Revista Dr. Plinio 237
Dezembro de 2017
Dezembro de 2017
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Publicação Mensal Ano XX - Nº <strong>237</strong> Dezembro de 2017<br />
Batalhador Divino
Gabriel K.<br />
Esplendor que reparava<br />
a imerecida miséria<br />
São Silvestre foi o Papa a quem, tendo vivido no<br />
tempo de Constantino, coube presidir a transformação<br />
importante que foi o fato de a Igreja<br />
deixar de ser perseguida para ser rainha, abandonar as<br />
catacumbas e começar a ocupar palácios.<br />
Ele foi o Pontífice que acompanhou o surgimento da<br />
Igreja para fora das catacumbas como um Sol que nasce.<br />
Sob suas diretrizes e inspiração teve início a obra<br />
pela qual a Igreja foi sendo cercada de um luxo e esplendor,<br />
que reparava os anos de imerecida miséria<br />
passados por ela nas catacumbas.<br />
(Extraído de conferência de 30/12/1966)<br />
O Papa São Silvestre recebe<br />
oferendas de vasos de ouro<br />
para a primeira Basílica da<br />
Cristandade - Basílica São<br />
João de Latrão, Roma, Itália
Sumário<br />
Publicação Mensal Ano XX - Nº <strong>237</strong> Dezembro de 2017<br />
Ano XX - Nº <strong>237</strong> Dezembro de 2017<br />
Batalhador Divino<br />
Na capa, Menino Jesus revestido de<br />
cota de malha (acervo particular).<br />
Foto: Arquivo <strong>Revista</strong><br />
As matérias extraídas<br />
de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
— designadas por “conferências” —<br />
são adaptadas para a linguagem<br />
escrita, sem revisão do autor<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />
propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />
CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />
INSC. - 115.227.674.110<br />
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02911-000 - São Paulo - SP<br />
Tel: (11) 3932-1955<br />
Editorial<br />
4 Um Menino nascido para<br />
o combate<br />
Piedade pliniana<br />
5 Prece junto ao Presépio<br />
Dona Lucilia<br />
6 Espírito ordenativo<br />
De Maria nunquam satis<br />
10 Sublimidade e pureza<br />
Hagiografia<br />
13 Herói na luta contra os<br />
inimigos da Igreja<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
16 O “canticum novum”<br />
Calendário dos Santos<br />
22 Santos de Dezembro<br />
Preços da<br />
assinatura anual<br />
Comum .............. R$ 130,00<br />
Colaborador .......... R$ 180,00<br />
Propulsor ............. R$ 415,00<br />
Grande Propulsor ...... R$ 655,00<br />
Exemplar avulso ....... R$ 18,00<br />
Serviço de Atendimento<br />
ao Assinante<br />
editora_retornarei@yahoo.com.br<br />
Reflexões teológicas<br />
24 Nossa Senhora e a luta entre a<br />
Revolução e a Contra-Revolução - I<br />
Luzes da Civilização Cristã<br />
30 Um auge de amor de Deus<br />
Última página<br />
36 Mãe do Redentor<br />
3
Editorial<br />
Um Menino nascido<br />
para o combate<br />
No dia de Natal a Cristandade é convidada a contemplar o Menino Jesus tão pacífico, o<br />
Príncipe da Paz que, de braços abertos, sorri para quem d’Ele se aproxima. Nesse momento,<br />
Ele recebe do que a humanidade tem de mais sublime e magnífico, ou seja, Nossa Senhora,<br />
o sorriso cheio de uma pureza e de uma luminosidade indizíveis. Logo depois, junto a Ela, um<br />
varão tão excelso que de algum modo teve proporção para ser seu esposo e pai jurídico do Menino<br />
Jesus: São José.<br />
Acentua-se com razão tudo quanto há de belo, de poético no boi e no burro que, na gruta de Belém,<br />
olham para o Menino Jesus, bem como no contraste enorme entre Deus feito homem e aquelas<br />
criaturas irracionais que, com seu bafo, aquecem o ambiente onde está o Divino Infante.<br />
Dir-se-ia que considerações de luta não caberiam nesse quadro. Entretanto, isso é assim apenas<br />
para quem não sabe ver na entrada do Menino-Deus no mundo a grande guerra d’Ele que se inicia.<br />
Com quanta propriedade o Menino Jesus é apresentado, no presépio, sorrindo e de braços abertos.<br />
Esse gesto significa a abertura do amor d’Ele para os homens, em todos os tempos e lugares, mas<br />
também a Cruz na qual, por amor aos homens, Ele seria pregado.<br />
O Menino Jesus, vindo à luz do dia, ao entrar na Terra saído do claustro augusto e virginal de Maria,<br />
provavelmente abriu os seus braços em cruz e imediatamente ofereceu ao Pai Eterno a grande luta<br />
que ia começar.<br />
Batalhador divino, mas pequenino, Deus infinito encarnado numa criança que quis ficar na dependência<br />
de tudo e de todos, sendo o Criador onipotente do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis<br />
e invisíveis. Ele vem à Terra contrariando as forças opostas do demônio, do mundo e da carne<br />
e, como um guerreiro que entra na liça para começar a guerra, ali está o Menino-Deus no presepe!<br />
É interessante notar que de todas as páginas do Evangelho, talvez em nenhuma o papel de Nosso<br />
Senhor enquanto gladífero venha tão bem acentuado quanto no momento em que o Profeta Simeão<br />
recebe de Nossa Senhora o Menino Jesus nos braços e profetiza: “Eis que este Menino foi posto para<br />
a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição, para que se revelem<br />
os pensamentos íntimos de muitos corações” (Lc 2, 34-35).<br />
Portanto, aquele mesmo Menino tão encantador, que nos é apresentado no presépio na noite de<br />
Natal, é o grande divisor da humanidade. Ao longo de toda a História, Ele escandaliza os escandalosos,<br />
os sem-vergonhas, os maus, os hipócritas, denuncia-os, colocando-os mal à vontade, e eles sempre<br />
se insurgirão contra Ele. Aquela Criança conduzirá uma grande batalha até a consumação dos<br />
séculos.<br />
Como seria interessante haver numa igreja, ao pé do presépio, uma inscrição recordando que aquele<br />
Menino tão engraçadinho e inocente, com os braços em forma de cruz, nasceu para o combate * .<br />
* Excertos de conferências de 25/12/1982 e 2/2/1983.<br />
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />
4
Piedade pliniana<br />
Luis Samuel<br />
Prece junto ao Presépio<br />
Aqui está, Senhor Jesus, mais um filho da Igreja militante trazido pela graça que<br />
vossa celeste Mãe, por suas preces, obteve de Vós. Eis este batalhador, ajoelhado<br />
diante de Vós, antes de tudo para Vos agradecer.<br />
Agradeço-Vos a vida que me destes, o momento em que insuflastes minha alma, o plano<br />
eterno que tínheis a respeito de mim, por onde deveria haver nos desígnios de Deus alguém<br />
que, dentro da coleção dos homens, haveria de ocupar este lugar, mínimo que fosse,<br />
no enorme mosaico de criaturas humanas destinadas a subir ao Céu.<br />
Agradeço-Vos por terdes posto uma luta no meu caminho, para que eu pudesse ser herói,<br />
e a força que me destes para rezar, resistir e espancar o demônio.<br />
Agradeço-Vos todos os anos de minha vida passados na vossa graça e aqueles em que,<br />
embora não transcorridos na vossa graça, Vós os encerrastes e, abandonando o caminho<br />
da desgraça, retornei à vossa amizade.<br />
Agradeço-Vos tudo quanto fiz de difícil para combater os meus defeitos, por não Vos<br />
terdes impacientado comigo, e por haverdes me conservado vivo para que eu ainda tivesse<br />
tempo de corrigir-me antes de morrer.<br />
E se um pedido quero Vos fazer neste Natal, Senhor Jesus, ei-lo, adaptando um pouco<br />
o versículo de um Salmo que diz “Não tireis a minha vida na metade dos meus dias” (Sl<br />
101, 25): Não me tireis os dias na metade da minha obra, e concedei-me que meus olhos<br />
não se cerrem pela morte, não falte o vigor a meus músculos, minha alma não perca a sua<br />
força e agilidade, antes que eu tenha, para a vossa honra, vencido todos os meus defeitos,<br />
galgado todas as alturas interiores que me designastes para galgar, e no vosso campo<br />
de batalha tenha prestado a Vós, por feitos heroicos, toda a glória que esperáveis de mim<br />
quando me criastes. Assim seja.<br />
(Composta em 23/12/1988)<br />
5
Fotoverlag Huber<br />
Dona Lucilia<br />
Espírito<br />
ordenativo<br />
Dona Lucilia era uma pessoa<br />
altamente ordenativa, cujo espírito,<br />
mesmo quando voltado para as<br />
coisas comuns da vida, estava com<br />
frequência direcionado para Deus.<br />
Palácio de<br />
Herrenchiemsee,<br />
Alemanha<br />
Ralf Roletschek (CC3.0)<br />
Uma pessoa que criasse tulipas<br />
e conhecesse, portanto,<br />
grande variedade<br />
dessas flores muito bonitas e fosse<br />
dotada de um espírito ordenativo,<br />
pelo melhor do seu espírito seria levada<br />
a pensar numa tulipa absoluta,<br />
lindíssima, perfeitíssima, que encerrasse<br />
em si todas as qualidades do<br />
gênero, de maneira que aquela fosse<br />
a tulipa por excelência.<br />
Essa tulipa não existe. Pode haver<br />
uma linda, a mais bonita das tulipas<br />
que Deus criou, mas uma assim,<br />
a qual esteja para com as várias tulipas<br />
nesse grau de absoluto, não existe,<br />
porque absoluto é só Deus.<br />
Tulipa perfeita, palácio<br />
de inexprimível beleza<br />
Pode-se imaginar que uma pessoa<br />
procurasse fazer uma fantasia desse<br />
gênero, louvavelmente, virtuosamente,<br />
para ter uma ideia da tulipa perfeita,<br />
de um lado, mas satisfazer o seu<br />
próprio desejo de perfeição em tudo.<br />
Assim poder-se-ia pensar numa<br />
pessoa que tratasse com vários objetos<br />
muito bonitos, todos eles a seu<br />
modo perfeitos, com as limitações<br />
próprias a este vale de lágrimas. Vamos<br />
dizer, um palácio constituindo<br />
com os seus móveis, seus parques,<br />
seus jardins, suas fontes, com tudo<br />
6
o mais, um conjunto de inexprimível<br />
beleza. A pessoa cogita o que seria<br />
algo de mais alto no gênero palácio,<br />
uma coisa inatingível, mas na<br />
qual o homem pode pensar e pensa<br />
com muita seriedade. De maneira<br />
que a tulipa, o palácio imaginado<br />
por ele seriam, antes de tudo, aquela<br />
forma de perfeição que reside principalmente<br />
numa seriedade admirável.<br />
Este seria o mais alto ponto de cogitação<br />
sobre coisas terrenas que<br />
um espírito humano pudesse<br />
conceber.<br />
Daí viria uma ideia abstrata<br />
do que seria a perfeição<br />
absoluta, ideia<br />
esta que a pessoa não<br />
pode reduzir a figura,<br />
mas que fica no<br />
espírito. O anelo<br />
de conhecer essa<br />
perfeição absoluta<br />
é o desejo<br />
de conhecer a<br />
Deus, porque só<br />
Ele é essa perfeição<br />
absoluta.<br />
Alguém cuja<br />
elevação de espírito<br />
o levasse a<br />
conduzir-se frequentemente<br />
a esse<br />
altíssimo páramo,<br />
e que mesmo quando<br />
estivesse cuidando das<br />
coisas comuns da vida<br />
ainda possuísse algo dessa<br />
cogitação dentro do espírito,<br />
seria uma pessoa altamente<br />
ordenativa, porque o princípio da<br />
ordem é esse. E ao tratar com a menor<br />
das coisas pô-la na ordem devida,<br />
é um dos efeitos desse princípio<br />
da ordem.<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Bondade, doçura e seriedade<br />
O que se assistia em mamãe – não<br />
sei em que grau definido, mas num<br />
grau muito alto – era isso. Para além<br />
da bondade, do afeto dela, via-se<br />
que estava uma cogitação posta com<br />
muita doçura, mas sobretudo com<br />
muita seriedade, neste absoluto das<br />
coisas, ou seja, Deus Nosso Senhor.<br />
Nas fotografias melhores de Dona<br />
Lucilia, sobretudo, isso ressalta<br />
muito. Por exemplo, naquela em que<br />
está sentada num banco de madeira<br />
pintado de branco. Ela veste um traje<br />
de gala, portanto numa postura de<br />
quem está participando de uma festa<br />
e se separou um pouco para ser<br />
fotografada. Nota-se que com toda<br />
a naturalidade, terminado o ato de<br />
ser fotografada, ela sairia do local<br />
e começaria uma conversa social –<br />
não o social de hoje, bem entendido,<br />
mas o do tempo dela – com as pessoas<br />
que estivessem ali, como costuma<br />
ser nos atos sociais. Mas por cima de<br />
tudo está qualquer coisa de profundamente<br />
sério, um tanto doído e um<br />
tanto extasiado da alma dela. Isto<br />
era o melhor de sua alma.<br />
Já em outra fotografia onde ela<br />
está no extremo da ancianidade,<br />
olhando comprazida para umas flores,<br />
o que há de ordenado é diferente<br />
daquela primeira fotografia<br />
na qual ela tem trinta<br />
e tantos anos, e naturalmente<br />
com aquele<br />
completo domínio sobre<br />
seu próprio corpo,<br />
próprio da idade<br />
mais distante da<br />
velhice.<br />
Subiu<br />
de modo<br />
ordenado a<br />
escada da dor<br />
Nessa segunda<br />
foto mamãe aparece<br />
com o corpo<br />
como que esmagado<br />
pela velhice, mas<br />
de tal maneira que<br />
não está esmagado em<br />
nada. Percebe-se nela a<br />
idade extrema de quase<br />
noventa e dois anos, a qual<br />
poucas pessoas atingem. Sem<br />
embargo, ela conservou a preocupação<br />
de que o geral do corpo e<br />
da cabeça dela conservasse uma linha<br />
muito definida.<br />
Tudo quanto falei a respeito da<br />
elevação, nessa idade Dona Lucilia<br />
certamente não saberia explicitar,<br />
mas está no espírito dela e ocupa um<br />
lugar predominante na impostação<br />
geral de sua pessoa.<br />
Nota-se isto, por exemplo, pela<br />
postura das mãos e dos braços,<br />
colocados numa posição que<br />
7
Dona Lucilia<br />
não é falha de alguma beleza e ordem.<br />
Os braços não estão postos<br />
de qualquer jeito como uma pessoa<br />
que perdeu o governo de si,<br />
mas têm uma certa linha própria a<br />
quem sabe estar sendo fotografada<br />
e, portanto, precisa apresentar-se<br />
de maneira decorosa.<br />
Por outro lado, ela quis ser fotografada<br />
prestando atenção nas flores<br />
para ser amável com a pessoa que as<br />
deu – isso era muito dela –, e o modo<br />
de ser amável era olhar para as flores<br />
com uma expressão fisionômica<br />
de quem está comprazida, dando assim<br />
a entender, discretamente, que o<br />
presente agradou, e com isso contentar<br />
quem quis agradá-la.<br />
É o que lhe era possível fazer nesse<br />
extremo de ancianidade. Mas nisso<br />
mesmo vê-se que o desejo da ordem<br />
a levou a resistir contra o defeito<br />
natural da idade, e imprimir um<br />
tonus geral na fotografia.<br />
Não podia alguém, olhando essa<br />
fotografia, perguntar: “Quem é essa<br />
velhota?” Não cabe essa pergunta<br />
por causa do cuidado dela com a sua<br />
própria ordenação.<br />
Pelo que me foi dado ver, ela subiu<br />
a escada da dor normalmente,<br />
degrau por degrau, de maneira que<br />
com o curso do tempo as decepções,<br />
os sofrimentos se foram somando.<br />
Mas essa soma se constituía de degraus<br />
e em tempos iguais, de maneira<br />
que se tinha a impressão de uma<br />
ascensão homogênea.<br />
Por outro lado, mesmo na avançada<br />
idade em que mamãe estava nessa<br />
foto, por exemplo, a acolhida que<br />
ela dava a uma pessoa que chegava<br />
era naturalmente graduada conforme<br />
as disposições dela em relação a<br />
essa pessoa, pois Dona Lucilia não<br />
era igualitária, e queria a uns mais, a<br />
outros menos. Mas sempre com uma<br />
abertura, uma bonomia, uma acolhida,<br />
que podiam ser comparadas, conforme<br />
o caso, à luz de um dia solar<br />
muito bonito ou a uma luz mais discreta,<br />
mais doce, de uma linda noite<br />
de luar. Ela tinha assim disposições<br />
de espírito em relação a essa, àquela<br />
pessoa, conforme os casos e as situações<br />
de entusiasmo ou de um afeto<br />
estável, tranquilo, envelhecido até,<br />
mas que não muda nunca. Ela era<br />
muito constante nas suas amizades.<br />
Materno entusiasmo<br />
perante o afeto filial<br />
Um caso que, aliás, surpreendeu-<br />
-me um pouco, no qual esse entusiasmo<br />
se revelou foi no dia em que<br />
se inaugurou a Constituinte, sendo<br />
eu deputado.<br />
Entrei no recinto da Câmara, fui até<br />
à bancada paulista disposta logo na primeira<br />
fileira e cumprimentei os meus<br />
companheiros de bancada, como era<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
8
minha obrigação. Logo depois, como<br />
eu não conhecia nenhum outro deputado,<br />
todos eram novos para mim, não<br />
tinha obrigação de cumprimentar mais<br />
ninguém, comecei a olhar as arquibancadas<br />
para saber se ela tinha encontrado<br />
lugar. Porque se não tivesse eu subiria,<br />
mexia qualquer coisa, mas arranjava<br />
um lugar para ela. Pelo afeto que<br />
devotava a ela parecia-me natural que<br />
agisse assim e, portanto, não calculei o<br />
efeito do que eu fazia.<br />
Por uma coincidência qualquer<br />
custei para vê-la. De repente, percebi<br />
as duas – mamãe e minha irmã –<br />
que estavam sorrindo. Cada uma tinha<br />
tirado o lenço da bolsa e estava<br />
agitando-o porque, percebendo que<br />
eu não as estava vendo, quiseram assim,<br />
com esse gesto, facilitar a pesquisa.<br />
Quando a vi fiquei muito contente<br />
e fiz um sinal com a mão, de<br />
saudação, e voltei para o meu lugar.<br />
Terminada a sessão, a assembleia<br />
se dissolveu e fui procurá-las na saída<br />
do lugar onde elas se encontravam<br />
com meu pai, para tomar o automóvel<br />
e voltar ao hotel onde estávamos<br />
hospedados.<br />
Tratava-se do Hotel Glória, que<br />
fica numa posição muito bonita na<br />
praia do Flamengo. Eu tinha arranjado<br />
para ela um apartamento excelente,<br />
com vista direta para o mar.<br />
Ali não há praia, pois a urbanização<br />
fez com que a terra desse diretamente<br />
num parapeito com pedras pontudas.<br />
Coloquei-a naquele apartamento<br />
porque sei que ela gostava muito<br />
de panoramas, e ali o panorama é<br />
muito bonito.<br />
Quando cheguei, encontrei-a sentada<br />
numa espécie de cadeira de balanço,<br />
olhando para o mar que, de<br />
fato, estava soberbo naquela noite.<br />
A Lua literalmente dourada e muito<br />
bonita. Depois, a uma pequena distância,<br />
plantada numa posição por<br />
assim dizer muito fotográfica, uma<br />
palmeira alta. No Rio há palmeiras<br />
muito bonitas, altas, grandes. Dona<br />
Lucilia estava fruindo o reflexo da<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em sua residência, em fevereiro de 1993<br />
Lua dourada no mar e toda a beleza<br />
do panorama.<br />
Entrei, acerquei-me dela, beijei-a,<br />
enfim, uma coisa costumeira. A cadeira<br />
de balanço era muito baixa, de maneira<br />
que me ajoelhei para ficar assim<br />
ao alcance dela e dizer-lhe qualquer<br />
coisa, essas conversas comuns.<br />
Ela me disse:<br />
– Meu filho, você não sabe que<br />
alegria você deu à sua mãe hoje.<br />
– Mas como assim, meu bem?<br />
– É das maiores alegrias que você<br />
me tenha dado na vida!<br />
Mas aí ela falava com ênfase. Eu<br />
perguntei:<br />
– Mas por que isso?<br />
– Eu ainda conservo na retina a<br />
sua expressão fisionômica na Câmara,<br />
lá embaixo, procurando-me e depois<br />
me dizendo adeus; a expressão<br />
de fisionomia alegre e tranquilizada<br />
que você tomou quando viu que eu<br />
tinha encontrado um lugar.<br />
Eu não estava angustiado, nem<br />
dava para isso, mas atento; queria<br />
que ela estivesse à vontade.<br />
Ao ouvir isso “caí das nuvens” e<br />
disse:<br />
– Mas, meu bem, isso não tem nada<br />
de mais.<br />
– Não é verdade – respondeu ela<br />
–, naquela hora em que você podia<br />
estar pensando só em si e todo cheio<br />
de vaidade, pensou assim em sua<br />
mãe; quer dizer muito. E até agora<br />
estou cheia da alegria de ter recebido<br />
de sua parte essa manifestação de<br />
afeto filial.<br />
Osculei-a várias vezes, brinquei<br />
um pouquinho com ela e saí.<br />
Eu não a vi em nenhum momento<br />
representar tanto entusiasmo por<br />
alguma atitude minha do que nessa<br />
ocasião.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de<br />
26/2/1993)<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
9
De Maria nunquam satis<br />
Gabriel K.<br />
Sublimidade<br />
e pureza<br />
O espírito revolucionário,<br />
essencialmente igualitário e<br />
impuro, execra tudo quanto<br />
é sublime e casto; tem amor<br />
ao banal, ao trivial, quando<br />
não ao degradado. Por isso<br />
grande foi o ódio suscitado nos<br />
revolucionários por ocasião<br />
da proclamação do dogma da<br />
Imaculada Conceição de Maria.<br />
10<br />
Imaculada Conceição - Igreja São Francisco<br />
dos Penitentes, Rio de Janeiro, Brasil<br />
Temos um trecho de uma encíclica<br />
de São Pio X 1 onde, ao<br />
tratar a respeito do dogma da<br />
Imaculada Conceição, depois de discorrer<br />
sobre a atual negação do pecado<br />
original e suas consequências, o<br />
Santo Padre diz:<br />
Anarquismo, a mais<br />
perniciosa doutrina...<br />
Ora, creiam os povos e professem<br />
que a Virgem Maria foi preservada de<br />
toda mancha de pecado desde o primeiro<br />
instante de sua conceição: desde logo<br />
torna-se-lhes mister admitir o pecado<br />
original, a redenção da humanidade<br />
por Jesus Cristo, o Evangelho e a Igre-
ja, enfim a lei do sofrimento. Em virtude<br />
disto, todo racionalismo e materialismo<br />
que campeiam pelo mundo são arrancados<br />
e destruídos em suas raízes, cabendo<br />
à sabedoria cristã a glória de ter<br />
guardado e defendido a verdade.<br />
Além disto, é vezo perverso e comum<br />
a todos os inimigos da fé, sobretudo<br />
em nossa época, proclamar que<br />
se devem repudiar todo respeito e toda<br />
obediência à autoridade da Igreja,<br />
mesmo de todo poder humano, na<br />
crença de que logo lhes será mais fácil<br />
banir a fé dos corações.<br />
Aqui está a origem do anarquismo,<br />
a mais nociva e perniciosa doutrina<br />
que possa existir, tanto na ordem natural<br />
quanto sobrenatural. Ora, tal peste,<br />
fatal tanto à sociedade como ao nome<br />
cristão, baqueia ante o dogma da<br />
Imaculada Conceição de Maria, pela<br />
obrigação que lhe impõe de atribuir à<br />
Igreja um poder em face do qual tem<br />
que se curvar não só a vontade, mas<br />
também a inteligência. Pois é em virtude<br />
de uma tal submissão que o povo<br />
cristão canta este louvor da Virgem:<br />
Toda bela és, Maria, e não há em Ti a<br />
mancha original. 2 Daí se justifica uma<br />
vez mais o que a Igreja afirma da Virgem,<br />
dizendo que “só Ela extirpou todas<br />
as heresias do mundo inteiro”.<br />
...e a extrema ponta<br />
da Revolução<br />
depois que essa ditadura tenha modelado<br />
os homens de acordo com as<br />
intenções comunistas, os homens estarão<br />
num tal grau de evolução, de<br />
“perfeição”, que eles não precisarão<br />
mais de leis, de cárceres, não cometerão<br />
mais crimes, não farão guerras<br />
e não haverá necessidade de governo.<br />
E então é uma anarquia. Não no sentido<br />
de um pandemônio, de uma desordem,<br />
mas de uma ordem sem lei<br />
onde todos os homens são reis de si<br />
próprios, nenhum obedece a outro e<br />
reina uma liberdade, uma fraternidade<br />
e uma igualdade completas.<br />
Ora, diz São Pio X – a formulação<br />
dele empregada aqui é muito interessante<br />
– que não se pode conceber um<br />
erro pior do que o anarquismo. Não<br />
é uma afirmação de caráter histórico<br />
– nunca apareceu um erro tão ruim<br />
quanto o anarquismo –, mas de caráter<br />
doutrinário. Quer dizer, se um<br />
homem mais do que perverso e corrompido<br />
procurasse o pior dos erros,<br />
na ordem do possível, ele não encontraria<br />
um pior do que o anarquismo.<br />
Portanto, ele é a extrema ponta da<br />
Revolução e, segundo este Papa santo,<br />
o pior dos erros concebíveis.<br />
Indignação até em<br />
meios católicos<br />
Afirma São Pio X que a admissão<br />
do dogma da Imaculada Conceição<br />
tem como resultado para os homens a<br />
aceitação da autoridade da Igreja, pois<br />
o modo pelo qual eles sabem que Nossa<br />
Senhora foi concebida sem o pecado<br />
original é o ensinamento da Igreja. Ela<br />
ensina porque se fundamenta no Evangelho.<br />
Logo, é a aceitação do Evangelho<br />
e, consequentemente, da Revela-<br />
Esse trecho é de uma riqueza de<br />
conteúdo de pensamento que merece<br />
ser explanado e resumido. São Pio<br />
X tem em vista mostrar como a aceitação<br />
do dogma da Imaculada Conceição,<br />
por parte dos fiéis, é um remédio<br />
para aquilo que, no ensaio<br />
Revolução e Contra-Revolução, nós<br />
chamamos a Revolução.<br />
Nessa obra apontamos o anarquismo<br />
como a fórmula mais avançada da<br />
Revolução. Quer dizer, aquele estado<br />
de coisas para o qual o comunismo<br />
visa caminhar. Os comunistas dizem<br />
que deve haver passageiramente<br />
uma ditadura do proletariado. Mas,<br />
São Joaquim e Santa Ana com a Virgem<br />
Maria - Coleção Granados, Madri, Espanha<br />
11<br />
Flávio Lourenço
De Maria nunquam satis<br />
ção e da ordem sobrenatural. É a submissão<br />
a um poder diante do qual se<br />
devem dobrar não só os atos externos<br />
do homem, mas os internos; não apenas<br />
os atos da vontade, mas os da inteligência.<br />
Portanto, a atitude mais contrária<br />
ao anarquismo que possa existir.<br />
O Pontífice mostra como o ato de<br />
fé na Imaculada Conceição é soberanamente<br />
eficaz para extirpar da alma<br />
humana todas as raízes da Revolução,<br />
e aplica a Nossa Senhora aquela frase<br />
muito bonita que se encontra na Liturgia:<br />
“Tu só é que extirpaste todas<br />
as heresias do mundo inteiro.” Ou<br />
seja, a Santíssima Virgem, pela sua<br />
Imaculada Conceição, calcando aos<br />
pés a cabeça do dragão, pai das heresias,<br />
eliminou-as do mundo inteiro e<br />
luta, através de todos os séculos da vida<br />
da Igreja, para a extirpação de todos<br />
os erros. Eis a ideia contida nesse<br />
esplêndido trecho de São Pio X.<br />
Quando o dogma da Imaculada<br />
Conceição foi definido por Pio<br />
IX, houve na Europa uma verdadeira<br />
tempestade de ódios, protestos, indignação<br />
que atingiu não só os não<br />
católicos, mas também os católicos.<br />
Em muitos meios católicos houve um<br />
furor porque esse dogma tinha sido<br />
definido. Como explicar essa atitude?<br />
Ódio igualitário<br />
Segundo esse dogma, a Virgem<br />
destinada a ser a Mãe de Deus foi<br />
concebida sem pecado original desde<br />
o primeiro instante de seu ser. Essa<br />
indignação contra a Santíssima<br />
Virgem, Mãe de Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo e Mãe da Igreja, explica-se pelo<br />
ódio igualitário por vê-La colocada<br />
no ponto mais alto em que uma mera<br />
criatura possa estar. Ademais, por<br />
ser uma mulher, o arbítrio de Deus<br />
se apresenta de um modo muito mais<br />
forte, porque toma na ordem humana<br />
o elemento geralmente considerado<br />
secundário e o coloca no alto de toda<br />
a pirâmide da Criação. Isso contunde<br />
enormemente o espírito igualitário.<br />
Entretanto, fere muito aos igualitários<br />
também o fato de que Maria Santíssima<br />
tenha sido objeto de uma exceção<br />
a uma regra, para a qual nunca<br />
houve exceções. A ideia de uma mulher<br />
sem pecado original, quebrando<br />
uma regra universal e colocada, portanto,<br />
numa altura enorme em relação<br />
a todos os seres humanos, dá aos revolucionários<br />
um verdadeiro furor.<br />
Mas essa fúria tem também outra<br />
causa. Não é só por seu aspecto anti-<br />
-igualitário que a Imaculada Conceição<br />
é odiada. Acrescenta-se a isso um<br />
ódio do vulgar em relação ao sublime.<br />
Essas verdades – Nossa Senhora<br />
concebida sem pecado original, Virgem<br />
e Mãe de Deus –, consideradas<br />
no seu conjunto, correspondem à sublimidade<br />
de um ser de tal maneira<br />
puro, imaculado, elevado acima de tudo<br />
quanto se possa imaginar, tão virginal<br />
no mais recôndito de si mesmo –<br />
por não ter nenhum dos impulsos que,<br />
mesmo num santo, podem representar<br />
o aguilhão da carne. Nem a isso o ser<br />
d’Ela está sujeito, é algo de tão transcendente<br />
em matéria de sublimidade,<br />
tão alto e requintado em questão de<br />
pureza, tão excelso como condição humana,<br />
e tão diferente da nossa própria<br />
condição, que fica apresentada à nossa<br />
admiração uma figura imensamente<br />
maior do que nós, pela qual temos<br />
uma ideia da sublimidade a que Deus<br />
pode elevar a criatura humana, mas à<br />
qual nós não fomos elevados.<br />
O requinte da<br />
bem-aventurança<br />
Daí decorre para todo o gênero humano<br />
uma espécie de honra e de glória<br />
que esbarra diretamente no espírito<br />
revolucionário, o qual odeia tudo quanto<br />
é sublime e elevado, não somente<br />
por ser ele igualitário, mas por uma outra<br />
expressão do igualitarismo que é o<br />
amor ao banal, ao trivial, quando não<br />
ao degradado. Por isso os revolucionários<br />
têm um verdadeiro ódio à Imaculada<br />
Conceição de Maria.<br />
Esse furor contra a Imaculada<br />
Conceição encontra outra expressão<br />
no ódio que as pessoas, movidas pelo<br />
espírito das trevas, têm àqueles que,<br />
como nós, procuram praticar a virtude,<br />
particularmente no que tange à<br />
pureza, compostura e dignidade.<br />
Tais pessoas são capazes de espalhar<br />
as piores calúnias a nosso respeito,<br />
só porque guardamos a castidade<br />
perfeita. A compostura, a nobreza, a<br />
distinção de trato, mesmo daqueles<br />
que são de uma condição mais modesta,<br />
chama a atenção de todos e<br />
atrai a simpatia dos bons. Contudo,<br />
aos maus causa um verdadeiro ódio<br />
à sublimidade da causa que defendemos.<br />
Aqueles que gostam da trivialidade<br />
nos detestam porque não somos<br />
vulgares e procuramos orientar<br />
os espíritos para o alto, comunicar às<br />
nossas pessoas a atitude e dignidade<br />
de filhos de Deus e de Nossa Senhora,<br />
no que se reflete algo da realeza<br />
da própria Santíssima Virgem.<br />
É precisamente isso que os indigna.<br />
Razão para nós de alegria, porque<br />
uma das bem-aventuranças é ser perseguido<br />
por amor à justiça. Mas dentro<br />
desta bem-aventurança há uma especial,<br />
que é como o requinte da bem-<br />
-aventurança: ser perseguido por amor<br />
a Nossa Senhora e pelas mesmíssimas<br />
razões pelas quais Ela é odiada.<br />
Aproximando-nos da festa da<br />
Imaculada Conceição, peçamos a<br />
Maria Santíssima cada vez mais essa<br />
bem-aventurança de sermos tão unidos<br />
a Ela e trazermos em torno de<br />
nós de tal maneira a sua expressão,<br />
que se possa afirmar ser realmente<br />
por causa de nossa semelhança com<br />
Ela que somos odiados. v<br />
(Extraído de conferências de<br />
2/12/1964 e 6/12/1965)<br />
1) Ad Diem Illum Lætissimum, 2/2/1904,<br />
n. 16.<br />
2) Gradual da Missa na Solenidade da<br />
Imaculada Conceição.<br />
12
Hagiografia<br />
Herói na luta contra<br />
os inimigos da Igreja<br />
Devido a tramas efetuadas por hereges contra São João<br />
Damasceno, sua mão direita foi amputada por ordem do califa.<br />
O Santo recorreu a Nossa Senhora e a mão milagrosamente<br />
uniu-se ao antebraço. Ele tornou-se um dos maiores Doutores<br />
da Igreja, famoso por seu talento, sua doçura e implacável<br />
heroicidade na luta contra os inimigos da Igreja.<br />
C<br />
omentaremos uma ficha tirada<br />
do livro Vie des Saints, de<br />
Emanuel d’Alzon, a respeito<br />
de São João Damasceno.<br />
Yoav Dothan (CC3.0)<br />
Um eremita muito culto<br />
é salvo da morte<br />
São João Damasceno - Igreja de Nossa Senhora<br />
da Anunciação, Jerusalém, Israel<br />
A narração explica que São João<br />
Damasceno era do Oriente Próximo.<br />
Seu pai, Sérgio Mansur, católico<br />
e ministro de um califa maometano,<br />
Abdal Malique, homem terrível, mas<br />
que gostava muito de Mansur porque<br />
este era um personagem de muito<br />
valor, criterioso.<br />
Certo dia, Mansur saiu à rua e viu<br />
um número enorme de católicos sendo<br />
conduzidos para a morte. Então<br />
prometeu interceder por eles e salvá-los,<br />
o que efetivamente conseguiu<br />
do califa, junto a quem gozava<br />
de enorme prestígio.<br />
Mas ele notou entre os prisioneiros<br />
– vejam os vaivéns da Providência<br />
– um que portava os trajes e tinha<br />
todo o jeito de um eremita. Naquele<br />
tempo, os eremitas usavam uma rou-<br />
13
Hagiografia<br />
pa que vagamente lembrava o burel<br />
de um franciscano, moravam no deserto,<br />
em grutas, inteiramente sós,<br />
e eram personagens grandiosos. Ele<br />
notou que esse eremita estava com<br />
muito receio de morrer, e lhe disse:<br />
– Eu compreendo que os outros estejam<br />
receosos; mas o senhor, um homem<br />
que abandonou o mundo, com<br />
medo de morrer? Confesso ao senhor<br />
o desapontamento que isso me causa.<br />
E o eremita deu-lhe esta resposta:<br />
– De morrer não tenho medo.<br />
Mas o que me causa apreensão é tudo<br />
quanto estudei em minha vida, e<br />
que o senhor não sabe.<br />
Então vem uma dessas enumerações<br />
orientais pitorescas de tudo<br />
quanto ele estudou. Um homem<br />
sozinho, numa toca qualquer, tinha,<br />
além de tudo, aprendido oratória.<br />
Subia num montículo e falava para<br />
populações inexistentes.<br />
Continuou o eremita:<br />
– Eu achava que tudo isso era para<br />
o serviço de Deus. E eis que agora<br />
estou fadado a morrer com a inutilidade<br />
de tudo que aprendi.<br />
– Mas eu obtive do califa libertação<br />
de todos: o senhor está salvo –<br />
tranquilizou-o Mansur.<br />
O eremita deu extraordinárias<br />
manifestações de contentamento.<br />
Mas o benfeitor lhe disse:<br />
– Há uma condição: tenho dois<br />
filhos, e queria que o senhor viesse<br />
morar comigo e utilizasse toda a sua<br />
ciência para ensiná-los.<br />
Um desses filhos, o do segundo<br />
casamento, era João, futuro Doutor<br />
da Igreja e conhecido como São<br />
João Damasceno.<br />
O eremita respondeu:<br />
– Depois de o senhor salvar minha<br />
vida, estou ao seu dispor.<br />
Hereges envolveram<br />
São João Damasceno<br />
numa intriga<br />
Pelos desígnios da Providência, esse<br />
homem tinha sido chamado para<br />
uma ermida e ali encher-se de uma ciência<br />
extraordinária, sem saber definidamente<br />
o que Deus queria dele. Possuía,<br />
porém, uma noção interior tão<br />
grande e firme de se tratar realmente<br />
de um desígnio divino, que quando ele<br />
se viu condenado à morte, sem que esses<br />
conhecimentos fossem utilizados,<br />
sofreu um verdadeiro golpe.<br />
Ele não sabia que essa tragédia a<br />
qual iria aproximá-lo da morte e consagrar<br />
a inutilidade de todos os seus esforços,<br />
na realidade fá-lo-ia encontrar o<br />
aluno em ordem a quem toda essa sabedoria<br />
tinha sido acumulada. E que<br />
...tornou-se um dos<br />
maiores Doutores<br />
da Igreja, famoso<br />
por seu talento,<br />
por sua doçura e<br />
por sua implacável<br />
heroicidade na<br />
luta contra os<br />
inimigos da Igreja.<br />
ele seria célebre enquanto São João<br />
Damasceno o fosse, exatamente por<br />
causa do seu papel nessa celebridade.<br />
Esse anacoreta era como uma abelha,<br />
dotada de todo o mel da cultura antiga<br />
para nutrir um Doutor da Igreja.<br />
A nota biográfica conta que São<br />
João Damasceno era muito bom aluno,<br />
inteligente, e aproveitou profundamente<br />
a ciência de seu preceptor.<br />
Entretanto, como se tratava daquele<br />
regime de politicagem do Oriente,<br />
os hereges envolveram São João Damasceno<br />
numa intriga.<br />
O Imperador de Constantinopla<br />
estava em guerra contra o Califa<br />
de Damasco ao qual servia o pai<br />
de São João Damasceno. Um inimigo<br />
de Mansur, querendo comprometê-lo<br />
para que ele – ou seu filho João<br />
– fosse morto, escreveu uma carta falsa<br />
em nome de São João Damasceno<br />
ao Imperador de Constantinopla,<br />
na qual dizia admirar muito o Imperador,<br />
e que sendo católico não podia<br />
resignar-se diante da ideia de que os<br />
católicos fossem presos. Então, convidava<br />
o Imperador a invadir e tomar<br />
conta do califado, pois João e seu pai<br />
se levantariam para derrubar o califa.<br />
O Imperador – herege iconoclasta<br />
chamado Leão III, o Isáurico – mandou<br />
a carta para Abdal Malique, dizendo<br />
estimá-lo tanto que lhe enviava<br />
aquela missiva como prova de lealdade,<br />
pois, podendo levantar esses<br />
súditos contra o califa, enviava-lhe a<br />
carta para que ele pudesse exterminar<br />
aqueles traidores.<br />
O califa manda cortar<br />
a mão direita de São<br />
João Damasceno<br />
Ao receber a carta, o califa ficou<br />
indignado e, sendo um homem de<br />
temperamento explosivo, mandou<br />
que carrascos agarrassem São João<br />
Damasceno e lhe cortassem a mão direita,<br />
como castigo. E só não o mandava<br />
matar por causa do grande prestígio<br />
que Mansur tinha junto a ele.<br />
A ordem foi cumprida e São João<br />
Damasceno perdeu a mão, mas pediu<br />
ao califa que, ao menos, lhe entregasse<br />
o membro amputado para<br />
enterrá-lo. O califa acedeu ao pedido,<br />
pensando em tudo, menos no<br />
que poderia vir a acontecer.<br />
São João Damasceno, de posse<br />
da mão cortada foi para o Oratório<br />
e começou a rezar, pedindo a Nossa<br />
Senhora que lhe restituísse a mão<br />
perdida. Deu-se, então, um milagre<br />
espetacular: a mão uniu-se ao corpo.<br />
Diante do milagre, o califa contemporizou,<br />
soltou São João Damasceno<br />
que retomou seus escritos e sua<br />
14
pregação, tornando-se um dos maiores<br />
Doutores da Igreja, famoso por<br />
seu talento, por sua doçura e por sua<br />
implacável heroicidade na luta contra<br />
os inimigos da Igreja.<br />
Imaginem o golpe para a Cristandade<br />
se São João Damasceno não<br />
pudesse expandir em todo o seu esplendor<br />
o brilho de sua palavra, em<br />
defesa da Igreja nas crises daquela<br />
ocasião.<br />
Por outro lado, com o mestre se<br />
dá algo à maneira do que se passou<br />
com o discípulo: condenado<br />
à morte, vai perder<br />
todo o seu talento. Nesse<br />
episódio o mestre conhece<br />
o discípulo para o qual<br />
ele nasceu, e seu talento<br />
se eterniza na pessoa<br />
de São João Damasceno.<br />
Este, por sua vez, tem<br />
a mão cortada, a carreira<br />
prejudicada, a vida golpeada.<br />
Depois, um magnífico<br />
milagre e a prova de<br />
que Deus estava com ele.<br />
Admiração para todos os<br />
católicos da Ásia Menor<br />
e para a catolicidade inteira,<br />
ficando assim com<br />
um grande prestígio para<br />
pregar a palavra de Deus.<br />
Antes disso, porém, Deus<br />
quis levá-lo às sombras<br />
da morte.<br />
“Em tua luz<br />
veremos a Luz”<br />
Não posso me esquecer<br />
de que na Faculdade<br />
Sedes Sapientiæ, onde fui<br />
professor, havia uma capela<br />
que não era bonita,<br />
mas na qual existiam coisas<br />
muito bonitas: um vitral<br />
representando Nosso<br />
Senhor e, embaixo, esta<br />
frase da Escritura: “Ainda<br />
que eu caminhe nas<br />
sombras da morte, não<br />
Nossa Senhora de Coromoto (acervo particular)<br />
temerei os males” (Sl 22, 4). Depois,<br />
outro vitral, do qual não me lembro<br />
a figura, com uma frase belíssima:<br />
“Iluminados por tua luz, veremos a<br />
Luz” (Sl 35, 10).<br />
“Ainda que eu caminhe nas sombras<br />
da morte, não temerei os males.”<br />
O que significa isso para nossa<br />
vocação? Mesmo que os mais tenebrosos<br />
obstáculos se oponham ao<br />
caminhar da nossa vocação, não temeremos<br />
os males e continuaremos<br />
a andar serenamente, porque Nossa<br />
Senhora abrirá os caminhos e nós<br />
os transporemos, e chegaremos até o<br />
fim, desde que sejamos verdadeiramente<br />
devotos d’Ela.<br />
“Iluminados por tua luz, veremos<br />
a Luz.” Embora eu não seja um exegeta,<br />
creio que essa frase pode ser<br />
aplicada a Maria Santíssima. Ela é<br />
uma luz, e à luz d’Ela vemos a Luz<br />
de Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
Essas duas frases têm relação com<br />
a vida de São João Damasceno. As<br />
sombras da morte rodearam o preceptor<br />
dele, mas este encontrou<br />
a vida achando<br />
seu discípulo. O mesmo<br />
na vida de São João Damasceno.<br />
As sombras da<br />
morte o rodearam nesse<br />
golpe tão duro. Ainda aí<br />
ele não temeu os males;<br />
sua mão se recompôs e<br />
ele recomeçou.<br />
Isso nos leva a uma<br />
confiança cega em Nossa<br />
Senhora. Se confiarmos,<br />
teremos tudo; se não confiarmos,<br />
nada possuiremos.<br />
A expressão “Em tua<br />
luz veremos a Luz”, como<br />
é adequada quando estamos<br />
diante de uma imagem<br />
da Santíssima Virgem<br />
tendo ao colo o Menino<br />
Jesus! É uma luz e,<br />
junto a Ela está a Luz<br />
das luzes. E à luz de Nossa<br />
Senhora de Coromoto,<br />
vemos o Menino Jesus.<br />
Não pode haver nada<br />
mais bonito do que isso!<br />
Aí fica a figura enternecedora<br />
dessa imagem e a<br />
graça dada a um índio da<br />
América do Sul, fixadas<br />
no firmamento da Igreja<br />
à memória gloriosa de<br />
São João Damasceno.v<br />
Teodoro Reis<br />
(Extraído de conferência<br />
de 10/5/1976)<br />
15
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
J P Beltran<br />
O “canticum<br />
novum”<br />
Quais as graças, as cogitações, a poesia e<br />
os cânticos que caracterizarão os Natais no<br />
Reino de Maria? A este respeito <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
tece belos e inéditos comentários.<br />
Gostaria de tratar de alguns<br />
aspectos do Natal a partir de<br />
conjecturas a respeito de como<br />
seria a música de Natal no Reino<br />
de Maria. Sobre isso haveria diversas<br />
hipóteses que se entrecruzam.<br />
Gabriel K.<br />
Uma canção natalina<br />
que abrangesse desde<br />
o Nascimento até a<br />
Ascensão de Jesus<br />
Sagrada Família<br />
Presépio da Catedral<br />
Maria Rainha do Mundo,<br />
Montreal, Canadá<br />
A mim pessoalmente agradaria<br />
uma música que considerasse o mistério<br />
do Natal relacionando-o com o<br />
futuro do Menino Jesus. Assim, em<br />
determinado momento, desenvolvesse<br />
algo sobre a vida contemplativa<br />
d’Ele com Nossa Senhora durante<br />
os trinta anos vividos em Nazaré.<br />
Depois, a dor da despedida, a vida<br />
pública, Paixão, Morte, Ressurreição,<br />
glória no Céu. Terminando, por<br />
exemplo, com esse pensamento: se<br />
os Anjos cantaram “glória a Deus no<br />
mais alto dos céus e paz na Terra aos<br />
homens de boa vontade” (Lc 2, 14),<br />
16
o Homem de boa vontade por excelência<br />
foi Ele, o Homem-Deus. Ninguém<br />
teve boa vontade como Ele,<br />
em nenhum sentido, nem de longe.<br />
Logo, a glória d’Ele não se iguala à<br />
de ninguém. Os Anjos, quando entoaram<br />
“glória a Deus no mais alto<br />
dos céus”, cantaram a Ele enquanto<br />
Segunda Pessoa da Santíssima Trindade<br />
também. E quando cantaram<br />
“paz na Terra aos homens de boa<br />
vontade”, glorificaram-No enquanto<br />
trazendo para a Terra a possibilidade<br />
da verdadeira ordem e, com esta,<br />
a verdadeira paz.<br />
Depois a luta d’Ele e a Ascensão<br />
ao Céu, porque sendo Ele o Homem<br />
de boa vontade por excelência<br />
que realizou tudo quanto devia realizar,<br />
teve uma glória incomparável<br />
no Céu. Seria, portanto, uma música<br />
muito mais longa do que simplesmente<br />
o Stille Nacht.<br />
Cântico do inocente, do<br />
penitente, do pecador<br />
e do guerreiro<br />
Eu também imaginaria de bom<br />
grado canções natalinas para estados<br />
de alma diferentes. Então, para<br />
a alma inocente que, imersa neste<br />
mundo e dentro da luta, tem receio<br />
de ver a sua inocência comprometida,<br />
agradece a Deus a inocência que<br />
tem e pede que essa inocência seja<br />
de aço até o fim.<br />
O cântico de Natal da alma inocente<br />
seria diferente do cântico da alma<br />
penitente. O penitente arrependido,<br />
humilde, de cabeça baixa, se acerca<br />
da manjedoura e canta a São José<br />
e a Nossa Senhora. A São José dizendo<br />
não ser digno, mas pedindo ao<br />
Santo Patriarca que obtenha da Santíssima<br />
Virgem para ele um olhar e<br />
uma compaixão. Seguem-se a resposta<br />
afirmativa de São José e um apelo<br />
a Nossa Senhora. A Mãe de Deus<br />
atende e o recebe maternalmente.<br />
O pecador arrependido então pede<br />
a mediação d’Ela para chegar até o<br />
Menino Jesus. Sentindo-se indigno de<br />
entrar na gruta, canta do lado de fora,<br />
dizendo: “Até o bafo do boi é digno<br />
de estar ali dentro, porque está na<br />
ordem de Deus. Mas eu sou o pecador<br />
que rompi em determinado momento<br />
essa ordem. Portanto, não sou digno<br />
de aproximar-me dali. Onde os animais<br />
entram eu não posso entrar. Mas<br />
se Vós, minha Mãe, me cobrirdes com<br />
o vosso manto, eu ouso tudo!” Ela o<br />
cobre, e coberto pelo manto, ele recita<br />
um Confiteor e recebe do Menino Jesus<br />
um gesto, que pode ser interpretado<br />
como um movimento instintivo de<br />
uma criança, mas na realidade tem o<br />
sentido de um perdão. O penitente se<br />
retira agradecido.<br />
Outro poderia ser o cântico natalino<br />
do pecador atolado no peca-<br />
Cristo crucificado<br />
Catedral de la Almudena,<br />
Madri, Espanha<br />
Samuel Holanda<br />
Jesus carrega sua Cruz - Convento de<br />
Santa Maria de Jesus, Sevilha, Espanha<br />
17
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
Gabriel K.<br />
Adoração dos pastores - Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia<br />
do. Que gostaria de sair desse estado,<br />
mas não o quer com toda a eficácia.<br />
Mas ao menos de longe, de fora,<br />
canta implorando a Nossa Senhora<br />
enviar-lhe um mensageiro que leve<br />
a Ela uma súplica dele. Aproxima-<br />
-se um passarinho, e o pecador põe a<br />
mensagem no bico da ave.<br />
A súplica é entregue, e nela ele<br />
diz não ser como o pecador anterior<br />
que tendo rompido com Deus, rompeu<br />
depois com o pecado. Aquele,<br />
quando entrou na gruta, após reconhecer<br />
que não merecia estar onde<br />
até o boi e o burro eram dignos, já<br />
estava reconciliado com Deus. Este,<br />
entretanto, não é nem o pecador arrependido<br />
nem o boi: ele é a serpente,<br />
pois se encontra em estado de pecado<br />
mortal. Está carregado de pecados,<br />
mas tem tristeza e esperança,<br />
e implora de longe a Nossa Senhora,<br />
cujo pedido pode obter de seu Divino<br />
Filho que um aceno de mão remova<br />
as montanhas internas do pecado<br />
na sua alma e faça dele um homem<br />
que, afinal, se arrependa e se<br />
entregue a uma vida de penitência.<br />
Quando o pecador se aproxima de<br />
Nossa Senhora, o Menino Jesus sorri,<br />
senta-Se e abre os braços. Diante<br />
desse gesto, ele pede perdão, é perdoado<br />
e sai contrito.<br />
Poderíamos imaginar também o<br />
Natal do guerreiro, do combatente, do<br />
cruzado aos pés do muro de Jerusalém.<br />
Viriam as objeções: “Natal é festa<br />
da suavidade, da concórdia, não entra<br />
em considerações de guerra.” Mas<br />
se essa guerra é lícita, por que não cabe<br />
um lugar para ela aos pés da manjedoura<br />
onde está o Menino Jesus?<br />
Seriam, portanto, cânticos destinados<br />
a vários estados de alma, para<br />
dar ânimo aos mais miseráveis como<br />
aos mais fortes.<br />
Acréscimo legítimo às<br />
comemorações natalinas<br />
Contra tudo quanto acabo de dizer<br />
há uma objeção muito séria. É a<br />
defesa do não se acrescentar nada ao<br />
Natal como atualmente é comemorado.<br />
O Natal é uma festa com um significado<br />
próprio, preponderante, não<br />
de um Deus presente no mundo e<br />
já exercendo a sua missão. Mais tarde<br />
Ele perdoará os pecadores, moverá<br />
as montanhas. No momento está<br />
existindo só para Nossa Senhora e<br />
São José, e deve ser considerado apenas<br />
assim. Por causa disso, é ordenado<br />
que os espíritos retos fruam a beleza<br />
específica do Natal e mais nada.<br />
Misturar todos esses pensamentos seria<br />
tirar a especificidade dessa festa.<br />
A liturgia da Igreja tem outras comemorações<br />
reservadas ao pecador, por<br />
exemplo, a Paixão de Nosso Senhor.<br />
O Natal é a festa da candura, da<br />
infância, da aliança de Deus com o<br />
homem, encarnando-Se e descendo<br />
à Terra. É a festa da distância fabulosa<br />
no caminho percorrido pelo Verbo<br />
de Deus, estando eternamente<br />
na Santíssima Trindade, convivendo<br />
com as outras duas Pessoas num relacionamento<br />
perfeito e ininterrupto,<br />
sem começo nem fim, e que Se<br />
faz Homem, vem para a Terra, e está<br />
ali, no Presépio, entre Maria e José.<br />
Isso tudo é tão alto e tão cheio de<br />
significado que não se deve misturar<br />
com outras considerações.<br />
A meu ver, essa defesa tem seu<br />
sentido, mas de fato o Natal existiu<br />
não só para que Nossa Senhora,<br />
São José, os pastores e os Reis Magos<br />
contemplassem o Divino Infante,<br />
mas também todos os outros homens.<br />
Portanto, o Natal enquanto vivido<br />
18
Luis C. R. Abreu<br />
Os Reis à procura do Menino-Deus (acervo particular)<br />
por todas as outras gerações que, em<br />
certo sentido, se aproximam do Menino<br />
Jesus merece essa ampliação.<br />
Daí não vem uma censura ao Natal<br />
atual, mas o desejo de algo a<br />
mais. Ouso esperar que no Reino de<br />
Maria esses argumentos sejam ponderados<br />
por quem de direito possa<br />
realizar esse acréscimo.<br />
Temos assim uma ideia apenas esboçada,<br />
porque nunca aprofundei<br />
esse pensamento, de como seriam os<br />
vários Natais do Reino de Maria.<br />
Sacralidade dos<br />
Natais de outrora<br />
A isso acrescento um elemento<br />
que me parece decisivo dentro do assunto.<br />
Havia nos antigos Natais um<br />
traço que eu alcancei: uma sacralidade<br />
da qual as gerações mais novas<br />
não podem fazer ideia.<br />
No meu tempo, nos dois, três dias<br />
que precediam o Natal, já um certo<br />
aroma, uma certa atmosfera natalina<br />
começava a envolver a São Paulinho.<br />
No Centro velho, o triângulo<br />
formado pelas Ruas Líbero Badaró,<br />
XV de Novembro e Direita, depois o<br />
conjunto de ruas em torno e dentro<br />
desse triângulo, havia lojas que vendiam<br />
brinquedos e expunham na vitrine<br />
um presepe. Esses estabelecimentos<br />
comerciais possuíam gramofones<br />
que tocavam músicas de Natal.<br />
Então, percorrendo a pé, por exemplo,<br />
a Rua Direita, de ponta a ponta<br />
ouviam-se as melodias natalinas.<br />
Quando chegava a noite de Natal,<br />
as famílias todas começavam a ir em<br />
grupos para a igreja, devagarzinho,<br />
nas ruas vazias de qualquer gente<br />
que não fosse quem se dirigia para<br />
a Missa, na paz, naquele andar vagaroso<br />
de famílias que saem numa hora<br />
na qual costumam estar dormindo.<br />
Da igreja saía uma luz forte que<br />
iluminava a rua cada vez que se abria<br />
a porta, e lá dentro estavam começando<br />
a cantar. Em certo momento<br />
batia o sino e começava a Missa.<br />
Tinha-se a sensação de uma graça<br />
vinda de uma altura, mas de uma altura...!<br />
Graça de uma qualidade tal que<br />
enchia a pessoa de duas disposições de<br />
espírito aparentemente incompatíveis,<br />
mas que convivem maravilhosamente:<br />
a noção recolhida, humilde e enlevada<br />
do sublime, e a doçura de quem recebe<br />
uma misericórdia sem limites. Talvez<br />
de nada da minha infância eu tenha<br />
tantas saudades quanto desse aroma<br />
e dessa graça de Natal.<br />
A graça de Natal no<br />
Reino de Maria<br />
Como será essa graça no Reino de<br />
Maria? Estou certo de que ela se reapresentará.<br />
Porém, ninguém pode<br />
prever qual vai ser sua magnificência<br />
e esplendor. Lendo o que São Luís<br />
Grignion escreve a respeito desse assunto,<br />
notamos que ele prevê em pa-<br />
19
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> comenta...<br />
lavras magníficas a vinda do Reino<br />
de Maria, mas não o descreve, porque<br />
tem qualquer coisa superior a<br />
tudo quanto poderíamos imaginar.<br />
É compreensível, pois o tormento<br />
dos justos na época em que estamos<br />
é superior a tudo quanto poderíamos<br />
conceber. E se esse foi o tormento<br />
dos justos, foi também o sofrimento<br />
de Maria, que previu e padeceu<br />
com tudo isso. Portanto, a um<br />
tormento sem proporções com nada<br />
deve seguir-se uma glorificação e um<br />
gáudio sem proporções com nada.<br />
Eu pergunto: Aos que formos fiéis<br />
até a hora do Reino de Maria, não é<br />
verdade que a alegria do primeiro Natal<br />
deverá ser com graças que ninguém<br />
imagina? Mais ainda: às vezes tenho<br />
me perguntado se o primeiro dia do<br />
Reino de Maria não será um dia de<br />
Natal. Quer dizer, na véspera o demônio<br />
é derrotado, seu reino acaba e os<br />
Anjos levam umas tantas horas para<br />
limpar a Terra dos vestígios dos pecadores.<br />
A própria natureza torna-se diferente.<br />
Tem-se a impressão de que do<br />
alto do céu, mas também do fundo da<br />
terra saem bênçãos, evolam-se graças,<br />
é tudo tão diverso... É a primeira noite<br />
de Natal, nasceu o Reino de Maria!<br />
É uma possibilidade, não digo que seja<br />
certo. É uma hipótese entre outras, e é<br />
legítimo fazer hipóteses.<br />
O nascimento de uma<br />
nova melodia natalina<br />
Compreende-se como nascem as<br />
grandes coisas. Nessa noite uma pessoa<br />
dotada de dons poéticos, caminhando<br />
rumo à igreja, sussurra aos<br />
ouvidos de um companheiro: “Está<br />
vindo à cabeça uma poesia em louvor<br />
do Menino-Deus e de Nossa Senhora!”<br />
E recita um poema que ele<br />
mesmo não percebe ser admirável.<br />
Isso se espalha, e uma pessoa com<br />
dotes musicais começa a cantar, ali<br />
mesmo na rua. A certa altura, todos<br />
aprenderam a melodia e entram na<br />
igreja entoando esse cântico.<br />
Anjo Anunciador - Catedral de La Merced, Guatemala<br />
Nasceu mais uma música natalina<br />
para todos os séculos. O Anticristo,<br />
quando vier, ainda encontrará essa<br />
canção sendo entoada. Os últimos fiéis,<br />
na escuridão de alguma catacumba,<br />
ainda cantarão a mesma melodia<br />
no último Natal da História. Qual será<br />
a surpresa deles quando perceberem<br />
que alguém canta muito melhor<br />
do que eles essa música, do lado de<br />
cima da terra. Eles ficam comovidos<br />
e delegam alguém para subir, pé ante<br />
pé, e ver o que está acontecendo.<br />
Ele volta correndo e extasiado: são os<br />
Anjos que estão cantando no céu!<br />
Um gênero de poesia livre<br />
da rima e da métrica<br />
Como serão essa música e essa<br />
poesia? Vem aqui uma conjectura,<br />
mais uma vez toda ela pessoal: A poesia<br />
como ela existe hoje, e mesmo<br />
como os clássicos romanos e gregos<br />
a conheceram, eu admiro muito, é<br />
muito bonita. Mas ela tem qualquer<br />
J. P. Beltran<br />
20
coisa que me dá a impressão do que<br />
sentiria um homem ao usar um colete<br />
para corrigir a desvio na espinha<br />
dorsal ou algo semelhante. Aquele<br />
sistema métrico, aquela rima que<br />
deve bater com a outra... Parece-me<br />
que o pensamento e o sentimento ficam<br />
meio algemados dentro daquilo.<br />
E eu gostaria de imaginar um gênero<br />
de poesia liberta desses entraves, e<br />
que fizesse exprimir toda a sua beleza<br />
sem a obrigação desse pesadelo da<br />
rima e da métrica. Eu, tão desconfiado<br />
com a espontaneidade, nesse ponto<br />
advogo uma certa espontaneidade.<br />
Assim, eu imaginaria algum gênero de<br />
composição que fosse poético muito<br />
mais pelo pensamento, pelo sentimento,<br />
do que pela forma literária. Como<br />
seria isso? Também não sei. A canção<br />
de gesta tem um pouco disso.<br />
O verdadeiro espírito poético<br />
e o “canticum novum”<br />
Como se forma o espírito poético?<br />
Nós estamos tão deformados pela Revolução<br />
que quando se fala de espírito<br />
poético vem à mente a ideia da canção<br />
sentimental, com a eterna lenga-lenga<br />
do rapaz que queria a moça e ela não<br />
queria o rapaz ou vice-versa. Então sai<br />
um choro mole, triste, que por vezes<br />
dá numa reconciliação, e fica no puro<br />
choro e acabou-se. É a última lágrima,<br />
o último ponto final da poesia.<br />
Não é isso. O espírito poético verdadeiro<br />
é de quem não tem na alma<br />
esses vapores tóxicos do sentimentalismo.<br />
É uma alma limpa do vício<br />
da pena de si mesmo, e que não quer<br />
cantar as suas aspirações, a sua vida<br />
interna, mas os ideais para os quais<br />
vive. Quer dizer, é o cântico da alma<br />
generosa que compreende o elevado,<br />
o sublime, e quer cantar a sublimidade.<br />
Uma poesia onde possivelmente<br />
não figure sequer a palavra<br />
“eu”, nada egocêntrica. Não canta a<br />
sua dor, canta aquilo que adora.<br />
Quem cantou o grande Carlos,<br />
quem compôs a canção de gesta?<br />
Discute-se. Uma das hipóteses é que<br />
um anônimo tenha cantado pela primeira<br />
vez, e depois as multidões começaram<br />
a repetir, acrescentando<br />
episódios, trovas, etc. É quase um<br />
imenso autor anônimo que não se<br />
preocupou em deixar seu nome para<br />
a posteridade, mas desinteressadamente<br />
se preocupou em cantar os<br />
pares de Carlos Magno. Essas são as<br />
almas capazes de poesia.<br />
Na América Latina há mil criatividades<br />
à espera da hora da graça, e<br />
que Deus não quis que se gastassem<br />
na época da Revolução. Estão reservadas<br />
para glorificar a Mãe d’Ele<br />
quando Ela reinar. Serão o canticum<br />
novum 1 que este continente, descoberto<br />
pela Europa e povoado muito<br />
preponderantemente por filhos daquelas<br />
terras, acrescentará ao lindíssimo,<br />
ao admirável canticum antigo<br />
que a Europa entoou, e que ela conservará<br />
e legará para o futuro. v<br />
(Extraído de conferência de<br />
5/1/1989)<br />
1) Do latim: cântico novo.<br />
Flávio Lourenço<br />
Menino Jesus - Mosteiro de Santa Ana, Espanha<br />
21
Gabriel K.<br />
C<br />
alendário<br />
1. Santo Elói, bispo (†659).<br />
Beata Maria Clara do Menino Jesus,<br />
virgem (†1899). Desejosa de<br />
evangelizar, fundou a Congregação<br />
das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada<br />
Conceição, em Lisboa, Portugal.<br />
2. Santa Bibiana, virgem e mártir<br />
(†363). Obrigada a passar seis meses<br />
num prostíbulo, para que se perdesse,<br />
conservou intactas a Fé e a pureza. Depois<br />
disso foi chicoteada até à morte.<br />
3. I Domingo do Advento.<br />
4. São João Damasceno, presbítero<br />
e Doutor da Igreja (†749). Ver página<br />
13.<br />
Santo Osmundo, bispo (†1099).<br />
Tendo assumido a Diocese de Salisbury,<br />
Inglaterra, consagrou a igreja<br />
catedral e promoveu a dignidade do<br />
culto divino.<br />
5. São Sabas, abade (†532). Pela sua<br />
virtude eminente, foi chamado “a pérola<br />
do Oriente”. Fundou perto de Jeru-<br />
São João<br />
dos Santos – ––––––<br />
salém o mosteiro onde, dois séculos depois,<br />
viveria São João Damasceno. É<br />
considerado um dos principais organizadores<br />
do monaquismo palestino.<br />
Beato Nicolau Stensen, bispo<br />
(†1683). Polímata, médico e anatomista<br />
dinamarquês de origem luterana,<br />
converteu-se ao catolicismo. Morreu<br />
em Schwerin, Alemanha, sendo Vigário<br />
Apostólico para o norte da Europa.<br />
6. São Nicolau, bispo (†324). Durante<br />
a perseguição de Diocleciano<br />
foi preso e torturado, mas não chegou<br />
a ser martirizado. Participou do Concílio<br />
de Niceia.<br />
São José Nguyen Duy Khang, mártir<br />
(†1861). Catequista capturado na<br />
perseguição do imperador Tu Duc.<br />
Foi flagelado, encarcerado e degolado<br />
em Hai Duong, Vietnã.<br />
7. Santo Ambrósio, bispo e Doutor<br />
da Igreja (†397).<br />
8. Imaculada Conceição da Santíssima<br />
Virgem. Ver página 10.<br />
São Teobaldo de Marliaco, abade<br />
(†1247). Abade do Mosteiro Cisterciense<br />
de Vaux-de-Cernay, França, alcançou<br />
a fama de santidade ainda em vida.<br />
9. São João Diego Cuauhtlatoatzin,<br />
leigo (†1548). De raça indígena, dotado<br />
de fé puríssima, humildade e fervor,<br />
recebeu de Nossa Senhora a missão<br />
de promover a construção do Santuário<br />
em honra da Bem-aventurada<br />
Maria Virgem de Guadalupe, México.<br />
10. II Domingo do Advento.<br />
11. São Daniel Estilita, presbítero<br />
(†493). Após viver em um mosteiro,<br />
seguiu o exemplo de São Simeão<br />
e permaneceu durante 33 anos no alto<br />
de uma coluna até sua morte, em<br />
Constantinopla, Turquia.<br />
12. Nossa Senhora de Guadalupe,<br />
Padroeira Principal da América Latina.<br />
Flávio Lourenço<br />
Santa Luzia<br />
13. Santa Luzia, virgem e mártir<br />
(†s. IV). Vivia em Siracusa, na Sicília,<br />
e tinha consagrado a Deus sua virgindade.<br />
Chamada pelo prefeito de<br />
Sira cusa, confessou a crença em Jesus<br />
Cristo e foi por isso decapitada.<br />
14. São João da Cruz, presbítero<br />
e Doutor da Igreja (†1591). Colaborador<br />
de Santa Teresa de Ávila na reforma<br />
da Ordem carmelita e grande<br />
mestre da Mística.<br />
15. Santa Virgínia Centurione Bracelli,<br />
viúva (†1651). Dedicando-se ao<br />
serviço de Deus, socorreu os pobres,<br />
ajudou as igrejas rurais e fundou e dirigiu<br />
a Obra das Irmãs de Nossa Senhora<br />
do Refúgio do Monte Calvário,<br />
em Gênova, Itália.<br />
São Valeriano, bispo e mártir (†460).<br />
Bispo de Abbensa, na África Proconsular.<br />
Intimado pelo rei ariano Genserico<br />
a entregar os tesouros da Igreja, recusou-se<br />
e foi expulso da cidade com ordem<br />
de que ninguém lhe desse abrigo.<br />
22
–––––––––––––– * Dezembro * ––––<br />
Terminou seus dias vivendo em extrema<br />
pobreza e defendendo a Fé.<br />
16. Santa Adelaide, Imperatriz<br />
e viúva (†999). Foi regente do Sacro<br />
Império Romano-Alemão durante<br />
a menoridade de seu filho Oto II<br />
e, mais tarde, durante a menoridade<br />
de seu neto Oto III. Amiga e dirigida<br />
espiritual de Santo Odilon, Abade de<br />
Cluny, colaborou ativamente com ele<br />
na expansão da reforma cluniacense<br />
pelo mundo germânico.<br />
17. III Domingo do Advento.<br />
Santa Vivina, abadessa (†1170).<br />
Primeira abadessa do mosteiro de<br />
Grand-Bigard, na Bélgica, sob a direção<br />
do abade de Affligem.<br />
18. Beata Nemésia Valle, virgem<br />
(†1916). Religiosa do Instituto das Irmãs<br />
da Caridade, dedicou-se de modo<br />
extraordinário à formação e direção<br />
dos jovens segundo o Evangelho,<br />
em Borgari, Itália.<br />
Gabriel K.<br />
Santa Francisca<br />
Xavier Cabrini<br />
19. Beato Urbano V, Papa (†1370).<br />
20. São Domingos de Silos, abade<br />
(†1073).<br />
São Zeferino, Papa (†217/218).<br />
Governou a Igreja por 18 anos, tendo<br />
por auxiliar o diácono São Calisto.<br />
Seu pontificado foi marcado pela luta<br />
contra as heresias a respeito da Santíssima<br />
Trindade.<br />
21. São Pedro Canísio, presbítero<br />
e Doutro da Igreja (†1597). Lutou<br />
contra a disseminação do protestantismo<br />
na Alemanha, Áustria, Boêmia,<br />
Morávia e Suíça.<br />
22. Santa Francisca Xavier Cabrini,<br />
virgem (†1917). Fundou a Congregação<br />
das Irmãs Missionárias do<br />
Sagrado Coração de Jesus, destinada<br />
a dar assistência aos emigrantes.<br />
23. São João Câncio, presbítero<br />
(†1473). Foi preceptor de príncipes<br />
da Casa real polonesa.<br />
Rodrigo C. B.<br />
24. IV Domingo do Advento.<br />
Santa Irmina, abadessa (†c. 710).<br />
Após ficar viúva, consagrou-se a Deus<br />
e tornou-se benfeitora de São Wilibrordo.<br />
Fundou e dirigiu o mosteiro<br />
de Ohren, Alemanha.<br />
25. Natal de Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo.<br />
Beato Bentivoglio de Bonis, presbítero<br />
(†1232). Religioso franciscano<br />
que na juventude conheceu São Francisco<br />
de Assis. Foi exímio pregador e<br />
muito procurado como confessor.<br />
26. Santo Estevão, protomártir<br />
(†séc. I).<br />
27. São João, Apóstolo e Evangelista<br />
(†séc. I).<br />
28. Santos Inocentes, mártires<br />
(†séc. I).<br />
29. São Tomás Becket, bispo e<br />
mártir (†1170).<br />
30. São Lourenço de Frazzanò,<br />
monge (†c. 1162). Insigne pela austeridade<br />
de vida e incansável pregação,<br />
em Frazzanò, na ilha da Sicília.<br />
31. Sagrada Família.<br />
São Silvestre, Papa (†335). Ver página<br />
2.<br />
Flávio Lourenço<br />
Bem-aventurado Urbano V<br />
Santo Elói<br />
23
Reflexões teológicas<br />
Gabriel K.<br />
Nossa Senhora e a luta<br />
entre a Revolução e a<br />
Contra-Revolução - I<br />
Luis C. R. Abreu<br />
A Revolução é propulsionada<br />
sobretudo por dois vícios: o orgulho<br />
e a impureza. Para esmagá-la é<br />
necessário praticar as virtudes,<br />
o que somente se consegue pela<br />
graça. Sendo Maria Santíssima<br />
a Medianeira universal e o<br />
canal por onde passam todas as<br />
graças, o auxílio das suas orações<br />
é indispensável para que seja<br />
derrotada a Revolução, triunfe a<br />
Contra-Revolução e o Reino de<br />
Maria se estabeleça.<br />
Devemos considerar três<br />
questões diferentes nas relações<br />
entre a obra de São<br />
Luís Maria Grignion de Montfort e tudo<br />
quanto explano em meu livro Revolução<br />
e Contra-Revolução (RCR).<br />
Concepção gnóstica e<br />
revolucionária do universo<br />
A primeira delas é o papel de<br />
Nossa Senhora na Contra-Revolução.<br />
Depois, mais especialmente, o<br />
da escravidão à Mãe de Deus, ou seja,<br />
da perfeita devoção pregada por<br />
24
São Luís, na Contra-Revolução. E,<br />
em terceiro lugar, os traços da temática<br />
“Revolução e Contra-Revolução”<br />
dentro do Tratado da verdadeira<br />
devoção à Santíssima Virgem.<br />
A RCR apresenta a Revolução como<br />
um movimento nascido de uma<br />
deterioração moral. São dois vícios<br />
fundamentais, o do orgulho e o da<br />
impureza, que constituem no homem<br />
uma incompatibilidade com a Doutrina<br />
Católica, debaixo do seguinte ponto<br />
de vista: A Igreja Católica como<br />
ela é, a doutrina que ela ensina, o universo<br />
que Deus criou, e que podemos<br />
conhecer melhor através dos prismas<br />
da Santa Igreja, são assuntos que o<br />
homem virtuoso, puro e humilde apetece.<br />
Ele tem enlevo e alegria em ver<br />
que essas coisas são assim, e aceita tudo<br />
isso de bom coração.<br />
Mas, se uma pessoa cede algo ao<br />
vício do orgulho, começa a formar-<br />
-se nela uma incompatibilidade com<br />
vários aspectos da obra de Deus. É<br />
uma inconciliabilidade, de início,<br />
com o caráter hierárquico da Igreja,<br />
depois com o da sociedade civil.<br />
Ou em ordem inversa. Em seguida,<br />
uma incompatibilidade com o caráter<br />
hierárquico da família. E assim<br />
vai o igualitarismo se desenvolvendo<br />
até chegar ao sumo do comunismo.<br />
Quer dizer, há toda uma metafísica<br />
contrária à Doutrina Católica proveniente<br />
de uma incompatibilidade<br />
da alma viciosa com a obra divina, e<br />
que nasce do orgulho.<br />
Uma coisa mais ou menos paralela<br />
a essa se poderia dizer da impureza.<br />
O homem impuro tem os elementos<br />
necessários para implicar<br />
com a ordem estabelecida por Deus.<br />
Ele é levado normalmente para o liberalismo.<br />
Irrita-lhe a existência de<br />
uma regra, um freio, uma lei que circunscreva<br />
o transbordamento dos<br />
seus sentidos. Com isso, tudo quanto<br />
é ascese começa a lhe parecer implicante.<br />
Naturalmente, surge uma implicância<br />
contra o próprio princípio<br />
da autoridade enquanto tal.<br />
O resultado é que, a partir da impureza<br />
e do orgulho, formam-se os<br />
elementos necessários para uma visão<br />
diametralmente oposta à obra<br />
de Deus. Essa visão já não é, portanto,<br />
diferente num ponto ou noutro<br />
da Doutrina da Igreja, mas à medida<br />
que esses vícios vão se aprofundando,<br />
e ao longo das gerações, tornam-<br />
-se mais acentuados, vai-se estruturando<br />
toda uma concepção que não<br />
é apenas outra, mas é a mais contrária<br />
possível. E acaba sendo, em última<br />
análise, a concepção gnóstica e<br />
revolucionária do universo.<br />
A Revolução tem como causa moral<br />
o orgulho e a sensualidade. Assim,<br />
todo o problema da Revolução<br />
e Contra-Revolução, no fundo, é<br />
uma questão moral. O que está dito<br />
nas linhas ou nas entrelinhas da RCR<br />
é que, se não fosse o orgulho e a sensualidade,<br />
a Revolução como movimento<br />
organizado no mundo inteiro<br />
não existiria, ela não seria possível.<br />
Toda preservação ou<br />
regeneração moral<br />
verdadeira decorre<br />
da graça divina<br />
Ora, se no âmago do problema<br />
da Revolução e da Contra-Revolução<br />
temos uma questão moral e,<br />
portanto, religiosa – porque todas<br />
as questões morais são substancialmente<br />
religiosas, já que uma<br />
moral sem religião é a coisa mais<br />
inconsistente que se possa imaginar<br />
–, conclui-se que a luta da Revolução<br />
e da Contra-Revolução é,<br />
em seu cerne, uma luta religiosa.<br />
Assim, se nos encontramos no<br />
terreno da luta religiosa, compreendemos<br />
melhor o papel de Nossa<br />
Senhora na Contra-Revolução. Se<br />
uma crise moral origina o espírito<br />
da Revolução, então é verdade<br />
que essa crise só pode ser remediada<br />
com o auxílio da graça. A<br />
Igreja nos ensina que os homens<br />
não podem cumprir estável e duravelmente,<br />
na sua integridade, a Lei de<br />
Deus, com simples recursos naturais.<br />
Para cumprir os Mandamentos divinos<br />
necessitamos da graça.<br />
Se por outro lado o homem cai no<br />
estado de pecado e se acumulam nele<br />
as apetências para o mal, essa situação<br />
moral, a fortiori, sem a ajuda da<br />
graça não pode ser resolvida, sendo<br />
necessários auxílios de caráter sobrenatural<br />
para o homem sair do estado<br />
em que caiu. O resultado é que toda<br />
preservação ou regeneração moral<br />
verdadeira decorre da graça divina.<br />
Vemos, então, facilmente o papel<br />
de Nossa Senhora. Por ser Ela a Medianeira<br />
universal e o canal por onde<br />
passam todas as graças vindas de<br />
Deus, nós compreendemos que o auxílio<br />
das suas orações é indispensável<br />
para que seja derrotada a Revolução,<br />
e o Reino de Maria se estabeleça.<br />
As graças poderão ser assim obtidas,<br />
mas se não forem correspondidas pelos<br />
homens, é inevitável que a Revolução<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
25
Reflexões teológicas<br />
triunfe. Logo, esse afluxo de graças sobre<br />
os homens fiéis é elemento fundamental<br />
para que a Revolução seja derrotada.<br />
Depende de Deus, é claro, mas<br />
Ele quis, por um ato livre de sua vontade,<br />
fazer isso depender da Santíssima<br />
Virgem, para a glória d’Ela e de seu Divino<br />
Filho. Donde se deduz que a devoção<br />
a Nossa Senhora é a condição para<br />
que a Revolução seja esmagada e a<br />
Contra-Revolução triunfe.<br />
Insisto neste aspecto por ser muito<br />
importante: se tomarmos uma humanidade<br />
fiel às graças que receba por<br />
meio de Maria Santíssima para a prática<br />
dos Mandamentos, e esta prática se<br />
tornar um fenômeno geral, é inevitável<br />
que a sociedade acabe se estruturando<br />
bem, porque com o estado de graça<br />
vem a sabedoria, com a sabedoria todas<br />
as coisas entram nos eixos. Não é preciso<br />
fazer grandes estudos de Sociologia,<br />
Economia e finanças para conseguir isso.<br />
Porque com o estado de graça, não<br />
só pelo movimento natural, espontâneo,<br />
intrínseco de cada homem, tudo<br />
tende a regularizar-se, mas os estudos<br />
necessários se farão excelentemente e<br />
atingirão o seu resultado.<br />
Quando há uma recusa da graça,<br />
nada anda. Se alguma coisa caminhar,<br />
é pior do que se não andasse. É como<br />
a civilização contemporânea: ela se<br />
construiu sobre a recusa da graça e alcançou<br />
alguns resultados estrepitosos,<br />
os quais devoram o homem. Os países<br />
dos grandes resultados são os países<br />
das psicoses. Embora essa ordem<br />
de coisas pareça ser uma afirmação do<br />
homem, na realidade o devora. Quer<br />
dizer, o homem, sem a graça, ou não<br />
constrói nada ou edifica um cárcere,<br />
uma câmara de tortura, um palácio de<br />
delícias no qual ele sofre mais do que<br />
num campo de concentração.<br />
Samuel Holanda<br />
nhora, mais aberto estará o canal de<br />
graças. Se for uma devoção inteiramente<br />
autêntica, é infalível que a oração seja<br />
atendida e as graças chovam sobre<br />
um determinado indivíduo ou país.<br />
Porém, se a devoção à Santíssima<br />
Virgem comportar restrições, for<br />
defectiva, então a graça também encontra<br />
da parte do homem implicitamente<br />
uma certa resistência. Nisto<br />
mesmo ele já é ingrato, e acaba<br />
acontecendo que toda a vida, a seiva<br />
da sociedade, deperece.<br />
Costuma-se dizer que, na economia<br />
da graça, Nossa Senhora está de<br />
tal maneira que Jesus Cristo é a Cabeça<br />
do Corpo Místico, e Ela seria o pescoço,<br />
porque tudo passa através d’Ela.<br />
A imagem é inteiramente verdadeira<br />
na vida espiritual de uma pessoa. Imaginem<br />
alguém com pouca devoção à<br />
Mãe de Deus: é como o indivíduo com<br />
Coroação da Santíssima<br />
Virgem - Catedral de<br />
Reims, França<br />
Isso posto, podemos dizer que,<br />
quanto maior a devoção a Nossa Seuma<br />
corda atada ao pescoço, a qual<br />
lhe permite um fiozinho de respiração.<br />
Quando não tem nenhuma devoção,<br />
ele está asfixiado. Se, pelo contrário,<br />
ele possuir uma grande devoção à<br />
Virgem Maria, o pescoço está inteiramente<br />
livre, o ar penetra nos pulmões<br />
a plenos haustos e o homem pode viver<br />
normalmente.<br />
Não estou dizendo que a coisa sai<br />
automaticamente, mas sim que, havendo<br />
a correspondência à graça, forçosamente<br />
tudo se estrutura bem.<br />
Não basta trabalhar, estudar, organizar.<br />
O grande problema fundamental<br />
é haver a correspondência à graça.<br />
Em sentido oposto, poderíamos<br />
afirmar o mesmo a respeito do demônio.<br />
Porque o papel dele na eclosão<br />
e nos progressos da Revolução<br />
foi enorme. Foi o demônio que conseguiu<br />
tentar o homem, induzindo-<br />
Ao mínimo ato de império<br />
de Nossa Senhora o<br />
Inferno inteiro treme<br />
26
-o a uma posição revolucionária e a<br />
extremos revolucionários, que estão<br />
abaixo até da miséria humana. E a<br />
fazer uma Revolução como a atual,<br />
a qual é pior do que o grau de decadência<br />
da natureza humana.<br />
Se o demônio não estivesse ali para<br />
tentar o homem, a coisa não teria<br />
saído tão terrível quanto ela é. Ora,<br />
este fator de propulsão tão forte da<br />
Revolução está inteiramente na dependência<br />
de Nossa Senhora. Porque<br />
basta Ela ter o mínimo ato de<br />
império que o Inferno inteiro treme,<br />
se confunde, se recolhe e desaparece.<br />
Basta, pelo contrário, Ela entender<br />
que, para o castigo dos homens,<br />
é conveniente deixar o demônio com<br />
certo raio de ação, que ele progride<br />
tanto quanto Ela deixar, mas o demônio<br />
está debaixo da dependência<br />
d’Ela completamente.<br />
Então, os fatores enormes da Contra-Revolução<br />
e da Revolução, que<br />
são a graça e o demônio, dependem<br />
do império e do domínio da Santíssima<br />
Virgem. Vemos, portanto, uma<br />
vez mais, o papel de Nossa Senhora na<br />
Revolução e na Contra-Revolução.<br />
Maria Santíssima é a<br />
Rainha do universo<br />
É preciso acrescentar que a mediação<br />
de Maria Santíssima deve ser considerada<br />
do ponto de vista da oração, porém<br />
Ela não é apenas Aquela que reza<br />
por todo o universo, mas a Rainha do<br />
universo, e essa realeza é verdadeira.<br />
Alguém poderia objetar: “<strong>Dr</strong>.<br />
<strong>Plinio</strong>, dizer que Nossa Senhora é Rainha<br />
é conversa, porque Ela faz tudo<br />
quanto Deus quer, é escrava de Deus.<br />
Portanto, em última análise, a Santíssima<br />
Virgem não é Rainha. Ela é simplesmente<br />
como um vidro transparente<br />
e inerte através do qual passam os<br />
raios divinos, mas o verdadeiro Rei é<br />
Deus.”<br />
Entra aqui uma finura, que é preciso<br />
considerar: imaginem um diretor<br />
de colégio que tem alunos sumamente<br />
insubordinados; ele os castiga<br />
e impõe uma ditadura de ferro no<br />
colégio. Depois o diretor se afasta e<br />
diz à mãe dele o seguinte:<br />
“Sei que vós governareis esse colégio<br />
de um modo diferente do meu,<br />
porque eu governo com vara de ferro<br />
e vós tendes um coração materno.<br />
Quero que agora governeis vós e não<br />
eu. Eu vos dou a direção do colégio.”<br />
Esta senhora vai dirigir o colégio como<br />
o diretor quer, mas por um método<br />
que é dela e não dele. E que ao mesmo<br />
tempo representa a vontade dela enquanto<br />
distinta da dele, mas em que ela<br />
faz inteiramente a vontade do diretor.<br />
Assim é Nossa Senhora como Rainha<br />
do universo. Nosso Senhor deu a<br />
Ela, que é unicamente Mãe e não tem<br />
papel de juiz, uma realeza cuja misericórdia<br />
vai além daquilo que a justiça<br />
de Jesus Cristo, e a sua posição de<br />
juiz, propriamente Ele quer exercer.<br />
Então Nosso Senhor coloca-A como<br />
Mãe, com todas as indulgências, todos<br />
os extremos de misericórdia da<br />
mãe, que a autoridade paterna de si<br />
não comporta. Ele A coloca como<br />
Rainha do universo para esse efeito,<br />
a fim de governar o universo assim.<br />
E a vontade d’Ele é que Ela faça algo<br />
que Ele não poderia realizar.<br />
É, portanto, enquanto se distingue<br />
de Nosso Senhor que Ela, Rainha do<br />
universo, melhor faz a vontade d’Ele.<br />
Então há um regime verdadeiramente<br />
marial de governo do universo. E<br />
este regime explica o papel de Nossa<br />
Senhora como quem dirige, dispõe<br />
dos acontecimentos, decreta aquilo<br />
que deve acontecer. É claro que<br />
sempre inspirada por Deus, em união<br />
com Ele, etc. Maria Santíssima é infinitamente<br />
inferior ao Onipotente, is-<br />
27
Reflexões teológicas<br />
so é evidente, mas Ele quis<br />
a devoção a Nossa Senhora<br />
livremente dar-Lhe este<br />
mingua, fica tu-<br />
papel por um ato de liberalidade<br />
d’Ele. Então,<br />
é Nossa Senhora que regula<br />
o curso dos acontecimentos<br />
terrenos. Depende<br />
d’Ela a duração da Revolução<br />
e da Contra-Revolução.<br />
É Ela que intervém<br />
nos acontecimentos para<br />
que a Revolução não vença.<br />
Basta lembrar de Lepanto,<br />
por exemplo.<br />
Quantos outros fatos<br />
da História da Igreja houve<br />
em que a Santíssima<br />
Virgem deixou claro ser<br />
uma intervenção direta<br />
d’Ela que influía nos episódios!<br />
E então se compreende<br />
que, mais do que<br />
Medianeira onipotente e<br />
suplicante, Ela é verdadeiramente<br />
a Rainha que<br />
conduz os acontecimentos<br />
e dirige a História.<br />
Quando a Igreja canta<br />
a respeito da Mãe de Deus<br />
“Tu só exterminastes todas<br />
as heresias no universo<br />
inteiro”, afirma que o<br />
Nossa Senhora do Apocalipse (acervo particular)<br />
do acessível à Revolução.<br />
Há o segundo ponto<br />
que é o seguinte: essas<br />
e algumas outras<br />
visualizações extraídas<br />
da Teologia comum,<br />
conhecida, são o suficiente<br />
para explicar o<br />
papel da Mãe de Deus<br />
na temática R-CR?<br />
Nas últimas avenidas<br />
da perspectiva da<br />
Contra-Revolução está<br />
a ideia do Reino de<br />
Maria, ou seja, uma<br />
era histórica que será<br />
inaugurada por uma vitória<br />
espetacularmente<br />
obtida por Nossa Senhora<br />
sobre os seus inimigos.<br />
O demônio, que<br />
é expulso da Terra, volta<br />
para os seus antros<br />
infernais e a Santíssima<br />
Virgem reina sobre<br />
o mundo através dos<br />
homens e das instituições<br />
que Ela escolher<br />
para isso. A respeito<br />
papel d’Ela nesse extermínio foi como<br />
que único. Quem promove a eliminação<br />
das heresias dirige os triunfos<br />
da ortodoxia, quem governa uma<br />
coisa e outra dirige a História. Ela é<br />
verdadeiramente a Rainha. Esta realeza<br />
de Nossa Senhora nos dá uma visão<br />
a mais do papel d’Ela dentro de<br />
toda a problemática R-CR.<br />
Haveria um trabalho interessante<br />
de História para fazer, mostrando<br />
que, quando o demônio começa<br />
a vencer, é porque ele consegue minguar<br />
a devoção à Santíssima Virgem.<br />
Todas as decadências da Cristandade<br />
e todas as vitórias da Revolução têm<br />
como ponto de partida uma diminuição<br />
na devoção a Nossa Senhora. Se<br />
dessa perspectiva do Reino de Maria,<br />
nós encontramos na obra de São Luís<br />
Grignion de Montfort algumas coisas<br />
misteriosas.<br />
Ele é, sem dúvida, um profeta, o<br />
qual anuncia que essa era virá. São Luís<br />
Grignion fala disso claramente: é a<br />
época na qual surgirão os grandes santos<br />
de Nossa Senhora, haverá um dilúvio<br />
Minguamento da devoção a<br />
que lavará a humanidade e chega-<br />
não fosse esse minguamento, a Revolução<br />
não caminharia.<br />
rá então a época do Espírito Santo, que<br />
Nossa Senhora: causa de todas<br />
Temos o exemplo característico<br />
na Europa da Revolução France-<br />
São Luís afirma que será uma era<br />
ele identifica com o Reino de Maria.<br />
as vitórias da Revolução<br />
sa, que era como uma floresta combustível<br />
de florescimento da Igreja, como até<br />
Esta noção a respeito de Maria<br />
Santíssima está ligada à mediação<br />
universal. E me parece que explica<br />
bem como a devoção a Nossa Senhora<br />
está absolutamente na raiz de todas<br />
as vitórias da Contra-Revolução.<br />
na qual com uma simples fa-<br />
gulha se ateava fogo em tudo. A devoção<br />
a Maria Santíssima nos países<br />
católicos fora prodigiosamente diminuída<br />
pelo jansenismo; o resultado<br />
nós conhecemos. Quer dizer, se<br />
então nunca houve. Ele chega a usar<br />
esta expressão: os santos do reinado<br />
de Nossa Senhora vão ser, em comparação<br />
aos santos anteriores, como<br />
os cedros do Líbano em relação a arbustos<br />
(n. 47).<br />
Daniel A.<br />
28
Quando consideramos os grandes<br />
santos que a Igreja produziu até<br />
agora, perdemos o pé na consideração<br />
da grandeza desses outros bem-<br />
-aventurados, que deverão vir debaixo<br />
desse bafejo de Maria Santíssima.<br />
Mas não há nada de mais razoável<br />
do que imaginar que a santidade<br />
cresça enormemente numa era<br />
histórica onde a situação concreta de<br />
Nossa Senhora deve progredir enormemente<br />
também. Portanto, não há<br />
dificuldade em admitir isso.<br />
A quintessência recôndita<br />
da verdadeira escravidão<br />
Então, nós podemos dizer que São<br />
Luís Grignion de Montfort dá peso,<br />
autoridade, consistência com seu valor<br />
de pensador, mas sobretudo com<br />
sua autoridade de Santo canonizado<br />
pela Igreja, às esperanças que se veem<br />
em muitas outras<br />
revelações particulares,<br />
as quais afirmam<br />
que virá uma época na<br />
qual a Santíssima Virgem<br />
verdadeiramente<br />
triunfará.<br />
São Luís é, portanto,<br />
o profeta, porém<br />
mais do que o profeta<br />
ele é o fiador do Reino<br />
de Maria. A canonização<br />
dele e o acerto<br />
extraordinário de toda<br />
a sua obra nos servem<br />
de apoio para essa esperança<br />
de um Reino<br />
de Maria que deve vir.<br />
Entretanto quando<br />
se analisa sua obra, nota-se<br />
ainda qualquer<br />
coisa de mais profundo:<br />
ele faz umas insinuações<br />
de que as relações<br />
entre Nossa Senhora<br />
e as almas – e especialmente<br />
as que a Ela se<br />
entregam na qualidade<br />
de verdadeiros escravos<br />
– não foram e não são conhecidas até<br />
o fundo pelos teólogos. E delas se podem<br />
tirar verdades a serem exploradas<br />
nos tesouros da Revelação e da Tradição,<br />
e que vão muito mais longe do que<br />
os teólogos dizem.<br />
Ele fala do famoso segredo que<br />
há na verdadeira escravidão a Nossa<br />
Senhora. Por esse segredo a graça<br />
realiza, no autêntico escravo, operações<br />
inefáveis que não se sabe exatamente<br />
como são, e que correspondem<br />
também a uma união inefável,<br />
cujo verdadeiro alcance e feitio nós<br />
não conhecemos bem, e que representam<br />
a quintessência recôndita da<br />
verdadeira escravidão.<br />
Quer dizer, fica acenado aí um<br />
progresso da Teologia especialmente<br />
no que diz respeito a esta parte das<br />
relações da graça com a alma, mediante<br />
Maria Santíssima. Coisa que<br />
ao mesmo tempo se vê que já existia<br />
São Luís Maria Grignion de Montfort<br />
Igreja de Saint-Martin de Moutiers, França<br />
na época dele e, entretanto, precisava<br />
ser explicitada, mas além disso cresceria<br />
de intensidade com o curso dos<br />
tempos, para atingir toda a sua amplitude<br />
no Reino de Maria, produzindo<br />
essa plenitude histórica, esse auge de<br />
santidade que deveria brilhar na Igreja<br />
e que nasceria desse mistério.<br />
Como é um mistério, a respeito dele<br />
podemos esboçar apenas algumas<br />
pinceladas muito ligeiras. Mas me parece<br />
que São Luís Grignion, enquanto<br />
o “Cristóvão Colombo” desse novo<br />
continente da Teologia, deixa entrever<br />
coisas sobre as quais precisamos<br />
ter os olhos postos, se quisermos estabelecer<br />
uma relação entre o Tratado<br />
da Verdadeira Devoção e o problema<br />
“Revolução e Contra-Revolução”.<br />
Porque então o auge da Contra-<br />
-Revolução é o apogeu desta ação<br />
misteriosa de Nossa Senhora. Assim,<br />
a Contra-Revolução – pelo menos<br />
por um jogo de probabilidades<br />
– começa a<br />
aparecer como um avanço<br />
progressivo da Santíssima<br />
Virgem nas almas<br />
e uma acentuação desta<br />
ação misteriosa d’Ela nas<br />
almas, de tal maneira que,<br />
quando este sol chegar ao<br />
meio-dia, nós teremos a<br />
Revolução esmagada.<br />
Há, portanto, uma gestação<br />
do Reino de Maria<br />
nas almas por um progresso<br />
novo, inédito desta<br />
ação misteriosa que se<br />
realiza na noite desta espécie<br />
de Idade Média do<br />
demônio em que vivemos,<br />
mas na qual já começa a<br />
haver algo que chegará<br />
ao seu meio-dia, quando<br />
o Reino de Maria for proclamado.<br />
v<br />
(Continua no próximo<br />
número)<br />
GO69 (CC3.0)<br />
(Extraído de conferência<br />
de 11/7/1967)<br />
29
Luzes da Civilização Cristã<br />
Fotos: WGA (CC 3.0)<br />
Um auge de<br />
amor de Deus<br />
Comentando afrescos de Giotto, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> afirma entre<br />
outras coisas que logo após o nascimento de Jesus, Maria<br />
Santíssima observou o olhar lúcido e cheio de amor que Ele<br />
deitava sobre Ela. O Filho tomava conhecimento da fisionomia<br />
de sua Mãe e Ela de seu Filho. Foi um momento sublimíssimo<br />
da vida de ambos. Podemos imaginar o auge de amor de<br />
Deus a que Nossa Senhora chegou nesse momento.<br />
30
Oafresco pintado por Giotto na Cappella degli<br />
Scrovegni, em Pádua, representando o casamento<br />
de São José com a Santíssima Virgem, tem como<br />
fundo um pequeno edifício que, segundo a imaginação<br />
do pintor, corresponde a uma parte do Templo de Jerusalém.<br />
Nossa Senhora com porte ereto e virginal<br />
O sacerdote está revestido de uma capa vermelha, debaixo<br />
da qual há uma espécie de camisa e uma meia-túnica<br />
que desce da cintura até o chão. É um ancião já de<br />
cabelos brancos, abundantemente barbado, numa atitude<br />
de piedade e recolhimento, que não visa ser a de um<br />
santo, mas de um prelado digno, respeitável, pois não<br />
tem em torno da cabeça a auréola de santidade. Ele está<br />
exercendo funções na cerimônia.<br />
Identificamos São José pelo fato de ele estar com a<br />
mão direita passando uma aliança a Nossa Senhora, e<br />
com a esquerda segurando uma vara com flores. Era o<br />
tal bastão que floresceu, indicando ser ele o esposo escolhido<br />
pela Providência para Maria Santíssima.<br />
Segundo uma antiga tradição, São José é apresentado<br />
como muito mais idoso do que Nossa Senhora. Daí<br />
notar-se na pintura a diferença de idade entre ambos.<br />
Ela ainda mocinha e com o recato, a compostura de<br />
uma pessoa toda virginal está vestida com uma túnica<br />
de um cor-de-rosa muito claro, quase se diria branco.<br />
O colorido não é bem exatamente o da meia-túnica<br />
do sacerdote, nem de uma espécie de meia-túnica de<br />
São José, mas são cores muito claras todas elas, que<br />
falam a respeito de virgindade, pureza, delicadeza de<br />
sentimentos levada ao mais alto grau. Nossa Senhora<br />
está cingida com uma coroa de flores. Todo o seu porte<br />
é ereto e virginal.<br />
São José toma um pouco o papel de esposo e de pai<br />
diante d’Ela. Sua atitude já é um tanto protetora em relação<br />
a Nossa Senhora, que Se deixa proteger. Ela está<br />
muito bem, apesar de sua aparente timidez junto ao sacerdote<br />
respeitável e a São José.<br />
Em volta encontram-se as pessoas que estão assistindo<br />
às bodas. Não sei que papel terá no quadro esse personagem<br />
vestido de um verde muito claro. Alguns estão<br />
comentando o acontecimento, vestidos em trajes semelhantes<br />
aos romanos, mas com coloridos que não parecem<br />
ser de tecidos romanos, são mais orientais. Tudo indica<br />
que na mente de Giotto esta cena se desenrola no<br />
Templo de Jerusalém.<br />
Realizado o casamento, organiza-se um cortejo com<br />
os esposos. É uma vista do cortejo que, com certeza, se<br />
encaminha para a festa. Nota-se que todos estão adornados,<br />
vestidos para uma solenidade, cabelos muito bem<br />
penteados.<br />
Comunicações místicas do Menino<br />
Jesus com sua Mãe virginal<br />
Esse outro afresco representa Nossa Senhora chegando<br />
à casa de Zacarias e sendo acolhida por Santa Isabel.<br />
A Santíssima Virgem está muito bondosa, muito meiga.<br />
Mas Santa Isabel, sobretudo, está respeitosa. Notem<br />
como ela faz uma inclinação e contempla Nossa Senho-<br />
As núpcias entre São José e<br />
a Santíssima Virgem<br />
Cortejo dos esposos<br />
31
Luzes da Civilização Cristã<br />
ra, maravilhada. Esta olha comprazida para sua prima,<br />
mas não Se inclina. É natural: cada uma delas trazia<br />
em si um menino; mas no claustro de Santa Isabel não<br />
se encontrava senão o precursor do Menino que estava<br />
no claustro virginal de Maria. Sem dúvida é uma honra<br />
imensa ter concebido São João Batista – Nosso Senhor<br />
o comparou a Elias –, mas conceber o Homem-Deus não<br />
há comparação com nada!<br />
No afresco representando o Nascimento do Menino<br />
Jesus, São José está dormindo, as ovelhinhas estão ali<br />
perto, o burrico também e os Anjos enchem o céu, cantando<br />
a glória de Deus. Os pastores estão ouvindo o cân-<br />
A Visitação<br />
Nascimento do Menino Jesus<br />
tico celeste. “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz<br />
na Terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14). É exatamente<br />
o que a Liturgia, no dia 24 para 25 de dezembro,<br />
deverá estar cantando.<br />
É noite. Nossa Senhora acaba de dar à luz o Menino-<br />
-Deus de um modo misterioso e maravilhoso. A atitude<br />
d’Ela é de uma pessoa inteiramente sadia, que está aconchegando<br />
melhor seu Divino Filho numa manjedoura.<br />
Mas com um desembaraço de movimentos que não é o<br />
de uma mãe da qual acaba de nascer sua criança. Compreende-se:<br />
o processo de nascimento é dolorido e difícil<br />
em virtude do pecado original, mas em Nossa Senhora<br />
não. Ela foi virgem antes, durante e depois do parto. Esse<br />
nascimento se deu de modo milagroso, de maneira a<br />
não representar um esforço para Ela. Ali está seu Filho,<br />
e Ela, como quem tivesse acordado de um sono brando,<br />
abrisse um pouco os olhos para ver o Menino, e vai dormir<br />
dali a pouco de novo.<br />
De fato, é uma cena lindíssima, que empolga! Pode-<br />
-se imaginar a situação de Maria Santíssima ao ver, pela<br />
primeira vez, o fruto do Divino Espírito Santo nas<br />
suas próprias entranhas. E que fisionomia tinha o Homem-Deus<br />
que acabava de nascer d’Ela! O Menino Jesus<br />
tomava toda a atitude de uma criança dessa idade.<br />
Ele teve, durante toda a vida, a atitude própria às<br />
idades que foi percorrendo, até os 33 anos com que Ele<br />
morreu.<br />
Porém, como Ele possuía a natureza humana ligada<br />
à divina pela união hipostática, em uma só Pessoa, teve<br />
de fato uma inteligência plena desde o primeiro instante<br />
em que sua Santíssima Mãe O concebeu. Já no claustro<br />
materno Ele rezava, oferecia a Deus reparações, O adorava<br />
e implorava pelos homens. O Menino Jesus começou<br />
a sua vida inteiramente consciente, desde o primeiro<br />
momento em que passou a existir.<br />
De maneira que essa Criança, com o todo de um bebê,<br />
teve, entretanto, incontáveis comunicações místicas,<br />
talvez diretas, não se sabe como, com sua Mãe virginal<br />
já desde o período da gestação. Nossa Senhora sabia<br />
que seu Filho era uma Criança inteiramente inteligente.<br />
Mas olhava para Ele, um Menininho, a quem a Segunda<br />
Pessoa da Santíssima Trindade estava unida hipostaticamente.<br />
Maria Santíssima compreendia ser lúcido e cheio de<br />
amor o olhar que Ele deitava n’Ela, e que os dois estavam<br />
Se conhecendo: o Filho tomava conhecimento da fisionomia<br />
de sua Mãe, e Ela de seu Filho. Foi um momento<br />
sublimíssimo da vida de ambos. Podemos imaginar o<br />
auge de amor de Deus a que Nossa Senhora chegou nesse<br />
momento!<br />
32
Serenidade medieval que<br />
exprimia a graça de Deus<br />
De acordo com uma bela tradição, os magos vindos<br />
do Oriente eram reis. Por isso, no afresco de Giotto vemos<br />
esses dois reis em pé, atrás, com coroa ou um diadema<br />
cingindo a cabeça. Eles vêm trazendo os seus presentes,<br />
recebidos pelo Menino Jesus no colo de Nossa Senhora,<br />
que está sentada numa espécie de troneto sobre<br />
um estradozinho ricamente atapetado. Ela mesma está<br />
também ricamente vestida. Para receber reis tinha que<br />
Se vestir com aparato. Mais adiante há uma tribunazinha<br />
onde estão vários personagens santos; nota-se isso<br />
pelas auréolas. Atrás de Nossa Senhora há um Anjo e<br />
São José.<br />
É interessante o seguinte: um dos reis está adorando<br />
o Menino Jesus e osculando os pés d’Ele. Os dois outros<br />
monarcas estão tranquilos, comprazidos em oração<br />
diante de Nossa Senhora e de seu Divino Filho, vendo o<br />
seu companheiro de viagem, seu irmão na realeza, adorar<br />
assim o Menino. Estão contentes com tudo e esperam<br />
chegar a vez deles, sem impaciência, com essa tranquilidade,<br />
serenidade medieval que exprimia bem a presença,<br />
o espírito, a graça de Deus na alma desses personagens.<br />
Logo atrás dos três reis há um gorducho que está freando<br />
ou dando um jeito qualquer no camelo, para este<br />
não criar problemas. Esse já não tem nada do sobrenatural,<br />
do tranquilo, do sereno dos demais; é um homem<br />
movimentado e prestando atenção em tudo, de nariz<br />
pontudo, olhos saltados e mandão. Está bem à altura<br />
de tratar com camelos.<br />
Adoração dos Magos<br />
Apresentação no Templo<br />
Até o Templo tem algo de esguio e virginal<br />
Outro afresco traz a cena da Apresentação do Menino<br />
Jesus no Templo. Vemos a Santíssima Virgem e São José<br />
de um lado, de outro o Profeta Simeão e atrás está a<br />
Profetisa Ana. Interessa principalmente a atitude de São<br />
José e de Nossa Senhora. Quem apresentou ao Profeta<br />
o Menino foi Ela, que está com as mãos estendidas como<br />
quem O acaba de entregar. São José, recolhido e modestamente<br />
em segundo plano, acompanha a cena. Não<br />
creio que haja meios para decifrar quem é o terceiro personagem.<br />
Uma atmosfera de santidade e pureza domina o quadro<br />
todo, a ponto de o próprio templozinho ter qualquer<br />
coisa de esguio e virginal. Notem como Giotto coloca um<br />
fundo meio azulado com numa tonalidade um tanto escura,<br />
que dá muito relevo à parte central do tema, ou se-<br />
Fuga para o Egito<br />
33
Luzes da Civilização Cristã<br />
O Rei Herodes mandou matar todas as crianças de<br />
dois anos para baixo porque os Magos tiveram a inocência<br />
de procurá-lo, perguntando se tinha ouvido falar do<br />
Rei dos Judeus que tinha nascido. Herodes achou que<br />
dois reis no mesmo reino não cabiam e que, portanto,<br />
era preciso eliminar esse menino. Houve, assim, uma<br />
matança geral de inocentes. Estes foram os primeiros<br />
mártires da Igreja Católica. Por que mártires? Por uma<br />
razão muito simples: eles foram mortos por ódio à Fé, a<br />
Deus, ao Menino que lhes dera a honra de nascerem na<br />
mesma cidade que Ele. Mortos assim, embora não tivessem<br />
consciência de si mesmos, foram todos para o Céu<br />
como mártires. E são os Santos Inocentes cuja festa se<br />
celebra no dia 28 de dezembro, com um nexo, por motivos<br />
óbvios, com a festa de Natal.<br />
É interessante notar o seguinte: quando os Anjos aparecem<br />
na noite de Natal, eles cantam “Glória a Deus no<br />
mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens de boa<br />
vontade” (Lc 2, 14). Os primeiros atos que se desenrolam<br />
a partir do Natal são cheios de luz, de bênção e de<br />
paz, é verdade, mas carregados de ameaças para o futuro.<br />
O que parece, para um espírito superficial, estar<br />
em contradição com a ideia de “paz na Terra aos homens<br />
de boa vontade”, porque pareceria que os homens<br />
de boa vontade não sofreriam nem perseguições, nem lutas,<br />
nem qualquer dificuldade. Dentre os pais e as mães<br />
desses meninos, provavelmente alguns seriam homens<br />
de boa vontade. Entretanto, o que eles tiveram? O morticínio<br />
de seus filhos. Uma coisa, portanto, de assustar!<br />
Vê-se numa espécie de tribuna um personagem que proclama<br />
um edito. Imediatamente lotam a cena os algozes, os<br />
executores, à procura das crianças, e as pessoas tentam se<br />
esquivar. No primeiro plano uma mulher que evidentemente<br />
não quer entregar o filho. Mais adiante percebem-se cenas<br />
de uma agitação e de uma violência, que leva a admitir<br />
como provável que já nesse magma estão sendo mortas as<br />
primeiras crianças. O primeiro sangue de mártires começa<br />
a subir ao Céu. É uma coisa extraordinária!<br />
Alguém perguntará: “Eles não são batizados?” Essas<br />
crianças foram batizadas no próprio sangue. Constituem,<br />
portanto, as primeiras almas batizadas, decorrenja,<br />
o Menino Jesus, o Profeta Simeão, Nossa Senhora,<br />
São José e a Profetisa Ana.<br />
Na pintura que representa a fuga para o Egito, Maria<br />
Santíssima vai montada num simples burrico, São José à<br />
frente guiando, e eles apresentam todos os sinais exteriores<br />
da pobreza. Entretanto, a dignidade d’Ela é de uma<br />
princesa; seu porte retilíneo, as costas sem a menor inflexão,<br />
a cabeça alta indicam a resolução com que Ela enfrenta<br />
os riscos da viagem, que parece estar no começo.<br />
São José vai caminhando na frente, mas atentíssimo<br />
ao que acontece com a Mãe e a Criança. Nossa Senhora<br />
não. Ela parece confiar em São José e em Deus; por isso<br />
Massacre dos inocentes<br />
Encontro no Templo<br />
mantém-se recolhida em oração com o Menino que está<br />
como que dormindo e agarrado à Mãe, um pouco para<br />
dar a entender a intimidade entre os dois, e como é<br />
cheio de propósito que Ela reze a Ele por aqueles que estão<br />
contemplando o quadro.<br />
O sangue dos primeiros mártires<br />
começa a subir ao Céu<br />
34
tes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, pouco depois<br />
de Ele ter nascido.<br />
Uma resposta afirmada majestosamente<br />
Essa outra cena mostra o encontro de Jesus no Templo.<br />
Nela vê-se um aspecto interno do Templo de Jerusalém,<br />
todo meio romanizado. Por exemplo, aquela espécie<br />
de abóboda seguida de dois outros compartimentos colaterais<br />
é de estilo romano a conta inteira.<br />
Dentro do Templo, de um lado e de outro, encontram-<br />
-se os doutores da Lei discutindo a interpretação desse<br />
ou daquele ponto da Escritura. Mas o Menino Jesus já<br />
Se destacou tanto entre eles que ocupa a presidência dos<br />
sábios e está falando como verdadeiro Doutor. As pessoas<br />
estão perto d’Ele pasmas com o que Jesus diz, procurando<br />
ouvi-Lo com muito interesse e aproveitando as lições<br />
que Ele dava.<br />
À esquerda, de pé, Nossa Senhora e, mais atrás, com<br />
sua vara florida, São José. A cena faz entender que o<br />
Santo Casal não compreendia a atitude do Menino Jesus.<br />
Maria Santíssima está numa atitude de quem pronuncia<br />
a famosa pergunta: “Meu Filho, por que agistes<br />
assim conosco?” (Lc 2, 48). Nosso Senhor parece estar<br />
dando doutoralmente – eu quase diria majestosamente<br />
– a resposta: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que<br />
devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2, 49).<br />
Batismo de Nosso Senhor<br />
No céu chamejam raios e brilhos de glória<br />
No Rio Jordão, São João batiza Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo. O batizado se dava na forma de um verdadeiro<br />
banho e Nosso Senhor é apresentado, portanto, com<br />
uma parte do tronco desnuda por causa do banho. No<br />
céu chamejam raios e brilhos de glória.<br />
Notem a situação um tanto paradoxal: dir-se-ia que a<br />
grande figura ali seria quem batiza, e o neófito, uma figura<br />
secundária. Mas Nosso Senhor é apresentado, apesar<br />
da grandeza de São João Batista, com uma majestade<br />
divina, uma seriedade e uma tranquilidade extraordinárias,<br />
que fazem d’Ele um verdadeiro Rei e dominador. Ele<br />
não está com nenhum atributo da realeza, ao contrário,<br />
apresenta-Se com o busto desnudo. Entretanto, vejam o<br />
jeito d’Ele e a própria atitude de São João Batista, como é<br />
respeitosa e até um pouco inclinada, embora segura, e em<br />
nada intimidada. No céu, a Glória de Deus transparece.<br />
Nas Bodas de Caná – outro afresco presente na Cappella<br />
degli Scrovegni –, a narração do Evangelho dá a entender<br />
que havia muitas pessoas, a ponto de esgotar a provisão<br />
de vinho da família, o que deu origem ao milagre da<br />
Bodas de Caná<br />
transmutação da água em vinho. Porém, para economizar<br />
espaço, Giotto representou apenas a cena central, ou seja,<br />
a mesa principal das bodas, onde se encontram Nossa<br />
Senhora, São José e Nosso Senhor Jesus Cristo que está<br />
dando ordem para a água se transmutar em vinho.<br />
É interessante ver como o pintor imaginou a cena: as<br />
várias talhas alinhadas nas quais estava a água que se<br />
transmutaria em vinho.<br />
Por se tratar de uma festa, os anfitriões queriam ocultar<br />
a rudeza da pedra e por isso estenderam sobre a parede<br />
uma cortina de bom tecido, suspensa a uma altura<br />
maior do que a de um homem comum. Esse era um costume<br />
frequente na Idade Média.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de 30/11/1988)<br />
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Francisco Barros<br />
Os pastores adoram o<br />
Menino-Deus - Catedral<br />
de Quebec, Canadá<br />
Mãe do Redentor<br />
Tendo a Virgem Maria dado sua carne e sangue para formar a humanidade santíssima do Filho<br />
de Deus, que n’Ela estava pronto para nascer, a união entre ambos atingiu um ápice insondável<br />
na noite de Natal, e Ela estava preparada para ser, em todos os sentidos da palavra, a Mãe do<br />
Redentor.<br />
Que alma Nossa Senhora precisava ter para ser a Mãe santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo! Sua<br />
alma chegou à perfeição para o papel de Mãe de Deus no momento em que, na noite de Natal, num êxtase<br />
enorme, Ela foi elevada a uma intimidade superlativa com a Santíssima Trindade e deu à luz, virginalmente,<br />
o Verbo Encarnado.<br />
(Extraído de conferência de 23/12/1968)