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Revista Curinga Edição 07

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

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Curinga

Revista laboratório | Jornalismo | UFOP | Agosto de 2013 | Ano III | nº7

Edicao especial musica ’ ˆ

muito

barulho

por

tudo!

Direitos autorais

a


Musica negra a Lenine


Curinga

Expediente

Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II

Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Ufop.

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA)

Departamento de Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social (DECSO)

Universidade Federal de Ouro Preto.

Professores Responsáveis:

Frederico Tavares - 11311/MG (Reportagem)

Priscila Borges (Planejamento Visual)

Ana Carolina Lima Santos (Fotografia)

Editora geral

Gersica Moraes

Subeditora

Jéssica Romero

Editora fotográfica

Nara Bretas

Editora de arte

Caroline França

Subeditora de Arte

Rayana Almeida

Editor digital

Rolder Wangler

Editores e revisores

Ana Paula Rodarte, Kleiton Borges, Lorena Costa, Mariana Mendes, Paulo

Victor Fanaia, Rafaela Buscacio, Tamara Martins

Repórteres

Adriana Souza, Filipe Barboza, Isadora Bruzzi, Jéssica Clifton, Joyce

Afonso, Patrícia Botaro, Rodrigo Pucci

Infografistas

Alexandre Anastácio, César Raydan

Diagramadores

Ana Luiza Batista, Arthur Gomes da Rosa, Bárbara Costa, Ester Louback,

Isadora Rabello, Lívia Almeida, Luís Fernando Bráulio, Patrícia Souza

Fotógrafos

Ana Luísa Rodrigues, Ana Malaco, Bárbara Zdanowsky, Bruna Silveira,

Isadora Faria, Laura Ralola, Núbia Cunha, Ramon Cotta

Produtores digitais

Fábio Brito, Isabela Azi, Paula Peçanha

Foto capa

Isadora Faria

Endereço: Rua do Catete 166, Centro, CEP 35420-000, Mariana-MG

Tiragem: 1.500 exemplares

Setembro 2013

Cartas do leitor

Para comentar as matérias ou sugerir pautas para nossa próxima edição,

envie e-mail para

revistacuringa@icsa.ufop.br

Errata: Na edição passada publicamos na editoria “Perfil” a história de Marta, Mãe

de Santo de um terreiro de Umbanda em Marianam, Minas Gerais. O nome do terreiro

é “Mãe Maria de Aruanda” e não “Mãe Maria de Luanda”, como publicamos.

Pedimos desculpas pela falha.


Editorial

O som que escreve

Texto: Gersica Moraes e Jéssica Romero

Edição gráfica: Rayana Almeida

“Minha música quer ser

De categoria nenhuma

Minha música quer

Só ser música

Minha música

Não quer pouco...”

Minha música - Adriana Calcanhotto

Entre reportagens, fotos e palavras contadas para

caber na página, um simples editorial talvez tenha

sido o mais difícil de construir nessa edição temática da

Curinga. O tema? Música! As dificuldades? Falar dela

nos desapegando de todos os clichês, metáforas, trocadilhos

e imaginários tão particulares ao seu significado. Mesmo

assim seguimos, tendo cada vez mais dúvidas do que respostas.

Será que isso não é óbvio? Será que moda tem a ver com

música? Será que isso interessa? A mistura de provocações que

esse tema causou nos trouxe até uma revista que expressa bem

o que música é: algo essencialmente diverso. E talvez esteja aí a

raiz de nossos questionamentos. Se música é e pode ser tanta

coisa, como explicar na apresentação da revista, assim, em poucas

palavras, para nós, o que ela é?

Aqui descobrimos que música vende, cura, desperta sentimentos,

vira hino de protesto, faz transcender, dita moda

e faz dançar. Ela, que nasce da arte que só os músicos entendem,

da linguagem de partituras, notas e sinfonias,

se transforma em várias. Chega até nossos ouvidos

através do rádio, do som alto do vizinho, das trilhas

do cinema, da voz baixinha de alguém cantando e

até mesmo de nossos momentos de silêncio.

A sétima edição da Curinga fala sobre política,

saúde, história, moda, esoterismo... Tudo isso

entrelaçado à música, essa arte que também é

ferramenta de mobilização social e manifesto

contra opressões vividas em diferentes épocas

e sociedades.

O mesmo som que possui letras políticas,

até pra quem não entende um determinado

idioma, ganha um novo significado e

provoca emoções que vão além das barreiras

linguísticas. Ritmo que instiga o corpo e

desperta várias sensações através da mente.

Música também pode ser uma forma de ligação

da nossa alma com outros mundos, uma

ligação mística...

Ao mesmo tempo em que a música parte

de uma sequência de notas para se formar, o

jornalismo parte das palavras para expressar um

todo de ideias, opiniões e informações. Ambos

podem caminhar lado a lado com igual pretensão:

despertar algo em quem ouve e em quem lê.


ˆ

comporta

gritos

( en)

Cantados

perfil: mi

papo ret

'

- INFOGRAFICO: MUSICA NEGRA

- opiniao: ˆ Rap na palestina

- plural: barreiras linguisticas '

- retalhos: lembrancas - gospel

'

- musicoterapia


- contemporaneo: ˜ direitos autorais

- Entrevista: Lenine

- Ensaio: grunge e moda

mento: musica ' e misticismo -

lton sanfoneiro -

o: barbatuques -

como localizar as paginas? '

Como os números, as contagens e (por que não?) a matemática, também fazem parte do universo musical. A

Curinga, nesta edição, transforma a numeração de suas páginas e traz na partitura a inspiração para compor uma

diferente linguagem numeral.

Nossa contagem obedece a uma lógica na qual a cada cinco páginas, modifica-se o símbolo numérico. Uma

progressão que varia entre bolas vazias, cheias, riscadas, até a formação de notações musicais. O número correspondente

à página está preenchido de preto e obedece a ordem da posição das bolas. Por exemplo, na página 1 pinta-se

a primeira bola, já na 2, é a segunda bola que aparece preenchida. Passando da página cinco para a seis, muda-se o

símbolo, ou seja, a contagem volta para a primeira bola, entretanto, esta com uma aparência diferente, mostrando

que ali alterou-se a ordem de contagem. E assim por diante...

Entenda a páginação:


Entrevista


Texto: Joyce Afonso

Edição Gráfica: Ester Louback

Fotos: Laura Ralola

Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, ou Lenine, chamado assim por conta de uma

homenagem do pai socialista ao líder soviético, nasceu em Recife no dia 2 de fevereiro

de 1959. Há 30 anos, tem a música encarnada em si como profissão. O artista tem dez

discos lançados, já ganhou cinco prêmios Grammy Latino e percorreu muito chão

por aí. “Chão”, por sinal, é o nome do último álbum do cantor, lançado em março do

ano passado. Apesar de ser autoridade no assunto, quando informado de que esta

conversa seria sobre música, Lenine se assustou e disse: “Cara, mas eu não sou a

pessoa mais indicada para falar de música não!” Não é o que mostra a entrevista a

seguir, realizada durante o Festival Natura Musical, em Belo Horizonte, no último mês

de agosto.


Curinga: A diversidade musical está

presente na vida, as pessoas ouvem música

porque querem. O leque musical faz com

que ela chegue a gente dos mais diversos

gostos, às vezes de maneira profunda.

Como você enxerga essa relação íntima dos

indivíduos com a música, sendo que essas

pessoas, muitas vezes, não estão ligadas a

ela profissionalmente?

Lenine: Ah, boa! Porque independe do fato de

você se profissionalizar ou não. Agora, condição

sine qua non para isso acontecer ou não é o

fato de você ter musicalidade. O brasileiro tem

esse dom. Todo mundo tem a noção e a adequação

do ritmo a tudo. Isso é muito incrível!

C: Você acha que a diversidade da música

chega à indústria fonográfica com a mesma

riqueza em que é criada? Ou a indústria

impõe um empobrecimento no processo

criativo?

L: Olha, essa indústria... Que indústria? (risos)

Essa é uma pergunta que tem que ser

compartimentada. Primeiro existem muitos

processos para fazer música, e várias maneiras

diferentes de você ter sucesso nisso. (risos)

Mas existem caminhos e caminhos e todos

eles podem ser musicais. A indústria, hoje

em dia, se revela de várias maneiras. Existem

ainda os ecos do que ela foi, quer dizer, daquelas

multinacionais que geravam o produto

naqueles veículos, que eu vi passar de vinil,

para CD para videolaser, para HD, MD. Eu vi

tantas formas diferentes, mas a música continua

existindo, a criação continua existindo.

Hoje tem uma turma que não precisa mais do

físico, do papel. Então as formas são muitas,

não é? É muito amplo falar sobre isso, porque

são tantas maneiras e, eu mesmo, talvez seja

mais uma exceção do que uma regra, porque a

minha trajetória foi bem ímpar.

C: Por que sua trajetória foi ímpar?

L: Fui muito cabeça dura, tive que ser um

pouco intransigente e só fazer o que acreditava.

Isso definiu o meu caminho, então não

sou exemplo para nada, acho que sou mais

exceção. Eu diria que hoje é muito bacana

perceber que o Brasil é como uma reunião de

muitas tendências, e por isso tem essa diversidade,

possui uma maneira diversa de conseguir

o sucesso e cada um de um jeito diferente.

E isso é muito individual, porque cada região

descobriu alguma forma de sobreviver, se perpetuar

e historificar o que faz. Seja fisicamente

ou não.

C: Com o advento das novas tecnologias,

você acredita que os álbuns perderam valor

e que o trabalho na produção pode ser em

vão?

L: Não faço parte dessa turma não, eu continuo

acreditando! Não que o que eu faça seja

um aglomerado de canções. De tempos em

tempos faço um romance. E isso é um disco,

uma série de fotos do que você faz, do que

te emociona, do que te incomoda e do que te

toca. É essa compulsão que me leva a fazer

discos, continuo com esse desejo e ainda tenho

muito chão pra trilhar! O “Chão” ainda

vai comigo até... nem sei. (risos)

C: As novas tecnologias deram maior força

aos artistas independentes e a relação com

as gravadoras têm se modificado...

L: Quando você fala isso, no meio da pergunta

já tive vontade de lhe interromper pra

dizer assim: O que é independente? Quando

falamos de produção independente... Eu não

gosto dessa palavra. Porque a produção independente

é a produção mais dependente. Ela

depende do carinho das pessoas envolvidas,

porque não tem dinheiro envolvido, da entrega

de cada um, do amigo e do cara que diz “assim

não, faz teu disco, faz teu projeto”. Esse

movimento dependente é o que se beneficiou

de melhor maneira no universo digital. O universo

digital realmente democratizou muito

os meios de produção de qualquer produto e

a expansão disso tudo. Então, acho que todo

mundo se beneficiou, primeiramente com essa

disponibilidade, com esse acesso direto. Hoje

em dia eu tenho a noção clara, sei quem são

meus seguidores. Em cada cidade, vejo eles se

comunicando nas redes sociais para irem juntos

ao show, me pedindo música pra tocar e eu

toco! Nos aproximou muito. E estou falando

só de uma experiência pessoal, de alguém que

já está com 54 anos, já passou por vários veículos

e mesmo assim fica estarrecido com o

poder dessa nova janela que se abre. Sou um

entusiasta de todas essas novas tecnologias e

tudo que puder pulverizar a arte e a criação é

bem-vindo.

C: O que você acha que vai ser da música

daqui pra frente? Quais rumos a sua música

vai seguir de agora em diante?

L: Eu não sei nem o que é música agora! Imagina

se vou saber o que é música daqui pra

frente. Eu não, cara. Meu processo é intuitivo!

Não tenho a mínima noção de onde chego. Eu

sei onde eu não quero chegar! Continua sendo

uma grande incógnita. Apesar do fato do processo

ter sido o tempo todo intuitivo, jamais

ousei entendê-lo e decupá-lo. Se tiver o desejo

de fazer um disco, eu me tranco, vou e faço!

Faço as canções, arranjo, mergulho profundamente

nisso. Depois de mixar e tudo, esse

processo chega ao cúmulo da masterização, aí

então é um exorcismo. E vira o show, o melhor

momento. Porque é no show que se dá o

encontro, é no show que eu posso mensurar

como chega o que eu faço, é no show que se dá

o objetivo daquele disco ou de qualquer pro-


duto que venha a existir. Esse contato é o mais

genuíno e a gente percebe, não é?

C: O que é música para você?

L: Música é minha profissão e meu prazer. Eu

pude conjugar essas duas coisas. Sou um puta

felizardo! (risos)

C: O compositor e o músico imprimem no seu

trabalho muito de suas ideias e percepções

íntimas acerca do mundo material. E quando

essa música se dissipa, ela pode levar uma

mensagem engajada para quem ouve. Você

se preocupa com essa responsabilidade,

com o efeito da música sobre as pessoas?

L: Perfeitamente. Prefiro acreditar que meu

trabalho vai além do entretenimento. Prefiro

acreditar que meu trabalho tem a ver com historificação.

Que o que eu faço passa pelo viés

da educação; que depois de um show, além de

ter se divertido ou ter dançado, também tenha

ficado algum tipo de residual do questionamento

que minhas músicas levam. Se isso

acontece ou não, aí é outra questão. Eu continuo

acreditando que sim.

C: Você acredita que a música pode ser

política?

L: Não existe nada sem ser político. Para mim,

tudo é política! A política de fazer uma boa

reportagem. A política da boa vizinhança. A

política do amor, que é a coisa mais complexa.

A política é uma coisa que está no ser humano.

Nesse sentido, não estou falando de politicagem.

(risos) Não estou falando de Brasília

não! Estou falando de política, do convívio entre

seres, de uma maneira social.

C: Se a música fosse uma pessoa, quem ela

seria para você?

L: (Longa pausa).Um filho de Deus! (risos)

Um filho do divino, um dos filhos mais perfeitos

do divino.

C: E se você fosse um professor, dentro de

uma sala de aula e tivesse que definir o que

é a música para os seus alunos, como você

a definiria?

L: Música é uma maneira de se tocar o outro.

C: Como a música está em você? É possível

separar o Lenine da música?

L: Não. A música é uma coisa do convívio diário.

A música é na hora da chaleira. O “Chão“

é repleto de uma música que é diária comigo.

A chaleira, a máquina de lavar. Sabe, tudo tem

um relevo sonoro e estou atento (ele aponta

para o céu enquanto um avião sobrevoa o local

onde estávamos) a tudo isso. Isso compõe

uma trilha sonora que é a da vida da gente.


Comportamento

Melodia que

transcende

A experiência mística através do som

Texto: Isadora Bruzzi

Edição Gráfica: Patrícia Souza


As sensações que as músicas proporcionam vão muito além

do que imaginamos. Música é magia. É sentir algo bom ou

ruim quando se escuta, é transcender daqui para outro lugar.

Há quem se utiliza dela para rituais religiosos, meditação, yoga,

cura e até mesmo para a busca do autoconhecimento.

Sentar para ouvir um som pode ser uma experiência mística.

Essa prática vislumbra tudo aquilo que está além do plano

físico. Usada pela primeira vez no Mundo Ocidental nos

escritos atribuídos a Dionísio, a palavra “místico” já era vista

além de uma Teologia. Segundo Ralph Lewis, escritor norteamericano,

“o místico é aquele que aspira a uma união pessoal

ou a unidade com o Absoluto, que ele pode chamar de Deus,

Cósmico, Mente Universal, Ser Supremo.” Nesse sentido, pessoas

envolvidas com o misticismo procuram alcançar uma verdadeira

união com uma força superior.

Jakob Bohme, filósofo alemão, escreveu que a prática é

considerada a religião dos mistérios, uma busca pela ligação

com a divindade de forma intuitiva. Apesar disso, há uma diferença

entre o misticismo e a religião. O primeiro, ao contrário

da segunda, identifica-se por ser uma experiência direta

e pessoal com a natureza divina sem intervenção de dogmas,

buscando uma comunhão do homem consigo mesmo.


foto: Ana Nepomuceno

Através da música muitos encontram um caminho para

manifestar sua fé. A devoção está acompanhada por instrumentos

e canções. Os sons místicos podem ser um intermediário

para alcançar a divindade, ao mesmo tempo temos escolha

de qual repertório ouvir, sem intervenção de um líder para

guiar nossas vontades.

Cantores, bandas brasileiras e estrangeiras tiveram forte

influência mística em seu trabalho. Na década de 70, foi através

de seu som que Raul Seixas, o Raulzito, ultrapassou o lado

comercial da música em seus shows. Considerado maluco por

muitos, ele foi primordial para despertar o interesse de seus fãs

no misticismo e em pensamentos da linha esotérica.

O cantor vivia sem regras e acreditava em uma Sociedade

Alternativa. Sua intenção era proporcionar pela música uma

revolução interna do ser humano, sugerindo que as pessoas

fossem livres para seguir seus próprios caminhos. As canções

de Raul buscavam transmitir conhecimentos ocultos do membro

da Ordem Hermética da Aurora Dourada Aleister Crowley,

o que despertou a atenção de muitos para o seu estilo.

Poder da música

Toninho Buda, amigo de Raul Seixas, relata que seu interesse

em participar do movimento da Sociedade Alternativa

iniciou-se ao ver que os conhecimentos ocultos de Aleister Crowley

eram transmitidos pela música. Ele entrou no movimento

da época junto com Raul e o escritor Paulo Coelho.

A atual relação de Toninho com o misticismo é emocionalmente

a mesma. Ele fala que sua interação com o Mistério continua

sendo de contemplação, mas que sempre foi cético com

relação a qualquer tipo de organização humana, consequência

de suas decepções com a sociedade.

Ao falar da música mística como busca do autoconhecimento,

o escritor acredita que não existe o fenômeno isolado.

Ele enxerga a vida como uma teia de inter-relações. Segundo

Toninho, a gente ouve uma música e correlaciona com alguma

coisa intrínseca, que talvez nem saibamos direito o que é, pois

há presença muito forte do subconsciente, conteúdos que jamais

acessaremos por completo.

É difícil medir a influência da música, já que ela pode causar

diferentes sensações em cada um. Enrico Mencarelli, estudante

de jornalismo e músico, acredita no poder dos sons

sobre as pessoas, e que ele é tão ou mais influente que a visão.

Exatamente pelo fato de não ser visto, o som tem um aspecto

subjetivo muito forte, diferente para cada imaginação. Ele

também compreende a música como instrumento para relaxar,

melhorar a concentração e o aprendizado, até mesmo curar.

Jan Rodrigues, estudante de engenharia ambiental, também

acredita no poder da música. Ele afirma que a melodia

pode levar a outra dimensão, produzindo sensações únicas. A

ligação com as práticas místicas lhe trazem paz interior, algo

que segundo ele está cada vez mais difícil de sentir nos dias

de hoje.

O mantra, sílaba ou um poema religioso, normalmente escrito

em sânscrito é utilizado como técnica para facilitar a meditação

e concentração, para energizar, para adormecer, despertar

ou até mesmo desenvolver chakras (centros enérgicos

dentro do corpo humano). Jan utiliza o mantra como meio de

comunicação com seu Deus e afirma que por meio da canção

sua alma é levada até a divindade, sendo assim purificada.


Sons do misticismo

A interação que o músico estabelece com seu público pode

ser muito forte, dependendo das trocas que acontecem entre

um e outro. Raul queria uma revolução interna do ser humano.

Outros cantores e bandas, não com a mesma intenção mas

usando também da inspiração do misticismo, envolveram fãs

que puderam ter acesso a esses conhecimentos através das

canções. E não é difícil perceber que cada conjunto teve uma

relação sentimental que o motivasse a escolher tal estilo musical.

Nando Reis, cantor e compositor brasileiro, não possui

uma religião, mas se diz adepto à beleza das coisas da natureza

como uma manifestação divina, colocando também seus filhos

e família como parte deste sentimento. Em entrevista ao blog

Vya Estelar, ele explica que a canção “O Segundo Sol” foi inspirada

em um texto esotérico no qual se falava no surgimento

de outra estrela.

O cantor diz que a expressão pode também ser interpretada

como uma metáfora de uma relação amorosa. Nas palavras do

compositor, “uma pessoa pode ter um segundo sol na vida”.

Sua música “Mantra” conta com instrumentos próximos daqueles

usados na Índia e da expressão Hare Krishna, que significa

invocação direta a Deus, em amor e devoção.

O oitavo álbum de estúdio da banda britânica Pink Floyd,

“The Dark Side of the Moon” (1973) possuía características

místicas e psicodélicas, que tornaram as músicas especiais pela

diferente sensação causada nos fãs. O sentimento transmitido

pelas canções do disco era de angústia humana, solidão, morte.

O trabalho do conjunto musical foi marcado pela inspiração

da banda com Syd Barret, um dos fundadores do Pink Floyd.

Devido ao uso contínuo de drogas, o membro do grupo ficou

mentalmente fragilizado e demonstrava sua indignação com

a sociedade. A tradução do título da obra é “O lado escuro da

lua”, fazendo alusão ao lado negro que todo humano possui.

Outro famoso que se identificou com o mundo místico foi

George Harrison, guitarrista dos Beatles. O músico se envolveu

com a cultura indiana e o hinduísmo na década de 60, disseminando

e expandindo instrumentos como a cítara, muito

utilizada para meditação. O misticismo indiano se tornou elemento

presente nas músicas da banda, apresentando um estilo

diferente ao público do Ocidente.

“The Inner Light” foi a primeira canção de George Harrison

em um single dos Beatles. A parte instrumental da música foi

gravada em Bombaim, na Índia, com vários músicos indianos

utilizando instrumentos locais. Considerado o membro mais

“quieto” da banda, George possuía interação com o espiritualismo

místico.

O que conecta estas bandas e cantores é a relação sensitiva

com a música que a faz ser diferente e causa emoções diversas

nos fãs. Pode ser o fato de a sensação não passar pela razão, de

ter uma lógica “sensível”, não depender da linguagem. Gilles

Deleuze, filósofo francês, afirma que a sensação é o que atinge

o sujeito na relação com uma obra de arte, o mesmo pode ser

pensado para a melodia.

A música nos atinge de uma forma inimaginável e a busca

dos sentimentos através do misticismo e dos sons nos permite

desfrutar de experiências intuitivas. O interessante é se deixar

levar pelo som e permitir novas experiências, isso é sentir.


Infografico

Texto: Alexandre Anastácio

Arte: César Diab


^

ˆ

˜

A frase como protagonista. Esse

estilo valoriza as rimas, trovas,

versos em suas canções. Também cria

terreno para improvisação vocal.

Tendência que percorreu

caminhos da múscia negra e,

sobretudo, originou seu próprio estilo

musical lançando luz sobre uma

época.

Danças singulares marcaram

esse modo de ser da música. Uma

representação corpórea do som que

rompe com o passado em busca do

novo.

Estilo com alto nível de execução

por parte dos instrumentistas.

Caminhos para o improviso são

férteis nessa corrente da música.


Opinião

A paz contra o povo

Texto: Jessica Clifton

Edição Gráfica: Ana Luiza Batista

Foto: Isadora Faria


O rap, música provinda

do movimento Hip Hop, no

ocidente é a voz dos marginalizados,

geralmente negros e

moradores das periferias, que

contam seu sofrimento através

das letras que falam sobre

drogas, violência, problemas

sociais, política e narram as

dificuldades da população

menos favorecida. O Oriente

Médio também adotou esse

estilo para dar voz as suas

dificuldades, como guerras,

falta de liberdade de expressão

e problemas comuns aos

jovens.

Esse estilo musical teve

seu início na década de 1960

na Jamaica e se popularizou

na década de 1970 nos Estados

Unidos. Posteriormente o

rap inseriu-se em outras culturas,

mesmo com o preconceito

existente em relação ao

estilo musical, considerado

por boa parte da população

como uma música violenta e

vinda da periferia. A partir do

final da década de 1990 surgiu

o rap árabe, com destaque

para o rap palestino narrando

o conflito entre Israel e Palestina.

Em entrevista concedida a

agência AFP, em 2006, o cantor

de rap palestino Mohammad

alega que, no início, as

pessoas pensavam que os rappers

palestinos queriam ser

como os rappers americanos,

principalmente por causa das

roupas. Mas depois dos primeiros

shows em Gaza, no

início dos anos 2000, o estilo

se difundiu na região.

A influência ocidental foi

adotada por se tratar do ritmo

musical das pessoas que

sofrem e, ao contrário das

músicas tradicionais árabes, o

rap é livre e toca diretamente

seus ouvintes com letras fortes.

Os palestinos mostram

como são discriminados. O

mundo ocidental os vê como

terroristas, mas quem sofre

a violência e o mal-estar são

eles, através dos ataques de

Israel, local cujo exército é financiado

pelo Ocidente.

O grupo Da Arabian MC’s

(DAM), fundado em 1999, foi

o primeiro de rap palestino e

um dos precursores do estilo

no mundo árabe. Em 2001,

teve mais de um milhão de

downloads da música “Min

Irhabi”, tornado-se popular

entre os jovens de todo o

Oriente Médio. As canções do

grupo combinam ritmos árabes

de percussão, melodias

orientais, hip hop urbano, e

narram os dramas vividos pelos

próprios integrantes. Outros

exemplos desse estilo na

Palestina são os grupos Dead

Army, Shadia Mansour, Nizar

Wattad.

Israel tem dinheiro, poder

e apoio das grandes nações, a

Palestina vem perdendo suas

terras e seu povo desde a criação

do estado judeu no local

que, segundo as tradições

de algumas religiões, seria

a “terra sagrada” ou “terra

prometida”. É um absurdo

considerar uma guerra o que

ocorre na região, pois guerra

tem dois lados para lutar.

A Palestina não tem capital,

nem condições de defesa, só a

esperança do povo de ter seu

lugar respeitado, conseguir

alguma qualidade de vida, e

o desejo de que finalmente a

paz seja a favor dos palestinos

após mais de 50 anos de massacre,

assédio, humilhação.

As pessoas do ocidente

desconhecem o lado palestino.

A visão sionista é difundida

pelos Estados Unidos

e Europa através da Organização

das Nações Unidas

(ONU), com a desculpa de reparação

social ao conceder as

terras aos judeus que foram

perseguidos durante a Segunda

Guerra Mundial e assim

marginalizando um povo

que já habitava a região. A

música é a tentativa de mostrar

que quem foi oprimido é

hoje o opressor, e as frases de

rap dos jovens ultrapassam a

arte, elas são os gritos de dor

de um sofrimento contínuo. E

fica no ar a pergunta contida

na tradução do refrão da música

de “Min Irhabi”: “Quem

é o terrorista? Eu sou o terrorista?

Como sou eu o terrorista

quando é você que tomou

minha terra? Quem é o terrorista?”.


Foto ilustração: Ana Malaco

Capa

seja revelando a represao na ditadura ou a desigualdade n

periferia, as cancoes de protesto dao voz as reivindicacoe

da sociedade e acompanham suas transformacoes.


Texto: Adriana Souza

Edição gráfica: Lívia Almeida

a

s

O jingle “Vem pra rua” do grupo O Rappa ficou marcado

como trilha musical nas recentes manifestações populares

ocorridas no Brasil, que tiveram como mote central o aumento

das passagens de ônibus. A música, originalmente produzida

para a campanha publicitária de uma marca de automóveis, foi

apropriada pelos manifestantes como hino de protesto devido

sua letra convidativa e simbólica que coincidia com o contexto

da realização de um grande evento esportivo no país.


A relação da música com protestos sociais

é antiga. O termo “canção de protesto”, por

exemplo, ganhou destaque na década de 60 e

desde então tem variado em sua forma e contexto

produtivo. Durante a Ditadura no Brasil,

período marcado por intensa efervescência política,

essas canções externavam uma vontade

de mudar o mundo e politizar as pessoas,

sendo difundidas principalmente por jovens

da classe média brasileira. No pós Segunda

Guerra, no cenário internacional, as canções

de protesto também estiveram presentes na

revolução cubana, na independência da Argélia,

durante a guerra antiimperialista no Vietnã

e nas lutas anticoloniais na África.

Em junho de 2013, o Brasil apresentou

imagens poéticas (termo usado pelo historiador

Marcos Napolitano para se referir às

ideias utópicas captadas nas letras de canções

de protesto), como na década de 60. “A crença

no poder da canção e do ato de cantar para

todo mundo ouvir; A denúncia e o lamento de

um presente opressivo além da crença na esperança

de um futuro libertador’’. Como complementa

o produtor musical Alex Gomes, “A

música é a forma mais simples de atingir a

massa, que movida por um mesmo sentimento,

transforma-se num forte elemento capaz

não só de influenciar, mas de transformar a

sociedade, no caso fortalecer os protestos”.

Alguns estudiosos acreditam que não é

necessariamente o momento histórico que

determina a existência dessas canções, mas

também o lugar de onde elas vêm. A pluralidade

que o termo “canção de protesto” atingiu

está relacionada à apropriação das canções de

protesto por vários grupos sociais que lutam

por diferentes causas no cotidiano. O doutor

em Multimeios Eduardo Paiva, professor no

departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação

da UNICAMP, afirma, “cada grupo

social hoje tem a sua canção de protesto. O

pessoal da periferia, por exemplo, tem o rap.

Acredito que não existe uma canção de protesto

como a de 1960 que consiga juntar todas

as tribos”.

Ilustração: Lívia Almeida

“Nao adianta olhar pro

Com muita fe e p

No Brasil, letras e estilos

O texto do manifesto do Centro Popular de

Cultura (CPC), organização associada à União

Nacional dos Estudantes (UNE), dizia, em

1962, que o intelectual deveria aproximar-se

das massas com o intuito de levar até elas a

consciência política capaz de superar o estado

de alienação e de produzir a partir de elementos

da própria cultura do povo a verdadeira

“arte popular revolucionária.”.

Levanta aií que voceê tem

E muita gre


“Nos estamos aqui para revolucionar a MPB,

pra pintar de negro a asa branca,

atrasar o trem das onze, pisar nas flores do

Geraldo Vandre,

e fazer da Amelia uma mulher qualquer.”

Clemente Tadeu

ceu

ouca luta

muito protesto pra fazer

ve, vocE pode, voceê deve, pode crer”.

Gabriel o pensador


Para o professor Eduardo Paiva, os elementos

usados nas canções de protesto retratam

o momento político em que a música está

inserida e funcionam como meio canalizador

de informação. Nas letras, a apropriação de

vivências próximas a realidade social do público

tem a finalidade de fortalecer os laços

entre a música e as pessoas e disseminar determinadas

mensagens.

Com o Golpe de 64 e o acirramento da

repressão política e cultural a partir de 1968

no Brasil, nomes como Chico Buarque, Geraldo

Vandré, Caetano Veloso e outros artistas,

através de suas músicas, criticavam o abuso

de poder e a violência, além de gritarem palavras

de ordem que mobilizaram a sociedade

a lutar por seus direitos. Canções como “Cálice”

(1973), “Pra não dizer que não falei das

flores” (1968) e “É proibido proibir” (1968),

as duas últimas marcos do Festival Internacional

da Canção promovido pela Rede Globo,

entraram para a história deste período.

Em 1985, durante a campanha das “Diretas

Já”, a banda punk Plebe Rude perguntava

em suas canções o que todos queriam

saber: Afinal, até quando esperar para eleger

o presidente?”. E o rock do Ultraje a Rigor,

ironizava os militares com a canção intitulada

“Inútil”.

Na década seguinte, um pernambucano

que misturava diferentes ritmos

como o maracatu e a música eletrônica

criou o gênero chamado

“mangue beat”. Chico Science,

líder da banda Nação Zumbi,

popularizou canções

que traziam nas letras

a mensagem de insatisfação

com os

problemas do

governo da

época. “A

cidade

n ã o

pára, a cidade só cresce, o de cima sobe e o

debaixo desce” ou “E no meio da esperteza

internacional, a cidade até que não está tão

mal, a situação sempre mais ou menos, sempre

uns com mais e outros com menos” são

versos da letra de “A cidade”, lançada pelo

cantor em 1994.

No início deste século, a canção “Até

Quando” (2001), de Gabriel O Pensador, também

é um exemplo de mistura de ritmos para

criticar a realidade. “Ela utiliza elementos de

música brasileira, como uma levada de samba

no início, que nos faz entender que esses problemas

se passam no Brasil”, diz Bruno Mantovani,

produtor musical. O primeiro verso da

canção é direto: “Não adianta olhar pro céu

/ Com muita fé e pouca luta / Levanta aí que

você tem muito protesto pra fazer / E muita

greve, você pode, você deve, pode crer”.

Contagiados pelo clima das recentes

manifestações em junho de 2013 no Brasil,

muitos músicos criaram canções específicas

para o momento. Entre eles, Leoni, com “As

coisas não caem do céu”, menciona nas redes

sociais, que só a ação modifica o mundo

e que as pessoas nas ruas foram capazes de

dizer isso de forma impactante e convincente.

E Tom Zé, em “Povo Novo”, cuja letra fala de

uma nova geração que sai às ruas para clamar

seus direitos, um pouco retraída, mas que

sabe o que quer.

A trajetória histórica que liga movimentos

sociais importantes a canções de protesto

serve de base para vários questionamentos e

associações. Matheus Nere, estudante de Direito

e militante político na Assessoria Jurídica

Universitária Popular da UFMG (AJUP-

UFMG), lembra o atual “Movimento Passe

Livre” no Brasil: “muitas das músicas e pautas

se parecem e até resgatam a identidade

ideológica que outrora (como nos anos 60)

era mais intensa”.

Protesto para quem?

Um impasse marca a produção de canções

de protesto. De um lado a vontade de denunciar

os crimes cometidos pelas classes dominantes

do sistema capitalista e, de outro, a

subordinação a este sistema que vende tais

produções. No meio desse dilema, estão

os músicos e as bandas. O professor

Eduardo Paiva se lembra de uma exceção

na história das canções de

protesto e da indústria da música.

“Existe uma entrevista dos

Rolling Stones na década de

60 em que Mick Jager fala

do rompimento com a

gravadora porque eles

não tinham liberda-


de para se

manifestar

contra a indústria

de venda de

radares para a Guerra

do Vietnã, que tinha uma

ligação com a gravadora”.

Em contrapartida, o produtor

musical Augusto Pereira aponta

o grande interesse dos cantores de 60

em atrelar-se à denominação Música Popular

Brasileira (MPB) para conseguir mais

ouvintes e vender mais discos. Segundo ele,

a regra era: “Voz e violão, compassos lentos,

tranquilos, com rimas repetitivas, com muitos

‘ão’, no formato de um hino, coisa fácil

de decorar.” Assim, muitas “canções de protesto”

foram apropriadas pela indústria fonográfica

como “canções de protesto da MPB”.

A receita de produção era simples e os lucros

das vendas iam além dos dizeres nas manifestações.

O estudante Matheus Neres, que já

milita há alguns anos em movimento social,

concorda com a regra descrita acima e afirma

que essa lógica permanece. “As canções

se tornam hino quando são reiteradamente

utilizadas nas manifestações, e quando conseguem

ser aprendidas com facilidade”, diz.

Na maioria das vezes, os interesses da

indústria fonográfica e/ou dos cantores não

permitem que algumas canções sejam vistas

como protesto devido ao preconceito com

bandas rotuladas como bregas, satânicas, ou

consideradas disseminadoras de apologia ás

drogas, sexo e violência. O grupo de heavy

metal Iron Maiden, por exemplo, usa na canção

Clansman metáforas para falar do abuso

de poder, da exploração e dos problemas de

uma sociedade caótica.

O movimento punk da década de 80 também

é uma dessas referências, assim como o

rap, reggae, samba e funk. O mestrando em

história, Eder Novaes, destaca a importância

da banda inglesa The Clash, lembrada por seu

engajamento político para o cenário do punk

brasileiro, que também nasceu nas periferias.

Para ele o ‘protesto’ do punk se faz de maneira

distinta, abarcando outros pontos da sociedade

brasileira, como a desigualdade decorrente

do excesso de privilégios pelas classes

dominantes. Além disso, o punk queria revolucionar

a música, como visto na canção de

Clemente Tadeu Nascimento, do grupo Inocentes

“Nós estamos aqui para revolucionar a

MPB, pra pintar de negro a asa branca,atrasar

o trem das onze, pisar nas flores do Geraldo

Vandré, e fazer da Amélia uma mulher qualquer.”

Estudiosos

como

Marcos Napolitano

e Fábio Zan acreditam

que a realidade social

faz as próprias classes desfavorecidas

começarem a usar a música

como protesto. Muitos artistas da nova

geração da música de protesto se envolvem

diretamente em ações sociais e alegam que a

corrente atual é uma música política de resultados,

não de utopias como viveram os jovens

de 60. O historiador Luiz Carlos Maciel

acredita que a origem pobre desses artistas

justifica sua participação social mais objetiva.

Em matéria do portal CliqueMusic da Uol,

Mv Bill afirma ter o projeto de montar cursos

profissionalizantes na Cidade de Deus e é um

dos fundadores do Partido Popular Poder para

a Maioria (PPPomar), um partido político do

movimento negro. Já o grupo O Rappa é citado

na mesma matéria por ter uma conhecida

relação com a FASE (Federação de Órgãos

para Assistência Social e Educacional), divulgando

o trabalho da ONG. Na Bahia em 1983,

surgiu o Afroreggae, um grupo que produzia

um jornal sobre cultura negra e ao longo do

tempo se transformou em uma ONG fortemente

ativa ,além de atuar como banda.

Com isso, as canções de protestos das periferias

serviram para re-significar o termo apresentando

os problemas locais e contribuindo

para solucionar suas carências através de projetos

sociais.

Lugares marginalizados definem por si só

a letra dessas canções, mostrando que elas

ganharam forma e significados ao longo dos

anos e não se fizeram presente somente em

períodos emblemáticos da história. A canção

de protesto é portanto a voz que em diferentes

timbres reclama o esquecimento e os direitos

de um povo. Um grito encantado que

deve continuar fazendo história, ajudando a

transformar a realidade.


Ensaio Fotográfico


Foto

Foto e Texto:

Núbia

Núbia

Cunha

Cunha

Edição

Edição gráfica:

Arthur

Arthur

Rosa

Rosa

Modelos:

Douglas

Douglas Gomes,

Giovanna

Giovanna

de

de

Guzzi,

Marianna

Marianna Leonel,

Richard

Richard

Dias

Dias e

Thaís

Thaís

Moreira

Moreira

A música por diversos momentos serve como inspiração para

estilistas criarem e recriarem tendências. O estilo grunge, que

surgiu no final dos anos 1980, como marca registrada das bandas

de rock underground de Seattle, ainda hoje é resgatado pelo

mundo da moda: camisetas de bandas, calças rasgadas, casacos

amarrados na cintura, estampas xadrez e coturnos. O espírito do

grunge no universo fashion se modernizou com elementos como

tachas, coletes, gorros e botinhas, atualizando o despojamento já

característico ao movimento.


Papo Reto

B

A

R

B

A

Corpo que se move, se diz, se cria, surpreende, estala,

embola

Corpo que se envolve, remexe, ecoa , rebola, arrepia

Corpo que seduz... TUM, PÁ, PLAFT!

Corporifique!

Essas palavras buscam demostrar um pouco da identidade

do grupo Barbatuques, que há 17 anos foi fundado pelo

músico Fernando Barba. O grupo era composto por

estudantes de música que se propuseram a criar algo novo,

que poderia parecer impensável: utilizar o próprio corpo

como instrumento musical! Hoje, os 15 artistas ultrapassam

as barreiras culturais e ganham espaço no cenário musical

brasileiro e mundial. Neste bate-papo, três deles, que estão

no grupo desde o início, falam sobre a trajetória irreverente

do Barbatuques.

U

T

Q

Como surgiu o grupo?

Lú Horta: O grupo surgiu da iniciativa do Fernando Barba,

que é um diretor musical, e que tinha uma mania incrível de

fazer ações com o corpo. A gente se reuniu em 1996, como um

grupo de estudo, em um primeiro momento. Todos nos conhecemos

na faculdade de música. O Barba começou a organizar e

dividir o corpo humano nas diferentes frequências, organizando

diferentes levadas. Ele começou a traduzir ritmos brasileiros

pensando o corpo humano como uma bateria.

Marcelo Pretto: No começo, o foco era oficina. O pensamento

de todos os integrantes do grupo não era de fazer música no

sentido de ser um grupo musical. Era uma turma de uma oficina

que tinha laços afetivos entre si.

Lú Horta: E aí foi que o Barbatuques decolou como grupo

artístico mesmo. Nasceu assim!

U

E

Texto: Joyce Afonso e Tamara

Martins

Edição gráfica: Isadora Rabello

Fotos: Laura Ralola

Por que trabalhar especificamente com percussão corporal?

Marcelo Pretto: O Barba teve essa ideia inicial. Agora, você se

dar conta de que isso é uma linguagem e que tem uma gama

de coisas, que é possível fazer música só com aquilo é muito

positivo. A percussão corporal é curiosa, ela é ancestral, mas

nunca foi usada sistematicamente, de um grupo pegar e fazer,

então também era um desafio, mas a gente estava se lançando,

foi uma proposta completamente nova.

S


Então vocês são pioneiros no Brasil?

Lú Horta: Acho que a gente é pioneiro nessa visão de pegar a

linguagem musical original, do jeito que ela é tradicionalmente.

Você pensa as propriedades da música e as frequências em

todos os termos da linguagem musical tal qual você pensaria

para um instrumento, transportando esse código para o corpo.

Eu nunca vi nenhum outro grupo fazer isso.

Marcelo Pretto: Fica engraçado, porque a gente brinca que

não é dono da percussão corporal. Mas, somos pioneiros, sim,

dentro de uma linguagem. Se for considerar o que é o Barbatuques,

a gente é muito pioneiro!

Em algumas entrevistas vocês já ressaltaram que fizeram

mais apresentações no exterior do que no Brasil. A que vocês

atribuem isso? Vocês acreditam que fora do país a música

experimental tem mais espaço?

Lú Horta: Não foi um acaso total, às vezes é uma questão de

estrutura também. É que a gente tem uma estrutura muito

grande, é difícil chegar a lugares mais simples. Isso exclui locais

que adoraríamos estar no Brasil e não conseguimos chegar.

Marcelo Pretto: Quando você chega a um lugar diferente,

sente-se perdido com a cultura. Com a língua, então, nem se

fala! Aí bastou você fazer isso aqui (barulho de palma, boca e

dedos), que se abre aquele sorriso no qual você atravessa uma

ponte cultural impressionante. Então o Barbatuques prescinde

da palavra, você não precisa da palavra. Isso é fantástico,

chegar a qualquer lugar do mundo, não mudar seu show, não

traduzir. Ele ser o mesmo e a gente não ter pensado nisso. Isso

que é o mais legal! Ele é assim, tem essa característica.

O último álbum de vocês, o “Tum Pá” é o primeiro de cunho

infantil. Por que vocês decidiram gravar um álbum para esse

público?

Marcelo Pretto: Essa demanda surgiu, principalmente, porque

o grupo sempre se deu muito bem com as crianças. A gente

foi sentindo isso. No dia em que começamos a prudzir música

infantil, falo por mim, foi maravilhoso! E aí é mais outro

ingrediente para essa paixão.

Lú Horta: Mas é isso. Desde o início do grupo, o carinho foi

imediato com as crianças. A linguagem já é lúdica em si. A

única diferença de foco foi o repertório, né?! Você falar mais

próximo, mais diretamente à linguagem das crianças.

É perceptível que vocês têm influência de vários estilos

musicais. Então, como se dá esse processo criativo? Como o

grupo chega a um consenso?

Dani Zulu: (Risos) O Barba geralmente chega, não em todas,

mas ele chega com uma música pré-construída e a gente vai

fazendo os arranjos juntos, tendo ideia, partindo de uma coisa

que a gente está vivenciando. Aí também tem a proposta, depende

de como a música vem.

Lú Horta: O processo criativo, em si, é essa química, entendeu?

Às vezes a gente se estapeia. Um acha uma coisa, outra

acha outra coisa. Às vezes, um vem com uma ideia já mais ou

menos pronta e todo mundo contribui. Às vezes, a ideia chega

completamente pronta e a pessoa ensina aos outros a reproduzir

aquilo, mas mesmo que chegue pronto, todo mundo cria

junto e dá opinião. É um caldeirão, assim!

Como vocês definiriam essa música que fazem?

Dani Zulu: A gente até começou falando percussão corporal.

“Hoje em dia eu considero que a gente faz mais uma música

corpórea.

Marcelo Pretto: Música feita com o corpo, música corporal.

Tudo pode ser feito, não é um estilo, pelo contrário, é a possibilidade

de todos os estilos. Inclusive na nossa cabeça, no nosso

gosto musical que quer ouvir de tudo e quer aprender. Então, o

que é comum a tudo isso? É a música que é feita com o corpo.

Lú Horta: É, existe um termo que é “música orgânica”, mas,

em outras palavras, é a música do corpo. Para mim o que é

mais fascinante nessa linguagem é o fato de que se convocam

todas as dimensões do ser. Não adianta ter um corpo que mecanicamente

está funcionando para aquilo se você não está

emocionalmente conectado, se intelectualmente você. Não

entrou na “viagem” de colocar o pensamento nesse trabalho.

Então, acho que é a música de um corpo animado com a alma.

Para ver e ouvir o grupo acesse: http://www.barbatuques.com.br


Perfil


Mil tons de um

sanfoneiro

Texto: Filipe Barboza

Edição gráfica: Bárbara Costa

Fotos: Bruna Silveira

Por telefone, ele não me passou o endereço

completo. Com a referência de que a sua moradia

“é a única da vizinhança que tem uma

porteira na entrada”, chego ao movimentado

e populoso bairro Cabanas, em Mariana, com

a impressão de que encontraria dificuldades

em procurar a casa do sujeito. Ao adentrar

na região, percebo que a referência dada está

suficientemente adequada, já que não foi tão

complicado assim descobrir uma grande porteira

de madeira em uma região de características

urbanas.

Entro no terreno e, logo de cara, vejo galinhas,

patos, cachorros e um cavalo branco

arreado. A princípio penso que estou em um

sítio ou, como se diz, em um rancho bem distante

de tudo. Observo atentamente o ambiente

na tentativa de encontrar uma boa

expressão para descrever o recinto, até que

o homem, que se aproxima para me receber,

comenta: “eu moro em uma espécie de roça

dentro da cidade”.

Quem diz a frase é Milton, 43, o sanfoneiro

mais conhecido do município. Ele, que mora

em um recanto rural no meio de um bairro

agitado e que nos finais de semana costuma

rodar a região com animadas apresentações

musicais, tem um sugestivo nome artístico.

“Nos lugares que eu ia tocar, todo mundo me

via com a sanfona na mão. Então começaram

a falar ‘Milton Sanfoneiro’... ‘Milton Sanfoneiro’...

até que pegou. Hoje, se perguntarem

aqui na cidade sobre Milton Ângelo Martins,

ninguém sabe quem é, mas todo mundo conhece

ou já ouviu falar de Milton Sanfoneiro”,

conta o artista.

Milton, que toca sanfona desde os cinco

anos de idade (aprendeu com o pai na cidade

natal de Diogo de Vasconcelos – localizada a

cerca de 50 km de Mariana), faz de tudo um

pouco dentro do rancho arrendado. Cria, compra

e vende animais, trabalha como domador

de cavalos e também aproveita para ensaiar

sozinho (ou com outros músicos), de vez em

quando, na varanda de sua casa. “Os vizinhos

nunca reclamaram, até porque eu sei onde

posso ir com o som. Aliás, o que acontece, na

maioria das vezes, é o oposto. Quando se inicia

o ensaio, começa a chegar gente para acompanhar”,

relata.

Se pudesse o sanfoneiro só viveria de música,

mas ele sabe que não é tão simples assim.

“A gente toca muito em determinados

períodos do ano, como junho, julho e agosto,

devido à quantidade de festas na região. Tem

época que essa demanda diminui. Por isso é

preciso correr atrás de outras coisas”.

A luta não é em vão, afinal de contas,


Milton tem dois filhos: Pedro Henrique, nove

anos, fruto do primeiro casamento, e Milton

Junior, um ano e quatro meses, do seu atual

relacionamento. Pedro não mora com o pai,

mas passa todos os finais de semana no rancho.

É direto quando perguntado se vai seguir

também a carreira musical: “Não gosto de

tocar não. Meu pai tentou me ensinar, eu até

gostei uma vez, mas depois nunca mais gostei.

Eu quero ser dançarino de Hip Hop, dança de

rua. Sei muito já”, afirma o menino enquanto

ensaia timidamente alguns passos. Observando

o filho, o sanfoneiro pondera: “Eu gostaria

que ele aprendesse a tocar, porque a música

faz bem pra alma, faz bem pra tudo, mas não

posso obrigá-lo”.

O tom profissional da

música

Quatro dias após o primeiro encontro, retorno

à residência de Milton em uma noite de

ensaio com o objetivo de ver (e ouvir) como

funciona, na prática, o forró. O sanfoneiro

puxa no seu acordeom branco – com o acompanhamento

da dupla sertaneja Ronei Costa

e Fabiano – a canção “Do jeito que a moçada

gosta”, famosa nas vozes de Zezé de Camargo

e Luciano.

Em shows, geralmente, os três músicos

sobem ao palco com uma sanfona e dois violões.

Um contrabaixista, contratado pelo trio,

completa a banda. Mas isso se altera de acordo

com o propósito da festa. Milton para o ensaio

para me explicar esse processo. “A estruturação

da banda varia muito. Em apresentações

menores costumam ir quatro músicos, mas,

se a festa for maior, a gente coloca baterista e

tecladista. E, se o contratante quiser, tem jeito

até de acrescentar dançarinas”, ressalta.

Se a quantidade de músicos que sobem no

palco vem ao gosto de quem contrata e paga o

espetáculo, a escolha das músicas fica a cargo

do público. O sanfoneiro, que não tem repertório

próprio (nem composições registradas),

faz exibição de canções que vão de Luiz Gonzaga

e Gino e Geno a Gusttavo Lima e Victor

e Leo. “O meu estilo é o forró. O que eu gosto

mesmo é de puxar um xote, um forró pé-deserra,

daqueles bem dançantes. Mas a gente

tem que tocar o que está na moda também, o

que passa nas rádios. E se o povo pede o sertanejo

universitário, não podemos deixar de

fazer”, afirma o versátil músico.

Milton Sanfoneiro toca e canta em festas

particulares e públicas. Casamentos, batizados,

cavalgadas, rodeios, quadrilhas, ou seja,

onde couber a musicalidade dos foles e baixos

da sua bela sanfona, o músico entra sem

fazer feio. E para provar que é “pau pra toda

obra”, ele conta que realizou, no início da década

passada, um grande show na exposição

agropecuária de Mariana. A apresentação fez

tanto sucesso que chegou aos ouvidos do cantor

Sérgio Reis. Este, em uma atitude muito

elegante, fez questão de chamar o sanfoneiro

para tocar algumas canções na noite seguinte

da festa. “O Sérgio Reis falou assim no meio


do seu show: ‘Oh gente, alguém aqui conhece

o Milton Sanfoneiro?’ O pessoal começou a

bater palma, gritar meu nome e eu lá no meio

do povo com aquela emoção toda... Aí ele disse

assim: ‘Uai, mas o show aqui é de quem? É

meu ou dele? Por que quando gritei o nome

de Milton Sanfoneiro vocês aplaudiram mais

do que na hora que entrei no palco?’. Ele falou

tudo isso brincando, mas essa brincadeira

marcou a minha vida”, relembra Milton com

a foto do momento em mãos.

De todas essas experiências em apresentações

musicais, o sanfoneiro tem apenas duas

ponderações: não gosta de tocar em barzinho

e nem em casas de show. “Quando eu ia em

barzinho, geralmente, o dono pedia para tocar

músicas que fizesse o povo ficar sentado

tomando chope, mas eu acabava animando o

ambiente com levadas mais agitadas e o pessoal

saía das cadeiras pra dançar”, conta. Já

nas casas de show a história é outra: “nessas

boates, você tem hora para começar, mas não

para terminar. Enquanto tiver chegando gente,

o proprietário quer que você toque, pois a

bilheteria faz o faturamento da casa. Isso desgasta

o músico”, explica.

O tom que agrega

Se Milton tem restrições de tocar em alguns

lugares, no terreno de sua casa a conversa

é outra. Com o solo de acordeom da canção

“Pica pau na madeira”, de Gino e Geno, ele

retoma o animado ensaio ao lado dos amigos

e vizinhos que se aproximam do forró.

O anfitrião prepara o ambiente com muito

carinho. Para beber tem cerveja, refrigerante e

a tradicional cachacinha mineira. E ninguém

fica com fome, pois o músico faz questão de

colocar na mesa uma panela de arroz soltinho,

outra de tropeiro e uma deliciosa leitoa

à pururuca assada ali mesmo, em um forno

de barro.

Música vai, música vem e começo a perceber

naquele ambiente que o ensaio é, na realidade,

uma grande confraternização de gente.

Milton e a dupla Ronei Costa e Fabiano abrem

espaço para outras pessoas puxarem as mais

diferentes músicas. O grupo de amigos toca

Amado Batista, Felipe e Falcão, Falamansa e

o ensaio acontece na melhor improvisação de

todas, quase como uma moda de viola.

Nesse momento, o Milton dos pequenos,

médios e grandes shows (inclusive da memorável

exibição com Sérgio Reis) contracena

com o outro Milton: o sujeito simples que

leva uma vida rural dentro do perímetro urbano

de Mariana. É ali que o prazer de tocar

se confunde com o de bater um bom papo, de

tomar um refrigerante (porque o sanfoneiro

não bebe álcool), de comer uma leitoa à pururuca

e, principalmente, de tratar o outro com

a aquela hospitalidade característica de quem

vive na roça. No final da festança, que teoricamente

seria um ensaio, Milton sintetiza qual

tom representa a música em sua vida: “música

é alegria, te traz novas amizades, você conhece

novos lugares e pessoas. É tudo de bom!”


Contemporâneo

Legislação

em

Update

Texto: Patrícia Botaro

Fotografia: Bárbara Zdanowsky

Edição gráfica: Luís Fernando Bráulio

Modelos: Rafael Camara, Tácito Chimato, Marllon Bento

A internet mudou o hábito de quem era acostumado a ouvir

vinis e cds. Temos à nossa disposição várias maneiras de

consumir música, seja executando downloads ou via streaming

(ouvindo sem baixá-las). As novas tecnologias alteraram,

também, a divulgação dos trabalhos dos artistas. Diversas

bandas optam por associar-se a instituições, como o Escritório

Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que garantem

a proteção de seus materiais, mas há outras que preferem

trabalhar de forma independente. Esses novos hábitos mudam

o cenário da indústria fonográfica, mas a proteção na rede se

faz necessária de modo a assegurar os direitos dos artistas.

Acontece que, no Brasil, ainda não existe uma lei que garanta a

totalidade dos direitos autorais sobre as reproduções musicais

no ciberespaço, apenas a lei de Direitos Autorais Brasileira,

criada em 1998, época anterior às tecnologias que temos hoje.


Paulinho da Viola - Pecado Capital

Uploaded by RevistaCuringa on Aug 19, 2013

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Roberto Carlos - Ciúme de você

Uploaded by RevistaCuringa on Aug 19, 2013

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1:14/ 5:51


“Não tem que ter nada

que impeça cada vez mais a

proliferação de cultura por aí

a fora.” é o que diz Fernando

Anitelli, vocalista do Teatro

Mágico, banda independente

que utiliza a internet como

modo de reprodução e divulgação

de suas músicas. Em

entrevista ao blog Musica x Direitos

Autorais o vocalista conta

que a banda já recebeu convites

de gravadoras para contrato,

mas recusaram, pois

preferem disponibilizar suas

músicas de graça na internet

e nenhuma das propostas incluía

isso.

A banda atribui o sucesso

que conquistou a internet e

aos fãs, que filmam os shows

e postam no site Youtube, além

de baixar as músicas gratuitamente.

A trupe vende seus

cds a R$ 5,00 depois do show

e por R$ 10,00 pelo site. Para

eles o importante é que a música

e a cultura sejam acessíveis

a todos. Fernando chama

isso de “pirataria saudável”.

Uma fã do Teatro Mágico, em

entrevista também para o

blog Musica x Direitos Autorais,

diz que “a essência deles está

em ser um grupo alternativo,

que deu certo e que conquistou

o público por ter seu

material democratizado na

internet.”

Assim como o Teatro Mágico,

várias bandas agem de

forma independente no meio

musical, se associando ou não

a instituições que garantam

seus direitos e optam por liberar

suas obras direto na rede.

O produtor musical e atual

vereador da cidade de Ouro

Preto, Chiquinho de Assis,

também é um artista independente

e concorda com as

bandas que não se associam a

gravadoras, mas diz que não

se deve ignorar a segurança

autoral desses artistas. Hoje,

tais bandas têm uma opinião

sobre associar-se a gravadoras,

mas podem mudar

de ideia depois. “Cito aqui

Bertold Brecht: ‘Onde o ouro

fala, tudo cala’. Nesse caso,

tudo toca, tudo canta”, diz o

produtor.

A Rua da Virada, formada

em 2012, é uma banda de Minas

Gerais independente que

já recebeu proposta da gravadora

Micheli Records, do

Rio de Janeiro. Não fecharam

contrato por não acharem as

propostas interessantes. As

músicas são criadas e adaptadas

por Adner Sena e Rao

Soares, todas registradas no

International Standard Recording

Code (ISRC), ou Código

de Gravação Padrão Internacional

e, em breve, na Biblioteca

Nacional. A divulgação

do trabalho foi feita, inicialmente,

no “boca a boca”. Em

seguida, passaram a disponibilizar

as músicas na internet,

ação que repercutiu de forma

positiva. A banda não se associou

ainda a nenhuma instituição

de arrecadação, mas

Adner diz que em algum momento

isso vai acabar acontecendo,

já que somente desse

modo a legislação prevê retorno

financeiro para os artistas.

Já o grupo In Box, atualmente

associado da UBE

(União Brasileira de Escritores),

tem suas músicas registradas

na Sociedade Brasileira

de Autores Compositores

e Escritores de Música (SBA-

CEM). No início trabalharam

de forma independente

e três anos depois assinaram

contrato com o Midas Music.

Segundo Daniel Fina, baixista,

assinar contrato com

uma gravadora reconhecida

é o “sonho de todo músico”,

por isso optaram por fazê-lo.

A divulgação da banda é feita

basicamente pelo site ou na

sua página no facebook, além

da venda de camisas, canecas,

adesivos e bolsas.

Lei de Direitos

Autorais e

internet

O MySpace é uma rede social

que divulga, de maneira

legalizada, trabalhos de

diversas bandas. A cantora

paulista Malu Magalhães, por

exemplo, ganhou visibilidade

e lançou um cd depois de

divulgar suas músicas nessa

plataforma. Bandas como

o Coldplay e os Guns N’ Roses

também lançaram seus álbuns

“Vila la Vida” e “Chinese

Democracy”, em 2008,

no MySpace, antes mesmo de

colocá-los a venda. O site não

oferece downloads, fazendo

com que o usuário permaneça

ali enquanto escuta a música

e acessa informações sobre a

banda de seu interesse. Além

do MySpace existem outras

maneiras para escutar ou baixar

músicas gratuitamente

como o 4shared, Kboing, Itunes,

Ares, Soundcloud e Last.fm.

Mesmo tão popular, o

MySpace não está livre de fiscalizações.

A gravadora Merlin

Network, uma agência internacional

criada para defender

os direitos das gravadoras

independentes de todo o

mundo no ambiente digital,

cancelou o acordo com o site

no final de 2012. O MySpace

continuou reproduzindo, no

início desse ano, canções no

modo streaming de bandas associadas

a Merlin sem ter seus

direitos renegociados. Segundo

o site Tecmundo, o MySpace

assumiu a culpa e disse que

membros aleatórios foram

responsáveis pelas postagens.

A lei brasileira nº 9.610/08

aprovada em fevereiro de

1998 e que regulariza os direitos

autorais é gerenciada

pela Diretoria de Direitos Intelectuais

do Ministério da

Cultura, o MinC. O advogado

Guilherme Varella, do Instituto

de Defesa do Consumidor

(Idec) disse em entrevista

para o site Portal Brasil, que

essa lei precisa ser reformulada

pelo fato de ter sido

criada fora do ambiente repleto

de tecnologia que temos

atualmente. Segundo ele, se

levarmos em consideração as

normas dos direitos autorais,

estamos agindo errado, já que

hoje usamos a internet com

muito mais frequência para

baixar e trocar conteúdos.


Ultraje a Rigor - Mim quer tocar (Money)

Uploaded by RevistaCuringa on Aug 19, 2013

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Cássia Eller - Sabotagem

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A advogada Líbine Christian,

especialista na área criminal,

explica que diferentemente

do que acontece no

Brasil, existem tratados fora

do país que garantem a proteção

no meio digital, como o

WIPO Copyright Treaty (WCT).

O WCT protege os direitos do

autor em todos os programas

de computador, sem importar

como está sendo usado. “A

partir do momento que o Brasil

enxergar a necessidade de

proteção dos Direitos Autorais,

firmando acordos como

o mencionado acima, teremos

efetivamente uma proteção

maior aos direitos do autor e

a possibilidade de punir infratores

que comercializam e exploram

músicas sem a devida

autorização”, diz ela.

Para o produtor musical

Chiquinho de Assis, é preciso

que haja uma reformulação

na lei de Direitos Autorais.

Ele acredita que hoje é impossível

se pensar no direito autoral

no Brasil sem considerar

as atuais plataformas digitais

e a existência de autores que

distribuem seus trabalhos

na rede. Há artistas que não

veêm necessidade de cobrança

e outros que não enxergam

dessa maneira. Para ele, essa

divisão de opiniões só será resolvida

depois da revisão desse

regulamento.

Adner Sena, um dos integrantes

da Rua da Virada,

também concorda que a Lei

de Direitos Autorais tem que

se adaptar ao atual contexto

de produção, distribuição e

divulgação da arte. Mas ele

vê também a necessidade de

uma mudança no conceito

de autoria. ”A Lei do Direito

Autoral parte da velha noção

do autor como proprietário de

sua obra. Há, com isso, a meu

ver, a valorização da música

enquanto produto, mas uma

total desconsideração do seu

trabalho enquanto processo.

Acho que a lei entende pouco

das artes”, explica o músico.

Trabalhando de forma independente

ou não, muitos

artistas se associam a instituições

que recolhem os valores

de arrecadação de suas

músicas. O autor tem direito

de ser recompensado pela

exploração e reprodução das

suas obras. Uma dessas instituições

é o Ecad.

O Ecad

A lei Medeiros e Albuquerque

foi a primeira lei brasileira

criada sobre o direito

do autor, em 1º de agosto de

1898. Mas, somente com a

chegada do Código Civil de

1916, a sociedade começou

a se preocupar com a importância

dos direitos autorais, já

que no ano seguinte foi criada

a Sociedade Brasileira de Autores

Teatrais (SBAT). A compositora

Chiquinha Gonzaga

foi uma das principais líderes

da sociedade. No início trabalhou

apenas com autores

teatrais, anos depois começou

a lidar com produtores musicais.

Depois da criação da

SBAT, outras sociedades foram

surgindo. O aumento

dessas associações fez com

que a arrecadação desses direitos

se tornasse confusa e

desordenada. Associados deixavam

de pagar por não saber

a quem pagar. Para acabar

com as disputas das sociedades

arrecadadoras foi instituída,

em 1973, a Lei de Direito

Autoral nº 5.988/73. Essa lei

determinava a criação de um

sistema único para gerenciar

os direitos autorais: o Ecad.

O Escritório Central de

Arrecadação e Distribuição

(Ecad) é a principal forma de

fiscalização, cobrança e distribuição

do dinheiro para os artistas.

Atualmente é mantida

pela Lei de Direitos Autorais

brasileira. O escritório é uma

instituição privada que fica

no Rio de Janeiro e tem nove

associados. Essas associações

têm a responsabilidade de

controlar e enviar os dados de

cada sócio e o seu repertório

ao Ecad.

No dia 10 de julho desse

ano, foi aprovado no Senado

Federal e na Câmara o projeto

de lei que define novas condições

de arrecadação e distribuição

de direitos autorais

sobre obras musicais. Esse

texto base, aprovado pela

Comissão de Constituição e

Justiça (CCJ), segundo o site

do Senado Federal, garante o

direito dos próprios artistas

definirem os preços de suas

composições e as formas de

cobrança. Exige, ainda, transparência

do Ecad e das associações

que lidam com esse

tipo de serviço e prevê a fiscalização

dessas associações

pelo Ministério da Cultura.

Em 2012 foram arrecadados

mais de 600 milhões de

reais. Muitos artistas brasileiros

acompanharam a votação

diretamente do Senado, em

Brasília, como Lenine, Caetano

Veloso, Roberto Carlos,

e Carlinhos Brow. “Queremos

fiscalização acirrada”, diz a

cantora Roberta Miranda em

entrevista à TV Senado.

Os artistas dizem que não

há transparência do órgão, reclamam

das taxas altas e ressaltam

que a distribuição do

dinheiro não é correta. A CPI

do Ecad foi criada para investigar

essas irregularidades no

funcionamento do escritório.

“O que estamos fazendo é um

update no Ecad”, ressalta Carlinhos

Brown, também em

entrevista para a TV Senado.

A lei foi aprovada e publicada

no Diário Oficial da União, no

dia 15 de agosto desse ano. A

nova lei passa a vigorar dentro

de 120 dias e destinará

85% dos valores arrecadados

aos artistas, que recebem hoje

75,5%.

Uma coisa é certa: mudanças

trazem novas possibilidades.

A evolução da

tecnologia mudou o nosso

comportamento no que diz

respeito ao consumo e a produção

de música. A internet

facilitou o acesso à música

e o modo de divulgá-la, ajudando

a propagar o trabalho

das bandas que ouvimos, mas

não queremos atrapalhar o

trabalho delas. A reivindicação

por novas leis é pertinente,

para garantir os direitos

dos artistas e de seus fãs.


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Cartola - O mundo é um moinho

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acava aqui

`

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Retalhos

O Gatilho da Memória

Lembranças

Texto: Rodrigo Pucci

Edição gráfica: Isadora Rabello

No filme “O Lado Bom da Vida” (2012), o protagonista Pat

Solitano (Bradley Cooper) tem um sério problema com uma

música. A canção “My Cherie Amour” de Stevie Wonder funciona

como um “disparador”, que ao ser acionado faz com que

o personagem tenha um surto, remetendo a uma péssima lembrança.

Segundo Geraldo José Ballone, médico psiquiatra e professor

de psiquiatria da Faculdade de Medicina da PUC Campinas,

“a música acompanha praticamente todos os momentos

emocionais importantes nas nossas vidas, desde as canções de

ninar até a música fúnebre.” Em seu blog psiqweb.med.br, Ballone

ainda explica: “a atividade musical envolve quase todas as

regiões do cérebro. A música que emociona acaba ativando as

estruturas das regiões cerebelares (responsáveis

pela produção e liberação dos neurotransmissores

dopamina e noradrenalina) e principalmente

da amígdala, que é a principal área

do processamento emocional.”

O artista autônomo Alejandro Villa, 37

anos, recorda-se de uma viagem que fez ao

Uruguai, há mais ou menos 15 anos, marcada

por uma trilha sonora. “Éramos quatro

amigos em uma kombi, e havia um disco do

Legião Urbana que foi repetido várias e várias

vezes pela estrada. Até hoje, quando ouço a

voz de Renato Russo, me lembro daquela viagem

inesquecível.”

A aposentada Edinéia Luzia da Silva, 63,

sempre que ouve o cantor Roberto Carlos,

lembra-se de quando era jovem. “Uma ótima

lembrança que eu tenho é a de um show do

Roberto Carlos na cidade em que nasci, Cachoeiro

de Itapemirim. Ouvi-lo hoje não só

me faz lembrar daquele dia, mas de toda minha

juventude”.

Ao longo de nossas vidas adquirimos

diversas experiências. Quando estas são

acompanhadas de música, ficamos sujeitos

a reviver tais histórias através da lembrança

musical. É como se nossa memória estivesse

sempre com o dedo no gatilho, pronta para

atirar, trazendo à tona momentos agradáveis

como a juventude de Edinéia e Alejandro ou o

trauma de Pat Solitano.

O

Ilustração: Lucas Salum

Embalos de

Musicoterapia

Texto: Rodrigo Pucci

Edição gráfica: Isadora Rabello

Ocean Drum

Com relatos de utilizações similares desde a Grécia Antiga,

a musicoterapia se diferencia das outras formas de tratamento

por estar incluída na categoria de terapias alternativas. Nela

“a música é a linguagem que desencadeia o processo terapêutico

e possibilita a ativação do imaginário”, afirma a doutora

Alcita Coelho, formada em Música pela Universidade Federal

de Uberlândia (UFU) e Musicoterapia pela Universidade de Ribeirão

Preto (UNAERP).

Segundo a doutora, “é possível criar imagens mentais a

partir de uma audição. Não precisa haver letra, às vezes uma

música instrumental pode remeter a uma determinada época

ou a alguma paisagem”. O trabalho pode ser feito em grupo

ou individualmente, dependendo das características e necessidades

dos envolvidos. Idosos, gestantes, bebês, crianças com


Comprar, ouvir e orar

Gospel

Texto: Rodrigo Pucci

Edição gráfica: Isadora Rabello

tã. Não passa de uma mera rotulação para

agradar aos fiéis ouvintes. A música que

fala sobre a fé em Cristo é gospel; seja por

meio do pop/rock, metal, rap ou reggae.

O jornalista, publicitário e diretor de

marketing do Salão Internacional Gospel,

Marcelo Rebello, 39, relaciona essa pluralidade

a uma abertura da Igreja para outros

estilos: “Na década de 80, a Música

Gospel era fechada dentro da Igreja. De

uns tempos para cá, houve um crescimento

em termos de quantidade, de qualidade

e de investimento. A própria Igreja abriu

as portas para poder fazer música de uma

forma diferente. Antes não podia ter bateria,

guitarra, não podia tocar rock, reggae,

a música tinha que ser clássica, lírica, sacra

mesmo.” Essa mudança de comportamento

reflete também as preferências do

mercado musical.

Em se tratando de números, apesar do

maior número de vendas de um disco do

segmento pertencer ao Padre Marcelo Rossi,

os evangélicos vêm ganhando espaço,

reflexo da mudança no comportamento

religioso da população. Segundo dados do

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE), entre 2000 e 2010, a porcentagem

de evangélicos no Brasil subiu de

15,5% para 22,2%, já a população católica

no mesmo período diminuiu de 73,6%

para 64,6%.

Fotos: Ramon Cotta

De acordo com a última pesquisa sobre

o perfil musical brasileiro feita em 2011 pela

Associação Brasileira de Produtores de Discos

(ABPD), os artistas representantes do estilo

conhecido como Gospel ocupam metade da

lista dos 10 Cds mais vendidos do ano. Um

retrato da influência da fé na venda de discos.

Esse tipo de música surge no início do

século 17 nos Estados Unidos e tem como

principal essência a Música Cristã Negra, originada

da imposição aos escravos para que

participassem dos cultos religiosos. Como na

época a maioria das igrejas não dispunha de

instrumentos, as canções eram interpretadas

em estilo acapella.

Já o termo “Gospel” só viria a ser utilizado

em uma coletânea de músicas chamada

“Gospel songs” de Philip Bliss, considerado

um dos pais do gênero, em 1874. A palavra

vem da expressão “god spell”, que significava

“boas novas”, fazendo alusão à chegada de

Cristo no mundo. Com letras que glorificam o

Senhor, o gênero serviu de grande influência

aos artistas do blues/rock dos anos 1950, tais

como Mahalia Jackson, Aretha Franklin, Ray

Charles, além de Elvis Presley, que cantou em

cultos religiosos durante a infância.

No Brasil, mesmo ocupando a vice-liderança

em número de vendas, o “Gospel” caracteriza

quase que exclusivamente artistas

evangélicos, enquanto que o catolicismo é representado

pela Música Contemporânea Crisdificuldade

de aprendizado, pessoas com Síndrome de Down,

Alzheimer, em coma e com problemas psiquiátricos são pacientes

comuns. A musicoterapia também pode ser aplicada em

conjunto com UTIs, tratamento fisioterápicos, de câncer; e em

escolas regulares e dinâmicas de grupo em empresas.

Para o musicoterapeuta, cada sessão é única, tal como uma

apresentação é para um artista. Profissional da área há mais de

15 anos, Alcita explica que a Musicoterapia trabalha com um

conceito chamado identidade sonora e a sua aplicação pode

variar segundo a vivência individual, o tipo de música que

mobiliza o paciente. “Então, ao contrário do que muita gente

imagina, nem sempre a pessoa vai ouvir uma música calma e

meditar. Isso depende da história musical de cada um e essa

identidade é muito forte”.

O local onde ocorrem as sessões é chamado de “set”. Ele

deve ser confortável e oferecer possibilidades para a experimentação

musical. O ambiente deve estar montado privilegiando

estímulos diversos, com instrumentos que podem

ou não ser usados. Deve ter espaço para movimentos que

podem estar ligados a expressão pela música.

No “set” onde atua a doutora Alcita Coelho, é possível

observar instrumentos variados, desde os conhecidos piano,

tambor e violão até outros mais exóticos como o caxixi,

agogô e o ocean drum, uma espécie de caixa com várias bolinhas

dentro, que ao ser rodada, imita o som de ondas do

mar, atribuindo poder terapêutico às ondas sonoras.


Texto: Kleiton Borges

Edição gráfica: Ana Luiza Batista

Foto: Isadora Faria

Plural

“A música tem uma linguagem

universal”- palavras

do holandês Tijs Michiel

Verwest, mais conhecido

como DJ Tiesto. A trance music

de Tiesto mistura batidas

eletrônicas e vozes. Sugere,

como o nome já diz, uma sensação

de transe para quem

ouve. Podemos não entender

holandês entretanto a euforia

e vitalidade transmitidas

por suas músicas ultrapassam

barreiras linguísticas.

Certa vez, meu velho pai

confessou-me que uma das

músicas mais marcantes de

sua vida é “Ob La Dí, Ob La

Dá, lagos on”(sic). A primeira

parte da sentença é inconfundível:

um sucesso dos

Beatles de 1968. Porém, o que

me intrigou foi justamente a

segunda. Pra ele, pouco importa

que o correto seja “Life

goes on”. Nascido em Minas

Gerais, nunca saiu das terras

tupiniquins. Quantos milhões

de pessoas tem suas vidas

marcadas por músicas nas

quais, suas letras não fazem

sentido? Ou ainda, quantas

músicas sequer possuem letras

e, somente por sua melodia,

ficam guardadas na

memória? A música consegue

superar o “verb to be”.

De acordo com o professor

de música Edésio de Lara

Melo, a música acompanha

a humanidade desde que o

Homo Sapiens surgiu na terra

há cerca de 100 mil anos.

“O ser humano usava além

da voz, o próprio corpo como

instrumento de percussão. O

homem por assim dizer é o

‘instrumento musical’ mais

antigo que se conhece”, afirma

Edésio.

“Quem me

enfeitiçou

O mar, marée,

bateau

Tu as le

parfum

De la cachaça

e de suor”

(Joana Francesa, Chico Buarque)

Talvez essa junção homem,

voz e instrumento expliquem

minhas questões. A

linguagem musical tem sua

universalidade, somos músicos

e seres sonoros em nossa

essência.

Dispensa dicionários, regras

ou acordos gramaticais.

Não é feita para ser necessariamente

compreendida, mas

acima de tudo para ser sentida.

Mesmo quando não se intende

o verso, a voz se torna

mais um instrumento dentro

da composição, e um dos

mais harmoniosos, diga-se de

passagem.

Apesar do canto ser a

expressão musical mais evidente

do ser humano, aquilo

que é cantado nem sempre

possui uma fórmula.Exemplo

disso é a letra da canção

“Joana Francesa” composta

para o filme homônimo de

Cacá Diegues. Chico Buarque

brinca com a linguagem, usa

duas línguas de origem latina

– francês e o português – na

mesma canção, transcendendo

a “barreira” linguística dos

idiomas.

Até quando não há uma

voz dentro da composição, a

música tem a capacidade de

nos transportar. Prova disso é

a ópera “As Quatro Estações”

de Vivaldi. Seja na América

do Sul, onde ouço a canção,

seja na Itália, país de origem

do músico, a intensidade do

inverno ou o vigor do verão

são sentidos através da música

orquestrada.

A música é a arte e a ciência

de combinar os sons de

modo agradável ao ouvido.

Devemos considerar que cada

ouvido é acariciado de um jeito

diferente por ela, porém,

por mais exigente que esse

ouvido seja, sempre existirá

uma música para agradá-lo,

afinal: ser humano é ser música.


Curingaonline

Fotos: FÁBIO BRITO

O disco de vinil no reprodutor

digital, o mp3 em formato de CD.

No ensaio desta edição online da

Revista Curinga, confira o encontro

de gerações e dispositivos musicais.

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O melhor jornal laboratório do Brasil já está nas ruas! Leia e repasse.

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