02.10.2017 Views

Revista Dr. Plinio 235

Outubro de 2017

Outubro de 2017

SHOW MORE
SHOW LESS

Create successful ePaper yourself

Turn your PDF publications into a flip-book with our unique Google optimized e-Paper software.

Fátima:<br />

castigo, penitência,<br />

misericórdia


Flávio Lourenço<br />

Cenas da vida de Santo<br />

Afonso Rodrigues (detalhe)<br />

Igreja de Montesión, Palma<br />

de Mallorca, Espanha<br />

Santidade<br />

“victa et non picta”<br />

Santo Afonso Rodrigues conseguiu fazer um bem imenso à Espanha e a todo o mundo, ocupando um posto humílimo.<br />

Ele era porteiro de um convento situado numa ilha que naquele tempo tinha comunicação difícil com<br />

o continente. Ali ele consumiu quarenta e cinco anos de sua existência.<br />

Apesar de estar nesse recanto, o bom odor de Jesus Cristo que havia nele espalhou-se por toda a ilha de Palma de<br />

Mallorca, pela Espanha e depois pelo mundo, com a figura venerável desse porteiro velho, acolhedor, afável, sempre<br />

ao alcance de todos na portaria e, portanto, podendo ser consultado por quem quisesse. Isso fez de sua cadeira de<br />

porteiro um trono da sabedoria. Todos iam lá para vê-lo e ouvi-lo.<br />

Foi uma vida toda integrada e empregada no serviço de Deus Nosso Senhor e da Santa Igreja Católica, porque a<br />

santidade, ou seja, a sabedoria, tem uma irradiação própria que a nada se compara. Não é tão importante que o Santo<br />

esteja num lugar onde todos veem, porque onde ele se encontre o afeto e a admiração confluem para lá. Basta que<br />

seja um Santo autêntico, com uma santidade – como diziam os antigos – victa et non picta, isto é, conquistada e não<br />

pintada.<br />

(Extraído de conferência de 30/10/1967)


Sumário<br />

Ano XX - Nº <strong>235</strong> Outubro de 2017<br />

Fátima:<br />

castigo, penitência,<br />

misericórdia<br />

Na capa, multidão reunida em<br />

Fátima em 13 de outubro de<br />

1917. Em destaque, imagem<br />

peregrina de Nossa Senhora de<br />

Fátima, e São José com o Menino<br />

Jesus (acervo particular).<br />

Foto: Arquivo <strong>Revista</strong><br />

As matérias extraídas<br />

de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

— designadas por “conferências” —<br />

são adaptadas para a linguagem<br />

escrita, sem revisão do autor<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />

propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />

CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />

INSC. - 115.227.674.110<br />

Diretor:<br />

Gilberto de Oliveira<br />

Conselho Consultivo:<br />

Antonio Rodrigues Ferreira<br />

Carlos Augusto G. Picanço<br />

Jorge Eduardo G. Koury<br />

Redação e Administração:<br />

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27<br />

02404-060 S. Paulo - SP<br />

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br<br />

Impressão e acabamento:<br />

Northgraph Gráfica e Editora Ltda.<br />

Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423<br />

02911-000 - São Paulo - SP<br />

Tel: (11) 3932-1955<br />

Preços da<br />

assinatura anual<br />

Comum............... R$ 130,00<br />

Colaborador........... R$ 180,00<br />

Propulsor.............. R$ 415,00<br />

Grande Propulsor....... R$ 655,00<br />

Exemplar avulso........ R$ 18,00<br />

Serviço de Atendimento<br />

ao Assinante<br />

editora_retornarei@yahoo.com.br<br />

Editorial<br />

4 Com Nossa Senhora<br />

não se brinca<br />

Piedade pliniana<br />

5 Guerreiros na grande<br />

luta que se aproxima<br />

Dona Lucilia<br />

6 Aos fracos coragem, aos<br />

corajosos humildade<br />

Gesta marial de um varão católico<br />

8 Integridade e desapego em<br />

face de convites e ameaças<br />

Calendário dos Santos<br />

16 Santos de Outubro<br />

Hagiografia<br />

18 Santa do glorioso castigo<br />

Perspectiva pliniana da História<br />

23 Mistérios de uma alma<br />

e de um povo<br />

A sociedade analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

28 Como se forma o costume - I<br />

Luzes da Civilização Cristã<br />

33 A incomparável e maravilhosa<br />

Sainte-Chapelle<br />

Última página<br />

36 Meditação de Maria<br />

3


Editorial<br />

Com Nossa Senhora<br />

não se brinca<br />

Há certos temas que nos são tão familiares e caros ao coração que se tornaram objeto de<br />

inúmeros comentários de nossa parte. Porém, não poderíamos deixar passar o dia 13 de<br />

outubro sem determos um instante nossa atenção no assunto Fátima. Desta vez não vou<br />

comentar tanto a Mensagem quanto a atitude do mundo perante ela.<br />

A Santíssima Virgem documenta a autenticidade de seu anúncio de dois modos. Em primeiro lugar,<br />

Ela a confia a pastorezinhos incapazes de compreender seu significado, limitando-se a repetir o<br />

que ouviram. Por vezes, discursos longos e complexos que eles transmitiam sem se contradizerem,<br />

mesmo submetidos a inquéritos policiais brutais.<br />

De outro lado, Nossa Senhora produziu milagres que provavam à multidão ali reunida, e mesmo a<br />

gente de muito longe, que algo de sobrenatural se passara, como, por exemplo, a famosa “dança” do<br />

Sol. Tudo atestado por pessoas que moravam muito distante de Fátima.<br />

Entretanto, chama a atenção no modo de o mundo receber a Mensagem de Fátima, não só a incredulidade<br />

de muitos à vista de episódios tão impressionantes, mas o fato de não se encontrar quem<br />

fizesse o seguinte comentário: tomada a Mensagem em si mesma, apenas pelo seu conteúdo, abstração<br />

feita de todos os prodígios que a cercaram, já havia todas as razões para admitir sua veracidade.<br />

Quem conhecesse um pouco de Moral não podia duvidar que o mundo estava imerso num processo<br />

de pecados gravíssimos, cujo dinamismo permitia antever aonde levariam a humanidade.<br />

Portanto, teologicamente falando, bastaria raciocinar um pouco para se ter a certeza de que, a não<br />

haver uma grande conversão, viria um castigo.<br />

Assim, com um pouco de conhecimento da Teologia da História, ver-se-ia tratar-se de uma mensagem<br />

condizente com o que um homem de Fé, analista dos acontecimentos da época, dotado de alguma<br />

profundidade, deveria pensar.<br />

Ora, as crianças transmitiram, assim, uma comunicação sábia e verdadeira em si mesma, de uma<br />

sabedoria e uma riqueza de conteúdo que excedia a capacidade delas. Logo, a mensagem é intrinsecamente<br />

verdadeira.<br />

Em última análise, alguém que observasse o mundo daquele tempo à luz da Revolução e da Contra-Revolução<br />

distinguiria na Mensagem três aspectos: uma descrição teológica dos pecados daquele<br />

tempo, o anúncio de um castigo e a indicação dos meios de escapar deste, isto é, a penitência e a consagração<br />

ao Imaculado Coração de Maria.<br />

A Porta da misericórdia é precisamente Nossa Senhora, chamada a Porta do Céu. Quer dizer, é ultrateológico<br />

que Ela tenha dito: “Cessem de pecar e recorram a Mim que obtenho a eliminação do<br />

castigo.” Nada mais razoável.<br />

Contudo, a humanidade recebeu a Mensagem de Fátima com orgulho, quando ela exigia um ato<br />

de humildade, ou seja, que os homens reconhecessem: “Nós pecamos, andamos mal.” Exigia a emenda,<br />

o abandono da impiedade e da imoralidade na qual iam caindo. Por isso houve uma rejeição global<br />

em relação a essa Mensagem. Os resultados, vemos por toda parte.<br />

Façamos um exame de consciência. Temos os olhos suficientemente abertos para a Mensagem de Fátima?<br />

Compreendamos que com Nossa Senhora não se brinca, e peçamos a Ela que tenha pena de nós * .<br />

* Excertos da conferência de 13/10/1970.<br />

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />

4


Piedade pliniana<br />

Guerreiros na<br />

grande luta que<br />

se aproxima<br />

Meu Santo Anjo da Guarda, sei<br />

que dentro dos planos divinos<br />

deveis, pelos desígnios de Nossa<br />

Senhora, exercer especial papel na realização<br />

de minha vocação. Vós, com todos<br />

os espíritos celestes, possuís uma missão<br />

altíssima na luta contra a Revolução. Dirijo-me<br />

a todos vós tendo presente a vinculação<br />

que estas circunstâncias estabelecem<br />

honrosamente de mim para convosco.<br />

Em nome desse vínculo eu vos peço:<br />

Obtende da Rainha do Céu que vossa ação<br />

se intensifique e tome toda a magnitude<br />

proporcionada com minhas debilidades,<br />

infidelidades, fraquezas, com meu desejo<br />

de servir inteiramente a Causa da Igreja<br />

Católica e da Civilização Cristã.<br />

Eu vos peço, portanto, que intervenhais<br />

quanto antes sobre as pessoas e os<br />

acontecimentos de maneira que, libertos<br />

da ação do demônio, a qual hoje atingiu<br />

um auge, possamos pertencer-vos inteiramente<br />

e ser vossos guerreiros na grande<br />

luta que se aproxima.<br />

(Composta em 4/12/1980)<br />

Gabriel K.<br />

São Miguel Arcanjo - Castelo<br />

Sant’Angelo, Roma, Itália<br />

5


Dona Lucilia<br />

Aos fracos coragem,<br />

aos corajosos<br />

humildade<br />

Dona Lucilia age nas almas de um modo<br />

muito suave, transformando as pessoas como<br />

que sem elas se darem conta. Nem é preciso<br />

fazer grandes propósitos; é necessário que<br />

ela seja constante, e não nós. Durante os<br />

acontecimentos previstos em Fátima, ela<br />

terá um papel muito importante, dando aos<br />

fracos coragem, aos corajosos humildade, e a<br />

todos muita união com Nossa Senhora.<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

T<br />

odo convívio é composto de<br />

dois elementos: um estado de<br />

alma e um modo de tratar.<br />

Um fundo de contínua<br />

contemplação<br />

O convívio com mamãe era meio<br />

indefinível, porque o estado de alma<br />

dela era um fundo de contínua contemplação.<br />

Tratando dos assuntos<br />

domésticos com alguém, ela o fazia<br />

de modo semelhante a duas pessoas<br />

que estivessem conversando dentro<br />

de um santuário. Seu fundo de alma<br />

era sempre sacral, sério, elevado<br />

e muito respeitoso. Isso era uma coisa<br />

estável, fixa, embora a sacralidade<br />

tenha crescido com o tempo.<br />

Este era o estado de espírito com<br />

que ela levava a conversa, com uma<br />

grande benevolência para com a pessoa<br />

com quem falava, mas uma benevolência<br />

temperada por uma espécie<br />

de intransigência vigilante. Se<br />

alguma coisa tocava nos princípios<br />

morais, ela rejeitava e não cedia, e<br />

criava ambiente por onde aquele erro<br />

não tinha cidadania. Não era uma<br />

pessoa espirituosa, mas uma ouvinte<br />

muito atenta de tudo que se narrava<br />

a ela, e era interessante contar-<br />

-lhe, porque mamãe tinha pequenas<br />

repercussões curiosas, dando ânimo,<br />

nunca com azedume, sempre com<br />

confiança na Providência de que as<br />

coisas darão certo, de maneira que<br />

perto dela se sentia animado e confortado<br />

continuamente.<br />

O trato era invariavelmente feito<br />

de um misto de afeto e de respeito.<br />

Ela respeitava qualquer pessoa, por<br />

6


mínima que fosse, no grau daquela<br />

pessoa, não era igualitária em nada.<br />

Sempre com um modo de dignidade<br />

que com ela não se facilitava.<br />

Não havia possibilidade de brincadeira<br />

desrespeitosa ou impertinente.<br />

Mas o que proporcionava perfume<br />

a tudo isso era um desapego contínuo.<br />

Sempre pronta a se sacrificar<br />

por qualquer um, de qualquer forma,<br />

a qualquer hora, de boa vontade,<br />

só faltando agradecer à pessoa<br />

pela oportunidade de sacrificar-se<br />

por ela. Nunca a vi carrancuda. Assim<br />

era ela na intimidade, o tempo<br />

inteiro, nas menores coisas.<br />

Ao lado disso, a afabilidade mais<br />

carinhosa que se possa imaginar para<br />

as crianças, a flexibilidade para<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

ajudar de qualquer modo, com muita<br />

elevação. Entretanto, uma elevação<br />

que eleva os outros, em vez de<br />

achatar, com o olhar de uma pessoa<br />

que não presta muita atenção nas<br />

coisas concretas e, sobretudo, não<br />

está posta em si.<br />

Ela me inspirou a<br />

inocência primeira e<br />

depois a preservou,<br />

evitou que ruísse,<br />

dando-me muitos<br />

elementos para<br />

formar a arquetipia<br />

do homem como<br />

deve ser.<br />

Em uma criança educada, no contato<br />

com uma senhora assim, toda a<br />

inocência primeira tem um elemento<br />

de estímulo enorme, no sentido<br />

de considerá-la como paradigma de<br />

pessoa como se deve ser, que abre<br />

uma clave e gera um ambiente que<br />

ninguém mais cria.<br />

Inspirou e preservou<br />

a inocência primeira<br />

de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

Era uma coisa única! Quando estava<br />

com mamãe, eu sentia entrar numa<br />

atmosfera luminosa, fluida, invisível<br />

e visibilíssima criada por ela. A inocência<br />

primeira cantava e se encantava.<br />

Por vezes, quando ela me contava<br />

uma história, eu ficava prestando mais<br />

atenção nela do que no enredo.<br />

Isto me serviu também de elemento<br />

de preservação, até mais ou<br />

menos fazer vinte anos. Ela servia de<br />

abastecimento contínuo para a fidelidade<br />

ao meu ideal, e de certa forma<br />

representava esse ideal, que ela possuía<br />

de um modo vivo, mas não saberia<br />

apresentar em termos doutrinários.<br />

Era eu quem fazia a doutrina<br />

sobre o que era mamãe, e que ela<br />

não sabia explicitar.<br />

Em certo momento o papel se inverteu<br />

e eu comecei a dar-lhe doutrina.<br />

Ela prestava muita atenção e se<br />

via que aquilo entrava fundo em sua<br />

alma. Por exemplo, a devoção a Nossa<br />

Senhora.<br />

Ela me inspirou a inocência primeira<br />

e depois a preservou, evitou<br />

que ruísse, dando-me muitos elementos<br />

para formar a arquetipia do<br />

homem como deve ser.<br />

Para isso mamãe contava muitas<br />

histórias de pessoas do tempo dela.<br />

Os personagens eram arquetipizados<br />

por ela. Assim, mamãe formava<br />

arquetipias um pouco baseadas na<br />

legenda e um pouco na História. Como<br />

a alma dela tinha muito do que<br />

ela modelava, uma coisa completava<br />

a outra, e ensinava como deve ser<br />

um varão verdadeiramente católico.<br />

A impostação de alma que se deve<br />

ter é deixá-la atuar, porque ela<br />

age na alma de um modo muito suave,<br />

de quem não pede licença para<br />

entrar, de maneira muito íntima, interna<br />

e ao mesmo tempo com uma<br />

certa força de influência que transforma<br />

a pessoa, como que sem esta<br />

se dar conta. Nem é preciso fazer<br />

grandes propósitos. É necessário<br />

que ela seja constante, e não nós.<br />

Após sua morte, Dona Lucilia tem<br />

tido uma atuação que nunca imaginou<br />

quando estava viva. Acredito que<br />

nos acontecimentos previstos em Fátima<br />

ela terá um papel muito importante,<br />

dando aos fracos coragem, aos<br />

corajosos humildade, e a todos muita<br />

união com Nossa Senhora. v<br />

(Extraído de conferência de<br />

23/12/1974)<br />

7


Gesta marial de um varão católico<br />

Integridade<br />

e desapego<br />

em face de<br />

convites e<br />

ameaças<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> um ano antes<br />

de sua candidatura<br />

a deputado<br />

8


Arquivo <strong>Revista</strong><br />

Congregados marianos de São Paulo reunidos para comemorar a eleição de<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> (em destaque), como deputado, em maio de 1933<br />

Embora trabalhasse com despretensão, afinco e eficácia<br />

pelos interesses da Igreja na Constituinte, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> viuse<br />

objeto de boicote e perseguição. Entretanto, apesar de<br />

convites e ameaças no sentido contrário, manteve sempre<br />

íntegra sua fidelidade à Lei de Deus e à Causa Católica.<br />

Antes de começar a apuração<br />

dos votos, encontrei-<br />

-me com um dos candidatos,<br />

Azevedo Marques, um senhor<br />

idoso. Ele se dirigiu a mim, dizendo:<br />

– Oh, aqui está o mais votado<br />

dentre nós! O candidato já eleito.<br />

– Ora, <strong>Dr</strong>. Azevedo Marques, eleito<br />

é o senhor, um homem já conhecido,<br />

ilustre, e não um novato como eu.<br />

– Não, eu tenho informações. Todas<br />

as “Filhas de Maria” do interior<br />

do Estado votaram em você.<br />

Pouco depois veio a confirmação,<br />

eu fora eleito.<br />

Uma missão que trazia<br />

em si uma bênção e<br />

uma maldição<br />

Passaram-se alguns meses, perto de<br />

um ano, até se reunir a Constituinte,<br />

período intensamente aproveitado por<br />

mim para leituras. Foi então que li o<br />

Tratado de Direito Natural, de Taparelli<br />

d’Azeglio, A alma de todo apostolado,<br />

de Dom Chautard e A conjuração anticristã,<br />

livro escrito por Mons. Delassus.<br />

...ou o apóstolo<br />

é completamente<br />

isento de<br />

amor-próprio,<br />

ou enterra a<br />

causa que ele<br />

pretende servir<br />

Confesso que o livro-chave para<br />

mim nesse período não foi só o Tratado<br />

da verdadeira devoção à Santíssima<br />

Virgem, de São Luís Maria<br />

Grignion de Montfort, mas também<br />

o de Dom Chautard, pois me serviu<br />

de muralha contra a grande, a tremenda<br />

tentação a que eu poderia estar<br />

exposto, que era a do amor-próprio,<br />

correspondente à seguinte situação:<br />

aos 24 anos de idade, o deputado<br />

mais votado do Brasil; portanto,<br />

com toda a publicidade colocada<br />

em cima de mim, uma espécie de celebridade<br />

e uma carreira indefinida<br />

à minha frente.<br />

Dom Chautard punha os pingos<br />

nos is: ou o apóstolo é completamente<br />

isento de amor-próprio e não<br />

visa a carreira, mas exclusivamente<br />

o serviço da Igreja, ou enterra a<br />

causa que ele pretende servir. Donde<br />

a conclusão: a vitória da Igreja na<br />

Constituinte podia encerrar o período<br />

de laicismo, o que afirmava de<br />

um modo tão esplêndido a força do<br />

poder da Igreja, quarenta anos depois<br />

de separada do Estado. Essa vi-<br />

9


Gesta marial de um varão católico<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

A Providência<br />

exigia de mim<br />

um desapego<br />

duríssimo<br />

necessário para viver despreocupada.<br />

E para mim isso bastava. Depois,<br />

eu trataria de fazer a minha vida, de<br />

maneira que não tinha preocupações<br />

econômicas.<br />

tória, no que tocava a mim, consistia<br />

em que eu não permitisse um movimento<br />

de vaidade, por menor que<br />

fosse.<br />

Deveria estar pronto, a qualquer<br />

momento, a entregar meu cargo, a renunciar<br />

à minha carreira, a voltar a<br />

ser zero desde que a Causa Católica<br />

exigisse. E para ver as coisas de frente,<br />

a verdade é a seguinte: Eu era incumbido<br />

de fazer um enorme apostolado<br />

e essa missão trazia consigo, em<br />

gérmen, uma bênção e uma maldição.<br />

Uma bênção, se eu fosse inteiramente<br />

desapegado; uma maldição, se<br />

me tornasse apegado, porque poderia<br />

ir abaixo todo o apostolado.<br />

E começava, então, a luta contra<br />

o orgulho, pois se todo ser humano<br />

concebido no pecado original tem<br />

impulsos de amor-próprio, era bem<br />

evidente que eu os possuía também.<br />

De outro lado, sentia em torno de<br />

mim o coro da bajulação que surgia,<br />

com a fama de muito bom orador.<br />

Outra razão ainda<br />

me levava a pegar<br />

o cargo de deputado<br />

com todas as forças:<br />

era bem rendoso.<br />

Se eu não ascendesse<br />

a esse posto, cairia na<br />

miséria, por causa do<br />

seguinte fato ocorrido<br />

naquele tempo.<br />

Meu pai era um<br />

bom advogado, mas<br />

teve uma indústria<br />

com a qual foi mal sucedido,<br />

precisando fechar<br />

seu escritório em<br />

São Paulo e advogar<br />

no interior. Mas ali,<br />

já alquebrado, ganhava<br />

apenas o suficiente<br />

para se manter. Minha<br />

mãe morava comigo e com minha irmã,<br />

em casa da mãe dela, a qual não<br />

era uma senhora muito rica, mas<br />

bem abastada. Assim, quando minha<br />

avó morresse, minha mãe herdaria o<br />

Deveria estar<br />

pronto a entregar<br />

meu cargo, a<br />

renunciar à minha<br />

carreira, a voltar<br />

a ser zero desde<br />

que a Causa<br />

Católica exigisse.<br />

Porém, nesse ínterim, um dos irmãos<br />

de minha mãe fez maus negócios<br />

e minha avó hipotecou um prédio<br />

dela, que era o grosso de sua fortuna.<br />

Com a queda da moeda nacio-<br />

Vista aérea do Hotel Glória - Rio de Janeiro, Brasil<br />

Divulgação<br />

10


Arquivo <strong>Revista</strong><br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, em 1934, com os membros da bancada paulista, por ocasião de<br />

um jantar solene no Hotel Copacabana, Rio de Janeiro<br />

“Aguento!<br />

Nossa Senhora,<br />

dai-me forças!<br />

Vamos tocar<br />

para a frente.”<br />

nal, a hipoteca “comeu” o prédio inteiro,<br />

e a fortuna dela levou a breca.<br />

O que restava à minha mãe para<br />

herdar era uma insignificância. E,<br />

portanto, se não ficasse deputado,<br />

ela e eu cairíamos na mais negra miséria.<br />

Para mim ficava posta a alternativa:<br />

fazer carreira, celebridade,<br />

dinheiro, ou a miséria. E a miséria<br />

particularmente dolorosa, porque<br />

não era só para mim – porque um<br />

rapaz, de algum modo, se arranja –,<br />

mas era a miséria para a minha mãe.<br />

A Providência exigia de mim, portanto,<br />

um desapego duríssimo, porque<br />

não era o desapego de um homem<br />

que tem o chão firme debaixo<br />

dos pés e desiste de uma situação<br />

melhor, mas era aceitar, se fosse preciso,<br />

a vergonha de deixar de ser deputado<br />

e sofrer um fracasso, uma catástrofe,<br />

passar para o grau zero.<br />

Tratava-se de uma batalha interior<br />

não tanto contra um rugido da<br />

vaidade, mas um combate contra<br />

uma porção de formas de vanglória<br />

tentando pegar-me a todo instante.<br />

Uma luta meticulosa, pois eu percebia<br />

que se desse a menor trela à vaidade<br />

entrava em minha alma o apego,<br />

e dificilmente teria as forças necessárias<br />

para enfrentar a hipótese<br />

de uma miséria. Ora, eu compreendia<br />

que facilmente podia acontecer<br />

uma crise política, revolução,<br />

qualquer coisa por onde, de repente,<br />

meu mandato cessasse. Com facilidade<br />

eu poderia receber um ultimátum:<br />

“Ou você se vende para o<br />

adversário, ou nas próximas eleições<br />

não vai ser eleito.” Intrigas, etc....<br />

Eu tinha que tomar, portanto, a<br />

resolução de não ceder.<br />

As primeiras perplexidades<br />

Lembro-me de que o grosso de<br />

minha preparação para exercer o<br />

cargo de deputado foi essa batalha<br />

para conservar o desapego interior,<br />

o qual começou a ser posto à prova<br />

logo que cheguei ao Rio de Janeiro.<br />

A minha partida de São Paulo,<br />

por ser deputado, foi ultralisonjeira.<br />

A estação ferroviária repleta, palmas,<br />

vivas, etc. Um triunfo! Era noite.<br />

Chego de manhã ao Rio de Janeiro,<br />

acompanhado de meus familiares<br />

que tinham ido para assistir à minha<br />

tomada de posse na Assembleia<br />

Constituinte, e nos dirigimos ao Hotel<br />

Glória que, naquele tempo, era<br />

de grande luxo. Eu sempre pensando<br />

“com meus botões”: “Você nesse<br />

luxo, mas amanhã, miséria. Você<br />

aguenta a miséria? Suporta decair<br />

e ver sua mãe, que está agora nesse<br />

galarim, morando numa casa de um<br />

bairro operário?”<br />

11


Gesta marial de um varão católico<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

Fiquei perplexo e comecei<br />

a frequentar as reuniões<br />

da bancada paulista, realizadas<br />

todos os dias, de manhã.<br />

À tarde, reunião da<br />

Câmara dos Deputados e,<br />

à tardinha, reunião dos deputados<br />

católicos na sede<br />

da LEC do Rio.<br />

Jornal “A Gazeta”,<br />

20 de março de 1934<br />

Minha resposta foi: “Aguento!<br />

Nossa Senhora, dai-me forças! Vamos<br />

tocar para a frente.”<br />

Nos primeiros dias, verifiquei que<br />

havia deputados eleitos pela LEC<br />

mais ou menos de todo o Brasil, e que<br />

seria possível formar uma bancada de<br />

trinta a cinquenta deputados. De todos<br />

os deputados eleitos, certamente<br />

o mais conhecido como católico era<br />

eu. Por outro lado, dentre todos era o<br />

mais considerado como bom orador.<br />

Portanto, o natural seria me designarem<br />

para líder da bancada católica.<br />

Entretanto, Tristão de Athayde<br />

convocou uma reunião dos deputados<br />

católicos, na sede da LEC do<br />

Rio, localizada perto da Câmara dos<br />

Deputados, para dar as normas de<br />

Dom Leme. Disse ele:<br />

“O Sr. Cardeal Leme resolveu três<br />

coisas: Não vai haver uma bancada de<br />

deputados católicos. Os senhores devem<br />

estar dispersos nas bancadas dos<br />

respectivos Estados. Segundo, por<br />

causa disso, não vai haver deputado líder<br />

católico. O líder católico dos deputados<br />

vou ser eu, do lado de fora da<br />

Câmara; os senhores venham aqui receber<br />

as diretrizes do Cardeal Leme.<br />

Terceiro, nenhum deputado católico<br />

deve fazer qualquer discurso a respeito<br />

de pontos de reivindicações católicas<br />

porque, como já estamos com a<br />

maioria garantida, o Cardeal tem certeza<br />

de que a maioria votará a favor<br />

de tudo que desejamos; um discurso<br />

só pode atrapalhar. De maneira que<br />

se quiserem fazer discursos sobre política,<br />

é com os senhores. Em nome da<br />

LEC ninguém poderá discursar.” E,<br />

por fim, outra proibição: “Os senhores<br />

estão proibidos de contar que estão<br />

proibidos de falar.”<br />

Percebi que uma<br />

parte do que os<br />

católicos em São<br />

Paulo esperavam<br />

de mim escapava-<br />

-me das mãos<br />

Eu não tinha bastante experiência<br />

política para objetar, e algumas dessas<br />

decisões eram até razoáveis. Mantive-<br />

-me quieto, mas percebi que uma parte<br />

do que os católicos em São Paulo<br />

esperavam de mim escapava-me das<br />

mãos.<br />

Um vazio esquisito<br />

vinha se fazendo<br />

ao meu redor<br />

Percebi desde logo que<br />

no Rio de Janeiro as coisas<br />

não corriam como em São<br />

Paulo se esperava, porque<br />

eu não tinha nenhuma possibilidade<br />

de discursar. O Tristão de Athayde<br />

organizou uma série de conferências<br />

culturais de deputados na sede<br />

do Centro Dom Vital. Eram, se não<br />

me engano, dez conferências, duas<br />

por mês. A minha era a nona. Ora,<br />

sendo eu o deputado mais votado,<br />

por que me postergar dessa maneira?<br />

Nos jornais iam sair essas listas, e daria<br />

a impressão de um meninote que<br />

a LEC não tomava a sério e empurrava<br />

para o fim. Isso era confirmado<br />

pelo fato de eu nunca fazer discurso.<br />

Embora estivéssemos autorizados<br />

a falar sobre política, se eu fizesse<br />

discursos sobre esse tema dividiria<br />

meu eleitorado, unido em matéria<br />

religiosa, mas não em política. De<br />

maneira que me sentia atarraxado.<br />

O que eu fazia? De manhã, nas<br />

reuniões da bancada paulista, lutava<br />

para as emendas católicas entrarem<br />

e serem aprovadas unanimemente.<br />

À tarde, na Assembleia, fazia o mesmo,<br />

conversando com um e outro deputado,<br />

pedindo para as emendas passarem<br />

na Câmara. À tardinha, ia ouvir<br />

a palavra de ordem do Tristão de<br />

Athayde, e à noite permanecia isolado,<br />

bloqueado. Não havia um congregado<br />

mariano que me procurasse,<br />

uma associação católica que me convidasse<br />

para nada. Eu passava as noi-<br />

12


Fui por cima dele<br />

com um aparte<br />

tonitruante,<br />

desafiando-o e<br />

dizendo que não<br />

havia dissociação<br />

entre a Religião<br />

e a Pátria.<br />

tes sozinho em meu quarto, no hotel.<br />

Esse era outro sintoma inquietante do<br />

isolamento em torno de mim. Quer dizer,<br />

eu percebia que um vazio esquisito<br />

vinha se fazendo ao meu redor.<br />

Eu aproveitava algumas ocasiões<br />

que apareciam para quebrar esse<br />

silêncio como, por exemplo, o aniversário<br />

da morte de José de Anchieta.<br />

Então requeri à Câmara para fazer<br />

um discurso, como deputado paulista,<br />

em comemoração a esse apóstolo do<br />

Brasil. Contra isso ninguém podia dizer<br />

nada, porque não dizia respeito às<br />

emendas católicas, e era uma oportunidade<br />

de fazer uso da palavra. Fiz o<br />

discurso e, graças a Deus, repercutiu<br />

muito bem, até na imprensa paulista.<br />

Outra ocasião se deu quando um<br />

deputado comunista fez um ataque<br />

à honra dos deputados católicos, dizendo<br />

não termos ideal patriótico,<br />

que éramos exclusivamente vendidos<br />

para o Vaticano. Então fui por<br />

cima dele com um aparte tonitruante,<br />

desafiando-o e dizendo que não<br />

havia dissociação entre a Religião e<br />

a Pátria. Dei tais berros que ele mesmo<br />

ficou espantado. Tal foi o berreiro,<br />

que estando, em 1961, na Câmara<br />

dos Deputados, já sediada em<br />

Brasília, para tratar de uma questão<br />

sobre a Reforma Agrária, um funcionário<br />

da secretaria olhou atentamente<br />

para mim e me perguntou:<br />

– O senhor já foi deputado, não?<br />

– Fui.<br />

Mas não dei o meu nome.<br />

– Eu vou me lembrar do seu nome...<br />

Considerem que o tempo tinha<br />

corrido e eu mudara muito.<br />

Ele disse:<br />

– O nome, aqui de momento, não<br />

me lembro, mas o senhor foi quem<br />

fez aquela apóstrofe ao deputado<br />

comunista, não?<br />

– Foi.<br />

– Apóstrofe como aquela, eu ainda<br />

não vi na Câmara dos Deputados.<br />

O senhor teve coragem! Espere um<br />

pouco... o senhor se chama <strong>Plinio</strong><br />

Corrêa de Oliveira.<br />

– Sim senhor! É isso. O senhor<br />

tem boa memória!<br />

“Ele luta mesmo pela<br />

Causa Católica!”<br />

Ao longo de meu mandato,<br />

relacionei-me muito bem com<br />

os deputados de outros Estados,<br />

a tal ponto que se deu o<br />

seguinte episódio.<br />

Certa noite, já muito tarde,<br />

fui acordado pelo telefone do<br />

hotel em que eu estava.<br />

– <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, aqui fala Alcântara<br />

Machado.<br />

– Pois não, <strong>Dr</strong>. Alcântara,<br />

o que o senhor deseja?<br />

– Eu queria lhe pedir o favor<br />

de vir com urgência à minha<br />

casa, porque a situação<br />

política se tornou muito grave<br />

e vou precisar do senhor.<br />

Tomei imediatamente um<br />

táxi, fui à casa dele e encontrei-o<br />

muito apreensivo. Ele<br />

disse:<br />

– Olha, houve uma encrenca<br />

com o Deputado Juarez<br />

Távora. E o amigo dele,<br />

Deputado João Alberto,<br />

declarou que amanhã vai arrancar o<br />

Presidente da Câmara, Antônio Carlos<br />

Ribeiro de Andrada, pelas orelhas<br />

do lugar de Deputado Federal<br />

e fechar a Constituinte. Como o senhor<br />

é um dos deputados mais relacionados<br />

que a bancada paulista tem,<br />

eu queria pedir-lhe para começar a<br />

percorrer agora os deputados de outros<br />

Estados, explicando o acontecido<br />

e solicitando que façam uma pressão<br />

forte amanhã para não ser dissolvida<br />

a Assembleia.<br />

Fiquei espantado, porque a bancada<br />

paulista sempre fora completamente<br />

indiferente a todas as minhas<br />

relações com as outras bancadas.<br />

De fato, imediatamente tomei um<br />

automóvel e comecei a percorrer as<br />

casas dos deputados católicos, com<br />

os quais era mais relacionado.<br />

No dia seguinte, abre-se a Câmara<br />

num ambiente de expectativa. O Antônio<br />

Carlos estava pálido como um castão<br />

de bengala de marfim, e levou o lequinho<br />

para se abanar. O João Alberto<br />

andava com ares de soldadão pe-<br />

<strong>Dr</strong>. Antônio Carlos Ribeiro de<br />

Andrada Machado, presidente<br />

da Assembleia Constituinte<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

13


Gesta marial de um varão católico<br />

Divulgação<br />

Dom Gastão Liberal Pinto<br />

(aqui já nomeado Bispo de São<br />

Carlos, no interior de São Paulo)<br />

lo meio da Constituinte, e todo mundo<br />

tenso... Afinal, a crise se aplacou.<br />

Isso mostra como esse trabalho de<br />

articulação era bem grande e bom.<br />

A este respeito deram testemunho<br />

vários deputados como Cardoso de<br />

Melo, Barros Penteado e outros, os<br />

quais, conversando com padres chegados<br />

à Cúria, diziam: “Olhe, vocês<br />

mandaram um representante esperto<br />

para lá, e ele luta mesmo pela<br />

Causa Católica!”<br />

Certa vez apareceu na Câmara<br />

Mons. Gastão Liberal Pinto. Creio<br />

que foi para ver minha atuação, mas<br />

não percebi sua presença. Terminados<br />

os trabalhos daquele dia, ele me disse:<br />

– Olha, meus parabéns! Vi você<br />

trabalhar o dia inteiro, falando com<br />

uns, com outros, e estou muito satisfeito<br />

com o deputado que nós pusemos<br />

no lugar.<br />

Duas opções: a carreira ou<br />

a defesa da Causa Católica<br />

Mas enquanto essas coisas se davam,<br />

em São Paulo se desatava um<br />

boato calunioso de que eu era tímido,<br />

tinha fracassado como orador, e<br />

a prova disso era que só pronunciara<br />

um discurso.<br />

Ora, tudo quanto era feito por<br />

mim nos bastidores eu não podia<br />

Apesar dos<br />

convites<br />

recebidos,<br />

Nossa Senhora<br />

ajudou-me a<br />

optar por não<br />

abandonar a<br />

Causa Católica.<br />

publicar. Então, a calúnia crescia<br />

nos meios católicos paulistas contra<br />

mim, e eu não tinha defesa nenhuma.<br />

Era mais um lado por onde me<br />

sentia isolado e me aproximando da<br />

miséria, porque dentro de um ano<br />

terminaria o meu mandato de deputado,<br />

e estaria tudo desfeito.<br />

Afinal, as emendas católicas foram<br />

sendo votadas e entrando na<br />

Constituição, inclusive duas emendas<br />

que inicialmente não estavam no<br />

nosso programa e foram apresentadas<br />

durante os trabalhos da Assembleia<br />

Constituinte. Eram elas: a promulgação<br />

da Constituição em nome<br />

de Deus e o estabelecimento do casamento<br />

religioso com efeito civil.<br />

Tudo isso significava uma vitória católica<br />

sem nome! E o panorama católico<br />

no Brasil estava largamente mudado.<br />

A Igreja aparecia como uma potência<br />

em nosso País e as leis brasileiras<br />

tinham perdido não toda, mas uma<br />

boa parte da carranca laicista que as<br />

caracterizavam anteriormente.<br />

Nossa Senhora quis servir-Se de<br />

mim como instrumento para lançar a<br />

ideia da Liga Eleitoral Católica e fazer<br />

andarem as negociações para sua realização,<br />

utilizando-me como um dos<br />

propulsores do movimento mariano<br />

que estava na raiz da vitória da LEC.<br />

Entretanto, à medida que ia sendo<br />

votada a Constituição, a Constituinte<br />

ia chegando ao seu fim, tanto mais que<br />

ela aprovou um artigo dizendo que seis<br />

meses depois de votada a Constituição,<br />

ela se dissolveria. E o problema para<br />

mim ia ficando, debaixo de dois pontos<br />

de vista, cada vez mais agudo.<br />

Primeira pergunta, quanto à Causa<br />

Católica: Depois da Constituinte,<br />

haveria outro congresso com eleição<br />

de deputados católicos, ou fecharia a<br />

LEC e voltaria tudo como era antes?<br />

Segunda indagação: Se houvesse<br />

eleição para deputados católicos,<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, no Rio de Janeiro,<br />

durante seu mandato de<br />

deputado, em 1934<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

14


Assistentes da inauguração da Assembleia<br />

Constituinte. Em destaque, da esquerda para a<br />

direita: <strong>Dr</strong>. João Paulo, Da. Lucilia e Da. Rosée<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

meu nome estaria incluído nessa lista?<br />

Se não estivesse poderia significar<br />

para mim a miséria, mas também<br />

com a miséria a perda do meu<br />

prestígio entre os congregados marianos.<br />

Isso acontecendo, todo o impulso<br />

que eu vinha dando ao movimento<br />

católico, no sentido de se tornar<br />

contrarrevolucionário e de realizar<br />

os ideais que eu tinha a favor<br />

da Igreja, ficava comprometido. Era,<br />

portanto, meu apostolado que ficava<br />

comprometido, como também a possibilidade<br />

de eu sobreviver.<br />

Então a pergunta aguda continuava<br />

a ser esta: “Você tem ou não coragem<br />

de aceitar tudo, inclusive o fracasso<br />

de seu apostolado, mas não ficar<br />

um homem à procura de carreira<br />

e que abandone a Causa Católica para<br />

ser um mero político?”<br />

Apesar dos convites recebidos,<br />

Nossa Senhora ajudou-me a optar<br />

por não abandonar a Causa Católica.<br />

Estado de espírito<br />

de Dona Lucilia<br />

Conto um pequeno episódio para<br />

se ter uma ideia do estado de espírito<br />

com que Dona Lucilia acompanhou<br />

minha eleição e tomada de posse.<br />

O dia da inauguração da Constituinte<br />

representou uma grande solenidade<br />

no Rio de Janeiro, pois as<br />

cerimônias da vida pública naquele<br />

“...o que me<br />

significou mais foi<br />

o fato de você,<br />

ter-se lembrado<br />

de mim. Aquilo<br />

me revelou de<br />

sua parte um tal<br />

senso do dever<br />

que eu até agora<br />

me lembro disso.”<br />

tempo se faziam com muito mais solenidade<br />

do que hoje.<br />

Mamãe era uma senhora doente<br />

e não podia ficar longo tempo de pé.<br />

Levei-a até a tribuna reservada aos familiares<br />

dos deputados, mas não pude<br />

acompanhá-la exatamente até o<br />

seu lugar nessa tribuna, porque a sessão<br />

ia começar. Então, desci correndo<br />

para o lugar reservado aos deputados<br />

e me pus de pé no corredor central,<br />

a olhar para a tribuna dos familiares,<br />

procurando ver se ela estava convenientemente<br />

acomodada. Quando a<br />

vi sentada e olhando para mim, acenei<br />

para ela e fui para meu lugar.<br />

Terminada a sessão, dirigi-me com<br />

ela, meu pai e minha irmã, para o hotel.<br />

À noite, após o jantar, antes de nos<br />

recolhermos, ela me disse o seguinte,<br />

espontaneamente: “Tive muito prazer<br />

em que você fosse eleito deputado e<br />

em assistir à posse. Sem dúvida, na sua<br />

idade, uma coisa muito honrosa, com<br />

muitas possibilidades de você prestar<br />

serviços à Religião. Você não tem<br />

ideia da minha alegria em vê-lo como<br />

um deputado católico.”<br />

Vê-se que ela não gostaria, nem um<br />

pouco, que eu fosse deputado político.<br />

“Entretanto, o que me significou<br />

mais foi o fato de você, naquela hora<br />

de sua posse, ter-se lembrado de<br />

mim e verificar se eu tinha encontrado<br />

um lugar. Aquilo me revelou<br />

de sua parte um tal senso do dever<br />

e uma tal amizade, que eu até agora<br />

me lembro disso.”<br />

Os que se encontram neste auditório<br />

percebem como todas as preocupações<br />

políticas, de grandeza terrena,<br />

ficavam para ela abaixo da Religião,<br />

dos vínculos afetivos e de outras coisas.<br />

Não sei se seriam muitas as mães<br />

que pensariam dessa maneira. v<br />

(Extraído de conferência de<br />

22/6/1973)<br />

15


Flávio Lourenço<br />

C<br />

alendário<br />

São Serafim de Montegranaro<br />

1. XXVI Domingo do Tempo Comum.<br />

Santa Teresinha do Menino Jesus,<br />

virgem e Doutora da Igreja (†1897).<br />

2. Santos Anjos da Guarda.<br />

Beato João Beyzum, presbítero<br />

(†1912). Jesuíta polonês, exerceu seu<br />

ministério entre os leprosos em Fianarantsoa,<br />

na Ilha de Madagáscar.<br />

3. Bem-aventurados André de Soveral,<br />

Ambrósio Francisco Ferro,<br />

presbíteros, e companheiros, mártires<br />

(†1645).<br />

São Geraldo de Brogne, abade<br />

(†959). Fundador e primeiro superior<br />

da Abadia de Saint Gérad em Brog-<br />

dos Santos – ––––––<br />

ne, Bélgica. Dedicou-se à renovação<br />

da disciplina monástica em Flandres<br />

e na Lotaríngia.<br />

4. São Francisco de Assis, religioso<br />

(†1226).<br />

Beato Francisco Xavier Seelos,<br />

presbítero (†1867). Sacerdote redentorista,<br />

oriundo da Baviera, trabalhou<br />

dando assistência aos meninos, jovens<br />

e imigrantes da cidade de Nova Orleans,<br />

Estados Unidos.<br />

5. São Benedito, o Negro, religioso<br />

(†1589). Filho de ex-escravos,<br />

ingressou num convento<br />

franciscano de Palermo, Itália, e foi<br />

um religioso exemplar, destacando-se<br />

por sua humildade e obediência.<br />

6. São Bruno, presbítero e eremita<br />

(†1101).<br />

São Francisco Trân Văn Trung,<br />

mártir (†1858). Soldado vietnamita<br />

decapitado em An Hoa, Vietnã, por<br />

recusar-se a negar a Fé Católica.<br />

7. Nossa Senhora do Rosário.<br />

São Paládio, bispo (†c. 596). Bispo<br />

de Saintes, França, erigiu uma basílica<br />

sobre o sepulcro de Santo Eutrópio<br />

e estimulou a devoção aos santos<br />

na sua diocese.<br />

8. XXVII Domingo do Tempo Comum.<br />

Santa Ragenfrida, abadessa (†séc.<br />

VIII). Erigiu com seus próprios bens<br />

o mosteiro de Denain, França, do<br />

qual foi a primeira abadessa.<br />

9. São Dionísio, bispo, e companheiros,<br />

mártires (†séc. III).<br />

São João Leonardi, presbítero<br />

(†1609).<br />

São Gisleno, monge (†séc. VII).<br />

Eremita no bosque de Hainaut, Bélgica,<br />

fundou ali mesmo um mosteiro<br />

em honra de São Pedro e São Paulo,<br />

dando origem à cidade de Saint-<br />

-Ghislain.<br />

10. Beato Leão Wetmanski, bispo<br />

e mártir (†1941). Bispo auxiliar de<br />

Płock, Polônia, martirizado no campo<br />

de concentração de Działdowo.<br />

11. Santa Maria Soledade Torres<br />

Acosta, virgem (†1887). Desde<br />

sua juventude dedicou extraordinária<br />

atenção aos doentes necessitados, aos<br />

quais atendia com infatigável abnegação.<br />

Fundou para esse fim em Madri<br />

a Congregação das Servas de Maria<br />

Ministras dos Enfermos.<br />

12. Nossa Senhora da Conceição<br />

Aparecida.<br />

São Serafim de Montegranaro, religioso<br />

(†1604). Capuchinho do convento<br />

de Ascoli Pisceno, Itália, teve<br />

duas grandes devoções: o Crucifixo e<br />

o Santo Rosário.<br />

13. São Geraldo de Aurillac, leigo<br />

(†909). Conde de Aurillac, França, foi<br />

exemplo para outros príncipes, vivendo<br />

com a piedade e a austeridade de<br />

um monge.<br />

14. São Calisto I, Papa e mártir<br />

(†c. 222).<br />

Santa Angadrisma, abadessa (†c.<br />

695). Superiora do mosteiro beneditino<br />

de Oroër-des-Vierges, fundado<br />

por Santo Ebrulfo nas proximidades<br />

de Beauvais, França.<br />

15. XXVIII Domingo do Tempo Comum.<br />

Santa Teresa de Jesus, virgem e<br />

Doutora da Igreja (†1582).<br />

16. Santa Edwiges, religiosa (†1243).<br />

Santa Margarida Maria Alacoque,<br />

virgem (†1690).<br />

São Longino (†séc. I). Soldado romano<br />

que abriu com a lança o lado de<br />

Nosso Senhor crucificado.<br />

17. Santo Inácio de Antioquia, bispo<br />

e mártir (†107).<br />

Beato Pedro da Natividade de Santa<br />

Maria Virgem Casani, presbítero<br />

16


––––––––––––––– * Outubro * ––––<br />

(†1647). Religioso escolápio falecido<br />

em Roma, que, além de trabalhar na<br />

educação das crianças, atraiu multidões<br />

com sua pregação.<br />

18. São Lucas, Evangelista.<br />

Santo Asclepíades, bispo (†218).<br />

Insigne confessor da Fé nos tempos<br />

das perseguições, na Antioquia, atual<br />

Turquia.<br />

19. São João de Brébeuf, Isaac Jogues,<br />

presbíteros, e companheiros,<br />

mártires (†1642-1649).<br />

São Paulo da Cruz, presbítero<br />

(†1775). Desde jovem destacou-se por<br />

sua vida penitente, zelo ardente e caridade<br />

com os pobres e enfermos. Fundou a<br />

Congregação dos Padres Passionistas.<br />

20. São Vital de Salzburgo, bispo<br />

(†c. 730). Discípulo de São Ruperto,<br />

companheiro de viagens e imitador de<br />

seu trabalhos e vigílias. Foi seu sucessor<br />

como bispo e abade do mosteiro de<br />

São Pedro, em Salzburgo, Áustria.<br />

21. Beato Pedro Capucci, presbítero<br />

(†1445). Dominicano italiano,<br />

que meditando sobre a morte, guiou-<br />

-se a si mesmo às realidades celestes e<br />

exortou os fiéis nas suas pregações a<br />

não cair na morte eterna.<br />

22. XXIX Domingo do Tempo Comum.<br />

23. São João de Capistrano, presbítero<br />

(†1456).<br />

Beata Maria Clotilde Ângela de<br />

São Francisco de Borja Paillot, virgem<br />

e mártir (†1794). Religiosa ursulina,<br />

guilhotinada durante a Revolução<br />

francesa, em Valenciennes.<br />

25. Santo Antônio de Sant’Ana<br />

Galvão, presbítero (†1822). Religioso<br />

franciscano e fundador do mosteiro<br />

concepcionista de Nossa Senhora<br />

da Luz em São Paulo.<br />

26. São Ceda, bispo (†664). Ordenado<br />

Bispo dos saxões orientais<br />

por São Finan, fundou várias igrejas<br />

e mosteiros, dentre eles o de Lastingham,<br />

em Yorkshire, Inglaterra.<br />

Santa Gibitrudes, virgem (†séc.<br />

VII). Ver página 18.<br />

27. São Gaudioso, bispo (†séc. V/<br />

VI). Bispo da Abitínia, na atual Tunísia,<br />

que fugindo da perseguição dos<br />

vândalos, terminou seus dias num<br />

mosteiro por ele fundado em Nápoles,<br />

Itália.<br />

28. São Simão e São Judas Tadeu,<br />

Apóstolos. Segundo a tradição, foram<br />

martirizados na Pérsia, por volta do<br />

ano 62.<br />

São Rodrigo Aguilar, presbítero e<br />

mártir (†1927). Enforcado numa árvore<br />

em Ejula, México, após ser delatado<br />

por um falso amigo.<br />

29. XXX Domingo do Tempo Comum.<br />

São Teodário, abade (†c. 575).<br />

Monge da região de Vienne, França,<br />

nomeado por seu bispo “intercessor<br />

perante Deus” e penitenciário maior<br />

para toda a diocese, pela sabedoria de<br />

seus conselhos.<br />

30. Beata Benvinda Boiani, virgem<br />

(†1292). Terciária dominicana, que<br />

consagrou sua vida a orações e penitências,<br />

em Cividale del Friuli, Itália.<br />

31. Santo Afonso Rodrigues, religioso<br />

(†1617). Ver página 2.<br />

Gabriel K.<br />

24. Santo Antônio Maria Claret,<br />

bispo (†1870).<br />

Beato José Baldo, presbítero (†1915).<br />

Fundador da Congregação das Pequenas<br />

Filhas de São José. Com grande devoção<br />

eucarística, dedicou-se às obras<br />

sociais e catequese, em Verona, Itália.<br />

Martírio de São Simão e São Judas Tadeu - Museu do Vaticano, Roma, Itália<br />

17


Hagiografia<br />

Santa do<br />

glorioso castigo<br />

Depois de oferecer a vida por sua superiora, Santa Gibitrudes<br />

foi levada ao Juízo, mas Deus mandou-a voltar à Terra<br />

devido a faltas veniais que cometera e não expiara. Ele é tão<br />

sublimemente intransigente que não quis suportá-la na sua<br />

presença enquanto tivesse aqueles defeitos.<br />

Abiografia que temos para<br />

comentar é de uma Santa<br />

da qual nunca ouvira falar.<br />

Trata-se de uma monja beneditina<br />

do século VII, Santa Gibitrudes. A<br />

ficha é tirada do livro Vidas dos Santos,<br />

do Padre Rohrbacher 1 .<br />

Constância ante os<br />

primeiros obstáculos<br />

Sobre Santa Gibitrudes, um monge,<br />

chamado Jonas, escreveu:<br />

Uma virgem, chamada Gibitrudes,<br />

nobre pelo nascimento e pela Religião,<br />

converteu-se e deixou o século<br />

para ganhar a comunidade (de Eboriacum),<br />

e a mãe do mosteiro, Burgondofara,<br />

recebeu-a com alegria, como<br />

a um gracioso presente, porque ela<br />

era sua parenta. Queimava-a um tal<br />

ardor, que sempre a graça do Espírito<br />

Santo parecia inflamá-la.<br />

Estava ela ainda na casa paterna<br />

quando, a conselho do Espírito Santo,<br />

decidiu votar-se ao culto da Religião,<br />

e rogou ao pai e à mãe que lhe erigissem<br />

um oratório onde pudesse ser a<br />

serva de seu Criador.<br />

Os pais julgaram-na erradamente:<br />

os dois eram nobres da raça franca e<br />

não se importavam ainda com a vida<br />

que leva ao Reino dos Céus. Pelo contrário,<br />

desejavam fruir das honras do<br />

século, e por isso queriam da filha uma<br />

posteridade, antes que dar penhor do<br />

Céu. Todavia, nada conseguiram fazer<br />

para demover a jovem do que trazia<br />

no espírito: cederam ao seu desejo e lhe<br />

construíram uma pequenina capela.<br />

Como a jovem ali ia dia e noite, a astúcia<br />

do hábil inimigo propôs-se tomá-<br />

-la como alvo. E começou, por meio de<br />

sua ama, a causar-lhe obstáculos, a impedir<br />

que ela fosse ao oratório. A moça,<br />

vendo-se atormentada, principiou a<br />

procurar a clemência do Criador, a fim<br />

de que aquela que lhe impedia de orar<br />

e queria roubar-lhe a luz da alma fosse<br />

privada da luz exterior.<br />

A bondade divina não se fez esperar!<br />

Bem cedo a mulher, atacada de<br />

um mal dos olhos, viu-se despojada<br />

da luz necessária e o Árbitro clemente<br />

redobrou o temor dos pais castigando<br />

o pai com febres. Se bem que inflado<br />

pela nobreza, pelo exemplo da filha<br />

ele aspirava já ao temor divino; pediu<br />

à filha que rogasse ao Senhor por si e,<br />

se recuperasse a saúde por sua intercessão,<br />

seguir-lhe-ia a vontade.<br />

A este pedido da fé, respondeu a saúde<br />

por longo tempo diferida; o fogo da<br />

febre deixou-o e o pai recuperou a saúde<br />

de outrora. A jovem, então, pediu licença<br />

para ir à comunidade de Eboriacum.<br />

Ali levou ela a vida religiosa por<br />

muitos anos, quando, um dia, Burgondofara<br />

foi tomada de febres, levan-<br />

18


do a crer que os liames<br />

da presente vida dela se<br />

desligariam.<br />

“Põe em ordem os<br />

teus sentimentos!”<br />

Gibitrudes, vendo a<br />

mãe do mosteiro perto<br />

da última hora, entrou,<br />

angustiada, na basílica<br />

e pediu ao Senhor,<br />

com lágrimas, que se<br />

lembrasse da antiga<br />

misericórdia, a fim de<br />

que não deixasse morrer<br />

a mãe, mas que, a<br />

ela mesma, recebesse<br />

no Céu com as companheiras,<br />

e ali não chamasse<br />

a mãe senão para<br />

as seguir.<br />

Depois das lágrimas,<br />

ouviu uma voz<br />

vinda do alto que lhe<br />

disse:<br />

– Vai, serva de Cristo, o que pediste<br />

obtiveste. Ela, de boa saúde, pode<br />

ser unida aos bem-aventurados doutra<br />

vez, mas tu serás primeiramente desligada<br />

dos entraves da carne.<br />

No mesmo instante, foi tomada pela<br />

febre e rendeu a alma pouco depois.<br />

Já os Anjos a haviam tomado e levavam<br />

além do éter; deposta diante do<br />

tribunal do eterno Juiz, via bandos de<br />

vestes brancas – foi ela mesma que o<br />

referiu depois – toda a milícia do Céu<br />

de pé diante da glória do eterno Juiz.<br />

Ouviu uma voz partindo do trono<br />

que dizia:<br />

– Volta, porque não estás inteiramente<br />

desapegada do século. Está escrito:<br />

“Dá e te será dado”, e, ademais,<br />

vê-se na oração: “Perdoai as nossas<br />

dívidas, assim como nós perdoamos<br />

os nossos devedores”. Tu te lembras<br />

dos sentimentos de rancor para com<br />

três de tuas irmãs? Não curaste a ferida<br />

com o remédio da indulgência.<br />

Corrige, pois, as tuas fraquezas, põe<br />

em ordem os teus sentimentos, que<br />

Juízo Final<br />

Flávio Lourenço<br />

manchaste com o tédio e com a negligência!<br />

Ó maravilha! Voltando e tomando<br />

a vida anterior, ela revelou com tristes<br />

gemidos a sentença que recebeu, e<br />

confessou as faltas. Chamou as companheiras,<br />

pelas quais votara sentimentos<br />

de cólera, e pediu perdão para<br />

que não incorresse na danação eterna<br />

por causa de uma dissimulação.<br />

Novamente saudável, viveu mais<br />

seis meses no século; depois, presa da<br />

febre, predisse o dia da morte e anunciou<br />

a hora em que deixaria o mundo.<br />

A morte foi tão feliz que, na cela,<br />

onde o corpo jazia inanimado, acreditava-se<br />

sentir exalações de bálsamo.<br />

Para nós, que lá estávamos no momento,<br />

pareceu-nos um grande milagre.<br />

No trigésimo dia, quando lhe celebrávamos<br />

uma Missa, segundo o costume<br />

da Igreja, um tal perfume encheu<br />

a nave que se diria haver ali todos os<br />

eflúvios das essências e dos aromas.<br />

A justo título, o Criador fazia brilhar,<br />

por seus dons, as almas que lhe foram<br />

dedicadas aqui, as<br />

que, por seu amor, nada<br />

do século quiseram<br />

amar.”<br />

O milagre é um<br />

prêmio da fé...<br />

A ficha pode parecer<br />

tão extraordinária,<br />

pelos milagres por ela<br />

narrados, que talvez<br />

desperte em alguém<br />

um sentimento de<br />

desconfiança. Não se<br />

tratará de uma lenda<br />

que teria sido incorporada<br />

à História? Será<br />

que realmente fatos<br />

tão extraordinários se<br />

passaram? Tanto mais<br />

quanto, se nós acompanharmos<br />

a vida dos<br />

Santos mais recentes,<br />

não notamos milagres<br />

dessa ordem. E se não<br />

os há, por que os haveria naquele<br />

tempo? E neste caso, não estaríamos<br />

no nosso direito de duvidar de acontecimentos<br />

dessa natureza?<br />

A meu ver, essa seria uma dúvida<br />

sem propósito, porque dois dados<br />

são indiscutíveis e devem chamar<br />

nossa atenção.<br />

O primeiro é: nas épocas de muita<br />

fé, Deus Nosso Senhor realiza milagres<br />

mais estrondosos do que nos<br />

tempos de pouca fé. Dir-se-ia que isso<br />

é um paradoxo, pois onde há pouca<br />

fé Ele deveria fazer milagres portentosos,<br />

e onde já existe muita fé, não haveria<br />

necessidade de tais milagres.<br />

Mas o contrário é verdade. O milagre<br />

é um prêmio da fé. E quem pede<br />

com muita fé pode obter favores<br />

tão contrários à ordem normal, que<br />

constituam milagres. Exatamente<br />

por causa disso, nas épocas de muita<br />

fé os milagres excepcionais são mais<br />

numerosos.<br />

Na época em que o espírito de dúvida<br />

penetra nas almas, e elas come-<br />

19


Hagiografia<br />

çam, a priori, a negar a possibilidade<br />

do milagre ou exigir provas muito<br />

mais amplas e meticulosas do que<br />

seria necessário para reconhecer a<br />

existência do milagre; quando as almas<br />

não têm apetência do extraterreno,<br />

do sobrenatural, do divino e, a<br />

fortiori, do metafísico e do sublime, a<br />

graça se retrai e a ação de Deus vai<br />

se tornado mais escassa, rara e difícil<br />

de obter. É um castigo para aqueles<br />

que não quiseram crer.<br />

Ora, no século VII nós estávamos<br />

numa época de fé, a Igreja vivia<br />

os primeiros séculos de reconstrução<br />

da sociedade medieval que daria<br />

na Cristandade. Nesse tempo era natural<br />

que os milagres fossem estupendos.<br />

Aquelas pessoas pediam e obtinham<br />

coisas que realmente as maravilhavam,<br />

mas nem tanto as robusteciam<br />

na fé, pois já possuíam a fé vigorosa<br />

que fora a causa daquele pedido.<br />

No Santuário de Aparecida do<br />

Norte, há um recinto chamado “sala<br />

dos milagres”, onde as pessoas<br />

depositam objetos em gratidão ou<br />

cumprimento de promessas, por graças<br />

recebidas, em muitas das quais,<br />

se devidamente estudadas, poder-<br />

-se-ia reconhecer o caráter de milagre.<br />

Vendo a fé com que aquele povo<br />

vai rezar lá, compreende-se que suas<br />

orações sejam atendidas. Suponhamos<br />

que aquela fé decaísse muito. O<br />

número de graças de que a sala guarda<br />

recordação não diminuiria também?<br />

Sem dúvida. Porque a oração<br />

feita com pouca fé é pouco atendida.<br />

...fruto da pregação da<br />

Santa Igreja Católica<br />

Flávio Lourenço<br />

Incredulidade de São Tomé - Museu Castellvecchio, Verona, Itália<br />

Alguém dirá: “Mas então não há<br />

saída para um povo que cai no despenhadeiro<br />

da falta de fé. É um círculo<br />

vicioso: ele se emendaria se soubesse<br />

de milagres; por outro lado, ele<br />

não conhece os milagres porque estes<br />

não vêm ao povo fraco na fé. Então<br />

ele está perdido, amarrado na sua<br />

própria incredulidade e condenado.”<br />

Isso não é verdade. A causa ordinária<br />

e comum da fé não é o milagre,<br />

mas a pregação da Santa Igreja Católica<br />

Apostólica Romana. É a própria<br />

existência da Igreja, a apetência<br />

que o espírito humano, tocado pela<br />

graça, tem de conhecer as verdades<br />

que a Esposa de Cristo ensina e de<br />

amá-las como elas são. Eis a causa<br />

determinante da fé. O milagre é uma<br />

causa excepcional da fé. O grande<br />

favor de Deus não é de alguém ter<br />

crido por causa de um milagre, mas<br />

o de acreditar mesmo sem vê-los.<br />

Atesta-o o famoso episódio de<br />

São Tomé que, ao lhe ser anunciada<br />

a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo, teve dúvida. Quando lhe<br />

apareceu o Ressuscitado, ele acreditou.<br />

Então, o Divino Mestre exigiu<br />

que ele pusesse a mão em seu sagrado<br />

flanco para, tocando, constatar<br />

ser mesmo Ele. E depois fez este comentário:<br />

“Tomé, creste porque Me<br />

viste? Bem-aventurados os que não<br />

viram e creram” (Jo 20, 29).<br />

Poder-se-ia objetar: “Mas, <strong>Dr</strong>.<br />

<strong>Plinio</strong>, então o senhor reduz muito o<br />

20


papel do milagre, o qual deixa de ser<br />

uma tão grande graça.”<br />

Não. Em relação aos fracos na<br />

fé, o milagre é uma graça por onde<br />

Deus arromba, por assim dizer, a alma<br />

de alguns especialmente favorecidos<br />

e que não quiseram crer. Para<br />

estes, o milagre é um grande bem,<br />

uma extraordinária dádiva, porém<br />

mais felizes eles teriam sido se tivessem<br />

crido sem o milagre.<br />

Para os que têm fé, o milagre é<br />

de muito valor como uma prova do<br />

amor de Nosso Senhor, que rompe<br />

seu próprio procedimento normal<br />

para atender à súplica de alguém<br />

consagrado a Ele, como essa freira,<br />

e que Lhe pede um favor.<br />

Assim, vemos como Santa Gibitrudes,<br />

sendo consagrada a Nosso<br />

Senhor, pediu e obteve graças esplêndidas,<br />

entre as quais, a de ficar<br />

cega aquela mulher que a atrapalhava<br />

na sua vocação.<br />

Existem situações em<br />

que se pode pedir a<br />

desgraça dos outros<br />

Alguns, talvez, poderão ficar surpresos:<br />

“Como é possível alguém pedir<br />

que outrem fique cego?! Compreende-se<br />

que se implore para uma<br />

pessoa recuperar a vista; mas que fique<br />

cega... ”<br />

Há casos em que tal oração é perfeitamente<br />

legítima, justa. A Santa teve,<br />

provavelmente por imponderáveis,<br />

conhecimento de uma determinada<br />

situação moral, ou recebeu uma<br />

comunicação interior, por onde ela ficou<br />

vendo que aquela mulher seria<br />

absolutamente refratária a qualquer<br />

graça. Absolutamente falando, Deus<br />

poderia lhe dar graças tão grandes<br />

que ela se convertesse. Quiçá aquela<br />

mulher tivesse uma alma tão endurecida<br />

e merecesse tais castigos que Ele<br />

não quisesse conceder-lhe tais graças.<br />

Assim, para a moça restava apenas<br />

a seguinte alternativa: ficar gravemente<br />

ameaçada de perder a sua vocação<br />

ou pedir que a outra se tornasse<br />

cega. Ademais, para sua perseguidora<br />

era muito melhor ficar cega nesta Terra,<br />

mas não causar a perdição de uma<br />

alma, do que conservar a vista e comprometer<br />

uma vocação. Mas, sobretudo,<br />

era muito melhor para a glória<br />

de Deus que aquela moça se tornasse<br />

uma Santa e que a cega aguentasse depois,<br />

com virtude, a sua cegueira.<br />

Há situações, portanto, nas quais<br />

se pode pedir o mal dos outros, mas<br />

não em qualquer conjuntura. Então,<br />

basta uma pessoa estar me atrapalhando,<br />

me amolando, prejudicando<br />

minha salvação, para eu rogar que<br />

ela fique cega? Não é assim. Há todo<br />

um conjunto de circunstâncias a<br />

serem consideradas. Contudo, existem<br />

casos em que se pode pedir a<br />

morte, a doença, a desgraça dos outros<br />

para que eles não prejudiquem<br />

a execução de um desígnio da Providência.<br />

Se nos secretos desígnios de<br />

Deus não houver outro meio para<br />

afastar aquele obstáculo senão a punição<br />

daquela pessoa, pedir que ela<br />

seja castigada é uma coisa que se pode<br />

perfeitamente fazer, com critério.<br />

Para que esse pedido seja bem feito<br />

são necessárias duas condições:<br />

quem peça faça-o sem nenhum apego<br />

pessoal. Logo, não é por raiva, birra,<br />

agastamento ou comodismo, mas<br />

apenas pelo zelo por sua própria santificação.<br />

Em segundo lugar, que por<br />

via das dúvidas, na hora de pedir,<br />

acentue muito: se esta for a vontade<br />

de Deus. Se não houver outro meio<br />

de remover do caminho este obstáculo<br />

à minha santificação, então rogo<br />

que isso se realize. Nessas condições<br />

é perfeitamente legítimo pedir.<br />

Severidade e misericórdia<br />

não se excluem, mas<br />

se completam<br />

Vemos a prova disso no lance final<br />

da vida de Santa Gibitrudes. Ela<br />

ofereceu sua vida pela superiora e,<br />

ao morrer, teve até uma visão esplêndida<br />

na qual contemplava a revoada<br />

dos Anjos com seus hábitos. Naturalmente,<br />

é um símbolo, pois sendo puros<br />

espíritos os Anjos não usam hábitos.<br />

Levada ao juízo divino, recebeu a<br />

comunicação de que havia três freiras<br />

de quem ela guardava birra, e ela<br />

não podia estar na presença de Deus<br />

mantendo com esse defeito.<br />

Vemos nisso um misto da sublime<br />

bondade e condescendência do<br />

Criador, e sua sublime intransigência.<br />

Deus é tão sublimemente intransigente<br />

que uma freira para quem Ele fizera<br />

milagre tão excelso, não queria, entretanto,<br />

suportá-la na sua presença, enquanto<br />

ela tivesse aqueles defeitos.<br />

Mas Ele é tão sublimemente misericordioso<br />

que praticou este milagre:<br />

levou a freira à sua presença e denunciou<br />

o pecado que ela, certamente<br />

por própria culpa, não via. Mandou-a<br />

de volta à Terra para pedir<br />

perdão pelo pecado e expiar. Tendo<br />

ela expiado e implorado perdão, então<br />

levou-a para o Céu. Notem a misericórdia<br />

extraordinária d’Ele com<br />

ela, ao lado da severidade. E como a<br />

severidade e a misericórdia, longe de<br />

se excluírem, se completam.<br />

Nós vemos isso na própria alma<br />

da Santa. Para Nosso Senhor fazer<br />

por ela tudo quanto realizou, é óbvio<br />

que é uma grande Santa. Entretanto,<br />

tais são as contradições que cabem<br />

na pobre alma de uma criatura<br />

humana, que esta pode ser elevada<br />

em virtudes debaixo de muitos pontos<br />

de vista e, portanto, atrair de fato<br />

o amor de Deus, mas ter alguns defeitos<br />

dos quais ela precisa ser purificada<br />

e que a Providência não tolera.<br />

E é neste modo contraditório de<br />

ser das criaturas que brilha de uma<br />

maneira especial a justaposição da<br />

justiça e da misericórdia de Deus.<br />

Justo para com um defeito, misericordioso<br />

para com o próprio defeito<br />

em atenção às altas qualidades, e<br />

escolhendo um modo magnífico para<br />

curar a freira, no fundo, de uma<br />

falta que não era um pecado mortal,<br />

21


Hagiografia<br />

pois se o fosse o Criador não faria isso.<br />

Não levaria essa alma em estado<br />

de pecado mortal para a própria presença<br />

d’Ele, para ver os Anjos. Evidentemente<br />

eram faltas veniais. Entretanto,<br />

naquela alma, sobretudo,<br />

Deus não queria tolerar essas faltas.<br />

Ele poderia dar graças comuns para<br />

ela se arrepender e ir ao Céu sem<br />

esse milagre. Mas quis fazê-lo para<br />

provar, por essa narração, quanto<br />

Ele ama excepcionalmente as almas<br />

que O amam excelentemente. E não<br />

poderia haver para ela um castigo<br />

mais glorioso do que a punição que<br />

ela recebeu. Ela poderia chamar-se<br />

“a Santa do glorioso castigo”.<br />

Que glória nessa punição! Que<br />

estupendo ser amada de tal maneira<br />

que, para receber esse castigo, ela é<br />

tirada desta vida, colocada<br />

na presença de Deus, sua<br />

alma é novamente reintegrada<br />

a seu corpo, e lhe é<br />

restituída a vida, tendo recebido<br />

do próprio Deus a<br />

lição que precisava receber.<br />

Ele poderia mandar<br />

um Anjo fazer isso, mas<br />

Ele mesmo o realizou. Pode<br />

haver maior glória e<br />

maior prova de amor? Era<br />

castigo, entretanto.<br />

Olhar luminoso<br />

para perceber nossos<br />

próprios defeitos<br />

Mário Shinoda<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em fins da década de 1970<br />

Alguém poderia perguntar:<br />

“Mas por que<br />

Deus fez isso assim? Foi<br />

só por essa Santa?”<br />

Se fosse só por ela já estaria<br />

perfeitamente bem<br />

feito. Isso se deu no século<br />

VII. Nós estamos no<br />

século XX, que já vai caminhando<br />

para seu fim.<br />

Quantos séculos depois,<br />

em terras que ninguém<br />

imaginava, naquele tempo,<br />

que existissem, está-se comentando<br />

essa ficha e a sucessão desses<br />

fatos! E nós ainda estamos nos extasiando<br />

com a maravilha operada por<br />

Deus, com esse jogo complexo e de variados<br />

aspectos de que estou dando<br />

notícia.<br />

Quer dizer, isso foi feito para ficar<br />

brilhando na História da Igreja até<br />

o fim dos tempos. Quando acabar o<br />

mundo e chegar o dia do Juízo Final,<br />

é possível que algum daqueles sobre<br />

os quais meus olhos estão caindo neste<br />

momento, encontre uma Santa que<br />

lhe esteja sorrindo de modo particular.<br />

E a Santa use como insígnia uma<br />

chibata luminosa mais do que muitos<br />

sóis, e feita de uma matéria mais<br />

preciosa do que o ouro. E a Santa se<br />

aproxima de um de nós e diz: “Sabes<br />

quem sou? Eu sou Gibitrudes, a Santa<br />

do glorioso castigo. Rezei por ti naquela<br />

noite em que soubeste do meu<br />

castigo e de minha glória. E agora te<br />

encontras perto de mim e estamos todos<br />

salvos. Olhemos para Nossa Senhora<br />

e glorifiquemo-La e, por meio<br />

d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo.”<br />

E nós, então extasiados com a glória<br />

de Santa Gibitrudes, nos lembraremos<br />

desta pobre conferência, e daremos<br />

glória a ela. E nos sentiremos<br />

associados à santa alma dela.<br />

Como é bom, então, encerrarmos<br />

esta reunião dizendo: “Santa Gibitrudes,<br />

rogai por nós. Dai-nos a graça<br />

de não nos acontecer o que ia vos<br />

sucedendo, ou seja, ter alguns defeitos<br />

que por culpa nossa não vejamos. Se<br />

não merecemos um castigo tão glorioso<br />

quanto o vosso, é verdade também<br />

que nós tivemos, pelo menos,<br />

uma ajuda luminosa<br />

que foi a vossa. Tínhamos<br />

defeitos ocultos, mas o<br />

vosso exemplo, séculos depois,<br />

nos trouxe à presença<br />

de vossa biografia. E foi<br />

um convite para, na noite<br />

de 26 de outubro de 1976,<br />

nós vos pedirmos: Santa<br />

Gibitrudes, tornai luminoso<br />

nosso olhar no exame<br />

de consciência, de maneira<br />

a percebermos tudo<br />

o que está oculto, e nossas<br />

almas compareçam diante<br />

de Nossa Senhora límpidas<br />

como foi a vossa, na<br />

segunda vez em que diante<br />

de Deus aparecestes. Santa<br />

Gibitrudes, rogai por<br />

nós!”<br />

v<br />

(Extraído de conferência<br />

de 26/10/1976)<br />

1) ROHRBACHER, René<br />

François. Vidas dos Santos.<br />

São Paulo: Editora das<br />

Américas, 1959. Vol. XIX,<br />

p. 42-45.<br />

22


Perspectiva pliniana da História<br />

Mistérios de uma<br />

alma e de um povo<br />

Para elucidar a linha geral da luta entre a Revolução e a Contra-<br />

Revolução, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> considera os mistérios que podem existir no<br />

interior de uma alma e os compara com os fenômenos, por vezes<br />

também misteriosos, da evolução ou decadência de um povo.<br />

Pediram-me que fizesse uma<br />

exposição a respeito da linha<br />

geral da luta entre a Revolução<br />

e a Contra-Revolução. Este tema<br />

é abordado em meu livro Revolução e<br />

Contra-Revolução, mas sobre ele podemos<br />

tecer alguns comentários.<br />

O demônio atua devagar<br />

nos acontecimentos<br />

Em linhas gerais, o processo revolucionário<br />

se resume no seguinte:<br />

Em determinado momento ocorreu<br />

um pecado imenso, o qual teve<br />

como resultado o relaxamento dos<br />

costumes, que consistiu em uma explosão<br />

de orgulho e sensualidade.<br />

Essa explosão minou, em primeiro<br />

lugar, as estruturas eclesiásticas, fazendo<br />

com que em alguns países arrebentasse<br />

o protestantismo. Depois<br />

solapou em análogos pontos a estrutura<br />

temporal, política, de onde decorreu<br />

a Revolução Francesa e a implantação<br />

dos regimes representativos<br />

contemporâneos e, mais tarde,<br />

minou a ordem econômica e social<br />

dando origem ao comunismo.<br />

Há uma questão através da qual<br />

se pode ver melhor todo esse processo<br />

e se perceber algo da beleza da luta<br />

entre a Revolução e a Contra-Revolução.<br />

Trata-se de uma pergunta que,<br />

creio, fica mais ou menos como garra<br />

do demônio estrangulando as pessoas<br />

e fazendo com que elas não saibam<br />

respondê-la: Como se explica que, ao<br />

longo de todo esse tempo, a Providên-<br />

Divulgação (CC3.0)<br />

Goldshtein G. (CC3.0)<br />

Lutero em 1529<br />

Horace Vernet (CC3.0)<br />

Napoleão liderando<br />

suas tropas na Batalha<br />

da ponte de Arcole<br />

Lenin em 1919<br />

23


Gabriel K.<br />

Perspectiva pliniana da História<br />

Daniel I.<br />

cia não tenha socorrido a sua Santa<br />

Igreja Católica Apostólica Romana, e<br />

não interveio para evitar a derrocada<br />

daquela estrutura maravilhosa da Idade<br />

Média? Como explicar, em última<br />

análise, que a história da Contra-Revolução<br />

não seja senão<br />

uma história de derrotas?<br />

Se consideramos que há<br />

mais de quatrocentos e cinquenta<br />

anos arrebentou o primeiro<br />

surto de protestantismo<br />

e que, de lá para cá, não temos<br />

tido senão derrotas, ficamos verdadeiramente<br />

pasmos com tudo quanto<br />

a Providência permitiu, e nos perguntamos<br />

até quando Ela permitirá.<br />

Nos momentos de prostração e<br />

abatimento, em que o demônio mais<br />

especialmente nos assalta quanto à esperança<br />

de alcançarmos a vitória, temos<br />

uma sensação – ela mesma decorrente<br />

de uma impressão difusa deixada<br />

pela história da Revolução e da<br />

Contra-Revolução – de que Deus não<br />

está interessado no triunfo de sua própria<br />

causa, e abandonou os acontecimentos<br />

para correrem de qualquer<br />

jeito, permitindo que o demônio não<br />

só nos torture, mas o faça devagar. Assim,<br />

a sucessão dos acontecimentos se<br />

dá dentro dessa imensa vagarosidade<br />

em que o demônio para, afia a faca, dá<br />

risada, faz mais uma incisão arrancando<br />

algumas gotas de sangue, estrangula<br />

mais um pouco; quando se pensa<br />

que o demônio vai liquidar o drama,<br />

ele se senta preguiçosamente e, pousando<br />

sobre nós um olhar chocalheiro,<br />

diz: “Você pensa que acabou, mas<br />

eu não tenho pressa e vou continuar.”<br />

Por vezes isso se transforma numa<br />

espécie de vivência que, à maneira<br />

de um maçarico, perfura as almas<br />

de lado a lado.<br />

Até quando, Senhor?<br />

Tanto mais quanto a seguinte resposta,<br />

que saltaria aos olhos, não é<br />

muito convincente: a Providência<br />

suscitou Santo Inácio de Loyola e os<br />

grandes Santos da Contra-Reforma,<br />

os mártires da Revolução Francesa,<br />

os vendeanos, os chouans, os carlistas,<br />

os cristeros, Garcia Moreno, e toda<br />

uma coorte de homens de valor.<br />

Entretanto, dir-se-ia que essas pessoas<br />

ilustres, íntegras, extraordinárias<br />

levantaram-se na crista das ondas com<br />

24<br />

Santo Inácio de Loyola - Templo do Espírito<br />

Santo, Ciudad de Puebla, México


Samuel Holanda<br />

todo o tamanho de sua personalidade,<br />

para depois serem derrubadas. E que<br />

as obras por elas realizadas foram infiltradas,<br />

adulteradas, zombou-se delas<br />

e, quando essas obras não morreram,<br />

voltaram-se contra si mesmas.<br />

Algumas delas perduram até hoje,<br />

mas seríamos levados a nos perguntar<br />

se não seria melhor terem deixado<br />

de existir, ao invés de subsistirem<br />

contra si mesmas, e se a longevidade<br />

dessas obras não é para elas mesmas<br />

uma tristeza e uma maldição. Então,<br />

o que restou do levantar dessas figuras<br />

extraordinárias, a não ser a prova<br />

de que o inimigo era tão maior que<br />

nem elas conseguiram detê-lo?<br />

Era preciso que olhássemos tudo isso<br />

bem de frente ao tratarmos a respeito<br />

da Revolução e da Contra-Revolução,<br />

de maneira a tentarmos compreender<br />

bem os desígnios misteriosos<br />

da Providência e perceber, no re-<br />

lógio de Deus, que horas são. O que<br />

valem os relógios dos homens? A pergunta<br />

é: Deus e Senhor meu, nos celestes<br />

ponteiros de vosso divino relógio,<br />

que horas são? Já chegou a meia-<br />

-noite em que a vossa ira vai se descarregar?<br />

Já se fez negro o quadrante<br />

e dourados os números? Os ponteiros<br />

já se transformaram em espadas e<br />

em raios? Meu Deus, o que fazem os<br />

vossos Anjos? Usquequo, Domine, usquequo?<br />

Até quando, meu Deus, até<br />

quando devemos continuar?<br />

Há sucessivos pedidos<br />

de Deus no decurso da<br />

vida de cada pessoa<br />

Para elucubrar sobre o assunto e<br />

tentar chegar a uma solução, seguiremos<br />

o seguinte método: considerar os<br />

mistérios que podem existir no interior<br />

de uma alma e compará-los com os fenômenos,<br />

por vezes também misteriosos,<br />

da evolução ou decadência de um<br />

povo. Em outros termos,<br />

podemos nos perguntar<br />

como almas muito elevadas,<br />

muito amadas e<br />

chamadas por Deus decaem<br />

e, depois, que relação e semelhança<br />

há entre isso e a decadência<br />

de uma civilização.<br />

Tomem, por exemplo, casos de<br />

homens extraordinários como Davi ou<br />

Salomão. Ambos escreveram, inspirados<br />

pelo Espírito Santo, trechos da<br />

Sagrada Escritura. Que glória maior<br />

pode haver do que a de um rei, como<br />

Salomão, que se tornou a personificação<br />

do reinado da sabedoria? Contudo,<br />

em determinado momento vemos<br />

que esses homens caem e se esboroam<br />

de uma vez só. Davi foi passear no terraço<br />

de seu palácio, olhou imprudentemente<br />

para onde não devia, pecou,<br />

tornando-se adúltero e homicida.<br />

Salomão decaiu tanto que prevaricou<br />

com inúmeras mulheres, acabou<br />

caindo na idolatria e ficou um<br />

homem abominável aos olhos de<br />

Deus. O ocaso dele foi um lixo em<br />

comparação com sua vida verdadeiramente<br />

coruscante.<br />

Fatos análogos continuaram a se<br />

dar no Novo Testamento. Assim, vemos<br />

quedas repentinas que, por um<br />

mistério da Providência, são mais numerosas<br />

do que no Antigo Testamento.<br />

São almas colocadas muito alto, a<br />

quem Deus dá grandes graças e que<br />

fazem com Ele um pacto de amor.<br />

Estabelecido esse pacto, Deus<br />

quer levá-lo adiante. Entretanto,<br />

acontece que a pessoa conserva algum<br />

apego em uma profundidade de<br />

sua alma onde ainda é explicável a<br />

existência desse apego, pois é compreensível<br />

que uma alma marche de<br />

desapego em desapego em sua ascensão<br />

espiritual. A Providência pede<br />

um primeiro desapego que é, no<br />

momento, tudo quanto a alma pode<br />

dar. Depois Ela solicita mais e mais,<br />

gradualmente. Assim, há sucessivos<br />

Rei Davi - Pátio do<br />

Escorial, Espanha<br />

Rei Salomão - Pátio do<br />

Escorial, Espanha<br />

25


Perspectiva pliniana da História<br />

pedidos de Deus no decurso da vida<br />

de cada pessoa.<br />

Creio que quando a alma disse<br />

o último “sim”, em geral sua missão<br />

nesta Terra está cumprida, e ela<br />

é levada pelos Anjos. In Paradisum<br />

deducant te Angeli – os Anjos te levem<br />

ao Paraíso –, diz a antífona da<br />

Missa de exéquias. Porque então está<br />

tudo feito, todas as batalhas foram<br />

ganhas, e uma coisa provavelmente<br />

deve coincidir de um modo mais<br />

ou menos cronológico com a outra:<br />

no relógio de Deus, o ponteiro marca<br />

a hora em que essa alma é acolhida<br />

com um triunfo precioso. A obra<br />

está pronta, a alma também. Vemos<br />

isso em São Paulo de um modo protuberante,<br />

quando ele disse aquelas<br />

palavras famosas: “Combati o bom<br />

combate, terminei a minha carreira,<br />

guardei a Fé” (2Tm 4, 7). Ele tinha<br />

evangelizado todos os que devia<br />

evangelizar, renunciado a tudo<br />

quanto precisava renunciar. Restava<br />

apenas estender a cabeça sobre o cadafalso<br />

e dizer sim para o golpe que<br />

vinha. Dito esse “Amém” último, ele<br />

entra para a coorte celeste.<br />

“Irmão, perseveras?”<br />

Ao contrário do que poderia parecer,<br />

não é a primeira renúncia a mais<br />

dolorosa. À medida que a Providência<br />

vai pedindo renúncias maiores, a<br />

dor vai crescendo. Assim, o grande perigo<br />

da prevaricação é quando chegar<br />

o momento de Deus pedir aquela última<br />

entrega. Mais ou menos como<br />

um guerreiro que está morrendo num<br />

campo de batalha, com as entranhas<br />

de fora, depois de ter atacado as muralhas<br />

de Jerusalém e espantado pela<br />

sua audácia, salvando o exército dos<br />

cruzados. No momento em que ele está<br />

morrendo, Deus lhe pede o seguinte:<br />

“Meu filho, você aceita morrer longe<br />

de sua pátria e de sua família, desconhecido<br />

e até esquecido por todos?”<br />

Por vezes, a família corresponde<br />

apenas a um pequenino feudo... Outro<br />

dia vi esse título de nobreza: “Senhor<br />

do Cerejal e do Olival”. Então, trata-se<br />

de renunciar à glória que ele receberia<br />

daqueles que estão junto às cerejeiras e<br />

oliveiras, que ele nem sequer verá novamente.<br />

Suas vísceras estão espalhadas<br />

no chão, ele sabe que vai morrer,<br />

diante dele está a glória celeste com os<br />

Anjos a cantar para ele, e vem o pedido:<br />

“Você renuncia àquilo?”<br />

Todos os apegos da vida se concentram<br />

subconscientemente naquele<br />

ponto, e ele é tentado a desejar<br />

aquilo como o mais frenético dos<br />

gananciosos cobiçaria fortunas fabulosas,<br />

ou talvez como o mais vaidoso<br />

dos ambiciosos desejaria a realeza<br />

do mundo. Se nessa hora, dirigindo-<br />

-se a Nossa Senhora, ele disser “Minha<br />

Mãe, com a vossa graça, sim!”,<br />

expira e morre em odor de santidade.<br />

Se disser “talvez” ou “não”, eu<br />

tremo por pensar o que pode lhe<br />

acontecer. Porque vem, logo depois,<br />

uma tentação do demônio: “Eu o<br />

curo. Veja o que você perdeu. Sua vida<br />

foi embora, mas eu lhe dou tudo<br />

de volta. Adore-me!”<br />

Dito esse “não” com o qual o indivíduo<br />

só não renunciou a um caquinho,<br />

a um restinho de glória no cerejal, entra<br />

um demônio e põe tudo a perder.<br />

Fiquei sadiamente impressionado<br />

ao ler, certa ocasião, como procediam<br />

uns religiosos – se não me falha a memória,<br />

eram os trapistas – ao acompanhar<br />

a morte de um dos irmãos. Formavam<br />

uma roda em torno dele, rezavam<br />

e, de vez em quando, perguntavam-lhe:<br />

“Irmão, perseveras?” Portanto,<br />

depois de uma vida cheia de renúncias,<br />

havia o risco de não perseverar<br />

naquele último momento.<br />

Processo de estagnação<br />

e de putrefação<br />

Há então um processo de ruptura<br />

interna de sucessivas renúncias que<br />

culminam na derradeira e mais heroica,<br />

na qual o homem faz a execração<br />

do último pequeno obstáculo, que para<br />

ele se afigura como o maior de todos<br />

os muros do universo a separá-lo<br />

do ideal que deveria seguir. Ele renuncia<br />

a esse último obstáculo e com isso<br />

pratica o seu supremo ato de amor<br />

a Deus e a Nossa Senhora. Aplica-se<br />

a ele, então, a frase de São João da<br />

Cruz, de uma doçura enorme: “No entardecer<br />

desta vida seremos julgados<br />

segundo o amor” 1 . Portanto, quando<br />

estiver chegando o ocaso de nossa vida,<br />

seremos julgados conforme este<br />

ponto: até onde foi nossa renúncia?<br />

Até onde fomos capazes de nos desprender,<br />

de dar? Aqui está a questão.<br />

Apresentei esse processo em sua<br />

última fase, contudo isso pode ocorrer<br />

a qualquer altura de nossa existência.<br />

Uma alma que deu e recebeu muito<br />

está muito unida a Deus por vários<br />

lados, mas em certo momento Ele pede<br />

algo, a alma vacila e diz “talvez”. O<br />

primeiro modo de responder “talvez”<br />

é afirmar “daqui a pouco, não já”. Há<br />

um ditado em alemão, que costumo<br />

repetir: “Amanhã, amanhã, contanto<br />

que não seja hoje, dizem todos os preguiçosos.”<br />

Quando eu era pequeno, a<br />

Fräulein Mathilde 2 me martelava isso<br />

salutarmente na cabeça, sempre que<br />

se apresentava o caso.<br />

Quantas vezes dizemos “amanhã”<br />

para um convite da graça! É uma coisa<br />

profunda que Nossa Senhora nos pede.<br />

Em certas ocasiões, é algo instantâneo<br />

como um relâmpago, por exemplo,<br />

vencer um ato de antipatia em relação<br />

a alguém que nos orienta para<br />

a virtude; isso envolve a renúncia<br />

a duzentas outras coisas. Às vezes é<br />

aceder a fazer um serviço que a pessoa<br />

não queria, ou humilhar-se diante<br />

de alguém. Em geral, é algo que contém<br />

simbolicamente para aquela alma<br />

uma porção de outros pontos.<br />

Quando a alma diz “talvez”, começa<br />

para ela a mais triste luta que conheço<br />

em matéria de vida espiritual:<br />

é a batalha de igual a igual, em que a<br />

generosidade e a falta de generosidade<br />

são igualmente grandes. Não é a luta<br />

das almas moles, tíbias, que nem se-<br />

26


quer lutam, e aquilo se passa de um<br />

modo nojento. É a das almas que<br />

têm generosidade, zelo, que disseram<br />

“sim”, mas em certo momento<br />

dizem “talvez”. Inicia-se<br />

naquela alma um processo,<br />

primeiro de estagnação: não<br />

sobe, também não quer<br />

descer, ela deseja resolver<br />

a questão por si mesma.<br />

Começam a se acumular<br />

dentro dela problemas<br />

nebulosos, tristezas<br />

insuspeitadas, desânimos<br />

inexplicáveis, nervosismos,<br />

ânsias, depressões,<br />

sustos, fobias, desejos; a<br />

alma se torna uma caverna<br />

de ventanias e não sabe<br />

por quê, pois aquelas suas<br />

primeiras resoluções estão de<br />

pé e perfeitamente bem, ela<br />

faz seu exame de consciência e<br />

encontra tudo em ordem. A alma<br />

tem, é certo, um ponto dolorido onde<br />

não se pode tocar; aí ela não mexe<br />

e ai de quem mexer! Ela forma, desde<br />

logo, um jardim de castigo e maldição<br />

no qual ninguém entra.<br />

Depois vem a lenta putrefação<br />

do lado bom, embora o aspecto mau<br />

não cresça. O lado bom vai se deteriorando,<br />

os bons propósitos não<br />

deixam de se aplicar, mas a pessoa<br />

vai cumprindo-os cada vez mais mecanicamente,<br />

eles vão deixando de<br />

ser firmes; em dado momento cai<br />

um grau, depois outro... Susto!<br />

Teodoro Reis<br />

Nesse vale de lágrimas, o<br />

pior é sempre mais provável<br />

Entram novas graças, novas bondades,<br />

Nossa Senhora pergunta:<br />

“Meu filho, aqui você quererá parar?<br />

Eu agora lhe dou sustento,<br />

apoio, aceito, transijo, perdoo com<br />

lágrimas nos olhos, mas tenha esperança,<br />

Eu ainda venho lhe pegar!”<br />

A pessoa se adapta. Daqui a pouco<br />

passa a Santíssima Virgem novamente<br />

e diz:<br />

Nossa Senhora de Coromoto<br />

(acervo particular)<br />

– Meu filho, chegou a hora da renúncia.<br />

Você quer?<br />

– Não, daqui a pouco.<br />

Novo rompimento, e aquela alma<br />

decai aos poucos, passando por longos<br />

estados de aparente estabilidade em<br />

que ela julga estar bem, mas vai caindo,<br />

caindo, até um momento em que<br />

na aparência ela ainda está praticando<br />

a virtude, mas não é mais a mesma.<br />

Aí também vem um anjo e a leva<br />

embora. Que anjo? Um anjo de ouro,<br />

límpido, de legitimidade, ou o anjo do<br />

horror, das trevas, da usurpação? Mistérios<br />

de Deus, não se sabe também.<br />

Esse é um processo que tanto pode<br />

reverter para o bem, como pode dar<br />

para novas baixas e chegar até o fim.<br />

Não há determinismo nem fatalismo<br />

ao longo desse processo, mas nesse<br />

vale de lágrimas o pior é sempre mais<br />

provável, não nos iludamos.<br />

Trata-se de um processo naturalmente<br />

demorado, porque, para salvar<br />

uma alma de ouro, a misericórdia divina<br />

deixa passar muito tempo. Até<br />

são tempos em que a alma vai-se<br />

embebendo de graças novamente<br />

e retomando a normalidade,<br />

sobem de novo e chega outro<br />

pedido.<br />

Evidentemente, essas<br />

coisas levam tempo. Ao<br />

longo da evolução dessas<br />

almas, Nossa Senhora<br />

põe outras para salvá-las,<br />

que fazem de tudo: imploram,<br />

deitam o quanto<br />

possam ter de tesouros<br />

modestos ou magníficos<br />

de zelo, de sabedoria, de<br />

penetração psicológica,<br />

de paciência, de energia,<br />

talvez de increpação. Dir-<br />

-se-ia que essas maravilhas<br />

são como ondas que sobem e,<br />

se alma não corresponde, essas<br />

ondas caem de novo. Para aquela<br />

alma fica aquilo acumulado e no<br />

dia do Juízo é uma conta a ser paga,<br />

necessariamente. A pessoa pensa que<br />

dá de ombros ao bom conselho, e não<br />

percebe que o bom conselho rejeitado<br />

um dia será pago; ela pensa que<br />

venceu, de fato foi derrotada.<br />

Pode acontecer que uma alma seja<br />

longamente perseguida pela Providência<br />

até graus inimagináveis. Muitas<br />

vezes Deus salva uma alma assim<br />

e há conversões espetaculares que são<br />

o encanto da Igreja, e a alegria de todas<br />

as almas justas até o fim do mundo.<br />

No entanto, em um número muito<br />

maior de vezes isso não se dá, e fica a<br />

coisa como estou descrevendo. v<br />

(Continua no próximo número)<br />

(Extraído de conferência de<br />

24/2/1974)<br />

1) Avisos y Sentencias, 57.<br />

2) Senhorita Mathilde Heldmann, preceptora<br />

alemã contratada por Dona<br />

Lucilia para auxiliar na educação de<br />

seus filhos.<br />

27


A sociedade analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

Rosenblatt (CC3.0)<br />

Como se forma<br />

o costume - I<br />

Berlim, em 1902<br />

A partir de uma análise profunda do temperamento do<br />

povo alemão, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> faz luminosas considerações<br />

sobre o costume, mostrando como este é o lado precioso<br />

transmitido pela tradição e, ao mesmo tempo, a fixidez<br />

de rumos de um povo na fidelidade a si próprio.<br />

V<br />

amos estudar o costume: o<br />

que é, como ele se fixa, relação<br />

entre costume e doutrina,<br />

costume e estrutura político-social.<br />

Espaço físico e espaço<br />

psicológico<br />

Para isso, parece-me que podemos<br />

partir da análise dessa fotografia<br />

de Berlim, entre 1895 e 1914.<br />

Portanto, retratando o ambiente dos<br />

anos de 1870, com a guerra franco-<br />

-prussiana e a vitória da Alemanha,<br />

até 1914, com a I Guerra Mundial e<br />

a posterior vitória das democracias e<br />

da França.<br />

Chamo a atenção, em primeiro<br />

lugar, para o seguinte: é um aspecto<br />

colhido de uma rua onde não se<br />

vê ninguém apressado; o corre-corre<br />

norte-americano não está presente.<br />

Uma coisa curiosa que se nota<br />

aqui é a seguinte: pelo trânsito, pelas<br />

pessoas que estão andando, é evidente<br />

que se trata de uma parte central<br />

de Berlim. Notem uma mistura entre<br />

passeio social e trato de negócio. Algumas<br />

pessoas estão manifestamente<br />

em passeio social, as senhoras sobretudo.<br />

Algumas delas muito hirtas estão<br />

enfarpeladas, com chapelões, vestidas<br />

com cuidado, como não se vê<br />

hoje em dia uma senhora que tenha<br />

trajes correspondentes aos que havia<br />

nessa época; e com esses trajes ela<br />

não sai a pé, mas de automóvel.<br />

Vê-se que há alguns homens pelo<br />

meio que estão preocupados, tratando<br />

de negócios. E que o público que<br />

esses ônibus − uns transportes coletivos<br />

aí pelo meio − vão transportando<br />

é de gente que não está passeando,<br />

mas vem para a cidade a fim<br />

de fazer algo.<br />

28


Collection Kuhn (CC3.0)<br />

Outra coisa é a seguinte: os espaços.<br />

As pessoas não estão empilhadas<br />

umas em cima das outras, mas<br />

têm folgadamente espaço para andarem<br />

de um lado para o outro. É o<br />

espaço material que se liga ao espaço<br />

psicológico. Liga de que maneira?<br />

Ninguém tem muita pressa, não está<br />

muito preocupado nem acabrunhado,<br />

que é uma forma de espaço mental;<br />

por outro lado, há espaço físico<br />

em torno de cada pessoa: ninguém<br />

está na iminência de dar um esbarrão<br />

em outrem.<br />

Homens e mulheres<br />

têm algo de militar<br />

Essa gente, entretanto, já tem<br />

notícia de como são as ruas de Nova<br />

Iorque, e o entusiasmo deles vai<br />

para essa cidade e não para Berlim.<br />

Quer dizer, psicologicamente já estão<br />

andando em Nova Iorque.<br />

Não que eles desejassem uma<br />

transformação imediata disso para ser<br />

como Nova Iorque. Mais ainda, eles<br />

nem estão pensando em viajar para lá.<br />

Mas desejam para a Alemanha, a médio<br />

termo, a novaiorquização. E, certamente,<br />

se tivessem alguém que procurasse<br />

criar no espírito dos netos deles<br />

uma nostalgia dos antigos tempos,<br />

e como voltar as costas a Nova Iorque,<br />

eles tirariam os netos dessa influência.<br />

Isto aqui é, portanto, um modo<br />

de ser do progressismo nesse tempo.<br />

Eu chamo aqui progressismo a adoração<br />

do progresso.<br />

Entretanto, misturando-se curiosamente<br />

com isso há um traço evidente<br />

da Alemanha kaiseriana: qualquer<br />

coisa que diz existir nessa cidade<br />

uma corte. Essas senhoras, esses<br />

homens, etc. têm na sua presença<br />

uma corte. E uma corte preponderantemente<br />

militar.<br />

Collection Kuhn (CC3.0)<br />

Waldemar Franz Hermann Titzenthaler (CC3.0)<br />

29


A sociedade analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

É a forma de governo determinando<br />

até o modo de andar. E havia aquele<br />

Kaiser de estampa muito militar,<br />

com cinquenta ou oitenta dinastiazinhas<br />

cujos chefes locais andavam sempre<br />

de uniforme e se gabavam de seus<br />

regimentos locais, integrantes do exército<br />

alemão. Isso se nota até no modo<br />

das senhoras andarem; a postura delas<br />

tem qualquer coisa de militar.<br />

Marido, filhos, todos vão para a<br />

guerra, e as senhoras ficam fazendo<br />

bandagem para os feridos, ou tricô<br />

quando chega o inverno, a fim de<br />

cobrir os soldados; elas participam<br />

do esforço de guerra, ativa e militarmente.<br />

Nos passos de alguns homens há<br />

algo de militar. Os mais civis ainda<br />

são meio militares. Não é o passo de<br />

um civil de hoje.<br />

Notem o alto pudor dos vestidos.<br />

Eles não são bonitos, mas feitos de<br />

muito bons tecidos e têm uma certa<br />

dignidade e solenidade.<br />

Há uma nota de hierarquia presente,<br />

inclusive nas relações entre as<br />

pessoas. Não é um trato igualitário.<br />

Alemanha: aspectos<br />

externos e internos<br />

Em 1918, portanto vinte anos depois,<br />

toda essa sociedade, essas di-<br />

nastias estavam no chão. Olhando<br />

para isso, dir-se-ia que há recursos<br />

para viver cinquenta anos nessa situação,<br />

pois tem muita vitalidade. Entretanto,<br />

está tudo podre. Como se<br />

explica isso?<br />

A guerra contribuiu muito, foi um<br />

trambolhão medonho, mas não justificaria<br />

isso. Vou dar uma prova: a<br />

monarquia dos Habsburg, muito menos<br />

militar, menos firme na aparência,<br />

etc., foi muito mais difícil de derrubar.<br />

O Tratado de Saint-Germain<br />

obrigava o destronamento dos Habsburg<br />

da Áustria, da Hungria, da Boêmia<br />

e de todos os tronos anteriores.<br />

E restaurar os Habsburg em qualquer<br />

trono autorizava imediatamente<br />

intervenção militar de todos os<br />

outros Estados na monarquia danubiana;<br />

o que equivaleria a dizer existir<br />

um pânico da popularidade dos<br />

Habsburg. E aqui não houve nada<br />

disso. Como se explica?<br />

Vamos nos deter no caso. Há aqui<br />

hierarquia e monarquia.<br />

Não é uma cidade inteiramente<br />

laica, o sombrio está presente aí.<br />

Mas, para completar o quadro, devemos<br />

considerar o seguinte: Em<br />

dias bonitos, esses homens vão pegar<br />

borboletas no mato; põem calças<br />

curtas de tecido verde, com os joelhos<br />

de fora, meias grossas, chapéu<br />

com pena, e cantam acompanhados<br />

pela flautinha canções do Tirol; as<br />

mulheres vão também, vestidas de tirolesa,<br />

carregando sacões com sanduíches<br />

e outras coisas que fizeram<br />

em casa para os maridos e as crianças.<br />

E, encontrando uma árvore muito<br />

bonita, se seguram pelas mãos uns<br />

aos outros, fazem uma roda em torno<br />

da árvore e cantam.<br />

Isso me causaria encantos, eu<br />

acharia ultrarrefrigerante e regozijante.<br />

Apesar de todos os meus superenlevos<br />

com a França, isso não tem<br />

nada de francês, mas é uma coisa<br />

maravilhosa. Eu me habituaria muito<br />

mais depressa em morar na Alemanha<br />

do que na França; entrava<br />

nisso de cheio, imediatamente.<br />

Dessas coisas, qual é o suporte?<br />

Primeiro, ideias estão presentes?<br />

Em segundo lugar, isso sustenta as<br />

ideias ou as ideias sustentam isso? A<br />

apetência desse povo criou clima para<br />

essas ideias, ou estas modelaram o<br />

povo? Analisadas essas questões, veremos<br />

o que é um costume.<br />

Poder-se-ia fazer uma grande objeção<br />

ao que estou dizendo. Imaginem<br />

uma caixa de ferro, tendo na<br />

tampa e em todas as faces laterais<br />

pregos com as pontas voltadas para<br />

fora. Esse é o aspecto externo da<br />

Alemanha. Suponham que dentro<br />

Tiia Monto (CC3.0)<br />

Vista de um campo em Ehrwald, Tirol, na Áustria<br />

30


da caixa tudo é acolchoado com pena<br />

de cisne, de uma cor alegrinha,<br />

engraçadinha. Essa é a Alemanha.<br />

Porque a vida íntima deles é a mais<br />

diferente possível daqueles pregos.<br />

Os pais querem bem aos filhos,<br />

em alguma medida os pais<br />

se querem bem entre si, e os irmãos<br />

se querem muito bem.<br />

A família tem uma coesão<br />

muito efetiva. E são capazes<br />

de cantar a afetividade familiar,<br />

tocando flautinha, violino;<br />

a mãe que entra de manhã<br />

no quarto do filho levando-lhe<br />

algo que ela preparou,<br />

tendo levantado mais cedo,<br />

porque o filho tirou nota boa<br />

no exame do dia anterior.<br />

Coisas assim tornam o interior<br />

da casa ativo, gostoso, vivo, e também<br />

o interior de um regimento, de<br />

uma usina ou de uma escola.<br />

Jazida de energia<br />

que marcha<br />

BNS (CC3.0)<br />

Imperador Carlos<br />

da Áustria<br />

Vamos agora remontar ao que seria<br />

o mais interno disso.<br />

Há no povo uma jazida, mais ou<br />

menos como aquelas de carvão e de<br />

ferro do Rhur, das quais, por mais<br />

que se tire, ainda têm mais dentro;<br />

tenho a impressão de que chegam<br />

até o centro da Terra, e até a varam<br />

do outro lado. Nos alemães existe<br />

uma espécie de jazida de energia, e<br />

energia saudável com a pulsação de<br />

um coração saudável, e que marcha;<br />

todo ritmo vital vai no impulso de<br />

uma marcha interna regulada e incansável.<br />

Não que eles estejam isentos<br />

de preguiça, mas esta é diferente<br />

de cansaço. Cansaço é uma situação<br />

de exaurimento. A preguiça é uma<br />

falta de vontade, viciosa, de contribuir<br />

com seu esforço.<br />

Preguiça eles têm ou não, como<br />

qualquer um. Mas possuem uma dificuldade<br />

de cansar, uma regularidade,<br />

uma força, uma coisa inexaurível,<br />

e que é o grande capital da nação,<br />

coligada com uma saúde muito<br />

boa, também não se pode negar, não<br />

tendo a longevidade. Eles não confundem<br />

saúde com longevidade; é<br />

a plena Leistung 1 durante o período<br />

da maturidade.<br />

Se um homem, durante o período<br />

da maturidade – e até desde menininho<br />

–, deu uma Leistung forte, ele viveu.<br />

Teve aquele capital de Leistung,<br />

que aplicou em tudo.<br />

Daí decorre uma necessidade do<br />

método e uma ausência do capricho.<br />

Eles têm gente caprichosa, é natural,<br />

está na natureza humana, mas o capricho<br />

é pouco preponderante dentro<br />

deles. É o método, o sistema, o<br />

planejamento, etc. que preponderam<br />

e tornam o fundo do temperamento<br />

deles apetente do estado militar.<br />

Quer dizer, isto forma militares<br />

e dá apetência de um modo de fazer<br />

que a condição de militar exige; de<br />

maneira que a militarização da vida<br />

é em parte pela importância que<br />

exerce na concepção deles, mas em<br />

parte porque toda a vitalidade deles<br />

pede isso. E querem isso, eles são assim.<br />

Era uma época que não tinha cosmopolitismo,<br />

essas viagens internacionais,<br />

e cada povo se formava<br />

com o desenvolvimento natural<br />

de todas as suas próprias qualidades.<br />

Como resultado, eles<br />

modelavam uma vida de família,<br />

de cidade, modas, trajes,<br />

cultura exatamente assim. É a<br />

própria lógica deles, são batalhões<br />

de argumentos e silogismos<br />

que vão se dirigindo para<br />

a destruição de um sofisma.<br />

E o modo de ser precisava<br />

ser o Império, com a tendência<br />

ao universal, que não é só a<br />

continuidade de Carlos Magno.<br />

O empuxe, a expansão ordenada<br />

de tudo isto foi a história deles.<br />

A meu ver o apogeu da Alemanha<br />

nessa época – não do mundo<br />

germânico, com a Áustria, porque<br />

neste caso já é outra coisa – foi esse.<br />

E chegou a uma situação em que<br />

o temperamento e o modo de ser influiu<br />

a fundo num certo modo ordenado<br />

de viverem a Fé, os costumes<br />

e as relações privadas. E a Fé mais<br />

as relações privadas influenciaram<br />

as relações públicas. E estas, por sua<br />

vez, confirmaram nisso o domínio<br />

privado. Havia uma espécie de mistura<br />

entre o domínio privado e domínio<br />

público, onde tudo era coerente,<br />

desde o topete da senhora até<br />

a ponta do sapato bem encerado do<br />

militar, ou a cartola do professor, na<br />

plena floração e frutificação de uma<br />

coisa que era ela mesma.<br />

Dois fatos culminantes da<br />

História da humanidade<br />

O que é o costume dentro disso?<br />

O costume é feito pela repetição dos<br />

hábitos, nas mesmas situações, sempre<br />

se renovando para se explicitarem<br />

e se quintessenciarem.<br />

Isto vem constituindo um legado<br />

histórico, a tradição: aquilo que<br />

31


A sociedade analisada por <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

Leopold Kuppelwieser (CC3.0)<br />

o costume transmite de uma geração<br />

para outra. O costume é, portanto,<br />

a embalagem, o lado precioso que a<br />

tradição transmite. Mas é também a<br />

fixidez de rumos de um povo na fidelidade<br />

a si próprio.<br />

E com a tradição e costume conjugados,<br />

a fisionomia da nação exprimindo<br />

tudo isso inteiramente, tem-se<br />

um povo que chegou à sua plenitude.<br />

É o traçado reto de uma história.<br />

A Áustria fez isso com todas as<br />

peças da monarquia danubiana. Ela<br />

não oprimiu, não comprimiu, mas<br />

assimilou, soube fazer um cocktail,<br />

Imperador Francisco I<br />

foi uma realização, ao mesmo tempo<br />

meio militar – porque é claro que<br />

sem tropas aquilo não se mantinha<br />

–, porém cultural e diplomática, etc.,<br />

de uma altura muito grande. Por isso<br />

eu acho que a Áustria não é puramente<br />

alemã. Ela é uma obra-prima<br />

da política europeia.<br />

Um oficial inglês escreveu uma<br />

biografia do Imperador Carlos, depois<br />

de este ser preso em Budapeste.<br />

Ele foi levado numa canhoneira<br />

inglesa pelo Danúbio até o Mar Negro.<br />

E passando por todos aqueles<br />

povos às margens do Danúbio, que<br />

eram, por assim dizer, “perseguidos”<br />

pelo Império, no percurso inteiro o<br />

povo todo aplaudia. Até em países –<br />

eu achei isso mais tocante – que nunca<br />

pertenceram ao Império Austro-<br />

-Húngaro, como a Romênia. O Danúbio<br />

desemboca na Romênia, lá a<br />

população com trajes regionais cantava<br />

e aplaudia enquanto ele passava.<br />

Este episódio e aquela atitude da<br />

população de Viena que quis oferecer<br />

uma festa ao Imperador Francisco<br />

I, para compensá-lo da derrota de<br />

Austerlitz 2 , porque ficaram com pena,<br />

são desses fatos culminantes da<br />

História da humanidade.<br />

Isto é uma coisa que, por exemplo,<br />

um sul-americano, que se desenvolvesse<br />

como um austríaco se desenvolveu,<br />

poderia fazer talvez até com<br />

mais espírito de abarcamento; somos<br />

nós, já não é a Alemanha. Por<br />

outro lado, imaginem que se pusesse<br />

com esse povo que está aí dominando<br />

o Império Austro-Húngaro, como<br />

ele era nas vésperas da I Guerra,<br />

os croatas, por exemplo; eles realizariam<br />

atentados, gritariam injúrias, jogariam<br />

ovos podres, fariam de tudo.<br />

Então, na apreciação da Alemanha<br />

tenho muita admiração. Mas<br />

na comparação com a Áustria entra<br />

muita restrição de minha parte.<br />

Creio que todos veem ser razoável.<br />

Não se organizou uma expansão<br />

imperial no mundo que de tal maneira<br />

fosse isso. A romana teve algo,<br />

mas não foi assim. Ali é o triunfo<br />

do espírito cristão propriamente, algo<br />

da presença de Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo.<br />

v<br />

(Continua no próximo número)<br />

(Extraído de conferência de<br />

29/8/1986)<br />

1) Do alemão: Poder, capacidade de ação.<br />

2) Batalha, ocorrida em 1805, na qual<br />

Napoleão derrotou a Áustria, provocando<br />

a queda do Sacro Império Romano-Germânico.<br />

32


cjuneau (CC 3.0)<br />

Luzes da Civilização Cristã<br />

A incomparável<br />

e maravilhosa<br />

Sainte-Chapelle<br />

Os vitrais da Sainte-Chapelle<br />

são lindos e famosíssimos<br />

pelo seu colorido delicado.<br />

Impressiona a suavidade das<br />

nervuras e das colunas que,<br />

embora pequenas, sustentam<br />

abóbadas enormes. Nota-se<br />

uma suprema distinção, bom<br />

gosto, harmonia, nobreza<br />

e uma certa bondade que<br />

pairam sobre tudo isso.<br />

Mmo75 (CC 3.0)<br />

Esta é a incomparável e maravilhosa Sainte-Chapelle.<br />

A forma peculiar da construção vem do fato<br />

de haver pouco espaço para se expandir. Ela foi<br />

construída para ser a capela do Palácio Real cujos antigos<br />

edifícios, que a comprimiam bem de perto, foram substituídos<br />

pelo atual Palácio de Justiça da França.<br />

A capela dos pobres<br />

São Luís IX a construiu para abrigar espinhos da coroa<br />

de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />

A elevação dela é realçada por este pináculo que sobe<br />

à maneira de flecha que, tendo sido destruído na época<br />

da Revolução Francesa, foi reconstruído no século XIX.<br />

É uma imitação da flecha autêntica, verdadeira.<br />

33


Luzes da Civilização Cristã<br />

Mark Mitchell (CC3.0)<br />

Pedro M.<br />

Essa parte interior é deslumbrante! É de pedra policromada,<br />

e o teto dá a impressão de um céu estrelado. As<br />

ogivas e as colunas todas são pintadas também.<br />

Impressiona a delicadeza das nervuras e das colunas<br />

que, embora pequenas, sustentam abóbadas enormes.<br />

Dessas colunas partem longas hastes, lembrando a elegância<br />

dos ramos de uma palmeira. Recebem, por isso,<br />

o nome de colunas em forma de palmeira. Nos pontos<br />

onde essas hastes se encontram constituem-se pingentes<br />

belamente trabalhados. Esta parte corresponde, naturalmente,<br />

ao lugar destinado ao altar e forma uma espécie<br />

de capela-mor que se separa do resto.<br />

A capela compõe-se de três naves, segundo um plano<br />

típico de igrejas medievais.<br />

A parte baixa da Sainte-Chapelle é uma maravilha, e<br />

estava destinada para os empregados do Palácio assistirem<br />

à Missa. Esse dado contraria a famosa versão de<br />

que na Idade Média não se cogitava nos pobres. Ora, essa<br />

era a capela dos pobres! Oxalá os ricos tivessem, hoje<br />

em dia, capelas assim...<br />

Os medievais gostavam muito da policromia<br />

A policromia é muito bonita; vemos belos mosaicos e,<br />

nas colunas, sobre fundo azul- escuro, a flor de lis de ouro.<br />

Em certos pontos encontramos aplicados alternativamente,<br />

sobre um fundo vermelho, um castelo e um leão.<br />

cjuneau (CC3.0)<br />

Pedro M.<br />

Jean-Christophe BENOIST (CC3.0)<br />

34


denfr (CC3.0)<br />

Joe deSousa (CC3.0)<br />

Nota-se o gosto do homem medieval pela policromia:<br />

colunas vermelhas, azuis, das quais partem os “ramos<br />

de palmeira” rumo ao ponto de encontro belamente ornado.<br />

É uma verdadeira harmonia!<br />

O azul desse “céu” é profundíssimo, como o céu atmosférico<br />

não costuma apresentar. Mas parece indicar<br />

mais o Paraíso eterno do que o céu visível da Terra. Em<br />

determinado ponto da capela, esse azul profundo e nobre<br />

contrasta com o que há de alvo, de cândido nas cenas<br />

representadas nas pinturas ou nos mosaicos.<br />

Os vitrais da Sainte-Chapelle são lindos e famosíssimos<br />

pelo seu colorido delicado. Entre eles, vê-se um representando<br />

Nossa Senhora com o Menino Jesus e, ao<br />

lado, outro com um rei vestido à oriental, como aliás, a<br />

Santíssima Virgem também.<br />

Chama a atenção a beleza das cores com seus variados<br />

tons, todos muito bonitos e harmônicos. Na figura do rei,<br />

por exemplo, impressiona a beleza da cor da capa, do verde<br />

em certas partes do vitral e do escrínio que ele leva. A<br />

expressão de sua fisionomia é também muito bonita.<br />

Em outro lugar, numa rosácea, vê-se um personagem<br />

tocando alaúde. Tudo de uma suprema distinção, bom<br />

gosto, harmonia, nobreza e um certo afeto, uma certa<br />

bondade que pairam sobre tudo isso.<br />

v<br />

(Extraído de conferência de 1/7/1972)


Meditação<br />

Flávio Lourenço<br />

de Maria<br />

T<br />

alvez nunca ninguém teve os meios para<br />

fazer uma meditação da vida inteira<br />

de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas<br />

creio que sendo Nossa Senhora quem era, favorecida<br />

de todas as graças e dons num grau e<br />

numa abundância insondável, Ela não fez senão<br />

isto.<br />

Assim, Ela meditava em todo o significado e<br />

alcance diante da Santíssima Trindade de cada<br />

gemido, cada dor, ao longo da Paixão, mas<br />

também de cada alegria por ocasião dos júbilos<br />

da Ressurreição, como durante o Nascimento,<br />

e enquanto Ele vivia em seu claustro<br />

virginal; tudo isso Ela conheceu e adorou, esteve<br />

continuamente presente em sua mente por<br />

causa dos conhecimentos próprios a Ela, e que<br />

Lhe eram comunicados por seu Divino Filho.<br />

Essa contemplação deveria conferir à expressão<br />

do olhar de Maria Santíssima e à sua atitude<br />

recolhida uma força de meditação verdadeiramente<br />

extraordinária, ligada à sabedoria<br />

d’Ela: um conhecimento milagrosamente<br />

amplo e uma interpretação sapiencial de tudo<br />

quanto houve.<br />

Isso constituiu uma arquitetura como a de<br />

um palácio: vita Domini Nostri Iesu Christi,<br />

desde o primeiro instante da Encarnação até<br />

a hora da Ascensão. Completada esta, quando<br />

Ele entrou no Céu e sentou-Se em seu trono,<br />

terminou a vida terrena d’Ele e um todo se<br />

fez. Esse todo Ela conheceu, admirou e amou<br />

de um modo extraordinário!<br />

(Extraído de conferência de 10/7/1991)<br />

Anunciação - Museu da Catedral de Santo<br />

Domingo de la Calzada, La Rioja, Espanha

Hooray! Your file is uploaded and ready to be published.

Saved successfully!

Ooh no, something went wrong!