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Revista Dr. Plinio 235

Outubro de 2017

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Fátima:

castigo, penitência,

misericórdia


Flávio Lourenço

Cenas da vida de Santo

Afonso Rodrigues (detalhe)

Igreja de Montesión, Palma

de Mallorca, Espanha

Santidade

“victa et non picta”

Santo Afonso Rodrigues conseguiu fazer um bem imenso à Espanha e a todo o mundo, ocupando um posto humílimo.

Ele era porteiro de um convento situado numa ilha que naquele tempo tinha comunicação difícil com

o continente. Ali ele consumiu quarenta e cinco anos de sua existência.

Apesar de estar nesse recanto, o bom odor de Jesus Cristo que havia nele espalhou-se por toda a ilha de Palma de

Mallorca, pela Espanha e depois pelo mundo, com a figura venerável desse porteiro velho, acolhedor, afável, sempre

ao alcance de todos na portaria e, portanto, podendo ser consultado por quem quisesse. Isso fez de sua cadeira de

porteiro um trono da sabedoria. Todos iam lá para vê-lo e ouvi-lo.

Foi uma vida toda integrada e empregada no serviço de Deus Nosso Senhor e da Santa Igreja Católica, porque a

santidade, ou seja, a sabedoria, tem uma irradiação própria que a nada se compara. Não é tão importante que o Santo

esteja num lugar onde todos veem, porque onde ele se encontre o afeto e a admiração confluem para lá. Basta que

seja um Santo autêntico, com uma santidade – como diziam os antigos – victa et non picta, isto é, conquistada e não

pintada.

(Extraído de conferência de 30/10/1967)


Sumário

Ano XX - Nº 235 Outubro de 2017

Fátima:

castigo, penitência,

misericórdia

Na capa, multidão reunida em

Fátima em 13 de outubro de

1917. Em destaque, imagem

peregrina de Nossa Senhora de

Fátima, e São José com o Menino

Jesus (acervo particular).

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Gilberto de Oliveira

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27

02404-060 S. Paulo - SP

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Northgraph Gráfica e Editora Ltda.

Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423

02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 130,00

Colaborador........... R$ 180,00

Propulsor.............. R$ 415,00

Grande Propulsor....... R$ 655,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editora_retornarei@yahoo.com.br

Editorial

4 Com Nossa Senhora

não se brinca

Piedade pliniana

5 Guerreiros na grande

luta que se aproxima

Dona Lucilia

6 Aos fracos coragem, aos

corajosos humildade

Gesta marial de um varão católico

8 Integridade e desapego em

face de convites e ameaças

Calendário dos Santos

16 Santos de Outubro

Hagiografia

18 Santa do glorioso castigo

Perspectiva pliniana da História

23 Mistérios de uma alma

e de um povo

A sociedade analisada por Dr. Plinio

28 Como se forma o costume - I

Luzes da Civilização Cristã

33 A incomparável e maravilhosa

Sainte-Chapelle

Última página

36 Meditação de Maria

3


Editorial

Com Nossa Senhora

não se brinca

Há certos temas que nos são tão familiares e caros ao coração que se tornaram objeto de

inúmeros comentários de nossa parte. Porém, não poderíamos deixar passar o dia 13 de

outubro sem determos um instante nossa atenção no assunto Fátima. Desta vez não vou

comentar tanto a Mensagem quanto a atitude do mundo perante ela.

A Santíssima Virgem documenta a autenticidade de seu anúncio de dois modos. Em primeiro lugar,

Ela a confia a pastorezinhos incapazes de compreender seu significado, limitando-se a repetir o

que ouviram. Por vezes, discursos longos e complexos que eles transmitiam sem se contradizerem,

mesmo submetidos a inquéritos policiais brutais.

De outro lado, Nossa Senhora produziu milagres que provavam à multidão ali reunida, e mesmo a

gente de muito longe, que algo de sobrenatural se passara, como, por exemplo, a famosa “dança” do

Sol. Tudo atestado por pessoas que moravam muito distante de Fátima.

Entretanto, chama a atenção no modo de o mundo receber a Mensagem de Fátima, não só a incredulidade

de muitos à vista de episódios tão impressionantes, mas o fato de não se encontrar quem

fizesse o seguinte comentário: tomada a Mensagem em si mesma, apenas pelo seu conteúdo, abstração

feita de todos os prodígios que a cercaram, já havia todas as razões para admitir sua veracidade.

Quem conhecesse um pouco de Moral não podia duvidar que o mundo estava imerso num processo

de pecados gravíssimos, cujo dinamismo permitia antever aonde levariam a humanidade.

Portanto, teologicamente falando, bastaria raciocinar um pouco para se ter a certeza de que, a não

haver uma grande conversão, viria um castigo.

Assim, com um pouco de conhecimento da Teologia da História, ver-se-ia tratar-se de uma mensagem

condizente com o que um homem de Fé, analista dos acontecimentos da época, dotado de alguma

profundidade, deveria pensar.

Ora, as crianças transmitiram, assim, uma comunicação sábia e verdadeira em si mesma, de uma

sabedoria e uma riqueza de conteúdo que excedia a capacidade delas. Logo, a mensagem é intrinsecamente

verdadeira.

Em última análise, alguém que observasse o mundo daquele tempo à luz da Revolução e da Contra-Revolução

distinguiria na Mensagem três aspectos: uma descrição teológica dos pecados daquele

tempo, o anúncio de um castigo e a indicação dos meios de escapar deste, isto é, a penitência e a consagração

ao Imaculado Coração de Maria.

A Porta da misericórdia é precisamente Nossa Senhora, chamada a Porta do Céu. Quer dizer, é ultrateológico

que Ela tenha dito: “Cessem de pecar e recorram a Mim que obtenho a eliminação do

castigo.” Nada mais razoável.

Contudo, a humanidade recebeu a Mensagem de Fátima com orgulho, quando ela exigia um ato

de humildade, ou seja, que os homens reconhecessem: “Nós pecamos, andamos mal.” Exigia a emenda,

o abandono da impiedade e da imoralidade na qual iam caindo. Por isso houve uma rejeição global

em relação a essa Mensagem. Os resultados, vemos por toda parte.

Façamos um exame de consciência. Temos os olhos suficientemente abertos para a Mensagem de Fátima?

Compreendamos que com Nossa Senhora não se brinca, e peçamos a Ela que tenha pena de nós * .

* Excertos da conferência de 13/10/1970.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Guerreiros na

grande luta que

se aproxima

Meu Santo Anjo da Guarda, sei

que dentro dos planos divinos

deveis, pelos desígnios de Nossa

Senhora, exercer especial papel na realização

de minha vocação. Vós, com todos

os espíritos celestes, possuís uma missão

altíssima na luta contra a Revolução. Dirijo-me

a todos vós tendo presente a vinculação

que estas circunstâncias estabelecem

honrosamente de mim para convosco.

Em nome desse vínculo eu vos peço:

Obtende da Rainha do Céu que vossa ação

se intensifique e tome toda a magnitude

proporcionada com minhas debilidades,

infidelidades, fraquezas, com meu desejo

de servir inteiramente a Causa da Igreja

Católica e da Civilização Cristã.

Eu vos peço, portanto, que intervenhais

quanto antes sobre as pessoas e os

acontecimentos de maneira que, libertos

da ação do demônio, a qual hoje atingiu

um auge, possamos pertencer-vos inteiramente

e ser vossos guerreiros na grande

luta que se aproxima.

(Composta em 4/12/1980)

Gabriel K.

São Miguel Arcanjo - Castelo

Sant’Angelo, Roma, Itália

5


Dona Lucilia

Aos fracos coragem,

aos corajosos

humildade

Dona Lucilia age nas almas de um modo

muito suave, transformando as pessoas como

que sem elas se darem conta. Nem é preciso

fazer grandes propósitos; é necessário que

ela seja constante, e não nós. Durante os

acontecimentos previstos em Fátima, ela

terá um papel muito importante, dando aos

fracos coragem, aos corajosos humildade, e a

todos muita união com Nossa Senhora.

Arquivo Revista

T

odo convívio é composto de

dois elementos: um estado de

alma e um modo de tratar.

Um fundo de contínua

contemplação

O convívio com mamãe era meio

indefinível, porque o estado de alma

dela era um fundo de contínua contemplação.

Tratando dos assuntos

domésticos com alguém, ela o fazia

de modo semelhante a duas pessoas

que estivessem conversando dentro

de um santuário. Seu fundo de alma

era sempre sacral, sério, elevado

e muito respeitoso. Isso era uma coisa

estável, fixa, embora a sacralidade

tenha crescido com o tempo.

Este era o estado de espírito com

que ela levava a conversa, com uma

grande benevolência para com a pessoa

com quem falava, mas uma benevolência

temperada por uma espécie

de intransigência vigilante. Se

alguma coisa tocava nos princípios

morais, ela rejeitava e não cedia, e

criava ambiente por onde aquele erro

não tinha cidadania. Não era uma

pessoa espirituosa, mas uma ouvinte

muito atenta de tudo que se narrava

a ela, e era interessante contar-

-lhe, porque mamãe tinha pequenas

repercussões curiosas, dando ânimo,

nunca com azedume, sempre com

confiança na Providência de que as

coisas darão certo, de maneira que

perto dela se sentia animado e confortado

continuamente.

O trato era invariavelmente feito

de um misto de afeto e de respeito.

Ela respeitava qualquer pessoa, por

6


mínima que fosse, no grau daquela

pessoa, não era igualitária em nada.

Sempre com um modo de dignidade

que com ela não se facilitava.

Não havia possibilidade de brincadeira

desrespeitosa ou impertinente.

Mas o que proporcionava perfume

a tudo isso era um desapego contínuo.

Sempre pronta a se sacrificar

por qualquer um, de qualquer forma,

a qualquer hora, de boa vontade,

só faltando agradecer à pessoa

pela oportunidade de sacrificar-se

por ela. Nunca a vi carrancuda. Assim

era ela na intimidade, o tempo

inteiro, nas menores coisas.

Ao lado disso, a afabilidade mais

carinhosa que se possa imaginar para

as crianças, a flexibilidade para

Arquivo Revista

ajudar de qualquer modo, com muita

elevação. Entretanto, uma elevação

que eleva os outros, em vez de

achatar, com o olhar de uma pessoa

que não presta muita atenção nas

coisas concretas e, sobretudo, não

está posta em si.

Ela me inspirou a

inocência primeira e

depois a preservou,

evitou que ruísse,

dando-me muitos

elementos para

formar a arquetipia

do homem como

deve ser.

Em uma criança educada, no contato

com uma senhora assim, toda a

inocência primeira tem um elemento

de estímulo enorme, no sentido

de considerá-la como paradigma de

pessoa como se deve ser, que abre

uma clave e gera um ambiente que

ninguém mais cria.

Inspirou e preservou

a inocência primeira

de Dr. Plinio

Era uma coisa única! Quando estava

com mamãe, eu sentia entrar numa

atmosfera luminosa, fluida, invisível

e visibilíssima criada por ela. A inocência

primeira cantava e se encantava.

Por vezes, quando ela me contava

uma história, eu ficava prestando mais

atenção nela do que no enredo.

Isto me serviu também de elemento

de preservação, até mais ou

menos fazer vinte anos. Ela servia de

abastecimento contínuo para a fidelidade

ao meu ideal, e de certa forma

representava esse ideal, que ela possuía

de um modo vivo, mas não saberia

apresentar em termos doutrinários.

Era eu quem fazia a doutrina

sobre o que era mamãe, e que ela

não sabia explicitar.

Em certo momento o papel se inverteu

e eu comecei a dar-lhe doutrina.

Ela prestava muita atenção e se

via que aquilo entrava fundo em sua

alma. Por exemplo, a devoção a Nossa

Senhora.

Ela me inspirou a inocência primeira

e depois a preservou, evitou

que ruísse, dando-me muitos elementos

para formar a arquetipia do

homem como deve ser.

Para isso mamãe contava muitas

histórias de pessoas do tempo dela.

Os personagens eram arquetipizados

por ela. Assim, mamãe formava

arquetipias um pouco baseadas na

legenda e um pouco na História. Como

a alma dela tinha muito do que

ela modelava, uma coisa completava

a outra, e ensinava como deve ser

um varão verdadeiramente católico.

A impostação de alma que se deve

ter é deixá-la atuar, porque ela

age na alma de um modo muito suave,

de quem não pede licença para

entrar, de maneira muito íntima, interna

e ao mesmo tempo com uma

certa força de influência que transforma

a pessoa, como que sem esta

se dar conta. Nem é preciso fazer

grandes propósitos. É necessário

que ela seja constante, e não nós.

Após sua morte, Dona Lucilia tem

tido uma atuação que nunca imaginou

quando estava viva. Acredito que

nos acontecimentos previstos em Fátima

ela terá um papel muito importante,

dando aos fracos coragem, aos

corajosos humildade, e a todos muita

união com Nossa Senhora. v

(Extraído de conferência de

23/12/1974)

7


Gesta marial de um varão católico

Integridade

e desapego

em face de

convites e

ameaças

Arquivo Revista

Dr. Plinio um ano antes

de sua candidatura

a deputado

8


Arquivo Revista

Congregados marianos de São Paulo reunidos para comemorar a eleição de

Dr. Plinio (em destaque), como deputado, em maio de 1933

Embora trabalhasse com despretensão, afinco e eficácia

pelos interesses da Igreja na Constituinte, Dr. Plinio viuse

objeto de boicote e perseguição. Entretanto, apesar de

convites e ameaças no sentido contrário, manteve sempre

íntegra sua fidelidade à Lei de Deus e à Causa Católica.

Antes de começar a apuração

dos votos, encontrei-

-me com um dos candidatos,

Azevedo Marques, um senhor

idoso. Ele se dirigiu a mim, dizendo:

– Oh, aqui está o mais votado

dentre nós! O candidato já eleito.

– Ora, Dr. Azevedo Marques, eleito

é o senhor, um homem já conhecido,

ilustre, e não um novato como eu.

– Não, eu tenho informações. Todas

as “Filhas de Maria” do interior

do Estado votaram em você.

Pouco depois veio a confirmação,

eu fora eleito.

Uma missão que trazia

em si uma bênção e

uma maldição

Passaram-se alguns meses, perto de

um ano, até se reunir a Constituinte,

período intensamente aproveitado por

mim para leituras. Foi então que li o

Tratado de Direito Natural, de Taparelli

d’Azeglio, A alma de todo apostolado,

de Dom Chautard e A conjuração anticristã,

livro escrito por Mons. Delassus.

...ou o apóstolo

é completamente

isento de

amor-próprio,

ou enterra a

causa que ele

pretende servir

Confesso que o livro-chave para

mim nesse período não foi só o Tratado

da verdadeira devoção à Santíssima

Virgem, de São Luís Maria

Grignion de Montfort, mas também

o de Dom Chautard, pois me serviu

de muralha contra a grande, a tremenda

tentação a que eu poderia estar

exposto, que era a do amor-próprio,

correspondente à seguinte situação:

aos 24 anos de idade, o deputado

mais votado do Brasil; portanto,

com toda a publicidade colocada

em cima de mim, uma espécie de celebridade

e uma carreira indefinida

à minha frente.

Dom Chautard punha os pingos

nos is: ou o apóstolo é completamente

isento de amor-próprio e não

visa a carreira, mas exclusivamente

o serviço da Igreja, ou enterra a

causa que ele pretende servir. Donde

a conclusão: a vitória da Igreja na

Constituinte podia encerrar o período

de laicismo, o que afirmava de

um modo tão esplêndido a força do

poder da Igreja, quarenta anos depois

de separada do Estado. Essa vi-

9


Gesta marial de um varão católico

Arquivo Revista

A Providência

exigia de mim

um desapego

duríssimo

necessário para viver despreocupada.

E para mim isso bastava. Depois,

eu trataria de fazer a minha vida, de

maneira que não tinha preocupações

econômicas.

tória, no que tocava a mim, consistia

em que eu não permitisse um movimento

de vaidade, por menor que

fosse.

Deveria estar pronto, a qualquer

momento, a entregar meu cargo, a renunciar

à minha carreira, a voltar a

ser zero desde que a Causa Católica

exigisse. E para ver as coisas de frente,

a verdade é a seguinte: Eu era incumbido

de fazer um enorme apostolado

e essa missão trazia consigo, em

gérmen, uma bênção e uma maldição.

Uma bênção, se eu fosse inteiramente

desapegado; uma maldição, se

me tornasse apegado, porque poderia

ir abaixo todo o apostolado.

E começava, então, a luta contra

o orgulho, pois se todo ser humano

concebido no pecado original tem

impulsos de amor-próprio, era bem

evidente que eu os possuía também.

De outro lado, sentia em torno de

mim o coro da bajulação que surgia,

com a fama de muito bom orador.

Outra razão ainda

me levava a pegar

o cargo de deputado

com todas as forças:

era bem rendoso.

Se eu não ascendesse

a esse posto, cairia na

miséria, por causa do

seguinte fato ocorrido

naquele tempo.

Meu pai era um

bom advogado, mas

teve uma indústria

com a qual foi mal sucedido,

precisando fechar

seu escritório em

São Paulo e advogar

no interior. Mas ali,

já alquebrado, ganhava

apenas o suficiente

para se manter. Minha

mãe morava comigo e com minha irmã,

em casa da mãe dela, a qual não

era uma senhora muito rica, mas

bem abastada. Assim, quando minha

avó morresse, minha mãe herdaria o

Deveria estar

pronto a entregar

meu cargo, a

renunciar à minha

carreira, a voltar

a ser zero desde

que a Causa

Católica exigisse.

Porém, nesse ínterim, um dos irmãos

de minha mãe fez maus negócios

e minha avó hipotecou um prédio

dela, que era o grosso de sua fortuna.

Com a queda da moeda nacio-

Vista aérea do Hotel Glória - Rio de Janeiro, Brasil

Divulgação

10


Arquivo Revista

Dr. Plinio, em 1934, com os membros da bancada paulista, por ocasião de

um jantar solene no Hotel Copacabana, Rio de Janeiro

“Aguento!

Nossa Senhora,

dai-me forças!

Vamos tocar

para a frente.”

nal, a hipoteca “comeu” o prédio inteiro,

e a fortuna dela levou a breca.

O que restava à minha mãe para

herdar era uma insignificância. E,

portanto, se não ficasse deputado,

ela e eu cairíamos na mais negra miséria.

Para mim ficava posta a alternativa:

fazer carreira, celebridade,

dinheiro, ou a miséria. E a miséria

particularmente dolorosa, porque

não era só para mim – porque um

rapaz, de algum modo, se arranja –,

mas era a miséria para a minha mãe.

A Providência exigia de mim, portanto,

um desapego duríssimo, porque

não era o desapego de um homem

que tem o chão firme debaixo

dos pés e desiste de uma situação

melhor, mas era aceitar, se fosse preciso,

a vergonha de deixar de ser deputado

e sofrer um fracasso, uma catástrofe,

passar para o grau zero.

Tratava-se de uma batalha interior

não tanto contra um rugido da

vaidade, mas um combate contra

uma porção de formas de vanglória

tentando pegar-me a todo instante.

Uma luta meticulosa, pois eu percebia

que se desse a menor trela à vaidade

entrava em minha alma o apego,

e dificilmente teria as forças necessárias

para enfrentar a hipótese

de uma miséria. Ora, eu compreendia

que facilmente podia acontecer

uma crise política, revolução,

qualquer coisa por onde, de repente,

meu mandato cessasse. Com facilidade

eu poderia receber um ultimátum:

“Ou você se vende para o

adversário, ou nas próximas eleições

não vai ser eleito.” Intrigas, etc....

Eu tinha que tomar, portanto, a

resolução de não ceder.

As primeiras perplexidades

Lembro-me de que o grosso de

minha preparação para exercer o

cargo de deputado foi essa batalha

para conservar o desapego interior,

o qual começou a ser posto à prova

logo que cheguei ao Rio de Janeiro.

A minha partida de São Paulo,

por ser deputado, foi ultralisonjeira.

A estação ferroviária repleta, palmas,

vivas, etc. Um triunfo! Era noite.

Chego de manhã ao Rio de Janeiro,

acompanhado de meus familiares

que tinham ido para assistir à minha

tomada de posse na Assembleia

Constituinte, e nos dirigimos ao Hotel

Glória que, naquele tempo, era

de grande luxo. Eu sempre pensando

“com meus botões”: “Você nesse

luxo, mas amanhã, miséria. Você

aguenta a miséria? Suporta decair

e ver sua mãe, que está agora nesse

galarim, morando numa casa de um

bairro operário?”

11


Gesta marial de um varão católico

Arquivo Revista

Fiquei perplexo e comecei

a frequentar as reuniões

da bancada paulista, realizadas

todos os dias, de manhã.

À tarde, reunião da

Câmara dos Deputados e,

à tardinha, reunião dos deputados

católicos na sede

da LEC do Rio.

Jornal “A Gazeta”,

20 de março de 1934

Minha resposta foi: “Aguento!

Nossa Senhora, dai-me forças! Vamos

tocar para a frente.”

Nos primeiros dias, verifiquei que

havia deputados eleitos pela LEC

mais ou menos de todo o Brasil, e que

seria possível formar uma bancada de

trinta a cinquenta deputados. De todos

os deputados eleitos, certamente

o mais conhecido como católico era

eu. Por outro lado, dentre todos era o

mais considerado como bom orador.

Portanto, o natural seria me designarem

para líder da bancada católica.

Entretanto, Tristão de Athayde

convocou uma reunião dos deputados

católicos, na sede da LEC do

Rio, localizada perto da Câmara dos

Deputados, para dar as normas de

Dom Leme. Disse ele:

“O Sr. Cardeal Leme resolveu três

coisas: Não vai haver uma bancada de

deputados católicos. Os senhores devem

estar dispersos nas bancadas dos

respectivos Estados. Segundo, por

causa disso, não vai haver deputado líder

católico. O líder católico dos deputados

vou ser eu, do lado de fora da

Câmara; os senhores venham aqui receber

as diretrizes do Cardeal Leme.

Terceiro, nenhum deputado católico

deve fazer qualquer discurso a respeito

de pontos de reivindicações católicas

porque, como já estamos com a

maioria garantida, o Cardeal tem certeza

de que a maioria votará a favor

de tudo que desejamos; um discurso

só pode atrapalhar. De maneira que

se quiserem fazer discursos sobre política,

é com os senhores. Em nome da

LEC ninguém poderá discursar.” E,

por fim, outra proibição: “Os senhores

estão proibidos de contar que estão

proibidos de falar.”

Percebi que uma

parte do que os

católicos em São

Paulo esperavam

de mim escapava-

-me das mãos

Eu não tinha bastante experiência

política para objetar, e algumas dessas

decisões eram até razoáveis. Mantive-

-me quieto, mas percebi que uma parte

do que os católicos em São Paulo

esperavam de mim escapava-me das

mãos.

Um vazio esquisito

vinha se fazendo

ao meu redor

Percebi desde logo que

no Rio de Janeiro as coisas

não corriam como em São

Paulo se esperava, porque

eu não tinha nenhuma possibilidade

de discursar. O Tristão de Athayde

organizou uma série de conferências

culturais de deputados na sede

do Centro Dom Vital. Eram, se não

me engano, dez conferências, duas

por mês. A minha era a nona. Ora,

sendo eu o deputado mais votado,

por que me postergar dessa maneira?

Nos jornais iam sair essas listas, e daria

a impressão de um meninote que

a LEC não tomava a sério e empurrava

para o fim. Isso era confirmado

pelo fato de eu nunca fazer discurso.

Embora estivéssemos autorizados

a falar sobre política, se eu fizesse

discursos sobre esse tema dividiria

meu eleitorado, unido em matéria

religiosa, mas não em política. De

maneira que me sentia atarraxado.

O que eu fazia? De manhã, nas

reuniões da bancada paulista, lutava

para as emendas católicas entrarem

e serem aprovadas unanimemente.

À tarde, na Assembleia, fazia o mesmo,

conversando com um e outro deputado,

pedindo para as emendas passarem

na Câmara. À tardinha, ia ouvir

a palavra de ordem do Tristão de

Athayde, e à noite permanecia isolado,

bloqueado. Não havia um congregado

mariano que me procurasse,

uma associação católica que me convidasse

para nada. Eu passava as noi-

12


Fui por cima dele

com um aparte

tonitruante,

desafiando-o e

dizendo que não

havia dissociação

entre a Religião

e a Pátria.

tes sozinho em meu quarto, no hotel.

Esse era outro sintoma inquietante do

isolamento em torno de mim. Quer dizer,

eu percebia que um vazio esquisito

vinha se fazendo ao meu redor.

Eu aproveitava algumas ocasiões

que apareciam para quebrar esse

silêncio como, por exemplo, o aniversário

da morte de José de Anchieta.

Então requeri à Câmara para fazer

um discurso, como deputado paulista,

em comemoração a esse apóstolo do

Brasil. Contra isso ninguém podia dizer

nada, porque não dizia respeito às

emendas católicas, e era uma oportunidade

de fazer uso da palavra. Fiz o

discurso e, graças a Deus, repercutiu

muito bem, até na imprensa paulista.

Outra ocasião se deu quando um

deputado comunista fez um ataque

à honra dos deputados católicos, dizendo

não termos ideal patriótico,

que éramos exclusivamente vendidos

para o Vaticano. Então fui por

cima dele com um aparte tonitruante,

desafiando-o e dizendo que não

havia dissociação entre a Religião e

a Pátria. Dei tais berros que ele mesmo

ficou espantado. Tal foi o berreiro,

que estando, em 1961, na Câmara

dos Deputados, já sediada em

Brasília, para tratar de uma questão

sobre a Reforma Agrária, um funcionário

da secretaria olhou atentamente

para mim e me perguntou:

– O senhor já foi deputado, não?

– Fui.

Mas não dei o meu nome.

– Eu vou me lembrar do seu nome...

Considerem que o tempo tinha

corrido e eu mudara muito.

Ele disse:

– O nome, aqui de momento, não

me lembro, mas o senhor foi quem

fez aquela apóstrofe ao deputado

comunista, não?

– Foi.

– Apóstrofe como aquela, eu ainda

não vi na Câmara dos Deputados.

O senhor teve coragem! Espere um

pouco... o senhor se chama Plinio

Corrêa de Oliveira.

– Sim senhor! É isso. O senhor

tem boa memória!

“Ele luta mesmo pela

Causa Católica!”

Ao longo de meu mandato,

relacionei-me muito bem com

os deputados de outros Estados,

a tal ponto que se deu o

seguinte episódio.

Certa noite, já muito tarde,

fui acordado pelo telefone do

hotel em que eu estava.

Dr. Plinio, aqui fala Alcântara

Machado.

– Pois não, Dr. Alcântara,

o que o senhor deseja?

– Eu queria lhe pedir o favor

de vir com urgência à minha

casa, porque a situação

política se tornou muito grave

e vou precisar do senhor.

Tomei imediatamente um

táxi, fui à casa dele e encontrei-o

muito apreensivo. Ele

disse:

– Olha, houve uma encrenca

com o Deputado Juarez

Távora. E o amigo dele,

Deputado João Alberto,

declarou que amanhã vai arrancar o

Presidente da Câmara, Antônio Carlos

Ribeiro de Andrada, pelas orelhas

do lugar de Deputado Federal

e fechar a Constituinte. Como o senhor

é um dos deputados mais relacionados

que a bancada paulista tem,

eu queria pedir-lhe para começar a

percorrer agora os deputados de outros

Estados, explicando o acontecido

e solicitando que façam uma pressão

forte amanhã para não ser dissolvida

a Assembleia.

Fiquei espantado, porque a bancada

paulista sempre fora completamente

indiferente a todas as minhas

relações com as outras bancadas.

De fato, imediatamente tomei um

automóvel e comecei a percorrer as

casas dos deputados católicos, com

os quais era mais relacionado.

No dia seguinte, abre-se a Câmara

num ambiente de expectativa. O Antônio

Carlos estava pálido como um castão

de bengala de marfim, e levou o lequinho

para se abanar. O João Alberto

andava com ares de soldadão pe-

Dr. Antônio Carlos Ribeiro de

Andrada Machado, presidente

da Assembleia Constituinte

Arquivo Revista

13


Gesta marial de um varão católico

Divulgação

Dom Gastão Liberal Pinto

(aqui já nomeado Bispo de São

Carlos, no interior de São Paulo)

lo meio da Constituinte, e todo mundo

tenso... Afinal, a crise se aplacou.

Isso mostra como esse trabalho de

articulação era bem grande e bom.

A este respeito deram testemunho

vários deputados como Cardoso de

Melo, Barros Penteado e outros, os

quais, conversando com padres chegados

à Cúria, diziam: “Olhe, vocês

mandaram um representante esperto

para lá, e ele luta mesmo pela

Causa Católica!”

Certa vez apareceu na Câmara

Mons. Gastão Liberal Pinto. Creio

que foi para ver minha atuação, mas

não percebi sua presença. Terminados

os trabalhos daquele dia, ele me disse:

– Olha, meus parabéns! Vi você

trabalhar o dia inteiro, falando com

uns, com outros, e estou muito satisfeito

com o deputado que nós pusemos

no lugar.

Duas opções: a carreira ou

a defesa da Causa Católica

Mas enquanto essas coisas se davam,

em São Paulo se desatava um

boato calunioso de que eu era tímido,

tinha fracassado como orador, e

a prova disso era que só pronunciara

um discurso.

Ora, tudo quanto era feito por

mim nos bastidores eu não podia

Apesar dos

convites

recebidos,

Nossa Senhora

ajudou-me a

optar por não

abandonar a

Causa Católica.

publicar. Então, a calúnia crescia

nos meios católicos paulistas contra

mim, e eu não tinha defesa nenhuma.

Era mais um lado por onde me

sentia isolado e me aproximando da

miséria, porque dentro de um ano

terminaria o meu mandato de deputado,

e estaria tudo desfeito.

Afinal, as emendas católicas foram

sendo votadas e entrando na

Constituição, inclusive duas emendas

que inicialmente não estavam no

nosso programa e foram apresentadas

durante os trabalhos da Assembleia

Constituinte. Eram elas: a promulgação

da Constituição em nome

de Deus e o estabelecimento do casamento

religioso com efeito civil.

Tudo isso significava uma vitória católica

sem nome! E o panorama católico

no Brasil estava largamente mudado.

A Igreja aparecia como uma potência

em nosso País e as leis brasileiras

tinham perdido não toda, mas uma

boa parte da carranca laicista que as

caracterizavam anteriormente.

Nossa Senhora quis servir-Se de

mim como instrumento para lançar a

ideia da Liga Eleitoral Católica e fazer

andarem as negociações para sua realização,

utilizando-me como um dos

propulsores do movimento mariano

que estava na raiz da vitória da LEC.

Entretanto, à medida que ia sendo

votada a Constituição, a Constituinte

ia chegando ao seu fim, tanto mais que

ela aprovou um artigo dizendo que seis

meses depois de votada a Constituição,

ela se dissolveria. E o problema para

mim ia ficando, debaixo de dois pontos

de vista, cada vez mais agudo.

Primeira pergunta, quanto à Causa

Católica: Depois da Constituinte,

haveria outro congresso com eleição

de deputados católicos, ou fecharia a

LEC e voltaria tudo como era antes?

Segunda indagação: Se houvesse

eleição para deputados católicos,

Dr. Plinio, no Rio de Janeiro,

durante seu mandato de

deputado, em 1934

Arquivo Revista

14


Assistentes da inauguração da Assembleia

Constituinte. Em destaque, da esquerda para a

direita: Dr. João Paulo, Da. Lucilia e Da. Rosée

Arquivo Revista

meu nome estaria incluído nessa lista?

Se não estivesse poderia significar

para mim a miséria, mas também

com a miséria a perda do meu

prestígio entre os congregados marianos.

Isso acontecendo, todo o impulso

que eu vinha dando ao movimento

católico, no sentido de se tornar

contrarrevolucionário e de realizar

os ideais que eu tinha a favor

da Igreja, ficava comprometido. Era,

portanto, meu apostolado que ficava

comprometido, como também a possibilidade

de eu sobreviver.

Então a pergunta aguda continuava

a ser esta: “Você tem ou não coragem

de aceitar tudo, inclusive o fracasso

de seu apostolado, mas não ficar

um homem à procura de carreira

e que abandone a Causa Católica para

ser um mero político?”

Apesar dos convites recebidos,

Nossa Senhora ajudou-me a optar

por não abandonar a Causa Católica.

Estado de espírito

de Dona Lucilia

Conto um pequeno episódio para

se ter uma ideia do estado de espírito

com que Dona Lucilia acompanhou

minha eleição e tomada de posse.

O dia da inauguração da Constituinte

representou uma grande solenidade

no Rio de Janeiro, pois as

cerimônias da vida pública naquele

“...o que me

significou mais foi

o fato de você,

ter-se lembrado

de mim. Aquilo

me revelou de

sua parte um tal

senso do dever

que eu até agora

me lembro disso.”

tempo se faziam com muito mais solenidade

do que hoje.

Mamãe era uma senhora doente

e não podia ficar longo tempo de pé.

Levei-a até a tribuna reservada aos familiares

dos deputados, mas não pude

acompanhá-la exatamente até o

seu lugar nessa tribuna, porque a sessão

ia começar. Então, desci correndo

para o lugar reservado aos deputados

e me pus de pé no corredor central,

a olhar para a tribuna dos familiares,

procurando ver se ela estava convenientemente

acomodada. Quando a

vi sentada e olhando para mim, acenei

para ela e fui para meu lugar.

Terminada a sessão, dirigi-me com

ela, meu pai e minha irmã, para o hotel.

À noite, após o jantar, antes de nos

recolhermos, ela me disse o seguinte,

espontaneamente: “Tive muito prazer

em que você fosse eleito deputado e

em assistir à posse. Sem dúvida, na sua

idade, uma coisa muito honrosa, com

muitas possibilidades de você prestar

serviços à Religião. Você não tem

ideia da minha alegria em vê-lo como

um deputado católico.”

Vê-se que ela não gostaria, nem um

pouco, que eu fosse deputado político.

“Entretanto, o que me significou

mais foi o fato de você, naquela hora

de sua posse, ter-se lembrado de

mim e verificar se eu tinha encontrado

um lugar. Aquilo me revelou

de sua parte um tal senso do dever

e uma tal amizade, que eu até agora

me lembro disso.”

Os que se encontram neste auditório

percebem como todas as preocupações

políticas, de grandeza terrena,

ficavam para ela abaixo da Religião,

dos vínculos afetivos e de outras coisas.

Não sei se seriam muitas as mães

que pensariam dessa maneira. v

(Extraído de conferência de

22/6/1973)

15


Flávio Lourenço

C

alendário

São Serafim de Montegranaro

1. XXVI Domingo do Tempo Comum.

Santa Teresinha do Menino Jesus,

virgem e Doutora da Igreja (†1897).

2. Santos Anjos da Guarda.

Beato João Beyzum, presbítero

(†1912). Jesuíta polonês, exerceu seu

ministério entre os leprosos em Fianarantsoa,

na Ilha de Madagáscar.

3. Bem-aventurados André de Soveral,

Ambrósio Francisco Ferro,

presbíteros, e companheiros, mártires

(†1645).

São Geraldo de Brogne, abade

(†959). Fundador e primeiro superior

da Abadia de Saint Gérad em Brog-

dos Santos – ––––––

ne, Bélgica. Dedicou-se à renovação

da disciplina monástica em Flandres

e na Lotaríngia.

4. São Francisco de Assis, religioso

(†1226).

Beato Francisco Xavier Seelos,

presbítero (†1867). Sacerdote redentorista,

oriundo da Baviera, trabalhou

dando assistência aos meninos, jovens

e imigrantes da cidade de Nova Orleans,

Estados Unidos.

5. São Benedito, o Negro, religioso

(†1589). Filho de ex-escravos,

ingressou num convento

franciscano de Palermo, Itália, e foi

um religioso exemplar, destacando-se

por sua humildade e obediência.

6. São Bruno, presbítero e eremita

(†1101).

São Francisco Trân Văn Trung,

mártir (†1858). Soldado vietnamita

decapitado em An Hoa, Vietnã, por

recusar-se a negar a Fé Católica.

7. Nossa Senhora do Rosário.

São Paládio, bispo (†c. 596). Bispo

de Saintes, França, erigiu uma basílica

sobre o sepulcro de Santo Eutrópio

e estimulou a devoção aos santos

na sua diocese.

8. XXVII Domingo do Tempo Comum.

Santa Ragenfrida, abadessa (†séc.

VIII). Erigiu com seus próprios bens

o mosteiro de Denain, França, do

qual foi a primeira abadessa.

9. São Dionísio, bispo, e companheiros,

mártires (†séc. III).

São João Leonardi, presbítero

(†1609).

São Gisleno, monge (†séc. VII).

Eremita no bosque de Hainaut, Bélgica,

fundou ali mesmo um mosteiro

em honra de São Pedro e São Paulo,

dando origem à cidade de Saint-

-Ghislain.

10. Beato Leão Wetmanski, bispo

e mártir (†1941). Bispo auxiliar de

Płock, Polônia, martirizado no campo

de concentração de Działdowo.

11. Santa Maria Soledade Torres

Acosta, virgem (†1887). Desde

sua juventude dedicou extraordinária

atenção aos doentes necessitados, aos

quais atendia com infatigável abnegação.

Fundou para esse fim em Madri

a Congregação das Servas de Maria

Ministras dos Enfermos.

12. Nossa Senhora da Conceição

Aparecida.

São Serafim de Montegranaro, religioso

(†1604). Capuchinho do convento

de Ascoli Pisceno, Itália, teve

duas grandes devoções: o Crucifixo e

o Santo Rosário.

13. São Geraldo de Aurillac, leigo

(†909). Conde de Aurillac, França, foi

exemplo para outros príncipes, vivendo

com a piedade e a austeridade de

um monge.

14. São Calisto I, Papa e mártir

(†c. 222).

Santa Angadrisma, abadessa (†c.

695). Superiora do mosteiro beneditino

de Oroër-des-Vierges, fundado

por Santo Ebrulfo nas proximidades

de Beauvais, França.

15. XXVIII Domingo do Tempo Comum.

Santa Teresa de Jesus, virgem e

Doutora da Igreja (†1582).

16. Santa Edwiges, religiosa (†1243).

Santa Margarida Maria Alacoque,

virgem (†1690).

São Longino (†séc. I). Soldado romano

que abriu com a lança o lado de

Nosso Senhor crucificado.

17. Santo Inácio de Antioquia, bispo

e mártir (†107).

Beato Pedro da Natividade de Santa

Maria Virgem Casani, presbítero

16


––––––––––––––– * Outubro * ––––

(†1647). Religioso escolápio falecido

em Roma, que, além de trabalhar na

educação das crianças, atraiu multidões

com sua pregação.

18. São Lucas, Evangelista.

Santo Asclepíades, bispo (†218).

Insigne confessor da Fé nos tempos

das perseguições, na Antioquia, atual

Turquia.

19. São João de Brébeuf, Isaac Jogues,

presbíteros, e companheiros,

mártires (†1642-1649).

São Paulo da Cruz, presbítero

(†1775). Desde jovem destacou-se por

sua vida penitente, zelo ardente e caridade

com os pobres e enfermos. Fundou a

Congregação dos Padres Passionistas.

20. São Vital de Salzburgo, bispo

(†c. 730). Discípulo de São Ruperto,

companheiro de viagens e imitador de

seu trabalhos e vigílias. Foi seu sucessor

como bispo e abade do mosteiro de

São Pedro, em Salzburgo, Áustria.

21. Beato Pedro Capucci, presbítero

(†1445). Dominicano italiano,

que meditando sobre a morte, guiou-

-se a si mesmo às realidades celestes e

exortou os fiéis nas suas pregações a

não cair na morte eterna.

22. XXIX Domingo do Tempo Comum.

23. São João de Capistrano, presbítero

(†1456).

Beata Maria Clotilde Ângela de

São Francisco de Borja Paillot, virgem

e mártir (†1794). Religiosa ursulina,

guilhotinada durante a Revolução

francesa, em Valenciennes.

25. Santo Antônio de Sant’Ana

Galvão, presbítero (†1822). Religioso

franciscano e fundador do mosteiro

concepcionista de Nossa Senhora

da Luz em São Paulo.

26. São Ceda, bispo (†664). Ordenado

Bispo dos saxões orientais

por São Finan, fundou várias igrejas

e mosteiros, dentre eles o de Lastingham,

em Yorkshire, Inglaterra.

Santa Gibitrudes, virgem (†séc.

VII). Ver página 18.

27. São Gaudioso, bispo (†séc. V/

VI). Bispo da Abitínia, na atual Tunísia,

que fugindo da perseguição dos

vândalos, terminou seus dias num

mosteiro por ele fundado em Nápoles,

Itália.

28. São Simão e São Judas Tadeu,

Apóstolos. Segundo a tradição, foram

martirizados na Pérsia, por volta do

ano 62.

São Rodrigo Aguilar, presbítero e

mártir (†1927). Enforcado numa árvore

em Ejula, México, após ser delatado

por um falso amigo.

29. XXX Domingo do Tempo Comum.

São Teodário, abade (†c. 575).

Monge da região de Vienne, França,

nomeado por seu bispo “intercessor

perante Deus” e penitenciário maior

para toda a diocese, pela sabedoria de

seus conselhos.

30. Beata Benvinda Boiani, virgem

(†1292). Terciária dominicana, que

consagrou sua vida a orações e penitências,

em Cividale del Friuli, Itália.

31. Santo Afonso Rodrigues, religioso

(†1617). Ver página 2.

Gabriel K.

24. Santo Antônio Maria Claret,

bispo (†1870).

Beato José Baldo, presbítero (†1915).

Fundador da Congregação das Pequenas

Filhas de São José. Com grande devoção

eucarística, dedicou-se às obras

sociais e catequese, em Verona, Itália.

Martírio de São Simão e São Judas Tadeu - Museu do Vaticano, Roma, Itália

17


Hagiografia

Santa do

glorioso castigo

Depois de oferecer a vida por sua superiora, Santa Gibitrudes

foi levada ao Juízo, mas Deus mandou-a voltar à Terra

devido a faltas veniais que cometera e não expiara. Ele é tão

sublimemente intransigente que não quis suportá-la na sua

presença enquanto tivesse aqueles defeitos.

Abiografia que temos para

comentar é de uma Santa

da qual nunca ouvira falar.

Trata-se de uma monja beneditina

do século VII, Santa Gibitrudes. A

ficha é tirada do livro Vidas dos Santos,

do Padre Rohrbacher 1 .

Constância ante os

primeiros obstáculos

Sobre Santa Gibitrudes, um monge,

chamado Jonas, escreveu:

Uma virgem, chamada Gibitrudes,

nobre pelo nascimento e pela Religião,

converteu-se e deixou o século

para ganhar a comunidade (de Eboriacum),

e a mãe do mosteiro, Burgondofara,

recebeu-a com alegria, como

a um gracioso presente, porque ela

era sua parenta. Queimava-a um tal

ardor, que sempre a graça do Espírito

Santo parecia inflamá-la.

Estava ela ainda na casa paterna

quando, a conselho do Espírito Santo,

decidiu votar-se ao culto da Religião,

e rogou ao pai e à mãe que lhe erigissem

um oratório onde pudesse ser a

serva de seu Criador.

Os pais julgaram-na erradamente:

os dois eram nobres da raça franca e

não se importavam ainda com a vida

que leva ao Reino dos Céus. Pelo contrário,

desejavam fruir das honras do

século, e por isso queriam da filha uma

posteridade, antes que dar penhor do

Céu. Todavia, nada conseguiram fazer

para demover a jovem do que trazia

no espírito: cederam ao seu desejo e lhe

construíram uma pequenina capela.

Como a jovem ali ia dia e noite, a astúcia

do hábil inimigo propôs-se tomá-

-la como alvo. E começou, por meio de

sua ama, a causar-lhe obstáculos, a impedir

que ela fosse ao oratório. A moça,

vendo-se atormentada, principiou a

procurar a clemência do Criador, a fim

de que aquela que lhe impedia de orar

e queria roubar-lhe a luz da alma fosse

privada da luz exterior.

A bondade divina não se fez esperar!

Bem cedo a mulher, atacada de

um mal dos olhos, viu-se despojada

da luz necessária e o Árbitro clemente

redobrou o temor dos pais castigando

o pai com febres. Se bem que inflado

pela nobreza, pelo exemplo da filha

ele aspirava já ao temor divino; pediu

à filha que rogasse ao Senhor por si e,

se recuperasse a saúde por sua intercessão,

seguir-lhe-ia a vontade.

A este pedido da fé, respondeu a saúde

por longo tempo diferida; o fogo da

febre deixou-o e o pai recuperou a saúde

de outrora. A jovem, então, pediu licença

para ir à comunidade de Eboriacum.

Ali levou ela a vida religiosa por

muitos anos, quando, um dia, Burgondofara

foi tomada de febres, levan-

18


do a crer que os liames

da presente vida dela se

desligariam.

“Põe em ordem os

teus sentimentos!”

Gibitrudes, vendo a

mãe do mosteiro perto

da última hora, entrou,

angustiada, na basílica

e pediu ao Senhor,

com lágrimas, que se

lembrasse da antiga

misericórdia, a fim de

que não deixasse morrer

a mãe, mas que, a

ela mesma, recebesse

no Céu com as companheiras,

e ali não chamasse

a mãe senão para

as seguir.

Depois das lágrimas,

ouviu uma voz

vinda do alto que lhe

disse:

– Vai, serva de Cristo, o que pediste

obtiveste. Ela, de boa saúde, pode

ser unida aos bem-aventurados doutra

vez, mas tu serás primeiramente desligada

dos entraves da carne.

No mesmo instante, foi tomada pela

febre e rendeu a alma pouco depois.

Já os Anjos a haviam tomado e levavam

além do éter; deposta diante do

tribunal do eterno Juiz, via bandos de

vestes brancas – foi ela mesma que o

referiu depois – toda a milícia do Céu

de pé diante da glória do eterno Juiz.

Ouviu uma voz partindo do trono

que dizia:

– Volta, porque não estás inteiramente

desapegada do século. Está escrito:

“Dá e te será dado”, e, ademais,

vê-se na oração: “Perdoai as nossas

dívidas, assim como nós perdoamos

os nossos devedores”. Tu te lembras

dos sentimentos de rancor para com

três de tuas irmãs? Não curaste a ferida

com o remédio da indulgência.

Corrige, pois, as tuas fraquezas, põe

em ordem os teus sentimentos, que

Juízo Final

Flávio Lourenço

manchaste com o tédio e com a negligência!

Ó maravilha! Voltando e tomando

a vida anterior, ela revelou com tristes

gemidos a sentença que recebeu, e

confessou as faltas. Chamou as companheiras,

pelas quais votara sentimentos

de cólera, e pediu perdão para

que não incorresse na danação eterna

por causa de uma dissimulação.

Novamente saudável, viveu mais

seis meses no século; depois, presa da

febre, predisse o dia da morte e anunciou

a hora em que deixaria o mundo.

A morte foi tão feliz que, na cela,

onde o corpo jazia inanimado, acreditava-se

sentir exalações de bálsamo.

Para nós, que lá estávamos no momento,

pareceu-nos um grande milagre.

No trigésimo dia, quando lhe celebrávamos

uma Missa, segundo o costume

da Igreja, um tal perfume encheu

a nave que se diria haver ali todos os

eflúvios das essências e dos aromas.

A justo título, o Criador fazia brilhar,

por seus dons, as almas que lhe foram

dedicadas aqui, as

que, por seu amor, nada

do século quiseram

amar.”

O milagre é um

prêmio da fé...

A ficha pode parecer

tão extraordinária,

pelos milagres por ela

narrados, que talvez

desperte em alguém

um sentimento de

desconfiança. Não se

tratará de uma lenda

que teria sido incorporada

à História? Será

que realmente fatos

tão extraordinários se

passaram? Tanto mais

quanto, se nós acompanharmos

a vida dos

Santos mais recentes,

não notamos milagres

dessa ordem. E se não

os há, por que os haveria naquele

tempo? E neste caso, não estaríamos

no nosso direito de duvidar de acontecimentos

dessa natureza?

A meu ver, essa seria uma dúvida

sem propósito, porque dois dados

são indiscutíveis e devem chamar

nossa atenção.

O primeiro é: nas épocas de muita

fé, Deus Nosso Senhor realiza milagres

mais estrondosos do que nos

tempos de pouca fé. Dir-se-ia que isso

é um paradoxo, pois onde há pouca

fé Ele deveria fazer milagres portentosos,

e onde já existe muita fé, não haveria

necessidade de tais milagres.

Mas o contrário é verdade. O milagre

é um prêmio da fé. E quem pede

com muita fé pode obter favores

tão contrários à ordem normal, que

constituam milagres. Exatamente

por causa disso, nas épocas de muita

fé os milagres excepcionais são mais

numerosos.

Na época em que o espírito de dúvida

penetra nas almas, e elas come-

19


Hagiografia

çam, a priori, a negar a possibilidade

do milagre ou exigir provas muito

mais amplas e meticulosas do que

seria necessário para reconhecer a

existência do milagre; quando as almas

não têm apetência do extraterreno,

do sobrenatural, do divino e, a

fortiori, do metafísico e do sublime, a

graça se retrai e a ação de Deus vai

se tornado mais escassa, rara e difícil

de obter. É um castigo para aqueles

que não quiseram crer.

Ora, no século VII nós estávamos

numa época de fé, a Igreja vivia

os primeiros séculos de reconstrução

da sociedade medieval que daria

na Cristandade. Nesse tempo era natural

que os milagres fossem estupendos.

Aquelas pessoas pediam e obtinham

coisas que realmente as maravilhavam,

mas nem tanto as robusteciam

na fé, pois já possuíam a fé vigorosa

que fora a causa daquele pedido.

No Santuário de Aparecida do

Norte, há um recinto chamado “sala

dos milagres”, onde as pessoas

depositam objetos em gratidão ou

cumprimento de promessas, por graças

recebidas, em muitas das quais,

se devidamente estudadas, poder-

-se-ia reconhecer o caráter de milagre.

Vendo a fé com que aquele povo

vai rezar lá, compreende-se que suas

orações sejam atendidas. Suponhamos

que aquela fé decaísse muito. O

número de graças de que a sala guarda

recordação não diminuiria também?

Sem dúvida. Porque a oração

feita com pouca fé é pouco atendida.

...fruto da pregação da

Santa Igreja Católica

Flávio Lourenço

Incredulidade de São Tomé - Museu Castellvecchio, Verona, Itália

Alguém dirá: “Mas então não há

saída para um povo que cai no despenhadeiro

da falta de fé. É um círculo

vicioso: ele se emendaria se soubesse

de milagres; por outro lado, ele

não conhece os milagres porque estes

não vêm ao povo fraco na fé. Então

ele está perdido, amarrado na sua

própria incredulidade e condenado.”

Isso não é verdade. A causa ordinária

e comum da fé não é o milagre,

mas a pregação da Santa Igreja Católica

Apostólica Romana. É a própria

existência da Igreja, a apetência

que o espírito humano, tocado pela

graça, tem de conhecer as verdades

que a Esposa de Cristo ensina e de

amá-las como elas são. Eis a causa

determinante da fé. O milagre é uma

causa excepcional da fé. O grande

favor de Deus não é de alguém ter

crido por causa de um milagre, mas

o de acreditar mesmo sem vê-los.

Atesta-o o famoso episódio de

São Tomé que, ao lhe ser anunciada

a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus

Cristo, teve dúvida. Quando lhe

apareceu o Ressuscitado, ele acreditou.

Então, o Divino Mestre exigiu

que ele pusesse a mão em seu sagrado

flanco para, tocando, constatar

ser mesmo Ele. E depois fez este comentário:

“Tomé, creste porque Me

viste? Bem-aventurados os que não

viram e creram” (Jo 20, 29).

Poder-se-ia objetar: “Mas, Dr.

Plinio, então o senhor reduz muito o

20


papel do milagre, o qual deixa de ser

uma tão grande graça.”

Não. Em relação aos fracos na

fé, o milagre é uma graça por onde

Deus arromba, por assim dizer, a alma

de alguns especialmente favorecidos

e que não quiseram crer. Para

estes, o milagre é um grande bem,

uma extraordinária dádiva, porém

mais felizes eles teriam sido se tivessem

crido sem o milagre.

Para os que têm fé, o milagre é

de muito valor como uma prova do

amor de Nosso Senhor, que rompe

seu próprio procedimento normal

para atender à súplica de alguém

consagrado a Ele, como essa freira,

e que Lhe pede um favor.

Assim, vemos como Santa Gibitrudes,

sendo consagrada a Nosso

Senhor, pediu e obteve graças esplêndidas,

entre as quais, a de ficar

cega aquela mulher que a atrapalhava

na sua vocação.

Existem situações em

que se pode pedir a

desgraça dos outros

Alguns, talvez, poderão ficar surpresos:

“Como é possível alguém pedir

que outrem fique cego?! Compreende-se

que se implore para uma

pessoa recuperar a vista; mas que fique

cega... ”

Há casos em que tal oração é perfeitamente

legítima, justa. A Santa teve,

provavelmente por imponderáveis,

conhecimento de uma determinada

situação moral, ou recebeu uma

comunicação interior, por onde ela ficou

vendo que aquela mulher seria

absolutamente refratária a qualquer

graça. Absolutamente falando, Deus

poderia lhe dar graças tão grandes

que ela se convertesse. Quiçá aquela

mulher tivesse uma alma tão endurecida

e merecesse tais castigos que Ele

não quisesse conceder-lhe tais graças.

Assim, para a moça restava apenas

a seguinte alternativa: ficar gravemente

ameaçada de perder a sua vocação

ou pedir que a outra se tornasse

cega. Ademais, para sua perseguidora

era muito melhor ficar cega nesta Terra,

mas não causar a perdição de uma

alma, do que conservar a vista e comprometer

uma vocação. Mas, sobretudo,

era muito melhor para a glória

de Deus que aquela moça se tornasse

uma Santa e que a cega aguentasse depois,

com virtude, a sua cegueira.

Há situações, portanto, nas quais

se pode pedir o mal dos outros, mas

não em qualquer conjuntura. Então,

basta uma pessoa estar me atrapalhando,

me amolando, prejudicando

minha salvação, para eu rogar que

ela fique cega? Não é assim. Há todo

um conjunto de circunstâncias a

serem consideradas. Contudo, existem

casos em que se pode pedir a

morte, a doença, a desgraça dos outros

para que eles não prejudiquem

a execução de um desígnio da Providência.

Se nos secretos desígnios de

Deus não houver outro meio para

afastar aquele obstáculo senão a punição

daquela pessoa, pedir que ela

seja castigada é uma coisa que se pode

perfeitamente fazer, com critério.

Para que esse pedido seja bem feito

são necessárias duas condições:

quem peça faça-o sem nenhum apego

pessoal. Logo, não é por raiva, birra,

agastamento ou comodismo, mas

apenas pelo zelo por sua própria santificação.

Em segundo lugar, que por

via das dúvidas, na hora de pedir,

acentue muito: se esta for a vontade

de Deus. Se não houver outro meio

de remover do caminho este obstáculo

à minha santificação, então rogo

que isso se realize. Nessas condições

é perfeitamente legítimo pedir.

Severidade e misericórdia

não se excluem, mas

se completam

Vemos a prova disso no lance final

da vida de Santa Gibitrudes. Ela

ofereceu sua vida pela superiora e,

ao morrer, teve até uma visão esplêndida

na qual contemplava a revoada

dos Anjos com seus hábitos. Naturalmente,

é um símbolo, pois sendo puros

espíritos os Anjos não usam hábitos.

Levada ao juízo divino, recebeu a

comunicação de que havia três freiras

de quem ela guardava birra, e ela

não podia estar na presença de Deus

mantendo com esse defeito.

Vemos nisso um misto da sublime

bondade e condescendência do

Criador, e sua sublime intransigência.

Deus é tão sublimemente intransigente

que uma freira para quem Ele fizera

milagre tão excelso, não queria, entretanto,

suportá-la na sua presença, enquanto

ela tivesse aqueles defeitos.

Mas Ele é tão sublimemente misericordioso

que praticou este milagre:

levou a freira à sua presença e denunciou

o pecado que ela, certamente

por própria culpa, não via. Mandou-a

de volta à Terra para pedir

perdão pelo pecado e expiar. Tendo

ela expiado e implorado perdão, então

levou-a para o Céu. Notem a misericórdia

extraordinária d’Ele com

ela, ao lado da severidade. E como a

severidade e a misericórdia, longe de

se excluírem, se completam.

Nós vemos isso na própria alma

da Santa. Para Nosso Senhor fazer

por ela tudo quanto realizou, é óbvio

que é uma grande Santa. Entretanto,

tais são as contradições que cabem

na pobre alma de uma criatura

humana, que esta pode ser elevada

em virtudes debaixo de muitos pontos

de vista e, portanto, atrair de fato

o amor de Deus, mas ter alguns defeitos

dos quais ela precisa ser purificada

e que a Providência não tolera.

E é neste modo contraditório de

ser das criaturas que brilha de uma

maneira especial a justaposição da

justiça e da misericórdia de Deus.

Justo para com um defeito, misericordioso

para com o próprio defeito

em atenção às altas qualidades, e

escolhendo um modo magnífico para

curar a freira, no fundo, de uma

falta que não era um pecado mortal,

21


Hagiografia

pois se o fosse o Criador não faria isso.

Não levaria essa alma em estado

de pecado mortal para a própria presença

d’Ele, para ver os Anjos. Evidentemente

eram faltas veniais. Entretanto,

naquela alma, sobretudo,

Deus não queria tolerar essas faltas.

Ele poderia dar graças comuns para

ela se arrepender e ir ao Céu sem

esse milagre. Mas quis fazê-lo para

provar, por essa narração, quanto

Ele ama excepcionalmente as almas

que O amam excelentemente. E não

poderia haver para ela um castigo

mais glorioso do que a punição que

ela recebeu. Ela poderia chamar-se

“a Santa do glorioso castigo”.

Que glória nessa punição! Que

estupendo ser amada de tal maneira

que, para receber esse castigo, ela é

tirada desta vida, colocada

na presença de Deus, sua

alma é novamente reintegrada

a seu corpo, e lhe é

restituída a vida, tendo recebido

do próprio Deus a

lição que precisava receber.

Ele poderia mandar

um Anjo fazer isso, mas

Ele mesmo o realizou. Pode

haver maior glória e

maior prova de amor? Era

castigo, entretanto.

Olhar luminoso

para perceber nossos

próprios defeitos

Mário Shinoda

Dr. Plinio em fins da década de 1970

Alguém poderia perguntar:

“Mas por que

Deus fez isso assim? Foi

só por essa Santa?”

Se fosse só por ela já estaria

perfeitamente bem

feito. Isso se deu no século

VII. Nós estamos no

século XX, que já vai caminhando

para seu fim.

Quantos séculos depois,

em terras que ninguém

imaginava, naquele tempo,

que existissem, está-se comentando

essa ficha e a sucessão desses

fatos! E nós ainda estamos nos extasiando

com a maravilha operada por

Deus, com esse jogo complexo e de variados

aspectos de que estou dando

notícia.

Quer dizer, isso foi feito para ficar

brilhando na História da Igreja até

o fim dos tempos. Quando acabar o

mundo e chegar o dia do Juízo Final,

é possível que algum daqueles sobre

os quais meus olhos estão caindo neste

momento, encontre uma Santa que

lhe esteja sorrindo de modo particular.

E a Santa use como insígnia uma

chibata luminosa mais do que muitos

sóis, e feita de uma matéria mais

preciosa do que o ouro. E a Santa se

aproxima de um de nós e diz: “Sabes

quem sou? Eu sou Gibitrudes, a Santa

do glorioso castigo. Rezei por ti naquela

noite em que soubeste do meu

castigo e de minha glória. E agora te

encontras perto de mim e estamos todos

salvos. Olhemos para Nossa Senhora

e glorifiquemo-La e, por meio

d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo.”

E nós, então extasiados com a glória

de Santa Gibitrudes, nos lembraremos

desta pobre conferência, e daremos

glória a ela. E nos sentiremos

associados à santa alma dela.

Como é bom, então, encerrarmos

esta reunião dizendo: “Santa Gibitrudes,

rogai por nós. Dai-nos a graça

de não nos acontecer o que ia vos

sucedendo, ou seja, ter alguns defeitos

que por culpa nossa não vejamos. Se

não merecemos um castigo tão glorioso

quanto o vosso, é verdade também

que nós tivemos, pelo menos,

uma ajuda luminosa

que foi a vossa. Tínhamos

defeitos ocultos, mas o

vosso exemplo, séculos depois,

nos trouxe à presença

de vossa biografia. E foi

um convite para, na noite

de 26 de outubro de 1976,

nós vos pedirmos: Santa

Gibitrudes, tornai luminoso

nosso olhar no exame

de consciência, de maneira

a percebermos tudo

o que está oculto, e nossas

almas compareçam diante

de Nossa Senhora límpidas

como foi a vossa, na

segunda vez em que diante

de Deus aparecestes. Santa

Gibitrudes, rogai por

nós!”

v

(Extraído de conferência

de 26/10/1976)

1) ROHRBACHER, René

François. Vidas dos Santos.

São Paulo: Editora das

Américas, 1959. Vol. XIX,

p. 42-45.

22


Perspectiva pliniana da História

Mistérios de uma

alma e de um povo

Para elucidar a linha geral da luta entre a Revolução e a Contra-

Revolução, Dr. Plinio considera os mistérios que podem existir no

interior de uma alma e os compara com os fenômenos, por vezes

também misteriosos, da evolução ou decadência de um povo.

Pediram-me que fizesse uma

exposição a respeito da linha

geral da luta entre a Revolução

e a Contra-Revolução. Este tema

é abordado em meu livro Revolução e

Contra-Revolução, mas sobre ele podemos

tecer alguns comentários.

O demônio atua devagar

nos acontecimentos

Em linhas gerais, o processo revolucionário

se resume no seguinte:

Em determinado momento ocorreu

um pecado imenso, o qual teve

como resultado o relaxamento dos

costumes, que consistiu em uma explosão

de orgulho e sensualidade.

Essa explosão minou, em primeiro

lugar, as estruturas eclesiásticas, fazendo

com que em alguns países arrebentasse

o protestantismo. Depois

solapou em análogos pontos a estrutura

temporal, política, de onde decorreu

a Revolução Francesa e a implantação

dos regimes representativos

contemporâneos e, mais tarde,

minou a ordem econômica e social

dando origem ao comunismo.

Há uma questão através da qual

se pode ver melhor todo esse processo

e se perceber algo da beleza da luta

entre a Revolução e a Contra-Revolução.

Trata-se de uma pergunta que,

creio, fica mais ou menos como garra

do demônio estrangulando as pessoas

e fazendo com que elas não saibam

respondê-la: Como se explica que, ao

longo de todo esse tempo, a Providên-

Divulgação (CC3.0)

Goldshtein G. (CC3.0)

Lutero em 1529

Horace Vernet (CC3.0)

Napoleão liderando

suas tropas na Batalha

da ponte de Arcole

Lenin em 1919

23


Gabriel K.

Perspectiva pliniana da História

Daniel I.

cia não tenha socorrido a sua Santa

Igreja Católica Apostólica Romana, e

não interveio para evitar a derrocada

daquela estrutura maravilhosa da Idade

Média? Como explicar, em última

análise, que a história da Contra-Revolução

não seja senão

uma história de derrotas?

Se consideramos que há

mais de quatrocentos e cinquenta

anos arrebentou o primeiro

surto de protestantismo

e que, de lá para cá, não temos

tido senão derrotas, ficamos verdadeiramente

pasmos com tudo quanto

a Providência permitiu, e nos perguntamos

até quando Ela permitirá.

Nos momentos de prostração e

abatimento, em que o demônio mais

especialmente nos assalta quanto à esperança

de alcançarmos a vitória, temos

uma sensação – ela mesma decorrente

de uma impressão difusa deixada

pela história da Revolução e da

Contra-Revolução – de que Deus não

está interessado no triunfo de sua própria

causa, e abandonou os acontecimentos

para correrem de qualquer

jeito, permitindo que o demônio não

só nos torture, mas o faça devagar. Assim,

a sucessão dos acontecimentos se

dá dentro dessa imensa vagarosidade

em que o demônio para, afia a faca, dá

risada, faz mais uma incisão arrancando

algumas gotas de sangue, estrangula

mais um pouco; quando se pensa

que o demônio vai liquidar o drama,

ele se senta preguiçosamente e, pousando

sobre nós um olhar chocalheiro,

diz: “Você pensa que acabou, mas

eu não tenho pressa e vou continuar.”

Por vezes isso se transforma numa

espécie de vivência que, à maneira

de um maçarico, perfura as almas

de lado a lado.

Até quando, Senhor?

Tanto mais quanto a seguinte resposta,

que saltaria aos olhos, não é

muito convincente: a Providência

suscitou Santo Inácio de Loyola e os

grandes Santos da Contra-Reforma,

os mártires da Revolução Francesa,

os vendeanos, os chouans, os carlistas,

os cristeros, Garcia Moreno, e toda

uma coorte de homens de valor.

Entretanto, dir-se-ia que essas pessoas

ilustres, íntegras, extraordinárias

levantaram-se na crista das ondas com

24

Santo Inácio de Loyola - Templo do Espírito

Santo, Ciudad de Puebla, México


Samuel Holanda

todo o tamanho de sua personalidade,

para depois serem derrubadas. E que

as obras por elas realizadas foram infiltradas,

adulteradas, zombou-se delas

e, quando essas obras não morreram,

voltaram-se contra si mesmas.

Algumas delas perduram até hoje,

mas seríamos levados a nos perguntar

se não seria melhor terem deixado

de existir, ao invés de subsistirem

contra si mesmas, e se a longevidade

dessas obras não é para elas mesmas

uma tristeza e uma maldição. Então,

o que restou do levantar dessas figuras

extraordinárias, a não ser a prova

de que o inimigo era tão maior que

nem elas conseguiram detê-lo?

Era preciso que olhássemos tudo isso

bem de frente ao tratarmos a respeito

da Revolução e da Contra-Revolução,

de maneira a tentarmos compreender

bem os desígnios misteriosos

da Providência e perceber, no re-

lógio de Deus, que horas são. O que

valem os relógios dos homens? A pergunta

é: Deus e Senhor meu, nos celestes

ponteiros de vosso divino relógio,

que horas são? Já chegou a meia-

-noite em que a vossa ira vai se descarregar?

Já se fez negro o quadrante

e dourados os números? Os ponteiros

já se transformaram em espadas e

em raios? Meu Deus, o que fazem os

vossos Anjos? Usquequo, Domine, usquequo?

Até quando, meu Deus, até

quando devemos continuar?

Há sucessivos pedidos

de Deus no decurso da

vida de cada pessoa

Para elucubrar sobre o assunto e

tentar chegar a uma solução, seguiremos

o seguinte método: considerar os

mistérios que podem existir no interior

de uma alma e compará-los com os fenômenos,

por vezes também misteriosos,

da evolução ou decadência de um

povo. Em outros termos,

podemos nos perguntar

como almas muito elevadas,

muito amadas e

chamadas por Deus decaem

e, depois, que relação e semelhança

há entre isso e a decadência

de uma civilização.

Tomem, por exemplo, casos de

homens extraordinários como Davi ou

Salomão. Ambos escreveram, inspirados

pelo Espírito Santo, trechos da

Sagrada Escritura. Que glória maior

pode haver do que a de um rei, como

Salomão, que se tornou a personificação

do reinado da sabedoria? Contudo,

em determinado momento vemos

que esses homens caem e se esboroam

de uma vez só. Davi foi passear no terraço

de seu palácio, olhou imprudentemente

para onde não devia, pecou,

tornando-se adúltero e homicida.

Salomão decaiu tanto que prevaricou

com inúmeras mulheres, acabou

caindo na idolatria e ficou um

homem abominável aos olhos de

Deus. O ocaso dele foi um lixo em

comparação com sua vida verdadeiramente

coruscante.

Fatos análogos continuaram a se

dar no Novo Testamento. Assim, vemos

quedas repentinas que, por um

mistério da Providência, são mais numerosas

do que no Antigo Testamento.

São almas colocadas muito alto, a

quem Deus dá grandes graças e que

fazem com Ele um pacto de amor.

Estabelecido esse pacto, Deus

quer levá-lo adiante. Entretanto,

acontece que a pessoa conserva algum

apego em uma profundidade de

sua alma onde ainda é explicável a

existência desse apego, pois é compreensível

que uma alma marche de

desapego em desapego em sua ascensão

espiritual. A Providência pede

um primeiro desapego que é, no

momento, tudo quanto a alma pode

dar. Depois Ela solicita mais e mais,

gradualmente. Assim, há sucessivos

Rei Davi - Pátio do

Escorial, Espanha

Rei Salomão - Pátio do

Escorial, Espanha

25


Perspectiva pliniana da História

pedidos de Deus no decurso da vida

de cada pessoa.

Creio que quando a alma disse

o último “sim”, em geral sua missão

nesta Terra está cumprida, e ela

é levada pelos Anjos. In Paradisum

deducant te Angeli – os Anjos te levem

ao Paraíso –, diz a antífona da

Missa de exéquias. Porque então está

tudo feito, todas as batalhas foram

ganhas, e uma coisa provavelmente

deve coincidir de um modo mais

ou menos cronológico com a outra:

no relógio de Deus, o ponteiro marca

a hora em que essa alma é acolhida

com um triunfo precioso. A obra

está pronta, a alma também. Vemos

isso em São Paulo de um modo protuberante,

quando ele disse aquelas

palavras famosas: “Combati o bom

combate, terminei a minha carreira,

guardei a Fé” (2Tm 4, 7). Ele tinha

evangelizado todos os que devia

evangelizar, renunciado a tudo

quanto precisava renunciar. Restava

apenas estender a cabeça sobre o cadafalso

e dizer sim para o golpe que

vinha. Dito esse “Amém” último, ele

entra para a coorte celeste.

“Irmão, perseveras?”

Ao contrário do que poderia parecer,

não é a primeira renúncia a mais

dolorosa. À medida que a Providência

vai pedindo renúncias maiores, a

dor vai crescendo. Assim, o grande perigo

da prevaricação é quando chegar

o momento de Deus pedir aquela última

entrega. Mais ou menos como

um guerreiro que está morrendo num

campo de batalha, com as entranhas

de fora, depois de ter atacado as muralhas

de Jerusalém e espantado pela

sua audácia, salvando o exército dos

cruzados. No momento em que ele está

morrendo, Deus lhe pede o seguinte:

“Meu filho, você aceita morrer longe

de sua pátria e de sua família, desconhecido

e até esquecido por todos?”

Por vezes, a família corresponde

apenas a um pequenino feudo... Outro

dia vi esse título de nobreza: “Senhor

do Cerejal e do Olival”. Então, trata-se

de renunciar à glória que ele receberia

daqueles que estão junto às cerejeiras e

oliveiras, que ele nem sequer verá novamente.

Suas vísceras estão espalhadas

no chão, ele sabe que vai morrer,

diante dele está a glória celeste com os

Anjos a cantar para ele, e vem o pedido:

“Você renuncia àquilo?”

Todos os apegos da vida se concentram

subconscientemente naquele

ponto, e ele é tentado a desejar

aquilo como o mais frenético dos

gananciosos cobiçaria fortunas fabulosas,

ou talvez como o mais vaidoso

dos ambiciosos desejaria a realeza

do mundo. Se nessa hora, dirigindo-

-se a Nossa Senhora, ele disser “Minha

Mãe, com a vossa graça, sim!”,

expira e morre em odor de santidade.

Se disser “talvez” ou “não”, eu

tremo por pensar o que pode lhe

acontecer. Porque vem, logo depois,

uma tentação do demônio: “Eu o

curo. Veja o que você perdeu. Sua vida

foi embora, mas eu lhe dou tudo

de volta. Adore-me!”

Dito esse “não” com o qual o indivíduo

só não renunciou a um caquinho,

a um restinho de glória no cerejal, entra

um demônio e põe tudo a perder.

Fiquei sadiamente impressionado

ao ler, certa ocasião, como procediam

uns religiosos – se não me falha a memória,

eram os trapistas – ao acompanhar

a morte de um dos irmãos. Formavam

uma roda em torno dele, rezavam

e, de vez em quando, perguntavam-lhe:

“Irmão, perseveras?” Portanto,

depois de uma vida cheia de renúncias,

havia o risco de não perseverar

naquele último momento.

Processo de estagnação

e de putrefação

Há então um processo de ruptura

interna de sucessivas renúncias que

culminam na derradeira e mais heroica,

na qual o homem faz a execração

do último pequeno obstáculo, que para

ele se afigura como o maior de todos

os muros do universo a separá-lo

do ideal que deveria seguir. Ele renuncia

a esse último obstáculo e com isso

pratica o seu supremo ato de amor

a Deus e a Nossa Senhora. Aplica-se

a ele, então, a frase de São João da

Cruz, de uma doçura enorme: “No entardecer

desta vida seremos julgados

segundo o amor” 1 . Portanto, quando

estiver chegando o ocaso de nossa vida,

seremos julgados conforme este

ponto: até onde foi nossa renúncia?

Até onde fomos capazes de nos desprender,

de dar? Aqui está a questão.

Apresentei esse processo em sua

última fase, contudo isso pode ocorrer

a qualquer altura de nossa existência.

Uma alma que deu e recebeu muito

está muito unida a Deus por vários

lados, mas em certo momento Ele pede

algo, a alma vacila e diz “talvez”. O

primeiro modo de responder “talvez”

é afirmar “daqui a pouco, não já”. Há

um ditado em alemão, que costumo

repetir: “Amanhã, amanhã, contanto

que não seja hoje, dizem todos os preguiçosos.”

Quando eu era pequeno, a

Fräulein Mathilde 2 me martelava isso

salutarmente na cabeça, sempre que

se apresentava o caso.

Quantas vezes dizemos “amanhã”

para um convite da graça! É uma coisa

profunda que Nossa Senhora nos pede.

Em certas ocasiões, é algo instantâneo

como um relâmpago, por exemplo,

vencer um ato de antipatia em relação

a alguém que nos orienta para

a virtude; isso envolve a renúncia

a duzentas outras coisas. Às vezes é

aceder a fazer um serviço que a pessoa

não queria, ou humilhar-se diante

de alguém. Em geral, é algo que contém

simbolicamente para aquela alma

uma porção de outros pontos.

Quando a alma diz “talvez”, começa

para ela a mais triste luta que conheço

em matéria de vida espiritual:

é a batalha de igual a igual, em que a

generosidade e a falta de generosidade

são igualmente grandes. Não é a luta

das almas moles, tíbias, que nem se-

26


quer lutam, e aquilo se passa de um

modo nojento. É a das almas que

têm generosidade, zelo, que disseram

“sim”, mas em certo momento

dizem “talvez”. Inicia-se

naquela alma um processo,

primeiro de estagnação: não

sobe, também não quer

descer, ela deseja resolver

a questão por si mesma.

Começam a se acumular

dentro dela problemas

nebulosos, tristezas

insuspeitadas, desânimos

inexplicáveis, nervosismos,

ânsias, depressões,

sustos, fobias, desejos; a

alma se torna uma caverna

de ventanias e não sabe

por quê, pois aquelas suas

primeiras resoluções estão de

pé e perfeitamente bem, ela

faz seu exame de consciência e

encontra tudo em ordem. A alma

tem, é certo, um ponto dolorido onde

não se pode tocar; aí ela não mexe

e ai de quem mexer! Ela forma, desde

logo, um jardim de castigo e maldição

no qual ninguém entra.

Depois vem a lenta putrefação

do lado bom, embora o aspecto mau

não cresça. O lado bom vai se deteriorando,

os bons propósitos não

deixam de se aplicar, mas a pessoa

vai cumprindo-os cada vez mais mecanicamente,

eles vão deixando de

ser firmes; em dado momento cai

um grau, depois outro... Susto!

Teodoro Reis

Nesse vale de lágrimas, o

pior é sempre mais provável

Entram novas graças, novas bondades,

Nossa Senhora pergunta:

“Meu filho, aqui você quererá parar?

Eu agora lhe dou sustento,

apoio, aceito, transijo, perdoo com

lágrimas nos olhos, mas tenha esperança,

Eu ainda venho lhe pegar!”

A pessoa se adapta. Daqui a pouco

passa a Santíssima Virgem novamente

e diz:

Nossa Senhora de Coromoto

(acervo particular)

– Meu filho, chegou a hora da renúncia.

Você quer?

– Não, daqui a pouco.

Novo rompimento, e aquela alma

decai aos poucos, passando por longos

estados de aparente estabilidade em

que ela julga estar bem, mas vai caindo,

caindo, até um momento em que

na aparência ela ainda está praticando

a virtude, mas não é mais a mesma.

Aí também vem um anjo e a leva

embora. Que anjo? Um anjo de ouro,

límpido, de legitimidade, ou o anjo do

horror, das trevas, da usurpação? Mistérios

de Deus, não se sabe também.

Esse é um processo que tanto pode

reverter para o bem, como pode dar

para novas baixas e chegar até o fim.

Não há determinismo nem fatalismo

ao longo desse processo, mas nesse

vale de lágrimas o pior é sempre mais

provável, não nos iludamos.

Trata-se de um processo naturalmente

demorado, porque, para salvar

uma alma de ouro, a misericórdia divina

deixa passar muito tempo. Até

são tempos em que a alma vai-se

embebendo de graças novamente

e retomando a normalidade,

sobem de novo e chega outro

pedido.

Evidentemente, essas

coisas levam tempo. Ao

longo da evolução dessas

almas, Nossa Senhora

põe outras para salvá-las,

que fazem de tudo: imploram,

deitam o quanto

possam ter de tesouros

modestos ou magníficos

de zelo, de sabedoria, de

penetração psicológica,

de paciência, de energia,

talvez de increpação. Dir-

-se-ia que essas maravilhas

são como ondas que sobem e,

se alma não corresponde, essas

ondas caem de novo. Para aquela

alma fica aquilo acumulado e no

dia do Juízo é uma conta a ser paga,

necessariamente. A pessoa pensa que

dá de ombros ao bom conselho, e não

percebe que o bom conselho rejeitado

um dia será pago; ela pensa que

venceu, de fato foi derrotada.

Pode acontecer que uma alma seja

longamente perseguida pela Providência

até graus inimagináveis. Muitas

vezes Deus salva uma alma assim

e há conversões espetaculares que são

o encanto da Igreja, e a alegria de todas

as almas justas até o fim do mundo.

No entanto, em um número muito

maior de vezes isso não se dá, e fica a

coisa como estou descrevendo. v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

24/2/1974)

1) Avisos y Sentencias, 57.

2) Senhorita Mathilde Heldmann, preceptora

alemã contratada por Dona

Lucilia para auxiliar na educação de

seus filhos.

27


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Rosenblatt (CC3.0)

Como se forma

o costume - I

Berlim, em 1902

A partir de uma análise profunda do temperamento do

povo alemão, Dr. Plinio faz luminosas considerações

sobre o costume, mostrando como este é o lado precioso

transmitido pela tradição e, ao mesmo tempo, a fixidez

de rumos de um povo na fidelidade a si próprio.

V

amos estudar o costume: o

que é, como ele se fixa, relação

entre costume e doutrina,

costume e estrutura político-social.

Espaço físico e espaço

psicológico

Para isso, parece-me que podemos

partir da análise dessa fotografia

de Berlim, entre 1895 e 1914.

Portanto, retratando o ambiente dos

anos de 1870, com a guerra franco-

-prussiana e a vitória da Alemanha,

até 1914, com a I Guerra Mundial e

a posterior vitória das democracias e

da França.

Chamo a atenção, em primeiro

lugar, para o seguinte: é um aspecto

colhido de uma rua onde não se

vê ninguém apressado; o corre-corre

norte-americano não está presente.

Uma coisa curiosa que se nota

aqui é a seguinte: pelo trânsito, pelas

pessoas que estão andando, é evidente

que se trata de uma parte central

de Berlim. Notem uma mistura entre

passeio social e trato de negócio. Algumas

pessoas estão manifestamente

em passeio social, as senhoras sobretudo.

Algumas delas muito hirtas estão

enfarpeladas, com chapelões, vestidas

com cuidado, como não se vê

hoje em dia uma senhora que tenha

trajes correspondentes aos que havia

nessa época; e com esses trajes ela

não sai a pé, mas de automóvel.

Vê-se que há alguns homens pelo

meio que estão preocupados, tratando

de negócios. E que o público que

esses ônibus − uns transportes coletivos

aí pelo meio − vão transportando

é de gente que não está passeando,

mas vem para a cidade a fim

de fazer algo.

28


Collection Kuhn (CC3.0)

Outra coisa é a seguinte: os espaços.

As pessoas não estão empilhadas

umas em cima das outras, mas

têm folgadamente espaço para andarem

de um lado para o outro. É o

espaço material que se liga ao espaço

psicológico. Liga de que maneira?

Ninguém tem muita pressa, não está

muito preocupado nem acabrunhado,

que é uma forma de espaço mental;

por outro lado, há espaço físico

em torno de cada pessoa: ninguém

está na iminência de dar um esbarrão

em outrem.

Homens e mulheres

têm algo de militar

Essa gente, entretanto, já tem

notícia de como são as ruas de Nova

Iorque, e o entusiasmo deles vai

para essa cidade e não para Berlim.

Quer dizer, psicologicamente já estão

andando em Nova Iorque.

Não que eles desejassem uma

transformação imediata disso para ser

como Nova Iorque. Mais ainda, eles

nem estão pensando em viajar para lá.

Mas desejam para a Alemanha, a médio

termo, a novaiorquização. E, certamente,

se tivessem alguém que procurasse

criar no espírito dos netos deles

uma nostalgia dos antigos tempos,

e como voltar as costas a Nova Iorque,

eles tirariam os netos dessa influência.

Isto aqui é, portanto, um modo

de ser do progressismo nesse tempo.

Eu chamo aqui progressismo a adoração

do progresso.

Entretanto, misturando-se curiosamente

com isso há um traço evidente

da Alemanha kaiseriana: qualquer

coisa que diz existir nessa cidade

uma corte. Essas senhoras, esses

homens, etc. têm na sua presença

uma corte. E uma corte preponderantemente

militar.

Collection Kuhn (CC3.0)

Waldemar Franz Hermann Titzenthaler (CC3.0)

29


A sociedade analisada por Dr. Plinio

É a forma de governo determinando

até o modo de andar. E havia aquele

Kaiser de estampa muito militar,

com cinquenta ou oitenta dinastiazinhas

cujos chefes locais andavam sempre

de uniforme e se gabavam de seus

regimentos locais, integrantes do exército

alemão. Isso se nota até no modo

das senhoras andarem; a postura delas

tem qualquer coisa de militar.

Marido, filhos, todos vão para a

guerra, e as senhoras ficam fazendo

bandagem para os feridos, ou tricô

quando chega o inverno, a fim de

cobrir os soldados; elas participam

do esforço de guerra, ativa e militarmente.

Nos passos de alguns homens há

algo de militar. Os mais civis ainda

são meio militares. Não é o passo de

um civil de hoje.

Notem o alto pudor dos vestidos.

Eles não são bonitos, mas feitos de

muito bons tecidos e têm uma certa

dignidade e solenidade.

Há uma nota de hierarquia presente,

inclusive nas relações entre as

pessoas. Não é um trato igualitário.

Alemanha: aspectos

externos e internos

Em 1918, portanto vinte anos depois,

toda essa sociedade, essas di-

nastias estavam no chão. Olhando

para isso, dir-se-ia que há recursos

para viver cinquenta anos nessa situação,

pois tem muita vitalidade. Entretanto,

está tudo podre. Como se

explica isso?

A guerra contribuiu muito, foi um

trambolhão medonho, mas não justificaria

isso. Vou dar uma prova: a

monarquia dos Habsburg, muito menos

militar, menos firme na aparência,

etc., foi muito mais difícil de derrubar.

O Tratado de Saint-Germain

obrigava o destronamento dos Habsburg

da Áustria, da Hungria, da Boêmia

e de todos os tronos anteriores.

E restaurar os Habsburg em qualquer

trono autorizava imediatamente

intervenção militar de todos os

outros Estados na monarquia danubiana;

o que equivaleria a dizer existir

um pânico da popularidade dos

Habsburg. E aqui não houve nada

disso. Como se explica?

Vamos nos deter no caso. Há aqui

hierarquia e monarquia.

Não é uma cidade inteiramente

laica, o sombrio está presente aí.

Mas, para completar o quadro, devemos

considerar o seguinte: Em

dias bonitos, esses homens vão pegar

borboletas no mato; põem calças

curtas de tecido verde, com os joelhos

de fora, meias grossas, chapéu

com pena, e cantam acompanhados

pela flautinha canções do Tirol; as

mulheres vão também, vestidas de tirolesa,

carregando sacões com sanduíches

e outras coisas que fizeram

em casa para os maridos e as crianças.

E, encontrando uma árvore muito

bonita, se seguram pelas mãos uns

aos outros, fazem uma roda em torno

da árvore e cantam.

Isso me causaria encantos, eu

acharia ultrarrefrigerante e regozijante.

Apesar de todos os meus superenlevos

com a França, isso não tem

nada de francês, mas é uma coisa

maravilhosa. Eu me habituaria muito

mais depressa em morar na Alemanha

do que na França; entrava

nisso de cheio, imediatamente.

Dessas coisas, qual é o suporte?

Primeiro, ideias estão presentes?

Em segundo lugar, isso sustenta as

ideias ou as ideias sustentam isso? A

apetência desse povo criou clima para

essas ideias, ou estas modelaram o

povo? Analisadas essas questões, veremos

o que é um costume.

Poder-se-ia fazer uma grande objeção

ao que estou dizendo. Imaginem

uma caixa de ferro, tendo na

tampa e em todas as faces laterais

pregos com as pontas voltadas para

fora. Esse é o aspecto externo da

Alemanha. Suponham que dentro

Tiia Monto (CC3.0)

Vista de um campo em Ehrwald, Tirol, na Áustria

30


da caixa tudo é acolchoado com pena

de cisne, de uma cor alegrinha,

engraçadinha. Essa é a Alemanha.

Porque a vida íntima deles é a mais

diferente possível daqueles pregos.

Os pais querem bem aos filhos,

em alguma medida os pais

se querem bem entre si, e os irmãos

se querem muito bem.

A família tem uma coesão

muito efetiva. E são capazes

de cantar a afetividade familiar,

tocando flautinha, violino;

a mãe que entra de manhã

no quarto do filho levando-lhe

algo que ela preparou,

tendo levantado mais cedo,

porque o filho tirou nota boa

no exame do dia anterior.

Coisas assim tornam o interior

da casa ativo, gostoso, vivo, e também

o interior de um regimento, de

uma usina ou de uma escola.

Jazida de energia

que marcha

BNS (CC3.0)

Imperador Carlos

da Áustria

Vamos agora remontar ao que seria

o mais interno disso.

Há no povo uma jazida, mais ou

menos como aquelas de carvão e de

ferro do Rhur, das quais, por mais

que se tire, ainda têm mais dentro;

tenho a impressão de que chegam

até o centro da Terra, e até a varam

do outro lado. Nos alemães existe

uma espécie de jazida de energia, e

energia saudável com a pulsação de

um coração saudável, e que marcha;

todo ritmo vital vai no impulso de

uma marcha interna regulada e incansável.

Não que eles estejam isentos

de preguiça, mas esta é diferente

de cansaço. Cansaço é uma situação

de exaurimento. A preguiça é uma

falta de vontade, viciosa, de contribuir

com seu esforço.

Preguiça eles têm ou não, como

qualquer um. Mas possuem uma dificuldade

de cansar, uma regularidade,

uma força, uma coisa inexaurível,

e que é o grande capital da nação,

coligada com uma saúde muito

boa, também não se pode negar, não

tendo a longevidade. Eles não confundem

saúde com longevidade; é

a plena Leistung 1 durante o período

da maturidade.

Se um homem, durante o período

da maturidade – e até desde menininho

–, deu uma Leistung forte, ele viveu.

Teve aquele capital de Leistung,

que aplicou em tudo.

Daí decorre uma necessidade do

método e uma ausência do capricho.

Eles têm gente caprichosa, é natural,

está na natureza humana, mas o capricho

é pouco preponderante dentro

deles. É o método, o sistema, o

planejamento, etc. que preponderam

e tornam o fundo do temperamento

deles apetente do estado militar.

Quer dizer, isto forma militares

e dá apetência de um modo de fazer

que a condição de militar exige; de

maneira que a militarização da vida

é em parte pela importância que

exerce na concepção deles, mas em

parte porque toda a vitalidade deles

pede isso. E querem isso, eles são assim.

Era uma época que não tinha cosmopolitismo,

essas viagens internacionais,

e cada povo se formava

com o desenvolvimento natural

de todas as suas próprias qualidades.

Como resultado, eles

modelavam uma vida de família,

de cidade, modas, trajes,

cultura exatamente assim. É a

própria lógica deles, são batalhões

de argumentos e silogismos

que vão se dirigindo para

a destruição de um sofisma.

E o modo de ser precisava

ser o Império, com a tendência

ao universal, que não é só a

continuidade de Carlos Magno.

O empuxe, a expansão ordenada

de tudo isto foi a história deles.

A meu ver o apogeu da Alemanha

nessa época – não do mundo

germânico, com a Áustria, porque

neste caso já é outra coisa – foi esse.

E chegou a uma situação em que

o temperamento e o modo de ser influiu

a fundo num certo modo ordenado

de viverem a Fé, os costumes

e as relações privadas. E a Fé mais

as relações privadas influenciaram

as relações públicas. E estas, por sua

vez, confirmaram nisso o domínio

privado. Havia uma espécie de mistura

entre o domínio privado e domínio

público, onde tudo era coerente,

desde o topete da senhora até

a ponta do sapato bem encerado do

militar, ou a cartola do professor, na

plena floração e frutificação de uma

coisa que era ela mesma.

Dois fatos culminantes da

História da humanidade

O que é o costume dentro disso?

O costume é feito pela repetição dos

hábitos, nas mesmas situações, sempre

se renovando para se explicitarem

e se quintessenciarem.

Isto vem constituindo um legado

histórico, a tradição: aquilo que

31


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Leopold Kuppelwieser (CC3.0)

o costume transmite de uma geração

para outra. O costume é, portanto,

a embalagem, o lado precioso que a

tradição transmite. Mas é também a

fixidez de rumos de um povo na fidelidade

a si próprio.

E com a tradição e costume conjugados,

a fisionomia da nação exprimindo

tudo isso inteiramente, tem-se

um povo que chegou à sua plenitude.

É o traçado reto de uma história.

A Áustria fez isso com todas as

peças da monarquia danubiana. Ela

não oprimiu, não comprimiu, mas

assimilou, soube fazer um cocktail,

Imperador Francisco I

foi uma realização, ao mesmo tempo

meio militar – porque é claro que

sem tropas aquilo não se mantinha

–, porém cultural e diplomática, etc.,

de uma altura muito grande. Por isso

eu acho que a Áustria não é puramente

alemã. Ela é uma obra-prima

da política europeia.

Um oficial inglês escreveu uma

biografia do Imperador Carlos, depois

de este ser preso em Budapeste.

Ele foi levado numa canhoneira

inglesa pelo Danúbio até o Mar Negro.

E passando por todos aqueles

povos às margens do Danúbio, que

eram, por assim dizer, “perseguidos”

pelo Império, no percurso inteiro o

povo todo aplaudia. Até em países –

eu achei isso mais tocante – que nunca

pertenceram ao Império Austro-

-Húngaro, como a Romênia. O Danúbio

desemboca na Romênia, lá a

população com trajes regionais cantava

e aplaudia enquanto ele passava.

Este episódio e aquela atitude da

população de Viena que quis oferecer

uma festa ao Imperador Francisco

I, para compensá-lo da derrota de

Austerlitz 2 , porque ficaram com pena,

são desses fatos culminantes da

História da humanidade.

Isto é uma coisa que, por exemplo,

um sul-americano, que se desenvolvesse

como um austríaco se desenvolveu,

poderia fazer talvez até com

mais espírito de abarcamento; somos

nós, já não é a Alemanha. Por

outro lado, imaginem que se pusesse

com esse povo que está aí dominando

o Império Austro-Húngaro, como

ele era nas vésperas da I Guerra,

os croatas, por exemplo; eles realizariam

atentados, gritariam injúrias, jogariam

ovos podres, fariam de tudo.

Então, na apreciação da Alemanha

tenho muita admiração. Mas

na comparação com a Áustria entra

muita restrição de minha parte.

Creio que todos veem ser razoável.

Não se organizou uma expansão

imperial no mundo que de tal maneira

fosse isso. A romana teve algo,

mas não foi assim. Ali é o triunfo

do espírito cristão propriamente, algo

da presença de Nosso Senhor Jesus

Cristo.

v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

29/8/1986)

1) Do alemão: Poder, capacidade de ação.

2) Batalha, ocorrida em 1805, na qual

Napoleão derrotou a Áustria, provocando

a queda do Sacro Império Romano-Germânico.

32


cjuneau (CC 3.0)

Luzes da Civilização Cristã

A incomparável

e maravilhosa

Sainte-Chapelle

Os vitrais da Sainte-Chapelle

são lindos e famosíssimos

pelo seu colorido delicado.

Impressiona a suavidade das

nervuras e das colunas que,

embora pequenas, sustentam

abóbadas enormes. Nota-se

uma suprema distinção, bom

gosto, harmonia, nobreza

e uma certa bondade que

pairam sobre tudo isso.

Mmo75 (CC 3.0)

Esta é a incomparável e maravilhosa Sainte-Chapelle.

A forma peculiar da construção vem do fato

de haver pouco espaço para se expandir. Ela foi

construída para ser a capela do Palácio Real cujos antigos

edifícios, que a comprimiam bem de perto, foram substituídos

pelo atual Palácio de Justiça da França.

A capela dos pobres

São Luís IX a construiu para abrigar espinhos da coroa

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A elevação dela é realçada por este pináculo que sobe

à maneira de flecha que, tendo sido destruído na época

da Revolução Francesa, foi reconstruído no século XIX.

É uma imitação da flecha autêntica, verdadeira.

33


Luzes da Civilização Cristã

Mark Mitchell (CC3.0)

Pedro M.

Essa parte interior é deslumbrante! É de pedra policromada,

e o teto dá a impressão de um céu estrelado. As

ogivas e as colunas todas são pintadas também.

Impressiona a delicadeza das nervuras e das colunas

que, embora pequenas, sustentam abóbadas enormes.

Dessas colunas partem longas hastes, lembrando a elegância

dos ramos de uma palmeira. Recebem, por isso,

o nome de colunas em forma de palmeira. Nos pontos

onde essas hastes se encontram constituem-se pingentes

belamente trabalhados. Esta parte corresponde, naturalmente,

ao lugar destinado ao altar e forma uma espécie

de capela-mor que se separa do resto.

A capela compõe-se de três naves, segundo um plano

típico de igrejas medievais.

A parte baixa da Sainte-Chapelle é uma maravilha, e

estava destinada para os empregados do Palácio assistirem

à Missa. Esse dado contraria a famosa versão de

que na Idade Média não se cogitava nos pobres. Ora, essa

era a capela dos pobres! Oxalá os ricos tivessem, hoje

em dia, capelas assim...

Os medievais gostavam muito da policromia

A policromia é muito bonita; vemos belos mosaicos e,

nas colunas, sobre fundo azul- escuro, a flor de lis de ouro.

Em certos pontos encontramos aplicados alternativamente,

sobre um fundo vermelho, um castelo e um leão.

cjuneau (CC3.0)

Pedro M.

Jean-Christophe BENOIST (CC3.0)

34


denfr (CC3.0)

Joe deSousa (CC3.0)

Nota-se o gosto do homem medieval pela policromia:

colunas vermelhas, azuis, das quais partem os “ramos

de palmeira” rumo ao ponto de encontro belamente ornado.

É uma verdadeira harmonia!

O azul desse “céu” é profundíssimo, como o céu atmosférico

não costuma apresentar. Mas parece indicar

mais o Paraíso eterno do que o céu visível da Terra. Em

determinado ponto da capela, esse azul profundo e nobre

contrasta com o que há de alvo, de cândido nas cenas

representadas nas pinturas ou nos mosaicos.

Os vitrais da Sainte-Chapelle são lindos e famosíssimos

pelo seu colorido delicado. Entre eles, vê-se um representando

Nossa Senhora com o Menino Jesus e, ao

lado, outro com um rei vestido à oriental, como aliás, a

Santíssima Virgem também.

Chama a atenção a beleza das cores com seus variados

tons, todos muito bonitos e harmônicos. Na figura do rei,

por exemplo, impressiona a beleza da cor da capa, do verde

em certas partes do vitral e do escrínio que ele leva. A

expressão de sua fisionomia é também muito bonita.

Em outro lugar, numa rosácea, vê-se um personagem

tocando alaúde. Tudo de uma suprema distinção, bom

gosto, harmonia, nobreza e um certo afeto, uma certa

bondade que pairam sobre tudo isso.

v

(Extraído de conferência de 1/7/1972)


Meditação

Flávio Lourenço

de Maria

T

alvez nunca ninguém teve os meios para

fazer uma meditação da vida inteira

de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas

creio que sendo Nossa Senhora quem era, favorecida

de todas as graças e dons num grau e

numa abundância insondável, Ela não fez senão

isto.

Assim, Ela meditava em todo o significado e

alcance diante da Santíssima Trindade de cada

gemido, cada dor, ao longo da Paixão, mas

também de cada alegria por ocasião dos júbilos

da Ressurreição, como durante o Nascimento,

e enquanto Ele vivia em seu claustro

virginal; tudo isso Ela conheceu e adorou, esteve

continuamente presente em sua mente por

causa dos conhecimentos próprios a Ela, e que

Lhe eram comunicados por seu Divino Filho.

Essa contemplação deveria conferir à expressão

do olhar de Maria Santíssima e à sua atitude

recolhida uma força de meditação verdadeiramente

extraordinária, ligada à sabedoria

d’Ela: um conhecimento milagrosamente

amplo e uma interpretação sapiencial de tudo

quanto houve.

Isso constituiu uma arquitetura como a de

um palácio: vita Domini Nostri Iesu Christi,

desde o primeiro instante da Encarnação até

a hora da Ascensão. Completada esta, quando

Ele entrou no Céu e sentou-Se em seu trono,

terminou a vida terrena d’Ele e um todo se

fez. Esse todo Ela conheceu, admirou e amou

de um modo extraordinário!

(Extraído de conferência de 10/7/1991)

Anunciação - Museu da Catedral de Santo

Domingo de la Calzada, La Rioja, Espanha

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