Revista Dr. Plinio 222

revistadp

Setembro de 2016

Publicação Mensal Ano XIX - Nº 222 Setembro de 2016

Contra-Revolução

angélica


Sergio Hollmann

São Rafael Arcanjo - Catedral de Manresa, Espanha

Intercessor celeste de

alta categoria

T emos em São Rafael um intercessor celeste de alta categoria que leva nossas preces a Deus, porque

é um dos sete espíritos mais elevados que assistem junto do Altíssimo e, portanto, são os canais

naturais das graças que desejamos.

Houve uma mística que, ao lhe ser dado ver seu Anjo da Guarda, ajoelhou-se em adoração, pensando

tratar-se do próprio Deus, tão elevada, nobre e excelsa era a natureza daquele ser. Ora, sabemos que

os Anjos da Guarda pertencem à hierarquia menos alta do Céu. Em comparação com isso, é inimaginável

um Anjo das mais altas hierarquias. De que alegria vamos estar inundados no Céu quando pudermos

contemplar um Arcanjo como São Rafael, e tudo quanto nele veremos de Deus!

Peçamos a ele para termos essa contemplação, e que a consideração dessa ordem angélica ideal e realmente

existente nos conforte para uma esperança do Céu e do reinado de Maria, dissipando toda a tristeza

crescente destes dias em que os castigos previstos por Nossa Senhora em Fátima vão se aproximando

tão rapidamente de nós.

(Extraído de conferência de 23/10/1964)

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Sumário

Publicação Mensal Ano XIX - Nº 222 Setembro de 2016

Ano XIX - Nº 222 Setembro de 2016

Contra-Revolução

angélica

Na capa, Dr. Plinio ao lado

da Imagem Peregrina de

Nossa Senhora de Fátima

na década de 1980.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Gilberto de Oliveira

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

EDITORIAL

4 O mundo angélico e a Contra-Revolução

PIEDADE PLINIANA

5 Oração a São Miguel, pedindo a

graça de ser um perfeito cavaleiro

DONA LUCILIA

6 Exercendo uma influência católica

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

8 O brilho de Luís XIV

Redação e Administração:

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02404-060 S. Paulo - SP

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

editora_retornarei@yahoo.com.br

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

15 O Coração de Jesus no

interior do Coração de Maria

CALENDÁRIO DOS SANTOS

20 Santos de Setembro

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

22 Inocência primaveril e

noção do Céu

HAGIOGRAFIA

26 A Inter-relação entre

os Três Arcanjos

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

32 Majestade com tranquilidade,

força com bondade

ÚLTIMA PÁGINA

36 Trono da misericórdia

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Editorial

O mundo angélico e a

Contra-Revolução

Dr. Plinio dedicou toda a sua existência ao serviço da Igreja Católica e de sua ortodoxia. Sendo

a Igreja o Corpo Místico de Cristo, a luta por defendê-la não poderia passar-se somente no

campo natural e humano, mas especialmente na esfera sobrenatural. Por isso, sempre considerou

sua missão, sua obra e sua atuação intimamente ligadas aos Anjos, a ponto de constituir uma única

Cavalaria Angélica em defesa da Fé e da Civilização Cristã. Ainda poucos meses antes de sua partida

para a eternidade 1 , Dr. Plinio lembrava a seus discípulos essa verdade tantas vezes explanada ao longo

de sua vida.

Eu entendi perfeitamente que o mundo inteiro era sacudido e convulsionado por uma Revolução

só. Que essas revoluções a que os historiadores dão nomes diversos, todas elas são aspectos de uma

só Revolução, a qual tinha uma finalidade: acabar com todas as desigualdades e implantar a igualdade

completa.

Em última análise, o primeiro revolucionário foi satanás. Ele teve a revelação da Encarnação do

Verbo, teve provavelmente a revelação de que o Verbo Encarnado nasceria da Virgem Maria e que

Ela seria Imaculada.

Diante desta revelação, Lúcifer teve o primeiro golpe, o primeiro brado de revolução. Esse brado

repercute até hoje: “Non serviam — Não servirei!” (Jr 2, 20). Quer dizer, “Eu não me inclinarei, não

obedecerei a essa criatura unida ao Criador que Deus quer criar. Eu sou anjo, sou puro espírito, sou

o mais esplêndido de todos os anjos, eu não aceitarei essa sugestão!” E quando ele bradou “Não servirei!”,

esse brado produziu sobre os outros anjos uma impressão enorme. E se estabeleceu no Céu a

primeira de todas as revoluções.

E, ato contínuo, nasceu gloriosamente, luminosamente uma Contra-Revolução. É São Miguel Arcanjo

que, embora sendo um Anjo de menor hierarquia do que Lúcifer, obedece a Deus e levanta o

estandarte da disciplina, da hierarquia, da obediência, contra o estandarte maldito da desobediência,

da insolência, da revolta, da negação de Deus que satanás tinha levantado. Dois exércitos se formam

nos espaços celestes e travam, diz a Escritura, uma grande guerra: Et factum est prœlium in cælo

(Ap 12, 7). Nessa batalha São Miguel Arcanjo — naturalmente favorecido e protegido por Deus —,

com os Anjos fiéis, teve a vitória. Satanás e seus anjos foram derrubados e atirados ao Inferno para

todo o sempre.

Essa era a primeira Revolução, modelo e causa profunda das demais revoluções. Então a história

do mundo começava antes da criação dos homens.

Isso não explica toda a nossa atuação? Não é trabalhar pela Santa Igreja Católica? Não é trabalhar

pela hierarquia, pela boa ordenação das coisas que refletem as perfeições de Deus adequadamente?

Tudo quanto é o contrário disto não é senão a Revolução maldita e igualitária.

1) Conferência de 11/8/1995.

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


PIEDADE PLINIANA

Luis María Beccar Varela

Oração a

São Miguel,

pedindo a

graça de ser

um perfeito

cavaleiro

Ó

São Miguel Arcanjo, que desembainhastes

vosso gládio no Céu para vingar contra os

anjos rebeldes a glória do Salvador e de sua

Mãe Santíssima, dai-me a graça de ser, neste auge do

poder das trevas, um perfeito cavaleiro da Cavalaria

Angélica suscitada em nossos dias para combater o

demônio e seus agentes terrenos e implantar o Reino

de Maria.

Para isto, obtende-me a graça de ter um espírito

profundo, sério, abnegado, inebriado de fervor para

com a Contra-Revolução, bem como transbordante de

ódio e desprezo para com a Revolução satânica, igualitária

e gnóstica.

Guillermo Asurmend

5


DONA LUCILIA

Victor Domingues

Exercendo uma

influência

católica

Arquivo Revista

Dona Lucilia influenciou possantemente

a formação do espírito de Dr. Plinio e,

através dele, os espíritos daqueles que foram

destinados pela Providência a segui-lo.

Arquivo Revista

AIgreja aponta nos fundadores

a condição de patriarcas.

Porém, não nas pessoas

que de algum modo cercaram as origens

dos fundadores. Por exemplo,

chamar a mãe de São João Bosco de

matriarca dos salesianos, por maior

que seja a nossa devoção a ela, seria

forçar um pouco a realidade histórica,

porque de fato a fundação foi dele,

embora ela tenha condicionado

muito a formação de sua alma.

Rezar o dia inteiro na Igreja

do Sagrado Coração de Jesus

Eu, por exemplo, tenho esta firme

deliberação: indo à Itália, se puder,

vou visitar o túmulo da Mamma

Marguerita, pela qual tenho uma

simpatia e uma reverência toda especiais.

Estou certo de que nós constituímos

uma família espiritual, a cuja

fundação corresponde uma rela-

6


ção patriarcal. Isto é fora de dúvida.

Contudo, que esta relação patriarcal

tenha com Dona Lucilia uma vinculação

diferente da que houve entre

São João Bosco e Mamma Marguerita,

e depois entre Mamma Marguerita

e os salesianos, eu teria cuidado

em transpor este passo.

Entretanto, podemos considerar a

influência que Dona Lucilia exerceu

na formação do meu espírito e, através

do meu espírito, a formação do

espírito daqueles que houvessem de

seguir esta família.

Em segundo lugar, post mortem,

os exemplos dela, as graças que ela

obtém, etc., como é que atuam nessa

direção. São coisas de índole diversa,

mas enfim que se podem ver, por algum

lado, na mesma perspectiva.

Na formação de minha mentalidade,

o efeito que ela teve foi vivo, humano,

mas por isso mesmo, de algum

lado, mais presente; e de outro lado,

mais reduzido, foi o efeito análogo ao

da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

Quer dizer, tudo quanto eu tenho

dito a respeito dessa igreja, bem como

do efeito dela e, mais alto do que

isso, do efeito da devoção ao Sagrado

Coração de Jesus sobre mim, tudo isso

tem uma certa relação com Dona

Lucilia, porque ela era devotíssima

do Sagrado Coração de Jesus, e fazia

suas delícias de poder ir à Igreja do

Sagrado Coração de Jesus, o que ela

conseguia raramente.

Eu me lembro de meu pai fazer

uma vez uma brincadeira com ela.

Tratou-se de arranjarmos uma casa

próxima da igreja. Ele disse: “Isso

não vai, porque Lucilia, com a igreja

ali perto, deixa tudo e passa o dia lá;

não faz outra coisa, fica rezando lá o

tempo inteiro.”

Ela não deixaria de cumprir os

seus deveres, mas que frações enormes

do tempo dela seriam dedicadas

à igreja! Se o marido reclamasse, ela

atenderia, mas seria preciso ele dizer,

porque do contrário ela ia… indiscutivelmente,

soltando o barco!

Afeto a Nosso Senhor,

estados de espírito

e confiança

Mas havia uma tal influência dessa

devoção sobre ela, e uma tal correlação

entre ela e a atmosfera da igreja,

que quando eu era pequeno olhava

de soslaio Dona Lucilia rezar e dizia:

“Que relação há entre ela e isto

aqui? Parece uma mesma coisa...”

E no fundo, pelo que Dona Lucilia

ajudou a me ensinar — não foi a

única; a principal a ensinar foi a Santa

Igreja Católica, Apostólica, Romana

—, posso dizer que eu desde

a infância fui católico por causa

da influência dela. Ela conduziu-me

às fontes do Batismo, ensinou-me o

Catecismo, o que faz toda mãe. Mas

eu, pela graça, na medida em que ia

conhecendo a Igreja Católica, aderia

sem discussão nenhuma. Não

com transportes de entusiasmo, mas

com uma dessas adesões tranquilas,

profundas. É isto! Esta é a Igreja de

Deus! Não se discute!

Lembro-me a primeira vez que

eu soube — era muito menino —

que havia gente que discutia se Jesus

Cristo tinha existido ou não, se Ele

foi Deus… Perguntei: “Mas são uns

loucos?”

Basta olhar para uma imagem

d’Ele, que se compreende que um

homem, num acesso de mentira, não

pode inventar isto que está aqui! Ou

Ele é uma realidade ou uma mentira.

Ora, olho para Ele e vejo que é

uma realidade, não uma mentira.

Mas ela concorreu de um modo

enorme para duas coisas: primeiro,

ajudar-me a pôr a minha atenção

e meu afeto nessa linha. E em segundo

lugar, porque havia muita semelhança

de temperamento entre ela e eu, e

por essa razão notava que defluía em

mim, a partir dela, uma série de estados

de espírito os quais me influenciaram

muito, e talvez não tivesse sido assim

se ela houvesse morrido prematuramente,

ou ocorrido algo análogo.

E uma influência muito grande numa

coisa: a confiança na Providência.

Por que isso? Porque, tendo confiança

nela, eu compreendia melhor

como é que deve ser a confiança em

Nossa Senhora, incomparavelmente

mais santa e superior a ela.

E eu dizia para mim mesmo: “Se

confio nela de olhos fechados e sem

limites, em Nossa Senhora, que a

perder de vista está acima dela, confio

ainda muito mais!”

De onde então muita tranquilidade,

estabilidade, muita coisa que me

é preciosa para a vida e que aprendi

por esta forma.

Haveria muitas outras coisas para

indicar, mas essas são as principais. ❖

(Extraído de conferência de

6/2/1986)

Arquivo Revista

7


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

O brilho de

Europicture.de (CC3.0)

Luís XIV

Luís XIV - Palácio de Versailles, França

Embora tenha proporcionado à

França esplendor e elegância, Luís

XIV introduziu no país a frivolidade

e a leviandade, as quais se

desenvolveram no tempo de Luís XV

e passaram a ser quase tóxicos, que

prepararam a Revolução Francesa.

O único modo de consertar isso era

abrir-se à influência do Sagrado

Coração de Jesus, que teria posto

a Europa nos seus trilhos, evitado

a Revolução e dado início a uma

Contra-Revolução admirável.

Alain Patrick

8


Q

uem lê a vida de Santa

Margarida Maria Alacoque

fica com a impressão

de que o relacionamento do Sagra-

do Coração de Jesus com Luís XIV

não foi publicado por inteiro. Mas o

Sagrado Coração de Jesus fez uma

tentativa comovedora de converter

o Rei da França. O que teria acontecido

se ele se tivesse aberto à graça,

convertido inteiramente e ficado

um santo?

A grandeza de São Luís

IX e a de Luís XIV

Luís XIV já estava com Versailles

construída, a corte montada, a

etiqueta feita e com o aparato resplandecente

dentro do mundo: ele

era o “Rei-Sol”! O que teria acontecido

com esse “sol” se ele se abrisse

para um outro

“Sol” maior,

que eram os

dardos de amor

do Sagrado Coração

de Jesus na alma

dele? Com essa

grandeza, o que teria

acontecido?

O que há em Luís

XIV diferente de

São Luís é o seguinte:

São Luís tinha uma verdadeira

grandeza no seu aspecto

físico — não era dos homens

mais altos do seu tempo, mas

um varão de alta estatura

segundo os padrões

de sua época; além disso,

muito bem apresentado,

possuía um caráter

quase de herói mítico.

Ele poderia ser quase

uma figura wagneriana

como apresentação física,

sem ser propriamente

um Tarzan. Mas era um homem

com aquela força francesa,

que é elástica, destra, não esmaga,

mas ágil e sabe ferir.

De outro lado, São Luís continuamente

foi acrescentando alguma

coisa à grandeza dos seus antepassados,

de maneira que talvez tenha

sido, como manifestação de esplendor,

em relação aos predecessores,

aquele que possuiu mais esplendor.

Não digo dos sucessores, nem de todos

os anteriores.

Há uma coisa que contrasta com

Luís XIV e chama a atenção. São

Luís era grande por uma espécie

de naturalidade; sua grandeza era

um fato, como pode ser num outro

a saúde. Não havia uma programação

de ser tão grande

quanto possível em todas

as direções, mas o desejo

de ser inteiramente o que

é, com autenticidade, e com o propósito

marcado de deixar ver aquilo

que ele é.

Em São Luís não existia nada daquilo

de esticado que há em Luís

XIV, o qual dá a impressão de que

está continuamente levando ao auge

a manifestação da sua grandeza,

o que é, a meu ver, um lado desagradável

da grandeza do “Rei-Sol”.

Outra coisa desagradável é procurar

aliar uma espécie de boa apresentação

natural, de maneira a fazer

admirar-se a si próprio, como homem

muito bem apessoado. Consideração

esta que parece ter sido inteiramente

alheia a São Luís, o qual

não procurava enfeitar-se, fazer-se

bonito, mas sim adornar-se como

um rei deve se apresentar.

Se fica mais bonito uma coroa em

que a base é mais alta ou menos alta;

e se tal cor de tal pedra preciosa

para pôr na coroa vai bem com a cor

dos olhos, etc., são considerações

que eu acho que não passaram pela

mente de São Luís. Com Luís

XIV não garanto nada! Ele pode

ter feito combinações nem

sei de que gênero! Cor da peruca

para combinar com a pele,

etc.

Ryan Ashelin (CC 3.0)

Estátua equestre de São Luís IX - Museu

de Arte São Luís, Missouri, EUA

9


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Gustavo Kralj

Luís XIV. E que tudo muito bem

considerado fazia de São Luís, no

fundo, um rei superior. Mas é por

uma maior participação de Deus.

Há um fato tocante: das antigas

moedas francesas, as que têm menos

valor na Europa são as do tempo de

São Luís IX. Porque o povo as guardava

como medalhas e, assim, tornaram-se

muito comuns. Isso corresponde

a um verdadeiro plebiscito.

Pode-se imaginar a quantidade de

moedas que Luís XIV deve ter mandado

cunhar com sua efígie. Pois

bem, foram fundidas. E as de São

Luís guardadas como medalhas pelo

camponês pobre que às vezes passava

necessidade, não comprava um

remédio ou um pão, mas conservava

a moeda do Rei santo consigo. Existe

aí uma coisa qualquer que não sei

exprimir bem, mas que toca o coração:

hic taceat omnis língua! 1

Qual é a primeira

nação da Europa?

Divulgação (CC3.0)

Moedas guardadas

como medalhas

E, coisa desagradável, vê-se em

Luís XIV a fruição que ele tem da

sua própria grandeza, sem nenhum

medo de se deixar inebriar por ela.

Não se percebe ascese nesse rei. Ele

bebia o líquido delicioso da própria

grandeza a largos haustos, sem preocupação.

Cenas da vida de São Luís IX

(detalhe) - Catedral de

Notre-Dame, Paris, França

E em São Luís se nota a ascese

procurada, o medo humilde da fraqueza

humana que busca se embriagar

com a glória, o evitar aparecer.

Isso fazia com que ele sempre pudesse

ornar-se e manifestar um to mais a grandeza que possuía, mas

tannunca

se inebriava com a delícia do

papel que estava realizando. Pavão

fazendo roda ele não era. Em Luís

XIV existe muito do pavão fazendo

roda.

Creio que em São Luís a santidade

dava um quilate à grandeza dele

que a de Luís XIV não tinha. E que

era exatamente uma espécie de sacralidade

maior do que todos os tufos,

perucas, plumas e enfeites de

Não obstante, em defesa de Luís

XIV poderíamos considerar o seguinte.

As comunicações entre os povos

europeus foram se tornando cada

vez mais fáceis e frequentes, à medida

que o banditismo — legado ainda

dos bárbaros que se estendeu mais

ou menos até o fim da Idade Média

— ia se tornando mais raro nas estradas.

Com a diminuição dos riscos, aumentou

muito a circulação de pessoas

entre os países e, consequentemente,

foi-se aprimorando o sistema

de hotéis, dando origem a algo à maneira

de turismo.

O intercâmbio das nações tornou-

-se mais frequente, trazendo consigo

a comparação e a pergunta pontiaguda:

Qual é a primeira nação da

Europa?

Naturalmente estabeleceu-se entre

os países uma rivalidade cuja noção

o homem pragmático de hoje

10


não tem mais, e que era a seguinte:

cada um afirmava a superioridade

de um determinado padrão humano,

de uma determinada luz de alma,

de uma forma de cultura. Houve

uma espécie de luta para tomar uma

forma de influência, e fazer prevalecer

no mundo aquele tipo de perfeições

divinas.

De maneira que não era tanto a

procura da primazia financeira ou

militar, mas a de um certo tipo de alma,

que se pareceria com uma luta

dos Anjos na presença de Deus.

A Alemanha, nessa época, já possuía

uma grandeza militar vista como

um traço de alma; não era a supremacia

militar, mas a do espírito

militar, como uma das componentes

do espírito europeu.

Essa luta chegou ao seu auge no

tempo em que Luís XIV foi rei. E

ele teve o desejo imenso de fazer

vencer o charme, a elegância, a glória,

a língua e o esplendor franceses.

A cada rei competia tomar parte

nessa porfia e levar a grandeza de

seu povo ao máximo. A Luís XIV cabia,

portanto, a missão providencial

de levar o esplendor da França a esse

auge. Isso é uma coisa que não se

pode discutir.

Então, sentindo-se ele um homem

pessoalmente muito dotado, tinha a

obrigação de pôr esses dotes a serviço

desse papel. Ora, tratando-se de

uma porfia, e não de um simples resplandecer

— com São Luís IX era

um resplandecer, não uma porfia —,

compreende-se algo de esticado que

havia na obra de Luís XIV.

Ademais, uma porfia muito dura,

com rivais difíceis de vencer. Por onde

se vê que Luís XIV deitou o corpo

numa coisa que tinha um sentido.

Ele batalhou pela difusão da cultura

francesa, como um rei guerreiro lutaria

pela expansão dos exércitos franceses.

Quer dizer, ele foi na difusão

da cultura o que Napoleão da legenda

teria sido na expansão do Império

francês sobre o resto da Europa.

Assim, naquilo que apreciei com

severidade não desaparece a censura,

porque se vê que essa missão ele

a exerceu sem virtude; mas se percebe

também que se ele tivesse tido

virtude, seria de um tom diferente

de São Luís.

Em meio ao esplendor

e à elegância...

Há um ponto onde se nota particularmente

a falta de virtude de Luís

XIV. Com o favorecimento das estradas,

o cosmopolitismo começava

a nascer. E com o cosmopolitismo, a

procura de um padrão universal válido

igualmente para todos os povos.

Vê-se que Luís XIV não teve virtude

para compreender que uma Rússia e

um Pedro, o Grande, deveriam continuar

a ser o que eram, e se aperfeiçoarem

naquela linha.

Carolus (CC3.0)

Galeria dos Antigos no bosque dos jardins do Palácio de Versailles, em 1688

11


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

altesses.eu (CC3.0)

Cenas da vida de São Luís IX (detalhe)

Catedral de Notre-Dame, Paris, França

ção luzidia, solar, que ela não era anteriormente.

As vistas panorâmicas desenhadas

de Paris, do tempo dos Valois, representam

um casario com muitos restos

do pitoresco medieval, mas, de si,

era uma montoeira de burgueses. Os

nobres moravam em casas um pouco

acasteladas, mas feias, sem brilho.

Levavam uma vida mais rica do

Na sua expansão, o “Rei-Sol” insinuava

que aquilo era um padrão universal

que todos deviam imitar. Ele

considerava que o ser imitado por

todos era o auge dessa porfia. Ora,

tal porfia não precisava ter esse auge,

mas que todos se inspirassem ali

para melhorar características próprias,

conservando os regionalismos.

E Luís XIV quis acabar com os regionalismos

nacionais e de fato os

eliminou.

Não obstante, no sentido cultural

Luís XIV encheu a França da luz dele,

e transformou toda a vida meio

burguesona da França, de maneira a

todo o país ficar luzidio de uma certa

luz de Versailles.

Uma coisa característica: no reinado

dos Valois havia em Paris o

Louvre, com aquela corte muito bonita,

mas fora dela uma cidade completamente

comum, uma maçaroca

de casas com uma ou outra igreja

bonita. Não tinha o esplendor de

vida que Luís XIV lhe deu, que inspirou

nos franceses o desejo de cada

um adornar a sua existência com

uma beleza, uma distinção, proporcionada

a seus meios, fazendo com

que a França inteira ficasse uma naque

o plebeu, mas não com o esplendor

que depois a existência dos nobres

teve.

Luís XIV inaugurou uma coisa na

qual a nação inteira se sentiu interpretada

e subiu até ele. Foi um regente

de orquestra que fez com que

o último francês, do último recanto,

começasse a tocar seu instrumento à

maneira do rei, como se ele dissesse

aos franceses: “França sou eu, França

sois vós. Entrai na minha orquestra

e a França inteira fará ouvir seu

som no mundo!” E foi o que aconteceu.

Resultado: a atração enorme de

gente indo para a França, e a expansão

desse brilho por todo o orbe.

...introduz-se a frivolidade

Gustavo Kralj

Composição representando a sucessão na Casa dos

Bourbons - Museu de Arte Nacional, Londres, Inglaterra

Por outro lado, Luís XIV inseriu

nesse mundo de elegâncias a frivolidade.

O Príncipe de Krue, um grande

militar da corte austríaca que frequentava

muito a corte francesa e

era famoso pelo seu espírito, deixou

memórias nas quais ele conta que,

em sua juventude, quando entrava

um grande marechal num salão,

era o ornato do ambiente e a con-

12


Divulgação (CC3.0)

Capela do Palácio de

Versailles, França

Francisco Lecaros

Poderíamos imaginá-lo com a majestade

do Sagrado Coração de Jesus.

Mas, então, de um rei também

sofredor, penitente, expiante dos

seus próprios pecados em público, e

fazendo penitência descalço, como

fez São Luís! Este teve compunção

dos pecados que não cometeu; e Luís

XIV não se arrependeu dos pecados

que praticou...

Então, na Sexta-Feira Santa, a

magnificência que teria sido ver Lura,

que intoxicou os

reinados seguintes.

Isso tudo começou

do século XVII

para o XVIII. Luís

XIV pôs as premissas,

e no tempo de

Luís XV houve seu

desenvolvimento normal.

Preparava-se a Revolução

Francesa. Então, a frivolidade,

a leviandade francesa, uma porção

de coisas encantadoras seriam quase

uns tóxicos!

Como consertar isso? De que modo

um pregador poderia dizer essas

coisas ao rei, e fazer

com que ele as entendesse?

Há muitas coisas

aqui que nenhum

homem descreve. Mas

uma influência do Sa-

versa toda se acendia. Mas, estando

envelhecido, quando ele entrava era

o funeral do salão. Porque ele trazia

consigo a glória, a seriedade, a força.

E a frivolidade detestava isso. Segundo

ele, tinha iniciado o reino das

mulheres na França. Tudo na França

começou a tomar um caráter feminino.

Sem dúvida, o “Rei-Sol” colocou

a força e a grandeza na ordem

do dia, mas uma força e uma grandeza

tão brilhantes que não se podia

concebê-las no infortúnio, na dor, na

tristeza, na seriedade. E com isso entrou

na França uma identificação entre

charme leve, frivolidade e cultugrado

Coração de Jesus era o único

fato que poderia acertar isso, colocaria

a Europa nos seus trilhos e evitaria

a Revolução Francesa. Teria começado

uma Contra-Revolução admirável!

Situação da Europa: uma

coisa de cortar o coração!

Queda de Jesus durante a Via Crucis

Igreja da Madalena, Jaén, Espanha

13


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

so, e o que se passava na alma dele

depois transporia para fora; era preciso

tê-lo conhecido penitente, para

poder imaginar o tônus cultural que

daí sairia.

Ele daria o tônus, até sem querer.

Afinal de contas, é o espetáculo

de um homem a quem a Providência

incumbiu a tarefa de — por uma

ação de presença, e por vê-lo viver

nesta grande e mundial cena humana

que era a corte dele — dar o curso

ao pensamento de todo um continente.

Mais do que um filósofo, um

maître-à-penser na linha Ambientes e

Costumes, o que eu considero muito

mais importante do que um maître-

-à-penser na linha puramente racional.

Visitando a Europa nesta minha

última viagem, comecei a conferir

todas essas visões, e nasceu uma

grande tristeza.

Por exemplo, a Praça de Siena. Eu

desejei a vida inteira vê-la. Cheguei

numa ocasião em que eram relativamente

poucos os turistas, porque já

estávamos no começo do outono e

essa gente quer saber do verão. Apeís

XIV carregar uma cruz às costas,

para pedir perdão de sua péssima vida

e, diante do povo, penitenciar-se.

Introduzir esse ornamento incomparável,

a Cruz de Nosso Senhor Jesus

Cristo, que é a tristeza e até a derrota

dentro da vida dele.

Creio que, até do ponto de vista

arquitetônico, se entrasse a fundo

uma geminação daquilo que houve

com o senso da cruz, teria saído

qualquer coisa como nós não imaginamos,

mas podemos ter uma ideia

comparando o lado de fora de Versailles

com a capela. A capela de

Versailles não é muito homogênea

com o restante do palácio. Ela é

muito mais bonita do que Versailles.

Aquele teto ligeiramente gótico

da capela de Versailles, com uma

nota à qual não se pode recusar certa

impressão de tristeza, de doçura

régia, tranquila, contemplativa, algo

que se faz em torno do Sacrifício

da Cruz que se renova sempre,

diante de um rei que sofre aflições,

de uma rainha que é uma infeliz, isso

teria acabado marcando Versailles.

O próprio Luís XIV deveria fazer issar

disso, havia muito mais turista do

que eu quereria. O resultado é que a

Praça de Siena me dava a impressão

de invadida por uma ralé, não digo

intelectual nem social, mas como estofo

de espírito. Não havia um espírito

elevado ali.

Quando fomos visitar o Palácio

Municipal por dentro, que é muito

bonito. O tempo inteiro eu pensava:

se Luís XIV e seus sucessores tivessem

sido fiéis, se a Europa tivesse sido

católica, o que se teria irradiado

deste Palácio com suas ogivas, sua

capela, seu salão, suas pinturas… O

que foi cortado na obra de Deus!

Então, a flagelação de Nosso Senhor

Jesus Cristo na Europa é uma

coisa de cortar o coração! Como é

de cortar o coração ver a Torre de

Belém vazia, um esqueleto do qual

saiu toda a carne, e colocada ali à

beira do Tejo. Lindo esqueleto, mas

um esqueleto: aquilo está morto. ❖

(Extraído de conferência de

27/4/1989)

1) Do latim: Aqui toda língua emudeça.

Arquivo Revista

Dr. Plinio na Praça de Siena

em setembro de 1988

14


SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

David Ayusso

O Coração de Jesus

Thiago Tamura Nogueira

no interior do

Coração de Maria

Na época histórica em que o Sagrado Coração de Jesus aparecia

com doçuras de mãe para com o gênero humano, Nossa Senhora

apresentava-Se geralmente como a Rainha da Contra-Revolução.

A nós foi dada a tarefa de fazer uma síntese e encontrar o

Sagrado Coração de Jesus no Coração Imaculado de Maria.

N

ós, seres humanos, estamos

colocados na junção

entre o mundo material

e o mundo espiritual; vemos abaixo

de nós o mundo material em várias

gamas e sabemos pela Fé da existência

do mundo espiritual em muitas

outras gamas. Temos ciência de que

participamos do grão de areia, como

da própria vida divina pela graça.

Percorremos com nossa natureza todas

as escalas.

Superioridade participada

Se temos um senso do ser inocente,

este nos dá uma noção de nossa

própria dignidade que nos faz medir,

em nós mesmos, a superioridade de

nossa alma sobre nosso corpo, e tudo

quanto temos de mais digno por

possuirmos alma, sem que sintamos

vergonha por termos corpo. Mas notamos

tudo quanto há de belo em

possuirmos uma alma, e como ela é

um céu em comparação com nosso

corpo.

Nós sentimos a superioridade de

nosso corpo sobre os animais, as

plantas e os minerais. Percebemos

que é uma superioridade participada.

Eles e nós temos algo de tudo

quanto existe, mas estamos no ápice

da matéria, a tal ponto que somos

uma montanha no alto da qual arde

a chama denominada alma.

Estamos, portanto, num ápice,

mas por cima dessa chama há o céu

inteiro. Então a montanha é ao mesmo

tempo altíssima, porém se medirmos

a distância com as estrelas

veremos que é um “formigueiro”.

Tendo o senso do ser reto a pessoa

sente ordenadamente tudo isso em

si, todas essas grandezas, como todas

essas pequenezes, proporcionando-

-lhe uma espécie de maravilhamento

discreto, interno.

Lembro-me de que isso se deu em

mim, por exemplo, quando pela primeira

vez comecei a pensar a respeito

do olhar humano, o que é o olho humano

e tudo quanto confere de dignidade

ao corpo o fato de ter olhos.

15


SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Acho que realmente a parte mais

sensivelmente nobre do corpo humano

são os olhos. Não se pode negar.

E como o olho é bonito, quanta

coisa exprime! É o único traço que o

homem tem o qual nunca é feio! Pode

existir um olho machucado, doente,

mas um olho feio não há! A fisionomia,

o porte, o passo e tantas outras

coisas são reflexos da alma no

corpo; os olhos espelham a alma.

Consideremos os bichos. Deus

quer que alguns animais inferiores a

nós sejam mais bonitos do que nós;

mas são de uma beleza de segunda

classe. De beleza de primeira classe

somos nós.

O pavão, por exemplo, como ele

é distinto, diplomata, se mexe com

jeitos! Um certo modo que tem o

pavão de jogar para trás a cabeça e

o pescoço; os olhos

quase que se dilatam,

e ele olha de frente e

de cima, com nobreza.

Ele de certo modo

finge não estar vendo

bem as coisas que

se encontram diante

dele, como se estivessem

distantes. Depois

ele se volta bem devagarzinho

para receber

o aplauso das multidões…

É muito bonito!

As mais

marcantes

diferenças

existentes entre

os homens

Possuindo um senso

do ser bem construído,

nós sentimos essas

hierarquias e compreendemos

que umas

estão para as outras

numa forma de relação

que deve encher

de admiração as menores, porém de

uma admiração grata! Porque sempre

que a maior toca na menor não

a humilha, mas a beneficia e honra.

Prestando bem atenção, ao considerarmos

a relação entre nós e os

Anjos, põe-se muito clara a seguinte

pergunta: Como é o Anjo em face de

quem é superior a ele? Ora, superior

a ele, enquanto natureza, só Deus.

Como natureza, Nossa Senhora não

é superior ao Anjo, e nem sequer a

humanidade santíssima de Nosso Senhor

Jesus Cristo.

As mais marcantes diferenças que

há entre os homens são de ordem sobrenatural.

É o batizado para o pagão,

depois o clérigo para o leigo.

São relações como que divinas.

Somos membros do Corpo Místico

de Cristo e em nós vive a graça

de Deus; somos templos do Espírito

Santo, escravos de Maria Santíssima,

filhos d’Ela, portanto, a um título e

de um modo todo particular.

Nós estamos para um pagão, na

ordem da graça, mais ou menos como

na ordem da natureza o Anjo está

para nós. Somos “anjos” para um

pagão. E um pagão que dissesse a

um de nós: “Vou dar-lhe uma bofetada

porque você é batizado”, ele esbofetearia

em nós o sacramento do

Batismo conferido indelevelmente.

Sobretudo o bispo, que possui a

plenitude do sacerdócio, é como que

Deus para nós. Ele ensina, governa

e santifica. Todos os sacramentos, toda

verdade, a direção de nossos passos

no rumo da vida eterna vêm por

ele. É como que Deus presente entre

nós, e algo de divino habita o bispo.

Na ordem natural

há algo disso na relação

pai-filho. Mas

a Doutrina Católica

sempre entendeu

Jonathan Wilkins (CC3.0)

que honrar pai e mãe

é honrar adequadamente

todas as autoridades,

na medida em

que elas tenham um

poder análogo à paternidade,

por exemplo,

o patrão, enfim,

todos os superiores

devidamente. Porque

quando a autoridade

é de um certo gênero,

ela participa, na ordem

natural, de uma

superioridade análoga

— não idêntica — à

superioridade existente

nas relações Deus-

-homem.

É isto que devemos

saber reconhecer nos

nossos superiores, e

tocá-los, inclusive fisicamente,

com respeito,

porque neles habita

isso.

16


Gustavo Kralj

Interior da Igreja do Gesù - Roma, Itália

Respeitabilidades amigas, o

contrário da luta de classes

Dou um exemplo claro de ver: o

professor e o bedel num colégio. O

professor, enquanto está dando aula,

tem uma superioridade pura e simples

sobre o aluno. O bedel possui

uma superioridade, mas uma superioridade

que até é um título de inferioridade.

Ele é um empregado do

colégio para tomar conta dos alunos

e, portanto, não imita, a não ser de

um modo muito indireto, um vislumbre,

o poder de Deus. Mas o poder

do professor imita o poder de Deus,

e um aluno que esbofeteasse seu

professor, enquanto este ensina, pecaria

contra Deus.

Sirvo-me, agora, de uma metáfora

muito familiar: a nata e o leite.

Uma quantidade abundante de

leite de alta qualidade posta numa

panela, por exemplo, dá origem, por

um lento, discreto e nada artificial

processo de diferenciação, à nata

que fica acima dele e constitui uma

camada. Se cada gota de leite pudesse

falar, diria para a dona de casa:

“Olhe a nata!” E se a dona de casa

sorrisse para a nata, esta falaria:

“Mas olhe também de que leite eu

fui formada!”

Disseram-me — e me parece bem

provável — que as qualidades do ar

têm algum efeito para a formação

da nata. Logo, o céu atmosférico, a

seu modo, age sobre o leite para que

destile a nata. Portanto, esta não é

puro produto do leite, mas do leite

“tocado” pelo céu.

E notem: isso ocorre na ordem

meramente natural, mas que nos

ajuda a ter uma ideia do que significa

essa superioridade divina, do que

é Deus em relação a nós, e o que é

um de nós perto de Deus, para compreendermos

todos os abismos onímodos

de inferioridade e de hierarquia

e, depois, os graus intermediários

como são.

Tomemos outro exemplo: o mármore.

Dir-se-ia que o mármore é nata

da terra, reservada por Deus em

blocos e dada aos homens para fazerem

suas igrejas, seus monumentos,

palácios etc. Por isso eu falo do mármore

com respeito.

Esta visão do mundo como uma

espécie de jogo de respeitabilidades

amigas, que se perdem quase ao infinito,

é o contrário da luta de classes.

Respeitabilidades amigas que a

mil títulos reluzem aos olhos do homem,

fazendo entender tudo quanto

vai desde a pequena respeitabilida-

de do bedel, quando ele transitoriamente

dirige a fila, até a autoridade

de um reitor de universidade. Há mil

aspectos da superioridade que ficam

cintilando como estrelas no céu, cada

uma com um brilho próprio e, no

fundo, cantando a glória do Superior

dos superiores que é Deus.

Resolvendo um

problema até o fundo

Tive um professor que, em certa

ocasião, pôs a seguinte questão, de

um modo inteligente e atraente:

“Nós existimos para Deus, mas

hoje em dia não se tem uma ideia

clara do que significa existir para

alguém. Por isso, vou dar-lhes um

exemplo. Se uma galinha tivesse inteligência,

ela de tal maneira saberia

ter sido criada para ser comida

por um homem que, enquanto estivesse

no galinheiro, ficaria frustrada

de ver as outras galinhas irem para

a panela e ela não. Agora, qual seria

a reação dessa galinha inteligente

quando fosse chamada para a panela?

Seria uma reação de pavor, porque

nenhum ser escapa ao instinto

de conservação; ou uma sensação de

alegria, porque afinal seria comida

por um homem?”

17


SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Francisco Lecaros

Anunciação - Museu de Belas

Artes, Dijon, França

Ele dizia que a galinha, ao

se imaginar comida, sentiria

ao mesmo tempo o horror e

o gáudio da imolação, e saparecia num sentimento

dete

para Deus, mas não para

ser comido por Deus. Aquele

que é o fim do ser inteligente é

tão superior a este que não o mata,

mas lhe dá a vida. Isso o professor

não soube dizer; donde um certo

mal-estar que a pergunta causava.

Entretanto, este ponto me parece

contraditório.

De fato, ele não resolveu

o problema até o fundo.

O professor imaginava

uma hipótese absurda

de um ser que, ao mesmo

tempo, é inteligente e mero

animal. Daí as reações

são contraditórias, porque

o ser inteligente exis-

que ele viu bem: se a galinha fosse

capaz de conhecer o homem, ela reconheceria

nele, com encanto, o seu

dono.

Quando o homem, por exemplo,

agrada um cachorro, o animal toma,

muitas vezes, uma atitude deliciosamente

submissa, o que é um símile

da posição que tomaríamos em relação

a um Anjo. Um vegetal que pudesse

sentir e compreender faria o

mesmo com um animal, e um mineral

a mesma coisa com um vegetal.

Há uma regra que forma um certo

gênero de relação que, conservadas

as proporções, é sempre de sentir-se

pequeno, mas repleto de honra.

Subindo ao ápice da Criação, vemos

isso até nas relações de Nossa

Senhora com Deus. Convidada a um

título muito especial para ser Filha

do Padre Eterno, Mãe do Verbo e

Esposa do Espírito Santo, a resposta

d’Ela foi: “Ecce ancilla Domini —

Eis a escrava do Senhor” (Lc 1, 38).

Ela Se sente muito pequena, porque,

de fato, diante de Deus ainda

que seja Ela, é-se infinitamente pequeno.

Então um gesto, uma postura

de respeito deliciado é uma atitude

de alma que hoje as pessoas quase

não sabem mais medir.

O Menino Jesus vivo no

coração de Santa Gertrudes

Ora, o Sagrado Coração de Jesus

tem algo que predispõe o espírito

em todas as gamas para essa posição.

Evidentemente, as pulsações mais

sublimes do Sagrado Coração de Jesus

eram quando Ele rezava. As orações

d’Ele citadas no Evangelho eu

acho tudo quanto há de mais bonito!

Sempre o modo de dizer “Pai” sai

com uma grande doçura e, ao mesmo

tempo, tão honrado de ser Filho

d’Aquele Pai. Ele, como Homem, dizendo

“Pai” é quase que rezando para

a sua própria natureza divina. É uma

coisa tão bonita que prepara a alma

para receber essas superioridades genéricas

com uma espécie de devoção

carinhosa e cheia de veneração.

É interessante notar que no período

em que o Sagrado Coração de

Jesus aparecia com doçuras de mãe

para com o gênero humano, em

suas manifestações Nossa Senhora

apresentava-Se menos

como Mãe de Misericórdia

do que como a Rainha da

Contra-Revolução e preparando

a batalha. Ela é

castrorum acies ordinata 1 .

Com exceção de duas

aparições d’Ela no século

XIX — uma enquanto

Nossa Senhora das Graças,

em Paris, para Santa

Catarina Labouré, e ou-

tra na Igreja do Miracolo,

que é uma reversão, cor-

responde à mesma devoção,

mas são dois milagres diferentes

—, essa sensação de misericórdia

requintada Maria Santíssima

dá menos do que manifestava

aos medievais, a São Bernardo, por

exemplo.

Mesmo em Lourdes, onde a Santíssima

Virgem difunde a misericórdia

como sabemos, a nota dominante

é a apologética. Diante dos séculos

de ateísmo, Ela entra em luta contra

este produzindo milagres a jorro e

confirmando a Imaculada Conceição.

A nós, porém, foi dada a tarefa de

fazer uma síntese e encontrar o Sagrado

Coração de Jesus no Coração

Imaculado de Maria.

Certa ocasião observei uma pintura

representando Santa Gertrudes em

cujo coração se via o Menino Jesus, o

que deveria fazer referência a algum

fenômeno místico que se deu com ela.

Se é legítimo apresentar o Menino

Jesus vivo no coração de Santa

Gertrudes, a um título muito mais literal,

muito mais cogente, com outra

ênfase, é legítimo mostrar o Coração

de Jesus dentro do Coração Imaculado

de Maria. É claro! E nós encontraremos

tudo quanto estou dizendo

— e muito mais — emoldurando o

Sagrado Coração de Jesus dentro do

Coração Imaculado de Maria.

De todas as boas imagens de Nossa

Senhora que conheço, nenhuma

18


Francisco Lecaros

delas me satisfaz inteiramente, porque

não visam apresentar Jesus vivendo

em Maria, concebendo tanto

quanto possível a Santíssima Virgem

como parecida com Nosso Senhor,

fisicamente, mas de uma semelhança

que era apenas uma imagem da similitude

espiritual.

Sabe-se que muitos cristãos queriam

conhecer São Tiago porque

era primo de Jesus e muito parecido

com Ele. Ora, se assim ocorria com

São Tiago, primo em segundo ou

terceiro grau de Nosso Senhor, imagine

com Nossa Senhora o que era

essa semelhança!

Eu me pergunto se não seria uma

graça do Reino de Maria algum artista

ou algum místico chegar a imaginar,

na perfeição, uma imagem de

Nossa Senhora inteiramente “cristiforme”,

mas conservando toda a delicadeza

da natureza feminina. Porque

nós vemos isso pelo Santo Sudário:

Ele era Varão, no sentido mais

nobre da palavra; Ela, Mãe e Senhora,

Dama e Rainha. Saber representar

essa variedade em uma versão

marial de Nosso Senhor!…

Santa Gertrudes - Museu de Arte

Religiosa, Puebla, México

Assim, mesmo cenas da vida de

Nosso Senhor se tornam muito mais

cheias de vida e muito mais explicáveis.

Por exemplo, os dois se abraçando

na hora do encontro da Via Sacra,

com essa semelhança de corpo e

de alma entre ambos. Ele com a face

como que d’Ela, desfigurada; e Ela

com a face como que d’Ele, íntegra.

De maneira que se olhava e percebia-

-se o contraste. Ela nobremente invadida

pelo pranto sem que nada A descompusesse,

e Ele aviltado pelas bofetadas

e pela dor sem que nada Lhe

diminuísse a majestade.

Um ósculo de Nosso

Senhor na França

Quando falo com calor de Luís

XIV e da devoção que ele deveria ter

tido ao Sagrado Coração de Jesus, há

pessoas que julgam entrar nisso uma

espécie de atitude mundana, ou pelo

menos terrena. Mas não é. A razão é

que eu vejo nele o lampadário perfeito

onde a lamparina do Sagrado Coração

de Jesus deveria ter sido acesa.

Se ele fosse o devoto perfeito do

Sagrado Coração de

Jesus, nós teríamos tido

uma figura de homem

como não houve

na História.

Para compreender

o “meu” Luís XIV, a

“minha” Versailles e o

“meu” Ancien Régime

é preciso entendê-los

enquanto o Rei-Sol

tendo sido fiel. E mais:

foi no reinado de Luís

XIV que São Luís

Grignion de Montfort

construiu o calvário

dele, pregou aos

camponeses e que Marie

des Vallées 2 fez a

troca de vontades com

Nosso Senhor. Isso tudo

tenderia a uma só

coisa.

Então, era preciso concebê-lo

criando uma atmosfera pela devoção

ao Coração de Jesus, onde a escravidão

a Nossa Senhora tivesse voado

como uma águia em céu próprio.

É uma coisa maravilhosa! Não se

tem ideia do que a infidelidade de

meia dúzia de almas rateou na ocasião...

Não se tem ideia da oportunidade

perdida!

A partir disso fica compreensível

também o meu furor contra a Revolução

Francesa.

O Dauphin Luís 3 mandou colocar

atrás do altar da capela do palácio

uma imagem do Sagrado Coração de

Jesus. Ele não teve a audácia de colocar

na frente...

Mas isso significa durante quantas

gerações se manteve a ideia de

que uma consagração ainda salvaria

a França. E a consagração que Luís

XVI fez da França ao Sagrado Coração

de Jesus, na Torre do Templo,

prova que ele ainda levava no espírito

essa ideia de que, se correspondesse,

poderia ter salvado o país.

Durante todo esse tempo, a Casa

Real e o Ancien Régime conservaram

uma capacidade de receber. Essa receptividade

era um ornato, e aquela

possibilidade, naquele tempo, um lumen.

O grande pranto pela Revolução

Francesa era o da esperança que não

se realizaria mais, e pela extinção

desse lumen que acompanhou a Casa

Real até o fim.

A devoção ao Sagrado Coração

de Jesus ficou com uma ligeira nota

francesa, é um ósculo de Nosso Senhor

na França.


(Extraído de conferência de

20/9/1980)

1) Do latim: exército em ordem de batalha

(Ct 6, 10).

2) Mística francesa (*1590 - †1656).

3) Luís Fernando de França, Delfim de

França (*1729 - †1765), filho de Luís

XV e pai de Luís XVI.

19


Francisco Lecaros

CALENDÁRIO DOS SANTOS ––––––

4. XXIII Domingo do Tempo Comum.

Santa Ida da Saxônia, viúva

(†825). Casada com o Conde Ecbert

de Herzfeld, dedicou-se ao cuidado

dos pobres e à construção de igrejas

e mosteiros.

11. XXIV Domingo do Tempo Comum.

São Paciente, bispo (†480). Na

Diocese de Lyon, França, empenhou-

-se a fundo no apostolado de conversão

dos hereges e de assistência aos

necessitados.

São Tomás de Villanueva

1. Santa Verena, virgem (†séc. IV).

Nascida no Egito, instalou-se na região

de Zurzach, atual Suíça, onde

passou o resto de sua vida cuidando

dos pobres e dos leprosos.

2. Beato Brocardo, religioso

(†c. 1231). Prior dos eremitas do Monte

Carmelo, na Palestina, aos quais São

Alberto, Patriarca de Jerusalém, deu a

primeira regra da Ordem Carmelitana.

3. São Gregório Magno, Papa e

Doutor da Igreja (†604).

São Rimágilo, bispo e abade (†c.

671-679). Ainda jovem, foi eleito abade

de Solignac, França. Fundou os

mosteiros de Stavelot e Malmedy.

5. Santos Urbano, Teodoro, Menedemo

e companheiros, mártires

(†370). Por ordem do imperador Valente

foram introduzidos numa nave

em Nicomédia, na atual Turquia, e

queimados vivos em alto-mar.

Beato Guilherme Browne, mártir

(†1605). Foi condenado à morte no

reinado de Jaime I da Inglaterra, por

haver convertido outros ingleses à Fé

Católica.

6. Beato Miguel Czartoryski, presbítero

e mártir (†1944). Sacerdote da

Ordem Dominicana, fuzilado em Varsóvia,

Polônia, por não abdicar da Fé.

7. Santo Estêvão de Châtillon, bispo

(†1208). Monge cartuxo nomeado

Bispo de Die, França. Governou santamente

a diocese sem abandonar a

austeridade da vida monacal.

8. Natividade de Nossa Senhora.

São Tomás de Villanueva, bispo

(†1555). Religioso agostiniano, grande

pregador, aceitou por obediência o

episcopado de Valência, Espanha.

9. São Pedro Claver, presbítero

(†1654).

Beato Jorge Douglas, presbítero

e mártir (†1587). Sacerdote escocês

condenado à morte em York, durante

o reinado de Isabel I.

10. Santo Ambrósio Eduardo Barlow,

presbítero e mártir (†1641). Sacerdote

beneditino, por vinte e quatro

anos consolidou a Fé dos católicos da

região de Lancaster, Inglaterra. Foi

preso e executado em Londres.

12. Santíssimo Nome de Maria.

São Francisco Ch’oe Kyŏng-hwan,

mártir (†1839). Catequista preso, torturado

e morto em Seul por defender

os católicos e encorajá-los para o

martírio durante as perseguições na

Coreia.

13. São João Crisóstomo, bispo e

Doutor da Igreja (†407).

Santo Amato, bispo (†c. 690). Bispo

de Sion, Suíça, desterrado por ordem

do rei Teodorico III. Sob falsas

acusações, morreu no exílio.

14. Exaltação da Santa Cruz.

Santo Alberto, bispo (†1215). Patriarca

de Jerusalém. Deu uma regra

aos eremitas do Monte Carmelo e,

enquanto celebrava a festa da Santa

Cruz, foi assassinado por um homem

cuja má conduta havia censurado.

15. Nossa Senhora das Dores.

Santa Catarina Fieschi, viúva

(†1510). Nascida no seio de uma das

principais famílias de Gênova, tornou-se

insigne pelo seu amor a Deus

e caridade para com os necessitados,

após ter levado uma vida frívola e

mundana.

16. São Cornélio, Papa (†253), e

São Cipriano, bispo (†258), mártires.

Santa Edith de Wilton, virgem (†c.

984). Filha do rei Edgar da Inglaterra,

consagrou-se a Deus num mosteiro

desde a mais tenra idade.

17. São Roberto Belarmino, bispo

e Doutor da Igreja (†1621).

São Sigismundo Félix Feliński,

bispo (†1895). Da sua Diocese de

20


––––––––––––––– * SETEMBRO * ––––

Sergio Hollmann

Varsóvia, Polônia, promoveu uma

ampla renovação religiosa e moral da

nação. Fundou o Instituto das Irmãs

Franciscanas da Família de Maria.

18. XXV Domingo do Tempo Comum.

Santa Ricarda, imperatriz (†c.

895). Após enviuvar-se, ingressou na

abadia de Andlau, onde passou o resto

de seus dias em orações e obras de

caridade.

19. São Januário, bispo e mártir

(†séc. IV).

Beata Francisca Cualladó Baixauli,

virgem e mártir (†1936). Simples

costureira, recitava o Rosário e participava

da Eucaristia diariamente. Foi

fuzilada em Benifaió, Espanha.

20. Santos André Kim Tae-gon,

presbítero, Paulo Chong Ha-sang

e companheiros, mártires (†1839-

1867).

Beato Tomás Johnson, presbítero

e mártir (†1537). Religioso da Cartuxa

de Londres. Morreu de fome e de

enfermidades na prisão onde foi jogado

por ordem de Henrique VIII.

21. São Mateus, Apóstolo e Evangelista.

Santa Maura, virgem (†c. 850).

Nobre de Troyes, França, que com suas

orações e exemplo alcançou a conversão

de seu pai.

22. Santo Inácio de Santhià Belvisotti,

presbítero (†1770). Capuchinho

italiano, destacou-se como confessor,

diretor de almas e formador

dos noviços.

23. São Pio de Pietrelcina, presbítero

(†1968).

Beatos Cristóvão, Antônio e João,

mártires (†1527-1529). Jovens indígenas

mortos em Tlaxcala, México,

durante a primeira evangelização da

América, por ajudarem a propagar a

Fé cristã.

24. Beata Colomba Gabriel, abadessa

(†1926). Vítima de calúnias,

deixou o cargo de abadessa do mosteiro

beneditino de Lviv, Ucrânia,

e viajou para Roma, onde fundou a

Congregação das Irmãs Beneditinas

da Caridade e a obra social chamada

Casa da Família, para jovens operárias

pobres.

25. XXVI Domingo do Tempo Comum.

Beato Marcos Criado, presbítero

e mártir (†1569). Religioso trinitário

espanhol, lapidado pelos mouriscos

nas montanhas de Alpujarras, Espanha.

26. Santos Cosme e Damião, mártires

(†c. séc. III).

Beato Luís Tezza, presbítero

(†1923). Fundou em Roma a Congregação

das Filhas de São Camilo. Faleceu

no Peru, onde foi enviado em missão.

27. São Vicente de Paulo, presbítero

(†1660).

Santo Elzeário de Sabran (†1323).

Filho de uma das principais famílias

da Provença, França, herdou o condado

de Ariano, perto de Nápoles. De

comum acordo com sua esposa, a Beata

Delfina, praticou a virgindade e

todas as outras virtudes durante o casamento.

28. São Venceslau, mártir (†929/935).

São Lourenço Ruíz e companheiros,

mártires (†1633-1637).

Beato Nicetas Budka, Bispo e mártir

(†1949). Bispo Auxiliar de Lviv,

dos Ucranianos, deportado a um

campo de detenção no Cazaquistão,

onde suportou com força de ânimo as

adversidades por amor a Cristo.

29. São Miguel, São Gabriel, São

Rafael Arcanjos. Ver páginas 2 e 26.

30. São Jerônimo, presbítero e

Doutor da Igreja (†420).

Beata Felícia Meda, abadessa

(†1444). Religiosa clarissa, superiora

do Mosteiro de Santa Úrsula, em Milão,

e do Mosteiro Corpus Domini, de

Pesaro, Itália.

São Jerônimo

Francisco Lecaros

21


O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

Arquivo Revista

Plinio aos 2 anos

de idade

Inocência primaveril

e noção do Céu

A Revolução faz o possível para eliminar a inocência da idade

infantil pela glorificação da travessura. O menino que afunda nas

vias revolucionárias é travesso; depois será impuro e posteriormente

revoltado; por fim ele se vende à Revolução. Mas se ele se arrepender

e amar a Cruz poderá restaurar sua inocência.

H

á na infância uma idade

primeira na qual não se

perdeu a inocência e, tanto

quanto eu possa ver, o conceito de

sofrimento, de dor não entra, porque

se está na alegria primeira.

Desejo de uma felicidade

extraterrena

Essa atmosfera dá à criança o

desejo de uma felicidade inteira,

que é uma espécie de estopim pa-

ra arrojar os cælestia desideria 1 .

Quer dizer, nunca mais na vida a

pessoa conseguirá aquela felicidade

que teve na infância, mas ficou

com a ideia de uma felicidade extraterrena.

22


Francisco Lecaros

O que é “ideia” aqui? É um desejo

e uma compreensão de uma dimensão

própria, extraterrena, para

uma felicidade extraterrena, que

ela nunca mais terá, mas que lhe

faz compreender que isso deve existir

em algum lugar. E lhe abre a alma

para aceitar a Doutrina Católica

sobre o Céu e também para o desejo

de coisas que não estão na Terra.

Essa inocência primaveril dá à alma

a primeira noção do Céu que ela

deve alcançar. É uma coisa muito

bonita, muito adequada.

Poder-se-ia perguntar, considerando

o sentido corrente de Mística

— não para as almas privilegiadas,

mas para as comuns —, se não

há muito de místico dentro disso.

Em determinado momento essa

sensibilidade passa e não volta mais,

a não ser à maneira de graças atuais,

de vez em quando. Então, por exemplo,

no dia da Primeira Comunhão,

ou outras circunstâncias análogas.

Contudo, já não é inteiramente a

mesma coisa, pois no começo era um

estado habitual da alma.

E quanto mais alegre tenha sido a

criança nesse período, maior é a cruz

para a qual ela está sendo preparada,

porque ficará nela, para toda a

vida, uma noção mais ou menos subconsciente

de perda irremediável,

fazendo-a sentir-se expatriada.

A travessura contém em si

um germe de Revolução

Meninos procurando ninhos - Academia de Belas

Artes de São Fernando, Madri, Espanha

Meninos brincando - Academia de Belas Artes

de São Fernando, Madri, Espanha

Compreende-se bem a necessidade

eminente que tem a Revolução

de cortar o mais possível essa época

primaveril, o que ela consegue pela

glorificação da travessura. A travessura

dita “inocente” mata essa fase,

como mais tarde a impureza matará

a adolescência.

O grande sofisma, a grande abominação

da travessura surge quando

essa alegria começa a se eclipsar.

Ora a travessura provoca o eclipse,

ora é este que leva a criança a apelar

para a travessura, porque, como

aquilo não existe mais, há uma espécie

de tendência para revoltar-se, para

ficar inconformada, para criar caso,

que a levará até não se sabe onde.

Essa tendência é particularmente

acentuada nos lares que têm muitos

filhos.

A criança sozinha, por exemplo,

numa casa onde tenha um só menino

e muitas meninas, o menino sozinho

conserva mais tempo a inocência

e entra menos na travessura.

Quando são muitos meninos, a tentação

da travessura, para o quebra-

-quebra, para a bagunça, é torrencial!

E é difícil um conservar o seu

amor à ordem, dentro da bagunça de

cinco, seis irmãos homens. Naturalmente

é possível, mas eu quero dizer

que é difícil, não é uma circunstância

favorável, propícia.

Agora, a travessura já contém em

si um germe de Revolução. É o gosto

de ter tirado alguma coisa de sua determinada

ordem, de ter quebrado,

e de se regalar em ver a coisa partida.

O que lanha a alma inteiramente

inocente, regala a alma travessa.

Um menino que afunda pelas vias

da Revolução é travesso, depois será

impuro e posteriormente revoltado.

Pode-se dizer que são fases: travesso,

impuro, revoltado. A seguir,

de revoltado ele passa a ser inerte

nos pontos em que era revoltado, e

se vende à Revolução.

Francisco Lecaros

23


O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE DR. PLINIO

Francisco Lecaros

Família no jardim - Museu Provincial, Pontevedra, Espanha

Pelo contrário, com um menino

que conserva a sua inocência, isso é

diferente. A noção de que aquela atmosfera

não volta se transforma em

saudade. Mas essa saudade, que é a

cruz que vem nascendo — aqui está

algo muito sutil —, em virtude do

senso do absoluto, conjuga-se com

uma sensação de perenidade daquela

atmosfera, indicando-lhe que ela

voltará, não desaparecerá definitivamente,

e que ele tem uma certa forma

de fidelidade àquilo, por onde,

de algum modo, aquela alegria permanecerá

dentro de sua alma.

O mundo tende

continuamente para o mal

A partir desse momento, aquela

alegria que ele continua a carregar

começa a tomar matizes lilases,

violáceos, tristonhos que, entretanto,

não extinguem no fundo da alma

dele a alegria, mesmo quando vão se

acumulando as provas, as dores, as

tristezas, a ponto de ele se espantar

com o tamanho do fardo a carregar

em tão verdes anos.

Então, aí se dá ecce in pace amaritudo

mea amarissima (Is 38,17). Aí a

pessoa carrega na paz uma amargura

muito amarga. É terrível, mas é assim.

E começa a aparecer uma coisa

nova; e sobre esse ponto eu gostaria

muito de fazer uma insistência.

Quando a pessoa é inocente na

primeira infância, ela possui uma

noção da sua própria inocência, que

tem uma espécie de continuidade

com o Céu. Em virtude do que expliquei

há pouco, vai se formando uma

descontinuidade com o Paraíso, porque

este vai ficando remoto e, se não

fosse o senso do Absoluto, a pessoa

naufragava. Senso do Absoluto, bem

entendido, a Fé, sem a qual esse senso

não subsiste.

Na medida em que a pessoa se

afirma assim na fidelidade à inocência,

vai nascendo nela, junto com essa

dor, uma noção de transcendência

que não é muito clara no período anterior,

no qual a pessoa tem a impressão

de que é cidadã do Céu, que nasceu

para aquilo naturalmente. Nessa

nova fase, a pessoa vai compreendendo

que aquele valor absoluto pelo

qual ela está disposta a empenhar

todas as fidelidades, e que fora expulso,

exilado da Terra, aquele valor jamais

deixará de existir. E é tão transcendente

que, expulso, ele se refugia

nas suas alturas; negado, reveste-se

de sua própria tristeza e vai receber

o holocausto dos que vivem para ele.

Ora, pelo menos depois do pecado

original, é só com esse holocausto

de si mesmo e de todas as coisas que

a transcendência se afirma.

Evidentemente, a Fé dá a isso tudo

a explicação, instala-o amorosamente

na mente do homem. Acaba

sendo que o homem adquire a convicção

de que este mundo totus in

Maligno positus est (cf. 1Jo 5, 19). Este

mundo, mesmo quando se está em

uma Civilização Cristã e no Reino

de Maria — é preciso notar bem isso

—, totus in Maligno positus est.

Quer dizer, neste mundo impera

habitualmente, como força preponderante,

o demônio. Ele é o príncipe

deste mundo e o domina. A razão

disso é que, por quase todas as

suas espontaneidades e mecanismos,

o mundo tende continuamente

para o mal. De maneira que, no

ápice do Reino de Maria, deve-se

ter um cuidado contra o Maligno,

uma coisa de desconcertar os papalvos

de hoje em dia.

Assim, o homem de valor não é o

despreocupado, que não sente o fardo

desta vida. Este não serve para

nada. Tem valor a alma que carrega,

dourando a sua fronte, a “coroa de

espinhos” dessa elevada tristeza.

A perda da inocência

pode ser total ou parcial

Eu cheguei a conhecer modelos

disso, muito sensíveis até, que indicam

bem o papel da cruz e da tristeza

na vida do católico. Então, por

exemplo, um adoece; a reação normal

não é a choradeira. Está no orçamento,

acontece que as pessoas, às

vezes, adoecem de repente. Outro ficou

cego repentinamente; não pense

que o mundo acabou. Isso pode suceder

a qualquer pessoa.

E nós já abrimos dentro de nossa

alma créditos e verbas para o caso de

isso acontecer. O sujeito já pensou:

“Pode me acontecer isso, aquilo, e

aquilo outro… Meu coração está

preparado. Aconteceu, vamos continuar

a viver!” É o normal da vida.

24


Quando o indivíduo é assim, torna-se

incapaz de se homogeneizar

com algum sucesso do mundo da Revolução.

Não o querem e, sobretudo,

ele não quer, pois tem a sensação de

ser um vendilhão, se fizer isso.

Essa é a história da alma que ficou

fiel.

Talvez vários dentre nós tenhamos

algo a corrigir em nosso interior, nesse

sentido. E enquanto não refizermos

nossas próprias memórias, num

grande mea culpa, puramente interno,

por onde saibamos no que estamos

errados para nos retificar, não

acertamos o passo. Quer dizer, o indivíduo

vai sofrendo uma espécie de

soma das idades: ele é traquinas, vai

ser impuro, depois revoltado e venal.

Ora, partindo do outro extremo e

voltando do mais velho para a infância,

a pessoa será menos venal se for

capaz de condenar a sua própria impureza;

poderá melhor condenar sua

própria impureza se condenar sua

traquinagem. E tudo isso ela condenará

melhor se compreender que essas

coisas a afastaram da “coroa de

espinhos” que deveria ter levado, ou

seja, da ideia da vida-sofrimento, da

vida-cruz que a pessoa abandonou

quando perdeu as esperanças, com

a graça da inocência que se tornou

menos sensível, e com os fatores de

fora que começaram a combatê-la.

É a volta do filho pródigo. Mas

começa pelo conhecimento. Enquanto

não houver o conhecimento

bem adquirido, o entulho de ideias

erradas vai tão longe, que qualquer

coisa é impossível.

Naturalmente isso não exclui a

possibilidade de que, em certos casos

especiais, isso se dê numa rapidez

fulminante. Mas ocorre, em todo

caso, nessa linha.

É a hora em que, por exemplo, o

eremita dos antigos tempos vai para

a gruta, e é tentado, escala a montanha

durante o dia, sob o sol, e vai

daí para fora… Isso é admirável, é o

processo da conversão!

A perda da inocência dá-se de

dois modos: total ou parcial. Não

pensem que a perda da inocência

parcial — a perda total qualquer

um entende como é — significa ficar

com uma meia inocência, quer dizer,

uma alma na qual toda a inocência

baixa de fio. Não é, não.

Certos aspectos da alma guardam

a inocência, enquanto outros

aspectos a perdem. E pode acontecer

que a mesma alma conserve

em alguns pontos uma inocência

adamantina, enquanto para outros

pontos, essa mesma alma está muito

prevaricada.

Dou um exemplo. É possível que

alguém caia muito baixo em matéria

de pureza, mas conserve na alma

uma boa parte da admiração pela

castidade que ela possuía quando

era pura. Às vezes sucede que,

mesmo no mais profundo da baixeza,

ela ainda tenha esse entusiasmo

pela pureza. Nesse caso, ela conservou

um naco de inocência, mas naquele

naco pode ser que a inocência

seja cristalina. Isso faz dessa alma

algo muito diferente da alma que

não caiu tanto, mas perdeu completamente

a nostalgia da inocência.

Creio que, em geral, o “thau” 2

baixa sobre a alma que conserva pelo

menos uns pedúnculos de inocência.

A alma que, pelo contrário, ficou

acinzentada e perdeu todos os

pedúnculos de inocência, parece-me

difícil o “thau” baixar sobre ela.

Pode ser que haja primeiro uma

conversão para a pessoa readquirir

algo dessa inocência, depois vem o

“thau”. Mas diretamente baixar sobre

o medíocre, mediano, o qual acha

que esta vida é muito boa, não é um

vale de lágrimas, aqui se pode construir

a felicidade, e o mundo é uma

festa, uma gargalhada, etc., sobre este

eu acho que o “thau” não baixa.


(Extraído de conferência de

18/11/1983)

1) Do latim: desejos das coisas celestes.

2) Denominação da última letra do alfabeto

hebraico, a qual tinha a forma

de uma cruz. Baseando-se no capítulo

9 da profecia de Ezequiel, Dr.

Plinio empregava esse termo a fim de

indicar um sinal marcado por Deus

nas almas das pessoas especialmente

chamadas a rezar e agir pela derrota

da Revolução, vitória da Igreja e implantação

do Reino de Maria.

Cenas da vida de um eremita do deserto (por Paulo Brill)

Francisco Lecaros

25


HAGIOGRAFIA

A Inter-relação entre

os Três Arcanjos

Gustavo Kralj

São Gabriel, São Rafael e São Miguel, tendo sido líderes

contra a Revolução chefiada por Lúcifer, no Céu, ajudam

possantemente os contrarrevolucionários na Terra. Dr.

Plinio discorre sobre a inter-relação das missões desses três

Arcanjos com vistas ao Reino de Maria.

P

oderíamos nos perguntar que

relação existe entre as tarefas

dos três Arcanjos: São Miguel,

São Gabriel e São Rafael.

Primazia por natureza

26

Coroação de Maria Santíssima

(por Fra Angelico) - Galleria

degli Uffizi, Florença, Itália

Parece que eles constituem uma

espécie de circuito fechado, uma totalidade,

como que uma trindade.

Como essa “trindade” se prende

ao conjunto do mundo angélico?

Por exemplo, são eles Serafins? Tanto

mais que para calcular as missões e as

importâncias deles, entram duas ordens

de valores distintas: uma é o que

eles são por natureza; outra é a conduta

deles durante a prova, porque

é certo que os três se conduziram de

um modo perfeito naquela ocasião.

Mas a perfeição tem graus e, por

exemplo, São Miguel vê-se que foi

superexímio na prova. Alguém comentou

comigo que São Luís Maria

Grignion de Montfort diz ter sido

São Miguel aquele que teve mais

amor a Nossa Senhora durante a

prova, e por isso foi mais combativo.

Trata-se de uma primazia por causa


Gustavo Kralj

Anunciação - Igreja Trinità del Monte, Roma, Itália

da atitude durante a prova, o que é

diferente do primado por natureza.

Então haveria dois títulos de primazia

diversos para considerar. Vamos

tratar aqui apenas das relações

de natureza a natureza, e não vamos

considerar a primazia efetiva como

ela existe no Céu, posta a reação durante

a prova.

Na primazia por natureza nós poderíamos

ver o que e como eles fazem,

e assim entender como se completam

na tríade.

São Gabriel:

conhecimento amoroso

São Gabriel é aquele que comunica

o conhecimento de Deus. Daí o

papel dele na Encarnação. São Rafael

é quem ajuda os homens nas dificuldades

da vida, e São Miguel o que

os auxilia na luta.

O conhecimento de São Gabriel

é evidentemente todo amoroso, não

é um puro conhecimento abstrativo,

teórico, doutrinário.

Que relação existe, então, entre

as formas de ser desses Anjos?

27


HAGIOGRAFIA

Sergio Hollmann

São Gabriel - Museu do Prado, Madri, Espanha

28

Deve-se notar que o conhecimento

do homem a respeito de determinado

ponto se completa inteiramente

quando ele é capaz de dizer,

de formular em palavras, escrever

ou exprimir de alguma forma aquilo

que ele tem na mente. Enquanto não

houver a representação, o conhecimento

não está acabado. E com o

conhecimento não concluído, o ato

de amor também não está completo.

Ademais, é só depois de o indivíduo

ter completado o conhecimento

essencial de algo que ele delibera

agir enfrentando as maiores dificuldades,

e consagrando a sua vida àquilo.

Quer dizer, a consagração do trabalho

e da vida é uma espécie de deliberação

que provém de um conhecimento

já atuante, executivo, que é o

termo final do conhecimento.

E, por fim, ninguém conhece inteiramente

algo se não compreende por

contraste. O contraste ajuda enormemente

a conhecer. Sobretudo quando

o contraste existe; não notá-lo revela

uma grande falta de conhecimento.

Há, portanto, um conhecimento

puramente especulativo e amoroso

que convida à ação, e um conhecimento

que convoca à luta. Esse

conhecimento especulativo e amoroso

não convida à mera especula-

ção propriamente, mas convida também

a falar o que a pessoa sente. É

uma contemplação da qual é próprio

emanar o verbo, a conscientização

que na explicitação adquire sua luz.

Portanto, a palavra, a exclamação é

própria do conhecimento inteiramente

feito, do amor completamente

adquirido que dá no cântico de

louvor inteiramente desinteressado.

Por exemplo, o canto que um Santo

entoaria sozinho no deserto, apenas

para louvar o Criador. Existe nele

a capacidade de cantar criada por

Deus, pela qual ele sabe que, cantando,

o Altíssimo gosta de seu canto,

e que ele, portanto, deve cantar

para Deus. O Criador quer isso, é de

acordo com a natureza de Deus.

Então poderíamos dizer que esses

três Anjos formam na ordem especulativa

três maneiras de ação, sendo

que esta é muito pequena naquele

que é maior na ordem especulativa. E

a especulação é menor naqueles que

estão na ordem ativa. Há uma espécie

de reverso como Maria e Marta.

São Miguel: luta,

oblação e holocausto

De onde se poderia afirmar que estou

preparando o terreno para a figura

Gustavo Kralj

São Miguel Arcanjo


de um triângulo equilátero, no qual

eu diria que o ângulo de cima é São

Gabriel, depois embaixo, em igual

posição, São Rafael e São Miguel.

Mas não é verdade porque, conforme

o ângulo em que se olhe a coisa,

é um triângulo equilátero no qual

se pode colocar qualquer um dos

três Arcanjos na ponta sem derrubar

o triângulo, o que é sobretudo claro

com São Miguel. Por quê?

Porque o empenho da luta é algo

meio destrutivo daquele que combate;

mesmo quando o indivíduo não

morre na luta, ou quando esta não

é de morte, quer dizer, cujo desenvolvimento

normal não é a morte, o

combater é fazer um esforço completamente

superior ao desgaste

normal do organismo; de si é desgastante,

tem qualquer coisa que é uma

oblação.

Por exemplo, um homem que seja

obrigado a trazer para um jardim

zoológico uma onça na qual puseram

focinheira. Ele não vai ser comido

pela onça porque ela está com focinheira,

mas tem que fazer uma tal

força para levar aquele bicho, que

esse homem é considerado um lutador.

Esse lutador tem uma glória especial

por causa de um quê de imolação

existente naquilo.

É ele que se aproxima para ser

golpeado e golpear. Digamos que a

arma dele seja uma seringa com a

qual dará anestésico na onça; portanto

o homem não vai morrer; mas

o que ele deverá sofrer tem um quê

de evidente imolação.

Ora, Nosso Senhor disse que a

imolação é a maior prova de amor,

e que ninguém pode amar mais a outrem

do que lhe dando a sua vida.

Aliás, é de toda evidência, e o Redentor

afirmou de Si mesmo para

explicar como devíamos estar certos

do amor que Ele tem por nós.

De outro lado, é verdade também

que se trata da oblação na qual há

maior desinteresse. Abraão com Isaac,

por exemplo, mostrou um desinteres-

se fabuloso, foi puro amor. E pode-se

lutar por puro amor, indo, por exemplo,

à Cruzada, como Isaac caminhou

para ser morto pelo pai; é uma coisa

que é perfeitamente possível.

A oblação, nesse sentido, é a extinção

da vida de uma pessoa em holocausto

a outrem, a Deus, portanto.

Por aí nós vemos que, por mais

bela que seja a palavra de São Ga-

briel, quando consideramos a magnificência

da ação de São Miguel,

percebemos ser um outro título, e

nos resta perguntar qual dos dois títulos,

absolutamente, é maior.

São Rafael: ação pensante

Acontece que cai dentro disso a

ação. Esta parece muito menor do

que a contemplação, e do que a luta,

a oblação. Pode-se dizer que a ação

é uma luta ela mesma; e nesse sentido

um homem, quando vai trabalhar,

afirma: “Vou para a luta.”

Ele é, por exemplo, datilógrafo da

Prefeitura, e quando ele sai de casa

a mulher lhe pergunta: “Para onde

você vai?”, e ele responde: “Vou ra a luta.”

Tudo isso se explica em vista

de uma concepção muito material

da ação. Com o

próprio São Rafael,

fica-nos na

mente, ao menos

a mim, o desenhozinho

— aliás,

encantador e bobinho

— que ilustrava

minha História

Sagrada: São

Rafael andando a

pé com um bastão

do qual pendia uma

espécie de moringuinha,

e conversando

com Tobias animadamente.

Então, São

Rafael, o Anjo que anda,

que transpõe distâncias,

paetc.

Não é verdade. São Rafael foi um

Anjo de uma sabedoria ativa superior,

que ajudou Tobias a ver o que

de fato ele deveria querer na viagem,

deu-lhe a força e o ânimo — esse é o

sentido da companhia — bem como

os meios para executá-la. O andar a

pé, o aspecto material da viagem, fazer

com que aquele boneco que São

Rafael fabricou — e Tobias tomava

como um homem — falasse, isso para

o Anjo não era nada. E nem havia

cansaço em fazer um boneco andar.

Ora, sabe-se que ele estava animando

um boneco.

Então se compreende que para se

falar em São Rafael como Arcanjo

da ação, deve-se escolher os mais altos

graus e padrões da ação. Quer dizer,

muito mais do que a ação operacional

completamente ativa, a ação

pensante. Para recorrer a um exem-

Francisco Lecaros

Arcanjo São Rafael - Convento

de Santa Clara, Tuy, Espanha 29


HAGIOGRAFIA

Thiago Tamura Nogueira

Transfiguração - Basílica Nossa Senhora do Rosário, Caieiras, Brasil

plo correntemente usado entre nós,

aquela frase do Marechal Foch 1 :

“Ma droite est pressée, ma gauche est

menacée, ma arrière est coupée... Que

fais-je? J’attaque.” 2 Isso é magnífico!

Ou seja, “eu estou num apuro total,

vou atacar”. É uma ação, se se pode

dizer “rafaélica” nesse sentido da

palavra, que mostra o pensamento

sobre a ação, uma alta categoria.

A arte de governar, de dirigir profeticamente,

a missão propriamente

profética no conjunto da ação da vida,

estaria com São Rafael, enquanto

que com São Miguel, o profetismo

da luta e do holocausto, e não da

vida comum. O reinar seria com São

Rafael.

E aí se compreende a beleza da

distinção entre as várias coisas.

São Luís Grignion e

os três Arcanjos

E São Gabriel seria mais o profeta

que inspira o rei, digamos ele traça

a metafísica. Quem dá a “metapolítica”

é São Rafael, com toda a execução

da política. Quem proporciona

a “metaluta” é São Miguel.

Notem como se compreende bem

o tema até o fundo, tomando em

consideração o seguinte: a tarefa especial

de repelir os demônios e da

luta contra eles é de São Miguel.

Mais ainda: enquanto contrarrevolucionários,

qual o papel dos três

Arcanjos?

Eu diria que São Gabriel insufla o

espírito verdadeiramente contrarrevolucionário,

com todo o ideal carolíngio

e, para lá de carolíngio, o Reino

de Maria, com todo o desejo e a

concepção das coisas altíssimas, de

tal maneira que nos dá uma ideia dos

lineamentos fundamentais de como

uma ordem humana deveria ser.

A “metapolítica”, quer dizer, a

partir dessa ordem suprema, quais

são os modos executivos de organizá-la?

E quais são as maneiras de levá-la

a efetivar-se? Quem os indica é

São Rafael. E lutar contra os adversários

que se opõem é a missão de

São Miguel.

Transpondo para o campo humano,

vemos que em São Luís Maria

Grignion de Montfort deveria haver

necessariamente horas “gabriélicas”,

horas “rafaélicas” e horas “micaélicas”,

conforme a preponderância.

30


Lendo o Tratado da Verdadeira Devoção

à Santíssima Virgem sente-se isso,

porque há trechos em que se tem

a impressão de que é São Gabriel

que anuncia alguma coisa. E ele, enquanto

um apóstolo que monta a argumentação

para convencer um terceiro,

e que acende um fogo de alma

para chamá-lo, é São Rafael.

E São Luís Grignion tem movimentos

de indignação, em que há de

ponta a ponta do livro dele uma intransigência

sublime, adamantina: essa

é a hora de São Miguel. Quer dizer,

existem tônicas. O que não elide

o problema mais profundo que é

o de saber qual dessas coisas absolutamente

falando, em Deus, é a tônica.

É muito ilustrativo para o espírito

passear dentro desses problemas

e remexê-los. Eles emitem luz ainda

quando não os resolvamos. E se depois

de pensarmos assim consultarmos

um livro sobre Angelologia, em

dez minutos está resolvido.

A meu ver, estaria dentro dos nossos

métodos mentais, e eu acho que

Nossa Senhora abençoa este modo

de agir — não quero dizer que seja

o único —, primeiro com as luzes

que Ela nos deu, tratarmos de fazer

as hipóteses, e depois ir estudar para

ver o que a Igreja diz, num espírito

de submissão, de querer aprender.

Aí se entende bem o ensinamento da

Igreja. Parece-me um modo de operar

muito digno, muito correto.

É o que eu quis fazer um pouco

nesta conferência, e também porque

reputo este tema um tanto exorcístico.


(Extraído de conferência de

12/12/1976)

1) Militar francês que comandou as forças

dos Aliados em 1914, de forma

decisiva, levando-os à vitória (*1851

- †1929).

2) Minha direita é pressionada, minha

esquerda é ameaçada, minha retaguarda

é golpeada. O que faço?

Ataco!

Que aspecto angélico

brilhou mais na vida

de Nosso Senhor?

De outro lado, há o seguinte: poderíamos

perguntar se na vida santíssima

e augustíssima de Nosso Senhor,

qual desses aspectos brilhou mais, e

quais seriam os aspectos em que Ele

se conduziu como o Deus de Gabriel,

o Deus de Rafael e o Deus de Miguel.

Seria uma pergunta que daria motivo

para um estudo do Evangelho

muito belo. Aliás, é propriamente

assim que eu gostaria que o Evangelho

fosse consultado, porque o bonito

é fazer perguntas dessa natureza.

Então eu diria que, por exemplo,

Nosso Senhor no Tabor, a mim me

parece eminentemente São Gabriel.

Na Paixão d’Ele, evidentemente

São Miguel; é o holocausto e a luta,

quando Ele venceu o mundo. Agonia,

em grego quer dizer “a luta do atleta”;

os atletas eram chamados “agonistas”.

E São Rafael é enquanto Mestre

fazendo apostolado, na vida pública

d’Ele.

A vida íntima d’Ele com Nossa

Senhora, não era Gabriel?

Enfim, 30 anos, 3 anos, 3 dias. Aliás,

o papel do número 3 aí é bastante

bonito.

Jesus no Horto das Oliveiras - Capela de Monte Sião, Sevilha, Espanha

Gustavo Kralj

31


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Sergio Hollmann

Majestade com

tranquilidade, força

com bondade

Possuindo em altíssimo grau a

virtude da combatividade, Dr.

Plinio tinha grande admiração

por Carlos Magno, varão

católico que levou o combate

desde o Reno até Santiago de

Compostela, e desde o norte das

florestas alemãs até o centro do

poder árabe na Espanha.

Antonio Jakosch Ilija

A

nalisemos segundo a regra do ver, julgar e agir,

de São Tomás de Aquino, o relicário de Carlos

Magno, que se encontra na Catedral de Aachen.

Firmamento de equilíbrio e de bom gosto

O objeto é constituído de duas partes: uma caixa e

uma tampa. A caixa é quadrangular, comum. Mas sobre

uma forma tão simples — uma caixa com tampa — está

colocado um mundo, um verdadeiro firmamento de equilíbrio

e de bom gosto.

Em primeiro lugar, vejamos de que espécie de metal

é feito. Não é propriamente ouro. Creio que eles nem tinham

ouro suficiente para fazer uma caixa como esta.

32

“São Carlos Magno” - Igreja de São

Martinho, Regensburg; ao fundo,

Catedral de Aachen, Alemanha


ACBahn (CC3.0)

Mas é uma espécie de bronze dourado que tende a imitar

o ouro, e talvez entre um tanto de ouro nessa liga.

É uma caixa que dá a ideia de ser forte; tem-se a impressão

de se tratar de um cofre que não se arromba

com facilidade, o qual guarda um tesouro. A urna manifesta,

de algum modo, a grandeza do tesouro que ela encerra

em si. Quer dizer, ela exprime, de certa maneira, a

grande alma de Carlos Magno. Em que sentido?

A vida dele foi de equilíbrio, de ação reta e de uma

constância admirável. Notem a bonita proporção existente

entre a altura da caixa e a da tampa. Se a tampa

tivesse três vezes a altura da caixa, por exemplo, o objeto

estaria estragado. Caso ela fosse um pouco mais baixa

do que é, ficaria achatado. Tem o tamanho necessá-

Paulo Mikio

33


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Sergio Hollmann

ção em que eles todos estão, tem-se a impressão de que

cada um possui a sua individualidade, tem seu papel,

mas não procura abafar os outros, não procura

dominar. É o convívio perfeito dos reis na Cristandade,

convívio perfeito dos Santos no Céu.

A meu ver, é esta a impressão causada, e é

muito bonito que seja assim.

É interessante o papel das pedras preciosas.

Há um formoso trabalho de ourivesaria

aí, cheio de pedras preciosas

de cá, de lá e acolá. Contudo, tem

todas as pedras que convém, na

medida e proporção exatas,

tudo bonito, bem arranjado.

Quem contempla

esta urna encontra

nela um misto

de calma, majestade

com tranquilidade,

e força com bondade.

Aí está retratado o grande

Carlos.

Esse relicário é uma

obra de equilíbrio, bom

gosto e santidade.

Bem, isso já é julgar.

Portanto, nós vimos e julgamos.

Agora, resta-nos

agir.

Devemos perguntar se

em face disso tomamos a

atitude interior que devemos

tomar. Quer dizer, se

damos a esse objeto a imrio

para uma obra de equilíbrio que representa o equilíbrio

do grande Carlos.

Modelo para a formação

de nossas almas

Para adornar a caixa, ela tem externamente

essas colunas e esses arcos, próprios à parede

de uma capela. Cada Santo está colocado

em um trono no interior de uma

espécie de capelinha. Porque convém

a cada Santo ter seu altar

e seu culto. Mas convém também

a cada rei ter um reino

com sua corte. E esses

são reis que ficaram

santos exercendo

a função e

a vocação de rei; a

realeza e a santidade

estão apresentadas

juntas no caixão daquele

que foi um rei-modelo,

e esperamos que um dia a

Igreja o declare um verdadeiro

Santo.

Há uma coisa curiosa

que talvez alguns não notem

à primeira vista: nenhum

deles está gesticulando,

falando, nem nada

disso. Se ficassem “gesticulando”

e “falando” dava

a impressão de uma

feira. Entretanto, na posi-

Willy Horsch (CC3.0)

Beckstet (CC3.0)

34


portância que precisamos dar, pois ele é um modelo para

a formação de nossas almas.

Por exemplo, se eu tivesse muitas fotografias dessas,

colocaria à disposição de qualquer um que pedisse para

ter, por exemplo, no respectivo aposento, porque é uma

coisa que faz bem olhar antes de dormir.

Se não no quarto de dormir, no lugar onde trabalha

ter um quadro sobre a mesa. É bonito, agradável e faz-

-nos sentir ao mesmo tempo pequenos — porque isso

é grandioso —, mas também filhos. Não há aí nenhum

desprezo por nós. Há um convite como quem diz: “Chegue

perto e admire. Seja filho disso, ame isso, na harmonia

que deve haver entre todas as coisas. Essa atmosfera

é sua.”

A pedra em cabochon e a lapidada

Vemos em outra fotografia o famoso busto de Carlos

Magno.

Prestem bem atenção nesta fisionomia esculpida por

alguém que estava muito menos distante dele no tempo.

Observem como é doce, natural. Não tem nada de orgulhoso.

É o homem que levou o combate dele desde o Reno

até Santiago de Compostela, e desde o norte das florestas

alemãs até o centro do poder árabe na Espanha.

Uma coisa formidável! Mas vejam a naturalidade, a

bondade, a nobreza, ao mesmo tempo. Que grande pessoa!

Notem que, além das pérolas, há várias pedras preciosas,

todas elas lapidadas à maneira do que em francês

se diz en cabochon.

Qual a diferença do cabochon para o outro modo de lapidar?

Na pedra lapidada, corrente hoje, corta-se a pedra

em várias superfícies para fazer ângulos. E os ângulos

aumentam o brilho da pedra quando

uma pessoa, uma senhora, por exemplo,

está com um anel e gesticula.

Aqui não. Eles não sabiam lapidar;

simplesmente arredondavam

o contorno da pedra. Mas tinha

isto de bonito: de longe brilhava

menos, mas guardava mais luz

dentro de si. Essas pedras são

pequenos reservatórios de luz.

É supérfluo dizer que eu

gosto muito mais da lapidação

en cabochon do que da

lapidação moderna. ❖

(Extraído de conferência

de 22/11/1988)

35


Henry Restrepo

Nossa Senhora de

las Lajas - Colômbia

Trono da misericórdia

a imagem de Nossa Senhora de las Lajas a Santíssima Virgem está com um olhar sério e in-

vestigador de quem quer ser obedecida. Ela tem fisionomia de Mãe, mas não está sorrindo;

e embora não esteja olhando com expressão de ameaça ou repreensão, seu semblante é de alguém

que, se houver algo errado, passa um pito ou faz uma ameaça.

O Menino Jesus está muito amavelmente voltado para quem reza. Em lugar do quadro clássico do

Divino Infante sério e Nossa Senhora sorrindo para o pecador, indicando que Ela obtém d’Ele a misericórdia

e o beneplácito, temos o contrário: Ele se volta sorridente para o pecador, Ela está séria. Quase

se diria que Ele está distribuindo favores sem que Ela tenha entrado muito no assunto. Parece até inverter

o papel da Medianeira.

Na realidade, o pensamento é muito profundo: Ele Se manifesta tão misericordioso, com essa alegria

de dar, porque está sentado no trono da misericórdia.

(Extraído de conferência de 19/10/1974)

Nguém que, se houver algo errado, passa um pito ou faz uma ameaça.

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