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Revista Lavoura n.2

Segunda edição da Revista Lavoura, de literatura e artes, editada por André Balbo, Anna Brandão, Arthur Lungov e Lucas Verzola, com capa, projeto gráfico, diagramação e artes por Anna Brandão.

22 IMPROVISO Nº 1 –

22 IMPROVISO Nº 1 – (SONETO) Paulo Ferraz Onde você vê um gesto, uma mão que antes escondida nas costas agora se revela, outros tantos gestos e mãos o compõem. Nos passos em sua direção, que me aproximam de ti com a mão ainda escondida nas costas, um batalhão de pés marcharam pelo mundo do sem fim, levando outras mãos, todas hábeis em revolver a terra para lhe dar a umidade e a consistência necessária, a única possível, aquela que permitiria que outros pés e outras mãos também viessem trazendo caixas, pisando em aceleradores, manejando ancinhos, pás, cutelos e tesouras para desse árduo artifício extrair tão apenas beleza. Inclusive os pés e as mãos da cigana, não aquela que nas linhas de outra mão arrisca uma visão do improvável amanhã, mas esta, a que antecipa o futuro próximo pelo simples contrato de compra e venda, mesmo os olhares cúmplices e invejoso, ela sabe que acaba de desencadeá-los, pois ela também está neste gesto: uma mão que antes escondida nas costas se revela. Todos nós trocamos estas rosas por um sorriso.

23 Estou sentada numa roda gigante a brancura dos bancos funde-se à minha pele a engrenagem lenta segue o ritmo do vento pequenos solavancos surprendem a respiração que foge pela minha boca criam erupções momentâneas no meu corpo sorrio sempre que a roda retoma a sua marcha desenhada numa harmonia tempestuosa imprevisível vejo o topo do mundo e as profundezas da terra cheiro o brilho das estrelas saboreio a escuridão subterrânea do ser estou sentada numa roda gigante que nunca pára sinto o ar gelado que me aquece suo no inferno sedutor que me martiriza alimento-me da perfeição invisível da viagem circular cresco a cada retorno que me traz exactamente ao mesmo lugar numa diferença cromática abismal aprendo a ver sem olhos sinto o prisma infinito que se recria perpectuamente estou sentada numa roda gigante que prolonga os meus membros expande os meus orgãos liberta o meu espírito sou uma roda gigante e tenho em mim a permanência inabalável da eternidade Susana Pereira RENASCIMENTO

Lavoura n. 4