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Revista Lavoura n.2

Segunda edição da Revista Lavoura, de literatura e artes, editada por André Balbo, Anna Brandão, Arthur Lungov e Lucas Verzola, com capa, projeto gráfico, diagramação e artes por Anna Brandão.

46 BIBLIO- TECA DE BABEL

46 BIBLIO- TECA DE BABEL Em um ensaio de 1889, dois anos depois de sair da cadeia e um ano antes de publicar O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde escreveu que a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida. Para Wilde, tudo o que se encontrava no mundo não existia até a que a arte inventou. A neblina de Londres (“fog”), por exemplo, só se tornou um fenômeno maravilhoso depois que poetas e pintores imaginaram a beleza de seus efeitos. Não fosse por isso, a neblina seria tão só… neblina. É como se a arte antecipasse a própria humanidade ou, dito de outro modo, é como se a construção de significados – a própria linguagem e seus meandros simbólicos – pelo homem se desse mediatamente através da arte. A literatura, enquanto arte, também é imitada pela vida. Harold Bloom é enfático ao afirmar e reafirmar, ainda hoje, que Shakespeare é o inventor do humano. Para o crítico, sua originalidade e seu verdadeiro “milagre” artístico não estariam na representação da cognição ou da personalidade, mas sim em sua genuína “criação”: Hamlet, Lear, Macbeth, Cleópatra e outros tantos são exemplos extraordinários de novos modos de consciência. Modos de consciência, adicione-se, que vemos diante de nós a todo momento – seja na ficção, seja na política, seja na fila do pão, seja sob o fog londrino. Jorge Luis Borges, na tradição continental, talvez seja o grande representante da ideia de que a literatura antecipa a vida e as experiências. O portenho dizia que chegava às coisas depois de tê-las lido, e não por menos dizia orgulhar-se antes das obras que tinha lido do que de sua própria produção literária – tal era sua radical compreensão da escrita enquanto um episódio posterior e secundário à leitura, o que se refletiu de maneira memorável em toda sua obra. Reunindo essas leituras, a Lavoura criou uma nova seção, titulada “Biblioteca de Babel”. Neste espaço, a força e a influência a literatura serão vistas sob uma perspectiva diferente. A cada edição, convidaremos uma personalidade do meio artístico, intelectual ou acadêmico para falar um pouco sobre as obras e os autores mais marcantes em sua trajetória – suas obras “fundamentais”, por assim dizer. O estreante é o professor Fernando Haddad, cuja contribuição não poderia melhor harmonizar: um de seus autores favoritos é Jorge Luis Borges, e alguma dúvida sobre qual seu conto preferido? Oscar Wilde parece de fato correto: a vida imita a arte.

_AS OBRAS FUNDAMENTAIS DE FERNANDO HADDAD Depoimento concedido a André Balbo 47 Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis É dos tempos de colegial meu primeiro contato com um autor que me marcou tanto, a ponto de até hoje eu relê-lo. Estou falando de Machado de Assis, mas particularmente do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, que, para mim, é seu melhor. Reli Memórias póstumas recentemente com minha filha, nas férias de janeiro. Um livro desnorteante, até mesmo pela época em que foi escrito. Notável como alguém teve, digamos, a ousadia de apresentar um livro naquele formato. A maior memória que tenho desse texto é o espanto do primeiro parágrafo (“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte…”). Foi tão significativo, que eu duvidei que o autor pudesse sustentar aquela altitude até o final do livro, e não parei de ler esperando um momento de declínio que não aconteceu. Fui tomado por uma certa perplexidade com a ironia fina, do título ao último parágrafo, e o que ela significava. O processo, de Franz Kafka No caso particular desse livro, meu sentimento é curioso. Por muitas vezes, eu tinha vontade de rir durante a leitura de um texto que é absolutamente tenso. Depois eu vim a saber que o próprio Kafka ria quando fazia a leitura do seu livro em voz alta. E eu entendi perfeitamente o motivo disso: de fato, ele conseguia descrever de forma angustiante situações tão incrédulas que, muitas vezes, resvalava para o cômico, embora o aperto no peito fosse uma decorrência natural da leitura. Na minha visão, existe uma ambiguidade entre o sufocante e o cômico que perpassa várias passagens do texto, o que não era comum em outros leitores com quem eu conversava, que só viam n’O processo tensão e tragédia. Para mim, Kafka é um autor cuja atualidade se faz notar até hoje, embora, na minha concepção, já tenhamos vivido tempos mais kafkianos no passado, como prenúncio do que o século XX nos reservava. Acho que o período stalinista e o período dos governos autoritários na Europa – Espanha, Itália e Alemanha – eram mais kafkianos.