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Revista Dr. Plinio 211

Outubro de 2015

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Publicação Mensal Ano XVIII - Nº 211 Outubro de 2015

Holocausto incondicional


Vítima expiatória

S

anta Teresinha tinha uma certeza

interior — baseada em indícios

muito bem escolhidos, definidos

e analisados de sua vida

espiritual — de que ela seria

uma vítima expiatória do

Amor Misericordioso, e de

que deveria realizar isto no

Carmelo.

Diante dos maiores

obstáculos, ela não teve

nenhuma dúvida de que

entraria para o Carmelo, e

de que o Amor Misericordioso

a chamaria, em determinado

momento, para consumi-la como

vítima.

Assim, ela teve ocasião de dizer, no

meio de todas as amarguras pelas quais

passou, que a taça dos seus desejos estava cheia

até os bordos. Essas amarguras eram os desejos dela, os sofrimentos que ela

queria ter.

Isto é a confiança! Santa Teresinha tinha uma sólida convicção de que era

esta a finalidade dela, e a certeza de que a Providência faria todo o necessário

para que se realizasse este objetivo.

(Extraído de conferência de 17/8/1973)

Reprodução

2


Sumário

Publicação Mensal Ano XVIII - Nº 211 Outubro de 2015

Ano XVIII - Nº 211 Outubro de 2015

Holocausto incondicional

Na capa, Dr. Plinio

na década de 1990

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Gilberto de Oliveira

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Editorial

4 A essência de um holocausto

Piedade pliniana

5 Oração para pedir a graça do

holocausto incondicional

Dona Lucilia

6 Elo para a devoção a Nossa Senhora

Sagrado Coração de Jesus

8 Desejo de admirar e contemplar

Reflexões teológicas

12 Grandeza incomparável do sacrifício

Redação e Administração:

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27

02404-060 S. Paulo - SP

Tel: (11) 2236-1027

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Gráfica Print Indústria e Editora Ltda

Av. João Eugênio Gonçalves Pinheiro, 350

78010-308 - Cuiabá - MT

Tel: (65) 3617-7600

Gesta marial de um varão católico

16 Chamado a prestar grandes serviços à Igreja

Perspectiva pliniana da história

22 Dom João VI no Brasil - II

Calendário dos Santos

26 Santos de Outubro

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 130,00

Colaborador .......... R$ 180,00

Propulsor ............. R$ 415,00

Grande Propulsor ...... R$ 655,00

Exemplar avulso ....... R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 2236-1027

Hagiografia

28 O carisma da boa conversa

Luzes da Civilização Cristã

32 A beleza da luta - II

Última página

36 Oração que move montanhas

3


Editorial

A essência de um

holocausto

Ao recordar os vinte anos do falecimento de Dr. Plinio, ocorrido a 3 de outubro de 1995, e analisando

sua vida e a coerência de seu pensamento, torna-se inequívoco o quanto ele foi um homem

de Fé, inteiramente disposto a sofrer por amor à Igreja.

Desde cedo Nossa Senhora me concedeu a graça de perceber que a Fé católica era o maior valor

da Terra, mais precioso que a luz dos meus olhos, mais inestimável que os meus dias, mais rico do que

tudo. E, portanto, viver era viver desta Fé, consagrar-me completamente à Santa Igreja, lutando pelo

triunfo dela sobre o mal que procurava erradicar do mundo a Fé católica apostólica romana 1 .

Graças a Nossa Senhora, uma coisa é verdade: poder-me-ão faltar outras qualidades, mas com a

ajuda de Maria Santíssima, não hesito em afirmar: Fé eu tenho. Nunca me atribuí virtude alguma,

mas como afirmar minha Fé é, de si mesmo, um ato de Fé, eu reafirmo: Fé eu tenho. Sei que devo esta

graça à intercessão da Santíssima Virgem, pois não a mereço, e sem Ela eu não a teria obtido.

Isso me põe dentro da alma um todo, em função do qual vivo, existo, sou, penso, dentro do qual

me movo, e o qual, de modo consciente e sem nunca ter duvidado, analisei inteiramente. Isso eu quis

e quero com toda a minha vontade, e a isso me dou, num ato verdadeiramente de doação religiosa 2 .

Para manter acesa esta Fé e levar ao extremo seu entusiasmo pela Igreja, não faltaram a Dr. Plinio

grandes sofrimentos, pedindo-lhe uma contínua renúncia de si mesmo:

A grande imolação de nossa vida espiritual é querermos deixar de ser o que somos e sermos inteiramente

aquilo que a Igreja quer que sejamos. Este é o grande holocausto de nossa vida espiritual. O

resto ― doença, provações, etc. ― são meios para nos tornarmos generosos para praticar esse sacrifício.

[...] O centro do holocausto de um homem é a integridade com que ele o deseja.

Sempre tive o anseio de inteiramente desejar essa minha imolação, e considerei que a essência do

meu holocausto era ter o meu espírito preparado, por meio da coerência doutrinária, da previsão e

de outros fatores espirituais, para ser uma fortaleza no meio das trevas ou um navio no meio da tempestade

3 .

À luz dessas considerações, inauguramos nesta edição a seção “Piedade pliniana”, na qual contemplaremos

uma das orações compostas por Dr. Plinio pedindo a graça do holocausto incondicional à vontade

divina.

1) Conferência de 8/9/1982.

2) Conferência de 9/3/1980.

3) Conferência de 19/12/1973.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Oração para pedir a

graça do holocausto

incondicional

Arquivo Revista

Dr. Plinio conduz, em seu automóvel, a imagem peregrina

de Nossa Senhora de Fátima

Concedei-nos, Mãe e Senhora nossa, que assim como o guerreiro não escolhe

o teatro de batalha e está disposto a fazer, em qualquer campo, o holocausto

de sua vida, assim também saibamos lutar contra os inimigos —

velados ou declarados — de vosso Nome e da Santa Igreja, onde quer que sejamos

mandados: tanto no anonimato quanto na glória, tanto no heroísmo invisível

e como que impalpável da existência prosaica de todos os dias, quanto nos

lances trágicos dos acontecimentos que vossa mensagem de Fátima prenuncia.

Essa graça nós Vo-la imploramos como favor do qual não somos dignos; e se

não estremecemos diante de tudo o que ela significa, é que sabemos poder confiar,

com confiança sem limites, no vosso Coração Imaculado, força dos fracos,

esperança dos desvalidos, refúgio e consolação dulcíssima dos humildes. Amém.

(Oração composta por Dr. Plinio na década de 1960)

5


Dona Lucilia

Elo para a devoção

a Nossa Senhora

João Dias

No contato com Dona Lucilia, uma

comunicação da graça oposta ao egoísmo, ao

sentimentalismo e outros vícios existentes na

alma revolucionária.

P

Quando Nossa Senhora, por razões misteriosas, obtém

para alguém esta graça que trabalha a alma, transformando-a

e fazendo-a florescer, dá-se com ela algo

análogo ao que aconteceu com a água que, por sua intervenção,

transmutou-se em vinho nas bodas de Caná. Maria

Santíssima intercede junto a Nosso Senhor, o Qual,

impossibilitado de recusar um pedido de sua Mãe, pronuncia

sobre nossas almas uma palavra que as transforma

no mais saboroso dos vinhos. Tais são as extraordinárias

graças que podemos receber de Deus, se o pedirmos

por intermédio de Maria.

Muito bonito é outro aspecto do “Segredo de Maria”,

pois o vazio dentro do qual as coisas se precipitam deve

ter como contrário a presença de Nossa Senhora. Pode-

-se imaginar em que espécie de vazio ficam os que não

recebem essa graça da Mãe de Deus. Se eu não fosse filho

d’Ela, teria um vazio na alma que seria irremediável.

Essa graça é a da primazia do amor materno, gratuito,

direto, pessoal, terno e desinteressado como nenhuma

outra forma de amor é capaz. Mesmo o amor paterno

não é o amor materno. Dou-lhes o exemplo.

Certo dia, em nossa residência, ouvi uma conversa de

papai e mamãe que estavam no living.

Ela perguntava:

— João Paulo, você acha que Plinio gostaria de comer

tal coisa hoje?

Ele não respondia de maneira satisfatória e ela insistia,

querendo saber se papai não tinha observado ultimamente

o que eu mais comia. Ela não queria me perguntar

diretamente, pois havia percebido que me agraelo

que tenho notado, a ação de Dona Lucilia

junto a alguém move a alma a deixar a posição errada

de egoísmo e a se dirigir a Nossa Senhora.

Atuação para aceitar o Segredo de Maria

A atuação dela incide sobre o temperamento especificamente,

eliminando as afeições viciosas que o deformam

inteiramente. Essa deformação faz com que concebamos

como um horror tudo o que é contrário ao nosso

apego. Mas mamãe desenvolve uma ação específica na

alma por onde esta começa, de repente, a perceber quanto

é atraente e afável aquilo do que ela tinha horror, e

compreende a cegueira devido à qual considerava como

delícia o que na realidade era horror, e como horrível o

que de fato deveria ser a sua delícia.

Por exemplo, o apego de querer parecer rico. A pessoa

arrasta esse horror, mas subitamente ela, que era

louca pelo dinheiro, passa a sentir desafogo na separação

do dinheiro. E tudo isso mamãe faz com respeito pela alma,

com delicadeza, quase pedindo desculpas por entrar

no subconsciente da pessoa e operar isso.

No Pai-Nosso, Deus quer ser chamado de Pai para

que compreendamos, pelos bons pais da Terra, a paternidade

d’Ele. Assim, uma mãe terrena que tenha tão plenamente

realizado sua missão junto a um filho, compreende-se

que continue a agir desse modo após sua morte,

mas não só em benefício dele como também para toda a

família de almas por ele fundada. Portanto, se Dona Lucilia

foi para mim o símbolo de Nossa Senhora, é natural

que o seja também para aqueles que me seguem. Mamãe

atua de modo pré-dispositivo para a aceitação do “Segredo

de Maria” 1 , esta graça especialíssima que age na vontade

humana fazendo a alma progredir e se converter, e

por cuja ação a pessoa não deixa de ser inteiramente li-

vre, mas, sendo tão prodigamente iluminada e auxiliada,

torna-se incapaz de escolher o erro e o pecado.

Primazia do amor materno

6


dava a surpresa no jantar. Eu mesmo não tinha me dado

conta disso até então, e ela já entendia o que só ali explicitei.

Papai disse para ela que fizesse qualquer coisa e me

dissesse: “Aqui está o jantar, e se não gostar, vá para um

restaurante...”

Só mãe é assim; outras relações não são desse modo.

E ou se foi objeto de relações assim, ou não se compreende

o princípio axiológico 2 .

A imagem mais terna do amor de Deus para conosco

é essa. São coisas miúdas, mas nas quais está posta uma

vida inteira!

Doçura cristã admirável

É preciso sentir coisas assim para se compreender

Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Do contrário,

fica-nos um vazio na alma que é depois preenchido

por “cobras e lagartos”: sentimentalismos, invejas, revoltas,

etc. Daí nascem egoísmos, dúvidas, desrespeitos.

Por vezes, é dado aos homens conhecerem reflexos

desse modo, mas muitos os desprezam. Eu vi manifestações

dela assim serem desprezadas... Ora, deveríamos

ser sempre sensíveis a elas.

Ela sofria as rejeições sem desejos de vingança. Era

de tal bondade que, ao pé da letra, tinha o procedimento

evangélico que é imitar Nosso Senhor Jesus Cristo. E de

uma doçura cristã admirável! Mas não imaginem que era

doce apenas como mãe. Ela era assim para todo mundo,

e especialmente como mãe.

Externamente, a vida de Dona Lucilia nada teve de

extraordinário. Foi só a irradiação da sua alma. Quando

recebi a graça no Coração de Jesus em frente à imagem

de Nossa Senhora Auxiliadora 3 , compreendi o que

era Maria Santíssima por comparação com ela. Mamãe

era um caminho que me conduzia para lá. Ela havia preparado

meu espírito para receber o sorriso de Maria Auxiliadora.

Ela era como um pedaço de um espelho dentro

do qual se reflete o Sol inteiro. Assim foi seu papel para

minha devoção a Nossa Senhora.

Quando eu lia o “Tratado da Verdadeira Devoção à

Santíssima Virgem”, entrava um mundo de reminiscências

implícitas a ela. Assim, compreendi-o a partir dela.

A influência exercida por ela sobre mim era o começo de

uma ação que Nossa Senhora desempenharia em minha

vida. Mamãe foi, portanto, o vínculo, o elo para a devoção

a Maria Santíssima.

A tal ponto que, quando analisei pela primeira vez a

música natalina Stille Nacht, e senti que passava a conhecer

melhor Nossa Senhora — pois Ela deveria ter experimentado,

ao pé do Presépio, os sentimentos que este

cântico inspira —, também pensei em mamãe.

Muito respeito, mas não intimidades

Dona Lucilia estabelece com cada um que dela se

aproxima um vínculo pessoal, tomando-o como filho em

linha de misericórdia especial, com respeito sem símile.

Ela me respeitava muito, até mesmo quando eu era

criança. Brincava comigo como uma mãe faz, mas com

grande respeito. Como eu me sentia bem assim, tratado

com esse respeito! Por exemplo, quando vinha tomar minha

temperatura. Como toda criança, de vez em quando

eu adoecia e tinha febre. Apesar de me extasiar com ela,

eu era impaciente quando queriam tomar minha temperatura,

pois não gostava disso. Ela percebia, mas tendo

que verificar se eu tinha febre, de longe já vinha com jeito.

Depois, de modo calmo punha sua mão em minha testa…

Isso aumentava meu respeito por ela e me fazia concluir:

“Se nessa alma existe tanta capacidade de respeitar,

como a respeitarei quando a conhecer inteiramente!”

Eu gostava do respeito mais do que do carinho.

Mamãe respeitava todos, considerando em cada um a

idade, virtude, classe social, etc. Era assim, por exemplo,

com um membro de nosso Movimento que vinha em casa

tratar do expediente. Jamais diria a ele: “Espere um

pouco que já lhe mando servir qualquer coisa...” Ela dizia:

“O senhor aceitaria tomar chá agora?”

Por outro lado, não permitia intimidades. Diante de

um bispo que nos visitava frequentemente, jamais o cumprimentava

sentada. Levantava-se, osculava o anel e pedia-lhe

permissão para oscular o Santo Lenho que ele

trazia em sua cruz peitoral e lhe fora dado pelo Papa. Era

este um tratamento bem apropriado para um bispo.

Quando eu via tudo isso em mamãe, deixava-me tocar

profundamente, e depois vinha a análise truculenta:

É assim que a Igreja ensina? Isso está de acordo com a

boa Doutrina Católica?

Eu aderia à Igreja e analisava mamãe ponto por ponto,

atentissimamente. Não era, entretanto, uma análise

crítica ou cheia de suspeitas.

Recebida uma graça de comunicação com ela assim,

preenchemos lacunas que existem em milhões de almas

revolucionárias. Uma vez que a graça penetre nesses vazios,

exorciza-os, retirando as serpentes do egoísmo, do

sentimentalismo, etc.

v

(Extraído de conferências de 31/5/1971 e 21/5/1977)

1) Ver Revista Dr. Plinio n. 156, p. 25-26.

2) Termo derivado de “Axiologia”: ramo da Filosofia que estuda

os “valores”, isto é, os motivos e as aspirações superiores

e universais do homem, as condições e razões que dão rumo

à sua existência, para os quais ele tende por insuprimível

impulso da sua natureza.

3) Ver Revista Dr. Plinio n. 122, p. 18-23.

7


Sagrado Coração de Jesus

Desejo de admirar

e contemplar

Revelando aspectos íntimos de seu relacionamento

com o Sagrado Coração de Jesus e com Maria Santíssima,

Dr. Plinio manifesta o caráter anti-igualitário dessas

devoções em sua alma e na de sua extremosa mãe.

Outro dia veio-me ao espírito a seguinte ideia:

Há pessoas que, ao rezarem, têm toda a impressão

de que estão falando com um Santo, ou com

Nossa Senhora, ou com Nosso Senhor Jesus Cristo, e

que eles estão ouvindo e considerando, como um de nós,

o que dizem. Outras têm a impressão de que há um vidro

entre elas e os Santos, e que não se podem pôr

propriamente na presença deles.

muito de perto com Ela. Mas é de relance. Depois restabelece

aquela distância…

Não é uma distância in obliquo, mas como se houvesse

um vidro grossíssimo entre a Santíssima Virgem e eu.

Contudo, gosto muito dessa distância, porque satisfaz

o meu desejo de admirar e contemplar.

Profunda humildade ao rezar

a Nossa Senhora

Comigo dá-se uma coisa curiosa: sinto uma superioridade

muito grande dos seres celestes. E

com Nossa Senhora nem se fale! Eu A sinto como

no alto de uma ogiva a uma distância colossal de

mim, e que assim mesmo existe certo atrevimento

de minha parte em me aproximar. Aquilo que São

Luís Maria Grignion diz, “petit vermisseau et misérable

pécheur” 1 , é bem a impressão que eu tenho.

Estou certo de que Ela me ouve, mas numa impassibilidade

de ícone, e aquilo que eu digo chega

lá por um eco amortecido, fraco, distante. Maria

Santíssima toma conhecimento completo, mas

da parte d’Ela não procede nada para mim porque

não sou digno disso. É a impressão. Eu sei, teologicamente,

que não é assim, e rezo com a certeza de

que não é, mas a impressão é esta.

Numa ou noutra rara ocasião tenho a sensação

de que Nossa Senhora, daquela distância, sorri

com uma afabilidade muito grande. Mas não sei

bem se sou eu que subo ou Ela que baixa. Mas sinto

que a distância diminui e é como se eu falasse

Arquivo Revista

8


Alegria em

sentir-se

insignificante

A tendência de minha

piedade é de imaginar Nosso Senhor Jesus

Cristo, Deus, Nossa Senhora, todos os Anjos

e Santos enormes, com distância extraordinária,

por assim dizer fabulosa. E, sentindo-

-me muito pequeno, de algum modo nessa separação

sinto uma união. É o prazer de me sentir insignificante.

Aquilo me enche de contentamento,

de uma alegria, de uma dedicação, de espírito filial

que corresponde a um modo de ser.

Sei, teologicamente, que não há essa distância.

Ela é Mãe de misericórdia, e se eu tivesse

uma dúvida neste ponto, me desintegrava na

hora; então nada é nada na terra de ninguém.

Mas, enfim, é o modo de ser de cada um.

Por exemplo, confiança. Quando eu falo da

confiança, e até de senti-la, é como se partisse

daquele alto nicho um verão suave, perfumado,

mas a distância continua a mesma.

Isso pode ser visto de modos diferentes,

mas creio que para mim, provavelmente, é

uma via.

Tudo o que estou dizendo é muito natural,

não tem nada de extraordinário, é comum.

Mas outro dia eu estava rezando o Rosário e

isso sobreveio assim: pela primeira vez ocorreu-me

rezar os mistérios do Rosário como

quem estivesse junto a Nossa Senhora, comentando

com Ela o que eu pensava de

cada um daqueles fatos que se passaram.

E um pouco como quem pergunta o que

Ela teria sentido naquela ocasião. Mas

achei que essa era uma situação diferente

das habituais. Rezei até muito bem o

Rosário assim.

Digo isso para mostrar como é uma

coisa individual, que não deve ser tomada

como padrão.

Desde então tenho rezado o Rosário

assim, com proveito. Neste caso, vem certa

impressão de proximidade d’Ela, fazendo

contraste com o que acabo de dizer.

Arquivo Revista

A vida consiste em cumprir

os desígnios de Deus

Um corolário saudável disso é a ideia preconcebida

e preestabelecida de que Deus, Nossa Senhora têm o di-

“Le Beau Dieu” (O Belo Deus)

Catedral de Amiens, França

9


Sagrado Coração de Jesus

reito de nos tratar — se pudéssemos nos exprimir

assim, sem blasfêmia — do modo

mais “despótico” que se possa imaginar,

permitindo que nos aconteçam

as coisas aparentemente mais irracionais,

mais arbitrárias e mais

pungentes. Isso é inteiramente

natural, porque corresponde

a essa desproporção. Portanto,

não temos que reclamar,

nem estranhar, nem alegar

direitos, nem nada disso.

Um aspecto que me impressionava

em mamãe era

notar como se davam os

acontecimentos mais imprevistos

e, debaixo de certo ponto

de vista, mais ilógicos, e ela

os tomava como se fossem a coisa

mais natural do mundo.

Mamãe não tinha direitos a alegar

perante Deus. Ele era Senhor dela,

como de todas as criaturas, podendo

fazer o que bem entendesse. Ela sabia

que isso correspondia a desígnios de misericórdia

d’Ele. Mas existe aquele mistério: Nosso Senhor Jesus

Cristo pediu para se afastar o cálice d’Ele “se possível”.

Ora, para Deus tudo é possível! É um mistério, porque

Deus quis que o holocausto fosse até lá. E da parte

do Divino Redentor, a plena submissão, como quem dissesse:

“Diante de vossos desígnios absolutos, de vossos

direitos, de vossa sabedoria Eu Me dobro. Dai-Me apenas

forças.” Isso eu notava em Dona Lucilia muitíssimo.

Ela rezava com muito afeto, e sua devoção ao Sagrado

Coração de Jesus, a Nossa Senhora, era muito impregnada

de ternura. Mas ela rezava com muito empenho

quando queria obter as coisas. Entretanto se não as

obtivesse, era com uma naturalidade, uma paz de alma, a

maior do mundo!

Naquela fotografia em que mamãe tem aproximadamente

50 anos de idade, ela está cheia disso. Encontra-se

na voragem da dor, mas não pergunta a Deus por quê. É

assim e deve ser assim. Há um desígnio de Deus e a vida

consiste em cumprir os desígnios de Deus. E, portanto,

se é assim não se discute. O que é uma posição fundamentalmente

anti-igualitária.

Arquivo Revista

Estado de espírito de Dona Lucilia

em relação a Deus

Mas eu tenho visto gente que é protuberantemente

o contrário disso, e em quem percebo laivos de ati-

tudes deste gênero: “Eu peço a Deus, mas

Ele, lá nas coisas d’Ele, a mim não atende.

Atende a todo mundo, mas não a

mim. Ele comigo faz o contrário do

que eu queria que acontecesse.”

Não era esse, absolutamente,

o estado de espírito de Dona

Lucilia. Esse estado de espírito

de um terceiro em relação

a Deus, que cobra, invectiva,

alega direitos, não

está naquela fotografia, em

nada!

Mais ainda: no fundo, essa

paz que vemos no Quadrinho

2 , sob o qual se poderia

escrever a frase: Ite vita est, é

como quem diz: “Eu fiz a vontade

d’Ele até o último elemento,

bebi todo o cálice de fel, até

a última gota. Mas está bebido, e

agora chegou minha hora de ajudar

os outros.”

Sem dúvida, uma das coisas mais tocantes

para mim naquela fotografia, em que mamãe

tem cerca de 50 anos, é essa resignação dela no meio da

dor. Vê-se que ela não entende e há qualquer coisa de

uma pergunta ansiosa: “Como será, por que será?”, mas

sem o menor laivo de revolta, de inconformidade, nem

nada. É como alguém que adora o mistério do sofrimento

que está tendo.

Isso partia de uma ideia altíssima que mamãe tinha

de Deus.

Aliás, uma coisa curiosa: ela nos ensinou o Pai-

-Nosso de um modo um pouquinho diferente da fórmula

corrente. Não sei se no tempo dela se tinha introduzido,

talvez no hábito brasileiro ou pelo menos

de Pirassununga, um acréscimo que era: “O pão nosso

de cada dia nos dai hoje, Senhor...” Este “Senhor”

não está na oração dominical. Durante algum tempo

eu rezei o Pai-Nosso assim. Depois, por conformidade

com a Igreja, suprimi o “Senhor”. Mas a minha alma

se regozijava de poder dizer este “Senhor”. O “Senhor”

calha ali com uma precisão, no ritmo da oração,

muito bem. Suprimi, porque a Igreja ensina de

um modo diferente. Quando mamãe rezava alto, conosco,

nas Sextas-feiras Santas, não saía o “Senhor”.

Eu acho que ela, em certo momento, se deu conta

também e suprimiu.

Mas era a ideia do Dominus cheio de bondade, de misericórdia,

de carinho, que estava no espírito dela. Ela tinha

muito isso, mas muito!

10


Doçura dentro na majestade

Arquivo Revista

No tocante ao meu relacionamento com Nosso Senhor,

com Nossa Senhora, eu sempre tive e continuo a

ter aquela certeza, que a graça de Genazzano 3 corroborou,

de ser atendido diante de problemas que envolvem

a Causa Católica. Por exemplo, quando recebi a graça de

Genazzano, eu me lembro perfeitamente da impressão

que tive de Nossa Senhora tomando aquela atitude, fazendo-me

entender o que Ela quis que eu compreendesse.

Ali sim, não tenho dúvida nenhuma de que foi uma

graça, uma promessa.

Depois me contaram que o provincial dos agostinianos

do Santuário, a quem haviam narrado o fato, disse

que esse tipo de graça era característico da Mãe do Bom

Conselho de Genazzano. Para mim, não tem dúvida nenhuma:

Nossa Senhora me concedeu essa graça.

Lembro-me de que o quadro d’Ela como que se animou.

Não tive nem um pouco a impressão de que Ela

estivesse falando comigo. Mas o quadro como que adquiriu

uma vida dulcíssima, revelando um interior

d’Ela, mas com uma suavidade inexprimível. Porém,

conservando sempre essa superioridade. De maneira

que era um sorriso materno dentro do esplendor e da

majestade.

Segundo meu modo de ser, essa doçura que se manifesta

dentro da majestade é mais doce do que fora da

majestade.

Naquele hino a Nossa

Senhora do qual gosto

muito, “Si quæris cœlum,

anima, Mariæ nomen invoca...”,

há uma estrofe que

é assim: “Pelo nome d’Ela

fogem as culpas e as trevas,

as dores da doença e as úlceras.

Aos vencidos se desatam

os pés, e para os navegantes

as águas se tornam

mansas.”

Acho muito bonito! Aliás,

toda essa cançãozinha é

linda! “Se tu queres o Céu,

ó alma, invoca o nome de

Maria. Pois aos que invocam

Nossa Senhora as portas

do Céu se abrem.”

São grupos de quatro estrofes.

É como se houvesse

asteriscos entre elas:

“Glória a Maria, Filha

do Padre e Mãe de Nosso

Senhor Jesus Cristo, Esposa

do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos,

amém.”

“Pelo nome de Maria os Céus se alegram, os Infernos

estremecem. O céu, a terra e os mares, o mundo inteiro

se rejubila.”

Tem muita candura.

Por exemplo, estou falando disso, mas não se dissocia

de Nossa Senhora no Céu, altíssima, puríssima e, por

causa disso, exercendo sobre a Terra essa ação benfazeja,

enorme! Não há mares, não há trevas, não há coisas que

Ela não domine, em razão de ser tão boa e estar tão alta.

Sensibilidade eucarística diante

do Santíssimo Sacramento exposto

Já minhas Comunhões não costumam ser sensíveis.

Aliás, tenho, por assim dizer, mais sensibilidade eucarística

quando estou diante do Santíssimo Sacramento exposto

do que quando comungo.

Em geral, quando estou diante do Santíssimo Sacramento,

fico muito, mas muito tocado. A noção da presença

d’Ele me comove muito. Mas na Comunhão, paradoxalmente,

de um modo habitual, menos sensível. O

que predomina é a presença de um Visitante desmedidamente

grande, a Quem se trata de pedir. Daí calhar inteiramente,

no meu modo de ser, o método de Comunhão

sugerido por São Luís Maria

Grignion de Montfort: pedir

que Nossa Senhora venha à

minha alma para recebê-Lo.

E Ele encontrando-A como

dona desta casa e fazendo-

-Lhe as honras por mim, tenho

então muito comprazimento.

Donde dirigir a Ele,

por meio d’Ela, os atos de

adoração, reparação, ação de

graças e petição. v

(Extraído de conferência

de 6/7/1985)

1) Do francês: vermezinho e

miserável pecador.

2) Quadro a óleo, que muito

agradou a Dr. Plinio, pintado

por um de seus discípulos,

com base em uma das últimas

fotografias de Dona Lucilia. Ver

Revista Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

3) Ver Revista Dr. Plinio n. 21,

p. 16-23.

11


Reflexões teológicas

Grandeza incomparável

do sacrifício

Reprodução

Oferecimento de Isaac

Museu de Arte de

Cincinnati, EUA

Devido ao pecado original, o homem, mesmo inocente, tem

necessidade de fazer sacrifício. E no Paraíso terrestre, caso não

tivesse havido o pecado, era preciso a ascese? Dr. Plinio julga que

sim, pois seria um ato ordenativo do homem, em estado de prova.

Considerando o sacrifício na perspectiva da Doutrina

Católica, parece-me que ele não tem o caráter

de mera expiação, mas de um reconhecimento da

supremacia de Deus, pelo fato de serem consumidas em

honra d’Ele coisas que Ele mesmo deu ao homem, por

onde este reconhece implicitamente que privar-se daquilo

e dar ao Criador afirma a superioridade d’Ele em relação

a todas as coisas.

Sacrifício de dedicação

Cornélio a Lápide 1 distingue o sacrifício de dedicação

e de expiação, no Antigo Testamento.

Analisemos o que significa essa dedicação.

Uma criança pode ver, pendente numa árvore, uma

fruta muito bonita; corre, apanha-a e a oferece ao pai ou

à mãe. É propriamente um sacrifício de dedicação que a

criança faz. Isso que parece muito razoável pode ser desdobrado

em aspectos.

Um aspecto é: a criança renuncia à fruta para dar aos

pais. O que significa essa renúncia? Há nisso um ato de

ascese, mas não é a principal nota do ponto de vista da

dedicação que se deve considerar. No homem nascido

sem pecado original, essa ascese não pareceria necessária,

porque o homem tinha um inteiro domínio de si mesmo.

Portanto, vigorava a ideia de que aquela fruta tão

excelente, melhor conviria a uma pessoa mais excelente.

Representaria uma forma de justiça colher aquela fruta

tão linda e dá-la a uma pessoa tão bela. Esta seria uma

dedicação.

Creio que é esse o espírito com que muitas pessoas

colhem flores para oferecer nos altares de Nossa

Senhora. Por exemplo, ornar um altar para o “mês de

Maria”: uma pessoa pode colocar nisso uma intenção

de reparação, mas não é o intuito comum, e que esteja

próxima e imediatamente na natureza do ato. O que

está nisso é a noção de que à Santíssima Virgem, sendo

a Flor da Criação, fica bem que as flores muito bonitas

estejam postas junto a Ela, por assim dizer porque similis

simili gaudet 2 . Então, junto Àquela que poderia ser

chamada, por algum lado, “Flor das flores” convém colocar

flores.

12


Sacrifício de louvor

Entra também outro aspecto metafísico,

que me parece mais bonito

e mais importante, por onde há

uma afirmação do Absoluto. Aquelas

coisas são lindas, mas passageiras;

e convém que elas, no que têm

de passageiro e contingente, sejam

oferecidas a Deus, que é eterno e

Absoluto.

Essa destruição do transitório e

do contingente em honra do eterno

e do Absoluto fica meio implícita

na natureza. E é uma grande verdade

que o homem tem vontade de explicitar,

e Deus deixa a cargo do homem

fazer a explicitação. O desejo

de explicitar o que Deus pôs implícito

leva o homem a dizer: “Vós que

sois Absoluto, eu a Vós entrego tal

coisa, porque me destes o domínio

sobre ela. E a destruo em vossa honra, porque a Vós, que

sois o Criador de tudo, compete que se Vos honre, destruindo

algo do que criastes.” É uma espécie de homenagem

ao próprio Criador, a Quem se homenageia, em

parte, em alguns aspectos, destruindo, mostrando que

Ele merece aquela destruição.

Da parte psicológica do homem, entra nessa destruição

um reconhecimento efetivo do Absoluto.

Contudo, para o homem concebido no pecado original,

entra um reconhecimento de caráter necessariamente

ascético, pois o ser humano tem tal tendência a se apegar

e a dar àquilo que é contingente o valor que ele daria

ao Absoluto que, para corrigir este defeito e desagravar

a Deus dessa tendência a que tantos homens cedem,

é preciso sacrificar alguma coisa para dizer: “Eu cheguei

ao ato concreto e, assim, esmaguei internamente a minha

tendência a ver isso como uma coisa absoluta.”

É preciso notar que isto é um aspecto muito importante,

mas que não está na essência do ato praticado. Há o

sacrifício, portanto, de louvor, que é o sacrifício do amor.

O louvor é a voz do amor. A adoração, o louvor, o sacrifício

de louvor se exprimem assim.

Deus, como Causa exemplar

Aliás, o Ofício Divino — recitado, por exemplo, segundo

o estilo beneditino — tem o sentido do louvor a

Deus, que o religioso faz cantando de um modo belo um

texto adequado que O louva com suas próprias palavras,

porque quase tudo é tirado da Escritura; e, quando não

é da Bíblia, é da Igreja. Ademais, louva-O também com

Bonhomme (CC 3.0)

Abadia de Cluny - Borgonha, França

um cerimonial bonito, objetos e órgãos bonitos, numa

igreja bonita, etc. A organização do belo para louvar é

um predicado eminentemente beneditino e, de fato, seria

necessário que, no seu conjunto, a Igreja Católica tivesse

algo especialmente voltado para isso.

Tal modo de proceder é perfeito e condiz com outro

aspecto da questão, formando uma espécie de geminação

onde se tem o equilíbrio perfeito. Esse sacrifício de

louvor pode dirigir-se a Deus como Causa eficiente, final,

e também como Causa exemplar. E, enquanto Causa

exemplar, nós podemos oferecer ao Criador coisas criadas

por Ele, e semelhantes a Ele pela conexão com Ele.

E, neste sentido, por exemplo, um grande abade beneditino

pode constituir uma abadia magnífica, sem ceder

nada a um luxo emoliente, mas para louvor a Deus como

Causa exemplar de todo o belo na Criação.

O luxo pode ter uma nota de sacrifício

Até uma pessoa como Salomão, antes do pecado, que

lembrava muito a Deus como Causa exemplar, poderia

cercar-se de todo aquele luxo virtuosamente, louvando o

Criador como Causa exemplar e dizendo: “Vede em mim

como Deus é grande!”

Este constitui o elogio certo, mas arriscado, de muita

forma de grandeza e de beleza, indispensável para uma civilização

considerada no seu total. Então, por exemplo, eu

creio bem que o Louvre de São Luís deveria ter, por vários

aspectos, muito luxo. Este luxo deve ser visto assim.

Isso tem a nota do sacrifício no seguinte sentido: são

riquezas que foram desviadas do uso do rei para simboli-

13


Reflexões teológicas

zar, perante Deus, uma determinada perfeição

que lembra a Ele. Seria, por

exemplo, o luxo da Sainte-Chapelle,

mas poderia ser o luxo da pompa

real, enquanto mostrando o rei

como representante de Deus,

ou da pompa papal, enquanto

manifestando no Papa o

Vigário de Nosso Senhor.

A meu ver, esta é a melhor

resposta à crítica protestante

ao luxo eclesiástico.

O protestante diz: “É

para o gáudio do padre

que se usa isso.” A resposta

é: “O padre de fato goza

muito pouco disso, mas se

gozasse era um aspecto secundário.

O importante é que Deus

seja glorificado também nisso.”

Entretanto suporia, para manutenção

do equilíbrio nesse próprio louvor,

que o homem fizesse rebaixamentos,

atos de humildade e de ascese que compensassem

isso, para que o equilíbrio se apresentasse perfeito.

Então, se eu imaginasse, por exemplo, um rei que fosse

um Salomão da Cristandade, resplandecente com todo

o brilho da realeza, mas que na Sexta-Feira Santa, na

hora de adorar a Cruz, fosse a pé e descalço, em trajes

de penitente, flagelando-se, de maneira que todo o povo

visse que de fato sua intenção sincera era de se humilhar

diante de Deus. Esse homem realizaria um equilíbrio admirável

das duas coisas, e que seriam duas formas de sacrifício

que se completam, formam um carrilhão. E nesse

carrilhão há a harmonia perfeita.

Quando numa civilização falta ou míngua uma dessas

formas de sacrifício, ela não é completa.

Necessidade da ascese até

no Paraíso terrestre

Timothy Ring

Restaria saber como seria no Paraíso terrestre, caso

não tivesse havido o pecado original e a consequente expulsão

do homem.

Parece-me que não haveria a penitência, porque os

homens não tinham pecado, mas existiria o que dizíamos

há pouco do sacrifício de louvor, da doação, da entrega,

pelo reconhecimento de que Deus é Absoluto e perfeito.

No que diz respeito à presença da ascese no Paraíso

terrestre, uma vez que o homem se encontraria ali em

estado de prova, é patente que ele seria tentável. Isso me

inclina a pensar que, para prevenir essa tentação e oferecer

um corretivo para algo que não era

o pecado original, mas uma possibilidade

de pecar, uma determinada

ascese pareceria ser necessária.

Não se trataria, portanto, de

uma expiação, mas de um ato

ordenativo do homem, porque

naquilo em que ele era

tentável havia a raiz de algo

que poderia propender

para a desordem.

Estamos, pois, em presença

de uma hipótese

que poderia dar ao sacrifício

de louvor certo caráter

preventivo da tentação.

Propriamente no sacrifício

de louvor de que eu estava

falando, o gáudio supremo

que tem aquele que oferece

o sacrifício é uma espécie de estremecimento

de alma diante do fato de

que, oferecendo alguma coisa que se destrói,

ele pratica um ato que, aparentemente, na

ordem natural não é razoável, e encontra sua razão de

ser apenas no caráter de dádiva “inútil”, “desarrazoada”

Àquele que é Absoluto. E desta maneira se afirma com

louvor — e com o único louvor adequado — o caráter

absoluto d’Ele, e o nosso reconhecimento deste caráter

absoluto. Nisto entra exatamente uma espécie de ósculo

do contingente no Absoluto, que é uma atitude totalmente

desinteressada, realizada por ser Ele Quem é.

A doação supõe o sacrifício feito como que gratuitamente,

diante do mero fato de que Deus é Deus, mais nada.

Sacrifício desinteressado

Este é o estado de espírito com que se deve morrer.

Na hora da morte, a pessoa deve aceitá-la como sacrifício

merecido pelo pecado original e pelos seus pecados

atuais. Pode até oferecer pela Cristandade, por outros

interesses, o que Nossa Senhora quiser, mas acrescentaria

um elemento altíssimo se dissesse só isto: “Por serdes

Vós Quem sois, eu me ofereço!”

Então, o fazer-se pequeno é o único modo, a garantia

única que o homem tem de que todas as grandezas construídas

por ele não deem em vanglória. Por quê? Porque

terá atendido à exigência dessa ordem metafísica mais

profunda, que é o sacrifício desinteressado.

Aliás, tenho a impressão de que no sacrifício de Isaac

entrava isso: era um sacrifício tributado a Deus porque

Ele quis o filho único de Abraão, que disse: “Bem, Vós

14


quereis esta hóstia de louvor, que é meu filho inocente.

Vós o tendes!”

Algo disso parece-me estar presente também na resposta

de Nosso Senhor à objeção de Judas contra Santa

Maria Madalena, quando esta lavava os pés do Divino

Mestre com um perfume muito valioso: “Por que não

se vendeu este perfume por 300 denários para dá-los aos

pobres?” (Jo 12, 5) — reclamava Judas. Ao responder:

“Deixai-a; ela conservou esse perfume para o dia da minha

sepultura! Pois sempre tereis pobres convosco, mas a

Mim nem sempre tereis.” (Jo 12, 7), Jesus dava a entender

que não se deve deixar de prestar a Deus o sacrifício

desinteressado, de puro louvor, sob o pretexto de acabar

com a pobreza.

Essa atitude de abnegação tem seu reflexo nas relações

humanas. Também a perfeição da amizade vem do

fato de alguém ser capaz de fazer uma coisa dessas por

outrem que mereça. Por exemplo, estou com uma pessoa

que é santa e vejo que vão matá-la. Posso substituir-

-me ao santo, para ser morto eu e não ele, pela seguinte

razão: “Não toque naquele que é uma obra-prima de

Deus!” A primeira ideia é a incolumidade daquele que é

obra-prima de Deus, para continuar a dar glória a Ele.

Eu, pecador, desapareço dentre os viventes, mas consegui

que o santo continuasse a existir. É uma coisa muito

bonita!

A autêntica imolação deve ser total

Também me parece que na humilhação bem aceita está

o sacrifício voluntariamente realizado. Esta necessária

humilhação diante de Deus absoluto traz consigo uma

passageira, transitória, mas efetiva como que destruição

de si próprio, por onde,

além do lado expiatório,

o indivíduo faz por

amor o que ele faria da

flor que ele ofereceria a

Nossa Senhora. Ele como

que se destrói, pondo-se

até abaixo do que

é, para fazer consigo o

que realizaria com a flor.

Este ato, por ser como

que uma destruição,

produz sofrimento

nesta Terra, dado o

pecado original. De algum

modo, o mais humilde

dos homens realiza

isso num espírito de

sofrimento. Porque, por

Reinhardhauke (CC 3.0)

Infortúnio de Jó - Igreja da Visitação de

Nossa Senhora, Limbourg, Bélgica

mais santo que ele seja, tem uma parte ruim, não consentida,

que sofre com a humilhação.

Como seria no Paraíso terrestre, para o homem concebido

sem pecado? Ele se apequenar ao ponto de ser

um nada diante de Deus, não traria revolta? Isso é muito

misterioso.

Vê-se que com satanás, em determinado momento, o

fato de sentir-se não pequeno, mas “apenas” o primeiro

dos grandes da corte de Deus e não o próprio Deus,

trouxe uma inconformidade, e esta participa da dor. Portanto,

vejo de um modo um tanto nebuloso como seria

este fenômeno na natureza angélica.

Entretanto, mesmo para o homem concebido sem pecado

original, se esse aniquilamento não chegasse efetivamente

ao último limite de si mesmo e reservasse qualquer

coisinha, ele não seria autêntico.

Há atitudes em que a imolação só é autêntica quando

é total. Foi o que, em última análise, Deus quis de Jó,

quando permitiu que o demônio o tentasse.

É nessa perspectiva que tomam toda a beleza coisas que

a “heresia branca” 3 admira sem considerá-las debaixo deste

ponto de vista. Então, por exemplo, um de nós tem um

inimigo leproso e faz por ele um determinado benefício,

humilhando-se inenarravelmente diante do opositor, que

ainda responde com um desaforo. Tal ato, visto somente

como o considera a “heresia branca” — ou seja, a pena do

leproso e o leproso que não tem compaixão de mim — não

manifesta toda a sua profundidade. O fundo está na pessoa

ter-se apequenado de tal maneira que chegou a sofrer

isto. Aí, nesse sentido do apequenamento que viemos expondo,

o sacrifício tem uma grandeza incomparável. Mas

isso a “heresia branca” não considera, porque tem horror à

perspectiva de grandeza e de seriedade. v

(Extraído de conferência

de 27/9/1984)

1) Jesuíta e exegeta flamengo

(* 1567 - † 1637).

2) Do latim: o semelhante

alegra-se com o semelhante.

3) Expressão metafórica

criada por Dr. Plinio para

designar a mentalidade

sentimental que se manifesta

na piedade, na cultura,

na arte, etc. As pessoas por

ela afetadas se tornam moles,

medíocres, pouco propensas

à fortaleza, assim como

a tudo que signifique esplendor.

15


Gesta marial de um varão católico

Chamado a

prestar grandes

serviços à Igreja

Arquivo Revista

Quando jovem, Dr. Plinio se

perguntava se teria a vocação de ser

vítima expiatória. Depois de muitos

sofrimentos físicos e morais, recebeu

a graça de compreender que não

era chamado a seguir o caminho de

Santa Teresinha, mas o de Godofredo

de Bouillon, visando a derrota da

Revolução e a vitória da Santa Igreja.

Há duas espécies de posições de Deus em relação

aos homens criados por Ele. Alguns homens entram

naquilo que chamamos providência geral,

e outros no que se denomina providência especial.

Previdência e providência

A providência de Deus é aquela suprema perfeição,

a sabedoria com a qual Ele conduz as coisas, sabendo o

que vai acontecer.

Então, nós podemos fazer uma distinção entre previdência

e providência. Na linguagem comum se pode dizer

que um homem prevê alguma coisa como, por exemplo,

um comerciante ao ver antecipadamente o inverno chegar,

conjetura que se vai acentuar muito mais o frio e pressupõe,

em consequência disso, a multiplicação do número

de resfriados. Então, calcula que a demanda de remédios

antigripais vai aumentar muito também. Sendo um bom

negociante, compra, de antemão, uma porção de medicamentos

por atacado, vendidos mais caros depois, a varejo.

Ele é previdente quando prognostica o agravamento

do frio no inverno, e é providente quando investe na

compra do necessário para realizar o plano dele. Eis a

distinção entre previdência e providência.

Com respeito a Deus, não há propriamente previdência,

porque Ele não prevê as coisas. Para Deus, o presente,

o passado e o futuro são um mesmo ato. Ele vê tudo

ao mesmo tempo.

Porém, é providente. Pois, em vista de como as coisas

são, Ele as conduz, dispõe e arranja de acordo com seu

plano a respeito de cada criatura.

Providência geral e providência especial

A grande maioria dos homens Deus conduz de acordo

com a providência geral. Quer dizer, dá ao mundo uma

organização, faz com que as coisas sejam de um determinado

modo a satisfazer as necessidades comuns das pessoas.

Para o indivíduo comum, Ele proporciona uma vida

normal, concedendo-lhe recursos ordinários e intelecto

suficiente para utilizá-los a fim de prover as suas necessidades.

Contudo, para outras pessoas o Altíssimo tem uma vocação

especial, conduzindo-as de um modo peculiar. Vis-

16


to ser um chamamento especial, Ele também lhes dá um

cuidado próprio, que não é o ordinário.

A pessoa colocada sob uma providência especial tem

habitualmente uma noção, pelo menos confusa, dos desígnios

de Deus a respeito dela. É o começo de uma vocação,

um chamado indefinido para algo que a pessoa,

no início, ainda não discerne o que é. Na própria Escritura

há o caso do Profeta Samuel, a quem Deus chama

três vezes. Mas ele pensava que era Eli, o pontífice do

Templo… E numa quarta ocasião, ao ouvir “Samuel, Samuel”,

o profeta retrucou: “Fala, Senhor, que o teu servo

escuta”(1Sm 3, 3-10). Assim também esses impulsos primeiros

nos chamam, sem sabermos bem de quem vêm…

Um chamado para algo sublime

Praticamente, o problema que eu tinha na minha juventude

era vocacional, e se exprimia da seguinte maneira:

Desde pequeno eu sentia um chamamento para algo

maior… Sentia-o muito acentuadamente sem saber defini-lo.

Era-me claro que devia ter uma vida muito diferente

da dos outros. Percebia bem que eu transbordava

do meu copo e que coisas enormes estavam no meu

caminho. Coisas luminosas, magníficas, importando em

sacrifícios para os quais me devia preparar, mas também

vitórias que me encheriam de alegria.

Juntamente com isso, uma espécie de horror de não

se confirmarem esses pressentimentos comigo, e parecer-me

que cabia inteiro dentro do tipo do padrão de vida

de qualquer homem de minhas condições, no meu

tempo. Eu sentia uma espécie de asfixia com esse pensamento.

Assim, a minha luta contra a Revolução, o

choque com ela, a ideia da Contra-Revolução

foram correspondendo a esses movimentos

de alma. Embora a luta contra a

Revolução me fizesse sofrer muito, por

outro lado trazia-me muita alegria a

dimensão de alma e de vida na perspectiva

de todos esses acontecimentos

grandiosos.

Encontrei a minha via

Foi um destampamento, uma coisa

magnífica, o dia abençoado em

que passei pela Praça do Patriarca 1

e encontrei o aviso da realização do

Congresso da Mocidade Católica. Foi

um brado! E, deste modo, uma porção de

coisas que eu julgava inviáveis, de repente

se me apresentavam aos borbotões.

Imaginem um rapaz que chega mais ou menos aos

seus 19 ou 20 anos, porém já muito maduro e sofrido para

a idade, buscando um objetivo que não se realiza. E,

por aí, tem a impressão de que todo o futuro desejado

está comprimido e agarrado pelas mãos. Não vai! De súbito,

passa por um lugar, vê algo e aquela janela se abre!

Podem calcular bem a alegria de alma que isso dá.

Dali em diante, sucessivas alegrias com o Movimento

Mariano, fundação da Liga Eleitoral Católica… Depois,

a minha eleição para deputado… tudo indo num

voo contínuo, e eu dizendo-me, com delícias para a minha

alma: “A via está encontrada. Daqui para a frente é

batalhar duro, não há dúvida, mas a via é esta!”

Seria um pouco como um cruzado que vai à Cruzada

na alegria de sua alma, mas não encontra o caminho.

Erra por uma porção de lugares, sem chegar a entender

qual seja o sulco a seguir para encaminhar-se a Jerusalém.

Em determinado momento, ele avista uma estrada,

e exclama: “É por lá que eu chego até o mar, onde estão

as naus que me vão levar para a Terra Santa!” É uma

alegria, e lá vai ele! Isso se deu comigo. E pensei: “Daqui

para a frente é caminhar rumo à minha Jerusalém! É

a minha batalha contra a Revolução. Agora é só viver, é

só lutar!”

Provação: serei apenas um advogado?

Ora, os acontecimentos, a partir de um determinado

momento, depois desse movimento ascensional, quando

eu tinha, então, 25 ou 26 anos, tudo quanto parecia constituir

uma estrada dava em nada, ou no contrário, tornando-me

impossível o que eu queria, fazendo-

-me voltar ao ponto de partida.

Daí o tormento: “Então é só isso?! Tudo

foi ilusão? A minha vida vai ser a de

um advogado que vai ao Fórum, toma

nota para preparar umas argumentações

para o cliente, porque este brigou

com outro, e eu preciso fazer a

defesa de seus direitos em questões

sem importância?!”

Lembro-me da falta de graça do

meu primeiro cliente de advocacia.

Era um litígio entre dois franceses.

Meu cliente tinha inventado uma

fórmula de sorvete chamada “Flan”,

ou, quando punha um ovo a mais no

sorvete, recebia o título de “Superflan”.

Vendia seus sorvetes junto a parques

de diversões, circos, etc. Parecia ganhar

algum dinheiro com isso. Um concorrente

pegou-lhe a fórmula e começou a fabri-

Arquivo Revista

17


Gesta marial de um varão católico

car um idêntico. Meu cliente queria fazer um processo

contra o outro, e este negava ter feito qualquer imitação.

Nessa caceteação, eu advogar para provar que o sorvete

“Flan” não era de um, mas de outro… Mas, meu Deus

do Céu! E assim, quantos negócios de advocacia sem graça

nenhuma…

E me perguntava: “Será que vou chegar ao fim de minha

vida — até os 80, 90 anos — advogando causas sobre

‘Flan’ ou ‘Superflan’?”

Causas de terras... Meu pai e meu avô advogaram

muito com demandas de terras. Chega ou não chega até

tal ponto a propriedade de Fulano? Então vai lá medir;

depois provar que chega mesmo, ou não chega…

Deixe que se arranjem com suas terras… Eu não nasci

para tratar delas! Toda a minha alma se volta para outra

coisa. Ainda que eu faça dinheiro nisso — e é duvidoso

— não nasci para ganhar dinheiro. Eu nasci para outra

coisa!

As dificuldades são um sinal de que

a vocação é bem-amada de Deus

Comecei a perceber esse esboroamento do meio para

o fim de meu mandato como deputado. Consistiu no desmoronar

do patrimônio de minha família, o empobrecer

e a necessidade de trabalhar para viver, quando eu queria

dedicar todo meu tempo e esforços em fazer apostolado.

Ademais, até aquela ocasião tinha tido uma saúde de

ferro que, graças a Deus, com pequenos inconvenientes,

gripes e resfriados, de um modo ou de outro, continua.

Mas apareceram alguns inconvenientes, que depois

a Providência fez cessar.

Por exemplo, nevralgias que me atacaram naquele

tempo. Às duas ou três horas da manhã, acordava e ficava

sentado, com uma dor forte na cabeça, como se houvesse

um prego cravado, e o tempo passando... Ouvia os

relógios do hotel e da igreja darem horas, e eu, sentado,

meditando nesses infortúnios e aguentando o “prego”.

Então, ao sentir-me exausto, dormia com o peso da

opressão que me preocupava.

Depois, comecei a perceber a crise religiosa e política

minando o caminho que eu tinha diante de mim. Aí o

terror e a asfixia da ilusão: “Aquilo não foi senão um engano,

um sonho, um bluff! Resigne-se à vontade de Deus,

que quer que você sofra esse bluff. Depois, aguente a sua

vida como der, porque Deus quer assim. Ele tem ou não

tem o direito de querer? Quem traça seu futuro é Deus,

ou você? E se as coisas acontecem de outro modo e você

não tem culpa, tem ou não obrigação de aceitar, de se

curvar e de ficar satisfeito?”

Eu era escravo de Maria, logo precisava aceitar com

resignação o meu futuro como ele se abria diante dos

meus passos. Tinha que comprimir, dentro de minha alma,

esses voos, esses desejos, essas elevações como coisas

inaceitáveis, que não exprimiam a vontade de Deus.

E se fosse vontade do Altíssimo, precisava voltar para

dentro de meu copo, ou ir até para um copo menor do

que aquele no qual tinha nascido.

É difícil calcular o abafamento de alma, o desnorteamento

causado em mim por essa situação.

Na realidade, Deus dá uma vocação muito grande e

depois aparecem as dificuldades. O fato de surgirem essas

dificuldades não quer dizer que não se tenha vocação.

Pelo contrário, é uma vocação bem-amada de Deus,

ao longo da qual Ele provê coisas que não se queria, situações

com as quais não se contava, fazendo parecer que

Deus nos abandonou… Mas há também um movimento

interno de alma que nos diz: “Não, a Providência não nos

abandonou. Vamos para a frente!”

Holocausto de Santa Teresinha

Por cima deste, punha-se outro problema. Eu tinha lido

o livro História de uma alma, de Santa Teresinha do

Menino Jesus, o qual me impressionara profundamente

com sua narração, e parte da ideia de que não se pode fazer

para a Igreja Católica uma coisa

mais útil do que ser uma vítima expiatória

do amor misericordioso de

Deus.

Assim se explica: Os homens pecam

e é preciso que outros os ajudem

a expiar, a pagar por seus pecados; de

maneira tal que com nosso sofrimento

Deus perdoe a outros e conquiste

outras almas, dando-lhes graças muito

grandes, porque nós sofremos.

Poderá ser, por exemplo, uma pessoa

da longínqua Birmânia, da Tailândia,

ou um esquimó, ou um alto

político, um importante intelectual,

ou um elevado personagem eclesiástico,

que precisa realizar uma grande

ação pela causa de Deus, mas não

é bastante forte. Então, fica-se doente

e morre-se, desaparecendo da memória

dos homens. Só Deus Se lembrará

de nós no Céu. Só Deus? Ora,

Deus é tudo!

Santa Teresinha queria morrer

assim: vítima expiatória pelas almas

dos outros. Foi atendida. Muito jovem,

contraiu tuberculose. Durante

uma noite, sentiu que estava expec-

Arquivo Revista

18


torando sangue, coisa característica dessa doença, e ficou

tão alegre com a ideia de morrer que, por espírito de

sacrifício, não quis acender a luz para ver se era sangue

mesmo. Dormiu em paz. De manhã, sua primeira atitude

foi ver se era sangue. Se fosse, significaria ter sido aceito

o holocausto, e que ela não demoraria a ir para o Céu.

A partir de então começou o holocausto no duro: provações,

aridezes, incompreensão de uma superiora, desdém

das irmãs de hábito, etc. Até o último momento da

vida, tudo foi tormento. Deus parecia tê-la abandonado.

No derradeiro instante de vida — uma pessoa tuberculosa

fica extremamente fraca, sem forças para nada —, levantou-se

e, num êxtase de alegria, disse: “Ó meu Deus!”

E caiu morta. Um aroma de violeta começou a encher

todo o convento. Era o símbolo da humildade dela.

Devo ser uma vítima expiatória?

Eu me punha este problema: Quem sabe se Deus quer

que eu seja uma vítima expiatória, ignorada por todos?

Noto ter possibilidades, recursos, talvez possua até talentos

para ser um homem incomum e prestar grandes serviços

à Igreja, mas poderia estar condenado a ser um homem

comum, percebendo a trajetória de um outro que

vai seguindo um caminho luminoso. Caminho seguido

pelo outro, porque sou a vítima que está carregando a

cruz dele. Não serei mais útil à Igreja e à Contra-Revolução

afundando assim nos padecimentos e no anonimato,

do que empreendendo a galopada heroica da Cruzada

que quereria realizar? Então, o que devo esperar de

Deus para a minha vida?

Como toda a minha tendência ia para não ser a vítima

expiatória, mas sim o homem que caminhava para o

campo de batalha a fim de lutar, eu julgava realizar um

sacrifício especialmente grande, aceitando ser o contrário

do que eu queria. Eu serviria melhor à Igreja na minha

aniquilação do que na minha realização pessoal. Então,

devia aceitar e voltar para o meu próprio copo… e

inclinar-me à dura realidade dos fatos. O que Deus queria

de mim?

Uma peça teatral de Claudel

Certa ocasião, assisti a uma peça de teatro de Paul

Claudel 2 , intitulada L’Annonce fait à Marie — Anunciação

feita a Maria, considerada uma peça católica. Começava

com uma cena no interior de uma casa de uma pequena

família de trabalhadores manuais da Idade Média.

Estava o pai, homem que já ia caminhando para a velhice,

a mãe, quase da idade do marido, e duas filhas. Não

me lembro muito bem dos pormenores, pois há muitos

anos que assisti a essa peça.

Uma das filhas chamava-se Violaine, e era a protagonista.

Nessa cena, a mãe, enquanto servia a refeição matutina

à família, perguntava ao marido, que estava visivelmente

preocupado:

— Com o que você está apreensivo assim? As nossas

terras estão produzindo bem, todos estamos fortes, com

saúde e contentes. Olhe quantas coisas há na mesa para

você comer! No que você está pensando, homem?! Fique

alegre!

A certa altura, depois de a mulher o ter interpelado

muito, o homem se levanta e diz:

— Mulher, você será tão cega que não percebe o tormento

pelo qual está passando a Santa Igreja de Deus?!

A mulher dá uma resposta deste gênero:

— Não percebo. O que temos a ver com isso?

— Você não vê que há no momento quatro homens

disputando o papado, e cada um pretende ser o legítimo

Papa, e que a Igreja parece um grande tronco glorioso

partido de alto a baixo?

Ela dá uma gargalhada, e pergunta:

— É você que vai consertar isso?

Ele responde:

— Para mim nada tem conserto, nada tem alegria enquanto

não vir a Cristandade recomposta. Mulher, eu vou

dizer-lhe uma coisa que você não vai crer: velho como estou,

meus braços ainda têm força, como você bem vê na

hora da lavoura. Estes braços não vão mais plantar, nem

colher, mas pegarão uma espada! Eu vou levar a minha

velhice até o campo de batalha. Se eu morrer, tanto melhor:

terei oferecido a minha vida para que dos quatro

“papas” resulte um só; para que o Sacro Império floresça;

para que as Ordens religiosas se expandam... Eu sofrerei

e morrerei, mas vencerei a favor da Santa Madre Igreja!

Violaine se oferece como vítima expiatória

Violaine ouve esta proclamação e, como já acalentava

anseios semelhantes, sente-se profundamente interpretada

nas palavras do pai. Então, ela também quer oferecer-

-se a Deus, ser uma vítima expiatória para a vitória da Igreja

e da França, invadida pelos ingleses, os quais seriam futuramente

protestantes. Embora a jovem não soubesse disso,

compreendia ser preciso expulsar de seu país os inimigos.

Por tudo isso, ela precisava oferecer-se em holocausto.

Nisto, ouve-se tocar a sineta da porta e Violaine vai

atender. Era um rapaz conhecido da família que lhe diz:

— Não toques em mim!

— Mas por quê?

— Porque sou da raça infeliz dos homens em quem

ninguém toca, porque têm horror. Trago comigo uma doença

que se te disser qual é o nome, fugirás de mim com

asco. Baterás com a porta no meu rosto, porque todo o

19


Gesta marial de um varão católico

mundo foge de mim. Sobre mim pesa uma maldição. Sou

um pobre leproso…

Ela tem pena e, em vez de lhe bater a porta, conversa,

procurando consolá-lo, dominando seu horror por ele.

Em certo momento, o leproso diz:

— Eu tenho que ir embora. Vou para a solidão das estradas,

moço ainda… Abandonado, obrigado em consciência

a dizer que sou um leproso… E no momento em

que faço ao meu próximo este ato de amor, dizendo ser

um leproso, ele me retribui fugindo de mim. Tem pena e

dize-me uma palavra de amizade que eu possa levar pelas

estradas afora, e na qual verei ter havido uma criatura

no mundo a quem não causei horror…

Ela se compadece e, vencendo a repugnância, despede-se

dele com um ósculo fraterno no rosto.

Dias depois, ela percebe as manchas da lepra...

Um toque de clarim anuncia o cortejo

de Santa Joana d’Arc

Violaine compreendeu o futuro que a esperava. Haveria

de seguir o destino terrível de uma leprosa.

Em outra cena, aparece um leprosário. É noite fria…

Noite de Natal! Umas barraquinhas pequenas onde moram

os leprosos. Uma luz violácea no céu… Eles todos

com frio, aconchegando-se a fogueirinhas e conversando

entre si. De vez em quando se ouviam

risos de desespero. Era gente desesperada,

esfrangalhada, sofrendo… Uma

coisa pavorosa!

Ela ali, no meio com um pano cobrindo

parte do rosto, afundada naquele

mar de horror.

Ouve-se mais nitidamente uma

conversa de um grupo de leprosos

os quais diziam que o Rei da França

estava ganhando muitas batalhas,

pois aparecera uma virgem

vinda de Domrémy, na Lorena,

guerreira invencível, que estava

expulsando os ingleses da França,

porque era esta a vontade de Deus.

Violaine ia se entusiasmando

com isso.

E a grande nova era a sagração

do Rei. O cortejo da virgem da Lorena

iria passar ali por perto, com todos os

cavaleiros e exército, para assistir à coroação

do Rei em Reims.

Em certo momento, ouve-se ao longe

um toque de clarim: era Santa Joana

d’Arc que ia passando…

Alonso de Mendonza (CC 3.0)

Santa Joana D’Arc na coroação

do Rei da França - Museu

do Louvre, Paris, França

Por uma iluminação divina, Violaine compreende que

Santa Joana d’Arc estava vencendo os ingleses e tendo a

glória de ir assistir à coroação do Rei, porque ela estava

comprando esse triunfo com sua lepra. 3

Este aspecto é muito bonito, até empolgante! É uma

forma de heroísmo de estrangular, de tirar o ar! Mas

Nosso Senhor Jesus Cristo não sofreu muito mais por

nós? E Ele não nos convida para isso?

Surpresas difíceis na linha da vocação

Vinham-me, então, as perguntas:

“Essa doença que provoca as nevralgias não será, de

repente, um câncer ou outra coisa qualquer que lhe leva

cedo a vida, para outro ganhar a batalha que você ansiava

tanto vencer? Agora, eu quero ver como é seu amor

a Deus. Você estava muito contente de ser alguém. Você

terá a mesma coragem de ser ninguém? Você aceita isso?

Até que ponto você é um homem sério? Se for sério, você

aceitará isso. Se não aceitar, quer apenas representar um

papel. Então, não vale nada. Você não ama a Deus e merece

ser esquecido por Ele sobre a face da Terra.”

Às vezes aparecem na vocação surpresas difíceis de

aguentar: A Providência nos conduz por um caminho,

mas nos dá a impressão de termos errado a estrada, e de

que as vias de Deus talvez sejam outras. Entretanto,

é este o sinal de que Ele nos quer levar

por lá.

Por outro lado, a ideia de me oferecer

assim me incomodava. Eu fiz o oferecimento,

mas parecia-me que alguma

coisa não estava bem…

Encontrava-me nesta situação

quando, na Igreja do Sagrado Coração

de Jesus situada perto do hotel

onde eu morava, no Rio de Janeiro,

vejo realizar-se uma feira

de livros. O vigário, que era muito

atencioso comigo e dava-me a

Comunhão na hora em que eu chegasse,

aproximou-se de mim, e me

disse:

Dr. Plinio, estamos fazendo

uma feira de livros. Se o senhor a

quiser visitar, será bem-vindo. O lucro

da feira se destina…

Era para uma boa obra qualquer.

Equivalia a dizer: “O senhor dê-nos um dinheirinho

a ganhar.”

Pensei: “Bem, não há remédio;

eu vou entrar e comprar alguma

coisa.” Encontrei alguns livros que me

20


interessaram e comprei-os. Chamou-me

atenção especial um cujo

título era O Livro da Confiança.

O efeito causado pelo

Livro da Confiança

na alma de Dr. Plinio...

Não podem imaginar o efeito

que me causou no espírito, quando

o abri — não lembro se logo no momento

ou se chegando ao hotel —

e li as suas primeiras palavras: um

efeito apaziguante magnífico em

minha alma.

“Voz de Cristo, voz misteriosa da

graça, que ressoais no silêncio dos

corações, vós murmurais no fundo

das nossas consciências palavras de

doçura e de paz.”

Depois continua expondo, mais

ou menos nestes termos, a seguinte

doutrina: Deus pode fazer uma pessoa

caminhar pelas vias mais duras

e imprevistas, mas se atendermos

à voz de Cristo em nós — voz misteriosa

da graça — ela murmurará

em nossas almas palavras de doçura

e de paz.

Aquilo que nos arrebenta e nos trinca, afinal, na grande

maioria dos casos, não é o caminho que devemos seguir.

Haverá um movimento interno em nossas almas o

qual nos dará confiança de que será de outra maneira, e

nos conduzirá para onde os nossos primeiros anelos nos

levavam.

Esse livro produziu em mim um efeito maravilhoso

porque, em última análise, dava exatamente essa ideia

de que, estando colocado sob uma providência especial

e pedindo a Deus Nosso Senhor, invocando a intercessão

d’Aquela que tudo pode junto a Ele, Nossa

Senhora, eu seria atendido. E, afinal, por aqueles vaivéns,

de um jeito ou de outro, aquilo que desejo se realizará.

...foi como uma ponte abençoada

que o ajudou a transpor muitos abismos

Não sou chamado para o caminho de Santa Teresinha.

Sinto-me mais bem chamado para a via de Godofredo de

Bouillon. Vamos para a frente, por cima de paus e de pedras,

por montes, vales e colinas… Vá a estrada por onde

for e dê nos descaminhos aparentes que houver, preciso

Arquivo Revista

confiar, confiar, confiar… “Voz de

Cristo, voz misteriosa da graça que

ressoais no silêncio de nossos corações,

vós murmurais palavras de doçura

e de paz.” Doçura e paz traz-me

isto. Eu vou rezar, pedir, rezar, pedir…

Daí vinha-me uma pergunta:

“Mas você não estará enganado?

Será que se você ficar quieto e for

heroico, não pedindo nada a Nossa

Senhora, realizará mais do que pedindo?

Pedindo, Ela dá. Mas às vezes

Ela concede o que não quereria

dar. Não peça nada e deixe tudo

acontecer.”

Eu não soube resolver o problema,

e pensei, então, da seguinte maneira:

“Pedirei, mas com a condição

de que se faça a vontade d’Ela

e não a minha. Se a vontade que há

em mim é também a d’Ela, faça-se!

Eu peço, peço, peço!”

Encontrei um equilíbrio no meio

de um torvelinho medonho.

O Livro da Confiança foi a ponte

admirável e abençoada que me

ajudou a passar por não sei quantos

abismos, até encontrar alguma coisa

que significava realmente estar eu no caminho certo e

andando para a frente.

Com o favor de Nossa Senhora, um dos indícios disso

é este querido auditório tão cheio de gente que não tinha

sequer nascido naquele tempo. Eu procurava em

torno de mim os que viriam, mas os caminhos estavam

desertos… Eu não sabia que das mais variadas partes do

Brasil e do mundo estavam nascendo, ou começariam a

nascer dali a uns anos, aqueles cujas vias se encontrariam

com as minhas, pelas nações afora, para fazer a

Contra-Revolução.

v

(Extraído de conferência de 13/5/1989)

1) Situada no Centro velho de São Paulo.

2) Diplomata, dramaturgo e poeta francês

(* 6/8/1868 - † 23/2/1955).

3) Nota do Editor: O enredo aqui descrito difere, em alguns

pormenores, do composto por Paul Claudel, o que talvez

se deva a uma adaptação da peça ao público católico que

a assistia, ou a uma interpretação — em nosso parecer,

sublimada — de Dr. Plinio.

21


Perspectiva pliniana da história

Dom João VI no

Brasil - II

Dr. Plinio conseguia evocar grandes e pequenos

episódios da História tornando-os vivos através de

interessantes pormenores.

Reprodu;ção’

P

ara vingar-se de Napoleão por ter invadido seu

país, D. João VI mandou ocupar a Guiana Francesa,

ao norte do Brasil. Aquilo, naquele tempo,

era o fim do mundo. Mas era como uma vingança. E não

foi fácil fazer com que ele, depois de Napoleão cair, devolvesse

a Guiana para a França, porque ele não a queria

mais largar.

Um dos mais belos feitos

da História da Cristandade

Napoleão retirando-se de Moscou incendiada - Museus do Kremlin, Moscou, Rússia

Abro aqui uns parênteses a respeito da resistência às

invasões napoleônicas.

Napoleão queria ficar dono da Europa inteira e invadiu,

quase ao mesmo tempo — não foi ao mesmo tempo,

é claro —, a Espanha e

a Rússia, os dois extremos

da Europa. A partir de então,

as coisas lhe ficaram

difíceis...

Na Rússia, o problema

foi o “general inverno”. As

tropas napoleônicas foram

avançando país adentro

e, em certo momento, viram-se

imersas num inverno

horrível. Napoleão esperava

passar o inverno em

Moscou. Deixaram-no entrar

e alojar-se ali.

Quando ele se alojou, os

próprios moscovitas tocaram

fogo na cidade. Ele teve

de bater em retirada, e o

seu império estava liquidado.

Tendo Napoleão invadido

a Espanha, os espanhóis

o combateram heroica-

22


Reprodução

Batalha de Valdepeñas, onde o povo espanhol investiu contra as

tropas napoleônicas - Museo del Vino, Valdepeñas, Espanha

mente. Foi um dos mais belos feitos da História da Cristandade!

O povo todo se levantou contra a invasão napoleônica.

Quando as tropas de Napoleão entravam nas cidades,

os homens, as mulheres, as crianças iam às janelas e jogavam

o que tivessem à mão — móveis e toda espécie

de objetos — em cima da soldadesca. Negavam alimento,

queimavam as plantações de trigo, de maneira que o

exército francês não tinha com que fazer pão. Os espanhóis

caíam na pobreza, mas puxavam Napoleão para

baixo na pobreza também.

Muitos historiadores sustentam que até os padres saíam

dos conventos e iam com armas de fogo fazer guerrilha.

E Napoleão não estava habituado à guerrilha. Em

matéria de combate, ele só entendia da grande guerra

convencional, com grandes exércitos.

Conta-se que, enquanto esses fatos se passavam, Napoleão,

que era um anticlerical, perguntou para um padre:

— Quais são os dois povos mais religiosos da Europa?

Devem ser os mais atrasados, não?

O padre respondeu:

— Julgue Vossa Majestade: são a Espanha e a Rússia...

Casamento de Dona Leopoldina

com Dom Pedro I

— Pedro, mais dia menos

dia, o Brasil vai ficar independente

de Portugal, porque é

grande demais para ser governado

a partir de uma metrópole

tão distante. Põe tu a coroa

do Brasil na cabeça, antes

que um aventureiro a tome.

Para muitos historiadores,

o brado do Ipiranga “Independência

ou Morte” não foi

uma traição a Portugal. De

fato, D. Pedro I seguiu o conselho

do pai, e proclamou a

Independência, conservando

o Brasil para a dinastia. O homem

sabia jogar.

D. João VI resolveu pedir

ao Imperador da Áustria,

que era o maior potentado do

tempo, uma de suas filhas para se casar com seu filho e

vir morar no Brasil. O Imperador da Áustria concedeu.

O monarca português nomeou o Marquês de Marialva

como procurador do Príncipe D. Pedro, herdeiro do

trono de Portugal, para realizar as tratativas do casamento

com a Princesa Dona Leopoldina.

O Marquês de Marialva teve a ideia de que, para representar

um homem com tal poder imperial como o de

D. João VI — senhor do reino de Portugal, mas também

de tantas colônias na América, na África e na Ásia —,

era preciso gastar uma fábula no casamento. Ora, o Rei

de Portugal estava com as finanças muito prejudicadas,

devido à invasão napoleônica.

Por isso, o Marquês gastou toda a sua fortuna — que

era grande — só nessa missão. Assim, o casamento da

Arquiduquesa Dona Leopoldina, filha do Imperador

da Áustria, com o Príncipe D. Pedro, representado pelo

Marquês de Marialva, figurou entre as festas mais célebres

da Europa.

Nessa ocasião, estabeleceram uma combinação pela

qual a Áustria fazia uma expansão política do lado do

Oceano Atlântico, para ajudar Portugal e Brasil contra

a Inglaterra e outras potências coloniais, e garantir mais

a independência do Brasil. Mais uma prova de como D.

João VI sabia jogar bem.

Original presente ao Duque de Wellington

Fechando os parênteses e voltando ao Brasil, podemos

ver, por esses episódios, o senso político com que D.

João VI fazia as coisas. Ele chamou um dia o filho dele, o

futuro D. Pedro I, e disse-lhe:

Dou outro pequeno exemplo.

Naquele tempo, nesse clima de pompa das monarquias,

os monarcas costumavam dar presentes suntuosos

a homens célebres.

23


Perspectiva pliniana da história

Dornicke (CC. 3.0)

Desembarque da Arquiduquesa

Leopoldina no Brasil - Museu Nacional de

Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil

Estou me lembrando de um diplomata francês que recebeu

da mãe de Maria Antonieta, a Imperatriz Maria

Tereza, uma mesa cravejada de pedras preciosas.

Um libertador da Europa foi o Duque de Wellington,

o famoso vencedor de Napoleão em Waterloo. Então, todos

os reis da Europa deram-lhe bonitos presentes. O

que D. João VI lhe mandou?

Naquele tempo, mesa de banquete era para cem pessoas...

Os palácios enormes com galerias colossais, com

muitos lacaios, empregados, uma coisa pomposa... Ele

presenteou o general vitorioso com um conjunto de jarros,

de floreiras e de adornos para colocar na mesa de

banquetes. O serviço era todo de prata maciça, e representava,

de ponta a ponta, cenas do Brasil, com palmeiras

etc. Uma coisa colossal, fazendo propaganda do

Brasil.

Todos os anos, no aniversário da batalha de Waterloo,

o Duque de Wellington, que tinha recebido da Inglaterra

um grande castelo e vivia na fartura, oferecia um banquete

às maiores celebridades da Europa com quem ele tinha

relações, para comemorar a vitória. Em todos os anos, até

ele morrer, sobre a mesa do banquete estavam os utensílios

evocativos do Brasil, um presente de D. João VI.

Congresso de Viena, a primeira grande

reunião de diplomatas

Vejam como se compunha o ambiente político da época:

Quando Napoleão caiu, realizou-se a maior reunião

de diplomatas que até então tinha havido na história do

Coroação de D. Pedro I (quadro a óleo

pintado por Jean-Baptiste Debret)

Palácio do Itamaraty, Brasília, Brasil

mundo: o Congresso de Viena. Os dois gênios dessa reunião

eram, da parte da Áustria, o Príncipe de Metternich;

e do lado francês, Talleyrand.

O primeiro, uma fábula de homem inteligente, educadíssimo,

finíssimo, com uma conversa muito agradável,

um verdadeiro fidalgo e um diplomata de primeira ordem.

Os reis da Europa inteira o consultavam, de tal maneira

ele era um colosso.

Talleyrand era ministro do Rei da França, Luís XVIII,

e passava por ser o melhor causeur 1 da Europa. Apesar

de Metternich ser um colosso, havia muitos que sustentavam

que Talleyrand passava a perna nele, tão esperto

era este ministro francês. Era um diplomata fenomenal!

Conto um pequeno episódio, para verem como os

tempos eram diferentes.

Luís XVIII quis dar diretrizes a Talleyrand sobre as

conversações em Viena. Este, de modo muito respeitoso,

disse ao Rei:

— Sire 2 , diretrizes para mim? — ele era um político

muito mais experiente do que o monarca! — Não, Majestade,

não faça isso...

— Mas o que o senhor quer, então, como colaboração

de minha parte?

— Oh! Majestade, eu lhe peço apenas duas coisas: envie-

-me muito bons cozinheiros, para eu poder dar grandes banquetes

na embaixada; e, com regularidade, mande-me queijo

Brie, de maneira a chegar fresquíssimo, e eu ter a mesa mais

concorrida do Congresso de Viena. O resto eu arranjo...

O Rei mandou os cozinheiros, e periodicamente partia

da França grande quantidade de queijo Brie, para os

24


Lecen (CC 3.0)

Dornicke (CC 3.0)

“Grito do Ipiranga” (Independência do Brasil)

Museu Paulista, São Paulo, Brasil

banquetes de Talleyrand. Sua atuação no Congresso de

Viena ficou célebre.

Quanta pompa, quanta inteligência, quanta habilidade,

quanta bondade e até quanta simplicidade! Todos esses

predicados viviam juntos numa harmonia da qual talvez

não façamos bem ideia.

Descendentes de Dom Pedro I

visitam família de Dona Gabriela

Termino com um fatinho ligado à Família Imperial

brasileira.

Quando foi proclamada a República, D. Pedro II foi

expulso do Brasil com toda a sua família. Mas no ano

de 1922 festejou-se o centenário da Independência do

Brasil, e ficava muito mal celebrarem D. Pedro I estando

os descendentes dele exilados do País. Por isso, o então

Presidente da República, Epitácio Pessoa, revogou

o decreto de banimento da Família Imperial, a qual pôde,

então, regressar ao Brasil. E vindo a São Paulo, eles

foram visitar, naturalmente, as famílias que conheciam,

entre as quais estava a de minha avó, em cuja casa eu

morava.

Foi-nos ensinada, então, uma série de regras de cortesia

para recebermos os meninos de nossa idade da Família

Imperial.

Havia em nossa casa duas salas de visitas: uma mais

pomposa e outra mais íntima. Os príncipes adultos foram

recebidos na sala mais pomposa; e na mais íntima ficou

a criançada.

Junto ao porta-chapéus existia uma bandejinha para

colocar cartões de visita. E os príncipes entraram — todos

muito vivos, muito espertos e animados — e foram

colocar seus chapéus no porta-chapéus. Ao verem aquela

bandejinha, que tinha um desenho em alto-relevo representando

um papagaio, exclamaram:

— Olha o papagaio! Olha o papagaio!

Estavam interessadíssimos pelo papagaio. Eu tinha

um na cozinha, e julguei fazer o papel de bom dono de

casa dizendo-lhes:

— Mas este papagaio não tem nada de extraordinário.

Há toda espécie de papagaios aqui no Brasil. Aqui perto,

na cozinha, tem um papagaio...

— Onde está?!

— Lá!

E foram todos correndo para ver o papagaio...

Os mais velhos ficaram aterrorizados quando verificaram

que a recepção, tão pomposamente calculada, estava

se dando, logo de início, na cozinha!

Veio então o decreto e toda a criançada — príncipes e

não príncipes — teve que voltar para a sala de visitas,

sentar em cadeiras e começar a conversar... v

(Extraído de conferência de 26/10/1985)

1) Do francês: Pessoa que desenvolve conversa interessante e

atraente.

2) Tratamento que se dava aos reis da França e aos senhores

feudais.

25


C

alendário

dos Santos – ––––––

1. Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem e Doutora

da Igreja (†1897). Ver página 2.

2. Santos Anjos da Guarda.

São Beregiso, abade (†d. 725). Fundou em Andage,

atual Bélgica, um mosteiro de Cônegos Regulares, do qual

foi abade.

3. Bem-aventurados André de Soveral, Ambrósio Francisco

Ferro, presbíteros, e companheiros, mártires (†1645).

São Maximiano, bispo (†c. 410). Bispo de Bagai, atual

Argélia, torturado por hereges, lançado do alto de uma

torre e dado por morto. Mas recuperado, continuou lutando

pela Fé Católica.

4. XXVII Domingo do Tempo Comum.

São Francisco de Assis, religioso (†1226).

São Petrônio, bispo (†c. 450). Eleito sucessor de São

Félix, em Bolonha, Itália. Renunciando às honras que possuía

no Império Romano, fez-se sacerdote.

5. São Benedito, o Negro, religioso (†1589).

Santa Faustina Kowalska, virgem (†1938). Religiosa

das Irmãs da Bem-Aventurada Virgem Maria da Misericórdia,

em Cracóvia, Polônia, trabalhou

para anunciar o mistério da divina

misericórdia.

6. São Bruno, presbítero e eremita

(†1101).

Santa Maria Francisca das Chagas

de Nosso Senhor Jesus Cristo,

virgem (†1791). Terciária franciscana,

destacou-se por sua paciência nas

tribulações e adversidades, bem como

pelas penitências e pelo amor de

Deus e das almas, em Nápoles, Itália.

7. Nossa Senhora do Rosário.

São Marcos, Papa (†336). Instituiu

o pálio, em seu curto pontificado,

fez o primeiro calendário das festas

religiosas e mandou construir as basílicas

de São Marcos e Santa Balbina.

8. São Félix, bispo (†séc. IV). Ordenado

por Santo Ambrósio de Milão,

foi o primeiro Bispo de Como,

Itália.

François Boulay

Santo Anjo da Guarda

9. São Dionísio, bispo, e companheiros,mártires (†séc. III).

São João Leonardi, presbítero (†1609).

Santa Públia, viúva (†c. séc. IV). Viúva da Antioquia,

se fez monja após a morte do marido. Foi esbofeteada por

ordem do imperador Juliano, por cantar salmos que condenavam

a idolatria.

10. São Daniel Comboni, bispo (†1881). Primeiro Bispo

católico da África Central, fundou o Instituto dos Missionários

Combonianos do Coração de Jesus. Morreu em

Khartum, Sudão.

11. XXVIII Domingo do Tempo Comum.

São Pedro Lê Tuy, presbítero e mártir (†1833). Decapitado

no tempo do Imperador Minh Mang, em Hanoi,

Vietnã.

12. Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Beato Romão Sitko, presbítero e mártir (†1942). Reitor

do seminário de Tarnów, Polônia, foi preso e torturado no

campo de concentração de Auschwitz.

13. Beata Alexandrina Maria da Costa (†1955). Por defender

sua castidade, ficou paraplégica

aos 14 anos, em Balasar, Portugal.

Viveu confinada no leito o resto

da vida, oferecendo-se como vítima

pela conversão dos pecadores.

14. São Calisto I, Papa e mártir

(†c. 222).

São Domingos Loricato, presbítero

(†1060). Religioso da Ordem

Camaldulense, foi designado por

São Pedro Damião para dirigir um

mosteiro de sua Ordem, em San Severino,

Itália.

15. Santa Teresa de Jesus, virgem

e Doutora da Igreja (†1582).

Santa Tecla da Inglaterra, abadessa

(†c. 790). Enviada da Inglaterra

à Alemanha para auxiliar São

Bonifácio, dirigiu o mosteiro de

Ochsenfurt e depois o de Kitzingen.

16. Santa Edwiges, religiosa

(†1243).

26


––––––––––––––– * Outubro * ––––

Santa Margarida

Maria Alacoque, virgem

(†1690).

São Galo, presbítero

e monge (†645).

Educado por São Columbano

no mosteiro

de Bangor, Irlanda,

propagou o Evangelho

nesta região.

17. Santo Inácio

de Antioquia, bispo e

mártir (†107).

Santo Oseias, Profeta.

Com suas palavras

e exemplo de vida,

demonstrou ao povo

de Israel o incomensurável amor de Deus.

Gustavo Kralj

18. XXIX Domingo do Tempo Comum.

São Lucas, Evangelista.

Santo Amável, presbítero (†séc. V). Pároco de Riom,

França, conhecido como “varão de admirável santidade”,

por suas virtudes e dons de milagres.

19. São João de Brébeuf, Isaac Jogues, presbíteros, e

companheiros, mártires (†1642-1649).

São Paulo da Cruz, presbítero (†1775).

Beato Tomás Hélye, presbítero (†1595). Exercia seu ministério

durante o dia e dedicava a noite à oração e à penitência,

na Diocese de Coutances, na Normandia, França.

Santo Inácio de Antioquia

23. São João de Capistrano, presbítero (†1456).

Beato Arnaldo, religioso (†1890). Religioso da Congregação

dos Irmãos das Escolas Cristãs, dedicou-se à formação

dos jovens como

professor e com orações

assíduas, em Reims,

França.

24. Santo Antônio

Maria Claret, bispo

(†1870).

São Fromundo, bispo

(†séc. VII). Fundou

o mosteiro de monjas

de Ham e exerceu

o ministério pastoral

em Coutances, atual

França.

25. XXX Domingo

do Tempo Comum.

Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, presbítero (†1822).

Beato Tadeu Machar, bispo (†1492). Nobre irlandês, eleito

Bispo de Cork e Cloyne, teve que sair de sua pátria pela

hostilidade dos poderosos. Faleceu em Borgo Sant’Antonio,

Itália, durante a viagem para Roma.

26. Beata Celina Chludzindska Borzecka, religiosa

(†1913). Fundadora da Congregação das Irmãs da Ressurreição

de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Cracóvia,

Polônia.

27. Santo Evaristo, Papa (†108). Dirigiu a Igreja Romana,

como quarto sucessor de São Pedro, no tempo do imperador

Trajano.

20. Beato Tiago Strepa, bispo (†1409). Prior do convento

franciscano de Lviv, Ucrânia, nomeado Bispo de Halicz,

estimulou a vida religiosa, a devoção a Jesus Eucarístico e

a Nossa Senhora.

21. Santa Laura Montoya Upegui, virgem (†1949).

Fundadora da Congregação das Irmãs Missionárias de

Maria Imaculada e Santa Catarina de Sena, em Medellín,

Colômbia.

22. São Marcos, bispo (†séc. II). Primeiro Bispo procedente

dos gentios a ocupar a Sé de Jerusalém.

28. São Simão e São Judas Tadeu, Apóstolos.

São Germano, abade (†séc. XI). Insigne pelo seu amor

à solidão, fundou e dirigiu a abadia de Talloires, em Annecy,

França.

29. São Narciso, bispo (†c. 222). Eleito Bispo de Jerusalém

aos 100 anos de idade, foi modelo de paciência e fé.

Faleceu aos 116 anos.

30. Beato Aleixo Zaryckyj, presbítero e mártir (†1963).

Sob um regime hostil a Deus, foi deportado para um campo

de concentração em Dolinka, Cazaquistão, onde encontrou

a vida eterna.

31. Santo Afonso Rodríguez, religioso (†1617). Ver página

28.

27


Hagiografia

O carisma

da boa conversa

A boa conversa é uma forma comunicativa do

amor a Deus, à Santa Igreja, a Nossa Senhora, que

extravasa do coração para a boca de quem fala.

Em 31 de outubro comemora-se a festa de Santo

Afonso Rodrigues, confessor. Sobre ele, Schamoni,

em seu livro A verdadeira fisionomia dos

Santos 1 , dá as seguintes notas:

Porteiro de convento durante 45 anos

Santo Afonso Rodrigues nasceu no ano de 1531, em Segóvia.

Era filho de um piedoso negociante.

Deve considerar-se como transcendental em sua vida a

influência do Bem-aventurado Padre Fábio, que durante

algum tempo viveu entre eles, assim como mais tarde o santo

religioso Francisco de Vilanova.

Com a morte de seu pai, Santo Afonso passou a cuidar

dos negócios familiares, porém a sua pouca habilidade levou

os negócios à falência, ao mesmo tempo em que a morte

arrebatava a sua esposa, seus filhos e sua mãe.

“Na desgraça — disse o Santo — vi a majestade de Deus

e reconheci a maldade de minha vida. Fizera, por causa do

mundo, pouco caso de Deus e agora estava na iminência

de perder-me eternamente. Ante mim vi a sublime grandeza

de Deus, enquanto eu jazia no pó da minha própria miséria.

Imaginei ser um segundo Davi, e um comovedor Miserere

foi a expressão do meu estado de espírito.”

Dirigiu-se então à Companhia de Jesus e, depois de seis

meses de noviciado, mandaram-no para o colégio de Monte

Sion, em Palma de Mallorca, de cujo convento foi irmão

porteiro durante quarenta e cinco anos.

Doutor de Mallorca

A confiança que sua conduta despertava contribuiu

para que muitas pessoas a ele acudissem, pedindo

conselhos e ajuda em seus conflitos espirituais. Santo

Afonso possuía em especial o dom da conversa espiritual.

Seu próprio reitor concordou que nenhum tratado religioso

lhe proporcionara tanto bem como o contato com o irmão

leigo. Atendia também os pedidos que lhe faziam através

de numerosas correspondências. Por isto foi chamado o

“Doutor de Mallorca”.

O Santo podia ter dado bons conselhos porque ele mesmo

precisou suportar numerosas dificuldades íntimas e

materiais e enfrentar duras batalhas.

“Sentia — comentou — cada vez com maior profundidade

a grandeza do Senhor, enquanto se aguçava em mim

a consciência da debilidade do meu ser. Graças a esta experiência,

mergulhava no estado de absoluta inconsciência.

Então só sabia amar.”

Três dias antes de sua morte, depois da sua última Comunhão,

permaneceu iluminado e em êxtase.

“Que felicidade — escreveu uma testemunha ocular —

despertava em nosso espírito ao contemplá-lo! E eram somente

algumas migalhas da sua felicidade. Decidimos chamar

um pintor para que fizesse um fiel retrato de Afonso.”

O Santo faleceu em 31 de Outubro de 1617.

Sua cadeira de porteiro

tornou-se um trono de sabedoria

Esta é uma vida verdadeiramente magnífica porque

traz três notas muito importantes.

A primeira delas costuma ser comentada a propósito

da vida de Santo Afonso Rodrigues, e é digna de

ser recordada: este Santo fez um bem imenso a toda

a Espanha, a todo o mundo, e conseguiu realizar este

bem num posto humílimo. Ele era porteiro de um

28


convento numa ilha que, naquele tempo, tinha comunicação

difícil com o continente, e ficava muito mais

isolada do que está hoje. Ali ele consumiu 45 anos de

sua existência.

Pois bem, apesar de estar nesse recanto, o bom odor

de Jesus Cristo que havia nele espalhou-se por toda a

ilha de Palma de Mallorca, depois pela Espanha, e mais

tarde pelo mundo, com a figura venerável deste porteiro

velho, acolhedor, afável, sempre ao alcance de todo

mundo na portaria e, portanto, podendo ser consultado

por todos os que quisessem, o que fez de sua cadeira de

porteiro um trono da sabedoria. Todos iam lá vê-lo e ouvi-lo.

Vemos o que há de magnífico numa vida mesmo muito

humilde como esta, quando é toda integrada e empregada

no serviço de Deus Nosso Senhor e da Santa Igreja

Católica. Por quê? Porque a santidade, a sabedoria tem

uma irradiação própria, que não é comparável a nada.

Não é tão importante que o Santo esteja num lugar onde

todos veem porque para atrair, quer o afeto, quer a

admiração, em qualquer lugar onde ele esteja este afeto

e esta admiração confluem. Basta que seja um Santo

verdadeiro e autêntico, com uma santidade, como diziam

os antigos, victa et non picta, quer dizer, verdadeira

e não pintada.

Com essa consideração devemos fazer duas outras,

que me parecem bem mais importantes.

Considerar a grandeza divina

O modo pelo qual este Santo foi chamado a contemplar

a Deus Nosso Senhor fala muito à minha alma. Considerar

a grandeza divina: Deus infinitamente grandioso,

majestoso, sábio, transcendente a tudo, excelente, magnífico,

sublime, radioso, absoluto em toda a sua essência,

misterioso, insondável!

Quando percorremos com o olhar todas as coisas e as

analisamos, acabamos descobrindo tal insuficiência, tal

debilidade, que chegamos à seguinte conclusão: ou valem

porque são um reflexo de Deus, ou não são absolutamente

nada.

Chegou a me passar pela mente o que eu faria de minha

vida se não cresse em Deus. Sentiria, ao cabo de algum

tempo, uma insipidez, uma sensação de vazio... Por

exemplo, diante de um belo objeto: Aqui está esta peça

de ouro, está bem, mas o que importa? Custa muito?

Sim, porém o que me interessa? Satisfaz as minhas necessidades?

Suponhamos que sim. E do que me adianta

satisfazer minhas necessidades? Prolongar esta vida para

quê? Tudo isto não é nada!

Mas se eu tomo em consideração que isso tudo não

é senão um véu por detrás do qual está o Ser absolu-

Francisco Lecaros

Imagem de Santo Afonso Rodrigues

Basílica de Loyola, Espanha

29


Hagiografia

to, perfeito, eterno, sapientíssimo, sublime, transcendente,

então encontro algo que é inteiramente superior

a todos os homens, a mim, aos que me rodeiam,

e no qual as minhas vistas exaustas e maravilhadas

podem repousar. Afinal encontrei algo inteiramente

digno de ser visto, amado, e de que a Ele eu me dedique

completamente. E isto por causa da grandeza

d’Ele. Porque Ele não é uma simples criatura concebida

no pecado como eu, mas é o próprio Criador

perfeitíssimo!

Agora a vida tomou sentido, a existência é alguma coisa!

A grandeza de Deus me ergueu do pó e me deu o desejo

das coisas infinitas.

Jesus Cristo concentra todas as formas e

matizes de grandeza

Este homem, este Santo, na consideração da grandeza

de Deus, subiu alto, e até o fim da vida dele se arrependia

dos seus pecados, e desejava ir para o Céu a fim de

conhecer essa infinita grandeza.

Confesso, francamente, que me é impossível pensar

nisto sem sentir uma grande alegria dentro de minha

alma. Muitos morrem com medo de pensar na grandeza

de Deus. Eu, pelo contrário, tenho a impressão de

que, se Nossa Senhora me ajudar — e não duvido que

me ajudará —, na hora da minha morte morrerei radioso,

com a ideia de que, afinal de contas, vou encontrar

a grandeza de Deus, vou me libertar do cárcere de todas

as limitações, de todas as mesquinharias, de todas

as pequenezes, de todas as contingências, para encontrar

a Deus Nosso Senhor infinitamente grande. Senhor

meu, Pai meu, Rei meu, tão grande, que nem sequer,

apesar da visão beatífica, poderei dispensar um intermediário

junto a Ele.

Então eu terei a Nosso Senhor Jesus Cristo, o Verbo

de Deus encarnado.

Uma forma de grandeza… quando se fala as palavras

Jesus Cristo, todas as formas, todos os sons, todos os matizes

de grandeza se concentram ali de um modo superlativo.

E logo junto a Nosso Senhor Jesus Cristo, infinitamente

abaixo d’Ele e incomensuravelmente acima de

mim, Nossa Senhora, Rainha de uma majestade insondável.

Então, o que sou eu? Uma poeira, um grão de areia

perdido no meio disto tudo. Pois bem, me enche a al-

Sergio Hollmann(CC 3.0)

Cristo Rei ladeado pela Santíssima Virgem e por São João Evangelista - Museu do Prado, Madri, Espanha

30


ma a ideia de que não sou senão

um grão de areia, uma poeira,

mas que existe aquilo,

que eu vou para aquilo, que eu

me reúno àquilo e aquilo me

acolhe, me aceita, me envolve,

e eu passo ali a eternidade

inteira. Confesso que é nesta

consideração que a minha alma

se dilata.

Não será talvez assim para

outras pessoas. Mas há várias

moradas no Céu. Que a misericórdia

me receba nessa morada,

porque para ela eu sinto uma

atração superlativa.

A via do silêncio e

a da conversa

Parece-me haver outro aspecto

que deve ser muito notado

aqui, e é o seguinte:

Muitos autores espirituais falam

do perigo das conversas e da vantagem que há em

não conversar.

Lembro-me de que, quando o nosso Movimento estava

no começo, tínhamos muita dificuldade com certos

elementos do clero e do laicato católico que diziam:

“Vocês conversam muito. Todas as noites reúnem-se

para conversar! Não era muito melhor que vocês tomassem

um serviço? Por exemplo, confeccionem envelopes

para auxiliar alguma obra de caridade em favor

dos mendigos, e que precisa mandar propaganda para

milhares de pessoas. Cada um faça, por exemplo, cem

envelopes por noite; isso é muito mais abençoado do

que essas conversas.”

Eu era moço naquele tempo, não conhecia muitos

pontos de doutrina e não sabia defender-me inteiramente;

então tentava, laboriosamente, explicar que podia haver

maior bem numa conversa do que numa obra de caridade

material.

“Cuidado — replicavam eles —, as muitas palavras

enredam o homem em vaidades e orgulhos tolos. Mais

vale calar do que falar, porque o silêncio é ouro e o falar

é prata. Muitos são os homens que nesta hora padecem

o Inferno porque não retiveram a sua língua. Quantos

estarão no Céu felizes a esta hora porque passaram

pela Terra quietos!?”

É uma via para muitos, mas para muitos outros não é.

Vemos em Santo Afonso Rodrigues um exemplo desta

via de conversas abençoadas.

Reprodução

São Charbel Makhlouf

A conversa pode ser um

meio de santificação

Há um eremita que me encanta:

o Bem-aventurado Charbel

Makhlouf 2 . É uma maravilha

de silêncio, e aquele silêncio

me deslumbra! Mas uns devem

falar e outros devem calar.

Aparece nesta biografia de Santo

Afonso a doutrina de que este

homem tinha uma graça especial

para conversar.

Portanto, a conversa pode

ser uma graça e existe um carisma

próprio a ela. E as conversas

abençoadas são exatamente

aquelas nas quais intervém este

fator sobrenatural.

Há, entretanto, um carisma

negativo, que não vem do Céu,

para a “anticonversa”. Está-se

numa roda onde se desenvolve

uma conversação muito boa; de

repente chega alguém, senta-se e não diz nada... A conversa

morre. Creio que vários experimentaram isso, pois

é de observação comum.

Qual é a razão deste fenômeno? É a ação de presença

de uma pessoa que pensa em si.

Quando o indivíduo entra para uma roda onde a conversa

vai alta, mas ele está pensando em si, carregando

um ressentimento, uma preocupação, uma ambição,

uma preguiça, e procura fazer com que a conversa tome

a orientação deste seu pensamento em vez de seguir, ao

sopro da graça, o tema dominante — ainda que ele seja

tartamudo e diga uma palavra em cada dez minutos —,

corta a bênção da conversa.

Qual é o carisma da boa conversa? É uma forma comunicativa

do amor a Deus, à Santa Igreja, a Nossa Senhora,

que extravasa do coração para a boca de quem fala.

Temos na vida de Santo Afonso, portanto, um ponto

de nossa doutrina bem firmado: a conversa pode ser uma

graça e, quando assim é, decorre em geral de um carisma

que Nossa Senhora dá para fazer do convívio das almas

um meio para que elas se santifiquem.

v

(Extraído de conferência de 30/10/1967)

1) Não dispomos dos dados bibliográficos da referida obra.

2) Canonizado em 9 de outubro de 1977.

31


Luzes da Civilização Cristã

A beleza da luta - II

Do alto da Cruz, Nosso Senhor teve um consolo ao contemplar

misticamente a epopeia das Cruzadas, que lutaram pela

libertação da Terra Santa. E até hoje a palavra “cruzado” evoca

nos corações algo de especial, luminoso e belo.

Outro desenho de Gustavo Doré representa Ricardo

Coração de Leão desembarcando, com suas

tropas, em São João d’Acre.

Vemos uma pequena elevação de terreno. É uma batalha

em pleno curso, não de cavalaria, porque esta não

podia subir ali. São os soldados de infantaria que atacam.

Trata-se da bataille mellée, porque se misturaram os de

um lado com os de outro completamente. Usando um

termo corriqueiro de hoje em dia, estão engalfinhados

uns nos outros.

Anjos de combate que

parecem ser feitos

de cristal

Os cruzados, com risco enorme

da vida, estão subindo e rechaçando

os inimigos da Fé. Na

guerra medieval, estar em cima

fornecia muita vantagem, porque

quem se encontrava por

baixo era mais sujeito a golpes.

Ao contrário das guerras

de hoje, onde quem se afunda

numa trincheira tem vantagem.

É que em nossos dias há vantagem

para quem desce. Naquele

tempo havia vantagem para

quem subia.

O efeito dramático Gustavo

Doré obtém magnificamente

com essas velas altas, que parecem

furar o céu, e o entrelaçamento

dos homens: os católicos

defendem a Fé e os ímpios,

que não querem aceitar a

Reprodução

Fé, estão querendo matar os católicos. Por detrás está um

bispo com uma cruz.

A gravura seguinte representa uma legião de Anjos,

mandada por Maria para socorrer os cruzados.

Eu queria chamar a atenção para o senso fino de interpretação

de Gustavo Doré, a propósito desses Anjos.

Eles parecem feitos de cristal, voam como Anjos podem

voar, e vêm numa revoada gloriosa. Porém, são Anjos

de combate! E que, quando pousarem, vão dizimar

os inimigos da Fé que, provavelmente, já os viram antes

de eles pousarem, e saíram na

disparada.

Ali vem representado, de

costas e na primeira fileira,

um cruzado que viu a legião

celeste e que, brandindo

sua espada, aclama os Anjos

que vão baixando. Pensem

nisso quando estiverem

em meio aos castigos previstos

por Nossa Senhora em Fátima,

e digam: Regina angelorum,

succurre nos! 1

Consolação de Nosso

Senhor no alto da Cruz

Eis, nesta outra cena, a cidade

de Jerusalém com suas

muralhas fortíssimas, e o ataque

que se desenrola. Também

aqui os guerreiros estão

aproximando uma das tais

torres de madeira, quase da

altura da grande torre quadrangular

da muralha.

32


Os cruzados escalam as muralhas

da cidade subindo por uma escada, enquanto os

maometanos estão fazendo o possível para derrubá-los.

Os combatentes cristãos querem descer, mas vejam a dificuldade

para saltar por cima dessas lanças e pedras…

Isso é o característico da guerra medieval: os maometanos

eram censuráveis debaixo de todos os pontos

de vista, os cruzados eram admiráveis. Pois bem, mas a

guerra se desenvolvia de tal modo que se acaba tendo

certo respeito por ambos os lados, pela coragem manifestada

pelos contendores.

Neste outro lance os cruzados estão entrando e tomando

conta da cidade.

Vê-se um bispo que caminha debaixo do pálio. Há

quanto tempo não se via isto: um bispo da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana desfilando na cidade onde

Nosso Senhor Jesus Cristo morreu! Eles entravam cantando,

com certeza, músicas sacras. É a vitória de Nossa

Senhora!

O bispo parece conduzir o Santíssimo Sacramento. Ao

menos é a interpretação que eu dou.

Os cruzados entraram em Jerusalém numa Sexta-Feira

Santa, às três da tarde, hora em que Nosso Senhor Jesus

Cristo morreu.

O Redentor, que conhecia o passado, o presente e o

futuro, do alto da Cruz conheceu isso e teve a consolação

de ver que, se os discípulos d’Ele — que estiveram com

Ele naquela intimidade do Horto das Oliveiras — dormiram,

séculos depois vieram esses heróis que por amor a

Ele morreram. Isso é supremamente belo!

Quem não combate o

mal atraiçoa

a Causa de Nosso

Senhor Jesus Cristo

Este é um elemento integrante

da psicologia do católico.

O verdadeiro católico

deve saber ser assim.

Distingamos, contudo, entre

ser e fazer. “Fazer” será

quando Nossa Senhora der

as ocasiões e que for lícito, de

acordo com a Moral católica.

Entretanto, devemos ser já.

É assim que nos preparamos

para as lutas da vida.

É preciso amar ser assim

e pedir a Nossa Senhora,

noite e dia, a graça de sê-lo.

Então seremos contrarrevolucionários,

filhos de Nossa

Senhora, de alma e corpo

inteiros.

Alguém poderia preparar sua alma para amar isso,

aplicando a esta temática o método lógico sugerido por

Santo Inácio, em seus Exercícios Espirituais:

Esta guerra é lícita? Sim, e até uma obrigação.

O que acontecerá se eu não combater? Tais consequências.

O que acontecerá se eu combater? Glória para Nossa

Senhora e tais outras consequências.

Eu tenho o direito de não querer combater? Não, porque

atraiçoo a Causa de Nosso Senhor Jesus Cristo, meu

Rei, e de Nossa Senhora, minha Rainha, se eu não cumprir

o meu dever.

A pessoa imagina-se, então, no dia seguinte, jogado

num campo de batalha ou levado de volta, estropiado.

Tomou uma pancada na cabeça e ficou cego, inutilizado,

portanto. Mas contente porque perdeu a visão por amor

a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, e porque a batalha

apenas mudou de campo: ele terá agora um combate interior.

Dia e noite estará em presença da privação tremenda,

a que ficou sujeito por toda a vida.

Entretanto, dia e noite se recusará a entristecer-

-se, lutará contra a invasão do desânimo e dirá: “Meu

Deus, pelas mãos de vossa Mãe, eu Vos ofereço de novo

a pancada que sofri. Se Vós me restituísseis a vista,

por um milagre, e eu tivesse de perdê-la novamente por

Vós, de bom grado eu a sacrificaria!”

Quando um homem assim morresse de velho, teria

vencido mil Cruzadas!

Reprodução

33


Luzes da Civilização Cristã

O suavíssimo São Francisco de Sales

estimulou uma Cruzada

A vitória dos europeus sobre os maometanos se consolidou

depois da Batalha de Lepanto. Mas já bem antes

dela era improvável que os maometanos conseguissem

dominar a Europa. Por duas vezes chegaram até as portas

de Viena, e até conseguiram tomar esta cidade, mas

veio o Rei João Sobieski, da Polônia, e expulsou-os, restituindo

Viena ao Imperador.

Mas eram invasões que não tinham comparação com

aquelas avalanches de muçulmanos, que invadiram a Europa

no tempo da Reconquista ou por ocasião de Carlos

Martel.

Com isso, espalhou-se pelo Ocidente um sentimento

legítimo de segurança. As Cruzadas quebraram o ímpeto

dos povos maometanos.

Por outro lado, a Europa cresceu muito,

tornou-se mais rica, desenvolveu-se

intelectualmente, ficou capaz

de elaborar táticas de guerra

muito mais eficazes. De

maneira que, por efeito

da Civilização Cristã

— portanto, da graça

de Nosso Senhor

Jesus Cristo e das

preces de Maria

—, a Europa estava

gozando de uma

explicável segurança.

Essa segurança

era a paz de Cristo no

reino de Cristo.

Pronunciou-se com isso

uma dulcificação dos costumes.

O homem medieval ainda

era muito rude. O pós-medieval

começou a lutar contra essa rudeza, que

já não se enquadrava com a doçura da

vitória. E com isso houve uma insistência

muito grande nas virtudes doces, suaves.

E uma insistência menor nas virtudes bélicas, militares.

Então, por exemplo, São Francisco de Sales. A Filotéia,

a Introdução à Vida Devota, e outras obras de São

Francisco de Sales são admiráveis, de uma doçura maravilhosa!

Era já a época da douceur de vivre 2 que começava

a invadir a Europa, e a coroa de glória posta na fronte

da Europa. E isso estava justo.

Contudo, para se compreender o equilíbrio que deve

haver nisso é preciso tomar em consideração o seguinte.

Jean-Pol GRANDMONT(CC 3.0)

Vitória do Rei João III Sobieski

contra os turcos na batalha de

Viena - Museus Vaticanos

São Francisco de Sales era Bispo de Genebra, cidade

da Suíça que, naquele tempo, constituía o foco de irradiação

do calvinismo protestante. Mas ele não era apenas

bispo, mas também o Príncipe de Genebra, porque,

pelos estatutos, o Bispo de Genebra era, de direito, o

príncipe que governava a cidade. E São Francisco de Sales

foi expulso de Genebra.

Tendo obtido o apoio do Duque de Savóia, cujas terras

eram contíguas a Genebra, e de outros nobres da zona,

armou uma Cruzada contra os genebrinos.

Quando visitei Genebra, um líder católico mostrou-

-me a parte da velha muralha, precisamente onde os protestantes

conseguiram derrotar São Francisco de Sales.

Ele, o Doutor suavíssimo, o Doutor boníssimo, ideou,

desenvolveu a manobra diplomática necessária e estimulou

que fosse feita uma Cruzada, para esse bispo perfeito

reconquistar sua diocese na ponta da lança, da alabarda

e da espada, com mosquetão e tudo o mais!

Esta era a doçura deste Santo.

Deformações

provocadas pela

”heresia branca”

Mas depois veio a

deformação da “heresia

branca” 3 , segundo

a qual suavidade

corresponde

a entrega, a capitulação

diante do

adversário.

Dou um exemplo

do feitio da piedade

“heresia branca”.

O martírio de São Sebastião

é enormemente venerável.

Ele era chefe da guarda responsável

pela segurança do imperador e, portanto,

um grande combatente romano.

O imperador, descobrindo que ele tinha

se tornado católico, ficou indignado

e mandou executá-lo mediante flechadas.

Esse homem que era chefe de uma guarnição do exército

que dominava o mundo, que tinha conquistado toda

a bacia do Mediterrâneo, é apresentado por certo estilo

de iconografia como um mocinho rosadinho, com cara

de quem está levantando da cama; atado a um tronco,

com uma perninha para frente, a outra para o lado, como

quem está se distraindo em ver os passarinhos voarem

e cantarem em árvores hipotéticas. Aquelas flechas

parecem não fazê-lo sofrer em nada. Escorre um pou-

34


Reprodução

Roberto da Normandia na tomada

de Antioquia (1097-1098)

quinho de sangue, mas ele tem ar de quem não está padecendo.

A “heresia branca” também não gosta que se fale de

Cruzadas.

Eu ainda alcancei a época em que associações religiosas

chamavam-se “Cruzadas”. Então, por exemplo,

“Cruzada Eucarística Infantil”, “Cruzados do Santíssimo

Sacramento”. A palavra “Cruzada” era usada para certas

coisas religiosas. Depois, isso foi abolido completamente.

Contudo, há certas glórias sagradas na História que

não se apagam, e cujo flash os livros não transmitem

mais, mas se transmitem de geração em geração por uma

espécie de milagre: uma é a glória de Carlos Magno, outra

a das Cruzadas; e outras ainda são a glória do Sacro

Império Romano Alemão, da Reconquista espanhola, da

Reconquista portuguesa, que foram Cruzadas na Espanha

e em Portugal.

Essas glórias conservam algo na imaginação e na Fé de

todas as camadas do povo, e isso se transmite ao longo dos

séculos, um pouco misteriosamente, de maneira que todos

ficam com essa ideia da palavra “cruzado” como querendo

representar alguma coisa luminosa, especial, bela.

Este é o legado que, com ou sem as deformações sentimentais

posteriores, existe no consciente ou no subconsciente

de incontáveis católicos. Por onde, se o católico

comum é posto em confrontação com uma representação

muito viva do heroísmo que se notou nas Cruzadas,

o cruzado que “dorme” em sua alma se levanta e

uma chama se acende.

v

(Extraído de conferência de 19/3/1988)

1) Do latim: Rainha dos Anjos, socorrei-nos!

2) Do francês: doçura de viver.

3) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a

mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na

cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam

moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como

a tudo que signifique esplendor.

35


Oração que move montanhas

Santíssima Virgem do Rosário

Alcázar de San Juan, Espanha

Alcazareño (CC 3.0)

H

á uma confiança heroica pela

qual não desistimos de esperar,

apesar de tudo. Por vezes, essa confiança

faz a alma “sangrar”, mas ela

continua a confiar, e diz: “A promessa

interior, inefável, que Nossa Senhora

me fez não falhará. Confiarei

e cumprirei a minha missão. Eu confio

na palavra d’Ela!”

Qual é a palavra da Santíssima

Virgem? É uma voz da graça, uma

apetência que sentimos e que nos leva

a todas as virtudes, ao amor de Deus.

A isso nos devemos dar, e com base

nessa palavra devemos estruturar a

nossa confiança.

A alma assim vence a batalha, pois

a oração dela move as montanhas.

Eis por que Nossa Senhora só revelou

a São Pio V a vitória dos cristãos,

na Batalha de Lepanto, depois de ele

ter rezado um terço: Ela quis mostrar

que esta oração Lhe é tão grata, e que

agrada tanto a Ela pedirmos aquilo

de que precisamos, por meio da recitação

do Rosário, que Maria Santíssima

esperou aquela oração do Santo

Pontífice para conceder esse enorme

galardão.

(Extraído de conferência de 7/10/1975)

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