />
não é dada pelos homens,<br />
34
Christophe.Finot (CC 3.0)<br />
mas pela cachorrada: um ferver de cães famintos, dispostos<br />
para correr. E os caçadores sólidos, mas elegantes —<br />
porque são homens elegantes —, montados em cavalos<br />
que não têm nada de espetacular, mas espetacularmente<br />
proporcionados ao conjunto. Com toda a distância psíquica<br />
2 , os homens se preparam para uma caçada que vai<br />
ser feroz, por vales e por montes, tocando cornetas etc.; a<br />
demarragem é equilibrada.<br />
Não é verdade que para degustar um dos prazeres da<br />
vida, que tornam a existência humana digna de ser cristãmente<br />
vivida, é preciso perceber essas coisas? Mas perceber<br />
com o rumo ao Céu.<br />
Reflexo da Igreja Católica<br />
Esses valores de espírito são assim porque essa civilização<br />
foi cristã. Porque há o precioso Sangue de Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo, a graça, o Batismo, a Igreja Católica<br />
dentro disso. Isso é, no fundo, um reflexo da Igreja<br />
Católica. Se não fossem as virtudes cristãs, isto não teria<br />
sido assim.<br />
Então não é um puro gáudio dos olhos, nem da inteligência<br />
que se tira daí, mas acima disso é um gáudio superior<br />
do espírito, considerando uma ordem transcendente<br />
de coisas, onde existe um Deus pessoal, sobrenatural,<br />
que nós contemplaremos face a face, e no qual todas<br />
as formas desse equilíbrio se realizam de um modo<br />
tal que isto é uma imagem do Criador. Mas Deus é tão<br />
mais do que isto, que Ele até não é nem um pouco assim.<br />
Isto se encontra n’Ele de um modo insondável e incapaz<br />
de ser imaginado por qualquer criatura. Assim é<br />
a Terra como a bênção de Deus a fez, como a civilização<br />
cristã a modelou. Esta é a figura do Céu para o qual<br />
nós vamos.<br />
Temos aqui um termo religioso para uma meditação<br />
sobre uma coisa profana.<br />
Alguém me diria: “<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, falta um cruzeiro diante<br />
desse castelo para ele ter a nota cristã.” Eu responderia:<br />
Em todos os lugares onde se queira colocar um cruzeiro,<br />
eu exulto. Mas dizer que a coisa fica falha sem cruzeiro,<br />
não concordo. O espírito católico está aí até sem o cruzeiro.<br />
Esse castelo é católico em si; tal equilíbrio sem a<br />
graça não se consegue. É uma tradição constituída por<br />
homens que em certo momento receberam a graça e tiveram<br />
esses valores. Aqui está o equilíbrio católico. v<br />
(Extraído de conferência<br />
de 12/5/1969)<br />
1) Do latim: para o bem da paz.<br />
2) Expressão utilizada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> para significar uma calma<br />
fundamental, temperante, que confere ao homem a capacidade<br />
de tomar distância dos acontecimentos que o cercam.<br />
35
Pureza, humildade, obediência<br />
Reprodução<br />
Anunciação (por<br />
Fra Filippo Lippi)<br />
Antiga Pinacoteca,<br />
Munique,<br />
Alemanha<br />
N<br />
a Anunciação, a atitude de Maria, a Virgem<br />
das virgens, foi perfeitamente virginal. De<br />
outro lado vemos como Ela foi humilde em toda a<br />
linha. Aquela que Deus destinara para ser sua Mãe,<br />
preparando sua alma e seu corpo para estarem<br />
inteiramente proporcionados — tanto quanto<br />
possível a uma criatura humana — à honra de ser<br />
a Mãe do Messias, não tinha de Si uma alta ideia.<br />
Pelo contrário, ficou perturbada porque julgou que o<br />
elogio do Anjo não podia caber para Ela.<br />
Contudo, bastou São Gabriel dar-Lhe a certeza<br />
de que isso vinha de Deus para Maria responder:<br />
“Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum<br />
tuum — Eis a escrava do Senhor, faça-se em Mim<br />
segundo a tua palavra.”<br />
Assim, da humildade e da pureza conjugadas em<br />
Nossa Senhora resultou sua aceitação do plano de<br />
Deus, a respeito da Encarnação do Verbo.<br />
Há, entretanto, outro fiat de Maria que é uma<br />
verdadeira beleza. Aos pés da Cruz, Deus quis que<br />
Ela consentisse em oferecer o seu Filho como vítima.<br />
Nossa Senhora O via estertorando na Cruz, dando<br />
aquele brado: “Meu Deus, meu Deus, por que Me<br />
abandonastes?”, e consentiu que aquilo se passasse<br />
para o gênero humano ser resgatado e as almas<br />
poderem ir ao Céu. Porque Deus queria que Ela<br />
quisesse, Ela quis! São os dois atos supremos de<br />
obediência da Santíssima Virgem.<br />
(Extraído de conferência de 25/3/1990)